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Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS


DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

RELATÓRIO FINAL
De Iniciação Científica
PIBIC/UFRRJ

FEVEREIRO/2017
Profª Drª Naara Lúcia de Albuquerque Luna
Orientadora

Laryssa Owsiany Ferreira


Bolsista de IC

Aborto e diversidade sexual: Estatuto do Nascituro,


homofobia, individualismo e conservadorismo no
debate legislativo sobre direitos humanos - um estudo
comparativo da ALERJ e do Senado Federal.

Seropédica
FEVEREIRO/2017

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PROGRAMA: PIBIC
Nome do bolsista: Laryssa Owsiany Ferreira
Matrícula do Bolsista: 201234018-9
Nome do Orientador: Naara Lúcia de Albuquerque Luna
Grande Área: Ciências Humanas e Sociais
Período da bolsa: agosto 2016 – fevereiro 2017
Título do Projeto: Aborto e diversidade sexual: estatuto do nascituro, homofobia,
individualismo e conservadorismo no debate legislativo sobre direitos humanos - um estudo
comparativo da ALERJ e do Senado Federal.

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO .................................................................................... 5

2. METODOLOGIA................................................................................. 7

3. MARCO TEÓRICO........................................................................... 10

4. RESULTADOS DO LEVANTAMENTO.......................................... 33

5. ABORTO
5.1. ALERJ............................................................................................................................ 33
5.2. SENADO FEDERAL..................................................................................................... .44

6. DIVERSIDADE SEXUAL
6.1. ALERJ............................................................................................................................. 55
6.2. SENADO FEDERAL...................................................................................................... 74

7. CONCLUSÕES.................................................................................... 92

8. PARTICIPAÇÃO EM EVENTOS .................................................... 96

9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................. 97

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INTRODUÇÃO

O projeto pretende elucidar o debate público sobre os direitos humanos no tocante a


reivindicações relacionadas ao aborto, incluindo aí o estatuto do nascituro, e à diversidade
sexual, identificando seus principais atores e os argumentos usados. Para tanto o projeto vai
verificar que tipo de argumentação é acionada no debate público: argumentos referentes à
ordem da natureza, com um discurso científico ou naturalizante, argumentos da esfera legal e
do direito, e argumentação religiosa e discutir a partir daí acusações de fundamentalismos. O
projeto também irá verificar que atores têm se posicionado na esfera pública. Entre os pontos
a elucidar está a representação de pessoa associada ao nascituro, feto ou embrião e contrastar
com a condição de pessoa associada à mulher gestante. Essas causas reivindicatórias estão
associadas à configuração individualista de valores associada à modernidade ocidental, a que
se contrapõe uma interpretação holista da sociedade, com ênfase nas instituições tradicionais.
Entre os aspectos contraditórios está a reivindicação de liberdade de escolha para os
parceiros sexuais, com o objetivo de constituir família, o que reforçaria uma instituição
tradicional. A denúncia da violência também se relaciona ao discurso dos direitos humanos no
caso de situações de homofobia. Este projeto visa verificar como os debates sobre o aborto no
Brasil e sobre o estatuto de embriões humanos de laboratório criados por fertilização in vitro
são relacionados ao discurso dos direitos humanos pelos principais atores envolvidos.
A investigação aborda questões que começam no campo da saúde reprodutiva, com o
debate sobre o aborto, e chega à esfera do Direito em vista dos problemas éticos, por um lado
e o debate sobre a diversidade sexual por outro. Existe um embate entre os movimentos pró-
vida, relacionados ou não a grupos religiosos e o movimento feminista no tocante à legislação
sobre o aborto no país. Os primeiros pretendem excluir os dois permissivos em que o aborto é
legal, já o movimento feminista tenta ampliar as possibilidades e defende que é um direito de
decisão das mulheres. Outro ator relevante é o Estado, que tem apresentado o aborto como
problema de saúde pública. Há uma disputa sobre quem seriam os sujeitos de direitos: os fetos
ou as mulheres? Com respeito à diversidade sexual, existe um choque de moralidades entre
uma perspectiva que defende a família tradicional sob três ângulos: é natural, foi criada por
Deus, sua definição como composta de homem e mulher está na Constituição. O lado que
defende os direitos LGBTT afirma os direitos individuais de escolha e acusa seus adversários
de fundamentalistas, defendendo o Estado laico. As principais trincheiras de disputa no
Legislativo referem-se à lei anti-homofobia e aos desdobramentos do reconhecimento da

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união civil de pessoas de mesmo sexo, quanto à previdência e opções para a constituição de
família (adoção, reprodução assistida).
Outro aspecto do problema são as representações que surgem na mídia quanto à
condição humana de embriões e fetos no contexto da pesquisa, principalmente com células-
tronco e de seu uso na reprodução assistida, e do aborto. Como os movimentos pró-vida se
opõem ao aproveitamento em pesquisa de embriões humanos excedentes de reprodução
assistida, o discurso pró-vida é acionado para combater as reivindicações da comunidade
científica. É importante mapear esses atores, bem como a argumentação usada, ao criar
sujeitos de direitos ou vítimas, pontos estes que revelam valores fundamentais a serem
analisados pela antropologia com respeito à noção de pessoa. Por outro lado, a análise desse
quadro poderá informar estratégias de políticas públicas referentes à saúde reprodutiva, mas
também aos direitos referentes à diversidade sexual.
Em resumo, o objetivo geral é identificar os elementos de discursos dos direitos
humanos no debate sobre o aborto e o estatuto do nascituro no Brasil, que pretende defender
esses entes dentro e fora do útero, e no debate sobre a diversidade sexual, em particular a lei
anti-homofobia e a união de pessoas do mesmo sexo. Devem-se analisar os argumentos de
diferentes atores sociais e suas articulações no espaço público a partir do levantamento de
proposições legislativas, discursos, e atas de comissões no Legislativo, bem como de
transcrições de audiências. Isso inclui os debates na ALERJ e no Senado Federal. Além disso,
levantar dados para o projeto de pesquisa e sistematizá-los a fim de subsidiar a escrita de
artigo ou realização de seminário; apresentar os resultados da investigação em jornadas de
iniciação e eventos científicos.

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METODOLOGIA.

Na pesquisa realizada no site da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro


(www.alerj.rj.gov.br), foi utilizado o mecanismo de busca disponível nas seguintes abas:
“Processos legislativos/Projetos de lei/ Projeto de Lei 2015/2019/ Proposições gerais”, e
“Discursos e votações”. Na pesquisa realizada no site do Senado Federal, foi também
utilizado o mecanismo de busca disponível na aba “Atividade legislativa/ Projetos e Matérias-
Proposições” e “Pronunciamentos” que são os equivalentes aos discursos do portal da ALERJ.
A partir disso realizei uma busca específica a partir de palavras-chave em ambos os portais. A
busca por “proposições gerais” disponibiliza os seguintes tipos de proposições que serão
citadas neste relatório: projeto de lei (PL), projeto de resolução (PR), proposta de emenda
constitucional (PEC), indicação legislativa (INC), requerimento (REQ). Abaixo seguem as
definições fornecidas pelo site da ALERJ para maior compreensão de processos legislativos.

 Projeto de Lei

O projeto de lei ordinária é destinado a regular as matérias de competência do Poder


Legislativo com a sanção do Governador do Estado. A iniciativa desse tipo de proposição,
bem como do projeto de lei complementar, cabe a qualquer membro ou comissão da
Assembleia Legislativa, ao Governador do Estado, ao Tribunal de Justiça, ao Tribunal de
Contas, ao Procurador-Geral de Justiça e aos cidadãos, sob a forma de projeto de iniciativa
popular. Dois terços das matérias que tramitam na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro
são projetos de lei ordinária. O projeto de lei ordinária é aprovado pela maioria simples dos
presentes à votação (o quorum mínimo para votação de proposições em plenário é a maioria
dos membros da Assembleia, a qual é de 36 deputados. A presença de deputado em comissão,
concomitantemente com reunião da Assembleia, é computada para efeito de quorum em
plenário).

 Projeto de Resolução

Todas as matérias de competência privativa da Assembleia Legislativa, que não preveem


envio ao Executivo para sanção do Governador, são objeto de projeto de resolução e de
projeto de decreto legislativo. São regulamentadas por projeto de resolução, entre outras, as
matérias relativas ao regimento interno do Legislativo, à polícia e serviço administrativo de

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sua secretaria, bem como criar, prover, transformar e extinguir os respectivos cargos, fixar sua
remuneração, observados os parâmetros estabelecidos na lei de diretrizes orçamentárias.

 Proposta de Emenda à Constituição

A Constituição pode ser emendada por proposta (I) de, no mínimo, um terço dos membros da
Assembleia Legislativa (24 deputados); (II) do Governador do Estado; e (III) de mais da
metade das Câmaras Municipais, manifestada pela maioria dos membros de cada uma delas.
A proposta é discutida e votada em dois turnos e considerada aprovada se obtiver, em ambos,
no mínimo, três quintos dos votos dos membros da Assembleia Legislativa (mínimo de 42
votos favoráveis).

 Indicações

Indicação é a proposição em que são solicitadas medidas de interesse público, cuja iniciativa
legislativa ou execução administrativa seja de competência privativa do Poder Executivo ou
judiciário. As Indicações se dividem em duas categorias: simples, quando se destina a obter,
do Poder Executivo ou Judiciário, medidas de interesse público que não caibam em Projeto de
Lei, de Resolução ou de Decreto Legislativo; legislativa, quando se destinam a obter do Poder
Executivo ou do Poder Judiciário o envio de Mensagem à Assembleia por força de
competência constitucional.
Foram mapeadas todas as proposições legislativas e os discursos que compreendem o
ano de 2016, fazendo uso de palavras-chave. As palavras-chave utilizadas foram “aborto”,
“nascituro”, “embrião”, “reprodução assistida” e “fertilização in vitro”. E as referentes à
diversidade sexual foram “LGBT”, “transfobia”, “lesbofobia”, “homofobia”, “gay”, “gays”,
“homossexualismo”, “lésbicas”, “travesti”, “homossexualidade”, “transgênero”, “parceria
civil”, “união civil”, “opção sexual”, “orientação sexual”, “homossexual”, “homossexuais”,
“ideologia de gênero”, “união homoafetiva”. Foi analisado como as palavras-chave apareciam
nos levantamentos, de modo que pudesse ser entendido o que tais proposições defendiam.
Logo após foram mapeados os parlamentares de acordo com profissão, partido, pertencimento
religioso e posicionamento. As informações adicionais do perfil dos deputados foram obtidas
através do site da ALERJ, ou das redes sociais dos deputados na aba biografia. Foi também
verificado se havia coincidência entre os atores que se engajavam no debate sobre aborto e no
debate sobre diversidade sexual.

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Os posicionamentos dos deputados foram classificados como pró-vida (quando em
seus discursos e/ou PLs ficou clara sua posição contrária à prática e a descriminalização do
aborto, ou na defesa de embriões e fetos) e pró-escolha (quando o parlamentar nos discursos
e/ou PLs se posiciona a favor da autonomia da mulher sobre seu corpo e/ou quando defende a
descriminalização do aborto). Quando não ficou clara no discurso a posição do parlamentar
no discurso sobre a questão do aborto, o quesito posicionamento é dado como indefinido.
Embora alguns parlamentares tenham um posicionamento claro a respeito dos temas, nas
tabelas é classificado pelo posicionamento no discurso. Por exemplo, se o sujeito é
declaradamente a favor da descriminalização do aborto, mas em determinado discurso isso
não fica claro, o discurso é classificado como indefinido.
Os discursos (ALERJ) e pronunciamentos (SENADO) sempre são citados seguidos do
nome do autor e da data em que foram proferidos. Houve opção por descrever dessa forma,
pois se houver interesse em checar o original no portal da ALERJ
(http://www.alerj.rj.gov.br/?AspxAutoDetectCookieSupport=1), ou no portal do
SENADO(http://www6g.senado.gov.br/busca/?colecao=Pronunciamentos&ano=2016&q=)
os arquivos originais são facilmente identificáveis através da busca por datas. Quanto as
proposições legislativas, sempre são citadas seguidas do nome do autor e do número da
proposição, o objetivo é o mesmo; facilitar a busca dos documentos originais no portal.
Pretende-se testar a hipótese criada a partir da pesquisa anterior “O estatuto do feto e
do embrião e os debates sobre direitos humanos no Brasil”, a de que há grande envolvimento
de atores religiosos, mas que também há atores sociais protagonistas de posições
conservadoras cuja identidade pública mais marcante não se refere à religião. Com isso, os
resultados do levantamento foram considerados segundo os temas e separados por ano e,
assim, para a análise foram organizados em tabelas de modo a dar prosseguimento à pesquisa
futuramente, já que, neste relatório parcial encontram-se apenas os primeiros resultados.

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MARCO TEÓRICO

BENTO, Berenice. Sexualidade e experiências trans: do hospital à alcova. Ciênc. saúde


coletiva, Out 2012, vol.17, no.10, p.2655-2664. ISSN 1413-8123

Nos últimos anos os estudos das masculinidades se consolidaram no Brasil, seguindo


uma tendência internacional. Berenice Bento (2012) afirma que depois disso não é possível
pensar a produção das identidades de gênero sem referenciá-las ao seu caráter relacional. A
autora afirma que o objetivo do artigo é apontar como um determinado conceito de gênero
pode visibilizar múltiplas expressões de gênero, a exemplo das identidades trans (transexuais,
travestis, cross dress, drag queen, drag king, transgêneros) ou invisibilizá-las e contribuir para
sua patologização. Além disso, o artigo também visa apresentar narrativas de homens trans e
de mulheres trans que relatam suas vivências sexuais, em que os saberes médicos-psi
advogam a inexistência de sexualidade em seus corpos, sendo este um dos indicadores para
produção do diagnóstico de transexualidade.
A categoria gênero e as relações entre as masculinidades e feminidades não
são autoevidentes. Há uma disputa sobre quem pode ser reconhecido como
homem e mulher de verdade. O caráter polissêmico dessa categoria, portanto,
reverbera em disputas teóricas e se materializa em políticas públicas que
podem encarnar uma concepção mais ou menos biologizante das identidades.
(p.2656)

Todas as entrevistas citadas no artigo foram realizadas para a tese de doutorado da


autora e revisitadas para a produção do artigo. O trabalho de campo foi feito na cidade de
Goiânia e em Valência/Espanha, entre os anos de 2001-2003. Como técnica de pesquisa Bento
(2012) articulou a etnografia com entrevistas abertas em profundidade utilizando a análise de
discurso foucaultiana; priorizando no artigo o debate entre a concepção hegemônica e oficial
das masculinidades e feminilidades presente no dispositivo da transexualidade e outra
respaldada nos estudos e no ativismo queer.
O gênero é uma categoria medicalizável, por esse motivo se estabelecem mecanismos
para curá-lo. A implementação de políticas públicas para a população trans, principalmente no
âmbito dos hospitais e clínicas é influenciada pelos olhares baseados em binarismos dos
membros das equipes multidisciplinares, responsáveis pela produção de um diagnóstico sobre
os corpos de sujeitos que demandam intervenções que lhes permitirão o reconhecimento do
gênero identificado.

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O gênero é uma categoria de análise em disputa e a visão que o define como algo que
as sociedades inventam para significar as diferenças dos corpos sexualizados assenta-se em
uma dicotomia entre sexo (natureza) versus gênero (cultura). Segundo essa visão, a cultura
imprimiria no corpo inerte e diferenciado sexualmente pela natureza as marcas culturais.
Também é possível analisar gênero como uma sofisticada tecnologia social heteronormativa,
operacionalizada pelas instituições médicas, linguísticas, domésticas, escolares e que
produzem constantemente corpos-homens e corpos-mulheres.

Não há corpos livres, anteriores aos investimentos discursivos. A


materialidade do corpo deve ser analisada como efeito de um poder e o sexo
não é aquilo que alguém tem ou uma descrição estática. (...). Os gêneros
inteligíveis obedecem a seguinte lógica: vagina-mulher-feminino versus
pênis-homem-masculinidade. (p.2657)

Segundo o artigo, a sociedade controla as possíveis sexualidades desviantes e a


heterossexualidade justifica a necessidade de alimentar/produzir cotidianamente os gêneros
binários. As performatividades de gênero que se articulam fora dessa amarração binária são
postas às margens, analisadas como identidades transtornadas, anormais, psicóticas,
aberrações da natureza, coisas esquisitas.
Os estudos sobre os gêneros, inicialmente, elaboraram construtos para explicar a
subordinação da mulher calcada na tradição do pensamento moderno que, por sua vez, opera
sua interpretação sobre as posições dos gêneros na sociedade a partir dessa perspectiva binária
e de caráter universal. Esta concepção binária dos gêneros reproduz o pensamento moderno
para os sujeitos universais, atribuindo-lhes determinadas características que se supõe sejam
compartilhadas por todos os homens e por todas as mulheres.

A intenção de (re)produzir o modelo hegemônico da mulher (bondosa,


compreensiva, passiva, sensível, vaidosa e, principalmente, que tenha o
matrimônio como destino) e do homem (que não chora, viril, sexual e
profissionalmente ativo, competitivo) potencialmente provoca sentimentos de
frustração e de dor. (p.2657)

De acordo com Bento (2012), um dos principais desdobramentos do olhar relacional


sobre os gêneros propiciados pelos estudos feministas foi a organização de outro campo de
estudo: o das masculinidades, que se fundamentaram na desconstrução do homem universal,
naturalmente viril, competitivo e violento.

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Um dos fios condutores que orientará as diversas pesquisas e reflexões desse
novo campo é a premissa de que o masculino e o feminino se constroem
relacionalmente e, simultaneamente, apontam que este “relacional” não
deveria ser interpretado como “o homem se constrói numa relação de
oposição à mulher”, em uma alteridade radical, ou absoluta. (p. 2658)

Os estudos das masculinidades não avançaram na problematização da concepção


binária dos gêneros e as políticas públicas para os homens estão amarradas a este fundamento.
A autora alerta para a inexistência de políticas públicas que contemplem os homens trans.
A política pública pensada para os homens tem como fundamento teórico
uma concepção de gênero binária, onde apenas corpos de homens
cromossomaticamente XY são os legítimos porta vozes da masculinidade.
(p.2659)

Chama a atenção para o fato das masculinidades trans não estarem em nenhum lugar,
embora estejam nas filas dos hospitais esperando anos para realizarem as cirurgias de
mastectomia e histerectomia e mesmo assim não podem realizá-las porque foram excluídos
das Portarias nº. 1.707/GM e Portaria nº. 457/SAS que normatizaram as cirurgias de
transgenitalização pelo SUS. Segundo orientação do Conselho Federal de Medicina, as
cirurgias demandadas por eles (a neofaloplastia, a histerectomia e a mastectomia) ainda são
consideradas experimentais. Para ter direito a realizar o processo transexualizador, inclusive
as cirurgias de transgenitalização, é necessário submeter-se a um rigoroso protocolo que inclui
terapia psicológica obrigatória, realização de ultrapassados testes psicológicos, usar
obrigatoriamente roupas do gênero identificado.

Quando se perguntava por que queriam realizar as cirurgias as respostas se


repetiam: “Eu quero ser livre. ” Ninguém respondeu: “Eu quero a cirurgia e
ser penetrado ou de penetrar, para atingir o orgasmo. ” Entre os homens trans
a mastectomia é a cirurgia que lhe dará maior liberdade. É o desejo de ser
socialmente reconhecido como um membro do gênero que os leva a
demandá-la. (p.2662)

É importante salientar que a autora considera homens trans as pessoas que nascem
mulheres e que demandam o reconhecimento social ao gênero masculino e como mulheres
trans as pessoas que nascem homens e que reivindicam o reconhecimento social ao gênero
feminino. A cirurgia de transgenitalização, portanto, não se configura como um marcador
nesta definição.

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Existem múltiplos conhecimentos articulados para patologizar as experiências trans
que segundo a autora podem ser considerados como um dispositivo. Ou seja, há diferentes
explicações para a origem do que é considerada uma “doença”. Para ciência psi hegemônica
(psicologia, psicanálise, psiquiatria), a “desordem” ocorre devido à socialização malsucedida.
Vale ressaltar que a autora está referindo-se a uma concepção hegemônica desses saberes. E
são estes os responsáveis pelas equipes multidisciplinares em autorizar a realização de
cirurgia transgenitalização. Atualmente há uma grande mobilização internacional pela
despatologização das identidades trans (Stop Trans Pathologizantion 2012) e pela retirada da
transexualidade do Código Internacional de Doenças (CID-10) e do Manual Estatístico de
Transtornos Mentais (DSM-IV) que publicarão suas novas versões em 2013. O CID-10 e o
DSM-IV são os principais documentos que orientam as atuais políticas públicas para o
processo transexualizador realizado nos Centros de Referência.
Um homem trans, embora deva fazer parte da política para os homens, também
precisará visitar ginecologistas, endocrinologistas e outras especialidades médicas tidas como
“apropriadas” para as mulheres. Portanto, segundo a autora se a concepção de gênero que
orienta as políticas públicas não se liberar dos pressupostos biologizantes, não terá como
ampliar e incluir sujeitos que hoje estão fora dos seus marcos. Nesse sentido, Bento (2012)
defende que é importante discutir o que é gênero e porque parte dos estudos feministas e das
masculinidades não avança no processo de desconstrução e desnaturalização radical dos
gêneros e das normas que os (re) reproduzem. De acordo com a autora são os estudos queer
que irão radicalizar o projeto feminista e os estudos das masculinidades. A expressão queer
significa esquisito, ridículo, estranho, adoentado, veado, bicha louca, homossexual.
Os estudos queer invertem seu uso e passa a utilizá-la como marca
diferenciadora e denunciadora da heteronormatividade englobando gays,
lésbicas, transexuais, travestis e transgêneros. Os estudos queer habilitam as
travestis, as drag queen, os drag king, os/as transexuais, as lésbicas, os gays,
os bissexuais, enfim, os designados pela literatura médica como sujeitos
transtornados, enfermos, psicóticos, desviados, perversos, como sujeitos que
constituem suas identidades mediante os mesmos processos que os
considerados “normais”. (p.2660)
Outro ponto importante do texto refere-se a um levantamento bibliográfico realizado
pela autora acerca do tema em que nenhum dos 58 artigos encontrados há referência ao campo
do desejo e das práticas sexuais. A autora afirma que o que é possível encontrar não é uma
bibliografia sobre a sexualidade, mas estudos epidemiológicos, ou sobre as melhores técnicas
de previsão e adesão ao tratamento farmacológico para o controle do vírus HIV/AIDS.
Berenice Bento (2012) conclui que essa “população” só se torna, de fato, importante para a
política pública por representar um risco à sexualidade dos casais heterossexuais.
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Bento (2012) busca argumentar que a base teórica que sustenta a patologização das
identidades trans e a afirmação que as pessoas trans são assexuadas tem como fundamento
uma concepção que atrela e condiciona as identidades de gênero às estruturas biológicas. O
ódio que as pessoas trans têm das genitálias é tão grande que a menor ideia de obtenção de
prazer tocando-lhes ou permitindo que alguém lhes toque é suficiente para lhes provocar
repulsa. São corpos que estão fora do registro do desejo. As cirurgias serão a porta de entrada
para o mundo da sexualidade. Nesta perspectiva, a busca da cirurgia visa à satisfação sexual,
o que difere da interpretação que argumenta que a demanda pelas cirurgias de
transgenitalização é pela inserção na vida social e que o reconhecimento do gênero escolhido
é que tem prioridade.
A alegação de que as pessoas trans odeiam seus corpos é baseada em tropos
metonímicos. A parte (os órgãos genitais) é considerada o todo (o corpo).
Este movimento para a construção do argumento metonimicamente espelha a
interpretação moderna para os corpos, onde o sexo define a verdade suprema
dos indivíduos. (p.2661)

A autora conclui que a genitalização da sexualidade é um dos desdobramentos do


dispositivo da sexualidade que faz coincidir sensações com determinadas zonas corporais,
reduzindo o corpo a zonas erógenas, em função de uma distribuição assimétrica do poder
entre os gêneros (feminino/masculino). A genitalização não se limita à sexualidade, ela
atravessa as relações. “O medo de perderem seus namorados e suas namoradas por falta de
uma vagina, (entre as mulheres trans) e pênis (entre os homens trans), é constante em suas
narrativas” (p.2662). Desse modo, a força da “heteronormatividade organiza subjetividades
no âmbito da genitalização do desejo” (p.2662) e ao mesmo tempo reforça o modelo binário.
As experiências trans revelam os traços das verdades construídas socialmente para o gênero,
para sexualidades e subjetividades. Nessa experiência, o que é estabelecido como norma é
revelado em tons dramáticos. A carência de ferramentas, inclusive linguísticas, para entendê-
la no âmbito da diferença humana, empurra a experiência da transexualidade para o campo
dos distúrbios ou aberrações.

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MONTERO, Paula. “Religiões Públicas” ou religiões na Esfera Pública? Para
uma crítica ao conceito de campo religioso de Pierre Bourdieu. Relig. soc., Jun
2016, vol.36, no.1, p.128-150. ISSN 0100-8587

O artigo de Montero tem como objetivo empreender uma releitura da noção de campo
em Bourdieu para demonstrar como sua relação crítica com o conceito weberiano de esfera
contribui para uma reflexão contemporânea do secularismo. Montero (2016) também busca
estabelecer os limites do conceito de campo para a compreensão das “religiões públicas”, e
por fim, partindo do suposto que o conceito de campo bordieusiano presume uma noção de
público, uma vez que enfatiza a interação entre produtores de bens religiosos, especialistas e
espectadores e/ou consumidores desses bens, o objetivo desse trabalho é demonstrar como a
análise do campo acaba por ficar reduzida às lutas entre os dois primeiros tipos de agentes. A
autora procura argumentar que, ao deixar irrefletida a posição daquele para quem se fala, a
teoria do campo religioso não desenvolve a compreensão das dinâmicas contemporâneas de
produção de publicidade, tão importantes para o entendimento das “religiões públicas”.
Nas últimas três décadas foi estabelecido um consenso jurídico-político construído em
torno do respeito às diferenças para a construção de uma sociedade mais justa e o modo como
esse consenso reconfigura a pauta da demanda por direitos em uma democracia deliberativa.
Por esse motivo, a problemática do secularismo e da secularização se tornam temas
recorrentes no meio acadêmico. “Muitos estudos sociológicos e antropológicos
desenvolveram-se tomando como certa a distinção entre o religioso e o secular/profano. ”
(p.128)
Paula Montero (2016) afirma que a partir dos anos 1980 em nome do pluralismo
religioso e dos direitos às diferenças, diversas agências religiosas têm apresentado inédito
ativismo nas arenas públicas. Um pacto político clássico se construiu em torno do Estado
laico sobre “o pressuposto da privatização das religiões, ou seja, da construção das religiões
como um fenômeno de escolha ou convicção individual de foro íntimo. ” (p.128).

O crescente ativismo das agências religiosas na cena pública tem tornado essa
distinção cada vez mais inoperante e, por via de consequência, tem imposto a
necessidade de uma leitura crítica do paradigma weberiano tácito da
separação das esferas de valor, que ainda justifica sub-repticiamente o estudo
das religiões como um campo relativamente autônomo. (p.129)

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Segundo Montero (2016), um dos críticos mais sistemáticos e que melhor retomou a
obra de Weber sobre a autonomização das esferas de valor foi o sociólogo francês Pierre
Bourdieu. Para a autora, seu conceito de campo religioso é claramente adepto da releitura dos
escritos de Weber sobre religião. Ao sistematizar uma teoria do campo religioso, Bourdieu
contribuiu para “atualizar a teoria weberiana da diferenciação das esferas, procurando
conferir-lhe um caráter mais relacional e menos tipológico, por um lado, e uma organização
estruturada em regras de poder, por outro. ” (p.129)
O argumento central do texto aponta na direção de reconhecer os avanços de um
reposicionamento teórico mais adequado da questão do secularismo buscando identificar seus
limites para pensar o problema das religiões na vida pública.
Propondo a superação do modelo da separação das esferas público/privado,
deixado intocado pela compreensão bourdieusiana de público, procuraremos
sugerir uma nova abordagem na qual as “religiões públicas” não sejam mais
tomadas como a presença (indevida) das religiões na esfera pública, mas sim
como diferentes formas de produção de públicos e de publicidade pelos
atores religiosos por meio de variadas tecnologias/artefatos de visibilidade.
(p.129-130)

As religiões não constituíram um tema central na obra de Pierre Bourdieu. O tema


específico do religioso é difícil de circunscrever obra bourdiesiana, uma vez que ele se
articula com outros temas centrais, tais como, no plano mais sociológico, a teoria dos campos
e, em uma abordagem mais antropológica, a análise do poder simbólico. Para as finalidades
desse artigo, a autora se limita a uma análise crítica de sua contribuição para uma nova
definição do religioso a partir de sua teoria dos campos e para a reconfiguração do debate das
relações entre o religioso e o secular, por um lado, e o público e o privado, por outro.
Na visão de Bourdieu, muitas razões contribuíram para a derrocada do monopólio dos
clérigos com relação ao controle dos quadros mentais coletivos sobre a vida espiritual. A
autora não tem como objetivo descrever esse longo processo; no entanto, ela sublinha que, em
sua conclusão, o autor faz duas afirmações que iluminam sua contribuição para uma
renovação crítica do campo dos estudos da religião.
Por um lado, ao concluir que o declínio do monopólio do padre sobre a
dimensão espiritual das pessoas está associado ao movimento da privatização
da família e psicologização da experiência, o autor está apontando para o
caráter histórico e contextual da configuração dos campos e de seus agentes.
(...) Por outro lado, essas mesmas condições históricas permitiram construir o
conceito abstrato de “religião” que sociólogos e antropólogos tomaram,
acriticamente, como seu objeto de estudos. (p.131)

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Nos textos weberianos que tratam do tema da modernização, o foco da análise está
centrado na separação das esferas secular e religiosa como resultado de um processo histórico
de racionalização promovido pelas religiões de salvação. Ao abandonar a distinção
secular/religioso como referência privilegiada da análise histórica da emergência dos
diferentes campos, Bourdieu não precisa supor que sua autonomia seja o resultado do
retraimento da religião para sua esfera própria, e nem que o religioso seja um fenômeno
historicamente anterior ao político ou ao social.
A evocação da ideia de “dissolução do religioso” em função de uma nova
compreensão das relações entre o espiritual e o corporal e, por via de consequência, entre o
religioso e o secular, nos dá uma pista do modo como Bourdieu reformula o problema
weberiano da distinção das esferas ao propor o conceito de campo. A noção de campo propõe
uma abordagem processual e relacional dos fenômenos religiosos, pensados como uma forma
ou configuração contextualmente definida, enquanto o paradigma das esferas religiosa/secular
sugere uma aproximação mais topológica e descritiva da religião tida implicitamente como
fenômeno empírico autoevidente.
Paula Montero concorda com Bourdieu no que diz respeito à permanência da
necessidade social do religioso, sobretudo quando se tem como referência o papel das
instituições religiosas, em particular da Igreja Católica, na formação do secular em sociedades
como a brasileira. Nesse sentido, devemos nos perguntar se o conceito de campo religioso dá
conta das transformações contemporâneas das sociedades seculares nas quais, em percepções
secularistas, os agentes religiosos parecem estar em todo lugar. Bourdieu descarta a utilidade
analítica da oposição conceitual entre público e privado. A noção de público em sua obra está
estreitamente vinculada às instituições estatais. Essa escolha teórica esclarece por que o autor
prefere a noção de ‘campo político’ ao invés de ‘espaço público’.

Enquanto a noção de campo político coloca a questão da competição entre os


campos e busca descrever a forma específica que adquire, em cada campo, o
poder econômico e estatal, o conceito de esfera pública remete a uma ação
que se desenvolve em um espaço social pensado como intermediário entre a
intimidade e a esfera estatal. (p.136)

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A autora defende que a grande contribuição da teoria dos campos está em situar as
práticas discursivas em um contexto empírico específico de interesses em conflito, posições
de autoridade e estratégias simbólicas de legitimação. No caso brasileiro, os processos sociais
e políticos que levaram à aceitação do pluralismo religioso como norma contribuíram para o
engendramento de um espaço social novo no qual o entendimento do que é religioso se
estendeu para as mais variadas formas de prática social. Nesse contexto, cada agência
religiosa passa a existir não mais em si mesma, mas uma em relação à outra de modo que sua
autonomia cede lugar à necessidade de justificação de suas práticas e exposição pública da
força coletiva que lhe dá sustentação. Montero (2016) afirma que quando nos colocamos o
problema das religiões na vida pública, as formulações de Bourdieu perdem grande parte de
sua potência analítica
Se, na perspectiva das relações secular/religioso, a questão das fronteiras foi
resolvida por Bourdieu ao supor que todos os campos se movem no mesmo
espaço de poder tornando as distinções entre religião e política, ou entre o
secular e o religioso, inoperantes, uma vez que “tudo é secular”, na
perspectiva das relações público/privado supor que “tudo é público/oficial”
não permite compreender o que fazem os atores publicamente em nome da
religião. (p.141)

No artigo, é retratado como as contribuições críticas de Bourdieu ajudam a pensar o


secular como produto do trabalho e das disputas religiosas. Ainda assim, na opinião de
Montero (2016), essas contribuições não foram suficientes para deslocar o debate do
secularismo a ponto de superar o suposto operativo de que as religiões saíram de seu espaço
próprio. Segundo a autora, isso ocorre porque Bourdieu alargou a noção de campo religioso,
mas não fez o mesmo trabalho reflexivo com os conceitos de religião e de público. “Se
reformularmos, entretanto, a noção de “religiões públicas”, isto é, se as tomarmos não
simplesmente como as religiões na esfera pública, mas sim como um dos modos de fazer o
público, estaremos diante de um problema novo. ” (p. 143).
A autora defende que devemos considerar o próprio processo de produção de
publicização das religiões como um problema teórico. Sugere que nesse processo se constrói,
ao mesmo tempo, a religião como fenômeno público e a arena na qual ela se performatiza
(mídia, rua, tribunal, academia, etc.) Os rituais de “consagração” nas sociedades pluralistas
exigem uma concepção, ao mesmo tempo, abrangente e fragmentada de públicos e uma
atenção voltada para os processos de produção de publicidade.

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Postular o problema das “religiões públicas” nos faz ver que, mais do que um
conjunto de “fiéis” que creem, estamos cada vez mais diante de diferentes
formas de organização e coordenação de audiências tão bem caracterizadas,
por exemplo, pelo designativo “Show da Fé”, programa da Igreja
Internacional da Graça de Deus sob a liderança do missionário R. R. Soares,
exibido todas as noites na Rede Bandeirantes de televisão. (p.144)

Paula Montero (2016) conclui que quando observamos o leque das práticas de
inúmeros atores que se apresentam na arena pública em nome da religião, vemos que, para
além dos cultos, elas estão imbricadas com agentes governamentais, políticos, intelectuais,
personagens mediáticos e profissionais de toda sorte, tais como médicos, advogados,
psicólogos, etc. A autora afirma que um ato ou objeto torna-se público não apenas porque está
localizado em um local público, mas porque sua presença naquele local coloca em
movimento, para um público, um conjunto de dinâmicas argumentativas e críticas que
redimensionam a sua importância política.

DUARTE, Luiz Fernando Dias. Ethos privado e justificação religiosa. Negociações da


reprodução na sociedade brasileira. In: Sexualidade, família e ethos religioso. Org.
HEILBORN, Maria Luiza; DUARTE, Luiz Fernando Dias; PEIXOTO, Clarice; BARROS,
Myriam Lins de. Garamond, Rio de Janeiro, 2005.

Luiz Fernando Dias Duarte inicia o texto afirmando que a preocupação explícita com a
relação entre religião e sexualidade é uma das maiores características da visão de mundo
ocidental moderna. Ele afirma que não cabe explorar no artigo as dificuldades de definição de
“sexualidade”. A categoria utilizada no decorrer no texto é a de “ethos privado”,
compreendendo-se aí todos os valores, sentimentos e comportamentos relacionados ao
“prazer corporal, à satisfação moral, à reprodução sexual e à conjugalidade.” (p.138). O
autor apresenta uma análise da constituição do ethos privado na sociedade brasileira
contemporânea e a sua possível relação com o pertencimento religioso.

A proposta consiste em se perguntar sobre a pertinência da suposição habitual


de que a orientação de ethos privado oficial das diferentes denominações
religiosas é o que determina a adoção de um comportamento específico entre
os seus fiéis. (p.139).

O artigo retoma propostas as seguintes propostas do autor:

(1) Compreender o religioso nas sociedades modernas não em uma perspectiva


nominalista linear, e sim no sentido amplo de “visão de mundo” estruturante.

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(2) Reconhecer que o espaço da religiosidade abarca muitos valores e comportamentos
oficialmente “laicos” ou pelo menos “não confessionais”.
(3) Perceber que para a compreensão do ethos religioso nos meios populares deve ser
concedido privilégio à vivência geral em detrimento do conteúdo doutrinário das
diferentes denominações que venham a pertencer.

Duarte faz a distinção entre três dimensões distintas para facilitar a compreensão de
seu argumento. A distinção entre pertencimento religioso e adesão permite que se
compreendam múltiplas situações do mundo moderno em que a frequentação da congregação
ou do espaço religioso envolvido não corresponda necessariamente a um continuado
sentimento de compartilhamento de valores cultivados.

Religião como identidade ou pertencimento; religiosidade como adesão,


experiência ou crença; ethos religioso como disposição ética ou
comportamental associada a um universo religioso. (p.141)

O individualismo ético está presente no crescente subjetivismo que tende a


prevalecer nas atitudes religiosas em todos os domínios confessionais. A ideia de uma
negociação da realidade sublinha a qualidade complexa, conflitiva ou contraditória do
horizonte de possibilidades em que se movem os sujeitos das sociedades modernas em
suas decisões éticas. O autor afirma que a adesão na sua versão ‘conversão’ apresenta uma
altíssima incidência no campo religioso brasileiro contemporâneo, sobretudo em função
do particular dinamismo do pentecostalismo, o texto traz dados afirmando que cerca de
70% dos evangélicos do Grande Rio não nasceram e nem foram criados em lares
evangélicos.

Esse tipo de “negociação da realidade” só pode se atualizar no


plano subjetivo se for possível contar no plano social, com um
mercado de bens simbólicos que possa ser descrito sob a forma
de um “sistema de flutuação” ou de um sistema de “mediações
simbólicas”. (p.146)

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O exclusivismo tão característico das transformações recentes do campo religioso
brasileiro não parece ser contraditório com uma alta intensidade de flutuação. Duarte afirma
que são numerosos os relatos etnográficos dando conta dos mais diversos roteiros religiosos,
nas mais diversas direções, embora estatisticamente favoráveis ao pentecostalismo. Um outra
dimensão importante da questão a observar é que “a frequência das conversões tem como
pano de fundo as vicissitudes da reprodução trangeracional do pertencimento/adesão/ethos
religioso.” (p.148) Além disso, segundo o autor o que é preciso examinar não é apenas que
existe uma nova e crescente disposição religiosa, mas como se apresentam as novas condições
da crença religiosa no estado atual do “mercado” e de que forma se relacionam com as linhas
de força ideológicas não confessionais abrangentes, característica da ordem pública liberal
moderna.
A área da sexualidade/reprodução é particularmente sensível a ênfases que afetam
indiretamente a família a identidade de gênero. Uma grande linha de força na composição do
ethos não confessional analisada por Duarte (2005) é a de uma disposição hedonista
generalizada. Compreendendo-se aí sobretudo o privilégio da satisfação ou prazer a ser obtido
nesse mundo sob a forma de uma realização emocional pessoal. Outro ponto trabalhado pelo
autor, é a “cosmologia moderna difusa que se localiza em torno da ideia de natureza.” (p.158)
Um dos pontos do ethos privado em que avulta esse valor nas informações
etnográficas contemporâneas é a do aborto (em que estariam diretamente
ameaçadas a natureza e a vida). A percepção da qualidade cosmológica desse
valor certamente contribui para iluminar as dificuldades que cercam o
entendimento das declarações e atos a respeito do aborto no mundo moderno.
(p.159/160)

Assim como nesta pesquisa, o autor indica pesquisas etnográficas que demonstram que
a variável religiosa é importante, mas não é a única variável que afeta esse tipo de opinião.
Além disso, os relatos etnográficos contemporâneos ainda indicam a “persistência (e mesmo
eventual reforço) da diferença hierárquica entre os gêneros. ” (p.160) O último ponto desse
arcabouço interpretativo trabalhado pelo autor é o de um possível esquema de avaliações das
identidades sociais baseadas na percepção de um maior ou menor controle da expressão
corporal no mundo público, e isso não está totalmente indissociável do tema natureza.

No campo religioso, a retomada de uma expressividade corporal menos


controlada foi frequentemente o sinal de um revival, uma revitalização
carismática de instituições burocratizadas (como no caso dos sucessivos
pentecostalismos). (p.162)

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De acordo com o texto, é interessante a consideração de que os pentecostalismos tão
presentes na sociedade brasileira contemporânea são ao mesmo tempo conhecidos por um
ethos de contenção corporal e por um retorno à exuberância extática religiosa. Duarte enfatiza
o fato de que parece prevalecer nas novas denominações uma desenfatização da importância
do controle do ethos privado e uma ênfase no ethos público compartilhado (o dízimo, o uso de
roupas diferenciadas e o testemunho público, por exemplo, em detrimento do sacramento, da
devoção ou do auto-exame).
Esse artigo voltou-se para o exame da hipótese de que a adesão contemporânea aos
discursos e experiências confessionais tende a consistir numa espécie de justificação (no
sentido de uma racionalização) religiosa de disposições cosmológicas abrangentes cuja chave
se encontra na ideologia laica da modernidade. O autor conclui que as mensagens religiosas
relativas ao controle comportamental ou “ethos privado” parecem funcionar para os sujeitos
sociais mais como “justificação” (paradoxais, porque inconscientes) de suas adesões pessoais;
seja sob a forma de desobediência pontual aos preceitos de uma religião já assumida, seja sob
a forma de uma substituição da adesão religiosa, na direção de uma melhor adequação ao
estilo de vida abraçado. A hipótese em questão não nega a enorme importância das definições
doutrinárias e pastorais das denominações para o destino dos comportamentos privados. O
autor considera que a modernização do campo religioso brasileiro não deve ser buscada nas
mensagens ou estilos específicos de cada igreja, e sim na complexificação do próprio campo.
A individualização ou modernização não pode ser encontrada linearmente nem na
definição dos cânones confessionais, nem na experiência imediata dos sujeitos sociais. Ela
deve ser buscada nas transformações ideológicas que legitimam o horizonte igualitário,
liberal, hedonistas, naturalizante que autorizam sua disseminação. Por fim, o autor afirma que
vivemos em um universo social em que ao mesmo tempo que as religiões continuam a moldar
as pessoas à sua maneira de ser; cada vez mais pessoas parecem acreditar que devem escolher
a religião melhor adaptada à maneira de ser delas.

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MOORE, Henrietta. Compreendendo sexo e gênero. Do original em inglês: “Understanding
sex and gender”, in Tim Ingold (ed.), Companion Encyclopedia of Anthropology. Londres,
Routledge, 1997, p. 813-830. Tradução de Júlio Assis Simões, exclusivamente para uso
didático.
Moore (1197) inicia seu artigo chamando atenção para os debates públicos a respeito
das origens das chamadas diferenças sexuais e da natureza das relações entre mulheres e
homens. Para a autora, nesses debates conduzidos na mídia, nas interações cotidianas e nos
discursos acadêmicos são feitas uma série de afirmativas que empregam a palavra “natural”
de maneiras fundamentalmente enganadoras. “Essas afirmativas são de vários tipos, mas um
traço comum de muitas delas é descreverem as diferenças estabelecidas entre mulheres e
homens na vida social como se fossem originárias da biologia. ” (p.1). Existem diversos
argumentos que sustentam que a biologia supostamente determina o comportamento humano.
Um exemplo citado no texto é a relação que se supõe existir entre hormônios masculinos e
agressividade.
A autora alerta para o modo como os cientistas sociais são perseguidos pela sombra do
determinismo biológico, e afirma que seu disfarce mais recente é a sociobiologia. Foi em
parte, para avaliar e combater os argumentos do determinismo biológico que as antropólogas
feministas nos anos 70 salientaram a importância da distinção entre sexo biológico e gênero.

A distinção entre sexo biológico e gênero mostrou ser absolutamente crucial


para o desenvolvimento da análise feminista nas ciências sociais, porque
possibilitou aos eruditos demonstrar que as relações entre mulheres e homens
e os significados simbólicos associados às categorias “mulher” e “homem”
são socialmente construídos e não podem ser considerados naturais, fixos ou
predeterminados. (p. 2)

Se os cientistas sociais não estiverem preparados para levar em conta a relação entre
sexo biológico e gênero - isto é, entre entidades biológicas e categorias sociais. Segundo
Moore (1997) não farão progressos em compreender as múltiplas formas nas quais a cultura
interage com a biologia para produzir o mais distintivo dos artefatos humanos: o corpo
humano. A autora afirma que parece muito provável que nos próximos anos se farão muitos
novos trabalhos sobre a questão da incorporação e sobre a relação entre biologia e cultura,
mas isso depende não só “da disposição dos cientistas sociais de repensar a distinção radical
entre sexo e gênero, como também da disposição de certos biólogos de abandonar suas ideias
antiquadas sobre determinismo biológico. ” (p.3)

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Moore (1997) cita a crítica feita por Yanagisako e Collier (1987) de que tanto os
estudos de gênero quanto os de parentesco na antropologia têm como premissa um modelo
nativo ocidental da reprodução humana. Esse modelo ocidental assume que gênero se apoia
numa diferença sexual binária de base biológica.
Essa expectativa sustenta-se na sua concepção de que tanto o sexo quanto o
gênero (e não somente o gênero) são socialmente construídos, um em relação
ao outro. Corpos, processos psicológicos e partes do corpo não têm sentido
fora das suas compreensões socialmente construídas. O intercurso sexual e a
reprodução humana não são somente processos fisiológicos, são também
atividades sociais. (p.4)

Segundo a autora, a observação de Foucault sobre a natureza mutuamente constitutiva


dos discursos ocidentais da sexualidade e da biologia sublinha o argumento feito por
Yanagisako e Collier, sobre a natureza mutuamente constitutiva dos conceitos de sexo, gênero
e parentesco no discurso da antropologia. Na opinião de Moore (1997), Yanagisako e Collier
estão corretas ao argumentar que, enquanto conceito de análise, “gênero deveria se libertar
das suposições acerca do “caráter dado” do sexo, como uma fundação para desconstruir o
modelo ocidental de relações de sexo e gênero” (p.5) no qual o trabalho antropológico nessas
áreas se apoiou por muito tempo. Não há, em suma, nenhum meio para abordar o sexo em
qualquer cultura, a não ser através do discurso do “Sexo1.
O fato de que todas as culturas tenham modos de fazer sentido de ou atribuir
sentido a corpos e práticas corporificadas - incluindo processos fisiológicos e
fluidos e substâncias corporais - significa que todas as culturas têm um
discurso de “Sexo”. Em cada caso, esse discurso permanece em uma relação
de dependência parcial e autonomia parcial com outros discursos, incluindo,
com muita frequência, o que os antropólogos referiram como o discurso de
gênero. Os próprios discursos de gênero são refratados em muitos outros
domínios discursivos da cultura, dando origem em algumas circunstâncias a
discursos de poder, potência, cosmologia, fertilidade e morte que também
aparecem com uma forte marca de gênero. (p.6)

1
Moore cita o esforço de Errington para fazer a distinção entre “Sexo”, sexo e gênero. Por “Sexo” ela designa
uma construção particular dos corpos humanos, e gênero se refere ao que as diferentes culturas fazem do sexo.
Ela critica Yanagisako e Collier por eliminarem a distinção entre “Sexo” e sexo, com base em que embora
possamos reconhecer que o entendimento ocidental do “Sexo” é socialmente construído, também é importante
reconhecer que os seres humanos têm corpos com genitais distintos e que existe, portanto, uma realidade
material - i. e., o sexo - que precisa ser levada em conta quando se discute os significados que as culturas dão aos
corpos e às práticas corporificadas. (p.6)
Página | 24
Na opinião de Moore, o que Errington e Yanagisako e Collier não parecem
compreender é que a própria noção de sexo, de um conjunto de processos biológicos, que
existem independentemente de qualquer matriz social, é produto do discurso biomédico da
cultura ocidental. Há um senso fundamental de que, fora dos parâmetros e das esferas de
influência desse discurso biomédico, o sexo não existe. Em outras palavras, na maior parte
das culturas do mundo, onde o conhecimento nativo ou local reina supremo, não existe sexo,
apenas “Sexo”. A antropologia demorou muito para compreender esse ponto, em parte porque
a questão é obscurecida, paradoxalmente, por uma abordagem que postula uma separação
radical entre sexo e gênero e, por extensão, entre biologia e cultura. Para a autora a
dificuldade com o discurso ocidental sobre “Sexo” é que a “naturalidade” da categorização
sexual binária é aparentemente reforçada pelo fato de que fêmeas biológicas e machos
biológicos são necessários para a reprodução sexual humana.
Moore assinala que uma área em que a distinção entre sexo e gênero revelou-se muito
proveitosa para as ciências sociais é a análise das desigualdades de gênero. A questão imediata
levantada pela análise intercultural é como dar conta da enorme variabilidade de
entendimentos locais de gênero e relações de gênero, no contexto do que parece ser a
subordinação universal das mulheres em relação aos homens. O valor da pesquisa em torno
dessa questão foi retirar as ciências sociais do debate sobre as bases biológicas da
desigualdade de gênero e reorientá-las para a discussão dos determinantes culturais e
sociológicos dessa desigualdade.

Há ampla evidência etnográfica para demonstrar que esse tipo de


categorização binária é culturalmente específica e não brota
automaticamente do reconhecimento das diferenças nos papéis e nas
aparências físicas. (p.7)

Há alguns trabalhos antropológicos recentes que enfatizam que é um erro supor que as
sociedades tenham um único modelo ou um único discurso de gênero e relações de gênero. O
reconhecimento da existência de uma multiplicidade de modelos e discursos e a investigação
de como esses modelos e discursos interseccionam-se em um dado contexto estão dando uma
nova direção à análise de gênero na antropologia.

Página | 25
A autora conclui que todas as formas de mudança social implicam uma reelaboração
das relações de gênero em maior ou menor grau. Isso porque as mudanças nos sistemas de
produção implicam mudanças na divisão sexual do trabalho; conflitos políticos implicam na
reconfiguração das relações de poder dentro e além da esfera doméstica; e o gênero, como
uma forma poderosa de representação cultural, é envolvido nas lutas emergentes em torno do
significado e nas tentativas de redefinir quem é o que são as pessoas.

WEEKS, Jeffrey. O corpo e a sexualidade. In: LOURO, Guacyra Lopes (org). Corpo
educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. (p. PDF 24-61)

Esse ensaio está interessado nos modos pelos quais têm-se atribuído, nas sociedades
modernas, uma extrema importância e um denso significado ao corpo e à sexualidade. O autor
realiza uma revisão da literatura sobre sexualidade, explorando a importância de se ver a
sexualidade como um fenômeno social e histórico. Defendendo que os corpos não têm
nenhum sentido intrínseco e que a melhor maneira de compreender a sexualidade é como um
"construto histórico". Analisa também como as relações de poder, particularmente em suas
conexões com gênero, classe e raça (isto é, corpos socialmente diferenciados), tornam-se
significativas para a definição do comportamento sexual. O autor também verifica como a
regulação social dos corpos e da sexualidade, são concentradas na divisão "público/privado".

A sexualidade é, entretanto, além de uma preocupação individual, uma


questão claramente crítica e política, merecendo, portanto, uma investigação
e uma análise histórica e sociológica cuidadosas. (p.26)

Weeks afirma que há uma suposição de que o corpo expressa uma verdade
fundamental sobre a sexualidade e além disso, há uma celebração de corpos saudáveis
perfeitamente harmoniosos. O autor chama a atenção para o fato de que muitas pessoas, e não
apenas na imprensa sensacionalista, apresentavam a AIDS como um efeito necessário do
excesso sexual, como se os limites do corpo tivessem sido testados e não tivessem passado no
teste da "perversidade sexual". Acreditavam que era a vingança da natureza contra aqueles
que transgrediam seus limites. Argumenta que embora o corpo biológico seja o local da
sexualidade, estabelecendo os limites daquilo que é sexualmente possível, a sexualidade é
mais do que simplesmente o corpo na opinião de Jeffrey Weeks. “A sexualidade tem tanto a
ver com nossas crenças, ideologias e imaginações quanto com nosso corpo físico. ” (p.25)

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As definições, convenções, crenças, identidade e comportamentos sexuais não são o
resultado de uma simples evolução, como se tivessem sido causados por algum fenômeno
natural: eles têm sido modelados no interior de relações definidas de poder. O autor está muito
preocupado com o sentido dos termos usados por ele no decorrer no texto, para tal
esclarecimento:

"Sexo" será usado como um termo descritivo para as diferenças anatômicas


básicas, internas e externas ao corpo, que vemos como diferenciando homens
e mulheres. Embora essas distinções anatômicas sejam geralmente dadas no
nascimento, os significados a elas associados são altamente históricos e
sociais. (p.29)

Para descrever a diferenciação social entre homens e mulheres, o autor usa o


termo “gênero”. (p.29)

O termo "sexualidade” é utilizado como uma descrição geral para a série de


crenças, comportamentos, relações e identidades socialmente construídas e
historicamente modeladas (p.29)

A expressão "construcionismo social”2 também é usada como um termo abreviado


para descrever a abordagem, historicamente orientada, que o autor adota relativamente aos
corpos e à sexualidade. O construcionismo social contrapõe-se ao "essencialismo" sexual. O
"essencialismo" é o ponto de vista que tenta explicar as propriedades de um todo complexo
por referência a uma suposta verdade ou essência interior. Weeks defende que os significados
que damos à sexualidade e ao corpo são socialmente organizados. Todas as abordagens de
construção social adotam a visão de que atos sexuais fisicamente idênticos podem ter variada
significação social e variado sentido subjetivo, dependendo de como eles são definidos e
compreendidos em diferentes culturas e períodos históricos.

Devido ao fato de que um ato sexual não carrega consigo um sentido social
universal, segue-se que a relação entre atos sexuais e identidades sexuais não
é uma relação fixa e que ela é projetada, a um grande custo, a partir do local e
da época do observador para outros locais e épocas. (p.32)

2
De acordo com o texto, a expressão talvez tenha um tom áspero e mecânico, mas tudo o que ela basicamente
pretende fazer é argumentar que só podemos compreender as atitudes em relação ao corpo e à sexualidade em
seu contexto histórico específico., explorando as condições historicamente variáveis que dão origem à
importância atribuída à sexualidade num momento particular, compreendendo as várias relações de poder que
modelam o que vem a ser visto como um comportamento normal ou anormal; aceitável ou inaceitável.

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A classe é um fator crucial, mas nem sempre decisivo, na modelação das escolhas da
atividade sexual. O autor também acredita que gênero não é uma simples categoria analítica;
ele é, como as intelectuais feministas têm crescentemente argumentado, uma relação de poder.
Assim, padrões de sexualidade feminina são, inescapavelmente, um produto
do poder dos homens para definir o que é necessário e desejável — um poder
historicamente enraizado. (p.40)

Segundo o autor, classe e o gênero não são as únicas diferenças que modelam a
sexualidade. Categorizações por classe e gênero fazem interseção com as de etnia e raça. Esse
aspecto da sexualidade geralmente foi ignorado por historiadores/as e cientistas sociais até
recentemente, mas ele é, todavia, um elemento vital da história da sexualidade.

A análise das relações de poder em torno da classe, do gênero e da raça


demonstra a complexidade das forças que modelam as atitudes e o
comportamento sexual. Essas forças, por sua vez, abrem o caminho para o
desenvolvimento de identidades sexuais diferenciadas. Na próxima seção,
examinaremos a questão da identidade em maiores detalhes, para mostrar os
principais fatores que modelaram as divisões que nós tomamos como
naturais, mas que são, de fato, historicamente construídas. (p.43)

Weeks argumenta que a ideia de uma identidade sexual é uma ideia ambígua. Para
muitos, no mundo moderno, é um conceito absolutamente fundamental, oferecendo um
sentimento de unidade pessoal, de localização social e até mesmo de comprometimento
político.
Dito de um modo simples: embora a homossexualidade tenha existido em
todos os tipos de sociedade, em todos os tempos, e tenha sido, sob diversas
formas, aceita ou rejeitada, como parte dos costumes e dos hábitos sociais
dessas sociedades, somente a partir do século XIX e nas sociedades
industrializadas ocidentais, é que se desenvolveu uma categoria homossexual
distintiva e uma identidade a ela associada. (p.47)

Ao discutir o futuro da sexualidade, o autor afirma que a maioria das pessoas ainda se
casa e essa característica-chave da heterossexualidade institucionalizada não parece estar
ameaçada. Mas, em uma considerável medida, a ideia de que o casamento é para toda a vida
parece ter sido abalada. Um terço dos casamentos agora terminam em divórcio, assim como
há uma alta percentagem de segundos casamentos. E afirma que paralelamente a essas
mudanças, existe a aceitação generalizada do controle da natalidade e o apoio a leis de aborto
liberais, sublinhando, ambos, uma crença geral de que a atividade sexual deveria envolver um
alto grau de escolha, especialmente para as mulheres. O autor conclui que a preocupação com
a sexualidade tem estado no centro das preocupações ocidentais desde antes do surgimento do
Cristianismo. E isso tem sido um elemento-chave do debate político.

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BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”. In:
LOURO, Guacyra Lopes (org). Corpo educado: pedagogias da sexualidade.
Belo Horizonte: Autêntica, 2000. (p. PDF 110-127)

A trajetória desse texto busca responder de forma indireta a duas questões inter-
relacionadas que têm sido postas às descrições construcionistas do gênero, não para defender
o construcionismo em si, mas para questionar os apagamentos e as exclusões que constituem
seus limites. Essas críticas pressupõem um conjunto de oposições metafísicas entre
materialismo e idealismo, que estão embutidas na gramática recebida que, eu argumentarei,
são criticamente redefinidas por uma reescrita pós-estruturalista da performatividade
discursiva na medida em que ela atua na materialização do sexo.
Butler se questiona se existe alguma forma de vincular a questão da materialidade do
corpo com a performatividade do gênero? E indaga como a categoria do "sexo" figura no
interior de uma tal relação. A autora considera que a diferença sexual é frequentemente
evocada como uma questão referente a diferenças materiais. As normas regulatórias do "sexo"
trabalham de uma forma performativa para constituir a materialidade dos corpos e, mais
especificamente, para materializar o sexo do corpo, para materializar a diferença sexual a
serviço da consolidação do imperativo heterossexual.

A categoria do "sexo" é, desde o início, normativa: ela é aquilo que Foucault


chamou de "ideal regulatório". Nesse sentido, pois, o "sexo" não apenas
funciona como uma norma, mas é parte de uma prática regulatória que
produz os corpos que governa, isto é, toda força regulatória manifesta-se
como uma espécie de poder produtivo, o poder de produzir — demarcar,
fazer, circular, diferenciar — os corpos que ela controla. (p.110)

O que constitui a fixidez do corpo, seus contornos, seus movimentos, é plenamente


material, mas a materialidade é repensada como o efeito do poder, como o efeito mais
produtivo do poder. De acordo com Butler, não se pode, de forma alguma, conceber o gênero
como um constructo cultural que é simplesmente imposto sobre a superfície da matéria - quer
se entenda essa como o "corpo", quer como um suposto sexo. De acordo com a autora o que
está em jogo nessa reformulação da materialidade dos corpos é o seguinte:

(1) A remodelação da matéria dos corpos como efeito de uma dinâmica do poder, de tal
forma que a matéria dos corpos será indissociável das normas regulatórias que governam
sua materialização e a significação daqueles efeitos materiais;
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(2) A entendimento da performatividade não como o ato pelo qual o sujeito traz à existência
e aquilo que ela ou ele nomeia, mas, ao invés disso, como aquele poder reiterativo do
discurso para produzir os fenômenos que ele regula e constrange;

(3) A construção do sexo não mais como um dado corporal sobre o qual o construto do
gênero é artificialmente imposto, mas como uma norma cultural que governa a
materialização dos corpos;

(4) Repensar o processo pelo qual uma norma corporal é assumida, apropriada, adotada: vê-
la não como algo, estritamente falando, que se passa com um sujeito, mas, ao invés disso,
que o sujeito, o "eu" falante, é formado em virtude de ter passado por esse processo de
assumir um sexo;

(5) Uma vinculação desse processo de "assumir" um sexo com a questão da identificação e
com os meios discursivos pelos quais o imperativo heterossexual possibilita certas
identificações sexuadas e impede ou nega outras identificações.

Existe uma matriz excludente pela qual os sujeitos são formados que exige a produção
simultânea de um domínio de seres abjetos, aqueles que ainda não são "sujeitos", mas que
formam o exterior constitutivo relativamente ao domínio do sujeito.

O abjeto designa aqui precisamente aquelas zonas "inóspitas" e "inabitáveis"


da vida social, que são, não obstante, densamente povoadas por aqueles que
não gozam do status de sujeito, mas cujo habitar sob o signo do "inabitável" é
necessário para que o domínio do sujeito seja circunscrito. Essa zona de
inabitabilidade constitui o limite definidor do domínio do sujeito; ela
constitui aquele local de temida identificação contra o qual — e em virtude
do qual — o domínio do sujeito circunscreverá sua própria reinvindicação de
direito à autonomia e à vida. (p.112)

Neste sentido, o sujeito é constituído através da força da exclusão e da abjeção, uma


força que produz um exterior constitutivo relativamente ao sujeito, um exterior abjeto que
está, afinal, "dentro" do sujeito, como seu próprio e fundante repúdio. Esse ponto do texto é
interessante para pensar os embriões trabalhados nesta pesquisa, se eles são sujeitos ou não.
Se o gênero é a construção social do sexo e se não existe nenhum acesso a esse "sexo"
exceto por meio de sua construção, então não apenas que o sexo é absorvido pelo gênero, mas
que o "sexo" torna-se algo como uma ficção, talvez uma fantasia, retroativamente instalado
em um local pré-lingüístico ao qual não existe nenhum acesso direto. Butler se questiona "se o
gênero é construído, então quem faz a construção?" Embora, obviamente, a formulação mais
pertinente desta questão é a seguinte: "se o sujeito é construído, quem, então, constrói o
sujeito?"

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Se o gênero é uma construção, deve haver um "eu" ou um "nós" que executa
ou desempenha essa construção? Como pode haver uma atividade no ato de
construir sem que pressuponhamos um agente que precede e desempenha esta
atividade? Como poderíamos explicar a motivação e a direção da construção
sem esse sujeito? (p.116)

Embora a radical distinção entre sexo e gênero tenha sido crucial à versão
beauvoiriana do feminismo, ela tem sido criticada, mais recentemente, por degradar o natural
como aquilo que existe "antes" da inteligibilidade, como aquilo que precisa da marca do
social, quando não da sua ferida, para significar, para ser conhecido, para adquirir valor.

Tanto a política feminista quanto a política queer são mobilizadas


precisamente através de práticas que enfatizem a desidentificação com
aquelas normas regulatórias pelas quais a diferença sexual é materializada.
Essas desidentificações coletivas podem facilitar uma recontextualização da
questão de se saber quais corpos pesam e quais corpos ainda devem emergir
como preocupações que possam ter um peso crítico. (p.113)

As identificações precedem e possibilitam a formação de um sujeito, mas não são,


estritamente falando, executadas pelo sujeito. Os limites do construcionismo ficam expostos
naquelas fronteiras da vida corporal onde corpos abjetos ou deslegitimados deixam de contar
como "corpos". Se a materialidade do sexo é demarcada no discurso, então esta demarcação
produzirá um domínio do "sexo" excluído e deslegitimado. Portanto, é igualmente importante
pensar sobre como e para que finalidade os corpos são construídos, assim como será
importante pensar sobre como e para que finalidade os corpos não são construídos, e, além
disso, perguntar, depois, como os corpos que fracassam em se materializar fornecem o
"exterior" — quando não o apoio — necessário, para os corpos que, ao materializar a norma,
qualificam-se como corpos que pesam.
As atribuições ou interpelações alimentam o campo de discurso e poder que orquestra,
delimita e sustenta aquilo que pode legitimamente ser descrito como "humano". Nós vemos
isto mais claramente nos exemplos daqueles seres abjetos que não parecem apropriadamente
generificados; é sua própria humanidade que se torna questionada. Na verdade, a construção
do gênero atua através de meios excludentes, de forma que o humano é não apenas produzido
sobre e contra o inumano, mas através de um conjunto de exclusões, de apagamentos radicais,
os quais, estritamente falando, recusam a possibilidade de articulação cultural.
Paradoxalmente, a investigação sobre os tipos de apagamento e exclusões pelos quais a
construção do sujeito atua não é mais construcionismo, mas também não é essencialismo.

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O debate entre o construcionismo e o essencialismo deixa assim de perceber
totalmente a desconstrução, pois o argumento nunca foi o de que "tudo é
discursivamente construído"; esse argumento, quando e onde é levantado,
pertence a um tipo de monismo, ou lingüisticismo discursivo, que recusa a
força constitutiva da exclusão, do apagamento, de uma violenta inclusão, da
abjeção e de seu retorno perturbador no interior dos próprios termos da
legitimidade discursiva. (p.117)

O que será e o que não será incluído no interior das fronteiras do “sexo" é estabelecido
por uma operação mais ou menos tácita de exclusão. Se nós questionamos a fixidez da lei
estruturalista que divide e limita os "sexos" em virtude de sua diferenciação diádica no
interior da matriz heterossexual, Butler afirma que é a partir das regiões exteriores daquela
fronteira (não de uma "posição", mas das possibilidades discursivas abertas pelo exterior
constitutivo das posições hegemônicas), que se constituirá o retorno perturbador do excluído a
partir do interior da própria lógica do simbólico heterossexual.
A autora conclui que performatividade não é, assim, um "ato" singular, pois ela é
sempre uma reiteração de uma norma ou conjunto de normas. E na medida em que ela adquire
o status de ato no presente, ela oculta ou dissimula as convenções das quais ela é uma
repetição. Além disso, esse ato não é primariamente teatral; de fato, sua aparente teatralidade
é produzida na medida em que sua historicidade permanece dissimulada (e, inversamente, sua
teatralidade ganha uma certa inevitabilidade, dada a impossibilidade de uma plena revelação
de sua historicidade).
Na teoria do ato da fala, um ato performativo é aquela prática discursiva que
efetua ou produz aquilo que ela nno que De acordo com o relato bíblico do
performativo, isto é, "que se faça a luz", parece que é em virtude do poder do
sujeito ou de sua vontade que um fenômeno é trazido, ao nomeá-lo, à
existência. (p.121)

Como resultado de uma reformulação, a performatividade de gênero não pode ser


teorizada separadamente da prática forçosa e reiterativa dos regimes sexuais regulatórios; e a
explicação da agência condicionada por aqueles próprios regimes de discurso/poder não pode
ser confundida com o voluntarismo ou o individualismo, muito menos com o consumismo, e
não pressupõe, de forma alguma, um sujeito que possa escolher. O regime da
heterossexualidade atua para circunscrever e contornar a "materialidade" do sexo e essa
"materialidade" é formada e sustentada através de uma materialização de normas regulatórias.

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RESULTADOS DO LEVANTAMENTO

Os resultados do levantamento serão apresentados em dois grandes eixos temáticos: Aborto e


Diversidade Sexual. Os discursos e proposições legislativas referentes à temática do aborto
são apresentados primeiro, subdivididos entre os dados obtidos na ALERJ e posteriormente
no SENADO FEDERAL. Em seguida, os discursos e proposições legislativas referentes à
temática da diversidade sexual são apresentados, seguindo a mesma ordem. Os dados obtidos
no portal da ALERJ aparecem primeiro, e posteriormente os obtidos no SENADO
FEDERAL.
ABORTO.

 ALERJ.
 DISCURSOS.

No ano de 2016, foram mapeados 8 discursos contendo a palavra-chave aborto (6 pró-


vida e 2 pró-escolha), nenhum resultado houve para as palavras nascituro, reprodução
assistida, fertilização in vitro e embrião.
Tabela de discursos com palavra-chave aborto em 2016.
PARLAMENTAR PARTIDO RELIGIÃO PROFISSÃO DISCURSOS TEMA DO
DISCURSO.
Reconhecimento do trabalho
exercido por pesquisadores
de Universidades Públicas
Decisão do STF de abrir
portas para a
JÃNIO MENDES PDT Católico Professor/ 3 descriminalização do aborto
Advogado no país.
Repúdio ao STF pela
concessão de habeas corpus
à uma quadrilha que vivia da
prática do aborto em Duque
de Caxias.
FLÁVIO PSOL - Professor de 1 Estupro coletivo ocorrido no
SERAFINI Sociologia RJ.
Grave Crise econômica
WANDERSON PSOL - Jornalista 1 enfrentada pelo Rio de
Janeiro.
NOGUEIRA
MARCIO PSC Católico Músico, 1 Repúdio à decisão do STF
PACHECO Evangelizador de não ser crime o aborto até
o terceiro mês de gestação.
Advogado

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TIO CARLOS SD Animador 1 Repúdio à decisão do STF
Cultural de não ser crime o aborto até
o terceiro mês de gestação.
Luiz Paulo PSDB Engenheiro 1 Crítica ao Fora Temer e
Civil discussões sobre a regra da
maioria no sistema
democrático.
Fonte ALERJ/ 2016

 Pró-escolha
 Indefinido
 Pró vida

Discursos pró-vida.
Foram mapeados 6 discursos pró-vida. O primeiro discurso proferido no ano, dia
25/02/2016 é de autoria do deputado Jânio Mendes (PDT) em que é mencionada uma matéria
que foi destaque no jornal O Globo. Na matéria o trabalho exercido pela equipe médica do
Hospital universitário da UFF é parabenizado pela busca de especialização na área de
Neurologia e no tratamento da Síndrome de Guillain-Barré, que associada à zika causou
várias mortes no Estado. O deputado afirma que também é importante registrar que foi de
uma universidade pública federal do Estado da Paraíba que tivemos o alerta para com a
epidemia de microcefalia de uma complicação do vírus zika, grave doença que acomete as
mulheres e afeta diretamente a vida uterina. O aborto aqui aparece no seguinte trecho do
discurso “Alguns aloprados de plantão tentam associar a microcefalia a uma oportunidade, a
uma janela para a legalização do aborto. Fato que repudiamos. ”
No discurso realizado no dia 30/11/2016 o deputado Jânio Mendes (PDT) lamenta
profundamente a decisão do Supremo Tribunal Federal, em processo específico, que admite
o aborto no terceiro mês de gestação, concedendo habeas corpus a uma quadrilha que vivia da
prática do crime do aborto na cidade de Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro. O
deputado afirma que vai seguir sendo “voz política firme contra essa cultura da morte, a
cultura do aborto que se pretende legalizar no Brasil ao arrepio da Constituição. ”
No dia seguinte (01/12/2016), Jânio Mendes (PDT) volta a falar do assunto proferindo
um discurso bem mais detalhado e demonstrando os motivos pelos quais ele considera a
decisão do STF uma aberração. A decisão do STF ocorreu no dia 29/11/2016, terça-feira, por
três votos, dos Ministros Luís Roberto Barroso, Rosa Weber e Edson Fachin. O deputado
Jânio Mendes afirma que o Ministro Barroso, é um ativista do aborto, e que está preparando

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os caminhos para a pauta do dia 7 de dezembro, quando seguramente ele militará, no
Supremo, a favor da autorização para o aborto de fetos contaminados com o vírus Zika. Jânio
Mendes diz que já está provado que as crianças com microcefalia trazem alegria para suas
famílias e vivem dignamente. Para ele, o Ministro Barroso tem uma cabeça antiga e velha, é
fruto de uma época em que se lutava para abortar as pessoas portadoras da síndrome de
Down! “Hoje está aí! A criança com síndrome de Down desenvolve todo seu potencial, toda a
sua capacidade e traz alegria para os pais! Como amanhã vamos ver a geração microcefalia
dar alegria às famílias e ao Brasil! ” Além disso, Jânio Mendes manifesta que:
É preciso que se diga que está em curso a eugenia. É preciso que se traga à
memória da população brasileira, que se diga que querem implantar no Brasil
a moderna cultura da morte, trazida com a vocação do Direito moderno
americano e europeu pelo Ministro Luiz Roberto Barroso. É preciso que o
ministro deixe de ser militante da causa do aborto e se porte como um
guardião da Constituição Brasileira. E se quiser aprovar o aborto no Brasil,
vá pela via do legislativo reformar a legislação brasileira e não invocar o
direito moderno para praticar uma violência!

Márcio Pacheco (PSC) em discurso realizado dia 30/11/2016 manifesta repúdio à


decisão do STF de mandar soltar “cinco médicos e funcionários de uma clínica clandestina
presos em Duque de Caxias na Baixada Fluminense, em uma decisão que entende não ser
crime o aborto até o terceiro mês de gestação”. Na opinião do deputado, com 12 semanas o
feto é “um indivíduo absolutamente formado, um ser humano absolutamente formado. Essa
foi a decisão do Supremo Tribunal Federal. Até o terceiro mês de gestação não é crime
porque viola os direitos fundamentais da mulher e os direitos constitucionais. ” Para o
deputado Márcio Pacheco essa decisão que interrompe a vida até o terceiro mês fere
princípios constitucionais. “Não cabe ao Poder Judiciário legislar. E esta decisão fere
diretamente a independência dos Poderes, uma vez que, somente o Poder Legislativo poderia,
se mudada fosse a Constituição, dar uma decisão como essa. E isso não foi feito. ”
Essa decisão, ora posta, vem de encontro a uma decisão que abre um
precedente gravíssimo. Porque os artigos 124 e 125 do Código Penal tratam o
abortamento como crime, tratam o aborto como crime, a não ser os dois casos
excludentes de punibilidade ali previstos: casos de estupro e perigo da
gestante. Falam de dois casos excludentes de punibilidade e não de
abortamento legal. Portanto, dizer que simplesmente não há crime para
abortamento de seres humanos até o terceiro mês de gestação é violar a
legislação vigente no país, no Código Penal, e é violar a Constituição.

O deputado Tio Carlos (SD) no dia 01/12/2016 também demonstrou imensa


preocupação com o que foi decidido pelo STF. O deputado afirma diversas vezes que
considera uma barbaridade, pois é uma Vida.
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Também se alega que a mulher tem o direito de usar o seu corpo. Isso, para
nós, também é inconcebível, na medida em que entendemos que esse não é,
por exemplo, um procedimento estético em que a mulher realmente pode
dizer se quer sim ou não fazer uma cirurgia estética. Mas a questão
do aborto é muito mais profunda do que isso.

O deputado Luiz Paulo (PSDB) no dia 29/09/2016 afirma que é que a maioria que
decide na democracia. A minoria é importante, como eu sou aqui e outros Parlamentares, para
fazer oposição, para fazer o contraditório, mas no fundo quem decide é quem compõe a
maioria. A palavra aborto aparece no seguinte contexto.
Muitas vezes aqui, na Assembleia, nos perguntam: “Você é contra ou favor
do aborto? ” Eu posso ser contra, como sou, mas não somos nós que vamos
decidir isto. Quem vai decidir isto é o Congresso Nacional.

Discursos pró-escolha.
Os discursos pró-escolha somaram 2 resultados. O deputado Flávio Serafini (PSOL)
no dia 31/05/2016 aborda em seu discurso o recente caso de estupro coletivo3 ocorrido no Rio
de Janeiro, apresentando uma moção de repúdio ao Delegado Alessandro Thiers pois a
postura do delegado foi de questionar a conduta dessa menina, sem nenhuma forma de
acolhimento. E depois fez perguntas sobre a trajetória pregressa da menina, como sobre se ela
já havia participado de sexo grupal e outras perguntas sobre a conduta sexual da menina,
querendo representar aquela situação não como de violência, mas querendo construir um
perfil que desabonasse a vítima da violência do seu lugar de vítima. O deputado afirma que é
necessário desconstruir esse tipo de atitude das instituições públicas e traz dados de que “no
Estado do Rio de Janeiro, 15 mulheres são estupradas por dia. No Brasil, são mais de 500
mil estupros por ano. ” E faz um longo discurso sobre a cultura do estupro enraizada no país,
citando por exemplo como cenas de estupro são sensualizadas e banalizadas nas novelas.
Além disso Flávio Serafini menciona dois casos emblemáticos referentes a essa banalização:
Quando vemos um parlamentar dizer para uma Ministra que não a estupraria
porque ela não mereceria, estamos vendo a banalização da prática do estupro

3
Uma jovem de 16 anos, foi violentada por 33 homens no Morro do Barão na Zona Oeste do Rio de Janeiro no
dia 21/05/2016. O caso repercutiu em todo Brasil, pois o ato foi filmado e disseminado nas redes sociais via
internet. Disponível em: < http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/05/vitima-de-estupro-coletivo-no-rio-
conta-que-acordou-dopada-e-nua.html> Acesso em: 10/08/2016.

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colocada nessa situação como uma situação de merecimento. 4

Quando assistimos a uma figura pública, uma subcelebridade, participar de


um programa televisivo e narrar às gargalhadas uma situação onde estaria
fazendo sexo sem consentimento, ou seja, estuprando uma mãe de santo, nós
estamos assistindo a uma situação de banalização da violência mais extrema
contra a mulher, que é o estupro. Isso tem que ser denunciado. Isso tem que
ser enfrentado.5
Segue afirmando que é necessário combater na ALERJ as propostas, que
conscientemente ou não fragilizam a autonomia da mulher sobre o seu próprio corpo,
contribuindo para a construção “desse caldo de cultura que tem como ato de violência mais
extremo o estupro”. E faz referência a três Projetos de Lei que estão em discussão na ALERJ.
O PL 1615/16, que propõe a proibição de questões relacionadas ao gênero, como a própria
cultura do estupro, sejam abordadas e discutidas nas escolas. O PL 2974/14, que propõe a
criação do chamado programa escola sem partido, que caminha no mesmo sentido de tentar
proibir a abordagem de temas como o machismo e a violência de gênero nas escolas. E o PL-
1316/20156, proposto como encaminhamento do relatório final da CPI do aborto, que visa
dificultar o acesso ao aborto de mulheres vítimas de estupro.
Se não debatermos o machismo e as questões da sexualidade, se não
debatermos o direito que a mulher tem de fazer com o seu próprio corpo, que
é necessário enfrentarmos a divisão sexual do trabalho, que é necessário
igualdade nas relações entre homem e mulher, não iremos desfazer a ideia de
que o homem pode ter direitos e domínio sobre o corpo da mulher. Se não
enfrentarmos isso nas escolas, como propõem dois desses PLs, iremos
contribuir para que não se desfaça essa realidade já presente hoje em nossa
sociedade.

4
O parlamentar mencionado é Jair Bolsonaro (PSC-RJ). Em 2014, o deputado afirmou na Câmara que a sua
colega deputada Maria do Rosário (PT-RS) não merecia ser estuprada, porque ela era feia e não fazia seu tipo.
Recentemente dia 21/06/2016 Bolsonaro virou réu na corte do STF acusado de injúria e apologia ao crime por
causa desse episódio relatado no discurso de Flávio Serafini. Disponível em: <
http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/06/bolsonaro-vira-reu-por-falar-que-maria-do-rosario-nao-merece-ser-
estuprada.html> Acesso em: 10/08/2016
5
A subcelebridade mencionada é Alexandre Frota. No dia 25/02/2015 no programa de televisão Agora é tarde
exibido pela rede Bandeirantes, o ator contou em tom de piada o episódio em que fez uma mãe de santo
desmaiar ao forçá-la a manter relações sexuais sem o seu consentimento; “ela não falou nada, então
pensei: vou comer”. Plateia achou graça e aplaudiu a atitude. Disponível em: <
http://www.revistaforum.com.br/2015/03/02/em-rede-nacional-frota-confessa-estupro-e-povo-aplaude/> Acesso
em:10/08/2016
6
O PL 1316/2015 já citado anteriormente seria votado por seis representantes da Comissão no dia 18/05/2016.
Mas a Comissão de Constituição de Justiça da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) retirou da ordem
do dia, o projeto de lei que obrigaria os médicos e profissionais de saúde a alertarem a polícia sempre que uma
mulher chegasse a uma unidade pública com complicações pós-aborto, mesmo que tivesse sido espontâneo.
Durante a sessão do dia 18/05/2015, um grupo feminista levou cartazes com os dizeres "aborto não deve ser
crime", "meu corpo, minhas regras" e "aborto seguro é um direito das mulheres". Disponível em:
http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2016-05-18/comissao-da-alerj-retira-da-pauta-projeto-de-lei-sobre-
aborto.html Acesso em: 10/08/2016

Página | 37
O deputado ainda apresenta outros dados, afirmando que são 500 mil estupros por ano
no Brasil; e mais de 15 por dia só no Estado do Rio de Janeiro. “Se deixarmos que projetos
como esse, que criminaliza inclusive o aborto legal, iremos fazer com que continue a
subnotificação dos estupros no Brasil. ”
Esse Projeto de Lei que tenta criminalizar o aborto legal é perverso porque
ele faz com que uma mulher que sofreu um estupro e tem direito a fazer
um aborto legal e seguro, tenha que se submeter a um delegado. Ele faz com
que uma mulher, que passou por um aborto espontâneo e necessitou procurar
um serviço de saúde, tenha que procurar também uma delegacia
O deputado continua afirmando que atualmente, menos de 10% dos estupros que
chegam na rede de saúde, chegam à delegacia porque as mulheres não se sentem à vontade
para ir e prestar depoimento. Segundo o deputado, a conduta desse Delegado ilustra bem o
porquê.
O discurso de autoria de Wanderson Nogueira, proferido no dia 1/06/2016 que versa
sobre a imensa crise econômica que o Estado do Rio de Janeiro tem enfrentado. O deputado
cita as escolas ocupadas, a segurança pública falida, às vésperas de um grande evento mundial
como as Olimpíadas. Afirma que é impossível estar empolgado diante de um Governo Federal
que tem sete ministros investigados pela operação Lava Jato; outros suspeitos de inúmeros
crimes em um governo ilegítimo, em um governo que faz uma pauta conservadora; em que a
Secretária dos Direitos da Mulher é contra a descriminalização do aborto.

PROPOSIÇÕES LEGISLATIVAS.

 ALERJ.

No que se refere às proposições legislativas ao longo do ano de 2016 na ALERJ, foram


encontradas 5 proposições legislativas sendo elas 3 projetos de lei, 1 proposta de emenda
constitucional, e 1 parecer contendo as palavras-chave aborto e nascituro. A palavra embrião e
a palavra reprodução assistida foram encontradas em 2 Projetos de Lei de autoria do
Deputado Zito (PP). Os resultados apontaram três proposições legislativas com
posicionamento indefinido, duas com posicionamento pró-escolha, e duas com
posicionamento pró-vida.

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Tabela de proposições legislativas com as palavras-chave aborto, nascituro, embrião e
reprodução assistida em 2016.

PARLAMENTAR PARTIDO RELIGIÃO PROFISSÃO PROPOSIÇÃO TEMA DA


LEGISLATIVA PROPOSIÇÃO.
Flávio Serafini PSOL - Professor de Projeto de A PEC visa equiparar
Sociologia Emenda servidores e
empregados públicos
Constitucional no gozo de direitos.
Nº: 26/2016
Autor: Filipe Soares PR Evangélico Publicitário Parecer ao PL Parecer contrário ao
Relator: Enfermeira PCdoB - Enfermeira Nº: 751/2015 PL nº 751/2015.
Rejane
- Assegura que todas as
maternidades da rede
pública estadual
Flávio Serafini PSOL Professor de Projeto de lei realizem o
Sociologia PL Nº:1891/2016 procedimento de
interrupção da
gestação nos casos
previstos em lei.
- Institui a Semana
Bacharel em Projeto de lei Estadual de
Conscientização sobre
Marcos Muller PHS Direito PL Nº:1834/2016 os Direitos das
Gestantes
Marcos Muller PHS - Bacharel em Projeto de/ lei Institui a Política
Direito PL Nº:1761/2016 Estadual de Proteção
ao Nascituro
Institui no calendário
Ex guarda Projeto de lei do Estado do Rio de
Janeiro Semana
Zito PP Evangélico municipal PL Nº:1913/2016 Estadual de
Conscientização sobre
o "X FRAGIL
Ex guarda Projeto de lei Cria a Política
Zito PP Evangélico municipal PL Nº:1907/2016 Estadual de Proteção
dos Direitos da Pessoa
com Síndrome do X
Frágil
Fonte: ALERJ/2016

 Pró-escolha
 Indefinido
 Pró vida

Posições pró-escolha.
Foram mapeadas duas proposições com posicionamento pró-escolha. A deputada
Enfermeira Rejane (PCdoB) é relatora de um parecer em nome da Comissão de Defesa dos

Página | 39
Direitos da Mulher ao projeto de lei PL nº:751/2015 de autoria do deputado Felipe Soares
(PR). O PL em questão proíbe a venda no Estado do Rio de Janeiro de bebidas alcóolicas e
cigarro para mulheres gestantes, pois é cientificamente comprovado que aumenta o risco de
aborto natural. O parecer da relatora Enfermeira Rejane (PCdoB) afirma que o projeto de lei
tem por objetivo proporcionar maior proteção ao feto, mas em contrapartida apesar de todos
os seus malefícios amplamente conhecidos, o álcool e a nicotina são consideradas drogas
lícitas, portanto,
Não há que se fazer distinção entre homens e mulheres no momento de sua
aquisição, sendo invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem
das pessoas (art. 5º, X, CFRB/88), portanto, não é razoável exigir que a
mulher passe pelo constrangimento de ter que informar ao comerciante e a
todos que se encontram no estabelecimento comercial se ela se encontra ou
não em período gestacional.

O direito à intimidade e à vida privada do ser humano são violados, e é inadmissível


aos olhos da deputada fazer distinções entre homens e mulheres no que diz respeito a
comercialização de bens legais.
Flávio Serafini PSOL é autor do Projeto de Lei PL Nº:1891/2016 que visa assegurar
que todas as maternidades da rede pública estadual devam realizar o procedimento de
interrupção da gestação nos casos previstos por lei. No Brasil, o procedimento de interrupção
da gestação é permitido apenas nos casos previstos em lei (Código Penal): nos casos de
estupro, quando há risco de morte para a gestante e em casos de anomalias fetais graves e
incompatíveis com a vida extrauterina.7 No entanto, a justificativa do projeto de lei traz a
informação de que em todo o Estado do Rio de Janeiro, apenas um hospital realiza
o aborto legal, gerando graves transtornos e violações aos direitos das mulheres, além da
dificuldade de acesso. O PL afirma que em 30% dos hospitais ainda é exigido o boletim de
ocorrência para os casos de estupro - medida que não é mais necessária segundo portaria
publicada pelo ministério em 2006. Em resumo, o PL visa assegura que “o Sistema Único de
Saúde garanta a concretização da matéria prevista em lei, atendendo de maneira íntegra as
mulheres submetidas a tamanho desgaste psicológico. ”

Posições indefinidas.
Os posicionamentos indefinidos somaram 3 dos resultados. A proposta de emenda

7
A decisão do STF se refere apenas à anencefalia.

Página | 40
constitucional (PEC nº:26/2016) de autoria do deputado Flávio Serafini PSOL, faz alterações
na redação da Constituição do Estado do Rio de Janeiro, ampliando as regras previstas
também aos empregados públicos. O texto refere-se aos diversos tipos de licença
(paternidade, maternidade, por saúde, serviço militar e etc), e a palavra aborto aparece aqui no
seguinte trecho: “O período de licença à gestante, nos termos do inciso XII deste artigo, em
caso de perda gestacional, será de 30 (trinta) dias, em caso de aborto não criminoso”.
O projeto de autoria de Marcos Muller (PHS) PL nº: 1834/2016 institui a semana
estadual de conscientização sobre os direitos das gestantes no Rio de Janeiro. Integrando o
calendário oficial de eventos do Estado, a semana do dia 15 de agosto dedicada à divulgação
dos direitos relacionados à saúde das gestantes e dos bebês, tais como assistência humanizada
à mulher durante a gestação, pré parto, parto e puerpério, além dos direitos trabalhistas e
sociais.
No PL nº:1913/2016 fica instituído no calendário do Estado do Rio de Janeiro Semana
Estadual de Conscientização sobre o "X FRAGIL ou Síndrome de Martin-Bel", a ser
celebrado anualmente a partir do dia 7 de setembro. Em resumo a síndrome do X Frágil é
uma condição genética que causa debilidades intelectuais, problemas de aprendizado e de
comportamento, além de diversas características físicas peculiares. Ainda que ocorra em
ambos os “gêneros” 8
(sic), afeta mais frequentemente os meninos e geralmente com grande
severidade. A Síndrome do X Frágil é a forma mais comum de deficiência intelectual
moderada a grave, sendo a síndrome de Down, a primeira entre todas as causas,
diferenciando-se por ser a síndrome de Down uma mutação.
A única forma possível de prevenir o advento da síndrome é por
meio de aconselhamento genético. Uma análise do histórico familiar e testes
genéticos para detectar quais mulheres na família carregam a mutação
genética da síndrome do X Frágil. Casais com histórico familiar de síndrome
do X Frágil podem submeter-se a procedimentos de fertilização in vitro e
terem seus embriões geneticamente analisados, é o que chamamos de
diagnóstico genético pré-implantacional (PDG).

A síndrome do X Frágil é um evento que possui semelhanças com outras doenças, por
isso requer diagnóstico diferencial de deficiência intelectual e está entre as indicações mais
frequentes para a análise de DNA, a consulta genética e diagnóstico pré-natal. As palavras-
chave se encontram presentes no PL pois, o diagnóstico pré-natal da síndrome do X Frágil
pode ser feito no embrião, do qual uma célula é retirada para análise dos genes. Casais com

8
Seria mais apropriado que a palavra usada aqui fosse sexos (biológico), mas o PL utiliza-se da palavra gêneros.
Por isso, a opção por mantê-la.

Página | 41
histórico da doença submetem-se a procedimento de fertilização in vitro para que os embriões
gerados sejam analisados.

Posições pró-vida.
Foram mapeadas duas proposições legislativas com posicionamento pró-vida. O
projeto de lei PL nº: 1761/2016 de autoria do deputado Marcos Muller (PHS) institui a
política estadual de proteção ao nascituro no Rio de Janeiro. Em sua justificativa consta os
seguintes trechos:
Nascituro é um feto. No Direito é grande a controvérsia se tal feto pode ser
considerado um ser humano quanto à sua personalidade jurídica (pois ter
‘vida’ não é sinônimo de ter ‘vida humana’) e sobre quais direitos tal feto
possui, se é que possui.

De acordo com o PL caberá ao Estado desenvolver programas de métodos naturais,


abordando a prevenção da gravidez precoce, os direitos do nascituro e o planejamento
familiar; capacitar profissionais de saúde e respectivos agentes públicos para fornecer apoio
psicológico, médico e social para gestantes; implantar programas que amparem as jovens
vítimas de abuso sexual; incluir, nas escolas públicas, atividade curricular objetivando a
discussão e a consciência dos direitos do nascituro e, finalmente, promover ações e
campanhas de conscientização contra a violência sexual e o aborto.
O projeto de lei (PL nº:1907/2016) de autoria deputado Zito (PP) cria a política de
proteção aos direitos da pessoa com síndrome do X frágil. A lei visa estimular a inserção da
pessoa com a Síndrome do X Frágil no mercado de trabalho, observadas as peculiaridades da
deficiência e as disposições da Lei Federal nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (estatuto da
Criança e do Adolescente); assegurar a formulação de políticas públicas voltadas para as
pessoas com a síndrome; estimular a pesquisa cientifica e a capacitação de profissionais
especializados no assunto, dentre outras diretrizes.

Página | 42
Tabelas de posições pró-escolha por partido a partir dos discursos e das
proposições legislativas. (ALERJ)

PARTIDO Nº DE DEPUTADOS POR DEPUTADOS


PARTIDO
PSOL FLÁVIO SERAFINI,
2 WANDERSON NOGUEIRA

PCdoB 1 ENFERMEIRA REJANE

A partir da tabela acima, é possível concluir que as posições favoráveis à


descriminalização do aborto aparecem apenas em partidos que se denominam de esquerda:
PSOL, PCdoB.

Tabela de posições pró-vida por partido a partir dos discursos e das


proposições legislativas. (ALERJ).

PARTIDO Nº DE DEPUTADOS POR DEPUTADOS


PARTIDO
PSC 1 MÁRCIO PACHECO

PDT 1 JÂNIO MENDES

PHS 1 MARCOS MULLER

PP 1 ZITO

Em contrapartida, as posições pró-vida aparecem em partidos dito de direita, mas


também no PDT que é considerado um partido de centro-esquerda. Em seu estatuto, o Partido
Democrático Trabalhista afirma ter como objetivo a “construção de uma sociedade
democrática e socialista”, adotando como símbolo a rosa vermelha em homenagem a
Internacional Socialista. No portal oficial do PDT é possível encontrar as pautas do seu
movimento de mulheres9, onde é possível ler no item “Nossas Conquistas”:

9
Disponível em: http://www.pdt.org.br/mulher/?page_id=50#body-part. Acesso em: 01/03/2017.

Página | 43
Temos que continuar lutando para que se efetive a descriminalização do
aborto, pois só as mulheres pobres serão banidas por sua prática, já que as
com melhores condições podem fazê-lo sem necessidade do aparato estatal.
A saúde integral é uma luta de todos nós e o aborto não é uma questão de
polícia e sim de saúde pública”.

Apesar de o PDT possuir oficialmente um posicionamento favorável à


descriminalização do aborto, Jânio Mendes é filiado ao partido. Jânio Mendes 10 (PDT)
juntamente com Márcio Pacheco11 (PSC) são os principais protagonistas na luta radical contra
a descriminalização do aborto, além disso, ambos possuem forte adesão a valores religiosos.

SENADO FEDERAL

 PRONUNCIAMENTOS

Ao longo do ano de 2016, foram mapeados 19 pronunciamentos no Senado Federal contendo


a palavra chave aborto; sendo eles 5 pró-escolha; 7 pró-vida e 7 posições indefinidas. Nenhum
resultado pertinente foi encontrado para a palavra embrião que só foi utilizada em outros
contextos; nenhum resultado para reprodução assistida e fertilização in vitro. Em todos os
resultados referentes à palavra nascituro, também está presente a palavra aborto. Eles são
melhor exemplificados na tabela abaixo:

Tabela de pronunciamentos com palavra-chave aborto em 2016.

10
Relator da CPI do aborto.
11
Márcio Pacheco é vice-presidente da CPI do aborto (destinada a investigar e apurar os interesses em incentivar
e financiar a prática de aborto no Estado, o comércio de produtos e as clínicas que fazem o procedimento). Além
disso, é um dos autores “do projeto de Lei nº 416/2011 que institui o Programa Estadual de Prevenção ao
Aborto e Abandono de Incapaz, que já recebeu muitas adesões e apoio de movimentos pró-vida, de
representantes da Igreja Católica..” Esse trecho constitui parte da biografia do deputado no portal da ALERJ.

Página | 44
PARLAMENTAR PARTIDO RELIGIÃO PROFISSÃO TEMA QUANTIDADE DE
PRONUNCIAMENTOS
HUMBERTO PT Repúdio a uma
MÉDICO entrevista concedida
COSTA 1
pelo Ministro da
Saúde.
Insatisfação com a
nomeação de Fátima
FARMACÊUTI
Pelaes (PMDB) para
VANESSA PCdoB a Secretaria
CA
Nacional de Políticas
GRAZZIOTIN
para mulheres 2
Luta das mulheres
por direitos

Crescente onda de
violência contra a
FÁTIMA PT 2
PEDAGOGA
mulher no país.
BEZERRA Projetos que
apresentam
retrocesso na luta
por direitos.
Todos os
EVANGÉLICO PASTOR pronunciamentos são
MAGNO MALTA PR 7
contra a
descriminalização do
aborto.
Alertar a sociedade
SINDICALISTA sobre as inúmeras
PAULO PAIM PT 2
tentativas de retirada
de direitos devido ao
processo de
impeachment.
GLEISI PT ADVOGADA Processo de
impeachment sofrido
HOFFMAN 1
pela presidenta
Dilma Rouseff.
ANA AMÉLIA PP JORNALISTA Audiências públicas
internas no Supremo
para discutir 1
questões polêmicas
MARTA PMDB Pacto de San José da 1
PSICÓLOGA
SUPLICY Costa Rica
MARCELO PMDB MÉDICO Epidemia mundial 1
CASTRO de Zika.

Página | 45
ROMERO JUCÁ PMDB ECONOMIST Processo de 1
impeachment da
A
presidenta Dilma
Rousseff

FONTE: SENADO FEDERAL

 Pró-escolha
 Indefinido
 Pró vida

Posições pró-escolha.

Foram mapeados cinco pronunciamentos com posicionamento pró-escolha. O


pronunciamento do Senador Humberto Costa (PT-PE) no dia 01/06/2016 demonstra repúdio a
uma entrevista concedida pelo Ministro da Saúde em que ele afirma que a questão do aborto
no Brasil é similar à do crack, e que ambas devem ser tratadas sob o mesmo ponto de vista e
que antes de definir qualquer direcionamento de política no Ministério da Saúde, vai levar o
tema do aborto para discussão com as igrejas O Senador afirma “os donos dessa mentalidade
retrógrada tratam os dependentes químicos como criminosos, o aborto, na visão deles, deve
ser encarado como caso de polícia, e as mulheres, tratadas como fora da lei.” Humberto
Costa diz que não tem nada contra o fato de igrejas discutirem o tema do aborto, no entanto:
O Estado brasileiro se separou da Igreja em 1889, mas o atual Ministro da
Saúde ainda não se deu conta. Que prioridade é essa que se dá para tratar um
tema de saúde pública dessa gravidade, que mata milhares de mulheres por
ano, primeiro com as igrejas, e não com as dezenas de instâncias e entidades
notadamente competentes e especializadas no assunto? Onde ficam as
mulheres num debate que é eminentemente delas e sobre elas?

O senador defende que o papel do Governo é tratar esse tema dentro de uma estratégia
de saúde pública. E demonstra insatisfação com a nomeação de Fátima Pelaes (PMDB) para a
Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres. “A futura Secretária para Mulheres de
Temer se dizia contra o aborto mesmo em um caso previsto em lei, como o estupro, que é
autorizado pelo art. 128, inciso II, do nosso Código Penal”.

Página | 46
No pronunciamento de Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) no dia 01/06/2016, ela
também demonstra insatisfação com a nomeação de Fátima Pelaes (PMDB) para a Secretaria
Nacional de Políticas para mulheres.
A Secretária foi minha companheira de muitos anos da Câmara dos
Deputados, a ex-Deputada Fátima Pelaes. Mas a Secretária assume esse posto
tão importante, tendo votado contra um projeto de lei que garantia a
igualdade salarial entre homens e mulheres, sendo contrária à possibilidade
do aborto mesmo naquilo que a lei prevê. Eu não sei como a Secretária vai
dialogar com o movimento de mulheres, não sei como a Secretária vai
dialogar com as entidades do Brasil inteiro. Eu não sei, e isso me preocupa.

A senadora afirma que não está fazendo nenhuma crítica pessoal à ex-Deputada
Fátima Pelaes, que tem uma história de vida sofrida, uma história de vida linda. Mas, afirma
que politicamente, não é essa a Secretária de Mulheres de que o Brasil precisa.
A senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) no dia 30/05/2016 afirma que o que a
mantém em pé e muito disposta a trabalhar em prol das causas que acredita é a fenomenal
reação do povo brasileiro e principalmente das mulheres diante frente à luta por direitos:
E os senhores lembram o que aconteceu no ano passado, em outubro de
2015? O que as mulheres fizeram diante do Projeto de Lei nº 5.069, do Sr.
Eduardo Cunha - o Presidente afastado da Câmara dos Deputados -, que
dificultava o aborto legal? As mulheres tomaram as ruas; foram capas de
todas as revistas semanais deste País. Pois a segunda demonstração nós
vimos agora, e tenho certeza: elas não sairão das ruas! E não estão lutando só
contra a cultura do estupro. Quando falamos em cultura do estupro, nós
estamos falando em cultura do machismo, nós estamos falando em
discriminação contra a mulher.

O pronunciamento de Fátima Bezerra (PT-RN) no dia 01/06/2016 versa sobre “uma


onda hedionda e monstruosa de violência contra a mulher que cresce em nosso país”. Ela
menciona como parte dessa onda o projeto de lei de Eduardo Cunha que inverte a lógica no
que diz respeito a defender as mulheres quando ele pune a mulher vítima de estupro,
dificultando o aborto e obrigando-a a passar por várias humilhações como a de ter que
registrar boletim de ocorrência antes de ser atendida pelo serviço de saúde. Além desse,
Fátima Bezerra cita um outro projeto, “o da Senadora Regina: o Estatuto do Nascituro, um
outro projeto que criminaliza a mulher quando ela precisa do auxílio, quando vítima de
barbaridade como esta, de atrocidades como esta que é o crime de estupro. O Estatuto do
Nascituro chega a criar, inclusive, uma bolsa estupro. ”
No dia 08/03/2016 a senadora Fátima Bezerra (PT-RN) fez outro pronunciamento
muito semelhante ao citado anteriormente. Referindo-se aos projetos que:
Dizem respeito às liberdades individuais e aos direitos civis e que, portanto,
trazem um forte impacto à vida das mulheres, como é o PL 6.583, do
Página | 47
Deputado Anderson Ferreira, que limita o conceito de família à união entre
homem e mulher, incentivando o preconceito e a opressão; a Lei
Antiterrorismo, que intensifica a criminalização dos movimentos sociais; o
Projeto nº 5.069, do Presidente da Câmara, Deputado Eduardo Cunha, que
dificulta o acesso das mulheres que são vítimas de violência sexual aos seus
direitos, como o direito ao aborto em caso de estupro etc..

A senadora chama a atenção para o quanto a luta das mulheres vem sendo sacudida
por iniciativas que, uma vez aprovadas ou consolidadas, significarão um duro revés.

Posições pró-vida.
Foram mapeados sete pronunciamentos de posicionamento pró-vida, todos eles são de
autoria do senador Magno Malta (PR-ES). No dia 01/06/2016 o senador Magno Malta (PR-
ES) questiona o posicionamento dos senadores que estão insatisfeitos pelo fato do “Temer
golpista fez um Ministério sem mulheres. ” Afirmando que os demais senadores ficam usando
as coisas para rechear o discurso deles. "Um Ministério que só tem gente velha e branca”. A
questão do aborto aqui, aparece novamente devido a nomeação de Fátima Pelaes, no seguinte
trecho:
Então, o requisito é esse? Alguém tem condições de ser Secretária da
Secretaria da Mulher só se for abortista. Se não for, não tem. Está
desclassificada. Ora, o homem é o que pensa, o homem é a sua posição, o
homem é a sua decisão. Eu sou contra o aborto em qualquer situação. Aborto,
para mim, é um acinte contra a natureza de Deus. Ponto! Então, eu não posso
assumir nada neste País, porque eu não sou abortista?

Magno Malta (PR-ES) também afirma que é possível identificar:


Fácil quem é de esquerda e quem é de direita no Brasil. Quem é de esquerda
é quem é a favor de aborto, quem é favor de casamento homossexual. É de
esquerda quem defende que homossexual pode entrar em qualquer banheiro
que quiser e não pode ser constrangido. É a favor dessas coisas quem é a
favor de criança que pode fazer mudança de sexo, cirurgia de sexo com doze
anos de idade porque já sabe o que está fazendo, mas em compensação aos
dezessete anos, pode matar, estuprar e sequestrar, que ninguém toca a mão
neles, porque eles não sabem o que estão fazendo. Está identificado quem é
de esquerda! Quem não acredita em nada disso é de direita!

Em outro pronunciamento realizado por Magno Malta (PR-ES) realizado no dia


15/06/2016, ele faz um registro que em suas palavras o deixa muito feliz e ele considera muito
importante:
Nesta semana, a ONU decidiu não incluir aborto como direitos humanos.
Uma decisão da ONU12 acertada, porque ninguém tem direito a ser acintoso

12
Não foi possível encontrar através de buscas realizadas na internet a que decisão da ONU, o senador se refere.
Página | 48
contra a vida. A vida começa na concepção. Deus é quem dá a vida, e a vida
só Ele pode tirar. Aliás, Ele é a própria vida. O Brasil sabe da minha posição,
das minhas defesas do nascituro, da concepção. O Brasil sabe da minha luta,
posição clara, Senador Paim, que nunca escondi. V. Exª, que dirige a
Comissão de Direitos Humanos, já deve ter tido conhecimento do registro da
ONU. A ONU decidiu não incluir aborto como direitos humanos, porque os
humanos têm direito à vida. Eu quero parabenizar essa decisão e parabenizar
os Pró-Vidas do Brasil que lutam pela defesa da vida na concepção.

No dia 30/11/2016 Magno Malta (PR-ES) faz um pronunciamento acerca da decisão


do STF de que aborto até o terceiro mês não configura crime13, o senador afirma que quando
Edson Fachin e Luis Roberto Barroso foram votados na tribuna, ele discursou abertamente
dizendo as razões pelas quais não votava neles. Magno Malta os define como:
Abortistas, defensores da legalização da maconha. Fui desaconselhado a falar
isto, mas quem é que vai me segurar em nome da vida? Os três suplentes de
Deus decidiram ontem – Deus estava descansando e eles assumiram. Tem
asas nas costas a Ministra Rosa, têm asas nas costas Barroso e Fachin; são
semideuses – que, com três meses, pode-se fazer aborto, pode-se matar, pode-
se assassinar. Devem ter a mesma capacidade, então, de defender a pena de
morte para vagabundo.

O senador Magno Malta (PR-ES), apoiador do processo de impeachment em um


pronunciamento realizado no dia 11/05/2016 afirma que o governo do PT dilacerou a
economia do país. Afirma que “nós viramos chacota no mundo” e que o governo anterior é:
Contra valores de família. Eles querem matar a família, porque são ávidos
por legalizar o aborto nesta terra. A família tradicional nada vale para eles!
Redução da maioridade, nem falar. Para eles, se o sujeito conseguir
sobreviver a um aborto, pode matar, pode estuprar, pode sequestrar, porque
até 17 anos está protegido. Ora! Quem sequestra, mata e rouba! Não importa
a faixa etária em que está, é preciso responder pelo crime que fez. Mas a
violência aumentou neste País.

13
Durante julgamento de um Habeas Corpus envolvendo funcionários e médicos de uma clínica clandestina em
Duque de Caxias (RJ) que tiveram a prisão preventiva decretada, a 1.ª Turma do Supremo Tribunal Federal
(STF) abriu, um precedente ao entender, seguindo o relator Luís Roberto Barroso, que não é crime o aborto
realizado durante o primeiro trimestre de gestação – independentemente do motivo que leve a mulher a
interromper a gravidez. A decisão valeu apenas para o referido caso. Mesmo assim, foi recebida com receio por
parlamentares conservadores, pois tal decisão poderia influenciar decisões de juízes de outras instâncias pelo
país. Os ministros Luís Roberto Barroso, Edson Fachin e Rosa Weber se manifestaram no sentido de que não é
crime a interrupção voluntária da gestação efetivada no primeiro trimestre, além de não verem requisitos que
legitimassem a prisão cautelar dos funcionários e dos médicos da clínica, como risco à ordem pública, à ordem
econômica ou à aplicação da lei penal.

Notícia disponível em: < http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,aborto-ate-3-mes-de-gestacao-nao-e-crime-


decide-1-turma-do-stf,10000091511> . Acesso em: 01/03/2017.

Página | 49
O senador Magno Malta (PR-ES) no dia 09/08/2016 novamente em defesa do
impeachment faz colocações contra o governo do Partido dos Trabalhadores, afirmando que:
Durante 13 anos, esses ideológicos que odeiam a Deus, num país
majoritariamente cristão, abortistas, tentaram colocar goela abaixo, doutrinar
este País na sua medida para que fosse aquilo que eles gostariam que o País
fosse. E, graças a Deus, nós não seremos. Aborto é acinte contra a natureza de
Deus. Abortistas!

O pronunciamento de Magno Malta (PR-ES) no dia 08/12/2016 versa sobre a carta de


demissão da apresentadora Leda Nagle da TV Brasil. Ele afirma que foi ao programa dela
inúmeras vezes discutir assuntos como aborto, legalização das drogas entre outros porque, ao
contrário de muitos, ela não leva só quem pensa como ela. Ele aproveita para evocar o
Ministro Barroso, colocando-o sob suspeição pelo fato de não ter votado no dia anterior, sob a
seguinte acusação:

Então, como ontem ele verbalizou isso, que não podia votar porque estava em
suspeição, porque havia advogado para o Senador Randolfe, da Rede, então
ele está sob suspeição sobre essas matérias porque foi o escritório dele que
advogou para a marcha da maconha e advogou também para as ONGs
abortistas do Brasil.

No dia 09/11/2016 o senador Magno Malta demonstra extrema felicidade pela eleição
de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos e afirma que as razões para Trump
ter sido eleito se devem ao fato dele ser contra o aborto, contra a legalização das drogas e
contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. Segue afirmando que os Estados Unidos
cresceram como uma nação “cristã/evangélica” e que eles se levantaram novamente com essa
eleição.

Posições indefinidas.

As posições indefinidas somaram sete dos resultados. O pronunciamento de Paulo


Paim (PT-RS) no dia 16/02/2016 versa sobre o espanto com o crescimento dia após dia dos
casos de microcefalia no Brasil. E afirma que infelizmente, já se pode afirmar que toda a
geração que está nascendo nesse momento está marcada por essa tragédia. Traz em sua fala os
seguintes dados:
O último boletim do Ministério da Saúde aponta que há 462 casos já
confirmados de microcefalia em todos os Estados brasileiros, além de outros
3.852 suspeitos. Houve também 24 óbitos confirmados em razão da síndrome
- incluindo abortos espontâneos e natimortos -, e outros 59 casos continuam
em investigação.

Página | 50
A senadora Gleisi Hoffman (PT-PR) fez um longo pronunciamento no dia 08/07/2016
sobre o processo de impeachment sofrido pela presidenta Dilma Rouseff. A palavra aborto
aparece no trecho em que a senadora alerta para como a mídia constrói um “terrorismo de
notícias apócrifas. ”
Lembro-me de que, nas campanhas da Presidenta Dilma, disseram que
iríamos cortar também o Bolsa Família e direitos dos trabalhadores. Disseram
que estávamos aumentando muito o Auxílio-reclusão, que dávamos dinheiro
para preso, para vagabundo, para gente que cometia crime. Diziam que a
Presidenta Dilma era a favor do aborto.

No dia 01/03/2016 a senadora Marta Suplicy (PMDB-SP) fez um pronunciamento


afirmando que apesar da realização de inúmeros debates, não há consenso sobre legalização
do aborto no País, é uma questão que não é aceita sobre a opinião pública. O pronunciamento
de Marta Suplicy (PMDB-SP) aparece classificado como indefinido pois alterna argumentos
de posição pró-vida e outros de posição pró-escolha. A discussão aparece devido ao seguinte
contexto:
Um ponto polêmico que temos de parar de negar: a questão sobre a
ratificação da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, o Pacto de San
José da Costa Rica, que afirma o direito à vida desde a concepção. As
pessoas não se pronunciam a favor do aborto. Repetidas vezes se tem dito
isso. É reiterado que os dados hoje remetem principalmente à saúde pública.
As mulheres estão recorrendo ao aborto. São 800 mil abortos ilegais
realizados atualmente no Brasil. Quantas mortes? Quantas sequelas? Quem
tem dinheiro está fazendo esse aborto com segurança. Quem não tem faz
clandestinamente, e há mortes de mulheres nisso.

Marcelo Castro (PMDB - PI) no dia 25/02/2016 demonstrou imensa preocupação com
a epidemia de Zika no mundo. Afirma que é um estado de emergência da saúde pública
mundial. A palavra aborto aparece em seu pronunciamento na descrição de casos de
microcefalia, no seguinte trecho:
Uma criança que nasce no Havaí, que foi contaminada na Venezuela com a
enfermidade zika, nasceu com microcefalia. Uma senhora da Eslovênia que
teve contaminação do vírus zika aqui no Brasil lá fez um aborto legal ao
oitavo mês de gestação, e a criança tinha microcefalia. Identificaram, então, a
presença do vírus zika.

Paulo Paim (PT-RS) faz um pronunciamento no dia 15/04/2016 que visa alertar a
sociedade sobre as inúmeras tentativas de retirada de direitos devido ao processo de
impeachment. No discurso ele afirma que continuará debatendo na Comissão de Direitos

Página | 51
Humanos assuntos como o Estatuto do Nascituro, o Estatuto da Família e a temática do
aborto.
O senador Romero Jucá (PMDB-RR) no dia 05/04/2016 realizou um longo
pronunciando sobre o processo de impeachment em que a palavra aborto aparece no seguinte
trecho de sua fala:
Eu não sabia que a Presidente Dilma tinha uma bola de cristal. Na primeira
campanha dela, ela fez uma frase que ninguém entendeu. Ela foi perguntada
sobre algo polêmico - eu não lembro o que era - e respondeu assim: "Não
acho que quem ganhar ou quem perder vai ganhar ou vai perder. Todo mundo
vai perder." Ela estava tratando de uma questão polêmica, talvez sobre a
legalização do aborto ou algo parecido.
A palavra aborto aparece no pronunciamento da senadora Ana Amélia (PP-RS) no dia
25/10/2016 quando ela menciona que o Supremo deve continuar fazendo audiências públicas
internas para discutir questões polêmicas, “como o aborto da anencefalia, o casamento de
pessoas do mesmo sexo ou o contrato civil entre pessoas do mesmo sexo, etc.”

 PROPOSIÇÕES LEGISLATIVAS.
No que se refere às proposições legislativas ao longo do ano de 2016 no Senado
Federal, foram encontradas apenas 2 proposições legislativas sendo elas 2 projetos de lei
contendo a palavras-chave aborto, ambas de posicionamento pró-vida. Não foi encontrada
nenhuma proposição contendo as palavras nascituro, fertilização in vitro, reprodução
assistida. E não houve nenhum resultado pertinente para a palavra-chave embrião, visto que
ela pode ser utilizada em diversos contextos que não se referem à temática do aborto.
Além das proposições legislativas, foi encontrada uma solicitação14 de autoria de
Humberto Costa de que seja criada Comissão Temporária Externa destinada a acompanhar as
ações referentes as doenças transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti como a dengue,
chikungunya e, principalmente a epidemia do zika vírus indicado como causador da
microcefalia, tendo poderes para realizar audiências públicas, diligências externas, requerer
informações, bem como proceder a outros atos que julgar essenciais aos fins propostos à
Comissão. No texto dessa solicitação o senador traz dados de um balanço divulgado pelo
Ministério da Saúde que:
Revela 3.530 casos suspeitos de microcefalia, relacionados ao vírus zika em
recém-nascidos, foram notificados no país entre 22 de outubro de 2015 e 9 de
janeiro de 2016. O boletim também traz a confirmação de que a morte de dois

14
Disponível em: < file:///C:/Users/Laryssa/Downloads/sf-sistema-sedol2-id-documento-composto-50053.pdf>

Página | 52
recém-nascidos e dois abortos de bebês com a malformação no Rio Grande
do Norte foram em decorrência da doença

Tabela de proposições legislativas com as palavras-chave aborto em 2016 no Senado


Federal.

PARLAMENTAR PARTIDO RELIGIÃO PROFISSÃO PROPOSIÇÃO TEMA DA


LEGISLATIVA PROPOSIÇÃO.
PASTOR EVANGÉLICO Projeto de lei Altera o Decreto-Lei no
VALADARES PDT (Assembleia de PASTOR 2.848, de 7 de dezembro
Nº: 461/2016 de 1940 – Código Penal,
Deus) para criminalizar a
prática do aborto em
qualquer estágio da
gestação.
Exige o exame de corpo
de delito e a prévia
comunicação à
PASTOR PDT EVANGÉLICO PASTOR Projeto de lei autoridade policial para a
VALADARES (Assembleia de PL Nº:460/2016 não punição do aborto
Deus) resultante de estupro; e
aperfeiçoa a redação dos
arts. 1º a 3º da Lei de
Atendimento à Vítima de
Violência Sexual (Lei nº
12845/2013).
Fonte: Senado Federal/2016

 Pró-escolha
 Indefinido
 Pró vida

O PL nº: 460/2016 de autoria do senador Pastor Valadares (PDT-RO) amplia a


responsabilização de pessoas envolvidas com o processo de aborto. Além disso, busca
criminalizar quem induz ou instiga a prática do aborto ou faz anúncio de meios abortivos,
com determinação de pena de detenção de seis meses a dois anos. Se for cometido por
profissional do serviço público de saúde ou por quem é médico, farmacêutico ou enfermeiro,
a detenção passa a ser de um a três anos. O projeto também torna mais rígidos os
procedimentos para as vítimas de estupro serem autorizadas a abortar. Ele modifica o Código
Penal para exigir exame de corpo de delito e a prévia comunicação à autoridade policial para
que não se puna o médico que fizer o aborto resultante de estupro. Segundo o texto do
parlamentar, o mecanismo vai assegurar que essa interrupção, classificada por ele de “aborto
sentimental”, só seja autorizada quando houver prova técnica do crime e a respectiva
comunicação formal às autoridades policiais.
Página | 53
Essa medida impede que uma gestante, agindo de má-fé, pratique o aborto,
faltando com a verdade perante o médico, bem como estimula que as vítimas
de estupro denunciem o crime sofrido.
O outro PL nº: 461/2016 de autoria do senador Pastor Valadares (PDT-RO) altera o
Código Penal para considerar aborto a interrupção da vida intrauterina em qualquer estágio da
gestação. De acordo com o senador, a interpretação feita pelo Supremo, de que a
criminalização da interrupção voluntária da gestação até o fim do primeiro trimestre seria
inconstitucional, levou em consideração os direitos sexuais e reprodutivos da mulher, a
autonomia da gestante e sua integridade física e psíquica. Mas ignorou o direito fundamental
à vida do feto, que deve ser respeitado, como já determina a legislação brasileira, opinou.
Tabela de posições pró-vida por partido a partir dos pronunciamentos e das
proposições legislativas. (SENADO FEDERAL)

PARTIDO Nº DE DEPUTADOS POR DEPUTADOS


PARTIDO
PR 1 MAGNO MALTA

PDT 1 PASTOR VALADARES

Tabela de posições pró-escolha por partido a partir dos pronunciamentos e


das proposições legislativas. (SENADO FEDERAL)

PARTIDO Nº DE DEPUTADOS POR DEPUTADOS


PARTIDO
PT 2 HUMBERTO COSTA
FÁTIMA BEZERRA

PCdoB 1 VANESSA GRAZZIOTIN

A partir das tabelas acima, é possível concluir que assim como na ALERJ, os
senadores que se posicionaram pró-escolha são de partidos considerados de esquerda, neste
caso PT e PCdoB. Já as posições pró-vida, são defendidas massivamente por partidos de
direita, com exceção novamente do PDT. O PDT é o único partido de “esquerda” que aparece

Página | 54
tanto na ALERJ através de Jânio Mendes, quanto no SENADO FEDERAL através de Pastor
Valadares defendendo posições pró-vida.

Página | 55
DIVERSIDADE SEXUAL.

As palavras-chave buscadas no portal do Senado Federal e da ALERJ foram


“transfobia”, “homofobia”, “gay”, “gays”, “homossexualismo”, “lésbicas”, “travesti”,
“homossexualidade”, “transgênero”, “parceria civil”, “união homoafetiva”, “lesbofobia”
“união civil”, “opção sexual”, “orientação sexual”, “homossexual”, “homossexuais” e
“ideologia de gênero”, “LGBT”. Na descrição detalhada as palavras mencionadas nos
discursos/pronunciamentos e nas proposições legislativas aparecem destacadas em negrito no
corpo do texto. As tabelas abaixo apresentam a frequência com que cada palavra-chave
apareceu no levantamento de dados, a mesma palavra muitas vezes é mencionada mais de
uma vez no mesmo discurso e/ou proposição.

Tabela de frequência das palavras-chave referentes à temática da diversidade sexual no


Senado Federal.
PALAVRA-CHAVE Nº DE RESULTADOS Nº DE RESULTADOS
NOS NAS PROPOSIÇÕES
PRONUNCIAMENTOS LEGISLATIVAS
LGBT 31 8

ORIENTAÇÃO SEXUAL 14 1

HOMOFOBIA 13 0

GAY/GAYS 12 3

LÉSBICAS/LÉSBICAS 4 3

TRAVESTI 3 4

TRANSEXUAL 3 3

HOMOSSEXUALIDADE 2 0

HOMOSSEXUALISMO 1 0

IDEOLOGIA DE 1 0

GÊNERO
TRANSFOBIA 1 0

OPÇÃO SEXUAL 1 0

LESBOFOBIA 1 0

UNIÃO 1 0

HOMOAFETIVA
PARCERIA CIVIL 0 0

UNIÃO CIVIL 0 0

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Os resultados mostram que a categoria guarda-chuva predominante é LGBT (31
resultados). A orientação sexual, uma propriedade do sujeito vem em seguida com menos da
metade das menções (14). Em seguida vem homofobia (13); com sua conotação de denúncia
de determinado preconceito. A categoria que se destaca em número de citações é gay ou gays,
ou que sugere que esses sujeitos na pluralidade de tipos LGBT parecem os mais visíveis.

ALERJ.
 DISCURSOS
Ao longo do ano de 2016 foram proferidos 14 discursos na ALERJ que incluem a
temática da diversidade sexual, totalizando 3 posicionamentos contrários e 11
posicionamentos favoráveis. Os discursos foram organizados segundo parlamentar, partido,
religião, profissão e número de discursos realizados no período e que são melhor
exemplificados no quadro abaixo.

Tabela de discursos sobre diversidade sexual em 2016.

PARLAMENTAR PARTIDO RELIGIÃO PROFISSÃO Nº DE TEMA DO


DISCURSOS DISCURSO
Realização de
casamento LGBT
com dinheiro público.
Flávio Bolsonaro PSC Católico Advogado 2
Festival de calúnias
associados ao nome
Bolsonaro.

Márcio Pacheco PSC Católico Músico 1 Portaria que autoriza


Evangelizador o uso de saia por
alunos do sexo
Advogado masculino nas
dependências do
Colégio Pedro II.
Marcelo Freixo PSOL Profº de 1 Questionamento
História sobre a nomeação do
Secretário de Direitos
Humanos do estado.
Programa Rio sem
Wanderson PSOL Homofobia /
Assitência Social.
Nogueira Jornalista 2 Projeto Parlamento
Jovem Brasileiro

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Repúdio a Jair
Bolsonaro (PP) e
apoio a Jean Wyllys
Profº de 3 (PSOL)
Flávio Serafini PSOL Sociologia
Audiência pública
para discutir o PME
em Niterói
Balanço sobre as
Eleições municipais
Debate sobre gênero
na sociedade
Brasilera se mostra
fundamental.
Inscrição no
calendário oficial do
Profº da Estado do Rio de
Waldeck Carneiro PT Faculdade de 3 Janeiro de uma data
comemorativa alusiva
Educação da ao combate à
UFF. intolerância religiosa.

Extinção da
Secretaria de
Assistência Social e
Direitos Humanos.

Audiência pública
relativa à casos de
violência contra a
população LGBT.
Martha Rocha PDT Delegada 2 Extinção da
Secretaria de
Assistência Social e
Direitos Humanos.
Fonte: ALERJ/2016

 Posições favoráveis.
 Posições indefinidas
 Posições contrárias.

Posições contrárias à diversidade sexual.

Foram identificadas três posições contrárias à diversidade sexual. Flávio Bolsonaro


(PSC) no dia 19/04/2016 inicia dizendo que seu objetivo era discursar sobre a crise do estado
e o não pagamento dos pensionistas, mas ao chegar na ALERJ foi surpreendido com as
calúnias dos deputados Wanderson Nogueira (PSOL) e Paulo Ramos (PSOL). Logo depois
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disse que pensando melhor, não foi surpreendido “porque já espero que alguma besteira sairá
da boca deles”.

Quando eu ouço Paulo Ramos e Wanderson Nogueira falando aqui, eu penso:


eles são do PSOL – Partido Socialismo e Liberdade. Já começa errado,
porque ou é socialista, ou defende a liberdade. As duas coisas, não dá. (...).
Nós pegamos aí a origem do socialismo e não precisa ir tão longe, vamos
aqui na Alemanha de Hitler. Qual era o partido do Hitler? Partido Nacional
Socialista dos Trabalhadores Alemães. Então, já percebemos uma origem do
PSOL e do PT aqui no nosso País.

O Deputado afirma que um festival de calúnias é colocado a todo momento contra o


nome Bolsonaro e traz para o seu discurso o episódio ocorrido na votação do impeachment,
quando seu pai Jair Bolsonaro (PP) citou o coronel Brilhante Ustra, e quando o deputado Jean
Wyllys cuspiu em direção ao seu pai. Além disso, Flávio Bolsonaro se refere ao deputado Jean
Wyllys usando adjetivos como excremento, abominável, e afirma que:

Cada um é responsável pelo que faz da sua vida, ninguém tem nada a ver
com isso, muito menos o Estado, mas os militantes LGBT, raivosos, são
muito bem remunerados também para fazerem a baderna que fazem. Contra
esses, sim, temos que ir para o debate e para o uso da lei pelas suas atitudes
mais agressivas. Então, eles cospem em Bolsonaro e sou obrigado a ouvir o
Deputado Paulo Ramos dizer que ele fez certo, que agiu como deveria agir.

E por fim, menciona Carlos Marighella 15o chamando de sanguinário, e Che Guevara o
chamando de porco assassino. E afirma que ninguém questionou a atitude do ex presidente
Lula quando chamou muitas mulheres de “aquelas de grelo duro”, “se fosse Bolsonaro
haveria 300 processos contra ele lá no congresso”. Ele sugere que o presidente da OAB
deveria entrar com uma ação contra todos os parlamentares que citaram Che Guevara e
Marighella, mas só porque tem o nome Bolsonaro entraram com uma ação porque ele citou
uma pessoa que nunca teve nada comprovado contra ela, no caso o coronel Brilhante Ustra.

15
Carlos Marighella foi um político filiado ao Partido Comunista Brasileiro, guerrilheiro e escritor brasileiro, e,
a partir de 1964, um dos principais organizadores da luta contra a ditadura militar. Chegou a ser considerado o
inimigo "número um" da ditadura.

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Márcio Pacheco (PSC) no dia 26/10/2016 afirma ter sido procurado por um grupo de
pais de alunos do Colégio Pedro II preocupados com uma decisão discricionária realizada
através de uma portaria que foi “divulgada com muita ênfase na mídia como se fosse uma
ação boa para a sociedade”. O Colégio Pedro II, através de uma portaria, assinada pelo seu
Reitor, autorizou o uso de saia por alunos do sexo masculino nas dependências do Colégio
Pedro II. Segundo o deputado, essa decisão deveria ter sido tomada de forma democrática,
ouvindo “os interessados, o alunado, o conselho técnico, o corpo docente, discente e técnico
administrativo.” E ele afirma ter um dossiê em suas mãos composto de denúncias claras de
que o Reitor não convidou os alunos que são desfavoráveis à questão para participar das
decisões. O deputado segue afirmando que os pais dos alunos também não foram ouvidos, e
que acha inadmissível que “13 mil alunos estão sendo obrigados a aceitar essa medida.”
Há denúncia clara de que os docentes e discentes não concordam com a
medida. Serão todos eles chamados de homofóbicos, misóginos, de outras
palavras? Ou deveriam ter sido ouvidos, acolhidos, pensando a igualdade de
direitos que deveria ter sido realizada?

Além disso, Márcio Pacheco (PSC) afirma que há um tempo para cada coisa. E que:

Discutir orientação sexual, discutir opção sexual, discutir tais questões na


tenra idade, na infância, é absolutamente abominável. E eu não deixarei aqui
de omitir essa nossa opinião.

No dia 17/02/2016 foram proferidos 3 discursos que incluem o tema da diversidade


sexual como foco principal. O primeiro deles é de autoria do deputado Flávio Bolsonaro
(PSC), que inicia seu discurso dizendo que recebe inúmeras denúncias em seu gabinete e
sempre procura encaminhar essas denúncias para autoridades competentes para que tomem as
providências legais cabíveis. Ele afirma que recentemente recebeu uma denúncia sobre o
gasto que a Secretaria de Direitos Humanos, voltado para as causas LGBT, teria usado para
um único evento, um casamento: “e aqui faço questão de registrar, um “casamento”, entre
pessoas do mesmo sexo, com o gasto de R$ 228 mil para essa festinha. ”

Eu gostaria de focar num ponto. Você, contribuinte, concorda que o dinheiro


dos impostos, que você contribuinte paga com muito suor e sacrifício, seja
usado para isso? Já vou discriminar para o que é usado o seu dinheiro nesse
tipo de cerimônia.

O deputado solicitou o requerimento de informações para descobrir a discriminação de


todos os custos desse casamento e prestar contas para a população sobre onde o seu dinheiro
está sendo usado. E afirma que primeiramente, trataria do assunto apenas na questão moral; e

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posteriormente entraria na questão legal. O setor da Secretaria de Direitos Humanos, voltado
para o grupo LGBT, fez um termo de referência solicitando que para esse evento “seis
recepcionistas, preferencialmente afrodescendentes”; “seis drag queens para a recepção do
evento”; “pagamento de cachê para quatro artistas”; “cachê para pagamento de seis
maquiadores e seis cabeleireiros”; “espaço físico para comportar até quatro mil pessoas com
conforto”; “coquetel para mil participantes.” Na opinião do deputado foi feita uma “orgia
com dinheiro público” e as pessoas que não conseguem um bom atendimento nas UPA’s, ou
que recebem o seu 13º salário parcelado, que enfrentam escassez de vários bens públicos, o
motivo é que seu dinheiro está sendo usado para patrocinar “evento de casamento
homossexual e paradas gays.”.
Flávio Bolsonaro (PSC) concedeu um aparte ao deputado Pedro Fernandes (PMDB)
que afirmou que “o Secretário foi infeliz nas suas declarações e errou” em sua opinião, pois é
de conhecimento geral que também existe o casamento feito para heterossexuais promovido
pela própria Secretaria de Assistência. Mas ele concorda que “não podemos nos permitir fazer
um evento nesse sentido, nesses valores, enquanto o pagamento dos servidores está sendo
feito de forma parcelada por toda a dificuldade que vimos encontrando. ”

Posições favoráveis à diversidade sexual.

Foram mapeadas 11 posições favoráveis à diversidade sexual. O segundo discurso


referente à diversidade sexual no dia 17/02/2016 foi proferido pelo deputado Marcelo Freixo
(PSOL) e ele o inicia afirmando que era a primeira vez que estava se pronunciando sobre o
Secretário Ezequiel Teixeira, “não fiz isso em nenhum outro momento, porque a escolha do
Secretariado é uma escolha que cabe ao Governador. ”

Em nenhum momento fiz pré-julgamento por qualquer orientação religiosa de


qualquer Secretário, por isso não me pronunciei, não fiz questionamento, não
duvidei da capacidade do Deputado de forma preconceituosa, ou seja,
anterior a qualquer atitude.

Freixo (PSOL) afirma que por inúmeras vezes, mesmo sendo oposição ao Governo
Cabral, fez elogios aos programas LGBT do Governo. Contudo, o Secretário Ezequiel
Teixeira, do Partido da Mulher Brasileira, cancelou todos os programas LGBT, e para o
deputado do PSOL a ideia de que tem uma crise econômica não justifica a ação do secretário.
Além disso, Ezequiel Teixeira (PMB) concedeu uma entrevista dizendo “Eu não creio só na
cura gay. Não. Creio na cura do câncer e na cura da Aids, sabe por quê? Porque eu sou fruto

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do milagre de Deus também. ” Para Freixo, o Secretário de Direitos Humanos em pleno
século XXI quando afirma acreditar na cura gay mostra uma posição absolutamente
incompatível com o cargo que exerce e defende que a responsabilidade não é do Secretário
pois:

Ele mesmo disse uma coisa importante: “Fui eleito Deputado Federal com
essas convicções. Fui convidado para estar aqui. Todos os que me chamaram
sabiam das minhas convicções”. Quero dizer que o Secretário tem razão. Por
isso minha fala não é contra o Secretário. É contra o Governador que o
nomeou, porque não poderia, a não ser que fosse nomeado para a Secretaria
Antidireitos Humanos, uma secretaria de violação dos direitos humanos, uma
secretaria pela homofobia. Aí, poderia colocar o Secretário, que defende
claramente essa linha, que acredita na cura gay, que trata o homossexual
como um doente.

O deputado Marcelo Freixo segue dizendo que a Secretaria de Direitos Humanos


sempre sofreu com as indicações políticas e que nunca foi prioridade política do Governo. Em
2007 foi Secretária a Benedita da Silva. De lá para cá, foram Secretários Ricardo Henrique,
Rodrigo Neves, Antônio Claret, Zaqueu Teixeira, Pedro Fernandes, Coronel Mariano, Teresa
Consentino e, agora, Ezequiel Teixeira. De 2007 a 2015.

Ele tem todo o direito. Estou questionando a sua nomeação para uma política
que ele não tem condições de defender. Ele, em seus discursos, viola a
essência da defesa dos direitos humanos. Quero dizer que se ele acha que é
fruto do milagre de Deus, a sua nomeação é uma aberração da política do
Governo do PMDB.

O deputado Marcelo Freixo (PSOL) afirma que independentemente da qualidade ou da


falta de qualidade de um ou de outro, é evidente que se trata de uma Secretaria subordinada
aos arranjos e aos acordos da política. “Isso é lamentável! ” Freixo conclui afirmando que não
estava questionando a “religiosidade”16 do secretário,

16
Ezequiel Teixeira é pastor. Em 1989, fundou a Associação Missionária Vida Nova, com o primeiro templo
localizado em Irajá, bairro da cidade do Rio de Janeiro. Ao longo dos anos a igreja tornou-se referência na região
e, em seguida, na esfera nacional. Ezequiel passou a fazer inúmeras palestras e conferências por todo o Brasil e
no exterior. Hoje, são mais de 70 templos em várias nações. Ezequiel Teixeira apresenta programas de rádio e
TV há vários anos, e tem como característica a mensagem profética e a ousadia no mundo espiritual. Escreveu
diversos livros. Dentre eles, “Projeto Ari” e “Alianças Erradas”.

Fonte: Texto informado pelo próprio Ezequiel em suas redes sociais, na aba biografia.

Disponível em: < http://www.ezequielteixeira.com.br/> Acesso:11/08/2016.

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Ele tem todo o direito. Estou questionando a sua nomeação para uma política
que ele não tem condições de defender. Ele, em seus discursos, viola a
essência da defesa dos direitos humanos. Quero dizer que se ele acha que é
fruto do milagre de Deus, a sua nomeação é uma aberração da política do
Governo do PMDB.

O terceiro discurso do dia 17/02/2016 é do deputado Wanderson Nogueira (PSOL),


que o inicia dizendo que quando pensa em assistência social, pensa como o último recurso
que o cidadão tem. “Ninguém quer ir para a assistência social. Quando se chega lá é porque
não se tem alternativa. ” Para o deputado só “procuram a assistência social os invisíveis aos
olhos da sociedade. Hoje, na realidade brasileira, mais precisamente na realidade
fluminense, quem são os invisíveis? ” Ele responde a essa pergunta afirmando que os
invisíveis são as mulheres, os negros, os homossexuais, os transexuais e a comunidade
LGBT em geral. E é nesse sentido que o deputado direciona sua fala, com relação ao
programa Rio sem Homofobia e as “infelizes declarações do Secretário Estadual dos Direitos
Humanos e assistência social, o Sr. Ezequiel Teixeira. ”. O secretário fechou 4 centros do
Programa Rio sem Homofobia, uma política pública reconhecida internacionalmente que foi
implementada em 2007, alegando que é por conta da crise do Estado. Wanderson Nogueira
(PSOL) também cita em seu discurso uma notícia que ganhou os jornais na mesma semana da
entrevista do secretário:

Começo lendo uma notícia: a psicóloga Mariza Lobo, foi condenada


judicialmente a pagar cinco mil reais de indenização por danos morais aos
membros do Conselho Regional de Psicologia, que participaram de seu
julgamento. O Conselho decidiu pela cassação do registro de Mariza, acusada
de praticar a chamada Cura Gay.

Wanderson Nogueira (PSOL) afirma que a cassação do registro foi, posteriormente,


revertida pelo Conselho Federal de Psicologia. Os conselheiros foram ao Judiciário por danos
morais e a decisão é do Juiz Gaspar Luís Matos de Araújo Filho, do 11º Juizado Civil Especial
de Curitiba, e claro cabe o recurso dessa decisão.
Flávio Serafini (PSOL) no dia 04/10/2016 faz diversas considerações sobre o resultado
das eleições municipais na cidade de Niterói onde ele disputou a Prefeitura. O deputado
agradece a expressiva votação e lamenta a perda de dois mandatos que considera muito
valorosos para a cidade de Niterói:
Do companheiro Renatinho, primeiro vereador eleito pelo PSOL na cidade,
importante referência das lutas populares em Niterói, e do companheiro
Henrique Vieira, pastor, professor, que como Vereador não teve medo e, com
brilhantismo, enfrentou os temas mais espinhosos - do crescimento urbano à
necessidade de se enfrentar o machismo e toda forma de discriminação,
especialmente a discriminação feita com relação à população LGBT, o
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Henrique esteve na linha de frente fazendo todos os debates e pregando, de
forma coerente, consistente, a necessidade de reforçar a laicidade do Estado
como mecanismo de se garantir a mais plena tolerância religiosa.

O discurso do deputado Waldeck Carneiro (PT) no dia 1/06/2016 conta o que ocorreu
num ato público no calçadão de Campo Grande do qual ele e as deputadas Jandira Feghali
(PCB) e Benedita da Silva (PT) participavam. O ato tinha como tema a cultura do estupro e
foi marcado devido à ocorrência do estupro coletivo já mencionado anteriormente. Enquanto
esse debate ocorria no calçadão, o deputado relata sua indignação quando as pessoas que
passavam ali diziam: “Mas vocês têm que levar em conta que ela estava com uma saia tão
curtinha...” O deputado Waldeck Carneiro (PT) conta esse relato, para poder exemplificar que
o debate sobre gênero na sociedade brasileira se mostra fundamental
A escola tem um papel educador fundamental. Negar o debate sobre gênero é
dar um passo atrás. É promover um retrocesso na formação para a cidadania,
que não tem limites.

“Não é apenas a chamada ideologia do gênero que tenta barrar, que tenta solapar um
debate tão fundamental e esse estupro coletivo acabou de nos revelar, acabou de atirar contra
a nossa cara a importância de aprofundarmos esta discussão”. O deputado afirma que existe
uma violência brutal neste país que se abate principalmente sobre mulheres, negros, pobres e
a comunidade LGBT.
Em outro discurso, Waldeck Carneiro (PT) no dia 22/09/2016 parabeniza o projeto que
propõe a inscrição no calendário oficial do Estado do Rio de Janeiro de uma data
comemorativa alusiva ao combate à intolerância religiosa. O deputado acredita que isso é
muito importante, pois vivemos “tempos conservadores e reacionários”. Tempos em que
tentam “impedir que a escola republicana laica discuta direitos humanos, discuta diversidade
sexual e de gênero, discuta violência contra a mulher e contra a população LGBT.”
No dia 20/04/2016 Flávio Serafini (PSOL) faz um pronunciamento alegando que o
deputado federal Jair Bolsonaro (PP) é um agente provocador, uma figura que sempre
defendeu a ditadura militar no Brasil, sempre foi um defensor de torturadores; e que não é à
toa que Jair Bolsonaro, durante a sua fala, disse que homenageava Brilhante Ustra, pavor de
Dilma Roussef (PT). “Por que ele usou a palavra pavor de Dilma Roussef? Para destacar o
fato de ser ele um torturador. ”
Nós, do PSOL, repudiamos Jair Bolsonaro, apoiamos o Deputado Jean
Wyllys, não porque cuspiu, mas porque reagiu a mais uma das agressões, a
mais uma das humilhações que vinha sofrendo, que segue sofrendo
permanentemente do Deputado Jair Bolsonaro, homofóbico, fascista,
agressor, defensor de torturadores.
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O deputado diz que ter que assistir ao filho dele vir aqui e proferir um monte de
mentiras na defesa do “papai”17 é inadmissível; pois são mentiras que a direita, “cada vez
mais boçalizada, cada vez mais imbecilizada não se cansa de repetir; mentiras que visam
atacar a esquerda e jogar fumaça no debate ideológico.”

Jair Bolsonaro, repudiamos veementemente as suas ações, defensor da


tortura, fascista, homofóbico. Companheiro Jean Wyllys, entendemos que a
reação do oprimido não deve ser confundida de forma nenhuma com a ação
dos opressores, por isso, declaramos a nossa solidariedade a você e
repudiamos esses fascistas que não passarão

Em outro discurso, Flávio Serafini (PSOL) no dia 16/06/2016 discursa sobre a


audiência pública que aconteceu na Câmara Municipal de Niterói que discutiu o plano
municipal de educação. O deputado relata que nessa audiência muitas pessoas se mobilizaram
de “um lado, cristãos das diferentes denominações, inclusive da igreja católica, e, do outro,
militantes feministas, militantes do movimento LGBT, tensionados pelo debate da questão de
gênero e da livre orientação sexual.”. Diz que gostaria de dedicar sua fala fazendo uma
reflexão direcionada principalmente aos cristãos, porque depois da referida audiência ele
recebeu a informação de que algumas igrejas estavam questionando a posição do PSOL sobre
esse debate dizendo que “nós gostaríamos de doutrinar as crianças para que mudassem de
sexo e coisas desse tipo. ” Flávio Serafini (PSOL) faz um longo discurso sobre o que é
gênero, diferenciando-o do que é sexo, discutindo papéis sociais, hierarquização, mercado de
trabalho e diversas outras coisas que argumentam o porquê esse é um debate necessário nas
escolas:

Quando nos propomos à discussão de gênero, o que queremos é inibir essas


formas de violência e de desigualdade. Não deixem que atores políticos
envolvidos em grandes esquemas de corrupção manipulem a fé de vocês e
distorçam o que é o debate de gênero para criarem confusão nessa discussão.

E conclui citando que uma das empresas usadas para lavar dinheiro por Eduardo
Cunha (PMDB) se chamava Fé em Jesus, e a empresa que usava para ocultar seu patrimônio
se chamava Jesus.com. “Ele, talvez o mais notório corrupto da História recente do Brasil se
escondia por trás do debate religioso para não deixar transparecer a sua forma verdadeira
forma de fazer política centrada na corrupção. ” Utiliza-se desse exemplo para afirmar que o

17
O discurso de Flávio Bolsonaro defendendo o seu pai ao qual Flávio Serafini se refere está descrito acima no
tópico posições contrárias à diversidade sexual.

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Estado tem que ser laico para garantir que as diferentes formas de pensar e as diferentes
formas de fé se desenvolvam com liberdade.
O discurso realizado no dia 26/07/2016 pela deputada Martha Rocha (PDT) versa
sobre uma audiência pública realizada na Alerj que tratava da questão da violência praticada
contra a população LGBT. Essa audiência foi realizada em conjunto pela Comissão de Defesa
dos Direitos Humanos e Cidadania e pela Comissão que trabalha a questão da discriminação.
A deputada afirma:
Eu me fiz presente em razão não só do meu mandato, mas da proximidade
com o tema, e de ser integrante da Comissão de Defesa dos Direitos
Humanos e Cidadania, e vimos o quanto precisamos ter um olhar atento, já
que de maio até julho oito pessoas foram mortas, e se discuti aí, sim, a
presença da homofobia, a presença da discriminação e de uma violência sem
medida, de uma violência que é brutal e que precisa de todas as formas da
mão firme do Estado, no seu enfrentamento.

A deputada Martha Rocha (PDT) realizou outro discurso no dia 18/10/2016 em que
expressa seu lamento pela notícia de que a Secretaria de Assistência Social e Direitos
Humanos será extinta. A deputada relata:
E o que nos deixa preocupados é que, ao lado desta Secretaria, nós temos
uma infinidade de políticas públicas alçadas na estrutura dessa Secretaria, que
vai desde a promoção da liberdade religiosa, passa pelo aluguel social, pelo
Rio sem Miséria, pelo Rio sem Homofobia, pela promoção ao mundo do
trabalho.

Wanderson Nogueira (PSOL) proferiu um discurso no dia 21/09/2016 afirmando que


ao buscarmos fazer diferença no mundo, o primeiro passo é sempre dado através das escolas.
O deputado parabeniza o Colégio Pedro II por permitir que todos os alunos, homens e
mulheres, possam usar saia. Esse fato ocorreu a partir de uma mobilização dos alunos em
reconhecimento a um colega que é transexual e foi barrado e sofreu bullying na escola
devido ao uso de saia.
Na própria escola os alunos fizeram a mobilização e demonstraram: “Olha,
homofobia aqui, não. ” É a campanha que o Domingos – ator recém-falecido
dizia: “Eu não preciso ser gay para combater a homofobia

O deputado Waldeck Carneiro (PT) no dia 18/10/2016 discursa sobre a problemática


da extinção de um órgão como a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos. O
deputado afirma que isso representa a interrupção de inúmeras políticas sociais formuladas
por essa Secretaria. Tais políticas, dizem respeito à inclusão social dos mais pobres, à
promoção da cidadania sob diferentes formas, à tolerância e ao respeito aos direitos humanos.

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Combate às diversas formas de “violação de direitos, seja contra crianças, adolescentes ou
mulheres vítimas de violência, seja LGBT fobia, seja contra pessoas com deficiência. ”

 PROPOSIÇÕES LEGISLATIVAS.

Tabela de proposições legislativas sobre diversidade sexual em 2016.

PARLAMENTAR PARTIDO RELIGIÃO PROFISSÃO PROPOSIÇÃO TEMA DA


LEGISLATIVA PROPOSIÇÃO
Projeto de Concede o Prêmio
Ana Paula PMDB Cardiologista Resolução Dandara à Senhora
Bebiana Laura dos
Rechuan Nº: 230/2016 Santos.

Sugere a criação de
uma Delegacia
especial de repressão
Indicação aos crimes por
Tio Carlos SD Animador cultural Legislativa discriminação racial ,
Nº: 142/2016 religiosa, e orientação
sexual.
Milton Rangel DEM Igreja Mundial Empresário Dipõe sobre a
do poder da fé. proibição de
Samuel Malafaia DEM Assembléia de Engenheiro lecionamento de
Deus mecânico qualquer temática
relacionada a
Dr. Deodalto DEM Católico Ginecologista Projeto de lei ideologia de gênero.
Tia Ju PRB IURD Pedagoga Nº: 1615/2016
Flávio Bolsonaro PSC Católico Advogado
Carlos Macedo PRB Bispo da Jornalista
IURD
Filipe Soares DEM Igreja Publicitário
Internacional
da Graça.

Tia Ju PRB IURD Pegagoga


Nivaldo Mulim PR Evangélico Empresário
Martha Rocha PDT Delegada
Ana Paula PMDB Cardiologista Cria a polítcia
Rechuan Projeto de lei estadual de
Nº: 1909/2016 empoderamento da
Daniele PMDB Formada em Serviço
mulher.
Guerreiro social
Márcia Jeovani PR Empresária
Zeidan PT Católica Jornalista e
psicóloga
Enfermeira PCdoB Enfermeira
Rejane
Cidinha Campos PDT Jornalista/radialista
Lucinha PSDB superior incompleto

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Estabelece multa e
- manda retirar do ar
toda e qualquer
Assembléia veiculação publicitária
Legislativa do Projeto de lei misógina, sexista ou
Estado do Rio de Nº: 1844/2016 estimuladora de
Janeiro18 agressão e violência
sexual no estado.
Veda que seja
tipificado como
obsceno o ato humano
Wanderson praticado por pessoa
Nogueira PSOL Apresentador Projeto de lei de qualquer gênero de
esportivo Nº: 1490/2016 não cobrir o corpo da
cintura para cima em
público no estado .
Altera a lei
5.645/10 para
Projeto de lei instituir a semana
Enfermeira PCdoB Enfermeira Nº: 1894/2016 de divulgação e
Rejane respeito ao direito
ao processo
transexualizador
no estado.
Concede a Medalha
Projeto de Tiradentes ao Senhor
Bruno Lavorato
Marcos Abrahão PTdoB Policial Militar Resolução Moreira Lopes,
Nº: 365/2016 Promotor de Justiça
do Estado do Rio de
Janeiro.

Dispõe sobre a
Tio Carlos SD Animador Cultural Projeto de lei divulgação do
Nº: 2118/2016 Disk 100 nos
prédios público do
Rio de janeiro.
Eliomar Coelho PSOL Engenheiro Projeto de lei Institui o
Nº: 2075/2016 programa “Escolas
para a
democracia”
Enfermeira PCdoB Enfermeira Indicação Transfere a
Rejane Legislativa subsecretaria de
política públicas para
Nº: 203/2016 as mulheres e todas as
suas atribuições, para
a secretaria de estado
da casa civil.

18
Projeto de lei de autoria de todos os deputados que compõem a casa.

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Autor: PSOL Jornalista Altera o anexo nº:
Wanderson Parecer 5645/2010 que
consolida a legislação
Nogueira favorável ao PL das datas
Geógrafo nº: 1406/2016 comemorativas no Rio
Relator: Carlos PT de Janeiro.
Minc
Fonte ALERJ 2016

 Posições favoráveis.
 Posições indefinidas
 Posições contrárias.

Ao longo do ano de 2016 foram encontradas 11 proposições legislativas referentes à


diversidade sexual, sendo elas 7 projetos de lei, 2 projetos de resolução e 2 indicações
legislativas, totalizando 10 proposições favoráveis à diversidade sexual e apenas uma
contrária.

Posições favoráveis à diversidade sexual.

Foram mapeadas 10 posições favoráveis à temática da diversidade sexual. O projeto


de resolução PR Nº:230/2016 de autoria da deputada Ana Paula Rechuan (PMDB), concede o
prêmio Dandara à senhora Bebiana Laura dos Santos. A deputada afirma que a senhora
Bebiana merece a honraria pois, sua vida é dedicada aos movimentos sociais, a luta pelos
direitos das crianças e adolescentes, negros, mulheres; ela também colabora nas
coordenadorias de pessoas com deficiência, igualdade racial, idosos e LGBT. É ministra da
palavra na Igreja Nossa Senhora das Graças, e membro diocesana na Pastoral Social e
assessoria da infância na comunidade em que vive.

A indicação legislativa nº: 142/2016 de autoria do Deputado Tio Carlos (SD)


menciona um anteprojeto de lei que dispõe sobre a criação de uma delegacia especial de
repressão aos crimes por discriminação racial, religiosa, orientação sexual ou contra a pessoa
com deficiência física no estado do Rio de Janeiro. A proposição utiliza como exemplo o
Distrito Federal, que foi a primeira unidade federativa do Brasil a criar uma Delegacia
Especializada de combate aos crimes de intolerância religiosa, discriminação
racial, orientação sexual.

O projeto de lei PL nº 1909/2016 de autoria dos deputados, Nivaldo Mulim (PR),

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Martha Rocha (PDT), Ana Paula Rechuan (PMDB), Daniele Guerreiro (PMDB), Marcia
Jeovani (PR), Zeidan (PT), Enfermeira Rejane (PCdoB), Cidinha Campos (PDT), Tia Ju
(PRB), Lucinha (PSDB) cria a política estadual de empoderamento da mulher. Dentre as
diretrizes gerais, constam ajudar a implementar políticas públicas voltadas à saúde da mulher
e aos seus direitos reprodutivos; e apoiar a implementação de políticas públicas voltadas ao
público LGBT, promovendo igualdade de oportunidades e seminários que discutam a
identidade de gênero. Esse é um projeto raro, pois conta com o apoio de partidos de
orientações políticas que costumam ser divergentes à temática da diversidade sexual.

A indicação Legislativa nº:203/2016 de autoria da deputada Enfermeira Rejane


(PCdoB) menciona a Superintendência de Políticas Inter setoriais para as Mulheres (SUPIM),
que é responsável por assegurar a implementação e monitoramento de políticas de promoção
da inclusão e autonomia econômica, social, cultural e política das mulheres fluminenses,
tendo como perspectiva a diversidade étnico racial, geracional, econômica, regional,
de orientação sexual, entre outras, assim como as mulheres em situações especiais de vida,
como as que estão no sistema penitenciário, moradoras de rua ou até mesmo em tratamento
psiquiátrico.

Wanderson Nogueira (PSOL) é autor do Projeto de lei PL nº: 1490/2016 que veda que
seja tipificado como obsceno o “ato humano praticado por pessoa de qualquer gênero de não
cobrir o corpo da cintura pra cima em público. ” O PL nº: 1490/2016 afirma que já faz muito
tempo que, “a classe feminina vem reivindicando o direito de escolher se quer ou não cobrir
a parte de cima do seu próprio corpo em público”. A justificativa do projeto lamenta que, nos
dias atuais, infelizmente, algumas autoridades ainda criminalizam a mulher que deixa de
cobrir a parte de cima do corpo, alegando incidir o artigo 233 do Código Penal (Decreto-Lei
2848/40), que tipifica a prática de ato obsceno em local público como crime. Quando
criminaliza as mulheres que não cobrem o busto e não criminaliza os homens que o fazem, o
Estado adota tratamento diferenciado a pessoas em condição semelhante, o que fere um dos
núcleos duros da nossa Constituição, que é o direito à isonomia.

Interessante, e ao mesmo tempo lamentável, o fato notório de que não há


notícia da tipificação da mesma conduta quando praticada por homens,
evidenciando assim a grave discriminação de gênero em que se configura
essa realidade, que através deste projeto se busca modificar.

O parecer favorável ao projeto de lei PL nº:1406/2016 de autoria de Wanderson


Nogueira (PSOL) e relatoria de Carlos Minc (PT) afirma que em consonância com a
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Constituição da República Federativa do Brasil e com toda legislação que asseguram a
liberdade de crença religiosa às pessoas, além de proteção e respeito às manifestações
religiosas, os deputados afirmam que:
A laicidade do Estado deve ser buscada, afastando a possibilidade de
interferência de correntes religiosas em matérias sociais, políticas, culturais,
dentre outras. A laicidade do Estado tem interface com diversos direitos
humanos fundamentais, como a liberdade de expressão, a liberdade de
crença, e de não crença, a igualdade de gênero e os direitos da
população LGBT, população esta que sofre forte discriminação em virtude de
dogmas religiosos.

O projeto de lei PL nº: 1894/2016 de autoria da Deputada Enfermeira Rejane (PCdoB)


consolida a legislação relativa às datas comemorativas do Calendário Oficial do Estado do
Rio de Janeiro, a “Semana de Divulgação e Respeito ao Direito ao Processo
Transexualizador” no Estado do Rio de Janeiro, a ser comemorada, anualmente, com início
em 24 de outubro.
O projeto de resolução nº: 365/2016 de autoria do deputado Marcos Abrahão (PTdoB)
concede a medalha Tiradentes e o respectivo Diploma ao Excelentíssimo Senhor Bruno
Lavorato Moreira Lopes, Promotor de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Na justificativa do
projeto, são apresentados diversos casos pelos quais o promotor foi responsável, dentre eles o
caso da “tentativa de homicídio de uma travesti que foi vítima de homofobia em em Santa
Cruz.”
O projeto de lei PL nº: 2075/2016 de autoria de Eliomar Coelho (PSOL) institui o
Programa Escolas para a democracia em todo o sistema estadual e ensino (SEEDUC,
FAETEC, universidades estaduais) que deve ter como pauta a educação contra o preconceito,
a violência, a exclusão social, a estigmatização das pessoas pela orientação sexual:
o respeito à pluralidade étnica, religiosa, ideológica e política e à
livre manifestação da orientação sexual e da identidade e/ou
expressão de gênero.

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O projeto de lei PL nº: 2118/2016 de autoria do deputado Tio Carlos (SD) dispõe sobre
a divulgação do Disque 100 e do aplicativo Proteja Brasil nos prédios públicos no âmbito do
Estado do Rio de Janeiro.
O Disque 100 é um serviço de utilidade pública da Secretaria de Direitos
Humanos da Presidência da República, vinculado a Ouvidoria Nacional de
Direitos Humanos, destinado a receber demandas relativas a violações de
Direitos Humanos, em especial as que atingem populações com
vulnerabilidade acrescida, como: Crianças e Adolescentes, Pessoas Idosas,
Pessoas com Deficiência, LGBT, Pessoas em Situação de Rua e Outros,
como quilombolas, ciganos, índios, pessoas em privação de liberdade.

A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro mediante ao projeto de lei PL


nº: 1844/2016 estabelece multa para empresas que veicularem publicidade de conteúdo
misógino, sexista ou estimulador de agressão e violência sexual por meio de rádio, televisão,
ou até mesmo redes sociais no âmbito do Estado.
Com o objetivo de restringir e denunciar a publicidade misógina e sexista que
não promove a equidade de gênero, o presente projeto de lei infringe “perdas
econômicas” àqueles contratantes de veículos midiáticos que insistirem em
levar ao público mensagens publicitárias apontadas como ofensivas contra as
mulheres.

Em sua justificativa consta que o projeto de lei nasceu da contribuição das


participantes do Seminário produzido pela Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher –
CDDM da Alerj, em parceria com a União Brasileira de Mulheres – UBM. Essa iniciativa
legislativa não tem por objetivo impor qualquer tipo de censura aos produtores de
propagandas, coibindo-lhes a criatividade, mas apenas de evitar a veiculação de propagandas
que tenham por finalidade depreciar a imagem da mulher ou de estimular a prática de
violência contra a mulher.
Apesar de pretender ser uma lei de conteúdo geral, é possível perceber que o principal
foco são as propagandas que estimulam agressão contra mulheres, não contra a população
LGBT, por exemplo. Afirmam que é possível verificar o uso constante da imagem da mulher
e de seu corpo como atributo mercadológico destituído de dignidade, citam por exemplo uma
propaganda a AMBEV intitulada “Musa do Verão” que foi condenada ao pagamento de multa.

Posições contrárias à diversidade sexual.

Apenas uma proposição legislativa contrária à diversidade sexual foi encontrada. O


projeto de lei PL nº: 1615/2016 de autoria dos deputados Milton Rangel, Samuel Malafaia
(DEM), Dr. Deodalto (DEM), Tia Ju (PRB), Flávio Bolsonaro (PSC), Carlos Macedo (PRB),

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Filipe Soares (DEM) dispõe sobre a proibição de lecionar de qualquer temática relacionada à
ideologia de gênero. Para os efeitos dessa proibição todos os Planos Municipais de Educação
devem adequar-se às exigências da lei. O projeto também proíbe a utilização de qualquer
meio pedagógico (livros, cartilhas, filmes) que contenham direta ou indiretamente reflexões
sobre ideologia de gênero ou orientação sexual.

Partindo do pressuposto de que os estudantes são a parte mais vulnerável do


processo educacional, cabendo aos pais definir os valores e princípios
repassados aos filhos e ao Estado por meio de políticas públicas assegurar-lhe
sua formação e instrução intelectiva, fica claro que especular a introdução na
grade curricular de ensino o lecionamento da ideologia de gênero e
congênere foge das atribuições do Estado e invade o âmago das famílias.

Cabe mencionar que todos os autores do projeto de lei PL nº: 1615/2016 são
integrantes de uma “bancada religiosa” na ALERJ; como já foi exemplificado na pesquisa de
Christina Vital da Cunha e de Paulo Lopes (2013) resenhado no relatório anterior, em vemos
uma atual união das bancadas cristãs em prol de um assunto em comum.

Tabela de posições contrárias à diversidade sexual a partir dos discursos e


das proposições legislativas. (ALERJ)

PARTIDO Nº DE DEPUTADOS POR DEPUTADOS


PARTIDO

1 JÂNIO MENDES
PDT
PSC 2 MÁRCIO PACHECO
FLÁVIO BOLSONARO
MILTON RANGEL
FELIPE SOARES,
DEM 4 SAMUEL MALAFAIA
DR.DEODALTO
2 TIA JU
CARLOS MACEDO
PRB

A tabela acima nos traz dados muito importantes. Independentemente de


pertencimento partidário, todos os deputados que se posicionaram contra a diversidade sexual,
sem exceção, são religiosos. Jânio Mendes (PDT) é católico; os dois deputados do PSC
mencionados, Márcio Pacheco e Flávio Bolsonaro também são católicos. O DEM é o partido
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com maior número de deputados contrários à diversidade, dentre eles Milton Rangel (Igreja
Mundial do Poder da fé), Felipe Soares (Igreja Internacional da Graça) e Samuel Malafaia
(Assembléia de Deus) são evangélicos e Dr. Deodalto é católico. O restante dos
posicionamentos desfavoráveis é do PRB, em que ambos deputados mencionados, Carlos
Macedo e Tia Ju são evangélicos da Igreja Universal do Reino de Deus.

Tabela de posições favoráveis à diversidade sexual a partir dos discursos e


das proposições legislativas (ALERJ)

PARTIDO Nº DE DEPUTADOS POR DEPUTADOS


PARTIDO
PAULO RAMOS
FLAVIO SERAFINI,
PSOL 5 MARCELO FREIXO,
WANDERSON NOGUEIRA
ELIOMAR COELHO
PT 2 WALDECK CARNEIRO
ZEIDAN

BERNARDO ROSSI
PMDB RAFAEL DO GORDO
4 EDSON ALBERTASSI
ANA PAULA RECHUAN
MARTHA ROCHA
THIAGO PAMPOLHA
PDT 4 LUIZ MARTINS
TÂNIA RODRIGUES
PCdoB 1 ENFERMEIRA REJANE)

PSDB 1 LUIZ PAULO

PSL 1 ÁTILA NUNES

DEM 1 JORGE FELIPPE NETO

SD 1 TIO CARLOS

PTdoB 1 MARCOS ABRAHAO

Foram identificados partidos de caráter ideológico mais diversificado na defesa de


posições pró-diversidade do que se encontrou nas posições acerca do aborto. Talvez isso seja
um viés de projetos de proteção à mulher, ou de proposições que condenam todo tipo de
discriminação, muito mais do que projetos que defendem propriamente a inclusão LGBT.

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SENADO FEDERAL

 PRONUNCIAMENTOS.

Ao longo do ano de 2016, foram mapeados 34 pronunciamentos no Senado Federal


que versavam sobre a temática da diversidade sexual. Foram encontrados 31 posicionamentos
favoráveis à diversidade sexual, dois posicionamentos indefinidos e apenas um
posicionamento contrário. Os pronunciamentos foram organizados segundo parlamentar,
partido, religião, profissão e número de discursos realizados no período e que são melhor
exemplificados no quadro abaixo.

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PARLAMENTAR PARTIDO RELIGIÃO PROFISSÃO TEMA QUANTIDADE DE
PRONUNCIAMENTOS
JORGE VIANA PT Engenheiro Atentado ocorrido
numa boate gay em
Orlando. 1
Processo de
impeachment
sofrido pela
presidenta Dilma
Rouseff.
VANESSA PCdoB
Dia internacional
GRAZZIOTIN Farmacêutica do Orgulho LGBT. 3
Repúdio a forma
como a mídia
noticiou o atentado
ocorrido em
Orlando.
Processo de
impeachment
sofrido pela
presidenta Dilma
Rouseff.
FÁTIMA PT Pedagoga
Atentado ocorrido
BEZERRA numa boate gay em
Orlando.
Atentados contra as 4
sedes de partidos
progressistas.
Decisão do STF de
abrir ações penais
contra o deputado
Jair Bolsonaro.
MAGNO MALTA PR EVANGÉLICO Pastor Pedofilia. 1
Morte da ex
ministra Luiza
Helena Bairros.
Criação da Frente
Ampla Brasil.
5º Congresso
Nacional da União
Sindicalista de Negros pela
PAULO PAIM PT
igualdade 6
Atentado ocorrido
numa boate gay em
Orlando.
Objetivos de seu
mandato.
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Dia Internacional
contra a homofobia,
lesbofobia e
transfobia.
Repúdio a forma
como as
GLEISI
Advogada
autoridades falaram 2
HOFFMAN PT sobre o atentado de
Orlando.
Manifestações
violentas nas redes
sociais.
Ameaças recebidas
nos meios virtuais
ANA AMÉLIA PP Jornalista
Limites para 2
defender seus
ideais.
ELMANO PTB Engenheiro Violência contra 1
idosos.
FÉRRER agrônomo
Processo de 1
impeachment
REGINA SOUSA PT Bancária
sofrido pela
presidenta Dilma
Rouseff.
ÂNGELA PT Professora Crimes cibernéticos 1
PORTELA
JOÃO PSB Zootecnista Atentado ocorrido 1
numa boate gay em
CAPIBERIBE
Orlando.
HUMBERTO PT Médico Processo de 1
impeachment
COSTA
sofrido pela
presidenta Dilma
Rouseff.
MÁRCIA Primeira dama Lei do Feminicidio, 1
do Distrito e Lei Maria da
ROLLEMBERG
Federal. Penha.
CIDINHO PR Empresário Processo de 1
impeachment
SANTOS
sofrido pela
presidenta Dilma
Rouseff.
MARCO Ministro do 1
Participação
AURÉLIO STF
feminina na
MELLO politica.

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MARTA SUPLICY PMDB Psicóloga Posicionamento do 1
Brasil em relação a
crimes
homofóbicos.
LÍDICE DA PSB Economista Dados sobre
homicídios no
MATA
Brasil. 2
Desarmamento.

Atentado ocorrido
numa boate gay em
Orlando.
Observações sobre
o governo de
Cursou
Michel Temer.
Medicina e
Direito (sem Processo de
concluir) impeachment
LINDBERGH PT
sofrido pela 4
FARIAS presidenta Dilma
Rouseff.
Processo de
impeachment
sofrido pela
presidenta Dilma
Rouseff.

 Posições favoráveis.
 Posições indefinidas
 Posições contrárias.

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Posições indefinidas.

Foram mapeados dois pronunciamentos de posicionamento indefinido. O senador


Jorge Viana (PT-AC) no dia 14/06/2016 faz um pronunciamento em que também se solidariza
aos familiares das vítimas do atentado ocorrido em Orlando. E afirma que o desespero vivido
no maior atentado nos Estados Unidos depois do 11 de setembro chocou o país das armas,
mas deve “servir de lição para um país que diz que não faz guerra com ninguém, que não é o
país das armas - que é o nosso País -, mas que contabiliza mais de 50 mil assassinatos por
ano. ”

Os familiares do atirador dizem que talvez não tenha sido por questões
religiosas, mas por um posicionamento dele em relação à comunidade gay.
Independentemente das causas, isso é algo que nos faz pensar e, mais do que
isso, nos impõe tomar algumas atitudes.

O senador Elmano Férrer (PTB-PI) no dia 13/06/2016 faz um pronunciamento sobre


violência contra idosos, mas menciona rapidamente e se solidarizara “com as vítimas e as
famílias das vítimas da grande tragédia, da grande truculência ocorrida domingo, ontem, em
Orlando, nos Estados Unidos. ”

Posições favoráveis à diversidade sexual.


Foram localizados 31 pronunciamentos favoráveis à diversidade sexual. Gleise
Hoffman (PT-PR) em um pronunciamento realizado no dia 13/06/2016 se solidarizar com as
famílias e amigos das “50 vítimas assassinadas na boate em Orlando, na madrugada de
ontem, e também com os mais de 50 feridos que estão sendo atendidos. O terrorismo deu ao
mundo mais um evento de ódio, preconceito e, sobretudo, de fraqueza, de covardia. ” A
senadora lista uma série de autoridades que mencionam o ocorrido condenando o terrorismo
islâmico, mas não fazem nenhuma alusão ao perfil das vítimas. Os pronunciamentos não
mencionam que as vítimas são homossexuais.

Mas eu quero aqui também repudiar a forma como muitas pessoas e


principalmente autoridades têm tratado esse assunto. Tem ficado cada vez
mais claro o desprezo aos gays, o que não se restringe apenas aos terroristas.
Acho que a pessoa que teve melhor compreensão e melhor posicionamento
sobre este fato foi o Presidente Obama, que foi o mais correto. Ele disse que
o ataque é, antes de tudo, fruto do extremismo interno dos Estados Unidos.

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Além disso, Gleise Hoffman (PT-PR) menciona que os comentários nas redes sociais
aqui no Brasil são “horrorosos” e que fica muito chocada de “ver que muitos o fazem em
nome de Deus e de princípios cristãos. Esquecem-se de que Deus é amor na essência,
tolerância, compreensão, convivência”.
Em outro pronunciamento realizado no dia 11/05/2016, a senadora Gleise Hoffman
(PT-PR) menciona novamente que fica assustada com a forma como as pessoas estão se
manifestando nas redes sociais, nas ruas, externando suas posições relativas à violência, ao
enfrentamento das diferenças.
Nós não temos a conquista suficiente do exercício da tolerância para deixar
no passado o autoritarismo, a ignorância fascista, e, infelizmente, cresce entre
nós aqueles que acham que a violência e a força devem prevalecer. Líderes de
direita incitam manifestações contra minorias, contra negros, contra
homossexuais, contra mulheres, contra os pobres.

Fátima Bezerra (PT-RN) no dia 13/06/2016 também faz um pronunciamento cujo


tema é o atentado ocorrido em Orlando. A senadora afirma que esse crime é um atentado a
todos os defensores dos direitos humanos; ela lamenta que esse “discurso de ódio se expanda
a cada dia e que, em nosso País, tem sido alimentado, inclusive, por governantes e por
Parlamentares. ” Na opinião de Fátima Bezerra, “a cor da pele não é uma doença, mas o
racismo, sim. A homossexualidade não é uma doença, como querem alguns, mas a
homofobia é.”. Ela traz os seguintes dados no decorrer do discurso:

No Brasil ocorre um caso de estupro a cada 11 minutos, se considerarmos


apenas as estatísticas oficiais, ou um a cada minuto, segundo as estimativas,
já que, por medo, a maioria das mulheres não denuncia o agressor. Não é à
toa que, no Brasil, um LGBT é assassinado a cada 23 horas. Não é à toa que,
no nosso País, um jovem negro tenha duas vezes e meia mais chance de ser
morto do que um jovem branco.

A senadora Ângela Portela (PT-RR) no dia 22/06/2016 realiza um pronunciamento


que tem como fosse o crescente aumento de crimes cibernéticos. A senadora cita os crimes
que são cometidos na própria internet, como pornografia infantil, pedofilia e etc., Mas
também os que são tramados, articulados ou simplesmente difundidos por essa via.

Veja o caso bárbaro do ataque a uma boate em Orlando, Flórida, no que se


configurou homofobia extrema. Não há ainda provas de que esse crime tenha
sido organizado pela internet. Sabe-se, porém, que o assassino se comunicou
pela web com o chamado Estado Islâmico. Costumava instruir-se
nos sites criados pelos radicais.

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O senador Paulo Paim (PT-RS) no dia 13/06/2016 através de uma audiência pública
que contou com o apoio de estudiosos, sociólogos redigiu uma nota pública sobre o
“massacre terrorista homofóbico LGBT de Orlando.”. Ele afirma que infelizmente, no
Brasil não é diferente, a comunidade gay sofre muitas perseguições e isso precisa ser
discutido. Dentre os trechos da nota, estão:

A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado


Federal repudia, veementemente, o assassinato terrorista e homofóbico
LGBT de 50 pessoas ocorrido na madrugada de domingo, dia 12, em
Orlando, Flórida, Estados Unidos da América. O local era frequentado pela
comunidade LGBT. Inadmissível calar-se frente a tal barbárie. O grau de
intolerância, ódio, discriminação, homofobia e racismo que vivenciamos
todos os dias mostra que estamos muito distantes da tão sonhada convivência
pacífica e harmoniosa no planeta Terra.

Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) no dia 30/05/2016 também discursa acerca do


processo de impeachment e afirma que embora a presidenta Dilma tenha um nível de
aprovação baixo, a aprovação de Michel Temer é muito pior. Exemplo disso foi a Parada
LGBT em São Paulo que reuniu mais de dois milhões de pessoas:

E o que as pessoas estavam lá dizendo? "Liberdade. Amar sem temer", que,


na realidade, é amar "sem Temer". Então, aquilo virou um ato contra o Temer.

A senadora Regina Sousa (PT-PI) no dia 11/05/2016 se mostra contrária ao processo


de impeachment e afirma que já está muito claro quem “vai pagar o pato: negros, indígenas,
mulheres, população LGBT, religiões de matriz africana, política de quotas, Bolsa Família,
Minha Casa, Minha Vida, Luz para Todos. Aguardem. Não faz parte do programa dos que
estão usurpando do poder subsidiar programa para mais pobre. ”
Fátima Bezerra (PT-RN) no dia 09/08/2016 afirma que está vendo o desfecho do golpe
que foi tramado contra Dilma e faz as seguintes considerações:
Foram os Governos do PT que mais investiram e promoveram o respeito às
instituições para que tanto o Poder Judiciário como a Polícia Federal e o
Ministério Público tivessem ampla autonomia de investigação, para levar
adiante operações como a Lava Jato. Houve um incitamento ao ódio ao PT, à
esquerda brasileira, aos movimentos sociais e, com isso, cresceu, neste País,
sim, o conservadorismo, a discriminação, a intolerância com os mais pobres,
com os negros, com a população LGBT.

Paulo Paim (PT-RS) no dia 12/07/2017 pede um minuto de silêncio pela morte da ex-
ministra Luiza Helena Bairros. O senador afirma que ela combatia todo tipo de preconceito.
Fosse negro, fosse índio, fosse cigano, fosse LGBT, fosse liberdade religiosa, fosse matriz
africana, fosse evangélico, fosse católico, ela estava na linha de frente.

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Em outro pronunciamento, realizado no dia 24/06/2016, o senador Paulo Paim (PT-
RS) menciona o 5º Congresso Nacional da União de Negros Pela Igualdade, onde foi
discutida a importância do combate a todo o tipo de preconceito ao povo negro. “E também
foi muito enfatizado lá, o combate à violência contra as mulheres e o fim do extermínio da
juventude negra e da população LGBTT. ” Esse é o único pronunciamento que a sigla
aparece como LGBTT e não LGBT.
Paulo Paim (PT-RS) no dia 14/09/2016 discursa sobre a criação da Frente Ampla
Brasil. Segundo o senador, a Frente Ampla Brasil visa “unificar aqui dentro do Parlamento
mais de 20, 30 frentes que foram montadas para combater as investidas das reformas do
Governo que está aí. ” Descreve o movimento da seguinte maneira:
Queremos unir todos nessa bela caminhada pela democracia e pelos direitos
do nosso povo e da nossa gente. A Frente Ampla Brasil vai unir brancos,
negros, índios, ciganos, mulheres, LGBT, jovens, idosos, assalariados no
campo e na cidade, aposentados e pensionistas, imigrantes, religiosos - não
importa a religião -, pobre, sem-teto e sem-terra em cima de um conceito, Sr.
Presidente, que não é definitivo. Eu dizia hoje que a Frente Ampla Brasil não
tem dono, não tem nem nome, nem queremos ter. É, como diria, organizar os
desorganizados em cima de causas.

Em outro pronunciamento, o senador Paulo Paim (PT-RS) no dia 19/05/2016 afirma


que durante todo o seu mandato procurou defender e colocar o ponto de vista dos negros,
índios, sem-terra, comunidade LGBT e assim por diante. O senador afirma:

O meu mandato busca quebrar paradigmas e valorizar os segmentos da


sociedade historicamente discriminados e excluídos, trazendo, assim, para
dentro do Congresso Nacional, a voz de negros, de brancos, de índios, de
ciganos, de pessoas com deficiência, de trabalhadores do campo e da cidade,
de empreendedores com responsabilidade social, de mulheres, de idosos, de
aposentados, de pensionistas, de trabalhadores de todas as áreas, de jovens,
de grupos LGBT, por exemplo, e mesmo daqueles que têm a sua visão
religiosa diferente, porque todos têm direito a ter a sua visão quanto à
religião.

No dia 13/06/2016, o senador João Capiberibe (PSB-AP) também fez um


pronunciamento em que diz considerar desumana e incompreensível a chacina de Orlando.
“Parece-me uma clara demonstração de terrorismo homofóbico. Para mim, não tem outra
explicação que o terrorismo homofóbico.”

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Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) no dia 28/06/2016 realiza um longo pronunciamento
que versa sobre o Dia Internacional do Orgulho LGBT. A senadora afirma que o dia 28 do
mês de junho, é um dia de lutar contra o preconceito, contra a discriminação, um dia de lutar
contra o ódio.
Essa data faz alusão ao episódio que ficou conhecido como Stonewall, nome
de um bar frequentado por grupos da comunidade lésbica, gay, bissexual,
transexual e travesti de Nova York, e que, na exata noite do dia 28 de junho
de 1969, teve os seus frequentadores presos pela polícia, levando a vários
dias de protestos, manifestações, não só em Nova York, mas em várias outras
cidades contra o que estava ocorrendo naquele momento. Veja, em 1969,
pessoas foram presas porque frequentavam boates de lésbicas, de gays.

Vanessa Grazziotin também lembra o fato de que infelizmente, também, nos Estados
Unidos, o mundo acompanhou recentemente e de forma atônita a morte de 50 pessoas numa
boate igualmente voltada para o público LGBT, desta vez, na cidade de Orlando, na Flórida.
A senadora afirma que é em nome de entidades como a União Nacional LGBT que faz esse
pronunciamento, cujo objetivo é exatamente lutar contra todas as formas de discriminação de
gênero, sistêmicas ou não, particularmente aquelas que afetam as mulheres lésbicas, os
travestis e os transexuais.
Além disso, no mesmo pronunciamento a senadora cita uma entrevista que o Papa
Francisco concedeu a jornalistas do mundo inteiro, em que ele “afirma que os cristãos devem
pedir perdão por ter acompanhado tantas decisões equivocadas; E ainda seguiu o Papa
durante a sua entrevista: Eu creio que a Igreja não só deve pedir desculpa a essa pessoa que
é gay e que ofende...”. Segundo a senadora, o Papa vem respaldando o pensamento de
ilustres brasileiros como, por exemplo, o Ministro Marco Aurélio, quando ele disse, após o
Supremo Tribunal Federal julgar por unanimidade, igualando e reconhecendo a união
homoafetiva:
As garantias da liberdade religiosa e do Estado laico impedem que
concepções morais e religiosas guiem o tratamento estatal dispensado a
direitos fundamentais, tais como o direito à dignidade da pessoa humana, o
direito à autodeterminação e à privacidade e o direito à liberdade de
orientação sexual.

Lindbergh Farias (PT-RJ) em um pronunciamento realizado no dia 12/07/2016 faz


diversas considerações sobre os dois meses desde a posse de Michel Temer como presidente
interino. No decorrer do discurso, o senador menciona:

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Quando houve o atentado nos Estados Unidos, lá na Flórida, aquele massacre
na boate gay norte-americana... É impressionante: o Presidente Obama fez o
corte da questão ali - que era importante -, que foi a questão LGBT, porque
foi um atentado terrorista e foi um atentado terrorista numa boate gay. Aqui,
o Presidente do Brasil e o Ministro das Relações Exteriores, numa nota
econômica, fazem questão de não falar disso, pois quem faz parte da base
deles? Os seguidores de Marco Feliciano e Jair Bolsonaro. Essa turma é que
está dando sustentação a eles.

Em outro pronunciamento, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) no dia 13/06/2016


também menciona o atentando em que “Omar Mateen, armado da letalidade possante de um
fuzil AR-15, invade uma casa noturna LGBT em Orlando, Flórida, Estados Unidos, e dispara
fogo a esmo contra os presentes. ” O senador também repudia a nota do Itamaraty que
condena atos de terrorismo, mas se omite de condenar a homofobia como motivação do
atentado. Ele afirma que nenhuma palavra na nota do Itamaraty “nota vacilante do Itamaraty,
a nota covarde do Itamaraty não passou despercebida pelas diversas lideranças do
movimento LGBT brasileiro, que a criticaram abertamente nas redes sociais. ”
Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) em 13/06/2016 menciona o pronunciamento de
Lindbergh Farias citado acima e proferido no mesmo dia. Ambos acreditam que “aquela foi
uma ação de ódio, aquela foi uma ação de preconceito, aquela foi uma ação de intolerância,
contra pessoas que têm a liberdade, que têm o direito de tomar o seu próprio caminho, ou
seja, contra gays, contra lésbicas, contra travestis. ” Também compartilha do posicionamento
do senador ao demonstrar surpresa ao fato de que:
Alguns meios de comunicação tentem registrar esse fato como sendo somente
um fato de terrorismo. Pode até ser, porque o Estado Islâmico reivindicou
para si o atentado que levou à morte de 50 pessoas; até acredito que seja um
ato de terrorismo, mas dirigido aos homossexuais. Isso é lamentável,
principalmente se nós detectarmos que, no Brasil, vivemos um problema
grave, um problema sério, que vem crescendo nos últimos anos também, de
demonstração de ódio, de demonstração de intolerância, de demonstração de
discriminação não só às mulheres, mas, também e principalmente, aos
homossexuais.

Humberto Costa (PT-PE) no dia 05/07/2016 afirma ser parte da oposição do governo
Temer. E diz que se o golpe se concretizar, voltaremos a viver num Brasil que ninguém quer
de volta:

Será o Brasil que condenou milhões à miséria extrema, à pobreza absoluta, à


exclusão social e à exclusão da cidadania. Será o Brasil do conservadorismo,
das ideias retrógradas, onde as mulheres, os jovens, os gays são colocados em
uma posição de discriminação permanente e negativa nos seus direitos e no
atendimento às suas demandas.

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Fátima Bezerra (PT-RN) em pronunciamento realizado no dia 13/07/2016 afirma que
não é por acaso que se está testemunhando atentados contra as sedes de partidos progressistas,
agressões físicas contra militantes de esquerda, violência arbitrária e gratuita contra gays,
lésbicas, travestis bissexuais e transexuais, militarização das escolas, criminalização geral e
irrestrita da política. A senadora diz que é fundamental derrotar o projeto da Escola sem
Partido, e lutar para conter a onda ultraconservadora que tenta inundar a nossa sociedade
brasileira.
Em outro pronunciamento, Fátima Bezerra (PT-RN) no dia 22/06/2016 realizou um
pronunciamento cujo tema é a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de acatar a
denúncia do Ministério Público e autorizar a abertura de duas ações penais contra o Deputado
Jair Bolsonaro, por apologia ao crime e por injúria. No decorrer do pronunciamento, a
senadora lembra diversos episódios em que o Jair Bolsonaro “ofendeu a dignidade das
pessoas” afirmando que:
Esse senhor não tem limites, não tem respeito por ninguém, usa a tribuna do
Parlamento brasileiro para destilar seu ódio contra os homossexuais e as
mulheres.

Lindbergh Farias (PT-RJ) no dia 11/05/2016 faz um longo pronunciamento sobre o


processo de impeachment; as palavras referentes à diversidade sexual aparecem no seguinte
contexto:

O maior derrotado nesse processo do impeachment se chama PSDB (Partido


da Social Democracia Brasileira). (...) E sabe por que isso? Eles não tiveram
coragem e altivez de demarcar campo com aqueles que defendiam a
intervenção militar. Ficaram de braços dados com Bolsonaro. Não
demarcaram um campo. Não demarcaram um campo com aqueles que, nas
ruas, no campo dos valores, faziam um discurso preconceituoso, contra gays,
contra lésbicas, um discurso machista, um discurso racista. Eles se perderam
nisso tudo.

Em outro pronunciamento, Lindbergh Farias (PT-RJ) no dia 03/06/2016 retoma o tema


do discurso citado acima e afirma novamente que o partido que mais perdeu com esse
processo do impeachment foi o PSDB. O senador afirma que o PSDB em nenhum momento
durante processo do impeachment “procurou se diferenciar da direita de Bolsonaro.” E relata
que:

Vocês, em nenhum momento, se diferenciaram do pessoal que defendia a


intervenção militar, a ditadura militar. Foram de bracinhos dados com o
Bolsonaro e perderam espaço para esse pessoal. E há mais uma coisa: não se
diferenciaram no plano dos valores. Todo um discurso de ódio, machista,
racista, de preconceito aos nordestinos, à comunidade LGBT, e os senhores
colados com essa extrema direita
Página | 85
A palavra-chave transexual tem especial destaque no pronunciamento de Márcia
Rollemberg no dia 17/08/2016 que versa sobre a política de enfrentamento da violência contra
a mulher, com a criação da Secretaria, com a Lei Maria da Penha, em 2006 e, atualmente, com
a Lei do Feminicídio que inseriu as mulheres transexuais.

Quero cumprimentar a Vera Lúcia, a Lúcia Bessa, a Iara Lobo, a Jane Klébia
e a Márcia de Alencar, que implementou agora um Núcleo de Enfrentamento
ao Feminicídio permanente em Brasília, capacitando todo o sistema de
segurança com relação a essa pauta e, inclusive, inserindo também as
mulheres transexuais. O nosso compromisso é de levar isso adiante.

Lídice da Mata (PSB-/BA) em seu pronunciamento no dia 13/07/2016 relata que O


Brasil é o país com o maior número de homicídios no mundo: 56 mil em 2012. Desse total,
anualmente são assassinados cerca de 31 mil jovens entre 15 e 29 anos de idade. E, destes, 23
mil são negros e, em sua grande maioria, moradores de periferias. Além do racismo, outro
viés da violência que cresce de forma alarmante e assombra nossa juventude são os crimes por
homofobia. A senadora defende que nem a etnia, nem a condição social, nem a orientação
sexual podem motivar quaisquer atos de violência.
Em outro pronunciamento realizado no dia 14/06/2016, a senadora Lídice da Mata
(PSB-BA) afirma que o crime ocorrido em Orlando foi uma “demonstração de como mata e
quão violenta é a marca do ódio contra a homofobia.” Ela afirma que esse crime chamou a
atenção do mundo, não só por ter sido uma expressão máxima de preconceito, mas também
pelo fato de que “aqueles que foram mortos não foram mortos por uma bomba; foram mortos
por armas de fogo.” Desse modo, prosseguiu seu discurso voltado para a temática do
desarmamento.
Marco Aurélio Mendes de Faria Mello19 no dia 08/03/2016 faz um pronunciamento
que versa sobre a participação feminina na política. E afirma que nossa sociedade percorreu
um caminho difícil que revela uma herança de violência e de desrespeito à mulher e às
minorias.

19
Ministro do STF.

Página | 86
O tratamento dispensado à defesa dos direitos da mulher e das questões de
gênero deve considerar a opção legislativa pelo Estado laico, no que, se, de
um lado, estabelece a liberdade religiosa, de outro impede a que seja a
religião tratada como fonte normativa quanto à disciplina de outros direitos
fundamentais, como o direito à autodeterminação, à privacidade, à liberdade
de orientação sexual e à liberdade no campo da reprodução.

O senador Cidinho Santos (PR-MT) no dia 25/08/2016 diz apoiar o processo de


impeachment contra a presidente Dilma e afirma que com isso, “estaremos encerrando um
capitulo triste da nossa história”. A palavra-chave orientação sexual aparece no seguinte
contexto:
Espero que a partir deste momento nós possamos reunificar o nosso País e
acabar com as divisões de classes entre a elite e os pobres, entre negros e
brancos, entre pessoas com orientações sexuais ou religiões diferentes, que
foram tão estimuladas nos últimos anos. É momento de pacificar o País,
superar a crise e seguir em frente.

A palavra-chave orientação sexual aparece no pronunciamento de Ana Amélia (PP-


RS) realizado no dia 04/04/2016 aparece num aparte concedido à senadora Gleise Hoffman
(PT-PR) que se posiciona dizendo que acredita sim que devemos lutar pelo que nós
acreditamos e defender nossas ideias, mas que devemos ter alguns limites. A senadora relata
os seguintes casos:
Eu lembro aqui, por exemplo, um episódio que me deixou muito chocada,
que foi o velório do nosso ex-Senador José Eduardo Dutra. José Eduardo
Dutra morreu, foi feito o velório dele, e o velório foi invadido com um monte
de panfletos contra o PT, com o pessoal dizendo que petista bom era petista
morto, quer dizer, não respeitando a dor naquele momento. Assim como eu
também vejo as expressões, por exemplo, do Deputado Bolsonaro incitando o
ódio, a misoginia, a questão de raça, a questão de orientação sexual; e as do
Pastor Silas Malafaia, que fica pregando na televisão o tempo inteiro, e que
faz isso em nome de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo, um ser que pregou
a paz, o amor ao próximo e a tolerância.

O senador Paulo Paim (PT-RS) no dia 17/05/2016 fez um pronunciamento em que


chamou a atenção para o Dia Internacional contra a Homofobia, Lesbofobia e Transfobia.
“Hoje, 17 de maio, o mundo celebra o Dia Internacional contra a Homofobia, Lesbofobia e
Transfobia. No Brasil, a data faz parte do calendário oficial desde 2010.” O senador
menciona que foi nessa data, em 1990 que:

Página | 87
A Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da
Classificação Internacional de Doenças. Desde então, o dia se tornou símbolo
da luta por direitos humanos, pela diversidade, em épocas em que a gente
nota que o atual Governo não tem essa preocupação do corte da diversidade,
que nos preocupa muito, porque nós aprendemos a respeitar posições
diferentes, e a diversidade deveria estar na linha de frente de um debate
daqueles que têm compromisso com os direitos humanos. Informo, ainda,
que, por sugestão popular, o Senado analisa sugestão legislativa sobre o tema
para que esse tipo de crime de discriminação por orientação sexual seja
também crime inafiançável e que não prescreva.

Marta Suplicy (PMDB-SP) no dia 14/06/2016 realizou um pronunciamento cujo tema


é a moção feita pelo Senador Paim e pela Comissão de Direitos Humanos, em relação aos
assassinatos homofóbicos ocorridos nos Estados Unidos. A senadora afirma que o Brasil:
Não está tendo posições muito firmes em relação aos crimes homofóbicos, e
isso a gente tem reiterado muitas vezes. Tanto que a própria Comissão da
Reforma Penal passou retirando na Comissão tudo o que foi relativo a
direitos de combate à homofobia. Há emendas minhas, do Senador Randolfe
e de vários Senadores, o que está parado na CCJ há mais de ano agora.

A senadora Ana Amélia (PP-RS) em um pronunciamento realizado no dia 18/04/2016


afirmou ter recebido em seu celular e nos meios virtuais diversas mensagens ameaçadoras e
confessa ter ficado preocupada de que essas ameaças pudessem se concretizar no mundo real.
Ela afirma que uma demonstração de uma maturidade política extraordinária se daria se as
bandeiras vermelhas, as bandeiras verde-amarelas e as bandeiras do arco-íris do LGBT,
vivessem numa convivência harmoniosa.

Posições contrárias à diversidade sexual.


Foi encontrado apenas um pronunciamento contrário à diversidade sexual. Magno
Malta (PR-ES) no dia 06/07/2016 realiza um pronunciamento que relembra a CPI da pedofilia
que ele presidiu. Ele relata em seu discurso o caso da Pastora Bianca Toledo, casada com o
pastor Felipe Heiderich e “descobriu que esse falso pastor, estava abusando do seu filhinho de
cinco anos de idade. ” Esse pastor se encontra preso no Rio de Janeiro, numa das unidades de
Bangu.
Ele tentou suicídio, foi internado e, lá, confessou seu abuso e assumiu seu
homossexualismo - até aí, não tenho nada a ver com isso. A regra da boa convivência
é o respeito. Quer ser homossexual, a opção é sua, o problema é seu. (...) E reafirmo:
não há pastor pedófilo; há criminoso que entra no exercício sacerdotal; há padre
criminoso no exercício sacerdotal.

Página | 88
Magno Malta (PR-ES), líder religioso e protagonista na luta contra o aborto e contra a
diversidade sexual, é o único parlamentar a utilizar a palavra homossexualismo. Desde 1973
quando os Estados Unidos retirou homossexualismo da lista dos distúrbios mentais da
American Psychology Association o termo foi caindo em desuso. No Brasil, em 1999, o
Conselho Federal de Psicologia formulou a Resolução 001/9920, considerando que “a
homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio, nem perversão. ” O sufixo ‘ismo’
(terminologia referente à doença) foi substituído por ‘dade’ (que remete a ‘modo de ser’).

 PROPOSIÇÕES LEGISLATIVAS.
Ao longo do ano de 2016 foram encontrados 5 requerimentos e 1 sugestão legislativa
contendo a temática da diversidade sexual, totalizando 6 proposições legislativas todas com
posicionamento, favorável à diversidade sexual.

PARLAMENTAR PARTIDO RELIGIÃO PROFISSÃO PROPOSIÇÃO TEMA DA


LEGISLATIVA PROPOSIÇÃO
FÁTIMA PT Pedagoga Requerimento Realização de uma
audiência pública
BEZERRA Nº: 63/2016
com o objetivo de
debater o Ambiente
Educacional no
Brasil com foco nas
experiências de
adolescentes e
jovens LGBT.
PAULO PAIM PT Sindicalista Requerimento Realização de uma
audiência pública
Nº: 131/2016
para debater na
Comissão de
Direitos Humanos
meios para
combater à
violência contra --
LGBTTS
LUIZIANNE PT Jornalista Requerimento Realização de uma
audiência pública
LINS Nº: 06/2016
para debater a
situação da
violência contra as

20
Disponível em: http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/1999/03/resolucao1999_1.pdf Acesso em:
01/03/2017.

Página | 89
mulheres trans e
travestis.
COMISSÃO DE Requerimento Realização de uma
DIREITOS Nº: 159/2016 audiência pública
HUMANOS para debater
experiências
educacionais no
Chile, Brasil e
Uruguai.
PROGRAMA Sugestão Propõe a
E-CIDADANIA Legislativa criminalização da
Nº: 5/2016 discriminação por
orientação sexual e
identidade de
gênero equiparando
ao crime de
racismo.
MARTA PMDB Psicóloga. Requerimento Requer a inserção
SUPLICY Nº: 443/2016 em ata do voto de
RANDOLFE REDE Professor solidariedade à
RODRIGUES comunidade LGBT
em decorrência do
atentado em
Orlando.

 Posições favoráveis.
 Posições indefinidas
 Posições contrárias.

Página | 90
O requerimento nº 63/ 2016 de autoria da Senadora Fátima Bezerra (PT-RN) versa
sobre a realização de uma audiência pública no Senado, com o objetivo de debater e
apresentar os resultados da Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil com
foco nas experiências de adolescentes e jovens LGBT. O requerimento solicita assim a
presença dos seguintes convidados:
1. Representante da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Travestis e Transexuais - ABGLT; 2. Representante do Ministério da
Educação 3. Representante da Gay, Lesbian & Straight Education
Network (GLSEN - EUA); 4. Representante do Ministério Público
Federal; 5. Representante da UNESCO; 6. Representante do Conselho
Nacional de Educação; 7. Representante da Secretaria Especial de
Direitos Humanos do Ministério da Justiça e Cidadania; 8. Representante
da União Brasileira de Estudantes Secundaristas.

O requerimento nº 131/2016 de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS) solicita a


realização de outra audiência pública para debater na Comissão de Direitos Humanos meios
para combater a violência contra - Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Transexuais e
Simpatizantes - LGBTTS”.
Marta Suplicy (PMDB-SP) e Randolfe Rodrigues (REDE-AP) são os autores do
requerimento nº: 443/2016 que requer, “nos termos do art. 222 do Regimento Interno do
Senado Federal, inserção em ata de voto de solidariedade ao povo norte-americano e à
comunidade LGBT em decorrência do atentado ocorrido na cidade de Orlando, nos Estados
Unidos.”
O requerimento nº: 6/2016 de autoria da deputada federal Luizianne Lins (PT) requer
uma audiência pública para debater a situação da violência contra as mulheres trans e
travestis.
A Comissão de Direitos Humanos representada por Fátima Bezerra, Paulo Paim e
Regina Souza são autores do requerimento nº 159/2016 requer a realização de uma audiência
pública na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal
conjunta com a Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal; em colaboração
com a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e com a Comissão de
Educação, Ciência, Tecnologia e Esporte do Parlamento do Mercosul, para "conhecer e
debater experiências exitosas adotadas nas escolas do Brasil, Chile e Uruguai, no combate à
violência contra estudantes LGBT".
A sugestão legislativa nº: 5/2016 de autoria do programa e-cidadania propõe a
criminalização da discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, equiparando ao
crime de Racismo".
Página | 91
Tabela de posições contrárias à diversidade sexual a partir dos
pronunciamentos e das proposições legislativas. (SENADO FEDERAL)

PARTIDO Nº DE DEPUTADOS POR DEPUTADOS


PARTIDO

1 MAGNO MALTA
PR

Tabela de posições favoráveis à diversidade sexual a partir dos pronunciamentos e das


proposições legislativas. (SENADO FEDERAL)

PARTIDO Nº DE DEPUTADOS POR DEPUTADOS


PARTIDO

PCdoB 1 VANESSA
GRAZZIOTIN

PR 1 CIDINHO SANTOS

LINDBERGH FARIAS
8 FÁTIMA BEZERRA
PAULO PAIM
PT LUIZIANNE LIINS
GLEISE HOFFMAN
HUMBERTO COSTA
ANGELA PORTELA
REGINA SOUSA
PMDB 1
MARTA SUPLICY

REDE 1 RANDOLFE
RODRIGUES
PSB 2
LÍDICE DA MATA
JOÃO CAPIBERIBE
PP 1
ANA AMÉLIA

A posição desfavorável de Magno Malta aparece isolada novamente. Assim como na


ALERJ, a tabela de posições favoráveis à diversidade sexual é a mais diversificada em relação
aos partidos. Ela reúne partidos de diferentes posicionamentos ideológicos, não sendo

Página | 92
possível afirmar uma clara distinção entre partidos de esquerda e direita como nos dados
referentes à temática do aborto.

CONCLUSÕES.

Foram analisados todos os discursos e todas as proposições legislativas do ano de


2016 no portal do Senado Federal e da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
Tendo em vista este levantamento, foi possível tirar algumas conclusões.
Na Alerj foram mapeados 8 discursos (sendo eles 6 pró-vida e 2 pró-escolha) e 7
proposições legislativas (sendo elas 3 de posicionamento indefinido, 2 pró-vida e 2 pró-
escolha) referentes à temática do aborto. No Senado Federal foram mapeados 19
pronunciamentos (sendo eles 5 pró-escolha; 7 pró-vida e 7 posições indefinidas) e apenas 2
proposições legislativas (ambas pró de posicionamento pró-vida) referentes à temática do
aborto.
As posições pró-escolha, ou seja, favoráveis à descriminalização do aborto na ALERJ
aparecem apenas em partidos que se denominam de esquerda: PSOL, PCdoB. No Senado
Federal, os parlamentares que se posicionaram pró-escolha também são de partidos
considerados de esquerda, nesse caso PT e PCdoB. Em contrapartida, as posições pró-vida
são defendidas massivamente por partidos de direita, com exceção do PDT que é considerado
um partido de “centro-esquerda”. O PDT é o único partido considerado de “esquerda” que
aparece tanto na ALERJ através de Jânio Mendes21, quanto no SENADO FEDERAL através
de Pastor Valadares22 defendendo posições pró-vida.
Dos 8 discursos proferidos na Alerj ao longo do ano de 2016, 4 manifestaram repúdio
em face da decisão do julgamento do Supremo Tribunal Federal dos ministros Luís Roberto
Barroso, Edson Fachin e Rosa Weber de que não consideram crime a interrupção voluntária
da gestação efetivada no primeiro trimestre, além de não verem requisitos que legitimassem a
prisão cautelar dos funcionários e dos médicos da clínica de Duque de Caxias, como risco à
ordem pública, à ordem econômica ou à aplicação da lei penal. No Senado Federal, o
parlamentar Magno Malta também se manifestou a respeito do assunto.
Outro tema protagonista no debate público acerca do aborto na Alerj foi a epidemia do

21
Jânio Mendes é declaradamente católico praticante da Renovação Carismática.
22
Pastor Valadares é evangélico ligado à Igreja Assembleia de Deus, Ministério de Madureira em Porto Velho.

Página | 93
vírus zika. Os deputados manifestaram intensas reações sobre o controle da gravidez, muito
mais do que solidariedade às mulheres que vivem o drama. O deputado Jânio Mendes (PDT)
afirmou que “alguns aloprados de plantão estão tentando associar a microcefalia a uma
oportunidade de legalizar o aborto. ” Em outros discursos, Jânio Mendes (PDT) compara a
microcefalia à síndrome de Down e afirma que é possível que as crianças cresçam felizes nos
dois casos. Em contrapartida, no Senado Federal houve apenas uma menção ao tema, feita
pelo senador e médico Marcelo Castro (PMBD), e não foi de viés conservador, como todas as
demais menções ao tema. Ele afirma que a epidemia do vírus zika “é um estado de
emergência da saúde pública mundial”
No que se refere à temática da diversidade sexual, na Alerj foram mapeados 14
discursos (sendo 11 posicionamentos favoráveis e apenas 3 posicionamentos contrários) e 11
proposições legislativas (sendo elas 10 posições favoráveis e apenas 1 contrária). Já no
Senado Federal, o número foi muito maior. Foram mapeados 34 pronunciamentos que
versavam sobre a temática da diversidade sexual (31 posicionamentos favoráveis, dois
indefinidos e apenas 1 contrário) e 6 proposições legislativas (todas com posicionamento
favorável à temática da diversidade sexual).
Independentemente de pertencimento partidário, todos os deputados que se
posicionaram contra a diversidade sexual na ALERJ, sem exceção, são religiosos. Jânio
Mendes (PDT) é católico; os dois deputados do PSC mencionados, Márcio Pacheco e Flávio
Bolsonaro também são católicos. O DEM é o partido com maior número de deputados
contrários à diversidade, dentre eles Milton Rangel (Igreja Mundial do Poder da fé), Felipe
Soares (Igreja Internacional da Graça) e Samuel Malafaia (Assembléia de Deus) são
evangélicos e Dr. Deodalto é católico. O restante dos posicionamentos desfavoráveis é do
PRB, em que ambos deputados mencionados, Carlos Macedo e Tia Ju são evangélicos da
Igreja Universal do Reino de Deus. No que diz respeito ao levantamento de dados no portal
do Senado Federal, o único senador que se posicionou contra a diversidade sexual também
possui forte pertencimento religioso, Magno Malta é pastor, evangélico batista.
Há poucos posicionamentos indefinidos nas proposições referentes à temática da
diversidade sexual, e há uma predominância das posições favoráveis. Na defesa de posições
pró-diversidade é possível identificar partidos de diversificados posicionamentos ideológicos,
tanto na ALERJ quanto no Senado Federal não sendo possível afirmar uma clara distinção
entre partidos de esquerda e direita como nos dados referentes à temática do aborto. Algumas
posições são sutis e o combate ao preconceito contra a orientação sexual não é o foco

Página | 94
principal vindo acompanhado do combate ao preconceito de raça, etnia, credo, classe social
no texto das proposições; mas outras são claramente militantes pela ampliação de direitos da
população LGBT.
No Senado Federal o atentado ocorrido na boate gay em Orlando foi tema principal de
5 pronunciamentos sendo mencionado, mesmo que rapidamente, em todos os demais
pronunciamentos prestando solidariedade ao ocorrido. Outro assunto que ganhou imenso
destaque foi a o processo de impeachment sofrido pela presidenta Dilma Rousseff.
Alguns ‘modelos de cidadania’ são criados e desfeitos em função do grande
engajamento de atores com posições conservadoras. Durante a pesquisa, constatou-se também
que apesar de haver atores sociais protagonistas de posições conservadoras cuja identidade
pública mais marcante não se refere à religião, é possível identificar que concepções
religiosas ajudam a fomentar uma linha de ação no mandato político dos deputados e
senadores. Há também uma grande coincidência entre os atores que se envolvem tanto no
debate sobre aborto quanto no debate sobre diversidade sexual.
Geralmente os parlamentares que são pró-vida também são os mesmos que condenam a
homossexualidade; e os parlamentares que são pró-escolha são amplamente mais favoráveis a
diversidade sexual no geral, a exemplo dos parlamentares do PSOL, PT e PCdoB que são
protagonistas tanto no debate em prol da diversidade quanto no debate sobre a descriminalização
do aborto. É possível justificar essa afirmação através do levantamento apresentado e do
engajamento dos deputados e senadores através dos dados exemplificados nas tabelas
apresentadas no decorrer do relatório.
Da mesma forma, os deputados Jânio Mendes (PDT) e Márcio Pacheco (PSC) e o
senador Magno Malta (PR), são todos religiosos e protagonistas do engajamento conservador em
ambas as temáticas. Todos os discursos contrários à descriminalização do aborto no Senado
federal são de autoria do senador Magno Malta (PR). Os parlamentares que apresentaram certo
protagonismo no debate com posições contrárias à diversidade sexual e a descriminalização do
aborto possuem uma forte adesão a valores religiosos.
Por meio do levantamento e análise dos discursos e das proposições legislativas foi
possível concluir que candidatos inseridos em determinado grupo religioso costumam
defender pautas específicas. Exemplo disso, é a tabela apresentada em que todos os deputados
que se posicionaram contrários a diversidade sexual, sem exceção são religiosos. Nas tabelas
detalhadas foram mapeadas as profissões dos parlamentares, mas não foi possível identificar

Página | 95
uma frequência de posicionamento de acordo com elas, do modo como foi possível constatar
regularidades quanto ao pertencimento religioso.
Dentre os argumentos acionados no debate público, o questionamento sobre o Estado
laico se mostra fundamental, além disso, o tópico dos direitos humanos no tocante a
reivindicações relacionadas ao aborto, incluindo aí o estatuto do nascituro, e o embate entre os
movimentos pró-vida, relacionados ou não a grupos religiosos e o movimento feminista no
tocante à legislação são muito presentes nos argumentos utilizados pelos deputados. Com
respeito à diversidade sexual, existe um choque de moralidades entre uma perspectiva que
defende a família tradicional sob três ângulos, o biológico, o religioso e o legal: é natural, foi
criada por Deus, sua definição como composta de homem e mulher está na Constituição. A
denúncia da violência também se mostra presente e se relaciona ao discurso dos direitos
humanos no caso de situações de lesbo/homo/bi/trans fobia.
O debate público acerca de aborto e diversidade sexual na ALERJ e no Senado Federal
é pautado em disputas referentes a valores morais que são capazes de definir acesso e
restrição a direitos através de legislações e políticas públicas.

Página | 96
PARTICIPAÇÃO EM EVENTOS DURANTE O PERÍODO DE
VIGÊNCIA DA BOLSA. (Agosto de 2016 à fevereiro de 2017)
 PARTICIPANTE:

IV RAIC. Título da comunicação oral: ABORTO E DIVERSIDADE SEXUAL:


ESTATUTO DO NASCITURO, HOMOFOBIA, INDIVIDUALISMO E
CONSERVADORISMO NO DEBATE PÚBLICO ACERCA DOS DIREITOS
HUMANOS NA ALERJ.

VIII ABEH. Congresso Internacional de estudos sobre a diversidade sexual e de gênero


da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura. (ABEH). Título da comunicação
oral: É possível aprender a aceitar? Um debate sobre a criação de um manual de instruções
para famílias com crianças em situação de intersexo.

DEFESA DE MONOGRAFIA. (R)existência na liminaridade: um debate sobre


intersexualidade, binarismos e família. 23 de Janeiro, no CPDA Rio de Janeiro.

 OUVINTE.

Participação como ouvinte no laboratório de pesquisa em ciências sociais com a temática


Família, Sexualidades, Religiões ministrado pela Profª Drª Naara Luna, em 2016.2
totalizando 45h aula.

40º Encontro Anual da ANPOCS realizado do dia 24 a 28 de outubro de 2016 no Hotel


Glória em Caxambu-MG.

Defesa de monografia de Iris de Macedo Rosa, intitulada “Estudo exploratório sobre


situações de violências na UFRRJ Seropédica” realizada no dia 15 de dezembro de 2016,
no PPG / UFRRJ – Campus Seropédica.

Defesa de monografia de Nildamara Theodoro Torrres intitulada “Uma cartografia social:


as dinâmicas de sociabilidade entre estudantes e moradores na cidade de Seropédica/RJ.
” realizada no dia 20 de fevereiro de 2017, no ICHS / UFRRJ – Campus Seropédica.

Mostra de dança da UFRRJ, realizada no dia 15 de fevereiro no Anfiteatro Gustavo Dutra,


UFRRJ- Campus Seropédica.

Página | 97
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

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coletiva, Out 2012, vol.17, no.10, p.2655-2664. ISSN 1413-8123

BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”. In: LOURO,
Guacyra Lopes (org). Corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte:
Autêntica, 2000. (p. PDF 110-127)

DIAS DUARTE, Luiz Fernando. Ethos privado e justificação religiosa. Negociações da


reprodução na sociedade brasileira. In: Sexualidade, família e ethos religioso. Org.
HEILBORN, Maria Luiza; DUARTE, Luiz Fernando Dias; PEIXOTO, Clarice; BARROS,
Myriam Lins de. Garamond, Rio de Janeiro, 2005

MONTERO, Paula. “Religiões Públicas” ou religiões na Esfera Pública? Para uma crítica ao
conceito de campo religioso de Pierre Bourdieu. Relig. soc., Jun 2016, vol.36, no.1, p.128-
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MOORE, Henrietta. Compreendendo sexo e gênero. Do original em inglês: “Understanding


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Routledge, 1997, p. 813-830. Tradução de Júlio Assis Simões, exclusivamente para uso
didático.

VITAL DA CUNHA, Christina; LOPES, Paulo Victor Leite. Peça de uma disputa política e
religiosa: o material didático do programa Escola sem Homofobia, In: Religião e política:
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WEEKS, Jeffrey. O corpo e a sexualidade. In: LOURO,Guacyra Lopes (org). Corpo


educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. (p. PDF
24-61)

Página | 98