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O mundo politeísta do monoteísmo

L. Marshall 1

RESUMO:

Este paper busca demonstrar que o universo original do politeísmo primitivo mantém- se intacto nas sociedades avançadas do século XXI. A tese é de que, na verdade, nunca houve o governo de um único deus, o monoteísmo. A crença na existência de um mundo monoteísta é tão somente um produto histórico e cultural, alimentado por uma perspectiva etnocêntrica do mundo. Independente do discurso religioso, a realidade das sociedades, ao longo de toda a história, mostrou que sempre permaneceu vivo o universo esplendoroso das mitologias politeístas dentro do suposto monoteísmo universal.

PALAVRAS-CHAVE: RELIGIÃO; POLITEÍSMO; MONOTEÍSMO

1 Doutor em Ciências da Comunicação PUC/RS, Pós-Doutor em Sociologia UnB/DF, Mestre em Teorias da Comunicação UMESP/SP e Especialista em Epistemologia da Comunicação pela UPF/RS. Está concluindo o curso de especialização em Estudos Clássicos na UnB/DF. Professor universitário e Analista em Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil. leandromarshall@yahoo.com.br

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O ser humano sempre foi um fabricante de verdades. Desde os mais remotos

registros da história da civilização, o homem vem inventando todo tipo de explicações ou causas para os fenômenos naturais do mundo. A própria cultura, em suas várias manifestações artísticas, religiosas ou estéticas, é uma dimensão da necessidade

ontológica do ser para criar soluções imaginárias para os mistérios da existência. Ela sacia a sede de absoluto e de transcendência numa deslumbrada busca humana pela plenitude.

O que o homem não pode explicar pelo simples raciocínio ou pela observação,

ele atribui a causas místicas ou transcendentais da natureza. Os antropólogos

consideram esta faculdade como um mecanismo de integração entre o homem, o cosmos e os deuses originários, que estabelece ordem, harmonia e um sistema coerente de causas e efeitos e fabula o precário sentido da vida 2 .

A imaginação tem sido assim um instrumento valioso para ajudar o homem a

se guiar pelo mundo das trevas, orientando-o a se proteger física e psicologicamente

das forças sobrenaturais que reinam pelo mundo afora. Ela se transformou, junto com as rudimentares técnicas de defesa e subsistência, no mecanismo que tornou suportável o enfretamento contra o desconhecido e que empurrou o ser a virar um fabricante engenhoso de verdades.

O poder humano de inventar e de imaginar causas para os fenômenos do

mundo acabaram tornando-nos seres extremamente criativos, capazes de ardilar

crenças e fantasias sólidas para todos os tipos de eventos naturais ou extra-naturais 3 .

O homem acabou transformando-se em um engenhoso produtor de mitos (do

grego mythos, ‘palavra’, ‘narrativa), que fabrica explicações e passa a acreditar nelas

como se fossem ideias dotadas do poder absoluto da verdade. De uma forma ou de outra, o homem explica o que quer explicar e crê no que quer crer. Seja encantando a natureza com superstições ou lendas, ou racionalizando os sentimentos e pensamentos mais confusos, o animal humano doura o universo em que vive com as cores da imaginação e da crença. Os homens primitivos criaram a religião 4 (do latim religare, ‘religar’, ou relegere, ‘executar escrupulosamente’, ‘recolher fielmente’) e um exército de deuses

2 O filósofo romeno Mircea Eliade (1972) diz que a força do mito está exatamente em seu caráter sagrado, exemplar e significativo. O mito confere modelos morais aos seres humanos, conferindo significação e valor à existência. Edgar Morin (1988, p. 141) acredita que “o mito, o rito, a magia, a religião, asseguram um compromisso não só com o ambiente exterior, mas também com as forças noológicas, quer dizer, um compromisso interno, no interior do espírito humano, com as suas próprias fantasias, com a sua própria desordem”.

3 Emile Durkheim observou atentamente em As Formas Elementares da Vida Religiosa (1996) que “as forças religiosas são forças humanas, forças morais”. Segundo ele, “certamente, como os sentimentos coletivos só podem tomar consciência de si ao se fixarem em objetos exteriores, elas próprias não puderam se constituir sem tomar das coisas algumas de suas características. Adquiriram assim uma espécie de natureza física, sob esse aspecto vieram se misturar à vida do mundo material e foi através delas que se acreditou poder explicar o que se passa no mundo”. (DURKHEIM, 2011, 462).

4 “Contrariamente ao que se costuma afirmar com frequência, a primeira raiz etimológica do termo religião não é ‘religare ’, religar, mas ‘ relegere , executar escrupulosamente. Essa diferença é significativa: esse é um sentido típico das religiões politeístas, nas quais o mais importante é fazer o que é preciso, como e quando é preciso, enquanto o termo religare, que foi sugerido por Lactâncio (260-325 a.C) por ocasião do triunfo do cristianismo, acentua a relação entre os homens e Deus. Não se pode privilegiar um termo pertencente a uma tradição linguística particular para transformá-lo no ponto

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para justificar suas ações ou para explicar o efeito dos fenômenos naturais sobre suas

cabeças. Criaram totens, ritos, efígies e amuletos para guiar sua conduta e determinar seus valores. Formularam lendas e narrativas para servir como referência da origem e do destino de suas próprias vidas. E constituíram todo tipo de artifício cultural - quiromancia, cabala, tarô, astrologia etc para ler o futuro ou saber que decisões tomar pela vida afora. Foi assim com as mitologias da antiguidade, com seus minotauros encantados, seus monstros alados e suas centopéias divinas. Imersos em um reino de ignorância criativa, os bárbaros tardios inventaram centenas de seres divinos ou semi-divinos - titãs, heróis, fadas, duendes - e os trouxeram para viver consigo em seu cotidiano de liberdade sem conhecimento.

A produção de crenças ou mitos tornou-se incessante e interminável. Uma

após outra, verdades dogmáticas foram sendo urdidas e erigidas em nome de uma nova e definitiva verdade. E quando as explicações davam e dão sinal de desgaste ou fadiga, os homens não desistem de confiar nos mitos, fazendo apenas uma contínua

substituição de argumentos. Mitos são, afinal e contas, “histórias de nossa busca da verdade, de sentido, de significado, através dos tempos”, acredita Joseph CAMPBELL (1994, p. 05), posto que, segundo ele, “precisamos que a vida tenha significação, precisamos tocar o eterno, compreender o misterioso, descobrir o que somos”. “A psicologia evolucionista, lembra WRIGHT (2009, p. 26), mostrou que, bizarras como possam parecer, algumas crenças ‘primitivas’ – e bizarras como possam parecer as religiões modernas para ateístas e agnósticos elas são produções da humanidade, produtos naturais de um cérebro criado pela seleção

natural para dar sentido ao mundo por meio de uma miscelânea de ferramentas cujo resultado coletivo é totalmente irracional”.

O fato é que, em sua vida ordinária e mundana, o homem não consegue viver

sem acreditar em algum tipo de crença. Não é nem necessário que seja uma grande

ou maravilhosa verdade, mas que seja uma verdade razoável e suficiente para o que ele necessita acreditar. Deve-se lembrar, entretanto, que quando falamos de crenças, no mundo primitivo do paleolítico, não estamos falando necessariamente de religiosidade. Isto porque não havia religião na antiguidade. “As culturas politeístas do mundo antigo não separavam e não distinguiam ‘religião’ do complexo das outras atividades humanas que, de fato, formavam um continuum” (SCARPI, 2004, p. 7).

A religião 5 estava imersa dentro da realidade social, que não se podia separar

o que era religião e o que era cultura, arte, técnica ou, até mesmo, racionalidade.

obrigatório de passagem de uma definição geral, mesmo porque a noção de religião como âmbito específico é ausente da maioria das sociedades onde inexiste uma palavra para designá-la”. (LAMBERT, 2011, p. 30).

55 “Uma das mais irônicas características da religião caçadora-coletora é que ela não existe. Ou seja, se você perguntasse aos caçadores-coletores qual é a religião deles, eles não saberiam do que você estava falando. Os tipos de crenças e rituais que rotulamos como ‘religiosos’ são tão interligados em seus pensamentos e atitudes cotidianos que eles não possuem uma palavra para isso. Podemos chamar de ‘sobrenaturais’ algumas das explicações de como o mundo funciona; outras, chamaríamos de ‘naturalistas’. Todavia, essas são categorias nossas, não deles. Para eles, parece adequado tratar uma doença buscando o deus que a causou, do mesmo modo que para nós parece adequado procurar o germe que a causou. Essa perfeita interligação dos aspectos em nossos termos religiosos e não religiosos da

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A questão é que, na maior parte do tempo, o homem não quer se interrogar

sobre os grandes mistérios da vida, da alma ou da realidade, mas simplesmente saber que atitudes tomar ou entender o porquê sua vida parece sempre rodeada de infelicidade e amargura e qual a alternativa para reverter isto e alegrar o dia-a-dia. Por isso, as falas de umas cartomantes ou as transcrições de um médium já servem para aplacar a fome de verdade cotidiana. É com ela, afinal, que o homem saciará a inquieta e persistente coceira provocada pela sua ignorância original. Os feiticeiros, os oráculos, os pagés, os xamãs, as bruxas e os alquimistas foram os primeiros grandes fabricantes de verdades de nosso mundo. Suas leituras miraculosas e seus desígnios fatais serviram durante muito tempo e de certo modo ainda servem para alimentar a alma dos eternamente insatisfeitos. Baratas, simples e práticas, suas palavras são úteis para aquietar as mentes e os corações sempre à procura de um farelo de explicação. Poetas, prosadores, contadores de histórias e menestréis também tiveram seu tempo e ainda têm criando imaginariamente metáforas energéticas e adornos criativos para a insaciável necessidade humana de encontrar no mundo existente além

da natureza as lógicas da própria natureza. Estes caixeiros viajantes da imaginação

são, sem dúvida, os grandes instrumentos para memória, transporte e revitalização permanente dos arquétipos mais ancestrais na humanidade.

Depois deles, vieram os sofistas e suas ardilosas ilações e elucubrações sobre

os mistérios do mundo. Foram os primeiros a ensaiar o encontro da verdade com a

razão, mas vencidos pelo brilho do espetáculo e pelo prazer do dinheiro, colocaram suas ideias a serviço de um novo tipo de misticismo. Os sofistas deram sua contribuição a uma época importante, a do nascimento da própria civilização, mas

restaram (quase) esquecidos porque sua mercadoria não resistiu ao desabrochar da filosofia. Na Grécia antiga 6 , os amigos do conhecimento ocuparam o papel de fabricar

as verdades e tomaram o palco dos falsos mercadores do conhecimento. Os filósofos

trouxeram um novo alento ao pensar e ao conhecer, procurando guiar suas ideias pelo caminho seguro da razão metódica e sistemática, idealizada para fugir às trapaças da imaginação fácil e traiçoeira dos impostores da razão, embora todos saibamos que a relação entre a proto-racionalidade e o misticismo órfico era intensa naquele mundo, ainda dominado, entre o populacho, pelas superstições. Há, de forma marcante, o sentido de um razão-mágica presente nas reflexões

e nas ideias dos pensadores originários, sobretudo em Pitágoras (Orfismo), Protágoras (Os Deuses), Proclo (o Hierofante), Plutarco (22 pares de vidas), Górgias (Deus, Kairos da oportunidade) e Antístenes (que acreditava, em III a.C. no monoteísmo). Veja-se que “desde o início, [a filosofia grega] buscou conscientemente o conhecimento especulativo do objetivamente real, uma realidade que pudesse ser vista como uma ordem de essências inteligíveis seja como um Ser puro existente por

cultura também continuaria na história escrita. O hebraico antigo, a língua de maior parte da Bíblia Sagrada, não tinha uma palavra para religião”. (WRIGHT, 2009, p. 31).

6 “O mito conquista seu estatuto de existência no mundo grego não pelo que ele é em si com relação àquilo que, por uma razão ou outra, o exclui e o nega. Sua realidade é inseparável do movimento que o rejeita, que o empurra para fora, seja qual for o campo de que se trata, para entregá-lo ao ilusório, ao absurdo e ao falacioso”. (VERNANT, 2009, p. 291).

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si mesmo. Nesta contemplação, o filósofo esperava encontrar a felicidade eterna.

Estando assim orientado para o conhecimento de algo supremamente Real, inteligível, valioso e origem de bem-aventuranças, a filosofia grega tendia claramente a se aproximar de alguma forma de teísmo realista” (CUPITT, 1999, 62).

A própria ideia da theoria (do grego theorys, dispor o divino), denota o sentido

daquilo que os gregos buscavam. Eles queriam, na verdade, despir, desvelar, desencombrir, pela razão, o sentido e a essência do divino. Apesar do supremo esforço da razão (antiga, moderna ou pós-moderna, pré- estruturalista, estruturalista ou pós-estruturalista), o fato é que a via cotidiana do homem mundano parece continuar regida pela fome de mitologias. Esteja ela na

escola, na igreja, no senso comum ou na palavra tipográfica, a crendice permanece como um produto da necessidade da crença humana. Por isso, a babel de falas e discursos de todos os matizes e de todas as ordens presentes na realidade social de nossos dias se chocam e se contradizem, mas continuam a fazer a sua pregação e a arrebanhar sempre novos fiéis. As mitologias parecem encravadas na carne e na alma do ser humano. Elas vão e voltam, mudam de nomes e de verdades, oscilam para o bem ou para o mal, totalizam os objetos ou os sujeitos, funcionalizam a sociedade ou a natureza, mas não abandonam sua chance de satisfazer e explicar, de qualquer forma, qualquer coisa que queira ser explicada. Por isso, Mircea ELIADE 7 acredita que “compreender a estrutura e a função dos mitos nas sociedades tradicionais não significa apenas elucidar uma etapa na história do pensamento humano, mas também compreender melhor uma categoria dos nossos contemporâneos”.

A crença e a vontade de crença

A verdade é que, apesar de todas as desventuras da filosofia, da religião e da

ciência em sua odisséia antropológica em busca do arca do tesouro da verdade, a engenhosidade dos mitos metafísicos, empíricos ou místicos, acabou produzindo os mitos adequados para a manutenção do status quo da religião, da ciência e da filosofia.

A crença tem o poder inoxidável de se auto-regenerar ou de auto-transformar

em crenças sempre novas, com o poder supremo de apresentar cada nova verdade como uma verdade definitiva e inquebrantável. Parece que a crença é que acaba salvaguardando as mais estranhas e profanas verdades da espécie humana. Não fosse o fetiche sobrenatural na existência

da verdade, o ser humano já teria, talvez, despertado para o poder da crença em sua vida.

Livre da condenação eterna à busca do conhecimento, o homem descobriria que o ser humano é movido pela crença, fabrica a crença e acredita na crença. A crença é o próprio oxigênio da alma e da mente e faz com que a verdade apareça como produto do que o ser humano acredita ser um elemento desprovido de qualquer crença.

Não há verdade sem crença na verdade. A ‘vontade de verdade’ só se sustenta porque está enraizada, em suas profundezas, na ‘vontade de crença’ do ser humano.

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A doxa é uma crença de que a opinião não revelará jamais a verdade das coisas. Os

dogmas são crenças que não precisam ser explicadas ou justificadas, haja vista serem dogmas e, portanto, indiscutíveis. Os feitiços são crenças que emanam do ritual mágico em torno dos mistérios imaginários. Os axiomas são crenças no esquema lógico da razão, apesar da primazia da razão, tida como própria da espécie humana, não vir de uma assembléia do mundo animal, mas do único animal na terra que mata os animais e ele próprio apenas por prazer. A époche, por sua vez, também é uma crença na impossibilidade de um juízo sobre a verdade e, por este motivo, parece ser, ao menos, a mais sincera das crenças. A verdade da ‘vontade de crença’ humana em uma verdade universal é o fato de que talvez a crença seja a verdadeira medida de todas as coisas, mesmo que esta evidência venha da crença na crençaou na crença da razão. Esta crença só pode ser legítima se entendermos a ‘vontade de verdade’ e a ‘vontade de crença’ como naturais na espécie humana e que ambas acreditam que existe uma medida para todas as coisas e de que esta medida é a crença.

O azar da humanidade, ao longo da história, é que, quando o ser humano

inventou a linguagem e nominou as coisas do mundo, ele acreditou que as coisas do mundo tinham uma lógica racional a ser revelada. Esqueceu, portanto, que ele inventou o mundo por meio da linguagem e que os objetos não existem sem que a

subjetividade queira que eles existam. Em outras palavras: o mundo é produto do homem, assim como as coisas são produtos das palavras do homem. Elas, as coisas, só significam aquilo que o homem decidiu que elas devem significar.

O problema é que a criatura se libertou do criador, não no mundo, mas na

própria mente do ser humano. O pensamento racional tentou inventar uma suposta

diferença entre crença e razão, como se a crença fosse a fonte de todos os erros e auto-enganos do ser humano e a razão fosse o pedestal absoluto da sapiência.

A crença, prima-irmã do imaginário, passou a ser chamada de ‘a louca da casa’

e foi despejada do mundo dos homens pela própria crença numa estrutura de

pensamento binário, criado pela percepção humana de que as coisas existem independentemente do ser humano. O homem, criador da crença, passou a considerar

a crença como a ante-sala da perdição, o santo sepulcro dos tolos, a urna maldita de

uma razão virginal e imaculada. A crença acabou expulsando a própria crença da mente humana. Ao invés de libertar o homem para que ele viva sua vida com ardor e sofreguidão, o ser-em-si passou a assumir o lugar do ser-para-si, embora o ser-em-si tenha o poder mágico de se manifestar como a própria coisa-em-si. Como já dissemos, não é o fato ou o fenômeno que decidem sua identidade ou sua existência.

Isto é um atributo específico apenas de sujeito humano. O fato ou fenômeno podem,

inclusive, se apresentar aos sentidos, ao pensamento ou a ambos de diversas formas.

A verdade sobre a realidade, como ser-em-si ou como coisa-para-si, pode se

revelar ao homem como crença nos sentidos do corpo (sensação), crença no pensamento (ideia), crença no tempo (experiência), crença na existência (hábito), crença na razão (civilização), crença na ação criativa (cultura), crença na história (liberdade), crença na imaginação (ilusão), crença na representação (signo), crença na natureza (física), crença na crença (alma), crença na descrença (dúvida), crença na moral (tradição e costumes), crença na percepção (estética) e crença na verdade (saber).

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Todas estas crenças fazem parte da grande crença universal na evidência da verdade absoluta, única e universal. Nenhuma das crenças é excludente ou superior às demais. Todas as crenças humanas são verdadeiras por serem crenças, isto é, por fazerem parte do exercício humano em considerar a existência da verdade. Por isso, é necessário compreender que só existe verdade, gerada, original, paradoxal e dialeticamente, pela representação; pela linguagem; pela biologia; pela história; pela cultura; pela fé; pela moral; pela razão; pela sensação; e, até mesmo, pela crença na impossibilidade da verdade.

O sentido-da-vida

Apesar de poder reconhecer que todo universo simbólico emana de sua própria mente e de que suas vontades o impelem a construir castelos superpostos de linguagem, representação, moral, liberdade, verdade e crença, o homem alimenta e realimenta permanentemente a crença de que existe um sentido maior para tudo o que existe no universo. Não há hipótese de não existir um sentido superior ou majestoso para a vida. O homem não conseguiria viver sem admitir um super-sentido para tudo. E é, por isso, que mesmo após a anti-metafísica de Nietzsche ter sido tão cruel com a humanidade, os homens ignoram a ciência e a filosofia, e se atiram de braços

abertos ao universo maternal da religião. O sentido de tudo, o super-sentido que sustenta toda a ‘vontade de crença’, a ‘vontade de verdade’, a ‘vontade de liberdade’, a ‘vontade de moral’, a ‘vontade de linguagem’ e a ‘vontade de representação’, é o sentido-do-sentido, o chamado sentido-deus. Somente a crença na existência do sentido-deus, seja da forma que for, com a expressão que tiver ou com o significado que transmitir, pode manter o fio da existência e toda a ‘vontade’ humana acesa e dirigida em direção à meta de viver a vida em sua plenitude, seja lá o que isto signifique. Sem o sentido-deus não poderia haver o sentido-vida ou o sentido-homem; não poderia haver o sentido-crença, o sentido-verdade ou o sentido-moral. Neste sentido, não se pode reduzir ou subestimar o processo de construção cultural do sentido pelos seres humanos. É fato que todo homem nasce sem conhecer

o sentido das coisas e dos seres à sua volta. O homo sapiens é originalmente um homo ignarus, isto é, o ser humano que se diz um ser-do-conhecimento vem ao

mundo como um ser-da-ignorância. Curiosamente, é graças a esta condição natural de ignorância, estado que acorrentou o homo sapiens ao medo do desconhecido, que

o homem foi empurrado a perscrutar o universo em busca dos princípios elementares

da vida. Esta combinação de ignorância e medo despertou a necessidade do ser humano compreender o universo, ou melhor, de inventar sentidos racionais ou irracionais para a factibilidade da vida. O ser humano aprendeu desde cedo, portanto, a construir um mundo-de- sentido para que pudesse expurgar seus medos e angústias pelo vazio de sua própria existência. De fato, a mente humana não consegue viver sem estabelecer um processo lógico e um nexo causal para o universo, mesmo que precise, para isso, recorrer à transcendência para explicar a imanência e buscar no sobre-natural a razão para a incerteza do mundo natural. “Os seres humanos em geral acreditam, que aquilo que chamam de ‘vida’ deve ter ou tem um significado: e por significado eles querem dizer uma explicação narrativa global em termos pessoais e intencionais (ou teleológicos). E as pessoas se

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consideram totalmente capazes de saber, e com todo o direito de saber, o que isso significa, Tem tanta certeza de que existe uma Grande Resposta, e de que têm direito a esperar que ela se revele, que qualquer novidade, boa ou má, sobre o que está realmente acontecendo nos bastidores é muito interessante e muito bem-vinda” (CUPITT, 1999, pp. 24-25). Nesta aventura ontológica, o ser humano acabou institucionalizando, em um processo que passou da superstição à razão, a própria necessidade de ordem, harmonia, simetria, referência, causalidade e sentido na existência das coisas. O ser humano precisa acreditar que existe um fundamento original para a vida (causalidade); que os seres e as coisas presentes no mundo natural são evidências que sustentam este fundamento (referência); que tudo foi criado segundo uma lógica universal, válida para o tempo e para o espaço (simetria); que esta lógica obedece a esquemas operacionais e sistêmicos (ordem); que estes esquemas existem em todas as coisas e que eles funcionam como fatias múltiplas e incoerentes de uma totalidade única e coerente (harmonia); e que tudo converge e caminha em direção a uma razão maior para a existência da vida (sentido). Somente esta fórmula mágica, construída pela própria ignorância, ajuda o ser humano a ‘racionalizar’ o mundo de maneira religiosa, filosófica ou científica. No fundo, sabe-se que não existe um modelo de causalidade, ordem, simetria, referência, harmonia e sentido na realidade real, que ancorem a solidez de uma ‘verdade verdadeira’ sobre todas as coisas e todos os seres. Toda a realidade está permanentemente encoberta pelo véu de Maya. Além disso, o princípio ativo do caos, da incerteza e da incoerência, parece presidir todos os fatos e fenômenos do mundo terreno, como já demonstraram tantos pensadores das mais diferentes áreas do conhecimento.

O sentido-deus

Por mais paradoxal que seja, as revelações extraídas pelo ser-do- conhecimento para se afastar do estado de ser-da-ignorância conduziu o homem a se encastelar na torre do conhecimento dogmático e do sentido artificial para tornar a vida um pouco mais suportável. Apesar de todas as sentenças sobre a irracionalidade humana, feitas por Nietzsche, sobre a incerteza do conhecimento e sobre a inverdade dos desígnios enferrujados da metafísica, o ser humano continua abraçado, como uma criança assustada, aos seus contos de fada sobre o sentido da vida. A ‘vontade de sentido’ e a ‘necessidade de sentido’ passam por cima da ignorância e do conhecimento para arrancar de qualquer pedaço de carne de crença as migalhas da verdade necessárias para sua sobrevivência mundana. O mundo-de-sentido despreza qualquer palavra ou equação matemática que não pertença ao próprio mundo-de-sentido. Ele se basta e existe. O sentido é onipotente e auto-suficiente. Ele possui a lógica do sentido, que não precisa ser lógica muito menos racional ou convencional. O sentido é o grau zero da interrogação. O homem não pensa o sentido. O sentido foi feito para preencher exatamente a lacuna que o pensamento deixou e para ultrapassar a fronteira do conhecimento humano. Sem o mundo-de-sentido no sentido-deus não haveria, afinal, como equilibrar a pirâmide majestosa de crenças fabricadas pelo homem para justificar as desconexas

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ações humanas nem para atribuir uma causa formal às mais diferentes e variadas

expressões cotidianas da natureza. Por isso, o sentido-deus tornou-se fundamental para o homem manter o amálgama da coesão social e espantar diuturnamente o canto da sereia da anomia e do niilismo. A inexistência de uma saída magistral para a monótona reedição diária da vida mundana levaria o ser humano de volta ao seu estado puro de ignorância, produzindo um efeito dominó sobre as leis, a moral, as convenções e as crenças criadas por todas as culturas.

A religião, na visão de DURKHEIM (2011, pp. 457-498), é obra do processo

objetivamente social, fundado no mundo real, que faz com que o homem busque no

universo subjetivamente supra-social, estabelecido no mundo ideal. No fundo, a religião nasce no interior da sociedade, a partir de um processo mágico, para descobrir, nesta ssociedade, que a verdade da vida está acima da sua realidade.

A crença no sentido-deus representa, de certo modo, um imperativo categórico

de todas as civilizações, condição sem a qual não poderia mais haver o sentido-

homem e o sentido-vida. O sentido-deus 8 foi uma das mais belas e prodigiosas invenções da humanidade. ESPINOSA 9 (1983) mostra que a necessidade humana na existência de um ser superior, que ordene e justifique a existência humana, deriva de uma alquimia

subjetiva muito bem estruturada. Segundo ele, o ser humano acredita que existe uma lógica na natureza e que tudo foi criado com uma determinada finalidade, inclusive o próprio homem.

A finalidade das coisas naturais existirem não está na natureza, mas é

conduzida por um ser superior, neste caso deus, que também conduz suas ações com determinada finalidade. Como o homem sabe que deus o criou com um propósito e que tudo mais também têm uma razão de existir, o ser humano imagina que seu papel

é obedecer e cultuar o criador, em uma espécie de contrapartida existencial pela honra da criação.

Nesta operação subjetiva, o homem deve seguir à risca os ensinamentos de deus e desviar-se de tudo aquilo que o afaste da graça divina. O problema, fala Espinosa, é que os homens nunca têm a segurança de estarem agindo corretamente para agradar deus e, deste temor, nasce novo temor de que deus possa não ser tão generoso e piedoso com os homens. Por isso, depois de ter criado deus, os homens acabaram tendo que criar a religião, e uma vasta organização ritual, institucional e hierárquica, para guiar a conduta que os homens atribuíram como a mais adequada para cultuar deus. Foi criada uma ordem religiosa, comandada pelos representantes terrenos de deus, que comandam os cultos, anunciam suas vontades e humores, e interpretam as ordens ou desejos dele.

A religião tornou-se assim a materialização da crença numa autoridade maior,

e o sustentáculo mundano que tem o papel de lembrar permanentemente aos homens seu compromisso ético com o criador.

8 “Buscando permanecer dentro dos limites de seus horizontes, portanto, descobrimos que a alma é um sinal de vida; que espírito são sinais das forças, qualidades e espécies que mais precisam ser reconhecidas; que deuses são sinais de poder e autoridade moral. E, finalmente, que Deus é uma palavra mestre que compreende todo o esquema de coisas no qual vivemos(CUPITT, 1999, 61).

9 ESPINOSA, Baruch. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

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O medo original por uma existência sem-sentido criou deus, mas, no fim, nunca conseguiu ser totalmente saciado por causa da metástase do medo humano em nunca saber se estamos certos ou errados. Neste regime de incerteza, a religião fragmentou- se em milhares de seitas e organizou todos os tipos de cultos, rituais e simbologias para agradecer e agradar deus das mais diversas formas.

O mito de origem

A mais poderosa crença já inventada pelo ser humano foi, sem dúvida, a ideia de deus. Isto porque a ideia de um ser superior ‘organiza’ e ‘explica’ o universo de caos, imperfeição, insensatez e desequilíbrio que constitui o espaço imanente e transcendente da vida humana. Neste sentido, a palavra, o conceito e o sentido deus (ou os deuses) resolve o problema da imperfeição, da incompletude e do paradoxo da existência humana, e, de quebra, transforma o homem comum em um homem-com-poder, na medida em que ele torna-se fiel, ‘amigo’, confidente, do ser mais poderoso do universo, deus. “O fiel que se põe em contato com deus não é apenas um homem que percebe verdades novas que o descrente ignora, é um homem que [a partir de então] pode [sempre] mais. Ele sente em si mais força, seja para suportar as dificuldades da existência, seja para vencê-las” (DURKHEIM, 2011, p. 459). A crença na existência de deus personifica a ideia de chefia (do grego hegemon), ordem (do grego cosmos), da segurança (do latim securus, ‘sem temor, garantido’, que deriva de sine cura, ‘sem cuidados’), do poder (do latim potere, “poder, ser capaz”, e de potis, “potente, capaz”), do controle (do latim contra mais rotulus, “rolo, escrito, registro”, expressando a “ação de verificar os escritos ou as contas dos rolos), bem como do equilíbrio (do latim aequilibrare, união de aequi, ‘igual’, e librare, ‘oscilar’), da simetria (do grego syn, ‘junto’, mais metron, ‘medida’, que significa ‘a qualidade do que tem a mesma medida’) e do destino (do latim de, intensificador, mais stanare, derivado de stare, que resulta em destinare, “fixar, afirmar, estabelecer”). Deus ou deuses dão lógica, destino e sentido ao universo, transformando a selva externa e a besta interna, inerentes ao animal humano, em um ser civilizado, dócil e domesticado. Mircea ELIADE nota, por exemplo, que o primeiro fato com que [nos] deparamos [em nossa vida] é que o mundo existe porque foi criado pelos deuses, e que a própria existência do mundo quer dizer alguma coisa, que o mundo não é mudo nem opaco, que não é uma coisa inerte, sem objetivo e sem significado. Para o homem religioso, o Cosmos ‘vive’ e ‘fala’. A própria vida do Cosmos é uma prova de sua santidade, pois ele foi criado pelos deuses e os deuses mostram-se aos homens por meio da vida cósmica” (ELIADE, 2010, p. 135). Originalmente, os homens criaram um universo infinito de daimons (deuses ou demônios), num mundo ideal, para ‘explicar’ e ‘justificar’ as aporias do universo humano, o mundo real. Estes deuses primitivos eram bons ou maus, pacíficos ou guerreiros, justos ou injustos, serenos ou temperamentais. Não importava o conteúdo ou o sentido da criatura, mas apenas o ato da criação. [Haviam] e há deuses da violência, há deuses da compaixão, há deuses que unem os mundos do invisível e do visível e há deuses que simplesmente são os protetores de reis ou nações” (CAMPBELL, 1999, p. 218).

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Os primeiros deuses são representações animistas ou antropomorfizadas que

servem apenas para hispostasiar a realidade natural. Eles amarram as necessidades humanas com o mistério mitológico numa alquimia transcendental. Isso acaba resultando numa ressignificação e numa revalorização da vida e da morte. Os homens deixam de viver e de morrer. Eles apenas transitam em universos sequenciais, passando da vida nº 1 para a vida nº 2, depois para a vida nº 3, e assim por diante. As mais antigas gerações, muito antes ainda de existirem filósofos, acreditavam já em uma segunda existência passada para além desta nossa vida eterna. Encaravam a morte não como decomposição do ser, mas como simples mudança de vida” (COULANGES, 2004, p. 07). Na verdade, a crença na existência de deuses está ligada diretamente à invenção da ideia da alma, como abrigo da essência humana, que sobrevive à morte do corpo e encontra no panteão divino o seu porto seguro. Na ótica de Dan Cupitt, “a alma é uma [crença] pré-científica de explicar o que

Em várias tradições vemos também uma tendência a

sobrenaturalizar a alma e declará-la imortal, como um espírito(CUPITT, 1999, pp. 17-

18).

O princípio da imortalidade da alma está no fato de que quando, na aurora da civilização, os chefes da família morriam, eles não desapareciam, mas embarcavam

para o mundo vivo dos mortos. A partir desta crença, era dever de a família zelar pelo túmulo do falecido e cultuar sua memória, respeitando e cumprindo seus valores, seus ensinamentos e seus costumes. Com o tempo, os descendentes passaram a cultuar este ‘chefe’ como um ser como poderes sobrenaturais, já que o defunto aparecia e reaparecia sistematicamente nos sonhos dos membros da família. Como as pessoas não sabiam a diferença entre sonho e realidade, a aparição dos ancestrais representava a presença real [concreta] do ‘chefe’ supremo, num entreposto de universos, para comandar a vida dos vivos e dos mortos. WRIGHT (2009, p. 24) lembra que “a ideia de que as almas dos mortos retornavam para visitas, por meio dos sonhos, [era] bem frequente [naquelas] sociedades primitivas”. Entre os índios da ilha de Fiji, por exemplo, achava-se [até pouco tempo atrás] que “as almas deixavam os corpos para perturbar outras pessoas durante o sono” 10 . “Os melanésios ainda creem que o homem possui uma alma que abandona o corpo na morte; e [que] ela muda então de nome e torna-se o que eles chamam de

Aos tindalos são prestadas homenagens religiosas [posto

tindalo, um natmat etc. [

é a vida biológica. [

]

]

que] quando seu proprietário era vivo já eram por si mesmo seres sagrados” (DURKHEIM, 2003, p. 51). Os chefes de família primitivos passaram a ser vistos assim, naturalmente, como os primeiros deuses, a quem se devia respeito, honra, consideração e reverência, tornando-se fonte de culto e de mistificação. Lembra COULANGES (2004, p. 14), que os “mortos eram tidos como entes sagrados. Os antigos davam-lhes os epítetos mais respeitosos que podiam encontrar no seu vocabulário; chamavam-lhes bons, santos, bem-aventurados. Tinham por eles

10 VRIGHT, Robert. A Evolução de Deus. Tradução de Flávio Demberg. Rio de Janeiro, São Paulo:

Record. P. 24.

12

tanta veneração quanto o homem pode ter pela divindade que ama ou teme. Para o seu pensamento cada morto era um deus”.

O culto aos mortos 11 , como uma verdadeira sagração aos deuses da

civilização, esteve na origem das manifestações de espiritualidade humana. “Encontramos este culto dos mortos entre os helenos, os latinos, os sabinos e entre os etruscos; encontramo-lo também entre os arianos da Índia. Os hinos do Rig- Veda referem-se a ele. O livro das leis de Manu fala deste culto para no-lo apresentar como o mais antigo culto professado pelos homens” (COULANGES, 2004, p. 15).

Os deuses domésticos

O politeísmo aparece como uma convenção praticamente natural nas

sociedades humanas 12 . Os povos primitivos fabricavam deuses de maneira normal, habitual, rotineira, como uma espécie de sistema de segurança social, da mesma forma como edificavam muralhas, abrigos, castelos e torres 13 . “Quando Esquilo escreve As Suplicantes, obra com que triunfa nas Grandes Dionísias de 463, a paisagem da cidade está cheia de deuses. Isto é, os deuses estão em toda a parte, até na cozinha, perto do fogão de Heráclito” (SISSA & DETIENNE, 1990, p. 189). Era comum, portanto, que, no mundo primitivo, a realidade de que cada família possuísse um deus doméstico. Da mesma forma, cada gen (formada pela reunião de parentesco a partir de laços consanguíneos maternos) e cada família (formada pela reunião de parentesco a partir de laços consanguíneos paternos) 14 também possuíam um deus único. E, com o passar do tempo, este deus único da família e da gen ou da família tornou-se o deus único da aldeia e, depois da cidade, até conquistar, ao longo dos anos, o status de deus nacional (COULANGES, 2004).

11 DURKHEIM observa, na esteira do pensamento de COULANGES, que “os primeiros seres sagrados foram as almas dos mortos e o primeiro culto o dos antepassados”. (2011, P. 51).

12 Não seria correto, antes de mais nada, afirmarmos que existia a forma do politeísmo ou do monoteísmo nas sociedades primitivas. A ideia da existência do monoteísmo só foi aparecer no século XVII da era cristã, e a ideia do “politeísmo realizou-se como invenção monoteísta, numa projeção retrospectiva”, nascida apenas para fertilizar e “individuar a revolucionária perspectiva religiosa ocidental” (SCARPI, 2004, p. 8) do cristianismo.

13 Merece maior aprofundamento uma investigação sobre a possível relação entre politeísmo, poligamia, políade e política. Originárias do mundo grego primitivo, as expressões denotam o sentido original da humanidade marcado pela multiplicidade de experiências divinas, humanas, estatais e discursivas. Todas estas ideias indicam a possibilidade da existência ser marcada pela essência plural da organização humana e divina, marcada na terra ou no céu pela variedade natural de formas e expressões. Toda forma monocrática de vida, em suas várias dimensões, seria uma expressão da violência cultural ou social contra a verdadeira natureza humana. BACHOFEM mostrou, em O Direito Materno (1861), que a poligenia e a poliandria eram os sistemas primitivos de sexualidade entre homens e mulheres, modelo denominado por ele como ‘heterismo’.

14 ENGELS explica, em A Origem da Propriedade, do Estado e da Família (1884), a partir dos estudos de H. Morgan, em Sistema de Consaguinidade e afinidade na família humana (1871), que a gens, organizada em torno do direito materno foi a chave para a descoberta para o que viria a ser a gens (ou família) baseada no direito paterno. Isto permitiu elucidar, segundo Engels (2010, p. 33), a origem das gens grega e romana, “que tinha sido, até então, um enigma total para os historiadores”.

13

Este é um fato comum na imensa maioria das sociedades primitivas, que aprendeu a expandir e a universalizar seu deus doméstico para que este deus acabasse tornando-se o deus hegemônico em uma dada sociedade. A vitória do deus doméstico, como uma espécie de representante distrital a ocupar o governo nacional, representava, em certa medida, a tomada do poder de algumas pessoas, de algumas famílias e de algumas cidades sobre as demais religiões e sobre os demais deuses 15 .

Os deuses domésticos, os deuses da cidade e o deus nacional

Tornou-se normal, na antiguidade, o fato das pessoas adorarem e reverenciarem seus deuses domésticos, mesmo que, ao mesmo tempo, adorassem e reverenciassem os deuses da cidade e que, sem nenhuma contradição, adorassem e reverenciassem o deus maior da nação, o deus superior a todos os demais, que comandava as verdades e os destinos das pessoas e dos outros deuses. O deus nacional representava os ideais e os valores nacionais daquele povo, enquanto os deuses da cidade representavam os anseios e as necessidades locais, e os deuses domésticos tratavam de zelar e defender os interesses privados de uma determinada gens ou família. Cada Deus tinha um papel, uma função e uma circunscrição de poderes. Normalmente, eles eram harmônicos e convergentes. Se houvesse, com o passar do tempo, a imposição de cânones pelo deus nacional ou pelos deuses da cidade diferentes daqueles dos deuses domésticos, as famílias mudavam de religião e de deuses nacionais ou locais (nunca dos deuses domésticos). A opção sempre era seguir as crenças que melhor coadunassem com os interesses de cada família 16 . Este princípio de fidelidade restrita valia também para os donatários da religião, assim como para o mundo da política, da administração da cidade, dos negócios e das relações sociais. Em certo sentido, “as antigas mitologias acertam ao dizer que os deuses foram os primeiros reis, os primeiros senhores da terra e a primeira classe alta. É razoável postular que a crença nos deuses desse tipo essencial se desenvolveu lentamente no período após 7.500 a.C., quando tiveram início as atividades agrícolas e a fixação ao solo. Os deuses corporificavam, e eram, as concentrações maciças de autoridade sagrada e poder disciplinar necessárias para a evolução das primeiras sociedades estatais” (CUPITT, 1999, 21). No mundo primitivo, da Mesopotâmia e da Babilônia até a Grécia e Roma, “os inventores da cidade-estado fabricam deuses cidadãos, divindades ditas ‘políadas’, que regem o panteão de uma cidade. [São] deuses estreitamente implicados no cotidiano do social e do político” (SISSA & DETIENNE, 1990, p. 184). CUPITT (1999, p. 21) observa, por exemplo, que, na antiguidade, o trono de Deus era o centro em torno do qual gravitava o Estado. A autoridade divina foi a fonte de todas as formas posteriores de autoridade pública, o reino sagrado foi o primeiro espaço público e o culto divino, a primeira forma de culto público”.

15 “A vida dos deuses nas cidades gregas é a pluralidade: a ideia de que os deuses são numerosos, a ideia de que há muitos deuses” (SISSA & DETIENNE, 1990, p. 189).

16 “Todos sacrificam aos deuses sempre vivos, mas cada um a um deus diferente” (Ilíada, II, V. 400).

14

O deus nacional e os outros deuses nacionais

O monoteísmo do deus nacional conviveu com o politeísmo dos deuses

nacionais das demais sociedades antigas. O deus nacional da Grécia antiga, Zeus, e os demais deuses gregos, Atenas, Apolo, Hermes etc, conviveram com o deus nacional da Roma antiga, Júpiter, assim como com os demais deuses romanos, Vênus, Marte, Mercúrio etc. Pode-se assim falar com naturalidade num monoteísmo dentro do politeísmo, pois a dinâmica atávica da criação e a prática sistemática da adoração dos deuses, por áreas de interesse ou necessidade, derivava, como dissemos, na eleição de um deus supremo, comandante-em-chefe dos demais. Zeus foi o deus maior da Grécia antiga. Júpiter, o deus supremo dos romanos. Mitra-Varuna, o deus primitivo dos indianos. Odhin, o deus absoluto dos germânicos. Marduk, o rei todo-poderoso da Babilônia. Deiwos, o deus nacional dos proto-indo- europeus (TERRA, 1999, pp. 31-39, LAMBERT, 2011, pp. 155-156). SISSA & DETIENNE (1990, p. 21) apontam, com acuidade, que no mundo grego “Zeus domina [a todos]. Na qualidade de pai dos deuses e dos homens, impõe-

se a todos os congêneres como o mais forte, o único que poderia ser o contrapeso para o conjunto dos outros reunidos”. TERRA (1999, p. 39) observa ainda que “Zeus, trazido dos indo-europeus, suplantou os deuses locais e assumiu muitos de seus mitos”. Ele é, entre os gregos, portanto, o “deus do céu”, “deus do raio”, do “trovão”, da “chuva” etc. “No hino de Cleantes, Zeus recebe o nome de polyónima (mil nomes) porque de fato ele conserva os nomes e epítetos de muitos deuses”.

O mesmo acontece com todos demais deuses nacionais. Eles não fazem

desaparecer os deuses das cidades, dos Estados, dos povos ou das famílias, mas reinam sobre todos eles, encarnando, com o passar do tempo, as qualidades e os poderes mágicos destes seres secundários. Há, entretanto, uma espécie de convivência pacífica e respeitosa entre o deus nacional e os demais deuses nacionais das vizinhanças. Cada um administra o seu povo, a sua cultura e a sua religião. Nenhum ocupa o espaço do outro, a não ser que os homens façam isto. Neste caso, a luta é entre os homens, não entre os deuses.

Os deuses nacionais e os deuses universais

O exercício cotidiano de professar e disseminar as verdades fez com que os inúmeros deuses nacionais concorram, numa espécie de gincana celestial infinita, ao trono do poder universal e, por conseguinte, ao governo universal da verdade. Os deuses nacionais sempre foram candidatos a assumir o papel de deus universal, como decorrência natural do processo de adoção universal da sua crença como a verdade universal. Para nossa sorte ou azar, isto nunca chegou a acontecer. Nenhum deus nacional conseguiu conquistar a honra de se legitimar como o deus universal de todos os povos e de todas as culturas. Muitos deuses chegaram perto disso, mas, no máximo, acabaram sendo reconhecidos como deuses universais de uma dada cultura, nunca como o deus universal de todas as culturas.

15

Isto significa dizer, de outro modo, que a humanidade conviveu

politeisticamente com diversos deuses monoteístas, onde cada povo acreditou que o seu deus nacional era o deus universal de todos os povos. Há exemplos espalhados em todas as civilizações e em todas as culturas. O deus cristão é considerado por todos os seus seguidores como o Deus único, absoluto

e verdadeiro. O deus brama representa, para os indianos, o pai da criação do universo e, por isto, é reverenciado com o maior de todos os deuses no hinduísmo. Entre os silvícolas da nação Tupi, na América do Sul, o deus Guaraci é o senhor absoluto e monocrático dos céus. Ao mesmo tempo, os seguidores do candomblé acreditam que Igba oxala é o criador supremo, e exclusivo, de todos os seres vivos, e os povos islãmicos cultuam o deus Allah como o único, o original, o verdadeiro deus do universo. E todos estes povos podem jurar, com absoluta segurança, que sua crença é

a mais pura verdade dentre todas as verdades existentes no mundo.

O resultado é que o deus de uma determinada civilização torna-se maior, mais

poderoso e mais autêntico na medida da quantidade de seus seguidores e no tamanho

do território que ele ocupa. O deus com maior número de fiéis torna-se emblematicamente o capo de tutti capo do panteão divino.

É claro que a profusão de povos, de culturas, de tradições, de religiões e de

deuses, ao longo da história, e por todo o planeta, promova, naturalmente, um

sincretismo organizacional e funcional. Muitos deuses podem vir a “habitar” as religiões de outros povos, sem que isto invalide a força e o poder dos deuses nacionais. Outros daimons são integrados por diversas religiões, sem prejuízo do Deus Principal, como uma prática de boa-vizinhança e de respeito entre culturas. Muitos deuses, entretanto, são aceitos por praticantes de religiões distintas como um modo dos “fiéis” manterem uma política de simpatia e de portas abertas com todas as possibilidades, sobretudo, na hipótese do seu Deus não ser o verdadeiro e o Deus do Outro ser o deus verdadeiro. Este fenômeno decorre de um tipo de processo de projeção do próprio ego humano. Determinados povos buscam sempre fazer valer suas ideias, suas verdades

e seus valores sobre as ideias, verdades e valores de outros povos. Este é um tipo de

luta entre culturas, modos de vida e sistemas de crenças, criada pelos seres humanos,

mas personificadas e representadas no duelo entre deuses e suas verdades. E lembre-se que esta disputa entre deuses, como verdadeiros fantoches dos seres humanos, acompanha toda a história da civilização.

O deus monoteísta e politeísta, ao mesmo tempo

O monoteísmo tem apenas um deus. Mas este deus pode reinar, de forma

absoluta, num estranha forma de monoteísmo difuso, sobre vários povos. Este é o caso do deus cristão (chamado de Deus), do deus hebreu (Jeová) e do deus muçulmano (chamado de Allah). Todos estes deuses são, como sabemos, o mesmo deus, mas o problema é que cada legião de profetas 17 e fiéis, no mundo cristão, hebreu e muçulmano, considera o seu Deus como único e absoluto.

17 O profeta do deus hebreu foi Moisés, que guiou os servos pelo deserto até a terra nova e brindou todos os fiéis com a palavra divina gravada em pedra. O Torá é uma palavra hebraica que significa “instruções”. O messias da palavra do deus islâmico foi Abraão, que não chegou a ter relação direta com a divindade, mas que também soletrou ao seu povo, o povo muçulmano, as verdades universais. O Corão significa “declamação” ou “recitação”. O ungido (ou o ‘cristo’) pela religião católica foi o marceneiro Jesus, que

16

“Do mesmo modo, o parentesco entre o sânscrito Dyaus, o Zeus grego, o Jovis

latino, o Zio do alto alemão, [

diferentes povos indo-europeus já reconheciam como tal antes de sua separação” (DURKHEIM, 2011, p. 64).

O deus nacional de cada um dos povos pelo mundo acaba passando a

representar, em algum momento da história, o status de deus monoteísta do mundo.

Não importa que cada sistema de rituais, que cada regime de liturgias, que cada código canônico, enfim, que cada modelo específico de religião, ostente um aparato singular de crenças tido como o dogma absoluto.

O fato é que cada deus monoteísta é apenas um extrato do panteão de mitos e

de crenças humanas e a representação, antropomórfica, do ideal religioso de uma dada cultura. Todo deus monoteísta está sempre imerso em um universo politeísta de outras mitologias e de outros deuses. Apenas pela necessidade da crença, do sentido- maior, e de que este sentido-maior seja o sentido-deus, é que os povos elegem um dos seus deuses como o “Deus único e verdadeiro para todos os povos”. Na bíblia hebraica, por exemplo, o monoteísmo não é uma verdade absoluta. Antes disso, ela é uma verdade relativa e inconstante. WRIGHT (2009, P. 21) nos mostra que “ainda que boa parte das escrituras presuma a existência de um só Deus, alguns trechos emitem um tom diferente. O livro do Gênesis menciona o tempo em que um grupo de divindades masculinas descia para copular com belas mulheres humanas; esses deuses se uniam às filhas dos homens e estas lhes davam filhos” 18 .

No final, a verdade é que, independentemente das escrituras, o curioso é que o

mundo passa a ser habitado por uma grande legião de deuses monoteístas. Todos absolutamente originais e verdadeiros. Além disso, nesta babel, o deus monoteísta de

um povo tem que conviver com o deus monoteísta do outro povo. O monoteísmo local, regional ou nacional vira um grande politeísmo universal, embora cada religião acredite sempre que o seu deus é o único deus do universo.

O resultado é que o deus de um povo acaba sendo mais ou menos importante

designam uma única e mesma divinidade que os

]

(e influente) de acordo, como dissemos, com o contingente de fiéis e com o tamanho do território que ele administra. Por isso, o deus cristão tem sido, temporariamente, considerado como o deus absoluto, pois ele granjeia, até o momento, o maior número de fiéis, além de estar presença num imenso espaço territorial pelo planeta.

O problema é que o número de seguidores do deus muçulmano cresce

rapidamente, assim como os epígonos do hinduísmo, do budismo e das ‘religiões chinesas’. Estes deuses também conquistam progressivamente novos extratos territoriais, o que representa, na soma matemática do povo com a terra, a conquista de

maior prestígio, maior influência e, sobretudo, maior poder, para todos eles.

O deus individual

É fato que a crença é sempre uma chama que ilumina a alma de forma

individual. Cada pessoa tem seu repertório próprio de valores, de regras e de certezas, reunidas ao longo de sua existência pelos processos de socialização e

17

endoculturação. Este repertório é que dita o que o indivíduo pensa, sente, valora e decide em sua vida, configurando, de forma restrita, a sua identidade e a sua personalidade. Por mais que a dinâmica vital da sociedade, da técnica e da cultura reconfigure, de tempos em tempos, as ideias e as convicções do individuo sobre o mundo e a realidade, a essência de cada ser humano permanece intocável. A relação do indivíduo com o universo transcendental é um exemplo desta lógica. Todo indivíduo tem sempre uma ideia e um conceito sobre Deus, inclusive os ateus. A crença em um ser superior, criador do universo, é um ideia bastante simples, mas que dá sentido à existência da vida e do ser humano. É uma questão de pragmatismo e de utilitarismo. Deus é a fonte original [a causa] do universo e o ser humano [o efeito] teria sido gerado, como a sua obra-prima, para seguir as ordens do criador, conquistando, desta forma, a vida eterna, naturalmente pródiga, venturosa e feliz.

É, portanto, natural [e tecnicamente lógico] que a espiritualidade esteja na base da essência humana. Todos os homens creem, de modo racional ou instintivo, em um processo transcendental de causa ou efeito. Isto é um traço imanente do intelecto e tem sustentado o que foi denominado de teoria da mente, que considera os seres humanos como os únicos capazes de estabelecer estados mentais associados a crenças ou convicções de si próprios e dos demais membros da espécie. Isto tudo, de forma geral, é uma questão elementar. Deus tornou-se uma criação espiritual para que os seres humanos convençam a si próprios que eles não são frutos do acaso. Não há o que discutir sobre isto. O fato, entretanto, é que existe uma grande diferença na crença em uma causa primordial para tudo [i.é, deus] e o sistema de crenças que sustenta esta ideia. Pelo que vimos, existiram e ainda existem formas de deuses domésticos, deuses familiares, deuses locais, deuses nacionais e deuses universais. Uma visão primitiva que acabou sendo traduzida, com o passar do tempo, pelo conceito de religião. O que vemos, de maneira generalizada, são uma dúzia de macro-sistemas religiosos, instituídos a partir de sementes espirituais espalhadas por vários messias, como Moisés, Abrahão, Paulo, Buda e Confúcio, há muito tempo. Estas doutrinas estabelecem o macrocosmo moral, cultural e social de cada religião. São as leis não-escritas a reger a vida dos povos submetidos a um regime de leis escritas, mas nem sempre cumpridas. A verdade é que a ideia de deus e a ideia de religião, com todos os seus dogmas, não são suficientes para garantir a obediência e a reverência dos súditos. Por detrás dos sistemas de controle das mitologias, os seres humanos criam, de maneira autônoma e independente, seus próprios sistemas de crenças. São as religiões individuais, constituídas pela associação de crenças, valores e percepções sobre as questões espirituais que melhor se adéquam aos sistemas de idiossincrasias individuais. É fato que a quase totalidade da população diz professar um determinado tipo de crença religiosa, basicamente monoteísta e monocrática, embora, entretanto, por detrás de cada opção religiosa, esconda-se normalmente um discípulo nem sempre fiel ao conjunto de cânones e de mandamentos religiosos. Normalmente, o indivíduo submete seu sistema de idiossincrasias ao regime social de crenças religiosas. Por isso, ele se transforma naquilo que a massa se transforma e se deixa levar pela maré de dogmas que a multidão cultua. Este é um jogo de sobrevivência, assentado apenas na lógica das aparências.

18

O território da subjetividade humana é soberano, imune a todo tipo de invasão

ou corrupção mental. O indivíduo segue a massa porque esta é a lógica de toda a sociedade. Ele cultua os valores da massa porque todos os indivíduos demonstram cultuar os mesmos valores. Ele faz o que todo mundo faz porque parece ser sempre mais prudente e seguro seguir o sistema social.

A verdade é que o indivíduo compartilha as crenças sociais, professa a religião

de seu povo, cultua o deus de sua época, mas também é verdade que ele não deixa de acreditar e seguir as suas próprias verdades. Nas profundezas de sua consciência,

o indivíduo constrói o seu próprio sistema de certezas, erigindo, a partir delas, as suas convicções sobre a realidade humana.

Mesmo que pareça viver e conviver harmoniosamente dentro de um regime social de valores, o indivíduo é sempre o rei absoluto de sua própria consciência. Nada consegue, portanto, penetrar e derrubar as verdades inexpugnáveis de cada indivíduo, que celebra, no seu interior, o triunfo permanente de suas próprias verdades. Este fato faz com que a religião seja sempre uma ação absolutamente individual. No mundo primitivo, antigo, clássico ou moderno, o indivíduo seguiu, com respeito e obediência, os cânones da religião social de sua época e de seu povo. Isto nunca o impediu de ‘combinar’, em sua alma, um rol de valores e de regras religiosas originárias de vertentes espirituais difusas. Em síntese, devemos considerar que as verdades do monoteísmo, do politeísmo, das crenças religiosas, dos costumes sociais e dos sistemas morais e legais sejam sempre culturalmente dominantes, mas que as verdades miúdas de cada indivíduo também são determinantes para o resultado final do exercício de sua fé.

Para concluir: o politeísmo monoteísta

A crença na existência do monoteísmo nas sociedades ocidentais é um

verdadeiro dogma social. A ideia na existência de um deus único, absoluto e todo- poderoso, tornou-se um imperativo categórico de todos os crentes, no mundo moderno, independentemente do sistema religioso adotado.

A trajetória histórica da civilização humana mostra, entretanto, que o

monoteísmo é um valor absoluto, posto que o modelo de um deus único é o que melhor se ajusta ao um sistema de pensamento dominado por uma espécie de ‘crenças racionais’, socialmente aceitas exatamente pela sua possibilidade de lógica e de verossimilhança. Em certo sentido, as crenças também passaram por um processo de evolução

e tiveram que se adaptar aos novos tempos do iluminismo e do cientificismo. As

‘velhas’ superstições, crendices e tabus não cabem mais em um mundo onde se tornou um verdadeiro mantra o princípio da objetividade e da racionalidade. Por isso, apesar de toda crença ser sustentada apenas pelo princípio da fé, a verdade de cada crença precisa estar embalada em um dogma minimamente lógico e factível.

O monoteísmo contempla a ideia de que existe uma causa original para o

universo e de que esta causa está personificada na figura de um ser criador. Este ser, superior, gerou o ser humano para que este cumpra as regras de uma vida justa e correta e receba como prêmio, ao final de sua jornada, uma segunda vida, desta vez

eterna.

19

O sentido-deus absolutiza o caldeirão de crenças individuais, domésticas, locais ou nacionais assim como as religiões monoteístas, essencialmente politeístas, satisfazem as necessidades subjetivas e morais de indivíduos que precisam muito mais de um sentido objetivo e claro para suas vidas do que um sentido para o universo ou para a realidade social ou cultural [do seu povo e de sua época]. O fabricante de verdades vem assim criando e recriando mitos e crenças de acordo com as circunstâncias históricas e os ditames dos mandatários das inúmeras religiões. O monoteísmo combina, portanto, com a época, com os valores históricos, com os padrões de racionalidade e com os princípios da objetividade e da factibilidade do mundo. Debaixo deste aparente monoteísmo, existe um esplendoroso universo politeísta de santos, arcanjos, heróis, semi-deuses, profetas, padres e magos, que professam um gigantesco caleidoscópio de mitos e que são seguidos pelos seres humanos, de maneira individual, como quem estivesse escolhendo e consumindo suas ideias e suas convicções a partir de uma espécie de cardápio espiritual.

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