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Direito Internacional Público

Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

Tabela dos Apontamentos de Direito Internacional Público

Nome do Professor das Aulas Teóricas : Carlos Blanco de Morais

Nome do Professor das Aulas Práticas : Lucas Cardoso

1º Frequência

Data Hora Nota

30/06/03 15:30 11

Nota de Avaliação Contínua : 10

Nota de Ida à Oral : 11

Oral

Data Hora Nota

23/07/03 18:30 11

Nota da Oral : 11

2º Época ( Setembro ) : Escrita

Data Hora Nota

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2º Época ( Setembro ) : Oral

Data Hora Nota

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Nota Final em Direito Internacional Público : 11

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Direito Internacional Público
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Definição de Direito Internacional Público :

Existem três critérios para definir Direito Internacional Público :

1º- Critério :

Critério dos Sujeitos de Direito Internacional  define o Direito Internacional como o


conjunto de normas jurídicas reguladoras das relações entre os Estados soberanos.

(O que não tem em linha de conta que tanto os sujeitos individuais como outras organizações
internacionais são igualmente sujeitos de direito internacional )

Este critério é um quanto ou tanto vicioso, pois, pressupõe-se que se saiba quem são os sujeitos
de Direito Internacional e consequentemente se tenha de saber quais as entidades para as quais as
normas deste Direito se destinam. Assim sendo este critério pressupõe que já se tenha fixado uma
norma de Direito Internacional com a definição dos sujeitos de Direito Internacional. Ora isto não faz
sentido porque se ainda não se definiu o que é o Direito Internacional, não podemos instituir uma
norma de Direito Internacional a definir o que quer que seja.

2º- Critério :

Critério do Objecto da Norma Internacional ( ou Critério Material )  define o Direito


Internacional assentando no objecto da norma, ou seja o Direito Internacional é por natureza o
conjunto das normas jurídicas que regulam as matérias internacionais.
Este critério também não é muito fiável porque a separação entre as matérias de natureza
interna e externa são muito ténues ( senão vejamos : ex. : muitas vezes o Direito Internacional
Público aplica-se a questões internas, como seja, a questões de Direito Penal ---- com a criação dos
Tribunais de Tóquio e de Nuremberga para a punição dos crimes da II Guerra Mundial ---- ).
Contudo este critério pode ser indispensável para estabelecer o domínio irredutível da soberania
do Estado.

3º- Critério :

Critério da Forma de Produção das Normas Internacionais ( Posição Adoptada )  este


critério define o Direito Internacional como o conjunto das normas jurídicas criadas pelos processos
de produção jurídica próprios da Comunidade Internacional.
A Comunidade Internacional pode ser entendida de duas formas :

- Sociedade  os factores de desagregação são mais fortes que os factores de


agregação.

- Comunidade  os factores de agregação são mais fortes que os factores de


desagregação.
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Na nossa opinião a Comunidade Internacional enquadra-se na categoria da Comunidade,


porque cada vez mais se assiste a uma comunitarização da sociedade.

Fundamento Obrigatório do Direito Internacional Público ( Teses do Direito


Internacional ) :

Sob o fundamento Direito Internacional existem várias teses :

1º- Tese Negativista  defende que o Direito Internacional não existe porque para que exista
qualquer Direito são necessário os seguintes requisitos cumulativos :

- haver um legislador;

- e que as normas fossem aplicadas pela força, ou que impusessem uma sanção.

Na nossa opinião o Direito Internacional é Direito mesmo que em determinadas situações


este Direito não imponha sanções, isto porque, o que dá o carácter jurídico às normas são os órgãos
que as criam.
Por outro lado a ideia da tese negativista não tem lógica porque na norma costumeira não há os
elementos que os defensores desta tese impõem para que haja Direito Internacional.

2º- Tese Voluntarista  defende que o fundamento da obrigatoriedade do Direito


Internacional se encontra na vontade do Estado.
Esta tese divide-se em duas :

 Tese da Auto Limitação ( do Prof. Jellinek )  defende que o Estado só pode estar
vinculado às regras ou ao Direito que ele próprio admitir ou consentir.

 Tese da Vontade Comum ou Colectiva  considera que o Direito Internacional


nasce da fusão das vontades estaduais numa vontade comum sendo esta vontade que corporiza o
Direito Internacional.

Na nossa opinião estas teses nunca conseguiram explicar o fundamento do Direito


Internacional porque ao buscarem a força obrigatória deste Direito na vontade do Estado partiram
sempre do pressuposto de que essa vontade se exprimiria na soberania absoluta e indivisível do Estado,
sendo ela própria o verdadeiro fundamento do Direito Internacional, ou seja, isto tem como
consequência o seguinte : o Estado só respeitará o Direito Internacional enquanto tiver interesse, caso
contrário não o respeitará.

3º- Tese Anti Voluntarista ( Posição Adoptada )  procura demonstrar que os Estados estão
vinculados ao Direito Internacional porque este é obrigatório.
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Esta tese subdivide-se em duas :

 Tese Pura do Direito ( Prof. Hans Kelsen )  entende que o Direito se justifica a si
próprio sendo a partir daqui que Kelsen constrói a teoria da pirâmide normativa, a qual é composta
por diversos patamares de normas jurídicas sendo que o fundamento de umas normas se encontra nas
normas imediatamente acima de si; e no topo desta pirâmide encontra-se a norma fundamental que se
justifica a si própria.
De início Kelsen estipula que a norma fundamental é a norma pacta sunt servanda
( os pactos ---- tratados ---- são obrigatórios ). Contudo logo surgiram algumas críticas dizendo que a
norma escolhida para norma fundamental não abrangia todo o Direito Internacional, já que deixava
de fora os costumes.
Kelsen aceita a critica e reformula a norma fundamental, passando agora a ser a
norma consuetudo est servenda ( os costumes são para se cumprir ), abrangendo desta forma os
costumes e os tratados porque a norma pacta sunt servanda ser por si só uma norma costumeira e
como tal ela seria para ser cumprida e respeitada.
Com esta tese Kelsen demonstra que o Estado não está vinculado ao Direito
Internacional porque quer, mas sim porque está obrigado.
Esta tese só é criticável num ponto que por sinal é essencial e que é o seguinte : para
esta tese todo o Direito Internacional se reduz à forma ( processo de elaboração ) não ligando ao
conteúdo das normas, o que logo torna o Direito a valorativo.

 Tese de Direito Natural ( Posição Adoptada )  defende que existem um conjunto


de valores que se impõem às ordens jurídicas e que os Estados têm de os respeitar, não esquecendo
como é óbvio que esta tese tem em consideração que as normas têm um processo próprio para serem
aprovadas. Contudo isso não é tudo porque as normas jurídicas têm também um conteúdo; conteúdo
esse que tem de respeitar certos princípios.
Assim sendo com esta teoria o Estado está vinculado ao Direito Internacional, porque
existem determinados princípios que se impõem aos Estados.

Relações entre o Direito Internacional e o Direito Interno :

Sobre esta matéria existem as seguintes teorias :

Tese Dualista  defende que o Direito Internacional e o Direito Interno são duas ordens
jurídicas separadas.
Hoje em dia esta tese não tem lógica porque o Direito Internacional e o Direito Interno têm
uma relação estrita sendo por vezes difícil distinguir quais as matérias reguladas pelo Direito Interno e
quais as reguladas pelo Direito Internacional.
Se optarmos por esta tese não existiria o conflito entre estes dois Direitos porque são aqui
encarados como ordenamentos jurídicos diferentes, mas surgiria um outro problema, nomeadamente,
existirem normas de Direito Internacional que vigoram nos ordenamentos jurídicos dos Estados. Ora
como é que isso era possível sendo estes Direitos encarados como Ordenamentos Jurídicos
diferentes ?

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Este problema é então resolvido da seguinte forma : o Estado dá autorização para que certas
normas de Direito Internacional vigorem no ordenamento jurídico do Estado. Essa autorização é dada
através da transformação das normas internacionais em normas de Direito Interno.
Esta tese tem as seguintes desvantagens :

- menospreza o Direito Internacional porque o fundamento da obrigatoriedade deste


Direito passam a ser os órgãos de soberania dos Estados em vez de resultar do entendimento entre os
vários Estados;
- por outro lado, como sabemos o Direito tem um corpo e uma lógica interna não
fazendo sentido a solução de transformar as normas de Direito Internacional ( que são pensadas
para uma realidade ) e aplicar-se essas normas num enquadramento totalmente diferente;

Desta tese só se consegue retirar uma vantagem, mas essa vantagem não é relevante em termos
jurídicos, sendo sim relevante em termos políticos e que consta do seguinte :

- todas as normas de Direito Internacional têm de passar pelo crivo dos órgãos de
soberania dos Estados.

Tese Monista ( Posição Adoptada )  sustenta que só há um Direito, criando desse modo uma
relação entre o Direito Internacional e o Direito Interno, e por conseguinte, o conflito entre estes dois
Direitos.
Perante este conflito surgem duas formas de monismo para tentar solucioná-los :

 Monismo com Primado de Direito Interno  não tem sentido porque em termos
práticos menospreza o Direito Internacional, não tornando-o obrigatório, pois, põe o Direito Interno
acima do Direito Internacional.

 Monismo com Primado de Direito Internacional ( Posição Adoptada )  parte da


seguinte consideração básica : não se pode desfazer unilateralmente aquilo que se fez bilateralmente.
Este monismo divide-se em dois ramos :

 Monismo Absoluto  assenta que a desconformidade da norma de Direito


Interno com a norma de Direito Internacional gera a sua nulidade. Isto faz com que em último caso as
normas constitucionais possam ser nulas.

 Monismo Moderado ( Posição Adoptada )  assenta no princípio que


Direito só há um, mas que o Direito Internacional tem uma especificidade diferente da do Direito
Interno. Assim se as normas de Direito Interno violarem as normas de Direito Internacional não são
necessariamente nulas, ou seja, o que acontece é que essas normas de Direito Interno são inaplicáveis,
isto é, as normas em contradição não saem do ordenamento jurídico e se mais tarde por qualquer razão
as normas de Direito Internacional desaparecerem, as normas de Direito Interno passam a ser
aplicáveis.

Técnicas Jurídicas que Permitem a Vigência do Direito Internacional no Direito


Interno :

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Se adoptarmos a tese dualista o mecanismo é a técnica da transformação, onde a


Constituição do Estado estabelece que : para que as normas jurídicas internacionais vigorem no
ordenamento jurídico desse Estado essas normas devem ser reproduzidas num acto legislativo de
Direito Interno.
Se optarmos pela tese monista ( posição adoptada ) existem dois tipos de mecanismos :

Cláusula de Integração Automática  refere que a norma de Direito Internacional aplica-


se imediata e directamente no ordenamento jurídico do Estado sem ser preciso qualquer intervenção
desse mesmo Estado.

Cláusula Geral de Recepção Plena ( posição adoptada por Portugal )  prevê que o Direito
Interno exige que o Direito Internacional tem de cumprir certas formalidades para que possa vigorar
no ordenamento jurídico do Estado ( ex. : a publicação ---- as normas internacionais têm de ser
publicadas ---- ).

Existe um outro sistema que é apelidado de sistema misto e que tem o seguinte mecanismo :

Cláusula de Recepção Semi-Plena  esta cláusula tem este nome porque junta a
transformação e a recepção plena, ou seja, para determinadas matérias opta-se pela recepção plena e
noutras matérias opta-se pela transformação.

A escolha dos mecanismos que permitem a vigência do Direito Internacional no ordenamento


interno é da exclusiva competência do Estado. Estes mecanismos só funcionam para os Tratados, já
que para o Costume Internacional não se vislumbra outra situação que não seja a recepção
automática.

Relação do Direito Internacional com o Direito Interno Português :

Sobre esta questão há que ter em conta o disposto na CRP no seu artigo 8º.
O artigo 8º n.º 1 da CRP prevê a cláusula de integração automática ( porque não é necessário
nenhum acto de direito interno para que a norma produza os seus efeitos ) e plena ( porque a
Constituição diz que todas as matérias de Direito Internacional vigoram na ordem jurídica interna
portuguesa ), ou seja, as normas e os princípios de direito internacional geral ou comum ( costumes e
jus cogens ) fazem parte integrante do direito português. Isto é a vigência destas normas não dependem
da sua conformidade com a CRP.
Daqui se conclui que o costume internacional e as normas de jus cogens têm valor supra
legal e supra constitucional.

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O artigo 8º n.º 2 da CRP prevê a cláusula de recepção automática e plena, ou seja, as normas
constantes de convenções internacionais regularmente ratificadas ou aprovadas vigoram na ordem
interna após a sua publicação oficial e enquanto vincularem internacionalmente o Estado Português.
Contudo os Tratados e os Acordos têm que estar de acordo com a CRP, isto porque, o artigo
278º da CRP prevê que as normas constantes destes actos possam ser sujeitas à fiscalização da
constitucionalidade preventiva. No entanto estes actos também podem ser sujeitas à fiscalização
sucessiva ( concreta e abstracta ).
Daqui se conclui que os Tratados e o Acordos têm valor supra legal e infra constitucional.
É de salientar que este artigo também vigora para a vigência do Direito Comunitário originário.
O artigo 8º n.º 3 da CRP prevê a cláusula de incorporação automática e semi-plena ou
limitada ( só certas matérias é que vigoram na ordem jurídica portuguesa ), ou seja, as normas
emanadas dos órgãos competentes das organizações internacionais de que Portugal seja parte vigoram
directamente na ordem interna, desde que tal se encontre estabelecido nos respectivos tratados
constitutivos. No entanto este número tem uma diferença com o anterior, pois, as normas que este
artigo se refere têm aplicabilidade directa ( logo que tomadas vigoram no Direito Interno Português ).
Isto tem como consequência o facto de estas normas não poderem ser sujeitas a fiscalização preventiva
só podendo ser sujeitas à fiscalização sucessiva ( concreta e abstracta ). Assim sendo isto gera mais
depressa a responsabilidade internacional do Estado.
No artigo 16º da CRP vigora a cláusula de recepção automática e semi-plena nas matérias que
se refiram a Direitos Fundamentais. Esta norma só fala em vigência e não em conflitos.

Sujeitos de Direito Internacional :

Tradicionalmente o Direito Internacional regia só as relações entre os Estados, no entanto,


com o surgimento das Organizações Internacionais teve que se alargar o seu âmbito de aplicação.
Nos dias de hoje para além das Organizações Internacionais existem outros Sujeitos de
Direito Internacional como por exemplo as Pessoas Singulares ( tradicionalmente a doutrina
também defendia que não eram sujeitos de Direito Internacional ).
Apesar de se encarar que os Estados, as Organizações Internacionais e as Pessoas
Singulares são sujeitos de Direito Internacional tendo personalidade jurídica internacional convém
salientar que a sua capacidade jurídica é diferente e varia de sujeitos para sujeitos.
A subjectividade internacional adquire-se por duas formas :

Originária  os sujeitos de Direito Internacional existem por vontade própria ( ex. : os


Estados ---- capacidade jurídica internacional genérica ---- ).

Derivada  os sujeitos de Direito Internacional existem por vontade de outrem ( ex. :


Organizações Internacionais ---- capacidade jurídica internacional limitada ---- ).

Reconhecimento :

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O reconhecimento é um acto jurídico unilateral através do qual o Estado constata que


determinada entidade existe e é compatível com as regras de Direito Internacional é sujeito de
Direito Internacional.
O reconhecimento pode ser :

Reconhecimento Constitutivo  este reconhecimento cria o próprio sujeito de Direito


Internacional.

Reconhecimento Declarativo  este reconhecimento visa apenas reforçar a existência do


sujeito de Direito Internacional ( não o cria ).

Entre Estados o reconhecimento mais usual é o reconhecimento declarativo, isto porque,


existe uma norma costumeira que estabelece que o Estado logo que surja ( logo que reúna os três
elementos : povo, território e poder político ) é automaticamente reconhecido.
Este reconhecimento pode ser feito de qualquer forma ( ex. : declaração formal;
estabelecimento de relações diplomáticas ).
Só deve haver reconhecimento de Estado se :

- houver Estado ( que este contenha os três elementos : povo, território, poder
político );

- esse Estado não tenha sido formado pela força ilícita ( doutrina de Stinson );

- proíbe-se o reconhecimento prematuro;

Ainda relacionado com a questão do reconhecimento surge o reconhecimento de Governos


( autoridade política que conduz o Estado ).
É de salientar que se pode reconhecer um Estado, mas pode-se não reconhecer o Governo desse
Estado.
O reconhecimento de Governos só se coloca quando o Governo chegou ao poder fora do que
está constitucionalmente previsto nesse Estado ( ex. : revoluções ), pois, se o Governo chegou ao poder
respeitando os trâmites constitucionais desse Estado o reconhecimento não faz sentido.
Sobre o reconhecimento de Governos existem duas teses :

Doutrina da Efectividade ou a Doutrina de Estrada ( Ministro dos Negócios Estrangeiros


do México ---- Posição Adoptada por Portugal ---- )  esta doutrina defende que só devem ser
reconhecidos os Governos que tenham autoridade efectiva no território do respectivo Estado.

Doutrina da Legitimidade ou a Doutrina de Tobbar ( Ministro dos Negócios Estrangeiros


do Equador ---- Posição Adoptada ---- )  esta doutrina defende que só devem ser reconhecidos os
Governos que resultam da emanação da vontade popular.

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Quanto ao reconhecimento dos beligerantes. Este reconhecimento é o acto pelo qual um


Estado ou um sujeito de Direito Internacional admite ou implicitamente aceita ou declara que no
âmbito de um conflito internacional de um Estado assume em relação às forças governamentais uma
posição de neutralidade exigindo-se que as forças insurreccionais tenham um controlo efectivo de
uma parte do território e que esse controlo se manifeste com um Governo.
O estatuto dos beligerantes implica um reconhecimento constitutivo bem como a entrada em
vigor das regras do Direito da Guerra e das regras inerentes ao instituto da neutralidade.

Surgimento do Direito Internacional e das Organizações Internacionais :

É a partir de 1648 ( Paz de Westefália ) que surge o Direito Internacional porque a partir desse
momento reconheceu-se aos Estados o direito de decidirem o seu futuro. Mas a grande explosão
normativa do Direito Internacional só acontece com o final da II Guerra Mundial.
As Organizações Internacionais são uma realidade relativamente recente, já que existem à
pouco mais de 100 anos, e o seu surgimento demonstra a consciencialização dos Estados na
necessidade de em determinadas áreas terem de cooperar uns com os outros.
No séc. XIX surgiram algumas Organizações Internacionais que lidavam com matérias
técnicas e administrativas ( ex. : Organização Internacional das Comunicações; União Postal
Universal ).
Mais tarde surgiram as Organizações Internacionais que tratam de matérias politicamente
relevantes ( ex. : Sociedade das Nações criada pelo Tratado de Versalhes em 1919 e mais tarde a
ONU que abarca várias organizações como seja a UNICEF, FMI, OIT... ).
Em suma Organização Internacional é :

Organização Internacional  associação de Estados instituída por um tratado que prossegue


objectivos comuns aos Estados membros e que possui órgão próprios para a satisfação das funções
específicas da Organização.

As organizações internacionais são compostas por dois elementos :

Elemento Internacional  as organizações internacionais são criadas por tratados


internacionais e têm personalidade jurídica internacional.

Elemento de Permanência e de Independência  as organizações internacionais têm uma


organização mais ou menos complexa ( têm que ter órgãos próprios, atribuições e competências
próprias que resultam dos seus tratados constitutivos sendo a partir destes que se delimita o princípio
da especialidade ---- ).

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É nestes dois tipos de elementos que individualizamos as organizações internacionais que são
identificáveis a partir de quatro fases :

I Fase ( do século XIX a 1919 )  é a fase da existência da união entre Estados que ainda não
assumiram a natureza de organizações internacionais. Uniões essas cujos objectivos fundamentais
eram determinadas actividades consagradas nas uniões administrativas ( ex. : União do Reno e do
Danúbio ).

II Fase ( depois da I Guerra Mundial )  temos a internacionalização das organizações


internacionais caracterizada pelo elemento internacional e pelo elemento de permanência e
independência ( ex. : Sociedade das Nações, Organização Internacional do Trabalho ).

III Fase ( a partir de 1945 até à década de 60 )  multiplicação de organizações


internacionais com diferentes fins, mas tendo como base a ONU.

IV Fase ( a partir da década de 80 )  surgem as organizações não governamentais que são o


resultado de interesses privados que prosseguem fins que se assumem como fins inerentes à própria
comunidade internacional e que alguns identificam como ( Serviço Público Internacional ---- ex. :
médicos sem fronteiras, amnistia internacional ---- ) e que traduzem uma cada vez maior relevância do
indivíduo como sujeito de direito internacional.

Classificação das Organizações Internacionais :

Existem diferentes tipos de classificações de Organizações Internacionais :

1- Distingue as Organizações Internacionais quanto ao Objecto ou Fins : segundo este


critério as Organizações Internacionais podem ser :

Gerais  as suas finalidades são predominantemente políticas ( ex. : Nações Unidas ).

Especiais  as suas finalidades visam um objectivo determinado podendo subdividir-se em :

- Organizações de Cooperação Política ( ex. : Conselho da Europa com sede em


Estrasburgo );

- Organizações de Cooperação Económica ( ex. : União Europeia, Mercosul, FMI... );

- Organizações de Cooperação Militar ( ex. : OTAN, SEATO );

- Organizações de Cooperação Social e Humanitária ( ex. : OMS, OIT );


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- Organizações Dotadas de Finalidades Culturais ( ex. : UNESCO, UPI, OIM );

2- Distingue as Organizações Internacionais quanto à Estrutura : segundo este critério as


Organizações Internacionais podem ser :

Intergovernamentais  são compostos pelos governos dos Estados que são legítimos e visam
fomentar relações multilaterais de cooperação entre os sujeitos que as integram, desempenhando os
Estados membros um papel primordial na vida destas organizações.

Supranacionais  estas organizações fundam-se no princípio da limitação da soberania dos


Estados membros, resultante da chamada transferência de poderes soberanos dos Estados membros
para estas organizações.

3- Distingue as Organizações Internacionais quanto ao Âmbito : segundo este critério as


Organizações Internacionais podem ser :

Universais ou Para Universais  são aquelas organizações que em princípio podem abarcar
todos os Estados da Comunidade Internacional ( ex. : ONU, GATT, FMI, OIT ).

Regionais ou Continentais  são aquelas que vêem o seu âmbito de acção ou participação
definido, isto é, estão abertas unicamente a um reduzido número de Estados definidos por vários
critérios ( ex. : OCDE, EFTA ).

4- Distingue as Organizações Internacionais quanto ao Acesso : segundo este critério as


Organizações Internacionais podem ser :

Aberto  irrestrito

Restrito ou Condicionado  por razões de ordem política ( ex. : acesso ao Conselho da


Europa exige que os países sejam de democracias pluralistas ), ou na inserção de um espaço territorial
( União Europeia ), ou o acesso que pressupõe uma identificação cultural ( liga árabe ).

5- Distingue as Organizações Internacionais quanto aos Poderes : segundo este critério as


Organizações Internacionais podem ser :

Cooperação  onde a participação dos Estados leva a que as deliberações da organização


internacional sejam adoptadas por unanimidade pressupondo uma aceitação no ordenamento jurídico
de cada Estado.
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Integração  pressupõe a existência de matérias que para serem plenamente válidas e eficazes
exigem uma maioria qualificada, ponderada ou por vezes até simples dos Estados membros.

Ordem Jurídica Internacional :

Cada organização internacional é instituída por um tratado internacional que é conhecido como
seu direito originário. Com base nesse tratado desenvolve-se todo um conjunto de norma e actos que
emanam dos órgãos da Organização. Assim sendo a ordem jurídica de cada Organização Internacional
é composta, pois, pelo somatório do seu Direito originário ( Tratado institutivo ) e derivado
( produzido pelos seus órgãos ).
Para averiguar se uma Organização Internacional tem ou não personalidade, haverá que
recorrer ao seu acto constitutivo e examinar se dele decorrem direitos e obrigações próprios assim
como se a Organização é susceptível de produzir manifestações de vontade que lhe sejam
juridicamente imputáveis. Daqui surge a pergunta : a Organização Internacional é oponível erga
omnes ?
Esta questão foi respondida pelo Tribunal Internacional de Justiça ( TIJ ) no parecer sobre a
reparação dos prejuízos sofridos ao serviço das Nações Unidas ( ONU ) em 1949, tendo este tribunal
concluído pela oponibilidade erga omnes da personalidade jurídica internacional da mesma. Isto
porque cinquenta Estados constituem a maioria dos membros da Comunidade Internacional, como tal
tinham o poder conforme com o Direito Internacional de criar uma entidade que possua
personalidade internacional objectiva, bem como a faculdade de apresentar reclamações internacionais.

A Composição das Organizações Internacionais :

As Organizações Internacionais são normalmente compostas por Estados e apenas por estes,
mas excepcionalmente podem ser membros destas entidades a :

- Santa Sé;

- outras Organizações Internacionais;

Os participantes numa Organização Internacional são em regra seus membros e estes podem
ser :

- Membros de Pleno Direito ( gozando cada um do estatuto de inteira igualdade de


direitos e obrigações em relação aos demais );

- Associados ( gozam de um estatuto idêntico aos dos membros de pleno direito, com
excepção do direito de voto );

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- Observadores ( têm um estatuto mais limitado definido pela própria organização e


que em geral comporta apenas o direito de participar nas actividades da organização em que
directamente possam estar interessados );

A admissão numa Organização Internacional já constituída depende do preenchimento das


condições de participação resultantes quer da própria natureza das Organizações, quer do seu tratado
constitutivo, quer ainda da vontade dos próprios Estados membros expressa através dos órgãos
competentes da respectiva Organização.
Mas se a admissão de um Estado numa Organização depende do preenchimento de certas
condições, a sua permanência implica o respeito contínuo das obrigações assumidas no seio desta, pois
a violação grave e persistente da ordem jurídica da Organização Internacional por um Estado faz
nascer a possibilidade da sua expulsão. Assim sendo a retirada de um Estado duma Organização pode
fazer-se por duas vias :

- Exclusão Forçada ( esta exclusão consiste num processo específico e decorre pelo
facto de um Estado praticar actos contrários aos tratados );

- Retirada Voluntária ( esta forma de exclusão por regra não se encontra prevista nos
tratados constitutivos das Organizações Internacionais e corresponde à :

- Denúncia ( utilizada nos tratados bilaterais ) ou Recesso ( utilizada nos


tratados multilaterais )  consiste num acto jurídico unilateral pelo qual um Estado declara que não
quer mais pertencer à organização );

A possibilidade de exclusão ou da retirada deriva do princípio : não sendo um Estado obrigado


a ingressar numa Organização Internacional não pode também ser obrigado a permanecer nela.
Contudo poderá por tal facto ser-lhe aplicado sanções :

Retorsão  consiste na adopção de medidas lícitas de coerção visando colocar o


Estado em causa numa posição desfavorável.

Represálias  traduz-se no emprego de meios formalmente ilícitos e se necessários


violentos.

A Competência das Organizações Internacionais :

Da personalidade internacional das Organizações Internacionais deriva a sua capacidade de


gozo e de exercício, cuja medida, mais uma vez é definida pelo respectivo acto institutivo e encontra-
se balizada por vários princípios :

Princípio da Especialidade  os órgãos da organização só têm competência relativa aos seus


fins próprios.
Mas pode acontecer que ele preveja essa competência de modo insuficiente, de tal modo que os
órgãos da Organização Internacional podem vir a defrontar-se com a falta dos poderes necessários à
cabal prossecução dos objectivos postos a seu cargo.
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Nesse caso a doutrina e a jurisprudência internacional têm construído a :

- Teoria dos Poderes Implícitos  segundo a qual a Organização Internacional, para


além dos poderes que expressamente lhe estão conferidos goza também dos que são instrumentais
daqueles, ou seja, dos que são indispensáveis ao bom desempenho dos poderes atribuídos por forma
expressa ou explícita.
Esta teoria deve porém ser interpretada e aplicada com prudência, pois por um lado através dela
pretende-se apenas alargar a competência dos órgãos da Organização e não estender as próprias
atribuições da Organização.
Nas Organizações Intergovernamentais a aplicação desta teoria deverá ser recusada sempre que
dela resultarem para os Estados membros limitações de soberania não expressamente previstas, pois as
limitações à soberania dos Estados naquelas Organizações não se presumem. Mas já o mesmo não se
pode dizer das Organizações Supranacionais, pois nestas já se permite criar poderes novos e não
apenas implícitos.
O próprio TIJ afirmou que pelo Direito Internacional deve julgar-se que a Organização tem
os poderes que embora não expressamente estipulados na Carta, lhes são conferidos por implicação
necessária na medida em que são essenciais para o cumprimento dos seus deveres.

Excepção do Domínio Não Reservado  esta excepção tem a ver com o facto de os Estados
reservarem matérias interditas à actividade das Organizações.
Particularmente durante as décadas de 50 e 60 os Estados não se cansaram de protestar contra a
intromissão das Organizações Internacionais nas suas questões domésticas ( ex. : o conflito entre
Portugal e as ONU acerca da competência para determinar se um território é ou não do tipo previsto
no artigo 73º da Carta das Nações Unidas ( CNU ), pois Portugal sustentava que essa competência
fazia parte do domínio reservado do Estado enquanto sucessivas resoluções da Assembleia Geral da
ONU defendiam que essa competência pertencia à Organização ).
Tais conflitos só poderão ser resolvidos pelo jogo das forças políticas, embora sejam na base
diferendos especificamente jurídicos. Note-se todavia que nos últimos tempos, de modo talvez a querer
assinalar uma maior limitação auto consentida da soberania dos Estados membros em face de uma
maior absorção pela ONU de matérias que até há bem pouco caíam no seu domínio reservado, eles não
têm invocado esta excepção perante situações em que sem dúvida, o fariam há duas ou três décadas, o
que quer significar uma maior internacionalização de assuntos que até há pouco tempo eram internos e
correspondentemente a uma maior limitação do âmbito do domínio reservado ( ex. : pense-se nas
resoluções aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU condenando o Iraque pela ocupação do
Kuwait até ao extremo de criarem condições para uma intervenção militar no seu território... ).

Competência das Organizações Internacionais :

- Solução de Conflitos Interestaduais ( de uma forma geral todas as Organizações


prevêem formas de solução de conflitos internos, isto é, daqueles que surgem entre os seus membros a
propósito da interpretação do acto de constituição ou do funcionamento dos órgãos.
Mas as Organizações de carácter político visam também resolver os conflitos externos
existentes entre os Estados ---- ex. : ONU ---- );

- Competência Financeira ( consiste na aprovação do orçamento e na determinação


da parte que deverá ser suportada por cada Estado );

- Competência de Gestão;
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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

- Ius Tractum ( as Organizações Internacionais gozam do direito de celebrar tratados


e acordos internacionais );

- Competência Legislativa ou Regulamentar ( nesta competência inserem-se os :

- Actos Jurídicos Unilaterais  são actos que provêem de um só sujeito de


Direito Internacional Público e que não carecem da sua aceitação para a sua validade.
Estes actos podem ser :

- Actos Autónomos  são manifestações de vontade válidas e eficazes


por si só sem que tenham de observar outras fontes :

- Protesto  é o acto pelo qual um Estado dá a entender que não


considera determinada situação conforme ao Direito.

- Notificação  é o acto pelo qual um Estado leva ao


conhecimento de outros Estados determinado facto de cuja existência decorrem certas consequências
jurídicas.

- Promessa  é o compromisso assumido por um Estado de


tomar no futuro determinada atitude.

- Renúncia  é um acto jurídico unilateral, irrevogável,


extintivo de um direito do seu autor.

- Reconhecimento  é o acto pelo qual um Estado constata uma


situação existente e afirma que a considera conforme ao Direito.

- Actos Não Autónomos  são aqueles cuja prática é prevista nos


tratados ---- ex. : adesão, denuncia ou recesso ----. Estes actos podem ser :

- Actos Internos  produzem os seus efeitos jurídicos dentro da


própria organização.

- Actos Externos  produzem os seus efeitos jurídicos junto dos


Estados Membros. Estes actos podem ser :

- Normativos ( ex. : decisões do conselho de segurança,


regulamentos e decisões );

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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

- Sem Carácter Normativo ( ex. : recomendações ----


não se impõe porque a sua inobservância não implica sanções ----. As recomendações devem :

- ser observadas de boa fé;

- tem-se o direito de cumpri-las;

- através delas pode-se criar um costume


internacional );

A Estrutura das Organizações Internacionais :

O princípio mais geral é o da igualdade de voto : cada Estado membro terá um voto. Este
sistema deriva da regra da igualdade soberana dos Estados proclamada pelo artigo 2º n.º 1 da CNU e
representa a transposição para a cena internacional da regra básica da democracia intra-estadual, um
homem um voto. Mas corresponde a uma visão abstracta da Comunidade Internacional e com o
alargamento desta mostrou-se profundamente desajustada à realidade. Por isso cedo se passou a levar
em conta a desigualdade real entre os Estados e para tal introduziu-se o voto ponderado.
Como é característico da personalidade colectiva, os órgãos das Organizações Internacionais
têm como titulares indivíduos, cuja vontade é juridicamente imputada à organização. E esta imputação
pode dar-se por dois títulos diversos, conforme o indivíduo cuja vontade psicológica está na base da
vontade normativa da Organização pertence à categoria :

Representantes dos Estados Membros ou Delegados ( artigo 9º da CNU )  são o titulares


dos órgãos colegiais onde cada Estado membro da ONU pode ter até cinco representantes na
Assembleia Geral, embora só tenha direito a um voto. Estes representantes estão sujeitos a um
mandato imperativo, isto é, devem obediência às instruções dos respectivos Governos e se estes
cessarem funções os seus representantes também cessam.

Agentes Internacionais  estes agentes podem ser :

- Funcionários Internacionais  é o indivíduo que desempenha a sua função


permanente, estando sujeito a um conjunto de regras ( requisitos, impedimentos... ) estabelecido pela
própria organização.

- Agente Internacional  assume um carácter precário ou transitório ( ex. : peritos,


árbitros, mediadores... ).

Evolução Histórica da Organização das Nações Unidas ( ONU ) :


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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

Terminada a I Guerra Mundial surge sobretudo por influência norte-americana a ideia de que
para a manutenção da paz seria indispensável a edificação de uma organização política de carácter
universal. Assim para materializar tal ideia celebrou-se o Tratado de Versalhes que instituiu a SDN
( Sociedade de Defesa das Nações ) que tinha como objectivos :

- promover a segurança colectiva;

- a solução pacífica dos conflitos;

- a colaboração entre os Estados para o progresso económico e social;

A base da SDN era dado pelo princípio da soberania dos Estados, o que fez com que a
organização agisse segundos métodos de mera cooperação, assim como a exigência da unanimidade
faz com que a SDN fosse um quadro para a actuação internacional dos Estados plenamente soberanos.
Isto aliado às circunstâncias políticas, nomeadamente :

- não participação dos EUA na SDN ( os EUA tinham sido os seus principais
impulsionadores, mas o Senado não ratificou o Tratado );

- o sentimento da Itália e da Alemanha ( pois achavam que tinham sido injustamente


tratados no Tratado de Versalhes, o que levou ao ressurgimento do Nacionalismo exacerbado );

- e a expulsão da URSS em 1939 ( ditando o seu isolamento internacional );

fez com que enquanto que a SDN preconizava o desarmamento, assistia-se ao rearmamento intensivo
assim como enquanto condenava a anexação violenta dos territórios, esta era praticada na Europa e na
África.
Todos estes factores fizeram eclodir a II Guerra Mundial ditando a extinção da SDN, pois ela
foi impotente para presidir à paz. Contudo tal experiência demonstrou que para a preservação de uma
paz futura teria que se arranjar uma estrutura mais eficaz com poderes mais amplos. Assim em 14 de
Agosto de 1941 o Presidente dos EUA e o Primeiro-ministro do Reino Unido reunidos a bordo de um
navio de guerra no Oceano Atlântico aprovam os oitos artigos da Carta do Atlântico onde se
consignava :

- o direito dos povos escolherem a sua forma de Governo;

- a igualdade dos Estados quanto ao acesso às matérias-primas;

- a colaboração entre os Estados para o progresso económico e social;

- a liberdade dos mares;

- o desarmamento e a manutenção da paz e da segurança colectiva;

Entretanto a balança da guerra ia pendendo para os Aliados e no ano de 1944 faz-se a


Conferência de Dumbartins Oaks onde se elabora o primeiro projecto pormenorizado da futura
CNU ( Carta das Nações Unidas ).

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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

Em Ialta no ano de 1945, a URSS, os EUA e o Reino Unido decidem a repartição de esferas de
influência na comunidade internacional, entre os quais a consagração em seu benefício do direito de
veto no Conselho de Segurança.
Conjugadas as duas conferências ( Conferência de Dumbartin Oaks e de Ialta ) é elaborado o
projecto definitivo da CNU que depois é submetido na Conferência de S. Francisco onde é assinada a
26 de Junho de 1945 e entra em vigor a 25 de Outubro do mesmo ano.
Em anexo à CNU está a DUDH ( Declaração Universal dos Direitos do Homem ).
Ao longo dos tempos a ONU passou por várias fases :

I Fase ( 1946 – 1954 )  período da guerra-fria, verificando-se o bloqueio à entrada de novos


Estados na organização e pela primeira vez a ONU autoriza o uso da força contra um Estado agressor.

II Fase ( 1955 – 1975 )  período fértil em movimentos anticolonialistas onde a ONU através
de resoluções aprovadas com maioria do bloco afro-asiático recomendam as descolonizações
invocando o princípio constante da CNU, nomeadamente : o princípio da autodeterminação dos
povos assim como o respeito pelos direitos fundamentais.
Invocação e aceitação do instituto da legítima defesa preventiva que não está expressamente
consagrada na CNU ( Guerra dos 6 dias ---- entre Israel, Egipto e a Síria ---- ).

III Fase ( 1976 – 1991 )  é um período de paralisação da ONU, pois verificou-se o


desmembramento da URSS e a queda de alguns aliados dos EUA surgindo uma onda pacifista
verificando-se um degelo nas relações entre os Estados o qual culminou com a unificação da
Alemanha e a queda do muro de Berlim em 1989.

IV Fase ( 1992 – até hoje )  é um período de renovação criando-se agendas para a paz,
operações de paz, fim do apartheid e pacificação da América Central.
A guerra do Golfo foi expressamente autorizada pela ONU.

Objectivos, Fins, Princípios Gerais e Funções da Organização das Nações Unidas :

Os objectivos da ONU são :

- a manutenção da Paz e da Segurança Internacional ( esta finalidade inspira todo o


documento e de uma maneira constante traduz o desejo firme dos seus autores de evitarem a todo o
custo a repetição das trágicas circunstâncias que provocaram a II Guerra Mundial );

- o desenvolvimento das Relações Cordiais e Amistosas entre os Estados;

- o incremento de uma Estreita Cooperação Internacional ( com vista à resolução


dos problemas económicos, sociais, culturais e humanitários comuns aos vários Estados, bem como o
estabelecimento de um respeito efectivo pelos direitos da pessoa humana );

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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

- a ONU deverá funcionar como ponto de encontro de todos os Estados da


comunidade internacional ( visando a orientação e a harmonização das suas actividades
particulares para a prossecução dos objectivos comuns antes indicados );

Para além dos objectivos a ONU tem os seguintes princípios gerais que vêm elencados no
artigo 2º CNU :

Positivos :

Princípio da Igualdade Soberana dos Estados ( é afirmado como princípio geral do Direito
Internacional encontrando aplicação na Assembleia Geral das Nações Unidas, mas sofre derrogação
no Conselho de Segurança );
Princípio da Boa Fé nas Relações entre os Estados membros;

Princípio da Solução Pacífica dos Conflitos entre os Estados;

Princípio da Renúncia pelos Estados membros ao Recurso da Força e Respeito da


Integridade Territorial e à Independência Política;

Princípio da Manutenção da Paz e da Manutenção da Segurança Internacional;

Todavia, o artigo 2º da CNU não enuncia expressamente todos os princípios gerais da ONU,
pois para além dos que ali são representados surge-nos o princípio da universalidade da
Organização, pois, esta procura abranger a totalidade dos Estados do globo, quer sejam ou não seus
membros. Este princípio está imanente no artigo 2º n.º 6 da CNU onde se estabelece o dever de os
Estados não membros se conformarem na sua actividade com os princípios da organização, assim
como o artigo 103º da CNU afirma a superioridade da CNU sobre as obrigações contraídas no plano
bilateral pelos Estados membros, incluindo aquelas obrigações que resultarem de acordo entre um
Estado membro e um Estado não membro da ONU.

Negativos :

Princípio do Domínio Reservado dos Estados Membros ( artigo 2º n.º 2 da CNU )  este
artigo impõe que nenhuma disposição da CNU autorizará a ONU a intervir em assuntos que dependam
essencialmente da jurisdição de qualquer Estado, ou obrigará os membros a submeterem tais assuntos
a uma solução nos termos da presente Carta. Contudo este princípio não prejudicará a aplicação das
medidas coercivas constantes do capítulo VII.
Deste artigo surgem várias questões :

- O que se entende por Intervenção ? Para Kelsen o termo intervenção tem um


significado que proíbe qualquer actuação dos órgãos da ONU.
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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

No entanto na prática os órgãos da ONU têm levado sempre tais questões à Assembleia
Geral que aprova várias resoluções.
Na nossa opinião o termo intervenção é a de evitar os efeitos políticos das apreciações
de tais problemas pela ONU.

- Quais são na verdade os assuntos essencialmente internos ? Sob este prisma têm
sido fundamentalmente propostos dois critérios para levar a cabo a determinação do conteúdo material
do domínio reservado do Estado, nomeadamente :

- Critério Jurídico  não pertence à jurisdição interna uma questão que o


Estado interessado tenha regulado através de um tratado internacional quer bilateral ou multilateral,
isto porque, ao tornarem-se parte num tratado, os Estados assumem obrigações internacionais que
limitam o que seria o seu direito soberano de decidir por si próprio.

- Critério Político  existem questões que em princípio são de relevância


interna, mas que se podem tornar de relevância internacional quando a sua existência afecte relações
internacionais, mais concretamente, quando afecte a paz e a segurança internacional ( ex. : é com este
critério que se legitima a Assembleia Geral e o Conselho de Segurança a dirigir recomendações a um
determinado Estado não membro das ONU, condenando a sua forma de governo ---- regime espanhol
em 1946 e a África do Sul na questão do apartheid ---- ).

Na prática a ONU aplica um ou outro critério optando por aquele que lhe dê
competência para actuar.

- A quem compete determinar se uma determinada questão cabe ou não no


domínio reservado dos Estado ? A Assembleia Geral tem afirmado implicitamente que é a ela que
incumbe a determinação da esfera de matérias pertencentes ou não à jurisdição interna do Estado.
O certo porém é que o artigo 2º n.º 7 da CNU não atribui competência à ONU para
fazer tal determinação, por isso na nossa opinião deveremos optar por um critério material, ou seja,
elaborar uma lista de questões que pertencem por natureza ao conteúdo irredutível da soberania do
Estado; claro que ao elaborar tal lista esta deve ser feita de forma flexível, de modo a que a sua
interpretação possa acompanhar a evolução da realidade internacional e as relações entre a soberania
estadual e o Direito Internacional.
A resolução dos casos controvertidos teria que ser deixada a um órgão imparcial entre o
Estado e a Organização, nomeadamente o TIJ, seguindo o Direito Comunitário e o TJC. Isto seria
possível porque por um lado deu-se um reforço da componente jurídica da comunidade internacional,
nomeadamente no que concerne à actuação das NU e por outro lado os Estados vão-se acomodando às
novas concepções de Direito Internacional que assentam na ideia da limitação da soberania estadual
que se encontra no âmago do novo ou moderno Direito Internacional.

Princípio da Legítima Defesa ( artigo 51º da CNU )  este princípio tem sido
tradicionalmente admitido pelo Direito Internacional comum tanto pela via dos princípios gerais como
pela do costume, e com origem no Direito Natural.
Contudo a sua consagração na CNU tem um alcance mais restrito do que o entendimento
tradicional deste direito, dado que a legítima defesa surge-nos aí como direito transitório dos Estados
membros que apenas poderá ser exercido :

- até ao momento em que o Conselho de Segurança tomar as medidas necessárias


destinadas à restituição da paz e da segurança;
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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

- o Estado que se defende tem de sofrer um ataque armado;

- e tem que dar conhecimento de tal facto ao Conselho de Segurança assim como das
medidas que tiver adoptado no exercício de tal direito;

Se algum dos requisitos não se verificar deixa de haver legítima defesa para passar a existir
excesso de legítima defesa, o que equivale a uma agressão e portanto gera responsabilidade
internacional.
Deste artigo é necessário explicitar o que se entende por :

- ataque armado ( não é necessário uma agressão podendo actuar-se em legítima


defesa preventiva, mas para que tal seja possível é necessário :

- existir uma eminência de ataque, isto é, tem de existir uma concentração de


forças assim como se tem que verificar um comportamento que indiciem uma proximidade de ataque
num tempo indeterminado, mas próximo; );
A legítima defesa está também subordinada ao princípio da proporcionalidade, isto é, deve-se
limitar ao estritamente necessário para prevenir ou reprimir a agressão. Se assim não for também por
aqui o Estado que se defende estará a cair numa situação de excesso de legítima defesa.
Esta figura também é possível ser exercida em termos colectivos, isto é, um Estado que não é
atacado corre em auxílio de outro Estado que é vítima de agressão.

Nota : As duas excepções admitidas pela CNU ao artigo 2º n.º 4 são :

- Legítima Defesa ( artigo 51º da CNU );

- aplicação pelo Conselho de Segurança das Medidas Militares ( artigo 42º da CNU );

As funções da ONU são :

Manutenção da Paz e da Segurança Internacional  esta função corresponde ao primeiro


dos fins da ONU enunciado no artigo 1º n.º 1 da CNU.
Para o atingir a CNU prevê três vias :

1º Via : Desarmamento  constitui uma velha aspiração da comunidade internacional,


pois, torna fisicamente impossível a ruptura da paz e permite a mobilização de fundos para outros fins,
mais ligados ao desenvolvimento económico, social e cultural dos povos.
Todavia o progresso que se tem obtido em matéria de desarmamento à escala mundial
tem sido conseguido fora do âmbito da organização, pela conclusão de vários tratados ( ex. : Tratado
sobre a desmilitarização da Antártida em 1 de Dezembro de 1959; o Tratado STAR I e II ).

2º Via : Solução Pacífica dos Conflitos  vem também previsto no artigo 1º n.º 1
conjugado com o artigo 33º n.º 1 da CNU que estatui as seguintes formas :

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- Negociação  é o entendimento directo entre as partes.

- Inquérito  há a intervenção de um inquiridor singular ou de uma comissão


de inquérito que oferecem garantias de imparcialidade, cuja actuação se dirige exclusivamente à
averiguação da matéria de facto.

- Mediação  implica a intervenção de uma terceira entidade que pode ser um


Estado, a Santa Sé, uma Organização Internacional, ou uma individualidade de reconhecido prestígio
que propõe uma solução concreta ainda que não obrigatória para o conflito.

- Bons Ofícios  não está previsto no artigo 33º n.º 1 da CNU e consiste na
intervenção de uma terceira entidade que pode ser um Estado, a Santa Sé, uma Organização
Internacional, ou uma individualidade de reconhecido prestígio que põe as partes a negociar ou fazê-
las recomeçar as negociações interrompidas.

- Conciliação  implica o recurso a uma comissão preestabelecida de


indivíduos independentes, em regra cidadãos de vários Estados que se esforçam por reconciliar as
partes; não o conseguindo, propõem para o conflito uma solução não obrigatória.

- Arbitragem  consiste na entrega da solução para o litígio a um ou mais


terceiros, escolhidos pelas partes e imparciais ( os árbitros ), aos quais elas conferem, por
compromisso arbitral a faculdade de encontrar segundo as normas jurídicas aplicáveis uma solução
para o conflito.
As partes reconhecem previamente essa solução como obrigatória dado que a
decisão dos árbitros tem natureza jurisdicional.

- Solução Judicial  resulta da submissão da questão a um tribunal já existente


e também só se refere aos conflitos de carácter jurídico, implicando por isso a resolução desses
conflitos pela aplicação de regras do Direito.

O próprio Conselho de Segurança pode tomar a iniciativa de utilizar as formas de


solução pacífica previstas no artigo 33º n.º 1 da CNU como refere o n.º 2 do artigo em análise. Mas
quando as formas contempladas neste artigo não conseguirem fornecer uma solução para o litígio, as
partes deverão submeter a questão ao Conselho de Segurança que recomendará uma solução como
refere o artigo 37º da CNU. Todavia poderá o Conselho de Segurança intervir a qualquer momento e
recomendar procedimentos ou métodos de solução apropriados como resulta dos artigos 34º, 36º n.º 1
e 38º da CNU.
A intervenção do Conselho de Segurança poderá ser solicitada por qualquer Estado seja
ou não membro da ONU como estatuem os artigos 35º n.º 1 e 2 e o artigo 38º da CNU.
Na formulação das recomendações o Conselho de Segurança deverá levar em conta que
os conflitos de carácter jurídico devem regra geral ser submetidos pelas partes ao TIJ como estatui o
disposto no artigo 36º n.º 3 conjugado com o 36º n.º 2 do ETIJ ( Estatuto do Tribunal
Internacional de Justiça ).

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3º Via : Medidas previstas no Capítulo VII da CNU  pode acontecer que os meios
previstos para a solução pacífica dos conflitos não consiga por termo ao litígio. Nesse caso o sistema
da CNU impõe que se lance mãos das medidas para pôr termo à ameaça à paz, à ruptura da paz ou aos
actos de agressão. Tais medidas são :

- Medidas Provisórias ( artigo 40º da CNU )  estas medidas visam evitar que
a situação se agrave convidando as partes interessadas a aceitarem essas medidas que consistem em
meras recomendações e que não envolvem qualquer condenação.

- Sanções Não Militares ( artigo 41º conjugado com o artigo 39º da CNU ) 
são sanções fundamentalmente económicas e diplomáticas sendo verdadeiras decisões onde convidam
os Estados membros a aplicar as decisões tendo força obrigatória.

- Sanções Militares ( artigo 42º da CNU )  quando as sanções anteriores não


se tiverem revelado adequadas, o Conselho de Segurança pode aprovar sanções militares que permite-
lhe por meio de forças aéreas, navais ou terrestres levar a acção que julgue necessária para manter ou
restabelecer a paz e a segurança internacional.

Na Conferência de S. Francisco não foi possível o acordo entre as grandes potências


para a criação de uma força armada internacional, ou uma força de polícia internacional que estivesse
colocada sob o comando directo do Conselho e por isso fosse independente dos Estados membros. Por
isso o que ficou estabelecido na CNU foi que todos os Estados membros se comprometiam a colocar
ao dispor do Conselho de Segurança de harmonia com os acordos especiais a estabelecer caso a caso.
Todavia o desentendimento e a guerra-fria tornaram impossível a celebração de tais
acordos, por isso, na sua ausência aprovam-se resoluções que autorizam os Estados membros a
cooperarem a nível militar para a manutenção da paz e da segurança internacional.

A Cooperação Económica e Social Internacional  esta função decorre do fim imposto à


ONU pelo artigo 1º n.º 3 da CNU pelo qual lhe incumbe conseguir uma cooperação internacional
para resolver os problemas internacionais de carácter económico, social, cultural ou humanitário...
A ideia básica que se encontra subjacente a este preceito é a de que a preservação da paz e da
segurança internacional é inseparável da luta contra a pobreza, a fome, a ignorância e a doença, já que
estes flagelos são quase sempre a causa real de muitos conflitos internacionais. Assim nos termos do
artigo 55º da CNU a elevação dos níveis de vida, a cooperação no domínio social, educacional e
sanitário e o respeito efectivo pelos Direitos do Homem são condições de estabilidade e bem-estar
necessárias às relações pacíficas e amistosas entre as Nações.
Neste âmbito a ONU actua de dois modos :

- Directo ( com a assistência prestada aos países subdesenvolvidos para fins de


desenvolvimento económico ---- ex. : Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD
– );

- Indirecto ( através de agências ou organizações especializadas distintas da ONU ----


ex. : FMI, OIT, UNESCO... );

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A Protecção dos Direitos do Homem  uma das primeiras realizações da ONU na matéria foi
a aprovação pela Assembleia Geral da DUDH em 10 de Dezembro de 1948. Tal declaração foi
completada e desenvolvida pelo :

- Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos;

- Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais;

Para além destas declarações e pactos existem outras declarações e convenções aprovadas pela
Assembleia Geral sobre as mais diversas matérias ( ex. : convenção internacional sobre a eliminação
de todas as formas de discriminação racial, a convenção relativa aos direitos da criança... ).

A Descolonização  um dos princípios fundamentais dos quais a CNU faz depender a


preservação da paz e da segurança internacional é o direito dos povos à autodeterminação como se
extrai dos artigos 1º n.º 2 e artigo 55º da CNU.
A 14 de Dezembro de 1960 a Assembleia Geral aprova a declaração sobre a concessão da
independência aos países e povos coloniais ( resolução 1514 ). A doutrina está de acordo que na
generalidade as obrigações que o Estado administrador deve cumprir para atingir os fins da resolução
são :

- o referendo;

- a deliberação livre de uma assembleia representativa do povo em questão eleita em


condições de total independência e de representatividade;

O Estado deverá contar com a assistência da ONU se a solicitar como refere o TIJ no seu
parecer de 16 de Outubro de 1975.

Estrutura da Organização das Nações Unidas :

A ONU é composta por membros e por órgãos.

Membros :

Todos os membros da ONU são Estados, sendo o seu estatuto regulado nos artigos 3º a 6º da
CNU.
Os artigos 3º e 4º da CNU prevêem duas categorias de membros :

- Originários ( está reservado aos Estados que tendo participado na Conferência de S.


Francisco ou assinado previamente a Declaração das Nações Unidas de 1942 viessem a assinar e
ratificar a CNU );

- Admitidos ( será atribuído por deliberação da Assembleia Geral, mediante


recomendação do Conselho de Segurança a todos os restantes Estados que aderissem à organização.
Mas para tal têm que respeitar dois requisitos :
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- os Estados em questão devem ser amantes da paz. Como é evidente não há


qualquer critério definido para averiguar a existência desta qualidade, efectuando-se a selecção por
critérios políticos;

- que o Estado tenha aptidão para cumprir todas as obrigações contidas na


CNU. Com a formulação deste requisito queria-se :

- pôr de parte os Estados que devido à sua manifesta pequenez territorial


e populacional, não são susceptíveis de cumprir todas as obrigações derivadas da CNU; e também os
Estados protegidos que não têm por si capacidade para tal cumprimento.

Contudo neste ponto a vontade dos autores da CNU não tem sido respeitada,
dado que são hoje membros da ONU Estados exíguos ---- ex. : São Marino e o Principado de
Liechtenstein );

Uma vez admitidos não existe qualquer diferença de estatuto entre os Estados admitidos e os
originários como impôs o TIJ no parecer de 28 de Maio de 1948.
Os artigos 5º e 6º da CNU prevêem a suspensão e a expulsão de Estados membros, nos casos
em que, respectivamente seja levada a cabo contra eles uma intervenção do Conselho de Segurança ou
hajam violado persistentemente os princípios da CNU. No entanto nenhum Estado foi até hoje expulso
da ONU, tendo existido apenas suspensões ( ex. : África do Sul em 1974 por causa do apartheid ).
A CNU é omissa quanto à possibilidade de recesso ou saída voluntária de um Estado Membro
da ONU no entanto tal direito não pode ser afastado por completo porque na Conferência de S.
Francisco muitos Estados o reivindicavam. Então a solução encontrada foi uma declaração em que
impôs que o recesso só seria possível mediante determinadas circunstâncias :

- se a ONU defraudasse as esperanças da Humanidade por se revelar incapaz de manter


a paz e a segurança internacional;

- ou então no caso de uma emenda à CNU não ser aceitável para um dos Estados
membros;

Os Estados membros gozam essencialmente do direito de verem acatadas pelos outros Estados
as obrigações que resultam da CNU.
Quanto aos Estados não membros a CNU exclui esses Estados de puderem chamar a atenção do
Conselho de Segurança para qualquer situação susceptível de por em perigo a paz e a segurança
internacional, pois só o poderão fazer se forem parte na controvérsia e desde que aceitem previamente
as obrigações de solução pacífica previstas na CNU.

Órgãos das ONU :

Nos termos do artigo 7º n.º 1 da CNU, os órgãos principais da ONU são :

- Assembleia Geral ( AG );

- Conselho de Segurança ( CS );

- Conselho Económico e Social ( CES );


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- Conselho de Tutela ( CT );

- Tribunal Internacional de Justiça ( TIJ );

- Secretariado;

Assembleia Geral  a AG é composta por todos os Estados membros da ONU nos termos do
artigo 9º da CNU.
A AG tem uma sessão ordinária por ano ( que se inicia na terceira terça-feira de Setembro
terminando na véspera de Natal ); além das sessões extraordinárias que possam ser exigidas pelas
circunstâncias e que serão convocadas pelo Secretário-Geral nos termos do artigo 20º da CNU.
A AG funciona quer em plenário, quer em comissões. As diversas questões que fazem parte da
agenda são examinadas em primeiro lugar pelas comissões e só em seguida serão sujeitas à discussão e
aprovação do plenário. Excepcionalmente tem-se procedido ao exame de certas questões directamente
no plenário, sem passar pelas comissões quando se pretende dar ao tratamento de uma determinada
questão particular relevo e um especial alcance político.
Todos os Estados membros da ONU estão representados em cada uma das comissões.
Na AG a direcção dos trabalhos cabe ao Presidente da Assembleia Geral ( PAG ) que é
assessorado pelos restantes membros. Esta matéria está tratada no regimento da AG que fixa a sua
composição.
Os membros da mesa mantêm-se em funções até ao termo dos trabalhos da sessão em que
forem eleitos, ou seja, até à primeira reunião da sessão ordinária seguinte.
Durante muitos anos vigorou uma regra não escrita segundo a qual a eleição dos vice-
presidentes deveria obedecer à distribuição por grupos de Estados. Assim como o presidente e o vice-
presidente não seriam nacionais de Estados que fossem membros permanentes do CS.
A AG delibera por via de regra por maioria simples dos membros presentes e votantes ( artigo
18º n.º 1 da CNU ). No entanto as decisões sobre questões importantes são tomadas de harmonia com
o artigo 18º n.º 2 que impõe a maioria de 2/3 dos membros presentes e votantes, contendo tal artigo
uma enumeração exemplificativa de questões consideradas importantes. Ou seja, a AG pode atribuir
carácter importante a outros assuntos não previstos, mas quando tal acontecer, isto é para que a questão
passe a importante, a sua deliberação é decidida por maioria simples como impõe o artigo 18º n.º 3 da
CNU.
Com a referência aos membros presentes e votantes o artigo 18º n.º 2 e 3 da CNU pretende
excluir as abstenções. Por isso só são levados em conta para a formação das maiorias necessárias os
votos positivos e negativos.
A competência da AG é genérica já que nos termos do artigo 10º da CNU esta poderá discutir
quaisquer questões ou assuntos que estiverem dentro dos fins da CNU ou que se relacionarem com as
atribuições e funções de qualquer dos órgãos nela previstos e com excepção do artigo 12º do mesmo
diploma poderá a AG fazer recomendações aos Estados membros da ONU ou ao CS.
Contudo tal competência cede perante o carácter primacial atribuído ao CS; por isso a AG não
pode emitir recomendações acerca duma matéria que esteja pendente naquele órgão, a menos que o CS
o solicite como se infirma do artigo 12º n.º 1 da CNU.
Dentro do âmbito da sua competência genérica, a AG não toma decisões obrigatórias mas emite
simplesmente recomendações desprovidas de carácter vinculativo para os Estados membros. Por esse
motivo quando qualquer questão exigir uma actuação concreta, deverá a AG submete-la ao CS nos
termos do artigo 11º n.º 2 da CNU.

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Já no âmbito da sua competência específica ( nos assuntos internos da organização ), as


deliberações da AG têm força obrigatória como sucede nos casos dos artigos 15º a 18º da CNU
( neste último salvo as recomendações relativas à manutenção da paz e da segurança internacional ).
No espírito dos inspiradores da CNU, a AG seria um órgão de fiscalização e orientação. No
entanto com a evolução dos acontecimentos políticos após a II Guerra Mundial, nomeadamente a
guerra fria, fizeram com que a unanimidade das grandes potências, base do funcionamento do CS se
tornasse impossível de obter levando ao uso constante do veto. Daí que a AG para ultrapassar esse
estado de coisas aprovasse a resolução 377 ( Unidos para a Paz – que estatuía que em todos os casos
em que pareça existir uma ameaça para a paz, ruptura da paz, ou um acto de agressão, e em que
devido a não ter podido formar-se unanimidade entre os membros permanentes, o CS deixa de
desempenhar a sua responsabilidade principal na manutenção da paz e da segurança internacionais,
a AG examinará imediatamente a questão a fim de fazer aos membros recomendações apropriadas
sobre as medidas colectivas a tomar, incluindo se se tratar duma ruptura de paz ou de um acto de
agressão, o emprego da força armada quando necessário para restabelecer a paz e a segurança
internacional – ).
Na sequência dessa resolução foram criadas para assistir a AG nessa tarefa duas comissões :

- Comissão de Observação para Paz;

- Comissão para Medidas Colectivas;

Com o termo da guerra fria a situação vai-se invertendo de novo e a tendência é no sentido de
restituir ao CS a função primacial que a CNU lhe destinou.

Conselho de Segurança  o CS desde a alteração da CNU em 1965 é composto por quinze


membros, dos quais cinco são permanentes, nomeadamente :

- China;

- França;

- Rússia;

- Reino Unido;

- EUA;

Os outros dez são membros não permanentes eleitos por dois anos pela AG nos termos do
artigo 23º da CNU, onde tal designação deve ter em vista fundamentalmente a contribuição dos
Estados membros para a manutenção da paz e a necessidade de obter uma repartição geográfica
equitativa ( cinco Estados devem ser Afro-Asiáticos, dois devem ser Estados Latino-Americanos e dois
devem ser Estados Ocidentais e Outros ).
Portugal foi membro não permanente do CS entre 1979-7980.
O CS é o único órgão intergovernamental permanente previsto na CNU e delibera nos termos
do artigo 27º da CNU por maioria qualificada, sendo necessário :

- nove votos nas questões processuais, sendo que os votos de todos os membros têm o
mesmo valor. São questões desta natureza :

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- a aprovação de um regimento interno;

- a criação de órgãos subsidiários;

- o convite a um Estado para participar num debate;

- a inscrição de uma questão na ordem do dia;

- nas deliberações sobre todas as outras questões exige-se o voto de nove membros entre
os quais os dos cinco membros permanentes;

Assim a cada membro fica reservado o direito de veto.


A parte final do artigo 27º n.º 3 da CNU prevê a abstenção forçada do Estado que seja parte na
questão, mas apenas quando :

- decisões previstas no Capítulo VII;

- no caso do artigo 52º n.º 3 da CNU;

A distinção entre questões processuais e outras levanta sérias dificuldades, pois em caso de
dúvida é o próprio CS que delibera acerca da qualificação da questão. Mas a qualificação da questão
não é considerada uma questão processual e como tal nela intervém a possibilidade de veto, surgindo
desse modo o duplo veto : um membro permanente opõe-se a que uma questão seja considerada
meramente processual ( 1º veto ); e quando o CS discute a questão como não processual o Estado
membro opõe-se a que seja tomada uma qualquer resolução.
A competência essencial do CS é a da manutenção da paz e da segurança internacional como se
retira do artigo 24º da CNU. E para o exercício dessa competência a CNU confere ao CS duas ordens
de poderes :

- dirigir recomendações aos Estados em litígio para a solução pacífica do conflito;

- em casos de ameaça à paz, de ruptura da paz ou de acto de agressão, formular


recomendações ou tomar decisões que podem ir até ao envolvimento de forças armadas;

Os Estados devem obedecer e cumprir as decisões do CS nos termos do artigo 25º da CNU,
embora o direito de veto de alguns dos seus membros possa paralisar a sua acção.
Como vemos a lógica institucional da CNU assenta na divisão de competências entre os dois
órgãos intergovernamentais soberanos :

- a AG, onde os Estados têm plena igualdade preocupando-se com questões de


cooperação aprovando resoluções sem carácter imperativo;

- e o CS dominado pelas grandes potências detentoras do direito de veto a quem cabe a


iniciativa e a capacidade para impor decisões no plano da defesa da segurança colectiva;

O primado do CS sobre a AG é assegurado através do artigo 12º da CNU que inibe a AG de se


pronunciar sobre questões da competência do CS quando este as estiver a examinar.
As competências do CS desenvolvem-se em três vectores essenciais :

- supervisão do regime de tutela ( artigos 82 e 83º da CNU );


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- regulamentação de armamentos ( artigo 26º da CNU );

- intervenção em situação de crise política ou militar;

Os meios de acção que o CS dispõe em caso de crise são :

- favorecer uma regulação pacífica do diferendo ( Capítulo VI da CNU );

- tomar as medidas necessárias para pôr termo a uma ameaça à paz ( Capítulo VII da
CNU );

- executar um aresto do TIJ;

Acresce que o CS intervém em todas as competências da AG susceptíveis de influenciar os


equilíbrios políticos da organização :

- admissão de membros ( artigo 4º da CNU );

- suspensão ( artigo 5º da CNU );

- expulsão ( artigo 6º da CNU );

- nomeação do secretário-geral ( artigo 97º da CNU );

- eleição dos membros do TIJ ( artigo 4º do ETIJ );

Quanto às funções da AG são desdobráveis em duas categorias essenciais :

- Internas :

- constitucionais ( em conjunto com o CS – artigo 10º e 19º da CNU – );

- administrativas ( artigo 21º e 22 da CNU );

- orçamentais ( artigo 17º n.º 1, 2 e artigo 19º da CNU );

- Internacionais :

- vinculação de acordos internacionais;

Conselho Económico e Social  é hoje composto por 54 membros eleitos pela AG por um
período de 3 anos como refere o artigo 61º da CNU. A sua competência desenvolve-se no plano
económico, social, cultural, educacional, bem como em matéria de Direitos do Homem, podendo sobre
tais assuntos dirigir recomendações à AG, Estados membros e às organizações especializadas de forma
a prepararem projectos de convenções, convocar conferências internacionais...
Contudo não tem poderes próprios de decisão.

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Conselho de Tutela  está previsto nos artigos 86º e seguintes da CNU e foi criado para
controlar o exercício da tutela sobre territórios não autónomos. Em 1 de Novembro de 1994 suspendeu
a sua actividade após a independência de Palau em Outubro desse ano.

Tribunal Internacional de Justiça  tem as suas competências previstas no artigo 36º n.º 1,
2 e artigo 65º da ETIJ.
Do artigo 36º n.º 1 do ETIJ resulta que o TIJ pode funcionar em termos semelhantes ao de um
tribunal arbitral, ou seja, dois Estados podem decidir submeter ao tribunal uma determinada questão,
delimitando concretamente no compromisso que nesse sentido dirigirem ao tribunal o objecto do
litígio que querem que o tribunal decida.
As partes podem ainda indicar quais as regras de direito internacional que querem que sejam
aplicadas embora o artigo 38º do ETIJ enumere as fontes a utilizar, caso essa indicação não seja feita.
Recentemente tem vindo a ser utilizado de forma crescente o dispositivo do artigo 26º do
ETIJ que permite a constituição de câmaras especializadas para tratarem de questões especiais, se os
Estados interessados nisso convierem. A câmara constituída pelo número de juízes que o tribunal
determinar com o acordo dos Estados interessados.
O artigo 36º n.º 2 do ETIJ prevê os casos em que o TIJ aprecia casos que lhe são submetidos
por Estados que declaram aceitar a jurisdição do tribunal, nos termos desse dispositivo, contra Estados
que também aceitaram tal jurisdição, mas que não acordaram em submeter previamente o caso ao
tribunal.
O TIJ está instalado no Palácio da Paz em Haia doado pelo milionário americano Carnegie. O
TIJ é composto por quinze juízes eleitos por nove anos, através de uma eleição separada no CS e na
AG como impõem os Artigos 4º, 8º, 9º e 10º do ETIJ.
Não pode ser eleito mais que um juiz da mesma nacionalidade. De três em três anos procede-se
à eleição de 1/3 dos juízes sendo permitida a reeleição.
Os juízes devem possuir as qualificações exigidas nos seis Estados de origem para a nomeação
para os mais altos cargos judiciais ou serem juristas de reconhecida importância em direito
internacional ( artigo 2º do ETIJ ).
As regras processuais estão previstas nos artigos 37º e seguintes do ETIJ e nas regras por ele
adoptadas. O processo inclui uma parte escrita e uma fase oral com audiências públicas. As línguas
oficiais são o inglês e o francês, sendo traduzido para a outra língua tudo o que é dito ou escrito numa
delas.
A decisão final é proferida numa audiência pública e não há recurso da decisão. A parte que não
cumprir a decisão poderá ser compelida a fazê-lo a pedido da outra, dirigido ao CS, embora este meio
não tenha revelado até hoje resultados práticos.
Existem duas câmaras permanentes :

- a câmara de processo sumário ( artigo 29º do ETIJ );

- uma câmara com nove membros estabelecida pelo TIJ em 1993 para julgar questões
ambientais;

O orçamento do TIJ é incluído no orçamento global da ONU.


Tradicionalmente a AG aprova sem alterações a proposta que lhe é submetida pelo Tribunal
sendo ela também que estabelece o estatuto dos juízes e das suas reformas.
Acerca do TIJ surgem-nos as seguintes reflexões, nomeadamente a expressão de parte utilizada
no ETIJ pode levar-nos a enganos, pois, como se retira da análise do ETIJ verificamos que tal noção é
essencialmente teórica, pois, o importante é a aceitação obrigatória da sua jurisdição.

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Assim sendo em princípio a jurisdição deste tribunal é facultativa, no sentido de qualquer


Estado puder subscrever a cláusula obrigatória de jurisdição. Se o fizer pode ser demandado neste
tribunal por um outro Estado que também tenha aceite a jurisdição do TIJ segundo o n.º 2 do artigo 36º
do ETIJ.
Caso contrário o tribunal funciona em termos semelhantes aos tribunais arbitrais, isto é, dois
Estados podem decidir submeter uma determinada questão delimitando concretamente no
compromisso que nesse sentido dirijam ao tribunal, podendo decidir quanto às regras de Direito
Internacional que querem que sejam aplicadas como se extrai do artigo 36º n.º 1 do ETIJ.
Na prática as decisões que se têm demonstrado mais efectivas são as emanadas ao abrigo do
36º n.º 1 do ETIJ, isto porque, estas resultam dum acordo para o caso concreto o que não implica que
fiquem vinculados à cláusula obrigatória de jurisdição.
Por outro lado a jurisdição do TIJ pode ser sujeita a reservas o que reduz consideravelmente a
capacidade de intervenção do tribunal.
Ora toda esta natureza do tribunal fez com que em 31 de Dezembro de 1991 o número de
Estados que tinham aceite a cláusula obrigatória era de 54 o que é bastante insignificante, pois, em
1934 numa época em que a Comunidade Internacional tinha bastante menos Estados a cláusula era
aceite por 42 Estados ( em cinquenta anos só apenas mais 12 Estados a subscreveram ).
Esta natureza do TIJ tem outro ponto fraco que é permitir aos Estados que tenham aceite a
cláusula obrigatória revogarem a adesão a essa mesma cláusula como aconteceu com os EUA e a
França. Por tudo isto a jurisdição obrigatória deste tribunal não se tem conseguido impor encontrando
bastante resistência por parte dos Estados.
Outra crítica negativa é o facto dos Estados não terem a possibilidade de obter do TIJ a
anulação judicial de uma decisão ou deliberação da ONU que considerem ilegal, assim como em caso
de incumprimento das suas decisões cabe ao Conselho de Segurança torná-las efectivas o que não é
muito correcto, pois, nesse caso o cumprimento das decisões do TIJ sofrem as limitações decorrentes
do funcionamento do Conselho de Segurança.
Por último o TIJ refugia-se em questões de natureza processual ou de competência quando se
trate de apreciar questões no âmbito do artigo 36 segundo parágrafo por temer que as suas decisões
não sejam acatadas pelos Estados.
Assim sendo impõe-se uma reforma do TIJ com criação de meios jurisdicionais internacionais
com competência alargada de modo a aperfeiçoar a instituição em análise como o próprio Direito
Internacional. Isto levou à criação do Tribunal Internacional do Mar com a Convenção de Montego
Bay. Mas concretamente em relação ao TIJ há que atribuir-lhe competência pré-judicial em questões
de Direito Internacional como ocorre no TJC em relação ao DC, assim como deverá utilizar de forma
intensa as suas câmaras jurisdicionais previstas no artigo 26º do ETIJ e que até 1980 nunca tinham sido
utilizadas.
Por outro lado tornar a sua jurisdição obrigatória para os Estados membros seguindo neste
ponto a novidade trazida pelo Direito Comunitário, instituindo um tribunal efectivo e actuante. Esta
faculdade poderia ser atingida através da elaboração de uma lista de questões, tendo por base o critério
material, que pertenceriam por natureza ao conteúdo irredutível da soberania dos Estados. Claro que
essa lista teria de ser flexível de modo a que a sua interpretação possa acompanhar a evolução da
realidade internacional e as relações entre a soberania estadual e o direito internacional.
O esclarecimento de questões mais obscuras seria entregue ao TIJ em virtude de hoje em dia
ter-se dado um reforço da componente jurídica da comunidade internacional e por outro os Estados
vão-se acomodando às novas concepções do Direito Internacional que assentam na ideia da limitação
da soberania estadual que se encontra no âmago do novo moderno Direito Internacional.
A actividade do TIJ caracterizou-se ao longo dos anos por ser extremamente irregular senão
vejamos : 1927, 1932, 1933, 1950, 1956 e 1973 foram proferidas mais de sete decisões, enquanto que
em 1921, entre 1941-1947, em 1967, 1977 e 1983 o TIJ não proferiu qualquer decisão.

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Contudo apesar de todas estas vicissitudes o TIJ tem contribuído de forma muito significativa
na construção do Direito Internacional através de três vias :

- pela própria fundamentação de acórdãos arbitrais e do próprio TIJ em acórdãos


proferidos anteriormente;

- pela influência na doutrina e consequentemente na formulação de conceitos que


tendem a ser incorporados no direito convencional;

- pelo reconhecimento da formação do costume internacional;

Por último e não menos importante seria uma efectivação ao acesso ao TIJ por parte do
indivíduo acerca de Direito Internacional imperativo nem que fosse em última instância, isto é, depois
de se esgotar todos os meios internos.

Secretariado  forma o maior complexo administrativo existente em organizações


internacionais, pois é composto por :

- Secretário-Geral;

- Todos os funcionários e agentes ao serviço da ONU por esse mundo fora;

O secretário-geral é qualificado pela CNU como o principal funcionário da organização.


Todavia o secretário-geral é muito mais do que um mero funcionário administrativo, pela relevância
política da sua função e porque acaba por aparecer como encarnação da ONU perante o Mundo sendo
o principal e mais activo símbolo dos anseios da organização na preservação da paz e da segurança
internacional.
O secretário-geral é eleito pela AG sob recomendação do CS como refere o artigo 97º da
CNU. A CNU não fixa a duração do seu mandato, mas por acordo posterior com o CS a AG mediante
resolução fixou-o em cinco anos renováveis.
A competência do secretário-geral encontra-se definida nos artigos 98º e 99º da CNU. Mas
para além disso cabe-lhe também executar todas as tarefas de que venha a ser incumbido pela
organização ou que no quadro dos objectivos visados pela CNU lhe venham a ser solicitadas pelos
Estados membros.
Os funcionários e agentes que compõem o secretariado são nomeados directamente pelo
secretário-geral, de harmonia com regras previamente definidas pela AG. A escolha deverá ser feita
principalmente em função da necessidade de assegurar o mais alto grau de eficiência, competência e
integridade, havendo também que atender ao mais amplo critério geográfico possível como estatui o
artigo 101º n.º 1 e 3 da CNU. Eles devem actuar com imparcialidade em relação a todos os Estados
membros norteando-se apenas pelas exigências colocadas pela prossecução dos fins da ONU.

Férias da Páscoa

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Celebração de Tratados pelas Organizações Internacionais :

O tratado internacional é a fonte formal de Direito Internacional mencionada em primeiro lugar


no artigo 38º do ETIJ, embora, dai nenhuma conclusão se possa retirar acerca do lugar do tratado na
hierarquia das fontes do Direito Internacional, já que este está no mesmo plano que o costume e os
princípios gerais de Direito.
O tratado é uma fonte :

- formal ( porque é um modo de produção e revelação de normas jurídicas cujos


trâmites são adoptadas pela Comunidade Internacional );

- imediata ( aplicam-se directamente a um determinado litígio );

- voluntária ( porque resultam de um acto voluntário dos Estados ou das Organizações


Internacionais );

Os tratados podem ser definidos como :

Tratado  é um acordo de vontades, em forma escrita, entre sujeitos de Direito


Internacional, agindo nessa qualidade, de que resulta a produção de efeitos jurídicos.

Em suma o Tratado é definido por um conjunto de quatro elementos cumulativos :

- o Tratado é um acordo ( é um compromisso de vontades );

- tem de se saber quem assinou o Tratado ( se este é composto pelo número mínimo ---- 2 ---- );

- o Tratado tem que criar efeitos jurídicos ( na nossa opinião esta concepção é ortodoxa
porque os Estados podem fazer um Tratado com regras programáticas e destas regras não resultam
nenhuns efeitos jurídicos );

- o Tratado é um documento regido pelas normas de Direito Internacional;

Existem duas convenções sobre os Tratados :

- Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados ( assinada em 1969. Entrou em vigor em
1980 ---- Portugal não a ratificou, no entanto, está vinculado à Convenção porque esta não é mais
que a codificação dos costumes internacionais );

- Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados concluídos entre Estados e Organizações
Internacionais; e entre Organizações Internacionais ( assinada em 1986. Ainda não entrou em vigor );

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Existem várias classificações de Tratados :

1º- Critério do Objecto :

Tratados Lei  dá-se a criação de uma regra geral de Direito pela vontade comum das partes
( ex. : Carta das Nações Unidas ).

Tratados Contratos  as vontades são divergentes, não surgindo assim a criação de uma
regra geral de Direito, mas antes a estipulação de prestações e contraprestações.

2º- Critério das Partes :

Tratado Bilateral  é composto por duas partes ( a parte pode ser constituída por mais de
um Estado ).

Tratado Multilateral  é composto por três ou mais partes. Estes Tratados podem ser :

 Tratados Multilaterais Gerais  são aqueles que têm uma ampla participação dos
Estados.

 Tratados Multilaterais Restritos  são aqueles que têm uma pequena participação
dos Estados.

3º- Critério da Solenidade :

Tratados Solenes  são um documento relevante que exige um particular comportamento do


Estado ( ex. : ratificação ).

Acordo em Forma Simplificada  é um documento que já não exige um particular


comportamento do Estado ( ex. : assinatura ).

A distinção entre Tratados Solenes e Acordos em Forma Simplificada surgiu ao facto de se


entender que algumas matérias por serem mais relevantes que outras precisariam de um processo mais
elaborado e com comportamentos mais particulares dos Estados ( ex. : ratificação ). No entanto o
processo mais elaborado não se pôs em prática e a única distinção possível entre Tratados Solenes e
os Acordos em Forma Simplificada é aquela que já foi anteriormente explicitada, nomeadamente, a
ratificação para os Tratados Solenes e a assinatura para os Acordos em Forma Simplificada.

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Celebração de Convenções Bilaterais segundo a Convenção de Viena sobre o


Direito dos Tratados entre Estados e Organizações Internacionais e entre
Organizações Internacionais ( CVDTEOIS ) :

A celebração de convenções bilaterais é composta pelas seguintes fases :

- I Fase : Fase da Negociação;

- II Fase : Fase da Autenticação;

- III Fase : Fase da Vinculação;

- IV Fase : Fase de Eficácia;

As três primeiras fases são essenciais.

Análise das Fases :

I Fase : Fase da Negociação  sendo o Estado uma pessoa colectiva não tem vontade própria,
daí ser necessário saber quem o representa.
O representante do Estado é escolhido de acordo com o seu Direito Interno. E é chamado de
plenipotenciário ( é aquele sujeito que apresenta a carta de plenos poderes através da qual um
Estado o considera competente para esse quadro de representação do Estado ).
O artigo 7º da CVDTEOIS refere que os titulares de determinados órgãos de Estado em razão
do exercício dos seus cargos são por si mesmo representantes do Estado não precisando de uma carta.
Esses titulares de órgãos são :
- o Chefe de Estado ( não vigora em Portugal devido à CRP );

- Chefe de Governo;

- Ministro dos Negócios Estrangeiros...;

No caso das Organizações Internacionais o n.º 3 deste diploma refere que uma pessoa é
considerada como representando uma Organização Internacional para a adopção ou autenticação do
texto de um tratado ou para exprimir o consentimento da organização internacional a ficar vinculada
por um tratado se :

- apresenta os plenos poderes ou;

- se resulta das circunstâncias que a intenção dos Estados e das Organizações Internacionais era
a de considerar essa pessoa como representante da organização para esse fim, em conformidade com as
regras da organização e sem a apresentação de plenos poderes.

As negociações dos Tratados podem também ser feitas por um Embaixador desde que este
esteja acreditado no Estado onde vá negociar.
As negociações dos Tratados podem ser feitas por três vias :
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 Via Diplomática Ordinária  um Embaixador de um Estado junto do Ministério dos


Negócios Estrangeiros da outra parte trata do Tratado.

 Via Diplomática Extraordinária  esta via pressupõe a existência de representantes


específicos para certas matérias ou para certos Tratados que envolvam sujeitos especiais.

 Negociação de Tratados em Conferências Especiais  recorre-se a esta via quando os


Tratados são multilaterais ( ex. : Tratado sobre o ambiente assinado na conferência do Rio de
Janeiro ).

Uma vez fixado o texto do Tratado segue-se a redacção deste sendo o momento em que se vai
perceber a singularidade do Tratado, ou seja, quando se faz esta redacção é porque :

- há acordo sobre o texto do Tratado;

- escolheu-se as línguas das quais o Tratado faz fé ( interpretação );

- apresentação externa do Tratado ( Preâmbulo ---- explica os motivos que levaram à sua
elaboração. A nível internacional costumasse fazer a enumeração dos sujeitos internacionais
participantes no Tratado. O preâmbulo funciona como elemento de interpretação ----; Corpo do
Tratado ---- é a arrumação lógica do articulado do Tratado. Tem de dizer quando é que entra em
vigor ----; Anexos ---- contêm as disposições técnicas ou complementares e têm a mesma força
obrigatória que o Tratado ---- ).

O processo de negociação finda com a assinatura dos plenipotenciários. Contudo isto não
significa que o Estado fique vinculado ao Tratado assinado pelo seu plenipotenciário ( é o que
acontece em Portugal ). Se isto não fosse assim o Estado dizia para o seu plenipotenciário não assinar
porque não queria ficar vinculado, e isso tinha como consequência o facto de o processo de negociação
não ficar concluído porque todos Estados envolvidos nesse processo não tinham assinado.
Para evitar esta situação o Direito Internacional criou o seguinte mecanismo :

Assinatura Ad Referendum  o acto de assinatura do plenipotenciário está sujeito a


posterior confirmação ( com as iniciais ou então assina e por baixo do seu nome escreve ad
referendum ).

Findas as negociações o texto do tratado é autenticado como refere o artigo 9º da


CVDTEOIS. Assim se o tratado for bilateral é autenticado, se for multilateral o tratado é adoptado.
Quando uma pessoa não tenha plenos poderes ou se exorbitar as suas competências aplica-se o
artigo 8º da CVDTEOIS em que a convenção negociada tem de ser aprovada ulteriormente pelo
Estado ou pela Organização Internacional.

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II Fase : Fase da Autenticação  esta fase significa que o Estado ou uma Organização
Internacional decidem-se vincular.
Nos Tratados Solenes existem dois momentos distintos :

- elabora-se um texto e assina-se;

- mais tarde o Estado decide-se se quer vincular ou não. Se quiser ratifica ( é o acto que
traduz a vinculação do Estado ao Tratado Solene ---- em Portugal é o Presidente da República que
ratifica como consta do artigo 135º alínea b) da CRP ).

A ratificação do Tratado Solene é feita através das cartas de ratificação. Em Portugal após a
carta de ratificação aparece no Diário da República um Decreto Presidencial que diz que através da
carta de ratificação o Tratado Solene foi ratificado e que passa a vincular Portugal.
O acto de ratificação é um acto duplamente discricionário porque :

- é o Estado Português que decide quando é que ratifica;

- e por outro lado face ao Direito Português o Presidente da República se quiser


ratifica e se não quiser não ratifica;

Só há uma excepção a este princípio da dupla discricionariedade que é :

- se se tiver feito um referendo sobre a matéria do Tratado Solene e que o resultado


seja vinculativo ( 50% + 1 ) o Presidente da República é obrigado a ratificar o Tratado.

Nos Acordos em Forma Simplificada só há um momento :

- elaboração e assinatura do acordo que vincula o Estado ao Acordo em Forma


Simplificada;

III Fase : Fase da Vinculação  estas regras pressupõem fundamentalmente os


requisitos procedimentais e os requisitos de competência que o nosso ordenamento jurídico-
constitucional estabelece para que em regularidade e validade o Estado português se possa vincular ao
Direito Internacional.
Após a revisão constitucional de 1997 a vinculação do Estado Português ficou estabelecida e
estatuída tendo em conta os seguintes requisitos : compete à Assembleia da República aprovar
Tratados Internacionais sobre qualquer matéria como consta do artigo 161º alínea i) da CRP que
estabelece que compete a este órgão aprovar os Tratados, designadamente os Tratados de
participação de Portugal em Organizações Internacionais, os Tratados de amizade, de paz, de
defesa, de rectificação de fronteiras e os respeitantes a assuntos militares, bem como os Acordos
Internacionais que versem matérias da sua competência reservada ( artigo 164º e 165º da CRP ) ou
que o Governo entenda submeter a sujeição à sua apreciação.
Por outro lado compete ao Governo aprovar Acordos Internacionais cuja aprovação não seja
da competência da Assembleia da República ou que a esta não tenham sido submetidos.

Processo de Aprovação dos Tratados Solenes pela Assembleia da República :

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Este processo é composto por 10 fases :

I Fase  é a fase da negociação que compete ao Governo como consta do artigo 197º n.º 1
alínea b) da CRP.
A presença das Regiões Autónomas é obrigatória no caso de os Tratados abarcarem interesses
destas como está disposto no artigo 227º n.º 1 alínea t) da CRP.

II Fase  é a autorização prévia à assinatura dada pelo Conselho de Ministros ou pelo o


Primeiro-Ministro de acordo com os n.º 3 e 4 da Resolução 17 / 88 de 11 de Outubro.

III Fase  é a assinatura do texto do Tratado que normalmente é da competência do


Governo através de representantes com poderes próprios como consta do artigo 197º n.º 1 alínea b)
da CRP.

IV Fase  esta fase consiste na aprovação no âmbito do Conselho de Ministros de uma


proposta de resolução que contém o texto do Tratado como está disposto no artigo 200º n.º 1 alínea
c) da CRP.

V Fase  após a aprovação da resolução este documento é enviado para a Assembleia da


República como está disposto no artigo 200º n.º 1 alínea c) da CRP onde é objecto de apreciação e
parecer por parte das comissões parlamentares competentes e em especial das comissões dos negócios
estrangeiros.

VI Fase  esta fase consiste na aprovação da resolução que consta do artigo 166º n.º 5 da
CRP.

VII Fase  esta fase consiste na ratificação do Tratado ( é aquele acto solene suplementar
que é da competência do Presidente da República ) como consta do artigo 135º alínea b) da CRP.
O Presidente da República ainda tem a possibilidade de suscitar a fiscalização preventiva das
normas constantes do Tratado como está disposto no artigo 278º da CRP.

VIII Fase  após a ratificação o Tratado segue para referenda ministerial que é também
um pressuposto da existência jurídica do Tratado como resulta do artigo 140º n.º 1 da CRP.

IX Fase  obtida a referenda o Tratado segue para a publicação no Diário da República


como está previsto no artigo 119º n.º 1 alínea b) da CRP.

X Fase  a entrada em vigor do Tratado faz-se de acordo com o artigo 8º n.º 2 da CRP.
Esta entrada em vigor depende da natureza do Tratado, isto é, se este for bilateral ( necessita
também de uma efectiva vigência na ordem jurídica da outra parte ) se for multilateral ( necessita da
sua entrada em vigor na ordem jurídica internacional ).
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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

Processo de Aprovação de Acordos em Forma Simplificada pela Assembleia da República


:

Este processo também é composto por 10 fases :

I Fase  é a fase da negociação que compete ao Governo como consta do artigo 197º n.º 1
alínea b) da CRP.
A presença das Regiões Autónomas é obrigatória no caso de os Acordos abarcarem interesses
destas como está disposto no artigo 227º n.º 1 alínea t) da CRP.

II Fase  é a autorização prévia à assinatura dada pelo Conselho de Ministros ou pelo


Primeiro-Ministro de acordo com os n.º 3 e 4 da Resolução 17 / 88 de 11 de Outubro.

III Fase  é a assinatura do texto do Acordo que normalmente é da competência do


Governo através de representantes com poderes próprios como consta do artigo 197º n.º 1 alínea b)
da CRP.

IV Fase  esta fase consiste na aprovação no âmbito do Conselho de Ministros de uma


proposta de resolução que contém o texto do Acordo como está disposto no artigo 200º n.º 1 alínea c)
da CRP.

V Fase  após a aprovação da resolução este documento é enviado para a Assembleia da


República como está disposto no artigo 200º n.º 1 alínea c) da CRP onde é objecto de apreciação e
parecer por parte das comissões parlamentares competentes e em especial das comissões dos negócios
estrangeiros.
VI Fase  esta fase consiste na aprovação da resolução que consta do artigo 166º n.º 5 da
CRP.

VII Fase  esta fase consiste na assinatura do Acordo pelo Presidente da República como
consta do artigo 134º alínea b) da CRP.
O presidente não pode recusar a assinatura porque esta é um acto vinculado. Contudo o
Presidente da República tem a possibilidade de suscitar a fiscalização preventiva das normas
constantes do Acordo. O artigo 278º da CRP não prevê expressamente esta possibilidade, no entanto,
ela surge de uma interpretação extensiva, isto porque, se para os Acordos aprovados pelo Governo se
permite a fiscalização preventiva, então por maioria de razão para os Acordos aprovados pela
Assembleia da República, que por regra, versam sobre matéria mais importante também deve haver
essa possibilidade.

VIII Fase  após a assinatura o Acordo segue para referenda ministerial que é também um
pressuposto da existência jurídica do Acordo como resulta do artigo 140º n.º 1 da CRP.

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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

IX Fase  obtida a referenda o Acordo segue para a publicação no Diário da República


como está previsto no artigo 119º n.º 1 alínea b) da CRP.

X Fase  a entrada em vigor do Acordo faz-se de acordo com o artigo 8º n.º 2 da CRP.
Esta entrada em vigor depende da natureza do Acordo, isto é, se este for bilateral ( necessita
também de uma efectiva vigência na ordem jurídica da outra parte ) se for multilateral ( necessita da
sua entrada em vigor na ordem jurídica internacional ).

Processo de Aprovação dos Acordos em Forma Simplificada pelo Governo :

O Governo pode aprovar todos os Acordos em Forma Simplificada, salvo se estes versarem
sobre matéria reservada da Assembleia da República ( artigos 164º e 165º da CRP ).
Este processo é composto por 8 fases :

I Fase  é a fase da negociação que compete ao Governo como consta do artigo 197º n.º 1
alínea b) da CRP.
A presença das Regiões Autónomas é obrigatória no caso de os Acordos abarcarem interesses
destas como está disposto no artigo 227º n.º 1 alínea t) da CRP.

II Fase  é a autorização prévia à assinatura dada pelo Conselho de Ministros ou pelo


Primeiro-Ministro de acordo com os n.º 3 e 4 da Resolução 17 / 88 de 11 de Outubro.

III Fase  é a assinatura do texto do Acordo que normalmente é da competência do


Governo através de representantes com poderes próprios como consta do artigo 197º n.º 1 alínea b)
da CRP.
IV Fase  esta fase consiste na aprovação no âmbito do Conselho de Ministros de uma
proposta de decreto como consta do artigo 197º n.º 2 da CRP que contém o texto do Acordo como
está disposto no artigo 200º n.º 1 alínea d) da CRP.

V Fase  após a aprovação do decreto este documento é enviado ao Presidente da República


para este assinar o Acordo como consta do artigo 134º alínea b) da CRP.
O presidente não pode recusar a assinatura porque esta é um acto vinculado. Contudo o
Presidente da República tem a possibilidade de suscitar a fiscalização preventiva das normas
constantes do Acordo como consta do artigo 278º n.º 1 da CRP.

VI Fase  após a assinatura o Acordo segue para referenda ministerial que é também um
pressuposto da existência jurídica do Acordo como resulta do artigo 140º n.º 1 da CRP.

VII Fase  obtida a referenda o Acordo segue para a publicação no Diário da República
como está previsto no artigo 119º n.º 1 alínea b) da CRP.
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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

VIII Fase  a entrada em vigor do Acordo faz-se de acordo com o artigo 8º n.º 2 da CRP.
Esta entrada em vigor depende da natureza do Acordo, isto é, se este for bilateral ( necessita
também de uma efectiva vigência na ordem jurídica da outra parte ) se for multilateral ( necessita da
sua entrada em vigor na ordem jurídica internacional ).

O Direito Internacional prevê outro tipo de Acordo :

Acordo em Forma Ultra-Simplificada ou por Troca de Notas Diplomáticas  é um acordo


bilateral que por definição tem num lado como subscritor um embaixador do Estado acreditado junto
de outro e o Ministro dos Negócios Estrangeiros desse outro Estado como segundo subscritor ( artigo
3º C.V.R.D. ---- quando o texto do acordo está feito trocam-se as notas diplomáticas ---- ).
Este tipo de acordo é inconstitucional em Portugal pelo acórdão 166 / 88 do Tribunal
Constitucional.

Sobre esta matéria há que ter em conta o que a CVDTEOIS no artigo 12º e 13º estatuem.
Nos Tratados Multilaterais a elaboração do texto do Tratado pode dar-se numa Conferência
Internacional que é convocada para esse efeito ou então através de uma Organização Internacional.
Daqui resulta necessariamente que o texto não é proveniente de um acordo unânime, mas de
uma votação maioritária para a qual se exige geralmente a maioria de 2/3.
Votado o texto, este é assinado pelo presidente do órgão da Organização Internacional que
está a desenvolver o Tratado.
Estes Tratados podem ser :

Abertos  são aqueles Tratados que estabelecem que outros Estados podem aderir desde que
queiram ( ex. : Convenção de Viena dos Direitos dos Tratados ).

Semiabertos  são aqueles Tratados que estabelecem que a adesão de outros Estados é
possível, mas essa adesão tem de ser aceite pelos outros signatários do Tratado ( ex. : NATO ).

Fechados  são aqueles Tratados que estabelecem que só podem participar nos Tratados
aqueles que inicialmente se vincularam ao Tratado ( ex. : Tratado Benelux ---- é uma união aduaneira
criada pela Bélgica, Holanda e Luxemburgo ----; Tratado Anzus ---- é uma união militar criada pela
Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos ---- ).

Nos Tratados Multilaterais é usual confundir a ratificação com a adesão. A ratificação é a


mesma coisa que a adesão, ou seja, ambas significam a vinculação do Estado a um Tratado, só que
enquanto a ratificação é utilizada pelos Estados originários, quer isto dizer, é utilizada pelos Estados
que desde inicio negociaram o Tratado, a adesão é utilizada pelos Estados que pretendem aderir ao
Tratado, ou seja, por membros não originários.
Nestes Tratados criou-se a figura do depositário que é escolhido livremente pelos Estados e
que tem como função controlar todo processo burocrático inerente à conclusão do Tratado.
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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

Se o Tratado estava sob a égide de uma Organização Internacional, o depositário desse


Tratado é o Secretário-Geral da respectiva Organização Internacional.
Se o Tratado estava sob a égide de uma Conferência Internacional o depositário desse
Tratado será o Governo do Estado onde se estiver a realizar a Conferência Internacional.
A última especificidade destes Tratados é o mecanismo das reservas. As reservas são um
mecanismo próprio do Direito Internacional. Este mecanismo surgiu devido ao facto de os Estados
serem simultaneamente autores e destinatários das normas de Direito Internacional.
Daqui resulta que se determinado Tratado não estiver de acordo com as ideias de determinado
Estado este não se vinculará ao Tratado. Não existindo consenso não existem Tratados. Com o intuito
de flexibilizar esta questão o Direito Internacional criou as reservas que permitem ao Estado
ratificar ou aderir a um Tratado dizendo que certas disposições não são oponíveis perante si ou
então permitem ao Estado explicitar a interpretação de algumas normas.
Contudo as reservas não são obrigatórias e os Estados podem não admiti-las nos Tratados.
As reservas podem ser de duas naturezas :

Reserva de Exclusão  ao formular-se esta reserva o Estado visa que os efeitos


jurídicos de determinada norma não se apliquem a si.

Reserva de Interposição ou Modificação  ao formular-se esta reserva o Estado pode


impor a interpretação de uma determinada norma.

As reservas podem ser formuladas até ao momento da vinculação do Estado ao Tratado (


ex. : O Estado pode formular uma reserva no momento da assinatura ---- fim das negociações ----; no
momento da aprovação do Tratado pelo órgão interno competente; no momento da ratificação ou
assinatura ---- vinculação do Estado ao Tratado ---- ).
Como já foi anteriormente referido os Tratados não são obrigados a preverem a formulação de
reservas, ou seja, os Estados no Tratado podem estipular que o Tratado em causa pode ou não
admitir reservas.
Se a reserva for admitida no Tratado a sua formulação tem de respeitar certos princípios,
nomeadamente não pode ir contra o objecto ou fim do Tratado como está disposto no artigo 19º da
CVDTEOIS
Se o Tratado for omisso o Estado que quiser formular uma reserva tem de a formular antes da
sua vinculação ao Tratado, bem como tem de comunicar por escrito a sua intenção aos outros Estados
signatários do Tratado.
Nos Tratados multilaterais gerais para que a reserva seja aceite basta que um dos Estados a
aceite. Essa aceitação pode ser tácita ( deixa-se correr o período de tempo que se tem para levantar a
objecção. Período esse que consta do artigo 20º n.º 5 da CVDTEOIS ).
Nos Tratados multilaterais restritos a aceitação de uma reserva pressupõe unanimidade. Para
além disso estas podem nem ser aceites nem objectadas, ou seja, enquanto a aceitação se pode
presumir ( feita tacitamente ), a objecção não.
As reservas são a todo tempo revogáveis como está previsto no artigo 22º da CVDTEOIS,
isto porque, com a sua revogação contribui-se para uma melhoria da aplicação do Tratado. Só a
aceitação das reservas é que não podem ser revogadas.
Os efeitos das reservas têm três regras :

Regra da Relatividade  esta regra determina que as reservas apenas vinculam


juridicamente o Estado que a formula e os Estados que a aceitam ( ex. : o Tratado é composto pelos
Estados A, B, C; I. Z pretende entrar para o Tratado, mas quer formular uma reserva. A aceita a
reserva, B objecte-a.
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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

Assim nas relações entre o Estado E / I e o Estado A / B a reserva não produz efeitos nenhuns.
Nas relações entre o Estado Z / A ---- Z formulou a reserva e o A aceitou-a ---- a reserva tem o
efeito de modificar o Tratado naquilo que a reserva prever.
Nas relações entre o Estado Z / B ---- Z formulou a reserva e o B objectou-a ---- existem duas
hipóteses : Primeira hipótese : o Estado B refere que simplesmente não aceita a reserva ---- objecção
simples à reserva que consta do artigo 21º da CVDTEOIS que tem como consequência que a reserva
produz efeitos, sendo esta posição uma posição política. Segunda hipótese : o Estado B ao rejeitar a
reserva diz que não a aceita porque esta vai na sua opinião contra uma disposição do Tratado que
para ele é essencial, assim como as posições são inconciliáveis a reserva não produz efeitos entre o
Estado B / Z ).

Regra da Integridade  esta regra traduz-se na insusceptibilidade na formulação de uma


reserva que afecte o objecto ou fim de um determinado Tratado.

Regra da Reciprocidade  esta regra traduz-se no princípio segundo o qual a formulação de


uma determinada reserva determina que quer o Estado que a formulou quer os Estados que a
aceitaram em situações similares não devem fazer qualquer objecção à reserva formulada.

Ainda em relação à fase de vinculação surge o problema das condições de validade dos
Tratados que são três sendo estas cumulativas :

Capacidade das Partes  esta condição pressupõe que tem de se ter personalidade e
capacidade jurídica internacional, ou seja, só os sujeitos de Direito Internacional têm capacidade
para concluir Tratados.
O artigo 6º da CVDTEOIS estabelece que os Estados soberanos são sujeitos de Direito
Internacional e como tal têm capacidade plena para celebrar Tratados Internacionais.
Contudo os Estados soberanos podem ter limitado a sua competência de celebração ( ex. :
Portugal transferiu para a Comunidade Europeia a capacidade de celebrar acordos na matéria de
pescas ); ou então os Estados não soberanos podem ter a capacidade de celebrar Tratados se o seu
Direito Interno lhes conferir essa possibilidade ( ex. : os Estados compostos e complexos ---- Estados
Federais ---- podem ter capacidade de celebrar Tratados. Nestes Estados a sua Constituição pode
prever que os Estados Federados tenham capacidade ---- Constituição Soviética, nalgumas matérias a
Constituição Alemã e Suiça ----. Outras Constituições podem proibir como é o caso dos E.U.A. ).
Para além dos Estados as Organizações Internacionais têm também os ius tractum, no entanto,
a sua capacidade é :

 Derivada  porque as Organizações Internacionais são produto de uma vontade de


outrem, sendo criadas pelos Estados tendo a capacidade que os Estados lhes deram quando as
instituíram.

 Parcial  porque as Organizações Internacionais são instituições criadas com


objectivos específicos, por isso, a sua capacidade é atribuída em função dos princípios da
especialidade do seu fim como está disposto no artigo 6º da CVDTEOIS concluídos entre
Organizações Internacionais.

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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

Assim concluí-se que enquanto os Estados têm, por regra, uma capacidade global e plena, as
Organizações Internacionais têm uma capacidade derivada e parcial.
Se um Tratado for concluído por um Estado ou uma Organização Internacional que não tenha
capacidade para a sua celebração o Tratado é nulo ( nulidade relativa ).

Validade de Consentimento  esta condição traduz-se na verificação da compatibilidade do


compromisso com a vontade real das partes.
Existem várias formas de não se respeitar a validade de consentimento :

 Irregularidades Formais  estas irregularidades afectam a própria vontade do Estado e dão


origem à :

 Ratificação Imperfeita  esta ratificação consta do artigo 46º da CVDTEOIS não sendo
uma expressão feliz, isto porque, por esta expressão poder-se-ia pensar que esta só afectava os
Tratados Solenes, o que está errado, pois, também afecta Acordos em Forma Simplificada.
Esta ratificação acontece quando as regras do Direito Interno de determinado Estado não
foram respeitadas.
Perante isto surgem duas posições :

- essa inconformidade com as normas de Direito Interno gera a nulidade do Tratado


( esta perspectiva tem em conta só os interesses do próprio Estado que violou as suas normas );

- essa inconformidade é ultrapassada pelo Estado e como tal não gera a nulidade do
Tratado ( esta perspectiva tem preocupação com os interesses dos outros Estados. Assim a vinculação
é válida sendo o desrespeito do Direito Interno um problema desse Estado.
Esta é a posição adoptada pelo artigo 46º da CVDTEOIS.
Este princípio admite algumas excepções, mas para isso têm de se cumprir três
requisitos cumulativos :

1º- tem de ser uma violação manifesta ---- patente, ou seja, qualquer um vai
nela ----;
2º- tem de ser uma violação de boa fé ---- não pode ser uma violação provocada
----;

3º- tem de ser a violação de uma regra fundamental ---- ex. : regras
constitucionais fundamentais ---- ).

Sobre esta matéria o artigo 277º n.º 2 da CRP estabelece que a inconstitucionalidade orgânica
ou formal de tratados internacionais regularmente ratificados não impede a aplicação das suas normas
na ordem jurídica portuguesa, desde que tais normas sejam aplicadas na ordem jurídica da outra parte,
salvo se tal inconstitucionalidade resultar de violação de uma disposição fundamental.
Este artigo é alvo de algumas criticas, nomeadamente ao utilizar a expressão Tratados
Internacionais exclui os Acordos, isto porque, na economia da CRP Tratados Internacionais
referem-se aos Tratados Solenes, indo contra o artigo 46º da CVDTEOIS Ao fazer isto permite-se
que os Tratados Solenes que tratam de matéria mais importante vão contra a ordem jurídica
portuguesa e os Acordos que tratam matérias menos importantes não podem ir contra, ora isto não é
mais que uma incoerência.
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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

Por outro lado refere que a inconstitucionalidade orgânica é válida desde que não viole normas
fundamentais, ora isso não faz muito sentido porque a inconstitucionalidade orgânica geralmente vai
contra as normas fundamentais.
Por último este artigo ao referir que desde que a outra parte o aplique não faz mais que
restringir a sua aplicação aos Tratados Bilaterais.

 Irregularidades Materiais ou Substanciais  são aquelas irregularidades que têm como


consequência que a vontade manifestada não corresponde à vontade real do Estado.
Estas irregularidades dividem-se em :

 Erro : que se divide em :

 Erro ( artigo 48º da CVDTEOIS )  qualquer acto jurídico pode ser afectado por uma
errada representação da realidade.
O erro para determinar a invalidade tem de ser essencial ( recai sobre elementos essenciais que
para o Estado eram relevantes para a sua adesão ) e desculpável ( se fosse outro também cometeria o
mesmo erro ).
Se cumprir estes requisitos o erro conduz à nulidade relativa.

 Dolo : que se divide em :

 Dolo ( artigo 49º da CVDTEOIS )  não é mais que um erro induzido, ou seja, enquanto o
erro é um erro inocente o dolo é uma forma de induzir outro ao engano, ou seja, o dolo é provocado
com intenção.
A consequência é a nulidade relativa.

 Corrupção sobre o Representante do Estado ( artigo 50º da CVDTEOIS )  consiste na


compra do representante do Estado.
Implica também a nulidade relativa.

 Coacção : que se divide em :

 Coacção sobre o Representante do Estado ( artigo 51º da CVDTEOIS )  esta coacção é


exercida sobre alguém que pode falar em nome do Estado.
Esta coacção deve ser entendida no sentido lato, ou seja, ameaça com suficiente credibilidade
do uso da violência contra o próprio ou contra a sua família.
Esta coacção afecta a vontade do Estado conduzindo o Tratado à nulidade absoluta.

 Coacção sobre o próprio Estado ( artigo 52º da CVDTEOIS )  esta coacção é exercida
sobre o próprio Estado ( ex. : o Estado A diz ao Estado B que se não aceitar determinadas condições
será invadido ).
Esta coacção causa a nulidade absoluta do Tratado.

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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

 Coacção Económica  um Estado rico impõe a um Estado mais pobre certas condições que
em circunstâncias normais este não aceitaria.
Contudo esta coacção tem de ser analisada caso a caso, já que a nível internacional a afirmação
dos Estados baseia-se nos poderes de uns face aos outros.
Esta coacção causa a nulidade absoluta do Tratado.

Licitude do Objecto  esta condição pressupõe que não se podem violar os princípios
fundamentais da ordem jurídica internacional ( normas de jus cogens ).

A nulidade dos tratados tem os seguintes efeitos, mas como já vimos, esta divide-se em dois
grupos :

Nulidade Relativa  cabem nesta nulidade os Tratados que tenham um vício de :

- Capacidade das Partes ( incapacidade das partes ) ---- Nulidade Originária ----;

- Ratificação Imperfeita ---- Nulidade Originária ----;

- Dolo ---- Nulidade Originária ----;

- Erro ---- Nulidade Originária ----;

- Corrupção do Representante do Estado ---- Nulidade Originária ----;

Esta nulidade é relativa porque o que está em causa é preservar os interesses do próprio
Estado que se enganou. Daí decorre que só o próprio Estado é que pode arguir a nulidade do Tratado.

Nulidade Absoluta  cabem nesta nulidade os Tratados que tenham um vício de :

- Coacção sobre o Representante do Estado ---- Nulidade Originária ----;


- Coacção sobre o próprio Estado ---- Nulidade Originária ----;

- Licitude do Objecto ---- Nulidade Originária ou Superveniente ----;

Esta nulidade é absoluta porque é mais grave que a nulidade anterior, pois, esta põe em causa
princípios fundamentais de ordem jurídica internacional. Daí que esta nulidade possa ser requerida
por qualquer sujeito de Direito Internacional, isto porque, o que está em causa é como foi
anteriormente referido a ordem jurídica internacional.
É de salientar que não há prazo para arguir esta nulidade.

Os Tratados podem ser sanados, ou seja, estes têm um vício, no entanto se as partes quiserem
podem sanar o Tratado.
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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

Contudo se o vício puser em causa princípios da ordem jurídica internacional ( nulidade


absoluta ) as partes não o podem sanar e o juiz é obrigado a declarar a sua nulidade.
Se a nulidade for relativa como o que está em causa é o interesse das partes, estas podem
sanar o Tratado. No entanto se a parte tiver conhecimento da nulidade e continuar a cumpri-lo,
considera-se que o vício está sanado e a parte em questão perde o direito de evocar a nulidade como
está disposto no artigo 45º da CVDTEOIS ( confirmação tácita ).
Quando o Tratado é nulo deve cessar a sua vigência. No entanto não se deve confundir a
Nulidade com a Revogação dos Tratados, pois, enquanto a nulidade retroage os seus efeitos à
entrada em vigor do Tratado, a Revogação dos Tratados apenas se impõe à cessação dos seus efeitos
para o futuro.
O artigo 44º da CVDTEOIS impõe a indivisibilidade dos Tratados, ou seja, quando existe
uma nulidade entende-se que todo o Tratado é nulo, isto porque, um acto jurídico é um todo
organizado. Assim se houver uma norma declarada nula o Tratado deixa de ter condições para ser
aplicado.
Contudo pode acontecer que apesar da nulidade o Tratado seja divisível, ou seja, apesar da
nulidade o Tratado ainda pode ser aplicado. Neste caso é possível que a regra da indivisibilidade
seja afastada como consta do artigo 44º n.º 3 da CVDTEOIS.
Há casos previstos, nomeadamente no artigo 71º da CVDTEOIS, que estabelecem que as
normas nulas podem ser autonomizadas e como tal o Tratado passa a ser divisível, no entanto, se as
normas declaradas nulas forem normas de jus cogens, prevalece a regra da indivisibilidade dos
Tratados.
As consequências da nulidade dos Tratados variam consoante estivermos perante Tratados
Bilaterais ou Multilaterais, ou seja, :

- Se o Tratado for Bilateral a nulidade do Tratado conduz à cessação de vigência deste, salvo
se ocorrer uma situação de divisibilidade ( onde se permita que as normas nulas sejam expurgadas do
Tratado e este passa a vigorar sem aquelas normas );

- Se o Tratado for Multilateral neste caso uma das partes pode pedir a nulidade do Tratado
em questão e se esta for efectivamente declarada pelo Tribunal só tem efeito para aquela parte que
manifestou o seu consentimento de forma desvirtuada;

Para que o Tratado seja declarado nulo tem que correr o processo previsto no artigo 65º a 68º
da CVDTEOIS, ou então fala-se com as outras partes para estes conhecerem o problema. Se todos
concordarem com a nulidade do Tratado não há problema.
A nulidade dos Tratados é uma anormalidade, pois a regra é que os Tratados são válidos.

Extinção dos Tratados :

A extinção dos Tratados pode acontecer por várias causas :

- Por Vontade das Partes;

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- Por Vontade Unilateral;

- Por Circunstâncias Exteriores à Vontade das Partes;

Extinção dos Tratados Por Vontade das Partes :

Estas causas de extinção são as mais frequentes e as mais normais. E podem ser :

Revogação  pode assumir várias formas :

- derrogação ( todo o acto jurídico cessa a sua vigência );

- ab-rogação ( parte do acto jurídico cessa a sua vigência );

Normalmente o que acontece é que a revogação é feita por acto jurídico novo.

Caducidade  esta forma de cessação de vigência não tem sentido no Direito Interno porque
uma lei não tem um prazo para deixar de estar em vigor.
No Direito Internacional os Tratados geralmente estipulam um prazo. Quando ocorrer esse
prazo os Tratados são prorrogados automaticamente pelo mesmo período de tempo, salvo se as partes
com alguma antecedência fixada no Tratado avisarem as outras partes da sua intenção de não
prorrogar o prazo do Tratado.

Verificação de uma Condição Resolutiva  as condições, em geral podem ser :

 Condições Suspensivas  estas condições estabelecem que os efeitos dos negócios jurídicos
só começam a produzir efeitos a partir do momento que se verifique a condição.

 Condições Resolutivas  estas condições estabelecem que o negócio jurídico termina os


seus efeitos quando a condição determinada no Tratado se verifique ( ex. : o Tratado que instituiu o
pacto de Varsóvia no seu artigo 11º previa que este se extinguia quando se criasse um Sistema
Europeu de Defesa Colectiva ).

Execução Integral  é a forma mais desejável de extinção dos Tratados e consiste no


seguinte : o Tratado extingue-se porque cumpriu todos os seus deveres.
Esta extinção é normal, mas é raro verificar-se porque os Tratados não são concluídos por um
determinado facto, mas sim por uma pluralidade de factos.

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Perante isto se conclui que os Tratados leis não se extinguem por execução integral, enquanto
os Tratados contratos se extinguem por execução integral, no entanto é difícil a sua extinção por esta
condição porque normalmente estes Tratados são prolongados no tempo.
Em suma é muito difícil encontrar um Tratado que se extinga por esta forma.

Extinção dos Tratados Por Vontade Unilateral :

Esta extinção pode ser por :

Denúncia ou Recesso ( artigo 56º da CVDTEOIS )  a denúncia é uma figura própria dos
Tratados bilaterais, enquanto o recesso é uma figura dos Tratados multilaterais.
A denúncia ou o recesso é uma declaração através da qual um Estado manifesta que não quer
continuar vinculado ao Tratado.
A denúncia só é possível se o Tratado a previr, pois, caso contrário esta é proibida e se o
Estado a fizer ficará submetido à responsabilidade internacional.
Se o Tratado for omisso em relação a esta questão é a própria CVDTEOIS que a regula,
nomeadamente, impondo que a parte que quer denunciar o Tratado tem de notificar a outra parte com
12 meses de antecedência.
As regras supra mencionadas aplicam-se também ao recesso.
A denúncia tem como consequência a extinção do próprio Tratado, isto porque, como o
Tratado é bilateral só tem um feixe de relações.
O recesso tem uma consequência diferente, ou seja, como o Tratado é multilateral tem uma
multiplicidade de feixes de relações, logo o Tratado só deixa de vigorar em relação àquele que fez o
recesso, pois, entre as outras partes o Tratado continua em vigor.
Na nossa opinião a denúncia e o recesso deviam estar incorporados na extinção do Tratado
por vontade das partes, isto porque, como é o próprio Tratado que prevê a denúncia e sendo o
Tratado um acordo de vontades, logo a extinção dos Tratados dá-se por vontade das partes.

Violação do Tratado por uma das Partes ( artigo 60º da CVDTEOIS )  esta forma de
extinção tem consequências diferentes consoante estejamos perante um Tratado bilateral ou um
Tratado multilateral.
Assim se estivermos perante um Tratado bilateral e se uma das partes deixar de cumprir o
Tratado a outra parte tem o direito de não continuar a cumpri-lo ou então pode optar pela sua
suspensão.
Nos Tratados multilaterais a violação do Tratado tem de ser pública, notória e que a parte ou
terceiro venha dizer que houve a violação do Tratado em causa.
Nestes Tratados a consequência pode ser de duas espécies :

 Todos são Prejudicados pelo Incumprimento do Tratado ( artigo 60º n.º 2 da CVDTEOIS
)  nesta situação todos de comum acordo podem suspender ou extinguir o Tratado em causa.

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 Só Um é que é Particularmente Prejudicado pelo Incumprimento do Tratado ( artigo


60º n.º 2 da CVDTEOIS )  nesta situação o Estado que é particularmente prejudicado evocando esse
prejuízo pode extinguir ou suspender o Tratado com a parte que o incumpriu.
O incumprimento do Tratado é um acto ilícito e como tal aquele que não o cumpriu tem de
indemnizar a outra parte.

Extinção dos Tratados Por Circunstâncias Externas à Vontade das Partes :

Esta extinção pode ser :

Impossibilidade Superveniente de Execução ( artigo 61º da CVDTEOIS )  nesta causa de


extinção o Tratado tornou-se impossível de cumprir por uma causa posterior à celebração do Tratado
( ex. : desaparecimento do objecto ).

Alteração Fundamental das Circunstâncias ( Cláusula Reb Sic Stantibus ---- artigo 62º da
CVDTEOIS ---- )  esta cláusula vem do Direito Romano onde os romanos defendiam que todos os
contratos têm uma cláusula implícita que consiste no seguinte : os contratos só se podem cumprir se
tudo permanecer na mesma.
Isto tem lógica porque quando nós celebramos um acto jurídico celebramo-lo mediante
determinadas circunstâncias, daí que se essas circunstâncias forem alteradas de forma fundamental
pode-se extinguir o Tratado.

Guerra  esta causa cessa os Tratados que não prevejam subsistir em tempo de guerra.

Ruptura das Relações Diplomáticas ou Consulares  podem ou não extinguir os Tratados


dependendo das matérias.

Decisões das Organizações Internacionais  extinguem os Tratados, mas para isso têm de
ser obrigatórias ( ex. : decisões do Conselho de Segurança das Nações Unidas ).

As causas de extinção não se confundem com a nulidade porque as causas de extinção


pressupõem que o Tratado é válido enquanto na nulidade o Tratado não é válido.
O costume também extingue um Tratado só que a sua incorporação nestas causas depende da
tese adoptada sobre o fundamento da obrigatoriedade do costume.
Se adoptarmos a Tese do Pacto Tácito ( posição tradicional ) o costume é integrado nas causas
de extinção por vontade das partes.
Se adoptarmos a Tese da Formação Espontânea ( posição adoptada ) o costume é
incorporado na extinção por circunstâncias exteriores à vontade das partes.

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Direito Internacional Público
Disciplina Semestral ( 2º Semestre ) Ano Lectivo 2002 / 2003

Fim do 2º Semestre

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