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Nenhum regime que hoje se diga democrático desconhece o sufrágio universal. Contudo, a conquista

deste direito político que agora aparece como óbvio foi

o resultado de uma dura luta, mais que secular, travada

o liberalismo teórico e prático, de votar e de ser votado não só as

mulheres , mas também todos os trabalhadores não proprietários. Não é casual, assim, que a luta pelo sufrágio universal tenha sido uma das primeiras bandeiras não só do movimento operário, mas também do movimento feminista. A universalização do sufrágio foi um momento 1 decisivo no difícil processo da emancipação humana. Contudo, uma vez conquistado tal direito, as correntes conservadoras e reacionárias se empenharam em cancelar as potencialidades emancipatórias nele contidas, promovendo, por múltiplos caminhos, um processo efetivo de des-emancipa ç ão.

essencialmente contra que excluía do direito

Analisando a obra de pensadores liberais como Constant, Tocqueville, Stuart Mil! e Hayek, entre outros, Domenico Losurdo nos mostra, neste livro, como todos eles se empenharam, de um modo ou de outro, em maior ou menor medida, em combater ou esvaziar o potencial subversivo do sufrágio universal. Mas , além da

polêmica

procedimentos através dos quais se deu, na prática,

o processo de des-emancipação, de esvaziamento

do sufrágio universal. Tais procedimentos vão desde a

substituição do sistema proporcional pelo distrital

uninominal , enquanto forma de traduzir o voto em representação, até a transformação do sufrágio universal em simples instrumento plebiscitário de legitimação de lideranças carismáticas. É precisamente este último movimento que Losurdo chama de bonapartismo,

teórica, Losurdo também nos indica os vários

indicando

como sua difusão planetária é hoje um dos

principais

obstáculos à realização da democracia.

DEMOCRACIA

OU BONAPARTISMO

TRIUNFO

E DECADÊNCIA

DO SUFRÁGIO

UNIVERSAL

t.

.••,~

pensamen tOÇrítico

2

UFRJ

Reitor

Aloisio Teixeira

Vice- Reitora

Sylvia Vargas

Coordenador do Forum de Ciência e Cultura

Carlos Antonio Kalil Tannus

Editora UFRJ

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Tania Regina de Luca

Editora Assistente

Denise Katchuian Dognini

;;

-=F

DEMOCRACIA

OU BONAPARTISMO

TRIUNFO

DO

SUFRÁGIO

E DECADÊNCIA

UNIVERSAL

Domenico

Losurdo

TRA O uÇAO

Luiz Sérgio Henriques

I

)

Editora

UFRJ / E ditor a

UNESP

Rio de Janeiro

ww.

2004

_

I,

C

o p vr i g ht

© by Domenico

l. os u rd o

Ficha Catalogrúfica

e lab or a d a PCI'1 Divisão

de Pr o ce ssa m c n t o Técnico

- SIBI/UFlq

 

Losurdo, Domenico

 

L 991d

 

Democracia

ou

bonapartismo:

triunfo

e decadência

do

sufrágio universal

/ Domenico

Los ur d o ; tradução

L u i z Sérgio

Henriques

- Rio de Janeiro:

Editora

UI'RJ

; São Paulo

Editora

U n es p , 2004. - (Pensamento

Crítico;

v. 2)

376 p.; 14 x 21 em

l.

Sufragio

representação

- história.

2. Sistema

- história. 3. Bonapartismo

ISBN 85-7108-277-4

ISBN 85-7139-565-9

(Editora UFRJ)

(Editora Unesp)

representativo

- história.

I Título.

CDD: 324.6

Revistio

Iosette Babo

Copo e Projeto Gráfico Ana Carteiro

Editoraçtio Eletrônica Mar i s u Araujo

Direitos

desta edição reservados

a:

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Editora

da UNESP

- São Paulo

e

(FEU)

SUMÁRIO

Prefácio à edição brasileira

I.

A luta pelo sufrágio: uma história atormentada concluída

e ainda não

 

I.

Constam

e a restrição

c e n s i t á ri a dos direitos

políticos

2.

Tocqueville

e a recusa do sufrágio

universal

direto

3. Europa

e

América

4. Discriminação

censitária e discriminação

racial

5.

Os excluídos

da democracia

6. Propriedade,

cultura

e

direitos políticos

em Iohn Stuart

Mill

8. A

discriminação

censitária

como princípio

7. O voto plural de legitimidade

9.

Emancipação e des-ernancipaçâo

10. Negação

dos direitos

políticos,

mercado de trabalho

e trabalho

servil

11. Tradição

liberal, discriminação

censiráriu

e racialização

dos excluídos

 

12.

Do libera

lismo 11 democracia!

13. As três

etapas

da

 

conquista

do sufrágio

universal

 

2.

Em busca de um novo tutor para a a multidão

"criança"

 

I.

Sufrágio universal e bonapartismo

2. A multidão

"criança"

e

o líder carisrnático

3. Personalização

heróis

4. Bonnpar tisrno, liberalismo,

do poder

e culto

aos

 

bonapartismo

liberal

 

5.

Personalização

do poder,

"missão"

e exportação

do con-

 

flito

6. Da multidão

"criança" à "psicologia

das multidões"

3.

Uma alternativa à discriminação

censitária:

as origens do

bonapartismo

entre América e França

9

15

61

9

3

l.

Ronapartismo

francês

e modelo

americano

3. França

2. O "golpe

de Estado"

dos federalistas

americanos

e América:

como

sair da revolução

4. A sombra

da ditadura

da antiga

Roma

5. Tradição

liberal,

estado

de exceção

e Constituição

americana

6. A Ff<1I1ça entre presidência

presidencial

7. América

imperial e Império e diferenças

e França: analogias

8.

O

bonapartismo

como alternativa

à discriminação

censitária

9.

Bonapart

ismo

e missão

imperial

10. O presidente

dos

Estados

Unidos

como intérprete

da "missão"

do seu povo

11. Normalidade

e estado

de exceção

12. Regime bonapar-

tista, bonupartisrno

so ft , bonapartisrno

de guerra

4. As tr o mb e ta s d as c l asses d o mi n a nt e s

e o s s in o s d as c l a s se s

s u ba lt e rn as

I

. ( ) r e g i me re pr esen t a tivo

e c on tro l e

e o s c o r po s a r mad o s

d os m e i o s de

2 . C ont r o l e

3.

pol

ít ico

econ ô m i co

inf o r maçã o

1 4 7

O

pár oc o , o jornal, o p a rtid o

4. J o r na i s , part i d o s o r g an i z a do s

e

c la sse s subalternas

5. P ar tidos, s i ndi c ato s e in d i vid u a l i s m o

r

e pres s ivo

5

. O b a ti s mo de fogo do r egi m e bon a p a r t i s ta

1

6 7

I

. I tál i a e

E s tado s Unid os : c om o imp o r a g u e rra ~ multid ã o

 

"

c r iança"

2. Um regime p o l í tic o à a ltura do e s t ad o d e e xc e ç ão

3

. " M i s são " e mo bili zaç ã o t o t a l 4 . " A r n e ri c un i s m o " e ri t o s

d

c purif ic a ção e d e e x pul são do m a l 5 . Ces ar i s r n o p e rf e ito

e

i mp e rf e ito ent re Es tad os

Un id o s , In g l a ter r a e A l e m a nh a

6 .

We b er : ce s a r i s m o e p r i m ad o

Pa r cto, a s "d u as d emocra c ias "

men t o co munist a e o espe c tr o d o b o n a pa r tis m o

di t a du r a e bo napar t i s m o

d

a po l í t i ca ex t e rn a 7. M u ss o lini,

e o bo na p a r t i s mo

9

8 . O m ov i- . C es a r i s m o ,

6. S u f r á gio universal, propo rc i o n a l e reaç ã o uni nom in a li st a

207

 

I.

C olégio

u n in o m i n a l e n o v as

f o rm a s

d e d i s c rimina ç ã o

c

e u si t á r i a

2. A r e pr esen t aç ão prop o r cio n a l

C0 l 11 0 co r oa ç ã o d o

s

uf r á g i o u nive r sal 3. Entre e man c i pação e d cs-e rnu n c i p aç ã o: o

vo

t o d a s m ulh eres

4. D e m o c r acia , par t id o s e rep r es e n tação

propo r c i o n a l

e m K e l s e n

5. Pa rl a m e nt o

co rp o ra t i vo

 
 

plu

ra l

6. N a c i o nali s t a s,

e v o t o 7 .

fa s c i s tas e co l é g i o uni n o m in a l

 

C

o l ég i o unin o min a l

e co ntr o l e p o l íti co e s oc i a l d o e l e i to r ad o

8

. G obett i, a r epr e s e nt aç ã o p r o p o r c i o na l c a I n g l ater r a

9 . O

s

u frágio uni v er sal . a " t ra géd i a

a t ual da bu r g u es i a "

e o s p o s -

 

s

í ve i s remédios 1 0. Lib e ralis m o, fa s c i s m o e d e s- cma n c i pa ç ã o

7. O séc ulo XX entre em a n c ip ação e d es-ema n c i p a ção

 

2 4 3

 

I.

A multidão "crianç a", a d e mocrac i a e o m e rc a do

2 . Cr í tic a

e

r e d e finição da d e m oc r ac i a e m S chu r np e re r

3 . Da so c i e dad e

po r ações a o m e rc ado 4. Proc e s s o d e e m a n c i p a ç ã o e t e o ri -

z

no

uni v e r sal

d o s éc ul o X I X a o s éc u l o

a ç ã o dos " d ireito s

s ta l gia

s ociai s e e c o nõ m i c o s"

n ão c o nt a mina d o

5 . Hay e k

e a

de u m mu n d o

p e l o s u f r á gi o

6. A c r íti ca ~ d e m o cracia

X

X e s eu p o nt o d e c h e g a da

7 . S u f r á g i o un i ve r s a l

e " d e m o -

c

rac i a ' s o c i al '

ou t o t a lit á ria "

8 . D e s - e m u n cip u ç ã o

e " r ni n i-

mi

e " r ni nimi z aç ã o" d a demo c ra c i a: o ca s o Bo bb i o 10. D e b ili -

dade da resistênci a Dcs- emancipação

z a çã o" d a democra c i a :

o caso P o ppe r

9 . D es - cman c ip aç ã o

l

l .

o 1 2 . V e l h a

ao pro ce ss o d e des - e mu n cipuç ã e " N ov a O rde m Int e rna c i o n a l "

e

nova ideologia colonial

1 3 . O r e t o rn o dos " es t ran ge i r os "

e

o

futuro da democra c i a

8. O triun fo d o b o n a p a rt is m o

d e m oc r a c i a

50ft e o t e m po l o n go d a

I

. D emo c ra c i a ,

me r ca do e ma ni pu l açã o

t ot a l

2. O s é c ul o

X

p l e b i sc i t á r i a s c o n co r r ent es

d a ri s mo co m p e titi v o e p o d e r do s /obbies 5 . U m balanço

hi s tó r i c o i n s tr u m e n ta l

ce l e r " 6 . G uu lli s r uo e rep ú b li ca pr es i d e ncia l

Sist e ma u ni n o m in u l , b o n apa r t i s m o c d e cap it ação p olítica

d

9

"

d a demo c r a c ia

X e a nova v i t ó ria do b o n a p ar ti s mo

soj: 3. Duas iuvcsti du ras

4 . Bo nap a r t i s m o so ft, mo n o pa r ti-

do chan-

7.

e o adv e n to d a " demo c rac ia

8. A paráb o la

na França

a s c l as s es s ub a l t e rna s

. O b o n apa r ti s rn o

b u rg u es a "

d o l ib e ra l ismo

a tual

so]: e a an á l i s e m ar x iuna

da democ r ac i a

e o t e m po

l o n go

1 0 . A n o v a d e s - e ma n c i pa ç ão

R e f e r ê n c i as b ibli o g r á fi c as

Ín

d i ce o n o m ás t i c o

295

335

65

3

I

"

PREFÁCIO

À EDIÇÃO

BRASILEIRA

No centro da ideologia hoje dominante há um mito, chamado

a glorificar o Ocidente e, em particular, seu país-guia. É o mito

segundo o qual o liberalismo teria gradualmente se transformado,

por um impulso

cracia cada vez mais ampla e mais rica. Para nos darmos conta

se trata de um mito, basta uma simples reflexão. Da democracia como

hoje a entendemos, faz parte em qualquer caso o sufrágio universal, cujo advento foi por muito tempo impossibilitado pelas cláusulas de exclusão estabelecidas pela tradição liberal em detrimento dos povos coloniais e de origem colonial, das mulheres e dos não-proprietários.

E estas cláusulas foram por muito tempo justificadas, assimilando os

excluídos a "bestas de carga", a "instrumentos de trabalho", a "máqui-

nas bípedes" ou, na melhor das hipóteses, a "crianças".

puramente interno, em democracia, e numa demo-

de que

O mito hoje dominante também quer

se identificam.

fazer crer que demo- Na realidade, durante

cracia e livre mercado capitalista

séculos, o mercado do Ocidente liberal comportou a presença da chattel slavery, da escravidão-mercadoria: os antepassados dos atuais cidadãos negros foram, no passado, mercadorias a ser vendidas e compradas, e não consumidores autônomos. E precisamente a histó- ria dos dois países em que a tradição liberal está mais profundamente enraizada se mostra inextricavelmente entrelaçada com a história do instituto da escravidão. Um dos primeiros atos de política interna- cional da Inglaterra liberal, nascida da Gloriosa Revolução de 1688- 1689, foi arrancar da Espanha, com a paz de Utrecht, o Asiento, o mo-

nopólio do tráfico negreiro. Do mesmo modo, dever-se-ia saber que só em 1865 foi abolida nos Estados Unidos a escravidão dos negros, os

quais, por outro lado, mesmo depois de tal data,

continuaram por

muito tempo a ser submetidos a formas de servidão

ou serni-servidão.

Este livro, em primeiro lugar, é a reconstrução histórica da luta travada pelos escravos reduzidos a mercadoria, pelas "bestas de carga",

I

.,

10

DOMENICO

LOSURDO

pelos "instrumentos de trabalho", pelas "máquinas bipede s " ou p e las

" crianças" para serem reconhecidos em sua plena dignidade humana,

que devia ser subtraída às oscilações do mercado junto com o direito à vida, ao trabalho, à saúde, à instrução. Portanto, é a reconstrução histórica da luta pela conquista dos direitos c ivis, políticos, econô- micos e sociais. Trata-se de uma história não só longa, atormentada e

marcada por revoluções, mas tamb é m de uma história que procede de modo tortuoso e em ziguezague, no sentido de que, às vezes , a vitó- rias exaltantes se seguem derrotas de s astrosas: à experiência exaltante da emancipação, ou seja , da conquist a de direitos anteriormente não desfrutados, bem pode se seguir a ama rgura da des-ernancipaç ã o, ou

seja, da perda dos direitos tão arduamente conquistados. Superadas na sua forma tradicional, as c l á usulas de ex c lusão e as discriminações tendem a se apresentar sob forma nova . Primeiro conquistado e de-

pois perdido, o sufrágio universal (masculino) na França foi reintro-

duzido por Luís Napoleão, mas no âmbito de um regime em que o momento "democrático" se limita à a c lamação plebiscitária de um líder carismático e inconteste, que, desvencilhado de partidos, sindi-

catos e de qualquer outro obstáculo, fala diretamente ao povo e

pretende ser seu intérprete ex c lusivo. toma corpo, tem uma longa história

continua a agir no presente.

edição em 1993, este livro se

que ela

parece triunfar em nível planetário. Mas se trata realmente de um

triunfo? Nos países de tradição liberal mais consolidada, afirmou-se

um mecanismo eleitoral que - além de reduzir a competição à dispu- ta entre dois líderes mais ou menos carismá ticos e de marginalizar os partidos organizados com base num programa, e, em primeiro lugar, os partidos ligados às classes subalternas - não hesita em cancelar o

próprio princípio da soberania popular. Para comprovar isto, este

pergunta sobre a sorte da democracia num momento em

Mas o bonapartismo , que assim atrás de si e, sob novas formas,

Publicado

na Itália em primeira

livro traz um exemplo: na Inglaterra de 1924, os conservadores, em minoria no país, conquistaram graç a s ao sistema uni nominal uma maioria não só absoluta mas até esmagador a na Câmara dos Comuns.

Seria ainda atual esta denúncia? Obviamente, quem deve julgar é o leitor; mas o autor se permite recordar que, nas eleições presid e nciais

DEMO C RA C IA

ou BONAPARTISMO

1 J

estadunidenses de 2000, o derrotado (AI Gore) conseguiu mais votos do que o vencedor (George W. Bush). É verdade que, respeitada a vontade do eleitorado, talvez não mudasse muita coisa. Com a atenção voltada sobretudo para os Esta- dos Unidos, o livro chama a atenção sobre um fenômeno inquie- tante, ou seja, o triunfo do "monop a rtidarismo competitivo". Por um lado, no plano jurídico, toda uma série de normas e de casuísmos dificulta a apresentação de candidaturas fora dos dois partidos ofi-

ciais; por outro, as grandes empresas de televisão são livres para convidar aos deb a tes por e las organizados os candidatos considerados merecedores de atenção e para ex c luir os candidatos de risco para o sistema e a ideologia dominantes . E assim a competição eleitoral se reduz a um duelo televisivo e midiá tico entre dois contendentes. Confrontam-se dois programas diversos? No curso da campanha eleitoral presid e ncial de 2004, Iohn Kerry, o opositor de Georg W. Bush, reconheceu o caráter democrático e justo da invasão do Iraque; apenas se limitou a contestar o relativo isolamento dos Estados Uni- dos e as dificuldades ou o fracasso do "processo de paz"; assegurou que, uma vez cheg a do à Casa Branca, saberia envolver os aliados,

reduzir os custos

melhor os frutos de uma guerra cuja legitimidade, de um modo ou de outro, não estava em discussão. A stronger America: a palavra de ordem do derrotado poderi a ter sido tranqüilamente a do vencedor!

humanos e econômicos da ocupação do país e colher

Os dois candidatos

oficiais r e metem

não só a um

mesmo

partido político, mas também a uma mesma classe social.

O livro

recorda como historiadores, cientistas políticos, jornalistas eviden- ciam o peso cresc e nte do dinheiro nas campanhas eleitorais estaduni- denses: a tal propósito, alguns fal a ram, sob formas diferentes, da discriminação cen s itária que durante séculos excluiu os não-pro-

prietários do direito de voto e do ac e sso aos cargos públicos . O direito de voto foi conquista do para sempre ; e quanto aos cargos públicos? Escrevendo num jornal influente e respeitado, em 1992, um jorna- lista italiano (Vittorio Zucconi) não tinha papas na língua: nos Esta- dos Unidos - observava -, a presidência "é comprada" com um "rio de

dinheiro". De mente: e sem

acesso nem ao cargo máximo do país nem aos mais importantes.

lá para cá, o rio se avolumou ainda mais, espantosa-

ser empurrado

por este rio lamacento ninguém tem

12

D O MENICO

LOSUR DO

n ã o é um caso i so l a d o . C omo

se s a be e como imponente s m a nifes t açõ e s d e massa co mprov aram,

g rande maioria dos ingle se s é c ontrá ria

que . Mas como fará para exprimir es t a s u a o rienta ção n o pl a n o ele ito-

ral? Certamente, permite-se

mini s tro,

vad o r ) ainda mais decidido a p e rc o rre r o c a minh o d a av e ntura b é lica,

e m n o m e da glória imorre dour a d o impé rio brit â ni co e d a fid e lidade

o esvaziamento da d e m oc r ac i a

a

,1 g u e rra e à oc up ação

do Ira-

a o p o v o vo t ar c ontra o a tual prim e iro-

mas com o risco d e l e v a r ao p o d e r um p a rtid o (o c o n s er-

DEM O C R A C I A

OU BO N AI'ARTIS M O

1 3

-s rno qu e t e nha e nc o ntr a d o um lu g ar privil e giado de de se nv o lvi- !11 c n t o n os Es t a d os Unid os, es te r eg im e p o l í ti co parece se difundi r em

!ll~ J

ní ve l m u n d i a Ce rt a m e nte , o paí s - g ui a d o Oc id e nte a presenta

peculiar e s. Vale a p e n a l e mbr a r qu e Geo rge W. Bush obteve seu pri- meiro m a nd a t o pr es id e n c i a l e mpunhando na campanha eleit o r a l

" No ss a nação foi el e ita p o r

Deu s e t e m o m a nd a t o da hi s t ó ria pa r a se r um modelo para o mund o . "

um v e rd a d e ir o d og m a p o lítico - r e ligioso:

caracterí s ti cas

tamb é m imorredoura

ao s E s t a d os U nido s d a A m é rica . É ve rdade,

Em virtud e d es t a e l e i ção divina, o pr es ident e

dos Estados Unid os

e

xi s te at é a possibilidad e d e vot a r p e l os lib e r a l-d e m o cr a t as ,

uma ter-

pod e se a rr oga r o dir e it o d e int e r v ir milit a rm e nte

em qualquer p a rt e

c

e ir a f o rça política; só qu e es ta pod e ficar s e m r e pr ese ntação, m es mo

do mund o, p o r d ec i são

unilat e r a l e se m a ut o ri z ação da Organiza ç ão

se conse guir um elevado núm e r o d e vo t os: o s i s t e m a uninorninal

d e a r epartir as cadeiras e ntre os d o i s m a i o r es pa rtid os .

vi s to s , os pacifistas ingleses - ainda qu e co n s titu a m

da população - parecem destin a d os a fica r d es tituíd os d e r e pr ese nta-

ç ão política. Se quiserem, os e l e ito r es po d e r ão c o n so lar- se

d

política d e guerra do Partido Co n se r va d o r!

ten-

Sa lv o impre-

a g r a nd e maioria

co m o f ato

e a

e pod e r escolher entre a política d e g u e rra d o P a rtid o Tr ab a lhis ta

Não se trata de um a grand e esco lh a , p e l o m e n os do p o nto de

vi s t a d e Kant . Este livro r e c o rda qu e, na o pinião d o gr a nd e fil ós ofo

al e m ão , um povo só pode s e co n s id e r a r livr e se f o r ca p az d e fazer uma

esc o lh a real quanto ao proble m a

m o n a rca absoluto? É aquele qu e , quand o o rd e n a : 'D e v e h a v e r g u e rra',

a g u e rra acontece." A este prop ós ito, K a nt d á o exe mplo d o " monarca brit â ni co" e depois acresc e nt a: só c ria n ças p o d e m se de i xa r ludib riar

p e l a n o rma constitucional qu e ex i ge se r e m as despesa s d e g u e rra

ap r o vada s pelo Parlam e nt o;

qu a ndo a s hostilidades j á se abriram p o r inic iati v a d o E x ec utivo, que,

e m s eguida, tem amplas

fa t o c o nsumado.

da p az e da g u e rra : "O qu e é um

e s t e é c h a m a d o a inte rvir t a rd e dema i s,

p a r a f a z e r r a tific a r o

m a r ge n s de m a n o br a

M e u livro remete sobre t udo à r ea lid a d e dos Es t a d os Unidos,

o nd e , historicamente,

s eu " de s tino manifesto", da sua " mis s ão" provid e n c i a l,

faz e nd o - s e inté rpre t e s upr e m o

da Naç ão , do o pr es id e nte

d

ec idiu-se em várias ocasiões p o r a ções b é lic a s m es m o se m a apro-

v

aç ão pr é via do Congresso. Ass i s t e - se ao s ur g ime nt o d e um n ovo r e gi-

m

e p o lítico,

que se p o d e ria d ef inir co m o b o nuparti s m o

sol), Ma s ,

da s Nações Un i d as , qu e n o m áx im o p o d e s er chamada, em seguid a, a

ratific a r o fa t o c o n s um a d o:

parece se r a

sede d e um bonapartisrno d e dim e n sõe s e ambições planetárias.

n este se nti d o, Wa s hington

É v er d a d e qu e , c omo ju s ti f i ca tiv a

d e tudo isso, desfralda-se mui-

tas v eze s a b a nd e ir a dos "dir e it os human os" , cujo intérprete privile g i a d o

é , por de f i ni ção, o líd e r da " na ção e l e it a" po r De us . M a s o que acont ece

na r e alid a d e ? O qu e se

pela C arta d a O NU - que t e m c ad a n ação d e se r considerada e tr a tada num pl a n o d e i g uald a de c om r e l ação às o utra s; do mesmo mod o , é

evid e nt e o d es m a nt e l a m e nt o d o Es tad o d e b e m-estar social e do s di-

pela Carta da ONU; e

não s e p o d e f ec h a r os o lh os di a nt e da restri ção c r e scente das liberdad es

o Patriot Act e o

reito s eco n ô mi cos e soc i a i s, t a mb é m sa n c i o nados

d e c l a ra é a liquida ção do direito - san c ionad o

clássic as d a tr a di ção lib e ral, co m o de m o n s tram

univ e rs o concentracionário d e Cu a nt â n a rn o e A bu Ghraib.

As a n á li ses hi s t ó ri cas e p o líti cas, as c at eg orias teóricas contid as

neste li v r o p od e m se r út e i s a um m ov im e nt o d e luta que, f e li z m e nt e ,

e s t á cr esce nd o e bu sca

Ob v i a m e nt e, a r es p os t a

a g rad ece r à E dit o r a U F RJ, n a p essoa d e Ca rl o s Nelson Coutinho, se u

diretor, c à E dit o r a d a Un es p , b e m c o m o ao tradutor Luiz Sérgio H e n-

riques, ami gos e co l egas que , d ec idind o publicar no Brasil D e m o - cracia 011 bonapartismo, ac h a ram p o r b e m dar uma resposta po s itiv a Jl]uela p e r g unt a.

e n f rent a r a s am e a ças à pa z e à democra c i a? ca b e ao l e it o r. Mas d es de já o autor s e permit e

U

rbin o, outubro

d e 200 4 .

J)

O JIIC JI ; CO l . os ur do

-------,---

J. A LUTA

PELO

SUFRÁGIO:

UMA HISTÓRIA

ATORMENTADA

E AINDA

NÃO

CONCLUÍDA

1. Constant e a restrição censitária dos direitos políticos

_

Para compreender a gênese e os problemas da democracia mo- derna, convém remontar à Revolução Francesa. O elogio mais alto a respeito desta foi objetivamente pronunciado por um expoente res-

peitado, por um clássico de algum modo, da tradição liberal, que, depois de ter ironizado a idéia, "peculiar" só à França, do sufrágio como "direito natural, absoluto", e depois de ter sublinhado a distân- cia da Inglaterra e dos Estados Unidos (os países por ele admirados)

em relação a uma concepção política tão ruinosa e extravagante, con- clui: "É preciso chegar à Revolução Francesa para encontrar, na Euro-

pa, alguma coisa que se assemelhe ao sufrágio universal" (Laboulaye, 1866, v. 3, p. 319 e 322).

Com efeito, é no curso do processo de radicalização de tal revo-

lução que emerge a reivindicação do sufrágio mais ou menos univer-

sal

(limitado à população masculina) e direto. Depois da jornada de

10 de agosto de 1792, que marca o ato de nascimento

da Comuna

revolucionária de Paris, junto com a distinção entre cidadãos ativos e passivos também é posta em discussão a instituição dos "corpos elei-

torais" e do sufrágio em dois

provisória, fora mantido em vigor pela Assembléia Legislativa. Em

deve alienar sua

soberania o menos possível" (Aulard, 1977, p. 256 ss.). Se as eleições

para a Convenção são ainda caracterizadas pelo sistema eleitoral de duplo grau e pela exclusão dos dependentes, o sufrágio universal (mas-

vez disso - declaram os jacobinos - "o povo soberano

graus, o qual, ainda que como medida

culino) e direto é sancionado pela Constituição de 24 de junho de 1793 (Villey, 1900, p. 4 ss.). Por certo, as condições concretas em que

se desenvolvem as eleições para a Convenção, enquanto já se entrevê

a sombra do Terror, não garantem nem o segredo nem

dade do voto (Fayard, 1989, p. 610) e os desdobramentos dramáticos da situação interna e internacional impedem que a Constituição

a plena liber-

_ka

",,;J,'~~l'

.~

, .

.

I

I

I

16 •

DOMENICO

LOSURDO

aprovada entre em vigor; e, no entanto, esta primeira contestação radi- cal que atinge a discriminação censitária permanece como um fato de grande relevância histórica. Às transformações democráticas do sistema eleitoral correspon- dern, no período de radicalização jacobina da revolução, intervenções decisivas do Estado no campo econômico: começa a ser reivindicada uma política econômica que hoje definiríamos como redistribuidora de renda, através, por exemplo, do imposto progressivo. E é significa- tivo que Robespierre, que condena como contraditória em relação à Declaração dos Direitos do Homem a restrição censitária dos direitos políticos, teorize ao mesmo tempo o direito à vida como o primeiro entre os "direitos imprescritíveis do homem" (Robespierre, 1958, v. I, p. 140, e v. 2, p. 85). Depois do Termidor, a burguesia liberal termina por se ver diante de um dilema: por um lado, adere ao regime representativo em função antiabsolutista e antifeudal; por outro , deve impedir que a re- presentação política confira uma excessiva influência às massas po- pulares . Daí, portanto, o retorno a uma política de rígida restrição

censitária dos direitos políticos : a crítica à política social dos jacobi- nos tem lugar pari passu com a crítica ao sistema eleitoral democrá- tico. Particularmente visado é o imposto progressivo, denunciado

como sinônimo de "lei agrária"

propriedade. Boissy d'Anglas declara ser preciso excluir os não-pro- prietários dos direitos políticos: caso contrário, eles "estabelecerão ou farão estabelecer taxas funestas" (Lefebvre, 1984, p. 28 ss. e 35). Esta é

também a opinião de Constant, para o qual, precisamente, as medidas que comportam isenção tributária ou um tratamento fiscal favorável para os pobres não só penalizam injustamente "a riqueza", mas ter- minam por tratar "a pobreza como um privilégio" e por instituir "no país uma casta privilegiada", da qual, no entanto, surpreendetemente, fazem parte não os nobres ou os ricos, mas os miseráveis (Guillemin, 1958, p. 76 ss.). Trata-se de uma tese singular, quando menos porque aparece num momento em que o efeito conjunto de carestia e infla- ção reduz, segundo o respeitado testemunho de Madame de Staêl (1983, p. 317) e de Mallet du Pan (Guillemin, 1958, p. 37), "a última classe da sociedade à condição mais miserável", infligindo-lhe "males

e, portanto, de atentado ao direito de

DEMOCRACIA

ou BONAPARTISMO

17

inauditos'; até a morte por "inanição". Mas, para a tradição liberal, trata-se, exatamente, de neutralizar politicamente estas massas em condições de indigência ou literalmente famintas.

para conseguir tal objetivo? A

burguesia pós-termidoriana reintroduz tanto a restrição censitária dos direitos políticos (ainda que em medida mais atenuada do que a prevista pela Constituição de 1791, que fora varrida pela insurreição de 10 de agosto do ano seguinte), quanto o sufrágio em dois graus, como instrumento adicional para filtrar socialmente os organismos representativos e protegê-Ios contra qualquer contaminação plebéia

Qual é o meio mais adequado

e popular (Lefebvre, 1984, p. 34). Mas, do ponto de vista de Constant, esta última cláusula do sistema eleitoral torna difícil, se não impossí- vel, a identificação da massa do povo com seus representantes, redu- zindo, em vez de ampliar, a margem de consenso e trazendo o risco de criar o vazio em torno do governo e dos organismos legislativos

(Constant, 1970, p. 86) . Daí que a restrição censitária numa medida ainda mais drástica do que no passado.

miseráveis não se transformem numa "casta privilegiada" - ou seja, se aproveitem do poder político ou da influência exercida sobre ele para impor uma redistribuição de renda e melhorar de algum modo sua condição material-, o exercício dos direitos políticos deve constituir privilégio exclusivo das c lasses ricas; caso contrário, expõe-se a ordem social existente a riscos intoleráveis.

se imponha Para que os

2. Tocqueville e a recusa do sufrágio universal direto

A preocupação de Constant também é a de Tocqueville, que

erradamente é apresentado hoje como um teórico da democracia,

quando, ao contrário, deve ser incluído

cos, pelo menos se se considera parte integrante da democracia o su- frágio universal e direto . O autor de Democracia na América partiu das mesmas preocupações sociais que observamos na tradição liberal anterior a ele: é nitidamente contrário a uma intervenção do poder

político no campo econômico, a qualquer hipótese de redistribuição de renda e, conseqüentemente, a um sistema eleitoral capaz de favo- recer tais desastradas eventualidades. Contra a pretensão de pôr "a

claramente entre seus críti-

~ ;;,

18

DOMENICO

LOSURDO

clarividência e a sabedoria do Estado no lugar da clarividência e da sabedoria individuais", Tocqueville proclama que "não há nada que

autorize o Estado a intrometer-se na indústria" (Tocqueville, 1864- 1867, v . 9, p . 551 ss.): é o célebre discurso de 12 de setembro de 1848, pronunciado para que a Assembléia Constituinte recuse aquela reivindicação do "direito ao trabalho " que já tinha sido sangrenta-

mente sufocada nas jornadas de junho. O liberalismo econômico de Tocqueville vai até o ponto de debitar às "doutrinas socialistas" a regu- lamentação legislativa e conseqüente redução do horário de trabalho (le travail de douze heures), a qual se torna assim objeto de uma conde-

nação inapelável

(Tocqueville; 1951, v. 8, Il, p. 38) . E, igualmente,

é

liquidada como

expressão de socialismo e despotismo

qualquer

DEMOCRACIA

ou BONAPARTlSMO

19

tantes e Senado (que - é importante

assembléias legislativas de cada estado):

lembrar - era então eleito pelas

Quando entramos

no plenário dos representantes

em

Washington, sentimo-nos surpresos com o aspecto vulgar

desta grande assembléia.

um homem célebre. Quase todos os seus membros

sonagens obscuros, cujo nome

g

são per-

ima-

São, na maior

Nela, o olho busca muitas

não fornece nenhuma

parte,

advogados

vezes

de

e m ao pensamento.

província , comer c iantes ou até homens pertencentes às classes inferiores. Num país em que a instrução é quase universal- mente difundida, diz-se que os representantes do povo nem sempre sabem escrever corretamente.

cujo es-

A dois passos, abre-se

o plenário

do Senado,

medida legislativa voltada para atenuar a miséria das "classes infe-

treito recinto contém uma grande parte das celebridades

da

riores" mediante o controle do nível dos aluguéis (Tocqueville, 1951,

América. Dificilmente aí se percebe um

só homem

que

não

v. 15,11, p . 182). Até uma redistribuiç ã o de renda bastante limitada

deve ser considerada como um ataque inadmissível à liberdade e à propriedade; destituído de legitimidade é um regime político que, mesmo "ao assegurar aos ricos o gozo dos seus bens, proteja ao mes-

mo tempo os pobres do excesso da sua miséria, exigindo dos primei- ros uma parcela do supérfluo para conceder o necessário aos segun- dos" (Tocqueville, 1951, v. 16, p. 126).

Mas o mesmo perigo é enfrentado agora de modo diferente

daquele de Constant, para quem era preferível neutralizar politica-

mente as massas populares tos políticos, não mediante

graus . Em vez disso, é a favor desta última opção que se pronuncia o

autor da Democracia na América, referindo-se ao exemplo do país por

ele visitado e apontado como modelo. Apesar da ampla extensão do

sufrágio, os Estados Unidos gozam de uma invejável estabilidade polí-

tica e social

de segundo grau, o qual, sem necessidade de recorrer a discrimi - nações patentes e muitas vezes percebidas como odiosas, consegue, apesar disso, e de modo ainda mais eficaz, proteger os organismos

representativos da influência, ou da excessiva influência, das massas

populares. Esta, pelo menos, é a interpretação de Tocqueville, que procede a uma significativa comparação entre Câmara dos Represen-

mediante a restrição censitária dos direi- o recurso a um sistema eleitoral de vários

pelo fato de que deixam amplo espaço ao sistema eleitoral

evoque a idéia de uma pessoa ilustre. São eloqüentes ad- vogados, eminentes generais, hábeis magistrados ou homens

de Estado muito conhecidos.

da

Qualquer palavra que sai desta

assembléia honraria os maiores debates parlamentares Europa.

Por que a elite da

nação se encontra

antes neste plenário do que no outro? Por

que a primeira assembléia reúne tantos elementos vulgares,

De onde deriva este contraste bizarro?

enquanto

a segunda parece ter o monopólio

dos talentos

e

da cultura?

[

) De

onde provém, pois, uma diferença

tão

grande? Só vejo um

C â mara dos Representantes

através

fato capaz de explicar isto: a eleição da

é direta; a do Senado

procede

de dois graus.

E Tocqueville conclui:

É fácil entrever,

no futuro,

um momento

em que as

repúblicas americanas serão levadas a aumentar a aplicação

do duplo grau no seu sistema eleitoral; de outro

der-se-ão miseravelmente Não tenho dificuldades

duplo grau o único meio para pôr o uso da liberdade

tica ao al c ance 1968, p. 240 ss.)

modo, per-

entre os escolhos da democracia .

para admiti-Io ;

vejo na ação do

polí-

de todas as classes do povo. (Tocqueville,

Cabe sublinhar, de passagem, o caráter radicalmente errado das previsões que o liberal francês formula sobre o futuro da América,

~ """-

2 0

D O ME N ICO

LO SU RU O

DE MOC RA C I A

ou BO NAPARTlSM O

2 1

c

ar

a ct e ri za do pela afirmaçã o d a qu e le sufrágio unive r sa l dire to

 

s

oc ial d os o r ga ni s mos

repr ese nt at iv os

qu e Constant

atribui

ao

co

n s id e r a do

funesto e in co mp a tív e l

com a estabilid a d e

p o lítica

e

m

o n o p ó li o

d os dir e itos políticos p o r p a rt e d os pr o prietário s.

 

so

ci a l, tanto por Consta nt

qu a nto p o r T o cqueville. Amb os r e cu sa m a

 

D

e re s t o, é s ignificativa a a titud e t o m a da concretame nt e

p o r

id é i a d e uma represent a ç ã o p o lític a a utônoma do s "e lem e nt os

r

ça d a m e n te , fazem sentir s u a pr ese nç a n a Câmara do s R e pr ese n tant es

e

di scriminação de cen s o c a r a

segundo grau caro a T oc qu e vill e .

a C on s t a nt

vul ga - d esg r a -

n e m p e la

e s " o u d o s "homens p e rte ncentes

m W ashington,

à s c lasses inferiore s" , que,

num pl e n á rio c ujo a c esso não é b a rra d o

nem pelo sis t e m a e l e ito r a l d e

Est e último se ex pr essa priva d a -

T oc qu ev ille n o c ur s o das lutas tr a v a d a s n a F r a n ça contra a di sc rimi -

na ção ce n s it á ri a . Observou-se qu e o autor d e Democracia na América

" m a nt e v e-se di s t a nte , durante a M o n a rqui a d e Julho , da agita ç ã o pa ra ampli a r o s ufr ág i o e l e itoral " ( Dr esc her , 1 964 , p . 10). Em Recordações,

T ocq u ev ille e sc r e v e u tratar-se

prudê n c i a

d e um m o vim e nto que cometia a im-

d e ape l a r ao "povo " e qu e e l e te mi a p udesse escap a r, co m o

m

e nt e , e m relação às ele içõe s di re t as , com uma h os tilid a d e a ind a

d

e p o i s e f e tiv a m e nte

aconteceu,

d a dir e ç ão e do controle

da "c l asse

m

a i s a b e rt a do que a qu e se r e v e l a n a s tomadas de p os i ção públic as.

m

é di a", i s t o é, d a bur g uesia (To c qu ev ille,

1 9 51 , V . 12, p. 43 ) . M as t a l-

s to , pelo menos, a julg ar p o r um a

I

p

o i s d e t e r indicado

c a rta de f i ns d e 1835 , n a qu a l , d e -

p o i s , ir

n as " ele i ções e m v á rios graus" ( pod e-se,

v e z , m a i s d o qu e dist a nte, a atitud e d o t eó ri co lib e ral parec e d es c o n-

i ada e h os til. É v e rdade que, no s e scr it os p o líticos deste perí o d o,

f

é

a

l

é m a t é do segundo g r a u) o úni c o " r e médio par a os excessos da

p

ossí v e l e n c ontrar

uma declaraç ã o qu e jul ga oportuno

"estend e r

d

o c lim a id eo l óg i co

gr

a du a lm e nt e o c í r culo dos direit o s p o líti co s, ultrapassando

os limi-

e m o cr a ci a ", Tocqu e vill e ac r esce nt a que , dado domin a nt e , é neces s ário a pr ese nt a r "co m muita

prud ê n c i a"

um a tal

t

es d a c l asse m é di a , d e modo a torn a r a vid a pública mais v ari a d a e

e s e, p o r el e mesmo e xpr essa e m p úblic o com caute l a, a t e nu a nd o -lh e

t

um p o u c o as arestas ( T o cqu ev ill e ,

1

9 51, v. 15, l, p . 57 ) .

P a r a confirmar co m o é pr e cipit a do

fazer do a u to r d e Demo-

cracia na América um c a mp eã o d a democracia, lev e - se e m co nt a qu e

def e n sores de um s ufrá gi o univ e r s al o u b a stante ampl o , m as ex pr esso

c o m ba s e no sistema e l e ito ra l de seg und o grau, s ã o t a mb é m os l eg iti -

mi s t a s (Rials, 1987, p. 15 3- 155), c o m o s quais, de resto , co mo ver e-

m os, To cqueville

Es tad o de Luís Bonapart e .

típi ca d o A ntigo Regime ( os es t a d os g e ra i s),

lon ge d e serem caract e riza d as po r um a rígida discriminação ce n s itá -

p ara um a instituiç ã o

L e v e - se e m co nta que , em 1 789, a s e l e i ções

mant e v e br e v e c o nt a to

logo d e p o i s do golp e d e

ria, s e d esenvolveram co m b a s e num "sufrágio qua se unive r sa l " , qu e ,

es t a d o a t ra vés de e l e i ções s u cessi vas, d e

mod o a poder elimin a r tra nqüila mente " os analfab e t os a b r ig a d os na s

asse mbl é ias primári a s "

no e ntant o , filtrava o t e rc e iro

( H a l é vi , 19 88, p . 80). Um a co i sa é ce rta : m es-

m o qu e a tomada de p os i ção a f a vor do sistema e l e ito r a l d e s eg und o

gr au p oss a assumir conte úd os polític o s e sociais até b as t a nt e dife r e n-

t es ( L o surdo,

o fa t o d e que ele é ch a m a d o

funç ão d e neutraliza ção p o lítica das c l asses popul a r es e d e dep ur ação

1992a, c a p o 6 , § 6 , e 1 2, § 5 ) , não se d e v e p er d e r d e vi s t a

por T oc qu e ville a de se mp e nh ar a m es m a

_

m

r

Il, p . 73 7 ) . Mas e st a extensão do dir e ito d e vot o d e ve alcançar a p e n as

o u um a c a mada bast a nte r es trita do s exc luídos. O lib e r a l

indi v ídu os

fran cês es t á t ão di s tante da idéia

a i s fec und a e a a tr a ir o

int e r e ss e d as c l asses inf e riores, de m a n e i ra

1951 , V. 3,

egul a r e p ac í f i ca, para as quest õe s p o líti cas" (To cqueville,

d e sufr ág i o uni ve r s al e de particip a -

ção d e mo crá tic a d a s a mplas mass as n a vid a p o lític a que, em tr a n s p a-

r e nte pol ê mic a c o ntra a agitação do s b a nqu etes , d ec lara: "Não s e d e v e

c o rt e j a r o povo e n ão s e deve conf e rir-lh e, pródi ga e temeraria m e nt e,

mai s dir e ito s p o líti c o s do que aqu e l es qu e é ca paz d e e x ercer" . Em c o -

do p o br e '; os órg ã os l eg i s l a-

tivos, e l e it os e m b as e censitária, d e v e m mo s t ra r u m a solicitud e " fila n -

tró p i c a" , d e mod o a vincular o p o v o às institui ções

fat o d e n ão f aze r a l e i, fazendo-o inc essa nt e m e nt e v e r que o le g isl a d o r

d o

p e n saç ã o , e m r e laç ã o às " nece ss id a d es

e a "consol á -l o

p e n sa nel e" ( Tocque v ille,

a se r c o n s ider a d a intolerável, com o sa b e m os, qualquer interven ção

l eg i s l a tiv a n a e sf e r a da economia e da pr o pri e d a de

sualme n t e , f a l a -s e d e "filantropia"

pú b li ca" o u "ca rid a d e cristã apli ca d a à p o l í ti ca" ( ibid .; e Tocquevill e,

o u d e c a rid a d e, a inda que "c a rid a d e

1951, V . 3 , Il , p . 7 27 ) . E fique claro : continu a

privada. N ão c a -

1

864- 1 867 , V . 9, p . 5 3 7 e 551) : se Rob es pi e rr e

s ub s ume

dir e it o d e

s u f r ág io e direit o à v ida na

cate g ori a g e r a l d e dir e it o s do homem, p a r a

_Faz

1I.'J < ~ !

" ":

",,p.'!:Ii=iI!'I

,j

22

DOMENICO

LOSURDO

o

filósofo liberal o primeiro é uma questão de oportunidade política

e

o segundo é simplesmente impensável, dado que as "misérias hu-

manas" são obra da "Providência" e não das "leis", de modo que é

absurdo pensar "que se possa suprimir a pobreza mudando a ordem

social" (Tocqueville, 1951, v . 12, p. 84).

Por fim, Tocqueville não parece se opor ao golpe de mão de 31

de maio d e 1850 que cancela o sufrágio universal (masculino)

cionado p e la Revolução de Fevereiro de 1848 (cf. infra, capo 1, § 9). As

reservas expressas em

nidade política de atacar um princípio já enraizado na consciência do

tempo, ainda mais que a nova legislação, embora reduzindo drastica-

mente o eleitorado e, portanto, provocando compreensíveis irrita-

san-

carta a um amigo só se referem

à oportu-

ções, "não me parece dar garantias mais sérias à ordem,

uma vez que

se

continua a ter diante de si uma multidão e as emoções

de uma mul-

tidão". Em vez disso, a nova legislação pode até gerar efeitos contra-

producentes, pelo fato de que ela "golpeia duramente, mas às cegas", a

ponto de cancelar da lista eleitoral, no campo, "os homens qu e mai s

dependem

dirigidos" (Tocqueville, 1951, v. 15, Il, p. 29 ss.). É verdade que, às

vésperas do golpe de Estado de Luís Napoleão, que já se arvora em vin -

gador do sufrágio universal pi s oteado, Tocqueville parece perceber a

oportunidade de rever ou ab-rogar a lei de 31 de maio (Jardin, 1984 ,

p. 436); mas tal reexame acontece sempre a partir das preocupações

políticas já vistas, e não certamente de uma adesão de princípio ao su-

frágio universal. Por outro lado, a poucas semanas do 2 de dezembro

de 1851, o filósofo liberal entra em contato com os ambientes legiti-

mistas e escreve diretamente ao herdeiro dos Bourbons, o Conde de

Charnbord, para que se faça promotor de uma monarquia consti -

tucional, a qual deveria, por certo, prever"uma sincera representação

nacional", mas no âmbito de um sólido "poder tradicional baseado

nas c lasses superiores e morais da nação" (Rials, 1987, p.

Sobreviveria o sufrágio universal ao eventual sucesso de tal tentativa

ou daí decorreria uma des-ernancipaç ã o, eventualmente camuflada

mediante a introdução do sistema eleitoral de segundo grau?

dos proprietários e do c lero e mais facilmente são por estes

164 ss . ) .

DEMOCRACIA

ou BONAPARTlSMO

3. Europa e América

23

Ao escrever Democracia na América, Tocqueville leva em conta

o período inaugurado

Ja c kso n , quando se desenvolve impetuosamente,

pela ascensão à presidência,

em 1829, de

dentro da comuni-

dade branca, um processo de democratização, o qual parece cancelar

as discriminações censitárias que, naqu e le momento, ainda conti-

nuam a imperar na Europa. Mas, se examinamos a história e a situa-

ç ã o das décadas precedentes, vemos também na Am é rica alternarem-

s e ou entrelaçarem-se

os instrumentos

utilizados e discutidos

na

França para cancelar ou filtrar o sufrágio popular.

Os delegados à Convenção da Filadélfia (1787), da qual surgiu o projeto de Constituição federal, foram "designados pelos estados";

d e ve-se acrescentar que, "na maioria dos casos, os estados impunham

aos eleitores requisitos de propriedade direta, enquanto outros esta-

dos eliminavam

i m postos"; e, portan to, neste caso, o sistema eleitoral de

s e confundia com a discriminação censitária e, às vezes, com a discri- minação religiosa, de modo que, em estados como New Hampshire e

segundo gra u

praticamente

todos aqueles que não pagavam

Georgia, para ser titular de direitos políticos, era preciso ser de religião protestante e, portanto, na prática, pertencer ao grupo de habitantes

d e mais antiga data (Beard,

c onvenções de cada estado

de nova

C onstituição, elas não se apoiavam certamente numa base popular

de

muito ampla, se se leva em conta o fato de que, numa população

1959, p. 67-72). E, no que diz

chamadas

a ratificar o projeto

respeito às

c erca de 3,5 milhões de pessoas, os votantes somavam 160 mil, com

Um percentual

momento da eleição dos estados gerais (Toinet, 1991, p . 123 ss.).

A ideologia ch a mada a legitimar a discriminação censitária também apresenta evidentes traços comuns nos dois lados do Atlân-

menor do que aquele que se verifica na França no

tic o. Como para Constant, também para Gouverneur Morris os traba- lhadores manuais podem ser assimilados a "crianças", que não votam

e não podem votar porque não têm uma vontade autônoma (Mori- son, 1953, p. 276). E esta é também a opinião de Hamilton (Merriam,

1969, p. 84). Sobretudo, vemos agir na realidade, tanto na Europa

quanto na América, as mesmas preocupações sociais : "Na Inglaterra,

- - _"h.'+-_

;c~!I~."""

"JZ!I'lI!IIlI•••••••••••

J

24

DOMENICO

LOSURDO

atualmente - observa Madison -, se as eleições fossem abertas

as classes do povo, a propriedade fundiária não

Logo seria introduzida uma lei agrária". É verdade

social da América é diferente, sendo caracterizada por um peso niti- damente superior dos agricultores, mas é preciso ser previdente e pensar no futuro, quando se desenvolverão mais ainda, como já ocor-

re nos países europeus, as diferenças de classe e as contradições entre

manter sob controle o a "voz de Deus", como

a todas

seria mais segura.

que a composição

ricos e pobres. Portanto, é necessário desde já

longe de ser

povo, o qual, segundo Hamilton,

comumente se acredita e se pretende, é "turbulento e incons-

tante", invejoso e, por isso, propenso a atacar a propriedade (Morison,

1953, p . 263-265 e 259) . Analogamente ao que se verifica na Europa, pensa-se algumas

vezes em enfrentar

que, na Filadélfia, alguns membros da Convenção propõem vigorar, além do Senado, também para a Câmara de Representantes. E é inte-

ressante a resposta de Madison, que, depois de ter dito também ser favorável ao sistema de "filtros sucessivos" do voto, observa que , em

alguns estados, o poder legislativo já é o resultado de uma ele ição indireta, de modo que existe o perigo de ir "longe demais" neste cami- nho, com o risco de comprometer a "necessária simpatia" entre povo

a ameaça popular mediante a eleição indireta ,

e governo, ou seja, de reduzir a base de consenso e a estabilidade deste

ao

qual mais tarde Constant também recorrerá na sua polêmica contra o sistema eleitoral de segundo grau. Ficam evidentes, pois, as analogias com a Inglaterra e a França da Restauração e, mais ainda, da Monar-

quia

Câmara baixa se baseia, também no outro lado do Atlântico, na restri-

ção censitária dos protegida contra Europa, mediante

na América, onde o estrato social da aristocracia feudal é pratica-

último (Morison, 1953, p. 238-240). Como se vê,

é o argumento

de Julho: no âmbito do sistema bicameral,

antes de Iackson, a

direitos políticos; a Câmara alta, em vez disso, é

a influência política das massas populares,

na

o monopólio assegurado aos pares hereditários; e,

mente ausente, mediante

mente, na Filadélfia, a proposta de fazer eleger o Senado não direta-

mente a partir de baixo, mas a partir das assembléias legislativas de

cada estado é formulada explicitamente com o objetivo de constituir

as eleições de segundo grau. Não casual-

. rt1l

DEMOCRACIA

ou BONAPARTlSMO

25

uma C âmara alta o mais semelhante possível à Câmara dos Pares da Inglaterra e, portanto, composta de membros que se distingam já

pelo seu "nível" e façam valer inequivocamente o "peso da proprie-

dade " (Morison,

Unidos, a Corte Suprema funciona na prática como uma Terceira Câmara chamada a ser "a guardiã da propriedade contra o poder do

número"; e é justamente desta forma que ela, no século XIX, obsta- culiza fortemente o desenvolvimento da democracia, o associativis- mo sindical, o imposto de renda progressivo, a proibição do trabalho infantil, etc. (Laski, 1977, p. 20 e 30 ss.)

Já por estas razões fica insustentável o discurso de quem pretende transfigurar a história dos Estados Unidos, colocando-lhe a aura de um suposto "excepcionalismo" sob o signo da democracia e da igualdade: pelo contrário, como veremos, a discriminação censitá- ria neste país se revelará particularmente tenaz até os nossos dias. Certamente, dentro da comunidade branca, ela é duramente questio- nada com a presidência Iackson, e, precisamente depois da ampla ex- tens ã o do sufrágio, a Democracia na América tece o elogio do sistema

eleitoral de segundo grau, que tão soberbamente consegue reservar o Senado para a "elite da nação", mantendo distantes dele os "persona- gens obscuros", os "elementos vulgares" e, sobretudo, os "homens pertencentes às classes inferiores" . Uma descrição do "duplo grau" tão

univocamente lisonjeira, e destituída de qualquer referência a even- tuais contra-indicações, parece sugerir sua introdução também para a Câmara dos Representantes, como já tinha sido proposto, na Fila- délfia, pela ala direita da formação presente na Convenção.

1953, p. 244). Deve-se acrescentar que, nos Estados

4. Discriminação

censitária e discriminação

racial

Mas agora convém nos determos na interpretação da América pós-jacksoniana como país no qual a discriminação censitária dos direitos políticos teria desaparecido substancialmente, ainda mais

que a opinião de Tocqueville também é compartilhada pelo jovem Marx, o qual vê "a elegibilidade ativa e passiva" como algo já sancio- nado nos Estados Unidos: o censo não constituiria mais uma condi- ção exigida pela lei para o exercício dos direitos políticos e a admissão

C"

r _

26

DOMENICO

LOSURDO

a o s c a rgos eletivos ; e) portanto) os n ã o-propri e tári o s teriam se torna - do) pelo menos em teori a ) leg isladores do s proprietári o s e a "propriedade privada [teria sido suprimid a ] politicamente", s em

a lt e rar o fato de que) segundo Marx, justamente no momento em que

é de c larada destituída de rele v â ncia política) como um f a to atinente ex c lusivamente à esfera priv a da) a riqueza pode exercer) sem pertur-

bações) sua influência e seu domíni o. Neste sentido) como de c lara A questão judaica) a América aparece como "o país da emancipação política realizada", ou seja) constituiria) para usar desta vez as palavras

de A ideologia alemã) "o exemplo mais perfeito de Estado moderno", o

qual assegura o domínio da burguesia sem excluir a priori nenhuma

1955) v. I)

c lasse social do gozo dos

p. 352

direitos políticos (Marx e Eng e ls,

ss., e v. 3) p. 62). Mas) ao interpretar de tal modo os Estados Unidos) tanto Marx

quanto Tocqueville na realidad e se equivocam) ao generalizar e abso- lutizar uma tendência realmente em curso) desprezando os episódios de resistência: na Virgínia, antes de 1851) " entre um terço e a metade dos homens brancos» estão privados do sufrágio (Cooper [r. , 1987) p .

258). Mas é sobretudo relevante o fato de que) do outro lado do Atlân- tico) longe de ter desaparecido) a discriminaç ã o censit á ria se expressa através da discriminação étnica e racia l e ) nesta forma ) se revelará muito mais tenaz do que na Europa . No tempo da Gu e rra de Seces-

são) Marx demonstra perceber este aspecto do problema) ao definir os

rebeldes defensores da instituição da escravidão como "a nobreza da Confederação» tKorfoderiertenadeí) (Marx e Engels, 1955) v. 16) p.

19» estabelecendo assim uma comparação implícita com a França do

Antigo Regime. A república norte - ame ricana não mais constitui o exemplo de Estado moderno particularmente avançado) como se de- duz também do fato de que Lincoln é considerado como o continua -

dor da obra de Washington

que) de algum modo) leva a cabo t a mbém nos Estados Unidos a revo- lução democrático-burguesa que já triunfou nos países europeus

(Marx e Engels, v . 15, p. 553» como aquele

mais desenvolvidos. Os secessionistas e escravistas do Sul não são muitas vezes designados pelos seus adversários como "Bourbons"!

Quanto a Tocqueville, é ele mesmo quem nota que , para os senhores brancos do Sul) o valor mais alto é constituído p e la oisivit é , p e lo otium,

DEMO C RA C IA

OU BONAPARTlSMO

27

enquanto

( Tocqucville) 1968) p . 441 e 407) . E, a ssim) além dos direitos político s )

o trab a lho t a mbém se vê privado dos direitos civis. É verdade) no Norte

os negros s ã o livres e) em t e oria) nem mesmo são excluídos

frágio) mas é sempre o liberal franc ê s quem observa que) se por um lado) "em qu a se todos os estado s nos qu a is a escravidão foi abolida,

do su-

" o trabalho

se confunde

com a idéia de escravid ã o »

concederam-s e a os negros os dir e itos e l e itorais', por outro) "se el e s e

apresenta

p a r a votar) arrisca a vida » (To cqueville, 1968) p. 404).

O s n e gros con s tituem um aspecto essencial de uma realidad e

mais g e ral. Observou-se que "os Estad o s Unidos importaram a própria

c lasse op e r á ria com os v e leiros e com os navios a vapor». Não se tr a ta

dos es c r a vos: " A emigr a ção europ é ia antes da Guerra de Indepen- dência americana também trouxe muitas pessoas que aceitavam uma r e lação temporári a de aprendiz a do) na esperança de poderem s e

estab e lecer definitivam e nte no Novo Mundo; estes aprendizes com - preendiam p e lo menos dois t e rços do tot a l dos primeiros emigrados» (Wolf, 1990) p. 504). Quem são) na r e alidade) estes "aprendizes»?

Deixemos a palavra com um historiador americano contemporâneo .

Trata-se dos chamados ind e ntur e d se rvant s , na prática "serni-escravos",

pelo menos dur a nte a vigênci a do resto ) arbitrariam e nte prolongado textos): s ã o vendidos e a dquiridos

inclusive pela imprensa local, e s ã o caçados em caso de

abandono indevido do lugar de trabalho (I e rnegan, 1980) p. 45-56). É uma r e lação d e finida como "escravidão legal» por Sieyés, que reco-

fuga ou de

seu " contrato» (muitas vezes, de

pel o s seus patrões) sob vários pre- num mercado regular) anunciado

menda sua extens ã o à França com o objetivo de regulamentar a posi-

ção econômica e social da "última c la s se, composta de homens que só têm os braços» (Si e y e s, 1985, p. 76 ss . ), a c lasse que ) em outra ocasião)

o próprio Sieyes define como o conjunto dos " cidadãos passivos » a quem seria a bsurdo atribuir qualqu e r papel na vida política.

E n ã o se trata de uma re a lidad e que se refira apenas

à históri a

mais remota dos Estados Unidos, qu e , ao contrário) ainda no século

XIX, importam massas consid e ráv e is de trabalhadores chineses (Wolf, 1990, p. 522» os cules, que) por exemplo) são empregados n a

cOnstrução da intransit á vel

quista do Far West (Nevins e Commager, 1960) p. 333). Para com-

ferrovia destin a da a consolidar

a con-

28

DOMENICO

LOSURDO

preender o

sobre o fato de que Nietzsche a ele s se refere quando sublinha a neces- sidade de introduzir na Europa e no mundo ocid e nt a l uma "nova escravidão': um "novo tipo de relação e scravista " , su s cetível de ser rea-

lizada mediante "uma introdução maciça de populações bárbaras

a siáticas e africanas», que

diante a importação, em

consigo a maneira de pensar e viver adequada a formigas laboriosas». Em termos análogos, ainda que com um juízo de valor evidentemen- te diverso e contraposto, expressa-se Eng e ls, o qual fala de " escravidão

camuflada de cules indianos e chine s es» (Losurdo , 1986, p. 103 ss.). E, portanto, além dos negros, existe uma outra categoria im- portante a ser excluída nos Estados Unidos dos direitos políticos e até, em ampla medida, dos civis. É mesmo possível chegar a esta conclu-

são: para justificar a discriminação censitária contra os trabalhadores assalariados, Constant os assimila, e ntre outras coisas, a "estrangeiros» não interessados numa "prosperidade nacion a l», cujos elementos constitutivos "não conhecem» e da qual participam pouco ou nada (Constant, 1970, p. 100); pois bem, tal met á fora s e torna realidade

nos Estados Unidos, onde, com efeito, a força d e trabalho, em grande

parte importada do outro lado do oceano, continua a ser estrangeira até o momento da naturalização, um momento qu e, em situações de crise, pode ser tranqüilamente adiado, como ocorreu em 1798 com o Naturalization Act, quando o período de residência necessá rio para a naturalização foi prolongado de cinco para quatorze anos (Com- mager, 1963, v. I, p. 175). Pode-se até pergunta r se, ao recorrer à metáfora dos estrangeiros, além dos metecos da Antigüidade clá ssica (Losurdo, 1992a, capo 8, § 8), Constant n ã o pense precisamente na América, que muitas vezes evoca e às vezes refe re como um "grande exemplo» (Constant, 1980, p. 494 e 499; Constant, 1970, p . 95).

estatuto jurídico e social destes imigrado s , b a sta refletir

se devia obrigar a "trabalhos servis»; me-

particular, de chineses, os quais " trariam

5. Os excluídos da democracia

Tocqueville se ocupa explicitamente da realidade dos imigra-

dos nos Estados Unidos,

Enquanto se adensam

mas é interessante

ver em que termos.

as nuvens que dali a alguns anos levariam à

DEMOCRA C IA

ou BONAPARTISMO

29

Guerra de Secessão, o liberal francês atribui o agravamento da crise à

" rápida introdução nos Estados Unidos d e homens estranhos à raça

ingl e sa» e que, justamente por isso, faz e m com que a América corra "o perigo maior» (Tocqueville, 1951, V . 8, IIJ, p. 229). Em relação a tal

perigo, Tocqueville

dentes americanos: "Desgraçadamente, todo dia lhes traz tantos ele- I1len tos estranhos que logo vocês não ser ã o vocês mesmos: todos os arguI1lentos que se podiam f a zer sobre sua natureza (naturel) se tor- narn cada vez m a is incertos . Com efeito, misturados como são a tantas raças, quem poderia di z er agor a qual é a natureza (naturel) de voc ê s?"

E mais aind a : "O que me espant a é este número prodigioso de estran-

geiros qu e faz de vocês um povo novo» (Tocqueville, 1951, V. 7, p. 17 7

e 182). É provavelmente excessivo afirmar que Gobineau, o teórico

da desiguald a de das raças, esteja "muito m e nos distante de Alexis de Tocqueville, seu mentor e superior temporário, do que se possa crer» (Noite, 1978, p. 682), mas, s ej a como for, não faz sentido pintar como

campeão da democracia um autor que denuncia a inexistência de opo- sição à imigração maciça (e ao conseqüente abastardamento da popu- lação americana original) como uma das "grandes culpas» da classe

dirigente estadunidense

que parece compartilhar os argumentos mais tarde utilizados pelos nativistas americanos na campanha por eles desencadeada para negar

os direitos políticos aos

imigrados (sobretudo, aqueles estranhos à

"raça» anglo-protestante) e até para submetê-los, como veremos, a

n ã o se cansa de advertir seus amigos e correspon-

( Tocqueville,

1951. V. 7, p. 177), um autor

um processo de des- e mancipação. O fato é que Tocqueville nunca pens a

realmente universais . Só assim se explica o paradoxo pelo qual. por uma parte, descreve com lucide z e sem indulgência o tratamento desu- mano imposto a peles-vermelhas e a negros e, por outra, insiste no fato de que os Estados Unidos constituem o único verdadeiro modelo de democracia. Os primeiros são obrigados a sofrer os "males terríveis» que acompanham as "emigraçõ e s forçadas» (ou seja, as sucessivas de- POrtações impostas pelos brancos) e já estão perto de serem varridos da face da Terra (Tocqueville, 1968, p . 382 e 399). Quanto aos segun- dos, o liberal francês reconhece que su a situação é catastrófica, e não Só no Sul; ao contrário - observa -, "o preconceito racial me parece

a democracia em termos

30

DOMENICO

LOSURDO

mais forte nos estados que aboliram a escravidão do que naqueles em que a escravidão ainda existe, e em nenhuma parte se mostra tão into- lerante como nos estados em que a servidão sempre foi desconhe- cida". Tal preconceito exclui o negro, mesmo aquele teoricamente livre, do gozo não só dos direitos políticos mas também dos civis, da- do que a sociedade o entrega efetivamente desarmado à violência racista: "Oprimido, pode lamentar-se, mas só encontra brancos entre seus juizes" (Tocqueville, 1968, p. 404). No entanto, isto não impede que Tocqueville celebre a América como o único país no mundo em

que a democracia vigora,

viva, ativa, triunfante

[

]. Lá verão

um povo cujas condi-

ções

são mais iguais até do que entre

nós; em que a or-

dem

social, os costumes,

as leis, tudo é democrático;

em

que tudo emana do povo e a ele volta e em que, no entan-

to, cada indivíduo goza de uma independência

ra, de uma

tempo

mais intei-

outro

liberdade

maior

outra

do que em qualquer

ou qualquer

parte da Terra (Tocqueville,

1864-1867,

v. 9, p. 544 ss.).

A sorte de peles-vermelhas e negros não chega nunca a ofuscar

este quadro tão luminoso. A declaração programática que o liberal

francês faz na abertura do capítulo dedicado ao problema

raças que habitam o território dos Estados Unidos" tem algo de inacre- ditável: "A tarefa principal que me impus agora está realizada; mostrei, pelo menos na medida em que me foi possível, quais são as leis da democracia americana, dei a conhecer quais são seus costu- mes. Poderia deter-me aqui". É só para evitar uma possível desilusão do leitor que ele fala das relações entre as três raças: "Estes temas, que tocam minha questão, dela não são parte integrante: referem-se à América, não à democracia, e eu quis sobretudo fazer o retrato da democracia" (Tocqueville, 1968, p. 373). No curso da sua polêmica contra os jacobinos, Constant censura-os por terem esquecido o fato de que a democracia antiga, que pretendem apontar como modelo, na realidade está baseada na escravidão; mas depois ele mesmo é quem incorre num esquecimento ou desatenção ainda mais singu- lar, quando, precisamente no texto dedicado à ilustração e à celebra- ção da liberdade moderna, vai perguntar o que se deve entender"pela

das "três

DEMOCRACIA

ou BONAPARTlSMO

31

Jalavra liberdade", entre outros, a "um habitante dos Estados Unidos ~laAmérica" (Constant, 1980, p. 494), como se este país nada tivesse a ver com a instituição que projetava uma sombra tão grave sobre a

se tor-

nam uma espécie de declaração programática em Tocqueville, o qual escreve com todas as letras que a sorte dos negros (e dos peles-verme- lhas) é um tema estranho e alheio à essência da democracia america- na. Evocada para explicar, e condenar, a democracia antiga, a escravi- dão é tranqüilamente ignorada pela tradição liberal quando se trata de contrapor à violência e à turbulência plebéia da tradição revolucio- nária francesa a democracia americana, cujo desenvolvimento, cele- brado como ordenado e pacífico, repousa, na realidade, em amarras que mantêm presas as classes "perigosas" já nos lugares de produção.

liberdade antiga. O esquecimento e a desatenção de Constant

6. Propriedade,

cultura e direitos políticos

em [ohn Stuart

Mill

Se, para neutralizar politicamente as massas populares e amor- tecer a tendência à redistribuição de renda própria da democracia,

restrição censitária dos direitos políticos e Toe-

queville, transfigurando e desentendendo o modelo americano, reco- menda o recurso às eleições indiretas, Iohn Stuart Mill, em vez disso, depois de ter feito um balanço e uma reforrnulação, de algum modo mais moderna e elegante, dos métodos tradicionais, chama a atenção, sobretudo, para um método recomendado como novo. Concentre- mo-nos, de início, no primeiro aspecto. O sistema eleitoral de segun- do grau, caro ao seu amigo e interlocutor Tocqueville, parece ao libe- ral inglês pouco viável já pelo fato de que se revela dificilmente expor- tável para um país carente de estrutura federal:

Constant recorre à

o caso em que a eleição em duas fases funciona

bem

na prática

é quando

os eleitores não são escolhidos

unica-

mente como eleitores mas também para cumprir

outras

eles deixam de ser eleitos

unicamente como delegados para dar um voto. Uma outra

funções importantes; deste modo,

instituição

dos Estados Unidos da América,

o Senado,

ofe-

rece um exemplo

a este respeito

[

]. Estes membros

não

"\&&it_,,~i

32

D OM ENI C O

L OSURDO

s ão es colhido s p e l a pop ul ação

dua i s, que , p o r sua v ez , são esco lhi dos

ca d a es t a do.

A l é m disso , d eve-se co n sidera r

m

as pelos le gis l a tiv os

pela co l etiv i d a d e

que o s i s t ema

es ta -

de

e l eitora l

d e

seg un do g rau come ç a a se r e v e l ar um a ficção m es m o o nd e form a l-

m e n te co ntinua em

e

co l ég i o el e itoral são e l e itos co m um m a nd a to v in c ul a d o

da tur a p residencia l

a um a ca ndi -

vi go r : só " n o min a lmente",

é " in d ireta";

no s E s t ados U ni dos, a

os m e mbro s

d o

l e i ção d o pr esident e

n a r e alid a d e ,

pr ec i sa e ex c lu s i va ( Mill, 1 9 1 6 , p. 1 7 2 ss.).

O que fazer? Em r e l ação à pr ecede nte tradi ção libera l , e m MiJl

ex i s t e um a preocupaç ão n ova. Nesse m e io tempo, n a

g i o univ e rsal ( ma sc ulin o) se imp ôs d e f i niti v ame nt e

est eja " r eg ulament a d o" e inutili za d o p e lo regim e b o n a p ar tis t a, t or n a -

se d e t o do modo cad a v e z m a i s d i fíc il c ontestá-lo

t o r in g l ês l e va isto em co n ta: " É a b so lutamente ne cessá rio

s u f r ág i o sej a o mais a mplo possíve l " e se c hegue , in c lu s i ve , à " uni v e r -

sali da d e d o sufr ág io " . M as , de p o i s d es t e reconh ec ime nt o de pr in c íp i o,

l ogo e m er ge a preo c up ação d e se m p r e :

Fra n ça o s u f r á- e, m es m o qu e

O a u- ] q u e o

e

m p r in c íp io .

[

num tal estad o d e co i sa s, a gr a n de maioria

quase todo s os pa í ses, e c o m ce rte z a t a mb é m

co mporia d e tr a b a lh adore s

d

os v o t a n t e s

n

d e

o n o sso , se

m a nu a i s; e o dupl o p er i go, o d e

a e l e vaç ã o d os impostos

t e nt ada in te i r a me nte

D

EMO C RA C I A

OU 1 l0N A PA R TlSMO

l oca i s a um a c i fr a e xo rbitante,

su s -

p e la s cla s s es r i c a s . A r e pr es enta ção

3 3

a

m p li ad a pro p o r c i o nalm e nt e

a o impo s t o ,

e não a l é m di s t o ,

c

o n c ili a -se

co m a teori a

das i n s titui ç õ es

br it â ni ca s

( M ill ,

1 9 1 6 , p . 1 53) .

E m e r ge aq ui , co m clare za , qu e o p rin c í p i o ca ro à tradi ção li be -

r a l , p e l o qua l n ão é lí c it a nenhum a

trib u tação

qu e n ã o s eja a p r ova d a

p e l a rep r es e n tação p ar l a mentar (No ta x atio n witho u t r e p r esen t a t i o n),

tamb é m s i g n if i ca , e t a l v ez em pr i m e ir o

urn a rep r es e nt aç ã o

p o bres d e m a i s para se r subm e tid o s à tribu tação ( No repre s e nt at ion

w i thout ta x a t i on), De r es to, é n es t e s e ntid o q u e , um quart o d e séc ul o

m ai s ta rd e , es t e prin c ípio,

d ade b ri t â n i ca' , se r á i nterpretad o

Mill , d e to d o m o d o n ã o existem dúvi das so br e o fa to de qu e

lu g a r, qu e n ã o têm d ir e it o a

política aut ô n o m a aq u e l e s qu e se demon s t ra m

"

o prin c ípi o m ai s f und a m e ntal

d a lib e r -

por L ec k y ( 1 98 1, v . I, p. 2 e 27) . P a ra

a ass i s t ê n cia d o mu nic í p i o

d

p o d e s u s t e n ta r- se com seu tr a b a lh o n ã o t e m o d ir eito d e

se r v ir- s e

bro s d a c om unid a de

r

aos q u ais e l e d eve a continu aç ão

d e v e s e r u m m otivo pe r e mpt ór i o

d e vo t o .

Aq u e l e

que n ão

dos mem-

do di-

e in a dmi ss ibilidade

do dinh e iro

e i t o d e s e r tra t a d o

ao d i r e i to

do s o u t r os. D e p e n d e nd o

para s e u s u s t e n t o ,

no m es m o

e l e abd i c a

p l a n o do s o u t ros. d a s u a p róp ri a

A qu e l e s e x i s t ê n c i a

u

m nív e l d e m as i ado

ba i xo de in t e l igê n c i a

po l í t i ca

e o d e

p

o d e m

re c l a m a r,

a justo tí tul o, a d ir eç ão

ex c lu s i va da s a ti -

um a legislaç ão d e c l asse , cont inu a ri a

a subsi st i r

e m medid a

v

id a d e s

p a ra a s quais ele n ã o c o nt r i b ui

o u co ntribui

co m

co nsiderável

( Mill , 19 1 6, p. 15 5 e 153).

Pa ra enfrenta r t a l p e rigo,

r estriçã o c ensit á ri a d os dire ito s p o lítico s :

d e s p o nta o remé di o t r ad i cio n a l

que vot a o s

impostos

Aqu e l e s q u e

n ão pagam imp o s to s , d i s p o nd o co m s eu s vo t o s d o di -

a qu e le s que pa ga m u ma parte destes impost os .

No entanto, é i mp o r t a n te

ger a i s

q

u e a assembl é i a

o u l oca i s s e j a e l e ita exclu s i v a me n te

p o r

d a

nh e i ro

alhei o ,

t ê m t o d a s as ra z ões pa ra sere m p r ó d i g o s

e

n

e nhuma

p ara se r e m fru ga i s . E nqu a nto

se t rat a d e q u es t õ e s

d

e dinheiro,

t o d o dir e it o d e v o t o possuído

p or e s t e s é um a

v

i o la ç ão do prin c í pi o f un dame n ta l

de um gov e rn o

 

um a s eparação

e ntr e o p od e r d e co n t rolar

l i vr e ; de

e o in t e r ess e

ex e r c er pr o fi c u a m e nt e

p

e s t e p o de r .

1 1 C om o

se sa b e, i s t o

r o vocou

em a l g um a s g r a n de s

ci dades do s E s tado s U ni d os

m e n os do q u e r e c e be. Para t e r di r e i to de v o to, se ria precis o

n ão e s t a r inscr i to no cad astro d o m un i c ípi o por um ce r t o

c in c o) a nt e s do di a da in s-

c

n ú m e ro

de a n os ( p o r exe mpl o ,

ri çã o e l e it o r a l.

(M ill , 1 9 1 6 , p . 1 5 4)

Ma s a co n c e ssã o

dos dir e i tos p o l í ti co s co m base na r e nd a é

per c e b id a ca d a ve z ma is como odi os a por ca m a d as crescent e m e n t e

m

ai s a m p l as

d a p o pul a ção.

D a í qu e a di sc rimin a ç ã o

cen s i tá ri a

se

e

s f or ce por ass umir

uma fa ce m a i s m ode rn a

e mai s ace it áv e l :

"C

o n s i d e r o

in a dmi ss í v el

que um a p e s soa p art i c i pe

do sufr ág i o se m

sab e r l e r , e s cr e v e r e, a crescentari a,

I1 1c nt os d e a ri tm é t i ca"

I \ln é ri c a , o pr ocesso d e des-eman c ip ação

P o br e s t a mb ém o co r re ria, pre c i sa m e nt e ,

se m p os s uir os primeiro s

r u d i -

( Mill, 191 6, p. 1 5 1 ). A l g un s anos d e p oi s , na

d os n eg r os e do s br a n co s

m e d i a nt e a impo s i ção

d e

~ _

l ~ / ~ , : .r / . " w

' .

,

-~

••••••••••

•••

34

DOMENICO

LOS U RD O

um ex am e preliminar

volt a d o

p a r a ve rifi ca r

o ní ve l d e alf a b e ti z a ç ã o

e

d

e

cultura

do e leitor.

 

É s ignificativo

o a r g um e nt o

a qu e Mill r eco r re

p ara j u s ti f i c ar

a

exc lu s ão dos analfabeto s

s

u fr ágio

a um homem

d a es f e r a d os dir e it os

p

o líti cos:

qu e n ã o s aib a l e r " é co m o "dá-Io

co n ce der ?o

a um a c riança

qu e n ã o saiba falar"

(Mill,

1 9 1 6, p. 151 ). Es t á d e v o lt a a m e t áfo r a

que

se rvira a Constant

para di sc rimin a r

"a qu e l es qu e a indi g ê n c i a

man-

t

é

m numa eterna depend ê nci a

e co nd e n a aos t ra b a lh os

di á ri os"

 

e, por

i

sso , n ã o s e mostram

"mai s ilumin a d os

d o qu e a s c ri a n ças

qu a nto

aos

n

eg ó c io s

público s"

( Con s t a nt ,

19 7 0, p . 100 ) .

Co n s id e r a d os

c omo

a

c

c lass e social à qual ambos

algumas

tic

pr

n a lf a betos

o n s eguir

ou crianç as,

a cultura

es t es se re s a qu e m

o dur o

tr a b a lho

se mpr e

irnpede

à m es ma

e a m a turid ade

os a ut o r es

d éca d as

c í v i ca r e m e t e m

lib e r a i s n ega m

d e p o i s

a cid a d a nia

polí-

Mill parece

a. E screvendo

o p e nso

d e Co n s t a n t,

a afrouxar

as am a rr as d a di sc rimin ação

c e n s it á ri a,

m o stra-

·· ,t o d e qu e s ti o n a r

'

1l1 C 1

D

e c o nd e n a r

EMO C RA C I A

a ex c lu são

OU B ONA PART lS MO

d as mulhere s

35

da es f e ra

do

s d i r e i t os po l íti co s

(M ill , 1 9 7 1 ) n ão co n s eg ue

super < lf a l óg i ca

da

di

sc rimin aç ãO

ccnsitária,

a p e s ar

d e a l g um as h o m e nagens

formai s

ao

prin c ípi o

do sufrágio univ e r sa l.

 
 

7. O voto plural

Ma s n ão s ó: co m o o lh a r vo lt a d o

p a r a o m ov imento

a s cend e n te

 

de rei v in d i cação

d a ext e n s ã o

dos di reitos

p o lític os,

o liber a l

in g l ê s

indi ca um o ut ro m é t o d o

p ara n e utr a li z a r

o u limitar

ao m áx im o

a

]

in

f lu ê n c i a

política

d as c l as s es

pop ul a r e s :

 

Q

u a n do

d u as p essoas int eressad a s

n a m es ma controvérsi a

são

de opini ões

sejam c o n s id e r adas

do país at ribu e m

di fere nt es ,

deve

exa t a m e n t e

v irtu a lm e n te

a j u s t iça

ex i g ir

d e i g u a l va l o r ?

qu e

[

às du as

o pini õe s

as duas

opini ões

J Se as instituiç ões

um mesmo

val o r,

se

e é m a is possibilista

ac erca d a indir e t a

" influ ê n c i a

so br e o es pírito

elas san c i o n am um a b s urd o . U m a das du as p ess o a s , por ser dotada d e

d

o s vot a ntes

e sobre o do l eg i s l a d o r "

qu e é lí c it o e opo rtun o

at r ibuir

às

melh ores

q ua li d a d es,

t e m dir e it o

a um a in f lu ê ncia

s uperior.

( Mill,

"o

piniõ es

e desejo s

da s c l asses o p e r á ri as

m a i s p o br es

e m a i s gro sse i-

1916, p . 1 55 ss . )

 

r

as", as quai s ,

mesmo

assim ,

n ão p o d e m

se r a dmit i d as

"ao exe r c ício

E, p or t a n to ,

a ind a qu e co nju ga d o

n o f uturo ,

o s ufr ág io

uni-

p

l e n o do direito

de sufr ág i o

n a c o ndi ção

a tu a l d a s u a m o r a l id a de e da

v

er s al n ão d eve, d e qu a lqu e r

m odo,

s e r i g u a l p a r a t o do s :

aos m e lh o r es

s

u a int e ligência"

( Mill ,

1 9 1 6 , p. 1 8 5 ) . A go r a,

os c id a d ãos

tr a dici o nal-

e m a i s in te li ge n tes

d eve se r as seg ur ad a ,

jú p ela v ia legislati va,

um a

mente considerados

" pa ss iv os"

p o d e m

t o m a r

a inici a tiv a

de comu-

influ ê n c i a

s up e ri o r

n a v i d a públi ca.

M as t a l di s criminação

não se ri a

nic a r suas opiniões

àqu e l es

"a tivo s" ,

o s qu a i s ,

n o e nt a nt o ,

c o ntinuam

tamb é m

o di osa ?

N ão é es t a a o pi n i ão

d e Mill: "C ada

qual tem o dir e it o

 

a

s e r os únicos titular e s

do s dir e i tos

p o lítico s

e m se ntid o

es trit o.

de sentir- s e ofe ndid o

se n ão f o r l e v a d o

e m co n s id e ração.

Ninguém ,

a

 

Mas como

é que fica

a " uni ve r sa lid a d e

d o s u f r ág i o" ,

a p esa r

de

não s e r um l o u co, e só um l o u co d e um a ce rt a c a t eg oria, pode s e ntir -

tud o af irmada

como prin c ípi o?

P a r a rea li zá - I a co n c r eta m en t e,

d e v e r-

se of e ndid o p o rqu e se reco nh ece q u e ex i s t e m o utro s cuja opini ão e

se

-i a atuar

para que "o imp os t o

in c id a

d e f o rm a

v i s í ve l a t é n as c l ass es ,

cujas asp ir ações va l e m m a i s d o qu e a s u a" (M ill, 1 9 1 6 , p. 15 7) .

 

m

a is pobres" e o " mei os d e a qui s i ção" d o "sa b e r e l e m e nt a r" ex i g ido

Co m o v e rifi car,

p o r é m,

o ní ve l d e int e li gê ncia

do s eleitor es

d e

a r a o e x er c ício

p

(

Mill - enquanto

Mill,

dos direito s

p o líti cos "es t e j a m

d e du z-se

ao a l c an ce

co m c la reza

de t o dos"

que, em

1916, p. 153 e 151 ) . Port a nt o ,

o sufr ág io

univ e rs a l é co nju ga d o n o futur o , adiado

a

t é o momento

em que tiv e r d esa par ec id o

o a n a lf a b e ti s m o

e não hou-

v

e r mais indivíduos

tão p o br es

qu e

n ecess it e m d a ass i s t ê n c ia

pública

e

n ã o possam ser submetid os

a um nív e l mínim o

d e tribut açã o

-, as

ex c lu sõe s,

ga d as no pre s ent e.

ditadas m e diata o u im e di a t a m e nt e

Na r e alid ade,

o f il óso f o

---

p e l o c e n so,

são c onju-

qu e, n ão o b s t a nte ,

teve o

m

h

o do

a a tribuir

á um a evidê nci a

o vo t o plur a l

aos m e r ece d o r es?

im e di a t a

à qu a l r ecor r er:

Para o liberal

in g l ês,

 

U

m e m pregado r

é m a i s in t e li ge nt e

do q u e um operário,

p

o r se r necessário

q u e e l e tr aba lh e

co m o cérebro

e não

ó co m os mú sc ul os

s

serão p r ovave lm e nt e

p

g

orq u e uir [

tê m in te r e s se s

]

. U m b a n q u e ir o, m a i s int eligentes

[

]

um comerciante do qu e um lojista,

a s e - doi s aLI

m a i s a m p l os e m ais co mpl e xos

atribuir

. Ne s t as co n d i ç õ es, poder - se -i am

36

DOMENICO

LOSURIJO

três votos a toda pessoa que exercesse uma destas funções de maior relevo.

privilegiado pode ser reservado às

"profissões liberais" (Mill, 1916, p. 158). É praticamente o caso de dizer que, expulsa pela porta, a discriminação censitár ia volta vigoro- samente pela janela. Pelo menos num caso, ela nem tem necessidade

de evitar a porta principal ou assumir algum disfarce. No tocante às

instâncias locais, MiII propõe explicitamente um voto plural com base censitária: "Como o uso honesto e proveitoso do dinheiro cons- titui um fator muito mais importante nas instâncias locais do que na assembléia nacional, é politicamente justo atribuir uma influência superior e proporcional àqueles que têm em jogo interesses pecuniá-

rios superiores" (Mill, 1916, p. 246). Neste ponto, o teórico do voto plural é obrigado a polernizar, até vigorosamente, contra o país que Tocqueville, seu amigo e inter-

E um análogo tratamento

locutor, aponta como modelo, por se basear no sufrágio universal

igual, ainda que posteriormente

toral de segundo grau. O liberal inglês escreve:

filtrado através de um sistema elei-

As instituições americanas imprimiram fortemente na men-

talidade americana a idéia de que, na raça branca, todo homem vale] tanto quanto qualquer outro: esta falsa crença está estreitamente ligada a alguns dos aspectos menos felizes do caráter americano. É

um mal,

cionar este princípio: nele crer mais ou menos explicitamente é moral e intelectualmente, tão nocivo quanto os piores efeitos que

maior parte das formas de governo pode acarretar (Mill, 1916, p. 163)

é um grande mal que a Constituição

de um país venha a san-

Como se vê, também

se pretendeu erradamente tornar Mil

um campeão da democracia,

relação a tal regime político, dado o terror que nele suscitam "a igno- rância e especialmente o egoísmo e a brutalidade das massas" (MiIl 1976, p. 180). Em vez disso, tinha razão o liberal, ou liberal-conser-

do

vador, Lecky ao evocar, no final do século XIX, na sua denúncia

efeitos ruinosos do colapso de toda discriminação censitária, o ensi-i

namento

ele que reconhece sua desconfiança e

de Mill, o qual "não era insensível ao perigo e à injustiça d

dissociar o poder de deliberar sobre impostos da obrigação de pagá

los e era consciente

não qua

do fato de que o sufrágio

universal

DEMOCRACIA

ou BONAPARTISMO

37

lificad o conduz, direta e rapidamente,

(Lecky,198I,v.I,p.232).

a uma forma de expoliação"

Uma reflexão adicional merece a história do voto plural. Ado-

tado em escala limitada na França durante a Restauração,

mento em que mais fortemente clerical (Villey,

toral proposto por Mill com o objetivo de conciliar ampliação do sufrágio e hegemonia das classes proprietárias e cultas orienta, na

prática, todas as tentativas de des-ernancipação

décadas subseqüentes: foi assim depois da Comuna de Paris (cf. infra, capo I, § 9); foi assim na Itália, logo depois da Marcha sobre Roma (cf. infra, capo 6, § 4); e foi assim, de novo, na França, depois do colapso da Terceira República e do advento de Pétain ao poder (Huard, 1991, p. 357). Deve-se apenas acrescentar que, ainda na América dos nossos

de

dias, não faltou quem propusesse, no rastro de Mill, a introdução

um "sistema de representação proporcional que dê peso ao voto de cada homem de acordo com sua capacidade comprovada de operar

em questão, de J. Farkas, publicado na York Times, tem um título bastante

significativo: "Um homem, 114 de voto"! (Okun, 1990, p. 9)

escolhas in teligentes" O artigo página de "opinião" do New

no mo-

e

se faz sentir a reação nobiliária

1900, p. 10), por um curioso destino o sistema elei-

que ocorrem

nas

8. A discriminação censitária como princípio de legitimidade

O caráter obstinado, variado e proteiforme da resistência opos- ta ao princípio do sufrágio universal põe em crise a tese cara àqueles que, mais ou menos abertamente, gostariam de reduzir a discrimi- nação censitária a uma espécie de incidente de percurso ou a um erro

juvenil superado em virtude de um processo de amadurecimento es-

pontâneo da tradição liberal, em última análise fora de qualquer pres- são e condicionamento externo (Veca, 1990, p. 27). Na realidade, tal tradição mostra tão pouca abertura em relação à extensão do sufrágio

às classes populares que chega a considerá-Ia, por ser portadora de

ataques ruinosos à propriedade, como uma violação das regras do JOgo merecedora de ser combatida até com a violência. Para Montes- quieu (1949-1951, livro Il, capo 6), a supressão da Câmara hereditária

38

DOMENICO

LOSURDO

dos Pares e do seu direito de veto em relação às "iniciativas do povo" (isto é, às leis aprovadas pelo ramo de algum modo mais popular do

Parlamento) já é sinônimo de despotismo e até de "escravidão", pelo

fato de que abriria caminho para uma legislação toda ou predominan- temente voltada contra as camadas priviliegiadas. Colocando-se desta vez mais do ponto de vista da burguesia do que daquele da nobreza, o

termidoriano Boissy d' Anglas, depois de ter advertido contra os "im- postos funestos" que seriam inevitavelmente aprovados pelo poder legislativo, uma vez posto sob controle ou sob influência dos não-pro- prietários, acrescenta: "Um país governado pelos proprietários encon-

tra-se.na ordem social; ao contrário, aquele que os não-proprietários governam encontra-se no estado de natureza" (Lefebvre, 1984, p. 35).

E, numa condição destituída de ordem jurídica e de normas legais, a palavra cabe evidentemente às armas. Ainda que com uma linguagem mais cautelosa, também Constant se expressa em termos análogos:

Observem que o escopo necessário dos não-proprietá- rios é chegar à propriedade: eles empregarão para este

escopo todos os meios que lhes forem dados. Se à liberdade

que lhes

é devida, acrescentarem-se os dircitcs políticos, que não lhes são devidos, estes direitos nas mãos da maioria servi- rão infalivelmente para invadir a propriedade [ ]. Se entre os legisladores forem postos não-proprietários, mesmo bem-intencionados, a inquietude dos proprietários obsta- culizará todas as suas providências. As leis mais sábias se- rão postas sob suspeita. (Constant, 1970, p. 101)

de ofício e de trabalho (de [acuttés et d'industrie),

Ou seja, as leis serão desatendidas ou transgredidas, legítima e compreensivelmente. É também com base em tais considerações que os ambientes liberais franceses participam da organização do golpe

de Estado do 18 Brumário, ou o saúdam calorosamente, pelo menos no início (cf. infra, capo 3, § 1).

O quadro

não muda se se passa

da França para a Inglaterra,

que, de resto, já constitui o modelo de Montesquieu. Também para

Locke, do fato de que "a conservação da propriedade" é o próprio fim da sociedade segue-se não só que "o poder legislativo de um Estado" não pode "dispor arbitrariamente dos bens dos súditos ou tomar uma parte deles a seu bel-prazer", mas também que o poder legislativo não

1#

r'

m

7 ir

li

r r

? ••

DEMOCRACIA

ou 1l0NAI'ARTlSMO

3Y

Jodc scr modificado na sua composição, afetando, por exemplo, a Cá-

. ra dos Lordes e a transmissão hereditária das suas cadeiras (Locke,

138 e 243). Ainda que mediada pela intervenção do poder

1974, §§

t

ma-

IcgislativO, a intrusão ou a "invasão" dos não-proprietários na esfera da propriedade é sempre um ato de arbítrio ou de saque, de violência, um ato, pois, que pode ser legitimamente combatido pela violência do

agredido. E esta é a opinião do próprio Iohn Stuart Mil!: "todo direito

de voto"

nas mãos de quem não paga impostos "é uma violação do

princípio fundamental de um governo livre"; atribuir os direitos políticos a cidadãos pobres não submetidos a tributação e, portanto,

conccder-lhes a participação no poder legislativo - isto "é a mesma coisa que permitir às pessoas mexer no bolso do próximo com obje- tivos que se quer chamar de públicos" (Mil!, 1916, p. 153). No final do século XIX, Lecky, depois de ter retomado a tese já

titulares de

direitos políticos seriam inevitavelmente levados a perseguir "obje- tivos predatórios e anárquicos" e até mesmo a "demolir a sociedade", define como um "sistema de confisco velado" aquele que permite aos

não-proprietários impor impostos que incidam nas costas dos pro- prietários. De tal modo, estes últimos acabam por ser, de fato, "com- pletamente privados dos direitos políticos" (disfranchised) (Lecky, 1981, v. 1, p. 2,21 e 27). Ou seja, a indevida emancipação política das classes populares comporta a des-ernancipação de fato das únicas classes capazes de dirigir o país. Como se vê, é simplesmente um mito

apologético a tese de um amadurecimento espontâneo do pensamen- to liberal, que progressivamente se abre a uma extensão cada vez mais

ampla do sufrágio. De resto, ainda nos nossos dias, autores como

vista em Constant segundo a qual os não-proprietários

Mises e Hayek apontam no sufrágio universal a causa última das pro- vidências despóticas e totalitárias de redistribuição de renda ema- nadas pelo Welfare State, até no Ocidente (cf. infra, capo 7, §§ 5 e 7).

9. Emancipação e des-emancipação

Mas a tese dos apologistas da tradição liberal se mostra insus- tentável não só porque passa por cima das gigantescas lutas políticas e Sociais empreendidas pelas massas populares excluídas dos direitos

4

0

DOMENICO

LOSURDO

políticos ,

qui s ta e extensão

d

pela Inglaterra

co

t

c rático, mais democrático

lado a grande

a

pobr es e criou um descontent a m e nt o

mas também

porque do sufr ág i o

aqu e l a

conf e re ao pr o c esso

lin ea r

hi s tóri co

d e con-

um cará t er J á a prim e ir a qu e co m eç a

e m

qu e n ão c orr es p o nde

r e ali z ada

e modo

algum à realidade .

liberal,

contraditórias:

r e f o rm a e l e it o r a l

a intr o du z ir

o s e l e m e ntos

nstitutivos

er í s ticas

do regime repr e s e nt a tivo

"O su f r ág i o

m o d e rn o, a pr ese nt a c arac-

muit as c idad es era d e mo-

d e 1 8 3 2 ; e , se por um

e va rr e u a lgumas

e l e itores

inúm e r os

o m o vim e nto

ant es d o qu e d e p o i s

a t e nu o u

lei de reform a

muit os a bu sos

p o lític os

qu e alim e ntou

nomali a s ,

por outro

privou d os dir e it os

c

a rti s ta " (Pollard,

1938, p . 164 ).

Assistimos,

aqui , a um entr e la ça m e nto

e ntr e e m a n c ipação

e

des-ernancipação.

Consid e r a ç õ e s

anál og a s t a mb é m

p o d e m

se r f e itas

e

um a discriminação

m relação

à França.

Depois

d e 17 89 ,