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O

CORAÇÃO A DEUS

Síntese da espiritualidade de João Calvino


Lucas Guimarães
(Organizador)


São Paulo - 2010
Copyright © 2010 by José Antônio Lucas Guimarães
___________________

G963c | Guimarães, José Antônio Lucas

O coração a Deus: síntese da espiritualidade de João Calvino / José Antônio Lucas Guimarães. – São Paulo: Editora Ixtlan, 2010.

ISBN 978-85-910525-1-6 (versão impressa)

1. Calvinismo 2. Calvino, João, 1509-1569
I. Título

CDD 284.2
______________________

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610, de 19/02/1998.
Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em breves citações com indicação da fonte.
S|UMÁRIO


A|GRADECIMENTOS
P|REFÁCIO
A|PRESENTAÇÃO
I|NTRODUÇÃO
1| A SANTA ESCRITURA
2| A ESCRITURA: REGRA DA VIDA
3| CONHECER A DEUS
4| A VERDADEIRA FÉ CRISTÃ
5| PIEDADE E PROPÓSITO DE VIDA
6| O VALOR DO EVANGELHO
7| EVANGELHO: CAMINHO DE VIDA
8| EVANGELHO ASSEGURA A SALVAÇÃO
9| EVANGELHO: REMÉDIO AO DESESPERO
10| A ESSÊNCIA DA SALVAÇÃO
11| JESUS E O EVANGELHO
12| NADA PODE NOS AFASTAR DO EVANGELHO!
13| JESUS CRISTO (I)
14| JESUS CRISTO (II)
15| O ESPÍRITO SANTO
16| O ESPÍRITO NA ESCRITURA
17| TRISTEZA DO ESPÍRITO SANTO
18| BATISMO: SIGNIFICADO E PROVEITO
19| JESUS CRISTO: NOSSO ALIMENTO
20| CEIA DO SENHOR: FINALIDADE
21| CEIA DO SENHOR: EFICÁCIA
22| CEIA DO SENHOR: FOME DE DEUS
23| CEIA DO SENHOR: SAGRADO BANQUETE
24| CEIA DO SENHOR: REMÉDIO À FRAQUEZA
25| IGREJA: DEFINIÇÃO
26| IGREJA: COLUNA DA VERDADE
27| MARCA DA VERDADEIRA IGREJA
29| O VALOR DA IGREJA
29| PREGAÇÃO: EDUCADORA DA IGREJA
30| A RELIGIÃO PURA E REAL
31| HUMILDADE: CERNE DO CRISTIANISMO
32| CRISTIANISMO É AVANÇO SEMPRE!
33| CRISTÃOS NOMINAIS
34| AMOR: O CAMINHO EXCELENTE
35| AMOR: SEUS EXCELENTES FRUTOS
36| AMOR: ANTÍDOTO AO EGOÍSMO
37| AMOR: PACIÊNCIA E INOCÊNCIA
38| AMOR: SUA SUPERIORIDADE
39| AMOR AO PRÓXIMO (I)
40| AMOR AO PRÓXIMO (II)
41| O AMOR: NA ALEGRIA E NA DOR
42| IRA: CAMINHO DO ÓDIO
43| FÉ INCLUI PACIÊNCIA
44| SEM FÉ É PECADO!
45| A FÉ E A ACEITAÇÃO DIVINA
46| DÚVIDA: CAMINHO DA CONDENAÇÃO!
47| A ESPERANÇA NUTRE A FÉ
48| ESPERANÇA: ÂNCORA DA ALMA
49| ESPERANÇA, PACIÊNCIA E ORAÇÃO
50| PACIÊNCIA: PROVA DE FÉ
51| A PACIÊNCIA PRODUZ A PAZ
52| PACIFICADORES
53| A DEFESA DO REINO DE CRISTO
54| O COMBATE CRISTÃO (I)
55| O COMBATE CRISTÃO (II)
56| O COMBATE CRISTÃO (III)
57| MINISTÉRIO E ARMAS ESPIRITUAIS
58| A PALAVRA: ARMA DA FÉ
59| A FÉ: ESCUDO CONTRA OS ATAQUES
60| A VITÓRIA DA FÉ
61| VITÓRIA SOBRE O MAL
62| A GRAÇA DE DEUS E LIBERTAÇÃO
63| UNIDADE: ÓDIO ÀS DISCÓRDIAS
64| ORGULHO: CAUSA DE CONTENDAS
65| A PROPAGAÇÃO DA FALSIDADE
66| DIVERSIDADE DOS DONS
67| NÃO EXISTE PESSOA INÚTIL!
68| MUTUALIDADE E DONS
69| MINISTÉRIO: INSTRUMENTO DE DEUS
70| ELEIÇÃO: FUNDAMENTO
71| ELEIÇÃO E SANTIDADE
72| ELEIÇÃO: DEUS NOS CONDUZ A CRISTO
73| SANTIDADE E UNIÃO COM CRISTO
74| SANTIDADE É OBEDIÊNCIA A CRISTO
76| A SANTIFICAÇÃO DO CORPO
76| ORAÇÃO E TESOUROS DE DEUS
77| ORAR UNS PELOS OUTROS (I)
78| ORAR UNS PELOS OUTROS (II)
79| ORAR PELOS INIMIGOS
80| ORAÇÃO, AFLIÇÕES E PERSEVERANÇA
81| OFERTA: POR QUE NÃO FAZÊ-LA?
82| GENEROSIDADE: SEMENTE DE BÊNÇÃO
83| PIEDADE: SENTIR A DOR DO OUTRO
84| AMOR AO DINHEIRO (I)
85| AMOR AO DINHEIRO (II)
86| NÃO PERTENCEMOS A NÓS MESMOS
87| SANTO OU PROFANO?
88| O HOMEM EXTERIOR E REGENERAÇÃO
89| A RENOVAÇÃO DA MENTE
90| NOVA VIDA E PERFEIÇÃO
91| O RESPEITO AOS OUTROS
92| AUTONEGAÇÃO E A GLÓRIA DE DEUS (I)
93| AUTONEGAÇÃO E A GLÓRIA DE DEUS (II)
94| GLORIAR-SE NO SENHOR
95| VIVER PARA DEUS
96| VIVER COM MODERAÇÃO
97| CASAMENTO E SEXO
98| SUSTENTADO POR DEUS
99| NÃO HÁ COROA SEM CRUZ
100| REMINDO O TEMPO
C|ONSIDERAÇÕES FINAIS
R|EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
S|OBRE O ORGANIZADOR
A|GRADECIMENTOS


Agradeço ao presbítero Clayton Ramos, que tem sido meu pronto revisor em vários textos, e pela
belíssima apresentação à presente obra, e ao presbítero José Carlos de Souza Filho, o meu sempre pronto
primeiro leitor.
Agradeço ao Rev. Milton Ribeiro, Presidente do Presidente do Presbítero de Santos (PRST), por
sua prontidão em aceitar prefaciar a presente coletânea de textos de João Calvino.
Minha gratidão ao prof. Dr. Roberto Carlos G. de Castro pelo incentivo, leitura e revisão do
texto.
É impossível deixar de mencionar e agradecer aquele que tornou a função de pastor-auxiliar uma
experiência gratificante, e o sentimento de amizade, saúde ao coração: Reverendo Fábio Ferraz Ciribelli.
Agradeço a todos que, direto e indiretamente, fazem parte de minha vida e ministério.
P|REFÁCIO


Ao ser convidado a prefaciar essa obra idealizada pelo Pastor Lucas registro minha gratidão a
Deus pelos textos lidos e pela orientação segura e bíblica que Calvino nos dá. Sinceramente, sentia-me
incomodado ao ser informado da opinião de Calvino por terceiros. Embora bem-intencionados, nem
sempre conseguiam expor o que Calvino realmente pensava a respeito de determinado tema. As
traduções, embora levadas a termo por íntegros e peritos acadêmicos, serão sempre suscetíveis de
melhoria. Os textos elencados são unicamente de Calvino, sem qualquer interpretação ou hermenêutica,
ressalvadas as questões de tradução, outrora referidas. Na verdade, queria ouvir Calvino falando sobre
temas variados, até mesmo para, se preciso fosse, discordar dele e de suas ideias.
O que encontrei foi um homem piedoso e culto, sonho de todo líder, extremamente contemporâneo
e prático. Seus ensinos, pela simplicidade, margeiam a máxima acadêmica do “Óbvio desprezado”, isto
é, as grandes lições da vida cristã são originalmente simples e diretas, mas a grande massa de teólogos
despreza essas lições tão óbvias. Calvino as considera como preciosas verdades a serem
compartilhadas.
Creio que essa coletânea de textos será uma fonte de inspiração para a devoção de nosso povo e
recomendável não somente para conhecer o pensamento de João Calvino, mas para conhecer os
princípios da vontade de Deus para o nosso crescimento na pessoa de Cristo.

Rev. Milton Ribeiro
Presidente do Presbitério de Santos (PRST)
A|PRESENTAÇÃO


Dos humanos que não partilharam fisicamente da presença do Senhor Jesus, Paulo de Tarso foi o
homem que melhor compreendeu e expôs o trabalho do Salvador e a missão de Sua Igreja. Depois dele,
com afinco e santificação, os Pais da Igreja se empenharam na solidificação dela, na elaboração e na
defesa de exposição fiel das doutrinas bíblicas, mantendo seu foco no Criador e Gestor da História.
Alguns séculos depois daquele cerne de fieis nas mãos de Deus, agradou-se Ele de agraciar a
humanidade com outro homem excepcional: João Calvino. Fê-lo nascer na França, acreditou-o seu
teólogo, concedeu-lhe o dom de pastor de almas e designou-o para Genebra, a fim de exercitá-lo nas suas
lides, e, no exercício delas, beneficiar a sua Igreja, que ele mesmo edifica.
O Reverendo José Antônio Lucas Guimarães, Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, é, dos
homens que conheço, quem melhor expõe e ensina a respeito do trabalho de João Calvino.
Pastor e teólogo aplicado, embora adulto jovem, imerge mais e mais no conhecimento histórico,
na mente, no caráter, nas convicções e nas práticas de Calvino.
Nele, Reverendo Lucas Guimarães já identificou o líder, o estadista de sua época e lugar, o
erudito inigualável no tempo, o teólogo perspicaz e denso de fé, o sagaz exegeta do Velho e do Novo
Testamentos, o combativo demolidor dos adversários da fé pelo domínio do discurso e da Palavra. Nele
distinguiu o escritor concatenado, claro, preciso e conciso na apresentação de seu pensamento, o
obstinado reformador da sociedade e de seus costumes, o homem que levou seu físico às últimas
resistências para cumprir bem a missão. Viu o presidente praticando excelência, o disciplinador
exercitando justiça, o sábio conduzindo bem a política, o mestre habilidoso e praticante de seu ensino.
Conheceu o pensamento e a intenção de quem viveu com frugalidade e comportou-se com equilíbrio,
ainda que com firmeza.
O foco desta obra, porém, reside no melhor dom do Espírito Santo para Calvino: o de cuidador
de almas e apascentador de ovelhas no Senhor Jesus de Nazaré. Reside no Calvino da intercessão, no
Calvino da devoção, no Calvino do aconselhamento e da orientação, no Calvino servo-modelo, espelho
para lideranças desta geração, no Calvino pastor!
Esta síntese da espiritualidade de João Calvino é um vade mecum para o coração e para o
crescimento na estatura, na graça e no conhecimento de Cristo. É mentor seguro para a eficácia das
virtudes cristãs e para o aprendizado dos livramentos de Deus.
Suas concisões a respeito do amor, do combate cristão, da graça libertadora, da humildade, da
unidade, da eleição, da obediência, do batismo, da ceia do Senhor, da Igreja, sobre o Senhor Jesus e
outros temas somam uma centena de extratos do pensamento e do ensino do grande pastor do século XVI.
É trabalho inédito e de qualidade ímpar! Sem quaisquer aspectos de dúvidas, é eficaz manual, apropriado
ao que se destina.
Nos 500 anos do nascimento de João Calvino e 450 anos das Institutas; no sesquicentenário da
Igreja Presbiteriana do Brasil e no Jubileu de Ouro da Igreja Presbiteriana de São Vicente, da qual o
autor é Pastor-auxiliar, minha oração é que nossos irmãos nesta e nas demais cidades utilizem de modo
intenso este recurso auxiliar para seu crescimento e santificação.
Ao meu precioso irmão em Cristo, Reverendo José Lucas, no modo carinhoso, meu
reconhecimento por honrar-me com esta apresentação.

Clayton Ramos
Presbítero da Igreja Presbiteriana de São Vicente/SP.
I|NTRODUÇÃO

O CALVINO QUE EU QUERIA CONHECER

Amo ler os clássicos da espiritualidade cristã! É fascinante perceber como aqueles homens e
mulheres descreviam as virtudes cristãs com tanta beleza e profundidade, de forma a nos provocar fome
delas. É cativante vê-los dissecando a estrutura de uma virtude ou de um mal, revelando sua
essencialidade.
Com Calvino era diferente. Fui ensinado a estudá-lo para o combate teológico. Convidava-o não
para a mesa da comunhão devocional, mas para a arena da apologética e dos tratados da sistematização.
Quando por aqui foram lançados os comentários de João Calvino, eu os folheava em uma livraria
quando dois pastores chegaram e um deles comentou: - Eu esperava mais desses comentários! Naquele
momento ponderei comigo mesmo: Existe mais sim, muito mais nos escritos dele!
O Calvino que eu queria conhecer era aquele que fosse capaz de me instruir no caminho da
devoção cristã; de levar-me à profundidade do pensamento e à excelência da prática. Eu procurava um
mentor e considerava que Calvino era essa pessoa!
Foi desse desejo, de encontrar mentoria para a caminhada da devoção, que comecei a ler e ouvir
João Calvino. Minha leitura buscava a dinâmica da espiritualidade cristã em seus escritos.
Creio que Calvino nos legou, através de seu ministério pastoral e ensino, o resgate e
aprofundamento das virtudes cristãs, bem como a compreensão do sofrimento humano diante dos
infortúnios e o entendimento das superações. Desse pastor sei que flui essa fonte, perene desde a
Antiguidade cristã, que jorra e sacia a alma humana em sua sede de viver a graça do seguimento a Jesus
Cristo de forma plenamente engajada.

JOÃO CALVINO PARA O SÉCULO XXI

Em 10 de julho de 1509 nascia em Noyon, na França, o homem identificado como um dos cem
mais influentes do milênio. Seu nome: João Calvino!
Este é o Século das Personalidades! A confirmação desta lapidar realidade projeta o nome de
João Calvino, extrai sua vida e prática da obscuridade dos preconceitos e as lança vigorosamente para as
luzes do reconhecimento mundial.
Uma das obras compostas por João Calvino consta da lista das cem mais importantes já escritas
pelo ser humano. O sistema doutrinário enfatizado por ele é praticado por milhões de pessoas ao redor
do planeta, e o mais bem-sucedido sistema político-econômico da Terra teve sua concepção relacionada
a seu nome.
A sua produção literária e prática, em quase todas as áreas de humanidades, ultrapassa em muito
às de qualquer outro de sua geração, de muitas anteriores e de várias posteriores. Até nossos dias não se
registra parâmetro para a produção e a qualidade de produto apresentadas por João Calvino. Não é por
acaso que o teólogo suíço Karl Barth expressou de forma tão enfática: “Calvino é uma catarata... Eu
poderia, feliz e proveitosamente, assentar-me e passar o resto de minha vida somente com Calvino”.
Iniciando este século, o mundo evoca João Calvino: os 500 anos do seu nascimento e os 450 anos
de sua obra capital. Há indicativos de que esta geração exercitará as marcas desse revolucionário. Ele
cunhou o seu tempo. Ainda impacta uma humanidade carente de líderes, sedenta de homens nos quais
identifique integridade, caráter, retidão e lealdade à verdade. É o século da descoberta de João Calvino!
O pastor genebrino tornou-se cidadão do mundo, triunfou, e a História o imortalizou!
Enquanto acadêmicos ressaltam os aspectos sociais e políticos da obra de Calvino e outros
teologizam em nome dele, creio que o século XXI carece de conhecer o João Calvino pastor de corações
e de vidas, modelo transformador através da prática devocional cristã e da aplicação das virtudes
espirituais no cotidiano.
Quer saber por quê? Passo a apresentar as razões.
Primeiro, Calvino é, antes de tudo, pastor de almas! Encarnou esse ministério, viveu por ele e
por ele morreu. Como pastor, assumiu todas as dimensões da realidade humana, distinguindo delas as
sociais e políticas. Seu rebanho vivia uma realidade fortemente opressora. Cuidar da alma sem alimentar
o corpo não fez parte do pastorado de Calvino. Nisto aprendemos que a dinâmica do pastorado nos
remete ao envolvimento com toda a cidade, pois é nela que acontece a vida das pessoas.
João Calvino não é o pastor solitário de uma igreja local isolada! É o pastor de uma igreja local
inserida, relevante onde está, contextualizada e significativa para sua cidade, ainda que a mesma cidade
não apresente clara consciência disto.
Segundo, Calvino traz a mais profunda prática da espiritualidade. Este mundo é denso de almas
ávidas de palavras motivadoras e canalizadoras de compreensão da existencialidade humana e seus
conflitos, bem como das respostas que conduzam o coração humano à paz e à felicidade. As mensagens e
ensinos de Calvino são inspiração motivadora, competente manual ao coração e divã à alma cansada.
Concluindo, afirmo ser Calvino um dos mais proeminentes mestres de espiritualidade que o
Cristianismo já produziu em seus dois milênios de existência. Por esta evidência, torna-se imperioso
garimpar seus ensinos e práticas, até identificar a instrução que nos levará à doçura do amor de Cristo,
capaz de sarar corações despedaçados, restaurar ânimos e renovar a fé no esperar contra toda
desesperança.
Espero que nosso milênio descubra o autêntico João Calvino, que pastoreou sua igreja com o
coração completamente entregue a Deus. Espero que reconheça o homem que elevou a integridade acima
da hipocrisia e fez da misericórdia uma canção alentadora de corações. Espero que identifique nele o
cristão exaltando a honestidade, no encalço da verdade, assemelhando-se a Jesus de Nazaré, elegendo
estas práticas como alvo de sua vida. Calvino amou a Deus em completude, entregou a Ele seu coração e
devotou à Sua Palavra a mais pura lealdade. Espero ver internalizado e imitado o comportamento
daquele que superou afrontas com humildade; que encontrou na oração companheira ideal para resolver
problemas, e nas práticas espirituais força para vencer gigantes. Calvino jamais poupou empenho em
derrotar lobos que avançaram sobre o rebanho nem amor para cuidar das ovelhas. Ele protegeu a Igreja
com pena e papel, com palavra e coração, com oração e lágrimas, com sua vida e com sua morte!
O pastor e líder João Calvino entendeu que espiritualidade gera educação, saúde, bem-estar e
abrigo para quem não os tem. Ele tornou a espiritualidade, e suas práticas, produtora de universidades,
de escolas, de abrigos e de orfanatos, bem como transformou-a em administração de justiça e bem-estar
social.
João Calvino espargiu luz sobre sua geração e as vindouras. O Senhor o projetou como sólido e
confiável farol a guiar Genebra e a Europa ao porto seguro, credenciando sua administração e ensino
como um chamado do Senhor Jesus Cristo ao Evangelho da graça de Deus.
Na voz de cada carta aos amigos, até mesmo aos não amigos, Calvino esperava ver a força do
Evangelho vencer e a paz e o perdão reinarem. Ele devotou-se à verdade e desprezou a mentira; exaltou a
simplicidade e abandonou a vaidade; e amou mais a Cristo do que a si mesmo!
É inspirador examinar a História e identificar um herói como João Calvino. É maravilhoso
constatar o poder de Deus em Cristo forjando um homem para praticar virtudes e fazer a verdade
prevalecer.
Seja assim a apresentação de João Calvino neste século XXI e nos vindouros, até o retorno do
Senhor Jesus Cristo de Nazaré, para o louvor e a glória de Deus.

O CORAÇÃO A DEUS

Os textos que seguem fazem parte de minha experiência de ler João Calvino em busca de
encontrar a essência do Cristianismo e de uma vida significante com Cristo. Chamo de síntese devido ao
considerável número de temas selecionados das obras de Calvino. Eles são capazes de representar o
modo como ele pensava, cria, ensinava, praticava e esperava resposta dos cristãos quanto a esses
assuntos.
O título O coração a Deus refere-se ao lema de vida de Calvino. Sobre o oferecimento do
coração, Calvino orava: “A ti, Senhor, ofereço meu coração pronto e sinceramente”. Essa foi sua
declaração firme de entrega ao Senhor, a quem procurou amar com todo o seu coração, alma, mente e
força.
Minha intenção com esta síntese coincide com a de Calvino ao pregar e escrever: levá-lo a
entregar seu coração a Deus e, dessa forma, tornar Jesus de Nazaré o seu tesouro. À sombra dessa
intenção encontra-se aquela que pretende tornar a direção espiritual do pastor João Calvino conhecida da
Igreja protestante brasileira.
Pretendo conduzi-lo à leitura desse mestre de espiritualidade para que você tenha essa riqueza de
instrução como auxílio para melhor viver o Evangelho de Jesus Cristo e vencer as dificuldades humanas
e do seguimento ao Mestre.
Esta síntese da espiritualidade de João Calvino anela ser um manual para o crescimento na
estatura, na graça e no conhecimento de Cristo, nas virtudes cristãs e no exercício dos livramentos de
Deus.
Permita ao pastor João Calvino conduzi-lo aos pastos verdejantes, ao conforto amoroso com
Deus e à copiosa vida com Cristo. Atenda a voz da sabedoria, a fim de que se torne sábio segundo Deus!
Que no ano em que comemoramos os 500 anos do nascimento de João Calvino e 450 anos da
edição final das Institutas, Deus use essa coletânea de textos para a glória de seu nome ao edificar sua
Igreja e todo aquele que busca direção à vida plena e eterna.[1]
1| A santa Escritura


Que tesouro é a santa Escritura, quão excelente é nela a dignidade e quão inestimável é o
benefício que ela nos traz; como, em verdade, ela é o mais importante e precioso bem de que dispomos
nesse mundo, uma vez que ela é a chave que nos abre o reino de Deus e nele nos introduz para que
saibamos qual o Deus que devemos adorar e para quê Ele nos chama; ela é o caminho certo que nos
conduz de tal modo que não vaguemos errantes, de lá para cá, durante todo o tempo de nossa vida; é a
norma verdadeira para que possamos discernir entre o bem e o mal e nos exercitar no correto serviço de
Deus, para que não ajamos irrefletidamente, indo atrás de mesquinharias de nenhum valor e, por vezes,
buscar nossa devoção em coisas que Deus condena e reprova como sendo maléficas; a Escritura é a luz
que nos guia, ou, a lâmpada que nos ilumina em meio às trevas deste mundo para que não tropecemos,
como pobres cegos, em tantas pedras de escândalo que estão ao redor de nós e, ainda pior, não caiamos a
cada passo; ela é a escola de sabedoria – na verdade, a sabedoria que sobrepuja todo o entendimento
humano e que até mesmo os anjos a admira; ela é o espelho no qual contemplamos a face de Deus para
que sejamos transfigurados em sua glória; é o cetro real por meio do qual nos governa como povo dele, e
é o cajado que ele nos dá como sinal de que nos quer pastores; é o instrumento da Aliança que Ele fez
conosco, trocando reconhecimento voluntário por sua bondade gratuita de estar inteiramente unido a nós
por meio da qual podemos ter descanso em nossas consciências, sabendo onde jaz a nossa salvação; ela é
a pastagem única de nossas almas para nutri-las até alcançar a vida eterna. Em resumo, a Escritura é o
único meio pelo qual podemos nos diferenciar dos pagãos e dos infiéis conquanto mantenhamos uma
religião segura e alicerçada na verdade infalível de Deus, ao contrário de todos aqueles que se deixam
levar por opiniões duvidosas, ou, então, se enrijecem em obstinação perversa sem certeza alguma.[2]
Eis aqui o princípio que distingue nossa religião de todas as demais, ou seja: sabemos que Deus
nos falou e estamos plenamente convencidos de que os profetas não falaram de si próprios, mas que,
como órgãos do Espírito Santo, pronunciaram somente aquilo para o qual foram do céu comissionados a
declarar. Todos quantos desejam beneficiar-se das Escrituras devem antes aceitar isto como um princípio
estabelecido, a saber: que a lei e os profetas não são ensinos passados adiante ao bel-prazer dos homens
ou produzidos pelas mentes humanas como sua fonte, senão que foram ditados pelo Espírito Santo.[3]
2| A Escritura: regra da vida


A meta da nova vida em Cristo é que os filhos de Deus exibam a melodia e harmonia em sua
conduta. Que melodia? A canção do Deus de justiça. Que harmonia? A harmonia entre a justiça de Deus e
nossa obediência.
Andando unicamente na maravilhosa lei de Deus, podemos estar seguros de nossa adoção como
filhos do Pai.
A lei de Deus contém em si mesma a dinâmica da nova vida por meio da qual restaura sua
imagem em nós; porém, por natureza somos preguiçosos e negligentes, portanto, necessitamos da ajuda e
do estímulo de um princípio que nos guie em nossos esforços. Um arrependimento sincero de coração não
garante que não venhamos a nos desviar do caminho reto. E como agravante, muitas vezes nos
encontramos perplexos e desconcertados.[4]
A lei divina contém um plano adequado e ordenado para a regulação de nossa vida; porém nosso
Pai celestial quer dirigir os homens por meio de um princípio-chave excelente. É dever de todo crente
apresentar seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, como indica a Escritura. Nisto
consiste a verdadeira adoração.
O princípio da santidade nos leva à seguinte exortação: “Não se amoldem ao padrão deste
mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e
comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” É muito importante estarmos consagrados e
dedicados ao Senhor, pois isso significa que pensamos, falamos, meditamos ou fazemos qualquer coisa
tendo como motivo principal a glória de Deus.[5]
Busquemos, pois, na Escritura o princípio fundamental para reformar e orientar nossa vida.[6]
3| Conhecer a Deus


De fato, entendo como conhecimento de Deus aquele em virtude do qual não apenas concebemos
que Deus existe, mas ainda apreendemos o que nos importa dele conhecer, o que lhe é relevante à glória,
enfim, o que é proveitoso saber a seu respeito. Ora, falando com propriedade, nem diremos que Deus é
conhecido onde nenhuma religiosidade há, nem piedade. E aqui ainda não abordo essa modalidade de
conhecimento pela qual os homens, em si perdidos e malditos, apreendem a Deus como Redentor, em
Cristo, o Mediador. Ao contrário, estou falando apenas desse conhecimento primário e singelo, a que nos
conduziria a própria ordem da natureza, se Adão se conservasse íntegro.
Ora, se bem que nesta ruinosa situação do gênero humano já ninguém sentirá a Deus, seja como
Pai, seja como autor da salvação, seja como de qualquer maneira propício, até que Cristo se interponha
como agente mediador para apaziguá-lo em relação a nós, todavia uma coisa é sentirmos que Deus, como
nosso Criador, nos sustenta com seu poder, nos governa em sua providência, nos provê em sua bondade e
nos cumula de toda sorte de bênçãos; outra, porém, é abraçarmos a graça da reconciliação que nos é
proposta em Cristo.
Embora nossa mente não possa apreender a Deus sem que lhe renda alguma expressão cultual,
não bastará, contudo, simplesmente sustentar que ele é um e único, a quem importa ser de todos cultuado
e adorado, se não estamos também persuadidos de que ele é a fonte de todo bem, para que nada
busquemos de outra parte senão nele.
Eu o recebo nestes termos: não só que uma vez ele criou este mundo, e de tal forma o sustém por
seu imenso poder; o regula por sua sabedoria; o preserva por sua bondade; rege com sua justiça e
equidade especialmente ao gênero humano; suporta-o em sua misericórdia; guarda-o em sua proteção;
mas, ainda que em parte alguma se achará uma gota ou de sabedoria e de luz, ou de justiça, ou de poder,
ou de retidão, ou de genuína verdade, que dele não emane e de que não seja ele próprio a causa; de sorte
que aprendamos a realmente dele esperar e nele buscar todas essas coisas; e, após recebidas, a atribuir-
lhas com ação de graças. Ora, este senso dos poderes de Deus nos é mestre idôneo da piedade, da qual
nasce a religião.[7]
Conhecido Deus desta forma, visto saber que ele a tudo governa, confia ser ele seu guia e
protetor, e assim se entrega a toda sua guarda; porque entende ser ele o autor de todo bem, se algo o
oprime, se algo lhe falta, de pronto a sua proteção se recolhe, dele esperando assistência; visto que está
persuadido de que ele é bom e misericordioso, nele repousa com segura confiança, nem duvida que a
todos os seus males em sua bondade haverá de ter sempre preparado o remédio; visto que o reconhece
por Senhor e Pai, também o julga digno de atentar à sua soberania em todas as coisas, sua majestade
reverenciar, sua glória promover, seus preceitos obedecer; porque percebe ser ele justo juiz e armado de
sua severidade para punir os crimes, tem sempre diante dos olhos seu tribunal, e no temor que por ele
nutre, se retrai e coíbe de provocar-lhe a ira. Todavia, não significa que a tal ponto se deixa apavorar
pelo senso de seu juízo que, embora lhe seja patente o meio de evadir-se, queira fazê-lo. Antes, não
menos o abraça como o juiz dos maus quanto é ele o benfeitor dos piedosos; uma vez que compreende
que tanto pertence à glória de Deus dar aos ímpios e perversos o castigo, como também aos justos o dom
da vida eterna. Além disso, refreia-se de pecar não só pelo temor do castigo, mas porque ama e
reverencia a Deus como Pai; honra-o e cultua-o como Senhor; e mesmo que não existisse nenhum inferno,
ainda assim treme só à ideia da ofensa.[8]
4| A verdadeira fé cristã


A verdadeira fé cristã, a única que de fato merece ser chamada fé, não se satisfaz com um simples
conhecimento da história, e se estabelece no coração do homem, limpando-o o corante, da ficção e da
hipocrisia que o cobriam, e ocupando-o de tal maneira que não há o que a faça desaparecer levianamente.
Se a fé se desvia da Palavra, já não é mais fé, mas uma credulidade incerta e um erro flutuante. A
mesma Palavra é também o fundamento em que a fé se sustém e se apoia, e, se for retirada desse
fundamento, imediatamente cai. Se a Palavra for retirada, não restará mais nenhuma fé.
Porque não é apenas questão de saber que existe um Deus pelo entendimento da fé; é
principalmente, a necessidade de entendermos qual a sua vontade com relação a nós. Pois não somente
nos é útil sabermos que ele existe, mas também o que Ele quer que nós sejamos.
Ademais, não é suficiente crer que Deus é verdadeiro, que não lhe é possível mentir e enganar, se
você não tiver a resoluta convicção de que tudo o que procede do Senhor é verdade firme e inviolável.
Se, porém, o coração do homem não for confirmado na fé por alguma palavra de Deus, será
necessário verificar o que a fé vê propriamente na Palavra.
Mas o que buscamos agora é o que a fé encontra na Palavra, para nisso apoiar-se e descansar. Se
a nossa consciência só vê indignação e vingança, como não tremerá de pavor? E se tiver pavor de Deus,
como não fugirá dele? Ora, a fé deve procurar a Deus, não fugir.
E que será, se no lugar da vontade colocarmos a benignidade ou a misericórdia? Certamente,
desse modo, nos aproximaremos mais da natureza da fé. Porquanto seremos movidos a buscar a Deus
depois de havermos aprendido que nele está o nosso bem. Isso ele mesmo declara, assegurando-nos de
que ele cuida da nossa salvação. Porque nós precisamos ter a promessa da sua graça, na qual nessa
promessa o coração do homem pode repousar.[9]
Se é que estamos assim determinados, temos agora uma definição completa de fé, que pode ser
expressa nestes termos: a fé é um conhecimento firme e certo da boa vontade de Deus para conosco, e,
fundamentada na promessa gratuita em Jesus Cristo, é revelada ao nosso entendimento e selada em nosso
coração pelo Espírito Santo.[10]
Assim, se não quisermos que a fé trema e oscile de um lado a outro, é necessário que nos firmemos
na promessa da salvação que o Senhor nos oferece por sua vontade e por sua generosidade, tendo mais
em conta a nossa miséria que a nossa dignidade.[11]
A única forma pela qual podemos persistir na fé verdadeira é firmando-nos no fundamento, e não
nos apartando dele um mínimo sequer. Qualquer um que não se firma em Cristo, mesmo quando venha a
compreender o céu e a terra, na verdade não conhece nada senão uma mera vaidade. Todos os tesouros
da sabedoria celestial estão incluídos em Cristo.[12]
5| Piedade e propósito de vida


Chamo piedade à reverência associada com o amor de Deus que nos proporciona o conhecimento
de seus benefícios. Pois, até que os homens sintam que tudo devem a Deus, que são assistidos por seu
paternal cuidado, que é ele o autor de todas as coisas boas, daí nada se deve buscar fora dele, jamais se
lhe sujeitarão em obediência voluntária. Mais ainda: a não ser que ponham nele sua plena felicidade,
verdadeiramente e de coração nunca se lhe renderão por inteiro.[13]
E, realmente, todos os que ignoram o propósito para o qual vivem não passam de tolos e
dementes. Servir a Deus, porém, é o propósito para o qual nascemos e para o qual somos preservados
com vida. Não existe cegueira pior, nem insensibilidade tão aviltante como o desprezarmos a Deus e
depositarmos nossas afeições em outras coisas. Pois, não importa quanto engenhosidade possuam os
perversos, eles são destituídos do que é primordial, a saber, a genuína piedade.[14]
A piedade é o ponto de partida, o meio e o fim do viver cristão; e onde ela é completa, não existe
lacuna alguma. Cristo não seguiu um modo retirado de vida como João Batista, e no entanto não lhe era
absolutamente inferior, nem um mínimo sequer. Portanto, a conclusão é que devemos concentrar-nos
exclusivamente sobre a piedade, pois quando a tivermos alcançado, Deus não requererá de nós nada
mais.[15]
Devemos observar que a piedade inclui não só uma consciência íntegra em relação ao homem e
reverência em relação a Deus, mas também fé e oração.[16]
6| O valor do Evangelho


Sem o evangelho não podemos saber o que Deus nos ordenou ou nos proibiu realizar, não temos
capacidade para distinguir entre o bem e o mal, a claridade das trevas, não distinguimos os mandamentos
de Deus das constituições humanas, sem o evangelho toda riqueza é pobreza, toda sabedoria é loucura
perante Deus, a força é fraqueza, toda a justiça humana é condenada por Deus. Mas pelos conhecimentos
do evangelho, nós somos feitos filhos de Deus [Gl 4.6], irmãos de Jesus Cristo, concidadãos dos santos
[Ef 2.19], cidadãos do reino dos céus [Rm 8.17], pelo qual os pobres são feitos ricos, os fracos,
poderosos, os loucos, sábios; os desolados serão consolados, os que duvidam terão certeza, os escravos
serão libertados. O evangelho é palavra de vida e verdade. É o poder de Deus para a salvação de todos
os crentes pois é a chave da sabedoria de Deus que abre a porta do reino dos céus aos fiéis desligando-
os dos pecados, e a fecha aos infiéis ligando-os aos seus pecados [cf. Mt 18.18]. Felizes são todos os
que a ouvem e aguardam [Lc 11.28]. Pois por isto mostram que são filhos de Deus. Infelizes são aqueles
que não querem nem ouvi-la, pois eles são filhos do diabo.[17]
Daí concluímos que o evangelho nos é oferecido com este propósito, a saber: para que ele nos
conduza ao conhecimento de Deus; e por esse conhecimento sua benevolência se torne experienciada
entre nós, porquanto Cristo é o Autor do evangelho em qualquer forma que o mesmo se manifeste entre os
homens.[18]
7| Evangelho: caminho de vida


Ó cristãos e cristãs, prestai atenção aqui e aprendei, pois o ignorante com sua ignorância
perecerá tal como o cego que, guiado por outro cego, cairá com ele na cova [Lc 6.39]. Não há senão um
caminho para a vida e a salvação, e este é a fé e a certeza das promessas de Deus, e este caminho não se
pode ter sem o evangelho, e, ouvindo-o e compreendendo-o, a fé viva é doada, com firme esperança,
perfeita caridade e amor fervoroso ao próximo. Onde está então vossa esperança se vós desprezais e
desdenhais ouvir, ver, ler e reter este santo evangelho? Aqueles que têm suas sensações fincadas neste
mundo perseguem por todos os meios aquilo que pensam convir à sua felicidade sem poupar nem
trabalho, nem corpo, nem vida, nem renome. E todas essas coisas são realizadas para servir a este corpo
infeliz cuja vida é tão insana, miserável e insensata. Quando se trata da vida imortal e incorruptível, e de
todos os tesouros do paraíso, não nos empreenderíamos para alcançá-los?[19]
Nada poderá encher-nos de mais coragem do que o reconhecimento de que fomos chamados por
Deus. Pois desse fato podemos inferir que o nosso labor, que está sob a direção divina e no qual Deus
nos estende sua mão, não ficará infrutífero. Portanto, pesaria sobre nós uma acusação muito grave caso
rejeitássemos o chamado divino. Contudo, deve exercer sobre nós uma influência muito forte ouvir:
“Deus te chamou para a vida eterna. Cuidado para que não te desvies para alguma fantasia, ou de alguma
forma fracasses no caminho antes que o tenhas percorrido.”[20]
8| Evangelho assegura a salvação


Se acima de tudo o poder de Deus tem de ser sublimemente considerado, então que se saiba que
esse poder emana do evangelho. Se é indispensável que busquemos e amemos a benevolência divina,
então que se saiba que o evangelho é o instrumento dessa benevolência, e é indispensável que o mesmo
seja honrado e valorizado, visto que se deve todo respeito ao poder de Deus, e que devemos amá-lo à
medida que nossa salvação vai sendo assegurada.[21]
O evangelho é realmente oferecido a todos para sua salvação, mas seu poder não se manifesta
universalmente. O fato de que o evangelho é aroma de morte para os ímpios não vem tanto de sua
natureza, mas da própria perversidade humana. Ao determinar um caminho de salvação, ele elimina a
confiança em quaisquer outros caminhos. Quando os homens se retraem desta salvação singular, eles
encontram no evangelho uma segura evidência da própria ruína deles. Quando, pois, o evangelho convida
a todos a participarem da salvação, sem qualquer distinção, ele é corretamente designado a doutrina da
salvação. Pois Cristo é nele oferecido, cujo ofício particular é salvar aquele que se acha perdido, e
aqueles que recusam ser salvos por Cristo encontrarão nele seu próprio Juiz. Na Escritura, a palavra
salvação é estabelecida em oposição à palavra morte; e quando ela ocorre, devemos considerar qual é o
tema em discussão. Portanto, visto que o evangelho livra da ruína e da maldição da morte eterna, a
salvação que ele assegura não é outra senão a vida eterna.[22]
Eis o propósito da salvação que obtemos em Cristo. Pois o alvo de nossa salvação consiste em
vivermos para Deus, e isso começa com nossa regeneração e se plenifica com nossa total libertação das
misérias desta vida mortal, quando Deus nos tomar e nos reunir em seu reino.[23]
9| Evangelho: remédio ao desespero


Ainda que o evangelho é a razão ou motivo de morte para muitos, ele ainda é corretamente
chamado a doutrina de vida, ele é o meio de regeneração e graciosamente oferece a reconciliação com
Deus. Mas, em razão de a lei só prescrever regras para o bom viver sem reformar o coração do homem
na obediência da justiça, e ameaça os transgressores com a morte eterna, nada mais pode fazer senão
condenar. Ou, pondo de outra forma, é a função da lei mostrar-nos a doença sem oferecer qualquer
esperança de cura; e é a função do evangelho fornecer o remédio para os que vivem em desespero. Uma
vez que a lei abandona o homem e o entrega a si mesmo, ela o destina a uma morte inevitável; enquanto
que o evangelho o leva a Cristo e assim lhe abre os portões da vida. Matar é, portanto, um acidente
(accidents) perpétuo e inevitável da lei, como diz o apóstolo em outro lugar: “Tudo o que permanece sob
a lei está sujeito à sua maldição” [Gl 3.10], mas o evangelho nem sempre mata, porque nele “é revelada a
justiça de Deus de fé em fé”, porquanto ele é “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”
[Rm 1.16,17].[24]
10| A essência da salvação


É preciso entender que é pela benevolência de Deus, que a fé contempla, que temos a salvação e
a vida eterna. Porque, se de nada podemos ter falta quando Deus nos é propício, ou favorável, para que
tenhamos certeza da salvação, basta que ele nos certifique de que nos ama. “Faze resplandecer o teu
rosto”, clama o profeta, “e seremos salvos.”
Por isso a Escritura coloca o ponto supremo da nossa salvação nesta verdade: que Deus, tendo
abolido toda inimizade, recebeu-nos em sua graça. Com isso a Escritura nos quer dizer que, estando Deus
reconciliado conosco, todas as coisas concorrem para o nosso bem, sem perigo algum. Porque a fé,
assegurando-se do amor de Deus, juntamente com a certeza do seu amor tem também as promessas da
vida presente e da futura, e a firme segurança de todos os bens, como se pode ver pela palavra do
evangelho. Certo é que a fé não promete vida longa, nem grandes honras, nem riquezas abundantes na
presente vida. Isso porque o Senhor não quis que nenhuma coisa fosse um empecilho para nós, mas, sim,
que a fé esteja satisfeita com esta certeza: por mais que nos faltem as coisas necessárias para esta vida,
Deus nunca nos faltará. Pois a principal segurança da fé está na esperança da vida eterna, que nos é
proposta na Palavra de Deus sem deixar lugar a nenhuma dúvida.
Entretanto, sejam quais forem as calamidades e misérias que sobrevenham aos que Deus uma vez
acolheu em seu amor, não podem impedir que a singular benevolência de Deus seja plena felicidade para
eles. Por isso, quando quisemos dizer em que consiste a suprema felicidade, dissemos que é a graça de
Deus – manancial de que nos vêm todas as espécies de bens.[25]
11| Jesus e o Evangelho


A Escritura também o chama evangelho, quer dizer, Boa Nova, e alegre, pois nele está declarado
que Cristo, único, de pura origem e eterno Filho do Deus vivo, foi feito homem para nos fazer, por
adoção, filhos de Deus seu Pai [Rm 8.15; Gl 4.5]. E desta maneira Ele é o nosso único Salvador no qual
jaz inteiramente nossa redenção, paz, justiça, santificação, salvação e vida, o qual morreu por nossos
pecados, ressuscitou para nossa santificação, o qual subiu ao céu para nossa entrada, isto é tomar posse
por nós e em nosso nome, para sempre intervir perante seu Pai, como nosso intercessor e perpétuo
sacrificador, que está sentado à sua direita, como rei, constituído Senhor e Mestre acima de tudo, a fim de
reparar todas as coisas no céu e na terra; isto é o que todos os anjos, patriarcas, profetas e apóstolos não
teriam jamais podido nem sabido fazer [Hb 7 e 8]. Porquanto para isto não foram ordenados por Deus.
E assim como o Messias havia sido tantas vezes prometido no Velho Testamento, também Jesus
Cristo foi, por seguros e indubitáveis testemunhos declarado ser aquele, e ninguém mais, que estava para
vir e que era o esperado. Pois o Senhor Deus, pela sua voz e seu Espírito, por seus anjos, profetas e
apóstolos, na verdade por todas as suas criaturas, nos tem inteirado disso de uma forma tão suficiente e
certeira que ninguém poderia contradizê-lo sem resistir e rebelar contra seu poder.[26]
Todos os elementos e todas as criaturas têm glorificado a Jesus Cristo. A seu comando, os ventos
cessaram, o mar agitado apaziguou-se [Mt 8.26 par], o peixe trouxe a dracma em seu ventre [Mt 17.24-
27]; as rochas, para renderem-lhe testemunho, fenderam-se, o véu do Templo rasgou-se ao meio, o sol
obscureceu-se, os túmulos foram rompidos e muitos corpos ressuscitados [Mt 27.45 ss, par.]. E nunca
houve nada, nem no céu, nem na terra, que não tenha testemunhado ser Jesus Cristo seu Deus, Senhor e
Mestre, e o grande Embaixador do Pai enviado à terra para realizar a salvação da humanidade. Todas
essas coisas nos são anunciadas, demonstradas, escritas e assinaladas neste Testamento por meio do qual
Jesus Cristo nos faz herdeiros do reino de Deus seu Pai e nos declara a sua vontade para que esta seja
executada, tal qual um testamenteiro aos seus herdeiros [cf. Ef 1.11].
Ora, somos todos convocados a esta herança sem privilégio de pessoas, sejam elas homem ou
mulher, criança ou adulto, servo ou senhor, mestre ou discípulo, clérigo ou leigo, hebreu ou grego, francês
ou latino, ninguém está excluído desta herança, isto é, qualquer um que por uma fé autêntica receber
aquilo que lhe é enviado, aceitar o que lhe é apresentado, em suma, qualquer um que reconhecer em Jesus
Cristo aquele que foi doado pelo Pai.[27]
12| Nada pode nos afastar do Evangelho!


Então, o que poderia nos afastar e nos alienar deste santo evangelho? Seriam injúrias,
maledicências, afrontas, perda de honrarias humanas? Mas sabe-se bem que Jesus Cristo passou por este
caminho, o qual se deve seguir se queremos ser seus discípulos e não temer o desprezo, o escárnio, a
humilhação, ser repelido pelos homens para ser honrado, estimado, glorificado e exaltado pelo
julgamento de Deus. Seriam exílios, as proibições, as privações de bens e riqueza que nos afastariam
dele? Mas sabemos bem que ao sermos banidos de um território, a terra é do Senhor, e quando expulsos
de toda a terra, sabemos que ainda assim não estaremos fora do reino de Deus; quando formos
despojados e empobrecidos sabemos que temos um Pai muito rico para nos nutrir, e sabemos também que
Jesus Cristo se fez pobre para que o seguíssemos na pobreza. Serão atribulações, sofrimentos, torturas,
tormentos? Mas nós sabemos pelo exemplo de Jesus Cristo que este é o caminho para alcançar a glória.
Finalmente, seria a morte? Mas ela não nos tira aquela vida que devemos almejar.
Em resumo, se temos Jesus Cristo conosco, não encontraremos coisa alguma maldita que não seja
bendita por Ele, ou coisa abominável que ele não a santifique, coisa tão má que Ele não a transforme em
bem para nós. Não esmoreceremos, pelo contrário, quando virmos todos os poderes e força do mundo.
Pois a promessa não nos faltará, segundo a qual o Senhor Altíssimo zombará de todos e de quaisquer
forças humanas que queiram conspirar contra Ele [Sl 2.4]. Não nos sentiremos desolados, como se toda a
esperança estivesse perdida, quando virmos morrer e perecer diante de nossos olhos os verdadeiros
servos de Deus, pois como foi dito verdadeiramente por Tertuliano, e sempre tem sido provado e assim
será até a consumação dos séculos, o sangue dos mártires é a semente da Igreja.[28]
Temos ainda uma melhor e mais forte consolação: é a de desviar nossos olhos deste mundo todo
e abandonar tudo o que podemos ver diante de nós, esperando com paciência o grande julgamento de
Deus, pelo qual num só instante será destruído, aniquilado e tombado tudo aquilo que os homens jamais
teriam conseguido tramar contra ele. Isto acontecerá quando o reino de Deus, agora na expectativa apenas
vislumbrado, será mostrado e Jesus Cristo aparecerá em toda sua glória, com os anjos. Então será
preciso que bons e maus estejam presentes diante do tribunal judicial deste grande Rei. Aqueles que se
mantiverem firmes neste Testamento e seguirem e guardarem a vontade deste bom Pai, estarão à sua
direita, como legítimos filhos e receberão a bênção, objetivo de sua fé, que será a salvação eterna. E,
quanto mais não se envergonharem em confirmar e professar a fé em Jesus Cristo quando forem
desprezados e desdenhados perante os homens, tanto mais serão participantes da sua glória, coroados
com Ele para sempre. Porém, os perversos, rebeldes e condenados que teriam desprezados e rejeitado
este santo Evangelho e, semelhantemente aqueles que, para manter suas honrarias, riquezas e altos postos,
não quiserem humilhar-se e rebaixar-se com Jesus Cristo e que por temer aos homens abandonarem o
temor a Deus, como bastardos e desobedientes a este pai, ficarão à sua esquerda. Serão lançados à
maldição e como castigo pela sua infidelidade receberão morte eterna [cf. Mt 25.31 ss].[29]
13| Jesus Cristo (I)


Ora, uma vez que tendes já compreendido que o evangelho vos apresenta Jesus Cristo, no qual
tendes as promessas e graças de Deus que serão cumpridas, vos declara que Ele foi enviado pelo Pai,
desceu à terra, viveu entre os homens, cumpriu tudo que era necessário à nossa salvação, como fora
predito na Lei, e pelos Profetas, deverá ficar para vós muito certo e documentado que os tesouros do
paraíso vos são nele abertos, e as riquezas de Deus expostas e a vida vos será revelada. Pois tal é a vida
eterna: conhecer um único e verdadeiro Deus e aquele que Ele enviou, Jesus Cristo, no qual Ele instituiu
o princípio, o meio e o fim de nossa salvação. Este é o Isaque, o filho bem-amado do pai, que foi
oferecido em sacrifício e que, no entanto, não sucumbiu ao poder da morte [Gn 22]. É também o vigilante
pastor Jacó, que com tanto cuidado tomou conta de suas ovelhas [Gn 30]. É o bom e piedoso irmão José
que, em meio à sua glória, não teve vergonha de reconhecer seus irmãos quão simples e desprezível que
fossem [Gn 45]. É o grande sacrificador e sumo sacerdote Melquisedeque, tendo feito sacrifício eterno
uma vez por todas [Hb 7.27]. É o supremo legislador Moisés escrevendo sua lei sobre as tábuas de
nossos corações por intermédio de seu espírito. É o fiel capitão e guia Josué para nos conduzir à terra
prometida. É o nobre e vitorioso rei Davi sujeitando sob suas mãos toda a força rebelde. É o magnífico e
triunfante rei Salomão governando seu reino em paz e prosperidade. É o forte e poderoso Sansão que
pela sua morte venceu todos os seus inimigos [Jz 16].[30]
14| Jesus Cristo (II)


Tudo aquilo de bem se poderia pensar ou desejar encontra-se unicamente em Jesus Cristo. Pois
Ele se humilhou para nos exaltar. Ele se fez escravo para nos libertar, Ele nos empobreceu para nos
enriquecer [2Co 8.9], Ele foi vencido para nos resgatar, preso para nos libertar, condenado para nos
absorver, fez-se solidário da maldição para nossa bênção [cf. Gl 13.13], fez-se oferenda de pecado para
nos justificar, descaracterizou-se para nos caracterizar, morreu para que vivêssemos, de tal modo que por
meio dele a rudeza foi suavizada, a ira foi abrandada, as trevas clareadas, a injustiça justificada, a
fraqueza, fortificada, a dor consolada, o pecado tolhido, o desprezo desprezado, o temor substituído pela
segurança, as dívidas quitadas, o trabalho aliviado, a tristeza será regozijo, a infelicidade tornada
felicidade, a dificuldade, facilidade, a desordem será ordem, a divisão, união, a desonra enobrecida, a
rebelião subjugada, a ameaça ameaçada, as armadilhas desarmadas, os ataques atacados, os motins
abafados, os combates combatidos, as guerras guerreadas, a vingança vingada, o tormento atormentado, a
condenação condenada, a ruína arruinada, o inferno encerrado, a morte, morta, a mortalidade tornar-se-á
imortalidade. Em resumo, a misericórdia absorveu toda a miséria, a bondade toda a maldade.
Pois todas essas coisas que eram as armas usuais do diabo para nos derrotar e nos ferir com o
aguilhão da morte, foram para nós transformadas em práticas de devoção para que por meio delas
tirássemos proveitos. É deste modo que podemos nos glorificar com o Apóstolo dizendo: “Ó inferno,
onde está a tua vitória? Ó morte, onde está teu aguilhão?” [1Co 15.55].[31]
15| O Espírito Santo


Segue agora a fé no Espírito Santo, a qual é essencial para a concretização da nossa salvação.
Porque, apesar do fato de que se declara que devemos buscar a nossa purificação e a nossa santificação
em Jesus Cristo, essas bênçãos só podem ser obtidas se nos forem comunicadas pelo Espírito Santo.[32]
Nossas mentes jamais se tornam suficientemente firmes, de modo que a verdade prevaleça em
nós contra todas as tentações de Satanás, enquanto o Espírito Santo não nos confirmar nela. A convicção
genuína que os crentes têm da Palavra de Deus, acerca de sua própria salvação e de toda a religião, não
emana das percepções carnais, ou de argumentos humanos e filosóficos, e sim da selagem do Espírito, o
que faz suas consciências mais seguras e todas e todas as dúvidas anuladas. O fundamento da fé seria
quebradiço e instável, se porventura ela repousasse na sabedoria humana; portanto, visto que a pregação
é o instrumento da fé, por isso o Espírito Santo torna essa pregação eficaz.[33]
Portanto, quando o Espírito Santo habita em nós dessa maneira, é ele que nos ilumina com a sua
luz para nos fazer entender as grandezas da bondade de Deus, que em Jesus Cristo possuímos. Tão
importante é o seu ministério que com justiça podemos dizer que ele é a chave com a qual são abertos
para nós os tesouros do reino celestial, e que a sua iluminação são os olhos do nosso entendimento, que
nos habilitam a contemplar os mencionados tesouros. Por essa causa, ele é agora chamado o penhor e
selo, visto que sela em nosso coração a certeza das promessas. Como também agora ele é chamado
mestre da verdade, autor da luz, fonte de sabedoria, conhecimento e discernimento. É ele que nos purifica
de toda impureza, consagra-nos, fazendo de nós templos de Deus, e nos adorna de tal maneira com a
santidade que somos feitos moradas de Deus. É ele que, derramando-se sobre nós, faz-nos férteis para
produzirmos frutos de justiça. Por essa razão, por vezes ele é chamado água, como nestas passagens:
“Ah! todos vós, os que tendes sede, vinde às águas.” Também, às vezes, ele é descrito em termos da sua
eficácia para lavar e purificar, como em Ezequiel, onde o Senhor promete água pura para purificar o seu
povo. É ele que nos restaura com o seu licor e destila em nós o vigor da vida, pelo que é chamado óleo e
unção. É ele que, queimando e consumindo os vícios da nossa sensualidade, inflama de amor o nosso
coração. Por esse poder ele é chamado fogo. É ele que inspira em nós a vida divina, para que não
vivamos mais de nós e por nós mesmos, mas sigamos os seu mover e a sua direção.
Portanto, se existe em nós algum bem, tudo isso é feito por sua graça e por seu poder. Por outro
lado, o que temos de nosso não passa de cegueira de espírito e perversidade de coração.
Vemos, pois, agora, quanto nos é proveitoso e necessário que a nossa fé seja dirigida ao Espírito
Santo, visto que nele encontramos a luz da nossa alma, a nossa regeneração e a comunicação de todas as
graças, como também a eficácia de todos os bens que para nós procedem de Jesus Cristo.[34]
16| O Espírito na Escritura


O Espírito que a Escritura nos mostra não favorece as diferentes formas de homicídio e de
sensualidade, a bebedice, o orgulho, a desavença imposta, a avareza e a fraude; mas é inspirador do vero
amor, da pureza, da sobriedade, da modéstia, da paz, da moderação e da verdade. O que se nota na
Escritura não é um espírito de ilusões fantasiosas nem de redemoinho a girar para lá e para cá
irrefletidamente, movendo-se tanto para o mal como para o bem, mas, sim, um espírito cheio de
sabedoria e de inteligência para discernir entre o bem e o mal. Esse espírito não impele o homem a uma
licenciosidade desenfreada, mas, como distingue o bem do mal, ensina o homem a seguir aquele e a fugir
deste. Para os cristãos, o Espírito de Deus não é uma tola imaginação que em seus sonhos teriam formado
ou tomado de outras pessoas. Eles o conhecem como a Escritura o mostra, na qual se afirma que ele nos é
dado em santificação, para conduzir-nos na obediência à justiça de Deus, havendo-nos purificado da
impureza e da imundície. Obediência que não é outra coisa senão que os desejos sensuais sejam domados
e subjugados. A seguir ele diz também que o Espírito nos purifica para a santificação, visto que sempre
nos restará muita fraqueza, enquanto estivermos enclausurados neste corpo mortal. Disso decorre que,
estando nós longe da perfeição, devemos procurar crescer diariamente; e que, estando nós envolvidos em
muitos hábitos pecaminosos, devemos combatê-los. Segue-se daí que nos é necessário vigiar com
cuidadosamente para evitar que sejamos traídos pela nossa carne. É necessário, pois, que não
repousemos, como se não corrêssemos perigo, e que não nos julguemos mais adiantados que o apóstolo
na santidade no viver, sendo que ele era molestado pelos aguilhões de Satanás, para que em sua fraqueza
fosse aperfeiçoado o poder.[35]
17| Tristeza do Espírito Santo


Visto que o Espírito Santo reside em nós, cada parte de nossa alma e de nosso corpo deve ser-lhe
consagrada. Se, porém, nos entregarmos a todo gênero de impureza, é como se o expulsássemos de seus
aposentos.
Visto que somos selados por Deus pela instrumentalidade de seu Espírito, nós o ofendemos
quando nos poluímos com toda sorte de paixões depravadas e ímpias, deixando assim de seguir sua
liderança. Não há linguagem que expresse adequadamente a seriedade desta afirmação: que o Espírito se
regozija e folga em nós, quando lhe somos obedientes em todas as coisas, e quando pensamos e falamos
somente o que é puro e santo; e, em contrapartida, que ele se entristece quando damos lugar a tudo quanto
é indigno de nosso chamamento. Ora, que todo homem reconheça que chocante impiedade há em causar
tristeza ao Espírito Santo com tal sentimento, como a compeli-lo a afastar-se de nós.[36]
18| Batismo: significado e proveito


O batismo é o sinal de iniciação pelo qual somos recebidos à sociedade da Igreja para que,
enxertados em Cristo, sejamos contados entre os filhos de Deus. Com efeito, o batismo nos foi dado por
Deus, primeiro – como ensinei ser comum a todos os mistérios –, para que servisse à nossa fé perante
ele; segundo para que servisse à nossa confissão perante os homens.
Ora, o batismo nos confere à fé três coisas. Este é o primeiro elemento que nos é proposto pelo
Senhor: que o batismo é o símbolo e comprovante de nossa purificação; ou, para explicar melhor o que
quero, que ele é um como que documento assinado, por meio do qual nos confirme que todos os nossos
pecados foram de tal modo apagados, riscados, cancelados, que jamais chegam à sua presença, jamais
são lembrados e jamais imputados. Pois ele quer que todos os que creram sejam batizados para remissão
de pecados [Mt 28.19; At 2.38].[37]
Ainda outro fruto depara o batismo, visto que nos mostra nossa mortificação em Cristo e nossa
nova vida nele. “Com efeito”, como diz o Apóstolo, “fomos batizados em sua morte; fomos sepultados
com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do
Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” [Rm 6.3, 4]; com cujas palavras não só nos exorta
à imitação, como se estivesse a dizer que somos admoestados pelo batismo a que, como que pelo
exemplo da morte de Cristo, morramos para nossos desejos pecaminosos; e, pelo exemplo de sua
ressurreição, a que sejamos soerguidos à justiça [Rm 6.5]; mas ainda aborda a matéria muito mais
profundamente, a saber, que pelo batismo Cristo nos fez participantes de sua morte, para que sejamos
nela enxertados. E, da mesma forma em que da raiz à qual foi enxertado, o broto tira substância e
alimento, assim aqueles que recebem o batismo da fé com que deve nutrir-se, sentem verdadeiramente a
eficiência da morte de Cristo na mortificação de sua carne, juntamente com a eficiência também da
ressurreição na vivificação do espírito. Assim sendo, no batismo nos é prometido, primeiro, o perdão
gratuito dos pecados e a imputação da justiça; segundo, a graça do Espírito Santo, que nos transforma
para novidade de vida.
Finalmente, nossa fé recebe também do batismo este proveito: ele nos atesta a certeza de que
fomos não só enxertados na morte e na vida de Cristo, mas ainda de tal modo unidos ao próprio Cristo,
que somos participantes de todas as suas coisas boas.[38]
19| Jesus Cristo: nosso alimento


Já que aprouve a nosso bom Deus receber-nos pelo batismo em sua Igreja, que é sua casa – à
qual deseja manter e dirigir – acolheu-nos não apenas como seus servos, mas também como seus próprios
filhos. Ora, para tornar-se bom pai, convém que nos alimente e abasteça de tudo o que é necessário à
vida. O mantimento do corpo, porque é comum a todos, repartido entre bons e maus, não é característico
de sua família.
É bem verdade que já temos um testemunho de sua bondade paterna nisso, que ele sustenta nosso
corpo natural, visto que participamos de todos os bens que nos dá com sua bênção. Mas porque a vida
regenerada por ele é espiritual, importa que seja também espiritual o alimento para nos conservar e
confirmar nela. De fato, devemos compreender bem que ele uma vez não apenas nos chamou para
possuirmos sua herança celeste, mas que, pela esperança, já nos introduziu de alguma forma nesta posse.
Não somente prometeu-nos a vida, mas já nos transferiu para dentro dela, retirando-nos da morte. Pois ao
adotar-nos como filhos, regenerou-nos pela semente da imortalidade que é sua Palavra, impressa em
nossos corações por seu Espírito Santo.
Para nos sustentar nessa vida espiritual, não é possível nutrir-nos com alimentos perecíveis. É
necessário alimentar nossas almas com manjar superior. Toda a Escritura nos afirma que o pão espiritual,
do qual nossas almas são supridas é a própria Palavra mediante a qual o Senhor nos regenerou; mas ao
mesmo tempo a Escritura acrescenta o motivo, a saber, que nesta Palavra Jesus Cristo, nossa única vida,
nos é dado e administrado. Não se deve pensar que haja vida fora de Deus. E assim como Deus constituiu
toda a plenitude da vida em Jesus – a fim de comunicá-la a nós desse modo – assim dispôs sua Palavra
como instrumento mediante o qual Jesus Cristo, com todas as suas graças, nos é dispensado.
Contudo isto permanece: nossas almas não têm outro alimento senão Jesus Cristo. Daí, o Pai
celeste, em seu afetuoso cuidado, não nos administra outro alimento. Antes nos recomenda encontrar todo
contentamento nessa refeição abundante. Dela não podemos abrir mão. Fora dela não se pode encontrar
nenhuma outra. [39]
20| Ceia do Senhor: finalidade


Uma vez que afirmar nossa comunhão com o corpo e o sangue de Jesus Cristo seja um mistério
tão elevado e incompreensível – e que, por outro lado, sejamos tão rudes e grosseiros que não podemos
entender as coisas mínimas de Deus – era necessário que nos fosse concedido compreender este mistério
segundo nossa capacidade de apreendê-lo.
Por esta razão para nós o Senhor instituiu sua Ceia, em primeiro lugar, a fim de assinar e selar
nossas consciências as promessas de seu evangelho, visando tornar-nos participantes de seu corpo e de
seu sangue. E ainda mais, conceder-nos a certeza de que nisso consiste nosso alimento espiritual. Ao
possuirmos tal penhor podemos alcançar a confiança da salvação. Além disso, providenciou a referida
refeição com o objetivo de nos exercitar em reconhecer sua grande bondade para conosco, para louvá-la
e magnificá-la mais amplamente. E por último este sacramento pretende exortar-nos a toda santidade e
inocência enquanto somos membros de Jesus Cristo – e de modo particular incentivar-nos à união e
caridade fraterna.
Quando tivermos anotado essas três razões que o Senhor teve em conta ao estabelecer sua Ceia,
teremos alcançado um ingresso ao seu bom entendimento, aos benefícios que dela obtemos, e ao nosso
procedimento para celebrá-la corretamente.[40]
21| Ceia do Senhor: eficácia


Na Ceia recebemos singular consolação pois ela nos dirige e conduz à cruz e à ressurreição de
Jesus Cristo para nos certificar de que por mais iniquidade que resida em nós, o Senhor não deixa de nos
reconhecer e aceitar como justos. Qualquer tendência de morte que haja em nós, ele não cessa de nos
vivificar; qualquer infelicidade que nos ocorra, ele não cessa de nos encher de toda felicidade. Ou, para
explicar mais claramente do que se trata, como acontece em nós mesmos quando afrouxamos de fazer o
bem e que não temos uma só gota das coisas que nos devem ajudar para a salvação, a Ceia nos dá
testemunho de que tendo sido feitos participantes da morte e paixão de Jesus Cristo, temos tudo o que nos
é útil e saudável.
Assim podemos dizer que nela o Senhor nos comunica todos os tesouros de suas graças
espirituais, enquanto ela nos faz participantes de todos os bens e riquezas de nosso Senhor Jesus.
Lembremo-nos, pois, de que a Ceia nos é dada como um espelho, no qual podemos contemplar Jesus
Cristo crucificado para nos libertar da condenação, e ressuscitado para adquirir-nos justiça e vida eterna.
É verdade que essa mesma graça nos é oferecida pelo evangelho. Contudo, porque na Ceia temos mais
ampla certeza e gozo mais pleno, temos o direito de reconhecer que tal fruto nos é concedido.[41]
Mas porque os bens de Jesus Cristo não nos pertencem, a não ser que Ele seja nosso, é preciso
que em primeiro lugar ele nos seja dado na Ceia, para que as coisas que temos dito sejam
verdadeiramente realizadas em nós. Por isso é que costumo afirmar que a matéria e substância dos
sacramentos é o Senhor Jesus; a eficácia são as graças e bênçãos que temos por seu intermédio. Ora, a
eficácia da Ceia está em nos confirmar a reconciliação que temos com Deus mediante sua morte e paixão;
a purificação de nossas almas que temos pelo derramar de seu sangue, a justiça que temos pela sua
obediência; em suma, a esperança da salvação em tudo o que fez por nós. É preciso, pois, que a
substância seja entrosada com a eficácia, sem o que não haveria nada firme e certo.
Tudo isto nos leva a concluir que duas coisas nos são apresentadas na Ceia, a saber, Jesus Cristo
como fonte e realidade de todo bem, e depois, o fruto e eficácia de sua morte e paixão, o que as palavras
que são proferidas também abrangem. Pois ao ordenar comer seu corpo e beber seu sangue, Ele
acrescenta que seu corpo foi entregue por nós, e seu sangue vertido pela remissão de nossos pecados.
Nisso Ele indica em primeiro lugar, que não devemos simplesmente comungar com seu corpo e sangue
sem outra consideração, mas para receber o fruto que nos vem de sua morte e paixão; por outro lado, que
não podemos alcançar o gozo de tal fruto senão participando de seu corpo e de seu sangue, mediante os
quais Ele nos foi dado.[42]
22| Ceia do Senhor: fome de Deus


Como comeremos dignamente o corpo do Senhor, nós, carentes e despido de todo bem: nós,
sempre inclinados às imundícias dos pecados; nós semimortos? Antes, haveremos de pensar que nós,
pobres, vimos a um doador benigno; doentes, a um médico; pecadores, ao autor da justiça; enfim, mortos,
àquele que dá vida; que essa dignidade que é ordenada por Deus consiste principalmente na fé, que tudo
depõe em Cristo, nada em nós; em segundo lugar, no amor, e este próprio amor, na verdade, o qual
imperfeito, é bastante para oferecer a Deus, para que o faça crescer e seja melhor, uma vez que não pode
ser apresentado perfeito.[43]
Se queremos, pois, participar devidamente da sagrada Ceia do Senhor, é preciso que
mantenhamos firme confiança no Senhor Jesus como nossa única justiça, vida e salvação, recebendo e
aceitando as promessas que nos são dadas por Ele, como certas e garantidas, renunciando por outro lado
a toda confiança contrária, a fim de que ao desconfiarmos de nós mesmos e de todas as criaturas,
repousemos plenamente nele e nos contentemos unicamente com sua graça.
Ora, porque isso não pode acontecer se desconhecemos a necessidade em que nos encontramos,
de Ele vir em nosso socorro, é necessário que sejamos também tocados vivamente, no interior do
coração, por um verdadeiro sentimento de nossa miséria, que nos faça ter fome e sede dele. De fato, que
zombaria seria esta, de vir buscar o alimento sem apetite? Ora, para ter bom apetite não basta que o
estômago esteja vazio, mas é necessário que esteja bem disposto e seja capaz de receber seu alimento.
Daí segue-se que nossas almas devem estar famintas, e ter um desejo e zelo ardente de serem saciadas,
para bem encontrar sua comida na Ceia do Senhor.
Mas além, é de se notar que não podemos desejar Jesus Cristo sem aspirar pela justiça de Deus,
a qual reside na renúncia de nós mesmos e obediência de sua vontade. É impossível pretendermos
pertencer ao corpo de Cristo, entregando-nos a toda licenciosidade e levando vida dissoluta. Já que em
Cristo só há castidade, benignidade, sobriedade, verdade, humildade e todas as virtudes semelhantes, se
queremos ser seus membros, é preciso que toda sensualidade, arrogância, intemperança, mentira, orgulho
e vícios semelhantes permaneçam longe de nós. Pois não podemos misturar estas coisas com Ele sem lhe
causar grave desonra e opróbrio. Devemos sempre lembrar-nos de que não há mais conformidade entre
ele e a iniquidade, do que entre a claridade e as trevas. Nós nos aproximamos então da Ceia, com
verdadeiro arrependimento, se nos inclinarmos no sentido de que nossa vida se assemelhe à de Jesus
Cristo.[44]
23| Ceia do Senhor: sagrado banquete


Por certo que o Diabo não podia encontrar atalho mais curto para destruir os homens do que
envaidecendo-os de tal maneira que não percebessem o gosto e sabor de tal alimento, com o qual o
boníssimo Pai celeste os quisera alimentar. Portanto, para que não nos lancemos a precipício desta
natureza, lembremo-nos de que este sacro banquete é remédio para os doentes, consolação para os
pecadores, generosidade para os pobres, o qual nenhum benefício traria aos sãos, aos justos e aos ricos,
se tais fosse possível achar. Porque, como nele Cristo nos é dado para alimento, entendemos que sem ele
nos definhamos e nos consumimos, como quando se extingue o vigor do corpo. Então, como ele nos é
dado para vida, compreendemos que sem ele em nós mesmos estamos inteiramente mortos. Por isso, esta
é a dignidade, única e a mais elevada, que a Deus podemos apresentar: se lhe oferecemos nossa miséria
e, por assim dizer, indignidade para que por sua misericórdia nos faça dignos dele; se em nós perdermos
o ânimo, para que nele nos consolemos; se nos humilharmos, para que sejamos por ele soerguidos; se nos
acusarmos, para que sejamos por ele justificados; além disso, se aspirarmos a essa unidade que nos
recomenda em sua Ceia e, como a todos nos faz um só nele mesmo, assim desejemos que todos sejamos
absolutamente uma só alma, um só coração, uma só língua. [45]
24| Ceia do Senhor: remédio à fraqueza


Quando sentimos em nós um firme desprazer e ódio para com todos os vícios, desprazer
procedente do temor de Deus, e desejo de viver bem para comprazer a nosso Senhor, somos capazes de
participar da Ceia apesar dos resíduos de fraqueza que carregamos em nossa carne. De fato, se não
fôssemos fracos, sujeitos à vacilação e vida imperfeita, o sacramento não nos serviria para nada, e teria
sido supérfluo instituí-lo.
Uma vez que é um remédio que Deus nos deu para suprir nossa fraqueza, fortificar nossa fé,
aumentar nosso amor, progredir em toda santidade de vida, mas devemos recorrer a ele quando sentimos
que a fragilidade nos ameaça. Longe de nós que esta fraqueza nos impeça de participar! Se alegarmos,
para nos eximir de vir à Ceia, que ainda somos de fraca fé ou integridade de vida, tal argumento é como
de alguém se desculpasse de não tomar remédio por estar doente!
Eis porque a fraqueza da fé, e as imperfeições de nossa vida nos devem admoestar a comparecer
à Ceia, como se recorre a remédio para as corrigir. Contudo, não compareçamos vazios de fé e
arrependimento: a primeira está escondida no coração, daí é preciso que nossa consciência dê
testemunho dela diante de Deus; e o segundo manifesta-se pelas obras, daí é preciso que, de algum modo,
apareça em nossa vida.[46]
25| Igreja: definição


As Sacras Letras falam a respeito da Igreja de duas maneiras. Por vezes, quando mencionam a
Igreja, significam aquela que está de fato diante de Deus pela graça da adoção, mas também verdadeiros
membros de Cristo pela santificação do Espírito. E então de fato compreende não apenas os santos que
habitam na terra, mas ainda a todos os eleitos que existiram desde a origem do mundo. Frequentemente,
porém, com o termo igreja a Escritura designa toda a multidão de homens difundida na face da terra, que
professa adorar a um só Deus e Cristo, que pelo batismo se inicia na fé, pela participação da Ceia, atesta
a unidade na verdadeira doutrina e no amor, tem consenso na Palavra do Senhor e a sua pregação
conserva o ministério instituído por Cristo. Entretanto nesta estão envolvidos muitos hipócritas, que nada
têm de Cristo a não ser o nome e a aparência; muitos gananciosos, avarentos, invejosos, maledicentes,
alguns de vida mais impura e que são tolerados por um tempo, ou porque não podem ser condenados por
juízo legítimo, ou porque nem sempre vigora essa severidade de disciplina que devia. Portanto, da
mesma forma que somos obrigados a crer na Igreja invisível para nós e conhecida só de Deus, assim
também se nos exige que honremos esta Igreja visível e que nos mantenhamos em sua comunhão.[47]
26| Igreja: coluna da verdade


Ao ser denominada, coluna e fundamento da verdade, tal dignidade atribuída à Igreja não é algo
ordinário. Portanto, não existe nada mais venerável e santo do que aquela verdade que abrange tanto a
glória de Deus quanto a salvação do homem. Fossem todos os louvores que os admiradores esbanjam em
referência à filosofia pagã reunidos num montão, o que seria isso comparado com a excelência dessa
sabedoria celestial, a única que leva o título de a luz e a verdade e a instrução para a vida e o caminho e
o reino de Deus? Esta verdade, porém, só é preservada no mundo através do ministério da Igreja.[48]
A Igreja é a coluna da verdade porque, através de seu ministério, a verdade é preservada e
difundida. Deus mesmo não desce do céu para nós, nem diariamente nos envia mensageiros angelicais
para que publiquem sua verdade, senão que usa as atividades dos pastores, a quem destinou para esse
propósito. Ou, expondo-o de maneira mais simples: não é a Igreja a mãe de todos os crentes, visto que
ela os conduz ao novo nascimento pela Palavra de Deus, educa e nutre toda a sua vida, os fortalece e
finalmente os guia à plenitude de sua perfeição? A Igreja é chamada coluna da verdade pela mesma
razão, pois o ofício de ministrar a doutrina que Deus pôs em suas mãos é o único meio para a
preservação da verdade, a qual não pode desaparecer da memória dos homens. Portanto, em relação aos
homens, a Igreja mantém a verdade porque, por meio da pregação, a Igreja a proclama, a conserva pura e
íntegra, a transmite à posteridade. Se não houver ensino público do evangelho, se não houver ministros
piedosos que, por sua pregação, resgatem a verdade das trevas e do esquecimento, as falsidades, os
erros, as imposturas, as superstições e a corrupção de toda sorte assumirão imediatamente o controle. Em
suma, o silêncio da Igreja significa o afastamento e o anulamento da verdade.[49]
27| Marca da verdadeira igreja


Daqui nos desponta, e nitidamente nos emerge aos olhos, a face da Igreja. Pois onde quer que
vemos a Palavra de Deus ser sinceramente pregada e ouvida, onde vemos os sacramentos serem
administrados segundo a instituição de Cristo, aí de modo algum há de contestar-se que está presente uma
igreja de Deus, visto que sua promessa não pode enganar: “Onde estiver dois ou três congregados em
meu nome, aí estou no meio deles” [Mt 18.20]. Mas, para que apanhemos claramente a suma desta
matéria, é preciso que avancemos com estes passos: a Igreja Universal é a multidão congregada de todas
as nações, a qual, espalhada e dispersa pelos lugares mais remotos, entretanto consente na única verdade
da doutrina divinal e é congregada pelo vínculo da mesma religião; sob esta Igreja Universal estão assim
compreendidas as igrejas individuais, as quais, em razão da necessidade humana, estão dispostas por
cidades e vilas, de sorte que, de direito, cada uma obtenha o nome e a autoridade da Igreja; os indivíduos
que, pela profissão de piedade, são desse modo contados entre as igrejas, embora de fato sejam estranhos
à Igreja, contudo a ela, de certo modo, pertencem, até que, pelo consenso público, tenham sido
eliminados.[50]
Portanto, mantenhamos diligentemente essas marcas impressas na mente e as estimemos segundo
o arbítrio do Senhor. Pois nada há que Satanás mais diligencie por fazer do que a um ou outro desses dois
sinais, ou a ambos, suprimir e destruir; sabendo que, subtraindo e desfazendo essas marcas, está
detraindo a verdadeira e genuína distinção da Igreja; ou sabendo que, incutindo o desprezo por elas, nos
arrebata da Igreja com manifesta apostasia. Por sua arte, tem acontecido que a pura pregação da Palavra
tem evanescido em alguns séculos; e agora, com a mesma maldade, Satanás se vota a perverter o
ministério, o qual, entretanto, Cristo assim ordenou na Igreja que, sendo ele suprimido, a edificação desta
perece [Ef 4.12]. Ora deveras quão perigosa, mais ainda, quão fatal tentação é quando vem à mente
abandonar esta congregação, na qual se percebem os sinais e senhas com os quais o Senhor julgou estar a
Igreja suficientemente representada! Estamos vendo quão grande cuidado se há de aplicar de uma e outra
parte![51]
Porquanto, onde houver uma Igreja, aí também haverá unidade de fé. Eis a minha resposta: onde
se professava o Cristianismo, se adorava um único Deus, se praticavam os Sacramentos e se exercia
algum gênero de ministério, ali permaneciam as marcas da Igreja. Nem sempre encontramos nas igrejas
tal pureza como era de se desejar. Ainda a mais pura tem suas máculas; e algumas têm não só umas
poucas manchas aqui e ali, mas são quase que completamente deformadas. Não devemos ficar tão
desconcertados pelo ensino e vida de alguma sociedade que, se não ficamos satisfeitos com tudo o que se
procede ali, então prontamente negamos ser ela uma igreja. Entretanto, ao reconhecermos como igrejas de
Cristo algumas sociedades que se acham carregadas de falhas, devemos, ao mesmo tempo, condenar
nelas o que está de fato errado. Pois nem sempre a perfeição desejada numa igreja está presente onde
quer que haja algum gênero de igreja.[52]
Portanto é uma perigosa tentação imaginar que não existe igreja onde a perfeita pureza se acha
ausente. Pois a pessoa que se sente dominada por tal noção, necessariamente deve separar-se de todos os
demais e olhar para si como o único santo no mundo, ou deve fundar sua própria seita em sociedade com
uns poucos hipócritas.[53]
29| O valor da Igreja


Seja como for, onde se ouve reverentemente a pregação do evangelho, nem os sacramentos são
negligenciados, aí, por todo esse tempo, a face da Igreja aparece não enganosa, nem ambiguamente, da
qual a ninguém se permite impunemente a autoridade menosprezar, ou as advertências rejeitar, ou os
conselhos resistir, ou das censuras zombar; muito menos a abandonar e dividir sua unidade. Pois o
Senhor tem em tão elevada conta a comunhão de sua Igreja, que considera covarde e desertor da religião
todo aquele que obstinadamente se aliena de qualquer comunidade cristã que, ao menos, cultive o
verdadeiro ministério da Palavra e dos Sacramentos. Ele estima a tal ponto sua autoridade que, quando é
violada, considera como que diminuída sua própria autoridade. Ora, nem é de pouca importância que a
Igreja seja chamada “a coluna e fundamento da verdade” e “a casa de Deus” [1Tm 3.15], palavras estas
por meio das quais Paulo dá a saber que, para que não pereça a verdade de Deus no mundo, a Igreja é sua
fiel depositária; porquanto, por seu ministério e obra, Deus quis fosse conservada pura a pregação de sua
Palavra; e, enquanto nos nutre com alimentos espirituais e procura promover tudo quanto nos enriqueça a
salvação, ele se nos exibe como um pai de família.
Igualmente, não é louvor vulgar dizer que a Igreja é eleita e separada por Cristo para ser sua
esposa, que “fosse sem ruga e sem mácula” [Ef 5.27], “seu corpo e sua plenitude” [Ef 1.23]. Do quê se
segue que o abandono da Igreja é negação de Deus e de Cristo, razão por que mais se deve guardar de tão
criminosa discórdia, porque, enquanto nos esforçamos, quanto está em nós, por promover a ruína da
verdade de Deus, somos dignos de que ele arremesse seus raios com todo o ímpeto de sua ira, a fim de
fazer-nos em pedaços. Não se pode imaginar mais cruel qualquer crime do que o de violar com profana
traição o matrimônio que o Unigênito Filho de Deus se dignou contrair conosco.[54]
Portanto, bem se expressa Cipriano: “Ainda que joio”, diz ele, “ou vasos impuros se veem na
Igreja, contudo não há por que nós mesmos nos retirarmos da Igreja, pois nosso dever é procurar ser
trigo, ser, quanto nos seja possível, vasos de ouro ou de prata. Mas quebrar os vasos de barro é atributo
exclusivo do Senhor, a quem também foi dada uma vara de ferro [Sl 2.9; Ap 2.27], nem vindique para si
quem quer que seja o que só é próprio ao Filho; de sorte que seja bastante para peneirar a eira, limpar a
palha e a todas as pragas separar por juízo humano [Mt 3.12; 13.40; Lc 3.17]. Soberba é tal obstinação, e
sacrílega presunção, que a ímpia loucura assume para si”, etc. Portanto, permaneça fixado um e outro
destes pontos: primeiro, que nenhuma justificativa tem aquele que, deliberadamente, deserta a comunhão
exterior da Igreja, onde é pregada a Palavra de Deus e são ministrados os sacramentos; segundo, que as
faltas e pecados de outros, sejam poucos ou muitos, não nos impeçam de fazer profissão de nossa religião
usando os sacramentos e os demais exercícios eclesiásticos juntamente com eles, porquanto uma
consciência piedosa não é ferida pela indignidade de outrem, quer de pastor, quer de leigo; e os
sacramentos do Senhor tampouco deixam de ser puros e santos para o homem limpo por ser recebidos em
companhia dos impuros e perversos.[55]
29| Pregação: educadora da Igreja


Paulo escreve que Cristo “deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para
evangelistas, e outros para pastores e mestres, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do
ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do
Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” [Ef 4.10-13]. Vemos como
Deus, que poderia levar os seus à perfeição num instante, contudo não queria que eles crescessem à idade
adulta senão pela educação da Igreja; vemos expressar-se o modo pelo qual esta educação se processa:
que aos pastores foi incumbida a pregação da doutrina celeste; vemos que todos, à uma, estão sujeitos à
mesma disposição, de sorte que se permitam ser dirigidos, com espírito brando e dócil, pelos mestres
criados para esta função.
E com esta marca Isaías assinalara outrora o reino de Cristo: “Meu Espírito, que está em ti, e as
palavras que pus em tua boca, jamais se apartarão nem de tua boca, nem da boca de tua semente e de seus
descendentes” [Is 59.21]. Do quê se segue que são dignos de que pereçam de fome e inanição todos e
quaisquer que desprezam o alimento espiritual da alma a si divinamente oferecido pelas mãos da Igreja.
Deus induz em nós a fé, mas pela instrumentalidade de seu evangelho, como adverte Paulo, de que “a fé
vem do ouvir” [Rm 10.17], assim como também em Deus reside seu poder de salvar, mas, segundo atesta
o próprio Paulo, o exibe e o desenvolve na pregação do evangelho [Rm 1.16].[56]
30| A religião pura e real


Eis no que consiste a religião pura e real: fé aliada a sério temor de Deus, de modo que o temor
não só em si contém reverência espontânea, mas ainda traz consigo a legítima adoração, a qual está
prescrita na lei. E isto se deve observar com mais cuidado: enquanto todos veneram a Deus de maneira
vaga e geral, pouquíssimos o reverenciam de verdade; enquanto, por toda parte, grande é a ostentação em
cerimônias, rara, porém, é a sinceridade de coração.[57]
Mas, para que nos reluza a verdadeira religião, é preciso considerar isto: que ela tenha a
doutrina celeste como seu ponto de partida; nem pode alguém provar sequer o mais leve gosto da reta e
sã doutrina, a não ser aquele que se faz discípulo da Escritura. Donde também provém o princípio do
verdadeiro entendimento: quando abraçamos reverentemente o que Deus quis testificar nela acerca de si
mesmo. Ora, não só a fé consumada, ou completada em todos os seus aspectos, mas ainda todo reto
conhecimento de Deus nascem da obediência à Palavra. E, fora de toda dúvida, neste aspecto, com
singular providência, Deus em todos os tempos teve em consideração os mortais.[58]
Visto que todos os questionamentos supérfluos que não se inclinam para a edificação devem ser
com toda razão suspeitos e mesmo detestados pelos cristãos piedosos, a única recomendação legítima da
doutrina é que ela nos instrui na reverência e no temor de Deus. E assim aprendemos que o homem que
mais progride na piedade é também o melhor discípulo de Cristo, e o único homem que deve ser tido na
conta de genuíno teólogo é aquele que pode edificar a consciência humana no temor de Deus.[59]
31| Humildade: cerne do Cristianismo


Esta sentença de Crisóstomo sempre me agradou muito: “O fundamento da nossa filosofia é a
humildade”, diz ele. E mais ainda a de Agostinho, quando ele diz: “Como Demóstenes, o orador grego,
sendo interrogado sobre qual seria o primeiro preceito da eloquência, respondeu que é a pronúncia, e,
sendo interrogado sobre a segunda, respondeu a mesma coisa, como também sobre a terceira, assim
também, se me perguntares quais os preceitos da religião cristã, eu te responderei: o primeiro, o segundo
e o terceiro, é a humildade.”
Ora, ele não entende a humildade apenas no sentido de que, quando um homem acha que tem
alguma virtude ou poder, não se orgulha disso, mas, sim, no sentido de que esse homem conhece de tal
maneira a verdade que só encontra refúgio em humilhar-se diante de Deus. Como Agostinho declara
noutro lugar: “Que ninguém”, diz ele, “se gabe de si mesmo, pois cada um é diabo; todo o bem que existe
é de Deus. Porque, que tens tu de ti mesmo, senão pecado? Se queres ficar com algo que seja teu, fica
com o pecado, porque a justiça é de Deus.” E mais: “Por que temos tanta presunção do poder da nossa
natureza? Ela está ferida, foi abatida, dissipada, destruída; ela é causa de confissão verdadeira, e não de
falsa defesa.”
Não contendamos, pois, contra Deus, por nossos direitos, como se estivéssemos enfraquecidos.
Porquanto, como a nossa humildade é a sua exaltação, assim a confissão da nossa humildade sempre traz
consigo a sua misericórdia como remédio. Não é bem que eu pretenda que o homem renuncie a seus
direitos diante de Deus, nem que mude o seu pensamento e não reconheça a sua virtude, se é que ele tem
alguma, para reduzir-se à humildade e nada mais. A única coisa que peço é que, desfazendo-se de todo o
estúpido amor a si próprio, e da autoexaltação e da ambição, cegado que fora pelo apego a essas coisas,
contemple-se no espelho da Escritura.[60]
32| Cristianismo é avanço sempre!


Na construção de uma casa, não se deve jamais esquecer o fundamento, mas, ao mesmo tempo,
seria ridículo gastar alguém todo o seu tempo em relançá-lo. O fundamento é lançado em função do
edifício, mas aquele que gasta seu tempo em edificar, porém jamais desenvolve a estrutura do edifício,
não só se cansa em vão, como também trabalha sem objetividade. Em síntese, assim como a obra de um
arquiteto deve iniciar-se com o alicerce, ele deve dar imediato seguimento, erigindo o edifício. O mesmo
se dá no Cristianismo. Lançamos os primeiros princípios como sendo as bases, mas é preciso que demos
seguimento a um ensino mais avançado para a conclusão do edifício. Aqueles que se acomodam nos
primeiros princípios se comportam de maneira ridícula, visto que não têm nenhum alvo proposto. São
semelhantes a um construtor que despende todo o seu labor com o alicerce e não se preocupa em
construir a casa.[61]
Portanto, não cessemos de progredir no caminho do Senhor, avançando incessantemente, não nos
desesperando ante a insignificância de êxito alcançado. Ora, por mais que o êxito não corresponda ao
desejo, contudo, o labor não foi perdido quando o dia de hoje supera o de ontem, contanto que, com
sincera inocência, olhemos firmemente para nosso alvo e aspiremos alcançar nossa meta, não nos
agradando com adulação, nem cedendo a nossas más disposições; ao contrário, em esforço contínuo
proponhamo-nos a ser cada dia melhores até que alcancemos a perfeita bondade que devemos buscar
toda nossa vida. Conquistaremos essa perfeição quando, despojados da debilidade de nossa carne,
sejamos plenamente admitidos na companhia de Deus.[62]
É algo deprimente quando alguém começa bem no ponto de partida, para depois sentir-se
desanimado em meio à jornada; ainda mais deprimente, porém é voltar atrás depois de haver feito
considerável progresso. Com esse propósito em vista, é sempre proveitoso recordar o combate passado,
se o temos travado fiel e energicamente sob a bandeira de Cristo; não à guisa de buscar pretexto à
indolência, como se já tivéssemos concluído o nosso curso, mas sempre prontos a alcançar o ponto final
que foi posto diante de nós. Porque Cristo não nos recrutou sob termos tais que depois de alguns anos
pudéssemos solicitar licença como os soldados que já cumpriram seu serviço; ao contrário, é para que
continuemos o combate até o fim.[63]
33| Cristãos nominais


Perguntemos àqueles que não possuem nada mais que a membresia de uma igreja, e que apesar
disto desejam ser chamados de cristãos, como podem glorificar o sagrado nome de Cristo?
Somente aquele que tem recebido o verdadeiro conhecimento de Deus, por meio da Palavra do
Evangelho, pode chegar a ter comunhão com Cristo. O apóstolo disse que ninguém que não tenha posto de
lado a velha natureza, com sua corrupção e seus desejos sensuais, pode dizer que tenha recebido o
verdadeiro conhecimento de Cristo.
O conhecimento externo de Cristo é só uma crença perigosa, não importando o quão eloquentes
possam ser as pessoas que o têm. O evangelho não é uma doutrina da fala, mas de vida. Não se pode
assimilá-lo por meio da razão e da memória, única e exclusivamente, pois só se chega a compreendê-lo
totalmente quando Ele possui toda a alma e penetra no mais profundo do coração. Os cristãos nominais
devem parar de insultar a Deus vangloriando-se de serem aquilo que não são.
Devemos nos ater em primeiro lugar no conhecimento de nossa fé, pois esta é o princípio de
nossa salvação. A menos que nossa fé ou religião promovam uma mudança em nosso coração e em nossas
atitudes nos transformando em novas criaturas, não nos será de muito proveito.[64]
34| Amor: o caminho excelente


Que tudo seja regulado segundo a regra do amor. O caminho mais excelente, pois, está onde o
amor é o poder controlador de todas as ações. Porque nada existe, não importa quão maravilhoso ou
extraordinário possa ser, que não é arruinado, pelo prisma de Deus, pela ausência do amor. E o que Paulo
ensina aqui é um eco do que ele assevera em outro lugar, ou, seja: que o amor é alvo de tudo [1Tm 1.5], e
“vínculo da perfeição” [Cl 3.14]; e igualmente baseia a santidade dos crentes inteiramente no amor; pois
o que mais Deus pede de nós em todo o conteúdo da segunda tábua da lei? Portanto, não é de admirar que
todas nossas ações serão julgadas por meio de um padrão, a saber, se elas revelam os sinais que emanam
amor. Nem é de admirar que esses dons, que são por outro lado, excelentes, só concretizam seu
verdadeiro valor quando se acham relacionados ao amor.[65]
Pois o que é mais admirável do que aquela inabalável firmeza de caráter, quando alguém não
hesita em oferecer sua vida em testemunho do evangelho? Todavia, até mesmo isto Deus também reputa
como sendo de nenhum préstimo, caso o coração seja destituído de amor.
Visto que o amor é a única regra que deve governar nossas ações, e a única diretriz para o
correto uso dos dons divinos, Deus não aprova nada que esteja destituído de amor, não importa quão
grandiosos sejam os conceitos humanos. Pois, sem o amor, a mais bela de todas as virtudes não passa de
mera aparência, um ruído vazio de significação, não mais digna que a moinha; em suma, não passa de
algo grosseiro e ofensivo.[66]
35| Amor: seus excelentes frutos


A primeira recomendação do amor é que ele, ao suportar pacientemente muitas coisas, fortalece a
paz e a harmonia da Igreja. A segunda excelência do amor é bem semelhante, ou, seja, bondade e
respeito. A terceira excelência consiste em que ele corrige a rivalidade, a qual constitui a causa
originária de todas as disputas. Paulo inclui inveja que causa rivalidade, porquanto se assemelha muito a
ela; ou antes, ele tem em mente a espécie de rivalidade que se associa à inveja e frequentemente se
origina dela. Segue-se que onde a inveja mantém influência, onde cada um é ávido por destaque pessoal,
ao menos na aparência, o amor não pode crescer.
Paulo, pois, está reivindicando para o amor uma influência moderada, e mostra que ele é um freio
para manter o homem sob controle e impedi-lo de prorromper em atos de ferocidade, de modo que todos
venham a viver juntos de maneira tranquila e ordeira. Não existe nele a mínima sombra de orgulho. Que o
homem, pois, que se deixa governar pelo amor não se infla com orgulho, olhando para os outros com
desdém e sentindo-se satisfeito consigo mesmo.
O amor não se deleita com fútil ostentação nem provoca grande espalhafato, mas sempre observa
a moderação e a conveniência.[67]
Aqui tem outra das excelências do amor, a saber, que ele dura para sempre. Uma excelência
como esta, que jamais falha, é certamente digna de ser obtida com muito esforço. O amor, portanto, deve
ser preferido antes de todos os dons temporários e perecíveis. As profecias passam; as línguas cessam; o
conhecimento chega ao fim. Daí, o amor é mais excelente que todos eles, por esta razão: enquanto eles
falham, ele sobrevive.[68]
36| Amor: antídoto ao egoísmo


Podemos inferir que o amor está longe de ser-nos algo inerente, pois todos nós somos portadores
de uma natural tendência de amar-nos e de cuidar de nós mesmos, buscando só o que nos interessa. Sim,
para falar com mais exatidão, nos atiramos de ponta cabeça para alcançar o que nos interessa. O amor é o
único antídoto que cura essa tendência tão pervertida, pois ele nos faz ignorar nossas próprias
circunstâncias e preocupar-nos sinceramente com a sorte de nosso próximo, amando e cuidando dele.
Além disso, “buscar as próprias coisas de alguém” é viver devotadamente para ele e sentir-se
completamente feliz em ajudá-lo a cuidar de seus próprios interesses. A questão se é lícito que o cristão
se preocupe com seu próprio bem-estar é solucionada por esta definição. Porquanto o apóstolo não
pretende dizer que deixemos de preocupar-nos conosco e de cuidar de nossos próprios negócios; senão
que condena a excessiva preocupação e ansiedade pelos mesmos, o que nasce do amor excessivamente
cego por nós mesmos. Mas tal excessividade realmente consiste em negligenciarmos os outros e
pensarmos demais em nós mesmos, ou vivermos tão concentrados em nossos interesses que nos
abstraímos da consideração que Deus nos ordena ter por nosso próximo. O amor é também um freio que
restringe as disputas. Pois aquele que é cortês e tolerante não explode em ira repentina e nem se lança
precipitadamente em controvérsias e contendas.[69]
37| Amor: paciência e inocência


O amor não é impaciente nem malicioso. Pois é parte da tolerância sofrer e suportar tudo,
enquanto que a essência da sinceridade e espírito humanitário é crer e esperar tudo. Somos natural e
demasiadamente devotados a nós mesmos, e tal erro nos faz irritadiços e queixosos. O resultado é que
passamos a desejar que outros levem nossos fardos, enquanto que, ao mesmo tempo, recusamos, de
alguma forma, dar-lhes assistência. O amor é o antídoto que cura esse tipo de enfermidade, pois ele nos
faz servos de nossos irmãos e nos ensina a carregar seus fardos em nossos próprios ombros. Além disso,
visto que somos por natureza maliciosos, somos também desconfiados, e percebemos erro em quase tudo.
O amor, porém, nos arrasta de volta ao espírito humanitário, para que cultivemos a sinceridade e a
bondade no trato com os outros.[70]
O amor tudo crê. Não significa que o cristão consciente e intencionalmente permite ser enganado;
não que ele faça calar a sabedoria e o discernimento com o fim de permitir que as pessoas o tripudiem
mais facilmente; não que ele tenha que ser daltônico! Então, o que é? O apóstolo está pedindo aqui é que
haja sinceridade e altruísmo no julgamento das coisas; e aqui ele afirma que estes são os acompanhantes
invariáveis do amor. O que significará na prática é que o cristão será melhor percebido através de sua
própria bondade e amor ao próximo do que provocando humilhação a seu irmão através da desconfiança
infundada.[71]
38| Amor: sua superioridade


O maior destes é o amor. Isto é assim se estimarmos sua excelência pelos efeitos; e mais, se
tivermos a visão de sua perpetuidade. Pois cada um extrai benefício de sua própria fé e esperança, ao
passo que o amor é derramado para o bem de outrem. A fé e a esperança são os acompanhantes de nosso
estado imperfeito, porém o amor persistirá mesmo nas condições de perfeição.
Pois se examinarmos os frutos da fé, um a um, e os compararmos, descobriremos que ela é
superior em muitos aspectos. Sim, o amor propriamente dito, segundo o testemunho do próprio apóstolo
[1Ts 1.3], é um efeito da fé; e o efeito é, sem dúvida, inferior a sua causa. Além disso, um notável tributo
é pago à fé, o que não se aplica no caso do amor, quando João [1Jo 5.4] diz que a fé é a vitória que vence
o mundo. Finalmente, é mediante a fé que nascemos de novo, nos tornamos filhos de Deus, obtemos a
vida eterna e Cristo habita em nós [Ef 3.17]. Deixo de mencionar outras incontáveis bênçãos, porém os
poucos exemplos serão suficientes para trazer a lume o que quero dizer quando afirmo que a fé é superior
ao amor em muitos de seus efeitos. É evidente, à luz do texto, que o amor é maior, não em todos os
aspectos, mas porque ele durará eternamente, e no momento exerce um papel primário em conservar a
Igreja em existência.[72]
Portanto, lembremo-nos de que a vida cristã não é completa em todas as suas partes, a menos que
direcionamos nossas energias para ambos, a fé e o amor.[73]
39| Amor ao próximo (I)


Firmemo-nos, então, neste fato: a nossa vida estará em conformidade com a vontade de Deus e
com o que a lei ordena se, em todos os aspectos, for proveitosa para os nossos irmãos. Ao contrário, em
toda a lei não se lê nem sequer uma sílaba que ofereça ao homem uma regra sobre o que ele deve fazer ou
deixar de fazer em seu próprio proveito. E como é certo que os homens são, por natureza, muito mais
propensos a amar a si mesmos do que seria justo, não foi necessário dar-lhes mandamento para inflamá-
los mais nesse amor, que já por si vai além da medida. Disso fica evidente que, não o amor a nós
mesmos, mas o amor de Deus e ao próximo é que constitui o cumprimento dos mandamentos da lei, e que,
portanto, cumpre a lei aquele que vive retamente e o menos possível para si mesmo; por outro lado,
conclui-se também que ninguém tem pior vida e mais desordenada que aquele que vive só para si mesmo
e que só pensa no seu proveito pessoal.
Mesmo o Senhor, para mostrar melhor a virtude do amor que devemos ter pelo nosso próximo,
remete-nos ao amor de cada um por si mesmo, e o apresenta como regra e modelo. Expressão que
devemos considerar cautelosa e prontamente, porque não devemos entender essa analogia como os
sofistas, que achavam que Deus manda cada um amar a si mesmo em primeiro lugar, e depois, o seu
próximo. O que na verdade Deus manda é transferir para os outros o amor que temos por nós mesmos.
Por isso diz o apóstolo que o amor não procura o seu interesse particular [1Co 13:5]. E não tem valor
nenhum a razão que alegam, a saber, que a regra precede e é superior àquilo que por ela é regrado. Ora,
dizem eles, o nosso Senhor subordina ao amor a nós mesmos o amor ao nosso próximo. O nosso Senhor
não faz do nosso amor a nós mesmos uma regra à qual se deve reduzir o amor ao nosso próximo como
inferior. Antes, em vez de, por nossa perversidade natural, fixarmos o nosso amor em nós mesmos, ele
mostra que é necessário que se expanda e abranja as outras pessoas, a fim de que estejamos dispostos a
fazer o bem aos outros como a nós mesmos.[74]
Nosso amor deve ser visivelmente estendido a toda a raça humana. Uma vez, porém, que os
domésticos da fé nos são especialmente recomendados, devem eles receber nosso especial cuidado.
Como o amor, quando movido a fazer o bem, age em parte em consideração a Deus e em parte em
consideração à nossa comum natureza, segue-se, pois, que quanto mais perto está alguém de Deus mais
digno é ele de nosso auxílio. Aliás, tanto mais devemos cercá-los com nosso amor fraternal.[75]
40| Amor ao próximo (II)


Acrescente-se que, na parábola do “bom samaritano”, Jesus Cristo demonstrou que mesmo a
pessoa mais estranha é nosso próximo. Assim, não há razão para restringirmos o mandamento do amor
aos que têm algum tipo de afinidade ou aliança conosco. Não nego que quanto mais unidos estivermos a
alguma pessoa, com maior cuidado familiar devemos ajudá-la. Porque a própria norma da natureza
determina que, quanto mais estreitamente ligados estivermos por laços de parentesco, ou de amizade, ou
de vizinhança, tanto mais devemos fazer uns pelos outros; e isso não ofende a Deus, cuja providência nos
leva a proceder dessa forma. Entretanto, o que afirmo é que devemos incluir em nosso amor caridoso
todos os seres humanos em geral, sem nenhuma exceção, sem fazer diferença entre gregos e bárbaros, sem
considerar se são dignos ou indignos, sejam amigos ou inimigos; porque todos deem ser considerados em
Deus, e não neles mesmos. Quando ignoramos ou negligenciamos essa consideração, não fiquemos
surpresos se cairmos em muitos erros.
Portanto, se quisermos andar pelo reto caminho do amor fraterno, não devemos ter os olhos nos
homens, pois, na maioria das vezes, observá-los nos levaria a odiá-los, e não amá-los. A Deus é que
precisamos observar; e ele nos manda estender o amor que lhe dedicamos a todos os homens, de tal
maneira que sempre tenhamos este fundamento: seja quem for e como for o ser humano, temos que amá-
lo, se é verdade que amamos a Deus.[76]
41| O amor: na alegria e na dor


A natureza do genuíno amor é tal que cada um prefere sofrer com seu irmão do que observar sua
dor à distância, com uma atitude de aversão e indisposição. Em suma, devemos, pois, adaptar-nos uns
aos outros tanto quanto possível; e, até onde as circunstâncias o permitem, cada um deve entrar nos
sentimentos do outro, seja para sofrer com ele na adversidade ou para alegrar-se com ele na
prosperidade. Deixar de dar as boas-vindas à felicidade de um irmão, com genuína alegria, é um sinal de
inveja; e deixar de demonstrar real tristeza em seu infortúnio, é sinal de desumanidade. Portanto,
sintamos compaixão uns pelos outros, de forma que nos identifiquemos mutuamente, demonstrando o
mesmo estado mental.[77]
42| Ira: caminho do ódio


Há três erros pelos quais, ao nos irarmos, ofendemos a Deus. O primeiro é quando nos iramos
por motivos sem importância, e às vezes por nada, ou, pelo menos, por injúrias ou ofensas pessoais. O
segundo é quando vamos longe demais, e nos deixamos levar pelo excesso emocional. O terceiro é
quando nossa ira, se volta contra nossos irmãos. Portanto, Paulo emprega apropriadamente a conhecida
passagem, a fim de destacar o limite da ira: “Irai-vos, e não pequeis.” Nisso consentimos, caso
busquemos nossa indignação contra nossos próprios erros. Quanto aos outros, que nos iremos contra seus
erros em vez de nos irarmos contra suas pessoas; tampouco devemos ceder-nos ao excesso de ira por
ofensas pessoais; mas seja o zelo pela glória de Deus o que inflame nossa ira. Finalmente, que nossa ira
seja aplacada, para que não suceda que ela se misture com os violentos afetos carnais.
Raramente isso é possível, senão que às vezes damos vazão ao ímpeto negativo e à ira
pecaminosa, que é a tendência natural do coração humano para o mal.[78]
Sentimos todos os dias quão incurável é a doença do ódio prolongado, ou, pelo menos, quão
penoso é curá-lo. Qual é a causa desse mal, senão que, em vez de resistir o diabo, entregamos-lhes a
posse de nossos corações? Portanto, antes que nosso coração se encha com a peçonha do ódio, a ira deve
ser expulsa em tempo hábil.[79]
43| Fé inclui paciência


Jamais alcançaremos a meta da salvação, a menos que nos munamos de paciência. O profeta
declara que o justo viverá por sua fé, porém a fé nos conduz para as coisas distantes que ainda não
alcançamos; portanto, necessário se faz que a fé inclua a paciência.[80]
Pois a fé, sem a paciência, não poderia perseverar, e muitas coisas sucedem todos os dias –
conduta indigna ou mau caráter – que nos exasperam tanto que nos sentimos completamente desalentados
e, na verdade, incapazes de cumprir os deveres do amor, caso a mesma paciência não nos sustentasse.
[81]
É de nossa experiência que o que se espera não se encontra ainda em nossas mãos, e, sim, o que
está ainda escondido de nós, ou, pelo menos, que o desfrutar do mesmo é adiado para outro tempo. O
apóstolo está dizendo a mesma coisa que Paulo em Romanos 8.24, onde, após dizer que o que se espera
não se vê, chega à conclusão que se deve esperá-lo com paciência. Daí nosso apóstolo nos ensinar que
não devemos exercer fé em Deus em base nas coisas presentes, e sim, com base na expectativa de coisas
ainda vindouras. Há nessa aparente contradição um toque de atrativa beleza. Diz que a fé é a substância,
ou seja: o apoio ou fundamento sobre o qual firmamos nossos pés. Mas apoio do quê? Das coisas
ausentes, as quais se encontram tão longe de estar sob nossos pés, que excedem infinitamente ao poder de
nossa compreensão.[82]
44| Sem fé é pecado!


Confusão e incerteza, portanto, degenera todas nossas ações, por mais belas pareçam ser. Ora,
visto que uma mente crente em Deus jamais encontrará seguro repouso em algo que não seja a Palavra de
Deus, todas as formas de culto inventadas pelo homem, bem como todas as obras que se originam na
mente humana, desaparecem aqui. Condenar tudo quanto não provém de fé significa rejeitar tudo quanto
não pode encontrar o apoio e a aprovação da Palavra de Deus. Mas não basta que nossas ações sejam
aprovadas pela Palavra de Deus, a não ser que nossa mente, dependendo desta conclusão, se prepare
solicitadamente para a obra que se acha diante de nós. O primeiro princípio, pois, do reto viver, para que
nossas mentes não vivam em constante incerteza, consiste em repousarmos confiadamente na Palavra de
Deus, fazendo o que ela nos manda.[83]
A verdadeira natureza da fé consiste em ter Deus sempre diante dos olhos; segundo, que a fé vê
coisas mais elevadas e ocultas em Deus do que os nossos sentidos podem perceber; e terceiro, que nos é
suficiente apenas a visão de Deus para que nossas debilidades sejam corrigidas, e assim nos tornemos
mais fortes que as rochas contra todas as investidas de Satanás. Segue-se daí que, quanto mais fraco, e
quanto menos encorajado alguém se sente, menos fé ele tem.[84]
45| A fé e a aceitação divina


Eis aqui o único refúgio para onde todos os crentes devem fugir quando o mundo os condena
como perdidos e infelizes, ou seja, que devem ter por suficiente o fato de poderem contar com a
aprovação divina; pois o que seria deles caso depositassem nos homens sua confiança? Desse fato
devemos inferir que há grande diferença entre fé e mera opinião humana. A fé não depende da autoridade
humana, tampouco é uma confiança hesitante e duvidosa em Deus; ela tem de estar associada ao
conhecimento, do contrário não será bastante forte contra os intermináveis assaltos que Satanás lhe faz. O
homem que, como Paulo, possui tal conhecimento saberá de experiência própria que nossa fé é
corretamente chamada “a vitória que vence o mundo” [1Jo 5.4], e que Cristo tinha boas razões para dizer
que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” [Mt 16.18]. Tal homem será capaz de repousar
tranquilamente mesmo em meio às tormentas e tempestades deste mundo, visto que alimenta uma
confiança inabalável de que Deus, que não pode mentir ou enganar, falou, e o que ele prometeu,
certamente o cumprirá. Por outro lado, o homem que não tem essa verdade inapagavelmente gravada em
sua mente será sempre movido de um lado a outro como um arbusto agitado pelo vento.[85]
Ainda que a violência e a extensão dos perigos que nos cercam frequentemente nos lancem em
desespero ou, no mínimo, conturbem nossas mentes, temos de estar armados com a defesa de sabermos
que há no poder de Deus proteção segura para nós. Portanto Deus, ao ordenar-nos que sejamos
confiantes, usa este argumento: “Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai
ninguém pode arrebatar” [Jo 10.29]. Com isso ele quer dizer que não corremos perigo algum, já que o
Senhor que nos recebeu em sua proteção é infinitamente capaz de resistir a todos eles. Nem mesmo
Satanás ousaria insinuar diretamente a ideia de que Deus é incapaz de cumprir o que prometeu, porquanto
nossas mentes recuariam diante de tão abominável blasfêmia; mas ao desviar nossos olhos e mentes para
outras coisas, ele desvia de nós todo o senso do poder de Deus. Portanto, nossa mente deve estar
completamente limpa, caso queiramos não só experimentar tal poder, mas também reter a experiência
dele em meio às tentações de todo gênero.[86]
Na doutrina de nossa religião, este é realmente o ponto primordial, ou seja: visto que por nós
mesmos estamos perdidos, devemos ir a Cristo a fim de receber de suas mãos a nossa salvação. Pois,
ainda que Deus o Pai, mil vezes, nos ofereça a salvação em Cristo, e Cristo mesmo nos proclame sua
própria obra salvífica, todavia não nos desvencilhamos da incerteza, ou de algum modo, não cessamos de
perguntar em nosso íntimo se realmente é verdade. Portanto, quando em nossa mente surge alguma dúvida
sobre o perdão dos pecados, devemos aprender a repeli-la, usando como nosso escudo o fato de que ela
é verdadeira e segura, e portanto deve ser recebida sem qualquer contestação ou indecisão.[87]
Portanto, quando os fiéis reconhecem que é pela graça de Deus que, sendo iluminados por seu
Santo Espírito, antegozam pela fé a contemplação da vida futura, a glória deles está muito longe de
merecer a acusação de arrogância. O que, sim, é verdade é que aquele que se envergonha de confessar
essa gloriosa fé demonstra extrema ingratidão, e não modéstia ou humildade; e, com essa atitude, suprime
e obscurece a bondade de Deus, quando é seu deve engrandecê-la.[88]
46| Dúvida: caminho da condenação!


Duvidar significa mudar de uma posição para outra e permanecer em suspenso entre vários
planos de ação sem saber que rumo tomar. O principal elemento nas boas obras é a certeza e serena
segurança de uma mente que está cônscia de estar agindo corretamente diante de Deus. Portanto, nada é
mais oposto à aprovação de nossas obras do que uma mente sobressaltada e confusa. Quisera Deus que
esta verdade fosse bem implantada nas mentes humanas! Devíamos estar atentos somente para aquilo
sobre o qual a mente está persuadida de ser aceitável a Deus. Se assim fosse, não veríamos tantas
pessoas em determinadas e confusas situações de sua vida, vacilantes, a arrastar-se de um lado para
outro sob um cego impulso, indo aonde sua imaginação as leva. Pois se nosso modo de viver obedecesse
a esta moderação, de tal maneira que nem sequer um pedaço de pão fosse tocado com uma consciência
mordida pela dúvida, quão maior cautela empregaríamos na prática daquilo cujas consequências são da
maior importância![89]
A fé enfrenta uma dupla fraqueza: uma é aquela que sucumbe às tentações provindas das
adversidades, e nos leva a nos afastarmos do poder de Deus; a outra é aquela que surge de nossas
próprias imperfeições, mas que não extingue a fé propriamente dita. A mente nunca está tão iluminada que
impeça resquícios de ignorância; e o coração nunca está tão estabelecido que impeça alguma mancha de
dúvida. Portanto, os fiéis estão continuamente em conflito com a ignorância e com a dúvida, que são
vícios da carne. Neste conflito, sua fé é às vezes abalada e afligida, mas que, finalmente, emerge
vitoriosa, de modo que, em sua própria fraqueza, os fiéis recordem que é nas fraquezas que eles
encontram sua maior força.[90]
47| A esperança nutre a fé


Ora, onde quer que exista esta fé viva, necessariamente irá acompanhada da esperança na vida
eterna; ou, melhor dizendo, ela a gera e produz. E se não temos esta esperança, por mui eloquente e
elegantemente que falemos da fé, é indubitável que não existe em nós nenhum indício dela. Ora, se a fé,
como se ouviu, é a segura convicção acerca da verdade de Deus, porque não pode mentir-nos, nem nos
enganar, nem ser vã, quantos conceberam esta certeza de fato esperam, ao mesmo tempo, que Deus haverá
de cumprir suas promessas, as quais, em sua convicção, não podem outra coisa ser senão verdadeiras, de
sorte que, em suma, a esperança não pode ser outra coisa, senão a expectativa dessas coisas que a fé tem
crido ser verdadeiramente prometidas por Deus. Desse modo, a fé crê que Deus é verdadeiro; a
esperança espera que, no tempo oportuno, ele exiba sua verdade. A fé crê que Deus é nosso Pai; a
esperança espera que isso nos seja sempre demonstrado. A fé crê que a vida eterna nos foi dada; a
esperança espera que um dia ela haja de ser revelada. A fé é o fundamento sobre que a esperança
repousa; a esperança nutre e sustém a fé. Como, pois, ninguém pode esperar de Deus absolutamente nada,
a não ser quem antes creu nas promessas, assim, por outro lado, importa que a fragilidade de nossa fé
seja mantida e sustentada, esperando pacientemente, a fim de que não desfaleça.[91]
Razão por que Paulo, com muito acerto coloca nossa salvação na esperança [Rm 8.24]. Porque,
enquanto em silêncio espera o Senhor, ela contém a fé, para que não se arroje com demasiada
impetuosidade; firma-a, para que não vacile nas promessas de Deus, nem comece a duvidar de sua
verdade; reanima-a, para que não sucumba à fadiga; assiste-a até essa meta final, para que não falhe no
meio da corrida, ou até mesmo no ponto de partida; enfim, ao renová-la e restaurá-la constantemente, faz
com que mantenha sua perseverança, dia a dia, mais robustecida.
E de quantas razões são realmente necessários os auxílios da esperança para que a fé tenha
estabilidade, melhor se evidenciará se ponderarmos de quantas formas de tentações são acometidos e
sacudidos aqueles que têm abraçado a Palavra de Deus. Primeiramente, ao tornar demorada suas
promessas, frequentemente, o Senhor nos mantém o ânimo suspenso por mais tempo do que gostaríamos.
Este é o ofício da esperança: executar o que o Profeta ordena: se as promessas se delongarem, contudo,
esperemos [Hc 2.3]. De vez em quando o Senhor não só nos deixa definhar, mas até ostenta franca
indignação. Aqui muito mais necessário é que a esperança socorra nossa fé, para que, segundo o dito de
outro Profeta, possamos afirmar: “esperarei o Senhor, que esconde sua face da casa de Jacó” [Is 8.17].
Além disso, levantam-se os que desdenham, como diz Pedro, e perguntam: “Onde está a
promessa de sua vinda, porquanto desde que os pais adormeceram, tudo continua desde o início da
criação?” [2Pe 3.4]. Com efeito, essas mesmas coisas nos sussurram a carne e o mundo. Aqui, importa
que a fé, sustentada na paciência da esperança, seja conservada fixa na contemplação da eternidade, para
que considere que “mil anos são como um só dia” [Sl 90,4; 2Pe 3.8].
48| Esperança: âncora da alma


Certamente que, enquanto peregrinamos neste mundo, não temos terra firme onde pisar, senão que
somos lançados de um lado a outro como se estivéssemos em meio a um oceano atingido por devastadora
tormenta. O diabo jamais cessa de mover incontáveis tempestades, as quais imediatamente fariam agitar e
submergir nossa embarcação, se não lançássemos nossa âncora, com firmeza, nas profundezas. Olhamos,
e não há nenhum porto que nossos olhos alcancem, senão que, em qualquer direção que voltamos nossa
vista, a única coisa que divisamos é água; na verdade, só vemos ondas que se amontoam e nos ameaçam.
Mas assim como uma âncora é lançada no vazio das águas, a um lugar escuro e oculto, e enquanto
permanece ali, invisível, sustenta a embarcação, que se encontra exposta ao sabor das ondas, agora
segura em sua posição para que não submerja, assim também nossa esperança está firmada no Deus
invisível. Mas há uma diferença, a saber: uma âncora é lançada ao mar porque existe solo firme no fundo,
enquanto que nossa esperança sobe e flutua nas alturas, porquanto ela não encontra nada em que se firmar
neste mundo. Ela não pode repousar nas coisas criadas, senão que encontra seu único repouso no Deus
vivo. Assim, como o cabo, ao qual a âncora se encontra presa, mantém o navio seguro ao solo de um
profundo e escuro abismo, também a verdade de Deus é uma corrente que nos mantém ligado a ele, de
modo que nenhuma distância de lugar e nenhuma escuridão podem impedir-nos de aderir a ele. Quando
nos sentimos ligados assim a Deus, mesmo que tenhamos de enfrentar as constantes tempestades,
estaremos a salvos do perigo de naufrágio. É possível que uma âncora se quebre, ou que um cabo se
rompa, ou que um navio se faça em pedaços pelo impacto das ondas. Isso sempre sucede no mar. Mas o
poder de Deus, que nos protege, é algo completamente distinto, bem como também é a força da esperança
e a inabalabilidade de sua Palavra.[92]
O Espírito de Deus nos mostra as coisas ocultas, o conhecimento das quais não pode atingir
nossos sentidos. A vida eterna nos é prometida; todavia, ela é prometida aos mortos. Somos informados
sobre a ressurreição dos bem-aventurados; mas, enquanto isso, vivemos envolvidos em corrupção.
Somos informados de que somos justos; todavia o pecado habita em nós. Ouvimos que somos bem-
aventurados; mas, entrementes, somos subjugados por inaudita miséria. É-nos prometida abundância de
tudo quanto é bom; mas vivemos frequentemente famintos e sedentos. Deus proclama que nos virá buscar
imediatamente; mas aparece que é surdo ao nosso clamor. O que seria de nós, se não fôssemos
sustentados por nossa esperança? E quantos de nossos pensamentos não emergem acima da escuridão e
pairam acima do mundo, sustentados pela luz da Palavra de Deus e de seu Espírito? Portanto, a fé é com
justa razão chamada a substância das coisas que são ainda objeto de esperança e a evidência das coisas
ainda ocultas.[93]
Esperança nada mais nada menos é que a perseverança na fé. Pois assim que tivermos crido na
Palavra de Deus, resta ainda que perseveremos até a concretização dessas coisas. Daí, visto que a fé é a
mãe da esperança, está é também por aquela a fim de que não venha a perecer.[94]
Devemos, pois saber que a genuína fé está sempre de braços dados com a esperança.[95]
49| Esperança, paciência e oração


A pessoa que põe sua alegria na esperança da vida por vir, e suporta suas tribulações com
paciência, também está pronta a dedicar-se ao tempo e se vale da oportunidade de marchar com vigor em
busca de seu alvo. Sempre que venha ao caso, Paulo primeiro nos proíbe de permanecermos contentes
com nossas bênçãos momentâneas, ou de pormos nossa alegria na terra ou nas coisas terrenas, como se
nossa felicidade estivesse localizada ali. Ao contrário disso, ele nos convida a dirigir nossas mentes
rumo ao céu, para que experimentemos aquela alegria que é sólida e plenária. Se nossa alegria repousa
na esperança da vida por vir, esta esperança gerará em nós paciência na adversidade, visto que nenhum
sentimento de pesar será capaz de sucumbir tal alegria. Portanto, estas duas coisas se acham
estreitamente relacionadas entre si, ou, seja: a alegria que nasce da esperança, e a paciência que nasce da
adversidade. Somente a pessoa que aprendeu a buscar sua felicidade para além deste mundo, com o fim
de reduzir e aliviar as asperezas e amarguras da cruz com a consolação da esperança, se sujeitará calma
e tranquilamente a carregar a cruz.
Entretanto, visto que ambas estas coisas estão muito acima de nossas forças, devemos
permanecer constantemente em oração e invocar continuamente a Deus, para que ele não permita que
nossos corações desmaiem e se misturem com o pó, ou sejam destroçados pelas calamidades. Além do
mais, Paulo não só nos estimula à prática da oração, mas expressamente nos intima à perseverança, visto
que nossa guerra é incessante e sofremos vários assaltos todo dia. Mesmos os mais fortes dentre nós são
incapazes de suportar esses reveres sem frequente reaquisição de novas energias. Mas a presteza na
oração é o melhor antídoto contra o risco de afundarmos.[96]
50| Paciência: prova de fé


É necessário que haja paciência, não só porque devemos perseverar até ao fim, mas porque
Satanás conta com inumeráveis artifícios com os quais ele nos açoita. A menos que sejamos munidos de
uma extraordinária paciência, seremos destroçados mil vezes antes que possamos chegar sequer à metade
de nossa jornada. A herança da vida eterna já nos está garantida, visto, porém, que esta vida se assemelha
a uma pista de corrida, temos que nos esforçar por alcançar a meta final. Nessa corrida, muitos
obstáculos e dificuldades surgem em nosso caminho com o fim não só de tolher nossos passos, mas
também para desviar-nos de nosso curso; fracassaremos, a menos que nos revistamos de grande
disposição de espírito para enfrentá-los. Satanás, em suas sutilezas, nos arremessa todo gênero de
importunações com o fim de desencorajar-nos, e de fato nenhum cristão dará jamais dois passos sem
sentir-se aborrecido, a menos que ele seja mantido de pé por meio de sua paciência. Esse, pois, é o único
caminho pelo qual podemos avançar sem sermos impedidos; pois não poderemos obedecer a Deus de
outra maneira, nem poderemos jamais desfrutar da herança prometida.[97]
Jamais alcançaremos a meta da salvação, a menos que nos munamos de paciência. O profeta
declara que o justo viverá por sua fé, porém fé nos conduz para as coisas distantes que ainda não
alcançamos; portanto, necessário se faz que a fé inclua a paciência.[98]
Visto, porém, que muitos revelam inicialmente uma admirável fé, para logo depois fracassarem, a
paciência é a genuína prova daquela fé que não é passageira nem se dissipa.[99]
51| A paciência produz a paz


A mansidão é parte do ser pacífico. Se nós somos pacientes, não será nossa culpa se não
vivermos em harmonia e paz com os outros homens. Porque um homem então infligiria sofrimento ao
próximo, e guerra entre eles mesmos, e lutariam como cães e gatos, senão porque eles são impacientes?
Ninguém pode suportar ser ofendido, e nós somos tão viciados no interesse próprio que exigimos
satisfação imediata; se nós não a conseguimos, imediatamente arregaçamos as mangas. Então vêm a
recriminação e a hostilidade, que se tornam ódio mortal e o desejo de matar e assassinar, do qual
ninguém é poupado. É assim que a impaciência evita que homens vivam pacificamente juntos; esse é o
porquê nós conscientemente nos irritamos e provocamos, e porque cada um de nós é um demônio para o
seu próximo. Nós devemos aprender, então, a cultivar paciência, e também deixar o interesse próprio e
reputação de lado para que possamos prontamente perdoar o mal feito a nós. É assim, acredito, que
podemos ser pacíficos. Quanto ao mais, não é suficiente evitar dar às pessoas razão para nos caluniarem
ou perturbarem? Nós devemos fazer o que pudermos para manter a paz entre nós. É isso o que devemos
fazer, mesmo que isso signifique sofrer perdas como consequência, ou abrir mão de alguns de nossos
direitos. A paz deve ser tão preciosa para nós – pois Deus a glorifica que nada mais deveria nos
importar.[100]
52| Pacificadores


Quando vemos duas pessoas em conflito, devemos sentir pena por duas almas redimidas pelo
sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, mas que estão em perigo de perdição. Nós devemos sofrer quando a
vitória vai para o demônio, que é o príncipe da discórdia, e quando Deus, que é o autor da paz, é
ignorado. Esse pensamento deveria nos levar ao desejo de colocar um fim no conflito. É por isso que,
por outro lado Deus amaldiçoa todos os que trazem disputas e conflito entre os homens. Eles são como
incendiários que, por sua intriga, incitam amigos a odiar uns aos outros; e quando a suspeita mútua é
incitada, eles espiam e aumentam as chamas. É como se existisse uma ferida aberta, e alguém viesse e em
vez de aplicar uma boa pomada como cura, esfregasse veneno, fazendo com que a ferida fique ainda pior.
Tenha certeza que, por assim dizer, seremos expulsos da escola de Cristo e de sua igreja se
incentivarmos a hostilidade e o conflito entre os homens. Ao contrário, para sermos seus discípulos, nós
devemos não apenas ser pacíficos nós mesmos, mas também devemos tentar, com todo o esforço
possível, superar a hostilidade, apagar o incêndio e evitar disputas de qualquer tipo. Sempre que virmos
pessoas prontas para se entregar ao ódio, devemos intervir rapidamente para endireitar as coisas. Nós
não devemos dar chance a Satanás; devemos agir antes.[101]
53| A defesa do reino de Cristo


“Porque Deus não é de confusão”. Esta é uma frase valiosíssima, pois ela nos ensina que a única
maneira de podermos servir a Deus é tornando-nos pessoas amantes da paz e solícitas em possuí-la. Daí,
onde os homens amam a disputa, estejamos plenamente certos de que Deus não está reinando ali. E quão
fácil é dizer isso! Não é o que baila constantemente nos lábios do povo? Ao mesmo tempo, a maioria das
pessoas realmente faz reboliço sobre nada ou provoca motim na Igreja quando desejam de um modo ou
de outro ser tidas como superiores, e quando, depois de o conseguir, adquirem ar de importância [Gl
2.6].
Portanto, ao formarmos juízo acerca dos servos de Cristo, tenhamos em mente que se deve ter
isto em vista: quer almejem ou não a paz e concórdia, e, ao conduzir-se pacificamente, estão evitando
contenda o quanto está em seu poder, ainda mais porque entendem ser esta paz aquele vínculo que é a
verdade de Deus. Pois se formos chamados a contender contra as doutrinas ímpias, mesmo que a terra e o
céu se confundam, devemos, apesar disso, perseverar na disputa. Aliás, devemos primeiramente fazer
dela nosso alvo, para que a verdade divina, sem qualquer controvérsia, conserve seu fundamento; mas se
os perversos resistirem, devemos encará-los de frente sem qualquer medo e sem qualquer receio de levar
a culpar pelos distúrbios. Pois maldita é aquela paz da qual a rebelião contra Deus é o emblema, e
benditas são aquelas contendas pelas quais se faz necessário defender o reino de Cristo.[102]
Visto que nunca deixou de haver a presença de inimigos de Cristo que ataquem seu reino, nem
seria possível que ele fosse isento de perigo, especialmente quando aqueles que o tentam subjugar são
fortes e poderosos, assim empregam variados estratagemas e tentam cada vez mais e de todas as formas
usar de impetuosa violência. Se fôssemos crer só no que os nossos olhos veem, com toda certeza o reino
de Cristo pareceria estar à beira da ruína. Mas essa promessa de que Cristo jamais será arrancado de seu
trono, senão que, ao contrário, deitará abaixo a todos os seus inimigos, bane de nós todo temor. Duas
coisas são dignas de nota aqui: uma, que o reino de Cristo jamais desfrutará de tranquilidade, senão que
sempre haverá muitos inimigos que o perturbarão. A outra é que, seja o que for que seus inimigos façam,
jamais prevalecerão, uma vez que o lugar de Cristo à direita do Pai não é temporário, senão que abrange
o fim do mundo. Portanto, todos aqueles que não se submetem ao seu governo serão dominados e pisados
sob a planta de seus pés.[103]
Visto que Cristo mantém constante batalha contra vários inimigos, é evidente que a possessão de
seu reino ainda não é pacífica. Ele não está, entretanto, sob a necessidade imperiosa de romper as
hostilidades; sua vontade, porém, é que seus inimigos não lhe sejam sujeitos senão no último dia, a fim de
sermos provados através de nossos exercícios contra eles.[104]
54| O combate cristão (I)


A carne e o Espírito são como dois combatentes, os quais separam em diferentes partes a alma
fiel, travando nela uma verdadeira batalha; todavia, nesta batalha vê-se que o Espírito é superior. Porque,
quando se diz que a carne faz desviar-se de Deus a alma, afasta-a da imortalidade, impede-a de seguir a
santidade e a justiça, e a distância do reino de Deus, não é preciso entender que ela tem tanto vigor em
suas tentações que derruba e destrói a obra do Espírito e que faz estagnar-se o seu poder. Nada disso!
Quando a carne se esforça para abater o homem, a ação do Espírito a paralisa; quando quer desviá-lo do
seu caminho, o poder do Espírito a retarda e a impede; quando quer fazer com que todo o seu amor pela
justiça fique amortecido, o Espírito a refreia; quando a carne se empenha em suprimir totalmente o seu
amor, a obra do Espírito Santo a dobra e a restringe.[105]
É necessário que o servo de Deus seja plenamente animado, e que, pelo maior desejo do seu
coração e pelo seu maior afeto, aspire a Deus, prepare-se e esforce-se para buscá-lo, e constantemente
gema e suspire, contrariado por ser impedido por sua carne de seguir sua carreira como deve. É isso que
entende o apóstolo Paulo quando diz: “Se somos filhos de Deus, não andemos segundo a carne, mas
segundo o Espírito.” Tendo descrito o combate, ele quer dizer que no Espírito se pode encontrar o que há
de melhor para a conquista da vitória. Ora, é fácil ver a diferença que existe entre o homem natural e o
regenerado: o homem natural é muito espetado e instigado em sua consciência para não se iludir com seus
vícios; contudo, nisso ele tem prazer de todo o coração, a isso prende a sua vontade, de bom grado solta
as rédeas, e a única coisa que ele teme é a pena, que ele vê que está preparada para todos os pecadores.
Já o homem regenerado, graças à melhor parte do seu coração, apega-se à justiça da lei, e detesta e
abomina o pecado que ele comete por pura idiotice; o pecado o desgosta e por ele é reprovado; mas ele
tem o seu prazer e o seu deleite na lei de Deus e nela acha mais suave doçura do que em todos os
prazeres do mundo. Além disso, ele nunca peca por consciente decisão própria, mas ao pecar contraria o
seu coração, porque não é somente a sua consciência que repudia o mal; os seus afetos também repudiam.
[106]
55| O combate cristão (II)


Deus nos tem munido com mais de uma espécie de auxílio, desde que não sejamos descuidados
em fazer uso do que nos é oferecido. Todavia, quase todos nós pecamos ao fazermos uso, de forma
relaxada e hesitante, da graça que nos é oferecida; justamente como faz um soldado, ao ver-se frente a
frente com o inimigo, toma seu capacete, todavia esquece de sobraçar seu escudo. O Senhor nos oferece
armas para repelir todo gênero de ataque. Com o fim de corrigir essa falsa segurança, ou, antes, esse
descuido, Paulo toma por empréstimo uma comparação extraída da arte militar, e nos instiga a vestimo-
nos com toda a armadura de Deus. Pelo que ele quer dizer-nos que devemos estar preparados de todos os
lados, de modo a não carecermos de nada. Resta-nos aplicá-las ao nosso próprio uso, e não deixá-las
dependuradas no armário ou na parede. Para fazer-nos vigilantes, ele nos diz que devemos não só
engajar-nos na guerra em campo aberto, mas que também temos um inimigo astuto e traiçoeiro, que nos
ataca secretamente por meio de armadilhas.[107]
Visto, porém, que somos fracos, uma exortação seria sem efeito, a menos que o Senhor estivesse
presente e estendesse sua mão a socorrer-nos; sim, a menos que ele nos suprisse com a plenitude de seu
poder. Se o Senhor nos socorre com seu extraordinário poder, então não temos qualquer razão de
mostrar-nos indecisos na batalha.[108]
No combate espiritual, esses dois mantêm a mais elevada posição. Por meio da fé, repelimos
todos os ataques do diabo; e, por meio da Palavra de Deus, o próprio inimigo é completamente
esmagado. Em outras palavras, se a Palavra de Deus é eficaz em nós mediante a fé, então estaremos mais
que suficientemente armados, tanto para repelir quanto para pôr em fuga o inimigo. Portanto, aqueles que
tiram de um cristão a Palavra de Deus, porventura não o despojam de sua indispensável armadura, para
que pereça sem ter como lutar? Não existe sequer um homem que não esteja na obrigação de ser um
soldado de Cristo. Mas quem pode lutar desarmado e indefeso?[109]
Os obstáculos são tantos e tão imensuráveis, que nenhuma coragem humana é suficiente para
transpô-los. Portanto, é Deus quem nos equipa com o Espírito de poder. Pois aqueles que, por outro lado,
revelam grande força, caem quando não são sustentados pelo poder do Espírito de Deus.[110]
Perigo nenhum prevalecerá onde prevalece o poder de Deus; nem fracassará em meio à jornada
aquele que estiver devidamente armado para lutar contra Satanás.[111]
56| O combate cristão (III)


Nossas dificuldades são maiores do que se tivéssemos que lutar contra os homens. Ali resistimos
a força humana, espada contra espada, o homem contende contra o homem, a força é rebatida pela força,
e habilidade contra habilidade; mas, aqui, o caso é muitíssimo diferente, porquanto nossos inimigos são
em geral em tal proporção, que não há poder humano capaz de resistir.[112]
Lembremo-nos desta afirmação quando as injúrias humanas nos levarem à represália. Pois nossa
natureza nos leva à selvageria contra os próprios homens; mas esse estulto desejo será refreado, como
por uma rédea curta, pela consideração de que os homens que nos importunam nada são além de dardos
lançados pela mão de Satanás. Enquanto estamos ocupados em repeli-los, nos expomos a ser feridos de
todos os lados. Lutar contra a carne e o sangue não só será inútil, mas também muito prejudicial.
Devemos ir diretamente ao inimigo, que nos ataca e nos fere de seu esconderijo, que mata antes mesmo
de ser visto.[113]
Quando o inimigo é negligenciado, ele faz tudo o que pode para sujeitar-nos através da apatia e
para em seguida desencorajar-nos usando a arma do terror; de modo que, antes mesmo de sermo s
atingidos, somos dominados e derrotados.[114]
Satanás possui muitos artifícios pelos quais nos conduz ao erro e nos assalta com estratagemas
extraordinários; Deus, porém, nos fornece uma armadura eficaz, porquanto nós mesmos não pretendemos
deixar-nos enganar. Não temos, pois, razão alguma para queixar-nos de que as trevas são mais fortes que
a luz, ou que a verdade é vencida pela falsidade; antes, porém, quando somos desviados do correto
caminho da salvação, estamos recebendo o castigo por nosso próprio desinteresse e apatia.[115]
57| Ministério e armas espirituais


Os tipos de armas correspondem aos tipos de guerra. Paulo gloria-se em estar equipado com
armas espirituais, porquanto sua guerra é igualmente espiritual, por isso é óbvio que não são segundo a
carne, a qual é o seu oposto. A comparação feita entre o ministro do evangelho e a guerra é mais
adequada quando se pensa nela em termos de guerra perpétua, que permanece ao longo de toda a vida de
um cristão; pois a pessoa que se devota ao serviço de Deus jamais terá trégua da parte de Satanás, mas
sofrerá uma contínua inquietude. Porém, os ministros da Palavra e os pastores do rebanho devem ser
comparados a porta-bandeiras que marcham diante dos exércitos. Certamente que não há ninguém a quem
Satanás moleste mais, sobre quem Satanás mais severamente descarregue sua ira, ou quem sofra mais
profundas e mais dolorosas feridas. O homem que se prepara para o exercício deste ofício é um pobre
equivocado a menos que esteja disposto a suportar tudo corajosamente e se revista de poder para a
batalha. Pois toda a sua obra se destina à luta. Ele deve aprender a pensar no evangelho como algo que
acende a ira de Satanás; portanto, ele não tem nada mais a fazer senão ornar-se para a luta toda vez que
percebe uma chance de levar o evangelho avante. Porém, com que sorte de armas Satanás deve ser
repelido? Ele só pode ser repelido com armas de natureza espiritual, e aquele que não se acha armado
com o poder do Espírito Santo, ainda que se glorie de ser um ministro de Cristo, logo descobrirá que não
o é.[116]
Portanto, o cristão tem de estar armado de todos os lados, pois se o não obtiver sucesso de um
assalto, decididamente lançará mão de outro, e atacará às vezes de frente, às vezes pela retaguarda e às
vezes pelos flancos.[117]
58| A Palavra: arma da fé


Para resistir aos ataques, a fé está guarnecida da Palavra de Deus. Quando a fé sofre a investida
desta tentação – que Deus lhe é contrário e é seu inimigo, pelo que a aflige –, ela se opõe, contrapondo
como defesa a declaração de que Deus é misericordioso, mesmo quando nos aflige, visto que os
corretivos que ele nos aplica procedem do seu amor, não da sua ira. Tendo batido forte e repetidamente
com a arma desta cogitação – que Deus é justo juiz, sempre pronto a punir toda iniquidade, põe diante de
si o escudo com o qual defende esta verdade: a misericórdia de Deus está habilitada a atender a todas as
faltas, quando o pecador volta para buscar a bondade do Senhor. Desta maneira, a alma crente, ainda que
tenha sido atormentada extraordinariamente, apesar disso supera por fim todas as dificuldades e não
permite jamais que a confiança por ela depositada na misericórdia de Deus lhe seja extraída; muito ao
contrário, todas as dúvidas pelas quais ela é posta à prova tornam-se uma grande certeza desta confiança.
Tornamos a afirmar que a raiz da fé jamais será arrancada totalmente do coração do crente, no
qual ela permanece arraigada. Embora pareça oscilar e dobrar-se quando sacudida, jamais sua luz será
tão completamente extinta que não lhe fique sempre ao menos uma centelha. Essa realidade Jó demonstra
quando declara que não deixará de esperar em Deus, ainda que ele o mate [Jó 13.15].[118]
59| A fé: escudo contra os ataques


A incredulidade é soberba, visto que não atribui a Deus sua merecida honra, sempre que
desvencilha o homem de aceitar a sujeição divina. Como resultado da indiferença, do orgulho e do
desdém, enquanto as coisas vão bem com o perverso ele ousa, como disse alguém, insultar as nuvens.
Visto não haver nada mais oposto à fé do que retroceder, é próprio da fé conduzir o homem de volta à
obediência a Deus, depois de haver se desviado por sua própria natureza pecaminosa.[119]
Assim é, de fato: a incredulidade não reina nos recessos do coração dos piedosos, mas os
assedia de fora; nem os fere mortalmente com seus dardos, mas apenas os molesta, ou melhor, os golpeia
de modo que o ferimento seja curável. Pois a fé, segundo Paulo ensina, nos é por escudo [Ef 6.16]: como
anteparo aos dardos, de tal modo lhes sustém o impacto que os desvia totalmente ou, ao menos, os
aplaca, para que não nos penetrem às partes vitais. Portanto, quando a fé é assim acometida, é
precisamente como se um soldado, de outro modo firme, se visse forçado por violento golpe de lança a
mover o pé e ceder um pouco; quando, porém, a própria fé é ferida, é precisamente como se o escudo
recebesse do embate alguma quebradura, contudo de modo que não seja traspassado. Ora, a mente
piedosa, que sempre se ergue até este ponto, dirá com Davi: “Se eu tiver de andar no meio da sombra da
morte, não temerei males, porque tu estás comigo” [Sl 23.4]. Andar na escuridão da morte é sem dúvida
apavorante, e seja o que for que aconteça aos fiéis, sem importar o que tenham de firmeza, não sentirão
horror extremo. Mas, como se impõe em seu espírito o pensamento de que têm a Deus presente, e que ele
cuida de sua salvação, o temor é, ao mesmo tempo, vencido pela confiança.[120]
60| A vitória da fé


Jamais seremos aptos no fragor da batalha, a menos que a fé nos sustente. Também João, de outro
lado, afirma que essa é a vitória que vence o mundo [1Jo 5.4]. É pela fé que subimos mais alto; é pela fé
que sobrepujamos todos os obstáculos da presente vida, todas as suas dores e misérias; é pela fé que
descobrimos um lugar quieto em meio às tormentas e tumultos.[121]
A vitória da fé é mais esplêndida à luz da atitude de se desdenhar a morte do que se a vida se
prolongasse até a quinta geração. É evidência de uma fé mais excelente e digna de maior apreço, quando
as censuras, a necessidade e as extremas angústias se sobressaem diante da paciência e serenidade, do
que quando se recobra a saúde milagrosamente. Ou se obtém algum benefício extra da parte de Deus. Em
síntese, a fortaleza dos santos que se tem sobressaído com clareza em todas as épocas é obra da fé,
porque nossa debilidade é tal que não somos capazes de suplantar nossos males, a menos que a fé nos
sustente. Desse fato concluímos que todos quantos confiam em Deus são supridos com o poder de que
necessitam a fim de resistirem a Satanás em qualquer posição de onde os ataques, e especialmente para
que jamais sejamos carentes de paciência ao enfrentarmos nossos males, se porventura a fé estiver
presente; e, além do mais, para que não sejamos culpados de incredulidade quando cairmos sob o peso
das perseguições ou da cruz. A natureza da fé é a mesma hoje, como foi nos dias dos santos patriarcas.
Portanto, se imitarmos sua fé, jamais fracassaremos diante das desgraças em virtude de nossa covardia.
[122]
61| Vitória sobre o mal


Nessa nossa vida, toda luta é contra a perversidade. Se tentamos retaliar, admitimos que fomos
enganados por ela. Mas se, ao contrário, ao mal revidamos com o bem, demonstramos por esse mesmo
ato um invencível equilíbrio do espírito. E esta é a mais gloriosa espécie de vitória, e sua recompensa
nem mesmo pode ser imaginada, mas que pode realmente ser experimentada, quando o Senhor lhes
conceder maior sucesso do que poderiam desejar. Em contrapartida, aquele que tenta vencer o mal com
outro mal, talvez até consiga vencer seu inimigo com algum dano, mas tal coisa será sua própria ruína,
pois, ao agir assim, estará participando da batalha do Diabo.[123]
Por maiores que sejam as máquinas de guerra (como diz Agostinho) que o Diabo erige contra
nós, enquanto ele não tiver lugar no nosso coração, onde habita a fé, será lançado para fora. Assim, a
julgar pela experiência, os fiéis não somente escapam sãos e salvos de todos os combates, de tal maneira
que, apenas recobrado o vigor, já estão de novo preparados para descer à arena, mas também se cumpre
neles o que afirma João: “Esta é a vitória que venceu o mundo, vossa fé” (1Jo 5.4). E não afirma que a fé
sairá vitoriosa somente em uma batalha, ou em poucas, ou contra um ou outro choque, mas que triunfará
frente a todo o mundo, quantas milhares de vezes for atacada.[124]
62| A graça de Deus e libertação


A graça de Deus algumas vezes é chamada libertação ou livramento, sendo que por ela somos
libertados da escravidão do pecado; mas também é chamada, ora reparação do nosso ser, pela qual,
sendo posto de lado o velho homem, somos restaurados à imagem de Deus; ora regeneração, pela qual
somos feitos novas criaturas; ora ressurreição, pela qual Deus, fazendo com que morramos, ressuscita-
nos por seu poder. Todavia, aqui é preciso observar que o livramento nunca é completo, visto que uma
parte de nós permanece sob o jugo do pecado; que a restauração jamais se realiza completamente,
porquanto muita coisa dos vestígios do homem terreno permanece; e que a ressurreição nunca é completa,
pois alguma coisa retemos do velho homem. Isso porque, enquanto estamos encerrados nesta prisão que o
nosso corpo é, trazemos sempre conosco as relíquias, ou seja, os restos da nossa carne, os quais na
mesma proporção diminuem a nossa liberdade.
Porque a alma fiel, depois da sua regeneração, divide-se em duas partes, entre as quais há uma
diferença perpétua. Pois, quando é regida e governada pelo Espírito de Deus, ela deseja e ama a
imortalidade, o que a incita e a induz à justiça, à pureza e à santidade, e assim não medita noutra coisa
senão na bem-aventurança do reino celestial, e aspira inteiramente à companhia de Deus; e no que
permanece ainda em seu estado natural, estando impedida pela lama terrena e envolta em más ambições,
não enxerga o que de fato é desejável e onde está a verdadeira felicidade. Detida pelo pecado, mantém-
se longe de Deus e da sua justiça.
Daí surge um combate que põe em ação o homem fiel durante sua vida toda, sendo que pelo
Espírito é elevado às alturas, e pela carne é levado a desviar-se e é derribado. Segundo o Espírito, ele se
dirige cheio de ardente desejo para a imortalidade; segundo a carne, desvia-se por um caminho que leva
à morte. Segundo o Espírito, ele pensa em viver retamente; segundo a carne, é atraído pela iniquidade.
Segundo o Espírito, ele condena o mundo; segundo a carne, cobiça os prazeres mundanos.[125]
Cristo, pois, tanto em si mesmo quanto em seus membros, governa fora de qualquer perigo de
mudança, pois em sua pessoa ele sempre permanece são e salvo. Quanto a nós, visto que somos salvos
por sua graça e ele nos aceita em sua fidelidade e proteção, não corremos risco, como disse, e a nossa
salvação é infalível. Pois a herança que permanece sendo nossa nos céus não pode ser usurpada. Nós,
que também somos “guardados pelo seu poder mediante a fé” (segundo as palavras de Pedro), podemos,
através da fé, permanecer salvos e descansados, porquanto o que quer que Satanás planeje, ainda que o
mundo exiba todas as suas armas pesadas para nos destruir, permaneceremos seguros em Cristo.[126]
63| Unidade: ódio às discórdias


É incontestável que a nós compete cultivar a unidade da forma a mais séria, porque Satanás está
bem alerta, seja para arrebatar-nos da Igreja, ou para desacostumar-nos dela de maneira furtiva. Essa
unidade será um fato, caso ninguém procure agradar a si próprio mais do que lhe é direito; ao contrário
disso, se todos tivermos um só e o mesmo alvo, a saber: estimularmos uns aos outros ao amor, não
permitiremos que a rivalidade floresça, exceto no campo das boas obras. Certamente que o menosprezo
direcionado a algum irmão, a crueldade, a inveja, a supervalorização de nós mesmos, bem como outros
impulsos nocivos, claramente demonstram, ou que o nosso amor é gélido ou que realmente não existe.
[127]
Quão perfeita deveria ser a unidade dos cristãos, ou seja: que ela pudesse prosperar de tal forma,
em todas as suas partes, que cresceríamos unidos em um só corpo e uma só alma. Desse fato segue-se que
não podemos obter vida eterna sem vivermos em mútua harmonia neste mundo. Pois Deus convoca a
todos com sua única voz, para que sejam unidos no mesmo consentimento de fé e empreguem esforços por
socorrer uns aos outros. Se pelo menos esse pensamento fosse implantado em nossas mentes, de que há
posto diante de nós esta lei: que os filhos de Deus não podem suscitar mais desavença entre si do que é
possível que o reino do céu se divida, quanto mais criteriosamente devemos cultivar a bondade fraternal!
Quanto deveríamos odiar todas as discórdias, se porventura refletíssemos convenientemente que todos
quantos se separam de seus irmãos, eles mesmos se fazem estranhos ao reino de Deus! E todavia, muito
estranhamente, enquanto nos esquecemos de nossa mútua fraternidade, prosseguimos reivindicando que
somos filhos de Deus. Aprendamos de Paulo que ninguém se encontra absolutamente preparado para
aquela herança sem que antes sejam todos um só corpo e um só Espírito.[128]
A humildade é o primeiro passo para alcançá-la. Ela também produz mansidão, a qual nos faz
pacientes. E ao suportarmos irmãos, conservamos a unidade que, de outra forma, seria quebrada mil
vezes ao dia. Lembremo-nos, pois, que, ao cultivarmos a bondade fraternal, é preciso que comecemos
com a humildade. Donde procede a rudeza, a soberba e as injúrias lançadas contra os irmãos? Donde
procedem as discussões fúteis, os insultos e as censuras, senão do fato de cada um amar excessivamente a
si próprio e de buscar em demasia seus próprios interesses? Aquele que se desfaz da arrogância e cessa
de agradar a si próprio se tornará manso e acessível. E todo aquele que persiste em tal moderação
ignorará e tolerará muitas coisas na conduta de nossos irmãos. Observemos criteriosamente esta ordem e
arranjo. Será inútil prescrever a paciência, a menos que domestiquemos a mente humana e corrijamos sua
disposição; será inútil ensinar a mansidão, a menos que tenhamos iniciado com a humildade.[129]
64| Orgulho: causa de contendas


Deve-se observar que o orgulho ou arrogância é a causa e ponto de partida de todas as
controvérsias, quando cada um, reivindicando para si mais do que permite seu direito, procura com
avidez dominar os demais.
Qualquer homem que nutre avidez por superioridade e perturba a Igreja com sua ambição, que
venha para campo aberto. Eu lhe pedirei que se ponha diante de outra pessoa, ou, seja, que lhe dê o
direito de ser considerada da mesma categoria que outros e de ser superior a outrem. Ora, este argumento
todo depende da organização que o Senhor estabeleceu em sua Igreja, a saber, que os membros do corpo
de Cristo vivam juntos, e que cada um deles viva contente com seu próprio espaço, sua própria posição,
sua própria função e com a honra que lhe é conferida. Se um membro quiser deixar seu espaço e ocupar o
espaço de outrem, e tomar posse de seu ofício, que destino terá todo o corpo? Portanto, lembremos bem
que o Senhor nos colocou juntos na Igreja, e destinou a cada um seu posto, de maneira tal que, sob a
Cabeça, nos empenhemos por auxiliar uns aos outros. Lembremos ainda que dons tão diferentes nos têm
sido conferidos para podermos servir ao Senhor humilde e destituídos de pretensão, e aplicar-nos ao
avanço da glória daquele que nos tem concedido tudo quanto possuímos. Portanto, o melhor método de
corrigir a ambição daqueles que querem ser superiores é chamando-os de volta a Deus, de modo que
aprendam que nenhum deles diga que por mérito seu é que foi posto em posição superior, ou que por
demérito é que foi posto em posição humilde, porque somente Deus faz isso. Devem igualmente saber que
Deus não admite tanto a alguém que se promove ao lugar da Cabeça; mas ele distribui seus dons de tal
maneira que só ele recebe glória em todas as coisas.
Ora, não existe um sequer que possua inerentemente alguma excelência, que o faça superior;
portanto, quem quer que se ponha num nível superior aos demais é um mero idiota e impertinente. A
genuína base da modéstia cristã é esta: de um lado, não ser presumido, porquanto sabemos que somos
vazios e destituídos do que é bom, isto é, que ele tenha implantado em nós algo que seja inerentemente
bom; e, do outro, por esta razão, somos tanto mais devedores à divina graça. Em outros termos, não existe
em nós nada que seja propriamente nosso.[130]
Somos chamados com a condição de vivermos unidos em um só corpo, visto que Cristo
estabeleceu entre todos os que creem nele a associação e união orgânica que há entre os membros do
corpo humano. E já que os homens não podem chegar a tal união por si mesmos, o próprio Senhor se
tornou o vínculo dessa união. Visto, pois, que aquela relação existente no corpo humano deve também
existir na comunhão dos crentes, o apóstolo prova, pela aplicação desta metáfora, quão necessário é que
cada crente individualmente considere o que é apropriado a sua natureza, capacidade e chamamento.
Embora esta metáfora se componha de vários aspectos, ela deve ser aplicada principalmente a nosso
presente tema, da seguinte forma: como os membros de um corpo têm faculdades distintas, e todos os
membros são distintos, visto que nenhum membro possui simultaneamente todas as faculdades nem
assume as funções dos demais membros, assim também Deus nos dispensou vários dons. Com esta
distinção, ele determinou a ordem dentro da qual ele quis que ficássemos, a fim de que cada um se regule
de acordo com a medida de sua habilidade, e não venha a intrometer-se nos deveres pertencentes a
outrem. Ninguém deve aventurar-se a possuir tudo de uma só vez, mas deve contentar-se com sua porção,
e conscientemente refrear-se de usurpar as funções de outrem.[131]
65| A propagação da falsidade


Uma só pessoa indigna será sempre mais eficiente em destruir do que dez mestres fiéis em
edificar, ainda quando labutem com todas as suas forças. Jamais faltará joio para Satanás semear junto à
boa semente, e ainda quando pensarmos que os falsos profetas já se foram, outros tantos imediatamente
surgirão de todos os lados. Têm este poder de fazer o mal, não porque a falsidade seja por sua própria
natureza mais forte que a verdade, ou porque os ardis do diabo sejam mais resistentes que o Espírito de
Deus, mas porque os homens são naturalmente inclinados à vaidade e aos vícios, e abraçam mais
prontamente as coisas que concordam com sua natural disposição, e também porque são cegados pelos
atos da justa vingança divina, e assim são levados, como escravos em cativeiro, ao bel-prazer de
Satanás. A principal razão por que a praga das doutrinas ímpias é tão bem-sucedida, é que a ingratidão
dos homens merece ser assim remunerada. É de grande importância que os mestres piedosos sejam
lembrados desse fato, para que estejam preparados a manter uma guerra constante e não deixem
desencorajar a delonga nem se compactuem com o orgulho e insolência de seus adversários.[132]
66| Diversidade dos dons


Todas as pessoas desejam possuir o bastante que as poupe de depender do auxílio de seus
irmãos. Mas quando ninguém possui o suficiente para suas necessidades pessoais, então surge um vínculo
de comunhão e solidariedade, pois que cada um se vê forçado a buscar empréstimo dos outros. Admito,
pois, que a comunhão dos santos só é possível quando cada um se vê contente com sua própria medida, e
ainda reparte com seus irmãos as dádivas recebidas, e em contrapartida admite ser também assistido
pelas dádivas alheias.
Nem todas as coisas são adequadas a todos os homens; por isso os dons divinos são tão bem
distribuídos, que cada um recebe uma porção limitada. Cada indivíduo deve viver tão satisfeito com a
apropriação de seus dons pessoais, visando à edificação da Igreja, que ninguém precisa negligenciar sua
própria função a fim de invadir uma área pertencente a outrem. A segurança da Igreja é preservada por
meio desta mui excelente ordem e simetria, quando cada indivíduo por si mesmo contribui para o bem
comum, daquilo que recebeu do Senhor, sem, ao mesmo tempo, impedir a outrem de fazer o mesmo.
Inverter esta ordem é declarar guerra contra Deus mesmo, por cuja ordenação foi ela designada. A
diferença de dons não tem sua origem na vontade humana, mas porque foi do agrado do Senhor ministrar
sua graça desta maneira.[133]
67| Não existe pessoa inútil!


Portanto, cada um de nós deve compreender que, seja qual for o dom que possui, o mesmo lhe foi
concedido para a edificação de todos seus irmãos. Com isso em mente, ele deve dedicá-lo ao bem
comum, não suprimindo-o, nem sepultando-o em seu interior, por assim dizer, nem tampouco usando-o
como se ele fosse sua possessão particular. Aquele que se sobressai porque possui dons mais excelentes,
não deveria ser arrogante, nem subestimar os demais; ao contrário, precisa ponderar sobre o fato de que
nada é tão insignificante que não venha a ser útil. Tomemos como exemplo o seguinte: ainda que o menos
importante entre os crentes, na realidade produz fruto, dentro de sua escassa capacidade, de modo que
não existe pessoa alguma que seja um membro inútil da Igreja. Os que não são agraciados com uma
distinção tão excelente não deveriam invejar os que lhe são superiores, nem negar-lhes obediência; ao
contrário, devem manter-se na posição em que foram colocados. Que haja amor uns para com os outros,
simpatia e consideração uns pelos outros. Que seja o bem comum a influenciar-nos para que não sejamos
os que danificam a Igreja por meio de malevolência, ciúme, orgulho, ou algum gênero de discórdia; ao
contrário disso, que cada um canalize toda sua energia em sua preservação.[134]
A propriedade do amor, porém, é a mútua proteção e bondade. Recordemos sempre, quando o
diabo nos empurrar para as controvérsias, que as desavenças dos membros, no seio da Igreja, não nos
levam a parte alguma, senão para a ruína e destruição de todo o corpo. Quão desgraçado, quão louco é
que nós, membros do mesmo corpo, conspiremos voluntariamente e de comum acordo para a mútua
destruição![135]
68| Mutualidade e dons


Nenhum membro do corpo de Cristo é dotado de perfeição tal que seja capaz, sem a assistência
de outros, de suprir suas necessidades pessoais. A cada um se distribui uma certa medida; e é só por
meio da comunicação recíproca que possuem o necessário para a manutenção de seus respectivos lugares
no corpo.[136]
Isso significa que nenhum crescimento é de utilidade quando não corresponde a todo o corpo. A
pessoa que deseja crescer isoladamente segue um rumo equivocado. Pois que proveito traria ao corpo se
uma perna ou um braço se desenvolvesse sem simetria, ou uma boca fosse grande demais? Seria ele
simplesmente afligido como se tivesse presente um tumor maligno. Portanto, caso queiramos ser
considerados em Cristo, que nenhum de nós seja tudo para si mesmo, senão que, tudo quanto venhamos a
ser, sejamos em relação uns aos outros. Isso só pode ser realizado pelo amor; e onde o amor não reina,
também não existe edificação na Igreja, senão mera dispersão.[137]
Deus não quer que os talentos que ele mesmo concede a uma pessoa, com o fim de proporcionar
crescimento, sejam perdidos ou sepultados na terra sem qualquer utilidade. Negligenciar um dom, pelo
prisma da preguiça e indiferença, é deixar de fazer uso dele; de modo que, pela falta de uso, enferruja-se
e degenera-se. Por conseguinte, cada um de nós deve considerar que habilidade possui, a fim de fazer
pleno uso dela.[138]
69| Ministério: instrumento de Deus


Devemos deixar-nos ser governados e doutrinados pelos homens. Eis a regra universal, a qual
abrange tanto os mais eminentes quanto os mais humildes. A igreja é a mãe comum de todos os piedosos,
a qual suporta, nutre e governa, no Senhor, tanto a reis como a seus súditos; e tal coisa é feita pelo
ministério. Os que negligenciam, ou fazem pouco, desta ordem pretendem ser mais sábios do que Cristo.
Ai da soberba de tais homens! Não negamos que podemos ser aperfeiçoados somente pelo poder de
Deus, sem qualquer assistência humana. Neste ponto, porém, estamos tratando sobre qual é a vontade de
Deus e a designação de Cristo, e não do que o poder de Deus pode fazer. Ao empregar a
instrumentalidade humana na realização da salvação dos homens, Deus não está conferindo aos homens
nenhuma honra ordinária. E a melhor maneira de promover a unidade é unir-se em torno de um ensino
comum, seguindo o padrão de um líder.[139]
Visto que o Senhor só designou os ministros depois de dotá-los com os dons indispensáveis e
capacitá-los para o cumprimento dos deveres a que foram destinados. É preciso deduzir deste fato que as
pessoas completamente destituídas de qualificações, que se impõem na Igreja, não passam de fanáticos,
dominados por um espírito maligno.[140]
Satanás labora muito mais do que imaginamos para banir de nossas mentes, por todos os meios
possíveis, a fé na sã doutrina; e visto que nem sempre é fácil fazer isso através de um franco ataque à
nossa fé, ele se arma contra nós secretamente e pelo uso de métodos indiretos; e a fim de destruir a
credibilidade de seu ensino, ele desperta suspeitas acerca da vocação dos santos mestres.[141]
70| Eleição: fundamento


A eleição eterna é o fundamento e causa primeira, tanto de nosso chamamento como de todos os
benefícios que de Deus recebemos. Se porventura nos for pedido a razão por que Deus nos chamou a
participar do evangelho, por que diariamente ele nos concede bênçãos em grande quantidade, por que ele
nos abre os portões celestiais, teremos sempre que retroceder a este princípio, a saber: que Deus nos
elegeu antes que o mundo viesse à existência. O próprio tempo da eleição revela que ela é gratuita; pois,
o que poderíamos merecer, ou em que consistiria o nosso mérito, antes que o mundo fosse criado? [Rm
9.11].[142]
Pois, se somos escolhidos em Cristo, então isso não está em nós mesmos. Não procede de algo
que porventura mereçamos, e sim porque nosso Pai celestial nos introduziu, através da bênção da adoção,
no Corpo de Cristo. Em suma, o nome de Cristo exclui todo mérito, bem como tudo quanto os homens
porventura possuem de si próprios.[143]
Tudo isso visa a provar a certeza de nossa salvação, contanto que façamos parte dos eleitos de
Deus. É como se dissesse: “Os eleitos de Deus não dependem de eventos mutáveis, senão que repousam
num sólido e inamovível fundamento, já que sua salvação está nas mãos de Deus. Assim como ‘Toda
planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada’ [Mt 15.13], também uma raiz que foi fixada por
sua mão não pode ser arrancada pelos ventos ou tempestades.” Portanto, lembremo-nos, antes de tudo,
que a despeito de toda a fraqueza da carne, os eleitos, não obstante, não correm esse risco, porque não
estão firmados em sua própria capacidade, mas estão fundados em Deus. E se os alicerces que os homens
lançam são firmes, quanto mais aquele que é lançado por Deus mesmo![144]
71| Eleição e santidade


A eleição não propicia ocasião à licenciosidade, ou à blasfêmia dos homens perversos que
afirmam: “Vivamos da maneira que nos agrade, porque, se já fomos eleitos, é impossível que venhamos
perecer.” É uma atitude ímpia dissociar a santidade de vida da graça da eleição; portanto, “a quem
predestinou, a esses também chamou; e a quem chamou, a esses também justificou” [Rm 8.30]. Este é o
alvo em direção ao qual devemos manter todo o curso de nossa vida; nunca, porém, o atingiremos até que
nossa corrida haja terminado. Onde estão os homens que se espantam e evitam a doutrina da
predestinação como sendo um confuso labirinto, que a reputem como sendo inútil e mesmo quase nociva?
Nenhuma doutrina é mais útil e proveitosa quando utilizada de forma adequada e sóbria. Essa é a legítima
fonte da qual devemos extrair nosso conhecimento da misericórdia divina. Se os homens buscassem
qualquer outro argumento, a eleição lhes fecharia a boca, de modo que não mais se atrevessem nem
pudessem reivindicar qualquer mérito para si mesmos.[145]
Desse fato inferimos que a santidade, a inocência, e assim toda e qualquer virtude que porventura
exista no homem, são frutos da eleição. Se Deus houvera previsto em nós tudo o que porventura fosse
digno de eleição, então se diria precisamente o contrário.[146]
72| Eleição: Deus nos conduz a Cristo


Cristo não leva ninguém ao Pai senão aqueles que o próprio Pai lhe deu. Sabemos que essa
doação depende da eleição eterna, visto que, aqueles a quem o Pai elegeu para a vida, os entrega aos
cuidados de seu Filho para que os proteja. E isso mesmo é o que se acha expresso em João 6.37: “Todo
aquele que o Pai me dá, esse virá a mim.” Aprendamos que, quando nos submetemos a Deus em
obediência de fé, devemos fazê-lo unicamente em virtude de sua misericórdia, pois de nenhuma outra
forma seríamos conduzidos a ele pela mão de Cristo. Essa doutrina produz um apoio singular à nossa fé.
Quem iria temer, uma vez protegido pela fé e pela guarda de Cristo? Quem, confiando num Protetor de tal
envergadura, não ousaria encarar todos os perigos? Aliás, quando Cristo diz: “Eis aqui estou, e os filhos
que Deus me deu” [Hb 2.13], ele está simplesmente cumprindo o que em outro lugar promete, ou seja:
“Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, eternamente, e ninguém as arrebatará da minha mão” [Jo
10.28].
Finalmente, notemos bem que, embora suceda de o mundo rejeitar o evangelho com violento
desdém, todavia as ovelhas sempre reconhecerão a voz do Pastor. Portanto, não nos sintamos perturbados
ante a impiedade de quase todas as camadas, idades e nações, porquanto Cristo ajunta os seus, os quais
se entregam ao seu cuidado. Se porventura os perversos se lançam precipitadamente na morte, através de
sua própria impiedade, isso se deve ao fato de que as plantas que Deus não plantou são assim arrancadas
[Mt 15.13]. Entretanto, tenhamos consciência de que seu povo lhe é conhecido [2Tm 2.1], e que a
salvação de todos eles está selada por ele mesmo, a fim de que nenhum deles se perca. Que esse seja o
nosso triunfo.[147]
73| Santidade e união com Cristo


O plano das escrituras para a vida de um cristão é duplo: primeiro, que sejamos instruídos na lei
para amar a retidão, porque por natureza, não estamos inclinados a fazê-lo; segundo, que aprendamos
umas regras simples porém importantes, de modo a não desfalecermos nem nos debilitarmos em nosso
caminho.
Das muitas recomendações excelentes que a Escritura faz, não há nenhuma melhor que este
princípio: “Sede santos porque eu sou santo.” Quando andávamos espalhados como ovelhas sem pastor, e
perdidos no labirinto do mundo, Cristo nos chamou e nos reuniu para que pudéssemos nos voltar a Ele.
Ao ouvir qualquer menção de nossa união mística com Cristo, deveríamos recordar que o único meio
para desfrutá-la é a santidade.
A santidade não é um mérito por meio do qual podemos obter a comunhão com Deus sem um dom
de Cristo, o qual nos capacita para estarmos unidos a Ele e a segui-lo. É a própria glória de Deus que
não pode ter nada a ver com a iniquidade e a impureza; portanto, se queremos prestar atenção à sua
exortação, é imprescindível que tenhamos este princípio sempre presente. Se no transcurso de nossa vida
cristã queremos seguir vinculados aos princípios mundanos, para que então fomos resgatados da
iniquidade e da contaminação deste mundo?
Se desejamos pertencer a seu povo, a santidade do Senhor nos admoesta a que vivamos na
Jerusalém santa de Deus. Jerusalém é uma terra santa, portanto, não pode ser profanada por habitantes de
conduta impura.[148]
Santidade, aos olhos de Deus, tem a ver com uma consciência pura; pois Deus não se deixa
enganar, à semelhança dos homens, por pretensão externa; ele, porém, olha para a fé, ou seja, para a
veracidade do coração.[149]
74| Santidade é obediência a Cristo


Ora, não há na escola de Deus lição que deva ser mais prudentemente aprendida do que o estudo
de uma vida santa e perfeita. Em suma, a instrução moral é muito mais importante do que as especulações
ingênuas, as quais são de nenhum uso óbvio ou prático, à luz do texto: “Toda Escritura é inspirada por
Deus e útil... a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”
[2Tm 3.16-17].[150]
A Escritura não nos ensina somente o princípio da santidade, como também nos diz que Cristo é o
caminho a este princípio. Posto que o Pai nos tem reconciliado consigo mesmo por meio de Cristo, nos
ordena que sejamos conformes à sua imagem.
Àqueles que pensam que os filósofos têm um sistema melhor de conduta, lhes pediria que nos
mostrem um plano mais excelente que obedecer e seguir a Cristo. A virtude mais sublime de acordo com
os filósofos é viver a vida de acordo com a natureza, porém a Escritura nos demonstra Cristo como nosso
modelo e exemplo perfeito.
Deveríamos exibir o caráter de Cristo em nossas vidas, pois o que pode ser mais efetivo para
nosso testemunho e de mais valor para nós mesmos? O Senhor nos tem adotado para que sejamos Seus
filhos sob a condição de que revelemos uma imitação de Cristo, que é o Mediador de nossa adoção. A
menos que nos consagremos de maneira devota e ardente à justiça de Cristo, não só nos afastaremos de
nosso Criador, como também estaremos renunciando voluntariamente ao nosso Salvador.
A Escritura acompanha sua exortação com as promessas sobre as incontáveis bênçãos de Deus e
o fato eterno e consumado da nossa salvação. Portanto, posto que Deus tem revelado a si mesmo como
Pai, se não nos comportarmos como seus filhos seremos culpados da ingratidão mais desprezível. Posto
que Cristo nos tem unido ao seu corpo como membros, deveríamos desejar fervorosamente não
desagradá-lo em nada. Cristo, nosso cabeça, tem ascendido aos céus, por tanto deveríamos deixar para
trás os desejos da carne e elevar nossos corações a Ele. Posto que o Espírito Santo nos tem consagrado
como templos de Deus, proponhamos a nós mesmos, em nossos corações, não profanar Seu santuário,
antes manifestar Sua glória.
Tanto nossa alma como nosso corpo estão destinados a herdar uma coroa incorruptível.
Devemos, então, manter ambos puros e sem mancha até o dia do nosso Senhor.[151]
76| A santificação do corpo


Este é um forte apoio para nossa fé, ou seja, que estamos unidos ao Filho de Deus por um vínculo
tão solido, que podemos encontrar em nossa natureza a santidade de que carecemos. Não é só o fato de
nos ter santificado em seu caráter divino, senão que o poder de santificação permanece em nossa natureza
humana, não que ela por si mesma o possua, mas porque Deus derramou em nossa natureza toda a
plenitude de santidade, para que dela possamos participar. Esse é o sentido da expressão de João 17.19:
“E a favor deles eu me santifico a mim mesmo.” Se somos pecaminosos e impuros, o antídoto não está
longe de se encontrar, porque nos é oferecido em nossa carne.[152]
O conhecimento de que somos agora consagrados ao Senhor é, portanto, o ponto de partida do
genuíno percurso em direção à vida de boas obras. Segue-se daqui que nos é necessário cessar de viver
para nós mesmos, a fim de podermos devotar todas as ações de nossa vida ao culto divino.
Há, pois, duas questões a serem ponderadas aqui. A primeira é que pertencemos ao Senhor; e a
segunda é que devemos, por esta mesma razão, ser santos, porquanto seria uma afronta à santidade do
Senhor oferecer-lhe algo que não lhe haja sido antes consagrado. Desta pressuposição segue-se, ao
mesmo tempo, que devemos meditar sobre a santidade que deve permear todas as áreas e toda a extensão
de nossa vida. Segue-se também, deste mesmo fato, que seria uma espécie de sacrilégio reincidirmos na
impureza, pois tal coisa seria pura e simplesmente profanar o que já havia sido santificado.[153]
76| Oração e tesouros de Deus


Portanto, isto obtemos pelo benefício da oração: que penetremos até essas riquezas que nos
foram reservadas junto ao Pai celeste. Pois a oração é uma determinada comunicação dos homens com
Deus, em virtude da qual, havendo adentrado o santuário do céu, na própria presença com ele, eles
instam acerca de suas promessas, para que, onde a necessidade assim o requer, experimentem não haver
sido vão o que creram, acenando ele apenas com a Palavra. Vemos, pois, que Deus não nos propõe coisa
alguma a esperar dele, sem que, por sua vez, nos mande que as peçamos por meio da oração; tão
verdadeiro é que com a oração encontramos e desenterramos os tesouros que se mostram e descobrem
nossa fé por meio do evangelho.
Mas, quão necessária, e de quantos modos, seja útil o exercício da oração não há como explicar
suficientemente pelo uso de palavras. Realmente, não sem causa é que o Pai celeste atesta que a única
cidadela da salvação está na invocação de seu nome, por meio da qual de fato evocamos a presença não
só de sua providência, mediante a qual está vigilante em cuidar de nossos interesses, mas também de seu
poder, mediante o qual nos sustenta, fracos e quase a desfalecer, e de sua bondade, mediante a qual nos
receba à graça, a nós miseramente sobrecarregados de pecados, pela qual, enfim, conseguimos que ele
todo se exiba presente em nós. Daqui nos nasce extraordinária paz e tranquilidade de consciência, porque
havendo exposto ao Senhor a necessidade que nos angustiava, descansamos plenamente nele, sabendo
que conhece muito bem todas as misérias aquele de quem estamos seguros que nos ama e que pode suprir
absolutamente todas as nossas necessidades.[154]
77| Orar uns pelos outros (I)


Não há sequer um momento em nossa vida em que nossas necessidades não devam impelir-nos à
oração. Mas há outra razão para orarmos sem cessar, a saber, que as necessidades de nossos irmãos
devem sensibilizar-nos. E quando é que tantos membros da Igreja não se encontram em aflição e carentes
de nossa assistência? Se porventura, em algum tempo, nos sentirmos frios em relação à oração, ou mais
negligentes do que deveríamos permitir, visto que não sentimos a pressão de alguma necessidade
imediata, pensemos imediatamente quantos de nossos irmãos se encontram fatigados por variadas e
pesadas aflições, se acham prostrados por profunda ansiedade, ou reduzidos ao mais profundo
abatimento! Caso não nos despertemos de nossa letargia, então é porque possuímos um coração de pedra.
[155]
O Senhor manda que os crentes orem uns pelos outros. Quão reconfortante é que cada um deles
aprendesse que o cuidado de sua salvação é exigida de todos os demais, e ser informado por Deus
mesmo que as orações dos outros, em seu favor, não são derramadas em vão! Mas se, além de todas as
demais manifestações de sua bondade, Deus se agradasse de declarar que ouvirá as orações de outros em
nosso favor, seria próprio que essa liberalidade fosse negligenciada, ou melhor, não fosse abraçada com
grande abraço?
Portanto, lembremo-nos de que não foi com base na desconfiança ou na dúvida que o apóstolo
buscou refúgio nas intercessões de seus irmãos, senão que ele ardentemente anseia por elas, uma vez que
seu desejo era que não perdesse nada do que o Senhor lhe concedera.[156]
78| Orar uns pelos outros (II)


Uma vez que o nosso dever é não permitir que nenhum dos favores de Deus flua sem oração,
somos obrigados especialmente a agradecer-lhe suas misericórdias quando ele responde favoravelmente
nossas orações, segundo nos ordena no Salmo 50.15. E isto se aplica não só quando estão em jogo os
nossos próprios interesses particulares, mas também as questões relativas ao bem-estar geral da igreja ou
de qualquer um de nossos irmãos. Desta forma, quando oramos uns pelos outros e recebemos o que
pedimos, a glória de Deus se manifesta muito mais claramente, então todos nós reconhecemos, com
gratidão, a bondade de Deus tanto para com os indivíduos como para com o corpo da igreja.[157]
O crente que apresenta um irmão ao Senhor proporciona-lhes uma grande medida de apoio ao
receber uma porção das aflições dele sobre si mesmo. Se porventura nossa força depende das orações
dirigidas a Deus, então o caminho mais seguro para fortalecermos nossos irmãos é orando a Deus em
favor deles.[158]
79| Orar pelos inimigos


Há um deve de amor que se preocupa com a salvação de todos aqueles a quem Deus estende seu
chamamento e testifica acerca desse amor através de orações piedosas.[159]
Não só não podemos invocar algum mal sobre nossos inimigos, mas é também preciso desejar
que os mesmos sejam prósperos e orar para que Deus lhes faça bem, mesmo quando nos aborreçam e nos
traem de forma hostil. Quanto mais difícil nos torna a prática de tais gentilezas, mais intensamente
devemos esforçar-nos por atingi-las. O Senhor não nos dá nenhum mandamento pelo qual não apele para
nossa obediência. Nem mesmo nos deixa desculpa alguma, caso nos falte aquela disposição pela qual ele
nos considera distintos dos ímpios e dos filhos deste mundo.
Concordo que isso é demasiadamente difícil e completamente contrário à natureza humana, mas
não há nada que seja tão árduo que não possa ser dominado pelo poder de Deus; e este jamais falhará,
contanto que não deixemos de pedir-lhe que nos conceda seu poder. Embora dificilmente haja alguém que
tenha alcançado tal progresso na lei do Senhor que cumpra perfeitamente este preceito, ninguém pode
orgulhar-se de ser filho de Deus, ou de vangloriar-se de ser cristão, sem que haja antes realizado, pelo
menos em parte, esta trajetória, e não haja lutado diariamente por resistir à vontade de agir
contrariamente.[160]
E, com certeza, uma grande e admirável obtenção é alguém restringir tanto suas paixões, que
possa apresentar, direta e imediatamente, seu apelo ao tribunal de Deus, no exato momento em que é
injuriado sem causa e as próprias injúrias que enfrenta são destinadas a excitá-lo à vingança. Pois
existem pessoas que, embora seu alvo seja viver em amizade com o bem, quando elas entram em contato
com os maus, imaginam que estão em perfeita liberdade de retribuir injúria por injúria. E todos os santos
sentem que estão sujeitos a esse tipo de tentação. Contudo, o Espírito refreia para que, embora às vezes
provocados pela crueldade de nossos inimigos, não recorramos à vingança, desistamos de todo meio
fraudulento e violento e recorramos à oração exclusivamente a Deus.[161]
80| Oração, aflições e perseverança


Como o ferro que se haja entortado não tem qualquer utilidade até que seja aquecido no fogo e
batido na bigorna com um martelo, assim também, quando a segurança carnal se haja apossado de
alguém, tal pessoa não pode entregar-se alegremente à oração até que seja feita maleável pela cruz e
completamente subjugada. E esta é a vantagem primordial das aflições, ou seja, enquanto nos tornam
conscientes de nossa miséria, nos estimulam novamente para suplicarmos o favor divino.[162]
Se se objeta que a necessidade nem sempre insta-nos a orar de igual modo, admito. E esta
distinção é nos ensinada por Tiago com extremo proveito: “Há alguém entre vós que sofre? Que ore. Há
alguém feliz? Cante salmos” [Tg 5.13]. Portanto, o próprio senso comum dita que enquanto estamos
vagorosos, devemos ser estimulados por Deus a orar seriamente sempre que a ocasião requerer. A isto
Davi chama de tempo quando Deus “pode ser encontrado,” (ou seja, tempo oportuno) porque, como ele
declara em várias passagens, quanto mais injustiças, aborrecimentos, temores e outros tipos de provas
nos pressionam, tanto mais livre é nosso acesso a Deus, como se ele nos convidasse a si.
Não obstante, não é menos verdadeiro a injunção de Paulo de que devemos orar “a todo tempo”
[Ef 6.18; 1Ts 5.17]; por que, por mais prosperamente de acordo com a nossa visão, as coisas continuam e
podemos estar cercados por todos os lados com coisas alegres, e não há um ponto no tempo durante o
qual nossa miséria não nos exorte a orar. Se um homem tem fartura de trigo e vinho, como ele pode
desfrutar de um pedaço de pão, a menos que a generosidade de Deus esteja sobre ele; pois suas adegas
ou celeiros não o impedirão de pedir pelo pão de cada dia. Além disso, se considerarmos quantos
perigos se aproximam a todo momento, o próprio medo nos ensinará que em nenhum tempo devemos ficar
sem orar.[163]
Portanto, sempre que os homens nos acusam de hipocrisia, seja nosso empenho fazer com que a
sinceridade de nosso coração responda por nós diante de Deus. E sempre que Satanás tentar desalojar a
fé de nossa mente, através de mordaz difamação e cruel desprezo, que seja esta a nossa sacra âncora:
invocar a Deus como testemunha dela, e que, divisando-a, agrademo-nos em exibir sua justiça em manter
nosso direito, visto seu santo nome não poder ser maculado com uma blasfêmia mais vil do que afirmar
que aqueles que põem sua confiança nele são inflados com vã confiança, e que os que se persuadem de
que Deus os ama se enganam com infundada fantasia. Visto que o Filho de Deus foi assaltado com a
mesma arma, é inegável que Satanás não poupará mais os crentes genuínos, por serem seus membros, do
que a ele, o Filho de Deus. Eles devem, pois, defender-se desta consideração: ainda que os homens os
considerem como vivendo em desesperadora condição, todavia, se confiarem a Deus, tanto a si próprios
quanto a todas as suas atividades, suas orações não serão feitas em vão.[164]
Portanto, sempre que orarmos a Deus, se porventura a lembrança de sua sublime e inacessível
majestade encobrir de medo nosso espírito, lembremo-nos também de que o homem Cristo gentilmente
nos convida e nos toma em sua mão, de modo que o Pai, de quem tínhamos medo e tremíamos, se nos
tornou favorável e amigável. Eis a chave capaz de reabrir-nos a porta do reino do céu, de modo que
agora podemos comparecer confiantes na presença de Deus.[165]
81| Oferta: por que não fazê-la?


A natureza humana é sempre ingênua em maquinar desculpas – a alegação de que tinham famílias,
e que seria injusto negligenciá-las, ou, como alguns pretendem, o fato de que não podiam dar muito, como
desculpa para não dar nada: “Como posso dar tão pouco?” Paulo afasta todas as desculpas desse tipo ao
dizer-lhes que cada um deles deve contribuir segundo sua capacidade, e acrescenta, segundo seu modo de
raciocinar, que Deus não considera a quantidade, e, sim, o coração. Pois quando ele diz que um coração
disposto é aceitável a Deus segundo a capacidade de cada homem, ele quer dizer o seguinte: “Se
ofereceis uma pequena oferta tirada de vossos parcos recursos, a vossa intenção é tão valiosa aos olhos
de Deus como se fosse um rico a fazer uma grande oferta tirada de sua abundância.” Pois a disposição em
dar não é avaliada pelo que você não tem, ou, em outras palavras, Deus jamais exige que você contribua
mais do que seus recursos o permitem. Por este critério, ninguém é deixado com alguma escusa, visto que
os ricos devem a Deus um grande tributo, e os pobres ficam destituídos de razão para se envergonhar se o
que dão é muito pouco.[166]
Certamente que Deus sempre ordena que atenuemos as necessidades de nossos irmãos, porém em
parte alguma determina ele quanto devemos dar, de modo que podemos fazer um cálculo e dividir entre
nós e os pobres. Em parte alguma ele nos prende a tempos, nem a pessoas, nem a lugares específicos,
mas simplesmente nos ordena a nos deixarmos guiar pelas regras do amor.[167]
82| Generosidade: semente de bênção


Deve-se evidenciar a todos que pelo exemplo de Cristo somos incitados à prática da
beneficência, de tal modo que não devemos poupar-nos quando nossos irmãos solicitam nosso auxílio.
Cristo era rico porque era Deus, sob cujo poder e autoridade permanecem todas as coisas, e ainda em
nossa humanidade, com a qual se vestiu, ele era, no dizer do apóstolo, “o herdeiro de todas as coisas”,
visto que ele foi posto por seu Pai sobre todas as criaturas, e todas as coisas foram postas em sujeição
sob seus pés. Mas ele fez pobre porque abriu não de sua possessão e por algum tempo deixou de exercer
seus direitos. Visualizamos quantas privações e falta de todas as coisas o aguardavam desde o ventre de
sua mãe, e ouvimos o que ele mesmo disse: “As raposas têm seus covis, e as aves do céu, seus ninhos;
mas o Filho do homem não tem onde reclinar sua cabeça” [Lc 9.58]. Assim ele santificou a pobreza em
sua própria pessoa, para que os crentes não mais retrocedam diante dela, e por meio de sua pobreza ele
nos enriqueceu, para que não mais achemos difícil tomar de nossa abundância e a usemos em favor de
nossos irmãos.[168]
Na semeadura, a semente era lançada pela mão, espalhada aqui e ali, sobre o solo; era gradeada
e finalmente ‘morria’, de tal modo que, aparentemente, quase se perdia. Dá-se o mesmo com o donativo;
o que sai de nós para alguém, parece diminuir o que possuímos; mas o tempo da ceifa virá, quando os
frutos aparecerão e serão escolhidos. Pois o Senhor considera o que é doado aos pobres como sendo
doado a ele mesmo, e um dia ele reembolsará o doador com fartos juros. Mas, aproximemo-nos da
comparação de Paulo. Ele diz que o homem que é econômico em sua semeadura, terá também uma
colheita tão escassa quanto sua semeadura; porém, o homem que semeia generosamente e com mãos
abertas, fará, igualmente, uma farturosa colheita. Este ensino deve ser firmemente estabelecido em nossa
mente, de modo que, sempre que a prudência carnal nos impedir de fazer o bem por receio de sofrermos
perda de algo, tenhamos imediatamente condições de resistir tais impulsos, movidos pela lembrança da
declaração do Senhor de que ao fazermos o bem estamos semeando sementes. Esta colheita deve ser
entendida tanto em termos de recompensa espiritual de vida eterna como também sendo uma referência às
bênçãos terrenas com as quais o Senhor agracia o benfeitor. Não é somente no céu que o Senhor
recompensará os feitos nobres do justo, mas o fará ainda neste mundo.[169]
83| Piedade: sentir a dor do outro


O que é piedade? Resumidamente, não é nada mais do que a dor que sentimos pelo sofrimento de
outra pessoa. Um homem pode ser saudável e contente, com muito o que beber e comer, e estar seguro de
qualquer ameaça de perigo. Entretanto, quando ele vê seu próximo em sofrimento, ele é compelido a ter
pena dele, a compartilhar seu sofrimento, e a assumir para si um pouco do fardo e aliviá-lo do mesmo.
Isto é a misericórdia. A mesma ideia é transmitida em nossa linguagem pela palavra, “esmola”.
Infelizmente, o significado da esmola tem sido mal compreendido. O que as pessoas chamam de esmola
não é algo inspirado pelos sentimentos de humanidade. É claro que se pode dar a uma pessoa pobre, mas
é como um resgate, um tributo, ou extorsão dado relutantemente e com rancor. Não há sugestão de que
quando um rico dá algo de sua fartura, ele diga a si mesmo, “Aqui está um membro do corpo de Deus,
estamos todos unidos.” É muito mais importante, portanto, entender que ajudar outros não significa nada a
não ser que sejamos movidos por um amor que vem do coração e que nos impele a assumir nossa partilha
no sofrimento que nos rodeia. E porque Deus nos compele a sermos unidos, ninguém pode se isolar e
viver apenas para si mesmo. Não há espaço para a indiferença que promete tranquilidade e os prazeres
de uma vida confortável: nós devemos aumentar nossa afeição como requer a lei do amor.[170]
84| Amor ao dinheiro (I)


O que nos torna mais avarentos do que deveríamos em relação ao nosso dinheiro é o fato de
sermos tão precavidos e enxergarmos tão longe quanto possível os supostos perigos que nos podem
sobrevir, e assim nos tornamos demasiadamente cautelosos e ansiosos, e passamos a trabalhar tão
freneticamente como se devêssemos suprir de vez as necessidades de todo o curso de nossa vida, e
afigura-se-nos como grande perda quando uma mínima parcela nos é tirada. Mas aquele que depende da
bênção do Senhor tem o seu espírito livre dessas preocupações ridículas, enquanto que, ao mesmo tempo,
tem suas mãos livres para a prática da beneficência.[171]
A pessoa que chega a compreender isso não encontrará dificuldade em abandonar sua confiança
das riquezas. Porquanto é unicamente Deus quem provê todas as coisas para os propósitos necessários de
nossa vida, e quando depositamos nossa confiança nas riquezas, na verdade estamos transferindo para
elas as prerrogativas que pertencem exclusivamente a Deus. Mesmo que possuamos plena e rica
abundância de todas as coisas, na verdade tudo quanto possuímos procede do favor divino. É tão-
somente sua generosidade que nos supre de tudo quanto carecemos. Segue-se que é um terrível equívoco
confiar nas riquezas e não depender completamente da mercê divina, na qual com base no fato de que
pertençam só a esta vida mortal, mas também porque não passam de fumaça. Nossa nutrição não procede
apenas do pão, mas de toda a generosidade divina [Dt 8.3].[172]
Quem quer que se devote a buscar a justiça, que almeje a piedade, a fé e o amor, e que cultive a
paciência e a mansidão, não poderá deixar de abominar a avareza e seus frutos.[173]
85| Amor ao dinheiro (II)


Ao vivermos contentes com o que o Senhor já nos presenteou – seja muito, seja pouco –,
estamos revelando o genuíno desprendimento do dinheiro ou, pelo menos, a boa intenção no correto e
moderado uso dele. Pois raramente sucede que o avarento se satisfaça com alguma coisa, senão que, ao
contrário, os que não se satisfazem com uma porção moderada, sempre buscarão mais, mesmo quando
desfrutem das mais opulentas riquezas. Essa é a doutrina que Paulo diz ter aprendido, ou seja: que
aprendera a viver em abundância, bem como a enfrentar as necessidades. A pessoa que aprende a
restringir seus desejos a fim de descansar feliz com sua porção, na verdade conseguiu banir de seu
coração o amor ao dinheiro.
É incontestável que a ausência de fé constitui a fonte da avareza. Qualquer um que alimente a
firme convicção de que jamais será esquecido pelo Senhor não viverá em nociva perplexidade, visto que
sua dependência está radicada na providência divina. Portanto, ao desejar o apóstolo curar-nos da
doença da avareza, com propriedade nos lembra das promessas divinas, pelas quais ele testifica que
Deus estará sempre conosco. Daqui ele conclui que, enquanto tivermos um Ajudador tão solícito, não
deve existir motivo algum para medo. E assim jamais seremos importunados pelos desejos depravados,
visto que é tão-somente a fé que põe as mentes humanas em repouso; cuja inquietação, sem ela, é
sobejamente notória.[174]
Nossa cobiça é um abismo insaciável, a menos que seja ela restringida; e a melhor forma de
mantê-la sob controle é não desejarmos nada além do necessário imposto pela presente vida; pois a razão
pela qual não aceitamos esse limite está no fato de nossa ansiedade abarcar mil e uma existências, as
quais inutilmente sonhamos só para nós.[175]
86| Não pertencemos a nós mesmos


Ora, se não nos pertencemos, mas ao Senhor, faz-se patente que se deva evitar não apenas o erro,
mas ainda a que fim devemos dirigir todas as ações de nossa vida; portanto, não nos pertencemos em
nossos planos e ações, nossa razão não deve estar no comando, e muito menos nossa vontade; portanto,
não nos pertencemos e nem nos proponhamos a buscar o que nos convenha segundo a carne; portanto, não
nos pertencemos, e até onde seja possível esqueçamos a nós mesmos e a tudo que é nosso.
Pelo contrário, somos de Deus; logo, vivamos e morramos para ele [Rm 14.8]. Somos de Deus;
logo, que sua sabedoria e vontade presidam a todas as nossas ações. Somos de Deus; logo, que todas as
expressões de nossa vida se polarizem para ele como a um só fim legítimo. O quanto de proveito tem
experimentado aquele que, ensinado que não é dono de si mesmo, anulou sua própria razão, soberania e
mandato, para que Deus de tudo se aproprie! Ora, como a peste mais eficaz é fazer com que os homens se
percam, quando se conformam a suas próprias inclinações, assim o único porto de salvação é nada saber,
nem por si mesmo querer, senão tão-somente seguir ao Senhor, indo ele à frente [Rm 14.8].[176]
87| Santo ou profano?


O Senhor nos chama precisamente com o propósito de fazer-nos santos, vivendo em sua
obediência. Tal propósito se concretiza quando renunciamos o mundo. Todo aquele que se deleita em sua
própria imundícia, de sorte que viva a revolver-se nela, profana a si próprio. Podemos ao mesmo tempo
definir o profano em termos gerais, como aquele que não valoriza a graça de Deus suficientemente para
buscá-la e assim rejeitar o mundo. Visto que os homens se fazem profanos de diversas maneiras, devemos
tomar o maior cuidado para não dar oportunidade a que Satanás nos macule com sua corrupção; e como
não há genuína religião sem consagração, devemos progredir sempre no temor de Deus, na mortificação
da carne e em toda a prática da piedade. Assim como somos profanos até que nos separemos do mundo,
também recuamos da graça da santificação se porventura nos alegrarmos na imundícia do mundo.
Profanos, pois, são aqueles em quem o amor do mundo predomina e prevalece em tal medida que
se esquecem do céu, tal como sucede com aqueles que são levados pela ambição, que vivem para o
dinheiro e para as riquezas, entregam-se à glutonaria e se emaranham em todo gênero de deleites; e, em
seus pensamentos e desejos, não dão qualquer espaço ao reino espiritual de Cristo; e se o dão, talvez seja
isso a última coisa em seus pensamentos. Atribuir um alto valor às coisas que quase não valem nada é
uma atitude que provém dos desejos depravados que cegam nossos olhos e nos fascinam. Portanto, se é
nosso desejo possuir um lugar no santuário de Deus, então devemos aprender a desprezar tais iguarias,
por meio das quais Satanás costuma enganar os perdidos.[177]
88| O homem exterior e regeneração


O homem exterior é o seguimento de nossa vida terrena, e consiste não só de juventude e boa
saúde, mas igualmente de riquezas, de honra, de amizades e de outras tantas coisas como tais. Daí,
quando sofremos enfermidades ou perdemos essas coisas, as quais são necessárias para a manutenção de
nossa presente vida, o nosso homem exterior, até aqui, perece. Uma vez que vivemos tão preocupados
com essas coisas, até onde tudo segue segundo os nossos desejos, o Senhor tira de nós, pouco a pouco,
tais coisas que dominam nossa atenção, e desta forma nos chama de volta para que meditemos sobre uma
vida melhor. De fato, é preciso que a nossa presente vida pereça para que o homem interior se mantenha,
pois quanto mais a vida terrena se declina, mais a vida celestial avança – pelo menos nos crentes. Para
os ímpios, o homem exterior também decai, porém não há nada a fazer para impedi-lo. Mas, nos filhos de
Deus, essa decadência é o início e quase a causa da regeneração. Paulo diz que isto sucede diariamente
porque Deus está constantemente em ação, nos incitando a refletir sobre a vida por vir. Que isto lance
profundas raízes em nossa mente para que avancemos em ininterrupto progresso em meio ao perecimento
do homem exterior.[178]
Sabemos que o Espírito de regeneração e todas as graças nos são conferidos pela bênção de
Cristo. Por certo que, como nada pode proceder de nós, que seja absolutamente perfeito, assim nada pode
agradar a Deus sem o perdão que recebemos somente através de Cristo. Daí, que nossas obras, quando
são protegidas com o aroma da graça de Cristo, emitem suave fragrância diante de Deus, enquanto que,
de outro modo, exalariam um odor fétido.[179]
89| A renovação da mente


Eis aqui o propósito pelo qual devemos revestir-nos de uma nova mente, a saber: para que
renunciemos a nossos próprios conselhos e desejos, bem como aos de todos os homens, e para que nos
voltemos exclusiva e inteiramente para a vontade de Deus. O conhecimento da vontade de Deus equivale
à verdadeira e genuína sabedoria. Ora, se a renovação de nossa mente é indispensável para o propósito
de se provar qual é a vontade de Deus, então faz-se evidente quão hostil é a mente humana em relação a
Deus.
Naturalmente que, se é verdade que devemos reprimir toda e qualquer obstinação de nossa parte,
devemos em contrapartida, celebrar o genuíno louvor à justiça e à perfeição da vontade de Deus.[180]
Portanto, este é o primeiro passo: que o homem se desprenda de si mesmo, para que aplique ao
serviço do Senhor toda a força de seu entendimento. Chamo serviço não apenas ao que permanece na
obediência da Palavra, mas ainda àquele pelo qual a mente do homem, esvaziada do próprio senso da
carne, se volta todo à vontade do Espírito de Deus. Esta transformação, que Paulo chama de renovação
da mente [Rm 12.2; Ef 4.23], embora seja o acesso primordial à vida, todos os filósofos a ignoraram.
Pois eles só consideram a razão como moderadora ao homem, julgam que só a esta se deve ouvir, afinal
unicamente a esta única consentem e entregam o governo da forma de proceder. A filosofia cristã, porém,
ordena que ela deve ceder lugar, sujeitar-se e ser submissa ao Espírito Santo, de sorte que o homem em si
já não viva, mas que deixe Cristo viver e reinar em sua vida [Gl 2.20].[181]
90| Nova vida e perfeição


O apóstolo Paulo, nos dá um breve sumário de uma vida bem regrada quando diz a Tito: “Porque
a graça de Deus se manifestou para todos os homens. Ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões
mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente, enquanto aguardamos a bendita
esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que se entregou por
nós a fim de nos remir de toda maldade e purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado
à prática de boas obras” [Tt 2.11:14].
Paulo declara que necessitamos da graça de Deus como estímulo para nossas vidas, porém, para
chegarmos a uma verdadeira adoração, devemos nos privar dos seguintes obstáculos: primeiro, a falta de
devoção à qual estamos fortemente inclinados, como também da concupiscência da carne que nos
angustia e nos aflige. A falta de piedade e devoção não só dá lugar às superstições como a tudo aquilo
que impede o santo temor a Deus. Os desejos mundanos representam ou simbolizam as influências
carnais.
O apóstolo resume todas as ações da nova vida em três grupos: sobriedade, justiça e piedade.
Incontestavelmente a sobriedade significa castidade e temperança, como também o uso puro e devido das
bênçãos temporais, incluindo a paciência na pobreza.
A retidão inclui todos os deveres da justiça, de modo que cada homem receba o que lhe é devido.
A piedade nos separa da contaminação do mundo e, por meio da verdadeira santidade, nos une a Deus.
Quando as virtudes da sobriedade, justiça e piedade estão firmemente unidas, produzem uma
absoluta perfeição.[182]
91| O respeito aos outros


Quando a Escritura ordena a conduzir-nos de tal maneira para com nossos semelhantes, de modo
a darmos preferência aos demais antes que a nós mesmos, nos está dando um mandamento de tal
envergadura que não podemos recebê-lo a menos que primeiro sejamos curados de nossa natureza
pecaminosa.
Se Deus tem derramado sobre nós um dom excelente, e se, porém, imaginamos que ele mesmo se
deve a nosso próprio mérito, acabaremos cheios de orgulho.
Todos estamos cheios de vícios que escondemos dos demais cuidadosamente, e nos enganamos
pensando que são coisas pequenas e vulgares, tanto quanto às vezes os estimamos como verdadeiras
virtudes. Se os mesmos talentos que admiramos em nós mesmos (ou ainda melhores) os vemos em nosso
próximo, com toda malignidade os depreciamos e os temos em pouco-caso, para assim não termos que
reconhecer a superioridade de nossos semelhantes. Se os outros têm algum vício, não nos preocupamos
somente em criticá-los aguda e severamente, como também nos permitimos exagerá-los com todo nosso
ódio.
Do ódio, passamos à arrogância, pois desejamos ser mais excelentes do que o resto da
humanidade, imaginando não pertencermos ao comum do povo, considerando aos demais como seres
inferiores.
O pobre se rende ao rico, o povo comum àqueles que creem serem superiores, os servos a seus
senhores, os ignorantes aos estudiosos; porém, não há ninguém que não se julgue superior aos demais.
Cada um adula-se a si mesmo e erige um verdadeiro reinado em seu “ego” interior.
Todos desejamos agradar-nos a nós mesmos e censurarmos as ideias e conduta de nossos
semelhantes, e no caso de surgir alguma discordância, tudo se converte em uma verdadeira explosão de
veneno. Consideramos as outras pessoas amáveis e encantadoras enquanto não nos contradizem, porém,
quantos de nós nos mantemos em calma e de bom humor se os demais nos perturbam ou nos irritam?[183]
Nada é mais próprio para subjugar nosso orgulho e moderar nossa severidade do que a
demonstração de que tudo o que fizermos contra os outros poderá cair sobre nossas próprias cabeças. A
pessoa que se vê obrigada a buscar o perdão de outros para si própria, achará fácil perdoar os outros; e a
única razão por que nos sentimos tão indispostos a perdoar nossos irmãos reside em nossa ignorância de
nossos próprios erros. Aqueles que são zelosos para com Deus são deveras severos para com os
faltosos; visto, porém, que eles começam consigo mesmos, sua severidade está sempre mesclada de
compaixão.[184]
E dessa forma percebemos que é nosso dever humilharmo-nos na presença de Deus, a fim de
aprendermos a ser gentis em relação a nossos irmãos. O orgulho é sempre cruel e arrogante para com os
demais homens.[185]
92| Autonegação e a glória de Deus (I)


Que não busquemos as coisas que são nossas, mas as que são não só da vontade do Senhor, como
também contribuem para promover sua glória. De grande progresso é também esta marca: que de nós
mesmos quase esquecidos, na verdade relegada a segundo plano nossa consideração pessoal,
empenhemos por fielmente devotar nosso zelo a Deus e a seus mandamentos. Pois quando a Escritura nos
manda renunciar nossa consideração pessoal, não só nos exime do ânimo e cobiça de possuir, a vaidade
do poder, o favor dos homens, mas também erradica de nós a ambição e todo anseio de glória humana, e
outras pestes mais secretas.
E assim certamente convém que o homem cristão esteja disposto e preparado, que reflita sobre o
que tem a ver com Deus em toda a vida. Por esta razão, como todas suas coisas ele as tomará a seu
arbítrio e decisão, assim também religiosamente se atribuirá toda intenção da mente. Ora, aquele que
aprendeu a olhar para Deus em tudo o que tiver de ser feito, que se aparte ao mesmo tempo de todo
pensamento vão. Esta é aquela negação de nós mesmos que, desde o início do discipulado, com tão
grande cuidado Cristo inculca a seus discípulos [Mt 16.24; Mc 8.34; Lc 9.23], negação que, onde uma
vez haja prevalecido no ânimo, não deixa lugar algum, primeiramente ao orgulho, também à vaidade, ou à
ostentação, então tampouco à avareza, ou à devassidão, ou à sensualidade, ou ao efeminismo, ou a outros
males que são gerados do amor egoístico.[186]
93| Autonegação e a glória de Deus (II)


Sem o princípio da autonegação o homem é levado à tolerância pelos vícios mais grotescos sem
um mínimo de vergonha, e se é que há alguma aparência de virtude nele, a mesma se extingue por uma
paixão desordenada que busca sua própria glória.
Mostra-me um só homem que sem crer na santa lei de Deus e na autonegação, mesmo assim
pratica a virtude entre os homens. Todos aqueles que não têm sido influenciados pelo princípio da
autonegação, tem procurado de algum modo seguir a virtude, porém, o tem feito com o desejo de
conseguir o louvor por parte dos demais homens.
Ainda que os filósofos sustentem que a virtude é algo desejável por si mesma, se enaltecem em
sua arrogância, demonstrando que não desejam a virtude e sim terem uma oportunidade de exercitar seu
orgulho.
Deus não se compraz em absoluto com aqueles que são ambiciosos e altivos, cujos corações
estão cheios de orgulho e presunção. Desses homens, o Senhor disse já terem sua recompensa neste
mundo, e que as prostitutas e fariseus (arrependidos) estão mais próximos que eles do reino dos céus.
Incontáveis são os obstáculos do homem que deseja fazer o que é correto e, ao mesmo tempo,
resiste em negar o seu “Eu”.
Desde a antiguidade se sabe que há todo um mundo de vícios escondidos na alma humana, porém
a autonegação cristã é o remédio para acabar com todos. Só há libertação para o homem que renuncia a
seu egoísmo, e cuja única meta é agradar ao Senhor e fazer o que é bom diante de Seus olhos.[187]
94| Gloriar-se no Senhor


Há três condições sob as quais toda pessoa piedosa pode corretamente gloriar-se em todas as
bênçãos de Deus, enquanto que os ímpios não podem de forma alguma gloriar-se em Deus senão falsa e
perversamente. Em primeiro lugar, devemos reconhecer que tudo quanto de bom existe em nós o
recebemos de Deus, e que nada provém de nós mesmos; em segundo lugar, devemos guardar firme este
fundamento: que a certeza de nossa salvação depende unicamente da misericórdia de Deus; finalmente,
devemos descansar em Deus como único autor de todas as coisas boas. Então poderemos gloriar-nos,
com gratidão, em tudo quanto é bom.[188]
Note-se o propósito de Deus em nos dar generosamente tudo em Cristo – para que não aleguemos
qualquer mérito para nós mesmo, mas para que lhe tributemos todo o louvor. Porque Deus não nos
despoja com vistas a deixar-nos nus, mas de antemão nos veste com sua glória, porém com esta única
condição: sempre que desejarmos gloriar-nos, que então nos desviemos de nós mesmos. Em suma, o
homem reduzido a nada em sua própria estima, sabendo que a bondade não provém de nenhuma outra
fonte senão só de Deus, deve ele renunciar todo anseio por sua própria glória, e com toda sua energia
aspirar e almejar exclusivamente a glória de Deus. Portanto, se uma pessoa realmente tem sua mente tão
bem regulada, não reivindicando para si nenhum mérito, então seu desejo é tão-somente exaltá-lo; se tal
pessoa descansa satisfeita em sua graça; e põe toda sua felicidade em seu amor paternal; e, por fim, se
sente feliz tão somente em Deus, então tal pessoa realmente “se gloria no Senhor.”[189]
95| Viver para Deus


Viver para Deus às vezes significa regular nossa vida segundo sua vontade, de modo que nada
mais cogitamos em toda a nossa vida além de sermos aprovados por ele.[190]
Ele não vive através de sua própria vida, mas é animado pelo poder secreto de Cristo, de modo
que se pode dizer que Cristo vive e cresce nele. Porque, assim como a alma energiza o corpo, também
Cristo comunica vida a seus membros. Eis uma notável afirmação, ou seja, que os crentes vivem fora de
si mesmos, isto é, em Cristo. Isso só se pode dar se mantiverem genuína e verdadeira comunicação com
ele. Cristo vive em nós de duas formas. Uma consiste em ele nos governar por meio de seu Espírito e em
dirigir todas as nossas ações. A outra consiste naquilo que ele, embora nada possamos fazer por nós
mesmos, somos aceitos por Deus, nele. A primeira se relaciona com a regeneração; a segunda, com a
espontânea aceitação da justiça.[191]
Ouvimos Cristo afirmar que, se desejarmos preservar nossas vidas neste mundo, as perderemos
para sempre. Portanto, se o real amor de uma ressurreição futura ocupar um espaço em nossos corações,
facilmente nos conduzirá a desprezar a morte. Só devemos viver, se esse viver for para Deus; e sempre
que não pudermos viver para Deus, é preferível alegre e voluntariamente encararmos a morte.[192]
Que outra coisa há que nos proporcione maior alegria do que saber que estamos fazendo o que
devemos fazer pela expressa determinação divina? Essa é a nossa armadura e a nossa defesa, e, com seu
auxílio, jamais fracassaremos.[193]
96| Viver com moderação


Não há caminho mais direto à gratidão, do que o de tirarmos nossos olhos da vida presente e
meditar na imortalidade do céu. Disto se deriva dois grandes princípios. O primeiro é: “...que os que são
casados, sejam como se não fossem; e os que choram, como se não chorassem; e os que se alegram, como
se não se alegrassem; e os que compram, como se não possuíssem; e os que desfrutam deste mundo, como
se não o desfrutassem...”. O segundo é que devemos aprender a superar a pobreza quieta e pacientemente,
e desfrutar da abundância com moderação.
Aquele que nos ordena a que usemos este mundo como se não o usássemos, não somente nos
proíbe toda falta de moderação em comer e beber, nos prazeres indecorosos e excessivos, na ambição, no
orgulho e na impertinência em nosso lar, como também em cada cuidado e afeto que faça diminuir nosso
nível espiritual ou que ameace destruir nossa devoção.[194]
Em meio à fartura devemos nos guardar contra os excessos cobiçosos, ou então nos enforcaremos
e traremos essa maldição sobre nós: Ai de vós que estai cheios. Se estamos saciados, é de uma diferente
maneira – pela contemplação da face de Deus, como nós lemos no Salmo 16. Nós devemos considerar as
posses materiais apenas como escoras para nos ajudar, até que vejamos o Pai face a face. Ele é nossa
glória e felicidade. Podemos sorrir, mas do jeito daqueles que estão prontos para chorar se essa for a
vontade de Deus. Nossa felicidade deve ser unida à tristeza e à compaixão por aqueles que sofrem.
Ninguém pode viver isolado dos outros, e todos deveriam jubilar-se sempre que o nome de Deus é
honrado.[195]
97| Casamento e sexo


O ato sexual entre esposo e esposa é algo puro, é legítimo e santo; porque é uma instituição divina.
A paixão incontrolável com que os homens são inflamados é um vício oriundo da corrupção da natureza
humana; mas, para os crentes, o matrimônio é um véu que cobre essas falhas, de modo que Deus não mais
as vê.[196]
Visto que Deus tem abençoado a união entre um homem e sua esposa, a qual ele mesmo instituiu,
segue-se que qualquer divergência neste caso será por ele condenada e amaldiçoada. Ele promete castigo
não só para os adúlteros, mas também para toda classe de fornicários, porquanto ambos se afastam de
santa ordenança de Deus, e deveras a violam e a subvertem por sua promiscuidade, já que só existe uma
única união legítima que é ratificada pelo Nome e pela autoridade de Deus.[197]
Aqueles que se unem pelos laços do matrimônio devem saber que não podem proceder segundo a
inclinação de sua natureza, senão que o uso lícito de seu leito conjugal deve ser no espírito de
moderação, de modo a não admitir nada que seja contrário à modéstia e à castidade do matrimônio.[198]
98| Sustentado por Deus


A generosidade de Deus ao nos suprir com pão e vinho e outras comidas, incontestavelmente, não
pode ser desprezada. Portanto Paulo toma ambas as coisas como motivo de louvor – ele sabe ter fartura,
assim como sabe sofrer necessidades. Quando o Senhor nos dá comida e bebida com abundância, temos
condição de beber vinho e ingerir comida de bom grado sóbria e sem esbanjamento. Ao contrário,
quando Deus nos tirar o pão e o vinho, e precisarmos jejuar saibamos que sua bênção nos é suficiente no
lugar de qualquer alimento.[199]
Obviamente, é certo que o pão em si não tem o poder de nos sustentar. Somos nutridos por uma
bênção secreta de Deus, assim como ele disse pelos lábios de Moisés: “Não só de pão viverá o homem”;
ou seja o pão em si não fornece energia ao homem. O pão em si não contém vida. Como, pois, pode ele
nos trazer vida? Ora, o pão não tem virtude inerente, mas somos alimentados pela Palavra de Deus – isto
é, porque Deus determinou que nossa vida fosse sustentada pela comida. Por isso ele permeia o pão com
virtude, mas devemos notar bem que nossas vidas não são mantidas com pão ou alguma outra comida, e,
sim, com a bênção secreta de Deus. Moisés, aqui, não estava falando do ensinamento ou da vida
espiritual; ele diz que nossa vida corpórea é alimentada pela graça de Deus, que comunica seu próprio
ofício divino ao pão e às demais comidas. Portanto, eis uma verdade geral: seja qual for a comida que
ingerirmos, somos alimentados e sustentados pelo gracioso poder de Deus.[200]
99| Não há coroa sem cruz


Para que os cristãos não se sintam cômodos com uma vida de facilidades e conforto, Deus
permite que sejam frequentemente perturbados por meio de guerras, revoluções, roubos e outras
calamidades. Para que não se apeguem com avidez às riquezas passageiras deste mundo, ou que não
venham a depender somente daquilo que possuem, Ele lhes reduz à pobreza, ou limita-lhes à
mediocridade, algumas vezes por meio do exílio, outras pela esterilidade da terra, às vezes pelo fogo ou
qualquer outro meio. Para que não sejam demasiado complacentes ou se deleitem em excesso com a vida
matrimonial, permite que tenham algum outro desgosto, devido aos defeitos de ambos, marido e mulher,
humilha-os através dos filhos, ou lhes aflige com o afã de querer deixar descendência e não poder tê-la,
ou até por meio da perda de um filho.
Porém, sendo Deus tão bom e misericordioso com os Seus, por meio de enfermidades e dos
perigos lhes ensina o quão inestimáveis e passageiras são as bênçãos terrenas, de maneira que não se
encham de vanglória.
Portanto, entendamos que somente podemos colher favores da cruz quando aprendemos que esta
vida, em si mesma, está cheia de dissabores, dificuldades e misérias; que não é uma vida feliz de nenhum
ponto de vista, e que as suas chamadas bênçãos são incertas, passageiras e estão mescladas com um sem-
fim de adversidades. Tenhamos, pois, presente que a única coisa que podemos esperar neste mundo é uma
luta contínua e cruel; elevemos então nossos olhos ao céu para vemos ali nossa coroa.
Todavia, devemos admitir que nosso coração nunca está disposto a meditar e desejar as bênçãos
da vida futura, a menos que tenha aprendido conscienciosamente a deixar de lado as vaidades do mundo
presente.[201]
100| Remindo o tempo


Visto que a época é tão corrupta, o diabo parece ter-se apoderado dele tiranicamente; de modo
que o tempo não pode ser dedicado a Deus sem que seja, de alguma forma, remido. E qual será o preço
de sua redenção? Fugindo das infindáveis seduções que facilmente nos perverteriam; desembaraçando-
nos dos cuidados e deleites do mundo; e, numa palavra, nos esquivando de todos os obstáculos. Sejamos
solícitos em aproveitar as oportunidades, de todas as maneiras; mais ainda, deixando as numerosas
ofensas e árduos labores, os quais muitos têm hábito usar como pretensa desculpa para a preguiça, nós,
ao contrário, agucemos nossa vigilância.[202]
No momento Deus está batendo à nossa porta. Se não lha abrirmos, virá o tempo em que ele, por
sua vez, nos fechará a porta de seu reino. Então aqueles que menosprezam a graça que hoje lhes é
oferecida descobrirão que seus gemidos são demasiadamente tardios. E assim, já que não sabemos se é
da vontade de Deus continuar nos chamando no dia de amanhã não protelemos. Ele nos chama hoje: que
nossa resposta seja mais prontamente possível. A fé não existe exceto onde haja tal prontidão em
obedecer.[203]
C|ONSIDERAÇÕES FINAIS



O melhor dos altares ergue-se no coração. Tudo que nele for edificado será intenso. Isso porque
é no coração que se encontra o pulsar da vida, o palpitar da paixão e do apaixonante. Tudo nele é pleno e
pulsante!
Na carta aos Romanos, Paulo faz-nos pensar no corpo como um santo, vivo e agradável sacrifício
a Deus (Rm 12.1). Em 1Co 3.16-17 e Ef 2.21-22, ele nos apresenta o corpo como morada de Deus ou
santuário (templo) do Espírito Santo. Sendo o corpo templo do Espírito Santo, o coração deve tornar-se
o altar desse templo!
O coração transformado em altar é a garantia de que a fé, a esperança e a vida de louvor e
adoração levarão o pulsar de nosso ser e a força contagiante da nossa vida. O altar é o centro do templo
e o centro do toque de Deus. Ele é o lugar onde se entrega a oferta aos céus. É lugar da entrega e do
recebimento!
Um altar erguido no coração é uma convergência de duas forças: a humana e a divina. A humana,
que presenteia os céus com a intensidade de seu ser e oferece o corpo para morada de Deus. A divina,
que visita a intensidade humana e a transforma em força para a vida ao habitar em nós. Agostinho de
Hipona (séc. IV) já declarava: “Minha alma é morada muito estreita para te receber: será alargada por ti
Senhor. Está em ruínas: restaura-a!”[204] Ele expressava assim porque entendia que a imensidade da
glória e da graça de Deus é tão grande que nosso ser não poderia contê-las sem que o próprio Deus
alargasse as paredes do coração apertadas pela pecaminosidade.
Nessa reconstrução do coração, ele será capaz de desenvolver a capacidade de pensar nas coisas
que são do alto, ansiar mais a beleza de Deus do que a glória desse mundo, e firmar-se em Deus de forma
a dele depender em tudo.
“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração”, disse Jesus (Mt 6.21). É seguindo a
orientação de Cristo e a máxima do legado da antiga devoção cristã que Calvino oferece o seu coração a
Deus: “A ti, Senhor, ofereço o meu coração pronto e sinceramente”.
É fácil entender o resultado de tão firme devoção a Deus. Ele se torna o tesouro do coração de
Calvino e o seu corpo é todo espaço para realizar, diariamente, o sacrifício agradável a Deus. No
prefácio da última edição de suas Institutas, ele declara que Deus consagrou em plenitude a sua alma ao
zelo, vivido através da propagação do Reino de Deus e do serviço para o proveito comum. A certeza de
Calvino é tanta, quanto à sinceridade de seu coração, que ele tem por certo que Deus é testemunha, bem
como os anjos, de que usou seus dons e seu saber para nada mais ter “proposto senão a fazer avançar a
Igreja, afiançando a sincera doutrina da piedade”.[205]
Calvino foi alguém totalmente consumido pelo zelo do Senhor e pela força de sua misericórdia.
Ele caiu totalmente aos pés do Mestre Jesus e o seguiu desde as profundezas de seu coração com um
único desejo, que ele mesmo expressou em seu testamento: “...viver e morrer nesta fé que ele me tem
concedido, não tendo nenhuma outra esperança nem refúgio, exceto na sua adoção graciosa, sobre a qual
se fundamenta toda a minha salvação; abraçando a graça que me tem dado em nosso Senhor Jesus Cristo e
aceitando os méritos da sua morte e paixão, para que, por esses meios, todos os meus pecados sejam
sepultados...”.[206]
Deus tem levantado, através dos séculos, homens e mulheres que não se dobram à falsidade da
religiosidade e às ofertas da “graça barata”. Nos rastros de João Calvino percebem-se as pegadas da
humildade, da vida de comunhão com Deus, do desapego à riqueza e da beleza da esperança em Deus em
tudo. Ele seguia Jesus e colocou os pés onde seu Mestre pisou. Em Jesus, Calvino depositou sua glória,
sua missão, sua vida e sua morte: pronto e sinceramente!
Agora é nossa vez de tornar o coração um verdadeiro altar erguido para ofertas agradáveis a Deus,
Senhor do templo. Em pouco tempo você verá que não somente o coração, mas a vida, o lar e a família
pedem para, também, ser um altar dedicado a Deus. Dessa forma, “todo o edifício, bem ajustado, cresce
para santuário dedicado ao Senhor” (Ef 2.21).
Nosso corpo é santuário de Deus. Glorifiquemos a Deus nele e honremos a Ele através do
oferecimento de tudo que somos e temos para louvor de sua glória. Alargado o coração para ser morada
de Deus e restaurada a nossa sorte, a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará nosso
coração para o Senhor reinar e abençoar.
Façamos nossa a oração que Calvino fez depois que expôs uma das suas preleções no livro de
Daniel e, por meio dela, entreguemos o coração a Deus:
“Deus Todo-Poderoso, já que nossas mentes possuem tantos cantos escondidos e que nada é mais
difícil do que limpá-los completamente de toda a invenção e falsidade, permite que possamos
honestamente examinar-nos; e derrama a luz de teu Espírito sobre nós para que verdadeiramente
reconheçamos nossos vícios secretos e empurremo-los para longe de nós, para que somente tu sejas
nosso Deus, e para que a verdadeira piedade conquiste nosso coração e possamos viver em sã
consciência no mundo; cada um de nós plenamente engajado em sua própria condição, de modo a cuidar
do bem de seus irmãos antes que de si mesmo; para que, por fim, possamos tornar-nos participantes da
verdadeira glória que tens preparado para nós nos céus por meio de Cristo, nosso Senhor. Amém.”[207]
R|EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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C1C - CALVINO, João. Comentário à Sagrada Escritura: Exposição de 1 Coríntios. 2. ed. São
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S|OBRE O ORGANIZADOR


J. A. Lucas Guimarães é casado com a professora Neide Lucas. Licenciado em História
(UVA/CE), Ciências da Religião (UVA/CE), Letras (UNIMES/SP), Bacharel em Teologia (EST/RS),
Especialista em História e Sociologia (URCA/CE), Mestre em Teologia (STF/CE) e Ciência da Religião
pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM/SP), é pastor presbiteriano e professor da rede
estadual de ensino do Estado de São Paulo na disciplina de História. Atuou como professor universitário
nos cursos de Pedagogia e Teologia, em disciplina como Exegese do Novo Testamento e Antropologia
Cultural. Atuou, também, como tutor em Curso de pós-graduação pela Universidade Federal Fluminense
(UFF/RJ).
Iniciou sua licenciatura ao pastorado na Congregação Presbiteriana Cenáculo da Igreja
Presbiteriana de Fortaleza/CE em 1998. De 1999 a 2006, esteve envolvido com a consolidação da Igreja
Presbiteriana de Acopiara/CE. Assumiu a função de pastor auxiliar na Igreja Presbiteriana de São
Vicente/SP de 2007 a 2013. E, atualmente, encontra-se envolvido com a implantação de uma nova igreja,
a Igreja Presbiteriana Vitória, na cidade de Praia Grande/SP.

N|OTAS
[1] O livro foi preparado para comemorar os 500 anos do nascimento de João Calvino em 10 de julho de 2009. Sua publicação impressa
ocorreu apenas no início de 2010.
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