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10/01/2018

A atual recuperação da economia só beneficia uma minoria — CartaCapital

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Política

Artigo

A atual recuperação da economia só beneficia uma minoria

por Murilo Ferreira* — publicado 09/01/2018 00h21, última modificação 09/01/2018 12h52

O Brasil continua distante do minimamente aceitável para reduzir as desigualdades e iniciar um ciclo de desenvolvimento sustentável e duradouro

Aloisio Mauricio/Fotoarena

sustentável e duradouro Aloisio Mauricio/Fotoarena A pobreza aumentou de forma acentuada a partir de 2014

A pobreza aumentou de forma acentuada a partir de 2014

A pobreza aumentou de forma acentuada a partir de 2014

10/01/2018

A atual recuperação da economia só beneficia uma minoria — CartaCapital

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A economia mundial voltou do purgatório e deverá estar normal em 2018, segundo o Fundo Monetário Internacional, crescendo ao redor de

Para uma minoria dos brasileiros, a recuperação da economia em 2018 terá um bom impulso a partir de dados disponíveis e

consubstanciados na produção agrícola, na recuperação dos preços dos recursos minerais baseada em um crescimento do “novo normal

chinês” assentado em expulsar agentes poluidores do seu território, assim como do preço do petróleo internacional sustentado pela disputa

interna na Arábia Saudita. E, internamente, uma melhora no consumo dos brasileiros.

Mas, para a maioria dos cidadãos no Brasil, a verdadeira recuperação precisaria vir atrelada à taxa de investimento. E, nesse aspecto,

estamos bem distantes do minimamente aceitável para um país que necessita urgentemente reduzir as desigualdades, que aumentaram

acentuadamente desde o fim de 2014.

O total de investimento precisaria ser igual à poupança total, ou seja, a soma das poupanças interna e externa. O setor privado tem poupado

mais, enquanto o setor publico está pior do que nunca. Precisamos também levar em conta que a carga tributária brasileira é uma das mais

altas do mundo. Ou seja, não há milagre a se fazer.

Leia também:

O Estado não consegue realizar mais investimentos. A sociedade brasileira novamente fracassou na redução de suas despesas, seja no

âmbito do Judiciário, seja no do Legislativo, ou do Executivo.

Prefiro dizer “a sociedade” porque não vejo qualquer sinal dos líderes mais representativos de cada poder exigindo que as coisas mudem.

Acreditam que o problema está com o outro. Ou melhor, o único sinal é uma repulsa generalizada ao aumento de impostos.

A pequena melhora no consumo das famílias não sustenta o otimismo com a "retomada" (Nelson

A pequena melhora no consumo das famílias não sustenta o otimismo com a "retomada" (Nelson Almeida/AFP)

E, mesmo nesse aspecto, temos situações intoleráveis, como a proposta de criação dos

royalties “do vento” em 10%, que trará um ônus à energia eólica que não polui e salva o

Nordeste do racionamento, que neste momento seria inevitável, caso não tivesse sido

amplamente implantada na região. No caso da mineração, houve o aumento de mais de

100%, que trará ao País o título de “campeão do mundo” em impostos, taxas e contribuições

no setor mineral.

Até a famigerada reforma da Previdência promovida pelo Executivo tenta camuflar a

realidade, ou seja, a necessidade de se resolver a aposentadoria do setor público. O déficit

per capita no regime da União é de quase 80 mil reais e o do INSS, 5 mil. Portanto, sabe-se

onde está o tumor.

Prefere-se, no entanto, o caminho perverso de ameaças de calote das aposentadorias,

especialmente àqueles que recebem montantes menores. Até a campanha do PMDB

esquece do promotor-presidente que se aposentou aos 55 anos para discutir privilégios dos

outros. Assim está o Brasil no novo MDB. Coitado do Dr. Ulysses.

E o crédito? Os defensores de um BNDES anão deveriam vir a público explicar o fracasso continuado das novas missões por meio do

mercado de capitais em época de tempo bom. Imagine quando houver chuvas e trovoadas.

de tempo bom. Imagine quando houver chuvas e trovoadas. Sã o analistas distantes da realidade do

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A atual recuperação da economia só beneficia uma minoria — CartaCapital

Aliado a isso vemos sem horizonte razoável de melhora o caos da segurança e dos serviços públicos. Ilustrando esse deboche com os menos

favorecidos, vimos a decisão recente de eliminar a linha do BRT no Rio de Janeiro, construído para ser um legado dos Jogos Olímpicos,

abandono milhares de cariocas que precisam desse transporte. E até mesmo os investidores sofrem , pois

E

 

quanto se poderia imaginar em um país tão carente de infraestrutura. O consórcio vencedor

quanto se poderia imaginar em um país tão carente de infraestrutura. O consórcio vencedor

da licitação do Aeroporto de Confins acaba de ser surpreendido com a permissão de pousos

e

decolagens no Aeroporto da Pampulha. A justificativa seria obter votos de uma bancada a

favor do presidente da República, não a favor do Brasil.

Vivemos o pior dos mundos. Não temos serviços decentes nem oportunidades aos menos

favorecidos. Temos pouco tempo para corrigir, mas sem esquecer as lições que a cada dia o

papa Francisco nos oferece e que ele conhece muito bem, como o infortúnio dos argentinos

neste século XXI e dos italianos nos últimos dez anos.

E agora querem os investimentos limpos em energia eólica. Faz sentido?

Em um vídeo que circulou freneticamente na internet nas últimas semanas, ouvimos um

mendigo polonês que mora em Roma dizer: “O papa ama os pobres”. Desde que assumiu

como bispo de Roma, ele faz um grande trabalho na assistência direta aos desabrigados, seja com comida, seja com banho descente e

barbeiro ou com roupa lavada. Ou ainda apenas com algo suficiente para restaurar a dignidade humana. Que as reformas brasileiras

comunguem desse espírito.

A correção da economia a que me referi, amparada no amor de um Francisco, precisaria ser feita por meio de uma nova Constituição

exclusivamente dedicada a isso e não por meio de “um toma lá, dá cá” tão amoral como usar sarcasticamente São Francisco nos comentários

políticos.

Todos sabemos que a nossa Constituição foi atropelada ainda em sua infância por uma mudança radical no mundo, tanto pelos

acontecimentos do Leste Europeu no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990 quanto pela inovação e tecnologia que ganharam uma

velocidade inimaginável.

e tecnologia que ganharam uma velocidade inimaginável. A China caminha a passos largos para consolidar sua
e tecnologia que ganharam uma velocidade inimaginável. A China caminha a passos largos para consolidar sua

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A atual recuperação da economia só beneficia uma minoria — CartaCapital

O

desempenhadas pelo trabalhador serão substituídas por robôs. A China produz três vezes mais desses equipamentos do que os Estados

Unidos, 2,5 vezes do que o Japão e mais de 80 vezes do que o Brasil.

desemprego brasileiro mudou de nome. Saiu o formal, entrou o informal. Mas isso é apenas o prenúncio, pois se percebe que as tarefas

E a inteligência artificial será mais devastadora ainda. Péssimo para o emprego e a inflação, ótimo para a produtividade. E o mercado

financeiro será substituído no papel de vilão que desempenha há décadas. Operações financeiras serão mais bem conduzidas por não

humanos. Aliás, vi o prenúncio disso no MIT, de onde saíam 50% dos alunos para o dito mercado, em 2008, para modestos 8%, em 2016.

Não podemos visualizar nada de bom em um país que terá eleições provavelmente polarizadas pelo ódio e a desarmonia. Nossa comunidade

política vive em um mundo particular, que permite ter um presidente com recorde mundial de impopularidade com maioria precária no

Congresso. Precária, mas maioria.

O resultado das eleições não pode significar a vitória daqueles que se alimentam da discórdia e do rancor. Se isso acontecer, podemos ver a

corda arrebentar. Por outro lado, a vitória de uma tese que confronte a realidade do mundo será tão ruim ou pior do que a nossa falta de

sintonia com o mundo surgido da queda do Muro de Berlim.

Assim como as grandes questões do quase finado 2017 eram o processo político na China, o primeiro ano do governo Donald Trump e os

passos políticos em uma Europa incerta a respeito das eleições francesas e alemãs, que resultaram de fato, sob a ótica econômica no ano,

em um total desalinhamento das correlações usuais de moedas, ações, renda fixa e petróleo.

Em 2018, teremos o resultado mais visível do que pode significar a enorme mudança tributária nos EUA, tendo sido aprovada na Câmara

Baixa e seguido para o Senado, onde deverá ser modificada. Como os projetos devem ser aprovados com divergência entre as Casas, um

consenso poderá ser obtido no primeiro semestre de 2018.

Leia também:

Ainda para o ano-novo, veremos um governo chinês muito comprometido com a austeridade e com medidas duras contra a poluição, com

resultados positivos e negativos sobre a economia. Os efeitos de cortes de produção em diversos setores serão sentidos especialmente sobre

siderurgia, alumínio e cimento.

O corte na produção de aço poderá atingir até 50 milhões de toneladas adicionais, consolidando um total de 200 milhões de toneladas nos

últimos três anos. Com isso, a eficiência da indústria chinesa terá aumentado ainda mais.

Os discursos e, principalmente, as atitudes do papa Francisco estão aí para ser copiados

Os discursos e, principalmente, as atitudes do papa Francisco estão aí para ser copiados

Serão claros os sinais geopolíticos dos passos previstos para uma liderança mundial chinesa

até 2049, quando se completam os cem anos da Nova China. Ao mesmo tempo, viveremos

uma grande incerteza gerada pela recusa de entendimento entre países que formam os

territórios existentes e aqueles que estão sendo construídos a partir do nada no Sul da China.

Teremos também a definição do Brexit em um momento de estresse para a economia do

Reino Unido, que, segundo o FMI, terá um desempenho apenas melhor do que a Itália em

2018, com o previsto 1,5%.

Um fenômeno mundial que se aprofunda é de quem tem entre 20 e 40 anos e ganha cada

vez menos em termos reais. Como poderão ter acesso aos recursos para formar, por

exemplo, uma família? Ou a desigualdade que tem aumentado muito, inclusive nos Estados

Unidos?

Dados informados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud)

mostram que os rendimentos do 1% mais rico do mundo são compatíveis com os de 57% da

população mais pobre.

No Brasil, é preciso investir nos indivíduos, para que tenham condições de competir em

igualdade de condições. Isso deverá levar algumas gerações. Mas a peça-mãe do País, seu Orçamento, não nos diz isso. Portanto, não

estamos no caminho certo.

*Administrador de empresas e ex-presidente da Vale

certo. *Administrador de empresas e ex-presidente da Vale

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