Sei sulla pagina 1di 19

Capítulo 2

Behaviorismo Radical e Prática Clínica


João Vicente de Sousa Marçal

A relação entre Behaviorismo Radical


e Terapia Comportamental teve iní-
cio na década de 1950 com as primeiras
samentos e sentimentos) não eram leva-
dos em consideração .
4

Inicialmente, o emprego das técnicas


aplicações dos princípios operantes, es- comportamentais não incluía os chama-
tudados em laboratório desde a década dos YAVIS, sigla em inglês para young,
de 1930, na modificação de comporta- attractive, verbal, intelligent and social
mentos considerados inadequados (Mi- person (pessoas jovens, atrativas, verbais,
cheletto, 2001). Baseadas em princípios inteligentes e sociais), que apresentariam
como modelagem, reforçamento diferen- demandas de tratamento em um ambiente
cial, extinção ou mesmo punição, e sob verbal não institucionalizado, como aquele
o rótulo de Modificação do Comporta- que se tem em um consultório particular.
mento, as técnicas eram empregadas em Contudo, a extensão dessas técnicas aos
ambientes artificialmente construídos, ambientes verbais contribuiu para o de-
normalmente em instituições psiquiá- senvolvimento, nos anos de 1960 e 1970,
tricas. O público-alvo era constituído de modelos terapêuticos de base cognitiva
por pessoas diagnosticadas com retardo ou comportamental-cognitiva, como uma
mental, esquizofrenia, autismo e trans- forma de compensar a não atenção dada,
tornos psicóticos em geral (Vandenber- pelas técnicas de modificação do compor-
ghe, 2001; Wong, 2006)1. As estratégias tamento à influência que os sentimentos
envolviam a manipulação de variáveis in- e os pensamentos poderiam ter na com-
dependentes (ambientais), as chamadas preensão e no tratamento dos comporta-
5
VIs2, no sentido de aumentar ou reduzir mentos humanos (Vandenberghe, 2001).
6
a frequência de comportamentos-alvo, Embora o termo Terapia Comportamental
também chamados comportamentos- já fosse utilizado em consultórios nesse
problema (as variáveis dependentes, ou 4
VDs3). Nesses modelos iniciais de inter- Isso sempre foi frequente em intervenções feitas em
instituições. Uma das justificativas é o comprometi-
venção, os eventos privados (p. ex., pen- mento das funções verbais das pessoas que são o pú-
blico-alvo dessas intervenções, algo que geralmente
1
Justamente um público que estava à margem nessas não ocorre em pessoas que frequentam consultórios
instituições (Wong, 2006). particulares.
2 5
Variáveis independentes (VIs) – Em um estudo con- Ressalta-se, porém, que isso ocorreu não pelo
trolado, como num experimento, as VIs são aquelas fato de o Behaviorismo Radical não considerar os
variáveis manipuladas pelo experimentador, enquan- eventos privados como importantes para o estudo
to são mantidas constantes as demais variáveis, no do comportamento humano, mas porque os proce-
intuito de observar os seus efeitos sobre a variável dimentos usados por modificadores do comporta-
estudada, a VD. mento (muitos dos quais não eram psicólogos) não
3
Variáveis dependentes (VDs) – São as variáveis con- lidavam diretamente com eles.
6
troladas sobre as quais agem as VIs. Em Psicologia, O termo Terapia Comportamental foi inicialmente
as VDs sempre correspondem a comportamentos. introduzido por Skinner e Lindsley (1954), mas foi
Busca-se identificar mudanças regulares na(s) VD(s) popularizado por Eysenck (Wolpe, 1981) e Wolpe
a partir de alterações produzidas na(s) VI(s). (Rimm e Masters, 1983).
Análise Comportamental Clínica 31

período, eram raras as propostas clínicas BEHAVIORISMO RADICAL E


tendo como suporte filosófico o Behavio- PRÁTICA CLÍNICA
rismo Radical (Ferster, 1973).
O Behaviorismo Radical surgiu com as
propostas de B. F. Skinner para a com-
Com o avanço nas pesquisas sobre o compor- preensão do comportamento humano
tamento verbal e uma melhor compreensão a partir de uma metodologia científica
das funções comportamentais presentes na
de investigação (Skinner, 1945/1988,
relação terapêutica, o modelo behaviorista
1953/2000, 1974/1993). As bases con-
radical passou a ser mais utilizado como base
ceituais do Behaviorismo Radical foram
teórica no desenvolvimento de estratégias
clínicas. apresentadas inicialmente por Skinner em
um congresso sobre a influência do ope-
racionismo em Psicologia, que originou
No entanto, o processo histórico da o artigo de 1945, intitulado “The Opera-
Terapia Comportamental, sua vasta aplica- tional Analysis of Psychological Terms”,
ção, os diversos modelos de Behaviorismo ou “A Análise Operacional de Termos
que surgiram desde Watson e, principal- Psicológicos” (Skinner, 1945/1988; Touri-
mente, um grande desconhecimento sobre nho, 1987). Sua proposta é behaviorista
o Behaviorismo Radical favoreceram o por considerar o comportamento como
surgimento de várias concepções engano- seu objeto de estudo e por ter o método
sas do que vem a ser a Terapia Analítico- científico como sua forma de produzir co-
comportamental. Dentre essas concepções, nhecimento. O termo Radical vem de raiz
encontram-se a ideia de que é uma terapia (parte não diretamente observável em uma
superficial, não trabalha o indivíduo como 7
planta ) e serve para distingui-lo de outros
um todo, é direcionada apenas a proble- modelos behavioristas que não conside-
mas específicos, tem alcance temporário, ravam os eventos privados (parte não di-
não lida com emoções e sentimentos, trata retamente observável do comportamento
o indivíduo como um ser passivo diante humano) como objeto de estudo da Psi-
do mundo, apresenta um raciocínio linear cologia.
e mecânico, etc. (Ver Skinner, 1974/1993, A extensa obra de Skinner causou
sobre críticas comuns e equivocadas feitas e ainda causa um grande impacto nos
ao Behaviorismo Radical.) meios acadêmicos, nos científicos e em di-
O presente capítulo tem como ob- versos segmentos de nossa cultura (Carra-
jetivo apresentar alguns fundamentos ra, 1998; Richelle, 1993). Um desses im-
básicos do Behaviorismo Radical e re- pactos está na Psicologia Clínica, baseada
lacioná-los com a prática clínica. Como nos princípios derivados da ciência por
é um texto introdutório, não há aqui a ele proposta, na Análise Experimental do
pretensão de uma análise aprofundada Comportamento e na filosofia da qual ela
de princípios e de conceitos relacionados é derivada, o Behaviorismo Radical.
ao tema, quer seja da parte conceitual e Para melhor compreender como um
filosófica, quer de análises clínicas. No trabalho clínico seria orientado por esses
entanto, busca-se desfazer algumas confu- princípios, serão apresentadas a seguir al-
sões e alguns desconhecimentos comuns gumas características básicas do Behavio-
sobre a Análise Comportamental Clínica, rismo Radical e suas relações com a prá-
assim como apresentar algumas proposi- tica clínica.
ções fundamentais para a caracterização
7
da abordagem. Analogia feita pelo autor.
32 Ana Karina C. R. de-Farias e Cols.

VISÃO MONISTA E MATERIALISTA Implicações clínicas


Na clínica analítico-comportamental, não
Para o Behaviorismo Radical, o ser humano faz há espaço para buscas de aspectos não
parte do mundo natural, assim como todos os físicos a fim de compreender o que um
elementos da natureza e, desse modo, intera- indivíduo está passando. O sofrimento
ge no ambiente, ao invés de sobre o ambien- de uma pessoa, sua forma de agir e seus
te, sendo parte interativa deste (Chiesa, 1994). comportamentos em geral não são deter-
minados, mediados, armazenados ou con-
Não há uma distinção entre físico e me- trolados por algo que escape ao mundo
tafísico no ser humano, pois este é consi- físico. Os comportamentos privados, ou a
derado como tendo apenas uma natureza subjetividade, também não se encontram
material. Skinner, assim, afasta a metafí- em outra dimensão e nem servem de aces-
8
sica do saber científico e acaba com o so a esta. O comportamento é uma rela-
dualismo mente-corpo, um problema con- ção entre eventos naturais, ou seja, entre
ceitual herdado da Filosofia e comumente o organismo e o ambiente (Matos, 2001).
encontrado nos diversos seguimentos da De acordo com Skinner (1974/1993), o
Psicologia (Chiesa, 1994; Marx e Hillix, organismo não armazena experiências, é
1997; Matos, 2001). Tanto o comporta- modificado por elas. Dessa forma, o tera-
mento público quanto o comportamento peuta vai considerar a pessoa como uma
privado ocorrem na mesma dimensão na- unidade biológica que vem interagindo
tural (Skinner, 1945/1988, 1974/1993). com o ambiente desde a sua existência.
A distinção entre ambos refere-se apenas Isso não implica deixar de lado algum
ao fato de que os comportamentos priva- aspecto da “natureza” humana, pois esse
dos (p. ex., pensar, sentir, imaginar, so- aspecto que estaria “fora” da análise sim-
nhar, fantasiar, raciocinar, etc.) só podem plesmente não existe! A questão não é de
ser acessados diretamente pelo próprio in- remoção de eventos privados, mas de não
divíduo. As mesmas leis que descrevem as inclusão de construtos hipotéticos media-
relações funcionais de comportamentos cionais e metafísicos.
públicos se aplicam aos comportamentos
privados. Entidades metafísicas armaze- O COMPORTAMENTO É
nadoras de “conteúdos” como memória, DETERMINADO
cognição, mente e aparelho psíquico
tornam-se desnecessárias dentro do seu O determinismo é característico das ciên-
modelo explicativo. A lógica refere-se à cias naturais. A asserção básica é a de
seguinte questão: como algo que não ocu- que, na natureza, um evento não ocorre
pa lugar no tempo e no espaço pode ficar ao acaso, mas em decorrência de um ou
dentro do indivíduo, armazenar experiên- mais fenômenos anteriores. Por exemplo,
cias ou conteúdos e, ainda, comandar as a água entra em ebulição porque a sua
ações humanas? Quem se comporta é o temperatura atingiu um nível próximo a
organismo e não a mente ou a cognição. 100ºC, e uma erosão surge porque chuvas
E o organismo é biológico, faz parte do ocorreram sistematicamente em um terre-
mundo natural. no árido. Falar em determinismo signifi-
ca explicar o presente a partir do passa-
8
Metafísico: o que vai além do físico, além do na-
do e, sendo assim, o futuro não pode ser
tural, como, por exemplo, a mente e a consciência utilizado para explicar o presente. Dessa
enquanto entidades. concepção sobre o mundo natural, surge
Análise Comportamental Clínica 33

um outro raciocínio: se a natureza é de- mentam que algumas ações humanas são
terminada, e se o ser humano é parte in- aleatórias, livres de influências, ou melhor,
tegrante dela, então ele também deve ser que o homem seria livre para decidir, para
interpretado a partir de uma visão deter- escolher e para determinar o seu futuro.
minista. Nesse sentido, uma doença decor- Essa visão é largamente aceita – e enfa-
re da ação anterior de bactérias ou vírus, tizada – dentro da cultura ocidental e de
a fecundação é proveniente do contato do outras culturas. No entanto, isso leva a um
óvulo com o espermatozoide, a saúde é grande equívoco interpretativo, frequente-
afetada diretamente pela alimentação, etc. mente observado nos cursos de graduação
O determinismo é mais facilmente aceito em Psicologia e em áreas afins, que aqui
em relação ao restante da natureza do que é corrigido: a visão determinista, como a
em relação ao ser humano e isso se torna apresentada pelo Behaviorismo Radical,
muito mais evidente quando o assunto é não afirma que o ser humano não escolhe,
comportamento. Surgem então as seguin- decide ou determina o seu futuro, mas sim
tes questões: o determinismo também se que estes (escolhas e tomadas de decisão)
aplica ao comportamento humano? Em também são comportamentos a serem ex-
caso afirmativo, todas as ações humanas plicados, pois não acontecem ao acaso.
seriam determinadas? O determinismo ca- Uma outra posição contrária ao determi-
racteriza o ser humano como um robô?
9 nismo surge em decorrência da análise do
A visão determinista está presente em comportamento intencional, característico
várias abordagens na Psicologia e em áreas dos seres humanos (Chiesa, 1994). O ar-
afins, muito embora apresentem diferenças gumento baseia-se no raciocínio de que
quanto à forma como o determinismo é in- esse tipo de comportamento estaria sendo
terpretado (Chiesa, 1994). Freud, Russell guiado pelo futuro. Entretanto, de acordo
e Skinner estão entre os inúmeros teóri- com a posição determinista, assim como o
cos que consideram a ação humana como comportamento de escolha, também a in-
sendo determinada (Moxley, 1997). Nessa tenção e as expectativas existem a partir de
linha de raciocínio, pode-se afirmar que experiências passadas.
sentimentos, pensamentos, ideias, imagi-
nações, escolhas, percepções, intenções, Implicações clínicas
atitudes, etc., não ocorrem ao acaso, mas O modelo clínico analítico-comporta-
foram determinados por eventos passados. mental, assim como outros modelos, se-
De acordo com o Behaviorismo Radical, gue algumas etapas básicas a partir das
quem determina é o ambiente, a partir da queixas iniciais do cliente. Inicialmente,
interação que o organismo humano tem é necessário compreender os fenôme-
com ele: na história da espécie, na história nos comportamentais relacionados à(s)
do próprio indivíduo e na história das prá- queixa(s). Por exemplo, se alguém descre-
ticas culturais (Skinner, 1981). Visões con- ve estar num quadro depressivo ou relata
trárias ao determinismo, como no caso do ter sido diagnosticado com Depressão,
Humanismo (Marx e Hillix, 1997), argu- deve-se logo investigar quais comporta-
mentos (p.ex., sentimentos, ações públi-
9
É comum a confusão entre determinado e pré-de- cas e pensamentos) caracterizam esse;
terminado. O primeiro relaciona um evento presente quadro, em quais contextos ocorrem ou
a um ou mais eventos passados. O segundo sinaliza
que, independente do que venha a ocorrer, tal fenô-
são mais frequentes, quando começaram
meno vai ser como foi anteriormente determinado a ocorrer, quais suas características, etc. A
(ou programado). busca por essas informações está dentro
34 Ana Karina C. R. de-Farias e Cols.

de um raciocínio determinista básico na damental na clínica. O entendimento des-


clínica: esses comportamentos não ocor- sas variáveis possibilita direcionamentos
reram ao acaso. terapêuticos mais eficazes. Dessa forma,
não faz sentido uma pessoa fazer terapia
Na terapia analítico-comportamental, é per- por meses ou anos e não ter a menor no-
tinente falar aos clientes que não existem ção sobre por que se comporta da forma
comportamentos feios ou bonitos, bons ou como tem se comportado (incluindo emo-
maus, certos ou errados.10 Existem os compor- ções e sentimentos). Isso, infelizmente, não
tamentos, o porquê de eles ocorrerem, o que é incomum. Todo comportamento é deter-
os mantêm e quais seus efeitos. minado, mesmo que por vezes não estejam
claras quais variáveis o determinaram.
Por sinal, são esses efeitos sobre si e
sobre os outros que servirão de parâme- O COMPORTAMENTO COMO
tros para o indivíduo estabelecer juízos INTERAÇÃO ORGANISMO-AMBIENTE
de valor sobre seus comportamentos.
A definição de comportamento no Beha-
Nesse sentido, todas as ações, as ideias
viorismo Radical difere de outras visões
e os sentimentos que o cliente apresen-
na Psicologia, no senso-comum e até em
ta são coerentes, pertinentes com o que
outras formas de Behaviorismo. No pri-
ele viveu e está vivendo. Um sentimento
meiro, o comportamento é aquilo que o
pode ser desagradável, mas não é incoe-
rente. O comportamento pode não estar organismo faz, independentemente de ser
sendo “funcional” para produzir ou afastar público ou privado (Catania, 1979). As
diversos reforçadores ou estímulos aversi- demais posições, incluindo o Behavioris-
vos importantes, mas, certamente, não se mo Metodológico de Watson, referem-se
estabeleceu “do nada”. Essa postura tera- ao comportamento como ações públicas,
pêutica contribui bastante para uma boa passíveis de observação direta (Matos,
formação de vínculo entre terapeuta e 2001). Para Skinner (1945/1988), os fa-
cliente, aumentando as possibilidades de tores tradicionalmente conhecidos como
o cliente se autodescrever11 de forma mais mentais (pensar, sentir, raciocinar, imagi-
confiável, com maior correspondência ver- nar, fantasiar, etc.) também são compor-
bal/não verbal12, mesmo que às vezes seja tamentos. Essa consideração enfraquece a
difícil relatar aspectos de si que sejam con- concepção dualista, internalista e mecâni-
siderados reprováveis ou desagradáveis.13 ca de causalidade tipo mente → compor-
A investigação dos determinantes dos tamento-observável, pois se os “eventos
comportamentos clínicos relevantes do mentais” também são comportamentos,
cliente caracteriza-se como uma tarefa fun- eles devem ser explicados como tal, a par-
tir de suas relações com o ambiente.
10
Sugestão do autor. O Behaviorismo Radical define com-
11
Na Análise do Comportamento, a autodescrição portamento como interação organismo-
não se refere apenas ao que o cliente faz (seus com- ambiente (Matos, 2001; Todorov, 1989;
portamentos), mas também em quais contextos ocor- Tourinho, 1987). Essas interações são des-
re o comportamento e quais efeitos produz. critas por meio de relações de contingên-
12
Para maior compreensão do tema “correspondên- cias,14 que são relações de dependência
cia verbal/não verbal na clínica”, sugere-se o texto de
Beckert (2004).
13 14
Costumo passar aos meus alunos, supervisionan- No sentido técnico, contingência ressalta como sen-
dos e de especialização clínica, que a terapia desper- do a probabilidade de um evento que pode ser afeta-
ta no cliente “a dor da lucidez”. da ou causada por outros eventos (Catania, 1979).
Análise Comportamental Clínica 35

entre eventos ou, mais especificamente, em ressalta-se que a forma como o organismo
Psicologia, entre comportamentos e eventos afeta o mundo é por meio das ações, ou
ambientais. O comportamento é também melhor, do comportamento operante. A
um fenômeno histórico, não é algo que pos- terapia analítico-comportamental é volta-
sa ser isolado, guardado. Não é matéria em da para a ação do cliente sobre a sua vida,
si, mas uma relação entre eventos naturais. ou seja, sobre as contingências. São as
Como dito anteriormente, segundo Skinner ações que modificam o mundo! Seja mu-
(1974/1993), o organismo não armazena dando o contexto em que está inserido,
experiências, é modificado por elas. Cabe seja buscando contextos mais favoráveis,
então ao cientista registrar a ocorrência do o indivíduo é ativo. Por mais intensos que
comportamento e observar sob quais condi- sejam nossos sentimentos, eles não afetam
ções ocorre ou é modificado. o ambiente diretamente. Mesmo os pen-
A definição de comportamento como samentos, apesar da sua natureza verbal
interação desfaz a ideia de um organismo operante, não mudam as nossas experiên-
passivo em relação ao ambiente, como fre- cias diretamente; é necessário ações pú-
quentemente apontam algumas críticas. blicas para isso. O pensar pode entrar no
Conforme afirmou Skinner (1957/1978), controle direto de ações públicas, mas não
“os homens agem sobre o mundo, modifi- afeta o mundo como estas últimas afetam.
cam-no e por sua vez são modificados pe- Podemos pensar em alguma coisa e fazer-
las consequências de suas ações” (p. 15). mos outra incompatível; podemos agir de
forma antagônica ao que sentimos, mas,
Implicações clínicas em ambos os casos, só as ações afetarão
o mundo diretamente. A terapia voltada
A compreensão de como um cliente se
para a ação incentiva as pessoas a buscar
comporta é feita por meio de um raciocínio
contingências que vão lhes trazer bene-
interacionista. Por exemplo, um clínico de
fícios, mesmo que inicialmente possam
orientação analítico-comportamental não
eliciar sentimentos ou pensamentos desa-
tenta “liberar” os sentimentos da pessoa,
gradáveis. O modelo terapêutico da ACT
“colocá-los para fora”. “Liberar” sentimen-
(sigla em inglês para Terapia de Aceitação
tos nada mais seria do que comportar-se,
e Compromisso), por exemplo, tem desen-
ou seja, apresentar comportamentos pú-
volvido estratégias nesse sentido (Hayes,
blicos na presença de sentimentos espe-
Strosahl e Wilson, 1999. Ver os capítulos
cíficos. Uma pessoa pode ficar “liberando
de Dutra e também de Ruas, Albuquerque
sentimentos” durante anos num consul-
e Natalino, neste livro).
tório e sua “fonte” nunca se esgotar! Isso
Segundo Chiesa (1994), as pessoas es-
porque as contingências que os estão eli-
tão acostumadas a ver o resultado e não o
ciando ainda continuam presentes em sua
processo. E o processo é histórico. A inves-
vida. Se o comportamento é um fenôme-
tigação histórica das contingências desfaz
no histórico, o clínico behaviorista radi-
a necessidade de buscar alguma entidade
cal procura entender em quais condições
ou “essência” dentro do organismo como
ocorreu e não onde ou como ele estaria
geradora da ação.
armazenado. O mais importante é identi-
ficar quais variáveis são responsáveis por
esses sentimentos e o que seria necessário VISÃO CONTEXTUALISTA
fazer para modificá-las. O contextualismo, derivado das ideias de
Sendo o comportamento uma relação Pepper (1942, citado por Carrara, 2001),
bidirecional entre organismo e ambiente, tem sido relacionado ao Behaviorismo
36 Ana Karina C. R. de-Farias e Cols.

Radical (Carrara, 2001 e 2004; Hayes, relação analisada (Skinner, 1953/2000).


Hayes e Reese, 1988). De acordo com Segundo Carrara (2001, p. 239), “a ideia
Carrara (2001), enquanto o mecanicis- de relações funcionais é cara e impres-
mo está associado a uma máquina em cindível ao contextualismo, que, por sua
16
movimento, o contextualismo refere-se ao vez, a maximiza para incluir todas (o
comportamento-no-contexto. O primeiro que, no limite, é impossível) as variáveis
estaria mais vinculado às propostas ini- que, em menor ou maior escala, afetam
ciais do Behaviorismo, como o Behavio- o comportamento”. Dessa forma, a com-
rismo Metodológico, muito caracterizado preensão de um comportamento só será
pela “Psicologia estímulo-resposta”, pela possível identificando as relações atuais e
ideia da justaposição ou da contiguidade. passadas entre resposta e ambiente, con-
O segundo baseia-se nas relações funcio- forme afirmou Carrara (2001, p. 240),
nais, não lineares, entre comportamento e não apelando “a influências isoladas de
ambiente. partes do organismo envolvidas na ação
(glândulas, braços, cérebro ou, mesmo,
Entender o comportamento-no-contexto mente)”.
caracteriza-se como uma análise molar (am-
pla), em contrapartida a uma análise molecu- Implicações clínicas
lar (restrita, parcial). Segundo Hayes, Strosahl,
Um terapeuta comportamental não está
Bunting, Twohig e Wilson (2004), o contex-
interessado na ação em si, mas nas condi-
tualismo funcional vê os eventos comporta-
mentais como a interação entre o organismo ções em que ela ocorre, seus antecedentes
como um todo e um contexto que é definido e consequentes, sua história de reforça-
tanto historicamente (história de aprendiza- mento/punição e os efeitos destes sobre
gem) quanto situacionalmente (antecedentes a ação. O autoconhecimento decorrente
e consequentes atuais, regras).15 O contexto é desse processo é muito mais amplo do que
o conjunto de condições em que o compor- simplesmente identificar características
tamento ocorre (Carrara e Gonzáles, 1996). pessoais. Queixas iguais podem ter fun-
Tire o comportamento do contexto e ele fica ções diferentes e revelar histórias de con-
sem sentido. dicionamentos diferentes. Por exemplo, a
presença da mãe de uma cliente chamada
Observe que os princípios da Análise Ana pode ter funções eliciadoras17 quando
do Comportamento descrevem relações, a sua presença ou sua proximidade elicia
com definições envolvendo funções de medo em Ana; e função discriminativa18,
estímulo e de resposta. Por exemplo, quando sinaliza probabilidade de reforça-
operante não é a resposta em si, mas mento (negativo) para comportamentos de
um tipo de relação entre resposta, con- fuga e de esquiva da filha. A fala da mãe
dições em que ocorre e consequências pode ter funções reforçadoras ou puniti-
que produz. As funções de um estímulo vas quando, consequente a uma ação da
são definidas pelo efeito que têm sobre 16
a resposta, seja o estímulo anterior ou Grifo original.
17
Relacionadas ao comportamento reflexo ou res-
posterior a ela. Um mesmo estímulo
pondente.
pode ter várias funções, dependendo da 18
Relacionadas ao comportamento operante. Essas
definições podem ser melhor entendidas em outros
15
Regras são definidas como estímulos verbais que capítulos do presente livro, assim como em Baum
descrevem/especificam uma contingência (Baum, (1994/1999), Catania (1979), Skinner (1953/2000),
1994/1999; Catania, 1979). Ver Capítulo 13. dentre outros.
Análise Comportamental Clínica 37

filha, aumenta ou diminui a probabilidade ao seu Behaviorismo a ideia de organismo


de ocorrência dessa ação. Se uma pessoa vazio, é mais uma das interpretações en-
relata e/ou apresenta atitudes de esquiva ganosas sobre a sua teoria (ver Carvalho-
social na clínica, caracterizando-se como Neto, 1999). A posição skinneriana vai de
“tímida”, o terapeuta irá ajudá-la a iden- encontro às concepções tradicionais que
tificar em quais situações esses compor- entendem o comportamento como sendo
tamentos são mais prováveis, quais suas originado internamente no organismo,
funções, quais condições históricas favo- seja por algo físico (p. ex., bases neuro-
receram suas aquisições e quais contextos lógicas) ou não físico (p. ex., entidades
os mantêm. Tal análise também favorecerá mentais, como inconsciente, memória,
uma mudança contextual. “Será que tenho cognição, etc.). Eventos privados, como
que deixar de ser duro com as pessoas o pensamento, podem entrar no controle
sempre?”, pergunta o cliente. Não. Apenas de comportamentos públicos; no entan-
em situações em que as consequências de to, sua origem é pública, está na história
se comportar assim, em curto ou longo de relações do organismo com o ambien-
prazo, motivem a mudança. te (Abreu-Rodrigues e Sanabio, 2001).
Entender um transtorno comporta- Como apontado anteriormente, as contin-
mental, por exemplo, não é apenas iden- gências ambientais são as variáveis inde-
tificar os comportamentos que o caracteri- pendentes, enquanto os comportamentos
zam, mas, sim, saber a quais contingências são as variáveis dependentes.
estariam relacionados. Isso se opõe à ideia Há uma confusão comum no que diz
de geração interna do comportamento, respeito ao que vem a ser a concepção ex-
pois, dependendo do contexto, ele ocor- ternalista de causalidade no Behaviorismo
rerá de forma diferente (ver também Ryle, Radical, associando-a ao modelo mecâni-
1949/1963). co de causalidade. Enfatizar o papel do
ambiente na determinação do comporta-
VISÃO EXTERNALISTA mento humano não implica afirmar que o
organismo apenas reage passivamente ao
É frequente ouvir pessoas, incluindo al-
mundo, tal como um ser autômato. Muito
guns psicólogos de outras abordagens,
pelo contrário, o modelo skinneriano deve
afirmarem categoricamente que “o que
ser caracterizado como interacionista, com
importa” é o que tem “dentro” de um in-
influências mútuas entre comportamento
divíduo, numa alusão à subjetividade, a
e ambiente.
sentimentos, etc. Um behaviorista radical,
Pode-se observar também que, na obra
no entanto, vai discordar dessa afirmação
de Skinner, o externalismo está dentro do
e dizer que o que importa não é o que
caráter pragmático de sua concepção. A
“tem dentro” da pessoa, mas o que deter-
proposta de transformar o mundo é uma
mina o que “tem dentro”. É o ambiente
característica presente em sua obra, como
que determina o comportamento, seja ele
pode ser observado na afirmação: “se que-
privado ou não. Por ambiente, entende-se
remos que a espécie sobreviva, é o mundo
o que é externo ao comportamento a ser
que fizemos que devemos mudar” (Skinner,
analisado. Isso quer dizer que a concep-
1989, p. 70).
ção externalista skinneriana não exclui o
mundo dentro de da pele, apenas não lhe
atribui status causal e nem uma dimensão Implicações clínicas
metafísica (Skinner, 1953/2000). O mito Ao buscar interpretações do porquê de al-
da caixa preta de Skinner, o qual atribui guém sentir, pensar ou agir de determina-
38 Ana Karina C. R. de-Farias e Cols.

da maneira, ou mesmo apresentar soma- mentos que caracterizam o considerado


19
tizações , o analista do comportamento como baixa autoestima23 são decorrentes,
não terá como referência os eventos inter- talvez, de uma história de poucos reforços
nos, sejam eles físicos ou não (p. ex., men- sociais (p. ex., rejeições, desvalorização
te, pulsão, energia, crença, sinapses, etc.). por pessoas significativas tais como os
Não é a angústia que faz alguém deixar pais, etc.).
um relacionamento amoroso nem a per- Na formação de um clínico analítico-
sonalidade leva alguém a ser impulsivo; a comportamental, portanto, é fundamen-
obsessão não decorre meramente de alte- tal o desenvolvimento da capacidade de
rações neurológicas; a depressão não vem identificar as variáveis independentes dos
de processos mentais e nem os transtornos comportamentos clinicamente relevan-
comportamentais se originam de crenças tes, bem como a capacidade de ajudar
distorcidas. São as contingências ambien- o cliente a fazer o mesmo. É necessário
tais os determinantes dentro de um proces- treino em um raciocínio externalista,
so histórico. pois sabemos que não apenas o cliente,
mas também o terapeuta vêm de uma
É comum em nossa prática clínica encontrar- longa experiência em uma comunidade
mos clientes que desconhecem o porquê dos verbal mentalista. Por exemplo, imagine
seus comportamentos20, mas, à medida que um cliente relatando um problema conju-
as contingências vão sendo identificadas21, gal, reconhecendo agir de forma impul-
eles tendem a compreendê-las e a concordar siva e com agressividade. Uma análise
com o raciocínio22, mesmo que este lhes seja mais precisa descreverá quais comporta-
novo. mentos caracterizariam os conceitos de
impulsividade e agressividade. Outras
Por exemplo, um cliente aprende que sua informações também precisariam ser le-
forma de agir não é determinada pela sua vantadas: saber em quais condições ocor-
baixa autoestima, mas que os comporta- rem com mais frequência, desde quando
ocorrem, etc. O cliente pode então rela-
tar que essas “atitudes” estão lhe sendo
19
As somatizações, também conhecidas como psi- prejudiciais e que haveria interesse em
cossomatizações, são alterações orgânicas produzi- mudança. Antes de estabelecer quaisquer
das por respostas emocionais intensas ou frequentes estratégias ou alternativas nesse sentido,
eliciadas por eventos ambientais específicos (para
o clínico deveria saber o que determi-
saber um pouco mais sobre o assunto, sugere-se Mil-
lenson, 1967/1975). na suas ocorrências. Vejamos as seguin-
20
Em alguns casos, mesmo após anos de uma ou tes opções: a) fica nervoso; b) sente um
mais psicoterapias! forte “impulso”; c) era agressivo quando
21
A identificação das contingências na prática clíni- criança; d) tem personalidade agressiva;
ca normalmente não ocorre em linguagem técnica;
é comum o terapeuta usar termos do cotidiano na
comunicação com o seu cliente.
22 23
É raro um cliente não entender ou não concordar As características do cliente analisadas na sessão
com o raciocínio baseado na análise de contingên- devem ser baseadas na interpretação deste sobre
cias. Entretanto, é provável que alguns, se entrassem quais comportamentos exemplificam-nas. Por exem-
para um curso de graduação em Psicologia e tivessem plo, se o cliente relata ser tímido, deve-se investigar
acesso às concepções filosóficas do Behaviorismo Ra- quais ações levam-no a considerar-se assim. Se é o te-
dical, discordassem de algumas delas. Esse paradoxo rapeuta quem aponta uma provável característica, ela
advém de um longo treino de raciocínio e de visão de deve ser confirmada pelo cliente, como, por exem-
homem e mundo dentro de uma comunidade verbal plo, quando o terapeuta pergunta “você acha que é
internalista, na qual sempre estivemos inseridos. impulsivo nas suas relações afetivas?”.
Análise Comportamental Clínica 39

e) tem “pavio curto” e f) tem natureza VISÃO SELECIONISTA


impulsiva. Qual dessas alternativas seria Selecionismo é um termo originário da
um exemplo de variável independente, teoria evolucionista da Seleção Natural,
segundo o modelo externalista? Acertou proposta por Charles Darwin e Alfred
quem afirmou que nenhuma delas é. Na Wallace para explicar a origem das espé-
realidade, todas descrevem VDs, ou seja, cies (Desmond e Moore, 1995). Na Se-
são comportamentos a ser explicados. É leção Natural, membros de uma espécie
necessário saber por que ele fica nervoso, com características mais adaptativas ao
sente um forte “impulso” e era agressivo ambiente em que vivem têm mais chances
quando criança. A “personalidade agres- de sobreviver e de passar suas caracterís-
siva”, o “pavio curto” e a “natureza im- ticas aos seus descendentes. Por exemplo,
pulsiva” são rótulos classificatórios para
imagine um grupo de felinos da mesma
esses padrões comportamentais que, por
espécie vivendo na mesma época e no
sua vez, também precisam ser explica-
mesmo espaço geográfico. Com certeza,
dos. Essas informações, embora possam
haverá diferenças individuais no grupo no
contribuir de alguma forma, não esclare-
que diz respeito a aspectos anatômicos,
cem o porquê dos comportamentos. As
fisiológicos, etc., como, por exemplo, o
VIs seriam encontradas nas relações en-
tamanho do pelo. Agora vamos supor que
tre esses comportamentos e o ambiente.
a região em que vivem tais felinos passas-
Alguns exemplos de VIs poderiam ser: a)
se por uma significativa redução na tem-
foi pouco contrariado ao longo da vida;
peratura atmosférica ao longo dos anos
b) as coisas em casa eram sempre con-
e assim permanecesse por milhares ou
forme sua vontade; c) seu comportamen-
milhões de anos. Quais os efeitos dessa
to foi muito reforçado e pouco punido
ação ambiental sobre esses felinos? O que
quando se tornava agressivo em relações
aconteceria é que aqueles com pelo maior,
próximas; etc.
mesmo que por milímetros de diferença,
Uma observação importante é que as
teriam mais condições de se adaptarem ao
VIs são fundamentais não apenas para
clima frio, sobreviverem e passarem suas
explicar a aquisição dos comportamen-
características aos seus descendentes que,
tos. Elas são necessárias para explicar a
por sua vez, também estariam sujeitos à
sua manutenção, servem de parâmetros
mesma ação ambiental. O ciclo se repeti-
para avaliar a motivação para mudanças
ria ao longo de anos, décadas, milênios.
e são também os próprios instrumentos
Os de pelo maior sempre levariam vanta-
de mudança (Marçal, 2005, 2006a). Se
gens na competição por sobrevivência em
os ambientes, ao longo da vida de uma
relação aos de pelo menor. Isso poderia
pessoa, foram e/ou estão sendo deter-
não fazer diferença em algumas décadas,
minantes para os seus sentimentos, seus
mas após milhares ou milhões de anos,
pensamentos e suas “atitudes” atuais, são
essa espécie poderia ter se “transformado”
as mudanças no ambiente, então, que vão 24
em uma outra com pelos muito maiores,
proporcionar modificações nesses com-
do tamanho mais favorável à sobrevivên-
portamentos. Pode-se brincar dizendo que
cia. Na seleção natural, cada espécie é o
as contingências são as verdadeiras tera-
resultado de um processo que envolve
peutas! A terapia analítico-comportamen-
tal é voltada para a ação sobre o mundo. 24
O mesmo acontecendo em relação à quantidade
São os efeitos dessa ação que interessam, de tecido adiposo, aos hábitos alimentares e a outros
os efeitos de mudanças nas contingências aspectos que favoreceriam a sobrevivência em tempe-
em que a pessoa vive. raturas mais baixas.
40 Ana Karina C. R. de-Farias e Cols.

milhares ou milhões de anos, em que mu- não pelas suas consequências, ou seja, o
danças ambientais selecionaram caracte- reforçamento fortalece a probabilidade de
rísticas (p. ex., morfológicas, fisiológicas, ocorrência de uma classe de resposta que
comportamentais) mais apropriadas à o produziu, enquanto a punição a enfra-
sobrevivência. Isso promoveu diferenças quece. O ambiente exerce um papel deter-
entre espécies que, num passado distante, minante em qualquer forma de seleção,
tiveram os mesmos ancestrais. que ocorre a partir de um substrato variá-
Segundo Skinner (1974/1993), a teo- vel. Sem variação não há seleção!
ria da Seleção Natural demorou a surgir Segundo Baum (1994/1999), assim
em função de um raciocínio pouco co- como a teoria da Seleção Natural substi-
mum ao tradicionalmente conhecido: tuiu a explicação da origem das espécies
baseada num Deus Criador, a Teoria do
A teoria da seleção natural de Darwin Reforço substituiu a explicação do com-
surgiu tardiamente na história do pen- portamento humano baseada numa mente
samento. Teria sido retardada porque criadora. Para o autor, isso ocorre porque
se opunha à verdade revelada, porque as explicações substituídas são inaceitáveis
era um assunto inteiramente novo na do ponto de vista científico, obstruindo o
história da ciência, porque era caracte- avanço do conhecimento.
rística apenas dos seres vivos ou por- O modelo selecionista não recorre a
que tratava de propósitos e de causas exclusivas condições genéticas como de-
finais sem postular um ato de criação? terminantes do comportamento e nem a
Creio que não. Darwin simplesmente um raciocínio mecânico ou linear, como
descobriu o papel da seleção, um tipo quando se afirma que suas atitudes são
de causalidade muito diferente dos determinadas pela sua personalidade, self,
mecanismos de ciência daquele tem- consciência ou alguma força interior.
po. (p. 35)

No raciocínio selecionista, “um evento Implicações clínicas


tem a sua probabilidade futura de ocor-
rência afetada por um evento que ocorre O principal interesse do clínico behaviorista
posterior a ele, invertendo o tradicional radical não está na ocorrência do comporta-
raciocínio mecanicista de contiguidade” mento em si, nem no modo como ocorre, mas
(Marçal, 2006b, p. 1). Segundo Donahoe no porquê de sua ocorrência.
(2003), isso difere do teleológico, já que
não é o futuro que traz o presente para si,
O clínico emprega o raciocínio selecionis-
mas o passado e que empurra o presente
ta na compreensão de como os compor-
em direção ao futuro.
tamentos dos clientes foram adquiridos e
Skinner (1966 e 1981) amplia o mo-
estão sendo mantidos. Independente da
delo selecionista ao estendê-lo para a es-
influência de variáveis biológicas, nem
fera ontogenética e cultural. Dessa forma,
sempre claras ou demonstradas empirica-
não é só na origem das espécies (filogê-
mente, a atenção está voltada para os pro-
nese) que a seleção atua, também na his-
cessos de seleção comportamental.
tória de vida do indivíduo (ontogênese)
Vamos supor um caso clínico em que
e nas práticas de uma cultura (Skinner,
uma pessoa chega ao consultório com
1953/2000; Todorov e de-Farias, 2008).
um diagnóstico de transtorno obsessi-
Na ontogênese, os comportamentos emi-
vo-compulsivo (TOC). Após identificar
tidos pelo organismo são selecionados ou
os comportamentos que caracterizam o
Análise Comportamental Clínica 41

quadro de TOC e os contextos históricos com as experiências que a pessoa vem ten-
e/ou atuais a ele relacionados, o clínico do ao longo da vida. Muitas vezes, dize-
buscará identificar quais são as variáveis mos aos nossos clientes que se tivéssemos
de controle atuais, tais como contingên- passado pelas mesmas situações que eles
cias de reforçamento, estímulos aversivos passaram, estaríamos nos comportando
condicionados, controle aversivo sobre de forma semelhante. Essa postura é um
comportamentos alternativos, etc. A iden- forte aliado do terapeuta na formação de
tificação de variáveis mantenedoras, no vínculo com o cliente. No entanto, a vali-
entanto, não explica como os compor- dação não implica aceitação passiva das
tamentos foram adquiridos, tornando condições atuais! A teoria da Seleção Na-
necessário identificar contingências his- tural indica que uma espécie foi preparada
tóricas que selecionaram esses e outros para viver em ambientes semelhantes aos
padrões comportamentais do cliente.25 que viveu no passado, não há garantias
Há maior interesse nas funções desses de adaptabilidade a novos e porventura
comportamentos do que nas suas topo- diferentes ambientes (Skinner, 1990). Na
grafias (formas). Conforme já foi dito, ontogênese, ocorre o mesmo. Uma das
pessoas podem apresentar padrões com- principais fontes do sofrimento humano
portamentais semelhantes, mas com fun- são as mudanças ambientais pelas quais
ções diferentes, identificadas a partir de uma pessoa passa ao longo da vida. For-
diferentes contingências de aquisição e mas efetivas de se comportar em contex-
de manutenção. tos anteriores podem não ser apropriadas
Por mais que um padrão compor- a novos contextos, por vezes muito seme-
tamental esteja trazendo problemas a lhantes, e podem passar a produzir pouco
alguém, por mais que esse alguém este- ou nenhum reforçamento, ou, ainda, pro-
ja insatisfeito com sua forma de agir, tal duzir consequências aversivas. A dificulda-
comportamento foi reforçado no passado de se acentua quando esses novos contex-
em um ou mais contextos. Foi funcional tos tornam-se predominantes e envolvem
ao remover, evitar ou atenuar eventos reforçadores poderosos. Habituado a um
aversivos ou ao produzir eventos reforça- padrão comportamental, o indivíduo se
dores positivos.26 Essa análise contribui depara com uma situação que exige va-
para validar os sentimentos e os compor- riação e isso pode ser muito difícil, pois
tamentos atuais, tornando-os coerentes um outro modo de se comportar não foi
“treinado” em sua vida. Assim, um simples
conselho terapêutico como “comporte-se
25
Para entender um pouco sobre a relação entre his-
de tal maneira” pode estar fadado ao fra-
tória de vida e identificação de padrões comporta- casso. Torna-se, então, importante para a
mentais na prática clínica, ver Marçal (2005, 2006a pessoa entender por que se comporta as-
e 2007). sim e por que é difícil mudar, favorecendo
26
Evento aversivo ou reforçador negativo é aquele o engajamento em situações de mudanças.
que reduz a probabilidade de ocorrência do com-
A ideia de que se vai aprender a agir de
portamento que o produziu ou antecedeu (punição
positiva) e também aumenta a probabilidade de outras formas pode ser mais adequada
ocorrência do comportamento que o adiou, atenuou nessas circunstâncias.
ou removeu (reforçamento negativo). Um reforçador Vejamos um exemplo. Imaginemos
positivo é um evento que aumenta a probabilidade uma mulher chamada Lúcia, que ao lon-
de ocorrência do comportamento que o produziu
go de sua vida foi tranquila, quieta, sor-
(reforçamento positivo) e também reduz a probabili-
dade de ocorrência do comportamento que o remo- ridente, meiga, não criou atrito com as
veu (punição negativa). pessoas e foi correta no sentido de agir
42 Ana Karina C. R. de-Farias e Cols.

conforme os mandamentos sociais da derá ajudá-la a se engajar gradativamente


cultura em que viveu. Carinho, afeto, res- em situações que favoreçam a emissão
27
peito, privilégios, consideração e tantos dos comportamentos desejados.
outros reforçadores sociais foram farta- A variação é um elemento básico para
mente adquiridos em função da sua for- haver seleção (Skinner, 1981). Pouca va-
ma de ser. Regras a respeito de si (autoi- riabilidade entre os membros da espécie
magem) foram formadas a partir dessas diminui a probabilidade de esta sobrevi-
experiências e também passaram a con- ver a mudanças ambientais. Do mesmo
trolar seus comportamentos (p. ex., “isto modo, padrões restritos e estereotipados
não é para alguém como eu”, “tal atitude de comportamentos dificultam a adaptabi-
não combina comigo”, “Lúcia é meiga... lidade a um mundo em constante mudan-
um amor”). No entanto, quando Lúcia se ça. Um dos principais objetivos da prática
torna adulta, depara-se com as seguintes clínica é produzir variabilidade compor-
situações: os filhos desafiam-na e passam tamental, aumentar o leque de possibili-
a desobedecê-la, pois ela tem dificuldade dades para conseguir reforçamento em
em ser “dura” com eles; o mesmo acontece ambientes variados (Marçal e Natalino,
em relação à empregada que trabalha em 2007). No entanto, por que mudar às ve-
sua casa; no trabalho, assumiu um car- zes é tão difícil? Por que alguns clientes
go de chefia, com melhor remuneração, não se engajam nas situações terapêuti-
mas que exige atitudes de rigidez com os cas sinalizadas nas sessões? Seria válido
funcionários. Esses contextos exigem de aquele ditado popular na Psicologia em
Lúcia um repertório comportamental que que se afirma que “para mudar, é neces-
foi pouco fortalecido (selecionado) em sário querer mudar”? Para o analista do
suas experiências de vida: contrapor ou comportamento, é fundamental avaliar as
contrariar as pessoas, ser rígida com elas, contingências que levam alguém a querer
impor limites. Provavelmente, a sua pos- mudar, ou seja, mais importante do que
tura também tenha contribuido para que querer ou não mudar, é o que leva alguém
pessoas próximas, como pais, familiares a querer ou não mudar.
e, depois, colegas, tenham agido dessa O modelo selecionista é muito eficaz
forma por ela, como numa espécie de pro- na avaliação motivacional para mudanças.
teção. Talvez seu comportamento tenha Muitas vezes, respostas que trazem conse-
sido punido quando agiu de forma dife- quências aversivas, também levam a refor-
rente, ouvindo coisas como: “Essa não é a çadores poderosos. Por exemplo, uma pos-
Lúcia que conhecemos!” ou “O que é isso, tura agressiva pode trazer reações sociais
Lúcia! Você fazendo isso!”. Dessa forma, desagradáveis, mas também admiração e
esses repertórios não foram efetivamente respeito; um comportamento pode ser pu-
modelados. Isso leva a uma condição de nido com frequência em um contexto, mas
grande sofrimento, de angústia, de sensa- não em outro; ser calado pode estar trazen-
ção de impotência. Simplesmente pedir
que Lúcia se imponha diante das pessoas 27
A experiência clínica ensinou-me a usar termos
pode ser o mesmo que pedir a alguém, como experimentar, treinar, aprender, praticar, exer-
que mal sabe dar uma cambalhota, para citar, quando se trata de motivar o cliente a emitir
comportamentos funcionalmente necessários, mas
dar um “salto mortal”! A compreensão de que não fazem parte do seu repertório comporta-
como suas características foram adquiri- mental, isto é, que não foram aprendidos. A ideia de
das, de como tais situações se tornaram simplesmente “fazê-lo” pode gerar enorme frustração
aversivas ou reforçadoras positivas, po- diante da inevitável dificuldade que ele encontrará.
Análise Comportamental Clínica 43

do problemas numa relação conjugal, mas paixão pela teoria e a segurança no seu re-
ser útil no trabalho ao favorecer a produti- ferencial teórico. Não se observa entre os
vidade e evitar intrigas. Muitas vezes, tam- clínicos de orientação behaviorista radical
bém, a mudança implica engajar-se em si- a necessidade de utilizar um outro mode-
tuações com elevado custo de resposta e de lo psicológico de interpretação ou trata-
ganhos em um prazo muito longo. mento, seja qual for o comportamento em
questão, incluindo os distúrbios graves
Para uma pessoa, deixar de ser dependente como padrões psicóticos e outros. Inter-
pode representar muito esforço e um tempo ferências em aspectos orgânicos, como
demasiado grande para obter os reforçadores por meio de medicamentos, podem ser
almejados. bem-vindas em alguns casos, da mesma
forma que técnicas clínicas provenientes
de outras abordagens psicológicas. Con-
A avaliação motivacional oferece óti-
tudo, não há a necessidade de interpreta-
mos parâmetros para terapeuta e cliente
ções baseadas em modelos não derivados
estabelecerem metas terapêuticas e estra-
de um estudo controlado e sistematizado,
tégias para consegui-las, evitando que a te-
como o decorrente da Análise Experimen-
rapia “fique patinando”, sem sair do lugar.
tal do Comportamento.
As perspectivas clínicas behavioristas
O ALCANCE DA ANÁLISE radicais são sempre positivas. Cada vez
DO COMPORTAMENTO NA mais pesquisas fornecem conhecimento e
ÁREA CLÍNICA dão sustentação às estratégias de interven-
ção (Kerbauy, 1999). No Brasil, é cada vez
Existem muitas concepções enganosas
maior o número de centros de formação
do que vem a ser Análise Comportamen-
para clínicos que desejam se especializar
tal Clínica ou Terapia Analítico-Com-
nessa abordagem, assim como o número
portamental. A maior parte dessas inter-
de publicações relacionadas à área.30 O
pretações é decorrente de (a) um forte
mesmo acontece fora do país, onde novos
desconhecimento28 do que vem a ser o
modelos clínicos têm surgido baseados nes-
Behaviorismo Radical, (b) de pressupos-
se referencial teórico (p. ex., Kohlenberg e
tos derivados dos primórdios do Behavio-
Tsai, 1991/2001; Hayes et al., 1999). Para
rismo e (c) de uma associação à terapia
uma boa formação clínica, é necessário um
comportamental baseada na exclusiva
bom embasamento filosófico e teórico-con-
aplicação de técnicas, algo comum29 em
ceitual, além de uma prática supervisiona-
situações aplicadas, como em instituições
da. No entanto, é importante ressaltar que
de saúde (o capítulo de de-Farias, neste
o Behaviorismo privilegia o método como
livro, aborda brevemente este tópico).
produção de conhecimento; tal como afir-
Independentemente desse processo, são
mou Skinner (1950), ao enfatizar que
observadas duas características comuns
quem quiser as respostas sobre as coisas,
entre os clínicos behavioristas radicais: a
não deve ir atrás dele, pois elas estão na
natureza. Ela é que deve ser investigada.
28
Infelizmente, muitas destas concepções são lar-
gamente difundidas entre aos alunos de graduação
30
em Psicologia por professores de outras abordagens Vasto material é encontrado nas coleções “Ciência
também por um grande desconhecimento sobre a do Comportamento: Conhecer e avançar”, “Sobre
Análise do Comportamento. Comportamento e Cognição” e no periódico “Revista
29
E necessário. Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva”.
44 Ana Karina C. R. de-Farias e Cols.

• Atenção está sob controle do que não


EXERCÍCIO
está bom.
Identificando variáveis independentes A) Aquisição – Assinale, entre os exemplos abai-
31
na prática clínica xo, quais poderiam ser considerados VIs históri-
Na Análise do Comportamento, traduzimos al- cas para a aquisição (ou para a manutenção ao
guns termos: longo dos anos) desse padrão comportamental:
Causa: mudança em uma variável indepen- ( ) Muito acostumada a fazer tudo bem
dente; feito.
Efeito: mudança em uma variável depen- ( ) Tirava as melhores notas da escola.
dente; ( ) Sempre gostou de ser a melhor em
Relação causa-efeito: relação funcional. tudo.
( ) Pais muito exigentes quanto ao desem-
As VIs são eventos ambientais. Conforme
penho.
afirmou Skinner (1981), “as causas do comporta-
( ) Estudou em colégios exigentes.
mento (VIs) são as condições externas das quais
( ) Preferia atividades que exigiam muito.
o comportamento é função”. Identificar VIs na
( ) Premiada por elevado desempenho.
prática clínica é uma tarefa básica e fundamen-
( ) Valorizada pelos pais apenas em fun-
tal para o psicólogo em todas as etapas da te-
ção do desempenho.
rapia. Executá-la adequadamente evita que o
( ) Sempre sentiu necessidade de fazer
terapeuta desvie sua atenção para variáveis não
bem feito.
relevantes no controle dos comportamentos do
( ) Ambiente familiar competitivo e com-
seu cliente e reduza a eficácia da terapia. Este
parativo.
exercício ajudará você a aprender a identificar
( ) Muito autoexigente.
essas variáveis. As VIs aqui abordadas referem-se
àquelas responsáveis (a) pela aquisição e pela B) Manutenção – Assinale, dentre os exemplos
manutenção de comportamentos ou padrões abaixo, VIs atuais que contribuiriam para uma
comportamentais do cliente, (b) pela motivação pessoa manter o padrão comportamental de
para a mudança e (c) pelas mudanças necessárias perfeccionismo:
para se alcançar as metas terapêuticas. ( ) É proprietária e gerencia uma empresa
I – O perfeccionismo é um padrão comportamen- que sofre grande concorrência.
tal encontrado com relativa frequência entre os ( ) Pensa que só aquele que faz bem feito
clientes. Apesar dos comportamentos que o carac- é quem progride na vida.
terizam serem funcionais (produzirem reforçamen- ( ) Incomoda-se quando vê algo mal feito.
to) em muitos contextos, não o são em outros (não ( ) Tem grande prestígio entre os colegas
produzem reforçamento ou produzem punição). A de profissão: estes esperam muito dela.
seguir, alguns exemplos de comportamentos que ( ) Quer continuar sendo assim.
poderiam caracterizar o perfeccionismo: ( ) Mãe reforça-a diferencialmente pelo
desempenho.
• Faz muito bem feito tudo que pega
para fazer; C) Motivação para a mudança – Assinale quais
• Refaz várias vezes o mesmo trabalho dos exemplos abaixo seriam determinantes (VIs)
até ficar sem erros; para motivar mudanças em relação ao perfeccio-
• Não para de fazer algo enquanto não nismo:
estiver “bem feito”; ( ) Não quer ser tão perfeccionista.
• Fica remoendo ou lamentando quando ( ) Apresenta somatizações graves relacio-
algo não saiu bem feito como queria; nadas ao perfeccionismo.
( ) Marido, a quem ama, está se afastando
31
O gabarito dos exercícios está disponível ao final dela.
do livro. ( ) Acha que está precisando relaxar.
Análise Comportamental Clínica 45

( ) Não está obtendo reforçadores rela- ( ) Mãe facilitadora.


cionados ao lazer. ( ) Foi pouco exigido na vida.
( ) Perde oportunidades (reforçadores) ( ) Era quieto desde criança.
valiosas por só querer coisas perfeitas. ( ) Seu signo revela uma pessoa acomoda-
( ) É determinada, consegue o que quer. da.
( ) Nunca teve força de vontade.
D) Recursos terapêuticos – Identifique quais dos
( ) Acesso a muitos reforçadores sem mui-
recursos ou estratégias terapêuticas exemplifica-
to esforço.
dos abaixo corresponderiam a VIs responsáveis
por mudanças: ( ) Insucesso ao tentar fazer algumas coi-
sas por si.
( ) Precisa aprender a relaxar. ( ) Sempre foi inseguro.
( ) Mudar o pensamento: “nem tudo na ( ) Tinha baixa autoestima.
vida é perfeito”.
( ) Estar em situações reforçadoras que não B) Manutenção – Assinale, dentre os exemplos
tenham demandas por desempenho. abaixo, VIs atuais que contribuiriam para manter
( ) Vivenciar contextos reforçadores em o padrão comportamental:
que haja boa probabilidade de ocorre- ( ) Não tem energia dentro de si.
rem imperfeições sem consequências ( ) Regra: “se pudesse, passava o dia com
punitivas. as garotas”.
( ) Não se cobrar tanto. ( ) Recebe boa mesada dos avós.
II – O comodismo e a falta de iniciativa também ( ) Acha que é preguiçoso.
são padrões comportamentais frequentes que ( ) Não há contingências aversivas na vida
trazem problemas na vida de alguns clientes. As- que leva atualmente.
sim como no perfeccionismo, os comportamen- ( ) Acha que não deve ser diferente.
tos que caracterizam esses padrões foram ou são ( ) Família reforça sua capacidade persua-
funcionais em muitos contextos e não foram ou siva para ter o que quer.
não são em outros. A seguir, alguns exemplos de C) Motivação para a mudança – Assinale quais
comportamentos que poderiam caracterizar o dos itens abaixo seriam determinantes (VIs) para
comodismo e a falta de iniciativa: motivar mudanças:
• Espera as coisas acontecerem na vida; ( ) Acha que está na hora de mudar sua
• Age apenas quando solicitado ou mes- postura.
mo obrigado; ( ) Mãe deixou de facilitar sua vida.
• Raramente inicia um novo projeto; ( ) Está perdendo reforçadores importan-
• Tende a permanecer em condições tes (punição negativa) por não tomar
aversivas, mostrando passividade; iniciativa para adquiri-los.
• Sente-se inseguro ou sem vontade para ( ) Concorda com o irmão quando este
iniciar algo novo. diz que ele está acomodado.
A) Aquisição – Assinale, entre os exemplos abai- ( ) Sente que está mais corajoso.
xo, quais poderiam ser VIs históricas para a aqui- ( ) Namorada, que amava, terminou com
sição (ou para a manutenção ao longo dos anos) ele, pois achava que ele não progrediria
desse padrão comportamental: na vida.
( ) Passou a morar só, em outra cidade,
( ) Avô, com quem nunca teve contato,
onde mal conhece as pessoas.
também era acomodado.
( ) Quer ser igual ao irmão.
( ) Tinha preguiça de fazer as coisas quan-
do criança. D) Recursos terapêuticos – Identifique quais dos
( ) Seu irmão, três anos mais velho, fazia e recursos terapêuticos abaixo corresponderiam a
resolvia quase tudo para ele (cliente). VIs responsáveis por mudanças:
46 Ana Karina C. R. de-Farias e Cols.

( ) Terapeuta encerra a sessão no horário ( ) Suas exigências eram frequentemente


inicialmente previsto, mesmo o cliente reforçadas pelos adultos.
chegando 40 minutos atrasado e sem ( ) Poucas frustrações nas relações sociais
uma justificativa adequada. próximas.
( ) Vivenciar contextos reforçadores em ( ) Sempre foi parecido com o pai nos
que haja contingência específica para a comportamentos.
produtividade.
B) Manutenção – Assinale, dentre os exemplos
( ) Identificar o lado bom de ter iniciativa,
abaixo, VIs atuais que contribuiriam para manter
ser produtivo.
o padrão comportamental:
( ) Aprender a se virar.
( ) Ter mais força de vontade. ( ) No trabalho, tem muito poder e co-
( ) Estar em situações em que as coisas manda várias pessoas dispostas a aten-
dependam de si. dê-lo prontamente.
( ) Inserir-se ou manter-se em ambientes ( ) Há pressão no trabalho por resultados
exigentes, que punam o comodismo, imediatos.
mas que também disponibilizem refor- ( ) Tem TDAH (Transtorno do Déficit de
çadores importantes. Atenção e Hiperatividade).
( ) Fica irritado com a lentidão dos ou-
III – A impulsividade e o imediatismo também
tros.
são padrões comportamentais frequentemente
( ) Explosivo quando contrariado.
identificados em clientes. Os comportamentos
( ) É ansioso.
que os caracterizam foram ou são funcionais em
( ) Não se “dá mal” quando age de forma
muitos contextos, e não foram ou não são em
considerada impulsiva.
outros. A seguir, alguns exemplos de comporta-
mentos que poderiam caracterizar a impulsivida- C) Motivação para a mudança – Assinale quais
de e o imediatismo: dos exemplos abaixo seriam determinantes (VIs)
para motivar (ou não) mudanças nesse padrão
• Fala coisas sem pensar e depois se ar-
comportamental:
repende;
• Não consegue esperar por algo, tem ( ) Brigou duas vezes na rua após gritar
que ser agora; com outros. Foi bem-sucedido.
• Pouca persistência, pouco autocon- ( ) As coisas na vida continuam como na
trole; infância: muito poder.
• Baixa tolerância à frustração; ( ) Namora uma pessoa que lhe é sub-
• Desiste das atividades em que seu missa.
comportamento não é imediatamente ( ) Considera-se explosivo, gostaria de
reforçado. mudar.
( ) Dois amigos, dos quais gostava muito,
A) Aquisição – Assinale, dentre os exemplos
afastaram-se dele.
abaixo, quais poderiam ser VIs históricas para a
( ) Reconhece que suas atitudes são, às
aquisição (ou para a manutenção ao longo dos
vezes, inadequadas.
anos) desse padrão comportamental:
( ) Tem sentido vontade de mudar.
( ) História de acesso fácil e frequente a
D) Recursos terapêuticos – Identifique quais dos
reforçadores importantes, sem preci-
recursos terapêuticos exemplificados abaixo cor-
sar ser persistente.
responderiam a VIs responsáveis por mudanças:
( ) É impulsivo desde criança.
( ) Nunca foi paciente para esperar. ( ) Estar em ambientes reforçadores, mas
( ) Teve vários empregados à disposição que lhes confiram pouco poder.
quando criança. ( ) Atividades em que o acesso ao refor-
( ) Era hiperativo. çador dependa da persistência.
Análise Comportamental Clínica 47

( ) Acreditar que pode mudar. Carvalho Neto, M. B. (1999). Fisiologia & Beha-
( ) Estabelecer etapas para uma mudança viorismo Radical: Considerações sobre a caixa
gradativa. preta. Em R. R. Kerbaury & R. C. Wielenska
( ) Terapeuta não atende prontamente à (Orgs.), Sobre Comportamento e Cognição: Vol.
4. Psicologia comportamental e cognitiva: da
sua solicitação para mudança de horá-
reflexão teórica à diversidade na aplicação
rio (cliente não gosta muito do horário
(pp. 262-271). Santo André: ESETec.
em que está).
Chiesa, M. (1994). Radical Behaviorism: The
( ) Aprender a relaxar e se controlar. philosophy and the science. Boston: Authors
Cooperative.
REFERÊNCIAS Desmond, A. & Moore, J. (1995). Darwin: a
vida de um evolucionista atormentado. São
Abreu-Rodrigues, J. & Sanabio, E. T. (2001). Paulo: Geração Editorial.
Eventos privados em uma psicologia ex-
Donahoe, J. W. (2003). Selecionism. Em K.
ternalista: Causa, efeito ou nenhuma das
A. Lattal & P. N. Chase (Orgs.), Behavior
alternativas? Em H. J. Guilhardi, M. B. B. P.
theory and philosophy (pp. 103-128). New
Madi, P. P. Queiroz & M. C. Scoz (Orgs.),
York: Kluwer academic/Plenum Publishers.
Sobre Comportamento e Cognição: Vol. 7. Ex-
pondo a variabilidade (pp. 206-216). Santo Ferster, C.B. (1973). A functional analysis of de-
André: ESETec. pression. American Psychologist, 28, 857-70.
Baum, W. M. (1994/1999). Compreender o Beha- Hayes, S. C., Hayes, L. J. & Reese, H. W. (1988).
viorismo: Ciência, comportamento e cultura Finding the philosophical core. Journal of
(M. T. A. Silva, G. Y. Tomanari & E. E. Z. the Experimental Analysis of Behavior, 50,
Tourinho, trads.). Porto Alegre: Artmed. 97-111.
Beckert, M. E. (2001). A partir da queixa, o que Hayes, S. C., Strosahl, K. D., Bunting, K., Two-
fazer? Correspondência verbal/não verbal: hig, M. P. & Wilson, K. G. (2004). What is
um desafio para o terapeuta. Em H. J. Gui- Acceptance and Commitment Therapy? In S.
lhardi, M. B. B. Madi, P. P Queiroz, M. C. C. Hayes & K. D. Strosahl (Eds.), A practical
Scoz & C. Amorim (Orgs.), Sobre Comporta- guide to Acceptance and Commitment Thera-
mento e Cognição: Vol. 7. Expondo a variabi- py (pp. 1-30). New York: Guilford Press.
lidade (pp. 186-194). Santo André: ESETec. Hayes, S. C., Strosahl, K. & Wilson, K. G.
Carrara, K. (1998). Behaviorismo Radical: Crí- (1999). Acceptance and commitment therapy:
tica e metacrítica. Marília: Unesp Marília An experiential approach to behavior change.
publicações; São Paulo: FAPESP. Nova York: Guilford Press.
Carrara, K. (2001). Implicações do Contextua- Kerbauy, R. R. (1999) Pesquisa em terapia com-
lismo pepperiano no Behaviorismo Radical: portamental: Problemas e soluções. Em R.
Alcance e limitações. Em H. J. Guilhardi, M. R. Kerbauy & R. C. Wielenska (Orgs.), Sobre
B. B. P. Madi, P. P. Queiroz, M. C. Scoz & Comportamento e Cognição: Vol. 4. Psicologia
C. Amorim (Orgs.), Sobre Comportamento Comportamental e Cognitiva: da reflexão teó-
e Cognição: Vol. 8. Expondo a variabilidade rica à diversidade na aplicação (pp. 61-68).
(pp. 205-212). Santo André: ESETec. Santo André: ARBytes.
Carrara, K. (2004). Causalidade, relações funcio- Lindsley, O. R. & Skinner, B. F. (1954). A me-
nais e contextualismo: algumas indagações thod for the experimental analysis of the
a partir do behaviorismo radical. Interações, behavior of psychotic patients. American
9, 29-54. Psychologist, 9, 419-420.
Carrara, K. & Gonzáles, M. H. (1996). Contex- Marçal, J. V. S. (2005). Estabelecendo objetivos
tualismo e mecanicismo: implicações concei- na prática clínica: Quais caminhos seguir?
tuais para uma análise do Comportamento. Revista Brasileira de Terapia Comportamen-
Didática, 31, 199-217. tal e Cognitiva, 7, 231-246.
Catania, A. C. (1979). Learning. New Jersey: Marçal, J. V. S. (2006a). Refazendo a história
Prentice Hall. de vida: quando as contingências passadas
48 Ana Karina C. R. de-Farias e Cols.

sinalizam a forma de intervenção clínica Skinner, B. F. (1945/1988). The operational


atual. Em H. J. Guilhardi & N. C. de Aguirre analysis of psychological terms. In A. C.
(Orgs.), Sobre Comportamento e Cognição: Catania & S. Harnad (Eds.), The Selection
Vol 15. Expondo a variabilidade (pp. 258- of behavior. The operant behaviorism of B. F.
273). Santo André: ESETec. Skinner: Comments and consequences (pp.
Marçal, J. V. S. (2006b). Introdução gradativa ver- 150-164). New York: Cambridge University
sus introdução completa de uma contingência Press.
de variação operante em crianças. Tese de Skinner, B. F. (1953/2000). Ciência e Compor-
doutorado não publicada, Universidade de tamento Humano (J. C. Todorov & R. Azzi,
Brasília, Brasília, DF, Brasil. trads.). São Paulo: Martins Fontes.
Marçal, J. V. S. & Natalino, P. C. (2007). Varia- Skinner, B. F. (1957/1978). O Comportamento
bilidade comportamental e adaptabilidade: Verbal (M. da P. Villalobos, trad.). São Paulo:
da Pesquisa à Análise Comportamental Clí- Cultrix, EDUSP.
nica. Em H. J. Guilhardi & N. C. de Aguirre Skinner, B. F. (1966). The phylogeny and onto-
(Orgs), Sobre Comportamento e Cognição: geny of behavior. Science, 153, 1205-13.
Vol. 18. Expondo a variabilidade (pp. 71-
Skinner, B. F. (1974/1993). Sobre o Behavioris-
85). Santo André. ESETec.
mo (M. da P. Villalobos, trad.). São Paulo:
Marx, H. M. & Hillix, A. W. (1997). Sistemas e Cultrix.
Teorias em Psicologia (A. Cabral, trad.). São
Skinner, B.F. (1981). Selection by consequences.
Paulo: Editora Cultrix.
Science, 213, 501-04.
Matos, M. A. (2001). Com o quê o behaviorista
Skinner, B. F. (1989). Recent issues in the analy-
radical trabalha? Em R. A. Banaco (Org.).
sis of behavior. Columbus, O. H.: Merrill.
Sobre Comportamento e Cognição: Vol. 1. As-
pectos teóricos, metodológicos e de formação Skinner, B. F. (1990). Can psychology be a
em Análise do Comportamento e Terapia Cog- science of mind? American Psychologist, 45,
nitivista (pp. 49-56). Santo André: ESETec. 1206-1210.
Micheletto, N. (1997). Bases Filosóficas do Beha- Todorov, J. C. (1989). A Psicologia como estudo
viorismo Radical. Em R. A. Banaco (Org.). das interações. Psicologia: Teoria e Pesquisa,
Sobre Comportamento e Cognição: Vol. 1. As- 5, 347-356.
pectos teóricos, metodológicos e de formação Todorov, J. C. & de-Farias, A. K. C. R. (2008).
em Análise do Comportamento e Terapia Cog- Desenvolvimento e modificação de práticas
nitivista (pp. 29-44). Santo André: ESETec. culturais. Em J. C. M. Martinelli, M. A. A.
Micheletto, N. (2001). A história da prática do Chequer & M. A. C. L. Damázio (Orgs.),
analista do comportamento: Esboço de Ciência do Comportamento: Conhecer e Avan-
uma trajetória. Em H. J. Guilhardi, M. B. çar (Vol. 7). Santo André: ESETec.
B. P. Madi, P. P. Queiroz, M. C. Scoz & C. Tourinho, E. Z. (1987). Sobre o Surgimento do
Amorim (Orgs.), Sobre Comportamento e Behaviorismo Radical de Skinner. Psicolo-
Cognição: Vol. 8. Expondo a variabilidade gia, 13, 1-11.
(pp. 152-167). Santo André: ESETec. Vandenberghe, L. (2001). As principais correntes
Millenson, J. R. (1967/1975). Princípios de dentro da Terapia Comportamental – Uma
Análise do Comportamento (A. A. Souza e D. taxonomia. Em H. J. Guilhardi, M. B. B.
Rezende, trads.). Brasília: Coordenada. Madi, P. P. Queiroz, M. C. Scoz & C. Amo-
Moxley, R. A. (1997). Skinner: From determi- rim (Orgs.), Sobre Comportamento e Cog-
nism to random variation. Behavior and nição: Vol. 7. Expondo a Variabilidade (pp.
Philosophy, 25, 3-28. 154-161). Santo André: ESETec.
Richelle, M. N. (1993). B. F. Skinner: A Reap- Wolpe, J. (1981). Prática da Terapia Comporta-
praisal. Hillsdale, N. J.: Lawrence Erlbaum mental (W. G. Clark Jr., trad.). São Paulo:
Associates, Publishers. brasiliense.
Rimm, D. C. & Masters, J. C. (1983). Terapia Wong, S. E. (2006). Behavior analysis of psycho-
Comportamental. São Paulo: Manole. tic disorders: scientific dead end or casualty
Ryle, G. (1949/1963). The concept of mind. Lon- of the mental health political economy?
don, Hutchinson & CO. LTD. Behavior and Social Issues, 15, 152-177.