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Pedagogia,

Controle Simbólico e Identidade. Teoria,


Pesquisa, Crítica - Basil Bernstein

Capítulo 5 - Reflexões sobre o Trivium e o Quadrivium: o divórcio do


Conhecimento em relação ao Conhecedor •




Receio que este não será um artigo no sentido usual da expressão. Não vou fazer
aqui uma apresentação sistemática ou a exposição de uma tese particular, nem um
relato de pesquisa, tampouco uma visão geral de uma seção relevante do campo
intelectual. Pensei em aproveitar esta oportunidade para explorar algumas ideias que
surgiram a partir de alguns trabalhos recentes sobre a natureza do discurso pedagógico.
Eu não estou inteiramente seguro de que conseguirei apresentar essas ideias, essas
intuições, na forma ordenada com que estamos acostumados. Não digo isso como uma
estratégia acadêmica de defesa, mas como uma avaliação precisa do meu estado atual de
conhecimento. Você pode perguntar, bem, por que você não guarda isso consigo até que
a história esteja pronta? Quem quer ouvir um roteiro onde o enredo não está trabalhado
e metade dos personagens está faltando? A única resposta que posso dar é que às vezes
um roeiro precisa de um pouco de ajuda e, talvez, que é o que vai acontecer aqui, que ele
tenha de ser abandonado. O problema começou há muitos anos atrás, quando eu li a
magnífica análise da evolução da educação na França, de Durkheim. Tudo começou com
sua análise do discurso, da estrutura social e das relações sociais da universidade
medieval. Durkheim estava preocupado em mostrar como o discurso da universidade
medieval continha em si uma tensão, mesmo uma contradição, o que proporcionou a
dinâmica do desenvolvimento da universidade. Ele viu esta tensão ou contradição como
uma representação dos dois discursos sobre os quais a universidade medieval foi
fundada, o do cristianismo e o do pensamento grego. Estes dois discursos, ele
argumentou, produziram a tensão entre fé e razão, que ele viu como proporcionadora da
dinâmica do desenvolvimento da universidade.
Durkheim também estava interessado na origem da natureza abstrata do
conhecimento e isso não deve ter sido um problema para ele. Afinal, se você
recontextualiza o pensamento grego, você deve ter um discurso abstrato, idealizado,
essencialista. Certamente Durkheim foi claro sobre a relação, sobre a harmonia entre o
cristianismo e as formas selecionadas do pensamento grego. No entanto, ele disse outra
coisa que me fez pensar. Para muitos de vocês isso será óbvio. Durkheim disse que o
Deus cristão era um deus sobre o qual você tinha que pensar. Ele era um deus que não
só era ser amado, mas também para ser pensado. E esta atitude criou uma modalidade
abstrata para o discurso. Eu não estou preocupado se Durkheim está certo nisso. Eu
acho (a propósito) que ele está certo mas não pelas razões certas. Eu acho que ele está
certo, mas sua análise não é suficientemente fundamental. Como muitos problemas
abstratos este começou com algo que não parece à primeira vista ser um problema real,


Esta tradução de capítulos de Pedagogy, Symbolic Control and Identity. Theory, Research, Critique. (Revised
Edition. Rowman & Littlefield Publishers. London, 2000), foi feita com apoio do programa CAPES-PIBID e
destina-se apenas a usos não-comerciais, em grupos de estudo e aulas. (Ronai Rocha)

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no fim das contas. O problema começou com o primeiro deslocamento no conhecimento
oficial europeu, com a primeira classificação, a primeira, em termos de Foucault, falha
arqueológica na continuidade do conhecimento oficial. Um deslocamento que teve
consequências profundas para a cultura, uma especialização de dois discursos em
diferentes períodos de tempo, a primeira progressão ou sequenciamento do
conhecimento oficial. É claro que estou aqui me referindo à especialização, ao
agrupamento de conhecimento chamado de Trivium e à especialização diferente do
conhecimento chamada de Quadrivium. O Trivium consistia em gramática, lógica e
retórica e o Quadrivium consistia em aritmética, astronomia, geometria e música.
Durkheim oferece um relato muito interessante sobre como a ênfase nos elementos do
Trivium mudou com o desenvolvimento de uma nova burguesia na Renascença. Mas
esta não é a nossa preocupação aqui. Durkheim argumentou que esta classificação,
deslocamento, limite, representou uma ruptura entre o Trivium como a exploração da
palavra e do Quadrivium como a exploração do mundo; a palavra e o mundo eram
mantidas em conjunto pela unidade do cristianismo. Claro que isso não é inteiramente
correto. Não é tanto a Palavra, mas os meios de compreender os princípios por trás da
palavra e sua realização. Da mesma forma, não é o Mundo, mas os princípios de
compreensão do mundo material. Era também o caso que o Trivium era estudado em
primeiro lugar e depois o Quadrivium. A Palavra antes do mundo, em termos de
Durkheim. Minha versão será mais forte, nenhum mundo antes da palavra. Pareceu-me
que Durkheim havia formulado e conceituado o problema, mas que não tinha explicado.
Por que o Trivium em primeiro lugar, qual foi a modalidade de abstração que o
cristianismo deu ao discurso oficial? E foi por aí que comecei.
Por que o Trivium em primeiro lugar? Pode-se argumentar que o Trivium foi o
primeiro por razões pedagógicas ou materiais; por exemplo, você deve primeiro saber
como pensar antes de aplicar o pensamento. Foi também interessante que, na
celebração anual os professores do Quadrivium lideravam o desfile da universidade e os
professores do Trivium vinham por último. Seria uma materialização metafórica do
ditado que os últimos serão os primeiros. No entanto, também era o caso que o Trivium
dominava a universidade. Os professores do Trivium tinham o poder. Agora, sobre a
orientação abstrata do conhecimento, é o suficiente dizer: se você ensina os gregos você
ensina abstração - você ensina que a palavra está vazia e não é senão um ponteiro para
um conceito? Não tenho certeza se alguma dessas explicações é adequada, e também
não tenho certeza se o que eu vou oferecer também é totalmente adequado.
Vou começar onde Durkheim parou em sua discussão do Trivium/Quadrivium e
levar sua análise adiante. Vou propor que há um outro nível inferior ao da palavra e do
mundo. Vou propor que o Trivium não é simplesmente sobre a compreensão da palavra,
dos princípios que lhe estão subjacentes, da mecânica da linguagem e do raciocínio, mas
que ele está ligado com a constituição de uma forma particular de consciência, de uma
modalidade distinta do eu, para definir limites para essa forma de consciência, para
regular a modalidade do self. Para constituir o self na Palavra, sim, mas a Palavra de
Deus. Um deus particular. O Deus Cristão. Em outras palavras, o Trivium está lá para
criar uma forma particular do exterior (o mundo). O deslocamento entre o Trivium e o
Quadrivium, então, é um deslocamento entre interior e exterior. Um deslocamento como
uma condição prévia para uma nova síntese criativa entre o interior e o exterior gerado
pelo cristianismo. Talvez mais do que isso. O Trivium vem em primeiro lugar, porque a
construção do interior, um interior válido, o verdadeiro interior, é uma condição
necessária para que a compreensão do mundo também seja válida, também seja
verdadeira, também seja aceitável, também seja legítima em termos do discurso do
cristianismo. A sacralidade do mundo é garantida ou deveria ser garantida pela
construção adequada do interior, de um self verdadeiramente cristão. Assim, enquanto a
forma aparente do discurso é grega, a mensagem é cristã. Mais do que isso, a gramática
profunda do Trivium, Quadrivium, ou seja, suas características paradigmáticas e
sintagmáticas, é uma metáfora do novo deslocamento entre interior e exterior que o

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próprio cristianismo introduziu e resolveu. Vou argumentar que é esta nova relação
mediada entre interior e exterior que é a origem da necessária orientação abstrata do
cristianismo, um cristianismo que se apropriou do pensamento grego para a sua própria
mensagem.
É possível ilustrar tanto esta orientação abstrata e o deslocamento anterior do
interior e do exterior, tão essenciais para a formação do self cristão, através da análise
do processo de conversão. Nos estágios iniciais do desenvolvimento e da difusão da fé, a
conversão não exige uma mudança de nacionalidade. Ela não exigia uma mudança de
cultura. Ela não exigia nem mesmo uma mudança de prática. Ela exigia uma revolução
da interioridade, um giro para o reconhecimento de Cristo, do significado de Cristo.
Note-se aqui que o cristianismo toma um ponto fora da cultura e da prática daqueles a
serem convertidos como base para esta conversão e, em seguida, coloniza a partir de
dentro. O cristianismo coloca uma cunha entre a prática interior e exterior. Ele cria uma
brecha que se torna o local para uma nova consciência. Pensar e sentir fora de sua
cultura e prática é intrinsecamente uma orientação abstrata. Claramente, no entanto, o
novo sentimento e pensamento estará confinado nos termos da nova modalidade.
Assim, o deslocamento do interior e do exterior, para abrir um novo eu existencial, é
intrínseco ao cristianismo. Não é grego. Há deslocamentos no pensamento grego,
questões de justiça distributiva entre indivíduo/sociedade, a palavra e o conceito, a
forma ideal e a representação particular, mas eu não incluiria a reflexão sobre o eu
deslocado e sua nova síntese.
Para realçar ainda mais estas proposições experimentais, quero fazer algumas
comparações entre o judaísmo e o cristianismo que vão me trazer mais para perto do
título desta palestra.
Eu diria que a característica fundamental do judaísmo é menos do que ser uma
fé monoteísta e mais que o Deus é invisível. O Deus somente pode ser ouvido. O Deus
judaico, ao contrário do cristão, é temporal e não visual. Se o Deus judaico é invisível,
então a distância entre Deus e as pessoas é máxima. Não há nenhuma maneira pela qual
as pessoas possam tornar-se Deus, e Deus tornar-se humano. A distância é
intransponível por ambos. Como as pessoas se relacionam com este Deus invisível?
Como o intransponível é transposto? Através da relação a um atributo de Deus. A
santidade. E como é que a santidade deste Deus torna-se material, torna-se palpável? A
santidade se torna material, torna-se palpável através dos ciclos diários de oração, do
ritual e por meio das classificações da lei. A santidade é realizada na oração, no ritual e
nas classificações que estabelecem a natureza fundamental do vínculo social entre os
homens, as mulheres e a comunidade. A santidade, o atributo do Deus invisível,
estabelece a unidade de Deus e das pessoas através da natureza do vínculo social. Não
há deslocamento do interior e do exterior no judaísmo. Isso não significa dizer que o
judaísmo não fala com o interior – os Salmos são testemunho suficiente aqui - somente
que não há deslocamento do self. Em vez disso, há a comunidade completa e perfeita
estabelecida pela oração, ritual e classificação. A comunidade perfeita é a realização final
do Deus judaico. Vamos um pouco mais adiante neste assunto antes de comparar o
discurso do judaísmo e do cristianismo. Uma consequência do Deus Judaico Invisível é
que não há exemplares do mesmo. Você não pode ter um exemplar de algo que é
invisível. O Judaísmo, ao contrário do Cristianismo, é uma religião não-exemplar. O Deus
judaico não quer mediação através de figuras exemplares. É uma religião não mediada,
há apenas dois termos: Deus e Homem, enquanto que o Cristianismo, mais tarde,
fornece uma metáfora de três. Se consideramos o Antigo Testamento, vemos que as
narrativas das principais figuras, Moisés, Davi, Salomão, os grandes profetas Elias, Eliseu
parecem ser baseado em uma regra - tudo deve ser mostrado como falível. Todas as
grandes figuras das grandes narrativas cometem grandes erros de julgamento e prática.
A regra de que tudo deve ser mostrado como falível é o outro lado da regra, “Não haverá
exemplares”. Essa regra enfatiza, declara, só há uma perfeição, aquela do Deus invisível.

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No entanto, há uma implicação aqui - Deus é absoluto – o Homem é relativo, nenhum
homem tem a verdade – Deus é o principio de todas as coisas.
Quero agora brevemente olhar para o Judaísmo como discurso. No Judaísmo
temos uma religião não-exemplar, mas com um texto incompleto. Isto requer alguma
explicação. Existe a lei escrita, a Torá, que é não só um modelo do universo, mas é um
guia para os detalhes mais mundanos e menores da vida, no qual cada detalhe se
conecta com o todo. O particular carrega a santidade do todo. Por meio de interpretação,
aplicação e significação adequada, qualquer contingência pode ser revelada. Assim, a lei
escrita está sujeita a interpretações sem fim, interpretações que proíbem a
generalização, que procede de um particular para outro. Para a generalização, o
princípio santo está vivo em cada particular. Assim, no judaísmo, uma religião não-
exemplar com um texto incompleto, a interpretação ocorre através da elaboração
contínua de dados e a generalização é abominada. Tal elaboração só é possível por causa
da certeza da fé. Assim, no judaísmo, temos uma religião não-exemplar, um texto
incompleto, mas uma sociedade perfeita, aperfeiçoada pela Torá. O Cristianismo, por
outro lado, é uma religião exemplar, na qual o texto está completo e perfeito em Jesus,
onde a generalização e a metáfora abrangem o abstrato. No entanto, também é uma fé
que não pode ser considerada um dado adquirido; ela deve ser constantemente
reconquistada, revitalizada, renovada. Assim, o eu cristão, ao contrário do eu judaico
seguro em sua certeza, está sujeito à duvida, ao questionamento, ao interrogatório.
Neste sentido o cristianismo cria uma modalidade especial de linguagem, um modo
interrogativo que separa o eu de seus atos, a intenção da prática. Ao mesmo tempo a
própria linguagem pode tanto revelar e enganar. O próprio meio de comunicação pode
levar a revelação ou o engano. Não é de admirar que a linguagem, a comunicação, seja
tão central para o cristianismo pois ela forma a relação autêntica e os seus meios de
questionamento, e, assim, o verdadeiro eu na fé.
Podemos agora finalmente retornar ao deslocamento Trivium/Quadrivium e às
intuições de Durkheim. Tentei mostrar que a orientação abstrata e o deslocamento dos
dois discursos fundamentais da universidade medieval têm suas raízes no Cristianismo,
no deslocamento original do eu que o cristianismo engendrou como a condição principal
para a suas próprias boas novas, a nova de Cristo. Sugeri que esse deslocamento do
interior e do exterior, a condição para o estabelecimento do eu verdadeiramente cristão,
não é um deslocamento que pode ser encontrado no pensamento grego. Mas o
pensamento grego foi seletivamente apropriado pelo cristianismo e levado adiante de
modo a tornar seguro o pensamento grego. Nisso ele não teve êxito.
Finalmente, agora quero fazer uma rápida passagem do princípio da organização
do discurso no período medieval para os princípios subjacentes à organização do
discurso oficial hoje. Tentei mostrar que no período medieval tivemos dois discursos
especializados diferentes, um para a construção do interior, um para a construção do
exterior – o mundo material. A construção do interior era a garantia para a construção
do exterior. Podemos encontrar nisso a origem das profissões. Durante os próximos
quinhentos anos houve uma substituição progressiva do fundamento religioso do
conhecimento oficial por um princípio secular humanizador. Quero argumentar que
temos, pela primeira vez, um princípio desumanizador para a organização e a orientação
do conhecimento oficial. O que estamos vendo é o desenvolvimento crescente das
disciplinas especializadas do Quadrivium, e as disciplinas do Trivium tornaram-se as
disciplinas de controle simbólico - as ciências sociais. Em certo sentido, o Trivium foi
substituído pelas ciências sociais para a gestão de sentimentos, pensamentos, relações e
práticas. Agora há menos deslocamento do conhecimento. A engenharia genética e a
ciência cognitiva operam entre as ciências naturais, biológicas e sociais. Qual é o
princípio subjacente ao novo discurso? Hoje, por toda a Europa, liderada pelo USA e no
Reino Unido, há um novo princípio orientador da mais recente transição do capitalismo.
Os princípios do mercado e seus gestores são cada vez mais os gestores da política e das
práticas da educação. A relevância para o mercado está se tornando o critério

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orientador chave para a seleção dos discursos, para as relações mútuas, suas formas e
suas pesquisas. Este movimento tem implicações profundas da escola primária à
universidade. Isto pode ser visto na ênfase sobre as competências básicas mensuráveis
no nível primário, nos cursos profissionais e especializações no nível secundário, na
descentralização espúria, e nos novos instrumentos de controle do Estado sobre ensino
superior e pesquisa.
De fundamental importância, há um novo conceito de conhecimento e de sua
relação com aqueles que o criam e usam. Este novo conceito é um conceito
verdadeiramente secular. O conhecimento deve fluir como dinheiro para onde quer que
ele pode criar vantagem e lucro. Na verdade o conhecimento não é como dinheiro, ele é
dinheiro. O conhecimento está divorciado das pessoas, de seus compromissos, de sua
dedicação pessoal. Estas tornam-se impedimentos, restrições sobre o fluxo de
conhecimento, e introduzem deformações no funcionamento do mercado simbólico.
Movimentar o conhecimento, ou até mesmo criá-lo, não deve ser mais difícil do que em
movimentar e regulamentar o dinheiro. O conhecimento, depois de quase mil anos, está
divorciado da interioridade e literalmente desumanizado. Uma vez que o conhecimento
está separado da interioridade, de compromissos, da dedicação pessoal, a partir da
estrutura profunda do eu, então as pessoas podem ser movimentadas, substituídas
umas pelas outras e excluídas do mercado.
Esta orientação representa uma ruptura fundamental na relação entre o
conhecedor e aquilo que é conhecido. No período medieval os dois estavam
necessariamente integrados. O conhecimento era uma expressão externa de uma
relação interna. A relação interna era uma garantia da legitimidade, integridade,
da preciosidade e do valor do conhecimento e do estatuto especial do
conhecedor como cristão. Sabemos, no entanto, como esse estatuto especial, por
sua vez limitava e distorcia o conhecimento, mas este não é o ponto aqui. Hoje o
princípio do mercado cria um novo deslocamento. Agora temos dois mercados
independentes, um de conhecimento e outro dos potenciais criadores e usuários
do conhecimento.
O primeiro deslocamento entre o Trivium e Quadrivium constituiu a
interioridade como uma condição prévia do saber; o segundo deslocamento, o
deslocamento contemporâneo, desconectou o interior do exterior, como uma pré-
condição para a constituição do exterior e sua prática, de acordo com os princípios de
mercado da Nova Direita.
Durkheim afirmou que havia uma contradição no coração da universidade
medieval, entre fé e razão, e esta foi a chave para o desenvolvimento tanto do
conhecimento e da universidade. Hoje, talvez o que há não é tanto uma contradição
quanto uma crise, e o que está em jogo é o próprio conceito de educação.