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Sumário

Apresentação

Parte 1 – Profunda base histórica

Parte 2 – Notas de um brazilianist

Parte 3 – Rolim, o pensa dor

Parte 4 – Fomos bigodeados

Parte 5 – Acorda, Brasil!


Apresentação

Este livro nasce de uma urgência: a de revelar, de maneira inconteste, a máxima de que o humor é
a forma plena e iluminada da inteligência.
A essa máxima soma-se outra, também em estado latente de urgência, aquela que sabe que a
inteligência é o único motor eficaz da transformação em crescimento e que, claro, está manifesta e
medida pelo domínio de sua comunicação. Afinal, um homem brilhante posto em confinamento será
como uma luz emparedada. Dela vê-se nada.
A última urgência é a de dar a Millôr Fernandes o seu lugar, que é aquele ao lado dos grandes
pensadores da sociedade e de seu geração, fundando uma herança reflexiva para o homem, para muito
além de seu próprio tempo.
É evidente que Millôr Fernandes reuniu, como poucos, o domínio do texto à sua representação
ilustrativa, na construção de uma obra inscrita na mais pura tradição clássica da comédia. Aqui, a
comédia encontra a sua vocação nata: a de rir de nós mesmos, nos propondo a reflexão transformadora.
Como num coro grego, Millôr Fernandes se dedicou, dia após dia, semana após semana, ano após
ano, em mais de sete décadas de contribuição permanente junto aos meios de comunicação nacionais, a
traçar o pano de fundo, os bastidores da realidade nacional, aquela teia que trança e nos mostra
corajosamente o nosso presente, apontando o desenho do nosso futuro.
Voltando à lembrança do mesmo teatro grego, a cena se passava à sua frente, na descrição
jornalística dos fatos, e nós, seus leitores vorazes, corríamos às suas páginas para receber o cenário
crítico sobre o qual íamos ler e entender a cena histórica em primeiro plano. E muitas e muitas vezes, lá
estava Millôr, a nos revelar o até então impensado, o que estava por vir, um anúncio. Ora em esperança,
ora em indignação contestadora, mas sempre em perspicácia e humor redentores.
Millôr Fernandes nasceu autor para todos nós em periódicos, e isso funda mesmo a sua trajetória
— ou será que foi o homem Millôr que impôs o comprometimento jornalístico ao seu trabalho autoral?
Fato é que a sua obra nasceu e se alimentou da força transformadora do dia. Millôr não fazia análise
para trás, ele nos dizia sobre o agora e nos perguntava: tem que ser assim mesmo? No entanto,
composto em sua formação integral (de homem das letras, das ciências humanas e das artes), o nosso
querido “pensador clássico e grego cômico” não podia nos revelar o hoje sem nos fazer refletir
(aprendendo) sobre o ontem. Assim, Millôr releu, diariamente, a história do nosso país e do mundo, nos
defrontando tragicomicamente com o nosso passado.
Quando Millôr Fernandes nos deixou, acontecia um evento raro. Naquela triste (até hoje e
sempre triste) ocasião, não era o homem que deixava de testemunhar a história. Era a história que
perdia o seu testemunho. Diante da multiplicidade infinita dos meios de comunicação, ficamos
mesmo tomados pela sensação de que, inertes, assistimos à revelação da história. Millôr Fernandes
era esse homem raro que nos dava a história em testemunho, com a luz sagaz do humor penetrando
em cada limite distante, em todo canto de sombra.
E é assim, urgente e devedor a Millôr Fernandes, que este livro nasce: para reunir a história do
Brasil (e também a do mundo, pois não estamos cá sós) que ele nos ensinou sem dizer que ensinava,
mas que nós sabíamos que aprendíamos.

Leila Name
“Meu pai foi um pai seco. Com explosões de carinho.
Jamais se apresentou a mim como ‘estrela’, sempre me tratou de igual
para igual.
Meu maior interlocutor.
Nos respeitávamos, mesmo discordando.
E embora humorista, ele nunca foi de brincadeira.
E nos amávamos. Muito.”

Ivan Rubino Fernandes
PROFUNDA BASE HISTÓRICA

No princípio, vocês se lembram dos estudos de História do Brasil, era aquele negócio das
especiarias. Ainda não existíamos mas os navios lusitanos já cortavam os mares no caminho do
Oriente, em direção às Índias. Em busca de noz-de-cola, noz-vômica, noz-moscada. Numa dessas
idas e vindas teve aquela das calmarias — é o que eles contam — e fomos descobertos. Por acaso.
Tropeçaram na gente.
Descobertos por povo marítimo e povo marítimo nós mesmos (sempre tivemos as costas
largas), era natural que a medida marítima, o nó náutico, nos fosse tão importante. Como, daí em
diante, foram importantíssimos pra nós os nós da madeira do pau-brasil que exportávamos com
um nó na garganta (sabendo já que exportávamos ecologia), ameaçados pelo nó da forca
portuguesa.
E fomos nos civilizando: nossos índios aprenderam a dar nó no sapato e na gravata e quando
sentiam nó nas tripas já não se tratavam com os nós das cobras. Ficaram supersticiosos, batendo
com os nós dos dedos (toc! toc!), e, catequizados pelos padres, acabaram aderindo ao nó
matrimonial católico.
Tinha que dar nisso — somos hoje um povo cheio de nós pelas costas. Desafiados pelo nó do
enredo, o nó da questão, nossos líderes acabaram transformando o nó corredio num nó cego que
ninguém desata. E agora esperamos em vão nosso Alexandre, aquele que terá coragem bastante de
meter a espada nesse nó górdio.
O resultado? Uma incrível corrupção, um tremendo “Venha a nós”. Quem paga por tudo
isso? Nós outros.
Tem razão o slogan: É um país feito por nós.

Veja, 3 de agosto de 1977


Jornal do Brasil, 29 de maio de 1988
Mais difícil do que interpretar nossa situação econômica é interpretar
uma interpretação econômica da nossa situação.

JÁ TEMOS ARQUEOLOGIA !
Todo país, à medida que avança, se descobre, proporcionalmente, para trás. O nosso já
adquiriu tanto domínio de sua história pregressa que hoje podemos mesmo nos considerar um país
autossuficiente em matéria de nostalgia. E agora, então, depois de importantes achados
arqueológicos, temos o direito de dizer, orgulhosamente, que o Brasil, sem dúvida alguma, “tem
um imenso passado pela frente”.
O fato é que, ultimamente, onde quer que se pise em nosso vasto território, surgem crânios
antigos (1), velhos alfarrábios, objetos arcaicos. Um desses achados, o mais extraordinário de
todos os tempos, veio provar que nosso sistema de governo, hoje considerado unanimemente por
FHC o melhor do mundo, tem profundas raízes em nossa história (2).
Pedra gigantesca que bloqueava a construção de moderníssima rodovia por baixo do rio
Amazonas, quando retirada, depois de partida por maquinaria de fabricação inteiramente nacional,
mostrou, embaixo, um tesouro de telhas escritas, pasmem!, em escrita cuneiforme (3). A princípio
os trabalhadores da estrada tentaram comer as telhas pensando se tratar de pão dormido (4), mas,
interrompidos imediatamente pelos economistas presentes (5), as telhas (6) foram apropriadas e se
revelaram documentos definitivos de nossa história remota.
Acreditamos que somos os primeiros a publicar a essência desses incunábulos (7), embora,
dada a linguagem forçosamente criptogramática dos textos, o façamos com nossos próprios
termos.
As telhas, aparentemente publicadas em capítulos semanais, contam a história do país naquele
momento, mas já se percebe, com um olho na posteridade, pois certas explicações eram desnecessárias
ao público da época. Os capítulos, assinados com um nome americano (8), descrevem o estágio
político do Brasil aproximadamente no ano 18 mil a.C., mostrando uma organização espantosamente
atual.
O governo se processava em duas grandes cavernas, uma chamada Câmara do Absoluto,
outra chamada Câmara do Compromisso. A primeira parece ter sido uma Instituição de
Caridade para benefício de pessoas de alto “ranking”, incapacitadas de ganhar a vida. Já a
Câmara do Compromisso era composta de representantes do povo, substituídos de vinte em
vinte anos por eles próprios. Cada município, parece, escolhia os piores criminosos da área e os
sentenciava a vinte anos de trabalhos semiforçados na dita Câmara. Se, ao fim do período, ainda
estivesse vivo, sua periculosidade era considerada anulada e seu busto inaugurado em praça
pública. A filosofia social por trás do esquema político tinha, sem dúvida, profunda sabedoria.
Burlar a lei, tanto do ponto de vista ativo como do ponto de vista passivo (9), era então a coisa
que mais dava prestígio ao cidadão, sem falar em dinheiro e poder. Ora, como todas as leis eram
invulgarmente ruins, o fato de elas serem permanentemente burladas acabava por desmoralizá-
las (10), estabelecendo vínculos fortíssimos entre os dirigentes canalhas e o povo cínico. Daí a
exegese, sintetizada por um filósofo social de então na frase que se tornou universal e chegou
até nós por outras vias: “Eu quero o meu.”
Na prática a coisa funcionava assim: o partido mais forte e bem armado (de tráfico de
influência com pistolas, metralhadoras e bazucas antitanque de uso exclusivo das Forças Armadas)
tomava conta da reserva florestal sob a liderança do comandante do grupo, que, por saber mais do
que os outros o valor dos dentes na caçada, preservava até longa idade seus incisivos, donde o nome
totêmico que passava a usar, preza-os-dentes, pouco a pouco corrompido em presidente. Os
adversários, uma vez vencidos na luta que, tradicionalmente, deveria ser incruenta, isto é, sem
derramamento de sangue, passavam a tecer loas incontidas aos vitoriosos, buscando “assimilá-los”.
Quando o preza-os-dentes FerQueCar já estava em sua quarta reeleição consecutiva houve,
motivada por falta de energia, tremenda rebelião militar em região do Nordeste, riquíssima em
plantação de atabaques. Devido a essa falta de energia todo o sistema de transporte local, movido
a música afro-brasileira e conhecido como Trio Elétrico, parou subitamente. Foi nesse momento
que o grande pajé Cabeça Branca, carinhosamente chamado de Mac, Cam, Mca, Amc ou Acm
(sigla ainda não decodificada), iniciou a transformação... (que, infelizmente, não podemos contar
porque uma das telhas devoradas pelos trabalhadores famintos era exatamente aquela em que se
narrava o episódio).

Moral: É praticamente impossível aprender com a história.

Notas:
1) De crânios novos estamos em falta.
2) Tão profundas que estavam enterradas a mais de vinte metros.
3) Se me permitem o termo.
4) Já era alguma coisa.
5) Há sempre alguns em volta. Nunca deixe de olhar embaixo da cama, ao deitar.
6) Tábuas silegéticas, o que é que isso queira dizer.
7) Telha é incunábulo?
8) Possivelmente pseudônimo. Já dava prestígio.
9) Havia uma gíria chamada Lei-tinho. A escrita está quase ilegível. Seria jeitinho?
10) “Não colou”, se diz hoje.

Folha de S.Paulo, 22 de julho de 2001


Jornal do Brasil, 4 de maio de 1989
Como é mesmo:
“Deu Zebra, Zileiro” ou
“Deus é brasileiro”?


Veja, 18 de abril de 1979
Veja, 13 de junho de 1979
Se Deus fosse mesmo brasileiro a nossa moeda seria o
dólar.

IstoÉ, 3 de janeiro de 1990
Deus é brasileiro naturalizado.


Veja, 10 de dezembro de 1975
Enquanto isso, na utopia...

Veja, 20 de janeiro de 1982


Brasil, meu Brasil brasileiro

Pô, também não devemos só falar mal! Pois ainda somos melhor em muita coisa:
1 — Nenhum brasileiro convoca os amigos para apedrejar a própria mulher porque ela o passou
pra trás.

2 — Nenhum jornal brasileiro gasta páginas e páginas com esportes idiotas como o beisebol.

3 — Só brasileiro muito pobre vai de bicicleta pro trabalho.


4 — Cremação, no Brasil, geralmente só acontece com o sujeito depois de morto.
5 — Mesmo os políticos são usados até o fim e não envenenados.
6 — Vaca sagrada no Brasil é só uma maneira de dizer, embora muitas vezes também atrapalhe o
tráfego.

7 — Quando um ministro fala demais ninguém nos impede de desligá-lo (na TV).

8 — Brasileiro não é muito chegado a coisas violentas, como touradas. O Brasil também não dá
grandes lutadores de boxe. Nosso machismo conhece suas limitações.
9 — Os trens podem não chegar na hora, mas chegam no dia.
10 — O tamanho e o desenho do país não têm mudado muito, nos últimos cem anos.


Veja, 4 de março de 1981
Esboço de história

Notas de um brazilianist

I) Documentos provando que o cedro-do-líbano não foi utilizado por Salomão na mais célebre
de suas edificações. O famoso templo foi construído com pau-brasil, donde essa história de que
Cabral descobriu o país é só pra fazer este mais moço.
II) Prova incontestável de que o episódio envolvendo o bispo Sardinha não foi oral...
III) Descoberta que vai agitar (pode dar expulsão): todos os personagens na história do Brasil
são fictícios, sobretudo os que, atualmente, atuam em Brasília.
IV) Estudo detalhado do uso da terra. Só houve uma reforma agrária fundamental — as
sesmarias e capitanias. Até hoje hereditárias.
V) Episódios mostrando como os brasileiros, desde a fundação do país, já preferiam as
multinacionais. Tribos inteiras, diante dos facões ingleses, espelhos franceses e sífilis de várias
procedências, entregavam todos os seus bens e terras, só por uma questão de status. E consumo.
VI) De como os índios se perderam por simples razões educacionais. Enquanto as mães europeias
sempre avisavam os filhos pra tomarem cuidado com bichos do mato, índios e outros animais, os
silvícolas não faziam qualquer restrição aos recém-chegados. Muito pelo contrário.
VII) A diferença entre as eleições tribais diretas — apenas com ligeiras influências de
“caciques” políticos locais que “protegiam” com tufos de fumaça e ameaçavam com seixos
mágicos — e as eleições indiretas dos reinóis, com decisiva influência de Deus e da Genética.
VIII) Manuel Joaquim Oliveira e sua espantosa descoberta no dia em que subiu no Roraima,
o ponto mais alto do país, e verificou que o Brasil era um gigante adormecido. (Hoje, aliás,
sofrendo de insônia permanente.)
IX) A Instituição do Santo do Pau Oco e em que proporção, através dos anos, o pau foi ficando
mais oco e menos santo.
X) Tentativa fracassada, logo na descoberta, de chamar o país de SILBRÁS.

Veja, 2 de agosto de 1978
Cartas ao passado. (I) de S.D., 1977, para C.C., 1492
Meu caro Cris,
é com certo retardo que venho te cumprimentar por mais esse teu descobrimento nos
trópicos. Fiquei realmente contente com você, afinal, depois de bater sucessivamente em tantas
ilhotas insignificantes, ter acabado por descobrir as Índias, que, já se dizia por aqui, eram pura
invenção tua. Uma coisa: se o que você descobriu é mesmo do tamanho que você conta é terra
demais: vai ser muito duro lotear. Só mesmo em sesmarias. Para podermos especular com bom
lucro, temos apenas, a nosso favor, a certeza de que uma terra desse tamanho vai ser praticamente
ingovernável.
Me deu muito boa impressão o teu informe de que a região, além de ser rica, bela e
saudável, está totalmente isenta de negros. Ainda bem. Já bastam os nossos problemas com os
cabindas, da África. Ah, provei todas as frutas que você mandou mas, francamente, só gostei
mesmo do tal de abacaxi. Pena que tenha tanta polpa — a casca é de um gosto maravilhoso. O
abacate achei excessivamente amargo. Vou experimentar com açúcar.
Meu sócio, o Gomes de Almeida, vai ao próximo baile à fantasia todo enfeitado com penas
de arara — e tem se divertido muito com a maneira de chorar — ao ser espancada — da
indiazinha que você lhe mandou no dia do aniversário. Mas lhe pede que tome muito cuidado com
esses nativos, que são traiçoeiros e jamais reconhecem o bem que lhes fazemos. Mudando de
assunto: pegou muito mal você batizar o continente com o primeiro nome do Vespúcio. Se o
pessoal já falava antes, imagina agora.
Teu S.D.
P.S. — É verdade que o continente que você acabou de descobrir é mesmo todo de frente,
com vista pro mar?
Não esquece de mandar a topografia da tal barra pra nós começarmos a construir as malocas
imediatamente. Tenho certeza de que os nativos vão comprar adoidados.

Veja, 2 de março de 1977
Navegadores

Colombo inventa as grandes viagens de inauguração de linhas
internacionais.
Com dinheiro de Isabel, a Católica, faz um belíssimo cruzeiro de
dois anos, levando de graça, na viagem, todos os seus amigos mais
íntimos, inclusive Américo Vespucci, que ele homenageia de maneira
suspeita, dando o nome de América à terra que descobriu. Cabral
adicionaria um ponto à história da Boca-livre trazendo consigo, para
descobrir o Brasil, seu cronista social e press releaser Pero Vaz de
Caminha.
Os navegadores, quando chegavam às terras que tinham a
obrigação de descobrir, estavam, em geral, tão bêbados, que
denominavam de Índias uma parte da América Central e de Rio de
Janeiro a baía de Guanabara. A consequência lamentável dessas
Bocas-livres foi a invenção do subdesenvolvimento.

Veja, 15 de setembro de 1976
Quando a senhora Cabral atendia à porta de sua casa e
alguém perguntava: “O Cabral está?”, ela respondia
com naturalidade: “Não senhor; foi descobrir o Brasil.”

Veja, 2 de fevereiro de 1977
Hoje, os historiadores sabem que o Brasil foi descoberto bem antes de
Cabral. Mas, na época, ninguém quis se responsabilizar.

Veja, 15 de dezembro de 2004


Arqueólogos cada dia mostrando mais evidências de
que o Brasil foi descoberto por navegadores fenícios
muito antes de 1500. Em suma, tentando reabilitar
Cabral, livrando-o de uma pesada responsabilidade
histórica.

Veja, 26 de abril de 1978
A característica fundamental dos brasileiros é
realmente a desmitificação. Dizem mesmo que 15 dias
depois da Descoberta do Brasil os tupiniquins já
murmuravam uns pros outros: “Chi, rapaz, lá vem o
Cabral de novo: esse português é chato!”

Veja, 12 de novembro de 1969
Vestibular — Múltipla escolha

Cristóvão Colombo, genovês das quantas, descobriu a América (e o Brasil dentro dela):
A) Na primeira viagem internacional à prestação (financiamento da rainha Isabel).
B) Num barco especialmente equipado para descobrir Américas.
C) Pensando que tinha descoberto as Índias, quando tinha descoberto o Haiti. Daí o nome. D) Mas
achou uma porcaria e botou o nome de um auxiliar, Américo Vespúcio. (Mais tarde descobriu um lugar
que achava realmente o quente e botou o próprio nome, Colômbia.)
Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil:
A) Porque, chegando diante daquelas terras gigantescas, não havia outra coisa a fazer.
B) Porque estudou em Sagres e buscava a consagração.
C) Porque tinha atingido o point of no return e, ou descobria o Brasil, ou o Brasil descobria Portugal.
D) Porque a Academia Portuguesa de Letras estava doida pra fazer o acordo ortográfico.
E) Porque o Brasil tinha as costas largas.
O bispo Sardinha foi:
A) O inventor de um processo de enlatar peixinhos.
B) O criador da Semana de Arte Moderna (antropofagismo).
C) O autor, infeliz e enganado, da frase: “No Brasil ninguém come ninguém por via oral.”
D) O primeiro prato do menu do primeiro restaurante estrangeiro no Brasil.

Veja, 1 de março de 1972


O BRASIL É O MUSEU DO ÍNDIO.


Veja, 10 de novembro de 1976
MINIMAL

Têm aparecido muitas comparações entre a tanga atual, usada pelas moças de Ipanema, e a primitiva
tanga de nossas bisavós indígenas. E se fala que levamos quinhentos anos para perceber que devíamos,
afinal, exportar esse produto, e se exibem conchas com as quais as primitivas mulheres brasileiras
cobririam as suas partes, aí!, pudendas. Mas é preciso que fique clara uma questão de momento: usando
tangas, as silvícolas começavam a se vestir. Usando tanga, as ipanemenses terminam de se despir. A tanga
antiga era o começo do pudor. A tanga moderna é o limite máximo conquistado pelo impudor. As mulheres
nativas cobriam o máximo — cobrir mais do que aquilo era um exagero inadmissível. As mulheres de
Ipanema descobrem o máximo — mostrar mais do que isso é uma agressão — ao sistema, ao uso e
costume, à estética, ao sensualismo e à própria comodidade. Praia, afinal, é feita de areia!

Veja, 15 de dezembro de 1976


Enquanto isso, na escravatura...

Veja, 16 de dezembro de 1981


Veja, 12 de novembro de 1980
Veja, 6 de junho de 2007
E dizer que a luta pela independência deste país
começou quando os portugueses exageraram na
cobrança dos impostos!

Veja, 23 de agosto de 1972
Gastando o latim

Bem, fiquei calado mais ou menos duzentos anos, na esperança de que algum latinista, algum erudito,
aparecesse para corrigir Inácio de Alvarenga. Como todo mundo sabe, está na História, está nos
“Autos” da Inconfidência, reuniram-se, em casa de Tomás Gonzaga, além do próprio, o dr. Cláudio
Manuel da Costa, Inácio de Alvarenga e o padre Corrêa de Toledo (1).
Nessa reunião, o grupo discutiu a já muito discutida questão da Bandeira da Nova República.
Cláudio Manuel da Costa, que já tinha feito uma proposta de bandeira, insistiu nela: a figura de um
gênio quebrando seus grilhões com a inscrição: “Libertas Aequo Spiritus” (2). Alvarenga lembrou então
que essa proposta já tinha sido feita numa reunião em casa de Francisco de Paula, mas que nem
mudando a legenda para Aut Libertas Aut Nihil o pessoal tinha topado. Naquela mesma reunião o
alferes Tiradentes tinha feito outra proposta: uma bandeira com um triângulo representando a
Santíssima Trindade. Ele próprio, Alvarenga, sugerira que se juntasse ao triângulo o verso de Virgílio:
Libertas Quae Sera Tamen e a proposta tinha sido aprovada. Nesta reunião aconteceu o mesmo — todos
acharam a ideia muito bonita. E a bandeira da insurreição ficou sendo, definitivamente, essa.
Pois desculpem, amigos, a ideia não é boa e o latim é péssimo. Eu, que sempre achei a frase
Liberdade Ainda que Tardia uma proposta completamente furada (3), resolvi, um dia, com minha total
descrença na História e nos Historiadores, ir diretamente à fonte da frase: Virgílio. E, como não podia
deixar de acontecer, a frase estava errada. Inácio de Alvarenga citou de memória, ninguém foi à fonte
(nem na hora, nem até hoje, duzentos anos depois) e o erro se perpetuou.
A frase de Virgílio é Libertas: quae sera. Essa frase, sim, dá em português Liberdade, ainda que
tardia. Como está na Bandeira (Libertas quae sera tamen) é um saudável bestialógico: Liberdade ainda
que tardia todavia.
Bem, mas como não sou latinista (4), é melhor reproduzir o próprio original (5) pro pessoal aí não
começar com discussões inúteis (6). Como sabem os que já leram as “Éclogas” (7) de Publius Vergilius
Maro, mais conhecido como Virgílio, logo no início da primeira écloga, dois personagens se encontram,
Melibaeus e Tityrus, este indo a Roma comprar sua liberdade. O diálogo:
Melibaeus — Et quae fuit tibi tanta causa vivendi Romam? (E qual foi, para ti, a causa tão
premente de vir a Roma?)
Tityrus — Libertas: quae sera, tamen respexit inertem; postquam candidior barbacadebat tondenti;
etc. (Liberdade: embora tardia, todavia (tamen) ainda me alcança em minha inatividade, quando a barba
já me cai embranquecida.)
Como veem os leitores, o tamen nada tem com a primeira parte da frase, escolhida por Alvarenga.
O que me permite repetir, mais uma vez: “A História é uma istória!” (8)
Notas:
1) Este repórter também estava presente mas, devido à sua extraordinária discrição, a História não
reparou nele. 2) “Deus do céu, que horror!” murmurou este repórter, do seu carro. 3) Qualquer grupo
revolucionário quando propõe liberdade é pra já, pô, e não ainda que tardia. Você pode aceitar uma
liberdade ainda que tardia, como o personagem de Virgílio, mas jamais propô-la como bandeira de luta.
Liberdade ainda que tardia já será, assim, uma antecipação de Minas está onde sempre esteve? 4) Aliás,
não sou nada. 5) Cito da excelente Interlinear Translation, de Hart & Osborn, David McKay Company,
Inc. Nova York. 6) Existem outras? 7) Ao todo 37 pessoas, no Brasil inteiro, sendo que 19 em São Luís
do Maranhão. 8) Relutei muito tempo em aceitar a palavra estória como conto, diferenciada de
História, narrativa de fatos importantes da vida da humanidade. Essa palavra foi criada pelo Diário
Carioca, no tempo em que este era dirigido pelo jornalista Pompeu de Sousa, agora em Brasília. Acho,
aliás não tenho certeza, que foi o próprio Pompeu de Sousa quem inventou a palavra. Todavia não vejo
por que, se a palavra é totalmente inventada, não se escreve istória, como se pronuncia. Se, porém, a
palavra pretende, ainda, alguma etimologia, esta vem, naturalmente, de História, e, portanto, também
nesse caso, dá istória.




Veja, 17 de janeiro de 1979


Veja, 22 de setembro de 1971
E COMO DIZIA DOM PEDRO, ACORDANDO DE
RESSACA NO DIA 8: “EU ONTEM PROCLAMEI O
QUÊ?”

Veja, 17 de outubro de 1973
De dom Pedro II a dom Pedro I:
“Paiê, o sinhor pode achá que eu inda num tenho idadi
mas se o sinhor quisé voltar pode, que eu fico...”

Veja, 30 de novembro de 1977
A HISTÓRIA DO BRASIL NÃO É A MESMA NO
PARAGUAI.

Veja, 6 de junho de 1973


CONSELHOS A DOM PEDRO III

A pretensão monárquica dos Bragança afirmando que a volta da nossa dinastia seria a solução dos
problemas brasileiros parecia uma vã especulação, ou uma proposta tola, até que dois acontecimentos a
tornaram mais viável: um, a possibilidade de dom Juan Carlos, da Espanha, sentar de novo no trono de
sua família, que lhe seria devolvido, depois de tantos anos, por Francisco Paulino Hermenegildo
Teódulo Franco Y Bahaamonte, o próprio. Dois: o movimento de retorno ao passado, Nostalgia, que
poderá servir de fluxo psicológico para a reinstalação de dom Pedro no Poder. Considerando esses fatos,
e reconhecendo as possibilidades deles decorrentes, damos aqui nossas dicas ao futuro soberano
brasileiro, dom Pedro III. Não, naturalmente, sem a clássica advertência de que não pretendemos nada,
não temos a menor ambição nem desejo de participar de qualquer ministério. Estaremos satisfeitos com
a volta do pelourinho — um espetáculo bem mais educativo do que a televisão — e do serralho. Ou
estou pregando uma inovação, no Brasil, em matéria de uso da Mulher? É, eu sou incorrigivelmente
prafrentex.

DOM PEDRO? OLHE LÁ:
É bom o senhor ir, desde já, erradicando (!) certos hábitos inteiramente nocivos, democráticos, e até
mesmo populares, que adquiriu fora do trono. Por exemplo: já notou que, como o Marzagão da primeira
fase, o senhor tem uma terrível cara de português entregador de gelo? Eu lhe garanto, e não estou sendo
injusto, podes crer, que, se meterem uma bicicleta embaixo de suas reais pernas e colocarem uma pedra de
gelo em cima de seus reais braços, nem mesmo o mais fanático dos monarquistas vai perceber que o
senhor é quem é. Mas a coisa não é insolúvel. Basta seguir o exemplo do dito Marzagão. O senhor tem
boa estatura e pode, com um simples mise-en-page, mudar a sua imagem. O mise-en-page presume,
naturalmente, um mise-en-plis e uma mise-en-scène. Sintetizando: raspe seu bigode à Groucho ou deixe-o
crescer mais, deixando crescer também barba e cabelo. Ondule mais os cabelos, deixe-os à pajem, pelo
menos mais displicentes. Enfim, aggiorne-se, cotidianize-se. Além disso, no setor mais propriamente da
mise-en-scène, acabe com os maus hábitos contraídos no ostracismo — cumprimentar os que o
cumprimentam, pagar as contas e apertar mãos indiscriminadamente. Se não tomar cuidado, quando sentar
no trono pela primeira vez é capaz até de se levantar e ceder o lugar a uma senhora.
Conselhos fundamentais:
1) Fale sempre na terceira pessoa quando falar de si próprio: “O Pedro disse...”, “O Pedro fez...”.
Quando já estiver acostumado com esse hábito típico de automitificação-personal, passe a falar de si
próprio na primeira pessoa do plural. Use o nós. Quando estiver empregando o nós com tal propriedade
que as pessoas com quem fala sintam que esse nós corresponde, profundamente, à sua própria
personalidade coletiva, de dono do trono e senhor inconteste do país, quando, enfim, as pessoas, ao
ouvirem o nós, não mais olharem em volta procurando o motivo do plural, aí o senhor estará pronto, no
tópico Tratamento Pronominal.
2) Estude seus gestos longamente, ao espelho. Se achar que os seus gestos estão demasiado lentos,
ralente-os ainda mais. A imobilidade quase absoluta é parte e parcela (vá lá a tradução marota de part
and parcel em homenagem ao Paulo Francis) da soberania. Fite-se muito, até que, de tanto se fitar,
consiga ignorar totalmente o resto do mundo.
3) Sempre que se levantar, pela manhã, faça o possível para carregar consigo cobertores e lençóis,
e continue com eles o dia inteiro, até que esteja acostumado ao peso, dobras, embaraços e cansaços do
manto do poder.
4) Abrir portas, como até hoje tem feito, jamais! Demagógico num tirano, natural num democrata,
esse gesto é impensável num verdadeiro monarca. Jamais se dê a tal desfrute. Avance de encontro a
portas, na certeza de que a magia do seu poder (transformada em criados permanentes por trás de todos
os batentes) sempre as abrirá de par em par (as portas de hoje, que raramente são duplas, abrem sempre
de ímpar em ímpar, mas não ligue, estamos só treinando), antes que Vossa Majestade bata nelas com seu
monarquíssimo nariz. Se quiser um treino mais perfeito, tente frequentar permanentemente o restaurante
do Copacabana Palace ou o Aeroporto de Brasília, onde as portas têm células fotoelétricas. É claro que
jamais passaria, senão pela cabeça de um governante plebeu, instalar células fotoelétricas nas portas de
seu futuro palácio, mas o treino lhe dará uma medida de distância. Depois treinará com criados atrás de
uma porta de vidro. Enfim, os criados saberão abrir até uma porta de carvalho, sentindo o senhor do
outro lado.
5) Evite qualquer gosto peculiar e definido. Um monarca é sempre indefinido. Aceita com ardor as
danças populares quando está com o povo (afirma publicamente que são o orgulho de sua raça e estirpe) e
logo aceita com ardor os requebros musicais das danças de sua corte e coorte (afirmando, da mesma
maneira, que só a nobreza constrói para a eternidade). Tanto nobreza quanto povo participarão com
exaltação de suas mentiras, achando que o senhor, naturalmente, tem que mentir para a outra metade.
Um verdadeiro monarca hesita até no seu próprio hino nacional, pois nunca se sabe exatamente qual o
hino nacional de um monarca, que tem, por trás de si, as mais variadas cruzas históricas.
6) Porém não vai mal cultivar um esporte popular, por exemplo, o futebol, hipertrofia de uma
nação, porém glória de um povo, forte e saudável (das coxas para baixo). Outrossim, também não lhe
ficará mal ganhar, ocasionalmente, uma loteria esportiva, e distribuir o resultado com o povo.
7) Tome, desde já, o maior cuidado com outros Pretendentes. Não há maior perigo para um
Pretendente sério do que, por exemplo, um Pretendente Playboy. Eu conheço três.
8) Um bom monarca deve ser possuído, sempre, do maior tédio possível. Por isso sorria bastante
agora, viva sorrindo, sorria horas em frente ao espelho, até que o seu sorriso fique bastante artificial, um
ríctus em sua face austera, apenas um gesto de cortesia. Para saber como se sorri, basta estudar um
pouco de fisiologia, a mecânica dos músculos faciais e o sistema neuromotor do encéfalo.
9) Isso custa caro, mas presenteie! Desde já, sempre e muito. Cuidado, porém: não vá dar presentes
úteis a ninguém. O fundamental em qualquer monarca (chega a ser mesmo uma característica da
monarquia, embora muitos presentes já tenham sido contaminados pelo vírus) é dar presentes o mais
absolutamente inúteis possível. Por isso é sempre bom você ter à mão um para-choque de automóvel
cravejado de brilhantes, um puxador de descarga de privada em ouro maciço ou um cadarço de sapato,
de platina. Nada mais distintivo do gosto e do requinte da verdadeira monarquia.
10) Evite o brilho vocabular, oculte sua inteligência verbal. Os maiores inimigos dos monarcas
sempre foram os intelectuais, que, afinal, em tantas épocas, os derrubaram. E por quê? Porque os
monarcas se fizeram invejáveis, não pelo próprio poder político (os intelectuais são usualmente
capachentos) nem pelo ouro que possuem (os intelectuais são facilmente subornáveis), mas pelo fato de
serem intelectualmente brilhantes. Assim, limite seu falar, quando estiver com gente supostamente
talentosa (eu, por exemplo), a perguntas simples: “De onde você é, Millôr?”, “Parece que vai chover,
hein, Leo Gilson?”, “Quanto tempo você leva pra pintar um quadro, Duke Lee?”, e verá que todos dirão
que o senhor é um monarca inteligentíssimo e cultíssimo. Jamais caia na asneira de concorrer no terreno
desses intelectuais, dizendo, assim como quem não quer nada: “O preço da liberdade é a eterna
vigilância”, “Se o triângulo tivesse um Deus, o Deus teria três lados”, “O teor da cognoscência
epistemológica é sempre um fator diuturno de posteriores revoltas”. Será morto ou destituído, ou morto
e destituído, ou destituído e morto, na mesma hora.
11) Regicídio não anda muito em moda, ultimamente. O que anda mais em moda é mesmo
presidenticídio ou candidaticídio ou lidernegicídio. Mas é sempre bom tomar cuidado, porque maluco tá
dando sopa por aí, nesse Brasil. Colete à prova de bala, conforme se sabe, nunca salvou ninguém de
uma boa facada no cangote e muito menos de uma boa bomba entre as pernas. Se o senhor quer mesmo
proteger o peito, um hábito mais salutar, e menos vergonhoso, é o de usar medalhas e crachás em
pencas. (Aliás, as condecorações foram feitas, precipuamente, com esse fim. A vaidade veio depois.)
Como proteção maior, é sempre bom escolher grandes ministros, que o amparem da ira dos fanáticos.
Quando falo grandes ministros, uso o duplo sentido de propósito. Se for um grande ministro, talentoso e
honesto, o senhor será mais popular e correrá menos risco. Se o ministro for apenas fisicamente grande,
o senhor o usará como escudo em qualquer ataque. Se for grande e grande, tanto melhor.
12) O senhor deve monarquizar imediatamente os seus hábitos sexuais, usando com largueza de
vistas (e outras larguezas) pessoas de classes inferiores, desde que belas (os monarcas são dados a essas
incongruências e o senhor teve um tatatatatatatatataratio que foi um cobra no assunto, valha o termo).
Não hesite.
13) Faça de sua assinatura uma firma ainda mais irreconhecível e elaborada do que a atual.
Acrescente pernas, florões e manchas peculiares até que ela seja inimitável ou insubstituível.
14) Eu sei que o senhor mora esplendidamente bem, mas, se reposto no trono a que tem todo o
direito, deverá habitar de novo as amplidões incríveis dos palácios governamentais. É natural que o senhor
construa outros palácios que não os atuais, pequenos e mesquinhos para todo um passado de
reivindicações. Vá treinando os novos espaços com que terá que conviver, passando dias na Biblioteca
Nacional, Museu de Belas-Artes e Quinta da Boa Vista. Visite também a estação da Central, o aeroporto
do Galeão (muito pequeno, mas serve para lhe dar a ideia da garagem do seu futuro palácio). Aliás, o
aeroporto serve para um treino essencial. Fique lá bebendo chope durante quatro horas e depois caminhe
com toda dignidade até encontrar o pipisório, dois quilômetros adiante. Em seu palácio, o senhor jamais
estará a menos de vinte salas de distância do reservado para monarcas em exercício.
15) Tenha uma ou duas esposas morganáticas no decorrer de sua gestão.
16) Tenha, porém, uma esposa definitiva, que seja da realeza. É preciso combater a terrível
tendência atual a procurar laços populares que, todos sabem, são o câncer das grandes dinastias. De
qualquer forma, assim que se interessar por uma jovem, avise imediatamente o Paris Match para que
ele faça uma reportagem em cores com o senhor.
E é só. Agora um teste, para apurar o resultado de tudo que está escrito acima:
A — Você ficou meio sobre o ofendidão em ser aconselhado por um plebeu, que de monarquia só
visitou duas vezes o Museu de Petrópolis e quase foi reprovado em História do Brasil? B — Você teve
que ir no dicionário para saber o que é epistemologia? C — Ficou meio sobre o chateadão com a falta
de respeito e o tratamento impróprio (eu não sei mesmo como se trata majestade, podes crer) com que
foi chamado? D — Você mandou alguém ao dicionário para saber o que é epistemologia? E — Você leu
tudo alto, com a maior cara de pau e senso de humor? F — Você chamou o seu irmão, que também é
pretendente mas disfarça com comportamento democrático, e disse: “Ói, João, o teu amigo resolveu nos
gozar agora”? G — Você nem tomou conhecimento do artigo, pois não lê senão heráldica e genealogia?
Resposta — Se você respondeu tudo afirmativamente, você é um insuportável democrata e não
terá a menor chance de permanecer no trono. Se você chamou um secretário, mandou responder às
perguntas e assinou sem sequer olhar, você tá no bom caminho.
P.S. CONSELHO FINAL: Governar, mesmo monarquicamente, é chato. Uma vez no poder, você
bem pode se entregar aos piores vícios, conhecidos ou desconhecidos, tal a encheção que é ficar
sentadão num trono oito horas por dia, de sol a sol. É bom, portanto, ir, desde logo, se viciando em
alguma coisa, para que esteja bastante prático e aguentar bem, quando necessitar de um vício oficial.
E tenha sempre em ordem os seus papéis. A coisa mais humilhante para um soberano é, quando
deposto, não poder ser mandado pra fora do país porque seus papéis não estão em ordem.

Veja, 5 de janeiro de 1972


Corrigenda. Sérgio Porto escreveu um samba-enredo que hoje é um clássico: “O samba do crioulo
doido”.
Que conclui: “E foi proclamada a escravidão.” Perdão, Sérgio, onde quer que você esteja,
mas a conclusão está errada.
Porque quando os portugueses, de parceria com os africanos, começaram a importar seres
humanos pra trabalhar de graça em seus quintais, nunca se lembraram de escrever em seus
documentos: “Hoje, tanto de tanto de 1533 da era escravocrata...” E toca a dar porrada nos negros,
castigos, sevícias, et cetera, sem hora ou data registrada. Por isso, no dia 13 de maio de 1888,
quando assinou a lei de libertação, a princesa Isabel tornou-se a primeira a reconhecer que havia a
escravatura. Proclamou-a. Parabéns, crioulo lúcido!
P.S. O decreto da Princesa tem um adendo de que ninguém fala. “E cada senzala será
transformada em 100 (cem) quartos de empregada de 2x2, fundos.”

Veja, 23 de maio de 2007
Até hoje o baile mais famoso do Brasil foi o da Ilha
Fiscal. Exceto, claro, quando chega esta época do ano
com o baile da Receita Fiscal.

Veja, 19 de março de 2008
O Fim do Império

A moçada toda estava na maior Boca-livre da História do Brasil, o Baile da Ilha Fiscal, mas
quando saiu, já dia claro, percebeu que, pelo menos na Monarquia, a Boca-livre tinha acabado.
Felizmente, porém, a República não abandonou esse costume, dos mais saudáveis da Monarquia.
Os maîtres de todas as presidências continuam sendo escolhidos entre os melhores.

Veja, 15 de setembro de 1976
Veja, 16 de abril de 1969
Os documentos estão aí mesmo pra quem quiser ver: se
não fosse a CIA, o Brasil estaria hoje completamente
dominado pelos gauchocongs!

Veja, 2 de fevereiro de 1977
Duas talagadas a mais provocaram a renúncia de Jânio
e tudo isso o que está aí.

Veja, 22 de abril de 1981
Veja, 10 de fevereiro de 1982
MILLÔR E AS LIÇÕES DE UM IGNORANTE
Mas, afinal, o que é a liberdade?

Inúmeros leitores estão certos, pelas razões imediatas, de que a Liberdade não existe, é uma figura mitológica, criada pela
pura imaginação do homem. Mas a Liberdade existe! Não só existe como é feita de concreto e aço e tem cem metros de altura. Foi
doada pelos franceses aos americanos em 1886, porque os franceses naquela época tinham muitas liberdades e os americanos
nenhuma. Recebendo a Liberdade dos franceses, os americanos colocaram-na na ilha de Bedloe, na entrada do porto de Nova
York. Esta é a verdade indiscutível — até hoje, a Liberdade não entrou no território americano.

Não reparem na fisionomia da Liberdade. Parece Tendo custado tanto


caricatura mas não é. A Liberdade é, realmente, meio
dinheiro, a Liberdade põe,
caricatural. Aqui, na cabeça, pode-se entrar subindo num
elevador. Dentro, em lugar de cérebro, a Liberdade tem um assim, em cheque, a segurança
enorme espaço vazio, com escadas dando para o nada. dos meus amigos da UDN que
afirmam, de boca cheia e frase
importada, que “O preço da
Liberdade é a eterna
vigilância”. Não é. Como
acabamos de provar, o preço da
Estas coisas pontudas aqui nunca ninguém soube o que
Liberdade é 800.000 dólares.
sejam. Parece uma previsão de defesa antiaérea. Coroa de louros
não é. Pois, como sabem, mesmo os mais retardadinhos, Isso, naquela época, há quase
antigamente costumava-se coroar heróis e deuses com coroas de um século atrás. Porque,
louro. Mas, quando a Liberdade foi doada aos Estados Unidos, atualmente, o Fundo Monetário
nós, os brasileiros, já tínhamos desmoralizado o louro, usando-o Internacional calcula o preço da
para dar gosto no feijão.
nossa Liberdade em
aproximadamente 800 milhões
de dólares.
A confecção da monumental efígie, eco de muitos e outros
sonoros galicismos, custou à França a importância de 300.000
dólares. Quando a Liberdade chegou em Nova York, os
americanos imediatamente mandaram-lhe fazer um pedestal que,
sendo americano, custou muito mais do que o principal: 450.000
dólares. É um pouco como o monumento aos nossos pracinhas,
que custou mais do que toda a guerra. (Aliás, dizem que o

governo brasileiro também vai mandar construir, junto ao
monumento dos pracinhas, uma estátua da Liberdade. Assim
ficarão juntos dois monumentos aos nossos grandes mortos.)

Aqui, na mão esquerda, a Liberdade traz, permanentemente, o Código Mosaico. Ao contrário do que muita gente pensa, o
Código Mosaico não é um código feito de cerâmica São Caetano. Significa Código de Moisés. É o mais antigo postulado de Lei
conhecido, o mais simples, o que trata de itens mais fundamentais. Foi dado ao Homem, ou melhor, a Moisés, diretamente por
Deus, sem intermediários, sem qualquer Ato Institucional. Esse código da Lei é mais conhecido como os DEZ MANDAMENTOS
e serve para provar que a Lei não serve para coisa alguma. Pois, apesar de serem apenas 10 os mandamentos aqui contidos, até
hoje nenhum foi respeitado.
Não matarás — Hoje não só se mata, como se mata cientificamente, 100 mil de cada vez, em lindas explosões de efeitos
pirotécnicos.
Não roubarás — (Vai sem comentário.)
Não prestarás falsos testemunhos — As Comissões de Inquérito estão aí mesmo, conseguindo corromper mais do que a
corrupção que buscam apurar.
Não cobiçarás a mulher do próximo — Isso, hoje, não só não é crime, como dá cartaz internacional.
Honrarás Pai e Mãe — Hoje, o respeito sagrado a Pai e Mãe foi substituído pela comercialização dessas figuras. O comércio e a
indústria encamparam o pai e a mãe, desmoralizando-os inapelavelmente. Hoje o que a gente honra, em dia marcado, é o Papai da
Coca-Cola, um pai com duas calças, e uma mãe Erontex, dissensibilizada, feita de matéria plástica.
Etc., etc., etc.


Detalhe importante: tendo sido ofertada aos americanos pelos franceses, a ilustre senhora que preside a inviolabilidade do lar
e o habeas corpus não deve ser chamada de Liberty. Seu nome verdadeiro é Liberté. (Na verdade, fracassou na França e os
franceses a deportaram.) É irmã da Egalité e da Fraternité, duas outras senhoras que morreram na Primeira Guerra Mundial.
Morreram sem deixar descendentes. Morreram virgens.

Mas, seja como for, aqui está a Liberdade prontinha, como se a conhece hoje em dia. Contam que quando Bernard Shaw esteve
nos Estados Unidos foi convidado a visitá-la mas se recusou afirmando que o seu gosto pela ironia não ia tão longe.


Agora, o mais importante de tudo, para os jovens brasileiros que acompanham minha Lição: a LIBERDADE BRASILEIRA tem
uma diferença fundamental dessa aí, franco-americana. Reparem bem nessa e lembrem-se da nossa, pois a diferença é bem
palpável. Não notam a diferença? Não se lembram mesmo? Vejam como as nossas Lições de Ignorância, que vimos ministrando
através de livro, rádio, televisão e, agora, revista — são importantes. Vocês não sabem qual é a diferença entre essa liberdade,
estrangeira, e a liberdade nacional! Ninguém sabe! É por isso que, quando chegam por aí uns estrangeiros cheios de liberdades,
vocês nem se perturbam. A diferença entre a liberdade brasileira e esta aí, é que... E dizer-se que durante cinco anos, diariamente,
os professores lhes ensinaram isso na escola primária! A diferença, meus amiguinhos, é que a liberdade brasileira tem asas!
Durante cinco anos vocês aprenderam isso, diariamente, cantando:
Liberdá-aaade, Liberdá-aaade, abre as asas sobre nós!

Agora uma pequena sugestão nossa para a nossa liberdade em favor do nosso desenvolvimento. Nossa liberdade, em vez de
tocha, deve ter uma lâmpada, mais moderna e potente, que ilumine melhor os nossos caminhos.


Em suma, amigos, aqui está a nossa liberdade, melhor do que todas as outras, porque é alada e eletrificada. Só tem um defeito:
detesta Brasília.














Pif-Paf, 22 de junho de 1964
Os estudantes dos males do mundo deveriam olhar com mais cuidado os desenhos infantis que se publicam em jornais e revistas – há sempre
um sol brilhando, mesmo que o dia seja tempestuoso.

Veja, 1 de outubro de 1969


Millôr e os totalmente inadaptados

Veja, 2 de novembro de 1977


Passeata dos cem mil. Vocês não vão acreditar, mas eu também estava lá. Em geral não falo dos
meus feitos de bravura porque não os reconheço no que narradores os transformam. Pelo que leio
hoje, eram cem mil vítimas ou heróis.
Um dos poucos que estavam ali se divertindo era eu. Não pretendi tomar o Palácio de
Inverno (fazia um calor danado), nem mesmo o posto 9 de Ipanema.
Seguia a multidão, agora me lembro, quando passamos pelo Amarelinho. Em uma janela do
edifício avistei o pintor Bandeira (Banderrá, como era conhecido em Paris) e acenei. Ele acenou
de volta.
Ah, tem mais; li numa nota publicada por Arthur da Távola. Alguém na parada acendeu um
cigarro (não conquistamos outras liberdades, mas perdemos a de fumar, até eu, que nunca fumei)
e, distraído, queimou meu braço. Aflito, disse:
“Desculpe! Desculpe!” Eu, com meu reconhecido espírito (haja mito), respondi na bucha: “É
bom eu ir me acostumando.” Arthur, quando é que você inventou essa história?
Passeata dos cem mil. Quem foi que contou?

Veja, 30 de abril de 2008
— Jamais dou o braço a torcer.
— Mas no DOI-CODI eles nem pedem!

Veja, 16 de junho de 1982
Quem é de oposição é porque não é de muito falar.

Veja, 31 de janeiro de 1973


Existe alguém que mereça mais o AI-5 que os que o
inventaram?

Veja, 17 de maio de 1978
Veja, 4 de julho de 1973
ORAÇÃO AO TODO-PODEROSO

“Superministro nosso que estais em Brasília, benditas sejam as
Vossas siglas, venha a nós a Vossa tecnocracia, assim na terra
como no céu e no mar.
O empréstimo nosso de cada dia nos dai hoje e perdoai o nosso
endividamento progressivo assim como nós perdoamos o Vosso
AI-5. Não nos deixeis cair em inflação e livrai-nos do comunismo,
amém.”

Veja, 8 de junho de 1977


Aviso à cultura nacional: móbiles parados por absoluta
falta de ar.

Veja, 15 de dezembro de 1976
Veja, 8 de dezembro de 1976
Veja, 15 de setembro de 1971
Veja, 27 de julho de 1977
Da pretensão intelectual de Castello Branco passamos à grossura
paternal de Costa e Silva que foi substituída pela algidez abúlica de
Garrastazu, que deixou o lugar para a altanaria romano-prussiana de
Geisel, que o entregou a seu delfim (não neto) o ego-sum-qui-sum
João Figueiredo, todos bem diferentes mas com uma identidade em
comum — o absoluto desprezo pelo civilis vulgaris.

Veja, 28 de novembro de 1979
Veja, 28 de setembro de 1977
Veja, 12 de abril de 1978
Chama-se de Democracia Relativa uma democracia com a cabeça a
prêmio

Veja, 8 de novembro de 1978


Libertas quae sera tamen
TRADUÇÃO:
Distensão lenta e gradual

Veja, 4 de maio de 1977
Eles dizem e eu concordo:
“É PRECISO NÃO CONFUNDIR
LIBERDADE COM LICENCIOSIDADE!”

Mas acho também que é preciso não confundir:

Presidente com divindade


Ministro com impunidade
General com a generalidade
Três poderes com Trindade
Brasília com a verdade
Gradualismo com grade
Cadeia com Faculdade
Machismo com hombridade
Censura com moralidade
Mafioso com confrade
Grossura com densidade
Crença com credulidade
Pose com dignidade
Prudência com morosidade
Muitos com pluralidade
Omisso com neutralidade
Pôster com posteridade
Inflação com prosperidade
Chatice com profundidade
Escândalo com publicidade
Gangue com sociedade
Vídeo com realidade
Simplícitas com simplicidade
Teimosia com tenacidade
Colaboração com venalidade
Copersucar com velocidade
PCB com comunidade
Cumpra-se com cumplicidade
(cumprassidade)
Mordomia com edilidade
Causa com festividade
Fome com frugalidade
Fato com fatalidade
Adesão com habilidade
Carteira com identidade
Medo com honestidade
Justiça com iniquidade
Cargo com propriedade
Esquema com casualidade
Mandioca com eletricidade
Submissão com elasticidade
Inércia com estabilidade
Inerrância com infalibilidade
Agachamento com flexibilidade
Patota com lealdade
Controle familiar com mortandade
Ditadura com unidade
Conivência com afinidade
Cidade com atrocidade
Burrice com austeridade
Burrice com probidade
Semestre com anuidade
Boça com boçalidade
PNB com brutalidade
Crise com calamidade
Filé com carnalidade
Osso com carnosidade
Parto com maternidade
Engravidar alguém com paternidade
Tamanho com maioridade
Rapaz com rapacidade
Sangueira com consanguinidade
Paúra com urbanidade
Inconsistência com variedade
Agrado com viscosidade
Civil com civilidade
Convexo com concavidade
Duplo com duplicidade
Momento com eternidade
Orgulho com fatuidade
Incesto com fraternidade
Esgar com hilaridade
Dureza com integridade
Descontração com promiscuidade
“Legal” com legalidade
Vaga com propriedade
P.-Louquismo com
Ex-centricidade
Hospital com hospitalidade
Cornice com mansidade
Parricídio com orfandade
PI grego com piedade
Aparência com qualidade
Ausência com raridade
Chuvisco com tempestade
Pernóstico com sumidade
Frieza com virgindade
Bagunça com atividade
Mau verso com adversidade
Viração com agilidade
Salomão com ambiguidade
Prior com prioridade
O mano com a humanidade

UND SO WEITER...
Veja, 20 de agosto de 1980
Veja, 2 de fevereiro de 1977
Veja, 9 de julho de 1980
Veja, 21 de dezembro de 1977
— Enfim, a luz no fim do túnel!
Veja, 30 de novembro de 1977
Veja, 11 de janeiro de 1978
Da inflação

A inflação está para a economia como a falsificação está para a moeda.
***
Na inflação tudo sobe ou só o valor do dinheiro desce?
***
A inflação também tem suas compensações: o que você não tinha antes valia muito menos do que o que você não tem agora.
***
Inflação: onde comem dois já não come nem um.
***
Mistérios dos mistérios: o trabalhador ganha cada vez menos para produzir coisas que custam cada vez mais.
***
Consolo: com a inflação até os mendigos acabam milionários.
***
Está bem, vamos continuar a apertar o cinto: mas onde é que estão as calças?
***
Com os preços cada vez mais altos, o dinheiro só dá mesmo pro supérfluo.
***
Dentro em breve os floristas só venderão pétalas. E à prestação.
***
Os preços sobem com tal rapidez que a gente já não sabe se está comendo num restaurante ou na Bolsa de Valores.
***
Com a inflação desse jeito, os pobres já nem podem sonhar com o que jamais terão.
***
Inflação?, dizia o outro. Bem! a carne anda cara: você deixa de comer carne. A fruta anda cara: você deixa de comer fruta. O
legume anda caro: você deixa de comer legume. Aí só lhe resta comer macarrão todos os dias porque massa ainda é uma comida
barata. Um mês depois você vai fechar a calça e vê que ela não fecha mais. Isso é inflação.
***
Não adianta sofismar: a dívida é a maior causa da inflação.
***
Inflação corresponde, em economia, ao que os psicanalistas chamam de carência. Isto é, a gente tem excesso de uma coisa que não
tem.
***
A inflação começa e termina com o oportunismo político-financeiro.

Veja, 12 de março de 1980


Veja, 30 de janeiro de 1980
Glória, Glória, Aleluia!

Imagina o orgulho meu, ali no escuro,
Bomba na mão,
Sabendo que, deste lado do muro,
Aqui, comigo,
Está a História.
Do meu lado,
Me olhando com carinho de suas tumbas,
Vejo Savonarola,
Hitler, Torquemada,
Stalin, Franco,
Me estimulando do passado,
Enquanto me preparo e me concentro
Pra acionar com precisão o meu engenho,
Que fará explodir toda essa gente,
Lançando em pedaços, no ar quente,
Os vultos de Mozart,
Beethoven, Mahler,
Callas, Wagner, Caruso,
Que tocam e cantam insistentes,
Noite adentro,
O seu som imoral,
No Riocentro.

Veja, 26 de agosto de 1981
Brasil — Ano I (Depois do Riocentro)

Veja, 15 de julho de 1981


Veja, 3 de junho de 1981
Estive medindo a abertura: tem exatamente 0,75 por
0,95. Dá pra passar um homem agachado. Bem
agachado.

Veja, 15 de novembro de 1978
Veja, 8 de março de 1978
Veja, 22 de fevereiro de 1978
MILLÔR E O RECRUDESCIMENTO
1970 — É, rapaz, não tem saída mesmo.
1972 — Há oito anos que procuramos em vão...
1974 — Eu paro. Eu me rendo. Eu desisto!
1975 — Ei! Espera aí! Olha lá!
1976 — Milagre! A luz no fim do túnel!
1977 — Mais depressa! Acelera!
1978 — Deus do céu, estamos saindo!
1980 — Livres! Livres de novo!
1981 — Eu recrudesço!
— !!!???!!!
1982
1983 — Ah, não! Outro túnel!
1984
Veja, 30 de dezembro de 1981
VALE A PENA VER DE NOVO!

Retrato de José Ribamar — Sir Ney — publicado no Jornal do Brasil em 1985, no dia em que ele virou
presidente da República. O presidente eleito, Tancredo Neves, morreu antes de tomar posse, vítima de
diverticulite. Sarney subiu ao poder por pura levitação. Até hoje age como, e é considerado, a
diverticulite da nação. Fomos bigodeados!

Veja, 1 de julho de 2009


Como é mesmo o nome?

Então vamos mudar tudo de novo, pra ficar no mesmo, e o invólucro (antigamente se
chamava pacote) vem cheio de timbres elogiosos. Deveria vir, prudentemente, com etiquetas de
frágil, cuidado, o santo é de barro, this side up, como recomendam os prevenidos mortais que
remetem coisas. Mas o poder é elogiável per se, bonito por natureza. O Brasil está condenado à
esperança, e agora a esperança se institucionalizou, faz parte do currículo da Nova República,
vem com diploma cor-de-rosa. Há mais puxas entre o céu e a terra do que conhece tua filosofia,
Horácio.
Chamar de Nova República a Velha República de todos os tempos e de quase todos os
pecados — e 90% dos mesmos degradados filhos de Eva — me lembra sempre aquela velha
adivinha: “Se você chamar de pata ao rabo da vaca, quantas patas têm quatro vacas?” Resposta
do Governo: “Vinte patas.” Resposta minha: “Dezesseis. Chamar de pata ao rabo da vaca não
transforma o rabo em pata.” A não ser nas estatísticas da FGV. No plano político, qualquer vaca
tem quantas patas o poder mandar. Os áulicos “extrapolam” e dizem que é pata não só o rabo, mas
também as orelhas e os chifres.
Os gregos chamavam isso de eufemismo.
Prático, no, mamita?

Jornal do Brasil, 9 de setembro de 1985
Jornal do Brasil, 31 de março de 1985
— A inflação baixou! Pô, eu não disse?; Era só mudar o cálculo!
— A Nova República acha que uma lei vale pela rapidez com que é aprovada
— Nova República: todos os sinais vitais preservados
— Responda (Doutor Dornelles) depressa: Afinal, um presidente tem ou não tem irmãos?
— Nova República: Pão dormido, Banana machucada, Pacto faisandé, Queijo Gorgonzola ou malamada?
Como hoje também não tem reunião de intelectuais na casa grande? Céus!
Jornal do Brasil, 9 de junho de 1985
Jornal do Brasil, 15 de novembro de 1985
— Está cada vez mais convencido de que é um homem de letras.
Vocês já perceberam como o FMI é feminista? Basta um ministro nosso começar a bancar o machão que o FMI manda uma
mulherzinha deles aqui para olhar as contas. (Mulherzinha, Millôr!)
Jornal do Brasil, 27 de agosto de 1986
"Ontem a Bandeira Nacional doi hasteada no mastro da praça dos Três Poderes com um gigantesco remendo no losango amarelo." O
Globo — 11.11
Há muito o país abandonou o espetáculo que era a troca de seu principal lábaro (epa!), há muito o país não tem um milhão trocado pra
pagar a troca, há muito o país esqueceu que houve um momento de orgulho (na campanha das diretas) em que todos se vestiam de
verde-amarelo. Agora, no mastro de Brasília, tremula uma bandeira não ocasionalmente rasgada, mas viciosamente remendada.
Tremula a bandeira, tremula o país, tremulamos todos, rotos e esfarrapados. Habemus símbolo!
"A Bandeira é o símbolo da Pátria, assim como o hino o seu símbolo acústico." Definição oficial do MEC.
"Antes te hovessem roto na batalha
Que servires a um povo de mortalha" Castro Alves.
(Que não conheceu Sir Ney)
Jornal do Brasil, 13 de novembro de 1987
Todos os políticos, politiquelhos e politicalhos ainda
lutando pra pegar a última carona na carruagem da
princesa. Só não percebem que, à meia-noite do dia em
que a Constituição for promulgada, essa carruagem vai
virar jerimum.

Jornal do Brasil, 8 de setembro de 1988
E o sol da liberdade em raios fúlgidos, brilhou no céu pátria nesse instante
Constituinte
Vocês repararam que tanto o "parlamentarismo", de Jango, quanto o "presidencialismo", de Sir Ney, ambos os dois, foram impostos
pelos militares?
Jornal do Brasil, 9 de abril de 1988
Jornal do Brasil, 6 de outubro de 1988
IstoÉ, 14 de março de 1990
Pesquisei na Suíça. Nada com meu nome.
Procurei também em Cayman, nas ilhas
Seicheles, até em LeSoto. Nem traço do meu nome.
Onde é que, naqueles dias longínquos,
Collor colocou minhas economias?

Veja, 19 de janeiro de 2005
“Até aqui, tudo bem”, como dizia. O otimista que se atirou do décimo. Andar, ao passar pelo
oitavo. Soou a hora do zum-zum geral, do ajustar as contas, juntar. Pé com cabeça, verificar deve.
E haver. Parece que vamos mesmo ver quem. Tem e conferir, pra devolver o que é. Meu, mostrar
o saldo, os bens de raiz, os sinais. Exteriores: “Onde é que o senhor comprou esse trono (privada).
De ouro?” Pois até agora todos. Os negócios do estado foram resolvidos nas alcovas das elites
que, mesmo gordas. E cevadas, deitavam. E rolavam. E assim chegamos à hiperinflação, que é
quando. O trabalhador, ao receber o aumento pleiteado, exige outro aumento, por causa. Do
aumento que houve enquanto pleiteava. O aumento. Que está recebendo.
E, banqueiro, não fique nervoso com esse. Negócio dos feriados bancários que são apenas.
Uma forma nova de um conselho velho: “Não faça hoje. O que pode deixar pra não poder mais
fazer na próxima. Segunda-feira.” Repetindo o moço, cujas estátuas andam. Agora sendo
derrubadas no mundo. Comunista: “O que é. Um assalto a um banco diante de um banco?”

Jornal do Brasil, 17 de março de 1990


Jornal do Brasil, 28 de março de 1990
OS JOVENS TURCOS

Nos primeiros dias os Jovens Turcos disseram que haviam tocado na intocável poupança de
vidas inteiras, porque grandes especuladores tinham corrido para esse ativo financeiro. Mentira
evidente. Seria facílimo saber que especuladores tinham corrido para a poupança. A rede de
informações do sistema financeiro — Bolsas, bancos, Caixa Econômica, Banco Central etc. — é
das poucas coisas eficientes na nossa informática. Falo, claro, de antes dos Jovens Turcos
tomarem o poder e fazerem tábua rasa do know-how existente. Eles sempre sabem mais, sabem
tudo, pela simples razão de que, sempre que erram, e erram sempre, acabam ricos e varões de
Plutarco — no deles, definitivamente, não arde.
Agora não há como ocultar a verdade. Os Jovens Turcos basearam a quebra da inflação e o
sucesso do “plano de estabilização”, no sacrifício da classe média. Não podiam sacrificar os
“trabalhadores”, bastante organizados, nem os ricos, que são eles próprios, Jovens Turcos, seus
papais e agregados — o que houve de inside information bem aproveitada não está no gibi! O
Bode Expiatório escolhido foi mesmo a nossa modestíssima classe média. Tanto que, agora, a
dona Zélia, o seu Renan, o seu Cabral, o Imexível, e até o Congresso! concordam que, se
devolverem um mínimo do dinheiro do pobre-diabo poupador, o Plano Collor vem abaixo. Repito
eu — então não eram os especuladores que destruíam nossa economia e provocavam inflação em
benefício próprio —, os celerados eram os malditos poupadores. Bem feito — como castigo
jamais verão seu dinheiro de volta. Mesmo porque, num país em que a média de vida é de 63
anos, se — improvavelmente — o dinheiro for devolvido daqui a 18/30 meses, um milhão desses
poupadores já terão vestido o pijama de madeira. É estatístico. (*)
Mas me acompanhem mais um pouco e vejam a absoluta falta de conhecimento psicológico
desses gênios que, “entendendo” só de economia, acabam não entendendo nada de economia.
Todo o dinheiro continuaria hoje na poupança, se tivessem deixado a poupança intocada. Bastaria
terem congelado os depósitos “espúrios” acima de, digamos, NCz$ 3.000.000,00 (medida de
grande efeito econômico e enorme efeito para a credibilidade do governo), e o resto dos depósitos
estaria praticamente congelado. Pois o povo sairia gritando: “O governo pegou o dinheiro de
todos os especuladores que estavam no over, no fundo de curto prazo, nessa roubalheira toda, até
dos ladrões que correram para a caderneta na última hora. Mas no nosso dinheirinho suado ele
não mexeu e, claro, não vai mexer. Collor disse e mostrou que a caderneta é intocável!”
EM TEMPO: que diabo de sistema econômico é esse que pode explodir com o simples fato
de as pessoas receberem e gastarem seus ordenados?

(*) O índice de morte no Brasil é 7.0 por 1.000 pessoas. 980.000 por ano, numa população de
140.000.000. Como a poupança será devolvida (?) daqui a dois anos, em média, aí já terão morrido
2.000.000 de pessoas, metade delas (56.000.000 de cadernetas) poupadoras. Bateu?

Jornal do Brasil, 13 de abril de 1990
IstoÉ, 25 de abril de 1990
Jornal do Brasil, 12 de julho de 1992
IstoÉ, 2 de setembro de 1992
Classificados

VENDE-SE — A metade de VENDE-SE — Rabo de TROCA-SE — Quantum ALUGA-SE — Pocilga nos


cima de uma cobertura em cachorro poodle. Motivo — fundos da casa da Dinda,
GLS por Fiat Elba por
Alagoas, com acesso por pagar o tratamento do pelo desocupada definitivamente
motivo de economia de
escada de corda, helicóptero pelos porcos da casa.
do poodle. combustível.
ou asa-delta. Excepcional
para moradia em dias de
chuva.

TROCA-SE — Parte do VENDE-SE — Pequeno BOMBEIRO HIDRÁULICO PROCURA-SE —


jardim de uma casa da Dinda apartamento de fundos em — Precisa-se altamente Guru especialista em
por carta de dignidade Maceió, com vista para o especializado em vazamento humildade para lecionar
registrada no Uruguai. Tratar lago Paranoá. de informações. rápidas noções de ninguém é
com o fantasma de Canterville. melhor do que ninguém a
cavalheiro melhor do que
todo mundo.

Jornal do Brasil, 2 de setembro de 1992


Jornal do Brasil, 2 de outubro de 1992
Jornal do Brasil, 27 de setembro de 1992
IDEÁRIO DO PERFEITO NEOLIBERAL
I O perfeito neoliberal é pelo ensino livre e universal. As escolas serão grátis, as discussões,
democráticas, e os filhos dos neoliberais poderão ir para as escolas públicas em seus próprios
carros.
II Haverá para todos educação artística e sexual. A primeira incluirá modelagem, pintura a óleo
— minimalista e abstrata — e noções gerais de filosofia de telenovelas. A segunda incluirá
distribuição de pílulas anticoncepcionais para menores necessitadas, mas muito bonitinhas.
III No governo neoliberal os jovens não neoliberais terão as mesmas chances sociais dos
neoliberais. Porém, para evitar nepotismo, serão esterilizados.
IV O perfeito neoliberal é a favor do aborto e do controle familiar. As famílias pobres poderão
produzir empregadas domésticas até o limite de seis. Por casal empregador.
V O perfeito neoliberal dará apoio a todas as reformas, inclusive as que projetam edificar nas
inúteis lagoas e colocar ciclovias nas favelas.
VI O perfeito neoliberal nunca afirma veementemente nem nega peremptoriamente. Mas seus
olhos limpos e seu constante sorriso de bons dentes demonstrarão permanentemente suas sadias
intenções político-sociais.
VII O perfeito neoliberal é sempre nacionalista — não necessariamente de sua própria nação.
VIII Por respeito à nova mulher, o perfeito neoliberal conterá seu orgasmo duplo. Por pudor
diante do pobre, só comerá em restaurantes fechados, de preferência em coberturas de hotéis
estrangeiros. E para controlar os exageros da Receita Federal providenciará sempre uma escrita
dupla em caixa 2.
IX Das revistas exploradoras do pornô e do lenocínio, o perfeito neoliberal só lerá os artigos de
elevada conceituação sociológica (viver é um paradoxo), sem que seus olhos jamais se detenham
nas partes outrora pudendas das nossas mais intelectualizadas estrelas da televisão. Que, nos
grandes encartes, colocam a mulher numa nova posição.
X Implantando em todas as escolas currículos de educação sexual, teórica e prática, orientados por
professores(as) especializados (com imunidade quanto a acusações de pedofilia), o perfeito
neoliberal só permitirá a seu filho praticar o sexo ensinado nas faculdades. E com isso provará a
excelência da múltipla escolha.

Veja, 2 de maio de 2007
Quando assumiu, FHC declarou que estava na hora da
virada.
Corretíssimo. Virou bagunça.

Folha de S.Paulo, 11 de fevereiro de 2001
Eruditando os provérbios

Várias vezes, aqui nesta Folha, tentei ajudar o leitor a entender FHC. Hoje publico alguns
provérbios comuns quando ditos por esse notável complicador, que, tendo constatado que o Brasil
é muito fácil de governar, trouxe o país até onde estamos. Antes, em seu tempo de professor
universitário (era tão bom que foi aposentado com apenas seis anos de trabalho), já demonstrava
talento específico. Vejam como ele enunciava pra seus alunos os provérbios mais simples de nossa
cultura.

Não se deve contar com o ovo no cu da galinha
É motivo certo de decepção contabilizar o produto produzido por nossas principais aves
poedeiras quando eles ainda não vieram à luz através do retroconduto expelidor.

Mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga
Aquele a quem o supremo representante de uma religião ou crença auxilia com seu apoio
obtém mais do que o que inicia sua jornada em período anterior no dealbar do dia.

Nunca digas desta água não beberei
Jamais faça declaração de que se recusa à absorção de determinado líquido incolor e inodoro,
composto de hidrogênio e oxigênio, na proporção de duas partes do primeiro para uma do
segundo.

Duro com duro não faz bom muro
Dois corpos igualmente rijos não se ligam para a confecção de parede divisória.

Gato escaldado tem medo de água fria
Felino, tendo sofrido em sua própria pele a experiência de fervura com líquido inodoro,
insosso e incolor, passará a temer esse líquido mesmo em temperatura abaixo da média.

Folha de S.Paulo, 10 de junho de 2001
Fernando Henrique Cardoso acha que essas são as três
palavras mais bonitas do mundo.

Folha de S.Paulo, 15 de julho de 2001
TEM SEMPRE LUGAR PRO OTIMISMO, CARA.
Pô, há quinhentos anos, o Brasil nem existia. Quer dizer, estava encoberto. E quinhentos anos
depois ainda somos um país jovem. Pode? Pode. O Brasil já nasceu equipado com célula-tronco.
Por isso, neste albor (oba! oba!), nas primeiras luzes da gloriosa Era Lula, que muitos deturpam
para Lula já era, temos a obrigação de repetir alto e bom som:

NADA DE PESSIMISMO, COMPATRIOTAS!
Agora são outros quinhentos. E não adianta fazer balanço dos anteriores. Foram bons, foram ruins,
foram péssimos, foram um fracasso. Mas já se foram. Agora temos que acreditar nos que vêm. Ora, pois.
Pois se, como todos sabem, a Geometria é resultado da curiosidade dos sábios gregos
vagabundando na Ágora de Atenas; a Astronomia veio da superstição que criou antes a Astrologia; a
Economia surgiu da avareza; a Eloquência nasceu do ódio e do puxa-saquismo — por que a Grandeza
do Brasil não pode começar com um Deficiente Digital?

OTIMISMO, GENTE! OTIMISMO!
Veja, 29 de setembro de 2004
Veja, 2 de fevereiro de 2005
Veja, 4 de maio de 2005
Parabéns, Lula, pelos feitos do seu Governo.
Mas vou lhe dizer só uma coisa — meus píncaros já
foram mais altos.

Veja, 9 de maio de 2007
Primeiro porque CPI não apura.
O que faz muito bem é confundir a cabeça
de todo mundo. E, depois, desde quando,
neste país de vocês, revelar que um homem
público é prevaricador, ladrão e pedófilo pune
— ou pelo menos envergonha —
um pai da pátria?


Veja, 9 de maio de 2007
Poeminha glorial
Eu canto esses heróis
que governam o Brasil
E mando todos eles
Para o céu de anil.
Veja, 10 de dezembro de 1980
Veja, 2 de agosto de 2006
TODOS OS PAÍSES SÃO DIFÍCEIS DE
GOVERNAR. SÓ O BRASIL É IMPOSSÍVEL.

Veja, 23 de fevereiro de 1977


QUALQUER SEMELHANÇA ENTRE O BRASIL E
OS PAÍSES VERDADEIROS É MERA
COINCIDÊNCIA.

Veja, 31 de março de 1982


Lições de moral e cívica a bom mercado
1) A corrupção vista por Millôr
Um onesto com mais de 30 anos de estrada
2) — Paiê! Qui é currupissão?
— Bene, figliolo, vado dare la explicazione (italiano da Tv Globo), quando você tem um monte de dinheiro público na mão sente logo
uma...
3) — Qui é dinheiro público, paiê?
— É dinheiro que o governo tira dos que não podem escapar e daí dá a quem mesmo? Aos que escapam sempre.
4) — Redistribuição de renda — (pausa) — naturalmente, pra usar os dinheiros públicos assim, o governo precisa de advogados
hábeis, contadores expertos e magistrados míopes, vesgos, zarolhos ou alocromáticos
5) — Que horror, paiê! Purque elis não vão no oculista?
— Porque oculista não cura metáfora, meu filho.
— Depois eu te explico o que é metáfora.
6) — I a pulicia paiê? Purque elis não vai na pulícia?
— Vai, meu filho, vai. VÃO! Mas a polícia não pode fazer nada porque está toda no combate fictício à droga e na luta fictícia contra os
galos de briga...
7) — Não tem tempo para a corrupção estatal — (pausa) — De vez em quando aparecem uns honestos, quer dizer, desonestos
amadores, que atrapalham tudo. Mas aí, lá de cima, as CPIs cuidam deles e, cá embaixo, o esquadrão queima eles.
8) — Tem também uma mídia escandalosa que quer fazer da corrupção ponto de venda, mas aí a gente põe ela na divulgação do
governo ou manda o BB apertar ela.
9) — E os presindentes, paiê, tão nessa?
10) — NÃO! Meu filho, chega! Cala a boca!
11) — Não estão não, é claro! Mas não podem fazer nada por razões de estado, nepotismos, volta da inflação, queda de popularidade,
impotência (as duas, a política e a outra), e a eterna angústia da volta ao semiárido. Por isso são obrigados a mil negativas ridículas e
retratações de retratações. Chegando algumas vezes, a "participações" vergonhosas, das quais, aliás, nunca se envergonham.
12) — Mas uma coisa é certa, meu filho! No fim o bem sempre triunfa.
Veja, 24 de novembro de 2004
Veja, 4 de março de 1981
DO DECÁLOGO DO BOM CORRUPTOR

I
Nunca ninguém perdeu dinheiro investido na desonestidade.
II
Só louco rasga dinheiro? Bobagem. Nem louco rasga dinheiro. Experimente jogar uma nota de
cinquenta (ou mesmo de um!) num pátio de insanos. Vai ter briga pra pegar.
III
Como posso ser compreendido por milhões de medíocres que continuam a acreditar em caderneta
de poupança?
IV
Na nota do freguês nunca esquecer de somar também o dia e o ano. Se o freguês reclamar a gente
dá outra nota e põe a diferença como desconto para clientes especiais. Os bancos fazem isso o
tempo todo.
V
O ser humano só aprendeu a contar depois que o dinheiro apareceu na face da Terra. O homem
aprendeu a contar pra poder contar dinheiro.
VI
Lucro ilícito é precaução mínima que você tem que tomar pra não ter prejuízo.
VII
O lucro, disse o banqueiro, é minha pátria. Justificando ter se naturalizado paraguaio.
VIII
Quanto é muito? Quanto é demais? Eu, por exemplo, que moro no Rio à beira-mar, tenho carro
(1998, é verdade) e como nos melhores restaurantes, me considero um homem pobre.
IX
Pra quem gosta de puxar, qualquer saco serve. Acaba sempre puxando o saco certo. O de
dinheiro.
X
Quando o paciente emocionado, diante do médico que lhe salvou a vida, declarou que “não tinha
como lhe pagar”, o médico sábio esclareceu: “Meu filho, desde que os fenícios criaram o sistema
fiduciário essa questão está plenamente resolvida.”

Veja, 20 de outubro de 2004
Jornal do Brasil, 5 de agosto de 1985
Poeminha verde-amarelo

Dizem assim, no duro!:
“O Brasil é o país do futuro!”
Mas dizem também essa:
“No Brasil não há pressa.”


Veja, 23 de setembro de 1981
IstoÉ, 21 de setembro de 1988
Patrulha Ideológica não quer dizer nada. Perigo mesmo
é a Picaretagem Ideológica.

Veja, 27 de dezembro de 1978
REFLEQUIÇÕES SOBRE A BANDALHEIRA GERAL

I) Em Brasília, não tenham dúvida — o culpado é o mordomo.
***
II) Todos esses crimezinhos não são nada. São apenas sinais de crimezões.
***
III) A bandalheira escruncha não tem mais cura, nem com cirurgia. A metástase é total.
***
IV) Mas fiquem tranquilos. Nenhum de nossos vereadores, deputados e senadores jamais ultrapassou
aquilo que lhe permite sua falta de caráter.
Jornal do Brasil, 23 de fevereiro de 1989
Veja, 29 de junho de 2005
Muita gente aí que fala o tempo todo contra a
corrupção está apenas cuspindo no prato em que não
comeu.

Veja, 15 de dezembro de 1976
Conheço alguns burocratas acima de qualquer suspeita:
só roubam em defesa do país.

Veja, 29 de março de 1978
Veja, 13 de junho de 2007
Veja, 25 de outubro de 1972
Chama-se de incentivo fiscal a maneira que o governo
descobriu para fazer com que os nordestinos pobres
contribuam para diminuir o imposto de renda dos
paulistas ricos.

Veja, 14 de março de 1979
Veja, 8 de dezembro de 1976
Veja, 21 de setembro de 1977
— Você tem certeza qui ELE falô meismo dilúvio, Severino?
Veja, 25 de março de 1981
IstoÉ, 4 de março de 1992
Só esqueceram uma coisa
na construção do
nosso edifício social:
a pedra fundamental.

Veja, 9 de janeiro de 1980
No Brasil se come tão mal que, em certas regiões, carne
de sol e farinha-d’água já são consideradas comida
macrobiótica.

Veja, 27 de outubro de 1976
Brasileiro, profissão
esperança. Ou seja,
um desesperado.

Veja, 12 de abril de 2006
Veja, 29 de outubro de 1980
Atenção, Brasília: é preciso conservar o sorriso do povo.

Veja, 9 de janeiro de 1980


Veja, 17 de outubro de 1979
E aqui, já que estamos tão perto do Natal, eu me atrevo a afirmar uma
coisa que não surpreenderá nenhum de meus compatriotas mas pode
soar inacreditável para os estrangeiros. Há crianças no Brasil,
milhares delas — sem nenhum exagero ufanista podemos mesmo
afirmar que alguns milhões —, crianças entre 7 e 10 anos, que
possuem um conhecimento social e um poder de análise político
realmente assombrosos. Noutro dia, por exemplo, eu estava num bar
de calçada com três amigos e a conversa, superintelectual, caiu numa
dessas bestices de saber se o PT é melhor que o PTB, se o PP está
mais à direita que o PSP, se o comunismo poderá mesmo dominar o
Brasil e se nossa solução última é a social-democracia, quando um
menino, desses de que falei, estendeu a mão e fez a síntese
irretorquível: “Tou com fome!”

Veja, 17 de dezembro de 1980
Veja, 18 de fevereiro de 1981
Veja, 10 de maio de 1972
Veja, 23 de fevereiro de 1977
Nas estranjas — dizem! — todo homem é inocente até
prova em contrário. Mas, no Brasil, sendo pobre, você é
culpado até prova em contrário e, mesmo depois da
prova, ainda vai em cana pra deixar de ser burro.

Veja, 29 de outubro de 1980
Veja, 18 de junho de 1980
O Brasil é o único país do mundo em que a solitária
melhora a condição do preso.

Veja, 17 de novembro de 2004
Jornal do Brasil, 10 de agosto de 1990
— Putz! Eles não sabiam que iam alterar completamente o equilíbrio ecológico?
Veja, 1 de dezembro de 1971
IstoÉ, 3 de janeiro de 1990
Cidadão, num país em que não há nem sombra de
cidadania, significa apenas cidade grande.

Veja, 4 de julho de 2007
No planalto, muita gente de quatro fingindo que está
apenas procurando a lente de contato.

Veja, 20 de agosto de 1980
O Brasil espera que cada bestalhão cumpra o seu dever.

IstoÉ, 4 de novembro de 1992
Veja, 30 de setembro de 1981
© 2014 Ivan Rubino Fernandes

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SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

F41g Fernandes, Millôr, 1924-2012.


Guia Millôr da história do Brasil: de Cabral a Lula / Millôr Fernandes – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.
il.

ISBN: 978.85.209.2376-4

1. História – Brasil. 2. Coletânea. I. Título.

CDD 869.98
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CONCEPÇÃO E DIREÇÃO EDITORIAL
Leila Name
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Adriana Torres
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PRODUÇÃO EDITORIAL
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Allex Machado
Pedro Staite
Maicon de Paula
Vinícius Louzada

REVISÃO
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Isabel Newlands

PESQUISA
Pedro Krause

PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO DE CAPA E MIOLO
Leandro Liporage