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Suzy Lagazzi DL / IEL / UNICAMP

A relação entre materialidade e memória define a especificidade da perspectiva

discursiva materialista. Materialidade porque propomos que a leitura se desloque do conteúdo,

concebido como idéias abstratas, idéias que se delineariam independentemente dos significantes que constituem a base material para a ancoragem dos sentidos e independentemente das condições determinantes desse processo. Memória porque consideramos que a interpretação não se restringe ao imediatismo do momento do dizer: ela é

um recorte no interpretável, atravessado por esquecimentos e silenciamentos. É sempre possível dizer de outra forma. É sempre possível dizer outra coisa. O

deslocamento e a incompletude são constitutivos da perspectiva discursiva materialista. Para falar de materialidade e memória apresento uma análise de Boca de Lixo, documentário de Eduardo Coutinho. O filme é aqui tomado em sua textualidade composta na

diferença material: imagens, sons, palavras, músicas, corpos. Um conjunto heteróclito que

compõe um texto, demandando sentidos em sua composição e abrindo para diferentes perguntas, diferentes possibilidades de análise. Busco mostrar, no recorte dessa composição material, o exercício da prática analítica, traçando uma compreensão que se faz memória de

esquecimentos. Busco compreender, no processo de textualização de Boca de Lixo, alguns

funcionamentos discursivos. Ressalto um ponto importante: para a perspectiva discursiva materialista o texto se apresenta como uma delimitação imaginária, instaurando na incompletude do discurso um contorno material imaginariamente finito (Orlandi, 2001). Podemos dizer que o discurso circula em textos, sob o “efeito de fecho” (Gallo, 1992), sem pre num a tensão entre a delimitação imaginária e a incompletude constitutiva. K

Na perspectiva da Análise de Discurso materialista, levamos às conseqüências a relação entre língua e história. Isso significa que trabalhamos com a forma-material (Orlandi,

1999) e remetemos o jogo entre descrição e interpretação às condições históricas de sua

produção. Recusando o centramento do indivíduo, trazemos para nosso quadro teórico a figura da interpelação ideológica: somos sujeitos à ideologia materializada no discurso,

Este texto é resultado de um processo longo de análise. Quero agradecer de maneira especial a Carolina Fedatto, Guilherme Carrozzi, Janaina Sabino, José Renato Silva e Silmara Dela da Silva pelas discussões em •

nossos seminários sobre Boca de Lixo. Aceito para publicação nos Cadernos do CEAM (Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares), NECOIM (Núcleo de Estudos da Cultura, Oralidade, Imagem e Memória) da UnB. ISSN 0103-510X

sujeitos à incompletude da língua e à contradição da história. Ser sujeito significa constituir-se

no jogo dos sentidos, pego na evidência das interpretações. Isto é estar ideologicamente interpelado.

A incompletude constitutiva do discurso significa que é impossível dizer tudo, e,

mais ainda, que “tudo” é uma ilusão necessária, historicamente construída. Enquanto sujeitos

inscritos no simbólico, estamos no movimento do discurso e do desejo, e precisamos acreditar

na possibilidade da completude do sentido para que a ilusão da estabilidade nos acolha e

produza o efeito de controle de que tanto necessitamos.

A noção de incompletude nos leva a trabalhar com relações de sentido, no que diz

respeito à formulação do discurso, ao texto, e no que concerne à memória, interdiscurso, que abrange, como já apontamos, o esquecido e o lembrado, pois para dizer temos que deixar de dizer. O interdiscurso é “o saber discursivo que toma possível todo dizer e que sustenta cada tomada de palavra” (Orlandi, 1999).

A memória discursiva preside a textualização. Por isso afirmamos que o texto é

uma delimitação imaginária. Embora materialmente configurado como unidade, o texto não

rompe com a memória discursiva, ele apenas a recorta. Justamente por isso as relações de sentido produzidas na textualização são atualizações possíveis frente às condições de produção, não estando definidas a priori. O cotidiano, em nossa sociedade letrada, demanda por textualização nos diferentes modos de formulação signifiçante. Os efeitos de fecho, unidade, coesão e coerência

se impõem no dia-a-dia, nos mais diversos modos de nos relacionarmos com a linguagem. Parafraseando Orlandi (1999), quando afirma a injunção do sujeito a simbolizar, direi que a relação simbólica do sujeito com nossa sociedade se faz sob a injunção a textualizar.

Na análise de Boca de Lixo enfoco o processo de textualização na relação entre

materialidade e memória, para propor a prática da autoria na posição do espectador.

A relação simbólica sempre impõe desafios ao dispositivo analítico, no sentido de

não nos deixarmos tomar por compreensões conteudísticas. Isso significaria, por exemplo na

análise do documentário Boca de Lixo, que tematiza a vida dos catadores do Vazadouro de

Itaoca, no Rio de Janeiro, discutir a vida de cada catador, preocupar-se em saber se de fato os

catadores comem ou não os alimentos que recolhem no lixão. Ou preocupar-se com as intenções de Coutinho ao filmar os catadores com o rosto coberto. É fundamental substituirmos as perguntas informativas por perguntas que tentem compreender as condições

pelas quais determinada interpretação se faz possível e natural.

Em Boca de Lixo somos posicionados como espectadores do trabalho dos

catadores no lixão, e como espectadores da vida desses sujeitos em suas casas.

Observamos, no movimento das cenas, uma alternância entre o lixão e a vida nas

casas, e, no lixão, entre o lixo, o catar o lixo e o convívio dos catadores nesse meio. Espacial e

temporalmente temos planos e momentos subseqüentes, que produzem continuidades

distintas: de um lado a vida nas casas e de outro o lixão. Esse movimento de alternância é uma

regularidade desse documentário.

Ao observar essa regularidade é importante nos perguntarmos que sentidos são

alternados.

O documentário produz uma distância entre o catador no lixão e esse sujeito

particularizado, limpo, humanizado e normalizado em sua casa. Cenas distintas que se

alternam na tela e produzem dois cotidianos distintos, duas posições-sujeito distintas. A

câmera recorta o social! Vejamos o que nos permite afirmar que se trata de duas posições-sujeito.

Entre o espectador e os sujeitos em suas casas e vidas normais, afetados por

sonhos, vontades, prazeres, tristezas, a possibilidade de reconhecimento em um universo que

mantém muitas diferenças, mas se une em sua condição humana. Os catadores, em suas casas,

são pessoas pobres, como tantas outras em nossa sociedade. A organização social não tem

nenhum problema em acolhê-las e solidarizar-se com elas!

Entre o espectador e o catador se produz a não identificação pela inaceitabilidade

do lugar do outro: esse sujeito trabalha no lixo, coloca a mão no lixo, se acostuma com o

cheiro do lixo, recolhe o lixo, vive do lixo, se diverte ao lado do lixo, o que produz no

espectador o distanciamento em diferentes sentimentos: incredulidade, inconformismo,

Diferentes formulações que convergem para o

recusa, repulsa, tristeza, incômodo,nojo (

estranhamento e a distância desse mundo outro. O espectador está do lado de fora dp lixão,

numa relação de fronteiras bem definidas.

).

Qual é o texto que Boca de Lixo vai construindo para o espectador?

Para compreender essa construção, me volto para o espaço do lixão, no qual o

sentido de lixo é colocado em questão.

No lixão, o movimento da câmera de aproximação e distanciamento é uma

regularidade importante: o lixo é mostrado à distância, em um conjunto heterogêneo e

indistinto que vai sendo aproximado até sua especificação. Essa regularidade nos permite

compreender que a relação de sentidos entre a distinção e a indistinção é um funcionamento,

constitutivo de Boca de Lixo.

Na relação de espectação do lixo em seu conjunto indistinto se afirma o sentido de

consumo, que estabelece com lixo uma relação parafrástica estabilizada socialmente. O lixo é a contraparte do consumo, o dejeto a ser posto fora.

Normalmente o lixo se caracteriza por uma desfiguração dos objetos consumidos. Quando no documentário o lixo é aproximado e especificado, e quando o espectador pode distinguir naquele conjunto alimentos intocados, objetos em boas condições, enfim, coisas a

serem consumidas, o sentido de desperdício se produz e uma outra família parafrástica se

constrói entre ‘lixo’, ‘desperdício’ e ‘fome’.

O consumo é afirmado como natural em nossa organização social, mas não pode

reafirmar a fome e cada vez mais deve ser um consumo racionalizado. Embora as

necessidades se afirmem em sua equivocidade (Pêcheux, 1990.) o que realmente é necessário quando se trata de consumo?-, saciar a fome é um mandamento cristão que ressoa em nossa

memória discursiva. Propiciar condições para que a fome seja saciada seria um dever dos

nossos governantes. O discurso religioso e o discurso político se imbricam nesse dever.

Lido na perspectiva da economia neoliberal, este dever é afirmado como uma

política de racionalização que se formula como sustentabilidade. Consumo consciente e sem

desperdício. Nesse imaginário, o desconforto se manifesta pelo desperdício. O espectador é

afetado pelo incômodo, pelo sentido de lixo como desperdício, exposto ao descaso da fome na relação com o outro.

O movimento entre lixo como dejeto de consumo e lixo como desperdício desestabiliza a fronteira entre consumo e desperdício e manifesta uma brecha no espaço

irremediavelmente equívoco da linguagem. Nessa relação o espectador fica exposto à relação

significante configurada por ‘lixo’ em sua materialidade verbo/visual. Chamo a atenção para a necessidade de imbricação entre o verbal e o visual para que se produza o efeito do lixo como desperdício. A imagem de objetos e alimentos possíveis

de serem consumidos em meio ao lixão e a remissão dessas imagens ao significante verbal

‘lixo’ é que toma possível o efeito de sentido ‘desperdício’ contraposto a ‘dejeto’, com a

desestabilização da relação parafrástica entre ‘lixo’ e ‘dejeto’ e a construção de uma família

parafrástica entre ‘lixo’, ‘desperdício’ e ‘fome’.

Até agora, no espaço do lixão, nosso olhar ficou preso ao lixo, aos seus sentidos.

E hora de voltar ao movimento entre a distinção e a indistinção para remetê-lo ao catador. Na impossibilidade de identificação entre este e o espectador está nosso interesse.

0 processo de identificação pressupõe o reconhecimento. O catador é o estranho que se manifesta. Nós não nos reconhecemos em sua posição e, mais que isso, nós não reconhecemos essa posição-sujeito-catador como posição-sujeito-trabalhador na organização social. Em Boca de Lixo a posição-sujeito-catador é colocada em questão.

Quando observamos o sujeito-catador no espaço do lixão, a relação de seu corpo

com o lixo chama nossa atenção. Corpos recortados em planos fechados: pernas em meio ao

lixo, semi-soterradas, braços, mãos que cavocam o lixo, escolhem, recolhem, vasculham, separam, garimpam, pinçam, apanham, revolvem, mãos em movimento, mãos-instrumento. Corpos distintos em evidência, corpos que se indistinguem em meio ao lixo que compõe o cenário em planos abertos, corpos fletidos em busca do que deixará de ser lixo.

Essas imagens produzem estranhamento. O corpo fletido em meio ao lixo não encontra ressonância em nossa memória discursiva. Embora a flexão do corpo em direção ao chão traga a memória do trabalho - o corpo que ara e semeia a terra, o corpo que limpa o chão -, muitos pré-construídos impedem a conjunção entre o corpo fletido e o lixo: vida saudável, boa higiene, ambiente limpo, boas condições de trabalho

Apesar do estranhamento, compreendemos que a flexão do corpo em meio ao lixo

é o gesto que significa o sujeito-catador, é um ponto de ancoragem da materialidade visual em

Boca de Lixo, um ponto de sustentação visual do documentário. Ser catador em um lixão é

catar lixo, no lixo. Na posição sujeito-catador a flexão do corpo só significa em meio ao lixo.

E essa formulação visual concentra tensão e contradição. Ser catador é atualizar a memória do

trabalho na postura do corpo, em uma posição-sujeito sem lugar na organização social, pois é

um corpo que se debruça sobre o dejeto, sobre o final do ciclo de consumo. O corpo fletido

em meio ao lixo é a formulação da contradição que não se resolve.

Pêcheux explora a contradição como o um que se divide em dois. Na espectação,

ao nos depararmos com o corpo fletido sobre o dejeto, o recusamos enquanto posição

constitutiva da organização social, mas não podemos ignorá-lo na reiteração da busca pelo

não-lixo, busca reivindicada como trabalho.

Esse corpo não pára:

o olhar perscruta, o corpo se flexiona, o saco é posto no chão, a mão vasculha, segura, coloca algo no saco, que volta para as costas.

Essa seqüência se repete incansavelmente, qual uma linha de produção.

Na relação do espectador com o catador, a textualização se produz na contradição entre a recusa de um trabalho não aceito e não aceitável em nossa sociedade, e a impossibilidade de ignorar um corpo que não pára! É uma textualização que afeta ao expor as fragilidades sociais e coloca em suspenso também o sentido de trabalho, o sentido de vida digna. E a reafirmação de vários catadores em Boca de Lixo de que “este é um trabalho como outro qualquer” fica ressoando na força da denegação: este não é um trabalho como outro qualquer.

Este é um trabalho? A possibilidade da pergunta nos diz da sua inaceitabilidade na

r '

ordem social pautada por “nossos direitos humanos”: boas condições de vida e de trabalho! Mas a possibilidade da pergunta também faz ressoar o que transborda e fica situado do lado de fora!

Afirmamos que o processo de textualização supõe uma relação necessária entre texto e autoria e que estamos sempre sob a injunção de textualizar. No entanto, essa injunção se propõe como exigência da responsabilização do sujeito pelo texto, sem nomeá-lo como autor. Assim, ficamos sob a injunção da textualização, mas negados como autores possíveis. Mas a vida cotidiana, nos processos de sua textualização, é sempre um convite à prática da

autoria. Tomar os textos como espaço de textualização, de “reelaborações possíveis na

injunção da unidade” (Lagazzi-Rodrigues, 2006). Ousar ser autor no cotidiano.

Bibliografia citada:

GALLO, S. Discurso da Escrita e Ensino. Campinas: Unicamp, 1992. LAGAZZI-RODRIGUES, S. Texto e Autoria. In: Introdução às Ciências da Linguagem. Discurso e Textualidade. Campinas: Pontes, 2006. ORLANDI, E. Análise de Discurso'.princípios eprocedimentos. Campinas: Pontes, 1999. Do sujeito na história e no simbólico. In: Discurso e Texto. Campinas: Pontes,

2 0 0 1 .

PÊCHEUX, M. Discurso: estrutura ou acontecimento. Campinas: Pontes, 1990.