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Rubem Alves

O prazer da leitura

Alfabetizar é ensinar a ler. A palavra alfabetizar vem de "alfabeto". "Alfabeto" é o conjunto das letras de uma
língua, colocadas numa certa ordem. É a mesma coisa que "abecedário". A palavra "alfabeto" é formada com
as duas primeiras letras do alfabeto grego: "alfa" e "beta". E "abecedário", com a junção das quatro primeiras
letras do nosso alfabeto: "a", "b", "c" e "d". Assim sendo, pensei a possibilidade engraçada de que
"abecedarizar", palavra inexistente, pudesse ser sinónimo de "alfabetizar"...
"Alfabetizar", palavra aparentemente inocente, contém a teoria de como se aprende a ler. Aprende-se a ler
aprendendo-se as letras do alfabeto. Primeiro as letras. Depois, juntando-se as letras, as sílabas. Depois,
juntando-se as sílabas, aparecem as palavras...
E assim era. Lembro-me da criançada a repetir em coro, sob a regência da professora: "bê-á-bá; bê-e-bê; bê-i-
bi; bê-ó-bó; bê-u-bu"... Estou a olhar para um postal, miniatura de um dos cartazes que antigamente se usavam
como tema de redacção: uma menina deitada de bruços sobre um divã, queixo apoiado na mão, tendo à sua
frente um livro aberto onde se vê "fa", "fe", "fi", "fo", "fu"...
Se é assim que se ensina a ler, ensinando as letras, imagino que o ensino da música se deveria chamar
"dorremizar": aprender o dó, o ré, o mi... Juntam-se as notas e a música aparece! Posso imaginar, então, uma
aula de iniciação musical em que os alunos ficassem a repetir as notas, sob a regência da professora, na
esperança de que, da repetição das notas, a música aparecesse...
Todo a gente sabe que não é assim que se ensina música. A mãe pega no bebé e embala-o, cantando uma canção.
E a criança percebe a canção. O que o bebé ouve é a música, e não cada nota, separadamente! E a evidência da
sua compreensão está no facto de que ele se tranquiliza e dorme – mesmo nada sabendo sobre notas!
Eu aprendi a gostar de música clássica muito antes de saber as notas: a minha mãe tocava-as ao piano e elas
ficaram gravadas na minha cabeça. Somente depois, já fascinado pela música, fui aprender as notas – porque
queria tocar piano. A aprendizagem da música começa como percepção de uma totalidade – e nunca com o
conhecimento das partes.
Isto é verdadeiro também sobre aprender a ler. Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas
maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história.
A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com
prazer. A criança volta-se para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifrá-los, compreendê-los
– porque eles são a chave que abre o mundo das delícias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de
chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está a ler.
Num primeiro momento, as delícias do texto encontram-se na fala do professor. Usando uma sugestão de
Melanie Klein, o professor, no acto de ler para os seus alunos, é o "seio bom", o mediador que liga o aluno ao
prazer do texto. Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintáctica. Não foi
nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas lembro-me com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não
eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos, extasiados. Ninguém falava.
Antes de ler Monteiro Lobato, eu ouvi-o. E o bom era que não havia exames sobre aquelas aulas. Era prazer
puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa da leitura – experiência vagabunda! – e
a experiência de ler a fim de responder a questionários de interpretação e compreensão. Era sempre uma tristeza
quando a professora fechava o livro...
Vejo, assim, a cena original: a mãe ou o pai, livro aberto, a ler para o filho... Essa experiência é o aperitivo que
ficará para sempre guardado na memória afectiva da criança. Na ausência da mãe ou do pai, a criança olhará
para o livro com desejo e inveja. Desejo, porque ela quer experimentar as delícias que estão contidas nas
palavras. E inveja, porque ela gostaria de ter o saber do pai e da mãe: eles são aqueles que têm a chave que abre
as portas de um mundo maravilhoso!
Roland Barthes faz uso de uma linda metáfora poética para descrever o que ele desejava fazer, como professor:
maternagem – continuar a fazer aquilo que a mãe faz. É isso mesmo: na escola, o professor deverá continuar o
processo de leitura afectuosa. Ele lê: a criança ouve, extasiada! Seduzida, ela pedirá: Por favor, ensine-me! Eu
quero poder entrar no livro por minha própria conta...
Toda a aprendizagem começa com um pedido. Se não houver o pedido, a aprendizagem não acontece. Há aquele
velho ditado: É fácil levar a égua até ao meio do ribeirão. O difícil é convencer a égua a beber. Traduzido pela
Adélia Prado: Não quero faca nem queijo. Quero é fome. Metáfora para o professor.
Todo o texto é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a
técnica, se ele desliza sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece. E o texto apossa-se
do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se luta com as palavras, se não desliza
sobre elas – a leitura não produz prazer: queremos logo que ela acabe.
Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que os seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um
artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida
nas nossas escolas a prática dos "concertos de leitura". Se há concertos de música erudita, jazz – por que não
concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão o prazer de ler.
E acontecerá com a leitura o mesmo que acontece com a música: depois de termos sido tocados pela sua beleza,
é impossível esquecer. A leitura é uma droga perigosa: vicia... Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é só
deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos – gramática, usos da partícula "se", dígrafos,
encontros consonantais, análise sintáctica – que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que
importa: a beleza musical do texto. E a missão do professor?
Acho que as escolas só terão realizado a sua missão se forem capazes de desenvolver nos alunos o prazer da
leitura. O prazer da leitura é o pressuposto de tudo o mais. Quem gosta de ler tem nas mãos as chaves do mundo.
Mas o que vejo a acontecer é o contrário. São raríssimos os casos de amor à leitura desenvolvido nas aulas de
estudo formal da língua.
Paul Goodman, controverso pensador norte-americano, diz: Nunca ouvi falar de nenhum método para ensinar
literatura (humanities) que não acabasse por matá-la. Parece que a sobrevivência do gosto pela literatura tem
dependido de milagres aleatórios que são cada vez menos frequentes.
Vendem-se, nas livrarias, livros com resumos das obras literárias que saem nos exames. Quem aprende resumos
de obras literárias para passar, aprende mais do que isso: aprende a odiar a literatura.
Sonho com o dia em que as crianças que leem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros
consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objecto de exames: os livros serão lidos
pelo simples prazer da leitura.

Gaiolas ou asas?
O voo, signo da liberdade, só pode ser encorajado

Os pensamentos me chegam inesperadamente, na forma de aforismos. Lichtenberg, William Blake e Nietzsche


frequentemente eram também atacados por eles. “Atacados” porque surgem repentinamente, com a força de um
raio. Aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Ontem, esse aforismo me atacou: “Há escolas que são
gaiolas. Há escolas que são asas”.
Escolas-gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob
controle. Seu dono pode levá-los aonde quiser. Deixaram de ser pássaros, pois a essência dos pássaros é o voo.
Escolas-asas não amam pássaros engaiolados. Amam os pássaros em voo. Ensinar o voo não podem, porque o
voo já nasce dentro dos pássaros. O voo só pode ser encorajado.
Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de ensino médio, em
escolas de periferia. Seus relatos são de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças… E
elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina: dar o programa, fazer
avaliações… Ouvindo seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra
– e as domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres… Sentir alegria ao
sair de casa para ir para a escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O seu sonho é livrar-se de tudo
aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma que as fecha com os tigres.
Violento é o pássaro que luta contra os arames da gaiola ou a gaiola que o prende? Violentos são os adolescentes
de periferia ou as escolas? Alguns dirão que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorar
de vida. De acordo. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas pergunto: nossas escolas
dão uma boa educação? O que é uma boa educação?
Os burocratas pressupõem que os alunos ganham boa educação se aprendem os conteúdos dos programas
oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas, avaliações, acrescidos dos novos
exames elaborados pelo Ministério da Educação.
Mas será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação?
Professoras são obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Bruno Bettelheim relata
sua experiência: “fui forçado a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender – e
aprender à sua maneira…”.
O sujeito da educação é o corpo, é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. A
inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que a inteligência era
“ferramenta” e “brinquedo” do corpo. Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender
“ferramentas” e “brinquedos”. “Ferramentas” são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais
do dia-a-dia. “Brinquedos” são aquelas coisas que, não tendo utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria
à alma. No momento em que escrevo, ouço o coral da Nona Sinfonia. Não serve para nada. Mas enche a minha
alma de felicidade. Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo da educação.
Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. Ferramentas permitem voar pelos caminhos do mundo.
Brinquedos permitem voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e brinquedos está
aprendendo liberdade, não fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescerem.

O olhar do professor
Walt Whitman conta o que sentiu quando, menino, foi para a escola:

Ao começar os meus estudos, agradou-me tanto o passo inicial, a simples consciencialização dos factos, as
formas, o poder do movimento, o mais pequeno insecto ou animal, os sentidos, o dom de ver, o amor – o
passo inicial, torno a dizer, assustou-me tanto, agradou-me tanto, que não foi fácil para mim passar e não foi
fácil seguir adiante, pois eu teria querido ficar ali a vaguear o tempo todo, cantando aquilo em cânticos
extasiados.

Nietzsche disse que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. É a primeira tarefa porque é através dos
olhos que as crianças, pela primeira vez, tomam contacto com a beleza e o fascínio do mundo. Os olhos têm
que ser educados para que a nossa alegria aumente.

Já li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da educação, didáctica –
mas, por mais que me esforce, não me consigo lembrar de qualquer referência à educação do olhar, ou
à importância do olhar na educação.

Por isso, lhe digo: Professor: trate de prestar atenção ao seu olhar. Ele é mais importante que os seus planos
de aula. O olhar tem o poder de despertar ou, pelo contrário, de intimidar a inteligência. O seu olhar tem um
poder mágico!

O olhar de um professor tem o poder de fazer a inteligência de uma criança florescer ou murchar. Ela continua
lá, mas recusa-se a partir para a aventura de aprender. A criança de olhar amedrontado e vazio, de olhar
distraído e perdido. Ela não aprende. Os psicólogos apressam-se em diagnosticar alguma perturbação
cognitiva. Chamam os pais. Aconselham-nos a mandá-la para uma terapia. Pode até ser. Mas uma outra
hipótese tem que ser levantada: que a inteligência dessa criança – que parece incapaz de aprender –, tenha
sido petrificada pelo olhar do professor.

Por isso lhe digo, professor: cuide dos seus olhos…

Rubem Alves
Gaiolas ou Asas
A arte do voo ou a busca da alegria de aprender
Porto, Edições Asa, 2004
(excertos adaptados)
O L.I.V.R.O. – Tempos Modernos, o supra-sumo da Tecnologia

Confira as revolucionárias vantagens do L.I.V.R.O. – Local de Informações Variadas,


Reutilizáveis e Ordenadas

A matéria abaixo é um texto que circulou na Internet no final de fevereiro de 1998 e foi publicado na Revista do Clube Militar de setembro de 1998.

O L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos,
pilhas. Não necessita ser conectado a nada e nem ligado. É tão fácil de usar que até uma
criança pode operá-lo. Basta abri-lo! Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de
páginas numeradas, feitas de papel reciclável e capazes de conter milhares de informações.
As páginas são mantidas unidas por sistema chamado lombada, que as mantêm em sua
seqüência correta. A TPA – Tecnologia de Papel Opaco – permite que os fabricantes as duas
faces de cada folha de papel, duplicando a quantidade de informações e cortando pela
metade os seus custos.

Especialistas dividem-se quanto aos novos projetos para aumentar a densidade de


informações de suas folhas. É que, para se fazer L.I.V.R.O.S. com mais informações, basta
usar mais páginas. Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de carregar, atraindo
críticas dos adeptos dos computadores portáteis.

Cada página do L.I.V.R.O. é escaneada opticalmente, e as informações são registradas


diretamente em seu cérebro. Um simples movimento dos dedos leva à próxima página. O
L.I.V.R.O. pode ser retomado a qualquer hora, bastando abri-lo. Ele nunca “dá pau” e nem
precisa ser reiniciado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo. O
comando “browse” permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou
retroceder quando você quiser. Muitos vêm com um índice, que indica a localização exata
de qualquer informação selecionada.

O marca-páginas, um acessório opcional permite que você abra o L.I.V.R.O. no local exato
em que o deixou na última sessão - mesmo que ele esteja fechado. O design dos marcadores
de página é universal, permitindo que funcionem em qualquer tipo de L.I.V.R.O., não
importando a marca. Além disso, um mesmo L.I.V.R.O. pode receber vários marcadores de
páginas, caso seu usuário queira selecionar vários trechos ao mesmo tempo.

O número de marcadores é limitado apenas pelo número de páginas. Você também pode
fazer anotações ao lado de trechos do L.I.V.R.O. cm outro instrumento de programação
especial, o L.Á.P.I.S. – Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada.
Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo aclamado como a onda de entretenimento
do futuro.

Milhares de criadores já aderiram à nova plataforma e espera-se para breve uma inundação
de novos títulos.
Porta de colégio – Affonso Romano

Passando pela porta de um colégio, me veio uma sensação nítida de que aquilo era a porta da própria
vida. Banal, direis. Mas a sensação era tocante. Por isto, parei, como se precisasse ver melhor o que via e previa.
Primeiro há uma diferença de clima entre aquele bando de adolescentes espalhados pela calçada, sentados sobre
carros, em torno de carrocinhas de doces e refrigerantes, e aqueles que transitam pela rua. Não é só o uniforme.
Não é só a idade. É toda uma atmosfera, como se estivessem ainda dentro de uma redoma ou aquário, numa
bolha, resguardados do mundo. Talvez não estejam. Vários já sofreram a pancada da separação dos pais.
Aprenderam que a vida é também um exercício de separação. Um ou outro já transou droga, e com isto deve
ter se sentido (equivocadamente) muito adulto. Mas há uma sensação de pureza angelical misturada com
palpitação sexual, que se exibe nos gestos sedutores dos adolescentes. Ouvem-se gritos e risos cruzando a rua.
Aqui e ali um casal de colegiais, abraçados, completamente dedicados ao beijo. Beijar em público: um dos ritos
de quem assume o corpo e a idade. Treino para beijar o namorado na frente dos pais e da vida, como que diz:
também tenho desejos, veja como sei deslizar carícias.
Onde estarão esses meninos e meninas dentro de dez ou vinte anos?
Aquele ali, moreno, de cabelos longos corridos, que parece gostar de esportes, vai se interessar pela
informática ou economia; aquela de cabelos loiros e crespos vai ser dona de butique; aquela morena de cabelos
lisos quer ser médica; a gorduchinha vai acabar casando com uma gerente de multinacional; aquela esguia, meio
bailarina, achará um diplomata. Algumas estudarão Letras, se casarão, largarão tudo e passarão parte do dia
levando filhos à praia e praça e pegando-os de novo à tardinha no colégio. Sim, aquela quer ser professora de
ginástica. Mas nem todos têm certeza sobre o que serão. Na hora do vestibular resolvem. Têm tempo. É isso.
Têm tempo. Estão na porta da vida e podem brincar.
Aquela menina morena magrinha, com aparelho nos dentes, ainda vai engordar e ouvir muito elogio às
suas pernas. Aquela de rabo-de-cavalo, dentro de dez anos se apaixonará por um homem casado. Não saberá
exatamente como tudo começou. De repente, percebeu que o estava esperando no lugar onde passava na praia.
E o dia em que foi com ele ao motel pela primeira vez ficará vivo na memória.
É desagradável, mas aquele ali dará um desfalque na empresa em que será gerente. O outro irá fazer
doutorado no exterior, se casará com estrangeira, descasará, deixará lá um filho - remorso constante. Às vezes
lhe mandará passagens para passar o Natal com a família brasileira.
A turma já perdeu um colega num desastre de carro. É terrível, mas provavelmente um outro ficará pelas
rodovias. Aquele que vai tocar rock vários anos até arranjar um emprego em repartição pública. O
homossexualismo despontará mais tarde naquele outro, espantosamente, logo nele que é já um Don Juan. Tão
desinibido aquele, acabará líder comunitário e talvez político. Daqui a dez anos os outros dirão: ele sempre teve
jeito, não lembra aquela mania de reunião e diretório? Aquelas duas ali se escolherão madrinhas de seus filhos
e morarão no mesmo bairro, uma casada com engenheiro da Petrobrás e outra com um físico nuclear. Um dia,
uma dirá à outra no telefone: tenho uma coisa para lhe contar: arranjei um amante. Aconteceu. Assim, de
repente. E o mais curioso é que continuo a gostar do meu marido.
Se fosse haver alguma ditadura no futuro, aquele ali seria guerrilheiro. Mas esta hipótese deve ser
descartada. Quem estará naquele avião acidentado? Quem construirá uma linda mansão e um dia convidará a
todos da turma para uma grande festa rememorativa? Ah, o primeiro aborto! Aquele ali descobrirá os textos de
Clarice Lispector e isto será uma iluminação para toda a vida. Quantos aparecerão na primeira página do jornal?
Qual será o tranquilo comerciante e quem representará o país na ONU?
Estou olhando aquele bando de adolescentes com evidente ternura. Pudesse passava a mão nos seus cabelos
e contava-lhes as últimas estórias da carochinha antes que o lobo feroz assaltasse na esquina. Pudesse lhes diria
daqui: aproveitem enquanto estão no aquário e na redoma, enquanto estão na porta da vida e do colégio. O
destino também passa por aí. E a gente pode às vezes modificá-lo.
O vendedor de palavras - Fábio Reynol
varejo.
Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta — E o que as pessoas vão fazer com as palavras?
de palavras. Em um programa de TV, viu uma Palavras são palavras, não enchem barriga.
escritora lamentando que não se liam livros nesta — A escritora também disse que cada palavra
terra, por isso as palavras estavam em falta na corresponde a um pensamento. Se temos poucas
praça. O mal tinha até nome de batismo, como palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma
qualquer doença grande, "indigência lexical". palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano,
Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em serão duzentos novos pensamentos cem por cento
ter uma ideia fantástica. Pegou dicionário, mesa e brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu
cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os produto. São como trombadinhas que saem
camelôs. correndo com os relógios do meu colega aqui do
Entre uma banca de relógios e outra de lingerie lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira
instalou a sua: uma mesa, o dicionário e a cartolina dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-
na qual se lia: "Histriônico — apenas R$ 0,50!". de-casa ela nunca me enganou. Passou por aqui
Demorou quase quatro horas para que o primeiro sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho
de mais de cinquenta curiosos parasse e maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem
perguntasse. parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela
— O que o senhor está vendendo? tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá,
— Palavras, meu senhor. A promoção do dia é vai abri-lo e me roubar a carga. Suponho que para
histriônico a cinquenta centavos como diz a placa. cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra,
— O senhor não pode vender palavras. Elas não pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei
são suas. Palavras são de todos. mil pensamentos novos em um ano de trabalho.
— O senhor sabe o significado de histriônico? — O senhor não acha muita pretensão? Pegar um...
— Não. — Jactância.
— Então o senhor não a tem. Não vendo algo que — Pegar um livro velho...
as pessoas já têm ou coisas de que elas não — Alfarrábio.
precisem. — O senhor me interrompe!
— Mas eu posso pegar essa palavra de graça no — Profaço.
dicionário. — Está me enrolando, não é?
— O senhor tem dicionário em casa? — Tergiversando.
— Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca — Quanta lenga-lenga...
pública e consultar um. — Ambages.
— O senhor estava indo à biblioteca? — Ambages?
— Não. Na verdade, eu estou a caminho do — Pode ser também evasivas.
supermercado. — Eu sou mesmo um banana para dar trela para
— Então veio ao lugar certo. O senhor está para gente como você!
comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar — Pusilânime.
para casa uma palavra por apenas cinquenta — O senhor é engraçadinho, não?
centavos de real! — Finalmente chegamos: histriônico!
— Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para — Adeus.
depois esquecê-la? — Ei! Vai embora sem pagar?
— Se o senhor não comer a alface ela acaba — Tome seus cinquenta centavos.
apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o — São três reais e cinquenta.
feijão caruncha. — Como é?
— O que pretende com isso? Vai ficar rico — Pelas minhas contas, são oito palavras novas
vendendo palavras? que eu acabei de entregar para o senhor. Só
— O senhor conhece Nélida Piñon? histriônico estava na promoção, mas como o
— Não. senhor se mostrou interessado, faço todas pelo
— É uma escritora. Esta manhã, ela disse na mesmo preço.
televisão que o País sofre com a falta de palavras, — Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?
pois os livros são muito pouco lidos por aqui. — É que quem leva ambages ganha uma evasiva,
— E por que o senhor não vende livros? entende?
— Justamente por isso. As pessoas não compram — Tem troco para cinco?
as palavras no atacado, portanto eu as vendo no
QUEM PRECISA DESSA DEFESA? Marcos Bagno

Falar em defesa de línguas só se justifica quando se trata de idiomas que correm perigo de extinção. Das
quase 7.000 línguas catalogadas hoje no mundo, cerca de 2.500 se encontram em risco. É o caso, por exemplo,
de praticamente todas as línguas indígenas faladas no Brasil: das 180 conhecidas, apenas 25 têm mais de mil
falantes. Tudo justifica a elaboração de políticas de proteção, defesa, ensino e divulgação dessas línguas.
Mas falar de “defesa” do português é um discurso que se insere numa esfera político-ideológica
completamente diferente. Uma esfera reacionária e elitista. Afinal, para que defender uma língua que, só no
Brasil, tem 200 milhões de falantes — o que faz do português brasileiro a terceira língua mais falada do
Ocidente, depois do espanhol e do inglês?
No entanto, foi precisamente de “defesa” que tratou um encontro promovido em 23 de maio último por duas
entidades cuja existência até hoje me espanta: a Academia Brasileira de Letras e uma de suas excrescências,
a Academia Paulista de Letras. Essas entidades, como bem sabemos, não têm serventia alguma em nossa vida
social e cultural. No site desse encontro (chamado, incorretamente, de “seminário”), era possível ler a seguinte
pérola da estilística balofa: “Está cada vez mais difícil para os professores de Português, dos três graus de
ensino (fundamental, médio e superior) desempenhar o magistério no campo da língua portuguesa, tendo em
vista as controvertidas opiniões de especialistas, que entendem dever-se debater o uso dos diversos linguajares
de ocasião diante da hegemonia do vernáculo, a chamada língua culta nacional (língua padrão).”
Esse pequeno parágrafo seria suficiente para uma aula inteira de análise do discurso ou de sociologia da
linguagem. Fala-se de “controvertidas opiniões de especialistas” que suspostamente estariam dificultando o
trabalho dos professores de português. Mas quem é que rotula de “controvertidas” essas opiniões? Se elas
provêm de “especialistas”, por que os poucos membros das Academias se acham capazes de considerá-las
“controvertidas”? O que têm a dizer sobre ensino de língua figuras como Ivo Pitanguy (médico), Nelson
Pereira dos Santos (cineasta), Antônio Ermírio de Moraes (empresário), Eros Grau (jurista), Gabriel Chalita
(sabe-deus-o-quê), Merval Pereira (inclassificável) ou Marco Maciel (réptil)?
E o que dizer dessa construção: “dever-se debater o uso dos diversos linguajares de ocasião diante da
hegemonia do vernáculo, a chamada língua culta nacional (língua padrão)”? Como perguntariam os
ultrapolidos ingleses: “What the fuck?”. Que josta vêm a ser “linguajares de ocasião”? Por que essa gente não
vai estudar um pouco, abrir um manual básico de linguística ou sociolinguística para entender o que são
variedades linguísticas, regras variáveis, heterogeneidade regulada, e até mesmo vernáculo, que na linguística
moderna é coisa muito diferente do conceito jurássico de “língua correta” que os acadêmicos ainda
perseguem?
Diz o mesmo site que a conferência “Magma” (isso mesmo, magma) foi proferida por Evanildo Bechara. E
que, entre os debatedores estiveram Arnaldo Niskier (que sabe tanto de linguística quanto o boxeador
Anderson Silva) e a onipresente Dad Squarisi, uma das figuras mais patéticas que tive o desprazer de conhecer
pessoalmente. Essa defesa deve ter sido um festival de horrores!!!
Felicidade Clandestina – Clarice Lispector

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme,
enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto,
com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos
entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos,
com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa
menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo
exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me
submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa. Como casualmente,
informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro
para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu
passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança
de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa.
Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu
voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e
eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí:
guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor
pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia
seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda
não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama
do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia
que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela
me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer
sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve
comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a
olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua
casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária
daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de
palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe
boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você
nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha
que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à
porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha:
você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem?
Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter
a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada.
Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as
duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito
estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois
abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com
manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas
dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece
que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não
era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

In Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro, Rocco, 1998.