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Terra Livre

A Geografia no Tempo de Novos Conhecimentos

associação dos geográfos brasileiros

Terra Livre A Geografia no Tempo de Novos Conhecimentos associação dos geográfos brasileiros 1

Associação dos Geógrafos Brasileiros

Diretoria Executiva Nacional Gestão 2006/2008

Presidente Edvaldo César Moretti (AGB - Dourados/MS)

Vice Presidente Manoel Calaça (AGB - Goiânia/GO)

Primeiro Secretário Jones Dari Goettert (AGB - Dourados/MS)

Segundo Secretário Zeno Soares Crocetti (AGB - Curitiba/PR)

Primeiro Tesoureiro Alexandre Bergamin Vieira (AGB - Presidente Prudente/SP)

Segundo Tesoureiro Victor A. de Souza Junior (AGB - João Pessoa/PB)

Coordenação de Publicações Antonio Thomaz Junior (AGB - Presidente Prudente /SP) Ana Paula Maia Jansen (AGB - Rio Branco/AC) José Alves (AGB - Rio Branco/AC) José Messias Bastos (AGB - Florianópolis/SC) Sônia M. R. P. Tomasoni (AGB - Salvador/BA)

Representação junto ao Sistema CONFEA/CREA Titular: Rodrigo Martins dos Santos (AGB - São Paulo/SP) Suplente: Cristiano Silva da Rocha (AGB - Porto Alegre/RS)

Representação junto ao Conselho das Cidades Arlete Moyses Rodrigues (AGB - São Paulo/SP)

Correio eletrônico: nacional@agb.org.br

Página na internet: http://www.agb.org.br

ISSN 0102-8030

Terra Livre

Publicação semestral

da Associação dos Geógrafos Brasileiros

ANO 23 – Vol. 2 NÚMERO 29

Terra Livre

Presidente Prudente

Ano 23, v. 2, n. 29

p. 1-326

Ago-Dez/2007

TERRA LIVRE

Conselho Editorial

Adauto de Oliveira Souza (UFGD) Ailton Luchiari (USP) Aldomar Arnaldo Rückert (UFRGS) Alexandrina da Luz (UFS) Álvaro Luiz Heidrich (UFRGS) Ana Fani Alessandri Carlos (USP) Ângela Massumi Katuta (UEL) Antonio Carlos Vitte (UNICAMP)

Antonio Nivaldo Hespanhol (UNESP/Pres. Prudente) Marcos Bernardino de Carvalho (PUC/SP)

Arlete Moysés Rodrigues (UNICAMP) Arthur Magon Whitacker (UNESP/Pres. Prudente) Beatriz Ribeiro Soares (UFU) Bernadete C. Castro Oliveira (IGCE/UNESP)

Bernardo Mançano Fernandes (UNESP/Pres. Prudente) Pedro Costa Guedes Vianna (UFPB)

Charlei Aparecido da Silva (UFGD) Diamantino Alves Correia Pereira (PUC/SP) Dirce Maria Antunes Suertegaray (UFRGS) Douglas Santos (PUC/SP) Eliseu Saverio Sposito (UNESP/Pres. Prudente) Flaviana Gasparotti Nunes (UFGD) Francisco Mendonça (UFPR)

Horácio Capel Sáez (Universidade Barcelona/Espanha) Virgínia Elisabeta Etges (UNISC)

João Cleps Júnior (UFU) João Edmilson Fabrini (UNIOESTE/M. C. Rondon)

Jones Dari Goettert (UFGD) Jorge Montenegro Gómez (UFPR) José Daniel Gómez (Universidade de Alicante/Espanha) Larissa Mies Bombardi (USP) Marcelino Andrade Gonçalves (UFMS/Nova Andradina) Marcelo Dornelis Carvalhal (UNIOESTE/M. C. Rondon) Marcelo Rodrigues Mendonça (UFG/Catalão) Márcio Cataia (IG/UNICAMP)

Maria Franco García (UFPB) Maurício A. de Abreu (UFRJ) Mirian Cláudia Lourenção Simonetti (UNESP/Marília) Paulo Roberto Raposo Alentejano (UERJ/São Gonçalo)

Regina Célia Bega dos Santos (IG/UNICAMP) Ricardo Antunes (UNICAMP) Rogério Haesbaert da Costa (UFF) Selma Simões de Castro (UFG) Sérgio Luiz Miranda (UFU) Silvio Simione da Silva (UFAC) Valéria De Marcos (USP)

Wiliam Rosa Alves (UFMG) Xosé Santos Solla (Univ. Santiago de Compostela/Espanha)

Colaboradores Alexandre Bergamin Vieira (UNESP - Presidente Prudente/SP) Edvaldo Cesar Moretti (UFGD - Dourados/MS)

Editor responsável e editoração: Antonio Thomaz Júnior (UNESP/ Pres. Prudente/SP) Co-Editor: Gilson Kleber Lomba (AGB - Dourados/MS) Formatação eletrônica: Alexandre Aldo Neves (UFGD – Dourados/MS) Revisão de Espanhol: Jorge Montenegro Gómez (UFRP - Curitiba/PR) Revisão de Inglês: Jarbas Francisco Alves

Arte da capa: Gilson Kleber Lomba

Tiragem: 1.000 Impressão: Copy Set (Av. Cel. José Soares Marcondes, n. 798, Presidente Prudente-SP - copyset@superig.com.br)

Endereço para Correspondência:

Associação dos Geógrafos Brasileiros (DEN) Av. Prof. Lineu Prestes, 332 - Edifício Geografia e História - Cidade Universitária CEP: 05508-900 - São Paulo / SP - Brasil - Tel. (0xx11) 3091 - 3758 ou Caixa Postal 64.525 - 05402-970 - São Paulo / SP e-mail: terralivre@agb.org.br

Ficha Catalográfica

Terra Livre, ano 1, n. 1, São Paulo, 1986. São Paulo, 1986 – v. ils. Histórico

 

1986 – ano 1, v. 1

1987 – n. 2

1988 – n. 3, n. 4, n. 5

1989 – n. 6

1990 n. 7

1992/93 – 11/12 (editada em 1996) 1994/95/96 – interrompida

1997

1998

1999

2000

– n. 13

– interrompida

– n. 14

– n. 15

 

10. Geografia – Periódicos 10. AGB. Diretoria Nacional

 

2001

– n. 16, n. 17

2002

– Ano 18, v.1, n. 18;

v.2, n. 19

2003

– Ano 19, v.1, n. 20; v. 2, n. 21

 
 

2004

– Ano 20, v.1, n. 22; v. 2, n. 23

1991 – n. 8, n. 9

2005

– Ano 21, v.1, n. 24

1992 – N. 10

2005

– Ano 21, v. 2, n. 25

Revista Indexada em Geodados

2006

– Ano 22, v. 1, n. 26

www.geodados.uem.br

2006

– Ano 22, v. 2, n. 27

ISSN 0102-8030

2007

– Ano 23, v. 1, n. 28

CDU – 91 (05)

2007

– Ano 23, v. 2, n. 29

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Sumário E DITORIAL A RTIGOS D ESAFIOS À A NÁLISE DO E SPAÇO U RBANO
Sumário E DITORIAL A RTIGOS D ESAFIOS À A NÁLISE DO E SPAÇO U RBANO
Sumário E DITORIAL A RTIGOS D ESAFIOS À A NÁLISE DO E SPAÇO U RBANO
Sumário E DITORIAL A RTIGOS D ESAFIOS À A NÁLISE DO E SPAÇO U RBANO
Sumário E DITORIAL A RTIGOS D ESAFIOS À A NÁLISE DO E SPAÇO U RBANO
Sumário E DITORIAL A RTIGOS D ESAFIOS À A NÁLISE DO E SPAÇO U RBANO

Sumário

EDITORIAL

ARTIGOS

D ESAFIOS À ANÁLISE DO ESPAÇO URBANO: INTERPRETANDO

TEXTOS MARGINAIS DO DISCURSO GEOGRÁFICO

Almir Nabozny Joseli Maria Silva Marcio José Ornat

O E STUDO GEOGRÁFICO DOS ELEMENTOS CULTURAIS -

CONSIDERAÇÕES PARA ALÉM DA GEOGRAFIA CULTURAL

Cláudio Benito Oliveira Ferraz

ESTUDOS MIGRATÓRIOS NA MODERNIDADE E NA PÓS- MODERNIDADE: DO ECONÔMICO AO CULTURAL?

Marcos Leandro Mondardo

AS DOENÇAS COMO OBJETO DE ESTUDO

NO CONTEXTO GEOGRÁFICO: LONDRINA 1932/1943

Márcia S. de Carvalho

O CAMPO BRASILEIRO NO CENÁRIO DA MATRIZ ENERGÉTICA

RENOVÁVEL: NOTAS PARA UM DEBATE

Eliane Tomiasi Paulino

DESENVOLVIMENTO LOCAL COMO SIMULACRO DO ENVOLVIMENTO:

O NOVO-VELHO SENTIDO DO DESENVOLVIMENTO E SUA

FUNCIONALIDADE PARA O SISTEMA DO CAPITAL

Josefa Bispo de Lisboa Alexandrina Luz Conceição

A ESCALA GEOGRÁFICA: NOÇÃO, CONCEITO OU TEORIA?

Everaldo Santos Melazzo Cloves Alexandre Castro

POSSIBILIDADES EPSTEMOLÓGICAS E PEDAGÓGICAS DA GEOGRAFIA

HUMANA EM SEU TRONCO HUMANÍSTICO-CULTURAL

Marcos Antonio Correia

IDENTIDADE TERRITORIAL QUILOMBOLA - UMA ABORDAGEM

GEOGRÁFICA A PARTIR DA COMUNIDADE CAÇANDOCA (UBATUBA/SP)

Mária Tereza Paes Luchiari Isabel Araujo Isoldi

15-28

29-50

51-74

75-94

95-114

115-132

133-142

143-162

163-180

APROPRIAÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO E TERRITORIALIDADE: O DESEJO E A ESPERANÇA PELOS

INTERSTÍCIOS

Ulysses da Cunha Baggio

VERTENTES ÉTICAS E REGÊNCIA DE OUTRA ORDEM

TERRITORIAL

Claudio Ubiratan Gonçalves

O ‘LUGARNÃO É MAIS O MESMO: ARTICULAÇÃO DOS MÚLTIPLOS ESPAÇOS-TEMPOS COTIDIANOS NAS PRÁTICAS ESCOLARES

Amanda Regina Gonçalves Rosângela Doin de Almeida

A CLIMATOLOGIA PRODUZIDA NO INTERIOR DA CIÊNCIA GEOGRÁFICA BRASILEIRA: UMA ANÁLISE DE TESES E DISSERTAÇÕES DEFENDIDAS EM PROGRAMAS DE PÓS-

GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA

Deise Fabiana Ely

POR UMA GEOGRAFIA DO PASSADO DISTANTE - MARCAS PRETÉITAS NA PAISAGEM COMO MEMÓRIA SOCIAL DAS

SOCIEDADES AUTÓCTONES

Sérgio Almeida Loiola

RESENHA

OS ESTABELECIDOS E OS OUTSIDES

Alexandre Bergamin Vieira

NORMAS

Normas para publicação

COMPÊNDIO

Compêndio dos números anteriores

181-206

207-230

231-246

247-264

265-292

295-298

301-306

309-324

Summary/Sumario

FOREWORD/EDITORIAL

ARTICLES/ ARTÍCULOS

CHALLENGES TO THE ANALYSIS OF URBAN SPACE:

INTERPRETING MARGINAL TEXTS OF GEOGRAPHICAL DISCOURSE DESAFÍOS PARA LA ANÁLISIS DEL ESPACIO URBANO:

INTERPRETANDO TEXTOS MARGINALES EN EL DISCURSO

GEOGRÁFICO

Almir Nabozny Joseli Maria Silva Marcio José Ornat

THE GEOGRAPHICAL STUDY OF THE CULTURAL ELEMENTS -

CONSIDERATIONS FOR BESIDES CULTURAL GEOGRAPHY

EL ESTUDIO GEOGRÁFICO DE LOS ELEMENTOS CULTURALES

- CONSIDERACIONES PARA ADEMÁS DE LA GEOGRAFÍA CULTURAL

Cláudio Benito Oliveira Ferraz

STUDIES MIGRATÓRIOS NA MODERNIDADE AND THE POST- MODERNIDADE: THE ECONOMIC THE CULTURAL? ESTUDIOS MIGRATÓRIOS NA MODERNIDAD Y DE LA

POSMODERNIDAD: EL ECONÓMICO CULTURAL?

Marcos Leandro Mondardo

ILLNESSES AS OBJECT OF STUDY IN THE GEOGRAPHIC

CONTEXT: LONDRINA - 1932/1943

LAS ENFERMEDADES COMO OBJETO DE ESTUDIO EN EL CONTEXTO GEOGRÁFICO LONDRINA - 1932 /1943

Márcia S. de Carvalho

THE BRAZILIAN FIELD ON THE RENEWABLE ENERGETIC MATRIX SCENE: NOTES FOR A DEBATE EL CAMPO BRASILEÑO EN LO ESCENARIO DE LA MATRIZ ENERGÉTICA RENOVABLE: NOTAS PARA UNA DISCUSIÓN

Eliane Tomiasi Paulino

LOCAL DEVELOPMENT AS SIMULATION OF INVOLVEMENT: THE NEW-OLD MEANING THE DEVELOPMENT AND ITS FUNCTIONALITY TO THE SYSTEM OF CAPITAL EL DESARROLLO LOCAL COMO SIMULACIÓN DE PARTICIPACIÓN: EL NUEVO SIGNIFICADO DE EDAD EL

DESARROLLO Y SU FUNCIONALIDAD AL SISTEMA DE CAPITALES

Josefa Bispo de Lisboa Alexandrina Luz Conceição

THE GEOGRAPHIC SCALE: NOTION, CONCEPT OR TEORY?

LA ESCALA GEOGRÁFICA: NOCIÓN, CONCEPTO Ó TEORÍA?

Everaldo Santos Melazzo Cloves Alexandre Castro

EPISTEMOLOGICAL AND PEDAGOGICAL POSSIBILITIES OF HUMAN GEOGRAPHY IN ITS HUMANISTIC AND CULTURAL TRUNK LAS POSSIBILIDADES EPISTEMOLÓGICAS Y PEDAGÓGICAS DE LA GEOGRAFIA HUMANA EM SU TRONCO HUMANISTICO-

CULTURAL

Marcos Antonio Correia

15- 28

29- 50

51-74

75-94

95-114

115-132

133-142

143-162

TERRITORIAL IDENTITY QUILOMBOLA A GEOGRAPHY BOARDING FROM THE COMUNIDADE CAÇANDOCA (UBATUBA/SP) IDENTIDAD TERRITORIAL QUILOMBOLA - EL SUBIR GEOGRÁFICO DE

LA COMUNIDADE CAÇANDOCA (UBATUBA/SP)

Maria Tereza Paes Luchiari Isabel Araujo Isoldi

SOCIAL APROPRIATION OF THE URBAN SPACE AND TERRITORIALITY:

THE DESIRE AND HOPE FOR THE INTERSTICES APROPRIACIÓN SOCIAL DEL ESPACIO URBANO Y TERRITORIALIDAD: EL DESEO Y LA ESPERANZA POR LOS INTERSTÍCIOS

Ulysses da Cunha Baggio

SLOPES ETHICS & GOVERNING OF ANOTHER ORDER TERRITORIAL

VERTIENTES ETICAS Y REGENCIA DE OTRA ORDEN TERRITORIAL

Cláudio Ubiratan Gonçalves

THE ‘PLACEIS NOT THE SAME: ARTICULATIONS OF THE MULTIPLES EVERYDAY SPACES-TIMES IN THE SCHOLARS PRACTICES EL ‘LUGARNO ES MÁS EL MISMO: ARTICULACIONES DE LOS MÚLTIPLES

ESPACIOS-TIEMPOS COTIDIANOS EN LAS PRÁCTICAS ESCOLARES

Amanda Regina Gonçalves Rosângela Doin de Almeida

LA CLIMATOLOGÍA PRODUCIDA EN EL INTERIOR DE LA CIENCIA GEOGRÁFICA BRASILEÑA: UN ANÁLISIS DE TESIS Y DISERTACIONES DEFENDIDAS EN PROGRAMAS DE POSTGRADO EN GEOGRAFÍA CLIMATOLOGY RAISED WITHIN BRAZILIAN GEOGRAPHIC SCIENCE: A STUDY ON THE ACCOMPLISHMENT OF GRADUATED PROGRAMS IN

GEOGRAPHY

Deise Fabiana Ely

PARA UNA GEOGRAFÍA DEL PASADO DISTANTE - MARCAS DEL

COMO MEMORIA ESPACIAL DE LAS SOCIEDADES

AUTOCTONOS BY A GEOGRAPHY OF THE PAST DISTANT - PRETERITSS MARKS IN THE

LANDSCAPE AS AUTOCHTHONOUS SOCIETIESS SPACE MEMORY

Sérgio Almeida Loiola

PASADO EN EL PAISAJE

RESENHA

El conjunto y las exteriores The set and the outsides

NORMAS

Submission guindelinesa Normas para publicación

COMPÊNDIO

Compendium of the previus numbers Compendio de números anteriores

163-180

181-206

207-230

231-246

247-264

265-292

295-298

301-306

309-324

EDITORIAL

Acreditar que é possível manter a qualidade, expandir o raio de interlocução e ampliar a potência do debate teórico tem sido uma constante por parte da editoria da Revista Terra Livre. A geografia brasileira ganha com isso, ganha os geógrafos e ganha todos aqueles que estão se empenhando para manter a Terra Livre como um veículo de divulgação privilegiado sobre o que de melhor se pensa e se produz. Se não tivéssemos o mandato para levar adiante os princípios defendidos pelos agebeanos e referendados na Assembléia de Rio Branco, em julho de 2006, não poderíamos sequer estar tendo a chance de colocar em prática os anseios da comunidade que quer e requer transparência e a disponibilização de textos de qualidade irreparável, capazes de promover a ascensão de idéias, inquietações e polêmicas para o centro das diferentes convivências, seja nas escolas, nas universidades, nos eventos, nas ruas, junto às comunidades, aos trabalhadores, à sociedade organizada etc. Pretensões à parte, o que estamos tentando garantir é que a Terra Livre, seja a Revista de todos(as) os (os) geógrafos(as) brasileiros(as), indistintamente das posturas ideológicas, das correntes do pensamento geográfico e das opções temáticas.

Garantir que a Terra Livre possa estimular o debate e nutrir o convício saudável das idéias, eis o que nos põe atentos á edificação de uma AGB também disposta ao debate, à defesa de posicionamentos que garantam o livre acesso às informações e à liberdade de pensamento entre suas centenas de milhares de associados e de toda a comunidade geográfica (estudantes, professores, profissionais de toda ordem). O que esperar desse número 29? A riqueza dos assuntos e dos recortes temáticas mantém uma constante e é uma das principais recomendações da nossa comunidade. Então, se com as atenções para assuntos mais ligados às questões teórico-metodológicas, ou de cariz epistemológico ou ontológico, se para os assuntos voltadas à matriz energética, ou para os rumores da modernidade, ou os exemplos regressivos da migração, ou ainda para as marcas do passado enfim, o

que se espera é que mais do que as emoções sobrevivam, desejamos que a Terra Livre possa fomentar, efetivamente, os exercícios auto-críticos, tão necessários e em desuso nesses tempos do século XXI.

OS EDITORES

FOREWORD

Believe that is possible mantain the quality, expand the range of interlocution and amplify the potency of the theoretician discussion have been a constant by the side of the publishing house of the Magazine Terra Livre. The brazilian geography earns with this, the geographers earn and earn all that are doing efforts to mantain Terra Livre as a mean of communication privileged about the best of what is thinked and produced. If we didn’t have the mandate to continue with the principles defend by the agebeanos and referended in the Meeting of Rio Branco, in July 2006, we cannot even have the chance to put in pratice the longing of the community which want and require transparency and publication of text of irreparable quality, capable of promote the ascension of ideas, inquietude and controversy to the centre.

What we are trying to guarantee is that Terra Livre, be the Magazine of all the brazilians geographers, indistinctly the religious belive, the ideologic position and thematics options. Guarantee that the Terra Livre can estimulate the discussion and sustain the healthy companionship of ideas, that is the question which put us attentive to a edifying of a AGB, which is also disposed to the discussion, the defense of positions that guarantee the free access to informations, and the freedom of thinking between yours hundreds of thousands of associateds and of all the geographic community. What expect of this edition 29? The riches of theme and tematic retails mantain a constant and is one of the main reccomendation of our community. So, if attentions to themes related to questions “theoretical-methodological”, or of roots ontologic and epistemologic, if to themes related to energetic matrix, or to rummors of modernity, or to examples regressives of migration, or even to scars of the pass so, what is expected is that more than the emotions, we want that Terra Livre can foment, effectivel y, the e xercises so necessar y of self-criticism, w hich is in disuse in this century of XXI

THE EDITORS

A R T I G O S 13

A R T I G O S

DESAFIOS À ANÁLISE DO ESPAÇO URBANO:

INTERPRETANDO TEXTOS MARGINAIS DO DISCURSO GEOGRÁFICO

CHALLENGES TO THE ANALYSIS OF URBAN SPACE:

INTERPRETING MARGINAL TEXTS OF GEOGRAPHICAL DISCOURSE

DESAFÍOS PARA LA ANÁLISIS DEL ESPACIO URBANO:

INTERPRETANDO TEXTOS MARGINALES EN EL DISCURSO GEOGRÁFICO

ALMIR NABOZNY

almirnabozny@yahoo.com.br

JOSELI MARIA SILVA

joselisilva@uol.com.br

MARCIO JOSÉ ORNAT

marciornat@yahoo.com.br

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA - UEPG

* Pesquisadores do Grupo de Estudos Territoriais (GETE)

Resumo: Este trabalho tem por objetivo apresentar os desafios teórico-metodológicos enfrentados pelo Grupo de Estudos Territoriais no desenvolvimento de pesquisas atreladas às relações entre sexualidade e espaço urbano. Primeiramente, apresentamos o posicionamento teórico do grupo fundamentado na perspectiva da nova geografia cultural, o qual entende que os sujeitos criam interpretações espaciais plurais e isso permite uma pluriversalidade da realidade estudada. Num segundo momento, evidenciamos, através dos relatos de nossa trajetória de pesquisa, uma reflexão sobre a posicionalidade do sujeito pesquisador no processo de construção do conhecimento geográfico. Palavras – chave: espaço urbano, intertextualidades, posicionalidade do pesquisador.

Abstract: This article has the objective of presenting the methodological and theoretical challenges faced by the Grupo de Estudos Territoriais (GETE – group of territorial studies) in the development of researches related to sexuality and urban space. A presentation of the theorical position of the Group, that is based on the new cultural geography. In this perspective the subjects create plural spacial interpretations what allows a pluriversality of the studied reality. After, from relates in our research trajectory, a reflection about the positionality of the researcher subject in the process of geographical knowledge construction. Key Words: urban space, intertextuality, researcher positionality.

Resumen: Este trabajo tiene por objetivo presentar los desafios teórico-metológicos del Grupo de Estudos Territoriais (GETE – grupo de estudios territoriales) en el desarollo de investigaciones relacionadas a la sexualidad y el espacio urbano. En un primer momento, se presenta la postura teórica del grupo, apoyada en la perspectiva de la nueva geografía cultural. La misma entiende que los sujetos crean interpretaciones espaciales múltiplas y eso permite uma pluriversalidad de la realidad estudiada. Luego se evidencian los relatos de nuestra história de investigación. Una reflexión sobre la posicionalidad del sujeto investigador en el proceso de construcción del conocimiento geográfico. Palabras - clave: espacio urbano, intertextualidades, posicionalidades del investigador.

Terra Livre

Presid en te Pru d en te

Ano

23, v. 2, n. 29

p . 15-28

Ago -Dez/ 2007

NABOZNY, A; SILVA, J. M; ORNAT, M. J.

URBANO

Introdução

DESAFIOS À ANÁLISE DO ESTUDO

Este texto é fruto das reflexões em torno dos desafios teórico-metodológicos enfrentados pelo Grupo de Estudos Territoriais (GETE) em mais de um ano de condução de pesquisas originadas através da parceria estabelecida com a Organização Não Governamental Renascer, em Ponta Grossa – PR. Esta instituição atua na luta pelos direitos humanos e realiza ações para combater e prevenir doenças sexualmente transmissíveis junto às profissionais do sexo, gays, lésbicas, travestis, bissexuais e transexuais. Dentre as várias atividades desenvolvidas na parceria efetivada, foram viabilizadas três investigações que sustentam os argumentos aqui apresentados. Embora cada uma destas pesquisas seja guiada por objetivos específicos, elas se desenvolvem de maneira articulada e, em vários momentos se sobrepõem, o que tem possibilitado ao grupo de pesquisadores o debate e a análise crítica de vários procedimentos investigativos. Dois aspectos comuns das investigações se destacam. Um deles é a abordagem da sexualidade interdita e sua dimensão espacial e o outro é a exploração de grupos sociais inexpressivos no campo de interesse da pesquisa geográfica brasileira como as meninas prostituídas e os transgêneros. Essa opção nos levou ao desafio de construir a visibilidade de suas experiências espaciais no campo científico da geografia. Entretanto, nossas construções metodológicas, até então calcadas no apego à dimensão material do fenômeno e aos procedimentos formais da pesquisa documental, foram insuficientes para compreender fenômenos marginais e complexos que as pesquisas abordavam. Sendo assim, este texto explora as escolhas do arcabouço analítico da ciência geográfica que puderam produzir a visibilidade científica dos fenômenos explorados e por nós intencionada.

A pluriversalidade da cidade texto

A nova geografia cultural e seus desdobramentos constituem possibilidades ilimitadas para a criatividade dos geógrafos (as) no desenvolvimento de suas análises espaciais. Corrêa (2003), ao analisar a compreensão da cultura e o espaço, alerta que a geografia contempla tanto os componentes materiais como sociais, intelectuais e simbólicos. Os elementos visíveis e a materialidade das formas espaciais foram, durante muito tempo, privilegiados pelos geógrafos, enfatizando técnicas que os homens utilizavam para dominar o meio e concebendo a paisagem como produto desta relação, tal qual Sauer (1996). A ênfase aos elementos materiais da paisagem privilegiava os objetos de estudo que apresentavam maior visibilidade, cuja diferença estava nítida, palpável, e tal ênfase relegou a um segundo plano outras dimensões sociais e psicológicas da existência humana que, por sua vez, também determinam a materialidade. A intensiva abordagem de objetos em que a diferença estava materialmente visível limitou o campo de estudo da geografia do mundo contemporâneo durante muito tempo, já que as paisagens tornaram-se mais uniformes, e as sociedades fechadas e homogêneas

Terra Livre - n. 29 (2): 15-28, 2007

internamente, mais raras. Entre as muitas questões que emergem de tal perspectiva de

pesquisa, uma delas diz respeito à impossibilidade da geografia explorar a sociedade complexa da qual fazemos parte e encontrar as diferenças em espaços que, aparentemente, são repetitivos. Outras críticas às concepções de Sauer e seus seguidores estavam centradas na importância secundária do sujeito na construção dos significados da paisagem e a negligência do homem como ser ativo na construção simbólica como em Cosgrove (1998)

e em Berque (1998). Contudo, é a contribuição de James Duncan (1990), em sua obra

“The city as text”, que gostaríamos de destacar como fundamental inspiração para dar continuidade às nossas proposições teóricas e metodológicas. A paisagem de Duncan (1990) faz referências para muito além da materialidade. Ele a considera como um sistema de significados que, tal qual a linguagem expressa em texto, a paisagem é depositária e transmissora de informações. A “paisagem/texto” é um discurso, uma estrutura social de inteligibilidade dentro da qual todas as práticas são comunicadas, negociadas e desafiadas. Assim, os discursos estão sempre permitindo recursos e limites dentro de certas direções de pensamentos e ações que “aparentemente” são naturais. A pretensa naturalidade da ordem do mundo e, portanto, da dimensão espacial da sociedade, para James Duncan, é resultante de vários embates e lutas entre os grupos sociais.

As interpretações das informações dependem dos sujeitos que atuam no processo de recepção e interiorização da informação que, por sua vez, é determinado e determinante dos valores culturais. Duncan (1990) nos oferece a compreensão de uma trama de relações em vários sentidos na análise da paisagem e privilegia o ato criativo dos sujeitos sociais através de sua leitura e interpretação, evidenciando tanto as interações entre diversos grupos, quanto a grande dificuldade de interação interpretativa da paisagem entre grupos que não participavam dos mesmos códigos culturais. Esse autor cria uma abordagem política da paisagem e afirma que esta deve servir como parte constitutiva da análise de como a vida social é organizada e de como as relações de força que a compõem são constituídas, reproduzidas e contestadas. Importante, ao nosso ver, é o conceito de “intertextualidade” que denota as inter- relações de textos que se entrecruzam, instituintes e instituídos da “cidade texto”. Além disso, para o propósito desse trabalho, é fundamental evidenciar as condições gerais de produção do texto/paisagem hegemônicos e como eles se impregnam de forma naturalizada na sociedade. Assim, a cidade texto de James Duncan (1990) define-se numa dinâmica relacional

e processual entre sistema de significados e práticas que se transformam mutuamente ao longo do tempo. Os seres humanos são tanto agentes de mudança social e, portanto, espacial, quanto seus produtos. Ao considerar o aspecto da intertextualidade, o autor incorpora a construção de diferentes significados de um mesmo objeto, assim como apresenta seus contrastes e assimilações e, além disso, admite que há uma conjugação

NABOZNY, A; SILVA, J. M; ORNAT, M. J.

URBANO

DESAFIOS À ANÁLISE DO ESTUDO

de forças que age sobre a produção simbólica do espaço, considerada enquanto forma de conhecimento que orienta as ações cotidianas.

A geografia proposta por Duncan (1990) e seus pares da Nova Geografia Cultural

é uma abordagem aberta aos paradoxos, à pluralidade e, em certa medida, provoca a

‘desordem’ do discurso geográfico calcado na objetividade material do espaço e nas interpretações hegemônicas. O rico contexto de efervescência imaginativa da Nova Geografia Cultural potencializou as produções geográficas feministas que emergem a partir de ‘fissuras’ do pensamento hegemônico desde a década de 70. Mas é no contexto

recente, a partir dos anos 90, que esta corrente ‘científico-política’ realiza importantes críticas à postura repetitiva da geografia, enquanto disciplina acadêmica, sua instrumentalização na manutenção e reprodução do poder e invisibilidade de vários grupos que compõem o espaço.

A obra do geógrafo James Duncan (1990), “The city as text”, é forte inspiração

para nossas pesquisas, pois na medida em que a cidade é um texto, produzido por ‘intertextualidades’, podemos tornar visíveis outros textos que não sejam hegemônicos, produzindo, através do trabalho científico a visibilidade de grupos tradicionalmente

inexpressivos na geografia. Nesta perspectiva adotamos o argumento de que

não se deve imaginar um mundo do discurso dividido entre o discurso admitido e o discurso excluído, ou entre o discurso dominante e o dominado; mas, ao contrário, como uma multiplicidade de elementos discursivos que podem entrar em estratégias diferentes. É essa distribuição que é preciso recompor, com o que admite em coisas ditas e ocultas, em enunciações exigidas e interditas; com o que supõe de variantes e de efeitos diferentes segundo quem fala, sua posição de poder, o contexto institucional em que se encontra; com o que comporta de deslocamentos e de reutilizações de fórmulas idênticas para objetivos opostos. Os discursos, como os silêncios, nem são submetidos de uma vez por todas ao poder, nem opostos a ele. (FOUCAULT, 1988, p. 111)

Nesse mesmo sentido, a geógrafa Gillian Rose (1993), em Feminism & Geography.

The limits of Geographical Knowledge, constrói a perspectiva do ‘espaço paradoxal’ na qual chama a atenção às configurações de poder que se estabelecem entre o centro e a margem da configuração, assim como a plurilocalização dos (as) sujeitos (as). Para esta autora há uma simultaneidade entre poder e resistência na composição espacial. Assim,

é preciso compreender tanto o que é ‘visível’ quanto o que é ‘invisível’ já que ambos

fazem parte da mesma realidade espacial que é contraditória e complementar simultaneamente. Duncan (1990), por sua vez, ao demonstrar que a paisagem da cidade de Kandy no Sri Lanka era interpretada e vivida de formas diferentes por vários grupos sociais, evidencia, magistralmente que é a condição paradoxal dos vários textos interseccionados

Terra Livre - n. 29 (2): 15-28, 2007

que possibilita a hegemonia. Afinal,

o discurso veicula e produz poder, reforça-o mas também o mina, expõe, debilita e permite barrá-lo. Da mesma forma, o silêncio e o segredo dão guarida ao poder, fixam suas interdições; mas, também, afrouxam seus laços e dão margem a tolerâncias mais ou menos obscuras (FOUCAULT, 1988, p. 112).

Compreendendo a cidade como uma rica trama discursiva ou textual, para utilizar as palavras de James Duncan (1990), o Grupo de Estudos Territoriais tem optado por construir a visibilidade de textos que emergem das fissuras e interdições do poder hegemônico das instituições formais. Diante dessa configuração estabelecemos no grupo ampla discussão em torno da posicionalidade do pesquisador frente aos desafios metodológicos a serem desenvolvidos no processo de pesquisa que serão objeto da próxima seção.

A posicionalidade do pesquisador e a produção do conhecimento sobre o espaço urbano

A geógrafa Rose (1997) tem chamado a atenção para as perspectivas de posicionalidade e reflexibilidade do (a) pesquisador (a) em relação à produção do conhecimento, pois os resultados das nossas investigações são obtidos pela influência de vários elementos interconectados. Ou seja, aquilo que obtemos como pesquisadores reflete complexas relações entre o sujeito investigador, os sujeitos investigados e o contexto de produção dos dados da pesquisa. Assim, não produzimos verdades sobre os fenômenos que analisamos, mas versões localizadas e é nesse sentido que emerge a importância da reflexão em torno daquilo que criamos e consideramos como dados de pesquisa. Não podemos perder de vista, portanto, que o conhecimento sobre determinada realidade expressa versões parciais, já que os elementos envolvidos estão diferentemente posicionados em relação ao fenômeno e também possuem interesses próprios e pontos de vista diversos que são acionados na inevitável presença relacional entre sujeito pesquisador e sujeito pesquisado. A autora alerta que tudo que produzimos enquanto conhecimento geográfico, ou seja, aquilo que criamos através de nossas pesquisas, passa a fazer parte da realidade estudada assim como a realidade faz parte do conhecimento científico. Desta forma uma investigação científica se dá num processo de conhecimento permeado por relações de poder que são produtos de posicionamentos que geram capacidades diferenciadas na produção de uma determinada versão da realidade e, nesse sentido, o próprio conhecimento também produz as hierarquias nas quais os sujeitos estão posicionados. Refletir sobre os atos investigativos na produção de versões da realidade, que também produzem a própria realidade, requer uma atitude ética e um claro

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compromisso político na implicação de nossos resultados de pesquisa na realidade investigada, pois o imaginário mundo das idéias é real e o real é também imaginado. As idéias discutidas por Gillian Rose em “Situating knowledges: positionality, reflexities and other tactics” ultrapassam os meros posicionamentos metodológicos de construção do conhecimento científico, elas são argumentos firmes de que a realidade sócio-espacial também se constrói a partir das relações de poder que se fundam nos enunciados científicos e na posição de quem os pronuncia. Nesse sentido, é muito importante atentar para a versão da realidade que uma investigação se propõe a produzir

e a partir de qual ponto de vista. Partindo da idéia de que a realidade é pluriversal e que os saberes jogam num campo de forças no qual se produz o invisível, o indizível, o ausente e o silêncio, voltamos nossos olhares para os sujeitos silenciados, adotando uma postura desconstrucionista da ciência geográfica e passamos a questionar os conceitos que utilizávamos, assim como nossos procedimentos de pesquisa no contato direto com os grupos sociais focos de nossas investigações. Há um ano e meio realizamos um trabalho voluntário junto à Organização Não-Governamental Grupo Renascer, desenvolvendo atividades de visitas aos locais de prostituição, distribuição de preservativos, encaminhamentos de exames e orientações para evitar as doenças sexualmente transmissíveis. Durante essas atividades pudemos nos aproximar dos ‘outros’ que investigávamos e ouvir suas versões que, por sua vez, transformaram as nossas ‘versões científicas’.

Meninas que a sociedade torna mulheres e a infância negada

Gostaríamos de resgatar, primeiramente, a experiência sobre a exploração sexual infanto-juvenil feminina produzida a partir do olhar que contrapõe versões sobre o fenômeno. Influenciados pelos procedimentos formais e pelo ‘status científico’ que possui

a análise documental oficial e o levantamento das ações institucionais, passamos a explorar os vários órgãos que atuavam na coibição da prática sexual comercial com crianças,

como o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, os Conselhos Tutelares, a Vara da Infância e da Juventude e vários outros órgãos, todos pautados pelo Estatuto da Criança

e do Adolescente (ECA – Lei Federal n° 8.069, de 13 de julho de 1990). Os contatos com

estes diversos órgãos foram frustrantes para a equipe. Os responsáveis nos ouviam com atenção, animavam-se com nossa disposição de pesquisar sobre o tema, pois consideram- no de vital importância, mas, pouco ou quase nada conseguiam nos ajudar, sobretudo pela

precariedade dos registros e ausência de dados sistematizados. O que mais nos impressiona

é o fato de que todos afirmavam a existência do fenômeno, mas nenhum destes órgãos

estava preparado para enfrentá-lo. Dentre todas as aproximações realizadas a experiência que nos despertou especial interesse foi a do Conselho Tutelar pela sua atuação direta com o grupo focal e pela reação contraditoriamente aversiva que as meninas prostituídas desenvolviam em relação a esse órgão, criado justamente para proteger seus direitos.

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Os Conselhos Tutelares são responsáveis diretamente pelas denúncias de infrações aos direitos das crianças e adolescentes e a Vara da Infância e Juventude delibera as medidas judiciais cabíveis. O discurso do Estado torna-se nítido na ação que se desenvolve através da mobilização da força para traçar estratégias no combate à exploração sexual comercial infanto-juvenil feminina. Uma das ações principais de coibição das práticas das meninas são as blitze que ocorrem numa parceira entre o Conselho Tutelar e a Policia Rodoviária Federal. A prática tem como referência fundamental a espacialidade fenomenal a partir de locais e horários já conhecidos da prostituição adulta, como rodovias, boates, locais públicos e bares. Acredita-se que nestes locais podem ser flagradas as meninas menores em situação de “prostituição”, juntamente com aliciadores, clientes ou facilitadores da exploração. Não há um controle sistemático no registro das ações por parte do Conselho Tutelar, as informações são de uma periodicidade mensal ou, algumas vezes, determinada pelo número acumulado de denúncias. As práticas das blitze têm registrado no Conselho Tutelar Oeste números inexpressivos. De fevereiro a setembro de 2003 foram realizadas oito operações, nas quais não houve nenhum caso registrado. No ano de 2004, há uma intervenção, em 14 de abril, resultando na presença de três adolescentes em local indevido. Uma menina de dezessete anos encontrada em uma boate e um menino de quinze anos em outra. Além destes, há o registro de uma menor de dezesseis anos num posto de gasolina. Todos estes casos envolvem estabelecimentos localizados na Rodovia BR 373. Em 2005, há registro de três blitze. Uma em 17 de maio em que foi verificada a presença de uma adolescente de quatorze anos em frente a um antigo posto de gasolina. No dia seguinte foram localizados dois meninos de quinze e treze anos, respectivamente, cuidando de carros no pátio de uma churrascaria próxima a Br 373. A última blitz registrada em 2005 ocorreu em 12 de outubro e não houve autuações. Portanto, num total de doze intervenções do Estado foram encontrados seis menores de idade em locais e horários impróprios. A exploração dos arquivos e registros existentes nestes órgãos evidenciou que os procedimentos realizados pelos órgãos competentes de Estado apresentam debilidades na atuação de combate à exploração sexual comercial infanto-juvenil, já que promovem a invisibilidade de um fenômeno presente na sociedade. A prática da blitz realizada pela parceria entre o Conselho e a Polícia tem apresentado números inexpressivos da atividade em tela. O enquadramento do caso torna-se difícil já que, geralmente, há negação por parte da menina menor de estar sendo prostituída. Além disso, a dificuldade torna-se ainda maior pelo fato de que é pouco provável a ocorrência de um flagrante do programa que ocorre entre as meninas e o cliente. Nesse sentido, os registros são enquadrados como “menores encontradas em locais e horários impróprios”. Ainvisibilidade é também promovida pela forma de registro que o Conselho Tutelar Oeste tem desenvolvido. Nos itens de possíveis enquadramentos não se contempla a exploração sexual comercial ou crianças prostituídas, por exemplo. Os itens de enquadramento possíveis são: a violência sexual, anotações relacionadas aos atos

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atentatórios à cidadania como aliciamento, mendicância, crianças em lugares e horários

indevidos. Assim, há uma dificuldade em dar visibilidade a uma prática em que, num contexto de toda ordem de carências, há uma atitude ativa por parte da menor para fazer

o programa, pois ela recebe compensações para realizar o ato, diferentemente do abuso ou do estupro, por exemplo.

Frente às dificuldades documentais enfrentadas no trabalho exploratório e, em contrapartida, provocados pela evidência do fenômeno presenciado cotidianamente nos espaços de pobreza, optamos por incluir os depoimentos de assistentes sociais que realizavam as sindicâncias para instrumentar os processos. Mesmo que a denúncia não tivesse o teor da exploração sexual comercial, em alguns casos estes profissionais detectavam sua existência e o registravam no processo de forma paralela. Com base nestas pistas recorremos aos arquivos do PEMSE (Programa de Execução de Medidas Sócio Educativa em Meio Aberto de Ponta Grossa), os quais abriram novas alternativas de pesquisa já que estávamos convencidos de que a falta de visibilidade do fenômeno no Estado não correspondia à realidade do campo que explorávamos. Assim, foram levantados os processos oriundos do resgate da memória das assistentes sociais do Conselho Tutelar Oeste, da Vara da Infância e da Juventude, do Programa PEMSE e das Instituições de Abrigo Casa Santa Luiza de Marillac e Associação de Promoção à Menina (APAM). De posse dos casos rememorados foi realizado então

o levantamento e a análise dos processos gerados. Foram vinte e nove processos analisados, dos quais quinze provenientes de indicações do Conselho, nove oriundos do PEMSE e cinco processos de meninas institucionalizadas em abrigos. Com exceção a esses últimos, os demais vinte e quatro haviam sido apontados por Conselheiros Tutelares ou pela Assistência Social do PEMSE como casos em que havia suspeita de exploração sexual comercial infanto-juvenil feminina. Mesmo assim, para nossa surpresa, em apenas 16,6% dos processos analisados

a exploração sexual aparece como primeira notificação. Nos 83,4% restantes a exploração

é escamoteada dos processos num primeiro momento. Ao explorarmos os processos da

Vara da Infância e da Juventude observamos que, nos relatórios de visitas das assistentes

sociais e nos depoimentos das pessoas envolvidas, a exploração sexual comercial se evidenciava. Entretanto, vinculada e camuflada em outras situações como a ausência prolongada de casa, atos violentos, desobediências às regras familiares, furtos, uso de drogas.

Durante nossas explorações evidenciamos que a ação do Estado tem sido re- significada pelas meninas menores envolvidas nas práticas sexuais comerciais, as quais desenvolvem táticas desconstrucionistas do discurso social hegemônico. O forte tensionamento entre o discurso de Estado sobre a infância e a adolescência, baseado em condições de vida pequeno-burguesas, e as práticas cotidianas da periferia se revela no insucesso da coibição do fenômeno estudado e na instituição de novas e complexas espacialidades promovidas pelas meninas a fim de manter sua versão da realidade. As

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restrições às práticas comerciais sexuais em que as meninas se encontram têm sido

concebidas por uma pretensa universalidade de direitos dos sujeitos menores de idade, confundida com a homogeneidade de concepções e práticas relativas às características dos grupos sociais envolvidos no processo de exploração.

A realidade sócio-espacial da periferia impõe os fundamentos da vivência da

infância e a construção de uma versão específica de sua experiência. Várias condutas consideradas ilegais a partir do marco estatal são naturalizadas pela sua existência cotidiana. É comum na periferia o trabalho infantil complementar à renda do adulto, o trabalho doméstico, o cuidado dos irmãos menores, o acompanhamento das figuras

femininas de referência identitária, como mães, tias, avós no exercício da prestação do serviço sexual. As experiências diárias são por elas naturalizadas e, em geral, contraditórias com o marco legal que as enquadra fora do padrão de infância concebido pela sociedade. São meninas que a sociedade torna mulheres, negando-lhes o direito de serem crianças.

A vivência nos espaços de periferia impõe aos corpos infantis o desempenho de tarefas

adultas e isso modifica radicalmente a temporalidade das etapas de suas vidas. As meninas

que fizeram parte desta pesquisa possuem diferentes idades. 69% tinham entre 11-15 anos de idade no início dos processos. 17% encontravam-se com 05-10 anos e 14% delas estavam com 16-17 anos. Nos processos analisados a manifestação da exploração sexual comercial infanto-

juvenil feminina se dá nas ruas e nas estradas em 62% e em apenas 15% dos processos estão relacionadas às boates. Em 8% dos processos as meninas dormem em casas de terceiros e em 7% elas promovem deslocamentos em direção ao centro da cidade. Embora,

as blitze cubram a área das boates e rodovias (BR), a maioria das manifestações ocorre

em um constante rearranjo entre as ruas de proximidades da Rodovia, ruas próximas às suas casas, na própria rodovia e também utilizam os chamados telefônicos. Em outras ocorrências há referências às meninas circulando pelas ruas durante o dia, quando são abordadas por homens adultos e deslocam-se para motéis ou estacionamentos de supermercados a fim de realizar o programa. O agenciamento pode também ocorrer por um chamado telefônico realizado por um ‘atravessador’ que recebe pelos agendamentos de clientes. As táticas desenvolvidas pelas meninas menores desafiam a ordem do discurso hegemônico. Na versão das meninas, elas necessitam garantir a sobrevivência, e na versão dos agentes de Estado se faz necessário cumprir a lei. Esta tensão se dá constantemente já que o Estado, ao reprimir a ação das meninas, não lhes dá alternativas.

As estratégias de combate à atividade por parte do Estado, no máximo, constatam a presença de menores em locais indevidos, mas não conseguem flagrar a exploração sexual.

A imaterialidade do processo e a fluidez das relações espaciais desenvolvidas

pelas meninas e a rede de exploração sexual comercial na qual estão inseridas driblam com sucesso as ações de blitze desenvolvidas pelo Estado. As táticas triunfam sobre a

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lógica do Estado que ainda insiste em agir baseado no modelo da prostituição adulta, envolvendo pontos fixos e o período noturno.

A influência da família, dos contextos, das ações infere no corpo. O corpo não é

um dado pronto, mas resultante de negociações espaciais e históricas. Foucault (1988) argumenta que as regras de conduta moral-sexual fluem segundo idade, sexo, entre outros, mas que as obrigações e interdições não são dispostas a todos da mesma maneira. O espaço geográfico enquanto uma instância social, relacional e processual passa a compor as estruturas de amadurecimento e interiorização da atividade pelas próprias meninas, bem como é um elemento das táticas dos envolvidos na exploração.

A desejada exeqüibilidade dos direitos universais das crianças e adolescentes a

partir do ECA só é possível quando se contemplar a diversidade espaço-temporal da vivência da infância. Pode-se afirmar que a espacialidade do fenômeno da exploração sexual comercial infanto-juvenil feminina é de alta complexidade e não apresenta um padrão homogêneo. Pelo contrário, sua sobrevivência só é possível pelas múltiplas configurações espaciais nas quais se viabilizam as práticas dos sujeitos envolvidos e, inclusive, da posição do papel repressor do Estado. Ou seja, enquanto as versões desse fenômeno não produzirem um diálogo, Estado e meninas prostituídas trilharão caminhos diversos e, infelizmente, a versão da realidade produzida por estas crianças continuará invisível e silenciada na realidade urbana.

Do espaço interdito ao território da prostituição travesti

Outra importante contribuição da reflexão do grupo em torno da posicionalidade do pesquisador em relação ao sujeito investigado e suas experiências espaciais foi o re- arranjo do conceito de território na exploração do grupo de travestis. O grupo focal é composto de treze pessoas que se auto-identificaram como sendo ‘uma travesti’, utilizando a expressão no feminino. Embora a língua portuguesa classifique a palavra relativa ao sujeito masculino, preservaremos a linguagem utilizada pelo grupo. Duas pesquisas desenvolvidas de forma concomitante eram constantemente confrontadas. Enquanto uma delas evidenciava os espaços interditos às travestis e, portanto, sua invisibilidade, a outra enfocava a única possibilidade socialmente permitida de sobrevivência dessas pessoas, ou seja, os espaços de prostituição. A mesma sociedade heteronormativa que exclui as travestis dos espaços de convivência social e promoção da cidadania durante o dia, possibilita a criação dos territórios da comercialização de práticas sexuais durante a noite. O poder normativo, tal qual proposto por Foucault (1984), não produz a simples contraposição entre dominados e dominantes, mas complexidades existenciais e, portanto, espaciais. Conforme argumentos de Peres (2005), as travestis carregam consigo duas performances corporais na atividade de prostituição, dependendo das preferências do cliente e assim, rompem com as categorias clássicas de masculino e feminino e não se

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enquadram em um dos lados das bipolaridades. Tal qual os geógrafos Jon Binnie e Gill Valentine (1999), compreendemos que o ser travesti se constitui no estar no mundo e isso é essencialmente espacial, pois viver implica ações, práticas, relações que se realizam numa dimensão concreta. Contudo, o estar no mundo significa relacionar-se com outros grupos, fundamentalmente diferentes do ser travesti e, nesse sentido, o poder coloca-se como ponto essencial em nossas pesquisas. Desse ponto de vista, o caminho conceitual seguro para compreender a vivência do grupo de travestis que investigávamos nos levou a adotar o território como ferramenta conceitual. Vários geógrafos têm aprofundado as discussões sobre a potencialidade do território na compreensão da realidade sócio-espacial como Souza (1995), Silva (2000), Haersbaert (2004) e outros. A associação entre território e prostituição também é um caminho seguido por diversos pesquisadores como Mattos e Ribeiro (1996), Ribeiro (1997), Villalobos (1999), Campos (2000) e Silva (2002). Enfim, sem querer nos aprofundar nas diferenças entre as proposições desses autores, ressaltamos que nossa inspiração em relação às suas obras esteve centrada na importância das relações de poder e na apropriação dos espaços a fim de torná-los territórios, sejam eles econômicos, políticos ou culturais e na maleabilidade das variações de limites fronteiriços e temporais. Assim, para analisar a experiência espacial das travestis, adotamos a perspectiva de que os sujeitos, ao desenvolverem práticas de apropriação de determinados espaços do urbano por um período de tempo, impõem condutas consensuadas no grupo e, desta forma, instituem seus territórios frente aos outros grupos, corroborando assim o referencial teórico analisado. Como já explicitado anteriormente, as pesquisas desenvolvidas pelo grupo são constantemente confrontadas, assim como os dados obtidos do campo. É importante lembrar que dois pesquisadores trabalharam com o mesmo grupo focal, entrevistaram as mesmas pessoas com perguntas que se sobrepunham e obtiveram elementos diferentes na exploração do saber desses sujeitos. Isso porque o resultado obtido é fruto de um momento único, jamais reprodutível e o sujeito investigado reage ao pesquisador. Enquanto uma das pesquisas obtinha quase por unanimidade a frase “as travestis não tem espaço para viver na cidade”, a outra pesquisa em andamento nos levava a crer que havia sim um espaço das travestis que lhes é significativo, capaz de dar sentido à sua existência, já que a frase “se aprende a ser travesti na rua” tornou-se paradigmática. O saber sobre o espaço urbano produzido pelas travestis foi confrontado com nosso saber oriundo da ciência geográfica. Nós, enquanto pesquisadores posicionados fora do grupo focal, concebíamos o território numa diferenciação entre o grupo de travestis na atividade de prostituição e os outros que não compartilhavam dos mesmos valores e atividades. Esta posição simplista da manifestação de limites de fronteiras entre grupos e da expressão material do fenômeno da prostituição foi derrubada pelo saber das travestis. Uma expressão comum do grupo é “os mesmos homens que fecham as portas durante o dia são os que abrem as pernas à noite”, o que nos colocava um questionamento sobre a

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constituição das categorias opostas outsider e insider.

A relação com o grupo nos possibilitou a compreensão de que é justamente a

força da interdição sócio-espacial que possibilita o fortalecimento de seu território, já que

este é o único espaço que lhes possibilita reconhecimento social, independentemente de sua valoração moral. Nesse sentido, exclusão e apropriação espacial não se anulam em campos oposicionais, pelo contrário, entrelaçam-se e potencializam-se numa espiral constante e complementar, constituindo um território que é multidimensional. Outro questionamento provocado pelo saber travesti às nossas bases conceituais se relacionava ao poder. Inicialmente, nós concebíamos o poder atrelado às práticas do

grupo para a manutenção do território frente a outros grupos no sentido insider X outsider. Entretanto, o território da prostituição travesti existe na medida em que ele contempla a relação da comercialização dos serviços sexuais que se dá entre a travesti e seu cliente. Isso implica uma prática que envolve centro e margem de uma configuração de poder que se apropria do espaço e o torna território.

A travesti no território da prostituição representa o centro do poder porque através

de suas performances corporais desperta o desejo do cliente representado aqui como margem da configuração do poder, já que ele a procura para viver o prazer interdito pela sociedade heteronormativa. Este cliente faz parte da sociedade que as exclui, mas simultaneamente, compõem o território da prostituição travesti numa situação de subordinação. Além de temer ser identificado vivendo uma sexualidade disparatada, o cliente deve contratar o preço e os serviços que envolvem o programa, embora possua vantagens monetárias. Todavia, depois do contrato firmado, ocorre o deslocamento dos corpos para locais privados onde as travestis deixam a centralidade da configuração de poder e, muitas vezes, tornam-se vítimas da violência de seus clientes. Assim, o deslocamento da mesma configuração para outros espaços reposiciona os sujeitos e, portanto, o espaço segregado a que estão submetidas é, contraditoriamente, um elemento ativo na composição do poder da travesti. Após esta mediação da experiência travesti, passamos a conceber o território composto de um poder multidirecional, intercambiado entre os sujeitos que compõem a configuração que dá sentido à apropriação espacial. Portanto, argumentamos que território

se institui de plurilocalizações dos sujeitos que não são fixos em suas posições de centro

e margem, mas constantemente tensionados. Depois de um tempo de convivência com o grupo nos foi possível perceber que o território da prostituição travesti, além de lhes garantir a sobrevivência econômica, era um importante elemento fundante de sua identidade. As entrevistas realizadas evidenciam que as ruas em que se desenvolvem as atividades de prostituição em 86% das evocações

a seu respeito são importantes para sua existência. Deste percentual de evocações

relacionadas ao território da prostituição, 19% delas relacionam-se com o local possível

de construção de amizades e redes de solidariedade. Os outros 81% se relacionam com

a possibilidade de constituição do ser travesti que envolve tanto a adequação de

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comportamentos aos códigos do grupo quanto a transformação do corpo.

É no local de prostituição que se apreendem e se ensaiam as performances de

comportamentos, significados lingüísticos, sinais corporais que permitem as provocações, assédios, disputas e rivalidades. Os elementos comuns são a esperteza, a força e a malícia, elementos sempre lembrados e considerados necessários na composição do ser travesti. No processo de aprendizagem é comum a figura da ‘madrinha’ que, geralmente, é uma travesti experiente e de valor moral reconhecido segundo os códigos identitários do grupo. A ‘madrinha’ possibilita um aprendizado mais rápido do ser travesti, além de avalizar seu ingresso no território repleto de conflitos de toda ordem. Afinal, a vivência cotidiana dessas pessoas é marcada por situações de insegurança, ameaças de morte, assaltos, brigas, rivalidades, violência, drogas, doenças e discriminação. É em função destas adversidades sofridas na rua que elas se tornam mais decididas, mais firmes, mais fortes, mais ‘espertas’, criando uma couraça espessa para suportar o sofrimento e a intolerância social.

A relação entre o território e as transformações gradativas do corpo para atingir

o objetivo do corpo travesti também é comum em suas expressões. É no território que elas observam, apreendem práticas e técnicas corporais, criam maneiras de se vestir, se maquiar, enfim, incorporam os elementos identitários do universo feminino ao corpo biologicamente masculino e realizam a transgressão da norma heterossexual. Estas performances são ações de comunicação próprias do território da prostituição travesti que constituem simultaneamente um espaço de laços afetivos, sociabilidade e identidade. Enfim, foi a partir da frase paradigmática do grupo, “é através do território que as travestis se tornam travestis”, oriunda da compreensão da experiência espacial do grupo focal, que re-articulamos nossas bases conceituais e pudemos afirmar que o território é elemento ativo na constituição da identidade grupal travesti. Assim, território e sujeito constituem uma relação de interdependência. Mais uma vez o saber das travestis nos levou a ultrapassar a concepção de que o território é ‘resultado’ da dinâmica de relações dos sujeitos e, sendo assim, considerado um elemento passivo. Pelo contrário, afirmamos que o território institui a identidade do sujeito travesti assim como é por ela instituído.

Considerações Finais

Este trabalho explorou os desafios de análise geográfica que o Grupo de Estudos Territoriais vem desenvolvendo em parceria com a ONG Renascer. A análise crítica dos limites teórico-metodológicos e a reflexão em torno da posicionalidade do pesquisador no problema evidenciado em cada uma das pesquisas têm sido um processo que produz a visibilidade de grupos sociais, geralmente escamoteados da análise geográfica, e constrói um conhecimento do qual estes sujeitos são co-participantes. As meninas foco de nossa investigação vivenciam um espaço paradoxal. São sujeitas de direitos, mas invisíveis aos olhos do Estado. Querem manter-se invisíveis, mas, com isso, expandem as possibilidades

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de perpetuação de uma condição perversa de exploração que cabe também à geografia urbana estudar e tornar o fenômeno inteligível. O grupo de travestis que desenvolve atividades de prostituição refutou nossas teorias prévias, desafiou nossas bases explicativas e articulou seu conhecimento ao nosso. Enfim, compartilhar nossos desafios e limites tem sido uma excelente maneira de socializar nossa trajetória a fim de produzir novos debates.

DESAFIOS À ANÁLISE DO ESTUDO

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Recebido para publicação dia 10 de Novembro de 2007

Aceito para publicação dia 11 de Fevereiro de 2008

O ESTUDO GEOGRÁFICO DOS ELEMENTOS CULTURAIS - CONSIDERAÇÕES PARA ALÉM DA GEOGRAFIA CULTURAL

THE GEOGRAPHICAL STUDY OF THE CULTURAL ELEMENTS - CONSIDERATIONS FOR BESIDES CULTURAL GEOGRAPHY

EL ESTUDIO GEOGRÁFICO DE LOS ELEMENTOS CULTURALES- CONSIDERACIONES PARA ADEMÁS DE LA GEOGRAFÍA CULTURAL

CLÁUDIO BENITO OLIVEIRA FERRAZ

Professor vínculado ao Departamento de Educação da Universidade Estadual Paulista - UNESP (campus de Pres. Prudente/SP)

e-mail: cbenito@fct.unesp.br

Resumo: O processo histórico de formação institucional das ciências modernas gerou uma tendência a especialização do conhecimento que levou a muitos a acreditarem que as denominações dessas especializações expressavam a totalidade da realidade observada. Esse é o caso da chamada Geografia Cultural em que os estudos dos aspectos culturais da realidade social pela visão geográfica, presentes em qualquer abordagem, acabam substituídos por aspectos de catalogação e descrição superficial dos elementos de determinada região. O resgate atual da Geografia Cultural tende a cair em modismos teóricos e apenas ser um novo nome para práticas viciadas de se fazer estudos científicos, não contribuindo para um melhor entendimento da dinâmica espacial da sociedade atual. Palavras-chave: Cultura; Geografia; Ciência, Linguagem, Identidade.

Abstract: The historical process of institutional formation of the modern sciences ended up generating a tendency the specialization of the knowledge that took to many believe that the denominations of those specializations expressed the totality of the observed reality. That is the case of the call Cultural Geography in that the studies of the cultural aspects of the social reality for the geographical vision, present in any approach, tended to be substituted by aspects of cataloguing and superficial description of the elements certain area. The current rescue of the Cultural Geography tends to fall in theoretical posture and just to be a new name for vicious practices of scientific studies, not contributing to a better understanding of the space dynamics of the current society. Keywords: Culture; Geography; Science, Language, Identity.

Resumen: El proceso histórico de formación institucional de las ciencias modernas terminó generando una tendencia a la especialización del conocimiento que tomó a muchos creer que las denominaciones de esas especializaciones expresaron la totalidad de la realidad observada. Ése es el caso de la llamada Geografía Cultural en que los estudios de los aspectos culturales de la realidad social para la visión geográfica, presente en cualquier abordaje, cuidó sustituidos por los aspectos de catalogación y descripción superficial de los elementos en cierta área. El rescate actual de la Geografía Cultural tiende a desplomarse en los modismos teóricos y simplemente ser un nuevo nombre para las prácticas viciadas de hacer los estudios científicos, no contribuyendo a un entendimiento de la dinámica espacial de la sociedad actual. Palabras clave: La cultura; la Geografía; la Ciencia, la Lenguage, la Identidad.

Terra Livre

Presidente Prudente

Ano 23, v. 2, n. 29

p. 29-50

Ago-Dez/2007

FERRAZ, C. B. O

Introdução:

O ESTUDO GEOGRÁFICO DOS ELEMENTOS CULTURAIS

Este artigo visa apresentar algumas genéricas ponderações quanto às possibilidades do estudo científico da Geografia tecer análises sobre os aspectos culturais da realidade social.

Não se objetiva aqui esgotar o assunto, mesmo por que tal pretensão é megalomaniacamente impossível, mas tão somente esboçar certas considerações, de caráter mais didático e introdutório, que a leitura dos fenômenos culturais potencializam na direção de se ampliar o entendimento do discurso científico da Geografia, assim como de também apresentar algumas temáticas e perspectivas teóricas sobre a função social desse ramo do saber humano a partir de nossas pesquisas e reflexões realizadas no interior do Grupo de Pesquisa Linguagens Geográficas. Antes de darmos início às nossas considerações, demarca-se aqui a posição de que, apesar de focarmos a questão cultural, isso não significa que estaremos fazendo a denominada Geografia Cultural. Entendemos que a Geografia se organiza enquanto saber científico a partir de um edifício lingüístico que a demarca e estimula para o diálogo com as demais esferas do conhecimento (arte, cotidiano, místico e outras ciências). É através de sua linguagem própria, a qual está sempre em processo de construção, que o discurso geográfico estabelece sua identidade e significação social. Esse discurso se pauta em certos princípios, habilidades, conceitos e categorias comuns, os quais, apesar de possuírem denominações específicas, sofrem mudanças interpretativas e de sentido conforme as características sócio-espaciais em vigor. Por conseguinte, não devemos confundir os termos e palavras com que denominamos os fenômenos e as manifestações de ordem espacial com a realidade concreta dos mesmos. Sendo a linguagem, e as palavras que a constitui, uma construção sócio-cultural, esta carrega em si todo o jogo de significações e simbologias que as relações humanas produzem em acordo com as condições técnicas, tecnológicas, políticas e ideológicas de cada época e lugar. Diante disso, por exemplo, tomar a palavra “paisagem” como se fosse a expressão exata da realidade de um fenômeno em si, tende a comprometer o próprio entendimento da realidade que se representa através desse conceito, pois não percebe que o termo é fruto de determinados usos e costumes socialmente construídos em lugar e situação específicos, não podendo ser empregado em todas as condições e contextos com o mesmo significado. A simbologia presente em um termo ou idéia toma determinada significação através do jogo de significados que a sociedade, em conformidade às contradições que a organiza com certa singularidade espacial, tende a elaborar. Tal consideração se aplica também aos termos e palavras com que se compartimentam e se especializam os ramos do saber científico, como é o caso da

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Geografia. Muitos não entendem que entre a denominação de uma área do saber e a existência concreta desta, ou sua naturalização enquanto elemento do real, existe uma grande diferença. Achar que o termo Geografia Cultural expressa uma parte da realidade, a qual deve sofrer dos mesmos processos de abordagens das tradicionais análises geográficas para assim ser mais bem mensurada, catalogada e representada teoricamente, é um complicador do discurso geográfico.

Não existe Geografia Cultural enquanto tal, assim como não existe Geografia Humana, Física etc., o que existe de fato é a realidade em sua diversidade de manifestações

e fenômenos, os quais podem ser interpretados pela organização discursiva e lingüística de cada ciência.

Portanto, as manifestações e práticas culturais podem ser estudadas por diversos ramos do saber, incluindo-se aí a Geografia, mas isso não significa que exista uma coisa, uma entidade ou expressão da realidade que seja a “Geografia Cultural”. Essa denominação visa mais atender uma necessidade de especialização e burocratização institucional da pesquisa científica do que delimitar a existência de um fato em si.

A Geografia pode auxiliar no melhor entendimento dos elementos culturais a partir

de como a sociedade atual os utiliza ou os experimenta no sentido de sua lógica e dinâmica espacial, isso é o que realmente importa e, para tal, torna-se necessário redimensionar o vocabulário geográfico, assim como suas práticas e referenciais, de maneira a melhor contribuir para a interpretação do mundo em sua dinâmica contemporânea. Os fatores e elementos culturais tomam na sociedade atual importância cada vez mais central, tanto no aspecto de congregar o processo de reprodução e acumulação capitalista, assim como de divulgar e propagar os valores, percepções e comportamentos definidores das atuais relações, tanto sociais quanto individuais.

O papel das diversas mídias, atrelado às novas tecnologias e técnicas de informação

e

comunicação, assim como o caráter cada vez mais presente dos referenciais imagéticos

e

estetizantes delineadores e delineados pelas perspectivas e necessidades humanas, faz

com que o complexo cultural possua uma presença espacial nunca antes vista.

A Cultura, entendida aqui em seu sentido mais amplo possível, desenvolveu

contemporaneamente formas diversas de manifestações, assim como dinamizou as relações de disputa pelo poder e as de construção de identidades sócio-individuais, tanto em nível

local quanto global. Perante esses fatos, cobra-se da Geografia a elaboração de parâmetros que permitam uma melhor leitura dessa nova ordem espacial, permitindo estabelecer sentidos de orientação e localização mais próximos das condições de existência do ser humano no interior desse processo.

O artigo aqui visa contribuir nessa direção, para tal, sistematiza algumas

interpretações pertinentes ao estudo geográfico do conceito e idéia de cultura, assim como apresenta um rápido histórico de como a geografia oficial incorporou e desenvolveu o estudo do universo da cultura no interior da área chamada “Geografia Cultural” e,

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fechando o artigo, propõe alguns temas e abordagens à Geografia a partir de novas formas de abordagens dos referenciais culturais e da construção necessária de um novo fazer científico. Insistimos, estas idéias e sistematizações aqui apresentadas não são únicas nem se encontram acabadas, mas são possíveis e entendemos necessárias para melhor compreendermos as linguagens geográficas que permeiam nosso viver.

Cultura e Geografia – pontos de contato e novas possibilidades:

O entendimento sobre Cultura nos estudos geográficos tem seu processo de sistematização e institucionalização a partir do século XIX, em decorrência das novas técnicas de registro e transmissão de informações, assim como das necessidades colocadas pelo arranjo capitalista de identificar e mensurar os diversos territórios passíveis de exploração e controle econômico. Nesse sentido, Cultura é inicialmente tomada como uma série de artefatos e práticas (roupas, técnicas de trabalho, alimentação, religião, língua, escrita, os utensílios, a moradia, arquitetura etc.) que possibilitariam caracterizar determinado arranjo sócio-paisagístico, viabilizando certa identidade regional passível de ser mapeada. Essa delimitação territorial permitia identificar a relação dos povos com seus ambientes, estabelecendo o sentido de unidade e a consolidação da desejada identidade regional até a escala do Estado-Nação. A partir da identificação e caracterização de determinado povo com um território devidamente delimitado e mensurado, tornava-se viável organiza-lo ao redor de uma estrutura jurídico-política caracterizada como Estado-Nação, a qual, em nome dos processos civilizatórios e desenvolvimentistas, implementava determinadas práticas de controle social e de administração territorial comuns a todos os povos articulados por esse modelo, ou seja, ao longo da superfície do globo terrestre, o território seria dividido em porções político-administrativas pautadas na mesma estrutura organizacional e ideológica do Estado-Nação, sendo esse o referencial científico que instituía a consolidação da lógica econômica do capital. Formalizava-se assim o modelo único de progresso e organização sócio-territorial dos diversos povos e nações, sendo a cultura o elemento central na caracterização das identidades em cada “porção” do espaço mundializado do capital. Como os veículos de acumulação capitalista ao longo do século XIX se pautavam nos mecanismos de conquistas e domínios territoriais, os aspectos culturais acabavam tomando contornos ideológicos que confundiam os conflitos sociais com os processos de independência territorial e de autonomia do Estado-Nação correspondente. Os estudos culturais tiveram grande importância no período, exatamente por contribuir para a elaboração dessas identidades territoriais e por definirem um projeto evolutivo-desenvolvimentista dessas nações a partir dos referenciais econômicos e culturais das chamadas nações mais civilizadas.

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Contudo, após a consolidação do modelo de gerenciamento territorial do Estado- Nação, ao adentrar o século XX, as disputas territoriais desembocaram em conflitos beligerantes entre as grandes nações imperialistas, o que comprometeu o próprio processo

de acumulação capitalista em escala ampliada. Paralelo a isso, com as novas técnicas de comunicação e circulação (rádio, telefone, cinema, automóvel, avião etc.) os tradicionais processos de pesquisas, sistematizações e divulgação dos dados ficaram obsoletos em relação aos interesses e necessidades, tanto dos Estados como do conjunto social.

O rádio e o cinema, por exemplo, podiam apresentar informações dos diversos

lugares do mundo atualizadas cotidianamente e com imagens consideradas reais dos

lugares, de maneira mais prazerosa e dinâmica que os textos científicos e didáticos. A forma e a velocidade que os veículos comunicativos apresentavam a diversidade do mundo interferiram nas formas de percepção com que os homens liam e valorizavam o mundo e os lugares.

A conseqüência disso para o discurso científico da Geografia foi um distanciamento

cada vez maior entre as pesquisas e estudos sobre os aspectos culturais e o conjunto de informações que os Estados imperialistas então cobravam da ciência. As disputas imperialistas por domínios territoriais levaram a duas guerras de caráter mundial, assim como os conflitos sociais desembocaram nos projetos de libertação da classe trabalhadora amalgamados com a autonomia de Estados que se assumiram como Socialistas. Durante a chamada “Guerra Fria” os confrontos imperialistas por domínios territoriais se polarizaram em dois blocos de nações, sendo que os elementos culturais atendiam aos parâmetros dessa disputa. No interior do bloco capitalista o que se colocava era a disputa de uma cultura popular de caráter nacional contra uma cultura dominante de aspecto imperialista internacional. Já nos países do bloco socialista, a questão que se colocava era a criação de uma cultura internacional da classe trabalhadora orquestrada pelo Estado, contudo, esse modelo universal de cultura proletária socialista se conflitava com os elementos das diversas expressões culturais populares no interior de cada “nação”. Nos países da periferia do sistema econômico, com graves problemas sociais, essa disputa geopolítica adquiria um tempero especial em decorrência da adoção do modelo desenvolvimentista capitaneados pelos países centrais, fazendo que o ideal de progresso se travestisse de urbanização acelerada, aumentando ainda mais a disparidade sócio- econômica e ampliando os processos de marginalização e conflitos sociais. Em países como esses, como foi o caso brasileiro, o sentido de cultura estava parametrizado em reforçar o aspecto de atraso cultural das populações rurais, com seus ritmos determinados pelos processos naturais, as grandes distâncias a serem percorridas por veículos e meios de transportes lentos e de baixa tecnologia, assim como a dificuldade que representavam essas camadas populacionais rurais de se inserirem nos mecanismos de consumo e de controle fiscalizatório, tão necessários à reprodução econômica e política

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por parte dos Estados que ansiavam serem “desenvolvidos”.

Para reforçar o sentido de identidade territorial a partir da aceitação às regras institucionais e econômicas da ordem capitalista, era necessário concentrar essa população no meio urbano, fazendo com que ela assumisse os valores culturais dessa sociedade mais tecnicista, dinâmica, padronizadora e fiscalizadora. Daí o rápido processo de urbanização que permeou a reordenação espacial da maioria dos países periféricos do sistema econômico, o que levou a fortes conflitos culturais entre gerações e camadas sociais. Os hábitos, leituras e inserção espacial de uma geração nascida no mundo rural são totalmente diferentes de outra geração nascida na espacialidade urbana. O mundo urbano não apresenta horizontes visuais amplos e o processo de localização e orientação se dá através da lógica dos nomes das ruas e números das casas, bem ao contrário do meio rural.

A própria compactação das moradias e especialização territorial leva os quintais

das casas, quando existirem, não serem para complementar a alimentação, mas apenas lazer, isso contribui com os conflitos de valores entre as gerações, agudizadas com os elementos de consumo e estética de produtos urbanos como roupas, músicas, hábitos

alimentares e de entretenimento.

O pai de origem rural achava natural criar galinhas no quintal, já o filho nascido na

cidade entendia a área do quintal como boa para colocar uma piscina ou construir uma série de apartamentos pequenos e alugá-los. Esse pai aprecia músicas cujas letras fazem referências ao mundo rural, já o filho prefere sons mais urbanos e elétricos, que falam de sexo, automóvel e velocidade. Exemplos como estes expressam a maneira que os elementos fundamentais da lógica determinante do arranjo espacial das novas forças capitalistas durante a guerra- fria interferiram no cotidiano de gerações e grupos humanos, o que levou a toda uma mudança de leitura e identificação do cultural como fator congregador das identidades e das leituras sócio-espaciais de então. Quem não se integrava a essa nova lógica urbana e cultural ficava marginalizado ou era eliminado Diante desse mundo urbano, em que os inovadores elementos comunicativos e circulatórios definiam novos padrões culturais, o tradicional discurso cultural da geografia, que buscava identidades entre as populações no interior de fronteiras mais claramente delimitadas, tão facilmente identificáveis num meio espacial hegemonicamente dominado pela lógica do mundo rural, tornava-se cada vez mais distante das condições sócio-espaciais

então colocadas pela realidade e velocidade do universo tecno-industrial. Enquanto a Antropologia, a Sociologia, a História, a Filosofia e outras ciências e ramos do saber estavam buscando novas ferramentas teóricas e conceituais para entenderem as transformações que estavam ocorrendo no universo cultural, e as novas características deste a influenciar posturas, comportamentos, idéias e valores sociais, como foi o caso da introdução dos termos “Indústria Cultural”, “Comunicação e Cultura

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de Massa”, “Aldeia Global”, “Mass Mídia” etc., a Geografia se distanciou dessas abordagens, praticamente descartando os fatores culturais de seus estudos e abordagens 1 . Com os processos de urbanização e mobilidade cada vez mais dinâmicos e diversificados a gerarem uma maior complexidade das relações sócio-espaciais, subvertendo fronteiras anteriormente mais facilmente identificáveis, além da maior integração de informações por meio da televisão e outros veículos comunicativos, a caracterização cultural como unidade de um agrupamento humano com seu território a partir de elementos singulares e únicos, inerentes a uma determinada região, ficou mais difícil.

Após a crise dos países do bloco socialista e o fim da “Guerra Fria”, a globalização dos mecanismos de competitividade e de acumulação capitalista sobre bases pautadas na

integração comunicacional das redes computacionais, na flexibilização dos meios produtivos

e no rearranjo da divisão territorial e social do trabalho, tornou-se necessário ao Estado- nação se readequar às novas funções perante a ordem financeira internacional. A partir de toda uma redefinição da ordem espacial da lógica capitalista, a cultura passou de um fator pautado nos utensílios e hábitos locais, fundamentando o aspecto mais ideológico de identidade sócio-territorial, para um elemento central na lógica de reprodução econômica e simbólica do mercado atual em suas diferentes escalas espaciais de realização. Com os processos de uniformização de produção e consumo em nível mundial, assim como, ao mesmo tempo, a fragmentação e diversificação dos fatores que envolvem

a marginalização social e a sobrevivência humana, o sentido de identidade territorial se

transformou numa interação de elementos simbólicos cujo significado não se restringe só ao local ou a determinada classe social. Um jovem adolescente morador da periferia marginalizada de uma cidade média, como Dourados (MS), veste-se com roupas semelhantes ao seu ídolo raper norte- americano, adquirindo medalhões com dizeres em inglês, fabricados na China e comprados no “camelódromo”, ao mesmo tempo que torce para o Corinthians com seu “craque” argentino Teves, acompanha o drama da personagem virginal da novela da Globo e acessa

a Internet para baixar as imagens em que ela aparece nua juntamente com a atriz espanhola

Penélope Cruz. Aos fins de semana vai com os amigos comer pizza com guaraná no Habib’s enquanto reclama do péssimo gosto musical dos pais, que gostam do disco latino do Chitãozinho e Xororó, e almeja “ficar” com a vizinha de frente de seu barraco, principalmente depois que ela tingiu o cabelo de loiro para ficar parecida com a Cristina

1 Um exemplo clássico desse distanciamento é encontrado em referência a obra do geógrafo Eric Dardel, que nos anos 50 e 60 do século XX desenvolveu vários estudos sobre a redefinição do sentido de cultura na abordagem geográfica, mas ficou praticamente ignorado, só sendo resgatado anos depois em países como Canadá e, no caso brasileiro, só veio a ser estudado mais efetivamente a partir da década de 90. Os motivos para essa recusa em focar os estudos culturais no período são vários, e pensadores como Claval, Cosgrove, Correa tecem esclarecimentos a respeito, vide bibliografia.

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Aguilera. Esses hábitos, utensílios e valores hoje são comuns a boa parte dos jovens moradores da maioria das cidades do mundo. As diferenças se restringem, enquanto classe social, mais ao aspecto de poder econômico para consumir produtos mais sofisticados, e enquanto diferenças regionais, a aspectos peculiares que não chegam a comprometer o padrão geral, muitas vezes se interagem com esse referencial cosmopolita, dando ao mesmo um tempero especial, como é o caso de fazer fast food de comida baiana, ou ouvir “forró universitário” nas festas de São João na Paraíba. Perante isso, a lógica das identidades culturais não fica tão somente circunscrita

aos parâmetros territoriais fixos, delimitados por fronteiras rígidas. O espaço em que se expressava determinada unidade cultural não é mais um palco com sua paisagem secularmente consolidada.

A lógica da manifestação cultural atualmente está intrinsecamente relacionada

com a interdinâmica escalar do espaço, entre o local e o mundial.

A cultura hoje é mais do que utensílios e práticas temporalmente consolidadas, ela

é também relações de valorização subjetivas de identidade e significação que se manifestam objetivamente ou simbolicamente no espaço, tanto na concretude dos territórios

quanto no imaginário social de cada indivíduo. Diante disso, não cabe mais um termo como Geografia Cultural em si, cuja idéia refere-se a uma prática de estudos regionais passíveis de delimitação física e sob uma herança histórica que funciona como um peso a cristalizar a paisagem quase que imutável dos locais. Hoje, cobra-se do estudo geográfico dos fenômenos culturais um enfoque da

dinâmica espacial da sociedade em interação íntima com os aspectos individuais e coletivos no estabelecimento de significação social, tanto em seus determinantes econômicos quanto simbólicos. Diante de todas essas mudanças no sentido econômico e ideológico do papel da cultura no universo capitalista atual, perante a grave crise de identidade e função social que permeou a ciência geográfica a partir dos anos 70, os antigos enfoques geográficos sobre o universo cultural passam a ser resgatados e readaptados às novas condições do mundo, mas como forma de se buscar referenciais condizentes para os estudos científicos deste saber perante as novas condições espaciais então em rápido processo de consolidação.

A questão atual é entender os atuais parâmetros de localização e de orientação, de

pertencer e se identificar com determinado lugar, sendo que esse lugar não é mais passível

de ser tomado isoladamente, pelo contrário, ele é a manifestação do mundo em suas características locais. Ou seja, o que se coloca hoje no estudo geográfico da cultura é de como esta permite o homem se construir enquanto humano no tempo e espaço em que produz territorialmente os sentidos de sua existência.

Rápido histórico da abordagem cultural pela geografia:

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Antes de iniciar esse capítulo, esclarecemos que essa abordagem histórica do

estudo geográfico dos aspectos culturais trilha o caminho de nossas pesquisas; visa melhor fundamentar nossa leitura de Geografia e Cultura, portanto, é mais uma abordagem e não tem pretensões de ser a redentora da questão.

A Geografia, enquanto discurso científico institucionalizado, é um corte e uma

delimitação de todo o saber geográfico presente ao longo da história da evolução humana. É um corte para atender determinadas necessidades que ao longo dos séculos XIII e

notadamente XIX se tornaram cruciais para a lógica da perpetuação da sociedade industrial

e capitalista européia.

É no interior dessas necessidades, esboçadas em capítulo anterior, que surge a

denominação Geografia Cultural, cuja origem se encontra na própria gênese da Geografia

moderna. Foi Friedrich Ratzel, em 1880, após sua viagem de estudos aos EUA, que emprega

pela primeira vez o nome Geografia Cultural. Seu trabalho A Geografia Cultural dos Estados Unidos da América do Norte com a Ênfase Especialmente Voltada para as suas Condições Econômicas é um marco, tanto no desenvolvimento de suas idéias posteriores, as quais desembocarão no sentido mais amplo de Antropogeografia, quanto para a Geografia como um todo, pois demarca como o conhecimento geográfico não pode descartar os elementos culturais, assim como as interações entre estes e com os demais aspectos da realidade humana (econômico, político etc.), no processo de entendimento dos diferentes arranjos paisagísticos produzidos.

A abordagem geográfica de Ratzel visava levantar as características das relações

de determinado meio com o homem que ali habitava, sendo que esse entendimento se dava a partir dos utensílios e práticas empregadas no processo de produção de subsistência do coletivo, como ficava evidente ao se observar as diversas regiões, em grande parte fortemente rurais, isoladas e milenarmente consolidadas, que compunham as várias nações européias do século XIX. Fazendo uso de uma frase retirada de sua Antropogeografia, selecionada por Paul Claval em seu livro sobre Geografia Cultural, temos a confirmação do sentido do estudo

geográfico da cultura por parte de Ratzel.

“A extensão geográfica ampla, uniforme e pouco contrastada por razões culturais, configura o primeiro objeto da antropogeografia, que pode explicar muito claramente esta extensão sobre a base de relações simples (que

estabelecem com o meio ambiente)”.(1999, p. 22).

Com o aumento da dinâmica comunicativa e de circulação de pessoas, mercadorias

e informações, tanto na Europa quanto no restante do mundo a partir do século XX, os

estudos culturais, por parte da Geografia, com seus enfoques pautados em regiões de forte tradição rural, quase que isoladas, foram sendo solapados, gerando a necessidade

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de se redimensionar as análises geográficas perante as novas necessidades então em voga.

Essas mudanças vão gerar estudos mais pragmáticos com forte uso da cartografia

e matemática, como ocorreu nos EUA através da famosa escola de Chicago. Em reação

a essas abordagens consideradas tecnicistas, que praticamente eliminava o agente humano

como construtor ou valorizador das paisagens, surge Carl Sauer, que em 1925 escreve A Morfologia da Paisagem, fundando assim a chamada Geografia Cultural Norte- Americana, ou escola de Berkeley. Sauer desenvolveu toda uma metodologia que permitiu à Geografia Humana ter respaldo frente ao considerado maior rigor dos estudos pragmáticos e sistêmicos da escola de Chicago. O grande avanço de Sauer foi apontar os aspectos subjetivos, já presentes em alguns estudos geográficos anteriores, como inerentes às abordagens estéticas que muito contribuiriam ao estudo científico da Geografia.

A melhor geografia jamais deixou de levar em conta as qualidades estéticas da paisagem, para qual não conhecemos outra abordagem a não ser a subjetiva. A ‘fisionomia’ de Humboldt, a ‘alma’ de Banse, o ‘ritmo’ de Volz, a ‘harmonia’ da paisagem de Grandnann, todas estão além da ciência”.(SAUER. 1998, p. 61).

Contudo, dentro da tradição ratzeliana, seu foco de análise cultural se restringiu aos elementos paisagísticos da superfície da Terra passíveis de serem empiricamente catalogados e descritos. Nessa busca de um entendimento de interação homem/natureza, as condições de análise a partir dos aspectos observáveis pela sensibilidade humana acabaram por restringir os estudos a localidades cujo peso de uma tradição histórica encontrava-se latente, portanto, atendiam mais a uma abordagem estanque das relações culturais e sociais, deixando de lado os elementos simbólicos mais dinâmicos e flexíveis. No entanto, independente disso, os estudos de Sauer são demarcadores de uma outra possibilidade para os enfoques científicos acadêmicos do discurso geográfico, mas acabaram, com o advir da Segunda Guerra, da Guerra Fria e da disputa geopolítica pela consolidação ideológica e econômica do capitalismo frente aos países do socialismo real, sendo eclipsados pela necessidade de abordagens mais voltadas ao planejamento, ao controle técnico e pragmatista do território. Em decorrência das transformações sócio-econômicas após a Segunda Guerra, os graves conflitos ideológicos levaram ao surgimento de um discurso mais dicotomizado politicamente nas ciências humanas, levando a Geografia buscar, de um lado, nos parâmetros tecnicistas e sistêmicos, abordagens mais pragmáticas e técnicas de estudos do território, e por outro, nos referenciais marxistas os parâmetros teóricos que viabilizassem suas análises sociais. Ambas as posturas contribuíram para um desvio do enfoque geográfico em direção

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à economização do espaço, tanto por visar a eficiência do controle e planejamento das

potencialidades do território, quanto pela fundamentação lógica para a explicação das matizes e injustiças sócio-espaciais. Isso engendrou um afastamento dos estudos culturais, que foram tomados como acessórios inúteis, por um lado, ou ideológicos, por outro. Mas já nos anos 50 do século XX, Eric Dardel publica O Homem e a Terra, Natureza da Realidade Geográfica, obra que fica praticamente desconhecida na França, ressurgindo só algumas décadas depois e abre espaço para novas abordagens de estudos geográficos sobre os elementos culturais da sociedade moderna. Grandemente influenciado pelas idéias de Heidegger, assim como se definindo por uma abordagem mais fenomenológica, a perspectiva de estudos culturais pela geografia de Dardel não encontrou condições propícias, na época de sua elaboração, no meio acadêmico francês, de forte presença dos referenciais marxistas, e norte-americano, com seu peso maior nas abordagens neo-positivistas. Essas abordagens e tendências geográficas eram, de maneira geral, as hegemônicas nos mais diversos países da época (anos 50, 60 e início dos 70), só vindo a se ampliar o leque de outras abordagens teóricas com o desgaste político e conceitual dessas matrizes teórico-metodológicas, fruto do próprio desenvolvimento da sociedade e das relações capitalistas que, paralelo a introdução dos novos meios de comunicação e informação, permitiram que os fatores culturais ascendessem de importância, tanto no mercado globalizado quanto nos processos de busca de sentido e de leitura do mundo. Ao longo dos anos 80 as atuais condições sócio-espaciais começam a se consolidar, diante desse processo o pensamento dos geógrafos que abordaram a questão cultural, como foi o caso de Dardel, passa a ser resgatado. No caso desse, seus estudos a partir de elementos mais subjetivos e micro-analíticos permitiram abrir à chamada Geografia Cultural outras perspectivas de leitura e estudos do espaço segundo os condicionantes mais próximos do cotidiano existencial humano. A partir daí, notadamente no decorrer dos anos 90, a Geografia mergulha nas análises das experiências individuais ou de agrupamentos humanos, tomando o vivido e suas representações como marcos de identificação geográfica dos lugares. Paulatinamente, portanto, os estudos geográficos do universo cultural deixam de

ser restritos a uma definição de identidades regionais estanques e de razoável delimitação

a partir das características dos objetos, utensílios e hábitos produzidos em áreas quase que isoladas uma das outras, passando a ser mais de entendimento da construção de identidades, de sentido de localização e orientação em meio a um mundo fragmentado, caótico, dinâmico, multi-escalar e polissensorial. É isso que identificamos, por exemplo, nas obras de novos geógrafos que abordam essa questão, como é o caso de Denis Cosgrove, que parte de uma leitura do espaço geográfico como elemento inerente às condições diversas de vida de cada indivíduo, não reduzindo-o ao meramente empírico e catalogável,

FERRAZ, C. B. O

O ESTUDO GEOGRÁFICO DOS ELEMENTOS CULTURAIS

enquanto “

empíricos e nossas interpretações da motivação humana resolutamente utilitárias, negamos a nós mesmos uma linguagem para moldar as próprias

da

geografia estão as paixões inconvenientes, às vezes assustadoramente

poderosas, motivadoras da ação humana, entre elas as morais, patrióticas, religiosas, sexuais e políticas. Todos sabemos quão profundamente estas motivações influenciam nosso próprio comportamento diário, quanto elas

1998, p.

metas que procuramos: a formação de um mundo melhor

nossos objetos de pesquisa continuarem exclusivamente

Banidas

informam nossas respostas a lugares e cenas 95 e 96).

”.(COSGROVE.

Abordagens como esta de Cosgrove representam um grande avanço para as análises geográficas frente à complexidade do mundo atual, contudo, deve-se ter claro que se essas mudanças ficarem restritas a um novo referencial teórico-metodológico, ou

a um novo tema que pode ser incorporado aos estudos geográficos, os velhos vícios do discurso científico de uma geografia carente de poder e a serviço meramente da verborragia acadêmica não serão superados.

O problema é que muito do que se coloca como novidade da chamada Geografia

Cultural atual se deu a partir dos referenciais tradicionais de concepção de se fazer ciência, apenas com nova roupagem teórica e metodológica. Isso fez com que os novos processos e características sociais fossem formatados pelos novos parâmetros teóricos a partir de tradicionais modelos e vícios de entendimento de como se produzir um estudo científico. Especializam-se os estudos via fracionamento intelectual da realidade. Elege-se competências para se abordar cada especificidade e usam-se dos fenômenos estudados como veículos para comprovar a pertinência do modelo teórico-metodológico empregado. A possibilidade dos estudos dialogarem com os sujeitos humanos na direção de melhor orientação, localização e leitura do mundo para subsidiar práticas e ações, por mais banais que estas sejam, acaba assim limitada a uma conseqüência secundária dos estudos científicos dos processos culturais. Os estudos geográficos dos fenômenos culturais atuais só terão sentido para a

melhor compreensão do ser humano enquanto ser cultural se forem voltados à vida dos mesmos, viabilizando um entendimento mais esclarecido enquanto práticas cotidianas dos indivíduos em sociedade, portanto, deve-se pensar em outros parâmetros de se fazer ciência para além dos modismos acadêmicos.

Alguns temas necessários a serem aprofundados pela geografia:

O estudo geográfico dos fenômenos e elementos culturais cobra do discurso científico

da geografia uma abertura para temas e aspectos da realidade que a abordagem institucionalizada desse saber insistiu e insiste em não considerar como pertinentes ao olhar do geógrafo.

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Não importando qual a corrente teórico-metodológica a que o geógrafo vincula seu trabalho, majoritariamente as abordagens geográficas se enclausuraram no interior de um estatuto de concepção de ciência que se pauta nos modelos das ciências naturais, físico-matemáticas do século XIX. São referenciais que concebem como única forma de se produzir conhecimento científico aquela que encontra uma verdade definitiva capaz de padronizar a diversidade do real. Esta forma de entendimento não percebe que entre a concretude de um dado fenômeno no real e a maneira como o representa ou o identifica por meio do emprego rigoroso das palavras há uma profunda diferença e distanciamento re-criativo permeado pelas experiências intelectuais humanas. Esses referenciais não se abrem para as novas condições em que os seres humanos estão produzindo e vivenciando sua espacialidade, pois insistem na perspectiva de um racionalismo fechado em que só existe a não-contradição de uma ordem linear; quando muito, entendem essa não contradição apenas como um jogo de palavras que reforçam a coerência lógica do discurso final elaborado. Não percebem que após a Teoria da Relatividade, do surgimento da Física Quântica, da Geometria Não-Euclidiana de Lobatchevski, da Álgebra de Boole, da nova Termodinâmica e do DNA, os tradicionais modelos rígidos e definidores de uma realidade objetiva e plenamente mensurável, sem improvisações ou fatores aleatórios, que as antigas ciências naturais defendiam, começaram a ser reavaliados em prol de novas formas de entendimento da racionalidade e da objetividade científica. Logicamente que isso não significa que foram eliminados, mas que não podem mais serem tomados como únicos e absolutos em si. Atualmente a Matemática, a Física, a Química e a Biologia, entre outras, tendem a incorporar os aspectos simbólicos e culturais humanos nos seus referenciais de leituras da realidade, mas isso não significa que estes saberes perderam o necessário rigor das análises, simplesmente abriram-se para outros horizontes humanos da realidade. O princípio da não-contradição não se aplica mais em sua inteireza, assim como a idéia de verdade passou a depender também dos elementos simbólicos e imagéticos que a cultura humana produz como referencial pertinente a dar sentido a determinado aspecto da realidade, não se confundindo mais com os fatos que envolvem a realidade objetiva independente da presença humana. Diante disso, a Geografia precisa se abrir para esses enfoques temáticos, possibilitando uma efetiva contribuição de sua análise para as novas necessidades sociais, ao invés de ficar negando, em nome de uma idéia de ciência que, cada vez mais, se distancia das condições em que a vida humana está se dando. A seguir apresentamos alguns temas que podem ser abordados de forma mais constante pela Geografia a partir do enfoque dos elementos culturais. Esses temas não esgotam o universo de possibilidades, mas apontam para novas perspectivas que a Geografia tem condições de contribuir, desde que supere seus vícios academizantes,

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redimensionando o sentido epistemológico-ontológico do seu fazer ciência, ampliando a própria concepção de ciência para além das armadilhas metafísicas que secularmente a aprisionou.

A)REDEFINIÇÃO DO SENTIDO DE CIÊNCIA:

Desde o século XIX, vários pensadores já apontam para os limites do pensamento científico em sua crença dogmática de desvendar a verdade do universo e dizer para onde que a sociedade humana deve caminhar. Nietzsche, Dilthey, Husserl, Bachelard, Lefebvre, entre tantos outros, das mais diversas formações e opções teóricas e políticas, contribuíram para que o conhecimento científico assuma uma polissemia de sentido e uma atitude mais próxima do viver humano, superando seu vínculo com a exclusividade das necessidades meramente abstratizantes da metafísica em que fundamenta a suposta coerência lógica de seu discurso. As chamadas ciências humanas (sociais para uns, do espírito, para outros), no interior dessa reavalização estatutária, passam a ser o foco das principais análises e críticas, cobrando-se delas uma atitude mais coerente com seus objetos de estudos, de forma que percebam a singularidade de seus referenciais epistêmico-teóricos, tanto a partir de sua base ontológica quanto de sua finalidade social. A Geografia, enquanto corpo teórico de análise dos processos espaciais da sociedade, deve buscar uma elaboração discursiva que seja coerente com sua finalidade social, ao invés de insistir em compartimentações e especializações cientificistas que apenas a distanciam de seu propósito em nome dos supostos interesses do Estado. Ao invés de priorizar a concorrência com profissionais de outras áreas, disputando um mercado de competências meramente técnicas, com especializações tipo geografia humana, geografia física, geografia urbana, geografia rural, geografia cultural etc., o geógrafo deveria se aprofundar na organização de sua linguagem visando elaborar meios mais eficientes de interpretação dos diversos processos espaciais que envolvem a produção de sentidos da vivência humana 2 .

B)LINGUAGEM E IDENTIDADE:

“Os materiais de uma ideologia são a linguagem e seus recortes práticos, denominados ‘discursos’”(SODRÉ. 2004, p.22). A linguagem é uma forma simbólica de comunicação e interação, reflete as condições sociais em que as pessoas vivem, mas pode também “criar” padrões de entendimento do real.

2 A busca por processos mais criativos sofre grave resistência por parte da academia, basta ver que até os meios de divulgação e apresentação das reflexões científicas passam por um processo de padronização e delimitação que visa inibir a criatividade, a produção de pensamentos mais originais e as formas de apresentá- los. A justificativa para tal é uma suposta idéia de qualidade padronizante de cunho competitivo internacional.

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É através da linguagem socialmente elaborada que a produção de sentido territorial

se faz presente no imaginário, na política e nas condições concretas de vida de cada indivíduo em determinado grupo social. Por meio da linguagem, a qual nunca é estanque

e sim constantemente construída, que cada ser humano elabora seus referenciais de

localização, orientação e produção de sentido sócio-espacial, ou seja, organiza os

significados e significantes de identidade entre o corpo humano individual, o corpo social

e o território em que os seres humanos materializam física e simbolicamente a vida:

“utilizamo-nos da língua e de outros sistemas de significação socialmente construídos para elaborar os significados, as representações que dão sentido

à nossa existência. É na linguagem que se constroem as culturas humanas,

ou seja, que se constroem as narrativas e os discursos que orientam nossas

ações”(FERREIRA & ORRICO. 2002, pg. 8).

Jô Gondar, em seu artigo Linguagem e Construção de Identidades, o qual faz parte do mesmo livro organizado por Ferreira e Orrico, aponta a importância da questão da linguagem para o sentido de identidades territoriais, abrindo todo um universo para os

estudos dos elementos culturais à Geografia:

“A própria definição de língua

geopolíticos, tais como a consolidação de um determinado território Existem

determinados climas geopolíticos que favorecem construção de algumas identidades: no século XIX, por exemplo, um clima favorável aos nacionalismos; nesta passagem de século, um clima favorável a uma globalização excludente, mas que também da lugar a identidades que resistem

poderia ser separada de fatores

não

a esse projeto homogeneizador”(2002, pg. 114-115).

C)URBANIDADE, JUVENTUDE E ESCOLA:

“É no mundo dos jovens urbanos que se fazem visíveis algumas das mudanças mais profundas e desconcertantes de nossas sociedades contemporâneas: os pais já não constituem o padrão dos comportamentos,

a escola não é o único lugar legitimado do saber e tampouco o livro é o eixo que articula a cultura”(MARTIN-BARBERO. 2004, p.66).

A juventude, por meio de experiências imagéticas exercitadas pela televisão e outras mídias eletrônicas, melhor se adequou à lógica das imagens, assim como desenvolveu certa facilidade para com os padrões binário-dedutivos da maioria dos jogos eletrônicos, provocando o desenvolvimento de sensibilidades que resistem aos referenciais da cultura letrada, rejeitando os domínios territoriais tradicionais nos quais imperam a linguagem pautada na ordenação das palavras. Daí a produção de novas comunidades territorialmente marginais e complementares

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ao espaço dominante, as quais estão majoritariamente localizadas no espaço da vida urbana, e se pautam em processos comunicativos fincados numa simbologia imagética presente no vestuário, gírias, músicas e ídolos passageiros.

Michel Maffesoli (1988) melhor caracteriza essas novas formas de busca de identidades territoriais através do conceito de “tribos”, enxergando nessas tribos urbanas

o declínio do sentido de sujeito histórico enquanto indivíduo humano nas sociedades de massa, o que gera uma busca entre os membros desses pequenos agrupamentos sociais

e etários por identidades existenciais pautadas em outros sentidos e vivências espaciais.

A volatização é marca desse tempo de rápida combustão. A escola e a família,

entre outras instituições, não conseguem se posicionar claramente frente a estas novas espacialidades e mobilidades, pois se enraízam em um espaço de duração e ritmo mais constante, pautado numa cultura de referência à linguagem tradicional, da palavra escrita, das tecnologias analógicas. Para superar isso, as instituições que visam a preparação dos

indivíduos para a vida social, como é o caso da escola, devem:

interagir com os campos de experiência nos quais se processam hoje as

mudanças: hibridações da ciência com a arte, das literaturas escritas e

audiovisuais

experimentações estéticas”(Ibidem, p. 67).

intercâmbio e disponibilização de projetos, pesquisas e

o

A Geografia, por trabalhar com os processos de interação de escalas entre o local

e o universal, de maneira a propiciar parâmetros de localização e orientação espacial,

desde que estas não fiquem restritas aos elementos matemáticos cartografáveis, pode auxiliar nesse diálogo e “intercâmbio” entre os processos lógicos da análise científica e as “experimetações estéticas”, ou seja, entre aquilo que podemos interpretar dos novos comportamentos sociais e os gostos que cada grupo ou “tribo” desenvolve como referência

e identidade sócio-territorial.

C)ECONOMIA, LUGAR E ESTÉTICA:

o “

do tempo

que podem ser atribuídos à localização e a localidades, e que a idéia de ‘cultura’ está cada vez mais entrelaçada com as tentativas de reafirmar tais poderes monopólicos, exatamente porque alegações de singularidade e autenticidade podem ser mais bem articuladas como afirmações culturais distintas”(HARVEY. 2004, p. 148 e 149).

lutas contínuas sobre a definição dos poderes monopólicos

espaço econômico de competição mudou de forma e escala no decorrer

A renda de monopólio baliza outras formas de acúmulo de capital que não só a

exploração do trabalho explica. No capitalismo atual, altamente competitivo, com o jogo

internacional do mercado e o enfraquecimento das tradicionais fronteiras e barreiras nacionais, uma maneira de propiciar a renda de monopólio é usando dos bens culturais

Terra Livre - n. 29 (2): 29-50, 2007

únicos como forma de impor um valor monopólico aos seus produtos. É o caso dos quadros de pintores famosos, das cervejas e vinhos de determinadas regiões.

O gosto estético pelo único é fruto de toda uma construção histórica e midiática,

viabilizando que grandes investimentos sejam feitos em determinadas porções do território

e produtos, mesmo que as práticas destas e seus meios sejam contestadores à lógica do

sistema global, mas se a singularidade produzir lucros, sejam estes advindos do turismo, da música, do cinema etc., vale o risco de investimento. Eis a nova face da dialética “espaço-lugar”, aquela que se explica pelo capital simbólico coletivo produzido em determinados locais. Por exemplo, caso uma região que busca sua autonomia política e identidade própria possua terras e clima propícios a produzir um bom vinho; toda essa simbologia de autonomia, orgulho regional e sentido de liberdade pode ser utilizada pelo grande capital como fundamento lógico para se investir nessa região, mesmo correndo o risco de convulsões sociais. O interesse visa uma mercadoria carregada dessas significações culturais que servirão como uma espécie de valor agregado ao produto final, o que transformará esse vinho em algo único, portanto, passível de renda de monopólio. Melhor entender como os elementos simbólicos e estéticos dos produtos culturais,

a partir das características locais e em acordo com a lógica acumulativa e da divisão internacional do trabalho, acabam contribuindo para os processos de reprodução do capital no interior das atuais condições de competitividade e exploração, é uma frente desafiadora para as interpretações geográficas e de crucial importância à leitura da lógica espacial da sociedade contemporânea.

D) O CORPO INDIVUDUAL E O SOCIAL

O corpo humano é uma organização físico-biológica, contudo, só pode ser entendido

como humano quando encarna elementos subjetivos, emocionais e intelectuais, que muitos chamam fatores espirituais, outros psicológicos e, de forma geral, entendemos como

culturais, ou seja, aqueles aspectos que dão sentido peculiar ao espaço corpóreo de cada ser humano. Outro aspecto a destacar é que esse sentido espacial único do corpo humano só toma significado graças a sua interação constante com o corpo social do meio em que vive. Esse é um meio também físico, mas por ser fruto das relações humanas, está carregado de significados, simbologias e experiências que só o ser humano consegue dar sentido, portanto, é um espaço corporal também cultural que, na relação com cada corpo individual, estabelece as condições mais amplas do que é a humanidade.

O estudo dessas interações corporais (individual e coletiva, física e cultural), passou

a ser fonte de estudos de áreas do saber humano como a Antropologia, a História, a

Sociologia, a Psicologia e da Filosofia, que desenvolveram uma série de ferramentas conceituais como os de “fato social total” e “técnicas corporais” 3 , que visam melhor

FERRAZ, C. B. O

O ESTUDO GEOGRÁFICO DOS ELEMENTOS CULTURAIS

entender como os corpos individuais desenvolvem determinadas habilidades motoras,

intelectuais, emocionais e perceptivas a partir das condições sócio-espaciais produzidas. Outro conceito importante para entender o sentido mais amplo do corpo, tanto individual quanto coletivo, advém do pensamento de Glifford Geertz, o qual introduziu o sentido mais simbólico da relação espacial que cada corpo em particular elabora a partir do contexto cultural em que se encontra, ou seja, cada ser humano produz significados e sentidos para seus gestos e percepções pessoais a partir das interações e experiências simbolicamente elaboradas e interpretadas no meio cultural em que se encontra, portanto, no interior de determinada interação espacial. Além desses, pensadores como Maurice Merleau-Ponty alargaram a discussão dos aspectos mais metafísicos e ontológicos da interação entre corpo e carne como espaços que se complementam e se estranham no complexo jogo de busca de significados existenciais, tanto para os indivíduos quanto para o conjunto social.

A geografia, por conseguinte, pode muito contribuir para melhor entender essa

dinâmica espacial entre o corpo de cada ser humano com o corpo social, de maneira a produzir leituras mais ricas para estabelecimento de significados frente aos sentidos espaciais que cada homem experimenta com seu próprio corpo.

E)PALAVRA E IMAGEM:

O mundo hoje está fortemente pautado na imagem como veículo comunicativo e

representacional. A imagem, principalmente após as novas técnicas e tecnologias de

capitação e reprodução, permite que a percepção humana das formas do real não precise tanto de ser complementada pelas experiências imagéticas que cada indivíduo traz consigo, o que ocorria com as narrativas e descrições pautadas no universo da palavra. Ao mesmo tempo, isso gerou toda uma nova forma de percepção e de estética de apreciação dos objetos e produções humanas. Torna-se extremamente necessário, portanto, desenvolver metodologias e ferramentas que aprimorem a leitura das imagens por meio de palavras, de maneira a enriquecer o vocabulário e permitir que as imagens não fiquem circunscritas ao nível meramente contemplativo.

A geografia, por estudar a paisagem, parte das formas imagéticas com que esta se

apresenta para, após projetar elementos conceituais relacionados ao universo vocabular, produzidos a partir dos meios intelectuais e do imaginário humano, estabelecer condições de melhor entender a lógica espacial com que determinada paisagem se configura. No estudo das imagens várias técnicas foram desenvolvidas, desde a gestalt com sua “pregnância da forma” via a “harmonia/desarmonia”, “equilíbrio/ desequilíbrio”, “contraste”, “luz”, ‘ritmo”, passando pelas várias semióticas, como as de Greimas com seu “plano conteúdo” e “plano extensão”, ou a de Pierce com

3 Esses conceitos foram elaborados por Marcel Mauss, vide bibliografia.

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suas categorias da “primeiridade”, “secundidade” e “terceiridade” e seus signos “icônico” (não figurativo), “indexial” (figurativo) e “simbólico” (codificada), assim como as capacidades representativas, significativas e simbólicas, permitem um exercício do olhar e da leitura das imagens por parte dos geógrafos. Contudo, a melhor e mais rica forma de se dialogar e enriquecer o discurso científico da geografia é trabalhar diretamente com as imagens produzidas, sejam estas as elaboradas pela pintura, pela televisão, fotografia, cinema, jogos virtuais etc., a partir do entendimento estético das mesmas. O aprofundamento na abordagem estética, entendendo esta como forma de interpretar as imagens paralelamente aos processos de apreciação e valorização das mesmas, os quais são edificados socialmente, permitirá que a leitura geográfica use do universo dos referenciais pautados na lógica das palavras, com as quais a estética se instrumentaliza, para interpretar e apreciar a produção imagética. Como vimos, as possibilidades e desafios colocados à Geografia diante da relação palavra/imagem no processo de ampliação de seus referenciais científicos são grandes e altamente estimulantes, mas inerentemente necessários de serem abordados.

Considerações finais:

O que se coloca atualmente à Geografia é a necessidade de se aproximar mais das

áreas que abordam a problemática cultural, tanto as produtoras quanto as que analisam tal esfera, de maneira que uma melhor interpretação da lógica espacial desse universo possa contribuir para um maior entendimento do homem em suas complexas e diversas relações sociais. Com a presença cada vez maior dos aspectos e fatores culturais no interior das relações cotidianas que tendem a naturalizar os elementos de dominação sócio-econômica hegemônicos, os quais parametrizam a lógica macro-estrutural da sociedade em seus parâmetros econômicos, políticos e ideológicos, a congregação de esforços permite buscar por diálogos com outras áreas do saber, assim como contatar os elementos estético-

artísticos, passa a ser fundamental para qualquer ramo científico.

A discussão sobre uma Teoria da Cultura não pode cair nas tradicionais armadilhas

do pensamento científico institucionalizado, aquele que busca um conceito definitivo, universal e absoluto, fruto das competições teóricas em prol de fama, dinheiro e poder acadêmico, mas deve servir como referencial a conjugar esforços intelectuais e estéticos em favor de uma melhor compreensão das condições atuais de existência, de maneira a

contribuir na direção da construção de críticas e respostas mais saudáveis para o ser humano. As críticas atuais feitas ao modelo de ciência que buscava grandes narrativas redentoras da humanidade não podem significar deixar de lado a necessidade que temos de teorias que parametrizem nosso caminhar teórico e político.

FERRAZ, C. B. O

O ESTUDO GEOGRÁFICO DOS ELEMENTOS CULTURAIS

Vive-se atualmente uma complexa relação de caoticidade e fragmentação das estruturas sociais, em que os antigos modelos explicativos e generalizantes deixaram de nos dar a segurança necessária, isso não significa que devemos nos perder em modelos explicativos relativos aos casos particulares em si. O discurso científico deve saber dialogar com os detalhes e compreender seus limites generalizantes, mas deve se assumir como um referencial capaz de contribuir para o melhor entendimento humano; no caso da Geografia, deve elaborar parâmetros que permitam aos homens melhor se orientar e se localizar nesse jogo escalar entre o local e o universal, já que o momento atual parece ser fruto de uma espacialização desintegradora das relações humanas. Nesse aspecto, os elementos culturais, centrais, como aqui tentamos apontar, tanto para a lógica econômica quanto para a produção de identidades sócio-territoriais, devem passar por uma leitura mais adequada e profunda pela perspectiva geográfica, permitindo estabelecer certa unidade de compreensão em meio à diversidade da dialética espaço- lugar.

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FERRAZ, C. B. O

O ESTUDO GEOGRÁFICO DOS ELEMENTOS CULTURAIS

Recebido para publicação dia 12 de Novembro de 2007 Aceito para publicação dia 01 de Fevereiro de 2008

ESTUDOS MIGRATÓRIOS NA MODERNIDADE E NA PÓS-MODERNIDADE:

DO ECONÔMICO AO CULTURAL?*

STUDIES MIGRATÓRIOS NA MODERNIDADE AND THE POST- MODERNIDADE: THE ECONOMIC THE CULTURAL?

ESTUDIOS MIGRATÓRIOS NA MODERNIDAD Y DE LA POSMODERNIDAD: EL ECONÓMICO CULTURAL?

MARCOS LEANDRO MONDARDO

Mestrando em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Grande Dourados; Bolsista CAPES.

Endereço: Rua Itapeva, nº 150, Bairro Pinheirinho – Francisco Beltrão – Paraná CEP 85603-010

Correio Eletrônico:

marcosmondardo@yahoo.com.br

* Agradeço as importantes e atentas leituras e as contribuições de Jones Dari Goettert e Flaviana Gasparotti Nunes, do curso de graduação e pós- graduação em Geografia da Universidade Federal da Grande Dourados.

Resumo: Este artigo tem por objetivo analisar estudos da migração da “modernidade” e da “pós-modernidade”. Na modernidade, os estudos migratórios tenderam a apresentar, no interior de uma racionalidade cientificista, modelos gerais e hegemonicamente com perfil macro-materialista. No contexto pós-moderno, a partir da “crise da modernidade”, aventa-se a possibilidade da incorporação

de novos elementos nas análises dos estudos migratórios, tais como da subjetividade, identidade, da relação eu/outro, da memória e das representações, do duo ausência/presença; sobretudo, apresenta maior ênfase sobre os sujeitos apontando para a hegemonia dos estudos culturais. Contudo, modernidade e pós-modernidade devem ser apreendidos como momentos de um mesmo processo. Nesta dialética, é temeroso desconsiderar o elemento cultural em nome de um “objetivismo” economicista; igualmente, corre-se o risco em recusar os elementos conjunturais e estruturais em prol da centralidade “liberal” do indivíduo. A migração, como “fenômeno social completo” e multifacetado, deve ser analisada através de uma perspectiva teórico-metodológica que incorpore elementos culturais

e econômicos, portanto, uma totalidade que se faz por entre subjetividade, estrutura e conjuntura. Palavras-chave: Migrações; Modernidade; Pós-modernidade; Econômico; Cultural.

Abstract: This article it has for the objectives to examine studies of the migration of “modernity” and “post-modernity”. In modernity, studies migration tended to present, within a rational cientificist, general models and hegemonic with profile macro-materialist. In the post-modern, from the “crisis of modernity”, see the possibility

to incorporate new elements in the analysis of studies migration,

such as of subjectivity, identity, the relations I/other, and the memory

of representations, the duo absence/presence, in particularization,

has increased emphasis on the subject pointing to the hegemony of cultural studies. However, modernity and post-modernity should be seized, as moments of the same process. This dialectic is a fear disregard the cultural element in the name of a “objective” economic; also, it is possible to refuse the cyclical and structural elements in favor of the centrality “liberal” the individual. The migration, as “complete social phenomenon” and multifaceted, must be examined through a theoretical and methodological approach that incorporates elements cultural and economic therefore a whole that is by between subjectivity, structure and conjuncture. Key-words: Migration; Modernity, Post-modernity; Economic, Cultural.

Resumen: Este artículo tiene por objetivo examinar los estudios de la migración de la “modernidad” y “posmodernidad”. En la modernidad, estudios de la migración tiende a presentar, dentro de un racional cientificista, modelos generales y hegemonicamente con

perfil macroeconómico materialista. En el posmoderno, de la “crisis

de la modernidad”, de la crisis de la modernidad, aventa la posibilidad

de incorporar nuevos elementos en el análisis de los estudios de migración como de la subjetividad, la identidad, la relación yo/otros,

y la memoria de las reclamaciones, el dúo ausencia/presencia, en particular, ha aumentado la atención sobre el tema apunta a la

hegemonía de los estudios culturales. Sin embargo, la modernidad

y la posmodernidad debería aprovecharse en momentos de un mismo

proceso. Esta dialéctica es temeroso desprecio cultural elemento en

el nombre de un “objetivismo” económica; también, es posible negarse a los elementos cíclicos y estructurales en favor de la

centralidad “liberales” la persona. La migración, como “fenómeno social total” y multifacética, debe ser examinado a través de un enfoque teórico y metodológico que incorpora elementos culturales

y económicos, por lo tanto, un todo que es por entre la subjetividad,

la estructura y coyuntura.

Palabras clave: Migración; Modernidad; Posmodernidad; Económicos, Culturales.

Terra Livre

Presidente Prudente

Ano 23, v. 2, n. 29

p. 51-74

Ago-Dez/2007

MONDARDO, M.

ESTUDOS MIGRATÓRIOS NA MODERNIDADE E

NA PÓS-MODERNIDADE

Introdução

Foi nestes lugares que vim ao mundo, foi daqui, quando ainda não tinha dois anos, que meus pais, migrantes empurrados pela necessidade, me

levaram para Lisboa, para outros modos de sentir, pensar e viver, como se nascer eu onde nasci tivesse sido conseqüência de um equívoco do acaso, de uma casual distração do destino, que ainda estivesse nas suas mãos

Só eu sabia, sem consciência de que o sabia, que nos legíveis

emendar (

fólios do destino e nos cegos meandros do acaso havia sido escrito que ainda teria de voltar à Azinhaga para acabar de nascer.

)

José Saramago As pequenas memórias

O passado e o presente (e o futuro, porque não?) das sociedades são marcados

pela mobilidade das pessoas. Ontem e hoje, as migrações desafiam pesquisadores em

busca de métodos e teorias para compreender o fenômeno. No interior das análises, historicamente, foram apresentadas inúmeras maneiras de se estudar a mobilidade espacial da população, sendo que muitas análises, nesse processo, se tornaram clássicas e referenciais para o estudo.

A sociedade, contudo sofre constantes mutações. Mudanças contextuais ocorridas

nas últimas décadas, principalmente aquelas vinculadas ao processo de acumulação do modo de produção capitalista, foram marcantes. A transição do sistema de acumulação fordista pelo sistema de acumulação flexível, que se inicia nas décadas de 1970 e 1980, proporcionou “um conturbado período de reestruturação econômica e de ajustamento social e político” (HARVEY, 1994, p. 140), resultando em novas/velhas formas de mobilidade espacial da população. No âmbito dos estudos das migrações, inúmeras transformações ocorreram, resultante da chamada “crise da razão” e/ou do “embate” na ciência da modernidade à pós-modernidade. Nesse sentido, vive-se um período denominado de “pós” em que as incertezas pairam no âmbito das ciências, pela necessidade de romper com esses referenciais para buscar resultados “aceitáveis”, menos dicotômicos e que busquem superar (principalmente no estudo das migrações) a exclusividade do elemento econômico na análise. Assim, aqui se busca analisar, no desenvolvimento histórico dos estudos migratórios,

como as questões da modernidade e da pós-modernidade perpassaram e perpassam o desenrolar das pesquisas. Pretende-se verificar o papel do elemento econômico nas migrações (os quais ergueram as bases para o estudo), até a incorporação de novos elementos na análise, principalmente com a maior ênfase do elemento cultural. Dessa forma, estruturamos nosso texto da seguinte maneira: na primeira parte

Terra Livre - n. 29 (2): 51-74, 2007

buscamos sistematizar alguns dos principais elementos de suporte nas discussões entre modernidade e pós-modernidade; na segunda parte, buscamos analisar os principais troncos teóricos dos estudos da migração – qual a ligação com as questões da modernidade e da pós-modernidade – e quais os novos estudos/elementos incorporados na reflexão sobre a mobilidade espacial. Por fim, apresentamos nossas considerações sobre os estudos das migrações e suas transformações na “crise da modernidade” com a incorporação de novos elementos na análise.

Modernidade e Pós-Modernidade

A Modernidade

Um dos principais atributos da modernidade é a racionalidade (HISSA, 2006, p. 51). A razão é a fonte da ciência moderna. Modelos matemáticos e leis gerais fazem parte, dentre outros elementos, da cientificidade da ciência moderna. Segundo Gomes

(1996, p. 25), “A razão é a fonte de toda generalização, da norma, do direito e da verdade.

A ordem, o equilíbrio, a civilização, o progresso são noções saídas diretamente deste

sistema moderno que se proclama como a única via de acesso a um mundo verdadeiramente humano”. Sousa Santos (2004), concebe a modernidade como um paradigma sócio-cultural que se constitui a partir do século XVI e se consolida entre finais do século XVIII e

meados do século XIX. Segundo o autor, os componentes do modernismo seriam “(

emancipação social que é concebida como o processo histórico da crescente racionalização

da vida social, das instituições, da política e da cultura e do conhecimento com um sentido

e uma direção unilineares precisos, condensados no conceito de progresso” (p. 14). Em sua obra Geografia e Modernidade, Paulo César da Costa Gomes, também,

entende ser a modernidade construída “(

o território da razão, das instituições do saber metódico e normativo; do outro, diversas

‘contracorrentes’, contestando o poder da razão, os modelos e métodos da ciência institucionalizada e o espírito universalizante” (1996, p. 26). A modernidade é considerada como um novo código de valorização que se espraia pelas mais diversas esferas da vida

e que possui uma dinâmica espaço-temporal

muito complexa para ser objeto de uma precisa localização, ainda que uma época moderna seja facilmente identificada” (1996, p. 28). É como parte do espectro deste processo de reconfiguração dos valores sociais, que a ciência ocupa um destacado papel como discurso fundamental do novo código de valores da modernidade. Hissa afirma que a modernidade refere-se ao “tempo das luzes”:

social tomando diferentes formas, “(

sob a forma de um duplo caráter: de um lado,

) a

)

)

toma-se a modernidade como o tempo das luzes: origens ou marcos

pós-medievais; tempo das explorações intercontinentais, da ampliação do conhecimento dos territórios, dos povos e das descobertas; tempo da gênese

) (

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NA PÓS-MODERNIDADE

da ciência moderna e dos Estados modernos; tempo da divisão de tarefas,

da ampliação da produtividade e da produção; tempo histórico da expectativa

do progresso estendido a todos. Para referir-se à ciência, do método, da objetividade da imparcialidade, do rigor, do trabalho científico especializado (HISSA, 2006, p. 62).

Segundo o autor, o moderno é um tempo em constantes transformações, porém,

é também um tempo de crise. Tempo de dúvidas e de encruzilhadas, tempo de espaços

vagos criados, de expectativas e de ansiedades diante da novidade. Tempo do novo,

sempre ostensivo, aparentemente pronto para ocupar espaços vazios. É o tempo que sempre deixa algo prometido e não solucionado para o futuro. Para Haesbaert, a modernidade implanta o novo através do ser moderno:

Se ser moderno é “estar de acordo com sua época”, como o senso comum legitimou, também é, como indica a própria raiz do termo, “estar na moda”, acompanhar o momento. Mas viver o presente ignorando o passado é modismo, é seguir constantemente “na crista da onda” que marca o presente, é não se fixar-se enraizar em objetos e idéias, é mutação/“desterritorialização” permanente, velocidade que não pára, só passa – rede/fluxo que pensa a mudança como simples mobilidade, pois mutação que se dá todo tempo acaba se tornando um mudar por mudar, sem atingir mais do que a superfície dos fatos (HAESBAERT, 2002, p. 57, [grifo do autor]).

Assim, a modernidade impõe o mudar por mudar “sem sentido”, o novo que se torna velho ao piscar de olhos. A alta velocidade nos processos de consumo, de produção, da articulação de idéias, na alta produtividade 1 . Aliado a isso, Gomes (1996) aventa a

hipótese de que a modernidade retém em sua base um duplo caráter fundamental formado pelo par novo/tradicional. Embora sejam noções antigas (novo/tradicional), elas se tornaram um verdadeiro sistema de valores. Para se falar de tradição, por exemplo, há de se referir

são dois sistemas que se opõem,

mas que estruturam uma mesma ordem” (p. 29). Por outro lado, o moderno refere-se ao fortalecimento de instituições e de práticas articuladas envolvendo Estado, capital, sociedade e ciência. Nesta perspectiva, Giddens (2002, p. 221) define a modernidade como “a presente fase de desenvolvimento das instituições modernas, marcada pela radicalização e globalização dos traços básicos da modernidade”. Ainda, segundo o autor:

a um sistema de valores apoiados no “novo”, assim, “(

)

A “modernidade” pode ser entendida como aproximadamente equivalente

1 Segundo Haesbaert (2002, p. 57), “Na ânsia pelo novo e no fascínio por essa velocidade de crescimento avassalador, teríamos desembocado no paradoxo lavouiseiriano defendido hoje pelos pós-modernistas: de tanto acelerar sua mudança, o mundo moderno teria caído no ‘nada se cria, tudo se repete’ (ou se copia, se simula).”

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ao “mundo industrializado” desde que se reconheça que o industrialismo não é sua única dimensão institucional. Ele se refere às relações sociais implicadas no uso generalizado da força material e do maquinário nos processos de reprodução. Como tal, é um dos eixos institucionais da modernidade. Uma segunda dimensão é o capitalismo, sistema de produção

de mercadorias que envolve tanto mercados competitivos de produtos quanto

a mercantilização da força de trabalho (GIDDENS, 2002, p. 21).

Assim, a industrialização, o Estado e a ciência constituem grandes pilares da

modernidade. Ainda, Giddens (1991, p. 173-177) afirma que “uma das conseqüências

fundamentais da modernidade (

ou seja, à experiência de viver num mundo em que presença e ausência

globalizante (

é a globalização”, “a modernidade é inerentemente

)

),

se combinam de maneiras historicamente novas”, entrelaçando-se “concomitantemente”.

2

Bauman (2005), por sua vez, afirma que em nossa época líquido-moderna a mudança obsessiva e compulsiva (chamada de várias maneiras: “modernização”, “progresso”, “aperfeiçoamento”, “desenvolvimento”, “atualização”) é a essência do modo moderno de ser. “Você deixa de ser ‘moderno’ quando pára de ‘modernizar-se’, quando abaixa as mãos e pára de remendar o que você é e o que é o mundo a sua volta” (p. 90).

A Pós-Modernidade

“Desconfia-se da racionalidade” (HISSA, 2006, p. 52). Para Sousa Santos (2004), a partir de 1980 o mundo desenhado pela razão começa a ser questionado e “rejeitado”. Fala-se de “crise da modernidade”, “envelhecimento da modernidade”, “crise da razão” etc. Pode-se dizer que a “crise da modernidade”, em síntese, resulta da inserção dos indivíduos na sociedade de forma desigual; resulta de promessas não cumpridas, advindas do próprio ambiente histórico da modernidade; resulta da crise da sociedade, sendo também decorrente da crise do capital; é função da crise do Estado e da crise política. Assim:

) (

a discussão de novos formatos de produção do saber, de novos métodos e

de posturas alternativas. Discute-se a emergência de novas sensibilidades,

também no âmbito da ciência. Por essa ótica, o debate percorre meandros ainda mais tortuosos e reforça novas polêmicas (HISSA, 2006, p. 64).

a crise da razão – crise da própria ciência – permite e abre espaço para

Segundo Harvey (1994), a pós-modernidade valoriza o pensamento que destaca o caos da vida moderna e a impossibilidade de lidar com ela pela via racional; não sendo possível, assim, por uma metalinguagem, uma metanarrativa ou metateoria revelar uma

2 Giddens (1991, p. 69), afirma que a globalização pode assim “ser definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distancia e vice-versa”.

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NA PÓS-MODERNIDADE

conexão entre os fatos, o que significa a inexistência de uma determinada ordem na vida. De acordo com Hissa (2006, p. 92), “os espaços-tempos pós-modernos sugerem uma demarcação cronológica a iniciar-se na ‘era pós-industrial’, por volta dos anos cinqüenta”. Outro aspecto que Harvey (1994) destaca na pós-modernidade diz respeito ao seu lado psicológico; enquanto a modernidade dedica-se à busca do futuro, a pós-modernidade

concentra-se nas circunstâncias induzidas pela fragmentação e instabilidade características da vida, de modo que impede o planejamento do futuro. Por sua vez, Sousa Santos (2004) afirma que a idéia da pós-modernidade aponta

“(

para a descrição que a modernidade ocidental fez de si mesma e nessa medida pode

ocultar a descrição que dela fizeram os que sofreram a violência com que ela lhes foi imposta. Essa violência matricial teve um nome: o colonialismo” (2004, p. 6-7). Assim, vivemos, de fato, um tempo intelectual complexo que se pode caracterizar desta forma

algo paradoxal: “(

cultura e especificamente a cultura política ocidental é hoje tão

indispensável quanto inadequada para compreender e transformar o mundo” (2004, p. 7).

Assim, a idéia da “(

exaustão da modernidade ocidental facilita a revelação do caráter

invasivo e destrutivo da sua imposição no mundo moderno, uma revelação cara ao pós-

colonialismo” (2004, p. 11). Nesse contexto, o autor entende por “pós-colonialismo”:

)

)

)

) (

nos estudos culturais, mas hoje presentes em todas as ciências sociais, que têm em comum darem primazia teórica e política às relações desiguais entre o Norte e o Sul na explicação ou na compreensão do mundo contemporâneo. Tais relações foram construídas historicamente pelo colonialismo e o fim do colonialismo enquanto relação política não acarretou o fim do colonialismo enquanto relação social, enquanto mentalidade e forma de sociabilidade autoritária e discriminatória. Para esta corrente, é problemático saber até que ponto vivemos em sociedade pós-coloniais. Por outro lado, o caráter construtivo do colonialismo na modernidade ocidental faz com que ele seja importante para compreender, não só as sociedades não ocidentais que foram vítimas do colonialismo, mas também as próprias sociedades ocidentais, sobretudo os padrões de discriminação social que nelas vigoram. A perspectiva pós-colonial parte da idéia de que, a partir das margens ou das periferias, as estruturas de poder e de saber são mais visíveis. Daí o interesse desta perspectiva pela geopolítica do conhecimento, ou seja, por problematizar que produz o conhecimento, em que contexto o produz e para quem o produz (SOUSA SANTOS, 2004, p. 9, [grifo nosso]).

um conjunto de correntes teóricas e analíticas, com forte implantação

Para Hissa (2006), a “crise da modernidade” ou o seu “envelhecimento” se refere:

a pós-modernidade não significa a transição espontânea para um

momento, ou situação, posterior à modernidade, mas para além da modernidade. O pós-moderno sinaliza uma ruptura que se inicia pelo próprio modernismo, indicando um movimento substancial para além ou longe dele.

) (

Terra Livre - n. 29 (2): 51-74, 2007

) (

subversão à ordem e às normas instituídas pela modernidade, e não como passagem espontânea e inevitável (HISSA, 2006, p. 95, [grifo nosso]).

No entanto, a transição se realiza, na esfera do pensamento, como

A pós-modernidade seria, portanto, uma sinalização de ruptura diante da modernidade em crise. Mas é, sobretudo, uma reflexão (tendência de ruptura) que se constrói através da crítica do moderno. Essa crítica pós-moderna da modernidade traz no seu cerne, segundo Sousa Santos, a:

crítica do universalismo e das grandes narrativas sobre a unilinearidade

da história traduzida em conceitos como progresso, desenvolvimento ou modernização que funcionam como totalidades hierárquicas; renúncia a projetos coletivos de transformação social, sendo a emancipação social considerada como um mito sem consistência; celebração, por vezes melancólica, do fim da utopia, do cepticismo na política e da paródia na estética; concepção da crítica como desconstrução; relativismo ou sincretismo cultural; ênfase na fragmentação, nas margens ou periferias, na heterogeneidade e na pluralidade (das diferenças, dos agentes, das subjetividades); epistemologia construtivista, não fundacionalista e anti- essencialista (SOUSA SANTOS, 2004, p. 9-10).

) (

Harvey (1994, p. 275 -276) assinala que, na “condição pós-moderna”, ocorre a compressão do espaço-tempo que enseja uma mudança nos nossos mapas mentais, nossas atitudes e instituições; porém, esta transformação não ocorre na mesma velocidade das transformações empreendidas no espaço pelo vetor técnico científico, de modo que há uma defasagem que pode trazer sérias conseqüências ao nível de decisões dos mais diversos tipos (ordem financeira, militar, etc.). Logo, essa compressão espaço-tempo, na

pós-modernidade, acarretaria em um “novo padrão espacial”, a polarização a nível global (no topo) e a pulverização a nível local, correlato ao novo padrão de acumulação flexível, que traz uma outra maneira de organização espacial. Portanto, os sintomas daquilo que pode ser caracterizado como “crise da modernidade” dizem respeito “à saturação dos grandes mitos da Razão, da Pátria e do Progresso – os grandes valores constitutivos daquilo que ficou conhecido como a Modernidade. É no nível da valorização do cotidiano que são encontrados indícios dessa

saturação (

(HISSA, 2006, p. 105). Sobre a valorização do cotidiano, Certeau, em A

invenção do cotidiano, constrói uma teoria das práticas cotidianas para extrair de seus ruídos as maneiras de fazer que, majoritárias na vida social, não aparecem muitas vezes

senão a título de resistência ou de inércia em relação ao desenvolvimento da produção

sócio-cultural. Assim, “(

os relatos cotidianos contam aquilo que, apesar de tudo, se

pode aí fabricar e fazer. São feituras de espaço” (CERTEAU, 1994, p. 207). Há, portanto, uma crítica à forma da ciência moderna lidar com os elementos do cotidiano. Desta maneira, Gomes (1993, p. 41), afirma que na pós-modernidade “não há

)”

)

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NA PÓS-MODERNIDADE

exatamente novos paradigmas, trata-se muito mais de um processo de renovação em relação às posições fundadoras da modernidade científica”. Em uma perspectiva muito próxima, Sousa Santos reitera que:

A transição pós-moderna é concebida como um trabalho arqueológico de escavação nas ruínas da modernidade ocidental em busca de elementos ou tradições suprimidas ou marginalizadas, representações particularmente incompletas porque menos colonizadas pelo cânone hegemônico da modernidade que nos possam guiar na construção de novos paradigmas de emancipação social. Entre essas representações ou tradições, identifico, no pilar da regulação, o princípio da comunidade, e no pilar da emancipação, a racionalidade estético-expressiva (SOUSA SANTOS, 2004, p. 19).

Portanto, e também segundo Hissa (2006, p. 106), o pós-moderno valorizaria as

sensibilidades cotidianas, o que é local, o que é sensível e, em termos gerais, “a ética da estética”, que foram, em certa medida, negligenciados pelo movimento hegemônico da

ciência na modernidade. Há, portanto, nesse processo, a valorização dos “(

que vivem e constróem o cotidiano dos lugares” (p. 107). Assim, a pós-modernidade

resgataria, também, elementos culturais nas análises científicas.

) habitantes

Modernidade, Pós-Modernidade e o estudo das Migrações

Migrações e Modernidade

Pretendemos, a partir de agora, percorrer elementos da trajetória do estudo das migrações no contexto da modernidade. Como analisamos anteriormente, a modernidade se caracteriza pela racionalidade científica, pelos modelos matemáticos, pela sistematização, pelo desenvolvimento e aplicação de conceitos etc. Nesse sentido, pretendemos compreender esse processo racional da ciência no decorrer dos estudos das migrações, principalmente, verificando como o fator econômico (ou, em certos casos economicista) perpassou as pesquisas e os conceitos elaborados. Por esse motivo, percorreremos sumariamente os grandes troncos teóricos através dos quais a migração foi sendo analisada. 3 Na análise que se segue, procura-se apresentar brevemente três grandes troncos teóricos nos quais pode ser enquadrada a maior parte da produção teórica sobre as migrações no contexto da modernidade. Também a produção empírica pode ser situada quanto aos mesmos, na medida em que faz uso (por vezes não assumido) de concepções sobre a migração, as quais acabam tendo conseqüências quanto à análise.

3 Troncos teóricos foi uma expressão utilizada, dentre outros, por Salim (1992, p. 122), e, posteriormente também utilizada por Póvoa Neto (1997, p. 15), para designar uma classificação de trabalhos existentes segundo suas filiações teóricas e os aspectos da realidade priorizados.

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Pode-se falar, em primeiro lugar, de um conjunto de autores que faz uso de uma concepção neoclássica do espaço e das migrações. Para tal concepção, as migrações não têm uma expressão apenas demográfica, mas principalmente econômica,

representando deslocamentos espaciais de trabalhadores no espaço geográfico. Para Salim (1992, p. 122), “Para este tronco teórico, os movimentos populacionais correspondem

à mobilidade geográfica dos trabalhadores. Esta, por sua vez, surge de desequilíbrios

espaciais dos ‘fatores de produção’: terra, capital e recursos naturais”. Segundo Póvoa Neto (1997, p. 15) o migrante seria, segundo tal abordagem, um portador de trabalho, fator produtivo que, em combinações adequadas com a terra e o capital, apresenta interesse para os processos de desenvolvimento econômico. O espaço pode ser, para os neoclássicos, “equilibrado” ou “desequilibrado”, conforme a combinação de fatores mais ou menos próxima de um determinado “ótimo”. Vainer (2005), aponta que a análise da migração, nesta perspectiva, apresentaria os seguintes contornos:

A migração tem como origem, por um lado, a liberdade e o cálculo racional;

por outro lado, sua condição é a existência de desequilíbrios espaciais,

desequilíbrios que os deslocamentos de homens (e também de capitais) contribuirão para eliminar, isto é, à homogeneização: na verdade, desequilíbrio e homogeneização são a condição geral (VAINER, 2005, p. 261, [grifo nosso]).

Como conseqüência das diferenças regionais, a migração teria papel decisivo na

eliminação dessas mesmas diferenças, atuando como fator corretivo dos desequilíbrios sócio-econômicos no espaço. É o mecanismo que restaura o equilíbrio e, como tal, otimiza

a oferta e a procura entre diferentes setores e subespaços, incidindo positivamente nos

níveis de produtividade econômica e, principalmente, nos diferenciais regionais quanto

às condições de emprego e de renda (SALIM, 1992, p. 123). Para Póvoa Neto (1997, p. 16), “seguida esta perspectiva, pode-se supor que o espaço geográfico caminharia para uma homogeneização”. Desse modo:

correspondem à perspectiva neoclássica pelo menos três supostos

básicos sobre a migração, ou seja, i) os diferenciais de salário e de oportunidade de emprego entre áreas distintas; ii) o cálculo racional do

indivíduo face aos custos e utilidades entre a permanência e a mudança; iii)

as correntes migratórias como somatório das decisões individuais (SALIM, 1992, p. 123).

( )

Como destaca Gaudemar (1977, p. 173-174), a concepção neoclássica traz implícita, assim, a idéia de recusa da imperfeição causada pela desigualdade estrutural e de aceitação tácita das variações conjunturais, além, é claro, da propensão “natural” da força de trabalho ao movimento, logo que a diferenciação social se manifeste a nível do

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NA PÓS-MODERNIDADE

espaço.

Ainda, para Salim (1992, p. 123), nessa concepção, “o indivíduo é a unidade da análise, e sua propensão natural ao movimento é um pressuposto” 4 . O migrante, como um portador do fator trabalho, busca o máximo retorno para seu “investimento” em um dado ponto do espaço. Conseqüentemente, os diferenciais de salário, na espacialidade heterogênea, configura-se como fator básico da migração. Assim, “Tal imagem se assemelha a uma caricatura da primazia do econômico na análise social” (PÓVOA

NETO, 1997, p. 17, [grifo nosso]). Nesse sentido:

Tais teorias podem ser qualificadas como “neoclássicas” pela continuidade que representam quanto às preocupações dos economistas ditos “clássicos”, ao lidarem com a questão do equilbrio econômico e a da fundação do trabalho no mesmo. Para os “neoclássicos”, a mobilidade do trabalho deveria ser perfeita, acompanhando a tendência geral da circulação das mercadorias num espaço que tendia á homogeneidade. Todavia, as suas anlises confrontavam-se inevitavelmente com a existência, no espaço econômico europeu dos séculos XVIII e XIX, de evidentes imperfeições nesta mobilidade (PÓVOA NETO, 1997, p. 16, [grifo nosso]).

Assim, a concepção neoclássica implica em considerar o econômico na análise das migrações, através da “vontade” do mercado de trabalho e do indivíduo em buscar melhores condições de vida através de uma melhor remuneração. 5 O segundo tronco teórico a ser analisado é nomeado por diversos autores como concepção histórico-estrutural das migrações. Esta busca enraíza sua análise no solo dos contextos históricos e geográficos específicos. Se a concepção anterior colocava toda a ênfase na decisão soberana do indivíduo inserido na dinâmica do mercado capitalista, o que se tem agora é a análise de grupos e classes sociais a sofrer a força de estruturas sociais e econômicos que explicam a maior ou menor propensão para a migração. Assim:

Enraizado no materialismo histórico, este tronco teórico vê a migração não como ato soberano do indivíduo ou soma de escolhas individuais, mas como fenômeno (relação ou processo), social, onde a unidade é a corrente ou fluxo composto por classes sociais ou grupos sócio-econômicos que emanam de estruturas societárias geograficamente delimitadas (SALIM, 1992, p. 125, [grifo nosso]).

4 O papel do indivíduo na abordagem neoclássica é denominada por Ferreira (1986, p. 99) de “comportamentalista”, que enfatiza as atitudes possíveis de indivíduos que, ao migrar, atenderiam aos apelos do mercado capitalista.

5 Ainda, segundo Vainer (2005, p. 262), na concepção neoclássica, “O homem que se localiza é o homem que calcula, que faz do cálculo econômico o princípio de seu comportamento e, portanto, só existe na condição de homem livre. O espaço no qual circulam capitais e trabalhadores é espaço abstrato, homogêneo, puro espaço econômico onde se condensam ou dispersam recursos econômicos e capitais de vários tipos” (grifo nosso).

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Para Póvoa Neto (1997, p. 18), na concepção histórico-estrutural prioriza-se a percepção de processos sociais gerais, dentro dos quais a migração ganha sentido e

tende a assumir um papel, que implica na saída de trabalhadores anteriormente inseridos

e estruturas sociais tradicionais e na sua condução rumo ao mercado de trabalho

propriamente capitalista. No Brasil, muitos estudos foram importantes nessa perceptiva, dentre os quais destacamos Economia Política da Urbanização, de Paul Singer 6 . Segundo o autor, o “estudo das migrações a partir de um ângulo de classe deve permitir portanto uma análise da contribuição das migrações para a formação de estruturas sociais diferentes e para a constituição de novos segmentos da economia capitalista” (1981, p.

57).

Desse modo, segundo Póvoa Neto (1997, p. 18), nos estudos histórico-estruturais existem problemas quanto à conciliação entre níveis macro e micro. A migração é

fenômeno social cujos determinantes e conseqüências remetem a outros fenômenos sociais historicamente determinados e que se relacionam a processos de mudança estrutural.

O foco de análise é redirecionado para as contradições no âmbito das relações sociais de

produção, do desenvolvimento das forças produtivas e dos mecanismos subjacentes de

dominação. São utilizados uma variedade de modelos nas análises como a “teoria da dependência”, o “colonialismo”, a relação “centro-periferia” e a “acumulação global”. Para Salim (1992, p. 125), “a abordagem histórico-estrutural enfatiza, antes de

tudo, a visão da estrutura como um todo (

os diferentes movimentos da população são

“explicados” pelas mudanças no âmbito da estrutura da produção”. Ocorre a “tendência predominante de dimensionar a migração pelo aspecto econômico – modos de produção, relação de produção, mecanismos de exploração, etc – sem relacioná-la com outros processos macrossociais importantes, como os de natureza social e cultural” (p. 126). Assim, a migração redistribui a força de trabalho segundo as necessidades

específicas do processo de acumulação, em contextos históricos concretos. O migrante é concebido simultaneamente como integrante do exército industrial da ativa e da reserva

e, via de regra, resulta de transformações nas relações sociais de produção nas áreas de

origem da migração (SALIM, 1992, p. 126-127). Desse modo:

)

No modelo estrutural, os indivíduos não fazem escolhas, ou melhor, não são os indivíduos e suas escolhas individuais que explicam os fluxos e a localização da população. No espaço – que não é mais o espaço da liberdade individual, mas o espaço da estrutura capitalista (espaço estrutural ou estruturado) – é o movimento do capital, da expansão ou retração, seu

6 Segundo Singer (1981, p. 38), “Os fatores de expulsão que levam as migrações são de duas ordens: fatores de mudança, que decorrem da introdução de relações de produção capitalistas nestas áreas, a qual acarreta a expropriação de camponeses, a expulsão de agregados, parceiros e outros agricultores não proprietários, tendo por objetivo o aumento da produtividade do trabalho e a conseqüente redução do nível de emprego ( ) e fatores de estagnação, que se manifestam sob a forma de uma crescente pressão populacional sobre uma disponibilidade de áreas cultiváveis física de terra aproveitável como pela monopolização de grande parte da mesma pelos grandes proprietários” (grifo nosso).

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NA PÓS-MODERNIDADE

deslocamento ou permanência que comandam a mobilidade e a localização do trabalho. Agora, o que se impõe é a relação que submete à lógica e à dinâmica do capital todos os movimentos locacionais e toda a estrutura do espaço (VAINER, 2005, p. 263).

Portanto, na abordagem histórico-estrutural, o desenvolvimento do capitalismo

assume a centralidade na análise da mobilidade populacional. A estrutura tem influência dominante na migração, sendo que a estrutura histórica do capitalismo é quem hegemonicamente “desloca” no espaço as pessoas. O econômico é central na análise

através do modo de produção capitalista. Dessa maneira, “(

opõe um sujeito quase inexistente, simples epifenômeno da estrutura” (VAINER, 2005, p. 263).

O terceiro tronco teórico a ser analisado baseia-se, principalmente, na teoria

marxista do trabalho, e propõe um enfoque apoiado no conceito de mobilidade do trabalho. Passa-se a utilizar a expressão mobilidade da força de trabalho, ao invés de migração. Segundo Póvoa Neto (1997, p. 19), esse tronco teórico busca ressaltar que as migrações não podem ser encaradas fora da realidade do trabalho social, e sim como pressupostos econômicos do mesmo. A atenção às migrações conduz necessariamente, portanto, às condições em que ocorre a produção e se estruturam as relações de trabalho em um determinado espaço. Assim:

o modelo estruturalista

)

Temos na ótica da mobilidade da força de trabalho, um novo foco de análise centrado na relação capital/trabalho, produção e reprodução ampliada desta relação. A migração deixa de ser conseqüência ou reflexo do espaço transformado para atuar como agente de transformação, e a dimensão espacial, traduzida como conjunto de relações sociais, é retida para possibilitar a análise de formas concretas de mobilidade da força de trabalho. Na realidade, segmentos da população ou contingentes da força de trabalho deslocam-se no espaço porque este se estrutura de forma a colocá-los em movimento. Significa dizer que existe uma característica adquirida da força de trabalho – a mobilidade - que faculta não apenas o seu movimento, mas também a localização e relocalização espacial do capital, nas diversas esferas de produção (SALIM, 1992, p. 127, [grifo nosso]).

A obra clássica que caracteriza esse tronco teórico é Mobilidade do trabalho e

acumulação do capital, de Jean Paul de Gaudemar, na qual realiza-se uma autêntica arqueologia do pensamento econômico resgatando a mobilidade como “noção perdida”, traçando uma genealogia do conceito e, sobretudo, mostrando que, a partir do século XVIII, as formas de mobilidade surgem como fenômenos marcadamente estruturais. A partir da leitura da obra de Marx, Gaudemar concebe o trabalho como forma de trabalho em atividade, e a acumulação de capital como relação social que se desenvolve qualitativa e quantitativamente. Para Salim (1992, p. 128), “Esta seria a condição estrutural da qual emerge a mobilidade. A partir daí, busca um conceito unitário – unidade conceitual, apesar

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da multiplicidade de suas formas -, onde a natureza das relações social de produção tem papel determinante na sua conformação concreta”. Gaudemar concebe a mobilidade do trabalho como elemento do jogo do capitalismo. O trabalhador portador de força de trabalho participa desse “jogo econômico como simples peão no tabuleiro”, como instrumento do capital:

Os homens não passam de instrumentos, e a força de trabalho não é mais do que um “continuum móbile”. O trabalhador move-se apenas ao serviço da máquina e do capital que a possui. Num tempo e num espaço de que é desapossado. Peão num tabuleiro, ponto ínfimo nas curvas de crescimento, está sujeito aos movimentos alternativos da expansão do capital (GAUDEMAR, 1977, p. 35).

A análise da obra de Marx leva Gaudemar a designar, como mobilidade do trabalho,

a qualidade que permite o uso capitalista dos corpos dos trabalhadores, nas localizações,

condições de intensidade e ritmos de produção requeridos para a máxima produção de valor. Não se trata apenas de uma descrição de deslocamentos espaciais de trabalhadores; mais que isso, o conceito marxista de mobilidade do trabalho surge assim como “trave mestra de toda a estratégia de desenvolvimento capitalista” (GAUDEMAR, 1977, p.

51).

Segundo Salim (1992, p. 128), a acumulação capitalista e seus corolários, como concentração, centralização, composição orgânica e técnica do capital, por um lado, e a

proletarização e a exclusão social, via crescimento do excedente populacional relativo, por outro, não passam de elementos que conformam sua própria contraface, ou seja, a mobilidade da força de trabalho e suas possibilidades concretas.

O desenvolvimento do capitalismo seria o motor da mobilidade do trabalho. Para

Póvoa Neto (1997, p. 19), nessa concepção, “a migração não é pois mero mecanismo de redistribuição espacial de populações, adaptando-se às solicitações do sistema econômico”. Em estruturas capitalistas marcadas pela rigidez ou expansão de sua morfologia econômica, as formas de mobilidade do trabalho surgem como fenômenos de submissão e não de liberdade, devido à tendência geral do capitalismo de açambarcar todas as formas pretéritas de produção. Nesse sentido, o trabalho e a força de trabalho se tornam uma mercadoria. “Toda estratégia de mobilidade é igualmente estratégia de mobilidade forçada”. (GAUDEMAR, 1977, p. 17, [grifo do autor]). Assim, na concepção da mobilidade do trabalho, a mobilidade se liga à produtividade e à expansão física do capital, apresentando-se como condição e conseqüência do desenvolvimento das forças produtivas. Por seu papel essencial no processo de acumulação, as condições em que ela se manifesta podem retratar a própria natureza do ciclo econômico, na medida em que permite o uso extensivo da força de trabalho pelo capital (SALIM, 1992, p. 128). Dessa maneira, esses são os troncos teóricos que abarcam os estudos das

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NA PÓS-MODERNIDADE

migrações e/ou mobilidade do trabalho. Muitas críticas se fazem atualmente a esses

modelos teóricos pela sua inconsistência para interpretar, de maneira abrangente a realidade. Salim (1992, p. 131) afirma que “o maior problema desses modelos encontra-

Já para Póvoa Neto, os problemas

se, todavia, na passagem do micro para macro ( são:

)”.

Torna-se possível, assim, a crítica dos discursos existentes sobre a migração, na medida em que os mesmos podem ser encarados como constituindo um campo de debates sobre os trabalhadores e sua localização espacial. Os problemas detectados quanto a esta localização são, via de regra, problemas referentes à utilização do trabalho e à acumulação do capital (PÓVOA NETO, 1997, p. 20, [grifo do autor]).

Segundo o autor, os modelos teóricos não abarcam a realidade existente, principalmente, pela primazia do econômico, pela utilização do fator trabalho na análise conjunta à acumulação do capital. A realidade se apresenta de maneira complexa e as teorias neoclássicas, estruturalistas e da mobilidade do trabalho não conseguem abarcar esse movimento multifacetado da sociedade. Desse modo:

temos uma crise da modernidade e de sua mitologia da liberdade. Os

estudos dos processos de deslocamento de população evocam a frustração

da promessa de liberdade que a modernidade proclamou (

de teorias que não dão conta dessa dimensão da modernidade madura, mas crise também da própria modernidade e de suas promessas (VAINER, 2005, p. 272).

) Crise, portanto,

) (

É dessa forma que as transformações do mundo, e a crise da modernidade estão

presentes nos estudos das migrações. Assim como na ciência em geral surgem novas maneiras de interpretar a realidade (com a pós-modernidade), através (como já mencionamos) da valorização do cotidiano, do lugar, das identidades, dos indivíduos etc, nos estudos das migrações surgem, também, nesse movimento, novas maneiras de conceber

a migração em um mundo em constante processo de transformação. São essas outras formas de entender e estudar as migrações que evidenciaremos a partir de agora.

Migrações e Pós-Modernidade

A pós-modernidade, ou o “envelhecimento” da modernidade, traz novos elementos

para a análise na ciência. Nas migrações, novos elementos são incorporados nas análises.

Tem destaque principalmente os elementos culturais, as relações do eu com o outro, os elementos psicológicos, as identidades etc. Para Menezes (2007, p. 115), a “Pós- modernidade é, sobretudo, uma hiperexposição à alteridade, à capacidade de perceber o

Terra Livre - n. 29 (2): 51-74, 2007

‘Outro’”; e, também, a “Pós-modernidade é inseparável da psicologia, o que vale dizer, da visão simbólica e poética” (p. 11). Sobre as migrações e a pós-modernidade, Menezes também afirma que:

As migrações contribuem nesse cenário de conflito como carreadoras de valores étnicos para outras culturas assim como contribuem, num sentido pós-moderno, para a diversidade, aportando instrumentos de criatividade para sistemas afundados na mesmice diga-se, normalidade (MENEZES, 2007, p. 119).

Dessa forma, a pós-modernidade tem a ver com uma perspectiva diversificadora; interpretações múltiplas para uma infinidade de fenômenos interligados as migrações. Surgem, neste contexto diferentes interpretações do fenômeno como, por exemplo, a análise de Menezes que destaca elementos culturais, através da perda, da identidade e da consciência coletiva:

Seja qual for a razão da migração, bem ou mal sucedida há nela uma constante

psicologia a ser lembrada: a perda. Perde-se a referência territorial, os valores culturais e as pessoas conhecidas. Perde-se também a identidade – identitas que quer dizer ‘o mesmo’ ou ‘repetição do mesmo’ como em identidem. A identidade do migrante, assim, como a de qualquer indivíduo, é formada nesse momento de crise (crisis é oportunidade), quando se é forçado a escolher o que não se é e o que não se quer ser. É quando se começa a

O cerne dessa identidade

escolher o que não se é e o que não se quer ser. (

é, em muito, determinado pelas imagens que lhe aparecem através do Outro, dos seus semelhantes, dos que lhe são importantes, da herança cultural e da consciência coletiva (MENEZES, 2007, p. 120, [grifo do autor]).

)

A cultura toma uma dimensão importante nos estudos da migração na pós- modernidade. Segundo Bhabha (1998, p. 241), “A dimensão transnacional da transformação cultural – migração, diáspora, deslocamento, relocação – torna o processo de tradução cultural uma forma complexa de significação”, pois:

a questão da identificação nunca é a afirmação de uma identidade pré- dada, nunca uma profecia autocumpridora – é sempre a produção de uma

imagem de identidade e a transformação do sujeito – isto é, ser para um Outro – implica a representação do sujeito na ordem diferenciadora da

alteridade. A identificação (

que traz a marca da fissura no lugar do Outro de onde ela vem (BHABHA,

1998, p. 77, [grifo do autor]).

é sempre retorno de uma imagem de identidade

(

)

)

A importância da identidade na migração, da identificação do sujeito na mobilidade “intensa” e “desterritorializante” do mundo pós-moderno, é elemento de inúmeras análises.

MONDARDO, M.

ESTUDOS MIGRATÓRIOS NA MODERNIDADE E

NA PÓS-MODERNIDADE

Segundo Hall (2004, p. 87), na migração“a identidade e a diferença estão

inexplicavelmente articuladas ou entrelaçadas em identidades diferentes, uma nunca anulando completamente a outra”, sempre em processo 7 . Segundo o autor, os migrantes

) aprender a habitar,

no mínimo, duas identidades, a falar duas linguagens culturais, a traduzir e a negociar

entre elas. As culturas híbridas constituem um dos diversos tipos de identidades distintivamente novos produzidos na era da modernidade tardia” (HALL, 2005, p. 89, [grifo nosso]). Assim, um aspecto da experiência migratória é a redefinição das identidades culturais e nacionais, quando os migrantes deixam uma sociedade e uma cultura e tornam- se parte de outra, surgindo, nesse processo, fenômenos como o de aculturação:

das novas diásporas, criadas pelas migrações pós-coloniais, devem “(

No caso da migração, indivíduos são socializados em uma cultura e vão morar depois em uma outra. Isto envolve uma seqüência de processos muitas vezes únicos ao fenômeno imigratório, que podem ser compreendidos ao utilizarmos o conceito de aculturação tanto no nível grupal como no nível individual (DEBIAGGI, 2004, p. 17).

Surgem, também, novas formas de compreender o fenômeno migratório com a

incorporação de redes sociais. Esta surge como uma crítica à determinação do mercado

) as relações

pessoais que constituem canais de transmissão da informação, é que determinam quem

terá qual trabalho”. Pois, “São as redes de relações sociais que formam parte, e que

são esses elementos que abrem e

fecham o acesso as oportunidades” (p. 21). Dessa forma, as redes de relações dos migrantes influenciam na inserção no mercado de trabalho da sociedade receptora. Ocorre, a partir da incorporação das redes sociais, a crítica ao modelo econômico nas migrações:

constroem e que estruturam as oportunidades. (

de trabalho como explicação da mobilidade. Para Ramella (1995, p. 19), “(

)

) (

emigração é algo muito maior que defender a causa da experimentação de novas metodologias. É uma maneira de transformar nosso estudo setorizado em um campo de investigação capaz de oferecer uma contribuição original a um debate histórico que tem o objetivo de superar as discussões das visões dos enfoques estruturalistas-funcionalistas e economicistas

(RAMELLA, 1995, p. 21)

propiciar a superação do uso débil do conceito de redes na história da

7 Como afirma Hall (2004, p. 39), “(

processos inconscientes, e não inato, existe na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”,

sempre “sendo formulada”. (

a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de

)

A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de

nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é “preenchida” a partir de nosso exterior, pelas

formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros” (grifo do autor).

)