Sei sulla pagina 1di 3

Excelentíssimo deputado Arlindo Chinaglia, presidente da Câmara dos

Deputados. Excelentíssimo ministro da Justiça, Tarso Genro. Reverendíssimo


Dom Dimas Lara Barbosa, secretário da CNBB. Doutor Cezar Britto, presidente
da Ordem dos Advogados do Brasil. Jornalista Tarcísio Holanda, membro da
Associação Brasileira de Imprensa e representante da ABI nesse ato. Lúcia
Stumpf, presidente da União dos Estudantes. Senhoras e senhores
parlamentares presentes.

Em 13 de dezembro de 1968, há quase quarenta anos, foi editado o Ato


Institucional Número 5 assinado pelo presidente da República, general Arthur
da Costa e Silva. Falou-se que se cuidava de um golpe, dentro do golpe, dos
artigos que compunham o texto e que significou o maior endurecimento do
regime de exceção em vigor no Brasil desde 1964. O presidente passou a ter
poderes para decretar o recesso do Congresso Nacional, das Assembléias
Legislativas, das Câmaras Municipais. Para decretar a intervenção dos estados
e municípios, para suspender os direitos políticos e cassar mandatos eletivos.
Demitir, remover e aposentar por indisponibilidade, juízes e outros funcionários
públicos. Suspendeu-se a garantia de Habeas Corpus nos casos de crimes
políticos contra a segurança nacional, a ordem econômica social e a economia
popular. E excluiu-se, ainda de qualquer apreciação judicial, todos os atos
praticados de acordo com o Ato Institucional Número 5.

Eu não me canso de ressaltar, e recentemente o fiz inclusive nesta Casa,


referência à necessidade de restrição a Habeas Corpus. Habeas Corpus é
fundamental. É garantia fundamental para a defesa dos direitos e garantias
individuais. Por isso que neste ato ele foi coartado e foi cassado. Mas, mais do
que isso ainda, é fundamental lembrar quão crucial para a democracia é a
independência judicial. Martín Kriele – um autor alemão consagrado da
Universidade de Colônia – diz que a independência judicial é mais importante
do que um catálogo de direitos fundamentais. Porque nós conhecemos regimes
ditatoriais que consagram os direitos fundamentais. O regime sobre ética era
um deles. Consagrava os direitos fundamentais, mas não os respeitava, porque
não havia independência judicial. Agora, com independência judicial, se
consagram direitos. Por isso que a independência judicial é mais importante do
que um catálogo de direitos fundamentais e é por isso que ela foi coartada
aqui. É fundamental que nós nesse dia nos lembremos dessas verdades. A
necessidade da preservação do Habeas Corpus e não de sua limitação e a
necessidade da preservação da independência judicial como garantia da
democracia.

Este ato permitiu a cassação, como já foi aqui dito, de três ministros do
Supremo Tribunal Federal: Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e
Silva. E mais do que isso, levou à aposentadoria na mesma data os ministros
Antônio Gonçalves de Oliveira e Carlos Lafaiete de Andrade. Nesse momento
essas aposentadorias e cassações se deram no dia 16 de janeiro 1969.
Aproveito neste momento a oportunidade para, como presidente do Supremo
Tribunal Federal, que tenho a honra de representar nesta Casa, homenagear
os ministros que engrandecem a história desse Tribunal e que sofreram
diretamente as duras conseqüências da edição do Ato Institucional Número 5.
Muitas vezes se fala que o Tribunal passou incólume pela ditadura militar ou
que foi coadjuvante da ditadura militar. É preciso lembrar esse fato que num só
ato retira cinco juízes de uma Corte, inclusive o seu presidente. Que
transformação! Que mutilação para uma Corte que se afirmara ostensivamente
garantindo o Habeas Corpus! É bom lembrar os governadores que sofreram
violência a partir de 1964. Por isso é fundamental que nesse momento nós nos
lembremos desses fatos. E eu saúdo o presidente Chinaglia por essa iniciativa
que hoje, graças a todas essas lutas, respiramos o ar da democracia.
Precisamos saber que só vivenciamos esse momento hoje porque muitos se
sacrificaram, morreram por isso.

Os chineses dizem que quando nós bebemos água é preciso pensar na fonte.
Momentos como este, presidente Chinaglia, são extremamente importantes
para que nós pensemos em todos esses fatos que nos levaram a essa situação
de indignidade política e que nós possamos cultivar a democracia sempre
como um valor básico como o ar que nós devemos respirar.

Mas eu gostaria ainda de prestar duas homenagens aqui. Eu gostaria de


prestar uma homenagem aos políticos em geral e eu não me canso de
ressaltar a importância da atividade política na consolidação da democracia e
na concretização da democracia e a superação das mazelas do AI-5. A
transição para a democracia só foi possível no Brasil graças à atividade
política. É fundamental que nós façamos esse reconhecimento. Estudante que
era entre 75 e 78, vivenciei o pós 74 a vitória do MDB nas urnas,
especialmente a sua manifestação no Senado. E a luta que se travava nas
duas casas: Câmara e Senado pela redemocratização do Brasil. Ainda me
lembro hoje dos discursos, por exemplo, do deputado Ibsen Pinheiro; de Paulo
Brossard, que enchia as galerias do Senado Federal clamando pela volta ao
Estado de Direito. De Marcos Freire, igualmente lutando pelo Estado de
Direito.

Aqui foi lembrado de Lisaneas Maciel que enchia as salas da nossa


Universidade de Brasília lutando pelo Estado de Direito. Mas é preciso lembrar
também de Alencar Furtado, que foi sacrificado com a cassação após ter feito
um discurso em rede de televisão. Era assim que o regime muitas vezes
respondia aquilo que se considerava algum excesso. É preciso lembrar de
Petrônio Portela que, juntamente com Raimundo Faoro, trabalhou na transição
contribuindo para que houvesse uma transição pacifica que levaria depois ao
processo constituinte.

Sem dúvida, mencionando esses nomes, nós estamos fazendo homenagens


aos políticos que contribuíram para que nós tivéssemos uma transição
diferenciada e que nos faz hoje diferente de nossos irmãos latino-americanos,
que nos dá a estabilidade que eles não lograram ter. Isso é fundamental que
nós lembremos. Isso é fruto da arte da política. Isso não se inventa. Isso é
mérito de uma cultura que é a cultura da compreensão, da transição, do
respeito recíproco, de que não se vence o outro impondo-lhe uma derrota
física. Isso é a arte da política. É preciso que nós valorizemos isso. Em tempos
em que muitas vezes nós somos levados a análises simplistas e a desvalorizar
o político e a política. É preciso rememorar que, se nós hoje estamos a gozar
desses ares democráticos, foi graças a esta arte e a essa tessitura política.
Gostaria também de fazer uma segunda homenagem, à Ordem dos Advogados
do Brasil, na pessoa de quem já mencionei desse grande brasileiro Raymundo
Faoro. Que soube representar a sociedade civil nesse diálogo e nessa
transição dificílima que envolvia as mais sérias negociações e que nos fez
chegar a bom porto.

Eu encerro, presidente, dizendo que fomos sábios nessa transição política


inclusive no processo constituinte que tem sido objeto, às vezes, de muitos
atritos e de muitas discussões. Conseguimos caminhar para uma solução
negociada a partir da Emenda Constitucional Nº 25, encaminhada pelo governo
do presidente José Sarney e que teve a participação de um eminente jurista
que depois veio a se tornar ministro do Supremo Tribunal Federal. Na verdade
é de sua autoria intelectual. É da autoria intelectual de Célio Borja o projeto da
Emenda 25. Emenda que, eu já disse, não é uma Emenda Constitucional
normal que talvez hoje siga passos de um processo constituinte excepcional.
Eu já brinquei nas aulas dizendo que é uma Emenda Constitucional do bem,
porque ela encerra um ciclo constitucional e faz nascer um outro. Não se pode
fazer a qualquer momento esse tipo de Emenda. Mas é uma engenharia
institucional extremamente sábia que permitiu que nós viabilizássemos o
processo constituinte e saíssemos do impasse que levou então ao processo de
Constituinte de 1988 que todos conhecemos. Encerro, senhor presidente,
agradecendo mais uma vez e elogiando essa iniciativa dizendo que todos nós
devemos manifestar de forma muito clara o compromisso com a democracia.
Essa é a forma de nós repudiarmos de forma muito clara atos autocráticos
especialmente o Ato Institucional Número 5.

Muito obrigado.