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Lu ig i-m aria

r o

s s e

t

t

i,

o .m . i .

Prática de Caracterologia Religiosa

GERARDO

Tradução

DANTAS

de

BARRETTO

. Prática de Caracterologia Religiosa GERARDO Tradução DANTAS de BARRETTO EDITORA VOZES PETRóPOLlS, 1965 LIMITADA RJ

EDITORA VOZES

PETRóPOLlS,

1965

LIMITADA

RJ

Título

do original

italiano:

Pratica

di

Copyright

Via

(1961)

Maria

Caratterologia

Religiosa

by

Libreria

Ausiliatrice

Dottrina

32,

Ci$|tiana

Torino"

Direitos

de

tradução

para

a

língua

portuguêsa

adquiridos

pela

Editora

VOZES

Ltda.

1MPRIMATUR

POR

COMISSÃO

ESPECIAL

DO

EXMO.

E

REVMO.

SR.

DOM

MANUEL

PEDRO

DA

CUNHA

CINTRA,

 

BISPO

DE

PETROPOL1S.

 

FREI

WALTER

WARNKE,

O .F.M .

 

PETRÔPOLIS,

25-2-1965.

TODOS

OS

DIREITOS

RESERVADOS

PRÓLOGO

Não pretende êste modesto trabalho oferecer nenhuma nova contribuição científica à caracterologia. Existem já muitos livros

escritos por

ilustres psicólogos.

O que, sim, pretende é uma finalidade eminentemente prá­ tica e — se nos é permitido dizer — “sacerdotalmente carita- tiva’! em favor dos muitíssimos educadores — superiores de casa» de formação, diretores espirituais e também pais de fa­ mília, que não tiveram a possibilidade nem a oportunidade e, talvez, nem sequer o tempo de adquirir uma cultura psicoló­ gica consciente, baseada na moderna caracterologia, que resulta tanjo mais necessária quanto mais elevada é sua missão e sua responsabilidade educativa. Quisêramos, portanto, pôr à sua disposição quanto os es-1 tudos mais recentes de psicologia caracterológica trouxeram à Pedagogia, com o fim de que lhes sirvam para proporcionar às almas dos jovens uma formação verdadeiramente eficaz, tanto no aspecto humano como no sobrenatural. Estas indicações, baseadas em processos de inspiração cien­ tífica, “conveniente e prudentemente utilizadas” — como diz Griéger' — prestam magnífico serviço para obter uma orien­ tação pessoal, para determinar e valorizar os elementos natu­ rais — o caráter — existentes em todo indivíduo.

A caracterologia tem pôsto em evidência preciosas leis de correlação que — se aplicadas com critério — podem servir eficazmente para obter um conhecimento. mais profundo do in­ divíduo, com suas naturais predisposições, e também para utili­ zar de um modo mais racional suas possibilidades reais, com o fim de orientá-lo e guiá-lo eficaz e prudentemente. ’ Naturalmente, a caracterologia — por si só — não basta para “formar” um educador. O conhecimento teórico da psico­

1 P.

G r i é g e r,

Caractère

et

Vocation,

Editions

"Journée

de

Ia

vocation”,

Mônaco

1958,

p.

16.

* ld.,

p.

17.

logia caracterológica não é suficiente. Nem sequer se chega a ser caracterólogo com aprender umas lições à maneira como se estuda a física ou a geografia. O estudo não basta; há de ir acompanhado da experiência pessoal do educador. A inteligên­ cia teórica nunca pode, ela só, ser suficiente: mister se faz “que pense também o coração” (G. B. Vico). ' Isto afeta es- pécialmente os educadores: sua inteligência deve passar pelo calor do coração, se quiser compreender e, sobretudo, conquis­

tar

a

alma

dos

jovens!

A educação é, antes que outra coisa,

obra de Amor.

 

*

*

*

Três

pontos

são

o

objeto

e

a

preocupação

do

presente

estudo:

a clareza: de modo que mesmo aquêles que não tenham feito

estudos

especiais

possam

entender

tudo

fàcilmente:

seguire­

mos,

portanto,

um

esquema

preciso

e

idêntico

para

todos os

tipos de caráter.

propor

noções

que

se

apoiem

em

critérios

científicos:

será

a única

maneira

de garantir

o sentido

experimental

de quanto

exporemos;

a brevidade: a qual permitirá reter fàcilmente as noções fun­ damentais gravadas e, na medida do possível, aplicá-las com

resultados positivos. Tudo isto queremos apresentá-lo aos leitores, não como con­

clusões estritamente científicas, mas antes à guisa de indica­

ções,

o

diagnóstico e a classificação de um determinado caráter; para

c q u io

uma

“pista”

a

seguir,

que

facilite,

sobretudo,

passar

depois

a

educá-lo,

primeiro,

no

plano

humano,

e

de­

pois

elevá-lo

ao

plano

sobrenatural.

Pode,

pois, êste

livro ser considerado

como um guia

 

prá­

tico — seu título já o, expressa — ou como um vademecum.

*

*

*

porém antes quisera

ser um vademecum de amor paternal. Dissemos que a educa­ ção é, sobretudo, obra de amor. E o amor não põe limites em

suas obras. “Caritas patiens est”, diz-nos S. Paulo.

Um vademecum de

O educador que

leve sempre no coração

o amor

de

Deus

não se cansará nunca de trabalhar pelas almas, porque no amor de Deus haurirá o amor que lhes há de transferir, para tornar

* T h i b o n,

Le

caractère

et

la

vie

spirituelle,

in

"Dict.

de

Spiri-

tualité”, vol.

II,

col.

121.

a

recolhê-lo

depois

do

fundo

de

todos

os

corações

e

levá-lo

de nôvo até Deus.

 
 

*

*

*

ou antes — a necessidade —

de exprimir nossos sentimentos de viva gratidão:

ex-Vice-

Diretor Geral dos Estudos O .M .I., pelo seu curso dado na “Rétraite de Mazenod” (39 ano de Provação dos Padres O .M .I.), e por seu vasto estudo sôbre Caracterologia Religiosa;

por

seus judiciosos conselhos que tanto incentivo nos proporciona­

ram para

Se o presente trabalho conseguir proporcionar algum bem

às almas, o mérito se deve, de modo particular, também a êles.

N.

B. —

ao

Sentimos o dever,

P.

Joseph

Revdo.

Jacqmin,

O .M .I.,

e

ao

Prof.

Paul

cabo

G r i é g e r,

êste

modesto

das

Escolas

Cristãs,

levar a

estudo.

O

AUTOR

INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS

Êste

estudo

teve

como

"fontes

principais”:

 
 

a)

As

seguintes

obras:

 

L

e

Senne,

René,

Traité

de

Caractérologie,

Paris,

P.U.F.,

1957

 

(traduzido

em

italiano

pela

S.E.I.,

1961).

Griéger,

Paul,

Diagnostic

caractèrotogique,

Paris,

Ligei,

1952.

Caractère

et

Vocation,

Mônaco,

Ed.

“Journée

de

la

vocation”,

1958

 

(traduzido em

italiano

para o prelo

da

S.E.I.,

1960).

 

Uinteltigenza e 1’educazione

intellettuale,

Torino,

S.E.I.,

1957.

L

e

G a 11,

André,

Caratterotogia

dei

fanciulli

e

degli

adolescenti,

To­

 

rino,

S.E.I.,

1957.

C

a r n o i s,

Alberto,

II

dramma

delVinferiorità

nel

fanáullo

e

nelpado-

 

lescente,

Torino,

S.E.I.,

1960.

Marcozzi,

Pielorz,

dateur

Vittorio,

S.J.,

Ascesi e psiche,

La

M.I.,

Brescia,

Morcelliana,

1958.

Josef,

des

O.M.I.,

Oblats

de

vie spirituelle de Mgr.

Roma,

Pont.

De Mazenod, Fon-

Gregoria­

Universitas

 

na,

1955.

Simoneaux,

Henri,

O .M . I .,

La

diredion

spirituelle

suivant

le

ca­

 

ractère,

Paris,

Aubier,

Ed.

Montaigne,

1958.

 

D

e m a 1, Psicologia

pastorale

pratica,

Ed.

Paoline.

V

i e u j

e a n,

Jean, La personne

de Jésus,

Louvain,

Ed.

de

L’A.C.I.B.,

1939.

b)

Jacqmin,

Os dois ótimos estudos poligrafados:

Joseph,

O.M.I.,

Essai

de

caractérologie

religieuse,

Ro-

 

me

1954.

 

N o y e l l e ,

H.,

S.J.,

Caractérologie

et

formation

spirituelle.

 
 

c)

Os

artigos

seguintes:

 

Mac

Avay,

Joseph, S.J.,

Diredion

et psychologie, in “Dict.

de

Spir.”,

 

vol.

III,

cc.

1143-1173.

 

Éducation

et personalitê,

in

“Dict.

de

Spir.”, vol.

IV,

cc.

311-330.

T

h i b o n,

vol.

G.,

cc.

Le

caractère

127-131.

et

la

vie

spirituelle,

 

in

“Dict.

de

Spir.”,

Dr.

R.

II, K a n e 1

et

M.

D e

I b r e 1,

La

femme,

le

prêtre

et

Dieu,

in

“Supplément

de

la

Vie

Spirituelle”,

n.

13,

maio

de

1950-

P.

S a u v a g e,

La

diredion

spirituelle

des

femmes,

in

"Supplément

de

la

Vie

Spirituelle”,

n.

13,

1950.

 

Autores

vários,

Diredion

spirituelle

et

psychologie,

in

“Etudes

 

Carmélitaines”,

1951.

Para

Carnois,

uma

ampla

bibliografia,

e

consultar

Griéger,

Marcozzi

Simoneaux.

as

supracitadas

obras

de

PARTE

PRIMEIRA

CARACTEROLOGIA

GERAL

NOÇÕES

CAPITULO

I

PRELIMINARES

A formação de qualquer indivíduo exige, por parte do edu­ cador, um trabalho dirigido para uma dupla finalidade: formar o homem, no mais autêntico significado da palavra, e o cris­ tão até conduzi-lo à mais alta vida espiritual, à santidade. Uma "personalidade formada” é o resultado de muitos ele­ mentos que se integram e influenciam reciprocamente. E’ neces­ sário, portanto, começar desde o mais elementar, para subir sucessivamente ao ponto mais alto. Pode dizer-se que o substrato natural de todo indivíduo permanece imutável: nêle se acumulam dènsamente, porém sem­ pre de um modo preciso e característico, os impulsos exter­ nos da educação e da experiência própria vivida neste ou na­ quele ambiente. Por isto costuma-se dizer que o “caráter” — isto é, êsse substrato natural — rião muda, ou muda pouco, no curso da vidá. 1 Exerce êle grande influência no desenvolvimento da vida humana, por ser a base, a pedra angular, ou melhor, o funda­ mento, sôbre o qual a Graça constrói sua obra. Todos sabemos que a Graça supõe a natureza e a ela se adapta. “Ora, o estudo de uma personalidade sobrenatural coloca- nos ante elementos diversos: uns de ordem natural, outros de ordem sobrenatural, bs quais reagem uns sôbre os outros e de tal maneira se compenetram, que muitas vêzes é difícil preci­ sar o que provém da natureza e o que procede da Graça”. “A Graça constitui, sem dúvida — na vida humana — um fator “gratuito” imprevisível, cuja influência nenhum estudo psicológico poderá medir. Porém, doutra parte, menos certo não é que a natureza e a Graça não constituem duas realidades independentes: há entre elas continuidade e concordância. Qual-

ma,

1 Pielorz,

Pont.

Univ.

La

Gregoriana,

Vie

1955,

spiritueile

de

Mgr.

cap.

V

passim.

de

Mazenod,

Ro­

quer dom sobrenatural de Deus, por inesperado que seja, “adapta-se” misteriosamente à alma que o recebe. O exemplo dos santos ilustra magnificamente esta afinidade íntima, esta secreta osmose entre a natureza individual e a Graça. A ori­ ginalidade e a virtude específica da espiritualidade dos santos aparecem determinadas materialmente pela estrutura de seu caráter”. 2 Alguns hagiógrafos e biógrafos de nosso tempo equivocam- se, muitas vêzes, ao examinarem a vida moral de um santo, quando lhe exaltam as virtudes quase exclusivamente no plano humano, enquanto que, no século passado, outros hagiógrafos incidiam no êrro oposto, ao ressaltarem quase somente o dado sobrenatural. Há que evitar ambos os excessos: conceder demasiada im­ portância ao elemento “material”, ou dotes de caráter, e des- curar, por outra parte, o elemento humano, para só destacar

o

sobrenatural. Portanto, o juízo que se há de formular sôbre

o

influxo da Graça numa alma — isto é, o conhecimento de

sua autenticidade sobrenatural — requer uma prévia investiga­ ção psicológica, seja porque o caráter é como a pedra angu­ lar em que se erige a Graça, seja porque, em alguns casos, chega até a fazer-lhe as vêzes. Com efeito, não é raro encon-

trarmo-nos ante atitudes idênticas produzidas, num caso, pela Graça e, em outro, pela natureza. Igualmente importante é conhecer o terreno em que comba­ teu uma alma, as forças de atração ou de repulsão que, pau- latinamente, a ajudaram ou constituíram um obstáculo, se se quiser compreender o trabalho da graça nela e medir-lhe

a eficácia. Nosso estudo aspira precisamente a indicar o caminho da Graça na natureza individual, seguindo o método da Escola Holandesa de Groninga, chefiada pelos Drs. Heymans e Wiersma, e difundida na França por René Le Senne. 3**

2 G. Thibon, op. cit.,

in

"Dict.

de

Spit.”,

vol.

II,

col. 121.

* Heymans, Gerardo:

nascido

em

Ferwerd

(Holanda) a

17

de

abril de 1857. Foi psicólogo e professor na Universidade de Groninga.

Emrelação à Caracterologia, redigiu um estudo biográfico em 1908, e outro, estatístico, em colaboração com Wiersma em 1909; publicou vários artigos em diferentes revistas, e um estudo sôbre a "Psicologia feminina”. Foi eminente psicólogo, sobretudo no campo da psicologia especial. Exerceu influência decisiva sôbre a Caracterologia de Le Senne.

fevereiro

Morreu em Groninga a

Enno Dirk: nascido em Pieterzyl (Holanda) a 29 de

setembro de- 1858. Foi professor de psiquiatria na Universidade de

18

de

de

1930.

Wiersma,

Existem, é verdade, outras escolas de Caracterologia de muito prestígio, valor e utilidade; são mui respeitáveis e — segundo outros intentos pedagógicos — merecem seguidas. Nós nos baseamos no método Heymans-Le Senne, por con­ siderarmos mais eficaz para a nossa missão educadora. Da mesma opinião são outros autores de grande renome:

O

P.

V.

Marcozzi,

S .J.,

diz:

"Entendemos que um dos sistemas mais úteis para o Dire- . tor espiritual é o dos cientistas holandeses Heymans e Wiersma, quer por levar em conta realmente os mais importantes caracte­ res psíquicos, por aproveitar quanto de bom e verdadeiro há nos sistemas precedentes, por ser corroborado por uma ampla documentação estatística, quer porque, sendo todos de natureza psíquica, fàcilmente podem os caracteres individualizar-se mes­ mo por quem não entende de fisiologia, como geralmente suce­ de aos Diretores espirituais”. *

Escreve

o

P.

H.

Simoneaux,

O .M .I.:

“Mesmo que seja pré-científico (assim o qualifica Donceel), o método Heymans-Le Senne continua sendo o melhor que te­ mos para o uso prático, como o reconhece o próprio Donceel. Está, inclusive, ao alcance do estudante de primeiros cursos de filosofia' e de psicologia. Por outra parte, os elementos utiliza­ dos, mesmo se não são de todo cientificamente válidos, foram escolhidos, todavia, progressivamente, e enriqueceram-se com abundantes provas experimentais. ÓP°'an<io-se sobretudo numa massa de evidências extrínsecas, o sistema de Le Senne pare­

ce sólido.

“O melhor argumento a seu favor é que os sacerdotes — como os educadores em geral — empenhados ativamente na di­ reção espiritual podem compreender êste sistema e utilizá-lo com proveito, para conhecerem melhor as pessoas que dirigem. Obras demasiado técnicas resultariam inacessíveis à maior parte dos diretores, ao passo que o sistema de Le Senne pode ser por todos compreendido e levado fàcilmente à prática. Por isto os Superiores e Diretores espirituais devem alegrar-se de ter à sua disposição um estudo tão penetrante que já teve sua compro-

Heymans em seus estudos de psicologia

especial. L e Senne, René: nasceu em Elbeuf-sur-Seine, na França, a 8 de julho de 1882. Foi professor de filosofia na Sorbona. Fundou, em 1934, a coleção “Philosophie de 1’esprit”. Foi presidente do Instituto Internacional de Filosofia. Sobressaiu como filósofo existencial-espiri- tualista. Atingiu uma rica maturidade de pensamento no sistema caracte- rológico que construiu sôbre os princípios estabelecidos por Heymans, e que expôs em seu conhecido Traité de Caractêrologie, Paris, Ed. P.U.F. Morreu em Paris a 1* de outubro de 1954. 4 V. Marcozzi, Ascesi e Psiche, Morcelliana, 1958, p. 42.

Groninga.

Colaborou

com

Í3

vação

com

— cação e para

em

êste

na

pedagogia.

método

não

E,

a

ainda

quando

a

mais

útil

a

Pedagogia

contudo

prática

apresentada

ser

seja

mais

cientifica,

e

a

mais

parece

para

a

atualidade

edu­

a pastoral”. 5

Também Mac Avoy,

S .J.,

no seu artigo

personnalité”

diz:

in “Dict. de Spiritualité”, vol.

“Éducation de la IV, coluna 324

“Se nós empregamos a caracterologia Heymans-Le Senne, não é por ser a melhor, e sim por ser atualmente a mais difundi­ da, e por serem suas diretrizes transferíveis a uma classifica­ ção dos caracteres baseada em outros pontos de vista. Ademais, suas conclusões aplicam-se igualmente assim aos adultos como aos adolescentes. “Para o adulto, diretamente: enquanto se pretéhde, mais que uma mudança radical do caráter, obter um conhecimento mais perfeito de si mesmo e dos outros. “Para o adolescente, indiretamente: enquanto o diretor pode ter um conhecimento dos outros qué lhe permite uma melhor compreensão dos pontos que o aproximam ou o distanciam da­ queles que êle dirige”.*1

H.

S i m o n e a u x :

La

direction

spirituelte

suivant

le

caractère,

Paris,

Aubier,

Ed.

Montaigne,

pp.

79-80.

 

A

páginas

76,

para

ser

objetivo,

o

P.

Simoneaux

refere

as

obje-

ções

tais tenham deveras uma unidade funcional na constituição do cará­

ter,

os

fundamen­

que

1.

alguns

fazem

ao sistema

claro

outro

seja

etc.

Heymans-Le

que

as

fator

o

três

Senne:

propriedades

que

e

2.

E

Não

que

Le

dos

é cientificamente

excluam

qualquer

Senne

não

diz

qual

nE,

os

A

dos

nA,

incógnito.

médio

nível

separa,

p.

ex.,

 

3. Considera a percentagem das pessoas como

percentagem

das qua­

lidades.

Assim,

p.

ex.,

a

proporção

de

que

87%

dos

fleumáticos

são

verazes

não

pode

ser

tomada

como

proporção

da

veracidade

do indi­

víduo,

isto

é,

de

que

o

fleumático

é

veraz

em

87%.

 
 

Porém

Simoneaux,

como

outros

autores,

reconhece,

a

pp.

80,

que

a

caracterologia,

por

ser

pré-ciência,

é

ainda

jovem

(e

portanto se

acha

ainda

em

formação)

.

Por

isto

Le

Senne

insiste

em

diier

que

pretende

dar

"pistas”,

pontos

de

referência

"úteis

para descobrir

as

inclinações

e

as

tendências

dos

sujeitos”.

Indicações

estas

que

de­

vem

ser

completadas -pela

experiência

pessoal

do

educador.

caz

CARACTEROLOGIA

C A P I T U L O

HEYMANS-LE

SENNE

II

Antes de tudo, para

Le Senne'

e preciosa

é

a

que nos instrui

a

Caracterologia mais efi­

“congê­

sôbre o que somos

nitamente”,

e

logo

nos

orienta

para

uma

ação

sôbre

nós

mesmos.

Como todos os ramos do conhecimento, não deve ela de-

ter-se nos princípios. Deve também preocupar-se com tomar em consideração os resultados obtidos e utilizá-los ao máximo em estudos sucessivos, com o fim de progredir em precisão e clareza. Por isto, deverá estar em contínua tensão, com vis­ tas a possuir sempre mais fundado e seguro conhecimento do homem. Servindo-se habilmente de quanto as várias escolas de psi­

cologia caracterológica haviam desenvolvido, Le Senne fixou as linhas-mestras da sua Caracterologia,

Seguindo

esta

escola,

veremos:

I)

o que se entende

por “caráter”

 

II)

os

elementos

fundamentais

e acessórios do

caráter;

 

III)

a correspondente

classificação

dos

caracteres

atenden­

do aos elementos fundamentais.

I. O QUE SE ENTENDE POR “CARÁTER”

Pode

esta

palavra

assumir

um

tríplice

significado:

 

1)

No

sentido

primário

e

moral:

significa

o

conjunto

de

qualidades superiores que exornam

uma personalidade, adquiri-1

o método holandês (Heymans-Wiersma), porque na realidade foi Le Senne querii expôs num verdadeiro tratado ( Traiti de Caractêrologie, P.U.F., Paris) todo o sistema da escola holandesa, visto que Heymans e Wiersma escreveram sòmente artigos e alguns estudos particulares,

p.

1

No

correr

dêste

livro

indicaremos

com

nome

de

Le

Senne

ex.:

Heymans

escreveu

a

Psicologia

Feminina.

o

’ Para

a

terminologia

caracterológica

científica

em

língua

italia­

na, ater-nos-emos à usada pelo P. Marcozzi

em

seu

livro

Ascesi

e Psiche, Morcelliana,

1958.

da

que se costuma

“Nessa pessoa há um caráter”.

2) No sentido lato e psicológico: designa o conjunto de tudo aquilo que alguém recebeu da natureza, o elemento psico- fisiológico, mais tudo aquilo que é fruto da educação recebida.

E’ neste sentido

“E’ um homem

à base

de educação e experiência pessoal.

dizer:

de

caráter”, ou

então:

3)

No sentido

estrito

e caracterológico:

(congênitas)

con­

que inclinam um in­

significa

"o

junto das disposições nativas

divíduo

Êste

a

agir

sempre

sentido

estrito

do

mesmo

refere-se,

modo”.

pois,

sòmente

à

base

fun­

damental do indivíduo, sôbre a qual se edificará depois tudo

“O caráter

o mais.

reduz-se àquilo que é inato no indivíduo”. 5

Por esta

razão

Ribot afirma

precisamente:

Por sua parte, Le Senne 4* define-o: “O conjunto das dis­ posições congênitas que formam a estrutura mental de um ho­ mem”, estrutura que o indivíduo recebe da natureza e da he­ reditariedade, e cuja solidez constitui o esqueleto de sua vida mental. O caráter, tomado neste sentido, limita-se a indicar o que é nato no indivíduo, excluído tudo o que adquiriu em sua vida graças à educação e à própria experiência, etc. E’ como o substrato — e, portanto, invariável — sôbre o qual se constrói

a

história

de

tôda

vida

humana.'

 

Está

composto,

se assim

se pode dizer,

de um duplo

ele­

mento: o primeiro, estritamente fisiológico (que correspondería ao que antes se indicava com o nome de “temperamento”); o segundo, psicológico, resultante da hereditariedade. Le Senne determinou a noção de caráter em sentido estri­ to com êstes têrmos: “o sistema invariável do agir humano”.

O caráter, portanto, “encontra-se, para assim dizer, nos limites

do orgânico com o mental”. Ao longo dêste manual cingir-nos-emos

tido estrito' e caracterológico, quando tivermos de empregar a

palavra “caráter”.

a

êste último sen­

II.

OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO CARÁTER

São

de

duas

classes:

1) elementos

fundamentais

ou

constitutivos;

* P. Griéger,

Diagnostic Caractérologique, Paris, Ligei, 1952, p. 5.

4 Le

Senne,

Traité

de

Caractàrologie,

p.

9.

'

P.

G r i é g e r ,

op.

cit.,

p.

6.

2) elementos suplementares ou acessórios (êstes últimos são

numerosos,

mas

são

os

lhes enumeramos fundamentais:

das

impressões.

os

mais

importantes).

Três

— Emotividade,

— Atividade,

-— Ressonância

São quatro os suplementares

mais importantes:

1)

Campo

de

consciência

psicológica:

estreito

ou

largo.

2) Natureza alocentrismo.

do

objeto

a

que

se

tende:

egocentrismo

ou

3)

A forma de inteligência:

analítica ou sintética.

4) As paixões:

orgulho,

avareza,

etc.

(que

assumem

uma

forma

especial

conforme

o caráter).

Consideramo-los separadamente, para lhes definir com maior clareza o conceito específico. Da fusão dêstes elementos resulta a fisionomia precisa de cada caráter-tipo.

Naturalmente, isto afeta igualmente tanto os elementos fun­ damentais como os acessórios.

Desde já cumpre notar que os elementos fundamentais e a corres­ pondente descrição dos caracteres-tipo dificilmente se encontram, na vida e em cada um dos indivíduos, em estado puro, isto é, tais como os descrevemos. Assim como, para o físico, todos os homens, embora tenham os mesmos traços humanos (dois olhos, um nariz, uma bôca, etc.), apre­ sentam sua fisionomia com uma característica especial, que dá a "êsse rosto” uma expressão única, que o individualiza e distingue claramente dos outros, porque Deus não cria os homens “em série”, da mesma maneira sucede com o caráter: cada indivíduo tem, fundamentalmente, os três elementos constitutivos e vários dos acessórios, e no entanto êstes assumem nêle formas características tão próprias e tão admiràvel- mente fundidas, que o individualizam e o distinguem claramente dos demais. Por isto, incorrería em êrro o leitor se se iludisse querendo en­ contrar nesta análise, de modo preciso e imediato, “seu” retrato Em vez disto, deverá observar qual dos elementos fundamentais predo­ mina nêle, e em que grau, e, depois, considerar atentamente a união dêsses elementos, para conhecer o “conjunto” resultante que correspon­ de ao seu “eu”. Por esta razão, Le Senne, como já dissemos, ensina que sua caracterologia não tem outro escopo senão oferecer indica­ ções ou pontos de referência a fim de que cada qual, por sua conta, possa identificar-se a si mesmo para se corrigir e chegar a dar o má-:

ximo rendimento; e, ao mesmo tempo, para que — quem tenha a missão de educar — possa conhecer mais fàcilmente os outros e formá-los inteligentemente tanto no plano humano como no sobrenatural.

Caracterologia — 2

17

CA PIT U LO

III

OS ELEMENTOS FUNDAMENTAIS

I.

EMOTIVIDADE

A emotividade

"mede”

a

sensibilidade

diante

de

um

estí­

mulo que toque o homem de perto, quer seja

pensamento-lembrança)

Características:

objetiva

interno

(imagein-

ou externo”

(Mounier).

— desproporção entre

a

importância

do estímulo

(ex­

terno:

um acontecimento;

ou

interno:

imagem,

lembrança)

e

a

reação

subjetiva;

— reagir ou obedecer a estímulos

— dar

de per si não deveríam comover;

— vibrar excessivamente, mais do que a média dos que gostam

da mesmã coisa;

— usar expressões exageradas

dundantes) ;

que

insignificantes;

ou

importância

excessiva

a objetos

acontecimentos

(superlativos

ou

palavras

re­

— reagir violentamente a uma importância;

— chorar ou rir

Quando alguém costuma agir por um ou vários dêstes mo­ tivos, é olassificado comô Emotivo = E. 1 Quem sói agir em sen­ tido contrário fica classificado como não-Emotivo = nE.

palavra ou

a

um ato

de

pouca

por um nada.

1 Quando se classifica um indivíduo como E (emotivo), quer dizer que êle tem uma emotividade acima da média comum dos homens; e como nE (não-Emotivo) exprime-se que êle a tem abaixo dessa média comum. Isto se aplica também à Atividade e à Ressonância. Sucede aqui como com a temperatura do corpo humano: 37” é a média; se

alta,

esta

sobe,

tem-se

a

febre

fraca,

altíssima.

Sua influência:

Positiva:

— age como motor que põe em ação as potências fisiológicas, biológicas, etc., e ao mesmo tempo lhes apóia a ação;

— aumenta o interêsse pela ação que se vai executar, sem o

qual

— exerce forte influência sôbre a vida artística; incentiva e de­

não

poderia ela ser

realizada;

senvolve as aptidões

literárias

e oratórias;

— desenvolve a inteligênciá intuitiva e favorece a penetração.

Negativa:

— acentua a impressão do momento;

— restringe o campo da consciência psicológica;

— não favorece a objetividade e a veracidade;

— é pouco propícia à síntese e repugna-lhe a abstração.

NOTA:

Sôbre

a

Emotividade

influi

muito

o

“sentimento”

do

inte­

rêsse

que

se

tem

por

uma

pessoa,

por

um

acontecimento

ou

por

uma

coisa.

Quanto

mais

de

perto

nos

afeta,

tanto

mais

nos

com ove

 

II.

ATIVIDADE

“E’ uma tendência congênita e assídua, que impele a

ou a criar ocasiões para agir”

Características:

(O r i é g e r).

agir

— experimenta-se uma necessidade de agir, algo assim como

uma tendência inata: as idéias e as imagens traduzem-se es­ pontâneamente em atos;

— frente a um obstáculo, não se desanima nem se desespera,

senão, pelo contrário, concentram-se a6 próprias forças e qua­ se se goza por estas dificuldades, e, inclusive, age-se com

maior energia;

— age-se por agir, mais que pelo resultado que se poderia ter;

sucesso,

glória,

etc.

Quem

costuma

agir

de

um

ou

de

vários

dêstes

modos

é

um

Ativo =

A.

Quem,

ao

invés,

assim

não

costuma

agir

é

um:

não-Ativo = nA.

Sua influência:

Positiva:

— sua presença é “geradora de fôrça” em

constitui uma das riquezas mais preciosas de um caráter, e pre­ serva do ócio;

todas

as

funções:

— favorece a aptidão para a investigação; estimula a em­

preender e a realizar; robustece o espírito de luta; incentiva o esforço ante as dificuldades; alimenta o otimismo; fomenta o talento oratório; predispõe para a decisão, mesmo nos casos di­ fíceis; incrementa também o desenvolvimento da inteligência.

Negativa:

— fomenta o espírito de independência e a obstinação; induz à

avidez e à ambição; favorece o predomínio dos

interesses

prá­

ticos

(dinheiro,

honras,

etc.).

 
 

NOTA:

A

atividade

caracterológica

não

deve

ser

confundida

com

a

que

às vêzes

desenvolve

um

Emotivo;

êste

chega

a

ser

ativo

por

interêsse

ou

como

reação

a

úm

estimulo

externo.

III. RESSONÂNCIA DAS IMPRESSÕES

na

consciência psicológica depois de uma sensação ou impressão.

“E' uma propriedade mista — diz Griéger — de fundo fisiológico, com expressão caracterológica”. 1 Pode ser de duas espécies: Primária e Secundária. 3

E’ a reação

mais ou menos prolongada

que se produz

RESSONÂNCIA

Características:

PRIMARIA

E’ imediata, mas de breve duração: ocorre enquanto o es­ tímulo ocupa o campo da consciência psicológica clara; porém, mal o estímulo cessa, desaparece também a impressão. Isto sucede:

— quando se vive completamente absorvido pelo momento pre­ sente, ou pelo ato que se está praticando, de tal modo que, depois, nem sequer se pensa mais nêle, senão que se passa, em seguida, a novos projetos e novas situações;*

* P.

Cf.

G r i é g e r ,

Le

Le

Caracfère

et

vocation,

p.

53.

S e n n e - G r i é g e r - S i m o n e a u x - M a r c o z z i ,

op. cit.,

Tu­

passim,

rim,

e

S.E.I.,

G a 11, Caratterologia dei fanciulli e degli adolescenti,

1957,

passim.

— quando se

— quando se é superficial

buscam

os

resultados

imediatos;

e inconstante nos afetos.

Exemplo: aquêle que reage imediatamente, e mesmo com vio­

a

uma censura,

e

pouco depois

readquire a serenidade

lência,

e

esquece

tudo.

E’ como

um

elástico

que,

apenas

deixa

de

esticar-se,

volta

imediatamente

a

seu

tamanho

natural

sem

a

menor môdificação.

 
 

“A

Primariedade

é fonte

de

juventude”

(Le

Senne).

 

Sua influência:

Positiva:

— predispõe à clara percepção das coisas e à rapidez em com­

preender a situação do momento; facilita a versatilidade. Fa­ vorece a inspiração e predispõe à arte; e não, ao contrário, às ciências especulativas. Para ela, “experiência” quer dizer pre­ sença viva da impressão recebida.

Negativa:

— predispõe à regularidade, altera a objetividade e a coerên­

cia (não raro em contradição com os princípios aceitos). Pro­ move a superficialidade, a inconstância e a mania de mudanças. Como também não favorece bastante o controle das inclina­

ções sexuais.

RESSONÂNCIA

SECUNDARIA

Características:

Dá-se quando uma impressão, a que se resiste inicialmente ou que é advertida ligeiramente, penetra pouco a pouco no mais profundo da consciência psicológica, onde é lentamente absor­ vida e permanece muito tempo.

Encontramo-la

portanto:

— quando alguém permanece sob uma impressão duradoura, tan­

to de dor como de alegria;

—- quando não se vive sob a influência do presente, mas, ao invés, fica-se apegado ao passado;

— quando se substitui a espontaneidade pela reflexão;

— quando o indivíduo se volve para seu interior e se concen­

tra profundamente em tudo o que faz. Exemplo: a pessoa que, ante uma censura ou uma pala­ vra ofensiva, não reage logo (exteriormente talvez empalideça

ou tenha ligeiro frêmito nos lábios), porém que jamais a es­ quecerá. Desta forma age o que costuma dizer: “Perdoo mas não esqueço”; ou então aquêle que rompe com uma amizade por uma simples palavra ou por um ato indelicado. Algumas vêzes, muito poucas, pode ter reações violentas que des­

concertam. De quem costuma agir dêste modo se diz que procede por reação Secundária ou, simplesmente, que é um Secundário = S.

A Secundariedade é “a mãe da fidelidade exemplar e dos

sentimentos profundos” (Le Gall).

Sua influência:

Positiva:

— predispõe à sistematicidade,

de, à ordem. Favorece a previsão; pode, em certa medida, ser útil para prevenir a precipitação e a irreflexão. Age como fa­ tor de coerência mental, de objetividade e de método (Griéger).

Disciplina e limita a sexualidade. Predispõe, em geral, para as ciências abstratas, e pouco para a arte.

à fôrça de inibição, à veracida­

— Para

ela,

“experiência” quer dizer:

passado vivido em pre­

visão do futuro.

 

Negativa:

 

— favorece

a

desconfiança,

a

suspeita

dos

outros

e

a

pouca

expansão

de

ânimo.

Predispõe

ao

rancor,

à

melancolia,

â

ru­

minação

inferior.

 

NOTA: A ressonância das impressões — tanto P como S — dá-se não só em relação à Emotividade (reação aos sentimentos que impres­ sionam), senão também em ordem à Atividade (reações ante as ini­ ciativas, projetos, idéias que se hão de realizar). Em geral, a primariedade diminui na idade avançada.

NOTA

FINAL

SÔBRE

OS

TRÊS

ELEMENTOS

FUNDAMENTAIS

A

fusão em igual dose dos elementos fundamentais dar-

nos-ia

o caráter

mais equilibrado

e mais

rico.

Uma boa educação visa justamente a criar êsse justo

equilíbrio.

OS

ELEMENTOS

C A P I T U L O

SUPLEMENTARES

IV

Ci-

tarehios aqui os quatro principais, que são também os de mais

fácil

Como

foi

indicado,

são

de

número

indeterminado.

reconhecimento. 1. Amplitude do campo de consciência:

largo ou estreito.

2. Natureza do objeto para o qual se tende:

— o próprio

“eu” : egocentrismo;

— os “outros” : alocentrismo.

3. Forma da inteligência: analítica

4. Paixões:

ou sintética.

conforme

assumem

formas

especiais

os

distin­

tos caracteres.

do

primeiro

trataremos

mais

detidamente,

fazendo

dos

restantes apenas algumas indicações.

I.

CAMPO

DA

CONSCIÊNCIA

A consciência é aqui tomada em sehtido psicológico: a per­ cepção que a mente tem de seus atos e de seu estado. Em geral, diante de um acontecimento, alegre ou doloroso, especialmente se é imediato, qualquer homem concentra-se em si mesmo, e, quando êste já transcorreu, experimenta uma es­ pécie de relaxação de todo o seu ser. Isto sabemo-lo pela Psicologia, diz-nos Le Senne. ' Porém, se em vez disto consi­ derarmos os “graus” de restrição ou de alargamento da cons­ ciência, então entramos no âmbito da Caracterologia. “Quando meu olhar abarca um vasto panorama sem se de­ ter em nenhum particular, diz Le Gall ’, minha consciência en­ tão se acha muito aberta, distensa, larga. Se, ao contrário, presto ouvido a um ligeiro rumor noturno, ou se me concen­ tro numa leitura difícil ou numa preocupação sobre algo cla­ ramente localizado, fecho minha consciência a tudo o que não

'

Le

Senne,

op.

cit.,

p.

105.

!

Le

Gall,

op.

cit.,

p.

39.

é êsse rumor, essa leitura ou essa preocupação, e então minha consciência é estreita. Podemos, portanto, ter um duplo campo de consciência psicológica:

CAMPO

“LARGO"

Suas

características:

“Exteriormente”: quando um indivíduo, tem uma maneira de andar mais propriamente lenta, quase escorregadia, contornan­ do os obstáculos, como se não existissem. Vê tudo e, sem fi­ car abstraído por nada, caminha lentamente, porém com habi­ lidade, para não tropeçar nos obstáculos. Tem um, modo sim­ pático de caminhar. “Caracterològicamente”: quando um indivíduo é propenso a ver as coisas, os acontecimentos e as pessoas sob uma perspectiva ampla, não minuciosa;

— quando sabe separar, do que pode ser a apreciação pessoal e subjetiva, os vários casos que se lhe apresentam;

— quando tem o hábito de comparar uma coisa, ou um acon­

tecimento, com outro;

— especialmente quando sabe reagir com frieza, fàcilmente e com desprendimento interior.

Quem costuma comportar-se mais

ou menos dêste

modo é

classificado

entre

os

que

têm

um

campo

de

consciência

“lar­

go”, ou

simplesmente

como

Largo

=

L.

NOTA':

A frieza,

a

não-Emotividade

e

a

inibição

alargam

o

cam­

po

de

consciência.

 

E’

lei

geral

que

a

intensidade

das

impressões e das

ações

está

em

proporção

inversa

à

amplitude

do

campo

de consciência.

Sua influência

Positiva:

— O campo “largo” dispõe ção e elasticidade.

— No discurso, favorece o interêsse pelo conjunto,

fluentes e sempre novas

— Predispõe para a simpatia nas relações com os outros.

para

a ductilidade, para

a adapta­

pelas idéias

“Ser

por seus pormenores.

 

3 L e

S e n n e,

op.

cif.,

pp.

10G-108;

G r i é g e r,

Diagn.

caract.,

pp.

22-23.

simpático é privilégio do indivíduo do campo de consciência largo” (L e Senne).'

Negativa:

— predispõe

para

bém

para

o ócio.

CAMPO

“ESTREITO”

a faltaN de ordem

e de precisão,

como

tam­

Suas

características:

“Exteriormente”:

quando

pressa, como preocupado

com

um

indivíduo

anda

sempre

algo

bem

determinado,

sem

com

le­

sala

de

cipita para êle, tropeçando em cadeiras, mesas, talvez derruban­

do

“Caracterològicamente”: quando um indivíduo é propenso a considerar nas coisas, nos acontecimentos, nas pessoas o as­ pecto singular, particular, surpreendente, e o isola completa­ mente de tudo o mais, quer seja de ordem intelectual, quer de

var

em

conta

o

que

o

cerca:

p.

o

ex.,

dono

alguém

da

casa

que,

numa

se

visitas,

algum

para

vaso

cumprimentar

de

flores

quase

pre­

ordem

prática;

 

— quando

se

deixa

absorver

por

pensamentos

mais

pròpria-

mente abstratos

e analíticos;

quando tem

assinalada

preferência

pelo

que

é exato,

claro,

determinado;

— quando tem reações intensas e repentinas;

 

— quando sente que diminui a simpatia pelo interlocutor.

 

Quem

costuma

comportar-se

mais

ou

menos

dêste

modo

enquadra-se

no

grupo

dos

que

têm

um

campo

de

consciência

“estreito”, ou é simplesmente Estreito =

Est.

NOTA:

A

emotividade

e

a

atenção

restringem

o

campo

de

consciência.

Sua influência:

Positiva:

— O campo estreito predispõe para o espírito de observação,

para

— Facilita a descrição e a precisão: o indivíduo Est. capta pou­

cas coisas em um só golpe de vista, porém as vê distintamente.*

a análise do objeto,

para

a concentração da

inteligência.

 

* Êste influxo —

a simpatia

é

eficaz

sobretudo nas

relações

en­

tre

os

nE,

que

são

tipos

frios,

visto

que

para

êles,

em

parte,

ela

faz

as

vezes

da

emotividade.

 

Negativa:

Leva à unilateralidade, à rigidez e à inflexibilidade;

predis­

põe

para

as

distrações

(notar

bem

este

defeito)

e

para

as

manias.

“Pouco

a

pouco,

num

indivíduo

Est.

o

automatismo

substitui-se

à

investigação”

(Le

Senne).

II. OS OUTROS TRÊS

ELEMENTOS

1. NATUREZA

DO OBJETO

PARA

O QUAL SE

ACESSÓRIOS

TENDE:

“Egocentrismo”: tende-se

à afirmação

do próprio

“eu” ”

(a

própria

pessoa

converte-se

no

centro

de

gravidade

do

univer­

procura

sempre

o

seu

interesse).

 

“Alocentrismo”: tende-se a

fundir-se com os outros,

e,

por­

tanto,

o centro

2.

FORMA

DA

“Analítica”,

“Sintética".

3.

PAIXÕES":

do

mundo acha-se

INTELIGÊNCIA:

fora

da

Cada uma delas desenvolve-se de maneira muito particular, bem determinada, conforme cada caráter. Mais que como ele­ mentos primordiais devem ser consideradas como elementos “con­ dicionados” pelos fundamentais. Assim, por exemplo, o orgulho, a luxúria de um E-nA-S serão diferentes quando se trate de um nE-A-P.5

 

5 Não

é

a

mesma

 

coisa

"egocêntrico” e

"introvertido": o

primeiro

age

sempre

para

si;

o

segundo,

ao

invés,

concentra-sê

nos

seus

pro­

blemas

interiores.

Pode-se

ser

egocêntrico

e

extrovertido,

como

o

E-nA-P

e

o

E-A-P,

e

vice-versa.

 

“ Cf.

V.

Marcozzi,

op.

cit

p.

44.

CAPITULO

V

CLASSIFICAÇÃO DOS CARACTERES

Le Senne distingue oito tipos de caracteres que resultam da

combinação

ou

fusão

dos

três

elementos

fundamentais,

consi­

derados

segundo

o grau

em que

cada

um

intervém,

acima

ou

abaixo

da

proporção média ordinária.

 

Para

cada caráter assinalou

um nome, que deve

ser

inter­

pretado não no significado da linguagem comum, mas em seu sentido caracterológico específico, já usado por outras escolas

caracterológicas dos séculos passados, e que a escola de Gro- ninga adotou e fixou. Além disto, proveu cada caráter de uma sigla e de alguns exemplos tomados entre personagens da história geralmente conhecidos.

Reproduzimos

aqui

seu

quadro 1:

Emotivo - nãoAtivo - Primário:

E-nA-P =

NERVOSO

Emotivo - hãoAtivo - Secundário:

E-nA-S =

SENTIMENTAL

Emotivo -

Ativo - Primário:

E-A-P =

COLÉRICO

Emotivo -

Ativo - Secundário:

E-A-S =

APAIXONADO

nãoEmotivo -

Ativo - Primário:

nE-A-P =

SANGÜINEO

nãoEmotivo -

Ativo - Secundário:

nE-A-S =

FLEUMATICO

nãoEmotivo - nãoAtivo - Primário:

nE-nA-P =

AMORFO

nãoEmotivo - nãoAtivo - Secundário:

nE-nA-S =

APATICO

Há que ter presente que êste quadro

tem valor meramente

‘esquemátiço”, como

“ponto

de

referência” para

se

poder

in­

dividualizar e classificar o caráter. 5 “Entre um tipo e outro há gradações numerosas e diversas. E no mesmo tipo sistemático

intervém ainda muitas modalidades, com outros tantos matizes”

(L e Gall).’ Sucede aí justamente

como para as côres:

cada**

* Senne,

Le

op.

cit.,

p.

130.

 

* Padre

O

Marcozzi,

em

seu

iivro

"Ascesi

e Psiche” (caps.

VI

e VII), aplica muito bem esta classificação aos principais personagens

de I Promessi Sposi:

uma, além do que lhe é característico, tem tantos matizes, que

estes chegam a constituir uma verdadeira

para outra. Em caracterologia estamos no âmbito da vitalidade

e da

Pode-se, todavia, afirmar que cada um dos oito tipos pos­ sui características bastante sólidas e precisas para se poder dis-

tingui-los sem que haja a menor dúvida ou hesitação.

transição de ifJia côr

elasticidade.

Esta

clareza

e precisão são

indispensáveis

para

uma

ciên­

cia que está em vias de sisteniatização, e ainda mais para um

estudo como o nosso, que pretende chegar

tico o mais objetivo possível e oferecer conselhos oportunos para

valorizar os dados que êsse diagnóstico revelar. '

só tem por objeto

determinar o que são os distintos caracteres, mas não se preo­ cupa'com emitir um juízo sôbre seu valor. Não se trata de sa­ ber se um caráter “vale” mais ou menos do que outro — esta apreciação pertence à Moral — mas sim de conhecê-lo tal como

<:, para aproveitá-lo:

tirar dêle

não o homem que o possui e sabe usá-lo bem para

o maior proveito.

a

dar

um diagnós­

Enfim, é de notar que a caracterologia

não

é o caráter

por

si que

tem valor,

se­

E-nA-P =

Renzo

E-nA-S =

Luzia

E-A-P =

Dom

Rodrigo

E-A-S = P. Cristóvão. O Cardeal

nE-A-P =

Conde

Attilio

Frederico. O Inominado

nE-nA-P =

Azzeccagarhugli

nE-A-S =

Dom

Ferrante

 

nF.-nA-S =

Dom

Abhondio

'

Le

G a 11,

op.

cit.,

p.

49.

* Griéger,

Caract.

et

Voc.,

p.

56.

SEGUNDA PARTE

CARACTEROLOGIÀ

ESPECIAL

C A P I T U L O

QUADRO E CRITÉRIO

DO

DA DESCRIÇÃO

CARÁTER-TIPO

Para

cada

um dos caracteres-tipo

sível, o seguinte esquema ’:

seguiremos, quanto

VI

pos­

A. NOTAS

I.

NO

PSICOLÓGICAS

PLANO

HUMANO

B. EDUCAÇAO

PSICOLÓGICA

P

Descrição do caráter-tipo

D Atitude

do educador

2?

Qualidades

2a Processo de seu método edu­

3^

Defeitos

cativo

4’

Resultante caracterológica

39 Valor a conseguir

5"

Valor dominante

A.

II.

DISPOStÇOES

LÓGICAS

EM

BRENATURAL

NO

PLANO

CARACTERO-

SO-

FACE

DO

EM

SOBRENATURAL

B.

COMO

BRENATURAL

APRESENTAR

GERAL

O

SO-

positivas

formação espiritual

negativas

 

EM PARTICULAR

Direção espiritual

positivas

formação espiritual

negativas

positivas

Piedade

formação espiritual

‘ O desenvolvimento dêste esquema no decorrer do livro poderá talvez parecer monótono ou minucioso, mas tenha-se presente que não

foi

redigido

para

ser

lido

todo

de

uma

vez,

como

um romance, mas

sim

com

o

fim

precípuo

de

oferecer

indicações

precisas

para

que se

possa

conhecer

e

guiar