UNIVERSIDADE PAULISTA
MARIA EDIRENE PINHEIRO DE CARVALHO MOURA
CORRELAÇÕES ENTRE CRENÇAS RELIGIOSAS E ESTÍMULOS ESTRESSORES
Trabalho de conclusão de curso para obtenção do título de especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental apresentado à Universidade Paulista - UNIP.
Orientadores:
Prof a . Ana Carolina S. de Oliveira
Prof. Hewdy L. Ribeiro
SÃO PAULO
2017
DEDICATÓRIA
Para meus filhos,
Mayra Ruama, Damarys, André e Samuel
Elos de amor e afeto
AGRADECIMENTO
A Deus
"O autoconhecimento tem um valor especial para o próprio indivíduo. Uma pessoa que se „tornou consciente de si mesma‟, por meio de perguntas que lhe foram feitas, está em melhor posição de prever e controlar seu próprio comportamento." (Skinner, 1974, p.31)
RESUMO
O objetivo deste trabalho foi fazer um levantamento bibliográfico de artigos que apontam que as crenças religiosas podem servir como fator de superação e de geração de estresse. A coleta dos artigos foi feita em plataformas digitais. Os resultados indicam que pessoas que praticam uma religião tendem a estar mais capacitadas para enfrentar situações de estresse. Porém, crenças religiosas interpretadas negativamente podem gerar e agravar o estresse. Seja qual for a correlação, a crença e a pertença religiosa devem ser analisadas em conjunto com os indicadores socioeconômicos do grupo.
Palavras-chave: Crenças, Religião, Estresse, Cognição, Emoção
ABSTRACT
The objective this article was to do a bibliographical survey of articles that point out that religious beliefs can serve as a factor of overcoming and of generating stress. The articles were collected on digital platforms. The results indicate that people who practice a religion tend to be better able to cope with stressful situations. However, negatively interpreted religious beliefs can generate and aggravate stress. Whatever the correlation, belief and religious belonging should be analyzed in conjunction with the socioeconomic indicators of the group.
Key-words: Beliefs, Religion, Stresse, Cognition, Emotion
SUMÁRIO
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INTRODUÇÃO |
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1.1 Estresse |
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1.2 Eustresse e Distresse |
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1.3 Modelo cognitivo-comportamental |
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2 OBJETIVO |
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3 METODOLOGIA |
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4 RESULTADOS E DISCUSSÃO |
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5 CONCLUSÕES |
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS |
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1. INTRODUÇÃO
É comum ouvirmos as pessoas chamarem as outras ou se referirem a
elas mesmas como estressadas quando se encontram em estado de alta tensão, sobrecarregadas física e emocionalmente. Mas o que vem a ser o estresse? Ele é causa ou conseqüência? O estresse é um fenômeno necessariamente negativo ou ele também pode ser positivo?
1.1 Estresse
O termo estresse (aportuguesamento do inglês stress) se incorporou ao
léxico popular. O “pai do estresse”, quem empregou o termo originado da física na medicina, foi o endocrinologista húngaro, radicado no Canadá, Hans Selye (1907-1982). Segundo Greenberg (2002, p. 4), foi ele quem primeiro identificou através de experimentos com ratos que o corpo sempre reage da mesma maneira independentemente do estímulo estressor. Ele submeteu suas cobaias a várias fontes estressoras e observou que elas emitiam sempre as mesmas respostas:
Aumento substancial do córtex das glândulas adrenais; encolhimento ou atrofiamento do timo, baço, nódulos linfáticos e outras estruturas linfáticas; desaparecimento quase que por completo das células eosinófilas (células da série branca do sangue); e úlceras hemorrágicas no revestimento do estômago e do duodeno. (Selye apud Greenber, p. 4)
Selye definiu o estresse, de acordo com Greenberg (2002 p. 5), como a “resposta inespecífica do corpo a qualquer coisa que lhe seja solicitada”. Embora o mesmo Greenberg (p. 4) assinale que quem primeiramente identificou as respostas do organismo a estímulos estressores tenha sido o fisiologista estadunidense Walter Cannon (1971 – 1945). Ele que identificou sinais, como o aumento da frequência cardíaca e respiratória, sudorese e tensão dos músculos, como respostas do organismo para prepará-lo para lutar
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ou fugir de uma situação percebida como ameaçadora, de iminente perigo, e recuperar o seu equilíbrio interno. Para nomear esse estado interior Cannon criou o termo “homeostase”, termo criado por ele. (cf. HILL; WYSE; ANDERSON, 2012)
De acordo com Zimple (2005, p. 13), em 1926 Selye começou a descrever as reações fisiológicas do organismo quando submetido a fatores estressantes, as quais ele nomeou a princípio de “Síndrome Geral de Adaptação”. Posteriormente, em 1936, passou a chamá-la de stress, um termo do campo da física que significa a magnitude de uma força externa na deformação – strain - de um metal maleável. Nas palavras de Santos (2007, p. 69), “o grau de deformidade sofrido por um material quando submetido a esforço ou tensão”.
A maleabilidade varia de metal para metal. Cada material tem um limite na sua elasticidade, quando o estresse ultrapassa o seu extremo, o material se deforma de modo irreversível. “Essa reação entre stress e strain é uma característica de cada material, o qual tem seu padrão de elasticidade. Esse valor é alto para materiais rígidos como aço e mais baixo para metais flexíveis como a lata”, afirma Zimple (2005, p. 13).
Selye
elaborou
o
modelo
trifásico
de
Charlesworth e Nathan, 2013):
evolução
do
estresse
(Cf.
1ª fase: reação de alarme: quando o organismo entra em estado de
alerta diante de um ataque ou de um risco ou ameaça detectada. Se o ataque,
uma dor ou uma queimadura, por exemplo, for intensa demais, o indivíduo pode ser levado a óbito.
2ª fase: resistência: quando o organismo se adapta, isto é, se equilibra
no enfrentamento aos estímulos estressores que geraram a reação de alarme
3ª fase: exaustão: quando os estímulos aversivos persistem e minam a
energia adaptativa do organismo, o esgotando. Em situações extremas essa fase pode ser letal.
O modelo trifásico de Selye foi expandido para o modelo quadrifásico
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pela psicóloga Marilda Lipp. Após 15 de pesquisa no Laboratório do Stress da PUC- Campinas, Lipp (2002, p. 110) identificou uma fase intermediária entre a resistência e a exaustão: a quase exaustão. O que caracteriza a terceira fase do modelo quadrifásico é a persistência, em frequência e intensidade, dos fatores estressantes cujo corolário é a diminuição da resistência da pessoa. “Nessa fase, o processo de adoecimento se inicia e os órgãos que possuem uma maior vulnerabilidade genética ou adquirida passam a mostrar sinais de deterioração”, assevera Lipp (2002, p. 110).
Segundo Zimple (2005, p. 12-14), o uso da palavra stress trouxe muitas “dores de cabeça” para Selye e ele veio a se arrepender de tê-la usado. Primeiramente por ele desconhecer que o significante stress já era usado há séculos no campo da física e por descobrir por tabela que era o significante strain, também da física, não o stress, que correspondia ao significado de suas ideias. Isto gerou muita confusão quando suas pesquisas passaram a ser traduzidos para outros idiomas, pois Selye não encontrou termos correspondesse a strain, o que inevitavelmente levou a interpretações ambíguas a respeito do fenômeno estudado. Selye querida ter sido conhecido não como o “pai do stress”, sim como o “pai do strain”. O stress passou a ser interpretado tanto como estímulo quanto como resposta, tanto como pressão quanto como reação. Era tanto o chefe imprevisível e exigente como o “nervosismo” e a úlcera gerada pelo convívio com ele. Para tentar sanar esse problema, Selye criou o significante “estressor” para significar os estímulos que provocam respostas de estresse.
1.2 Eustresse e Distresse
Os agentes estressores, conforme pontua Greenberg (2002, p. 8), existem como realidade concreta e exigem uma resposta imediata de fuga ou luta. Outros existem como realidade potencial, uma possibilidade, um risco, cuja resposta imediata não é a melhor solução para resolver: “Quando o chefe lhe sobrecarrega de trabalho é inadequado brigar com ele e igualmente ridículo fugir e não enfrentar o trabalho”. Há agentes estressores de variados gêneros:
“Alguns são ambientais (toxinas, calor, frio), alguns psicológicos (ameaças à
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autoestima, depressão), outros são sociológicos (desemprego, morte de alguém amado) e outros, ainda, são filosóficos (uso do tempo, finalidade da vida)”.
É fundamental saber que os estímulos estressores e as respostas de estresse não são necessariamente ruins. Greenberg (2002, p. 62, 63) cita um
exemplo de sala de aula para fazer a diferenciação. O teste final que ele aplica aos seus alunos é percebido num primeiro momento pelos mesmos como uma ameaça, por causa do risco de reprovação que ele representa. Porém, a tensão que esse estressor provoca leva os seus alunos a administrarem melhor
o tempo para concentrarem mais atenção nos estudos. O resultado disso, além de suprimir o risco da reprovação, é uma maior absorção de conhecimentos, uma maior aprendizagem.
Conforme Pereira (2002, p. 20, 45), quando a resposta de estresse é tensão excitante, criativa e produtiva, se trata de “eustresse”, o estresse positivo. Quando a resposta de estresse não é de tensão perturbadora, disfuncional e que leva ao adoecimento se trata de “distresse”, o estresse negativo.
1.3 Modelo cognitivo-comportamental
Essa diferenciação mostra que embora os fatores externos tenham peso considerável, eles não determinística na resposta ao agente estressor. A reação é intermediada pela interpretação que se faz do estímulo. E aqui entra a terapia cognitiva- comportamental doravante denominada pela sigla TCC. De acordo com Beck (1997, p. 29) A hipótese de trabalho da TCC é que não é a situação em si que determina como as pessoas sentem e reagem. As emoções
e os comportamentos associados a elas são mediados e influenciados pela cognição, pelo modo como a situação é interpretada.
Entretanto, o fato da cognição ter uma função mediadora não significa que há necessária linearidade entre estímulo, externo ou interno, pensamento
e respostas, emocional, comportamental e física. Conforme observa Knaff et al.
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(2004, p. 60, 61), há influência recíproca entre pensamentos, emoções, comportamentos, reações fisiológicas e o ambiente. Os sentimentos e as emoções visivelmente afetam o processo cognitivo, facilitando ou dificultando a correção das distorções cognitivas. E comportamento também produz modificações na avaliação da situação. Seja modificando as contingências que
a determina. Por exemplo, através do comportamento a pessoa pode modificar
a percepção que outra tem a seu respeito, e passar a se ter percepção positiva de si mesmo.
E a cognição é neutra? Não, a cognição é condicionada pelos pensamentos que são condicionados pelas crenças que a pessoa tem. Conforme Beck (1997, p. 31, 32), há as crenças centrais, as que estruturam fundamentalmente o pensamento do indivíduo. Elas têm caráter rígido e suas implicações são genéricas. E há as crenças intermediárias que consistem de regras, suposições e atitudes. Ambas as crenças são refletidas nos pensamentos automáticos, suscitados por determinados estímulos, e nos seus comportamentos correspondentes. Ambas as crenças não nascem com a pessoa. Elas são aprendidas ao longo do desenvolvimento e processadas em níveis variados de cognição. Ambas as crenças podem ser funcionais ou disfuncionais.
E as crenças e os pensamentos não são compostos por ideias abstratas, frutos de uma operação intelectiva puramente intelectiva, desprovidas de afeto. Como diz Carl Gustav Jung (p. 330), “o pai da Psicologia Analítica”, “as ideias não são apenas algarismos da mente calculadora, mas são também os vasos de ouro do sentimento vivo”. Isto significa, entre outras coisas, que a força de um pensamento depende em grande medida do afeto que acompanha as suas ideias. Quanto maior a carga efetiva, isto é, “a qualidade e o tônus emocional que acompanha uma ideia ou uma representação mental”, conforme definido por Dalgalarrondo (2008, p. 157), mais resistente serão os pensamentos a mudanças.
As ideias religiosas são exemplos vivos de força sugestiva emocional. Seus efeitos podem ser benéficos ou maléficos. Como aponta o artigo de
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Zimpel, Mosteiro & Rocha (2015), “Espiritualidade como mecanismo de coping em transtornos mentais”, num estudo longitudinal de dez anos com indivíduos com alto risco de depressão, os que atribuíam maior importância à religiosidade/espiritualidade tinham dez vezes menor risco de depressão do que os que atribuíam pouca importância. Por outro lado, no mesmo artigo, esses autores apontam que ambientes religiosos marcados por atitudes rígidas, inflexíveis e condenatórias podem aumentar o sofrimento psíquico e gerar novos traumas.
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2. OBJETIVO
Neste artigo vamos fazer uma revisão bibliográfica de estudos que apontam que crenças religiosas podem atuar como fator de superação e como fator de geração de estresse. Não é do escopo deste trabalho explorar as variadas crenças religiosas nem apontar ou sugerir que uma determinada crença ou pertença religiosa é mais ou menos eficaz do que a outra para a superação dos agentes estressores. Tampouco apontar ou sugerir que determinada crença ou pertença religiosa por si só é fator gerador de estresse. Outrossim neste artigo não se fará distinção entre crença religiosa e espiritualidade. Ambas serão tomadas como sinônimas.
3. METODOLOGIA
O procedimento de pesquisa utilizado para construção deste artigo foi o levantamento bibliográfico feito mediante as plataformas digitais, BVS Psicologia e Scielo, de artigos científicos que abordam a correlação entre crença religiosa e espiritualidade e saúde e estresse.
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4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Numa pesquisa intitulada “Antecedente de ansiedade, síndrome do pânico ou depressão e análise do impacto na qualidade de vida em estudantes de medicina”, realizada em 2014, Serinolli, Oliva e El-Mafarjeh analisaram o impacto do diagnóstico prévio de ansiedade ou de depressão na qualidade de vida em alunos da faculdade de medicina da Universidade Nove de Julho em São Paulo. Conquanto não fosse o objetivo principal desse trabalho, um dos objetivos era verificar se a prática de uma religião associada a outros fatores produzia algum impacto na qualidade de vida dos graduandos.
A amostra da pesquisa foi de 67,5%, isto é, 405 dos 600 alunos da faculdade. Destes, 228 (56,30%) eram do sexo feminino e 177 (43,70%) do sexo masculino. A média de idade foi de 23,55 anos. O desvio padrão foi de 3,98. A maioria dos alunos estava nos três primeiros anos da graduação, 102 (25,19%) no segundo, 97 (23,95%) no terceiro e 86 (21,23%) no primeiro.
Foram utilizados dois questionários como instrumento de pesquisa. O primeiro foi o WHOQOL-bref, a versão resumida do QHOQOL-100, o questionário sobre qualidade da OMS (Organização Mundial de Saúde). As respostas deveriam se basear nas duas últimas semanas. O WHOQOL-bref é composto por 24 questões distribuídas em quatro domínios: capacidade física (sete questões), avaliação psicológica (seis questões), relações sociais (três questões) e o meio ambiente em que o indivíduo se encontra (oito questões). A pergunta sobre espiritualidade, religiosidade e/ou crença pertence ao domínio “avaliação psicológica”. Só foram considerados na análise os questionários totalmente preenchidos.
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O segundo instrumento foi um questionário para o aluno preencher a sua idade, o seu sexo e o ano na faculdade, e responder se já teve um diagnóstico prévio de ansiedade, pânico ou depressão, que era o caso de 140 (34,57%) dos alunos, se tinha alguma religião, que era o caso de 318 (77,78%) dos graduandos, e se sua família residia no município de São Paulo, na mesma cidade onde o filho cursa a faculdade. A grande maioria das famílias dos discentes, 271 (66,91%), não morava em São Paulo.
A pesquisa apurou que os alunos que tinham alguma prática religiosa apresentaram um escore significativamente superior no domínio psicológico (66,21 vs 61,25 p = 0,0068) em relação aos graduandos que não tinham uma prática religiosa. O domínio psicológico, segundo os autores, “engloba questões sobre sentimentos positivos, pensar, aprender, memória e concentração, autoestima, imagem corporal e aparência, sentimentos negativos”. Nos outros domínios não foram apresentadas diferenças significativas, embora em todos eles os que praticavam uma religião apresentaram um escore superior.
Por outro lado, entre aqueles que tiveram um diagnóstico prévio de ansiedade, pânico ou depressão, 140 graduandos, a grande maioria, 76,43%, também praticava uma religião. Em contrapartida, entre os 265 que não tinham um diagnóstico prévio de ansiedade, pânico ou depressão, a grande maioria também, 78,49%, tem uma prática religiosa. Cabe indagar aqui se o quando o diagnóstico prévio foi feito a pessoa já estava envolvida em alguma prática religiosa.
Antes de fazermos estrapolações é preciso levar em consideração que a ampla maioria, 77,78%, dos sujeitos praticava uma religião. Será que se a ampla maioria dos entrevistados não praticasse uma religião os resultados seriam muito diversos? De semelhante modo, é preciso ponderar que não fazia parte do escopo da pesquisa especificar a religião dos estudantes, o que levanta a pergunta se
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haveria diferença significativa de confissão religiosa na proporcionalidade dos que apresentaram maior e menor escore.
Conforme apontam os próprios autores (Serinolli, Oliva e El-Mafarjeh, 2015), os resultados atestados em literaturas científicas a respeito fator religião na proporção de qualidade de vida são controversos. É preciso maiores investigações para se certificar se a religião ou as crenças religiosas são fatores de proteção.
No artigo, “Saúde mental, qualidade de vida e religião em idosos de um Programa Saúde da Família”, Floriano e Dalgalarrondo (2007) retratam a pesquisa que fizeram entre novembro de 2003 e novembro de 2004 com usuários do Centro de Saúde de Sousas, distrito de Campinas – SP. O objetivo do estudo foi avaliar as relações das dimensões da vida sociocultural, como rede social de apoio e religião, saúde mental e qualidade de vida, em idosos de um Programa de Saúde da Família.
A amostra da pesquisa foi de 82 idosos. Destes, 47 (57%) eram mulheres e
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35 |
(43%) homens, 42 (51%), com idade de 60 a 69 anos e 40 (49%) com idade de |
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70 |
anos ou mais. A quase totalidade dos sujeitos dizia ter religião, 80 (97,6%) dos |
usuários professavam uma religião. Só dois (2,4) diziam não ter religião. Entre os que declararam professar uma religião, a quase totalidade representava uma forma de cristianismo, sendo a grande maioria, 55 (67%), católica romana, e a minoria, 24 (9,2%), evangélica. Só um (1,2%) participante se declarou espírita kardecista.
Não obstante quase todos os participantes professarem uma religião, menos da metade, 38 (47,5%), freqüentava reuniões religiosas pelo menos uma vez por semana. Por outro lado, a maioria, 53 (64,6%), afirmava ser bastante religiosa, ter muita fé e acreditar bastante em Deus.
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utilizados um inventário
sociodemográfico, cultural e clínico e três instrumentos padronizados de avaliação:
o Índice
Neuropsychiatric Intervew), para diagnóstico de transtornos mentais, e o
WHOQOL-bref, para avaliação da qualidade de vida.
Como
de
instrumentos
Barthel,
de
a
pesquisa
foram
para
capacidade
funcional,
MINI
(International
O Índice de Barthel, conforme Floriano e Dalgalarrondo (2007), é um
questionário composto por dez perguntas referentes à rotina diária, “alimentação, transferência, toalete pessoal, uso do banheiro, banho, andar em superfície plana, subir e descer escadas, vestir-se e despir-se, continência do esfíncter anal e continência do esfíncter vesical”. Se o indivíduo realiza todas essas atividades com facilidade ele é considerado independente. Se o indivíduo executa com um pouco ou com muita dificuldade é considerado, em graus variados, dependente.
Já o MINI se trata, conforme apontam Floriano e Dalgalarrondo (2007), “de
entrevista diagnóstica padronizada breve (20 a 40 minutos), compatível com os critérios do DSM-IV e da CID-10”. Foram utilizados para o estudo seis módulos diferentes que serviram de base para o diagnóstico de seis transtornos mentais freqüentes, “depressão, distimia, transtorno de pânico, transtorno de ansiedade generalizada, dependência e abuso de álcool, e dependência e abuso de substâncias sedativas”, de acordo com Floriano e Dalgalarrondo (2007).
No que tange ao “fator religião” a pesquisa apresentou variados resultados conforme o instrumento utilizado. O WHOQOL-bref mostrou que no “domínio
social”, que abrange relações pessoais, suporte e apoio social e atividade sexual (Serinolli, Oliva e El-Mafarjeh, 2014), entre os indivíduos com baixa QV (Qualidade
de Vida) social, os evangélicos têm 5,9 vezes maior risco de menor QV social do
que os católicos. “Verificou-se que, em relação ao domínio social, os evangélicos
comparados com os católicos estão menos satisfeitos com suas relações
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pessoais, menos satisfeitos com a sua vida sexual e menos satisfeitos com o apoio que recebem dos amigos”, afirmam Floriano e Dalgalarrondo (2007).
Curiosamente nesse mesmo domínio a pesquisa mostrou que as pessoas que tinham casa própria apresentaram 8,9 vezes maior risco de menor QV social do que as que moravam de aluguel. A grande maioria das pessoas que pagavam aluguel, 18 de 21 (86%), recebia ajuda de familiares, amigos e vizinhos, isto permitia uma maior interação e percepção da solidariedade entre elas, o que é significativo para uma maior QV social (Floriano e Dalgalarrondo, 2007).
No domínio ambiental, que abrange segurança física e proteção, ambiente no lar, recursos financeiros, cuidados de saúde, oportunidades de acesso a novas informações e habilidades, recreação e lazer, ambiente físico, transporte (Cf. Serinolli, Oliva e El-Mafarjeh, 2014), os evangélicos apresentaram 7,8 vezes maior risco de QV ambiental menor em relação aos católicos. Nesse mesmo domínio os não aposentados apresentaram 3,4 maior risco de menor QV ambiental do que os aposentados (Floriano e Dalgalarrondo, 2007).
No outros dois domínios do WHOQOL-bref os evangélicos também apresentaram pior QV comparado aos católicos. No “físico”, que abrange dor e desconforto, energia e fadiga, sono e repouso, mobilidade, atividades da vida cotidiana, dependência de medicação ou de tratamentos, e capacidade de trabalho, e no “psicológico”, que abrange sentimentos positivos, memória e concentração, autoestima, imagem corporal e aparência, sentimentos negativos e espiritualidade (Cf. Serinolli, Oliva e El-Mafarjeh, 2014).
Os resultados surpreenderam os autores que esperavam encontrar uma relação inversa entre católicos e evangélicos. A hipótese era de que frequentar uma igreja evangélica significava um maior envolvimento com atividades
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religiosas, seguir regras comportamentais mais claras, ter uma identidade mais objetiva e desfrutar de um maior apoio social (Floriano e Dalgalarrondo, 2007).
Todavia, Floriano e Dalgalarrondo (2007) ponderaram que os evangélicos estudados majoritariamente vivem numa situação de grave precariedade material e social, expostos a várias contingências estressoras: moram em bairros violentos, sem saneamento básico e espaços de lazer, residem em moradias precárias e dispõe de pouquíssimos recursos financeiros. E que é bem provável que pessoas que vivem nessas condições se sintam atraídas pelas igrejas evangélicas, especialmente por aquelas que prometem uma vida melhor não apenas na vida póstuma, mas também nesta vida, na perspectiva de se livrar ou ao menos minorar o sofrimento. Por outro lado, outrossim ponderaram que a ida para essas igrejas não alterou significativamente a vida dessas pessoas.
Considerando que a pesquisa se trata de um estudo transversal que indica associações e não vetores de causalidade, e também os limites do seu escopo, por exemplo, as características da população estudada, um grupo de idosos de um programa de saúde pública num distrito de série precariedade social, os autores afirmam que “dificilmente se pode afirmar haver uma associação entre pertencer a uma igreja evangélica e ter uma pior qualidade de vida”. Eles advertem também da inviabilidade de se fazer generalizações para a população em geral, conquanto afirmem que os dados obtidos podem indicar elementos de verdade da realidade de idosos de baixa renda vinculados ao Programa Saúde da Família (Floriano e Dalgalarrondo, 2007).
Em “Vitalidade subjetiva, sentido da vida e religiosidade em idosos: um estudo correlacional”, pesquisa realizada em 2016 por Vieira e Aquino, o objetivo foi identificar as relações entre a religiosidade, a percepção de sentido na vida, a percepção ontológica do tempo e a vitalidade subjetiva de pessoas idosas.
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Foi realizada uma pesquisa com 100 idosos que participavam de grupo de terceira idade, nas cidades de Santa Rita e João Pessoa no estado da Paraíba. A grande maioria dos entrevistados, 90%, dos entrevistados era do sexo feminino, tinha a idade média de 67,1 (DP = 5,6), e amplitude entre 60 a 87 anos. A grande maioria, 64%, também tinha uma escolaridade baixa, ensino fundamental incompleto. O estado civil da maioria, 54%, era casado, 40% viúvos e 6% divorciados. No que se refere à religião, a grande maioria, 80%, era católica e os 20% restantes, evangélicos (Vieira e Aquino, 2016).
Foram empregados na pesquisa cinco instrumentos: Escala de Vitalidade Subjetiva (EVS), Questionário de Sentido da Vida (QSV), Escala de Percepção Ontológica do Tempo (EPOT), Escala de Atitudes Religiosas (EAR) e Questionário Sociodemográfico (idade, sexo, estado civil, escolaridade e religião). O procedimento de análise dos dados foi feito com o software PASW (versão 17.0) para a análise fatorial do EVS bem como o Coeficiente Alfa de Cronbach para verificar a consistência interna. Foi utilizado também o teste de correlação de Pearson para verificar as associações das variáveis estudadas (Vieira e Aquino,
2016).
Vieira e Aquino (2016) usaram como referencial para o estudo a Logoterapia, teoria de Victor Frankl, sobrevivente do campo de concentração nazista, para o qual, dado o fato da temporalidade e da transitoriedade da vida, a motivação primária do ser humano é a busca de um sentido para a sua existência, de algo que o leve a transcender seus condicionamentos, seus limites. Procura que ocorre na tensão entre o passado, as realidades vivenciadas, e o futuro, as possibilidades de vir a ser, ou entre o que se “é” e o “deve” ser. Sentido que pode ser obtido mediante três valores: vivenciais, viver algo ou alguém; criativos, criar uma obra ou se dedicando a uma causa, e atitudinais, assumir uma postura perante a inevitabilidade do sofrimento.
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O estudo de Viera e Aquino (2016) aponta a correlação positiva entre fatores do EAR e do QSV. Os fatores do EAR, “conhecimento religioso”, a saber, procura saber os preceitos e as doutrinas da religião professada, e “comportamento religioso”, isto é, frequência a celebrações religiosas, estão correlacionados positivamente com o fator do QSV, “presença de sentido”, ou seja, consciência de que a vida tem um sentido e compreensão clara de qual é o sentido”. E estão correlacionados positivamente com o fator do QSV, “busca de sentido”, a saber, procura de algo que sirva como sentido para a vida, os fatores do EAR, comportamento religioso e “sentimento religioso”, ou seja, transbordamento de emoções positivas e negativas mediante músicas religiosas.
Os autores concluem que a religiosidade, entendida aqui como vivência espiritual de uma crença religiosa, pode ajudar a enfrentar os problemas da existência. Seja porque a percepção da finitude e a consciência da morte impulsionam a busca de um sentido pra vida, seja para aumentar a sensação de sentido já que as crenças religiosas medeiam e influenciam a percepção do mundo (Vieira e Aquino, 2016).
Com base em Frankl, na Logoterapia, Vieira e Aquino (2016) interpretam que o idoso vinculado a uma tradição tende a ter mais facilidade em encontrar um sentido pra vida, pois a tradição, como a religião, por exemplo, aponta através de suas normas e de suas prescrições o que seria o sentido da vida. E à medida que a tradição religiosa é vivenciada através de leituras e orações e do comportamento compatível à crença, como no caso dos sujeitos da pesquisa, o sentido da vida é reforçado.
A pesquisa permitiu uma melhor compreensão das relações entre a atitude religiosa e o sentido da vida em idosos, no entanto é importante atentarmos para a amostra que foi constituída por conveniência e não por um procedimento aleatório, sendo assim, não pode ser considerada representativa da população estudada. Neste sentido, os resultados apontados na pesquisa se limitam a população
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estudada. Não podem ser extrapolados, não são passíveis generalizações (Vieira e Aquino, 2016).
Segundo Panzini e Bandeira (2007), de 225 estudos a respeito da relação entre crenças e práticas religiosas e saúde física, a grande maioria verificou resultados positivos de práticas religiosas “em relação à dor, debilidade física, doenças do coração, pressão sangüínea, infarto, funções imune e neuroendócrina, doenças infecciosas, câncer e mortalidade”. E de quase 850 pesquisas da relação de crenças e práticas religiosa com a saúde mental a maioria corrobora a associação de envolvimento religioso com níveis superiores de “satisfação de vida, bem-estar, senso de propósito e significado da vida, esperança, otimismo, estabilidade nos casamentos e menores índices de ansiedade, depressão e abuso de substâncias”. E os mesmos autores apontam que da perspectiva da saúde pública, pesquisam comprovam que pessoas com envolvimento religioso têm menor probabilidade de uso e abuso de álcool e cigarros, e drogas ilícitas, como maconha, cocaína e crack. Assim como de emitirem comportamentos de alto risco, “como atividades sexuais extramaritais, delinqüência e crime, especialmente os adolescentes, nos quais ainda é negativamente relacionado com suicídio e atividade sexual/gravidez prematuras e positivamente a valores pró-sociais”.
Por outro lado, Panzini e Bandeira (2007) ponderam que embora não seja a regra do que se tem observado nos estudos, crenças religiosas podem produzir resultados negativos, efeitos maléficos, quando elas servem para justificar comportamentos nocivos à saúde e levar as pessoas a abrirem mão de tratamentos médicos convencionais. Outro produto maléfico de crenças religiosas, segundo Panzini e Bandeira (2007), é a indução de “culpa, vergonha, medo ou justificar raiva e agressão”. Dado o poder psicológico que a religião tem como agente de controle social sobre seus membros.
Conforme Beck (1997, p. 105), as emoções negativas, como a culpa, o medo e a vergonha, além de dolorosas, quando intensificadas podem ser também
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disfuncionais, pois interferem na capacidade do indivíduo pensar com clareza, ser efetivo na resolução dos problemas e obter satisfação. Essas emoções estão associadas a pensamentos automáticos, por exemplo, “minha doença é um castigo de Deus”, “se eu fizer isso Deus vai me castigar”, “irei para o inferno”, que se sustentam em crenças centrais negativas que normalmente são globais, supergeneralizadas e absolutistas.
As crenças centrais, para Beck (1997, p. 177), podem ser categorizadas na esfera do “desamparo”, na esfera do “não ser amado” ou em ambas as esferas. Esferas em que a religião exerce forte poder de atração e controle através de crenças, ou seja, os conteúdos que preenchem os esquemas, isto é, as estruturas cognitivas das pessoas. Na melhor das hipóteses atuando como um fator de superação de agentes estressores produzindo emoções positivas, e na pior das hipóteses atuando como um agente estressor produzindo emoções negativas.
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5. CONCLUSÕES
Os resultados das pesquisas indicam que as pessoas que praticam uma religião, mais do simplesmente crer ou acreditar em Deus, tendem a estar mais capacitadas para enfrentar situações de estresse. Porém, crenças religiosas podem ser nocivas a medidas que são interpretadas negativamente. Neste caso, longe de ajudar a superar o estresse, a crença religiosa e a instituição associada o geram e o agravam.
É mister salientar que cognição, que é condicionada pelas crenças religiosas instaladas no indivíduo, que influenciam o seu processo de apreensão da realidade, também pode condicionar as crenças, as reinterpretando ou as substituindo. É um processo de mão-dupla. A cognição é um processo dinâmico. Os pensamentos, os sentimentos, as emoções e, consequentemente, o comportamento são mais ou menos sensíveis à experiência, à comparação com outras interpretações e ao confronto com o processamento dos fatos, com a realidade que se vê. Logo, crenças podem ser fortalecidas, mas podem ser também enfraquecidas e até mesmo descartadas e substituídas por outras com o decorrer do tempo.
Independentemente da correlação positiva ou negativa com o estresse, a crença e a pertença religiosa por si só não explicam tudo ou mesmo muita coisa. É preciso analisar elas em conjunto com o histórico e os indicadores socioeconômicos do grupo estudado.
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