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Seleta de Krishnamurti

Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 19:05

O livro "Seleta de Krishnamurti", do falecido ex-vice-presidente da ICK Carlos de


Souza Neves, cuja capa reproduzimos acima, encontra-se esgotado. Trata-se de uma
coletânea de excertos de 160 obras de Krishnamurti, que Souza Neves selecionou
durante doze anos e compilou sob uma taxonomia bastante abrangente, em cerca de
860 páginas e 136 capítulos.

O livro, originalmente editado pelo próprio autor no início do anos noventa, foi agora
digitalizado pela ICK e está sendo publicado aqui, na íntegra, para leitura online.

Consideramos que a Seleta é uma excelente fonte de consulta e por isso resolvemos
preservá-la e oferecê-la ao nosso público, desejando que possa ajudar a todos que
buscam os ensinamentos.

Atenção:
Em respeito ao trabalho do autor, estamos publicando o livro na íntegra, preservando
todas as opiniões por ele expressadas, que devem ser vistas como estritamente
pessoais, não implicando em nenhuma relação da ICK com as mesmas.

Um pedido:
Embora tenhamos revisado cuidadosamente todo o material digitalizado, procurando
manter fidelidade ao original, pedimos aos leitores que porventura possuam um
exemplar impresso, que nos comuniquem quaisquer divergências que encontrem, pois
o processo todo é muito sujeito a erros.

• Prefácio
• Introdução, Dados Históricos, Missão do Autor
• Conceitos, Preliminares I
• Conceitos, Preliminares II
• Processos Psicológicos
• Assuntos Específicos I (parcialmente publicado)
ƒ Assuntos Específicos II (em breve)
ƒ Assuntos Específicos III (em breve)
ƒ Temas Sociais, Mutação (em breve)
Prefácio
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 19:49

Entrei em contato com os livros de Krishnamurti há cerca de quarenta anos. Desde o


início, comecei a perceber que as suas idéias estavam muito acima de tudo quanto eu
tinha lido em matéria de filosofia e religião. Os seus ensinamentos, no conjunto,
constituem, sem dúvida, uma Mensagem de renovação religiosa, espiritual, para os
nossos tempos e o porvir. Ele fala repetidamente na inadiável mudança do homem, já
que a atual crise social reflete o que o homem é.

Apresenta esta Seleta os ensinamentos de Krishnamurti por amostragem, através de


seus cento e trinta e seis capítulos, dispostos em apropriada ordem, progressiva. Será
de grande utilidade, já que pouca gente dispõe de tempo para ler os seus cento e
sessenta livros e panfletos. Além disso, setenta e cinco por cento deles,
aproximadamente, se encontram esgotados.

Não consta ter surgido no mundo obra de tal envergadura. Revela enorme trabalho de
pesquisa, sacrifício e paciência. Beneficiará ela não só os religiosos, espiritualistas, de
todas as denominações, o grande público, como também os que trabalham nas áreas
da educação, psicologia e psicanálise. Merece a iniciativa a gratidão e o apoio de
todos os interessados em Krishnamurti.

Myres Lourenço Lagioto

Eng.; ex-Presidente da ICK,

membro do atual Conselho Diretor


Opiniões dos Diferentes Setores da Sociedade
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 20:02

As opiniões, abaixo, colhidas à última hora, seguem a ordem de entrega, que


corresponde também à da digitação das mesmas no computador da gráfica. Outras
deixaram de ser incluídas, por não terem chegado a tempo, visto ter a obra entrado
em fase de impressão.

É com satisfação que expressamos o nosso conceito sobre Krishnamurti e seus


ensinamentos. Esse eminente indiano, conforme suas biografias, teria sido inspirado
por elevadas Entidades divinas para uma Mensagem de renovação do homem,
visando à sua mutação, elevação espiritual.

As obras que dele lemos nos confirmaram essa impressão. As suas idéias, acima dos
atuais padrões religiosos, destinam-se ao surgimento de um novo homem e de um
novo mundo - lançam princípios para a civilização do porvir. A presente Seleta
constitui uma tentativa de visão global dos 160 livros do referido Iniciado.

O primeiro Representante do Movimento no Brasil (Ordem da Estrela) foi o General


Raymundo Pinto Seidl (1914 - 1928). Nessa época o acompanharam os Generais
Perminio Carneiro Leão, José J. Firmino, Isidro de Figueiredo e Eugenio Nicoll. O
General Caio Lustosa Lemos foi o primeiro Presidente da Instituição Cultural
Krishnamurti, seguindo-se posteriormente o General Hermes de Mello Portela.

Não poderia assim faltar aqui a opinião de um representante da classe. Esta Seleta,
realizada por pessoa com a competência que a Obra revela, constitui inestimável
trabalho de pesquisa. Surge em época de crise, tornando-se oportuna a iniciativa.
Merece o louvor e o apoio de todos.

Gen. Geraldo Rocha Lima

Ex-professor do Instituto Militar de Engenharia

São raros os verdadeiros gênios da raça humana. Criaturas que sobrevivem além da
sua época e marcam novos rumos para a humanidade. Jiddu Krishnamurti foi
indiscutivelmente um desses. O seu pensamento atingiu as raízes da própria
existência, apresentando ao mundo a antiga e tradicional sabedoria divina em
roupagens modernas. Ele marcará, sem dúvida, o mundo com a sua presença, que irá
se transformar, à medida que o tempo passa, numa nova sociedade.
É difícil classificá-lo. Para uns ele é um filósofo; para outros um místico, um psicólogo,
um sociólogo, etc., pois o seu pensamento está acima de rótulos, é atemporal. Ele se
preocupa muito com o nascimento de um novo ser. Livre, não condicionado pelas
tradições, alguém que seja integralmente si mesmo.

Murillo Nunes de Azevedo

Prof. univ., Eng., escritor,

ex-Pres, da Soc. Teos., monge budista

Os mações, além dos estudos próprios, gozam de total liberdade de ler outras
quaisquer doutrinas filosóficas ou teológicas. E sei que grande parte deles se acha
familiarizada com os ensinamentos de Krishnamurti.

Todos têm o dever de aperfeiçoar-se, renovar-se; e as obras daquele conceituado


autor constituem uma das mais importantes fontes de iluminação espiritual.

João Conrado de Castro Ponte

33º Eminente Representante no Brasil do Supremo Conselho

Universal da Maçonaria Mista "Le Droit Humain".

Mirabeau Cesar Santos

33º Eminente Presidente da Assembléia Estadual

Legislativa Maçônica do Gr. Or. do RJ.

O professor Carlos de Souza Neves, ex-Secretário e Vice-Presidente da Instituição


Cultural Krishnamurti, vem com a sua experiência brindar-nos com a síntese dos livros
do conceituado Pensador Indiano, aqui apresentada em seqüência apropriada.

A presente Obra certamente vem ao encontro da aspiração de muitos leitores e


estudiosos do Senhor Krishnamurti, por oferecer-lhes maior facilidade para o estudo e
aprofundamento no conhecimento de sua Mensagem, cujo teor, pela transcendência,
o faz muito apreciado nos meios artísticos.

Prof. João D'Ángelo, Tenor e atual Coordenador do Corpo

Artístico Coral do Teatro Municipal do RJ


João Carlos Dittert, Baixo do Teatro Municipal do RJ,

Prof. de Educ. Mus. e Diretor da Soc. dos Artistas Líricos

Brasileira

Jonas Travassos, Barítono do Teatro Municipal do RJ,

prof. de Educ. Mus. e Canto, e Vice-Diretor da Assoc. dos

Intérpretes da Arte.

Carlos de Souza Neves é jornalista, educador e escritor. Como jornalista, integra a


Associação Brasileira de Imprensa e o Sindicato profissional do Rio de Janeiro.
Educador, trabalhou no Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) e no
Ministério da Educação. Na qualidade de escritor, bastaria a obra à vista para marcar-
lhe a presença no meio cultural.

Estudioso do pensamento filosófico e religioso, dedica-se há muitos anos ao exame da


obra de Krishnamurti, que bem conhece desde quando o ouviu no Teatro Municipal do
Rio de Janeiro, em 1935. Há mais de meio século analisa a obra do líder hindu,
devotando-se a disseminá-la por escrito e por meio de palestras.

Krishnamurti (1895-1986), havido por muitos como veículo de Buddha e Cristo, a


reencarnação ou evolução deles próprios, viajou o mundo inteiro a pregar. De suas
idéias, resultaram dezenas de livros que têm milhões de leitores e adeptos.

Presta o autor desta Seleta relevante serviço ao conhecimento de Krishnamurti,


revelando-lhe posições fundamentais como a luta em prol da paz e contra a
mundanidade, a ignorância, o preconceito, o ódio e a luxúria.

Do notável líder religioso ficou a mensagem do amor universal por cima de crenças,
ideologias e nacionalidades. "Eu sou todas as coisas. Porque sou a Vida".

Fernando Segismundo

Vice-Presidente da A.B.I.

No campo da Psicologia e da Psicanálise, possuem os ensinamentos de Krishnamurti


muitas e valiosas contribuições. Como nós, sabemos que grande número de
estudiosos e profissionais da área têm lido, lêem, os livros do referido iluminado. A
posteridade melhor avaliará a importância dos mesmos.

Alice Marques dos Santos

Nise da Silveira

(Médicas psiquiatras)

Thereza Nogueira Pessôa

Zuleica Poppe Siciliano

José Moreira P. de Almeida

(Psicólogos)

Muitos têm sido os membros da Academia Brasileira de Letras, além de nós, que têm
demonstrado vivo interesse pelas obras de Krishnamurti, pela sabedoria de sua idéias
e poesias espirituais. Múcio Leão traduziu A Canção da Vida editada pela Instituição
Cultural Krishnamurti do Brasil.

Dada a dificuldade de encontrar a maioria de suas obras, esgotadas, e de ler o grande


número delas (cerca de 160), enaltecemos a iniciativa desta Seleta, que coloca ao
alcance dos interessados, por amostragem, uma visão global das mesmas.

Austragésilo de Ataíde

(Presidente)

Afranio Coutinho

Antonio Houiass

Ledo Ivo

(Acadêmicos)

Os valores espirituais estão fundamentalmente associados à vivência dos preceitos do


Direito que Ulpiano definiu, com elegância e sabedoria.

Será a senda para que a Humanidade possa exercitar a solidariedade fraterna.


Os acrisolados ensinamentos de Krishnamurti - selecionados pelo ilustre autor desta
obra - têm o condão de aprimorar atitudes e preferências, elevando espiritualmente os
que deles tiverem oportunidade de conhecer.

Geraldo Sampaio Vaz de Mello

Jurista, Secretário Geral do Instituto dos Advogados Brasileiros

Essencialmente, Krishnamurti era um singular e profundo psicólogo, cuja força


inspiradora estava no conhecimento direto dos fatos ou fenômenos gerados das
desarmonias humanas.

Se me encantei com Jung, Karen Horney e Eric Fromn, bem maior foi o fascínio com a
leitura do grande pensador hindu, cuja originalidade faz de sua mensagem facho
resplandecente a guiar os homens nos difíceis caminhos do auto-conhecimento.

De parabéns está pois Carlos Souza Neves, por nos dar fácil acesso a tão sábias
idéias.

Raul de Souza Silveira

Membro efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros

Agraciado com significativa placa de prata pelo Conselho Federal da Ordem dos
Advogados do Brasil, por 30 anos ininterruptos de serviços prestados como
Conselheiro

(Jurista)
Introdução; A Mensagem de Krishnamurti
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 20:04

A apresentação de uma Obra como a presente é da maior significação, para dar-se


uma idéia, embora incompleta, da grandeza do Senhor J. Krishnamurti e de sua
Mensagem. No tempo do Senhor Jesus Cristo, há 2.000 anos, na época, uma minoria
da humanidade, amadurecida, reconheceu a magnitude de seu Ser e dos seus
ensinamentos.

Só aos poucos foi a sua Revelação se estendendo no mundo. O mesmo ocorre com o
Senhor J. Krishnamurti, nos tempos atuais. O Messias já veio, cumpriu a sua Missão,
e já retornou à sua Mansão celestial, e a maioria dos homens continua à sua espera.
Magnos acontecimentos ocorreram em todo o planeta, mas a cegueira dos homens
não permitiu vislumbrá-los. Muitos tomaram deles breve conhecimento, mas não
atinaram com a importância, preferindo continuar na tradição. Daí que esta Introdução,
embora redigida em curto tempo, precisa condensar a extensão e o esplendor dos
Eventos.

A elaboração desta Seleta tornou-se para nós um dever de consciência. Desde


criança, convivemos com pessoas que estudavam as Mensagens da Teosofia e de
Krishnamurti. Em 1935, quando esse pensador iluminado veio ao Brasil, tivemos a
felicidade de assistir a conferências que ele realizou no Rio de Janeiro. Levado por
amigo íntimo do tradutor, nos situamos, ambos, de pé, imediatamente atrás dele e de
Krishnamurti.

Em 1938 iniciamos a leitura de livros de Krishnamurti, e, a partir de 1942, a freqüentar


a Instituição Cultural Krishnamurti (ICK), do Brasil. Desde 1944, em nossas palestras
públicas, sempre que oportuno líamos textos do autor. Várias vezes apresentamos
séries progressivas de seus ensinamentos, com troca de idéias.

Na altura de 1944, começamos a elaborar um índice dos ensinamentos mais


expressivos de Krishnamurti, à medida que compulsávamos as suas obras, o qual
passou por sucessivos aperfeiçoamentos, útil às aludidas exposições, chegando a 15
cm de espessura.

Graças a ele temos igualmente podido transcrever excertos do autor em nossos livros,
panfletos e artigos - em "Sociedade, Transição e Futuro" (RJ, 1982, 728 ps.) mais
abundantemente. Tendo assim obtido uma visão global das comunicações do autor,
foi dito instrumento de grande valor para a organização da presente Seleta.
Há mais de 30 anos integramos o quadro de associados da ICK e, durante cerca de 15
anos, pertencemos ao Conselho dos Sócios Efetivos (11); de 1982 a 1987 exercemos
na Instituição o cargo de Diretor-Secretário; e de 1987 a 1991 o de Vice-Presidente.
Inobstante, não passamos de mero estudioso da matéria; sobre ela nunca se chega a
um fim, também porque uma coisa é o saber teórico e outra a vivência prática.

Fomos levados à elaboração desta compilação por vários motivos. Um deles é a mais
ampla divulgação da Mensagem do autor, pondo-a ao alcance de quem possa
aproveitá-la. Ela é mais conhecida do que se possa imaginar, mas superficialmente.
Em qualquer ambiente social, religioso, acadêmico, universitário, militar, científico, do
povo esclarecido, há sempre quem conheça a importância de seus ensinamentos.
Mas, conforme nossa observação, apenas um número reduzido de pessoas tem
adquirido uma visão global dos mesmos. A grande maioria restringe-se à leitura de
uns poucos livros.

O resultado é que ficam com um conhecimento parcial, unilateral, sem a visão do todo.
A presente Coletânea, salvo exceções, abrange as obras constantes da Bibliografia,
em número de 160. Optou-se por capítulos pequenos, de 4 a 8 páginas, salvo
exceções, para facilitar a leitura individual e o estudo em grupos. Inclui cada um deles
excertos representativos, dentre os melhores encontrados.

Cerca de 1/5 dos livros da Bibliografia, os últimos, principalmente, não chegaram a ser
traduzidos e editados em português, mas eles foram por nós consultados, sendo os
textos inovadores incluídos nos correspondentes capítulos. Como os ensinamentos do
autor foram sendo crescentemente enriquecidos, ficaria esta Obra incompleta sem
eles.

Outro motivo que nos levou à realização desta Seleta é que a Mensagem em
referência, destinada ao presente-futuro, visa essencialmente à mudança do homem,
procurando elevá-lo a uma condição de pureza, maturidade, a nova dimensão
espiritual. Com muita freqüência, diz Krishnamurti, em suas palestras, que tal
transformação humana é urgente, inadiável. Daí a oportunidade desta Iniciativa. As
Escrituras cristãs, hindus e budistas igualmente se referem ao Juízo e purificação dos
homens neste "fim de tempos".

A Bíblia, entre outros versículos, em Malaquias III,2; Zacarias XIII,9; Ezequiel XXVI,
25; Sofonias III,11-12, Isaías XIII,11, e Mateus, Marcos, Lucas, e o Apocalipse
também, em vários capítulos. Nessas fontes, os textos mais graves chegam a dizer
que "os homens serão purificados como o fogo do ourives e o sabão dos lavandeiros,
ficando livres das imundícies, e humildes e pobres".
O Vishnu Purana destina o Livro IV, cap. XXIV, e o livro VI, cap. I, a profecias para
este período de Kali yuga. No primeiro lê-se: "Restabelecerá (a Divindade) a justiça
sobre a terra, e os espíritos daqueles que vivem no fim da idade Kali serão
despertados e por tal maneira se tornarão transparentes como o cristal". As previsões
do Budismo encontram-se nas Profecias dos Cinco Desaparecimentos,
correspondendo a época atual ao quinto Desaparecimento, ocorrendo, no porvir,
padecimentos, aflições, penúrias.

Krishnamurti trata do assunto em muitos de seus livros, como se verá nos capítulos
próprios. Num deles, como exemplo - O Egoísmo e o Problema da Paz, lê-se: (...)
Tendes de pagar o preço da paz. Tendes de o pagar, voluntária e alegremente, e esse
preço é o libertar-vos da luxúria, da malevolência, da mundanidade, da ignorância, do
preconceito e do ódio. Se ocorresse em vós mudança tão radical, poderíeis cooperar
para o advento de um mundo pacífico e sensato.

Segue: Talvez não podeis evitar a Terceira Guerra Mundial, mas podeis 1ibertar o
coração e a mente da violência e das causas que geram a inimizade e repelem o
amor. Haverá, então, neste mundo lúgubre, alguns homens puros de mente e de
coração, de cujas obras germinará, por ventura, a semente de uma verdadeira
civilização. Purificai vossas mentes e corações, pois é somente pelas vossas vidas e
vossos atos, que poderá haver paz e ordem. Não vos percais na promiscuidade das
organizações, mas conservai-vos solitários e singelos. (...) (Idem, ps. 26-27)

• Iniciativa, autor da Seleta


ƒ Edição, direitos autorais
ƒ Orientação adotada
ƒ Dados biográficos de Krishnamurti
ƒ Obra de Krishnamurti, Missão, histórico
ƒ Quem é Krishnamurti; fontes, Informações
ƒ Maitreya, Buddha; esclarecimentos
ƒ Outros sinais de Excelsa presença Divina em K.
ƒ Krishnamurti e Teosofia
Iniciativa, autor da Seleta
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 20:06

Foi a presente Coletânea realizada aos poucos, num período de doze anos, sendo
onze dedicados a pesquisa e reunião de dados, e um à organização, acabamento e
revisão. Aqui expressamos a nossa profunda gratidão e admiração pelo abnegado e
desinteressado esforço de vários companheiros, todos de elevado nível, que durante
três meses nos ajudaram na conferência dos excertos integrantes de cada um dos 136
capítulos, com os respectivos livros e páginas, e na revisão de sinais convencionais e
tipográfica. Também aos que trabalharam nos serviços de composição, impressão e
acabamento. Sem isso não teria sido possível a publicação imediata deste livro.

Representa esta Seleta a tentativa de uma visão global, por amostragem, dos
ensinamentos de Krishnamurti. São eles de uma extensão e profundidade tais, que se
torna difícil, senão impossível, uma síntese perfeita. Por isso, não prescinde ela da
consulta aos livros do autor, também para se ver o que precede e sucede aos textos
reproduzidos. Tendo-se resolvido editá-la com brevidade, dada a crise social,
financeira, a crescente elevação dos preços, deixou-se de melhorá-la em detalhes,
sendo publicada no estado. Foi exaustiva a sua elaboração, mais ainda a conclusão e
a revisão geral, em ritmo acelerado.

Quando uma pessoa revela interesse por um livro, é natural que deseje saber as
credenciais do autor, a fim de poder avaliar a capacidade, o acesso às fontes, a
orientação, a seriedade da obra. Costumamos também proceder assim. Mas,
adotando os ensinamentos de Krishnamurti, nos sentimos de certo modo
constrangido. Ele recomenda que, para se dissolver o "eu" (que quer ser alguém,
projetar-se com sua auto-imagem), devemos manter a atitude de não saber, ser nada,
ninguém, o anonimato.

O reconhecimento da importância própria é outro fator importante. Sócrates elogiou a


ignorância, Platão também; o Cardeal Nicolau de Cusa, com sua obra "A Douta
Ignorância", se tornou figura proeminente. Mas Krishnamurti, com os dados constantes
de vários dos capítulos adiante, desprezando os títulos, as distinções, a erudição da
mente computadorizada, e elogiando o saber real, não condicionado, ligado ao
autoconhecimento, ultrapassou a todos. Se já pertencíamos ao clube, mais fortalecido
ficamos nele.

Atendendo ao dever aludido, nos limitaremos a referências de atuações específicas,


literárias e funções, exercidas. Possibilitou a realização desta Obra a nossa condição
de aposentado do Ministério da Educação e Cultura, onde por mais de 25 anos nos
dedicamos ao Setor de Ensino Superior. Publicou o MEC os volumes que produzimos,
sob o título "Ensino Superior no Brasil - Legislação e Jurisprudência Federais", que,
com as atualizações, atingiram 8 volumes de 600 a 800 páginas cada um. Cabia-nos
também a função de fiscalização de faculdades, e estudo de recursos, de processos
de autorização e reconhecimentos, etc.

Marcado pelo signo de Peixes, com ascendente em Libra, atuamos no campo do


Direito (Administrativo e correlacionados - Constitucional, Civil, Penal, Trabalhista),
que figuraram de nosso concurso para ingresso em cargo de nível superior no Serviço
Público. Começamos a servir na Presidência da República, DASP, e depois passamos
para o MEC, submetendo-nos a concurso de títulos para o preenchimento de vagas
disponíveis em carreira especializada, ramo do ensino superior. Integramos 12
comissões de inquérito e especiais, por designação do Sr. Ministro de Estado, do
Departamento de Assuntos Universitários e do Conselho Federal de Educação.

É interessante como atua o "destino"; se a pessoa dele escapa, de alguma forma, é


por ele guindado de outra. Em 1945, nosso então amigo Francisco de Assis Grieco
(hoje embaixador) insistiu, repetidamente, para que efetuássemos a inscrição no
concurso para diplomata, promovido pelo DASP (não havia o Instituto Rio Branco,
criado em 1949) - e o concurso realizou-se um ano depois - tendo em vista o estudo
conjunto, troca de conhecimentos. Preferimos, no entanto, manter-nos no cargo de
carreira em que estávamos, de nível assemelhado. Porém, mais tarde, convidado,
durante seis anos prestamos serviços de assessoria ao Ministério das Relações
Exteriores, Departamento Cultural, inicialmente sob a chefia do Ministro Scarabotolo.

Tendo nascido em dia, mês e ano em que coincidem duas datas nacionais, disseram-
nos alguns astrólogos que nosso dharma estava ligado aos destinos do Brasil. Talvez
por isso, dever de funções, freqüentamos durante 25 anos não só os Tribunais
Federais como a Câmara de Deputados e o Senado Federal, redigindo numerosos
projetos e emendas para congressistas amigos e também para Ministros.

Há 50 anos ingressamos na Sociedade Teosófica no Brasil (sucursal da The


Theosophical Society, de Adyar, Madrasta, Índia). Desde 1944 realizamos palestras na
Instituição e, convidado, em outras. Além do aprofundamento na respectiva literatura,
de longa data procuramos acompanhar os progressos da ciência, incluindo a
psicanálise. Militamos também no jornalismo, integrando os quadros da Associação
Brasileira de Imprensa e da Ordem Internacional dos Jornalistas.

Desde cedo compreendemos que se vive numa época de exceção, e por isso
evitamos maior envolvimento com assuntos mundanos, para nos dedicarmos aos
espirituais e correlacionados. Estudamos as predições para os nossos tempos, e
escrevemos "Até 2.000... - Profecias Comparadas" (1976, 488 páginas). Além dos
vaticínios sociais, tomamos conhecimento das previsões no campo científico
(terremotos, vulcões, degelo dos pólos, fenômenos no sol, lua, inversão da polaridade,
etc.) Com relação, reunimos dados de centenas de livros, também da literatura
científica vinculada, chegando a elaborar um esboço de livro.

Por vários anos servimos na Universidade do Brasil (atual Federal do Rio de Janeiro),
requisitado para o exercício de função gratificada, de assessoria, chefia de gabinete,
retornando posteriormente ao MEC. Aproveitamos a oportunidade para consultar
grande número de livros de suas bibliotecas.

Reunimos excertos espiritualistas das obras filosóficas desde os pré-socráticos, até


hoje, e também das teológicas e místicas de valor, sem esquecer as Escrituras hindus,
budistas e demais religiões, visando à elaboração de uma "Universália Espiritualista".
O material coletado encontra-se em 4 grossos volumes, mas não há tempo nem
condição de prosseguir o empreendimento.

Isto em virtude de crises sociais crescentes e dos anos que restam para que graves
ocorrências, anunciadas por previsões, confirmadas por Krishnamurti, atinjam o nosso
planeta. Com múltiplas atividades, reconhecemos a prioridade de se atender à
demanda do elevado número de pessoas que, ultimamente, têm demonstrado grande
interesse pelos conhecimentos espirituais. Também por esse motivo, absorvido por
vários encargos e sem tempo disponível, deixamos de aceitar convite para ingresso na
Academia Interamericana de Letras, renovando aqui nosso agradecimento ao seu
ilustre Presidente.

Para a obra "Impacto de Krishnamurti", escrevemos, em 1986, o capítulo sobre o


Brasil, a pedido do coordenador da mesma, D. Salvador Sendra, Secretário Geral da
Fundação Krishnamurti Hispanoamericana, de Porto Rico. Reúne ela dados sobre a
projeção do Movimento de Krishnamurti em toda a Ibero-América, Espanha e Portugal.
As 16 páginas produzidas (incluindo a relação dos livros traduzidos e editados em
português no Brasil) foram reduzidas a 12, para enquadrar-se nos limites da obra -
abrangem as pág. 147-158.
Edição, direitos autorais
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 20:08

Para a publicação desta Obra, foi ela oferecida a muitas editoras, do Rio de Janeiro,
de São Paulo e de Brasília. Mas, sem revelar o motivo, algumas não demonstraram
interesse. Outras informaram que tinham já compromisso de edição de muitos livros, e
só em outra oportunidade poderiam considerar a proposta. Duas queriam imprimi-la,
porém num próximo futuro, porque tinham publicado livros recentemente, ou adquirido
aparelhamento moderno, dando a entender que estavam "sem caixa". Finalmente,
uma concordava em editar o livro imediatamente, se se conseguissem pessoas que
comprassem antecipadamente cerca de 600 exemplares, pagando à vista.

Nessas circunstâncias, resolveu-se editar a Coletânea reunindo um grupo de pessoas


que, retirando dinheiro de suas poupanças, emprestaram quantias significativas, com
a condição de permanecerem anônimas e de receberem as importâncias de volta com
o primeiro resultado da venda, incluindo os juros e a correção monetária de praxe,
completando-se o restante com empréstimo bancário.

Por isso, dentro do capital disponível, decidiu-se editar 2.000 exemplares. Como a
maioria das pessoas desconhece o mecanismo do mercado, com a nossa experiência
procuramos dar uma idéia. As Distribuidoras pedem cerca de 55% sobre o preço de
capa, para colocarem um livro em todo o país. Isto porque elas dão 30% às livrarias,
mais 5% se paga a duplicata no prazo de 60 dias. Acima de certa quantidade de
exemplares, o desconto é de 35% mais 5%. O vendedor na praça, colhendo os
pedidos nos postos de venda, recebe 3%.

As poucas Distribuidoras nacionais dignas desse nome, só têm escritório em poucos


estados. Em relação aos demais, dado o reduzido número de livrarias ou a insuficiente
venda, entregam os livros a Distribuidoras regionais, estaduais, que para isso ganham
uns 10%. O editor fica assim com 45% para custear as despesas com a obra, serviços
de datilografia e outros, a composição, impressão, acabamento, as embalagens,
gratificações, os transportes, a propaganda (anúncios em periódicos), as perdas sob
múltiplas formas.

Por outro lado, há os exemplares com defeitos, extraviados e os numerosos que são
doados a título de gentilezas, serviços prestados, autoridades, redação de jornais e
revistas para a divulgação, parentes e amigos, instituições espiritualistas, bibliotecas
públicas, etc.
A Distribuidora só começa a pagar três meses depois de recebido o livro, porque ela
leva um mês anunciando-o às livrarias, recebendo pedidos - o prazo normal de
pagamento é de 60 dias. Por isso, para ressarcir, o mais depressa possível, os
financiadores, com os juros e a correção monetária de praxe, a solução é a venda em
reuniões de autógrafos, circular a interessados, etc. Se no final algum ganho resultar,
será ele aplicado em auxílios a instituições vinculadas, que lutam com dificuldades
financeiras, e divulgação (panfletos, anúncios).

A Convenção Internacional de Direitos Autorais de Berna, de 1886, e alterações


posteriores, faculta e protege compilações, enciclopédias, antologias, seletas, de
obras literárias, conferências e sermões públicos, desde que mencionadas as fontes e
o nome do autor. Deixa ela à legislação nacional a complementação da matéria.

No caso, a lei brasileira prevê: "Protegem-se como obras intelectuais e independentes


(...), as coletâneas ou compilações, como seletas, compêndios, antologias,
enciclopédias, dicionários (...) Cada autor conserva, neste caso, o seu direito sobre a
sua produção, e pode reproduzi-la em separado."

E ainda: "Não constitui ofensa aos direitos do autor: a reprodução de trechos de obras
já publicadas (...), desde que apresente caráter científico, didático ou religioso, e haja
a indicação da origem e do nome do autor."

Omitem a Convenção e a Lei o tamanho dos textos que podem ser transcritos, e bem
assim a quantidade deles, em relação ao total das obras. No caso dos livros de
Krishnamurti, os constantes da Bibliografia somam cerca de 22 mil páginas. Elas vão
desde livrinhos com dezenas de páginas, (reduzido número, até 538 páginas, como
"The Awakening of Intelligence"), numa média de 140 páginas.

Mas esse número eleva-se a mais de 25 mil páginas, se forem considerados dezenas
de panfletos que reúnem conferências avulsas, centenas de palestras isoladas,
entrevistas, discussões, poemas e outras produções, não incluídos em livros, citados
por Susunaga Veeraperuma em "A Bibliography of Life and Teachings of Jiddu
Krishnamurti" e "Suplement to Bibliography of the Life and Teachings of Jiddu
Krishnamurti" (Chetana (P) Ltd, Bombay, India, 1974 e 1982), atualizados até este
último ano, omitindo as publicações até 1986.

Respeitou-se a Convenção e a Lei, limitando-se à transcrição de pequenos textos,


todos com a citação da fonte, e as 807 páginas da presente Seleta (excluídas as do
Prefácio, da Introdução, dos Conceitos, da Bibliografia) representam cerca de 3% do
total de páginas das obras do autor. Por sentença da Justiça dos Estados Unidos, os
direitos autorais dos livros de Krishnamurti até junho de 1968 pertencem à
Krishnamurti Foundation of America, e as publicadas de julho de 1968 em diante, à
Krishnamurti Fundation Trust, of England, conforme informação de várias fontes, uma
delas "The Years of Fulfilment", de Mary Lutyens.

No Brasil, os Estatutos da Instituição Cultural Krishnamurti, aprovados por


Krishnamurti em 10-06-1935, através de seu Representante D. Rajagopal, e
registrados, prevêem no art. 2º: "A Instituição tem por fim: e) preparar, editar, vender e
autorizar o preparo, edição, venda ou uso de livros, folhetos (...) e dispor dos direitos
autorais relativos às mesmas produções". Daí que as obras publicadas pela Editora
Cultrix Ltda, até antes do passamento de Krishnamurti, em 1986, dizem: "Direitos de
tradução para a língua portuguesa cedidos com exclusividade pela Instituição Cultural
Krishnamurti".

Não tendo esta Obra fins lucrativos, e dada a sua importância na época em que
vivemos, ficam as Fundações Krishnamurti, existentes, livres para a reproduzirem com
adaptação ou não a outros idiomas, com total isenção de direitos autorais, desde já
cedidos. Pode até ser dela realizada seleta menor, com escolha de capítulos e textos
mais importantes, com cerca de 200 páginas, para o grande público.
Orientação adotada
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 20:48

As matérias tratadas nos livros de Krishnamurti são múltiplas e interligadas. Na


mesma página, de palestra ou conferência, começa ele com um assunto, passa a
outros, direta ou indiretamente relacionados, voltando ou não ao primeiro, obrigando
ao destaque de texto ou textos vinculados a capítulo da Seleta.

Por outro lado, em numerosas obras do autor, os parágrafos são longos, chegando a
uma e duas páginas, aproveitando-se, conforme a necessidade, trechos iniciais,
intercalados ou finais. Obrigou isso ao uso do sinal convencionado (...). Com
freqüência o assunto de um excerto liga-se a dois ou mais capítulos, colocando-se no
mais diretamente relacionado, servindo também de pontes entre eles.

Com freqüência, usa Krishnamurti repetições como "há a autoridade dos livros, a
autoridade da igreja, a autoridade do ideal, a autoridade de nossa própria experiência
(...)." Outro exemplo: "O corpo, que tem sido tão despojado, que tem sido tão mal
usado, (...)". Abreviou-se assim: Há a autoridade dos livros (...) da Igreja (...) do Ideal
(...), de nossa própria experiência (...)".

Usa também Krishnamurti comumente expressões como "não é verdade?", "como já


tenho dito", "ou o nome que quiserdes dar", "por favor prestem atenção", "o assunto
não é para rir". Igualmente, por economia de espaço, foram elas suprimidas, por não
prejudicar o sentido, usando-se o sinal próprio (...).

Em outros casos, a supressão ocorreu porque a continuação da idéia vem adiante,


sendo a matéria intercalada redundante (Krishnamurti repete muito), em nada
esclarecendo, enriquecendo, o principal. Trata de muitos assuntos sob vários ângulos.

Em cada capítulo há terminologias e ensinamentos próprios. Como Krishnamurti


sempre falou de improviso, muitos textos parecidos possuem aspectos novos que
ajudam a entender particularidades. Optou-se pela repetição, não só como variação,
mas como prova de coerência, visto se encontrarem em livros diferentes, de épocas
diversas.

Os textos transcritos vão de 5 a 12 linhas; quando são longos demais, dividem-se em


2 ou 3, usando-se da mesma forma o sinal convencionado. Os capítulos, como já se
disse, são de 4 a 8 páginas, salvo exceções.
A seqüência dos textos, em cada capítulo, começa com os que apresentam, definem,
a matéria, seguindo-se os que vão esclarecendo sucessivamente o assunto, e
terminando com os mais profundos, conclusivos ou sensibilizantes, obedecida a ordem
do título.

Os títulos dos capítulos foram criados aproveitando-se as próprias palavras usadas


por Krishnamurti nos mesmos, incluindo também aspectos a eles vinculados, para
facilitar a sua procura.

A ordem dos capítulos, em 4 grandes grupos (Conceitos, preliminares; Processos


psicológicos; Assuntos específicos; e Temas sociais, mutação), segue um roteiro no
qual a matéria posterior depende do conhecimento da anterior, e os afins nas
proximidades.

Nas obras do autor, como em outras, em geral, os trechos mais significativos de cada
assunto encontram-se espalhados. Entretanto, nesta Coletânea eles se acham
concentrados, já que é formada da reunião de textos-chaves de cada tema, dando ao
livro uma forma de compacto.

Há certa dificuldade na distribuição dos assuntos de Krishnamurti, porque eles não são
de todo separáveis, mas entrelaçados. No entanto, para a sua exposição, foi feita a
divisão possível. Não é assim de se estranhar que, em trechos sobre um tema, se
encontrem traços de outros.

Ele próprio diz: "Todas as nossas palestras estão encadeadas umas às outras. Não
podeis levar apenas uma parte delas e dizer que ides "viver com essa parte". (...) (O
Despertar da Sensibilidade, pág. 146)

Da mesma forma, em outro livro: "Toda pergunta está relacionada com alguma outra.
Todo pensamento está relacionado com outro, não é independente. A profissão, o
caminho, a educação, o autoconhecimento, estão todos intimamente relacionados
entre si. (...) (Uma Nova Maneira de Viver, pág. 95)

Os livros de Krishnamurti, na maioria, possuem títulos originais que começam por


Talks ou Conferences in (...). Para quebrar a monotonia, e apresentação mais
atraente, as edições em português, como as versões em outras línguas, a partir de
1944, receberam títulos extraídos dos assuntos predominantes em cada volume, não
constantes do original.
Em virtude disso, as editoras internacionais dos originais, desde 1970, começaram a
dar títulos apropriados às obras, começando a uniformização. A Bibliografia, no final,
indicando também os títulos ingleses, permite a identificação dos respectivos livros.

Respeitou-se igualmente a Declaração de Krishnamurti, publicada no Boletim nº 7 da


Krishnamurti Foundation (Inglaterra), reproduzida na Carta de Notícias da ICK nº 3, de
julho-setembro de 1970 (capa detrás), que no final diz:

"Desde a década de 1920, tenho dito que não deve haver intérprete do Ensino, para
desfigurá-lo e torná-lo um meio de exploração. Não há necessidade de intérpretes,
porquanto cada um deve observar as próprias atividades diretamente e não de acordo
com alguma teoria ou autoridade. Infelizmente têm aparecido intérpretes, fato pelo
qual não somos de modo nenhum responsável.

Continua: Em anos recentes, vários indivíduos se têm declarado meus sucessores, por
mim eleitos para disseminarem o Ensino. Tenho dito e repito agora que não há
representantes da pessoa ou do ensino de Krishnamurti, nem durante a sua vida, nem
após o seu passamento. Lamento ter de dizer isto novamente".

A "Carta de Notícias" da ICK nº 254, de 1987, página 1, sob o título "Os ensinamentos
de Krishnamurti", sem citar a fonte, reproduz texto com a seguinte redação: "Os
ensinamentos são importantes por si mesmos. Intérpretes ou comentadores apenas os
desvirtuam. Convém ir diretamente à fonte, aos próprios ensinamentos e, não, através
de autoridades".
Dados biográficos de Krishnamurti
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 20:49

Passando à biografia de Krishnamurti (Jiddu), conforme as fontes existentes, nasceu


ele a 11 de maio de 1885, na cidade de Madnapelle, a 240km ao norte de Madrasta,
Índia. Como oitavo filho, do sexo masculino, de pais brâmanes, recebeu o nome Shri
Krishnamurti. Quando criança, astrólogo indiano previra que ele seria um grande
homem, alguém maravilhoso. Desde pequeno ajudava aos necessitados. Consta que,
por esforços de vidas passadas, nascera sem "ego", isto é, com este dissolvido.

Após a morte de sua mãe, Jiddu Sanjeevamma, em 1905, o pai Jiddu Narianiah,
coletor de rendas, juiz distrital, tendo-se aposentado, foi aceito para residir e trabalhar
em Adyar, Madrasta, Sede Internacional da The Theosophical Society, à qual
pertencia. Lá o Sr. Leadbeater (Charles W.), com sua ampla e profunda clarividência,
observando as vidas pretéritas no menino Krishnamurti, chegara à conclusão de que
as suas condições espirituais eram excepcionais (resultado de encarnações
passadas). Daí ter Annie Besant e ele próprio decidido encarregar-se do
prosseguimento de seus estudos na Inglaterra.

Na época, a conclusão do curso de humanidades em estabelecimento importante, com


currículo enriquecido e maior rigor no ensino, conferia o diploma de "bacharel em
ciências e letras". Jinarajadasa, que também estudou na Inglaterra, diz que o recebeu.
(No Brasil, o Colégio Pedro II (do qual fomos aluno) o forneceu aos que nele
concluíram os estudos até 1937, ano do Centenário).

Em virtude da vida espiritual transcendente e de compromissos com a sua Missão,


recebeu posteriormente Krishnamurti ensinamentos de variados professores
universitários e de especialistas, em diferentes campos do saber, de interesse, e o
intercâmbio com eles seguiu durante toda a sua vida.

Desde criança revelava Krishnamurti um progresso espiritual que se sobrepunha à


mera intelectualidade. Por isso, paralelamente aos estudos mundanos, recebia
oralmente conhecimentos filosófico-religiosos (na educação, como brâmane), de
teosofia e outros. As temporadas que passou na França lhe permitiram aprender
também o francês. Além disso, ele exercitava o autodomínio, o conhecimento de si
próprio, recebia treinamento espiritual no Invisível.

O fato é que, em 1910, com apenas 15 anos de idade, caso inédito, revelou o
amadurecimento e a experiência que lhe permitiram vencer a primeira etapa na Senda
de santidade-sabedoria (1ª Iniciação). Ao mesmo tempo, com a criação da Ordem da
Estrela do Oriente em 11-01-1911, ficou como Chefe da mesma. Seguiram-se as
condições para o atendimento da 2ª etapa da referida via (2ª Iniciação) em 1912, da 3ª
em 1922 e da 4ª, de Arhat, santidade-sabedoria, em 1925.

Essas ascensões espirituais são referidas na obra adiante citada, de Mary Lutyens
(Krishnamurti - Os Anos do Despertar), biografia, pág. 45-46, 66, 68, 167, 291, 295,
297, paralelamente a adaptações e provações, não obstante seu delicado corpo e
saúde. Pois contraíra doenças e pestes na Índia, acompanhando a família, visto que
seu pai estava sujeito a mudança de local de trabalho. Sem esquecer os tremendos
esforços, a purificação do amor, o agudo discernimento exigidos pela vida espiritual
superior. Mas ele teve a capacidade para suportar os referidos encargos e realizar a
obra adiante relatada, com vigor sempre renovado, até o passamento em 17-02-1986.

No livro "Los Maestros y el Sendero" (versão do original inglês), faz Charies W.


Leadbeater relato da Cerimônia da 1ª iniciação de Krishnamurti (no Invisível), que o
autor, graças à evolução espiritual que alcançara, teve a oportunidade de assistir. A
obra foi escrita de 1924 a 1925, e a descrição aparece apenas na 1ª edição, sendo
omitida nas seguintes.

A mencionada versão espanhola, da 1ª edição inglesa, foi publicada pela Biblioteca


Orientalista (Editoral Teosófica), de Barcelona, Espanha, em 1927. Embora o relato
não cite o nome ao Sr. Krishnamurti, tudo indica que as cerimônias correspondem às
que ele se submeteu, dada a excepcional magnitude, e uma série de circunstâncias
pertinentes, que o identificam.

Conforme a fonte, estiveram presentes, além do Senhor Maitreya (nome do Senhor


Cristo na Índia), os Senhores Manu e Mahachoan, os principais Mestres de Sabedoria
e muitos outros Iniciados. Uma hoste de anjos pairava no ambiente, produzindo
adequada música celeste. No relato se lê que o candidato era o mais jovem (de corpo
físico) de quantos até a data tinham sido apresentados para ingresso na Fraternidade.

E ainda que a excelente luz áurea do Senhor Buddha refulgira sobre os presentes à
reunião, na bênção final. Ocorrências assemelhadas, excepcionais, suntuosas, se
verificam na 2ª Iniciação, relatada adiante, na mesma obra, pelo autor, com a
presença mais objetiva do Senhor Buddha (pág. 124-132 e 162-170).

Lê-se ainda, na fonte, em trecho igualmente suprimido nas edições posteriores, o que
segue: "O Instrutor do Mundo virá quando julgue oportuno, ainda que se nos diz que
não há de tardar. A Ordem da Estrela do Oriente se fundou faz treze anos para
preparar o advento do Instrutor, reunindo em uma aspiração comum as gentes de
todas as religiões e seitas que esperam Sua vinda(...)" (pág. 207-208).

Posto que o Senhor Maitreya há escolhido a nossa Presidente (Sra. Annie Besant)
para que anuncie Seu advento, nos parece razoável conjeturar que seus
ensinamentos se parecerão bastante às idéias que, com tanta eloqüência, há pregado
ela durante os últimos trinta e seis anos. (...) Certamente que o advento de Cristo está
relacionado com um fim, porém não do mundo, mas de uma idade ou era, (...) (pág.
208).

Mas posteriormente a Dra. Annie Besant retificara a conjetura do Revdo. Charles


Leadbeater, ao dizer repetidamente o que se segue, conforme palavras do próprio Sr.
Krishnamurti, na obra intitulada "Palestras em Auckland, 1934": "Sabeis, é
extraordinaríssimo! A Dra. Besant disse a todos os membros, e eu costumava ouvir-
lhe freqüentemente dizer: Estamos nos preparando para um Instrutor do Mundo.
Mantende aberta a vossa mente. Ele pode contradizer tudo o que pensais e dizê-lo de
forma diferente"(...) (pág. 101).
Obra de Krishnamurti, Missão, histórico
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 20:51

A Missão de Krishnamurti no mundo teve início com a fundação da aludida Ordem em


Adyar, Madras, Índia, com sucursais que se estenderam à grande maioria das nações
da época. Isto com o intuito de formar o ambiente, congregar pessoas amadurecidas,
que aceitassem a vinda do Instrutor espiritual, preparo de trabalhadores para o
recebimento e divulgação de sua Mensagem.

Durante a fase inicial do Movimento, a cargo da Ordem da Estrela do Oriente, os


filiados a esta seguiam Instruções que previam meditação, estudo e ação. Eram
adotados livros de autoria de Krishnamurti, como "Auto-Preparação", "Aos Pés do
Mestre", etc., um de anônimos, "Despertai Filhos da Luz!", e, nos estudos, várias
obras, de diferentes autores.

As reuniões realizavam-se nas sedes das Lojas da Sociedade Teosófica (The


Theosophical Society), existentes na maioria dos países do mundo (capitais e cidades
importantes), em dias e horários diferentes. Teve a Ordem núcleos mundiais em
Adyar, Índia; Ommen, Holanda; Ojai, Califórnia, EUA; Londres, Inglaterra; Paris,
França; Sidney, Austrália; Madrasta, Índia; Rio de Janeiro, Brasil.

Outros centros foram sendo criados. Os Boletins da Krishnamurti Foundation, de


Londres, indicam os da Suíça (Saanen), Canadá, Bélgica, Dinamarca, Finlândia,
Alemanha-Áustria, Grécia, Indonésia, Israel, Japão, Nova Zelândia, Noruega, Portugal,
Espanha, África do Sul, Shri Lanka (Ceilão), Suécia, Holanda (Amsterdã), Itália
(Roma), e outros.

Escolas de 1º e 2º graus, ou ambos, seguindo a orientação de Krishnamurti, existem


junto a muitos centros, nos seguintes lugares: Ojai, Califórnia; Brockwood Park,
Londres; Andhra Pradesh (Rishi Valley), Índia; Varanasi (Rajghat), Índia; Madrasta,
Índia; Bangalore (the Valley School), Índia; e Bombay, Índia.

No Brasil, Rio de Janeiro, desde 1926, como Agência da Order of the Star e, depois,
como Agência do The Star Publishing Trust, foram editadas as obras de Krishnamurti
constantes da Bibliografia. Antes disso, as palestras de Krishnamurti saíam em "O
Teosofista", órgão oficial da Sociedade Teosófica no Brasil.

Nessa condição foram impressos, em português, "O Mensageiro da Estrela" (1926-


1927), "A Estrela" (1928-1929), o "Boletim Internacional da Estrela" (1928-1930), o
"Boletim da Estrela" (1931-1933). Criada a Instituição Cultural Krishnamurti pelo
próprio Sr. Krishnamurti em 1935, passou a Entidade a editar a "Carta de Notícias" a
partir de 1936, sem interrupção até a presente data.

Com relação ao Brasil, cabe ainda informar que a comunicação da Sra. Annie Besant
sobre a criação da Ordem da Estrela do Oriente - ela atuava como Protetora da
mesma, foi publicada em "O Teosofista" de julho de 1911. Em 13-09-1913 foi
convidado para seu Representante no Brasil o então Major Raymundo Pinto Seidl,
principal figura da Teosofia no Brasil, partindo o convite do próprio Sr. Krishnamurti,
como Chefe da Ordem, chegando a confirmação para o cargo em carta de 06-03-
1914.

Os Atos da Ordem, como Instruções sobre a organização, Resoluções, Congressos e


Eventos diversos, eram igualmente publicados em "O Teosofista". O Relatório que
saiu no número de janeiro de 1918 acusava 963 filiados aos Grupos de Auto-
Preparação no Brasil, sendo cerca de 20.000 o número de filiados em todo o mundo.
Já o Relatório divulgado na referida revista de janeiro de 1927 registrava 2.345 como
número de filiados no Brasil, omitindo o total mundial, mas a idéia que se tem é que
passava de 40.000. O exposto exemplifica o que teria ocorrido em todos os países da
Terra, em que existira Representação e Grupos de Preparação da Ordem da Estrela.

Após a dissolução da Ordem da Estrela em 1929 (então sem "do Oriente"), a Missão
de Krishnamurti, já em fase de maioridade e com recursos próprios, se tornou de todo
independente. Isso se deu também depois de ter Krishnamurti recebido provas de
Advento, conforme exposto. A Ordem, com seus administradores, tivera lugar, se
justificava numa situação de regência, enquanto Krishnamurti era menor de idade
física e estava sobrecarregado com outros encargos materiais e espirituais. Cumprido
o seu Objetivo, esgotara a Instituição a sua finalidade.

O trabalho a cargo da "The Star Publishing Trust" e Editoras vinculadas ficou


posteriormente centralizado na "Krishnamurti Writings Inc.". Por fim, a partir de 1968
foram criadas as Fundações que atualmente regem o Movimento (Krishnamurti
Foundations of America; Krishnamurti Foundation Trust, Ltd., Londres; Krishnamurti
Foundation India; Fundación Krishnamurti Hispanoamericana). Foi conservada a
Association Culturelle Krishnamurti, da França, e a Instituição Cultural Krishnamurti, do
Brasil. Nos demais países funcionam centros ou comitês.

Depois de 1968, permaneceram as edições de livros mais centralizadas em Ojai,


Califórnia; Londres, Inglaterra; e Madrasta, Índia. Porto Rico para o acompanhamento,
coordenação, do movimento hispano-americano. Conferências eventuais, ou em
outros países, eram proferidas em universidades, faculdades, teatros, estádios, rádios
e televisões, etc.

A "Carta de Notícias" de janeiro-junho de 1986 publicou um Relatório elaborado pelo


próprio Krishnamurti, de uma reunião de todas as Fundações, que se realizou em
junho de 1973, em Brockwood Park, Inglaterra. Nesse Relatório, assinado pelo próprio
Krishnamurti, se lê o que segue:

"(...) Todos nós achamos que as Fundações não devem ser fragmentadas e sim
trabalhar juntas como um todo, com o mesmo intuito e seriedade. Foi sobre isso que
falamos. Hoje existem quatro fundações, (...) Durante a minha existência elas
promovem palestras, grupos de debate, seminários e concentrações. Elas são
responsáveis pela preparação, tradução e publicação de livros. (...) Elas produzem
filmes, fitas de áudio e material para televisão. Encarregam-se da distribuição e assim
por diante."

Segue: "Existem agora cinco escolas na Índia, um centro educacional com escola em
Brockwood Park, na Inglaterra, e vai haver um centro educacional e uma escola nos
Estados Unidos, em Ojai. Todas essas escolas funcionam sob a orientação das
Fundações Krishnamurti. ( ... )"

"As Fundações não têm autoridade na questão dos ensinamentos. A verdade jaz nos
próprios ensinamentos. As Fundações cuidarão para que esses ensinamentos sejam
mantidos intactos, não sejam distorcidos ou corrompidos. As Fundações não estão
autorizadas a permitir que haja propagandistas ou intérpretes dos ensinamentos.(...)"
(pág. 11-12)

A vinda de um grande Instrutor iluminado neste "fim de tempos", com Missão


destinada aos homens, é de longa data prevista em textos de várias religiões. Uma
dessas fontes é o aludido Vishnu Purana, principal obra de sabedoria dos hindus, com
cerca de 560 páginas.

O Capítulo XXIV do Livro IV e o Cap. I do Livro VI, revelam a decadência dos homens
e das instituições sociais que ocorreria na Idade Kali. No primeiro é prevista a vinda de
brâmane eminente, da família dos Vishnuyasas - seria uma espécie de enviado,
avatar, da Divindade (Krishnamurti nasceu hindu brâmane).

Da mesma forma, revela a Bíblia que neste "fim de tempos" viria a este mundo, pela
segunda vez, o Senhor Cristo (também chamado filho de Deus). Vê-se isto em Daniel
VII:13; Mateus XXIV:27-30); Marcos XIII:26,27; Lucas XXI:27; Hebreus IX:28;
Colossenses III:4.)

Torna-se, no entanto, estranho que, com exceção de Hebreus IX:28, os demais


versículos dizem que Ele viria "nas nuvens", e, em Mateus XXIV:27, que surgiria do
Oriente para o Ocidente, e Krishnamurti nasceu no Leste.

Na antiga Palestina, serviu-se o Senhor Cristo da mediação (veículo), de seu discípulo


Jesus para a Mensagem Cristã. Evidenciam isso os seguintes textos da Bíblia: Mateus
XXVI:63-64; Marcos XIV:61-62; Lucas XXII:63,67-70, XXIII:2; João IV:25,26,29,
VII:21,25-28, X:24-25, XI:25-27; Atos Apost. II:36, XVIII:5.

Da mesma forma, utilizara-se anteriormente o Senhor Buddha do veículo de seu


discípulo Príncipe Sidharta, conforme relata C.W Leadbeater, em "Os Mestres e a
Senda", pág. 46-47 (Veículos emprestados), e em La Vida Interna, v.II, pág. 340
(Recuerdo de los conocimientos pasados).

Outros textos da Bíblia igualmente prevêem que o Senhor Cristo viria neste "fim de
tempos" também para atender ao Juízo dos homens (II Corintios V:10; Apocalipse
XX:4, 12, XIV:7, IV:2, 6, V:1, 6, 8; I Pedro IV:17, II Pedro II:4, 9; Daniel VII:9, 10, 26,
VIII:17) para purificação dos mesmos (Ezequiel XXXVI:25; I Romanos V:3; Atos
XIV:22; I Pedro I:22; Hebreus I:3; Zacarias XIII:9; Daniel XI:35, XII:10); e promover
justiça, afastar da Terra homicidas, ímpios, fornicadores, abomináveis, soberbos
(Apocalipse XXI:8, II Pedro I:22, II:11; Malaquias III:2, 5, IV:3).

A vinda "nas nuvens", anteriormente referida, pode significar vitorioso sobre as trevas
ou que cumpriria seus misteres, na segunda parte de sua Missão supracitada, desde o
Invisível (planos Etérico, Astral-Mental).

Os versículos aludidos, das Escrituras cristãs, coincidem com outro trecho do Vishnu
Purana, do mesmo Liv. IV, Cap. XXIV, assim resumido: A Entidade mencionada, com
seu poder irresistível, afastaria os dedicados à iniqüidade, os salteadores, etc.,
restabelecendo a justiça na Terra.

Em versículos do Bhagavad-Gita hindu, o Instrutor Krishna fala ao discípulo Arjuna:


"Quando a Justiça decai, ó Bharata, e a injustiça se exalta, então Eu apareço" (IV:7)
"Para proteção dos bons e para destruição dos malfeitores, e para o restabelecimento
firme da Justiça, de idade em idade, tenho nascido". (IV,8)
Na obra "La Doctrina Secreta" (6 volumes), publicada em 1985-1988, diz H.P.
Blavatsky, na Introdução, vol. 1: "(...) No século XX, algum discípulo mais bem
informado, e com qualidades muito superiores, poderá ser enviado pelos Mestres de
Sabedoria para dar provas definitivas e irrefutáveis de que existe uma Ciência
chamada Gupta Vidyâ; (...)" (Ed. Glem, Bs, As, 1943, pág. 38).

A mesma autora, H.P. Blavatsky, na obra "La Clave de la Teosofia" (terminada em


1890, antes do seu passamento em 1891), deu outra redação ao texto acima, no
capítulo final "Conclusão", a saber:

"Se a atual tentativa, cuja forma é nossa Sociedade, logra melhor resultado que as
anteriores, subsistirá viçosa e robusta, quando chegar o momento espiritual do século
XX. A condição moral e intelectual dos homens haverá melhorado com a propagação
das doutrinas teosóficas, desaparecendo até certo ponto os preconceitos dogmáticos.

Continua: Além de uma copiosa e inteligível literatura, o próximo impulso terá em sua
ajuda uma corporação unida e numerosa, disposta a receber favoravelmente o novo
portador da tocha da Verdade. Haverá as mentes dispostas a compreender sua
mensagem (...); em suma, uma organização (...) previsora de sua vinda (...)" (Ed. Bibl.
Orientalista, Barcelona, 1910, pág. 219-220).

E. Duboc cap. de frag, Secretário-tesoureiro da Ordem da Estrela do Oriente na


França, em ampla conferência intitulada "Madame Blavatsky e a volta de um Grande
Instrutor", realizada em Paris, a 18-4-1916, publicada em "O Teosofista" nº 70, de 07-
02-1917, relaciona o "novo portador da tocha" com Krishnamurti, e a "organização
previsora de sua vinda" com a Ordem da Estrela do Oriente.

A obra "Conferências Teosóficas", de Anule Besant (Liv. Clas. Edit. Lisboa, 1926),
reúne pronunciamentos da autora, de várias épocas, que não ultrapassam as duas
primeiras décadas. Na conferência intitulada "A Era de um Novo Ciclo" refere-se a
Buddha e a Maitreya (nome de Cristo na Índia). Aí se lê:

"Tendo a raça ariana (..).Ele voltou e se manifestou como o Instrutor supremo. A última
vez que veio, num corpo mortal, foi aquele que o mundo conhece pelo nome de
Gautama, o Senhor Buddha. ( ... ) (pág. 95)

Pregou e partiu: nas mãos do Seu sucessor (...) colocou o ensino destinado ao mundo.
( ... ) Conheceis esse sucessor ( ... ); o Rishi Maitreya. Os budistas chamam-no
Bodhisattwa. ( ... ) (pág. 96)
Há dois mil anos ( ... ) tomou o corpo preparado para Ele por um fiel discípulo,
conservado afastado dos homens em um mosteiro essênio; foi então que apareceu
nesse corpo com o nome que os cristãos chamam Cristo; (...) (pág. 96-97)

Tais são as coisas que se passam hoje no mundo espiritual; são os preparativos (...)
para sua manifestação; mais uma vez a Hierarquia oculta prepara a via do Senhor. (...)
Não há uma região no Ocidente que não esteja na atitude de espera, (...). (pág. 98)

Outras coisas há ainda (...) Falei do grande afluxo de espiritualidade, da vinda do


Instrutor Supremo; falei dos sinais que, no mundo físico, fazem prever a Sua gloriosa
missão. (...) Embora Ele venha especialmente para dar a forma conveniente ao veículo
através do qual o pensamento da sexta sub-raça deverá exprimir-se, a sua missão
será no entanto universal, ela influenciará os povos do mundo inteiro. (...) (pág. 108)

Eis o que nos reserva o ciclo menor que começa. Esta união vai ser uma das coisas
que o Supremo Instrutor vai tomar possível. Ele que se juntará a tudo o que há de
mais nobre no Oriente e no Ocidente, Ele que unirá a espiritualidade de todas as
grandes religiões do Ocidente, (...)" (pág. 114)

Por sua vez, com relação, escreve C.W. Leadbeater na obra "La Vida Interna" (Bibl.
Orientalista, Barcelona, 1919):

"Quanto à próxima vinda de Cristo e à obra que há de realizar, vos remeto ao livro
publicado pela Senhora Besant com o título "El Mundo Cambiante" (O Mundo de
Amanhã). A época de seu advento não está longe e o corpo que tomará há nascido já
entre nós". (A Obra de Cristo) (v. I, pág. 32)

O mesmo autor, C.W. Leadbeater, na obra "Os Mestres e a Senda", trata de Atos
suplementares, surgidos após a iluminação do Senhor Gautama, o Buddha. Dado o
relacionamento de Krishnamurti também com Ele, julgou-se oportuno o presente
esclarecimento. Um dos Atos foi que, ao invés de o Senhor Buddha se limitar a
misteres de natureza superior, extraplanetários, resolveu continuar a prestar auxílio à
Terra.

Isto no sentido de eventual ajuda a seu sucessor, a quem esteve ligado durante muito
longa data, e de atuações especiais, em certas oportunidades. Outro foi e de retornar
uma vez por ano, para conceder bênçãos (Lua cheia de maio, cerimônia de Wesak),
ocasião em que derrama uma torrente de energias espirituais. Isto porque, tendo
acesso a planos mais elevados, acima dos nossos, pode transmutá-las e transferi-las
ao nível de nosso mundo. (Ed. Pensamento, S.Paulo, 1977, pág. 267, 268)
Em 1930 desligou-se Krishnamurti da Sociedade Teosófica, como também do
Hinduísmo. Tinha isso de acontecer a partir das mudanças que vinham ocorrendo nele
desde 1925, principalmente em 1927. Sendo a sua Mensagem universal, viera ele
para todos, e não apenas para os membros desta ou daquela entidade ou religião.

Nesse sentido, em "A Arte da Libertação", diz ele: "(...) Quando digo que minha
mensagem é para todos, não o faço para agradar à democracia (...) O que estou
dizendo é para todos, sem levar em conta a posição de cada um na vida, seja rico,
seja pobre, sem levar em conta o seu temperamento, (...) O princípio hierárquico é
nitidamente nocivo ao pensamento espiritual. Dividir os homens em "altos" e "baixos"
denota ignorância. (...) (pág. 35)

Percorreu Krishnamurti os cinco continentes; na América do Sul, proferiu palestras no


Brasil, na Argentina, no Uruguai, Chile e México, em 1935. No Rio de Janeiro, no
Estádio do Fluminense e no Teatro Municipal; em São Paulo, também no Teatro
Municipal da Capital. O Brasil e a França, como se disse, possuem Instituição Cultural
Krishnamurti. Isto porque se tornaram países principais na tradução e publicação dos
livros no respectivo idioma, falado também em outras nações. Nos países em que isso
não ocorre, existem Comitês ou Centros Krishnamurti.

Além dos livros, palestras isoladas, poemas, etc, produzidos por Krishnamurti
menciona Susunaga Veeraperuma, nos dois volumes das aludidas Bibliografias, do
autor, 839 títulos no 1º vol. e 106 no 2º vol. no total de 945 títulos de artigos publicados
em jornais e periódicos sobre Krishnamurti, e 325 no 1º vol, e 285 no 2º vol. no total de
610, de trabalhos biográficos sobre o autor. Somam 1.555 as duas espécies de
artigos.

Mas Susunaga Veeraperuma se torna incompleto, porque se limita quase que


exclusivamente a dados da língua inglesa. Não inclui o restante da Europa, América,
Ásia e Africa, daí que esse número talvez possa ser triplicado. Por outro lado, deve
atingir a centenas o número de livros e publicações menores escritos em todo o
mundo, apresentando e comentando ensinamentos do autor. No Brasil, contam-se em
dezenas os livros e panfletos e centenas de artigos, acerca de Krishnamurti.

Convidado a falar na Organização das Nações Unidas (O.N.U), após a conferência


proferida, respondeu a muitas perguntas. No final, o Representante da Instituição,
após breves palavras, lhe fez a entrega de Placa de ouro, comemorativa, com
inscrição que o reconhecia como o "Instrutor do Mundo". Sem nada responder,
terminada a reunião, retirou-se sem levar a Placa. Com essa atitude, revelou fidelidade
ao princípio, que pregou, da inutilidade dos títulos, incluindo os espirituais.
A primeira fase do Movimento abrangeu, assim, o período de 1911 a 1929, quando foi
dissolvida a referida Ordem da Estrela. Nela ocorreu a preparação, o amadurecimento.
De 1925 a 1927, teve Krishnamurti um período no qual produziu poemas espirituais,
constantes das obras "O Reino da Felicidade", "A Fonte da Sabedoria" (três poemas,
no fim), "A Canção da Vida", "A Busca", "O Amigo Imortal".

Caracteriza a segunda fase, de plenitude, expansão, o período de 1930 até o


passamento de Krishnamurti, em 17 de fevereiro de 1986. O trabalho cresceu
aceleradamente, os livros, resultantes de conferências, foram traduzidos para todos os
idiomas importantes.

Krishnamurti não veio acrescentar novos conhecimentos de cosmogênese,


antropogênese e outros, de metafísica e revelação, de uma particular teologia. Ao
contrário, os seus ensinamentos são objetivos, práticos, para a vida diária, com
terminologia nova, mundial. Têm em vista a mudança do homem e da sociedade, no
presente-futuro.

Referem-se ao desmoronamento do velho, das tradições, concepções antigas, e


estimulam uma nova compreensão, baseada na realidade, no discernimento, na
percepção criadora.

Verifica-se que a Mensagem do Autor dirige-se igualmente ao homem novo, universal


em todos os sentidos: ao cidadão do mundo, e não mais da nação; ao pensador
global, não limitado a determinada crença, filosofia, cultura ou ideologia; a mentalidade
espiritual acima da setorização religiosa - isto numa época em que também ocorre o
início do governo mundial, já em formação, cujo embrião é a O.N.U.

Revelam um caráter simples e popular. Ele sempre falou para grandes auditórios
públicos, também de destacadas instituições educacionais e culturais. São apreciados
tanto por pessoas espiritualmente preparadas, como pelas que nunca adquiriram
nenhuma informação filosófico-religiosa.

Com freqüência, esclarece ele que a civilização do futuro depende do homem novo,
purificado, amadurecido - elevado à dimensão do porvir, do ponto de vista do pensar-
sentir, ético, espiritual - a fim de que possa subsistir. Do contrário, seria ela de novo
deteriorada pelos erros, excessos, vícios, poluições, perversidades e desordens
verificados em nossos tempos.

As verdades espirituais são eternas; o que tem progredido é o limite e a forma da


apresentação, acompanhando a evolução do homem. Nos tempos pré-históricos havia
doutrinas gerais, para todos, e revelações particulares, para os amadurecidos. Seguiu-
se uma literatura em parte simbólica, dependente de chaves para interpretação.

Por outro lado, conforme a história e a literatura teosófica, os cultos começaram nos
tempos mais primitivos com a veneração de reis, considerados divinos, do Sol e da
Lua, de deuses. O culto do lar evoluiu para o da pátria, tribo, cidade, estado. Religiões
antigas extinguiram-se (dos egípcios, caldeus, gregos, romanos, América pré-histórica,
etc.). O Budismo espalhou-se no Oriente e o Cristianismo, no Ocidente.

A partir da segunda metade da Idade Média, verificou-se crescente intercâmbio entre


os dois hemisférios, e hoje, paralelamente a uma unidade sócio-econômica e política,
assiste-se a uma internacionalização religiosa e cultural. Nessas circunstâncias, a
Mensagem de Krishnamurti - e sob outros aspectos a da Teosofia - vieram, ambas,
inaugurar a fase universal dos respectivos conhecimentos.

Coincide isso com a informação de Blavatsky (H.P), em "La Doctrina Secreta", de que
estamos chegando ao meio da evolução em nosso planeta, aproximando-se os
tempos em que o pêndulo da evolução dirigirá decididamente sua propensão para
cima, conduzindo a humanidade a mais alta espiritualidade. (vol. I, pág. 288-289)

Nessas circunstâncias, para compreender a Mensagem de Krishnamurti, é preciso


considerar que a atual civilização se encontra em profunda crise, social e religiosa, e
em processo de declínio. Trata-se de um "fim de tempos", de um ciclo evolutivo que
termina. Daí que ele critica, em ambos os campos, as instituições superadas, que
tiveram a sua época de validade, mas se acham em decadência, letra morta.

Sob o ponto de vista religioso, espiritual, a idade dos entes humanos, de modo geral, é
de adolescência, juventude. Uma minoria possui certa maturidade, se encontra na
idade semi-adulta. Pode-se dizer que a maioridade mais definida é atingida quando o
homem se dedica à prática da ioga, ascese, mística, com suas vias purgativa,
iluminativa e unitiva. Só então ele se torna senhor de si mesmo. Na fase atual, vive o
homem com desequilíbrio do pensar-sentir, sob a influência maior ou menor da
natureza inferior, da treva.

As religiões, com seus catecismos, leitura de textos teológicos, dogmas, cultos,


atendem às pessoas nas aludidas idades. O conhecimento da ascese e da mística
atrai os mais adiantados. Mas os ensinamentos de Krishnamurti têm em vista elevar o
homem à nova dimensão do presente-futuro. Ele dá a entender que essa
transformação deve ser imediata, sem o que a civilização não pode sair do caos em
que se encontra. Isto porque a crise mundial resulta do somatório das crises
individuais - cada homem reflete o que é. E para mudar a sociedade é preciso
regenerar os homens. Já antes se disse que as Escrituras prevêem um Juízo, uma
purificação dos mesmos, em nossos tempos.

Por ignorância, inexperiência, e tendo em vista a explosão intelectual de nossos


tempos, pensam os homens que a sabedoria resulta do acúmulo de conhecimentos.
Mas Krishnamurti mostra que isso só leva à expansão do "eu", ego, que constitui um
centro, um complexo psíquico, formado com os pensamentos, sentimentos,
experiências, etc., acumulados, presentes e passados. Acha-se localizado na alma, e
se interpõe entre ela e o espírito, impedindo que maior influxo superior chegue ao
homem. Uma síntese da cultura é necessária para a pessoa vencer o desejo do
conhecimento vulgar, infindável.

Daí que a religiosidade não consiste apenas em freqüentar a igreja, os ambientes


religiosos, mas em levar os ensinamentos à prática, nas atitudes, comportamentos,
atos, de cada dia, de manhã à noite. O exercício da atenção, observação,
investigação, levam à suspensão do pensamento, ao autodomínio do corpo, dos
pensamentos e sentimentos, ao esvaziamento da mente, à meditação, ao
autoconhecimento (exercido nas relações principalmente). O "eu", o ego, é a origem
do egoísmo, da ambição, do orgulho, da vaidade, etc., e ele precisa ser dissolvido
para que a espiritualidade surja no homem.

Liberto desse centro de caráter inferior, fica o ser livre para atuar com discernimento,
atrair a intuição (voz divina). E essa dissolução ocorre com a prática da simplicidade,
humildade, pela observação das expressões do "eu", ego, flagrando-as quando
surgem, pois isso funciona como golpes de morte nelas, e pela atitude de ser nada,
ninguém, porque o "eu", ego, é que quer ser importante, alguém - deixar de alimentá-
lo é dissolvê-lo.

A nova era do computador veio demonstrar que a mente humana não deve constituir-
se em banco de dados, mas tornar-se livre, independente, e saber consultar,
manipular os bancos de dados, o que é completamente diferente.

É fundamental o conhecimento da diferença entre a alma e o espírito. As Escrituras


fazem a distinção, mas pouco esclarecem; muitas obras místicas lançam luzes. A
literatura hindu e da teosofia são claras ("Ver os Sete Princípios do Homem", de Annie
Besant). Nos capítulos sobre Alma e Espírito, adiante, foram reunidos dados a
respeito. Favorece a compreensão dos ensinamentos de Krishnamurti uma base de
teologia (eclética), teosofia. Do contrário, podem ser eles interpretados erroneamente.
Como revela a história, nas épocas de progresso, tanto social como religioso, há
sempre a luta entre os conservadores e os renovadores. Como na Idade Média, ainda
hoje autoridades eclesiásticas exercem pressão, e as pessoas delas dependentes
ficam sem liberdade de expressão. Embora aceitem a renovação, são obrigadas a
guardá-la para si mesmas, sob pena de censura. Dificultam as aberturas.
Quem é Krishnamurti; fontes, Informações
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 20:53

Desde a criação da Ordem da Estrela do Oriente, a Sra. Emily Lutyens, Representante


da mesma em Londres, e sua filha Mary Lutyens, acompanharam a vida do Sr. J.
Krishnamurti, viajando com ele freqüentemente para várias partes do mundo, e
puderam reunir dados a seu respeito.

Em virtude da grande amizade e confiança de Krishnamurti em relação às duas


Senhoras, ele sempre lhes escrevia relatando acontecimentos íntimos. Sabia também
que elas tudo registravam num Diário, para objetivos póstumos.

Além disso, receberam as informações reunidas pelo Sr. Shiva Rao, antigo membro do
Parlamento indiano, que, igualmente, por longo tempo, convivera com J. Krishnamurti.
Pretendia escrever a biografia dele, mas faleceu antes de cumprir seu intuito.

Com a morte da Sra. Emily Lutyens, coube à sua filha, Mary Lutyens, escrever as
obras intituladas: "Krishnamurti - The Years of Awakening" (Os Anos do Despertar);
"Krishnamurti - The Years of Fulfilment (Os Anos de Plenitude) e "Krishnamurti - The
Open Door (A Porta Aberta).

No livro Palestras em Auckland, 1934", diz Krishnamurti: (...) E vós vos tendes
preparado (...) e não importa que eu seja o Instrutor ou não. Ninguém vô-lo pode dizer,
(...) porque nenhuma outra pessoa pode sabê-lo, exceto eu próprio; e, mesmo assim,
eu vos digo que isso não importa. Jamais contradisse isso, apenas digo: deixai isso de
parte". (...) (pág. 101-102)

Em "A Fonte da Sabedoria" (Palestras em Eerde, Acampamento de Ommen, Holanda,


de 1926-1928), sob o epígrafe "Quem traz a Verdade", revela Krishnamurti os
encontros que teve em sua ascensão espiritual:

Quando, no entanto, eu era rapazinho, costumava ver Shri Krishna (...) tal como é
desenhado pelos hindus, pois minha mãe era devota de Shri Krishna. (...) Quando,
crescendo em idade, encontrei o Bispo Leadbeater e a Sociedade Teosófica, comecei
a ver o Mestre K.H. e, desde então, o Mestre K.H. era para mim a finalidade.

Segue: Mais tarde ainda, e à medida que ia crescendo, comecei a ver o Senhor
Maitreya (nome do Senhor Cristo na Índia). Foi isto há dois anos e via-O
constantemente na forma que perante mim era colocada. (pág. 57)
Faço-vos esta narrativa, não para obter autoridade nem criar uma crença, (...). Foi
para mim uma luta constante encontrar a verdade, pois não me sentia satisfeito com a
autoridade de outrem. Quis por mim próprio descobrir e, naturalmente, tive de passar
por sofrimentos para achar o que buscava. (pág. 57)

Ultimamente tem sido o Senhor Buddha a quem tenho visto e tem sido meu deleite e
minha glória o estar com Ele. (pág. 57)

Tem-me sido perguntado o que entendo pelo "Bem Amado". Dar-vos-ei um significado,
uma explicação que interpretareis como vos aprouver. Para mim, é tudo - é Shri
Krishna, é o Mestre K.H., é o Senhor Maitreya, é o Buddha e, no entanto, está para
além de todas essas formas. (pág. 57)

Que importa o nome que Lhe derdes? Lutais pelo Instrutor do Mundo, por um nome?
O mundo nada sabe acerca do Instrutor; alguns dentre nós, individualmente, sabem:
alguns acreditam por autoridade; outros têm sua própria experiência e conhecimento
próprio.(...) (pág. 57)

Disse a mim próprio: enquanto não me unificar com todos os Instrutores, que eles
sejam os mesmos é coisa que não tem importância, se Shri Krishna, Cristo, o Senhor
Maitreya são uma só pessoa, é coisa também sem grande conseqüência. (pág. 58)

Disse a mim mesmo: enquanto eu os vir no exterior, como em um quadro, uma coisa
objetiva, estou separado, estou afastado do centro; quando, porém, tiver a
capacidade, a força, quando tiver determinação, quando estiver purificado e
enobrecido, então essa barreira, essa separação desaparecerá. Não fiquei satisfeito
enquanto esta barreira não foi despedaçada, a separação não foi destruída. (...) (pág.
58)

Falei de vagas generalidades, que todos precisavam ouvir. Nunca disse: Eu sou o
Instrutor do Mundo; agora, porém, que sinto que sou uno com o Bem Amado, eu o
digo, não a fim de vos impor minha autoridade, ou para vos convencer de minha
grandeza ou da grandeza do Instrutor do Mundo, nem mesmo da beleza da vida ou da
simplicidade da vida, mas simplesmente para despertar o desejo em vossos corações
e em vossas mentes de buscardes a Verdade. (...) (pág. 58-59)

Daí estar eu capacitado para vos dizer que sou uno com o Bem Amado - quer o
interpreteis como sendo o Buddha, o Senhor Maitreya, Shri Krishna, o Cristo, ou
qualquer outro nome. (pág. 59)
No panfleto "Que o Entendimento Seja Lei" (conferência em Eerde, Ommen, Holanda,
1928) diz:

"Repito que não tenho discípulos. Cada um de vós é discípulo da Verdade, desde que
compreenda a Verdade e não se ponha a seguir outros indivíduos. Não tenho
seguidores.

"Espero que não considereis a vós mesmos como meus seguidores, porque, se o
fizerdes, estareis pervertendo e traindo a Verdade que eu defendo. (...) (pág. 4)

(...) Não há compreensão no culto das personalidades. Os rótulos que adorais


carecem de significação. (...) A Verdade transcende todas as graduações, porquanto
essas graduações só existem por causa das limitações humanas. (pág. 5)

(...) Eu sei o que sou; sei qual é a minha finalidade na Vida, porque sou a própria Vida,
sem nome, nem limitação.

E porque sou a Vida, desejo instar-vos a adorar essa vida, não na forma que é
Krishnamurti, porém a vida que reside dentro de cada um de nós. (...)" (pág. 16)

Em outro opúsculo "A Finalidade da Vida" (Conferência em Eerde, Ommen, Holanda,


1928): "Não desejo que me rendais culto; não desejo que acrediteis no que digo; não
desejo que façais de mim um santuário para vosso refúgio; (...) Porque o que vedes de
mim, esta personalidade, este corpo, é coisa irreal, sujeita ao declíneo perecível." (...)
(pág. 19)

Também em "A Arte da Libertação: "Pergunta: Não sois vós mesmo um guru?"
Resposta: Podeis fazer de mim um guru, mas eu não o sou. Não quero ser guru, pela
simples razão de que não há caminho para a verdade. (...) A verdade é uma coisa
viva, e para uma coisa viva não há nenhum caminho. (...) Porque a verdade não tem
caminho, para a descobrirdes tendes de ser aventuroso, estar pronto para o perigo; e
pensais que um guru vos ajudará a ser aventuroso, a viver no perigo? (...) (pág. 123-
124)

Entrevista de Krishnamurti em Londres, 20-06-1928 (Boletim Internacional da Estrela,


de agosto de 1928): "Senhor, eu o tenho dito (...) Krishnamurti, como tal, não mais
existe. Assim como o rio entra no oceano e nele se perde, assim Krishnamurti entrou
naquela vida (...). Assim (...) entrou nesse Oceano da Vida e é o Instrutor, pois no
momento em que se entra nessa Vida - que é cumprimento de todos os Instrutores - o
indivíduo como tal cessa de existir". (pág. 20-21)
De novo, em "Que o Entendimento seja Lei": "Pergunta: Sois o Cristo de volta ao
mundo? - Resposta: Amigo, quem julgais que eu sou? (...) Não estais interessado na
Verdade; estais interessado no vaso que contém a verdade (...). Eu vos digo que
possuo essa água pura; possuo o bálsamo que purifica e que cura soberanamente. E
me perguntais: Quem sois? - Eu sou todas as coisas - porque sou a Vida." (pág. 21-
22)

Igualmente, em "Palestras em Auckland, 1934" - "Pergunta: Sois o Messias?

Krishnamurti: Tem isso grande importância? Esta é (...) uma das perguntas que me
têm sido feitas por toda parte (...). Ora, eu jamais neguei ou afirmei ser o Messias, o
Cristo que voltou; (...) Ninguém vô-lo pode dizer. Mesmo que eu o dissesse, isso seria
(...) destituído de valor (...). (Palestras em Auckland, 1934, pág. 120)

Continua: "Assim, pois, (...) esforçai-vos para averiguar se o que estou dizendo é
verdadeiro; (...) desembaraçar-vos-eis de toda autoridade, (...). Para os seres
humanos realmente criadores, inteligentes, não pode haver autoridade. (...)" (Idem,
pág. 121)

Da mesma forma, em "Novo Acesso à Vida": "Pergunta: Como pretendeis justificar (...)
que sois o Instrutor do Mundo?

Resposta: Não tenho interesse algum em justificá-lo. Não é o rótulo que importa,
Senhores. O grau, o título não tem importância alguma: o que tem importância é o que
sois.

Rasgai o título, pois, jogai-o na cesta de papéis, queimai-o, destruí-o, livrai-vos dele.
(...)

Senhores, os títulos, sejam títulos espirituais, sejam títulos mundanos, são meios de
explorar os outros. (...)" (pág. 45)

E ainda, em "Uma Nova Maneira de Viver": "Pergunta: A S.T. anunciou que vós sois o
Messias e o Instrutor do Mundo. Por que deixastes a S.T. e renunciastes ao título de
Messias?

Krishnamurti: Agora, com relação ao título de Messias, a questão é muito mais


simples. Eu nunca o neguei, e acho que não tem muita importância se o fiz ou não. O
que para vós deve importar é se o que digo é ou não a verdade."
Segue: "Portanto, não vos deixeis levar pelo rótulo, (...). Se eu sou o Instrutor do
Mundo ou o Messias, ou o quer que seja, isso não tem importância nenhuma. Se o
achais importante, perdereis então a verdade do que estou dizendo, porque estais
julgando pelo rótulo. (...) Um dirá que sou o Messias, outro dirá que não sou, e onde
ficais? (...)" (pág. 149)

Por fim, em "Palestras na Itália e Noruega", 1933. "Pergunta: Foi dito que sois a
manifestação do Cristo em nossos dias. Que tendes a dizer sobre isto?

Krishnamurti: Meus amigos, por que fazeis semelhante pergunta? (...) Perguntais
porque quereis (...) julgar o que digo de conformidade com o padrão que possuís. (...)
Isto é de mui pequena importância e, além disso, como poderíeis saber o que sou ou
quem sou, mesmo que eu vô-lo dissesse? (...)" (pág. 66)

Continua: "Desejais saber quem sou em virtude de estardes incertos (...). Não estou
afirmando ser ou não o Cristo. (...) para mim a pergunta carece de importância. O que
é importante é saberdes se o que digo é verdadeiro; ( ... )" (pág. 66-67)

Segundo informações constantes da obra "Krishnamurti - Os Anos do Despertar", de


Mary Lutyens (Ed. Cultrix, S.Paulo, 1978), teria o Mestre Universal começado a
manifestar-se em Krishnamurti por ocasião de reuniões importantes, com a presença
de grande público, nos anos de 1925, 1926, 1927. (pág. 226, 227, 242, 278, 280).

À página 221, inicia a autora o capítulo "A Primeira Manifestação". Trata do Congresso
da Estrela, na Índia, que teve lugar em Adyar, Índia, em 28-12-1925. (No artigo "Uma
Explicação", de Annie Besant, publicado em "O Teosofista" nº 155, de março de 1927,
são confirmados os aparecimentos acima, e é informado que o Congresso da Estrela,
de 1925, teve a presença de 7.000 pessoas).

No certame, estava Krishnamurti no final do discurso quando, referindo-se ao Mestre


universal, disse:

"Ele só vem para os que querem, que desejam, que anseiam (...)"; e, de súbito, sua
voz se modificou completamente e soou: "Eu venho para os que querem simpatia, os
que desejam felicidade, os que anseiam libertar-se (...). Venho para reformar e não
para destruir, não venho demolir, senão construir."

Registra Mary Lutyens que muitos notaram não só a alteração para a primeira pessoa,
como uma diferença de voz. A Sra. Annie Besant, Leadbeater e Raja (Jinarâjadâsa)
tiveram perfeita consciência da mudança. Na reunião final do congresso, teria a Sra.
Besant declarado:

"(...) Este acontecimento (de 28 de dezembro) marcou a consagração definitiva do


veículo escolhido (...) a aceitação final do corpo eleito há muito tempo (...). O advento
começou (...)" (pág. 226-227)

Igualmente, no livro "Krishnamurti - Los Años de Plenitud" (Ed. Edhasa, Barcelona,


1984) se lê que, em 1927, escrevia Krishnamurti ao Sr. C.W. Leadbeater: "Eu conheço
meu destino e meu trabalho. Sei com certeza, e com meu próprio conhecimento, que
me estou fundindo na consciência do Mestre, e que Ele há de encher plenamente meu
ser". (pág. 14)

Nessa mesma fonte ("Los Años de Plenitud") consta que a Sra. Besant, então
acompanhada de Krishnamurti, teria feito declaração à Imprensa, nos E.U.A, assim
concluindo:

"O Instrutor do Mundo está aqui" (pág. 14). Nas páginas 3, 12, 15, 249 desse livro, é
repetida a 1ª manifestação do Instrutor universal em 28-12-1925, e outras em 1926 e
1927.

Ambas as obras acima fazem constantes referências a um "processo" de adaptação


física, psíquica e espiritual, a que teria estado submetido Krishnamurti durante toda a
sua vida. "Os Anos do Despertar", pág. 169, 174-191; "Los Años de Plenitud", pág. 8,
36, 37, 73, 119, 121-126, 150, 184, 255. O "processo" consta igualmente do "Diário"
de Krishnamurti, vol. I e II.

Em algumas sessões do "processo", e mesmo em outras ocasiões, foi revelada a


presença, quer dos Senhores Maitreya e Buddha, quer do Mestre K.H. Dos textos,
deduz-se que o processo tinha como objetivo não só a evolução individual de
Krishnamurti, como a adaptação de seus veículos para a fusão de sua consciência
com a do Senhor.

Verifica-se isso também em: "Os Anos do Despertar", pág. 48, 160-167, 179-181, 189,
196-197, 209, 225-227, 242, 250-251, 255-256); "Os Anos de Plenitude", pág. 12-13,
121, 125-126, 243, 245, 253).
Maitreya, Buddha; esclarecimentos
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 20:54

Krishnamurti, em textos anteriores reproduzidos de "A Fonte da Sabedoria", revela que


teve relacionamento com o Senhor Maitreya (Cristo) e o Senhor Buddha. Além disso,
em outras fontes, transcritas, que entrou no Oceano da Vida, identificando-se com
todas as coisas, porque se tornou a própria Vida.

Por outro lado, em "Que o Entendimento seja Lei", esclarece: "(...) Amigo, não vos
preocupeis sobre quem eu seja; vós nunca o sabereis, (...)." (pág. 15)

Conforme Leadbeater (Charies W.) a ligação de Krishnamurti com o Senhor Buddha é


muito anterior. Na obra "Las Últimas Vidas de Alcione" (Ed. Glem, Buenos Aires, 1958)
- Alcione é o pseudônimo de Krishnamurti, usado nessa e noutras obras da Teosofia
para designá-lo em diferentes encarnações passadas - dá informações em tal sentido.

O autor, Leadbeater (Charles W.), não foi um homem vulgar; consta ter atingido o nível
de Arhat (santidade-sabedoria) e, sendo possuidor de ampla e profunda clarividência,
demonstrada em muitas obras de pesquisa dessa natureza, podia realizar tais
investigações.

Na vida XXIX, teria Krishnamurti nascido no ano 630 a.C, nas cercanias da cidade de
Rajagrha, Índia, de pais brâmanes. No ano 588 a.C, depois de ter escutado muitos
sermões do Senhor Buddha, decidiu renunciar ao mundo e segui-Lo. (pág. 364-366)

Fizera então tal voto, e de, como Ele, Buddha, dedicar-se a mitigar o sofrimento e a
trabalhar pela paz no mundo, prometendo a isso destinar as suas vidas futuras, até se
transformar, como Ele, num Salvador dos homens.

Depois de ouvir essa decisão, relata Leadbeater, teria o Senhor Buddha inclinado a
cabeça e respondido: "Seja como dizes. Eu, o Buddha, aceito o voto que já não hás de
quebrar e ficará cumprido nos tempos futuros". Então lhe apertou a mão e o
abençoou, enquanto Alcione caía prostrado a seus pés. (pág. 367)

Na vida seguinte (XXX do livro), teria Krishnamurti reencarnado também na Índia, no


ano 624 d.C, nas cercanias da cidade de Kanyakubja, orla do Ganges. Desde criança
demonstrou tendência religiosa; aos 15 anos, atendendo às exigências, foi admitido
como noviço do Monastério budista local.
Seguindo a vida ascética, dedicou-se aos respectivos estudos, indo além do
obrigatório. Tornou-se eficiente predicador; responsável pela vasta biblioteca; amigo
de seu superior, o conhecido instrutor Aryasanga.

A convite deste, fora levado em peregrinação ao Tibet; conheceu no caminho muitos


Monastérios, onde os integrantes se hospedavam. Chegou ao de Nepal, aí
permanecendo durante dois anos, e do qual, mais tarde, já com fama de sabedoria,
intuição, bom conselheiro, se tornou abade. (pág. 373-383)

Em trechos transcritos de "A Fonte da Sabedoria", se viram as ligações que


Krishnamurti teve, na presente encarnação, com o Senhor Cristo e o Senhor Buddha.
Mary Lutyens, em "Krishnamurti - Os anos do Despertar", confirma que ele atingira a
evolução de Arhat em 1925.

O "Boletim Internacional da Estrela", editado no Brasil, número de agosto de 1928,


publicou uma "Entrevista com Krishnamurti", que teve lugar em Londres, a 20 de junho
do mesmo ano. Os trechos abaixo são aqui de particular importância:

"Pergunta: Numerosos jornais da América relataram recentemente que havíeis


declarado não serdes o Instrutor, porém somente a voz o Instrutor. Devemos tomar
isso como sendo a vossa atitude?

Krishnamurti: Não, senhor, receio que eles estejam inteiramente errados. Não se pode
dar explicações a alguém que nos defronte sem ter idéia daquilo de que se trata, sem
ser mal compreendido. (pág. 20)

Pergunta: Qual é, pois, a realidade, do vosso ponto de vista?

Krishnamurti: A realidade é que eu sou o Instrutor.

Pergunta: Como surgiu a confusão?

Krishnamurti: Eles entenderam mal o que se pretende indicar pela idéia do "veículo do
Instrutor". Confundem-se com isso (...). (pág. 20)

Pergunta: Como aconteceu que vários jornais fizeram distinção entre a personalidade
de Krishnamurti e o Instrutor?

Krishnamurti: Senhor, eu o tenho dito muitas e muitas vezes (...) Krishnamurti, como
tal, não mais existe. Assim como o rio entra no oceano e nele se perde, assim
Krishnamurti entrou naquela Vida que se acha representada por alguns como o Cristo,
por outros como o Buddha, (...) o Senhor Maitreya. Assim, Krishnamurti (...) entrou
nesse Oceano de Vida e é o Instrutor (...) (pág. 20)

Pergunta: Haveis dito que sois o Buddha, o Cristo, o Senhor Maitreya (...) Como pode
ser isto?

Krishnamurti: Sustento que todos os Instrutores do mundo atingiram essa Vida que é
finalidade da mesma. Daí, sempre quando qualquer ser entra nessa Vida, que é a
culminação de toda a vida, então, ipso facto se torna o Buddha, o Cristo, o Senhor
Maitreya, pois que ali não mais existe distinção. ( ... )" (pág. 21)

Referências ao Senhor Buddha são feitas também por Krishnamurti na obra "O Reino
da Felicidade", nos seguintes termos:

"O Mestre é de todos, Ele é o Amante do Mundo, e nunca ficará satisfeito com dar o
seu conhecimento e amor a alguns apenas. Ele vem para todos. Ele anseia por
despertar a beleza e a felicidade da vida em todos, (...) os que tivermos acendido a
candeia do gênio em nós mesmos, tanto melhor poderemos entender, seguir e servir."

Eu falei a respeito do Buddha e seus discípulos, e (...) aqueles discípulos não podiam
ter sido homens ordinários; eles eram exceções, (...) dando amor aos que
necessitavam de abrigo nas grandes alturas. Por isso, os que entendiam o grande
Mestre, respiravam o mesmo ar perfumado e viviam no mundo dEle, puderam dar ao
mundo uma parte daquela eterna beleza. (...)" (pág. 16-17)

Outro trecho da mesma obra (O Reino da Felicidade), adiante, não esclarece se a


menção diz respeito ao Senhor Buddha ou ao Senhor Maitreya (Cristo):

"Ansiava por chegar ao meu Guru, meu amor, meu Gênio, minha fonte de Felicidade;
e, como já de outra vez na Índia eu O vi, mas não quando estava lutando ou tentando
aproximar-me dEle, mas sim quando estava em meu natural e no meu íntimo refervia
uma fonte de felicidade."

Segue: "Eu o vi enchendo o céu, as folhas da relva, eu O vi em toda a extensão da


árvore, eu O vi no seixo, eu O vi em toda parte, eu O vi em mim mesmo. E dessarte o
meu templo estava repleto, o meu Santo dos Santos estava completo. Eu era Ele e ele
era eu mesmo, e essa era a Verdade para mim". (pág. 27)
Krishnamurti revela que o plano Divino constitui a fonte da Vida Una. Lá não mais se
verifica distinção entre os Seres que, a partir desse nível, transmitem Sabedoria,
Amor, Energia. Ele expressa isso nos textos abaixo:

"Mas, (...) vós estais enamorados de rótulos, e não da Verdade. Como é possível
dividir a Vida em Instrutor Universal e Bodhisattva? (...) Percebeis o que esta pergunta
implica? O que vos agrada atribuís ao Bodhisattva; e que vos desagrada atribuís ao
Instrutor Universal ou - quem sabe? - a Krishnamurti." ("Que o Entendimento seja Lei",
pág. 13)

"(...) Se desejais compreender o cume da montanha, deveis deixar o vale, e não


permanecer nele, adorando, de longe, o alto da montanha. Amigo, não vos preocupeis
sobre quem eu seja; vós nunca o sabereis. Não desejo que aceiteis coisa alguma do
que vos digo. (...)" (idem, pág. 15)

"Uni-vos com a Vida e vos unireis com todas as coisas. (...) Se estais enamorado da
Vida, então vós vos unireis com a Vida, quer a chameis Buddha ou Cristo ("Que o
Entendimento seja Lei", pág. 19)

"O Buddha, o Cristo, e outros grandes Instrutores do mundo, foram ter à fonte da Vida.
(...) Uma vez conhecendo a natureza e a suprema grandeza da Fonte, Eles mesmos
se tornaram essa Fonte, o Caminho e a Encarnação da Sabedoria e do Amor. Essa
deveria ser a nossa finalidade. (...)" ("O Reino da Felicidade", pág. 54-55)

Na obra de Krishnamurti "A Canção da Vida" (4ª Ed, ICK 1982), lê-se também:

"Dessa Vida, imortal e livre,

Eu sou a eterna fonte; (VI, pág. 17)

Eis a Vida que eu canto.

Ali está a unidade de toda a Vida,

Ali está a silenciosa Fonte, (X, pág. 20)

Que nutre os vertiginosos mundos.

Ó vida, ó amado,

Só em ti está o perene amor,


Só em ti reside o eterno pensamento." (XXV, pág. 43)

Em resumo, os dados supra, juntamente com os que seguem, permitem compreender


a expressão que ele tem usado para elucidar quem ele é, e a origem dos seus
ensinamentos: "não vos preocupeis sobre quem eu seja; vós nunca o sabereis."

O Senhor Maitreya (Mestre universal), conforme a obra citada, de Mary Lutyens


("Krishnamurti - Os Anos do Despertar"), teria começado a manifestar-se através de
Krishnamurti a partir de 1925 (a primeira vez em 28-12-1925) por ocasião do
Congresso da Estrela, em Adyar, Madrasta, Índia (pág. 226-227, 242, 278, 287, 296-
298).

A presença do Senhor Maitreya (Cristo) em Krishnamurti é também referida na obra


"Krishnamurti - Los Anõs de Plenitud" (Ed. Edhasa, Barcelona, 1984, pág. 12, 13, 14 e
15.

Geoffrey Hodson, autor de numerosas obras teosóficas, de pesquisa clarividente, no


seu livro "Thus have I heard" (Assim Tenho Ouvido), cap. XII - Fulgurações num camp-
fire, relata o que fora observado por pessoas capacitadas a ver no plano Astral,
presentes ao Acampamento de Ommen, Holanda, em agosto de 1927.

Depois de citar numerosas entidades excelsas, presentes, da Grande Hierarquia que


governa a Terra, descreve o que segue em relação a Krishnamurti (também conhecido
como Krishnaji):

"Quando ele fala, o espírito de Cristo desce, como uma grande inspiração coletiva,
para as mentes e os corações de todos. Ela se aproxima mais e mais numa grande
nuvem anular de luz dourada. Adeja sobre nossas cabeças, desce ainda mais,
delicada e lentamente, como tépida chuva de verão, até que todos ficam envoltos
numa paz, beleza e amor que a ninguém exclui.

Noite após noite, quando ele cessa de falar, ocorre um milagre. Duas mil e setecentas
pessoas permanecem na mais absoluta quietude. Naquele silêncio, o esplendor dos
esplendores revela-se aos nossos olhos. A figura do Senhor aparece acima da cabeça
de Krishnaji. Mais profundo é o silêncio. Estamos todos envolvidos pelo seu amplexo,
cheio de ternura e compaixão. Ainda mais próximo está o Senhor."
Outros sinais de Excelsa presença Divina em K.
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 20:56

A superior influência em Krishnamurti (também abreviado como K.), oriunda de planos


acima do nível de sua consciência, foi muitas vezes exteriorizada por sinais de uma
Presença extraordinária e inexplicável, testemunhada por pessoas íntimas, que
conviviam com ele e ajudavam em sua obra. Mary Lutyens, em "Krishnamurti - Los
Anõs de Plenitud", relata certos fatos, sendo significativos os trechos abaixo:

"Estávamos conversando (...). Subitamente K. experimentou um desfalecimento. O


que sucedeu depois é impossível descrever, (...) algo demasiado (...) extraordinário
(...). No rosto de K. houve uma mudança. Os seus olhos se engrandeceram, se
tornaram mais amplos e profundos, e tinham um aspecto tremendo, (...). Era como se
houvesse uma presença poderosa, que pertencesse a outra dimensão.(...)" (pág. 121)

"Depois da reunião, K. permaneceu (...). Por exemplo, (...) No exato momento de


sentar-se, seus olhos adquiriram um aspecto diferente por alguns segundos. Era um
olhar de estranha imensidade, e de uma força tão arrebatadora que deixava a pessoa
sem alento." E outro dia o seguinte:

"Estávamos falando e de repente esse olhar se expandiu novamente. Era tremendo e


continha em si o fogo (...) e um fulgor de algo incrivelmente poderoso, como se a
essência do poder e de todos os poderes se encontrasse nele." (pág. 125)

Em 1º de agosto (...) "Esta manhã aquilo estava aí, invadindo e penetrando


profundamente cada parte de nosso ser. Estava aí com doçura e vigor, com imensa
generosidade e desprendimento. Ainda que muito poderoso, também era suave e fácil
de receber, como a graça (...)." (pág. 126)

"(...) de repente, essa incognoscível imensidade estava aí, não só na habitação e fora
dela, senão também no profundo, em lugares mais recônditos (...) essa imensidade
não deixava pegada, estava aí pura, impenetrável e inacessível, e sua intensidade era
fogo que não deixava cinza. Com ela a bem-aventurança (...)." (pág. 128)

"Que é esta coisa? - perguntei - Este poder? Que é o que há por trás de você? Eu sei
que você sempre se tem sentido protegido, porém que ou quem o protege?" (pág.
201)

"Está aí, como se estivesse detrás de uma cortina - replicou (...)." (pág. 201)
"K. - Não temos descoberto por que esta criança foi mantida vazia desde então até
agora. (...) Porém, como se produziu esse vazio com sua ausência de eu? Resultaria
simples se disséssemos que o Senhor Maitreya preparou este corpo e o manteve
vazio. Essa seria a explicação mais simples, porém o mais simples é suspeitoso."
(pág. 245)

Outra explicação seria que o ego de K. poderia ter estado em contato com o Senhor
Maitreya e o Buddha e disse: "Eu me retiro(...). Porém também disso suspeito; (...)"
(pág. 245)

"O Senhor Maitreya viu este corpo com um mínimo de ego, quis manifestar-se através
dele, e então o corpo se manteve incontaminado. Amma dizia que o rosto de K. era
importante porque representava aquilo. Foi preparado para aquilo. (...) Qual é então, a
verdade? Não sei (...)." (pág. 245)

"Outra coisa peculiar em tudo isto é que K. sempre se tem sentido atraído para o
Buddha. É esta uma influência? Não o creio. É esta fonte o Buddha, o Senhor
Maitreya? Qual é a verdade? É algo que jamais descobriremos?" (pág. 245)

"Mary Zimbalist: Alguma vez se sente utilizado, sente que algo penetra em você?

K.: Eu não diria isso. Penetra na habitação quando falamos seriamente." (pág. 245)
(parece que habitação representa o corpo de K. e também o ambiente).

A presença da divindade, acima referida, é descrita por Krishnamurti no livro que ele
próprio escreveu, resultado do registro diário de ocorrências, o qual foi por isso
intitulado "Diário de Krishnamurti". Nessa obra, relata ele eventos que costumavam
verificar-se em sua vida; talvez para dar uma idéia, se limitou ao período de junho de
1961 a janeiro de 1962. Faz aí também alusões ao "processo" de mudanças físicas,
com padecimentos, a que sempre esteve sujeito, acontecidos no período, entremeado
tudo isso com variados e expressivos ensinamentos.

No Prefácio, diz Mary Lutyens: "Uma palavra se torna necessária para explicar um dos
termos nele empregados: "o processo". Em 1922, aos 28 anos de idade, Krishnamurti
passou por uma experiência espiritual que mudou a sua vida, e a que se seguiram
anos de aguda e quase contínua dor de cabeça e na espinha. Revela o manuscrito
que "o processo" (...) ainda prosseguira quase 40 anos depois, embora de forma bem
atenuada."
Segue: "O "processo" era um fenômeno físico, que não se deve confundir com o
estado de consciência a que Krishnamurti alude de várias maneiras nos cadernos,
como "bênção", a "outra coisa", "outra presença", "a imensidão", "aquela coisa
singular", "o incognoscível", etc. (...)" E ainda: "Neste singular "diário", temos o que se
poderia denominar o manancial do ensino de Krishnamurti. Toda a sua essência aqui
está brotando de sua fonte nativa. Assim como consta destas páginas, que "cada vez
existe nesta bênção algo de novo", uma qualidade "nova", um "novo" perfume, (...)."
(pág. 5 e 6)

Como exemplos, reproduzem-se abaixo alguns excertos do mencionado "Diário":

"E durante a noite, ao acordarmos, o sentimento continuava. A cabeça doía quando


estávamos a caminho para tomar o avião, e em vôo para Los Angeles. (...) (Diário de
Krishnamurti, pág. 9)

No carro, a caminho de Ojai, começou de novo a pressão e o sentimento de imensa


vastidão. Não é que experimentássemos aquela vastidão; ela estava simplesmente ali;
não havia centro em que a experiência ocorresse, ou do qual surgisse. (...) A "coisa"
durou mais de uma hora, e a cabeça continuava a doer muito. (idem, pág. 9-10)

Ao acordarmos, às duas horas, (...) sentíamos uma estranha pressão; era uma dor
mais aguda, mais no centro da cabeça. Durou cerca de uma hora (...). E a cada vez o
êxtase aumentava; era uma alegria constante. (...) (idem, pág. 10)

Exatamente na hora em que nos deitamos, percebemos a presença do absoluto (...).


Era uma bênção que não invadia apenas o quarto, mas parecia espalhar-se por toda a
terra, de ponta a ponta. (idem, pág. 12)

Sentados no interior do avião (...) inesperadamente, sentimos aquela mesma


imensidão, a extraordinária bênção (...), trazendo consigo o sentimento do sagrado.
Apesar do (...) ambiente agitado, a "coisa" se manifestava. (...) (idem, pág. 20)

O processo prolongou-se por quase toda a noite; foi bastante intenso. É espantosa a
resistência do corpo! (...) (idem, pág. 23)

A singular presença inundava o quarto esta manhã. Cada recanto do nosso ser foi
invadido por aquela força poderosa que a tudo purificava com sua ação sagrada.
(idem, pág. 23)
O aposento foi tomado por aquela bênção. Impossível descrever o que se seguiu; as
palavras são coisas mortas (...); mas, este acontecimento transcendia qualquer
palavra ou descrição. Era o centro de toda a criação; uma seriedade purificadora que
esvaziava o cérebro de todo pensamento e sentimento, e que tinha a força de um raio
destruidor; de incalculável profundidade, mantinha-se imóvel, impenetrável, de uma
solidez tão delicada quanto os céus. (...) (idem, pág. 26)

Caminhávamos, (...). Ali, enquanto andávamos, surgiu aquela bênção sagrada, algo
que quase podíamos tocar, e, interiormente, passávamos por transformações. (...) O
imensurável sobreveio, proporcionando um clima de paz. (idem, pág. 31)

Passeando ao longo do caminho (...), em meio a grande número de pessoas,


sobreveio-nos aquela bênção, delicada como a folhagem, que continha enorme
alegria. Mas, transcendiam-na a imensidão da inabalável força e do inacessível poder.
Nela se pressentia uma imensurável e insondável profundeza. (...) (idem, pág. 33)

Mas, a cada momento, havia destruição; não a destruição que visa a uma nova
mudança - a mudança nunca é nova - porém a destruição total do que foi para que
jamais volte a ser. Não havia violência nessa destruição, (...). Eis a destruição
criadora. (idem, pág. 33)

Esta manhã, (...). Ao sentarmos, sobreveio-nos aquela grande bênção e,


imediatamente, sentimos a integral presença da impenetrável força; no âmago daquela
imensidão, reinava o silêncio. Era uma quietude inconcebível; (...) A imobilidade de
todo movimento, a essência de qualquer ação, o próprio explodir da criação, que só
ocorre neste silêncio. (idem, pág. 34)

Ao acordarmos cedo, ocorreu-nos uma fulminante percepção, uma visão que parecia
não ter fim. Não tinha origem nem direção, mas abrangia todas as visões e todas as
coisas. Ultrapassava os rios, as colinas, as montanhas, a terra, o horizonte e as
criaturas. Nessa "visão" havia penetrante luz e incrível velocidade. O cérebro não
podia acompanhar o que acontecia, nem tampouco a mente era capaz de abarcá-la.
Era pura luz dotada de irresistível celeridade. (idem, pág. 36)

Ao despertarmos houve uma explosão, um extravasamento deste poder, desta força.


Era como uma torrente brotando das rochas, do fundo da terra. Havia nisto um
estranho e inconcebível êxtase, que nada tinha com o pensamento e o sentimento.
(idem, pág. 37)
Durante a palestra, esta manhã, a bênção sagrada estava lá. Interpretá-la,
individualmente, é destruir a sua indescritível natureza. Interpretar é distorcer. (idem,
pág. 38)

Ao acordarmos de manhã, novamente deparamos com aquela força impenetrável e de


abençoado poder. Despertou-nos a sensibilidade, e o cérebro estava dela consciente
sem reagir. (...) (idem, pág. 42)

Durante a palestra, lá estava aquela energia, intocável e pura; à tarde, no quarto, veio
com a velocidade do relâmpago e desapareceu. Porém, de certo modo, sua presença
é constante, com estranha inocência e olhar imaculado. (idem, pág. 42)

Cada vez existe algo de "novo" naquela bênção, uma qualidade "nova", perfume; no
entanto, é ela imutável. É o próprio incognoscível. (idem, pág. 43)

Ontem, ao entardecer, a "coisa" singular veio de repente numa sala que dava para
uma rua de tráfego intenso; a pujante beleza daquele estado desconhecido
extravasava os limites do aposento, (...). Grandiosa e impenetrável, sua presença
permaneceu viva a tarde toda e, mesmo à hora de nos deitarmos, se tornou insistente
a bênção da imensa plenitude. (idem, pág. 112)

(...) Diferente a cada aparição, exibindo sempre algo de novo, uma qualidade inédita,
uma nuança sutil, ou um detalhe original antes não observado, aquele estado era
inacessível ao pensamento, à formulação de hábitos, ao processo acumulativo de
memorização e análise. Provinha da ausência do tempo necessário ao ato de
experimentar e da imobilidade do cérebro em que cessava toda forma de pensar.
(idem, pág. 112)

Após o leve jantar, falávamos de diversos assuntos (...). Enquanto a conversa


prosseguia, a imensidão daquela bênção surgiu inesperadamente à nossa frente;
imobilizados por sua força devastadora, nossos olhos eram incapazes de vê-la, o
corpo de senti-la e o cérebro de percebê-la sem a interferência do pensamento. (...)
(idem, pág. 125)

(...) Em meio àquele ambiente descontraído, algo de extraordinário acontecia, que se


prolongaria por toda a noite. (...) Bênção arrasadora, aquele raro fenômeno
simplesmente existia, indiferente a qualquer crítica ou avaliação. Fato inédito, sem
conexão, no passado ou no futuro, era inacessível ao pensamento (...). Mas, por ser
gratuita, dela jorrava a imensidão do amor e da beleza. (...) (idem, pág. 125)
Krishnamurti e Teosofia
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 20:58

Os ensinamentos da Teosofia e de Krishnamurti completam-se.

Os primeiros, repetimos, apresentam os aspectos da cosmogênese, antropogênese,


estudos comparados de religiões, filosofias e ciências, mostrando o relacionamento, a
unidade. Além disso, a genealogia do homem, seus princípios (que integram a alma e
o espírito); os mundos invisíveis, seus habitantes; a vida após a morte; as leis da
evolução; os temperamentos verificados no homem e também na natureza; o Governo
interno do mundo; etc. etc. e muitos dos ensinamentos de Krishnamurti sob outras
formas de apresentação, clássicas e não clássicas (novas). Universaliza a
consciência, dá uma visão mais ampla, profunda, do mundo, da cultura, da vida. O
condicionar-se ou não com esses conhecimentos depende da atitude meramente
intelectual ou atemporal, criadora; a intuição favorece o entendimento.

É a mensagem de Krishnamurti muito objetiva, simples e universal, destinando-se a


todos, sem distinção de classe social, grau de instrução formal, religião, etc. (nisso
também a Teosofia). Exclui os dados culturais da Manifestação, da Verdade, quer
dizer, os apresentados por revelação, limitando-se aos observáveis ou percebidos.
Trata principalmente da psicologia da evolução (elevação) espiritual, voltada para a
educação, a mudança, a transformação do homem, agora, no sentido do atingimento
de uma nova espiritualidade, do presente-futuro, sob forma de apresentação que
supera as anteriores. Krishnamurti não é contra a cultura, dando a entender que se
deve dela tomar conhecimento, mas sob a forma de um aprender que não acumula,
não condiciona, não faz da mente computador, banco de dados. O simples
conhecimento intelectual dos ensinamentos de Krishnamurti, sem a prática constante
do autoconhecimento, se por um lado, ilumina, por outro também condiciona.

Sobre o relacionamento dos Ensinamentos de Krishnamurti com a Teosofia, cabe


expor a seguinte ocorrência. Em 1979, havia muitos anos que a Sra. Radha Burnier
(atual Presidente da Theosophical Society, mundial, no segundo mandato) era
Presidente da Krishnamurti Foundation India, com sede em Madrasta. No livro
"Krishnamurti - Biografia", relata a autora, Pupul Jayakar:

"Em 28 de novembro de 1979, estávamos no Valle de Rishi. Radha Burnier tinha vindo
de Madrasta (...). Uma manhã, antes do desjejum, Krishnamurti perguntou a Radha
Burnier se postularia à presidência da Sociedade Teosófica. Ela respondeu que não
sabia. Ele disse: Que quer dizer com que não sabe? (pág. 425)
Subitamente a atmosfera se encheu de uma energia nova (...). Quando disse que esta
era uma nova mística, ele não o negou. Depois falou novamente da Sociedade
Teosófica e de Radha Burnier convertida em Presidente.

Perguntei-lhe: Em um ponto você disse que Radha se encontra profundamente


comprometida com a Krishnamurti Foundation, e em outro ponto disse que ela deve
postular a presidência da Sociedade Teosófica. Como concilia você ambas as
declarações? (pág. 425-426)

Ele respondeu: Eu posso dizê-lo, outros não." E repetiu "Eu posso dizer qualquer
coisa". (...)" (pág. 246)

A verdade abrange um aspecto exterior, mais ligado à consciência, às expressões


objetivas, à cultura, e outra interior, mais relacionada com a vida, a religiosidade,
tendente à unidade subjetiva. Ambos se completam. Krishnamurti, como se verá, diz
que a extroversão (movimento exterior da vida) e a introversão (movimento interior da
vida) coexistem nos indivíduos, não cabendo separação. Inobstante, a sua Mensagem
focaliza mais o aspecto interior, do qual pouco cuida a grande maioria da humanidade.

Como intelectualidade não representa espiritualidade, pode uma pessoa ter


alcançado, na instrução vulgar, o nível de terceiro grau, e, não obstante, na área
religiosa, espiritual, encontrar-se no primeiro ou no segundo grau. O contrário é
também válido; tem-se conhecimento de que numerosos seres, no cristianismo e
noutras religiões, que, na instrução formal, não passaram do primeiro grau, e atingiram
santidade-sabedoria. Por isso, esta Seleta não se destina às pessoas "cultas", mas a
todos, revelando-se o amadurecimento na capacidade de assimilação dos
ensinamentos adiante apresentados. Sem uma base teológica mínima, eclética,
incluindo a distinção entre alma e espírito, surgem as interpretações pessoais,
errôneas, que desvirtuam a compreensão dos textos.

No final do livro "Krishnamurti: Os Anos do Despertar", diz Mary Lutyens: "É claro que
os ensinamentos de Krishnamurti mudaram de maneira considerável em todos esses
anos e continuam a mudar, à medida que ele procura novas palavras para exprimir
uma verdade tão evidente para ele quanto a própria mão, mas tão difícil de explicar
aos outros. (...)" (pág. 287)

Torna-se oportuno esclarecer que, como se verá, a mudança não ocorreu nas idéias,
mas apenas na forma de apresentá-las. A psicologia, a psicanálise, as ciências sociais
e outros ramos da cultura evoluíram geometricamente depois que ele começou a falar
em 1920. No sentido de transcender, renovar, teve ele, deduz-se, de continuamente
adequar seu vocabulário, visando também a superar o tradicional, a terminologia
cristalizada.

Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 1991.

Carlos de Souza Neves

Conceitos, Preliminares I
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:02

• Finalidade da Vida; Desafios, Plenitude, Eternidade


ƒ Educação; Conceito, Pouco Criadora, Não Espiritual
ƒ Aprender, Disciplina; Sentido Vulgar e Transcendente
ƒ Jovens, Idosos; Distinção Psíquica, Física Irrelevante
ƒ Dependência, Emancipação; Paternalismo, Liberdade
ƒ Maturidade, Seriedade, Verdadeiro, Falso; Conceitos
ƒ Conhecimento, Especialização, Excesso Prejudicial
ƒ Mente Computadora, Memória, Programação, Repetição
ƒ Intelecto, Erudição, Sapiência; Mediocridade, Talento
ƒ Classes, Isolamento, Complexo, Auto-imagem do Ego
ƒ Distinções, Respeitabilidade, Títulos, Ignorância
ƒ Verdade, Proximidade, Realidade Viva, Sem Caminhos
ƒ Busca da Verdade; Meios de Fuga, Busca sem Motivo
ƒ Sabedoria, Não se Aprende de Outros nem de Livros
ƒ Originalidade Espiritual; Mente de Segunda Mão
ƒ Deus, Nomes, Atributos: Absoluto, Supremo, Inefável
ƒ Imensurável, Incausado, Altíssimo, Vida, Ser Único
ƒ Desconhecido, Conhecido, Atemporal; Real, Eterno
Finalidade da Vida; Desafios, Plenitude,
Eternidade
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:06

Sabem o que é a vida? (…). Vou então explicar-lhes. Já viram os aldeões, vestidos de
farrapos, sujos, perpetuamente esfomeados, trabalhando sem parar? Esta é uma parte
da vida. Adiante notarão um homem de carro, a mulher coberta de jóias, perfumada,
com vários empregados. Este é outro aspecto da existência. Ali se acha aquele que
voluntariamente abriu mão das riquezas, que vive com simplicidade, anonimamente,
como um desconhecido, que não se considera um santo. Também aqui temos outra
parte da vida (…). (Ensinar e Aprender, pág. 37)

Depara-se alhures com o homem que deseja tornar-se eremita, e existe ainda o que
se torna devoto, o qual não deseja pensar, mas apenas seguir cegamente alguma
coisa. Existe, igualmente, aquele que pensa cuidadosamente, com lógica e sanidade,
e que, ao descobrir que seus pensamentos são limitados, procura transcendê-los. Ele
também compõe a vida. E a morte, a perda de tudo, do mesmo modo faz parte da
vida. A crença em deuses e deusas, em salvadores, no paraíso, no inferno, são outros
fragmentos da existência. E o amor, o ódio, o ciúme, a cobiça, tudo isso configura a
vida (…). (Idem, pág. 37)

O que desejo discutir (…) é o problema da mente que se aplica a este vasto e
complexo problema da existência. A existência não se restringe à obtenção ou
conservação de um emprego, mas encerra toda a esfera da existência psicológica,
quase desconhecida para a maioria de nós (…). O problema da existência é este vasto
complexo de guerras, classes, castas, divisão - a perpétua batalha do homem contra o
homem, em competição (…). (O Problema da Revolução Total, pág. 38)

(…) Pusemos este mundo em desordem, (…) porque não sabemos o que é viver.
Viver não é essa coisa insípida, medíocre, disciplinada, que chamamos “nossa
existência” (…). O viver é transbordante de riqueza, é eterna transformação e,
enquanto não compreendermos esse movimento eterno, nossa vida será, de certo,
muito pouco significativa. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 97)

A experiência é uma coisa, o viver é outra. A experiência é uma barreira ao viver;


agradável ou desagradável, impede o florescimento dele. A experiência já está
encerrada na rede do tempo, (…) no passado; tornou-se memória, que só toma vida
como reação ao presente. A vida é o presente; não é experiência (…). A mente é
experiência, o conhecido, não pode pôr-se no “estado de viver”; (…). A mente só
conhece a continuidade, e não pode receber o novo (…). A experiência tem de cessar
para dar lugar ao viver. (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 29-30)

A vida é, e tem de ser, uma série de desafios e “respostas”. O desafio não acompanha
nossos gostos e aversões, nem nossos desejos especiais, assumindo formas
diferentes (…). E, se temos a capacidade de responder ao desafio de maneira
adequada, completa, direta, desaparece, então, o problema. (O que te fará Feliz?,
pág. 99)

Mas, (…) o desafio da vida não é feito em nenhum nível determinado da existência. A
vida não está num único nível, quer o econômico, quer o espiritual. A vida, (…) é um
estado de relação, em níveis diferentes; ela está sempre fluindo, (…) a expressar-se
de maneiras diferentes; e feliz é o homem que tem a capacidade de enfrentar a vida
de maneira completa, em níveis diferentes e em todas as ocasiões. (Idem, pág. 99-
100)

Podemos ver (…) que, num nível, buscamos conforto, bem-estar físico: queremos uma
situação folgada, ter dinheiro, amor, posses, viajar e ter a possibilidade de fazer certas
coisas. (…) Noutro nível, um pouquinho mais profundo, queremos felicidade,
liberdade, (…) ter a capacidade de fazer coisas espetaculares, grandiosas,
magnificentes. (…) (Poder e Realizações, pág. 36)

(…) E, se vemos um pouco mais profundamente, desejamos descobrir o que está


além da morte, e o que é o amor, (…) trabalhar por um ideal, pelo estado perfeito. E,
mais profundamente ainda, aspiramos a descobrir o que é a Realidade, o que é Deus,
o que é essa coisa tão fecunda e sempre nova. (…) Andamos à deriva, impelidos
pelas circunstâncias, até chegar a morte (…). (Idem, pág. 36).

Assim, pois, nunca nos acalmamos um pouco para fazer um exame de nós mesmos e
procurar discernir o que estamos buscando. (…) Pois, em geral, somos medíocres.
Não há nada vital, nada novo, nada criador, em nós. Tudo o que criamos é tão vazio,
tão vulgar e sem significação! Não cumpre, portanto, averiguarmos o que é que
queremos? (Idem, pág. 36)

Pergunta: Vivemos, mas não sabemos por quê. Para muitos de nós, a vida parece não
ter significação. Podeis dizer-nos qual é o significado e a finalidade do nosso viver?

Krishnamurti: (…) Que entendemos por “vida”? O viver não é, em si, a sua própria
finalidade, a sua própria significação? (…) Por que estamos tão insatisfeitos com a
nossa vida, por que ela é tão vazia, tão frívola, tão monótona?. (…) Desejamos algo
mais, algo superior àquilo que costumamos fazer. (…) (A Arte da Libertação, pág. 193-
194)

Positivamente, senhor, o homem que está vivendo com plenitude, (…) que vê as
coisas como são, está satisfeito com o que tem, não está confuso; está lúcido e, por
conseguinte, não pergunta qual é a finalidade da vida. Para ele, o próprio viver é o
começo e o fim. Nossa dificuldade, pois, é que, sendo nossa vida vazia como é,
queremos encontrar uma finalidade para a vida, e lutamos por alcançá-la. (Idem, pág.
194)

Tal finalidade da vida não passa de produto intelectual, inteiramente irreal; quando a
finalidade da vida é solicitada por uma mente estúpida e embotada, essa finalidade há
de ser também vazia. O nosso problema, por conseguinte, consiste em como
tornarmos rica a nossa vida, não de dinheiro, etc., mas interiormente rica (…). A
realidade só pode ser compreendida no viver, e não no fugir. (…) A vida é relação, (…)
é ação em relação; (…). (A Arte da Libertação, pág. 194-195)

Vamos então discorrer sobre a finalidade da vida (…). Em primeiro lugar, quando
discutimos um assunto dessa natureza, devemos por certo fazê-lo com muito
empenho, e não com uma mentalidade acadêmica, erudita ou superficial, porque isso
não nos leva a parte alguma. (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 48-49)

(…) A vida, por certo, implica ação diária, pensamento diário, sentimento diário (…).
Implica as lutas, as dores, as ânsias, os enganos, as tribulações, a rotina do escritório,
dos negócios (…). Por “vida” entendemos não uma só esfera ou camada da
consciência, mas o processo total da existência, que é a nossa relação com as coisas,
com as pessoas, com as idéias. É isso o que entendemos por vida - e não uma coisa
abstrata. (Idem, pág. 49)

Cumpre-nos averiguar muito claramente o que entendemos por finalidade, se há


finalidade. Podeis dizer que há uma finalidade: alcançar a realidade, Deus, ou o que
quiserdes. Para alcançarmos esse alvo, porém, precisamos conhecê-lo, (…) conhecer
a extensão, a profundidade do mesmo. (…) Uma vez que a realidade é o
desconhecido, a mente que busca o desconhecido deve primeiro libertar-se do
conhecido (…). (Idem, pág. 50)

(…) Para descobrir a finalidade da vida, a mente precisa estar livre de medida; (…).
Que é mais importante: descobrir a finalidade da vida ou libertar a mente de seu
próprio condicionamento, para depois investigar? Talvez, quando a mente estiver livre
de condicionamento, essa liberdade, em si, seja a finalidade. (…) (Idem, pág. 51)
O requisito primordial, portanto, é a liberdade, e não a busca da finalidade da vida.
Sem liberdade, é bem óbvio que não podemos encontrá-la; sem ficarmos livres de
nossas pequeninas necessidades, nossos desígnios, ambições, de nossa inveja e
malevolência, (…) como é possível investigar ou descobrir a finalidade da vida? (Idem,
pág. 52)

(…) Afinal, senhores, para descobrir a verdade, ou Deus, (…) preciso primeiro
compreender a minha existência, (…) a vida em torno de mim e em mim, pois, de
outro modo, a busca da realidade se transforma em mera fuga da ação de cada dia; e,
como a maioria de nós não compreende a ação de cada dia, visto que para a maioria
de nós a vida é servidão, dor, sofrimento, angústia, dizemos: “Pelo amor de Deus,
dizei-nos como fugir disto”. É o que queremos, os mais de nós: um narcótico, para não
sentirmos as dores e as penas da vida. (…) (Idem, pág. 53)

(…) A verdadeira simplicidade da inteligência, isto é, o ajustamento profundo ao


movimento da vida, só advém quando, mediante percebimento compreensivo e correto
esforço, começamos a desfazer as múltiplas camadas de resistência autoprotetora.
Somente então, teremos a possibilidade de viver espontânea e inteligentemente.
(Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 105)

(…) Entretanto, é unicamente através da dúvida, (…) da crítica, que podeis preencher-
vos; e a finalidade da vida é o preenchimento, não o acúmulo, não a consecução (…).
A vida é um processo de busca, (…) não para um fim particular, mas para libertar a
energia criadora, a inteligência criadora no homem; é um processo de movimento
eterno, desimpedido de crenças, grupos de idéias, dogmas, (…) conhecimento.
(Palestras em Adiar, Índia, 1933-1934, pág. 8-9)

(…) O viver realmente exige abundância de amor, de sensibilidade ao silêncio, grande


simplicidade, (…) experiência. Requer uma mente capaz de pensar com toda clareza,
não tolhida pelo preconceito ou pela superstição, pela esperança ou pelo medo. Tudo
isso é a vida, e, se não estais sendo educados para viver, vossa educação é (…) sem
significação. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 35)

Como a nuvem perseguida pelos ventos através do vale, é o homem (…). O homem
não tem alvo, está cego para a finalidade da vida; e nele - e portanto no mundo -
domina o caos e a desintegração. (A Finalidade da Vida, pág. 3)

E qual é a finalidade da vida? É a liberdade da vida, a libertação da vida de todas as


coisas, (…) depois de havermos passado por todas as experiências (…). (Idem, pág.
3)
Desejo mostrar-vos que, para preencherdes a vida, como eu a preenchi, deveis
acolher alegremente (…) toda experiência, quer agradável, quer desagradável (…)
(Idem, pág. 3)

Para o indivíduo autoconsciente, há sujeito e objeto (…). Mas a finalidade da


existência, a plenitude do indivíduo, é realizar em si próprio - sem objeto ou sujeito - a
Totalidade, que é a vida pura. Portanto, é na subjetividade do indivíduo que o objeto
realmente existe. (…) (Experiência e Conduta, em Carta de Notícias de maio-junho de
1941, pág. 4)

(…) Nele reside o começo e o fim, a origem e a meta. Em criar uma ponte entre o
começo e o fim consiste o preenchimento do homem. (…) Enquanto não vos
compreenderdes a vós mesmos, (…) não penetrardes em vossa própria plenitude,
podeis ser dominados, presos à roda da luta contínua. (…) (Idem, pág. 4)

Alcançar a Verdade é desdobrar a vida, é dar-lhe a mais ampla possibilidade de


expressão. Para mim, a única meta, o único mundo que é eterno, (…) absoluto, é o
mundo da verdade. (…) (A Finalidade da Vida, pág. 4)

O homem a quem essa visão se manifestou, tem sempre diante de si, ainda que
empenhado nas lutas do mundo, esse alvo eterno. Embora ele peregrine por entre as
coisas transitórias, ainda que se perca nas sombras, sua vida será sempre guiada por
esse alvo, que é a libertação de todos os desejos, (…) experiências, (…) tristezas,
dores e lutas. (…) (Idem, pág. 4)

Na sombra do presente, está preso o homem. Cavar uma passagem, através do


presente, para o eterno, eis a finalidade do homem. Deve todo ser humano entregar-
se à tarefa de perfurar esse túnel, que representa o caminho direto para se alcançar a
vida. (Idem, pág. 8)

E esse túnel, que é o único caminho que conduz ao preenchimento da vida, está
dentro de vós mesmos. Nesse túnel não há regressar, porque lançais para trás o que
removeis de vossa frente. Não podeis ir senão para diante, (…) pois, do contrário,
cessará o progresso como tal. (…) (Idem, pág. 8)

O propósito último da existência individual é realizar o ser puro, em que não há


separação, que é a realização do Todo. O preenchimento do destino do homem é ser
a totalidade. (…) A individualidade é apenas um fragmento da Totalidade (…).
(Experiência e Conduta, em Carta de Notícias de maio-junho de 1941, pág. 3)
(…) Mas a finalidade da existência, a plenitude do indivíduo, é realizar em si próprio -
sem objetivo ou sujeito - a totalidade que é a vida pura. (…) No indivíduo estão o
começo e o fim. Nele reside a totalidade de toda experiência, de todo pensamento, de
toda emoção. Nele está toda a potencialidade, e a sua tarefa é realizar essa
objetividade no subjetivo. (Idem, pág. 4)

(…) Em criar uma ponte entre o começo e o fim consiste o preenchimento do homem.
(…) Na civilização atual, entretanto, a coletividade está se esforçando para dominar o
indivíduo, sem respeitar o seu desenvolvimento, mas é o indivíduo que importa. (…)
Então ele já não será dominado pela moralidade, pela estreiteza, pelas convenções e
experiências de sociedades e grupos. (Idem, pág. 4)

Fui procurar por mim mesmo o propósito da vida, e encontrei-o sem a autoridade de
outrem. Penetrei nesse oceano de libertação e felicidade, onde não há limitação nem
negação, porque ele é o preenchimento da vida. (Vida em Liberdade, IV, em Carta de
Notícias de 1945, nº 1 a 6, pág. 23)
Educação; Conceito, Pouco Criadora, Não
Espiritual
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:09

Se a vida tem um significado mais alto e mais amplo, que valor tem nossa educação
se nunca descobrirmos esse significado? Podemos ser superiormente cultos; se nos
falta, porém, a profunda integração do pensamento e do sentimento, nossas vidas são
incompletas, contraditórias (…). (A Educação e o Significado da Vida, 1ª ed., pág. 10)

A educação não é um simples exercício da mente. O exercício leva à eficiência, mas


não produz a integração. A mente que foi apenas exercitada é o prolongamento do
passado, nunca pode descobrir o que é novo. Eis por que, para averiguarmos o que é
educação correta, cumpre-nos investigar o total significado do viver. (Idem, pág. 12)

Educação não significa, apenas, adquirir conhecimentos, nem coligir e correlacionar


fatos; é compreender o significado da vida como um todo. Mas o todo não pode ser
alcançado pela parte(…). (Idem, pág. 13)

O objetivo da educação é criar entes humanos integrados e, por conseguinte,


inteligentes. Podemos tirar diplomas e ser mecanicamente eficientes, sem ser
inteligentes. A inteligência não é mera cultura intelectual; não provém dos livros, nem
consiste em jeitosas reações defensivas e asserções arrogantes. (Idem, pág. 13)

O homem que não estudou pode ser mais inteligente do que o erudito. Fizemos de
exames e diplomas critério de inteligência, e desenvolvemos mentes muito sagazes,
que evitam os problemas humanos vitais. Inteligência é a capacidade de perceber o
essencial, o que é; despertar essa capacidade, em si próprio e nos outros: eis em que
consiste a educação. (Idem, pág. 13-14)

A educação deve ajudar-nos a descobrir valores perenes, para que não nos
apeguemos a fórmulas ou à repetição de slogans; deve ajudar-nos a derrubar as
barreiras nacionais e sociais, em lugar de as reforçar, porquanto essas barreiras
geram antagonismo entre homem e homem. Infelizmente, o nosso atual sistema de
educação nos torna servis, mecânicos e fundamentalmente incapazes de pensar;
embora desperte nosso intelecto, deixa-nos interiormente incompletos (…). (Idem,
pág. 14)

Sem uma integral compreensão da vida, os nossos problemas individuais e coletivos


só tenderão a crescer, em profundidade e extensão. O objetivo da educação não é o
de produzir simples letrados, técnicos e caçadores de empregos, mas homens e
mulheres integrados, livres de todo temor; porque só entre tais entes humanos pode
haver paz perene. (Idem, pág. 14)

O que atualmente chamamos educação é um processo que consiste em acumular


informações e conhecimentos, tirados dos livros, o que qualquer pessoa que saiba ler
pode conseguir. Uma educação dessa espécie oferece-nos uma forma sutil de fuga de
nós mesmos e (…) cria, inevitavelmente, sofrimentos cada vez maiores. (…) (Idem,
pág. 17-18)

O progresso técnico resolve certos problemas para certas pessoas, num dado nível,
mas ao mesmo tempo gera problemas mais vastos e profundos. Viver num só nível,
desprezando o processo total da vida, é atrair desgraças e destruição. A maior
necessidade e o problema mais urgente de todo indivíduo é adquirir uma
compreensão integral da vida, que o habilite a enfrentar suas sempre crescentes
complexidades. (Idem, pág. 19)

O saber técnico, embora necessário, de modo algum resolverá as nossas premências


interiores e conflitos psicológicos; e porque adquirimos saber técnico sem a
compreensão do processo total da vida, a técnica se tornou meio de destruição. O
homem que dividir o átomo mas não tiver amor no coração, transforma-se em
monstro. (Idem, pág. 19)

Sem a compreensão de nós mesmos, a mera operosidade conduz à frustração, com


suas inevitáveis fugas através de atividades maléficas de todo gênero. Técnica sem
compreensão leva à inimizade e à crueldade, o que costumamos disfarçar com frases
bem-soantes. De que serve encarecermos a importância da técnica e nos tornarmos
entidades eficientes, se o resultado é a mútua destruição? (…) (Idem, pág. 20)

Quando se atribui à função toda a importância, a vida resulta em estúpida e monótona,


rotina mecânica e estéril (…). O acúmulo de fatos e o desenvolvimento de
capacidades, a que chamamos educação, privou-nos da plenitude da vida de
integração e ação. Porque não compreendemos o processo total da vida, apegamos-
nos à capacidade e à eficiência, que por essa razão assumem importância tremenda.
O todo, porém, não pode ser compreendido pela parte; (…). (Idem, pág. 21)

A educação correta, não descurando do cultivo da técnica, deve realizar algo de


importância muito maior, que consiste em levar o homem a experimentar o processo
integral da vida. Tal experiência colocará a capacidade e a técnica nos seus devidos
lugares. (…) (Idem, pág. 22)
A educação moderna, desenvolvendo o intelecto, fornece teorias e mais teorias, fatos
e mais fatos, mas não nos faz compreender o processo total da existência humana.
Somos altamente intelectuais; desenvolvemos mentes astutas e vivemos num
emaranhado de explicações. O intelecto se satisfaz com teorias e explicações, a
inteligência não; e, para a compreensão do processo total da existência, é necessária
uma integração da mente e do coração na ação. A inteligência não está separada do
amor. (Idem, pág. 76-77)

Está claro, pois, que do simples cultivo do intelecto, isto é, do desenvolvimento das
capacidades e conhecimentos, não resulta inteligência. Há distinção entre intelecto e
inteligência. Intelecto é o pensamento funcionando independente da emoção
(sentimento), e inteligência é a capacidade de sentir e raciocinar; (…). (Idem, pág. 77)

Com nossa busca de saber, com nossos desejos gananciosos, estamos perdendo o
amor, (…) embotando o sentimento do belo, a sensibilidade à crueldade; estamo-nos
tornando cada vez mais especializados e cada vez menos integrados. (…) A erudição
é necessária, a ciência tem o seu lugar próprio; mas, se a mente e o coração estão
sufocados pela erudição, e se a causa do sofrimento é posta de parte com uma
explicação, a vida se torna vazia e sem sentido. (…) Nossa educação nos está
tornando cada vez mais superficiais; não nos ajuda a compreender as camadas
profundas do nosso ser, e nossas vidas se estão tornando cada vez mais
desarmônicas e vazias. (Idem, pág. 78-79)

O saber, o conhecimento de fatos, embora em constante crescimento, é por sua


própria natureza limitado. Já a sabedoria é infinita, abarcando tanto o saber como a
esfera da ação. Se nos apoderamos de um ramo, pensamos que temos a árvore toda.
O intelecto jamais nos levará ao todo, porque ele é apenas um segmento, uma parte.
(Idem, pág. 79)

Agora você pensa (…) o que você é? Vamos examinar juntos sem paixão. Você é o
nome, a forma, o corpo. Você é o que pensa, o resultado da educação, se a teve. E a
educação é tão desvirtuada que só lhe dá condição de se tornar engenheiro,
escrevente, isto ou aquilo. Você não é educado para entender a beleza, a totalidade
da vida. É dada a você grande quantidade de conhecimento, de forma que possa agir
com ou sem destreza no mundo.

Isso não é educação. É apenas uma pequena parte da educação. Educação é o


cultivo do ser humano total, seu desabrochar, o florescer da mente humana, não
mutilada pela especialização. Portanto, o que somos? Somos uma série de palavras,
de idéias, uma memória repetitiva, a continuidade da convicção? Isso é tudo? (…)
(Mind without Measure, pág. 62)

Naturalmente, a todos nós interessa a ação, o que é necessário fazer; e “o que é


necessário fazer” é geralmente ditado pelo mundo que nos cerca. Isto é, sabemos que
temos de ganhar o sustento em dada função, como engenheiro, cientista, advogado,
funcionário de escritório(…); e a isso se restringe a nossa superficial cultura, nossa
educação. (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 71)

Nossa mente está ocupada, na maior parte do dia, com o meio de ganharmos o nosso
sustento, o modo de nos ajustarmos ao padrão de nossa sociedade. Nossa educação
limita-se ao cultivo de capacidades e à “memorização” de uma série de fatos (…) de
acordo com as necessidades de certa sociedade, uma sociedade que se está
preparando para a guerra. (Idem, pág. 71-72)

A industrialização exige mais cientistas, mais físicos, mais engenheiros, e, por


conseqüência, torna-se necessário cultivar essa camada da mente, pois é isso que
interessa em primeiro lugar à sociedade. (Idem, pág. 72)

(…) E surge, assim, em nossa vida, uma contradição entre esse nível mental,
supostamente educado, e aquela atividade mental profunda, inconsciente, contradição
de que bem poucos se dão conta. E, se dela nos damos conta, passamos
simplesmente a buscar alguma espécie de satisfação (…). (Idem, pág. 72)

(…) E, assim, cada um é educado para certa profissão, mas a totalidade do seu ser
fica por descobrir, não revelada, e, por conseqüência, vê-se o homem num perene
conflito interior. (…) (Idem, pág. 72)

Quase todos fazemos, na vida diária, alguma coisa em franca contradição com o que
sentimos ser a verdadeira coisa que desejamos fazer. Temos responsabilidades e
deveres que nos escravizam e dos quais gostaríamos de livrar-nos, e a fuga que
empreendemos assume aspecto de especulação, de teorias (…). Há inumeráveis
formas de fuga, inclusive o beber, mas nenhuma delas resolve o nosso conflito interior.
(…) (Idem, pág. 72-73)

Temos técnicos de maravilhosa capacidade, e que acontece? A técnica está sendo


empregada pelos especialistas como meio de mútua destruição. É isso que os
governos querem. Querem técnicos, não querem entes humanos, por que os entes
humanos se tornam perigosos (…). (O Que Te Fará Feliz?, pág. 66)
Assim sendo, o novo critério não é o mero cultivo de uma técnica, o que não significa
que devais rejeitar a técnica, senão que se ajude a criar um ente humano integral, o
qual adquirirá a técnica pelo experimentar. (…) (Idem, pág. 66)

A educação é coisa muitíssimo diferente. Seu fim não é só o de ajudar-vos a obter


empregos, mas também ensinar-vos a enfrentar o mundo. (…) No mundo há guerras e
divisões de classe, e luta entre as classes. No mundo, cada um quer uma posição
melhor, subir, subir sempre (…) Há, pois, uma luta constante, não só dentro de nós
mesmos, mas também contra todos os nossos semelhantes. (…) (Debates sobre
Educação, pág. 6-7)

A educação, por conseguinte, deve ter a finalidade de habilitar-nos para resolver todos
esses problemas. (…) Isto é que é educação - e não apenas passar nuns poucos
exames, entregar-se a certos estudos (…). A educação apropriada é aquela que ajuda
o estudante a enfrentar esta vida, a compreendê-la, não se deixando sucumbir, ser
esmagado por ela (…). (Idem, pág. 7)

(…) Vossa educação deve ajudar-vos a compreender essa pressão, para que não
cedais a ela, e possais rompê-la, tornando-vos um indivíduo, um ente humano capaz
de iniciativa própria e não apenas um seguidor do pensar tradicional. (…) (Idem, pág.
7)

Infelizmente, a educação, hoje em dia, vos prepara para vos submeterdes,


adaptardes, ajustardes e esta sociedade de aquisição. (…) E sois considerado um
cidadão respeitável enquanto vos submeteis, (…) sois ambicioso, ávido, corrompendo
e destruindo a outros em vossa busca de posição e poderio. Sois educado para vos
adaptardes à sociedade; mas isso não é educação, é apenas um processo de
condicionar-vos para vos ajustardes a um padrão. (…) (A Cultura e o Problema
Humano, pág. 27).

A verdadeira função da educação não é preparar-vos para serdes um funcionário, um


juiz ou um primeiro-ministro, porém ajudar-vos a compreender toda a estrutura desta
sociedade corrompida e permitir-vos crescer em liberdade, de modo que sejais
capazes de quebrar todas as prisões e criar uma sociedade diferente, um mundo
novo. (Idem, pág. 27-28)

Há necessidade de indivíduos revoltados, não parcialmente, porém totalmente


revoltados contra o “velho”, pois só tais indivíduos poderão criar um novo mundo, um
mundo não baseado na aquisição, no poder e no prestígio. (Idem, pág. 28)
(…) Assim, a verdadeira função da educação é não só ajudar-vos a “descondicionar-
vos”, mas também ajudar-vos a compreender o inteiro processo do viver, dia a dia,
para que possais crescer em liberdade e criar um mundo totalmente diferente do atual.
(…) Eis por que a educação deve ser um processo de educar tanto o educador como o
estudante. (Idem, pág. 28)

O educador não é mero transmissor de conhecimentos; é um homem que mostra o


caminho da sabedoria, da verdade. (…) A busca da verdade é religião; (…) Sem a
busca da verdade, a sociedade depressa decai. Para criarmos uma nova sociedade,
cumpre a cada um de nós ser um verdadeiro mestre, o que significa que devemos ser,
simultaneamente, discípulo e mestre, que temos de educar-nos a nós mesmos. (A
Educação e o Significado da Vida, 1ª ed., pág. 120)

Que implica a idéia de “exemplo”? Se a função do mestre é de ser um “exemplo”, não


está ele então, consciente ou inconscientemente, impondo um padrão ao moço, ao
estudante? O ajustamento a um padrão, por mais nobre que seja esse padrão, (…)
pode libertar o indivíduo do temor? Porque, é bem de ver, o estudante é educado para
fazer face à vida, para compreender a vida, e não para enfrentá-la como comunista, ou
capitalista (…) diferentemente condicionado. (…) (O Problema da Revolução Total, 1ª
ed., pág. 28-29)

E se o próprio educador se torna o guia, o exemplo, o herói, não está ele então
instilando o medo no espírito do jovem, do estudante? (…) É provável que, no fundo,
isto vos enfade, porque supondes já terdes passado da idade de receber educação.
Que tem a idade a ver com a educação? A educação é um “processo” que dura toda a
vida, e não só na idade escolar. Nessas condições, se se quer um mundo novo (…), é
necessário criar-se uma inteligência de nova ordem, (…) sem medo. (…) (Idem, pág.
29)

Serão vãs estas perguntas? (…) O verdadeiro professor, perito em sua especialidade,
poderá ter suas aulas gravadas em fitas distribuídas em larga escala, podendo um
colega seu, de menor capacidade, utilizá-las para instruir os alunos. Assim, a
responsabilidade pelo bom ensino pode ser tirada de mãos individuais, embora haja
quase sempre necessidade de um instrutor. (…) (Ensinar e Aprender, pág. 116)

A educação é o modo de se descobrir a nossa relação com todas essas coisas, (…)
com os entes humanos e com a natureza. Mas a mente cria idéias (…) tão poderosas
(…) que nos impedem de ver além. Enquanto existe temor, existe tradição (…)
imitação. Uma mente que só imita, é mecânica (…). Poderá produzir certas ações, (…)
resultados; mas nunca é criadora. (…) (Novos Roteiros em Educação, pág. 18)
Enquanto sois jovem (…) sede descontentes, investigai, interrogai os vossos mestres -
se eles são estúpidos, fá-los-eis inteligentes, interrogando-os - de maneira que, ao
deixardes esta escola, (…) estejais progredindo em madureza, em inteligência; e
continueis aprendendo, toda a vida, até morrerdes, como ente humano inteligente.
(Idem, pág. 19)

Vejo, pois, e espero que estejais vendo, que a autoridade destrói a inteligência. A
inteligência (…) só pode surgir quando há liberdade - liberdade de pensar, de sentir,
de observar, de interrogar. Mas, se vos constranjo, faço-vos tão estúpidos como eu.
Em geral, é isso o que acontece nas escolas; o mestre pensa que sabe tudo e que vós
nada sabeis. Que sabe o mestre? Só matemática e geografia. Não (…) investigou as
coisas mais importantes da vida, mas troveja (…) como um primeiro sargento. (Idem,
pág. 27)

Assim, pois, o que mais importância tem, numa escola como esta, é que, em vez de
vos disciplinarem para fazerdes o que vos mandam, vos ajudem a compreender, a ser
inteligentes e livres, para poderdes enfrentar todos os problemas da vida. Isso requer
um mestre competente, (…) que sinta verdadeiro interesse por vós (…). E é dever dos
estudantes, tanto quanto dos mestres, criar tal estado de coisas. Não obedeçais;
descobri por vós mesmos a maneira de refletir sobre um problema. (…) (Idem, pág.
27)

O que em geral acontece é que, quando começais a interrogá-lo, ele quer disciplinar-
vos; ele não tem paciência, tem suas ocupações, falta-lhe amor para (…) conversar
convosco sobre os enormes problemas da existência (…). Incumbe aos mestres, aos
pais e a vós, o dever de cooperar para a formação dessa inteligência. (Idem, pág. 27-
28)

A maioria das pessoas, parece-me, reconhece que o atual sistema de educação


falhou, uma vez que produziu guerras, decomposição moral, etc.; e também, com
exceção de muito poucas pessoas, deixou de existir o pensar criador. (…) (Visão da
Realidade, pág. 134)

A questão, sem dúvida, é esta: (…) Vemos que, no mundo inteiro, a educação falhou,
uma vez que se está produzindo, cada vez mais, destruição (…). A educação até
agora tem servido para alimentar o industrialismo e a guerra; (…). (Nosso Único
Problema, pág. 22)

(…) É bem evidente, sem dúvida, que o próprio educador necessita de educação - e o
educador sois vós; porque o ambiente doméstico é tão importante como o ambiente
escolar. Tendes, pois, em primeiro lugar, de vos transformar a vós mesmos, a fim de
proporcionardes ao vosso filho o ambiente adequado; porque o ambiente fará dele ou
um bruto, um técnico insensível, ou um homem inteligente e cheio de sensibilidade.
(…) (A Arte da Libertação, pág. 228)

Pergunta: Um instrutor pode ajudar-nos a despertar a intuição?

Krishnamurti: (…) Há diferentes espécies de instrutores; (…) o verdadeiro instrutor,


num sistema educativo, não ensina, porém estimula o aluno a aprender. (…) (Uma
Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 97)

Ora, (…) qual a verdadeira função do instrutor? (…) O que pode fazer é dizer: olhai
nesta direção, e provavelmente vereis (…). O instrutor não pode forçar-vos, não pode
intimidar-vos; só pode dizer-vos: Olhai, amigo! Olhai na direção que estou indicando
(…). (Idem, pág. 98)

(…) A educação não vai só até à idade de vinte e um anos, mas dura até a morte. A
vida é como um rio; nunca é estática, está sempre em movimento, cheia de atividade e
de riquezas. (…) (Debates sobre Educação, pág. 9)

A função primária da educação não é a de libertar a mente de suas próprias


experiências, que são condicionadas, para que possa haver uma vida criadora e se
conheça aquela coisa inexprimível, criadora, que chamamos Deus ou a Verdade?
(Idem, pág. 109)

É muito importante ter bom gosto, desde a infância, ter ensejo para apreciar a beleza,
a boa música, a boa literatura, para que a mente se torne muito sensível, e não
grosseira e pesada. (…) Asseguro-vos que a apreciação e o amor da beleza, é
sumamente importante e sem ele nunca se poderá achar a “coisa real”. Passamos,
porém, pela escola e pela vida, debaixo de coerção e disciplinas; e a isso chamamos
educação, (…) viver. (Idem, pág. 146)

O pleno desabrochar da mente só pode acontecer quando há percepção clara,


objetiva, impessoal, livre de qualquer espécie de imposição. Não se trata de o que
pensar, mas de como pensar lucidamente. (…) (Cartas às Escolas I, pág. 18-19)

Quando a mente, o coração e o corpo estão, os três, em completa harmonia, então o


desabrochar acontece naturalmente, de maneira fácil e em plenitude. É este o nosso
trabalho como educadores, é esta a nossa responsabilidade, e a profissão de educar
assume então na vida toda a sua grandeza. (Idem, pág. 19)
Se compreendermos o verdadeiro sentido da palavra responsável e o que hoje se
passa no mundo, vemos que a responsabilidade se tornou irresponsabilidade. (…)
(Idem, pág. 34)

Quando compreendemos que representamos toda a espécie humana, a nossa


resposta é total e não parcial. A responsabilidade tem então um sentido inteiramente
diferente. Temos de aprender a arte desta responsabilidade. Se compreendermos
plenamente que cada um, psicologicamente, é o mundo, então a responsabilidade
torna-se amor a que nada resiste. (…) (Idem, pág. 34)
Aprender, Disciplina; Sentido Vulgar e
Transcendente
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:13

Aprender não é acumular conhecimentos. Qualquer cérebro eletrônico é capaz de


acumular conhecimentos. O conhecimento, por conseguinte, não é de grande
relevância; tem certa utilidade, mas não aquela desmedida importância que os entes
humanos lhe atribuem. Mas o ato de aprender requer uma mente muito ágil. (…) (A
Suprema Realização, pág. 9)

A mente que interpreta, que traduz, que tem uma tradição ou conhecimentos
acumulados - essa mente é incapaz de aprender, por que está funcionando num
estreito canal. Não é uma mente capaz de atuar, de aprender, cheia de energia e de
vitalidade. (…) Porque só a mente que está aprendendo é nova; a mente nova pode
ver as coisas de maneira nova, com clareza, rejeitar o que é falso e perseguir o
verdadeiro. (Idem, pág. 10)

O que compreendemos por aprender? Geralmente é entendido como memorização,


acumulação, armazenamento para uso, especializado ou não, conhecimento de
idioma, leitura, escrita, comunicação, etc. Os modernos computadores podem fazê-lo
melhor. São extraordinariamente rápidos. Então qual a diferença entre nós e o
computador? O computador deve ser programado. Também fomos programados de
várias maneiras: tradição, a chamada cultura, conhecimento. E programados
igualmente como hindus, budistas, cristãos, comunistas e tudo o mais. (…) (Last Talks
at Saanen, 1985, pág. 146-147)

Quando é que aprendemos? Não me refiro à acumulação de conhecimentos, que é


uma coisa muito diferente. (…) Por “aprender” entendo um movimento não
acumulador, um perene fluir, que é aprender, aprender, sem jamais acumular. O
cérebro eletrônico acumula conhecimentos, possui conhecimentos; mas não pode
aprender. (…) Só se aprende quando há um movimento, um movimento constante, de
investigação, exploração ou compreensão, sem nenhuma atividade de acumulação. (A
Suprema Realização, pág. 21-22)

Não sou contra o conhecimento. Existe diferença entre o aprender e o adquirir


conhecimentos. Cessa o aprender quando só há acúmulo de conhecimentos. O
aprender independe de qualquer aquisição. Ao se dar demasiada importância ao
conhecimento, deixa de haver o aprender. Quanto maior o número de informações
acumuladas, mais segura, mais certa se torna a mente, cessando, portanto, o
aprender. (…) (Ensinar e Aprender, pág. 72)

Não há o “movimento de aprender” quando há aquisição de conhecimentos; as duas


coisas são incompatíveis, contraditórias. O “movimento do aprender” implica um
estado em que a mente não tem, guardada como conhecimento, nenhuma
experiência. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 166-167)

O conhecimento se adquire, ao passo que o aprender é um movimento constante, que


não é um processo “aditivo” ou “aquisitivo”; por conseguinte, o “movimento do
aprender” implica um estado em que a mente nenhuma autoridade tem. Todo
conhecimento supõe alguma autoridade, e a mente que se fortificou na autoridade do
conhecimento de modo nenhum pode aprender. (…) (Idem, pág. 167)

(…) Ora, o que geralmente chamamos “aprender” é exatamente esse mesmo


processo de adquirir novas informações e acrescentá-las ao “estoque” de
conhecimentos que já possuímos. (…) Por “aprender” não entendo acrescentar ao que
já se sabe. Só se pode aprender quando não há nenhum apego ao passado, como
conhecimento, isto é, quando vedes uma coisa nova e não a traduzis em termos de
“conhecido”. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 167)

(…) A mente que está aprendendo é uma mente “inocente” , ao passo que a mente
que está apenas adquirindo conhecimentos é velha, estagnada, corrompida pelo
passado. A mente “inocente” percebe instantaneamente, aprende a todas as horas,
sem acumular, e só essa mente é amadurecida. (Idem, pág. 167)

Falamos também sobre o aprendermos a respeito de nós mesmos. Aprender implica


um movimento não acumulativo (…) Só há movimento quando há um constante fluir, a
forte corrente. E é isso o que o aprender implica; aprender, não só acerca de coisas
exteriores e de fatos científicos, mas também a respeito de nós mesmos, porque “o
que somos” é uma coisa que está constantemente a mudar, uma coisa dinâmica,
versátil. (A Questão do Impossível, pág. 101-102)

Para aprendermos sobre o que somos, a experiência trazida do passado em nada


pode ajudar-nos; pelo contrário, o passado põe fim ao aprender e, por conseguinte, à
ação completa. Espero tenhais visto bem claramente este fato, ou seja, que estamos
lidando com um movimento sempre vivo, da vida. Esse movimento é o “eu”. Para
compreender esse “eu” tão sutil, é necessária intensa curiosidade, persistente
vigilância, compreensão não acumulativa. (…) (Idem, pág. 102)
Penso existir um “processo” de aprender sem nenhuma relação com o desejo de ser
ensinado. Vendo-nos confusos, não raro desejamos encontrar alguém que nos ajude a
viver sem confusão e, por conseguinte, só estamos aprendendo e adquirindo
conhecimentos com o fim de nos ajustar a um certo padrão; e, a meu ver, essas
maneiras de aprender conduzirão, invariavelmente, não só a mais confusão, senão à
deterioração da mente. (O Homem Livre, pág. 153)

Julgo haver um aprender de espécie diferente, (…) que é investigação de nós mesmos
e em que não há mestre nem discípulo, seguidor nem guru. Ao começarmos a
investigar o funcionamento da própria mente, ao observarmos o próprio pensar,
nossas atividades e sentimentos de cada dia, não podemos então ser ensinados,
porque não há ninguém para nos ensinar. A investigação não pode então basear-se
em autoridade alguma (…). (Idem, pág. 153)

Antes disso, porém, temos de compreender o significado da palavra “aprender”. (…)


Não ides aprender nada deste orador (…). Podemos, pois, rejeitar completamente a
autoridade, para considerarmos a questão do aprender (…); aprender pela observação
de sua própria psique, de seu “eu”. O aprender requer liberdade, requer grande
curiosidade e, também, intensidade, paixão, espontaneidade. (…) (Fora da Violência,
pág. 20-21)

Não há aprender quando a mente espera ser ensinada e trata tão só de acumular
conhecimento na forma de memória. No processo de ser ensinado, (…) há instrutor e
discípulo, o que sabe e o que não sabe; (…). Recomendável seria tratarmos de
compreender (…) a falsidade dessa distinção (…); para aprender, necessitamos de
muita humildade. Quem diz “eu sei”, realmente não sabe. O que sabe é coisa
passada, morta. (…) (O Homem Livre, pág. 121)

Apega-se à autoridade, evidentemente, porque teme a incerteza, a insegurança; teme


o desconhecido, o (…) amanhã. (…) Mas, penso que só nesse estado de humildade
completa - que é o estado da mente que está sempre pronta a reconhecer que não
sabe - só nesse estado há possibilidade de aprender. (…) (A Mente sem Medo, 1ª ed.,
pág. 13)

Nós estamos aprendendo; por conseguinte, não pode haver julgamento e não pode
haver avaliação. Quando se está aprendendo, a mente está sempre atenta e nunca
acumulando; (…) não há acumulação em que nos basearmos para julgar, avaliar,
condenar e comparar. (…) Porque a mente que está aprendendo está sempre nova; é
sempre uma mente indagadora, (…) nunca disposta a aceitar a autoridade e avaliar
segundo essa autoridade. É uma mente jovem; e é inocente, nova, porque está
sempre aprendendo. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 32)

Assim, “aprender” tem dois significados: aprender para adquirir conhecimentos, a fim
de que eu possa funcionar com o máximo de eficiência em certos campos; ou
aprender acerca de mim mesmo, de modo que o passado - o pensamento - não possa
em nenhum momento interferir. Dessa maneira, posso observar, e minha mente é
sempre sensível. (Fora da Violência, pág. 53-54)

Não apenas a mente, mas também o corpo, têm de estar altamente sensíveis. Não se
pode ter um corpo embotado, indolente, pesadamente alimentado de carne e de vinho
e tentar meditar - não faz sentido. Portanto, (…) veremos que a mente tem de estar
altamente desperta, sensível e inteligente, inteligência esta que não nasce do
conhecimento. (O Mundo Somos Nós, pág. 33)

(…) Expressemo-lo de outro modo: aprende-se algo de memória, de modo que isso se
armazena como conhecimento no cérebro (…); quando se vai à faculdade ou à
universidade, acumula-se uma grande quantidade de informação em forma de
conhecimentos e, de acordo com esses conhecimentos, atua-se (…). A outra forma de
aprender - à qual estamos muito pouco acostumados, por sermos tão escravos dos
hábitos, da tradição e de toda classe de conformidade - é observar sem a companhia
do conhecimento prévio, olhar algo como se fora novo e o olhássemos pela primeira
vez. (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 203)

Nesta arte de aprender - na qual se acumulam os conhecimentos registrando somente


as coisas que são indispensáveis a uma ação eficiente - não se registra nenhuma
reação psicológica; o cérebro emprega os conhecimentos onde a função e a destreza
são necessárias e, não obstante, o cérebro está livre para não registrar na área
psicológica. É muito árduo achar-se tão totalmente alerta que se registre só o que é
necessário (…). Alguém me insulta, (…) me adula, me chama disto (…) não há
registro. (…) (Idem, pág. 215)

Registrar e, ainda assim, não registrar, de modo que não haja desenvolvimento do
“eu”, da estrutura egocêntrica. A estrutura do “eu” aparece somente quando há um
registro de tudo aquilo que não é necessário; ou seja, o conceder importância ao
nome, à própria experiência, (…)opiniões e conclusões; tudo isso significa a
intensificação da energia do “eu”, o que é sempre um fator de distorção. (Idem, pág.
215)
A arte de aprender dá esta clareza extraordinária, e uma grande destreza na ação;
porém, sem essa claridade, a destreza gera o sentimento da própria importância, quer
esse sentimento se identifique consigo mesmo, quer com um grupo ou nação. O
sentimento da própria importância nega a clareza. Sem claridade não pode haver
compaixão, e porque não há compaixão, a destreza se tornou tão importante. Se não
há um despertar da inteligência (…) Essa inteligência tem sua própria ação; essa ação
não é mecânica e, portanto, é ação sem causa. (Idem, pág. 215)

Alguns dos alunos desta escola já estão envelhecidos, pois sua única preocupação é
obter conhecimento e não aprender. O aprender encontra-se fora do tempo. (…)
Impende compreender a psique da pessoa em que se deu a mutação. Esta ocorreu
quando ela negou o tempo. Vocês superaram o passado. Já não são hindus, nem
cristãos. Assim transformados, (…) como agirão nesse novo estado? (…) Descubram-
no vocês próprios. (Ensinar e Aprender, pág. 81)

Para aprender, requer-se o escutar, e quando escutais há atenção. Estamos vendo,


pois, que, para aprender, necessita-se de silêncio, atenção e observação. Esse
processo, em seu todo, é o aprender - não é acumular - é ir aprendendo, aprender
agindo, em vez de “ter aprendido” e agir. São dois processos completamente diversos.
Nós estamos aprendendo quando estamos examinando, (…) observando - e isso não
é o mesmo que ter aprendido e, depois, observar. Os dois movimentos são
inteiramente diferentes. (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 106)

O que agora estamos fazendo é “aprender agindo”, porque vós não estais sendo
ensinados. Aqui não há instrutor nem discípulo. Não há guru de espécie alguma.
Porque cada um tem de alumiar seu caminho com sua própria luz e não com a luz de
outrem. Se caminhardes com a luz de outrem, ela vos levará à escuridão. (Idem, pág.
106)

O aprender está no agir e não no ser ensinado (exceto tecnologicamente;


tecnologicamente, tenho de ser ajudado a compreender o cérebro eletrônico, etc.).
Ninguém pode ensinar-vos, e vós mesmos é que tendes de iniciar esse aprender. O
que outro ensina não é a verdade. O seguidor destrói a verdade, tanto quanto o guru a
destrói. Por conseguinte, vós tendes de aprender; e o aprender está no agir. Eis a
beleza do aprender. Esse aprender torna-se uma alegria, um deleite (…). (Idem, pág.
107)

Só aprendemos quando a mente está de todo quieta; (…) Se, por exemplo, estais
escutando o que se está dizendo com idéias, opiniões, com conhecimentos
anteriormente adquiridos, ou se estais comparando o que ouvis com o que outro disse,
não há aprender. Só podeis aprender, escutando. Escutar é um ato silencioso; só a
mente que está em silêncio, mas ao mesmo tempo em plena atividade, pode aprender.
(A Suprema Realização, pág. 22)

(…) Pois estamos sempre satisfeitos com o conhecido; mas, se arranharmos a crosta
do conhecido, não encontramos nada, depara-se-nos o vazio, o vácuo. E, por certo, é
muito importante que saiba a mente viver de modo integral dentro desse vazio, desse
silêncio (…). Eis por que devemos compreender o que significa “aprender”. Além de
certo limite, nada mais podemos aprender, pois nada há que aprender, não há
instrutor que possa ensinar-nos. E a esse ponto temos de chegar (…). (Visão da
Realidade, pág. 204)

Só quando a mente se acha nesse estado de vazio em que não há conhecimento, (…)
não há mais o experimentador aprendendo, acumulando - só então existe aquele
esforço criador, podendo expressar-se através de vários talentos e artes, sem causar
mais sofrimentos. (Idem, pág. 204)

(…) O que se entende por disciplina? Conheceis o significado comum dessa palavra:
controlar, subjugar, forçar o pensamento, pelo exercício, pelo exercício da vontade, a
ajustar-se a um padrão mais nobre. A disciplina supõe resistência, moldagem da
mente, manter o pensamento numa certa direção, etc. (…). Na disciplina há divisão,
ou seja, “aquele que disciplina” e “aquilo que é disciplinado” - e por isso existe conflito
perene. (…) (O Homem Livre, pág. 97)

A palavra “disciplina” significa aprender de um homem que sabe; supõe-se que vós
não sabeis e tendes de aprender dele. (…) Mas, aqui, não a vamos empregar com o
sentido de aprender de outro, mas, sim, com o significado de observar a si próprio. A
observação de si próprio exige uma disciplina em que não haja repressão, imitação,
obediência, (…) ajustamento; (…). O próprio ato de aprender é, em si, disciplina, já
que requer muita atenção, grande energia e “intensidade”, e instantaneidade da ação.
(Fora da Violência, pág. 21)

A disciplina imposta pelos pais, pela sociedade, pelas organizações religiosas, é


ajustamento. Contra esse ajustamento vem a revolta - o pai quer obrigar o filho a fazer
certas coisas, este se rebela, etc. - tal é a vida baseada na obediência e no
ajustamento; e há o contrário: rejeitar o ajustamento, para fazer o que se entende. (…)
(A Questão do Impossível, pág. 24)

Pergunta: É evidente que deve haver alguma espécie de disciplina nas escolas, mas
como exercê-la?
Krishnamurti: É fato, senhor, que fizeram experiências na Inglaterra e noutros países,
nas quais as escolas não tinham disciplina de espécie alguma; permitia-se às crianças
fazerem o que bem entendessem (…). Essas escolas não ignoram, naturalmente, que
as crianças necessitam de alguma espécie de disciplina, no sentido de orientação; não
com rigorosos deveres e proibições, mas disciplina consistente de alguma espécie de
advertência, sugestão ou alusão (…). (A Arte da Libertação, pág. 86-87)

Quando se examina a (…) disciplina, quer se trate de disciplina imposta, quer de


autodisciplina, percebe-se que ela é uma forma de ajustamento, interior ou exterior, a
um dado padrão, memória, experiência. E nós nos rebelamos contra essa disciplina.
(…) Entretanto, é fácil perceber que há necessidade de certa disciplina na vida -
disciplina que não seja mero conformismo, ajustamento a um padrão, não baseada no
medo, etc.; porque, se nenhuma disciplina existe, não se pode viver. (…) (O
Descobrimento do Amor, pág. 122-123)

A palavra disciplina, na sua raiz, significa aprender. E para aprender acerca de alguma
coisa (…) é preciso disciplina; (…). O próprio ato de aprender é disciplina, o que liberta
de toda repressão, de toda imitação. (…) (O Mundo Somos Nós, pág. 49-50)

(…) Muito poucos no mundo somos disciplinados, (…) no sentido de estar


aprendendo. A palavra “disciplina” deriva do vocábulo discípulo, (…) aquele cuja
mente está aprendendo - não de uma pessoa particular, ou de um guru, de um mestre,
de um predicador, ou por meio de livros, senão que aprende através da observação de
sua própria mente, de seu próprio coração; aprende de suas próprias ações. E esse
aprender requer certa disciplina. (…) Onde há amoldamento, obediência e imitação,
nunca existe o ato de aprender - há apenas seguimento, (…). (La Llama de la
Atención, pág. 23)

Disciplina não significa reprimir e controlar, nem tampouco ajustamento a um padrão


ou a uma ideologia; significa que a mente vê “o que é” e aprende de “o que é”. A
mente é então sobremodo desperta, vigilante. (…) (A Questão do Impossível, pág. 24)

Compreendendo-se a liberdade, compreende-se também o que é disciplina. (…) A


liberdade e a disciplina se acompanham sempre, não são coisas separadas. (…) A
mente que está aprendendo, observando, vendo realmente “o que é”, não está
interpretando “o que é” em conformidade com os seus desejos, seu condicionamento,
seus particulares prazeres. (Idem, pág. 24)

Como sabem, liberdade é algo que a maior parte de nós não quer. Desejamos libertar-
nos de determinada coisa, das necessidades ou das pressões imediatas (…).
Liberdade não é licenciosidade, não é fazer o que apetece - a liberdade exige uma
disciplina tremenda, que não é a disciplina do soldado, (…) da repressão e do
conformismo. (O Mundo Somos Nós, pág. 49)
Jovens, Idosos; Distinção Psíquica, Física
Irrelevante
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:17

Pergunta: Tendes uma mensagem especial para a juventude?

Krishnamurti: Senhores, há muita diferença entre os jovens e os velhos? A juventude,


os moços, se têm qualquer grau de vitalidade, estão cheios de idéias revolucionárias,
cheios de descontentamento. (…) Têm de ser assim, pois do contrário seriam já
velhos. (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 80)

Como dizia, se os jovens não têm aquele descontentamento revolucionário, são já


velhos; e os velhos são aqueles que estiveram descontentes outrora, mas se
estabilizaram. Querem segurança, (…) permanência, seja em seus empregos, seja em
suas almas. Querem certeza nas idéias, nas relações ou na propriedade. (…) (Idem,
pág. 80)

Se em vós, que sois jovens, existe um espírito de indagação que vos faz desejar a
verdade relativa a qualquer coisa, (…) e se não estais presos pela tradição, sereis
então os regeneradores do mundo, os criadores de uma nova civilização, de uma nova
cultura. Mas, à semelhança de nós outros, (…) da velha geração, os jovens também
desejam segurança, certeza. (…) Por conseguinte, submetem-se e aceitam a
autoridade dos mais velhos. (…) (Idem, p. 81)

O descontentamento, que é a própria chama da indagação, da busca, da


compreensão - esse descontentamento baixa de nível na mediocridade, tornando-se
apenas desejo de um emprego melhor, de um casamento rico, de um diploma. (…)
Sem dúvida, o que é essencial para os velhos e para os novos é que vivam
integralmente, completamente. Para se viver integral e completamente é necessário
liberdade (…); e só pode haver liberdade quando há virtude. A virtude não é imitação;
a virtude é o viver criador. (…) (Idem, pág. 81)

Não estou interessado em guiar-vos (…) para adotardes determinado padrão. Mas nós
estamos muito interessados no problema da transformação. (…) Por exemplo, (…)
quando jovens, somos muito insatisfeitos, descontentes; investigamos, tateamos,
enveredamos por diferentes caminhos, buscando o saber, o esclarecimento;
procuramos um guru, um Mestre que possa ajudar-nos a sair do nosso
descontentamento e pôr fim à nossa busca (…). (O Problema da Revolução Total,
pág. 50)
No momento em que encontramos alguém capaz de dar-nos o saber, um método de
ação, (…) de vida, acaba a nossa insatisfação, e ficamos a seguir tal padrão de
pensamento durante anos e anos. É o que acontece com a maioria de nós, não? (…)
no momento em que me junto a um grupo, esperando que isso produzirá a
transformação, acaba-se o descontentamento. (…)(Idem, pág. 51)

(…) Para os jovens, o mundo é cruel demais; para eles, o que as gerações mais
velhas fizeram do mundo é aterrador demais. Não há lugar para eles, (…) estão
perdidos; então viciam-se em drogas e na bebida; todos os tipos de coisas estão
acontecendo com os jovens no mundo: comunidades, orgias sexuais, fugas para a
Índia, para gurus, para encontrar alguém que lhes diga o que fazer - alguém em que
possam confiar. (Perguntas e Respostas, pág. 72)

Eles vão lá, jovens, inocentes, sem saber; e os gurus lhes dão a sensação de que
estão sendo protegidos e guiados - isso é tudo o que eles querem. Eles não
conseguem isso de seus pais, dos padres (…), de seus psicólogos, porque (…) estão
igualmente confusos (…). (Idem, pág. 72)

De igual modo, a geração mais velha está na mesma posição, só que expressam isso
com mais sofisticação. (…) Mas ninguém pode servir de guia, nem pode iluminar
ninguém. Somente você mesmo pode fazer isso; mas você deve ficar completamente
só. Isso é o que amedronta velhos e jovens. (…) Entenda isso de uma forma bem
profunda (…). (Idem, pág.72)

Vocês, jovens, da nova geração, só poderão criar um mundo totalmente diferente se


forem educados para serem livres (…). Por isso, é muito importante, enquanto são
jovens, serem verdadeiros revolucionários - o que significa não aceitar coisa alguma,
mas inquirir sobre todas as coisas a fim de descobrir a verdade. Só então poderão
criar um mundo novo. Caso contrário, ainda que os chamem por um nome diferente,
vocês estarão perpetuando o mesmo velho mundo de miséria e destruição que
sempre existiu até agora. (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 162)

Pergunta: Muitos jovens já me têm dito: “Sentimo-nos frustrados; não sabemos o que
fazer na crise atual (…)”

Krishnamurti: Há muitas questões encerradas nessa pergunta. (…) Em primeiro lugar,


sentimo-nos frustrados. Desejais uma coisa e não a obtendes; sentis-vos derrotados
(…). Desejais um emprego, não o conseguis (…). Desejais desposar uma dama, não o
podeis (…). Ambiciono poder e posição, sou contrariado (…). Há, portanto, frustração
constante. (Uma Nova Maneira de Viver, pág. 20-21)
Porque há vácuo em vós mesmos, sentis-vos vazios - econômica, psicologicamente, e
espiritualmente vazios. Julgais possível preencher o vosso vazio com a obtenção do
que desejais. Mas, se atentardes bem, descobrireis que jamais podereis preencher
esse vazio. (…) Isso é um fato psicológico. (Idem, pág. 21)

Mas, que é esse vazio? (…) Para o compreenderdes, é preciso que abandoneis as
tentativas de o preencher. Tentar enchê-lo equivale a querer encher um balde furado.
O líquido estará sempre a vazar (…). (Idem, pág. 21)

É no próprio problema que está contida a solução, e não fora dele. Assim sendo, se
compreendêssemos a frustração e todas as suas conseqüências, todas essas
questões poderiam ser resolvidas de modo relativamente simples. (Idem, pág. 21)

Se considerarmos atentamente todos esses problemas (…) A única solução para o


conflito e a confusão é, afinal, a Verdade, que liberta. Para fazerdes vir a vós a
Realidade ou a Verdade, é necessário que estejais livres de todos os vínculos (…). Se
trabalharmos com este empenho, faremos nascer a claridade dentro de nós. (Idem,
pág. 22-23)

Que entende por “envelhecer”? Envelhecendo por longa permanência no trabalho?


Envelhecendo em termos de rotina, de tédio? Que quer dizer ao aludir à idade? O que
o torna mais velho? O organismo vai-se desgastando? Por que motivo? Será em
virtude de doença, ou por haver repetição no próprio viver, como uma máquina que
trabalha sem cessar? A psique se mantém adormecida; funciona apenas pelo hábito.
Desse modo, é rápido o envelhecimento do corpo. (Ensinar e Aprender, pág. 73-74)

Por que envelhece a psique? Ela tem mesmo de envelhecer? Penso que não. Será a
idade adiantada apenas um hábito? Já repararam em como os velhos comem, como
falam? Será possível manter a psique extraordinariamente jovem, viva, ilesa? Poderá
ela conservar essa vitalidade, sem jamais perdê-la em decorrência do hábito, da idéia
de segurança, de exigências da família e de responsabilidades? Por certo, isso é
possível, o que impõe a destruição de quanto construíram. (Idem, pág. 34)

Pergunta: Um dia sucede ao outro, e a velhice e a morte se vão aproximando


inexoravelmente. (…) Ensinai-me a enfrentar a velhice e a morte com serenidade.

Krishnamurti: Que se entende por velhice? (…) O organismo físico evidentemente se


gasta pelo longo uso. Isso é velhice? Ou velhice é a deterioração da mente? Uma
pessoa pode ser jovem, sadia, forte e, no entanto, ser velha, se sua mente já estiver
encaminhada para a deterioração. (O Homem Livre, pág. 161)
Que se entende, pois, por velhice? (…) Referimo-nos ao estado da mente que
envelheceu por não ter “inocência”. (…) A mente está velha quando não é “fresca”,
quando só pensa em termos de passado (…). Eis a mente que não é jovem. E pode a
mente tornar-se nova, inocente, fresca? Pode renovar-se a cada momento, de modo
que nunca envelheça? Ora, este é que é o nosso problema (…). (Idem, pág. 161)

Quais são os fatores da deterioração? (…) Só a mente pura pode aprender, não
aquela carregada de conhecimentos e, portanto, já velha. Assim, como pode a mente
tornar-se nova, fresca, purificada? Compreendeis (…)? (Idem, pág. 162)

Não importa se o organismo físico é novo ou velho, a mente se acha velha quando
está fixada, moldada, funcionando numa rotina, num círculo de medo; e como pode ela
tornar-se viçosa (…)? (O Homem Livre, pág. 162)

(…) Ora, só se morrer para o passado, para tudo o que conhece. (…) Seria possível
morrer para “minha casa”, (…) “meu deus”, “minha necessidade”, “minha crença”,
“minha tradição”, para todas as impressões, compulsões, influências que me
formaram, e ao mesmo tempo estar cônscio de minha família, da beleza de uma
árvore, (…) de uma flor, (…) do céu? (Idem, pág. 162)

Pergunta: Dizeis que as pessoas de idade estão sempre inquietas (…). Nunca vistes
pessoas mais novas fazerem a mesma coisa? (…)

Krishnamurti: Ora, sabe-se que os jovens são grandes imitadores (…). São o mesmo
que macacos, para imitar. Vêem alguém fazer uma coisa, e imediatamente a fazem
também. Já não notastes como as crianças gostam de vestir-se de modo igual? (…) É
forte nos jovens o processo imitativo; e, por isso, quando observam os mais velhos, se
põe a imitá-los; e, uma vez que tanto os mais velhos como os jovens não estão bem
cônscios do que estão fazendo, o círculo vai-se dilatando cada vez mais. (Debates
sobre Educação, pág. 86)

Os mais velhos põem uma veste sagrada, e os jovens põem também uma veste
sagrada. Uns velhos põem turbantes, e os jovens põem também turbantes. (…) Mas, o
que é importante para vós é que observeis a vós mesmos, que estejais cônscios de
vós mesmos, de vossas ações. (…). Deixareis então de praticá-las. (…) (Idem, pág.
86-87)

Assim, o mundo se encontra em tamanha desgraça porque não existe aquela


capacidade de criar. Para vivermos criadoramente, não podemos ficar na simples
imitação, seguir Marx, ou a Bíblia, ou o Bhagavad-Gita. (Novo Acesso à Vida, pág. 82)
A atividade criadora é gerada pela liberdade, e só pode haver liberdade quando há
virtude, e a virtude não é resultado do processo do tempo. A virtude vem quando
começamos a compreender o que é, em nossa existência de cada dia. (Idem, pág. 82)

Logo, para mim, a divisão entre velhos e moços é um tanto absurda. Senhores, a
maturidade não é questão de idade. Embora, na maioria, sejamos mais velhos, nós
somos infantis, temos medo (…). Os que são velhos buscam a permanência, (…)
garantias confortadoras, e os moços querem também a segurança. (Idem, pág. 82)

Não há, pois, diferença essencial entre velhos e moços. Como disse, a maturidade
não reside na idade: vem com a compreensão (…). A preservação dessa energia para
a investigação, para descobrir a realidade, requer muita educação - educação que não
seja simples conformidade a um padrão (…). (Idem, pág. 82)

Temos de aprofundar esta questão da seriedade, porque a vida é um movimento em


ação. Não podemos ficar inertes (…). Estamos colhidos no movimento do que foi, e os
moços dizem: “Nós somos a nova geração.” Não são. Para compreender tudo isso,
temos de investigar o que é a ação em liberdade. (…) Pode a mente libertar-se de seu
condicionamento, e podem também libertar-se as células cerebrais (…) que têm seus
próprios padrões de reação? (A Importância da Transformação, pág. 38-39)

O investigar requer paciência; os jovens são impacientes, querem resultados


instantâneos, e isso significa que ainda não compreenderam o processo total do viver.
Se se compreender a totalidade do viver, virá uma ação instantânea, inteiramente
diferente da ação imediata da impaciência. (…) (A Questão do Impossível, pág. 18)
Dependência, Emancipação; Paternalismo,
Liberdade
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:20

Quando somos muito novos, criancinhas, dependemos da mamãe para ganharmos


nosso leite. Precisamos de proteção, vigilância, carinhos. À mesma lei então sujeitas
as aves e todos os animais. É uma coisa natural. Mas, se, depois de crescermos,
continuamos dependendo de alguém para nossa felicidade, (…) conforto, orientação,
segurança, então, como resultado dessa dependência, surge o temor. (…) A
dependência faz-nos embotados, insensíveis, medrosos. (…) A dependência a que me
refiro é a dependência psicológica, a busca psicológica de proteção. (…) (Debates
sobre Educação, pág. 165)

Quando vocês dizem que amam alguém, não dependem interiormente dessa pessoa?
Enquanto forem crianças, naturalmente dependerão de seus pais, de sua professora,
de seus guardiães. Eles precisam cuidar de vocês, alimentá-los, vesti-los e abrigá-los.
Vocês precisam ter a sensação de segurança, (…) de que alguém está cuidando de
vocês. (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 71)

Mas o que acontece geralmente? À medida que vocês crescem, essa sensação de
dependência continua a existir (…). Não observaram já em pessoas mais velhas, em
seus pais e professores? Notaram como eles ainda dependem emocionalmente de
suas esposas ou maridos, de seus filhos ou de seus próprios pais? (Idem, pág. 72)

Quando cresce, a maioria das pessoas ainda continua apegada a alguém (…) a ser
dependente. Se não tiverem alguém em quem se apoiarem, que lhes dê a sensação
de conforto e segurança, as pessoas se sentem sós (…). Elas se sentem perdidas.
Essa dependência que temos em relação aos outros é chamada de amor; mas se
vocês observarem isso de perto, verão que dependência é medo, e não amor. (Idem,
pág. 72)

A maioria de nós tem medo de ficar só, (…) de pensar por si mesmo, medo de sentir
profundamente, de explorar e descobrir todo o significado da vida. Por isso essas
pessoas dizem que amam a Deus, e elas dependem daquilo a que chamam Deus;
mas não é Deus, não é o desconhecido, é algo criado pela mente. (Idem, pág. 72)

Fazemos o mesmo com um ideal ou uma crença. Creio em alguma coisa, ou entrego-
me a um ideal, e isso me dá grande conforto; mas removam o ideal, (…) a crença, e
eu estarei perdido. Ocorre o mesmo com um guru. (…) É também isso o que ocorre
quando vocês dependem dos pais ou dos professores. É natural, e é certo, que isso
ocorra quando vocês são jovens; mas, se continuarem dependentes depois de
maduros, isso os tornará incapazes de pensar, de ser livres. Onde há dependência, há
medo, e, onde há medo, há autoridade, não amor. (…) (Idem, pág. 72)

Há dependências físicas de que podemos tornar-nos cônscios (…), como a


dependência do fumo, das drogas, da bebida e outros estimulantes físicos de que
dependemos psicologicamente. Em seguida, as diversas formas de dependência
psicológica. Estas têm de ser observadas mui atentamente, já que se interpenetram,
estão mutuamente relacionadas; (…) dependência de uma pessoa, de uma crença, de
uma relação, de um hábito psicológico de pensamento. (…) (A Questão do Impossível,
pág. 115)

Ora, para a maioria de nós, as relações com outrem estão baseadas na dependência
econômica ou psicológica. Essa dependência cria temor, gera (…) possessividade, dá
lugar a atritos, suspeitas, frustrações. (Palestras em Ojai e Sarobia, 1940, pág. 52)

A dependência econômica de outrem pode talvez ser eliminada pela legislação e


organização adequada, mas me refiro especialmente àquela dependência psicológica
de outrem que é a manifestação da ânsia pela satisfação pessoal, pela felicidade, etc.
(…) (Idem, pág. 52)

Não sei se já notastes que quase todos nós desejamos certa espécie de segurança,
(…) de alguém em quem possamos amparar-nos. Como a criança que se agarra à
mão da mãe, precisamos de alguma coisa a que nos agarrarmos, (…) precisamos de
quem nos ame. (…) (Novos Roteiros em Educação, pág. 50-51)

Porque nos acostumamos a arrimar-nos a outros, a depender de outros para nos


guiarem e ajudarem, quando nos vemos entregues a nós mesmos ficamos confusos,
cheios de medo, sem saber que fazer, que pensar, como agir. Sentimo-nos
inteiramente perdidos, inseguros, incertos. E daí surge o temor (…). (Idem, pág. 51)

(…) Mas, posso em algum tempo estar em segurança, (…) protegido, por maiores que
sejam as defesas que tenho, exterior e interiormente? Que segurança haverá, se meu
banco falir amanhã, se meu pai ou minha mãe morrer amanhã (…)? E, interiormente,
existe alguma segurança nas minhas idéias? (…) (Idem, pág. 53)

(…) Sempre que dependemos, temos medo; e onde há temor, não há amor. Onde
existe amor, não estais sós. Só existe o sentimento de solidão quando sentimos medo,
quando não sabemos que fazer. (…) e, quando existe temor, estais completamente
cegos. (…) (Idem, pág. 55)
Ao vos observardes interiormente, não descobris dois princípios ativos: o medo e o
prazer? Não vedes que o prazer assume diferentes formas - ora é busca de Deus, ora
desejo de ser pessoa importante (…)? Como dissemos, medo e prazer constituem
nossos principais movimentos (…); e porque, inconscientemente, tendes medo, vos
tornais apegado, dependente de alguma pessoa - vossa mulher, vosso marido ou
vosso guru. (…) (O Novo Ente Humano, pág. 156)

Eis, pois, o que a dependência implica. Ora, temos a possibilidade de libertar-nos


dessa dependência? Porque, em geral, gostamos de ser possuídos. (…) Gostamos de
pertencer a alguém, (…) a um grupo (…) padrão de ação, para termos o sentimento de
estar vivendo virtuosamente. Desse modo, observando bem a dependência, podeis
ver, por vós mesmos, que na base dela está o medo. (…) (Idem, pág. 156-157)

Um dos nossos numerosos problemas parece ser o da dependência - esta nossa


dependência de pessoas, para nossa felicidade, dependência de capacidade (…). E a
questão é: Pode a mente, em algum tempo, estar totalmente livre de toda
dependência? (…) (Transformação Fundamental, pág. 69)

Naturalmente, não estamos falando da dependência superficial; mas, no nível mais


profundo, encontra-se aquela dependência psicológica, de certa segurança, de certo
método que garanta à mente um estado de permanência; (…). (Idem, pág. 69)

Por que é que dependemos? Psicologicamente, interiormente, dependemos de uma


crença, um sistema, uma filosofia; pedimos a outrem uma norma de conduta;
procuramos instrutores, em busca de uma maneira de vida (…). Tem a mente
possibilidade de libertar-se dessa idéia de dependência? Com isso não quero dizer
que a mente deva conquistar a independência - o que só seria uma reação à
dependência. (…) (Idem, pág. 69)

(…) Talvez, se pudermos examinar este problema de maneira verdadeiramente


inteligente, com plena atenção, talvez então possamos descobrir que não é, em
absoluto, a dependência que constitui o problema, que ela é apenas um modo de
fugirmos a um fato mais profundo. (Transformação Fundamental, pág. 70)

Como dizia, por que dependemos e fazemos da dependência um problema? (…) Qual
é, pois, esse fator mais profundo? É a mente detestar e temer a idéia de estar só? E
será que a mente conhece esse estado que está evitando? (…) (Idem, pág. 71)

Mas, se sou capaz de perceber o fator que é o meu depender de uma pessoa, de
Deus, da oração, de certa capacidade, (…) fórmula ou conclusão que chamo “crença”
- talvez então eu possa descobrir que tal dependência resulta de uma exigência
interior a que nunca prestei atenção, nem levei em conta. (Idem, pág. 71)

Considero, com efeito, essa questão sumamente importante. Porque, enquanto aquela
solidão não for realmente compreendida, sentida, penetrada, dissolvida (…), enquanto
persistir este sentimento de solidão, será inevitável a dependência, nunca seremos
livres, nunca poderemos descobrir por nós mesmos o que é verdadeiro, o que é
religião. (Idem, pág. 71-72)

Enquanto estou dependendo, tem de haver alguma autoridade, tem de haver imitação,
(…) compulsão, sob diferentes formas, (…) disciplinamento segundo dado padrão.
Pode, pois, a mente descobrir o que é “estar na solidão”, e passar além - de modo que
seja posta em liberdade e não dependa mais das crenças, dos deuses, dos sistemas,
das orações, nem de coisa alguma? (Idem, pág. 72)

Enquanto há apego, dependência, tem de haver “exclusão” (separação). Depender de


nacionalidade, (…) grupo, (…) raça, (…) pessoa ou crença é evidentemente um fator
de separação. Assim, é provável que a mente esteja sempre, como entidade
separada, a buscar isolamento e a evitar um fator mais profundo, que realmente é
separativo: o processo egocêntrico de seu próprio pensar, que gera solidão. (…)
(Idem, pág. 72)

A dependência não é a negação da liberdade? Tirem-se-lhe a casa, o marido, os


filhos, as posses - que é um ente humano, se tudo isso lhe é retirado? Em si próprio,
ele é insuficiente, vazio, sem rumo. Assim, por causa desse vazio, de que tem medo,
ele depende (…). Assim, estais vendo que temos agora três questões: a sensibilidade,
a dependência e o medo? Três coisas relacionadas entre si. (…) (A Luz que não se
Apaga, pág. 23-24)

(…) Se o indivíduo é suficientemente sensível, torna-se cônscio de sua medonha


vacuidade - desse abismo sem fundo, que não se pode encher com o vulgar
entretenimento das drogas, (…) das diversões sociais; (…). Sabendo disso, cresce o
medo. (…) A questão, pois, agora, é de ultrapassarmos esse vazio, essa solidão, não
de aprendermos a depender de nós mesmos, ou de disfarçarmos permanentemente o
nosso vazio. (Idem, pág. 24-25)

Pergunta: Como é possível libertarmo-nos da dependência psicológica de outros?

Krishnamurti: Por que dependemos psicologicamente de uma coisa? Evidentemente


porque, interiormente, somos insuficientes, pobres, vazios, (…) nos vemos tão sós! E
é essa solidão, esse vazio, essa extrema pobreza, esse enclausuramento em nosso
“eu”, que nos faz depender de uma pessoa, de nosso saber, de nossa propriedade, de
opiniões (…). (Verdade Libertadora, pág. 123)

Ora, pode a mente tornar-se perfeitamente cônscia do fato de sua solidão, sua
insuficiência, seu vazio? É muito difícil perceber esse fato (…) porque estamos sempre
procurando fugir-lhe; (…) escutando o rádio e entretendo-nos de outras maneiras, (…)
pelo depender de pessoas e de idéias. (Idem, pág. 123)

Para conhecermos nosso próprio vazio, temos de olhá-lo diretamente; mas não
podemos fazê-lo se nossa mente estiver sempre buscando distração (…). E essa
distração assume a forma de apego a uma pessoa, à idéia de Deus, (…) dogma ou
crença, etc. (Idem, pág. 123-124)

Assim, ao compreender a futilidade, a total inutilidade de tentar preencher o vazio com


a dependência, o saber, a crença, estará a mente capacitada a encará-lo sem temor.
E pode a mente continuar a encarar esse vazio, abstendo-se de avaliação? (…)
(Verdade Libertadora, pág. 124)

Quando a mente se acha perfeitamente cônscia de que está a fugir de si mesma;


quando compreende a futilidade dessa fuga e percebe que o próprio processo de fuga
gera medo - (…) ela poderá encarar o que é. (…) (Idem, pág. 124)

Mas, para descobrirmos isso por nós mesmos, temos de compreender o “processo” da
fuga. Na própria compreensão da fuga, a fuga se detém e a mente se torna capaz de
observar-se. Ao observar-se, não deve haver avaliação, nem julgamento. O fato, em
si, se torna então importante (…); a mente, por conseguinte, já não está vazia. (…)
(Idem, pág. 125)

Podemos, pois, encarar, sem nenhuma avaliação, o fato de nosso vazio psicológico,
nessa solidão, causador de tantos outros problemas? (…) Então, aquilo que
temíamos, por ser solidão, vazio, já não é vazio. Já não há, então, dependência
psicológica de coisa alguma; então, o amor já não é apego, porém coisa totalmente
diferente, e as relações têm outra significação. (Idem, pág. 125)

Naturalmente, a grande maioria das pessoas vivem a fugir de si mesmas. Mas, pelo
fugirdes de vós mesmos, vos tornastes dependentes. A dependência se torna mais
forte e as fugas mais essenciais, em proporção com o medo do que é. A esposa, o
livro, o rádio, adquirem extraordinária importância; (…). Porque me sirvo de minha
mulher como meio de fugir de mim mesmo, estou apegado a ela. Tenho de possuí-la
(…); e ela gosta de ser possuída, porque também se está servindo de mim. É uma
necessidade comum de fuga (…). (Comentários sobre o Viver, 1ª ed. pág. 198)

Isso está bastante claro. (…) Mas por que foge uma pessoa? De que foge? De sua
própria solidão, seu próprio vazio, daquilo que é. Se fugirdes do que é, sem o verdes,
é bem evidente que não o compreendereis; portanto, em primeiro lugar, deveis parar,
deixar de fugir, pois, só então, podereis observar a vós mesmos, tal como sois. Mas
não podeis observar o que é, se estais sempre a criticá-lo (…). Vós o chamais solidão
e fugis dele; e a própria fuga ao que é, é medo. Tendes medo dessa solidão, desse
vazio, e a dependência é o manto com que o cobris. (…) (Idem, pág. 198)

Nada podeis fazer a esse respeito. Tudo o que fizerdes será sempre uma atividade de
fuga. (…) Podereis ver, então, que não sois diferentes nem estais separados daquela
vacuidade. Sois aquela insuficiência. O observador é o vazio observado. Depois, se
fordes mais longe, não lhe dareis mais o nome de solidão; cessou a verbalização; e,
se fordes mais além, (…) a coisa conhecida como solidão não existirá mais; ocorrerá o
completo desaparecimento da solidão, do vazio, do pensador, do pensamento. Só isso
põe fim ao temor. (Idem, pág. 198-199)

Desejo examinar convosco o problema da liberdade. (…) Muito se fala da liberdade -


liberdade religiosa e liberdade de o indivíduo fazer o que deseja. (…) Mas eu penso
que podemos considerá-la de maneira muito simples e direta, e chegar, talvez, à
solução verdadeira. (…) (A Cultura e o Problema Humano, pág. 16)

E, para poderdes observar, (…) deve a vossa mente estar livre de preocupações (…).
Não deve estar ocupada com problemas, com tribulações, com especulações. É só
com a mente muito tranqüila que se pode observar realmente, porque, então, a mente
é sensível à beleza extraordinária. E talvez tenhamos aqui a chave de nosso problema
da liberdade. (Idem, pág. 16)

Pois bem, que significa ser livre? Consiste a liberdade em poderdes fazer o que acaso
vos convém, em irdes aonde vos aprouver, em pensar o que quiserdes? (…) A mera
consciência de se ter independência, significa liberdade? Muita gente neste mundo é
independente, mas pouquíssimos são livres. Liberdade implica grande soma de
inteligência, não? (…) (Idem, pág. 16)

Pode-se ver que exteriormente não somos livres. Em nossos empregos, (…) religiões,
(…) pátrias, (…) relações, (…) idéias, crenças e atividades políticas, não somos livres.
Interiormente, também, não somos livres, porque não conhecemos nossos “motivos”
(…) impulsos, compulsões, exigências inconscientes. Assim, não há liberdade, nem
interior nem exteriormente (…). Mas, em primeiro lugar, cumpre-nos perceber esse
fato, pois em geral recusamo-nos a percebê-lo; sofismamos a respeito dele,
encobrimo-lo com palavras, com idéias, etc. O fato é que, tanto na esfera psicológica,
como na exterior, desejamos segurança. (…) (O Passo Decisivo, pág. 203)

Mas, se estais interessado na libertação total (…) de todas as dependências


psicológicas; se isso vos interessa realmente, não pedireis então nenhum método,
nenhuma “maneira”. Fazeis, nesse caso, uma pergunta muito diferente (…).
Perguntais, então, se podeis ter a capacidade de vos libertardes da dependência (…)
(Poder e Realização, pág. 62-63)

Quando sei que posso ter aquela capacidade, então o problema deixa de existir. (…)
Entretanto, porque não tenho a capacidade, quero ser ensinado. E crio, assim, (…)
uma pessoa que irá libertar-me, salvar-me. E dessa pessoa fico dependente. (Idem,
pág. 63-64)

O simples desejo não resulta em liberdade. (…) Todos desejam ser livres e, por
conseguinte, querem exprimir-se - falar de sua raiva, sua brutalidade, ambição,
espírito de competição, e assim por diante (…). Liberdade não é fazer o que a pessoa
quer, porque o homem não pode viver isolado. Até o monge, o sannyasi, não se sente
livre para fazer o que bem entender; é obrigado a lutar pelo que deseja, a manter luta
íntima, a questionar-se dentro de si mesmo. A liberdade interior requer imensa
inteligência, sensibilidade, capacidade de compreensão. (…) (Ensinar e Aprender,
pág. 27)

(…) Ou a liberdade é algo inteiramente diferente da reação, algo de autônomo, livre de


motivo, independente de qualquer inclinação, tendência e circunstância? (…) Ou a
liberdade é um estado de espírito tão intensamente ativo e vigoroso, que lança para
longe toda e qualquer forma de dependência, de servidão, de conformismo e
aceitação? (…) Tal liberdade implica solidão completa (…). Liberdade dessa espécie
significa, de certo, “estar só”. (…) (Como Viver neste Mundo, pág. 57)

(…) Mas a liberdade não existe nem pode existir cercada de limitações. (…) Por
exemplo: dizeis que vossos pais ou mestres sabem o que é certo e o que é errado;
pelo menos pensais que eles sabem. (…) Sabeis (…) o que a religião disse, o que
disse o sacerdote, (…) o que aprendestes na escola, o que diz a tradição. E viveis
dentro desses limites, dessa clausura. (…) Pode ser livre um homem que vive numa
prisão? (Novos Roteiros em Educação, pág. 31-32)
Visto isso, pois, o que devemos fazer é arrasar as muralhas que nos cercam e
descobrir por nós mesmos o que é real, o que é verdadeiro, benéfico. Cumpre-nos
experimentar, investigar, e não apenas seguir alguém; (…). (Idem, pág. 32)

Não há liberdade intelectual; e liberdade significa energia, vitalidade, “intensidade”; a


liberdade vos proporciona extraordinária energia. Mas, essa liberdade vós a rejeitais
totalmente, aceitando a autoridade (…) do professor, (…) de vossos guias espirituais;
e essas pessoas não são espirituais, pois se arvoram em guias dos outros. Não sois
livres, intelectualmente; e, moralmente, sois sentimentais, devotados a certa divindade
ou pessoa. Isso não produz energia, mas, sim, medo. Só há energia quando perdeis
completamente de vista o vosso “eu”, quando há total ausência do “eu”. (…) (O novo
Ente Humano, pág. 128)

O homem livre, (…) que nada teme, que tem uma mente lúcida, cujo coração é
vigoroso, forte, enérgico - nunca necessita de ajuda. E nós, vós e eu, temos de
manter-nos de pé, completamente sós, sem ajuda de ninguém. (…) (O Despertar da
Sensibilidade, pág. 176)

Só quando se exige liberdade completa e se mantém essa liberdade, pode-se


encontrar, pelas corretas vias de acesso, a realidade (…) que libertará o homem. Mas,
uma das coisas mais difíceis é percebermos que precisamos estar completamente
sós, inteiramente entregues a nós mesmos. (Idem, pág. 176)

Só existe amor quando não há nenhuma forma de utilização e dependência. As


exigências psicológicas, com sua inconstância e eterna busca, que levam à
substituição de uma dependência por outra, de uma crença por outra, de um
compromisso por outro, é a própria essência do “eu”. Adotar uma idéia, um método, ou
um dogma, ou pertencer a alguma seita, é a origem e a essência do eu. (…) Ao
libertar-se das exigências psicológicas, atinge o homem a maturidade. Dessa
liberdade nasce uma paixão livre de motivo ou busca de recompensa (Diário de
Krishnamurti, pág. 66)

A dependência psicológica das coisas se manifesta por meio de miséria e conflito


sociais. Por sermos pobres interna, espiritual e psicologicamente, pensamos que
podemos enriquecer-nos por meio de posses (…). Sem resolver fundamentalmente a
pobreza psicológica do ser, a mera legislação social ou o ascetismo não podem
solucionar o problema da ganância, da ansiedade. (…) (Palestras em Ojai e Sarobia,
1940, pág. 25)
Maturidade, Seriedade, Verdadeiro, Falso;
Conceitos
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:22

Assim, (…) percebemos a necessidade de uma revolução fundamental na própria


estrutura do cérebro; “estrutura”, não no sentido biológico, porém estrutura de nosso
pensar, o padrão de nossos pensamentos, impulsos, ânsias. Para promover a
revolução fundamental, necessita-se de grande quantidade de energia: e essa energia
só pode tornar-se existente quando há madureza - não a madureza que pensamos
poder alcançar mediante o ajuntamento de muitos fragmentos. Mas, como suscitar
essa madureza? (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 95)

Percebe-se a necessidade dessa revolução; (…). E como produzir essa madureza e


essa energia? O indivíduo está amadurecido - não em relação ao tempo, à idade, etc.
- amadurecido, rico, completo, quando é capaz de olhar, de observar, de viver sem
amargor, sem medo, sem desejo de preenchimento, pois isso denota falta de
madureza. (…) (Idem, pág. 95)

Quando compreenderdes, quando perceberdes, realmente, que não há, fora de vós,
ninguém que possa ajudar-vos - nem deuses, nem gurus, nem políticos, ninguém - já
não vos achareis no estado de madureza? Estareis então livres do medo de errar, do
medo de não fazer o que é certo. (…) (Idem, pág. 97)

Mas, para mim, a madureza é algo completamente diferente. Acho possível tornarmo-
nos amadurecidos sem passar por todas as pressões e tribulações do tempo. Estar
completamente amadurecido, qualquer que seja a idade do indivíduo, significa ser
capaz de enfrentar e resolver imediatamente qualquer problema que se apresente, em
vez de “transportá-lo” para o dia seguinte. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito,
1ª ed, pág. 168)

Assim, pois, ser “amadurecido” é aprender; não é “adquirir conhecimento”. (…) Mas
achar-se no estado de madureza a que me refiro, significa a pessoa ver a si própria tal
como é realmente, momento a momento, sem acumular conhecimentos a respeito de
si própria; porque essa madureza implica rompimento com o passado, e o passado é,
essencialmente, um empilhamento de conhecimentos. (Idem, pág. 168-169)

Mas, voltemos à nossa questão: como promover a madureza instantânea? A essa


madureza está associada a energia; como produzi-la? Ou não existe método algum e
o necessário é apenas perceber a verdade, isto é, que depender de alguém, de (…)
sistema ou filosofia, de um guru, é falta de madureza; perceber essa verdade
instantaneamente. (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 102)

Senhor, para descobrirdes se Deus existe, deveis estar livre da idéia de Deus. Para
descobrir, é necessário investigar, perquirir, indagar, interrogar. Isso, por certo, faz
parte da madureza. O fazer perguntas corretas, investigar corretamente, exige
energia. (Idem, pág. 103)

A maturidade não vem com o tempo nem com a idade. Não existe intervalo entre o
presente e o amadurecimento; (…). A maturidade é aquele estado no qual cessou toda
forma de escolha; só os imaturos escolhem e conhecem o conflito nascido da escolha.
Na maturidade não existe direção qualquer, mas, sim, aquela que não vem da
escolha.

(…) Qualquer espécie de conflito revela imaturidade. Não existe amadurecimento


psicológico, a não ser o inevitável processo orgânico de crescimento. Maturidade é a
compreensão que transcende todo e qualquer conflito. (…) (Diário de Krishnamurti,
pág. 63-64)

(…) Senhores, a maturidade não é questão de idade. Embora, na maioria, sejamos


mais velhos, nós somos infantis, temos medo do que pensa a sociedade. (…) Os que
são velhos buscam a permanência, (…) e os moços querem também a segurança.
Como disse, a maturidade não reside na idade: vem com a compreensão. (…) (Novo
Acesso à Vida, pág. 82)

Estávamos falando sobre madureza? (…) A madureza tem alguma relação com a
idade da pessoa? Tem alguma relação com a experiência, o saber, a capacidade?
Tem alguma relação com a competição e a acumulação de dinheiro? Se não, que é a
madureza? Está ela em alguma relação com o tempo? (…) (A Mente sem Medo, 1ª
ed., pág. 74)

(…) Assim, só a mente inocente é madura, e não aquela que acumula conhecimentos
milenares. O conhecimento é necessário e tem significado num certo nível; mas o
conhecimento, o saber, não produz claridade, inocência. Só há inocência quando todo
conflito terminou. Quando a mente já não está se movendo em nenhuma direção
determinada, uma vez que todas as direções foram compreendidas; acha-se ela,
então, nesse estado de originalidade, que é a inocência, e, daí, pode atingir a
imensidade onde se encontra o Supremo; só então a mente é madura. (Idem, pág. 75)
Essa “qualidade”, essa madureza - devemos fazê-la depender do tempo, das
circunstâncias, das inclinações ou de uma dada tendência? É ela como um fruto que
amadurece durante o verão e está prestes a cair no outono; que necessita de tempo,
de muitos dias de chuva, de sol (…)? (…) Acho que não há tempo a perder e que
devemos amadurecer de pronto, não biológica ou fisiologicamente, porém
interiormente tornar-nos total e completamente amadurecidos. (Como Viver neste
Mundo, pág. 69)

Desejaria (…) discutir convosco o problema da busca e o que significa ser “sério”. (…)
As pessoas ditas religiosas estão supostamente em busca da verdade, de Deus. (…)
(Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 21)

Uma pessoa pode buscar, mas, se lhe falta “seriedade”, sua busca será dispersa,
esporádica, desconexa. A “seriedade” acompanha sempre a busca, e é bem evidente
que vos achais aqui porque sois “sérios”. (…) (Idem, pág. 21-22)

Certamente, até os maiores cientistas têm de abandonar todo o seu saber, antes de
poderem descobrir qualquer coisa nova; e se vós sois sérios, esse abandono do
conhecimento, da crença, da experiência tem de efetuar-se realmente. Os mais de nós
somos um tanto “sérios”, quando se trata de nossas próprias conclusões, mas eu acho
que isso de modo nenhum é seriedade. (…) O homem sério, sem dúvida, é aquele que
é capaz de abandonar as suas conclusões porque percebe que só assim está
capacitado para investigar. (Idem, pág. 27)

Todo homem deve ser sério, porque só os sérios são capazes de viver uma vida
completa, total. Essa seriedade não exclui a alegria, a jovialidade; mas, enquanto
existir medo, não haverá possibilidade de saber o que significa ter uma grande alegria.
O medo parece ser uma das coisas mais comuns da vida (…). (Fora da Violência, pág.
57)

Estive a considerar o que significa ser sério. Em geral, temos a impressão de que
somos bastante sérios; entretanto, nunca indagamos qual deve ser o estado da mente
que de fato é séria - de fato, e não apenas séria “em relação a alguma coisa”. (…) Tal
é o caso do homem que toma “seriamente” uma bebida ou que “seriamente” se devota
a uma idéia, (…) causa, (…) compromisso, e se esforça por levá-lo a bom termo.
(Encontro com o Eterno, pág. 19)

Consideramos “sérias” as pessoas que têm um conceito, idéia ou ideal a que se


consagram lógica, brutal, impiedosamente, ou com certa simpatia humana. (…) É sério
aquele que segue determinado plano de ação (…), vivendo de acordo com tal padrão
e, portanto, condicionado? Tal pessoa, para mim, não é de modo algum séria (…).
(Idem, pág. 20)

Por “pessoa séria”, não entendo o indivíduo que está ligado a dado padrão de crença
e que funciona em conformidade com essa crença; em geral, esse indivíduo é tido
como ente maravilhoso e sério; mas eu não o chamo “sério” (…). Também a pessoa
que se devotou a determinado movimento, e dessa linha não se desvia, é considerada
pessoa muito séria; mas eu não a chamo “séria”. (…) (A Suprema Realização, pág.
11)

Assim, pela palavra “sério” entendemos coisa muito diferente. (…) Por “mente séria”
entendo aquela que percebe o que é verdadeiro - não de acordo com um certo padrão
de crença ou certa autoridade (…). (Idem, pág. 11-12)

Pois bem, que é “estar sério, ser sério”? Podemos mostrar-nos sérios a respeito de
coisas muito superficiais. Quando (…) uma jovem quer comprar um sari, poderá
dispensar (…) toda a sua atenção (…). (A Cultura e o Problema Humano, pág. 103)

Assim, pois, pode-se ser sério a respeito de coisas falsas. Mas, se começais
realmente a investigar o que significa ser sério, vereis que há uma qualidade de
seriedade que não se traduz em atividade em torno de coisas falsas, que não é
moldada segundo um padrão. (Idem, pág. 103)

(…) Somos muito sérios em relação a certas coisas que nos proporcionam grande
prazer, satisfação; desejamos a todo custo cultivar esse prazer - seja o prazer do
sexo, seja o do preenchimento de uma ambição - um prazer qualquer. Mas bem
poucos de nós são sérios no tocante ao percebimento do problema da existência, dos
conflitos, das guerras, das ânsias, dos desesperos, da solidão, do sofrimento.

Ser sério em relação a essas coisas fundamentais significa aplicar a elas uma atenção
contínua, e não um simples e esporádico interesse (…). Aquela seriedade deve
constituir a base de nosso pensar, viver e agir; (…). Quanto mais sérios formos,
interiormente, tanto mais madureza teremos. A madureza nada tem que ver com a
idade (…). Não é questão de acumular incontáveis experiências ou um saber imenso.
(…) Só é possível essa madureza com o conhecimento mais amplo e mais profundo
de nós mesmos. (Como Viver neste Mundo, pág. 68-69)

Que entendeis por “seriedade”? Ser sério, ardoroso, implica naturalmente a


capacidade de descobrir o que é verdadeiro. (…) Se a mente está acorrentada pelo
saber, pela crença, (…) à mercê das influências condicionadoras (…), pode ela
descobrir alguma coisa nova? (…) (Visão da Realidade, pág. 42-43)

(…) A mente dividida por desejos distintos, cada qual a arrastá-la numa direção
diferente, é capaz (…) de descobrir o que é verdadeiro? Por conseguinte, não é muito
importante possuirmos autoconhecimento, aplicar-nos seriamente à operação de
compreender o “eu” com todas as suas contradições? (…) (Idem, pág. 43)

(…) Porque seriedade (…) supõe (…) aplicação ao aprender, quer dizer, aplicar toda a
atenção a estudar não apenas determinada matéria, uma particularidade da vida,
porém o todo da vida, que é um campo imenso. (…) Sério, ardoroso, apaixonado,
“intenso”, é aquele que procura compreender o inteiro processo da consciência, ou
seja, o todo da vida. (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 110)

Por conseguinte, para o homem sério, que deseja aprender, o primeiro requisito é que
esteja livre para investigar - isso significa não ter medo; que esteja livre para olhar,
observar, criticar; que seja inteligentemente cético, não aceite opiniões. (…) Como
antes dissemos, quando caminhamos com a luz de outrem, essa luz nos levará à
escuridão - não importa quem seja o que nos oferece a luz. Mas, para podermos
caminhar com a luz de nossa própria compreensão, é preciso atenção e silêncio e, por
conseguinte, muita seriedade. (Idem, pág. 110)

Pergunta: Que significa “ser sério”? Tenho a impressão de não ser “sério”.

Krishnamurti: Investiguemos (…). Não vou definir o que é “ser sério”; não aceiteis
definições de espécie alguma. Se um homem deseja descobrir uma nova maneira de
vida - uma vida livre de violência, ( …) de total liberdade interior, e a esse
descobrimento devota seu tempo, sua energia, seus pensamentos, tudo - a essa
pessoa eu chamaria de homem sério. Esse homem não se deixa facilmente desviar de
seu intento; poderá buscar entretenimentos, mas sua rota está traçada. Isso não
significa ser dogmático, obstinado, inadaptável. Ele está pronto a prestar ouvidos a
outros, a considerar, examinar, observar. (A Questão do Impossível, pág. 19)

Pode acontecer que, nessa seriedade, um homem se torne egocêntrico; esse


egocentrismo, de certo, o impedirá de examinar; mas o “homem sério” tem de prestar
ouvidos aos outros, examinar, indagar constantemente; isso significa que ele deve ser
altamente sensível. (…) Esse homem, pois, está sempre a escutar, a buscar, a
investigar, a descobrir - com um cérebro sensível, uma mente sensível, um coração
sensível - que não são coisas separadas; está a investigar com esse todo (…). (Idem,
pág. 19)
A mente vulgar, superficial, pode também tornar-se mui “séria”; mas, quando se torna
“séria”, torna-se também algo absurda. Não sei se já notastes como as pessoas de
mente vazia se mostram, freqüentemente, muito sérias. São muito loquazes, tomam
ares importantes (…); entretanto, continua a ser uma mente muito pouco profunda.
(Experimente um Novo Caminho, pág. 9)

E há, também, a mente muito lida, muito hábil no argumentar, no analisar, capaz de
aduzir citações, extraídas de seu vasto reservatório de conhecimentos. Como muito
bem sabeis, esse tipo de mente é solerte, incisiva, hábil, mas eu não a chamaria de
mente séria, nem tampouco à mente superficial que quer mostrar-se séria. (…) (Idem,
pág. 9-10)

Chamo séria à pessoa que está constantemente olhando, observando, atenta a si


própria e a outros, observando seus próprios gestos, palavras, sua maneira de falar,
(…) de andar; e que está também atenta às coisas que a cercam, às pressões, às
tensões, à influência do ambiente, da “cultura” em que se criou, e à totalidade de seu
próprio condicionamento. (…) Só essa mente é capaz de exame refletido, de dedicar
sua energia a descobrir algo além das coisas construídas pelo homem - algo que se
possa chamar Deus. (…) (Idem, pág. 10)

(…) Para que possam ser resolvidos esses dois problemas fundamentais, a violência e
o sofrimento, temos de ser sérios e possuir também certa capacidade de
percebimento, de atenção, porquanto ninguém pode resolvê-los para nós. (…) Para o
homem sério, as autoridades perderam toda a importância. É claro que não tem
sentido dependermos de nenhuma autoridade (…). (A Essência da Maturidade, p. 10-
11)

Ao que parece, há muito pouca gente verdadeiramente séria. Pela palavra “sério”,
entendo ter a capacidade de examinar um problema até o fim e resolvê-lo. Resolvê-lo,
não conforme as inclinações pessoais ou o temperamento de cada um, ou sob
pressão do ambiente, porém deixando tudo isso de parte e investigando até o fim a
verdade relativa a dada questão. Essa seriedade parece um tanto rara. (…) (A
Essência da Maturidade, pág. 10)

A maior parte de nós, em ficando graves, perde o senso de alegria. A seriedade sem
alegria, (…) em muitos casos é artificial, e por isso deve ser evitada. (…) (O Reino da
Felicidade, pág. 26)
(…) Se cultivardes a seriedade com a alegria que decorre do fato de o terdes em
vosso coração (o Eterno), como parte de vós mesmos, então essa seriedade se torna
deleite em vez de se tornar morbidez e expressões rudes. (…) (Idem, pág. 26)

Assim, pois, o descobrimento do que é verdadeiro no falso é a origem do


descontentamento - não só naquilo que o orador diz, mas (…) no que dizem os
políticos, (…) vossos gurus, (…) livros (…). Ver o que é falso, ver também a verdade
no falso, e ver a verdade como verdadeira. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed.,
pág. 81)

Pensar negativamente é o começo da inteligência. E dessa inteligência tendes


necessidade, para poderdes investigar o que é verdadeiro e o que é falso nas coisas
que o homem aprendeu desde a infância, como religião, como dogma, como crença
(…). Dessa inteligência necessitais para questionar, (…) investigar, (…) descobrir o
que é verdadeiro por vós mesmos e sem precisardes ser instruído por outra pessoa
sobre o que é a verdade. (…) (Idem, pág. 81)

Que é o falso? É falso tudo aquilo que o pensamento há acumulado -


psicologicamente, não tecnologicamente. Noutras palavras, o pensamento há
acumulado o “eu” e o “meu”, com suas recordações, sua agressão (…) separatividade,
suas ambições, sua competência, (…) imitação, seu medo; (…). De modo que o
pensamento, como o “eu”, que em essência carece por completo de realidade, é o
falso. Quando a mente compreende o que é o falso, então aí está a verdade. (…) Uma
mente que é ambiciosa, (…) que quer lograr algo, (…) que é agressiva, competitiva,
imitativa, (…) não pode compreender o que é o amor. (El Despertar de la Inteligencia,
II, pág. 157-158)

O verdadeiro e o falso não dependem de vossa opinião, ou daquilo que já sabeis, ou


de vossa experiência. Porque (…) é apenas a continuação do velho condicionamento,
modificado de várias maneiras pela educação. Por conseguinte, vossa experiência não
é o fator que indica o que é verdadeiro ou o que é falso. Tampouco o é o vosso
conhecimento, porquanto o verdadeiro e o falso estão constantemente a alterar-se, a
mover-se, constantemente ativos, dinâmicos, nunca estáticos.

E se tentais discerni-los com vossas opiniões, juízos, experiência, tradição, nunca


descobrireis por vós mesmos o que é verdadeiro, principalmente se estais sob o
domínio da autoridade - se vossa mente está a obedecer. A mente, então, (…) é
incapaz de explorar, de descobrir. E a verdade tem de ser descoberta a cada minuto, e
nisso consiste sua beleza. Sua beleza é sua energia. (…) (A Suprema Realização,
pág. 10)
Percebendo o artifício com que enganastes a vós mesmos, podeis então ver o falso
como falso. A luta, a perseguição de uma ilusão é o fator desintegrador. Todo conflito,
(…) vir a ser, é desintegração. Quando há percepção do artifício com que a mente
enganou a si própria, resta, então, só o que é. (…) Só nessa transformação há
integração. (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 194)
Conhecimento, Especialização, Excesso
Prejudicial
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:41

Por que vivemos acumulando conhecimentos? Fazemo-lo para alcançar a segurança,


que aliás é essencial em certo aspecto de nossa existência. Pensam alguns que o
conhecimento é meio de descobrimento. (…) O conhecimento não impede o
descobrimento? Como pode a mente descobrir coisas novas, se, na sua totalidade, ela
está preparada para juntar conhecimentos, saber? (…) A mente que possui
conhecimentos, (…) saber, deve ficar livre deles, para poder descobrir; (…) (Debates
sobre Educação, pág. 227)

Pergunta: Qual a diferença entre a acumulação da memória técnica ou dos afazeres


do dia-a-dia, e a acumulação da memória emocional?

Krishnamurti: Isso é muito simples, senhor. Por que o cérebro, como depósito da
memória, dá tanta importância ao conhecimento - tecnológico, psicológico e
relacionados? Por que o ser humano tem dado tão extraordinária importância ao
conhecimento? Possuo um escritório, torno-me um importante burocrata, o que
significa que tenho conhecimento de como realizar certas funções, e me torno
pomposo, estúpido, grosseiro. (Exploration into Insight, pág. 53)

Pergunta: É isso um desejo inato?

Krishnamurti: Isso dá segurança, obviamente. Dá status. O ser humano adora o


conhecimento identificado com o intelecto. O erudito, o estudioso, o filósofo, o
inventor, o cientista, estão todos apegados ao conhecimento e têm criado coisas
maravilhosas no mundo, como ir à Lua, construir novos tipos de submarinos, etc. Têm
inventado as mais extraordinárias e admiráveis coisas, sendo irresistível a maravilha
desse conhecimento, e nós o aceitamos. (…) (Idem, pág. 53)

(…) Portanto, tem-se desenvolvido uma desordenada admiração, quase chegando à


veneração, do intelecto. Isso se aplica a todos os livros sagrados e sua interpretação.
(…) Precisamos, pois, descobrir uma harmonia natural em que o intelecto atue com
perfeita lucidez, em que emoções e afeições, cuidado, amor e compaixão funcionem
saudavelmente, e o corpo, que tem sido tão despojado, (…) mal usado, volte a sua
condição própria. Como você consegue isso? (Idem, pág. 53-54)

Pergunta: Como se pode fazer a distinção entre o conhecimento e a descoberta do


novo?
Krishnamurti: É claro, senhor. Quando o conhecimento interfere, não há descoberta do
novo. Deve haver um intervalo entre o conhecimento e o novo; do contrário você está
apenas considerando como novo o velho. (…) Por que há divisão entre a mente, o
coração e o corpo? Vê-se isso. Como pode essa divisão chegar a um fim
naturalmente? Como você faz isso - através de esforço, (…) dos ideais que temos
sobre harmonia? (Idem, pág. 54)

Krishnamurti: Perguntávamos ontem por que o conhecimento se tem tornado tão


importante como meio de iluminação. Aparentemente, todos os mestres religiosos têm
insistido sobre o conhecimento, não só no Oriente senão também no Ocidente. E
como a tradição é tão forte neste país, resulta realmente importante descobrir que
papel representa todo esse pensar sistematizado na consecução da iluminação. (…)
(Tradición y Revolución, pág. 143)

Quando se tem desenvolvido destreza em algo, isso confere certo sentimento de bem-
estar, de segurança. E tal destreza, nascida do conhecimento, tem que se tornar
invariavelmente mecânica em sua ação. Destreza na ação é o que se tem buscado,
porque ela nos dá certa posição na sociedade, certo prestígio. Vivendo nesse campo
todo o tempo, (…) tal conhecimento e destreza se tornam não só aditivos, senão que
terminam por constituir um processo mecânico e reiterativo que, pouco a pouco,
adquire seus próprios incentivos, sua própria arrogância e poder. Nesse poder
encontramos segurança. (La Totalidad de la Vida, pág. 214)

Atualmente, a sociedade exige de nós mais e mais destreza - quer seja o indivíduo um
engenheiro, um tecnólogo, um cientista, um psicoterapeuta, etc. - porém existe um
grande perigo em buscar essa destreza que provém dos conhecimentos acumulados,
porque nesse crescimento não há claridade. Quando a destreza se torna sumamente
importante na vida, não só por ser o meio de ganhar a subsistência, senão porque o
indivíduo é educado totalmente para esse propósito (…), então a destreza produz
invariavelmente certo sentimento de poder, de arrogância e vaidade. (Idem, pág. 214)

O orgulho, a arrogância e a inveja decorrentes da eficiência em determinada função,


nos levam à competição, à desordem, à discórdia e à infelicidade. A plena
compreensão da vida traz um novo significado à atividade humana. Reduzir a vida ao
nível estreito e fragmentado da luta pelo pão, pelos prazeres do sexo, da riqueza, da
ambição, é fomentar desespero e interminável sofrimento. O cérebro opera na área
especializada do fragmento, nas atividades egocêntricas, dentro do estreito limite do
tempo. Por ser um fragmento, é incapaz de ver o todo da vida. Por mais hábil e
refinado que seja, o cérebro desenvolve uma ação limitada, parcial. É a mente que
contém o cérebro e não o contrário, e só ela poderá compreender o todo. (Diário de
Krishnamurti, pág. 102-103)

Tecnologicamente, os cientistas têm ajudado a reduzir as enfermidades, a melhorar os


meios de comunicação, porém também têm incrementado o poder devastador das
armas bélicas - o poder de assassinar de uma só vez um número imenso de pessoas.
Os homens de ciência não vão salvar a humanidade; nem o farão os políticos. (…) Os
políticos buscam poder, posição e empregam todos os estratagemas (…). E
exatamente o mesmo ocorre no chamado mundo religioso - a autoridade hierárquica,
(…) em nome de alguma imagem criada pelo pensamento. (La Llama de la Atención,
pág. 100-101)

A quem chamamos cientistas? Aos que trabalham em laboratórios e que, fora de tal
atividade, são seres humanos como nós, com preconceitos (…), com igual cupidez,
ambição e crueldade. Salvarão eles o mundo? Estão salvando o mundo? Não se estão
utilizando do conhecimento técnico mais para destruir do que para curar? Em seus
laboratórios podem estar buscando conhecimento e compreensão, mas não o fazem
movidos pelo “eu”, pelo espírito de competição, pelas paixões (…)?
(Autoconhecimento, Correto Pensar - Felicidade, pág. 166)

(…) Atuando como cientista, artista, padre, advogado, técnico ou fazendeiro, o cérebro
é essencialmente produto da especialização. Incapaz de transcender os próprios
limites, de sua atividade emanam o status social, os privilégios, o poder e o prestígio,
que ele, o cérebro, cria para proteger-se. Incapaz de ver o todo, a mente
especializada, com seu desejo de fama e poder, é a origem de todo conflito social.
(Diário de Krishnamurti, pág. 102)

O especialista é incapaz de conceber o todo; vive para a sua especialidade, ocupação


mesquinha do cérebro condicionado para ser religioso ou técnico. O talento e a
aptidão do homem tendem a fortalecer o egocentrismo e sua ação é sempre
fragmentada e conflitante. A capacidade humana só tem significado quando a mente
atinge a compreensão global da vida. Caso contrário, a eficiência, um dos subprodutos
da aptidão individual, torna seu portador implacável e indiferente à totalidade da vida
(…) (Idem, pág. 102)

(…) O cientista utiliza o seu saber para alimentar a vaidade, assim também o
professor, (…) os pais, (…) os gurus - todos querem ser alguém no mundo. (…) Que
sabem eles? Só sabem o que está nos livros (…) ou o que experimentaram, sendo
que suas experiências dependem do seu fundo de condicionamento. Os mais de nós,
pois, estamos cheios de palavras, de conhecimentos, a que damos o nome de saber;
e sem esse saber vemo-nos perdidos. O que existe, pois, é o temor, oculto logo atrás
da cortina das palavras e dos conhecimentos; (…). (Novos Roteiros em Educação,
pág. 114)

Assim, onde há temor, não há amor; e o saber sem o amor é destrutivo. É o que está
acontecendo no mundo, atualmente. Por exemplo, sabe-se como é possível alimentar
todos os seres humanos do mundo, mas não se começa a pôr isso em prática. (…) Se
se desejasse realmente pôr fim à guerra, haveria possibilidade de fazê-lo, mas nada
se faz, pelas mesmas razões. Assim, pois, o saber sem o amor não tem significação
alguma. (…) (Idem, pág. 114)

Os problemas que se apresentam a cada um de nós e, portanto, ao mundo, não


podem ser resolvidos pelos políticos nem pelos especialistas. Esses problemas não
resultam de causas superficiais, (…). Os especialistas podem oferecer-nos planos de
ação cuidadosamente elaborados, mas não são as ações planejadas que irão trazer-
nos a salvação, mas tão somente a compreensão do processo total do homem, isto é,
de vós mesmos. Os especialistas só têm capacidade para tratar de problemas num
nível exclusivo, com o que aumentam os nossos conflitos e a nossa confusão. (O
Caminho da Vida, pág. 25)

(…) Ora, para vos tornardes alguma coisa, precisais especializar-vos, (…) e tudo que
se especializa logo morre, declina, porque a especialização implica sempre falta de
adaptabilidade. Só o que é capaz de adaptação, de flexibilidade, pode subsistir. (…) (A
Arte da Libertação, pág. 134)

(…) Está visto, pois, que a especialização é prejudicial à compreensão do processo do


“eu”, que é autoconhecimento, uma vez que a especialização não permite a pronta
adaptabilidade; e tudo o que se especializa não tarda a morrer, a definhar. (Idem, pág.
135)

Assim, para se compreender a si mesmo, o indivíduo precisa de extraordinária


flexibilidade, e essa flexibilidade lhe é negada, se ele se especializa - na devoção, na
ação, no saber. (…) (Idem, pág. 135)

Ora, será que a compreensão de nós mesmos requer especialização? O especialista


conhece só a sua especialidade (…). Mas o conhecimento de nós mesmos requer
especialização? Acho que não, pelo contrário. A especialização implica a restrição do
processo total de nosso ser (…). Uma vez que precisamos compreender a nós
mesmos como processo total, não podemos especializar-nos. Porque especialização
significa exclusão (…). (Solução para os nossos Conflitos, pág. 74)
Pois bem (…) Atribuímos importância à feitura do instrumento, e esperamos, assim,
por meio do instrumento, conhecer a vida; eis a razão por que a educação moderna é
um verdadeiro fracasso; porque só tendes técnica, (…) cientistas maravilhosos,
portentosos físicos, matemáticos, construtores de pontes, conquistadores do espaço -
e daí? Estais vivendo? Somente como especialistas; mas, pode um especialista
conhecer a vida? Só deixando de ser especialista. (O Que te fará Feliz?, pág. 63)

Requer então a inteligência especialização, a inteligência que é a percepção integral


do nosso processo? E pode essa inteligência ser cultivada mediante qualquer forma
de especialização? Pois é isso que está acontecendo (…). O sacerdote, o médico, o
engenheiro, o industrial, o homem de negócios, o professor - temos a mentalidade da
especialização. E julgamos que, para alcançar a forma suprema da inteligência - que é
a verdade, (…) Deus, que não se pode descrever - julgamos que para alcançá-la
precisamos tornar-nos especialistas. (…) (El Despertar de la Inteligencia, pág. 77)

(…) Você não pode dividir a vida em vida tecnológica e vida não tecnológica. É o que
vocês têm feito, e é por isso que levam uma dupla vida. Então nos perguntamos: “É
possível viver tão plenamente que a parte esteja incluída no todo? (…) Atualmente
levamos uma dupla vida; (…). É assim que vocês dividem a vida e, portanto, ela é um
conflito entre as partes. E nós nos referimos a algo por completo diferente, a um modo
de viver no qual não haja divisão nenhuma. (…) (Idem, pág. 79)

Vede, em primeiro lugar, como a mente acumula saber e por que o faz; vede onde o
saber é necessário, e onde ele se torna um empecilho à liberdade. É óbvio que, para
fazermos qualquer coisa - conduzir um carro, falar uma língua, executar um trabalho
técnico - precisamos do saber. Precisamos de grande abundância de saber; quanto
mais eficaz, (…) mais objetivo, (…) mais impessoal, melhor; mas nós nos estamos
referindo àquele saber que condiciona psicologicamente. (Fora da Violência, pág. 133)

O “observador” é o reservatório do saber. O “observador”, por conseguinte, pertence


ao passado, ele é o censor, a entidade que julga com base no saber acumulado. O
mesmo ele faz com respeito a si próprio. Tendo adquirido dos psicólogos
conhecimentos sobre o “eu”, acredita o observador que conhece a si próprio. Ele se
olha com esses conhecimentos e, por conseguinte, não se olha com olhos novos. (…)
(Idem, pág. 133)

É possível libertar a mente do passado, por inteiro, e, se o é, como poderemos


esvaziá-la? Em certos setores, o conhecimento trazido do passado é essencial. (…)
Não podemos esquecer, pôr à margem, todos os conhecimentos técnicos que o
homem adquiriu através de séculos; mas eu estou falando a respeito da psique, que
tem acumulado tantos conceitos, idéias e experiências e se acha aprisionada nessa
consciência que tem por centro o observador. (A Importância da Transformação, pág.
14)

Cabe-nos descobrir por nós mesmos (…). O conhecimento, com efeito, tem muita
importância e significação. Se desejais ir à Lua, necessitais de extraordinários
conhecimentos tecnológicos; (…). Mas, esse próprio saber se torna sério empecilho
quando queremos descobrir uma maneira de viver totalmente harmoniosa (…). O
saber é o passado, e, se vivemos de acordo com o passado, então, é óbvio, surge
uma contradição: o passado em conflito com o presente. (…) (O Novo Ente Humano,
pág. 24)

Agora, ao perceberdes que o pensamento perpetua o prazer e o medo (…) - qual o


estado de vossa mente ao perceberdes essa verdade? E qual o estado da mente que
sabe quando o pensamento é necessário, quando deve ser empregado, logicamente,
objetivamente, equilibradamente, e sabe também que o pensamento, que é reação do
conhecimento, ou seja, do passado, se torna um obstáculo a uma maneira de viver
isenta de contradição? (…) (Idem, pág. 27)

Há, pois, uma ação que vem quando a mente está vazia de todo movimento de
pensamento, exceto aquele movimento que é necessário quando o pensamento deve
funcionar. A mente é então capaz de dar atenção aos fatos da vida diária. Mas, é ela
capaz de funcionar dessa maneira se sois muçulmano, budista, hinduísta, e estais
condicionado por esse fundo? Não o é, evidentemente. (…) Porque, se a psique não
for transformada, continuareis a fazer, exteriormente, as mesmas coisas - modificadas,
talvez, mas sempre segundo o velho padrão. (Idem, pág. 27)

Que lugar tem o conhecimento na transformação do homem? (…) O conhecimento é


necessário na vida diária, quando vamos ao trabalho, (…) exercemos diversas
habilidades, etc.; é necessário no mundo tecnológico, (…) científico. Porém, na
transformação da psique, do que somos, tem o conhecimento algum lugar? (La Llama
de la Atención, pág. 80)

(…) Perguntamo-nos se esse conhecimento psicológico pode alguma vez transformar


radicalmente o homem, para convertê-lo em um ser humano totalmente
descondicionado. Porque se há qualquer forma de condicionamento no psíquico, no
interno, é impossível encontrar a verdade. A verdade é uma terra sem caminhos, e
chega a nós quando nos livramos de todos os condicionamentos. (Idem, pág. 81)
Ora, o conhecimento é evidentemente essencial, pois, do contrário, não poderíamos
funcionar de maneira nenhuma. (…) Mas o conhecimento impede também a clareza
de percepção. O que quer que sejais, cientista, músico, artista, escritor – é só nos
intervalos em que vossa mente está livre de seus conhecimentos, que há movimento
criador. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 177)

A criação, pois, é algo que, não estando sujeito às limitações da mente ordinária, não
é continuo. (…) Mas uma mente que seja capaz de ficar silenciosa conhecerá aquele
estado que é eternamente criador; e essa é a função da mente (…). A função da
mente não consiste apenas em sua parte mecânica, (…) de coordenar as coisas, (…)
de destruir e tornar a coordenar. Tudo isso constitui a nossa mente ordinária, a mente
comum, que recebe sugestões (…) do inconsciente, mas (…) na rede do tempo. (…)
(Poder e Realização, pág. 85)

(…) Essa mente é produto da técnica; e quanto mais se cultivar a técnica, o “como”, o
método, o sistema, tanto menos se conhecerá “a outra coisa”, o estado criador.
Entretanto, temos necessidade da técnica (…). Mas quando essa mente mecânica, a
mente que está ligada à memória, à experiência, ao conhecimento, quando essa
mente existe só e funciona sozinha, sem a outra parte, é óbvio que ela só pode
conduzir à destruição. (…) (Idem, pág. 85-86)

(…) A técnica pode trazer-nos essa liberdade em que está ausente o “eu”? Só quando
o “eu” está ausente, há o poder de criar; a técnica, pelo contrário, dá apenas mais
força ao “eu”, ou o distrai, modificando-o ou expandindo-o – e isso por certo não nos
dá o poder criador. (Por que não te Satisfaz a Vida, pág. 131)

O saber é uma outra forma de propriedade, e o homem que possui saber está
satisfeito com ele; para ele, o saber é um fim em si. Tem ele a convicção (…) de que o
saber resolverá (…) os problemas (…). É muito mais difícil, para o homem de saber,
livrar-se de suas posses, do que para o homem de dinheiro. É extraordinária a
facilidade com que o saber toma o lugar da compreensão e da sabedoria. (…)
(Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 227-228)

O aumento da prosperidade e dos conhecimentos científicos, no mundo, não trará


felicidade maior. Poderá atender, em maior escala, às nossas necessidades físicas
(…). Poderá proporcionar mais confortos e comodidades – mais banheiros, melhores
roupas, mais geladeiras, (…) carros. Mas essas coisas não resolvem nossos
problemas fundamentais, que são muito mais profundos e prementes, e estão dentro
de nós. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 111)
Pergunta: Do que dizeis, concluo claramente que a cultura e o saber são empecilhos.
Empecilhos a quê?

Krishnamurti: É óbvio que o saber e a cultura constituem um empecilho à


compreensão do novo, do atemporal, do eterno. O desenvolvimento de uma técnica
perfeita não vos torna criador. Podeis saber pintar maravilhosamente, possuir a
técnica, mas podeis não ser um pintor criador. Podeis saber escrever poemas
tecnicamente perfeitíssimos, mas podeis, no entanto, não ser poeta. Ser poeta implica
(…) a capacidade de receber o novo, sensibilidade para reagir às coisas novas. (…) (A
Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 151)

Como mecânico, cientista, engenheiro, etc., necessitais da continuidade da memória,


pois do contrário não podereis exercer vossas funções. Mas a continuidade do
pensamento como feixe de lembranças relativas ao “eu” e ao “meu”, e as reações
desse pensamento condicionado, tudo isso é tempo psicológico, medo. (…) Assim,
para que o medo termine, é necessário que o pensamento termine. (…) (O Homem e
seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 24)

(…) A humildade é importante, porque a mente sem humildade não pode aprender.
Poderá acumular conhecimentos, reunir mais e mais informações, mas (…) são coisas
superficiais. Não sei por que tanto nos orgulhamos do nosso saber. Tudo se encontra
em qualquer enciclopédia, e é tolice acumular conhecimentos para satisfação do
orgulho e da arrogância pessoal. (Idem, 1ª ed., pág. 213)

(…) A mente que está abarrotada de fatos, de conhecimentos, será capaz de receber
qualquer coisa nova, inesperada, espontânea? Se a vossa mente está repleta do
conhecido, haverá espaço para receber alguma coisa procedente do desconhecido?
Não há dúvida de que o saber se refere sempre ao conhecido e com o conhecido
tentamos compreender o desconhecido, essa coisa que ultrapassa todas as medidas.
(A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 151)

(…) O que é eterno não pode ser procurado; (…). Ele se apresenta quando a mente
está tranqüila; e a mente só pode estar tranqüila quando é simples, quando já não está
armazenando, condenando, julgando, pensando. Apenas a mente simples pode
compreender o Real, e não a mente repleta de palavras, de conhecimentos, de
ilustração. A mente que analisa, que calcula, não é uma mente simples. (Percepção
Criadora, pág. 106-107)
Mente Computadora, Memória, Programação,
Repetição
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:44

Como já sabemos, a maioria de nós traz o passado para o presente, e o presente se


torna mecânico. Se observardes vossa própria vida, vereis quanto é mecânica!
Funcionais qual uma máquina, como imitação perfeita do cérebro eletrônico. (…) (O
Despertar da Sensibilidade, pág. 151)

(…) É preciso, pois, examinar a questão da memória. Memória, conhecimento,


experiência, todo o acúmulo de dados científicos e técnicos, são da maior importância
quando se trata de executar um trabalho material. (Idem, pág. 151)

Nas coisas de que necessitamos para viver, a memória deve funcionar com o máximo
de eficiência, qual um cérebro eletrônico. Este é capaz de coisas as mais
extraordinárias: pintar, escrever poemas, traduzir, e até dirigir uma orquestra. Mas
esse cérebro eletrônico só pode funcionar com os dados que lhe são fornecidos, por
associação, etc. (Idem, pág. 151)

E, quando se faz uma pergunta ao cérebro eletrônico, devem-se usar termos precisos;
senão, ele não responderá. Por isso mesmo, há hoje todo um conjunto de cientistas
empenhados em investigar a questão da ação na linguagem; mas não é este o
assunto que nos interessa no momento. (Idem, pág. 152)

Ora, há máquinas que pensam: os cérebros eletrônicos, os computadores. Nosso


pensar se processa de maneira semelhante? É ele reação da memória, que são as
experiências armazenadas, individuais e coletivas, reação à qual se junta a reação
nervosa? (…) O desafio constituído pela pergunta põe em ação o mecanismo do
pensamento e vem então a reação. (…) Ora, de que fundo (background) procede a
vossa resposta? ( O Passo Decisivo, pág. 19)

Pode-se ver (…) que nossa mente, nosso intelecto, se tornou mecânico. Somos
influenciados em todos os sentidos. Tudo o que lemos deixa-nos sua impressão, e
toda propaganda, sua marca. O pensamento é sempre convencional e, assim, o
intelecto e a mente se tornaram mecânicos, como uma máquina. Exercemos
mecanicamente nossas ocupações, mecânicas são nossas mútuas relações, e nossos
valores são simplesmente tradicionais. (…) (O Passo Decisivo, pág. 201)

É então muito importante que lancemos uma olhada em nossas relações; não só nas
relações íntimas, senão também na relação que estabelecemos com o resto do
mundo. (…) Eu posso ser um muçulmano e você (…) um hindu. Minha tradição diz:
“Eu sou muçulmano” – tenho sido programado como um computador para repetir “Eu
sou muçulmano” – e você repete “Eu sou hindu”. (…) (La Llama de la Atención, pág.
18)

O pensamento inventou o computador. Vocês precisam entender a complexidade e o


futuro do computador; ele vai superar o homem em seu pensamento, ele vai mudar a
estrutura da sociedade e (…) do governo. (…) O computador possui uma inteligência
mecânica; ele pode aprender e inventar. O computador vai tornar o trabalho humano
praticamente desnecessário – talvez duas horas de trabalho por dia. Essas são as
mudanças que estão chegando. (…) (A Rede do Pensamento, pág. 17-18)

Quando consideramos a capacidade do computador, então temos de nos perguntar: o


que deve fazer o ser humano? O computador vai assumir o comando das atividades
do cérebro. E o que, então, acontecerá no cérebro? Quando as ocupações de um ser
humano forem assumidas pelo computador, pelos robôs, qual será o destino do ser
humano? (Idem, pág. 18)

Nós, seres humanos, fomos “programados” biologicamente, intelectualmente,


emocionalmente, psicologicamente, durante milhares de anos, e vivemos a repetir o
padrão do programa. Nós paramos de aprender e devemos indagar se o cérebro
humano (…) será capaz de aprender e transformar-se imediatamente numa dimensão
totalmente diferente. (Idem, pág. 18)

Se não formos capazes disso, o computador, que é muito mais capaz, rápido e exato,
irá assumir o comando das atividades do cérebro. Isso não é uma coisa casual; este é
um assunto por demais sério, desesperadamente sério. O computador pode inventar
uma nova religião. Ele poderia ser programado por um douto especialista (…). E nós,
se não estivermos cônscios do que está acontecendo, seguiremos essa nova estrutura
produzida pelo computador. (…) (Idem, pág. 18)

(…) Os computadores eletrônicos são muito semelhantes à mente humana, só que


nós somos um pouco mais engenhosos – pois somos seus criadores; mas eles
funcionam exatamente como nós (…), por meio de reação, repetição, memória. (…)
Por conseguinte, o problema urgente é este: Como libertar o intelecto e a mente?
Porque, se não há liberdade, não pode haver ação criadora. (…) E isso exige
capacidade de raciocinar, de sentir, para quebrarmos a tradição e destroçarmos todas
as muralhas que erguemos para nossa segurança. (…) (O Passo Decisivo, pág. 201)
Se penetrardes mais na questão do pensar, alcançareis um estado mental em que
dizeis: “Não sei”. (…) Aí é que está a diferença entre o computador eletrônico e a
mente humana. (…) “Não sei” representa um extraordinário estado mental, quando
realmente o compreendemos. (…) E não é necessário dizermos “Não sei”, para que a
mente esteja sempre a aprender, (…) fresca, inocente, jovem? Só a mente jovem diz
“Não sei”. (…) (A Suprema Realização, pág. 47)

O nosso ego, (…) personalidade (…) é inteiramente formada pela memória (…) Não
há nenhum lugar ou espaço onde haja claridade (…). Vocês podem investigar isto: se
estiverem indagando seriamente, verão que o “eu”, o ego, é todo memória,
lembranças. (…) Nós funcionamos, (…) vivemos da memória. E, para nós, a morte é o
fim dessa memória. (A Rede do Pensamento, pág. 104)

Qual a função da memória? (…) Esse aprendizado desenvolve a memória, porque


precisais dessa memória para poderdes desempenhar satisfatoriamente uma função
qualquer. (…) Mas eu temo a memória psicológica: as coisas que me dissestes, as
ofensas, as lisonjas, os insultos que me dirigistes. (…)

Há, por conseguinte, as imagens que eu formei acerca de vós e as imagens que a
meu respeito formastes. Essas memórias se conservam e se acrescentam
continuamente. Essas memórias é que irão reagir. Por conseguinte, o pensamento,
sendo resultado da memória, é sempre velho; nunca é novo e, portanto, nunca é livre.
(…) (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 176)

A memória, na forma de conhecimento, de acumulação de experiências, de coisas que


o homem vem juntando há milhões de anos – a memória é o passado, consciente ou
inconsciente; nela estão depositadas todas as tradições. E com tudo isso vindes para
o presente, para o agora e, por conseguinte, não estais realmente vivendo. Estais
“vivendo” com as lembranças, as cinzas frias de ontem. Observai a vós mesmos (…).
(O Despertar da Sensibilidade, pág. 151 -152)

Será bem formada a mente que repete, como um gramofone, tudo o que lhe foi dito?
Nisto tem consistido a nossa educação. Conhecer fatos, datas, citá-los uma vez por
ano, na ocasião dos exames. Podemos chamar isso de cultivo de uma mentalidade
criadora? (…) Mas o simples acúmulo de conhecimentos, sinônimo de
desenvolvimento da memória, é apenas um processo aditivo. Ele não forma um
espírito lúcido, criterioso (…). (Ensinar e Aprender, pág. 111)

Entretanto, uma boa memória tem o seu valor, não só para a lembrança de certas
coisas, mas para o preparo técnico ou especializado. Então, em que ponto a memória
interfere com uma mente sã, apta a explanar, investigar, descobrir? Que relação existe
entre a memória e a autêntica liberdade? (Idem, pág. 111)

Consideremos o problema de outra maneira. A memória, sem dúvida, é tempo (…).


Isto é, (…) cria o ontem, o hoje, o amanhã. A memória de ontem condiciona o hoje e,
portanto, molda o amanhã. Isto é, o passado, através do presente, cria o futuro. (…)
Assim, através do tempo, esperamos alcançar o atemporal, (…) o eterno. (…) Pode-se
captar o eterno na rede do tempo, por meio da memória, que pertence ao tempo? (A
Arte da Libertação, pág. 114)

O atemporal só pode ter existência quando cessa a memória, que é o “eu” e o “meu”.
Se percebeis a verdade aí contida – isto é, que através do tempo não se pode
compreender ou captar o atemporal – podemos então entrar no problema da memória.
A memória de coisas técnicas é essencial; mas a memória psicológica, a que mantém
o “eu” e o “meu”, a que dá identificação e continuidade pessoal, essa é de todo
prejudicial à vida e à realidade. (…) (Idem, pág. 114)

São sutis as atividades de acumulação; a acumulação é a afirmação do “eu”, tal como


o é a imitação. Chegar a uma conclusão é erguer uma muralha ao redor de si mesmo,
uma proteção segura, que impede a compreensão. (…) (O Egoísmo e o Problema da
Paz, pág. 249)

Quando não há acumulação, não existe o “eu”. Uma mente oprimida pela acumulação
é incapaz de acompanhar o célere movimento da vida, (…) de uma vigilância profunda
e flexível. (Idem, pág. 249-250)

A função do cérebro é registrar, como o faz um computador. Ele registra o prazer, e o


pensamento o provê de energia e de impulso para perseguir o prazer. (…) Então o
pensamento diz que tem de haver mais, e persegue esse “mais”. (…) É possível
registrar só aquilo que é absolutamente necessário e nenhuma outra coisa? Nós
registramos continuamente tantas coisas desnecessárias, e desse modo erigimos a
estrutura do “eu”, do “mim” mesmo – “eu” me sinto ofendido; “eu” não sou o que
deveria ser (…). A totalidade desse registrar é uma ação que outorga importância ao
“eu”. (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 201)

A atividade de acumular, adicionar, é obstáculo à compreensão do Real. Onde há


acumulação, há vir-a-ser do “ego”, que causa conflito e dor. O desejo acumulador, que
busca o prazer e evita o sofrimento, é um vir-a-ser. A vigilância não é atividade de
acumulação, porquanto está sempre descobrindo a verdade, e a verdade só pode
existir onde não houver acumulação, (…) imitação. Um esforço da parte do “ego” não
pode nunca trazer-nos liberdade, uma vez que todo esforço implica resistência, e só é
possível dissolver a resistência se houver vigilância imparcial, discernimento livre de
esforço. (…) A percepção da verdade é libertadora (…). (O Egoísmo e o Problema da
Paz, pág. 268-269)

A meditação é a purificação da mente de todas as suas acumulações; é expurgá-la da


capacidade de adquirir, de identificar, de vir a ser; expurgá-la da expansão do “eu”, do
preenchimento do “eu”. A meditação é o libertar a mente da memória, do tempo. O
pensamento é produto do passado (…). O pensamento é a continuidade dessa
atividade acumuladora que é o vir-a-ser, e nenhum resultado é capaz de compreender
ou sentir aquilo que não tem causa. O que se pode formular não é o Real, e a palavra
não é a “experiência”. A memória, a criadora do tempo, é um obstáculo entre nós e o
Atemporal. (Idem, pág. 269)

A memória, como processo identificador, empresta continuidade ao ego. A memória,


pois, é uma atividade circunscrita e estorvante. Sobre ela está edificada toda a
estrutura do ego. Estamos considerando a memória psicológica, não a memória
relativa à linguagem, aos fatos, ao desenvolvimento de uma técnica, etc. Toda a
atividade do ego é um obstáculo no caminho da verdade; (…). (O Egoísmo e o
Problema da Paz, pág. 269-270)

O conhecimento condicionado é um empecilho a que conheçamos a Realidade. Vem-


nos a compreensão depois de cessarem todas as atividades da mente – quando ela
estiver de todo livre, silenciosa, tranqüila. O ansiar é sempre atividade acumuladora e
dependente do tempo; o desejo de um objetivo, (…) de saber, de experiência,
desenvolvimento, preenchimento, até mesmo o desejo de Deus ou da Verdade, é um
empecilho. Deve a mente expurgar-se de todos os empecilhos por ela criados, para
que surja a suprema sabedoria. (Idem, pág. 270)

Desse modo, você está cônscio da extensão em que seu cérebro está sendo
programado? (…) Se está ciente de que está programado, condicionado, você
pergunta: “Foi o conhecimento que me condicionou?” Aparentemente foi. Então por
que é que a estrutura da psique é essencialmente baseada no conhecimento? Você
entende? A psique, o “mim”, o “eu”, é essencialmente um movimento do
conhecimento, (…) que é uma série de memórias. (The World of Peace, pág. 20-22)

O que é necessário registrar e o que não é necessário registrar? O cérebro está


ocupado todo tempo registrando e, portanto, não há tranqüilidade, (…) quietude; ao
passo que, se há claridade com relação ao que se deve e ao que não se deve
registrar, então o cérebro está mais quieto – e isso é parte da meditação. (La Totalidad
de la Vida, pág. 201)

Registrar só o que é absolutamente indispensável (…). É algo maravilhoso (…),


porque então há verdadeira liberdade – liberdade com relação a todo o conhecimento
acumulado, à tradição, à superstição e à experiência, coisas que têm edificado esta
enorme estrutura à qual o pensamento se aferra em sua condição de “eu”. Quando o
“eu” está ausente, surge a compaixão, e essa compaixão traz consigo claridade. Com
essa claridade, há entendimento. (Idem, pág. 202)

Onde há registro desnecessário, não há amor. Se se quer compreender a natureza da


compaixão, há de se investigar o problema do que é o amor, e descobrir se existe
amor sem nenhuma forma de apego, com todas as complicações, (…) prazeres e
temores associados ao apego. (Idem, pág. 202)
Intelecto, Erudição, Sapiência; Mediocridade,
Talento
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:46

Acho necessário compreender todo o mecanismo do pensamento porque, se não o


compreendermos, haverá inevitavelmente irracionalidade, pensar desequilibrado, e
isso, naturalmente, não é uma maneira saudável de pensar. Precisamos de uma razão
clara, de pensamento lógico, preciso. (…) (A Mutação Interior, pág. 72)

Porque a mente, o cérebro é incapaz de - verdadeira, desapaixonada e objetivamente


- olhar, observar, sentir, perceber, com perfeito equilíbrio, de maneira sã, não pode
evidentemente ir muito longe. Assim, cumpre-nos descobrir o que é pensar e, ao
mesmo tempo, descobrir a contradição existente entre o pensador e o pensamento.
Enquanto existir essa contradição, é inevitável o esforço e, por conseguinte, o conflito.
(Idem, pág. 72-73)

O pensamento é sempre particular, limitado, dividido; em si mesmo, ele é incompleto e


não pode jamais tornar-se completo. (…) O que (…) o pensamento crie, filosófica ou
religiosamente, é ainda parcial, limitado, fragmentário, e é parte da ignorância. (…)
(Perguntas e Respostas, pág. 66)

A experiência que se acumula no cérebro como memória é o conhecimento, e a


reação a essa memória é o pensar. O pensamento é um processo material - nada há
de sagrado nele. A imagem que adoramos como algo sagrado continua sendo parte
do pensamento. O pensamento é sempre dividido, separativo, fragmentário, (…)
jamais é completo acerca de nada. (…) (La Llama de la Atención, pág. 85)

Todas as nossas ações se baseiam no pensamento; portanto, toda essa ação é


limitada, fragmentária, dividida, incompleta - jamais pode ser holística. O pensamento,
quer seja do maior dos gênios - pintores, músicos, cientistas - ou o insignificante
pensamento de nossa atividade cotidiana, é sempre limitado, fragmentário, dividido.
Qualquer ação que nasça desse pensamento tem de originar conflito. (…) (Idem, pág.
85)

O intelecto tem o poder de raciocinar, de reunir dados, qual um computador, para


funcionar de forma objetiva e sã. (…) Ele examina, explora. Mas, se o intelecto está
condicionado por exigências e preconceitos pessoais, (…) por seu meio cultural, ele é
incapaz de explorar, (…) de compreender. O intelecto jamais descobrirá a solução
desses problemas. (O Novo Ente Humano, pág. 94)
O intelecto, a mente, como tal, só é capaz de repetir, de recordar-se, e está sempre
fabricando palavras novas e reajustando palavras velhas; (…) vivemos apenas de
palavras e repetições mecânicas. Isso, evidentemente, não é criação (…). (A
Educação e o Significado da Vida, pág. 146)

(…) Porque a intelectualidade, sem aquela força criadora da realidade, não tem
significação alguma; só leva à guerra, a mais misérias e sofrimentos. É possível, pois,
a existência daquele estado criador, ao mesmo tempo em que está funcionando a
mente mecânica, a mente técnica? Uma coisa exclui a outra? (Poder e Realização,
pág. 86)

Só há exclusão do Real, sem dúvida, quando o intelecto, que é a parte mecânica,


assume a máxima importância; quando as idéias, as crenças, os dogmas, as teorias,
as invenções do intelecto se tornam sumamente importantes. Mas, quando a mente se
acha em silêncio e a realidade criadora se manifesta, então a mente ordinária tem
significação de todo diferente. (…) (Idem, pág. 86)

(…) A mente ordinária, então, estará também numa revolta contínua contra a técnica,
o “como”. Conseqüentemente, ela não mais pedirá o “como” e não mais se preocupará
com a virtude. A mente silenciosa, (…) que se acha num estado de completa
tranqüilidade, (…) que é o desconhecido, a força criadora do real, essa mente não
necessita de virtude. Porque, nesse estado, nunca há luta. Só a mente que luta para
“vir a ser” necessita de virtude. (Idem, pág. 86)

Assim, pois, enquanto atribuirmos exagerada importância ao intelecto, à mente que


adquire saber, ilustração, experiência e lembranças, não existirá a “outra coisa”. Pode-
se, em certas ocasiões, ter rápidas visões da “outra coisa”; mas essas visões são
reduzidas imediatamente às medidas do tempo, resultando daí o desejo da repetição
das experiências e o fortalecimento da memória. (…) (Idem, pág. 86-87)

(…) Ser apenas prendado ou talentoso em alguma área, isso, evidentemente, não
indica capacidade de criar. Acho que a ação criadora nasce da capacidade de ver a
vida como uma totalidade e não fragmentariamente, de pensar e sentir como um ente
humano completamente integrado. (…) (Visão da Realidade, pág. 74)

A paz não é uma idéia oposta à guerra. A paz é um modo de vida; (…) porque só
haverá paz quando compreendermos o viver de cada dia. (…) O culto do intelecto, em
oposição à vida, conduziu-nos à atual frustração, com suas inumeráveis vias de fuga.
Essas vias de fuga se tornaram muito mais importantes do que a compreensão do
próprio problema. (A Arte da Libertação, pág. 248)
A presente crise nasceu do culto do intelecto, e foi o intelecto que dividiu a vida numa
série de ações opostas e contraditórias; foi o intelecto que negou o fator de unificação
que é o amor. (Idem, pág. 248)

O intelecto encheu o nosso coração, que estava vazio, com as coisas da mente; e só
quando a mente está cônscia do seu próprio raciocinar, é capaz de se transcender a si
mesma; só então haverá o enriquecimento do coração. Só o incorruptível
enriquecimento do coração pode trazer paz a este mundo louco e cheio de lutas.
(Idem, pág. 248)

Pergunta: É verdade que não podemos servir-nos da razão para descobrir o que é
verdadeiro?

Krishnamurti: Senhor, que se entende por razão? A razão é pensamento organizado,


como a lógica são idéias organizadas (…). E o pensamento, por mais inteligente, (…)
vasto, (…) erudito que seja, é limitado. (…) O pensamento nunca pode ser livre. O
pensamento é reação, reação da memória; é “processo” mecânico. Ele poderá ser
razoável, (…) ser são, (…) ser lógico, mas é limitado. (O Passo Decisivo, pág. 197)

É como os computadores. E o planejamento nunca pode descobrir o que é novo. O


intelecto adquiriu, acumulou (…) experiências, reações, lembranças; e quando essa
coisa pensa, está condicionada e, portanto, não pode descobrir o novo. Quando,
porém, esse intelecto compreendeu todo o processo da razão, da lógica, do investigar,
do pensar - não rejeitou, mas compreendeu - então ele se torna quieto. (…) E então
esse estado de quietude pode descobrir o que é verdadeiro. (Idem, pág. 197)

A compreensão provém do saber? Ou o saber impede a compreensão criadora?


Parecemos pensar que, se acumulamos fatos e conhecimentos, se possuímos um
saber enciclopédico, ficaremos livres dos grilhões que nos prendem. Isso
simplesmente não é verdadeiro. O antagonismo, o ódio e a guerra não deixaram de
existir (…). O saber não é necessariamente um preventivo contra essas coisas; pelo
contrário, pode estimulá-las e favorecê-las. (…) (Reflexões sobre a Vida, pág. 226-
227)

Embora haja atualmente tanto saber, em tão variados campos, isso não fez cessar a
brutalidade do homem para com o homem, mesmo entre membros do mesmo grupo,
nação ou religião. É possível que o saber nos esteja tornando cegos para um outro
fator, que bem pode representar a solução real de toda esta confusão e miséria.
(Idem, pág. 227)
A paixão pelo saber é como outra paixão qualquer; oferece uma fuga aos terrores do
vazio, da solidão, da frustração, do ser nada. A luz do saber é um manto suntuoso,
debaixo do qual está a escuridão (…). A mente tem pavor a esse desconhecido e, por
essa razão, foge para o saber, (…) as teorias, as esperanças, a imaginação; e
justamente esse saber constitui obstáculo à compreensão do desconhecido. (…) A
compreensão do “eu” é a libertação das prisões do saber. (Comentários sobre o Viver,
pág. 24)

Sempre nos aplicamos a uma coisa armados de saber, (…) de conclusões já


formadas, e com esses padrões de pensamento atravessamos a existência; o saber,
por conseguinte, se torna um obstáculo ao descobrimento da Verdade. Se desejo
conhecer a verdade a respeito de mim mesmo, tenho de descobrir a mim mesmo, a
cada minuto, exatamente como sou, e não como fui ou como desejo ser. (Viver sem
Temor, pág. 15)

Assim, pois, a mente que quer descobrir o que é verdadeiro, tem de estar livre do
saber. Se observardes, porém, vereis que vossa mente está sempre a acumular
conhecimentos, a armazenar conhecimentos (…) Nossas mentes nunca estão livres
para serem tranqüilas, porque estão repletas de conhecimentos, de saber. Sabemos
demais, mas na verdade nada sabemos sobre coisa alguma, e com essa imensa
carga às costas queremos ser livres. (Idem, pág. 15-16)

Mas o fato é que não estamos cônscios disso; e (…) resistimos, por acharmos que o
saber é essencial à libertação. Ora, por certo, o saber é um empecilho, um obstáculo
ao descobrimento do que é verdadeiro. A Verdade tem de ser uma coisa viva,
totalmente nova a cada segundo; e como pode a mente que acumula saber,
conhecimento, compreender o que é desconhecido? Chamai-o Deus, (…) Verdade
(…). (Idem, pág. 16)

(…) Também, para fugir de nós mesmos, a instrução se torna extraordinariamente


importante; mas o saber, evidentemente, não é o caminho da realidade. A mente
precisa estar de todo vazia e tranqüila, para que a realidade possa despontar. Mas
uma mente que vive alardeando o seu saber, uma mente afeiçoada a idéias e crenças,
e sempre a tagarelar, essa mente é incapaz de receber “o que é”. (…) (Nós Somos o
Problema, pág. 66-67)

É bem claro que a erudição e o saber representam um empecilho à compreensão do


que é novo, do infinito, do eterno. Positivamente, a aquisição de uma técnica perfeita
não nos faz criadores. Podeis saber pintar maravilhosamente, dominar a técnica, mas
talvez não sejais um pintor criador. Podeis saber escrever poemas, com a máxima
perfeição técnica, mas é possível que não sejais poeta. (Solução para os nossos
Conflitos, pág. 25)

Ser poeta implica a capacidade de receber coisas novas, ter sensibilidade para o que
é novo, original. Mas, para a maioria de nós, o saber, a erudição, se tornou devoção, e
julgamos que com o saber seremos criadores. Uma mente abarrotada de fatos e saber
é capaz de receber o que é novo, súbito, espontâneo? Se vossa mente está repleta do
conhecido, haverá nela espaço para receber o que vem do desconhecido? Certo, o
saber vem-nos sempre do conhecido; e com o conhecido queremos compreender o
desconhecido, o imensurável. (Idem, pág. 25)

Positivamente (…) é preciso que haja a eliminação, pelo entendimento, do processo


do conhecido. (…) A sua natureza mesma está fixada no conhecido, no tempo; e como
pode uma mente em tais condições, cujos alicerces se assentam no passado, no
tempo, ter a experiência do atemporal? (…) Só pode vir à existência o desconhecido
quando o conhecido é compreendido, dissolvido, posto de parte. (…) (Idem, pág. 26)

Quando dizemos que a erudição ou o saber é um empecilho, não nos referimos ao


conhecimento técnico - saber dirigir um automóvel, manejar uma máquina - ou à
eficiência proporcionada por tal conhecimento. Temos em mente coisa muito diversa:
aquele sentimento de felicidade criadora que nenhuma soma de saber ou erudição nos
pode dar. (…) (Idem, pág. 27)

Era um homem instruído, versado em literatura clássica, e que costumava fazer


citações dos antigos em abono dos seus próprios pensamentos. Seria mesmo de
admirar que ele tivesse pensamentos independentes dos livros. Naturalmente, não há
pensamento independente; todo pensamento é dependente, condicionado. (…) Pensar
é ser dependente; o pensamento não pode, nunca, ser livre. (…) (Comentários sobre o
Viver, pág. 166)

(…) Mas aquele homem dava muita importância à erudição; estava carregado de
saber, e o erguia bem alto. Começou logo falando em sânscrito e ficou muito surpreso
e até um pouco chocado, ao ver que o sânscrito não era entendido. (…) (Idem, pág.
166)

É singular a importância que damos à palavra impressa, aos chamados livros


sagrados. Os letrados, assim como os leigos, são gramofones; repetem sempre as
mesmas coisas, embora se mudem os discos; importa-lhes o saber, e não o viver, o
experimentar. O saber é um empecilho ao experimentar. (…) O saber é um apego,
como a bebida; o saber não traz compreensão. O saber pode ser ensinado, a
sabedoria não; precisa-se estar livre do saber, para que venha a sabedoria. (…) (Idem,
pág. 167)

Aquele homem se considerava vastamente erudito e, para ele, o saber era a própria
essência da vida. A vida sem o saber era pior do que a morte. Seu saber não se cingia
a uma ou duas matérias, mas abarcava muitos aspectos da vida; (…). Tinha um
orgulho extraordinário de seu saber e, como bom exibicionista, usava-o para
impressionar; diante dele, os outros se calavam, respeitosos. Como nos espanta o
saber, e que reverente respeito tributamos ao homem que sabe! (…) (Comentários
sobre o Viver, 1ª ed., pág. 203-204).

O saber condiciona. O saber não dá liberdade. (…) O saber não é fator criador, pois o
saber é contínuo, e o que tem continuidade nunca pode levar ao implícito, ao
imponderável, ao desconhecido. O saber é um empecilho ao manifesto, ao
desconhecido. O desconhecido não pode ser vestido com o conhecido. (…) (Idem,
pág. 204)

Há descobrimento, não quando a mente está repleta de saber, mas quando o saber
está ausente; só então há quietude e espaço, e nesse estado é que se realiza a
compreensão, o descobrimento. Não há dúvida de que o saber é útil, no seu nível
próprio; noutro nível, porém, ele é positivamente nocivo. Quando o saber é utilizado
como meio de autoglorificação, para nos encher de vento, ele é então danoso,
gerando divisão e inimizade. A expansão do “eu” (…) é desintegração. (…) (Idem, pág.
204)

Pergunta: Por que será que quase todos os seres humanos, salvo seus talentos e
capacidades, são medíocres? Eu sei que sou medíocre (…)

Krishnamurti: Você está cônscio de que é medíocre? (…) Os grandes pintores, (…)
músicos, (…) arquitetos, têm capacidade e talentos extraordinários, mas em sua vida
quotidiana são como você e eu, como qualquer outra pessoa. (…) (Perguntas e
Respostas, pág. 118)

(…) Se você está cônscio de que é medíocre, o que isso significa? Você pode ter
grande talento como escritor, escultor, músico, professor, mas isso tudo é um adorno
exterior, uma aparência exterior, que esconde uma pobreza interior. Sendo pobres
interiormente, estamos sempre nos esforçando por ser algo mais nobre. (Idem, pág.
118)
(…) As tentativas de preencher essa insuficiência (…), tudo isso é um ato de
mediocridade. A sensação de mediocridade aparece como respeitabilidade exterior. E
existe outro tipo de revolta contra a mediocridade: os hippies, os cabeludos, os
barbudos, os últimos marginais. O mecanismo é o mesmo. (…) (Perguntas e
Respostas, pág. 118)

(…) Ou você se integra numa comunidade, pois interiormente não há nada em você;
integrando-se, você se torna importante, e há ação. Quando você está cônscio dessa
mediocridade, dessa total sensação de insuficiência, dessa sensação de frustrante
solidão profunda, você percebe que ela está oculta em todo tipo de atividades. (…)
(Idem, pág. 118-119)

Essa mediocridade, que todos nós parecemos ter, pode ser rompida quando não há
sensação de comparação, de mensuração. Isso lhe dá uma liberdade imensa. Quando
há liberdade psicológica completa, não há sensação de mediocridade. Você está
inteiramente fora dessa classe - existe então um estado mental totalmente diferente.
(Perguntas e respostas, pág. 119)

Em geral, vivemos num ambiente de agressão, violência, brutalidade e, como os que


nos rodeiam, somos impelidos pela ambição, pelo impulso de preencher-nos.
Qualquer talento que tenhamos - qualquer insignificante capacidade para pintar
quadros, escrever poemas, etc. - exige “expressão”, e disso fazemos uma coisa de
enorme importância, por meio da qual esperamos conquistar glória ou renome. Em
graus diferentes, tal é a vida de todos nós, com todas as suas satisfações, frustrações
e desesperos. (Experimente um Novo Caminho, pág. 51)

O talento pode tornar-se uma maldição. O “eu” pode servir-se de nossas capacidades
para sua proteção própria, e o talento se torna então o meio de glorificação do “eu”. O
homem bem dotado poderá oferecer os seus dotes a Deus, conhecendo o perigo que
eles representam; mas esse homem está cônscio dos seus dotes, pois do contrário
não iria oferecê-los, e é essa consciência de ser ou de ter alguma coisa que precisa
ser compreendida. A oferenda do que uma pessoa é ou tem, com o propósito de ser
humilde, é vaidade. (Reflexões sobre a Vida, pág. 224)

Pergunta: Sou inventor, e acontece que inventei várias coisas que foram utilizadas
nesta guerra. Considero-me infenso ao assassínio, mas que fazer de minha
capacidade? (…) O espírito inventivo me impulsiona.
Krishnamurti: Qual dos dois problemas - segundo o vosso pensar-sentir - é mais
importante (…): o poder de matar ou a capacidade inventiva? (…) (O Egoísmo e o
Problema da Paz, pág. 88-89)

(…) Se só vos interessa o inventar, a mera expressão do vosso talento, deveis então
descobrir por que lhe atribuís tanta importância. A vossa capacidade não vos
proporciona uma via de fuga da vida, da realidade? Não é então o vosso talento uma
barreira às relações com os semelhantes? (Idem, pág. 89)

Ser é estar em relação, e nada pode existir no isolamento. Assim, pois, sem
autoconhecimento, a vossa capacidade inventiva torna-se perigosa para o próximo e
para vós mesmo. (Idem, pág. 89)

Vossa profissão contribui para o extermínio de vosso semelhante? (…) Se o resultado


final da presente civilização é o assassínio em massa, que significação tem o vosso
talento? (…) (Idem, pág. 89)

Precatai-vos do mero talento. Com autoconhecimento, o anseio de preenchimento


pessoal se transforma. O anseio de preenchimento traz a sua própria frustração e
desilusão, porquanto o desejo de preenchimento pessoal resulta da ignorância. (Idem,
pág. 89-90)

O fato é que existe essa complexidade, e pretendemos alterar o fato em termos de


tempo, e não em termos de existência. Isto é o que se chama mediocridade. Não
estou empregando essa palavra comparativamente, isto é, entendendo que um
homem deve ser inteligente, mais brilhante, mais genial, mais apto para criar. (…)
Entretanto, se a traduzis em termos de mais e de menos (…) ficareis extraviados (…).
(O Problema da Revolução Total, pág. 39)

(…) A mente medíocre é incompleta. Não falo agora da mente que quer ser mais; mais
inteligente(…); da mente que não é criadora e por isso luta para ser criadora: escrever
poemas (…). Estou falando da mente que é medíocre. Agora, vereis (…) que a mente
pede logo uma definição: “que é medíocre”? De posse da definição, refletireis de
acordo com ela e a aceitais ou rejeitais. (…) (Idem, pág. 39-40)

Cumpre-nos, por conseguinte, investigar o que é “mediocridade” - não a definição, não


“como tornar a mente que é medíocre (…) diferente do que é”. Temos realmente de
descobrir por nós mesmos o que é mediocridade, e não como nos tornarmos menos
ou mais medíocres; (…). E a mente que não está procurando tornar-se algo seria essa
mente medíocre, estacionária? (…) (Idem, pág. 40)
Da investigação sobre o que é mediocridade, resulta a pergunta: “Que é criação?” Se
um homem pinta um quadro, escreve poemas, profere uma conferência, ou utiliza
seus poderes como meio de compelir outros, a fim de tornar mais importante a sua
pessoa - isso é criação? Ou criação é coisa totalmente diversa? (…) (O Problema da
Revolução Total, pág. 41)

Quando a mente compara - porque, em razão do seu temor ou seu desejo de certeza,
ou de mais segurança econômica, ela deseja “vir a ser” - não está aí a mente
medíocre, vale dizer, a mente medrosa? Enquanto houver temor, tem de haver
comparação, (…) o processo de “vir a ser”, da imitação, do ajustamento. Não é, pois, a
mediocridade o estado próprio da mente que (…) encontra aí um modo fácil de
apaziguar o seu descontentamento? (Idem, pág. 42-43)

Não é, pois, medíocre a mente que sempre se está esforçando por “vir a ser”, não só
neste mundo aquisitivo, mas também no chamado mundo espiritual, que subentende o
princípio hierárquico? - “Vós sabeis e eu não sei; vós sois o guru que me guia (…)”.
Todo esse processo mental denota um espírito medíocre. O “vir a ser”, fora do que é -
“Sou pequeno; sou ignorante; sou isto e quero tornar-me aquilo, (…) o mais excelente”
(…); esse perene vir-a-ser, no desejo de mais, (…) não é a causa de todo
descontentamento? (…) (Idem, pág. 43)

(…) Vosso próprio desejo de transformar a vossa mente medíocre numa coisa
superior, vos está impedindo de ser criador - não a criação que consiste em escrever
poemas, por mais geniais e mais maravilhosos que sejam. Aquela criação que é
atemporal, não ligada a nenhum (…) grupo, (…) religião; que é a Verdade, (…) Deus,
(…) aquela criação não pode ser alcançada pela mente medíocre. A criação, porém,
só vem quando a mente está frente a frente com o fato, e quieta. (Idem, pág. 44)

O fato da mediocridade, e a mente em presença desse fato, sem ter o desejo de


alterá-lo, constitui o “estado de ser” em que se dissolve a mediocridade. Mas isso
requer grande vigilância por parte da mente, e não se pode estar vigilante quando há
medo (…). O medo nos torna embotados, priva-nos da inteligência. (…) (Idem, pág.
44-45)

Pergunta: Como posso deixar de ser medíocre?

Krishnamurti: Em primeiro lugar, precisais saber o que é mediocridade (…). Os


homens medíocres podem possuir carros luxuosos, residências suntuosas, ou podem
viver num cortiço. Podem ter certa pujança mental, e em geral a têm. (…) (Visão da
Realidade, pág. 223)
(…) Se reconheço que sou medíocre, estúpido, obtuso, e quero tornar-me menos
medíocre, mais inteligente, mais instruído, essa própria exigência de mais, esse
esforço para tornar-me mais, não denota um estado mental medíocre? (..) (Idem, pág.
223)

A mente que tem um motivo, que persegue o ideal, a coisa que ela acha deveria ser, a
mente que se está disciplinando, controlando, moldando, que está lutando para ser
diferente do que é - essa mente não é medíocre? (…) Reconhecendo-se medíocre,
estúpida, obtusa, ávida, invejosa, ambiciosa, cruel, etc., a mente diz: “Preciso tornar-
me não medíocre”; e esse esforço (…) não é a essência mesma da mediocridade?
(Idem, p. 223)

(…) No esforço para se tornar alguma coisa, a mente foge do fato real para o ideal
(…). Estais a perseguir, a adorar o ideal que “projetastes”. Por essa razão, nunca há
(…) riqueza criadora, (…) vossa energia está sendo dissipada constantemente na luta
para vos preencherdes, chegardes a ser alguma coisa. (Idem, pág. 223-224)

(…) Mas se, ao contrário, puderdes viver com isso que percebeis que é estúpido, e
compreendê-lo, penetrá-lo completamente, sem o julgardes nem condenardes, vereis,
então, que há de surgir um estado completamente diferente; isso, porém, exige
atenção total, e não a distração que é o esforço de “vir a ser alguma coisa”. (Idem,
pág. 225)

Quando a mente está livre do “conhecido”, ela é uma mente nova, uma mente
“inocente”. Acha-se num estado de criação, imensurável, inominável, fora do tempo.
(…) Ele não pode ser “chamado”, porque uma mente medíocre não pode chamar a si
a imensidade. Toda mediocridade deve acabar, e existirá então “outro estado”. A
mente não pode imaginar aquele estado de imensidade. (…) (O Homem e seus
Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 229-230)

(…) Para mim o gênio é a pessoa que distingue a sua meta, cujo entusiasmo está
sempre vivo, que marcha firmemente para o seu alvo, que luta incessantemente para
conservar clara a Visão, que nunca se deixa abater pelas coisas insignificantes da
vida, por perturbações mundanas ou familiares, mas que durante todo o tempo está
empurrando essas coisas para o lado e tentando conservar a Visão sempre diante de
si clara e pura. Ao passo que o homem ordinário, burguês, é asfixiado pelo mundo; ele
não vê a Visão, mas, ao contrário, sucumbe à influência do meio (…). (O Reino da
Felicidade, pág. 15)
Classes, Isolamento, Complexo, Auto-imagem do
Ego
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:49

Agora, se atentardes bem, vereis que esta sociedade está baseada no espírito de
classe, que é, ainda, espírito de segurança. (…) Assim como as crenças separam as
pessoas, limitam-nas, conservando-as divididas, assim também a possessividade,
expressando-se sob a forma de espírito de classe e transformando-se em
nacionalismo, separa as pessoas. (…) (Palestras em Auckland, 1934, pág.20)

Para compreender a violência, cumpre haver percepção clara da violência (…). O


nacionalismo, o antagonismo de classe, o espírito de aquisição, a desenfreada
ambição de poder, as inumeráveis crenças (…) eis os fatores da violência. (O
Caminho da Vida, pág. 19)

O apetite de ganho, que é a base de nossa atual civilização, dividiu o homem contra o
homem. Em nosso desejo de possuir, de dominar as idéias, os sentimentos e o
trabalho alheios, fizemos uma separação de nós mesmos em classes, governos de
classe, lutas de classe, guerras de classe, (…). (Idem, pág. 19)

E há também a luta de classes - não emprego a expressão “luta de classes” no sentido


comunista, mas tão somente para constatar um fato, sem interpretá-lo seja de que
maneira for. Vê-se a divisão das religiões (…). (Da Solidão à Plenitude Humana, pág.
50)

(…) Ao verdes que a distinção de classe é coisa falsa, que ela cria conflito, sofrimento,
divisão entre pessoas - ao perceberdes essa verdade, ela própria vos liberta. A
percepção mesma dessa verdade é transformação (…). (O que te fará Feliz?, pág.
128)

Por conseguinte, a compreensão da natureza do conflito exige, não a compreensão de


vosso conflito individual, porém a compreensão do conflito total, (…) esse conflito total
que inclui o nacionalismo, as diferenças de classe, a ambição, a avidez, a inveja, o
desejo de posição e prestígio, o desejo de poder, de domínio, o sentimento de medo,
de culpa, de ansiedade (…) - a totalidade da vida. (…) Uma de nossas dificuldades é
que funcionamos fragmentariamente, cada um numa só seção ou parte - como
engenheiro, artista, cientista, negociante, advogado, físico - como entidade dividida,
fragmentária. E cada fragmento está em guerra com outro fragmento, desprezando-o
ou sentindo-se superior a ele. (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 25)
Ora, se examinarmos a nossa vida, as nossas relações com os outros, veremos que
são um processo de isolamento. (…) Vivemos em relação com alguém só enquanto
essa relação nos satisfaz, (…). Mas, no momento em que ocorre em nossas relações
uma perturbação que gera desconforto em nós, abandonamos essas relações. (Novo
Acesso à Vida, pág. 143)

(…) Assim, se examinarmos as nossas vidas e observarmos as nossas relações,


vemos que elas constituem um processo em que levantamos resistência uns contra os
outros, em que erguemos uma muralha, por cima da qual olhamos e observamos os
outros; mas conservamos sempre a muralha e permanecemos atrás dela, quer seja
uma muralha psicológica, quer seja uma muralha material, uma muralha econômica,
uma muralha nacional. (Idem, pág. 144)

Se prestais atenção ao que estou dizendo e o seguis sem esforço, encontrareis a


solução correta; e o descobrimento da solução correta é a revolução no centro. (…)
Para a maioria de nós existe um centro, que é o “eu”, o “ego” (…). E o fazer cessar
completamente esse centro é a única revolução verdadeira; (…). (Percepção Criadora,
pág. 27)

Devemos tomar o conteúdo de nossa consciência e olhá-lo. A quase todos nós nos
recalcam desde a infância (…). E quando o indivíduo se sente ferido, constrói um muro
ao redor de si mesmo. E a conseqüência disso é que nos isolamos mais e mais (…).
As ações que procedem desse trauma psicológico são obviamente neuróticas. (…)
Quando digo: “Estou ferido” - não fisicamente, senão internamente, psicologicamente,
na psique - que é que se sente magoado? Não é por acaso a imagem, a
representação (conceito) que o indivíduo tem de si mesmo? (…) (La Llama de la
Atención, pág. 16)

(…) Todos temos uma imagem de nós mesmos: um vê-se como grande homem, ou
como homem muito humilde; outro acha-se um grande político, com todo o orgulho, a
vaidade, o poder, a posição; e isso cria a imagem (…) de si mesmo. Se possuímos um
título de doutor ou somos dona-de-casa, temos a correspondente imagem de nós
mesmos. Cada um tem uma imagem de si mesmo (…). O pensamento criou essa
imagem e é ela que fica magoada. É possível, então, não ter nenhuma imagem de si
mesmo? (Idem, pág. 16)

Por conseguinte, muito depende de considerar o problema (…). Cada um de nós tem
uma imagem de si mesmo, em geral uma imagem algo lisonjeira, e dessa base é que
olhamos a coisa que nos causa dor ou prazer. (O Descobrimento do Amor, pág. 94)
Tendes, pois, uma imagem de vós mesmos - como sois, ou como deveríeis ser ou
deveis ser - e dessa imagem olhais a coisa que se chama “problema”. Há, pois, a
imagem e o problema, e procurais então “aproximar” a imagem ao problema, ou
interpretais o problema de conformidade com o padrão estabelecido por essa imagem.
(…) (Idem, pág. 94-95)

Pois bem. O problema nunca será resolvido enquanto a imagem existir - a imagem do
que deveríeis ser, ou a imagem de si própria que a mente criou, graças a seu saber, à
história, à tradição de família, a todas as formas de experiência. Estais cônscio, não da
imagem, porém do problema, enquanto o que aqui estamos tentando fazer não é
resolver o problema, porém, sim, (…) a estrutura da imagem; porque, se nenhuma
imagem tivermos de nós mesmos, podemos resolver o problema. (Idem, pág. 95)

O indivíduo, em geral, tem de si próprio a imagem de que é um ser humano


extraordinário, ou um homem mal sucedido na vida, um infeliz que precisa preencher-
se, ou um homem vaidoso, ambicioso - bem sabeis que imagens a maioria das
pessoas têm de si próprias. (…) Ora, se eu tenho uma imagem de mim mesmo, essa
imagem terá de contradizer os fatos da existência diária, e só sou capaz de olhar os
fatos diários com os olhos dessa imagem. Por conseguinte, o problema é criado pela
imagem e não pelo próprio fato. (Idem, pág. 95)

Quando somos inferiores, temos o impulso de sentir-nos superiores; (…). Quer dizer:
por mim mesmo, sou insignificante, vazio, superficial, e por isso desejo máscaras: (…)
a máscara da superioridade e da nobreza, (…) da seriedade, (…) a máscara com a
qual afirmamos procurar a Deus. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 209-210)

(…) Um homem que é feliz, que ama, não ambiciona posses, não se entusiasma pelo
bom êxito, pelo poder, pela posição ou pela autoridade. Os infelizes, os aflitos, é que
buscam o poder e o bom êxito como refúgios de sua própria insuficiência. (…) (Que
Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 131)

Como é estranho o desejo de se exibir ou de ser alguém. Invejar é odiar, e a vaidade


corrompe. Como é difícil a simplicidade e a autenticidade! A autenticidade é, em si,
uma tarefa das mais árduas, ao passo que o desejo de se tornar alguém oferece
pouca dificuldade. É muito fácil fingir ou representar, mas é extremamente complexo
sermos aquilo que somos; (…). Portanto, se formos inteligentes, abriremos mão da
pretensão de sermos alguém ou alguma coisa. (Diário de Krishnamurti, pág. 165)

Portanto, é extremamente difícil sermos o que somos. (…) Mas, para que procedamos
assim, para que deixemos de ser alguém, é preciso desvendar a nossa face oculta,
expô-la sem medo, a fim de a compreendermos. A compreensão de nossas ânsias e
desejos ocultos vem da plena consciência deles (…); dessa forma, o puro ato de ver
destrói aquela estrutura psicológica, libertando-nos do sofrimento e do desejo de ser
alguém. (…) (Idem, pág. 166)

Agora, o interrogante deseja saber (…). Servimo-nos das coisas, das posses, não
como meras necessidades, mas como meios de satisfazer uma necessidade
psicológica (…). Isto é, a propriedade se torna um meio de engrandecimento próprio. A
maioria de nós aspira a títulos, posição, posses, terras, virtudes, fama; e tudo isso
implica (…) uma necessidade psicológica (…) (Que estamos Buscando?, 1ª ed., pág.
128)

Vemos, pois, que baseamos as nossas relações no auto-engrandecimento. E


enquanto nos servirmos de pessoas, de idéias, de coisas, para nosso
engrandecimento próprio, tem de haver violência. (…) No mundo dos negócios ou no
mundo social, na política, como escritor, (…) poeta, queremos que reconheçam
nossos méritos, (…) bom êxito; o problema, pois, é, com efeito, muito mais interior e
psicológico, do que exterior e objetivo. (…) (Idem, pág. 129-130)

Enquanto nos servirmos dos conhecimentos técnicos para promoção e glorificação do


indivíduo ou do grupo, as necessidades do homem não serão organizadas. É o desejo
de segurança psicológica, por meio do progresso técnico, que está destruindo a
segurança física do homem. Há conhecimentos científicos suficientes para alimentar,
vestir e dar casa ao homem; mas o uso apropriado desses conhecimentos é negado
enquanto houver nacionalidades separativas, com governos e fronteiras soberanos,
que, por sua vez, suscitam as lutas de classe e de raça. (…) (Arte da Libertação, pág.
247)

Como dizia, o saber é essencial em certos níveis da vida, para podermos viver. Mas,
afora isso, qual é a natureza do saber? Que queremos dizer quando afirmamos que o
saber é necessário para acharmos a Deus, ou que o saber é necessário para nos
conhecermos a nós mesmos (…)? Aqui, entendemos o saber como “experiência”. (…).
Esse saber não é utilizado pelo “ego”, pelo “eu” para se fortalecer a si próprio? (…)
(Novos Roteiros em Educação, pág. 113)

Utilizamos, pois, o conhecimento como meio de fortalecer o “ego”, o “eu”. Já não


observastes os Pundits, ou vosso pai, (…) ou vosso mestre - já observastes como
todos eles estão “inchados” de saber? Já observastes como o saber dá o sentimento
de expansão do “eu”, o “eu sei e tu não sabes” (…). Assim, gradualmente, o saber,
que é meramente informação, é usado por vaidade e se torna o sustento, a nutrição do
“ego”, do “eu”. (…) (Idem, pág. 113-114)

(…) O cientista utiliza o saber para alimentar a vaidade; assim também o professor;
(…) os pais, (…) os gurus - todos querem ser alguém no mundo. (…) (Novos Roteiros
em Educação, pág. 114)

Que sabem eles? Só sabem o que está nos livros; ou (…) o que experimentaram,
sendo que suas experiências dependem do seu fundo de condicionamento. Os mais
de nós, pois, estamos cheios de palavras, de conhecimentos, a que damos o nome de
saber; e, sem esse saber, vemo-nos perdidos. (…) (Idem, pág. 114)

Desse modo, onde há temor, não há amor; e o saber sem amor é destrutivo. É o que
está acontecendo no mundo atualmente. (…) (Idem, pág. 114)

Se quisermos criar uma sociedade sã e feliz, precisamos principiar por nós (…). Em
lugar de conferirmos importância a nomes, rótulos e termos, geradores de confusão,
devemos desembaraçar a mente de tudo isso e observar-nos sem paixão. (…) Vemos,
em torno de nós e em nós próprios, desejos e ações exclusivistas a redundarem no
empobrecimento das relações. (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág.
19)

Por conseguinte, cumpre descobrir, não se há algo maior do que o conhecido, que nos
impele para o desconhecido e, sim, perceber o que existe em nós que está criando
confusão, guerras, diferenças de classe, esnobismo, desejo de fugir, através da
música, da arte, e de muitos outros modos. Importa, sem dúvida, que as coisas sejam
vistas como são (…) para nos vermos exatamente como somos. (…) (A Primeira e
Última Liberdade, 1ª ed., pág. 251)
Distinções, Respeitabilidade, Títulos, Ignorância
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:51

A maioria de nós aspira à satisfação de ocupar certa posição na sociedade, porque


temos medo de ser ninguém. A sociedade é formada de tal modo que o cidadão que
ocupe posição respeitável é tratado com toda cortesia (…) Esse anseio de posição, de
prestígio, de poder, de ser reconhecido pela sociedade como pessoa de destaque,
representa desejo de dominar os outros, e esse desejo de domínio é uma forma de
agressão. (…) E qual é a causa dessa agressividade? O medo, não? (Liberte-se do
Passado, pág. 37)

O marajá gosta de mostrar que é algo, ostentando seus carros, seus títulos, sua
posição, suas riquezas. O professor, o pundit convenceu-se de que é alguma coisa,
em virtude do seu saber. Desejais também mostrar que sois “alguma coisa” entre
vossos colegas de classe. (…) (Debates sobre Educação, pág. 126)

Se sois interiormente rico, não sentis nenhuma necessidade de ostentar-vos, porque


essa riqueza é bela em si mesma. Mas visto temermos a nossa pobreza interior,
assumimos ares importantes. Assim faz o “sannyasi”, assim fazem os primeiros-
ministros e os ricos. Tirem-se-lhes o poder, o dinheiro, a posição, e vede como ficam
sem brilho, estúpidos, vazios! (…) (Idem, pág. 126-127)

Todos nós, velhos e jovens, desejamos ser altamente respeitáveis (…)


Respeitabilidade implica reconhecimento por parte da sociedade; e a sociedade só
reconhece o que teve êxito, o que se tornou importante, famoso, e despreza o resto.
Por isso, adoramos o êxito e a respeitabilidade. E quando pouco vos importa se a
sociedade vos considera respeitável ou não, quando não buscais êxito, não desejais
tornar-vos alguém, existe então intensidade - e isso significa que não existe medo,
nem conflito, nem contradição, interiormente; por conseguinte, dispondes de
abundante energia para acompanhardes o fato “até o fim”. (O Passo Decisivo, pág.
171)

Sabem o que a palavra “respeitabilidade” significa? Vocês são respeitáveis quando


são considerados (…) pela maioria (…) E o que a maioria das pessoas respeita (…)?
Respeitam as coisas que elas mesmas desejam e que projetaram como meta ou ideal;
(…). Se você é rico e poderoso, ou tem grande reputação política, ou escreveu livros
de sucesso, você é respeitado pela maioria. (…) (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág.
117)
(…) O que você diz pode até ser um completo disparate, mas, quando você fala, as
pessoas ouvem porque o consideram um grande homem. E quando você, dessa
forma, conquistou o respeito da maioria, o fato de a multidão o seguir, dá-lhe uma
sensação de respeitabilidade, (…). Mas o chamado pecador está mais próximo de
Deus do que o homem respeitável, porquanto o respeitável está coberto de hipocrisia.
(Idem, pág. 117)

Um dos empecilhos ao viver criador é o medo, e a respeitabilidade constitui


manifestação desse medo. Os indivíduos respeitáveis, moralmente agrilhoados, não
conhecem o integral e verdadeiro significado da vida. Estão encerrados dentro dos
muros da sua virtude, nada podem enxergar além deles. (A Educação e o Significado
da Vida, 1ª ed., pág. 147)

Sua “moralidade de vidraças coloridas”, com base em ideais e crenças religiosas,


nada tem em comum com a realidade; e, quando atrás delas se abrigam, estão
vivendo no mundo das próprias ilusões. A despeito da moral pessoalmente imposta, e
com que se comprazem, as pessoas respeitáveis acham-se também em confusão,
sofrimento e conflito. (Idem, pág. 147-148)

A respeitabilidade é um flagelo, um mal que corrói a mente e o coração. Insinua-se


furtivamente; destrói o amor. Ser respeitável é sentir-se vitorioso, é talhar para si
mesmo uma posição no mundo, construir em torno de si uma muralha de segurança,
daquela segurança que vem com o dinheiro, o poder, o sucesso, e a capacidade ou a
virtude. Este isolamento arrogante gera ódios e antagonismos nas relações humanas
que constituem a sociedade.

Os homens respeitáveis são sempre a nata da sociedade, e, como tais, causadores de


conflitos e sofrimentos. (…) Estão sempre na defensiva, cheios de medo e de
suspeitas. O medo habita-lhes os corações, e por isso a indignação é sua virtude. A
virtude e a piedade são suas defesas. (…) Os homens respeitáveis nunca podem estar
abertos para a Realidade, (…). A felicidade lhes é negada porque evitam a Verdade.
(Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 25-26)

Se quisermos criar uma sociedade sã e feliz, precisamos principiar por nós, (…). Em
lugar de conferirmos importâncias a nomes, rótulos e termos, geradores de confusão,
devemos desembaraçar a mente de tudo isso (…). (Autoconhecimento, Correto
Pensar, Felicidade, pág. 19)

Senhores, os títulos, sejam títulos espirituais, sejam títulos mundanos, são meios de
explorar os outros. (…) É só isso que fazeis; não percebeis que sois, vós mesmos,
explorados e que portanto criais o explorador (…). Vivemos sob a influência de títulos,
de palavras, de frases, destituídos de significação; eis porque interiormente estamos
vazios e sofremos. (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 45)

(…) Divisão é ilusão. A divisão em grupos, raças, nacionalidades, é fictícia. Somos


entes humanos, não separados por nomes e rótulos. Quando os rótulos se tornam
mais importantes do que tudo o mais, ocorre a divisão, e lá vêm as guerras e outros
choques. (A Luz que não se Apaga, pág. 121)

Os rótulos parecem dar satisfação. Aceitamos a categoria a que supostamente


pertencemos, como uma explicação satisfatória da vida. Somos adoradores de
palavras e de etiquetas; parecemos nunca ultrapassar o símbolo, (…). Intitulando-nos
isto ou aquilo, seguramo-nos contra futuras perturbações, e quedamo-nos satisfeitos.
(…) (Comentários sobre o Viver, pág. 172)

(…) Aquele que busca a verdade é um homem religioso e não tem necessidade de
etiquetas, tais como “hinduísta”, “muçulmano”, “cristão”. (…) Se tivéssemos amor, (…)
caridade em nossos corações, não faríamos o menor caso de títulos (…). Porque os
nossos corações estão vazios, enchem-se de coisas pueris (…). Francamente, isso é
falta de maturidade. (…) (A Arte da Libertação, pág. 19-20)

(…) Um homem sensato não pertence a grupo algum, não ambiciona posição na
sociedade, pois isso só produz guerra. Se fôsseis realmente sensatos, pouco vos
importaria o nome que vos dessem; não veneraríeis os rótulos. Mas rótulos, palavras,
se tornam coisas importantes quando o coração está vazio. (…) (Idem, pág. 20)

(…) Para sermos entes humanos amadurecidos, precisamos desfazer-nos desses


brinquedos absurdos, que são o nacionalismo, a religião organizada, o seguir alguém,
política ou religiosamente. Se tendes verdadeiro interesse nisso, então, naturalmente,
vos libertareis de todos os atos infantis, de adotardes determinados rótulos: nacionais,
políticos ou religiosos; e só então teremos um mundo pacífico. (…) (Idem, pág. 21)

(…) Afinal de contas, os títulos, as posições, os diplomas, as riquezas, são utilizados


como meios (…) de sobrevivência psicológica, de certeza, de segurança psicológica. E
enquanto estivermos à procura de segurança psicológica, através das coisas, tem de
haver disputa em torno das coisas. ( Nós Somos o Problema, pág. 31)

(…) Não há compreensão no culto das personalidades. Os rótulos que adorais


carecem de significação. Bem sei que (…) a verdade nada tem que ver com as
personalidades mesquinhas e tirânicas que adorais, (…). A verdade transcende todas
as graduações, porquanto essas graduações só existem por causa das limitações
humanas. (Que o Entendimento seja Lei, pág. 5)

Esta é a opinião (…). Todos quereis ser alguém no Estado, ou ter o título de “Sir” ou
de “Lord” ou algo semelhante, e isto se baseia no espírito de posse, nas possessões;
e isto se tornou moral, verdadeiro, (…) (Palestras em Auck1and, 1934, pág. 18)

(…) Afinal de contas, se tirardes o nome, o título, a propriedade, os vossos diplomas


de B.As e M.As, que resta de vós? Perdeis toda a importância, (…). Sem vossa
propriedade, sem vossas medalhas, etc., nada sois. (…) (Da Insatisfação à Felicidade,
pág. 36-37)

Reflitamos juntos. Por que desejam as pessoas ser famosas? Em primeiro lugar,
porque é vantajoso (…); e, também, porque proporciona muito prazer, (…). Se sois
conhecido em todo o mundo, vos sentis importante, (…) imortalizado. Desejais ser
famoso, conhecido e falado no mundo inteiro, porque interiormente não sois ninguém.
(…) (A Cultura e o Problema Humano, pág. 48)

(…) Interiormente, nenhuma riqueza tendes, (…) e, por isso, desejais ser conhecido no
mundo exterior. Mas, se sois rico interiormente, então pouco vos importa serdes
conhecido ou desconhecido. (Idem, pág. 48)

(…) Minha mente, percebendo a sua própria insuficiência, sua pobreza, põe-se a
adquirir posses, diplomas, títulos (…); e desse modo se fortalece no “eu”. Sendo o
centro do “eu”, a mente diz: “Preciso transformar-me” - e põe-se a criar incentivos para
si. (…) (Claridade na Ação, pág. 107)

Podeis ter todos os graus acadêmicos do mundo, mas, se não conheceis a vós
mesmos, sois extremamente estúpido. (…) Sem autoconhecimento, o cuidar
meramente de colecionar fatos (…) é uma maneira muito estúpida de existir. (…) (A
Cultura e o Problema Humano, pág. 117)

(…) Podeis ser capaz de citar o Bhagavad Gita, o Upanishads, o Alcorão e a Bíblia,
mas, se não conheceis a vós mesmo, sois tal qual um papagaio a repetir palavras. (…)
(Idem, pág. 117)

Psicologicamente, terminar o conflito é “ser nada”; e a maioria de nós tem medo de


enfrentar o “ser nada” (…). Mas, afinal de contas, que sois vós? Que são todos os
VIPs (very important people) - a gente muito importante? (…) (O Homem e seus
Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 40)
(…) Tirem-se-lhes os títulos, as posições, as decorações, todas essas bugigangas, e
eles ficam reduzidos a nada. E quer-me parecer que nós, a gente comum, também
estamos tentando, de várias maneiras, tornar-nos algo; mas, interiormente, não somos
absolutamente nada. E por que não ser nada? Sede nada (…). (Idem, pág. 40-41)

Vós sois nada. Podeis ter vosso nome e vosso título, propriedades e depósitos nos
bancos, podeis ter poder e fama; todavia, apesar de todas estas defesas, sois o
mesmo que nada. Podeis não estar perfeitamente cônscio deste vazio, deste nada, ou
podeis simplesmente não desejar estar cônscio dele; ele existe, entretanto, não
importa o que façais para evitá-lo. (…) (Comentários sobre o Viver, pág.89)

Uma das camadas ou seções deste fundo é a ignorância. A ignorância não deve ser
confundida com a mera falta de informação. A ignorância é a falta de compreensão de
si próprio. (…) A ignorância existirá enquanto a mente não desvendar o processo
mediante o qual cria suas próprias limitações, e bem assim o processo da ação auto-
induzida. (…) (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 26)

Ignorância é uma coisa, e o “estado de não saber” outra coisa muito diferente; as duas
nenhuma relação têm entre si. Uma pessoa pode ser muito ilustrada, muito hábil,
muito eficiente e talentosa e, apesar disso, ser ignorante. Há ignorância quando não
existe autoconhecimento. O homem ignorante é aquele que não se conhece, que não
conhece suas próprias ilusões, vaidades, invejas, etc. (…) (Diálogos sobre a Vida, 1ª
ed., pág. 182)

A paixão pelo saber é como outra paixão qualquer; oferece uma fuga aos terrores do
vazio, da solidão, da frustração do ser nada. A luz do saber é um manto suntuoso,
debaixo do qual está uma escuridão que a mente não pode penetrar. A mente tem
pavor a este desconhecido e por esta razão foge para o saber, para as teorias, as
esperanças, a imaginação; e justamente este saber constitui um obstáculo à
compreensão do desconhecido. (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 24)

(…) Mas, não é fácil pôr de parte o saber. Ser ignorante não é ser destituído de saber.
A ignorância é falta de autopercebimento; e o saber é ignorância quando não há
compreensão das atividades do “eu”. A compreensão do “eu” é a libertação das
prisões do saber. (Idem, pág. 24)

Só se está liberto do saber, quando se compreende o processo da acumulação, a


base do impulso para a acumulação. O desejo de acumular é o desejo de segurança e
de certeza. Esse desejo (…) é a causa do temor, o qual destrói toda comunhão. (…) A
acumulação é resistência egocêntrica, e o saber torna mais forte esta resistência. A
adoração do saber é uma forma de idolatria, e nunca dissolverá o conflito e o
sofrimento (…) (Idem, pág. 24-25)

(…) Ignorância não significa a falta de conhecimentos técnicos, (…) de leitura de


muitos livros filosóficos: ignorância é a falta de conhecimento próprio. Ainda que uma
pessoa tenha lido muitos livros filosóficos e sagrados e seja capaz de citá-los, essas
citações, que representam uma acumulação de palavras e experiências alheias, não
libertam a mente da ignorância. (…) (A Arte da Libertação, pág. 24)

Tenho procurado explicar que a ignorância, a malevolência e a luxúria causam aflição


e que, se não eliminarmos esses obstáculos, originaremos inevitavelmente o conflito, a
confusão e a miséria exteriores. A ignorância - a falta de conhecimento de nós
mesmos - é o maior dos males. Impede o correto pensar e dá importância primária às
coisas secundárias, (…) a vida se torna vazia, pesada e rotineira. (…)
(Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 106)

É bem perceptível o processo do sofrimento, (…). E faltando-nos o amor, o prazer


assume toda a importância.

Não só existe essa espécie de sofrimento, mas há também (…) o sofrimento causado
pela ignorância. Há ignorância, mesmo quando somos bem ilustrados, dotados de
vasta cultura e experiência, das aptidões com que se ganha fama, notoriedade,
dinheiro. (…) (Palestras com Estudantes Americanos, pág. 138)

(…) A ignorância não se dissipa com o acumular fatos e informações; isso o


computador pode fazer muito melhor do que a mente humana. Ignorância é a total
ausência de autoconhecimento. Em maioria, somos superficiais e vulgares, (…). Essa
ignorância engendra toda espécie de superstição, perpetua o medo, gera a esperança
e o desespero e todas as invenções e teorias da mente astuciosa. (…) (Idem, pág.
138-139)
Verdade, Proximidade, Realidade Viva, Sem
Caminhos
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:55

Não precisamos procurar a verdade. A verdade não é uma coisa que está muito longe
de nós. Ela é a verdade da mente, a verdade das suas atividades, momento a
momento. Se estamos cônscios dessa verdade, (…) tal percebimento liberta a
consciência ou a energia que é inteligência, amor. Enquanto a mente se servir da
consciência como atividade do “eu”, o tempo tem de existir, com todas as suas
tribulações, (…) conflitos, (…) malefícios e (…) ilusões (…); só quando a mente,
compreendendo esse processo total, cessa de existir, pode haver o amor. (…) (A
Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 127)

O que é conhecido não é o Real. Nosso pensamento está ocupado numa constante
busca de segurança, de certeza. A inteligência que promove a expansão do “ego”
busca, por força de sua própria natureza, um refúgio, seja pela negação seja pela
afirmação. (…) Podeis ler sobre o Real, o que é de lamentar, podeis palrar a seu
respeito, o que é desperdício de tempo, mas não é isso o Real. Quando dizeis que,
pensando na verdade, estais mais capacitados para solucionar vossos problemas e
sofrimentos, significa isso que vos estais servindo de uma suposta verdade, (…); como
(…) qualquer entorpecente, não tarda a resultar, daí, o sono e a insensibilidade. (…)
(O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 264-265)

O importante, pois, é que se compreenda por que razão a mente está sujeita a ser
perturbada. Que é esta perturbação? (…) Sem começarmos com o que está perto,
queremos chegar longe; mas só podemos ir longe, se começarmos com o que está
muito perto de nós. E começar com o que está perto significa estar livre da ambição,
do desejo de ser algo, do desejo de ser bem sucedido na vida, célebre, famoso (…),
tudo isso denunciando o “eu”, o “ego”. (Viver sem Temor, pág. 58)

A compreensão do conflito, pois, na vida de relação, é de importância primacial, (…).


Como podemos conhecer o que está perto de nós, quando desconhecemos nossa
própria esposa? Positivamente, precisamos começar com o que está perto, para
alcançar o que está longe; (…). (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 51-52)

Nessas condições, para compreendermos aquilo que representa o mais alto, o


supremo, o real, precisamos começar muito de baixo, muito perto de nós; isto é,
precisamos averiguar o valor das coisas, das relações e das idéias com que nos
ocupamos cada dia. (Novo Acesso à Vida, pág. 14)
E sem compreendê-las, como pode a mente buscar a realidade? Pode inventar a
“realidade”, pode copiar, pode imitar; tendo lido muitos livros, pode repetir a
experiência alheia. Mas isso, por certo, não é o real. Para experimentar o real, a mente
deve deixar de criar; porque tudo o que ela criar (…), estará sempre subordinado ao
tempo, (…). (Idem, pág. 14)

(…) Para chegar longe, precisamos começar com o que está perto. Isso não requer
nenhuma renúncia extraordinária, mas um estado de elevada sensibilidade; (…) e só
nesse estado de sensibilidade pode-se receber a verdade - a qual não é para os
insensíveis, os indolentes, os desatentos. (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 28-
29)

Mas o homem que começa com o que está perto, que está cônscio dos seus gestos,
sua fala, sua maneira de comer, de falar, sua conduta - para este há a sensibilidade de
penetrar muito extensamente, muito amplamente nas causas do conflito. (Idem, pág.
29)

Não podeis subir muito se não começais por baixo: não quereis ser simples, não
quereis ser humildes. (…) Assim, um homem que realmente desejasse achar,
conhecer a verdade, (…) estar aberto para a verdade, teria de começar muito perto de
si, deveria avivar a própria sensibilidade, mediante vigilância, tornando sua mente
apurada, clara e simples. Uma mente assim não anda em busca dos seus próprios
desejos. (…). Só assim é possível a paz; porque essa mente descobre o imensurável.
(Idem, pág. 29)

A verdade não pode ser acumulada. O que se acumula é sempre destruído, (…). A
verdade nunca fenece, porque só pode ser encontrada de momento a momento, em
cada pensamento, cada relação, cada palavra, cada gesto, num sorriso, numa lágrima.
E se vós e eu pudermos achá-la, e vivê-la - o próprio viver é o descobrimento dela -
não seremos então propagandistas, mas entes humanos criadores; (…). (Poder e
Realização, pág. 42)

(…) A verdade não é acumulativa. Ela está presente momento a momento. O que é
acumulativo (…) é a memória, e pela memória nunca se pode achar a verdade; porque
a memória é produto do tempo (…). O que tem duração não é eterno. A eternidade
está no agora. (…) (O que te fará Feliz? pág. 129)

A mente desejosa de transformação futura (…) nunca poderá achar a verdade. Porque
a verdade é uma coisa que deve vir momento a momento; que precisa ser descoberta
de novo; (…). Como é possível descobrirdes o que é novo, com a carga do velho? É
só pelo desaparecimento dessa carga que se descobre o novo. (…) (Idem, pág. 129)

(…) A verdade não é abstrata. Ela nos vem súbita, às escuras, e por isso a mente não
a pode reter. Como um ladrão, nas sombras da noite, ela vem às escuras, e não
quando nos preparamos para recebê-la. (…) Assim, pois, uma mente que está presa
na rede de palavras, não pode compreender a verdade. (Idem, pág. 108)

(…) Não vos choqueis, não vos sintais desapontados - a verdade nem sempre é
aprazível. A verdade é rude para aqueles que não compreendem, mas a verdade é
amável, delicada, generosa e encantadora para aqueles que compreendem. (…) (Que
o Entendimento seja Lei, pág. 4)

A verdade só pode vir a vós quando vossa mente e coração são simples e claros, e
existe amor no vosso coração, e não se vosso coração está cheio das coisas da
mente. (…) E ela só pode vir quando a mente está vazia, quando a mente desiste de
criar. Ela virá, então, sem a chamardes. Virá veloz como o vento, sem ser pressentida.
A verdade vem no escuro e não quando estamos à sua espreita, desejando-a. Ela
surge súbita como a luz do sol, pura como a noite, mas, para a receber, deve o
coração estar cheio e a mente, vazia. (…) (O que te fará Feliz?, pág. 79)

A verdade não tem continuidade, porque está além do tempo; e o que tem
continuidade não é a Verdade. A Verdade é para ser percebida instantaneamente, e
esquecida - “esquecida”, no sentido de que não a levamos conosco como lembrança
da Verdade que foi percebida. E porque vossa mente está livre da memória, a
qualquer instante (…) a Verdade reaparecerá. (Experimente um Novo Caminho, pág.
107)

(…) Só existe a verdade quando estais livres da dor, da ansiedade, da agressividade


que ora vos enchem a mente e o coração. Ao perceberdes tudo isso e alcançardes
aquela bênção chamada amor, conhecereis então a verdade do que se está dizendo.
(A Outra Margem do Caminho, pág. 13)

Ora, a verdade tem um lugar permanente? A verdade ocupa um ponto fixo? A verdade
tem morada, ou é uma coisa dinâmica, viva, e portanto sem pouso certo? A verdade
está em movimento constante; mas se dizeis que ela é um ponto fixo, tereis então de
achar um guru que vos leve a esse ponto, e o guru se tornará necessário para vos
apontar o caminho. (…) (A Arte da Libertação, pág. 121)
(…) Por outras palavras, quando procurais o guru não estais em busca a verdade,
buscais segurança num nível diferente, (…). Mas é a verdade permanência? Não
sabeis, (…). Mas não ousais declarar que não sabeis, porque o reconhecer que não
sabemos é uma experiência verdadeiramente devastadora. (Idem, pág. 123)

Mas, sem dúvida, tendes de sofrer uma devastação antes de descobrirdes a verdade;
precisais achar-vos naquele estado de incerteza, de total frustração, sem possibilidade
de fuga; tendes de ser posto frente a frente com o vácuo, o vazio, sem nenhuma
passagem por onde fugir. Só então achareis o que é verdade. Mas especular sobre a
verdade, pensar na verdade, é negar a verdade. (Idem, p. 123)

Vossos pensamentos e especulações a respeito da verdade não têm validade. Toda


idéia é produto do pensamento, e o pensamento é memória (…) Assim, para o homem
que busca a verdade, o guru é inteiramente desnecessário. A verdade não está longe,
a verdade está muito perto, naquilo que pensais e sentis, em vossas relações com
vossa família, vosso vizinho, com a propriedade e as idéias. (Idem, pág. 123)

Procurar a verdade em alguma esfera abstrata é pura ideação, e a maioria de nós


procura a verdade por essa maneira, como um meio de fugir à vida. A vida nos
esmaga, é sobremodo exigente e dolorosa, (…). Conseqüentemente, procuramos um
guru para nos ajudar a fugir; (…) a ele nos apegamos. (Idem, pág. 123)

A realidade não é algo abstrato ou teórico, (…) a realidade está na compreensão da


vida de relação, no estarmos cônscios, a todos os momentos, do nosso falar, da nossa
conduta, da maneira como tratamos as pessoas, (…) como consideramos os outros;
porque a conduta correta significa virtude, e aí se encontra a realidade. (…) (Por que
não te Satisfaz a Vida, pág. 150-151)

(…) A verdade é uma coisa viva, e para uma coisa viva não há nenhum caminho - só
para as coisas mortas pode haver um caminho. Porque a verdade não tem caminho,
para a descobrirdes tendes de ser aventuroso, estar pronto para o perigo; e pensais
que um guru vos ajudará a ser aventuroso, a viver no perigo? Se procurais um guru, é
porque não sois aventuroso, estais apenas à procura (…) de segurança. (…) (A Arte
da Libertação, pág. 123-124)

(…) Essa realidade é um ser eterno no presente, e não no futuro; ela está no agora
imediato, não no futuro remoto. Para compreender esse agora, essa eternidade, a
mente deve estar livre do tempo, o pensamento deve cessar. Todavia, tudo que estais
fazendo atualmente só serve para cultivar o pensamento, condicionar a mente, e por
isso nunca há para vós o novo, (…). (Idem, pág. 124)
Enquanto existe o processo de pensamento, não pode existir a verdade (…). Não
podeis criar tranqüilidade à força, (…) tornar a mente serena, (…) forçar o pensamento
a parar. Cumpre-nos compreender o processo do pensamento e transcender o
pensamento; só então a verdade libertará o pensamento de seu próprio processo.
(Idem, pág. 124)

Nasce a verdade quando a mente está de todo tranqüila, numa tranqüilidade não
artificial, não “feita”; surge essa tranqüilidade só quando há compreensão; e essa
compreensão não é difícil, mas exige toda a vossa atenção. É negada a atenção
quando viveis apenas no cérebro, e não com todo o vosso ser. (Idem, pág. 125)

A verdade, portanto, não é para as pessoas respeitáveis, nem para os que desejam a
expansão, o preenchimento do seu próprio “eu”. A verdade não é para os que buscam
segurança e permanência; porque a permanência que buscam é meramente o oposto
da impermanência. Presos que estão na rede do tempo, buscam aquilo que é
permanente; (…) Por conseguinte, o homem que deseja descobrir a realidade tem de
sustar a busca - o que não significa que deva contentar-se com o que é. (Idem, pág.
214)

Pelo contrário, um homem que está todo empenhado no descobrimento da verdade


deve ser, interiormente, um revolucionário completo. Não pode pertencer a nenhuma
classe, nação, grupo ou ideologia, (…); (…) a verdade não pode ser encontrada nas
coisas feitas pela mão ou pela mente. (…) (Idem, pág. 125)

A verdade vem a todo aquele que está livre do tempo, que não se está servindo do
tempo como meio de auto-expansão. O tempo significa memória, (…). Enquanto existe
o “ego”, o eu”, o “meu”, em qualquer nível (…), ele está sempre dentro da esfera do
pensamento. Onde está o pensamento está o oposto, porque o pensamento cria o
oposto; e enquanto existe o oposto não pode existir a verdade. (…) (Idem, pág. 125)

Existe um caminho que leva ao desconhecido? Há sempre caminho para o conhecido,


mas nunca para o desconhecido. (…) (Poder e Realização, pág. 93)

Se a Realidade é o conhecido - assim como nossa casa, cujo caminho conhecemos -


então a coisa é muito simples: podeis abrir um caminho para lá. Podeis ter então uma
disciplina, (…) várias formas de yoga, (…), a fim de não vos desviardes do alvo. (…)
(Idem, pág. 93)

(…) Mas a Realidade é algo que se conhece? E se a conhecemos, isso é o Real? Por
certo, a Realidade é algo que se manifesta momento a momento, e que só se pode
encontrar no silêncio da mente. Não há caminho para a verdade (…), porque a
Realidade é o incognoscível, o inominável, o impensável. (…) (Poder e Realização,
pág. 93)

(…) O que podeis pensar a respeito da verdade é produto de vosso fundo mental,
vossa tradição, vosso saber. Mas a verdade nada tem em comum com o saber, (…) a
memória, (…) a experiência. Se a mente pode criar um Deus - como de fato cria - isso
por certo não é Deus, (…). (Idem, pág. 93-94)

Não há caminho para a Verdade. A Verdade tem de ser descoberta, mas nenhuma
fórmula existe para o seu descobrimento. O que é formulado não é verdadeiro. Tendes
de lançar-vos ao mar desconhecido, e este mar desconhecido sois vós mesmos.
Tendes de pôr-vos a caminho, para o descobrimento de vós mesmos, mas não de
acordo com algum plano ou padrão, (…). O descobrimento traz alegria - não a alegria
que é lembrada, que é comparada, mas a alegria que é sempre nova. O
autoconhecimento é o começo da sabedoria, em cuja tranqüilidade e silêncio se
encontra o Imensurável. (Comentários sobre o Viver, pág. 95)

(…) A mente limitada, ainda a mais instruída e apta a discutir eruditamente, é incapaz
de buscar algo totalmente novo. O que pode fazer é apenas “projetar” suas próprias
idéias ou provocar um estado “devocional” ou estático. Estamos, portanto, entrando
num mar desconhecido, e cada um tem de ser seu próprio capitão, piloto e marujo.
(…) Não há guia, e esta é a beleza da existência. (…) Essa viagem é um “processo”
de autoconhecimento (…) (O Homem Livre, pág. 95)

Para descobrir a verdade, não há caminho algum. Tendes de entrar no mar


desconhecido - o que não é desanimador nem empresa aventurosa. Quando desejais
achar algo de novo, quando estais investigando (…), vossa mente tem de estar muito
tranqüila (…). Se a mente está repleta de fatos, de saber, eles atuam como
empecilhos ao que é novo. A dificuldade está em que, para a maioria de nós, o saber
se tornou tão importante, de significação tão preeminente, que está sempre intervindo
em tudo o que é novo, (…). Assim, o saber e a cultura são empecilhos, para aqueles
que desejam investigar, (…) compreender o que é atemporal. (A Primeira e Última
Liberdade, 1ª ed., pág. 153)

Mas a verdade é uma realidade que não pode ser compreendida seguindo-se um
caminho. A verdade não é um condicionamento, uma modelagem da mente e do
coração, mas um preenchimento constante, (…) na ação. O inquirirdes sobre a
verdade implica que acreditais em um caminho para a verdade, e esta é a primeira
ilusão a que estais presos. Nisso há imitação, deformação. (…) Digo que cada um
deve descobrir por si próprio o que é a verdade, mas isso não significa que cada um
deva delinear um caminho para si próprio, (…) (Palestras em Adyar, Índia, 1933-1934,
pág. 111-112)

A verdade se encontra no mar - do qual não existe mapa - do autoconhecimento. (…)


Ansiamos a segurança e esse anseio é um obstáculo à nossa libertação pelo
conhecimento da verdade. Os que se aprofundaram no autoconhecimento são
flexíveis. Sabemos que uma das causas da resistência é a especialização; e outra
causa é a imitação. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 221)

É só quando o pensamento está libertado dos valores materiais criados pela mão ou
pela mente, que nos é dada a visão da verdade. Não há senda conducente à Verdade.
Tendes de navegar por mares sem roteiros para a encontrardes. A realidade não pode
ser comunicada a outro; porquanto, o que se comunica é o que já se sabe, e o que é
sabido não é o Real. (…) (O Caminho da Vida, pág. 10)

Sinto que ninguém pode guiar outrem à verdade, porque a verdade é infinita; é uma
terra sem caminhos, e ninguém pode dizer-vos como encontrá-la. Ninguém pode
ensinar-vos a ser artista; alguém poderá apenas dar-vos os pincéis e a tela e mostrar-
vos as cores a usar. (…) Só quando estais absolutamente desnudo, livre de todas as
técnicas, livre de todos os instrutores, é que descobris. (Palestras na Itália e Noruega,
1933, pág. 42)

(…) Precisais buscar a verdade por vós mesmos, como indivíduos, visto que ela mora
em vós, não no exterior. Quando o indivíduo se houver compreendido a si mesmo,
viverá num ambiente de perfeita harmonia e não contribuirá para a desordem do
mundo. (Coletânea de Palestras, 1930-1934, pág. 22)

Pergunta: Vós alcançastes a Realidade. Podeis dizer-nos o que é Deus?

Krishnamurti: Senhores, como sabeis que alcancei a Realidade? Para o saberdes


seria necessário que tivésseis também alcançado a Realidade. (…) E que importância
tem compreender a Realidade alcançada por outro homem, (…) conhecer esse
homem? (Uma Nova Maneira de Viver, pág. 114)

Ora bem, quereis que eu vos diga o que é a Realidade. Mas pode o indescritível ser
expresso em palavras? Pode-se medir o imensurável? Pode-se aprisionar o vento
numa mão fechada? (…) No momento em que traduzis o incognoscível no que
conheceis, não é mais o incognoscível o que traduzistes (…) (Idem, pág. 116)
(…) Conseqüentemente, em vez de procurardes aquele homem que alcançou a
Realidade, ou perguntardes o que é Deus, por que não aplicais toda a vossa atenção
à percepção do “que é”? Encontrareis, então, o desconhecido, ou, antes, o
desconhecido virá ao vosso encontro. (…) (Idem, pág. 117)

(…) Não pode a realidade manifestar-se àquele que quer “vir a ser”, àquele que luta;
ela só pode manifestar-se àquele em que há o “ser” (…) que compreende o “que é”.
Assim como a solução de um problema está contida no próprio problema, assim
também a realidade está contida no “que é”, e se formos capazes de compreender o
“que é”, compreenderemos a Verdade. (…) (Idem, pág. 117)

(…) Assim, pois, não está longe de nós a Realidade, mas nós a distanciamos, (…). A
Realidade está presente aqui, neste momento, (…) ao nosso alcance. O eterno, o
atemporal existe agora, e não pode o agora ser compreendido por aquele que está
preso na rede o tempo. (…) Essa libertação só é possível mediante meditação correta,
que significa ação completa. (…) (Idem, pág. 117)
Busca da Verdade; Meios de Fuga, Busca sem
Motivo
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 21:57

Vejamos, pois, se nos é possível examinar juntos este problema real da busca, (…).
Pela busca, é possível achar algo novo? Por que buscamos, e que é que buscamos?
Qual o motivo, o processo psicológico que nos impele a buscar? (…). Sem a
compreensão desse estímulo, a mera busca será muito pouco significativa, (…). Mas,
se pudermos descobrir todo o mecanismo desse processo de busca, então é bem
possível que cheguemos a um ponto em que não há mais busca - e talvez seja esse o
estado necessário para o aparecimento de algo novo. (Da Solidão à Plenitude
Humana, pág. 21-22)

(…) Por certo, aquilo que é novo não pode ser reconhecido. O reconhecimento só
ocorre através da memória, da experiência acumulada a que denominamos saber. Se
reconhecemos uma coisa, essa coisa não é nova, (…) tudo o que achamos é coisa já
experimentada, procedendo portanto do “fundo”, da memória. (…) Deus, a verdade,
(…) não é reconhecível, deve ser algo totalmente novo; (…). (Idem, pág. 23)

Não vos parece importante investigarmos o que é que estamos buscando, e por que
buscamos alguma coisa? Por que existe em nós esta extraordinária ânsia de procurar
e achar, e por que desperdiçamos tanta energia nesta luta? (…). É bem provável que
a mente só possa descobrir o que se acha além das medidas do tempo, quando não
está mais a buscar - mas isso não significa deva ela estar contentada, satisfeita. (…)
(Visão da Realidade, pág. 215)

(…) E por que é que buscamos? É por nos sentirmos muito perturbados, muito
descontentes com o que somos? Se somos feios, queremos ser belos; se somos
ambiciosos, queremos preencher a nossa ambição; se temos talento, queremos tornar
esse talento mais vigoroso; (…) se somos medíocres, queremos brilhar; se somos
intelectuais, queremos dar significação à vida; se somos religiosos, queremos achar o
que reside além da mente, indagando, rogando, rezando, sacrificando, cultivando,
disciplinando, etc. (…). (Idem, pág. 218)

Esse esforço intenso, esse processo de ajustamento é a nossa vida, (…). Nossa vida
é um perpétuo campo de batalha, de manhã à noite, e, ignorando a significação dessa
luta, recorremos a outra pessoa, (…). Entregamo-nos às crenças, aos livros, aos guias
(…).(Visão da Realidade, pág. 218-219)
Assim, pois, que é que desejamos? Vendo-nos atribulados, queremos paz, vendo-nos
em conflito, queremos acabar com o conflito. (…) Lutamos para obter uma coisa, e,
depois de obtê-la, seguimos avante, querendo mais. Nossa vida é uma série de
exigências de conforto, de segurança, posição, preenchimento, felicidade,
reconhecimento, e temos também raros momentos em que desejamos descobrir o que
é a verdade, o que é Deus. (…) (Idem, pág. 219)

(…) Andamos de um padrão para outro, de uma gaiola para outra, de uma filosofia ou
sociedade para outra, esperando encontrar a felicidade, (…) nas relações com
pessoas, (…) de um retiro tranqüilo (…). E achamos que, se não buscarmos, iremos
deteriorar-nos, estagnar-nos (…). (Idem, pág. 219-220)

Ora, não vos parece de todo fútil essa busca? Estar cativo na gaiola de dada
disciplina, o ser impelido de uma gaiola, de um sistema, de uma disciplina para outra,
isso, evidentemente, não tem significação alguma. Assim sendo, devemos investigar
(…) por que buscamos. (…) (Idem, pág. 220)

Ora, pode-se perceber e compreender imediatamente que é vã toda busca em que há


“motivo”? (…) A verdade não se acha no futuro, e se (…) descobrirdes a inutilidade da
vossa busca, então esse próprio ato de escutar é o experimentar da verdade, e a
busca cessará então. Vossa mente já não estará subordinada a “motivos”, intenções.
(Idem, pág. 221-222)

Nessas condições, a questão não é de como libertar a mente do “motivo”. A mente


não pode (…) libertar-se do “motivo” porque a mente, em si, é causa e efeito, é
resultado do tempo. (…) Mas se puderdes escutar e ver a verdade de que, enquanto
houver “motivo” na busca, essa busca é toda vã, sem significação, conduzindo apenas
a mais aflições e sofrimentos, (…) vereis que a vossa mente susta a busca, porque já
não tem “motivo” algum. (…) (Idem, pág. 222)

Percebestes, por vós mesmos, a futilidade desta eterna busca com um “motivo” e, por
conseguinte, a vossa mente está silenciosa, quieta, não há movimento algum de
busca; e essa total tranqüilidade da mente pode ser o estado em que se torna
existente o atemporal. (Idem, pág. 222)

Comecemos pelo que está perto, para irmos longe. Que entendeis por “busca”? Estais
em busca da Verdade? E ela pode ser achada pela busca? (…) Busca implica
conhecimento prévio, implica algo que já se sentiu e conheceu. (…) A verdade é algo
que podemos conhecer, apanhar e guardar? O conhecimento que dela temos, não é
uma “projeção” do passado e portanto (…) simples lembrança? (…) E a mente não
deve estar tranqüila para que a Realidade possa existir? A busca é esforço para
ganhar o mais ou o menos (…); e enquanto a mente for o ponto de concentração, o
foco do esforço, do conflito, pode ela estar tranqüila alguma vez? Pode a mente tornar-
se tranqüila por meio de esforço? (…) (Reflexões sobre a Vida, pág. 76-77)

Veremos. Investiguemos a verdade, em relação à busca. Para o buscar, necessita-se


da entidade que busca, separada da coisa buscada; e existe essa entidade separada?
O pensador, o experimentador, é diferente ou distinto de seus pensamentos e
experiências? (…) Temos, pois, de compreender a mente, o processo do “eu”. Que é
essa mente que busca, que escolhe, que tem medo, que nega e justifica? Que é o
pensamento? (Idem, pág. 77)

A palavra “buscar” - tentar alcançar, descobrir - implica que já conhecemos mais ou


menos o que desejamos achar. Ao dizermos que estamos buscando a verdade, ou
Deus, (…) já devemos ter na mente a respectiva imagem ou idéia. (…) Na meditação,
a primeira coisa que se percebe é a inutilidade do buscar; porque a coisa buscada é
predeterminada pelo nosso desejo; (…). (Fora da Violência, pág. 77-78)

A verdade não é uma coisa que se possa experimentar. A verdade não pode ser
buscada e achada. Está fora do tempo. E o pensamento, que é tempo, nenhuma
possibilidade tem de buscá-la e “pegá-la”. (…) Quando a mente está a buscar uma
experiência, por mais maravilhosa que seja, isso significa que o “eu” a está buscando -
o “eu”, que é o passado, com todas as suas frustrações, aflições, esperanças. (A
Questão do Impossível, pág. 72)

(…) Esse estado psicológico que cessa de buscar a experiência não significa paralisia
mental; ao contrário, é a mente aditiva, acumulativa, que começa a definhar. Acumular
é um ato mecânico, repetitivo; tanto a renúncia quanto a mera aquisição são atos
mecânicos de imitação. Torna-se livre a mente que destrói este mecanismo de
acumulação e defesa; dessa maneira ela se torna indiferente ao ato de experimentar.
(Diário de Krishnamurti, pág. 51)

Enquanto existir uma entidade a buscar e uma coisa a ser buscada, tem de existir o
experimentador, aquele que reconhece e que constitui o núcleo (…) egocêntrico.
Desse centro se originam todas as atividades, nobres e ignóbeis: desejo de riquezas e
poder, (…) impulso de buscar a Deus, (…). (Diálogos sobre a Vida, 1ª ed., pág. 46)

Quando a mente detém a busca por ter compreendido o total significado da busca, não
cairão por si mesmas as limitações que ela a si própria impôs? E ela não se torna
então o Imensurável, o Desconhecido? (Idem, pág. 47)
Vós sois simples e ignorante? Se realmente o fôsseis, encontraríeis um grande deleite
no iniciar a verdadeira busca; (…) A sabedoria e a verdade vêm ao homem que diz,
verdadeiramente: “Sou ignorante, não sei”. São os simples, os inocentes, e não os que
estão repletos de saber, que verão a luz, porque eles são humildes. (Reflexões Sobre
a Vida, pág. 140)
Sabedoria, Não se Aprende de Outros nem de
Livros
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 22:00

Pergunta: Que é sabedoria? É diferente do saber?

Krishnamurti: - Que é saber? Por certo, o saber é o princípio acumulador que existe
em todos nós, e que é a memória. (…) Saber é um processo de verbalização; e tudo
aquilo que foi acumulado, e que é experiência, memória, ou saber, nunca trará
verdade. (…) (Por que não te Satisfaz a Vida, pág. 79)

(…) A experiência, pois, é um processo de reação da mente condicionada; e onde há


o saber ou o acúmulo de experiências, lembranças, palavras, símbolos, imagens, não
pode haver compreensão. Só pode surgir a compreensão quando estamos livres do
saber. (…) (Idem, pág.80)

Assim, pois, a compreensão não é o resultado de acumulação, e sabedoria não é


saber. A sabedoria é independente do saber. (…) A sabedoria tem existência
momento a momento, ao passo que o saber nunca pode livrar-se do passado, do
tempo. A sabedoria é livre do tempo, (…). O homem que sabe pode não ser sábio,
porque o seu próprio conhecimento nega a sabedoria. (…) (Idem, pág. 80)

A memória é experiência acumulada e o que está acumulado é o que se sabe, e o que


se sabe é sempre coisa passada. Com essa carga de lembrança é possível descobrir-
se (…) o Atemporal? Não é necessário estarmos libertos do passado para que
possamos conhecer o Imensurável? (…) A sabedoria não é memória acumulada,
porém, antes, suprema receptividade para o Real. (O Egoísmo e o Problema da Paz,
pág. 178-179)

(…) Se tenho um problema e desejo realmente compreendê-lo, não devo aplicar-me a


ele com a mente cheia de preocupação e agitação. Tenho de fazê-lo com a mente
livre; porque só a mente passível, a mente vigilante, é capaz de compreensão. A
mente que é capaz de estar silenciosa está apta a receber a verdade. (…) A verdade é
totalmente nova, livre. A ela não podemos chegar-nos com idéias preconcebidas, não
é ela a experiência alheia. (…) (Nosso Único Problema, pág. 74)

(…) Sabedoria não é acumulação de conhecimentos e experiência; a sabedoria não se


adquire nos livros, (…). Nasce a sabedoria só quando há liberdade da mente; e a
mente que está tranqüila encontrará o Atemporal, que é Imensurável, surgido na
existência. (…) (Idem, pág. 77)
(…) Sabedoria não é algo que se experimente ou se encontre em algum livro. A
sabedoria não é coisa que se possa experimentar, (…) captar, acumular. Pelo
contrário, a sabedoria é um “estado de ser” em que não há acumulação de espécie
alguma; não se pode acumular sabedoria. (Que Estamos Buscando?, 1ª Ed, pág. 217)

Digo que a sabedoria não pode ser comprada. A sabedoria não se encontra no
processo de,acumulação; não é o resultado de inúmeras experiências; nem é
adquirida pelo estudo. A sabedoria, a vida mesma, só pode ser entendida quando a
mente estiver livre desse senso de busca, dessa procura de conforto, dessa imitação,
pois estes são apenas meios de fuga (…). (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág.
163-164)

(…) A sabedoria não é uma coisa que venha por meio de orientação, do seguir, por
meio da leitura de livros. Não podeis aprender a sabedoria de segunda mão;
entretanto, é isto o que estais tentando fazer. Assim, dizeis: “guiai-me, auxilai-me,
libertai-me”. (…) (Idem, 1933, pág.194)

(…) O conhecimento nada tem que ver com a sabedoria. A sabedoria não pode ser
comprada; é natural, espontânea, livre. Não é mercadoria que possais comprar de
vosso guru, instrutor, ao preço de disciplinas. (…) (Palestras em Adyar, Índia, 1933-
1934, pág. 101-102)

Ora, confiamos demais no saber. O homem que escreve um livro sobre a mente ou
que disserta a respeito da mente, aceitamo-lo como autoridade. Damos um nome ao
seu pensamento, e o esposamos. Nunca nos pomos a investigar o inteiro processo do
nosso pensar, para descobrirmos por nós mesmos. E é por isso que temos tantos
líderes, cada um fazendo valer a sua autoridade, e nos dominando. E pode alguém
lançar fora tudo isso e descobrir as coisas por si mesmo? Porque (…) o saber é um
obstáculo à compreensão. (Viver sem Temor, pág. 14)

Se um homem deseja construir uma ponte, para isso ele necessita, naturalmente, de
saber, (…) de uma certa capacidade técnica. Mas, pode-se ter de antemão o
conhecimento, isto é, a compreensão, de uma coisa viva? O que chamais “eu” é uma
coisa viva, da qual não se pode ter conhecimento prévio. Pode-se ter experiências a
ele relativas, ou conhecer o que outros disseram a seu respeito, mas se um de nós se
põe a examinar a si mesmo, com um conhecimento prévio, nunca descobrirá o que é
realmente. (…) (Idem, pág.14)

Com nossa busca de saber, com nossos desejos gananciosos, estamos perdendo o
amor, estamos embotando o sentimento do belo, a sensibilidade à crueldade; estamo-
nos tornando cada vez mais especializados e cada vez menos integrados. A sabedoria
não pode ser substituída pela erudição, (…). (A Educação e o Significado da Vida, 1ª
ed, pág. 78)

(…) A erudição é necessária, a ciência tem o seu lugar próprio; mas se a mente e o
coração estão sufocados pela erudição, e se a causa do sofrimento é posta de parte
com uma explicação, a vida se toma vazia e sem sentido. (…) (Idem, pág. 78)

O saber, o conhecimento de fatos, embora em constante crescimento, é por sua


própria natureza limitado. A sabedoria é infinita, abarcando o saber bem como a esfera
da ação; se nos apoderarmos de um ramo, pensamos que temos a árvore toda. O
intelecto jamais nos levará ao todo, porque ele é apenas um segmento, uma parte.
(Idem, pág. 79)

Não é válida a experiência de outro para a compreensão da realidade. Entretanto, as


religiões organizadas, no mundo inteiro, baseiam-se na experiência de outro, e, por
conseguinte, elas não estão libertando o homem, porém, ao contrário, prendendo-o a
um determinado padrão e instigando os homens uns contra os outros. (…) (O
Caminho da Vida, pág. 27)

(…) Sabeis, a maioria de nós deseja adquirir sabedoria ou verdade por meio de
outrem, mediante algo vindo do exterior. Ninguém vos poderá transformar num artista;
só vós próprios podereis fazê-lo. É isto que desejo dizer: posso dar-vos tinta, pinceis e
tela, mas vós próprios tendes de vos tornar o artista, o pintor. (…) (Palestras na Itália e
Noruega, 1933, pág. 40-41)

Imaginais que qualquer sociedade ou livro vos pode dar sabedoria? Livros e
sociedades podem fornecer-vos noções; (…). Se a sabedoria pudesse ser adquirida
por meio de uma seita ou sociedade religiosa, todos seríamos sábios, (…). A
sabedoria, porém, não se adquire por essa forma. A sabedoria é a compreensão do
fluxo contínuo da vida ou da realidade, e somente é aprendida quando a mente está
aberta e vulnerável, isto é, quando a mente não está mais embaraçada pelos seus
próprios desejos de auto-proteção, reações e ilusões. (…) (Palestras no Brasil, pág.
48)

Vamos averiguar o que entendeis por sabedoria, (…). Podeis conhecer, ou adquirir a
sabedoria, ou só é possível conhecer fatos, e adquirir sapiência? Por certo, sapiência
e sabedoria são duas coisas diferentes. Podeis saber tudo a respeito de uma coisa;
mas será isso sabedoria? (…) (Que Estamos Buscando?, 1ª ed, pág. 84-85)
A sabedoria terá de ser adquirida aos poucos, em vidas consecutivas? Sabedoria será
acumulação de experiência? Aquisição implica acumulação; experiência implica
resíduo. (…) Esse processo de acumulação será sabedoria (…) Pode o homem que
sabe ser sábio? O homem que sabe não é sábio, e o que não sabe é sábio. (Idem,
pág. 85)

A acumulação, pois, nunca é sabedoria, porquanto só pode haver acumulação daquilo


que se conhece; e o que se conhece não pode, nunca, ser o desconhecido. (…) (Idem,
pág. 86)

A verdade não pode ser acumulada. Ela não é experiência. Ela é “experimentar” - em
que não há experimentador nem experiência. Conhecimento implica alguém que
acumula, que junta; (…) A sabedoria é como o amor; e, privados desse amor,
queremos cultivar a sabedoria, (…) (Idem, pág. 86)

A sabedoria é sempre vigorosa, sempre nova. Como se pode conhecer o novo,


quando há continuidade? (…) Só quando há findar, há o novo, que é criador. Mas
queremos continuar (…) e a mente em tais condições nunca pode conhecer a
sabedoria. Pode conhecer, apenas, a sua própria projeção, suas próprias criações.
(…) A verdade não pode ser procurada. A verdade só surge quando a mente está
vazia de todo conhecimento, todo pensamento, toda experiência; e isso é sabedoria.
(Idem, pág. 86-87)

Assim, perceber o processo integral de nós mesmos é o começo da sabedoria. A


sabedoria não é algo que se possa comprar nos livros, (…) aprender de outras
pessoas, #(…) acumular pela experiência. (…) (Viver sem Confusão, pág. 70)

A experiência é simples memória; e a acumulação de lembranças ou de


conhecimentos não é sabedoria. A sabedoria, sem dúvida, é o experimentar a cada
momento, sem condenação nem justificação; é a compreensão (…) de cada reação,
de modo que a mente vá ao encontro de cada problema por maneira nova. (…) (Idem,
pág. 71)

A erudição não é comparável com a inteligência, erudição não é sabedoria. A


sabedoria não é comerciável, não é artigo que se possa comprar pelo preço de estudo
e da disciplina. Não se encontra sabedoria nos livros; não pode ser acumulada,
guardada ou armazenada na memória. A sabedoria vem pela negação do “eu”. Ter a
mente aberta é mais importante do que aprender (…). A sabedoria não pode ser
adquirida pelo temor e pela opressão, mas só pelo exame e pela compreensão dos
incidentes de cada dia, nas relações humanas. (A Educação e o Significado da Vida,
1ª ed, pág. 78)

Uma vida primitiva não é uma vida espiritual. O primitivo tem tanto medo como o
chamado civilizado, e a diferença é só que seus temores são mais rudimentares, mais
superficiais. Mas, em certo sentido, é necessário que o indivíduo “sofisticado”,
eminentemente culto, muito sabedor se torne primitivo. Precisa tornar-se novo,
“inocente”, morrer para todo o saber que acumulou. (O Homem e seus Desejos em
Conflito, 1ª ed, pág. 59)

(…) A compreensão do “eu” é o começo da sabedoria, e sabedoria não é reação. Só


quando compreendo todo o processo da reação, que é condicionamento, só então
existe um centro sem ponto, que é a sabedoria. (Que Estamos Buscando?, lª ed, pág.
215)

(…) Por conseguinte, o autoconhecimento é o começo da sabedoria. A sabedoria não


se compra nos livros; (…) não é experiência; (…) não é a acumulação de nenhuma
espécie de virtude, nem o evitar o mal. A sabedoria só vem pelo autoconhecimento,
pela compreensão de toda a estrutura, de todo o processo do “eu”. (Viver sem
Confusão, pág. 52)

Assim, pois, o autoconhecimento é o começo da sabedoria, e sem a sabedoria não


pode haver tranqüilidade. Sabedoria não é sapiência. A sapiência é um obstáculo à
sabedoria, à revelação do “ego”, momento a momento. (…) (O que te fará Feliz?, pág.
97)

(…) A sabedoria não tem autoridade; ela vem à existência quando a mente começa a
compreender as profundezas e amplidões da sua própria natureza, sobre as quais não
é possível especular. (…) (Claridade na Ação, pág. 147)

(…) Para descobrirmos o que é criador, precisamos proceder de maneira nova. A


mente deve estar vazia, livre de todo saber, livre da memória. Só então existe a
possibilidade de relações de uma nova espécie, de um mundo novo. (Idem, pág. 147)

Não há caminho para a sabedoria. Se algum caminho existe, então a sabedoria é


coisa formulada de antemão, já imaginada, conhecida. (…). A experiência e o saber,
uma vez que são contínuos, abrem um caminho para suas próprias projeções, e por
isso são sempre entraves. A sabedoria é a compreensão do que é, momento a
momento, sem acumulação de experiência e conhecimento. O que se acumula não dá
liberdade para compreender, e sem liberdade não há possibilidade de descobrimento;
(…). A sabedoria é sempre nova, sempre fresca, e não há nenhum meio de a
acumularmos. O meio destrói o que é novo, (…) espontâneo. (Comentários sobre o
Viver, pág. 94)

Vede, (…). Não interpreteis “sem conhecimento” como um estado de ignorância. Ser
“sem conhecimento” é possuir a sabedoria; porque o conhecimento tem continuidade,
e a sabedoria não tem. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed, pág. 29)

(…) A mente silenciosa - mas não silenciada - só ela pode perceber o Imensurável. A
solução do problema (…) está na compreensão das relações; por conseguinte a
meditação é o começo do autoconhecimento e o autoconhecimento é o começo da
sabedoria. (…) Nasce a sabedoria só quando há liberdade da mente; e a mente que
está tranqüila encontrará o Atemporal, que é o Imensurável, surgido na existência. (…)
A mente tem de ser induzida a recebê-lo de maneira nova, de cada vez; e a mente que
acumula saber, virtude, é incapaz de receber o eterno (Nosso Único Problema, pág.
77)
Originalidade Espiritual; Mente de Segunda Mão
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 22:05

Quer-me parecer que muito raramente fazemos a nós mesmos uma pergunta
fundamental; e, quando a fazemos, em geral a ela respondemos em conformidade
com nosso gosto particular, nossa fantasia ou crença, e, conseqüentemente, a
pergunta original - a pergunta essencial, fundamental - fica sem resposta. (…) E eu
penso que não só devemos fazer perguntas fundamentais, mas também procurar
descobrir as respostas verdadeiras, originais. (O Descobrimento do Amor, pág. 139)

Nesta manhã desejo falar sobre o processo de ajustamento; isto é, desejo averiguar
se existe alguma coisa de original, (…) completamente isenta de ajustamento e que
não seja mera abstração, uma simples idéia, porém fato tão real como qualquer fato
da vida diária. Assim sendo, a pergunta fundamental que fazemos a nós mesmos é
esta: até onde é possível eliminar o ajustamento? É possível eliminar inteiramente o
ajustamento e, desse modo, permitir a existência do original? (…) (Idem, pág. 139)

Por certo, só livres do ajustamento poderemos descobrir por nós mesmos o que é
original, essencial, verdadeiro; e, a menos que nós próprios o descubramos,
viveremos sempre uma vida “falsificada”, (…) de “segunda mão”, de imitação. (…)
(Idem, pág. 140)

Por “ajustamento” entendo o processo no qual o “pensamento” e o “pensador” estão


sempre a moldar-se por um padrão, sempre a imitar, a repetir, a sujeitar-se a um
determinado padrão ou ideal, em suas relações. Esse ajustar-se é a norma de nossa
vida, o padrão diário de nossa existência; e estamos agora a interrogar-nos se esse
ajustamento pode terminar. (Idem, pág. 140)

E devemos também perguntar-nos se a terminação do ajustamento causa desordem e


por essa razão somos obrigados a ajustar-nos; ou se, terminando o ajustamento,
ocorre o descobrimento de algo totalmente original, não “falsificado” ou de “segunda
mão”. (Idem, pág. 140)

Em geral, nossa vida é sem originalidade. Não sabemos, por nós mesmos, o que é
original, nem mesmo se existe algo que se possa chamar “original”. A meu ver, a
palavra “original” é de ordinário mal empregada. Falamos, muitas vezes, sobre
literatura “original”, um quadro “original”, uma maneira “original” de pensar ou de
expressar-nos; (…). Não me parece adequado o emprego da palavra “original” em tais
casos. Há certa coisa original que as religiões de todo o mundo (…) sempre andaram
buscando. (…) (Idem, pág. 140)
Agora, antes de tudo mais, estamos totalmente cônscios desse processo de
ajustamento que se verifica em cada um de nós. (…) É bem evidente que, quanto mais
esforços fazemos, tanto maiores se tornam o conflito e a confusão e, por conseguinte,
(…) nossa aflição e dor. Cabe-nos, pois, averiguar se é possível vivermos sem
esforços, isto é, vivermos originalmente e, por conseguinte, livres de todo ajustamento.
(Idem, pág. 141)

Ora, para se alcançar esse ponto, devemos primeiramente estar cônscios (…) da
natureza da mente que se ajusta. (…) Todo ajustamento implica esforço, não? E
quando há esforço (…) não há verdadeiras relações. Se me esforço para ser bondoso,
afetuoso ou cortês para convosco, isso nada significa. A bondade, a delicadeza, a
afeição emanam de um estado mental em que não existe esforço algum; (…) (Idem,
pág. 141 142)

Em relação a certas coisas externas, superficiais, há uma natural necessidade de


ajustamento, (…). Aqui, eu me “ajusto” vestindo esta espécie de traje; na índia, me
“ajusto” de outra maneira, vestindo trajes diferentes. (…) (Idem, pág. 142)

Mas, tenho necessidade de “ajustar-me” ao veneno do nacionalismo? (…) a um dado


padrão de existência, uma certa maneira de pensar que a sociedade procura impor-me
e, em virtude da qual, minha mente é moldada pela religião organizada, pelas
influências econômicas e sociais? (…) (Idem, pág. 142)

Superficialmente, o ajustamento, a adaptabilidade, são necessários; porém,


interiormente, profundamente, o ajustamento acarreta esforço e, por conseguinte,
imitação. Enquanto está a imitar, a esforçar-se por ajustar-se, a mente está a isolar-se;
por conseguinte, não há para ela relações, e o que faz é apenas aumentar o medo.
(Idem, pág. 147)

Assim, para a mente que leva essa carga constituída pelo medo, o ajustamento, o
pensador, não é possível a compreensão daquilo que se pode chamar o original. (…)
Quando a mente humana está livre de todo temor, não está então - em seu desejo de
saber o que é original - em busca de prazer para si própria, nem de nenhuma via de
fuga e, por conseguinte, em sua investigação já não existe autoridade alguma. (…)
(Idem, pág. 148)

É possível a mente achar-se sempre em ação, diretamente, espontânea e livremente,


de modo que nunca tenha um momento de tempo? Porque o tempo é pensamento
periférico. (…) O pensamento jamais pode ser original. Podeis usar palavras, que
pertencem ao passado, expressar o original, mas o original não pertence ao tempo.
Por conseguinte, para descobrir o original deve a mente estar inteiramente livre do
tempo do tempo - do tempo psicológico; (…). (O Despertar da Sensibilidade, pág. 150)

(…) Só então a mente tem a possibilidade de descobrir, por si própria, o que é original
- descobri-lo não como mente individual, porém como ente humano. Não existe mente
“individual”, absolutamente. Somos totalmente relacionados. Compreendei isso, (…). A
mente não é uma coisa separada; é uma totalidade. Todos vivemos a ajustar-nos,
todos temos medo, todos estamos a fugir. E, para compreendermos, cada um de nós -
não como indivíduo, porém como ente humano total - o que é o original, precisamos
compreender a totalidade do sofrimento humano. (…) (O Descobrimento do Amor,
pág. 148)

(…) Do contrário, somos entes humanos “de segunda mão”; e porque somos
imitações, entes humanos falsificados, o sofrimento nunca tem fim. Assim, pois, o
findar do sofrimento é, em essência, o começo do original. (…) (Idem, pág. 148)

Estamos, pois, aprendendo, e esse aprender nunca é ajustamento a nenhum padrão;


(…) Quer se trate de padrão estabelecido por Buda, por Cristo, por Sankara, quer do
padrão de vosso guru favorito, o aprender nenhuma relação tem com ele. Por que no
ajustamento cessa todo aprender e, por conseguinte, nunca há originalidade. E nós
estamos descobrindo por meio do aprender, com originalidade. (Uma Nova Maneira de
Agir, 1ª ed., pág. 34)

Conforme o dicionário, a palavra “autoridade” deriva de “autor”: “aquele que lança uma
idéia original, que cria alguma coisa inteiramente nova”. Esse homem estabelece um
padrão, um sistema baseado em suas idéias; (…). O seguidor aceita a “autoridade”, a
fim de alcançar o que promete o seu sistema de filosofia ou de idéias; a esse sistema
se apega, dele fica dependente (…). O seguidor, pois, é um ente humano sem
originalidade; assim é a maioria das pessoas. (…) (A Questão do Impossível, pág. 22)

Poderão pensar que têm idéias originais, na pintura, na literatura, etc., mas,
essencialmente, já que estão condicionados para seguir, imitar, ajustar-se, tornaram-
se entes humanos de “segunda mão, (…). Esse é um dos aspectos da natureza
destrutiva da autoridade. (Idem, pág. 22)

(…) Afinal de contas, por individualidade entendemos a qualidade que encerra


originalidade, força criadora, a qualidade de singularidade criadora. (…) Se
examinarmos a nossa conduta de cada dia, nossa cotidiana maneira de pensar,
veremos que o processo de nossa ação é imitação contínua, mero copiar. (…) E
porque vivemos imitando, copiando, não somos, absolutamente, indivíduos.
Citamos o que disse fulano de tal, o que disse Sankaracharia, Buda ou Cristo, porque
se tornou nosso padrão de existência; nunca procuramos descobrir, achar a verdade
por nós mesmos, mas repetir o que outras pessoas descobriram, (…). Quando
tomamos a experiência alheia, (…) para padrão de nossa ação, ela (…) é uma
mentira. (…) (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 140)

Ao compreendermos a total estrutura do sofrimento, pondo, portanto, fim ao


sofrimento, teremos então a possibilidade de encontrar (…) aquela coisa extraordinária
que é a origem de toda a vida, aquela fantástica energia, que está sempre a “explodir”.
Essa energia não é um movimento em direção alguma e, por conseguinte, “explode”.
(O Descobrimento do Amor, pág. 149)

Senhores, (…). Já experimentastes alguma vez reunir toda a vossa energia - física,
emocional, mental, visual, (…) e “com ela ficar”, completamente, tranqüilamente? (…)
Se a energia tem algum movimento em qualquer direção (…) está sendo dissipada.
Mas, quando toda a nossa energia fica completamente imóvel, inicia-se um movimento
que é original e, por conseqüência, “explosivo”. (…) (Idem, pág. 149)

Experimentai o, uma ocasião, e vede se sois capaz disso. Mas, para tanto, requer-se
uma grande soma de inteligência, extraordinária vigilância; (…). Se puderdes reunir
toda a vossa energia, sem esforço, vossa mente estará então transbordante de
energia, sem atrito de espécie alguma. Verifica se, então, uma “explosão” - e, dessa
explosão, surge o original. (Idem, pág. 149)

Vós não estais habituados a investigar, (…) a observar-vos; costumais ler o que outras
pessoas dizem, a citar Sankara, Buda (…). Bom seria que nunca dissésseis uma
palavra que não represente um descobrimento feito por vós mesmos, (…) que vós
mesmos não conheçais. Isso significa lançar para o lado todos os gurus, todos os
livros sagrados ou religiosos, todas as teorias, tudo o que disseram os filósofos -
embora tenhais de conservar os vossos livros técnicos e científicos. (O Novo Ente
Humano, pág. 63)

Nunca digais nada que não compreendais, que vós mesmos não tenhais descoberto.
Vereis, então, como a atividade da mente sofrerá uma extraordinária transformação.
Ora, nós, entes humanos “de segunda mão”, queremos descobrir uma maneira de
viver realmente livre do tempo, porque o pensamento é tempo, e o tempo forma as
coisas gradualmente. Gradualidade implica tempo. (Idem, pág. 63-64)

(…) O pensamento funciona no tempo; penso na vida como movimento de um ponto


para outro e, agora, estamos inquirindo se existe uma maneira de viver em que o
tempo não exista absolutamente. O que nos interessa é a mudança, a revolução, a
total mutação da estrutura mesma das células cerebrais; de outro modo, não será
possível criar-se uma nova cultura, uma nova maneira de viver - um viver numa
dimensão inteiramente diferente. (…) (Idem, pág. 64)

(…) Sois capazes de citar uma dúzia de livros, mas não conheceis a vós mesmos.
Sois entes humanos “de segunda mão”, e os problemas exigem uma mente de
“primeira mão”, que esteja diretamente em contacto com o problema, não uma mente
(…) embotada. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 24)

Para esse homem que total e completamente rejeita a palavra, o símbolo e sua
influência condicionadora, a Verdade não é uma coisa de segunda mão. Se o tivésseis
escutado realmente, senhor, saberíeis (…) que a aceitação da autoridade é a negação
mesma da Verdade, (…) que devemos ficar fora de toda cultura, tradição e moralidade
social. (…) Ele rejeita totalmente o passado, seus instrutores, seus intérpretes, suas
teorias e fórmulas. (A Outra Margem do Caminho, pág. 12)

Vede, senhor, (…). Cada um tem de descobrir a Verdade por si próprio. A Verdade
não é uma coisa “de segunda mão”. Não podeis adquiri-la por intermédio de um guru,
de um livro. Para conhecê-la, tendes de aprender; (…). E a beleza do aprender é o
“não saber”. (…) A Verdade não é uma coisa “de segunda mão”; para descobrirdes,
precisais de paixão, de “intensidade”. Inteligente, pois, é a mente que está
aprendendo, e não aquela que repete o que aprendeu. (…) (O Novo Ente Humano,
pág. 160)

(…) Compreendemos a vida, se temos a mente cheia de coisas ditas por outras
pessoas, se seguimos a experiência, o saber alheio? Ou só vem a compreensão
quando a mente está quieta? - mas não quando foi aquietada, (…). Com o indagar,
procurar, perscrutar, a mente se torna, inevitavelmente, tranqüila, e então o problema
revela todo o seu significado; (…). (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 190)

(…) Positivamente, senhor, o homem de saber, o letrado, nunca pode conhecer a


verdade; pelo contrário, o saber e a erudição devem cessar. A mente precisa ser
simples, para compreender a verdade, e não estar cheia do saber de outras pessoas
(…). (Idem, pág. 190)

Temos vivido em conflito por milhares e milhares de anos, submetendo-nos,


obedecendo, imitando, repetindo (…); temo nos convertido em pessoas de segunda
mão, sempre citando a algum outro, o que o outro disse (…). Temos perdido a
capacidade, a energia para aprender de nossas próprias ações. Somos os
responsáveis por nossas próprias ações (…) - não a sociedade ou o meio, (…). Em
um semelhante aprender descobrimos muitíssimo (…). Se vocês sabem como ler esse
livro, então não têm de ler nenhum outro livro - exceto, por exemplo, livros técnicos.
(…) (La Llama de la Atención, pág. 24)

(…) Em outras palavras, percebe a mente o problema do controle, da disciplina, da


autoridade e das correspondentes reações -estão vocês (…) alertas a toda essa
estrutura? (…). Se vocês percebem todo esse problema (…) - que implica ajuste a um
modelo - porque o hão observado, (…) vivido, (…) vigiado atentamente, então isso é
original e próprio de vocês; o outro é de segunda mão. (…) (El Despertar de la
Inteligencia, II, pág. 109)

Para a maioria de nós, isso é de segunda mão, porque somos gente de segunda mão
(…). Todo nosso conhecimento é de segunda mão, como o são nossas tradições, (…).
Vemos então que se trata de nossa própria percepção direta e não um conhecimento
de segunda mão, aprendido de outro? Se foi aprendido de outro, então deve ser
descartado em sua totalidade, (…). Se desprezaram o que outros - incluindo o que
lhes fala - hão dito, então realmente estão aprendendo, não é verdade? (Idem, pág.
109-110)

Que é para vocês o pensar? (…) Quase todos nós temos nos tornado pessoas de
segunda mão; lemos muitíssimo, vamos a uma universidade e acumulamos uma
grande quantidade de conhecimentos, de informação que se deriva do que outras
pessoas pensam ou do que outros têm feito. E nós citamos esse conhecimento que
temos adquirido e o comparamos com o que se está dizendo. Não há nada original, só
repetimos, repetimos, repetimos. (…) (La Llama de la Atención, pág. 14)

(…) Quando tendes esse desejo, essa capacidade de vos encher com o Seu gênio,
com a Sua força, com a Sua nobreza, então vós próprios vos enobreceis e aprendeis a
refletir a Sua divina originalidade, todas as fontes de beleza, todas as fontes de
criação; e as tentativas de ser original, belo, criador, são de pouco proveito se não
tivermos a compreensão e a capacidade de alcançar a fonte das coisas. (…) (O Reino
da Felicidade, pág. 28)
Deus, Nomes, Atributos: Absoluto, Supremo,
Inefável
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 22:09

Pergunta: Que é Deus?

Krishnamurti: Conheceis o aldeão, o simples; para ele Deus é aquela pequena


imagem, diante da qual deposita flores. Povos primitivos chamam o trovão seu Deus.
(…) Há gente na Índia, atualmente, que adora árvores. (Debates sobre Educação, pág.
137)

Ides a um templo. Lá vedes uma imagem suave, enfeitada de flores, e fazeis puja
diante dela. Podeis ir mais além e criar uma imagem na vossa mente, uma idéia
nascida da vossa tradição, do vosso fundo; e a essa imagem chamais vosso Deus.
(…) Isso é Deus? Ou Deus é algo inimaginável, imensurável pela mente? (Idem, pág.
137)

Deus é algo completa e totalmente insondável por nós, e Ele se manifesta quando
está quieta a nossa mente, sem projetar, sem lutar. Quando a mente está tranqüila,
tem-se então a possibilidade de saber o que é Deus. (Idem, pág. 137-138)

O Deus por vós inventado não é Deus. A coisa feita pela mão, a imagem do templo,
não é Deus, e também a coisa “feita” por vosso pensamento não é Deus. E é disso
que viveis: da imagem feita pela mão ou pela mente. (O Novo Ente Humano, pág. 151)

Mas, se realmente desejais investigar se existe ou não uma realidade atemporal, fora
do campo do pensamento, cumpre-vos, então, compreender a natureza do
pensamento. Mas, se meramente perguntais: “posso achar Deus?”, podeis achá-lo,
(…) mas não será a Verdade, (…) o Real. (Idem, pág. 151)

Minha doutrina difere (…). Eu nunca disse que não há Deus. O que eu disse é que só
existe Deus conforme se manifesta em cada um de nós, e que, quando houverdes
purificado aquilo que está dentro de vós mesmos, achareis a Verdade. É claro que
Deus existe; mas não vou empregar a palavra Deus, porquanto ela assumiu um
significado muito especial e estreito.

Para uns ela sugere um punho possante (…); para outros, um ser de longas barbas;
para outros, uma Inteligência Onipotente, Onisciente e Suprema. Isso eu prefiro
chamar Vida, porque nos aproxima mais da Verdade. (…) (Que o Entendimento seja
Lei, pág. 11)
Pergunta: Que pretendeis ao dizer que não há Deus?

Krishnamurti: Eu nunca disse que não há Deus. Tenho dito muito claramente. Para
descobrir se há ou não há Deus, é necessário abolir, apagar da mente todo e qualquer
conceito relativo a Deus. (…) precisais apagar da mente todas as “informações” que
tendes a respeito de Deus. (A Mutação Interior, pág. 69)

As pessoas que vos deram tais “informações” podem estar muito enganadas; tendes
de descobrir tudo por vós mesmo. E, para o descobrirdes por vós mesmo, deveis
livrar-vos de todas as autoridades, compreender a estrutura total (…) (Idem, pág. 69)

Se não há compreensão de tudo isso, a mera busca daquilo que chamais Deus nada
significa. Deus é algo extraordinário, não imaginável por nenhuma espécie de crença.
Vós tendes de descobri-lo. (…) Para descobrirdes, deveis primeiramente estar livre
(Idem, pág. 69-70)

Pergunta: Pode explicar o que é Deus?

Krishnamurti: Que entende você por Deus? Eu jamais emprego a palavra “Deus” para
indicar algo que não seja Deus. O que o pensamento tem inventado não é Deus. Se
isso tem sido inventado pelo pensamento, segue dentro do campo do tempo, (…) do
material. (Tradición y Revolución, pág. 291)

Krishnamurti: Porém ele pode inventar Deus devido a que não poder ir mais longe. O
pensamento conhece suas limitações, por isso trata de inventar o ilimitado a que
chama Deus. Essa é a situação. (Idem, pág. 291)

A vida é muito complexa, e a mente, mais complexa ainda e dotada de extraordinárias


capacidades; (…). O centro que acumula é o “eu”, o “ego”, e, portanto, toda ação
procedente desse centro poderá, apenas, aumentar o problema. A Realidade, Deus
(…) deve ser algo totalmente novo, nunca dantes experimentado, completamente
original; (…). (Percepção Criadora, pág. 42)

Entretanto, toda igreja, toda organização religiosa, toda seita está sempre a falar de
Deus; e os que crêem em Deus têm visões que fortalecem a sua crença. Ora, o que
podemos reconhecer é sempre coisa já conhecida e, portanto, não pode ser o
verdadeiro. O que é verdadeiro nunca foi anteriormente conhecido e, por conseguinte,
a mente deve compreendê-lo de maneira nova, como coisa nova; (…) (Idem, pág. 42-
43)
(…) Afinal, o atemporal, a eternidade, o inefável é isto: quando a própria mente é o
desconhecido. Por ora, a mente é o conhecido, resultado do tempo, de ontem, do
saber, de experiências e crenças acumuladas, e, nesse estado, a mente jamais
chegará a conhecer o desconhecido. (…) (Idem, pág. 44)

(…) Para o encontro com a vida, necessita se de vulnerabilidade e não da muralha


respeitável da virtude, onde o “eu” se isola. O Supremo não pode ser atingido; não há
caminho, (…) aperfeiçoamento (…) progressivo, para chegar se lá. A Verdade tem de
vir, ninguém pode ir a ela, e a virtude cultivada não leva ninguém aonde ela está. O
que se pode atingir não é a Verdade, mas o nosso próprio desejo, projetado; e é só na
Verdade que se encontra a felicidade. (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 31)

Senhores, Deus não é uma coisa que se pode adquirir como se adquire (…) uma
virtude. É algo incomparável, atemporal, inimaginável, inefável: não podeis ir a Ele. Ele
deve vir a vós, e tão somente quando o vosso espírito não mais está buscando. (…)
Quando a mente já não compara, não adquire - só a essa mente que está tranqüila
pode a Realidade manifestar-se; (…). Tereis (…) a mente que já não compara, já não
adquire, a mente que ingressou num “estado de ser” - e nesse ser a Realidade
penetra. (O Problema da Revolução Total, pág. 48)

Pergunta: Vós atingistes o real. Podeis dizer o que é Deus?

Krishnamurti: Como sabeis que atingi o real? Para sabê-lo, seria necessário que vós
também o tivésseis alcançado. (…) Ora, por certo, meu atingimento da realidade nada
tem que ver com o que estou dizendo, e o homem que venera outro homem, por ter
esse outro alcançado a realidade, está, em verdade, rendendo culto à autoridade e,
por conseguinte, nunca encontrará a verdade. (…) (A Primeira e Última Liberdade,
pág. 257)

Desejais que eu vos diga o que é a realidade. Pode o indescritível ser posto em
palavras? Pode-se medir o imensurável? (…) Se o formulais, é o real? Naturalmente
que não, (…). No momento em que traduzis o incognoscível no conhecido, ele deixa
de ser o incognoscível. Entretanto, é isso o que buscamos, (…) (Idem, pág. 258)

Conseqüentemente, em vez de perguntar quem atingiu o real ou o que é Deus, por


que não aplicais toda a vossa atenção e vigilância ao que é? Encontrareis então o
desconhecido, ou, melhor, ele virá ao vosso encontro. Se compreenderdes o que é
conhecido, experimentareis aquele silêncio extraordinário, não provocado, não
forçado, aquele vazio criador, no qual, e só nele, a realidade pode surgir. (…)
Vereis, pois, que a realidade não está longe; o desconhecido não está longe de nós;
ele se acha em o que é. Assim como a solução de um problema se encontra no
problema, assim também a realidade se encontra em o que é; se podemos
compreendê-lo, conheceremos então a verdade. (Idem, pág. 259)

O que importa é que o indivíduo compreenda a si mesmo, e se ponha frente a frente


consigo mesmo, com aquela pobreza que sempre evitamos, com aquele vazio a que
todos nos furtamos. E quando compreendermos isso, quando o experimentarmos (…)
- só então haverá uma possibilidade de passarmos além e de descobrirmos o que é a
verdade, ou o que é Deus. (Nós Somos o Problema, pág. 34)

Procurando compreender o mundo exterior, chegaremos ao interior, e este,


corretamente seguido e verdadeiramente compreendido, conduzirá ao Supremo. Essa
realização não deriva da fuga e só ela proporcionará paz e ordem universal
(Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 106-107)

A Realidade, ou Deus, (…) não se alcança por meio de conflito. Pelo contrário, é
imprescindível a extinção do “eu”, do centro de acumulação de conhecimentos, de
virtude, de experiência (…). Só então, sem dúvida, é possível surgir aquele estado de
Realidade. (A Renovação da Mente, pág. 25-26)

(…) Esta é a nossa vida: um vão processo de mentir, enganar, tentar tornar-nos algo
importante, lutar para dominar, reprimir. E pensais que essa vida tem alguma relação
com a Realidade, a Bondade, a Beleza, Deus, com algo que não é de procedência
humana? Entretanto (…) queremos trazer para ela aquela Realidade e tratamos de
freqüentar o templo, de ler livros sagrados, (…). Queremos trazer aquela imensidão,
aquela imensurabilidade para dentro do “mensurável”. E tal coisa é possível? (O
Homem Livre, pág. 182)

Vedes como a mente engana a si própria? Podeis trazer o desconhecido, aquilo que
não pode ser experimentado, para dentro do “condicionado”, para o reino do
conhecido? Claro que não. (…) O mais que podeis fazer é observar o funcionamento
de vossa própria mente, que é o campo do conflito, da angústia, do sofrimento, da
ambição, do preenchimento, da frustração. Isso vós podeis compreender, e suas
estreitas fronteiras podem ser derrubadas. (…) Quereis “capturar” Deus e prendê-lo na
gaiola do “conhecido” - a gaiola que chamais “o templo”, “o livro”, “o guru”, “o sistema”,
e com isso vos satisfazeis. Assim agindo pensais que vos estais tornando muito
religiosos. (…) (Idem, pág. 182)
Pode-se, pois, descobrir o que é criação, ou Deus (…)? (…) A criação liberta a mente
da mediocridade e da deterioração. E se é este o estado que procuro, necessito de
visão muito clara, a fim de não criar ilusão e de libertar a mente para o verdadeiro
descobrir; o que significa que ela, a mente, deve achar-se totalmente tranqüila, para
descobrir. Porque o estado criador não pode ser chamado; ele tem de vir por si. Deus
não pode ser chamado: ele deve vir. Mas não virá se a mente não for livre. (…) (Poder
e Realização, pág. 39-40)

Para mim há Deus, uma vivente, eterna realidade. Mas essa realidade não pode ser
descrita; cada um precisa realizá-la por si. Quem quer que procure imaginar o que é
Deus, (…) a verdade, apenas está procurando uma fuga, um abrigo da rotina diária do
conflito. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 96)

Muitos dentre nós sentem que há uma vida verdadeira, algo de eterno, mas são tão
raros os momentos em que sentimos isso, que esse algo de eterno se vai retraindo
mais e mais e nos parecendo menos real. (Coletânea de Palestras, pág. 43-44)

Mas, para mim, há realidade; há uma realidade eterna e vivente à qual podeis chamar
Deus, imortalidade, eternidade (…). Há alguma coisa viva, criadora, que não pode ser
descrita, porque a realidade frustra toda descrição. (…) Não podeis saber o que seja
amor pela descrição de outrem; para conhecerdes o amor é preciso que vós mesmos
o experimenteis. (…) (Idem, pág. 44)

Digo-vos que não posso descrever, não posso exprimir em palavras essa vivente
realidade que está além de toda idéia de progresso, (…) de crescimento. Cuidado com
o homem que tenta descrever essa vivente realidade; ela não pode ser descrita, tem
de ser experimentada, vivida. (Idem, pág. 44)

Para mim, existe uma realidade, uma verdade viva e imensa; e para compreendê-la é
necessária absoluta simplicidade do pensamento. O que é simples é infinitamente
sutil, o que é simples é extremamente delicado. (…) (A Luta do Homem, pág. 136)

Afirmo que existe essa realidade viva, chamai-a Deus, ou como quiserdes, e que ela
não pode ser encontrada nem sentida pela busca. Tudo que implica busca, implica
contraste e dualidade. (…) (Idem, pág. 137)

(…) Digo que existe uma realidade viva; chamai-a Deus, Verdade ou o que quiserdes,
(…) - mas, para compreender isto, é preciso haver suprema inteligência e, portanto,
não pode haver conformidade, (…) mas sim o exame ou a dúvida de todas as coisas,
falsas e verdadeiras, nas quais a mente está presa. (…) (Palestras em Auckland,
1934, pág. 15)

David Bohm: Contudo, penso que as pessoas achavam que Deus era uma base que
não era indiferente à humanidade. Veja, elas podem tê-la inventado, mas era nisso
que elas acreditavam (…)

Krishnamurti: (…) uma tremenda energia, possivelmente. (A Eliminação do Tempo


Psicológico, pág. 58)

Se uma vez houverdes entrado, houverdes respirado a frescura, a serenidade, a


tranqüilidade desse Reino, então aquelas coisas que são reais, (…) o fôlego da vida
(…) nunca poderão ser esquecidas. (…) Somente então é que podeis saber que não
estais seguindo cegamente as pegadas de outrem; somente então é que estais
seguindo o Absoluto, o Eterno. Somente então sereis uno com Aquele que tem o seu
ser em todas as coisas. (…) (O Reino da Felicidade, pág. 83)
Imensurável, Incausado, Altíssimo, Vida, Ser Único
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 22:11

É possível pensar a respeito do Real? (…) Podemos pensar a respeito do


Incognoscível? Podemos pensar, meditar no Atemporal, quando nosso pensamento é
o resultado do passado, do tempo? (…) O pensamento que resulta de uma causa não
será jamais capaz de formular o Incausado. Ele só pode ocupar-se do conhecido, (…).
(O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 263-264)

(…) Nessa liberdade, nessa solidão, há uma compreensão que transcende todas as
criações da mente. Não indaguemos se a mente pode jamais ficar livre do
condicionamento, da influência; averiguaremos isso à medida que formos avançando
no autoconhecimento e na compreensão. O pensamento, que é um resultado, não é
capaz de compreender o Incausado. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 249)

Várias vezes tenho explicado (…). Para compreender o incriado, o não artificial, o
pensamento-sentimento deve transcender aquilo que foi criado, o resultado do “eu”;
(…). E só com essa libertação, só quando o observador e o observado desaparecem,
há o Imensurável. (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 127)

O que foi criado não pode pensar no Incriado. Pode pensar somente nas próprias
criações, que não são o Real. (…) Podeis especular acerca do incognoscível, mas não
podeis pensar a seu respeito. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 251)

(…) A realidade não é o Incriado? Não deve, pois, a mente desistir de criar, de
formular, para que possa compreender o Incriado? Não deve a mente-coração ficar
absolutamente quieta e silenciosa para conhecer o Real? (Idem, pág. 54)

No fim de tudo, para compreender a Vida, Deus, o Desconhecido, (…) têm a mente e
o coração de estar não preparados, inseguros. Na vitalidade da insegurança reside o
Eterno. (Palestras em New York City, 1935, pág. 39)

Só pode haver verdadeiramente entendimento, alegria real de viver, quando houver


completa unidade, ou quando não mais existir o ponto fixo, isto é, quando a mente e o
coração puderem acompanhar livres e rápidas as ondulações da Vida, da Verdade.
(Idem, pág. 43)

Compreender a imortalidade, a Vida, é coisa que exige grande inteligência (…). Isso
exige um incessante discernimento que só pode existir quando houver constante
penetração, o demolir das paredes da tradição, da aquisitividade e das reações
autoprotetoras. Podeis fugir para alguma ilusão a que chamais paz, imortalidade,
Deus, porém isso não terá realidade. (…) (Idem, 1935, pág. 44)

O que, porém, há de libertar a mente e o coração da tristeza e das ilusões é o pleno


apercebimento do eterno movimento da Vida. Este só é discernido quando a mente
está livre do centro, daquele centro de consciência que é limitado. (Idem, pág. 45)

Assim, aquela realidade imensurável, inominável, que nenhuma palavra tem, aquela
realidade só se manifesta quando a mente está toda livre e silenciosa, num estado de
criação. O estado de criação não é um simples estado alcoólico, estimulado; mas
quando uma pessoa compreendeu e passou por esse processo de autoconhecimento,
e se acha livre de todas as reações de inveja, ambição e avidez, ver-se-á, então, que
a criação é sempre nova e, por conseguinte, sempre destrutiva. (O Passo Decisivo,
pág. 178)

E a criação nunca pode existir dentro da estrutura da sociedade, (…) de uma


individualidade limitada. (…) E, quando há aquela criação, dá-se a total destruição de
todas as coisas que um homem acumulou, e, por conseguinte, existe sempre o novo.
E o novo é sempre verdadeiro, imensurável. (Idem, pág. 178)

(…) Essa ação criadora pode ser a Realidade, o Altíssimo, o Sublime, e enquanto a
mente não tiver conhecimento desse estado criador, todo o seu pensar só haverá de
produzir novos sofrimentos. (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 19)

No silêncio, na tranqüilidade suprema, detida a incansável atividade da memória, está


o Imensurável, o Eterno. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 272)

É possível pensar a respeito do Real? Podemos ser capazes de formular, de imaginar


e especular sobre o que pensamos ser o Real, mas é isso o Real? Pode se pensar a
respeito do incognoscível? Podemos pensar, meditar no Atemporal, quando nosso
pensamento é o resultado do passado, do tempo? O passado é sempre o conhecido e
o pensamento que está baseado no passado só pode criar o conhecido. Por
conseguinte, pensar na verdade é estar preso nas redes da ignorância. (…) O
pensamento que resulta de uma causa não será jamais capaz de formular o
Incausado. (…) (Idem, pág. 263-264)

Digo que a Vida é uma só, embora as expressões da Vida sejam múltiplas. (…) (Que o
Entendimento seja Lei, pág. 9)
(…) A Verdade, tal como a Vida, é como o raio do sol; se sois sensato, abrir-lhe-eis as
janelas; se não (…) descereis as cortinas. Se estivésseis enamorados da Verdade,
essas imagens não teriam mais valor (…). (Idem, pág. 11)

Quando estiverdes enamorados da Vida e puserdes esse amor acima de todas as


coisas, (…) desaparecerá então esta estagnação que chamais moral; o que ocupará
vosso pensamento será, então, o quanto estais enamorados da vida (…).

E para julgar segundo a Verdade, é preciso que estejais apaixonados pela Vida; mas,
então, nunca julgareis, em circunstância alguma. (…) (Idem, pág. 12)

(…) A Verdade, que é a vida, nada tem com pessoa alguma nem com organização
alguma. (…) Não me interessam sociedades, religiões, dogmas; o que me interessa é
a Vida, porque eu sou a Vida. Não almejais a Vida e o preenchimento da Vida, que é a
Verdade; (…). (Idem, pág. 14)

A vida está a todo momento em um estado de nascença, de surgir, de vir a ser. Nesse
surgir,(…) vir a ser por si mesmo, não há continuidade, nada que se possa identificar
como sendo permanente. A vida está em constante movimento, em ação; cada
momento dessa ação jamais existiu anteriormente e jamais existirá de novo. Cada
novo momento, porém, forma uma continuidade de movimento. (Palestras em Ojai,
Califórnia, 1936, pág. 89-90)

O movimento da vida não tem continuidade. Está a cada momento surgindo, vindo à
existência, estando, portanto, num estado de ação, de fluxo perpétuo. (…) (Idem, pág.
90)

Afinal, que é a vida? É uma coisa sempre nova, (…). Uma coisa que se está sempre
transformando, sempre criando um sentimento novo. Hoje jamais é igual a ontem, e
esta é a beleza da vida. Podemos, vós e eu, enfrentar cada problema de maneira
nova? (…) Nunca podereis, se estais carregado das lembranças de ontem. (…) (A
Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 262)

A plenitude da vida só é possível quando a mente-coração estiver integralmente


vulnerável ao movimento da vida, sem nenhum obstáculo artificial e autocriado. A
riqueza da vida advém quando a carência, com suas ilusões e valores, tiver cessado.
(Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 61)
Uni-vos com a vida, e vos unireis com todas as coisas. (…) Se estais enamorado da
Vida, então vós vos unireis com a Vida, quer a chameis Buda ou Cristo, (…). (Que o
Entendimento seja Lei, pág. 19)

Existe um movimento, um processo de vida, sem fim, que pode ser chamado infinito.
Pela autoridade e imitação, nascidas do medo, cria a mente para si própria múltiplas
falsas reações, e por meio delas limita-se a si própria. (Palestras em Ojai, Califórnia,
1936, pág. 19-20)

A Vida é livre, incondicionada, ilimitável e, para atingi-la, é preciso não trilhar um


caminho qualquer (…), limitado, restrito. Pois a Verdade é o todo e não a parte. A ela
não podereis chegar com mentes não adestradas, apenas meio evoluídas, e com
semi-evoluídas emoções, pois ela é a perfeita harmonia, o perfeito equilíbrio da mente
e do coração, que é a Vida. (…) (Boletim Internacional da Estrela, set. de 1929, pág.
22)

(…) Quando já houverdes reconhecido essa Lei, que é universal, a Vida una em todas
as coisas, então vivereis em verdadeira amizade e afeição a todos. (O Reino da
Felicidade, pág. 69)

Mas, primeiramente, (…) tendes de tornar esse templo, que é o corpo físico, perfeito,
forte e realmente belo. Cada gesto, cada movimento, cada ação (…) deve ser apurado
e belo, e deve representar o templo em que habita a Eternidade (…). (O Reino da
Felicidade, pág. 25)

(…) É só na essência criadora da Realidade que se verifica o término do conflito e da


aflição. (…) Esse anseio de vir a ser nasce da ignorância, pois o presente é que é o
Eterno. É só na solidão da Realidade que se encontra a plenitude; na chama da
criação não há “outro”; só há o Ser único. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 139-
140)

(…) Mas, para que compreendam o eterno, precisam eles saber que a Verdade é uma
só, que a Vida é uma só, embora essa Vida se expresse de muitas maneiras. (A
Finalidade da Vida, pág. 5)

Livre é o homem que vive no Eterno/ Porque a Vida é. (A Canção da Vida, 4ª ed.,
1982 VI, 11, pág.13)

Ali está a unidade de toda a Vida/ Ali está a silenciosa Fonte/ que nutre os vertiginosos
mundos. (Idem, X, 2, pág. 20)
Dessa Vida, imortal e livre/ Eu sou a eterna fonte/ Eis a Vida que eu canto. (Idem, VII,
8, pág. 17)
Desconhecido, Conhecido, Atemporal; Real,
Eterno
Enviado por ick em sex, 15/08/2008 - 22:14

Tenho sustentado, (…) que a mente precisa ser livre do conhecido para achar algo
que pode ser chamado “o desconhecido”. (…) Ora, pode a mente ser libertada de
todas as suas suposições, crenças, dogmas, hábitos de pensamento? Expressando-o
diferentemente: Pode a mente tornar se simples, para ser capaz de uma experiência
completamente nova - e não uma experiência baseada em coisas velhas, (…)
projetada? Pode a mente estar aberta para o Desconhecido (…), e estar cônscia ao
mesmo tempo do conhecido, como fato presente? (…) (Palestras na Austrália e
Holanda, 1955, pág. 59)

(…) Poderá a mente transcender o pensamento, que é resultado do conhecido? Não


pode, evidentemente; porque, quando o pensamento procura passar além, o que ele
segue é sua própria “projeção”. O pensamento não pode experimentar o
desconhecido, só pode experimentar o que ele próprio “projetou”, que é o conhecido.
(…) Assim, a mente precisa findar - o que significa que deve estar quieta, meditativa.
(…) É só quando a mente está tranqüila, não tendo sido obrigada a ficar tranqüila, que
existe a possibilidade de experimentar o desconhecido. (Que Estamos Buscando?,
pág. 135-136)

Temos de estar livres de toda crença, o que quer dizer de todo medo, para sabermos
se existe uma Realidade, um estado Atemporal. Para descobrir é preciso estar liberto -
liberto do medo, da avidez, da ambição, da inveja, da competição, da desumanidade;
só então a mente estará lúcida, sem obstáculos, sem conflito nenhum. Só uma mente
assim é serena e apenas a mente serena pode descobrir se existe o eterno, o
inominável. (O Mundo Somos Nós, pág. 50)

O Eterno é sempre o desconhecido para a mente que acumula. O que se acumula são
lembranças - e a memória é sempre o passado, sempre presa ao tempo. O que
resultou do tempo não pode compreender o Atemporal, o Desconhecido. (O Egoísmo
e o Problema da Paz, pág. 222)

(…) Só no desconhecido há renovação; é no desconhecido que há criação, e não na


continuidade. Assim, precisais sondar o desconhecido, mas, para tanto, não podeis
ficar apegado à continuidade do conhecido; porque o “eu” e a constante repetição do
“eu” recaem no campo do tempo, com suas lutas, (…) realizações, (…) lembranças.
(…) Para investigar o desconhecido, a mente precisa tornar-se o desconhecido. (…) (A
Arte da Libertação, pág. 129-130)

Quando a mente coração é ampla, profunda e tranqüila, acontece o Real. Se a mente


busca um resultado, por nobre e digno que seja, se está interessada em vir a ser, já
não é ampla e infinitamente flexível. Ela deve ser tal como o Desconhecido, para
receber o Incognoscível. Deve estar inteiramente tranqüila, para que o Eterno seja. (O
Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 121)

Para estarmos cônscios de algo que não seja parte da projeção do conhecido, torna-
se necessária a eliminação, por meio da compreensão, do processo do conhecido. Por
que a mente está sempre apegada ao conhecido? Não é porque a mente está sempre
em busca da certeza, da segurança? Sua natureza intrínseca é o conhecido, o tempo.

Como pode esta mente, que está alicerçada justamente no tempo, no passado,
conhecer o atemporal? Ela pode conceber, formular, imaginar o desconhecido, mas
tudo isso é absurdo. O desconhecido só pode se manifestar quando o conhecido é
compreendido, dissolvido, abandonado. (A Primeira e Ultima Liberdade, 1ª ed., pág.
152)

Ora, a única liberdade verdadeira é a que consiste em estar livre do “conhecido”. (…)
O conhecido tem seu lugar próprio, (…). Preciso conhecer certas coisas para que
possa “funcionar” na vida de cada dia. Se eu não soubesse onde resido, perder-me-ia.
E há o saber acumulado das ciências, da medicina e de várias tecnologias, o qual se
vai acrescentando constantemente. (Experimente um Novo Caminho, pág. 39-40)

Tudo isso está contido no campo do “conhecido”, e tem seu lugar próprio. Mas o
“conhecido” é sempre mecânico. Toda experiência que tivestes, seja do passado
remoto, seja apenas de ontem, está no campo do “conhecido”, e daí, desse fundo,
reconheceis toda experiência ulterior.

No campo do conhecido, há sempre apego, com os concomitantes temores e


desesperos; e a mente aprisionada nesse campo, por mais extenso e amplo que seja,
não é livre. Poderá escrever livros (…) saber como se vai à lua (…) - mas essa mente
está ainda aprisionada na esfera do conhecido. (Idem, pág. 40)

(…) Dentro desse campo, pode-se produzir, (…) inventar, (…) pintar quadros, fazer as
coisas mais extraordinárias (…); nada disso, porém, é criação. Essa perene busca de
grandes feitos e de expressão pessoal é de todo em todo pueril, pelo menos para mim.
(Idem, pág. 41)
Ora, estar livre de tudo isso é estar livre do “conhecido”; é o estado da mente que diz:
“Não sei” - e que não está procurando resposta. Essa mente se acha, toda ela, num
estado de “não procura”, de “não expectativa”; e só nesse estado pode-se dizer
“compreendo”. É o único estado em que a mente é livre, e desse estado podeis olhar
as coisas conhecidas (…). Do conhecido não tendes possibilidade de ver o
desconhecido; (…). (Idem, pág. 41)

A Realidade está presente aqui, neste momento, (…) ao nosso alcance. O eterno, o
atemporal existe agora, e não pode o agora ser compreendido por aquele que está
preso na rede do tempo. (…) (Uma Nova Maneira de Viver, pág. 117)

Ora, o que continua não tem renovação. (…) Mas é esse findar que nos apavora, não
percebendo que só no findar pode haver renovação, criação, o desconhecido (…).

É só quando morremos em cada dia para tudo o que é velho, é que pode haver o
novo. Não pode existir o novo onde existe a continuidade - pois o novo, o criador, o
desconhecido, o eterno, Deus, (…). (Viver sem Confusão, pág. 31)

Mas é possível à mente pôr de lado todo o seu saber, (…) experiências, (…)
lembranças, (…) achar-se naquele estado de desconhecimento? Esse é o mistério
(…). Não pode a mente tornar-se, ela própria, o desconhecido, ser o desconhecido?
(…) (Poder e Realização, pág. 77)

Isso requer (…) uma liberdade extraordinária das prisões do conhecido. A mente está
sempre tentando, com a carga do conhecido, apoderar-se do desconhecido. Mas
quando a mente está liberta do passado (…) - da experiência, (…) memória , (…)
conhecimento - ela é então o desconhecido, e para essa mente não existe a morte.
(Idem, pág. 77)

Para conhecer o desconhecido, deve a mente ser, ela própria, o desconhecido. A


mente tem sido até agora o resultado do conhecido. Que sois vós senão uma
acumulação de coisas conhecidas: vossas tribulações, (…) vaidades, (…) ambições,
dores, realizações e frustrações? Tudo isso é conhecido, o conhecido do tempo e do
espaço; e enquanto a mente estiver funcionando dentro da esfera do tempo, do
conhecido, jamais poderá ser o desconhecido; (…). (Percepção Criadora, pág. 87)

Pois bem (…). Afinal, o atemporal, a eternidade inefável é isto: quando a própria
mente é o desconhecido. Por ora, a mente é o conhecido, resultado do tempo, de
ontem, do saber, de experiências e crenças acumuladas, e, nesse estado, a mente
jamais chegará a conhecer o desconhecido. (…) (Percepção Criadora, pág. 44)
Para que o desconhecido venha à existência, a mente precisa estar completamente
vazia; não pode haver o experimentar da realidade, porque o experimentador é o “eu”,
com todas as suas lembranças acumuladas, tanto conscientes como inconscientes. O
“eu”, que é o resíduo de tudo isso, diz: “Estou experimentando”; mas aquilo que ele
pode experimentar é apenas a sua própria projeção. O “eu” não pode experimentar o
desconhecido; só lhe é possível experimentar o conhecido, o que foi projetado de si
mesmo, (…) criação do pensamento como reação do passado. (…) (Por que não te
Satisfaz a Vida?, pág. 35-36)

Senhores (…). Ora, um caminho só pode conduzir a algo que já é conhecido, e o que
é conhecido não é a verdade. Quando conheceis alguma coisa, deixa ela de ser a
verdade, porque é coisa do passado, (…) estacionária. Por essa razão, o que é
conhecido está enredado no tempo, e por conseguinte não é a verdade, (…) o real.
(…) Mas a realidade é o imensurável, o desconhecido. (…) (Uma Nova Maneira de
Viver, pág. 92)

Vós não podeis conhecer, o “desconhecido”. Só podeis conhecer o que já


experimentastes e, portanto, sois capaz de reconhecer. O “desconhecido” não é
reconhecível; e, para a manifestação dessa imensidade, é preciso que termine o
“conhecido”. É necessária a libertação do “conhecido”. (…) (O Homem e seus Desejos
em Conflito, 1ª ed., pág. 97)

Não há possibilidade de falar do “desconhecido”. Não há palavra nem conceito (…) A


palavra não é a coisa; e a coisa precisa ser percebida diretamente. (…) E isto é (…)
difícil: perceber uma coisa com “inocência”. Perceber uma coisa com amor - amor
jamais contaminado pelo ciúme, pelo ódio, pela ira, pelo apego, pela posse. (…)
Porque é só então, nesse estado livre do “conhecido”, que a “outra coisa” pode
manifestar se. (Idem, pág. 97)

(…) Quando compreenderdes a vida, encontrareis o desconhecido; porque a vida é o


desconhecido, vida e morte são a mesma coisa. (…) (A Arte da Libertação, pág. 131)

(…) A vida é o desconhecido, assim como a morte é o desconhecido, como a verdade


é o desconhecido. A vida é o desconhecido; mas nós nos aferramos a uma
insignificante expressão dessa vida, e isso a que nos apegamos é simples memória,
um pensamento que não se completou; por conseguinte, (…) é uma coisa irreal, (…)
(Idem, pág. 131)

Só quando a mente e o coração, vulneráveis, defrontam a vida, o desconhecido, o


imensurável, é que se dá o êxtase da verdade. Quando a mente não se acha
sobrecarregada de valores, de lembranças, com crenças preconcebidas e é capaz de
defrontar o desconhecido, nesse mesmo defrontar nasce a sabedoria, a beatitude do
presente. (Palestras em New York City, 1935, pág. 50)

(…) Assim, pois, para se encontrar o que é real, o que é Deus, deve haver liberdade -
precisamos estar livres do temor, (…) do desejo de segurança interior, (…) do medo
do desconhecido. E só então, por certo, estaremos aptos a “experimentar” o
desconhecido (…), e saberemos se existe Deus. (…) (Nós Somos o Problema, pág.
38)

Conceitos, Preliminares II
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 15:25

• Experimentação Divina; Insondável pela Mente, Crença


ƒ Alma, Sentimento, Intelecto, Vida, Desejo, Temporal
ƒ O “Eu”; Natureza Psicológica, Atividades Abrangidas
ƒ Consciência, Unidade, Ego, Superego, conforme o Autor
ƒ Consciente, Subconsciente, Inconsciente, Camadas
ƒ Inconsciente Coletivo; Consciência da Humanidade
ƒ Espírito-mente, Atemporal, Vida, Amor, Vontade (Eterna)
ƒ Inteligência, Discernimento, Percebimento, Conceitos
ƒ Sentimento, Sensação, Distinção; Sensibilidade
ƒ Amor; Não é Emoção, Prazer, Sentimentalismo
ƒ Fraternidade, Benevolência, Compaixão, Perdão
ƒ Chama sem Fumaça, Virtudes (Amor), Paixão sem Causa
ƒ Pensamento, Sentimento, Ação; Harmonia, Ação Integrada
ƒ Intuição (Insight); Verdadeira, Falsa, Impulso
ƒ Progresso; Relativo na Alma, Não Ocorre no Espírito
ƒ Ordem, Desordem do Pensamento; Fatores, Efeitos
ƒ Fragmentação da Consciência; Desvios, Neuroses
ƒ Visão Global, Holística, da Consciência, da Vida
Experimentação Divina; Insondável pela Mente,
Crença
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 15:30

Pergunta: Como posso experimentar Deus em mim?

Krishnamurti: Que entendemos por experiência? (…) Quando é que dizemos: “Tive
uma experiência?” Dizemo-lo apenas quando reconhecemos a experiência, isto é,
quando existe um experimentador separado da experiência. Isso significa que o nosso
experimentar é um processo de reconhecimento e acumulação. (…) (Por que não te
Satisfaz a Vida?, pág. 34)

Só posso experimentar quando há o reconhecimento da experiência, e


reconhecimento é recordação, memória; e a memória é, obviamente, o centro do “eu”.
Isto é, todo processo de reconhecimento e de acumulação de experiência é o “eu”, e o
“eu” diz, então: “tive uma experiência”. (…) (Idem, pág.34)

Ora, o interrogante indaga: “Como posso experimentar Deus em mim?” Deus, a


Realidade, (…) é coisa suscetível de experimentar-se, de reconhecer-se, de modo que
se possa dizer: “Tive uma experiência de Deus”? Evidentemente, Deus é o
desconhecido; Deus não pode ser conhecido. No momento em que o conheceis, já
não é Deus; é algo autoprojetado, reconhecido, isto é, memória. É por isso que o
crente nunca poderá conhecer Deus; e visto que a maioria de vós crê em Deus, jamais
conhecereis a Deus, porque vossa própria crença vo-lo impede. (…) (Idem, pág. 34-
35)

A crença é o resultado do conhecido. Podeis crer no desconhecido, mas tal crença


nasceu do conhecido, é parte do conhecido, que é memória. (…) Por essa maneira, a
memória cria o desconhecido, e passa a crer nele como um meio de experimentar o
desconhecido. (Idem, pág. 35)

Para que o desconhecido venha à existência, a mente precisa estar completamente


vazia; não pode haver o experimentar da realidade, porque o experimentador é o “eu”,
com todas as suas lembranças acumuladas, tanto conscientes como inconscientes. O
“eu” (…) diz: “Estou experimentando”; mas aquilo que ele pode experimentar é apenas
a sua própria projeção. O “eu” não pode experimentar o desconhecido; (…). (Idem,
pág. 35-36)

Só uma mente livre pode conhecer “o que é” - essa coisa indescritível, que não pode
ser expressa em palavras. (…) Descrevê-la significa cultivo da memória; significa
verbalizá-la, situá-la no tempo; e o que é do tempo nunca pode ser o atemporal (Idem,
pág. 36)

O que importa, pois, não é o que credes ou o que descredes, mas, sim, o
compreender o processo integral, o conteúdo total de vós mesmos; (…). Quando a
mente está de todo tranqüila, quieta, sem senso de aceitação ou rejeição, (…)
acumulação, quando existe esse estado de tranqüilidade, no qual o experimentador
não existe - só então sentimos aquilo a que podemos chamar Deus (…) e há, nesse
momento, um estado de criação, que não é expressão do “eu”. (Idem, pág. 36)

(…) O passado é sempre o conhecido e o pensamento que está baseado no passado


só pode criar o conhecido. Por conseguinte, pensar na Verdade é estar preso nas
redes da ignorância. (…) A Verdade é um estado no qual deixou de existir a chamada
atividade do pensamento. O pensar, como sabemos, é o resultado do processo do
tempo, do passado, (…) da auto-expansão, (…) do mover-se do conhecido para o
conhecido. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 263-264)

O que é conhecido não é Real. Nosso pensamento está ocupado numa constante
busca de segurança, de certeza. A inteligência que promove a expansão do “ego”
busca , por força de sua própria natureza, um refúgio, seja pela negação seja pela
afirmação. Como pode a mente que está em busca de certeza, de estímulo, de
animação, pensar naquilo que não tem limites? (…) (Idem, pág. 264)

Pelo pensamento não se pode conceber o imensurável, porque o pensamento tem


sempre medida. O sublime não está encerrado na estrutura do pensamento e da
razão, nem tampouco é produto da emoção e do sentimento. A negação do
pensamento é ação, (…) é amor. Se estais em busca do sublime, não o achareis; ele
deverá vir a vós se tiverdes boa sorte e essa “boa sorte” é a janela aberta de vosso
coração, e não do pensamento. (A Outra Margem do Caminho, pág. 56)

Percebendo-se, pois, essa extraordinária complexidade, não acreditais necessário


investigar se é possível chegarmos àquela revolução, (…) transformação interior, sem
nenhuma interferência da mente? (…) Pode a mente transformar se? Sei que há
momentos em que ela percebe a Realidade, que se manifesta sem ter sido chamada
nem solicitada. Nesses momentos, a mente é o Real. (…) (Poder e Realização, pág.
71)

(…) Quando o “eu” já não está lutando, consciente ou inconscientemente, para tornar-
se algo, quando o “eu” está de todo inconsciente de si mesmo, nesse momento se
verifica aquele estado de devoção, (…) de Realidade. Nesse momento, a mente é o
Real, é Deus. (Idem, pág. 71)

Pode-se, pois, descobrir o que é criação, ou Deus (…)? (…) A criação liberta a mente
da mediocridade (…). E, se é este o estado que procuro, necessito de visão muito
clara, (…) significa que ela, a mente, deve achar-se totalmente tranqüila, para
descobrir. Porque o estado criador não pode ser chamado; ele tem de vir por si. Deus
não pode ser chamado; ele deve vir. Mas não virá se a mente não for livre. (…) (Idem,
pág. 39-40)

(…) Assim, Deus, ou a Verdade, (…) é uma coisa que vem à existência momento a
momento, e que só acontece num estado de liberdade e espontaneidade, (…). Deus
não é coisa da mente, não se manifesta por meio de autoprojeções; só vem quando há
virtude, que é liberdade. Virtude é ver diretamente o fato como ele é, e o ver o fato é
um estado de felicidade. Só quando a mente transborda de felicidade, quando está
tranqüila, sem nenhum movimento próprio, (…) projeção do pensamento, consciente
ou inconsciente - só então desponta na existência o eterno. (Que Estamos Buscando?,
1ª ed., pág. 184)

Agora, que é a realidade, (…) Deus? Deus não é a palavra, a palavra não é a coisa.
Para conhecer aquilo que é imensurável, que não é do tempo, a mente deve estar livre
do tempo, (…) de todo pensamento, (…) de todas as idéias relativas a Deus. Que
sabeis de Deus ou da Verdade? Nada sabeis (…). Só conheceis palavras,
experiências alheias, ou alguns momentos de experiências, um tanto vagas, de vós
mesmos. (…) (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 183)

(…) O desconhecido não é algo que possa ser “experimentando” pela mente; só o
silêncio pode ser “experimentado”, e nada mais (…). Se a mente “experimentar”
qualquer coisa, menos o silêncio, está ela apenas projetando os seus próprios
desejos, e essa mente não está silenciosa; (…) (Idem, pág. 184)

(…) Assim, pois, para se encontrar o que é real, o que é Deus, (…) deve haver
liberdade - precisamos estar livres do temor, (…) do desejo de segurança interior, (…)
do medo ao desconhecido. E só então (…) estaremos aptos a “experimentar” o
desconhecido, (…) e sabermos se existe Deus. Mas, se o homem que crê em Deus ou
(…) não crê em Deus se atém a essa conclusão, fica (…) cativo da ilusão. Só posso
conhecer aquela “coisa”, (…) compreendê-la, experimentá-la diretamente, quando não
sou egocêntrico, (…) não estou condicionado pela crença, pelo temor, pela avidez,
pela inveja, etc. (Nós Somos o Problema, pág. 38-39)
O pensamento pode colocar-se, e com efeito se coloca, em níveis diferentes: o
estúpido e o profundo, o nobre e o gentil e o ignóbil; mas isto é sempre pensamento
(…). O Deus do pensamento é sempre um Deus da mente, da palavra. O pensar em
Deus não é Deus, e sim mera reação da memória. (…) (Comentários sobre o Viver, 1ª
ed., pág. 168)

A mente que desejar achar-se num estado em que possa manifestar se o novo - seja
Deus, seja a Verdade, (…) essa mente, sem dúvida, deve cessar de adquirir, de
acumular, deve pôr de parte todo o seu saber (…) (A Renovação da Mente, pág. 24)

A Realidade, ou Deus, (…) não se alcança por meio de conflito. Pelo contrário, é
imprescindível a extinção do “eu”, do centro de acumulação, (…). (Idem, pág. 25)

O abandono da personalidade, do “eu”, não se dá por ato de vontade; a travessia para


a outra margem não é uma atividade dirigida para um fim ou ganho. A Realidade
apresenta se na plenitude do silêncio e da sabedoria. Não podeis chamar a Realidade,
ela deverá vir por si mesma; não podeis escolher a Realidade, ela é que deverá
escolher-vos. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 84-85)

Dizeis, porventura, que desejais modificar-vos, mas alguma coisa há que impede a
transformação. Explicações não alteram coisa alguma. Dizer que o “ego” é um
obstáculo, é simples explicação, (…). Desejais que eu descreva a maneira de vencer
os obstáculos; mas precisamos achar um meio de saltar a barreira; se possível,
precisamos lançar-nos à corrente, ousadamente, aventurosamente, em vez de
ficarmos sentados na margem a especular. (Que Estamos Buscando?, pág. 93)

Que nos está impedindo de dar o salto? O que no-lo impede é a tradição, que é
memória, que é experiência (…). Tanto nos satisfazemos com palavras, com
explicações, que não damos o salto, mesmo percebendo a necessidade de saltar.
Alvitra-se que não ousamos lançar-nos à corrente porque temos medo do
desconhecido. Mas, é-me possível saber o que acontecerá, é-me possível conhecer o
desconhecido? Se eu o conhecesse, não haveria então temor algum - e não seria o
desconhecido. Nunca me será dado conhecer o desconhecido, se não me aventuro.
(Idem, pág. 93-94)

Será o temor que nos está impedindo de lançar-nos à aventura? Que é temor? Só
pode haver temor em relação com alguma coisa, ele não existe em isolamento. Como
posso temer a morte, (…) uma coisa que desconheço? Só posso temer o que
conheço. Quando digo que temo a morte, estarei mesmo com medo do desconhecido,
ou estou com medo de perder o que me é conhecido? (…) (Idem, pág. 94)
Alma, Sentimento, Intelecto, Vida, Desejo,
Temporal
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 15:34

Pergunta: Credes na alma?

Krishnamurti: (…) Pois bem; existe alma? A alma como entidade espiritual, não? - ou
como caráter? Senhores, que entendeis por “alma” (…)? Referis-vos à psique?
Estamos perguntando (…) se a alma, a entidade psicológica, existe. Existe,
evidentemente, (…). (O que te Fará Feliz, pág. 56- 57)

Portanto, (…) Será realidade ou ilusão aquilo que se denomina alma, e será ela única?
Existe ela separadamente e exerce a sua influência sobre o ser fisiológico ou
psicológico? Chegaremos nós, pelo estudo dos tecidos e fluidos orgânicos, a saber o
que é o pensamento, (…) a mente, a saber o que é essa consciência que jaz oculta na
matéria viva? (…) (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 12)

Por essa razão deveis despertar, deveis abrir todas as janelas e portas de vossas
almas e partir em busca da única Realidade da vida; e não vos deveis perder em
tentativas febris e vãs, em corredores e becos escuros. (…) (O Reino da Felicidade,
pág. 62)

(…) Que temos em vista, quando falamos a respeito da alma? Referimo-nos a uma
consciência limitada. Para mim, há somente a vida eterna - em contraste com essa
consciência limitada que chamamos o “eu”. (…) (Palestras na Itália e Noruega, 1933,
pág. 122)

Enquanto houver tal consciência de separação, do “eu”, da personalidade, não pode


existir a realização da verdade; (…). (Coletânea de Palestras, 1930-1935, pág.24)

(…) Não é sempre a ação do “ego”, o sentimento do “meu”, um processo de limitação?


Vamos averiguar se a expansão pessoal conduz à Realidade, ou se a Realidade só se
manifesta depois de desaparecer a personalidade, o “ego”. (O Egoísmo e o Problema
da Paz, pág. 187)

(…) Qual o interesse que pomos em descobrir a verdade acerca da natureza e das
atividades do “ego”, da personalidade? A meditação, a disciplina espiritual nenhum
significado tem se em primeiro lugar não estiver bem claro para nós esse ponto. (…)
(Idem, pág. 195)
Pergunta: Quereis dizer que inteligência e consciência individual são palavras
sinônimas?

Krishnamurti: A consciência é o resultado da continuidade identificada. A sensação, o


sentimento, a racionalização e a continuidade da memória identificada constituem a
consciência individual, (…) (Idem, pág. 216)

O amor, é evidente, não é sentimento. Ser sentimental, ser emotivo, não significa ter
amor, porque o sentimentalismo e a emoção são meras sensações. O indivíduo
religioso que chora por causa de Jesus ou de Krishna (…) é apenas sentimental,
emotivo. Está entregue à sensação, que é um processo do pensamento. (…)

O sentimentalismo, a emotividade, são puras formas de auto-expansão. Estar cheio de


emoção não significa ter amor, porque uma pessoa sentimental pode tornar-se cruel
quando os seus sentimentos não são correspondidos, quando não consegue dar
expansão aos seus sentimentos. (…) (Da Insatisfação à Felicidade, pág. 224)

(…) Ficai cônscios do sentimento de vir a ser; com o sentimento vem a sensibilidade, a
qual começa a revelar tudo quanto se contém no vir a ser. O sentimento é endurecido
pelo intelecto e pelas numerosas e sutis racionalizações, (…). (O Egoísmo e o
Problema da Paz, pág. 43)

Presentemente, a educação moderna está desenvolvendo o intelecto, oferecendo


cada vez mais explicações da vida, teorias e mais teorias. (…) A mente - o intelecto -
fica satisfeita com essas inúmeras explicações, mas a inteligência não, pois para
entender tem de haver completa unidade da mente e do coração na ação. (Palestras
na Itália e Noruega, 1933, pág. 125-126)

O tempo, pois, é uma ilusão (…) O desejo tem tempo, a sensação tem tempo, mas o
amor nada tem que ver com o tempo. O amor é um “estado de ser”. (…) (Visão da
Realidade, pág. 230)

(…) Assim, intelectualmente, estais sendo tolhido, sufocado, controlado, moldado e,


por conseguinte, (…) não há possibilidade de libertação. Tampouco a há do ponto de
vista emocional - mas não deis à palavra “emocional” o sentido de “sentimentalismo”.
Um ente sentimental é perigoso: pode tornar-se estúpido, insensível. (…) (Uma Nova
Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 122)

O adestramento do intelecto não produz inteligência. (…) Há uma enorme diferença


entre intelecto e inteligência. O intelecto é o mero pensamento funcionando
independentemente da emoção (sentimento). (…) pode-se ter grande intelecto, mas
não se ter inteligência. (…) (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 125)

(…) Uma inteligência que é produto do desejo, da expansão do “ego”, há de estar


sempre a criar resistência e não pode, jamais, dar-nos a tranqüilidade. Essa
inteligência protetora do “ego” é produto do tempo, do impermanente, e não pode,
portanto, jamais, conhecer o Atemporal. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 215)

(…) Desenvolvemos uma certa qualidade de inteligência, em nossa atividade de


expansão pessoal; com a nossa avidez, (..) instinto aquisitivo, (…) conflitos e penas,
(…). Pode essa inteligência compreender o Real (…)? (Idem, pág. 201)

(…) O essencial é sabermos se essa inteligência que foi cultivada na expansão do “eu”
é capaz de perceber ou descobrir a verdade; (…) Para descobrir-se a verdade, é
necessário que estejamos livres da inteligência que está ligada à expansão do “ego”,
porquanto esta é sempre (…) limitante. (Idem, pág. 201)

Ora, que é a mente? Ela não é apenas uma série de reações aos desafios que estão
sempre a assaltar-nos, mas também uma série de lembranças, conscientes ou
inconscientes, as quais estão constantemente moldando o presente em conformidade
com o condicionamento. (…) Observai e vereis que vossa mente é uma série de
desejos, mais o impulso a preenchê-los (…) (O Homem Livre, pág. 41)

Há, pois, uma diferença entre o intelecto e a mente. O intelecto é “separativo”,


“funcional”, não pode ver o todo; ele funciona dentro de um padrão. E a mente é a
totalidade que pode ver o todo. O intelecto está contido na mente; mas o intelecto não
contém a mente. (…) É a capacidade da mente que percebe o todo, e não o intelecto.
(O Passo Decisivo, pág. 272)

(…) Há uma atividade diferente que não procede do “ego” e que cumpre ser
encontrada. Uma inteligência diferente é necessária para compreender-se o
Atemporal, pois é só este que nos pode libertar de nossas lutas e sofrimentos
incessantes. A inteligência que agora possuímos é produto do desejo de satisfação e
segurança, material e espiritual, é resultado da cupidez, (…) da auto-identificação. Tal
inteligência é incapaz de compreender o Real. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág.
215-216)

Pergunta: Como podemos ultrapassar essa inteligência limitada?


Krishnamurti: Se ficarmos passivamente vigilantes de suas atividades complexas e
inter-relacionadas. Com essa vigilância, as causas que nutrem a inteligência do “ego”
extinguem-se sem esforço auto-consciente. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág.
216-217)

Assim, pois, enquanto atribuímos exagerada importância ao intelecto, à mente que


adquire saber, ilustração, experiência e lembranças, não existirá “a outra coisa”. Pode-
se em certas ocasiões ter rápidas visões da “outra coisa”; mas (…) são reduzidas
imediatamente às medidas do tempo, (…). (Poder e Realização, pág. 86-87)

(…) O culto do intelecto, em oposição à vida, conduziu-nos à nossa frustração, com


suas inumeráveis vias de fuga. (…) A presente crise nasceu do culto do intelecto, que
dividiu a vida numa série de ações opostas e contraditórias; foi o intelecto que negou o
fator de unificação, que é o amor. (…) (A arte da Libertação, pág. 248)

Ora, dividimos a mente em pensamento, razão, intelecto; mas (…) a mente é, para
mim, inteligência, inteligência que se cria, mas obscurecida pela memória; a mente,
que é inteligência, está (…) confundida com aquela consciência do “eu”, resultado do
ambiente. (…) (A Luta do Homem, pág. 65)

(…) A vida, por certo, implica ação diária, pensamento diário, sentimento diário (…).
Implica as lutas, as dores, as ânsias, os enganos, as tribulações, a rotina do escritório,
dos negócios, (…). Por “vida” entendemos não uma só esfera ou camada da
consciência, mas o processo total da existência, que é a nossa relação com as coisas,
com as pessoas, com as idéias. É isso o que entendemos por vida - e não uma coisa
abstrata. (Novo Acesso à Vida, pág. 49)

(…) O viver realmente exige abundância de amor, de sensibilidade ao silêncio, grande


simplicidade a par de abundante experiência. Requer uma mente capaz de pensar
com toda a clareza, não tolhida pelo preconceito ou a superstição, pela esperança ou
pelo medo. Tudo isso é a vida, e se não estais sendo educados para viver, vossa
educação é completamente sem significação. (…) (A Cultura e o Problema Humano,
pág. 35)

Que é “desejo”? E por que separamos o desejo da mente? (…) Em primeiro lugar,
precisamos saber o que é o desejo, para podermos examiná-lo com mais
profundidade. (…) “Experimentai” realmente a coisa sobre que estamos falando, e,
desse modo, as palavras terão significação. (Realização sem Esforço, pág. 14-15)
Como se origina o desejo? Pode-se dizer com segurança que ele nasce do perceber
ou ver, do contato, da sensação - depois o desejo. (…) Primeiro vedes um automóvel,
depois vem o contato, a sensação, e, por fim, o desejo de possuir o carro, conduzi-lo.
(…) A seguir (…) há conflito. Nessas condições, na própria realização do desejo há
conflito, dor, sofrimento, alegria, (…). A entidade criada pelo desejo (…) está
identificada com o prazer (…). O desejo, que nasce da percepção-contato-sensação,
está identificado com aquele “eu” que deseja apegar-se ao que é agradável e afastar
de si o que é doloroso. (…) (Idem, pág. 15)

Vamos, pois, investigar, descobrir o que é desejo. Com a compreensão do desejo vem
a disciplina - disciplina não imposta por ninguém, que não é ajustamento nem
repressão, porém uma disciplina inerente à própria compreensão do desejo. Como
disse, desejo é apetite, aspiração, ânsia não preenchida. E, ou cedemos a essa ânsia,
(…) desejo, ou o reprimimos, porque a sociedade nos diz que devemos reprimi-lo,
porque as religiões organizadas preceituam que devemos transmutá-lo, etc. (…) (A
Suprema Realização, pág. 43)

Temos desejo, que é, na realidade, reação a um apetite. Desejo ser uma coisa, e
“reajo”. Essa reação depende da intensidade de meu sentimento. Se é intenso o
sentimento, imperiosa a emoção, o preenchimento é então quase imediato, seja em
pensamento, seja em ato. (…) (A Suprema Realização, pág. 44)

O desejo, reação a uma sensação a que se deu continuidade pelo pensamento, busca
seu preenchimento; e, nas várias formas de preenchimento, há sempre contradição.
Dessa contradição vem o conflito; e onde há conflito há esforço. O desejo, pois, gera o
esforço, se não compreendemos o seu “processo” total. (Idem, pág. 44)

Tendes um prazer, sexual ou trivial, e pensais nele; criais em vossa mente imagens,
símbolos, palavras. E, quanto mais pensais nesse prazer, tanto mais intenso ele se
torna. E essa intensidade exige preenchimento. Mas nesse preenchimento há uma
contradição, pois desejais também preencher-vos em outros sentidos.

(…) Por conseguinte, para fugirdes à contradição, à dor causada pelo conflito, dizeis
ser necessário reprimir o desejo. Mas, não é importante reprimir o desejo, moldá-lo,
sublimá-lo, porém, sim, compreendê-lo, compreender o que lhe dá substância,
intensidade, urgência de preenchimento. Compreendido isso, tem o desejo
significação completamente diferente. (Idem, pág. 45)

(…) A mente, que é também vontade, é a fonte do esforço, das intenções, dos motivos
conscientes e inconscientes - o centro do “eu” e do “meu” e (…), por mais longe que
tente alcançar, pode esse centro produzir uma transformação fundamental em si
mesmo? (Claridade na Ação, pág. 27)

(…) Só pode haver revolução quando a mente cessa de funcionar no campo do tempo,
porque então se torna possível a existência de um elemento novo, independente do
tempo. (…) Podeis chamar esse elemento “Deus” ou “a Verdade”. (…) (Idem, pág. 28)

Há duas espécies de vontade - a vontade que nasce do desejo, da carência, do anseio


- e a vontade do discernimento, da compreensão, (…). (Palestras em Ojai, 1936, pág.
94)

(…) A vontade resultante do desejo baseia-se no esforço consciente da aquisição,


(…). Este esforço consciente ou inconsciente de querer, de ansiar, cria a totalidade do
processo do “eu”, e daí surgem o atrito, a tristeza e a cogitação do além. Desse
processo surge também o conflito dos opostos (…) (Idem, pág. 94-95)

Ora, não há vontade divina, mas apenas a vontade simples, comum, do desejo: a
vontade de obter sucesso, de estar satisfeito, de ser. Essa vontade é uma resistência,
e é fruto do medo que guia, escolhe, justifica, disciplina. Essa vontade não é divina.
Ela não está em conflito com a chamada vontade divina, mas, (…) é uma fonte de
tristeza e de conflito, porque é a vontade do medo. Não pode haver conflito entre a luz
e a treva; onde existe uma, não existe a outra. (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-
1938, pág. 103)

Pergunta: Podeis (…) explicar a diferença existente entre mudança na vontade e


mudança de vontade?

Krishnamurti: Mudança na vontade é apenas o resultado de dualidade na consciência,


e mudança de vontade tem lugar na plenitude de nosso ser integral. (…) (Palestras em
Ommen, Holanda, 1936, pág. 46)

Uma é mudança de grau e a outra é mudança de espécie. O conflito da carência ou a


mudança do objeto do desejo é apenas mudança na vontade, mas com a cessação de
toda carência dá-se a mudança de vontade. (Idem, pág. 46)

Mudança na vontade é uma submissão à autoridade do ideal e da conduta. Mudança


de vontade é discernimento, inteligência, na qual não há conflito da antítese. Nesta
última, existe um profundo e espontâneo ajustamento; na primeira, há compulsão por
meio da ignorância, da carência e do temor. (Idem, pág. 46)
Se, quando escutais (…), fazeis algum esforço, isto é ainda resultado do conhecido.
Quase todos nós vivemos pela ação da vontade, (…). A vontade de “vir a ser”, ser, é
ação do conhecido, (…). Por conseguinte, a ação da vontade não pode encontrar
nunca o que é real. (…) (Viver sem Temor, pág. 17)

Nota: Conforme fontes orientais e ocidentais, incluindo Escrituras, a alma e seu campo
abrange sentimento, emoção, paixão; mente concreta, temporal, intelecto,
correspondente inteligência; vida, prana, princípio vital; e desejo-vontade, kâma,
vinculado ao Id da psicanálise. Aqui foram incluídos textos correspondentes, de
Krishnamurti.
O “Eu”; Natureza Psicológica, Atividades
Abrangidas
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 15:36

Em nossas recentes reuniões, tratamos da importância de se compreenderem as


tendências do “eu”. Porque, afinal de contas, as pessoas que pensam mais seriamente
não podem deixar de saber que o “eu” é a verdadeira causa de todas as nossas
iniqüidades e sofrimentos. (…) (Quando o Pensamento Cessa, pág. 73)

Pode-se ver que o pensamento tem fabricado o “eu”, o “eu” que se tornou
independente, o “eu” que tem adquirido conhecimentos, o “eu” que é o observador, o
“eu” que é passado, o passado que atravessa o presente e se projeta a si mesmo.
Este é ainda o “eu” produzido pelo pensamento, e esse “eu” se tem tornado
independente do pensamento (…) (La Verdad y la Realidad, pág. 231)

(…) Esse “eu” tem um nome, uma forma. Tem uma etiqueta chamada X ou Y ou João.
Identifica-se com o corpo, com o rosto; há a identificação do “eu” com o nome e com a
forma, ( … ) e com o ideal que quer seguir. Também com o desejo de mudar o “eu” por
alguma outra forma de “eu”, por outro nome. Este “eu” é produto do tempo e do
pensamento. O “eu” é a palavra: elimino a palavra e que é o “eu”? (Idem, pág. 131)

E esse “eu” sofre. O “eu” que sofre é você. O “eu”, em sua grande ansiedade, é a
grande ansiedade de você. (…) De modo que esse “eu” se move na corrente da
cobiça, (…) do egoísmo, do temor, da ansiedade, etc. (…) Enquanto vivemos, estamos
envolvidos nessa corrente; (…). Essa corrente é o “egocentrismo” (…); essa
expressão inclui todas as descrições do “eu” que acabamos de fazer. E, quando
morremos, o organismo morre, porém a corrente egocêntrica continua. (Idem, pág.
232)

O que o pensamento produz é sempre produto dele próprio e, portanto, coisa do


tempo. Não há dúvida de que esse todo é o “eu” o “ego”, quer superior, quer inferior
(…). O “eu”, portanto, é um feixe de lembranças (…). Não existe entidade espiritual
identificada como “eu” ou distinta do “eu”; porque, quando dizeis que existe uma
entidade espiritual separada do “eu”, ela é ainda um produto do pensamento (…) e
pensamento é memória. Assim, o “vós” e o “eu”, superior ou inferior, (…) é memória.
(A Arte da Libertação, pág. 127)

(…) O “eu” é, apenas, reação, e, por conseguinte, o findar da reação é o findar do “eu”.
Eis por que importa se compreenda todo o processo do “eu”, (…) do pensar. (…) O
“eu” é mecânico e, por conseguinte, só pode reagir mecanicamente; e para se passar
além necessita-se de auto-conhecimento completo. (…) (Que Estamos Buscando?, 1ª
ed., pág. 214)

Através do grande desenvolvimento da habilidade, temos fortalecido em nossa


consciência a estrutura e a natureza do “eu”. O “eu” é violência, (…) cobiça, inveja,
etc. (…). Enquanto exista o centro, o “eu”, toda ação será distorcida. (…) Desta
maneira, pode-se desenvolver uma grande capacidade, porém a essa capacidade falta
equilíbrio, harmonia. (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 157)

Em primeiro lugar, (…) o “eu” são as várias qualidades, virtudes, idiossincrasias,


esperanças, paixões, valores, que tenho cultivado, as lembranças que conservei (…).
O “eu”, que se acha identificado com a propriedade, a casa, a família, um amigo, uma
esposa, um marido, com experiência; o “eu” que cultivou certas virtudes, (…) que
deseja preencher-se, que tem lembranças inúmeras, agradáveis e desagradáveis -
este “eu” diz: “tenho medo; quero a garantia (…) de continuidade.” (Palestras na
Austrália e Holanda, 1955, pág. 117)

Posso, pois, estar cônscio da minha avidez, (…) inveja, momento a momento? Estes
sentimentos são expressões do “eu”, do “ego” (…). O “ego” é sempre o “ego”, em
qualquer nível que o coloquemos. Seja “superior”, seja “inferior”, o “eu” está sempre
compreendido na esfera do pensamento. (…) (Percepção Criadora, pág. 109)

(…) O “eu” é um feixe de lembranças, e isso é tempo, e a mera continuação no tempo


não leva ninguém ao eterno, que está fora do tempo. Só se extingue o temor da morte,
quando o desconhecido penetra vosso coração. (…) (A Arte da Libertação, pág. 131)

(…) O “eu” é mecânico e, por conseguinte, só pode reagir mecanicamente; e para se


passar além, necessita-se auto-conhecimento completo. (…) Ora, nós habitualmente
agimos de um centro que tem um ponto, que é o “eu” (…); é esse o centro de onde
reagimos; (…). (Que Estamos Buscando? pág. 214)

Sabeis o que entendo por “eu”? Com essa palavra quero significar a idéia, a memória,
a conclusão, a experiência, as várias formas de intenções, confessáveis e
inconfessáveis, o esforço consciente para ser ou para não ser, a memória acumulada
do inconsciente, da raça, do grupo, do indivíduo, da tribo, etc., tudo isso, quer
projetado exteriormente como ação, quer projetado espiritualmente como virtude; a
luta que daí resulta é o “eu”. (…) A totalidade desse processo constitui o “eu”; (…).
(Quando o Pensamento Cessa, pág. 75)
O “eu” é egotista, suas atividades, por mais nobres que sejam, são separativas e
geram isolamento. (…) Conhecemos também aqueles momentos extraordinários em
que o “eu” é inexistente, em que não há tendência para esforço ou luta, e que ocorrem
quando existe o amor. (A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 75)

O que entendemos por “eu”? (…) “São todos os meus sentidos, (…) sentimentos, (…)
imaginação (…) exigências românticas, (…) posses, (…) marido, (…) esposa, (…)
qualidades, (…) lutas, (…) conquistas, ambições, (…) aspirações, (…) infelicidade, (…)
alegrias” - tudo isso seria o “eu”. Você pode acrescentar mais palavras, mas a
essência dele é o centro, o “eu”, meus impulsos (…). A partir desse centro, ocorre toda
ação; (…) as nossas aspirações, (…) ambições, desavenças, (…) desacordos, (…)
opiniões, julgamentos, experiências, estão centrados nisso. (…) (Perguntas e
Respostas, pág. 9)

(…) Pensamos que, no processo do tempo, no crescer e transformar-se, o “eu” se


tornará, no fim, realidade. Tal é nossa esperança, nosso anelo: que o “eu” se tornará
perfeito através do tempo. Que é esse “eu”? É um nome, uma forma, um feixe de
lembranças, esperanças, ilustrações, ânsias, dores, sofrimentos e alegrias
passageiras. (…) (Claridade na Ação, pág. 142)

(…) Mas existe o “eu” que não é meu corpo, o “eu” que é minha compreensão
acumulada, (…) as riquezas que juntei - não o “eu” físico, mas o “eu” psicológico, que
é memória e que desejo continue a existir, que não quero que finde. Em verdade, não
é a morte que tememos, mas esse findar. Desejamos continuidade. (…) (Arte da
Libertação, pág. 128)

Que é o “eu”? Se uma pessoa observa realmente a si própria, observa que o “eu” é
uma massa de experiências acumuladas, de mágoas, de prazeres, de idéias,
conceitos, palavras. É o que somos: um feixe de memórias (lembranças). (O Homem e
seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 169)

Todos nós somos, psicologicamente, o resultado de nosso ambiente educacional e


social. A sociedade, com seus códigos de moralidade, suas crenças e dogmas, suas
contradições, seus conflitos, suas ambições, sua avidez, sua inveja, suas guerras - é o
que nós somos. (Idem, pág. 169)

Memória identificada com a propriedade, a família, o nome - isso é o que cada um de


nós é, (…). Podemos ter certa capacidade para escrever poesias ou pintar quadros;
podemos ser bastante sagazes nos negócios, ou muito sutis no interpretar
determinada teologia; mas o que na realidade somos é um feixe de coisas lembradas -
as mágoas, as dores, as vaidades, os preenchimentos e frustrações do passado. (…)
(Idem, pág. 169)

Nunca percebemos (…) por que existem em nós diversas entidades, que gravitam
todas em torno do “eu”. O “eu” é constituído dessas entidades, que são meros
desejos, sob várias formas. Desse conglomerado de desejos surge a figura central, o
“pensador”, a vontade do “eu” (…). (A Educação e o Significado da Vida, 1ª ed., pág.
67)

Existe essa entidade complexa chamada “ego”, com todas as suas agonias, seu
sofrer, suas ânsias, seu desejo de preenchimento, de “vir a ser”, de domínio, de
posição, de segurança, seu desejo de ser alguém, de “expressar-se” de diferentes
maneiras. (…) Com esse “ego” vou olhando as coisas e, de acordo com ele,
traduzindo-as; conseqüentemente, é muito natural pensar-se que nada existe de novo,
uma vez que tudo está sendo contaminado pelo passado. (Experimente um Novo
Caminho, pág. 64)

Ora, o que acontece quando se acumulou conhecimento, experiência? Qualquer outra


experiência que vocês tenham é imediatamente traduzida em termos de “mais e mais”,
e vocês nunca estão realmente experimentando, mas (…) amontoando; e esse
amontoar é o processo da mente, que é o centro do “mais e mais”. O “mais e mais” é o
“eu”, o ego, a entidade (…) preocupada em acumular, seja negativa ou positivamente.
(…) (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 139)

Que centro é esse? Sem dúvida, é o “eu”, o “ego”, a mente, (…) tão sensível,
sobremodo hábil e capaz de compreender uma tão grande variedade de experiências,
de armazenar inúmeras lembranças, que pode inventar, que sabe planear um avião
(…). Esse centro, máquina complexa, de potencialidades ilimitadas, está circunscrito
pela idéia do “eu”: meu prazer, minha segurança, minhas vaidades, minhas posses,
meu progresso, meu preenchimento. (Percepção Criadora, pág. 52-53)

É um centro de afeição, de ódio, de prazeres efêmeros, de inveja, avidez e sofrimento.


E posso realizar uma revolução nesse centro, de modo que o “eu” se torne
inexistente? Porque o “eu” é a fonte de todo sofrimento, (…). Ainda que o “eu” tenha
satisfações passageiras, alegrias e afeições superficiais, ele está constantemente
multiplicando problemas e produzindo sofrimento. Por mais alto ou em qualquer nível
que se coloque o “ego”, ele estará sempre compreendido no campo do pensamento
(…) (Idem, pág. 53)
(…) A atividade egocêntrica do “eu” é um processo temporal. É a memória que dá
continuidade à atividade do centro, que é o “eu”. Se observardes a vós mesmos, e vos
tornardes cônscios desse centro de atividade, vereis que ele é só processo de tempo,
de memória, de experiência, e de tradução de cada experiência de acordo com a
memória. (…) (A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 125)

Quero, pois, averiguar o que é esse centro e ver se é realmente possível dissolvê-lo,
transformá-lo, desarraigá-lo. Que é o “eu” da maioria de nós? É um centro de desejo,
que se manifesta sob várias formas de continuidade (…). É o desejo de ser mais, de
perpetuar a experiência, de enriquecimento por meio da aquisição, lembranças,
sensações, símbolos, nomes, palavras. (Claridade na Ação, pág. 103)

Se observardes bem, vereis que não existe nenhum “eu” permanente, mas só
memórias - a memória do que eu fui, do que eu sou e do que deveria ser; vereis que
ele é o desejo de “mais”, o desejo de um saber maior, de uma experiência maior,
desejo de uma identidade contínua, identidade com a casa, com o país, com idéias,
com pessoas. Esse processo se desenvolve não só consciente, mas também nas
camadas mais profundas, nas camadas inconscientes da mente, e, por conseguinte,
esse centro, que é o “eu”, é mantido e nutrido pelo tempo. (Idem, pág. 103)

Tudo isso, pois, constitui o “eu” , (…) - o “eu” que está sempre a desejar “mais”,
sempre insatisfeito, sempre lutando por mais experiência, mais sensações, cultivando
a virtude a fim de reforçar-se em seu centro; por essa razão, ele nunca é virtude, mas
tão somente expansão de si próprio, sob o disfarce de virtude. Aí tendes o que é o
“eu”, ele é o nome, a forma, o sentimento que se oculta atrás do símbolo, (…) luta para
adquirir, reter, expandir-se ou diminuir-se, cria uma sociedade aquisitiva, cheia de
conflito, competição, crueldade, guerra, etc. (Idem, pág. 104)

(…) O centro é o “eu”, que tanto é físico como emocional e intelectual. O “eu” cria o
espaço que o circunda, porque o centro existe. E, já que o centro existe e cria o
espaço, e se este é o único espaço que o homem tem possibilidade de conhecer,
nesse caso não há liberdade nenhuma. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág.
136)

Portanto, psicologicamente, não se pode evitar a dor, se se está psicologicamente em


busca de prazer. Desejamos uma coisa, e não desejamos outra. A exigência de
continuação de dado prazer é o centro de onde pensamos, funcionamos e atuamos -
centro que se pode chamar “ego”, “eu”, “personalidade”; (…) Onde há um centro, há
sempre espaço em torno dele, espaço no qual ocorre a ação do medo e do prazer.
(…) (A Importância da Transformação, pág. 121)
Tendes de trabalhar muito diligentemente para descobrirdes as atividades de vossa
mente, como funciona, suas ações egocêntricas, o “eu” e o “não-eu”; deveis
“familiarizar-vos” inteiramente convosco e com os truques que a mente pratica consigo
mesma, as ilusões e falácias, a criação das imagens, e as idéias românticas que
nutrimos. A pessoa que é capaz de sentimentalidade, é incapaz de amar, a
sentimentalidade gera brutalidade, crueldade, violência, e não amor. (Fora da
Violência, pág. 79)

A questão sobre que temos discutido é a seguinte: Como é possível reconhecer as


várias atividades do “eu” e suas formas sutis, atrás das quais a mente se abriga? (…)
A ação baseada em idéia é uma forma do “eu”, (…). Assim, a idéia, posta em ação, se
transforma em meio de dar continuidade ao “eu”. (…) A busca de poder, de posição,
de autoridade, a ambição, etc., são formas do “eu”, (…). (Quando o Pensamento
Cessa, pág. 74)

(…) Mas a verdade se manifesta de momento a momento, quando a mente é capaz de


libertar-se de todas as acumulações. Porque quem acumula é o “eu”, e ele acumula
para se impor, (…) dominar, (…) expandir se, (…) preencher-se. Só com a libertação
do “eu” pode a verdade manifestar-se (…) (Nós Somos o Problema, pág. 85-86)

Ora, antes de perguntardes: “pode o eu evolver?”, tendes de saber o que é o “eu”.


Dizer “o eu evolve” não tem sentido. Que é o “eu”? O “eu” são vossos móveis, vossa
casa, vossos livros, vossa memória, lembranças de prazer e dor - o “eu” é um feixe de
“memórias”. É mais alguma coisa? Dizeis que o “eu” é espiritual, que nele existe uma
essência espiritual. (…) Não é isso uma invenção do pensamento? (…) Não aceiteis
nada, nem mesmo o vosso “eu”, porque, para descobrirdes a Verdade, a mente deve
estar livre do “eu” (…) “eu superior” e “eu” é a mesma coisa - uma pura invenção
dualista. (O Novo Ente Humano, pág. 30)

O “ego”, esse feixe de lembranças, é o resultado do passado, produto do tempo, e


esse “ego”, por mais que evolva, será capaz de conhecer o Atemporal? Pode o “eu”,
com o tornar-se maior, mais nobre, no correr do tempo, sentir o Real? (O Egoísmo e o
Problema da Paz, pág. 142)

Ora, a inocência é algo não contaminado, algo totalmente novo, fresco; é um “estado
de descobrimento”, no qual a mente é sempre jovem. Para averiguardes isso, (…) não
podeis continuar a transportar essa carga do passado. O passado (…) tem de findar,
para que a mente possa descobrir aquela “coisa nova”; e ele deve chegar a seu fim,
sem que seja necessário esforço, disciplina, controle ou repressão. O “velho” não pode
achar “o novo”, (…). (Experimente um Novo Caminho, pág. 64)
Compreendeis o problema? Essa entidade, o ego, é produto do tempo, (…) de um
milhar de experiências, (…) de contradições, batalhas, ansiedades, (…) da “culpa”
(sentimento de culpa), do sofrimento, da aflição, do prazer. É o resíduo do passado,
(…) nenhuma possibilidade tem de descobrir o novo. O novo não pode ser posto em
palavras; é algo imensurável, energia sem causa, sem fim, sem começo; e, para que a
mente possa encontrar-se neste estado de criação, o velho, o ego, deve findar. Mas
como fazê-lo findar? (Idem, pág. 64-65)

Quando observais, não em termos de tempo, essa consciência integral; quando o


pensamento já não é escravo do tempo, já não é uma reação, e se acha em completa
quietude, então, por estar o cérebro totalmente quieto, não mais “experimentando”,
será possível penetrar até às raízes da consciência total. Só então se verificará a
verdadeira mutação, (…) transformação. (…) (Idem, pág. 68)

(…) Assim sendo, o que me parece importante é essa investigação do “eu”, de “mim”,
para se conhecer o “eu” tal qual é, com suas ambições, invejas, exigências agressivas,
falácias, divisão em “superior” e “inferior” - de tal maneira que não só seja revelada a
mente consciente, mas também a inconsciente, o repositório da antiga tradição (…). O
conhecimento da totalidade do “eu” significa o seu fim. (…) (Transformação
Fundamental, pág. 60)
Consciência, Unidade, Ego, Superego, conforme o
Autor
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 15:38

Para compreendermos (…) precisamos entender a questão da consciência. Que


entendemos por consciência? (…) A consciência, de certo, é um processo de reação a
um estímulo, a que chamais experiência. Isto é, há um desafio, que é sempre novo;
mas a reação é sempre velha. (…) Essa experiência recebe uma designação (…) ela é
boa ou má, agradável ou dolorosa. (…) Assim, a consciência, nos diferentes níveis, é
o processo total do experimentar (…). Esse processo total, (…) chama-se consciência.
(…) A memória é o armazém, o registro, e é a memória que intervém, que reage ao
estímulo; e a esse processo chamamos consciência. (…) (Arte da Libertação, pág. 53-
54)

(…) Por consciência entendemos (…) o pensamento, o sentimento e a ação,


conscientes ou inconscientes. (…) Os sentidos, que criam o sentimento, e as fórmulas,
os conceitos, as idéias, a opinião, a crença positiva ou negativa - tudo isso está
compreendido no campo da consciência. (…) (Viagem por um Mar Desconhecido, pág.
111)

A consciência constitui toda a esfera de nosso pensamento, todo o campo da idéia e


da ideação. O pensamento organizado se torna idéia, da qual resulta ação; e a
consciência se constitui de muitas camadas de pensamento, ocultas e patentes,
conscientes e inconscientes. É a esfera do conhecido, da tradição, da memória do que
foi. É o que temos aprendido, o passado em relação ao presente. (Experimente um
Novo Caminho, pág. 38)

O passado transmitido através de séculos, o passado da raça, da nação, da


comunidade, da família; os símbolos, as palavras, as experiências, o choque dos
desejos contraditórios; as inumeráveis lutas, prazeres e dores; as coisas que
aprendemos de nossos antepassados e as modernas tecnologias que se lhes
acrescentaram - tudo isso constitui a consciência, é o campo do pensamento, (…) do
conhecido, e nós vivemos na superfície desse campo. (…) (Idem, pág. 38)

Se olhamos o conteúdo da consciência encontramos recordações, temores,


ansiedades, o “eu creio” e o “eu não creio”, todos produtos do tempo. E o pensamento
diz que isto é tudo que tenho, devo protegê-lo, defendê-lo (…). O movimento do
pensar tem sua origem na memória; ainda que pense em liberdade, segue
pertencendo ao passado. Portanto, não pode produzir mudança radical. (…) (Tradición
y Revolución, pág. 95-96)

A consciência, tal como a conhecemos, pertence ao tempo, é um processo de registro


a acumulação de experiência, nos seus diferentes níveis. Tudo o que ocorre no interior
dessa consciência é sua própria projeção; tem qualidade própria e é mensurável.
Durante o sono, ou essa consciência se fortalece ou sucede algo de todo diferente.
Para a maioria de nós, o sono fortifica a experiência, é um processo de registrar e
acumular, no qual há expansão, mas não renovação. (…) Esse processo de vir a ser
tem de cessar completamente, (…). (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 37)

O outro ponto é: “Não é necessário despejarmos tudo o que está oculto nos labirintos
do subconsciente para nos descondicionarmos?” Como disse, a consciência é
constituída de diferentes camadas. Primeiro, temos a camada superficial, e abaixo
desta a memória, porque sem memória não há ação.

Imediatamente abaixo está o desejo de ser, de “vir a ser”, o desejo de realizar. Se vos
aprofundardes mais, encontrareis um estado de completa negação, de incerteza, de
vazio. Esse total constitui a consciência. (…) (A Arte da Libertação, pág. 117)

Pois bem, enquanto houver o desejo de ser, de “vir-a-ser”, de realizar, de obter, há de


haver o fortalecimento, nas muitas camadas da consciência, do “eu” e do “meu”; e o
esvaziamento dessas muitas camadas só é possível quando compreendeis o processo
de “vir a ser” (Idem, pág. 117)

Quando um problema não é solúvel conscientemente, pode o inconsciente ajudar a


resolvê-lo? Que é o consciente e que é o inconsciente? Existe uma linha precisa onde
um acaba e o outro começa? Tem o consciente um limite que não pode ultrapassar?
(…) O inconsciente é uma coisa separada do consciente? São os dois dissimilares?
Na falta de um, o outro começa a funcionar? (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág.
133-134)

Ora, sabemos que existe a mente consciente e a mente inconsciente, mas a maioria
de nós funciona apenas no nível consciente, na camada superficial da mente, e toda a
nossa vida (…) se limita a isso. Vivemos na chamada mente consciente e nunca
damos atenção à mente inconsciente, mais profunda, da qual nos vem ocasionalmente
uma mensagem, uma sugestão; mas essa sugestão não é atendida, ou é adulterada.
(…) (Que Estamos Buscando, 1ª ed., pág. 174)
Nosso problema (…) é este; existe, de fato, um estado único, e não dois estados,
como sejam o consciente e o inconsciente; só há um “estado de ser”, que é a
consciência, embora gostemos de dividi-la em consciente e inconsciente. Mas a
consciência é sempre do passado, nunca do presente; (…). Nunca estamos
conscientes do agora. (…) Observai os vossos corações e as vossas mentes, e vereis
que a consciência funciona sempre entre o passado e o futuro, sendo o presente mera
passagem do passado para o futuro. (…) (Que Estamos Buscando, 1ª ed., pág. 175)

A mente consciente está claramente procurando uma saída do problema, e essa saída
é uma conclusão satisfatória. Não é a mente consciente, ela própria, constituída de
conclusões, positivas ou negativas, e será capaz de procurar algo diferente? (…) Não
há dúvida de que a mente consciente é constituída do passado, está fundada no
passado, (…). Ela é incapaz de examinar o problema sem a cortina protetora de suas
conclusões; é incapaz de estudar, de estar silenciosamente cônscia do próprio
problema. Conhece, apenas, conclusões agradáveis ou desagradáveis, e só é capaz
de acrescentar, a si própria, mais conclusões, mais idéias, mais fixações. (…)
(Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 134)

Krishnamurti: Voltemos a isto. Penetrando na consciência, e vendo quão fragmentária


ela é, pode naturalmente uma (parte dos fragmentos) transformar-se na outra (a total).
Então viriam juntos, porque temos dividido a vida em consciente e inconsciente, oculto
e revelado. Este é o ponto de vista psicanalítico, psicológico. Para mim, pessoalmente,
isto não ocorre. Não separo o consciente do inconsciente. Mas aparentemente, para a
maioria de nós, há essa divisão. (The Awakening of Intelligence, pág. 386)

(…) Dá-se a verdadeira integração quando, por todas as camadas da consciência,


existe percepção e compreensão (…). As numerosas partes adversas e contraditórias
da nossa consciência só podem integrar-se quando já não existe a causa dessas
divisões; dentro do padrão do “eu” só pode haver conflito; nunca integração, plenitude.
(O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 134)

Krishnamurti: (…) Se não há conteúdo, não há consciência. Dentro da consciência há


muitos fragmentos; não é um único conteúdo sólido. Existem diferentes níveis,
atitudes, características, atividades, (…). Tudo isso é a consciência total. Uma parte
dessa consciência total, um fragmento, assume importância; então diz: “eu sou a
consciência”, ou “eu não sou a consciência”, “eu sou isto”, “eu não sou isto”. (Tradición
y Revolución, pág. 148)

Nossa consciência (…) está ocupada com os próprios conceitos e conclusões, assim
como com as idéias de outra gente; está cheia de temores, ansiedades e prazeres, e,
junto a ocasionais expressões de alegria, está a dor. Essa é nossa consciência. Esse
é o padrão da existência que levamos. (La Totalidad de la Vida, pág. 192)

É de algum modo possível produzir uma mudança radical na própria consciência?


Porque, se isso não é possível, estamos vivendo perpetuamente em uma prisão com
nossas idéias, (…) conceitos - vivendo em um campo (…) de confusão, incerteza,
instabilidade. E ao indivíduo parece que, se se move de um lugar a outro desse
campo, terá mudado grandemente; porém continua no mesmo campo. Enquanto
vivemos dentro do campo a que chamamos nossa consciência, (…) ainda assim não
há nesse campo uma transformação humana fundamental. (Idem, pág. 192)

O “eu” é uma entidade total. Conquanto falemos de “consciente” e “inconsciente”, só


existe de fato um estado: a consciência. Conhecemos a arte que chamamos “o
consciente”; a outra parte, porém, é muito difícil de conhecer-se; entretanto, a mente é
um processo total que inclui tanto a consciência interior como a consciência periférica,
o oculto bem como o manifesto. Ora, pode uma pessoa tomar conhecimento dessa
consciência total que é o “eu”, com seus desejos, suas ânsias, seus temores, seus
impulsos, sua luta constante para aperfeiçoar- se, sua ânsia de preenchimento - (…)
sem fortalecer a atividade do “eu”? E pode todo esse processo do “eu” terminar? (…)
(Percepção Criadora, pág. 5-7)

Ora, pode uma pessoa tomar conhecimento dessa consciência total que é o “eu”, com
seus desejos, suas ânsias, seus temores, seus impulsos, sua luta constante para
aperfeiçoar-se, sua ânsia de preenchimento - (…) sem fortalecer a atividade do “eu”?
E pode todo esse processo do “eu” terminar? Por certo, ele não pode extinguir-se por
um ato de volição, (…) de nenhum artifício, nem pela repetição de frases, (…). (Idem,
pág. 57-58)

(…) Se vos tornardes indiscriminadamente cônscios do “eu” em todas as suas


atividades; cônscios de todo o processo do nosso pensar, tanto o cognitivo como o
oculto; se perceberdes sem julgamento nem condenação, produzireis infalivelmente
aquela revolução no centro. A mente se tornará então sutil num grau extraordinário,
espantosamente ativa e vigilante (Idem, pág. 59)

Tende (…) e vereis que a ação criadora é uma coisa que nasce quando a mente está
tranqüila, quando o “eu” está totalmente ausente. A atividade criadora que
conhecemos ocasionalmente, resultante de agitação, não é a mesma coisa que a ação
criadora livre do centro. A ação criadora livre do centro não é temporal, porque não é
invenção da mente; (…). Mas a criação a que me refiro não é para dar-nos satisfação,
é algo totalmente desconhecido, (…) e virá apenas quando a mente, perfeitamente
cônscia do processo do “eu”, compreende a significação deste e, por conseguinte, não
mais o nutre de experiência. (Percepção Criadora, pág. 60)

(…) Como indivíduos, tendes que compreender o processo da consciência por meio
do discernimento direto, sem escolha. A autoridade do ideal e do desejo impede e
perverte o verdadeiro discernimento. Quando há carência, quando a mente está cativa
dos opostos, não pode haver discernimento. As reações psicológicas impedem o
verdadeiro discernimento. Se dependermos da escolha, do conflito dos opostos,
criaremos sempre a dualidade em nossas ações, (…). (Palestras em Ommen,
Holanda, 1936, pág. 13-14)

(…) Descobrimos, assim, uma coisa muito interessante, ou seja, que todo
conhecimento é o passado, todo conhecimento tecnológico vem dele, e esse passado
se “projeta”, modificado pelo presente, no futuro. Assim, vós como entidade sois o
passado, (…) vossas “memórias”, (…) tradições, (…) experiência. Acabamos de ver,
pois, que o “vós”, o “eu”, o “ego”, o “superego”, tudo é passado. (…) (O Novo Ente
Humano, pág. 141)

(…) Queremos que esse “eu” subsista e se torne perfeito, e, por conseguinte, dizemos
que além do “eu” está um “super-eu”, um “eu” mais alto, uma entidade espiritual
atemporal. Mas, visto que a pensamos (…) está ainda dentro da esfera do tempo, (…).
(Claridade na Ação, pág. 142)

A mente, ao perceber a sua própria impermanência, a sua transitoriedade, anseia por


um estado permanente, e esta própria ânsia cria o símbolo, a sensação, a idéia, a
crença, a que nos apegamos. Temos, pois, o “eu” transitório, e o “super-eu”, o “eu
superior”, que consideramos permanente; e a mente, buscando o permanente, cria a
dualidade, o conflito dos opostos. (…) (Idem, pág.143)

Mas, em primeiro lugar, não estais cônscios da existência de uma entidade diferente, o
“eu” superior, que controla o inferior? Há em cada um de nós uma coisa que existe
separadamente, e que guia, molda, observa cada pensamento. (…) Como nasceu esta
entidade separada? Não é ela um resultado da mente, (…) do pensamento? É,
evidentemente; (…). Se eu não a tivesse pensado, ela não poderia existir; (…)

E o que é produto do pensamento pode ser uma entidade espiritual, separada do


pensamento? Pode ser uma entidade atemporal, uma coisa eterna, que transcende o
processo do pensamento? Se é uma entidade atemporal, então não me é possível
pensá-la, porquanto só sou capaz de pensar dentro dos limites do tempo. (…)
(Claridade na Ação, pág. 64-65)
Posso, pois, estar cônscio (…). O “ego” é sempre o “ego” em qualquer nível que o
coloquemos. Seja “superior”, seja “inferior”, o “eu” está sempre compreendido na
esfera do pensamento. (…) (Percepção Criadora, pág. 109)

(…) Podeis situar o “eu” num nível qualquer, podeis chamá-lo “eu superior” ou “eu
inferior”, mas isso representa ainda o processo do pensar; e, se não se compreende o
pensamento, o seu pensar (…) continua sendo um processo de fuga. (Por que não te
Satisfaz a Vida, pág. 74)

Que é essa ânsia extraordinária de subsistir, que tem cada um de nós? E o que é que
subsiste, (…)? Certo, o que continua é o nome, a forma, a experiência, o
conhecimento, e várias lembranças. (…) O dividirdes a vós mesmos em “eu superior”
e “eu inferior” não tem aqui cabimento, porque sois e continuais a ser (…) a soma de
todas aquelas coisas. (…) (Idem, pág. 82)

Assim, o todo da consciência, embora o chameis “superior” ou “inferior”, é memória.


(…) E nesse campo, que é a consciência, não existe nada novo. (…) E o pensamento
é memória, não importa se vossa própria memória ou memória acumulada de um
milênio de propaganda. (…) O pensamento jamais poderá promover aquela revolução.
(Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 185)
Consciente, Subconsciente, Inconsciente,
Camadas
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 15:42

Estive mostrando quanto é trivial o consciente, com suas atividades superficiais, sua
perene tagarelice, etc.; e o inconsciente é também muito trivial. O inconsciente, como
o consciente, só se torna importante quando o pensamento lhe dá continuidade. O
pensamento tem seu lugar próprio, sua utilidade (…) em assuntos técnicos, etc., mas
o pensamento é de todo fútil, quando se trata de operar aquela radical transformação.
Quando percebo que é o pensamento que dá continuidade, está terminada a
continuidade do pensador. (A Mente Sem Medo, 1ª ed., pág. 51)

Conhecemos o que é o consciente; sabemos que vivemos, nos movemos,


funcionamos dia a dia (…). Entretanto, há as camadas ocultas do inconsciente, as
quais governam o consciente, pois (…) são muito mais vitais e muito mais ativas do
que a chamada mente superficial. (…) (O Problema da Revolução Total, pág. 33)

A mente consciente ocupa se do imediato, do limitado presente, ao passo que a


inconsciente está sob o peso dos séculos e não pode ser represada ou desviada por
alguma necessidade imediata. O inconsciente tem a qualidade de tempo profundo, e a
mente consciente, com sua recente cultura, não pode haver-se com ela de acordo com
as suas necessidades passageiras. Para erradicar a autocontradição, a mente
superficial precisa compreender esse fato e estar em repouso - o que não significa dar
vazão às inúmeras pressões da mente oculta. Quando não há resistência entre a
manifesta e a oculta, então esta, porque tem a paciência do tempo, não violará o
imediato. (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 23)

Precisamos despertar a plena capacidade da mente superficial, que vive na atividade


cotidiana, e também compreender a mente oculta. Ao compreender a mente oculta. Ao
compreender a mente oculta, estabelece-se um viver total, em que a autocontradição,
com sua alternância de tristeza e felicidade, desaparece. É essencial que nos
familiarizemos com a mente oculta e com seus processos; mas é igualmente
importante não nos ocuparmos dela em excesso ou dar-lhe importância indevida. Só
quando compreender o superficial e o oculto, poderá a mente ir além de suas
limitações e descobrir a atemporal bem aventurança. (Idem, pág. 24)

(…) Educar apenas a mente consciente sem compreender a inconsciente acarreta


contradição em nossas vidas, (…). A mente oculta é muito mais dinâmica do que a
superficial. A maioria dos educadores está apenas interessada em fornecer
informações ou conhecimento à mente superficial, preparando- a para conseguir um
emprego e ajustar-se à sociedade. (…) Tudo o que a chamada educação faz é
sobrepor-lhe uma camada de conhecimento e técnica, e dotá-la de certa capacidade
para ajustar-se ao ambiente. (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 22-23)

Uma vez que haja percepção e compreensão dos poderes e capacidade das muitas
camadas da mente oculta, os detalhes poderão concatenar-se sábia e
inteligentemente. O importante é a compreensão da mente oculta, e não a mera
educação da mente superficial no sentido de adquirir conhecimento, conquanto este
seja necessário. Essa compreensão da mente oculta liberta a mente total de conflito, e
só então haverá inteligência. (Idem, pág. 24)

Não sei quantos de nós estão cônscios de que existe um subconsciente, de que há
diferentes camadas em nossa consciência. Parece-me que a maioria de nós só está
cônscia da mente superficial, das atividades diárias, (…). Não temos percebimento da
profundeza, da importância, da significação das camadas ocultas; e às vezes, graças
a um sonho, uma mensagem, ficamos cônscios de que há outros “estados de ser” (…)
(A Arte da Libertação, pág. 116)

O inconsciente é o depósito oculto do passado, individual e coletivo. É o repositório de


séculos de propaganda, de toda experiência e conhecimento, das tradições e
complexidades da raça. Agora, por mais engenhoso que vós sejais, que o analista
seja, a mente consciente não pode abeirar se do inconsciente por meio de análise. (O
Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 130)

Pela análise só se pode arranhar a superfície do inconsciente, não se pode penetrá-lo


muito profundamente - como creio que a maioria dos analistas concordaria,
atualmente. A mente consciente foi educada, “treinada” numa determinada direção,
adquiriu conhecimentos técnicos em certas especialidades, para que a pessoa possa
ganhar a vida (…) - mas por essa maneira não é possível abeirar-nos do inconsciente.
(Idem, pág. 130)

O inconsciente, que é o “oculto”, tem de ser considerado negativamente. (…) Estar


cônscio de uma coisa negativamente (…) é olhá-la e escutá-la sem resistência, sem
condenação, sem rejeição. Do mesmo modo, é possível ficarmos cônscios, “sem
escolha” da totalidade do inconsciente - e esse é o percebimento negativo. (Idem, pág.
130-131)

A mente oculta, inexplorada e não compreendida, com sua parte sua parte superficial
que foi “educada”, entra em contacto com os desafios e exigências do presente
imediato. A superficial pode reagir adequadamente ao desafio; mas, por haver uma
contradição entre a mente superficial e a oculta, qualquer experiência da mente
superficial só fará aumentar o conflito entre ela e a oculta. (…) A mente superficial,
experimentando o externo sem compreender o interno, o oculto, só produz um conflito
mais profundo e mais amplo. (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 24)

O inconsciente, embora essa palavra sugira algo oculto, de que não temos
percebimento, faz também parte do conhecido; ele é o passado. Podeis desconhecer
o inteiro conteúdo do inconsciente, (…) não o terdes examinado, observado, mas
provavelmente tendes sonhos, comunicações procedentes daquela vasta região
subterrânea da mente. Ela existe, e é o conhecido, porque é o passado. Nela nada
existe de novo; (…) (Experimente um Novo Caminho, pág. 39)

Existe inconsciente? (…) Se há inconsciente, de que maneira poderá a mente


consciente descobri-lo? (…) Ao que sei, o inconsciente é o passado, a herança racial,
o depósito da totalidade do esforço humano; um nível muito profundo existente em
cada um de nós. De que maneira pode a mente consciente descobrir esse depósito,
(…) coisa oculta, cuja existência admitimos? (…) (A Essência da Maturidade, pág. 24)

Não sei se já notastes que, no momento em que se vê algo sem o pensamento, não
há observador, só há observação. Quando olhais para uma nuvem, sem vossas
lembranças acumuladas relativas às nuvens, estais apenas observando. Da mesma
maneira temos de observar o inconsciente; e quando observais assim, negativamente,
existe inconsciente? Não apagastes completamente o inconsciente com todo o seu
conteúdo? Há, pois, um percebimento imediato da totalidade da consciência. (…) (O
Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 69)

A mente consciente é incitada, impelida, tangida ou coibida pelo inconsciente. Podeis


pensar que sois, exteriormente, uma pessoa muito pacata, sem ambições; mas por
baixo, profundamente oculto, está o clamor que vos vai no coração - vossos impulsos,
compulsões, desejos, motivos. O inconsciente é o reservatório de todo o passado da
humanidade, não apenas do passado do vosso existir, mas o de vosso pai (…)
ancestrais, (…) nação, da humanidade; as tradições raciais, os preconceitos de casta;
tudo isso está contido no inconsciente. (Autoconhecimento, Base da Sabedoria, pág.
82-83)

(…) Sem dúvida, todo o campo mental - o consciente e o inconsciente - está


condicionado pela nossa particular cultura. Isso é bastante óbvio. (…) No campo do
inconsciente se acham todas as tradições, o resíduo, assim o herdado como o
adquirido, de todo o passado do homem, (…) (Transformação Fundamental, pág. 56-
51)

Minha vida e a vossa se acham num estado de fragmentação, de fracionamento.


Vivemos uma vida dualista, dizendo uma coisa, fazendo outra, pensando uma coisa e
dizendo coisa diferente. Contradição, dualidade - eis a vida que estamos vivendo. E eu
estou perguntando: Por quê? Por que está a vida tão fragmentada? (…) (Palestras
com Estudantes Americanos, pág. 64)

A mente oculta é muito mais potente que a superficial, por mais que esta seja instruída
e capaz de se ajustar; e isso não é algo tão inexplicável. A mente oculta ou
inconsciente é o repositório das memórias raciais. A religião, a superstição, o símbolo,
as tradições (…) de uma raça, a influência, tanto da literatura sagrada como da
profana, de aspirações, frustrações, maneirismos e variedades de alimento - tudo isso
está enraizado no inconsciente. (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 23)

Os desejos manifestos e secretos, com suas motivações, esperanças e medos, suas


tristezas e prazeres; e as crenças, sustentadas através de pressões por maior
segurança, traduzindo-se de várias maneiras - essas coisas também estão contidas na
mente oculta, que não só tem essa extraordinária capacidade de reter o passado
residual, como tem também a capacidade de influir no futuro. Indícios de tudo isso são
apresentados à mente superficial através de sonhos e de várias outras formas, quando
ela não está totalmente ocupada com os acontecimentos cotidianos. (O Verdadeiro
Objetivo da Vida, pág. 23)

A mente oculta não é nada de sagrado, (…) a ser temido, nem requer um especialista
para expô-1a à mente superficial. Mas, graças à enorme potência da mente oculta, a
mente superficial não pode haver-se com ela como desejaria. A mente superficial é em
grande parte impotente em relação à sua própria parte oculta. Por mais que procure
dominar, dar forma ou controlar a mente oculta, devido às suas exigências e objetivos
sociais imediatos, a mente superficial só consegue arranhar a superfície da mente
oculta; e então há um hiato de contradição entre ambas. Procuramos vencer essa
divisão através da disciplina, (…) várias práticas, sanções, etc.; mas não conseguimos
(Idem, pág. 23)

É possível ao ente humano livrar-se totalmente do passado, de modo que se torne


novo e olhe a vida de maneira inteiramente diferente? O que chamamos “o
inconsciente” - não importa se relativo a passado de cinqüenta ou de dois milhões de
anos - não tem existência real. Resíduo racial, tradição, motivos secretos, anseios,
prazeres (…). Está sempre na consciência. Só há consciência, embora não
percebamos o seu conteúdo total. (…) todas as nossas atividades, no âmbito do
inconsciente, do consciente, do passado, do futuro etc., estão contidas nesse campo.
(…) (A Importância da Transformação, pág. 10)

É possível estar-se livre em todo o campo da mente, tanto o chamado inconsciente,


como no consciente? Como já dissemos, não existe tal coisa - o inconsciente. Só
existe o campo da consciência. Podemos estar cônscios de determinada seção do
campo, e não estar cônscios do restante. Se não estamos cônscios do restante, não
compreenderemos a totalidade do campo. Infelizmente esse campo foi dividido em
consciente e inconsciente, (…). Tornou-se moda estudar o inconsciente. (…) (Idem,
pág. 47)

A revolução implica, por certo, um percebimento total de toda a estrutura psicológica


do “eu”, consciente e inconsciente, e que esteja totalmente livre dessa estrutura, sem
pensar em “tornar-se outra coisa”. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed.,
pág. 91)

(…) Como estive dizendo (…), se não há compreensão do inconsciente, toda


“mudança” psicológica é simples ajustamento a um padrão estabelecido pelo
inconsciente. E a crise atual (…) exige uma revolução. (Idem, pág. 91)

(…) Podemos tentar compreender o inconsciente por meio de exame e análise, mas
isso obviamente não produzirá revolução. Podeis modificar, reformar; mas (…) não é
revolução, não é completa libertação do passado. Necessita-se de uma mente jovem,
nova, “inocente”, e essa mente só pode existir quando nos libertamos
psicologicamente do passado. (Idem, pág. 92)

Se, a fim de compreender a estrutura total do “eu”, de extraordinária complexidade,


procederdes passo a passo, descobrindo camada por camada, examinando cada
pensamento, sentimento e motivo, ver-vos-eis todo enredado no processo analítico;
que vos levará semanas, meses, anos; e quando admitimos o tempo no processo de
autocompreensão, temos de estar preparados para toda espécie de deformação,
porquanto o “eu” (…) se move, vive, luta, deseja, nega; (…) (Liberte-se do Passado,
pág. 27)

(…) Descobrireis, assim, por vós mesmos, que não é esse o caminho que deveis
seguir; (…) que a única maneira de olhardes a vós mesmos é fazê-lo totalmente,
imediatamente, fora do tempo; e só podeis ver a totalidade de vós mesmos quando a
mente não está fragmentada. O que vedes em sua totalidade é a verdade. (Idem, pág.
27)
Necessitamos de mudança social (…). Quer conscientes, quer inconscientes, todas
nossas ações produzem conflito em nossa existência. O consciente é racional, sua
atividade, deliberada. O inconsciente é muito mais forte do que o consciente. Olhai
para dentro de vós mesmos, profundamente, não de acordo com Freud ou outro -
olhai-vos realmente. E, para olhardes, deveis estar livres para olhar. Se dizeis: “Isto é
correto” ou “Isto é errado”, “Isto é bom” ou “Isto é mau” (…), nesse caso não estais
livres para olhar, (…) observar, para penetrar neste imenso campo da consciência.

O inconsciente, como já disse, é muito forte. Ele é o repositório racial, coletivo, e nos
governa muito mais do que a mente consciente; e, também, tem seus próprios
motivos, impulsos, alvos. Envia-nos mensagens através de sonhos (…). Assim, a
menos que se opere aquela revolução radical, fundamental, o conflito humano durará
infinitamente. (…) (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 115-116)

Durante o sono, e freqüentemente nas horas de vigília, quando cessa completamente


o vir a ser, quando terminou o efeito de uma causa, então, aquilo que está além do
tempo, além da medida de causa e efeito, surge na existência. (Comentários sobre o
Viver, 1ª ed., pág. 37-38)

Se não pode achar uma conclusão satisfatória, a mente consciente desiste da busca e
torna-se quieta; e nessa mente superficial, agora tranqüila, o inconsciente faz surgir,
subitamente, uma solução. Ora, a mente inconsciente, a mais profunda, é diversa
(…)? O inconsciente não é também constituído de conclusões e memórias raciais,
grupais e sociais? Certo, o inconsciente é também o resultado do passado, do desejo,
e a diferença consiste, apenas, em estar submerso, e à espera; e, quando solicitado,
envia à superfície as suas próprias conclusões ocultas. Se forem satisfatórias, a mente
superficial as adota; se não, fica (…) esperando encontrar por milagre uma solução.
Se nenhuma solução encontra, reconcilia-se, exausta, com o problema, (…).
(Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 134-135)
Inconsciente Coletivo; Consciência da
Humanidade
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 15:44

Estamos tentando olhar a totalidade da vida; e a vida é imensa, não são simplesmente
as camadas superficiais de nossa existência diária. A vida é infinita,
extraordinariamente sutil, fluida, móvel, sem posição estática; e não é possível
compreender a totalidade desse extraordinário movimento da vida com a mente
consciente, com todas as suas crenças, conceitos, idiossincrasias, seu ponto de vista
fragmentário, porque tal ponto de vista não pode dar percebimento total. (…) (O
Descobrimento do Amor, pág. 86)

(…) Percebemos, pois, o fato de que o nosso pensar é condicionado pelo passado, o
qual se projeta para o futuro; (…) porque não há dois estados tais como o passado e o
futuro, mas só um estado que inclui todo o passado - o consciente e o inconsciente, o
coletivo e o individual. O passado coletivo e o individual, reagindo ao presente,
produzem certas reações que criam a consciência individual; (…). E no momento em
que temos o passado, temos inevitavelmente o futuro, porque o futuro não passa de
continuidade do passado, modificado, (…) (Que Estamos Buscando, 1ª ed., pág. 176-
177)

O que conhecemos na vida, atualmente, é uma série de lutas, de ajustamentos, de


limitações, de coerções contínuas. E, nesse processo, não há, nunca, renovação,
jamais ocorre algo novo. Ocasionalmente, surge uma sugestão, porém, é traduzida
pela mente consciente e posta em conformidade com o padrão das nossas
conveniências de cada dia. (…) (Poder e Realização, pág. 82)

O inconsciente tem um papel muito importante em nossa vida. A maioria de nós não
conhece o inconsciente, a não ser através de sonhos, (…) de ocasionais sugestões ou
mensagens relativas a coisas que estão ocultas. (…) (O Homem e seus Desejos em
Conflito, 1ª ed., pág. 67)

No inconsciente estão enraizadas não só as reações comuns do indivíduo, mas


também as reações coletivas da raça a que pertence, no meio cultural em que foi
criado - (…) a tremenda acumulação de experiência humana, através das idades.
Tudo isso lá está, no inconsciente. Descobrir todo o inconsciente por meio de análise,
de investigação gradual, é absolutamente impossível; (…) (Idem pág. 68)

(…) Quando a mente é posta tranqüila, artificialmente, a camada superficial da mente


pode receber mensagens, não apenas do seu próprio inconsciente, mas também do
inconsciente coletivo; e essas mensagens são traduzidas segundo o condicionamento
da mente. (…) (Que Estamos Buscando, 1ª ed., pág. 157)

Isso não é questão de análise, porquanto não se pode analisar o inconsciente. Há


especialistas, bem sei, que tentam fazê-lo, mas não o creio possível. O inconsciente
não pode ser analisado pelo consciente. Já vos digo porquê. Através de sonhos,
sugestões, de símbolos, de mensagens diversas, tenta o inconsciente comunicar-se
com a mente consciente. Essas sugestões e mensagens requerem interpretação, e a
mente consciente as interpreta conforme seu próprio condicionamento, suas
peculiares idiossincrasias. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed. pág. 15)

(…) A mente consciente é moldada pela inconsciente; e é muito difícil compreender os


secretos motivos, intenções e compulsões do inconsciente, porque não somos
capazes de conseguir acesso ao inconsciente pelo esforço consciente. É
negativamente que devemos abeirar-nos dele, e não pelo processo positivo da
análise. (…) (Idem, pág. 50)

O inconsciente é o depósito oculto do passado, individual e coletivo. É o repositório de


séculos de propaganda, de toda experiência e conhecimento, das tradições e
complexidades de raça.(…). (O homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 130)

A mente consciente não pode, jamais, perceber a totalidade. A mente consciente é a


mente individual, ao passo que a mente inconsciente nunca é individual. A mente
inconsciente é a raça, a experiência coletiva da humanidade. (…) (O Descobrimento
do Amor, pág. 85)

Aqui estamos tratando de observar o movimento da consciência e sua relação com o


mundo, e de ver se essa consciência é individual, separada, ou se é o total da
humanidade. Desde a infância se nos educa para sermos indivíduos, cada qual com
uma alma separada; (…) (La Llama de la Atención, pág. 103)

O cérebro - que se desenvolveu através dos tempos, milhões e milhões de anos - é o


cérebro comum da humanidade. Podemos não gostar de constatar isso, porque
estamos acostumados à idéia de que nossos cérebros são individuais. (…) (Perguntas
e Respostas, pág. 113)

(…) O indivíduo não é um processo isolado, separado do todo, mas, sim, o “processo
total da humanidade”; por conseqüência, os que sentem verdadeiro interesse e
desejam realizar uma revolução de valores, radical e fundamental, esses devem
começar por si mesmos. (A Arte da Libertação, pág. 28)
Portanto, primeiro temos de olhar nossa consciência, ver de que está composta, qual é
o seu conteúdo. Devemos perguntar-nos se esse conteúdo da consciência (…) é de
fato uma consciência individual. Ou se essa consciência individual, que cada um de
nós sustenta como separada de outras consciências, não é individual em absoluto?
Ou é a consciência da humanidade? (La Llama de la Atención, pág. 82)

Por favor, escutem (…). Somente observem (…) o que estamos dizendo: a
consciência com que nos temos identificado como indivíduos é em absoluto individual?
Ou é a consciência da humanidade? Ou seja, que a consciência, com todo o seu
conteúdo de angústia, recordação, dor, atitudes nacionalistas, crenças, cultos, etc., é
invariável em todo o mundo. Onde se encontre o homem, está sofrendo, competindo,
lutando; está ansioso, cheio de incerteza, soçobro, desespero, desalento, crendo em
supersticiosos disparates. Isso é comum a toda a humanidade, quer seja na Ásia, aqui
ou na Europa. (Idem, pág. 82-83)

De modo que nossa consciência, com a qual nos temos identificado como nossa
consciência “individual”, é uma ilusão. É a consciência do resto da humanidade. O ser
é o mundo, e o mundo é cada um de nós. (…) Toda a vida têm lutado como
indivíduos, como algo separado do resto da humanidade; e quando descobrem que a
consciência de cada um de vocês é a consciência do resto da humanidade, isso
significa que cada um de vocês é a humanidade, não um indivíduo separado, (…) (La
Llama de la Atención, pág. 83)
Espírito-mente, Atemporal, Vida, Amor, Vontade
(Eterna)
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 15:47

Se, quando escutais (…), fazeis algum esforço, isto é ainda resultado do conhecido.
(…) Notai que todo conhecimento, toda experiência fortalece a vontade, o conhecido,
o “eu”, o “ego”, e que essa vontade, esse “eu” nunca pode perceber claramente o que
é verdadeiro, jamais achar a Deus (…) porque seu Deus é o conhecido. (Viver sem
Temor, pág. 17)

Só quando o espírito se encontra num estado de correspondência com o


desconhecido, só então há a possibilidade de criação, que é a Verdade. (…) (Idem,
pág. 17)

Se pensais que sois uma entidade espiritual ou realidade, o que significa isso? Não
implica um estado imortal fora do tempo que é eterno? Se ele é eterno, então não tem
crescimento; pois aquilo que é capaz de crescimento não é eterno. (…) (Palestras em
Ojai e Sarobia, 1940, pág. 95)

(…) Se essa essência espiritual é supostamente amor, inteligência, verdade, então


como pode ser cercada por essas trevas que confundem (…)? (Idem, pág. 95)

(…) E, todavia, esta mente está em busca de alguma realidade que evidentemente
deve achar-se fora do tempo; (…) Sendo a mente o único instrumento com que
podemos sentir, experimentar, é fora de dúvida que, no movimento de experimentar a
Realidade, a mente é da mesma qualidade que a Verdade, o Atemporal, não achais?
(Poder e Realização, pág. 70)

(…) Onde estais, aí está Ele, e onde estou, aqui Ele está; e quando alguém tem vivido
o gozado nesse Reino, está com Ele. Porque tereis encontrado a vós mesmos, tereis
encontrado o verdadeiro “Eu”; e uma vez que o tenhais encontrado, podereis sempre
voltar à Fonte. (O Reino da Felicidade, pág. 83-84)

Tendes então a chave de todo o conhecimento, tendes sempre o poder de ser parte
da Eterna Compaixão, da Fonte Eterna de todas as coisas.(…) (Idem, pág. 84)

(…) Tal força, tal poder para a luta, tal poder de dar energia para a criação, é o Reino
da Felicidade. Se um homem encontrar tal força e ao mesmo tempo tal alegria, tal luta
e ao mesmo tempo tal êxtase na vida, tal crescimento e ao mesmo tempo a forma
perfeita - tal homem descobrirá que tem dentro de si um Companheiro Eterno, (…)
(Idem, pág. 91)

(…) Sois o templo externo, e ardendo dentro de vós está o Eterno, o Santo dos
Santos, no qual podereis entrar e adorar à vontade, longe do mundo, (…) de todos os
tumultos e perturbações. (O Reino da Felicidade, pág. 25)

(…) Mas todos são feitos pelas mesmas mãos, (…) com a mesma argila, (…) produto
da mesma roda que gira e gira. Na essência nós somos iguais, mas no mundo da
forma somos diferentes; e de acordo com essas diferenças varia a nossa
compreensão da Verdade. Quanto maiores fordes, quanto mais houverdes sofrido,
(…) mais houverdes gozado, mais próximos estareis da unidade com essa Essência.
(…) (Idem, pág. 65)

(…) Já expliquei o que entendo por individualidade: o estado em que a ação se realiza
com entendimento, libertada de todos os padrões - sociais, econômicos ou espirituais.
É a isso que chamo verdadeira individualidade, por ser ação nascida da plenitude do
entendimento (…). (Coletânea de Palestras, 1930-1935, pág. 52)

Todos vós deveis entrar nesse Reino da Felicidade. (…) Aquele a quem adoramos é o
nosso Altar, (…) a Fonte de todas as coisas. Ele está acima de argumentos, (…) de
discussões, de ambições pessoais, de lutas pessoais; Ele é o nosso “Eu”. (…) (O
Reino da Felicidade, pág. 70)

Enquanto puderdes (…) só podeis refletir a pureza desse Reino quando houverdes
encontrado o vosso verdadeiro Ser (Self), quando viverdes eternamente nesse Reino
e O tiverdes como Eterno Companheiro. Então tereis em vós essa paz que dá imensa
força e poder (…) Aquela Voz que está sempre chamando, (…) (Idem, pág. 89)

(…) Ó Amado,/ O Ser do qual tu és o todo,/ Procura o caminho do iluminado êxtase. (A


Canção da Vida, 4ª ed., 1982, III, 2, pág. 10)

(…) Ó Amado,/ O Ser do qual tu és o todo,/ Dança a Canção da Eternidade. (Idem,


111, 4, pág. 10)

(…) Ó Amado, o Ser do qual tu és a totalidade,/ Está em fusão para unir-se ao


incorruptível. (Idem, III, 6, pág. 11)

O Ser, o Amado,/ A oculta e integral beleza,/ É a imortalidade do amor. (Idem, VI, 3,


pág. 15)
Ó Vida, Ó Amado,/ Só em ti está o perene amor,/ Só em ti reside o eterno
pensamento. (Idem, XXV, 3, pág. 43)

(…) Ó Amado,/ O Ser do qual tu és o todo,/ Marcha para o centro de todas as coisas.
(Idem, III, 3, pág. 10)

Ó amigo!/ Procura o Amado,/ Nos secretos recessos do teu coração./ (…) (Idem, XXI,
3, pág. 35)

Inteligência, para mim, não é o conhecimento tirado dos livros. Podeis ser mui eruditos
e, apesar disso, estúpidos. Podeis haver lido muitas filosofias e, apesar disso,
desconhecer a beatitude do pensamento criativo, o qual somente pode existir (…) pelo
constante apercebimento das coisas estúpidas do passado e das que estiverem sendo
criadas. Somente então virá à existência o êxtase do que é verdadeiro. (Palestras em
New York City, 1935, pág. 21)

(…) Tendes pois de estar enamorados da Vida. Isso exige grande inteligência, não
informações ou conhecimentos, porém essa grande inteligência que desperta quando
defrontais a Vida abertamente, completamente, quando a mente e o coração
estiverem por completo vulneráveis em face da Vida. (Idem, 1935, pág. 60)

(…) A vida é o desconhecido, assim como a morte é o desconhecido, como a verdade


é o desconhecido. A vida é o desconhecido; mas nós nos aferramos a uma
insignificante expressão dessa vida, e isso a que nos apegamos é simples memória,
(…). A mente se apega a essa coisa vazia, chamada memória, e memória é a mente,
o “eu”, (…) (A Arte da Libertação, pág. 131)

Assim, pois, depende da mente que a Verdade seja absoluta ou eterna. (…) Mas a
mente que está cônscia de tudo o que se passa interiormente, e percebe a verdade aí
contida, essa mente é atemporal; só essa mente pode saber o que existe para além
das palavras, dos nomes, do permanente e do transitório. (Novos Roteiros em
Educação, pág. 142-143)

(…) Quando o “eu” já não está lutando, consciente ou inconscientemente, para tornar-
se algo, quando o “eu” está de todo inconsciente de si mesmo, nesse momento se
verifica aquele estado de devoção, aquele estado de Realidade. Nesse momento, a
mente é o Real, é Deus. (…) (Poder e Realização, pág. 71)

(…) Não há então, no centro, uma revolução, uma transformação fundamental? (…)
Então, não há mais temor. A mente, em si mesma, é o desconhecido; é o novo, “o não
contaminado”. Por conseguinte, é o Real, o incorruptível, independente do tempo.
(Idem, pág. 73)

O adestramento do intelecto não produz inteligência. Antes, a inteligência surge


quando se age em perfeita harmonia, intelectual e emocionalmente. (…) O intelecto é
o mero pensamento funcionando independentemente da emoção (sentimento).

Quando o intelecto, divorciado da emoção (sentimento), é adestrado numa direção


particular, pode-se ter grande intelecto, mas não se tem inteligência, porque na
inteligência há a capacidade inerente de sentir tanto como a de raciocinar, (…) intensa
e harmoniosamente. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 125)

(…) Inteligência é o resumo de vossas experiências, que vos proporciona, não


somente a razão, mas também essa outra capacidade que se denomina intuição.
(Coletânea de Palestras, 1930-1935, pág. 16)

(…) A mente, porém, que só quer “vir a ser” não pode compreender o “ser”. É a
compreensão do “ser”, (…) daquilo que somos, que produz uma extraordinária
exaltação, a libertação do pensamento criador, da vida criadora. (Debates sobre
Educação, pág. 97)

(…) Inteligência é a verdade, a plenitude, a beleza e o amor mesmo. E nenhum


mestre, nem disciplina alguma, vos conduzirão a ela. (…) (A Luta do Homem, pág. 89)

Eu vos asseguro que, quando houver completa nudez, completa falta de esperança,
então num momento assim, de vital insegurança, nascerá a chama da suprema
inteligência, a beatitude da verdade. (Palestras em New York City, 1935, pág. 24)

Há duas espécies de vontade - a vontade que nasce do desejo, da carência, do


anseio, - e a vontade do discernimento, da compreensão. (Palestras em Ojai,
Califórnia, 1936, pág. 94)

A vontade resultante do desejo, baseia-se no esforço consciente de aquisição, (…).


Este esforço consciente ou inconsciente de querer, de ansiar, cria a totalidade do
processo do “eu”, e daí surgem o atrito, a tristeza e a cogitação do além. Desse
processo surge também o conflito entre os opostos.(…) (Idem, pág. 94-95)

O que estou dizendo é que, para viver com grandeza, para pensar criativamente, tem
o indivíduo de estar por completo aberto à vida, isento de quaisquer reações
autoprotetoras (…). Tendes pois de estar enamorados da vida. Isto exige grande
inteligência, (…) (Palestras em New York City, 1935, pág. 60)

(…) Não há respostas para a vida; a vida é uma “coisa viva”, de momento a momento,
e o homem que busca uma resposta para a vida está buscando a estagnação da
mediocridade. (…) (As Ilusões da Mente, pág. 44)

A vida é como o rio - fluente, célere, fugitiva, sempre em movimento. Ides ao encontro
da vida com o pesado fardo da memória, da experiência; e por isso, naturalmente,
nunca tendes contato com a vida. Vosso contato (…)e, gradualmente, o saber e a
experiência se tornam os fatos mais destrutivos da vida. (Novos Roteiros em
Educação, pág. 149-150)

(…) Por certo, uma vida que tem significação, que contém as riquezas da verdadeira
felicidade, não pertence ao tempo. Como o amor, a vida é atemporal; (…) (A Arte da
Libertação, pág. 160)

(…) A vida, o amor, a realidade são sempre novos e são necessários mente e coração
viçosos para compreendê-los. O amor é sempre novo, mas esse frescor é estragado
pelo intelecto mecânico, com as suas complexidades, ansiedades, ciúmes e assim por
diante. (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-1938, pág. 112-113)

O amor não pertence ao tempo, não é alcançável por meio de esforço consciente, (…)
de disciplina, de identificação, pois tudo isso faz parte do processo do tempo. A mente,
que só conhece o processo do tempo, não pode reconhecer o amor. O amor é a única
coisa eternamente nova. (…) (A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 126)

Nossa questão (…). Onde há ação do “eu” há amor. O amor não é do tempo, não
podeis praticar o amor, pois isso seria uma atividade consciente do “eu”, que espera,
por meio do amor, alcançar um resultado. (Quando o Pensamento Cessa, pág. 211)

(…) Uma vez que os mais de nós temos cultivado a mente, (…) não sabemos o que é
o amor. Falamos a respeito do amor; (…) mas, no momento em que estou consciente
de que amo, entrou em atividade o “eu” e, conseqüentemente, o amor deixou de
existir. (Idem, pág. 211-212)

O amor não pode ser cultivado. Só encontrareis o amor nas relações; (…) quando
existe o amor, que é a sua própria eternidade, não há então a busca de Deus, porque
o amor é Deus. (A Arte da Libertação, pág. 195)
Ora, não há vontade divina, mas apenas a vontade simples, comum, do desejo: a
vontade de obter sucesso, de estar satisfeito, de ser. Essa vontade é uma resistência,
e é fruto do medo, que guia, escolhe, justifica, disciplina. Essa vontade não é divina.
Ela não está em conflito com a chamada vontade divina, mas (…) é uma fonte de
tristeza e de conflito, porque é a vontade do medo. Não pode haver conflito entre a luz
e a treva; onde existe uma, não existe a outra. (…) (Palestras em Ommen, Holanda,
1937-1938, pág. 103)

(…) Se assim estiverdes apercebidos, há uma nova espécie de vontade ou de


compreensão, que não é a vontade do conflito ou da renúncia, mas da plenitude, que
é divina. Esta compreensão é a aproximação da realidade, que não é produto da
vontade de conseguir, da vontade da ansiedade e do conflito. A paz é dessa
totalidade, dessa compreensão. (Palestras em Ojai e Sarobia, 1940, pág. 27-28)

(…) Quando começardes a discernir, por meio da experiência, como a ação nascida
da carência cria sua própria limitação, então haverá mutação de vontade. Até então há
apenas mudança na vontade. É a atividade automantenedora da ignorância (…). A
mudança fundamental de vontade é inteligência. (Palestras em Ommem, Holanda,
1936, pág. 17)

Nota: Segundo várias fontes, orientais e ocidentais, incluindo Escrituras, formam o


espírito e seu campo a mente abstrata, atemporal, respectiva inteligência (manas sem
kâma); amor, sabedoria, puro, vida, buddhi, origem da intuição; e vontade, unidade
divina (atam). Foram aqui reunidos textos pertinentes, de Krishnamurti.
Inteligência, Discernimento, Percebimento,
Conceitos
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 15:49

Pergunta: Que é inteligência?

Krishnamurti: (…) A maioria das pessoas se satisfaz com uma definição do que é
inteligência. (…) A mente inteligente é aquela que investiga, (…) observa, aprende,
estuda. E isso significa o quê? Que só há inteligência quando não há medo, quando
estais disposto a rebelar-vos contra toda a estrutura social, a fim de descobrir o que é
Deus, (…) a verdade relativa a qualquer coisa. (A Cultura e o Problema Humano, pág.
19)

Inteligência não é sapiência. Se pudésseis ler todos os livros do mundo, isso não vos
daria inteligência. A inteligência é coisa muito sutil; ela não tem ancoradouro. Surge
quando compreendeis o processo total da mente (…). A inteligência, pois, surge com a
compreensão de vós mesmos; e só podeis compreender-vos em relação com o mundo
das pessoas, das coisas, e das idéias. Inteligência não é coisa adquirível, como a
sapiência; ela surge (…) quando não há medo; quando há sentimento de amor, (…).
(Idem, pág. 19)

Compreender o falso como falso, perceber o verdadeiro no falso, reconhecer o


verdadeiro como verdadeiro, eis o começo da inteligência. (…) (Reflexões sobre a
Vida, 1ª ed., pág. 58)

Vamos investigar juntos o que é a inteligência. (…) Um dos fatores da inteligência é o


de investigar e descobrir; explorar a natureza do falso, porque na compreensão do
falso, no descobrimento do que é ilusão, está a verdade, que é inteligência. (La Llama
de la Atención, pág. 113)

A inteligência tem uma causa? O pensamento tem uma causa. Um indivíduo pensa
porque possui experiências passadas, informação e conhecimento acumulado através
do tempo. Esse conhecimento nunca é completo, tem de andar junto com a
ignorância, (…). O pensamento, por força, tem de ser parcial, limitado, fragmentado,
porque é o produto do conhecimento, (…). O pensamento criou as guerras e os
instrumentos da guerra (…). O pensamento criou todo o mundo tecnológico. (…)
(Idem, pág. 113-114)

Que é inteligência? Inteligência é perceber o ilusório, o falso, o irreal e descartá-lo; não


afirmar meramente que é falso e continuar no mesmo, sem descartá-lo por completo.
(…) Ver, por exemplo, que o nacionalismo, com todo o seu patriotismo, seu
isolamento, sua estreiteza de idéias é destrutivo, (…). E ver a verdade disso, é
descartar o falso. Isso é inteligência. (…) Inteligência não é a engenhosa busca de
argumentos, de opiniões contraditórias que se opõem umas às outras. (…) A
inteligência está mais além do pensamento. (La Llama de la Atención, pág. 127-128)

Não desejo ser parcialmente inteligente, mas inteligente de maneira integral. Quase
todos nós somos inteligentes “em camadas”, vós provavelmente num sentido, e eu em
outro. Alguns de vós sois inteligentes nas atividades comerciais, outros nas (…) de
escritório, etc. As pessoas são inteligentes de diferentes maneiras, mas não somos
integralmente inteligentes. Ser integralmente inteligente significa existir sem o “eu”.
(…) (A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 78)

Inteligência não é acumulação de experiências e de conhecimento. Inteligência é o


mais alto grau de sensibilidade. Ser sensível a todas as coisas, aos pássaros, à
sordidez, à pobreza, à beleza de uma árvore, à formosura de um rosto, ao ocaso, às
cores, (…) ao sorriso de uma criança, às lágrimas, ao riso, à dor, à agonia, à angústia,
às desditas (…) - ser totalmente sensível a tudo significa ser inteligente. E não
podemos ser inteligentes se cuidamos apenas de reprimir ou de ceder. Só podemos
ser sensíveis quando há compreensão. (A Suprema Realização, pág. 44)

Que é inteligência? Um homem que está assustado e ansioso; que é invejoso e ávido;
cuja mente está copiando, imitando, cheia de saber e da experiência de outros; cuja
mente é limitada, controlada, moldada pela sociedade, pelo ambiente - esse homem é
inteligente? Vós o chamais inteligente, mas não o é, (…). (Novos Roteiros em
Educação, pág. 152)

(…) Estar consciente de tudo isso, sem opção, sem ser tragado pela complexidade
das questões vitais, sem resistir ao fluxo avassalador da vida, é ser inteligente. Implica
também não depender das circunstâncias e, portanto, estar apto a compreender e a
libertar-se da influência e das condições ambientais. (…) Mas, a inteligência supera
todas as barreiras, livre de qualquer objetivo de ganho individual ou coletivo. (…) A
capacidade de destruir o passado psicológico é a essência da inteligência, (…). O
sofrimento é a negação da inteligência. (Diário de Krishnamurti, pág. 81)

Tem o amor uma causa? Dissemos que a inteligência não tem causa - é inteligência,
(…) é luz. Quando há luz, não é minha luz ou a luz de vocês. O sol não é o sol de
vocês ou meu sol; é a claridade da luz. Tem o amor uma causa? Se não tem, então o
amor e a inteligência caminham juntos. (…) (La Llama de la Atención, pág. 120)
Devemos discutir também a natureza da inteligência. A compaixão tem sua própria
inteligência, o amor tem sua inerente inteligência. Vamos investigar o que é
inteligência. Certamente, não pode ser ela encontrada em livros. Conhecimento não é
inteligência. Onde há amor, compaixão, há a beleza de sua própria inteligência. A
compaixão não pode existir se você é hindu, católico, protestante, budista ou marxista.

O amor não é produto do pensamento. No entendimento da natureza do amor,


compaixão, que é negar tudo aquilo que não é, ver o falso no falso é o início da
inteligência. (…) Ver a natureza da desordem, e terminá-la, não continuá-la dia após
dia, mas cessá-la - o fim é percepção imediata, que é inteligência. (Mind Without
Measure, pág. 58-59)

Estamos perguntando o que é inteligência. Esperteza não é inteligência. Ter grande


quantidade de conhecimento sobre vários assuntos - matemática, história, ciência,
poesia, pintura - não constitui atividade da inteligência. O investigador do átomo pode
ter extraordinária capacidade de concentração, imaginação, investigação, discussão,
formulação de hipóteses e mais hipóteses, teorias e mais teorias, mas tudo isso não é
inteligência. (…) (Idem, pág. 59)

Inteligência, para mim, não é o conhecimento tirado dos livros. Podeis ser mui eruditos
e, apesar disso, estúpidos. Podeis haver lido muitas filosofias e, apesar disso,
desconhecer a beatitude do pensamento criativo, o qual somente pode existir quando
a mente e o coração começarem a se libertar (…) pelo constante apercebimento das
coisas estúpidas (…). Somente então virá à existência o êxtase do que é verdadeiro.
(Palestras em New York City, 1935, pág. 21)

Que é conhecimento? (…) A inteligência utiliza-se dos conhecimentos, pois ela é a


capacidade de pensar com clareza, objetividade, sensatez, naturalidade.
Conseqüentemente, é isenta de emoção, preconceito, preferências ou inclinações
pessoais. Inteligência é a capacidade de compreensão direta. (…) Inteligência é a
qualidade característica da mente sensível, viva, consciente. Ela não se prende a
nenhum juízo ou avaliação pessoal, e faculta imparcialidade e lucidez ao pensamento.
A inteligência em nada se deixa envolver. (…) (Ensinar e Aprender, pág. 19)

Inteligência não é inventividade, memória, ou mero exercício verbal. É muito mais do


que isso. Por bem informados e talentosos que sejamos, em certo aspecto da
existência, somos ignorantes em outros sentidos. O acúmulo de conhecimentos não
reflete, necessariamente, uma mente inteligente. Tampouco a capacidade e o talento.
Mas a sensível percepção da vida, de seus problemas, (…) contradições, (…) aflições
e alegrias, revela sabedoria. (…) (Diário de Krishnamurti, pág. 81)
A maioria pensa que inteligência é resultado da aquisição de conhecimento,
informação, experiência. Por ter grande soma de conhecimento e experiência,
acreditamos ser capazes de fazer face à vida com inteligência. Mas a vida é uma coisa
extraordinária, nunca é estacionária; como o rio, está fluindo constantemente, nunca
pára. (…) (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 139)

A inteligência só é possível quando há liberdade real em relação ao ego, (…) ao “eu”,


isto é, quando a mente já não seja o centro da busca de “mais e mais”; quando ela já
não está subjugada pelo desejo de experiência maior, mais vasta, mais expansiva.
(…) A compreensão de todo esse processo é o autoconhecimento. Quando alguém se
conhece tal como é, sem um centro acumulador, desse autoconhecer provém a
inteligência capaz de fazer face à vida; e essa inteligência é criativa. (Idem, pág. 140)

A dimensão diferente só pode operar através da inteligência; se não há essa


inteligência, ela não pode operar. Dessa forma, na vida diária ela só pode operar
quando a inteligência está funcionando. A inteligência não pode operar quando o velho
cérebro está ativo, quando há qualquer forma de crença e aderência a qualquer
fragmento particular do cérebro. Tudo isso é falta de inteligência. (…) Quando se
descobre a limitação do velho, esta mesma descoberta é inteligência. (The Awakening
of Intelligence, pág. 412)

(…) Para mim, inteligência é a mente e o coração em plena harmonia; e então


verificareis, por vós mesmos (…), o que é essa realidade. (Palestras em Auckland,
1934, pág. 112-113)

A inteligência é a essência mesma da divindade; mas é evidente que a inteligência


tanto pode criar como destruir, que ela governa e dirige as emoções - é o impulso que
nos propele para o nosso alvo. (…) (O Reino da Felicidade, pág. 56)

(…) A inteligência pode e deve encontrar por si mesma a Verdade, deve aprender a
viver sua própria vida no Reino da Felicidade. Sem um espírito cultivado e uma
inteligência inata, não vos será possível aproximar-vos do alvo. (…) (Idem, pág. 56)

O êxtase da Realidade encontra-se pela inteligência desperta e no mais alto grau de


intensidade. Inteligência não significa cultivo da memória ou da razão, mas, sim, uma
percepção da qual é banida a identificação e a escolha. (O Egoísmo e o Problema da
Paz, pág. 199)

Uma inteligência desperta tem um discernimento profundo, verdadeiro, em todos os


problemas psicológicos, nas crises, nos bloqueios, etc.; não é uma compreensão
intelectual, não é um (…) conflito. Ter discernimento é uma questão humana, é
despertar esta inteligência; ou, tendo esta inteligência, existe o discernimento (…). Em
um discernimento assim, não há conflito; (…) A partir desse discernimento, que é
inteligência, surge a ação (…) instantânea. (La Totalidad de la Vida, pág. 177)

Porém, se se acham atentos a todas essas coisas e estão insatisfeitos (…) A chama
do descontentamento, devido a não haver saída, (…) não haver um objeto no qual
satisfazer-se, se converte em uma grande paixão.

(…) Visto que a compaixão está relacionada com a inteligência, não há inteligência
sem compaixão. E só pode haver compaixão quando houver amor, o que é
completamente livre de todas as recordações, ciúmes pessoais e assim por diante. (O
Futuro da Humanidade, pág. 70)

Essa paixão é inteligência. Se vocês não se encontram perturbados nestas coisas


superficiais (…), essa chama extraordinária se intensifica. Isso produz na mente uma
qualidade de profundo e instantâneo discernimento (…), e a ação provém desse
discernimento. (La Totalidad de la Vida, pág. 178)

Há uma inteligência que seja incorruptível, não baseada em circunstâncias, não


pragmática, não egocêntrica, quer dizer: não fracionada, total? Há uma inteligência
que seja impecável, sem frestas, que abarque toda a manifestação do homem? Para
inquirir sobre isto, deve o cérebro estar livre de qualquer conclusão, (…) de movimento
egocêntrico, (…) de medo, de sofrimento. Quando há o fim do sofrimento, há paixão.
(…) Não há paixão “por” alguma coisa.

A paixão existe per se, por si mesma (…). Assim, se tem que descobrir (…) como se
aproximar dessa paixão, que não é luxúria nem tem nenhum motivo. Há tal paixão?
(…) Quando o sofrimento chega ao fim, há amor e compaixão. E quando há
compaixão, (…) então essa compaixão tem sua própria quintessência e inteligência.
Isto é, não pertence ao tempo nem a teoria alguma, a nenhuma tecnologia, a ninguém;
tal inteligência não é pessoal nem universal, nem as palavras a exprimem. (Last Talks
at Saanen, 1985, pág. 138-139)

(…) Inteligência é a atividade do todo da vida, e essa inteligência não é sua nem
minha. Não pertence a nenhum país ou povo, como o amor não é cristão ou hindu,
etc. Portanto, (…) pesquisem sobre tudo isto, porque nossas vidas dependem disso.
Somos pessoas desafortunadas e miseráveis, sempre em conflito. (…) Temos
aceitado isso como parte da vida. Mas se investigarmos tudo isso, dá-se o despertar
daquela inteligência, e, quando ela se acha em operação, ação, só então há correta
ação. (Mind Without Measure, pág. 59)

Não é a inteligência de um homem engenhoso, não estamos falando disso. Agora


opere com essa inteligência, que não é sua nem minha - que não é do Dr. Shaimberg,
do Dr. Bohm ou de outra pessoa. Esse discernimento é inteligência universal,
inteligência global ou cósmica. Avançando mais nisso, tenha um discernimento na dor
que não é a dor do pensamento. Então, nesse discernimento há compaixão. (La
Totalidad de la Vida pág. 131)

Agora tenha um discernimento na compaixão. É a compaixão o fim de toda a vida? O


fim de toda a morte? Parece sê-lo, porque a mente se esvazia de todas as cargas que
o homem se impôs a si mesmo (…). Portanto, você tem esse sentimento
extraordinário, tem dentro de si essa coisa tremenda. Aprofunde-se nessa compaixão.
E então há algo sagrado, não contaminado pelo homem. E isso pode ser a origem de
todas as coisas - que o homem mutilou. Entende? (Idem, pág. 131)

(…) A mente despida de todas as suas lembranças e óbices, funcionando


espontaneamente, plenamente, a mente, vigilante e perceptiva, cria a compreensão, e
isso é inteligência, (…); isso para mim é imortalidade, atemporalidade. (…) (A Luta do
Homem, pág. 60)

Inteligência é o discernimento do essencial, e para discernir o essencial temos de


estar livres dos obstáculos que a mente “projeta” (…) (A Educação e o Significado da
Vida, pág. 39)

A chama da inteligência, do amor, só pode ser despertada quando a mente está


vitalmente apercebida do próprio pensamento condicionado, com seus temores,
valores e desejos. (Palestras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 80-81)

(…) A inteligência pura é aquele estado mental em que há um percebimento isento de


escolha, em que a mente está silenciosa. Nesse estado de silêncio só há o ser; nele,
surge aquela Realidade (…) maravilhosa atividade criadora, que está fora do tempo.
(As Ilusões da Mente, pág. 35)

Por “percebimento”, entendo um estado de vigilância em que não há escolha. Estamos


simplesmente observando o que é. Mas ninguém pode observar o que é, se tem
alguma idéia ou opinião a respeito do que vê, dizendo-o “bom” ou “mau”, (…)
avaliando. (Experimente um Novo Caminho, pág. 99)
(…) Mas, acontece que a mente da maioria de nós está embotada, semi-adormecida;
só certas partes dela se acham ativas - as partes especializadas, pelas quais
funcionamos automaticamente, pela associação, pela memória, tal como um cérebro
eletrônico. A mente, para ser vigilante, sensível, necessita de espaço, no qual possa
olhar as coisas sem nenhum fundo de conhecimentos prévios; (…) (Idem, pág. 99-
100)

Devemos ficar apercebidos, atentos. (…) Concentração é a convergência de todas as


energias sobre alguma coisa na qual estamos interessados. (…) O começo do
apercebimento é a natural concentração do interesse em que não há conflito de
desejos e escolha, e, por isso, há a possibilidade de se compreenderem os diferentes
desejos que se opõem. (…) (Palestras em Ojai e Sarobia, 1940, pág. 101)

(…) Apercebimento é a compreensão total do processo do desejo consciente e


inconsciente. No princípio mesmo do apercebimento, há a percepção do que é
verdadeiro; a verdade não é um resultado ou uma consecução, mas é para ser
compreendida. (…) Esta compreensão não nasce da simples razão ou da emoção,
porém é o resultado do apercebimento, da perfeição da ação-pensamento. (Idem, pág.
102)

A compreensão não reside nos livros. Podeis ser estudiosos de livros (…), mas, se
não souberdes como viver, todo o vosso conhecimento fenece; não tem substância
nem valor. Enquanto que, um momento de pleno apercebimento, de pleno
entendimento consciente, produz uma paz real, perene; não uma coisa estática, mas
esta paz que está continuamente em movimento, que é ilimitada. (Palestras em
Auckland, 1934, pág. 72)

A percepção é o processo de libertar a mente-coração dos vínculos que causam


conflitos e dores, e torná-la receptiva para o que está oculto. (…) (O Egoísmo e o
Problema da Paz, pág. 122)

Eu vos asseguro que, quando houver completa nudez, (…) falta de esperança, então,
num momento assim, de vital insegurança, nascerá a chama da suprema inteligência,
a beatitude da verdade. (New York City, 1935, pág. 24)

Como disse (…), inteligência é a solução única que produzirá a harmonia neste mundo
de conflito, harmonia entre a mente e o coração, na ação. (…) Vós próprios, mediante
o vosso apercebimento, (…) é que podereis discernir o verdadeiro significado destas
múltiplas barreiras limitadoras. Só isso produzirá a inteligência perdurável, que vos há
de revelar a imortalidade. (Idem, pág. 27)
Isto é, se estiverdes plenamente despertos, apercebidos de uma ação que exija o
vosso ser inteiro, então percebereis que todas essas perversões ocultas,
inconscientes, virão à tona e vos impedirão de agir plenamente, de modo completo.
Será essa a ocasião, então, de lhes fazer frente e, se a chama do apercebimento for
intensa, essa chama consumirá as causas limitadoras. (Idem, pág. 32)

Ora, o apercebimento não é isso. O apercebimento é o discernir, sem julgamento, o


processo de criar muros autoprotetores e limitações por detrás das quais a mente
toma abrigo e conforto. (Palestras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 38)

(…) A compreensão surge somente pelo discernimento do processo do “eu”, com sua
ignorância, suas tendências e temores. Onde houver profunda e criadora inteligência,
haverá reta educação, reta ação e relações retas com o ambiente. (Palestras em
Ommen, Holanda, 1936, pág. 60)

A ação é vital, porém não (…) as opiniões e conclusões lógicas. (…) A autoridade do
ideal e do desejo impede e perverte o verdadeiro discernimento. Quando há carência,
quando a mente está cativa dos opostos, não pode haver discernimento. (…)
(Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 13-14)

(…) As reações psicológicas impedem o verdadeiro discernimento. Se dependermos


da escolha, do conflito dos opostos, criaremos sempre a dualidade em nossas ações,
engendrando assim a tristeza, (…) (Idem, pág. 14)

(…) O discernimento é a percepção direta, sem escolha, daquilo que é, e perceber


diretamente é estar livre do fundo da carência. Isto só pode acontecer quando cessa o
esforço (…) entre os opostos. Os opostos são resultado da carência (…) (Palestras em
Ommen, Holanda, 1936, pág. 22)

(…) Pelo discernimento sem escolha desperta-se a intuição criadora, a inteligência,


que é a única a poder libertar a mente-coração dos múltiplos processos sutis da
ignorância, da carência e do medo. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 55)
Sentimento, Sensação, Distinção; Sensibilidade
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 15:52

“Sentir” é a capacidade de apreciar a curva de um ramo de árvore, (…) as coisas


sórdidas, a lama da estrada, ser sensível ao sofrimento de outrem, assistir com enlevo
ao crepúsculo. Isso não é sentimento, nem mera emoção. Emoção e sentimento ou
sentimentalidade podem converter-se em crueldade, e ser explorados pela sociedade;
e o indivíduo sentimental, impressionável, torna-se escravo da sociedade. Mas,
necessitamos da capacidade de sentir intensamente; sentir a beleza, (…) a palavra e o
silêncio entre duas palavras. Dessa capacidade necessitamos, (…) torna a mente
altamente sensível. (A Suprema Realização, pág. 17)

Assim como um sentimento pode ser interpretado, assim também é possível darmos a
qualquer sentimento a aparência de Realidade. A tradução depende do intérprete e, se
este for influenciado por preconceitos, se é ignorante, se tiver sido moldado por um
padrão de pensamento, a sua compreensão corresponderá a esse condicionamento.
(…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 54)

(…) O sentimento de terdes conseguido algo, de serdes mais hábil que outro, (…) de
vos terdes tornado um homem bem sucedido, respeitado, considerado, um exemplo
para outros - que indica tudo isso? Naturalmente, esse sentimento é acompanhado de
orgulho (…). E, assim, quando existe esse sentimento da importância do “eu”, há o
conflito, a luta, o esforço para manter esse estado ininterruptamente. (Novos Roteiros
em Educação, pág. 104-105)

Que entendeis por “emoção”? Sensação, reação, “resposta” dos sentidos? Ódio, amor,
o sentimento de amor ou simpatia por outra pessoa: são emoções. A umas, como o
amor e a simpatia, chamamos positivas, enquanto a outras, como o ódio, chamamos
negativas, (…). (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 57)

(…) O sentimento é endurecido pelo intelecto e pelas suas numerosas e sutis


racionalizações, (…). Podeis compreender tudo isso, (…) mas de pouca importância
será; somente o conhecimento e o sentimento podem produzir a centelha criadora da
compreensão. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 43)

A sensação e a reação têm de gerar sempre conflito, e o próprio conflito é uma nova
sensação. (…) A atividade da mente, em todos os seus diferentes níveis, é favorecer a
sensação; (…). (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 237)
A sensação é uma coisa, e a felicidade, outra. A sensação está sempre buscando
mais sensação, em círculos cada vez mais largos. Não há fim para os prazeres da
sensação; (…) há sempre o desejo do mais, e a exigência do mais nunca tem fim. A
sensação e a insatisfação são inseparáveis, porque o desejo do mais liga uma à outra
(…) e, quando são contrariadas, há cóleras, há ciúme, há ódio. (…) (Idem, pág. 237)

A mente não pode conhecer a felicidade. A felicidade não é uma coisa que se pode
procurar e achar, como a sensação. (…) Felicidade lembrada é apenas sensação,
(…). O que se acabou não é a felicidade; a experiência da felicidade que se apagou é
sensação, porque lembrança é o passado (…). (Idem, pág. 238)

Temos, não raro, emoções religiosas, vagas, às vezes, outras bem precisas. São
emoções que nos infundem intensa devoção e alegria, que nos requintam a
sensibilidade, que nos dão um fugaz sentimento de união com todas as coisas.
Procuramos, depois, com a ajuda dessas inspirações, resolver os nossos problemas e
afeições. São numerosas tais revelações, mas o pensamento, cativo do tempo, da
confusão e da dor, procura servir-se delas como estimulantes que o ajudem a vencer
os conflitos. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 231)

(…) Qualquer tipo de sensação, por mais requintada ou vulgar que seja, cria a
resistência, (…). Ser sensível é morrer para cada resíduo da sensação; ser sensível,
de maneira absoluta e contundente, a uma flor, a uma pessoa ou a um sorriso, é estar
livre das marcas da memória, responsáveis pela destruição da sensibilidade. Estar
consciente de todo o processo das sensações, dos sentimentos e das demais
manifestações do pensamento, impede a formação de marcas e cicatrizes. As
sensações, os sentimentos e os pensamentos são sempre fragmentados, parciais e,
portanto, de efeito destruidor. A sensibilidade é a síntese do corpo, da mente e do
coração. (Diário de Krishnamurti, pág. 149)

A sensação e a sensibilidade são duas coisas diferentes. A mente escrava do


pensamento, da sensação, das emoções, é uma mente residual. Ela aprecia o
resíduo, pensa no mundo dos prazeres, deixando cada pensamento uma marca, que
constitui o resíduo. Essa marca contribui para embrutecer e insensibilizar a mente; e a
disciplina, o controle e a repressão ainda a tornam mais embrutecida. Estou dizendo
que a sensibilidade não é sensação, (…) não deixa marca nem resíduo. (…) (Ensinar
e Aprender, pág. 85-86)

No mundo moderno, (…) tendemos a perder a sensibilidade. Pela palavra


“sensibilidade” não entendo sentimentalidade, emocionalismo, nem mera sensação,
porém a capacidade de percepção, (…) de ouvir, de escutar, de sentir a ave que canta
(…). É muito difícil à maioria de nós sentir as coisas com intensidade, porque temos
tantos problemas! (…) (A Suprema Realização, pág. 17)

A sensibilidade no mais alto grau é inteligência. Se o indivíduo não é sensível a tudo -


a seu próprio sofrimento, ao sofrimento de um grupo humano (…); ao sofrimento de
tudo que vive (…), não pode resolver nenhum dos seus problemas. E temos muitos
problemas, não só no nível físico, (…) econômico, (…) social, mas também nos níveis
mais profundos de nossa existência (…). E nossos problemas, tanto conscientes como
inconscientes, embotam-nos a mente, roubam-lhe a sensibilidade. E perder
sensibilidade é perder inteligência. (Idem, pág. 17-18)

O conflito leva à insensibilidade. A mente pode dominar o corpo e suprimir os sentidos,


mas, desse modo, torna o corpo insensível; e um corpo insensível torna-se um
obstáculo ao pleno vôo da mente. A mortificação do corpo absolutamente não leva à
busca das camadas mais profundas da consciência; pois isso só é possível quando
mente, emoções e corpo não estão em contradição entre si, mas (…) integrados e em
uníssono, sem esforço e sem que sejam forçados por qualquer conceito, crença, ideal.
(O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 17)

Sensibilidade e sensação são duas coisas distintas. As sensações, as emoções e os


sentimentos sempre deixam resíduos, cujo acúmulo acaba por deformar e embrutecer
a mente. Por serem contraditórias, as sensações sempre produzem conflito, e este,
por sua vez, embota a mente e distorce a percepção. Apreciar a beleza das coisas em
termos de sensação, de gostar ou não gostar, é o mesmo que estar insensível ao belo;
a sensação distingue o belo do feio; mas, a divisão é incapaz de perceber a beleza.
(…) (Diário de Krishnamurti, pág. 149)

Ter sensibilidade significa ser sensível a tudo o que nos cerca - às plantas, aos
animais, às árvores, ao céu, às águas do rio, aos pássaros; e também ao estado de
humor das pessoas que nos cercam, e dos estranhos pelos quais passamos. Essa
sensibilidade acarreta a qualidade de ação não calculada, não egoísta, que é a
verdadeira moral (…) e conduta. Sendo sensível, a criança será franca, não será
retraída em sua conduta; portanto, uma simples sugestão por parte do professor será
aceita com facilidade, sem resistência nem atrito. (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág.
13)

Em todo o mundo, (…) o aprender exige sensibilidade. Se não sois sensível a vós
mesmo, a vosso ambiente, a vossas relações, (…) ao que se está passando em
derredor de vós, (…) então, por mais que vos disciplineis, vos ireis tornando cada vez
mais insensível, (…) mais egocêntrico - e isso gera problemas (…). (A Luz que não se
Apaga, pág. 76)

Por que sou eu ou por que sois vós tão insensíveis ao sofrimento de outro homem?
Por que somos indiferentes para com o carregador que transporta uma pesada carga,
para com a mulher que tem nos braços o seu filho? (…) Não há dúvida de que é o
sofrimento que nos torna insensíveis; por não compreendermos o sofrimento, tornamo-
nos indiferentes a ele. Se compreendo o sofrimento, torno-me sensível. (…) (Novo
Acesso à Vida, pág. 111)

(…) Se existe falta de sensibilidade para a fealdade, para a tristeza, deverá existir
também uma profunda insensibilidade para a beleza, para a alegria (…). (Palestras em
Ommen, Holanda, 1937-1938, pág. 42)

Assim, intelectualmente, estais sendo tolhido, sufocado, controlado, moldado (…), não
há (…) libertação. Tampouco a há do ponto de vista emocional - mas não deis à
palavra “emocional” o sentido de sentimental. Um ente sentimental é perigoso, pode
tornar-se cruel, estúpido, insensível. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 122)

Para se ver a beleza do rosto de uma pessoa, (…) de um rio, de uma folha caída, (…)
de um sorriso, (…) de uma ave a voar, necessita-se (…) de alta sensibilidade, (…).
(Idem, pág. 122)

Necessitais desse sentimento extraordinário, dessa sensibilidade para tudo: para o


animal, (…) as podridões da miséria e do desespero humano. Deveis ser sensível, isto
é, sentir intensamente (…) - sensibilidade que não é emoção (…). Se não fordes tão
completamente sensível, não haverá inteligência. A inteligência vem com a
sensibilidade e a observação. (O Despertar da Sensibilidade, pág. 136)

A sensibilidade não é resultado do saber e de ilimitados conhecimentos. Podeis


conhecer todos os livros do mundo (…); mas isso não produz inteligência. O que
produz inteligência é aquela sensibilidade, a sensibilidade total de vossa mente,
consciente e inconsciente, a sensibilidade de vosso coração, com sua extraordinária
capacidade de afeição, de compaixão e de generosidade. (Idem, pág. 136)

E, quando existe essa sensibilidade aliada à observação, há também inteligência, para


observar, ver as coisas como são, sem nenhuma fórmula, nenhuma opinião; para ver
a nuvem como nuvem; ver vossos mais íntimos pensamentos, vossos secretos
desejos, exatamente como são, sem lhes dar nenhuma interpretação, sem aceitá-los,
sem rejeitá-los; (…) e para observar, quando viajais num ônibus, o passageiro a vosso
lado, seus modos, sua maneira de falar; observar, simplesmente. Dessa observação
vem a clareza. (…) Como vemos, pois, com a sensibilidade e a observação, vem
aquela extraordinária inteligência. (Idem, pág. 136)

Não havendo sensibilidade, não pode haver afeto; o amor próprio não indica
sensibilidade; podemos ter sensibilidade em relação às nossas famílias, (…)
realizações, (…) nível social e (…) talento, mas isso não quer dizer que sejamos
sensíveis. Trata-se de estreita e limitada reação, (…). Ser sensível não é ter bom
gosto, pois este é uma qualidade pessoal, e a percepção da beleza está justamente no
libertar-se de toda reação. Se não soubermos apreciar e sentir a beleza, não
poderemos amar. (…) (Diário de Krishnamurti, pág. 168)

(…) Sentir a natureza, o rio, o céu, as pessoas, a estrada imunda, faz parte da afeição,
cuja essência é a própria sensibilidade. Mas, a maioria das pessoas teme a
sensibilidade, e isso porque não querem sofrer; para evitar o sofrimento, preferem
embrutecer-se, mas nem assim ele desaparece. (…) Amar é romper com essa cadeia
interminável de reações individuais; não há barreiras para o amor; ele não se limita a
um ou vários objetos (…). Ao tomarmos consciência do fato, libertamo-nos da
servidão; é justamente o medo do fato que nos aprisiona. (…) (Idem, pág. 168)

Como é possível amar, sem sensibilidade? Sentimentalismo e emocionalismo negam


a sensibilidade, porque são terrivelmente cruéis; são responsáveis pelas guerras. (…)
(A Luz que não se Apaga, pág. 76)

(…) Compreendeis o que entendo por “sensibilidade”? A maioria de nós deseja ser
sensível ao belo - à boa música, aos belos quadros, etc. - mas não desejamos ser
sensíveis às coisas feias, barulhentas, (…). (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª
ed., pág. 147)

Para poderdes ser sensível num sentido, deveis ser sensível em ambos os sentidos.
Não há verdadeira sensibilidade se sois sensível a uma coisa e insensível a outra. A
pessoa que é insensível a qualquer coisa na vida, não é totalmente sensível, (…),
(Idem, pág. 147)

Não achais necessário que o pensamento claro e correto seja sensível? Para sentir
profundamente, não é necessário um coração aberto? (…) Embrutecemos nossa
mente, nosso sentimento, nosso corpo, com as crenças e a malevolência, com
estimulantes poderosos e insensibilizantes. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz,
pág. 17)
(…) Como podeis ser sensíveis, quando diariamente vos entregais a leituras ou
assistis a filmes em que se vos apresentam matanças de milhares de indivíduos -
carnificinas que vos são descritas como lances sensacionais de um torneio esportivo?
Talvez vos cause desgosto (…), mas a freqüente repetição dessas ferozes
brutalidades acabam por insensibilizar-vos a mente-coração, (…). (Idem, pág. 17)

Se não desejais sentimentos embotados e empedernidos, deveis pagar o preço disso.


Urge abandonardes a pressa, a confusão, as profissões e atividades inadequadas.
Deveis tornar-vos cônscios de vossos apetites, de vosso ambiente delimitador, e
começareis, então, com uma justa compreensão dos mesmos, a novamente despertar
a sensibilidade. (…) (Idem, pág. 18)

A pessoa que “experimenta” um pôr-do-sol não é sensível. Poderá dizer: “Que beleza,
que maravilha” e ficar extasiada (…), mas essa pessoa não é sensível. Ser sensível
implica um estado mental em que só existe o fato, e não todas as vossas lembranças
relativas ao fato. Esse perceber, esse ver, esse escutar de cada momento tem na vida
uma ação extraordinária. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. l36)
Amor; Não é Emoção, Prazer, Sentimentalismo
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 15:54

Já refletiste sobre o que é amor? É ele essa tortura que conhecemos? Essa espécie
de amor poderá ser bela no começo - quando dizemos a alguém: “amo-te” - mas
depressa se deteriora, convertendo-se numa relação em que prepondera a posse, o
domínio, o ódio, o ciúme, a ansiedade, o medo. (A Libertação dos Condicionamentos,
pág. 48)

Agora, que é amor, (…) que é ele realmente, e não como gostaríamos que fosse? O
que gostaríamos que fosse o amor é uma mera idéia, um conceito. (…) Devemos
começar com o que é, e não com o que deveria ser. Devemos começar com o fato, e
não com as opiniões e conclusões. (…) (O Descobrimento do Amor, pág. 167)

Assim, vamos agora investigar, (…) Que é realmente o nosso amor? Nele há prazer,
dor, ansiedade, ciúme, apego, ânsia de posse, de domínio, e o medo de perdermos o
que possuímos. Há o amor existente nas relações entre duas pessoas, e há amor a
uma idéia, uma fórmula, uma utopia, ou a Deus. (…) Por essa razão, há o casamento
legal, instituído pela sociedade para a proteção da prole. (…) (Idem, pág. 167)

O amor que temos é o conhecido, com todos os seus sofrimentos e sua confusão;
nele, há a tortura do ciúme, os horrores e penas da violência, o prazer sexual. É isso
que conhecemos, (…) (Idem pág. 169)

A maioria de nós não sabe o que é amor. Conhecemos a dor e o prazer de amar (…);
assim, o amor é, para nós, algo desconhecido, tal como a morte. Mas, com a mente
livre do conhecido, apresenta-se-nos aquilo que não é cognoscível por meio de
palavras, de experiência, de visões (…). (Idem, pág. 172)

Devemos perguntar: É o amor prazer, desejo, pensamento? Pode o amor ser


continuamente cultivado? Sem o amor, o sentimento de compaixão, sua chama,
inteligência, tem a vida muito pouco significado. Você pode inventar um propósito para
a vida, a perfeição, conhecer tudo sobre a profissão, mas sem a beleza fundamental
do amor, fica a vida sem sentido. (…) (Mind Without Measure, pág. 28)

Para a maioria dos homens, amor é posse. Mas, havendo ciúme, inveja, existirá
também crueldade, ódio. O amor só existe e cresce na ausência do ódio, da inveja, da
ambição. Sem amor, a vida é como terra estéril, árida, dura, brutal. Porém, no
momento em que existe afeição, ela é como a terra que floresce com água, com
chuva, com beleza. (…) (Ensinar e Aprender, pág. 55)
Você sabe, uma de nossas dificuldades é que associamos amor com prazer, com
sexo. Amor, para a maioria de nós, significa ciúme, ansiedade, possessividade, apego.
A isso chamamos amor. Mas o amor é apego? É o amor prazer? O amor é desejo? É
o amor o oposto do ódio? Se é oposto do ódio, então não há amor. Você pode
compreender isso? Quando alguém tenta se tornar corajoso, esta coragem é nascida
do medo. Portanto, o amor não pode conter o seu oposto. O amor existe onde não há
ciúme, agressividade, ódio. (The World of Peace pág. 96-98)

Que é amor? É prazer - prazer no reiterativo ato sexual, ao que geralmente se chama
amor? O amor da esposa, no qual há grande prazer, posse (…), com base no desejo,
é amor? Quando existe um possessivo apego em relação ao outro tem que haver
ciúme, temor, antagonismo. (…) Se não se compreende plenamente o significado do
apego, jamais se poderá descobrir a verdade do amor. (…) (La Totalidad de la Vida,
pág. 148)

(…) Esperamos amar o homem através do amor de Deus, mas se não soubermos
como amar o homem, como podemos amar a realidade? Amar o homem é amar a
realidade. Julgamos que amar a outrem é tão doloroso, tantos problemas complexos
estão envolvidos nisso, que consideramos ser mais fácil e mais satisfatório amarmos
um ideal, o que é emocionalismo intelectual, não amor. (Idem, pág. 41)

Você sabe, para descobrir o que é, você deve negar totalmente o que não é. Através
da negação do que não é, se chega ao que é. Deve-se descobrir se o prazer é amor.
O amor é desejo? O amor está associado ao sexo, e o sexo se tornou
extraordinariamente importante, não é? Você o vê em todos os lugares; pega qualquer
revista, caminha em qualquer rua, infindavelmente vê este “amor”. Por que o sexo se
tomou colossalmente importante, como ele está associado ao que chamamos “amor”?
Por quê? Você alguma vez fez essa pergunta? (…) (Talks and Dialogues, Sidney,
Austrália, 1970, pág. 45)

O amor é pensamento? Pode o pensamento cultivar o amor? O amor não é prazer,


não é desejo, não é recordação, ainda que essas coisas tenham seu lugar. Que é,
então, o amor? É ciúme? É o amor um sentimento de posse - minha mulher, meu
esposo, minha noiva? (…) Contém medo o amor? Não é nenhuma dessas coisas,
apaguem-nas completamente, terminem com elas, pondo-as em seu lugar correto.
Então há amor. (La Totalidad de la Vida, pág. 172)

O amor não é pensamento. Não é desejo, prazer, não é o movimento de imagens, e


enquanto você tem imagens de outrem não há amor. E perguntamos: é possível viver
uma vida sem qualquer imagem? Só assim você entra em contacto com outro. (Mind
Without Measure, pág. 80)

A inteligência requer liberdade, e a liberdade requer a cessação de todo conflito.


Torna-se existente a inteligência e deixa de existir o conflito quando o “observador” é a
coisa observada, porque então não há divisão. Então, existe amor. Hesitamos em
empregar essa palavra já tão terrivelmente “carregada”; o amor está associado ao
prazer, ao sexo, ao medo, ao ciúme, à dependência, ao desejo de posse. (…) (Fora da
Violência, pág. 134)

Sem dúvida, o amor é estado de espírito em que o “eu” perdeu toda a sua importância.
Amar é ser amistoso. (…) Quando amais, não tendes inimizade e não causais
inimizade. E vós causais inimizade ao pertencerdes a religiões, nações, partidos
políticos. Se possuís muitas terras, imensas riquezas, enquanto outro pouco ou nada
tem, causais inimizade, ainda que freqüenteis os templos, ou mandeis construir
templos com vossas riquezas. Não tendes afabilidade quando estais em busca de
posição, poder, prestígio. (O Homem Livre, pág. 181)

Dependemos da sensação para a continuidade do assim chamado amor, e, quando


essa satisfação é negada, procuramos encontrá-la em outrem. (…) Sem compreender
a ansiedade, não pode haver plenitude do amor. (…) Para compreender essa
plenitude, esse estado integral, precisamos começar a estar apercebidos do desejo
como ganância e possessividade.(…) (Palestras em Ojai e Saróbia, 1940, pág. 44)

O amor não é sensação. A sensação faz nascer o pensamento, por meio das palavras
e dos símbolos. As sensações e o pensamento tomam o lugar do amor, tornam-se um
substituto do amor. As sensações são produtos da mente, como o são também os
apetites sexuais. A mente gera o apetite, a paixão, através da lembrança, e recebe
dessa fonte sensações. (…) As sensações são agradáveis e desagradáveis, e a mente
se prende às agradáveis, tornando-se escrava delas.(…) A mente é o fabricante dos
problemas e, portanto, não pode resolvê-los. (…) (Comentários sobre o Viver, 1ª ed.,
pág. 99-100)

O pensamento é fragmentário, limitado; (…) não pode resolver o problema do que é o


amor, e não pode cultivar o amor. Quando se cria uma abstração com o pensamento,
cria-se o afastamento de “o que é”. (…) Isto é o que se tem feito durante toda a vida;
porém, jamais se saberá, mediante a abstração, o que é amor; nunca se conhecerá a
imensa beleza, profundidade e significação do amor. (La Totalidad de la Vida, pág.
149)
O processo do pensamento nega sempre o amor. O pensamento é que tem
complicações emocionais, e não o amor. O pensamento é o maior obstáculo ao amor.
O pensamento cria uma divisão entre o que é e o que deveria ser, (…). Essa estrutura
moral, criada pela mente para manter coesas as relações sociais, não é amor, (…). O
pensamento não conduz ao amor, não pode cultivar o amor; (…). O próprio desejo de
cultivar o amor é ação do pensamento. (Comentários sobre o Viver, 1ª ed. pág. 14)

O pensamento não é amor; mas o pensamento, como prazer, aprisiona o amor e traz
a dor para dentro dessa prisão. Na negação do que não é, fica o que é. Na negação
do que não é amor, surge o amor, no qual cessa o “eu” e o “não eu”. (A Outra Margem
do Caminho, pág. 98)

Onde há amor não existe problema de sexo. Isso só se torna um problema quando o
amor é substituído pela sensação. Portanto, a questão realmente é: como controlar a
sensação. Se existisse a chama vital do amor, o problema do sexo cessaria.
Atualmente o sexo tomou-se um problema devido à sensação, ao hábito e ao
estímulo, (…). A literatura, os anúncios, a conversa, o vestir - tudo isso estimula a
sensação e intensifica o conflito. (…) (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 72)

Todos nós possuímos capacidade para um amor profundo e abrangente, porém, pelo
conflito e pelas falsas relações, pela sensação e pelo hábito, destruímos sua beleza.
(…) Não podemos manter a chama artificialmente acesa, mas podemos despertar a
inteligência, o amor, pelo constante discernimento das múltiplas ilusões e limitações
que presentemente dominam a nossa mente-coração, todo o nosso ser. (Idem, pág.
72)

(…) O amor não é sentimentalidade, não é emocionalismo, nem devoção. É um


“estado de ser” lúcido, são, racional, incorrupto, do qual procede a ação total, a única
que pode dar a verdadeira solução a todos os nossos problemas. (…) (O Homem
Livre, pág. 89-90)

Se ficardes vigilante, (…) vereis o papel importante que o pensamento representa na


vida. O pensamento tem, naturalmente, seu devido lugar, mas não está em nenhum
aspecto relacionado com o amor. (…) Que é então o amor? O amor é um estado de
ser em que não existe pensamento; a própria definição do amor é um processo do
pensamento, (…) não é amor. (Comentários sobre o Viver, pág. 14-15)

(…) Porque, em suma, quando realmente amamos alguém, nesse amor existe a
isenção do sentimento de posse. Temos, em dadas ocasiões, raras, aliás, esse
sentimento de intensa afeição em que não existe a ânsia de possuir, de conquistar. E
isso nos reconduz ao que disse (…), isto é, que existirá ânsia de possuir enquanto
houver insuficiência, falta de riqueza interior. E essa riqueza interior se encontra, não
com acumulações, mas na inteligência, na ação vigilante em presença do conflito
causado pela falta de compreensão do ambiente. (A Luta do Homem, pág. 88)

(…) Podemos amar alguém em particular, mas não conhecemos aquele “estado de
ser” extraordinariamente vivo e lúcido, que é o amor. A maioria de nós tem muito
pouco amor no coração, (…). Por não termos amor, encontramos em geral um meio
de aliviar-nos, seguindo uma certa via de “autopreenchimento”, que pode ser sexual,
intelectual, ou de ordem neurótica; de maneira que nossos problemas crescem e se
tornam mais e mais agudos. (Experimente um Novo Caminho, pág. 114)

Só pode haver amor quando se compreende o processo integral da mente. O amor


não é coisa da mente, e não se pode pensar no amor. (…) O amor só pode existir
quando ausente o pensamento do “eu”, e o libertar-nos do “eu” só se consegue pelo
autoconhecimento. (…) Vereis, então, que o amor nada tem que ver com os sentidos,
e que ele não é um meio de preenchimento. (…) (Por que não te Satisfaz a Vida?,
pág. 53-54)

(…) O amor é um modo de ser e, nesse estado, o “eu”, com as suas identificações,
(…) angústias e (…) posses, está ausente. Não pode existir amor, enquanto as
atividades do “eu”, tanto as conscientes como as inconscientes, subsistirem. Eis por
que importa compreender o processo do “eu”, o centro do reconhecimento (…). (Idem,
pág. 54)

A mente que está livre do tempo - tempo que é pensamento, que é desejo - essa
mente conhece o amor. Para a maioria de nós, o amor é sensual. Observai-o em vós
mesmos. Para a maioria de nós, amor é ciúme - uma contradição composta de ódio e
amor. Não sabemos, com efeito, o que é amor. Conhecemos a comiseração, a
piedade, (…). (A Suprema Realização, pág. 51)

Só conheceis o amor sob o aspecto de contradição, dor e prazer, angústia e ciúme - a


dor, a brutalidade, a violência do ciúme! (…) Se não conheceis a beleza, jamais
conhecereis o amor - não a beleza de uma mulher ou de um homem, não o sexo: a
Beleza! (Idem, pág. 51)

(…) E quando se compreende a natureza do pensamento, começa-se a descobrir o


que é amor. O amor não é desejo ou prazer. Mas, para nós, para quase todo mundo, o
amor é prazer e desejo. (…) Visto que o amor não é desejo e nem prazer, como
podemos conhecê-lo? Evidentemente, nós não podemos cultivá-lo, (…): identifica-se a
pessoa com uma imagem que dizem ser o amor, (…). Como então conhecer essa
coisa? Para conhecê-la, temos de descobrir o que é a beleza. (A Essência da
Maturidade, pág. 95)

Ora, como alcançar o amor? (…) Vós necessitais do amor, assim como necessitais de
água quando sentis sede. Como alcançá-lo? Por meio do tempo? (…) O tempo poderá
dar-vos aquele amor que é desvelo, (…) beleza? O amor e a beleza andam juntos,
nunca estão separados. Infelizmente, para a maioria de nós, beleza significa
sensualidade, sexualidade. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 155)

O amor não é uma coisa da mente; o amor não é idéia. O amor só pode existir depois
de extinta a atividade do “eu”. Vós, porém, chamais essa atividade do “eu” positiva;
(…) leva à destruição, à separação, à aflição, à confusão, (…). E, todavia, todos nós
falamos de cooperação, de fraternidade. Basicamente, o que desejamos é ficar
apegados às nossas atividades egocêntricas. (Quando o Pensamento Cessa, pág.
221)

Vemos os caminhos do intelecto: não vemos o caminho do amor. O caminho do amor


não pode ser encontrado por meio do intelecto. O intelecto, com todas as suas
ramificações, (…) desejos, ambições, empenhos, tem de cessar, para que o
verdadeiro amor venha à existência.

Não sabeis que, quando amais, cooperais, não estais pensando em vós mesmos?
Essa é a mais alta forma de inteligência (…). Onde houver direitos adquiridos, não
pode haver amor; só há processo de exploração, que culmina no temor. O amor só
pode começar a existir, quando a mente não existe. (…) (Quando o Pensamento
Cessa, pág. 99-100)

(…) Amamos com a mente, e não com o coração; a mente pode modificar-se, o amor
não; a mente pode fazer-se vulnerável, o amor não pode; a mente sempre pode
retrair-se, tornar-se exclusiva, pessoal ou impessoal, o amor não pode ser comparado
nem delimitado. (…) Pode a mente, cuja essência mesma é o tempo, captar o amor,
que é sua própria eternidade? (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 39)

Ninguém pode ensinar-vos a amar. Se as pessoas pudessem ser ensinadas a amar, o


problema do mundo seria então muito simples, (…). Se pudéssemos aprender a amar,
num livro, assim como aprendemos matemática, este nosso mundo seria uma
maravilha; não haveria ódios, nem exploração, nem guerras, nem separação entre o
rico e o pobre; viveríamos todos muito amigavelmente, uns com os outros. (…)
Não podeis aprender a amar, mas o que podeis fazer é observar o ódio e,
mansamente, o afastardes de vós. Não batalhareis contra o ódio, (…) mas vede o ódio
em sua essência própria e deixai-o extinguir-se por si mesmo. (…) (A Cultura e o
Problema Humano, pág. 64)

Enquanto existir a atividade da mente, não pode, por certo, haver amor. Quando
houver amor, não teremos mais problemas sociais. Mas o amor não é coisa adquirível.
Pode a mente esforçar-se por adquiri-lo, como uma nova idéia (…); mas a mente não
pode achar-se num “estado de amor” (…). (A Renovação da Mente, pág. 12-13)

Assim, se puderdes ver tudo isso, compreendereis que é na realidade a mente que se
opõe à existência do estado criador. Uma vez cônscia do seu próprio movimento, a
mente cessa. Só então pode realizar-se o estado criador; esse estado criador é a
única salvação, porque ele é amor. O amor nada tem em comum com o
sentimentalismo; (…) com a sensação; (…) não pode ser fabricado pela mente. A
mente só é capaz de criar imagens de sensação, de experiência; e imagens não são o
amor. (…) (Quando o Pensamento Cessa, pág. 175-176)

Desejais saber o que é o amor de Deus, (…). Porque não sabeis o que é amor,
adorais a Deus. (…) Mas, amor a Deus é amor ao homem; temos de começar pelo
amor ao homem; mas como não conhecemos este amor, voltamo-nos para certa coisa
misteriosa que chamamos “Deus” e procuramos descobrir o que é amor. (…) (O
Problema da Revolução Total, pág. 93-94)

(…) Você ama alguém? Este amor contém ciúme posse, dominação, apego? Então
não é amor. É apenas uma forma de prazer, entretenimento. Quando há sofrimento,
não pode haver amor e, portanto, nenhuma inteligência. O amor tem sua própria
inteligência.

A compaixão possui sua qualidade de pura e não adulterada inteligência. Quando ela
existe, opera no mundo. Esta inteligência não é resultado do pensamento; o
pensamento é apenas uma pequena ocupação dela. Quando você ouve isto, vê a
verdade de tudo isto - se você assim procede - o perfume, o sentimento de estar
amando completamente surge, ou você volta para a velha rotina? (Mind Without
Measure, pág. 28-29)

(…) Para o homem feliz, o homem que ama, não há divisões; ele não é brâmane, nem
inglês, (…). Para esse homem não há divisões de “altos” e “baixos”. (…) Quando
amais, tendes um sentimento de riqueza que vos perfuma a vida e estais pronto a
dividir o vosso coração com outro. Quando está cheio o coração, as coisas da mente
fenecem. (A Arte da Libertação, pág. 36)

Ora, que se entende por beleza, (…) por verdade? (…) Senhores, essa confiança se
chama amor, afeição; e, quando amais alguém, não há diferenças, não há alto nem
baixo. Quando há amor, essa chama extraordinária, então ele é a própria eternidade.
(Novo Acesso à Vida, pág. 84)

Senhores, não conheceis aquele “estado de ser” íntimo, aquela interior tranqüilidade,
em que floresce o amor, a bondade, a generosidade, a piedade? Aquele estado de
ser, obviamente, é a essência mesma da beleza, e, sem ele, o simples decorar de nós
mesmos significa dar realce aos valores (…) dos sentidos; (…) (Idem, pág. 84-85)

Ora, a velha reação procede do pensamento. (…) Porque, sem nos libertarmos do
resíduo da experiência não é possível a recepção do novo. (…) Como é então possível
o novo? Só é possível, quando não há mais resíduo de memória, e há resíduo quando
a experiência não é completada, concluída (…) Quando a experiência é completa, não
deixa resíduo algum; esta é a beleza da vida. O amor não é resíduo, o amor não é
experiência - é um “estado de ser”. O amor é eternamente novo. (…) (Da Insatisfação
à Felicidade, pág. 72-73)

Senhores, desenvolvemos a nossa mente, somos o que se chama “intelectuais”, e isso


significa que estamos cheios de palavras, de explanações, de técnicas. Somos
polemistas, sutis argumentadores e controversistas. Enchemos o coração com as
coisas da mente, e eis por que nos achamos num estado de contradição. Mas o amor
não é facilmente encontrável. Tendes de trabalhar muito para alcançardes. (…) Isso
significa que, para alcançar o que é amor, necessita-se de autoconhecimento - não o
conhecimento de Sankara, Buda ou Cristo, que se colhe em certos livros. (…) (O
Homem Livre, pág. 90)

(…) Compreender as relações é compreender a mim mesmo, é fazer nascer aquela


qualidade de amor na qual existe bem-estar. Se sei amar minha esposa (…) filhos ou
meu próximo, sei amar a todo o mundo. Visto que não amo a ninguém, estou
permanecendo apenas no nível intelectual (…) O idealista causa enfado: ama a
humanidade com o cérebro, não a ama com o coração. (…) O amor só está no
presente, não no tempo, (…) no futuro. Para quem ama, a eternidade é agora; porque
o amor é sua própria eternidade. (A Arte da Libertação, pág. 78)

Só o amor pode transformar o mundo. Sistema algum, seja da esquerda, seja da


direita, por mais sabiamente, (…) convincentemente (…) concebido, pode trazer a paz
e a felicidade (…) O amor não é um ideal; ele surge onde existe o respeito e a
compaixão de todos para com todos. Esse modo de ser se apresenta com a riqueza
da compreensão. (O caminho da Vida, pág. 22)
Fraternidade, Benevolência, Compaixão, Perdão
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 15:56

Aqueles de vós que falam em fraternidade são geralmente nacionalistas no coração.


Que significa fraternidade, como idéia ou realidade? Como podeis realmente ter o
sentimento de amor fraternal em vossos corações, quando mantendes uma série de
crenças dogmáticas, quando fazeis distinções religiosas? E isso é o que estais
fazendo em vossas sociedades, grupos. (Palestras em Adyar, Índia, 1933-1934, pág.
47)

Estais agindo de acordo com o espírito de fraternidade, quando existem tais


distinções? Como podeis conhecer esse espírito quando tendes a consciência de
classe? Como pode haver unidade ou fraternidade, quando pensais somente em
termos de vossa família, de vossa nacionalidade, de vosso Deus? (Idem, pág. 47)

(…) As religiões e as nacionalidades realmente engaiolam as pessoas, entravam-nas.


Isso está evidenciado no mundo, através da história; e o mundo tem, agora, cada vez
mais seitas, (…) corporações fechadas por paredes de crenças, com seus guias
especiais; e, no entanto, falais de fraternidade! (Palestras em Auckland, 1934, pág. 82)

Como pode haver verdadeira fraternidade quando o instinto possessivo é tão profundo
e, por isso, necessariamente, deve conduzir a guerras, pois está baseando no
nacionalismo, no patriotismo. (…) Um homem que é realmente fraternal, afetuoso, não
fala de fraternidade; vós não falais de fraternidade à vossa irmã ou à vossa esposa,
porque já existe um afeto natural. E como pode haver fraternidade, verdadeira unidade
humana, quando existe exploração? (…) (Idem, pág. 82)

(…) Dizer que pelo nacionalismo seremos, no devido tempo, internacionais, teremos a
fraternidade, é um processo de pensamento muito errôneo. Só depois de quebrardes
os estreitos limites da mente e do coração, podereis passar além; e quando as
paredes estiverem por terra, se descortinará a vastidão do horizonte da vida. (A Arte
da Libertação, pág. 104)

A dificuldade é ser fraternal, ser bom, ser benevolente, ser generoso; e isso é
impossível, enquanto só pensarmos em nós mesmos. Estais pensando em vós
mesmos quando atribuís a máxima importância (…) como meio de vos proporcionar
felicidade, (…) conservar vosso nome, vossa religião, vossas perspectivas, vossa
autoridade, vossa conta no banco, vossas jóias. (A Arte da Libertação, pág. 104)
Quando um homem está interessado só em si mesmo e no prolongamento de si
mesmo, como pode ele ter amor no coração, como pode ter boa vontade? (…) O
homem que não pensa em si criará por certo um mundo novo, uma nova ordem, e é
para esse homem que devemos volver os olhos (…) A boa vontade, a felicidade, a
bem-aventurança, só virá quando houver a busca do real. O real está perto, não
distante. (…) (Idem, pág. 104-105)

(…) O amor não é suscetível de pensar-se, não pode ser cultivado (…) A prática do
amor, (…) da fraternidade está sempre no terreno da mente (…) Porque não sabemos
amar a um só, o nosso amor à humanidade é fictício. Quando amais, não há um só
nem muitos, só há amor. (…) (A Arte da Libertação, pág. 182)

(…) O amor é “extensivo” e por isso é possível amar ao que é particular. Mas a maioria
de nós, não tendo esse amor “extensivo”, volta-se para o particular, e o particular
destrói. (A Arte da Libertação, pág. 214)

Que é amor? Que é compaixão? A palavra “compaixão” significa paixão por todos,
afeição para com todos os seres - inclusive os animais que matais para comer. (…)
Sabemos o que significa amar, ou só conhecemos o prazer e o desejo, chamando-os
“amor”? É certo que o prazer e o desejo se acompanham também de ternura, desvelo,
afeição, etc., mas o amor é prazer, desejo? (…) Um homem depende de sua esposa,
ama sua esposa, mas se ela olha para outro homem, fica enraivecido (…) frustrado,
infeliz (…) É isso que chamais “amor” (…) (Fora da Violência, pág. 36)

Senhor, que é compaixão? Não é um estado de simpatia, piedade, consideração? E


nesse estado, por certo, não há sentimento de estardes ajudando a outrem. (…)
Nesse estado de compaixão, podemos dar ajuda, dar simpatia a outro, mas não há
conflito interior. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 198)

Sois responsáveis pelas misérias e pelos desastres que ocorrem no mundo, pois na
vossa vida diária sois cruéis, opressores, ávidos e ambiciosos. (…) Abrigai em vossos
corações a paz e a compaixão, e aclarar-se-ão as vossas dúvidas. (O Egoísmo e o
Problema da Paz, pág. 16) (…)

Se não extirpais de vós mesmos as causas da inimizade, da ambição, da avidez, são


falsos os vossos deuses e vos conduzirão à desgraça. Só a benevolência e a
compaixão são capazes de promover a ordem e a paz no mundo; (…) (O Egoísmo e o
Problema da Paz, pág. 26)
Ora bem, (…) Num mundo como o atual, em que há tanta violência, (…) ódio e
brutalidade, a palavra “compaixão” é quase sem significação. (…) Há violência em
todos nós, consciente ou inconscientemente. Existe agressividade, o desejo de ser ou
“vir a ser” algo, o impulso para nos “expressarmos” custe o que custar, para nos
preenchermos sexualmente, nas relações sociais, no escrever, no pintar (…)
(Experimente um Novo Caminho, pág. 49)

(…) O pensamento não pode, em circunstância nenhuma, cultivar a compaixão (…)


Mas, se cada um de nós não tiver um profundo sentimento de compaixão, tornar-nos-
emos cada vez mais brutais e desumanos uns com os outros. (…) (Idem, pág. 51)

Para produzir ordem, vós mesmo deveis ter consideração e compaixão para com
outrem. A ação nascida do ódio só pode criar futuros ódios. A raiva em todas as
circunstâncias é a ausência de compreensão e amor. (…) (Palestras em Ojai e
Saróbia, 1940, pág. 46)

Não estais realmente preocupado com a injustiça; se estivésseis, jamais vos


zangaríeis; (…) Se nas nossas relações humanas existirem a compaixão e o perdão, a
generosidade e a benevolência, como pode haver também brutalidade e ódio? Se não
tivermos amor, como poderá haver ordem e paz? (…) (Idem, pág. 46)

(…) se quereis a paz, urge empregardes meios pacíficos (…) Só a benevolência e a


compaixão tornarão possível a paz no mundo, não a força, nem a sagacidade, nem a
simples legislação. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 16)

Perdemos o sentimento de humanidade; reconhecemo-nos responsáveis somente


perante a classe ou grupo a que pertencemos; (…) perante um nome, um rótulo.
Perdemos a compaixão, o amor ao todo, e, sem essa vivificante chama da vida,
volvemo-nos para os políticos, (…) os sacerdotes, (…) Em nada disso há esperança.
Só no interior de cada um de nós reside a compreensão criadora, a compaixão, tão
necessária para o bem-estar do homem. Os meios criam os fins justos; (…) (O
Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 84)

Quando há compaixão, o sentimento da compaixão, ela não atinge apenas o pobre


aldeão ou o animal faminto; sua intensidade é sempre a mesma onde quer que
estejais, numa choça ou num palácio (…) (O Homem Livre, pág. 109)

Como dissemos (…) o amor nada tem em comum com o tempo, nem com a memória.
E essa excelência que chamamos amor é compaixão, a qual inclui a ternura, a
bondade, a generosidade, etc. (…) (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 61)
Acho, pois, necessário que a mente humana compreenda totalmente essa questão - o
que é a bondade. A palavra “bondade' não é o fato, (…) não é a coisa (…) A bondade
só pode desabrochar, florir, na liberdade. A liberdade não é uma reação, (…) e
tampouco é uma resistência ou revolta contra alguma coisa. É um estado de espírito; e
esse estado de espírito (…) não pode ser compreendido se não há espaço. A
liberdade exige espaço. (O Descobrimento do Amor, pág. 117)

Aí está a razão por que importa descobrir se uma pessoa pode ser boa, (…) sem se
esforçar para ser boa, sem lutar para libertar-se da inveja, da ambição, da crueldade
(…) Pode haver bondade, sem se fazer esforço para “ser bom”? Acho que só haverá,
se cada um de nós escutar, ficar atento. (…) Esquecei todos os livros que lestes, tudo
o que vos têm ensinado, e prestai atenção à asserção de que não pode haver virtude,
enquanto houver esforço para ser virtuoso. (…) (Realização sem Esforço, pág. 38-39)

(…) Qual é a relação entre amor e compaixão, ou são eles o mesmo movimento?
Quando usamos a palavra “relação”, ela implica dualidade, separação, mas estamos
perguntando que lugar tem o amor na compaixão, ou é o amor a mais alta expressão
da compaixão? Como pode ter compaixão se você pertence a alguma religião, segue
algum guru, crê em alguma coisa, em escrituras, etc., se estiver apegado a uma
conclusão?

Quando você aceita um guru, chega a um desfecho, ou se você acredita fortemente


em deus ou num salvador, nisto ou naquilo, pode haver compaixão? Você pode
dedicar-se a trabalho social, ajudar o pobre desamparado de piedade, simpatia,
caridade, mas isso é tudo que compreende o amor e a compaixão? (Mind Without
Measure, pág. 97)

Estamos tentando descobrir se é possível viver neste mundo sem nenhum medo,
conflito, com um enorme senso de compaixão, o que exige grande soma de
inteligência. Você não pode ter compaixão sem inteligência. E essa inteligência não é
atividade do pensamento. Você não pode ser compassivo se está ligado a
determinada ideologia, a um particular tribalismo estreito, ou a algum conceito
religioso, porque tudo isso é limitação. A compaixão só pode surgir, despertar, quando
há o fim do ressentimento, o que representa o fim do movimento egocêntrico. (The
World of Peace, pág. 86)

O amor é como a morte. Amor significa compaixão. Amor, compaixão, significam


inteligência suprema, não a inteligência de livros, de estudiosos e da experiência. Isso
é necessário até certo ponto, mas só há a quintessência da inteligência total quando
há amor, compaixão. Não pode haver compaixão e amor sem morte, que é o fim de
todas as coisas. Então há criação. Ou seja, o universo, não de acordo com os
astrofísicos, é a suprema ordem. (…)

E essa inteligência não pode existir sem compaixão, amor e morte. Isso não é um
processo de meditação, mas de profunda investigação. Inquirir com grande silêncio,
não “eu estou investigando”. Grande silêncio, grande espaço. O que é essencialmente
amor, compaixão e morte é a aludida inteligência, que é criação. Criação existe
quando estes outros dois existem: amor e morte. Tudo o mais é invenção. (Last Talks
at Saanen, 1985, pág. 127)

(…) No entendimento da natureza do amor, havendo a virtude da mente unida ao


coração, surge a inteligência. A inteligência é o entendimento ou descoberta do que é
o amor. Inteligência nada tem a ver com o pensamento, esperteza, conhecimento.
Você pode ser muito eficiente em seus estudos, no seu trabalho, ser capaz de discutir
habilmente, racionalmente, mas isso não é inteligência. A inteligência é acompanhada
de amor e compaixão, e você não pode chegar a essa inteligência como um indivíduo
(isolado).

A compaixão não é sua nem minha, da mesma forma que o pensamento não é seu
nem meu. Quando há inteligência, não há eu e você. E a inteligência não fica em seu
coração ou em sua mente. Tal inteligência, que é suprema, está em toda parte. Ela é a
inteligência que move a terra e os céus, as estrelas, porque ela é compaixão. (Mind
Without Measure, pág. 97)

E onde há qualidade de amor, então daí surge a compaixão; onde há compaixão há


inteligência - não a inteligência do interesse próprio, não a inteligência do pensamento,
não a inteligência (…) do acúmulo de conhecimento, pois a compaixão nada tem a ver
com conhecimento - mas a inteligência que proporciona segurança à humanidade,
estabilidade e um vasto sentido de expansão. (The World of Peace, pág. 98)

(…) Quando compreendo a mim mesmo, compreendo a vós, e dessa compreensão


nasce o amor. O amor é o fator que está faltando - há falta de afeição, de cordialidade,
nas relações; e porque falta esse amor, essa ternura, essa generosidade, essa
compaixão, em nossas relações, escapamo-nos para a ação em massa, que produz
maior confusão e maior miséria. (…) (A Arte da Libertação, pág. 63)

(…) O amor ultrapassa e sobreleva tudo isso; ele transcende o plano dos sentidos. É
em si mesmo eterno e independente, e não um resultado. Nele há misericórdia e
generosidade, perdão e compaixão. Com o amor, surge a humildade e a brandura (…)
(Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 90)
O amor não é oposto de coisa alguma. Não é o oposto do ódio ou da violência (…)
Para o homem que ama não há erro; ou, se há, sabe corrigi-lo imediatamente. O
homem que ama não tem ciúme, (…) remorsos. Para ele não existe o perdão, porque
nunca surge uma ocasião em que haja algo para perdoar. Tudo isso exige profunda
investigação (…) (Fora da Violência, pág. 37)

Vossa comiseração, pois, não é amor. E é amor o perdão? Que está implicado no
perdão? Vós me insultais e eu fico ressentido e guardo isso na lembrança; depois (…)
digo: “perdôo-vos”. (…) Um homem que ama não guarda inimizade, sendo indiferente
a todas essas coisas, (…) Enquanto a mente é o árbitro, não há amor; porque a mente
só arbitra segundo o interesse de posse (…) A mente só pode corromper o amor, não
pode dar beleza. (A Arte da Libertação, pág. 180-181)
Chama sem Fumaça, Virtudes (Amor), Paixão sem
Causa
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 16:01

Como é essencialmente simples a vida, e como a complicamos! O amor não é


complexo, mas a mente o faz complexo. Vivemos demais com a mente e
desconhecemos os caminhos do amor. Conhecemos os caminhos do desejo e o
ímpeto do desejo; desconhecemos, porém, o amor. O amor é a chama sem fumo.
Estamos muito bem familiarizados com a fumaça; ela enche a cabeça e o coração (…)
Não somos simples, como a beleza da chama; torturamo-nos com ela. Não vivemos
com a chama, acompanhando-a prestamente aonde quer que nos leve. (Comentários
sobre o Viver, pág. 208)

O amor, positivamente, é uma chama sem fumaça. É só a fumaça que conhecemos


bem - a fumaça do ciúme, da ira, da dependência, (…) de apego. Não temos a chama,
mas estamos perfeitamente familiarizados com a fumaça; e aquela chama só
podemos ter quando não houver mais fumaça. (Viver sem Confusão, pág. 60-61)

Será de fato difícil a transformação do indivíduo? É difícil ser bondoso, amar alguém?
Afinal, é esta a essência de uma transformação radical. (…) Estamos de tal maneira
entranhados nos impulsos que incitam ao ódio, à antipatia, que perdemos a chama
pura, ficou-nos só fumo; (…) Não possuímos mais (…) a chama da criação; tomamos
o fumo pela chama. (…) (Que Estamos Buscando, pág. 91)

O amor não é coisa da mente. A mente gera a fumaça do ciúme, da posse, da


saudade, da evocação do passado, da ansiedade pelo amanhã, da tristeza e da
preocupação; e essa fumaça sufoca a chama, infalivelmente. Quando não existe
fumaça, existe chama. As duas coisas não podem existir juntas. (…) Desejo é
projeção do pensamento, e pensamento não é amor. (Comentários sobre o Viver, pág.
199)

(…) A revolução só poderá realizar-se quando houver amor, e não antes. O amor é a
única chama sem fumo; mas, infelizmente, enchemos os nossos corações com as
coisas da mente, e por isso os corações estão vazios e as mentes cheias. (Que
Estamos Buscando, pág. 31)

(…) Quando amais a um, amais a outros, há cordialidade para com todos. Sois então
sensível, flexível. (…) O amor não é coisa para ser cultivada; ele nasce, pronta e
imediatamente, quando não é impedido pelas coisas da mente. Estão vazios os
nossos corações, e é por isso que não existe comunhão (…) Quando há amor -
cordialidade, generosidade, afabilidade, compaixão - não se necessita de filosofia
alguma nem de instrutores; porque o amor é a própria verdade. (Idem, pág. 38)

(…) O amor é algo novo, eterno, de momento a momento. Nunca é o mesmo, nunca é
como foi antes; e sem o seu perfume, (…) sua beleza, (…) sua bondade, procurar com
a ajuda de um guru aquilo que podeis achar por vós mesmo é de todo inútil. (Da
Insatisfação à Felicidade, pág. 91)

Não é assim o amor. Ele é como aquele bosque do outro lado da estrada: sempre a
renovar-se porque está sempre a morrer. Não existe nele a permanência que o
pensamento busca (…) A consciência do pensamento e a consciência do amor são
duas coisas diferentes: uma leva à escravidão, e a outra, à floração da bondade. (…)
O amor é anônimo (…) Sem ele, não se pode encontrar a bem-aventurança da
verdade. (A Outra Margem do Caminho, pág. 133)

Quando (…) Já se houver dedicação, bondade, solicitude, daí surgirá a finura, a


polidez, a benevolência para com os demais, (…) a pessoa pensa cada vez menos em
si (…) E aquele que não tem preocupação egocêntrica é, na verdade, um ser humano
livre. (…) (Ensinar e Aprender, pág. 55-56)

Amor é um sentimento em que existe doçura, mansidão, ternura, consideração,


beleza. No amor não há avidez, nem ciúme. (Idem, pág. 57)

(…) Para o homem feliz, o homem que ama, não há divisões; ele não é brâmane, nem
inglês, nem alemão, nem hindu. Para esse homem não há divisões de “altos” e
“baixos”. (…) Quando amais, tendes um sentimento de riqueza que vos perfuma a vida
e estais pronto a dividir o vosso coração com outrem. Quando está cheio o coração, as
coisas da mente fenecem. (A Arte da Libertação, pág. 36)

(…) O problema da desigualdade só poderá ser resolvido quando existir o amor (…) O
homem que ama não está interessado em quem é superior nem inferior; para ele não
existe igualdade nem desigualdade; só há um “estado de ser”, que é amor. (…) (Visão
da Realidade, pág. 196)

(…) Quando estais naquele “estado de amor”, não existe repugnância. Ele é como
uma flor que exala o seu perfume (…) Um homem que ama está todo entregue ao seu
amor, não lhe importando se as pessoas têm “rostos inexpressivos” (…) (Novo Acesso
à Vida, pág. 133)
(…) Quando há amor, isso é de somenos importância. Embora observeis os fatos, (…)
não vos repugnam. Não é o amor, mas, sim, o coração vazio, o espírito árido, o
intelecto endurecido, que é repelido ou atraído. E quando uma pessoa ama, não há
escravização. Há sempre uma renovação, uma fresca vitalidade, uma alegria não no
falar, mas naquele próprio estado. (…) (Idem, pág. 133)

(…) O amor não tem códigos de moral, (…) não é reforma. Quando o amor se torna
prazer, a dor é inevitável. O amor não é pensamento, e é o pensamento que dá prazer
- prazer sexual, (…) do sucesso. (…) O pensamento, pelo pensar nesse prazer, dá-lhe
vitalidade (…) Essa exigência de prazer é o que chamamos sexo (…) Ele se
acompanha de uma grande abundância de afeição, ternura, desvelo, companheirismo,
etc. (…) (A Outra Margem do Caminho, pág. 57)

Não sabeis que, quando amais, cooperais, não estais pensando em vós mesmos?
Esta é a mais elevada forma de inteligência - e não quando amamos como uma
entidade superior, ou quando nos achamos em boa situação, o que nada mais é que
temor. (A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 116)

(…) Sabemos o que o amor significa? O amor não pede nada a outrem. (…) O amor
não reclama nada da esposa, do marido, nada reclama dos outros, nem física nem
emocional nem intelectualmente. Não segue a outrem, não tem um conceito para logo
seguir esse conceito. Porque o amor não é ciúme (…) O amor não busca posição,
status, prestígio. Porém possui sua própria capacidade, destreza, inteligência. (La
Llama de la Atención, pág. 49-50)

(…) Quando amais alguém, não pensais no que ireis ganhar dessa pessoa. Não amais
a pessoa porque ele ou ela vos dá dinheiro, ou posição, ou outra espécie de
satisfação. Simplesmente, amais - se tal amor realmente existe. Ora, se amo
verdadeiramente o que estou fazendo, não há ambição. Não me comparo com
ninguém (…) Amo o meu trabalho e, portanto, a minha mente, o meu coração, o meu
ser inteiro está nele. (…) (Idem, pág. 220)

Deseja também saber (…) Ora, amar é ser livre. No amor, são livres ambas as partes.
Se existe a possibilidade de sofrimento, não se trata então de amor, mas, sim,
puramente, de uma forma sutil do instinto de posse, (…) de aquisição. Se amais, se
realmente amais alguém, não há possibilidade de lhe causardes dor (…) (A Luta do
Homem, pág. 53-54)

(…) Mas, o estar cônscio de ser nada significa ser alguma coisa. Ser nada (…) não
pode ser provocado; esse estado só se conhece havendo amor. Mas o amor não é
uma coisa que possa ser procurada; ele vem quando há em nós uma revolução
interior, quando o “eu” já não é importante, já não é o centro da nossa existência.
(Claridade na Ação, pág. 98)

Parece-me verdadeiramente importante viver completamente cada dia, com tanta


plenitude, tão criadoramente, tão ricamente, que nunca tenhamos um amanhã. Isso,
afinal, é amor. (…) O amor não conhece o amanhã. (As Ilusões da Mente, pág. 105)

(…) A mente que está quieta conhecerá o ser, o amor. O amor não é pessoal nem
impessoal. Amor é amor, e a mente não o pode definir ou descrever como inclusivo ou
exclusivo. O amor é a própria eternidade; ele é o real, o supremo, o imensurável. (O
que te Fará Feliz? pág. 97-98)

Assim, sem se morrer não há amor, porque o amor é sempre novo e não uma rotina
de sexo e prazer. Para a maior parte de nós, por todo o mundo, o sexo tornou-se um
problema enorme, (…) de que retiramos prazer (…) Até parece que o sexo acaba de
ser descoberto pela primeira vez, sendo-lhe dado lugar em todas as revistas (…) (O
Mundo Somos Nós, pág. 132)

Se não sabeis o que é amor, morreis como um lastimável ente humano, sem conhecer
aquela imensidade que se chama “vida”. E, no conhecer a plenitude da vida, encontra-
se a plenitude do “desconhecido”. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, pág. 66)

(…) A ação não deve ter motivo, (…) não deve ser a busca de um fim; e a ação que
não busca um fim só pode vir quando há o amor. O amor não é coisa difícil. Só há
amor quando o intelecto compreende a si mesmo, (…) quando o processo de
pensamento, com suas hábeis manobras, seus ajustamentos, (…) busca de
segurança, deixa de funcionar, descobrireis então que vosso coração é rico, cheio,
abundante de felicidade, porque descobriu aquilo que é eterno. (A Arte da Libertação,
pág. 105)

(…) Só a mente que percebeu o significado do tempo, da morte e do amor - os três


estão relacionados entre si - só essa mente pode “explodir” no “desconhecido”. (Idem,
pág. 66)

Que significa amar? Será algo ideal, (…) distante, inatingível? Ter a qualidade da
simpatia, da compreensão, de ajudar os outros naturalmente, sem motivo algum, ser
espontaneamente bom, ter consideração por uma planta ou por um animal, sentir-se
solidário com os camponeses, generoso com o amigo, (…) o próximo - não é isso o
que entendemos por amor? Não é o amor um estado em que não há ressentimento,
mas eterno perdão? E não será possível senti-lo? (O Verdadeiro Objetivo da Vida,
pág. 95)

Nossa educação, desde a infância, é desenvolvida em torno da idéia de vir a ser


alguém, (…) e mui poucos dentre nós tivemos ocasião de aprender a amar o que
estamos fazendo. Quando amais o que estais fazendo, trabalhais sem motivo, sem
ânsia de êxito. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 220)

O problema é: o que é o amor sem motivo? Pode acaso haver amor sem nenhum
incentivo, sem que se deseje tirar algum proveito dele? Pode haver amor em que não
haja mágoa por ele não ser retribuído? Se eu lhe ofereço a minha amizade e você a
recusa, não ficarei ferido? Esse sentimento de mágoa é o resultado de amizade, de
generosidade, de simpatia? Certamente, enquanto eu me sinto magoado, enquanto
houver em mim medo, (…) ou o ajudar esperando que você me ajude - o que se
chama serviço - não haverá amor. (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 97)

Ora, a menos que compreendamos a paixão, acho que não seremos capazes de
compreender o sofrimento. A paixão é algo que mui poucos de nós realmente já
experimentaram. Poderemos ter experimentado entusiasmo, (…) num estado
emocional (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 179)

(…) Nossa paixão é sempre por alguma coisa: pela música, pela pintura, pela
literatura, (…) por uma mulher ou um homem; é sempre o efeito de uma causa. (Idem,
pág. 179)

Quando vos apaixonais por alguém, sempre ficais num estado de grande emoção, o
qual é o efeito daquela causa; e a paixão de que falo é paixão sem causa. É estar
apaixonado por tudo, e não simplesmente por uma certa coisa (…) (Idem, pág. 179)

Só quando temos liberdade, temos paixão. Não me refiro à paixão carnal, a qual tem
seu lugar próprio; refiro-me a um estado de liberdade em que existe intensa energia e
paixão. (…) A paixão está sempre no presente; não é algo já passado ou que teremos
amanhã, pois esta é a paixão criada pelo pensamento. (…) Ora, há diferença entre a
paixão do prazer e a paixão que nasce quando estamos completamente libertos da
confusão, quando há claridade total. (A Importância da Transformação, pág. 38)

No estado de “paixão sem causa” há uma intensidade livre de todo apego; mas,
quando a paixão tem causa, há apego, e apego é o começo do sofrimento. Em geral,
temos apego - a uma pessoa, um país, uma crença, uma idéia - e quando o objeto de
nosso apego nos é retirado ou, ainda, quando perde o seu significado, vemo-nos
vazios, incompletos. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 179-180)

Acho que o terminar do sofrimento depende da intensidade da paixão. Só pode haver


paixão, quando há total abandono do “eu”. Nunca pode uma pessoa “apaixonar-se” se
não houver a completa ausência disso que chamamos “pensamento”. (…) (Idem, pág.
181-182)

(…) E o auto-abandono de que falo é aquele estado de beleza sem causa, o qual, por
essa razão, é um estado de paixão. E pode-se transcender tudo o que é resultado da
causa? (Idem, pág.182).

O problema agora é este: Que é o amor sem “motivo”? Pode haver amor sem “motivo”,
sem incentivo algum, sem tirarmos dele nenhum proveito para nós mesmos? Pode
haver amor sem ressentimento, em que não haja sentimento de mágoa quando o
nosso amor não é correspondido? Pode haver amor em que damos e não recebemos?
Quando dais não sentis mágoa, se a pessoa não retribuir? (…) Assim, pois, enquanto
houver ressentimento, (…) temor, (…) vereis que o vosso incentivo não é o amor. Se
compreendestes, aí tendes a resposta. (Novos Roteiros em Educação, pág. 121)

Ora, que se entende por beleza, e que se entende por verdade? A beleza, de certo,
não é um ornamento (…) Senhores, não conheceis aquele “estado de ser” íntimo,
aquela interior tranqüilidade, em que floresce o amor, a bondade, a generosidade, a
piedade? Aquele estado de ser, obviamente, é a essência mesma da beleza (…)
(Novo Acesso à Vida, pág. 84-85)

(…) Cada um de nós tem um templo, mas precisamos criar a imagem, o ídolo, a
Beleza, em torno da qual possamos desenvolver o nosso amor e nossa devoção;
porque, se conservarmos o templo vazio, não poderemos criar. (O Reino da
Felicidade, pág. 24)

É pela adoração, pelo amor, pela devoção, que criamos, que damos vida ao templo.
Para mim esse templo é o coração. Se puserdes Aquele que é a encarnação do Amor
e da Verdade em vosso coração, se ali o criardes com as vossas próprias mãos, (…)
mente, (…) emoções, esse coração, em vez de frio e abstrato e deserto, se torna real
e vivo e radiante. Tal é a Verdade. (O Reino da Felicidade, pág. 24-25)

Não emprego a palavra “paixão” no sentido de “prazer exaltado”; porém, antes, em


referência àquele estado da mente que está sempre a aprender e, por conseguinte,
sempre ardorosa, viva, em movimento, nova e, portanto, apaixonada. Bem poucos de
nós se apaixonam. Temos prazeres sensuais, luxúria, diversões; mas o sentimento de
paixão, esse a maioria de nós não tem. Sem paixão, no elevado sentido ou significado
da palavra, como se pode aprender, (…) descobrir coisas novas, (…) investigar, (…)
mover-se com a celeridade que a investigação requer? (A Suprema Realização, pág.
128)

O amor, para a maioria de nós, é paixão, concupiscência (…) A fumaça (…) - o ciúme,
o ódio, a inveja, a avidez - destrói a chama. Mas onde está o amor, aí está a beleza e
a paixão. Deveis ter paixão, mas não traduzais prontamente essa palavra em “paixão
sexual”. Por “paixão” entendo a “paixão da intensidade”, essa energia que de pronto
percebe as coisas, claramente, ardentemente. Sem paixão, não há austeridade. (…) A
austeridade vem com o desprendimento, e no desprendimento há paixão e, por
conseguinte, beleza. Não a beleza criada pelo homem; não a beleza artística (…) Mas
refiro-me a uma beleza que transcende o pensamento e o sentimento. E esta só pode
surgir quando há alta sensibilidade (…) (O Passo Decisivo, pág. 276)

Paixão, para a maioria de nós, significa apenas satisfação mental ou física, a qual
depressa declina e tem de ser sempre renovada. Em geral, as paixões são
despertadas por circunstâncias externas ou por nosso especial temperamento, (…)
idiossincrasias e apetites. (…) Isso poderá, com efeito, proporcionar (…) um certo
ardor, (…) mas referimo-nos a uma paixão mais difícil de alcançar, porque a paixão
que se requer para qualquer ação deve ser sem motivo. (…) Pode haver alguma
ocasião rara em que a mente funcione sem “motivo”, sem desejo de satisfação (…) (A
Importância da Transformação, pág. 114-115)

O que é importante (…) A raiz da palavra “paixão” significa “sofrimento”. Mas não
estamos a usar essa palavra no sentido de sofrimento, ou da energia que se manifesta
por meio da cólera, do ódio, da resistência. Estamos a usá-la no sentido daquela
paixão que vem naturalmente e sem esforço, quando há amor. (O Mundo Somos Nós,
pág. 75)

Sem amor, vivemos no sofrimento, na aflição, em conflito perene. E o amor, por certo,
é sem conflito. (…) Nasce o amor ao começarmos a compreender realmente a
totalidade de nosso próprio ser. (…) Na mutação da ação há paixão, que é energia; e,
com essa energia, que faz parte do amor, (…) da criação, tem a mente a possibilidade
de ingressar num estado jamais concebido ou formulado por ela própria, num estado
desconhecido. (Experimente um Novo Caminho, pág. 115-116)

Qual é, pois, o problema? Como ter essa criadora alegria de viver, ser sem limitações
no sentir, amplo no pensar, e ao mesmo tempo preciso, claro, ordenado, no viver?
Creio que a maioria não é assim, porque nunca sentimos nada intensamente, nunca
aplicamos completamente a coisa alguma nosso coração e nossa mente. (…) Mas vós
e eu nunca conheceremos essa alegria, se não sentirmos as coisas profundamente,
se não houver paixão em nossa vida - paixão (…) no sentido de sentirmos as coisas
com toda a força; (…) quando houver uma revolução total em nosso pensar, em todo o
nosso ser. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 61)
Pensamento, Sentimento, Ação; Harmonia, Ação
Integrada
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 16:03

Por que razão dividiu o homem a sua existência em compartimentos diferentes - o


intelecto e as emoções? Cada um desses compartimentos parece independente do
outro. Na vida, essas duas forças motoras são muitas vezes tão contraditórias, que
parecem dilacerar a própria estrutura de nosso ser. Harmonizá-las, de modo que o
homem possa atuar como uma entidade total, foi sempre um dos principais alvos da
vida. (…) (A Luz que não se Apaga, pág. 100)

Exatamente: o pensar e o sentir são uma só coisa; sempre, desde o começo, foram
uma só coisa, e é isso, precisamente, o que estou dizendo. Nosso problema, por
conseguinte, não é a integração dos diferentes fragmentos, mas, sim, a compreensão
dessa mente e desse coração que são uma só coisa. (…) (Idem, pág. 102)

Desejo explicar, hoje, que há um modo de viver naturalmente, espontaneamente. (…)


Quando viveis completamente na harmonia de vossa mente e coração, então o vosso
agir é natural, espontâneo, sem esforço. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág.
130)

Afinal, sentir é pensar, não? As duas coisas são inseparáveis. (…) O sentimento
sempre acompanha o pensamento. E sentimento é percepção-sensação-contato, etc.
Sentir é ser sensível; (…) (O Passo Decisivo, pág. 65)

Achais mesmo muito importante que a mente e o coração se unam? (…) Por que
procurar uni-los? Essa preocupação é ainda do intelecto e não oriunda (…) de vossa
sensibilidade, que faz parte de vós. Dividistes a vida em intelecto e coração;
intelectualmente observais o emurchecer do coração e, verbalmente, vos preocupais
com isso. (A Outra Margem do Caminho, pág. 21-22)

(…) Aquilo a que vos opondes é a periculosidade do intelecto, que endeusais. Essa
periculosidade cria uma multidão de problemas. Vedes provavelmente os efeitos das
atividades intelectuais, no mundo - as guerras, a competição, a arrogância do poder -
e talvez tenhais medo do que está para acontecer, do desespero do homem. (Idem,
pág. 22)

(…) Enquanto existir essa divisão entre os sentimentos e o intelecto - um a dominar o


outro - um destruirá o outro, inevitavelmente; não há possibilidade de uni-los. (…) O
amor não pertence a nenhum dos dois, porque o amor não é de natureza dominadora.
Não é uma coisa fabricada pelo pensamento ou pelo sentimento. (…) O amor está no
começo e não no fim de algum esforço. (A Outra Margem do Caminho, pág. 22)

Separamos o intelecto do sentimento, desenvolvemos o intelecto à custa do


sentimento. Somos como um tripé com uma perna mais longa do que as outras, não
temos equilíbrio. Somos educados para sermos intelectuais; (…) (A Educação e o
Significado da Vida, pág. 79)

(…) O que pode produzir a transformação em nós, e por conseguinte na sociedade, é


a compreensão do processo integral do pensar, que não é diferente do sentir. Sentir é
pensar; (…) (Por que não te Satisfaz a Vida, pág. 73)

Krishnamurti: (…) Só conheço dois movimentos: um, o de pensar - o movimento


intelectual, racional; o segundo, o sentimento de benevolência, delicadeza, doçura;
(…) São dois movimentos separados? Ou porque os temos tratado como dois
movimentos separados, surge todo nosso infortúnio, nossa confusão? (Tradición y
Revolución, pág. 402)

Não achais necessário que o pensamento claro e correto seja sensível? Para sentir
profundamente, não é necessário um coração aberto? Não se requer um corpo sadio
para que as suas reações sejam prontas e adequadas? Embrutecemos nossa mente,
nosso sentimento, nosso corpo, com as crenças e a malevolência, com estimulantes
poderosos e insensibilizantes. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 17)

Se não desejais sentimentos embotados e empedernidos, deveis pagar o preço disso.


Urge abandonardes a pressa, a confusão, as profissões e atividades inadequadas.
Deveis torna-vos cônscios de vossos apetites, de vosso ambiente delimitador, e
começardes, então, com uma justa compreensão dos mesmos, a novamente
despertardes a sensibilidade. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 18)

Com a observação constante de vossos pensamentos-sentimentos, cairão por terra as


causas do egotismo e da estreiteza mental. Se desejais atingir um elevado grau de
sensibilidade e clareza, deveis trabalhar deliberadamente para esse fim; não podeis
ser mundanos e ao mesmo tempo sinceros na busca da Realidade. (Idem, pág. 18)

Hipertrofiamos o intelecto, em prejuízo de nossos sentimentos mais profundos e


claros, e uma civilização baseada no cultivo do intelecto há de produzir brutalidades e
o culto da prosperidade. O basear-se no intelecto ou só no sentimento conduz ao
desequilíbrio (…) É necessário que compreendamos as tendências do intelecto,
mediante vigilância constante,(…) transcender o próprio raciocinar. (Idem, pág. 18-19)
(…) O culto do intelecto, em oposição à vida, conduziu-nos à nossa atual frustração,
com suas inumeráveis vias de fuga. (…) A presente crise nasceu do culto do intelecto,
e foi o intelecto que dividiu a vida numa série de ações opostas e contraditórias; foi o
intelecto que negou o fator de unificação que é o amor. (A Arte da Libertação, pág.
248)

O intelecto encheu o nosso coração, que estava vazio, com coisas da mente; e só
quando a mente está cônscia do seu próprio raciocinar é capaz de transcender a si
mesma, e só então haverá enriquecimento do coração. Só o (…) enriquecimento do
coração pode trazer a paz a este mundo louco e cheio de lutas. (Idem, pág. 248)

Com essa busca de saber, com nossos desejos gananciosos, estamos perdendo o
amor, estamos embotando o sentimento do belo, a sensibilidade à crueldade; estamo-
nos tornando cada vez mais especializados e cada vez menos integrados. A sabedoria
não pode ser substituída pela erudição (…) (A Educação e o Significado da Vida, 1ª
ed.,pág. 78)

(…) A erudição é necessária, a ciência tem o seu lugar próprio; mas, se a mente e o
coração estão sufocados pela erudição, e se a causa do sofrimento é posta de parte
com uma explicação, a vida se torna vazia e sem sentido. (…) (Idem, pág. 78)

Que quer dizer “razão”? Pode a razão separar-se do sentimento? Vós os separastes,
porque desenvolvestes o intelecto e nada mais. E tendes, assim, uma espécie de tripé,
com uma perna muito mais longa que as outras duas e que por isso não pode ficar em
equilíbrio. É o que aconteceu. Somos altamente intelectuais. (…) E temo-nos servido
do intelecto como meio para encontrarmos a Realidade. (Uma Nova Maneira de Viver,
pág. 139)

Mas o intelecto representa uma parte, somente, e não o todo. Compreender a


realidade e raciocinar são duas coisas diferentes. Sem razão (…) não podemos viver.
Razão é equilíbrio, integração. (…) Mas a razão, como a conhecemos, é operação
intelectual e não pode produzir senão fragmentação, como estamos vendo no mundo
todo (…) O intelecto está produzindo toda esta devastação, degradação e miséria (…)
A razão precisa transcender a si mesma, para encontrar a Realidade. (Idem, pág. 139)

Expressando-o diferentemente, com o raciocinar não se pode encontrar o real,


porquanto o raciocinar é produto do passado, (…) depende do tempo, é reação no
tempo e, por conseguinte, o raciocinar não pode nunca ser o atemporal. É preciso que
o raciocinar termine, porque só então poderá manifestar-se o atemporal. Quando a
mente tem percepção do seu existir, sobrevém um silêncio extraordinário, uma grande
tranqüilidade (…) É nesse estado que pode dar-se a criação (…) (Idem, pág. 139-140)

(…) Separamos a mente dos sentimentos (…) a inteligência da mente e do coração,


que para mim são uma só coisa. Inteligência é pensamento e sentimento em perfeita
harmonia. (A Luta do Homem, pág. 83)

(…) Entendo por pensamento, não o mero raciocínio intelectual, que é somente
cinzas, mas o equilíbrio entre os sentimentos e a razão, entre os afetos e o
pensamento; e esse equilíbrio não é influenciado nem atingido pelo conflito dos
opostos. (…) (A Luta do Homem, pág. 147-148)

(…) E a mente e o coração, que são para mim a mesma coisa (…) se debilitam e
obscurecem pela memória (…) Mas, se fordes ao encontro do ambiente sempre
renovados, sem a carga dessa memória do passado, (…) vereis então surgir a
compreensão de todas as coisas (…) (A Luta do Homem, pág. 113)

Assim, a própria ação destrói as ilusões, não a disciplina auto-imposta. (…) Isso abre
imensas avenidas à mente e ao coração (…) Mas só podereis viver completamente
quando tiverdes percepção direta e a percepção direta não se atinge por meio de
escolha (…) de esforço (…) Ela está na chama do apercebimento, que é a harmonia
da mente e do coração na ação. (Palestras em Adyar, Índia, 1933-1934, pág. 162-163)

Quando estiverdes apercebido, com a mente e o coração, da necessidade da ação


completa, agireis harmoniosamente. Então todos os vossos temores, (…) barreiras,
(…) desejo de poder, de atingir - tudo isso se revelará, e as sombras da desarmonia
dissipar-se-ão. (Idem, pág. 93)

Agora, já expliquei que o conflito não produz o pensar criador. Para se ser criador,
para se produzir qualquer coisa, a mente precisa estar em paz, o coração cheio. (…)
(A Arte da Libertação, pág. 219)

Essa tranqüilidade da compreensão não é produzida por ato de vontade, porquanto a


vontade é também parte do vir-a-ser, do ansiar. Só pode estar tranqüila a mente-
coração depois de cessar o tormento e o conflito do anseio. Assim como um lago se
apresenta calmo após o vendaval, assim também está tranqüila a mente-coração, em
sua sabedoria (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 143)

(…) Cumpre compreender esse anseio logo que se revele no nosso pensar-sentir-agir.
Pela auto-vigilância constante, é possível compreender e transcender as tendências
do anseio, do vir-a-ser pessoal. Não dependais do tempo, mas buscai com ardor o
autoconhecimento. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 143-144)

(…) Poucos de nós estamos preparados para examinar um problema profundamente,


e perceber o movimento de nosso próprio pensamento, sentimento e ação, como um
todo geral, integrado; (…) (A Arte da Libertação, pág. 133)

Mas, que é ação? Bem considerada, ela é aquilo que pensamos e sentimos. E
enquanto não tiverdes percepção de vosso pensamento, de vossos sentimentos, tem
de haver insuficiência (…) (A Luta do Homem, pág. 81-82)

A ação é esse movimento que é, ele próprio, pensamento e sentimento (…) Essa ação
é a relação entre o indivíduo e a sociedade. Pois bem: se esse movimento do
pensamento for claro, simples, direto, espontâneo, profundo, não existirá então conflito
no indivíduo, contra a sociedade, porque a ação é, nesse caso, a própria expressão
desse movimento vivo e criador. (A Luta do Homem, pág. 153)

Nessas condições, (…) Não há técnica de pensar, mas somente a espontânea ação
criadora da inteligência, a qual é a harmonia da razão, do sentimento e da ação, não
separadas ou divorciadas entre si. (Idem, pág. 153)

Pensar criativamente é estabelecer harmonia entre a mente, o sentimento e a ação.


Isto é, se estais convencidos de uma ação, em visardes a uma recompensa final, essa
ação, resultado da inteligência, afasta todos os óbices impostos à mente pela falta de
compreensão. (A Luta do Homem, pág. 154-155)

Visto que a todos nós interessa a ação e que, sem ação, não se pode viver, é de toda
necessidade entrarmos a fundo na questão e procurarmos compreendê-la
plenamente. É uma questão difícil, porque vivemos, em geral, uma vida desintegrada,
seccionada (…) Assim, (…) precisamos verificar o que é atividade e o que é ação. (…)
Há uma vasta diferença entre atividade e ação. (…) (A Arte da Libertação, pág. 39)

(…) Muito importa compreender a distinção entre atividade e ação. Eu chamaria


atividade à conduta de vida baseada em níveis independentes, (…) “desintegrados” -
isto é, queremos viver como se a vida estivesse num único nível, sem nos
preocuparmos com os outros níveis, com outros campos da consciência. Se
examinarmos tais atividades, verificaremos que se baseiam em idéias, e a idéia é um
“processo” de isolamento (…) e não de unificação. (…) (Idem, pág. 40)
(…) A “ação integrada” não nasce de uma idéia; nasce assim que compreendeis a vida
como um processo total, não fragmentado em compartimentos separados, em
atividades separadas do todo da existência. (…) (A Arte da Libertação, pág. 41)

Nosso problema, portanto, é o de como agir “integralmente”, como um todo, e não em


diferentes níveis não relacionados entre si. Para se agir como todo, (…) integralmente,
é óbvia a necessidade de autoconhecimento. O autoconhecimento não é uma idéia: é
um movimento. (…) (Idem, pág. 41)

(…) Nessas condições, o homem sincero não deve deixar-se envolver na atividade,
mas, sim compreender as relações, pelo processo do autoconhecimento. A
compreensão do processo do “eu”, do “meu”, na sua inteireza, traz a “ação integrada”,
e essa ação é completa, não criará conflito. (Idem, pág. 41-42)

Existe uma ação que não seja resultado do movimento do pensar, (…) não
condicionada por ideologias (…) criada pelo pensamento? Existe uma ação que esteja
totalmente livre do pensamento? Uma ação semelhante seria então completa, total,
íntegra - não fragmentária, não contraditória. Uma ação assim seria uma ação total, na
qual não haveria arrependimento, nenhum sentido de “Eu houvera desejado não fazer
isso”, ou “Tratarei de fazer aquilo”. A desordem surge quando opera o movimento do
pensar; o pensamento mesmo é fragmentário e, quando opera, tudo tem de ser
fragmentário (…) Qual é uma ação sem pensamento? (La Totalidad de la Vida, pág.
196)

(…) Ação significa fazer agora, não fazer amanhã ou haver feito no passado. Como o
amor, essa ação não é do tempo. O amor e a compaixão estão mais além do intelecto,
(…) da memória; são um estado da mente que assim atua [N.Revisor: há um erro
gramatical aqui; examinar o texto em inglês], porque o amor e a compaixão são
supremamente inteligentes - e a inteligência atua. Onde há espaço há ordem, que é a
ação da inteligência; esta não é minha nem de vocês, é inteligência que nasce do
amor e da compaixão. O espaço na mente implica que esta não se encontra ocupada;
(…) (La Totalidad de la Vida, pág. 196-197)

Estou, pois, alvitrando que só se tornará possível a verdadeira ação quando a mente
compreender a totalidade de sua ocupação, tanto consciente como inconsciente, e
conhecer o momento em que cessou a ocupação. Vereis, então, que a ação resultante
desses momentos de desocupação é a única ação “integrada”. Quando não está
ocupada, a mente não está contaminada pela sociedade, não é produto de
inumeráveis influências, não é hinduísta nem cristã, nem comunista, nem capitalista.
Por conseguinte, ela própria é uma totalidade de ação, com que não tereis de ocupar-
vos e em que não precisais pensar. (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 78)

A ação é esse movimento, que é, ele próprio, pensamento e sentimento (…) Essa
ação é a relação entre o indivíduo e a sociedade. Ela é conduta, trabalho, cooperação,
que chamamos preenchimento. Isto é, quando a mente atua sem visar a uma
culminância ou objetivo, e é portanto criador o seu pensar, esse pensar é ação (…) (A
Luta do Homem, pág. 153)

(…) Intrinsecamente, o pensamento é um produto do tempo, é medida e, portanto,


fragmentário. (…) Se o vêem claramente uma vez, então poderão descobrir que é a
ação, uma ação correta, precisa, na qual não há imaginação nem argumentações,
nada senão o factual. (La Verdad y la Realidad, pág. 73-74)

Estamos tratando de descobrir que é a ação total, não fragmentária, a ação que não
se acha presa no movimento do tempo, que não é tradicional e, portanto, não é
mecânica. Quer o indivíduo viver uma vida sem conflito, viver em uma sociedade que
não destrua a liberdade e, assim, sobreviver, (…) (Idem, pág. 74)

Assim, a ação, como a conhecemos, é, na realidade, reação, incessante “vir-a-ser”, ou


seja, negação, evitação do que é; mas quando estamos cônscios do vazio, sem
escolha, sem condenação, nem justificação, então, nessa compreensão do que é, há
ação, e essa ação é o Ser criador. (…) (A Arte da Libertação, pág. 109-110)

Como disse (…), a inteligência é a solução única que produzirá a harmonia neste
mundo de conflito, a harmonia entre a mente e o coração, na ação. (…) (Palestras em
New York City, 1935, pág. 27)

Ora, (…) A essência da inteligência reside na compreensão da vida ou da experiência


com a mente e coração frescos, renovados e aliviados de fardos. (…) (Idem, pág. 49)

Compreendo a pergunta. (…) Quando há harmonia total - harmonia real, não


imaginária - quando o corpo, o coração e a mente estão integrados de modo completo
e harmonioso, quando existe esse sentido de inteligência que é harmonia, e essa
inteligência está usando o pensamento, haverá então divisão entre o observador e
observado? Evidentemente, não. Quando não existe harmonia, há fragmentação, e
então o pensamento cria a divisão do “eu” e do “não eu”, o observador e o observado.
(El Despertar de la Inteligência, pág. 177)
A harmonia é quietude. Existe uma harmonia entre o corpo, o coração e a mente,
harmonia completa, sem dissonância. Ao passo que, se o corpo é sensível, se está
ativo e não deteriorado, tem sua própria inteligência. Deve o indivíduo possuir um
corpo assim, vivo, ativo, não drogado. (…) (El Despertar de la Inteligencia, 1ª ed., pág.
174)

(…) E deve também ter um coração - não excitação, não sentimentalismo, nem
emocionalismo, nem entusiasmo, senão esse sentido de plenitude, de profundidade,
de qualidade e energia que só pode existir quando há amor. E deve ter uma mente
com um espaço imenso. Então há harmonia. (Idem, pág. 174-175)

Como, pois, há de a mente encontrar isso? [N.Revisor: É esse o sentido?] Estou


seguro de que todos vocês (…) se perguntarão: como pode um indivíduo ter esse
sentimento de completa integridade, de unidade entre o corpo, o coração e a mente,
sem sentido algum de distorção, divisão ou fragmentação? (…) Vocês vêem a
realidade disso, (…) Vêem a verdade de que devem ter completa harmonia dentro de
si, na mente, no coração e no corpo. Como podem vocês chegar a isso? (El Despertar
de Ia Inteligencia, II, pág. 175)

Pois bem, (…) Como dissemos, quando há harmonia há silêncio. Quando a mente, o
coração e o organismo estão em harmonia completa, há silêncio; porém, quando um
dos três se deforma, se perverte, o que há é ruído. (…) Porém quando vocês vêem a
verdade disso - a verdade, não o que “deveria ser” - quando vêem que isso é o real,
então é a inteligência que o vê. Portanto, é a operação da inteligência a que produzirá
esse estado. (Idem, pág. 175)

O pensamento é do tempo, a inteligência não é do tempo. A inteligência é imensurável


- não a inteligência científica, (…) a de um técnico, ou a de uma dona-de-casa, ou a de
um homem que conhece muitíssimo. Isso está dentro do campo do pensamento e do
conhecido. Quando a mente se acha em completo silêncio (…) só então há harmonia
total, imenso espaço e silêncio. Somente então o imensurável é. (Idem, pág. 175-176)

Pergunta: A harmonia surge quando finda o conflito?

Krishnamurti: Quero descobrir o que é harmonia entre a mente, o corpo e o coração, a


completa sensação de ser total, sem fragmentação, sem super-desenvolvimento do
intelecto, mas com o intelecto operando claramente, objetivamente, sã mente; e o
coração operando não com sentimento, emocionalismo, exaltação histérica, mas com
uma qualidade de afeição, cuidado, amor, compaixão, vitalidade; e o corpo com sua
própria inteligência, não influenciada pelo intelecto. O sentimento de que tudo está
operando, funcionando belamente como uma maravilhosa máquina é importante. É
possível? (Exploration into Insight, pág. 52)

Há integração, quando somos capazes de observar os fatores da desintegração. A


integração não está num ou noutro nível da nossa existência, ela é a reunião do todo.
Antes que isso seja possível, temos de descobrir o que significa desintegração (…)
(Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 192)

Pergunta: Qual a maneira de alcançar a integração?

Krishnamurti: Que quer dizer integração? Não significa completar-se, viver sem conflito
nem sofrimento? Em geral tentamos a integração nas camadas superficiais da
consciência; procuramos Integrar-nos a fim de funcionarmos normalmente dentro do
padrão da sociedade; desejamos ajustar-nos a um ambiente, que aceitamos como
normal; mas não impugnamos o valor da estrutura social que nos circunda. A
aquiescência a um padrão é considerado integração; a educação e a religião
organizada facilitam-nos essa aquiescência. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág.
132-133)

A integração não tem significado mais profundo do que o mero ajustamento à


sociedade e seus padrões? (…) Não é a integração o ser puro, e não apenas a
satisfação de nosso desejo de nos tornarmos um todo, (…) “normais”? (…) O impulso
à integração pode resultar da ambição, do desejo de mando, do temor à insuficiência,
etc. (…) Há uns poucos que reprimem o anseio de prosperidade material, mas dão
guarida ao desejo de se tornarem virtuosos, serem mestres, alcançarem a glória
espiritual. Também aqui não temos a verdadeira integração. (…) (O Egoísmo e o
Problema da Paz, pág. 133-134)

(…) Dá-se a verdadeira integração quando, por todas as camadas da consciência,


existe percepção e compreensão. Nossa consciência superficial é fruto da educação,
de influências, e é só quando o pensamento transcende as limitações por ele próprio
criadas, que pode haver a verdadeira integração. As numerosas partes adversas e
contraditórias de nossa consciência só podem integrar-se quando já não existe a
causa dessas divisões: dentro do padrão do “eu”, só pode haver conflito, nunca
integração, plenitude. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 134)

Verifica-se a integração quando estamos livres do anseio. Não é ela um fim, em si,
mas se buscardes o autoconhecimento, sempre com profundeza, tornar-se-á a
integração o caminho por onde alcançareis a Realidade. (O Egoísmo e o Problema da
Paz, pág. 134)
Ora, a inteligência, sem dúvida, só pode surgir quando sois livres para pesquisar,
livres para pensar, livres para impugnar todas as tradições, para que nossa mente se
torne muito ativa, muito lúcida e sejais, como indivíduo, uma entidade “integrada”,
plenamente eficaz, - e não uma entidade assustada que nunca sabe o que lhe cumpre
fazer e, por isso, obedece, sentindo intensamente uma coisa e sendo obrigada a
ajustar-se a outra exteriormente. (…) Por isso, interiormente, há um conflito constante.
(Novos Roteiros em Educação, pág. 33)

Ora, por certo, quando o falso é percebido como falso, o verdadeiro existe. Quando se
está cônscio dos fatores da degeneração, não apenas verbalmente, mas
profundamente, não há integração? (…) A integração não é um alvo, um fim, mas um
estado de ser; é uma coisa viva, e como pode uma coisa viva ser alvo, objetivo? (…)
Quando não há conflito, há integração. A integração é um estado de completa
atenção. Não pode haver atenção completa quando há esforço, conflito, resistência,
concentração. (Reflexões sobre a Vida, pág. 61
Intuição (Insight); Verdadeira, Falsa, Impulso
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 16:05

Que entendemos por intuição? Por sentimento intuitivo, entendemos um sentimento


não racionalizado, não muito logicamente pensado, um sentimento que atribuímos a
uma fonte situada fora da mente, a que chamamos um lampejo da consciência
superior. (Quando o Pensamento Cessa, pág. 200)

Sem compreender integralmente o processo do desejo, não podeis confiar na intuição,


pois ela pode ser extraordinariamente enganosa. (…) Não alegueis que os cientistas
têm a percepção intuitiva de um problema. Os cientistas trabalham, impessoalmente,
lutam com o problema, lutam, lutam, e, não conseguindo achar a solução, põem-no de
lado; quando recomeçam a trabalhar, vêem subitamente a solução - eis a sua intuição.
(…) (Idem, pág. 201)

Acontece com a maioria de nós que a mente-coração não é capaz de permanecer


aberta para tal êxtase. A “inspiração” é acidental, não provocada, grande demais para
a nossa mente-coração. A inspiração é maior do que aquele que a experimenta, e por
isso procura ele baixá-la ao seu próprio nível, à órbita de sua compreensão. (O
Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 107)

Pergunta: “Insight” não é intuição? O senhor poderia discutir essa súbita clareza que
algumas pessoas têm? (…)

Krishnamurti: Durante as várias palestras já realizadas, o orador tem usado a palavra


“insight”. Isso significa ver dentro das coisas, dentro do mecanismo total do
pensamento (…) Não é análise, não é exercício da capacidade intelectual, nem
resultado do conhecimento. (…) (Perguntas e Respostas, pág. 20)

Essa palavra, “intuição”, é, pode-se dizer, uma palavra ardilosa, que muitos usam. A
realidade da intuição pode ser resultado do desejo. Uma pessoa pode desejar algo e,
então, após alguns dias, ter uma intuição sobre isso. (…) Fica-se então em dúvida
quanto a essa palavra, especialmente quando é usada por pessoas um tanto
românticas, imaginativas, sentimentais e que buscam algo. (Idem, pág. 20-21)

Portanto, o que é “insight”? É perceber algo instantaneamente, algo verdadeiro, lógico,


sensato, racional. O insight deve operar instantaneamente. Não se trata de se ter um
insight e não se fazer nada a respeito. Se a pessoa tem um insight dentro da natureza
total do pensamento, há uma ação instantânea. (Perguntas e Respostas, pág. 21)
Por outro lado, um insight significa que há uma ação que não é uma simples repetição
do pensamento. Ter um insight (…) significa que se está observando sem
recordações, sem argumentação pró e contra, é somente observar o movimento e a
natureza totais da necessidade (…) Uma pessoa tem um insight disso e, a partir daí,
ela age. E essa ação é lógica, sensata e saudável. Uma pessoa não pode ter um
insight e agir de modo oposto; isso não é um insight. (Idem, pág. 21)

Insight é a percepção total de todo esse movimento complexo de mensuração. Você


só pode ter esse insight quando percebe sem conhecimento prévio, pois, se estiver
usando seus conhecimentos, então ele é comparativo, mensurável.

O insight não é mensurável. Quando há o insight imensurável, o desdobramento de


todo o mecanismo de comparação não só é dividido, mas cessa imediatamente. Você
pode testar isso; (…) (Perguntas e Respostas, pág. 113)

Pergunta: A intuição compreende a experiência passada e mais alguma coisa, ou


somente a experiência passada?

Krishnamurti: Para mim, intuição é inteligência, e inteligência não é a experiência do


passado, mas a compreensão dessa experiência. (A Luta do Homem, pág. 51)

Para mim, o passado é uma carga, e representa apenas lacunas na compreensão.


(…) Mas, se houver ação espontânea no presente, em contínuo movimento, nela
haverá inteligência, e essa inteligência é intuição. A inteligência não pode separar-se
da intuição. (Idem, pág. 51-52)

Como pode o indivíduo despertar essa inteligência, essa intuição criadora que
compreende o significado da realidade sem o processo da análise e da lógica? Por
intuição não quero dizer preenchimento do desejo, como faz a maioria das pessoas.
Se a moral, que significa relações mútuas, for baseada na inteligência e na intuição,
então haverá riqueza, plenitude e uma constante beleza na vida. (Palestras em
Ommen, Holanda, 1936, pág. 31)

Para que possa vir à existência essa intuição criadora, todo anseio com seus temores
deve cessar. A cessação da carência não é resultado da abstenção. Nem por meio da
análise cuidadosa pode o desejo ser racionalmente afastado. A libertação da carência,
de seus temores e ilusões, vem por meio da percepção silenciosa e persistente, sem a
escolha deliberada da volição (…) (Idem, pág. 31-32)
Ora, quando é que compreendeis (…) Não sei se já notastes que só há compreensão
quando a mente está muito quieta (…); dá-se o lampejo da compreensão quando não
há verbalização do pensamento. Experimentai-o e vereis que tendes o clarão da
compreensão, aquela extraordinária rapidez da intuição, quando a mente está muito
tranqüila, quando o pensamento está ausente (…) (O Que te Fará Feliz? pág. 107)

Explicarei novamente (…) Se entenderdes isto, se realmente sentirdes com todo o


vosso ser - isto é, emocional e mentalmente - a futilidade da escolha, então já não
escolhereis; então há discernimento; há resposta intuitiva que é livre de escolha, e isso
é apercebimento. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 33)

É preciso muito cuidado com esta palavra “intuição”; nela se encerra muita ilusão,
porquanto a intuição pode ser ditada por nossas próprias esperanças, temores,
amarguras, desejos, etc. Procuramos uma solução de ordem intelectual ou emocional,
como se o intelecto fosse coisa separada da emoção, e a emoção, da reação física. (A
Questão do Impossível, pág. 41)

Não estou negando que haja intuição, porém o que a pessoa mediana, vulgar,
denomina intuição, não é a verdadeira (Palestras em Auckland, 1934, pág. 76-79)

A palavra “intuição” (…) é perigosa em extremo. Desejo uma certa coisa muito
profundamente; sinto que é um desejo justo, e chamo-o “intuição”. (…) Só de uma
coisa sabemos: que nossa mente, tal como os macacos, está sempre inquieta, a fazer
algazarra, a saltar de um lado para outro, a mexer-se incessantemente, a pensar, a
afligir-se. (…) Dizemos então: “Como exercitá-la para quietar-se?”. Passamos anos e
anos a exercitá-la para quietar-se e, ao cabo desse tempo, ela se torna um macaco de
outra espécie. (O Mistério da Compreensão, pág. 81)

Krishnamurti: Quando falamos de intuição, voz interior, que quer dizer isso? Essa voz
interior pode ser completamente falsa. (…) Estou procurando averiguar se a intuição é
verdadeira ou falsa. Ora, sem dúvida, enquanto não compreendemos o processo do
desejo, consciente (…) e inconsciente, não podemos fiar-nos na intuição, porque o
desejo pode conduzir-nos a certos “fatos” que não são fatos absolutamente. (…)
(Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 37)

(…) Pelo discernimento sem escolha, se desperta a intuição criadora, a inteligência


que é a única a poder libertar a mente-coração dos múltiplos processos sutis da
ignorância, da carência e do medo. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 55)
A crença não deve ser confundida com a intuição, e a intuição não é preenchimento de
desejo. A crença (…) baseia-se na evasão, na frustração, na limitação, e essa mesma
crença impede a mente-coração de dissolver a ignorância autocriada. (Palestras em
Ojai, Califórnia, 1936, pág. 29)

(…) Não estando diretamente em contacto com um Mestre, precisamos depender ou


dum intermediário, ou de nossa chamada intuição. A dependência de um intermediário
destrói a compreensão e o amor; (…) condiciona a mente; e a chamada intuição tem
seus graves perigos, pois ela pode ser somente um desejo auto-enganador. (Palestras
em Ojai e Saróbia, 1940, pág. 77-78)

O importante ,pois, é que se perceba a verdade num súbito clarão, que se esteja
sensível num tão alto grau, que o fato revele instantaneamente a verdade. Mas isso
requer muita humildade; (Visão da Realidade, pág. 239)

(…) Quanto mais harmonizarmos os nossos sentimentos fortes e a mente penetrante


pelo aperfeiçoamento e purificação, tanto mais aptos estaremos para ouvir essa Voz, a
Intuição, que é comum a todos, a Intuição que é da Humanidade e não de um
indivíduo particular (…) (O Reino da Felicidade, pág. 9)

Assimilando esse ideal (…) Uma perfeita harmonia de emoções e da mente é


essencial para que essa Intuição, essa Voz do vosso verdadeiro Ego (Self) se possa
expressar. A Intuição é o cochicho do Espírito. (O Reino da Felicidade, pág. 9)

(…) Se nesse momento entenderdes com todo o vosso ser, se nesse momento
ficardes consciente da futilidade da escolha, então brotará daí a flor da Intuição, a flor
do discernimento. A ação que daí nasce é infinita; então a ação é a própria vida.
(Palestra na Itália e Noruega, 1933, pág. 35)

Para cultivar essa Voz até se tornar o único Tirano, a única Voz a que obedecemos,
temos de descobrir o nosso alvo e trabalhar incessantemente para atingi-lo. (…) A
primeira coisa essencial é o fortalecimento dessa Voz que de vez em quando se
afirma por si mesma em cada um de nós. E ao cultivarmos e enobrecermos a Intuição,
devemos aprender a pensar e a agir por nós mesmos. O culto dessa Voz da Intuição
quer dizer uma vida de acordo com os seus éditos. (O Reino da Felicidade, pág. 6)

(…) Quando tendes esse desejo, essa capacidade de vos encher com o Seu gênio,
com a Sua força, com a Sua nobreza, então vós próprios vos enobreceis e aprendeis a
refletir a Sua divina originalidade, todas as fontes de beleza, de criação; e as tentativas
de ser original, belo, criador, são de pouco proveito se não tivermos a compreensão e
a capacidade de alcançar a fonte das coisas. (…) (O Reino da Felicidade, pág. 28)

A única autoridade que reconheceis, o único comando que admitis, deve ser a Voz
dessa Intuição, que é inalterável, que coisa alguma no mundo pode abalar. Desse
modo desenvolvereis gradualmente esse senso de beleza, que é vossa própria criação
(…) (O Reino da Felicidade, pág. 39)

Deveis viver lá vossa própria vida, obedecer à vossa própria Voz, achar vosso próprio
Mestre (…) Não podeis ser felizes enquanto não fizerdes a felicidade de outros, e só
podeis tornar outros felizes, se houverdes entrado nesse Reino, se houverdes colhidos
os murmúrios daquela Voz que é Eterna (…) (O Reino da Felicidade, pág. 58-59)

E, como disse antes, deve vir um tempo, virá um tempo, em que aquela Voz, aquele
Tirano, vos dirá que renuncies a tudo e a sigais; e para esse tempo deveis estar
preparados. Deveis ter o vosso jardim bem sachado e cultivado, e as suas flores
prontas a serem colhidas. Então podereis dar da vossa devoção, da vossa inteligência,
com maior certeza, com maior conhecimento de que elas serão aproveitadas, porque
as exercitastes, porque as cultivastes, porque conheceis a capacidade delas; (…) (O
Reino da Felicidade, pág. 76)

Enquanto marchardes com visão clara, enquanto ouvirdes essa Voz que é universal e
a ela obedecerdes, não importa o que diga quem quer que seja no mundo; porque
estareis com a razão, quando estiverdes obedecendo ao Altíssimo. (…) (O Reino da
Felicidade, pág. 19)

Como o trovão é cheio de forças, ameaças e mistério, assim é a Voz da Verdade no


homem forte. Como a voz do trovão é projetada de montanha em montanha, e como
cada montanha a recebe e devolve a outra, assim é a voz dEle - o nosso Governador,
nosso Legislador, nosso Guia e nosso Amigo - no homem que está seguindo a
Verdade absoluta, a Verdade de sua própria criação. (O Reino da Felicidade, pág. 90)

Como, porém, posso ter essa visão intuitiva? O que devo fazer, ou não fazer, para ter
essa visão intuitiva instantânea, que não pertence ao tempo, (…) à memória, que não
possui nenhuma causa (…)? Portanto, como a mente tem essa visão intuitiva? (…)
Essa visão intuitiva torna-se possível se a sua mente estiver liberta do tempo. (A
Eliminação do Tempo Psicológico, pág. 77)

(…) Antes, a ação estava baseada no pensamento. Agora, quando existe visão
intuitiva, há somente ação. (…) Porque a visão intuitiva é racional, a ação é racional. A
ação se torna irracional quando atua a partir do pensamento. Portanto, a visão intuitiva
não usa o pensamento. (Idem, pág. 86)

Uma visão intuitiva parcial. Os cientistas, os pintores, os arquitetos, os médicos (…)


têm uma visão intuitiva parcial. Estamos falando, porém, de “X” e de “Y”, que estão
procurando a base; estão se tornando racionais, e estamos dizendo que a visão
intuitiva não possui tempo e, portanto, não possui pensamentos, e essa visão intuitiva
é ação. (…) (Idem, pág. 86)

É possível termos uma visão intuitiva total, o que representa o fim de “mim”, porque o
“mim” é o tempo? O “mim”, meu ego, minha resistência, minhas mágoas, tudo isso.
Esse “mim” pode acabar? É somente quando ele acaba que ocorre a visão intuitiva
total; foi isso que descobrimos. (A Eliminação do Tempo Psicológico, pág. 91)

Porque se você possui essa visão intuitiva, ela é uma paixão, e não apenas uma hábil
visão intuitiva; ela é uma paixão que não permitirá que fique parado; terá de se mover,
dar seja lá o que for. (…) Você possui a paixão dessa visão intuitiva; e essa paixão é
como um rio com um grande volume de água que transborda; ela tem de avançar da
mesma maneira. (Idem, pág. 105-106)

Não necessariamente. Poderíamos considerar que a visão intuitiva é um movimento


mais amplo do que o processo material que ocorre no cérebro e, conseqüentemente,
que o movimento mais amplo pode agir sobre o movimento mais restrito, mas o mais
restrito não pode agir sobre o mais amplo. (A Eliminação do Tempo Psicológico, pág.
139)

Sim, estamos dizendo a mesma coisa. (Idem, pág. 139) [N.Revisor: Este parágrafo
não acrescenta coisa alguma à obra. Sugiro eliminá-lo.]

Uma coisa acaba de surgir na minha mente. O amor não tem nenhuma causa. O ódio
tem uma causa. A visão não tem nenhuma causa. O processo material, como o
pensamento, tem uma causa. Certo? (Idem, pág. 143)

Uma vez que a visão intuitiva não possui causa, ela tem um efeito preciso sobre aquilo
que tem causa. (Idem, pág. 143)

É um lampejo, naturalmente, e esse lampejo altera todo o padrão, opera sobre ele;
usa o padrão, no sentido de que eu argumento, raciocino, uso a lógica, e tudo isso.
(…) (Idem, pág. 144)
O processo material está trabalhando na escuridão, no tempo, no conhecimento, na
ignorância. Quando, surge a visão intuitiva, ocorre a eliminação daquela escuridão.
Isso é tudo que estamos dizendo. A visão intuitiva elimina aquela escuridão (…)
Conseqüentemente, essa luz alterou, digo, ela pôs fim à ignorância. (A Eliminação do
Tempo Psicológico, pág. 147)

(…) Essa escuridão existe enquanto o “eu” (self) está ali; ele é o criador dessa
escuridão, mas a luz dissipa exatamente o centro da escuridão. Isso é tudo. (…)
(Idem, pág. 149)

O pensamento tem atuado na escuridão, criando sua própria escuridão e funcionando


nela; e a visão intuitiva é, como dissemos, como um lampejo que atravessa a
escuridão. Quando, então, essa visão intuitiva clareia a escuridão, o homem pode
atuar, ou funcionar racionalmente? (Idem, pág. 159)

Dissemos que, enquanto o centro estiver criando a escuridão, e o pensamento estiver


operando nela, haverá desordem e a sociedade será como é agora. Para nos
afastarmos disso, temos de ter a visão intuitiva. A visão intuitiva só pode ocorrer
quando há um lampejo, uma luz, uma luz repentina, que elimina não apenas a
escuridão como também o seu criador. (A Eliminação do Tempo Psicológico, pág. 162)

Não está ligada ao tempo. Dissemos que a visão intuitiva é a eliminação da escuridão,
que é o próprio centro do “eu” (self) (…) A visão intuitiva dissipa exatamente esse
centro. (A Eliminação do Tempo Psicológico, pág. 160)

Naquela base não há escuridão como escuridão, ou luz como luz. Naquela base não
há divisão. Nada tem origem na vontade, no tempo, ou no pensamento.

D.B. [N.Revisor: Essas iniciais não significam nada para os novos leitores. Precisamos
especificar que é o David Bohm]: Está dizendo que aquela luz e aquela escuridão não
estão divididos?

Krishnamurti: Exatamente.

D.B.: O que é a mesma coisa que dizer que não há nem uma nem outra coisa?

Krishnamurti: Nem uma nem outra; é isso mesmo. Há algo mais. Há uma percepção
de que existe um movimento diferente, que é “não-dualista” (A Eliminação do Tempo
Psicológico, pág. 171)
Quero me referir ao movimento, o movimento que não é tempo. Esse movimento não
cria divisão. Portanto, quero voltar, chegar à base. Se, nessa base, não há nem
escuridão nem luz, não há divisão - o que acontece então? (Idem, pág. 171)

Dissemos que o movimento é energia total. Essa visão intuitiva captou, viu, esse
extraordinário movimento, e ele é parte dessa energia. (Idem, pág. 179)
Progresso; Relativo na Alma, Não Ocorre no
Espírito
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 16:13

Pensamos que há progresso, evolução, que através do tempo alcançaremos um


resultado; (…) sendo esse resultado a união com a realidade. Falamos do progresso
evolutivo do homem, dizemos que, com o tempo, “viremos a ser” alguma coisa - se
não nesta vida, na vida futura. Isto é, (…) evolvemos para algo maior, mais belo, mais
digno, etc. (A Arte da Libertação, pág. 134)

Pois bem, existe a possibilidade de vos tornardes mais sábio, mais belo, mais virtuoso,
mais aproximado da realidade, pelo processo do tempo? É o que queremos dizer,
quando falamos de evolução. Existe, obviamente, uma evolução fisiológica, (…) mas
existe um desenvolvimento psicológico, evolução psicológica, ou se trata apenas de
uma fantasia de nossa mente? (…) (Idem, pág. 134)

Ora, para vos tornardes alguma coisa, precisais especializar-vos (…) - e tudo o que se
especializa, logo morre, declina, porque a especialização implica sempre falta de
adaptabilidade. (…) Isto é, o autoconhecimento é um processo de especialização? Se
é, então esse processo de especialização destrói o homem - e é isso o que está
acontecendo. (…) (Idem, pág. 134-135)

Pergunta: Qual a vossa idéia de evolução?

Krishnamurti: É óbvio (…) o simples tornando-se mais complexo será evolução? Ao


falardes em evolução não pensais apenas na evolução da forma. Pensais na sutil
evolução da consciência a que chamais o “eu”. (…) (Palestras em Ommen, Holanda,
1936, pág. 82)

Disto surge a pergunta: Haverá crescimento, uma continuidade futura? Pode o “eu”
tornar-se onicompreensivo, perdurável? (Idem, pág. 82)

Aquilo que é capaz de crescimento não é eterno. O que é perdurável está indo-a-ser.
Vós me perguntais se o “eu” evolui, se se torna glorioso, divino. (Idem, pág. 82)

(…) Com relação à continuidade, precisamos apreciar a idéia de que existe em nós
uma essência espiritual, a qual é contínua. (…) Tudo quanto é, em essência,
atemporal, eterno. Se assim é, então é evidente que o atemporal, o eterno, é algo que
transcende o nascer e o morrer. (…) (Uma Nova Maneira de Viver, pág. 135)
Ora, que é isso que chamamos continuidade? Que é que continua? De duas coisas,
uma: ou é uma entidade espiritual e, por conseguinte, fora do tempo, ou é,
simplesmente, a memória, dando continuidade a si mesma, por meio do resíduo da
experiência. (…) Isto é, se sou uma entidade espiritual, então sou atemporal; logo, não
há continuidade. Porque o que é espiritualidade, verdade, divindade, está fora do
tempo (…) (Da Insatisfação à Felicidade, pág. 61)

Se isso que eu sou é uma entidade espiritual, ela deve ser sem continuidade, não
pode progredir, não pode crescer, não pode vir-a-ser (…) Então, a vida e a morte são
uma coisa só, há então atemporalidade, eternidade. (…) (Idem, pág. 61)

(…) O que continua não tem renovação, não tem frescor, não tem novidade, porque
está apenas continuando o que foi ontem, numa forma modificada. (…) Não há
renovação por meio da memória, (…) da continuidade; só ocorre renovação quando há
um término (…) quando há morte, quando a idéia cessa. Então, todos os dias há
renovação. (…) (Da Insatisfação à Felicidade, pág. 63)

Evolução, no sentido de extensão da própria individualidade através do tempo, é uma


ilusão. O que é imperfeito, (…) ainda que multiplicado e aumentado, permanecerá
sempre imperfeito. (…) Ora, é vão aumentar ao enegésimo grau esta autoconsciência
que é separação; ela permanecerá separada porque tem as suas raízes na separação.
Portanto, a amplificação deste “eu sou”, que é separação, não pode conduzir ao
universal. (…) (Experiência e Conduta, em Carta de Notícias” de maio-junho de 1941,
pág. 3)

Pergunta: A evolução nos ajudará a encontrar Deus?

Krishnamurti: Não sei o que entendia por “evolução” nem (…) por “Deus”. Essa
questão me parece bastante importante (…) (Palestras na Austrália e Holanda, 1955,
pág. 132)

E o interrogante deseja saber se, através do tempo, se pode chegar ao conhecimento


daquilo que se acha além do tempo. (…) Somos escravos do tempo; nossa mente,
toda ela, só pensa em termos de ontem, de hoje ou de amanhã. (…) Existe alguma
coisa na mente que está fora do tempo - o espírito (…) O que é suscetível de
desenvolvimento, evolução, “vir-a-ser”, não é parte do eterno (…) (Idem, pág. 133)

Pergunta: Acreditais no progresso?


Krishnamurti: Há o movimento da chamada progressão do simples para o complexo.
Existe o processo de constante ajustamento ao ambiente, que promove
transformações ou mudanças, (…) “Progredimos”!:possuímos rádios, cinemas, rápidos
meios de transporte (…) Temos habitações maiores e mais confortáveis, mais luxo,
(…) entretenimentos (…) Pode considerar-se progresso, isso? É progresso a
expansão do desejo material? Ou reside o progresso na compaixão? (O Egoísmo e o
problema da Paz, pág. 140-141)

Existe progresso no campo da ciência mecânica, e a conquista do espaço. Entretanto,


não me refiro a essa espécie de progresso, porque o progresso na ciência mecânica
será sempre transitório (…) (Palestras em Adyar, Índia, 1933-1934, pág. 150-151)

Não pode haver preenchimento para o homem no progresso mecânico. (…) Quando
falamos de progresso, aplicado ao que chamamos crescimento individual, que
queremos dizer com isso? Queremos dizer a aquisição de mais conhecimento, de
maior virtude, que é preenchimento. (…) (Idem, pág. 151)

Vós adorais o sucesso. Vosso deus é o sucesso, que vos confere títulos, diplomas,
posição e autoridade. Há uma constante batalha dentro de vós mesmos - a luta por
alcançardes aquilo que desejais. Nunca tendes um momento tranqüilo, nunca existe
paz em vosso coração, porque estais sempre a esforçar-vos por vos tornardes alguma
coisa, por progredirdes. (Por que não te Satisfaz a Vida? pág. 50)

Não vos deixeis seduzir pela palavra “progresso”. As coisas mecânicas progridem,
mas o pensamento humano nunca pode progredir senão no seu próprio “vir-a-ser”.
Move-se o pensamento do conhecido para o conhecido; mas isso não é crescimento,
não é evolução, não é liberdade. (Idem, pág. 50)

(…) Não entendemos por evolver o constante vir-a-ser do indivíduo, do seu “ego”, que
acumula e rejeita, que é ávido e quer ser não ávido - o movimento interminável do vir-
a-ser? A natureza mesma do “ego” é de criar contradição. (O Egoísmo e o Problema
da Paz, pág. 100)

Entendemos também por progresso o constante expandir do desejo, do “ego” (…) Ora,
nesse processo de expansão, de vir-a-ser, podemos em algum tempo chegar ao fim
do conflito e da aflição? (…) Se é para a continuação das lutas e dos sofrimentos, que
valor tem o progresso, a evolução do desejo, a expansão do “ego”? (…) Mas, não é da
própria natureza do anseio criar e alimentar o conflito e o sofrimento? (O Egoísmo e o
Problema da Paz, pág. 141)
O “ego”, esse feixe de lembranças, é o resultado do passado, produto do tempo; e
esse “ego”, por mais que evolva, será capaz de conhecer o Atemporal? Pode o “eu”,
com o tornar-se maior e mais nobre, no correr do tempo, sentir o Real? (Idem, pág.
142)

Desejais “progresso” e felicidade ao mesmo tempo, e aí é que está a dificuldade. (…)


Desejais a expansão de vosso “ego”, mas sem o conflito, o sofrimento que
inevitavelmente a acompanham. Temos medo de nos ver assim como somos;
procuramos fugir da realidade e a essa fuga chamamos “progresso” ou busca da
felicidade. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 205-206)

Acreditamos que, se não “progredirmos”, nos deterioraremos; que nos tornaremos


indolentes, infensos ao pensar (…) Nossa educação e o mundo que criamos nos
ajudam a fugir; todavia, para sermos felizes, precisamos conhecer a causa do
sofrimento. Conhecer a causa do sofrimento, e transcendê-la, significa encará-la,
frente a frente, e não buscar refúgio em ideais ilusórios ou outras atividades do “ego”.
A causa do sofrimento é a expansão do “ego”. (…) (Idem, pág. 206)

Pergunta: Já dissestes que o esclarecimento jamais nos poderá vir pela expansão
pessoal; mas não vem ele com a expansão da consciência individual?

Krishnamurti: O esclarecimento, a compreensão do Real, não poderá vir, nunca, pela


expansão do “ego”, por um esforço realizado pelo “ego” no sentido de crescer, “vir-a-
ser”, alcançar algo - e esforço algum está separado da vontade, do “ego”. (O Egoísmo
e o Problema da Paz, pág. 199-200)

Precisamos conhecer (…) É claro que há desenvolvimento físico, a plantinha se


converte numa grande árvore; há o progresso técnico (…) Mas há progresso
psicológico, evolução psicológica? É disso que estamos tratando: se há um
desenvolvimento, uma evolução do “eu” (…) Pelo processo da evolução, através do
tempo, pode o “eu”, centro do mal, tornar-se nobre, bom? Não pode (…) (Claridade na
Ação, pág. 141-142)

Pensamos que, no processo do tempo, no crescer e transformar-se, o “eu” se tornará,


no fim, realidade. (…) Que é esse “eu”? É um nome, uma forma, um feixe de
lembranças, esperanças, frustrações, ânsias, dores, sofrimentos e alegrias
passageiras. Queremos que esse “eu” subsista e se torne perfeito (…) (Idem, pág.
142)
Se admitirmos a possibilidade e evolução e progresso psicológico, nesse caso temos
de admitir também o tempo. Mas o tempo é produto do pensamento. E o pensamento
(…) é sempre velho. Ele pode transformar-se, modificar-se, ser aumentado ou
diminuído, mas será sempre pensamento, reação da memória, pertence ao passado.
(…) Se não há tempo psicológico (como não há), estais então em contato com “o que
é” e não com o que “deveria ser”. (…) Repito, “o que deveria ser” é uma invenção,
uma fuga ao fato - “o que é” (…) (Palestras com Estudantes Americanos, pág. 144)

Essa idéia de crescer progressivamente é falsa, para mim, porque aquilo que cresce
não é eterno. Já se demonstrou alguma vez, que quanto mais tendes, mais entendeis?
(Palestras em Adyar, Índia, 1933-1934, pág. 32)

Um homem aumenta sua propriedade e nela se encerra; outro aumenta seu


conhecimento e por ele fica limitado. Qual a diferença? Esse processo de crescimento
acumulativo é superficial, falso desde o próprio começo, porque aquilo que é capaz de
crescer não é eterno. (Idem, pág. 32-33)

(…) Quando pensamos em termos de progresso, desenvolvimento, não estamos


pensando e sentindo dentro de padrão do tempo? Existe um vir-a-ser, um modificar e
alterar, no plano horizontal; esse vir-a-ser conhece a dor e a tristeza, mas conduzirá
ele à Realidade? Não; porque o vir-a- ser condiciona-nos ao tempo. (O Egoísmo e o
Problema da Paz, pág. 143)

Só há vir-a-ser e evolver no plano horizontal da existência, mas conduz isso ao


Atemporal? A potência criadora só pode ser conhecida depois de abandonado o plano
horizontal. (…) Por meio do tempo não se pode conhecer o Atemporal. (O Egoísmo e
o Problema da Paz, pág. 99)

Pensamos em termos de passado, presente e futuro (…) Pensamos e sentimos em


termos de acumulação (…) “Ser” não é totalmente diferente de “vir-a-ser”? Só
compreendendo o processo e a significação de “vir-a-ser”, podemos “ser”. (…) Quando
percebeis a imensidade do “ser”, há então silêncio (…) (Idem, pág. 142-143)

(…) Devemos pôr de lado todas essas coisas e chegar-nos ao problema central, que
é: Como dissolver o “eu”, que nos prende ao tempo, e no qual não existe nem amor
nem compaixão? Só é possível passarmos além, depois que a nossa mente não mais
se divida em pensador e pensamento, quando (…) pensador e pensamento são uma
só unidade, só então há silêncio, (…) não há fabricação de imagens, nem a
expectativa de “mais” experiência. Nesse silêncio não há nenhum experimentador
experimentando, e só então há uma revolução psicológica criadora. (Claridade na
Ação, pág. 145)

Uma vez cônscia de todo esse processo do “eu”, em sua atividade, que deve a mente
fazer? Só com a renovação, só com a revolução - não pela evolução, não com o “eu”
na atividade de vir-a-ser, mas sim pelo completo findar do eu”, há o novo. O processo
do tempo não pode trazer o novo; o tempo não é caminho da criação. (Quando o
Pensamento Cessa, pág. 220)

Assim (…) Dizeis: “eliminai, libertai a mente desta consciência de “mim mesmo”, como
um “eu”, e então o que é que permanece?” O que resta quando sois sumamente
felizes, criativos? O que permanece é essa felicidade. (…) Existe este admirável
sentimento de amor ou este êxtase. (…) (Palestras em Auckland, 1934, pág. 116)

(…) Digo-vos que não posso descrever (…) exprimir em palavras essa vivente
realidade que está além de toda idéia do progresso, de crescimento. (…) (Coletânea
de Palestras, 1930-1933, pág. 44)

Para mim, a verdade, essa integridade de que falo, acha-se em todas as coisas.
Portanto, a idéia de que necessitais progredir em direção à realidade é uma idéia
falsa. Não se pode progredir na direção de uma coisa que sempre está presente. Não
se trata de avançar para o exterior ou de voltar-se para o interior, mas sim de se
libertar dessa consciência que se percebe a si mesma como separada. (Coletânea de
Palestras, 1930-1935, pág. 18)

Quando houverdes realizado tal integridade, vereis que tal realidade não tem futuro
nem passado; e todos os problemas relacionados com tais coisas desaparecem
inteiramente. Uma vez que o homem realize isso, vem-lhe a tranqüilidade, não a da
estagnação, porém a da criação, a do ser eterno. Para mim, a realização desta
verdade é a finalidade do homem. (Idem, pág. 18)
Ordem, Desordem do Pensamento; Fatores,
Efeitos
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 16:50

O pensamento é necessário em certas áreas, mas o pensamento psicológico sempre


traz desordem. Quando o pensamento psicológico está ausente, a mente por si
mesma está em ordem. (The World of Peace, pág. 90)

O pensamento criou a desordem através do conflito entre o que “é” e “o que deveria
ser”, o real e o teórico. O pensamento olha para a forma real, de um limitado ponto de
vista e, portanto, sua ação deve inevitavelmente criar desordem. Você encara isso
como uma verdade, uma lei - ou apenas como uma idéia? Entende? Sou ambicioso,
ávido - isso é “o que é”. Mas o oposto - “o que deveria ser” - tem sido criado pelo ser
humano na tentativa de entender “o que é”, e também como um meio de escapar ao
“que é”. Mas só há “o que é”. E quando você percebe “o que é” sem o seu oposto,
então essa percepção traz a ordem. (Idem, pág. 90)

Pergunta: O cérebro tenta criar ordem. É isso um processo dualístico ou não-


dualístico?

Krishnamurti: Vou explicar-lhe. As células do cérebro exigem ordem. Do contrário, não


podem funcionar. Não há dualidade nisso. Durante o dia, há desordem porque o
centro está alerta, o centro é a causa da fragmentação; a fragmentação é conhecida
somente por meio de fragmentos; não é consciente da totalidade dos fragmentos e,
por isso, não há ordem; conseqüentemente vive em desordem. É a desordem. (…)
(Exploration into Insight, pág. 123)

Krishnamurti: As células do cérebro precisam de ordem; sem isso, se tornam


neuróticas, destrutivas. Isso é um fato. As células do cérebro estão sempre exigindo
ordem, e o centro está sempre criando fragmentação. Essa ordem é negada quando
há um centro, porque o centro está sempre produzindo destruição, conflito e tudo o
mais, que é a negação da segurança, (…) da ordem. Não há dualidade. Esse
processo continua. O cérebro dizer: “devo ter ordem”, não é dualidade. (Idem, pág.
123)

Pergunta: Espere, você não está respondendo à minha pergunta. (…) Estou
perguntando, como é que você fica consciente dessa desordem. Se é o centro que
está consciente da desordem, então é ainda desordem. (Exploration Into Insight, pág.
124)
Krishnamurti: Você percebe que, quando o centro está consciente de que isso é
desordem, então ele cria a dualidade de ordem e desordem. Desse modo, como você
observa a desordem, sem ou com o centro? Se é uma observação com o centro, há
divisão. Se não há observação do centro, então há somente desordem. (Idem, pág.
124)

(…) Onde há o centro, há desordem. A desordem é o centro. Como fica você


consciente? Está o centro consciente da desordem ou há somente desordem? Se não
há centro para estar consciente da desordem, há completa ordem. Então os
fragmentos chegam a um fim, obviamente, porque não há centro que esteja
produzindo os fragmentos. (Exploration into Insight, pág. 125)

Alguém vem e diz: Olhe, através de milênios o homem tem evoluído pelo
conhecimento e hoje você certamente é diferente dos grandes macacos. E diz: Olhe,
enquanto você está registrando, está vivendo uma vida fragmentária, porque o
conhecimento é fragmentário e o que quer que você faça a partir desse estado
fragmentário do cérebro, é incompleto. Portanto há dor, sofrimento. (Idéia, pág. 153)

Quando isso está claro, qual é, então, a causa da desordem? Esta tem muitas causas:
o desejo de realização pessoal, a ansiedade de não realizar-se, a vida contraditória
que se vive, dizendo uma coisa e fazendo algo por completo diferente (…) Porém,
poderia o indivíduo inquirir dentro de si mesmo e descobrir se existe uma causa
fundamental. (…) A raiz, a causa original, é o “eu”, o “meu”, o “ego”, a personalidade
gerada pelo pensamento, pela memória, pelas múltiplas experiências, (…) palavras,
(…) sentimento de separação e isolamento; essa é a causa original da desordem. O
“eu” é produzido pelo pensamento (…) (La Llama de la Atención, pág. 129)

Interlocutor: O fato de ver essa desordem, já implica que o observador, o indivíduo, se


tenha afastado da desordem.

Krishnamurti: Há três coisas abrangidas nisto: a ordem, o afastar-se e a observação


da desordem. Afastar-se da desordem, o mesmo ato de afastar-se dela, é ordem. (…)
Como se observa a desordem em si mesmo? Se olha a desordem (…) como a um
estranho, como algo separado da ordem e, por conseguinte, há uma divisão: você e a
coisa que está observando? (La Verdad y la Realidad, pág. 82)

Krishnamurti: De modo que o afastar-se disso é estar totalmente envolvido no que se


observa. E quando eu observo essa desordem, quando a observo sem todas as
reações, recordações, as coisas que afloram à mente, então, nessa observação total,
há ordem, essa mesma observação total é ordem. (…) (Idem, pág. 85)
Que é o espaço? Pode haver espaço sem ordem? Quando há desordem em uma
habitação, há espaço? Quando um indivíduo arroja suas roupas em qualquer lugar e
tudo se acha em desordem, há espaço? O espaço só existe quando tudo está no lugar
que lhe corresponde. Isso externamente. Vejamos agora internamente. Nossas
mentes se acham tão confusas, toda nossa vida é contradição, desordem, estamos
aprisionados em diversos hábitos: drogas, fumo, bebida, sexo, etc. Obviamente, os
hábitos são mecânicos, e onde há hábitos há desordem. Internamente, que é a
ordem? É algo ditado pelo pensamento? O pensamento mesmo é um movimento de
desordem. (La Totalidad de la Vida, pág. 196)

Assim, (…) nossa vida é toda de desordem, tanto exterior como interiormente. Vemo-
nos em conflito, em contradição, exterior e interiormente. E a ordem não é possível
quando há conflito, ódio, inveja, avidez, competição, idéias brutais a respeito dos
“outros”. E nós necessitamos de ordem, numa escala infinita. (…) (A Suprema
Realização, pág. 176)

Só se pode criar a ordem negativamente. Isto é, a ordem não pode ser criada pela
imitação ou pelo ajustamento. Vivendo, como estais, à beira do abismo, tendes de
achar a solução correta. (…) (Idem, pág. 176)

(…) A ordem deve começar dentro de nós mesmos, para depois manifestar-se
exteriormente. Não se pode promover a ordem exteriormente, como o fazem os
políticos e os reformadores do mundo inteiro. Só pode haver ordem quando
interiormente impera a ordem. Então, toda ação, todo movimento da vida é conforme a
ordem, correta, racional. Assim, para encontrarmos a ordem, devemos proceder
negativamente. (…) (Idem, pág. 177)

A verdadeira ordem traz consigo um espaço imenso; espaço significa silêncio; desse
silêncio surge este extraordinário sentido do vazio. Não se assustem com essa palavra
“vazio”; quando existe esse vazio, então certas coisas podem ocorrer. (La Totalidad de
la Vida, pág. 197)

(…) A menos que a ordem seja estabelecida no mundo da realidade, não existem
bases para uma ulterior investigação. É possível conduzir-se ordenadamente no
mundo da realidade, não de acordo com um padrão estabelecido pelo pensamento - o
qual continua em desordem? (…) A ordem implica grande virtude; a virtude é a
essência da ordem, não o seguir um esquema de ordem, o qual se torna mecânico.
(…) (La Verdad y la Realidad, pág. 202)
(…) Quem é, então, que vai produzir ordem neste mundo da realidade? O homem tem
dito: “Deus trará a ordem. Crê em Deus.” Porém essa ordem se converte em algo
mecânico, porque nosso desejo é o de estar seguros, encontrar a forma mais fácil de
viver. (…) (Idem, pág. 202)

Agora investigaremos (…) Pode o indivíduo observar esta desordem em que vive - que
é conflito, contradição, desejos opostos, dor, sofrimento, medo, prazer, etc. - pode
observar toda essa estrutura da desordem sem o pensamento? (…) Porque se houver
qualquer movimento do pensar (…) este vai criar mais desordem (…) (Idem, pág. 203)

Vamos ver se o pensamento, como tempo, pode cessar. (…) Esta é a essência
mesma da meditação. Compreendem? (…) Só então há ordem e, portanto, virtude.
Não a virtude cultivada, que requer tempo e, por conseguinte, não é virtude (…) Isto
significa que devemos inquirir (…) o que é a liberdade. (…) Se o tempo cessa, isso
significa que o homem é profundamente livre. (…) Quando a liberdade não está atada
ao pensamento, então é absoluta. (…) (Idem, pág. 203-204)

Quando negamos - não a sociedade, mas interiormente em nós mesmos - quando


negamos o medo, a ambição, a avidez, a inveja, a busca de prazer e de prestígio -
tudo isso gera desordem interior - então, na negação total dessa desordem, surge uma
ordem, que é beleza, e não a que resulta de pressões ou comportamentos ambientais.
Essa ordem é absolutamente necessária e vereis que ela é retidão. (O Mundo Somos
Nós, pág. 90)

(…) A ordem não pode ser criada pelo pensamento, através do tempo, num processo
gradual. A virtude não é uma coisa cultivável, não é um hábito. Tal virtude é produto
do tempo, (…) do pensamento e, por conseguinte, não é virtude. (…) Mas, quando se
compreende a natureza do pensamento e do tempo, surge daí a virtude com sua
disciplina própria. Porque disciplina é ordem, mas não a disciplina de imitação, de
ajustamento, de obediência. (…) (A Essência da Maturidade, pág. 94)

Há uma espécie de disciplina quando fazemos uma coisa pelo gosto de fazê-la. Mas a
disciplina que é mero ajustamento a um padrão, nobre ou ignóbil, não é a verdadeira
disciplina, pois só gera desordem, caos. Mas, para compreender a ordem, que é
virtude, precisa-se compreender a natureza do pensar. E a compreensão do pensar
exige disciplina. Observar qualquer coisa bem de perto, observar, prestar atenção (…)
- esse observar, que só dura um instante, exige enorme disciplina, porque, do
contrário, sois incapaz de olhar. (Idem, pág. 94)
Estamos vendo, pois, que a ordem interior, a ordem na mente, em nosso ser, nunca
pode ser produto do pensamento. O pensamento pode criar hábitos, ajustamento,
obediência, e isso, é bem de ver, só leva a uma desordem maior (…) É necessário
compreender todo esse processo do pensamento: como pensamos, por que
pensamos, observando-o simplesmente. Se a ele dispensais atenção, não apenas
intelectual ou emocionalmente, porém totalmente, nessa atenção total há imediata
compreensão e, por conseguinte, ação imediata. E quando se compreende a natureza
do pensamento, começa-se a descobrir o que é o amor. (…) (A Essência da
Maturidade, pág. 94-95)

Já considerastes alguma vez (…) por que razão quase todos nós somos um tanto
negligentes (…) no vestir, nas maneiras, no pensar, no modo de fazermos as coisas?
Por que somos impontuais e (…) desatenciosos para com os outros? E que é que põe
ordem em todas as coisas, ordem no vestir, no pensar, no falar, na maneira de andar,
(…) de tratarmos os que são menos afortunados do que nós? Que é que produz essa
ordem singular, que não resulta de compulsão, de plano nenhum, de nenhuma
atividade mental deliberada? Já considerastes isso? (A Cultura e o Problema Humano,
pág. 60)

Sabeis o que entendo por “ordem”? É estar sentado e quieto, sem constrangimento,
comer com elegância, sem sofreguidão, ser calmo, descansado, mas ao mesmo
tempo exato, claro no pensar e, ainda, sem limitações. Que é que produz essa ordem
na vida? (Idem, pág. 60)

A ordem, por certo, só desponta com a virtude; porque, se não sois virtuoso, não
apenas nas pequenas, mas em todas as coisas, vossa vida se torna caótica (…) Ser
virtuoso, por si só, tem muito pouca significação; mas, quando sois virtuoso, há
precisão no vosso pensamento, ordem em todo o vosso viver, e essa é a função da
virtude. (Idem, pág. 60)

Mas, que acontece quando um homem se esforça para se tornar virtuoso, (…)
bondoso, eficiente, atencioso, (…) consome suas energias tentando estabelecer a
ordem (…)? (…) Seus esforços só o levam à respeitabilidade, causadora da
mediocridade mental; esse homem, por conseguinte, não é virtuoso. Já olhastes
atentamente para uma flor? Como é admiravelmente simétrica (…); há nela, também,
singular delicadeza, perfume, encanto. (…) Nosso problema, pois, é sermos precisos,
claros e sem limitações. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 60-61)

Vede, o esforço para ser ordeiro, cuidadoso, tem forte influência limitante. (…) Torno-
me “insuportável” para mim próprio e para os outros. (…) Essa pessoa poderá ser
muito ordeira, muito clara, poderá empregar as palavras com precisão, ser muito
atenta e atenciosa, mas perdeu a criadora alegria de viver. (Idem, pág. 61)

Ordem, apuro, clareza no pensar, não são em si muito importantes, mas tornam-se
importantes para o homem que é sensível, que sente profundamente, que se acha
num estado de perpétua revolução interior. Se sentis intensamente a sorte do infeliz,
do mendigo (…), se sois altamente receptivo, sensível a todas as coisas, então essa
própria sensibilidade traz ordem, virtude; (…) (Idem, pág. 62)

A ordem não é hábito; o hábito torna-se automático e perde toda a sua vitalidade,
quando (…) em estado mecânico. (…) Tem-se observado as pessoas que são muito
ordenadas; elas possuem certa rigidez, não são flexíveis, carecem de vitalidade; têm-
se tornado mais duras, excêntricas, porque seguem um padrão particular que, na
opinião delas, é ordem. E isso se converte gradualmente em um estado neurótico (…)
(El Despertar de la Inteligencia, II, pág. 103)

De maneira que controle não é ordem. Nunca se pode ter ordem por meio de controle,
porque ordem significa funcionar claramente, ver de modo total, sem distorção alguma;
porém onde há conflito deve haver distorção. O controle também implica repressão,
conformidade, ajuste e divisão entre o observador e o observado. (…) (Idem, pág. 106)
Fragmentação da Consciência; Desvios, Neuroses
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 16:52

Vivemos em fragmentos. Há o fragmento chamado “vida espiritual”, o fragmento que é


o intelecto, o fragmento que são as emoções, o fragmento que são os sentidos físicos.
Acha-se, pois, a mente fracionada em vários fragmentos, cada um deles encerrado
num compartimento estanque e muito escassamente em relação com os outros. Por
isso, existe entre eles um perene conflito, o qual procuramos evitar mediante fuga. (…)
(O Descobrimento do Amor, pág. 12)

(…) No escritório somos uma coisa, em casa somos outra coisa; falais de democracia
e, no íntimo, sois autocrata; falais em amor ao próximo e, ao mesmo tempo, o estais
matando na competição; uma parte de vós está ativa, a olhar independentemente da
outra. Estais cônscios dessa existência fragmentária em vós mesmos? E será possível
ao cérebro (…) tomar-se cônscio do campo inteiro? É possível olharmos o todo da
consciência, completa e totalmente, o que significa sermos entes humanos totais?
(Liberte-se do Passado, pág. 27)

A palavra “indivíduo” significa “indivisível”, não fragmentado. “Individualidade” significa


uma totalidade, o todo, e a palavra “todo” significa “são”, “puro”. Mas, vós não sois um
indivíduo, porque não estais são, porque estais dividido, fragmentado, interiormente;
estais em contradição com vós mesmo, partido, e, por conseguinte, não sois de modo
algum um indivíduo. Assim, em vista dessa fragmentação, como se pode exigir que
um fragmento assuma a autoridade sobre os demais fragmentos? (Fora da Violência,
pág. 11)

O homem é um ser fragmentário. Por que é que há tal divisão? Um fragmento se acha
tremendamente ativo, o outro não funciona em absoluto. Um fragmento é vulgar,
burguês, mesquinho. Quando se une esses dois fragmentos para se tornarem uma
energia harmônica, (…) não dividida? (Tradición y Revolución, pág. 53)

Quando cessa o fragmento de ser um fragmento? (…) O movimento de definir, do


chegar a ser, é sempre (…) fragmentado. Existe um movimento que não pertença a
essas categorias? Veja o que ocorre se não houver movimento algum. (Idem, pág. 54)

A principal dificuldade é esta, que o homem vive fragmentado, não só em seu interior,
mas também exteriormente: ele é cientista, médico, soldado, sacerdote, teólogo,
especialista desta ou daquela matéria. Interiormente, sua vida está fragmentada,
fracionada; sua mente, seu intelecto, é sutil e sagaz; por vezes, ele é brutal, agressivo,
enquanto outras vezes pode mostrar-se bondoso, manso, afetuoso; esforça-se por ser
um ente moral, embora a moralidade social seja de todo imoral, e seus inúmeros
desejos antagônicos são a causa dessa fragmentação existente por dentro e por fora,
dessa contradição interior e exterior. (Palestras com Estudantes Americanos, pág. 77)

A maioria das pessoas funciona apenas com um fragmento, uma parte muito pequena
do cérebro. Por isso, sua visão de vida é fragmentária. Somente uma parte do seu
cérebro está operando ativamente em suas vidas, de forma que o cérebro não está
funcionando totalmente. Portanto, você pode descobrir se o cérebro pode operar de
uma forma total, completa. (…) (The World of Peace, pág. 50)

(…) O conteúdo da consciência é a consciência. Quando não há conteúdo não há


consciência. Nesse conteúdo existem tremendos fatores de conflito, de fragmentação.
Um fragmento assume a autoridade, um fragmento não se identifica a si mesmo com
os outros fragmentos. Ele se sente inseguro; há tão vastos conflitos, aí! Ele não se
identifica com nenhum fragmento; só o faz quando diz: “isto me agrada, isto não me
agrada”. (Tradición y Revolución, pág. 149-150)

É onde quero chegar, vejo que estou fragmentado: digo uma coisa e faço outra, penso
uma coisa e contradigo o que penso. E vejo claramente que não devo fazer disso um
problema. (The Future is Now, pág. 113)

(…) Se eu faço disso um problema, dizendo a mim mesmo que não devo ser
fragmentado, essa declaração surge da fragmentação. Alguma coisa surgida da
fragmentação é outra forma de fragmentação. Mas o meu cérebro é treinado para criar
problemas. Portanto, tenho de estar atento ao ciclo completo. Então o que devo fazer?
(Idem, pág. 113-114)

(…) Não se ponha nessa posição; você chegou a uma conclusão; portanto, conclusão
é outra fragmentação. Eu faço esta pergunta: Há uma maneira de viver não
fragmentária, na qual esteja envolvida a qualidade da mente religiosa, profunda
bondade, sem nenhuma dualidade? (Idem, pág. 114)

Como pode a mente, que inclui o cérebro, ver uma coisa totalmente? (…) Nós vemos
as coisas fragmentariamente, não é verdade? Trabalho, família, comunidade,
indivíduos, minha opinião, vossa opinião, meu Deus, vosso Deus - tudo vemos em
fragmentos. (…) Se vejo a vida em fragmentos, porque minha mente está
condicionada, é claro que não posso ver a totalidade (…) Se me separo, por causa de
minha ambição, de meus preconceitos pessoais, não posso ver o todo. (…) (A
Questão do Impossível, pág. 122)
Apresenta-se, assim, a questão: Como pode a mente, tão enredada que está nesse
hábito de ver e agir fragmentariamente, ver o todo? Claro que não pode. Se estou todo
interessado em meu próprio preenchimento, na realização de minha ambição, no
competir e no meu desejo de sucesso, não posso ver a humanidade no seu todo. (…)
Enquanto a mente continuar a operar nesse campo da fragmentação, é óbvio, não
poderá ver o todo. (…) (Idem, pág. 122)

Assim, para observar realmente o que é, ver o seu inteiro significado, a mente deve
estar nova, clara, não dividida. E isso leva-nos a outro problema: Como olhar sem a
divisão em “eu” e “não eu”, “nós” e “eles”. (Fora da Violência, pág. 93)

Como dissemos, (…) Como é que escutais e observais outra pessoa, (…) a vós
mesmo? A chave dessa observação se encontra em ver as coisas sem divisão. (…)
Nossa existência está toda fragmentada. Em nós mesmos estamos divididos, em
contradição. Vivemos fragmentariamente.(…) (Idem, pág. 93)

Um fragmento, dentre os múltiplos fragmentos, julga-se capacitado para observar.


Embora tenha assumido a autoridade, ele continua sendo um fragmento entre os
demais fragmentos. E esse fragmento olha e diz: “Eu compreendo; sei qual é a ação
correta”. (Fora da Violência, pág. 93)

Senhor, (…) Agora prosseguiremos: como posso eu, que vivo em fragmentos, muitos
fragmentos (…) “isto é bom, aquilo é mal”, “isto é sagrado, aquilo não é”, “a
tecnologia”, tudo isso carece realmente de importância, porém ir a um templo é
infinitamente importante; como se pode viver sem fragmentação? (El Despertar de la
Inteligencia, II, pág. 81)

(…) O interlocutor diz “Mediante a integração”, (…) integrando todos os fragmentos?


(…) E quem é a entidade que vai reunir todos os pedaços? O Atman superior, o
Cosmos, (…) Jesus Cristo, Krishna? Tudo isso é fragmentação (…) (Idem, pág. 82)

Pergunta: Você vê, sinto-me de todo sem saída nesta situação. O fato é que há
conflito, e a atuação do “eu” leva a maior conflito. Vendo a natureza disso, pode a
mente compreender que está totalmente em conflito? (Exploration into Insight, pág. 61)

Krishnamurti: Pode a mente estar consciente de um estado no qual não há conflito? É


isso o que você está tentando dizer? Ou só a mente pode conhecer o conflito? Certo?
Está a sua mente de todo consciente do conflito, ou isso é apenas uma palavra? Ou
há uma parte da mente que diz “estou consciente de que me acho totalmente em
conflito, e há uma parte de mim observando o conflito.” Ou há uma parte da mente
desejando estar livre do conflito, de que forma, e há um fragmento que diz “não estou
em conflito” e que se separa da totalidade do conflito?

Se há um fragmento separado, então esse fragmento diz: “Devo fazer, suprimir, ir


além. Então esta é uma pergunta legítima. Está a sua mente de todo consciente de
que nada há senão conflito ou há um fragmento que se sobressai e diz: “Estou
consciente de que me acho em conflito, mas não total?”Portanto, o conflito é de um
fragmento ou é total”? Há escuridão total ou uma leve luz em algum lugar? (Idem, pág.
61)

Se se divide em fragmentos a consciência, um dos fragmentos indaga: “Que são os


outros fragmentos?”. Mas, se só há um movimento total, não existe fragmentação e,
por conseguinte, não se faz tal pergunta. (…) Percebeis a consciência como um todo,
ou a vedes como um fragmento a examinar os outros fragmentos? Vós a vedes
parcialmente, ou a vedes em sua inteireza, como um movimento total (…)? Que é
então esse movimento? Como observá-lo? (A Questão do Impossível, pág. 152)

No presente não somos sensíveis; há imagens neste campo que são sensíveis
quando nossa particular personalidade, (…) idiossincrasias, (…) prazeres são negados
e então há uma luta. Somos sensíveis em fragmentos, em marcas, mas não somos
sensíveis completamente. Portanto, a pergunta é: Como pode o fragmento, que é
parte do todo, que está se tomando estúpido cada dia repetidamente, como pode essa
parte tornar-se também sensível da mesma forma que é o todo? (…) (The Awakening
of Intelligence, pág. 190-191)

Como dissemos, o pensamento criou o “eu”, e então, por ser o pensamento


fragmentário em si mesmo, converte o “eu” em um fragmento. Quando se diz “eu”,
“meu”, eu quero, eu não quero, eu sou isto, eu não sou aquilo, isso é o resultado do
pensamento. E como o pensamento mesmo é fragmentário - nunca é a totalidade - o
que ele cria também se torna fragmentário. “Meu mundo”, “minha religião”, “minha
crença”, “meu país” (…) esse é o modo como isso se torna fragmentário. (La Verdad y
la Realidad, pág. 73)

Compreendo. Olho, posso ver parte de meu condicionamento; ver que estou
condicionado como comunista ou muçulmano, mas há outras partes. Posso investigar
conscientemente os vários fragmentos que compõem o “eu”, o conteúdo de minha
consciência? Posso conscientemente olhá-lo? (The Future is Now, pág. 390)

Se a consciência se constitui de meus desesperos, minhas ansiedades, temores,


prazeres, (…) esperanças, “sentimentos de culpa”, e da vasta experiência do passado,
então, nenhuma ação dela emanada poderá, em tempo algum, libertar a consciência
de suas limitações. (A Questão do Impossível, pág. 165)

(…) Se se quer investigar profundamente a estrutura e natureza da consciência, quem


fará a investigação? Um fragmento, dentre os muitos fragmentos? Ou existe uma
entidade, um agente transcendental capaz de observar a consciência? Pode a mente
consciente, aquela que funciona todos os dias, observar o conteúdo das camadas
inconscientes ou mais profundas? E quais são as fronteiras, os limites da consciência?
(A Questão do Impossível, pág. 149)

Pergunta: Você diz que esse centro é tempo-espaço, também parece postular a
possibilidade de ir além do campo do tempo-espaço. O espaço é aquilo que opera. Ele
não é capaz de ir mais longe. Se pudesse, o tempo-espaço deixaria de ser conteúdo
da consciência.

Krishnamurti: Vamos começar de novo. O conteúdo da consciência é consciência. Isso


é irrefutável. O centro é o criador de fragmentos. O centro torna-se consciente dos
fragmentos quando os fragmentos são notados ou entram em ação; do contrário, o
centro não fica consciente dos outros fragmentos. O centro é o observador dos
fragmentos. Não se identifica com os fragmentos.

Por isso, há sempre o observador e o observado, o pensador e a experiência. O centro


é o criador de fragmentos e tenta reuni-los e ir além. Um dos fragmentos diz “dorme” e
o outro fragmento diz “fique atento”. No estado de manter-se atento, há desordem. As
células do cérebro, durante o sono, tentam estabelecer ordem, porque não podem
funcionar efetivamente em desordem. (Exploration into Insight, pág. 122)

Uma insatisfação de tal natureza não nos torna neuróticos nem produz desequilíbrio.
Existe desequilíbrio somente quando a insatisfação se transfere a algo, ou fica presa
em perturbação de uma ou outra classe; então há distorção, há todo gênero de lutas
internas. (La Totalidade de la Vida, pág. 178)

Eu me pergunto (…) como há de cessar o pensamento sem que esse processo de


terminar se perverta, dispare para algum estado imaginativo, tendendo para
desequilibrado, indefinido e neurótico? Como pode esse pensamento, que deve
funcionar com grande energia e vitalidade, estar ao mesmo tempo completamente
quieto? (El Despertar de la Inteligencia, II, pág. 172)

Estamo-nos perguntando - vós e eu - se existe alguma maneira inteiramente nova de


proceder, sem conflito, nem contradição. Onde há contradição, há esforço, e onde há
esforço há conflito - que é resistência ou aceitação. Resistência é abrigar-nos atrás de
idéias; aceitação é imitação.

Estamos sempre contra a corrente; (…) Podemos mover-nos, viver, ser, funcionar de
maneira tal que não tenhamos de lutar contra nenhuma corrente? Quanto mais conflito
existe, tanto mais tensão. Da tensão resultam neuroses e psicoses de toda espécie.
(Encontro com o Eterno, pág. 74)

(…) Somos, assim, levados a perguntar: Temos possibilidade de libertar-nos desse


medo, não apenas do medo e da dependência superficiais, existentes nas relações,
mas do medo profundamente radicado em nós? (…) Porque, se um homem teme, faz
as coisas mais irracionais que se podem imaginar. Com medo, um homem está como
que desequilibrado, num estado de neurose e, portanto, incapacitado de pensar com
clareza, de observar com exatidão. (O Novo Ente Humano, pág. 157)

Vós não sabeis quando sois neurótico? Alguém precisa dizer-vos que sois? (…)
Sempre que há “exageração” de qualquer fragmento, há neurose. Se sois
superiormente intelectual, isso é uma forma de neurose, embora os indivíduos
intelectuais sejam tidos em elevada conta. Estar apegado a certa crença (…) é uma
forma de neurose. (…) Qualquer espécie de medo é uma forma de neurose, todo
ajustamento é uma forma de neurose e qualquer comparação de vós mesmo com
outra pessoa é de fundo neurótico. (A Questão do Impossível, pág. 153-154)

Logo, sois neurótico! (…) Deste nosso exame alguma coisa já aprendemos: toda
“exageração” de qualquer fragmento da consciência (pois a vemos toda fragmentada),
todo empenho em realçar um dado fragmento, é uma forma de neurose. (…) (Idem,
pág. 154)

Nós, como agora somos, dividimos a consciência, e nessa divisão há muitas


fragmentações, muitas subdivisões - de ordem intelectual, emocional, etc; e atribuir
importância a dado fragmento é neurose. Isso significa que, exagerando a importância
de dado fragmento, a mente se torna incapaz de ver com clareza. (A Questão do
Impossível, pág. 154)

(…) Essa fragmentação - se nela se dá realce a um fragmento, a seus interesses,


seus problemas, desprezando-se os demais fragmentos - leva não só ao conflito, mas
também a grande confusão, porque cada fragmento quer manifestar-se, salientar-se,
e, se damos importância a um só, os outros começam a protestar, a clamar. Esse
clamor é confusão; e, dessa confusão, provêm impulsos neuróticos, desejos de
preenchimento, de “vir-a-ser' , “realizar-se”. (Idem, pág. 154)
Sim. A neurose é apenas um sintoma, a causa pode achar-se no inconsciente. É claro
que assim pode ser, e provavelmente é. (A Questão do Impossível, pág. 154)

O que devemos fazer? Como saber, num mundo que é de certa forma neurótico, no
qual os amigos e parentes são ligeiramente desequilibrados (…)? Não se pode
recorrer a ninguém; portanto, o que acontece na mente de uma pessoa, agora que ela
não depende mais de outras pessoas, de livros, de psicólogos, de autoridades?
(Perguntas e Respostas, pág. 33)

(…) A neurose é resultado da dependência. A gente depende da esposa, do médico;


(…) de Deus ou dos psicólogos. Estabelecemos uma série de dependências (…),
esperando que nessas dependências estaremos seguros. E quando descobrimos que
não podemos depender de ninguém, o que acontece? Produz-se em nós uma
tremenda revolução psicológica, que, geralmente, não queremos enfrentar. (…)
(Perguntas e Respostas, pág. 33)

Pergunta: Que é loucura?

Krishnamurti: (…) A maioria de nós somos neuróticos, não? Em geral, somos


ligeiramente desequilibrados, temos idéias (…), crenças peculiares. Certa vez,
conversávamos com um católico fervoroso, e ele disse: “Vocês, hindus, são o povo
mais supersticioso, fanático, neurótico; crêem em tantas coisas anormais”! (…) (Fora
da Violência, pág. 126)

(…) Esse homem estava completamente inconsciente de sua própria anormalidade,


suas próprias crenças, suas estúpidas idéias. Assim, quem é equilibrado? É, fora de
dúvida, o homem sem medo, (…) íntegro. O que é inteiro está são, e é sagrado; mas
nós não o somos, somos entes humanos fragmentados e, por conseguinte,
desequilibrados. (…) (Idem, pág. 125-126)

Mas veja que o próprio estado de dependência de outrem pode ser a causa de uma
neurose psicológica profunda. Quando se quebra esse padrão, o que acontece? A
pessoa sara! Precisamos estar sãos para descobrir o que é a verdade. A dependência
veio da infância (…) Não depender de nada, significa que estamos sozinhos, inteiros,
íntegros - isso é saúde, (…) que produz racionalidade, clareza, integridade. (Perguntas
e Respostas, pág. 33-34)

(…) Significa uma mente em que não há divisão de espécie alguma; uma mente total,
portanto, sã. Só o indivíduo neurótico é obrigado a controlar-se; e, quando chega ao
ponto de estabelecer o controle total de si próprio, está completamente neurótico,
impossibilitado de mover-se livremente. (Fora da Violência, pág. 96)
Visão Global, Holística, da Consciência, da Vida
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 17:00

Nossas vidas acham-se fragmentadas, divididas, jamais somos algo total; nunca
temos uma observação holística. Observamos sempre de um ponto de vista particular.
Estamos tão divididos internamente, que nossas vidas são em si mesmas
contraditórias e, portanto, existe um constante conflito. Nunca olhamos a vida como
uma totalidade completa e indivisível. (La Llama de la Atención, pág. 69)

A observação holística é uma percepção sã, cordata, racional, lógica e total - total
(whole) implica sagrada (holy). É possível para um ser humano como qualquer de nós,
que é um leigo, não é um especialista, é possível para ele olhar a contraditória e
confusa consciência, olhá-la como uma totalidade? Ou deve olhar cada parte dela
separadamente? (…) (La Llama de la Atención, pág. 107)

Observar holisticamente é observar ou prestar atenção a todo o conteúdo de algo.


Normalmente, olhamos as coisas de maneira parcial, conforme nosso prazer ou nosso
condicionamento, ou segundo algum ponto de vista ideal; sempre olhamos as coisas
fragmentariamente. O político está (…) comprometido com a política, o economista, o
cientista, o homem de negócios, cada um tem seu próprio compromisso, geralmente
ao longo de toda a vida.

Parece que jamais encaramos o movimento total da vida. Assim (…) podemos encarar
a vida holisticamente, como um movimento total desde o princípio até o fim, sem
fragmentação nem desvio nem ilusão alguma. É importante compreender como a
mente cria ilusões de auto-importância e todos os múltiplos tipos de ilusão (…)
Olhamos algo com uma idéia ou crença preconcebida, de maneira que nunca o vemos
realmente, como um fato. (La Totalidad de la Vida, pág. 208)

A ordem implica harmonia na vida diária. A harmonia não é uma idéia. Nós nos
achamos encerrados na prisão das idéias, e nisso não há harmonia. A harmonia e a
claridade implicam ver as coisas holisticamente, observar a vida como um movimento
unitário total - não “Eu sou um homem de negócio no escritório e uma pessoa diferente
em minha casa;” não “Eu sou um artista e por isso posso fazer as coisas mais
excêntricas e absurdas”; não esse despedaçar ou fragmentar a vida em múltiplas
categorias, a elite e a não elite, (…) o intelectual e o romântico, o que constitui nosso
normal modo de viver.

Vejam o importante, que é encarar a vida como movimento total, no qual tudo está
incluído, (…) não há divisões como o bem e o mal, o céu e o inferno. Vejam
holisticamente, (…) observem o amigo, a esposa ou o esposo, numa visão total. (La
Totalidad de la Vida, pág. 209)

E, como dissemos, vemos tudo fragmentariamente e somos treinados desde a infância


para olhar, observar, aprender, viver em fragmentos. E há a vasta expansão da mente
que nunca tocamos ou conhecemos; essa mente é extensa, imensurável, mas nunca a
sentimos, não conhecemos sua qualidade, porque nunca olhamos para as coisas
completamente, com a totalidade de nossa mente, .(…) coração, nervos, olhos,
ouvidos. Para nós, o conceito é extraordinariamente importante, não os atos de ver ou
fazer. (The Awakening of Intelligence, pág. 188)

É possível ver-se a totalidade da vida, a qual semelha um rio, a rolar infinitamente,


sem descanso, cheio de beleza, impelido pelo enorme volume de suas águas? Pode-
se ver totalmente essa vida? Pois só vendo totalmente uma coisa, a compreendemos;
mas não podemos vê-la totalmente, completamente, se há alguma atividade
egocêntrica a guiar, a moldar a nossa ação e os nossos pensamentos. É a imagem
egocêntrica que se identifica com a família, com a nação, conclusões ideológicas, com
partidos - políticos ou religiosos. É esse centro que, dizendo-se em busca de Deus, da
Verdade, impede a compreensão do todo da vida. E compreender esse centro, tal
como realmente é, requer uma mente que não esteja repleta de conceitos e
conclusões. (…) (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 26)

Pode-se viver uma vida que seja total, não fragmentada? - uma vida em que o
pensamento não se fragmente como família, escritório, igreja, isto ou aquilo? Uma vida
em que a morte tenha sido tão separada que, quando chega, estamos espantados
com ela, incapazes de enfrentá-la, porque não temos uma vida total. (La Totalidad de
la Vida, pág. 190)

O conhecimento é o “eu”, e quer o coloquemos no mais alto, quer no mais ínfimo nível,
ele é sempre “eu” - experiência acumulada (…) O “eu” é incapaz de perceber a
totalidade dessa coisa extraordinária que chamamos de “vida”, e por essa razão é que
fragmentamos o mundo (…) (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 101)

Para pordes fim (…), deveis olhar todo o campo da existência; não apenas uma parte
dele, sua totalidade. Em nosso estado atual, somos incapazes de observar o campo
inteiro - o todo - porque dividimos a vida em vida de negócios, vida de família, vida
religiosa, etc; e, como cada uma dessas frações tem sua própria energia ativa, cada
fragmento está oposto aos outros fragmentos e, assim, essas energias fragmentárias
estão dissipando nossa energia total. (O Novo Ente Humano, pág. 75)
Pode-se olhar o campo inteiro (…) Para percebê-lo totalmente, necessitamos de uma
mente não fragmentada. Como consegui-la? Como pode a mente fragmentada sacudir
todos os fragmentos, para ter uma percepção total? (…) Não posso vê-lo, porque o
intelecto é um fragmento e não posso servir-me de um fragmento para compreender o
todo. Deve haver uma diferente espécie de percepção e essa espécie de percepção
só existe quando o observador está ausente, sem nenhuma imagem, (…) (Idem, pág.
75)

(…) Essas imagens são produzidas pelo observador (…) Assim, ao verdes a verdade
de que há conflito sempre que há observador - e o observador é o produtor de
imagens, é tradição, é a entidade condicionada, é o censor - ao verdes essa verdade,
estareis então observando sem observador e vendo a totalidade da existência. Tem a
mente, então, uma energia tremenda, porque sua energia não está sendo dissipada.
(…) (Idem, pág. 75)

Podemos falar acerca da totalidade da vida? Pode-se perceber essa totalidade, se a


mente se acha fragmentada? Você não pode dar-se conta do total, se só está olhando
através de uma pequena abertura. (La Totalidad de la Vida, pág. 9)

Interlocutor: Como sei que estou fragmentado?

Krishnamurti: Quando os desejos opostos, os anelos, os pensamentos opostos


produzem conflito. Então a pessoa sofre, se torna consciente de sua fragmentação.
(Idem, pág. 9)

Interlocutor: (…) Porém nesses momentos ocorre com freqüência que o indivíduo não
quer desprender-se do conflito.

Krishnamurti: Esse é um assunto diferente. O que nos perguntamos é: Pode o


fragmento dissolver-se? Porque só então é possível ver o total. (Idem, pág. 9)

Veja, senhor. Pode você dar-se conta de seu fragmento? Dar-se conta de que você é
um norte-americano, (…) eu sou um hindu, um judeu, um comunista (…) - de que o
indivíduo vive somente nesse estado? (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 10)

Pode então dar-se conta realmente dos diversos fragmentos? De que eu sou um
hindu, (…) um judeu, um árabe, (…) um comunista, um católico, um homem de
negócios (…); de que eu sou um artista, (…) um cientista - entende? Toda essa
fragmentação sociológica. (Idem, pág. 10)
Podemos, pois, (…) dar-nos conta de que um indivíduo é isso? Eu sou um fragmento
e, portanto, estou criando mais fragmentos, mais conflito, (…) infelicidade, confusão,
sofrimento; porque, quando há sofrimento, este afeta tudo. (Idem, pág. 10-11)

Este é realmente um grande descobrimento, se compreendemos a verdade de que o


indivíduo é o passado, o presente e o futuro - o que é tempo como movimento
psicológico. (…) Observar holisticamente o movimento total da existência é viver tanto
a vida como a morte. Porém a pessoa se aferra à vida e foge da morte; (…) (La Llama
de la Atención, pág. 71-72)

Pode a mente observar seu conteúdo sem nenhuma escolha quanto a esse conteúdo -
não escolhendo nenhuma parte do conteúdo, (…) o conjunto, mas observando
totalmente? Ora, como é possível observar totalmente? Quando o olho para o mapa
da França, vindo da Inglaterra e cruzando o Canal, vejo a estrada que conduz a
Gstaad. Posso citar as milhas percorridas, (…) ver a direção, e isso é muito simples,
porque está marcado no mapa e eu sigo. Ao fazê-lo, não olho nenhuma outra parte do
mapa, porque conheço a direção na qual desejo ir, e, por isso, essa direção exclui
todas as outras. Da mesma forma, uma mente que está se orientando numa direção,
não vê o todo. (Talks in Saanen, 1974-1975, pág. 14)

Se quero encontrar algo, (…) que penso ser real, então a direção é determinada e eu
sigo naquela direção, e minha mente se torna incapaz de ver a totalidade. Pois bem,
quando eu olho o conteúdo de minha consciência - que é o mesmo da de vocês -
estabeleço uma direção além da qual devo ir. Um movimento numa particular direção,
atendendo a certo prazer, não desejando isto ou aquilo, torna o indivíduo incapaz de
ver o todo. Se sou um cientista, só vejo numa única direção. Se um artista, da mesma
forma, se tenho certo talento ou dote natural, olho igualmente só uma direção. (…)
(Idem, pág. 14)

Assim, a mente se torna incapaz de ver o todo e a imensidade da totalidade, se houver


um movimento numa particular direção. Portanto, pode a mente não ter direção
alguma? Esta é uma pergunta difícil - escutem-na. Evidentemente, a mente tem de ter
direção quando vou daqui para casa, (…) tenho de dirigir um carro, (…) de exercer
uma função técnica - tudo isso são direções. (Idem, pág. 14)

Mas estou falando de uma mente que entende a natureza da direção e assim é capaz
de ver globalmente. Quando ela vê o todo, pode então operar numa direção.
Compreenderam? Se tenho todo o quadro da mente, posso tê-lo nos detalhes; mas,
se minha mente apenas funciona nos detalhes, então não posso dimensioná-la no
todo. Se estou envolvido em minhas opiniões, (…) ansiedades, no que desejo fazer,
(…) no que devo fazer, não posso ver o todo, obviamente. (Idem, pág. 14-15)

Se venho da Índia com meus preconceitos, superstições e tradições, não posso ver
totalmente. Dessa forma, minha pergunta é: Pode a mente estar livre de direção ? - o
que não significa que esteja sem direção. Quando ela opera totalmente, a direção se
torna clara, muito forte e efetiva. Mas quando a mente só opera num sentido, de
acordo com um padrão por ela estabelecido, então não pode ver o todo. (Talks in
Saanen, 1974-1975, pág. 15)

Há o conteúdo de minha consciência - o conteúdo constitui minha consciência. Ora,


posso olhá-la como um todo ? - sem nenhuma direção (…) julgamento (…) escolha,
apenas olhá-la, o que implica em nenhum observador, pois esse observador é o
passado - pode ele olhar com aquela inteligência que não é formada pelo pensamento,
já que o pensamento é passado? Faça-o! Isso requer tremenda disciplina, não a
disciplina de supressão, controle, imitação ou conformidade, mas uma disciplina que é
um ato no qual a verdade é vista. A operação da verdade cria sua própria ação, que é
disciplina. (Idem, pág. 15)

Pode sua mente olhar seu conteúdo quando você fala com alguém através dos seus
gestos, da maneira como anda (…) senta e come, de seu comportamento? O
comportamento indica o conteúdo de sua consciência - se você está indo de acordo
com o prazer, com a recompensa ou a dor, que são partes de sua consciência. (…)
(Talks in Saanen, 1974-1975, pág. 15)

O comportamento expõe o conteúdo de sua consciência. Você pode esconder-se atrás


de um comportamento polido, cuidadosamente mantido, mas esse comportamento é
simplesmente mecânico. Daí surge outra pergunta: é a mente inteiramente mecânica -
ou há uma parte de cérebro que não é de forma alguma mecânica? (Idem, pág. 15)

Continuemos (…) considerando a natureza e estrutura da consciência. (…) Se não


compreendermos o conteúdo da consciência (e a possibilidade de o ultrapassarmos),
toda ação(…) produzirá necessariamente confusão. Releva, pois, compreender bem
claramente a natureza fragmentária de nossa consciência - o dar-se demasiada
atenção a um fragmento, como o intelecto, uma crença, o corpo, etc. (…) (A Questão
do Impossível, pág. 164-165)

Esses fragmentos que compõem a nossa consciência - de onde emana toda ação -
produzirão inevitavelmente contradição e aflição. (…) Não tem sentido dizermos para
nós mesmos que todos esses fragmentos devem ser reunidos ou “integrados”, porque
então aparece o problema relativo a quem tem a possibilidade de integrá-los (…)
Assim, deve haver uma maneira de olhar todo esse conjunto de fragmentos com uma
mente não fragmentária. (A Questão do Impossível, pág. 165)

Percebo que minha mente - que também compreende o cérebro e todas as reações
nervosas e psicológicas - percebo que a totalidade dessa consciência está
fragmentada, fracionada, pela cultura em que vivemos, (…) criada pelas gerações
passadas e continuada pela atual. E toda ação, ou o predomínio de um fragmento
sobre os outros, levará inevitavelmente a uma enorme confusão. (Idem, pág. 165)

Assim, pergunta-se: “Há uma ação que não seja fragmentária e não possa contradizer
outra ação que irá verificar-se daqui a um minuto?”. Vemos que o pensamento
desempenha um papel muito importante nessa consciência. O pensamento não só é a
reação do passado, mas também a reação de todo o nosso sentir. Todas as nossas
reações nervosas, esperanças, temores, prazeres, sofrimentos, estão nele contidos.
(…) (A Questão do Impossível, pág. 165)

Esta é uma questão muito séria (…) Temos de devotar nossa energia e paixão, e
nossa vida, a compreendê-la (…) Quando se vê a vida como um todo, não há mais
problema algum. Só a mente e o coração que se acham fragmentados criam
problemas. O centro do fragmento é o “eu”. O “eu” é criado pelo pensamento (…) O
“eu” - “minha” casa, “minha” desilusão, “meu” desejo de tornar-se importante - esse
“eu” é produto do pensamento, que divide. (…) (A Questão do Impossível, pág. 44)

Assim, pergunta-se: Pode a mente, o cérebro, o coração, o ser inteiro, observar sem o
“eu”? O “eu” vem do passado; não existe “eu” do presente. O presente não pertence
ao tempo. Pode a mente libertar-se do “eu”, para olhar toda a vastidão da vida? Pode,
sim, e de maneira completa, total, quando se compreendeu fundamentalmente, com
todo o ser, a natureza do pensar. (…) Se não fordes capaz de observar sem o “eu”, os
problemas continuarão existentes - cada problema em oposição a outro. (Idem, pág.
44)

(…) Não se trata de que os múltiplos fragmentos cheguem a integrar-se em nossa


consciência humana (…) Porém, é possível olhar a vida como uma totalidade? Olhar o
sofrimento, o prazer, a dor, a ansiedade, a solidão, o ir ao escritório, o ter uma casa, o
sexo, o ter filhos - olhar tudo, não como se fossem atividades separadas, senão como
um movimento holístico, como uma ação unitária? (La Llama de la Atención, pág. 69)

É isso possível (…)? Ou estamos obrigados a viver eternamente na fragmentação (…)


no conflito? É possível observar a fragmentação e a identificação com esses
fragmentos? Observar, não corrigir, não transcender, não escapar disso nem reprimi-
lo, senão observar. Não é um problema (…), porque se vocês tentam fazer algo a
respeito, então atuam a partir de um fragmento, estão cultivando mais fragmentos e
divisões. (…) (Idem, pág. 69)

(…) Ao passo que se pode observar holisticamente, observar todo o movimento da


vida como um movimento único, então não só chega ao fim o conflito, com sua energia
destrutiva, senão que dessa observação surge uma maneira totalmente nova de
encarar a vida. (…) E, dando-se conta, pergunta-se então como se há de reunir tudo
isto para formar uma totalidade? E quem é a entidade, o “eu” que há de reunir todas
essas diversas partes e integrá-las? Essa entidade não é por acaso também um
fragmento? (…) (La Llama de la Atención, pág. 70)

(…) O que estamos procurando fazer é juntar esses fragmentos de contradição, para
com eles constituir uma totalidade, algo de inteiriço. Compreendeis? Vemos que nossa
vida está dividida em fragmentos e, portanto, tratamos de integrar esses fragmentos,
de juntá-los num todo! Ora, isso é impossível. Porque um fragmento será sempre um
fragmento, ainda que lhe sejam acrescentados outros fragmentos. O estado de não
contradição só é possível quando a mente funciona como um todo. (A Suprema
Realização, pág. 201)

(…) Se examinardes essa palavra (integração) e descobrirdes todo o seu conteúdo,


sereis forçados a perguntar a vós mesmos quem é a entidade capaz de realizar a
integração. Por certo, a própria entidade que irá integrar os múltiplos fragmentos faz
parte deles e, portanto, não poderá efetuar sua integração.

Vendo-se isso claramente, ou seja, as parcelas de desejo, nesta nossa vida tão
dividida e fragmentada, jamais poderão ser unidas, integradas, porque a própria
entidade, o (…) observador que está tentando ajuntá-las, faz parte da fragmentação -
(…) torna-se óbvio que deve haver um diverso modo de proceder, e ele consiste em
ver a contradição, os fragmentos, as exigências e desejos contrários, observá-los,
para ver se há possibilidade de ultrapassá-los, de transcendê-los. É esse transcender
que constitui a revolução radical. (Palestras com os Estudantes Americanos, pág. 77)

Assim, já que estamos fragmentados, divididos, em contradição, existe um conflito


entre os numerosos fragmentos. Como pode essa fragmentação tornar-se um todo?
Sabemos que, para vivermos uma vida harmoniosa, ordeira, sã, essa fragmentação,
essa separação entre “vós” e “mim” deve acabar. (Fora da Violência, pág. 93-94)
Muito facilmente somos persuadidos a fugir, porque não sabemos como essa
fragmentação pode tornar-se um todo. Não dizemos integrar-se, porque integração
supõe “alguém” que faz a integração: um fragmento que junta todos os outros
fragmentos! (Fora da Violência, pág. 94)

Tentamos muitos meios e modos, no desejo de acabarmos com a fragmentação. Uma


das maneiras mais em voga é encarregarmos um analista de fazer esse trabalho para
nós; ou, também, analisarmos a nós mesmos. (…) Nunca indagamos quem é o
analista. Obviamente, ele é um daqueles numerosos fragmentos, e quer analisar sua
própria estrutura integral. Mas o próprio analista, sendo um fragmento, está
condicionado. (…) (Idem, pág. 94)

Um dos nossos condicionamentos é essa idéia de que devemos analisar-nos, olhar-


nos introspectivamente. Nessa análise, há sempre o “censor”, a entidade que controla,
guia, molda; há sempre conflito entre o analista e a coisa analisada. (…) Se vos servis
do conhecimento, da associação e acumulação, da análise, como meio de vos
compreenderdes, cessastes de aprender sobre vós. O aprender requer liberdade para
podermos observar “sem o censor” (Fora da Violência, pág. 94-95)

Vede, (…) havendo análise, há o analista e a coisa analisada - um fragmento assume


a autoridade e analisa a outra parte. E, nessa divisão, surgem o consciente e o
inconsciente. É então que perguntamos: Pode a mente consciente examinar o
inconsciente? - e isso implica que a mente consciente se separa do resto (…) Partimos
portanto, da falsa suposição de que a mente superficial é separada da “outra”. (…) (A
Questão do Impossível, pág. 153)

Enfrentar a vida é enfrentá-la como um todo, e não fragmentariamente; e isso só


podeis fazer quando conheceis a vós mesmo. É porque não conheceis o inteiro
processo de vós mesmo que dividis a vida em fragmentos e, dessa maneira,
perpetuais o conflito e o sofrimento. Não se pode construir um todo harmonioso
juntando fragmentos, mas com o autoconhecimento alcança-se uma plenitude, um
senso da totalidade. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 165)

A questão não é como integrar os diversos fragmentos, senão como é possível viver
sem fragmentação. (Tradición y Revolución, pág. 116)

Que relação tem tudo isso com o amor? Qual é a relação que há entre mim, você e o
artista? Penso que o amor é o núcleo essencial da relação. O amor tem sido rebaixado
ao sexo e toda a moralidade que o rodeia. Se não houver amor, a fragmentação
haverá de continuar. (Idem, pág. 123)
Processos Psicológicos
Enviado por ick em sab, 16/08/2008 - 17:13

• Mente, Pensar, Preliminares; Investigação, Dúvida, Crítica


ƒ Consciência, Cérebro, Elementos, Relações, Estágios
ƒ Vida, Movimento, Processo; Contato, Renovação, Riqueza
ƒ Mecanismo do “Eu”; Anseio, Ilusão, Temor, Auto-sustentação
ƒ Pensador, Observador e Pensamento, Coisa Observada
ƒ Fator Tempo, Mecanismo; Cronológico, Psicológico
ƒ Cessação do Tempo; Presente Atemporal, Eterno
ƒ Vir-a-ser, Não-vir-a-ser; Ser, Não-ser; Automistificação
ƒ “O que é”, “Não é”, “Deveria ser”; Fato Real, Ideal
ƒ Processo de Pensar; Memória, Pensamento, Desejo
ƒ Dualidade, Opostos do Pensar-Sentir, Contradição
ƒ Mecanismo do Conflito; Idéia, Atrito, Transcendência
ƒ Correto Pensar; Atenção, Suspensão (pensar), Quietude
ƒ Liberdade, Espaço, Silêncio (Psique-Mente-Coração)
ƒ Vazio Mental, Sentido; Criação Atemporal, Beleza
ƒ Percepção Livre, Simples, Clara, Instantânea, Direta
ƒ Mecanismo do Desejo: Percepção, Contato, Sensação, etc.
ƒ Processo da Insuficiência, Carência; Ânsia, Ilusão
ƒ Iluminação, Rendição do “Eu”, Plenitude Criadora
ƒ Fases do Padrão, Hábito; Esforço e Espontaneidade
ƒ Forma Positiva, Negativa, de Pensar; Negação Global
Mente, Pensar, Preliminares; Investigação, Dúvida,
Crítica
Enviado por ick em seg, 18/08/2008 - 12:12

Qual é a origem do pensar? Esta é uma questão sobremodo complexa (…) No


momento em que se descobre realmente a origem do pensar, o pensamento recebe o
lugar que lhe compete e não transbordará para outra esfera, outra dimensão, onde
não há lugar para ele. Só nessa dimensão pode operar-se a transformação radical; só
nela pode nascer uma coisa nova, não produzida pelo pensamento. (Encontro com o
Eterno, pág. 85)

Que é pensar? (…) Quando há “desafio” e “reação”, se a reação é imediata, não há


“processo de pensar”. Se vos perguntam vosso nome, respondeis prontamente (…)
Mas se vos fazem uma pergunta mais complicada, precisais de tempo para responder;
há um intervalo de tempo entre o desafio e a reação. Nesse intervalo, a mente fica em
busca de uma resposta, a pesquisar, a indagar, a esperar, a questionar. Esse intervalo
é o que chamamos pensar. (A Suprema Realização, pág. 46)

E esse pensar depende de vossa raça, (…) família, do conhecimento, da memória,


das marcas do tempo, de vossas experiências, (…) dores e sofrimentos, das
inumeráveis pressões e agonias da vida, ou seja, de vosso background. De acordo
com ele, “reagis” ou respondeis. Por conseguinte, a reação ao desafio é sempre
inadequada. (…) E essa insuficiência da reação gera contradição. (Idem, pág. 46)

Por conseguinte, temos de compreender, não só o mecanismo do pensar, mas


também esse depósito de conhecimentos acumulados, com os quais “respondemos” a
um desafio, que é sempre novo. Sempre respondemos ao novo com o “velho”: com a
tradição hinduísta, se somos hinduístas; (…) com nossos conhecimentos, se somos
cientistas, etc. Essa resposta nunca é total, porém sempre fragmentária; por
conseguinte, apresenta-se uma contradição, um conflito, uma dor ou um prazer (…)
Tal é o ciclo de nossa vida. (Idem, pág. 47)

O pensamento é condicionado. A mente, que é o depósito de experiências,


lembranças, das quais se origina o pensamento, é, ela própria, condicionada; e todo
movimento da mente (…) produz resultados peculiares e limitados (…) (Diálogos sobre
a Vida, pág. 59)

Ora, todo pensar é mecânico, porquanto todo pensar constitui uma reação de nosso
background de experiência (…) de memória. E, sendo mecânico, o pensar nunca pode
ser livre. Poderá ser razoável, sensato, lógico, conforme o seu background, sua
educação, seu condicionamento; (…) (O Passo Decisivo, pág. 174)

Quando não me conheço a mim mesmo, e não sei que fazer ou que pensar,
naturalmente estou envolvido no torvelinho da confusão. Mas quando me conheço a
mim mesmo (…) então, dessa compreensão, nasce a claridade, resulta a conduta
correta. A compreensão de si mesmo traz amor(…) ordem. (…) (A Arte da Libertação,
pág. 78)

Pergunta: Que entende o senhor por vulgar?

Krishnamurti: Ser como o resto dos homens; com as mesmas aflições, a mesma
corrupção, violência, brutalidade, indiferença, insensibilidade. Querer uma colocação,
apegar-se a ela, quer sejamos competentes, quer não, morrer no emprego.

Eis o que se chama “ser vulgar” - nada ter de novo, original, nenhuma alegria na vida;
não ter curiosidade, não ser “intenso”, apaixonado, não procurar esclarecer-se, mas
meramente conformar-se. É isso que entendo por “ser vulgar”, “ser burguês”. Uma
maneira mecânica de viver, uma rotina, tédio. (Ensinar e Aprender, pág. 14)

Estivemos considerando (…) A mente vulgar, estreita, superficial, está sempre a


buscar mais e mais experiências. Por “mente vulgar” entendo aquela que está sempre
e só interessada em si própria, em suas atividades egocêntricas, a mente pouco
profunda.

Essa mente vulgar pode ser muito engenhosa, erudita, possuir uma grande
capacidade técnica e analítica, entretanto permanece vulgar, superficial, desprezível,
quer dizer, essencialmente “burguesa”. (…) Essa mente - a mente da maneira de nós -
com sua pesada carga de condicionamento, é um tanto limitada, achando-se bem
firmada na tradição, na experiência, no ajustamento às diárias exigências de sua vida
(…) (A Essência da Maturidade, pág. 99)

O aprender não aproximará de vós a Verdade. E só a mente que se acha numa


jornada de descobrimento constante, (…) que não está acumulando, que está morta
para tudo o que ontem acumulou, e está, portanto, nova, purificada, livre - só essa
mente é capaz de descobrir o verdadeiro e promover uma revolução neste mundo. Só
ela é capaz de amor e compaixão (…) (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 58)
Para descobrir, a mente deve estar livre; de outro modo, é incapaz de descobrir. Se
vossa mente é medrosa, se é ávida, ambiciosa, fútil, assustada, isolada (…), como
pode ela ser livre para investigar? (…) (Uma Nova Maneira de Agir, pág. 84-85)

Em primeiro lugar, como dissemos, toda investigação exige paixão. Pode-se investigar
acidentalmente ou por curiosidade ou, ainda, investigar com um motivo. Se investigais
com um motivo, ou por curiosidade, ou acidental e passageiramente, jamais tereis a
paixão necessária para indagar e prosseguir indagando até o fim. E, para terdes
paixão, necessitais de energia. Como temos dito, o prazer e o entusiasmo não
significam paixão. A paixão implica uma energia constante, persistente, não limitada
ao campo de vossa mente insignificante. (…) (Viagem por um Mar Desconhecido, pág.
134)

Ora, como investigar a verdade relativa a qualquer coisa? Por certo, um dos fatores
essenciais em qualquer espécie de investigação, de indagação, é não pressupor nem
postular coisa alguma, não pensar partindo de uma conclusão (…) O pensamento que
parte de uma idéia preestabelecida não é pensar, porém simples repetição. (O Homem
Livre, pág. 75)

Pois bem. (…) o investigar, o compreender, o descobrir exigem, obviamente, liberdade


- não liberdade no fim, porém (…) no começo. Sem liberdade, não se pode olhar,
investigar, (…) caminhar para o desconhecido. (…) Essa esfera não podeis alcançar
com vossos conhecimentos, (…) preconceitos, ansiedades e temores, porque (…)
farão cessar toda investigação verdadeira. (…) (O Descobrimento do Amor, pág. 165)

Se, investigando esta questão, a estais investigando como cristão, budista, (…) vos
vereis completamente confusos. E se, para essa investigação, trouxerdes o resíduo de
vossas numerosas experiências, o conhecimento adquirido dos livros e de outras
pessoas, também assim não só ficareis desapontados, mas também algo confuso. (…)
(Experimente um Novo Caminho, pág. 88)

Vejamos (…) se nossa mente está entregue a dada experiência, (…) conclusão ou
crença, que nos está tornando obstinados, inflexíveis, no sentido profundo. (…) Lemos
o Gita, a Bíblia, o Upanishads, (…) o qual deu certa tendência à nossa mente, (…) a
que ela ficou amarrada. Uma mente em tais condições é capaz de investigar? (…) (Da
solidão à Plenitude Humana, pág. 26-27)

Certamente, até os maiores cientistas têm de abandonar todo o seu saber, antes de
poderem descobrir qualquer coisa nova (…) O homem sério, sem dúvida, é aquele que
é capaz de abandonar as suas conclusões, porque percebe que só assim estará
capacitado para investigar. (Idem, pág. 27)

Só pela investigação se pode descobrir, e para investigar necessita-se de liberdade. A


maioria de nós perdeu - ou nunca possuiu - a energia necessária ao investigar.
Preferimos aceitar, continuar pelo velho caminho (…) No laboratório, o cientista
investiga. Pesquisa, observa, indaga, duvida; mas, fora do laboratório, é um homem
como os outros - nada investiga! E sua auto-investigação requer não só liberdade,
mas também uma extraordinária capacidade de percepção. (A Suprema Realização,
pág. 13)

E o investigar requer a compreensão da natureza e do significado do medo, por que a


mente que (…) sente medo é obviamente incapaz do rápido movimento exigido pelo
investigar (…) Não é livre o espírito que está sob o peso da tradição e da autoridade.
Terá de transcender a civilização e a cultura, porque só então será capaz de investigar
e descobrir a verdade; (…) (Idem, pág. 14)

Antes (…) seja-me permitido salientar (…) que o importante é cada um descobrir a
verdade por si mesmo. Isto é, vós e eu vamos investigar a verdade contida em cada
problema, descobri-la por nós mesmos, experimentá-la por nós mesmos; do contrário,
ficaremos apenas no nível verbal (…) Se pudermos experimentar a verdade de cada
questão, (…) talvez o problema se resolva completamente (…) (Viver sem Confusão,
pág. 37)

Investiguemos (…) Ora, por certo, se desejais compreender o problema, tendes de


estudá-lo de maneira nova, num estado de espírito aplicado a investigar e não a crer,
num estado em que a mente diga: “Não sei, mas desejo investigar” (…) (Palestras na
Austrália e Holanda, 1955, pág. 116)

O investigar requer mente equilibrada, sã, que não se deixe persuadir por opiniões,
próprias ou alheias e, portanto, seja capaz de ver as coisas com toda clareza, em cada
minuto de seu movimento. (…) (A Suprema Realização, pág. 14)

Quando a mente leva a carga de uma conclusão, formulação, acabou-se a


investigação. E é essencial investigar, não apenas como fazem certos especialistas,
mas, sim, investigar em si mesmo e conhecer a totalidade do próprio ser, o
funcionamento da própria mente, tanto no nível consciente como no inconsciente, em
todas as atividades da vida diária (…) (O Homem Livre, pág. 154)
(…) Se a mente não estiver cônscia de sua própria totalidade, não como deveria ser,
mas como realmente é; a menos que perceba suas conclusões, seus pressupostos,
seus ideais, seu conformismo, não há possibilidade de surgir o novo impulso criador
da Realidade. (Idem, pág. 154)

Como disse, acho sobremodo importante ser sério. (…) Investigar o real até o fim e
descobrir a essência das coisas, isso, afinal, é seriedade. Gostamos de discutir, de
argumentar, de estar em contato com idéias, mas parece-me que as idéias não nos
levam a parte alguma, porquanto são muito mais superficiais, meros símbolos (…) (O
Passo Decisivo, pág. 137)

(…) É árdua tarefa abandonar ou seguir idéias e, ao mesmo tempo, nos mantermos
em contato com o que é, o estado real de nossa mente, nosso coração; e, para mim,
penetrar aí muito profundamente, completamente, isso é que constitui seriedade. Por
esse processo de “ir até o fim” verifica-se o descobrimento da essência (…), a
experiência da totalidade; e tem então os nossos problemas significado todo diferente.
(Idem, pág. 137)

Há três degraus de percepção, em qualquer problema humano: primeiro, a percepção


de causa e efeito do problema; segundo, a percepção do seu processo dualista ou
contraditório; terceiro, a percepção do “ego” e a percepção do pensante e seu
pensamento como um só todo. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 93)

Não sei se já observastes por vós mesmos as três fases sugeridas, ao tentardes
resolver um problema psicológico. Os mais de nós podemos estar cônscios da causa e
do efeito (…), de seu conflito dualista (…) a última (…) que o pensador e o
pensamento são um só (…) Referi-me a três estados ou fases apenas por
conveniência de linguagem: elas se confundem (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz,
pág. 144-145)

Estais, pois, percebendo que, para termos paixão, precisamos de energia; e essa
energia deve ser inteiramente livre e não devemos pervertê-la. A mente torturada pelo
conflito não é, de certo, uma mente livre; sua energia está sendo sempre deformada,
pervertida, condicionada, reprimida. E, em tais condições, como pode a mente
investigar? Qualquer investigação exige muita vitalidade, vigor, energia. E
desperdiçamos toda a energia em conflito: o conflito da dualidade; o bom e o mau, isto
é certo e aquilo é errado (…) Tendes, pois, (…) de compreender essa dualidade (…)
(Viagem Por um Mar Desconhecido, pág. 135)
Estamos acompanhando um ao outro? Não estamos tentando convencê-lo de coisa
alguma; pelo contrário, você deve ter dúvida, ceticismo. Deve questionar, não apenas
o que o orador está dizendo, mas sua própria vida (…) suas crenças. Se você começa
a duvidar, isso dá certa clareza. Não lhe dá um grande sentimento de auto-
importância. A dúvida é necessária em sua indagação sobre o problema total da
existência. Torna são, claro, e com tal cérebro pesquisa. (The World of Peace, pág.
16)

(…) Para o entendimento, o primeiro requisito é a dúvida; dúvida não somente com
relação ao que digo, mas, primordialmente, com relação às idéias a que vós próprios
vos apegais. Porém, haveis feito da dúvida um (…) mal que se deve banir, afastar (…)
(Palestra em Adyar, Índia, 1933-1934, pág. 154)

(…) Porém, se, em lugar de buscardes um substituto, realmente começardes a inquirir


sobre a própria coisa a que está presa a vossa mente - medo, maldade, aquisitividade
- então descobrireis a causa. E somente descobri-la, duvidando continuamente,
interrogando por meio de uma atitude mental crítica e inteligente, (…) mas que tem
sido destruída pela sociedade, pela educação, pelas religiões (…) (Palestras em
Adyar, Índia, 1933-1934, pág. 155)

Ora, ser capaz de criticar, (…) de inquirir, é o primeiro e essencial requisito para todo
homem que pensa, para que ele comece a descobrir o que é falso e o que é
verdadeiro (…), e desse pensamento surge, assim, a ação e não a mera aceitação
(Palestra em Auckland, 1934, pág. 8)

Inquirir é justo, porém fomos acostumados a não perguntar, a não criticar; fomos
cuidadosamente adestrados a nos opor. Por exemplo, se eu vos disser coisa que vos
desgoste, começareis, naturalmente, a vos opor, porque a oposição é mais fácil do
que averiguar se o que estou dizendo tem algum valor. (Idem, pág. 8)

(…) Isto é, se algo do que estou dizendo não vos agrada, levantais os vossos
preconceitos profundamente arraigados e fazeis obstrução; (…) tomais abrigo por
detrás desses preconceitos, dessas tradições, desse fundo de idéias de onde reagis, e
a essa reação denominais crítica. Para mim, isso não é crítica. É simplesmente hábil
oposição que não tem valor. (Palestras em Auckland, 1934, pág. 9)

Se quiserdes compreender (…), ser crítico exige uma grande dose de inteligência.
Criticismo não é cepticismo nem aceitação; essas coisas seriam igualmente
insensatas. (…) Ao passo que a verdadeira crítica consiste, não em atribuir valores,
porém, em procurar descobrir os verdadeiros valores. (…) (Idem, pág. 9-10)
Para ouvir como convém, é preciso não haver oposição nem antagonismo. A maioria
das pessoas possui um certo fundo de tradição, de preconceito, de esperança e de
temor, que usam como defesa; e a isso, que nada mais é que oposição, chamam
crítica. (…) (Palestras no Uruguai e na Argentina, 1935, pág. 9-10)

(…) Existe, contudo, uma forma ativa de crítica que exige mente esclarecida e aberta,
isto é, a consciência dos nossos preconceitos, de nossas limitações, e que nos
esforcemos, ao mesmo tempo, por descobrir o valor intrínseco do que o orador tem a
dizer. (…) (Idem, pág. 10)

Assim, quando falo de crítica, peço-vos não tomar partido. (…) Peço-vos (…)
seguirdes com a mente aberta o que eu disser (…) Procurai não vos inclinardes para o
lado do grupo particular a que agora pertenceis, e tampouco procureis tomar o meu
lado. Tudo o que tendes que fazer (…) é examinar, ser crítico, duvidar, verificar,
pesquisar, aprofundar-vos nos problemas existentes diante de vós. (Palestras em
Adyar, Índia, 1933-1934, pág. 9)

(…) Em outras palavras, tendes certas crenças, (…) dogmas, (…) princípios com que
vos oporeis a qualquer situação nova e de conflito, e imaginais que estais pensando,
que sois críticos, criadores. (…) Se fordes verdadeiramente crítico, criador, nunca vos
oporeis sistematicamente; então estareis interessados em realidades. (Idem, pág. 10)

Para mim, pois, a verdadeira crítica consiste em procurar descobrir o valor intrínseco
da própria coisa, e não em atribuir-lhe qualidade. (…) Isto, porém, destrói a verdadeira
crítica. Vosso desejo está pervertido (…) não podeis ver claramente. (…) (Idem, pág.
11)

Ser verdadeiramente crítico, não é estar em oposição. Nós, em maioria, fomos


adestrados a nos opormos e não a criticar. A verdadeira crítica está em tentar
compreender o pleno significado dos valores, sem o obstáculo das reações
defensivas. (…) (Palestras no Chile e México, 1935, pág. 65)

Há três condições da mente: “sei”, “acredito” e “não sei”. Ao dizerdes: “sei”, isso
significa que sabeis por experiência própria e (…) vos tornais certos e convencidos de
uma idéia, (…) uma crença. Porém, essa certeza, essa convicção pode estar baseada
na imaginação, num preenchimento do desejo que para vós gradualmente se torna um
fato, e por isso dizeis: “eu sei”. (…) (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 77)

(…) E se não disserdes: “eu sei”, então dizeis: “acredito na reencarnação porque ela
explica as desigualdades da vida.” Mais uma vez, essa crença, que dizeis fundada na
intuição, é o resultado de uma esperança oculta, de um desejo de continuidade.
(Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 78)

Assim, pois, tanto o “sei”, como o “acredito” são inseguros e incertos, para que neles
se confie. Se, porém, puderdes dizer “não sei”, compreendendo plenamente o
significado disso, então há para vós uma possibilidade de perceberdes aquilo “que é”.
Permanecer num estado de “não saber”, exige grande desnudamento e um estrênuo
esforço, porém não é um estado negativo; é um estado vitalíssimo e ardente para a
mente-coração que não se apega a explicações e afirmações. (Idem, pág. 78)

Interlocutor: Pois bem, essa questão está relacionada com a questão da mente e do
cérebro. O cérebro é uma atividade no tempo, enquanto processo físico e químico
complexo.

Krishnamurti: Acho que a mente está separada do cérebro. (O Futuro da Humanidade,


pág. 64-65)

Krishnamurti: Separada no sentido de que o cérebro é condicionado, ao passo que a


mente não é.

Interlocutor: Sim, (…) Mas veja, se cérebro não é livre, significa que ele não é livre
para pesquisar de um modo imparcial.

Krishnamurti: (…) Examinemos o que é liberdade. Liberdade para pesquisar (…) para
investigar. Somente em liberdade pode haver um discernimento profundo. (O Futuro
da Humanidade, pág. 65)

Krishnamurti: Desse modo, visto que o cérebro é condicionado, sua conexão com a
mente é limitada.

Interlocutor: Qual é a natureza da mente? Está à mente localizada no interior do corpo,


ou está no cérebro?

Krishnamurti: Não, ela não tem nada a ver com o corpo ou com o cérebro. (Idem, pág.
66)

Interlocutor: Ela tem alguma coisa a ver com o espaço ou com o tempo?

Krishnamurti: Ela tem a ver com o espaço e com o silêncio. Estes são os dois fatores
(…)
Interlocutor: Mas não tem nada a ver com o tempo?

Krishnamurti: Não. O tempo pertence ao cérebro. (O Futuro da Humanidade, pág. 66)

Krishnamurti: (…) Assim sendo, será que o cérebro, com todas as suas células
condicionadas, será que essas células podem sofrer alguma mudança radical?

Interlocutor: (…) Não se tem certeza de que todas as células estejam condicionadas.
Por exemplo, algumas pessoas acham que apenas uma parte ou uma pequena parte
das células está sendo utilizada, e que as outras estão inativas, em estado latente.

Krishnamurti: De qualquer modo, quase sem uso, ou afetadas apenas ocasionalmente


(Idem, pág. 67-68)

Interlocutor: (…) Mas as células que estão condicionadas, seja qual for a sua
quantidade, é evidente que dominam a consciência neste momento.

Krishnamurti: Sim. Essas células podem ser alternadas?

Interlocutor: Podem.

Krishnamurti: Estamos afirmando que podem através de uma compreensão profunda,


a qual independe do tempo (…) (Idem, pág. 68)

Interlocutor: (…) O que impede o cérebro de operar numa área mais ampla, numa área
ilimitada?

Krishnamurti: O pensamento.

Krishnamurti: Ele só pode responder se estiver livre do que é limitado; do pensamento,


que é limitado. (O Futuro da Humanidade, pág. 70)
Consciência, Cérebro, Elementos, Relações,
Estágios
Enviado por ick em seg, 18/08/2008 - 12:15

Assim a verdadeira experiência conduz ao discernimento do processo da consciência


(…) Para discernirdes profundamente a causa do sofrimento, não vos podeis separar
do mundo e da vida e contemplar a consciência separadamente, pois só no próprio
processo de viver é que podeis compreender a consciência. (Palestras em Ommen,
Holanda, 1936, pág. 15)

A não ser que o indivíduo compreenda plenamente o processo da consciência, a


ilusão pode momentaneamente proporcionar o necessário impulso para a ação, porém
tal ação deve inevitavelmente conduzir a miséria e frustração. (Palestras em Ommen,
Holanda, 1936, pág. 34)

Quando começardes a perceber a completa futilidade da própria carência, então dar-


se-á o despertar dessa inteligência que produz verdadeiras relações com o ambiente.
Só então poderá haver riqueza e beleza na vida. (Idem, pág. 34)

Que é a consciência? Há uma consciência de vigília, há uma consciência oculta; uma


consciência de certas partes de mim mesmo, da mente superficial, e uma falta total de
percepção a respeito das camadas mais profundas da consciência. (Tradición y
Revolución, pág. 335)

Podemos começar de outro modo? No entanto, há um centro que é consciente de si


mesmo, esse centro pode expandir-se ou contrair-se. (…) Esse centro pode tentar ir
mais além das limitações que há posto em torno de si mesmo. Esse centro tem suas
raízes profundas na caverna, e opera na superfície. Tudo isso é consciência (…)
(Idem, pág. 336)(…) A consciência é percepção, é ouvir, ver, escutar, e é a memória
de tudo isso e o responder de acordo com essa memória. (…) Nessa consciência está
o tempo, tempo que cria espaço porque fica cercado. (…) Nisso há dualidade, não-
dualidade, conflitos - eu devo, não devo - a totalidade desse campo é a consciência
(…) E nisso não há espaço em absoluto, porque o espaço tem fronteiras, limitações.
(Idem, pág. 143-344)

Interlocutor: Sim, entendo que temos aqui duas coisas que, de certo modo, podem ser
independentes. Há o cérebro e a mente, embora estejam em contato. Dizemos então
que a inteligência e a compaixão têm sua origem fora do cérebro. (…)
Krishnamurti: Ali! O contato entre a mente e o cérebro só pode ocorrer quando o
cérebro está tranqüilo. (O Futuro da Humanidade, pág. 71)

Não se trata de uma tranqüilidade treinada. Não é um desejo autoconsciente,


meditativo, de silêncio. É o resultado natural da compreensão do nosso próprio
condicionamento.

Interlocutor: E desse modo, se o cérebro ficar quieto, ele poderia ouvir algo mais
profundo?

Krishnamurti: Isso mesmo. Portanto, se ele está quieto, entra em contato com a
mente. Nesse caso, a mente pode então funcionar através do cérebro. (Idem, pág. 71-
72)

Interlocutor: Ou seja, essa atenção verdadeira entra em contato com o cérebro quando
o cérebro está em silêncio.

Krishnamurti: Em silêncio e tem espaço. O cérebro não tem espaço agora, porque está
preocupado consigo mesmo, está programado, é egocêntrico e limitado. (O Futuro da
Humanidade, pág. 81-82)

Interlocutor: Mas quando o pensamento está ausente, o cérebro tem seu espaço?

Krishnamurti: Sim, o cérebro tem seu espaço.

Interlocutor: Ilimitado?

Krishnamurti: Não. Só a mente tem espaço ilimitado.

O que aconteceu ao cérebro que está para agir? Dissemos que a inteligência nasce da
compaixão e do amor. Essa inteligência atua quando o cérebro está quieto. (Idem,
pág. 82)

Tudo se registra nas células cerebrais. Cada incidente, cada impressão se grava no
cérebro; pode-se observar em nós próprios vasto número de impressões. Perguntamo-
nos como é possível irmos além e fazermos que se aquietem as células cerebrais.
(Tradición y Revolución, pág. 199)

Investiguemo-lo. A capacidade de raciocinar, comparar, sopesar, julgar, compreender,


investigar, racionalizar e atuar é tudo parte da memória. O intelecto formula as idéias,
e daí provém a ação. (Idem., pág. 200)
As células cerebrais são o depósito da memória. A reação da memória é o
pensamento. O pensamento pode ser independente da memória. (…) (Idem, pág. 200)

(…) O intelecto só pode conhecer a liberdade dentro do campo, como o homem que
conhece a liberdade dentro de uma prisão. (…) Assim o homem jamais pode ser livre.
(Idem, pág. 206)

Qual é o material sobre o qual deixa sua marca a experiência? Obviamente se trata do
cérebro. De fato, as células são o material sobre o qual cada incidente, cada
experiência - consciente ou inconsciente - deixa sua pegada. (…) (Idem, pág. 222)

(…) as células cerebrais trabalham dia e noite. Só quando a pessoa se levanta, na


manhã seguinte, sabe se está cansada ou se dormiu bem, etc. Todas essas são
funções do cérebro. Assim, o atman está dentro do campo do pensamento. Tem de
estar. Nós dizemos que o atman é parte do cérebro. (…) (Idem, pág. 223)

Exporei (…) O cultivo de um cérebro, de qualquer cérebro, leva tempo. A experiência,


o conhecimento, as recordações, são armazenados nas células do cérebro. Este é um
fato biológico. O cérebro é resultado do tempo. Pois bem, este homem ao chegar a um
ponto quebra o movimento. Ocorre um movimento por completo diferente, o qual
significa que as mesmas células cerebrais experimentam uma mutação. (…) (Tradición
y Revolución, pág. 275)

Um cérebro totalmente novo. (…) O velho cérebro está cheio de imagens,


recordações, respostas, e estamos habituados a responder com o velho cérebro. A
percepção não está relacionada com velho cérebro. A percepção é o intervalo entre a
velha resposta e a resposta nova, a resposta que o cérebro velho ainda não conhece.
Nesse intervalo o tempo não existe. (Idem, pág. 277-278)

Em geral, nosso cérebro é indolente. Nosso cérebro se tornou espesso, se embotou,


por causa da educação, da especialização, do conflito, da luta psicológica interior em
todos os seus aspectos, e também por causa das compulsões externas. Nosso
cérebro só funciona quando se apresenta uma exigência, uma crise direta. Mas, afora
essas circunstâncias, vivemos como que num estado hipnótico, monótono,
funcionando indolentemente em nossos empregos e tarefas; por conseqüência, nosso
cérebro não é penetrante, vigilante, desperto, sensível, e não pode desenvolver sua
capacidade máxima. (O Despertar da Sensibilidade, pág. 120)

Se o cérebro não desenvolve sua capacidade máxima, não é capaz de ser livre.
Porque a mente embotada, superficial, estreita, vulgar, só é capaz de reagir ao
ambiente e, em virtude dessa reação, se torna escrava desse ambiente. Daí nasce o
problema de nos libertarmos do ambiente, de deixarmos de ser escravos de toda sorte
de influências, diretrizes, impulsos. Assim, o que é importante é sentir-nos totalmente
livres. (Idem, pág. 121)

O pensar é um processo que nasce da experiência e do conhecimento. Escutem isso


tranqüilamente, vejam se isso não é verdadeiro, real; então o descubram por si
mesmos (…) O pensar parte da experiência, que se converte em conhecimento, o qual
se acumula como memória nas células do cérebro; depois, a partir da memória,
surgem o pensamento e a ação. (…) Essa seqüência é um fato real: experiência,
conhecimento, memória, pensamento. Então dessa ação aprendemos mais; existe,
pois, um ciclo, e essa é nossa cadeia. (La Llama de la Atención, pág. 15)

Estamos inquirindo se o pequeno cérebro pode, sem nenhuma influência exterior -


científica, governamental, ambiental, religiosa ou de qualquer outra modalidade - se
pode o limitado cérebro sofrer uma mutação. (…) Este é um problema sério. Não pode
ser respondido com um simples sim ou não (…) Você deve olhar para a questão
inteira como um todo. Não de um ponto de vista racional ou (…) religioso, com seus
supersticiosos contra-sensos, ou de acordo com sua particular disciplina ou profissão.
Deve-se considerar o todo da vida como um movimento unitário. (The World of Peace,
pág. 16-18)

Antes de tudo, você admite que está condicionado? Está consciente - cônscio sem
escolha - de que o seu cérebro está condicionado? Ou você aceita o que alguém diz e
por isso simplesmente repete: “Meu cérebro está condicionado”? Vê a diferença? Se
estou consciente de que meu cérebro está condicionado, tem isso um valor
completamente diferente.

Mas se imagino que estou condicionado, meramente porque você mo diz, então esse
conceito é muito superficial. Portanto, você está cônscio de que está condicionado -
pela nacionalidade, por sua experiência, cultura, tradição, pelo meio ambiente, por
toda a propaganda religiosa do cristianismo, budismo ou hinduísmo? (The World of
Peace, pág. 18-20)

Mas o conhecimento também condiciona seu cérebro (…) como tradição, programado
como você é por jornais, revistas, pela constante repetição de que você é inglês (…)
Ou quando você vai à França, à Índia ou outro lugar qualquer, ocorre a mesma coisa,
essa constante repetição de sua nacionalidade. Por isso, o cérebro se torna estúpido,
repetitivo, mecânico. (…) (Idem, pág. 20)
Para sondar alguma coisa totalmente desconhecida, não preconcebida, não enredada
em alguma ilusão sentimental ou romântica, deve haver uma qualidade do cérebro que
seja completamente livre; livre de todos os seus conhecimentos, programações, de
todo tipo de influência e, portanto, um cérebro que seja altamente sensível e
tremendamente ativo.

É isso possível? Você possui um cérebro assim, ou ele é lento, preguiçoso e vive em
seus próprios autoconceitos? Como é ele? Porque vamos pesquisar algo que exige
uma mente, um cérebro, que esteja extraordinariamente vivo, não aprisionado em
nenhuma forma de rotina, não mecânico. Você tem tal cérebro sem medo, livre de
auto-interesse, não autocentralizado, ativamente? (The World of Peace, pág. 84) [Nota
Revisor: ativamente o quê?]

Mas, como, de que maneira e em que nível irá realizar-se essa revolução? (…) E
observa-se, também, que a mente, o próprio cérebro se tornou mecânico e, por
conseguinte, repetitivo: ensine-lhe certo padrão de comportamento, certas normas de
conduta, certas atitudes, desejos, ambições, etc., e ele ficará funcionando dentro
desse canal, desse padrão. (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 90-91)

Pode-se, por conseguinte, ver que a própria natureza do cérebro deve passar por uma
tremenda revolução - revolução que vos interessa, não na qualidade de indivíduo
unicamente interessado em seu pequenino cérebro, porém na qualidade de ente
humano. (…) (Idem, pág. 91)

A verdadeira questão, por conseguinte, é esta: É possível a vós e a eu promovermos


essa mutação no uso do próprio cérebro, uma revolução que não seja processo
gradativo, no tempo, porém revolução, mutação imediata, resultante da compreensão
imediata? (Idem, pág. 93) Assim, se vos aprouver, limitemo-nos (…) ao que eu já
disse. Percebemos a necessidade de uma revolução fundamental na própria estrutura
do cérebro; “estrutura”, não no sentido biológico, porém a estrutura de nosso pensar
(…) Para promover-se a revolução fundamental, necessita-se de grande quantidade
de energia; e essa energia só pode tornar-se existente, quando há madureza (Uma
Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 95)

Agora espere, talvez o senhor esteja certo. Quando o velho cérebro vê que nunca
pode entender o que é liberdade; quando vê que é incapaz de descobrir algo novo,
essa verdadeira percepção é a semente da inteligência, não é? (…) Pensei que
pudesse fazer muitas coisas, e posso, em uma certa direção, mas em uma totalmente
nova direção nada posso fazer. A descoberta disso é inteligência, obviamente. (La
Verdad y la Realidad, pág. 411)
Agora, qual é a relação dessa inteligência com a outra? Obviamente, o velho cérebro,
em todos estes séculos, pensou que pudesse ter seu Deus, sua liberdade, (…) fazer
tudo que desejasse. E subitamente descobre que qualquer movimento do velho
cérebro é ainda parte do velho; portanto, inteligência é o entendimento de que ele só
pode funcionar dentro do campo do conhecido. O descobrimento disso é inteligência,
dizemos. Agora, o que é esta inteligência? Qual é a sua relação com a vida, com a
dimensão que o velho cérebro não conhece? (Idem, pág. 411-412)

Você vê, a inteligência não é pessoal, não é resultado de argumento, crença, opinião
ou razão. A inteligência manifesta-se no ser quando o cérebro descobre sua
falibilidade, quando descobre do que é capaz e do que não é. Agora, qual é a relação
dessa inteligência com aquela dimensão? Prefiro não usar a palavra “relação” (Idem,
pág. 49)

Pergunta: Que meios se emprega no funcionamento de decisões?

Krishnamurti: Aquilo que opera através da escolha e do desejo. Decide-se o curso da


ação que se vai tomar, e tal decisão não é baseada na clareza, nem na observação do
campo total, mas sim na satisfação e na distração, que são fragmentos daquele
campo. E continua-se a viver nessa fragmentação. Este é um dos fatores de
deterioração. Minha escolha de ser cientista pode estar baseada em influências
ambientais, familiares, ou no meu próprio desejo de alcançar sucesso em certa
direção. (…) (Exploration into Insight, pág. 65)

Pergunta: Você está dizendo que o cérebro não funciona completamente, mas
somente em uma direção?

K.: O cérebro global não está ativo, e penso que este é o fator de deterioração. Você
pergunta, qual é o fator de deterioração, não se a mente é capaz de ver ou não
totalmente. Tenho observado, nestes muitos anos, que a mente que segue certo curso
de ação, desconsiderando a totalidade da ação, se deteriora. (Idem, pág. 66)

A ênfase dada à compreensão da consciência individual não deve ser tomada como
mais um encorajamento do egocentrismo (…) É somente por meio da compreensão do
processo da consciência individual que pode dar-se a ação espontânea e verdadeira,
sem criar ou aumentar ainda mais a tristeza e o conflito. (…) Portanto, devemos
compreender profundamente o processo da individualidade (ente individualizado) com
sua consciência. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 10)
Portanto, deve haver profunda percepção, isenta de escolha, para compreender o
processo da consciência. Essa necessidade surge apenas quando há sofrimento. Para
descobrir a causa do sofrimento, a mente deve ser aguda, plástica, sem escolha (…)
Se não houver discernimento do processo da consciência individual, então a ação
criará sempre confusão, limitação, e, portanto, produzirá sofrimento e conflito. (…)
(Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 14)

(…) não podemos descartar o nosso saber, nossas experiências e lembranças, pois
essas coisas têm existência. (…) O homem que está observando o perpassar das
suas experiências, lembranças, conhecimentos, sem a essas coisas se prender, esse
homem não aspira à virtude, não está acumulando. E quando a mente já não está
acumulando, quando a mente está desperta para todo o processo da consciência, com
todas as suas lembranças e seus motivos inconscientes, todos os impulsos de
gerações, de séculos, deixando tudo isso passar por ela sem a prender - não se acha
então a mente fora do tempo? (Poder e Realização, pág. 72)

O tempo é uma duração, um movimento. Está sempre a fluir do passado, através do


presente para o futuro. O passado é o conhecimento, a experiência, a conclusão, a
tradição, a herança racial, etc., etc. (…) Todo esse processo, de ontem, hoje e
amanhã; o condicionamento de ontem, que se modifica no presente e toma forma
amanhã - esse processo , sem dúvida, constitui a consciência. (…) (Encontro com o
Eterno, pág. 122)

Psicologicamente, a coisa é muito mais complexa. Toda a psique é feita de tempo,


pertence ao tempo. Todo o processo do pensar é resultado do passado, (…) do
conhecido, como experiência, conhecimento, conclusões. (…) Essa consciência é: eu
era, eu sou, eu serei - modificado, ampliado, alongado, limitado. Isso constitui a
consciência, o que somos - tanto o consciente como o inconsciente. Parecemos
atribuir enorme significado ao inconsciente, mas o inconsciente é o passado. (…)
(Idem, pág. 122)

Nosso problema, se estamos verdadeiramente atentos, é este: Se os conflitos, as


atribulações e os pesares de nossa existência diária podem ser resolvidos por outra
pessoa (…) Para se compreender um problema, requer-se, evidentemente, certa
inteligência; e essa inteligência não pode resultar da especialização (…) Ela só se
manifesta quando estamos passivamente cônscios de todo o processo de nossa
consciência, o que significa estar cônscios de nós mesmos sem escolha. (…) Porque,
quando estais passivamente vigilantes (…) o problema assume um significado de todo
diferente (…) não há julgamento e, por isso, o problema começa a revelar-nos o seu
conteúdo. (…) (Solução para os nossos Conflitos, pág. 77-78)

Vós, homens, como indivíduos, desenvolveis vossos sentidos pela luta social, pela
autopreservação, e dais início, assim, à consciência da separação. Desde a infância
vos foi incutida a idéia de que sois uma entidade separada; e dessa ilusão provém a
divisão entre “vosso” e “meu”, no que pensais e no que sentis, no que possuís e em
todas as coisas. (Coletânea de Palestras, 1930-1935, pág.18)

Em virtude de tal entendimento de separatividade, o “eu” torna-se todo poderoso;


dessa consciência de separação nasce o medo. E onde quer que exista o medo,
manifesta-se imediatamente o desejo de buscar conforto, em lugar do entendimento
que dissipa todo o temor. Pois o conforto adormece vosso temor inato de perder vossa
identidade separada. (Idem, pág. 19)

Nossa principal preocupação deverá ser, então, descobrir de que modo cada um
poderá ficar cônscio desse eterno, dessa viva realidade que sustenta, nutre e eleva
todas as coisas e que se acha em nós mesmos. (…) (Coletânea de Palestras, 1930-
1935, pág. 21)

Quando o homem está consciente de si próprio como entidade separada,


continuamente busca o exterior para encontrar auxílio, para sua subsistência, para seu
bem estar; e desse modo cria ele a desordem em lugar da ordem, e por causa dessa
desordem surgem as superstições, as ilusões, as cerimônias. (Idem, pág. 21)

Quando introduzis o elemento pessoal em vosso julgamento, inevitavelmente


perverteis vossa compreensão. Necessitais distinguir entre o que é pessoal e o que é
individual. O pessoal é o acidental, (…) as circunstâncias de nascimento, o ambiente
(…), vossa educação, vossas tradições, vossas superstições, vossas distinções de
nacionalidade e classe (…) (Coletânea de Palestras, 1930-1935, pág. 23)

Enquanto houver tal consciência de separação, do “eu”, da personalidade, não pode


existir a realização da verdade; antes, porém, que possais transcender essa
consciência, tendes de vos tornar plenamente autoconscientes. Tal significa que
necessitais vos tornar conscientes de vós próprios como indivíduos, não como uma
máquina (…) (Idem, pág. 24)

Antes que vos possais tornar plenamente conscientes, e, dessa forma, perder a
autoconsciência, há três condições a passar, relativas à consciência. Na primeira
delas, o indivíduo é escravo dos sentidos e de seus anelos. Para satisfazê-los, torna-
se ele simplesmente egoísta, dependendo, inteiramente, para sua felicidade, das
coisas exteriores, das sensações e excitações, (…) emaranhado na tristeza e na dor.
(…) (Idem, pág. 24-25)

Toma cada vez maiores responsabilidades sobre si e torna-se, por essa forma, um
simples escravo da ação. Tal homem não tem tempo nem inclinação para a quietação
do pensamento, para a reflexão, para o exame. Pois a verdadeira reflexão cria a
dúvida, as investigações levam ao isolamento, ao afastamento, o que ele
cuidadosamente evita. (Coletânea de Palestras, 1930-1935, pág. 25)

Depois, vem o segundo estádio, em que o homem se apercebe de suas faltas, de seus
defeitos, de suas ilusões, de suas crueldades. Tornando-se, assim, consciente de sua
própria natureza, tenta desembaraçar-se, livrar-se do domínio dos sentidos e começa
a libertar a mente e o coração. (Idem, pág. 25)

Começa por diminuir, gradualmente, as próprias responsabilidades, sem abandonar


sua vida na torrente do mundo. A ação, nascida da consciência de si mesmo, e na
qual existe a separatividade, é embaraçante, limitadora, pesada; porém a ação que é
resultado da liberdade, da individualidade (ente individualizado) é libertação. (Idem,
pág. 25)

O individuo que possui, agora, o forte desejo de libertar-se, começa a disciplinar-se.


Essa disciplina não lhe é imposta pelo exterior, não é resultado de repressão; antes,
em virtude do seu desejo de ser livre, de realizar a verdade, impõe ele a si próprio uma
disciplina oriunda do entendimento - não oriunda do medo, não coagido pelas
circunstâncias sociais ou pelo ambiente. Deseja então libertar a mente, o coração e,
desse modo, viver em harmonia. (…) (Coletânea de Palestras, 1930-1935, pág. 25-26)

Em seguida vem o terceiro estádio da consciência, em que o homem está


completamente senhor dos sentidos, (…) do seu corpo. Isso não significa ser
desenvolvido muscularmente (…); será senhor do corpo, no sentido de não mais se
emaranhar em seus anseios, suas sensações e excitações. (Idem, pág. 26)

Começa ele, então, a libertar-se do medo e das ilusões que ele próprio cria. Uma vez
que estejais libertos das ilusões, do temor, de todas as outras qualidades, haverá para
vós um como retiro interior nascido da alegria, retiro nascido não do tédio, nem do
retraimento, nem do intuito de fugir a este mundo de conflito, porém um retiro interno
de alegria em meio da ação. (Coletânea de Palestras, 1930-1935, pág. 26)
Quando tal acontecer, a reflexão e a análise virão dar lugar a uma concentração
tremenda; não a concentração sobre um objeto, mas a concentração em que não há
sujeito nem objeto, o pleno conhecimento em que não há mais contrastes. (Idem, pág.
26)

Ulteriormente, proveniente desse retiro, manifesta-se uma harmonia interior, a


equanimidade entre a razão e o amor - o pensamento liberto das fantasias e teorias
pessoais, o amor liberto da especialização, amor que é como o perfume de uma flor.
(Coletânea de Palestras, 1930-1935, pág. 27)

Quando existe essa harmonia, não mais se inquire a respeito do futuro e do passado.
(…) O passado, com suas faltas e tristezas, desaparece, e o futuro, com suas
esperanças, anseios e antecipações, desaparece também; oriunda desses dois
termos, nasce a harmonia do presente, a qual é a realização dessa inteireza que
existe em todas as coisas. Quando ela for realizada, haverá tranqüilidade, haverá a
realidade viva da felicidade. (Idem, pág. 27)

Agora, a questão é esta: Nosso cérebro é o resultado de dois milhões de anos, do


animal até nossa presente situação, qualquer que seja ao grau de evolução que
tenhamos atingido - pois ainda somos “o animal”. (…) Vós tendes de libertar vossa
mente do “animal” ou seja, da avidez, da inveja, do medo, da ambição - de todas as
nossas estúpidas trivialidades (…) Só então poderá a mente transcender a si própria e
descobrir se há uma Realidade, Deus, alguma coisa de atemporal. (Uma Nova
Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 26)
Vida, Movimento, Processo; Contato, Renovação,
Riqueza
Enviado por ick em seg, 18/08/2008 - 12:19

Desde que encontrei a felicidade - (…) visto que descobri a Verdade (…) - quisera
mostrar-vos a senda. O caminho para a felicidade acha-se em vosso coração e em
vossa mente, e em sua purificação reside a consecução. Não há dependência de
auxílio externo para vos apoiar. (…) Para compreender a Vida, tendes de purificar
vossa mente e vosso coração e estabelecer harmonia dentro de vós próprios. (…)
(Uma Visão da Vida, em “A Estrela”, de março-abril de 1929, pág. 4)

Para poderdes alcançar a felicidade, precisais pôr de lado aquelas coisas que não são
essenciais e olhar para a Vida nos campos abertos, a fim de vos guiardes. Somente
com essa visão da Vida podereis crescer, ser sustentados e nutridos. Se fordes
alimentados por coisas não essenciais, dar-se-á a fadiga do coração e a corrupção da
mente. Deveis cultuar aquilo que é incorruptível, deveis dar o vosso amor àquilo que
se acha para além da estagnação. (Idem, pág. 4)

Um rio que corre rápida e constantemente, procura caminho para os mares abertos,
muitas vezes forma, às margens, poças de água estagnada que permanecem o ano
inteiro, até que a estação chuvosa venha e leve as águas paradas para a corrente
principal. A Vida, para mim, é semelhante a esse rio, e sustento que é mais rápido e
fácil entrar no mar aberto da libertação e da felicidade nadando na corrente principal
da Vida, do que permanecendo nas águas estagnadas, retardadas, onde a vida não
existe, onde se criam crenças e executam ritos (O Rio da Vida, em “A Estrela”, de
março-abril de 1992, pág. 11)

Eu sempre desejei a liberdade. Sempre andei descontente com dogmas, crenças e


credos. (…) Em uma floresta espessa, podeis notar como uma pequena planta luta
para crescer: as grandes árvores lançam sobre ela a sua sombra e não lhe permitem
desfrutar a luz do sol e o ar fresco. (…) Assim como a semente que está sob a terra é
forçada, pela vida interna, a despedaçar o solo duro e defrontar a luz, do mesmo modo
se alguém for impelido pelo desejo de atingir a liberdade, despedaçará todas as
limitações circundantes. (Idem, pág. 12)

A Vida é livre, incondicionada, ilimitável e, para atingi-la, é preciso não trilhar um


caminho limitado, restrito, qualquer que seja ele. Pois a Verdade é o todo - e não a
parte. A ela não podeis chegar com mentes não adestradas, apenas meio evoluídas e
com semi-evoluídas emoções, pois ela é a perfeita harmonia, o perfeito equilíbrio da
mente e do coração, que é a Vida. (Krishnamurti em Eerde, em “Boletim Internacional
da Estrela”, de setembro de 1929, pág. 22)

É possível estarmos totalmente atentos ao todo da vida, não apenas aos fragmentos,
às partes, porém à sua totalidade? Examinai o que se está dizendo e, por vós
mesmos, senti, tomai conhecimento dessa ação fragmentária, para não considerardes
sério aquilo que não é sério, e descobrirdes o que é uma mente realmente séria, que
não funciona por fragmentos, porém considera a todo. Esta, de certo, é a mente séria;
a mente que está cônscia do processo total da vida, não em fragmentos, mas como
um todo indiviso. (Encontro com o Eterno, pág. 20-21)

Refiro-me a uma disciplina completamente diferente, uma disciplina que nasce


espontaneamente quando se compreende esse extraordinário processo da vida, não
em fragmentos, mas como um todo indiviso. (…) (O Homem e seus Desejos em
Conflito, 1ª ed., pág. 214)

Pergunta: Qual é a vossa idéia do infinito?

Krishnamurti: Existe um movimento, um processo de vida, sem fim, que pode ser
chamado infinito. Pela autoridade e imitação, nascidas do medo, cria a mente para si
própria múltiplas falsas reações, e por meio delas limita-se a si própria. Identificar-se
com essa limitação, é incapaz de acompanhar o movimento rápido da vida. (…) [Nota
Revisor: Este último parágrafo está aleijado. O sentido não seria este: Ao identificar-se
com essa limitação, fica-se incapaz….?]

Enquanto a mente-coração não puder libertar-se dessas limitações em plena


consciência, não pode ter lugar a compreensão desse contínuo processo de vir-a-ser.
Portanto, não pergunteis o que é infinito, porém descobri por vós mesmos as
limitações que mantém a mente-coração em cativeiro, impedindo-a de viver nesse
movimento da vida. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 19-20)

Para compreender a verdade, tem de haver observação silenciosa, e a descrição dela


somente a torna confusa e limitada. Para compreendermos o infinito processo da vida,
temos de começar negativamente, sem afirmações nem postulados, e daí construir o
arcabouço do nosso pensamento-sentimento, da nossa ação e conduta. (Palestras em
Ojai, Califórnia, 1936, pág. 25)

Pergunta: Não conduz a experiência à plenitude da vida?


Krishnamurti: Vemos muitas pessoas passarem por experiências repetidas,
multiplicando as sensações, vivendo as memórias passadas com antecipações
futuras. Vivem esses indivíduos uma vida de plenitude? (…) Ou só existe plenitude da
vida quando a mente está aberta, vulnerável, completamente desnuda de todas as
memórias autoprotetoras?

A memória guia-nos por meio das experiências. Acercamo-nos de cada nova


experiência com a mente condicionada, (…) sobrecarregada de memórias
autoprotetoras de temores, de preconceitos e tendências. (…) Enquanto existirem
memórias autoprotetoras e enquanto estas derem continuidade ao processo do “eu”,
não pode haver plenitude de vida. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 60-61)

Portanto, devemos compreender o processo da experiência (…) Embora a mente


procure evadir-se do sofrimento, auxiliada por essas memórias, desse modo ela
apenas acentua o temor, a ilusão e o conflito. A plenitude da vida só é possível
quando a mente-coração estiver integralmente vulnerável ao movimento da vida, sem
nenhum obstáculo artificial e auto-criado. A riqueza da vida advém quando a carência,
com suas ilusões e valores, tiver cessado. (Idem, pág. 61)

Devemos ter freqüentemente nos perguntado se porventura existe algo dentro de nós
que tenha continuidade, um princípio algo vivo que tenha permanência, uma qualidade
que seja perdurável, uma realidade que persista através de toda esta transitoriedade
(Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 89)

A vida está a todo momento em um estado de nascença, de surgir, de “vir-a-ser”.


Nesse surgir, nesse “vir-a-ser”, por si mesmo não há continuidade, nada que se possa
identificar como sendo permanente. A vida está em constante movimento, em ação;
cada momento dessa ação jamais existiu anteriormente e jamais existirá de novo.
Cada novo momento, porém, forma uma continuidade de movimento. (Idem, pág. 89-
90)

Ora, a consciência forma a sua própria continuidade como individualidade (ente


individualizado), pela ação da ignorância, e apega-se, numa ânsia desesperada, a
essa identificação. Que vem a ser esse algo ao qual cada indivíduo se aferra,
esperando que ele seja imortal, que esconda o permanente ou que, para além dele,
resida o eterno? (Idem, pág. 90)

Este algo a que cada um se apega é a consciência da individualidade (ente


individualizado). Essa consciência compõe-se de múltiplas camadas de lembranças,
as quais vêm à existência ou se mantêm presentes onde houver ignorância, ânsia e
carência. A ânsia, a carência, a tendência sob qualquer das suas formas, tem de criar
conflito entre ela mesma e aquilo que a provoca, ou seja, o objeto da carência; esse
conflito entre a ânsia e o objeto pelo qual se anseia, aparece na consciência como
individualidade (ente individualizado).

Portanto, é realmente esse atrito que procura perpetuar-se a si mesmo. Aquilo que
intensamente desejamos que continue nada mais é que o atrito, a tensão entre as
várias formas do anseio e seus agentes provocadores. Esse atrito, essa tensão é essa
consciência que sustenta a individualidade (ente individualizado) (Palestras em Ojai,
Califórnia, 1936, pág. 90)

O movimento da vida não tem continuidade. Está a cada momento surgindo, vindo à
existência, estando, portanto, num estado de ação, de fluxo perpétuos. Quando o
indivíduo anseia pela própria imortalidade, precisa discernir qual o profundo significado
desse anseio e o que é que deseja que continue. A continuidade é o processo
automantenedor da consciência, do qual surge a individualidade (ente individualizado)
por meio da ignorância, que é resultado da carência, do anseio; daí provém o atrito e o
conflito nas relações mútuas, na moral e na ação. (Idem, pág. 90-91)

Para entender aquilo que é, deverá a compreensão principiar pela de nós mesmos. O
mundo é uma série de processos indefinidos, variados, que não podem ser
plenamente compreendidos, pois cada força é única em si mesma e não pode ser
verdadeiramente perceptível em sua totalidade. O processo integral da vida, da
existência no mundo (…) só podereis compreender por meio desse processo que se
acha focalizado no indivíduo sob a forma de consciência (Palestras em Ojai, 1936,
pág. 115)

Ora, a ação é esse atrito, essa tensão que se dá entre a ignorância, o anseio e o
objeto de seu desejo. Tal ação sustenta-se a si própria e é isso que dá continuidade
ao processo do “eu”. Portanto, a ignorância, pelas suas atividades auto-sustentadoras,
perpetua-se sob a forma de consciência, que é o processo do “eu”. (Idem, pág. 117)

Com ele está, a todo instante, o fundo de preconceitos (herdados e adquiridos), de


pensamentos, temores, desejos, anseios, esperanças, lembranças herdadas e
adquiridas. (…) Com esse fundo, com essa mente assim condicionada, o indivíduo
aborda a vida, e esforça-se por compreender o constante movimento dela. Isto é,
partindo de um ponto fixo, tenta ele ir ao encontro da vida que está eternamente
oscilando. (Palestras em New York City, 1935, pág. 43)
Só pode haver verdadeiramente entendimento, alegria real de viver, quando houver
completa unidade, ou quando não mais existir o ponto fixo, isto é, quando a mente e o
coração puderem acompanhar as livres e rápidas ondulações da Vida, da verdade.
(Idem, pág. 43)

(…) Não é, pois, importante que aquele que indaga da finalidade da vida descubra
primeiro se o seu instrumento de pesquisa é capaz de penetrar o processo da vida, as
complexidades do seu próprio ser? Porque é só isso que temos: um instrumento
psicológico modelado de acordo com as nossas próprias necessidades (Novo Acesso
à Vida, pág. 52)

O que estou dizendo é que, para viver com grandeza, para pensar criativamente, tem
o indivíduo de estar por completo aberto à vida, isento de quaisquer reações
autoprotetoras. Tal se dá quando vos achais enamorados. Tendes, pois, de estar
enamorados da vida. Isso exige grande inteligência, não informações ou
conhecimentos, porém sim essa grande inteligência que desperta quando defrontais a
vida abertamente, completamente, quando a mente e o coração estiverem por
completo vulneráveis em face da vida. (Palestras em New York City, 1935, pág. 60)

Como é essencialmente simples a vida, e como a complicamos! Sabemos demais, e


esta é a razão por que a vida se nos esquiva sempre; e esse “demais” é tão pouco!
Com esse pouco nós encontramos o imenso; e como podemos medir o imensurável?
Nossa vaidade nos embota, a experiência e o saber nos escravizam, e as águas da
vida passam sem que nos banhemos nelas. (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág.
208)

Como há de o indivíduo viver de modo que a ação seja preenchimento? Como pode o
indivíduo enamorar-se da vida? Para enamorar-se da vida (…) obter o preenchimento,
é preciso ter a mente livre, mediante a compreensão profunda das limitações que a
deturpam e frustram (…) (Palestras no Chile e México, 1935, pág. 58-59)
Mecanismo do “Eu”; Anseio, Ilusão, Temor, Auto-
sustentação
Enviado por ick em seg, 18/08/2008 - 12:28

O processo do “eu” resulta da ignorância, e essa ignorância, à semelhança da chama


alimentada pelo óleo, sustenta-se a si mesma por meio das próprias atividades. Isto é,
o processo do “eu”, a energia do “eu”, a consciência do “eu”, é resultado da ignorância,
e a ignorância sustenta-se a si própria por meio das atividades por ela mesma criadas;
(…) por meio das próprias ações, ânsias e desejos. (…) (Palavras em Ojai, Califórnia,
1936, pág. 39)

Portanto, trata-se não de saber o que é a realidade, o que é Deus, a imortalidade, e se


o indivíduo deve ou não acreditar nisso, porém, sim, de saber que coisa é essa que
luta, que carece, que teme e anseia? (…) Qual é o centro em que esse querer tem sua
existência? O que é a consciência, a concepção da qual partimos e na qual temos o
nosso ser? A partir daí é que devemos iniciar a nossa investigação. (…) (Palestras em
Ojai, Califórnia, 1936, pág. 58)

(…) O processo do “eu” é, assim, auto-ativo. Isto é, não somente ele próprio se
expande mediante seus voluntários desejos e ações, como se mantém por sua
ignorância, tendências, carências e anseios. A chama sustenta-se pelo seu próprio
calor, sendo que esse mesmo calor é a chama. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936,
pág. 59-60)

Agora, exatamente do mesmo modo, o “eu” sustenta-se a si mesmo por meio da


carência, das tendências e da ignorância. E, apesar disso, o próprio “eu” é a carência.
O material para produzir uma chama tanto pode ser uma vela como um pedaço de
madeira; e o material para o processo do “eu” é sensação, consciência. Esse processo
não teve princípio e é único para cada indivíduo. (…) (Idem, pág. 60)

Pela carência criamos confusão, ignorância e sofrimento, e depois em movimento o


processo da evasão. A essa evasão chamamos busca da realidade. Vós dizeis: quero
encontrar Deus, quero atingir a verdade, a libertação; procuro a imortalidade. Jamais
perguntais a vós mesmos o que é esse “eu” que procura. (Palestras em Ojai,
Califórnia, 1936, pág. 61)

(…) O compreender esse processo do “eu”, em conjunto, exige de vossa parte


verdadeira reflexão e profunda penetração, por meio do discernimento. Se
compreenderdes o surgimento, o vir-a-ser da consciência por meio da sensação, da
vontade, e perceberdes que da consciência nasce a unidade denominada “eu”, (…)
então despertareis para a compreensão da natureza desse círculo vicioso. (Palestras
em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 61)

Quando se der o entendimento do seu significado, então terá lugar uma nova
compreensão, algo de novo que não está embaraçado pela carência, pela ânsia, pela
ignorância. Então podereis viver neste mundo inteligentemente, de maneira sã, em
plenitude profunda, e, apesar disso, não serdes do mundo. (…) (Idem, pág. 61-62)

Se puderdes compreender profundamente esse processo auto-sustentador de


ignorância que dá solidez ao “eu”, e do qual surge toda confusão e todo sofrimento,
então a vida poderá ser vivida plenamente sem as várias e sutis evasões e
persecuções que, sem o saber, vós próprios haveis criado.

Então virá à existência esse algo extraordinário, uma plenitude, uma bem-
aventurança. Antes, porém, (…) é preciso que haja entendimento profundo do
processo do “eu”. A não ser que haja essa compreensão, o processo do “eu” estará
sempre criando a qualidade em si próprio, por meio do desejo. (Palestras em Ojai,
Califórnia, 1936, pág. 62)

O processo do “eu”, que busca perpetuar-se, nada mais é que acúmulo de anseios.
Esse acúmulo e suas lembranças constituem a individualidade (entidade
individualizada) a que nos aferramos e que ansiamos por imortalizar. As múltiplas
camadas de lembranças, tendências e carências acumuladas constituem o processo
do “eu”; e nós desejamos saber se esse “eu” pode viver para sempre, se pode ser
tornado imortal.

Será possível que essas lembranças autoprotetoras se tornem ou sejam tornadas


permanentes? (…) Ou existirá o eterno para além desse atrito e limitação, que é o
processo do “eu”? Desejamos tornar permanentes as limitações acumuladas, ou
imaginamos que, através de camadas de lembranças, de consciência, exista algo de
perdurável. Ou imaginamos que, para além dessas limitações da individualidade (ente
individualizada), deva existir o eterno. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 91)

Qual a causa do conflito? O conflito surge quando a reação não é adequada ao


desafio; esse desafio é a focalização da consciência do “eu”. O “eu”, a consciência,
enfocado pelo conflito, é experiência. Experiência é reação a um estímulo ou desafio;
se não verbalizamos ou damos nome, não há experiência.(…) (Comentários sobre o
Viver, 1ª ed., pág. 171)
Novamente vos pergunto: podem as lembranças da ignorância acumulada, das
carências e das tendências, de onde surgem o atrito e a tristeza, ser tornadas
perduráveis? Essa é a questão. Não nos é possível aceitar profundamente a asserção
de que através da individualidade (ente individualizado) corre algo de eterno, ou que
para além dessa limitação exista algo de permanente, pois essa concepção só pode
basear-se na crença, na fé, ou naquilo que denominamos intuição, e que é quase
sempre preenchimento de desejo. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 91-92)

Portanto, a questão importante é esta: pode o processo do “eu” ser tornado


permanente? Pode a consciência das tendências, das carências e lembranças
acumuladas, de onde surge a individualidade (ente individualizado) ser tornada
permanente? Por outras palavras, podem essas limitações tornarem-se o eterno? A
vida, a energia acha-se em perpétuo estado de ação, de movimento, no qual não pode
haver continuidade individual. Como indivíduos, porém, anelamos perpetuar-nos (…)
(Idem, pág. 92)

Ora, se o indivíduo puder discernir profundamente o surgimento do processo do “eu” e


se tornar intensamente apercebido do construir das limitações e de sua
transitoriedade, então esse mesmo apercebimento produz a sua dissolução; e nisso
está o permanente. A qualidade dessa permanência não pode ser descrita, nem
tampouco pode o indivíduo procurá-la. Ela vem à existência com o discernir o
processo transitório do “eu”. A realidade do permanente só pode vir como um
acontecimento, dá-se por si mesma, não pode ser cultivada. (Palestras em Ojai,
Califórnia, 1936, pág. 93)

O indivíduo deve conhecer-se a si próprio e, conhecendo-se, será então capaz de


discernir se existe ou não permanência. Nossa busca do eterno tem de levar-nos à
ilusão; se, porém, mediante um vigoroso esforço e experiência, pudermos
compreender-nos profundamente a nós próprios, e discernir o que somos, somente
então poderá surgir o permanente - não a permanência de algo fora de nós, porém
essa realidade que vem à existência quando o transitório processo do “eu” não mais
se perpetuar. (Idem, pág. 94)

(…) O “eu” nada mais é que o resultado das lembranças acumuladas, que ocasiona
atrito entre ele próprio e o movimento da vida, entre os valores definidos e os
indefinidos. Esse mesmo atrito é o processo do “eu”, e este não pode ser tornado o
eterno. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 94)

Há duas espécies de vontade - a vontade que nasce do desejo, da carência, do anseio


- e a vontade do discernimento, da compreensão. A vontade resultante do desejo
baseia-se no esforço consciente de aquisição, seja ela resultante da carência ou da
não-carência. Esse esforço consciente ou inconsciente de querer, de ansiar, cria a
totalidade do processo do “eu”, e daí surgem o atrito, a tristeza e a cogitação do além.
(Idem, pág. 94-95)

Desse processo surge também o conflito entre os opostos e, portanto, a luta constante
entre o essencial e o não essencial, entre a seleção e a não seleção. E desse
processo surgem várias paredes autoprotetoras de limitação, que impedem a
verdadeira compreensão dos valores indefinidos. Ora, se nos apercebermos desse
processo, e de que havemos desenvolvido uma vontade em virtude do desejo de
adquirir, de possuir, e que essa vontade está criando conflito, sofrimento e dor
contínuas, então dar-se-á, sem esforço consciente, a compreensão da realidade, que
pode ser chamada permanente. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 95)

Discernir que a carência está presente onde existir ignorância, e, portanto, produz
sofrimento, e apesar disso não permitir à mente adestrar-se a não querer, é tarefa
ingente e difícil. Podemos discernir que o possuir, o adquirir, cria sofrimento e
perpetua a ignorância, que o movimento do anseio impede o discernimento nítido. Se
refletirdes a respeito, percebereis que é assim. Quando não mais existir carência nem
não-carência, dar-se-á a compreensão daquilo que é permanente. É um estado sutil e
dificílimo de compreender; não ser aprisionado entre os opostos, entre o renunciar e o
aceitar, exige um esforço vigoroso e reto. (Idem, pág. 95)

Se formos capazes de discernir que os opostos são errôneos, que levam


necessariamente ao conflito, então esse mesmo discernimento, esse aperfeiçoamento
produz a iluminação. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 95-96)

(…) A mente procura uma definição para com ela fazer um molde para si mesma, a fim
de escapar àquelas reações da vida que determinam atrito e dor. Nisso não há
compreensão. (…) Internamente, o processo do “eu”, com suas solicitações, seus
anelos, suas vaidades e crueldade, persiste e continua. Na compreensão desse
processo reside a verdadeira e esclarecida ação. (Idem, pág. 99)

Agora, a fim de discernir a verdade, o pensamento deve ser livre de tendências, a


mente deve ser sem carência e sem escolha. Se vos observardes a vós próprios na
ação, vereis que a vossa carência do fundo da tradição, dos falsos valores e das
memórias autoprotetoras, renova a cada momento o processo do “eu”, que impede o
verdadeiro discernimento. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 14)
A compreensão da causa do sofrimento produz na plenitude do nosso ser uma
mudança de vontade isenta de escolha. Então a experiência, sem suas memórias de
acumulação, que impedem o entendimento e a ação, terá significação profunda.
(Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 14-15)

A maioria de nós busca escapar ao sofrimento por meio de ilusões, de definições e


conclusões lógicas, e assim, gradualmente, a mente se toma obtusa, incapaz de se
perceber a si mesma. Só quando a mente se percebe tal qual é, como vontade de si
própria, com suas múltiplas camadas de ignorância, de temor, de carência, de ilusão,
quando ela discerne como, por meio de suas atividades volitivas, o processo do “eu”
se vai perpetuando, só então há possibilidade de esse processo pôr fim a si próprio.
(…) A terminação do processo do “eu” é o começo da sabedoria, da beatitude.
(Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 41)

Qual é a causa do medo? Como é engendrado o temor? (…) Haverá medo enquanto
existir o processo do “eu”, a consciência da carência, que limita a ação. Toda ação
nascida da limitação da carência, cria apenas mais limitações. Essa contínua de
carência, com suas múltiplas atividades, não liberta a mente do temor; dá apenas ao
processo do “eu” identidade e continuidade. A ação nascida da carência tem sempre
de criar temor e assim embaraçar a inteligência e dificultar o ajustamento espontâneo
à vida. (Palestras em Ommen, Holanda, l936, pág. 64-65)

(…) Se discernirdes que o processo do “eu” se sustenta a si mesmo pelas próprias


atividades volitivas nascidas da ignorância, da carência, do temor, então a experiência
de outrem muito pouco significado pode ter. Grandes instrutores religiosos declararam
o que é moral e verdadeiro. Seus seguidores apenas os imitaram e por isso não
realizaram o preenchimento. (…) Os ideais criam dualidade na consciência e, assim,
apenas continuam o processo do conflito. Se perceberdes que o despertar da
inteligência é o fim do processo do “eu”, então haverá espontâneo ajustamento à vida,
relações harmoniosas com o ambiente (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág.
73-74)

A ignorância não tem começo, mas pode-se-lhe pôr termo. A própria compreensão de
que a ignorância se sustenta a si própria, acaba com esse processo. Isto é, vós
mesmos observais como, por meio de vossas atividades, estais sustentando a
ignorância; como, por meio do anseio, que gera o medo, a ignorância é mantida; e
como isso dá continuidade ao processo do “eu”, à consciência. Essa ignorância, esse
processo do “eu”, mantém-se pelas próprias atividades volitivas nascidas da carência,
do anseio. Com a cessação da autonutrição, o processo do “eu” termina. (Palestras
em Ommen, Holanda, 1936, pág. 16)

O processo do “eu” é automantenedor, auto-ativo, por sua própria ignorância,


tendência, suas ansiedades. Ele tem de se destruir por meio da cessação dos próprios
desejos volitivos. Se compreenderdes profundamente o significado dessa integral
concepção do “eu”, então vereis que não sois mero ambiente, opinião ou acaso,
porém o criador, aquele que dá origem à ação. Vós criais vossa própria prisão de
tristeza e conflito. Por meio da cessação de vossas atividades volitivas, encontrareis a
realidade, a felicidade. (Palestras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 56-
57)

Deveis transcender o padrão da dualidade para resolverdes permanentemente o


problema dos opostos. Dentro do padrão, não se encontra verdade alguma (…); se
procurarmos a verdade dentro de seus limites, iremos ao encontro de desilusões.
Cumpre transcendermos o padrão dualista do “eu” e do “não eu”, do possuidor e da
coisa possuída. Para além e acima (…) da dualidade, encontra-se a verdade. Para
além e acima do interminável problema dos opostos, causador de conflitos e dores,
encontra-se a compreensão criadora. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 13)

Assim, direis agora: “se eliminardes esta concepção do “eu”, qual será o ponto focal da
vida?” (…) Dizeis: “eliminai, libertai a mente dessa consciência de si mesma, como um
“eu”, e, então, o que permanece?” O que resta quando sois supremamente felizes,
criativos? O que permanece é esta felicidade. Existe este admirável sentimento de
amor ou este êxtase. Digo que isto é real. Tudo o mais é falso. (Palestras em
Auckland, 1934, pág.116)
Pensador, Observador e Pensamento, Coisa
Observada
Enviado por ick em seg, 18/08/2008 - 12:32

A liberdade não é uma idéia, uma filosofia. A liberdade não existe quando a mente
está aprisionada no pensamento. (…) O pensamento é a resposta da memória, do
conhecimento e da experiência, é sempre produto do passado e não pode criar
liberdade (…)(O Mundo Somos Nós, pág. 15)

Como provocar então psicologicamente, interiormente, essa mudança radical (…)


fundamental, se ela não acontece por meio de um estímulo, nem por meio da análise e
da descoberta da causa? Uma pessoa pode facilmente saber por que é que está
encolerizada, mas isso não faz com que ela deixe de se encolerizar. (Idem, pág. 17)

Quando se aprofunda essa questão, surge o problema inevitável do “analisador” e


daquilo que é “analisado”, do “pensador” e do que é “pensado”, do “observador” e do
“observado”, e o problema de saber se essa divisão (…) é real, (…) um problema de
fato, e não uma questão teórica. (O Mundo Somos Nós, pág. 18)

Será o “observador” - o centro a partir do qual se olha, se vê, se ouve - uma entidade
conceptual que se separa a si mesma do “observador”? Quando se diz que se está
encolerizado, será a cólera diferente da entidade que sabe que está encolerizada?
Estará essa violência separada do “observador”? A violência não faz parte do
“observador”? (…) (Idem, pág. 18)

O “observador”, e o “eu”, o “ego”, o “experimentador”, o “pensador”, será diferente do


pensamento, da experiência, da coisa que ele observa? Quando olhamos uma árvore,
alguma vez a olhamos realmente? Ou será que a olhamos através das imagens
pertencentes ao conhecimento adquirido, à experiência passada? (Idem, pág. 18)

Se existe uma divisão entre o “observador” e o “observado”, essa divisão é a origem


de todo o conflito humano. Quando dizeis que amais alguém, será isso amor? Não
haverá, nesse amor, o “observador”, de um lado, e do outro a coisa amada, o
“observado”? Esse “amor” é produto do pensamento. (…) (O Mundo Somos Nós, pág.
19)

Vejamos a questão de maneira diferente. Vive-se no passado, todo o conhecimento é


do passado. (…) A nossa vida está essencialmente baseada no ontem, e o “ontem”
torna-nos impermeáveis, rouba-nos a capacidade da inocência, da vulnerabilidade.
Assim, o “ontem” é o “observador”; no “observador” estão todas as camadas do
inconsciente, assim como o consciente. (O Mundo Somos Nós, pág. 19-20)

Uma das causas principais do conflito é a existência de um centro, um ego, um “eu”,


resíduo de todas as lembranças, (…) experiências, (…) conhecimentos. E esse centro
está sempre tratando de ajustar-se ao presente ou de absorvê-lo (…) O que ele já
conhece é todo o conteúdo de milhares de dias pretéritos, e com esse resíduo procura
enfrentar o presente. (…) E nesse processo do passado, que traduz o presente e cria
o futuro, se acha aprisionado o “eu”, o ego. E nós somos isso. (O Passo Decisivo, pág.
112)

Assim, a fonte do conflito é o “experimentador” e a coisa que está “experimentando”.


(…) Enquanto houver separação entre pensador e pensamento, experimentador e
coisa experimentada, observador e coisa observada, tem de haver conflito. (…) Ora,
pode-se anular essa divisão ou separação, de modo que sejais o que vedes, sejais o
que sentis? (O Passo Decisivo, pág. 112)

Se você está prestando atenção, o que ocorre? Não há o “você” prestando atenção.
Não há um centro que diga: “Estou prestando atenção”. (…) Se você está sério e
prestando atenção, logo descobrirá que todos os seus problemas se foram, pelo
menos no momento. Resolver problemas é prestar atenção. (…) (Perguntas e
Respostas, pág. 67)

Digo: “Eu penso”. O pensamento é diverso da entidade que diz: “estou pensando”?
Dizemos que as duas coisas são separadas, que o “eu” pensa ser diferente do
pensamento. Presumimos que o “eu” vem em primeiro lugar; o “eu”, o “ego” é o
pensador; primeiro este, depois o pensamento, a mente. Separamos, pois, o “eu” e a
mente. Mas, isso é um fato? (…) (As Ilusões da Mente, pág. 114)

(…) Só depois de eliminado o pensante, se manifesta a Realidade. Essa unidade


indivisível do pensante e do pensamento é para ser conhecida. Esse conhecimento
traz-nos libertação; existe nele uma alegria inexprimível. (O Egoísmo e o Problema da
Paz, pág. 24-25)

Análise implica divisão - o analista e a coisa a analisar. Não importa se sois vós
mesmo que vos analisais, ou se é um especialista quem o faz - de qualquer maneira
há divisão e, por conseguinte, já temos o começo do conflito. (…) Eis por que tanto
importa compreender o “processo” da análise, a que a mente humana está apegada
há tantos séculos. (A Questão do Impossível, pág. 32)
Dentre os numerosos fragmentos em que nos achamos divididos, um assume a
função de “analista”; a coisa que se vai analisar é outro fragmento. Esse analista se
torna o “censor”; com seus conhecimentos acumulados, avalia o bom e o mau, o certo
e o errado, o que deve ou não deve ser reprimido, etc. Outrossim, o analista tem o
dever de fazer análises completas (…) (Idem, pág. 32)

Como já vimos, há separação entre o analista e a coisa a analisar, entre o observador


e a coisa observada; esta é a causa básica do conflito. Quando observamos, sempre o
fazemos com base num centro, em nosso fundo de experiência e conhecimento; o
“eu”, como católico, comunista ou “especialista” - está observando. Há, assim,
separação entre “mim” e a coisa observada. (…) Há, pois, “observador” e “coisa
observada”; nessa divisão produz-se, inevitavelmente, contradição. Essa contradição é
a raiz de todas as lutas. (Idem, pág. 33)

Ora, é o pensante diferente do seu pensamento? Se cessa o pensamento, onde fica o


pensante? Se fossem retiradas as qualidades do pensante, do “eu”, continuaria ele a
existir? Assim, os pensamentos são o pensante, não estão separados. (…) O
pensante separou-se de seus pensamentos para proteger-se (…) No momento em
que o pensante começa a modificar-se, deixa de existir. (Da Insatisfação à Felicidade,
pág. 103)

Quando uma pessoa se analisa, há sempre “o analisador” e “a coisa analisada”. O


analisador é aquele que está a olhar do lado de fora - a julgar, a avaliar, a controlar, a
reprimir, etc. Mas será possível uma pessoa ver-se intimamente, como realmente é?
Ou seja, poderá a pessoa olhar para si mesma sem o pensador, o observador - o
observador que está sempre de fora, que é o censor, a entidade que avalia, que diz
“isto está certo”, “isto está errado”, “isto deveria ser”, “isto não deveria ser” - o que
torna a observação muito limitada e meramente de acordo com o condicionamento
social, ambiental e cultural. (O Mundo Somos Nós, pág. 126)

Os pensamentos criaram o “pensador”, porque os pensamentos são transitórios, e (…)


dizemos que o pensador é permanente. Desse modo, na busca de permanência, os
pensamentos criaram o pensador. E então o pensador domina os pensamentos e
molda-os. (…) Os pensamentos criaram o pensador (…) Ao ser percebida a verdade a
esse respeito, não há mais o controlar dos pensamentos, (…) só há o pensar. Se digo
tal coisa e ela é compreendida, nisso já há uma revolução extraordinária; porque então
já não existe o “pensador” (…) Perceber a verdade a esse respeito é o começo da
meditação. (…) (O Problema da Revolução Total, pág. 126)
E possível, pois, olhar-se não analiticamente e, portanto, observar sem que seja o “eu”
aquele que observa? Quero compreender a mim mesmo e sei que o “eu” é muito
complexo; é uma coisa viva, não algo morto; é uma coisa viva, vital, em movimento,
não apenas um acúmulo de recordações, experiências e conhecimentos. (…) Pois
bem: é possível olhar sem o observador que olha a coisa observada? (…) (El
Despertar de la Inteligencia, pág. 116)

Se é o observador quem olha, então deve fazê-lo mediante a fragmentação, a divisão,


e onde há divisão - dentro e fora de si mesmo - deve haver conflito. No externo, os
conflitos nacionais, os religiosos, os econômicos, e, no interno, está este campo
imerso, não só no superficial, senão na área dilatada acerca da qual nada sabemos.
De modo que, se no ato de olhar existe essa divisão entre o “eu” e o “não eu”, entre o
observador e o observado, o pensador e o pensamento, o experimentador e a
experiência, então tem de haver conflito. (Idem, pág. 116)

Como se pode observar sem o “observador”, sendo este o passado, a imagem? (…) O
“fabricante” de imagens é o observador, e perguntamos se podeis observar vossa
esposa, a árvore, vosso marido, sem a imagem, sem o “observador”. Para se saber a
resposta, impende descobrir o mecanismo formador de imagens. Que é que cria as
imagens? Se o descobrirdes, jamais criareis imagens e podereis observar sem o
“observador”. (O Novo Ente Humano, pág. 115)

Vós me injuriais; se, nesse momento, houver “percepção total”, não haverá registro,
não tenho vontade de bater-vos ou de xingar-vos, estou passivamente cônscio do
insulto e, por conseguinte, não há formação de imagem. A primeira vez (…) ficai
totalmente cônscio, e vereis como a velha estrutura do cérebro se torna quieta (…) O
“registrador” não faz nenhum registro (…) O ver dessa maneira é o verdadeiro estado
de uma relação. Por conseguinte, a mente capaz de observar com clareza é também
capaz de observar o que é a Verdade. (Idem, pág. 115-116)

Se se percebe que essa é a causa básica do conflito, logo se pergunta: Pode-se


observar sem o “eu”, o “censor”, sem nenhuma de nossas experiências acumuladas,
de aflição, conflito, brutalidade, vaidade, orgulho, desespero, que constituem o “eu”?
Podeis, sem o passado - memórias, conclusões e esperanças, trazidas do passado -
observar sem esse background? Esse background, sendo o “eu”, o “observador” -
separa-vos da coisa observada. (A Questão do Impossível, pág. 33)

Mas, podeis olhar-vos interiormente sem “observador”? Tende a bondade de olhar-vos


- vosso condicionamento (…) educação (…) maneira de pensar (…) conclusões e
preconceitos - sem nenhuma espécie de condenação, explicação ou justificação -
observando, apenas. Quando assim se observa, não há observador e, por
conseguinte, não há conflito algum. (Idem, pág. 33)

Esse modo de vida difere totalmente do outro: não é o oposto do outro, nem uma
reação a ele; é diferente. Nele, há liberdade infinita, abundante energia e paixão. Ele é
observação total, ação completa. (…) (Idem, pág. 34)

Por certo, (…) ao compreendermos de maneira completa a natureza da nossa mente,


desaparece, então, inevitavelmente, a divisão entre o “pensador” e o pensamento,
desaparece o “observador” que está a observar aquela ansiedade ou temor e a
esforçar-se por vencê-lo. Só há, então, aquele “estado de ser” que é o temor, ou a
ansiedade, ou a solidão; não há mais o “observador” do temor. (A Renovação da
Mente, pág. 41)

Essa integração do “pensador” e do pensamento só se realiza quando a mente


abandona de todo as fugas e não mais se esforça para encontrar uma solução.
Porque, qualquer movimento por parte da mente para compreender o problema central
há de basear-se no tempo, no passado. E o tempo só vem à existência quando há
temor e desejo. (Idem, pág. 42)

Cabe-nos, por conseguinte, observar esse processo dualista em ação, em nosso


interior: a divisão em “eu” e “não eu”, observador e coisa observada. Foi o pensamento
que efetuou essa divisão. É ele quem diz: “Estou insatisfeito com o que é, e só poderei
satisfazer-me com o que deveria ser. (…) (Palestras com Estudantes Americanos,
pág. 90)

Existe, pois, em cada um de nós, esse processo dualista, contraditório. Esse processo
é um desperdício de energia. (…) Por que existe esse esforço constante: o que é e o
que deveria ser? (…) O observador é sempre o passado: nunca é novo. A coisa
observada pode ser nova, mas o observador a traduz sempre de acordo com o
“velho”, o passado, e, assim, o pensamento nunca poderá ser novo e, portanto, livre.
(Idem, pág. 90-91)

Assim, é possível a mente libertar-se do “observador”, do “censor”. Afinal, o


“observador”, o “censor” é o “eu”, que quer sempre mais e mais experiência. Tive
todas as “experiências” que este mundo pode proporcionar. Por conseguinte, desejo
novas experiências noutro nível, a que chamo “o mundo espiritual”; mas o
“experimentador” continua existente, o observador subsiste. (…) E pode o
“experimentador”, o “eu”, deixar de existir completamente? Porque só então é possível
a mente esvaziar-se e surgir o novo, a Verdade, a Realidade criadora. (O Homem
Livre, pág. 156)

Quando um indivíduo descobre o que realmente é, ele se pergunta: “É ele mesmo, o


observador, diferente do que observa?” - psicologicamente falando (…) Eu estou irado,
cobiçoso, violento; é isso diferente da coisa observada, que é a ira, a cobiça, a
violência? (…) Obviamente não é. (…) Portanto, eu sou a ira, o observador é o
observado. A divisão é ilimitada por completo. O observador é o observado e, por
conseqüência, o conflito termina. (La Totalidad de la Vida, pág.138)

Se o pensador separa o seu pensamento de si próprio, (…) sobreviverá


inevitavelmente o conflito e a ilusão. Não há saída (…), a não ser que se transforme o
pensador. Essa completa integração do pensador com o pensamento não é uma
expressão verbal, senão uma experiência profunda que só se manifesta quando o
pensador já não está colhido na oposição dualista.

Pelo autoconhecimento e pela meditação correta, verifica-se a integração do pensador


com o pensamento (…) Na verdadeira meditação, o sujeito que se concentra é a
própria concentração; (…) Na verdadeira meditação, não está o pensador separado do
pensamento (…) É só então que há criação (…) eternidade. (…) (O Egoísmo e o
Problema da Paz, pág. 147-148)

Quando há “experimentar”, não há o que experimenta nem a coisa experimentada.


Nesse “estado de experimentar”, que é sempre novo, que sempre é ser (…) o
indivíduo sabe que a palavra não é a experiência, (…) não é a coisa, (…) nenhum
conteúdo tem; só a própria “experiência” é repleta de conteúdo. (O que te fará Feliz,
pág. 125-126)

O “experimentar” não é, pois, verbalização. “Experimentar” é a mais elevada forma de


compreensão, porquanto é a negação do pensar. A forma negativa de pensar é a mais
elevada forma de compreensão; e não pode haver pensar negativo, quando há
verbalização do pensamento. (…) (Idem, pág. 126)

Não se trata, pois, absolutamente, de controlar e pensamento, mas de se ficar livre do


pensamento. É só quando a mente fica livre do pensamento, que há percepção
daquilo “que é”, do que é eterno, da Verdade. (Idem, pág. 126)

(…) O observador vê através da imagem, e tem continuidade no tempo. Portanto, não


pode ver nada novo. Se olho a minha esposa com a imagem de anos, e a isso chamo
relação, nada de novo há nisso. (El Despertar de la Inteligencia, pág. 119)
É possível então ver algo novo sem o observador? O observador é tempo. Posso olhar
“o que é” não fragmentado, sem o observador, que é tempo? Pode haver uma
percepção sem aquele que percebe? (Idem, pág. 119)

Como há de olhar-se um indivíduo? É possível olhar-se de modo total, sem a divisão


entre o consciente e as camadas profundas da consciência, das quais talvez nem
sequer nos damos conta? É possível observar, ver todo o movimento do “eu”, do “mim
mesmo”, de “o que sou”, com uma mente não analítica, de modo tal que, no observar
a mim mesmo, haja instantaneamente uma compreensão total? (…) (El Despertar de
la Inteligencia, II, pág. 116)

Ao percebermos a verdade de que o observador é a coisa observada, não há então


dualidade e, por conseguinte, não há conflito (que, como dissemos, é desperdício de
energia). Só há então o fato: a mente condicionada. (…) (A Libertação dos
Condicionamentos, pág. 34)

Ora, pode-se perceber muito bem que o pensador é resultado do pensamento; porque
não existe pensador se não existir pensamento, não há experimentador quando não
há experimentar. O experimentador, o observar, o pensar, produz o experimentador, o
observador, o pensador. O experimentador não está separado da experiência, (…) do
pensamento. (…) O pensamento criou o pensador, como entidade separada, porque o
pensamento está sempre a modificar-se, transformar-se, e reconhece a própria
impermanência. Sendo transitório, o pensamento deseja a permanência, e cria assim
o pensador, como entidade permanente, fora da rede do tempo. (Viver sem Confusão,
pág. 23)

Se percebemos a verdade desse fato - isto é, que o pensador é pensamento, que não
existe pensador separado do pensamento, mas apenas o processo do pensar - o que
acontece? (…) Até aqui, sabemos que o pensador está operando sobre o
pensamento, e isso gera conflito entre o pensador e o pensamento; mas, se
percebemos a verdade de (…) que o pensador é uma entidade arbitrária, artificial e
inteiramente fictícia - que acontece? Não é então afastado o processo do conflito? (…)
(Idem, pág. 23-24)

A ra