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JUIZ DE FORA – Emergência

20/04 (QUI)

- 21h – 22h20: Campinas/São Paulo (Viação Cometa);


- 23h59 – 7h: São Paulo/Juiz de Fora (Viação Cometa);
- Dormir no ônibus;

21/04 (SEX)

- 7h – 7h30: Café da manhã na Rodoviária;


- 7h30 às 7h50: Táxi até Parque da Lajinha;
- 8h: Encontro com Luc e Janis;
- Hotel Ibis JF (12h);
- Dormir em Juiz de Fora;

22/04 (SAB)

- 21h – 04:55: Juiz de Fora/Campinas (Viação Santa Cruz)


- Dormir no ônibus;

Queridos Luc e Janicinha, como vocês estão? Quebremos, então, o silêncio, que
são horas. Como disse, temos muito a conversar e eu, claro, preferiria fazê-lo ao vivo e
em cores, mas o tempo vai passando e, logo menos, o girassol fica infotografável...Perdão,
de antemão, pelo excesso de passadismo que virá; perdão, de antemão, por qualquer coisa
que machuque. Meu intento, aqui, creiam-me, é apenas propor fazermos de um hiato, um
(novo) tritongo. Reestudar fonética e fonologia é preciso, nada (?) mais...
Ab ovo. 24 de novembro último. Desencontros à porta do Pu. Olho para a direita,
olho para a esquerda, espero 5 minutos ou mais e – vendendo-me a mim mesmo como
“bom sagitariano” desapegado – penso “eles decidiram não vir, okay”. Tinha de almoçar
rápido e comprar gelo e víveres. Estava ansioso para uma aula, até então, inédita pra mim.
Como toda falha trágica, tudo passou como se nada se passasse. Poderia ter ligado pra
vocês? Sim. Erro meu não fazê-lo. Vocês poderiam ter ligado? Bem, eu estive com o
celular o tempo todo em mãos e à vista...Senti-me (e só muito depois aceitei-o)
desprezado; vocês, pelo visto, também. Ainda assim, no dia seguinte, contrariando meu
orgulho, que é grande, eu os convidei para uma segunda sessão. Vocês, talvez, esperassem
desculpas e reconhecimento meu de erro, veio só convite frouxo. A resposta foi seca. O
hiato estava criado e este só faz mesmo é pensamentear...
Essa história – que mal chega a ser estória, pois falta-lhe talento e graça –
desrecalca à fórceps o que pouco aceito em mim: minha “mania de desprezo”, meu
orgulho inconsequente e meu caráter controlador. Explico-me (ou tento). O “eles
decidiram não vir, okay”, aparentemente displicente, é a resposta que me deu meu orgulho
ante uma situação que meu inconsciente leu como desprezo. Há mil possibilidades de
atraso, há mil possibilidades de desencontro espacial, mas eu só consegui ler como
desprezo. Puxei-me o tapete. Sei, sei, corro o risco de desagradar vocês com um discurso
que parece vitimização ou que é, no mínimo, psicanalítico demais, mas o fato é que o
desprezo (e/ou o fantasma dele) é mesmo pedra angular na minha vida: mamãe teve
depressão pós-parto quando nasci; ser gay não é ser amado e querido na sociedade em
que vivemos; ser solitário, como sempre fui e sou, rima com qualquer coisa de desprezo,
inclusive por mim próprio. E é sempre o mesmo ritual: basta que me sinta desprezado,
para “desprezar”, num Orgulho em maiúsculas que me cega e (me) destrói.
Não é, contudo, a primeira vez em que me sinto desprezado por vocês. Pedro
mentiu três vezes, eu não calei menos. 1º cantar do galo: o episódio da hamburgada.
Sabem o quanto me é tabu apresentar amigos a minha mãe, que é controladora (eu
descobri que também sou!), adiciona no “feice”, passa instruções, tem medo que eu acabe
só. Tudo é sempre “por-amor” e me imobiliza. Era apenas uma hamburgada, mas, pra ela,
um evento, um banquete platônico sem-orgia. Pais do Lucas confirmados, Janis (a que
não come pimenta, daí que uma nova remessa de hambúrgueres foi feita), preparativos e
mais preparativos. Não houve iniciativa de vocês em cancelar a tempo, eu tive de mandar
uma mensagem na sexta-feira para saber se viriam e a resposta foi negativa e em
desfaçatez. Turbulência na Casa Silvério, não havia mais carona, a grana era curta, tal.
Entende-se, mas, no lugar de vocês, eu teria vindo à pé ou gasto 13 reais com um ônibus.
Havia a possibilidade de dormirem em casa de mamãe, havia a possibilidade de carona
para Conchal no dia seguinte...De qualquer modo, eu não posso me tomar por base para
pensar as pessoas, daí que...2º cantar do galo. Num dia ensolarado, fico sabendo, através
do meu irmão, que estão em Ilha Bela, o lugar onde tem poesia. Não gostaria de ter sido
convidado, mas senti falta de ser comunicado. Tenho esse direito? Não, não tenho. Vocês
são um casal e eu sou “só” o terceiro elemento do triângulo. Ilha Bela fez-me, então,
descobrir que sou controlador, como mamãe. Esse é o João e eu não gosto dele. 3º cantar
de galo. À boca miúda, descubro que estiveram em São Paulo, 15 dias, em julho do ano
passado. Também estive lá, na mesma época, mesmo com minha avó, operada, em São
Carlos. Tivesse eu sido comunicado (veja-se que essa palavra se repete na carta),
poderíamos ter marcado algo. É (?) razoavelmente estranho que em 7 anos de amizade,
tenhamos passeado pela terra da garoa apenas uma vez. Sabe, companhia pra programas
culturais é importante pra mim. Ah, estou sendo novamente controlador. Canalha, talvez,
pois vocês, mesmo quando moravam distantes um do outro, sempre dividiram seu tempo
comigo e eu sempre fui por isto grato. Todo modo, li como desprezo, fiquei irritado,
escondi de mim minha própria irritação e não falei pra vocês na época, porque só agora
consigo pôr em palavras o que eu não queria ver. Jamais pensei que teria coragem de
dizer tudo isso a mim mesmo, quanto mais a vocês. Quero que conheçam esse João
mesquinho-ciumento-controlador-e-escorpiano-que-nunca-esquece, mas que ESTÁ NA
DE VOCÊS, CARALHO. Tomado. Entregue. Aberto. Todo, na moral.
Mas voltemos ao fio da ópera, se é que ele(a) existe: desprezado no 24, semi-
desprezado com a mensagem seca do 25, provocado no 1º, o Orgulho bate “lá” em cima
e fala ALTO. Parece-me, inicialmente, - e aqui sou machistoide a dar dó – que tudo é
trama da Janis, que espera de mim que eu quebre o silêncio, inclusive porque os “livros
da Unicamp” estão em seu poder. O Lucas teria preferido falar, conversar, ponderar, mas
Lady Macbeth nele inspira raiva e decepção. “Deixa. Ele é que venha falar conosco. Ele
está errado, não nós. Deixa”. Devolvi, então, na biblioteca, os livros, apesar de eles ainda
estarem com vocês; calquei-me num silêncio magoado; joguei a joia da nossa amizade
pro alto a troco do Orgulho. Fosse viciado em crack, eu teria vendido minha mãe, não há
dúvidas. Estava viciado, fui sádico, fui masoquista, fui meditar. Meditar! 12 dias
de rehab passam, retomo o celular, há mensagens automáticas de Josué e Karina.
Estava zen, respondi pra todo mundo; mas, claro, no responder ao casal, chegava mais
perto do filho. O orgulho, à época, em níveis baixos, eu estava flutuando...E, sabem, o
Vipassana me ensinou muito e eu saí de Santana disposto a pedir desculpas, a quebrar o
silêncio e a me prostrar, mas o orgulho, ah, o orgulho...Abandoná-lo parecia-me
abandonar-me, perder-me, topar com a morte. Crack. A minha escrita continua orgulhosa
e arrogante, vá lá, eu tenho direito a me defender de algum modo, mas estou escrevendo,
não estou? Eu estou confessando os meus crimes, não estou? Estou assumindo meus erros,
não estou? Estou tentando pedir perdão, não estou? É...
Ópera. Alguns dias depois, uma mensagem de vocês, grande, no Whatsapp.
Carinho, mas carinho contido (pela Janis? A bruxa má, que eu descobri, depois, ser eu
mesmo em projeção?). Bem, não interessa, vamos lá, João, responda com amor pros
meninos, declare-se. Respondo, então, com afeto em dobro, num exagero ariano; conto
planos, declaro-me, exponho-me, digo a plenos pulmões que amo vocês, faço dois
convites principais: um rolê no Oficina, dia 11, na companhia de Fred (um amigo tido
como imaginário pela Janis, só pra provocar ciúmes?); e uma D.R. em Campinas, quando
voltassem de São Paulo. Não obtive resposta. Novamente desprezado ou coisa da minha
cabeça? Resolveram sair da toca, mas não de todo, porque os sentimentos demoram a
saturar? Ou o dilema UNESP-UNICAMP-FGV falou mais alto? Não sei, o silêncio é
daninho e cheio de ambiguidades...
Intermezzo. Gammy e Fran, nada imaginários, vendo-me triste e botando pilha,
porque, afinal, morrem de ciúmes de vocês, o que é bonitinho, num certo senso. Eu,
dizendo(-me) que não preciso de esmola, daí que meio-amor não aceito. Eu pensando que
esta semi-presença de vocês se devia não a sadismo (mas podia ser!), e sim a uma
vergonha de mim por não terem passado nos vestibulares. A foto do “vacilão”, no
Instagram. Sou eu e não sou eu. Eu, levando pra análise os barulhos que o silêncio produz.
Pessoas perguntando de vocês, objetos seus no meu apê, músicas nossas na playlist do
carro, lembranças, memórias, conversas adiadas, humores do prédio pra contar. O orgulho
como vício maior. Um luto já em elaboração, mas, como, se nada aconteceu? Como, se
nada fechou? Como, se tudo morreu? Pois é...
Terceiro ato. “Nova” mensagem seca: não mais Bauru, Juiz de Fora de novo [e
com o Vitor, um dos responsáveis legais por não terem passado nos vestibulares
paulistas]! Não fui consultado. Ah, João, como você é controlador. Porra, Regina [minha
analista], eles moraram comigo...Eu, que os incentivei a vir pra Campinas e a prestar
vestibulares, não deveria ao menos ter participado dessa decisão? É, mas e o silêncio? E
a mágoa? E a nódoa? E o devorar do tempo? É, pode ser que eu seja controlador, mesmo.
Mas só com quem amo, poxa. Com quem me preocupo. Claro, eu faço ideia da correria,
da decepção, das loucuras, mas amigo é pra essas coisas também, né?
Quarto ato. Envio da foto, acompanhada de um texto mais seco que o girassol
morrendo (ou morto), mas iluminado. Nossa amizade. O quarto ato é de saudade, “só”
saudade e está por elaborar-se. Que vocês se sintam livres pra escrevê-lo desabafando
como eu estou fazendo, pois a frase “aconteceu tanta coisa que talvez quase
nada tenha importância, o tempo é sempre um grande sábio” não me convence muito.
Falar do passado é falar da gente, daí que tem importância, sim. O problema é só falar
de/do passado. Essa escrita tem quês de controladoria, eu sei: eu autorizo, eu direciono,
eu lidero, eu tento abocanhar totalidades. Vício meu, mais um. Perdão. Ultrapassem.
Mas o quarto ato encerra a ópera, contém uma conclusão e enseja uma decisão.
Descobrimos que não dependemos uns dos outros pra viver, daí que nossa relação seja
eletiva. Gostamos de estar na companhia um do outro, temos afeto, carinho, amor,
preocupação um pelo outro. Amamo-nos por escolha, não por necessidade. Como termina
a ópera (bufa ou trágica)? Ou rompemos de vez (mantidos, claro, respeito e leis de
hospitalidade) ou aproveitamos esta fenda que se criou entre nós e tentamos reconstruir
uma amizade ainda mais funda e sólida. Eu só não aceito meio-amor. Eu só não aceito
esmola afetiva. Eu só não aceito ser um novo Matheus Bíscaro, que vocês convidam pra
tomar sorvete de vez em quando. Ou lá ou cá, pronto-falei.
Bonito ver que continuamos sincronizados no tempo. A foto veio, mesmo, na hora
exata: eu defendo em 26 de abril. Enfim, chegou, pequenos, e vocês estarão comigo, ali,
na capa, que ficou linda. Somos nós, sem dúvida: três girassóis aparentes e um quarto,
inda indefinido...
Ah, quero ouvi-los sobre o tempo em Minas e quero falar sobre minha “volta” pra
Estética. Ando estudando, meninos, ando estudando...
Não entendo bem que quer dizer Lucas com “análises freudianas”, pois estamos
todos nos analisando o tempo inteiro. E sabe por quê? Por que a gente se gosta e se
preocupa um com o outro.
Também fiquei “puto” e, claro que há contradições no fato de eu ter sempre
incentivado você, Luc, a falar, quando eu, próprio, calei-me nos últimos tempos. A gente
é contraditório e fraco, Lucas. Ou você acha que ter intimidade comigo é me ver de cuecas
pela casa? Ter intimidade com o João é conhecer suas fraquezas também. Não entendo o
que diz quando diz “é o que venho tentando fazer, cada vez com menor tempo de
resposta.”. Também senti cansaço, descrença, também li os silêncios de vocês como birra,
descaso ou provocação. Também esperava de vocês mais amizade e menos manipulação,
mas tudo pode ter sido fantasiado e efeito discursivo da minha insegurança. Eu acabei
concluindo que a imaturidade foi minha, a fraqueza foi minha, o orgulho foi meu. E nada
de patológico nisso. Tudo o que (não) aconteceu entre nós gerou sofrimento de todos os
lados, mas criou uma oportunidade de nos conhecermos mais a fundo. Há um João, aqui,
que se abre como nunca antes, que se desnuda, que assume seus erros, suas
mesquinharias. Pode ser tarde demais e pode ser que vocês não queiram conviver com as
minhas fraquezas, mas eu sou grato pelo simples fato de me terem permitido acessá-las,
assumi-las, trabalha-las e, quem sabe em futuro próximo, ressignifica-las.
Vocês FAZEM FALTA, meninos, MUITA FALTA. Sinto falta e não tenho medo
de assumir. Sinto falta do Lucas me mandando gracejos e links intermináveis no
Whatsapp. Falta dos papos bêbados com a Janis, mesmo quando estávamos sóbrios. Dos
rolês na madrugada, das bebedeiras, das esbórnias (g)astronômicas. Sinto falta das lições
da vida prática, das referências estéticas. De abraça-los, beijá-los. De Leão, meu morcego
dengoso, comigo a cada ferida. Eu, outro dia, vesti uma roupa sua, Lucas. E sorri. Há um
sutiã, seu, aqui em casa, Janis. Pequenino, pequenino. A Policial Federal vai maldar...
Admiro vocês, pelo que são artisticamente. Sou grato por tudo que me ensinaram.
Lucas apresentou-me a amizade, que eu desconhecia. Janis acolheu-me, tratou-me como
um igual, que é diferente. Não esqueço fácil. Sou seu devoto, pequeninha. Perdão, se
projetei em você fantasmas de dentro de mim. Você aguentou firme.
Há desespero, tristeza e incômodo? Então falem, gritem, berrem, uivem,
CARALHO. Não há mais possibilidade de chá-de-senhoras entre nós. Lucas, que estória
é essa de “incomodou no meu apê”? Se o provocava é porque não te queria josuélico a
quadruplicar aspiradores de pó; se o provocava é porque sempre doeu-me a minha
invalidez pra vida prática; se o provocava é porque gosto demais de você, bonzinho ou
não, silencioso ou não, hétero convicto ou não. Relaxa, cara. E, Janis, manda logo o
trompete, vai.
A carta se alonga mais do que deveria e eu encerro pedindo perdão pelo meu jeito
estúpido de ser. Perdão, Lucas. Perdão, Janis. Essa carta não me redime, mas é, aqui, que
humildemente assumo meus erros e proponho algo novo entre nós. De tudo, resta a
gratidão e um carinho vago, mas que paira, aqui, dentro em mim.
Amo vocês.

Um abraço que se queria mais que verbal,


Um beijo de Saudade em alto-relevo,
Toda a minha devoção,
Um João.

Janis não está pronta para colocar a boca na trombeta, talvez porque estou botando
a boca na trombeta e tocando em lugares que talvez eu poderia ter cancelado, entenda
como quiser.
Oi Joaninho, estamos péssimos, à beira da loucura e você?
Queria poder começar esse e-mail e estruturar ele lindamente, assim concluir meu
raciocínio de maneira clara e linda, como uma redação. Mas eu não consigo atualmente.
Peço desculpas pelos erros de concordância, virgulas, contexto. Falando no atual, agora
estou ouvindo Vitor comer nojentamente seu miojo fedido sentado ao lado do Lucas que
está morrendo aos poucos com a situação, um silêncio quase cinematográfico, afinal eu
fiz esse silêncio gritando com o Vitor porque ele é tão incompetente e como ele e os pais
detestáveis estão acabando com a relação minha e do Lucas nesta quinta, então eu
descubro, EU FIZ O SILÊNCIO.
Acho que a Janis controladora, ciumenta, mesquinha todos nós conhecemos, não é? Mas
a Janis que se silencia não. Eu vivo falando do que eu sinto, o que eu quero, o que eu acho
como uma boa leonina com a lua em touro, eu ANTES o mundo DEPOIS. Eu, eu, eu,
EU! Quando a Janis se silencia? Minha mãe diria, muito certa, que algo está errado com
a Nina. Eu só não estava bem, como estava apavorada.
Não vou lembrar de datas e momentos exatos, estou tentando perder esse hábito
leonino/tourino/geminiano de não esquecer nada, eu chamo de hábito de advogada do
diabo. O que eu posso dizer é que no meio de um silêncio nada bem encaixado seu e do
Lucas foi onde me apavorei, havia cansado somente de me ouvir. E você viu diversas
vezes como eu surto quando eu falo e percebo que não tenho resposta certo? Parte desse
silêncio é um troco com a mesma moeda pra vocês, sim você e o Lucas, sabe agi da
maneira mais errada possível, não pensei direito, mas eu fiz de novo o silêncio.
A situação era assim:
- Eu falava
- Você respondia
- Lucas se calava
- Eu falava
- Você respondia e alfinetava o Lucas
- Lucas dormia
No outro dia, logo pela manhã, NOSSA O SILÊNCIO DE VOCÊS ACORDAVA
TAMBÉM, chegava a me bater e me empurrar de tão presente. Não culpo tanto vocês, eu
estava com outros problemas, esse silêncio só meio que piorava a situação pra mim.
Vocês tão calados, João buscava coisas no computador, Lucas comida, Janis queria voltar
a dormir pra ver se o silêncio melhorava. Você sabe que não era apenas um silêncio
matutino, faltava Lucas pra João, e João pra Lucas ali.
Vomito. Nossa como vomitei nesses tempos, o que eu estava vomitando? Problemas.
Bebidas nunca foram o motivo daqueles vômitos, hoje eu entendo, no dia ficava chateada
porque não entendia o que acontecia comigo. QUERIA QUE VOMITASSEM JUNTO
COMIGO, assim todos nós estaríamos iguais, todos nós precisávamos vomitar, não é?
Me sinto estúpida as vezes por não ter provocado vocês, não era capaz. Hoje talvez tudo
que vomitei/falei era um grito de todos nós juntos, falha minha não ter visto isso antes,
desculpa.
Acho que o silêncio veio nisso, começa ai ou não. Pensei, acho que falo demais, talvez se
eu falar menos eles falam deles e eu vejo que não passo por isso sozinha, queria conhecer
o pior de vocês ao mesmo tempo pra ver que eu não era a única chorona problemática etc.
Queria vocês ali, mais ainda, queria grito de vocês. Quero me ouvir menos e OUVIR
MAIS VOCÊS.
Acho que tudo isso pra falar do meu silêncio, confesso escrevendo esse e-mail agora, que
ele durou mais do que eu imaginava, mais do que deveria! Fiquei ainda mais a apavorada
que eu queria tanto falar com você, queria gritar JOÃO SEU IDIOTA ME AJUDA NÃO
TO SABENDO LIDAR COM ISSO!
Nossa e que situações cheias de silêncio que me meti, você, Lucas, Família Silvério, Pai,
Mãe, Juliana, como pude ficar em silêncio com tudo isso acontecendo? Como o e-mail é
pra você, sobre nós irei falar como me senti em relação a você, CARALHO como eu
conseguia fazer merda atrás de merda com esse silêncio na nossa relação, eu deveria
ganhar um prêmio de silêncio cruel. Esse silêncio que foi matando tudo, cruelmente
matando tudo. Por ainda estar matando, escrevo pra você. Lucas iniciou o movimento,
mandou o primeiro e-mail, não tive coragem de participar confesso.
Vim pra Juiz de Fora de NOVO, digo DE NOVO, porque você sabe essa não foi a
primeira vez que pensei em desistir daqui. Sabe o que é engraçado nisso tudo? Não passei
pra Unicamp, mas passei em Bauru, fui chamada antes do Vitor “gênio de merda” “visto
camisa do puríssimo pra parecer inteligente” visto a camisa do meus pais pagam mil reais
no cursinho pra eu ser o merda de ser humano que sou”, engraçado porque fiz as provas
da UNESP não querendo passar sabe? Unesp não era a Unicamp. Unesp talvez poderia
significar morar com o Vitor (esse talvez nunca foi tão bem usado, porque aquele merda
não passou). Não queria SER DESIGNERRRRR, queria fazer o que?! Pensei em desistir
da graduação DE NOVO, o que acontece comigo? E agora a história fica mais engraçada,
decido depois de muita conversa com o Lucas, voltar pra UFJF, ai chega a parte de
gargalhar nisso tudo, VITOR FUCKING PASSOU SOMENTE NA UFJF! SIM,
exatamente o que você está pensando, eu me fudi, COMO SURTEI! Chorei, quis ir
embora, terminar com o Lucas, quis sumir. E MAIS ENGRAÇADO, ele está morando
por FUCKING 30 DIAS com a gente em um lugar que tem um quarto só, SIM ESTAMOS
DIVIDINDO TUDO, sabe por que? Karina chorou, chamou Lucas de filho rebelde e Vitor
e coitado, é KARINO CHOROU. Ele está aqui na minha casa, casa que de novo não me
faz sentir em casa, casa que não me pertence, cito Alabama Shakes meu novo consolo
musical:
“I feel so homesick
Where's my home
Where I belong
Where I was born
I was told to go
Where the wind would blow
And it blows away – away”
Casa de brinquedo da família Silverio, dentro desse cenário todo só posso afirmar como
eu faço parte do casal de brinquedo, afinal “vocês não casaram, como podem viver como
um casal?”, cito Josué com ódio!
Eu deveria ter ligado no dia do Puri, eu deveria ter feito cursinho em Campinas, eu deveria
ter falado mais de novo e silenciado menos, eu deveria ter ido pra sua casa na minha
primeira crise de pânico, na primeira vez que chorei de ódio pela minha situação naquela
casa, na qual em meio de gritos essa semana Vitor me afirma que morei de favor e comi
da comida deles, eu deveria ter quebrado meu próprio silêncio, porque eu não fiz isso
João? Meio-amor, gente olha que eu fiz? Me desculpa João, odeio a palavra desculpa,
mas pelas circunstancias do meio que comunicação essa palavra é a única que serve pra
me aliviar com minhas falhas, principalmente minhas falhas como amiga/irmã com você.
Sabe nunca tive um amigo assim como você, nunca ninguém e digo o que você disse, me
tratou como uma igual.
Aqui fica esse meu pedido de desculpas, de uma pessoa que cansou disso tudo. João ando
perdida e cansada da minha vida de novo, tenho chorado muito e isso me preocupa.
Quero ir embora daqui, largar esse merda de graduação, ir pra Campinas de novo, nem
que seja pra viver vendendo livros no shopping em qualquer livraria por ai. Eu não estou
me aguentando, acho que isso é um pedido de socorro meu e o do Lucas, quantas vezes
essa semana choramos e quase pegamos nossas malas e fugimos daqui.
Eu e o Lucas entre esse período silencioso, só falávamos de você engraçado né?
Falavamos com amor, com saudade, com ódio dessa situação mesquinha (des)necessária
que passamos. Peço desculpas pelo meu meio-amor, pela ausência, pela falta de conversa,
pelo orgulho fingido nesses silêncios. Esse é o tempo em que todos nós gritamos,
choramos e pensamos: COMO FOMOS UM BANDO DE IDIOTAS.
Esse meu email pode estar confuso, ou até não parecer uma resposta, mas é que o que eu
consigo agora me expressar escrevendo, acho que preciso expressar isso com um abraço
ainda, gritos e choros, talvez rir depois todos juntos e dizer: Nossa Joaninho ta tudo bem,
ta tudo bem.
Conheci recentemente essa mulher polonesa chamada Wislawa Szymborska, não sei se
conhece, enfim lendo um dos seus poemas, esse trecho do poema ‘Repenso o mundo’:
"E todo o resto — é como Bach tocado por um instante num serrote."

Confesso esse trecho, esse poema me deu coragem pra conseguir escrever esse e-mail e
dar um fim nesse silêncio.
Aqui escreve alguém que SENTIU SUA FALTA PRA CARALHO.
Aqui escreve alguém que está surtando e que chegou ao ponto de:
- Cortar laços com Juliana, afinal você mesmo disso nenhuma relação vive com meio-
amor, principalmente com sua irmã?
- dar lição de moral em Josué e Karina (PORQUE AFINAL KARINA CHOROU, FEZ
CENA, DESCEU DO SALTO MINHA GENTE), afinal educar filhos pra vocês mesmo
é fácil, quero ver criar pro mundo e não dar pro mundo criar;
- Gritar, peitar (SIM PEITAR A BELEZURA ME PEITOU COM VIOLÊNCIA COMO
UM MACHISTA COVARDE NO MEIO DE NOSSA LINDA DISCUSSÃO) Vitor e o
chamar de mimado incompetente e dizer: me desculpa se a vida não é o que você
esperava, mas falar ainda é uma atividade essencial pra viver, MAS FALAR de verdade
não essas merdas que ele acha que fala.
- Dizer pro Lucas que já pensei em terminar com ele diversas vezes esses últimos tempos,
afinal a família dele está destruindo cruelmente a gente e os silêncios dele também.
Enfim Janis surtada esta escrevendo aqui, Janis que chora escrevendo, Janis que no dia
que você mandou o e-mail passou horas na Saraiva olhando On the Road e pensando,
compro ou não compro? No fim das contas era um escrevo ou não escrevo pro João?
Sobre o sutiã, meu amor tamanho não é documento.

Amo você.

JOÃO POR QUE NÃO TE LIGUEI?

Beijos

Joãozinho, estamos à beira de um ataque de nervos. E você?


É difícil começar de quaisquer fatos ou teorias, as histórias e estórias são muitas,
vou aos poucos tentando conectar os pontos e fazer pontes para atravessarmos. Vou
começar pelo passado mais recente possível: Últimas linhas do e-mail recebido lidas e,
um silêncio recobre os espaços físicos e psíquicos; quebrado apenas pela respiração
espasmódica dum choro fundo como as Fossas Marianas. Houve ali a síntese do tempo;
um passado que despejou um mar de inflexões expiradas. O desejo é mútuo, todos
queríamos ao vivo; mas a verdade é que não aguentaríamos mais tempo, pelo menos eu
não aguentaria; descobri nesse meio tempo que talvez seja o contrário, amamo-nos por
necessidade; não escolhemos sofrer com o silêncio, mas sofremos.

O hiato no almoço fora uma convergência. Há tempos, Janis e eu vivíamos


desconfortavelmente – Previsão sua, birra minha (?) – Meus pais mostraram-se
controladores até as últimas consequências. Talvez eu quisesse provar que você estava só
meio certo, ou talvez fosse eu que não aceitava essa quebra do cordão umbilical. Irei abrir
um parêntese aqui. Os meses em Rio Claro quase deram conta de por um fim não só ao
relacionamento de nós três, mas também ao relacionamento com a Janis. Descobri-me
órfão de sentimentos e de lembranças, e que muito do que eu sou, foi por me construir no
vazio. Sou produto da classe média que dá mais valor ao sustento que ao diálogo.
Descobri o porquê de não falar tanto, ou por que me calo em silêncios secos, nunca soube
o que é ser ouvido; fui castrado na fala pelos ouvidos. É difícil digerir isso sem parecer
ingrato com o investimento dos meus pais, mas também é autodepreciativo demais
considerar-me mera ação na bolsa de valores. Quatro meses que pareceram anos, o tempo
é relativo. Algo que era pra ser muito simples se torna uma sombra espinhosa; conviver
é ceder, e acho que meus pais não estavam dispostos a isso; ou a encarar que o filho de
23 anos que voltara a casa não era o mesmo filho que saíra. Terceiro relacionamento em
erosão, o com meus pais. Minha mãe parece não separar trabalho de casa; eu continuo
parecendo um investimento de segurança, e pior, nem pra ela, mas para o meu irmão. Não
sei a profundidade da crise que minha mãe sofreu, e gostaria que ela tivesse passado mais
tempo no analista que na professora de Ioga Instrumental. Fato é que nesse ano de 2017
senti-me desprezado. O ninho com espinho. Cada passo em direção à independência era
uma nova crise bélica, sempre lastreada pela conta bancária, argumento final das
conversações. Sou filho quando há necessidade, adulto quando precisam. O Lucas que
viajou a cada feriado, que pegava oito horas de Cometa e ainda tinha que correr pegar um
ônibus intermunicipal em Piracicaba por que meu pai “não se sentia confortável” em me
buscar. O Lucas que precisa fazer a liga na festa de família, que permite um ambiente
descontraído, que conversa com o avô, que leva a avó na igreja, que ajuda a manter tudo
certo, por que todo o resto da família está em crise, por que há brigas, há disputas
pequenas, há birra de irmãs que gritam por nada. E há o Lucas, que tá sempre tudo bem,
pode pisar. O Lucas é tranquilo... o Lucas é muito nervoso, o discurso é flexível e o
chiclete c’est moi. O pior é que estou chateado, e minha mãe faz o papel de magoada com
qualquer não. Meu pai permite-se ausente até que irrompe de palavras vazias para que as
coisas voltem ao status quo. Sou um punk; um revoltoso; quebra de decoro! Eu sou
também meu pai. Meu vazio é hereditário. Sou síntese e antítese. Meses de estudos que
não foram feitos na sua completude, você tinha razão e me sinto um idiota por duvidar,
confundi provocações e considerações. Não que queira tirar o meu da reta, mas sempre
achei que havia uma luz do fim do túnel, que meus pais tinham entendido que aquilo era
um passo pra minha maturidade e formação. Acabei na mesma plataforma de embarque
que meu irmão, apertem os cintos senhores passageiros. Demorei a acreditar, mas não fui
levado a sério –Porra Chorão! O Lucas que tá sempre tudo bem não está mais tão bem.
Eu não cobro nas coisas que doei, nos momentos que ajudei, que me permiti ser o que
considerava bom. Nem acho justo ajudar e cobrar. É muita mesquinhez brigar por pouco,
é invalidez moral cobrar por algo que escolhemos fazer, narciso não deve falar. E é assim
que me sinto, sempre que digo algum não ou que escolho diferente, sou persuadido por
hydras de mil cabeças, feita o pecado inicial, a comer a maçã. Inocente até que se prove.
Sou sempre conduzido pelo peso da ajuda que me foi prestada. É a ajuda que serve para
ser garantia... novamente, sou sempre a bengala da situação. Descobri com Janis e você,
o que é se doar e não cobrar. Que ajudar é um ato de amor, não de medo. Eu não quero
mais ter medo.

Os meses em Rio Claro foram torturantes. E acabamos canalizando nossa angústia


em cima da única pessoa que nos ajudou de forma plena: você. O choro também foi de
raiva, sangrei pela minha ignorância e desprezo. O hiato do almoço foi um erro profundo.
Desprezamos e fomos desprezados, e você entendeu bem, queríamos um pedido de
desculpas, sentíamos você longe, a ilusão era um João-de-birra que se sentia muito acima
de nós. Frustação nossa condensada em panela de pressão com selo Duster de qualidade.

Não queria conhecer, dessa forma, esse João que você me apresenta. Queria que
tivesse sido feito presencialmente, que fosse mais calorosa do que os metais frios da tela
do notebook. Queria que essa fissão não tivesse acontecido. Fissão ou Fusão? Unicamp
perguntara. Contudo, ainda sim, permite que me aproxime mais de você ao conhecer
seu lado escuro da lua. Confesso que no fundo era um pouco de orgulho, sempre senti
que você mais se cobria do que se expunha conosco, senti-me menosprezado. Seríamos
demasiado inocentes para entender um João além da brincadeira?

Eu queria pedir desculpas, mas não queria que fossem entendidas como
automatismo civilizatório. Errei profundamente em não ir a Araras. Havia mais receio
que amizade. Meus pais nos contagiaram com ansiedade de um final de semana destruído.
Claro, não posso culpa-los por completo, mas há de se entender as seduções as quais
estava envolto, como sempre, nesses últimos meses, escolhi o que não era eu. Ilha Bella
foi uma viagem de férias da tia da Janis, não contamos no receio de ouvir novamente
sobre nossa não independência familiar, sobre as viagens que não fazemos sendo um
casal. Ficamos com medo de contar. Sampa fora birra, ainda esperávamos um pedido de
desculpas qualquer. Estávamos cegos de orgulho mordidos de descaso, chateados com
muitas coisas. Novamente, canalizamos na única pessoa que abriu portas e braços desde
o início. Desculpe João, não fui bom amigo. Desculpe por concentrar em você culpas que
não são suas. Desculpe por ter sido pequeno quando pude escolher ser mais. Cobri-me de
falsas premissas, tornei-me réu. Errei profundamente e não estávamos dormindo.

Há de se fazer uma correção, Janis não foi a mentora do crime. Na época, batia
em mim a vontade de ouvir você pedir os livros – já não me soava comigo -. Ambos
trocamos a amizade pelo orgulho. Orgulho esse que também nos custou muito e venho
pagando parcelas até então. Queria que não tivéssemos esse silêncio, em tantos momentos
queria ouvir sua voz, suas ideias, suas soluções, assim como quero agora. E calei-me em
silêncio estúpido. Meu choro é pretérito e é presente. É desespero, ver a areia correr pelos
dedos, amigo tão próximo, irmão, estar tão longe, e se afastar em silêncio. A troco de
quê? A troco de quê? Quer saber o resumo da ópera? Tivemos a competência de passar
em Bauru, sim. Escolhemos Juiz de Fora, numa ilusão de propaganda barata de menor
tempo pra se formar. Sair logo da graduação. Talvez o cheiro de graduação ainda tivesse
um gosto de tapioca da Maria... pura decepção industrial. Voltamos, arranjamos
apartamento, tudo indo muito bem! Café com professores, possibilidades de orientação...
O castelo de areia estava construído. Do outro lado da praia: a única universidade que
meu irmão passou foi a UFJF. E quem tem que pagar o pato, Dilma? Meu irmão está no
apartamento desde o dia 15 de Abril, numa incursão – e invasão – com selo de qualidade
lusitano de 1500. A floresta foi desbravada. Terra a vista! Descoberta ou invasão? Alegria
de quem? Sem nem consultar, foram chegando certezas de dividir em três, de alugar outro
apartamento maior, de reformar a sala em quarto, de camas retráteis, de triliches com
mesas. Senti-me sendo visitado pelo próprio Dom Pedro, minha casa estava prestes a se
tornar digna de ser vivida pela mais nobre realeza. Sangue – ou cabelo(?) – Azul. Após
uma briga, pois é a única forma que minha mãe enxerga as coisas quando digo não ou
ameaço refletir sobre algo. Esqueceram que tenho namorada? Que a Janis também mora
aqui? Que não posso ser babá e cuidar e ensinar os finos tratos da vida... essa tarefa não
é minha e não vou comprá-la. Estou desde então murcho, podre, não consigo ler, nem
fazer o que me planejei. Definhando. Ah! Então, eis que jovem Pedro, até alcançar a
maioridade para reinar, será condecorado pela posse de um apartamento – logo abaixo do
meu-. The Big Brother is Watching You! Minha independência se esfarela, enquanto isso,
na sinuca de bico, esfarelasse meu relacionamento, que aparentemente meus pais ainda
não aprenderam a levar a sério e tratar-nos como reais adultos. O desespero é
expressionista, é Munchiano. Devo isso aos meus pais ou é algo que não se pede a
ninguém? Brasil em crise, Síria em Crise, Juiz de Fora –novamente- em crise. Sou um
perfeito masoquista, sádico e perverso, pois levo Janis junto nessa. O navio não zarpou,
está afundando no cais. Queria voltar no tempo, queria perguntar: João, que cê acha? A
gente só deve a você a experiência Unicamp, saber do que a gente era capaz, e você foi o
primeiro a acreditar, e eu lhe agradeço muito por isso. Estamos assim, loucos, sem saber
se continuamos a faculdade, se cancelamos matrícula e voltamos pra SP pra no final do
ano passarmos em Bauru novamente. Quem sabe Unicamp. Fato é que estamos fartos,
exaustos, desiludidos, desintegrados. Não nos reconhecemos.

Dói-me muito pensar em todo esse silêncio. E você tem razão, falar do passado é
falar da gente. Ainda mais agora, que por tanto tempo não nos permitimos ter tido um
presente, uma troca de sorrisos ou pelo menos um abraço antes da rodoviária. No dia que
voltamos a Juiz de Fora, eu rezava internamente, que você tivesse algum motivo pra estar
na rodoviária de campinas aquele dia. Eu suplicava pra ver seu rosto no longe, pra ter um
motivo pra conversar, pra ter um motivo pra nos impedir de viajar. Pra gente se acertar
antes de tudo, pra qualquer coisa que nos tirasse dessa rota de colisão. Esperava o próximo
compasso dessa composição wagneriana. Queria descer do ônibus, pois eram muitas as
incertezas.

Esse e-mail transformou muralhas em jardins. Poder entender o João, é entender


a gente. E me abro aqui, talvez, mais sincero que nunca, pois agora olho pra mim de forma
menos egocêntrica. De forma a pensar num eu, independente, adulto. A vida é dura fora
do ninho, era hipócrita em fingir que a enfrentava enquanto viaja para o abraço final. O
bom desse penhasco na nossa história, é que nos permitiu nos conhecermos.

“Pode ser tarde demais e pode ser que vocês não queiram conviver com as minhas
fraquezas”. Ultimamente, você é tudo o que precisávamos. Queríamos conviver o João
(in)completo.

“Eu, outro dia, vesti uma roupa sua, Lucas. E sorri.”. Eu no dia seguinte do e-mail, vesti
o sapato que me deu, nem percebi. (In)Conscientemente estava bem. Foi um bom dia, só
me dei conta no final do dia que aquele sapato era mais que só um sapato.
Você FAZ FALTA. Como nunca achei que fosse possível. Vivíamos desapegados
uns dos outros, e nos vimos necessários. VOCÊ FAZ FALTA PRA CARALHO! Não só
na tristeza, na perdição, mas nos momentos bons, momentos ótimos, momentos de
aventura. Quero um João recitando poesia beat à meia noite! Quero um João dividindo
umas tequilas! Quero um João trazendo as mais novas gafes do zé! Quero um João me
ajudando a entender a altura de um Márcio Seligmann! Quero um João que me apresenta
a melhor tapioca do mundo; que compra cogumelos, mas não lava porque perdem
nutrientes, eu quero outro convite de hamburgada pra que eu saia de Minas Gerais pra
Araras, porque esse Lucas não quer mais quer as boas coisas da vida com as pessoas que
se importam com a gente seja estragada por medo, inveja, decepção, orgulho, raiva,
desprezo. Eu não quero mais desprezo. Você é importante demais pra mim para desprezar.
Meu choro é raiva, raiva de mim mesmo! Você nunca negou nada desde que nos
conhecemos, e nos conhecemos por tão pouco... não podemos nos perder por menos
ainda. Não escolhemos ser amigos, precisamos uns dos outros, eu pelo menos só tenho
vocês dois, à quem falo e a quem calo, à quem choro e sorrio. Meu mais completo e aberto
eu, é pra você e pra Janis. Eu aceito o tritongo. Proponho um novo tomo para nós.
Também não quero meio-amor.

Desculpe por não resolver todos os pontos da carta, por talvez falar mais de mim
do que me explicar, mas acredito que dessa vez, ambos os assuntos se confundam e se
permeiam. Há tanto mais pra falar, pra chorar, pra perguntar, e não há espaço no branco
da folha e no preto do prensa que caiba. É demais, e gostaria que fosse pessoalmente,
gostaria de um abraço do velho amigo. Gostaria de muitas coisas...

Brinquei de poeta novamente, algo que fiz antes de vestir o sapato. É pra você.

Com amor, saudade e ainda muita coisa pra dizer ao vivo e a cores,
Do seu mais que amigo
Luc.

P.S.: Contaremos as moedas, queremos estar presente dia 26.

PONTOS E PONTES

Há entre silêncios e sussurros muita dor


entrecortadas pelo vento
há vazios secos esperando
e há gritos e urros.

Há um sol que nasce atrás de nós


e esquenta a ponta da orelha

Há morte, e há o eterno jogo


bispo, cavalo, peão
há dúvidas e dádivas
entremeios e sustenidos
o som da flecha que corta
ouvidos

Há um sol que nasce atrás de nós


e esquenta a ponta da orelha

Corpo-seco cerca pela mata


estrada, sombra e luz enluarada
um, dois, três
vem soluçando datas
bocas tortas escorridas
convulsionadas

Há um sol que nasce dentro nós


esquenta a alma, fagulha acessa

Há versos curtos que


nos rasgam cortantes
há pontos e pontes
que nos falam atrás da orelha

Fiquei muito preocupado com vocês. Sexta-feira, dia 21, estarei em Juiz de Fora, ok? Tão
logo vocês me confirmem que estarão aí, passo o endereço de onde vou estar hospedado.

Com AMOR, muito AMOR,


João...

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