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Sumário

Apresentação
Capítulo 1: Introdução à Epístola
Capítulo 2: O Prólogo
Capítulo 3: Uma Contundente Proibição de Revisão do Evangelho
Capítulo 4: Uma Firme Defesa da Origem Divina do Evangelho
Capítulo 5: A Liberdade e a Comunhão da Igreja Exsurgem do Consenso
Apostólico Quanto ao Evangelho
Capítulo 6: Um Embate entre Dois Apóstolos
Capítulo 7: A Argumentação Paulina no Embate com Pedro
Capítulo 8: Os Gálatas são veementemente repreendidos
Capítulo 9: Os Verdadeiros Filhos de Abraão
Capítulo 10: A Bênção e a Maldição
Capítulo 11: O Propósito da Lei no Sistema de Salvação pela Graça
Capítulo 12: Filhos e Herdeiros de Deus por meio de Cristo
Capítulo 13: Uma Revisão da História da Salvação - da Vida sob a Lei à
Liberdade de Filhos
Capítulo 14: Os Dois Únicos Sistemas Religiosos no Mundo: o Pagão e o
Cristão
Capítulo 15: Uma Inesperada Mudança nos Relacionamentos
Capítulo 16: Filhos da Livre, Não da Escrava
Capítulo 17: As Consequências do Abandono do Evangelho
Capítulo 18: A Indignação Apostólica contra os Pervertedores do Evangelho
Capítulo 19: A Luta entre a Carne e o Espírito
Capítulo 20: As Obras da Carne
Capítulo 21: O Fruto do Espírito – Parte 1
Capítulo 22: O Fruto do Espírito – Parte 2
Capítulo 23: Restaurando o Irmão Caído
Capítulo 24: Colhendo o que Foi Plantado
Capítulo 25: As Marcas da Luta

Apresentação

O leitor tem em mãos as notas que utilizei nos momentos


agradáveis e solenes nos quais expus a Carta aos Gálatas no púlpito da
Primeira Igreja Evangélica e Congregacional de Caruaru, a capital do
agreste pernambucano. A congregação acompanhou os sermões pregados ao
longo do segundo semestre de 2016 a 30 de abril de 2017 com atenção, e tem
percebido gradativamente tanto a importância de exposições bíblicas de
livros inteiros quanto, especificamente, da maviosa doutrina da justificação
da graça de Deus mediante a fé somente.
Sou grato a Deus pelo rebanho que Ele me confiou os cuidados e
oro para que os meus labores extenuantes dos bastidores do ministério lhes
resultem em edificação espiritual. E, como se essa misericórdia fosse
pequena, ainda suplico ao meu Senhor que, caso Lhe seja do agrado, gente
cristã de longe e de perto logre colher os frutos deste humilde serviço.
Finamente, lembro ao amigo leitor que essas notas são
disponibilizadas a um público maior no ano em que se celebra 500 anos da
Reforma Protestante, aquele grande movimento religioso-espiritual do
Espírito Santo que retirou dos escombros escuros das eras medievas a boa
nova de que Deus aceita o pecador em Seu favor por graça, mediante a fé.
Entretanto, se Paulo esclareceu o Evangelho da justificação e nos
séculos seguintes ele voltou a ser ocultado nas trevas da ignorância, não
devemos estranhar que séculos após a Reforma o desconhecimento da graça
de Deus justifique renovados esforços a fim de aclará-lo em nossa própria
geração. É, pois, o dever supremo dos arautos do Rei levantar-se com ousadia
e proclamar em voz altissonante a justificação, que “ainda é o artigo de fé no
qual a Igreja se sustenta ou fracassa”[1].
Soli Deu Gloria!
Caruaru, PE, primeiro de maio de 2017.
Ary Queiroz Jr.

Capítulo 1
Introdução à Epístola

É provável que Paulo tenha escrito sua Carta aos Gálatas em


algum momento do ano 49 d.C. Ele havia feito aquela que chamamos
primeira viagem missionária pelo sul da Galácia, ocasião em que plantou e
organizou as igrejas de Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia (At 14.21, 22).
De volta a Antioquia da Síria, cidade da igreja que o havia enviado (At 13.1-
3), soube de algum modo que após a sua partida da Galácia alguns
pregadores judeus andaram por suas igrejas semeando um novo ensino, de
certo modo[2].
Não era um ensino totalmente diverso, à primeira vista. A
diferença, a olhos desavisados, era sutil. Provavelmente, esses mestres judeus
– que doravante chamaremos judaizantes – diziam de plano que Paulo não
era apóstolo, pelo menos do mesmo nível dos doze, porque havia sido
vocacionado após a morte, ressurreição e ascensão de Jesus. Quanto ao
ensino de Paulo, os judaizantes pregavam que Paulo não estava totalmente
errado, mas que a mensagem dele era incompleta, que lhe faltavam alguns
detalhes importantes, que eles, os judaizantes, estavam ali para corrigir.
O ensino dos judaizantes afirmava basicamente que para que uma
pessoa se acerte com Deus, seja aceita por Deus e goze do favor de Deus, é
necessária fé em Cristo acrescida da observância de pelo menos alguns
aspectos da lei cerimonial mosaica, quais sejam: a necessidade da
circuncisão (2.3,4; 5.2; 6.12), a observância do calendário judaico,
sobretudo do sábado (4.10), e a permanência nos limites da dieta judaica
(pelo que se pode concluir de 2.11,12).
Quando Paulo soube do que estava ocorrendo em suas igrejas,
eclodiu nele, simultaneamente, um turbilhão de emoções, no meio das quais
escreveu Gálatas. Eis a beleza da nossa Carta. Ela é uma Carta
apaixonadamente urgente, intensa, que revela preocupação de quem ama
quando o que está em jogo é a coisa mais importante da vida presente e futura
- o modo como Deus aceita pecadores em Seu favor.
Estas emoções do apóstolo estão em todos os lugares da Carta.
Por um lado, ele está perplexo, admirado, irritado, com a volatilidade dos
crentes gálatas. Simplesmente não entende como cogitam afastar-se do
evangelho da graça para os rudimentos pobres deste mundo (1.6; 4.9).
Chama-lhes de insensatos (3.1,3) e diz-lhes: “Eu gostaria de estar com vocês
agora e mudar o meu tom de voz, pois estou perplexo quanto a vocês” (4.20).
Receia que tenha se esforçado tanto inutilmente (4.11) e afirma está sentindo
novas dores de parto pelos gálatas (4.19).
Por outro lado, contra os judaizantes, Paulo está inflamado de
santa e piedosa ira. Diz que eles são nada mais que perturbadores e
pervertedores do evangelho (1.7). Chama-lhes “falsos irmãos” (2.4) e se
revolta porque andaram enfeitiçando os gálatas (3.16) e impedindo-lhes a
caminhada na verdade (5.7). Como expressão de sua santa indignação,
profere um anátema contra os conturbadores do evangelho (1.9), depreca-lhes
uma condenação em 5.10b (“... Aquele que os perturba, seja quem for,
sofrerá a condenação”), e outra em 5.12 (“Quanto a esses que os perturbam,
quem dera que se castrassem!”).
A irritação, indignação, ira e perplexidade de Paulo são
completamente compreensíveis quando passamos a enxergar sob a ótica do
apóstolo. Sua autoridade apostólica estava sendo minada pelos judaizantes
(4.14-17), com grave prejuízo para o evangelho. O ingresso dos judaizantes
entre os gálatas dividiu os irmãos (5.15,26) e estava provocando descaso para
com o sustento dos líderes locais (6.6).
Mas, sobretudo, a mensagem do evangelho estava em jogo. Para
Paulo, não se pode, ainda que sutilmente, acrescentar à simples “fé em
Cristo” um “algo mais” sem causar a completa perversão da verdade. A
suficiência de Cristo só é afirmada quando dizemos que é “somente pela
graça”, “somente pela fé” e “somente Cristo”. “Cristo e algo mais” equivale à
anulação da graça de Deus, à inutilidade da cruz de Cristo, a permanecer
debaixo da maldição, a cair da graça (2.21; 3.10; 5.2-4).
Por que Paulo está indignado? Porque o que está em jogo, repito,
é nada menos que a forma como o Deus santo aceita pecadores em Seu favor.
Isso faz dessa epístola magnífica crucial para todos os homens de todos os
lugares e de todos os tempos. Afinal, todo e qualquer sistema religioso do
mundo é baseado em mérito decorrente da observância a certas regras e
rituais, à exceção da religião revelada na Escritura Sagrada, cuja base da
aceitação do homem por Deus é a vida e a morte de um Substituto, somente
por graça. Como Paulo disse noutro lugar, “se é pela graça, já não é mais
pelas obras; se fosse, a graça já não seria graça” (Rm 11.6).

A Justificação pela Fé Somente

Julgo urgente, antes de tudo o mais, deixar consignado algumas


notas sobre a maviosa doutrina da justificação pela graça mediante a fé
somente, o tema da Epístola as Gálatas. A nosso sentir, depois do ensino
bíblico da santíssima Trindade, nenhum outro supera o artigo de fé em
questão em termos de importância.
Nas palavras do reformador alemão Martinho Lutero,
[a justificação é] o artigo principal da doutrina cristã. Aquele que
compreende quão grande é a sua utilidade e majestade, tudo o mais
parecerá fútil e se dissipará. Para que Pedro? O que é Paulo? O que
é um anjo do céu? O que são todas as criaturas, comparadas ao
artigo da justificação? Pois, se conhecemos este artigo, estamos na
mais brilhante luz; se não o conhecemos, vivemos nas mais densas
trevas. Portanto, se ver este artigo sendo questionado ou posto em
jogo, não hesite em resistir a Pedro ou a um anjo do céu, pois este
artigo não pode ser suficientemente exaltado[3].

Também, segundo A. W. Pink,


tão importante considerava o apóstolo Paulo a esta doutrina que,
sob a direção do Espírito Santo, a mais sobresselente de suas
epístolas no Novo Testamento está dedicada a uma completa
exposição dela. O eixo sobre o qual gira todo o conteúdo da
Epístola aos Romanos é aquela notável expressão: ‘a justiça de
Deus’ – comparada com a qual não há nada de maior importância
que possa ser encontrado em todas as páginas das Sagradas
Escrituras[4].

A doutrina da justificação é realmente crucial porque lida com a


questão mais urgente da humanidade, qual seja: como o homem pecador
poderia ser considerado justo pelo Deus santo? Pecar é sempre pecar contra
Deus, é violar Seus preceitos e ferir Sua honra. E, uma vez que pecamos
contra Deus, é certo que devemos esperar que Ele nos considerasse pessoas
injustas e que sobre nós mantivesse continuamente Sua santa ira e
indignação, como está escrito: “Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus
contra toda impiedade e injustiça dos homens...” (Rm 1.18). Então se-nos-é
revelada, como a mais doce música do céu, essa doutrina evangélica, que é o
próprio evangelho, segundo a qual Deus toma a iniciativa de justificar o
ímpio. Difícil, portanto, exagerar quando falamos sobre a crucialidade da
justificação pela fé. Debrucemo-nos sobre a doutrina, portanto.
“Justificar” (grego dikaioo, palavra de uso judicial) é o ato divino
de, em Sua livre graça, proferir uma sentença que considera o pecador justo
diante dEle e, portanto, inculpável e com direito à vida eterna, com base na
imputação da justiça de Cristo à conta do pecador e simplesmente por meio
da fé. A partir desse conceito, tratemos agora de suas partes, passo a passo.
Em primeiro lugar, a justificação é um ato divino. Isso porque
justificação não é a apresentação de alegações perante o Tribunal divino que
tornariam nosso pecado menos ofensivo ao Deus santo. Não é apenas uma
questão de confissão piedosa com força suficiente para apagar a mácula que
lançamos na glória impoluta de Deus. Justificação tampouco é algum tipo de
compensação aos danos causados mediante serviços religiosos. Justificação
não é, para dizer uma só palavra, autodefesa. Somente Deus poderia inverter
a nossa condição de condenados perante Seu justo julgamento, como o
profeta bem compreendeu: “Sou eu, eu mesmo, aquele que apaga suas
transgressões, por amor de mim, e que não se lembra mais dos seus pecados”
(Is 43.25). “Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É
Deus quem os justifica” (Rm 8.33).
Em segundo lugar, a única razão da justificação é a graça. O
evangelho é um anúncio de que Deus está tratando com os pecadores
perdidos e condenados sobre o fundamento do favor imerecido, por graça
somente, e não por algum mérito neles encontrado. Justificação não é,
portanto, uma recompensa de algo que fizemos, nem mesmo uma
recompensa à nossa fé, como adiante veremos; é tão somente favor imerecido
e gratuito de Deus.
John Murray lamenta que a justificação não mais nos toque
profundamente o espírito, e por ser o “Evangelho da justificação” um som
sem sentido ao mundo e à igreja contemporânea. Isso ocorre, segundo
Murray, porque não percebemos com a profundidade necessária quão grave é
a realidade das nossas culpas e injustiças perante Deus, nem tampouco da Sua
santidade, majestade e ira[5]. Entretanto, não nos enganemos: justificação é
pura misericórdia, “não por causa de atos de justiça por nós praticados, mas
devido à sua misericórdia, ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador
do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós generosamente, por meio de
Jesus Cristo, nosso Salvador. Ele o fez a fim de que, justificados por sua
graça, nos tornemos seus herdeiros, tendo a esperança da vida eterna” (Tt
3.5-7). A propósito de Rm 3.24a (“sendo justificados gratuitamente por sua
graça...”), Calvino observou que “teria sido suficiente confrontar graça e
mérito; porém, para impedir que entretivéssemos a ideia de uma justiça
truncada, ele firmou ainda mais nitidamente seu significado por meio da
repetição, e assim reivindicou para a misericórdia de Deus, exclusivamente,
todo o efeito de nossa justiça”[6].
Em terceiro lugar, o único instrumento da justificação é a fé.
Quanto a isso, deve-se antes de tudo salientar que não é a fé do pecador que é
considerada por Deus como justiça, como se poderia concluir a partir de uma
leitura apressada de Gn 15.6 (“Abrão creu no SENHOR, e isso lhe foi
creditado como justiça”), texto repetido no Novo Testamento (Rm 4.3, 9, 22;
Gl 3.6; Tg 2.23). Se a fé de Abraão é a justiça com base na qual ele foi
justificado, poder-se-ia afirmar que ele foi justificado com base em ou por
causa da sua própria fé, caso em que o patriarca teria satisfeito por si mesmo
as condições para a sua justificação.
Mas que esse não é o caso, afirmamos seguramente! Antes, a fé é
tão somente o meio pelo qual Deus atribui à conta do pecador uma justiça
que não é sua e nem é produzida por ele em qualquer medida (Rm 3.22, 25,
28; 5.1; Gl 2.16). “Pois com o coração se crê para justiça... (Rm 10.10). John
Piper argutamente concluiu que “quando Paulo fala de Abraão, ou daqueles
que creram como Abraão, que a sua fé ‘foi imputada por justiça’ (...) ele não
quer dizer que a justiça ‘consiste da fé’. Ele simplesmente quer dizer que a
sua fé os conecta à promessa da justiça imputada por Deus”[7].
Noutro dizer, “e isso lhe foi creditado como justiça” não significa
outra coisa senão que Deus atribui justiça ao pecador pela fé (Rm 4.6, 11),
não podendo ser aquela expressão compreendida no sentido de que a fé do
pecador é considerada por Deus como a justiça com base na qual ele é
declarado justo, por pelo menos duas razões que lhes apresento: a uma,
porque a justiça creditada ao pecador é externa e de Deus (“não tendo a
minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em
Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé” - Fp 3.8, com grifos);
a duas, a “justiça de Deus” creditada ao pecador não é outra senão a justiça de
Cristo, a santidade humana do Salvador (“Deus tornou pecado por nós aquele
que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus” – 2 Co
5.21; 1 Co 1.30; Rm 5.12-19).
Em quarto lugar, a única base para a justificação é a obra
vicária ou substitutiva de Cristo: Sua obediência ativa e passiva (Rm 5.12-
19). É dizer, a Lei de Deus exige tanto a obediência perfeita às suas
prescrições quanto comina penalidades aos seus infratores. Por isso, Cristo,
como o Representante e Substituto do Seu povo, tanto assumiu a penalidade
devida pela transgressão, fazendo-se maldição e condenação em seu lugar (Gl
3.13; Rm 8.3), o que tem sido chamado de obediência passiva, quanto
também cumpriu vicária e perfeitamente os preceitos da lei, tornando-se a
nossa perfeição (2 Co 5.21), o que se denomina obediência ativa.
Assim, Deus não justifica o ímpio na base de suas obras, e nem
mesmo de sua fé, porque, por um lado, Deus não aprova em Seu tribunal
nada aquém da perfeição absoluta – o que não se pode esperar do homem - e,
por outro, sendo possível sermos salvos por nossos próprios méritos, Cristo
teria morrido em vão e a graça de Deus seria anulada, como veremos na
argumentação apostólica em Gl 2.21, etc.
Em quinto lugar, a justificação consiste em declarar-se o pecador
justo, com base na atribuição conjunta da obra vicária ativa e passiva de
Cristo à sua conta. Quer-se dizer que a obediência de Cristo é o fundamento
da justificação, visto ser ela a justiça que Deus considera e reconhece como
do pecador quando o justifica. Se Cristo tivesse apenas sofrido a penalidade
da culpa do pecador, este poderia ser livrado do inferno, porque teria os seus
pecados perdoados, mas isso ainda não lhe daria direito a ter o céu como
recompensa. Importava, por isso, que Cristo também nascesse sob a lei (Gl
4.4) e a cumprisse perfeitamente em nosso lugar para nos dá direito legal a
um lugar no céu. Assim, por Sua obediência passiva, Cristo nos livrou do
inferno (Is 53.6, 10, 11); por Sua obediência ativa, Cristo nos adquiriu o céu
(Rm 5.18, 19). Portanto, a justificação consiste tanto da libertação da culpa,
da maldição da lei e do livramento do inferno (aspecto negativo, com
fundamento na obediência passivo de nosso Senhor), quanto da aprovação de
Deus em aceitar-nos em Seu favor, considerando-nos justos (aspecto positivo,
com fundamento na obediência ativa de nosso Senhor).
Noutras palavras, são atribuídos, por meio da fé somente, tanto os
méritos da obediência de Cristo aos preceitos da Lei, quanto os méritos da
Sua morte sob a maldição da Lei, de modo que os justificados não são apenas
livres da culpa, mas considerados positivamente justos perante o Tribunal de
Deus. O resultado é que eles, os justificados, não apenas não podem ir ao
inferno, mas têm direito legal ao céu. A justificação, portanto, é, segundo
Stott escreveu em recomendação à obra de John Piper, Justificados em
Cristo, esta “troca gloriosa, na qual o Cristo sem pecado foi feito pecado com
os nossos pecados, para que em Cristo nos tornássemos justos com a sua
justiça. Por consequência, Cristo não tem pecado, senão os nossos, e nós não
temos nenhuma justiça, senão a dele”.
Finalmente, julgamos necessário, nesse ponto da nossa
consideração de doutrina tão cardial, traçarmos algumas distinções
importantes, se não vejamos:
Em primeiro lugar, justificação não é chamado eficaz, como se
pode depreender de Rm 8.30, nem tampouco confunde-se com regeneração.
Enquanto a vocação eficaz e a regeneração nos fizeram compreender o
evangelho e ter uma nova vida espiritual, sendo obras feitas em nós que nos
levam a Deus, a justificação é exterior, uma obra feita por nós que nos torna
aceitáveis perante Deus.
Em segundo lugar, justificação não é santificação. Santificação é
processo gradativo de crescimento moral, pelo qual temos em nós
aperfeiçoada a semelhança com Cristo. Justificação é ato realizado
perfeitamente e de uma vez por todas, pelo qual nos é atribuída a justiça de
Cristo. Na primeira, vamos tornando-nos gradativamente justos; na segunda,
fomos considerados perfeitamente justos.
Em terceiro lugar, justificação também não é perdão, embora o
inclua (Ef 1.7; Cl 1.14). Enquanto o perdão é apenas o aspecto negativo da
justificação, pelo qual somos libertos da culpa e do inferno, a justificação
inclui, ademais, o aspecto positivo: o sermos considerados justos,
merecedores do céu, pela atribuição à nossa conta dos méritos de Cristo.
Pelo exposto, vale destacar que a grande doutrina da justificação
deve ser por nós prezada e buscada com a máxima diligência, tanto quanto
ensinada com a máxima clareza. Conhecê-la é conhecer o Evangelho e o
Cristo que nesse se revela. A justificação exalta em grau máximo as
perfeições divinas. A justiça de Deus e a Sua santidade majestosa e moral,
tanto quanto a Sua bondade, misericórdia e amor (Ef 1.6), se harmonizam
extraordinariamente na justificação pela graça, pela redenção que há em
Cristo, sendo Deus tanto justo quanto justificador daquele que tem fé em
Jesus (Rm 3.26).
Por outro lado, a doutrina da justificação humilha o homem ao
máximo, porque lhe retira em absoluto a possibilidade de salvação por
quaisquer obras meritórias próprias (Rm 3.27; Gl 6.14; 1 Co 1.31). Ademais,
é na doutrina da justificação que o pecador que compreende com certa clareza
a malignidade do seu pecado e as demandas da justiça do Deus santo e
encontra amparo e segurança (Is 43.25). Por fim, nenhuma outra doutrina é
tão indispensável às diversas áreas práticas da atividade da igreja, tais como o
culto, o aconselhamento e a evangelização e missões...
Vamos a Gálatas!
Capítulo 2
O Prólogo
(Gl 1.1-5)

Paulo inicia sua Carta como se costumava fazer em seus dias,


com uma apresentação pessoal e uma saudação aos destinatários. De plano,
ele se apresenta como um “apóstolo”, termo que deve ser entendido em seu
significado técnico aplicado somente a ele e aos doze[8]. Nós sabemos disso
porque ele afirma ser apóstolo “não da parte de homens nem por meio de
pessoa alguma”. O primeiro aspecto dessa vocação é compartilhado por todos
os pastores em todos os tempos, porque de fato toda vocação genuína tem
Deus como sua fonte[9]. Mas, por outro lado, o segundo aspecto, que trata do
modus operandi do chamado de Paulo, é exclusivo dele e dos doze[10]. Todos
os demais ministros foram vocacionados por Deus, mas através de meios
humanos (como exemplos, cito a eleição em uma igreja ou a ordenação pelo
presbitério). Com Paulo e os doze, Cristo os vocacionou diretamente, e não
por meio de homens (cf. At 9.1-19). Eis a razão pela qual Paulo se distingue
como apóstolo daqueles que estão com ele (v. 2), seus cooperadores e
companheiros, que, embora muito úteis ao apóstolo e estimados por ele, não
compartilhavam do seu apostolado. Com isso, Paulo assevera que é apóstolo
como os doze, tese que defenderá ao longo da Carta (cf. 1.12; 2.8,11; 6.17).
Ademais, o apóstolo é um homem enviado com uma mensagem.
E, como Paulo tem pressa em face da urgência do momento, ele já comunica
brevemente o conteúdo do evangelho no prólogo, senão vejamos:
Em primeiro lugar, ele nos diz implicitamente que estávamos
perdidos, escravizados, entregues a certo poder e inteiramente incapazes de
fazer qualquer movimento que revertesse essa realidade. Note a expressão “a
fim de nos resgatar”. É por isso que Paulo nos diz que Cristo pretende com
Sua obra nos resgatar, ou nos livrar, ou nos remover da presente era mal.
“Resgate” é a libertação de quem estava escravizado sob o poder de alguém.
Por outro lado, Paulo aqui comunica também que Cristo, quando apresentado
apenas em duas ou três linhas, é um Libertador, muito mais que um mestre.
Em segundo lugar, Paulo também nos diz, resumidamente, como
Cristo nos liberta: morrendo por nossos pecados. Cristo “se entregou a si
mesmo por nossos pecados”. Cristo doou-se a si mesmo completamente,
como preço do nosso resgate (Mc 10.45). Quando entregou-se, não o fez para
si mesmo, mas com o propósito de assumir a culpa que nossos pecados
merecem. O inocente deixou-se executar como se culpado fosse.
Cristo nos liberta (o apóstolo nos dirá adiante) da maldição da lei
fazendo-se maldição em nosso lugar. Cristo morre como o nosso Substituto,
colhendo em Si as consequências penais que nossos pecados merecem, de
modo que quando nos apegamos a Cristo pela fé somos completamente
libertos das penalidades e condenação merecidas. Sabemos que de fato isso é
certo porque Deus provou que aceitou o sacrifício de Jesus como um
pagamento cabal de nossos pecados, ressuscitando-O dentre os mortos,
verdade que Paulo não deixa de destacar mesmo em seu prólogo (v. 1).
Em terceiro lugar, sobre toda a obra trinitária da salvação, Paulo
também nos diz que ela decorreu de pura graça. É a mesma “graça” da
saudação (v. 3), que Paulo junge à “paz” numa relação de causa e efeito. Essa
graça é vista em Cristo ter Se entregue voluntariamente por nós. “Ele
entregou a si mesmo”; não foi coagido, nem forçado, nem sequer persuadido.
Foi pura graça. Nós nada fizemos para que Ele viesse. Nem tampouco
chegamos a pedir socorro e passaríamos a vida sem sequer saber de nossa
grande necessidade. Cristo se entregou por nós “segundo a vontade de nosso
Deus e Pai”. Deus apenas quis. O Pai quis, o Filho quis, o Espírito Santo
quis. Nada mais. Isso é graça, graça para o maior dos pecadores.
Em quarto lugar, o evangelho da graça, por ser gracioso, não
evoca a glória de quem quer que seja. O evangelho da graça só concede graça
ao Deus de toda a graça. “Glória somente a Deus”, diz o apóstolo, porque
nenhum dos pecadores favorecidos fez coisa alguma para merecer tão
maviosa bondade. Os meus irmãos não precisam ser congratulados em nada.
Não merecem os parabéns por serem crentes, salvos, justificados, porque se
isso é uma realidade na vida dos meus irmãos, não se deveu a quaisquer
vantagens em relação àqueles que já padecem no inferno. Meus irmãos não
são crentes por terem sido mais sábios ou perspicazes, nem mais capazes ou
intelectualmente preparados, e nem ainda por terem uma visão mais ampla
que lhes fez ver a necessidade do Cristo. Os meus irmãos estavam
escravizados e o Libertador lhes libertou. Somente isso! A Deus seja a glória.
Concluo nossas notas ao prólogo de Gálatas afirmando que o
evangelho não é uma necessidade só dos descrentes. Paulo o escreve a
crentes, aos quais ele já o havia pregado. Os gálatas, que começaram
“apenas” no evangelho, deveriam permanecer “apenas” no evangelho.
Portanto, nós precisamos decididamente afastar de nossos pensamentos a
noção de que o evangelho é uma mensagem para descrentes entrarem no
Reino, e que logo em seguida precisa ser trocado por um programa mais
profundo, por uma verdade mais alta, como se o evangelho não fosse
completo e suficiente para nos conduzir a Deus.
Na história da igreja, o evangelho tem sempre padecido sob
tentativas de supostos aperfeiçoamentos. Ou se tentou acrescentar-lhe “obras
da lei”, como no caso dos judaizantes, ou superar-lhe em favor de uma
“gnose”, de um conhecimento espetacular acessível a poucos iluminados.
Mas o evangelho é completo, é suficiente, é único. Por isso, qualquer
tentativa de alterá-lo implicará em sua total subversão.
Ademais, não custa esclarecer que avivamentos espirituais
autênticos, genuínos despertamentos da Igreja de Cristo, não produzem
novidades em essência. O que derramamentos extraordinários do Espírito
fizeram e fazem é a intensificação da compreensão do evangelho e o fomento
em um grau elevadíssimo da vida no evangelho. A novidade dos avivamentos
é quão altos podem ser os níveis de compreensão e obediência ao evangelho.
O evangelho é tudo o que temos e tudo o que precisamos, porque
o evangelho é Cristo. Precisamos do evangelho para ser justificados e dele
para ser santificados. Toda e qualquer vida cristã autêntica e madura é tão
somente a implicação prática do evangelho.
Capítulo 3
Uma Contundente Proibição de Revisão do Evangelho
(Gl 1.6-9)

Após as palavras iniciais de autoapresentação e saudação aos


destinatários, Paulo não escreve as suas costumeiras ações de graças, em
geral alocadas em posição imediatamente antecedente ao desenvolvimento da
Carta (cf. Rm 1.8-17; 1ª Co 1.4-9; Fp 1.3-9, Cl 1.3-14). Antes, com a
urgência que as circunstâncias exigem, ele de pronto expressa sua admiração
em face da volatilidade dos crentes gálatas. Ele está perplexo com o fato de
os gálatas estarem tão rapidamente se afastando da mensagem que
recentemente receberam para abraçar “outro evangelho” (v. 6). Diz que esse
“outro evangelho” que os judaizantes estão lhes apresentando não é, na
verdade, “outro”[11]. Isto é, não é uma versão ligeiramente modificada que
ainda assim poderia ser chamada de evangelho, de mensagem da mesma
natureza do evangelho. Noutro dizer, a “mudança” operada pelos judaizantes
não era uma revisão que poderia ser considerada “sem maiores
consequências”. Esses mestres estavam perturbando, agitando, revolvendo os
crentes da Galácia, visto que, de fato, com seu “pequeno acréscimo”, estavam
pervertendo, revertendo inteiramente[12], o evangelho de Cristo (v. 7). Assim,
de maneira bastante contundente, ele diz que quem quer que anuncie aos
gálatas “evangelho diferente” daquele que já havia sido anunciado, sejam
apóstolos verdadeiros, como ele, sejam santos anjos, os tais devem ser
considerados malditos, entregues à destruição, banidos da presença de Deus
(v. 8, 9) [13].
Em resumo, o ensino apostólico aqui esposado é o seguinte: O
evangelho é uma mensagem única, exclusiva, que não pode ser minimamente
revisado nem sofrer a mais leve e aparentemente imperceptível mudança, sob
pena de surgir uma mensagem radicalmente diversa, uma completa reversão
da verdade. Assim, desejo, para bem compreendermos a posição do apóstolo
inspirado, em primeiro lugar, demonstrar porque tal perspectiva do apóstolo
soa estranho, com ares de intolerância reprovável, pedante e inadmissível em
nossos. Em segundo lugar, provarei que tal atitude não revela intolerância
injustificada do apóstolo, tampouco desamor da sua parte. Por fim, mostrarei
que, ao contrário, é absolutamente necessária uma atitude intolerante para
com mudanças ainda que mínimas da mensagem evangélica. Se não,
vejamos.
Em primeiro lugar, precisamos compreender porque tal atitude
de reivindicação de exclusivismo soa intolerante e xenofóbica em nossos
dias. As razões são diversas quanto ao ambiente, mas redundam no mesmo
fim. No ambiente religioso-teológico, o liberalismo surgido no século XVIII,
com seu método histórico-crítico, resultou na noção de que a Escritura e a
Palavra de Deus não são coincidentes. Há Palavra de Deus na Escritura, mas
nem toda Escritura é Palavra de Deus. Muito da narrativa bíblica,
denominada pelos liberais de “história da salvação”, pode ser simplesmente
considerada mítica (a narrativa da criação e os milagres), em detrimento da
“história bruta”, real. Cristo não é Deus, não nasceu de uma virgem, não
operou milagres nem ressuscitou dos mortos. Ao fim e ao cabo, concluiu-se
que o cristianismo não é diverso de qualquer religião, nem pode ser
exclusivista e nem sequer ser considerado de valor maior, porque a “religião
é o sentimento e o gosto pelo infinito”, conforme lição de Schleiermacher,
valor apreciado por todas as religiões e capaz de ser experimentado por todos
os seres humanos. Aqui reside a base para o macroecumenismo. Visto que
todas as religiões aprovam o sentimento de dependência de um Ser superior,
todas devem se unir e reivindicações de exclusivismo não fazem sentido
algum.
No ambiente filosófico, sobretudo com o desconstrucionismo de
Derrida e Foulcault, típico do pós-modernismo, toda a possibilidade de
conhecer as coisas como de fato são (noção da era pré-moderna, anterior a
1650) e conhecer as coisas como se nos apresentam (ideia modernista
esposada por Descartes, a partir de 1650) cedeu lugar ao pensamento de que
as coisas são aquilo que dizemos que elas são (noção pós-moderna, filha de
Neitzche e do seu movimento “a morte de Deus”). Perceba-se que nessa
ambiência não há espaço para verdades absolutas, certeza, exclusivismo e
pensamento uniforme.
Assim, quando supostos pensadores estão a defender os diversos
descontrucionismos, o respeito e o inclusivismo absolutos a e de todas as
ideias e a supervalorização do sentimento religioso, da espiritualidade - que
nada mais é do que apreciar as noções do infinito e da dependência do Ser
superior -, eles nada mais fazem além de reproduzir sem qualquer reflexão
pautas das academias filosóficas e teológico-liberais. De pronto, reagirão, às
vezes com bastante ódio, à pregação evangélica, necessariamente exclusivista
e revestida de caráter absoluto, conforme ainda demonstraremos.
Em segundo lugar, incube-nos ainda demonstrar que a atitude de
Paulo em nosso texto não se reveste de intolerância injustificada, nem
tampouco é expressão do desamor do apóstolo. É oportuno lembrar que
quem escreveu Gálatas é o mesmo autor do mavioso capítulo 13 de 1ª
Coríntios. Foi ele também que escreveu o chamado aos efésios para que se
esforçassem por manter a unidade do Espírito no vínculo da paz (Ef 4.1-6).
Ele foi o obreiro cristão que mais labutou por amor à causa de Cristo em
todos os tempos, que muito fez pela unidade da Igreja cristã, unindo judeus e
gentios, tanto quanto que se empenhou na tarefa do cuidado dos pobres em
todo o mundo conhecido (Gl 2.10), até as suas últimas forças. Ainda
escrevendo aos gálatas, ele exortou a esses cristãos que fizessem o bem a
todos, mas especialmente aos da família da fé (Gl 6.10). Por tudo o exposto e
tudo mais que poderia ser dito sobre Paulo, simplesmente taxar de
desamorosas as palavras de nosso texto é absurdamente estúpido. A causa das
palavras deve ser repousar em fundamento diverso, como veremos adiante.
Mais do que isso. Paulo estava muito longe de ser um homem
intolerante em relação àquilo que poderia ser tolerado. Ele era capaz de
alegrar-se pelo progresso da pregação de Cristo, ainda que os motivos de
certos pregadores fosse causar-lhe algum tipo de dano (Fp 1.15, 17). Sem
detença, ele disparou: “O importante é que de qualquer forma, seja por
motivos falsos ou verdadeiros, Cristo está sendo pregado, e por isso me
alegro” (v. 18). Ainda escrevendo aos filipenses, Paulo diz-lhes que devemos
(juntando-se aos crentes maduros) permanecer firmes no evangelho, quanto
àquilo que é essencial, embora admita que existam pontos da verdade de
menor importância que só nos são esclarecidos por Deus ao longo da
caminhada (Fp 3.15). Ademais, é perceptível que Paulo, embora judeu
bastante arraigado nas tradições dos seus compatriotas, estava sempre
disposto a não fazer do apego à sua cultura obstáculo ao caminho do
evangelho. Se não é algo da essência do evangelho - que não pode ser
alterado nem por um segundo sequer -, questões de natureza secundária, por
mais caras que lhe fossem, eram por ele relegadas quando a necessidade de
“salvar alguns” exigia (1ª Co 9.19-22). A regra inviolável da sua vida foi
esta: “Faço tudo isso por causa do evangelho, para ser coparticipante dele”
(1ª Co 9.23). Portanto, se desejamos achar a causa de palavras tão
contundentes em Gálatas, procuremos em outros fundamentos, visto que não
seremos bem sucedidos em acusar o apóstolo de ser incapaz de transigir em
pequenos detalhes, tampouco em seu suposto desamor.
Finalmente, não percamos de vista que estamos ouvindo as
palavras de Deus ao lermos o texto do apóstolo inspirado (cf. 2 Tm 3.16), e
não ideias meramente humanas de um autor brilhante que está, por mais boa
vontade que possua, expressando seus gostos e predileções religiosos
pessoais. “Se alguém pensa que é profeta ou espiritual, reconheça que o que
lhes estou escrevendo é mandamento do Senhor” (1ª Co 14.37).
Finalmente, devemos demonstrar ser absolutamente necessária
uma rigorosa intransigência para com propostas que queiram revisar ainda
que minimamente o evangelho. O evangelho é a mensagem do que Deus fez
em Cristo para receber em Seu favor pecadores miseráveis e indignos. O
evangelho é o evangelho da graça. É o evangelho do que Deus fez, sozinho,
para nos salvar, e não do que precisamos fazer ou contribuir para salvar-nos a
nós mesmos. A obra é completamente divina e recebida através da fé
somente! Quando acrescemos à pura fé em Cristo “um algo mais”, causamos
sua completa “perversão”, pregamos “outra” mensagem radicalmente
diferente.
Isso foi visto com bastante clareza por reformadores e romanistas
do século XVI. Ambos viram que lidavam com ideias diametralmente
opostas e irreconciliáveis, tanto que o Concílio de Trento “amaldiçoou” todas
as doutrinas básicas defendidas pelos reformadores. Roma, por exemplo,
negou que uma pessoa verdadeiramente arrependida é completamente
perdoada, sem necessidade de compensações posteriores:
Se alguém diz que a culpa é perdoada a todo pecador penitente
depois de ter sido recebida a graça da justificação, e que a dívida
do castigo eterno é de tal maneira apagada que não fica nenhuma
dívida de castigo temporal para ser descontada, seja neste mundo,
seja no próximo ou no Purgatório, antes que a entrada no reino dos
céus possa ser aberta – que seja ele anátema (Cânone 30 da Seção
6)[14].

Roma negou também que a salvação é obra exclusivamente


divina, e não realizada através de sacramentos, e recebida tão somente por
meio da fé:
Se alguém disse que pelos ditos sacramentos... a graça não é
conferida por meio da obra executada, e [disser] que a fé nas
promessas divinas sozinha é suficiente para a obtenção da graça,
que seja ele anátema (Cânone 8 da Seção 7)[15].
Se alguém disse que o pecador é justificado pela fé somente para
dizer que em nada é exigido cooperação a fim de se obter a graça
da justificação, e que não é de maneira nenhuma necessário que ele
esteja preparado e disposto pela ação de sua própria vontade, que
seja ele anátema (Cânone 9 da Seção 6)[16].

Perceba-se que tanto os teólogos romanistas quanto os


protestantes perceberam tratar-se de um impasse incontornável. Não há meio
termo entre o evangelho da graça e um suposto “evangelho” de obras.
Portanto, que uma mínima revisão faz surgir mensagem radicalmente diversa
do evangelho, pode ser satisfatoriamente demonstrado a partir das seguintes
proposições:
Em primeiro lugar, para o apóstolo inspirado, abandonar o
evangelho é abandonar a Deus, é apostatar. Notemos como Paulo o diz no v.
6: “Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele
que os chamou pela graça de Cristo...”. Os Gálatas estavam “somente”
flertando com a ideia de que se deveria acrescentar a observância de certos
detalhes da lei mosaica para se acertar com Deus. “Nada mais”. A proposta
deliberada e proclamada dos judaizantes não era no sentido de abandonar a
Cristo, de desprezar o sacrifício de Cristo, mas “tão somente” de somar à
obra de Cristo “obras da lei”. Entretanto, Paulo diz que isso não é nada menor
que abandonar a Deus! Isso é apostasia. Por qual razão? Porque Deus havia
chamado os gálatas pela graça de Cristo. Isso é evangelho. Deus chamou os
gálatas para simplesmente beneficiarem-se através da fé da obra salvadora e
gratuita do Redentor, e não para somarem a essa obra méritos pessoais
adquiridos mediante obras da lei.
Em segundo lugar, nem a autoridade humana nem as
experiências místicas podem alterar o evangelho já posto pelos apóstolos, tal
é a impossibilidade de mínima revisão do evangelho. Paulo diz-lhes que
autoridade humana alguma, nem a dele e nem a de quaisquer dos apóstolos,
pode revisar o evangelho da graça de Deus, sob pena de ser entregue ao justo
castigo e condenação de Deus. Esse detalhe é importante à igreja brasileira
contemporânea, sobretudo pela profusão com que supostos “apóstolos”
surgem diuturnamente no cenário evangélico. Há um culto à personalidade
somado ao respeito irrefletido a tudo que alguém que alegue ter um título
afirma. A conclusão de muitos é que as doutrinas mais esdrúxulas devem ser
verdadeiras por que quem as pregou foi o “apóstolo” Fulano de Tal. Mas,
veja que Paulo diz que mesmo que sejam os apóstolos escolhidos e nomeados
diretamente por Cristo - “ainda que nós” (Paulo, ou um ou todos dos demais
que com ele fazem o colégio apostólico) - a mudarem o evangelho, que sejam
entregues a Juízo, malditos. De modo semelhante, alegações de visões de
anjos também não nos devem impressionar. Não importa se quem trouxe a
proposta de revisão evangélica foi um anjo vindo do céu ou um demônio, que
seja anátema!
Finalmente, à guisa de conclusão, alerto-o quanto aos seguintes
cuidados especiais:
Primeiro: cuidado com a apostasia. O Novo Testamento nos dá
um leque de razões pelas quais pessoas apostatam da fé. Na parábola do
semeador, Jesus fala de pessoas que recebem o evangelho com alegria para
depois abandoná-lo ao ver surgir alguma tribulação ou perseguição por causa
da Palavra (Mt 13.21). Outros se desviam da fé para abraçar pensamentos
mais bem conceituados no ambiente acadêmico (1ª Tm 6.20, 21). Outros
apostataram porque resolveram dedicar-se a busca pelas riquezas (1ª Tm
6.10). E ainda outros porque passaram a flertar com doutrinas de demônios
(1ª Tm 4.1). Os Gálatas estavam se desviando da verdade, daquele que os
havia chamado pela graça de Cristo para atender a outra mensagem que não
podia, senão falsamente, ser chamada de evangelho.
Segundo: cuidado com desvios doutrinários, ainda que sutis.
Paulo chamou de apostasia não a negação completa de Cristo, mas aquilo que
poderia ser considerado um “simples e inofensivo” acréscimo. O evangelho
não diz que somos salvos “por causa” da nossa fé, nem da nossa firmeza em
manter uma alta temperatura espiritual. Somos salvos pela graça, “por causa”
da graça de Cristo, “através da fé”. Tenho a nítida impressão de que o hábito
evangélico de apelar a que as pessoas “tomem uma decisão ao lado de
Cristo”, “entreguem sua vida a Jesus” e coisas assim estão fomentando uma
supervalorização de uma “fé triunfante” como a base da salvação, em
detrimento da graça salvadora em Cristo. Isso para não falar de manias novas
e velhas que trazem objetos do judaísmo para dentro dos arraiais da igreja,
além da imposição de costumes minuciosos como corte de cabelo etc.
Terceiro: cuidado com o ecumenismo. Parece que mesmo os
evangélicos estão cada vez mais prontos a admitir que aquilo em que se crer
não importa, desde que as pessoas sejam do tipo boa gente, decentes e
honestas. Isso tende a valorizar as obras e anuncia que o favor de Deus é
conquistado por bondade inata. Em nosso mundo, podemos até nutrir um
peso de consciência quando afirmamos em alto e bom som que somente
aqueles que confiam exclusivamente em Cristo podem receber o perdão de
Deus. Isso soa “medievo”, “puro obscurantismo”. De fato, há um espectro
chamado pós-modernidade a dizer-lhe em todo tempo que pessoas
inteligentes e modernas não pensam assim. As pessoas mais sábias, segundo
o nosso tempo, são aquelas de “mente aberta”, “aptas ao diálogo”, que
querem adorar ao “Supremo Arquiteto do Universo”, à “Força Superior”,
com todas as crenças. Entretanto, no dia em que o evangelho for apenas uma
das possibilidades, e não “a” mensagem salvadora de Deus, a nossa
congregação deixará de ser uma “comunhão de santos” para tornar-se um
encontro social qualquer.
Capítulo 4
Uma Firme Defesa da Origem Divina do Evangelho
(Gl 1.10-24)

O texto em comento é parte de uma seção autobiográfica e mais


ampla da Carta (1.10-2.10). Paulo em mais de uma ocasião deu o seu
“testemunho”, revisando em momentos distintos seu comportamento pré-
cristão e relatando como Deus o apanhou na rede da graça (At 22.3-21; 26.9-
20; Fp 3.2-11; 1ª Tm 1.12-14), como faz aqui. Entretanto, em todos os
momentos, o que o motivou a expor-se desse modo, inclusive relembrando
pecados que lhe entristeceram a vida inteira, foi a causa do evangelho.
Em Gálatas não é diferente. Os judaizantes estavam acusando
Paulo de baratear a mensagem em nome da “liberdade em Cristo” a fim de
agradar o maior número possível de ouvintes. Diziam que o evangelho
pregado por ele era uma corruptela, produto de suas próprias ilações, quando
comparado àquele que ele havia recebido dos verdadeiros apóstolos de Cristo
e que Paulo, quando comparado aos mestres judaizantes, não tinha qualquer
vantagem, posto que em nada lhes era superior em termos de autoridade.
Portanto, sua mensagem poderia e deveria ser questionada.
Como se pode perceber, Paulo revisitou fatos do passado que
muito lhe incomodavam, mas com o propósito de estabelecer, em todo
instante, a origem divina do evangelho, visto que quando se questionava sua
autoridade apostólica, fazia-se para negar sua mensagem. Seu propósito,
então, não era engrandecer-se, ensoberbecer-se, enquanto recontava sua
história, como se estivesse enviando uma mensagem do tipo “vejam como
sou um fenômeno”, coisa contra a qual Deus já o havia vacinado (2ª Co 12.1-
11). Ele apenas entendia que a vida dos gálatas estaria de pé ou cairia a
depender do que pensassem ser o evangelho por ele pregado. Assim, não quer
que fique nenhuma dúvida quanto ao fato de que o evangelho emana de
Deus, porquanto ele é tão somente um enviado divinamente autorizado, o que
estabeleceu a partir dos seguintes argumentos:
Em primeiro lugar, Paulo não forjou uma mensagem para cativar
o favor dos homens (v. 10). Seu propósito não é ganhar a simpatia dos
homens, logrando obter sua aprovação, nem agradá-los, como talvez tenham
sugerido os judaizantes. A vida de Paulo negava esse fato peremptoriamente.
Ele na verdade esteve de bem com seus compatriotas enquanto lutou para
eliminar o cristianismo. Quando foi chamado à fé e passou a proclamá-la,
todavia, passou a ser sistematicamente perseguido (At 9.23, 29). Portanto, se
Paulo criou uma mensagem para beneficiar-se da boa vontade dos homens, o
evangelho teria sido um terrível tiro pela culatra. Além disso, Paulo também
já havia compreendido que o evangelho não é uma mensagem apreciada em
parte alguma do mundo, tampouco louvada por seus encantos acadêmicos.
Na verdade, o evangelho é uma “loucura” para o mundo que busca sua
própria sabedoria, e que nem fascina gregos nem atrai judeus (I Co 1.18, 22-
23).
Em segundo lugar, o evangelho também, assevera Paulo, não é
resultado de persuasão racional, produto de convencimento e compreensão
graduais, apreendidos paulatinamente. Paulo não havia chegado à fé
evangélica a partir de deduções lógicas e da razão natural. Embora a
especulação humana possa descobrir verdades gerais sobre Deus e mesmo
argumentar belamente sobre Sua existência (Rm 1.18-20), Deus tomou a
decisão de aniquilar a sabedoria humana como forma de conhecimento
salvífico, como Paulo escreveu noutro lugar: “Pois está escrito: ‘Destruirei a
sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos inteligentes’. Onde está o
sábio? Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não
tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?” (1ª Co 1.19, 20).
Ao contrário, se havia um homem que estava o mais distante
possível do processo de compreensão do evangelho, esse homem era Paulo.
Vemos isso claramente todas as vezes que o lemos dizer sobre sua vida pré-
cristã (v. 13, 14)[17]. Ele odiava o cristianismo e o via como uma mensagem
com potencial de destruir tudo quanto creu com todo o seu ser a vida inteira.
Sua decisão, por isso, foi que haveria de extirpá-lo da face da terra, o que
tentou fazer com todas as forças, até que o Cristo o encontrou no caminho de
Damasco.
Em terceiro lugar, Paulo não apenas não criou o evangelho a
partir de seu engenho natural, mas, além disso, ele também não o aprendeu
de homem algum. Suas afirmações são enfáticas quanto a não haver recebido
o evangelho de pessoa alguma, nem de haver sido ensinado por quem quer
que fosse (v. 12). Enquanto revisita sua história, ver como a providência o
guiou para que ele pudesse anos mais tarde afirmar fatos que implicariam na
defesa da origem divina da fé: que, após a experiência no caminho de
Damasco, ele iniciou seu ministério sem consultar a ninguém (v. 16); que ele
nem sequer foi a Jerusalém antes dos ministérios profícuos na Arábia e em
Damasco (v. 17); e que quando já tardiamente ali chegou, passou não mais
que quinze dias e nem viu todos os apóstolos (v. 18-19); que após esse breve
período em Jerusalém, ele partiu às terras da Síria e Cilícia (v. 21); que nem
chegou a ser conhecido das igrejas da Judeia, mas que, mesmo assim,
glorificavam a Deus por Seu agir na vida do apóstolo (v. 22-24). A tese de
Paulo está cabalmente comprovada: ele não havia aprendido o evangelho
com ninguém, nem foi ensinado pelos que foram apóstolos antes dele.
De onde veio, então, o evangelho pregado por Paulo, já que ele
não é de origem humana (v. 11)? Ele diz que o recebeu de Jesus Cristo por
meio de revelação (v. 12)[18], que o Deus que o havia predestinado o chamou
por Sua graça (v. 15) e revelou nele[19] Seu Filho[20] para que ele O pregasse
entre os gentios (v. 16). O ensino apostólico claramente evidente na
passagem é que o evangelho não é uma mensagem engendrada por homens,
não é fruto da indústria humana, nem poderia ser conhecido por processos
lógicos da razão natural. Ao contrário, o evangelho é a mensagem de Deus -
Sua origem é divina -, que Ele fez conhecer mediante revelação especial.
Assim, para o estabelecimento dessa doutrina, proponho as seguintes
proposições:
Em primeiro lugar, devemos de plano considerar que o evangelho
jamais poderia ter sido conhecido, em tempo algum, pela simples razão
humana. Dizendo de modo positivo, o evangelho só poderia ser conhecido
mediante revelação de Deus – o que demonstra cabalmente sua origem
divina. Isso é verdade em qualquer era ou dispensação, tema sobre o que me
debruçarei adiante. Por ora, vale recordar a promessa do Senhor Jesus aos
Seus apóstolos no sentido de que quando Ele enviasse o “Espírito da
verdade”, Ele os guiaria a toda a verdade (Jo 16.13).
Em 1ª Co 2, Paulo dissertou sobre como o evangelho - a
“sabedoria de Deus”, que é o “mistério que estava oculto” - não poderia ser
conhecido pelos poderosos desta era, mas somente por revelação divina por
meio do Espírito, “como está escrito: ‘Olho nenhum viu, ouvido nenhum
ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o
amam’” (v. 6-10a). Paulo disse que o Espírito, que sonda as profundezas de
Deus, revelou o evangelho aos apóstolos, e que foi pela recepção do Espírito
procedente de Deus que eles, os apóstolos, entenderam “as coisas que Deus
nos tem dado gratuitamente” (v. 10-12). Isso é revelação. Disse o apóstolo
ainda que quando eles se puseram a falar daquilo que haviam recebido, não o
fizeram com palavras de sabedoria humana, “mas com palavras ensinadas
pelo Espírito” (v. 13). Isso é inspiração. E, finalmente, escreveu que somente
quem tem o Espírito de Deus, recebido na regeneração, pode compreender as
palavras por eles transmitidas (v. 14-16). Em síntese apertada, o evangelho
foi recebido pelos apóstolos por revelação e comunicado por eles por
inspiração, até que encontra repouso no coração do regenerado. Do início ao
fim, somente Deus pode fazer o evangelho conhecido!
Em segundo lugar, pode-se perceber que a origem do evangelho
é divina por seu caráter eterno. É certo que quaisquer teorias, filosofias,
religiões ou ideologias podem ser reconstruídas no tempo quanto à origem e
desenvolvimento. Nós sabemos quando nasceram e como se desenvolveram o
evolucionismo, o espiritismo, o marxismo e o platonismo. Podemos até
mesmo pontuar historicamente o início do cristianismo e da igreja
neotestamentária, sobretudo porque os fatos do evangelho estão
indelevelmente marcados na história. E, do ponto de vista histórico, a Queda
é o marco inicial da necessidade do evangelho da graça. Entretanto, o plano
divino de resgatar pecadores condenados com fundamento em um sacrifício
substitutivo é eterno, atemporal, foi concebido e pactuado fora do tempo pelo
Deus Trino no Pactum Salutis.
Segundo a decisão eterna (o decreto) da Trindade, o Pai é o
originador, o Filho é o executor e o Espírito, o aplicador da redenção. Nesse
pacto, antes da eternidade passada, o Filho comprometeu-Se em assumir a
verdadeira humanidade na encarnação, e, ao fazê-lo, colocar-se debaixo da lei
a fim de cumpri-la integralmente e pagar as penalidades do povo que viria
substituir para, então, aplicar-lhe os frutos da Sua obra por meio da dádiva do
Espírito. O Pai comprometeu-Se a preparar um corpo não contaminado pelo
pecado para o Filho, em apoiar e capacitar o Filho para a obra e, por fim, em
garantir que o Filho veria os frutos do Seu trabalho, sendo inclusive o
possuidor do governo sobre o mundo e a Igreja.
Por isso diversas passagens da Escritura mostram que o plano
divino de salvação é eterno (Ef 1.4; 3.9,11), que o evangelho é eterno (Ap
14.6), que Cristo foi morto e o livro da vida foi escrito desde a fundação do
mundo (Ap 13.8; 17.8), que recebemos graça desde os tempos eternos (2ª Tm
1.9). Lemos também que quando homens iníquos mataram o Senhor estavam
tão somente cumprindo uma decisão divina eterna (At 2.23; 4.28) e que
Cristo veio para o povo que Deus havia Lhe dado e para cumprir a vontade
do Seu Pai (Jo 5.30, 43; 6.37-39). Portanto, que o evangelho é de origem
divina, vê-se em seu caráter e concepção eternos.
Em terceiro lugar, a origem divina do evangelho se vê também no
fato de que foi ele foi anunciado em todas as eras da história humana -
embora com graus de clareza progressivos no tempo até ser completamente
revelado. Não digo que o evangelho foi compreendido em todos os tempos
com a mesma nitidez, nem que não tivesse que aguardar seu cumprimento e
consumação na encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo, mas que o
mesmo evangelho, em essência, foi anunciado em todas as eras da história,
embora só gradualmente tornado mais claro até seu desvendamento final (Ef
3.8, 9). Tal se dá com o brilho do sol, cujos primeiros raios já podem ser
percebidos desde a aurora, mas que só alcança o ápice do seu fulgor ao meio-
dia; e com os homens, que antes de se fazerem adultos plenamente
amadurecidos foram zigotos, embriões, fetos, crianças e adolescentes. Como
o sol é o mesmo tanto na aurora como ao meio-dia e o homem é homem
desde a concepção, o evangelho é o mesmo desde sempre, embora o brilho
máximo de sua perfeita revelação tenha ocorrido somente com a vinda
daquele que o personifica, o cumpre e o consuma.
Que o evangelho foi pregado em essência no proto-evangelho
(Gn 3.15), não há dúvida. Está ali, em caráter embrionário, a promessa de que
Alguém, em algum tempo, reverteria o trabalho de Satanás na Queda, para
dizer somente o mínimo. Após o dilúvio, ficou claro que nem um cataclismo
de dimensões planetárias resolveria o problema da maldade humana (Gn
8.21), razão pela qual Deus fez um pacto com Noé em preservar toda a
criação e humanidade, por certo para cancelar o pecado e reverter a maldição
por meio eficaz e definitivo (Gn 9.1-17). A Abraão, Deus pregou o evangelho
quando fez de sua descendência a esperança para toda a terra (Gl 3.8, 9; Gn
12.1-3), além de ter erguido o patriarca como um modelo dos que são
justificados pela fé (Gl 3.6, 7; Gn 15.6). Sob a Lei e à nação de Israel, o
evangelho foi pregado em sombras e figuras, a partir do cordeiro pascal cujo
sangue liberta da escravidão e impede a mortandade (Ex 12), do dia da
expiação (Lv 16) e em cada sacrifício no tabernáculo e no templo em
Jerusalém (Lv 1-5; 17.11). Através dos profetas o evangelho também foi
anunciado. “Ele [Jesus Cristo] lhes disse: ‘Como vocês custam a entender e
como demoram a crer em tudo o que os profetas falaram! Não devia o Cristo
sofrer estas coisas para entrar na sua glória?’ E começando por Moisés e
todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as
Escrituras” (Lc 24.25-17; cf. 1ª Pe 1.10, 11).
Por óbvio, ressalte-se que o evangelho foi pregado nas eras que
antecederam ao Novo Testamento ainda em perspectiva. No Antigo
Testamento, era ainda uma expectativa que o Cristo viria e cumpriria a
vontade de Deus no sentido de viver e morrer sob a Lei, resolvendo
definitivamente o problema do pecado. Somente na cruz de Cristo Deus
cancelou por completo e em definitivo os pecados anteriormente cometidos
(Rm 3.25, 26), como os praticados desde então. Lá – no AT -, como aqui – no
NT -, todavia, a salvação é sempre por graça, sem méritos decorrentes de
obras (da Lei, inclusive), por meio da fé somente. Lá, a fé apegava-se à
promessa que ainda estava para cumprir-se; aqui, a fé apega-se ao
cumprimento da promessa. Portanto, que o evangelho emana de Deus, vê-se
no fato de sua proclamação em todas as eras históricas!
A origem divina do evangelho pode ser vista também, em quarto
lugar, em seu conteúdo. O evangelho não agrada aos homens! Ele é o único
sistema de pensamento religioso e filosófico que propõe salvação gratuita.
Nesse ponto, o evangelho é absolutamente único. Todos os demais sistemas
religiosos são de obras e mérito. Isso ocorre porque os homens são tão
naturalmente inclinados ao orgulho que jamais pensariam em uma salvação
inteiramente gratuita, através do trabalho de um Substituto. Uma salvação
recebida gratuitamente fere mortalmente o desejo humano de contribuir com
Deus e ser participante de Sua glória, porque o homem é essencialmente
idólatra!
O evangelho não é uma mensagem que o homem criaria, também
porque envolve muitíssimos mistérios cujo alcance ultrapassa abissalmente a
nossa compreensão. O homem, de seu lado, não é dado àquilo que não pode
dominar, controlar, compreender e explicar inteiramente. E o evangelho só se
sustenta se permanecem todos os seus mistérios – a concepção e nascimento
virginais na encarnação do Verbo, a ressurreição e a ascensão. Ele só faz
sentido à luz da Trindade, porque salvação é uma obra trinitária, e da dupla
natureza do Salvador, porque somente um Deus-Homem poderia resgatar-nos
válida e eficazmente. Os mistérios da fé são de tal modo ofensivos que a
Igreja sempre lutou contra heresias que, todas elas, de um modo ou de outro,
desejaram extirpá-los, tornando-se muitas delas populares e duradouras.
Mais que isso. É claro que uma mensagem que propaga salvação
adquirida na morte cruel e desumana de um inocente, pela vontade de Deus,
que, por Sua vez, exige que creiamos nessa mensagem sob pena de castigo
eterno e que abandonemos os nossos hábitos taxando-os de iníquos e
abomináveis, jamais seria pensada pela mente humana. Portanto, só há uma
explicação para uma mensagem assim, tão incrivelmente avessa às tendências
humanas: sua origem é divina.
Por fim, à guisa de aplicação, proponho-lhe as seguintes
proposições:
Em primeiro lugar, creia no evangelho como ele é – a Palavra de
Deus. Crer no evangelho significa recebê-lo como ele realmente é - uma
mensagem divina, a Palavra de Deus, não de homens. Vejamos como Paulo
se alegrou sobre o modo como a pregação evangélica foi recebida entre os
tessalonicenses: “Também agradecemos a Deus sem cessar o fato de que, ao
receberem de nossa parte a palavra de Deus, vocês a aceitaram, não como
palavras de homens, mas conforme ela verdadeiramente é, como palavra de
Deus, que atua com eficácia em vocês, os que creem” (1ª Ts 2.13).
Assim, apenas para fortalecer sua alma, repito que as boas novas
consistem em que pecadores irremediavelmente perdidos e condenados são
salvos pela graça e somente através da fé na pessoa de Jesus Cristo. Notemos
como Paulo falou de sua salvação, não em termos de conquista obtida por
seus próprios méritos, mas que Deus o separou no ventre de sua mãe e
simplesmente se agradou em revelar Seu Filho nele, por Sua graça (v. 15,
16). Assim, há esperança para o pior dos pecadores, que pode ser salvo se
cofiar no Senhor e, por outro lado, o melhor dos pecadores está e será
condenado se, confiado em sua própria bondade, achar-se sem necessidade de
Cristo.
Em segundo lugar, pregue o evangelho como ele é – uma
mensagem difícil para os homens. Tente fazê-lo sabiamente e aproveitando as
oportunidades, mas sem mascará-lo, nem deformá-lo, nem manipulá-lo, a fim
de fazer surgir uma mensagem mais apetecível. Não precisamos enfurecer as
pessoas com rudeza e falta de educação, achando que o ideal do cristianismo
é nos tornar as pessoas mais intragáveis do mundo. Em hipótese alguma!
Entretanto, o evangelho não é de origem humana, não é resultado de uma
pesquisa de campo, nem pode ser conformado às expectativas dos ouvintes.
Ele resulta de coisas duríssimas que têm que ser ditas e traz consigo
exigências igualmente radicais que têm que ser esclarecidas. E ali, bem no
centro, está a cruz, onde pendeu o Redentor Todo-poderoso, sangrando
abandonado por Deus e pelos homens. Deve ser nossa também a decisão de
nada saber entre os homens, “a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” (1ª
Co 2.2).
Em terceiro lugar, viva o evangelho como ele exige – uma vida
radical de autonegação. A vida no evangelho é aquela que se traduz na
autonegação. A cruz de Cristo é a cruz da nossa salvação para sermos
perdoados e recebermos justificação e a cruz da nossa inspiração para
vivermos vidas abnegadas. Paulo foi o homem mais livre do mundo e foi ele
quem afirmou: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive,
mas Cristo vive e mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no
Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2.20). O mesmo que
disse que “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5.1a), também
disse que “Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas
paixões e os seus desejos” (Gl 5.24). A vida que não atende à vindicação do
senhorio de Cristo não pode alegrar-se na redenção de Cristo.
A Deus somente a glória!
Capítulo 5
A Liberdade e a Comunhão da Igreja Exsurgem do Consenso Apostólico
Quanto ao Evangelho
Gl 2.1-10

Já sabemos que as igrejas paulinas estavam sob a ameaça de um


ensino herético, cujo conteúdo incluía o acréscimo à fé em Cristo da
observância de certas cerimônias da lei judaica (circuncisão, dieta e sábados).
O apostolado de Paulo estava sendo questionado por esses mestres
judaizantes, sobre o qual diziam não ser um apóstolo no nível dos que o
foram antes dele. Afirmavam que Paulo havia recebido a mensagem cristã
dos demais apóstolos, mas que não estava sendo fiel a ela e que tal
infidelidade consistia em retirar as exigências da lei mosaica para agradar ao
maior número possível.
É possível que a nossa passagem seja uma resposta direta ao
discurso distorcido dos judaizantes acerca de uma segunda visita que Paulo
fez a Jerusalém. Podiam está propalando que o apóstolo foi convocado pelos
líderes de Jerusalém – Tiago, Pedro e João -, e se submetido às instruções
deles. Para refutar esses argumentos, Paulo permanece falando em tom
autobiográfico e explicará os motivos que o levaram a essa viagem, as
conversas e debates ocorridos na reunião e o resultado dela.
Pois bem, somos inteirados de uma segunda ida a Jerusalém[21],
ocorrida após 14 anos[22], ocasião em que se deixou acompanhar por Barnabé
e Tito, dois de seus cooperadores (v. 1). Dois motivos o conduziram nessa
viagem: uma revelação e o receio de um ministério improdutivo (v. 2). É
dizer, Paulo foi a Jerusalém porque Deus, de modo direto, o mandou[23] e,
além disso, porque entendeu que deveria ter provas cabais que o evangelho
por ele pregado gozava da anuência inequívoca dos que foram apóstolos
antes dele. É por isso que ele comunica que nessa viagem expôs o evangelho
por ele pregado aos líderes de maior influência – Tiago, Pedro e João. Ele
ponderou que se resolvesse a questão com os mais influentes, o êxito da
jornada estaria alcançado.
Entretanto, vale salientar que Paulo não temeu ter pregado uma
mensagem equivocada durante todo esse tempo. É dizer, o que o levou a
Jerusalém nessa viagem não foi o desejo de averiguar junto aos líderes de
Jerusalém se estava ensinando corretamente. A essa altura, já ficamos
sabendo que ele foi comissionado não da parte de homem nem por meio de
homem (1.1), que ele não aceitaria nem que um santo anjo ou um apóstolo
verdadeiro alterasse a mensagem que pregava (1.8), que ele não recebeu sua
mensagem de homem algum, mas de Jesus Cristo e de Deus (1.12, 16) e que
ele, tão logo comissionado, não consultou a quem quer que fosse antes de
partir aos campos (1.17). Contra esse pano de fundo, é impossível pensar que
Paulo foi, de repente, tomado de um enorme senso de incerteza a ponto de
decidir consultar aos apóstolos em Jerusalém.
Também não devemos imaginar que Paulo estivesse com dúvidas
sobre se os apóstolos de Jerusalém mantinham o evangelho puro de Jesus
Cristo. Entretanto, para os líderes judeus da Igreja seria mais difícil
compreender os riscos que o evangelho corria caso houvesse transigência
com os mestres judaizantes. Para quem estava acostumado com as orações no
templo de Jerusalém, com a observância do sábado e com cerimônias e dietas
judaicas, qual problema haveria em que os gentios fizessem os mesmos? Será
que os apóstolos diriam: “Tudo bem! Somos salvos somente pela fé em
Cristo. Mas que há de mal em submeter os gentios aos nossos costumes?”
Então, não parece haver dúvida de que Paulo temia tão somente
“correr ou ter corrido inutilmente”. Isso é relevante, sobretudo se nos
recordarmos que os judaizantes estavam acusando Paulo de não ser
verdadeiro apóstolo e por disseminar uma mensagem que era só dele –
distorcida da que havia recebido. Caso ele não pusesse um fim nessa
controvérsia, como haveria de continuar nutrindo suas igrejas com o puro
evangelho? E se os apóstolos de Cristo, em Jerusalém, embora conhecendo o
evangelho verdadeiro, consentissem em transigir com os judaizantes em face
de seu próprio apego à cultura judaica?
Sem dúvida, Paulo fez essa viagem movido a profundas tensões
interiores. Por quê? A razão é óbvia: a depender de como os apóstolos de
Jerusalém reagissem, o cristianismo já teria nascido dividido em dois grandes
partidos – porque Paulo não esteve disposto a transigir: (1) aquele liderado
por Paulo - que pregava que a simples fé em Cristo é suficiente para dar a
judeus e gentios a plena posse da salvação -, e (2) o dos judaizantes - que
insistiam que além da fé em Cristo, era necessário aos gentios tornarem-se
judeus. É difícil exagerar a importância dessa reunião para a vida da igreja
como um todo, e de todos nós, em particular.
Os vv. 3-5 informam acerca de ferrenho debate com alguns
“falsos irmãos”. É que Tito, sendo grego, acompanhava Paulo sem ter sido
por este obrigado a circuncidar-se. Parece-nos que os apóstolos não viram
problemas nisso, embora, repito, Paulo estivesse disposto a, inclusive, romper
com eles, caso necessário. Mas os “falsos irmãos” intermeteram-se insistindo
na observância de cerimônias judaicas e foram bravamente resistidos por
Paulo e sua equipe.
E não pensemos que o embate era por questão de somenos
importância. O que estava em jogo na discussão era a nossa “liberdade” em
Cristo e a “verdade do evangelho”. Caso Paulo tivesse transigido e Tito, sido
circuncidado, as igrejas cristãs teriam sido levadas cativas à escravidão sob o
jugo de preceitos já cumpridos em Cristo e, por outro lado, a verdade de que
somos salvos somente pela fé em Cristo teria sido solapada. “Essa reunião em
Jerusalém talvez tenha sido o momento mais crítico para o evangelho.
Decidiu-se ali se prevaleceria o evangelho da graça, da misericórdia e da fé
em Cristo Jesus, sem as obras da lei, ou se venceria o ‘evangelho’ dos
judaizantes”[24].
Ao fim dessa que foi uma difícil reunião, Paulo saiu com a plena
aprovação dos líderes de Jerusalém, sobre o que descreve entre os vv. 6-10.
Tais líderes nada tiveram a acrescentar ao evangelho de Paulo – nada, além
da fé em Cristo, é requerido dos gentios para que se tornem cristãos (v. 6). O
apostolado de Paulo foi cabalmente reconhecido como estando ao nível dos
demais, com a diferença que a Paulo foi confiado o ministério aos gentios,
enquanto a Pedro, aos judeus (vv. 7, 8). Por fim, os líderes jerusalemitas
perceberam a graça de Deus sobre Paulo e lhe deram a destra da comunhão
(v. 9), pedindo somente que ele se lembrasse dos pobres (v. 10).
O texto é uma forte proclamação de que a liberdade e a comunhão
da Igreja só podem resultar da compreensão consensual do evangelho. À
parte da fé comum no evangelho, dizendo de outro modo, não há liberdade
nem comunhão verdadeiras. Do exposto, concluímos que o evangelho não é
apenas uma mensagem insuscetível de revisão mínima que seja (1.6-9) e de
origem divina (1.10-23), mas que dele dependem a nossa liberdade e a nossa
comunhão. Numa palavra: somente o evangelho, eis a doutrina do texto, é
capaz de operar verdadeiras liberdade e comunhão.
Em primeiro lugar, notemos como somente o puro evangelho de
Cristo opera a verdadeira liberdade. Imaginemos um cristão recém-
convertido de uma igreja paulina sendo arguido por um judaizante:
- Você é um cristão? Um discípulo de Cristo?
- Sim, sou cristão. Eu ouvi o evangelho da graça de Deus e pus
minha fé na suficiência da Pessoa e da obra de Jesus crucificado e ressurreto.
- Então você já foi circuncidado, não é? E, claro, observa as festas
judaicas, guarda o sábado, deixou de comer galinha à cabidela, carne de
porco, camarão...
- Não, eu apenas cri em Jesus Cristo e me arrependi dos meus
pecados. E isso é suficiente para que me encontre plenamente aceito no favor
de Deus, que me uniu a Cristo. Além disso, como hoje transbordo de gratidão
por essa graça inexplicável, tenho os mandamentos morais de Deus como
expostos no decálogo para me guiarem numa vida que agrada ao Senhor.
- Não, não, não. Você entendeu tudo errado. As Escrituras são
judaicas, Jesus Cristo era judeu e o que Ele fez, sem a observância da Lei de
Deus, não é suficiente. Você deve tornar-se culturalmente um judeu. Evitar
comer os animais impuros, participar de ritos e circuncidar-se e guardar as
festas e sábados.
- Não, meu amigo. Todas essas cerimônias eram válidas em um
tempo em que o evangelho estava sendo pregado sob a Lei. Elas eram apenas
sombras e figuras de coisas reais e definitivas para as quais apontavam.
Quando Cristo veio, Ele não apenas as reformou, ou as reduziu, ou as
substituiu, Ele realmente as cumpriu (Hb 9.9, 10).
Essa é a liberdade que somente o evangelho pode proporcionar!
Em segundo lugar, percebamos igualmente que somente a fé
comum no evangelho pode promover a verdadeira comunhão. Por um lado,
devemos ser sábios o suficiente para entender que dentro da Igreja de Cristo
cabem antagonismos, idiossincrasias, divergências e debates. Diversos pontos
da doutrina cristã (importantes, digo de passagem!) não são consensuais no
seio da Igreja de Cristo. Refiro-me a questões do tipo forma de governo,
forma de batismo, estilo litúrgico e outras diversidades culturais, perspectiva
escatológica e mesmo a temas relacionados com a ordem da salvação. Todos
nós estamos livres para ponderar acerca desses pontos e guardá-los conosco
após sério exame da Escritura por questão de consciência, mas jamais
deveríamos fazer deles argumento para negar a comunhão àqueles que,
nessas questões, discordam de nós.
O nosso texto nos recorda que Paulo foi aceito em nível de
absoluta paridade com os demais apóstolos, tanto quanto que há diversidade
de ministérios. Em termos prioritários, foi dado a Pedro o ministério entre os
judeus e a Paulo, aos gentios. Isso implica uma capacidade de propagação
adaptada do único evangelho nas mais diversas formas culturais. O evangelho
de Jesus nos faz um só povo com todos quantos se unem a Cristo pela fé e,
desse modo, são aceitos no favor de Deus, a despeito de uma enorme gama
de diversidades.
Por outro, a verdadeira comunhão não dispensa a verdade! Não é
à toa que vemos Paulo falar sobre “falsos irmãos”, os que insistiram na
circuncisão de Tito e em introduzir nas igrejas gentias a observância
obrigatória de preceitos do cerimonial mosaico. Paulo luta pela comunhão,
mas o faz indo a Jerusalém a ver se há comunhão que é fundamentada na
verdade do evangelho. É somente quando os apóstolos nada têm a acrescentar
à mensagem paulina que a comunhão se manifesta.
Finalmente, vejamos também como somente a liberdade do
evangelho pode promover a comunhão do evangelho. A depender do
resultado dessa reunião, para sermos cristãos, teríamos hoje que circuncidar
nossos filhos ao oitavo dia, guardar o sábado e cultuar no domingo, evitar a
todo custo comidas típicas ofensivas aos preceitos levíticos. E, se assim o
fosse, evangelizar seria o equivalente de judaizar, de propagar a cultura
judaica. Chegando em uma comunidade indígena brasileira ou em uma tribo
africana, haveríamos de reproduzir os costumes quanto à carne “kosher”, o
“bar mitzvah” dos adolescentes, o uso do “kipá” e do “tefilin” e coisas do
gênero. Com isso, o muro da separação permaneceria de pé e os dois povos,
judeus e gentios, em franca inimizade, incapazes de se tornarem um só povo.
Ao quebrar o muro da separação – o conjunto de preceitos
cerimoniais judaicos -, a paz foi feita e Cristo, dos dois povos, fez um só (Ef
2). Para tanto, Cristo não promoveu uma missão de aculturação judaica, Ele
morreu por pecadores dentre gentios e dentre judeus para que por Ele, e
somente por Ele, fossem comprados para Deus os que procedem de toda
tribo, língua, povo e nação (Ap 5.9).
À guisa de aplicação, proponho as seguintes exortações:
Em primeiro lugar, apeguemo-nos ao evangelho de Jesus Cristo,
porque ele é uma mensagem fundamental, sem a qual a nossa liberdade é
desfeita, tanto quanto a nossa comunhão. Sem o evangelho, perdemos nossa
liberdade cultural, visto que somos levados a ver a nossa cultura como coisa
inaproveitável e inferior. Sem o evangelho, perdemos nossa liberdade
teológica, porque somente o evangelho nos convence que nós nem
precisamos nem podemos cumprir qualquer requisito da lei como condição
para sermos aceitos por Deus. Isso não quer dizer que estamos livres das
exigências morais da lei, mas que estamos livres da lei como meio para
sermos salvos. Finalmente, há também uma libertação emocional, porque
enquanto sabemos que não é observando os preceitos morais que seremos
salvos, mas que fomos salvos por livre graça, estamos livres para
obedecermos a Deus por gratidão.
Em segundo lugar, aprendamos a adaptar a apresentação do
evangelho nos mais variados ambientes culturais. Todos nós somos muito
propensos a sacralizar as nossas formas particulares de vida eclesiástica e
culto e, com isso, julgar que quem as rejeita, rejeita o evangelho. Isso é um
erro! O evangelho é uma mensagem universal, para todos os povos, com
enorme capacidade de adaptar-se nas mais variadas idiossincrasias. E,
embora não seja uma tarefa fácil, todos temos que aprender a separar o
essencial, a mensagem intocável do evangelho, daquilo que é simplesmente
expressão cultural.
E, por fim, tenhamos comunhão com todos quantos creram
salvadoramente na suficiência da Pessoa e da obra de Jesus Cristo. São
nossos irmãos aqueles que, embora não estejam em nosso meio, foram
aceitos no favor de Deus somente pela fé em Jesus Cristo. E, por outro lado,
são “falsos irmãos” aqueles que, apesar de estarem em nosso meio, estão
tentando ser salvos por obras de justiça que porventura pratiquem.
Capítulo 6
Um Embate entre Dois Apóstolos
(2.11-14)

A grande questão de todos os séculos gira em torno de como o


Deus santo e justo aceita pecadores contumazes (como de fato somos) em
Seu favor. Todas as religiões lidam basicamente com essa pergunta. Mas
somente o evangelho diz que o homem não é aceito por Deus pelo que faz. A
razão disso está no caráter santo de Deus, por um lado, e na pecaminosidade
humana, por outro.
Explico. De uma banda, Deus exige nada menos que a perfeição
absoluta, a perfeita sintonia entre o que fazemos, dizemos, pensamos e
deixamos de fazer (com suas respectivas motivações) e a Sua Lei. De outra,
nós sabemos perfeitamente que em nossa história há registros conhecidos do
Criador que nos envergonhariam até a morte. Sabemos que jamais seríamos
capazes de viver para Deus conforme Seu padrão e que mesmo o melhor que
há em nós está completamente maculado de iniquidade.
Assim, Deus proveu o meio de salvar-nos pelo único caminho
possível: eleger a Cristo como o Representante-Substituto do Seu povo eleito
para que aquilo que Cristo fizesse fosse imputado a Seu povo (Rm 5.12-21).
“Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos
tornássemos justiça de Deus” (2 Co 5.21).
A Lei de Moisés, portanto, jamais deveria ter sido vista como um
meio pelo qual nós viríamos a adquirir méritos pessoais perante Deus.
Definitivamente, Deus jamais a deu para que a observância de seus preceitos
fosse o caminho pelo qual Ele viria a nos aceitar. Paradoxalmente, a Lei foi
dada justamente para nos convencer que não poderíamos viver pela
obediência a ela. Ademais, mesmo os seus sacrifícios diários, semanais e
anuais indicavam que sem derramamento de sangue não haveria perdão de
pecados.
Após sua conversão, o apóstolo Paulo começou a pregar que
Jesus era o Messias que devia vir ao mundo (“o Cordeiro de Deus, que tira o
pecado do mundo”, como disse João Batista) e que somente através da fé na
suficiência de Sua obra o homem seria aceito por Deus, perdoado de todos os
seus pecados e justificado (considerado justo), em face da imputação da
justiça de Cristo em sua conta.
Paulo disseminou em todo o mundo conhecido que a nação de
Israel teve um lugar importante na história da salvação, visto que por ela
vieram ao mundo a Escritura, as alianças e as promessas e dela descendeu o
Cristo segundo a carne. Pregou também que o conjunto das cerimônias
levíticas restou cabalmente cumprido em Cristo, para o qual apontavam como
figuras e tipos. Entretanto, enfatizou também que essa posição especial da
nação israelita seria temporária, que a Escritura encerrou a judeus e gentios
debaixo do pecado e que Deus, somente através de Cristo, salva pessoas
dentre judeus e gentios, formando de ambos os povos um só povo.
As igrejas do apóstolo foram fortemente expostas a essas
verdades. Mas isso deixou muitos judeus cristãos irritados com Paulo e
dispostos a persegui-lo aonde quer que ele viesse a plantar uma comunidade
cristã. Invariavelmente, tão logo Paulo saía de uma localidade, lá chegavam
os mestres judaizantes para dizer que sua mensagem estava incompleta e que
era necessário aos cristãos gentios obedecerem a certos preceitos da lei
mosaica, se quisessem ser salvos. Foi o que ocorreu na Galácia, o que
motivou o apóstolo a escrever nossa Carta em um misto de apreensão e ira
santas.
Para a defesa de sua mensagem, o apóstolo nos informa de outro
encontro com Pedro (o terceiro registrado na Carta), uma das colunas da
igreja de Jerusalém. Enquanto os anteriores ocorreram pacificamente, esse,
nem tanto. Os anteriores ocorreram em Jerusalém; esse, em Antioquia. Os
encontros em Jerusalém decorreram de idas de Paulo; em Antioquia, de uma
vinda de Pedro.
É bom entendermos que Jerusalém e Antioquia eram os grandes
centros do cristianismo em meados do primeiro século. Em Jerusalém, Cristo
havia sido crucificado e ali, após a ressurreição, reunido os primeiros
discípulos. Foi em Jerusalém que o Espírito desceu de uma vez por todas
sobre a igreja no Pentecostes. Antioquia, por outro lado, era o centro do
cristianismo gentílico, cidade da igreja que Paulo apascentou com Barnabé
até ser enviado por ela em missões no mundo gentílico. Em Jerusalém, os
discípulos de Jesus mantinham sua tradição judaica (idas ao templo,
observância do sábado, circuncisão de filhos e submissão ao calendário e
dieta judaicas), embora sabendo que o homem é justificado pela fé somente
em Jesus Cristo. Em Antioquia, os discípulos não se submetiam aos rigores
da lei mosaica, nem precisariam fazê-lo, conforme entendimento uníssono
entre os apóstolos. Mas, vamos ao texto...
Quando Pedro veio de Jerusalém a Antioquia, aculturou-se
perfeitamente. Viveu entre gentios como um gentio. Pregou nas reuniões da
igreja, hospedou-se e aceitou convites para refeições nas casas dos irmãos.
Uma festividade só! Saiu sarapatel, rabada, buchada de bode com cuscuz,
galinha à cabidela, farofa de torresmo com feijoada completa... E isso não lhe
constituiu qualquer dificuldade, porque Pedro já havia progredido
suficientemente para compreender que Deus não faz distinção entre judeus e
gentios e já tinha sido ensinado a não chamar imundo ao que Deus criou (cf.
At 10). Sua mensagem em nada diferia da do apóstolo Paulo, no sentido de
que somos salvos somente pela fé em Cristo, sem necessidade de acréscimos.
Enfim, tudo ia muito bem, até que chegou uma delegação da parte
de Tiago. Nesse ponto, lembremo-nos que Tiago não tinha pensamento
divergente de Pedro e Paulo. Isso pode ser observado tanto no que lemos no
parágrafo anterior (2.6-9) quanto pela decisão do Concílio de Jerusalém (At
15.13-21). Mas, seja como for, os enviados de Tiago eram homens que talvez
jamais tivessem tido contato com uma igreja cujo modo de viver fosse
inteiramente gentio, e não se sabe se aceitariam ou não que gentios cristãos
não adotassem a lei mosaica. Eram irmãos judeus que, talvez, se vissem um
bom exemplo, até poderiam seguir.
No entanto, com a chegada da delegação, Pedro não mudou de
convicção, mas de comportamento, tornando-se culpado de “hipocrisia”.
Noutras palavras, Pedro deixou de agir conforme suas convicções por
questões políticas. Começou a cogitar que não seria politicamente correto
manter uma postura tão “de boa” (como dizem meus meninos) com os
gentios. “O que a igreja de Jerusalém pensará de mim?” “Como Tiago me
avaliará quando souber que ando me esbaldando numa tremenda feijoada?”
“Minha reputação vai às cucuias!” Então sua decisão foi no sentido de ir
afastando-se da mesa dos crentes gentios, postura que foi aos poucos sendo
notada e imitada pelos judeus que vieram de Jerusalém e (pasmem!),
inclusive, por Barnabé, o missionário companheiro de Paulo nas missões aos
gentios.
Paulo observou aquilo e percebeu um problema mais profundo e
mais sério que simplesmente descortesia ou discriminação étnica. Para Paulo,
aquele comportamento não correspondia à verdade do evangelho (v. 14). A
verdade do evangelho é: que eu e você jamais seríamos aceitos por Deus pela
observância de preceitos; que ninguém gozará as glórias celestiais na
presença de Deus por méritos ou justiça própria; que todos, judeus e gentios,
estão debaixo do pecado e carecem da glória de Deus; que não há
superioridade étnica-racial-cultural; que o homem não pode salvar-se; que se
o homem há de ser salvo, quer judeu quer gentio, é pela graça de Deus e
através da fé em Cristo, somente...
Quando Paulo percebeu a “hipocrisia” e o prejuízo que uma tal
atitude poderia causar ao evangelho, não pensou duas vezes em repreender a
Pedro direta e publicamente, com as seguintes palavras: “Você é judeu, mas
vive como gentio e não como judeu. Portanto, como pode obrigar gentios a
viverem como judeus?...” É como se Paulo tivesse dito a Pedro: “Deus lhe
ensinou, Pedro, que Ele não faz distinção entre judeus e gentios. Você está
lembrado de sua ida à casa de Cornélio? Quando você viu um lençol com
animais impuros e Deus lhe mandou matá-los e comê-los, para lhe ensinar
que você não deveria sentir-se superior aos gentios? Pois bem, você aprendeu
a lição e vive como gentio. Como, agora, você, com sua dissimulação,
insinua que os gentios deveriam viver como judeus?” As palavras foram
duras, mas não mais que a forma (pública) da advertência.
Pelo exposto, a clara doutrina do nosso texto é que todos quantos
andam em desconformidade com o evangelho, com a sua postura, põem em
risco a clara compreensão da verdade e, para que a verdade do evangelho
seja mantida, devem ser repreendidos. E, para estabelecer a doutrina,
proponho aos irmãos as seguintes considerações:
Em primeiro lugar, o evangelho requer um tipo de vida que lhe
seja coerente. Há um tipo adequado de vida requerido pelo evangelho. A
frase “não andar [corretamente] de acordo com a verdade do evangelho” traz
o importante prefixo “orto”. O verbo grego “ortopodeo” significa literalmente
“andar com os pés retos”, andar em conformidade com, segundo o requerido
pelo, com vistas à verdade do evangelho. Isso significa que o evangelho é a
verdade que demanda um estilo de vida em conformidade com ela. Isso fica
claro em outras tantas Cartas paulinas, nas quais após a apresentação da
verdade do evangelho, uma sessão inteira é preenchida com a vida que o
evangelho requer. Em Romanos, o início da parte prática da vida cristã tem
início no capítulo 12: “Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de
Deus [apresentadas nos capítulos anteriores] que se ofereçam em sacrifício
vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês” (12.1). Em
Efésios, sessão semelhante começa no capítulo 4: “Como prisioneiro no
Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam”
(4.1).
Em segundo lugar, quem quer que ande em desconformidade com
a verdade do evangelho, dizendo-se cristão, deve ser repreendido, seja lá
quem for. Aqui, não importam conta bancária, influência política, titulação
acadêmica, erudição, fama, talentos, etc. Note que no v. 11 Paulo diz que se
opôs a Pedro “na cara”, pessoalmente, porque este se fizera repreensível,
condenável. Note igualmente que quem está sendo repreendido é ninguém
menor que Pedro, alguém que gozava de uma liderança cuja importância era
reconhecida por Paulo. Nas duas idas anteriores a Jerusalém narradas na
Carta, Paulo sempre quis encontrar Pedro, tido como uma das colunas da
igreja (1.18; 2.9). Entretanto, se a verdade do evangelho está em jogo por
quem se confessa cristão, seja lá quem for e sem importar que autoridade na
igreja reivindique, deve ser repreendido.
Em terceiro lugar, quem quer que ande em desconformidade com
o evangelho, deve aceitar pronta a humildemente a reprimenda. A igreja está
cheia de gente enfatuada, que acredita não necessitar mais de uma comunhão,
de um pastor. Essa é a sua condição? Se for, aprenda com o texto. De fato,
Paulo não nos diz qual foi a reação de Pedro. Apenas diz que uma das
colunas da igreja foi repreendida publicamente por ele. Mas o silêncio aqui é
bastante eloquente. Se Pedro tivesse se rebelado e dito algo do tipo “quem é
você para repreender um apóstolo de Cristo?”, certamente saberíamos.
Mas isso não é tudo! Anos mais tarde Pedro referiu-se a Paulo
com as seguintes palavras: “Tenham em mente que a paciência de nosso
Senhor significa salvação, como também nosso irmão Paulo lhes escreveu,
com a sabedoria que Deus lhe deu. Ele escreve da mesma forma em todas as
suas cartas, falando nelas destes assuntos. Suas cartas contêm algumas
coisas difíceis de entender, as quais os ignorantes e instáveis torcem, como
também o fazem com as demais Escrituras, para a própria destruição deles”
(2 Pe 3.15, 16). Vejamos que Pedro menciona Paulo como “nosso irmão
Paulo”; refere a sabedoria que Deus lhe deu, tanto quanto sua coerência e
constância; Pedro ainda reconhece que o pensamento de Paulo é profundo e
que ele mesmo tem dificuldade de entender alguns pontos; e que o que Paulo
escreve é “Escritura”.
Não podemos deixar de aplicar à nossa vida, à luz do exposto, os
seguintes pontos:
Em primeiro lugar, deve ficar claro para nós que todos os
grandes líderes da fé cristã erram (e, às vezes, erram terrivelmente), razão
pela qual devemos fugir ao máximo do culto à personalidade. É verdade que
a vocação pastoral é especial, é sublime. Desejar o episcopado é desejar uma
função nobre (1 Tm 3.1). Mas o pastor é apenas um mestre da Palavra, é
alguém que apascenta com o alimento da Palavra. Não é uma figura especial,
do tipo sacerdotal, cujas opiniões pessoais eu devo temer supersticiosamente
e sem a qual eu não me achego a Deus. A autoridade do pastor emana da
verdade que ele prega. A autoridade não é dele, mas do evangelho. Se ele
afastar-se do evangelho, ele não apenas não deve ser ouvido, mas, além disso,
deve ser repreendido. E se ele se afastar definitivamente do evangelho, não
importam quais sejam seus talentos pessoais ou feitos prodigiosos, ou ele se
arrepende de seu afastamento do evangelho ou nós nos afastaremos dele. Se
não assumirmos uma postura assim, sólida, faremos como os judeus e
Barnabé, que se deixaram levar pela dissimulação de Pedro.
Em segundo lugar, desejo repisar um ponto importante tocado em
momento anterior: não devemos desejar nenhuma comunhão cujo preço seja
o sacrifício da verdade. Comunhão sem verdade não passa de bajulação! Sem
evangelho, não há comunhão cristã. Paulo tinha todo o interesse em viver em
plena comunhão com Pedro. Isso ficou claro pelo relato do parágrafo
anterior. Mas, quando a verdade do evangelho estiver em jogo, nós
precisamos assumir uma posição firme e confrontar diretamente e, se for o
caso, publicamente, mesmo as pessoas que mais estimamos e mais
admiramos.
Em terceiro lugar, quero que você conclua comigo que nenhuma
tradição religiosa pode ter em importância o peso da doutrina da
justificação pela fé somente. Todos nós sabemos quanto valor damos à nossa
tradição religiosa, seja lá qual for. E quanto mais antiga, mais importante ela
se torna e quanto mais enraizada, mais a nossa relação com ela ganha
contornos emocionais. É por isso que devemos levar em conta todos esses
fatores na hora do evangelismo. Nós tocaremos em solo sagrado para as
pessoas. Entretanto, considere comigo que não é a antiguidade de uma
mensagem, nem a autoridade que a proclamou, que a torna verdade. Só existe
um único critério para sabermos avaliar se determinada mensagem merece
nossa consideração, a sua conformidade com o evangelho. Se não está de
acordo com a verdade do evangelho, nós não haveremos de querê-la, ainda
que quem a proclame seja Pedro, Paulo, João, Isaías ou Ezequiel. Por isso,
hoje eu lhe convido a submeter aquelas tradições que lhes são muitos caras ao
crivo do evangelho e a considerar as que lhe contradizem como coisa indigna
de ser mantida, para ter a Cristo. Foi essa a decisão de Paulo: “Mas o que
para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo.
Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema
grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi
todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo e ser
achado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da lei, mas a que
vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé”
(Fp 3.7-9). Que seja a nossa decisão!
Capítulo 7
A Argumentação Paulina no Embate com Pedro
(2.15-21)

Lembramos que Paulo esteve reavivando fatos de sua vida,


mormente aqueles que guardavam particular interesse à defesa da fé
evangélica. Para os judaizantes, Paulo não era um apóstolo do mesmo nível
de Pedro, João e Tiago, e sua mensagem era uma corruptela daquilo que ele
havia aprendido com apóstolos. “Se Paulo fosse fiel ao ensino dos líderes de
Jerusalém”, diziam os mestres judaizantes, “teria exigido dos crentes gálatas
que, além da fé em Cristo, deixassem-se circuncidar e passassem a observar a
dieta religiosa e o calendário judaico”.
Para refutar o ensino judaizante, pareceu crucial a Paulo dizer aos
crentes da Galácia que já havia tanto apresentado sua mensagem aos
apóstolos (inclusive a Pedro, o que fez em duas ocasiões), à qual estes nada
tiveram a acrescentar, quanto confrontado a Pedro, uma das colunas da igreja
de Jerusalém, quando o comportamento deste tendeu a desfazer o evangelho
da graça de Deus, fato que examinamos quando da leitura de 2.11-14.
No presente parágrafo, Paulo discorre sobre os argumentos
articulados no confronto pessoal e público de Pedro, o que passaremos a
analisar, a partir das seguintes proposições.
Em primeiro lugar, Paulo afirma categoricamente que os judeus
de nascimento sempre souberam que a Lei jamais foi dada para que os
crentes fossem salvos pela obediência de seus preceitos, mas tão somente
mediante a fé em Cristo Jesus (2.15, 16). Embora Pedro soubesse de tal
verdade, seu comportamento parecia indicar que a crença histórica e
predominante dos judeus com base justificável no Antigo Testamento era a
de que a observância da Lei era o meio de justificação.
Em contraponto, foi fácil para Paulo demonstrar que em nenhum
momento Deus pretendeu que a Lei viesse a ser o meio pelo qual os homens
são justificados por Ele, um meio de salvação. Acerca de Abraão, por
exemplo, o pai da nação eleita, pode lembrar que ele creu e isso lhe foi
imputado por justiça (Gn 15.6; Rm 4.3, 9), fato ocorrido antes da circuncisão
(Rm 4.10, 11). Deve ter avivado também que Abraão foi justificado pela fé
antes mesmo da dádiva da Lei, concedida cerca de quinhentos anos depois.
Fica claro que nem a Lei e nem a circuncisão foram o meio de justificação de
Abraão, mas que Abraão foi justificado pela fé, sem Lei e sem circuncisão.
Paulo pode ter acrescentado ainda ter sido esta a mesma crença
exposta claramente nos Salmos. Davi compreendia que bem aventurados são
os homens cujas transgressões são perdoadas e aos quais o Senhor não lhes
imputa a culpa pelos seus pecados (Rm 4.6-8; Sl 32.1 2). No Salmo 51, Davi
expõe a doutrina de que somente a bondade e a misericórdia de Deus podem
apagar suas transgressões e limpá-lo de suas iniquidades. Compreendia
plenamente que a Lei não deparava remédio para o seu pecado e que Deus
não quer, de fato, sacrifícios e holocaustos, mas o que Lhe agrada é um
coração alquebrado e contrito. Assim, para Paulo é mais que óbvio que o
legalismo judaico foi uma dissidência equivocada, uma distorção óbvia da
razão de ser da Lei de Moisés, cujas bases não podem estar no ensino do
Antigo Testamento.
Isso deve ficar claro para nós também! Em lugar algum da
Escritura e em tempo algum no curso de sua revelação, é-nos dito que nos
tempos do Antigo Testamento os homens eram salvos pela observância da
Lei, ou que poderiam sê-lo. Basicamente, em todos os tempos e dispensações,
os homens foram salvos como o somos, pela graça e mediante a fé! A única
diferença entre os crentes do Antigo Testamento e nós é que enquanto eles
confiavam na promessa de que Deus enviaria o Messias para resolver em
definitivo o problema do pecado, no Novo Testamento a fé dos crentes tem
como objeto a pessoa do Salvador Jesus Cristo. Lá, a fé era depositada na
promessa; aqui, “em Cristo Jesus”, o cumprimento da promessa.
Em segundo lugar, Paulo articula a ideia de que não é a presença
da Lei que nos garante uma vida em santidade (2.17, 18), mas o fato de nossa
união mística com Cristo (2.19, 20). Compreendamos o raciocínio do
apóstolo.
Paulo imaginou uma objeção levantada pelos mestres judaizantes
– o que a postura dissimulada de Pedro tendia a corroborar -, pela qual
afirmavam que se somos justificados pela fé somente, sem as obras da Lei,
continuamos pecadores. Diziam algo do tipo: “Paulo, seus crentes gentios,
visto que não se submetem aos preceitos da Lei, não passam de pecadores”.
“E, se esse for o caso”, diziam, “Cristo seria um ‘ministro do pecado’, um
promotor de uma vida pecaminosa” (v. 17).
A resposta paulina a essa sugestão dá-se com um enfático “De
modo nenhum!”. O fato é que os objetores do apóstolo não perceberam que
se observamos ou não certos preceitos da Lei, isso, por si só, não nos retira a
condição de pecadores. Antes, porém, se voltarmos a querer ser justificados
pelas obras da Lei, apenas confessamos que não passamos de pecadores,
assinamos a nossa condição de condenados (v. 18), visto que jamais
poderíamos cumprir a Lei perfeitamente. Portanto, nem Cristo é um “ministro
do pecado” pelo fato de nos libertar dos preceitos mosaicos, nem o retorno à
observância desses preceitos nos retiraria a condição de pecadores; antes, a
confirmaria.
Pelo contrário, a tarefa de encerrar-nos a todos no pecado não é a
de Cristo, mas da Lei. Nem Cristo precisaria fazê-lo, porque a própria Lei
trata de matar seus discípulos, como bem expôs Calvino[25]. Quando vivíamos
querendo achar-nos justificados pelas obras da Lei, não vivíamos para Deus
(mas para nós mesmos). Quando morremos para a Lei (pela própria Lei) -
isto é, quando nós morremos para a Lei como meio de salvação pelo
convencimento pela própria Lei de que jamais poderíamos ser justificados
por ela -, só então começamos a viver para Deus (v. 19).
Assim, em união com Cristo, quando Ele morreu nós morremos
com Ele e quando Ele ressuscitou nós ressuscitamos com Ele para andarmos
em uma nova vida, de modo que Cristo é quem vive em nós, o que é a mesma
coisa que dizer que vivemos pela fé nEle (v. 20). Portanto, como a
justificação pela fé, que nos deixou sem Lei como meio de salvação, far-nos-
ia pecadores? E como Cristo pode ser ministro do pecado, se quando cremos
nEle Ele passou a viver em nós, conduzindo-nos em novidade de vida? Nem
cogitamos que o homem justificado pela fé passou a ser pecador porque não
mais se submete a preceitos do cerimonial judaico, nem que Cristo é o
promotor de uma vida pecaminosa. “De modo Nenhum!”
Em terceiro lugar, Paulo ainda ensinou quando confrontou a
Pedro publicamente que não é possível que a justificação advenha de um
esforço sinérgico, uma conjunção de fé e obras da lei, sob pena da completa
anulação da graça de Deus (v. 21).
Mais uma vez, a atitude de Pedro ratificava, mesmo que contra a
sua vontade consciente, que a pessoa deve colaborar com Cristo para ser
salva. Por isso, o que Paulo disse na discussão com Pedro em Antioquia é que
a graça só é graça se a justificação ocorrer somente pela fé. Se à pura graça
for acrescida a noção de mérito decorrente de obras, em qualquer medida, a
graça é eliminada. E se há espaço para pelo menos uma mínima participação
do esforço humano na justificação, segue-se que Cristo morreu inutilmente,
ou que Sua morte não trouxe qualquer benefício.
Noutro dizer, se o homem sempre pode salvar a si mesmo, qual
seria o sentido da morte de Cristo, ou que benefício ela teria trazido?
Nenhum. Timothy Keller fez-nos pensar na seguinte ilustração:
Imagine que sua casa pegasse fogo, mas sua família inteira
escapasse, e eu lhe dissesse: Deixe-me lhe mostrar o quanto eu o
amo!, então corresse para dentro da casa e morresse. Que
desperdício de vida trágico e inútil, você pensaria. Mas, agora,
imagine que sua casa pegasse fogo, um dos seus filhos ainda
estivesse lá dentro e eu lhe dissesse: deixe-me lhe mostrar o
quanto eu o amo!, então corresse para dentro das chamas, salvasse
seu filho, mas perecesse. Você pensaria: Vejam o quanto esse
homem nos amava[26].

Keller, em seguida, disparou: “Se pudéssemos nos salvar, a morte


de Cristo não faria sentido e não significaria nada. Se constatamos que não
temos como nos salvar, a morte de Cristo significa tudo para nós”[27].
De Texto tão maravilhosamente rico, não podemos deixar de
destacar, à guisa de aplicação, pelo menos os seguintes pontos:
Em primeiro lugar, o arrependimento é urgente e necessário
àquele que está tentando justificar-se diante de Deus por boas obras, porque
é grave o pecado de afrontar a graça de Deus a pretexto de justiça própria.
Isso pode ocorrer de maneira explícita, como parte de um sistema religioso.
Mas pode ocorrer também de modo mais sutil, por aqueles que professam a
fé cristã evangélica, quando, por exemplo, querem reparar pecados com
muitas atividades ou com ofertas financeiras generosas. Se você está tentando
achar-se justo perante Deus através de boas obras, arrependa-se, porque você
nada faz além de anular a graça de Deus e, de modo soberbo, arvorar-se
capaz de apresentar a Deus alguma forma de justiça própria.
Em segundo lugar, em termos emocionais, nada há mais
escravizante que a noção de justificação pelas obras. Se conhecemos o que a
Escritura diz sobre a santidade e a justiça de Deus, é absolutamente
desesperador tentar achar-se justo diante do Deus santo por aquilo que temos
oferecer – que não passam de trapos imundos (cf. Is 64.6). Por outro lado,
como é maravilhosamente encorajador, sobretudo nos momentos de fraqueza,
de debilidade, pensar que Cristo morreu pelos pecados que cometemos e por
aqueles que ainda viremos a cometer. Somente a graça de Deus é forte o
suficiente para soerguer o caído!
Em terceiro lugar, a justificação pelas obras da Lei ou pela fé
somente expressam como nos sentimos perante Deus. No primeiro caso, a
pessoa acredita que pode conseguir a salvação, que sua participação pessoal é
realmente relevante para que Deus lhe aceite em Seu favor. O resultado disso
é orgulho! Por outro lado, quando sabemos que somos aceitos por Deus
somente pelo que Ele fez em Cristo, sem termos contribuído com
absolutamente nada (o que foi certamente o caso!), então nada nos resta
senão uma vida de humilde obediência e gratidão. “Onde está, então, o
motivo de vanglória? É excluído. Baseado em que princípio? No da
obediência à lei? Não, mas no princípio da fé” (Rm 3.27).
Capítulo 8
Os Gálatas são veementemente repreendidos
(3.1-5)

Após haver defendido o evangelho a partir de suas experiências


pessoais – sua conversão, seu frutífero ministério antes de qualquer contato
com os apóstolos, seus encontros com eles em Jerusalém e o confronto de
Pedro em Antioquia -, Paulo se volta para tratar com os crentes da Galácia
fazendo-os refletir sobre como eles se converteram e foram aceitos no favor
de Deus.
É de bom alvitre lembrar que um dos objetivos da Carta é impedir
que os convertidos dessa região se deixassem levar por uma mensagem
estranha, que nada tem de evangelho e que pregava a insuficiência da fé em
Cristo e a necessidade dos crentes adotarem certos preceitos da Lei de Moisés
para serem verdadeiros cristãos. Em nosso texto, o erro é combatido a partir
das experiências dos próprios gálatas, como veremos.
Em primeiro lugar, Paulo revela sua preocupação e interesse pela
vida dos gálatas ao alertá-los quanto à insensatez da apostasia com a qual
estão a flertar. Em duas ocasiões, os crentes da Galácia são chamados de
insensatos (v. 1 e 3), de serem, noutras palavras, faltos de bom siso, de
entendimento, de juízo, de capacidade madura de julgamento. A razão de
uma palavra tão severa é mais que justificável, pelas razões que passo a
apresentar.
A primeira razão da insensatez dos gálatas: a pregação de Paulo
foi tão clara, completa e impactante que ele diz que Jesus Cristo esteve
exposto claramente perante os olhos dos gálatas como tendo sido crucificado
(v. 1). Todos sabem que o apóstolo tomou resoluta decisão no sentido de
nada saber além de Cristo, e este crucificado, e de pregar uma mensagem sem
adornos de oratória para que ela fosse uma demonstração do poder do
Espírito e para que a fé dos convertidos não se fundamentasse em homens
(cf. 1 Co 2.1-5). Agora, ficamos sabendo que a mensagem do apóstolo era tão
vívida a ponto de tornar-se um retrato animado da crucificação do Salvador!
É dizer, ao ouvirem o evangelho pregado por Paulo, os gálatas viram Cristo
sendo crucificado.
Não custa ressaltar que Paulo não está dizendo que os gálatas
estiveram em Jerusalém e assistiram a crucificação, nem tampouco que
quando esteve entre eles agiu como um “sacerdote” romano que, ao celebrar
a eucaristia, pensa realizar um novo e verdadeiro sacrifício de Cristo. Não
percamos de vista que a doutrina grotesca da transubstanciação não passou a
gozar de aceitação crescente senão a partir do século V da era cristã.
Portanto, o argumento de Paulo é que os gálatas haviam ouvido o
evangelho de maneira tão visível, clara, que nada poderia justificar sua
apostasia.
A segunda razão da insensatez dos gálatas: os gálatas sabiam que
foi pela fé nessa pregação do Cristo crucificado que eles haviam recebido o
Espírito Santo (v. 2), e não porque se deixaram circuncidar, ou porque
passaram a guardar o sábado ou a dieta religiosa dos judeus. Nesse ponto,
cabe ainda lembrar que a dádiva do Espírito é a síntese de todas as conquistas
de Cristo na cruz do calvário. Noutro dizer Cristo venceu para nos dá o
Espírito, a pessoa divina que realiza no coração dos eleitos todas as
conquistas da redenção que há em Cristo. Portanto, o que Paulo está dizendo
é algo de muita gravidade: “Por que vocês estão se afastando da justificação
pela fé somente se foi pela fé somente que vocês receberam aquilo que Cristo
lhes conquistou, cuja síntese é o Espírito? Quanta insensatez!”
A terceira razão da insensatez dos gálatas: os crentes da Galácia,
sabedores que haviam recebido o Espírito pela fé no evangelho que ouviram
(v. 2), inexplicavelmente, passaram a desejar ser aperfeiçoados pelo esforço
próprio (v. 3). Começaram pela fé (v. 2), o que corresponde a terem
começado no Espírito (v. 3), e assim deveriam crescer em santificação. Mas,
desajuizadamente, desejaram prosseguir em santificação pela prática da lei
(v. 2), confiando no esforço próprio (v. 3).
Por óbvio, todos os crentes genuínos têm um desejo: todos eles
querem ser perfeitos para Deus, apesar de conhecerem a própria
pecaminosidade melhor do que podem fazer as demais pessoas. Mas, então,
como podemos caminhar à maturidade cristã que tanto almejamos? Pela fé,
em inteira dependência das operações do Espírito? Ou confiando na “carne”,
no próprio esforço, em nossa própria capacidade de autodisciplina e de
observâncias de regras e preceitos? Segundo o apóstolo, devemos continuar
crescendo do modo como começamos, pela fé no evangelho, no Espírito – e,
de fato, é assim que crescemos, se é que já recebemos o Espírito, ou, dizendo
de outro modo, se já cremos salvadoramente. Assim, a insensatez dos gálatas
se vê em terem flertado com a ideia de que, após haverem começado no
Espírito, poderiam crescer em santificação com base no esforço próprio.
A quarta razão da insensatez dos gálatas: os gálatas, quando
creram em Cristo para a sua salvação, como costumava ocorrer no primeiro
século, passaram a ser perseguidos por causa de sua nova fé. Teria sido
inútil todo esse sofrimento? Os judeus, no mais das vezes movidos de inveja
pela entrada de multidões à fé cristã, costumavam acusar a “nova seita”
perante as autoridades romanas e tumultuar, com perseguições violentas e
calúnias, a vida dos missionários e convertidos cristãos. Isso havia ocorrido
também com os gálatas, pela informação que nos traz o v. 4. A questão agora,
como mais uma prova robusta que demonstra a insensatez dos gálatas, é saber
se todas essas angústias se deram inutilmente, porque de fato é vão o
sofrimento por uma causa que depois será abandonada. É insensato
abandonar uma causa pela qual tanto se sofreu, mormente se essa causa for o
conhecimento de Cristo no evangelho!
A quinta razão da insensatez dos gálatas pode ser vista pelo fato
de não terem dado o valor devido não apenas ao modo como aquela
recepção inicial do Espírito ocorreu (v. 2), mas também por olvidarem que
as operações permanentes do Espírito ocorrem pela pregação da fé (v. 5).
Paulo estar a reconhecer que o Espírito permanece operando poderosamente
entre os gálatas, inclusive por meio de milagres, mas que tais operações
ocorrem (no presente) através da pregação do evangelho.
Aqui cabe uma importante observação. Paulo dispõe de maneira
muito clara a relação indissociável entre o Espírito e o evangelho – melhor,
entre a Trindade e o evangelho. No evangelho, Cristo é exposto como
crucificado (v. 1). No evangelho, Deus dá (continuamente) o Espírito e opera
milagres (v. 5). E no evangelho o Espírito é dado aos crentes, quando creem
(v. 2), e continua a ser dado na vivificação constante dos crentes (v. 5). De
modo que podemos concluir do texto que não há comunicação salvadora do
Espírito à parte do evangelho de Cristo. Isso explica porque “Jesus pode dizer
que nos é dado o novo nascimento através do Espírito (Jo 3.3), enquanto
Tiago (Tg 1.18) e Pedro (1 Pe 1.23) que nos é dado o novo nascimento
através da Palavra de Deus”[28]. Repito: a relação entre o Espírito e a Palavra
é indissociável. A Palavra é a espada do Espírito (Ef 6.17); o Espírito, o
Espírito da verdade (Jo 14.17).
Por todo o exposto, apostatar do evangelho, frente a argumentos
tão contundentes de que ele é a mensagem aprovada por Deus e por meio da
qual Deus opera, é certamente uma insensatez!
Por outro lado, a par da falta de sabedoria dos gálatas, Paulo não
deixa de perceber quão perigosas são as investidas das seitas, e isso o faz
indiretamente, através da pergunta “Quem os enfeitiçou?”. O verbo usado por
Paulo (baskano) é literalmente “enfeitiçar, lançar um encanto, procurar
prejudicar alguém mediante um mau olhado ou palavras malignas”[29]. Paulo
está, francamente, dizendo que os gálatas foram enfeitiçados e chamando os
judaizantes – aqueles que estão a ponto de convencer os gálatas de que a
justificação não ocorre pela fé somente – de feiticeiros.
Eis uma palavra clara a todos os supersticiosos: a verdadeira
maldição não emana dos encantos, das magias, das macumbarias e
despachos, dos maus olhados, das palavras que nos recomendam às piores
coisas, mas a apostasia do evangelho, moral ou religiosa. Balaão não
conseguiu amaldiçoar os filhos de Israel com seus encantamentos, mas o fez
quando introduziu as mulheres moabitas para fornicarem com os israelitas
(Nm 25.1-3; 31.16). Em Gálatas, os crentes foram enfeitiçados, não com
encantamentos e palavras de maldição, mas através de um ensino que lhes
convenceu de que algo mais além da simples fé no Salvador Todo-poderoso é
necessário à salvação.
Agora atentemos ao mais importante. Não nos livramos desses
encantamentos batendo na madeira, nem dando três pulinhos, nem tampouco
“amarrando em nome de Jesus”, mas permanecendo crendo na suficiência da
obra de Cristo para nos salvar, o que corresponde à vida no Espírito.
Pelo exposto, parece-nos claro que o apóstolo quer-nos ensinar
que nós não precisamos de mais nada além do evangelho e que o progresso
na vida cristã dá-se nas mesmas bases evangélicas em que começou: pela fé
no Cristo crucificado. Abandonar o evangelho para confiar no esforço
próprio é tanto uma prova de tremenda insensatez quanto do poder sedutor
das seitas. Eis a doutrina apostólica ressaltada.
Nesse passo, apliquemos a doutrina por nós apreendida às nossas
vidas, o que poderemos fazer a partir das seguintes exortações:
Em primeiro lugar, não se deixe seduzir. Os gálatas foram
capazes de sofrer muito pelo evangelho, sem jamais pensar em desistir dele
(v. 4). Podem ter perdido familiares, bens e empregos, sem jamais deixar-se
desfalecer e convencer a que retrocedessem da confissão que fizeram. Mas
quando foram acossados por uma seita, com argumentos sagazes e deveras
sedutores, sucumbiram. Isso parece provar que o feitiço de uma seita é mais
poderoso que a espada do perseguidor. E isso diz mais: se uma igreja que foi
discipulada por Paulo quase chegou a apostar da fé quando cercada por uma
seita, nós não deveríamos nos sentir em melhor condição nem tampouco nos
julgar imunes ou achar que não precisamos das exortações desse humilde
pastor. Por isso, rogo aos meus irmãos que não se deixem seduzir. E digo
mais. Os sedutores mais perigosos não estão lá fora nem surgirão do
satanismo ou dos centros de umbanda, mas estão aqui dentro e nós os
chamamos de irmãos.
Em segundo lugar, conheça a sua história. Você conhece as
origens do protestantismo? Você sabe por que surgiu a Reforma Protestante e
de onde veio o congregacionalismo? Você sabe por que nos denominamos
congregacionais? Não foi porque alguns quiseram fazer um movimento novo
e pararam pra pensar em um nome atraente. Você conhece as suas origens?
Pense de novo em como você chegou à fé. Isso pode ser bastante instrutivo e
edificante. Pense em como você conheceu a Cristo, na alegria do dia em que
você percebeu que Deus havia lhe perdoado sem nenhum tipo de contribuição
sua, mas somente pela fé no Salvador. É exatamente isso que Paulo faz em
nosso texto. Ele percebeu o valor de um argumento que emana de uma
revisão da história.
Em terceiro lugar, entenda que do modo como você foi salvo –
desistindo da justiça própria e confiando na suficiência do Salvador – você
deve prosseguir na salvação – desistindo do esforço próprio e confiando na
suficiência do Salvador. O que Paulo diz em toda essa passagem é que somos
introduzidos por Deus na vida cristã pelo evangelho e somos santificados por
Deus na caminhada cristã pelo evangelho. O evangelho não é uma matéria
introdutória, uma parte dos primórdios da fé, do jardim da infância da
piedade, que logo deve ser abandonado por disciplinas mais profundas.
Crescer é aplicar o evangelho em todas as áreas da vida. Basta você pensar
em que tipo de vida deveria viver aquele que sabe que poderia estar agora
mesmo sofrendo os mais indizíveis sofrimentos eternos sob a ira do Todo-
poderoso, mas que, sem haver contribuído com nada, sem nenhum mérito, foi
conquistado por uma graça inexplicável que não somente lhe poupou dos
tormentos infernais, mas lhe garantiu os mais inefáveis e indescritíveis
prazeres eternos na presença do Eterno, tudo isso pelo preço de sangue de um
Representante-substituto santo e justo.
Em quarto lugar, que todos quantos almejam o avivamento da
obra de Cristo permaneçam no evangelho, porque todo o avivamento é o
avivamento da vida no evangelho. O nosso texto nos ensinou com muita
clareza que conversões ocorrem com a pregação do evangelho, porque é com
o evangelho que o Espírito que regenera é dado. Ainda nos disse que a
contínua dádiva do Espírito para vivificar a igreja e operar nela milagres
ocorre pela pregação do evangelho. Shows e sofisticação musical atraem
multidões. Exaltação de líderes provoca culto à personalidade e adesões
cegas. Mas somente através do evangelho Deus atrai multidões a Cristo e
opera o despertamento do Seu povo para servir-Lhe em santidade, em
decorrência do derramamento do Espírito.
Não sei quanto a você, mas quanto a mim já decidi: pela graça de
Deus, hei de viver até a morte pela fé na Antiga História.
Capítulo 9
Os Verdadeiros Filhos de Abraão
(3.6-9)

Lembremos que Paulo está combatendo a noção dos mestres


judaizantes de que somente a fé em Cristo não é suficiente para salvar. “É
preciso fé em Cristo e, além disso, adotar certos aspectos da lei mosaica”,
afirmavam. Agora, de maneira muito apropriada, Paulo, depois de haver
apelado à experiência dos próprios gálatas, chama ao debate a história do
patriarca Abraão, o pai étnico dos judeus.
Na verdade, Abraão é um personagem de especial importância
para as três grandes religiões monoteístas do mundo: o judaísmo, o
cristianismo e o islamismo. Para os muçulmanos, Abraão é importante
porque Maomé traçou a própria descendência a partir do patriarca, por meio
de Ismael, o filho que Abraão teve com a serva egípcia Hagar. Segundo
Maomé, Abraão teria sido retirado do politeísmo e junto com Ismael
construído a Caaba, aquele que viria a ser posteriormente o santuário dos
muçulmanos e para onde todo muçulmano, pelo menos uma vez na vida,
precisa fazer uma peregrinação. Mas essa não é a versão da Escritura, que
insiste que por meio de Isaque, o filho da promessa, e não de Ismael, Deus
construiu a linhagem que cumpriria Suas promessas a Abraão e daria ao
mundo o Messias, o que de fato ocorreu.
Também para os judeus, portanto, Abraão é uma figura de
destaque. Ele era um idólatra chamado e retirado por Deus de Ur dos
Caldeus, porque lemos em Js 24.2 que “Josué disse a todo o povo: Assim diz
o Senhor, o Deus de Israel: ‘Há muito tempo, os seus antepassados, inclusive
Terá, pai de Abraão e de Naor, viviam além do Eufrates e prestavam culto a
outros deuses’”. Foi dessa ambiência que Deus, inexplicavelmente, escolheu
Abraão e o chamou, lhe prometendo uma terra em que seria habitada por uma
numerosa descendência sua e ainda lhe disse que faria dele um instrumento
pelo qual todas as nações da terra seriam abençoadas (cf. Gn 12.1-3; 15.7).
Em certa ocasião, quando Abraão já avançava em idade e
permanecia sem filhos, Deus o fez olhar para o céu e admirar o número das
estrelas, acrescentando que assim seria a descendência do patriarca,
incontável. Então o texto informa que Abraão creu nessa promessa e isso lhe
foi imputado como justiça (Gn 15.6).
Passados alguns anos, quando Ismael, o filho da escrava, já
contava treze anos e o patriarca, noventa e nove, Deus deu a Abraão um sinal
visível da aliança entre Deus e o patriarca, momento em que também mudou
o seu nome de Abrão (“pai exaltado”) para Abraão (“pai de muitos”). A
aliança consistia em que Deus seria o Deus do patriarca e de sua
descendência e Abraão, de sua parte, viveria somente para Deus. Esse
relacionamento recebeu aquilo que era ao mesmo tempo um selo e uma
marca visível, a circuncisão (Gn 17.1-14).
Como todos sabemos, a descendência de Abraão, por meio de
José, foi morar no Egito, onde se multiplicou muito no decurso de cerca de
400 anos, até que Deus convocou Moisés e a libertou de uma então severa
escravidão. Após o êxodo, Deus concedeu um conjunto de leis, inclusive o
decálogo, que cobria todas as áreas da vida da sociedade israelense, desde o
culto e a forma dos sacrifícios até leis que regulavam a propriedade e a
punição de crimes.
O problema, entretanto, é que nem todos da descendência étnica
de Abraão compreenderam que todo o relacionamento com Deus deveria
permanecer nos moldes revelados ao patriarca, pela fé. Ao contrário,
julgaram que Deus havia dado a lei para que fossem salvos pela observância
dela, e não como forma de aprofundar o conhecimento da santidade de Deus
e da sua própria pecaminosidade e necessidade do Cordeiro que tira o pecado
do mundo. E esse erro foi fatal. Nos dias de Jesus, rabinos diziam que Deus
havia concedido a lei a Abraão, pelo menos 430 anos antes de Moisés, e a
seita dos fariseus impunha sobre o povo um sistema legalista massacrante,
que multiplicava o número de regras minuciosas como forma de cumprir os
mandamentos de Deus.
O orgulho religioso era sua característica mais marcante, porque,
afinal, os judeus tinham a lei, a circuncisão e eram descendentes de Abraão.
Por isso muitos até acreditavam que nem precisavam se arrepender, já que
eram filhos de Abraão. Isso explica a pregação de João Batista, quando dizia:
“Raça de víboras! Quem lhes deu a ideia de fugir da ira que se aproxima?
Deem frutos que mostrem o arrependimento. E não comecem a dizer a si
mesmos: ‘Abraão é nosso pai’. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode
fazer surgir filhos a Abraão” (Lc 3.7, 8). Em um debate com o Senhor Jesus,
os fariseus protestaram (quando Jesus lhes disse que eram escravos do
pecado) retrucando que “Somos descendentes de Abraão e nunca fomos
escravos de ninguém” (Jo 8.33). Jesus afirmou que se eles fossem filhos de
Abraão, fariam as obras de Abraão, e arrematou dizendo: “Vocês pertencem
ao pai de vocês, o Diabo...” (Jo 8.44).
Pelo exposto, dá pra perceber como Paulo foi feliz em invocar o
exemplo de Abraão para estabelecer o evangelho na mente dos gálatas. Era
como se dissesse: “Vocês estão sendo seduzidos a abraçar aspectos da lei que
foi dada à descendência de Abraão como forma de ser aceito por Deus. Mas
será que Abraão concordaria com a pregação dos judaizantes? Pensemos
juntos a respeito”. É isso que encontramos nos versículos em exame, que a
justificação pela fé somente pode ser observada a partir da experiência do
patriarca. Se não, vejamos:
Em primeiro lugar, não pode haver nenhuma dúvida de que
Abraão foi justificado pela fé somente (v. 6). Paulo convida os crentes da
galácia a refletir acerca do exemplo de Abraão, citando Gn 15.6: “Ele creu
em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”. O verbo usado por Paulo
(grego logizomai), que foi traduzido por “creditar” (na NVI) ou “imputar” (na
ARA), é importantíssimo à doutrina da justificação pela fé. Ele costumava ser
usado na contabilidade, para dizer que uma soma de dinheiro estava sendo
contada como pagamento de determinada dívida. Noutras palavras, a certa
quantia de dinheiro imputava-se a qualidade de quitação de uma conta.
Assim, Paulo traz à baila um texto que ensina que o ímpio e incircunciso
Abraão (Rm 4.5, 11, 12) teve em sua conta creditada a justiça de Deus, por
meio da fé somente, pela qual passou a ser considerado um homem justo,
apesar de continuar a ser um pecador. No dizer de Lutero, Abraão passou a
ser simultaneamente justo e pecador - simul justus et peccator. Basta lembrar
que após Abraão ter sido justificado por graça (Gn 15), por meio da fé
somente, ele caiu na incrível fraqueza de ter um herdeiro por meio da serva
Hagar (Gn 16).
Mas, aqui, muita atenção para um ponto crucial. O ensino de
Paulo e o exemplo de Abraão não estão a dizer que Deus considerou a fé de
Abraão uma obra meritória agradável a Deus, a ponto do pecador Abraão
merecer a consideração de justo da parte de Deus (cf. Rm 4.1-5). Note bem:
se dissermos que a fé é aquilo que Deus considera justiça, ela torna-se uma
forma de “justiça própria”, e isso implicaria no absurdo de dizermos que
Deus está obrigado a recompensá-la, no que restaria totalmente esvaziada a
noção de graça. A justiça não é a fé, porque a própria ideia de imputação de
justiça (externa) nega a noção de justiça inerente.
Então, que Abraão creu em Deus e isso lhe foi creditado como
justiça significa que através da fé de Abraão Deus passou a considerá-lo um
homem justo, passou a tratá-lo como um homem cuja vida é perfeita, e
Abraão foi aceito no favor de Deus, perdoado e redimido de forma
incondicional, a despeito de permanecer carregando a corrupção do coração.
Paulo está, na verdade, respondendo o cerne do cristianismo, e
que o é também de todas as religiões – como pecadores podem ser aceitos
por um Deus absolutamente santo. A diferença está na resposta. Enquanto
todas as demais religiões constroem um sistema de mérito, pelo qual os
homens vão, mediante boas obras, acumulando pontos no banco celestial até
adquirirem a condição de justos, o evangelho, por outro lado, e somente ele,
diz que Deus mesmo concede gratuitamente tudo quanto Ele exige, pela fé
somente.
Portanto, o argumento do apóstolo é infalível. “Respondam-me,
irmãos gálatas: como Abraão - o patriarca de quem os judeus se orgulham de
serem descendentes – foi salvo? Deixando-se circuncidar ou de comer carne
de porco? Guardando o sábado? Não. Mil vezes não. Ele foi considerado
justo, teve suas contas acertadas com Deus definitivamente, quando creu nas
promessas de Deus contra a esperança”.
Em segundo lugar, Paulo argumentou que os verdadeiros filhos
de Abraão são os crentes - aqueles que, como Ele, creram, creem e crerão
em Cristo para serem perdoados e justificados (v. 7). O versículo traduz pelo
menos duas ideias importantíssimas. A primeira é que uma conexão com a
linhagem física de Abraão não possui qualquer valor espiritual em si mesma.
No dizer de Augustus Nicodemus, “No dia do juízo, ninguém fará teste de
DNA para saber se tem sangue judeu correndo nas veias. O que vai contar é
se a pessoa teve a mesma fé que o patriarca Abraão. É isso que vai fazer toda
a diferença”[30].
Esse é o entendimento do Senhor Jesus e dos apóstolos. Jesus
afirmou que os crentes dentre os judeus é que são filhos de Abraão, como fez
com uma mulher que libertou de uma prisão satânica de dezoito anos – “esta
mulher, uma filha de Abraão” (Lc 13.16). Sobre Zaqueu, nosso Senhor disse:
“Hoje houve salvação nesta casa! Porque este homem também é filho de
Abraão” (Lc 13.9). Contra outros que eram igualmente parte da descendência
física de Abraão (cf. Jo 8.56), Ele disparou: “Se vocês fossem filhos de
Abraão, fariam as obras que Abraão fez” (Jo 8.39). Não o eram, portanto, em
um sentido muito real.
Paulo ecoou o mesmo ensino. Ele afirmou que “Não é judeu
quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é meramente
exterior e física. Não! Judeu é quem o é interiormente, e circuncisão é a
operada no coração, pelo Espírito, e não pela Lei escrita. Para estes o louvor
não provém dos homens, mas de Deus” (Rm 2.28, 29). Em Rm 9.6, ele
acrescentou que “nem todos os descendentes de Israel são Israel”.
A segunda verdade decorrente desse versículo é que Deus possui
apenas um povo – a Igreja -, não dois, Israel e Igreja. Em todos os tempos, os
únicos verdadeiros filhos de Abraão foram aqueles que, como ele, foram
justificados pela fé. O povo de Deus é o mesmo e um só, embora no AT esse
povo se organizasse em forma de nação-estado, e no NT, seja uma sociedade
internacional de crentes, não mais ligados por traços comuns nacionais. A
despeito dessa diversidade nos modos de existir entre o AT e o NT, os que
são da fé é que são filhos de Abraão e que são abençoados com Abraão,
homem de fé (v. 9).
Em terceiro lugar, Paulo agora avança no argumento e afirma que
Abraão já sabia que seus verdadeiros filhos eram os crentes, porque Deus
tinha dito a ele que “Por meio de [ou em] você todas as nações serão
abençoadas” (v. 8, Gn 12.1-3). Abraão recebeu, por assim dizer, “um pré-
evangelho, uma ‘promessa’ de evangelho”, no dizer de Adolf Pohl[31]. Como
percebe Nicodemus, o evangelho estava presente na expressão “‘de ti’, que se
refere a Cristo”[32], porque Deus de fato disse a Abraão algo do tipo: “Abraão,
todas as nações da terra receberão bênçãos por meio de um descendente que
virá de você, a saber, Jesus Cristo”.
Mas, cuidado em um detalhe importante. Nós somos abençoados
“em Abraão” no sentido de que por meio dEle veio o Cristo, mas não que ele,
Abraão, seja a fonte das bênçãos que recebemos. Isso fica claríssimo no v. 9,
quando Paulo põe no lugar de “em Abraão” a expressão “com Abraão”. É
dizer, Abraão não é fonte de bênçãos no mesmo sentido de que Cristo é, mas
tão somente em que por meio dele veio o Cristo segundo a carne. Em outro
sentido, e essa é a ênfase no v. 9, Abraão é tão beneficiário quanto nós das
bênçãos cuja fonte é Deus em Cristo.
À guisa de aplicação, convém ressaltar os seguintes pontos:
Em primeiro lugar, cuidemos para não nos deixarmos levar pelos
novos movimentos judaizantes, tão presentes nas igrejas evangélicas. Não
estou referindo-me somente ao sabatismo. Quero também alertar quanto à
forte “admiração” geral para com o povo judeu que o dispensacionalismo fez
surgir no meio evangélico, como se ser parte dos judeus étnicos fosse uma
espécie de vantagem adicional, para dizer o mínimo.
Em segundo lugar, notemos que o v. 9 nos fala de sermos
abençoados junto com o crente Abraão. Entretanto, cuidemos para não
sermos levados a pensar que tais bênçãos incluem necessariamente possuir
as riquezas que Abraão possuiu. Abraão, de fato, foi um homem rico e
importante no seu tempo. Mas, por outro lado, foi também um homem
sobrecarregado de problemas. Eram crises com a mulher, crise com os filhos,
crise com um sobrinho e, sobretudo, crises em face de seus próprios pecados.
A associação de Abraão com Deus, é isso que quero dizer, não o
imunizou de passar por dores variadas nesta existência. No entanto, ele foi
abençoado porque andou com Deus, foi aceito no favor de Deus, foi
perdoados dos seus pecados, ouviu a Deus e falou com Deus. Abraão
conheceu a Deus e viveu para a glória de Deus. Isso constitui a verdadeira
bênção que herdamos junto com o crente Abraão.
Capítulo 10
A Bênção e a Maldição
(3.10-14)

A Carta aos Gálatas é uma atitude urgente do apóstolo no sentido


de evitar que suas igrejas recém-plantadas na Galácia se desviem para a
proposta judaizante, segundo a qual os cristãos, para serem salvos, deveriam
se deixar circuncidar e adotar o calendário e a dieta judaicos. Era-lhes
necessário, para serem cristãos, tornarem-se judeus ou pelo menos
observarem certos aspectos da lei mosaica, segundo os falsos mestres.
Nos capítulos 1 e 2, Paulo defendeu seu apostolado e a origem
divina do evangelho que pregava, indicando inclusive a concordância dos
apóstolos mais antigos que ele com sua mensagem e narrando um caso em
que necessitou reprender a Pedro face a face e publicamente. No capítulo 3,
ele já demonstrou a insensatez dos gálatas em se deixarem enfeitiçar a partir
de sua própria experiência, bem como da história de Abraão.
Em nosso texto, o apóstolo tornará evidente que a própria Lei
afirma que quem deseja ser salvo pela obediência a seus preceitos está
debaixo de maldição e que a bênção de Abraão só é fruída pela graça de Deus
através da redenção de Cristo. A doutrina apostólica foi disposta da seguinte
forma:
Em primeiro lugar, Paulo deixa claro que aqueles que estão
tentando ser salvos pela prática da Lei estão debaixo da maldição, e quem o
diz é própria Lei, porque nela está escrito: “Maldito todo aquele que não
persiste em praticar todas as coisas escritas no livro da Lei” (v. 10). A
citação é retirada de Dt 27.26. Na ocasião, Deus havia disposto as tribos de
Israel em dois montes – o Ebal e o Gerizim. Aquelas tribos postadas no
monte Gerizim recitariam as bênçãos da obediência e as do monte Ebal, as
maldições da desobediência (Dt 27.12, 13). As maldições foram recitadas
seguidas do “amém”, a partir de Dt 27.15, e a última delas está no v. 26, a
citada por Paulo aqui: “’Maldito quem não puser em prática as palavras desta
lei’. Todo o povo dirá: ‘amém!’”.
Assim, para Paulo, aqui está a prova pela qual a própria Lei diz
ser impossível ser salvo pela prática dela, pois ela encerra em maldição todos
quantos não a guardarem completa e initerruptamente. Em outras palavras, a
própria Lei estava dizendo que quem deseja ser salvo pela observância de
seus preceitos teria que guardá-la perfeitamente todos e cada um dos seus
mandamentos o tempo todo, porque se um único ponto da Lei fosse violado,
a Lei inteira o seria e o transgressor estaria debaixo de sua maldição.
Há outro detalhe importante a ser observado. É que a Lei mesma
previa todo um sistema de sacrifícios a alguns pecados e deixava a outros a
consequência da morte, sem qualquer previsão de remédio. Isso significa que
só havia dois caminhos possíveis: ou o pecador escaparia mediante a oferta
de um sacrifício, quando o pecado cometido podia ser expiado dessa forma,
ou o pecador deveria colher a punição da morte, quando não havia
estipulação de remédio mediante algum sacrifício. Percebam que em nenhum
momento é dito que algum israelita escapou (ou poderia escapar) da maldição
porque obedeceu (se obedecesse) a Lei. Ou se salvaria mediante o sacrifício
da vítima substituta ou se colheria a morte. A salvação pela obediência não é,
nunca foi, uma alternativa que a Lei antevisse.
Portanto, provado está que a Lei põe debaixo de maldição todos
os seus transgressores, com consequências presentes e futuras, terrenas e
eternas, pois o Senhor Jesus pronunciará a maldição da Lei no juízo final
contra todos os que desejaram salvar-se pela justiça própria: “Malditos,
apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus
anjos” (Mt 25.41, com grifo).
Em segundo lugar, ao dizer que a Lei encerra sob maldição seus
transgressores, Paulo quer que compreendamos que de fato inviabilizada
está - tornada apenas hipotética, mas factualmente impossível - a salvação
por sua prática. É dizer, a nossa conclusão tem que ser esta: “É evidente que
diante de Deus ninguém é justificado pela Lei, pois ‘o justo viverá pela fé’”
(v. 11).
A insistência de Paulo de que “ninguém é justificado diante de
Deus pela lei” é perfeitamente compreensível, porque é até possível
justificarmo-nos uns perante os outros. Pessoas parecem boas aos nossos
olhos, mas nem conhecemos o que elas fazem quando estão distantes de nós,
nem sozinhas na vida íntima e privada ou em lugares que pensam não serem
vigiadas. Também não temos a menor ideia do que se passa no coração das
pessoas. Então, pessoas podem ser justificadas diante de nós. Nós dizemos
delas que são bons cidadãos, que vivem de casa para o trabalho, bons pais e
boas mães, pessoas cumpridoras de seus deveres, que pagam suas contas em
dia, etc.
Mas a salvação não é uma questão sermos justificados diante dos
homens. Salvos são os justificados diante do Deus que conhece tudo sobre
nós, nossa vida privada, o que fazemos quando ninguém nos vê, e inclusive
todos os pensamentos de nossa mente, sem exceção alguma. Vejamos o que
disse o escritor aos Hebreus: “Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais
afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto de dividir
alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e as intenções do
coração. Nada, em toda criação, está oculto aos olhos de Deus. Tudo está
descoberto e exposto diante dos olhos daquele a quem havemos de prestar
contas” (Hb 4.12, 13). Agora digam os meus irmãos se é possível escapar ao
escrutínio dAquele que tudo sabe e tudo vê!
Mais que isso. Salvação é uma questão de ser justificado diante
do Deus que possui Seu próprio Código, cuja suma está nos Dez
Mandamentos. Digo isso porque os homens costumam encontrar uma forma
de escape erigindo seu código ético pessoal. Eles dizem: “Deus há de me
receber porque afinal sou uma boa pessoa. Não bebo, não fumo, não traio
meu cônjuge, nunca matei ninguém, vivo de casa para o trabalho, etc”. Sim,
segundo o código dessa pessoa, ela está justificada. Entretanto, não seremos
julgados segundo nossos códigos de conveniência, mas segundo a Lei eterna
de Deus.
Portanto, à luz dessas considerações, “é evidente que diante de
Deus ninguém será justificado pela Lei” e, acrescento, nem por intermédio de
alguma “lei” pessoal alternativa. O caminho tem que ser outro e esse outro
caminho já foi apontado pela Escritura hebraica, pois o profeta Habacuque já
disse que “o justo viverá pela fé” (Hc 2.4).
Quando Habacuque escreveu seu livro, Israel estava em péssimo
estado espiritual. O profeta orou e Deus lhe respondeu com algo assombroso:
Deus iria punir Israel através dos babilônios, uma nação ainda mais ímpia que
o povo judeu. O que Habacuque deveria fazer? A solução pareceu ao profeta
pior que o problema. Habacuque deveria tão somente ter confiança em Deus
e não confiar em seus próprios recursos, porque chegaria o dia em que a
Babilônia também seria punida por suas atrocidades e Judá escaparia.
Vejamos, portanto, que o justo não é o homem que confia em si,
mas que crer em Deus, que vive pela graça e misericórdia de Deus. Assim,
mesmo no Antigo Testamento, o homem só possuiu de verdade um único
caminho para ser aceito por aceito, pela fé na provisão de divina.
Em terceiro lugar, Paulo acrescenta que não é possível conciliar
justificação pela fé e justificação pelas obras da Lei. A expressão “A lei não
é baseada na fé” (ou “a lei não procede da fé”) é a maneira paulina de afirmar
que a lei não tem relação com a fé, que lei e fé são dois sistemas mutuamente
excludentes (v. 12a). Após segue uma citação de Lv 18.5. “Ao contrário,
‘quem praticar estas coisas, por elas viverá’” (v. 12b).
Ou seja, se você escolher o caminho da justificação pelas obras da
lei – tem certeza que é isso que você quer? Pense bem! – você estará
afastando o caminho da graça e da misericórdia e Deus julgará você pelo
critério que você mesmo escolheu, conforme os méritos que você pode
adquirir por sua obediência à Sua Lei.
É dizer, o critério será aquele basicamente humano. É o critério
das escolas e universidades: só recebe o diploma se as notas forem acima da
média. É o critério dos jogos olímpicos: medalhas são concedidas aos
primeiros lugares. É o critério do mercado de trabalho: recebe salário quem
trabalha ou conforme a quantidade de mercadoria produzida ou vendida.
Percebamos que aqui não há espaço para misericórdia. O diploma não será
concedido por misericórdia; não haverá condecorações com medalha de ouro
por graça; o salário ou a comissão não serão pagos por graça, sem a
contraprestação do serviço, da produção ou da venda. É assim que você quer
ser julgado por Deus? Você quer que seu julgamento seja segundo o critério
dos seus méritos?
Em quarto lugar, superada a questão de vermos alguma
possibilidade de sermos justificados diante de Deus pelas obras da Lei,
Paulo afirma que somente a graça de Deus operando por meio do sacrifício
substitutivo de Cristo nos faz escapar da maldição da Lei e receber a bênção
prometida a Abraão (v. 13, 14). Cristo é que nos redimiu da maldição da Lei
(v. 13a, com grifo). “Redimir” é resgatar, é comprar, é libertar de uma
circunstância mediante pagamento de preço. Paulo nos diz que esse resgate
foi efetuado “quando Cristo se tornou maldição em nosso lugar” (v 13b), em
nosso favor, em nosso benefício. Cristo agiu como nosso Representante-
Substituto e recebeu a maldição da Lei, que era nossa.
Para o apóstolo Paulo, isso também está na Lei, “pois está escrito:
‘Maldito todo aquele que for pendurado num madeiro’” (v. 13c). A citação é
de Dt 21.23. No Antigo Testamento, quando alguém era executado, o que em
geral ocorria por apedrejamento, o cadáver deveria ficar pendurado em uma
árvore como símbolo da maldição divina. Paulo estabelece a relação entre
essa disposição da Lei com a cruz de Cristo para ensinar que o modo como
Cristo foi executado indica que Ele foi tratado como um maldito de Deus. E
isso ocorreu porque a Ele foram imputadas as nossas transgressões.
Como consequência dessa assunção de nossa dívida, pela qual
Cristo pagou com o sacrifício de Si mesmo, nós recebemos a redenção (v.
13), a bênção de Abraão (v. 14a) e a promessa do Espírito, que é a síntese de
todas as conquistas da cruz do Calvário (v. 14b). Note que nessa “troca
gloriosa”, no dizer de John Stott, Cristo assumiu a maldição que nós
merecíamos (v. 13) para que nós recebêssemos a bênção que Ele merecia (v.
14). O Bendito de Deus fez-se maldito para que os malditos se tornassem
benditos. O paralelo com 2 Co 5.21 é evidente: “Deus tornou pecado por nós
aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus”.
Por tudo que foi dito, ponderemos sobre a seguinte questão:
Parece haver apenas dois tipos de pessoas no mundo, à parte da fé
cristã, quando a pergunta é: como você se sente perante Deus? A maioria dirá
que não é tão pecadora assim, que não é tão má como tantas outras pessoas
que conhece e que até é melhor que muitos religiosos que ficam pousando de
santarrões e cometendo barbaridades às ocultas. “Sou melhor do que muito
crente”, dizem uma multidão de pessoas. Quero dizer que a grande maioria
dos homens não compreende a gravidade de seu real estado nem contempla o
perigo que é ter um dia de se defrontar com o Justo Juiz de toda a terra.
Outro tanto dentre os homens, se bem que numa medida bem
menor, segundo creio, pode ser atormentado com um senso de
pecaminosidade avassalador, como no caso de Martinho Lutero, mas está
tentando resolver-se perante Deus com base em alguma forma de legalismo.
As pessoas desse grupo são tomadas de constante ansiedade e insegurança,
porque no íntimo elas sabem que por mais que se esforcem jamais
conseguirão viver à altura das exigências do padrão divino.
Não sei o que é pior. Andar confortavelmente e de repente está
nas mãos do Deus julgador. Julgar-se bonzinho e aceitável até descobrir que é
um maldito de Deus e ouvir da parte do Senhor: “Apartai-vos de mim para o
fogo eterno”. Ou, por outro lado, passar a vida na tensão de saber que estará a
qualquer momento nas mãos do Deus julgador, tentando salvar-se pelos
próprios esforços, até descobrir que é apenas maldito aquele que quer
justificar-se por qualquer esquema legalista.
Mas graças a Deus que não há apenas essas opções. Uns e outros
são convocados a ponderar, sim, sobre seu gravíssimo estado e o perigo de
achar-se sem a justiça de Deus, e a buscar a graça de Deus revelada na cruz
de Cristo.
Capítulo 11
O Propósito da Lei no Sistema de Salvação pela Graça
(3.15-25)

Já estamos cientes que as igrejas paulinas plantadas na Galácia


foram alvos de investidas dos mestres judaizantes, que desejavam impor aos
crentes gentios a observância da Lei como condição para a salvação. Paulo
demonstrou o absurdo da ideia a partir da experiência dos próprios gálatas,
tanto quanto do exemplo de Abraão. Acrescentou também que aqueles que
tentam salvar-se pelas obras da Lei estão debaixo da maldição, condição da
qual só nos desvinculamos quando cremos em Cristo, que nos redimiu
tornando-se maldição em nosso lugar.
O texto que lemos é um desdobramento muito natural do curso da
argumentação, porque qualquer leitor mais inteligente poderia perguntar:
“Então, por qual propósito Deus concedeu a Lei? Se somos justificados pela
fé somente, qual o valor da Lei a todo o plano?” O questionamento é tratado
de maneira suficiente e clara em nosso texto, no qual o apóstolo alterna
proposições negativas (dizendo o que a Lei não faz) com proposições
positivas (dizendo o que a Lei faz), e, desse modo, estabelece o lugar exato
da Lei no sistema da salvação graciosa pela fé somente. Sigamos o raciocínio
do apóstolo na ordem apresentada por ele.
Em primeiro lugar, o propósito da Lei NÃO FOI anular a
promessa feita a Abraão e introduzir um novo sistema de salvação (vs. 15-
18). Mesmo no caso de alianças ou acordos ou testamentos humanos, uma
vez ratificados, não se anulam nem se alteram, pelos menos unilateralmente
(v. 15). E se isso é verdade no que diz respeito às tratativas humanas, muito
mais o é no que tange às promessas feitas por Deus a Abraão e ao seu
descendente (v. 16a).
É quase certo que Paulo ainda tem em mente Gn 15, momento em
que o patriarca foi justificado pela fé (v. 6) e as promessa de Deus feitas a ele
quanto à descendência e à terra foram ratificadas (15:8-20). Quando Abraão
perguntou a Deus “como posso saber que tomarei posse dela?” (v. 8), Deus
disse a Abraão que tomasse uma novilha, uma cabra e um carneiro, uma
rolinha e um pombinho e cortasse esses animais ao meio e dispusesse as
partes uma de frente para a outra, fazendo uma espécie de corredor. Feitos os
preparativos – assim era o modo como se firmavam acordos nos dias do
patriarca -, ambos os pactuantes deveriam passar por entre os animais mortos
como forma de assinatura da aliança, tornando-a inquebrantável. Era uma
maneira bastante real dos pactuantes dizerem que aceitavam a sorte dos
animais se acaso violassem o acordo.
Entretanto, na aliança de Deus com Abraão, esse não precisou
passar pelo corredor. Ao contrário, a Abraão sobreveio um sono profundo (v.
12) e quem passou por entre as metades dos animais foi um “fogareiro
esfumaçante, com uma tocha acesa” (v. 17). Era Deus fazendo uma aliança
com Abraão (v. 18) e se comprometendo, sozinho, em cumprir as promessas
feitas ao patriarca, de maneira incondicional e independente da participação
dele.
Ademais, Paulo relembra que as promessas foram feitas “Ao seu
descendente”, que é Cristo, e não “aos seus descendentes” (cf. Gn 12.7). Com
isso, Paulo está afirmando que as promessas não incluíam toda a
descendência física de Abraão, mas que haveria de se cumprir por meio de
um único descendente do patriarca, Cristo (v. 16b). A conclusão lógica é que
se a promessa diz respeito a um único descendente, e não à toda
descendência, o fato de uma pessoa ser judia não implica automática inclusão
nos benefícios da dela, porque ela diz respeito somente aos que creem em
Jesus Cristo.
Assim, fica claro que quando a Lei foi dada 430 anos após a
promessa, ela não tinha o propósito de anular ou invalidar a aliança
previamente estabelecida por Deus (v. 17), porque, do contrário, a
justificação já não mais dependeria da promessa, mas das obras da Lei, como
se fosse possível que alguém viesse a ser justificado pela Lei (v. 18). Então,
Paulo está dizendo: “Como vocês puderam conceber o absurdo de Deus haver
mudado de ideia? Como Deus poderia ter introduzido um sistema de obras e
mérito 430 anos depois de haver ratificado a promessa de justificar
gratuitamente os que creem em Cristo?” Não, mil vezes não! Definitivamente,
a Lei não foi dada para anular a promessa de salvação gratuita e introduzir
um sistema de obras e mérito.
Em segundo lugar, muito ao contrário, a Lei, que é transitória e
inferior à promessa, FOI acrescentada para servir a promessa, tornando o
pecado mais evidente (vs. 19, 20). Sobre o verdadeiro propósito da Lei, Paulo
diz que ela foi “acrescentada por causa das transgressões” (v. 19a, com grifo
meu). A Lei, em outras palavras, não foi acrescentada para falar de salvação,
nem do modo como Deus salva. Isso já havia sido estabelecido na promessa
de Deus a Abraão. A Lei foi acrescentada para falar do nosso pecado, para
nos mostrar o quanto somos transgressores e quão desesperadamente
necessitados do Redentor somos. Se Deus já havia prometido a Abraão uma
salvação gratuita a todas as nações por meio do seu descendente, a Lei veio
para nos dizer que tinha que ser assim, ou do contrário ninguém se salvaria.
A Lei, portanto, em seu propósito pedagógico (e não soteriológico), tornou o
pecado mais evidente porque depois dela não há mais dúvidas de que quando
me iro com alguém, ou quando minto, ou quando invejo a posição de outra
pessoa ou furto qualquer dos seus bens, estou violando, respectivamente, os
mandamentos sexto, ou nono, ou décimo, ou oitavo. Perceba-se que a Lei
está à serviço da promessa. E, por isso mesmo, essa é inferior àquela.
Enquanto a Lei foi promulgada por anjos e dada por meio de Moisés, um
mediador, a promessa foi feita pessoal e diretamente por Deus a Abraão (vs.
19b, 20).
Em terceiro lugar, falando em termos negativos outra vez, a Lei
não se opõe às promessas, exatamente porque possui propósito
complementar, qual seja: encerrar os homens sob o pecado e convencê-los
da necessidade de Cristo (vs. 21, 22). A Lei só seria contrária à promessa se
por meio dela fosse possível ser justificado e receber vida. Nesse caso, e
somente nesse caso, a Lei teria o condão de contrariar, de opor-se à
promessa, substituindo-a. Mas, isso não é possível (v. 21). Pelo contrário, a
Escritura - o Antigo Testamento - funcionou como um algoz, um verdugo,
que prendeu toda a humanidade nas grades, na masmorra, do pecado (v. 22a).
E o fez com o propósito de nos convencer que não podemos desvencilharmo-
nos dessa prisão, contra a qual somos absolutamente impotentes, não
restando nenhum outro escape senão receber a promessa pela fé em Jesus
Cristo (v. 22b). Fê-lo para deixar evidente que não é apenas uma questão de
falta de esforço, que conseguimos alcançar o padrão de Deus se
concentrarmos um pouco mais de energia. Não, a Escritura fechou-nos nos
porões do pecado para nos convencer que carecemos nada menos que de um
Libertador. É a Lei que nos diz que não há como a justiça vir por ela.
Em quarto lugar, em novos termos positivos, a Lei é uma guarda
militar e uma tutora que guardou e conduziu os crentes na antiga
dispensação até que Cristo viesse (vs. 23-25). A Lei é uma guarda militar que
nos mantinha sob custódia (v. 23). A Lei é uma pedagoga (do grego
paidadogos, lit. condutor de crianças), até que fomos justificados pela fé em
Cristo (v. 24). Ela nos educou nos ensinando quem éramos, onde estávamos,
nos dizendo de nossa impotência e desse modo nos levando pela mão até
Cristo, quando somente então tornamo-nos adultos, sem necessidade de
proteções ou tutorias (v. 25).
Em suma, Paulo estabelece o que a Lei não faz ou as razões pelas
quais ela não foi dada; e, positivamente, diz porque Deus a acrescentou.
Negativamente, a Lei jamais foi dada para anular ou invalidar a promessa da
salvação graciosa pela fé no descendente de Abraão, nem introduzir um novo
sistema de méritos baseado em obras, tampouco para resistir à promessa
ofertando um meio alternativo de salvação. Positivamente, a Lei foi
acrescentada para tornar evidente o pecado, para aprisionar todos os homens
na masmorra do pecado e convencê-los da necessidade do Redentor, para ser
uma guarda militar e um tutor com funções pedagógicas.
À guisa de aplicação, pensemos que aquilo que Deus fez em
termos de dispensações históricas, Ele faz na vida de indivíduos. O que Deus
fez na história? Ele tinha uma promessa a concretizar, mas antes de fazê-lo
Ele piorou as coisas. Primeiro, Ele convenceu o homem do seu pecado, da
sua impotência em resolver-se perante Ele e lançou o homem em jaulas das
quais não poderia em hipótese alguma escapar. Depois Ele enviou Cristo para
assumir nossa condenação e nos libertar. Primeiro Ele piora; depois, quando
estamos certos de que não tem mais jeito, Ele propicia a redenção para que
saibamos que somente Ele poderia redimir-nos.
É exatamente isso que ocorre na caminhada de cada pessoa que
Deus salva. Deus, primeiro, expõe com clareza a pecaminosidade dos
pecadores, humilha-os até que enxerguem que nada podem fazer para
remediar sua condição e, quando estão à beira do precipício, certos de que
perecerão, Deus os justifica pela fé em Cristo e os adota como filhos.
Primeiro, retira-lhes todas as ilusões de agradar a Deus com seus feitos e
conquistar-Lhe o favor; depois, concede Seu favor gratuitamente.
Finalmente, devemos ponderar se aquele ministério temporário da
Lei em conduzir-nos a Cristo significa que quando chegamos a Cristo não
precisamos mais dela para nada. Quanto a isso, devemos cuidar para não
abusar da analogia do apóstolo. Que a Lei possui ministério temporário, não
há dúvidas! Quais são seus ministérios transitórios? Evidenciar o pecado,
encerrar o homem nas cadeias do pecado, tê-los sob guarda e tutoria. Quando
chegamos a Cristo, fomos libertos, vencemos a ansiedade acerca da nossa
posição diante de Deus, saímos da imaturidade para a maturidade, da custódia
para a liberdade do relacionamento pessoal com Deus, sem medos.
Mas isso não significa que a Lei tornou-se obsoleta, que caducou,
ou que foi ab-rogada. Quando chegamos ao evangelho, não nutrimos
desprezo pela Lei, apenas não mais a observamos para conquistar o favor de
Deus, ou por medo ou insegurança; antes, nós fazemos ainda mais esforços
para observá-la, mas com o propósito de vivermos para o inteiro agrado
dAquele que se fez maldição em nosso lugar, porque agora o nosso coração
está cheio de gratidão. Assim, não olvidamos o ministério permanente da Lei
na vida dos que foram salvos graciosamente pela fé em Cristo: ajudá-los a
viver de acordo com a vontade do Salvador gracioso. Nesse sentido, eis o
comentário preciso de Calvino:
Mas aqui, uma vez mais, pode-se perguntar se a lei está tão abolida
que nada tenha a ver conosco. Repondo que a lei, no tocante a ser
norma de vida, é um freio que nos mantém no temor do Senhor,
uma espora para corrigir a indolência de nossa carne; em suma, até
onde ela é proveitosa para ensinar, corrigir, reprovar, para que os
crentes sejam instruídos em toda boda obra, está em vigor como
nunca, e permanece intacta[33].
Capítulo 12
Filhos e Herdeiros de Deus por meio de Cristo
(3.26-29)

Havendo a Lei cumprido o seu ministério transitório, nós


deixamos de estar sob sua guarda e tutoria. Em Cristo, tornamo-nos livres!
Nessa seção, que vai de 3.26 a 4.7, Paulo apresenta as conquistas de Cristo
reveladas no evangelho. Naturalmente, ele pretende demonstrar de maneira
ainda mais vigorosa a insensatez dos crentes da galácia em cogitar abandonar
o evangelho da graça e retornar à observância de certos preceitos da Lei. Por
que nos submeteríamos à circuncisão, a sábados e à dieta judaica, se o
evangelho nos conduziu a uma posição supremamente mais elevada? Quais
privilégios são esses? Vejamos.
Em primeiro lugar, todos somos filhos de Deus pela fé em Jesus
Cristo (3.26). Ser filho de Deus é sem dúvida a posição mais
impressionantemente privilegiada que Cristo nos conquistou. João expressou
sua perplexidade ante a tão grande expressão de graça: “Vejam como é
grande o amor que o Pai nos concedeu: sermos chamados filhos de Deus, o
que de fato somos!” (1 Jo 3.1a).
Digno de nota é que Paulo não está se referindo a uma espécie de
filiação universal, no sentido de que todos os homens e mulheres da
humanidade são “filhos de Deus” por terem sido criados por Ele. Essa noção
genérica de filiação, citada por Paulo em seu discurso em Atenas (cf. At
17.28, 29), não é a posição descrita aqui.
Aqui, o que Paulo tem em mente é a bem aventurança que Deus
concede aos redimidos de serem introduzidos na família de Deus, com todos
os privilégios daí resultantes. Ser filho ou filha de Deus é um direito que
Deus o Pai concede por meio de Deus o Filho e em Deus o Espírito somente
àqueles que Ele redime e justifica. É um direito concedido aos que creem em
Jesus Cristo: “... aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se
tornarem filhos de Deus” (Jo 1.12).
Há ainda mais dois detalhes importantes no v. 26. O primeiro é
que a posição privilegiada de havermos sido adotados por Deus e
introduzidos em Sua família é uma bênção da qual já estamos na posse. Note:
“todos somos filhos de Deus”. Essa não é uma condição que os crentes
precisam fazer alguma obra judaica para alcançar, nem uma conquista a ser
colhida no futuro. É uma realidade que os que creem em Jesus para a
salvação já experimentam.
O segundo detalhe é que o termo paulino para “filhos” no
versículo é masculino, quando sabemos que Paulo sem sombra de dúvida
quer incluir nele homens e mulheres. O fato causou certa perplexidade.
Lutero, por exemplo, preferia traduzir o vocábulo por “crianças” e outros por
“descendência”. Entretanto, o modo paulino deve ser mantido para
percebermos que sua assertiva é impressionantemente inovadora, visto que
em seus dias somente os filhos homens possuíam direitos legais, inclusive à
herança. Assim, quando Paulo usa o termo uioi para referir-se a homens e
mulheres ele está dizendo que, em absoluta paridade, homens e mulheres são
filhos de Deus com os mesmíssimos direitos. É dizer, as mulheres são tão
“filhos” de Deus quanto os homens.
Em segundo lugar, além de sermos filhos de Deus, nos vestimos
de Cristo (v. 27). Na figura paulina, Cristo é comparado a uma roupa que
vestimos. A figura é linda e evoca uma série de ideias, que passo a destacar: a
primeira delas é que assim como é pela roupa que costumamos nos
identificar, quando cremos em Cristo salvadoramente passamos a viver de
maneira a revelar que pertencemos a Ele. Cristo passa a ser, por assim dizer,
nosso estilo de vida e a vida cristã, o modo como somos identificados neste
mundo. Noutro dizer, Cristo passa a viver em nós (cf. Gl 2.20). A conotação
ética da figura é óbvia.
A segunda ideia presente na figura de vestir a Cristo é que assim
como nos relacionamos da forma mais próxima e inseparável possível com
nossa roupa, tornamo-nos próximos e inseparáveis de Cristo – de fato
identificados com Ele. E, se estamos identificados com Ele, todas as bênçãos
que Ele tem direito são nossas e, por outro lado, todas as agruras pelas quais
Ele ainda há de passar, o fará por meio dos sofrimentos do Seu povo. Nós
estamos identificados com Ele, por isso a comunhão que Ele tem com Deus é
nossa, tanto quanto as dores da militância cristã. Aqui o destaque da figura é
a conotação relacional e a nossa união mística com o Senhor.
Finalmente, Cristo como a nossa roupa indica que Ele é a
provisão divina para sermos aceitos por Deus. É Cristo que cobre a vergonha
da nossa nudez perante os olhos do Senhor. É Cristo que constitui a veste
aceitável com a qual podemos nos achegamos a Deus. Noutro dizer, nEle
somos aceitos porque quando Deus nos vê, nos vê revestidos da justiça dEle e
não com “roupas” forjadas por nós mesmos. A conotação aqui enfoca a
atribuição da justiça de Cristo.
Entretanto, cuidemos para não fazer uma leitura apressada do
texto. Paulo disse que quantos foram batizados em Cristo se revestiram de
Cristo. Ele certamente não está querendo significar com essas palavras que o
revestimento de Cristo ocorre pelo batismo cristão. Caso fizesse, estaria
contrariando toda argumentação da carta no sentido de que cerimônias,
quaisquer que sejam, não importam à salvação, mas que essa ocorre pela fé
somente. Se Paulo está dizendo que é pelo batismo que somos salvos, sua
mensagem não divergiria da dos mestres judaizantes. Ele estaria apenas
trocando a circuncisão pelo batismo.
Em verdade, o que Paulo comunica aqui é que o batismo cristão,
tão intimamente relacionado à fé dos novos convertidos, é o meio pelo qual
divulgamos publicamente nossa nova identidade, um sinal visível de nosso
novo estilo de viver. É ainda, da parte de Deus, o selo de que fomos aceitos
por Ele em Cristo.
Em terceiro lugar, em Cristo todos somos um, sem distinção de
raça, de posição social e de gênero (3.28). Por óbvio, precisamos entender
que Paulo não está propondo uma espécie de esfacelamento anárquico de
todas as distinções e estruturas, inclusive as promovidas pela criação. Noutras
palavras, não está dizendo que devemos extirpar todas as diferenças e
lutarmos por uma uniformidade absoluta.
Se essa conclusão fosse tomada, do ponto de vista cultural e
racial, a expressão “não há judeu nem grego” significaria a proibição de
termos uma cultura em particular e implicaria na aniquilação de nações-
estados. Sob o prisma social, Paulo estaria promovendo o marxismo-
leninismo com a frase “não há escravo nem livre” e estimulando uma
revolução de classes. E, tomando como base essa mesma conclusão, a
cláusula “não há homem nem mulher” corresponderia à atual ideologia de
gênero.
Que Paulo não está propondo a aniquilação de todas as estruturas
vê-se no fato de que ele permanece falando de maneira específica a cada
grupo da igreja. Ele tem uma exortação em particular aos idosos, e outra às
idosas, e outra às mulheres jovens, e outra aos homens jovens, e outra às
esposas, e outra aos maridos, e outra aos senhores, e outra aos escravos (Tt
2.1-11; Ef 5.22-6.9; Cl 3.18-4.1).
Assim, o que Paulo tem em mente é que a despeito das inúmeras
barreiras naturais, decorrentes da criação, e daquel’outras pecaminosamente
promovidas pelas sociedades humanas, no que diz respeito à nossa aceitação
por Deus em Cristo, essas distinções são todas inúteis. Em outras palavras, a
mensagem evangélica nos nivela a todos. É dizer, na igreja não há maiores e
menores. Na igreja só há pecadores salvos pela graça mediante a fé e
indignos daquilo que Cristo lhes conquistou. Ninguém foi tirado de uma
condenação menor e ninguém foi posto em uma salvação maior.
Esse fato impressionante faz o evangelho ser um escândalo para
os homens. Como essas pessoas fazem coisas tão ruins e agora se dizem
salvas porque se arrependeram? Como aquelas pessoas tão boas, honestas,
prestativas, caridosas não podem ser salvas apenas porque não creram em
Cristo? Pois bem, a Escritura encerrou a todos sob o pecado; Cristo salvou
todos os crentes por graça. E nisso não há judeus e gregos, escravos e livres,
homens e mulheres.
Em quarto lugar, os crentes é que são descendentes de Abraão e
herdeiros conforme a promessa (v. 29). Os verdadeiros descendentes de
Abraão não são os judeus étnicos, os descendentes físicos ou naturais do
patriarca, mas aqueles que creram no Descendente do patriarca e, pela fé,
herdaram todas as promessas feitas a ele.
À guisa de conclusão, seguem as seguintes exortações:
Em primeiro lugar, precisamos levar os nossos compromissos
assumidos perante o Senhor a sério. Acaso não soubemos o que fizemos no
batismo? Por que razão pessoas se ajuntam às fileiras da igreja, professam a
fé, prometem que estarão em comunhão com Deus e com a sua igreja, dizem
entender o evangelho e estar na posse do gozo de todas as bênçãos
prometidas a Abraão e, logo após, se afastam? Por que cresce o nível de
indiferença frente a Palavra e os privilégios do evangelho são
menosprezados?
Desejo apenas lembrar aos meus irmãos que vocês se vestiram de
Cristo no batismo. Que o batismo foi um sinal visível da graça de Deus e da
parte de Deus e de vossa parte, uma confissão de que decidiram por um novo
e definitivo estilo de vida.
Em segundo lugar, percebamos como o evangelho nos nivela e
cuidemos para que na igreja não haja nenhum tratamento que favorece ou
desfavorece por razões de origem étnica, posição social ou gênero, porque em
Cristo somos todos “um”. Aqui, o pobre não pode se sentir inferior de
nenhuma forma, nem o rico ser tratado com amargura. Aqui, ninguém pode
julgar-se culturalmente superior, a ponto de ridicularizar as limitações do seu
irmão, nem culturalmente inferior, a ponto de marginalizar-se e achar que não
tem como contribuir à edificação da igreja.
Aqui, as mulheres não são consideradas inferiores, nem
incapazes. Apenas consentimos que Deus não lhes outorgou as mesmíssimas
funções dos homens na igreja e na família, e que suas funções não são menos
dignas nem menos imprescindíveis à saudável vida familiar e à edificante
vida eclesiástica.
Capítulo 13
Uma Revisão da História da Salvação -
da Vida sob a Lei à Liberdade de Filhos
(4.1-7)

Não percamos de vista que Paulo está lidando com igrejas que
flertam com o ensino dos judaizantes, para quem somente a fé em Cristo não
é suficiente para o ingresso dos gentios na Igreja de Deus. Era-lhes necessário
também, segundo tais mestres, acrescentar à fé em Cristo a observância de,
no mínimo, certos preceitos da Lei.
Por óbvio, essa é uma flagrante inversão do propósito de Deus
haver dado a Lei, que jamais cogitou fazer dela o meio de aceitação de
pecadores em Seu favor. Daí a necessidade de um esclarecimento sobre a
função da Lei, o que Paulo vem empreendendo desde Gl 3.15. Conforme o
apóstolo inspirado, a Lei nem anulou a promessa feita a Abraão de salvar os
que creem no Descendente do patriarca nem acrescentou um modus operandi
salvífico novo (Gl 3.15-18). Positivamente, seu ministério consistiu em
realçar as transgressões, prender toda a humanidade debaixo do pecado e
manter a nação de Israel sob sua guarda e tutoria (Gl 3.19-24), até que
recebessem a liberdade da condição de filhos (Gl 3.25-29).
Pois bem, em nosso texto (Gl 4.1-7), essa história será revisada de
modo a ser mais esclarecida a missão transitória da Lei, mais ampliados os
privilégios da condição de filhos, recebida em Cristo, além de ser-nos
explicado como os gentios, que desconheciam a Lei mosaica, se encaixam no
cenário. Se não, vejamos:
Em primeiro lugar, Paulo relembra que um menor de idade,
mesmo que herdeiro e dono de tudo, em nada difere de um escravo porque,
na prática, não goza da liberdade que é própria dos filhos, porque não entra
na posse da herança e não tem autonomia para dispor livremente de seus
bens (4.1-3). No Império Romano, a maioridade – a “plenitude dos tempos” –
era alcançada de forma gradativa: a criança ficava sob tutores até os 14 anos e
sob administradores até os 25 anos. Mas nas províncias orientais cabia ao pai
regulamentar o “tempo determinado” para a cessação da menoridade. Note
que enquanto não alcançada a maioridade, os filhos, embora donos e
herdeiros, nada podem fazer por si mesmos, antes, os tutores e
administradores é que agem em nome deles. Daí, na prática, nada mais serem
do que escravos com perspectivas.
Paulo quer dizer com isso que Israel, na época de Moisés, embora
de posse das promessas e das alianças, não experimentou a liberdade que
aquelas promessas e alianças visavam. Basta pensarmos na constante
necessidade de repetição anual de sacrifícios diários e em certos períodos do
ano. O sistema levítico fazia com que o israelita antevisse a liberdade que
exsurge da justificação como algo ainda por consumar-se plenamente. Assim,
os israelenses na antiga dispensação não passavam de filhos sem herança,
sem liberdade e sem a posse daquilo que lhes pertencia.
Entretanto, essa condição de “escravidão” até que Cristo viesse
não era exclusiva dos judeus. Os gentios – introduzidos pela cláusula “Assim
também nós” -, embora não possuíssem a experiência de Israel, também eram
escravos dos “princípios elementares do mundo” (v. 3). São experiências
diversas, mas similares em muitos pontos, porque “Em certo sentido, todos
nos encontramos ‘debaixo da lei’, mesmo que nunca tenhamos ouvido da
Bíblia ou de Moisés. Por quê? Porque todos tentamos desesperadamente
viver à altura de determinados padrões”[34].
Em segundo lugar, veio a “plenitude do tempo” (v. 4). Isto é,
chegou o “tempo determinado” (v. 2) por Deus de fazer cessar a menoridade,
o que é verdade para judeus e gentios, e corresponde ao momento exato
estabelecido antes da fundação dos séculos para introduzir o Descendente de
Abraão na história humana, por meio de quem as bênçãos da salvação
chegariam a todas as nações. Em outras palavras, o que Deus fez para nos
tornar maduros e nos fazer gozar as liberdades e os privilégios que são
próprios dos filhos?
Primeiro, Ele enviou Jesus Cristo “nascido de mulher, nascido
debaixo da lei” (v. 4). Pela expressão “nascido de mulher” Paulo quer ensinar
que Cristo assumiu verdadeira humanidade, que Ele é igual aos seres
humanos quanto à humanidade, exceto quanto ao pecado. Mas, além disso, é
mesmo provável que o apóstolo tivesse em mente as palavras de Gn 3.15,
quando Deus anuncia que a serpente teria sua cabeça esmagada por um
descendente da mulher. Se esse é o caso, Paulo “quer deixar claro que Jesus
Cristo é o cumprimento daquela que foi a primeira promessa evangélica. Ele
era o Filho de Deus, mas também o Filho da mulher”[35].
Além disso, Cristo veio “sob a lei”. Veio, noutro dizer, ao lugar
onde estávamos - “sob a guarda da lei, nela encarcerados” (3.23). Isto é,
Cristo veio sob a mesma obrigação que nós, qual seja, a de cumprir a Lei de
Deus em todos os seus pormenores e, ademais, para assumir a condição de
amaldiçoado da Lei em nosso lugar. Foi assim que Ele nos resgatou (palavra
que já ocorreu em 3.13) da Lei e nos conquistou a adoção de filhos (v. 5). De
fato, só podemos imaginar as bênçãos referidas por Paulo se, como sugeriu
Timothy Keller, nos transportarmos a um mercado de escravos e
visualizarmos um homem muito rico pagando integralmente o preço para
libertar um escravo e o adotar como seu filho único[36].
Perceba que Paulo descreve a obra completa da salvação não
como mera libertação da culpa, mas também como inclusão na família de
Deus com todos os privilégios daí resultantes. Não basta apenas sermos
libertos do cativeiro. Carecemos também de um novo lar. Lembremo-nos do
processo de libertação da escravatura no Brasil, em que os escravos ficaram
livres, mas não receberam lar. Deus não fez isso, Cristo nos retira da
maldição da Lei e nos imputa os merecimentos de Sua obediência à Lei, de
modo que Deus nos considera justos pelos méritos dEle e nos adota em Sua
família.
Mas isso ainda não é tudo! Não basta sermos incluídos na família
de Deus com todos os direitos legais advindos da adoção. O relacionamento
com Deus, o Pai, tem que mudar! Por isso, Deus enviou o Espírito do Filho
ao coração dos filhos (v. 6). Isso porque, repito, salvação não é apenas uma
questão de posição legal, mas também de relacionamento real, belamente
expresso na cláusula “Aba, Pai”.
“Aba” é palavra aramaica que traduz a maneira carinhosa de uma
criança falar com seu pai, tanto que Lutero a traduziu por “Pai querido”. E só
pode haver uma razão para Paulo usar aqui e em Rm 8.15 uma palavra
aramaica em cartas a povos de fala grega e latina - a sua ocorrência em Mc
14.36, que registra Jesus falando com Deus chamando o Todo-Poderoso de
Aba. É dizer, porque Cristo nos libertou da maldição da Lei e nos conferiu
Seus méritos, nós também podemos clamar Aba porque Deus considera como
nossos todos os feitos do nosso Representante e, portanto, com direitos de
nos referirmos a Ele com termos que exprimem a mesma proximidade que
Jesus experimenta. No Filho e por causa do Filho, nós também somos filhos.
O termo “clamar” é tradução do verbo grego “krázein”, que
poderia ser traduzido como “gritar”. As expressões juntas (grego krazon
Abba, ho pater) revelam uma vida de oração completamente nova, que fala
com Deus com todas as forças, a partir da alma, com profunda consciência da
intimidade e com o mais convicto senso de que está seguro nas mãos do Deus
que é também seu Pai.
Em terceiro lugar, como não somos mais escravos, mas filhos,
Deus nos tornou seu herdeiros (v. 7). Augustus Nicodemus observa que
Paulo dirigiu-se aos seus leitores no singular (“Assim, você...”) porque
desejou que cada um deles se sentisse pessoalmente incluído nesses
privilégios[37], fazendo-os ainda perceberem que a filiação por ele apresentada
vem acompanhada de todos os direitos que dela se possam esperar.
Finalmente, propomos, à guisa de aplicação, as seguintes
exortações:
Em primeiro lugar, dediquemo-nos ao estudo do evangelho e
cresçamos nele sem perder nenhuma oportunidade de aprofundarmos e
alargarmos nossa visão dele. Nenhum de nós conhece suficientemente as
dimensões daquilo que Cristo fez na cruz do Calvário, nem haverá um tempo,
no tempo ou fora do tempo, em que tenhamos penetrado todas as filigranas
do trabalho do Redentor. É apenas infantil pensar que nada há mais para
saber, para conhecer, para sondar.
Em segundo lugar, desenvolvamos a prática de clamarmos a Deus
com o senso de proximidade que o Espírito Santo nos fez ter com o Pai. O
termo Aba designa o clamor apaixonado de uma criança que sabe que seu Pai
a tem em Suas mãos. Eu estou bem certo no sentido de que a falta de oração,
em público e no ambiente privado, é a causa de muitos filhos viverem como
se escravos fossem e não experimentarem nenhum crescimento expressivo na
graça e não apresentarem uma vida cristã pujante. Eles têm os portais do
paraíso abertos diante dos seus olhos e não os adentram por meio de Cristo e
no Espírito por ignorarem seus muitos privilégios ou, os conhecendo, os
desprezarem.
Em terceiro lugar, aprendamos que o Espírito nos assiste em
nossas fraquezas com gemidos inexprimíveis, ainda quando não sabemos orar
como convém, e de nós clama “Aba, Pai”. Quando formos assaltados por
toda sorte de tentação, podemos clamar “Aba”. E quando estivermos à beira
das dúvidas mais cruéis e mesmo sob as mais ásperas condenações
diabólicas, clamemos “Aba”. Como disse Lutero, o clamor que o Espírito
gera em nós supera o clamor da lei, do pecado e do diabo. Ouçamos o
reformador:
Em sérios pavores e conflitos de consciência, apropriamo-nos, na
verdade, de Cristo e cremos nele como o nosso Salvador. Mas,
então, a lei nos aterroriza ao máximo e o pecado nos conturba.
Ademais, o diabo nos ataca com todos os seus artifícios e dardos
inflamados e tenta arrebatar-nos a Cristo com todas as forças e nos
tirar todo o conforto. Então falta muito pouco para submergirmos e
desesperarmos. Somos, então, como “a cana quebrada e o pavio
que fumega” [Mt 12.20]. Enquanto isso, contudo, o Espírito Santo
nos assiste em nossa fraqueza e intercede por nós com gemidos
inexprimíveis e testifica com o nosso espírito que somos filhos de
Deus. Assim, nesses terrores, a mente é erguida, suspira por seu
Salvador e Sumo-sacerdote, Jesus Cristo, vence a fraqueza da
carne, de novo, recebe consolo e diz: “Aba, Pai”. Ora, esse
gemido, que mal sentimos, Paulo chama de clamor e gemido
inexprimível, que enche céus e terra. Ele também o chama de
clamor e gemido do Espírito, porque, quando somos fracos e
tentados, o Espírito provoca esse clamor em nosso coração.
Ainda que a lei, o pecado e o diabo estejam expelindo contra nós
grandes e terríveis clamores com todas as forças, que parecem
encher totalmente céus e terra e vencer, disparadamente, o gemido
do nosso coração, eles, no entanto, não nos pode causar dano. Pois
quanto mais esses nossos inimigos instam conosco, acusam-nos e
torturam-nos com seus clamores, tanto, gemendo, apreendemos a
Cristo, invocamo-lo com o coração e a boca, apegamo-nos a ele e
cremos que, por nós, nasceu sob a lei para nos redimir da maldição
da lei e destruir o pecado e a morte. Quando, assim, pela fé,
apropriamo-nos de Cristo, clamamos por seu intermédio: “Aba,
Pai!” E esse nosso clamor supera, de longe, o clamor do diabo,
etc[38].
Capítulo 14
Os Dois Únicos Sistemas Religiosos no Mundo: o Pagão e o Cristão
(4.8-11)

Em nosso texto, Paulo retoma o tom de forte repreensão contra os


crentes da Galácia, tal como já o vimos em 3.1-5. Seu propósito, como bem o
sabemos, é erradicar a influência da mensagem dos mestres judaizantes, que
insistiam que se os cristãos gentios não adotassem a observância de
determinados preceitos da Lei mosaica, não poderiam ingressar na Igreja nem
ser salvos.
Com uma argumentação contundente, Paulo, após revisar a
experiência dos próprios gálatas (3.1-5), evocar o exemplo de Abraão (3.6-9)
e afirmar que somente Cristo pode resgatar-nos da maldição da Lei, o que fez
tornando-se maldição em nosso lugar (3.10-14), descreve vividamente sobre
o ministério transitório da Lei, que nos mantinha sob sua guarda e tutoria, até
recebermos em Cristo a adoção de filhos (3.15-29).
Em seguida, tanto o ministério da Lei quanto a grandeza dos
privilégios adquiridos pelo envio de Cristo e do Espírito são esclarecidos e
ampliados em 4.1-7. Saímos de uma condição de escravidão (4.1-3) quando
fomos redimidos por Cristo para apossarmo-nos do direito e da posição legal
de verdadeiros filhos (4.4, 5). E, porque tudo não é apenas uma questão de
status legal, o relacionamento com o Deus vivo também mudou radicalmente
quando recebemos o Espírito que, em nós, clama “Aba, pai” (4.6).
Isso nos leva a debruçarmo-nos em nosso texto. Antes, porém,
para compreendermos a presente passagem, pensemos outra vez no cenário
de um mercado de escravos do mundo antigo. Imaginemos que um escravo
foi liberto mediante pagamento de preço para a liberdade. Mas, não somente
liberdade, o escravo ganhou um novo lar porque ele também foi adotado por
quem o comprou. Mas, o que pensaríamos desse escravo se ele de repente
comunicasse ao seu pai que deseja retornar à condição de escravidão?
Pois bem, esse era precisamente o caminho que os gálatas
estavam começando a trilhar - o caminho de retorno à escravidão -, conforme
passamos a demonstrar:
Em primeiro lugar, o estado pré-cristão dos gálatas é passado em
revista: “Antes, quando vocês não conheciam a Deus, eram escravos
daqueles que, por natureza, não são deuses” (v. 8). Para a argumentação
paulina era importante que os crentes da Galácia se recordassem de onde
vieram. Os gálatas, antes de serem cristãos, estavam enredados pelas religiões
de mistério e pelo politeísmo grosseiro do seu tempo. Paulo diz que eles não
conheciam o Deus vivo e verdadeiro (1 Ts 1.9) e, exatamente por isso,
fabricavam deuses conforme sua própria imaginação que, em verdade, nada
possuíam de verdadeira divindade – não eram deuses por natureza.
Escrevendo aos coríntios, Paulo afirmou que o ídolo “não
significa nada no mundo”, que é um nada, um ninguém, uma completa
inutilidade, e que só existe um Deus (1 Co 8.4). E o que muito nos
impressiona é ver que mesmo as pessoas mais eruditas e com mais amplo
acesso à educação comete a insensatez de fazer um ídolo com suas mãos e
depois prostrar-se diante dele como a um deus recém-criado (cf. Is 44.9-20;
Hc 2.19).
Nada obstante os ídolos nada serem, há uma realidade sinistra que
escraviza seus adoradores, porque Paulo também afirma que quando os
pagãos sacrificam aos ídolos, é, na verdade, a demônios que sacrificam (1 Co
10.20). É precisamente por isso que o apóstolo diz aos gálatas que em seu
passado pré-cristão eles eram escravos dos ídolos que adoravam, porque,
afinal, toda idolatria tem poder escravizante e realidades espirituais que a
manipulam nos bastidores.
Ademais, como os gálatas, pagãos que eram, não conheciam o
único Deus verdadeiro, embora possuíssem muitos deuses, sua condição
religiosa é tratada em Ef 2.12 como ateísmo religioso, nesses termos:
“naquela época vocês estavam sem Cristo, separados da comunidade de
Israel, sendo estrangeiros quanto às alianças da promessa, sem esperança e
sem Deus no mundo” (com grifos).
Em segundo, Paulo relembra de passagem que os gálatas foram
tirados da condição de ateus religiosos, do desconhecimento do Deus vivo e
da escravidão dos ídolos para o conhecimento de Deus e para serem
conhecidos dEle: “... conhecendo a Deus, ou melhor, sendo por ele
conhecidos...” (v. 9a). “Antes”, diz o apóstolo, “vocês não conheciam a
Deus. Mas agora O conhecem e, o que é melhor, vocês são conhecidos dEle”.
A expressão “conhecer” não possui conotação intelectiva, de
passar a conhecer aquilo que antes ignorava. “Conhecer” tem natureza
basicamente relacional. Quando Paulo diz que os gálatas agora “conhecem” a
Deus, ele afirma que os gálatas entraram em um novo e vivo relacionamento
com Ele, sobre o que já esclareceu quando referiu ao inefável privilégio da
adoção e do Espírito que neles clama “Aba, pai”. Com a entrada na fé, os
gálatas passaram a se relacionar com Deus como filhos perante o Pai, visto
que foram adotados.
Mas há algo ainda mais significativo no estado cristão dos
gálatas: é que eles são conhecidos por Deus. Por óbvio, esse “conhecimento”
é também de conteúdo relacional, porque, do contrário, teríamos que admitir
lacunas no conhecimento de Deus. Como deixei antever, Paulo eleva em
importância o conhecimento que Deus tem de nós em relação ao que temos
dEle (“ou melhor”) por uma razão bastante óbvia: ele não aceita que
firmemos nossa vida em nada que exista em nós mesmos.
Entendo com razoável clareza a importância de conhecermos a
Deus relacionalmente (Jo 17.2), de O amarmos e desejarmos Lhe obedecer
em todas as coisas, de termos afeição por Deus e de nos achegarmos a Ele
com frequência em oração e pela Escritura. Contudo, se nos firmarmos em
nosso próprio conhecimento de Deus, viveremos em eterna insegurança, visto
que o conhecimento que temos de Deus muda, aumenta, diminui e varia
conforme as circunstâncias. Antes, Paulo quer que alicercemos a nossa vida
no conhecimento que Deus tem de nós – “O Senhor conhece quem lhe
pertence” (2 Tm 2.19). Deus se relaciona com os eleitos de forma imutável e
desde antes da fundação dos séculos (Rm 8.29), por isso nada abala sua
segurança. Por fim, será o conhecimento que Deus tem de nós que fará toda a
diferença: “Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de
mim vocês que praticam o mal!”
Em terceiro lugar, devo esclarecer que Paulo realmente fala do
estado cristão dos gálatas aqui somente en passant. O ponto da passagem é
que embora os crentes da Galácia conheçam a Deus, “ou melhor”, sejam
conhecidos por Ele, eles estão retornando aos antigos “princípios
elementares” debaixo dos quais antes viveram como escravos (v. 9b; cf. 4.3).
Os ex-escravos estão desejando retornar ao calabouço em um movimento
escravidão-liberdade-escravidão!
Os tais “princípios elementares” (grego stoicheia) já foram
mencionados em 4.3 e correspondem, ali, ao passado pré-cristão e rudimentar
dos gálatas, submersos no paganismo. Aqui, Paulo os qualifica como “fracos”
e “pobres”, porque eles nada podem fazer para nos tirar da condição de
escravos nem nada têm a oferecer, sobretudo quando comparados às
insondáveis riquezas de Cristo.
Entretanto, não percamos de vista que o problema dos gálatas não
é que estão sendo tentados a voltar ao culto dos falsos deuses que serviam
anteriormente. Agora o problema é que eles já estavam, porque enfeitiçados
pelos judaizantes (cf. 3.1), “observando dias especiais, meses, ocasiões
específicas e anos” (v. 10). Assim, notemos com atenção que para Paulo se os
crentes da galácia passassem a adotar a observância da lei judaica como
condição para salvação, isso equivaleria a retornar ao seu antigo estado
pagão, ao tempo em que adoravam falsos deuses.
O legalismo judaico, portanto, não difere do paganismo em
essência, porque, em verdade, só existem dois sistemas religiosos no mundo.
Um deles ensina que o homem é salvo por seus esforços, pelos quais ele
adquire méritos perante Deus ou perante falsos deuses. Nesse sistema
enquadram-se todas as religiões do mundo, do Islã ao judaísmo, do
espiritismo às seitas orientais, sem esquecer as seitas cristãs, dentro das quais
incluiríamos o catolicismo romano e o oriental, o mormonismo, as
testemunhas de Jeová e diversos ramos do adventismo.
O outro sistema religioso, ao revés, ensina que o homem jamais
poderia ser salvo por seus méritos, porque ele jamais atenderia ao padrão
exigido por Deus. Por isso, a salvação é uma obra completamente divina, do
começo ao fim, que a realiza por puras graça e misericórdia inexplicáveis.
É dizer, seja lá qual for a forma pela qual o homem forje para ser
aceito por Deus através de seus próprios méritos, ainda que seja através da
observância da Lei que foi dada por Deus a Moisés, isso em nada difere do
mais abjeto e escravizante paganismo. Isso explica os temores de Paulo de
haver labutado inutilmente (v. 11). Noutras palavras, ele disse: “se eu
trabalhei tanto para tirá-los do paganismo para depois vê-los resvalar ao
legalismo judaico, tudo não passou de franca perda de tempo”.
Finalmente, à guisa de aplicação, proponho as seguintes
exortações:
Em primeiro lugar, percebamos que há somente duas opções ao
curso da nossa existência: ou aceitamos o evangelho, segundo o qual a
salvação pertence ao Senhor, ou estamos sob a escravidão da idolatria. Não
há uma terceira opção! Ou você já entendeu que Deus nos aceita
graciosamente, incondicionalmente, inexplicavelmente, independentemente
das obras e de mérito, ou você está tentando ser salvo por seus próprios
esforços e, nesse caso, você não passa de um idólatra, cujo ídolo pode
inclusive ser você mesmo.
É por conta desse paganismo mal curado que pessoas se afastam
de Deus e da igreja quando pecam. Quando pecamos, o natural é o
sofrimento, a dor, a vergonha e a distância, mas o remédio é o
arrependimento e a fé de que mesmo em nosso pior estado Deus não nos
rejeitou porque não foi o nosso melhor estado que O conquistou. Mas alguns
crentes não fazem isso. Antes, quando pecam se distanciam e se mantém
distantes até que se resolvam. No íntimo, eles dizem: “só voltarei à
comunhão da igreja quando eu tiver expiado o meu pecado porque somente
assim Deus me aceitará”. Depois de alguns dias, psicologicamente mais
aliviados, eles dizem: “pronto, agora posso retornar”.
A resposta da Escritura é no sentido de que nos arrependamos do
pecado crendo que a nossa vida está fundamentada no fato de que Deus nos
conhece desde a eternidade e nos amou quando não tínhamos feito bem ou
mal e nos separou por graça para recebermos a redenção que há em Cristo.
Em segundo lugar, consulte a você mesmo e descubra se você é
um cristão ou um pagão, através de uma pergunta simples: “o que é ou quem
é para mim a coisa ou a pessoa mais básica da vida? O que ou quem me
realiza?” Se a resposta for qualquer coisa – dinheiro, sexo, prazer, lazer,
fama, conquista, família, respeitabilidade – ou qualquer pessoa que não
Cristo, você é um pagão. Sim, você é um pagão porque aquilo ou aquele que
pensamos irá nos realizar, é aquilo ou aquele que adoráramos e servimos
como escravos.
Se você é um pagão (e você pode ter descoberto isso agora, com
essa leitura), isso explica muito da tamanha infelicidade que você carrega. Se
você adora o dinheiro que não tem, a fama que não, a família que não, o lazer
que não tem, a respeitabilidade que não goza e as conquistas que não logrou
alcançar e os cargos que não galgou, você é apenas uma pessoa frustrada e
infeliz. Mas, por outro lado, se você adora o dinheiro que tem, a família que
tem, a respeitabilidade que goza, o status que alcançou, então você deve estar
em extrema desilusão, porque você também descobriu que nenhuma dessas
coisas ou pessoas lhe realizaram. Em ambos os casos, eu posso lhe garantir
que terapia alguma vai suprir as lacunas da sua existência. Entenda que você
é infeliz por ser pagão, e a resposta para isso não é psicológica, é teológica.
Entretanto, se você é cristão, e se Cristo é tudo para você e se
você satisfaz-se nEle tão somente, então saiba que nada neste mundo poderá
abalar seu estado, como Paulo bem o escreveu: “Pois estou convencido de
que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o
futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer
outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em
Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.38, 39).
Capítulo 15
Uma Inesperada Mudança nos Relacionamentos
(4.12-20)

O enorme dano causado pelos mestres judaizantes não se


confinou apenas no campo da doutrina e do perigo espiritual. O
relacionamento construído entre o apóstolo e os jovens crentes gálatas
também foi substancialmente afetado pela atitude sub-reptícia dos
missionários do erro. Por certo, um fato estava ligado ao outro, como sói
ocorrer. Não raro discórdias doutrinárias e intrigas pessoais andam lado a
lado, quando aquelas são apenas a máscara que esconde propósitos egoístas
pessoais.
Em nosso texto, o apóstolo, após fazer solene e amável exortação,
passa em revista o início gracioso do seu encontro com os gálatas, expõe em
tom grave a abrupta mudança ocorrida e denuncia o verdadeiro propósito dos
inimigos do evangelho. Por fim, expõe o zelo do próprio coração pastoral em
metáfora bastante emotiva. Acompanhemos com atenção o texto e, em
espírito de oração, aprendamos as lições preciosas que Deus nos reservou.
Em primeiro lugar, atentemos à exortação apostólica: “Eu lhes
suplico, irmãos, que se tornem como eu, pois eu me tornei como vocês” (v.
12a). Olhando para a frase “Eu lhes suplico, irmãos”, Adolf Pohl chamou a
presente exortação de “cordialidade quase constrangedora”[39], isso por causa
da força do verbo “suplicar” ou “implorar” (grego déomai) e sua posição
enfática (no fim da frase). Paulo conclama carinhosamente seus “irmãos” a
serem como ele, livres do jugo da Lei e cônscios de que justificados pela fé
eles têm acesso às riquezas insondáveis de Cristo.
Os gálatas tinham não somente ouvido essa verdade, mas a visto
com seus próprios olhos estampada na vida do apóstolo. Quando Paulo diz
“pois eu me tornei como vocês” ele relembrava aos cristãos da Galácia que
esteve entre eles, embora sendo um judeu, como se um deles fosse. Não
esqueçamos que Paulo era um hebreu da gema; quanto à lei, fariseu e quanto
ao zelo, perseguidor da igreja (vs. 13, 14; cf. Fp 3.4, 5). Mas tudo isso que
para ele era lucro foi considerado nada além de refugo para ter Jesus Cristo e
estar nele, não tendo justiça que procede da Lei, mas a que vem de Deus pela
fé em Cristo (cf. Fp 3.7-9).
Como resultado de uma vida centrada no evangelho, Paulo
tornou-se capaz de fazer-se um gentio entre gentios (cf. 1 Co 9.19-23) e de
uma maneira muita vívida ser uma imitação do Redentor, que, por Sua vez,
tornou-se semelhante ao povo que veio redimir (cf. Hb 2.14). Essa
“flexibilidade cultural”, que é própria do evangelho, segundo Timothy Keller,
não cabe em uma “mentalidade legalista”, porque esta é inflexível e obcecada
por detalhes. Keller afirmou: “Alguém assim deseja que os convertidos se
vistam e ajam ‘exatamente como nós’”[40].
Em segundo lugar, a maneira carinhosa como Paulo foi recebido
é relembrada (12b-15). O apóstolo acrescenta de maneira repentina: “Em
nada vocês me ofenderam” (v. 12b) – ou: “vocês não cometeram nenhuma
injustiça contra mim”. Ele quer lembrar aos gálatas como tudo começou,
como foi tratado por eles e em que circunstâncias chegou até eles. No
princípio, os gálatas só lhe fizeram bem. Entendamos melhor esse encontro
memorável.
A evangelização dos gálatas não fazia parte dos planos originais
do apóstolo, pelo menos não naquele momento. Não sabemos explicar todos
os detalhes, mas circunstâncias provocadas por uma enfermidade levaram
Paulo a evangelizar os gálatas (v. 13). Embora muito se discuta entre os
estudiosos sobre a natureza precisa da doença, não se pode dogmatizar. Tem-
se dito com base na afirmação de que a enfermidade foi uma “provação” aos
gálatas (v. 14) e de que eles, se possível, teriam arrancado seus próprios olhos
e os dado a Paulo, que a enfermidade causou uma séria deformidade na
aparência do apóstolo e afetado especialmente sua visão (v. 15).
Nada obstante, os gálatas não o trataram como que fazendo pouco
caso do apóstolo, nem com desdém, a despeito da sua aparência repugnante.
Donald Guthrie pontua que o último verbo significa literalmente “cuspir
fora”, “usado metaforicamente como expressão de nojo ou repugnância”[41].
Ao contrário, Paulo foi recebido como um anjo de Deus ou como o próprio
Cristo (v. 14). É dizer, o tratamento dado a Paulo não ficou devendo em nada
à hospitalidade que Abraão deu a anjos de Deus e nem mesmo à recepção
oferecida por Marta e Maria ao Senhor Jesus. Ademais, a solicitude dos
gálatas foi tal que, sendo possível, eles teriam dado a Paulo seus próprios
olhos (v. 15). Essas são as lembranças de Paulo quando do seu encontro com
os gálatas, repleto de afeição, cuidado, solicitude, empatia e solidariedade.
Em terceiro lugar, lê-se que o relacionamento mudou devido à
abordagem bajuladora dos judaizantes (vs. 15a, 16-18). A avaliação que os
gálatas passaram a fazer da estada de Paulo entre eles foi radicalmente
alterada: “Que aconteceu com a alegria de vocês?” (v. 15a). A pergunta
talvez signifique: “Onde está aquele senso de bem-aventurança (grego
makarismós) que vocês possuíam ao dizerem jubilosos que um apóstolo de
Cristo esteve entre vocês?”
Mais que isso. A amizade tornou-se inimizade (v. 16). Aquele
que foi recebido como um anjo e a quem foi dispensado um tratamento não
inferior ao que se daria ao próprio Cristo, agora estava sendo considerado um
adversário (v. 16). “O que houve, afinal? Tornei-me inimigo de vocês por
haver vos pregado a verdade” - isto é, o evangelho?”
Paulo explica. Os judaizantes eram bajuladores e todo o seu
esforço tinha o propósito de arrancar os gálatas da influência de Paulo para
que o zelo que eles tinham tido pelo apóstolo fosse desviado e concentrado
somente neles (v. 17). “Eram mercenários mal-intencionados que
disfarçavam suas intenções com a capa de palavras piedosas”[42]. Como isso é
comum! Chego mesmo a pensar que o pior tipo de líderes que pode haver é
dessa categoria, hábeis na manipulação das pessoas para o fim de isolá-las de
quaisquer outras aproximações e torná-las sua propriedade particular e
exclusiva. É, sem dúvida, a conduta típica dos lideres das seitas mais
perigosas. Eis, nesse sentido, a exortação de Paulo aos presbíteros de Éfeso:
“Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês
e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que
torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos” (At 20.29, 30).
Entretanto, se os judaizantes eram sagazes bajuladores, os gálatas
eram infantis e instáveis por se deixarem conduzir sem qualquer
discernimento. Por isso a crítica do v. 18, no sentido de que os gálatas
deveriam guardar seu zelo não apenas na presença do apóstolo.
Em quarto lugar, em franco contraste com a instabilidade do
amor dos gálatas, o amor de Paulo por eles permanece inalterável. É o que
se pode depreender das palavras maravilhosamente carinhosas dos vs. 19, 20.
Paulo os chama de “meus filhos”, ou “meus filhinhos” – a palavra usada é
teknia, comum em 1 João, mas usada por Paulo somente aqui. Em seguida
introduz a metáfora em que fala de si mesmo como uma mãe que sentiu e que
precisa sentir outra vez dores de parto. No entanto, de forma surpreendente, a
metáfora assume novos contornos porque quando esperaríamos que Paulo
dissesse que, de suas dores, estaria gerando filhos para si, ele diz que o que
suas dores geram é a formação de Cristo nos gálatas (v. 19). Em outras
palavras, Paulo reconhece a bondade dos gálatas por ele expressa no primeiro
encontro, mas afirma que não se afadigou tanto para isso, mas para que os
gálatas fossem conformados à imagem de Cristo, o varão perfeito.
Vê-se que Paulo está no extremo oposto dos falsos mestres. Estes
lisonjeavam com palavras e tentavam isolar os discípulos para que lhes
pertencessem. Paulo, por sua vez, falou a verdade em amor, mas o fez para
conduzir os discípulos a Cristo.
Finalmente, o amor de Paulo vê-se também pelo fato dele tanto
sofrer pelas palavras duras de sua carta. Um pastor verdadeiro não tem prazer
em magoar. Na verdade, em momento algum é isso que ele quer. Entretanto,
por amor, ele deve dizer a verdade sempre que necessário, ainda que isso lhe
cause a dor de saber que entristeceu seus irmãos (v. 20).
Colocadas essas breves considerações, estamos agora prontos a
aprender com o Texto Sagrado, a título do que proponho as seguintes
aplicações.
Em primeiro lugar, nós precisamos aprender com Paulo a ver nos
reveses da vida oportunidade missionária. Houve uma razão para
enfermidade tão grave e deformadora que acometeu Paulo, qual seja, a
evangelização dos gálatas. E é maravilhoso ver como o apóstolo entendeu
isso. Ele não ficou se lamentando, trancado em um quarto escuro, deprimido
com sua aparência. Ele viu na adversidade uma porta para Deus ser
glorificado por meio dele no meio de um povo pagão. Não seria exagero
dizer que os congregacionais brasileiros são devedores de uma idosa
cancerosa que aproveitou o infortúnio de uma doença terminal para
testemunhar de Cristo ao doutor Kalley.
Em segundo lugar, é bom saber que Deus não nos dirige, em
regra, por meio de revelações específicas, dando-nos uma espécie de história
antes da história. Se você acredita, como eu, que Deus pode trazer direção
específica ao coração do crente pela qual lhe orienta em como agir em
determinado momento, não me oponho. Mas, acordemos quanto a esse ponto:
esse não é o modus operandi divino usual.
Em regra, nós pesquisamos, conversamos, oramos, planejamos e
nos pomos em ação. (É verdade que muita vez oramos muito menos do que
deveríamos, o que explica muito dos nossos fracassos.) A Escritura não
desestimula o planejamento. Tem que ser assim mesmo: nós fazemos planos
e tomamos a iniciativa. Ocorre que nem sempre os nossos planos, por mais
bem intencionados que sejam, têm a permissão de Deus para se realizar.
Fatos se esvaem do nosso controle e as coisas não saem segundo as previsões
que fizemos. Isso ocorre porque é assim que Deus nos dirige, não com
revelações antes de cada passo a ser dado, mas através de circunstâncias e,
não raro, de reveses.
Em terceiro lugar, aprendamos a ser contrariados por Deus. Em
nosso texto, os desejos e planos de Paulo são duplamente contrariados.
Primeiro, ele não tinha planos de evangelizar os gálatas, pelo menos não
naquele momento, mas uma enfermidade o conduziu a isso. Segundo, ele
gostaria, segundo lemos no v. 20, de ao invés de ter escrito uma carta, ter ido
até os gálatas - para inclusive falar-lhes de maneira mais gentil do que a
urgência de uma correspondência exigiu -, mas algo o impedia. Notemos:
Paulo não fez planos de ir, mas foi; depois quis ir, mas não foi. Quando não
fez planos de ir não pode deixar de ir; quando fez planos de ir não pode ir.
Isso ocorre porque Deus não abre mão de conduzir nenhum fato da Sua
imensa criação. E nós precisamos aprender a apreciar as contraordens de
Deus!
Em quarto lugar, podemos destacar para a nossa edificação e
alerta pelo menos quatro marcas das seitas mais perigosas: primeiro, toda e
qualquer seita lhe proporá um acréscimo de obras à simples fé em Cristo para
a justificação; segundo, toda e qualquer seita é especialista em colher em
aquários – os judaizantes pescavam nos “aquários” paulinos; terceiro, toda e
qualquer seita pretende dominar as pessoas, alijando-as inclusive, em muitos
casos, de sua própria família; quarto, toda e qualquer seita quer edificar a fé
dos seus adeptos sobre lideranças humanas.
Uma genuína igreja cristã encontra-se no extremo oposto. Ela
defende a justificação graciosa, pela fé somente. Tem também muito interesse
em pregar o evangelho da graça aos perdidos. Não pretende dominar pessoas;
muito o contrário, não raro ela devolve seus pródigos àqueles que os haviam
perdido. Uma igreja cristã autêntica, finalmente, não edifica seus conversos
sobre o desempenho dos seus líderes, mas os conduz a Cristo.
Capítulo 16
Filhos da Livre, Não da Escrava
(4.21-31)

Paulo chega a uma espécie de clímax em sua argumentação. Ele


quer deixar absolutamente claro que só existem dois sistemas religiosos e que
somente um deles produz verdadeira liberdade, somando ao que já disse no
sentido de demonstrar a insensatez dos gálatas em desejar, enquanto livres
que são, retornar à escravidão.
A passagem toda se baseia na história da família de Abraão,
sobretudo nos filhos Ismael e Isaque, que ele gerou, respectivamente, com
Hagar e Sara. Abraão já era homem avançado em idade quando Deus lhe
prometeu que seu herdeiro não seria o damasceno Eliezer, seu servo, mas um
filho por ele gerado. Ocorre que os anos se passavam e o herdeiro prometido
não vinha. Então Sara resolveu fazer uso de um costume do seu tempo, pelo
qual quando uma senhora não gerava filhos providenciava que o marido o
gerasse com uma de suas servas. No caso em tela, a serva era Hagar, uma
egípcia que se agregou à família do patriarca em sua estada no Egito, quando
ele ali se refugiou de uma fome que abateu Canaã. Pois bem, Hagar
engravidou, dando a Abraão o filho Ismael e a família ficou certa de que
Deus, assim, teria cumprido Sua promessa.
Entretanto, Deus voltou a aparecer a Abraão e disse que o filho da
promessa não era Ismael, mas um que o patriarca geraria com sua esposa, o
que de fato veio a ocorrer. Abraão tinha 99 anos quando Sara engravidou, aos
89 anos. Dessa intervenção divina nasceu, enfim, o filho que Deus o havia
prometido – Isaque, o filho da promessa.
Mas nem tudo eram flores na família do patriarca. Tão logo
Isaque desmamou, aos dois ou três anos de idade, conflitos começaram a
surgir e Sara instou com Abraão para que ele despedisse Hagar e Ismael.
Abraão entristeceu-se profundamente, mas Deus confirmou que de fato era
isso que ele deveria fazer, e foi isso que ele fez. Com isso, Deus estava a
indicar que o Messias viria da descendência de Isaque, e não de Ismael.
Ismael, de seu turno, também foi objeto de promessas divinas e sua numerosa
descendência passou a ocupar a Arábia. Essa é a história que Paulo toma
como pano de fundo para essa seção de sua Carta.
No entanto, há uma enorme polêmica em todo o uso que Paulo
faz do texto vétero-testamentário. Ele dirige-se aos gálatas como os que
querem estar debaixo da lei, enquanto são incapazes de ouvir a própria lei, de
atentar com discernimento ao que diz a lei (v. 21). É então que ele introduz
Abraão e seus dois filhos, um da serva e outro da livre (v. 22), e afirma que o
filho da serva nasceu segundo a carne – de modo simplesmente natural, sem
intervenção miraculosa, ou talvez de modo pecaminoso, uma mera tentativa
humana de promover os planos de Deus sem Deus, a partir da própria
capacidade. O filho da livre, por sua vez, nasceu de uma promessa. Isaque é
que era o filho da promessa, o que se pode ver na forma miraculosa de sua
geração (v. 23).
Até aqui não sabemos ainda aonde o apóstolo quer chegar, até
que ele, no v. 24, diz que essas coisas podem ser interpretadas
alegoricamente[43], gerando a controvérsia consistente em saber se Paulo
utilizou ou não o método de interpretação que se tornou conhecido como
alegórico[44].
A escola hermenêutica alegórica teve em Alexandria seu quartel
general e foi representada por homens como Clemente de Alexandria (150-
215 d.C.) e, sobretudo, por Orígenes (185-253 d. C.). Segundo o ensino de
Orígenes, a Bíblia tem pelo menos três significados: o literal, o moral e o
místico ou alegórico. Para ele, a Bíblia contém um sentido mais profundo que
está oculto debaixo do significado literal. Enquanto o sentido literal seria para
iniciantes, o espiritual poderia ser desvendado pelos espirituais. Alguns
exemplos da exegese de Orígenes foram apontados por Augustus Nicodemus:
Seguindo o método alegórico, Orígenes interpretava o relato de
Gênesis 24.15-17, onde Rebeca vem tirar água do poço e encontra
os servos de Abraão, como significando que diariamente devemos
vir aos poços da Escritura para ali nos encontrarmos com Cristo.
Faraó, mandando matar os meninos e preservando as meninas
hebreias (Êx 1.15-16), era interpretado por Orígenes em verdadeiro
estilo filônico, os meninos significando o espírito intelectual e
sentidos racionais e as meninas significando as paixões carnais.
(...) O sentido verdadeiro (alegórico) da passagem sobre o divórcio
(Mt 19.6) é a separação da alma do seu anjo da guarda[45].

É facilmente perceptível que a interpretação alegórica nutre certo


desprezo pelo sentido literal e, por isso mesmo, o texto fica não a ditar o seu
próprio sentido, mas ao alvedrio do intérprete, que o manuseia conforme a
criatividade que possui.
Certamente não é esse tipo de “alegoria”, da escola alexandrina,
que Paulo faz aqui[46]. Em toda a passagem, fica claro o respeito que ele tem
pela história a que faz remição[47], o que não é próprio dos alegoristas cristãos
dos séculos seguintes. Precisamente por isso não poucos estudiosos preferem
usar o termo “tipologia” para descrever o presente uso paulino da história da
Torá. É dizer, Paulo tomou histórias e personagens do Antigo Testamento aos
quais Deus atribuiu significado simbólico para que fossem figuras de
realidades ainda porvir[48].
Destarte, feitas as considerações acima, acheguemo-nos ao que se
pode aprender a partir da história da família do patriarca.
Em primeiro lugar, “estas mulheres representam duas alianças”
(v. 24). Hagar simboliza a aliança feita no Monte Sinai, que gera filhos para a
escravidão. O Monte Sinai localiza-se na Arábia, precisamente onde habitam
os descendentes de Ismael. Assim como Ismael nasceu escravo, uma vez que
o filho já nasce com o status da mãe, a Lei dada no Monte Sinai gera
escravidão àqueles que desejam ser salvos por meio dela. O que quero que
você perceba é que tudo aqui faz sentido. É dizer, a correspondência aliança
do Sinai-filhos para a escravidão e Hagar-Ismael é mais que possível. Assim
como Ismael nasceu escravo por ser filho de escrava, aqueles que querem
salvar-se cumprindo a Lei tornam-se escravos da Lei.
A contrario sensu, embora Paulo não o diga expressamente, Sara
simboliza a aliança de Deus com Abraão, que gera filhos da promessa, filhos
livres. Esses são os que sabem que não podem salvar-se pelas obras da Lei e
tão somente confiam em Jesus Cristo para receberem a adoção de filhos e o
Espírito que neles clama “Aba, Pai”.
Em segundo lugar, Hagar e Sara representam também duas
maneiras de ser da cidade de Jerusalém (v. 25, 26). Hagar é a Jerusalém
terrena, a Jerusalém da Palestina, que na época que Paulo escreveu era tanto
escravizada por Roma quanto pelo legalismo judaico dos fariseus. Essa é
aquela que, como Hagar, possui filhos escravos (v. 25).
Por outro lado, Sara, a livre, corresponde à “Jerusalém do alto”,
que é a Igreja de Cristo, a mãe de todos nós (v. 26). Para Paulo, todos crentes
são gerados pela Igreja. É a Igreja que traduz a Bíblia e que envia
missionários. É a Igreja que mantém pastores e a constante pregação do
evangelho. E é a Igreja que gera filhos para Deus em uma medida
surpreendente, verdade testemunhada pela citação de Isaías 54.1 (v. 27). “Era
como se ele estivesse profetizando que o cristianismo se tornaria maior que o
judaísmo”[49].
Em terceiro lugar, Hagar e Sara representam também dois modos
de geração de filhos: o “modo natural” e o “segundo o Espírito” (v. 28-30).
Os cristãos são os que nascem segundo o Espírito. São os filhos da promessa,
como Isaque (v. 28), e correspondem aos verdadeiros descendentes de
Abraão – tema que já mencionamos alhures. Ismael, por outro lado, nasceu
de modo natural, segundo a carne.
De fato, a história está sempre a repetir-se, e sua relevância para
os dias de Paulo (e para os nossos) não está em apontar ao conflito judaico-
palestino. A “perseguição” que Ismael empreendeu contra Isaque se repete
cada vez que mestres legalistas querem convencer as igrejas de Cristo que a
justificação não ocorre pela fé somente – “O mesmo acontece agora” (v. 29).
O que fazer nesses casos? A Torá o diz: despedir a escrava e seu filho (v. 30),
porque não é possível que o filho da escrava herde com o filho da livre do
mesmo modo que o sistema de salvação pelas obras não pode ser conciliado
com a justificação graciosa que há em Cristo. “Portanto”, que os gálatas não
tivessem nenhuma dúvida quanto a isso: “não somos filhos da escrava, mas
da livre” (v. 31).
À luz do exposto, não podemos olvidar das grandes e
maravilhosas aplicações perante as quais somos nos tornamos responsáveis.
Se não vejamos:
Em primeiro lugar, é possível compreender que há somente duas
“mães” no simbolismo paulino – e, por certo, nenhuma delas é Maria -,
dignas das nossas mais concentradas percepções, porque tudo está a depender
de quem somos filhos. Se você está tentando ser salvo por seus próprios
méritos, você é um filho de Hagar, um escravo da Lei, e sua relação é com o
Monte Sinai. Sim, porque a Lei é como Hagar, ela escraviza todos quantos
gera – isto é, todos quantos querem ser salvos pela obediência de seus
preceitos.
Por outro lado, se você desistiu de salvar a você mesmo, abriu
mão de sua justiça própria, rendeu-se plenamente quanto isso e confiou em
Cristo para ser salvo somente pelos méritos dEle, então você é, como Isaque,
um filho de Sara, um descendente espiritual de Abraão, um filho da
promessa.
Em segundo lugar, o Texto nos ensina lindamente que Ismaéis
perseguem Isaques, mas Isaques não perseguem Ismaéis, mas apenas
defendem a verdade. Com efeito, a história da Igreja nada mais é que a luta
contra e a favor da verdade do evangelho, uma batalha que teve início ainda
no Éden.
Por isso Timothy Keller aduziu que uma das maneiras de
sabermos que o que somos é baseado na justificação por Cristo “é o fato de
não odiarmos nem hostilizarmos quem é diferente de nós”. Do contrário,
Keller ponderou, “uma das maneiras de sabermos que nossa autoimagem é
baseada na justificação pelas obras é observando as perseguições que
promovemos”[50].
Em terceiro lugar, não deixo de ponderar que embora não
devamos ter a presente passagem como própria da “escola alegórica
alexandrina”, porque o que vimos na exposição de Paulo está em plena
consonância com a história narrada na Torá, é certo que a simples
exposição histórico-gramatical dos textos referidos não nos conduziria de
modo natural às mesmas conclusões de Paulo. Isso não quer dizer, todavia,
que nós cristãos e pregadores do evangelho devamos nos aventurar na busca
de sentidos que não estão claros no Texto. E há uma razão muito simples para
isso, mas suficiente: Paulo era um apóstolo de Cristo e escreveu sob
inspiração do Espírito. Sua interpretação, portanto, é infalível. Deus o
conduziu a ver na Escritura aquilo que sem essa percepção apostólica não
veríamos. E isso não acontece com mais ninguém!
Capítulo 17
As Consequências do Abandono do Evangelho
(5.1-6)

Aportamos em uma passagem da Carta que caminha célere ao fim


dos argumentos teológicos paulinos em favor da saúde espiritual da igreja na
Galácia. De plano, o v.1 traz a seguinte assertiva: “Foi para a liberdade que
Cristo nos libertou” (v. 1a). Com isso Paulo quer afirmar que em Cristo
fomos libertos da escravidão da culpa do pecado e da Lei como forma de
obter a salvação. Na vida pré-cristã, todos, gentios e judeus, vivíamos sob a
escravidão de tentar guardar toda a Lei – ou quaisquer padrões éticos criados
pelo homem – como um meio de ser aceito no favor de Deus. Na medida em
que assim fazíamos, nada colhíamos além da condenação da própria Lei, uma
vez que o pecado nos impede de cumpri-la. Essa dupla escravidão foi
superada porque pela fé em Cristo fomos resgatados da maldição da Lei
(3.13; 4.5), visto que Cristo fez-Se maldição em nosso lugar e nos atribuiu
Sua justiça. Assim, tendo sido justificados por fé, estamos livres das
penalidades da Lei e da velha escravidão de tentar salvar-nos pela obediência
de seus preceitos.
Em seguida, Paulo faz exortação pertinente a partir da assertiva
supra: “permaneçam firmes”. Ou seja, não se apartem da liberdade do
evangelho por nada nem pela influência de quem quer que seja, “e não se
deixem submeter novamente a um jugo de escravidão” (1b). Só há uma
alternativa ao evangelho: a escravidão. Ou abraçamos o evangelho e gozamos
a liberdade que ele proporciona ou nos submetemos à escravidão de tentar ser
salvos pelas obras da Lei e respondermos pela culpa dos nossos pecados.
“Jugo” é uma canga, uma peça de madeira que prende animais a carroças ou
arados, e que também emparelha animais para submetê-los, juntos, a um
serviço.
Assim, Paulo está pronto a convencer os gálatas que se eles se
apartarem do evangelho nada mais estão fazendo do que colocando no
próprio pescoço uma canga que lhes faz submissos a um trabalho servil, com
consequências desastrosas sobre as quais ele discorre na sequência, como
verificaremos.
Em primeiro lugar, “Caso se deixem circuncidar, Cristo de nada
lhes servirá” (v. 2). Isso parece, a princípio, uma assertiva bastante
desarrazoada, desproporcional. Em ocasião posterior, Paulo mesmo julgou
ser conveniente circuncidar Timóteo (At 16.1-3). Por que, então, no contexto
da controvérsia na Galácia e com os judaizantes, a circuncisão se tornou um
problema tão grave? Por que a circuncisão de Tito significa consentir com a
escravidão e arriscar a verdade do evangelho (2.3-5)?
É bastante, por ora, relembrar que a circuncisão foi ordenada a
Abraão para ser um sinal da aliança entre Deus e o patriarca e sua
descendência. A circuncisão era para o Antigo Testamento aquilo que o
batismo é para o Novo, um sinal visível de uma graça invisível e um selo do
pacto. Contudo, do modo como fora compreendida pelos judeus, a
circuncisão tornou-se um meio para ser justificado por Deus. Então, para
Paulo, tudo estava muito claro: a circuncisão, em si mesma, não possui mais
valor teológico (6.15). Os judeus poderiam circuncidar-se, uma vez que a
prática já era parte de seus costumes mais arraigados; ou simplesmente não
fazê-lo. Mas jamais a circuncisão poderia ser imposta como condição de
obtenção do favor de Deus.
Assim, convinha circuncidar Timóteo por ser ele descendente de
judeu; não circuncidá-lo seria criar um obstáculo desnecessário ao acesso dos
missionários no meio judaico. Portanto, a solução foi: “circuncidaremos
Timóteo para não criarmos embaraços na apresentação do evangelho aos
judeus”. Por outro lado, a exigência da circuncisão de gentios (Tito e os
gálatas, por exemplo) - como se tal prática fosse necessária para
complementar a obra de Cristo e finalmente abrir as portas do reino de Deus
para eles - não poderia, em hipótese alguma, ser admitida. Nesse caso, a
verdade do evangelho estaria anulada.
E Paulo nos dá razão suficiente para isso: “Caso se deixem
circuncidar, Cristo de nada lhes servirá”. Noutras palavras, Paulo adverte aos
gálatas que querer acrescentar à simples fé em Cristo obras da Lei é tornar
inútil, para eles, tudo que Cristo fez. A afirmação paulina é deveras radical.
Ou temos a Cristo como um Salvador todo suficiente e confiamos somente
nEle para a salvação ou O rejeitamos completamente, porque desejar de
algum modo completar a obra dEle equivale à rejeitá-lO totalmente.
Em segundo lugar, “todo homem que se deixa circuncidar... está
obrigado a cumprir toda a Lei” (v. 3). Leia-se, à luz do que já antes
esclarecemos: “todo homem que se deixa circuncidar como forma de
complementar a obra de Cristo na salvação”, está, na verdade, se
comprometendo a guardar a Lei inteira, sob pena de, em cometendo qualquer
mínimo deslize que seja, perder-se eternamente. Paulo quer demonstrar que
as implicações de adotar certos preceitos da Lei são muito mais amplas do
que os gálatas estavam conseguindo perceber. Como a Lei é una, o caminho
alternativo (obviamente hipotético) em relação ao evangelho da graça é o
dever de guardar toda a Lei, o tempo inteiro, ao risco de violação mínima que
seja a quaisquer de seus menores preceitos redundar em condenação eterna.
Em terceiro lugar, os “que procuram ser justificados pela Lei,
separaram-se de Cristo; caíram da graça” (v. 4). Eis a terceira consequência
de abandonar a liberdade do evangelho e submeter-se novamente a um jugo
de escravidão. Quando apostatamos desse modo, Paulo já o disse, Cristo não
nos serve de nada (v. 2) e nos obrigamos a cumprir toda a Lei (v. 3). A
apostasia aqui apontada é a decisão de rejeitar a salvação gratuita e seguir o
caminho da autossalvação. É, noutro dizer, abrir mão das conquistas
infalíveis de Cristo e optar pelo caminho impossível de uma salvação
conquistada por nós mesmos. Assim, o que temos aqui, no v. 4, não é, em
verdade, uma consequência nova, mas a síntese do que já foi dito. Como se
Paulo dissesse: “Vocês sabem o que significa tornar a obra de Cristo inútil e
decidir conquistar a salvação pelos próprios esforços? Separar-se de Cristo,
cair da graça – apostatar!”
Nesse ponto, vale ressaltar que uma polêmica se faz em torno
desse texto sobre a (im)possibilidade de alguém vir a perder-se finalmente
após ter sido salvo verdadeiramente. A questão é: é possível que um
verdadeiramente justificado venha a perder-se e cair em condenação eterna?
Para uma enorme parcela do evangelicalismo contemporâneo (que recebe o
nome de “arminiana”, uma referência ao professor de teologia e pastor da
Igreja Reformada da Holanda Jacob Arminius), sim. Essa possibilidade – de
um crente genuíno vir a perder-se – é admitida, em geral, pelas denominações
pentecostais e neo-pentecostais.
Segundo essa perspectiva, Deus enviou a Cristo para pagar as
penalidades dos pecados de todos os homens, de toda a humanidade, sem
exceção alguma. Entretanto, a morte de Cristo, sozinha, ainda não é uma
garantia de salvação; na verdade, a cruz não teria salvo ninguém. A morte de
Cristo, para o “arminianismo”, tão somente possibilitou a salvação, tornou a
salvação possível, cabendo ao pecador aproveitá-la pela fé, ou não aproveitá-
la.
Seguindo esse raciocínio em termos lógicos, se cabe tão somente
ao pecador decidir se aproveitará ou não a salvação propiciada por Cristo,
também é somente dele a decisão de permanecer com ela ou rejeitá-la, após
tê-la aproveitado. Então, a conclusão arminiana é: como o pecador, após a
persuasão moral do Espírito, é livre para decidir abraçar a salvação que Cristo
tornou possível com Sua morte, ele é livre também para rejeitá-la
definitivamente após tê-la abraçado; e mais, ele é livre inclusive para voltar a
abraçá-la após havê-la rejeitado, quiçá tantas vezes quantas decida rejeitar e
tornar a abraçar. Em resumo: a última palavra quanto à salvação do pecador é
somente dele mesmo.
Pois bem, a questão que nos ocupa agora é saber se Gl 5.4 serve
para fundamentar todo o raciocínio arminiano, brevemente apresentado
supra. Pensamos que a resposta é um retumbante “não”, pelas razões que
passamos a discriminar:
Primeira razão: Paulo não está nesse versículo, e nem mesmo
em qualquer passagem da Carta aos Gálatas, lidando com a mecânica da
salvação, explicando como Deus salva o pecador desde a origem até a
consumação. Ele faz isso em diversos lugares, quando então lida com temas
como eleição, predestinação, chamado, regeneração e glorificação. Quando
Paulo está tratando da ordem da salvação, como em Rm 8.30, ele desenvolve
a corrente de ouro desde a eternidade passada até sua plena consumação, na
eternidade futura, de modo que fica absolutamente claro que a obra da
salvação é exclusivamente divina, do começo ao fim. No entanto, esse não é
o seu interesse em uma Carta essencialmente pastoral, cujo propósito é
advertir cristãos que estão sendo iludidos por uma forma de legalismo
judaico. Portanto, querer tirar conclusões em nosso texto sobre a
possibilidade de perder a salvação é simplesmente misturar categorias e
aplicar uma linguagem própria do trato com os homens ao modus operandi
divino.
Segunda razão: admitindo que haja um ensino evidente quanto a
uma eleição incondicional, uma afirmação categórica de que a morte de
Cristo na cruz garantiu a salvação de um povo e, por isso, os crentes
verdadeiros não decaem definitivamente para a perdição eterna – linha
teológica denominada calvinista, em referência ao reformador franco-
genebrino -, isso ainda não implicaria a desnecessidade de exortações
pastorais. Esse é um equívoco bastante comum na apreciação do calvinismo:
acreditar que ele prega que porque Deus elegeu e predestinou pessoas para a
salvação, Ele não se utiliza de meios pelos quais leva a salvação dos Seus
eleitos à consumação. É esse tipo de raciocínio que conduz à falsa conclusão
que a consequência lógica do calvinismo é tornar desnecessários os
instrumentos pelos quais Deus assegura a caminhada do eleito à glorificação.
Essa falácia, com efeito, tornaria todo o Novo Testamento desnecessário, não
apenas a presente exortação de Gl 5.4. Sim, de fato, os eleitos de Deus jamais
decairão final e irreversivelmente, embora isso não signifique que não
precisem de exortações e estímulos pastorais a que permaneçam firmes na
caminhada.
Terceira razão: não olvidemos que a Bíblia contém duas
verdades aparentemente contraditórias. Ela enfatiza que a salvação do
pecador é obra exclusivamente divina – eis o aspecto da soberania de Deus na
salvação -, tanto quanto que a condenação do pecador deve-se somente a ele
– eis o aspecto da responsabilidade humana na condenação. Por um lado, a
Bíblia assevera que Deus preservará os eleitos no decurso da jornada; por
outro, culpa exclusivamente os apóstatas por sua apostasia. Assim, todo leitor
da Bíblia, minimamente atento, verá essa aparente contradição (cf. Rm 9-10).
O calvinismo é o sistema teológico que tem, diríamos nós, a humildade e a
coragem para abraçar ambas as verdades com a mesma intensidade, sem abrir
mão de qualquer delas, ainda que admita que o paradoxo não pode ser
satisfatoriamente explicado no presente estado.
Quarta razão: o fato de haver uma advertência contra os perigos
da apostasia em nosso texto não implica na admissão, por Paulo, de que
crentes genuínos possam a vir a perder-se definitivamente. Na realidade, o
que temos aqui é o fato incontrastável de que os eleitos devem ser diligentes
com os meios de graça, porque por eles Deus os preserva na caminhada.
Ademais, nenhum sistema teológico crível ensina que pessoas serão salvas a
não ser que perseverem até o fim.
Portanto, a nossa conclusão é que Paulo, em Gl 5.4, não está nem
de longe flertando com o ensino arminiano da perda da salvação, mas
advertindo aos crentes da Galácia de que abraçar a justificação pelas obras da
Lei é negar a graça de Deus, posição que, em verdade, um crente verdadeiro
jamais virá a assumir, pelo menos não em caráter definitivo.
Pelo contrário, o apóstolo acredita que mediante o Espírito nós
aguardamos pela fé a justiça que é o objeto da nossa esperança (v. 5). Não,
os crentes não seguem o caminho da justificação pelas obras da Lei! Eles são
conduzidos pelo Espírito a crer que um dia estarão completamente puros e
santos, quando então viverão perfeitamente para Deus. Eis o sentido de
“justiça” no versículo: a plena retidão com que seremos revestidos na
glorificação.
Repito que essa justiça é o objeto da nossa esperança,
acrescentando tão somente que a palavra grega (elpida) não significa, como
em português, mera expectativa em que algo venha a ocorrer, mas uma forte
convicção, uma “certeza absoluta”. De fato, o evangelho não nos dá apenas
uma mera possibilidade de glorificação; ele a assegura!
Finalmente, para que não sobre dúvida alguma, Paulo assevera (v.
6) que salvação, vida com Deus, justificação e graça não são uma questão de
guardar alguns preceitos da Lei, nem de deixar de guardá-los. Se alguém quer
se circuncidar, que o faça, mas não imagine que esse fato é de alguma
serventia para conferir a posse da justiça que a esperança aguarda. Se, por
outro lado, alguém não quer se circuncidar, que não se circuncide, mas saiba
que não será também tal abstenção que lhe assegurará a glorificação. “O
apóstolo deseja deixar claro que não há mais virtude em ficar num estado de
incircuncisão do que de circuncisão. Em Cristo, isto é simplesmente
irrelevante”[51]. Isso porque estando nós unidos a Cristo, “nem circuncisão
nem incircuncisão tem efeito algum, mas sim a fé que atua pelo amor”.
A última cláusula do apóstolo merece nossas mais concentradas
atenções, porque até aqui ele nada mencionou sobre a prática da fé. Aqui ele
o faz. A fé salvadora, nos termos paulinos, em nada difere da fé apresentada
por Tiago (2.14ss). A fé em Paulo, como em Tiago, não é morta; ela
funciona, opera, gera os frutos do amor. Fé e amor são, portanto,
indissociáveis. Formam juntos, como disse Lutero, um bolo.
Digo, à guisa de conclusão, que há sempre um assédio sutil a nos
tentar para que ousemos conquistar alguma forma do favor de Deus através
daquilo que fazemos ou deixamos de fazer. O coração humano quer
contribuir, então ele diz que precisamos de um tanto de Cristo e um tanto de
obras. E o evangelho, de seu turno, é a mais radical negação de todas as
tentativas desse jaez. O evangelho exclui a possibilidade de conjugação de
esforços, o que veio a ser chamado de sinergismo. O evangelho é monergista.
Capítulo 18
A Indignação Apostólica contra os Pervertedores do Evangelho
(5.7-12)

Até esse ponto dessa crucial Carta apostólica, Paulo esteve


argumentando em favor do evangelho contrapondo-se à mensagem dos
judaizantes segundo a qual apenas a fé em Cristo não é suficiente para a
salvação. Se os gálatas quisessem realmente acertar-se com Deus, diziam os
falsos mestres, seria necessário que acrescentassem à fé em Cristo a
observância de certos preceitos da Lei, a exemplo da dieta e do calendário
judaicos e, sobretudo, da circuncisão. Contra isso o apóstolo já se opôs
exaustivamente, afirmando, em síntese apertada, que somos justificados
somente pela fé em Cristo e que a única alternativa ao evangelho é a
maldição da Lei, a submissão ao jugo de escravidão e a condenação eterna.
Entretanto, em algumas circunstâncias, pregar a verdade,
esclarecer o erro e advertir os crentes quanto às consequências do erro não
bastam. É preciso, em alguns momentos, ir além e desmascarar os
propagadores do erro e expor claramente seus motivos espúrios, por amor do
rebanho, a despeito da impopularidade que tal atitude pode trazer como
consequência. É precisamente isso que Paulo faz em nosso texto. Como
veremos, em uma digressão bastante emocional, o apóstolo desata a sua
indignação pastoral e nos revela um pouco daquilo que somente os pastores
sentem. Primeiro, ele advertirá mui amorosamente os “irmãos” da Galácia;
além disso, disparará sua artilharia mais pesada contra os perturbadores da
Igreja de Deus. Concentremo-nos, pois, na passagem em apreço.
Em primeiro lugar, Paulo relembra aos gálatas o seu princípio
promissor e reaviva a real gravidade da intervenção judaizante entre eles.
“Vocês corriam bem” (v. 7a) é outra forma de dizer que os gálatas
começaram no Espírito (3.3). Após, em uma pergunta retórica, questiona:
“Quem os impediu de continuar obedecendo a verdade?” (v. 7b). Em 3.1, sua
pergunta foi “Quem os enfeitiçou?”.
Essa é uma maneira bastante branda, indireta, de repreensão, que
possui o propósito de atiçar a consciência dos crentes gálatas no sentido de
notificar-lhes que eles foram interrompidos e que os mestres que eles
acolheram nada mais fizeram além de apor obstáculo à sua caminhada.
Pohl ilustra bem a figura paulina com as seguintes palavras: “O
corredor de fundo deu boa largada, encontrou de modo ideal seu estilo de
corrida e corre de maneira que enche a plateia de alegria. Aí alguém lhe passa
a perna. Ele cambaleia e perde o ritmo”[52].
Foi de fato o que ocorreu com os gálatas e é o que já tive a
infelicidade de testemunhar algumas vezes nesses mais de vinte anos de
ministério. Pessoas conhecem a verdade do evangelho e se apegam a ela com
afinco. Nós as assistimos crescer e produzir frutos, até que mensageiros do
engano começam a assediá-las e elas acabam, por assim dizer, perdendo a
passada, tropeçando.
Então os gálatas precisavam saber que uma mensagem diferente
da tradição apostólica tal qual haviam recebido não possui elo de
continuidade com a proposta judaizante, coisa que nem sempre é fácil de ser
percebida. Em geral, as pessoas que estão sendo assediadas por alguma seita
ouvem que o que elas apreenderam até então está bom, mas que não é tudo, e
que a nova doutrina é que lhes fará crescer além do ponto em que estão.
Por isso Paulo acrescentou que “Tal persuasão não provém
daquele que vos chama[53]” (v. 8); isto é, que a mensagem judaizante em nada
tem a ver com o evangelho de Deus e não deveria ser ouvida como se a
mesma coisa fosse. Paulo fala com autoridade, porque crê que a mensagem
que ele prega é o chamado do próprio Deus.
Mas talvez os gálatas não tenham percebido que mensagem
aparentemente tão semelhante, que propusesse um acréscimo tão sutil,
pudesse ser assim, tão danosa. Daí a construção paulina conhecida: “Um
pouco de fermento leveda toda a massa” (v. 9)[54]. Recorremos a Pohl outra
vez, quando concluiu com precisão que Paulo estaria sendo acusado de fazer
alarde demais por uma ninharia, de estar disparando canhões contra pardais,
como se o evangelho pudesse estar em perigo quando ninguém estava
pragando a desnecessidade de Jesus, mas apenas um “pouquinho” de
mudança. Quem assim se comporta o faz sem saber que “O pouquinho de lei
contaminou todo o evangelho, de forma que deixou de ser evangelho (Gl 1.6-
9)”[55].
Em seguida, Paulo, em mais uma palavra bastante branda e
agora em termos positivos, expressa a sua confiança no Senhor no sentido de
que os gálatas não apostarão definitivamente. “Estou convencido no Senhor
de que vocês não pensarão de nenhum outro modo” (v. 10a). “Não pensar de
outro modo” aqui (ou, mais literalmente, “que não cuideis de outra coisa”)
corresponde a manter-se comunitariamente firme na tradição apostólica, sem
a qual qualquer movimento, por mais promissor que tenha sido seu início,
torna-se completamente inútil neste mundo, coisa não rara de vermos
hodiernamente.
Em segundo lugar, essa mesma confiança é agora direcionada no
sentido oposto: “Aquele que os perturba, seja que for, sofrerá a condenação”
(v. 10b). Se, por um lado, Deus poupará Seus servos da queda, por outro, não
poupará os perturbadores do evangelho - os quais causam confusão
doutrinária na igreja de Deus – de suportarem o fardo por terem tentado
impor um peso de legalismo aos cristãos da Galácia. É certo que os crentes
perseverarão e é certo que os falsos mestres receberão um grande peso sobre
si! A cláusula “seja quem for” indica que nenhum tipo autoridade alegada
livrará do julgamento divino que há de vir sobre o que malbarata o evangelho
de Jesus com restos de cerimonialismos judaicos.
Além disso, o mal causado pelos judaizantes não foi somente no
campo doutrinário. Eles também tentavam minar a autoridade paulina e
fomentavam a resistência dos gálatas contra a pessoa de Paulo. Fizeram isso
também acusando Paulo de ser dúbio em sua mensagem. É como se
dissessem: “Nós sabemos que Paulo inclui, quando prega noutras plagas, a
circuncisão em sua mensagem. Como ele pode omiti-la de vocês?” Paulo
responde sem detença: “Irmãos, se ainda estou pregando a circuncisão, por
que continuo sendo perseguido? Nesse caso, o escândalo da cruz foi
removido” (v. 11).
Paulo parte da noção de que os gálatas conhecem bem o que ele
já suportou sob os ataques dos judeus. Se ele ainda defendesse o cerimonial
judaico como impositivo à igreja, por óbvio não teria sido tão perseguido
como foi por judeus e, inclusive, por judeus cristãos – os próprios
judaizantes. O texto significa que para Paulo se ele pregar alguma forma de
contribuição humana à salvação ele se livra de uma porção de dificuldades,
porque, nesse caso, ele também remove o escândalo da cruz.
De fato, para o judeu, há uma ofensa, ou um tropeço, no fato de
que o Messias de Deus morreu como um maldito de Deus na cruz. Assim, se
Paulo permanecesse pregando a necessidade de cerimônias judaicas, ele,
hipoteticamente, teria conseguido o feito extraordinário de remover o
escândalo da cruz. É dizer, a cruz ficaria menos ofensiva! Ou, no dizer de
Calvino, os judeus “não se sentirão ofendidos com um evangelho pretenso e
espúrio, um composto de Moisés e Cristo; tal mistura será tolerada, visto que
os deixará de posse de sua anterior superioridade”[56].
Finalmente, Paulo desata sua indignação de modo mais explosivo
contra os judaizantes: “Quanto a esses que os perturbam, quem dera se
castrassem” (v.12). De fato, ele chega a expressar o desejo que aqueles
judeus, que eram tão amantes da circuncisão, voltassem suas facas contra si
mesmos e o fizessem de modo ainda mais extremado.
Por certo que uma tal explosão emocional tem levantado
suspeitas e recebido críticas das mais variadas. Como pode o apóstolo da
graça, o escritor sacro que escreveu 1 Coríntios 13, expressar um desejo nada
recomendável? Esse seria um texto inspirado pelo Espírito Santo? Há razão
que justifique a imprecação paulina?
Lutero diz que há ocasiões em que a Palavra ou a doutrina são
amaldiçoadas e, em consequência, o próprio Deus é blasfemado. Diz ainda
que nesses casos não há razão para se exercer amor e concórdia cristã, mas,
sim, de nos utilizarmos do tribunal e amaldiçoarmos aqueles que depravam
ou ferem a majestade da Palavra. Então, ele conclui:
Paulo, portanto, age corretamente quando amaldiçoa aqueles
perturbadores e pronuncia a sentença de que são anátemas com
tudo o que são, com o que ensinam e com o que fazem e quando
lhes deseja que sejam cortados desta vida e, principalmente, da
Igreja, isto é, que Deus não governe e não faça prosperar sua
doutrina e todas as suas ações. E essa maldição procede do
Espírito Santo[57] (com grifo meu).

Para Calvino, de fato, nós devemos desejar a salvação de todos os


homens. Entretanto, as mentes pias divisam a glória de Deus e o reino de
Cristo como mais excelentes que a salvação dos homens. Por isso, os crentes
são estimulados a promoverem a glória de Deus de tal modo que chegam a
preferir “que o mundo inteiro pereça antes que alguma parte da glória de
Deus se perca”. Além disso, não devemos preferir uma pessoa ou umas
poucas pessoas em detrimento da Igreja de Deus. “De um lado”, diz o
reformador, “eu vejo o rebanho de Deus em perigo; do outro, eu vejo um
lobo pronto para o ataque, incitado por Satanás. Não deve a solicitude pela
Igreja absorver todos os meus pensamentos, de forma tal que o meu desejo
seja assegurar sua salvação com a destruição do lobo? (...) Que cada genuíno
pastor da Igreja se abrase com essa sorte de zelo”[58].
Também John Sttot, citado por Keller, vaticina: “Arrisco-me a
dizer que, se estivéssemos tão preocupados com a igreja de Deus e com a
Palavra de Deus quanto Paulo, também desejaríamos que os falsos mestres
desaparecessem da face da terra”[59].
Capítulo 19
A Luta entre a Carne e o Espírito
(5.13-18)

A partir desta passagem de Gálatas o apóstolo adentra em


questões de ordem ética. É costume seu debruçar-se sobre a vida prática da
igreja somente após uma longa e suficiente argumentação doutrinária, isso
porque a vida que vivemos deve ser uma decorrência da fé que professamos,
uma vez que cristianismo não é um apanhado de conselhos morais
divorciados dos fatos e revelação do evangelho que fundamentam sua ética.
Nesse ponto da nossa Carta, Paulo já havia defendido a
justificação da graça mediante a fé somente, em Cristo, contrariando a noção
judaizante de fé em Cristo mais preceitos da Lei para a salvação. Como sói
ocorrer, há sempre o risco da mensagem paulina da graça ser mal
interpretada. Escrevendo aos romanos, após o apóstolo contrastar a
imputação do pecado de Adão com a imputação da justiça de Cristo, pela
graça (5.12-21), ele antevê uma objeção à sua doutrina: “Que diremos então?
Continuaremos pecando para que a graça aumente?” (6.1). Perceba-se que a
doutrina da graça pode ser abusada, e gerar uma vida dissoluta, ao argumento
de que a bondade de Deus constitui um cheque em branco para cometermos
toda torpeza imaginável.
Nesse diapasão, o apóstolo não aceita, nem por um instante, que o
evangelho seja - ele que é o poder de Deus para salvar do pecado - um
estímulo ao pecado. Daí a importância do nosso texto, que nos responde
questões tão cruciais como essas: O que significa ser liberto da Lei? Quais as
implicações éticas da justificação pela fé somente? Como deve ser o andar
dos cristãos – aqueles que foram salvos pela fé somente? Assim, sem mais
delongas, atentemos ao Texto Sacro que ora nos ocupa.
Em primeiro lugar, Paulo reforça sua argumentação evangélica
da salvação pela fé somente quando relembra aos “irmãos” que eles “foram
chamados para a liberdade” (v. 13a). Ele já havia dito que “Foi para a
liberdade que Cristo nos libertou” (5.1). Paulo está a afirmar, considerando
negativamente, que a justificação da graça nos liberta da maldição da Lei, da
condenação da Lei em virtude de não cumprirmos seus preceitos, e da
observância da Lei como forma de sermos aceitos no favor de Deus – noção
conhecida como legalismo. Sob o prisma positivo, “liberdade” é “a esfera do
viver agradecido e espontâneo para a glória de seu maravilhoso Benfeitor”[60],
na qual o redimido é introduzido. Os cristãos gálatas deveriam permanecer
firmes em sua liberdade e não se deixarem submeter a nenhum jugo de
escravidão (5.1).
Em segundo lugar, ao negarem o legalismo, os gálatas não
poderiam ir ao extremo oposto e usar “a liberdade para dar ocasião à vontade
da carne” (v. 13b). É como se Paulo, de repente, sentisse que sua doutrina
poderia ser mal compreendida – ou talvez já houvesse sido distorcida, pelos
gálatas ou mesmo maldosamente manipulada pelos judaizantes - e a liberdade
por ele propugnada pudesse ser usada de maneira indevida, de modo a gerar
licenciosidade. “Liberdade”, portanto, não poderia ser de modo algum
confundida com “direito de pecar” ou com licença para fazer tudo quanto o
coração mau deseja.
“Dar ocasião” é gerar uma oportunidade, fornecer um motivo,
ensejar um pretexto, como se a “carne” estivesse ali, apenas aguardando uma
mínima chance para operar sua vontade. “Carne” aqui se refere à “natureza
pecaminosa herdada de Adão e Eva”[61], “resume o motivo que impele o
homem natural, a tendência moral do homem que não é movido pelo
Espírito”[62], é “o aspecto do nosso ser como um todo que anseia pelo
pecado... nosso coração pecaminoso”[63]. No caso, Paulo está, como veremos,
pensando especificamente no pecado da hostilidade mútua.
Em terceiro lugar, os gálatas deveriam servir “uns aos outros
mediante o amor”. A verdade completa, pois, é que eles tinham sido libertos
para serem escravos uns dos outros, e sê-lo em amor, que é o resumo de toda
a Lei (v. 14; Lv 19.18). É fácil entender como o amor ao próximo resume a
segunda tábua da Lei: quem ama o próximo não prejudica sua vida em
nenhum aspecto – não atenta contra a sua vida, não quer furtar-lhe os bens,
nem tampouco atingir sua honra com o uso inadequado da linguagem. Mas
Paulo está a dizer mais, que o amor ao próximo resume “toda a Lei” – ambas
as tábuas do decálogo -, o que significa dizer que para ele só amamos a Deus
de fato se amarmos o nosso próximo. “Se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’,
mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê,
não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4.20). No caso dos gálatas, eles
estariam usando mal a liberdade se o fizessem para hostilizarem-se
mutuamente (v. 15).
Toda essa passagem nos informa que Paulo confere altíssimo
valor à Lei como guia para a vida que devemos viver para Deus em gratidão.
O que ele repele veementemente em sua Carta é o uso da Lei como forma de
salvação. A Lei como solução para o problema do pecado é um enorme
fracasso (cf. Rm 7.7-25), e é esse aspecto que Paulo desejou que os gálatas
abandonassem de uma vez por todas. A Lei como fonte de orientação sobre
como os salvos devem viver para o salvador é, por outro lado,
imprescindível. Negar o valor da Lei corresponde a negar o valor do amor,
que a resume.
Em quarto lugar, Paulo nos diz como viver essa liberdade servil
em amor: só há um caminho possível, andando em Espírito. O mau uso da
liberdade enseja oportunidade de atuação à vontade da carne; o legalismo
(apego à Lei como meio para a salvação) nos priva da liberdade e não tem
poder contra a carne (cf. Cl 2.23). O cristão é chamado para livrar-se do
legalismo, por um lado, e da licenciosidade, por outro, e viver a liberdade em
serviço mútuo amoroso. A questão é: como conseguir?
A resposta paulina é que devemos viver no Espírito (v. 16) ou ser
guiados pelo Espírito (v. 18), ou ainda, no dizer apostólico de Efésios 5.18,
ser cheios do Espírito. Se andarmos no Espírito não satisfaremos os desejos
da carne. É dizer, a vida no Espírito é a única alternativa à vida sob o poder
da vontade da carne.
“Viver” ou “andar” no Espírito é seguir Sob sua instrução e sob
Seus impulsos. É viver, segundo Hendriksen, debaixo daquela
influência constante, eficaz e benéfica que o Espírito Santo exerce
dentro do coração dos filhos de Deus, pela qual são guiados e
capacitados mais e mais para vencer o poder do pecado que ainda
habita neles, e para andar nas veredas dos mandamentos de Deus,
livres e alegremente[64].

E não pensemos nós que a vida no Espírito é uma vida fácil e


tranquila. “Esperais que será fácil servirdes a Deus fielmente durante esta
vida?” – é a pergunta 9 do questionário kalleyano usado no batismo. Não, ao
contrário, nós, os cristãos, somos um permanente campo de batalha, no qual a
carne luta contra o Espírito e o Espírito contra a carne (v. 17a). A carne quer
espaço constantemente, sem nenhuma interrupção, para dar vazão a seus
desejos controladores, seus impulsos fortes. E esta é a razão pela qual jamais
seremos, nesta vida, guiados somente pela influência do Espírito, não sendo
possível afirmar o perfeccionismo cristão defendido por John Wesley.
Por outro lado, o Espírito também tem desejos fortes e luta
constantemente contra a carne, de modo que não permite que a vontade da
carne prevaleça e, positivamente, faz crescer em nós as virtudes do novo
homem, criado em Cristo. Isso traz como implicação o fato de que um cristão
NUNCA cai a ponto da carne ocupar todos os espaços em sua vida e sufocar
toda a influência do Espírito DEFINITIVAMENTE.
Portanto, o resumo da ópera é este: porque a carne milita contra o
Espírito, jamais faremos toda e constantemente a vontade de Deus nesta vida;
porque o Espírito milita contra a carne, jamais a vontade da carne prevalecerá
a ponto de não mais sofrermos, definitivamente, a influência o Espírito.
A compreensão da luta entre a carne e o Espírito elucida uma
questão intrigante, no sentido de explicar por que um cristão regenerado, que
ama a Deus verdadeiramente, que conhece a Palavra de Deus, que é um
crente sincero e diligente com os meios de graça, não consegue cumprir a sua
própria vontade - que é fazer a vontade de Deus constante e perfeitamente.
Diz o apóstolo, com efeito: “Eles [a carne e o Espírito] estão em conflito um
com o outro, de modo que vocês não fazem o que desejam” (v. 17b).
Finalmente, esperaríamos que Paulo dissesse no v. 18 que se
somos guiados pelo Espírito, já não cumprimos a vontade da carne, uma vez
que até aqui ele vem contrastando “carne” e “Espírito”. Mas, somos
surpreendidos porque de repente se nos apresenta o contraste entre estar
“debaixo da Lei” e a “vida no Espírito”, o que nos faz concluir que assim
como a vida no Espírito é a alternativa à vontade da carne, o é para a vida
debaixo da Lei. Viver na carne e estar debaixo da Lei são, pois, farinha do
mesmo saco, porque a Lei não provê remédio para a escravidão sob a vontade
da carne. Se os gálatas queriam fugir da licenciosidade, a alternativa não seria
a adoção do legalismo judaico, mas da vida no Espírito. Isso é significativo
para uma igreja que está flertando com o legalismo a ponto de quase
confessar que somos salvos por meio da Lei.
À guisa de conclusão, atentemos às proposições seguintes:
Em primeiro lugar, apenas o crente genuíno conhece a luta
agonizante a que Paulo se refere em nosso texto, e a tem em convivência com
o triunfo de quem depende da graça de Deus. Notemos que a vida do cristão
é de batalha renhida e de confiança no triunfo da graça. Noutro extremo, o
libertino nada conhece sobre essa luta, e o legalista conhece somente a luta,
mas não o triunfo da graça. O libertino confunde a graça e não vive a luta; o
legalista só conhece uma luta vã, sem o triunfo da graça; o crente vive o
paradoxo da luta e do descanso na graça.
Então, devemos perguntar-nos a nós mesmos se convivemos
tranquilamente com o pecado, se nada sabemos sobre aquela santa agonia de
perder o sono em face de uma ação pecaminosa pela qual sabemos ter violado
a Lei de Deus ou ainda se estamos cansados e vendo o cristianismo como o
fardo que queremos lançar fora. Se esse é o caso, urge irmos à presença de
Deus e confirmar se de fato Lhe pertencemos ou se toda a nossa profissão de
fé não passa de autoengano. Por outro lado, se a luta não desemboca naquele
alento da graça, conhecido somente por quem sabe haver sido perdoado,
talvez não passemos de legalistas, e talvez sejamos daquela gente que
acredita que um dia conquistou o favor de Deus com boas obras e, agora,
decepcionada consigo mesma, caiu em profunda depressão.
Em segundo lugar, o texto em comento é uma severa advertência
no sentido de que a caminhada ao céu não será fácil. De fato, o caminho da
graça é uma via estreita que segue em paralelo e entre as estradas da
libertinagem e do legalismo. A libertinagem e o legalismo, como
observamos, estão relacionados com a carne, visto que o coração de carne
que rejeita a Lei como norma de conduta que agrada a Deus (libertinagem) é
o mesmo que rejeita a justiça da graça de Deus oferecida ao pecador
(legalismo). A carne é, portanto, essencialmente idólatra: ora construindo
uma ética à revelia da revelada, ora tentando salvar-se pelos próprios
esforços.
Em terceiro lugar, notemos que existem duas forças em operação
na vida de todo o cristão: o Espírito e a carne. Essa mesma batalha é dita em
Ef 4.22-24 em termos da rivalidade entre o “velho homem” e o “novo
homem”. A implicação disso é que não há campo neutro – se não andarmos
sob a influência do Espírito, satisfaremos os desejos da carne. Também, que é
impossível fugir da escravidão aos desejos controladores da carne sem a luta
do Espírito. Não é possível fazer nada que agrade a Deus sem o Espírito.
Capítulo 20
As Obras da Carne
(5.19-21)

Já vimos em momento anterior que a vida cristã consiste de uma


batalha ferrenha entre a carne e o Espírito. Carne, não custa relembrar, não é
sinônimo de corpo. A luta referida por Paulo não é entre a natureza física (o
corpo) e a natureza espiritual (o espírito humano), mas a que se trava entre os
desejos pecaminosos da velha natureza, da natureza herdada de Adão, e as
influências santas do Espírito de Deus no coração do homem regenerado.
Quando a carne ganha vantagem na luta, os sinais disso se
manifestam. Por isso, nesse passo, o escritor inspirado, ainda que sabedor que
tais obras “são manifestas” (conhecidas por todos e praticadas por todos
quando ainda não cristãos), para que não reste nenhuma dúvida, nos dá uma
lista pela qual pretende ilustrar o que poderá surgir caso a carne recebe
licença para operar.
Noutras palavras, o apóstolo já havia dito para não usarmos a
liberdade para dar ocasião à carne. Agora, ele nos diz o que a carne opera
quando recebe oportunidade para tanto, em uma lista que pode ser
classificada em quatro categorias: 1) pecados sexuais (imoralidade sexual,
impureza e libertinagem); 2) pecados religiosos (idolatria e feitiçaria); 3)
pecados relacionais (ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões,
facções e inveja); e 4) pecados que se manifestam coletivamente (embriaguez
e orgias). Vamos analisá-la brevemente e, após, tecermos conclusões
imprescindíveis.
Em primeiro lugar, vejamos como a carne opera na esfera da
sexualidade: imoralidade sexual (ou prostituição), impureza e libertinagem
(lascívia). Donald Guthrie sugere que pecados da sensualidade vêm em
primeiro lugar “devido à sua predominância e por serem praticados
abertamente nos dias de Paulo. Estavam em grande destaque no ambiente
pagão do qual os gálatas foram tirados, sendo até mesmo aprovados nos ritos
da adoração pagã”[65].
“Imoralidade sexual” ou “prostituição” (porneia) é termo
genérico para toda relação sexual entre pessoas não casadas. “Impureza”
(akatharsia) parece ser uma degeneração ainda maior da sexualidade, para
incluir relacionamentos não naturais, como o homossexualismo e a
bestialidade. “Libertinagem” ou “lascívia” (aselgia) evoca a noção de
sexualidade desenfreada, na completa ausência de domínio próprio que dá
vazão a todo e qualquer impulso pecaminoso na área da sexualidade. É
possível vislumbrar uma decadência moral progressiva nos termos paulinos.
São pecados que violam o sétimo mandamento (“não adulterarás”), a
santidade do sexo e do casamento e a segurança da família, apesar da nova
moralidade os sancionar e da maneira bastante transigente com que a nossa
sociedade os trata.
Em segundo lugar, Paulo lista as operações da carne na área
religiosa com as palavras idolatria (eidololatria) e feitiçaria (pharmakeia).
Na “idolatria”, cria-se um falso deus ou tenta-se materializar o Deus
verdadeiro, pecando assim contra os mandamentos primeiro e segundo, que
nos mandam, respectivamente, servirmos somente a Deus e da maneira por
Ele prescrita. Segundo o apóstolo Paulo, a avareza é idolatria (Cl 3.5), visto
que por ela o “eu” é centralizado e ocupa o lugar que deveria ser dado a
Deus.
A “feitiçaria”, por sua vez, é uma referência à prática de artes
mágicas, bruxarias e encantamentos, pelos quais se atribuem poderes mágicos
a certas coisas ou palavras. Os bruxos acreditam que manipulam poderes
sobre-humanos e, por isso mesmo, que podem inclusive comercializá-los.
Hodiernamente tais feitiçarias são encontradas no espiritismo, na astrologia e
nas adivinhações tanto quanto nos templos evangélicos que vendem
prosperidades e exorcismos. Idolatria e feitiçaria são práticas igualmente
violadoras dos mandamentos primeiro e segundo e marcas indeléveis do culto
pagão. Sua relação é íntima, visto que a fé em poderes mágicos nada mais é
que idolatria.
Em terceiro lugar, Paulo nos dá oito palavras que ilustram como
a carne se expressa na área dos relacionamentos interpessoais: ódio (ou
inimizades), discórdia (ou porfias), ciúmes, ira, egoísmo (ou discórdias),
dissensões, facções e inveja. “Ódio” ou “inimizades” (echthra) é a
predisposição para a hostilidade. “Discórdia” ou “porfias” (eris) é o gosto por
disputas, próprio da pessoa contenciosa, que está sempre pronta a desafiar os
outros. “Ciúmes” (zelos) àquela tendência de fazer suas posições
prevalecerem, custe o que custar. “Ira” (thumos) é explosão concreta de raiva.
Não é impossível que Paulo tenha disposto as palavras de modo crescente,
partindo das atitudes internas à manifestação externa da pecaminosidade
carnal. É, de fato, a pessoa que tem predisposição à hostilidade e gosto por
disputas que a vemos defendendo suas posições a qualquer preço e, não raro,
tendo explosões de raiva.
Analisemos as quatro últimas palavras da pecaminosidade na área
dos relacionamentos interpessoais. “Egoísmo” ou “discórdias” (eritheia) são
as ambições egoístas, o objetivo direcionado ao proveito próprio. São essas
ambições egoístas as causadoras das “dissensões” (dichostasia) ou divisões,
porque cada um buscará somente seus próprios objetivos. Essas divisões
geradas pelo egoísmo dão lugar à formação de “facções” (hairesis), partidos,
escolas. Por fim, a lista dos pecados relacionais termina com “inveja”
(phthonos), isto é, a insatisfação pela vantagem do outro.
Desses oito pecados, quatro são atitudes do coração (“ódio” ou
“inimizades” - echthra; “ciúmes” - zelos; “egoísmo” ou “discórdias” –
eritheia; “inveja” – phthonos) e quatro são as consequências daquelas
atitudes que extravasam e afetam as outras pessoas (“discórdia” ou “porfias”
– eris; “ira” – thumos; “dissensões” - dichostasia; “facções” - hairesis). Os
grandes cismas na igreja têm início nas atitudes do coração não tratadas com
a devida seriedade. Igrejas se dividem quando a carne prevalece!
Em quarto lugar, temos duas palavras que exprimem dissoluções,
excessos, incontinências, praticados coletivamente: embriaguez e orgias (ou
glutonarias). “Embriaguez” é excesso de álcool e, por analogia, uso de
drogas. “Orgias” são festas nas quais abundam toda sorte de excessos, tais
quais noites regadas a bebida, comida e sexo desenfreados.
Para a nossa reflexão, convém ressaltar as seguintes
considerações acerca da lista paulina das obras da carne. Se não, vejamos:
Em primeiro lugar, segundo o ensino paulino, a carne para nada
serve, é incapaz de agradar a Deus e de cumprir a Lei. “Quem vive segundo
a carne tem a mente voltada para o que a carne deseja... a mentalidade da
carne é inimiga de Deus porque não se submete à Lei de Deus, nem pode
fazê-lo. Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus... Pois se
vocês viverem de acordo com a carne, morrerão...” (Rm 8.5, 6-8, 13). Eis a
razão porque o apóstolo se recusa a denominar os feitos da carne de “fruto”.
É a influência do Espírito em nós que frutifica; a carne é infrutífera! Disso
exsurge a indispensável necessidade da obra regeneradora do Espírito Santo,
sem a qual tudo o que fazemos, inclusive o de melhor, estar necessariamente
relacionado com a carne.
Em segundo lugar, veja-se que a lista não é exaustiva, visto ser
seguida de uma cláusula genérica (“e coisas semelhantes”, v. 21). O
propósito paulino foi certamente seletivo, pelo qual ele fez uma lista capaz de
esclarecer sua doutrina. Entretanto, não deixamos de observar como a
natureza humana é a mesma, apesar de tantas diferenças (espacial, temporal,
cultural, educacional) entre nós e os gálatas. Uma lista preparada hoje talvez
fosse muito parecida com a de Paulo, se não idêntica, como observa
Guthrie[66].
Em terceiro lugar, atentemos à advertência paulina segundo a
qual “Aqueles que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus” (v.
21). Essas certamente são as marcas dos não regenerados, condenados ou
perdidos. Aqueles que vivem na prática desses feitos têm toda a razão do
mundo para duvidarem de que tenham sido em algum dia afetados pela graça
salvadora. Por outro lado, Paulo sabe muito bem que todos os crentes
genuínos têm caído em algum momento e em alguma medida em todos esses
pecados. No dizer de R. C. Sproul, “Cada um desses erros tem sido
manifestado, em um tempo ou outro, pelos maiores santos. Mas não são
características do crente. Se essa lista caracteriza a conduta de uma pessoa,
isso é prova de que ela ainda não foi remida”[67].
Em quarto lugar, a lista descrita por Paulo, adverte Keller,
apresenta pecados mais propensos de serem vistos no ambiente religioso
(inveja, ciúme, facção) e outros, no ambiente não religioso (embriaguez e
orgias). Isso nos deve fazer concluir, segundo o autor, que Deus não
considera o sexo e a bebida, como costumamos fazer, como mais
pecaminosos que a ambição, a inveja e o partidarismo. Mais ainda, Keller
disparou afirmando que a lista:
destrói a tendência que as pessoas naturalmente não religiosas têm
de rotular como “piores” as falhas da sarx de pessoas religiosas, e
a das pessoas religiosas de considerar as obras da sarx das não
religiosas como inaceitáveis. Somos muito melhores em observar
as obras da carne alheias do que em lutar contra as nossas![68]

Em quinto lugar, vejamos também que na lista de obras da carne


há pecados de ação, que se manifestam publicamente e afetam outras
pessoas (dissensões e facções), e há pecados de atitude (ciúme, ambição) que
podem jamais chegar a ser conhecidos. Não importa! São, uns e outros, obras
da carne, que se opõe à influência do Espírito.
Capítulo 21
O Fruto do Espírito – Parte 1
(5.22-26)

Estamos lidando com a parte prática desta grande Epístola aos


Gálatas. Especificamente, debruçamo-nos sobre a luta acirrada que se trava,
ao longo de toda a vida cristã autêntica, entre a “carne”, aquilo que somos por
natureza, e o Espírito Santo, o santificador da Igreja. Quando a carne
prevalece, ao darmos-lhe licença para agir, surgem as obras da carne,
ilustradas numa lista de quinze pecados em Gl 5.19, 20. Por outro lado, nos
versículos 22 e 23 do mesmo capítulo, o texto objeto de nossas atenções
nesse ponto, deparamos com uma lista de nove virtudes que são o resultado
das influências santas do Espírito na luta da santificação.
Antes de tudo o mais, quatro considerações devem ser anotadas, à
guisa de esclarecimentos introdutórios: a primeira é uma alerta lançada por
Adolf Pohl, no sentido de não concluirmos precipitadamente que “carne” e
“Espírito” “estabelecem um dualismo equilibrado”. A obra do Espírito é
soberana e, portanto, prevalece. Pohl, não sem razão, vaticina: “A revolta da
carne indubitavelmente cria problemas que são profundos e reais, mas eles
não triunfam. O crente não luta com o desespero na espinha, mas com a
vitória nas costas”[69]. Em palavras simples: na vida dos crentes, a carne não
triunfará!
A segunda consideração preliminar necessária chama a nossa
atenção para vermos nas virtudes da lista paulina “um retrato de Jesus
Cristo”, segundo palavras de John Stott, que exalou o anseio de todos os
cristãos: “Nenhum homem ou mulher até hoje apresentou estas qualidades
com tal equilíbrio ou perfeição como o homem Jesus Cristo. Assim, este é o
tipo de pessoa que todo cristão gostaria de ser”[70].
A terceira consideração pontua a divergência quanto a haver ou
não algum tipo de classificação satisfatória à lista paulina e mesmo a enorme
variedade de propostas apresentadas. Hendriksen sugere uma classificação da
lista em três grupos: o primeiro indicaria as qualidades espirituais mais
básicas (amor, alegria, paz); o segundo, as virtudes que se manifestam nas
relações sociais (paciência ou longanimidade, amabilidade ou benignidade,
bondade); o terceiro consistiria de uma virtude na relação com Deus
(fidelidade), uma na relação com o próximo (mansidão) e uma na relação do
crente para consigo (domínio próprio). Não custa enfatizar que, para
Hendriksen, “de forma alguma tem-se certeza [da classificação que ele
propôs]!”[71].
Para Polh, há no texto um “solene ritmo ternário triplo”: no
primeiro terço, há um tríplice desdobramento do próprio amor (amor, alegria,
paz); no segundo, o amor desdobra-se em relação ao próximo (paciência ou
longanimidade, amabilidade ou benignidade, bondade); no terceiro, o amor
desdobra-se na conduta pessoal (fidelidade, mansidão, domínio próprio)[72].
Para John Stott, por sua vez, embora “nenhuma classificação”
seja “completamente satisfatória”, talvez as três tríades possam retratar nosso
relacionamento com Deus (amor, alegria, paz), com o próximo (paciência ou
longanimidade, amabilidade ou benignidade, bondade) e conosco mesmos
(fidelidade, mansidão, domínio próprio)[73].
Como se pode facilmente observar, as classificações apresentadas
são passíveis de tantas emendas que o melhor parece simplesmente admitir
que Paulo pode jamais ter tido a intenção de dispor as virtudes elencadas em
categorias. De todo modo, adverte Augustus Nicodemus: “Nesse aspecto,
qualquer tentativa de catalogação sempre parecerá superficial”[74].
A quarta consideração é uma advertência no sentido de não
confundirmos as virtudes que Paulo chama de “fruto do Espírito” com aquilo
que o nosso próprio temperamento natural pode produzir. Aquilo que
podemos produzir por nós mesmos foi chamado de “obras de carne” e as
virtudes aqui destacadas, “fruto do Espírito”. Isso já nos deveria ensinar
vividamente que, no dizer de Calvino, “Nada, senão o mal, procede do
homem”, e, por outro lado, “nada de bom pode proceder senão do Espirito
Santo”[75].
Assim, cuidemos para não confundir a retidão, e outras marcas
recomendáveis que podem ser encontradas entre os não regenerados, com as
virtudes cristãs que só podem brotar no coração habitado pelo Espírito. O
marido descrente tem amor natural por sua esposa e a mãe incrédula, por seus
filhos. Cidadãos ateus há que são trabalhadores honestos e cumpridores de
seus deveres, sem falar daqueles outros zombadores da fé que abundam em
filantropia. Esses casos e semelhantes seriam manifestações legítimas das
virtudes aqui retratadas? É certo que não.
Agora, pois, colocadas essas considerações preliminares,
voltemo-nos à compreensão das virtudes que compõem o fruto do Espírito,
tendo o especial cuidado em distingui-las das marcas naturais do nosso
temperamento.
Amor
Amor (agape) é a virtude principal, da qual as demais derivam, e
consiste na disposição do serviço ao próximo pelo bem do próximo e do
serviço a Deus para a glória de Deus. O amor foi visto em sua expressão
máxima na cruz do Calvário: “Foi assim que Deus manifestou o seu amor
entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos
viver por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado
a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos
nossos pecados” (1 Jo 4.9, 10). A essência do amor é a capacidade de serviço
sacrificial em benefício do próximo, sem pensar na recompensa que ele pode
nos proporcionar (cf. Ef 5.25). O antônimo do amor é o amor próprio, o
egoísmo, que pode manifestar-se causando o mal do próximo para beneficiar-
se ou mesmo operar com aparência de amor, mas sempre com vistas à defesa
da própria causa.
Alegria
Alegria (chara) é o estado permanente de prazer sobrenatural,
“uma alegria nascida da bem-aventurança” que produz “confiança sem
arrogância, coragem sem bravatas”, afirma Sproul[76], e que sobrevive
inclusive em meio a grandes tristezas e sofrimentos, pelo deleite em quem
Deus é e em Sua glória. Paulo expressou esse estado com a frase
“entristecidos, mas sempre alegres” (2 Co 6.10). Seu antônimo é o
pessimismo e o desespero e sua imitação carnal, “o entusiasmo com a
experiência de bênçãos, não do Abençoador”, conforme Keller[77], ou “aquele
bom humor [hilaritas] para com nossos companheiros”, segundo Calvino[78].
Paz
Paz (eirene) é o produto da justificação pela fé consistente em ser
aceito no favor de Deus (Rm 5.1) e nas consequentes paz consigo e paz com
o próximo. A pessoa que está em paz confia em Deus, e não em si. Seu
antônimo é a justiça própria, que está na raiz da ansiedade; e sua imitação é
“a indiferença, a apatia e a fala de interesse”[79].
Paciência ou Longanimidade
Paciência ou longanimidade (makrothumia) é a capacidade para
enfrentar provocações sem desequilíbrio, sem ressentimentos e sem
disposição vingativa. A pessoa impaciente não se irrita com facilidade. Seu
antônimo é a mágoa e a retaliação e sua imitação, a indiferença para com as
pessoas, o cinismo e a arrogância.
Amabilidade ou Benignidade
Amabilidade ou benignidade (chrestotes) é a sensibilidade, a
ternura, a simpatia, sobretudo por quem se encontra em apuros, em
vulnerabilidade. O oposto da amabilidade ou benignidade é o gosto pela
severidade, pelo excessivo rigor, e a tendência supercrítica. São
correspondentes falsos desta virtude a bajulação e a tendência à
permissividade.
Bondade
Bondade (agathosune) é integridade, excelência moral criada pelo
Espírito que resulta em uma pessoa irrepreensível. Seu conteúdo semântico
sobrepõe-se em grande medida à palavra “benignidade”, que lhe precedeu. O
uso conjunto de benignidade e bondade, entretanto, destaca o caráter mais
ativo da última. Seu antônimo é a insensibilidade e a inoperância e sua
imitação, a hipocrisia, a bondade superficial que faz questão de alardear seus
feitos.
Fidelidade
Fidelidade (pistis) é a palavra que o Novo Testamento costuma
traduzir por “fé”, um dom e um fruto do Espírito. Entretanto, no contexto, o
vocábulo parece indicar a virtude do crente que se tornou uma pessoa
confiável, digna de confiança. Daí a afirmação de Sproul, no sentido de que
Uma pessoa de fé é não apenas uma pessoa que confia, mas
também uma pessoa que merece confiança. Seu sim significa sim,
e seu não significa não. Ela mantém a sua palavra. Ela paga as suas
contas. Ela cumpre as suas obrigações. Ela é fiel. Ela é leal. A
fidelidade é uma marca do seu caráter[80].

O antônimo de fidelidade é a não consistência entre a fala e a


prática, a falta de integridade que torna a pessoa não confiável. Sua
correspondência falsa é a capacidade de cumprir a palavra para manter de pé
a própria imagem. Enquanto a fidelidade ama o próximo, seu equivalente
falso ama a si mesmo.
Mansidão
Mansidão (prautas) é a amabilidade característica daquele que é
capaz de renunciar direitos. Seu antônimo é a agressividade, a veemência nas
disputas. A mansidão produz harmonia e “Constitui, por esta razão, um fator
poderoso na eliminação daqueles pecados de dissensões tão destacados na
lista anterior”, ressalta Guthrie. Seus equivalentes inautênticos são a fraqueza,
a covardia e a inferioridade.
Domínio Próprio
Domínio próprio (egkrateia) é autocontrole, é domínio sobre os
ímpetos naturais - da língua, dos pensamentos, das paixões, das ddecisões. É
a capacidade de discernir entre o essencial e o importante. O antônimo do
domínio próprio é a impulsividade, o descontrole. O perfeccionismo e a
vontade de estar no controle, com base no orgulho, são suas imitações mais
perigosas.
Por ora, devemos perquirir se em nós há o fruto do Espírito em
desenvolvimento ou se não estamos apenas nos enganando, ao satisfazer-nos
com as marcas naturais do nosso temperamento.
Portanto, com base na primeira tríade, perguntemo-nos: “Meu
amor é apenas natural ou é o amor que capacita a sacrificar-me inclusive
pelos meus inimigos? Minha alegria é deleite permanente em Deus ou bom
humor instável? Minha paz é confiança em Deus ou indiferença quanto ao
que possa me ocorrer, ou uma espécie de cinismo?”
Em segundo lugar, com base na segunda tríade, perscrutemo-nos:
“Minha paciência é a capacidade amorosa de suportar irritações sem
ressentimento ou aquela atitude de indiferença ou mesmo de arrogância (algo
do tipo: “essa pessoa é tão inferior a mim que aquilo que ela faz contra mim
não me atinge”)? Minha amabilidade ou benignidade é sensibilidade para
com o que sofre ou apenas a permissividade que é própria do meu
temperamento? Minha bondade exsurge de um caráter transformado ou de
um enorme desejo de que saibam o quanto tenho valor?”
Em terceiro lugar, de olho na terceira tríade, sondemo-nos:
“Minha fidelidade é fruto da fé que me fez uma pessoa confiável, porque
incapaz de causar dano a outrem, ou o meu desejo de manter a minha imagem
sob a admiração das demais pessoas? A minha mansidão é uma força que me
faz renunciar direitos dos quais sei que sou titular ou não passa de uma
fraqueza, de uma covardia ou de um senso terrível de inferioridade? Meu
domínio próprio é senhorio sobre impulsos ou um perfeccionismo
orgulhoso?”
Sondar-nos a nós mesmos constitui uma das tarefas mais
importantes da piedade cristã. É imperioso verificar se podemos ver em nós o
fruto do Espírito ou se tudo não passa de imitação barata da verdadeira
manifestação da graça.
Capítulo 22
O Fruto do Espírito – Parte 2
(5.22-26)

Ainda estamos a refletir sobre a luta cristã entre a carne e o


Espírito. Não custa lembrar que Paulo denominou “obras da carne” aquilo
que surge quando a carne prevalece, em uma lista não exaustiva de quinze
pecados (há pecados constantes de outros textos das Escrituras, não
mencionados dentre as “obras da carne” em Gálatas). Por outro lado, das
influências santificadoras do Espírito manifestam-se nove virtudes que o
apóstolo chamou “fruto do Espírito”, uma lista por nós já analisada em
momento anterior. Nesse passo de nossas exposições, continuaremos a
analisar, sob os auspícios do Espírito de Deus, essa obra magnífica do
Santificador da Igreja de Jesus Cristo, o que faremos a partir das seguintes
proposições:
Em primeiro lugar, é o fruto do Espírito a prova mais
incontrastável não somente de que fomos alcançados pela graça salvadora,
mas também que temos progredido em santificação. Muitos cederam à
tentação de acreditar que os dons espirituais, principalmente os mais
obviamente sobrenaturais, seriam as marcas mais seguras de que fomos
aceitos no favor de Deus, estamos crescendo em espiritualidade e gozamos de
mais comunhão com o Senhor.
Essa tendência pode ser explicada por duas razões: primeiro, é
fácil confundir o aspecto distintivo do fruto do Espírito com características
naturais do temperamento dos incrédulos que conhecemos e concluir que há
descrentes bondosos, amáveis e fieis e, se este é o caso, como aquelas
virtudes nos distinguiriam como crentes genuínos? Segundo, somos também
propensos a creditar mais valor àquilo que chama a atenção e concluir
precipitadamente que ser bondoso ou pacificador são trivialidades, em
comparação à realização de grandes milagres, à popularidade e admiração
que podem ser conquistadas em palestras e conferências ou a fama que pode
advir de um livro que se torna conhecido entre os cristãos ou de uma música
que todos aprendem a cantar.
Ó, amigos, esse pensamento é de uma infantilidade tão comum
quanto repreensível e a causa de muitos cristianismos falsificados. A uma,
porque é muito mais fácil escrever e pregar sermões sobre o fruto do Espírito
do que manifestá-lo no dia a dia. É mais cômodo e produz mais popularidade
escrever um livro ou lecionar uma grande aula sobre as virtudes cristãs do
que pagar as contas em dia para não prejudicar os credores ou evitar contratar
com prejuízo da outra parte. Isso não dá fama a ninguém, mas é a maneira
segura dos meus irmãos saberem que em vocês habita o Santificador da
Igreja, o que me leva a avançar o raciocínio.
A duas, é certo que homens reconhecidamente incrédulos,
conforme as Escrituras, exercitaram os dons espirituais mais exuberantes e
aclamados por um sem número de cristãos evangélicos na atualidade. De
modo que não é à toa que somos informados pela Palavra de Deus que
Balaão, Saul e Caifás, o sumo sacerdote, profetizaram, e que Judas Iscariotes
exerceu dons e realizou feitos em medida extraordinária. Nesse sentido, as
palavras de Jesus merecem atenção especial: “Muitos me dirão naquele dia:
‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não
expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi
claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês que praticam o
mal!” (Mt 7.22, 23). Portanto, creiam-nos: “Ser bondoso – mostrando assim o
fruto do Espírito – de maneira a não chamarmos a atenção do próximo, é
menos dramático, mas, provavelmente, é melhor do que sermos excelentes
pregadores, autores religiosos, cantores evangélicos, etc.”[81].
Em segundo lugar, outra nota distintiva entre dons espirituais e
fruto do Espírito é o caráter diverso dos primeiros e a natureza universal do
último. Os dons do Espírito são capacitações especiais para o serviço à igreja,
caracterizados, sobretudo, pela diversidade de suas manifestações. O
apóstolo, quando compara os crentes em sua utilidade à edificação com os
membros de um corpo, destaca o aspecto multiforme dos dons espirituais e
insiste que nesse tocante não há que se esperar dons universalmente
exercitados.
Com efeito, há diferentes tipos de dons, ministérios e serviços (1
Co 12.4-11) e a unidade do corpo exsurge precisamente da diversidades
destas realizações (1 Co 12.12). “O corpo não é feito de um só membro, mas
de muitos... Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Assim, há
muitos membros, mas um só corpo... Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada
um de vocês, individualmente, é membro desse corpo” (1 Co 12.14, 19, 20,
27). Se é assim, a lógica irresistível é que não há um único dom espiritual que
deva ser exercido por todos os crentes, universalmente (1 Co 12.27-30).
O fruto do Espírito, por sua vez, não é caracterizado pela
diversidade. Muito ao contrário, ele é o efeito esperado de todos e cada um,
sem exceção alguma, daqueles que foram regenerados e se tornaram a
habitação do Espírito. Uns oram em línguas, e outros não; uns ensinam a
Palavra, e outros não; uns são chamados à dedicação especial à misericórdia,
e outros não; uns foram especialmente capacitados a conduzir conversas que
redundam na conversão dos incrédulos, e outros não; uns foram vocacionados
a atravessar o oceano e fazer missões em terra estrangeira, e outros não.
Entretanto, com relação ao fruto do Espírito a lógica é a oposta: cada crente
deve manifestar o amor, a amabilidade, a bondade, o domínio próprio.
Em terceiro lugar, é de rigor observar a mudança do plural
(“obras”) para o singular (“fruto”). O uso do plural para os pecados da
velha natureza designa produtos diversos e desconexos, ao passo que o
singular para o “fruto do Espírito” informa que o alvo da santificação é um
todo coeso, harmônico e equilibrado. Este é um detalhe fundamental acerca
do “fruto do Espírito” e há de ser devidamente aquilatado se desejamos saber
se nossas atitudes são virtudes produzidas pelo Espírito ou apenas aspectos
do nosso temperamento natural. Quem nos ensina o ponto em testilha é
Timothy Keller, com os seguintes dizeres:
Quando olhamos para a lista dos frutos, observamos que somos
naturalmente mais fortes em alguns do que em outros. Mas nossos
pontos fortes que independem do Espírito Santo devem-se ao
temperamento natural (temos uma característica produzida pela
química cerebral e/ou pelo treinamento precoce) ou ao
autointeresse natural (aprendemos a exibir determinado traço a fim
de lidar com alguma questão ou situação que tivemos de enfrentar)
[82].

Keller ainda ilustra o raciocínio lembrando que algumas pessoas


têm temperamento gentil e diplomático, o que poderia ser confundido com a
amabilidade (ou benignidade) produzida pelo Espírito. Como distinguir? Se a
amabilidade e a mansidão não vêm acompanhadas da coragem ou ousadia
que caracteriza a fidelidade, é sinal de que aquelas virtudes não procedem do
Espírito, mas do temperamento natural. Exemplos poderiam ser multiplicados
para demonstrar a tese que o crescimento simétrico é o meio adequado para
diferenciarmos as virtudes que são produzidas pelo Espírito das forças do
nosso temperamento natural.
Em quarto lugar, é notável que Paulo tenha dito que não devemos
usar a liberdade para darmos ocasião, licença, oportunidade de operação, para
a vontade da carne (Gl 5.13), mas não tenha usado linguagem semelhante
para as influências santas do Espírito, algo do tipo “do modo como a vontade
da carne operará se vocês lhe derem licença, se vocês derem licença ao
Espírito, a vontade do Espírito se concretizará”. Isso é significativo porque
Paulo parece dizer que a carne opera quando lhe permitimos, enquanto o
Espírito não carece dessa nossa autorização.
Não poderíamos chegar à conclusão diferente, visto que o
Espírito é a pessoa divina soberana que nos conduz em crescente
santificação. A “carne” é a posseira inoportuna, o resto da velha natureza que
ainda transtorna o nosso caminho para que não façamos a nossa vontade –
que é viver integralmente para o agrado de Deus. O Espírito, por outro lado, é
o Senhor da casa, o nosso Dono, que nos habita com direitos de proprietário
por havermos sido adquiridos pelo preço do sacrifício do Senhor Jesus (cf. 1
Co 6.19, 20). Parece-nos, portanto, incabível uma linguagem do tipo:
“Espírito, nós Te damos licença para operar em nós e entre nós”.
O raciocínio aqui lançado é o mesmo que afirmar com Keller no
sentido de que “o crescimento do fruto do Espírito é inevitável” e que “Se
alguém tem o Espírito dentro de si – se é cristão -, o fruto crescerá”[83], ou
com Stott, que afirmou ser o crescimento do fruto algo “natural”.
Entretanto, cuidemos em um ponto importante: é verdade que o
fruto é obra do Espírito, e que seu crescimento é “inevitável” ou “natural”;
mas é verdade também que podemos embaraçar a obra do Espírito. No dizer
de Stott, na ideia de “crescimento natural” está implícita a noção de
condições adequadas. Ou seja, o crescimento natural ocorre em “condições
normais” pelas quais nós somos os responsáveis em manter. Desse modo, nós
podemos, sim, apor obstáculo à obra da santificação, e o fazemos quando
damos licença à vontade da carne e quando negligenciamos as disciplinas
cristãs, que são meios de graça do Espírito.
Nesse sentido, se é certo que jamais seremos nesta vida tão santos
quanto gostaríamos, é certo também que não somos tão santos quanto
poderíamos. E a razão para isto é de percepção singela: demos liberdade à
vontade da carne e não nos devotamos com a devida seriedade aos meios de
graça do Espírito. E se não somos tão santos quanto poderíamos ser, a culpa é
exclusivamente nossa. Não é de algum antepassado que nos legou uma
maldição hereditária, nem tampouco de um evento traumático na infância que
supostamente tenha nos marcado para o resto da vida. O trauma pode explicar
os nossos TOCs e os nossos “tiques”, mas não é justificativa para a nossa
infidelidade, maledicência, insensibilidade, mexericos, etc. Se penteamos o
cabelo a cada quinze minutos, ou se em cada meia hora vamos verificar se a
porta da sala está trancada, etc., terapeutas e divãs podem ajudar. Mas
terapeutas e divãs não curam safadeza, não nos dão domínio próprio nem nos
fazem mais amorosos!
Todo esse discurso nos leva aos versículos 24-26, nos quais o
apóstolo estabelece a base da responsabilidade cristã e sua prática,
acrescentando uma ilustração daquilo que espera dos crentes gálatas.
Em primeiro lugar, eis a base da responsabilidade cristã na
santificação: pertencer ao Messias Jesus (v. 24a). Somente teremos
esperança de vencer a carne se já somos de Jesus Cristo, a partir do senhorio
dEle. A não ser que tenhamos sido aceitos no favor de Deus graciosamente,
pela fé nos méritos dEle, não é possível falar em crescimento no fruto do
Espírito.
Em segundo lugar, a nossa responsabilidade na obra da
santificação é destacada com duas expressões. Primeiramente, os que
pertencem a Jesus crucificaram a carne... (v. 24b). A luta contra a carne é
descrita em linguagem dramática. Não fosse a ação dos que pertencem a
Jesus de imobilizar a carne, as suas obras se manifestariam. Entretanto, disse
Lutero,
os piedosos..., enquanto vivem neste mundo, crucificam a carne,
isto é, sentem, na verdade, suas concupiscências, mas não se
submetem a elas. Revestidos, pois, com a armadura de Deus, com
‘a fé, a esperança e a espada do Espírito’ resistem à carne e com
essas armas espirituais, como que com alguns pregos, a cravam na
cruz de modo que, mesmo contra a vontade, seja forçada a
submeter-se ao Espírito...[84]

Segundamente, uma vez que vivemos pelo Espírito[85], andemos


também pelo Espírito. É de se duvidar que Paulo realmente desejasse fazer
distinção entre “viver” e “andar” no Espírito (cf. 5.16)[86]. É mais provável
que estivesse lidando com a alegação que alguns gálatas propalavam sobre si
mesmos, afirmando que “viviam” no Espírito. Se isso era verdadeiro, que
andassem no Espírito, buscando mortificar as obras da carne com base na
cruz de Cristo.
Finalmente, a crucificação da carne e o andar no Espírito são
ilustrados com uma exortação negativa tripla, muito em consonância com a
animosidade que havia se instalado na igreja gálata, consistente em
abandonar a presunção, a provocação e a inveja.
Capítulo 23
Restaurando o Irmão Caído
(6.1-5)

Entre o nosso texto e 5.26 não há qualquer interrupção. O nosso


parágrafo é, portanto, mais um exemplo do andar no Espírito (5.25), que
Paulo já havia ilustrado com três exortações negativas, no sentido dos crentes
gálatas abandonarem a presunção, a provocação de uns para com os outros e
a inveja (5.26). Ao invés destas atitudes, o andar no Espírito, positivamente
considerando, conduz à restauração do irmão surpreendido em alguma
transgressão. A presente exortação paulina traz, portanto, a situação de um
irmão que precisa de ajuda, quem deve ajudá-lo, o que fazer e com que
atitude.
Em primeiro lugar, Paulo imagina alguém sendo surpreendido
em alguma transgressão (v. 1a). O texto oferece duas possibilidades
interpretativas. O apóstolo pode realmente estar pensando no caso da igreja
surpreender um de seus membros em alguma transgressão. Ou,
alternativamente, que o crente faltoso foi surpreendido pela sua própria
transgressão, caso em que ele não a teria planejado. Esta última possibilidade
merece acolhida porque indica que o pecado na vida do cristão genuíno é
acidental, e não algo que ele friamente arquitetou. Com efeito, “Só peca por
premeditação quem tem o coração enredado pelo pecado, cuja mente já está
obscurecida e a consciência já não emite os sinais corretos, enquanto ele faz
seus planos”[87].
Entretanto, já afirmamos alhures que mesmo os crentes mais
experimentados estão passíveis de resvalarem-se para fora do caminho. Em
parte, isso se deve ao fato de que ainda temos que conviver com uma
natureza pecaminosa, a “carne”, que, como vimos, causa reais, constantes e
sérios embates. Mais uma vez socorremo-nos de Nicodemus, que em suas
palavras certeiras afirma que nem devemos ver o pecado na igreja como “o
fim do mundo”, imaginando que a igreja falhou ou que o evangelho é inútil,
nem, por outro lado, devemos nos acostumar com o pecado e tê-lo como
“coisa natural”, a ponto de nos acostumarmos com ele. Simplesmente, é
esperado que em uma comunidade de pecadores, ainda que redimidos, surjam
situações de pecados escandalosos. Quem deve intervir nessas situações?
Em segundo lugar, Paulo chama a atenção dos “espirituais”
para intervirem no caso de um irmão ser surpreendido em pecado: vocês,
que são espirituais (v. 1b). O “vocês” é enfático, o que significa que Paulo
quer, sim, fazer um contraste entre crentes e crentes. Para ele, há na igreja
pessoas que podem assim ser reconhecidas e, a contrario sensu, há pessoas
na igreja que não podem ser assim reconhecidas. Os espirituais são, no dizer
de Hendriksen, “os membros da igreja de maior consistência em seguir os
impulsos do Espírito”[88].
Contudo, atenção para isso: Paulo não está insinuando que há um
grupo seleto e exclusivo de crentes espirituais, de illuminatis ou gnósticos,
em detrimento dos demais. A espiritualidade aqui referida é a ordem para
todos: “Vivam pelo Espírito” (5.16); “Se vivemos pelo Espírito, andemos
também pelo Espírito” (5.25). “Essa responsabilidade pertence a
absolutamente todos que estejam tentando levar uma vida cristã”[89]. Todos os
crentes precisam ser cheios do Espírito, embora nem todos o sejam; e todos
precisam crescer na manifestação do fruto do Espírito antes analisado, na
maior medida possível, embora nem todos o façam[90].
Portanto, é dever nosso, antes de sairmos tentando cuidar do
mundo, fazer uma séria autoavaliação a fim de sabermos se dispomos
daquele cabedal de virtudes em uma medida real, manifesta, reconhecida,
perceptível. Inclusive para não corrermos o risco de sair repreendendo a torto
e a direito de maneira atabalhoada, com possibilidade de causar mais dureza e
sermos culpados de estragarmos um fruto que poderia ter sido colhido com
proveito, do modo e pela pessoa certa. Basta uma nova olhada nas virtudes do
fruto do Espírito (5.22, 23) e verificar se é possível disciplinar (com proveito,
repito) pessoas sem elas. Impossível!
Em terceiro lugar, Paulo diz que os espirituais devem
“restaurar” a pessoa que foi surpreendida em transgressão (v. 1c). Veja-se
que não é esperado que simplesmente ignoremos a condição do caído, como
se não nos importássemos com ele, embora seja isso que ele queira. Por isso
o caminho apontado por Paulo é tão difícil, visto que somos obrigados a nos
importar com quem se sente invadido com o nosso interesse. Mas, nós não
somos como Caim, que disse não ter qualquer responsabilidade para com seu
irmão Abel (Gn 4.9). Também não é dito que devemos disseminar o pecado e
a condição do caído - nem a título de pedir oração! -, porque o amor é capaz
de poupar as pessoas amadas (cf. 1 Pe 4.8). Por fim, não é requerido que nos
escandalizemos, que fiquemos horrorizados como se fôssemos incapazes de
ter os nossos próprios pezinhos afundados no mesmo pântano e, de plano,
joguemos a pessoa caída no inferno. O julgamento temerário foi proibido por
Jesus (Mt 7.1-5).
O que Paulo deseja dos espirituais é que restaurem o caído. A
palavra usada por Paulo (grego katartízete) importa no trabalho de reconduzir
a pessoa desviada à sua integridade anterior. O verbo está no tempo presente,
o que sugere tratar-se de um processo que pode ser demorado, lento. Keller
informa que a palavra era usada para pôr no lugar um osso deslocado e
acrescenta: “Um osso que se desloca provoca dor extrema porque não está
mantendo o relacionamento natural, para o qual foi projetado, com as demais
partes do corpo. É inevitável que o ato de pôr um osso no lugar produza dor,
mas é a dor que cura”[91]. O processo todo pode ser doloroso, dá trabalho, tem
que ser feito por “especialistas” (os espirituais) e com a atitude e pelas razões
certas, tema do nosso próximo ponto.
Em quarto lugar, o trabalho de restauração deve atender às
atitudes que se encontram a partir da parte final do versículo 1, razão pela
qual trataremos a matéria através das seguintes subdivisões:
Primeira atitude: “com mansidão” ou “espírito de brandura”
(como na ARA) (v. 1d). O que se tem em mente é um confronto cheio de
ternura. De plano, ficam vedadas a ironia, o sarcasmo, expressões do tipo “eu
sempre desconfiei” ou “eu sabia que iria acontecer, era só uma questão de
tempo”. Ficam também excluídas a repreensão por vingança, por retaliação e
para a vindicação de outrem. De maneira ainda mais evidente, devem ser
totalmente descartadas a censura violenta e desarrazoada. A força da
advertência deve ser dosada na medida suficiente para fazer o caído ponderar
sobre sua própria condição.
Segunda atitude: “Cuide-se, porém, cada um para que também
não seja tentado” (v. 1e). O verbo traduzido por “Cuide-se” ou “guarda-te”
(grego skopôn) significa “uma consideração firme, como contemplar um alvo
antes de dar um tiro”[92]. A gentileza e a brandura estão diretamente
relacionadas ao autoexame. As pessoas que reprendem seus irmãos com mais
aspereza são aquelas que não imaginam que podem incorrer no mesmo erro
que estão tentando corrigir. Ademais, é sábio aprender com o erro dos outros
e humildemente ponderar: “poderia ter sido eu”.
Terceira atitude: amor (v. 2). Paulo já havia exortado aos gálatas
no sentido de que servissem uns aos outros em amor, e dito que o amor é o
resumo de toda a Lei (5.13, 14). O serviço aqui retratado é o de cuidar do
caído, agora descrito não mais como “restauração”, mas como o carregar dos
pesos (grego báre) uns dos outros. Isso exige que cheguemos próximos uns
dos outros em distância suficiente para que possamos nos colocar debaixo do
mesmo fardo que nossos irmãos estão carregando, a fim de aliviar-lhes na
caminhada. É desse modo que cumprimos o mandamento do amor, que é o
resumo de toda a Lei e aqui denominado “a lei de Cristo”, uma vez que
“Cristo é o exemplo máximo e insuperável desse tipo de amor”[93].
Quarta atitude: humildade (v. 3-5). Cuidemos para não pensar
sermos alguma coisa, não sendo nada (v. 3). Paulo não está sendo hiperbólico
ao dizer que não somos nada. Não há nenhuma figura de linguagem aqui. Isso
me faz pensar que o orgulho é realmente o mais ridículo, hilário, bizarro, de
todos os pecados: um “nada” julgando-se “algo”! Só há um tipo de orgulho
aceitável (“orgulho santo”, se o leitor admitir): aquele que deriva da
autoavaliação “em si mesmo unicamente”, testando somente a própria obra,
sem levar em consideração a do outro (v. 4). Toda a autoavaliação que
fazemos em comparação com os outros é orgulhosa e nos leva a dois
possíveis caminhos, alternativamente: eu me comparo com pessoas que julgo
piores do que eu e me sinto superior ou me comparo com pessoas mais
talentosas e isso me paralisa o serviço. Então, Paulo quer que cada um se
meça segundo suas próprias potencialidades e descubra quem é e quem não,
somente a partir de si, e não se comparando com o irmão caído.
Devemos fazer isso porque cada um levará apenas a própria carga
(grego fortion) (v. 5). A carga aqui referida não é o peso do v. 2. Lá, temos os
“grandes pesos” que devem ser compartilhados a fim de tornarmos a
caminhada dos nossos irmãos mais suave. Aqui, “carga” é o conjunto de
dons, talentos e oportunidades que pertence a cada um, e pelo qual somos
responsáveis perante Deus. O que Paulo quer dizer é que devemos acabar
com todas as comparações (o que gera orgulho), inclusive com o irmão caído,
a fim de nos sentirmos superiores, e concentrarmo-nos somente naquilo que
Deus nos deu, individualmente, visto que é somente por isso que daremos
contas a Deus no juízo.
À guisa de conclusão, lembramos que a disciplina deve ser feita
com mansidão, amor e humildade, e por quem cuida de si mesmo enquanto
restaura o caído. Essas atitudes devem permear todo o processo, que se inicia
com quaisquer dos membros “espirituais” da comunidade (e não somente do
“conselho” ou “consistório”). Ganho o irmão faltoso pelo primeiro
“restaurador”, o processo finda por aí. Não sendo esse o caso, segue-se o
passo a passo esmiuçado pelo Senhor Jesus, tal como registrado em Mt
18.15-17. Vencidas todas as “instâncias”, a igreja, e somente ela, pode aplicar
a disciplina máxima da exclusão.
Entretanto, quando uma pessoa é excluída da comunidade, ela, na
verdade, já havia se excluído. E essa autoexclusão pode ocorrer de dois
modos: ou a pessoa já abandonou a igreja por haver decidido pelo caminho
do pecado habitual ou ela se obstinou em andar fora do caminho e decidiu
que, ainda que permaneça formalmente na comunidade, sua vida pecaminosa
será a adotada. Em um caso ou outro, a igreja deverá exercer, para a pureza
da comunidade e como medida extrema de restauração do desviado, sua
exclusão da comunhão.
Capítulo 24
Colhendo o que Foi Plantado
(6.6-10)

Chegamos à seção das palavras finais do apóstolo nesta


magnânima epístola. O parágrafo em epígrafe consiste de uma exortação
vigorosa com base em uma lei espiritual-moral divina inquebrantável, como
veremos. A exortação é alarmante, mas a recompensa em atendê-la é
indizivelmente maravilhosa. Também, a título de uma aproximação
preliminar, devemos esclarecer que o v. 6 está ligado pela conjunção
adversativa “mas, porém” (grego de) ao v. 5, o que nos leva a pensar que
Paulo não iniciou um assunto completamente desconectado com o tema
anterior. Em síntese, como ele havia dito que cada um levará somente o
próprio fardo (v. 5) - no sentido de que haveremos de prestar contas a Deus
conforme o uso da bagagem de dons, talentos e oportunidades que Ele nos
deu -, isso não poderia ser compreendido como significando que não temos
responsabilidades com as demais pessoas, “mas...” que devemos atender à
presente exortação, que passamos a analisar.
Em primeiro lugar, os crentes devem contribuir com o sustento
dos pastores fieis à Palavra (v. 6). “O que está sendo instruído” é o
catecúmeno (grego katechoumenos). “Aquele que o instrui” é o catequizador
(grego katechounti). O conteúdo do catecismo é “a palavra”. Paulo exorta a
que os catecúmenos aprendam a tornar os mestres da Palavra participantes
(grego koinoneito) dos seus próprios bens materiais - de “todas as coisas
boas” (grego en pasin agathois).
Sobre o presente mandamento, algumas considerações devem ser
tecidas: primeiro, se o conteúdo do catecismo é “a Palavra”, isso significa que
os mestres que devem ser sustentados pelos cristãos são aqueles cuja
mensagem é fiel à Escritura, isto é, que não pregam nada além da Escritura e
que, por outro lado, não omitem nenhum ensino claro da Escritura. Pastores
devotados pregam tudo o que o Senhor ordenou (Mt 28.20), toda a palavra
(At 20.20), sem distorções e sem desequilíbrios e ênfases exacerbadas que
caricaturam a mensagem bíblica. A contrario sensu, aos cristãos é vedado
prestigiar falsos profetas e pregadores do engano com seus bens materiais,
sob pena de estarem, com aquilo que Deus lhes deu, prestando um desserviço
à causa de Deus. A razão da assertiva é que quando cooperamos com
pregadores fieis nos tornamos cooperadores da verdade (III Jo 8) e quando
patrocinamos os mestres do engano, tornamo-nos participantes das suas obras
malignas (II Jo 10, 11). Sejamos todos como aqueles, e não como estes.
Segundo, é digno de nota que Paulo refere-se ao sustento do
pastor não como salário ou soldo, embora pudesse fazê-lo, mas como um
“exercício de comunhão”. A linguagem tenciona não dar a entender que
quando os crentes retribuem o ministério da Palavra, o fazem como se
estivessem pagando mais um serviço dentre outros tantos. Sim, sem dúvida, o
apóstolo tem em mente recompensa material e sustento regular, mas que são
compartilhados como expressão do convívio da irmandade, de
companheirismo, do compartilhamento das dádivas que cada parte, mestre e
discípulo, tem recebido de Deus. Noutro dizer, são tornados bens comuns a
capacidade de instruir dos mestres e os bens materiais dos alunos. “Portanto”,
Keller adverte com inteligência,
devemos dar com generosidade às equipes de nossas igrejas. Não
como ‘consumidores’ que vão a uma igreja e se limitam a saqueá-
la de seus benefícios, sem contribuir de maneira significativa com
ela. Mas essa contribuição precisa se fazer acompanhar da atitude
correta. O ensino cristão não é só mais um serviço a ser pago, mas
uma irmandade rica, um compartilhamento mútuo das dádivas
divinas[94].
Cuidemos, pois, para não fazermos a pergunta errada no tocante a
dar e receber. A pergunta a ser feita não é: “por que recompensar se podemos
receber de graça?” A pergunta cristã não é essa porquanto baseada na lógica
“é melhor receber do que dar”. A pergunta a ser feita é: “por que receber de
graça se podemos recompensar?” Essa, sim, se baseia na lógica do Senhor
Jesus, segundo a qual “é melhor dar do que receber” (At 20.35). Se
seguirmos nosso Senhor Jesus Cristo, nem os mestres exigirão salários,
tampouco extorquirão o rebanho ou almejarão fazer fortuna com o ministério
cristão – porque devemos dar de graça o que recebemos de graça (Mt 10.8) -,
nem as igrejas se absterão de sustentá-los generosamente – pois o trabalhador
é digno do salário (Mt 10.9).
Em segundo lugar, observemos uma lei divina que rege de
maneira infalível a esfera espiritual e moral do mundo criado (v. 7, 8). Após
a exortação quanto ao cuidado com os pastores, Paulo adverte aos cristãos
gálatas a não se deixarem enganar, seduzir, ser induzidos a erro. O Dr. John
Gill, em seu comentário à Epístola, sugeriu que ou os gálatas foram
dissuadidos pelos falsos mestres de repartir com seus pastores ou eles
mesmos criaram várias desculpas para não cumprirem seu dever para com os
pregadores do evangelho, coisas “como que eles tinham suas próprias
famílias para sustentar, que as circunstâncias eram tais que eles podiam dar
pouco ou nada, e que outros que tinham melhores condições na vida, deviam
se encarregar desse dever (...)”[95]. A questão em foco diz respeito a acreditar
tolamente que Deus é passível de ser zombado, escarnecido, ridicularizado,
através de desculpas para não cooperar com a Palavra (v. 7a).
O verbo “zombar” é literalmente “franzir o nariz em escárnio”, e
corresponde à atitude de menosprezo. É notável, entretanto, que a zombaria
em destaque não é a dos zombadores descrentes, nem tem a ver com a afronta
aberta a Deus por meio de palavras blasfemas. É, antes, uma zombaria que se
pode fazer sutilmente, no seio da igreja e por cristãos, e até “espiritualmente”,
em “nome da verdade”, mas que se insurge contra a ordem divina quanto ao
sustento dos obreiros, que se nega a prover sustento a ministros ordenados -
como a Igreja dos Irmãos. Com efeito, não há razões plausíveis para não
aplicarmos a presente cláusula ao versículo anterior. Os gálatas estavam
realmente zombando de Deus, “por meio daquilo que realizavam com seus
mestres”[96].
Ademais, que Deus não se deixa escarnecer fica muito claro por
uma lei que Ele mesmo estabeleceu: “Pois o que o homem semear, isso
também colherá” (v. 7b). O provérbio, comum a todas as culturas, é, no
pensamento cristão, a expressão de uma lei divinamente estabelecida segundo
a qual só colheremos o que plantamos e, também, certamente colheremos o
que plantamos. A primeira ideia induz o pensamento que não é possível
colher algo de natureza diferente da semente lançada. O cultor de flores lá da
zona rural de Gravatá só colherá flores. A segunda dá-nos a exata noção de
que inevitavelmente colheremos aquilo que estamos plantando, em face de
um elo indissociável entre a semeadura e a sega.
Essa lei divina será conectada no versículo 8, através do contraste
já conhecido entre a “carne” e o “Espírito”, com o contexto imediato (o
sustento dos mestres da Palavra – v. 6), tanto quanto com o mais amplo (a
luta entre a carne e o Espírito – 5.15-18), sem necessidade de exclusão de
quaisquer deles. No entanto, a figura se transmuta sensivelmente, uma vez
que no versículo 7 o que realmente importa é a semente (o homem colhe o
que semeia), enquanto no versículo 8 a imagem decisiva é o campo.
Com efeito, aqui (v. 8), carne e Espírito são dois campos dentre
os quais escolhemos necessariamente onde haveremos de semear. Perceba-se
que não há um campo espiritual e moral neutro. Ou plantamos uma lavoura
no campo da carne ou no campo do Espírito. Não há uma terceira opção.
“Tem-se em mente dois tipos de solo. Um é terra não cultivada, talvez até um
depósito de lixo, coberto de mato. Ao lado, um campo recém-plantado, livres
de corpos estranhos, adubado e pronto para receber a semente. A que solo
será que confiaremos nossa semente?”[97]
A semente implicada no contexto mais amplo da luta entre a
carne e o Espírito é o exercício da mordomia cristã e dos meios de graça.
Nesse sentido, a questão é se usamos o corpo, a mente, o tempo, os talentos e
as oportunidades para darmos ocasião à vontade da carne (5.15) - eis o
sentido de semear para a própria carne. Ou se, por outro lado, andamos pelo
Espírito, evitando toda a sorte de pecado conhecido e sendo diligentes com as
disciplinas cristãs (5.25) – este, o sentido de semear para o Espírito. Noutras
palavras, semear para a própria carne é viver como se Deus não existisse, ou
pelo menos como se o que Ele desejou e prescreveu para nós não tivesse
relevância alguma; e semear para o Espírito é andar em submissão a Deus,
observando o que diz Sua Palavra.
No contexto próximo, certamente inserto no contexto amplo, a
seu turno, a semente pressuposta é o investimento dos próprios recursos
financeiros; ou seja, se usamos nosso dinheiro somente em prol de nós
mesmos, sem o compartirmos com os mestres da Palavra, mas apenas para o
incremento de nossas economias ou a manutenção de nossos deleites e lazer
pessoais - isto é semear para a própria carne -, ou se o usamos para sustentar
aqueles que se afadigam no ensino, fieis expositores do evangelho de nosso
Senhor Jesus Cristo (cf. 1 Tm 5.17). Nesse contexto, portanto, semear para a
carne é tratar “o bom Deus como um ninguém, agindo com seus mestres
impiedosa, infiel, hostil e partidariamente”; e semear para o Espírito é ser
determinado pela presença de Deus “a tal ponto que o cuidado pelos mestres
se tornava novamente algo natural”[98].
Embora Paulo tenha transmutado em importância a figura da
semente para a do solo, o princípio permanece o mesmo: a carne é infrutífera
e o Espírito produz o fruto compatível com a sua natureza. Quem semeia no
campo da própria carne colherá corrupção, destruição, desintegração, e quem
semeia para o Espírito, do Espírito colherá vida eterna. Corrupção ou
destruição (grego fthora) não é aniquilamento, simplesmente deixar de
existir, é o contraste de vida eterna; é, pois, morte eterna. Ademais,
corrupção, morte eterna, é o que colhemos por nós mesmos e por nossas
próprias obras. Vida eterna é dom do Espírito, o resultado das Suas
operações.
Nesse passo, e antes de prosseguirmos, perguntamos se uma
colheita de morte eterna como resultado de negligência para com os mestres
da Palavra não estaria fora dos propósitos do apóstolo nesta Epístola e da
mensagem bíblica como um todo. Consentimos que a passagem em apreço é
seara fértil para manipulações, podendo gerar abusos inimagináveis. Também
não olvidamos que “pastores”, em nome do “ministério” que dirigem,
sobretudo dentre os defensores da teologia da prosperidade, acumulam
riquezas, fazem fortuna como poucos empreendedores na indústria e no
comércio. Esses tais poderiam abrir Gálatas e propalar que se os crentes não
contribuírem com seus projetos hão de colher morte eterna? Não, de modo
nenhum! Por um lado, Calvino adverte: “Os ministros devem viver contentes
com uma mesa frugal, e devem evitar o perigo do regalo e do fausto.
Portanto, até onde suas necessidades o requeiram, que os crentes considerem
toda a sua propriedade como à disposição dos piedosos e santos mestres”[99].
Por outro, é apenas “natural”, parte da vida cristã autêntica, que o sustento
dos servos da Palavra esteja dentre as prioridades dos cristãos, do modo como
é igualmente esperado que descrentes e apóstatas não se sintam nem
minimamente responsáveis pelos instrutores da Palavra que rejeitam.
Em terceiro lugar, a lei divina colocada no versículo 7 - segundo
a qual colhemos o que plantamos - e esclarecida no 8 tem alcance bem mais
amplo que o sustento dos mestres (v. 9, 10). O versículo 9 traz exortação para
que não nos cansemos durante a semeadura, dita aqui em termos de “fazer o
bem”, não só sustentando os ministros, mas praticando todo tipo de boas
obras.
A exortação é relevantíssima. Os perigos do desânimo na
caminhada cristã são enormes. Muitos que começaram bem e se
deslumbraram com a fé, naufragaram, caíram exaustos no meio do caminho,
porque anteviram a colheita como muito longínqua e se perderam nas
dificuldades envolvidas no processo. Muitos foram desencorajados por
“mudanças circunstanciais, perdas nesse mundo, ou multidão de objeções, a
ingratidão de alguns, e indignidade de outros”, adverte o Dr. Gill[100]. Muitos
outros, em algum ponto da estrada, perguntaram se vida cristã é “somente
isto” e perderam o gosto pela Escritura, pela comunhão e pela adoração
pública. Por outro lado, investimentos no campo da carne parecem muito
mais promissores no curto prazo, e bem mais glamorosos. Por isso Paulo
afirma que se não desanimarmos, não cairmos de exaustão durante o labor,
colheremos no “tempo próprio” (grego kairós), na época determinada por
Deus para a colheita, mas, frise-se, somente “se não desanimarmos”, se
continuarmos até o fim.
Uma exortação como essa, que nos faz perceber que há um tempo
entre a semeadura e a sega, e que não devemos acreditar que colheremos
imediatamente após havermos lançado a semente é de grande importância à
nossa geração. Vivemos em época que promete ser das mais imbecilizadas,
justamente pela impaciência, fato verificável em quaisquer áreas de atividade
ou estudo. O moço acorda pela manhã e decide que será um perito em vinhos,
um enólogo. Ele vai à livraria mais próxima e adquire um manual, “A Bíblia
do Vinho” ou coisa que valha, e já se acredita um expert, faz uma live e se
lança como conferencista. Não é assim que nada funciona. Muito menos com
a colheita de vida eterna, guardada para o tempo determinado por Deus.
Finalmente, eis a amplitude do bem que devemos fazer como
expressão da nossa semeadura: “façamos o bem a todos”, não apenas aos
pastores, nem somente aos familiares, amigos e pessoas do nosso convívio
próximo. “Todos” envolvem estranhos e inimigos, inclusive adeptos de
seitas. Façamos o bem a todos “enquanto temos oportunidade”. Paulo quer
que aproveitemos o tempo (grego kairós) que dispomos para fazermos o bem.
A hora presente é para semear, operando o bem (v. 10), e não para colher (v.
9). Cuidemos, repito, para que a velha impaciência não confunda os kairoi –
um é o de plantar; o outro, de colher.
Entretanto, e acima de tudo, devemos nos dedicar a fazer o bem
aos membros da família da fé. Os verdadeiros crentes no Senhor Jesus Cristo,
que andam piedosamente e proclamam Seu santo nome com palavras e obras,
estes devem ser objeto especial dos cuidados da igreja. Eles são, por assim
dizer, a cara do Pai e crescem na semelhança de Jesus, e todos quantos amam
a Trindade lhes devotarão amor especial, porque “... todo aquele que ama o
Pai ama também o que dele foi gerado” (1 Jo 5.1).
Capítulo 25
As Marcas da Luta
(6.11-18)

Já sabemos todos que Paulo escreveu Gálatas cheio de indignação


e receio de haver labutado inutilmente na Galácia. A razão é que logo após
sua saída do ambiente gálata e retorno a Antioquia, alguns mestres
judaizantes se infiltraram na comunhão das igrejas. Os judaizantes eram
judeus que haviam crido que Jesus era o Messias e que diziam com Paulo que
era necessário crer nEle para a salvação. Mas, contra Paulo, acrescentavam
que somente a fé em Cristo não era suficiente aos gálatas para que fossem
aceitos no favor de Deus. Era-lhes igualmente imprescindível que
observassem pelo menos alguns preceitos da lei mosaica, a exemplo da
circuncisão e da dieta e calendário judaicos, caso desejassem ser justificados
e tornarem-se verdadeiros cristãos. Eram cristãos nominais, gente que não
abraçou a justificação graciosa pela fé somente e que Paulo recusava-se, por
isso, a reconhecê-los como verdadeiros irmãos (cf. 2.4). A Epístola foi
escrita, portanto, para fazer os gálatas estancarem a penetração da heresia
judaísta e consolidá-los no evangelho que receberam de maneira inamovível.
Com isso em mente, nos achegaremos às palavras finais do
apóstolo, consistentes de uma derradeira advertência aos cristãos gálatas. Era
necessário que os cristãos da Galácia compreendessem que quase
invariavelmente a pregação herética esconde, disfarça, uma motivação não
sincera por parte daquele que a propaga. Sim, ela até pode ser defendida com
ares de devoção a Deus e amor ao próximo, embora, em verdade, agasalhe
objetivos outros, não revelados. Foi o que ocorreu na Galácia. Os mestres do
erro, embora aparentassem grande interesse pelas almas dos gálatas, nutriam
sorrateiramente preocupações tão somente consigo mesmos.
Tal fato precisava ser exposto de uma maneira preferencialmente
direta e presencial, mas, como as circunstâncias não permitiam, Paulo, que
escreveu sua Carta até esse ponto, presumivelmente, ditando a um
amanuense, agora assume ele mesmo a pena e escreve com letras grandes (v.
11). As “letras grandes” do próprio punho do apóstolo haveriam de dar
destaque a essa última advertência! Se os gálatas em nada aproveitaram toda
a completa e convincente argumentação já esposada na Carta, que pelo menos
abrissem os olhos para as evidências sobre quem estava agindo sinceramente,
se o apóstolo ou os judaizantes. Vejamos o que Paulo julgou tão importante
escrever de próprio punho, a título de advertência final.
Em primeiro lugar, as verdadeiras motivações dos judaizantes
são expostas (v.12, 13). Os judaizantes desejavam “causar boa aparência” “na
carne”, ao pressionar os gálatas a se deixarem circuncidar, com o único
propósito de não serem perseguidos (v. 12) pelos judeus ortodoxos. Noutras
palavras, o que movia os mestres de um evangelho eclético, que une
inutilmente graça e obras a Lei e que nada tem de evangelho, nem era amor à
“verdade” nem real interesse pelos gálatas.
A insistência na circuncisão era uma forma de evitar que o ódio
dos judeus caísse sobre eles, do modo como despencou implacável sobre
Paulo. Quando ensinavam a observância de certos preceitos da Lei como
condição indispensável para a salvação, o faziam para não serem levados ao
mesmo fim de Estevão, que sofreu a morte de um mártir por haver dito
abertamente que as instituições judaicas, inclusive o templo de Jerusalém,
eram ultrapassadas e se haviam cumprido integralmente em Cristo.
Confessar que Jesus é o Messias é importante; mais que isso, é
fundamental. Dizer que precisamos crer em Jesus é também fundamental.
Mas, devemos prosseguir e afirmar com todas as nossas forças que Jesus é
tudo que necessitamos para termos relacionamento certo com o Deus vivo.
Os judaizantes não chegavam a esse ponto e se contentavam com uma
mensagem de meio termo totalmente esvaziada de evangelho, mas suficiente
para reduzir o escândalo da cruz e inibir o ódio dos judeus, coisa que Paulo
jamais consentiu em fazer (cf. Gl 5.11).
Ademais, a hipocrisia daqueles mestres se vê também no fato de
que eles mesmos não guardavam a Lei que desejavam impor (v. 13a), pela
simples razão de ser tarefa impossível. Se assim o é, por que a imposição de
regras e rituais do cerimonial judaico? Eles eram realmente movidos pelo
desejo de manter a Lei? Paulo desmascara seu pretenso zelo, repetindo
basicamente o argumento do v. 12a, ao dizer que desejavam circuncidar os
gálatas para, por meio da carne deles, se orgulhar (v. 13b). Nós quase
conseguimos vê-los chegando em Jerusalém, vindos de suas cruzadas
judaístas, e dizendo aos seus pares quantos gentios das igrejas paulinas
tinham circuncidado! “Os números falam por si mesmos”, pensavam os
judaizantes, “e estão a dizer que somos os campeões do judaísmo cristão”.
Essa era a sua vanglória conforme Guthrie, “aumento de adeptos a Israel,
que, segundo supunham, seria do agrado de Deus”[101].
Esses mestres só pensavam neles mesmos! Com sua mensagem,
por um lado, escapavam da perseguição; por outro, encontravam motivo de
orgulho. Toda essa advertência paulina acerca da hipocrisia dos judaizantes
nos deve fazer ponderar seriamente sobre como a heresia está umbilicalmente
relacionada a motivações egoístas. Não é esse o cenário que chafurdou a
imagem da igreja evangélica brasileira e dos pastores, a deflagração de falsos
ministérios cujo manifesto objetivo é ser fonte de lucro? A relação entre a
teologia da prosperidade e o charlatanismo ilustra com clareza meridiana
como a heresia está à mercê da hipocrisia e da ambição.
Em segundo lugar, são expostas também as verdadeiras
motivações do apóstolo (v. 14, 15). Na primeira parte do v. 14, Paulo, usando
sua expressão característica de forte rejeição, nega qualquer objeto de
vanglória pessoal que não seja a cruz de Cristo. Ao contrário dos judaizantes,
que negociavam a mensagem para fugir da perseguição e encontrar motivo de
vanglória, Paulo ensinou toda a Palavra de Deus em todos os lugares que
pode, sem atenuar quaisquer das verdades mais duras que tinha a dizer nem
correr o risco de perverter a verdade do evangelho (cf. 2.5), apesar de bem
conhecer o preço da fidelidade.
Ele, que tomou parte no martírio de Estêvão, conheceu pela
própria experiência quanto lhe custaria ser arauto da cruz de Cristo. Também,
sabendo que a palavra da cruz era escândalo para judeus e fraqueza para
gregos, jamais caiu na tentação de sequer ornar o evangelho com palavras
palatáveis, tampouco correr o risco de barateá-lo e dissolvê-lo com a filosofia
do seu tempo (cf. 1 Co 1.22, 23; 2.2, 4).
Aqui, ele, repito, diz-nos lindamente que a cruz de Cristo é o
único motivo de sua vanglória: “Quanto a mim, que eu jamais me glorie, a
não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo...” (v. 14a; cf. Fp 3.3). Com
efeito, do que mais teríamos para nos vangloriar? Se nós somos cristãos
justificados, quem pagou a penalidade que nosso pecado merecia e Deus nos
considerou justos pela consideração da justiça de quem, senão do Senhor
Jesus? Se nós somos filhos de Deus, em quem Deus nos adotou como filhos?
Se somos cristãos dados a oração, quem conquistou-nos o acesso ao trono da
Majestade, o que seriam nossas orações sem a intercessão de nosso Senhor e
que palavras seriam ouvidas por Deus se não mencionássemos o Nome que é
sobre todo nome? Se nós prestamos serviços a Deus e temos servido a Deus
com o nosso culto, louvores e devoção, quem é o responsável por tornar-nos
aceitáveis e levar-nos a Deus, com nossos sacrifícios espirituais? Se nós
temos dons espirituais e temos sido usados para pregar o evangelho e ainda
temos sido instrumento da salvação de pecadores e edificação dos crentes, e
se o fruto do Espírito se apresenta viçoso cada dia, e se nós temos
compreendido o evangelho em boa medida, e se temos nos aprofundado em
temas profundos da religião cristã, quem conquistou-nos a presença
habitadora do Espírito santificador, capacitador e iluminador da Igreja,
responsável por todas essas realizações?
Pois bem, em Cristo somos amados, eleitos, predestinados para a
adoção de filhos, perdoados, recebemos o Espírito e clamamos “Aba, Pai”.
“É, porém, por iniciativa dele que vocês estão em Cristo Jesus, o qual se
tornou sabedoria de Deus para nós, isto é, justiça, santidade e redenção, para
que, como está escrito: ‘Quem se gloriar, glorie-se no Senhor’” (1 Co 1.30,
31). Sem Cristo nada somos além de vermes miseráveis, lenha para saciar a
fúria do inferno e comida para alimentar a fome insaciável da sepultura.
Pergunto aos meus irmãos se seria o caso de vocês terem algo além da cruz
para se vangloriar.
Paulo não tinha outra razão para vanglória, além da cruz de
Cristo, também por dois motivos que acrescentou: primeiro, porque foi pela
cruz de Cristo que o elo que o mantinha escravizado ao “mundo” foi
definitivamente rompido (v. 14b). A cruz de Cristo foi também a crucificação
de Paulo em relação ao mundo. “Mundo”, aqui, não é o universo criado por
Deus, mas a mentalidade anticristã, o conjunto de valores e crenças que se
insurgem contra Deus e Seu padrão perfeito. Paulo vivia antes do encontro
com o Senhor à estrada de Damasco como qualquer pagão, sendo levado
“pela presente ordem deste mundo” (Ef 2.2). E nada pode livrá-lo de tamanha
escravidão, nem todo o seu excessivo zelo legalista, nem seu mestre
Gamaliel, tampouco por ter sido descendência natural de Abraão e hebreu da
gema, como afirmou em Fp 3.3-6.
Somente a cruz de Cristo o livrou da escravidão que o “mundo”
como sistema contra Deus exerce sobre quantos seguem seu curso, porque de
fato não há outro modo de escaparmos dele. Isso ocorre porque aqueles que
estão unidos a Cristo morreram quando o Redentor morreu, tornaram-se
cidadãos de outro mundo, embora permaneçam por um tempo peregrinando
em terra estranha.
O segundo motivo para a vanglória de Paulo residir
exclusivamente na cruz de Cristo é que a única coisa que realmente importa é
ser nova criação (v. 15). E, mais uma vez, Deus estava em Cristo fazendo
uma nova criação. Sem a cruz de Cristo, não haveria nova criação, e todos
morreríamos para colher aquilo que esta presente criação caída merece. Em
Cristo, somos novas criações (2 Co 5.17), recebemos um novo coração, uma
nova natureza. “Os cristãos deveriam lembrar-se, de acordo com o argumento
de Paulo, que nada que já tivessem feito e nada que pudessem vir a fazer,
nem quaisquer privilégios que imaginassem possuir, contribuíram de maneira
alguma para a nova criação. A obra inteira foi de Deus”[102].
Em terceiro lugar, os versículos 16 a 18 trazem recomendações e
saudações finais. São recomendadas “paz e misericórdia” a todos quantos
andam conforme essa “regra” ou “padrão” (grego kanon) - isto é, o que foi
dito sobre a centralidade da cruz de Cristo -, estes que são o “Israel de Deus”.
Notemos: Paulo chama de “Israel de Deus” (em contraponto ao Israel
meramente natural), o verdadeiro povo de Deus, a todos os cristãos genuínos,
que andam conforme o evangelho. As palavras do Rev. Augustus Nicodemus
resumem o ponto:
o povo escolhido de Deus, o verdadeiro Israel, são aqueles que
andam em conformidade com a norma do evangelho e se gloriam
apenas na cruz de Cristo, não importando se são judeus ou gentios.
A verdadeira descendência de Abraão é composta daqueles que
creem em Jesus e no que ele realizou na cruz do Calvário[103].

Ainda no contexto das saudações finais, há mais uma evidência


pela qual os gálatas poderiam se certificar da sinceridade de Paulo. Ele
intervém com declaração abrupta no sentido de que “ninguém me perturbe”,
que ninguém mais ousasse lhe causar danos ou macular sua reputação,
porque ele levava em seu corpo “as marcas [grego stígma] de Jesus” (v. 17).
Na antiguidade, escravos eram marcados como sinal de posse do senhor e
pessoas faziam tatuagens como forma de expressar sua dedicação às
divindades.
Se o apóstolo tinha em mente escravos marcados, ele falava de
suas muitas cicatrizes conseguidas na causa do evangelho, a demonstrar que
ele pertencia a Jesus Cristo. Se ele pensava em tatuagens com fins religiosos,
o que parece mais adequado ao contexto, ao longo do seu ministério ele foi,
por assim dizer, se deixando tatuar e suas cicatrizes eram provas da sua
sinceridade. Nesse sentido, algumas tatuagens foram desenhadas pelas
chicotadas dos judeus; outras, pelas varas dos romanos; outras ainda pelo
apedrejamento que ele sofreu em Listra, quando de sua primeira entrada na
Galácia como missionário cristão (cf. 2 Co 11.23-25). Paulo, como se
percebe, se deixou tatuar inteiramente como prova de seu compromisso com
Jesus Cristo, mas através dos sofrimentos pelo evangelho. Os judaizantes não
tinham “tatuagens”, porque deliberadamente se recusaram a vangloriar-se
somente na cruz de Cristo.
Por fim, a Epístola é encerrada com o v. 18.
Bibliografia

BEALE, G. K.; CARSON, D. A. Comentário do Uso do Antigo Testamento


no Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2014.
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W. Pink, Arthur. A Doutrina da Justificação. <http://monergismo.com/wp-
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[1]
Murray, JOHN. Redenção Consumada e Aplicada: Houve alguém, e não precisa haver
outro, que suportou o peso total do julgamento divino sobre o pecado. São Paulo: Cultura
Cristã, 2010. p. 110
[2]
Outra possibilidade é que Paulo tenha escrito Gálatas em meados dos anos 50, durante a
estada do apóstolo em Éfeso (At 18.23; 19.1). Segundo essa perspectiva, ele teria visitado a
Galácia (não o sul da Galácia, como fez na primeira viagem missionária) durante a segunda
viagem missionária (At 16.6).
[3]
Piper, JOHN. Justificados em Cristo: Devemos Abandonar a Imputação da Justiça de
Cristo? Tempo de Colheita: Niterói, RJ, 2011. p. 13
[4]
W. Pink, ARTHUR. A Doutrina da Justificação. <http://monergismo.com/wp-
content/uploads/doutrina_justificacao_pink.pdf> Acesso em 28 de abril de 2017.
[5]
Murray, JOHN. Redenção Consumada e Aplicada... p. 105
[6]
Calvino, JOÃO. Romanos. Edições Parakletos: São Bernardo do Campo, 1991. p. 131
[7]
Piper, JOHN. Justificados em Cristo... p. 58
[8]
Em algumas ocasiões, o vocábulo grego “apóstolos” é uma referência aos enviados das
igrejas (cf. 2 Co 9.3). Nesse sentido, Barnabé era um apóstolo (=enviado) da igreja de
Jerusalém a Antioquia (At 11.22) e posteriormente um apóstolo de Antioquia (At 14.14).
[9]
A preposição grega “apó” (da parte de) indica a fonte. Paulo está dizendo que a fonte do
seu apostolado é Deus. Nesse sentido, todo e qualquer vocacionado genuína poderia falar.
[10]
A preposição grega “diá” (através de) indica meio pelo qual seu apostolado se
concretizou.
[11]
No v. 6, a palavra grega traduzida por “outro” é “heteron”, que significa “outro de
gênero de diferente”. No v. 7, “outro” traduz “allo”, que significa “outro do mesmo
gênero”.
[12]
A palavra “metastrépsai”, usada por Paulo, significa “reverter”, “virar completamente”,
mudar de uma coisa para outra completamente diversa.
[13]
A palavra traduzida por “maldito” é o grego “anáthema”, e não significa, como
popularmente se poderia concluir, o ato de descarregar expressões de ódio e desejos irados
de que desgraças recaiam contra um desafeto. Essa atitude é proibida aos cristãos (Lc 6.28;
Tg 3.9). Quando se afirma que determinada pessoa “seja anátema”, está-se entregando a tal
ao juízo de Deus, em nível muito diverso do ato de amaldiçoar proibido aos cristãos.
[14]
McArthur Jr., JOHN, et al. Justificação pela Fé Somente: A Marca da Vitalidade
Espiritual da Igreja. São Paulo: Cultura Cristã, 1995. p. 17
[15]
Op. Cit. p. 18
[16]
Op. Cit. p. 33
[17]
Paulo era um ferrenho defensor do avanço do judaísmo e tinha disposição excessiva
para devastar tudo que se opusesse no caminho de sua ambição religiosa. No v. 13, ocorre
o imperfeito de “dioko” para indicar uma ação persistente do Paulo não cristão na caça da
Igreja de Deus. Seu propósito era “destruí-la”, verbo que traduz o imperfeito do grego
“portheo”, normalmente usado para devastação de cidades por exércitos.
[18]
Parece-nos coadunar-se com a experiência de Paulo (At 9) e o contexto imediato que
ele disse, aqui, que Jesus Cristo é o revelador, e não o objeto da revelação. Paulo não
recebeu o evangelho de homens, nem aprendeu com homens, mas de e com Jesus Cristo,
pessoalmente. O modo da comunicação evangélica do Cristo é dito pela palavra
“apocakalipsis” - formada da junção de “apó” (a partir de) com “kalypto” (véu) -, que
indica a descoberta de algo que estava anteriormente oculto, que não poderia ser conhecido
se não fosse desvendado.
[19]
Deus revelou o Cristo “en emoi”, disse Paulo, que pode ser traduzido “a mim” ou “em
mim”, para talvez comunicar o envolvimento íntimo da revelação, mas sem perder de vista
a finalidade prática do anúncio aos gentios.
[20]
No v. 16, Cristo é o objeto da revelação e o revelador é Deus. Se jungirmos os v. 12 e
16, veremos que de uma só vez Paulo comunica a identidade divina do Cristo, ao equipará-
lo a Deus como o revelador, ao mesmo tempo em que nos diz que Cristo é tanto o Mestre
quanto o conhecimento da escola cristã.
[21]
Os estudiosos debatem sobre se esta ocasião é a mencionada em At 11.29, 30 ou se se
trataria da famosa reunião referida em At 15, o Concílio de Jerusalém.
[22]
A contagem de 14 anos pode tomar como ponto de referência sua conversão ou a data
da primeira viagem.
[23]
Para quem essa viagem é a narrada em At 11, a revelação referida é a de Ágabo (At
11.27-30).
[24]
NICODEMUS, Augustus. Livres em Cristo: A Mensagem de Gálatas para a Igreja de
Hoje. São Paulo: Vida Nova, 2016. p. 60, 61
[25]
“... não devemos atribuir a Cristo o que é propriamente tarefa da lei. Não era necessário
que Cristo invalidasse a justiça [procedente] da lei. Porquanto ela mesma mata seus
discípulos”. CALVINO, João. Gálatas. São Paulo: Edições Parákletos, 1998. p. 73
[26]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. São Paulo: Vida Nova, 2015. p. 66
[27]
Op. Cit.
[28]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. p. 70
[29]
ROGERS, Cleon; RIENECKER, Fritz. Chave Linguística do Novo Testamento. São
Paulo: Vida Nova, 1995. p. 375
[30]
NICODEMUS, Augustus. Livres em Cristo: A Mensagem de Gálatas para a Igreja de
Hoje. p. 153
[31]
POHL, Adolf. Comentário Esperança: Carta as Gálatas. Curitiba, PR: Editora
Evangélica Esperança, 1999. p. 108
[32]
NICODEMUS, Augustus. Livres em Cristo: A Mensagem de Gálatas para a Igreja de
Hoje. p. 155
[33]
CALVINO, João. Gálatas. p. 113
[34]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. p. 101
[35]
NICODEMUS, Augustus. Livres em Cristo: A Mensagem de Gálatas para a Igreja de
Hoje. p. 198
[36]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. p. 102
[37]
NICODEMUS, Augustus. Livres em Cristo: A Mensagem de Gálatas para a Igreja de
Hoje. p. 200
[38]
LUTERO, Martinho. Interpretação do Novo Testamento: Gálatas – Tito. Obras
Selecionadas. Vol 10. Canoas: Editora Ulbra, 2008. p. 359
[39]
POHL, Adolf. Comentário Esperança: Carta as Gálatas. p. 154
[40]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. São Paulo: Vida Nova, 2015. p. 115
[41]
GUTHRIE, Donald. Gálatas: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova,
2014. p. 152
[42]
NICODEMUS, Augustus. Livres em Cristo: A Mensagem de Gálatas para a Igreja de
Hoje. p. 207
[43]
Paulo usa o particípio presente passivo do verbo allegoréo (allegoroúmena).
[44]
Confira as notas em BEALE, G. K.; CARSON, D. A. Comentário do Uso do Antigo
Testamento no Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2014. p. 1001, 1002
[45]
NICODEMUS LOPES, Augustus. A Bíblia e Seus Intérpretes. São Paulo: Editora
Cultura Cristã, 2004. p. 133
[46]
Apesar de sabermos que ele certamente conhecia o método, cujo grande representante
entre os judeus foi Filo de Alexandria (II séc. a.C.).
[47]
CARSON, D. A et al. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2009. p.
1830
[48]
Para Nicodemus, “A diferença entre alegoria e tipologia é que a primeira, em geral, é
arbitrária – alguém atribui ao texto o sentido que desejar. Na tipologia, por sua vez, existe
uma correlação tipológica e, às vezes, histórica, um fio que une o tipo e o antítipo, a coisa
prefigurada e a figura em si”. NICODEMUS, Augustus. Livres em Cristo: A Mensagem de
Gálatas para a Igreja de Hoje. p. 218
[49]
Op. Cit. p. 221
[50]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. São Paulo: Vida Nova, 2015. p. 143
[51]
GUTHRIE, Donald. Gálatas: Introdução e Comentário. p. 167
[52]
POHL, Adolf. Comentário Esperança: Carta as Gálatas. p. 170
[53]
Embora o texto traga o tempo presente, a referência é ao chamado inicial à fé.
[54]
Ver 1 Co 5.7
[55]
Op. Cit. p. 171
[56]
CALVINO, João. Gálatas. São Paulo: Edições Parákletos, 1998. p. 160, 161
[57]
LUTERO, Martinho. Interpretação do Novo Testamento: Gálatas – Tito. Obras
Selecionadas. Vol 10. p. 469
[58]
CALVINO, João. Gálatas. São Paulo: Edições Parákletos, 1998. p. 161, 162
[59]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. São Paulo: Vida Nova, 2015. p. 147
[60]
HENDRIKSEN, William. Gálatas: Comentário do Novo Testamento. São Paulo:
Editora Cultura Cristã, 1999. p. 301
[61]
NICODEMUS, Augustus. Livres em Cristo: A Mensagem de Gálatas para a Igreja de
Hoje. p. 245
[62]
GUTHRIE, Donald. Gálatas: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova,
2014. p. 171
[63]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. p. 152
[64]
HENDRIKSEN, William. Gálatas: Comentário do Novo Testamento. p. 311
[65]
GUTHRIE, Donald. Gálatas: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova,
2014. p. 175
[66]
Op. Cit. p. 178
[67]
SPROUL, R. C. O Ministério do Espírito Santo: Conheça a Pessoa e a Obra do Espírito
Vivo do Deus Vivo. São Paulo: Cultura Cristã, 2013. p. 118
[68]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. p. 158
[69]
POHL, Adolf. Comentário Esperança: Carta as Gálatas. p. 184
[70]
R. W. STOTT, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. São Paulo: Vida Nova,
1986. p. 56
[71]
HENDRIKSEN, William. Gálatas: Comentário do Novo Testamento. p. 321
[72]
POHL, Adolf. Comentário Esperança: Carta as Gálatas. p. 187
[73]
R. W. STOTT, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. São Paulo: Vida Nova,
1986. p. 56
[74]
NICODEMUS, Augustus. Livres em Cristo: A Mensagem de Gálatas para a Igreja de
Hoje. p. 254
[75]
CALVINO, João. Gálatas. São Paulo: Edições Parákletos, 1998. p. 170
[76]
SPROUL, R. C. O Ministério do Espírito Santo: Conheça a Pessoa e a Obra do Espírito
Vivo do Deus Vivo. p. 124
[77]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. p. 162
[78]
CALVINO, João. Gálatas. São Paulo: Edições Parákletos, 1998. p. 171
[79]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. p. 162
[80]
SPROUL, R. C. O Ministério do Espírito Santo: Conheça a Pessoa e a Obra do Espírito
Vivo do Deus Vivo. p. 127
[81]
SPROUL, R. C. O Ministério do Espírito Santo: Conheça a Pessoa e a Obra do Espírito
Vivo do Deus Vivo. p. 121
[82]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. p. 161
[83]
Op. Cit. p. 159
[84]
LUTERO, Martinho. Interpretação do Novo Testamento: Gálatas – Tito. Obras
Selecionadas. Vol 10. p. 515
[85]
Temos aqui exemplo de uma condicional de fato. A frase poderia ser traduzida, e é esse
o seu sentido, por: “Já que vivemos no Espírito”.
[86]
Como quer Guthrie. Ver GUTHRIE, Donald. Gálatas: Introdução e Comentário. São
Paulo: Edições Vida Nova, 2014. p. 182
[87]
NICODEMUS, Augustus. Livres em Cristo: A Mensagem de Gálatas para a Igreja de
Hoje. p. 261
[88]
HENDRIKSEN, William. Gálatas: Comentário do Novo Testamento. p. 332
[89]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. p. 175
[90]
O Rev. Augustus Nicodemus, meu maior referencial brasileiro de expositor e pregador,
vislumbra a possibilidade dos “espirituais” serem os líderes da comunidade. Ele diz que
“pelo requisito de terem uma vida consistente e madura, podem ser apropriadamente assim
chamados” (p. 266). Entretanto, data máxima vênia, a equiparação sugerida pelo reverendo
não é sequer cogitada no texto, tratando-se, penso eu, do amor do douto pastor pelo sistema
presbiteriano de governo e pelo sei conselho local.
[91]
Op. Cit. p. 175
[92]
Como quer Guthrie. Ver GUTHRIE, Donald. Gálatas: Introdução e Comentário. São
Paulo: Edições Vida Nova, 2014. p. 184
[93]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. p. 176
[94]
KELLER, Timothy. Gálatas para Você. p. 182
[95]
GILL, John. Comentário da Epístola aos Gálatas (e-book). EC, 2016. p. 4668
[96]
POHL, Adolf. Comentário Esperança: Carta as Gálatas. p. 198
[97]
Op. Cit. p. 199
[98]
Op. Cit. 199
[99]
CALVINO, João. Gálatas. São Paulo: Edições Parákletos, 1998. p. 181
[100]
GILL, John. Comentário da Epístola aos Gálatas (e-book). p. 4716
[101]
GUTHRIE, Donald. Gálatas: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida
Nova, 2014. p. 194

[102]
Op. Cit. p. 195
[103]
NICODEMUS, Augustus. Livres em Cristo: A Mensagem de Gálatas para a Igreja de
Hoje. p. 306