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Estudos Linguísticos: textos selecionados/ABRALIN-2013 Marco Antonio Martins Lucrécio Araújo de Sá Júnior Kássia

Estudos Linguísticos:

textos selecionados/ABRALIN-2013

Marco Antonio Martins Lucrécio Araújo de Sá Júnior Kássia Kamilla de Moura Aryonne da Silva Morais

(Organizadores)

Estudos Linguísticos:

textos selecionados/ABRALIN-2013

Marco Antonio Martins Lucrécio Araújo de Sá Júnior Kássia Kamilla de Moura Aryonne da Silva Morais

Organizadores

E82 Estudos linguísticos: textos selecionados / Abralin-2013. Marco Antonio Martins, Lucrécio Araújo de Sá Júnior, Kássia Kamilla de Moura, Aryonne da Silva Morais (Orgs.). – João Pessoa: Ideia, 2016.

2989p.

1. Linguística - Estudos

CDU: 81'1

Apresentação

Nesta coletânea, Estudos Linguísticos – textos selecionados/ABRALIN-2013, publica-se uma seleção de duzentos e quatorze capítulos organizados em torno de diferentes subáreas temáticas que têm orientado trabalhos na linguística brasileira: fonética e fonologia, sintaxe, morfologia, semântica, pragmática, linguística da enunciação, linguística do texto, análise do discurso, linguística histórica, historiografia linguística, sociolinguística e dialetologia, linguística centrada no uso, semiótica, linguística aplicada, psicolinguística, aquisição e ensino de língua materna e de línguas adicionais, neurolinguística, cognição, letramentos, gêneros textuais/discursivos, lexicologia, lexicografia e terminologia, estudos da tradução, línguas de sinais e políticas linguísticas.

Esta publicação é mais um produto do VIII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN), realizado em Natal/Rio Grande do Norte, sob a organização da diretoria do biênio 2011-2013, sediada na Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN. A ABRALIN é uma associação civil de caráter cultural que congrega professores universitários, pesquisadores e estudiosos de Linguística em âmbito nacional, sendo a maior e mais importante das entidades da área no Brasil.

O trabalho de seleção e organização dos capítulos aqui reunidos tem por objetivo principal

disponibilizar à comunicade científica um panorama das produções na área, considerando temáticas e teorias diversas em foco na linguística brasileira. Agradecemos de modo especial

ao comitê científico que muito contribuiram para a avaliação e seleção dos capítulos reunidos nesta coletânea.

Os organizadores

SUMÁRIO

Fonética e Fonologia

 

12

A

ENTONAÇÃO PRÉ-LINGUÍSTICA DO ESPANHOL E DO ESPANHOL FALADO POR BRASILEIROS: ANÁLISE

CONTRASTIVA

 

12

ALÇAMENTO DAS VOGAIS POSTÔNICAS MEDIAIS NO PORTUGUÊS SAPEENSE AS VOGAIS MÉDIAS PRETÔNICAS E POSTÔNICAS NÃO FINAIS NA ORALIDADE DE MONTES CLAROS/MG:

27

UM CASO DE DIFUSÃO LEXICAL

48

CARACTERIZAÇÃO ACÚSTICA DO PADRÃO MELÓDICO DAS INTERROGATIVAS TOTAL E PARCIAL EM FALANTE CONQUISTENSE: ESTUDO DE CASO

60

COARTICULAÇÃO NO ATAQUE COMPLEXO : PISTAS ACÚSTICAS

72

DISPERSÃO VOCÁLICA EM SUJEITOS COM DOWN: AVALIAÇÃO DAS ZONAS ESPECTRAIS

83

ESTUDO DA VARIAÇÃO PROSÓDICA DO DIALETO CAPIXABA NO ÂMBITO DO PROJETO AMPER

98

O

APAGAMENTO DAS VOGAIS ÁTONAS EM PORTUGUÊS: UMA ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE AS

VARIEDADES BRASILEIRA E EUROPEIA

115

THE INTONATION OF ABSOLUTE QUESTIONS IN BRAZILIAN PORTUGUESE

131

Sintaxe

146

A

CONCORDÂNCIA EM NÚMERO COM O POSSUIDOR: UM ESTUDO DA SINTAXE DO DP

146

ADVÉRBIOS LOCATIVOS NA POSIÇÃO DE SUJEITO NO PB

164

CASO E ESPECIFICIDADE NOS REDOBROS PRONOMINAIS DO DIALETO MINEIRO

174

EXPANSÃO DA SUBESPECIFICAÇÃO DA CAUSA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

190

FORÇA ILOCUCIONÁRIA, CP CINDIDO E EFEITO V2

206

POR UMA ABORDAGEM

FUNCIONAL

DO ALÇAMENTO DE CONSTITUINTES ARGUMENTAIS

224

UMA ABORDAGEM UNIFICADA PARA A POSIÇÃO DE CLÍTICOS EM PORTUGUÊS BRASILEIRO E EM

FRANCÊS

 

243

Morfologia “EU IA PUM LADO

ELA IA TAMBÉM”: DESCRIÇÃO PROSÓDICA DO CLÍTICO PREPOSICIONAL “PARA” NA

260

VARIEDADE DO NOROESTE PAULISTA

 

260

A

MORFOSSINTAXE DA COMPOSIÇÃO

NEOCLÁSSICA

274

CATEGORIZAÇÕES E

CONFIGURAÇÕES

LINGUÍSTICAS: OS NOMES E OS VERBOS

290

INCORPORAÇÃO DE

NUMERAL NA LIBRAS

305

O

COMPORTAMENTO MORFOLÓGICO E SEMÂNTICO DE VERBOS TERMINADOS EM -ICAR E –ISCAR NO

PORTUGUÊS BRASILEIRO: DIMINUTIVIZAÇAO E PLURALIDADE

323

VARIAÇÃO PARAMÉTRICA EM PREDICADOS COMPLEXOS E NOMES COMPOSTOS: UM ESTUDO TRANSLINGUÍSTICO

340

Semântica

358

A

PRESSUPOSIÇÃO NO GÊNERO TIRA: UMA INTERPRETAÇÃO SEMÂNTICO-PRAGMÁTICA

376

CATÁLOGO DE VERBOS DO PORTUGUÊS BRASILEIRO

389

FOCO SOBREINFORMATIVO E ALARGAMENTO DE DOMÍNIO

406

PLURACIONALIDADE DE EVENTOS EXPRESSA POR REDUPLICAÇÃO NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

419

SER E ESTAR E A DISTINÇÃO PREDICADO-DE-INDIVÍDUO X PREDICADO-DE-ESTÁGIO

437

UM OLHAR SOBRE O MUITO(A) NO PORTUGUÊS BRASILEIRO: O CASO (OU NÃO) DA AMBIGUIDADE

453

VERBOS DE MOVIMENTO NAS LÍNGUAS ROMÂNICAS: ANÁLISE COMPARATIVA (PORTUGUÊS, ESPANHOL, FRANCÊS, ITALIANO E ROMENO)

471

Pragmática

484

(IM)POLIDEZ E ATENUÇÃO NO DISCURSO JURÍDICO: UMA ANÁLISE DE PETIÇÕES INICIAIS

484

A

MODALIDADE DEÔNTICA EM WEBCOMENTÁRIOS: UM ESTUDO FUNCIONALISTA DA LÍNGUA

ESPANHOLA

500

MODALIDADE DEÔNTICA EM LÍNGUA ESPANHOLA: UMA ANÁLISE EM GÊNEROS TEXTUAIS (EDITORIAL E ARTIGO DE OPINIÃO)

511

PERTINÊNCIA E ENUNCIAÇÃO: A INSTITUIÇÃO DO SENTIDO TEXTUAL-DISCURSIVO RELEVÂNCIA E MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA: ANÁLISE DE ENTREVISTAS COM OS CANDIDATOS À

525

PRESIDÊNCIA

Linguística da

DOS ESTADOS UNIDOS

540

enunciação

556

DIÁRIO REFLEXIVO NO AMBIENTE VIRTUAL (AVA) DO CURSO DE LETRAS: DIZER A SI ATRAVÉS DO

 

OUTRO

556

Linguística do Texto

569

A CORREÇÃO DE TEXTO NO ENSINO SUPERIOR: UM DIÁLOGO (POSSÍVEL) ENTRE PROFESSORES E ALUNOS DO CURSO DE LETRAS

569

A

ESCRITA ALÉM DA LÍNGUA PORTUGUESA: UMA COMPARAÇÃO DE PROPOSTAS DE PRODUÇÃO

TEXTUAL ENTRE LIVROS DIDÁTICOS DE HISTÓRIA E DE GEOGRAFIA

583

A

ESTRUTURA MASSN NA PRODUÇÃO DO TEXTO DE OPINIÃO: CONSIDERAÇÕES SEMÂNTICO-

DISCURSIVAS

593

A

RESPONSABILIDADE ENUNCIATIVA EM ITINÉRAIRE D’UN VOYAGE EN ALLEMAGNE E TROIS ANS EN

ITALIE, SUIVIS D’UN VOYAGE EN GRÈCE

606

A

RESPONSABILIDADE ENUNCIATIVA EM TEXTOS ACADÊMICOS: EM FOCO AS INDICAÇÕES DE QUADROS

MEDIADORES

619

ABORDAGEM DO TEXTO NAS PROVAS DO SAEPE: UM SISTEMA DE DECODIFICAÇÃO

631

ARGUMENTAÇÃO EM QUESTÃO: ANÁLISE DO DISCURSO ARGUMENTATIVO EM TEXTOS DE OPINIÃO PRODUZIDOS POR ALUNOS RECÉM-INGRESSOS NO ENSINO SUPERIOR

641

AS

REPRESENTAÇÕES DISCURSIVAS DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

656

BLOG JORNALÍSTICO: GÊNERO DISCURSIVO ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS DE ENVOLVIMENTO ENUNCIATIVO NA ESCRITA ACADÊMICA: ANÁLISE DE

672

ETHOS E ESTILO NOS TEXTOS DE ARNALDO JABOR

700

FOLDER INSTRUCIONAL: UM MÉTODO GRÁFICO-TEXTUAL POTENCIALIZADOR NA APREENSÃO DE INFORMAÇÕES

718

LEITURA E INTERTEXTUALIDADE NO LIVRO DIDÁTICO DE PORTUGUÊS

730

LINGUÍSTICA E CRÍTICA GENÉTICA: UMA APROXIMAÇÃO POSSÍVEL

740

LITERATURA E BULLYING: UMA IMAGEM REFLETIDA A PARTIR DO OLHAR DO OUTRO MECANISMOS DE REFERENCIAÇÃO NO GÊNERO CARTA ABERTA: UMA ANÁLISE DOS TEXTOS

757

PRODUZIDOS PELOS ALUNOS DO CURSO FIC LINGUAGEM E ARGUMENTAÇÃO – IFRN NOVA CRUZ

772

O

PROCESSO DE REFERENCIAÇÃO ANAFÓRICA EM TEXTOS DE ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL

786

O

TESAURO JURÍDICO: UM ESTUDO DO GÊNERO NO DIREITO AMBIENTAL

799

ORIENTAÇÃO ARGUMENTATIVA: RECATEGORIZAÇÃO DE REFERENTES EM DISCURSOS POLÍTICOS

815

PETIÇÃO INICIAL: UM ESTUDO DA RESPONSABILIDADE ENUNCIATIVA ATRAVÉS DAS CONSTRUÇÕES MEDIATIZADAS

828

REFERENCIAÇÃO E INTERTEXTUALIDADE: UMA ANÁLISE INTERACIONAL-DIALÓGICA DE TEXTOS DE

845

ALUNOSDO 5º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL REFERENCIAÇÃO E MULTIMODALIDADE EM ANÁLISE DE TIRINHAS: A NECESSIDADE DE NOVAS ABORDAGENS PARA O DESENVOLVIMENTO DAS HABILIDADES DE LEITURA E DE PRODUÇÃO TEXTUAL

859

REFERENCIAÇÃO EM GÊNEROS JORNALÍSTICOS: REVISITANDO AS ANÁFORAS INDIRETAS

871

Análise do Discurso

887

“GRACINHA”: UM ESTUDO DAS CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS DE UMA CELEBRIDADE

887

A ANÁLISE DISCURSIVA CRÍTICA DE METÁFORAS SOBRE A CORRUPÇÃO POLÍTICA

903

A CONSTRUÇÃO DO SUJEITO PRESIDENCIAL, DO BRASIL E DO BRASILEIRO NO DISCURSO DE POSSE

924

A CONSTRUÇÃO DOS ETHÉ DE CHICO XAVIER NA BIOGRAFIA AS VIDAS DE CHICO XAVIER

938

A MEMÓRIA DISCURSIVA E CONSTITUIÇÃO DA RESISTÊNCIA XAVANTE NA/PELA ESCOLA/ESCRITA

 

OCIDENTAL

950

A

POLÊMICA DISCURSIVA NA CONSTITUIÇÃO DO SENTIDO DE SUSTENTABILIDADE EM UMA PEÇA

PUBLICITÁRIA

966

A

RESSOCIALIZAÇÃO DE DETENTOS E A COPA DO MUNDO FIFA 2014: OS DISCURSOS INSTITUCIONAIS E

AS

RESISTÊNCIAS

980

ANÁLISE DE ATIVIDADES DIDÁTICAS DE LINGUA PORTUGUESA NO ENSINO MÉDIO: O CASO DA FORMAÇÃO CRÍTICA DOS ESTUDANTES NAS PRÁTICAS SOCIAIS QUE ENVOLVEM A LEITURA E A ESCRITA

995

ANÁLISE DE DISCURSO DOS ALUNOS DE PORTUGUÊS LÍNGUA ESTRANGEIRA SOBRE O BRASIL

1010

ANÁLISE DO DISCURSO DE DEMÓSTENES TORRES NO CONSELHO DE ÉTICA DO SENADO

1041

AS

CENAS DE ENUNCIAÇÃO DOS DISCURSOS SOBRE A SECA NO SEMIÁRIDO BAIANO (HOJE)

1057

CASO YOKI: A CONSTRUÇÃO DISCURSIVA DO ETHOS PELA VEJA E ISTOÉ

1069

CIBERATIVISMO EM DESTAQUE: UM ESTUDO DO DISCURSO FEMINISTA NAS REDES SOCIAIS CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE PARA A FORMAÇÃO DOCENTE: O QUE PODEMOS APRENDER COM OS

1086

DA

MÍDIA AO SENSO COMUM: O DISCURSO DA INTOLERÂNCIA CONTRA O LINGUISTA

1114

DISCURSO DE (REMEMORAÇÃO) E DISCURSO SOBRE (COMEMORAÇÃO): FUNCIONAMENTOS DA MEMÓRIA

1131

DO SABER/PODER E DA GOVERNAMENTALIDADE: A FORMAÇÃO DE NOVOS SUJEITOS DE ENSINO NO CURSO DE LETRAS

1142

EFEITOS DE SENTIDO DAS NOMEAÇÕES NAS ENCÍCLICAS SOBRE TRABALHO: RELAÇÕES ENTRE LÍNGUA E IDEOLOGIA

1163

ETHOS E MORAL DO REBANHO NO DISCURSO RELIGIOSO: UMA ANÁLISE DE UM TESTEMUNHO NO BLOG DE EDIR MACEDO

1177

GOVERNAMENTALIDADE E CONTROLE: A PRODUÇÃO DE SENTIDOS NOS DISCURSOS SOBRE O GRAFISMO E A PICHAÇÃO NA CIDADE JOÃO PESSOA

1193

GOVERNAMENTALIDADE E CONTROLE: A DISCIPLINARIZAÇÃO DOS CORPOS NAS PLACAS URBANAS

1204

HERMENÊUTICA E LUGARES DE MEMÓRIA DISCURSIVA: A APLICAÇÃO DA LEI DA “FICHA LIMPA” ÀS ELEIÇÕES 2010

1216

IMAGENS DE SI NA IMPRENSA - UM OLHAR SOBRE A FÊMEA DO SÉCULO XXI LATAE SENTENTIAE: IGREJA Vs. CIÊNCIA – UMA CONCEPÇÃO TRIDIMENSIONAL DE DISCURSOS – O CASO

1228

DA

MENINA DE ALAGOINHA, PERNAMBUCO

1241

MÍDIA E PRODUÇÃO TEXTUAL ESCOLAR: O DISCURSO SOBRE AS PRÁTICAS DE ESCRITA ESCOLARES NA REVISTA LÍNGUA

1258

MODALIZAÇÃO AUTONÍMICA NA ESCRITA DE DISSERTAÇÕES

1274

MST E REFORMA AGRÁRIA NO DISCURSO DA MÍDIA: INVESTIGANDO CONCEITOS E ESTEREÓTIPOS

1291

O

CABELO EM LUGAR DO VÉU: ANÁLISE DISCURSIVA DE UMA POLÊMICA NOS DISCURSOS

PROTESTANTES O CARNAVAL ENTRE A IDENTIDADE E A INTERDIÇÃO: ANÁLISE DO CORPO FEMININO NO DISCURSO

1302

TURÍSTICO DO BRASIL

1313

O

DISCURSO DA VIRADA PRAGMÁTICA NOS TEXTOS DE APRESENTAÇÃO DAS GRAMÁTICAS

PEDAGÓGICAS DO PORTUGUÊS

1330

O ETHOS DA MULHER NA LITERATURA ESPÍRITA

1349

ORAÇÃO E JEJUM PELOS MUÇULMANOS: UMA ANÁLISE DISCURSIVA DE UM GUIA EVANGELÍSTICO DA JUNTA DE MISSÕES MUNDIAIS

1359

OS

PROFISSIONAIS EGRESSOS DE LETRAS E SEUS DISCURSOS: A CONSTITUIÇÃO DO ETHOS

1369

PATHEMIZAÇÕES EM CAPAS DE FILME E DE LIVRO – UM ESTUDO DE MADAME BOVARY

1384

PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO NA REVISTA MEN’S HEALTH: CONFISSÃO E CONTROLE DO INDIVÍDUO DO GÊNERO MASCULINO ATRAVÉS DA SEXUALIDADE

1399

RELAÇÕES ENTRE A ANÁLISE DO DISCURSO E O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA

1410

REPRESENTAÇÕES SOBRE O ENSINO-APRENDIZAGEM DE LÍNGUA INGLESA EM ESCOLAS PÚBLICAS NA CIDADE DE PORTO NACIONAL, TOCANTINS

1422

SER PROFESSOR: REPRESENTAÇÕES IDENTITÁRIAS EM JORNAIS MINEIROS

1436

UM OLHAR DISCURSIVO SOBRE O ALUNO DE ESCOLA PÚBLICA NA SOCIEDADE TECNOLÓGICA

1451

UMA ANÁLISE DISCURSIVA DA CRÔNICA “O NOVO MANIFESTO” DE LIMA BARRETO X “O CASTELÃO DE EDMAR E O FEUDALISMO” DE ARNALDO JABOR

1467

Linguística Histórica

1480

A

EXPRESSÃO DE SEGUNDA PESSOA EM CARTAS NORTE-RIOGRANDENSES: UM OLHAR PARA A

PRODUTIVIDADE DO VOCÊ

1480

DESCRIÇÃO DO ESTATUTO PROSÓDICO DAS FORMAS ADVERBIAIS EM - MENTE NO PORTUGUÊS ARCAICO

1498

O

QUE DADOS RURAIS PODEM INDICAR SOBRE A COLOCAÇÃO DOS ADJETIVOS NO PORTUGUÊS

BRASILEIRO

1515

OMOLOCUM: UM PRATO DE IGUARIAS, TRADIÇÕES E MAGIA

1531

Historiografia linguística

1548

“LÍNGUA É ESTOQUE E ESTILO”: O PROJETO DA GRAMÁTICA CONSTRUTURAL

1548

A

LÍNGUA PORTUGUESA NO SÉCULO XIII E A CULTURA MEDIEVAL

1564

Sociolinguística

1580

A

ALTERNÂNCIA ENTRE O FUTURO DO PRETÉRITO E O PRETÉRITO IMPERFEITO NO PORTUGUÊS CULTO

FALADO EM FEIRA DE SANTANA-BA

1580

A

CN E A CV COMO MARCA DA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE LINGUÍSTICA E SOCIAL: UM ESTUDO

ETNOGRÁFICO EM COMUNIDADES DE PRÁTICA

1592

A ESCRITA DIGITAL DE CARIOCAS E A VARIAÇÃO PRONOMINAL TU vs VOCÊ

1609

A INFLUÊNCIA DOS SONS DA FALA NA ESCRITA DE ALUNOS DAS SÉRIES INICIAIS

1622

A MARCAÇÃO DE PLURALIDADE NO SN NA FALA E NA ESCRITA DE ADOLESCENTES DA REGIÃO DE SÃO

JOSÉ DO RIO PRETO

1637

A

PALATALIZAÇÃO DAS OCLUSIVAS DENTAIS EM CONTEXTOS DE ASSIMILAÇÃO PROGRESSIVA: UMA

ANÁLISE SOCIOLINGUÍSTICA DO DIALETO PESSOENSE

1655

CONSTITUIÇÃO DO DISCURSO FORMAL EM SESSÕES PARLAMENTARES NO SENADO FEDERAL

1668

CRENÇAS E ATITUDES LINGUÍSTICAS EM TRÊS LOCALIDADES PARANAENSES FRONTEIRIÇAS À

1684

ARGENTINA DISCURSO ACADÊMICO: VARIAÇÃO ESTILÍSTICA E NEGOCIAÇÃO DE IDENTIDADES

1698

ENTRE RIO E MINAS: A REALIZAÇÃO DO /S/ EM CODA

1711

GRAMÁTICA E CULTURA CONTRASTIVA: A ALTERNÂNCIA DAS FORMAS VERBAIS NA INTERAÇÃO TEMPO, MODO, ASPECTO EM ESTUDOS DE TRADUÇÃO ALEMÃO-PORTUGUÊS

1726

LÍNGUAS EM CONTATO: O PORTUGUÊS E O ITALIANO EM ITARANA, ESPÍRITO SANTO

1739

MAPEANDO TEXTOS DE DIFERENTES GÊNEROS EM ENTREVISTAS SOCIOLINGUÍSTICAS: O CASO DO BANCO DE DADOS VARSUL

1754

O

COMPORTAMENTO DA VOGAL /E/ EM CLÍTICOS PRONOMINAIS E NÃO PRONOMINAIS

1770

O

USO DO PRESENTE DO SUBJUNTIVO EM SALVADOR

1784

Dialetologia

1819

ESTUDOS DIALETAIS EM PERNAMBUCO: CONVERGÊNCIAS POSSÍVEIS

1819

O

LINGUAJAR DO SERTÃO PARAIBANO: FORMAÇÃO DE UM CORPUS ORAL

1831

Linguística Centrada no Uso

1846

A

ORDENAÇÃO DE CONSTITUINTES HIERÁRQUICOS DO NÍVEL INTERPESSOAL

1846

ANÁLISE DA CONFIGURAÇÃO ARGUMENTAL DOS VERBOS DE ENUNCIAÇÃO NA CONVERSAÇÃO

1861

AVALIAÇÃO E ARGUMENTAÇÃO: ANÁLISE DA PRODUÇÃO TEXTUAL DE ALUNOS DO ENSINO MÉDIO

1874

E POR AÍ VAI: UMA ABORDAGEM COGNITIVO-FUNCIONAL

1892

ESTRATÉGIAS DE RELATIVAÇÃO E CONTINUIDADE CATEGORIAL

1904

ESTRATÉGIAS DE RELATIVIZAÇÃO NO PORTUGUÊS DA BAHIA NOS SÉCULOS XIX E XX

1919

O

USO DO OU SEJA NO GÊNERO CARTA AO LEITOR: UMA ANÁLISE FUNCIONALISTA

1932

PREDICADOS MANIPULATIVOS NO PORTUGUÊS DO BRASIL

1948

VERBOS DE PERCEPÇÃO: ASPECTOS MORFOSSINTÁTICOS E SEMÂNTICO-PRAGMÁTICOS

1959

Semiótica

1971

A

CONSTRUÇÃO DO IMAGINÁRIO FEMININO NA VOZ DA MULHER REPENTISTA: PROCEDIMENTOS

SEMIÓTICOS DE NARRATIVIZAÇÃO

1971

A PAIXÃO DA CÓLERA E FORMA DE VIDA NO CONTO "O ZELADOR" DE MENALTON BRAFF

1983

A TEORIA SEMIÓTICA DE L. HJELMSLEV COMO EPISTEMOLOGIA DISCURSIVA PERANTE A FILOSOFIA

TRANSCENDENTAL E

AS CIÊNCIAS REALISTAS

1999

ANÁLISE SEMIÓTICA DO BRASÃO DA CIDADE DE BELÉM

2012

AS

METAFUNÇÕES EM TEXTO PUBLICITÁRIO FRANCÊS: USO E ANÁLISE DA GRAMÁTICA DO DESIGN

VISUAL

2021

DO

POEMA À VIDEODANÇA: UMA ANÁLISE DA OBRA "SOBRE MUROS E JARDINS"

2032

O

MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: UM ESTUDO DA MESCLAGEM MULTIMODAL NAS ADVERTÊNCIAS

DE

EMBALAGENS DE CIGARRO

2045

O

PERCURSO NARRATIVO DO HERÓI EM LULA, O FILHO DO BRASIL

2064

O

ROMANCE POLIFÔNICO E SEUS DESDOBRAMENTOS: UMA ANÁLISE SEMIÓTICA DAS OBRAS

DOSTOIEVSKIANAS CRIME E CASTIGO E OS IRMÃOS KARAMÁZOV

2081

TRADUÇÕES INTERSEMIÓTICAS: O TRAÇO, A LINHA E A VIGA

2098

Linguística Aplicada

2115

A

AVALIAÇÃO ESCOLAR DE LÍNGUA PORTUGUESA DE 9º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL: QUAL O

ESPAÇO DA ANÁLISE LINGUÍSTICA?

2115

A DIMENSÃO POLÍTICA DA LÍNGUA: UMA ILUSTRAÇÃO DAS POLÍTICAS LINGUÍSTICAS NO BRASIL

2130

A ELABORAÇÃO DIDÁTICA DA NOMINALIZAÇÃO EM GRAMÁTICAS PEDAGÓGICAS

2144

A INTERAÇÃO EM UM PROJETO DE MULTILETRAMENTOS NA UNIVERSIDADE: HIBRIDISMO DE

COMPETÊNCIAS

2161

A

LEITURA DOS GÊNEROS CITAÇÃO E PETIÇÃO INICIAL: DESAFIOS DE COMPREENSÃO

2174

CONHECIMENTO METACOGNITVO E DIFICULDADES DE PROFESSORES NA COMPREENSÃO ORAL EM

 

LÍNGUA

INGLESA

2200

ENSINO DE FONÉTICA E FONOLOGIA NA GRADUAÇÃO: REVISÃO E PROPOSIÇÕES

2218

LINGUÍSTICA APLICADA: INDISCIPLINAR/TRANSDISCIPLINAR?

2230

O

QUE OS ALUNOS RECÉM-INGRESSOS NO CURSO DE LETRAS SENTEM AO RECEBEREM SEUS PRIMEIROS

TEXTOS ACADÊMICOS

2241

O

USO DA

ESCRITA EM GRUPOS DE MULHERES NO FACEBOOK

2256

PRÁTICAS DE LEITURA DE PROFESSORES EM FORMAÇÃO CONTINUADA

2266

RELAÇÕES LEXICAIS NO ENSINO DA LÍNGUA MATERNA: UM BREVE OLHAR PARA AS PRÁTICAS PROPOSTAS EM MATERIAIS DIDÁTICOS

2276

Psicolinguística

2293

COMO OS FALANTES INTERPRETAM O QUANTIFICADOR “TODO” NO PB…? NOVAS EVIDÊNCIAS EXPERIMENTAIS A PARTIR DE UMA TAREFA DE PRODUÇÃO DE FIGURAS

2293

O

EFEITO STROOP NO PROCESSAMENTO DE PALAVRAS FORMADAS COM BASES PRESAS

2304

Aquisição e ensino de língua materna

2316

A

ESCRITA EM CONTEXTO DE EDUCAÇÃO FORMAL: CONTATO DE LÍNGUAS (L1 e L2) E AQUISIÇÃO DE L2

2316

AQUISIÇÃO BILÍNGUE: ESTUDO DE CASO SOBRE AQUISIÇÃO DE OBJETO DIRETO NULO ANAFÓRICO EM

PORTUGUÊS BRASILEIRO E INGLÊS

2333

HIPO E HIPERSEGMENTAÇÃO EM TEXTOS DE ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL II: INFLUÊNCIA EXCLUSIVA DE ASPECTOS PROSÓDICOS?

2350

RITMO E HIPERSEGMENTAÇÃO: REFLEXÕES SOBRE A NOÇÃO DE PALAVRA

2361

Aquisição e ensino de línguas adicionais

2379

A EAD E A AQUISIÇÃO DAS VOGAIS DA LÍNGUA ESPANHOLA

2379

A REALIZAÇÃO DA LATERAL /l/ EM CODA SILÁBICA POR APRENDIZES BRASILEIROS DE INGLÊS COMO L2

2393

ANÁLISE VARIACIONISTA DA AQUISIÇÃO DA CODA SILÁBICA POR APRENDIZES DE INGLÊS COMO LE 2406

ANÁLISE VARIACIONISTA DO /l/ EM POSIÇÃO DE NÚCLEO POR APRENDIZES DE INGLÊS COMO L2

2422

ANÁLISE VARIACIONISTA DO FENÔMENO DA EPÊNTESE VOCÁLICA: UMA DISCUSSÃO ACERCA DO PROCESSO DE AQUISIÇÃO DE L2

2438

ANOTAÇÕES EM LÍNGUA INGLESA: A PRÁTICA DO CICLO DE AUTORREGULAÇÃO DA APRENDIZAGEM

2453

AQUISIÇÃO DE CONTRASTES NÃO NATIVOS: EVIDÊNCIAS PROPOSTAS A PARTIR DE ESTUDO COM IMIGRANTES ADULTOS

2468

ARQUITETURA PEDAGÓGICA VIRTUAL E O ENSINO DE PORTUGUÊS COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA: O USO DO COMPUTADOR COMO FERRAMENTA ONLINE DE TRABALHO NO CURSO DE LETRAS- PORTUGUÊS E NO CENTRO DE LÍNGUAS DA UFES

2484

RITMO E HIPERSEGMENTAÇÃO: REFLEXÕES SOBRE A NOÇÃO DE PALAVRA

2499

Neurolinguística

2517

AS PALAVRAS NA “PONTA-DA-LÍNGUA” E O FUNCIONAMENTO SEMÂNTICO-LEXICAL: REFLEXÕES A PARTIR DE UMA ANÁLISE QUALITATIVA DAS AFASIAS

2517

Linguística e

Cognição

2528

ANÁLISE DA POLISSEMIA DO VERBO “TOMAR”, SEGUNDO PRESSUPOSTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

 

DA

LINGUÍSTICA

COGNITIVA

2528

DA

“PESTE GAY” A AIDS: ANÁLISE SEMÂNTICA DOS NOMES DA DOENÇA

2546

EFEITOS COGNITIVOS GERADOS A PARTIR DA INTERAÇÃO PROFESSORA-ALUNOS SOBRE OS ESTÍMULOS

OSTENSIVOS

DE UM ANÚNCIO PUBLICITÁRIO

2563

Letramentos

2580

A

CONTRIBUIÇÃO DAS CAPACIDADES FORMATIVAS PARA SE ENTENDER A APROPRIAÇÃO DO

LETRAMENTO ACADÊMICO

2580

A

[INTER]AÇÃO FAMILIA-ESCOLA AÇÕES DE LETRAMENTO MEDIADAS POR ALUNOS EM COMUNIDADE

DO COMPLEXO DA MARÉ

2597

CONSTRUÇÂO DE SIGNIFICADOS EM UM CURSO BÁSICO DE INFORMÁTICA

2608

LEITURA E ESCRITA NO CONTEXTO ESCOLAR: PROPOSTA DE ATIVIDADES EM LETRAMENTO DIGITAL DO PIBID LETRAS IFPA/CAMPUS BELÉM

2626

LETRAMENTO POLÍTICO NOS “SANTINHOS”: A MULTIMODALIDADE PRESENTE NO MATERIAL IMPRESSO DOS CANDIDATOS DE FORTALEZA EM 2012

2642

MULTIMODALIDADE E TEXTOS PUBLICITÁRIOS: O TRABALHO COM A LEITURA DE IMAGENS EM CONTEXTO ESCOLAR

2658

PRÁTICAS SOCIAIS DE ORALIDADE E DE LETRAMENTO NO ENSINO MÉDIO:

2670

SER LETRADO HOJE: NA CONFLUÊNCIA DO VERBAL COM O NÃO VERBAL

2680

Gêneros textuais/discursivo

2691

ANÁLISE DAS PRODUÇÕES DISCURSIVAS NAS TIRAS HUMORÍSTICAS EM UMA PERSPECTIVA DO INTERACIONISMO SÓCIODISCURSIVO

2691

ASPECTOS PROBLEMÁTICOS NA PRODUÇÃO DE RESUMOS NA UNIVERSIDADE

2701

GÊNERO TEXTUAL SENTENÇA JURÍDICA NA ÓTICA DE MARCUSCHI

2714

INTERDISCURSIVIDADE EM CHARGES: UMA ABORDAGEM DISCURSIVA

2726

O

ENSINO DE GÊNEROS DIGITAIS EMERGENTES – UMA ABORDAGEM POSSÍVEL

2739

O

ENSINO DE PORTUGUÊS ATRAVÉS DOS GÊNEROS TEXTUAIS EM UMA ESCOLA DO ENSINO

FUNDAMENTAL DE CRUZEIRO DO SUL

2753

OS MARCADORES METADISCURSIVOS DE ENGAJAMENTO NO GÊNERO ARTIGO CIENTÍFICO NA DISCIPLINA LINGUÍSTICA

2766

Lexicologia, lexicografia e terminologia

2774

A

TERMINOLOGIA DO MICRO E DO PEQUENO AGRICULTOR DE CANA-DE-AÇÚCAR DO MARANHÃO: A

VARIAÇÃO DIATÓPICA

2774

LIVROS DIDÁTICOS E DICIONÁRIOS: FERRAMENTAS DIDÁTICO-PEDAGÓGICAS PARA A AQUISIÇÃO LEXICAL

2786

QUILOMBOLAS REMANESCENTES DO TOCANTINS: ESTUDO DOS TOPÔNIMOS DAS COMUNIDADES COM FOCO NOS ESTUDOS LINGUÍSTICOS E NAS PRÁTICAS CULTURAIS E HISTÓRICAS

2803

RESULTADOS DE UM BREVE LEVANTAMENTO LEXICAL NO MUNICÍPIO DE DORMENTES-PE

2819

UMA ABORDAGEM ETNOTOPONÍMICA DO PARQUE ESTADUAL TURÍSTICO DO ALTO RIBEIRA: PETAR

2835

Estudos da Tradução

2846

TRADUÇÃO E DIALOGISMO: UM ESTUDO DO PAPEL DO TRADUTOR NA CONSTRUÇÃO DO SENTIDO

2846

UM HABITUS TRADUTÓRIO PARA A ANTROPOLOGIA BRASILEIRA EM LÍNGUA INGLESA: UM ESTUDO

2864

BASEADO NO CORPUS DA OBRA O POVO BRASILEIRO DE DARCY RIBEIRO Línguas de Sinais

2882

LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS E FORMAÇÃO DE PROFESSORES: UMA ANÁLISE DE CONTEÚDOS E MÉTODOS NO ENSINO DE

2882

MEMÓRIAS LINGUÍSTICAS E REGISTROS DOS VERBOS DO SISTEMA DE SINAIS CASEIROS DE DUAS CRIANÇAS SURDAS DE JACARÉ DOS HOMENS

2900

METONÍMIA E ICONICIDADE: RELAÇÕES COGNITIVAS POSSÍVEIS EM LIBRAS

2915

O

CORPO NA CONCEPÇÃO DE EVENTOS NA LÍNGUA DE SINAIS BRASILEIRA

2926

O

ENSINO DE LIBRAS PARA OUVINTES: DESAFIOS PARA A PRODUÇÃO DE MATERIAL DIDÁTICO

2942

TRADUÇÃO EM LÍNGUA DE SINAIS: UM ESTUDO DAS ESTRATÉGIAS DE INTERPRETAÇÃO DE FRASEOLOGISMOS DO PORTUGUÊS PARA A

2957

Políticas Linguísticas

2975

REPRESENTAÇÕES DO TRABALHO DOCENTE NO DIZER DE PROFESSORES ANGOLANOS

2975

12

Fonética e Fonologia

12 Fonética e Fonologia A ENTONAÇÃO PRÉ-LINGUÍSTICA DO ESPANHOL E DO ESPANHOL FALADO POR BRASILEIROS: ANÁLISE

A ENTONAÇÃO PRÉ-LINGUÍSTICA DO ESPANHOL E DO ESPANHOL FALADO POR BRASILEIROS: ANÁLISE CONTRASTIVA

Aline Fonseca de Oliveira, Miguel Mateo Ruiz

FONSECA DE OLIVEIRA, A & MATEO, M.

Resumo: Este trabalho apresenta uma análise contrastiva entre as características das entonações pré- linguísticas do espanhol falado por nativos peninsulares e do espanhol falado por brasileiros em fala espontânea, com o objetivo de estabelecer as características melódicas que os aprendizes necessitam adquirir para ter uma competência linguística plena em espanhol. Com base nos pressupostos da teoria da Análise Melódica da Fala (AMH) expostos em Cantero (2002) e Font-Rotchés (2007). Primeiro descrevem-se as características dos perfis melódicos do espanhol de cada grupo de falantes; em seguida apresenta-se uma análise das semelhanças e divergências e das suas consequências sob um ponto de vista comunicativo e para o ensino de línguas.

Palavras chave: Entonação. Análise melódica da fala. Análise contrastiva. Ensino de línguas.

1 Introdução

O estudo da entonação tem experimentado um notável crescimento a partir das últimas décadas do século XX tanto por seu interesse a partir de diversas áreas do conhecimento (fonética clínica, síntese e reconhecimento de voz ou ensino de línguas, entre outras), como

13

pelo desenvolvimento de software de obtenção de dados acústicos da freqüência fundamental (F0) que permitiram um grande avanço na análise rigorosa de corpus com grande número de informantes e de diferentes tipos de fala. No Laboratório de Fonética Aplicada da Universidade de Barcelona (LFA) uma das áreas preferentes de estudo é a descrição linguística da entonação – para sua aplicação no ensino de línguas. Neste contexto, seguindo o método Análisis Melódico del Habla (AMH) proposto por Cantero (2002), revisado em Font-Rotchés (2007), estão sendo realizados diversos estudos tanto sobre a entonação das variedades do espanhol peninsular e Canárias como da entonação do espanhol falado por diferentes grupos de falantes não nativos, sempre em fala espontânea: brasileiros, taiwaneses, italianos, suecos, entre outros 1 . Este trabalho apresenta as características da entonação pré-linguística de falantes nativos e de falantes brasileiros de espanhol. A comparação das características de ambas permitirá estabelecer as diferenças que contribuem a caracterizar o “sotaque estrangeiro” dos falantes brasileiros e estabelecer futuras aplicações didáticas que permitam melhorar a prosódia dos discentes de espanhol e, portanto, sua competência comunicativa. O protocolo de análise que se utilizou está descrito em Cantero & Font-Rotchés (2009), trata-se de um método formal que oferece um critério de segmentação da melodia da fala exclusivamente fônico.

2 Metodologia

A metodologia utilizada é de base empírica e experimental; frente a outros métodos de análise da entonação, oferece um critério de segmentação das melodias da fala exclusivamente fônico e apresenta um sistema de processamento dos dados acústicos que possibilita a obtenção dos valores relativos que constituem as melodias. Isto permite compará- las, classificá-las e reproduzi-las com toda fidelidade; experimentar com elas mediante síntese de voz, submetê-las a provas perceptivas e fazer generalizações linguísticas. Em Cantero & Mateo (2011) é oferecida uma visão detalhada do método de análise, que aqui se apresenta de forma resumida. No processo foi utilizado o software de análise e síntese

1 Em VV.AA. (2009) podem-se consultar os principais trabalhos realizados e publicados durante os primeiros dez anos de existência da AMH.

14

de voz Praat (Boersma y Weenink, 1992-2011). Consta de duas fases: uma primeira, acústica, na que, tomando como critério a presença de uma inflexão final, identificam-se as unidades melódicas e obtêm-se os valores acústicos, extraindo a freqüência fundamental (em Hz) das vogais. Nesta fase também se estandardizam os valores em Hertz e é realizada uma representação gráfica da melodia, que permite comparar os contornos de forma independente das características dos informantes. Na segunda fase, perceptiva, são validadas experimentalmente as análises realizadas para estabelecer os traços melódicos e suas margens de dispersão. Esta fase perceptiva baseia-se na manipulação das melodias mediante rotinas de síntese, na que cada traço descrito é modificado e submetido a um experimento perceptivo, para estabelecer as porcentagens significativas de subida/baixada e suas margens de dispersão. Segundo Cantero (2002), a entonação articula-se mediante processos dinâmicos conforme uma determinada hierarquia fônica (entonação pré-linguística) para produzir entidades significativas, fonológicas (entonação linguística), com base na combinação de três traços (/enfático/, /suspendido/, /interrogativo/). Estas representações permitem a incorporação de diversas significações não linguísticas que fornecem informações pessoais e expressivas (entonação paralinguística). O estudo da entonação pode centrar-se em cada um destes três níveis, este trabalho detém-se na descrição do nível entonativo pré-lingüístico.

3 Análise melódica da entonação pré-linguística

A forma de integrar e delimitar a fala é o que se conhece como o nível pré-linguístico

da entonação, no qual intervém, junto com a melodia, o sotaque e o ritmo da fala, a estruturação conjunta de todos estes fenômenos permite a integração fônica do discurso. Quando se fala, faz-se de forma hierarquizada, esta hierarquia fônica estabelece-se a través do sotaque e da entonação, fenômenos que são informados pela freqüência fundamental (F0) –único parâmetro físico-, e tem a função de dar coesão ao discurso, facilitando a compreensão entre os falantes. A hierarquia dá-se em diversos níveis: sílabas, palavras fônicas e grupos fônicos; os três estão constituídos por blocos de sons que se agrupam em torno a um segmento tonal (a sílaba, a vogal) ou em torno a um acento.

O grupo fônico coincide com o que se denomina do ponto de vista da entonação,

contorno entonativo: a sucessão de tons (a melodia) das vogais organizada em torno a uma

inflexão final, ou núcleo entonativo. Sua função é integrar o discurso em unidades

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compreensíveis: o jogo de grupos fônicos é o principio integrador do discurso oral; o uso adequado da entonação pré-linguística é imprescindível para obter o êxito comunicativo: gerar enunciados com sentido e compreendê-los. Cada melodia –contorno entonativo- é individual e caracteriza-se por uma série de traços concretos (fonéticos), que no modelo AMH denominam-se traços melódicos. Estes traços são os seguintes (v. Figura 1, adaptada de Cantero & Font-Rotchés, 2007:70):

Anacruse: sílabas átonas anteriores ao primeiro pico.

Primeiro pico: proeminência inicial da melodia, que normalmente corresponde com a primeira vogal tônica do grupo ou com a vogal átona seguinte.

Declinação (ou corpo): as sílabas entre o primeiro pico e a última vocal tônica, na qual começa a Inflexão final.

Inflexão final (ou núcleo): segmentos tonais desde a última vogal tônica até o final do grupo fônico.

Campo tonal /registro tonal: amplitude total de valores entre os quais se move a melodia.

amplitude total de valores entre os quais se move a melodia. Figura 1. Esquema das partes

Figura 1. Esquema das partes de um contorno Com o método AMH pode-se caracterizar cada um destes traços com medidas objetivas:

porcentagens de variação, de declinação, forma e porcentagem da inflexão, etc. As variações de cada um deles influi na configuração de cada tipo de entonação (linguística, pré-linguística, paralinguística), conforme se indica na mesma figura 1, que mostra a tendência geral em espanhol, apesar de que se identificaram e descreveram padrões melódicos nos quais a posição do primeiro pico, seu possível deslocamento com relação à primeira sílaba tônica, também condiciona a significação linguística da melodia.

16

Duas manifestações da entonação pré-linguística são os fenômenos que se conhecem como “sotaque estrangeiro”, o falante não nativo organiza seu discurso oral conforme os traços da entonação pré-linguística de seu próprio idioma (Cantero & Devís, 2011) e “o sotaque dialetal”, a estruturação do discurso e sua integração em unidades prosódicas inteligíveis 2 . Em AMH, denomina-se perfil melódico ao conjunto de traços da entonação pré- linguística que caracterizam uma variedade ou uma língua, Cantero & Devís (2011) explicam que o que permite reconhecer a um falante não nativo de espanhol não são seu repertório léxico ou seus usos gramaticais e sim, os “traços melódicos de seu discurso”, a estruturação fônica do discurso concretizada em um conjunto de traços que caracterizam o “sotaque”.

4 Corpus

A realização da pesquisa baseou-se na análise de dois corpus elaborados no Laboratório de Fonética Aplicada da Universidade de Barcelona. Por uma parte, um corpus de dez variedades do espanhol. O corpus completo consta de 2700 enunciados produzidos por 770 informantes, obtidos a partir de más de 100 horas de gravações de programas televisivos das diferentes zonas e que foram emitidos em contextos de debates, concursos, entrevistas, reportagens temáticas y programas similares 3 . Analisaram- se os enunciados de cinco variedades setentrionais (Astúrias, Navarra, País Basco, Castela Leão e Madri) e cinco variedades meridionais (Andaluzia, Canárias, Castela La Mancha, Extremadura e Múrcia) 4 ; enunciados produzidos por informantes com idades compreendidas entre 16 e 88 anos no momento de sua emissão. Todos falantes ‘nativos’ das diversas variedades dialetais do espanhol e de composição aleatória com relação à origem social e nível cultural.

Por outra parte o corpus de espanhol falado por brasileiros consta de um total de 511 contornos emitidos em situações comunicativas genuínas, por um conjunto de 12 informantes

2 Outros autores, como Lahoz (2012), incluem esta função entre os valores sociolingüísticos da entonação, sem significação estritamente lingüística.

3 Para uma descrição detalhada sobre o procedimento de seleção e obtenção do corpus ver o trabalho de Ballesteros, M., Mateo, M. e Cantero, F.J. (2011).

4 A interpretação dos dados dos corpus de Canárias e Castela La Mancha está em preparação (Mateo, no prelo).

17

brasileiros distintos (6 homens e 6 mulheres), nível universitário com fluidez em espanhol, residentes na Espanha o mínimo de dois anos na época. Os doze brasileiros escolhidos são todos nativos, procedentes de várias regiões do Brasil (Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul, Pará, São Paulo e Goiás), o que configura um corpus representativo da fala brasileira. Com idades compreendidas entre 24 e 49 anos, que se comunicavam com fluidez em espanhol e a diário em situação de imersão. Onze dos doze informantes viviam em Barcelona na época e um em Valladolid. Todos os informantes foram selecionados com os seguintes critérios: brasileiros nativos, adultos, nível universitário (concluído ou em curso) e estadia mínima na Espanha de dois anos. Foram realizadas doze entrevistas durante o período de 20/04/07 a 08/06/07, totalizando 8 horas, 26 minutos e 4 segundos de gravações. Por se considerar que o exame da língua oral genuína é a maneira mais fiável de averiguar e conhecer a realidade fônica, dado que deste modo evita-se o monitoramento, consciente ou inconsciente por parte do pesquisador e do pesquisado, além das interferências da linguagem escrita. Os informantes receberam a informação que a pesquisa estava relacionada com as crenças de aprendizagem da língua oral, uma vez que o objetivo era conseguir um corpus de fala espontânea e, portanto os entrevistados não tinham que prestar atenção a sua forma de falar e sim expressar suas opiniões com espontaneidade. As conversas em geral já começam diretamente em espanhol, uma vez que os informantes receberam a explicação prévia que para facilitar a posterior transcrição para o estudo a entrevista seria feita em língua espanhola.

5 Entonação pré-linguística do espanhol

A partir da análise dos dois corpus mencionados verificaram-se as características melódicas do espanhol dos diversos grupos de falantes, as quais são descritas a seguir. Em geral o perfil melódico do espanhol peninsular coincide com o modelo de contorno entonativo apresentado na figura 1:

um primeiro pico elevado, cujo centro é, normalmente, a primeira vogal tônica do grupo (ou, em casos de pico deslocado, a primeira vogal pós-tônica);

uma declinação descendente de forma regular, com inflexões paulatinas que começam, sistematicamente, em uma vocal tônica;

18

uma inflexão final cujo início é a última vogal tônica do grupo, que pode ser descendente (superiores a -15% de desnível) ou ascendente (com valores que podem ser de más de +120% de subida) Como se pode observar no contorno entonativo representado na figura abaixo:

no contorno entonativo representado na figura abaixo: Figura 2: ¿Quieres ver a la gaviota? Neste exemplo

Figura 2: ¿Quieres ver a la gaviota?

Neste exemplo da figura 2, pode-se apreciar um contorno de pergunta que responde exatamente ao contorno-modelo, com um primeiro pico deslocado, corpo descendente e

inflexão final ascendente, próprio de +/- interrogativo. Na análise das variedades dialetais foram encontradas as seguintes características:

1. Variedades setentrionais, espanhol do norte (Ballesteros, 2011b):

Deslocamento do primeiro pico.

Declinação: tendência a inflexões internas.

Tendência a inflexões finais circunflexas.

19

19 Figura 3: Cuatro días o así. Na figura 3, pode-se observar o contorno entonativo de

Figura 3: Cuatro días o así.

Na figura 3, pode-se observar o contorno entonativo de um enunciado do espanhol falado no País Basco, no qual se verifica a ocorrência de ligaduras internas e proeminências em vogais átonas, que neste caso é uma característica dialetal, não enfática, a falante simplesmente está indicando a periodicidade de um fato. Por outro lado, no exemplo abaixo (figura 4), os picos nas átonas é achado de forma significativa, unicamente na variedade andaluza, para indicar ênfase.

unicamente na variedade andaluza, para indicar ênfase. Figura 4: Aquí el único responsable de que la

Figura 4: Aquí el único responsable de que la música suene soy yo.

2. Variedades meridionais (Mateo, no prelo):

Primeiro pico: tendência acusada a não apresentar primeiro pico (em torno a 40%). Quando aparece, geralmente recai na primeira vogal tônica.

Corpo: tendência à declinação plana ou a contornos ondulados, com diferenças quanto à proeminência ou não nas vogais átonas.

20

Inflexão final: tendência à atenuação, a porcentagens de subida / baixada inferiores aos que Cantero & Font-Rotchés (2007) estabeleceram para o espanhol estándar.

(2007) estabeleceram para o espanhol estándar. Figura 5: Nunca he visto una tienda como esta en

Figura 5: Nunca he visto una tienda como esta en España. Na figura 5, apresenta-se o contorno melódico de um enunciado de um falante de Extremadura no qual se pode ver uma declinação praticamente plana, desde um primeiro pico deslocado à átona posterior.

6 Entonação pré-linguística do espanhol falado por brasileiros

Através da análise do corpus descrito verificou-se a ausência de primeiro pico na maioria dos enunciados, fato que indica que a organização dos grupos fônicos da-se de forma distinta ao que ocorre em espanhol. Quando se identificam indícios de primeiro pico, este não ocorre na primeira vogal tônica, e sim muitas vezes na pré-tônica e também na pós-tônica, porém no fica clara a regularidade de dito fenômeno. Ao no existir primeiro pico, no há declinação, por isto percebem-se melodias muito planas, porém com contornos ondulados ou em ziguezague resultantes da presença de proeminências tonais em vogais átonas e ligaduras internas. Estas características marcam a entonação pré-linguística do espanhol falado por brasileiros.

6.1 Primeiro pico

Na maioria dos enunciados não se identifica o primeiro pico, porém em alguns deles é possível notar-se indícios de um primeiro pico, como no exemplo abaixo:

21

21 Figura 6: Sigo en contacto con ellos 6.2 Declinação Outra característica que foi possível observar

Figura 6: Sigo en contacto con ellos

6.2 Declinação

Outra característica que foi possível observar nos enunciados analisados foi a ausência de declinação uma vez que a maioria dos enunciados não apresenta primeiro pico. Em muitos se nota uma declinação muito plana com tendência a manter a altura tonal das primeiras sílabas, como se pode apreciar na figura 7.

a manter a altura tonal das primeiras sílabas, como se pode apreciar na figura 7. Figura

Figura 7: ¿Qué se llama Melissa?

22

6.3 Proeminências tonais em vogais átonas

22 6.3 Proeminências tonais em vogais átonas Figura 8: Yo trabajo contabilizando facturas de hoteles A

Figura 8: Yo trabajo contabilizando facturas de hoteles

A presença de proeminências tonais em vogais átonas ocorre em quase todos os enunciados analisados, parece ser um traço constante e característico da entonação pré- linguística do espanhol falado brasileiros, no contorno do gráfico da figura 8 apresenta-se um exemplo.

6.4 Ligaduras internas.

No corpus analisado ocorrem ligaduras tonais, ou seja, inflexões internas massivas, isto somado às proeminências das vogais átonas produz contornos ondulados, dando um efeito perceptivo de subida e baixada muito característico da interlíngua dos brasileiros.

contornos ondulados, dando um efeito perceptivo de subida e baixada muito característico da interlíngua dos brasileiros.

23

Figura 9: En el en el eh Brasil España.

7 Análise contrastiva

A partir da análise dos corpus em questão identificaram-se as seguintes características da entonação pré-linguística:

Espanhol

Espanhol falado por brasileiros

Primeiros picos em tônica ou átona posterior.

Ausência de primeiros picos

Corpo plano

Corpo descendente plano: variedades AN, CA y EX.

Contornos ondulados resultantes da presença de proeminências tonais em vogais átonas e ligaduras internas

Inflexões internas

Inflexão final (15%-120%); atenuada nas variedades meridionais.

Inflexão final atenuada

8

Conclusão

Partindo do princípio que a entonação pré-linguística inclui os fenômenos de acento, ritmo

e

entonação os quais funcionam de forma conjunta como componentes fônicos que estruturam

o

discurso, integrando e delimitando suas unidades, entende-se que a compreensão deste nível

é o ponto de partida para o estudo da entonação. Com respeito à entonação pré-linguística do espanhol falado por brasileiros verificou-se através da análise do corpus que na maioria dos enunciados não se detecta a presença de um primeiro pico no contorno entonativo, fato que indica que a organização dos grupos fônicos ocorre de forma distinta ao espanhol, apesar de que em algumas variedades dialetais percebe- se também este fenômeno. Quando se identificam indícios de primeiro pico, este não ocorre exatamente na primeira vogal tônica, e sim muitas vezes na vogal pré-tônica ou pós-tônica, porém não há uma regularidade em dito fenômeno. Ao não existir primeiro pico, não há declinação ao longo do enunciado, por isto percebem-se melodias muito planas, porém com contornos ondulados o em ziguezague resultantes da presença de proeminências tonais em vogais átonas e ligaduras internas.

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Estes traços melódicos como ausência de primeiro pico tonal ou localização diversa do utilizado no espanhol, ausência de declinação, manutenção da mesma altura tonal da enunciação, proeminências em segmentos átonos, inflexões internas e forma da inflexão final, determinam as características da entonação pré-linguística do espanhol falado por brasileiros.

Como resultado de dita entonação pré-linguística, entende-se que a organização do discurso dos brasileiros ao falar em espanhol é em parte distinta à organização do discurso dos nativos de língua espanhola. Fato que configura seu “perfil melódico” (Cantero & Devís, 2011) e caracteriza seu sotaque estrangeiro. No caso do espanhol falado por brasileiros, com nível avançado e em fala espontânea, a entonação pré-linguística apresenta as seguintes características:

- Ausência de primeiro pico tonal

- Ausência de declinação

- Corpos planos com tendência a manter a mesma altura tonal

- Contornos ondulados

- Contornos en ziguezague

- Proeminências tonais principalmente em vogais átonas

- Ligaduras internas massivas.

Todos os aspectos descritos no nível de entonação pré-linguística indicam que certos comportamentos lingüísticos são transferidos do português ao espanhol. Percebe-se que os fenômenos contemplados e analisados são frutos da transferência da entonação pré-linguística da L1, demonstram que se transfere a estruturação do discurso do português brasileiro ao espanhol. Além disso, muitas das características identificadas coincidem com os traços melódicos identificados como de cortesia para o espanhol, o que faz com que a interlíngua dos brasileiros seja associada à cortesia. Fato que inicialmente é positivo, porém podem dar-se situações em que estes “falsos amigos entonativos” produzam dificuldades na comunicação. Para combater os fenômenos de transferência faz-se necessário que os docentes e alunos levem em consideração as diferenças com relação à organização fônica entre a L1 e a língua meta, assim como as diferentes melodias conforme o uso pretendido, perguntar, afirmar, em fim, facilitando assim o processo comunicativo desde a perspectiva da complexidade, em seu amplo aspecto de produção, percepção, compreensão e mediação. O conhecimento trazido pela pesquisa pode servir como premissa para um ensino mais eficaz da pronunciação. Ao mesmo tempo, a compreensão de ditos fenômenos permitem-nos entender melhor os processos de desenvolvimento da aquisição fônica em línguas estrangeiras, assim como os elementos de transferência que atuam de uma língua a outra.

25

Como implicações didáticas resultantes da pesquisa vê-se que há de se entender pronunciação como língua oral, conceber a ideia de que falar aprende-se falando, deve-se focalizar o discurso, não os sons isolados e diminuir a mediação da leitura-escritura nos primeiros níveis de aprendizagem para que seja possível alcançar melhores níveis de aquisição fônica em uma língua estrangeira. É necessário iniciar uma competência oral na qual se desenvolvam estratégias de comunicação e se gerencie a aquisição em detrimento da instrução. Uma entonação adequada possibilita a elaboração de um discurso fluido e compreensível, e deve considerar-se um objetivo crucial no ensino da pronunciação.

9 Referências

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BALLESTEROS, M. La entonación del español del norte. Tesis doctoral inédita. Dep Filologia Hispànica. Universitat de Barcelona, 2011

BALLESTEROS, M., M. MATEO & F.J. CANTERO. “Corpus oral para el análisis melódico de las variedades del español”, Actas del XXXIX Simposio de la SEL, 2011

CANTERO, F. J. Teoría y análisis de la entonación. Barcelona: Edicions de la Universitat de Barcelona, 2002.

CANTERO, F.J. & E. DEVÍS.“Análisis melódico de la interlengua”. En Hidalgo, A.; Y. Congosto; M. Quilis (Eds.): El estudio de la prosodia en España en el siglo XXI: perspectivas y ámbitos (pp. 285-299). Valencia: Universitat de València, anexo da revista Quaderns de Filologia, 2011. CANTERO, F.J. & D. FONT-ROTCHÉS. “Entonación del español en habla espontánea:

patrones melódicos y márgenes de dispersión”, Moenia, núm. 13, 2007, pp. 69-92.

CANTERO, F.J. & D. FONT-ROTCHÉS. “Protocolo para el análisis melódico del habla”, Estudios de Fonética Experimental, núm. XVIII, 2009, pp. 17-32.

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26

FONSECA DE OLIVEIRA, A. “Rasgos melódicos de las interrogativas del español hablado por brasileños”, en Huelva, E. (ed.), Estudos do Espanhol, Brasília: Pontes, no prelo. FONSECA DE OLIVEIRA, A. & F.J. CANTERO. “Características da entonação do espanhol falado por brasileiros”. Anais do VII Congresso Internacional da ABRALIN. Curitiba, 2011, pp. 84-98. FONT-ROTCHÉS, D. L’entonació del català, Barcelona: Publicacions de l’Abadia de Montserrat,Biblioteca Milà i Fontanals, 2007, p.53. FONT-ROTCHÉS, D. & M. MATEO. “Absolute interrogatives in Spanish: a new melodic pattern”. Anais do VII Congresso Internacional da ABRALIN. Curitiba, 2011, pp. 1111-1125. LAHOZ, J. ”La enseñanza de la entonación, el ritmo y el tempo”. En Gil, Juana (Ed.). Aproximación a la enseñanza de la pronunciación en el aula de español. Madrid: Edinumen, 2012, pp. 93-132. MATEO, M. “Scripts en Praat para la extracción de datos tonales y curva estándar”, Phonica, 6, 2010, pp. 91-111; www.ub.edu/lfa. MATEO, M. La entonación del español meridional. Tesis doctoral en curso. Departamento de Didàctica de la LLengua i la Literatura. Universitat de Barcelona, en preparación. VV.AA. Análisis Melódico del Habla (AMH): 1999-2009. Biblioteca Phonica, 10. WWW.ub.es./lfa, 2009.

27

27 ALÇAMENTO DAS VOGAIS POSTÔNICAS MEDIAIS NO PORTUGUÊS SAPEENSE 1. Apresentação SILVA, André Pedro da (UFRPE)

ALÇAMENTO DAS VOGAIS POSTÔNICAS MEDIAIS NO PORTUGUÊS SAPEENSE

1. Apresentação

SILVA, André Pedro da (UFRPE) Pedroufpb@gmail.com

Há um grande número de regras fonológicas atuantes no sistema vocálico do Português Brasileiro (PB). Por vezes, estas regras são de natureza prosódica, fonotáticas ou morfológicas (BATTISTI e VIEIRA, 2005). E as vogais médias são quase sempre alvo destas regras fonológicas: ora alternando entre si, ora alternando com vogais altas. De acordo com estas regras, além do apagamento da vogal postônica medial entre as vogais médias e as vogais altas, os dados aqui trabalhados apontam para este efeito, o da alternância vocálica. Esta alternância ocorre quando o processo de apagamento não pode acontecer em determinadas situações, ou seja, quando a fonotática 5 da língua não permite a síncope, ou, então, quando outro processo fonológico atua em lugar dela, como é o caso do alçamento [das vogais médias à vogais altas], apontado como recorrente em palavras proparoxítonas por vários estudiosos do PB, como Câmara (1979), Amaral (1999), Bisol (1999, 2002), Battisti e Vieira (2005).

2. Variação das Vogais Médias

5 Regras fonotáticas são regras específicas de cada língua, que determinam as posições em que cada som ou sequências de sons pode aparecer, como por exemplo: na língua portuguesa é permitida a sequência BR (braço, branco, Brasil), mas não a sequência rb.

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Estudos linguísticos comprovam que as vogais postônicas mediais são passíveis de variação, como o processo de apagamento, este mais recorrente e em todo território brasileiro, como já apontam Amaral (1999), Silva (2006), Lima (2008), entre outros. Isso significa que há contextos em que este processo não ocorre, isto é, não apagam, abrindo possibilidades para a realização de outros processos variáveis. A variação, no âmbito das vogais médias, é uma característica marcante no PB, haja vista que estas vogais são palco de alguns processos variáveis, como o de alçamento, que resulta em neutralizações, e o de abertura. Em contexto postônico final, segundo Câmara Jr (2002 [1970]), o processo de alçamento atuaria plenamente devido a três segmentos:

- Arquifonema /I/, resultado da neutralização dos fonemas /ɛ/, /e/ e /ɪ/, como em:

árvore (árvor/ɛ/, árvor/e/ e árvor/ɪ/).

- Arquifonema /U/, proveniente da neutralização dos fonemas / /, /o/ e //: semáforo

(semáfor/ /, semáfor/o/ e semáfor//).

- Fonema /a/, como em: casa (cas/ɑ/).

Ainda segundo Câmara Jr (2002 [1970]), em relação ao contexto postônico medial, a neutralização só ocorreria entre as médias e a alta posteriores, mantendo-se a oposição entre /e/ e /i/, conforme acontece nas sílabas pretônicas, resultando, assim, em um quadro de quatro segmentos fonológicos. O nosso corpus tem um total de 3.590 ocorrências. Deste total, tem-se um número de 2.513 ocorrências que não sofreram o processo de apagamento da vogal postônica medial, como se vê na tabela que segue:

TABELA 1 – APAGAMENTO/PRESENÇA DA VOGAL POSTÔNICA MEDIAL

PROCESSOS

Aplicação/Total

%

Apagamento

1077/3590

30%

Presença

2513/3590

70%

Das 2513 ocorrências sem apagamento, tem-se um total de 1.987 dados de vogal média que não sofreu processo algum e 526 que apresentaram algum processo fonológico,

29

como: alçamento (fósf//ro), abertura (fósf/ /ro) ou mudança por uma outra vogal (fósf/ɛ/ro).

Para melhor entendimento de todos estes números, observe-se a tabela 2:

TABELA 2 – FENÔMENOS RECORRENTES À VOGAL MÉDIA POSTÔNICA

PROCESSOS

Aplicação/Total

%

Sem Processos

1987/2513

79%

Abertura

348/2513

14%

Alçamento

156/2513

6%

Mudança de Vogal

22/2513

1%

Input: 0.23

Significância: 0,008

No decorrer da pesquisa, à medida que se iam observando os resultados das rodadas e

após constatar que os processos acima mencionados faziam-se presentes nos dados da

pesquisa, levantavam-se em outras hipóteses, tais como:

– A abertura seria mais frequente que o alçamento, haja vista os falantes pessoenses usarem mais as vogais pretônicas abertas (HORA, 2004, p. 127). Se no uso pretônico é mais frequente haver abertura das médias, seria, nas postônicas, mais fácil ocorrer o processo de abertura em vez do de alçamento;

– O alçamento seria, embora menos frequente, bastante recorrente no falar sapeense, porém sendo de maior uso quando vogais labiais;

– Restrições de natureza social não condicionariam tais processos, tendo, estes motivações de natureza fonética.

Como a proposta deste trabalho é analisar os processos que ocorrem nos vocábulos

resistentes ao apagamento, em especial ao processo de alçamento exaustivamente, passar-se,

então a tal discussão.

3. O Processo de Alçamento nas Vogais Postônicas Mediais

Após observar os resultados expostos na Tabela 2, viu-se a necessidade de se estudar

separadamente os dois processos apontados. E para este trabalho, desenvolveremos apenas as

ideias concernentes ao alçamento da vogal postônica medial, deixando as demais

possibilidades para trabalhos futuros.

30

O processo de alçamento das vogais postônicas mediais não é tão recursivo no corpus

em estudo, como mostra a última tabela, já que, das 2513 palavras que não foram sincopadas,

518 destas tinham vogal postônica medial. E dessas, apenas 156 sofreram processo de

alçamento.

Na análise pelo pacote de programas estatístico VARBRUL, percebeu-se que foram

selecionadas quatro grupos de fatores como sendo relevantes no processo de alçamento das

vogais em análise. São elas, respectivamente de acordo com seu grau de relevância:

a. Traço de Ponto de Articulação da Vogal

b. Extensão da Palavra

c. Contexto Fonológico Precedente

d. Contexto Fonológico Seguinte

Como se vê, apenas os fatores linguísticos foram tidos como favoráveis ao processo de

alçamento das vogais médias postônicas. Deixando claro, mais uma vez, que os fatores

sociais em nada influenciam no processo em questão.

Depois de realizado o tratamento dos dados, chegou-se às seguintes conclusões acerca

de cada fator, seguindo, claro, a ordem em relação ao grau de relevância apresentado pelo

pacote de programas computacional.

a. Traço de Ponto de Articulação da Vogal

Este foi eleito mais relevante ao processo de alçamento das vogais postônicas mediais.

De acordo com os resultados, as vogais médias labiais, como: semáf/o/ro ~ semáf//ro,

tendem a sofrer mais o processo em estudo, com peso relativo de (.70), enquanto as vogais

médias coronais ficam com (.12), como em: núm/e/ro ~ núm/ɪ/ro. Para um melhor tratamento

acerca das vogais mediais, serão feitas outras rodadas dos dados: uma rodada só com as

vogais labiais e outra rodada só com as vogais coronais para se verificar melhor quais fatores

favorecem ao fenômeno de alçamento. Acredita-se que, com isso, poderão se estabelecer

melhor os motivos/fatores que levam tais vogais a alçarem.

b. Extensão da Palavra

Tida como o segundo fator relevante ao alçamento, a extensão da palavra aponta

como favoráveis ao processo as palavras com maior número de sílabas, como em agrôn/o/mo

31

~ agrôn//mo e fenôm/e/no ~ fenôm/ɪ/no, com peso relativo de (.34), e inibidoras as palavras

com menor número de sílabas, como em: pér/o/la ~ pér//la e núm/e/ro ~ núm/ɪ/ro; com (.85).

Segue a tabela 16 para melhor entendimento:

TABELA 3 – EXTENSÃO DA PALAVRA (Alçamento da vogal postônica medial)

EXTENSÃO DA

Aplicação/

%

PR

PALAVRA

Total

3 Sílabas

97/193

50%

.85

4 Sílabas ou mais

56/72

78%

.34

Input: 0.58

Significância: 0,006

O fator linguístico extensão da palavra também é apontado por Silva (2006) como

maior favorecedor do processo de apagamento da vogal postônica medial, sendo as palavras

com maior número de sílabas as em que mais ocorre síncope.

Assim, pode-se pensar que a velocidade de fala (não controlada nesta pesquisa, e nem

por Silva (2006)), tenha a ver com o fenômeno de apagamento, que Caixeta (1989) afirma

acontecer não só com falante analfabeto, como também com falante com alto grau de

escolarização, levando-se em consideração a velocidade, o que provou que, em estilos mais

rápidos, as proparoxítonas tendem a ser sincopadas. Logo, se a velocidade de fala interfere no

processo de apagamento, ela também pode interferir em outros processos, como é o caso do

alçamento, aqui apresentado.

c. Contexto Fonológico Precedente

O contexto fonológico precedente também foi tido como importante ao alçamento, já

que o pacote de programas computacional estatístico o selecionou, apontando como elemento

motivador do alçamento a líquida vibrante (.95), como por exemplo: pér/o/la ~ pér//la e

cér/e/bro ~ cér/ɪ/bro. Vale deixar claro que não se encontrou nenhum exemplo de alçamento

com contexto fonológico precedente oclusivo com vogal coronal.

Para melhor tratamento dos dados, será feita outra rodada dos dados, a fim de melhor

explicar os contextos mais relevantes para o alçamento da vogal em estudo, dividindo-as em

labial e coronal. Dessa forma, espera-se apontar quais vogais (labiais ou coronais) aceitam o

processo de alçamento com menor resistência.

32

Silva (2006) observou que, quando havia consoantes líquidas vibrantes, como

contexto fonológico precedente, as vogais postônicas mediais sofriam menos o processo de

apagamento. Essas consoantes, marcadas como contexto propício ao não apagamento, seriam

estas expostas a outros fenômenos, como o de alçamento.

d. Contexto Fonológico Seguinte

O alçamento foi mais propício quanto a este contexto e bastante recorrente sempre que

ocorria um contexto líquido vibrante (.74), após a vogal em estudo (abób/o/ra ~ abób//ra e

núm/e/ro ~ núm/ɪ/ro). Já com um contexto seguinte não vibrante, o alçamento foi menos

propício, com (.38), como em: agrôn/o/mo ~ agrõn//mo e fenôm/e/no ~ fenôm/ɪ/no.

Na pesquisa de Silva (2006) acerca do apagamento das vogais postônicas mediais,

apontou-se a líquida lateral como sendo a mais favorecedora ao processo de síncope. Logo,

era de ser esperar que ela estivesse envolvida em outro tipo de processo fonético/fonológico,

como é o de alçamento.

Visando a melhores respostas ao processo de alçamento da vogal postônica medial, foi

realizada uma segunda rodada, com as vogais separadas: em uma rodada expuseram-se as

vogais postônicas labiais e, em outra, as vogais postônicas coronais. Os resultados serão

comentados a seguir.

3.1 Alçamento das Vogais Postônicas Médias Labiais

Ao se observar o alçamento das vogais postônicas mediais, foi constatado que 156

palavras que apresentaram o processo em análise. A partir daí, dividiu-se este grupo em dois:

o das vogais mediais labiais e o das vogais mediais coronais. Após esta divisão, um total de

137 vocábulos, do grupo das vogais mediais labiais, foi exposto à análise pelo pacote de

programas estatístico VARBRUL.

Após o tratamento, VARBRUL apontou os seguintes fatores como os condicionadores

do alçamento das vogais médias labiais, seguindo o grau de relevância por ele apresentado:

a. Extensão da Palavra

b. Contexto Fonológico Precedente

c. Contexto Fonológico Seguinte

33

Como já falado, os fatores sociais em nada influenciam no processo de alçamento,

sendo, assim, deixados de lado pelo pacote de programas estatístico computacional

VARBRUL. Sabedor dos fatores que condicionam o processo em questão passa-se então à

análise dos dados.

a. Extensão da Palavra

O fator extensão da palavra foi considerado pelo programa como o mais relevante,

pois apontou as palavras com mais de três sílabas (.77) como favorecedoras do processo de

alçamento, e as palavras com apenas três sílabas (.38), as inibidoras do processo em questão.

A tabela abaixo mostra bem este resultado:

TABELA 4 – EXTENSÃO DA PALAVRA (Alçamento da vogal postônica média labial)

EXTENSÃO DA

Aplicação/

%

PR

PALAVRA

Total

4 Sílabas ou mais

47/53

89%

.77

3 Sílabas

90/132

68%

.38

Input: 0.79

Significância: 0,006

Acredita-se que a velocidade de fala interfere no processo de alçamento das vogais

postônicas medias labiais (agrôn/o/mo ~ agrôn//mo; abób/o/ra ~ abób//ra; semáf/o/ro ~

semáf//ro), assim como ele interfere no processo de apagamento (SILVA, 2006).

b. Contexto Fonológico Precedente Neste fator, ficou claro que a consoante líquida vibrante favorece o processo de

alçamento da vogal postônica medial labial, com peso relativo de (.99). Como se pode

observar, quase todos os vocábulos têm uma consoante líquida vibrante, precedendo a vogal

postônica medial labial, alçam. Das 31 ocorrências com o contexto apresentado acima, 29

alçaram, porém todas as ocorrências referem-se a um só vocábulo: pér/o/la ~ pér//la.

O segundo contexto considerado pelo pacote de programas estatístico computacional

foi o de consoante oclusiva, com peso relativo de (.63), em palavras do tipo: abób/o/ra ~

abób//ra; paráb/o/la ~ paráb//la; agríc/o/la ~ agríc//la; cóc/o/ra ~ cóc//ra.

34

O VARBRUL aponta a consoante nasal como sendo o contexto com menor influência

para o alçamento das vogais postônicas mediais labiais, com (.18). Como exemplo, podem-se

citar: agrôn/o/mo; côm/o/da.

Para melhor observação e entendimento do processo de alçamento, em relação às

vogais postônicas mediais labiais, observe-se a tabela 20.

TABELA 5 – CONTEXTO FONOLÓGICO PRECEDENTE (Abertura da vogal postônica média coronal)

CONTEXTO

     

FONOLÓGICO

Aplicação/

%

PR

Total

PRECEDENTE

Líquida Vibrante

29/31

94%

.99

Oclusiva

12/20

60%

.63

Fricativa

50/65

77%

.28

Nasal

45/67

67%

.18

Input: 0.79

Significância: 0,006

Observando a tabela acima, nota-se perceber que os contextos que têm maior

frequência são os que têm fricativa e nasal como contexto fonológico precedente, com 77% e

67%, respectivamente. Embora tenham menor frequência, as líquidas vibrantes e as oclusivas,

mantêm-se como as condicionadoras do processo de alçamento das vogais postônicas mediais

labiais.

c. Contexto Fonológico Seguinte Do último fator relevante no processo de alçamento das vogais postônicas mediais

labiais, o VARBRUL aponta para a consoante líquida vibrante (.76) como sendo o mais

favorável ao processo em questão, como em: abób/o/ra ~ abób//ra; semáf/o/ro ~ semáf//ro;

fósf/o/ro ~ fósf//ro, e a consoante líquida lateral como a que menos aceita o processo de

alçamento, apresentando-se com peso relativo de (.04).

TABELA 6 – CONTEXTO FONOLÓGICO SEGUINTE (Alçamento da vogal postônica média labial)

35

CONTEXTO

     

FONOLÓGICO

Aplicação/

%

PR

Total

SEGUINTE

Líquida Vibrante

60/75

80%

.76

Não líquidas

47/68

69%

.69

Líquida Lateral

30/42

71%

.04

Input: 0.79

Significância: 0,006

A tabela acima mostra que, embora tenha o menor peso relativo, a líquida lateral tem

um bom número de ocorrências. Convém enfatizar que, das 42 ocorrências que envolvem a

líquida lateral como contexto precedente a vogal postônica medial labial, todas são referentes

à palavra: pér/o/la ~ pér//la.

3.2 Alçamento das Vogais Postônicas Médias Coronais

Do total de 156 palavras, que apresentaram mudança fônica das vogais, apenas 23

eram médias coronais. Após tratamento, pelo programa estatístico computacional

VARBRUL, alguns fatores foram selecionados como importantes no processo de alçamento

das médias coronais, a saber:

a. Extensão da Palavra

b. Contexto Fonológico Precedente

a. Extensão da Palavra Este fator foi selecionado como o mais relevante no processo em estudo. Isso

demonstra que a extensão da palavra é fator realmente importante no alçamento das vogais

médias postônicas coronais.

TABELA 7 – EXTENSÃO DA PALAVRA (Alçamento da vogal postônica média coronal)

EXTENSÃO DA

Aplicação/

%

PR

PALAVRA

Total

4 Sílabas ou mais

15/25

60%

.75

36

3 Sílabas

8/63

13%

.39

Input: 0.15

Significância: 0,009

O resultado, mais uma vez leva a caracterizar as palavras com o maior número de sílabas como as mais propícias ao alçamento, como em: helicópt/e/ro ~ helicópt/ɪ/ro, fenômeno ~ fenôm/ɪ/no e termôm/e/tro ~ termôm/ɪ/to, assim como ocorreu com as médias labiais em relação ao alçamento. Nas coronais, o peso relativo é de (.75), quase o mesmo valor referente às labiais, que foi de (.77). Com pesos relativos bastante próximos, tanto as labiais, quanto as coronais, mostram- se suscetíveis ao alçamento, sempre que a palavra tiver mais de três sílabas. Com apenas três sílabas, está tenderá a não sofrer tal processo.

b. Contexto Fonológico Precedente

Presente em todos os processos, tanto no de alçamento, quanto no de abertura da vogal postônica média, independentemente de esta vogal ser labial ou coronal, o contexto fonológico precedente apresenta-se como sendo um fator bastante importante nos processos mencionados. De acordo com os resultados obtidos, a consoante que mais propicia o alçamento nas vogais postônicas médias coronais é a líquida vibrante (.85) - cér/e/bro ~ cér/ɪ/bro -, seguida da nasal (.77) - núm/e/ro ~ núm/ɪ/ro -, da obstruinte (.38) - helicópt/e/ro ~ helicópt/ɪ/ro-, e da fricativa (.19) - pêss/e/go ~ péss/ɪ/go.

TABELA 24 – CONTEXTO FONOLÓGICO PRECEDENTE (Alçamento da vogal postônica média coronal)

CONTEXTO

     

FONOLÓGICO

Aplicação/

%

PR

Total

PRECEDENTE

Líquida Vibrante

2/3

40%

.85

Nasal

19/39

49%

.77

Oclusiva

1/7

14%

.38

Fricativa

1/37

3%

.19

Input: 0.15

37

Significância: 0,009

Nota-se, aqui, que os resultados são relevantes até certo ponto, pois a frequência das ocorrências não dá muita concretude aos resultados. O programa estatístico computacional aponta para a nasal como sendo a maior motivadora do processo de alçamento, mas, observando-se mais atentamente, são apenas dois alçamentos em três ocorrências. É muito pouco para se dizer que esse, realmente, é o principal causador do processo em questão. Um fator bastante relevante diz respeito à nasal, já que aparece com 39 ocorrências, sendo que em 19 delas, ocorre alçamento, o que significa que a metade dos alçamentos ocorreu quando o contexto fonológico precedente à vogal postônica medial coronal era uma consoante nasal, em um total de 49%. As oclusivas e fricativas não parecem ser também tão relevantes, haja vista que ambas são contexto num pequeno número de ocorrências. As oclusivas apresentam um alçamento em sete; e as fricativas, uma ocorrência em 37. Logo, não podem dar um parâmetro preciso do alçamento em vogais postônicas médias coronais. Sendo assim, pode-se afirmar que as nasais são as grandes motivadoras do processo de alçamento da vogal em estudo.

4. Regra de Alçamento das Vogais Postônicas Médias Sapeenses

Há um grande número de regras fonológicas atuantes no sistema vocálico do PB. Por vezes, estas regras são de natureza prosódica, fonotáticas ou morfológicas (BATTISTI e VIEIRA, 2005). E as vogais médias são quase sempre alvo destas regras fonológicas: ora alternando entre si, ora alternando com vogais altas. De acordo com estas regras, além do apagamento da vogal postônica medial entre as vogais médias e as vogais altas, os dados aqui trabalhados apontam também para este efeito, o da alternância vocálica. Esta alternância ocorre quando o processo de apagamento não pode acontecer em determinadas situações, ou seja, quando a fonotática 6 da língua não permite a síncope, ou, então, quando outro processo fonológico atua em lugar dela. É o caso da

6 Regras fonotáticas são regras específicas de cada língua, que determinam as posições em que cada som ou sequências de sons pode aparecer, como por exemplo: na língua portuguesa é permitida a sequência BR (braço, branco, Brasil), mas não a sequência RB.

38

neutralização, apontado como recorrente em palavras proparoxítonas por vários estudiosos do PB, como Câmara (1979), Amaral (1999), Bisol (1999, 2002), Battisti e Vieira (2005). Câmara Jr (1979, p. 44) define o sistema vocálico do PB na posição medial como sendo formado por quatro segmentos. Segundo o autor, há uma neutralização para a posição postônica, que se dá apenas entre o /o/ e o /u/, não passando de mera convenção ortográfica sua grafia ora com e, ora com i. No entanto, em análise dos dados da cidade de Sapé, percebeu-se que a sistematização do quadro vocálico para a posição da postônica medial é composto por cinco vogais. Embora seja real a presença dos processos fonológicos nessas vogais (como o de abertura e o de alçamento das vogais /e/ e /o/ postônicas não finais), estes processos apresentam um comportamento variável entre a aplicação e a não aplicação. Dessa forma, têm-se não apenas quatro segmentos vocálicos postônicos mediais, como proposto por Câmara Jr (1979), na variedade sapeense, mas um quadro simétrico de cinco vogais postônicas mediais, como em (1).

(1)

altas

/u/

/i/

médias

/o/

/e/

baixa

/a/

Para melhor entendimento, o quadro abaixo apresenta alguns exemplos das formas com vogais postônicas mediais presentes no dialeto sapeense:

QUADRO 1 – FORMA BASE DAS VOGAIS POSTÔNICAS NÃO FINAIS NO DIALETO SAPEENSE

Postônica Não Final

Português Brasileiro

Dialeto Sapeense

I

música

mús[i]ca

E

pêssego

pêss[e]go

A

pétala

pét[a]la

O

agrônomo

agrôn[o]mo

U

círculo

círc[u]lo

39

A partir do quadro acima, fica evidente a presença de processos fonológicos como o de abertura e o de alçamento das vogais postônicas mediais, como expresso no quadro a seguir:

QUADRO 2 – PROCESSOS DE ABERTURA E ALÇAMENTO NO DIALETO SAPEENSE

Postônica Não Final

Estilo Formal

Abertura

Alçamento

 

Fenômeno

fenôm[ɛ]no 7

fenôm[i]no

e

Pêssego

pêss[ɛ]go

pêss[i]go

Número

núm[ɛ]ro

núm[i]ro

 

Abóbora

abób[ ]ra

abób[u]ra

o

Árvore

árv[ ]re

árv[u]re

Pérola

pér[ ]la

pér[u]la

A literatura já aponta para fenômenos recorrentes com vogais médias postônicas não finais. De acordo com Amaral (1999), no litoral sul do Brasil, é evidente a variação de /o/ e /u/ e de /e/ e /i/, pois, naquela comunidade linguística, se diz (fósforu ~ fósfuru), (númeru ~ númiru), (alfândega ~ alfandiga), (hipótese ~ hipótise), indicando que, em alguns dialetos, o sistema postônico não final é o mesmo das pretônicas, ou seja, um sistema de cinco vogais. Esta posição também é defendida por Vieira (1997), quando ela refere:

Apesar de as análises existentes sobre a neutralização na posição postônica não

final centrarem-se somente na vogal /o/, pode-se constatar que a vogal /e/

também sofre elevação: núm[i]ro, prót[i]se, sínt[i]se, cóc[i]ga. No entanto, a

vogal é preservada em contextos tais como vésp[e]ra, câm[e]ra, úlc[e]ra. O que

se observa em relação à vogal /e/ na posição postônica não final é o fato de ela se

realizar ora como /e/ ora como /i/, não havendo, aparentemente, um contexto que

propicie ou bloqueie a elevação. No entanto, /e/ difere de /o/, porque a elevação

de /o/ ocorre com mais facilidade. (VIEIRA, 1997, p. 102)

7 É importante enfatizar que as palavras com contexto precedente nasal e/ou vogal tônica fechada tendem (não obrigatoriamente) a não sofrer processos fonológicos, embora algumas poucas palavras com contexto precedente nasal e vogal tônica fechada, sofram algum tipo de processo, tanto o de alçamento, quanto o de abertura.

40

Wetzels (1992) reinterpreta o sistema vocálico do PB de Câmara Jr (1979) e propõe uma regra que neutraliza a oposição entre /o/ e o /u/ na posição postônica não final da seguinte forma:

(2) Regra de neutralização da postônica não final

Domínio: pé métrico

X

vocoide

[+ab 2 ] [labial]
[+ab 2 ]
[labial]

Logo, é o pé o domínio da regra de neutralização da postônica medial proposto por Wetzels. A partir dessa regra, entende-se que, nas palavras marcadas por um acento excepcional, que é o caso das proparoxítonas, a última sílaba é considerada extramétrica, porquanto fica fora da formação do pé. Seguindo este raciocínio, pode-se entender que o pé troqueu mórico de cabeça à esquerda é formado e a sílaba à direita torna-se um elemento fraco, como em [zi] na palavra música, em que o pé tem duas sílabas leves [mu.zi]. Esta regra, proposta por Wetzels (1992), aplica-se à vogal labial do membro débil do pé métrico. Ao retirar o traço [+ab 2 ], a diferença entre as vogais médias e as vogais altas é eliminada, favorecendo a vogal alta, como nos exemplos mostrados em (2). Bisol (2003) afirma que este processo de neutralização, apresentado por Câmara Jr (1979) e reinterpretado por Wetzels (op. cit), cria uma assimetria no subsistema de vogais postônicas mediais, desfazendo a assimetria inerente a todas as línguas naturais. No entanto, propõe a hipótese de que as vogais postônicas mediais têm status flutuante entre o subsistema das átonas finais e das pretônicas, encontrando-se, desse modo, a grade de vogais flutuantes entre três e cinco segmentos. Esta ideia de flutuação da postônica não final em direção ao subsistema das vogais pretônicas é justificada por meio de dois argumentos propostos pela referida autora, a saber:

41

1. Há, nos dialetos da região sul, manifestações de alternâncias vocálicas como as seguintes: fósforo ~ fósfuro, abóbora ~ abóbura, alfândega ~ alfândiga, epêntese ~ epêntise, córrego ~ córrigo, prótese ~ prótise. Alternâncias estas que, por si, levam por terra a hipótese de Câmara Jr., pois indicam a presença do fonema Ĭ em posição postônica não final. 2. É possível relacionar, assim como no subsistema de vogais pretônicas, vogais neutralizadas a vogais preservadas (por derivação), como nos exemplos: perolar < pérula ~ pérola; fosforear < fósfuro ~ fósforo; alfandegário < alfândiga ~ alfândega (BISOL, 2003, p. 280).

Tomando por base a ideia de que a última sílaba é extramétrica em palavras proparoxítonas, fora da formação do pé, pode-se entender que o pé trocaico mórico de cabeça à esquerda se forma e, de acordo com Amaral (1999), a sílaba à direita torna-se o elemento fraco, como (bo) na palavra abóbora, em que o pé tem duas sílabas leves (bobo); e (fo) em fósforo, que está fora do pé. Como bem observou Amaral (1999, p. 88), a aplicação da regra de neutralização da vogal postônica não final:

tem: como alvo a vogal labial do membro fraco do pé métrico e, ao desligar o traço [+aberto2], elimina a diferença entre vogais médias e vogais altas, favorecendo a vogal alta: fósf[u]ru, árv[u]ri, mét[u]du.

Ao analisar um corpus com cerca de 100 palavras proparoxítonas não derivadas com

/o/ na posição postônica medial, Vieira (1997) observa que, em alguns contextos de vogal postônica não final, a elevação da vogal medial labial é bloqueada, como em cócoras e ágora.

A autora também mostra que há outros contextos em que o alçamento da vogal média labial à

vogal alta labial é favorecido: abóbora ~ abób[u]ra e ídolo ~ íd[u]lo. Segundo a autora, isso

indica que o contexto adjacente é responsável pelo processo de alçamento. Ela observou também que este alçamento de [o] para [u] ocorre, preferencialmente, depois de uma consoante labial, como em árvore ~ árv[u]re e época ~ ép[u]ca. O corpus utilizado nesta pesquisa revelou a presença de alguns processos inerentes à

vogal postônica medial, como apresentados e exemplificados no quadro 2. Com isso observa-

se que, em vez de se ter uma neutralização, tem-se uma redução variável, com o maior uso de

regras de abertura e, em proporção menor, o de regras de alçamento. Esta redução se mostra frequente tanto nas vogais postônicas mediais labiais quanto nas mediais coronais. Vale frisar

42

que não há um contexto específico que engatilhe ou bloqueie os processos fonológicos que ocorrem nas vogais mediais, como exposto acima. É importante lembrar que é a vogal média labial [o] é a maior responsável pelo processo de alçamento nas vogais postônicas mediais (.83), fazendo com que [o] passe a [u], como em: pérola ~ pér[u]la; árvore ~ árv[u]re; semáforo ~ semáf[u]ro. Um contexto propício ao alçamento é o contexto fonológico precedente. Observou-se que, quando há uma consoante líquida vibrante (.74), o processo de alçamento torna-se mais usual. Vieira (1997) e de Amaral (1999), não apontaram nenhum contexto que engatilhasse ou travasse o processo de elevação. Mas, tanto nesta pesquisa, quanto na pesquisa das autoras acima mencionadas, o processo de elevação do [o] ocorre mais frequentemente 8 . Cabe aqui, então, a apresentação de um ajuste da regra (2), já que Câmara Jr. aponta a labial como sendo alvo da neutralização, tomando por base o trabalho no dialeto carioca 9 . Assim, após os estudos aqui apresentados, conclui-se que esta regra não se aplica ao uso linguístico sapeense, dada a variedade existente entre a aplicação do processo de abertura e do de alçamento no dialeto em questão. Em relação ao processo de alçamento das vogais aqui em estudo, pode-se comprovar que o fenômeno ocorre quando há, como contexto fonológico precedente, uma líquida vibrante (.74) ou uma nasal (.67). O quadro que segue confirma essa assertiva:

QUADRO 4 – ALÇAMENTO DAS VOGAIS POSTÔNICAS MEDIAIS

Postônica Não Final

Estilo Formal

Alçamento

 

fenômeno

fenôm[i]no

e

número

núm[i]ro

termômetro

termôm[i]to

 

cômoda

côm[u]da

o

pérola

pér[u]la

8 Como no sul do país o processo de abertura não é tão frequente como no Nordeste, é normal que as autoras não tenham encontrado (se é que foi observado) tal processo nessas vogais. Em contrapartida, o processo de alçamento seria mais fácil para elas controlarem, já que este é um fenômeno mais recorrente naquela região.

9 Mesmo não sendo esta uma pesquisa sociolinguística, mas apenas de caráter observacional.

43

agrônomo agrôn[u]mo

agrônomo

agrôn[u]mo

Assim, com base nos dados aqui em estudo, é possível afirmar que a regra variável para o alçamento da vogal postônica não final em Sapé-PB é a seguinte:

(3)

V

- alto

- baixo

não final em Sapé-PB é a seguinte: (3) V - alto - baixo + alto 

+ alto

final em Sapé-PB é a seguinte: (3) V - alto - baixo + alto  /N/

/N/

Pode-se perceber que sofreram menos algum tipo de processo as palavras que tinham, em sua estrutura, uma vogal fechada como tônica, o que só corrobora a ideia de que, quando houver uma vogal aberta tônica, haverá a possibilidade de uma vogal postônica não final aberta; e quando houver uma vogal tônica fechada, a possibilidade de uma postônica não final também ficará fechada, como mostra o quadro abaixo:

QUADRO 5 – MANUTENÇÃO DAS VOGAIS POSTÔNICAS MEDIAIS

Postônica Não Final

Estilo Formal

Abertura

 

pêssego

pêss[e]go

e

Fenômeno

fenôm[e]no

termômetro

termôm[e]tro

o

Cômoda

côm[o]da

Agrônomo

agrôn[o]mo

44

A partir do exposto acima, é possível afirmar que:

a. A vogal postônica medial apenas sofrerá processo de alçamento quando houver uma líquida vibrante 10 ou uma oclusiva nasal como consoantes precedentes.

Conclusão

O processo de alçamento das vogais postônica não finais ocorreu em uma proporção

de 156/2513 das palavras em que não sofreram o processo de apagamento. Depois de rodada

no programa computacional VARBRUL concluiu-se que o processo de alçamento ocorre,

tanto em vogais labiais /o/, quanto em vogais coronais /e/ a partir do fator extensão da

palavra.

Isso significa que, em palavras com mais de quatro sílabas, o alçamento é mais

recorrente, independentemente da vogal postônica não final, como vogais labiais: agrôn/o/mo

> agrôn//mo; semáf/o/ro > semáf//ro, com (.77); e vogais coronais termôm/e/tro >

termôm/ɪ/tro; fenôm/e/no > fenôm/ɪ/no (.75). Dessa forma, as que têm três sílabas, são menos

propícias ao alçamento, o que não implica dizer que não podem sofrer um outro tipo de

processo, como o de abertura, acima comentado.

Um segundo fator que favorece o alçamento tanto da vogal labial quanto da coronal

postônica não final é o contexto fonológico precedente, em que a líquida vibrante é a maior

influenciadora das labiais, com um total de 94% das ocorrências, como em: pér/o/la >

pér//la; e as nasais, como as maiores favorecedoras das vogais coronais, com um total de

49%, como por exemplo: agrôn/o/mo > agrôn//mo.

A partir do exposto acima, é possível formalizar a seguinte regra de domínio do pé

métrico para as vogais postônicas mediais na variedade linguística sapeense:

(4)

Domínio: pé métrico

X

10 Quando há uma líquida vibrante como, consoante posterior, a vogal postônica não final também sofre o processo de alçamento, mas isso só ocorre com o vocábulo número, por isso, não foi considerado na regra.

45

vocoide [ ] [+ab 2 ] [-ab 3 ]
vocoide
[
]
[+ab 2 ]
[-ab 3 ]

Os símbolos [ ] significam alçamento variável da vogal em estudo; e onde a desassociação acarreta apagamento. Logo, o quadro proposto por Câmara Jr. (49) não terá o mesmo valor na variedade da cidade de Sapé. Portanto, o quadro apresentado por Câmara Jr. passará a um quadro simétrico de cinco vogais postônicas não finais:

(5)

altas

/u/

/i/

médias

/o/

/e/

baixa

/a/

passível de variação nas vogais médias:

(6)

altas

/u/

/i/

médias altas

/o/

/e/

médias baixas

/ /

/ɛ/

baixa

/a/

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48

48 AS VOGAIS MÉDIAS PRETÔNICAS E POSTÔNICAS NÃO FINAIS NA ORALIDADE DE MONTES CLAROS/MG: UM CASO

AS VOGAIS MÉDIAS PRETÔNICAS E POSTÔNICAS NÃO FINAIS NA ORALIDADE DE MONTES CLAROS/MG: UM CASO DE DIFUSÃO LEXICAL

1. INTRODUÇÃO

Patrícia Goulart Tondineli UNIMONTES/FAPEMIG

Diversos fenômenos fonológicos do Português do Brasil (PB) têm suscitado grande número de

indagações e, por conseguinte, uma produção científica crescente. Um desses fenômenos, objeto deste estudo, é

o comportamento das vogais médias /e/ e /o/ em posição pretônica e postônica (não final), o qual será

investigado no português falado em Montes Claros/MG.

A cidade de Montes Claros, situada na região Norte do estado de Minas Gerais, possui 352.384

habitantes (IBGE, 2007) e, diante de seus 171 anos de história, destaca-se como polo cultural na região norte

mineira e regional na rede de ensino. Além disso, é polo regional econômico e de saúde, sendo referência às

demais cidades da região e, até mesmo, ao extremo sul da Bahia.

Para Antenor Nascentes, em seu Bases para a elaboração de um Atlas linguístico do Brasil, Montes Claros encontra-se na zona do subfalar baiano, o qual teria como uma de suas características a “predominância das vogais pretônicas baixas, como [ɔh’vaʎu], [sεrẽnu]” (MARTINS, 2006, p. 03-4). Conforme nossa amostra, o que encontramos, entretanto, é um sistema complexo no que diz respeito ao comportamento das vogais médias /e, o/ em posição pretônica e postônica não final, o que nos dá, pois, um quadro diferente daquele postulado por Nascentes.

Além disso, encontramos realizações indicativas de um fenômeno de natureza difusionista, sendo que a variação das vogais médias, seja em posição pretônica ou postônica não final, é, pois, um processo controverso, afinal, ocorre em determinados contextos em um item lexical e, em outro item, sob os mesmos contextos, não ocorre, ou seja, a variação não é uniforme. Assim, tomamos a variação como um processo heterogêneo que possui o léxico como o seu lócus, estando, também, intimamente relacionada ao status social de um determinado item (VIEGAS, 2001).

49

2 O COMPORTAMENTO DAS VOGAIS MÉDIAS /E, O/

Para o PB, conforme nos diz Câmara Jr. (2007, p. 40), é a intensidade sonora (tonicidade) que

constitui a “posição ótima” para a caracterização das vogais. Assim sendo, tomando a questão da tonicidade

como parâmetro, podemos verificar, no PB, três quadros de vogais átonas: (1) vogais pretônicas /u, o, a, e, i/; (2)

vogais postônicas não finais /u, a, e, i/; (3) vogais átonas finais, diante ou não de /s/ no mesmo vocábulo, /u, a, i/.

Neste estudo, interessou-nos apenas os dois primeiros quadros, para os quais foram selecionados 9.149 dados da

amostra, submetidos ao programa GOLDVARB 2001 e interpretados a seguir.

2.1 As vogais médias pretônicas

No Brasil, diferentemente de Portugal 11 , “a posição pretônica apenas neutraliza, ou suprime, a

oposição de dois graus nas vogais médias.” (CÂMARA JR, 2002, p. 24). A oposição entre /e, i/ e /o, u/

pretônicos, no Brasil, é, comparativamente com o português europeu, “funcionalmente pobre, porque a vogal alta

se substituiu à vogal média correspondente, na pronúncia usual, para a maior parte dos vocábulos que têm vogal

alta na sílaba tônica” (CÂMARA JR, 2002, p. 24), como em comprido, homófono de cumprido, ou c[u]ruja,

m[i]nino. Entretanto, nos alerta que há certa “flutuação dentro do sistema, que atrofia ou hipertrofia elementos

dele” (CÂMARA JR, 2007, p.45).

O quadro das pretônicas proposto pelo autor nos dá conta, então, da redução do sistema vocálico

de 7 para 5 vogais em posição pretônica, onde o traço distintivo que separa em duas unidades /e/ e /ε/, assim

como /o/ e /ɔ/, é perdido (CÂMARA JR, 2007). Já Thaís Cristófaro-Silva (2005) nos fala que a ocorrência das

vogais pretônicas [, ], no PB, é sujeita a certas categorias específicas, que ocasiona marca de variação dialetal

ou mesmo de idioleto.

Assim, podemos dizer que há quatro fenômenos fonológicos que dizem respeito ao

comportamento das vogais médias em posição pretônica: manutenção da vogal média fechada, neutralização,

abaixamento e alçamento.

2.1.1 O comportamento variável pretônica /e/

Gráfico 1

Percentual de ocorrência das variantes da variável /e/

11 Em Portugal, /e/ e /o/ são decorrentes de processos diacrônicos e, portanto, só ocorrem em uma parcela muito pequena do vocabulário, tornando-se, assim, um quadro extremamente complexo (CÂMARA JR, 2002).

50

Pretônica (e)

Rebaixamento

1% Alçamento 28% Manutenção 71%
1%
Alçamento
28%
Manutenção
71%

Fonte: Dados da pesquisa

Como podemos observar, a manutenção da variável /e/, em posição pretônica, prevalece entre os falantes montesclarenses. O percentual de 1% de rebaixamento aponta para uma das hipóteses iniciais deste trabalho: que o falar de Montes Claros não é mais caracterizado pela realização da vogal baixa [ε], tal como nos indicava Antenor Nascentes ao colocar esta cidade dentro do subfalar baiano em sua divisão dialetal.

2.1.1.1 Alçamento do /e/ pretônico

Dos 5.078 dados coletados, 1.413 referem-se ao alçamento de /e/ em posição pretônica e 3597 à sua realização como [e]. Mesmo tendo sido selecionados pela rodada stepping up, a exclusão dos grupos de fatores extralinguísticos pela stepping down, além da pouca diferença entre os pesos relativos, sugere um processo de natureza difusionista, afinal, como nos diz Labov (1981, p. 296), os fatores não estruturais não condicionam processos fonológicos sujeitos à difusão lexical. Pudemos verificar que a regra de harmonização vocálica, proposta em vários estudos como

justificativa para o alçamento da pretônica /e/, não se sustenta confortavelmente, pois vemos [o, ] como

favorecedores do processo quando em contexto de sílaba seguinte (como em m[i]lh[]re e m[i]lh[o]rou). Além disso, a insensibilidade ao estilo de fala, a heterogeneidade idioletal e a exclusão dos grupos de fatores sociais pelo VARBRUL nos indicam que o processo de alçamento da variável /e/, em posição pretônica, possui natureza difusionista, como já dito anteriormente. Sintetizando, temos, em relação ao alçamento do /e/ pretônico, os seguintes elementos

favorecedores: [, o, u, i] como vogais da sílaba seguinte; ausência de vogal na sílaba precedente; vogais, fricativas e nasais em contexto fonológico seguinte; vogais, nasais e ausência de contexto fonológico precedente; átona permanente; distâncias 1 e 2 da sílaba tônica; variável nasal; verbos e palavras compostas; fala informal; 10 informantes; faixa etária de 15 a 30 anos e de mais de 50 anos; classe média.

2.1.1.2 Rebaixamento do /e/ pretônico

Dos 5.078 dados coletados, 68 referem-se ao rebaixamento da variável /e/ em posição pretônica e 3597 à manutenção da variável pretônica /e/.

51

Aqui, as variantes [i, e], em vogal da sílaba seguinte, são favorecedoras do processo de rebaixamento da variável pretônica /e/, o que não condiz com uma análise em termos de harmonização vocálica

(como em s[]rv[i]co e am[]r[i]cano). Pudemos verificar, também, que os casos expostos encaixam-se, em sua quase totalidade, nas categorias propostas por Cristófaro-Silva (2005). Entretanto, ocorrências como

am[]ricano indicam processo difusionista, pelo fato de não se encaixar em nenhuma das grupos específicos para o alçamento das variáveis [e, o] indicados pela autora. Também como indicativo de difusão lexical tem-se a insensibilidade do fenômeno aos grupos de fatores extralinguísticos. Sintetizando, temos, em relação ao rebaixamento do /e/ pretônico, os seguintes elementos

favorecedores: [, e, i] como vogais da sílaba seguinte; [, o, u], [a] e ausência de vogal na sílaba precedente; lateral, fricativas e nasais em contexto fonológico precedente; oclusivas e tepe em contexto fonológico seguinte; nomes e palavras compostas; 1º e 2º graus de escolaridade.

2.1.2 O comportamento da variável pretônica /o/

Assim como vimos em relação à variável /e/, a manutenção da variável pretônica /o/ também se sobressai no falar de Montes Claros, em detrimento do alçamento – 14% - e do rebaixamento – 4%. Ainda em comparação com a variável /e/ em posição pretônica, verificamos que o rebaixamento de /o/ é maior do que o de /e/; por outro lado, o alçamento de /o/ é inferior ao da variável pretônica /e/.

Gráfico 2

Percentual de ocorrência das variantes da variável /o/

2 Percentual de ocorrência das variantes da variável /o/ 2.1.2.1 Alçamento do /o/ pretônico Fonte: Dados

2.1.2.1 Alçamento do /o/ pretônico

Fonte: Dados da pesquisa

Dos 3.299 dados coletados, 462 referem-se ao alçamento da variável /o/ em posição pretônica e 2.704 à manutenção da variável /o/. A ausência de diferenças significativas entre os três fatores que compõem o grupo grau de escolaridade, bem como a eliminação deste grupo pela rodada stepping down e a exclusão dos grupos faixa etária e classe social, nos mostra que os fatores extralinguísticos não são relevantes para o

52

alçamento da variável /o/ em posição pretônica, o que reforça a visão de que o fenômeno é difusionista (conf. LABOV, 1981, p. 296). Sintetizando, temos, em relação ao alçamento do /o/ pretônico, os seguintes elementos

favorecedores: [, e, i, u] como vogais da sílaba seguinte; vogais, semivogais, oclusivas e fricativas em contexto fonológico precedente; vogal/semivogal, fricativas e nasais em contexto fonológico seguinte; átona permanente; distância 1 da sílaba tônica; verbos, variável em posição inicial; 6 informantes; 1º e 2º graus de escolaridade.

2.1.2.2 Rebaixamento do /o/ pretônico

Dos 3.299 dados coletados, 133 referem-se ao rebaixamento da variável /o/ em posição pretônica e 2.704 à manutenção da variável /o/. Observamos, através da análise dos dados, que a probabilidade de ocorrência de rebaixamento da pretônica /o/ no dialeto montesclarense é inversamente proporcional à faixa etária, isto é, quanto menor a faixa etária, maior a aplicação da regra variável de rebaixamento. Tais dados apontam para uma mudança em tempo real, na qual a possibilidade de rebaixamento aumenta à medida que a idade diminui, pressupondo ser o rebaixamento um fenômeno em vias de progressão. Além disso, a pouca probabilidade de ocorrência do fenômeno nos falantes acima de 50 anos pode vir a ser indicativo de uma das hipóteses deste trabalho: a ocorrência de vogais médias baixas, que englobando a região no subfalar baiano, não é, até então, característica do dialeto montesclarense. Afinal, pressupõe-se que os falantes mais velhos se encaixariam na pesquisa que resultou o Bases para a elaboração de um Atlas linguístico do Brasil, de Antenor Nascentes, cujas edições datam de 1958 e 1961. Em relação ao rebaixamento da variável /o/, em posição pretônica, verificamos que, assim como em relação ao alçamento, o comportamento do fenômeno em /e/ e em /o/ é variável, tendo em vista que em cada uma das variáveis há peculiaridades. A seleção de apenas um dos grupos de variáveis não estruturais nos mostra que o fenômeno em estudo não é sensível a fatores extralinguísticos, o que é indicativo de difusão lexical. Sintetizando, temos, em relação ao rebaixamento do /o/ pretônico, os seguintes elementos

favorecedores: [, o, u, i, e, ] como vogais da sílaba seguinte; fricativas, nasais e lateral em contexto fonológico precedente; lateral, fricativas e oclusivas em contexto fonológico seguinte; átona permanente; variável em posição inicial; faixa etária de até 50 anos.

2.2 As vogais médias postônicas

As vogais postônicas não finais, ou mediais, ocorrem entre a vogal tônica e a vogal átona final em vocábulos proparoxítonos. De acordo com Cristófaro-Silva (2005, p. 87), a pronúncia das vogais postônicas mediais no PB possui grande variação que, na opinião da autora, está intimamente relacionada ao estilo de fala, formal e informal. Para a autora, são as vogais baixas [ε, ɔ] que dotam alguns dialetos de especificidade. Ainda,

no estilo informal, as postônicas mediais [i, a, u] seriam reduzidas a [, ə, ], respectivamente.

53

Diferentemente das vogais médias em posição pretônica, o quadro das postônicas, assim como os

fenômenos fonológicos a ele inerentes, ainda é pouco explorado no PB. Na visão de Ribeiro (2007, p. 27), “um

trabalho que se dedique às palavras proparoxítonas deve lidar, grosso modo, com pelo menos cinco

possibilidades de realização fonético-fonológica, de causas e naturezas diferenciadas”; são eles: (1) alçamento,

como em período ~ perí[u]do; termômetro ~ termô[i]tro; (2) rebaixamento, como em nódolu ~ nód[u]lu; (3)

hipercorreção, como em frigorifico ~ frigorif[e]co; (4) síncope, como em árvore ~ árvre; (5) “Outras

alterações 12 ”, como, por exemplo, véspera, pronunciada por [‘vεspara] ~ [‘vεspura].

Antenor Nascentes inscreve o norte, o nordeste e o noroeste de Minas Gerais, assim como a Bahia

e o Sergipe, no subfalar baiano, que difere dos outros subfalares pela presença das vogais médias baixas [ε, ɔ].

Suzana Cardoso 13 , em seu trabalho Tinha Nascentes razão?, em um exame do Atlas prévio dos falares baianos

(APFB) e d’O esboço de um atlas linguístico de Minas Gerais, nos diz que há indicações nos dois atlas que

confirmam a divisão proposta por Nascentes. Entretanto, realizações de [o, u] e [e, i] também foram

documentadas no APFB, sempre em número menor que as variantes baixas. Para [o] e [e], Cardoso (1986)

“propôs dois tipos de explicação – analógica e fonológica, de harmonização vocálica” (apud SILVA, 1989, 70).

Pode-se, portanto, daí, tirar duas conclusões: primeiro, pelas indicações fornecidas por esses

trabalhos, parecem gerais os fenômenos que ocorrem na área “baiana”; segundo, que a elevação das vogais,

documentada nos falares do sul, também ocorre nessa região (SILVA, 1989, p. 70). Essa divisão, para Rubens

Guimarães (2006), é ainda mais marcada no que concerne ao estado de Minas Gerais, no qual, ao sul, temos a

realização de vogais médias fechadas (hip[o]pótamo, r[e]lógio) e, ao norte do estado, de médias abertas

(hip[ɔ]pótamo, r[ε]lógio). Entretanto, para o autor, no norte de Minas, o sistema vocálico encontra-se em

variação, podendo ora ocorrer como alta [i, u], ora como baixa [ε, ɔ], ora como média [e, o]. Teríamos, então,

duas possibilidades de sistema vocálico em posição pretônica 14 : (1) sistema vocálico I em posição pretônica no

norte de Minas /i, e, a, o, u/; (2) sistema vocálico II em posição pretônica no norte de Minas /i, , a, , u/.

2.2.1 O comportamento variável postônica /e/ em posição não final

Em relação ao dialeto montesclarense, comparando-o com os dados referentes ao dialeto da capital

mineira (RIBEIRO, 2007), verificamos que o comportamento da postônica /e/ é diferenciado, apesar de ambos

favorecerem a manutenção da variável. Tal fato condiz com o que nos afirma OLIVEIRA (2008): “É evidente

que os falantes de um mesmo dialeto apresentarão mais semelhanças do que diferenças entre si. [

também, que as diferenças irão crescer quando falantes de dialetos diferentes são comparados”.

] E é evidente,

Gráfico 3

O alçamento da variável /e/ em posição postônica não final

12 Conforme AMARAL (2001, p. 103).

13 Conforme nos diz Silva (1989, p. 70).

14 Conforme Guimarães (2007, p. 19).

54

54 Fonte: Dados da pesquisa Assim como ocorreu em relação ao alçamento da variável /e/ em

Fonte: Dados da pesquisa

Assim como ocorreu em relação ao alçamento da variável /e/ em posição pretônica, em posição postônica verificamos que nenhum dos grupos de fatores não estruturais foi selecionado, sendo tal fato, portanto, sugestivo de difusão lexical. Sintetizando, temos, em relação ao alçamento do /e/ postônico, os seguintes elementos favorecedores: [a] como vogal da sílaba seguinte; [o. e, i] como vogal da sílaba precedente; tepe, lateral e fricativas em contexto fonológico precedente; vogal/semivogal em contexto fonológico seguinte.

2.2.2 O comportamento da variável postônica /o/ em posição não final

Em relação à variável /o/, em posição postônica não final, vemos um comportamento diferente do de todas as outras variáveis aqui analisadas. Aqui, o alçamento prevalece em relação à manutenção; entretanto, se levarmos em consideração a margem de erro estatístico, podemos dizer que, em relação às postônicas /o/, o comportamento dos falantes da cidade de Montes Claros é equivalente para os dois processos – manutenção e alçamento. Tal fato é confirmado pelo que nos mostra Ribeiro (2007) em relação ao falar de Belo Horizonte/MG. Assim como no dialeto montesclarense, na capital mineira há a tendência de se elevar a média postônica /o/, em posição não final.

Nesta análise, a seleção do grupo de fatores indivíduo pode ser vista como um forte indício de que o alçamento da postônica /o/ se trata de um fenômeno típico de difusão lexical (além da exclusão dos grupos de fatores extralinguísticos).

Gráfico 4

O alçamento da variável /o/ em posição postônica não final

55

55 Fonte: Dados da pesquisa Em uma análise comparativa das variáveis /e, o/ em posição postônica

Fonte: Dados da pesquisa

Em uma análise comparativa das variáveis /e, o/ em posição postônica não final, verificamos que a

regra de alçamento é variável, pois cada uma delas possui ambientes favorecedores característicos e,

consequentemente, comportamento diferenciado: /e/ favorece a manutenção e /o/ o alçamento. Sintetizando,

temos, em relação ao alçamento do /o/ postônico, os seguintes elementos favorecedores: [o, u] como vogais da

sílaba seguinte; [, u] como vogais da sílaba precedente; sons vocálicos e fricativas em contexto fonológico

precedente; tepe em contexto fonológico seguinte; 4 informantes.

2.3 Os itens lexicais

Dos 69 diferentes itens lexicais encontrados no nosso corpus com as vogais médias /e, o/, em

posição postônica não final, relativos ao fenômeno do alçamento, 34 dizem respeito à postônica /e/ e 35 à

postônica /o/. Além disso, em relação ao rebaixamento das postônicas /e, o/, houve, nos dados colhidos, ausência

quase categórica do fenômeno, sendo apenas encontrado em xér[ɔ]x e bróc[ɔ]lis; este último, com apenas uma

ocorrência.

Isso nos faz crer que o dialeto montesclarense, no que se refere às médias postônicas em posição

não final, é composto por um quadro com as vogais /e, i, a, u, o/, diferentemente do que postulou CÂMARA JR.

(2007, p. 44), que nos apresentou o seguinte quadro: /u, a, e, i/. Além, em relação ao comportamento da

postônica não final /o/, o alçamento é superior à manutenção da variável, diferentemente do que verificamos em

relação à postônica não final /e/, cuja manutenção é a preferência dos falantes de Montes Claros.

Ainda, verificamos variação intraindividual, a saber: (1) Badu, ép[o]ca e ép[u]ca, Pitág[o]ras e

Pitág[u]ras; (2) Livíria, ép[o]ca e ép[u]ca, catál[o]go e catál[u]go; (3) Dionora, ép[o]ca e ép[u]ca, psicó[o]go

e psicól[u]go; (4) Flausina, ép[o]ca e ép[u]ca; (5) Francolim, ép[o]ca e ép[u]ca, íd[o]lo e íd[u]lo; (6) Jó

Joaquim, paráb[o]la e paráb[u]la; (7) Sá-Maria, cóc[e]gas e cóc[i]gas. Por outro lado, vemos que determinados

indivíduos mantêm a variável enquanto que outros a alçam categoricamente, como é o caso, por exemplo, de

apóstolos (8 informantes alçam e 5 mantêm de forma categórica). Assim, através dos nossos dados, podemos

confirmar as duas hipóteses levantadas por Ribeiro (2007):

(1) itens lexicais, que podem se apresentar variáveis quando olhamos para toda a comunidade de fala, possuem pronúncias categóricas para cada indivíduo (a variação intraindividual existente é mínima); e, em decorrência disso, (2) não se pode computar como variáveis os itens que possuem pronúncias categóricas dentro da mesma comunidade de fala. (RIBEIRO, 2007, p. 161).

56

Através da nossa análise sobre o comportamento das vogais médias /e, o/, em posição pretônica e postônica não final, pudemos verificar que as mesmas formam um sistema complexo, principalmente em posição

pretônica, onde encontramos variação entre [, e, i] e [, o, u]. O comportamento das vogais médias –

excetuando-se /o/ em posição postônica não final – tem a manutenção como preferência de realização. Quanto ao comportamento individual, verifica-se que é variável, seja em relação à posição das variáveis /e, o/, pretônicas ou postônicas não finais, seja em relação ao indivíduo; entretanto, conforme nos aponta Ribeiro (2007, p. 164),

“apesar de os falantes terem apresentado variação intraindividual, [

situação marcada na língua, conforme postulou Oliveira (2006)”. A exclusão das variáveis extralinguísticas em todas as posições das vogais médias [e, o] aqui investigadas, confirma a hipótese maior deste trabalho: que a variação é lexical. Além disso, há vocábulos que alçaram mesmo sem ambiente vocálico favorecedor, como apar[i]ceram, b[i]zerro, cr[i]sceu, m[i]lhor, r[i]ais, r[i]lação, s[i]mestre, ac[u]mpanha, alg[u]dão, b[u]cado, c[u]meça, c[u]mer, v[u]ando, v[u]mitando, entre outros. Corroborando a hipótese da difusão lexical temos, ainda, casos categóricos como ânc[o]ra, com[o]do, sambódr[o]mo, búss[u]la, pásc[u]a, perí[u]do, bafôm[e]tro, câm[e]ra, cér[e]bro, ar[i]a, orquíd[i]a e Timót[i]o, além de pess[u]al, [i]ntão, d[i]mais, d[e]pois, [e]xemplo, v[o]cê e p[u]rque. Em outras palavras, ambientes fonológicos semelhantes favorecem ora o alçamento, ora a manutenção de forma categórica. Verificamos que tanto o fenômeno do alçamento quanto do rebaixamento das médias pretônicas /e,

o/ é um processo variável. Ainda mais em relação ao alçamento, onde verificamos a ocorrência de [, o] como

essa variação pode ser considerada uma

]

favorecedores do fenômeno da variável /e/ e de [, e] para a variável /o/, o que desmitifica a questão da harmonização vocálica. Quanto ao rebaixamento de /e, o/, pudemos constatar que as categorias específicas propostas por Cristófaro-Silva (2005) dão conta de quase todos os casos encontrados neste trabalho. Já em relação às vogais /e, o/, em posição postônica medial, verificamos um quadro formado por 5 vogais: /i, e, a, o, u/; entretanto, assim como postulou Silva (2006), vemos que no dialeto montesclarense há, ainda, em alguns casos, a redução de /o/ a [] - paráb[]la e pér[]la -, assim como a redução de /e/ a [I] – córr[I]go, almônd[I]ga. Das cinco possibilidades de realização das médias postônicas em posição não final, propostas por Ribeiro (2007), verificamos três delas: (1) alçamento – pitág[u]ras; (2) síncope – fósfru; (3) outras alterações – crisânt[o]mo. Como nos diz Guimarães (2006), no Norte de Minas, pudemos verificar um sistema vocálico variável, podendo, as médias pretônicas /e, o/, ora se manterem, ora se realizarem como altas [i, u], ora como

baixas [, ].

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

57

Ao longo deste trabalho, analisamos o comportamento das vogais medias /e, o/ em posição pretônica e postônica não final no português falado em Montes Claros/MG. O que pudemos verificar através dos dados estatísticos é que a vogal média /o/, em posição pretônica é mais propensa, tanto ao fenômeno do alçamento quanto do rebaixamento, do que a variável /e/. Em relação ao quadro das pretônicas, verifica-se que o

mesmo é composto por 7 vogais [ε, e, i, a, u, o, ], isto é, apresenta três possibilidades de realização no que concerne às médias /e, o/: manutenção, alçamento e rebaixamento.

A ausência de significância estatística em relação aos fatores extralinguísticos são indícios de que

o fenômeno estudado é de cunho difusionista, apesar de que, para o alçamento, há variação em relação ao fator faixa etária, para a pretônica /e/, e grau de escolaridade, para a pretônica /o/. Mesmo sendo excluído por rodadas do VARBRUL, o grupo de fatores individuo se mostra significativo, a partir do momento em que podemos verificar que o comportamento diversificado dos indivíduos, em relação aos processos de alçamento e rebaixamento, compõe uma mostra variável em relação à idade, sexo, grau de escolaridade e classe social, sendo, portanto, condizente com a nossa hipótese sobre a variação ser de caráter difusionista. Prova disso é que, na região Norte, a variação entre as produções dos falantes é maior. Para uma palavra como s/e/rviço, por exemplo, poderemos ter até três realizações possíveis, ou seja, s[ε]rviço, s[e]rviço e s[i]rviço – inclusive sendo todas, neste caso, proferidas por um só sujeito, Dionora. Quanto ao fenômeno do alçamento, tão caracterizado na literatura como harmonização vocálica, verificou-se que, na região de Montes Claros/MG, a presença das vogais altas em posição tônica não foi o fator

que mais favoreceu o alçamento, ao contrário, foram as baixas [ε, ] as que mais favoreceram sua realização do

alçamento. Já com relação ao rebaixamento, pode-se dizer que há, sim, uma assimilação do traço [-alto] da vogal da silaba seguinte. Na realização das postônicas não finais /o, e/, verificamos um comportamento diversificado em relação às duas. Enquanto que a primeira se realiza de três maneiras – manutenção, alçamento e rebaixamento -, a segunda só possui duas maneiras de realização – manutenção e alçamento.

A ocorrência de rebaixamento, seja em pretônicas ou postônicas mediais, em fala formal, nos faz

acreditar que há, assim, uma tentativa dos falantes de evitarem o alçamento das mesmas e, portanto, uma “hipercorreção” fonética das médias /e, o/. Tal fato corrobora as palavras de Cristófaro-Silva (2005, p. 87-9), que

nos diz que a pronúncia das vogais postônicas mediais no PB possui grande variação, a qual, em sua opinião, está intimamente relacionada ao estilo de fala formal e informal. Entretanto, o que encontramos em relação ao rebaixamento das postônicas mediais contraria o que nos diz a autora sobre o comportamento das mesmas, a saber: na grande maioria dos dialetos do português brasileiro as vogais médias nasais ou nasalizadas são

auditivamente perceptíveis como vogais baixas [, ]: “pêndulo, têmporas, côncavo, gôndola, cênico, tônico, trêmula, Rômulo”. Em dialetos que não apresentam a nasalidade de vogais – como algumas variantes paulistas –,

temos uma vogal baixa em posição tônica seguida de consoante nasal: c[ε]nico, t[]nico, tr[ε]mula, R[]mulo. Neste trabalho, apesar de verificarmos a possibilidade de existir uma vogal baixa em posição

tônica seguida de consoante nasal, como em g[]meos, ou médias nasais ou nasalizadas auditivamente

perceptíveis como vogais baixas [, ], como em m[]ntira, também verificam-se contextos, tais como os dados

por Cristófaro-Silva (2005), nos quais não se verifica a percepção das vogais como [, ] (como em alm[o]ndega, com som semelhante ao de m[o]ntes; cron[o]metro e fen[o]meno, com som semelhante ao de sobren[o]me; par[e]nteses, com som semelhante ao de apar[e]nte), e, sim, apenas nasalização, sem afetar o

58

traço de altura das médias /e, o/. Além, no dialeto montesclarense, há uma predominância das vogais e das semivogais como favorecedoras do rebaixamento das postônicas /e, o/, em posição não final. Nesta pesquisa, encontraram-se, portanto, realizações indicativas de difusão lexical, sendo que a variação nas vogais médias (seja em posição pretônica quanto postônica não final) é, pois, um processo controverso, pois ocorre em determinados contextos em um item lexical e, em outro item, sob as mesmas condições, não ocorre, como é o caso de m[i]lhoris e m[e]lhor, int[ε]r[ε]ssa, int[e]r[ε]sse, c[u]nserta, c[o]nserva, entre outros. Observa-se que as palavras que possuem configurações semelhantes às chamadas proparoxítonas eventuais, como ár[i]as, gêm[i]os, ól[i]o, petról[i]o, áur[i]a, pásc[u]a realizam-se sempre com vogais altas, para todos os informantes em todos os itens lexicais pronunciados. Assim sendo, mesmo descrevendo contextos fonéticos favorecedores ou não da variação, veem-se itens, em ambientes favorecedores, que raramente alçam, e itens, em ambientes considerados desfavorecedores, alçados. A difusão lexical descartaria, pois, a regularidade, pautando-se pela existência de irregularidades,

isto é, mesmo que haja condicionamentos fonéticos há, por outro lado, “a possibilidade de mudanças sonoras que não sejam foneticamente condicionadas” (OLIVEIRA, 1991). Assim, o ambiente fonético seria visto como um “assimilador a posteriori, e não como um condicionador a priori de uma inovação” (OLIVEIRA, 1992, p. 35). Em função disso, conclui-se ser a mudança sonora lenta e gradual, pois afeta primeiramente algumas palavras especificas e, só então, estende-se, paulatinamente, para outras formas, o que propõe o modelo da difusão lexical. Concluindo, tendo em vista a análise quantitativa apresentada neste trabalho, podemos corroborar a hipótese de que a tese difusionista é fortemente reforçada por três argumentos, a saber:

(a) Inúmeras exceções a determinadas mudanças fonéticas não podem ser explicadas unicamente

por analogia e/ou por empréstimo (como em c[u]nhecia, c[u]nheci, c[u]nhecido e c[o]nhecimento).

(b) Muitos processos fonológicos não são explicados somente por condicionamentos sonoros, mas

por uma gama variada de fatores, incluindo os de natureza discursivo-pragmática e sócio-geográfico-social.

Exemplo disto é o que ocorreu na elaboração, por Antenor Nascentes, de seu Bases para a elaboração de um

Atlas linguístico do Brasil, que tomou como base a ocorrência de [i, e, ] e [u, o, ] pretônicos ou, em nossa pesquisa, ao constatarmos, através dos dados probabilísticos, a preferência pela manutenção da média /e/ em contextos formais de fala.

(c) Nem todos os vocábulos que contêm o som em pauta são afetados simultaneamente e da

mesma maneira. Longe de se aplicar a todas as palavras ao mesmo tempo, as mudanças fônicas reconhecem limites temporais, quer por razões socioculturais, quer por razões pragmáticas, sendo, pois, continuas (como em

s[]rviço, além de s[e]rviço, e s[i]nhora, mas não s[]nhora).

REFERÊNCIAS

59

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VIEIRA, Maria José Blaskovski. Neutralização das vogais médias postônicas. Dissertação (Mestrado em Letras). Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1994.

60

60 CARACTERIZAÇÃO ACÚSTICA DO PADRÃO MELÓDICO DAS INTERROGATIVAS TOTAL E PARCIAL EM FALANTE CONQUISTENSE: ESTUDO DE

CARACTERIZAÇÃO ACÚSTICA DO PADRÃO MELÓDICO DAS INTERROGATIVAS TOTAL E PARCIAL EM FALANTE CONQUISTENSE:

ESTUDO DE CASO

Juscelia Silva Novais Oliveira Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia- BA

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia – FAPESB

Vera Pacheco Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia- BA/ Orientadora Marian Oliveira Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – BA

1 – Considerações iniciais A entonação é um fator importante na organização de uma dada língua e é, em termos perceptuais, segundo Aguilar (2000 apud SÁ, 2008, p.13), a sensação das variações de tom, duração e intensidade ao longo do enunciado, e acusticamente pode ser avaliada a partir da frequência fundamental (F 0 ). A partir dela é possível, numa situação sócio comunicativa, identificar marcas dialetais, como também marcar a atitude de falante em um contexto comunicativo. Nas últimas décadas, os estudos prosódicos e entoacionais têm despertado muito o interesse dos linguistas, visto que seus parâmetros (variação melódica, duração, intensidade etc.), partes constitutivas do sistema linguístico, são responsáveis por vários processos fonológicos. Para Mores (1998), a prosódia compreende a parte da fonética e da fonologia que tem o objeto de estudo formado por três elementos: duração, intensidade e altura melódica, que junto aos fonemas, formam o fluxo sonoro da linguagem. Dentre as funções da entonação, a função modal é a responsável em distinguir uma assertiva de uma interrogativa. De acordo com Moraes (1984), de um modo geral, o contorno melódico de enunciados interrogativos no português brasileiro (PB) apresenta padrões diferentes em função do tipo lógico da interrogação, total e parcial. A interrogativa total corresponde aos enunciados que não possuem o pronome interrogativo e têm como resposta um sim ou um não (É preciso estudar?). Enquanto que as interrogativas parciais se

61

caracterizam pela presença do pronome interrogativo (O que o professor fez?). As interrogativas são assinaladas prototipicamente pela entoação ascendente/descente no final do enunciado. O ajuste nesse contorno melódico permite distinguir uma interrogativa total de uma parcial bem como falantes de dialetos diferentes como sugerem os resultados encontrados por Cunha (2000), os quais mostram diferenças suprassegmentais entre os falares de diferentes capitais do Brasil. Colamarco (2005) também encontrou especificidades no falar carioca e no falar baiano e Santos (2008) no falar gaúcho. (apud LIRA; MORAES, 2011). Partindo da hipótese de que padrões entoacionais de interrogativas podem distinguir falantes em função de sua região, o objetivo deste trabalho é caracterizar acusticamente as interrogativas realizadas por uma falante natural de Vitória de Conquista/Ba, falantes que auditivamente tem seu falar diferente de falantes de outras regiões da Bahia e obviamente de outros lugares do Brasil. Propõem-se aqui fazer um estudo entoacional de forma a descrever o padrão melódico das interrogativas total e parcial produzidas por um representante da cidade de Vitória da Conquista (BA) comparando com o padrão descrito para o PB nos estudos já realizados. Dessa forma, a questão que aqui se apresenta é: os padrões melódicos das interrogativas total e parcial de um conquistense estão de acordo com os estudos prosódicos realizados no PB ou possui particularidades acústicas que justificam a sensação auditiva de uma fala diferenciada? O trabalho conta com as análises de enunciados interrogativos, inseridos em delineamento experimental montado especificamente para esse fim e produzidos por um informante conquistense. A análise consiste da descrição do comportamento da curva de F 0 , realizada através do software PRAAT (BOEERSMA; WEENINCK. 2006). Os resultados encontrados neste trabalho dão conta de caracterizar satisfatoriamente as interrogativas avaliadas e trazem pistas que podem contribuir na caracterização dos padrões das interrogativas faladas por sujeitos naturais de Vitória da Conquista, o que poderá ser útil nos estudos sociolinguísticos e nos estudos sobre a prosódia do PB.

2 – O padrão melódico das interrogativas do PB Tem crescido o número de pesquisas que abordam a variação entoacional do Português do Brasil. Esses estudos vêm contribuindo significativamente com a descrição prosódica do PB. Moraes (1984,1998, 2008) apresenta um grande número de trabalhos que descrevem o padrão melódico do PB, com base na variante do Rio de Janeiro, contribuindo de maneira significativa com a descrição entoacional do PB. Considerando a entoação como o principal

62

dispositivo que aponta as modalidades de um enunciado, o autor apresenta uma descrição dos possíveis contornos melódicos do PB e dentre esses o padrão das interrogativas total e parcial. A questão total caracteriza-se, segundo Moraes (1998) por um ataque alto, queda na sílaba que precede a última sílaba acentuada e uma elevação melódica na última sílaba acentuada do enunciado. Já a questão parcial, aquela com morfema interrogativo no inicio da frase, caracteriza-se por uma elevação de F 0 na primeira sílaba acentuada do enunciado, a partir dessa sílaba há uma queda gradual nas demais sílabas até a última sílaba tônica. De acordo com Moraes (1984), é sobre a tônica final que se dá a oposição entre esses dois padrões no dialeto do Rio de Janeiro. Para ele, as oposições na entoação modal se encontram em pontos precisos do enunciado, pontos que são determinados pelo tipo de frase e pela posição dos acentos. Em sua tese, Entoação Regional do Brasil, Cunha (2000) teve como objetivo descrever acusticamente os padrões prosódicos dos falares de Recife, Salvador, Rio e Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. A autora objetivava também encontrar os contextos que favoreciam o aparecimento de marca de regionalidade. Foi realizado um estudo comparativo desses falares, representados pela modalidade urbana culta. Com os resultados das análises, Cunha (2000) concluiu que é a partir das relações que se estabelecem entre a sílaba tônica e as sílabas átonas adjacentes, que se determinam os padrões melódicos das capitais. Concluiu, ainda, que é, no final de cada enunciado, que as marcas de regionalidade costumam ocorrer e explica que, para descrever o comportamento da frequência fundamental, é necessário selecionar os dados por contexto de ocorrência. Lira (2009) descreve, em A entoação modal em cinco falares do nordeste brasileiro, o comportamento da frequência fundamental em frases assertivas e interrogativas nos falares de Salvador, Recife, João Pessoa, Fortaleza e São Luis. Para realização do estudo, a autora parte da hipótese de que os falares da região nordeste, como o de Fortaleza e Salvador, por exemplo, reconhecidos, quanto à percepção, como diferentes, devem apresentar comportamento dos parâmetros prosódicos distintos. Os dados da pesquisa foram provenientes do corpus do projeto AMPER- Brasil e de gravações feitas pela autora. Foram observadas as variações dos contornos melódicos da questão total, questão parcial, questão disjuntiva e a das assertivas correspondentes. Para a questão total, foco de atenção deste trabalho, a autora apresenta basicamente dois padrões entoacionais, com marcas diferenciadoras no final do enunciado sobre a tônica ou a pós-tônica: 1) tônica final alta, seguida de pós-tônica (s) baixa (s) predominante em João

63

Pessoa e Fortaleza e; 2) tônica final baixa, seguida de pós-tônica alta, predominante em Recife, Salvador e São Luis. A questão parcial, de igual interesse para nós, admite quatro padrões: 1) ataque alto e queda contínua da F0 ao longo do enunciado em Recife e João Pessoa; 2) Curva descendente, com ataque em um nível mais baixo, em Fortaleza; 3) Curva descendente com um ataque muito alto e com esse nível alto mantido ao longo do enunciado, em São Luis; 4) queda da frequência fundamental ao longo do enunciado, com subida melódica bastante evidente sobre pós-tônica final, em Salvador.

Os resultados de Lira (2009) confirmam, assim como os trabalhos de Cunha (200) e

Moraes (2008), que os contornos melódicos tendem a se diferenciar no final dos enunciados,

independentemente do tipo de frase.

3 – Metodologia

O corpus deste estudo foi composto de gravações realizadas no Laboratório de

Pesquisa em Fonética e Fonologia (LAPEFF), por um informante do sexo masculino, natural de Vitória da Conquista - BA, com nível superior em andamento. Foram gravadas 18 sentenças interrogativas, das quais seis eram interrogativas totais e 12 parciais, conforme quadros 1 e 2 abaixo, que foram lidas quatro vezes pelo informante, totalizando 72 sentenças que lhe eram mostradas aleatoriamente. As frases eram compostas

por palavras oxítonas e paroxítonas.

Os enunciados gravados foram submetidos à análise acústica pelo programa PRAAT

para que fosse verificado o comportamento da Frequência Fundamental de todas as sílabas tônica dos enunciados. Foram mensurados os valores de F 0 em três pontos (início, meio e fim) de cada uma das sílabas tônicas que compõem a sentença. Não pôde ser observado o comportamento da F 0 na primeira sílaba tônica da questão parcial com o pronome interrogativo por que devido ao seu ensurdecimento em todas as repetições. Sendo assim, optamos por mensurar a sílaba por. Em seguida, aplicou-se o teste estatístico Anova de kruskal-wallis, executado pelo programa Bioestat 5.0 (AYRES et al. 2007) que serviu para identificar as diferenças entre as médias obtidas para os valores das frequências fundamentais. Buscou-se observar qual a relevância estatística das diferenças. O valor considerado significativo foi de p<0,05. Os resultados foram apresentados através de tabelas contendo os valores médios da frequência fundamental, extraídos de todas as sílabas tônicas dos vocábulos das frases interrogativas, apresentadas nos quadros 1 e 2.

64

A Bibi é bela?

A babá é bela ?

A Lulu é bela?

A Vivi é bela?

A mamãe é bela?

A Dudu é bela

Quadro 1: Questões do tipo total analisadas. As sílabas tracejadas foram objetos de análise.

Por que a Bibi é bela?

Por que a Babá é bela?

Por que a Lulu é bela?

Por que a Vivi é bela?

Por que a mamãe é bela?

Por que a Dudu é bela?

Qual Bibi é bela?

Qual Baé bela?

Qual Lulu é bela?

Qual Vivi é bela?

Qual mamãe é bela?

Qual Dudu é bela?

Quadro 2: Questões do tipo parcial analisadas. As sílabas tracejadas foram objetos de análise.

4 – Resultados e discussão

A discussão dos dados foi norteada por uma análise instrumental da entoação. De

acordo com Sosa (1999, p. 251 apud SILVA, 2011, p.70), “estas análises instrumentais da

entoação oferecem dados objetivos sobre o aspecto físico do complexo fenômeno da entoação

[

Apresentaremos a seguir a descrição fonética do comportamento entoacional das

questões total e parcial e verificaremos se os nossos resultados vão ao encontro do que

prescreve a literatura da área.

4.1 Questão total

Na questão total, aquela sem a presença de um pronome interrogativo, foi observado

um contorno melódico com queda significativa da frequência fundamental na primeira tônica.

Esse movimento foi registrado em contextos das vogais /i/, /u/ e /a, conforme dados dispostos

na tabela 1.

Tabela 1: valores médios de F 0 obtidos no início, meio e fim da primeira sílaba tônica, com as vogais /i/, /u/ e /a/, de interrogativa parciais e respectivos valores de p.

Núcleo silábico

Início da sílaba (Hz)

Meio da sílaba (Hz)

Fim da

sílaba

(Hz)

p

/i/

118.49

119.87

110.55

0.0043 s

65

/u/

120.69

118.04

109.74

0.0008

s

/a/

116.00

113.67

105.36

0.0324

s

OBS: s = significativo para p < 0.05

Movimento descendente foi igualmente observado na segunda tônica é, para a qual foi

encontrada queda significativa de F 0 da porção inicial para o meio e o fim da sílaba. Na

terceira tônica be, prevalece o movimento ascendente: elevação significativa da F 0 na porção

final em relação à inicial e à medial, conforme dados apresentados na tabela 2.

Tabela 2: valores médios de F 0 obtidos no início, meio e fim da segunda e terceira sílabas tônicas, de interrogativa total e respectivos valores de p

Sílabas tônicas

Início da sílaba

(Hz)

Meio da sílaba

(Hz)

Fim da sílaba (Hz)

p

é

(segunda tônica)

108.96

101.34

104.92

0.0009 s

be

(terceira tônica)

114.67

121.70

133.31

< 0.0001s

OBS: s = significativo para p < 0.05

Diante desses resultados, podemos afirmar que a questão total realizada por falantes

naturais de Vitória da Conquista caracteriza-se por uma curva de F 0 descendente na primeira e

na segunda tônicas, e ascendente na última. O mesmo ocorre com os dialetos de João Pessoa

e Fortaleza estudados por Lira (2009) que apresenta um contorno melódico com uma queda a

partir da primeira tônica, voltando a atingir um ponto alto na tônica final.

O contorno melódico de interrogativa total de falantes conquistenses também está de

acordo com o que Moraes (1998, 2008) descreveu para o PB com base no dialeto carioca.

No enunciado “A babá é bela?”, conforme figura 1, podemos observar as

características descritas acima.

66

Interrogativa_total

0.395205122 0.569563412 500 400 300 200 75 A ba ba é be la? PT ST
0.395205122
0.569563412
500
400
300
200
75
A
ba
ba
é
be
la?
PT
ST
TT
0
0.72773
Pitch (Hz)

Time (s)

Figura 1: Curva de F 0 da frase “A Babá é bela?” e suas respectivas sílabas tônicas.

Obs: PT: Primeira tônica ST: Segunda tônica TT: Terceira tônica

4.2 Questão Parcial com o pronome Por que

Os resultados encontrados para a análise das curvas de F 0 para as sílabas tônicas da

questão parcial com o pronome interrogativo por que mostram que esse tipo de interrogativa

apresenta padrões de movimentos da frequência fundamental que se assemelham aos das

interrogativas totais, principalmente na primeira e na segunda tônicas, como verificamos nas

tabelas 4 e 5, respectivamente.

Tabela 4: valores médios de F 0 obtidos no início, meio e fim da segunda sílaba tônica, com as vogais /i/, /u/ e /a/, de interrogativa parcial com o pronome Por que e respectivos valores de p.

Núcleo silábico

Início da sílaba

Meio da sílaba

Fim da sílaba

P

(Hz)

(Hz)

(Hz)

/i/

131.87

131.25

121.25

0.0250s

/u/

135.00

129.62

120.37

0.0030s

/a/

133.50

121.87

116.25

0.0010s

OBS: s = significativo para p<0.05

67

Tabela 5: valores médios de F 0 obtidos no início, meio e fim da primeira (por) sílaba do enunciado, e das terceira (é) e quarta (be) sílabas tônicas de interrogativa parcial com o pronome Por que e respectivos valores de p.

Sílabas tônicas

Início da sílaba (Hz)

Meio da sílaba (Hz)

Fim da sílaba (Hz)

P

Por

155.05

143.74

131.78

< 0.0001 s

(primeira tônica)

é

120.20

110.60

109.85

< 0.0001 s

(terceira tônica)

be

113.00

105.29

102.00

< 0.0001 s

(quarta tônica)

OBS: s = significativo para p<0.05

À semelhança do que foi observado na interrogativa total, foi atestada queda

significativa da frequência fundamental na primeira (cf tabela 5) e segunda (cf tabela 4)

tônicas do enunciado. Queda significativa de F 0 também é encontrada nas terceira e quarta (e

última) tônicas.

É, pois, na última tônica que a interrogativa com o pronome por que apresenta padrão

de curva de fundamental diferente na interrogativa total.

Tem-se, assim, para a questão parcial, com o pronome interrogativo por que, um

contorno em que a primeira sílaba inicia com o nível melódico alto, o qual decresce no fim da

sílaba, o mesmo acontece com as demais tônicas do enunciado. A pós-tônica final se mantém

baixa.

Observamos, dessa forma, que o contorno melódico apresenta uma queda constante da

F 0 ao longo do enunciado, desde o ataque que apresenta o seu nível mais alto até a pós-tônica

final.

No enunciado “Por que a Vivi é bela?”, podemos observar tais características, como

demonstrado na figura 2.

68

Interrogativa_Parcial

por_que_ 0.674578268 0.844483811

500 400 300 200 75 Por que a vi vi é be la? PT ST
500
400
300
200
75
Por
que
a
vi
vi
é
be
la?
PT
ST
TT
QT
0
1.0046
Pitch (Hz)

Time (s)

Figura 2: Curva de F 0 da frase “Por que a Vivi é bela?” e suas respectivas sílabas tônicas. Obs: PT: Primeira tônica ST: Segunda tônica TT: Terceira tônica QT: Quarta tônica

4.3 Questão Parcial com o pronome Qual

A segunda tônica da questão parcial, com o pronome Qual apresentou queda

significativa da frequência fundamental. Esse movimento foi registrado em contexto da vogal

/i/, /u/ e /a/, conforme tabela 6, como ocorre nas demais interrogativas aqui avaliadas.

Tabela 6: valores médios de F 0 obtidos no início, meio e fim da segunda tônica, de interrogativas parciais com o pronome Qual e respectivos valores de p.

Núcleo silábico

Início da sílaba

Meio da sílaba

Fim da Sílaba

p

(Hz)

(Hz)

(Hz)

/i/

135.37

132.25

122.50

0.0253s

/u/

143.50

132.00

120.00

0.0011s

/a/

142.00

129.87

121.37

0.0044s

OBS: s = significativo para p<0.05

69

Na primeira tônica do enunciado houve elevação não significativa da fundamental (cf.

tabela 7), diferindo da interrogativa total e da interrogativa parcial com o pronome por que

que apresenta curva descente significativa da fundamental nessa sílaba tônica.

Tabela 7: valores médios de F 0 obtidos no início, meio e fim de qual, é e be em interrogativas parciais (Qual) e respectivos valores de p.

Sílabas tônicas

Início da sílaba (Hz)

Meio da sílaba (Hz)

Fim da sílaba (Hz)

p

Qual

(primeira tônica)

158.48

156.70

167.45

0.1125 ns

é

(terceira tônica)

117.30

113.60

110.00

< 0.0001 s

be

(quarta tônica)

114.70

106.30

102.20

< 0.0001 s

OBS: ns = não significativo para p>0.05 s = significativo para p<0.05

O padrão melódico da interrogativa parcial, com o pronome interrogativo Qual

apresenta elevação não significativa da curva de F 0 na primeira sílaba tônica do enunciado e

queda significativa nas segunda, terceira e quarta tônicas. Diferenciando-se da questão parcial

com o pronome por que por apresentar valores mais altos no ataque, primeira sílaba do

enunciado (início 158.48 Hz, meio 156.73 Hz, fim 167.45 Hz), o que confere à questão

parcial com o pronome por que (início 155.05 Hz, meio 143.74 Hz e fim 131.78 Hz) um

contorno melódico descendente com queda mais suave.

Dessa forma, constata-se que o padrão melódico da questão parcial se assemelha aos

dialetos estudados por Lira (2009), com exceção de Salvador, que apresenta uma clara subida

melódica na pós-tônica final. Esse padrão também se assemelha ao padrão encontrado por

Moraes (1998).

Na figura 3, podemos visualizar o movimento de F 0 aqui descrito para o enunciado

“Qual Vivi é bela?”.

70

Interrogativa_parcial Qual_ 0.463819031 0.626057784 500 400 300 200 75 Qual vi vi é be la?
Interrogativa_parcial
Qual_
0.463819031
0.626057784
500
400
300
200
75
Qual
vi
vi
é
be
la?
PT
ST
TT
QT
0
0.80313
Time (s)
Pitch (Hz)

Figura 3: Curva de F 0 da frase “Qual Vivi é bela?” e suas respectivas sílabas tônicas. Obs: PT: Primeira tônica ST: Segunda tônica TT: Terceira tônica QT: Quarta tônica

6 – Considerações finais

O comportamento da Frequência Fundamental caracteriza-se por: uma curva

ascendente no final do enunciado para a questão total e uma curva descendente no final do

enunciado para a questão parcial.

Esse padrão se repete em vários dialetos do Brasil, concordando com o padrão

interrogativo do Rio de Janeiro estudado por Moraes (2008) e de alguns falares nordestinos

estudados por Lira (2009).

Os resultados do trabalho confirmam o que constataram os trabalhos de Cunha (200) e

Moraes (2008) e Lira (2009) de que os contornos melódicos tendem a se diferenciar no final

dos enunciados, independentemente do tipo de frase.

Nossos resultados vão para além de corroborar os resultados já encontrados na

literatura. Aqui fomos capazes de descrever a curva de F 0 ao longo das sílabas tônicas,

analisando minuciosamente os movimentos da fundamental por todo o enunciado e de mostrar

em que os diferentes tipos de interrogativas brasileiras se assemelham e se diferenciam.

71

Os resultados encontrados neste trabalho deram conta de caracterizar satisfatoriamente

o padrão interrogativo do falante analisado e podem contribui nos estudos sociolinguísticos e

nos estudos sobre prosódia do PB.

7– Referências

AYRES, M., AYRES JÚNIOR, M., AYRES, D.L. & SANTOS, A. A. 2007. BIOESTAT – Aplicações estatísticas nas áreas das ciências bio-médicas. Ong Mamiraua. Belém, PA.

BOERSMA, Paul; WEENINK, David. 2006. Praat: doing phonetics by computer. (Version 5.1.43) [Programa de computador]. Disponível em http: //www.praat.org/.

CUNHA, C. Entoação Regional no Português do Brasil, 2000. Tese de Doutorado – Faculdade de Letras, UFRJ, Rio de Janeiro.

LIRA, Z. A entoação modal em cinco falares do nordeste brasileiro. 2009. Tese de doutorado (Doutorado em Linguística) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa.

LIRA, Z. A; MORAES, J. Falares nordestinos: contorno melódico e questão parcial. In.:

XVI CONGRESSO INTERNACIONAL DE LA ALFAL. DEL 6 AL 9 DE JUNIO DE 2011. Disponível

em:http://pfonetica.web.ua.pt/files/publicacoes/Resumo%20expandido%20ALFAL%202011.

doc. Acessado em janeiro de 2013.

MORAES, João. Recherches sur l’Intonation Modale du Portugais Brésilien Parlé à Rio de Janeiro. Thèse de Doctorat de Troisième Cycle. Université de la Sorbonne Nouvelle, Paris III, 1984.

MORAES, J. A. Intonation in Brazilian Portuguese. In: HIST, D.; CRISTO A. (eds) Intonation Systems: a Survey of Twenty Languages, Cambridge: Cambridge University Press, 1998, p. 179 – 194.

MORAES, J. A. The Pitch Accents in brazilian portuguese: analysis by synthesis. In:

Fourth Conference on Speech Prosody, 2008, Campinas. Proceedings of the Speech Prosody. Campinas: Unicamp, 2008. p. 389-397.

SÁ, Priscila Cristina Ferreira. Análise entonacional de enunciados assertivos, continuativos e interrogativos lidos em piadas: espanhol/LE e espanhol/LM. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2008. Dissertação de Mestrado do Programa de Letras Neolatinas.

SILVA, J. C. B. Caracterização Prosódica dos Falares Brasileiros: as orações interrogativas totais. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2011.

72

72 COARTICULAÇÃO NO ATAQUE COMPLEXO : PISTAS ACÚSTICAS 1.Introdução Luciane Trennephol da Costa Universidade Estadual

COARTICULAÇÃO NO ATAQUE COMPLEXO : PISTAS ACÚSTICAS

1.Introdução

Luciane Trennephol da Costa Universidade Estadual do Centro-Oeste

Uma das possibilidades de ataque silábico no português brasileiro é a realização de dois

sons consonantais adjacentes, o chamado ataque complexo. Tradicionalmente, esses sons são

descritos como uma obstruinte, oclusiva ou fricativa, e uma líquida lateral alveolar ou rótico

tepe. Nesse ambiente silábico, pode ocorrer a alternância entre as líquidas como, por exemplo,

a realização de planta ou pranta, fenômeno denominado rotacismo por Câmara Jr. (1972,

p.40) e nosso objeto de estudo em trabalhos anteriores. Em Costa (2011), realizamos um

estudo experimental que, através da análise de detalhes acústicos, revelou a presença de três

variantes do rótico fraco no ataque complexo: tepe, aproximante e aproximante retroflexa. A

variante tepe, tradicionalmente descrita como a líquida rótica presente no ataque complexo,

foi predominante na amostra, ocorrendo em 68,67% dos dados, mas na realização do

fenômeno predominou a variante aproximante com a porcentagem de 70,37%. A análise

revelou também uma maior incidência do fenômeno com as vogais frontais e anteriores,

indicando que a coarticulação entre os sons que formam o ataque complexo pode ter papel na

realização do rotacismo. O objetivo do presente trabalho é investigar o padrão de

coarticulação das diferentes líquidas com as vogais no ataque complexo através de inferências

obtidas pelas trajetórias das frequências do primeiro e segundo formantes vocálicos.

Conforme Kent e Read (1992), as frequências dos dois primeiros formantes estão

relacionadas a diferentes dimensões da articulação vocálica. A frequência de F 1 está

inversamente relacionada à altura da língua, de modo que vogais altas terão uma baixa

frequência do primeiro formante. Já a frequência do F 2 está relacionada ao avanço da língua,

de modo que seu valor aumentará conforme a anteriorização da língua. Estas

correspondências acústico-articulatórias nos permitem fazer inferências sobre a articulação

73

dos sons, e consequentemente sobre a coarticulação, a partir dos dados acústicos. O termo coarticulação refere-se a eventos na fala nos quais o trato vocal mostra ajustes que são apropriados para dois ou mais sons (Kent e Read, 1992; Proctor , 2009). Estamos considerando que se dois sons são naturalmente coarticulados, devido a características próprias de articulação em sua produção, mostrarão menores efeitos na trajetória de seus formantes, mas se a articulação sofrer maiores ajustes entre um som e outro, a trajetória dos formantes mostrará maiores efeitos coarticulatórios. Segundo Recasens e Pallàres (2001) e Recasens,Pallarès e Fontdevila (1997); o grau de coarticulação depende dos articuladores envolvidos em determinado som, bem como da posição silábica. Examinando dados eletropalatográficos de contato dorso-palatal e pistas acústicas do F 2 vocálico em sequências VCV compostas pelas vogais [ i , a] e sete consoantes do Catalão, os autores propõem um modelo de coarticulação lingual baseado em restrições articulatórias que denominam de DAC – Degree of Articulatory Constraint. Este modelo assume que a magnitude e a extensão temporal de coarticulação vocálica e consonantal são determinadas por suas diferentes propriedades articulatórias e, em particular, o grau de envolvimento do dorso da língua no fechamento ou formação da constrição. A antecipação da atividade do dorso de língua, essencial nas vogais, está ligada ao envolvimento deste articulador na produção consonantal. Por exemplo, nos dados do Catalão, a oclusiva velar e a lateral velar seriam maximamente restritivas à coarticulação com as vogais adjacentes porque há considerável envolvimento do dorso da língua em suas produções. Por outro lado, a oclusiva bilabial seria minimamente restritiva à coarticulação vocálica por justamente não envolver o dorso em sua produção. Ao analisarmos a coarticulação entre os sons, temos portanto que considerar características de sua produção articulatória. Para investigarmos o padrão de coarticulação das diferentes líquidas com as vogais no ataque complexo, através de inferências obtidas pelas trajetórias das frequências do primeiro e segundo formantes vocálicos , usamos os dados da mesma amostra em que examinamos o fenômeno do rotacismo, cuja metodologia detalhamos na seção a seguir.

2.Metodologia

Os dados da amostra analisada referem-se à fala de quatro informantes femininas, duas que impressionisticamente realizavam rotacismo e duas que não realizavam. Na dupla

74

que realizava rotacismo, a informante A tinha 50 anos na época da coleta de dados, estudou

até a 7 a série do ensino básico, trabalha como servente de limpeza e reside na região

metropolitana de Curitiba há 31 anos, sendo natural de Ibiporã- PR. A informante B tinha 47

anos de idade, completou o ensino básico através de supletivo, trabalha como auxiliar de

produção e reside em Curitiba há 12 anos, quando veio de Cruzeiro do Oeste(PR). Já as duas

informantes (C e D), que impressionisticamente não realizavam rotacismo e formam o grupo

de controle nesta pesquisa, possuem ambas grau universitário e residem em Curitiba. A

amostra é composta de palavras-alvo com as obstruintes [p,b,k,g,f] mais as líquidas lateral e

rótico seguidas de uma das sete vogais orais na sílaba tônica formando pares de palavras

como classe/cravo, placa/prato. O experimento consistiu na leitura de frases nas quais

inserimos essas palavras com ataques complexos compostos pelas duas líquidas. As palavras-

baixinho” e para cada palavra-alvo

foram inseridos dois distratores na amostra que desta maneira compõe-se de 150 dados

repetidos quatro vezes pelos informantes e gravados através do programa SONAR com uma

taxa de amostragem do sinal a 44.100 Hz e posteriormente examinados acusticamente com o

programa de domínio público PRAAT. 15

alvo foram lidas na seguinte sentença veículo “Digo

Para observarmos possíveis indícios de efeitos coarticulatórios entre as líquidas e as

vogais no ataque complexo, medimos os formantes das vogais nos grupos com róticos e

laterais e também em ataques simples, os quais inserimos como distratores na amostra

analisada, conforme referimos anteriormente, desta maneira formando alguns conjuntos como

pata/prato/placa, para analisarmos comparativamente as frequências de formantes das vogais

nos diferentes ambientes. Não conseguimos comparar todas as consoantes e vogais com as

duas líquidas no ataque complexo porque, para ficarmos com uma amostra apenas com

vocábulos do português e sem logatomas, inserimos palavras nas quais a vogal era seguida

por um som nasal como, por exemplo, branco e pronto. Posteriormente, devido ao formante

nasal, optamos por não analisar a frequência de formantes destas palavras. A extração das

frequências dos formantes vocálicos através de inspeção visual e extração automática do

programa PRAAT, com janela padrão de 0,025 segundos, deu-se em dois momentos: no

início da vogal e em seu ponto médio. Medimos os formantes vocálicos em dois pontos para

15 Elaborado por Paul Boersma e David Weenink do Institute of Phonetic Sciences da Universidade de Amsterdam e disponível no endereço eletrônico: www.praat.org

75

inferirmos a trajetória dos formantes na produção vocálica e não apenas o valor de um ponto estático. O ponto inicial foi estabelecido no começo da abertura vocálica e o ponto medial como a metade da duração total da vogal, como exemplificado na Figura 1. Após a extração dos valores de frequência dos três primeiros formantes vocálicos de todos os dados coletados, apesar de que nesta análise nos ocuparmos do F 1 e do F 2 , calculamos sua média simples e plotamos na Tabela 1 para análise comparativa entre as líquidas lateral e rótica e entre as variantes róticas tepe e aproximante, cujos resultados passamos a detalhar na próxima seção.

Figura 1- Pontos inicial e medial para extração dos formantes vocálicos em pata

Ponto Medial Ponto Inicial p a t ə
Ponto Medial
Ponto Inicial
p
a
t
ə

3.Resultados

3.1. Padrão de coarticulação das líquidas lateral alveolar e rótico tepe

Na Tabela 1, plotamos os valores das médias simples obtidos para as palavras que possibilitaram a comparação entre o ataque simples e o ataque complexo e entre o ataque complexo com lateral e o ataque complexo com o tepe. Como queremos analisar a trajetória dos formantes vocálicos e sua coarticulação com os sons consonantais, calculamos a variação em Hz entre o ponto inicial e o ponto medial da vogal, conforme explicitado no parágrafo anterior. Estamos considerando que a variação na trajetória do formante vocálico sinaliza

76

ajustes articulatórios, quanto maior a variação entre o F 2 inicial e medial há maiores ajustes na

articulação da vogal com o som consonantal anterior. Na comparação entre os dois tipos de

ataques silábicos, há no geral uma menor variação, sinalizada na Tabela 1 em itálico, entre o

F 2 inicial e medial das vogais no ataque simples do que no ataque complexo.Assim, podemos

inferir que a coarticulação entre as obstruintes, oclusivas e fricativas e as vogais nucleares é

maior no ataque simples do que entre a líquida como segundo elemento do ataque complexo e

as vogais. Por exemplo, em bula a diferença entre a média simples dos valores do F 2 inicial

(915 Hz) e medial (931 Hz) é de 16 Hz, valor menor do que a diferença entre os valores da

média do F 2 inicial em bruxa (1428 Hz) e medial (1212 Hz) que é de 216 Hz.

Tabela 1 – Médias dos formantes das vogais nos ataques simples e complexos

 

Valores

das

dos

formantes

Das

vogais

médias

[ρa]

em

pata

[ρɾa]

em

prato

[ρƖa]

em

placa

Início

P. médio

Início

P. médio

Início

P. médio

F

1

863

1065

709

1078

816

1034

F

2

1555

1720 ǂ165

1836

1836

ǂ 0

1434

1682ǂ 248

 

[ρɛ]

em

peça

[ρɾɛ]

em

prego

[ρƖɛ] em

plebe

F

1

710

789

640

763

743

787

F

2

1917

2255ǂ 338

2102

2223ǂ 123

1918

2215ǂ 297

 

[bu] em

bula

[bɾu]

em

bruxa

[bƖu]

em

blusa

F

1

533

532

602

648

599

666

F

2

915

931ǂ 16

1428

1212ǂ 216

1195

1143ǂ52

 

[ka]

em

casa

[kɾa]

em

cravo

[kƖa]

em

classe

F

1

857

1063

728

1079

821

1065

F

2

1743

1727ǂ 16

1940

1827ǂ 113

1538

1780ǂ 242

 

[ku] em

curto

[kɾu]

em

crua

[kƖu]

em

clube

F

1

549

1124

626

609

576

1310

F

2

952

1124ǂ 172

1477

1044ǂ 433

1025

951ǂ 74

 

[fɛ]

em

fera

[fɾɛ]

em

frete

[fƖɛ]

em

flecha

F

1

709

783

685

796

684

846

F

2

1997

2033ǂ 36

2035

2225ǂ 190

1862

2138ǂ 276

 

[fu]

em

furo

[fɾu]

em

fruta

[fƖu]

em

fluor

F

1

531

546

652

661

602

630

F

2

884

894ǂ 10

1414

1326ǂ 88

1176

1102ǂ 74

Já na comparação entre as duas líquidas, lateral alveolar e tepe, podemos observar que

as médias de F 2 das vogais são maiores depois do tepe, todos os dados aqui computados são

desta variante, em comparação com a lateral e o ataque simples. Por exemplo, com a oclusiva

bilabial, a média inicial do F 2 vocálico no ataque simples (pata) foi de 1555 Hz. Já no ataque

complexo com a líquida rótica tepe (prato), a média no ponto inicial foi 1836 Hz e com a

77

líquida lateral alveolar (placa) foi 1434 Hz. Este valor maior do segundo formante das vogais depois do tepe pode ser traduzido como um indício de anteriorização deste som em relação à lateral. Realizamos análises de correlação para investigar nossa inferência de um valor de F 2 vocálico maior diante do tepe obtida com a observação das médias dispostas na Tabela 1. A ferramenta de análise de correlação mede até que ponto duas variáveis se movimentam juntas

e seus valores de coeficientes ocorrem somente no intervalo entre -1 e +1. Um coeficiente de

correlação positivo indica que as variáveis estão positivamente relacionadas, ou seja, que enquanto o valor de uma variável aumenta, o de outra aumenta também. Se o valor do teste de correlação for negativo, infere-se que as variantes são contrárias, ou seja, quando o valor de uma aumenta o de outra diminui. Como queremos investigar nossa hipótese de que, depois do rótico, o F 2 das vogais aumenta em relação ao F 2 depois das laterais, simbolizamos o rótico com o índice (1) e a lateral com o índice (2). Atribuímos às vogais índices numéricos em ordem crescente, de acordo com a anterioridade no trato vocal: [ɛ] como 1, [a] como 2 e [u] como 3. Os coeficientes de correlação obtidos, de acordo com os grupos analisados, foram os seguintes: oclusiva bilabial - 0,55027; oclusiva velar -0,60819 e fricativa labiodental - 0,24338. Na comparação entre [pɾa] e [pɾɛ] e entre [pla] e [plɛ], os valores do F 2 vocálico aumentaram mais depois do tepe com a vogal anterior. A maior correlação negativa foi encontrada com a oclusiva velar, -0,60819, conforme o valor da vogal aumenta, com a vogal posterior [u] indexada como 3, o valor do segundo formante diminui. Tanto em [kɾa] e [kla] como em [kɾu] e [klu], os valores de F 2 são maiores diante do tepe, mas a diferença é menor entre os valores das duas líquidas com a vogal posterior. Já a comparação entre os ataques com a fricativa , analisando [fɾɛ] e [fɾu] com [flɛ] e [flu], apresentou as menores diferenças entre as médias de F 2 inicial, coerente com o menor índice de correlação negativa dos testes realizados (‐0,24338). Apesar das diferenças encontradas, conforme o tipo do primeiro som consonantal do ataque complexo analisado, os três testes realizados confirmam que há uma correlação negativa entre o valor do F 2 inicial das vogais e

a líquida (/r/ = 1 e /l/=2), ou seja, conforme o F 2 da vogal aumenta o valor da líquida diminui, lembrando que atribuímos o valor menor (1) ao rótico tepe. Portanto os róticos aumentam o valor do F 2 vocálico, não importando a qualidade vocálica. As líquidas mostram maiores efeitos coarticulatórios sobre as vogais e parecem ser mais resistentes à coarticulação vocálica do que as obstruintes e, entre elas, o padrão varia conforme a qualidade vocálica, pois há também uma menor variação entre o F 2 inicial e o F 2 medial das vogais frontais diante do rótico em comparação com a lateral. O que pode ser

78

considerado um indício de maior coarticulação do rótico, que possui uma articulação mais anteriorizada, com a vogal nuclear da sílaba. Nas vogais posteriores, esse padrão inverte-se: o valor da variação entre F 2 inicial e medial das vogais é menor diante da lateral e maior diante do rótico. A Tabela 2, apenas com os valores de variação entre o F2 inicial e medial das vogais nucleares da sílaba em questão, ilustra o padrão diferente de coarticulação entre as duas líquidas.

Tabela 2 – Variação entre o F2 incial e medial (valores em Hz)

CR

Variação

CL

Variação

prato

0

placa

248

prego

123

plebe

297

cravo

113

classe

242

frete

190

flecha

276

bruxa

216

blusa

52

crua

433

clube

74

fruta

88

fluor

74

A Tabela 2 facilita a leitura do diferente padrão de coarticulação com a vogal observado entre as duas líquidas no ataque complexo. Nas quatro primeiras linhas, nas palavras com vogais anteriores e centrais, a variação entre o F 2 inicial e medial é menor com a líquida rótica. Como estamos considerando que menor variação na trajetória dos formantes significa maior coarticulação ou, por outro lado, menores efeitos coarticulatórios entre a vogal e a líquida, inferimos que o tepe coarticula mais com as vogais anteriores e frontais no ataque complexo. Já as três últimas linhas da tabela ilustram o padrão diferente da líquida lateral que coarticula mais com as vogais posteriores, conforme a variação menor entre o F 2 inicial e medial das vogais posteriores com a lateral alveolar no ataque complexo, dispostas na segunda coluna da Tabela 2, em comparação com as palavras com as vogais posteriores e o tepe, dispostas na primeira coluna da Tabela 2. Para verificarmos mais robustamente nossa observação do padrão de variação diferente entre o F 2 inicial e medial da vogal de acordo com o tipo de líquida , conforme os dados das Tabelas 1 e 2, e investigarmos a significância desta diferença; realizamos testes estatísticos de correlação e de análise de variância. Os resultados dos testes de correlação ratificam a variação maior entre o F 2 inicial e medial das vogais anteriores e centrais depois do tepe e entre o F 2 inicial e medial das vogais posteriores depois da lateral.

79

Nos grupos que iniciam com a oclusiva bilabial, [pɾɛ] e [plɛ], há uma correlação positiva entre o valor da variação do F 2 inicial e medial da vogal anterior [ɛ] e da líquida lateral, indexada no teste com o índice (2). O teste retornou um coeficiente de 0,0655097;

indicando que há uma correlação positiva entre o valor da variação e o tipo de líquida, ou seja, conforme aumenta o índice das líquidas, (1) para o tepe e (2) para a lateral, aumenta o valor

da variação entre o F 2 inicial e medial da vogal anterior nesse grupo. Uma análise de variância

ANOVA fator único com repetição mostrou que essa diferença é significativa, retornando um valor de F (12,88489) acima do valor do F crítico (4,60011). Nos grupos que iniciam com a oclusiva bilabial, [bɾu] e [blu], há uma correlação negativa entre o valor da variação do F 2 inicial e medial das vogais posteriores e o tipo de líquida. O teste de correlação retornou um coeficiente negativo ( -0,69229), indicando que conforme o valor da variação diminui o da líquida aumenta, ou seja, a variação nas vogais posteriores é maior depois do tepe. A análise de variância ANOVA mostrou que essa diferença é significante com o valor de F (10,52491) acima do valor de F crítico (4,60011). Na comparação entre [kɾa] e [kla] há correlação positiva, pois o teste retornou um coeficiente de 0,532922, entre o valor da variação nas vogais centrais e o tipo de líquida nos grupos iniciados com uma oclusiva velar. Nesse grupo, a análise de variância retorna uma significância nessa variação menor do que os outros grupos com o valor de F ficando em 5,553237. Já na comparação entre [kɾu] e [klu] há correlação negativa, o coeficiente do teste foi de -0,61196, entre o valor da variação do F 2 das vogais posteriores e o tipo de líquida. Repetindo o padrão, conforme o valor da líquida aumenta o valor da variação diminui, ou seja, o valor da variação nos vogais posteriores diminui com a líquida lateral. Nesse grupo de oclusiva velar, a significância foi maior com o valor de F ficando em 8,381974. Nos grupos com fricativas como primeira consoante do ataque complexo, assim como nas médias de valor do F 2 vistas anteriormente, os grupos que iniciam com uma consoante fricativa não repetem o padrão encontrado nos grupos iniciados com oclusivas. Com [fɾɛ] e

[flɛ] há uma correlação quase nula, o teste retornou um coeficiente de -0,000763, entre o valor

da variação entre o F 2 inicial e medial da vogal anterior [ɛ] e o tipo de líquida. A significância

dessa variação também é desconsiderável, ficando o valor de F (0,000763) abaixo do valor de F crítico (4,60011). Já na comparação entre [fɾu] e [flu], há uma pequena correlação negativa,

o coeficiente do teste ficou em -0,024486, entre o valor da variação no F 2 das vogais

posteriores e o tipo de líquida nos grupos iniciados com a fricativa labiodental. As inferências obtidas com a trajetória do F 2 inicial e medial das vogais indicam uma articulação anteriorizada do tepe em relação à lateral, ratificada pelos testes de correlação, e

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um padrão diferente de coarticulação das líquidas conforme a qualidade vocálica. Há uma menor variação entre o F2 inicial e medial das vogais anteriores e centrais com o rótico tepe e entre o F2 inicial e medial das vogais posteriores com a líquida lateral, ratificada pelas análises de variância.

3. 2. Padrão de coarticulação das variantes róticas tepe e aproximante

Para analisarmos a variante aproximante, não obtivemos conjuntos uniformes com o mesmo número de dados para compararmos como, por exemplo, fera/flecha/frete, pois algumas palavras possuiam poucas ocorrências com a variante aproximante. Conforme relatamos na introdução deste texto, a variante aproximante foi predominante na realização do rotacismo e, por estarmos analisando um fenômeno variável, não conseguimos uniformidade nos conjuntos comparativos. Por exemplo, os informantes que realizavam rotacismo produziam flecha com a rótica aproximante o que inviabilizou a comparação entre fera/flecha/frete. Apesar dos dados não serem robustos, calculamos as médias simples dos dados disponíveis e analisamos comparativamente como uma tentativa de investigação preliminar. Os valores das médias do segundo formante inicial das vogais nos grupos com aproximantes são, no geral, bastante similares aos valores do segundo formante vocálico no ataque simples. Nas palavras iniciadas com a oclusiva bilabial surda [ p ], a palavra pata resultou em uma média de 1458 Hz de F 2 inicial e prato, com a aproximante, resultou em 1476 Hz, valores menores do que os dados com a lateral e o tepe nos conjuntos selecionados. Nas palavras iniciadas com a oclusiva velar, novamente a média de valor do F 2 inicial de casa (1663 Hz) é similar à média de cravo com aproximante (1712 Hz), mas os valores são maiores do que os valores de F 2 inicial das palavras iniciadas com grupos com a lateral. Neste caso, parece haver influência da coarticulação da velar com a lateral que possui uma articulação dorsal e outra de ponta de língua. Nas palavras iniciadas com a fricativa labiodental surda, novamente a média de valores do F 2 vocálico nos grupos com aproximantes em frete (1906 Hz) achega-se às médias nas palavras com ataque simples (1951 Hz). Não podemos comparar o padrão da variante aproximante com o tepe pelos poucos dados disponíveis com esta variante nos conjuntos examinados com a aproximante. No que concerne à variação entre o F 2 inicial e o medial da vogal nuclear, que estamos inferindo como uma pista acústica da coarticulação entre a vogal e a segunda consoante do

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ataque complexo, nas palavras iniciadas com a oclusiva bilabial surda, a média de valores da aproximante (81 Hz) é menor do que as médias do ataque simples (171 Hz) e do ataque complexo com a lateral (162 Hz), estamos desconsiderando os dados com tepe por possuírem apenas uma ocorrência, o que pode indicar uma maior coarticulação da aproximante e da lateral com a vogal central do que a oclusiva bilabial com esta vogal. Nas palavras iniciadas com a oclusiva velar, o quadro muda. Parece haver maior coarticulação no ataque simples (média de diferença entre F 2 inicial e medial de 47 Hz) e na lateral (média de diferença de 62 Hz) do que nos grupos com a aproximante (diferença de 144 Hz). Parece que a variante aproximante sofre efeitos coarticulatórios tanto da vogal nuclear como da primeira consoante do grupo, ao contrário do tepe e da lateral que parecem sofrer efeitos coarticulatórios da vogal não importando o tipo de consoante inicial do grupo. Veja-se que, tanto no ambiente de oclusiva bilabial sonora, como no ambiente de oclusiva velar surda com uma vogal posterior, a diferença entre o F 2 inicial e medial da vogal é maior depois do tepe do que depois da lateral. E que, tanto na oclusiva bilabial surda, como na oclusiva velar surda com a vogal central, a diferença entre os valores iniciais e mediais do segundo formante são menores com o tepe do que com a lateral. As pistas acústicas parecem indicar que a lateral e o tepe sofrem efeitos coarticulatórios das vogais nucleares da sílaba enquanto as aproximantes sofrem efeitos tanto da qualidade vocálica como da consoante inicial do ataque complexo. Quanto às pistas acústicas para a altura da língua inferidas pelo primeiro formante vocálico, apesar de todas as ocorrências iniciarem com valores similares, na diferença entre o F 1 inicial e medial, que indica movimentação da altura da língua, nas palavras com a oclusiva bilabial surda o valor da diferença com aproximante (225 Hz) é intermediário ao valor no ataque simples (213 Hz) e no ataque com lateral (324 Hz). Com a oclusiva velar surda há uma gradação na diferença entre o F 1 inicial e medial que vai do ataque simples (194 Hz) para os grupos com lateral (186 Hz) e para os grupos com aproximantes (154 Hz). Mas, nos dois casos, ataques com oclusiva bilabial ou velar e vogal central, a variação entre o F 1 inicial e medial, que estamos inferindo como uma pista acústica de efeitos coarticulatórios, é menor para vogal em contexto com a aproximante do que com a lateral. Sendo a variação menor, inferimos maior coarticulação da aproximante com a vogal em comparação com a lateral e menor movimento de ponta de língua que elevaria o dorso. Inferimos, então, pelas pistas acústicas de valor inicial dos dois primeiros formantes vocálicos e da diferença entre os formantes iniciais e mediais, que a variante aproximante parece possuir um padrão de coarticulação mais similar aos ataques simples do que aos

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ataques complexos com as outras líquidas. A articulação de uma aproximante, bastante

similar à de uma vogal, com aproximação do dorso da língua ao palato e pouco movimento da

ponta de língua, pode explicar suas diferenças na coarticulação. Segundo o modelo de

coarticulação lingual baseado em restrições articulatórias (DAC) referido anteriormente, o

modo de articulação, além do ponto de articulação como exemplificamos nesta análise, pode

afetar o grau de restrição coarticulatória.

4.Referências Bibliográficas

BOERSNA, P. ; WEENIK, D. PRAAT doing Phonetics by Computer University of Amsterdam Versão praat5342_win32zip (2 March 2013)

CAMARA JR., J. M. Estrutura da língua portuguesa. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1972.

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KENT,R. READ,C. The Acoustic Analysis of Speech. San Diego: The Singular Publishing,

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PROCTOR, Michael Ian. Gestural characterization of a phonological class: the liquids. Tese de doutorado. New Haven, Connecticut:[s.n.] 2009. Disponível no endereço eletrônico http://mproctor.net

RECASENS, Daniel e PALLÀRES, Maria Dolors. Coarticulation, assimilation and blending in Catalan consonant clusters. In: Journal of Phonetics , volume 24, p, 273-301, 2001.

RECASENS, Daniel, PALLÀRES, Maria Dolors, FONTDEVILA, Jordi. A model of lingual coarticulation based on articulatory constraints. In: Journal of Acustic Society American Volume 102, n 1 , 1997.

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83 DISPERSÃO VOCÁLICA EM SUJEITOS COM DOWN: AVALIAÇÃO DAS ZONAS ESPECTRAIS Marian Oliveira (UESB) 1 6

DISPERSÃO VOCÁLICA EM SUJEITOS COM DOWN: AVALIAÇÃO DAS ZONAS ESPECTRAIS

Marian Oliveira (UESB) 16 Professora Adjunto de Linguística (PPGLin/DELL-UESB)

Vera Pacheco (UESB) 17 Professora Titular de Linguística (PPGLin/DELL-UESB)

1. Considerações iniciais

Uma das questões mais problemáticas em torno da síndrome de Down (SD), alteração genética que gera hipotonia orofacial e macroglossia ou falsa macroglossia, diz respeito ao desenvolvimento das habilidades linguísticas. Constata-se que, auditivamente, a fala da pessoa com Down se difere da fala de pessoas sem síndrome. Diante dessa constatação, uma das questões que se pode formular é se tal diferença é meramente auditiva ou se tem implicação para o sistema linguístico. Em relação à produção vocálica, nossa hipótese de trabalho é a de que as vogais orais produzidas por sujeitos com Down apresentam características fonéticas diferenciadas, porém tais características não afetam o sistema linguístico que permanece preservado. Dessa forma, para verificar em que medida características fonatórias peculiares aos sujeitos com SD alteram ou não a qualidade das vogais produzidas por eles ou se essas características trazem ou não implicações para o sistema vocálico, nos pautaremos na Teoria Fonte-Filtro, de Fant

16 Professora do Programa de Pós-Graduação em Linguística (PPGLin-UESB). mdossoliveira@gmail.com.

17 Professora do Programa de Pós-Graduação em Linguística (PPGLin-UESB). vera.pacheco@gmail.com.

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(1960), para análise do espaço vocálico de pessoas com Down em comparação ao de pessoas sem a síndrome. O trabalho que ora se apresenta está estruturado em 5 seções além dessas considerações iniciais (1): uma seção (2) em que apresentamos uma breve revisão sobre as vogais orais do português; (3) em que apresentamos, em linhas gerais, as características da SD e alguns estudos sobre a produção vocálica por esses sujeitos; o item (4), em que apresentamos a metodologia adotada na pesquisa; em (5), apresentamos e discutimos nossos resultados; por fim, em (6), apresentamos nossas considerações finais.

Com essa pesquisa, objetivamos i) mostrar que a diferença entre as vogais orais de pessoas com Down ocorre apenas do ponto de vista fonético, acústico-articulatório, e ii) determinar diferenças e semelhanças entre as vogais dos sujeitos com Down em relação àquelas produzidas por pessoas sem Down e com isso responder à questão central proposta - a diferença auditiva que percebemos na fala da pessoa com Down tem implicação para o sistema linguístico?

1. Sistema vocálico do português do Brasil: contrastes fonológicos e características fonéticas

Em termos fonológicos, os sistemas consonantais e vocálicos das línguas serão constituídos apenas por propriedades articulatórias distintivas, que constituem, dentro dos princípios estruturalistas, fonemas, conceito que, de acordo com Câmara Jr. (1992, p. 33) parte

do princípio doutrinário de que no som vocal o que realmente interessa na comunicação lingüística é um pequeno número de propriedades articulatórias e acústicas, ou traços (ing. Features) e não todo o conjunto de emissão fônica. Esses traços, ditos distintivos, são os que servem para distinguir numa dada língua uns sons vocais elementares dos outros.

Dentro da perspectiva estruturalista, Câmara Jr. (1992), com base no dialeto carioca, propõe que o sistema vocálico do português brasileiro possui 7 (sete) vogais distintivas em

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posição tônica: /a/, /e/, //, /i/, / /, /o/, /u/, havendo redução desse contraste nas demais posições. Dessa forma, o quadro vocálico do PB, de acordo com Câmara Jr. (1970), conta com cinco vogais em posição pretônica (//, //,//, //,//), quatro vogais em posição postônica

não final (//, //,//,//) e, finalmente, com três, em posição átona final (//, // e //). A redução do sistema vocálico nas posições pretônicas ocorre em função do processo de neutralização de oposições entre as médias altas e médias-baixas a favor das médias-altas. Uma segunda neutralização entre a vogal alta arredonda e a média alta arredondada resulta num sistema de quatro vogais da postônica não final; uma terceira neutralização, com a perda do contraste entre as médias altas e as altas em proveito dessas últimas, resulta no quadro de três vogais das sílabas átonas finais. A relação entre tonicidade e realização de vogais médias em posição pretônica é demonstrada por Câmara Jr (1992), a partir de alguns casos em que a mudança do acento silábico acarreta a mudança da altura vocálica, como no caso da derivação de //,

substantivo abstrato, a partir do adjetivo //. Em termos fonéticos, tendo por base os valores das frequências formânticas, somos capazes de classificar as vogais em dois tipos acústicos, quais sejam, compacto e difuso: a vogal [i] de timbre agudo e a vogal [u] de timbre grave seriam difusas, ao passo que a vogal [a], de tipo compacto ocuparia um lugar intermediário, pois todos os sistemas vocálicos são construídos sobre uma dupla oposição agudo vs grave [i] vs [u], difuso vs compacto [i] vs [a], [u] vs [a]. Como o português, todas as línguas alargam este sistema com uma série de vogais agudas: ~ ~ (MALMBERG, 1954). Além disso, os valores das frequências formânticas podem trazer pistas das características articulatórias das vogais, pois a frequência do primeiro formante, F1, está relacionada à posição da língua no plano vertical e sofre influência do grau de abertura da boca e a frequência do segundo formante, F2, relaciona-se com a posição da língua no plano horizontal, ou grau de anterioridade (KENT; READ, 1992). Em linhas gerais, portanto, podemos afirmar que, na relação entre valores formânticos, configuração do trato vocal e tipos de vogais, o valor de F1 está relacionado com a elevação da língua na área vertical do trato vocal e com deslocamento da mandíbula de forma a estabelecer a diferença entre vogais altas e baixas; fechadas e abertas, conforme esclarecem Kent e Read (1992).

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Nesse sentido, podemos estabelecer as seguintes relações a) quanto mais alta ou fechada uma vogal, menor será o valor de F1; b) quanto mais baixa ou aberta uma vogal, maior será o valor de F1. Dessa forma, ainda de acordo com Kent e Read (1992), as vogais [i] e [u] apresentam

os menores valores de F1, pois são vogais altas e fechadas, já a aberta [a] apresenta maiores valores em F1, por ser a vogal mais baixa e aberta. Segundo Motta Maia (1985, p.50) “o [i] soa mais agudo que o [a] porque tem dois formantes 18 muito próximos numa região de frequência relativamente alta”. Se por um lado os valores de F1 de uma vogal apresentam estreita relação com a altura

e abertura vocálicas, por outro, os valores de F2 apresentam estreita relação com a

anterioridade e a posterioridade da zona de articulação (o que configura de forma distinta o tamanho do tubo ressoador), pois os valores do segundo formante estão relacionados com o

deslocamento da língua na área horizontal do trato vocal. Diante disso, podemos afirmar que, por meio dos valores de F2, somos capazes de estabelecer a diferença entre as vogais anteriores e as vogais posteriores ou recuadas, a partir da seguinte relação: a) quanto mais posterior uma vogal, menor será o valor de seu F2 e; b) quanto mais anterior uma vogal, maior será o valor de F2, o que pode ser verificado pelos valores de F2 das vogais altas [i] e [u], quais sejam, a vogal [i], que é a mais anterior, possui maior valor de F2 e a vogal [u], que é a mais recuada, possui o menor valor de F2. Os valores das frequências formânticas per si constituem importantes parâmetros acústicos na identificação do tipo de vogal que se está produzindo. Além desse parâmetro, podemos também avaliar a qualidade vocálica por meio do cálculo da distância dos valores de F1 e F2, conforme Kent e Read (1992). De um modo geral, vogais fechadas tendem a ter diferenças maiores entre os valores

de F1 e F2, ao passo que as vogais abertas tendem a ter menor diferença entre esses valores. Os valores de F1 e F2 são comumente usados na análise das vogais, pois esses valores

constituem parâmetros acústicos eficazes na determinação da qualidade vocálica.

2. A síndrome de Down: alterações orofaciais e produção vocálica

18 Os dois formantes a que se refere a autora são o F2 e F3.

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Caracterizada como uma condição genética, em que há uma alteração no desenvolvimento das células do embrião (MUSTACCHI; PERES, 2000), a SD provoca atraso no desenvolvimento do corpo, bem como nas funções motoras e mentais da criança. Como consequência, os sujeitos que têm a síndrome, possivelmente, apresentarão um ritmo de desenvolvimento mais lento, isto é, atraso nas aquisições das habilidades físicas e mentais. Autores como Motta (1980), Otto et al (1998), Borges-Osório et al. (2001) são unânimes em afirmar que a hipotonia generalizada afeta toda a musculatura e os ligamentos dessas pessoas. Isso faz com que a criança com Down tenha um aspecto flácido, seja hipoativa, movimente-se menos e tenha reflexos e reações diminuídos. Segundo Ideriha e Limongi (2007), crianças com SD apresentam alterações do sistema estomatognático, que se caracterizam pela diminuição de tônus muscular em diferentes graus e pela alteração da dentição, pois a erupção dos dentes de leite é geralmente atrasada. Por outro lado, a mandíbula pequena leva, muitas vezes, à sobreposição e alteração no alinhamento dos dentes e isso prejudica as funções alimentares, em decorrência de problemas de maturação dos padrões de mastigação, sucção e deglutição. A boca da pessoa com SD é pequena: algumas crianças mantêm a boca aberta e a língua projeta-se um pouco para fora, em função da macroglossia ou falsa macroglossia, decorrente da cavidade oral pequena, da hipotonia da musculatura orofacial e da fenda palato- ogival. Os sujeitos com essa alteração genética, mesmo na fase adulta, continuam a apresentar essa flacidez muscular, especialmente nos músculos da face. O céu da boca (palato) é mais estreito do que na criança sem síndrome, principalmente no caso de pessoas com Down que não foram amamentadas no peito. Além disso, à medida em que a criança com síndrome de Down fica mais velha, a língua pode apresentar estrias. Para Ideriha e Limongi (2007, p. 175), qualquer alteração labial pode dificultar a participação dos lábios na sucção e interferir na competência labial e na formação da pressão intra-oral. Isso resulta em escoamento do leite materno durante a amamentação e dificulta o desenvolvimento da fala, uma vez que os músculos envolvidos na sucção também estão associados aos movimentos da produção da fala. Ideriha e Limongi (2007) salientam que a terapia miofuncional, no trabalho com a motricidade orofacial, atua nas desordens miofuncionais, restabelecendo ou adequando as funções de respiração, de sucção, de mastigação, de deglutição e de fala. Contudo, não sabemos os alcances dessas terapias, pois não há estudos que deem conta da relação entre terapias de motricidade orofacial e alteração da qualidade sonora nos sons da fala desses sujeitos. Além disso, a criança com esta síndrome apresenta também

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problemas de acuidade e discriminação visual e auditiva e doenças respiratórias. Além disso, complicações como cardiopatias, problemas visuais, respiratórios, gastro-esofágicos, que podem acometer os indivíduos com essa síndrome, acarretam um atraso ainda maior ao desenvolvimento psicomotor, cognitivo e linguístico. Segundo os autores referenciados até aqui, as alterações no trato vocal das pessoas com Down são generalizadas, o que nos leva a concluir que a dificuldade de articulação de alguns sons da língua se deve, entre outras coisas, à flacidez muscular e à macroglossia que em nossa opinião não só levam ao atraso na aquisição e no desenvolvimento da linguagem, se comparada com outras crianças, como também levam a uma fala adulta peculiar no sujeito com SD. Acreditamos também que, no que se refere às vogais, as alterações orofaciais, percebidas em sujeitos com Down, atuam diretamente na alteração do desenvolvimento da fala e determinam diferenças no sinal acústico das vogais orais por eles produzidas. Resultados de Oliveira (2011), Oliveira e D’ Angelis (2012) e Oliveira e Pacheco (2012) endossam nossa hipótese. Em trabalhos recentes sobre falantes do português brasileiro com SD, naturais de Vitória da Conquista, os pesquisadores além de descrever o padrão acústico das vogais orais do PB produzidas por sujeitos com Down relacionam seus achados com as características anatômicas do trato vocal desses sujeitos e, dentre outras conclusões, os autores afirmam que as diferenças no padrão formântico desses segmentos estão relacionadas à hipotonia e à macroglossia apresentadas por pessoas com SD. A seguir, apresentamos algumas das principais conclusões a que chegam os autores sobre a produção das vogais orais por pessoas com Down, naturais de Vitória da Conquista. Em relação à vogal aberta /a/, Oliveira (2011) e Oliveira e D’ Angelis (2012) afirmam que quando em posição tônica este segmento apresenta grande variabilidade em seu grau de abertura nas produções dos sujeitos com Down, ao contrário do que ocorre com os sujeitos sem Down. Relacionando configuração formântica e níveis de tonicidade silábica, eles percebem que os sujeitos com Down tendem a produzir a vogal /a/ mais aberta quando está em posição pretônica 1 19 (PT1) e não na posição tônica (T) como é esperado, quase não sendo feita a distinção fonológica entre vogais tônicas e átonas.

19 Os autores analisaram os dados considerando cinco graus de tonicidade: Tônica (T); Pretônica 1 (PT1) a sílaba que ocorre imediatamente antes da sílaba tônica; Pretônica 2 (PT2) sílaba que ocorre antes de outra que também

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No tocante à vogal alta /i/, no que se refere à abertura, Oliveira e Pacheco (2012) afirmam que assim como em /a/, existe também grande variabilidade no grau de abertura quando da sua produção pelos sujeitos com Down, sendo ela independente da tonicidade silábica em que se encontre; o sujeito com Down também não diferencia no aspecto formântico uma vogal /i/ tônica de uma átona. Confirmando a tendência, Oliveira (2011) mostra que também na produção da vogal alta /u/, há variabilidade, diferentemente da produção dos sujeitos sem Down. Segundo a autora, essa variabilidade ocorre, inclusive, em sílaba tônica, pois os sujeitos com Down também não realizam a vogal /u/ com configuração formântica particular a depender da tonicidade silábica em que se encontre e isso ocorre tanto entre os homens quanto entre as mulheres avaliados. Além disso, conforme a autora, enquanto a configuração acústica de F2 nos sujeitos sem Down tende a ser menor, o que lhe confere caráter mais posterior, nos sujeitos com Down a mesma vogal apresenta F2 maior, o que equivale a dizer que o deslocamento da língua destes em direção à cavidade laríngea é menor.

Em relação às vogais médias, Oliveira (2011) mostra que há pouca variância na

produção da vogal // em sílaba tônica. Ressalte-se ser esta a única posição silábica em que

essa vogal tem valor distintivo, como nos ensinou Câmara Jr. (1992). Contudo, em relação à

abertura da vogal //, confirma-se a tendência da vogal baixa, pois essa vogal tende a

apresentar o mesmo grau de abertura para todos os tipos de tonicidade silábica quando é produzida por sujeitos com Down.

No que concerne à vogal média //, os dados mostram alta variabilidade de realização

nas posições pretônicas e baixa variabilidade na posição tônica, posição na qual temos de fato o seu valor fonológico. Em se tratando da relação entre configuração formântica e grau de tonicidade silábica fica evidente, pelos dados analisados pelos autores, que os sujeitos com Down tendem a produzir essa vogal com menor grau de abertura nas sílabas pretônicas. Oliveira (2011) ratifica que a marca dialetal de manter a vogal média aberta em posição pretônica, característica das regiões Norte-Nordeste e bem presente no dialeto conquistense é marcadamente mantida na fala desses sujeitos. (Cf. OLIVEIRA, 2011)

é pretônica; Postônica Não Final (Post); e Átona Final (AF). Além disso, eles ainda avaliaram a vogal produzida isoladamente (I).

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Em se tratando das vogais médias altas /e, o/, pode-se afirmar que a média alta anterior /e/ apresenta pouca variabilidade em sua produção, principalmente no que diz respeito a F3. Também se verifica que a relação entre o padrão formântico e o grau de tonicidade silábico é estabelecida de forma diferente para as realizações da vogal /e/, falada pelos sujeitos com e sem Down, sendo que aqueles que têm a síndrome não apresentam alteração, em sua produção, quanto ao grau de anterioridade em função da tonicidade silábica. As diferenças atestadas constituem evidências para a hipótese de que elas estão mais relacionadas às características individuais do que a um padrão formântico que possa estar associado à síndrome. Diante dos resultados acima resumidos, podemos confirmar a hipótese geral da tese da autora de que as alterações do trato vocal dos sujeitos com SD, quais sejam, a hipotonia orofacial e a macroglossia ou falsa macroglossia ou cavidade oral pequena acarretariam em alteração da qualidade das vogais produzidas por esses sujeitos. Contudo, a pergunta que fica é se tal alteração compromete as distinções fonológicas dos segmentos vocálicos a ponto de um falante produzir uma vogal /a/ como uma vogal /u/, por exemplo. É impossível, pois, não levar em conta as diferenças entre o padrão acústico das vogais orais produzidas por sujeitos com Down em relação às mesmas vogais produzidas por pessoas sem a síndrome. Também é impossível não considerarmos a alteração que aqueles sujeitos apresentam no seu trato vocal. Contudo, a nossa hipótese é a de que os sujeitos com Down, em meio às suas especificidades anatômicas, ajustam trajetórias articulatórias de modo a garantir os contrastes vocálicos de maior demanda. Seu padrão acústico diferenciado não compromete o que é opositivo ou fonológico.

3. Materiais e métodos

Buscando confirmar a hipótese supra formulada, analisamos os dados de 08 sujeitos naturais de Vitória da Conquista: 04 com Down, com faixa etária entre 17 e 31 anos e 04 sujeitos sem Down com a mesma faixa etária. Cada grupo de sujeitos é composto por 02 homens e duas mulheres. Os dados foram obtidos a partir da repetição de sintagmas nominais, formados a partir de palavras núcleos que continham as sete vogais do PB em diferentes posições silábicas – pretônica (PT), tônica (T), postônica final (AF). Os dados foram mensurados em script, via Praat; foram medidos os valores de F1, F2 e F3, das vogais orais e

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depois submetidos à análise de dispersão vocálica. Para análise do espaço vocálico foram considerados os valores de F1 e F2.

5. Resultados e discussão

Avaliando os dados da posição PT, observamos que o quadro vocálico de sujeitos com e sem Down caracteriza-se por soprebosição das vogais arredondadas e sobreposição leve das vogais médias fechadas e abertas não arredondadas; enquanto as vogais /i/ e /a/ apresentam sua configuração formântica definida, como podemos verificar nos gráficos 1 e 2.

Gráfico 1: Dispersão de F1 e F2 das vogais orais em posição pretônica (com Down)

F1 e F2 das vogais orais em posição pretônica (com Down) Gráfico 2: Dispersão de F1

Gráfico 2: Dispersão de F1 e F2 das Vogais Orais em Posição Pretônica (sem Down)

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92 Em relação à dispersão de F1 e F2 em T, com base nos gráficos 3

Em relação à dispersão de F1 e F2 em T, com base nos gráficos 3 e 4, podemos afirmar que há dois grandes subgrupos de vogais: o subgrupo das vogais anteriores (/i/, /e/, //) e o subgrupo das vogais posteriores (/u/, /o/, / /), que de certa forma inclui também a vogal /a/.

Gráfico 3: Dispersão das médias de F1 e F2 das vogais em posição tônica (com Down)

forma inclui também a vogal /a/. Gráfico 3: Dispersão das médias de F1 e F2 das

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Gráfico 4: Dispersão das médias de F1 e F2 das vogais em posição tônica (sem Down)

de F1 e F2 das vogais em posição tônica (sem Down) Com relação à dispersão de

Com relação à dispersão de F1 e F2 em POST, observamos uma configuração triangular bem delimitada para essas vogais nos sujeitos com Down, com leve sobreposição entre as vogais recuadas /u/ e /a/. Os grupos delimitam bem as vogais nessa posição, mas as frequências formânticas de cada grupo encontram-se plotadas em regiões espectrais diferentes, o que lhes confere um padrão de dispersão geral (conforme gráficos 5 e 6).

Gráfico 5: Dispersão das médias de F1 e F2 das vogais em posição átona final (com Down)

(conforme gráficos 5 e 6). Gráfico 5: Dispersão das médias de F1 e F2 das vogais

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Gráfico 6: Dispersão das médias de F1 e F2 das vogais em posição átona final (sem Down)

de F1 e F2 das vogais em posição átona final (sem Down) Apesar dos padrões acústico

Apesar dos padrões acústico distintos para os dois grupos de sujeitos, isso não significa que um ou outro padrão acústico comprometa a oposição fonético/fonológica, pois tanto nos sujeitos com, quanto nos sujeitos sem Down identificamos zonas espectrais que opõem vogais fechadas de vogais abertas; vogais anteriores de vogais posteriores, por exemplo. Algumas sobreposições de zonas espectrais nas realizações das vogais são observadas para as produções vocálicas de ambos os grupos de sujeitos e isso não compromete o caráter opositivo desses segmentos, uma vez que as sobreposições acontecem com determinadas vogais em contextos altamente previsíveis. Hipotonia orofacial e/ou a macroglossia pode(m) justificar certas realizações das vogais orais produzidas por sujeitos com Down? Sabemos que a realidade física de um segmento está diretamente relacionada às configurações assumidas pelo trato vocal durante a sua emissão, como fica evidente na proposta de Teoria Fonte-Filtro (FANT, 1960). Os maiores valores de F1 atestados para a vogal /i/ decorrem do fato de os indivíduos com SD não contarem com um controle muscular necessário para se obter o mínimo possível de abertura exigido na produção dessa vogal fechada.

95

Essas alterações pontuais da interferência das características da anatomia orofacial dos sujeitos com Down nos padrões acústico-articulatórios das vogais por eles produzidas podem ser também sentidas de um modo geral em todo o quadro vocálico. Afirmar que esses sujeitos possuem padrões acústicos específicos não significa afirmar que um ou outro padrão acústico comprometa a oposição fonético/fonológica, pois tanto nos sujeitos com, quanto nos sujeitos sem Down identificamos zonas espectrais que opõem vogais fechadas de vogais abertas; vogais anteriores de vogais posteriores, por exemplo. Algumas sobreposições de zonas espectrais nas realizações das vogais são observadas para as produções vocálicas de ambos os grupos de sujeitos. Isso, contudo, não compromete o caráter opositivo desses segmentos. As sobreposições acontecem com determinadas vogais em contextos altamente previsíveis.

6. Considerações Finais

É impossível não notarmos as diferenças entre o padrão acústico das vogais orais produzidas por sujeitos com Down em relação às mesmas vogais produzidas por pessoas sem a síndrome. Também é impossível não considerarmos que a razão disso é a alteração que aqueles sujeitos apresentam no seu trato vocal. Contudo, podemos afirmar que os sujeitos com Down, em meio as suas especificidades anatômicas, ajustam trajetórias articulatórias de modo a garantir os contrastes vocálicos de maior demanda. Seu padrão acústico diferenciado não compromete o que é opositivo ou fonológico. Ao contrário, até características fonético-dialetais, como a

realizações de vogais médias baixas [,] em posição pretônica, típicas do dialeto de Vitória

da Conquista, também são percebidas na fala das pessoas com síndrome de Down aqui estudadas. Em outras palavras, tanto para sujeito com, bem como para sujeito sem Down, somos capazes de identificar zonas espectrais que opõem vogais fechadas de vogais abertas; vogais anteriores de vogais posteriores, por exemplo. Além disso, se por um lado as especificidades anatômicas dos sujeitos com Down podem, de fato, alterar os padrões formânticos de suas vogais, podendo trazer para o seu ouvinte uma dificuldade de compreensão a uma primeira vista, notamos que não há comprometimento do ato comunicativo, pois, em suas realizações sonoras, macro- características acústico-articulatórias das vogais estão garantidas. O sistema fonológico do

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PB, no que se refere às vogais orais, portanto, está preservado, nos sujeitos com síndrome de Down, naturais de Vitória da Conquista. Diante do exposto podemos afirmar que em meio as suas especificidades anatômicas, os sujeitos com Down ajustam trajetórias articulatórias de modo a garantir os contrastes vocálicos de maior demanda, como todo e qualquer falante.

REFERÊNCIAS

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98 ESTUDO DA VARIAÇÃO PROSÓDICA DO DIALETO CAPIXABA NO ÂMBITO DO PROJETO AMPER Alexsandro Rodrigues Meireles

ESTUDO DA VARIAÇÃO PROSÓDICA DO DIALETO CAPIXABA NO ÂMBITO DO PROJETO AMPER

Alexsandro Rodrigues Meireles Universidade Federal do Espírito Santo Viviany de Paula Gambarini Universidade Federal do Espírito Santo

I – INTRODUÇÃO O Brasil possui mais de 194 milhões de habitantes residentes em 27 unidades federativas, as quais abrigam diferentes dialetos do português brasileiro. Apesar de ser necessário um detalhamento mais aprofundado dos detalhes acústico-articulatórios desses dialetos, já há vários trabalhos que tratam de aspectos segmentais da fala na literatura fonética. No campo da prosódia, contudo, são escassos os trabalhos de diferenças dialetais no português. Para suprir, pois, a falta de estudos prosódicos diatópicos, surge, a partir do fim dos anos 90, o Projeto AMPER, com o intuito de construir um mapa multimídia da prosódia utilizada nas línguas românicas, a fim de descrevê-las e compará-las no que tange seus aspectos entoacionais. Ao inserir-se no âmbito deste projeto, este trabalho tem como objetivo a comparação e descrição das diferenças observadas a partir da análise de frases declarativas e interrogativas de dois falantes capixabas (1 masculino e 1 feminino). Pretende-se, dessa forma, aumentar o número de pesquisas que têm sido realizadas sobre variação prosódica, a fim de que o mapa dialetológico em construção também possua informações sobre o dialeto capixaba.

II – O PROJETO AMPER Segundo Nunes (2011), as discussões que culminaram no surgimento do Projeto AMPER começaram em 1992, com o Colóquio Internacional de Dialetologia, ocorrido em

99

Bilbao. A partir da discussão do número ínfimo de trabalhos realizados no âmbito da prosódia, além do fato de os poucos estudos em relação às variedades românicas não serem facilmente comparáveis, Contini (coordenador global do projeto) propõe a criação de um Atlas linguístico prosódico, que recebeu o nome de AMPER (Atlas Multimídia Prosódico do Espaço Românico) e começou a ser desenvolvido no final dos anos 90.

O Projeto AMPER tem como principal objetivo fornecer a caracterização acústica e

prosódica das distintas variedades dialetais românicas, assim como a criação de um atlas multimídia que disponibilize on-line os corpora coletados para futuras investigações nos diversos níveis da análise linguística (CONTINI et al 2002: 227-230; MOUTINHO et al 2001: 245-252). Contini (2007:10) define esse projeto como um programa científico de geolinguística dialetal cujo objeto de estudo é a entoação das variedades românicas. Primeiramente, foram estudadas as variedades do “espaço românico” europeias. Hoje, porém,

já se observam inúmeros trabalhos nas variedades americanas, tanto do espanhol como do português brasileiro, que é o caso deste trabalho.

O Projeto AMPER encontra-se sob a coordenação global de Michel Contini e Antonio

Romano, respectivamente da Universidade de Grenoble, França e da Universidade de Turim, Itália. Em Portugal, a coordenação é da Universidade de Aveiro, sob os cuidados de Lurdes de

Castro Moutinho.

II.I – O Projeto AMPER- POR Uma vertente deste projeto, AMPER-POR 20 , coordenado pela Dra. Lurdes de Castro Moutinho, tem desenvolvido pesquisas sobre o Português europeu e o brasileiro, observando traços prosódicos e também diferenças variacionais diatópicas nesses dialetos. Vários grupos de pesquisa foram formados ao longo dos inúmeros trabalhos do AMPER- POR. Na área do Português Europeu (PE), dividiram-se os grupos em: Continental, Açores e Madeira, como se pode observar nas figuras 1, 2 e 3.

20 O projeto AMPER-POR pode ser consultado em <http://pfonetica.web.ua.pt/AMPER-POR.htm>.

100

100 Figura 1 : Português Continental. Em relação à figura 1, sete dessas regiões (Minho, Trás-os-Montes,

Figura 1: Português Continental. Em relação à figura 1, sete dessas regiões (Minho, Trás-os-Montes, Beira Litoral, Beira Alta, Alto Alentejo, Baixo Alentejo e Algarve) tiveram 23 informantes analisados e enviados para a Base de Dados AMPER e 9 já foram gravados, mas não analisados 21 .

AMPER e 9 já foram gravados, mas não analisados 2 1 . Figura 2 : Português

Figura 2: Português dos Açores.

No Arquipélago de Açores, observado na figura 2, os três Grupos (ocidental, central e oriental) foram tomados como pontos de coleta, onde 1 informante já foi analisado e enviado para a Base de Dados AMPER e 7 informantes já foram gravados, mas não analisados.

21 Esses dados foram retirados de uma fonte on-line que divulga o trabalho do AMPER- POR. Encontra-se disponível em http://pfonetica.web.ua.pt/AMPER-POR.htm e foi acessado em 1 o de outubro de 2012.

101

101 Figura 3 : Português da Madeira. Finalmente, no Arquipélago da Madeira, as regiões da Ilha

Figura 3: Português da Madeira.

Finalmente, no Arquipélago da Madeira, as regiões da Ilha da Madeira e da Ilha do Porto Santo foram utilizadas como pontos de coleta, onde 11 informantes já foram analisados

e enviados para o Banco de Dados AMPER e 1 foi gravado mas ainda não analisado. Como já dito, o projeto também se estendeu para território brasileiro, em um total de quinze estados, mantendo as seguintes equipes de trabalho: 1- Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima; 2- Minas Gerais; 3- Nordeste (estados do Maranhão, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Bahia); 4- Pará; 5- Rio de Janeiro e Espírito Santo; 6- Santa Catarina; e 7- São Paulo. No Brasil, 23 informantes já foram analisados e enviados para a Base de Dados AMPER

e 68 já foram gravados, mas não analisados. São, portanto, inúmeros os trabalhos que têm estudado os parâmetros prosódicos nas regiões brasileiras.

III – O AMPER E O ENSINO DE LÍNGUAS

Moutinho (2003) relaciona o projeto AMPER com o ensino-aprendizagem de uma língua, seja esta materna ou estrangeira. Segunda a autora, em se tratando de questões pertinentes à prosódia, existe a tendência em se deixar a área da fonética e da fonologia em segundo plano, o que contribuiu e ainda contribui para a escassez de pesquisas realizadas no âmbito da caracterização das estruturas prosódicas, pois, como ela diz, normalmente o que se

observa em gramáticas, por exemplo, é a associação reducionista da prosódia à abordagem da acentuação. O projeto AMPER-POR surge, então, da necessidade de se descrever e comparar os traços prosódicos das variedades do Português Europeu e do Português do Brasil, dentro de uma perspectiva da fonética acústica, a fim de que, ao longo dos estudos, constitua-se um cenário global que dê conta não apenas das semelhanças e diferenças verificadas entre as

prosódias desses diferentes sistemas linguísticos, mas também das variações regionais dentro

de cada um desses sistemas. Conforme colocado por Reis, Antunes e Pinha (2011), é senso

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comum dizer que a prosódia contribui para a identificação de sotaques, falares ou variantes, dessa forma, pretende-se com esse projeto não somente a disponibilização de um Atlas Multimídia Prosódico, mas que este seja aplicado no ensino de língua estrangeira, por exemplo. Com base no que foi descrito acima, este trabalho também tem como objetivo analisar de forma descritiva e comparativa a fala de sessenta e seis sentenças, divididas entre declarativas e interrogativas globais 22 , por dois falantes do dialeto capixaba, 1 masculino e 1 feminino, com mesmo nível escolar. Pretende-se, assim, observar as possíveis diferenças existentes entre a prosódia dos dois locutores e também o repasse dos resultados a fim de que estes sejam incluídos no Atlas Multimídia.

IV – METODOLOGIA

IV.I – Corpus e Método A metodologia utilizada pelo projeto AMPER- POR consiste na gravação de sessenta e seis sentenças divididas entre declarativas e interrogativas globais que devem “obedecer a critérios de ordem fonética, sintática e semântico-pragmática” (MOUTINHO, 2003). Quanto à restrição fonética, escolhem-se vocábulos representativos das diversas estruturas acentuais (oxítona, paroxítona e proparoxítona) nas diversas posições frasais. A fim de que sejam reduzidos possíveis problemas de coarticulação e garantida uma segmentação mais fácil e rigorosa, procura-se, sempre que possível, que as vogais estejam acompanhadas de consoantes não vozeadas. Em relação à sintaxe, são escolhidas frases com a estrutura Sujeito - Verbo - Complemento, neutras e afirmativas, nas modalidades declarativa e interrogativa global correspondentes (cf. Projeto AMPER-POR).

Tabela 1 - Exemplo de declarativas e interrogativas globais utilizadas neste trabalho.

 

Declarativa

Interrogativa

pyda

   

SPrep

O pássaro gosta do Renato de Salvador.

O pássaro gosta do Renato de Salvador?

oxítono

22 Entende-se por interrogativas globais aquelas que “não são indicadas por um pronome interrogativo e pedem uma resposta sim ou não” (LOPES et al, 2011).

103

pysa

   

SPrep

O

pássaro gosta do Renato

O

pássaro

gosta

do

paroxítono

de

Veneza.

Renato de Veneza?

pyza

   

SPrep

O

pássaro gosta do Renato

O

pássaro

gosta

do

proparoxítono

de

Mônaco.

Renato de Mônaco?

Moutinho et al. (2007) fala da importância desta estrutura sintática (Sujeito + verbo + complemento) para descrever as diferenças entre os contornos entoacionais das duas modalidades oracionais (declarativas e interrogativas) e também sobre o papel desempenhado pela posição do acento lexical no movimento desenhado, no final, pela curva melódica. O corpus coletado para este trabalho está detalhado na Tabela 2 abaixo.

Tabela 2- Corpus coletado para análise.

O

Renato nadador gosta do pássaro ?

O

pássaro gosta do Renato de Veneza?

O

Renato gosta do pássaro

O

bisavô bêbado gosta do pássaro

O

Renato gosta do pássaro bêbado?

O

pássaro gosta do Renato de Salvador?

O

Renato nadador gosta do pássaro

O

pássaro nadador gosta do Renato

O

Renato gosta do pássaro pateta?

O

pássaro gosta do Renato bêbado?

O

Renato pateta gosta do pássaro

O

pássaro pateta gosta do Renato

O

Renato gosta do pássaro nadador?

O

pássaro gosta do Renato pateta?

O

Renato bêbado gosta do pássaro

O

pássaro bêbado gosta do Renato

O

pássaro gosta do bisavô bêbado?

O

pássaro gosta do Renato nadador?

O

Renato de Salvador gosta do pássaro

O

pássaro gosta do bisavô

O

pássaro gosta do bisavô pateta?

O

pássaro gosta de Renato?

O

Renato de Veneza gosta do pássaro

O

pássaro gosta do bisavô nadador

O

pássaro gosta do bisavô nadador?

O

Renato de Mônaco gosta do pássaro?

O

Renato de Mônaco gosta do pássaro

O

pássaro gosta do bisavô pateta

O

pássaro gosta do bisavô ?

O

Renato de Veneza gosta do pássaro?

O

pássaro gosta de Renato

O

pássaro gosta do bisavô bêbado

O

pássaro bêbado gosta do Renato?

O

Renato de Salvador gosta do pássaro ?

O

pássaro gosta do Renato nadador

O

Renato gosta do pássaro nadador

104

O

pássaro pateta gosta do Renato?

O

Renato bêbado gosta do pássaro?

O

pássaro gosta do Renato pateta

O

Renato gosta do pássaro pateta

O

pássaro nadador gosta do Renato?

O

Renato pateta gosta do pássaro?

O

pássaro gosta do Renato bêbado

O

Renato gosta do pássaro bêbado

O

bisavô bêbado gosta do pássaro?

O

Renato gosta do pássaro?

O

pássaro gosta do Renato de Salvador

O

Renato gosta do Renato?

O

bisavô pateta gosta do pássaro?

O

pássaro gosta do pássaro.

O

pássaro gosta do Renato de Veneza

O

bisavô gosta do Renato?

O

bisavô nadador gosta do pássaro?

O

bisavô gosta do bisavô.

O

pássaro gosta do Renato de Mônaco

O

Renato gosta do bisavô?

O

bisavô gosta do pássaro

O

Renato gosta do bisavô.

O

bisavô gosta do pássaro ?

O

bisavô gosta do bisavô?

O

bisavô nadador gosta do pássaro

O

bisavô gosta do Renato.

O

pássaro gosta do Renato de Mônaco ?

O

pássaro gosta do pássaro?

O

bisavô pateta gosta do pássaro

O

Renato gosta do Renato.

Cada uma das sentenças acima foi repetida quatro vezes por dois informantes, sendo um do sexo masculino (13 anos) e um do sexo feminino (15 anos). Ambos são estudantes do ensino fundamental na escola “Paulo Reglus Neves Freire 23 ”, pertencente à rede municipal de Vitória. Para esta pesquisa, cada um dos informantes recebeu um código (como recomenda a metodologia AMPER), sendo o da menina BB31 e o do menino BB32. Como dito anteriormente, as sentenças foram obtidas através de estímulo visual, em que foram apresentados aos informantes figuras tais como:

em que foram apresentados aos informantes figuras tais como: 2 3 A escola fica situada no

23 A escola fica situada no Bairro Inhanguetá, Rua Manoel Ferreira Constantino, número 50, Vitória-ES.

105

Figura 4: Exemplo de estímulo visual interrogativo composto de sujeito proparoxítono + adjetivo oxítono + verbo paroxítono + complemento paroxítono (Sentença: O pássaro nadador gosta do Renato?).

A figura 4 representa a sentença interrogativa “O pássaro nadador gosta do Renato?”. Nela pode-se notar que o adjetivo aparece (assim como nas outras ilustrações) abaixo de um dos personagens principais (pássaro, Renato ou bisavô). O coração representa a relação entre os personagens, como se observa na figura 5.

relação entre os personagens, como se observa na figura 5. Figura 5 : Relação entre personagens.

Figura 5: Relação entre personagens.

Na figura 4 ainda observa-se a presença do sinal “?” que indica que a entoação dessa sentença deve ser a de uma pergunta.

IV.II - Procedimentos Após explicar e apresentar cada um dos personagens e complementos aos informantes partiu-se para a gravação das sentenças. Cada pessoa repetiu 4 vezes cada uma delas, gerando 528 sentenças a serem analisadas. Concluída a gravação, passou-se então a codificação das repetições, que consiste em unir ao código do informante o código da sentença e, por fim, colocar o número de ordem cronológica da repetição. Assim no código BB31dwpi2, por exemplo saberemos o código da pessoa- BB31, o da sentença- dwpi e que se trata da segunda repetição. Depois da codificação partiu-se para o trabalho de segmentação fonética manual, através da utilização do programa livre Praat (http://www.praat.org). Nele, apenas as vogais foram marcadas, como estabelece a metodologia do AMPER. É através da marcação dessas que chegaremos aos valores de ƒ 0 . O projeto AMPER criou, ainda, um script próprio para o Praat que só deverá levar em consideração as realizações vocálicas, em que são marcados na

106

realização “v”, para vogais plenas, e “f” 24 , para vogais fracas ou elididas. Observe como exemplo a figura 6:

vogais fracas ou elididas. Observe como exemplo a figura 6: Figura 6 : Espectrograma com a

Figura 6: Espectrograma com a etiquetagem das vogais plenas (v) e de uma elidida (f).

Observou-se que a maior parte das vezes em que uma vogal foi elidida, esta estava em sílaba átona final (como a vogal o em Renato, ou o último a em pateta). Veja isso na figura abaixo:

, ou o último a em patet a ). Veja isso na figura abaixo: Figura 7

Figura 7: Segmentação das vogais plenas e dos apagamentos (f). Após a segmentação de todas as vogais, observando a ausência e presença delas, aplicou-se o script praat, desenvolvido para o Projeto AMPER, às gravações, que, por sua vez, gerou um arquivo txt. para cada uma delas. Esses arquivos trazem em si informações das medidas acústicas das vogais, através dos gráficos de intensidade, duração e frequência fundamental.

24 Quando se marca “f” para as vogais “apagadas” o Praat atribui um valor default de f0, 50 Hz, o que se torna um problema para a interpretação dos gráficos.

107

Em relação à frequência fundamental, os gráficos mostravam a sobreposição das curvas de ƒ 0 das sentenças declarativas e das interrogativas, o que será muito relevante neste trabalho.

V – RESULTADOS

V.I – O apagamento de artigos e vogais pós-tônicas Através da análise dos gráficos de ƒ 0 , puderam-se perceber diferenças entre a fala da menina e a do menino, em relação ao apagamento de vogais dos enunciados. Quando foi apresentado o estímulo visual aos adolescentes, para início das gravações, não foi dito que o uso de algum artigo fosse necessário, porém, ambos introduziram estes recursos nas frases. A menina, contudo, teve um total de 14 apagamentos de artigo (14/33) nos enunciados declarativos e 13 apagamentos (13/33) nos enunciados interrogativos. Veja um exemplo de enunciado da falante em que houve apagamento nos dois tipos de enunciados:

em que houve apagamento nos dois tipos de enunciados: Figura 8 : Gráfico das curvas de

Figura 8: Gráfico das curvas de ƒ 0 , para a frase “O pássaro nadador gosta do Renato (?)”, em que se observa o apagamento do artigo “o”.

Na figura acima, a cor azul representa as frases interrogativas e a cor vermelha as declarativas. No entanto, quando há o apagamento de vogais no mesmo “plano”, apenas a linha azul fica entre 65 e 70 hz. Se somente a vogal declarativa ou a interrogativa tivesse sido apagada, a outra seria marcada como os outros segmentos do enunciado. Em relação ao menino, o apagamento de artigos totalizou em 5 para declarativas (5/33) e 3 para interrogativas (3/33), números bem inferiores ao da menina.

108

Se em relação ao artigo, o falante masculino teve um número bem inferior que a falante, em se tratando do apagamento de pós-tônicas, houve uma inversão de acontecimentos. A menina teve apenas 1 apagamento em final de frase declarativa (apagou o segmento –to, da palavra “Renato”) e 3 apagamentos no meio da frase interrogativa (em todos eles foi apagado o segmento –ta, do verbo “gosta”). O garoto, entretanto, teve todas as pós- tônicas em final de frases declarativas apagadas (só não apagou o /sa/ de pássaro). Em relação às interrogativas, o falante masculino teve 16 pós-tônicas apagadas (16/26). Assim como em outros trabalhos (vide Nunes, 2010), também neste não é possível afirmar qual modalidade de frase (interrogativa ou declarativa) tende a apresentar maior apagamento de vogais. Entretanto, em relação às pós-tônicas para o falante masculino, houve uma diferença grande entre as quedas de declarativa (26/26) e interrogativa (16/26), o que reitera a afirmação de Nunes sobre o fato de as interrogativas terem a tendência a serem menos apagadas em final de frase.

V.II – Os gráficos de ƒ 0 Ao longo deste trabalho são criados três tipos de gráficos importantes para analisar os dados coletados. São os gráficos de intensidade, duração e de ƒ 0 . Como já dito, para esta análise, somente serão estudados os de ƒ 0 . Observemos abaixo três frases para cada falante, em que todas elas apresentam lexemas nas três acentuações possíveis para o Português. a) Frase terminada em oxítona: “O pássaro gosta do Renato de Salvador (?)”

em oxítona: “O pássaro gosta do Renato de Salvador (?)” Figura 9 : Frase terminada em

Figura 9: Frase terminada em oxítona. Falante masculino.

109

109 Figura 10 : Frase terminada em oxítona. Falante feminino. Nas frases do falante masculino, com

Figura 10: Frase terminada em oxítona. Falante feminino.

Nas frases do falante masculino, com final em oxítona (figura 9), percebe-se que, tanto em relação à declarativa (de cor vermelha) quanto à interrogativa (em azul), existe um

movimento de ascendência quando se trata de uma vogal tônica, levando, em seguida, a uma curva descendente até a próxima tônica.

O que diferencia declarativas de interrogativas, nas figuras acima, é o SPrep (sintagma

preposicionado) “de Salvador”, em que, enquanto há a descida da declarativa, a interrogativa

prossegue no padrão de só subir na vogal tônica. Tal vogal contém, portanto, a informação capaz de distinguir os dois tipos de frase para esse falante.

O falante do sexo feminino tem um padrão parecido com o masculino em se tratando

do movimento ascendente nas vogais tônicas, porém, observa-se que as descidas nas frases

desse falante são maiores que as do primeiro.

A diferença entre as frases oxítonas da falante (entre declarativas e interrogativas)

também se revela em SPrep. Também para essa falante há a descida da última vogal tônica na frase declarativa, porém, há diferença no movimento da interrogativa, que ao invés de seguir o

mesmo padrão e subir nesta última vogal, revela um movimento descendente semelhante à sua frase declarativa. Neste caso, o SPrep todo, e não somente uma vogal, portanto, é necessário para a distinção das frases, dessa falante, entre si.

b) Frase terminada em paroxítona: “O pássaro gosta do Renato de Veneza (?)”

110

110 Figura 11 : Frase terminada em paroxítona. Falante masculino. Figura 12 : Frase terminada em

Figura 11: Frase terminada em paroxítona. Falante masculino.

11 : Frase terminada em paroxítona. Falante masculino. Figura 12 : Frase terminada em paroxítona. Falante

Figura 12: Frase terminada em paroxítona. Falante feminino.

Em relação ao falante do sexo masculino, na figura 11, os movimentos de ascendência nas declarativas e nas interrogativas também ocorrem nas vogais tônicas, seguidas, neste caso, de uma leve curva descendente (leve, pois a variação melódica é menor que na figura 9). Percebe-se que as diferenças entre as duas modalidades de frases começam a surgir na vogal “o” de “Renato”, pois, a partir de então, há um movimento descendente da interrogativa e um leve movimento ascendente da declarativa. Também nesta figura (como na 9), observa-se a descida da última vogal tônica da declarativa, enquanto há a subida desta na interrogativa, que, em seguida, volta ao movimento descendente. A pós-tônica final da declarativa foi apagada pelo falante. Na figura 12, para o falante do sexo feminino, observa-se que os movimentos descendentes são mais perceptivos que os do sexo masculino (figura 11). Também nesta figura, percebe-se a diferença entre as frases a partir da pós-tônica da palavra “Renato”.

111

Assemelhando-se ao padrão da oxítona, a falante também teve um movimento descendente na última vogal tônica da declarativa, assim como da interrogativa. Após a última tônica, a declarativa inicia um movimento ascendente e a interrogativa continua com uma curva descendente. c) Frase terminada em proparoxítona: “O pássaro gosta do Renato de Mônaco (?)”.

“O pássaro gosta do Renato de Mônaco (?)”. Figura 13 : Frase terminada em proparoxítona. Falante

Figura 13: Frase terminada em proparoxítona. Falante masculino.

13 : Frase terminada em proparoxítona. Falante masculino. Figura 14 : Frase terminada em proparoxítona. Falante

Figura 14: Frase terminada em proparoxítona. Falante feminino. Os resultados da análise para a figura 13 mostram, mais uma vez, um movimento ascendente nas vogais tônicas que levam a uma curva descendente até a próxima vogal tônica. Até a vogal “a” do verbo “gosta”, as frases declarativa e interrogativa seguiram o mesmo padrão. A partir de então, começam a se observar as diferenças que culminam na descida da última vogal tônica da declarativa e na subida da interrogativa, mantendo o padrão

112

de todas as frases do falante masculino. Houve o apagamento da última vogal em ambas as modalidades de frase para esse falante, nesta figura, o que reitera o fato dele ter apagado todas as pós-tônicas do final de declarativas e grande parte das de interrogativas. Quanto ao falante do sexo feminino (figura 14), mais uma vez os movimentos descendentes são mais notórios do que os do falante masculino. Também nota-se o mesmo padrão da oxítona e paroxítona através da descida da última vogal tônica na declarativa e na interrogativa. Ao contrário do menino, não houve apagamento de vogal.

VI – CONCLUSÃO

Nos gráficos analisados, percebeu-se a existência da diferença entre a fala do informante masculino e do feminino. Isso é reforçado ainda mais quando nota-se que de fato existe um padrão seguido por cada um dos falantes em cada modalidade de frase, tal como nas diferentes acentuações e entonações. Observou-se, durante as análises, a importância da acentuação no que concerne ao padrão da curva melódica de ƒ 0 . Uma frase ter o final em oxítona, paroxítona ou proparoxítona só modifica os movimentos ascendentes ou descendentes entre esses três acentos, mas mantém um padrão em todas as outras frases com mesmo acento final. A entonação do acento, portanto, levou a informações capazes de distinguir a fala de cada um dos falantes, uma vez que mudado o acento, mudou-se a figura, mas manteve-se o padrão da curva de ƒ 0 . Além do acento, as frases interrogativas também auxiliaram na percepção das diferenças, pois, ao contrário das declarativas, que mantinham um padrão semelhante entre os falantes, as curvas das interrogativas distinguiam-se entre si. A partir do que foi examinado e discutido neste trabalho, apontamos como fatores relevantes para a diferenciação prosódica dos dialetos: a modalidade frasal, tal como sua entonação, a acentuação e também o sexo do informante, uma vez que observamos diferenças entre a fala do menino e da menina. Seria interessante, em trabalhos posteriores, aumentar o número de falantes a fim de se observar se o sexo é realmente determinante nos resultados de distinção dos dialetos ou se na verdade as diferenças variam de pessoa para pessoa (independentemente de sexo). Poderia ser feito ainda, um trabalho comparando o que foi analisado do dialeto capixaba com o dialeto de outras regiões, a fim de se observarem as diferenças diatópicas. É importante salientar que neste trabalho foram usados apenas os gráficos das curvas de ƒ 0 para que se pudessem fazer as análises das frases. A metodologia do AMPER, porém

113

resultou também em gráficos de duração e de intensidade, que poderão ser aproveitados em algum momento posterior. Espera-se, pois, que este trabalho incentive trabalhos sobre variação prosódica dos dialetos do português brasileiro no âmbito do Projeto AMPER ou de outras metodologias.

REFERÊNCIAS

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MOUTINHO, L. de C.; COIMBRA, R. L. ; VAZ. A. M. Variação prosódica no Baixo Minho:

estudo de caso. In: MOUTINHO, L. C. ; COIMBRA, R. L. (Coord.). I Jornadas Científicas AMPER-POR. Actas. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2007. p. 55-65.

114

NUNES, V. G. “O apagamento de vogais átonas: o falar florianopolitano”. Anais do IX Encontro do Círculo de Estudos Linguísticos do Sul – CELSUL- Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL. Palhoça, 2010.

NUNES, V. G. Análises entonacionais de sentenças declarativas e interrogativas totais nos falares florianopolitano e lageano. Florianópolis, 2011. Dissertação (Pós-Graduação em Linguística). Coordenadoria de Pós-Graduação, Universidade Federal de Santa Catarina.

REIS, C.; ANTUNES, L. B.; PINHA, V. C. de J. Prosódia de declarativas e interrogativas totais no falar marianense e belorizontino no âmbito do Projeto AMPER. In: Anais do III Colóquio Brasileiro de Prosódia da Fala. Belo Horizonte, 2011.

115

115 O APAGAMENTO DAS VOGAIS ÁTONAS EM PORTUGUÊS: UMA ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE AS VARIEDADES BRASILEIRA E

O APAGAMENTO DAS VOGAIS ÁTONAS EM PORTUGUÊS: UMA ANÁLISE

COMPARATIVA ENTRE AS VARIEDADES BRASILEIRA E EUROPEIA

Danielle Kely Gomes Universidade Federal Fluminense

Introdução

O presente trabalho toma por foco a variação no vocalismo postônico não final, contexto

que frequentemente tem sofrido variação e redução em português.

O vocalismo átono do português tem sido amplamente analisado, sobretudo no que tange

a fenômenos que atuam sobre o contexto pretônico. Contudo, há trabalhos que evidenciam a

importância de investigar também os contextos postônicos, igualmente suscetíveis a

fenômenos variáveis.

Entre os fenômenos fonéticos que ocorrem no contexto postônico, neste trabalho destaca-

se o processo de apagamento das vogais átonas não finais. A supressão da primeira vogal

átona dos proparoxítonos – fenômeno enquadrado entre os processos de síncope – resulta na

regularização dos vocábulos proparoxítonos em paroxítonos, conforme apontam os exemplos:

(1) ár.vo.re > ar. vø. re> ar.vre

(2) cócegas > co.cø. gás > cos.ca

(3) sábado > sá.bø.du > sa.bø. øo > sabo

Com base nos pressupostos teórico-metodológicos da Sociolinguística Variacionista

(Labov, 1972; 1994), este trabalho observa a interação entre condicionamentos fonéticos e

sociais para a implementação da regra de apagamento da vogal postônica não final, em dados

do Português Brasileiro (PB) e do Português Europeu (PE).

1. As proparoxítonas

116

A sílaba postônica não final é própria das palavras proparoxítonas, o padrão acentual

menos produtivo da língua portuguesa. Itens lexicais proparoxítonos restringem-se a termos técnicos e pouco usuais, sendo raros os que persistem ainda hoje no vocabulário ativo dos

falantes 25 . Tal fato encontra respaldo na passagem do latim para o português.

Collischonn (2005) ressalta que a maior parte do léxico proparoxítono do português equivale a termos técnicos advindos do latim e do grego, incorporados à língua no período renascentista. A autora afirma que, por serem minoria, as proparoxítonas são exceções e constituem o padrão marcado.

Já Magalhães (2004:165) assume uma postura ainda mais radical, ao afirmar que no latim

vulgar não havia palavras com acento antepenúltimo, já que a síncope era um processo regular, que atingia as proparoxítonas através da queda da vogal medial (vogal da sílaba postônica não final): oc[u]lus > oclus; alt[e]ra>altra; cal[i]dus> caldus; (Coutinho, 1976:

107); cal[a]mo > calmu (Lausberg 1981:159). Dessa forma, as proparoxítonas tiveram entrada tardia no português, através de empréstimos eruditos do latim clássico e do grego. Mesmo no português arcaico, as raras palavras proparoxítonas se tornavam paroxítonas no uso. Segundo Quednau (2002:90), “do processo de síncope que ocorreu em latim vulgar resultou a não-ocorrência de proparoxítonas em português arcaico”; as poucas que eram conservadas se mantiveram por conta de dificuldades fonotáticas de ressilabação, caso a vogal postônica medial fosse apagada. Como decorrência das evidências acima referidas, no português atual, as proparoxítonas constituem a classe acentual com o menor número de itens lexicais, conforme levantamento realizado de Araújo et alii (2007). Assim, o caráter restrito das proparoxítonas é refletido nos trabalhos que se debruçam a estudá-las. Em relação a descrições sincrônicas do processo de síncope da vogal postônica não final, os trabalhos realizados sobre o tema são unânimes em destacar a pressão exercida pelo tipo de segmento que está adjacente à vogal: se há a possibilidade de a consoante que acompanha a vogal átona não final ser ressilabificada, a queda do segmento vocálico é favorecida. Tal tendência, na verdade, é resquício do processo atuante desde o latim e citado por Quednau: a síncope da vogal postônica não final, documentada – por exemplo – no Appendix Probbi, era favorecida, conforme salientam Williams (1961), Coutinho (1976) e Magalhães

25 Por vocabulário ativo entende-se o conjunto de palavras adquirido e usado no contexto familiar e informal, o qual incluiu apenas palavras de alta frequência e que são compartilhadas por todos os falantes da língua.

117

(op.cit), quando as consoantes no entorno desse segmento pudessem ser ressilabificadas, seja em direção à coda da sílaba tônica, seja em direção ao onset da sílaba átona final. Os trabalhos de cunho variacionista de que se têm notícia (Caixeta, 1989; Amaral, 2000; Silva, 2006; Lima, 2008; Ramos, 2009; Gomes, 2012) também reafirmam que as consoantes no entorno da vogal são decisivas para a aplicação da regra de apagamento da átona não final.

2. Corpus, Metodologia e Hipóteses.

Este trabalho baseia-se nos acervos dos projetos NURC-RJ (Norma Urbana Oral Culta do Rio de Janeiro), PEUL (Programa de Estudos sobre o Uso da Língua), APERJ (Atlas Etnolinguístico dos Pescadores do Estado do Rio de Janeiro), representativos da fala do Estado do Rio de Janeiro, e recolhidos de acordo com a metodologia sociolinguística variacionista. Para os dados da variedade europeia, os dados foram recolhidos no corpus Concordância (Estudo comparado dos padrões de concordância em variedades africanas, brasileiras e europeias).

O Projeto NURC-RJ 26 conta com informantes cariocas, de nível superior completo de escolaridade e distribuídos por três faixas etárias: de 25 a 35 anos; de 36 a 55 anos e 56 anos ou mais. O Projeto APERJ 27 inclui pescadores de 13 comunidades do Norte e do Noroeste fluminenses, todos homens, analfabetos ou escolarizados até a 4ª série do Ensino Fundamental (EF) e divididos em três faixas etárias (18-35 anos, 36-55 anos e 56 anos em diante). O Projeto PEUL 28 limita-se à capital do Estado e seus informantes dividem-se por três faixas etárias (de 15 a 25 anos, de 26 a 49 e acima de 50 anos), três níveis de escolaridade (1º e 2º ciclos do EF e Ensino Médio) e por sexo. Para a análise do fenômeno na variedade europeia, foram utilizados os inquéritos do corpus Concordância 29 relativos às cidades de Oeiras/Lisboa, também estratificados em três faixas etárias e três níveis de instrução.

26 www.letras.ufrj.br/nurc-rj 27 Encontram-se informações acerca da constituição do corpus APERJ em www.letras.ufrj.br/varport

28 www.letras.ufrj.br/peul

29 www.letras.ufrj.br/concordancia

118

A investigação do apagamento das vogais postônicas não finais contou com 136 entrevistas do tipo DID 30 , sendo (i) 18 do Projeto NURC-RJ; (ii) 78 do Projeto APERJ; (iii) 25 entrevistas Projeto PEUL; (iv) 18 do projeto Concordância, das quais foram consideradas todas as ocorrências de proparoxítonas, em um total de 3316 dados. No controle de dados, utilizou-se o Programa Goldvarb2001, que auxilia a análise variacionista, para se verificar os fatores linguísticos e extralinguísticos que atuam nos processos de síncope das postônicas não finais.

No nível linguístico, controlaram-se as variáveis independentes: (i) contexto antecedente (ponto e modo de articulação das consoantes); (ii) contexto subsequente (ponto e modo de articulação das consoantes); (iii) classe do vocábulo – substantivo comum (pérola) ou próprio (Teresópolis), adjetivo (célebre) e verbo (tivéssemos) –; (iv) classificação lexical: termo usual (número), termo pouco usual (víscera), termo técnico (polígono), topônimo (Teresópolis) e antropônimo (Mariângela); (v) natureza da vogal da sílaba antecedente (tônica); (vi) natureza da vogal da sílaba subsequente (postônica final); (vii) posição da vogal na palavra – na primeira raiz (folêgo) ou fora dela (centímetro) e (viii) dimensão do vocábulo: trissílabo (óculos) ou polissílabo (característica). Entre os fatores extralinguísticos, foram controlados sexo, faixa etária e nível de escolarização do falante.

Considerando-se os trabalhos anteriores sobre processos que incidem sobre a sílaba postônica não final, postularam-se as hipóteses investigadas neste trabalho.

(i) Os contextos fonéticos adjacentes à vogal postônica não final ainda se manteriam como os fatores condicionadores decisivos para a ocorrência do processo de apagamento da vogal átona medial em ambas as variedades analisadas, como um reflexo do princípio de uniformitarismo 31 (Labov, 1972, 1994); (ii) diferenças quantitativas consideráveis seriam observadas entre as variedades brasileira e europeia no que tange a ocorrência do processo de apagamento da vogal postônica não final: o português europeu – por conta de um processo histórico de enfraquecimento das vogais átonas – aplicaria com maior frequência a regra de apagamento; e

30 Diálogos entre informante e documentador

31 Conceito tomado da Geologia, o princípio do uniformitarismo postula que “as forças que operam no presente para produzir a mudança linguística são as mesmas que operaram no passado” (Labov, 1972 )

119

(iii) no âmbito dos condicionamentos extralinguísticos, a supressão da vogal postônica não final seria um fenômeno de baixo prestígio social, o que ficaria comprovado graças à atuação dos condicionamentos sexo do informante e escolaridade: mulheres e falantes com alto grau de escolarização tenderiam a aplicar com menor frequência a regra de apagamento da vogal átona medial.

3. Análise

O conjunto de 136 inquéritos do tipo DID usados na investigação acerca do processo de apagamento no contexto postônico não final apresentou 3316 ocorrências de proparoxítonas, incluindo todos os contextos de vogais postônicas não finais. Os índices gerais de aplicação da regra de apagamento da vogal postônica não final revelam duas tendências bastante particulares, que merecem considerações: por um lado, não há diferenças quantitativas significativas quando se comparam os três conjuntos de dados relativos à variedade brasileira; por outro, quando se contrastam os resultados verificados para o português brasileiro e a variedade europeia, observa-se que, no português europeu, os índices de aplicação são consideravelmente maiores. A Tabela 1 – a seguir – evidencia os percentuais gerais para a ocorrência do fenômeno em cada variedade analisada.

Tabela 1. Distribuição dos dados por amostra.

 

Amostra

Oco

 

NURC (fala culta urbana)

95/816 = 11%

Português Brasileiro

PEUL (fala popular urbana)

192/1317 = 14%

APERJ (fala rural popular)

130/855 = 15%

Português Europeu

Concordância (fala urbana – culta e popular)

167/328 = 49%

Entre as variáveis postuladas para a investigação do fenômeno de síncope da vogal postônica não final, revelaram-se estatisticamente relevantes as elencadas na Tabela a seguir. Os resultados são apresentados por amostra analisada, uma vez que o perfil sociolinguístico de cada corpus não permitia o tratamento em conjunto dos dados.

120

Tabela 2. Variáveis atuantes no apagamento da vogal postônica não final

NURC

Modo de articulação da consoante seguinte

Faixa Etária

Input inicial: .11 Input de seleção: .07

Sig.:.000

PEUL

Ponto

de

articulação

da

consoante seguinte

 

Modo de articulação consoante seguinte

da

Ponto

de

articulação

da

consoante precedente

Ponto de articulação da vogal postônica não final

Dimensão do vocábulo

 

Modo de articulação consoante precedente

da

Faixa Etária

 

Sexo

Input inicial: .14 Input de seleção:.04

Sig.:.000

APERJ

Ponto de articulação da vogal postônica não final

Modo de articulação consoante seguinte

da

Ponto

de

articulação

da

consoante precedente

Modo de articulação consoante precedente

da

Escolaridade

Input inicial: .15 Input de seleção: .07

Sig.:.014

Concordância

Modo de articulação da consoante precedente

Modo de articulação da consoante seguinte

Dimensão do vocábulo

Input inicial: .49 Input de seleção: .56

Sig.:.015

Os resultados expostos acima deixam evidente a vitalidade do contexto fônico adjacente para a ocorrência do processo. Por essa razão, os resultados aqui apresentados vão considerar as pressões exercidas pelas consoantes adjacentes à vogal postônica não final. A hipótese é a de que a possibilidade de ressilabificação das consoantes precedentes e subsequentes à vogal átona não final vai condicionar a queda desse segmento, processo histórico com raízes no latim.

3.1. Os condicionamentos linguísticos: o efeito do contexto fonético adjacente 3.1.1. A consoante precedente

Esperava-se que nos contextos em que a queda da vogal postônica não final levasse a consoante a se anexar ou à coda da sílaba tônica, ou ainda ao onset da sílaba átona, o

121

apagamento da vogal fosse favorecido. As consoantes que, a princípio, não encontram

contexto favorável à ressilabificação não favoreceriam a regra. Os resultados estão expressos

na Tabela 3:

Tabela 3. Efeito do modo de articulação da consoante precedente para o cancelamento da vogal.

Consoantes

 

PEUL

APERJ

 

CONCORDÂNCIA

 

Oco

P. R.

Oco

P. R.

Oco

P.R

Oclusivas e Fricativas (bêbado, ângulo, fósforo)

116/849

=

.52

125/693 =

.61

140/212 =

.58

13%

18%

66%

Nasais

nibus,

nimo,

73/296 =

.64

4/114

=

.04

15/43 =

.18

mero)

24%

3%

34%

Laterais (cólica)

 

1/58 = 1%

.06

0/34 = 0%

-

4/13 = 30%

 

Vibrantes (América, mérito, espírito)

1/40 = 2%

.09

0/11 = 0%

-

.25

 

Input: .04

Input: .07

 

Input: .56

Sig.: .000

Sig.: .014

Sig: .015

No corpus APERJ, o apagamento é altamente favorecido quando a queda da vogal

postônica leva à formação de onsets complexos na sílaba átona final, já que são as consoantes

precedentes oclusivas e fricativas as que se mostraram mais relevantes (.61). Observa-se que

as líquidas não atuam nesse sentido, ocorrendo praticamente o mesmo com as nasais (.04). Já

os dados da amostra PEUL mostram as nasais como as mais propícias ao processo (.64),

seguidas das oclusivas e fricativas (.52), resultado que destoa dos demais corpora e que,

certamente, se deve às diversas ocorrências da palavra ônibus (44 apagamentos em 93 casos).

Para os dados do português europeu, nota-se que os índices expressos na tabela 3 refletem

a tendência observada para as variedades populares do português brasileiro: a presença de

consoantes oclusivas e fricativas no onset da sílaba postônica não-final tende a favorecer o

apagamento da vogal átona medial (.58). As consoantes nasais e líquidas atuam como

bloqueadoras da regra (.25 e .18, respectivamente).

Nos resultados verificados para o corpus NURC (Tabela 4), percebe-se que há uma

convergência entre a fala culta e a fala rural da variedade brasileira no tocante à atuação dessa

variável: as obstruintes não-nasais se revelam como favorecedoras e as nasais atuam como

inibidoras do processo. Todavia, a diferença entre os contextos não é expressiva (.52 contra

.40), o que – de certa forma – impede uma apreciação mais abrangente da variável no âmbito

da fala culta.

122

Tabela 4.

corpus NURC.

Índices da variável modo de articulação da consoante precedente – (nível 1):

NURC

Consoantes

Oco

P.R

Oclusivas e Fricativas

82/587 = 13%

.52

Sig.: .060

Nasais

12/128 = 9%

.40

Laterais

0/20 = 0%

-

Vibrante

0/46 = 0%

-

De forma a complementar a investigação acerca do papel do contexto fonético precedente

à vogal, controlou-se também o ponto de articulação da consoante que antecede a postônica

não final, como mostra a Tabela 5. Os dados do PEUL trazem indícios de confirmação da

hipótese. Os resultados verificados mostram que as consoantes de articulação alveolar (.73) e

velar (.63) favorecem a aplicação da regra. A hierarquia dos fatores talvez se explique pelo

fato de o ponto de articulação alveolar reunir consoantes que tanto podem se anexar à coda da

sílaba tônica (tornando-se /S/, /N/ e /l/) quanto ao onset da sílaba átona (/t/ e /d/), neste caso

desde que haja nesse ambiente uma consoante líquida. As velares teriam seus contextos de

ressilabificação restritos ao ataque da sílaba átona final.

Tabela 5. Efeito do ponto de articulação da consoante precedente para o cancelamento da vogal.

Ponto de articulação

PEUL

APERJ

Oco

P. R.

Oco

P. R.

Labial (época)

62/392 = 15%

.34

92/431 = 21%

.74

Alveolar (título, pérola, cócegas)

99/473 = 20%

.73

17/152 = 11%

.25

Palatal (tínhamos, médico, último)

11/323 = 3%

.30

8/154 = 5%

.27

Velar (óculos, fígado)

19/55 = 34%

.63

12/104 = 11%

.26

 

Input:.04

Input: .07

Sig.: .000

Sig.: .014

Os dados da fala rural (APERJ) revelam que o apagamento da vogal é mais produtivo e

favorecido quando o onset da sílaba postônica não final é preenchido por uma consoante

labial (.74), sendo desfavorecido pelas demais (alveolares, .25; palatais, .22 e velares, .26). Já

na fala culta do PB e nos dados do Português Europeu, os resultados não se mostraram

relevantes em termos probabilísticos, mas é pertinente que sejam apresentados (Tabela 6), a

fim de serem observadas as regularidades encontradas:

123

Tabela 6. Índices da variável ponto de articulação da consoante precedente para o cancelamento da vogal – (nível 1): corpora NURC e Concordância.

Ponto de articulação

NURC

CONCORDÂNCIA

Oco

P. R.

Oco

P. R.

Labial (época)

23/247 = 9%

(.46)

45/70 = 64%

(.55)

Alveolar (título, pérola, cócegas)

24/269 = 8%

(.45)

101/178

=

(.47)

56%

Palatal (tínhamos, médico, último)

14/186 = 7%

(.41)

4/8 = 50%

(.40)

Velar (óculos, fígado)

33/79 = 41%

(.86)

9/12 = 75%

(.67)

 

Sig.: .000

Sig.: .005

 

No NURC, são as velares (.86) que favorecem o apagamento, enquanto as demais o

inibem (labial, .46; alveolar, .45; palatal, .41). Tal resultado sugere a confirmação da hipótese,

uma vez que as velares podem se ressilabificar em direção ao ataque da sílaba final, caso haja

nesse contexto – como já se observou – uma consoante alveolar (no caso, uma líquida). Os

resultados expressos na tabela 6 corroboram as tendências apontadas para o papel do contexto

precedente: são as consoantes que podem ser ressilabificadas em direção ao onset da sílaba

átona final as que mais favorecem o processo de apagamento da vogal: as velares (.67),

seguida das labiais (.55). Alveolares e palatais também parecem não atuar de forma

significativa (.47 e .40, respectivamente).

3.1.2. A consoante seguinte

Partiu-se do princípio de que a presença de consoantes líquidas no ataque da sílaba átona

final favoreceria a queda da vogal postônica, uma vez que tais consoantes podem tanto se

anexar à coda da sílaba tônica, formando o padrão CVC nesse contexto, quanto figurar como

segundo elemento de um ataque complexo, desde que haja no ataque da sílaba postônica não

final uma consoante obstruinte (oclusivas e fricativas labiais), como está expresso na Tabela

7.

Tabela 7. Efeito da atuação do modo de articulação da consoante seguinte para o apagamento da vogal postônica não final.

Consoantes

NURC

PEUL

APERJ

 

CONCORDANCIA

Oco

P. R.

Oco

P. R.

Oco

P. R.

Oco

P. R.

Oclusivas

e

24/498

=

.36

74/865

=

.50

73/567

=

.47

96/220 =

.41

Fricativas

4%

8%

12%

43%

(época)

Nasais

14/162

=

.50

41/268

=

.31

1/72 = 1%

.08

47/84

=

.58

(mínimo)

8%

15%

55%

Lateral

47/77

=

.95

54/95

=

.67

12/68

=

.57

9/11

.76

124

(óculos,

61%

 

56%

 

22%

 

=81%

 

círculo)

Vibrante

9/60

=

.65

17/78

=

.80

41/133

=

.83

9/12

=

.94

(abóbora)

15%

21%

30%

75%

 

Input:.07

 

Input:.04

 

Input:.07

 

Input:.056

 

Sig.: .000

Sig.:.000

Sig.:.014

Sig.:.015

As líquidas, nas quatro amostras consideradas, favorecem o apagamento da vogal,

embora se observem diferenças quanto aos pesos relativos e à hierarquia dos fatores. O corpus

NURC se diferencia dos demais, no sentido de que a lateral, com peso relativo .95, se mostra

mais significativa para o cancelamento do que a vibrante, que é o fator mais saliente nos

outros dois corpora (PEUL, .80; APERJ, .83; Concordância, .94). Os resultados sugerem que

o apagamento da vogal postônica não final é fortemente condicionado por licenciamentos na

estrutura fonotática da língua, sobretudo quando a queda do segmento vocálico átono não

final possibilita a ressilabificação da consoante que o acompanha.

O controle do ponto de articulação da consoante seguinte vem a corroborar a tendência.

Entretanto, a variável se mostrou estatisticamente relevante somente para a fala popular

urbana da variedade brasileira (corpus PEUL).

Tabela 08. Atuação do ponto de articulação da consoante seguinte para o apagamento da vogal – PEUL

 

Consoantes

Oco

P. R.

 

Labiais

85/354 = 24%

.85

(ônibus, último)

Input:.04

PEUL

Alveolares

86/342 = 25%

.59

Sig.: .000

(pássaro, pérola)

Velares

15/603 = 2%

.22

(época, córrego)

Os dados do PEUL, apesar de serem reflexo de uma rodada ótima em termos

probabilísticos (significância .000), sugerem uma tendência que não está de acordo com a

hipótese postulada, uma vez que indicam como mais favorecedoras à queda da vogal as

consoantes labiais (.85), seguida das alveolares (.59). Tal resultado, a princípio, contraria o

que era esperado, já que consoantes labiais não poderiam figurar como segundo elemento de

um ataque complexo, ao contrário das alveolares (sobretudo [l] e [ɾ]]).

Todavia, um olhar mais atento aos dados revela que os resultados trazem em si uma

correlação pertinente. As consoantes labiais [p, b, m] no onset da sílaba átona final –

125

[‘o.ni.bu] [‘on.bu], [‘mĩ.ni.mu] [‘mĩ.mu], [‘pɾ .si.mu] [‘pɾ s. mu] – podem

favorecer o apagamento da vogal átona medial, desde que no onset da sílaba postônica não

final haja uma consoante que possa ser ressilabificada em direção à coda da sílaba tônica. Dos

fatores controlados, o único que pode atuar assim é o alveolar. Assim, a correlação entre o

ponto de articulação precedente alveolar aos pontos de articulação das consoantes

subsequentes pode trazer indícios para a compreensão do processo nos dados do PEUL

(Tabela 9).

Tabela 9.

Cruzamento do ponto de articulação alveolar da consoante precedente com o

ponto de articulação da consoante seguinte corpus PEUL.

Ponto de

Ponto de

   

articulação

articulação

Exemplos

Oco

precedente

seguinte

 

Labial

ônibus

72/187 = 39%

Alveolar

Alveolar

ssaro

16/77 = 21%

Velar

única

11/208 = 5%

A correlação revela que os resultados não são contraditórios, uma vez que respeitam as

condições de estruturação silábica em português: labiais no onset da sílaba átona final

favorecem o apagamento da vogal, quando o onset da sílaba postônica não final é preenchido

por uma alveolar. Os índices parecem confirmar tal tendência no corpus PEUL (39%).

3.2. E os condicionamentos sociais?

Investigações de cunho sociolinguístico procuram observar de que forma aspectos

relativos à constituição da comunidade de fala em análise incidem sobre os usos linguísticos

dos indivíduos. Neste trabalho, esperava-se que o processo de apagamento da vogal postônica

não final sofresse restrições sociais tanto na variedade brasileira quanto na europeia.

Entretanto, notou-se que o fenômeno, que culmina na regularização das proparoxítonas ao

padrão acentual default em português, não encontra restrições sociais na comunidade de fala

portuguesa em investigação. A tabela 10 revela que, no âmbito do português brasileiro, há

sempre ao menos um condicionante social a interagir com fatores linguísticos para a aplicação

da regra de apagamento da átona medial. Na tabela 10, expressam-se os resultados para os

fatores sociais nos dados da variedade brasileira.

126

Tabela 10. Efeito dos condicionamentos sociais – português brasileiro

Corpus

 

Oco

P.R

 
 

Faixa 1 (18 a 35 a)

38/261 =

.64

 

14%

Input:.07

NURC

Faixa 2 (36 a 55 a)

27/183 =

.57

Sig.: .000

Faixa Etária

14%

Faixa 3 (mais de 56a)

30/342 =

.36

8%

PEUL

 
 

Faixa 1 (18 a 35 a)

20/304 =

.27

 

6%

Faixa Etária

Faixa 2 (36 a 55 a)

80/528 =

.50

Input:.04

15%

Sig.:.000

Faixa 3 (mais de 56a)

92/485 =

.64

18%

 

Homens

113/658

.62

 

Sexo

= 17%

Input:.04

Mulheres

79/659 =

.37

Sig.:.000

11%

 

Analfabetos

75/323 =

.67

 

APERJ

23%

Input:.07

Escolaridade

Alfabetizados

55/526 =

.38

Sig.:.014

10%

Com relação à atuação da variável faixa etária, os resultados verificados no corpus NURC mostram que os falantes das faixas etárias mais jovens aplicam a regra de apagamento da vogal átona medial com mais frequência do que os da faixa etária mais alta. Os índices probabilísticos confirmam o decréscimo na aplicação da regra: os valores dos pesos relativos diminuem à medida que se avança pelas faixas etárias (.64, .57 e .36 para as faixas 1, 2 e 3, respectivamente). Tal tendência pode ser atribuída ao fato de os jovens cultos serem menos conservadores em relação aos usos padrão. No que se refere à amostra PEUL, os resultados expostos na tabela parecem indicar que os falantes mais velhos, com mais de 56 anos de idade, realizam muito mais formas sincopadas (.64) do que os falantes da faixa mais jovem. (.50 para faixa 2 e .27 para faixa 1). Percebe-se, ainda, que a faixa mais jovem utiliza mais as formas padrão, o que pode ser indício de que o processo de regularização dos vocábulos proparoxítonos em paroxítonos é uma variável sem prestígio social nesse grupo. Em relação à atuação do condicionamento sexo do informante, relevante para o corpus PEUL, pode-se inferir que, no âmbito da fala popular urbana do português brasileiro, estamos diante de uma variável sem prestígio social. Quando a variação não é um indício de um fenômeno de mudança em progresso, como mostram os resultados na perspectiva do tempo aparente, as mulheres tendem a utilizar as formas de prestígio muito mais do que os homens.

127

Os resultados comprovam a primeira tendência com relação ao papel da variável sexo, descrito acima: os homens favorecem as formas com apagamento mais do que as mulheres (.62 e .37, respectivamente). Sobre a atuação da variável escolaridade, relevante para o corpus APERJ, percebe-se que

o apagamento da vogal postônica não final é mais produtivo na fala dos analfabetos do que na

dos escolarizados (.67 contra .38). Tal resultado confirma a hipótese postulada, já que os

falantes analfabetos, por não terem contato com a modalidade escrita, tendem a apresentar mais em sua fala as formas desprestigiadas socialmente. Vale destacar ainda que o conjunto de palavras proparoxítonas que fazem parte do acervo lexical ativo dos falantes do português

é muito restrito, uma vez que a maior parte delas constituem termos técnicos ou eruditos. No português europeu, conforme evidencia a tabela 2, somente variáveis linguísticas, relacionadas ao contexto fonético adjacente à vogal postônica não final e à dimensão da palavra proparoxítona, foram relevantes. As tendências, de certa forma inesperadas, suscitam algumas reflexões, expressas a seguir.

4. Reflexões sobre os resultados

Os resultados discutidos na seção anterior levam a questionar o porquê de não ocorrer interação entre os condicionamentos linguísticos e sociais para a aplicação da regra de apagamento da vogal postônica não final nos dados do Português Europeu. Uma possível explicação para esse resultado pode residir na relação entre os processos de alteamento e apagamento, considerando a ocorrência dos fenômenos tanto no português brasileiro quanto na variedade europeia. É notória a maior produtividade do fenômeno de apagamento quando se confrontam as duas variedades continentais. No âmbito do português brasileiro, os índices gerais de aplicação da regra são relativamente próximos (inputs .07 para o NURC, .04 para o PEUL e .07 para o APERJ – conforme evidenciado na tabela 2), e revelam uma baixa ocorrência do processo. Uma provável justificativa para o comportamento da variedade brasileira pode estar vinculada ao fato de, nos contextos átonos do PB, ainda ser mais produtiva a regra de alteamento, conforme salientam diversos estudos (Camara Jr, 1979; Wetzels, 1992; Bisol, 2003; Bisol e Magalhães, 2004; Santos, 2010). Isto leva a associar os processos de apagamento ao de alteamento: no PB, o apagamento em contexto postônico não final talvez seja pouco produtivo porque se observa variação na

128

realização das vogais médias e altas nos contextos átonos. No PE, o processo de alteamento, em contexto pretônico, “se generalizou durante a primeira metade do século XVIII”, constituindo uma “mudança paradigmática, fonológica (não condicionada)” (Castro, 1991,259). Sincronicamente, em contexto postônico não final, só se observam, como mostram Mateus e d’Andrade (2000), as vogais [ ], [ɨ ] e [u], todas realizações altas. Enquanto, no PB, se mantém um quadro de variação estável nos contextos átonos, no PE, parece estar havendo uma tendência ao apagamento. Assim, o apagamento da vogal postônica não final no PE, por ser significativamente frequente (input .56) e corresponder a um processo que não se restringe a essa posição, atingindo outros contextos átonos, não seria marcado socialmente. No PB, o cancelamento, que eventualmente pode ocorrer em posição pretônica (beringela bringela) parece ser objeto de valoração social: a tendência à preservação das vogais átonas implicaria uma valoração negativa das formas com o cancelamento da vogal. Os resultados das análises aqui realizadas, de certa forma, refletem esse quadro: na análise referente ao PE, não houve interação, só variáveis estruturais se mostraram salientes; nas referentes ao PB, pelo menos uma variável social foi selecionada (corpus NURC: faixa etária; corpus PEUL: gênero e faixa etária; corpus APERJ: escolaridade).

5. Considerações finais

As análises empreendidas neste trabalho permitem perceber que há convergências e divergências quantitativas consideráveis entre as variedades brasileira e europeia no que tange à aplicação da regra de apagamento da vogal postônica não final. No que tange às divergências, notou-se que:

os dados do português europeu sugerem que, nesta variedade, há uma alta incidência da síncope da vogal postônica não final; os dados do português brasileiro – independentemente da norma sob análise – revelam uma relativa uniformidade nos índices gerais de ocorrência do fenômeno, que indicam para uma baixa produtividade do processo de apagamento da vogal postônica não final. No âmbito das convergências, observou-se que, no que concerne à atuação dos condicionamentos fonéticos, há correlação – tanto na variedade brasileira quanto na europeia – entre o apagamento da vogal postônica não final e a ressilabificação das consoantes que a acompanham, reflexo de um princípio que atua desde o latim vulgar: quando a consoante que

129

acompanha a postônica não final pode ser ressilabificada – principalmente em direção ao

onset da sílaba átona final, há semelhanças consideráveis entre as variedades aqui analisadas.

Se há semelhanças qualitativas entre as variedades brasileira e europeia no que diz

respeito à relação entre contexto fonético precedente/subsequente e a manutenção/apagamento

da vogal postônica não final, como explicar as diferenças quantitativas salientes entre as

variedades continentais? Uma justificativa plausível pode residir nas diferenças entre o

vocalismo átono do português brasileiro e do português europeu.

As particularidades dos sistemas vocálicos átonos das variedades brasileira e europeia

podem justificar as diferenças quanto à interação entre os condicionamentos linguísticos e

sociais para a aplicação da regra no português brasileiro e no europeu:

na variedade brasileira, o apagamento de vogais é objeto de valoração social – o

processo de alteamento ainda é mais frequente; assim, a aplicação da regra de

apagamento estará condicionada a um ou mais fator(es) extralinguístico(s);

na variedade europeia, por outro lado, o processo de alteamento, concluído na pauta

pretônica, estaria em vias de conclusão nas demais pautas átonas. O apagamento das

vogais constituiria uma etapa seguinte ao processo de mudança no quadro vocálico

átono.

6. Referências

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130

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Williams,

Janeiro:MEC/INL, 1961.

Edwin.

Do

latim

ao

português.

Trad.

de

Antonio

Houaiss.

Rio

de

131

131 THE INTONATION OF ABSOLUTE QUESTIONS IN BRAZILIAN PORTUGUESE Abstract Francisco J. Cantero Dolors Font-Rotchés

THE INTONATION OF ABSOLUTE QUESTIONS IN BRAZILIAN PORTUGUESE

Abstract

Francisco J. Cantero Dolors Font-Rotchés Applied Phonetics Laboratory Universitat de Barcelona cantero@ub.edu; dolorsfont@ub.edu

In this paper we describe three melodic patterns of absolute interrogatives from a phonetic and phonological point of view, obtained from a corpus in Goiás (Brazil). The patterns are: a) Rising Final Inflection (30% to 52%), b) Rising-Falling Final Inflection, c) High Nucleus Final Inflection. These patterns have been established from the acoustic analysis and standardisation of 40 questions and from their verification of validity in a perception test.

Keywords: intonation, absolute interrogatives, brazilian portuguese, perception test

1. Introduction

Absolute questions, also called yes/no questions, are those comprising the entire content of the utterance and are responded to with a 'yes/no' answer (Você está vindo isso?, ‘Are you watching this?’), unlike partial or pronominal interrogatives, which focus on part of the utterance (Quantos anos?, 'How many years?' ).

132

The intonation of absolute questions in Brazilian Portuguese has been described by a rising melodic contour (HOCHGREB, 1983; MORAES, 1998). In later research, Moraes (2006:

117) states that the intonation of this type of question is more complex and presents five interrogative patterns which he described as: final rise, delayed rise, double rise, internal rise and falling pattern. The first three types of melodic contours are similar in that they have a rise on the last stressed syllable followed by a final fall (L+H*L%), with variations according to where the rise takes place and to whether it is very sharp or weaker. The fourth and the fith types, internal rise and falling pattern, show a fall on the last stressed syllable (H+L*L%). Cunha (2006), based on a corpus of semi-spontaneous speech from Atlas Linguistico Brasileiro (ALiB), described yes/no questions by a final rise pattern. A subsequent study (CUNHA et alii, 2008) compared the intonation of absolute questions in Brazilian Portuguese with those in Spanish spoken in Uruguay and was based on a question read by 4 female speakers from each place: Brazilians from Santano do Livramento and Rio de Janeiro and Uruguayans from Montevideo and Rivera. It described a falling contour, (L*+HL%) in Santana do Livramento and a falling parabolic contour (L+H*L%) in Rio de Janeiro.

In 2009, Lira described statements and yes-no questions in five cities in the Northeast (Recife, Salvador, São Luís, Fortalesa and João Pessoa). She stated a predominant final rise pattern in absolute questions from the first three cities and a high nucleus with a final fall pattern from the two last ones. Both patterns were also found in Florianopolis and Lages, cities of the state of Santa Catarina (NUNES, 2011). In addition, Paixão & Callou (2011) described a rising- falling pattern in Rio de Janeiro and Silva (2011) state a rising-falling pattern in Rio de Janeiro and Florianopolis and a rising pattern in Recife and Florianopolis. These studies are based fundamentally on the analysis of laboratory speech.

Unlike those studies, the study made by Sena (2013) based on absolute questions spoken by native speakers from the State of São Paulo, within a context of spontaneous speech, following the Melodic Analysis of Speech method (CANTERO, 2002; FONT-ROTCHÉS; CANTERO, 2009), describes four interrogative melodic patterns: a) Rising Final Inflection (20% to 30%) pattern; b) high nucleus pattern with flat body; c) high nucleus pattern with rising body; and d) rising-falling pattern.

In this paper we present the results obtained from research on the intonation of absolute questions spoken by native speakers from the State of Goiás, following Melodic Analysis of

133

Speech method. In total, we have discovered three interrogative patterns which have been recognised by native speakers in perception tests and defined by the tonal movement of the final inflection.

2. Method

This research, which is part of a much larger, joint project with researchers from the University of Brasilia 32 , is based on the Melodic Analysis of Speech method for the acoustic analysis, complemented in a second phase by perception experiments to establish the patterns.

We believe that it is a valid intonation analysis method, for two main reasons:

It offers an exclusively phonic criterion in speech melody segmentation, independent of any other level of analysis, which can be used to analyse even spontaneous and genuine speech analysis.

It presents an acoustic data processing system that enables us to obtain the relative values that form the melodies in order to compare and classify them, to reproduce them exactly, experiment with them by using voice synthesis, subject them to perception analysis and make linguistic generalisations.

This enables us to use many speakers and a large number of contours with the purpose of establishing language intonation patterns with precise values to be applied in several areas,

32 This research has been possible thanks to the joint project with researchers from the University of Brasilia, Intonation models of Spanish and Portuguese for language teaching (A/016328/08), awarded by the Agencia Española de Cooperación Internacional para el Desarrollo (AECID, Spanish International Cooperation Agency for Development) and to Análisis melódico del habla -Melodic Speech Analysis- (FFI2009-13214-C02-01), granted by the Spanish Ministry of Science and Innovation.

134

such as language teaching, voice retraining, speech disorders, voice synthesis, speech recognition and in dialogue systems among others.

The corpus consists of 8 hours of interviews and conversations recorded in Goiás (Brazil) with 15 speakers, 12 men and 3 women, who uttered 40 absolute interrogatives. All are native speakers from the State and come from or work in a rural context: agronomists, rural engineers, farmers and their wives and children, between the ages of 25 and 65.

The method’s application, whose protocol is explained in detail in Font-Rotchés & Cantero (2009), is divided into two stages. During the first, acoustic stage, the F 0 value of the vowels (in Hz) is obtained for each utterance using Praat. Following this, the values obtained are standardised, calculating the tonal distance in percentages between one value (in Hz) and the next. The result of this standardisation is the essential melody of the phrase, clean of irrelevant values (or ‘micromelodic variations’). These standardised values enable the melodic line to be represented graphically and subsequently, these contours can be classified and compared regardless of any variable of both speaker (gender, age) and duration of the utterances or its grammatical structure (see Figure 1 for the different parts of the contour). Mateo (2010) developed a script for Praat and an Excel macro which enables the automation of the gathering and standardisation of data.

Figure 1. Diagram of the three parts of the contour

1 st Peak Nucleus Decline Anacrusi Body Final Inflection
1
st Peak
Nucleus
Decline
Anacrusi
Body
Final Inflection

As can be seen in the contour diagram, the anacrusi consists of the existing tonal segments prior to the first tonic vowel of the contour or the first peak. Not all of the contours have this part as on occasion it is nonexistent. The body begins after the first peak and continues until the last tonic vowel of the contour, the vowel we refer to as nucleus or core. The final

135

inflection is the most important part of the contour and starts at the last tonic vowel until the end. The direction of the final inflection (rising, falling, rising-falling, falling-rising, etc.) and the percentage of the tonal movement obtained are the basic criterion that enable the different types of melodies to be established.

In the perception stage, the results obtained are validated using a perception test based on a synthesised copy of the original utterance or the actual utterance itself. The participants in the experiment (listeners) determine the significant changes that the modification of the manipulated melodic aspect provides (for example, responding to questions such as “do you think the utterance is finished?”, “is it an affirmation?”, “is it a question?”, etc.)

This perception stage has enabled us, for now, to establish the distinctive phonological values and their dispersion margins of melodic patterns for Castilian Spanish (CANTERO; FONT- ROTCHÉS, 2007) and Catalan (FONT-ROTCHÉS, 2007). Also, four interrogative melodic patterns have been described for Castilian (FONT-ROTCHÉS; MATEO, 2011) and three for Catalan (FONT-ROTCHÉS, 2008). Following this method, we can study the acquisition of Castilian Spanish Intonation by Chinese people, speakers of a tonal language (LIU, 2005), by Italian learners (DEVÍS, 2011), by Brazilian Portuguese learners (FONSECA; CANTERO, 2011) or Hungarian learners (BADITZNÉ, being printed), among others.

3. Perception test

After analysing the 40 absolute interrogatives, which form part of the corpus made up of 145 utterances, we standardise them, represent them on a graph and classify them according to their final inflection, in other words according to the tonal movement in the nucleus or last stressed syllable.

We have established that there are three types of final inflection (FI): 17 with a rising FI between 10% and 56%, 11 with a rising-falling FI and 12 with a high nucleus FI. In total two perception tests were set up including a total of 68 utterances of different types, classified in blocks according to what was being asked.

136

We selected a total of 25 absolute interrogative utterances (9 with a rise of between 17.2% and 56.8%; 7 rising-falling, the rise between 15% and 75%; and 9 with a high nucleus with a rise of between 9% and 115.5%) which were randomly included in the two tests combined with various utterances. All could be interpreted in a decontextualised way, as any type of utterance: declarative, emphatic, suspense, interrogative, etc., with no type of grammatical or punctuation stress which would make them stand out. For example, “Está lembrado”, Do you remember?/You remember it./ You remember it! What’s more the selected contours included varying rise percentages in the final inflection to establish the minimum and maximum tonal movement margins. If the variety was not sufficient the utterances could be manipulated using the Praat’s PSOLA method.

Each test was responded to by 40 participants, university students at the UnB (University of

Brasilia) on graduate courses, all native speakers of Brazilian Portuguese. Each student was given a questionnaire with 34 utterances laid out in blocks. In each block interrogative utterances were combined with suspense, neutral and emphatic utterances so that the listener would differentiate between the types of utterance that were being heard. For the final rise utterances, a dichotomy of the following type was posed: É uma pergunta (?) ‘It is a

question’ / O enunciado não está acabado ainda (

we wanted to discover the upper and lower limits of the question’s rise. For utterances with a rising-falling final inflection and with a high nucleus the following dichotomy was posed: É uma pergunta (?) ‘It is a question’ / É uma exclamação (!) ‘It is an exclamation’ to find out what percentage of the rise correlates with the question and what percentage with the exclamation. The participants listened to each sound file of each utterance three times and had to mark the option they heard with an “x”. If in doubt or if they didn’t know, the box was left blank.

‘The utterance is unfinished, because

)

Table 1 shows the results obtained for the questions with a final rising inflection. We included 9 questions in the perception test with contours presenting a final rising inflection of between 17.2% and 56.8%.

Table 1. Questions with a rising FI.

Utterances

%

?

%

 

%

Seria 31 de janeiro aqui That would be 31 January here?

17.2

24

60

16

40

137

Nivelar e todinho faltando plantar Level and completely unplanted?

21.9

23

57.5

17

42.5

Está lembrado Do you remember?

29.7

38

95

2

5

Dos anteriores Of the previous ones?

31.8

35

87.5

5

12.5

A energia põe quanto How much does electricity cost?

31.7

32

80

8

20

Mas esses que você dá eles valem cinqüenta. But the ones you provide are worth fifty?

41.8

39

97.5

1

2.5

Você quer levar o negócio das vacas Do you want to run the cattle business?

48.4

33

82.5

7

17.5

Duzentos e cinqüenta esse bezerro Two hundred and fifty this bullock?

51.8

39

97.5

1

2.5

De um a dois anos From one to two years?

56.8

24

60

16

40

According to the results, the participants responded in their large majority (cases highlighted grey), between 80% and 97.5%, that the contour perceived as a question melody presented a final rising inflection in a range of 30% to 52%. It appears that a lower rise, between 17.2% and 21.9% is not always interpreted as /+interrogative/, nor is a higher one, with a 56.8% rise. Even so, further tests should be carried out when this corpus is increased in order to try to establish the higher limit with more precision, particularly if contours with a rise higher than 56.8% occur, which is the highest we have an example of to date.

With regard to the contours with a final rising-falling inflection, we put 7 questions to the perception test, with contours, in the first part of the final inflection, with a rise of 15.3% to 75% followed by a fall which tended to end at a point lower than where the final inflection began. The results shown in table 2 conclude that in this type of inflection, a rise of 15% is sufficient for the contour to be interpreted as a question melody by 92.5% of the participants. Similarly, the different rises in the final inflection of the melodies included in the perception test and which reached 75%, showed perception levels as a question of between 80% and

100%.

Table 2. Questions with a rising-falling FI.

Utterances

%

?

%

!

%

Você tem alguma dúvida com relação as

15.

 

92.

   

3

37

5

3

7.5

vinte mesmo Exactly

26.

38

95

2

5

138

Está vendo os morrinhos

34.

38

95

2

5

Você tem o anterior i

Y

h

h

46.

2

40

100

0

0

Do pé de acerola l

F

h

h

48.

4

38

92.

5

2

7.5

Mais de dois anos é uma

62.

28

70

12

30

Tá boa How are you?

75

32

80

8

20

There is only one case, “Mais de dois anos é uma?”, One is more than two years old? with a 62.2% rise in the final inflection, which was mainly perceived, by 70%, as a question whilst the remaining 30% perceived it as an exclamation. Even so, we understand that its melody is a question due to the majority of participants responding as such and it is between the two rises, 48,4% and 75% which were also considered /+interrogatives/.

The contours with a high final nucleus followed by a fall are also used by speakers to created questions in Brazilian Portuguese, as shown in table 3. This type of contour, as we can see in the next section, is characterised by a fairly flat body and in the syllable prior to the nucleus a rise starts ending in the nucleus itself and followed by a fall. There were 9 utterances in the perception test which were questions, whose melodies were recognised as such in 8 cases with a rise of between 9% and 48.5%. One last contour with a significant rise of 115% (100% is equivalent to an octave on a musical scale) was interpreted by 55% as interrogative and by 45% as emphatic. It is likely that it contains these two characteristics but this possibility was not planned in the tests. Also in this case, the corpus should be increased to see how contours with rises in the high nucleus of 48.5% are defined.

Table 3. Questions with a high nucleus FI.

Utterances

%

?

%

!!!!

%

Desse você trouxe da última vez You brought that last time?

9

33

82.5

7

17.5

Você está vendo isso Are you watching this?

10

35

87.5

5

12.5

Já pensou se aquilo lá estourar You have thought about if it explodes?

11.9

32

80.0

8

20.0

Tem visão aqui Can it be seen from here?

16.5

37

92.5

3

7.5

139

Mas ele não trabalha nada com o gado But he doesn’t work with the livestock?

25.6

31

77.5

9

22.5

Caiu então So, it fell?

29.6

30

75.0

9

25.0

O

senhor não tem funcionário

         

aqui não You don’t have civil

33.3

39

97.5

1

2.5

servants here?

O

senhor quer ver

48.5

40

100

0

0

Do you want to see?

Nao é esse

Isn’t it that?

115

22

55.

18

45.

4. Results and discussion

Based on 40 questions taken from a corpus of interviews and conversations, which were initially analysed acoustically, then classified into groups according to their final inflection (rise, rising-falling, high nucleus) and finally validated in perception tests by 40 native speakers, we have defined three patterns for absolute interrogatives in Brazilian Portuguese which we describe below.

4.1 Rising Final Inflection (30% to 52%) pattern

The rising FI (30-52%) melodic pattern (see in figure 2) is characterised by an optional anacrusi, comprising the first atonic syllables of the utterance to the first tonic syllable or first peak. In this part of the contour a rise could occur of between 30% and 50%. Sometimes, the utterance begins at the first peak and does not include this part and others the rise could be 50% or more, therefore establishing that there is an emphasis on the first peak.

The body, from the first peak to the nucleus, tends to present an almost imperceptible fall. Words with a tonal rise are frequently found in the body.

Figure 2. Rising Final Inflection (30% to 52%) pattern. First Peak Nucleus Body FI: Rise
Figure 2. Rising Final Inflection (30% to 52%) pattern.
First Peak
Nucleus
Body
FI: Rise
Anacrusi
+30%~52%
RISING FINAL INFLECTION (30%-52%) PATTERN

140

After the nucleus, the final inflection begins, characterised by a slight rise of between 30% and 52%. It is not a particularly marked rise compared to Spanish question melodies which show a rise of over 70% (CANTERO; FONT-ROTCHÉS, 2007) or to those in Catalan which are over 80% (FONT-ROTCHÉS, 2007, 2008). However, this part of the contour is the most significant and is the one that enables listeners to recognise the type of melody they perceive.

This melodic contour, found in 17 utterances of the corpus coincide with any of those obtained in Florianópolis (NUNES, 2011; SILVA, 2011), Lages (NUNES, 2011), cities of the Northeast, as Recife (LIRA, 2009; SILVA, 2011), Salvador and São Luis (LIRA, 2009), and State of São Paulo (SENA, 2013), as well as of those described by Cunha (2006), based on a corpus of semi-spontaneous speech from Atlas Linguistico Brasileiro. The rising pattern obtained by Sena (2013) in State of São Paulo, which we can compare because of the use the percentages, has been characterised by a slighter rise of betwen 20% and 30% than the pattern described by State of Goiás, with a rise of betwen 30% and 52%.

In figure 3, the question “dos anteriores?”, Of the previous ones?, shows an utterance that not include the anacrusi and the first peak. It has a flat body and a final rise from the final tonic syllable ‘-ores’ of 31.8%.

Figure 3. Melodic contour of “dos anteriores?” ‘ Of the previous ones?’

dos an te ri ores ores? Hz 228 232 221 228 261 344 Perc. 100,0%
dos
an
te
ri
ores
ores?
Hz
228
232
221
228
261
344
Perc.
100,0%
1,8%
-4,7%
3,2%
14,5%
31,8%
Stand C.
100
102
97
100
114
151

4.2 Rising-Falling Final Inflection pattern

The rising-falling FI melodic pattern (see in figure 4) is characterised by a flat body with no anacrusi or first peak. Sometimes the utterance has an optional anacrusi with a slight rise, comprising the first atonic syllables of the utterance until the first tonic syllable or first peak.

141

Figure 4. Rising-Falling Final Inflection pattern Nucleus Body FI: rising- RISING-FALLING FINAL INFLECTION PATTERN
Figure 4. Rising-Falling Final Inflection pattern
Nucleus
Body
FI:
rising-
RISING-FALLING FINAL INFLECTION PATTERN

The final inflection begins after the nucleus which in this case has three values and is circumflex, rising-falling. The rise that occurs can be between 15% and 75% and the fall tends to reach a point close to where the final inflection began. This melodic contour, found in 11 utterances of the corpus, which coincides with an interrogative pattern described for Spanish (CANTERO; FONT-ROTCHÉS, 2007) does not coincide with any of those described by Moraes (2006) but does have a certain resemblance to the Santana do Libramento structure of Cunha et alii (2008), to the Rio de Janeiro (PAIXÃO; CALLOU, 2011; SILVA, 2011), to the Florianópolis (SILVA, 2011) and the State of São Paulo (SENA, 2013).

Figure 5 shows a typical example with an anacrusi with a slight rise, a flat body and a final rising-falling inflection.

Figure 5. Melodic contour of “Esta vendo os morrinhos?”, Are you looking at the hills?

(Es)ta ven (d)o os mo rri rri* nhos? Hz 139 151 138 135 144 194
(Es)ta
ven
(d)o os
mo
rri
rri*
nhos?
Hz
139
151
138
135
144
194
151
Perc.
100,0%
8,6%
-8,6%
-2,2%
6,7%
34,7%
-22,2%
Stand. C.
100
109
99
97
104
140
109

4.3 High Nucleus Final Inflection Pattern

The high nucleus FI melodic pattern (see in figure 6) is characterised by an optional anacrusi, comprising the first atonic syllables of the utterance up to the first tonic syllable or first peak. In this part of the contour a rise could occur of between 30% and 40%. The body shows a gentle fall until the syllable before the nucleus, where the rise begins, which can be 9% or

142

more and which culminates in the nucleus. The example with a more pronounced rise in the nucleus shows a 115% rise. The melodic line continues, with a fall that ends at the lowest point of the contour. This pattern is similar to an interrogative pattern in Catalan, although the rise in Catalan in the high nucleus must be at least 50% (FONT-ROTCHÉS, 2007, 2008).

Figure 6. High Nucleus Final Inflection pattern Nucleus First Peak Body FI: Anacrusis High HIGH
Figure 6. High Nucleus Final Inflection pattern
Nucleus
First Peak
Body
FI:
Anacrusis
High
HIGH NUCLEUS PATTERN

This melodic contour is similar to the endings described by Moraes (2006: 118), Cunha et alii (2008) for Rio de Janeiro, Lira (2009) for João Pessoa and Fortalesa, Nunes (2011) for Florianópolis and Lages and Sena (2013) for the State of São Paulo. Sena (2013) describes two varieties in the body of this pattern: it can be rising or with a gentle fall.

(Vo)cê (es)tá (es)tá* ven (do) i iss(o)? Hz 169 199 163 157 173 125 Perc
(Vo)cê
(es)tá
(es)tá*
ven
(do) i
iss(o)?
Hz
169
199
163
157
173
125
Perc
100,0%
17,8%
-18,1%
-3,7%
10,2%
-27,7%
Stand. C.
100
118
96
93
102
74

Figure 7. Melodic contour of “Você está vindo isso?”, ‘Are you watching this?’

In figure 7 we can see a rise in the contour until the first peak, Você está ‘Are you’, of 17.8%, a body showing a gradual fall which changes direction and begins to rise on the pre-tonic syllable and ends in the final tonic syllable, followed by a fall.

5. Conclusions

143

According to the results obtained from our research, absolute questions in Brazilian

Portuguese in the State of Goiás have three different melodic patterns according to their final

inflection:

Rising Final Inflection (30% to 52%). This pattern is characterised by optional

anacrusi, first peak in the first tonic syllable, body with a gentle fall and a rise of

between 30% and 50% in the final inflection. Similar contours were also obtained in

Florianópolis and Lages (State of Santa Catarina), cities of the Northeast, as Recife,

Salvador and São Luis, State of São Paulo, as well as in Atlas Linguistico Brasileiro.

Rising-Falling Final Inflection. Normally this pattern is described with no anacrusi,

although sometines has an optional anacrusi with a slight rise, flat body and a rising-

falling final inflection. Contours like these were found in Santana do Libramento, Rio

de Janeiro, Florianópolis and in the State of São Paulo.

High Nucleus Final Inflection: This pattern is characterised by optional anacrusi, first

peak in the first tonic syllable, body with a gentle fall, and a high nucleus followed by

a fall. They have been found in some studies of diferent States of Brazil, such as Rio

de Janeiro, João Pessoa, Fortalesa, Florianópolis, Lages and the State of São Paulo.

The three patterns that had been defined by researchers before us in cities and states of Brazil,

in most cases are based on a corpus made by a few number of speakers reading utterances and

using a methodology that doesn't offer us exact data in order to compare diferent contours

from a wide range of speakers. These results seem to indicate that it is likely that these

patterns exist in general Brazilian Portuguese. We will continue collecting data in other parts

of this country in order to test not only if the three patterns exist but also to define in which

sociopragmatic contexts they appear.

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146

Sintaxe

146 Sintaxe A CONCORDÂNCIA EM NÚMERO COM O POSSUIDOR: UM ESTUDO DA SINTAXE DO DP Bruna

A CONCORDÂNCIA EM NÚMERO COM O POSSUIDOR: UM ESTUDO DA SINTAXE DO DP

Bruna Karla Pereira Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri

1

INTRODUÇÃO

No português (1a) e em outras línguas românicas como o espanhol (1b), pronomes possessivos concordam com o nome em número. No entanto, têm sido frequentes, em certas variantes do português do Brasil como no dialeto mineiro, ocorrências 33 em que o pronome

33 Para ilustrar, vejamos os seguintes dados:

a) “Fico imaginando a alegria suas quando viram o trabalho pronto” (De professora universitária a duas alunas e

uma colega, por ocasião de conversa informal, em Lavras, setembro de 2012).

b) O foco seus é só a distribuição de gás?” (De cliente a dois funcionários de uma empresa em Belo Horizonte, agosto de 2012). c) A decisão final é suas” (De economista a dois engenheiros por ocasião de reunião de negócios, em Belo Horizonte, fevereiro de 2014).

d) “A caneta é suas” (De cliente de restaurante a garçonete por ocasião de atendimento comercial, em Belo

Horizonte, março de 2014. Notemos que a afirmação é dirigida a apenas uma pessoa, mas se refere ao grupo de

responsáveis pelo restaurante).

e) “O projeto seus prevê aplicação no ensino?” (De professora universitária a uma palestrante por ocasião de

evento na área de Letras, em Diamantina, junho de 2013. Notemos que a pergunta é dirigida a apenas uma

pessoa, mas se refere ao grupo de pesquisadores atuantes no projeto).

f) Sobre interfone: “O meu está com defeito, e o Pedro me disse que o seus também” (De professora aposentada

a vizinha, por ocasião de conversa espontânea, em Belo Horizonte, março de 2014. Notemos que a afirmação é dirigida a apenas uma pessoa, mas se refere aos moradores de um dos apartamentos. Notemos ainda que a

construção permite elisão do NP).

147

possessivo de segunda pessoa do plural, seja pós-nominal (2a) seja pós-cópula (2b), não estabelece concordância em número com o nome.

(1)

a. as casas suas

b.

las casas suyas

(2)

a. a alegria suas (a alegria de vocês)

b. a caneta é suas (a caneta é de vocês)

Embora haja vários estudos sobre possessivos, falta, na literatura sobre o português brasileiro, uma pesquisa que tome como objeto as construções mencionadas em (2). Nesse sentido, com este trabalho, objetiva-se investigar ocorrências como aquela tipificada em (2a) nas quais o possessivo pós-nominal se flexiona no plural enquanto o nome está no singular. Para isso, será desenvolvida uma análise dentro dos princípios da sintaxe comparativa (KAYNE, 2012), levando-se em consideração o sistema possessivo de outras línguas nas quais a concordância em número se dá com o possuidor. Assim, do ponto de vista empírico, serão considerados dados efetivos coletados na televisão, no cotidiano e em bancos 34 de dados disponíveis na internet ou em outras mídias, além de dados de intuição. Do ponto de vista teórico, teremos como base o programa minimalista (CHOMSKY, 1995) a partir do qual será averiguada a aplicação de propostas formalistas de análise da estrutura do DP, tais como Giorgi & Longobardi (1991), Cardinaletti (1998), Cinque (2005), Bernstein (2005) e Aboh (2010). Ao aliar pressupostos teóricos formalistas e investigação empírica dos dados, esta pesquisa visa a evidenciar uma nova construção de modo a ampliar os estudos da sintaxe do DP no português do Brasil.

2 REVISÃO DA LITERATURA

34 Está sendo realizado um levantamento de dados no banco do projeto Mineirês (NUPEVAR/UFMG), que, podemos adiantar, atesta o fenômeno, e em bancos de dados de outros estados, como NURC e PHPB, para uma investigação mais ampla, em diferentes variantes dialetais do país. O resultado deste levantamento deve ficar pronto em 2014. Por isso, os dados disponíveis neste trabalho, registrados na forma de anotações e coletados em diferentes eventos do cotidiano (conversas espontâneas, debates acadêmicos, reunião de negócios, atendimento comercial, etc.), são do dialeto mineiro apenas, visto que ainda está em execução uma pesquisa sistemática de dados de outras regiões.

148

Esta seção apresenta inicialmente pesquisas já desenvolvidas sobre o possessivo ‘seu’ e posteriormente pressupostos teóricos sobre a cartografia do DP, que fundamentarão a análise a ser desenvolvida neste trabalho. Sendo assim, a primeira seção (2.1) tem como objetivo tratar, de modo panorâmico, de pesquisas prévias a fim de mostrar que seus interesses diferem daquele que será foco do presente trabalho: a concordância em número do possessivo com o possuidor. A segunda seção (2.2), por sua vez, destaca os fundamentos teóricos para a análise deste fenômeno dentro de uma abordagem gerativista.

2.1 PESQUISAS SOBRE POSSESSIVOS NO PORTUGUÊS

O possessivo ‘seu’ tem sido tema de diversos trabalhos no português do Brasil, tais como Perini (1985), Kato (1985), Müller (1997), Cerqueira (1996) e Rocha (2009). Esses pesquisadores têm se preocupado, dentre outros aspectos, com: (i) o tipo de referente retomado pelo possessivo, se genérico ou referencial, no caso do pronome ‘seu’ de terceira pessoa; (ii) a substituição do pronome ‘seu’ pelo genitivo ‘dele/dela’, que teria desencadeado uma suposta redução do uso daquele em favor deste; (iii) a ambiguidade no uso de ‘seu’ como segunda e terceira pessoas; e (iv) a relação entre posição e função sintática do possessivo. Por exemplo, Silva (1996, p. 171) observa que, após introdução do ‘você’ no sistema pronominal do português, por volta do século XVIII, o possessivo morfológico de terceira pessoa ‘seu’, antes utilizado apenas para terceira pessoa, passou a ser utilizado também para segunda pessoa, conforme quadro abaixo, uma adaptação de Silva (1996, p. 171).

Antes da introdução de ‘você’

Após a introdução de ‘você’

pessoal

possessivo

pessoal

possessivo

eu

meu

eu

meu

tu

teu

tu

teu

ele

seu

você

seu

 

ele

seu

Em consequência, ‘seu’ torna-se ambíguo em (3a), podendo se referir tanto a Joana, pessoa com quem se fala (2ª pessoa), quanto a Stella, pessoa a respeito de quem se fala (3ª pessoa). Nesse caso, algumas estratégias são utilizadas para evitar ambiguidade, dentre elas, a

149

utilização de ‘dela’, em (3b), e a utilização de uma oração relativa restritiva, em (3c). A utilização de ‘teu’, em (3d), apesar de ser uma alternativa pouco provável no dialeto mineiro, é possível em outros dialetos do português.

(3)

a. “Joana, vi Stella beijando seu namorado” (SILVA, 1996, p. 172).

b. Joana, vi Stella beijando o namorado dela.

c. Joana, vi Stella beijando o namorado que é seu.

d. Joana, vi Stella beijando o teu namorado.

Diante dessa ambiguidade e da frequente utilização de ‘dele’ em ambientes nos quais ‘seu’ de terceira pessoa seria possível, pesquisadores como Silva (1996) e Rocha (2009) começaram a investigar se ‘dele’ estaria substituindo ‘seu’, em um processo de mudança. Essa hipótese foi contrariada por Neves (1993) e questionada por Müller (1997), conforme será discutido adiante. A partir da análise de dados do projeto NURC, coletados em diversas cidades do país (incluindo Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife), Neves (1993, p. 207) afirma que,

para a 3ª pessoa, é altamente preferida a forma ‘seu’ (68,3%) à forma ‘dele’ (31,7%); essa conclusão, que contrariou as expectativas (especialmente em se tratando de língua falada), foi confirmada pela análise de um corpus de confronto (6 EF de São Paulo), que apresentou 75,6% de uso do ‘seu’ contra 24,4% de uso de ‘dele’.

Diferentemente, a partir de um corpus da cidade do Rio de Janeiro, Silva (1996, p. 180) afirma estar “praticamente enterrada na língua oral a forma ‘seu’ para terceira pessoa, exceto nos casos de possuidores gerais, reservando-se a forma ‘seu’ para segunda pessoa semântica”. Segundo Silva (1996, p. 175), ‘dele’ teve uma frequência de 75% no corpus oral e 14,1% no corpus escrito. Também Rocha (2009, p. 103) afirma que a “forma possessiva ‘dele’ é a preferida entre os falantes do português de Belo Horizonte, com 78% dos casos”. Müller (1997), em observância à disparidade nas conclusões apresentadas, defende a existência de uma especialização no uso de ‘seu’. Não se trata, portanto, de uma substituição de ‘seu’ por ‘dele’, mas de uma especialização no uso de ‘seu’ para sintagmas mais genéricos

150

e de ‘dele’ para mais referenciais. Por exemplo, em (4), o sintagma “todos os homens” inviabiliza a retomada por ‘deles’ (4b), havendo preferencialmente a retomada por ‘seus’ (4a).

(4)

a. Todos os homens têm os seus problemas.

b. ?Todos os homens têm os problemas deles.

Assim sendo, “essas formas estariam se especializando segundo o eixo semântico da referencialidade” (MÜLLER, 1997, p. 58-59), isto é, haveria uma “relação entre o tipo de denotação do sintagma nominal antecedente e a escolha de uma ou de outra forma possessiva” (MÜLLER, 1997, p. 62). Diante desse dado, a autora sugere que a predominância no uso de ‘dele’ no corpus de Silva (1996), por exemplo, ocorreria porque “os assuntos dessas entrevistas são bastante presos aos contextos imediatos em que vivem os entrevistados, evitando a discussão de assuntos mais abstratos” (MÜLLER, 1997, p. 72-73). Conclui a autora então que não são fatores extralinguísticos tais como condição social, região, grau de formalidade ou modalidade (fala versus escrita) que determinam a escolha da forma pronominal ‘seu’ ou genitiva ‘dele’. Tendo explicitado essa questão, a autora parte para um estudo da posição dos possessivos no português. Inicialmente, ela mostra que apenas genitivos argumentais 35 podem ser substituídos por possessivos (5). Por exemplo, observa-se que não é possível substituir um genitivo adjunto “de mais de 50 anos” (6a) por um possessivo (6b). Por isso, ela defende que pronomes possessivos são argumentais.

(5)

a. Em que cinemas podemos ver filmes de Almodóvar?

b.

Em que cinemas podemos ver seus filmes?

(6)

a. “Em que cinemas podemos ver filmes de mais de 50 anos?” (MÜLLER, 1997, p.

111).

b. *Em que cinemas podemos ver seus filmes?

35 Segundo Müller (1997, 110-113), genitivos argumentais podem receber papel temático de possuidor (“a boca da serpente”), agente (“romance de Marcos Rabelo”) e tema (“não tem ideia do futuro”), podem ser substituídos por um pronome possessivo (a sua boca) e podem ser substituídos por cujo (“a serpente cuja boca”). Genitivos adjuntos qualificam e especificam (“rádio de pilha” e “língua de derivação indo-europeia”), não são argumentais e não podem ser substituídos por um pronome possessivo.

151

Posteriormente, Müller (1997, p. 152) explica que, anteposto ao núcleo, o pronome possessivo é argumental e funciona como um determinante. Por sua vez, posposto ao núcleo, ele funciona como um adjunto. Alguns testes sintáticos são eleitos para justificar essa diferença: (i) apenas o pronome posposto aceita modificação por um advérbio (7) e (ii) apenas o pronome posposto aceita coordenação com um adjetivo (8). Outros testes são fornecidos por Brito (2003). Segundo a autora, (iii) coordenação com outro possessivo (9) e (iv) precedência por um advérbio de exclusão (10) são aceitas apenas em posição pós-nominal.

(7)

a. Lá eu tinha um jardim gostosamente meu (MÜLLER, 1997, p. 174).

b.

*Lá eu tinha um gostosamente meu jardim (MÜLLER, 1997, p. 174).

(8)

a. Foi uma vitória gerativista e minha quando o grupo de Teoria Gramatical conseguiu

as primeiras classificações no concurso de monografias (MÜLLER, 1997, p. 174).

b. *Foi uma grande e minha vitória quando o grupo de Teoria Gramatical conseguiu as

primeiras classificações no concurso de monografias (MÜLLER, 1997, p. 174).

(9)

a. Um artigo meu e teu está aqui (BRITO, 2003, p. 506).

b.

??? O meu e teu artigo está aqui (BRITO, 2003, p. 506).

(10)

a. um livro só meu (BRITO, 2003, p. 505).

b. *um só meu livro (BRITO, 2003, p. 505).

Há, portanto, diferenças sintáticas entre o pronome possessivo anteposto e o pronome possessivo posposto. Segundo Müller (1997), essas diferenças refletem a posição estrutural desses itens na hierarquia sintática, sendo o primeiro um determinante, à semelhança de artigos, e o segundo um adjunto, à semelhança de adjetivos. Essa ideia também é compartilhada por Brito (2003, p. 518) para quem a posição de possessivos pós-nominais “parece ser a de adjunto a SN”. Veremos, na seção seguinte, que, em teorias formalistas mais recentes, adjetivos, pronomes, numerais e mesmo advérbios não são adjungidos, mas alocados na posição de especificador de categorias funcionais que constituem o DP.

2.2 QUADRO TEÓRICO

Na perspectiva da sintaxe comparativa, que tem como base o programa minimalista (CHOMSKY, 1995), podemos destacar, de modo específico, o estudo de Bernstein (2005)

152

sobre possessivos no inglês e no espanhol e, de modo geral, a proposta de Cinque (2005) sobre o mapeamento estrutural do DP. Bernstein (2005) estabelece uma comparação entre os pronomes possessivos no inglês, no espanhol e no francês. Destacaremos adiante a relação feita entre inglês e espanhol apenas, visto que o francês não possui pronome possessivo pós-nominal, mas sim uma locução prepositiva (un ami à toi). Segundo Bernstein (2005), com base em Cardinaletti (1998), os pronomes possessivos pós-nominais são formas fortes, que se caracterizam por apresentar uma complexidade morfológica maior que os pré-nominais. Por exemplo, no espanhol, além de número e pessoa, o possessivo pós-nominal (11a) apresenta marca de gênero, enquanto o possessivo pré- nominal (11b) não apresenta concordância em gênero, sendo por isso menos robusto em termos morfológicos.

(11)

a. casas suyas

b. sus casas

Além de serem mais complexos morfologicamente, os pronomes possessivos pós- nominais apresentam um agrupamento de propriedades, algumas já exemplificadas na seção anterior com dados de Müller (1997) e Brito (2003), que os caracteriza como formas fortes, tais como:

(12)

a. podem ser coordenados: “casa minha e sua”;

b. podem ser modificados: “jardim gostosamente seu”;

c. podem se realizar como predicativos: “esse jardim é seu”.

Por sua vez, uma semelhança entre inglês e espanhol é que ambas as línguas podem expressar posse não apenas por meio de pronomes, mas também por meio de DPs pós- nominais precedidos por preposição, como em (13). Contudo, enquanto a construção

153

possessiva em inglês permite a presença de pronomes possessivos seguidos de preposição, o espanhol não 36 permite (14).

(13)

a. un amigo de María

b.

a friend of Mary’s

(14)

a. un amigo de *suyo

b. a friend of mine/yours

Essa diferença entre inglês e espanhol é decisiva para se propor uma distinção no sistema de concordância dos possessivos nestas duas línguas. Segundo Bernstein (2005, p. 66), a não existência de construção possessiva com pronome seguido de preposição no espanhol reflete o fato de que o pronome possessivo pós-nominal não pertence à estrutura do DP, mas à estrutura de um CP reduzido, que funciona como complemento de D. Sendo assim, em vez da preposição ‘de’, o espanhol apresenta um complementizador ‘que’, realizado como forma zero, nas estruturas com possessivo pós-nominal. Portanto, o sistema de concordância do possessivo pós-nominal no espanhol consistiria em um tipo de Agree sentencial e externo ao DP (BERNSTEIN, 2005, p. 67), como se observa em (15).

(15)

[ D el [ CP [amigo viejo] i [ C Ø [ IP/AgrP suyo [ I/Agr [ NP [ ] i ] ] ] ] ] ] (BERNSTEIN, 2005, p.

66).

Diferentemente, no inglês, AgrP seria interno ao DP, como se observa na derivação abaixo (16). Segundo Bernstein (2005), o pronome possessivo alça para Spec,AgrP, enquanto o nome vai para Spec,DP.

(16)

36 A preposição é usada com pronomes de tratamento (de usted e de ustedes) e com o pronome pessoal de terceira pessoa (de él/ella).

154

154 BERNSTEIN (2005, p. 59) Sendo assim, para Bernstein (2005), a diferença do espanhol para o

BERNSTEIN (2005, p. 59)

Sendo assim, para Bernstein (2005), a diferença do espanhol para o inglês seria o fato de que, no inglês, a concordância do possessivo pós-nominal é interna ao DP, enquanto no espanhol, ela é sentencial. No espanhol, o NP se moveria para o CP e, no inglês, para o DP. Adiante, destacaremos a proposta de Cinque (2005) que se distingue da proposta de Bernstein (2005) principalmente porque o autor considera várias categorias AgrP na estrutura do DP, enquanto Bernstein (2005) considera apenas uma. Segundo Cinque (2005) e Aboh et al. (2010), a estrutura nominal reflete a estrutura sentencial, dentre outras razões, por disponibilizar uma hierarquia de projeções funcionais, que é determinada pela Gramática Universal. De acordo com Cinque (2005), os modificadores são gerados em uma ordem fixa pré-nominal, qual seja, Dem > Num > A > N. Assim, as diferentes ordens atestadas nas línguas resultam do movimento da projeção máxima NP (e não do núcleo) para posições de Spec em categorias funcionais (AgrP) geradas acima dos modificadores, conforme mostrado na derivação abaixo (17).

(17)

155

155 CINQUE (2005, p. 317) As categorias AgrP, geradas acima de cada projeção funcional, são justificadas

CINQUE (2005, p. 317)

As categorias AgrP, geradas acima de cada projeção funcional, são justificadas por Cinque (2005, p.325-326, tradução nossa) da seguinte maneira:

Suponhamos que cada sintagma (aquele contendo um Sintagma Adjetival, outro contendo o Sintagma de Número, outro contendo o Sintagma Demonstrativo, etc.) precise ser dotado com um traço nominal para ser licenciado (i.e., para ser contado como parte da projeção estendida do NP) e que isso possa ser realizado inserindo, por merge, acima dele um núcleo Agr(eement) cujo Spec, em última instância, venha a ter esse traço nominal. 37

37 “Suppose that each phrase (the one containing an Adjective Phrase, the one containing the Number Phrase, the one containing the Demonstrative Phrase, etc.) needs to be endowed with a nominal feature to be licensed (i.e., to count as part of the extended projection of NP), and that this can be brought about by merging above it an Agr(eement) head whose Spec ultimately comes to have such a nominal feature” (CINQUE, 2005, p. 325-326).

156

Assim, o licenciamento desse traço que caracteriza o item como pertencente à estrutura nominal pode se dar simplesmente a partir do merge de Agr ou a partir do movimento do NP para Spec,AgrP. O movimento, por sua vez, pode decorrer de duas formas:

o NP pode alçar sozinho ou conjugado com um XP, em pied-piping. O primeiro tipo justifica as ordens (18a - c), enquanto o segundo justifica as ordens (18d - f), havendo ainda outras ordens possíveis.

(18)

a. Dem Num N A

b. Dem N Num A

c. N Dem Num A

d. A N Dem Num

e. N A Dem Num

f. Dem A N Num

Em resumo, a variação na ordem dos modificadores na estrutura do DP é explicada a partir do movimento do NP, como projeção máxima, para Spec,AgrP. Além disso, cada categoria é licenciada por um AgrP como indicativo de pertencimento à estrutura nominal.

3 METODOLOGIA

Trata-se de um trabalho de perfil exploratório e empírico, respectivamente, porque envolve uma revisão da literatura sobre os possessivos e sobre as propostas teóricas vigentes e porque se analisa uma construção específica de emprego do possessivo ‘seus/suas’ no português do Brasil. Para isso, serão considerados dados efetivos coletados na televisão, no cotidiano, na internet e em bancos de dados, o que não exclui a presença de dados de intuição. Além disso, o trabalho se desenvolve dentro das premissas metodológicas da sintaxe comparativa (KAYNE, 2012) na qual se espera o estabelecimento de correlações entre o português brasileiro e outras línguas, no que diz respeito ao tópico de estudo, para enfim se propor uma descrição formalista do fenômeno.

157

Em sentenças como (19a), o possessivo plural pós-nominal concorda em gênero com o nome, mas em pessoa e em número com o possuidor. Portanto, ‘suas’ em (19a) compartilha propriedades do espanhol (19b), por um lado, que é a concordância em gênero com o nome, e do inglês (19c), por outro lado, que é a concordância em número com o possuidor, conforme esquema na tabela em (20).

(19)

a. “Fico imaginando a alegria suas quando viram o trabalho pronto” 38 .

b. la(s) casa(s) suya(s)

c. a friend of his/theirs

(20) Concordância do possessivo pós-nominal em (19a) comparada com inglês e espanhol

 

gênero

número

pessoa

português

nome

possuidor

possuidor

espanhol

nome

nome

possuidor

inglês

possuidor 39

possuidor

possuidor

Ainda comparando as duas línguas, observa-se que, no português (21a) e no espanhol (22a), o pronome pessoal (‘vocês’ e ustedes) diferencia morfologicamente a concordância com o possuidor de segunda pessoa do plural. Por isso, essas construções deixam claro semanticamente que o possuidor, também interlocutor, compreende mais de uma pessoa.

(21)

a. um favor de vocês

b.

um favor seu

(22)

“Preciso de um favor seus urgente” 40 a. un favor de ustedes

c.

b. un favor suyo

c. *un favor suyos

38 De professora universitária a duas alunas e uma colega, em Lavras, setembro de 2012.

39 Refere-se aqui à concordância em gênero que se aplica a her(s) e his.

40 De engenheiro de uma construtora a dois engenheiros de outra companhia, em Belo Horizonte, fevereiro de

158

Contudo, ‘seu’ (21b) e suyo (22b) pós-nominais não fazem referência a um possuidor plural, o que nos leva à seguinte conclusão: na falta de um pronome possessivo que seja capaz de significar exatamente o que ‘de vocês’ significa, tem-se utilizado o pronome no plural (21c), mesmo com nome no singular. Assim, a necessidade de usar um pronome que tenha o mesmo significado de ‘de vocês’ consistiria em uma justificativa semântico-pragmática para tais estruturas. Nota-se, porém, que a contraparte de (21c) no espanhol (22c) é agramatical, o que aponta para o surgimento, no PB, especialmente no dialeto mineiro, de um padrão diferente daquele esperado para línguas românicas, que merece ser investigado. Algo mais a se observar é que a substituição do possessivo pós-nominal plural de segunda pessoa pelo genitivo ‘de vocês’ (23b) é plenamente aceitável, mas a substituição do possessivo pós-nominal singular pelo genitivo ‘de você’ (24b) parece menos provável 41 .

(23)

a. Fico imaginando a alegria suas quando viram o trabalho pronto.

b.

Fico imaginando a alegria de vocês quando viram o trabalho pronto.

(24)

a. Fico imaginando a alegria sua quando viu o trabalho pronto.

b. ?Fico imaginando a alegria de você quando viu o trabalho pronto.

Finalmente, uma última propriedade a ser mencionada se refere a restrições na posição do possessivo, que, assim como o genitivo “de vocês”, não pode estar anteposto, conforme exemplos em (25b). Evidencia-se, assim, que o pronome possessivo ‘seus’ está situado em uma posição funcional mais baixa que o NP na hierarquia sintática.

(25)

a. a alegria de vocês/a alegria suas

b. *a de vocês alegria/*a suas alegria

Considerando essas propriedades, vale mencionar duas hipóteses concorrentes para análise, que estão representadas em (26) e em (27) abaixo. A primeira pode ser formulada com base em Cinque (2005). Conforme diagrama (26), uma possível derivação de (2a), observa-se que o possessivo seria gerado em uma posição

41 Para Perini (1985, p. 5), ‘de você’ possessivo é agramatical (*pai de você). Por outro lado, Neves (2000, p. 473) mostra a seguinte ocorrência: “sei os podres de todos, DE VOCÊ e de seus amigos”.

159

baixa na hierarquia do DP, mas ainda acima do NP. Por isso, o NP deveria ser alçado a Spec,AgrP PossP de modo a manter a posição pós-nominal do possessivo. Quanto à concordância, poder-se-ia sugerir que Agrº, categoria nominal inserida junto a PossP, tem apenas o traço de gênero (FEM) compatível com o do possessivo. O núcleo da categoria possessiva, por sua vez, abrigaria traços de pessoa e número (2PL) compatíveis com os traços do possuidor. Sendo assim, a concordância em número, quando se dá com o nome, ocorreria em AgrP (“as alegrias suas”), mas, quando se dá com o possuidor, ocorreria em PossP, conforme representado no diagrama (26).

(26)

em PossP, conforme representado no diagrama (26). (26) Esta proposta deixaria, no entanto, pelo menos duas

Esta proposta deixaria, no entanto, pelo menos duas dúvidas. A primeira se deve à posição do possessivo. Como não há restrição para que o NP permaneça in situ, a derivação não impediria o licenciamento de uma estrutura agramatical (*a suas alegria). A segunda dúvida se deve à concordância. A hipótese aqui sugerida de separar checagem de traços de número com possuidor em uma categoria (PossP) e com nome em outra (AgrP) não parece encontrar justificativa teórica. Se observarmos, por exemplo, a derivação de Bernstein (2005) feita para o inglês (16), não há distinção, no diagrama, que identifique ou represente o padrão de concordância com o possuidor, característico do inglês. Em outras palavras, tanto o possessivo suyo do espanhol, que concorda em número como o nome (15), quanto o possessivo their do inglês, que concorda em número com possuidor (16), ocupam a mesma posição sintática, qual seja,

160

Spec,AgrP e nela checam os traços de concordância. O que se distingue entre (15) e (16) é: 1) posição do possessivo, se posposto ou anteposto, e 2) fase em que ocorre a concordância, se em DP ou em CP. Portanto, pelo menos no trabalho de Bernstein (2005), não se distingue, no diagrama arbóreo, o tipo de concordância feita, se com possuidor ou com nome. Apesar disso, não se descarta a necessidade de se formalizar, de alguma maneira, esta diferença para os dados em (2), em que o possessivo apresenta um sistema de concordância ambivalente. Diante das dúvidas apresentadas quanto à derivação em (26), parte-se para a segunda hipótese de análise. Bernstein (2005) mostra que, no espanhol, possessivos pós-nominais não são precedidos por preposição. Em vez de uma preposição, o espanhol teria um complementizador zero introduzindo uma oração relativa reduzida. Aplicada a (2a), esta proposta poderia ser justificada porque o possessivo pós-nominal, além de não poder ser precedido por preposição, parece estar dentro de um CP, fato evidenciado pela possibilidade de posposição a um verbo (2b). Nesta hipótese, D tomaria CP como complemento [D[CP]], como em (27), uma derivação de (2a). Então, o possessivo ocuparia a posição Spec,AgrP, correspondente ao IP da oração, enquanto o NP se move para Spec,CP, gerando assim a ordem pós-nominal. Segundo Bernstein (2005), em orações relativas, é esperado o alçamento do NP, como em “A [menina i ] que conhecemos t i ”, o que impediria a permanência do NP in situ. Esta proposta teria a vantagem ainda de permitir uma análise unificada das estruturas em (2), sendo que, em (2a), o possessivo está em um CP reduzido e, em (2b), em um CP expandido, dada a presença de verbo.

(27)

sendo que, em (2a), o possessivo está em um CP reduzido e, em (2b), em um

161

Em suma, o possessivo, nas construções analisadas, apresenta as seguintes propriedades: i) é uma forma possessiva de 2ªPL (‘vocês’) 42 ; ii) pode ocorrer em posição predicativa (2b); iii) não pode ser anteposto (*a suas alegria); iv) dispõe de uma forma analítica (‘a alegria de vocês’); e v) não pode ser precedido por preposição (*a alegria de suas). Para analisar essas construções, a proposta de Bernstein (2005) se mostra mais adequada, pois sugere que o possessivo pós-nominal faz parte de uma relativa reduzida e, sendo assim, requer o alçamento do NP, o que justificaria a sua posposição.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta pesquisa, temos o propósito de descrever e explicar construções nominais com o possessivo de segunda pessoa do plural, como “o projeto seus” e “a alegria suas”, que se mostram recorrentes no dialeto mineiro. Quanto à concordância, o possessivo se refere a mais de um interlocutor (cf.: (a - c), em nota 1) ou a um interlocutor que se posiciona como representante de uma coletividade (cf.:

(d - f), em nota 1). Por isso, o possessivo não estabelece concordância em número com o nome ou com o determinante, ambos no singular, mas com o possuidor, como ocorre no inglês.

Quanto à posição, foram levantadas duas hipóteses de análise, sendo considerada mais adequada a de Bernstein (2005) segundo a qual o possessivo pós-nominal faz parte de uma oração relativa reduzida. Nesta estrutura, D toma CP como complemento, que, por sua vez, domina um AgrP cujo especificador abriga o possessivo. Abaixo de AgrP, é gerado o NP, que se move obrigatoriamente para Spec,CP, justificando-se assim a posição pós-nominal do possessivo. Esta investigação demanda ainda a realização de uma série de empreendimentos, tais como: catalogar o tipo de construção discutido em um número maior de variantes do português do Brasil; observar o padrão de concordância do possessivo com o possuidor em outras línguas além do inglês; verificar os parâmetros que permitem este tipo de concordância

42 Pode ser dirigido a mais de um interlocutor ou a apenas um, referindo-se, neste caso, a mais de um possuidor (cf.: (d - f), em nota 1).

162

no PB, mas o impedem em línguas românicas, como o espanhol; e testar a capacidade da hipótese de análise aventada. Posto isso, esta pesquisa, ao evidenciar uma construção que ainda não teve espaço na literatura sobre possessivos, vem a contribuir não apenas para a descrição da estrutura do DP no português do Brasil, mas também para a aplicação e a abrangência do modelo teórico utilizado.

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164

164 ADVÉRBIOS LOCATIVOS NA POSIÇÃO DE SUJEITO NO PB Zenaide Dias Teixeira Universidade Estadual de Goiás/Universidade

ADVÉRBIOS LOCATIVOS NA POSIÇÃO DE SUJEITO NO PB

Zenaide Dias Teixeira Universidade Estadual de Goiás/Universidade de Brasília Heloísa M. M. L. de A. Salles Universidade de Brasília

1.Introdução

Sabemos que o estudo das categorias tem longa tradição, no entanto, ainda nos

perguntamos quais são as propriedades da categoria advérbio. Esta é apontada na literatura

como de difícil caracterização, pois as palavras que compõem esta classe manifestam

comportamentos sintático-semânticos distintos, o que sugere a existência de subclasses. Neste

trabalho, discutiremos, mais especificamente, a capacidade de advérbios locativos, e seus NPs

correspondentes, ocuparem a posição de sujeito no PB, e não apenas a posição de adjunto,

como apontado pela tradição (cf. Cunha e Cintra, 2001).

Para tanto, iniciaremos expondo, na seção 2, várias possibilidades de construções

envolvendo advérbios e NP’s locativos e suas alternâncias sintáticas. Na seção 3, discutiremos

o desencadeamento da concordância verbal pelo advérbio e/ou NP’s locativos

correspondentes. Na seção 4, exploraremos as propriedades de N, propostas por Baker (2004),

discutindo a possibilidade de os advérbios locativos compartilharem, mais especificamente,

da propriedade referencial de N. Na seção 5, discutiremos as hipóteses de licenciamento do

locativo na posição de sujeito, refletindo sobre as propostas de Kato e Duarte (2008) e

Munhoz e Naves (2010). Em seguida, faremos nossas considerações finais.

2.A alternância sintática, advérbios e NP’s locativos na posição de sujeito

165

Em estudo que se tornou seminal para a caracterização do PB, Pontes (1986) aponta que uma das estratégias utilizadas para o preenchimento do sujeito nessa língua é a realização de advérbios locativos e/ou sintagmas de interpretação locativa na primeira posição da oração, que refere como posição de tópico-sujeito. A autora analisa, numa perspectiva funcionalista, estruturas como:

(1) a. As gavetas não cabem mais nada.

B. Essa casa bate bastante sol.

(Pontes: 1986, p.17-18)

Sabe-se também que os NPs em (1) possuem um correlato preposicional, como em (2):

(2) a. Nas gavetas não cabe mais nada.

b. Nessa casa bate sol.

Pontes (1987) observa que esse fenômeno caracteriza uma situação de alternância sintática, em que o mesmo sintagma é expresso com ou sem preposição. Se considerarmos a afirmação de Cinque (1999) de que advérbios podem se realizar como PPs ou como NPs, (3a, b) podem ser versões alternantes de (1a/b) e (2a/b):

(3) a. Aqui não cabe mais nada. b. Aqui bate bastante sol.

Diante disso, não é possível recorrer ao teste da distribuição sintática (posição de sujeito vs. posição de adjunto adverbial/ locativo) para definir o estatuto categorial desses elementos, tendo em vista as análises que postulam que advérbios podem ser incluídos na categoria preposição (cf. Lemle 1978; Chomsky 1981), em oposição aos que reconhecem a existência de categoria advérbio, independente das demais categorias (cf. Bomfim XX; Cinque 1999). Diferentemente, na abordagem das categorias lexicais de Baker (2004), apenas as categorias ‘nome’, ‘verbo’ e ‘adjetivo’ são consideradas lexicais, o que exclui os advérbios, embora seja possível considerá-los com os sintagmas preposicionais (PPs). No entanto, para esse autor, a preposição é uma categoria funcional, o que levaria à dedução de que o advérbio é também uma categoria funcional (cf. Cinque 1999). Passamos a investigar essas hipóteses, tendo como referência os dados do PB.

166

3. O desencadeamento da concordância verbal

Tradicionalmente, a concordância verbal e a posição (anteposto ao verbo) são as características mais marcantes do sujeito em PB, o que daria respaldo para afirmar que os sintagmas destacados em (1a, b) são sujeitos das sentenças. Para Pontes (1987), o verbo em sentenças como (4) concorda com o primeiro SN e não com o segundo (cf. 4a-b, em oposição a 4c), o que impossibilita a anteposição do segundo NP ao verbo, como indicado pela agramaticalidade de (4d):

(4) a. A Belina cabe 60l de gasolina.

b. Esse carro cabe 60l de gasolina.

c. *A Belina cabem 60l de gasolina.

d. *Esse carro 60l de gasolina cabem.

Conforme observa Pontes (1986, p. 19), seria “estranho ao português um sujeito que não pode desencadear a concordância”, então, neste caso, não poderíamos pensar em um sujeito posposto para estruturas como (4a, b). Concordamos com Pontes (1986) em que, em casos com NP pleno, a expressão locativa controla a concordância (cf. (5a-b), (6a-b)). A nossa questão é: por que com advérbios locativos o desencadeamento da concordância não se dá da mesma maneira? Vejamos:

(5) a. Esse sítio dá muitas bananas.

b. Esses sítios dão muita banana/ *Esses sítios dá muita banana.

c. Esse sítio e essa chácara dão muita banana.

d. ?Aqui e ali dão muita banana.

(6) a. Essa casa bate sol.

b.

*Essas casas batem sol/ *Essas casas bate sol.

c.

Essa casa e esse terraço

c.

?Aqui e ali batem sol à tarde.

No entanto, a restrição à concordância com advérbios coordenados não se confirma com predicados equativos – ocorrendo o padrão inverso:

167

(7) a. ?Aqui e ali é meu refúgio.

b. Aqui e ali são meu refúgio.

Nota-se que, enquanto NPs plenos no plural ou NPs coordenados controlam a concordância com verbo, advérbios coordenados não manifestam esse controle, pois a sentença no singular é claramente preferida. Nossa hipótese é a de que tal contraste se deve à ausência do traço formal de número nos advérbios (locativos). Assim, a concordância pode ser desencadeada com NP’s locativos, que possuem traço de número inerente, mas não com advérbios, em que o traço de número não está presente. A presença vs. ausência da categoria de número interage com as propriedades do predicado: enquanto advérbios (locativos) coordenados controlam a concordância de plural com predicados equativos, esse controle não é observado com predicados lexicais. Essa questão será discutida em termos do estatuto argumental dos advérbios locativos, assumindo-se que tais construções são restritas a predicados inacusativos biargumentais.

4.Traços definidores dos Advérbios (locativos) na relação com os traços de N

Exploramos, até agora, a capacidade de advérbios locativos, e seus NPs correspondentes, ocuparem a posição de sujeito no PB, e não apenas a posição de adjunção, como apontado pela tradição (cf. Cunha e Cintra, 2001). Passamos a investigar a hipótese de que tal propriedade permite identificar o advérbio locativo, nesse contexto, com propriedades da categoria N. Para tanto, adotamos a análise de Baker (2004). Baker (2004) analisa as propriedades que distinguem as categorias lexicais: nomes, verbos e adjetivos. O autor parte da tradição da sintaxe gerativa (Chomsky, 1970 apud Baker, 2004, p. 2), que distingue as categorias lexicais por traços binários:

(8) a. +N, -V = nome

b. –N, +V = verbo

c. +N, +V = adjetivo

d. –N, -V = preposição, posposição

168

O autor ressalta, porém, que tal distinção não é suficiente para estabelecer as diferenças entre as categorias lexicais – em particular, rejeita a definição de P em termos dos traços –N; –V, alegando que não têm consistência. Por isso, propõe o seguinte contraste:

(9) a. Nome é + N = tem um índice referencial

b. Verbo é +V = tem um especificador

c. Adjetivo é –N, -V

d. Preposição é parte de um sistema diferente (funcional).

21)

(BAKER,

2004,

p.

Postular que N tem índice referencial é uma forma de captar a concepção original que define a categoria N na tradição dos estudos gramaticais. Assumindo-se que os sintagmas

adverbiais têm distribuição semelhante aos sintagmas nominais, uma conclusão que se extrai é

a de que os advérbios locativos manifestam índice de referencialidade, exatamente como a

categoria N. Baker (2004) acrescenta que N e A precisam de cópula para serem usados predicativamente e não aceitam tempo morfológico. Diante dos dados referentes à distribuição sintática dos advérbios locativos, propomos que tais elementos compartilham com N a propriedade de manifestar índice referencial. Tal hipótese se sustenta no estudo de Pontes (1986), retomado em Munhoz e Naves 2010, em que

é demonstrada a possibilidade de o advérbio em posição de ‘tópico-sujeito’ estabelecer

ligação anafórica com uma categoria nula ou pronominal em posição de sujeito em oração

relativa (cf. 10a), em oração coordenada (cf. 10b-c):

(10)

a. Aqui i , que i chove pouco, é a minha cidade predileta.

b. Esse sítio i dá muitas bananas, mas também e i é cheio de laranjas.

c. As gavetas i não cabem mais nada, pois elas i estão lotadas. (Pontes 1986, com adaptação)

5. O licenciamento do sintagma locativo (argumental) na posição de sujeito

Com longa tradição de estudos em relação à sintaxe do sujeito no PB, Kato e Duarte (2008) examinam o alçamento do locativo argumental em sentenças existenciais, como se verifica nos dados abaixo:

169

(11)

a. Londres i tem prédios lindos [t i ]. b. Aqui i tem prédios lindos [t i ].(Kato e Duarte: 2008, p.4)

Assim, seguindo hipótese de Negrão (1999), as autoras observam que o PB possui características de línguas de proeminência de tópico-sujeito e, por essa razão, pode projetar apenas TP (12a, b), se o sujeito é nulo, ou SubjP e TP (12c, d), se a posição de sujeito é preenchida pelo locativo argumental. Essa análise assume proposta de Cardinaletti (2004 apud Kato e Duarte, 2008) de que sujeitos locativos localizam-se no especificador de SubjP:

(12)

a. [ TP Ø tem v [ VP t v prédios lindos em Londres]]

b. [ TP i tem T+V [ VP t v [prédios lindos em Londres]]]

c. [ SubjP Londres loc [ TP tem T+V [ VP t v [prédios lindos t loc ]]]]

d. [ SubjP Londres [ TP cê tem [ VP t v prédios lindos t loc ]]] (Kato e Duarte: 2008, p.7)

Munhoz & Naves (2010), por sua vez, ressaltam o fato de que as construções de tópico-sujeito locativo se licenciam com verbos inacusativos biargumentais, assim definidos por selecionarem dois argumentos DP’s internos, um tema e um locativo. Enquanto o argumento locativo é alçado à posição de sujeito, o argumento tema permanece em posição de interna ao VP. Assim, o locativo é um argumento selecionado pelo verbo, uma vez que a ausência do locativo causa agramaticalidade:

(13)

a. Essa casa bate bastante sol.

b. *Bate bastante sol.

c. Essa mala cabe muita coisa.

d. *Cabe muita coisa.

(Munhoz & Naves, 2010, p.9)

As autoras ressaltam que, neste caso, cabe distinguir construções com verbos inacusativos monoargumentais, que admitem a alternância com o sintagma locativo opcional, na posição de tópico-sujeito:

(14)

a.

A luz acabou (na UnB).

b.

A UnB acabou a luz.

(Munhoz & Naves, 2010, p.11)

170

Munhoz & Naves (2010) e Munhoz (2011) discutem as construções de tópico-sujeito envolvendo locativos, em contraste com aquelas que envolvem as de tópico-sujeito e genitivos, conforme ilustrado em (15a, b) – em que se pressupõe uma relação argumental de

carro). Assim, em dados como (15a-b), o verbo seleciona

possuidor-possuído (pneu

apenas um argumento interno, uma vez que o argumento ‘meu carro’ recebe o papel temático de possuidor do nome ‘pneu’, e não do verbo, mas o argumento possuidor pode ser realizado no estrutura do sintagma nominal (15a) ou na posição de tópico-sujeito (15b). 43

(d)o

(15)

a. Furou o pneu do meu carro. b. Meu carro furou o pneu.

O contraste entre as construções de tópico-sujeito locativos e genitivos manifesta-se também em relação à distribuição dos advérbios do tipo ‘aqui’: enquanto construções do tipo tópico-sujeito locativo autorizam a realização da posição de sujeito por um advérbio do tipo ‘aqui’, tal categoria não é possível em construções do tipo tópico-sujeito genitivo, como demonstram os dados em (16). Nossa proposta é a de que a restrição não é somente semântica, mas também sintática, sendo impossível realizar a posição de sujeito por meio de um advérbio modificador do predicado – ou inversamente, o constituinte gerado na estrutura do DP não pode ser realizado na posição de sujeito por um constituinte modificador do VP.

(16)

b. *Aqui furou o pneu.

a. Aqui bate sol.

Nossa hipótese de trabalho é a de que tal relação tem um correlato sintático, já que os advérbios locativos são realizados na estrutura interna do VP, distinguindo-se dos advérbios realizados na projeção estendida de VP (intensificadores), ou dos advérbios sentenciais, realizados em posições acima de TP (cf. Cinque 1999). Nesse sentido, os advérbios locativos satisfazem propriedades argumentais do predicado, manifestando, portanto, índice referencial, o que permite identificá-los com a categoria N, conforme sugerido anteriormente. No entanto,

43 Veja-se Lunguinho (2007) para uma discussão em que a relação possuidor-possuído é realizada em uma projeção de DP, que não examinaremos em detalhe por não ser diretamente relevante para esta discussão.

171

na ausência de outros traços lexicais, atribui-se a tais elementos caráter pronominal (conforme proposto originalmente em Bomfim 1988), o que permite identificá-los com propriedades da categoria determinante (D). O advérbio é alçado de uma posição interna ao VP, conforme ilustrado a seguir:

(17)

[ Top-Suj Aqui [ IP bate [ VP bate [ DP sol] [ AdvP aqui]]

Retomando a questão do controle da concordância, verificamos que, nessa configuração, DPs realizados pelo advérbio locativo em estrutura coordenada não controlam a concordância, conforme os dados retomados a seguir. Tais dados sugerem que o advérbio locativo manifesta os traços de [+pessoa] e [+dêictico] – mas o traço de número não está disponível.

(18)

*Aqui e ali dão muita banana.

(19)

*Aqui e ali batem sol.

(20)

*Aqui e ali entraram muita água ontem.

Assim, ao projetar um sintagma DP, os advérbios locativos manifestam traços formais que permitem licenciar o EPP, e a operação Agree na categoria I, embora apenas o traço de pessoa seja acionado, o que interage com o fato de que a posição de argumento externo de tais predicados é atemática. Nesse sentido, atribuímos ao advérbio locativo nessas construções um estatuto semelhante ao de pronomes expletivos em construções existenciais. Conforme proposto na literatura (cf. Chomsky 1995, 2004), o expletivo ‘there’ do inglês manifesta somente o traço de pessoa e satisfaz o EPP, mas não controla a concordância, como se confirma em estruturas existenciais do inglês, em que o verbo concorda com o sintagma associado ‘flowers’:

(21)

There *is/ are flowers in the garden.

Finalmente, cabe considerar os dados em que o padrão inverso, ou seja, os sintagmas locativos coordenados desencadeiam concordância. Nossa hipótese é a de que, como se trata de predicados equativos, é possível uma leitura distributiva para a categoria de número – diferentemente dos predicados com verbos inacusativos, que descrevem um evento

172

homogêneo, o que impede a leitura distributiva. Deixamos essa questão para uma discussão futura.

6. Considerações finais

Seguindo a hipótese da literatura exposta até aqui, assumimos que os advérbios e os sintagmas com interpretação locativa e/ou temporal, podem ocupar a posição de sujeito por ocuparem a posição inicial da oração – que é a posição canônica do sujeito –, podendo ser coindexados a uma categoria nula ou pronominal na posição de sujeito em uma oração coordenada ou encaixada. Evidência em favor dessa análise é o fato de manifestarem índice de referencialidade, por seu estatuto argumental (exatamente como os Nomes, na análise de Baker 2004). Além disso, quando realizados por sintagmas nominais locativos (regidos ou não por preposição) ocupam a posição inicial e desencadeiam concordância de número com o verbo. Verificamos também que advérbios locativos coordenados nessa posição não controlam concordância (de número), o que nos permite concluir que manifestam o traço de pessoa, mas não de número. Finalmente, adotando-se a proposta de Cinque (1999), em relação à distribuição dos advérbios locativos na estrutura oracional, nota-se que a possibilidade de ocupar a posição de sujeito está restrita aos advérbios ditos de VP, particularmente do tipo locativo ou temporal – além dos NPs com essa denotação. Ao excluir os demais advérbios (a saber, os sentenciais), o que se deseja demonstrar é que as construções com advérbio/NP em posição de tópico e em posição de sujeito são variantes determinadas por um requisito não só semântico-pragmático (a interpretação locativa/temporal, o estatuto dêitico do SN/advérbio), como também sintático no que se refere ao tipo de advérbio (de VP). Assim, somente advérbios internos ao VP têm caráter pronominal/nominal, manifestando, portanto, o traço categorial D e o traço formal de pessoa, que permitem licenciar o EPP.

REFERÊNCIAS

BAKER, M.C. (2004). Lexical Categories: verbs, nouns and adjectives. Cambridge:

Cambridge University Press. CHOMSKY, N. Knowledge of Language. Its nature, origin and use.

173

(1995)

The Minimalist Program. Cambridge, Ma: MIT Press.

CUNHA, C. & CINTRA, L.F.L. (2001). Nova Gramática do Português Contemporâneo. 3º ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. CINQUE, G.(1999). Adverbs and functional heads: A cross-linguistic perspective. New York:

Oxford University Press. KATO, M. & DUARTE, M.E.L. (2008) Mudança paramétrica e orientação para o discurso. In: Anais do Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, XXIV, 2008. Braga: Universidade do Minho. MUNHOZ, A.T.M. (2011) A estrutura argumental das construções de tópico-sujeito: o caso dos sujeitos locativos. Dissertação (Mestrado) – Universidade de Brasília. MUNHOZ, A.T.M. & NAVES, R.R. (2010). Notas a respeito da estrutura argumental de verbos com alternância entre tema e locativo no português brasileiro. In Anais do IX Encontro

do Centro de Estudos Linguísticos do Sul (CELSUL). Universidade do Sul de Santa Catarina. PONTES, E. S. L.(1986). Sujeito: da sintaxe ao discurso. São Paulo: Ática; (Brasília): INL, Fundação Nacional Pró-Memória. (1987). O tópico no português do Brasil. Campinas: Pontes.

174

174 CASO E ESPECIFICIDADE NOS REDOBROS PRONOMINAIS DO DIALETO MINEIRO 1. Introdução Considere os seguintes dados

CASO E ESPECIFICIDADE NOS REDOBROS PRONOMINAIS DO DIALETO

MINEIRO

1. Introdução

Considere os seguintes dados de fala 44 :

Ricardo Machado Rocha Jania Martins Ramos Universidade Federal de Minas Gerais

(1)

1.ª Pessoa

a. a prima dela não me queria eu mais

b. tinha cinco médico lá me olhano eu assim

c. tem vez que es não gosta muito de me deixá eu ficá lá

2.ª Pessoa

d. cê pode entrá que eu te ajudo ocê no que eu pudé

e. se uma hora acha um que te acerta ocê

f. Eu vô te jogá ocê no fogo

O redobramento pronominal de 1ª e 2ª pessoas é um recuso produtivo em vários

falares do português brasileiro (PB). No entanto ainda não há estudos e documentações que

localizem com precisão as regiões do Brasil em que se emprega o redobramento, de modo a

44 RAMOS, J. M. Corpus do dialeto mineiro: textos orais; textos escritos dos séculos XVIII, XIX e XX. (Dados de fala da cidade de Piranga. Conjunto de entrevistas coletadas por Mônica Alkmin e Elaine Chaves.)

175

distinguir estes falares daqueles que não produzem tal estrutura (embora nossa intuição seja a de que este uso esteja se espraiando). Os dados selecionados para esta investigação são representativos da fala de uma cidade mineira em que certamente o redobramento pronominal é muito produtivo. A partir dos exemplos transcritos acima, vamos elaborar dois grupos de questões para a investigação linguística.

O primeiro grupo diz respeito aos estudos sobre a variação no sistema pronominal do

PB. O paradigma dos pronomes pessoais no PB passou por mudanças radicais no último

século. Perdemos as formas de 2ª pessoa do plural (vós, vos, vosso

concordância: tu dá lugar a você e a distinção morfológica entre concordância de 2ª e 3ª pessoas se perde; esse reordenamento morfológico entre 2ª e 3ª pessoas gerou confusão entre as formas genitivas de 3ª pessoa seu/dele; novos pronomes entraram em cena (a gente, o senhor); mesmo com a flexão de 1ª pessoa indicando o sujeito gramatical, a realização do pronome eu em posição de sujeito parece em vias de se tornar obrigatório; o clítico de terceira pessoa não é mais empregado; clíticos objetos dão cada vez mais lugar a formar uniformes (que podem ocorrem em qualquer posição da sentença: você, em lugar de te; a gente, em lugar de nos; em alguns falares, eu em lugar de me). Neste cenário de tantas variações e mudanças, uma propriedade marcante no paradigma atual dos pronomes do PB parece ser a tendência a se empregar pronomes default para Caso em lugar de pronomes oblíquos (CARVALHO, 2008; MACHADO ROCHA, 2010, 2012, entre outros). Vários pronomes clíticos deixaram de ser usados a partir da segunda metade do século passado (KATO, 1993; CYRINO, 1994; GALVES, & ABAURRE, 1996; CYRINO & REICH, 2002; entre vários outros).

alteramos relações de

);

(2) Pronomes default X pronomes oblíquos

a. Maria te viu ~ Maria viu você Você viu Maria ~ *Te viu Maria (Você livre // Te restrito)

b. Maria vai comigo ~ Maria vai com/mais eu Eu vou com Maria ~ *Comigo vou com Maria (Eu livre // comigo restrito)

c. Maria gosta de mim ~ Maria gosta d’eu Eu gosto de Maria ~ *Mim gosto de Maria (Eu livre // mim restrito)

LIVRE = DEFAULT

RESTRITO = OBLÍQUO

A entrada dos pronomes tardios você, a gente e o senhor na série dos pronomes

formas

pessoais parece também intimamente ligada à tendência do paradigma de empregar

176

default para Caso, uma vez que estes pronomes surgem na língua com apenas uma forma, ao

Se o PB parece

caminhar rumo a uma regularização do paradigma, de modo a conter pronomes em sua maioria default, o fenômeno do redobro de clítico é estranho e inesperado. Presumivelmente,

estruturas como “a prima dela não queria EU mais”, deveria ter precedência sobre estruturas como “a prima dela não ME queria mais”. Porém o que se percebe em alguns falares do PB, a exemplo da fala de Piranga, é que três estruturas ocorrem: (a) com pronome default (a mais esperada); (b) com clítico (a menos esperada); e (c) com redobro: clítico + default (a inesperada!):

contrário dos antigos que variavam morfologicamente (eu, me, mim

).

(3) 45

1.ª Pessoa

a. aí internô eu

b. quando ele me chamô

c. aí começô a me xingá eu

2.ª Pessoa

a. Tonim tá quereno pegá ocê

b. eu vô te levá pra lá

c. eu vô te jogá ocê no fogo

Este primeiro grupo de questões pode ser formulado da seguinte maneira:

(i) Por que ocorrem redobros, se o pronome default aparece na posição canônica de objeto?

(ii) Por que ocorrem redobros para a 1ª e a 2ª pessoas pronominais, mas não para a terceira?

(iii) Há diferenças interpretativas entre estruturas simples e estruturas redobradas?

O segundo grupo de questões trata de problemas da teoria sintática formal e de problemas relativos às variações interlinguísticas. Os pronomes pessoais sempre estiveram no centro das investigações linguísticas formais, porque eles estão diretamente envolvidos com

45 RAMOS, J. M. Op. Cit.

177

uma das mais desafiadoras propriedades da Faculdade Humana da Linguagem: a concordância. Na perspectiva formalista (CHOMSKY, 1993, 1995 e muitos trabalhos subsequentes) pronomes pessoais são tratados como realizações de traços-φ (traços de gênero, número e pessoa). Esses mesmos traços são realizados em muitas línguas por meio de morfologia de concordância nos verbos e adjetivos. Além dos traços-φ, outros traços podem estar implicados nos pronomes pessoais, como traços de

Caso (mim X eu);

Definitude (Eles X você);

[± humano] (he X it - inglês); e outros, dependendo de quais traços foram gramaticalizados na língua.

As relações de concordância, que aparentemente podem sugerir redundâncias sintáticas, ao contrário disso são analisadas como operações de valoração de traços importantes para as interfaces sintaxe-semântica e sintaxe-fonologia e envolvem movimento/cópia e formação de cadeias (as abordagens mais recentes são encontradas principalmente em Chomsky (1995, 2000, 2001, 2005, 2008), além de muitos outros desenvolvimentos a partir destes trabalhos). Dessa forma, a expectativa teórica é que redobros de clíticos estejam envolvidos em operações de concordância, apesar de sua aparência de remarcação redundante. Redobramentos pronominais são atestados em muitas línguas, como veremos na próxima seção.

No segundo grupo de questões, podemos colocar os seguintes problemas:

(iv) Em estruturas redobradas, clítico e o DP pleno formam uma única cadeia ou cadeias

distintas? (v) Qual a função do clítico? Mais especificamente, de quais traços o clítico se encarrega na

relação de concordância que ele estabelece?

(vi) Do ponto de vista interlinguístico, redobros de clíticos apresentam um comportamento

uniforme?

Para respostas parciais ao primeiro grupo de questões, especificamente referentes a dados de redobro no PB, remetemos a Machado Rocha (2010, 2012). Para uma análise

178

alternativa, ver Diniz (2007). Neste trabalho, vamos nos ocupar do segundo grupo de questões, para as quais apresentamos uma proposta de análise em desenvolvimento.

2. Redobros de clíticos nas línguas

Muitas línguas exibem redobramento de clíticos objetos. Em várias línguas, é atestada

a ocorrência de uma preposição precedendo o pronome ou o DP redobrado, como no espanhol

e no romeno. Em algumas línguas, entretanto, o DP redobrado pelo clítico não é precedido de preposição. Tal é o caso do grego e, como exemplificado em (1) na seção anterior, este também é o caso do PB.

(4)

a.

Juan la conoce a ella. João a conhece a ela “João a conhece.”

 
 

(Espanhol) (TORREGO, 1995, p. 403)

b.

L-am vazut pe Popescu. o tenho visto a Popesco “Eu vi o Popescu.”

 
 

(Romeno) (TORREGO, 1995, p. 400)

c.

Tu

to

edhosa tu Jani

to vivlio.

Cl-GEN

Cl-ACU

dei

o João-GEN

o livro-ACU

“Dei o livro ao João.”

(Grego) (ANAGNOSTOPOULOU, 2005, p. 545)

O português padrão reconhece o redobro de clíticos em contextos especiais de ênfase e foco contrastivo. Porém, nessa variante, o redobro sempre é precedido de preposição:

179

(5) Viu-me a mim e não a ele.

(CASTILHO, 2005, p. 35)

Com base nos estudos das línguas românicas que realizam o redobro (JAEGLI, 1982, 1986b) e no semítico (BORER, 1984), alguns autores assumiram que o redobro de clítico só ocorreria quando o DP fosse precedido de uma preposição especial (a, no espanhol, pe, no romeno, e šel no hebraico; essa condição ficou conhecida na literatura como Generalização de Kayne e foi atribuída a Kayne no trabalho de Jaegli (1982, p. 20) (apud Anagnostopoulou (2005, p. 521)). No entanto a literatura das últimas décadas sobre o redobro tem contestado essa generalização com vários contraexemplos. Suñer (1993, p. 180), mostra que, no espanhol portenho, é possível a realização do redobro sem preposição:

(6)

a. Yo la tenía prevista esta muerte. Eu a tinha prevista esta morte “Eu tinha previsto esta morte”

(Espanhol Portenho) (DENEVI, 1984, p. 102. Apud SUÑER, 1993, p. 180)

b. Yo lo voy a comprar el diário justo antes de subir. Eu o vou a comprar o jornal logo antes de subir “Eu vou comprar o jornal antes de subir.”

(SUÑER, 1993, p. 180)

Também os estudos de Anagnostopoulou (1994, 1999a, 2003) e Alexiadou & Anagnostopoulou (1997b, 2000) demonstram que o grego realiza redobro de clítico com DP

sem preposição. No grego, contrariamente, a presença da preposição impede a realização do

redobro.

(7) *Tu

edhosa to vivlio

s-ton

Jani.

Cl-GEN

dei

o livro-ACU

“Dei o livro ao João.”

a(prep) o João

180

A literatura sobre o redobro de clítico revela que, nas diversas línguas estudadas, o redobro se dá preferencialmente com clíticos de 3ª pessoa, numa estrutura em que o clítico redobra principalmente um DP pleno, como esta muerte, no espanhol, e to vivlio, no grego. Exemplos como (3a, Juan la conoce a ella), em que o clítico redobra um pronome lexical, são mais raros. A própria definição de redobro é dada como “uma construção na qual um clítico coocorre com um DP pleno, numa posição argumental, formando com ele um constituinte descontínuo” (ANAGNOSTOPOULOU, 2005, p. 520). Considerando-se o exposto até aqui, os dados do PB colocam questões curiosamente novas, em relação ao redobro de clíticos. Primeiro, ao contrário das demais línguas, o redobro de clítico no PB não se dá com a 3ª pessoa, mas sim com a 1.ª e a 2.ª, exclusivamente. Por isso mesmo, não é possível o redobro de clítico com um DP pleno, uma vez que DPs plenos são sempre identificados como 3ª pessoa. Os redobros no dialeto analisado ocorrem apenas com os pronomes lexicais eu e você/ocê e os clíticos me e te. Além disso, os redobros do PB dialetal ocorrem sempre sem preposição. Os redobros com preposição não são encontrados no dialeto analisado, mas pertencem ao registro padrão. O redobro com preposição já era atestado no Português Medieval, tanto para a 3.ª quanto para a 1.ª e a 2.ª pessoas (CASTILHO, 2005).

3. Suporte teórico 3.1. Redobro pronominal e especificidade

Seguimos Torrego (1998), para assumir que a presença do clítico na estrutura de redobro está relacionada à especificidade. Torrego relaciona a presença de clíticos acusativos no espanhol ao v transitivo e propõe que os clíticos acusativos são Ds que portam explicitamente o traço D de v (e traços de concordância) (apud Anagnostopoulou, 2005, p.

570-573).

(8) Yo lo voy a comprar *un diário justo antes de subir. Yo Ø voy a comprar un diário justo antes de subir.

Carvalho (2008) defendeu que os pronomes default no PB podem apresentar leitura arbitrária.

(9)

181

a. Eu começo a fumar um cigarro hoje, amanhã eu experimento x.

(Contexto: um agente de controle de drogas entorpecentes sendo entrevistado por um apresentador de TV.)

(CARVALHO, 2008, p. 83)

b. Você/ a gente / alguém começa a fumar um cigarro hoje, amanhã você/ a gente/ alguém experimenta x.

(CARVALHO, 2008, p. 83)

Assim novos recursos para assinalar a definitude dos pronomes default precisam ser acionados, o redobro de pronomes sendo um deles.

(10)

a. E quando você tenta sair dessa vida, ninguém Ø ajuda você não indefinida 46 )

b. Agora uma coisa eu vou te fala com

(Leitura definida, específica)

(Leitura arbitrária,

(Machado Rocha, 2012, p. 109)

O redobro de clítico seria UMA forma de garantir a leitura definida do pronome default, mas NÃO a única. A estrutura simples, não redobrada, pode apresentar leitura ambígua, entre a definida e a indefinida, mas a definitude pode ser dada composicionalmente na sentença e no discurso.

(11)

a. Eu vou ajudar você aí. (Com advérbio de referenciação dêitica, leitura definida.)

b. É vou falar pra você, rapaz

(Com vocativo, leitura definida.) (etc

)

3.2. A Teoria de Cópia

46 Sobre leitura arbitrária/indefinida nos pronomes do PB, ver Carvalho (2008).

182

Assumimos também a Teoria de Cópia, proposta em Chomsky (1993, 1995), conforme os desenvolvimentos dados em Nunes (2011). Segundo Nunes (2011, p. 159), dentro da abordagem de linearização, uma cadeia não pode exibir mais de um elo com o mesmo material fonético, porque a estrutura que a contém não poderia ser linearizada. Nunes (1999, 2004 apud NUNES, 2011, p. 160) argumenta que, sob determinadas condições, a realização fonética de mais de um elo da cadeia pode ocorrer.

(12)

a. Estrutura enviada para o Spell-out:

M

p L r K
p
L
r
K

m

p
p

b. Fusão na componente morfológica

M

p L r K #mp#
p
L
r
K
#mp#

(NUNES, 2011, p. 160)

Levando em conta os preceitos da linearização e a LCA (Linear Correspondence Axiom, Kayne, 1994)) , a ordem linear p»r»#mp# não representaria um problema, uma vez que não haveria, nesta situação, dois elementos idênticos do ponto de vista morfofonológico,

183

e a cópia mais baixa de p, interna ao #mp#, se torna invisível para a computação linear padrão.

Dentro dessa perspectiva, a realização de múltiplas cópias de uma cadeia se torna possível, em situações em que há razões morfológicas para tal. Em outras palavras, por requerimentos morfológicos, cópias a princípio sintaticamente idênticas poderão ser realizadas, pois aparecem na estrutura morfofonológica como a realização de itens diferentes. Como veremos, os itens me e eu, na sentença (1a, a prima dela não me queria eu mais), encaixam-se nesta situação. Assim, os pronomes clíticos seriam cópias dos pronomes lexicais, com alterações morfológicas resultantes de traços formais locais 47 .

3.3. Formação de cadeias paralelas

Consideramos que os pronomes envolvidos na estrutura de redobro formam cadeias paralelas e não uma única cadeia cíclica, seguindo (CHOMSKY, 2005).

(13)

a. C [T [who [v* [see John]]]]

b. who i [C [who j [T [who k v* [see John]]]]]

c. who saw John

(14)

a. C [T [v [arrive who]]]

b. who i [C [who j [T [v [arrive who k ]]]]]

c. who arrived

(CHOMSKY, 2005, p. 16)

A partir do exemplo (13), Chomsky argumenta que na fase v*, a concordância entre v* e John valora todos os traços não interpretáveis. Na fase C, tanto os traços de margem quanto os traços de concordância de C sondam o alvo who em Spec de v*. Os traços de concordância,

47 A forma clítica seria motivada por necessidades morfológicas da relação verbo – pronome complemento pré- verbal, em decorrência do traço lexical [+ligado] (Dobrovie-Sorin, 1994; Galves, 1996). Na forma default em posição pré-verbal, o pronome concorreria para a interpretação nominativa, o que levaria ao fracasso da derivação. Como vimos também, Nunes (2011) sustenta a hipótese de que, na componente morfológica, formas sintáticas copiadas podem assumir morfologias distintas.

184

herdados de T por C, atraem o elemento sondado (ou seja, desencadeia uma operação de cópia) para Spec de T, enquanto que os traços de margem de C atraem o elemento (gerando nova cópia) para Spec de C, resultando em (12b). Chomsky aponta que uma cadeia é formada pelas cópias {who i , who k } e outra cadeia é formada pelas cópias {who j e who k }, sem que haja relação direta entre who i e who j . Assim se formam duas cadeias em (12b). Da mesma forma em (14), em que não há a fase mais baixa, operações paralelas desencadeadas pelos traços de margem e pelos traços de concordância de C derivam (13b), resultando em duas cadeias distintas.

4. Proposta de análise

Vamos retomar aqui o exemplo (1a):

(1) a. a prima dela não me queria eu mais A derivação de uma estrutura redobrada como em (1a) pode ser explicada em dois

passos.

redobrada como em (1a) pode ser explicada em dois passos. Num primeiro momento da derivação, o

Num primeiro momento da derivação, o Caso do pronome eu é valorado via movimento de traços formais para v, permanecendo a matriz pronominal in situ. Em outras palavras, a valoração do traço de Caso se dá por movimento de traços e não por meio da cópia completa do pronome. O verbo, em função do traço de margem de v, move-se para este núcleo, onde estará disponível para a fase CP. Caso é um dos traços formais interpretáveis ( i Case, i significando interpretável) presentes em v, restando ainda traços de concordância, entre eles o traço D. Forma-se assim a primeira cadeia entre os traços formais (FF, de Formal Features) de Caso do pronome e a matriz pronominal in situ: { i CaseFF(pron), DP-pron}.

185

185 Num segundo passo, com o verbo já em v , um novo movimento/cópia é desencadeado,

Num segundo passo, com o verbo já em v, um novo movimento/cópia é desencadeado,

desta vez pelos traços de concordância de v, neste caso particular o traço D, que checa a

definitude/especificidade do pronome. A base deste movimento/cópia é o próprio DP

pronominal eu, que permaneceu in situ, uma vez que não foi preciso mover/copiar toda a

matriz pronominal para a checagem de Caso. A matriz sintática do pronome clítico e do

pronome default são as mesmas, mas, por razões morfológicas 48 , a cópia pré-verbal movida

para Spec de v assumirá a forma clítica. Neste ponto, forma-se a segunda cadeia { i D-Cl(pron),

DP-pron}, quando temos os traços de Caso e de definitude/especificidade checados e a

estrutura com pronome redobrado emerge.

Diante da estrutura (II), precisamos responder por que não se apaga a cópia mais

baixa, o que resultaria numa estrutura apenas com o clítico (não me queria mais Não

).

teríamos assim os traços de Caso e definitude valorados e a derivação progrediria para a fase

C sem problemas?

Se considerarmos a segunda cadeia { i D-Cl(pron)=me, DP-pron=eu}, em que o traço

relevante é o traço D, que garante a leitura definida do pronome, poderíamos, a princípio,

apagar a cópia mais baixa, uma vez que para PF esta cópia é irrelevante e a valoração do traço

D desta cópia ocorrerá apenas em LF, como argumenta Nunes (2011). Por outro lado, na

primeira cadeia { i CaseFF(pron)=FF, DP-pron=eu}, em que o traço relevante é o traço de

Caso, a cópia mais baixa não pode ser, de modo algum, apagada em PF, uma vez que sua

186

matriz não foi movida por inteiro, e a valoração deste traço se sustenta exatamente na relação dos traços movidos e da matriz in situ. É neste tipo de configuração, em que caso é checado in situ, mas a definitude é checada via movimento, que a estrutura redobrada emerge.

Como desenvolvimento dessa análise, pretendemos testar a hipótese de que o falante cuja gramática produz redobros vai analisar uma sentença simples como contendo um pronome não pronunciado na posição de objeto (me ajuda pro) (Machado Rocha, 2012). Por outro lado, quando o clítico não se realizar nesta gramática, haverá outro recurso na sentença ou no discurso que garanta a leitura definida do pronome, sendo o slot do pronome clítico interpretado como uma instância de pro-drop.

a. Eu faço renda. // pro faço renda.

b. Você faz renda?

c. Eu faço Ø // pro faço Ø sim (foco)

Apagamento do sujeito.

d. Me ajuda eu.

e. pro ajuda eu aqui, ó

Apagamento do redobro.

5. Conclusões

Argumentamos neste trabalho que a estrutura de redobro pronominal no PB é um recurso para garantir a leitura definida dos pronomes default eu e você, que podem ser interpretados como indefinidos/arbitrários (Carvalho, 2008). Na formação da estrutura redobrada, duas cadeias distintas são construídas, uma para garantir a valoração do traço de Caso do pronome default e outra para garantir a valoração do traço de definitude do mesmo pronome (Chomsky, 2005). Por se tratarem de cópias morfologicamente distintas (Nunes, 2011), o redobro de clítico é uma instância de não apagamento da cópia mais baixa em PF. Por envolver a valoração do traço de definitude, o redobro de clítico não pode ser analisado como uma remarcação redundante.

REFERÊNCIAS

187

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189

190

190 EXPANSÃO DA SUBESPECIFICAÇÃO DA CAUSA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO Janayna Maria da Rocha Carvalho (Doutoranda/CNPq –

EXPANSÃO DA SUBESPECIFICAÇÃO DA CAUSA NO PORTUGUÊS

BRASILEIRO

Janayna Maria da Rocha Carvalho (Doutoranda/CNPq – Departamento de Linguística/USP) 49

1)

Introdução

A alternância verbal está entre os vários fenômenos do português brasileiro atual

(doravante, PB) que têm sido alvo de debates. Esses debates parecem estar centrados no fato

de que as alternâncias que se observam no PB falado ou contrastam com propriedades de

outras línguas românicas, mais notadamente o português europeu (PE) e/ou contrastam com

as propriedades descritas pra o PB há algumas décadas (cf. Negrão & Viotti, 2008; Cyrino,

2007). Whitacker-Franchi (1989:27) 50 , em uma dissertação de mestrado sobre a alternância

causativa em PB, já alertava que era visível a expansão da classe de verbos alternantes,

expressa em sentenças como:

1. Não vou conseguir sair o carro da garagem.

2. Eu vou almoçar o nenê e depois saio.

3. Essa escova, não; porque ela dói a cabeça.

Depois desse trabalho, estudos como o de Bittencourt (1995) e Silva (2009) também

trataram da expansão da alternância causativa, com foco, especialmente, nas sentenças em que

verbos inacusativos tidos como não-alternantes apareciam em sentenças causativas. Já

49 Este trabalho é desenvolvido com o apoio do CNPq (Processos: 142048/2012-7 e 229746/2013-6), agência de

fomento a que agradeço.

parecerista anônimo pelas sugestões a este trabalho. Todos os erros e imprecisões restantes são de minha responsabilidade. 50 Um parecerista observa que a observação original sobre a expansão da alternância é de Pontes (1980) e não de Whitacker-Franchi (1989). Como não tive acesso àquele trabalho até o presente momento, mantenho a menção

ao trabalho de Whitacker-Franchi.

Agradeço à minha orientadora Professora Doutora Ana Paula Scher (DL-USP) e a um

191

trabalhos como os de Negrão & Viotti (2008, 2010) focalizam o fenômeno em que sentenças intransitivas (chamadas pelas autoras de construções absolutas no texto de 2010) são formadas com verbos de alta transitividade como instalar, na sentença O programa não instalou. Neste artigo, valemo-nos dos dois tipos de construções – sentenças anticausativas 51 e sentenças causativas com verbos não-canônicos – para defender a hipótese de que os dois tipos de construção refletem um fenômeno só, qual seja, a expansão da alternância causativa. Acreditamos que essa expansão tenha uma motivação estrutural, que é a perda do clítico se como uma marca das sentenças anticausativas do PB. Isso significa que, sem os traços formais que o clítico se compõe com as sentenças anticausativas, os requerimentos formais para que um verbo seja de alternância foram afrouxados, permitindo que verbos que não alternariam sejam reanalisados como alternantes. 52 O trabalho está organizado da seguinte forma: na seção 2, apresento os dados e suas particularidades; na seção 3, apresento uma sugestão de análise, ainda preliminar, que corrobora a hipótese de um reajustamento do sistema em virtude de o clítico não ser mais necessário em sentenças anticausativas. Na seção 4, finalmente, concluo o trabalho.

2)

2.1 Inacusativos que não alternariam

Examinemos, primeiramente, verbos como transbordar, pesar, doer, etc., os quais são chamados de internamente causados na nomenclatura de Levin & Rappaport-Hovav (1995). São portanto, verbos inacusativos e não seriam candidatos para a alternância causativa. Algumas propriedades destoantes desses verbos e dos verbos alternantes estão sumarizados na

Descrição dos dados

51 Chamamos de anticausativas as sentenças intransitivas de verbos alternantes.

52 O parecerista chama a atenção para a falta de discussão de dados/trabalhos que corroborem a afirmação de que o clítico se tem sido suprimido das sentenças anticausativas. Devido às limitações de espaço deste trabalho, não será possível fazer essa discussão. Remeto o leitor aos trabalhos de Chagas (1999) e Ribeiro (2011) para a discussão de quais são os ambientes em que ainda é necessário o clítico se em sentenças anticausativas. O propósito desses estudos já deixa claro que tal clítico é dispensável em sentenças anticausativas. Negrão e Viotti (2010), embora concentrem-se em outros dados, também fazem a consideração de que o clítico se em anticausativas (chamado pelas autoras de clítico não-reflexivo) está em desuso, muito embora a maioria dos falantes ainda tenha intuições sobre eles. Finalmente, o estudo de Cyrino (2007) é particularmente interessante para a defesa da ideia aqui apresentada porque tenta conectar a perda desse clítico em uma série de

192

Tabela 1. As sentenças abaixo, no entanto, exibem verbos desse tipo em contextos causativos,

revelando sua participação no fenômeno da alternância causativa:

4. “A chuva transbordou a represa.” 53

5. “A salada pesa menos o prato.”

6. Esse sapato dói 54 meu pé. 55

7. “Alguém já sentiu aquela tremida de carro que treme até os vidros de casas e parece que treme o cérebro e vai explodir?”

8. O CMI foi quem germinou o embrião para que houvesse a guerrilha do Araguaia 56 .

9. “Você me ruborizou.”

10. “Foi você que brotou essa ideia na minha cabeça.”

11. “pro não despenca muito a nota do menino.”

12. Nós falimos o banco.

13. Essa pimenta arde a minha boca. 57

14. O Atlético estreou o Éder. 58

15. “Ele vazou o olho direito de duas tribos israelenses.”

16. “Eu sumi o anel de formatura da minha mãe.”

Grupo A - Verbos que comumente são

tidos como alternantes

Grupo B - Verbos que não alternariam

Mesmo que não esteja mais em uso, esse tipo de verbo, na forma anticausativa, pode ser combinado com o clítico se:

i) A porta (se) abriu; ii) A porta (se) fechou; iii) O vaso (se) quebrou.

Esse tipo de verbo não pode ser combinado com o clítico se na forma anticausativa:

i) *A represa se transbordou; ii)*O prato se pesa;

iii) *Os meus pé se doem;

iv) *Os vidros se tremem;

v) *O embrião se germina;

vi) ??Você se ruborizou;

vii) *A ideia se brotou; viii) *A nota se despencou.

As causativas com esses verbos podem formar

As

causativas

com

esses

verbos

não

formam

53 Todas as sentenças entre “”foram ouvidas ou encontradas na internet por mim.

54 No trabalho de Cambrussi (2009), em que são investigados os fatores para a causativização de verbos inergativos, doer é apresentado como um verbo que estaria em um limite entre verbos inacusativos e inergativos. Neste trabalho, consideramo-no como um verbo inacusativo por duas razões. A primeira é a possibilidade de formação de particípio nominal, como mostram os exemplos doído, doída. A formação de particípio nominal é ligada aos verbos inacusativos, enquanto a formação de particípio verbal (sem marcas de gênero) está ligada aos verbos inergativos. A segunda é a possibilidade da ordem VS com o verbo doer e com os inacusativos em geral, como na sentença Doeu o meu joelho quando eu caí.

55 Dado de Bittencourt, 2001.

56 Dado de Cambrussi, 2009.

57 Dado de Bittencourt, 2001.

58 Dado de Silva, 2009.

193

passivas verbais:

i) A porta foi aberta;

ii) A porta foi fechada;

iii) O vaso foi quebrado.

passivas verbais:

i) */?O córrego foi transbordado pela represa;

ii)*O prato foi pesado pela salada;

iii)*Os pés foram doídos;

iv) *Os vidros foram tremidos;

v) ?O embrião foi germinado.

vi) *Você foi ruborizado.

vii) *A ideia foi brotada. viii) * A nota foi despencada.

Aceitam maior variedade de papéis temáticos externos nas sentenças causativas:

i) O vento (causa)/ João (agente)abriu a porta.

ii) O vento (causa)/ João (agente)/ fechou a porta.

Aceitam menor variedade de papéis temáticos externos nas sentenças causativas:

i) A chuva transbordou a represa.

ii) A salada pesa menos o prato.

Tabela 1 – propriedades de dois grupos de verbos alternantes

Os contrastes entre os dois grupos sugerem que a expansão de verbos alternantes é em direção a uma classe que não contém as mesmas propriedades da classe mais prototípica. Isso fica evidente pelo fato de os membros do grupo alternante não se combinarem com o clítico se, na forma anticausativa, e, também, pelo fato de passivas não serem formadas a partir das causativas com os verbos inovadores. Na próxima seção, ficará mais claro porque alguns verbos podem se combinar com o clítico se e outros não, muito embora todos os verbos sejam inacusativos. Quanto à restrição para formação de passivas, ela se deve possivelmente ao fato de que alguns verbos do grupo em expansão não são accomplishments e seriam, por essa razão, incompatíveis com a construção passiva. Esta, para ocorrer, depende de um VP télico, onde esteja expresso um processo e um resultado, nomeadamente, um accomplishment. Abaixo, aplicamos três testes conhecidos na literatura para a detecção de accomplishments em sentenças causativas não- prototípicas:

Testes para detecção de accomplishments

a.

Ocorre com advérbios do tipo “em X tempo”. (Dowty, 1979)

b.

O progressivo não acarreta que a ação se deu. (Dowty, 1979)

c.

O advérbio quase deixa a sentença ambígua. (Wachowicz & Foltran, 2005)

Tabela 2 – testes para detecção de accomplishments

Na aplicação dos testes acima às sentenças de (4) a (16), percebemos que, com exceção das sentenças 26b e 29b, na tabela, todas acarretam que a ação ocorreu no gerúndio. Essa é uma propriedade atribuída geralmente a verbos de atividade e não a verbos que são

194

accomplishments. Soma-se a isso o fato de todos os dados, com exceção de 18a, aceitarem um advérbio do tipo em X tempo, uma propriedade de accomplishments. Estamos, portanto, diante de uma classe mista, porque os verbos respondem bem a um teste que indica que o verbo é de atividade em uma determinada construção e, ao mesmo tempo, respondem bem a um teste de accomplishment. Além disso, em relação ao teste c, a maioria das sentenças não é ambígua, o que também mostra que o VP em que o verbo está contido não parece ter a estrutura de um accomplishment. Por fim, uma última observação sobre as peculiaridades desses verbos está relacionada às propriedades de seus argumentos externos. Em todas as sentenças, o argumento externo não tem participação direta no evento, o que o caracteriza como uma causa. Muito embora alguns exemplos tenham argumentos externos animados ((21) e (22), por exemplo), essas entidades fizeram algo que causou a mudança. Isto é, a pessoa ficou ruborizada em virtude de algo que foi dito pela entidade que está representada como argumento externo. Além disso, é importante comparar o comportamento desses verbos com quebrar, por exemplo. Quebrar é uma ação que uma pessoa pode fazer, ruborizar alguém e brotar ideias em alguém são resultados de outras ações. Portanto, são causas.

Sentenças

Testes

17. A chuva transbordou a represa.

 

a.

A chuva transbordou a represa em 5 minutos.

 

b.

A chuva está transbordando a represa.

c.

A chuva quase transbordou a represa. (não é ambígua)

18. Esse sapato dói meu pé.

 

a.

*Esse sapato dói/doeu meu pé em 5 minutos.

 

b.

Esse sapato está doendo meu pé.

c.

*Esse sapato quase doeu meu pé.

19. Aquela tremida de carro treme até os vidros das casas.

a.

*Aquela tremida de carro treme/tremeu os vidros das casas em 5 minutos.

b.

Aquela tremida de carro está tremendo os vidros das casas.

c.

Aquela tremida de carro quase treme os vidros das casas. (não é ambígua)

20. O CMI germinou o embrião.

 

a.

O CMI germinou o embrião em 5 minutos.

 

b.

O CMI está germinando o embrião.

c.

O CMI quase germinou o embrião. (é ambígua)

21. Você me ruborizou.

 

a.

Você me ruborizou em 5 minutos.

 

b.

Você está me ruborizando.

c.

Você quase me ruborizou. (não é ambígua)

22. Você

brotou

essa

ideia

na

minha

a.

Você brotou essa ideia na minha cabeça em 5 minutos.

cabeça.

195

 

b.

Você está brotando essa ideia na minha cabeça.

c.

Você quase brotou essa ideia na minha cabeça. (é ambígua)

23. Pro não despenca muito a nota do menino.

a.

Não despenca/despenquei muito a nota do menino em um ano.

b.

Você está despencando a nota do menino.

c.

?Você quase despencou a nota do menino.

24. Nós falimos o banco.

 

a.

Nós falimos o banco em 1 hora.

 

b.

Nós estamos falindo o banco.

c.

Nós quase falimos o banco. (pode ser ambígua)

25. Essa pimenta arde a minha boca.

 

a.

Essa pimenta arde/ardeu a minha boca em 5 minutos.

 

b.

Essa pimenta está ardendo a minha boca.

c.

Essa pimenta quase ardeu minha boca. (não é ambígua)

26. O Atlético estreou o Éder.

 

a.

O Atlético estreou o Éder em 5 minutos.

 

b.

?O Atlético está estreando o Éder.

c.

O Atlético quase estreou o Éder. (não é ambígua)

27. A salada pesa menos o prato.

 

a.

A salada pesa/pesou menos o prato em 5 minutos.

 

b.

A salada está pesando o prato.

c.

A salada quase pesa/pesou o prato. (não é ambígua)

28. Ele

vazou

o

olho direito de

duas

a.

Ele vazou o olho direito de duas tribos israelenses em 5 minutos.

tribos israelenses.

 
 

b.

Ele está vazando o olho direito de duas tribos israelenses.

c.

Ele quase vazou o olho direito de duas tribos israelenses. (pode ser ambígua)

29. Eu

sumi

o

anel

de

formatura

da

a.

Eu sumi o anel de formatura da minha mãe em 5 minutos.

minha mãe.

 
 

b.

*Eu estou sumindo o anel de formatura da minha mãe.

c.

Eu quase sumi o anel de formatura da minha mãe. (não é ambígua)

Tabela 3 – Testes aspectuais com as causativas inovadoras

2.2 Transitivos que não alternariam

Passamos agora às propriedades do grupo de verbos transitivos que não alternaria. Segundo Reinhart (2000), verbos que têm o argumento externo subespecificado em relação ao seu papel temático costumam alternar. Isto é, verbos que comumente alternam em várias

196

línguas podem ter um argumento externo com o papel temático de agente, causa ou

instrumento. 59 Observe:

30.

O vidro quebrou.

anticausativa

31.

O João quebrou o vidro. Causativa com argumento externo agente

32.

O vento quebrou o vidro. Causativa com argumento externo causa

33.

O martelo quebrou o vidro.Causativa com agumento instrumento

Por outro lado, verbos como rodar, carregar, lavar, etc, em princípio, só podem ter

um agente e/ou um instrumento como papel temático externo. De acordo com essa restrição,

esses verbos só apareceriam em sentenças transitivas. Entretanto, nas sentenças abaixo, de

verbos como esses alternam, ocorrendo em sentenças anticausativas:

34.

O cd rodou;

35.

O celular carregou.

36.

A roupa lavou.

37.

O livro do Chomsky já traduziu para o português. 60

38.

Essa casa construiu no começo do século.

39.

Os livros já venderam todos?

40.

A saia costurou.

41.

A redação anulou por gênero.

42.

O Deva [creme de cabelo] importava, agora é feito no Brasil.

43.

O prédio está construindo.

44.

O bar já reformou e podemos visitar ele.

45.

A posição de primeira pessoa preenche mais no PB.

46.

A missa transmite na web.

47.

Chovia tanto que parecia que a árvore ia arrancar pela raiz.

48.

A tampa do machucado arrancou com o meu tropeção.

49.

A cópula apagou.

Os primeiros testes que devem ser feitos para mostrar a similaridade ou não desse

grupo com os anticausativos tradicionais é o licenciamento de adjuntos que expressam um

potencial iniciador do evento anticausativo. Isto é, esse teste mostra que as sentenças que

licenciam esses adjuntos são candidatos potenciais à alternância causativa. Como mostrado

59 Em experimento feito em Carvalho (2014), verificamos que a noção de instrumento como papel temático encontra muita variação no julgamento dos falantes. Por conta disso, resolvemos não trabalhar com essa noção aqui. Além disso, há autores que consideram só agentes e causas como argumentos externos prototípicos, sugerindo que instrumentos são interpretações derivadas ou de agentes ou causas ( Alexiadou & Scahefer

(2006)).

60 As sentenças de 37 a 40 são de PACHECO (2008).

197

abaixo, todas as sentenças aceitam adjuntos mesmo que haja muitas diferenças quanto ao uso

de preposição. A preposição default para o adjunto de anticausativas, no PB, é com. Isso não

se configura como um problema dado que os adjuntos, nas sentenças de (50) a (65), têm valor

causal.

Duas ressalvas têm de ser feitas, entretanto. Ao contrário dos verbos tradicionalmente

alternantes, os adjuntos abaixo não podem ser sempre argumentos externos desses verbos.

Tomemos (50) e (58) como exemplos. Enquanto a sentença O vento rodou o CD é aceitável,

O imposto baixo importou o Deva não o é. Novamente, a exemplo do que os testes mostraram

na seção 2.1, estamos à frente de uma classe mista.

50. O cd rodou com o vento;

51. O celular carregou com pouca eletricidade;

52. A roupa lavou com a ducha de água quente da máquina;

53. O livro do Chomsky já traduziu para o português com o incentivo da Editora;

54. Essa casa construiu no começo do século com o empréstimo do Banco do Brasil;

55. Os livros já venderam todos por causa da pressa do vendedor;

56. A saia costurou com uma agulha velha;

57. A redação anulou por gênero 61 ;

58. O Deva importava por causa de imposto baixo;

59. O prédio está construindo com pouco planejamento e organização.

60. O bar (já) reformou por causa da pressa da Maria em terminar tudo.

61. A posição de primeira pessoa preenche mais por causa da queda do parâmetro pro- drop.

62. A missa transmite na web por causa da tecnologia.

63. A árvore ia arrancar pela raiz com toda aquela chuva.

64. A tampa do machucado arrancou com o meu tropeção.

65. A cópula apagou com a mudança do português.

O segundo teste com adjuntos visa a demonstrar a espontaneidade da construção

anticausativa. Mais explicitamente, somente um evento de alguma forma espontâneo pode ser

descrito sem a intervenção de um agente e é exatamente isso que esse teste captura. No inglês,

usa-se o adjunto by itself para isso; em português, embora haja uma certa dificuldade de

interpretação por alguns falantes à primeira vista, o adjunto seria por si só ou por si mesmo. 62

61 Nesta oração não foi inserido um novo adjunto. O adjunto com o qual ela foi produzida já indicava uma causa (cf. sentença (41)).

62 Alternativamente, poderia se usar como teste o adjunto sozinho, mas observe as diferenças entre línguas quanto à interpretação de sozinho em anticausativas em Schaefer (manuscrito) e as diferenças em português em Carvalho ( manuscrito).

198

66. ?O cd rodou por si só.

67. *O celular carregou por si só.

68. *A roupa lavou por si só.

69. *O livro do Chomsky já traduziu para o português por si só.

70. *Essa casa construiu no começo do século por si só.

71. *Os livros já venderam todos por eles mesmos?

72. *A saia costurou por si só.

73. *Qualquer coisa que ela escreve publica por si só.

74. *A redação anulou por si só.

75. *O Deva [creme de cabelo] importava por si só.

76. *O prédio está construindo por si só.

77. *O bar já reformou por si só.

78. ?A posição de primeira pessoa preenche mais no PB por si só.

79. *A missa transmite na web por si só.

80. *A árvore ia arrancar pela raiz por si só.

81. *A tampa do machucado arrancou por si só.

82. *A cópula apagou por si só.

A distribuição de sentenças agramaticais e de sentenças que geram dúvidas quanto à

sua boa formação parece deixar claro que, com verbos estritamente agentivos quando na

construção transitiva, a combinação da construção do adjunto em questão com a sentença

anticausativa parece impossível. Já com verbos que podem ter mais de um tipo de sujeito na

oração transitiva, a interpretação, embora estranha, pode ser um pouco mais aceitável. São os

casos das sentenças (66) e (78). Observe que a posição de argumento externo desses verbos é

mais maleável:

83. A vitrola rodou o CD.

b. Eu rodei o CD.

84. O português brasileiro preenche mais a posição de primeira pessoa.

b. Os falantes estão preenchendo mais a posição de primeira pessoa.

As possibilidades de formação de sentenças transitivas demonstram que parece haver

uma correlação entre mais de um tipo de sujeito e a compatibilidade com por si só. Essa

correlação parece coerente se pensarmos que o fato de um verbo só poder estar relacionado

com um argumento externo agente, na sentenças caustaiva, deve sugerir que tal verbo, seja em

que construção for, denota menos espontaneidade 63 que um verbo que, também na construção

transitiva, pode ser associado com argumentos externos variados.

63 Espontaneidade no sentido de Haspelmath (1993).

199

Outro contraste que pode ser apontado é a produtividade dessas sentenças no gerúndio.

Já nos foram apontados, mais de uma vez, julgamentos sobre uma maior gramaticalidade de

várias dessas construções quando elas estão no gerúndio. Em consultas informais a falantes,

eles apontaram esse fato, muitas vezes, sem que essa possibilidade fosse mencionada para

análise. Abaixo, estão registradas algumas preferências dos falantes quanto a algumas

sentenças apresentadas.

85. A saia está costurando é bem melhor que a saia costurou. Por exemplo, não vou buscar minha saia ainda, porque a costureira não terminou. A saia ainda está costurando.

86. Eu não falaria o quarto pintou, mas o quarto está pintando é boa.

87. A parede pingou não, mas a parede está pingando é boa.

Considerando a hipótese de que essas construções são anticausativas, a possibilidade e

a maior aceitabilidade no gerúndio é mais uma diferença em relação às anticausativas mais

tradicionais, representadas por verbos como quebrar, fechar, abrir, etc. Embora possamos

falar O vidro está quebrando, A porta está fechando e A lata está abrindo, não há, em

absoluto, preferência ou maior aceitabilidade dessas construções em gerúndio em relação a

sentenças como O vidro quebrou, A porta fechou e A lata abriu.

3)

O que o uso do clítico se expressa nas anticausativas?

Nesta seção, perseguimos a hipótese de que essas diferenças de comportamento das

anticausativas com ou sem clítico estão relacionadas a duas configurações sintáticas

diferentes. A pertinência dessa hipótese tem de ser verificada visto que ela pode estar

relacionada com as alternâncias inovadoras que vimos tratando neste texto. Assumimos que o

clítico se é um argumento externo muito pouco subespecificado, está, portanto, ligado a

verbos que possuem papel temático externo com muito pouca especificação.

Essa não é a proposta mais comum que se vê na literatura. Em geral, assume-se que o

clítico se é uma marca de voz de um expoente funcional de Voz/v nas línguas (veja-se, por

exemplo, Doron e Labelle (2010) e Kalluli (2010)). Isto é, esse elemento em sentenças

anticausativas difere fundamentalmente do mesmo elemento em sentenças reflexivas, por

exemplo. Nas sentenças anticausativas, tal clítico é a manifestação de um traço –ativo, não é

considerado como um elemento com traços-phi, como tradicionalmente se assume no

200

tratamento de elementos pronominais. Entretanto, se isso é assumido, uma série de questões, que passamos a enumerar abaixo, ficam sem explicação. A primeira dessas questões é a correlação do clítico se com verbos no PB, na forma anticausativa, que podem estar especificados para mais de um papel temático. Observe o quadro abaixo, que exemplifica isso:

Verbos considerados em

Alterna

Argumento

Argumen

Pode

ocorrer

suas

formas

externo

to

com

com se?

intransitivas

com

papel

papel

 

temático de

temático

CAUSA?

de

agente?

1. Quebrar

SIM

SIM

SIM

 

SIM

(O

vento

(João

quebrou

o

quebrou

copo)

o

copo)

2. Ferver

SIM

SIM

SIM

 

NÃO

(O

fogo 64

(João

ferveu

o

ferveu

o

leite)

leite)

3. Aumentar

SIM

NAO

SIM

 

NÃO

(João

aumentou

os

 

impostos)

4. Amarelar

(e

SIM

SIM ( O sol amarelou a banana)

NÃO

 

NÃO

possivelmente

(*O João

muitos outros

amarelou

deadjetivais)

 

a

banana)

5. Lavar

SIM

NÃO

SIM

 

NÃO

(João

lavou

a

roupa)

Tabela 4 – verbos e a possibilidade de combinação com o clítico se

Como se vê pela distribuição do quadro, abordagens que vinculam o se a um diacrítico de voz não-ativa teriam dificuldade em explicar a correlação entre a possibilidade de dois tipos de papéis temáticos diferentes e a possibilidade de combinação com o se. Uma abordagem como a de Schaefer (2007), em que esse clítico não é somente a materialização de um tipo de voz, mas sim um elemento disponível na derivação das

64 Somente o fogo controlado por um agente pode ferver o leite, portanto essa sentença é gramatical se o argumento externo é interpretado como instrumento.

201

sentenças anticausativas de algumas línguas, aventamos as duas estruturas abaixo como correspondentes a anticausativas com e sem expletivo se:

88. Estrutura para anticausativa com se 65 :

se : 88. Estrutura para anticausativa com se 6 5 : 89. Estrutura para anticausativa sem

89. Estrutura para anticausativa sem se:

com se 6 5 : 89. Estrutura para anticausativa sem se: A estrutura (88) é correspondente

A estrutura (88) é correspondente às anticausativas com morfologia. Para o autor, essa marca morfológica presa – clítico ou pronome fraco – ocupa a posição de Spec, VoiceP e é ali concatenada para satisfazer um traço categorial ( ao modo da checagem do traço categorial pelo expletivo there na análise de Chomsky (1995)). A estrutura (89), por sua vez, corresponde à estrutura da anticausativa sem o se, em que um constituinte é formado a partir da raiz verbal e de seu objeto e, acima dele, encontra-se o vP cause onde se abriga o adjunto causal possível nessas sentenças, característica discutida na seção 2.2. Se não há morfologia envolvida, como na estrutura (89), não há projeção de VoiceP. Isso significa que a perda desse clítico está relacionada a uma modificação de estrutura nas sentenças anticausativas. Essa última estrutura, a qual assumimos como preponderante nas anticausativas do PB atual, seria mais um fator condicionante das novas alternâncias que se tem verificado em PB.

65 Essa estrutura está mais parecida com a proposta de anticausativas para o alemão, em que a forma sich é de fato um pronome fraco e não um clítico, como nas línguas românicas. Uma análise mais cuidadosa desse aspecto será feita em trabalhos posteriores. As estruturas são de Schaefer (2007).

202

Quando esses clíticos ainda estavam disponíveis no sistema, poderíamos hipotetizar uma

organização do sistema como vemos na Figura 1. Com a perda desse clítico, teríamos, no PB

atual, uma estrutura semelhante à Figura 2.

SISTEMA COM O USO DO CLÍTICO SE

Verbos transitivos

que

(preponderantemente

alternam

não

agentivos):

[ vP DP

[V DP]]

Verbos alternantes, geralmente especificados com se e com baixa espontaneidade. [ VoiceP se [V DP]]
Verbos
alternantes,
geralmente especificados
com
se
e
com
baixa
espontaneidade.
[ VoiceP se [V DP]]
Verbos intransitivos não-alternantes, não especificados com se e alta com espontaneidade: [vP DP [V DP]]
Verbos intransitivos
não-alternantes, não
especificados com se e
alta
com
espontaneidade: [vP DP
[V DP]]
com se e alta com espontaneidade: [vP DP [V DP]] Figura 1 – Sistema com o

Figura 1 – Sistema com o uso de clíticos

SISTEMA SEM O USO DO CLÍTICO SE

O DP é inserido por uma projeção funcional. O sintagma V DP tem propriedades parecidas com a dos verbos alternantes.

podem alternar

Verbos transitivos que não alternariam (preponderantemente agentivos) [DP[V DP] Verbos que alternam [V DP] Verbos
Verbos transitivos que não
alternariam
(preponderantemente
agentivos)
[DP[V DP]
Verbos que alternam
[V DP]
Verbos intransitivos que não
alternariam
[V DP]
[DP V]
[DP V]
[ DP [V DP]]

Verbos

intransitivos

que

não

alternariam

Figura 2 – Sistema sem o uso de clíticos

Com a representação hipotética do sistema sem o uso de clíticos nas anticausativas,

como foi feito acima, não pretendemos sugerir que qualquer verbo, então, alterne.

Obviamente, devem ser respeitadas as exigências de que um verbo alternante indique

mudança de estado. Satisfeitas essas necessidades, o PB parece ter permitido que mais verbos

participem dessa alternância em virtude de uma mudança morfológica.

203

No presente trabalho, sugerimos que a expansão da alternância causativa em PB está relacionada à perda da morfologia anticausativa nesta língua. Isso significa que sem o requerimento feito pelo clítico se, nessas sentenças, qual seja, que elas expressem mudança de estado e que aceitem vários tipos de papéis temáticos como argumento externo, os requerimentos para alternância causativa afrouxaram. A expansão dos verbos de alternância causativa, portanto, reflete o único requerimento existente no PB para que um verbo alterne:

que ele expresse mudança de estado, mesmo que não de forma canônica (ver o comportamento dos verbos que formam sentenças causativas não-prototípicos na tabela 3).

5)

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206

206 FORÇA ILOCUCIONÁRIA, CP CINDIDO E EFEITO V2 CARLOS FELIPE PINTO Universidade Federal da Bahia 1.

FORÇA ILOCUCIONÁRIA, CP CINDIDO E EFEITO V2

CARLOS FELIPE PINTO Universidade Federal da Bahia

1. Introdução "Línguas V2" tem sido uma etiqueta usada para classificar um grupo de línguas, cujos principais representantes na atualidade são as línguas germânicas exceto o inglês, que, em termos gerais, apresenta a exigência de que o verbo finito esteja localizado na segunda posição da oração, precedido exclusivamente por um único constituinte, que pode ser o sujeito ou outro constituinte qualquer. Quando o sujeito não é o primeiro constituinte, aparece imediatamente após o verbo. Os dados do holandês, transcritos em (1) a seguir, ilustram esta propriedade das línguas V2:

(1)

a. André het gister die storie geskryf André tem ontem a história escrito

b. Gister het André die storie geskryf Ontem tem André a história escrito

c. Die storie het André gister geskyrf A história tem André ontem escrito

d. Nêrens praat mense meer Latyn nie Em-nenhum-lugar falam as pessoas mais latim

e. Wat lees jy vandag?

O que lê você hoje

(BIBERAUER, 2002, p. 19)

Em (1) acima, os verbos finitos, destacados em negrito, são sempre precedidos por um constituinte: pelo sujeito em (1a); por um adjunto adverbial em (1b) e (1d); pelo objeto direto em (1c); por um elemento interrogativo em (1e).

207

Embora nas orações matrizes haja um comportamento bastante parecido, há variação nas orações subordinadas, dividindo as línguas V2 em dois grandes grupos: línguas simétricas, que exibem o efeito V2 em orações matrizes e subordinadas, e línguas assimétricas, que exibem o efeito V2 apenas em orações matrizes (não existe língua V2 que manifeste o efeito V2 apenas em orações subordinadas). Vikner (1995) classifica as línguas V2 da seguinte maneira:

(2)

a.

Línguas V2 “bem comportadas”, como o alemão e o holandês, em que o efeito V2 só é possível em orações subordinadas a verbos-ponte SEM a realização fonológica do complementizador.

b.

Línguas V2 “limitadas”, como o dinamarquês e o norueguês, em que o efeito V2 só é possível em orações subordinadas a verbos de um grupo específico COM realização fonológica do complementizador.

c.

Línguas V2 “generalizadas”, como o iídiche e o islandês, em que o efeito V2 é possível em qualquer tipo de oração subordinada. 66

d.

Línguas V2 “residuais”, como o inglês, em que o efeito V2 só é possível em contextos específicos, como orações interrogativas.

Do mesmo modo em que há variedade empírica, assim há diversas análises formais para as línguas V2. A primeira análise no modelo da gramática gerativa foi a de Den Besten (1989), que propôs a existência de um movimento do verbo para o CP, a projeção mais alta. Quando o estudo foi expandido para a descrição e análise das línguas V2 simétricas, foi proposto que o movimento do verbo se dava para uma projeção intermediária, o IP, considerando que o núcleo do CP já estava ocupado pela conjunção e não poderia abrigar o verbo finito simultaneamente. Com o desenvolvimento da cartografia das estruturas sintáticas com o trabalho de Rizzi (1997), as projeções VP, IP e CP passam a ser compreendidas como "campos" que abrigam outras projeções, o que leva ao entendimento de que as diferentes análises para os

66 Os verbos-ponte são representados por verbos como “dizer”, “pensar” etc. e são verbos que permitem extração do complemento da oração subordinada para a oração matriz. Isso implica que em completivas factivas, completivas nominais, orações relativas, orações consecutivas etc, o efeito V2 não é observado nas línguas V2 “limitadas”.

208

diferentes movimentos do verbo são uma solução ad hoc dadas as limitações dos modelos não cartográficos anteriores. Haider e Prinzhorn (1986) pontuam que a investigação sobre as línguas V2 tem tomado como questões principais a serem expliradas: A) qual é o gatilho para o efeito V2 B) o efeito V2 é uma propriedade paramétrica; C) qual é o lugar de pouso do verbo; D) qual é a natureza da assimetria entre orações matrizes e orações subordinadas; E) como o efeito V2 pode surgir ou desaparecer em termos diacrônicos. Neste trabalho, meu objetivo é apresentar algumas evidências de que, em qualquer tipo de língua V2, quando uma oração exibe o efeito V2, o verbo se move para o campo CP 67 . Para alcançar este objetivo, apresentarei a proposta de Den Besten (1989), que apresenta evidências contundentes de que o verbo se localiza em CP nas orações matrizes do alemão e do holandês e, em seguida, apresentarei evidências contra a análise do V2-IP proposta para as línguas simétricas. Também discutirei que o efeito V2, em orações subordinadas, está relacionado com força ilocucionária e não com o tipo do verbo subordinador. Por fim, proporei uma análise que tentará dar conta da variação da manifestação do efeito V2 nas línguas humanas.

2. Análises formais para o efeito V2 2.1. Den Besten (1989): V2 é movimento do verbo para COMP Den Besten (1989) propõe que há dois grupos de regras de transformação independentes (um grupo que realiza somente o movimento do verbo – Verb Preposing; outro que move outro componente), que, combinadas, dão quatro resultados: a) nenhum constituinte se move, como nas línguas S-V-O como o inglês; b) só o verbo se move, no caso da inversão auxiliar-sujeito, do inglês; c) o verbo não se move e outra opção do segundo grupo é escolhida, fronteando um constituinte qualquer; d) ambas as regras são acionadas. Os exemplos em (3) a seguir ilustram as quatro possibilidades respectivamente:

(3)

a. He will not come Ele vai não vir b. Is he coming? Está ele vindo?

67 Esta discussão foi realizada de maneira mais extensa em Pinto (2011), a que o leitor deve recorrer para maior detalhamento dos argumentos e propostas aqui apresentados.

209

21)

c. Here he comes Aqui ele vem

d. Only on weekends do I see her Apenas nos fins de semana v-auxiliar eu vejo ela

(DEN BESTEN, 1989, p.

A partir de (4) e (5) abaixo, de orações subordinadas condicionais e orações interrogativas, o autor relaciona regras de transformação com regras de apagamento lexical:

(4)

(5)

a. …of je broer nog komt

se seu irmão ainda vem

b. …welk boek (of) hij wil lezen

qual livro (se) ele deseja ler a. Komt je broer nog? Vem seu irmão ainda?

b. Welk boek wil hij lezen? Qual livro deseja ele ler?

(DEN BESTEN, 1989, p. 23)

(DEN BESTEN, 1989, p. 24)

Para Den Besten (1989), a correlação dos exemplos acima é uma clara evidência de que o verbo foi movido para a posição de complementizador. Observem-se os exemplos em (6) e (7) a seguir tomados de Den Besten (1989, p. 24):

(6)

…dat ik dat boek niet gelezen heb

(7)

que eu esse livro não lido tenho a. Ik heb dat boek niet gelezen Eu tenho esse livro não lido

b. Dat boek heb ik niet gelezen Esse livro tenho eu não lido

c. Gelezen heb ik dat boek niet Lido tenho eu esse livro não

O autor relaciona os exemplos em (6) e (7) e diz que a mesma regra que move o verbo para COMP em perguntas-sim/não e perguntas-WH, como nos exemplos em (5), move o verbo para COMP em orações declarativas como em (7).

210

Den Besten (1989) apresenta ainda evidências a partir do holandês e do alemão que mostram que, nas línguas V2, o verbo se move para COMP. Apresento uma delas a seguir. O holandês tem dois tipos de sujeitos pronominais: pronomes fortes, como “jij” (você), “hij” (ele), “zij” (ela) e “wij” (nós); e pronomes fracos, como “je” (você), “hij/ie” (ele), “ze” (ela) e “we” (nós). Os pronomes fracos devem estar adjacentes ao complementizador, que ocupa a posição de COMP, como ilustra o contraste de gramaticalidade em (8):

(8)

a. …dat je/ze gisteren ziek was que você/ela ontem doente estava

b. *…dat gisteren je/ze ziek was que ontem você/ela doente estava

(DEN BESTEN, 1989, p. 25)

A previsão que os exemplos em (8) fazem é que, se a análise do movimento do verbo para COMP estiver correta, a contraparte formada por orações interrogativas ou declarativas V2, com algum elemento diferente do sujeito em primeira posição vão apresentar os mesmos fatos (os pronomes fracos devem estar adjacentes ao verbo). Tal previsão é comprovada a partir de dados como (9) e (10) a seguir tomados de Den Besten (1989, p. 26):

(9)

a. Was ze gisteren ziek? Estava ela ontem doente?

b.

*Was gisteren ze ziek?

(10)

Estava ontem ela doente? a. Toch was ze gisteren ziek.

Ainda estava ela ontem doente

b. *Toch was gisteren ze ziek. Ainda estava ontem *ela doente

A partir da exposição acima, fica claro que, nas línguas V2, existe alguma propriedade que as distingue das línguas não V2, forçando o movimento do verbo para uma posição mais alta na oração. O movimento do verbo para COMP, posição mais alta da oração no modelo de Den Besten (1989), é evidenciado pelo contraste entre orações matrizes e subordinadas (as primeiras exibem o verbo em segunda posição; as últimas exibem o verbo em posição final) e pela distribuição equivalente do verbo, nas orações matriz, com o complementizador, nas

211

orações subordinadas (os mesmos fenômenos encontrados com os complementizadores nas orações subordinadas são encontrados com os verbos nas orações matrizes).

2.2. A análise V2-IP Uma série de trabalhos foi realizada para estudar outros tipos de línguas V2 a partir de Den Besten (1989) 68 e começaram a apontar para diferentes tipos de línguas V2. Um dos estudos pioneiros é o de Thráinsson (1986), que estuda a ordem de constituintes no islandês e mostra que esta língua não apresenta assimetria entre orações matrizes e subordinadas:

(11)

a. Helgi hefur trúlega keypt bókina. Helgi tem provavelmente comprado o livro b. Jón segir að Helgi hefur trúlega keypt bókina. Jón diz que Helgi tem provavelmente comprado o livro (THRÁINSSON, 1986, p.

171)

Como as orações matrizes e orações subordinadas do islandês exibem a mesma ordem de constituintes, Thráinsson (1986) assume que o verbo se move somente até INFL (equivalente

a Iº nos modelos mais recentes). O autor diz que há um parâmetro envolvido na questão e que, em umas línguas, o verbo se move até COMP e, em outras, o verbo faz um movimento curto até INFL, que se caracteriza como uma posição A e a A-Barra ao mesmo tempo 69 . Na mesma linha de pensamento de Thráinsson (1986) é feito o trabalho de Diesing

(1990), que apresenta evidências empíricas mais robustas para a análise V2-IP. A seguir, apresentarei alguns dados empíricos utilizados por Diesing (1990) em favor de sua análise. Para mostrar que a posição de SpecIP pode ser uma posição A-Barra, Diesing (1990) recorre ao contraste de elementos pronominais fronteados: quando o pronome é o sujeito, pode estar na primeira posição sem acento (a proeminência prosódica da oração); quando o pronome não

é o sujeito, só pode estar na primeira posição se for acentuado.

(12)

a. Es hot gegesn dos broyt. (leitura de pronome referencial)

68 O artigo de Den Besten (1989) é uma republicação de um artigo publicado anos antes.

69 Acredito que seja mais plausível assumir que, nessas línguas, o IP é uma projeção A-Barra já que projeções A- Barra podem abrigar tanto o sujeito como outros constituintes.

212

Isso tem comido o pão

b. *Ira hobn di kinder gezen (sem acento) ele.ACC tem as crianças visto

(DIESING, 1990, p. 47)

Um segundo ponto que Diesing (1990) traz para a discussão é a assimetria na ordem de palavras nas orações interrogativas. Nas orações matrizes, o elemento interrogativo conta como primeira posição. Nas orações interrogativas indiretas, por outro lado, não conta:

(13)

a. Vuhin geyt ir?

Onde-para vão vocês?

b. *Ver dos broyt hot gegesn? Quem o pão tem comido?

c. Ikh veys nit vuhin ir geyt. Eu sei não onde vocês vão.

(DIESING, 1990, p. 50)

A conclusão a que se é que, nas orações matrizes, o elemento interrogativo se move

para SpecIP, e, nas orações subordinadas, se move para SpecCP tendo em vista a

possibilidade de que outro elemento apareça entre o verbo e o elemento interrogativo.

A autora discute a análise da recomplementação do CP 70 e diz que esta análise é

problemática no caso do iídiche porque prediz que a extração de orações subordinadas é impossível tendo em vista o cruzamento de várias barreiras, fato que é diferente dos dados,

que mostram que é possível extração de orações subordinadas V2 do iídiche:

(14)

Vemen hot er nit gevolt Quem.DAT tem ele não desejado

az ot di bikher zoln mir gebn? que PRT os livros podemos nós dar (DIESING, 1990, p. 62)

70 A análise de recomplementação do CP foi proposta por Den Besten e Moed-Van Walraven (1986) e diz que nos casos de línguas simétricas há um CP duplo, em que a projeção superior abriga a conjunção e a projeção inferior abriga o verbo. Iatridou e Kroch (1992) fazem uma discussão dessa proposta a fim de mostrar que nas línguas V2 simétricas não existe recomplementação de CP mas movimento do verbo para IP.

213

No entanto, como o trabalho de Rivero (1980) sugere, a possibilidade de extração de

orações subordinadas parece não ser um problema para a análise do verbo em CP (a favor de

V2-IP) considerando os dados a seguir:

(15)

a. *¿Qué preguntan (que) quién tiene? b. Dinero, preguntan (que) quién tiene.

(RIVERO, 1980, p. 380)

Para concluir, Diesing (1990) assume uma estrutura oracional na qual as únicas

projeções existentes são CP, IP e VP, cada uma dessas projeções contendo apenas uma

camada, apresentando argumentos circulares para o problema da simetria entre orações

matrizes e orações subordinadas com relação à manifestação do efeito V2: como a oração

subordinada apresenta complementizador realizado fonologicamente, o verbo não pode se

mover para Cº.

2.3. A favor de V2-CP generalizado

O contraste entre os exemplos em (15a) e (15b) acima dá evidências de que o CP

possui mais que uma projeção, devendo ser entendido como um campo, conforme propõe o

modelo da cartografia das estruturas sintáticas. Se o CP fosse apenas uma única projeção, o

único resultado possível para os exemplos em (15a) e (15b) seria a agramaticalidade obtida

em (15a). Em (15a), como o elemento extraído é um pronome interrogativo, a oração é

agramatical já que a posição intermediária de escape já está ocupada por outro pronome

interrogativo. Em (15b), a oração é gramatical porque o DP fronteado passa por uma posição

de escape intermediária diferente da posição ocupada pelo elemento interrogativo. Caso

houvesse apenas uma única posição no CP de escape (o CP subordinado), a extração do DP

seria impossível.

Voltamos, assim, ao espírito inicial da proposta de Den Besten e Moed-Van Walraven

(1986): nas línguas V2 simétricas há uma recomplementização de CP, que será reinterpretada

aqui no espírito do CP cindido de Rizzi (1997). Antes disso, é preciso apresentar evidências

de que o IP é exclusivamente uma posição-A e o verbo se move para CP mesmo em línguas

simétricas. Apresentarei dois argumentos de Vikner (1995) neste sentido.

Primeiro, Vikner (1995) comenta que tem sido mostrado que o iídiche o islandês

apresentam construções declarativas V1, que são chamadas V1 narrativo, o que contrasta com

as demais línguas germânicas. Segundo Santorini (1989), o movimento do verbo nas orações

V1 é diferente do movimento do verbo nas orações V2 no iídiche: nas orações V2, há apenas

214

movimento V-to-I; nas orações V1, há movimento longo para Cº. A proposta de Santorini (1989) faz a previsão de que, em orações declarativas V1, duas ordens são possíveis:

(16)

SpecCP

SpecIP

SpecTP/SpecVP

a. (nulo) — verbo finito — sujeito — (nulo) —

(nulo)

b. (nulo) — verbo finito — tópico — (nulo) —

sujeito

(Adaptado de VIKNER, 1995, p. 88)

Como SpecIP é uma posição A-Barra, podendo abrigar o sujeito ou qualquer outro constituinte, e o verbo está em Cº, ambas as ordens em (16) são previstas. No entanto, a única ordem observada é a variante (16a), como os dados do islandês e do iídiche mostram em (17)

e (18) respectivamente:

(17)

a. Hafði Pétur þá ekki enn lesið bókina

 

Tem Pétur então não ainda lido livro.DEF

 

b.

*Hafði bókina Pétur þá ekki enn lesið

(18)

Tem livro.DEF Pétur então não ainda lido a. Hot der yid nekhtn gegebn dem yingl dos dozike bukh Tem o homem ontem dado ao garoto esse livro

b. *Hot dos dozike bukh der yid nekhtn gegebn dem yingl

Tem o livro o homem ontem dado ao garoto

(VIKNER, 1995, p. 88)

O contraste acima mostra que, se a posição de SpecIP pudesse ser uma posição A-

Barra, os exemplos em (17b) e (18b) deveriam ser gramaticais. Mas, dada a gramaticalidade exclusiva de (17a) e (18a), a posição SpecIP parece ser uma posição exclusiva para o sujeito. Segundo, Vikner (1995) discute as construções de object shift, construções nas quais, além do sujeito, o objeto direto do verbo é movido para a esquerda do verbo e o VP apenas contém os vestígios (ou cópias apagadas) dos elementos movidos. Observem-se os exemplos

a seguir:

(19)

a. Kannski hefur Jón ekki lesið bokina.

b. *Kannski hefur Jón lesið ekki bókina.

c. *Kannski hefur Jón lesið bókina ekki. Talvez tem Jón (não) lido (não) livro.DEF (não)

(VIKNER, 1995, p. 97)

215

Devido à agramaticalidade de (19b) e (19c), pode-se concluir que a negação “ikke” não pode ser adjungida ao V’ nem pode aparecer à esquerda do VP. Logo, nas construções de object shift, o que se espera é que o objeto preceda a negação, o que realmente acontece:

(20)

a. Hann veit Ele sabe

b. *Hann veit að þess venga las v bókkina i Jón ikke t v t i

að þess venga las v Jón bókkina i ikke t v t i que portanto lê Jón livro.DEF não

Ele sabe

que portanto lê livro.DEF Jón não

(VIKNER, 1995, p. 97)

Sabe-se que o objeto foi submetido a object shift nos exemplos em (20) porque o objeto direto aparece à esquerda da negação (vide os exemplos em (19)). Se o sujeito pudesse ocupar uma posição mais baixa que SpecIP, o exemplo (20b) deveria ser gramatical.

3. Força ilocucionária e efeito V2 Durante algum tempo se acreditou que a variação no efeito V2 das orações subordinadas das línguas assimétricas e das línguas V2 limitadas (como as línguas escandinavas) estava relacionada com o tipo do verbo da oração matriz. Julien (2009, 2010) mostra, a partir de um estudo de corpora do norueguês, sueco e dinamarquês, que a realização do efeito V2 está relacionada com força ilocucionária, mais especificamente com o traço [+assertivo] 71 . Alguns dados de Julien (2009, 2010) são apresentados a seguir. Predicados assertivamente fortes. Neste grupo, são incluídos verbos dicendi e adjetivos como “claro” e “verdade”

(21)

a. Så ringer jeg og sier

Então telefonei eu e disse

at jeg kommer ikke på torsdag. (norueguês) que eu venho não no sábado

b. Det er jo klart,

at det bliver ikke bedre på den måde. (dinamarquês)

71 Uma série de estudos tem argumentado que as orações subordinadas não têm estrutura informacional independente. Contudo, como discutido por Lahousse (2010), essa afirmação é falsa. Lahousse (2010) mostra que a possibilidade de ordem V-S no francês é determinada pelo estatuto informacional da oração. A autora mostra, neste sentido, que as mesmas restrições que atuam nas orações matrizes com relação à ordem V-S e à clivagem são encontradas nas orações subordinadas, o que indica que as orações subordinadas têm sua estrutura informacional independentemente da oração matriz.

216

EXP é PRT claro

que isso torna não melhor desse jeito (JULIEN, 2010, p. 8)

Predicados não assertivos. Neste grupo são incluídos verbos como “negar” e “ser impossível”. Julien (2010) não registra casos de ordem V2 em orações subordinadas com este tipo de predicado, como é previsto dentro da proposta de que o efeito V2 está relacionado com asserção. No entanto, segundo a autora, um exemplo construído com ordem V2 na oração subordinada de um predicado deste grupo é gramatical tanto para ela como para outros falantes nativos do sueco:

(22)

Det är väl ingen som tvekar på

att

dom

gör

det

alltid

för

att

upp

försäljningen? EXP é PRT ninguém que duvida PRT

que

eles

fazem

isso

sempre

para

dar

vendas

(JULIEN, 2010, p. 9)

Para Julien (2010), a gramaticalidade de (22) representa que um predicado negativo não assertivo se comporta como um predicado assertivo e que o tipo de predicado matriz por si só não determina se a oração subordinada pode exibir efeito V2 ou não. Predicados de verbos copulativos. Para Julien (2010), a oração matriz representa apenas uma introdução e a oração subordinada é que representa a verdadeira asserção:

(23)

Mitt poeng er at vi kjenner ikke omfanget. (norueguês)

Meu ponto é

que nós conhecemos não o tamanho

(JULIEN, 2010, p. 13)

Swearwords. Por fim, para mostrar que as orações subordinadas possuem força ilocucionária própria decorrente de seu caráter assertivo, Julien (2010) mostra a distribuição das swearwords 72 orientadas discursivamente, ou seja, expressões que são utilizadas para enfatizar uma asserção:

72 “Swearwords” pode ser traduzido como palavras obscenas ou palavrões.

217

(24)

a. Bestem jer for fanden! (dinamarquês) Decidam vocês, por diabo! 73

 

b.

Nei, for faen! (norueguês) Não, por diabo!

(JULIEN, 2010, p. 39)

Contextos interrogativos e não assertivos são agramaticais com essas palavras:

(25)

a. Det er for faen ikke farten som dreper. (norueguês)

EXP é por diabo nenhuma rapidez.DEF que mata.

b. *Er det for faen (ikke) farten som dreper? É EXP por diabo (nenhuma) rapidez.DEF que mata?

c. Er det (ikke) farten som dreper?

É EXP (neg) rapidez.DEF que mata?

(JULIEN, 2010, p. 39-40)

Dados de dialetos do norte italiano discutidos por Poletto (2000) podem confirmar a proposta de Julien (2009; 2010) de que o efeito V2 está relacionado com o traço [+assertivo]. Poletto (2000) mostra uma assimetria entre orações declarativas e interrogativas com relação à presença de deslocamento à esquerda e efeito V2; ou seja, por um lado, as declarativas não permitem deslocamento à esquerda e efeito V2, por outro lado, as interrogativas o permitem:

(26)

a. *Giani, duman l vaighes-t

Giani, amanhã ele vê-você(cl)

b. Giani, duman l vaighes-t? Giani, amanhã ele vê-você(cl)?

(POLETTO, 2000, p. 93)

Como o efeito V2 está relacionado ao traço [+assertivo], tal restrição só aparece em orações declarativas, que são essencialmente assertivas. As orações interrogativas, cujo traço

é [-assertivo], não possuem a restrição V2 e um outro constituinte pode aparecer em primeira posição, desencadeando a ordem superficial V3.

73 Entendo que a leitura equivalente no português seja algo como “decidam vocês, pelo amor de Deus!”

218

4. Uma proposta Roberts (2004) procura explicar o efeito V2 a partir da satisfação de um traço fonológico, ou seja, um traço EPP em Finº, considerando o CP expandido de Rizzi (1997), propondo que Fin* pode ser realizado de diversas formas 74 . Em línguas como o galês (welsh), Fin* vai ser realizado por uma partícula; em línguas como o alemão, Fin* vai ser realizado com o movimento do verbo.

O efeito V2 nas línguas germânicas tem quatro componentes segundo Roberts (2004):

(27)

a. movimento do verbo para Finº.

b. movimento de um XP pra SpecFinP

c. restrição de somente um XP.

d. assimetria oração matriz/oração subordinada.

(ROBERTS, 2004, p. 315)

As explicações para as quatro exigências são as seguintes: a) O movimento do verbo para Finº é desencadeado por uma propriedade paramétrica, na qual Finº[+finito] de línguas V2 tem um traço que atrai o verbo para esta posição; b) Em conseqüência deste movimento de verbo, a posição SpecFinP vai ser dotada de um traço EPP que exige o movimento de um constituinte para esta posição; c) a restrição de um único constituinte se deve ao fato de que, como o XP em SpecFinP não tem nenhum traço específico, mas foi movido para satisfazer o traço EPP dessa posição; por razões de minimalidade relativizada, o seu movimento bloqueia o movimento de qualquer outro elemento para qualquer posição acima de Finº; d) como nas línguas V2 Finº requer uma realização fonológica, nas orações subordinadas, o complementizador realiza essa função.

A partir dos pressupostos acima, uma explicação para a variação no efeito V2 é dada

da seguinte maneira: Há um tipo de parâmetro [±V2] que determina se uma língua é V2 ou não-V2 (talvez, determine se a língua tem movimento do verbo para CP na sintaxe visível ou na sintaxe não visível). Se uma língua é V2, essa língua tem Fin* [-selecionado] ,

independentemente de ser uma língua simétrica ou língua assimétrica. A variação na manifestação do efeito V2 estaria relacionada com os traços de Fin* [+selecionado] .

74 Fin* é a representação que Roberts (2004) dá para o núcleo Finº que necessita realização fonológica.

219

As línguas assimétricas exibiriam variação de traços de seleção em Fin*, que poderia ser [±selecionado]. Quando Fin* é [-selecionado], tem-se uma oração matriz, interpretada como declarativa por default. Quando Fin* é [+selecionado], tem-se uma oração subordinada, e o traço de Fin* deve ser realizado pela conjunção. As orações completivas de verbos-ponte, por serem sintaticamente dependentes mas semanticamente/temporalmente independentes, têm o traço [±selecionado]; assim, o requerimento fonológico de Fin* pode ser satisfeito tanto pela conjunção como pelo movimento do verbo, neste segundo caso seguido automaticamente pelo movimento de um XP 75 . No caso de línguas assimétricas com verbos-ponte com realização fonológica do complementizador, como o dinamarquês, a conjunção é concatenada numa posição mais acima, ou seja, em Forceº. No caso das línguas simétricas, ambos os Fin* são tratados como [-selecionado], ou seja, ambas orações são interpretadas como orações matrizes, e o movimento do verbo é obrigatório em ambos tipos de oração. Nesses casos, para marcar a subordinação sintática, o complementizador tem que ser concatenado numa posição mais alta da oração, como no caso das línguas assimétricas como o dinamarquês. Um segundo ponto relevante é que, se o efeito V2 está relacionado com força ilocucionária, as orações declarativas matrizes não podem ser interpretadas como tal por default, como propôs Roberts (2004), mas sim pela presença de uma projeção ForceP. Pode- se pensar, portanto, que o parâmetro V2 está relacionado com os traços da projeção funcional ForceP em vez de estar relacionado com os traços de Fin* (ter Fin* seria apenas uma conseqüência, ou seja, uma seleção dos traços de Forceº). Se uma língua tem o parâmetro [+V2], sempre que uma oração tiver força ilocucionária assertiva, ou seja, quando Forceº contiver o traço [+asserção], Forceº selecionará um FinP que tenha o núcleo Fin*. As orações declarativas matrizes, por conterem a força ilocucionária primária da oração, sempre têm o traço [+asserção] nas línguas V2 e por isso o verbo sempre se move para Fin* e um constituinte se move para SpecFinP.

75 Uma evidência de que é o movimento do verbo o que desencadeia o movimento do XP é encontrada no fato de que não há movimento de XP quando Fin* é realizado pela conjunção. Nada impede, a priori, que esse movimento seja realizado já que são permitidas pela faculdade da linguagem perguntas subordinadas clivadas:

“ele perguntou que livro que você leu ontem”. Uma questão em aberto e já pontuada em Pinto (2011) é por que algumas línguas V2 exigem movimento do verbo para Finº seguido do movimento do XP para SpecFinP e outras podem apresentar apenas o movimento do verbo sem o movimento do XP, desencadeando a ordem linear V1.

220

As orações declarativas subordinadas é que estão abertas à variação com relação ao traço [±asserção]. As línguas assimétricas, como se pode concluir pelos trabalhos de De Haan (2001) e Julien (2009, 2010), só apresentam efeito V2 nas orações subordinadas quando estas possuem o traço [+asserção]. As línguas simétricas, por outro lado, apresentam o efeito V2 de forma generalizada, o que leva à conclusão de que o traço [+asserção] está presente obrigatoriamente em ambas as orações; ou seja, tanto orações matrizes como orações subordinadas são tratadas como [+assertivas] nas línguas simétricas. Uma conseqüência de assumir que ForceP é a projeção funcional responsável pela manifestação do efeito V2 é que aqueles traços [±selecionado; ±declarativo] atribuídos a FinP por Roberts (2004) precisam ser atribuídos a ForceP, que é a projeção mais alta da oração. Logo, ForceP teria três traços: [±selecionado; ±declarativo; ±assertivo]. A estrutura básica que proponho para explicar a variação no efeito V2 é a ilustrada em (28) a seguir:

(28)

no efeito V2 é a ilustrada em (28) a seguir: (28) O efeito V2 nas orações

O efeito V2 nas orações matrizes acontece uniformemente da seguinte maneira: Forceº tem os traços [-selecionado; +declarativo; +assertivo]. O traço [-selecionado] determina que Forceº seja nulo; o traço [+declarativo] por si só não desempenha nenhum papel, apenas determina o tipo de oração; o traço [+assertivo], que é um subtraço do traço [+declarativo] 76 , é que determina que Forceº seleciona um FinP* como complemento. FinP* é o que atrai o verbo para si e desencadeia o movimento de um XP para seu especificador. Por outro lado, o efeito V2 em orações subordinadas com realização fonológica do complementizador acontece da seguinte maneira. O traço que distingue as orações subordinadas das orações matrizes é o traço [±selecionado], que, no caso das orações subordinadas, é [+selecionado]. Isto faz com que Forceº precise de uma realização fonológica

76 Lembre-se de que, como discutido em Julien (2010), uma oração interrogativa nunca é assertiva. Já uma oração declarativa pode ser assertiva ou não.

221

nas línguas V2, sendo ocupado pela conjunção. Os demais traços são idênticos aos traços das orações matrizes, ou seja [+declarativo;+assertivo], e desencadeiam os movimento do verbo para Finº e de um XP qualquer para SpecFinP. A partir da proposta acima, duas questões aparecem: a) qual seria então a diferença entre línguas simétricas e línguas assimétricas?; b) o que acontece no caso de línguas como alemão e holandês em que o efeito V2 só é possível em orações subordinadas sem a conjunção? No primeiro caso, a diferença entre os dois tipos de língua se refere somente ao traço [±asserção]: as línguas simétricas teriam somente orações [+declarativas] com o subtraço [+assertivo]; as línguas assimétricas estariam abertas à variação [±asserção] nas orações subordinadas declarativas. Este fato está de acordo com a proposta de Roberts (2010), que propõe que somente há micro-parâmetros na faculdade da linguagem e os macro-parâmetros são o reflexo da atuação conjunta de vários micro-parâmetros. No caso de línguas como o alemão e o holandês, nas quais o efeito V2 acontece sem a presença do complementizador, vejo duas possíveis respostas. Se o efeito V2 em orações subordinadas do alemão e do holandês acontece em orações completivas de verbos-ponte, pode-se dizer que essas orações subordinadas têm variação no traço [±selecionado], tendo em vista que as orações completivas de verbos-ponte são sintaticamente subordinadas mas semanticamente independentes. Neste caso, se o falante aciona o traço [-selecionado], Forceº permanece vazio e tem-se uma oração V2; se o falante aciona o traço [+selecionado] Forceº é realizado pela conjunção e não atrai o verbo para Finº. Se o efeito V2, no alemão, acontece em outros contextos além dos contextos de orações subordinadas a verbos-ponte, a alternativa é dizer que o efeito V2 é satisfeito em ForceP e não em FinP (sendo que, para ir até ForceP, os constituintes passariam por FinP). Isso explicaria a distribuição complementar entre movimento do verbo e conjunção nas orações subordinadas.

BIBERAUER, T

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224

224 POR UMA ABORDAGEM FUNCIONAL DO ALÇAMENTO DE CONSTITUINTES ARGUMENTAIS Gustavo da Silva Andrade (PIBIC/Unesp –

POR UMA ABORDAGEM FUNCIONAL DO ALÇAMENTO DE CONSTITUINTES ARGUMENTAIS

Gustavo da Silva Andrade (PIBIC/Unesp – Câmpus de São José do Rio Preto) Sebastião Carlos Leite Gonçalves (CNPq/Unesp – Câmpus de São José do Rio Preto)

Introdução Dentre os muitos fenômenos que tomam lugar nas orações complexas, aqui entendidas como casos estritos de subordinação sentencial (HOPPER; TRAUGOTT, 1993), o alçamento de constituintes argumentais da oração subordinada para os limites da oração matriz talvez seja um dos mais intrigantes nas línguas naturais (SERDOBOL’SKAYA, 2008), razão que nos leva a oferecer, neste trabalho, uma descrição do fenômeno para o português brasileiro (PB), sob a perspectiva funcionalista, o que significa ter de considerar, além de aspectos morfossintáticos, também aspectos semânticos e pragmáticos. Em decorrência dessa opção teórica, empreendemos a descrição do alçamento com base em pesquisa em córpus de língua falada, partindo do trabalho de Noonan (2007 [1985]), por ser este de caráter tipológico, com o objetivo de verificar se os critérios por ele utilizados na caracterização do fenômeno são necessários e suficientes para a identificação e a descrição de um caso específico de alçamento no PB: o alçamento do constituinte sujeito da oração subordinada para a posição de constituinte sujeito da oração matriz (ASS, doravante). Para o levantamento dos dados, recorremos a amostras de fala do Banco de Dados IBORUNA, um banco de dados de médio porte (disponível em <http://www.iboruna.ibilce.unesp.br>), com pouco mais de um milhão de palavras e que registra a variedade do português falado no interior paulista, por meio de uma amostra do censo linguístico de parte da região noroeste do estado e de uma amostra de interação, gravada secretamente (GONÇALVES, 2007) em contextos de interação social livres, sem qualquer controle de variantes sociais.

225

Com base na literatura sobre o assunto, adotamos inicialmente os seguintes parâmetros

para a análise dos dados:

(i)

De âmbito morfossintático: (a) tipo estrutural de SN alçado, (b) [+/- concordância] nos limites da matriz, (c) [+/- concordância] nos limites da encaixada, (d) presença de pronome cópia na encaixada, (e) tipo de conector entre matriz e encaixada, (f) correlação modo-temporal entre matriz e encaixada, (g) formato da oração encaixada;

(ii)

De âmbito semântico: (a) semântica do predicado matriz, (b) referencialidade e (c) animacidade do SN alçado;

(iii)

De âmbito pragmático: (a) topicalidade e (b) status informacional do SN alçado.

Explicitados, nesta parte introdutória, os objetivos do trabalho e seu aparato

metodológico, este trabalho estrutura-se nas seguintes seções: na primeira seção apresentamos

o subsídio teórico principal de que parte nosso trabalho descritivo; na segunda seção,

mostramos como o fenômeno se manifesta no PB, a partir de ocorrências no córpus, com

especial interesse para os casos de ASS; à guisa de conclusão, apresentamos nossas

considerações finais, que apontam para uma necessidade de continuidade de investigação do

tema, em busca de uma definição mais precisa para o fenômeno, consistente com uma

abordagem funcionalista.

Subsídios teóricos

Em seu trabalho de descrição da complementação oracional, Noonan (2007 [1985])

trata dos predicados que tomam orações por complemento e apresenta um tratado tipológico

para as orações completivas. Ao tratar, especificadamente, da sintaxe da complementação,

apresenta fenômenos que tomam por escopo as completivas, entre os quais destacamos os

casos de alçamento, foco central do presente trabalho.

Segundo o autor, além do fenômeno de equi deletion 77 , orações completivas, também,

sujeitam-se a fenômenos de alçamento, que consiste na ocorrência de um termo argumental

do predicado da oração completiva em um slot da oração matriz, dentro do qual contrai

alguma relação morfossintática com o predicado, permanecendo, entretanto, a relação

77 O fenômeno de equi-deletion refere-se ao apagamento de termo da oração completiva correferencial a algum termo da oração matriz, como em Zeke i wants Ø i to plant the corn, na qual os sujeitos do predicado matriz wants e do predicado encaixado to plant são os mesmos. Pode ocorrer também apagamento de termo da oração matriz correferencial a termo da oração completiva, caso identificado como equi-deletion para trás (NOONAN, 2007,

p.75-79).

226

semântica com o predicado encaixado, conforme exemplo abaixo do inglês, extraído do autor (NOONAN, 2007 [1985], p.79).

(01)

a.

Irv believes [Harriet is a secret agent] ‘Irv acredita que Harriet é um agente secreto’

b.

Irv believes Harriet [to be a secret agent] Lit:*‘Irv acredita Harriet ser um agente secreto’ ‘Irv acredita ser Harriet um agente secreto’

Em (01a), o SN Harriet ocupa a posição argumental de sujeito do predicado encaixado, secret agent, e, em (01b), ocorre em posição argumental de objeto do predicado matriz believes, mas mantém sua relação semântica com a predicação encaixada, e tem sua finitude reduzida à forma não-finita. Assim, a construção (01b), contraparte com SN alçado de (01a), representa um caso de alçamento de sujeito a objeto (doravante, AOS). Deve ficar claro que o alçamento não modifica as relações semânticas, ele apenas reconfigura as relações morfossintáticas no interior do complexo oracional. Isto é, no exemplo acima, mesmo assumindo a função sintática de objeto direto do predicado da matriz, o argumento Harriet continua sendo o sujeito semântico do predicado da oração completiva. Deste modo, o alçamento estaria ligado a uma modificação nas relações sintáticas e, não, nas relações semânticas. Entendemos, então, que um constituinte semanticamente argumento

da oração completiva e sintaticamente argumento da oração matriz está em uma relação de alçamento. Em sua descrição, Noonan (2007 [1985]) afirma que o alçamento seria um:

método através do qual argumentos podem ser removidos de suas predicações, resultando em estrutura de complementação de tipo não sentencial [non-s-like]. Esse método envolve a colocação de um argumento nocionalmente parte da proposição complemento (tipicamente o sujeito) em uma posição com relação gramatical (por exemplo, de sujeito ou de objeto direto) com o PTC [predicado que toma complemento]. Esse movimento de um argumento de uma sentença de nível mais

227

baixo para uma de nível mais alto é chamado alçamento. (NOONAN, 2007 [1985],

p.79, grifos acrescidos). 78

Com base nessa definição oferecida pelo autor, podemos extrair alguns aspectos relevantes para a caracterização do alçamento. Primeiramente, o SN alçado é semanticamente parte de uma oração completiva 79 , i.e., é um constituinte argumental do predicado encaixado, e, não, do predicado matriz. Segundo, o alçamento é um fenômeno que afeta, tipicamente (mas, não, necessariamente) o sujeito da oração encaixada, que, ao ser alçado, desenvolverá relações gramaticais com o predicado matriz, i.e., será seu sujeito ou seu objeto. Em terceiro lugar, após o alçamento a oração complemento assume a forma reduzida (infinitiva), tornando-se uma non-sentence-like, i.e., se dessentencializando. Por último, porém não menos importante, o autor emprega termos como colocação [placement], movimento [movement] e, na identificação do próprio fenômeno, o termo alçamento [raising], em torno dos quais caberia uma discussão detalhada sobre (in)adequação do aproveitamento teórico desses termos para referir ao SN alçado. Resumidamente, colocação e movimento parecem-nos termos contraditórios na explicação do fenômeno, porque o primeiro refere-se à posição de constituinte motivada por razões sintáticas, semânticas e pragmáticas, como defendem funcionalistas (DIK, 1979), e o segundo, à operação de transformação sobre a contraparte sem alçamento, nos termos como inicialmente o fenômeno foi descrito pelo aparato teórico da gramática gerativa (POSTAL, 1974). Assim, a diferença entre essas duas abordagens teóricas diz respeito ao modo como cada uma concebe a origem do constituinte alçado: como resultante de movimentos do constituinte de uma posição hierarquicamente mais baixa para uma mais alta na sentença, como postulam os gerativistas, ou como resultado de motivações pragmáticas, semânticas ou morfossintáticas que levam os constituintes a assumirem a posição que ocupam na estrutura da oração, como postulam os funcionalistas, posição, que

78 Tradução livre do original: “[…] method whereby arguments may be removed from their predications

resulting in a non-s-like complement type. This method involves the placement of an argument notionally part of

the complement proposition (typically the subject) in a slot having a grammatical relation (eg subject or direct

object) to the CTP [complement taking predicates]. This movement of an argument from a lower to a higher

sentence is called raising.”(NOONAN, 2007, p.79).

79 Neste trabalho, empregamos, intercambiavelmente, os termos subordinada, completiva/complemento e encaixada para nos referirmos à sentença/oração em posição argumental de um predicado matriz ou a um seu constituinte.

228

assumimos neste trabalho. A respeito dessa diferença, Hengeveld e Mackenzie (2008, p. 393) assim se pronunciam:

Observe que, embora usemos o termo tradicional ‘raising’ [alçamento] aqui, não queremos sugerir que o fenômeno envolve a transformação de uma configuração básica em outra derivada. (HENGEVELD; MACKENZIE, 2008, p.393).

Decorrente dessa definição de alçamento, segundo Garcia Velasco (2011), podemos encontrar algumas implicações. A primeira delas é que o alçamento seria uma discrepância entre Sintaxe e Semântica: as relações semânticas, no caso dos argumentos alçados, mantêm- -se, porém suas relações sintáticas são alteradas, o que levaria à discrepância entre função semântica e função sintática. Uma segunda implicação seria sempre o envolvimento de pares de construções, o que exclui do fenômeno de alçamento casos em que não haja a contraparte não alçada do par, como se verifica, em PB, no par de orações João parece estar cansado / Parece que João está cansado, mas não no par João acredita que Maria está grávida / ? João acredita Maria estar grávida. Por fim, duas últimas implicações de âmbito formal são as adaptações morfossintáticas do argumento alçado e da oração complemento. Os principais ajustes morfossintáticos do SN alçado envolvem relação de concordância e atribuição de caso morfológico (nas línguas que o requerem) relativamente ao predicado matriz (SERDOBOL’SKAYA, 2008) e expressão infinitiva da oração encaixada. Se esse último ajuste é postulado como necessário para a identificação do fenômeno, três situações se configuram: (i) ou a redução da oração encaixada para a forma infinitiva é opcional e, portanto, o fenômeno é compatível também com oração encaixada na forma finita, como em PB (as crianças parecem que estão cansadas); (ii) ou se oração encaixada permanece na forma finita, não estamos diante de um caso de alçamento; (iii) ou ainda, esta não pode ser uma propriedade definitória do fenômeno. Tornaremos a essa questão mais adiante. Não somente o sujeito do predicado encaixado é afetado pelo alçamento. Para além do sujeito, o objeto direto também pode ser afetado. Quanto à posição para a qual o constituinte será alçado, ela normalmente corresponde à posição de sujeito, porém, há a possibilidade de que o constituinte ocupe também a posição de objeto direto do predicado matriz, caracterizando a pluralidade de tipos de alçamento mostrados em (07) e (08), exemplos do inglês, e, em (09), exemplo do irlandês.

(07)

Inglês: Alçamento de Sujeito a Sujeito (ASS) (NOONAN, 2007 [1985], p.81)

229

a. It seems [that Boris dislikes vodka] ‘Parece que Boris não gosta de vodca’

b. Boris seems [to dislike vodka] ‘Boris parece não gostar de vodca’

(08)

Inglês: Alçamento de Objeto a Sujeito (AOS) (NOONAN, 2007 [1985], p.81)

a. It´s tough for Norm [to beat Herb] ‘É difícil (para) Norm vencer Herb

b. Herb is tough [for Norm to beat] ‘Herb é difícil (para/de) Norm vencer’

(09)

Irlandês: Alçamento de Objeto a Objeto (AOO) (NOONAN, 2007 [1985], p.82)

a. Is ionadh liom é [a fheiceáil Sheáin anseo]

COP surpresa com.me lo COMP ver.NZN

‘É uma surpresa para mim que ele tenha visto John aqui’

Seán [a

COP surpresa com.me John COMP ver.NZN aqui ‘É surpresa para mim (ele) ver John aqui’

John.GEN aqui

anseo]

b. Is ionadh liom

fheiceáil

Em (07), vemos exemplificado um dos tipos mais produtivos de alçamento, o ASS: o Boris, em (07a), sujeito do predicado complemento, é alçado a sujeito do predicado matriz em (07b), levando a uma redução da oração complemento. Em (08a), Herb funciona como objeto direto do predicado encaixado e, em (08b), tem sua relação sintática modificada, juntamente com uma redução da oração complemento, passando a exercer a função de sujeito do predicado matriz e caracterizando alçamento de objeto a sujeito (de agora em diante, AOS). Em (09), o alçamento é da posição de objeto a objeto (AOO, doravante), um dos menos produtivos translinguisticamente (GARCIA VELASCO, 2011). Nesse exemplo do irlandês, as motivações para o alçamento ocorrem de modo gradual: em (09a), a equi-deletion decorrente da coreferencialidade do sujeito da encaixada e de um argumento da matriz, através da qual, na matriz, a forma de acusativo é ‘lo’ ocorre como nominativo ‘ele’, uma das motivações para o alçamento do constituinte Sheáin da nominalização a objeto do predicado ionadh. Segundo o autor, nesses casos em que há equi-deletion e a oração complemento vem com um termo nominalizado, é obrigatório o alçamento em irlandês. Pelos exemplos oferecidos pelo autor, já é possível observar que, intralinguisticamente, nem todos os tipos de alçamento são produtivos, como é o caso de AOO para o inglês (NOONAN, 2007 [1985], p.81).

230

Observe-se, por último, que, apesar do trabalho tipológico de Noonan (2007 [1985]) ter um apelo funcionalista na descrição geral da subordinação, no tocante ao fenômeno do alçamento, ele não destaca propriedades de ordem semântica e pragmática, razão que nos leva a recorrer a outros autores para tratar especificamente da manifestação do fenômeno no PB, em razão de nosso compromisso com uma orientação funcionalista.

Manifestação do fenômeno no PB Relativamente ao PB, identificamos os seguintes tipos de alçamento, retirados do córpus que nos serviu de investigação empírica e/ou de manuais de descrição do português, com a explicitação, em cada caso, do que constitui contraparte sem alçamento. 80

(10)

ASS

 

a.

a

informante parece [pensar em algo mais para dizer] (AC-004; 63)

a'.

Parece que a informante pensa em algo mais para dizer (construção do par)

a”.

A

informante parece [que pensa em algo mais para dizer.]

 

AOS

 

b.

o

serviço é difícil [arranjá(r)] (AC-071; 135)

b’.

É

difícil arranjá(r) serviço (construção par)

b”.

??

O serviço é difícil [que se arranje].

 

ASO

 

c.

O

professor mandou os alunos [entregarem os trabalhos datilografados] (SOUSA E SILVA;

 

KOCH, 2009, p.110)

 

c'.

O

professor mandou [que os alunos entregassem os trabalhos datilografados]

c”.

O

professor mandou-os [entregar os trabalhos datilografados]

d.

As provas do processo confirmaram (o réu) [ser (o réu) um estelionatário] (SOUSA E

 

SILVA; KOCH, 2009, p.110 )

 

d'.

As provas do processo confirmaram [que o réu é um estelionatário]

d”.

??

As provas do processo confirmaram-no [ser um estelionatário].

Em (10a), observamos uma estrutura prototípica com alçamento promovida por um predicado matriz de modalidade epistêmica, o verbo parecer: o sujeito da oração encaixada

80 Ao final de cada ocorrência extraída do corpus, identificamos, respectivamente: o tipo de amostra (AC, amostra censo, ou AI, amostra de interação), o número do inquérito e a linha de onde o dado foi extraído.

231

ocorre no slot à esquerda do verbo, recebendo, nesse novo domínio, a função sintática de

sujeito do predicado matriz. Trata-se de estrutura prototípica em decorrência da manutenção

de todos os critérios de alçamento oferecidos por Noonan (2007 [1985]), inclusive a redução

da oração complemento. Esse exemplo configura um caso de ASS, ou seja, o SN alçado, antes, sujeito sintático da oração completiva, como visto em (10a'), ocorre como sujeito sintático do predicado matriz (10a). Observe que mesmo tendo perdido sua relação

morfossintática com a oração completiva, ele mantém sua relação semântica no interior dela.

A reconstrução em (10a") mostra que a redução da oração encaixada, mesmo em estrutura

semelhante à de alçamento, não é uma propriedade necessária, ao menos para esse tipo de predicado matriz. Em (10b’), par não alçado de (10b), segue um exemplo de AOS, tipo favorecido por predicados avaliativos do tipo (é) fácil/difícil. O SN serviço, em (10b’), é argumento objeto

direto do predicado encaixado arranjar; com o ajuste morfossintático, resultante da construção com SN alçado (10b), a ele é atribuída a função sintática, agora, de sujeito pelo predicado matriz. Novamente, mesmo tendo perdido relações sintáticas com o predicado encaixado, mantém ainda sua relação semântica com ele. Também se observa, categoricamente, para esse tipo de alçamento, a redução da oração completiva, com a diferença de que é raro (se não estranho) que sua contraparte sem alçamento ocorra na forma finita, como mostra (10b”). Podemos observar, nos exemplos (10c, d) 81 , estruturas de alçamento, relativamente à estrutura sem alçamento correspondente (10c’,d’). Seguindo o modelo descrito por Noonan, nesses exemplos, há, nos termos de Lehmann (1988), uma dessentencialização da oração encaixada, ou seja, a oração complemento perde propriedades de oração plena, assumindo a forma infinitiva. No exemplo (10d), há ainda posposição do sujeito semântico réu ao verbo ser da oração encaixada, algo que, segundo Sousa e Silva e Koch (2009), marcaria uma escolha estilística alternativa a As provas do processo confirmaram [o réu ser um estelionatário], confirmando, assim, tratar-se de caso de ASO, como bem mostra a pronominalização de caso acusativo totalmente aceitável em (10c”) e discutível em (10d”). Aparentemente, até onde pudemos constatar, os casos de AOO, em PB, não são atestados, ou são produtivos, como os de ASO.

81 Não encontramos no córpus nenhuma ocorrência de ASO, embora esse tipo também se manifeste no PB. Assim, recorremos a exemplos de SOUSA E SILVA e KOCH (2009) para afirmar esse tipo de alçamento.

232

Como deve ter ficado claro nas análises acima oferecidas, nem todos os critérios oferecidos por Noonan (2007 [1985]) para identificar o fenômeno de alçamento se aplicam consistentemente ao PB:

(i) o SN alçado mantém relações argumentais (semânticas) com o predicado encaixado:

aplicável a todos os três tipos encontrados no PB;

(ii) ajuste morfossintático de concordância entre SN alçado e o predicado matriz: critério obrigatório para os três tipos de alçamento encontrados no PB (embora, em quase todas as ocorrência que levantamos no córpus, o argumento alçado seja SN de 3 a . pessoa singular, restringindo, assim a verificação inequívoca dessa propriedade);

(iii) dessentencialização da oração encaixada: critério opcional, para ASS, mas obrigatório para os casos de AOS e ASO, opcionalidade que se deve ao tipo semântico de predicado matriz; com predicados matrizes de modalidade epistêmica, que favorecem fortemente o ASS, a redução da encaixada é facultativa ou se trata de um tipo apenas aproximado de alçamento, o que nos leva a ficar com a primeira alternativa; com predicados matrizes avaliativos ou confirmativos, mais correlacionados ao AOS e ASO, a dessentencialização é propriedade obrigatória.

Grande parte dos estudos sobre alçamento, incluindo o de Noonan (2007 [1985]), privilegia apenas aspectos morfossintáticos em razão de se desenvolver, a maior parte deles, sob uma abordagem formal (HENRIQUES, 2008; FERREIRA, 2001 apud GONÇALVES, 2003); fatores de ordem semântica e pragmática permanecem ignorados. Tomando o funcionalismo givoniano (GIVÓN, 2001a) como quadro teórico, Gorski (2008) discute, para casos de topicalização em PB envolvendo predicados avaliativos, como os por nós identificados como predicados que propiciam AOS (é fácil/é difícil), a relação entre topicalidade e tais tipos de predicado. Segundo Givón (2001a, p.13), topicalidade, um dos subsistemas gramaticais orientados para o discurso, é definida como uma propriedade de SN, que, normalmente, é codificado como sujeito (tópico primário), mas que também pode ser codificado como objeto (tópico secundário). A topicalidade, mesmo que refletida no nível oracional, é dependente do discurso. Ainda segundo o autor, a topicalidade está relacionada ao princípio icônico de sequencialidade, segundo o qual, em específico, “uma fatia de informação mais importante é

233

colocada à frente”. Provavelmente, no tocante ao alçamento, o termo alçado seria colocado à frente em uma relação gramatical com o predicado matriz por motivações pragmáticas, i.e., um constituinte tópico é levado à esquerda, perdendo suas relações com o predicado encaixado (GIVÓN, 2001a, p.35). Pelas premissas funcionalistas de Givón, segundo Gorski (ibidem), vemos que a “linguagem humana tem duas funções principais: a de representação e a de comunicação do conhecimento/experiência.”. (GORSKI, 2008, p.170). Desse modo, enquanto no ponto de representação, configuram-se os níveis da informação semântico-proposicional, lexical e da coerência discursiva, no ponto da comunicação, configura-se a codificação comunicativa por meio do código sensório-motor periférico e do código gramatical. Portanto, quando consideramos o nível sintático da oração, há sempre a possibilidade de um mesmo conteúdo ser codificado de modos distintos, o que permite explicar certos tipos de fenômenos linguísticos, dentre os quais o alçamento. Assim, a topicalidade está relacionada com dois aspectos da coerência referencial: a acessibilidade referencial e a importância temática, relacionadas, respectivamente, ao quão, segundo o Falante, o referente está acessível e ao quão importante ele é. São estes dois mecanismos que restringem as escolhas gramaticais usadas na codificação da estrutura morfossintática, o que reflete o caráter pragmático e discursivo do alçamento. Para Givón (2001b, p.272), a ocorrência do alçamento está relacionada com a presença de um verbo de atividade mental com um argumento proposicional e outro argumento nominal. Dentro do argumento proposicional, um SN é dado como tópico, normalmente, o sujeito, e, dada sua importância, esse termo é alçado e levado de argumento tópico da subordinada para argumento (sujeito ou objeto) da principal. Podemos observar que até o presente momento as definições têm restringido o alçamento à caracterização de um constituinte da encaixada, ou seu sujeito, majoritariamente, ou seu objeto, que é alçado a sujeito ou objeto da matriz. Porém, seria possível estender essa definição? Conforme observado por Gorski (2008), em português, a topicalização é motivada pragmaticamente, porém não sofre as restrições propostas por Givón, i.e., não se aplicam, ao português, as restrições acerca da impessoalidade e do tipo de verbo de atividade mental, contudo, o português restringe-se quanto à definitude do SN. Segunda a autora, aplicam-se ao português outras particularidades, tais como (i) o uso da preposição de diante do infinitivo e (ii) a possibilidade de deslocar um constituinte adverbial, locativo, que, ocorrendo na forma

234

nominal, concorre à função de sujeito da oração matriz, conforme exemplificado em (11) e (12), respectivamente:

(11)

Uso da preposição de diante do infinitivo (AC-048-TRANS-304-306)

a.

Doc.: J. a sua mãe me falô(u) que cê sabe fazê(r) um bolo de chocolate muito bom:: eu

 

gostaria que você me explicasse como que é esse bolo de chocolate

Inf.: ah ele é assim ele é fácil de fazê(r) né?

(12)

Constituinte Adverbial Deslocado (AC-146-TRANS-94-98)

a. o Império publica uma lei

das pessoas que

se instaLAssem em terras públicas portanto terras ((barulho de carros)) devolutas é

difícil que se estabelecessem

casas

criassem as suas RAÍzes nesses locais construíssem suas

que dava direito aBRIa a possibilidade

os seus

é:: tiv/ mantivessem os seus reban::hos

Podemos observar, em (11), um caso de AOS. Na estrutura canônica 82 , a oração seria codificada como é fácil fazê(r) ele né?, em que o pronome ele refere-se ao referente tópico bolo. Podemos observar que há uma motivação pragmática para o alçamento: o SN é um constituinte discursivamente importante e relevante, ou seja, é a parte do ato discursivo que tem relevância contextual e que será resgatado dentro da interação comunicativa. Desse modo, ocorre o alçamento do constituinte, corroborando o que é afirmado por Gorski (2008),

o infinitivo vir introduzido por preposição. Já em (12), observamos uma estrutura de alçamento de um termo locativo para a

posição de sujeito. Uma característica que aparentemente faz parte desse tipo de alçamento é

o apagamento da preposição: portanto é difícil que se estabelecessem em terras devolutas. No trabalho de Serdobol’skaya (2008), encontramos uma definição de alçamento que retoma o que é definido por Noonan: um constituinte argumental da encaixada passa a funcionar como um constituinte argumental da matriz. Segundo a autora:

tem sido dito que os sintagmas nominais (SN) [

propriedades morfossintáticas de argumento do verbo matriz (objeto direto ou

são alçados, porque mostram

]

82 Seguindo a ampla literatura que trata da ordenação dos constituintes, adotaremos como estrutura ou ordem canônica a sequência SVO (Sujeito-Verbo-Objeto) na forma declarativa (cf. PONTES, 1987).

235

sujeito), enquanto, semanticamente, pertencem à oração encaixada. (SERDOBOL’SKAYA, 2008, p.269). 83

Porém, diferentemente da proposta de Noonan, a autora apresenta outros casos, aparentemente, questionáveis de alçamento, além dos casos com o objeto ou o sujeito alçados, como, por exemplo, o caso de pronomes reflexivos e correferentes. Veja-se o exemplo abaixo:

(13)

a.

Jack believed himself to be immortal ‘Jack acredita-se ser imortal’

Em (13a), o pronome himself, traduzido para o português por meio da partícula se, é, ao mesmo tempo, objeto direto do predicado believed e sujeito do predocado immortal. Além de coreferencial, o pronome é reflexivo, i.e., codifica referência tanto ao sujeito da matriz como ao sujeito da encaixada. Inicialmente, como base nos critério de Noonan (2007 [1985]), atestaríamos o estatuto de oração alçada para a ocorrência em (13a). Entretanto, algumas diferenças, de ordem estrutural, podem ser vistas entre o exemplo da autora e os demais exemplos utilizados na literatura, levando-nos a questionar o estatuto de alçamento do exemplo em (13a). Ao observamos a estrutura codificada, encontramos semelhança com outro fenômeno:

equi-deletion. Pelos critérios apresentados pela literatura funcional, na Gramática Funcional Lexical, (cf. FOKKENS, 2010), trata-se de um caso de equi-deletion, já que o verbo, na forma finita, toma por sujeito um argumento coreferencial a outro da matriz, levando a um apagamento do termo da encaixada, configurando, assim, um controle anafórico, diferentemente do que ocorre com predicados alçados, em que há um controle funcional, nos termos de Fokkens (2010). Outro fator parece levar-nos a questionar o estatuto de alçamento para a ocorrência: todos os argumentos do predicado matriz são semânticos, i.e., o verbo fazer tem dois slots a serem preenchidos. Do mesmo modo que, no exemplo da autora, o verbo

83 Tradução livre do original: “[…] it has been that the noun phrases (NPs) […] are ‘raised’, because they show morphsyntactic properties of the matrix verb’s argument (direct object or subject), while semantically they belong to the embedded clause.” (SERDOBOL’SKAYA, 2008, p.269).

236

believe tem dois slots, o que, aparentemente, não configuraria um caso de alçamento, já que para o alçamento há apenas uma posição semântica. A maior contribuição de Serdobol’skaya (2008) é apresentar problemas encontrados na definição de Noonan. Assim como ele, a autora também identifica que não somente o sujeito pode ser alçado, porém, diferentemente de Noonan, a autora apresenta ocorrência de alçamento de objetos indiretos e de sintagmas nominais não argumentais, encontrados na língua kipsigis, e de orações adverbiais, presentes nas línguas altaic, estruturas já encontradas em trabalhos como o de Gorski (2008) ao tratar da topicalização de adjuntos adverbiais. Além destas línguas, em quéchua, tipos diferentes de constituintes podem ser alçados e, no irlandês, orações temporais, com simultaneidade entre o tempo do estado-de-coisas da oração matriz e o da oração encaixada, são alçadas também, algo também tratado por Gorski para o PB. Já dentro da teoria da Gramática Funcional (doravante, GF), Dik afirma que a teoria não aceita transformações oracionais e, para explicar as relações ativas/passivas, adota uma subteoria especial que envolve o alçamento de passivas (DIK, 1979). Observe o exemplo dado pelo autor, reproduzido em (14).

(14)

a.

John believed Bill to have killed the farmer ‘John acreditou Bili ter matado o fazendeiro’

No exemplo (14), Bill é o SN-Sujeito da encaixada to have killed the farmer, tendo sido codificado como SN-Objeto do predicado believed. Contudo, a não aceitação dos processos de transformação oracional, muito comuns em explicações de cunho gerativista, leva Dik propor duas explicações. Uma delas leva em conta os estudos de Bolkestein (1976 apud DIK, 1979) sobre o acusativus cum infinitivus do latim, que corresponderia ao fenômeno de alçamento em latim, conforme exemplos em (15).

(15)

a.

credo cum venire Creio lhe vir

b.

cogo cum venire Forço lhe vir

Em (15a), o pronome cum funciona, ao mesmo tempo, como objeto de credo e sujeito do verbo finito venire, bem como em (15b), no qual funciona como sujeito do infinitivo e objeto direto do predicado cogo. Desse modo, haveria uma relação semântica entre o tipo de predicado da matriz e a seleção da ocorrência ou não do alçamento, i.e., em inglês, segundo

237

Dik (1979, p.134-136), nem todos os predicados matrizes permitiriam o alçamento com uma passiva, como por exemplo, o caso ilustrado em (16).

(16)

a.

I believe Bill to have killed the farmer ‘Eu acredito Bill ter matado o fazendeiro’

b.

*I force Bill to have killed the farmer ‘Eu forço Bill ter matado o fazendeiro’

Observe que um predicado manipulativo, como, em (16b), não permite o alçamento em inglês, diferentemente de um predicado de modalidade epistêmica, além de haver uma relação com as restrições de voz, de tempo e outras categorias, que não serão aqui explicitadas. Aparentemente são meras restrições para o fenômeno, não o explicam. Talvez, tomando as discussões anteriores sobre a equi-deletion, os exemplos, em (15a,b), sejam casos de verbos de equi-deletion. Podemos observar que não há uma marca de impessoalidade nos verbos em latim credo e cogo; todos possuem um slot para o sujeito e para o objeto, i.e., são verbos de dois-lugares. Portanto, a forma de objeto dos dois predicados implica um controle anafórico com os sujeitos da encaixada, não configurando, pois, casos de alçamento. Ainda segundo Dik (1979), outra explicação para o fenômeno, aparentemente, revelaria uma solução que não passasse pelas transformações oracionais. Considerando as funções semânticas e a relação com o sujeito e o objeto, Dik apresenta a seguinte forma de combinação das funções semânticas e sintáticas para o inglês:

Agente

Meta (Go)

Recipiente

Beneficiário

(Ag)

(Rec)

(Ben)

Suj

Obj

Suj

Obj

Suj

Obj

 

Suj

 

Suj

 

Suj

Exemplo 84

John AgSuj gave the book GoObj to Mary Rec

John AgSuj gave

John

The book GoSuj was given to Mary Rec by John Ag

Mary RecObj the book Go

AgSuj

bought Mary BenObj the book Go

Mary RecSuj

Mary BenSuj

was given the book Go by John Ag was bought the book Go by John Ag

84 Todos os exemplos foram retirados do autor, por esta razão, mantivemos a língua original (Dik, 1979, p.137).

238

Segundo Dik, haveria abertura para a possibilidade de considerar que as funções semânticas de SUJ e de OBJ podem estar inseridas no predicado encaixado, fazendo-as subjacentes a eles. Veja:

(17)

a.

John believed Bill to have killed the farmer

a’.

believe V (John) AgSubj (kill V (Bill) AgSujeObj (the farmer) GoObj ) Go

b.

Bill was believed by John to have been give the book by Peter

b’.

beilive V (Bill) RecSujeSuj (John) Ag (give V (the book) Go (Peter) Ag ) Go

Deste modo, o constituinte Bill, em (17a'), teria a função semântica de Agente, com a função sintática de Objeto, referente ao predicado believe, mas, também, apresentaria a função sintática de Sujeito subjacente, referente ao predicado kill. Já em (17b’), o constituinte Bill, com a função semântica de recipiente, tem a função sintática de Sujeito, referente ao verbo believe, e a função sintática de Sujeito subjacente, referente ao verbo give.

Resultados para o ASS no PB Com base na literatura sobre alçamento de constituintes de modo mais geral, ou em línguas específicas, encontramos um conjunto de critérios que permite identificar construções passíveis de alçamento, fenômeno que, consensualmente, envolve o reconhecimento de um argumento que é semanticamente argumento de uma oração completiva, mas que ocorre nos limites de uma oração de nível mais alto, no domínio da qual contrai novas relações morfossintáticas. Sob tal definição, no PB, é possível alçamento de constituintes de uma posição de sujeito da oração completiva para sujeito da oração matriz (ASS), de sujeito da oração completiva para objeto da oração matriz (ASO), de objeto da oração completiva para objeto da oração matriz (AOO) e de objeto da oração completiva para sujeito da oração matriz (AOS). Para todos esses casos reconhecíveis nas línguas em geral, os seguintes parâmetros parecem suficientes para a identificação do fenômeno (NOONAN, 2007 [1985]):

(i) Presença de duas orações;

239

(iii) Oração encaixada perde propriedades oracionais (explicitude de sujeito, força ilocucionária, finitude, concordância etc).

Relativamente ao nosso trabalho, com base em trabalhos que investigaram fenômeno

semelhante para o PB (GORSKI, 2008; MITTMANN, 2006; HENRIQUES, 2008), um

conjunto de critérios de análise foram propostos para a investigação dos casos de ASS e

revelaram um conjunto de propriedades para o alçamento no PB. Observe os exemplos em 18.

(18)

a.

essa pelo menos parece que é artista (AC-147; 337)

 

b.

atrapalha muito o namoro é difícil pra andá(r) pra frente né? eu a/ eu penso assim (AC-046;

 

410/414)

 

c.

ele conta que a escritu::ra parece que tinha ficado em mãos de terce(i)ros

(AC-146; 150/151)

d.

o cara num parece tê(r) setenta anos de idade (AI-005;178)

 

e.

a gente que percebe porque o pai parece que Ø num tem noção de percebê(r) que a

 

criança num tá bem

(AC-086; 551/552)

 

f.

a gente percebe que as histórias dele realmente aconteceu [Doc.: uhum ((concordando))] mas

 

tem uma

que/ eu num tava perto não

ele ele que conta ele e minha mãe eles conta

pa/

parecem sê(r) verdade também (AC-086; 147)

 

g.

os pais:: eles parece que têm

uma barre(i)ra com a gente que é incrível

sabe?

(AC-086-

 

;523/524)

 

h.

a gente que percebe porque o pai parece que num tem noção de percebê(r) que a criança num tá

bem

(AC-086;551/552)

Em acordo com os dados levantados no córpus, atestamos que, para ASS em PB:

(i) não ocorre pronome cópia na oração encaixada;

(ii) a redução oracional é opcional, dada a ocorrência com encaixada finita e não-finita;

(iii) ocorrem ajustes morfossintáticos do constituinte alçado, envolvendo relação de

concordância ou não com o predicado matriz e/ou com o predicado encaixado (18f, g, h,

240

respectivamente, concordância entre o SN alçado e o predicado matriz, entre o SN alçado e o predicado encaixado e entre SN e os predicados matriz e encaixado);

(iv) o tipo semântico do predicado matriz parece ser um fator extremamente relevante para tipos específicos de alçamento; o caso específico de ASS é favorecido por predicados tanto avaliativos (18b) como epistêmicos (18a).

(v) quanto ao status informacional do constituinte alçado, aparentemente não há uma atuação decisiva desse fator pragmático, porém, ficou claro que em mais de metade das ocorrências (73%) os constituintes alçados representam tópico dado (18c), o que converge com o fator topicalidade.

À guisa de conclusão Além do ASS, identificam-se, nas línguas em geral, três outros tipos: (i) ASO, (ii) AOO e (iii) AOS. Nas língua em geral, nem todos os tipos são reconhecidos ou mesmo produtivos, como é o caso do PB, no qual encontramos ASS, AOS e ASO, sendo o primeiro o mais produtivo. O ASS é favorecido por predicados matrizes epistêmicos e avaliativos, tipos semânticos que permitem atestar os seguintes critérios: redução da encaixada (mais com avaliativos e menos com epistêmicos) e concordância do item alçado com o predicado matriz (igualmente com os dois tipos); além dessas propriedades, outra exclusiva de avaliativos é a encaixada vir ou não introduzida por preposição. Quanto às propriedades semântico- discursivas, o ASS está mais correlacionado a SN com status informacional dado e inferível, o que revela que a topicalidade dos constituintes é fator relevante para o alçamento, tal como propõe Givón (2001), por meio da afirmação de que constituintes tópicos tendem a ocorrer à esquerda. Ainda relacionado ao status informacional, o alçamento incide mais frequentemente sobre SN definidos de referência genérica ou específica, mas rejeita SN de referência indefinida. Animacidade não parece ser um fator decisivo para o alçamento, possibilitando a ocorrência do fenômeno com SN de referentes tanto inanimados quanto humanos. Diante dos resultados, atestamos então que, para o PB, dos tipos de Alçamento verificados nas línguas naturais, o ASS é o mais produtivo, embora com poucas ocorrências na modalidade falada (apenas 30), razão que nos levar a ter de expandir o córpus da investigação, incluindo a modalidade escrita.

241

Atestamos também a suficiência dos parâmetros morfossintáticos e semântico- pragmáticos para a identificação do fenômeno, mas não para sua definição corrente, tal como a apresentada na literatura sobre o assunto, a qual, na grande maioria, privilegia mais critérios morfossintáticos do que os de natureza semântico-pragmática, fato que nos instiga a prosseguir com a investigação em busca de uma definição mais precisa.

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243

243 UMA ABORDAGEM UNIFICADA PARA A POSIÇÃO DE CLÍTICOS EM PORTUGUÊS BRASILEIRO E EM FRANCÊS *

UMA ABORDAGEM UNIFICADA PARA A POSIÇÃO DE CLÍTICOS EM PORTUGUÊS BRASILEIRO E EM FRANCÊS *

1. Introdução

Aroldo Leal de Andrade Universidade Estadual de Campinas

O presente texto tem por objetivo apresentar uma abordagem unificada para a posição de clíticos em português brasileiro e em francês, a partir de uma visão de predicados complexos como resultantes da seleção de estruturas reduzidas. Antes de tudo, deixamos claro que, por “posição de clíticos” referimos tão-somente a categoria que hospeda o clítico, sendo explicada pela sintaxe, fenômeno distinto da colocação de clíticos (GALVES, RIBEIRO & TORRES MORAIS 2005). No que concerne à posição de clíticos, só há dois contextos de variação à regra de adposição do clítico ao verbo finito, em português europeu, que consistem nas construções de “reestruturação” e de “união de orações”. A primeira consiste numa sequência verbal em que o primeiro verbo é modal, aspectual ou temporal (Eu quero vê-la); a segunda consiste numa sequência verbal com um verbo causativo ou perceptivo (Eu a mandei entrar), seguido de um verbo não-finito. Em Português Brasileiro (PB) e em francês, no entanto, esses contextos de variação se reduzem, pois em regra geral há necessariamente a não-subida do clítico para o verbo finito, em contextos de predicados complexos. O presente trabalho é desenvolvido dentro da Teoria de Fases (especialmente CHOMSKY 2001 e seguintes), considerando as alterações no modelo chomskyano propostas por Legate (2003) e Den Dikken (2007), ou seja, todo vP é uma fase, e a extensão de fase é possível por meio do movimento de núcleo. No que se refere à metodologia, foram feitas consultas para aferir juízos de aceitabilidade junto a falantes nativos, a partir de exemplos

244

coletados na literatura e de outros criados no contexto da pesquisa. Na discussão dos dados do PB, consideramos o dialeto de falantes de nível universitário (“norma culta”), com ênfase no registro coloquial. Para o francês, a mesma decisão foi tomada.

Os exemplos a seguir demonstram que o comportamento das línguas (gramáticas) em

análise é semelhante no complemento de verbos modais/aspectuais (correspondentes a verbos de “reestruturação” no Português Europeu), uma vez que ambas permitem o clítico junto ao infinitivo, somente.

(1)

Verbo aspectual/modal + infinitivo

a.

Ele pode me ver.

(PB)

a’.

Il peut me voir.

(francês)

b.*

Ele me pode ver.

b’.* Il me peut voir.

No entanto, PB e francês se diferem em outros contextos: (i) no complemento de verbos causativos/perceptivos (que correspondem a verbos de “união de orações” no Português Europeu, na chamada construção Fazer-Infinitivo) e (ii) em tempos compostos. Nesses contextos, o francês mantém a subida (posição junto ao verbo regente), enquanto o PB a bloqueia (posição junto ao verbo lexical): 85

(2)

Verbo causativo/perceptivo + infinitivo (Fazer-Infinitivo)

 

a.

Ela te fez me visitar.

(PB)

a’.* Elle t’a fait me visiter.

(francês)

b.*

Ela lhe fez escrever o romance.

b’.

Elle lui a fait écrire le roman.

(3)

Verbo auxiliar + particípio

 

a. Ele tinha me visto. (francês)

b.? Ele me tinha visto.

(PB)

a’.* Il avait me vu.

b’.

Il m’avait vu.

A hipótese que se apresenta aqui é que a perda do movimento do clítico nas

construções em (1) seria uma consequência da perda do movimento do verbo infinitivo, um

85 O exemplo (3) apresenta variação, porém com clara preferência por (3a). O dado em (3b) pode ser resultado de competição com a gramática ensinada na escola (PB padrão).

245

fenômeno compartilhado por ambas as gramáticas envolvidas, cujas evidências são apresentadas na seção 2. A abordagem teórica para a relação entre movimento do clítico e movimento do verbo é apresentada na seção 3. Na seção 4 é dada uma explicação para as assimetrias em (2) e (3), e na seção 5 é oferecida uma comparação entre a proposta atual e uma proposta alternativa, segundo a qual o PB seria diferente porque teria uma projeção de uma categoria Tempo encaixada.

2. A diminuição do movimento do verbo

Para o estudo sobre o movimento do verbo, parte-se de dois pressupostos, calcados em reflexões presentes em De Andrade (2010):

(i)

admitindo uma sintaxe que projeta só categorias que efetivamente têm um papel na derivação, não haveria, nem em francês, nem em Português Europeu (PE), nem em PB, a projeção de um Tempo encaixado nas construções analisadas;

(ii)

a semelhança entre PB e francês, no que tange à posição de clíticos, tem a ver com o movimento dos verbos (finito e não-finito), que delimitam o estabelecimento de fases sintáticas e o movimento do clítico.

Em alguns trabalhos diacrônicos sobre a diferenciação do PB face ao PE, nota-se um percurso muito semelhante daquela língua face ao francês, em especial no que diz respeito à perda de sujeitos nulos (ROBERTS 1993). No entanto, não queremos enfocar esse aspecto, muito menos associá-lo diretamente à diminuição do movimento do verbo, uma vez que, como bem observam Biberauer & Roberts (2010), o francês. seria uma contraevidência dessa relação, pois essa língua tem movimento de V-para-T, desde Pollock (1989), mas claramente não tem sujeitos nulos. Dessa forma, esses autores propõem:

(4)

Correlações tipológicas

a. Riqueza de concordância de pessoa/número

Sujeitos

Nulos

b. Riqueza de concordância de tempo/aspecto

V-para-T

Em (4), note-se que o movimento de V-para-T se relaciona com a riqueza de concordância de Tempo, não de pessoa/número no verbo.

246

Cyrino (2012), apesar de adotar (4), especifica que a riqueza de Tempo deve ser entendida como em (5), em que se especifica o número de morfemas válidos se refere àqueles que expressam uma correlação entre expressão e conteúdo:

(5)

Riqueza de concordância de Tempo/Aspecto Uma língua é rica em concordância de tempo/aspecto se e somente se:

(i)

há suficientes distinções morfológicas em tempos sintéticos;

(ii)

há correlação entre expressão e conteúdo.

Para o PB, Cyrino argumenta que: o mais-que-perfeito e o futuro deixaram de ser usados — cf. (6); e o pretérito perfeito não expressa necessariamente um sentido de passado terminado, uma vez que é muitas vezes equivalente ao passado perifrástico ou ao presente (exemplos de Cyrino 2012; as formas em a’/b’ são as efetivamente usadas no PB, e as formas em a/b seriam indicativas do conteúdo):

(6)

a. Eu morara em Paris antes daqui.

a’. Eu tinha morado

b.

Eu gostarei de viajar pra Natal.

b’. Eu vou gostar de viajar pra Natal.

(7)

Eu estou feliz, porque

a. tenho vivido bem todos estes anos.

b. Eu adoro sua blusa.

vivi bem todos estes anos. b’. Eu adorei sua blusa!

Para Cyrino, tais exemplos indicariam que o verbo se move para uma posição de Tempo mais baixa, em que Aspecto também é codificado (cf. Giorgi & Pianesi 1997).

(8)

[ TP1

[ TP2

+PASS/+PERF

[ VP

V

1997). (8) [ T P 1 [ T P 2 + PASS /+ PERF [ V
1997). (8) [ T P 1 [ T P 2 + PASS /+ PERF [ V

]]]

Segundo essa visão, haveria o seguinte conjunto de formas sintéticas em PB (em sublinhado, as formas com múltiplo conteúdo ‘forma-coringa’):

(9)

Morfologia de tempo em PB falo-(presente), falar-ia (condicional), fala-va (imperfeito), fal-ei (pretérito), fal-e (subjuntivo), fala-sse (subjuntivo passado)

247

Assumindo a análise de Cyrino (2012) como essencialmente correta, o francês coloquial também apresenta desuso de certos tempos e modos verbais: o pretérito perfeito simples (10a) e o subjuntivo passado (10b) (ambos encontrados em certos gêneros textuais escritos, como romances, e substituídos no coloquial por tempos compostos):

(10)

a. Jean naquit en 1945.

b. Si je parlasse

a’. Jean est né en 1945. b’. Si j’aie parlé

Dessa forma, o francês teria quatro formas sintéticas de Tempo/Aspecto (ou melhor, cinco, se o presente do subjuntivo na 1. a e 2. a pessoas do plural for considerado):

(11)

Morfologia de tempo em francês parle-(presente indicativo/subjuntivo), parler-ai (futuro), parlerais (conditional), parlais (imperfeito)

Portanto, o número de tempos sintéticos parece ser equivalente entre PB e francês. Resta saber se o núcleo T 1 é acessado pelo verbo em francês. Como um estudo detalhado sobre essa questão ultrapassaria nossos objetivos, consideraremos que o verbo finito em francês, assim como em PB, se move até T 2 , e não até T 1 , dada a evidência relativa ao número de tempos sintéticos (apesar do que propôs POLLOCK 1989, com outra distribuição de categorias funcionais). Passemos agora ao domínio não-finito. Um certo conjunto dos trabalhos sobre movimento do verbo nos anos 1990 simplesmente copia as projeções funcionais da oração finita nos contextos não-finitos, assumindo que o movimento do infinitivo espelharia o movimento do verbo finito. Isso não é necessariamente verdade, como se nota nos exemplos a seguir, adaptados de Pollock (1989):

(12)

a. Elle ne semble pas heureuse.

‘Ela não parece feliz’

b. [Ne pas sembler heureux] est une condition pour écrire des romans. ‘Não parecer feliz é uma condição para escrever romances.’

248

Em francês o marcador de negação sentencial pas deve ocorrer antes do infinitivo, e não depois, como nos verbos finitos. Então, de qualquer forma, seria necessário providenciar uma relação independente entre morfologia e o movimento do infinitivo. Para fazer face a esse problema, considera-se, como Roberts (2010) e referências ali citadas, que um domínio infinitivo tem uma projeção InfP, para a qual o verbo pode se mover ou não. Apresentamos nas subseções 2.1. e 2.2. a seguir evidências para mostrar que em PB e francês o verbo não se move para Inf, enquanto que outras línguas românicas apresentam movimento para esse núcleo. Para tanto, considera-se a seguinte hipótese de trabalho: se o verbo não se move para determinado núcleo funcional, a contribuição semântica do traço correspondente não seria correlacionada com a morfologia.

2.1. O padrão de colocação de clíticos: próclise no infinitivo

Roberts (2010) mostra que, diferentemente do italiano, em que a ênclise é possível no domínio não-finito de sequências verbais, a próclise é sempre encontrada em domínios finitos (13a), no francês sempre há próclise nesse contexto (13b). Segundo a proposta desenvolvida aqui, isso se deveria ao não-movimento do verbo para Inf. 86 Considerando que os clíticos se movem como alvos defectivos, i.e., pelo fato de serem compostos por subconjuntos de traços dos traços de sua sonda (cf. Roberts 2010), o clítico se moveria nos dois casos para v, tão-somente pela presença de traços-phi nesse núcleo, mas o traço que leva ao movimento do verbo — aqui referenciado como Root ou , i.e., a raiz do predicador — estaria em Inf, não em v:

(13)

a.

b.

[

[

InfP

InfP

-r

[ vP

v

[ RootP

Root

cl ]]]

n f P I n f P -r [ v P v [ R o o
n f P I n f P -r [ v P v [ R o o
n f P I n f P -r [ v P v [ R o o
n f P I n f P -r [ v P v [ R o o

-r

[ vP

v

[ RootP

Root

cl ]]]

t P Root cl ]]] -r [ v P v [ R o o t P
t P Root cl ]]] -r [ v P v [ R o o t P

Vuoi verderlo.

Je vais le voir.

86 Nesse caso, a morfologia de infinitivo seria adicionada ao verbo por movimento pós-sintático (cf. EMBICK & NOYER 2001).

249

O movimento em (13a) seria possível porque, sendo o infinitivo uma forma nominal, não

seria forçoso levá-lo a ter um caráter verbal, em v. Note-se que a projeção vP serve de início tão-somente como ponto onde a raiz é verbalizada, enquanto a projeção VoiceP, sempre

presente, seria o ponto de inserção do argumento externo, exceto quando transfere seus traços- phi para v; por simplicidade, nem sempre as representações incluirão essa projeção. Com verbos modais/aspectuais, InfP é uma projeção acima de VoiceP, e com verbos causativos/perceptivos, trata-se da mesma projeção (InfP=VoiceP), devido à variação entre “união de orações” e ECM, como se discutirá adiante. 87 Uma previsão do esquema em (13) é que o infinitivo teria mais traços nominais em PE (e outras línguas românicas), e menos em francês e PB. Isso pode ser verificado a partir do uso de determinantes junto a orações infinitivas com sujeito especificado (exemplos colhidos

da internet em (14)):

(14)

Admirava muito [o eu ser jovem e andar envolvido em livros] (cdi.upp.pt)

(PE)

(15)

a. ?? Me incomoda [o você andar com esses amigos].

(PB)

b. ?? Ça m’ennuie, [le tu/toi sortir de la maison].

(francês)

Uma explicação tentativa para esses dados é: uma vez que as orações infinitivas em (14) são completas (projetam todas as categorias funcionais, até CP), o núcleo C se manifesta como D por Acordo (Agree) com o infinitivo, se ele tiver traços nominais (“adquiridos” contra a informação presente em Inf).

2.2. O enfraquecimento da marcação de Irrealis

87 Numa proposta como a de Collins (2005), seguida por Roberts (2009), em vP se insere o argumento externo, e em VoiceP ele é licenciado. Essa formulação poderia ser adotada, porém com isto a derivação ficaria bem mais complicada. Dessa forma, enfatizamos que há uma motivação para o uso das duas projeções, não obstante outros autores usarem uma pela outra, como observou um dos pareceristas anônimos.

250

Como indica Pollock (1989), a categoria o Modo deveria assumir uma posição sintática também, à semelhança de Tempo e Aspecto. Como já apontaram vários trabalhos (cf. TSOULAS 1996, por exemplo), há uma relação entre Modo subjuntivo e a forma infinitiva. Uma razão para isso é que o subjuntivo e o infinitivo compartilham a expressão de domínios intensionais (de mundos possíveis), e não raro são selecionados pelos mesmos verbos, variando quanto ao tamanho da oração selecionada:

(16)

a. Maria lamenta [que os deputados mintam]. / [_ mentir tanto].

b. Maria quer [que os deputados venham cedo].

/ [_ vir cedo].

Os exemplos acima ilustram que, em português, verbos factivos e volitivos, quando apresentam sujeito correferente, usam o infinitivo, porém selecionam subjuntivo quando o sujeito da matriz difere do sujeito da encaixada. Portanto, se os pressupostos que temos seguido estão corretos, o infinitivo (em geral) não tem traços de Tempo ou Aspecto, mas pode ter traços de Modo, nas línguas em que há movimento para Inf. De fato, uma diferença entre PE e PB (variedade culta, registro coloquial) é observada quanto à possibilidade de substituição do subjuntivo pelo infinitivo flexionado:

(17)

a. Maria lamenta [os deputados mentirem]. OK PE; * PB *

b. Maria quer [os deputados virem].

* PB

PE;

Apesar de ser um caso limitado, (18a) demonstra que o infinitivo pode carregar traços de modo irrealis no PE, mas não no PB. Portanto, um enfraquecimento da marcação de irrealis pelo infinitivo seria observada nessa variedade, por conta da perda do movimento para um núcleo Mood. Uma formulação alternativa, que seguimos de maneira tentativa aqui, é que Mood seria um traço opcionalmente presente em Inf. Adicionalmente, pode-se imaginar que nas línguas em que o infinitivo não se move para Inf há maior probabilidade de perda de subjuntivos, se houver uma extensão da perda de traços [uV] em Mood (=Inf), para contextos de uso exclusivo de subjuntivos. Sem o movimento para essa posição, o verbo tenderia a se manifestar no indicativo. Sabe-se que esse fenômeno apresenta variação diatópica no PB e no francês, ocorrendo sobretudo em Minas Gerais e no Canadá, respectivamente (cf. VEADO, 1982; POPLACK, 1990).

3. A perda da subida de clíticos

251

Se é verdade que o movimento do verbo diminuiu em PB e em francês, nos domínios finito e não-finito, vejamos as consequências, dentro de um modelo de fases em que o movimento de núcleo tem papel crucial para a identificação das próprias fases, como se esclarece nas duas seguintes premissas:

(18)

Extensão de fase a. Domínio baixo (infinitivo)

b. Domínio alto (finito)

a. Domínio baixo (infinitivo) b. Domínio alto (finito) (i) não haveria distinção entre fases fortes e

(i)

não haveria distinção entre fases fortes e fracas com base na estrutura argumental do verbo lexical, ou seja, todos os vPs e CPs são fases (cf. LEGATE 2003);

(ii)

uma fase se estende de vP a TP, nas línguas em que há movimento de v-para-T, pois uma categoria de rótulo híbrido v+T seria criada (DEN DIKKEN 2007), o que alteraria a borda da fase e de seu complemento, como no esquema em (19). A razão para o movimento do verbo para T seria a presença de um traço [uV] em T (e em Asp). Evidentemente, as marcas morfológicas teriam uma importância por trás da presença de tais traços.

Considerando que um traço substantivo phi +EPP na categoria T seria responsável pela subida do clítico (cf. De Andrade 2010), uma previsão desse sistema é que a subida de clíticos se perderá com a perda do movimento do verbo infinitivo para o núcleo Inf: o clítico ficaria inacessível para sofrer excorporação para o verbo finito, pois, apesar de estar na borda da fase 1, a fase 2 seria fechada sem que ele tivesse sido alvo em uma relação de Acordo ( na representação, ‘’ indica as bordas de fase (phase edges)). Em outras línguas românicas com subida de clíticos, por outro lado, haveria extensão de fase, o que faz com que o movimento do clítico seja possível.

252

(19)

[ CP [ T1P

T [+phi]

[ T2P V Fin

[ vP

[ RootP

[ InfP

[ vP cl+V Inf

[ RootP

]]]]]]]]

A diferença imposta por não haver extensão de fase diz respeito ao verbo finito não se mover

até T 1 , onde se encontra o traço que leva à subida do clítico — o verbo se move somente até T 2 . Essa mudança teria ocorrido igualmente em PB e em francês.

4. Construções com posição do clítico diferente em PB e francês

A proposta acima explica uma parte dos dados, mas deixa de fora os casos em que PB

e francês se comportam de maneira diferente. Primeiro, consideremos o caso dos verbos

causativos e perceptivos. Interessantemente, não haveria razão para se pensar em uma alteração do tipo mencionado na seção anterior, se InfP=VoiceP e, por essa mesma razão, o verbo infinitivo não se moveria para Voice (em nenhuma das línguas românicas). Razão para isso tem a ver com o fato de a derivação dessas sentenças variar com ECM, em que o núcleo de fase Voice transmite ou não seus traços-phi a v: se transmite, há ECM, se não transmite, o

vP inteiro se move para Spec,VoiceP, deixando os elementos eu seu interior acessíveis para a fase seguinte (cf. ROBERTS 2009):

(20)

a. FAZER [VoiceP AE [ Voice [vP [ v [φ] [VP V AI ]]]]]

a’. Ele fez [VoiceP [vP a Maria [InfP comer o bolo]]]. b. FAZER [VoiceP [vP [ v [VP V AI ] AE [ Voice ]]]]

b’. Ele fez [VoiceP [InfP comer o bolo] [vP à Maria]].

(ECM)

(Fazer-Infinitivo)

A solução é pensar que o PB teria perdido a construção de Fazer-Infinitivo por outra razão.

Salles (2010), a partir de reflexão sobre Torres Morais & Salles (2010), sugere que é a perda da marca de dativo que seria responsável pela perda dessa construção. 88 No modelo aqui

88 No mesmo texto a autora também observa que uma construção muito semelhante a Fazer-por, ou seja, um tipo de “união de orações” com ordem V-V em que o causado se expressa na forma de um oblíquo (instrumental), é possível em PB — cf. (ib). Não vamos discutir esse exemplo, mas acreditamos que se deve à seleção, pelo verbo superior, de uma estrutura ainda mais reduzida, com um VP nominalizado.

253

adotado, isso se explica em termos de no PB o núcleo Voice ter de sempre transferir seus traços-phi, porque a outra opção geraria um resultado agramatical, já que não há maneira de licenciar o caso dativo de um causado que ocorre com um verbo encaixado transitivo. Com a perda de evidência de movimento de elementos para o domínio superior, ocorreria a perda da subida de clíticos nesse contexto também. O segundo caso de diferença entre PB e francês consiste nos tempos compostos. Aqui, haveria uma distinção real, em termos do movimento do complexo clítico+V Inf ocorrer para Part (um subtipo de vP, de acordo com ROBERTS 2010) no francês, mas não no PB — cf. (21). Uma evidência independente para isso seria a posição de um pronome-cópia do sujeito focalizado (cf. PERLMUTTER 1972 para a noção semelhante de “pronome-sombra”), no domínio inferior: entre V Fin e V Inf , ou após V Inf — cf. (22). Observe ainda que a posição do pronome-cópia é paralela entre tempos compostos e sequências verbais no infinitivo no PB, mas não no francês — cf. (23).

(21)

(22)

[ vP1=AuxP

V Fin

[ vP2=PartP

Part

[ vP3 v

[ RootP

ce maillot-là je l’ai aperçu MOI une fois

‘ esse maiô eu o tinha percebido uma vez

V Inf ]]]]

(www.internazionale.fr)

b. Tinha me suicidado politicamente por ter EU ido atrás de recurso

(23)

(ffontinelledossantos.blospot.com)

a. Toutefois s'il conteste, il peut LUI aller au tribunal. (forum-juridique.net-iris.fr) ‘Contudo se ele contesta, ele pode ELE ir ao tribunal.’

b. Os capitalistas tentam ELES moldar o sindicalismo para que seja flexível. (www.bergmannppg.br, extraído de CYRINO 2010: 203)

Nossa visão sobre os dados de pronome-cópia é que haveria a pronúncia dos traços-phi do sujeito em sua posição de base (Spec,VoiceP, ou Spec,vP), como se vê ao final da seção 5.

(i)

a. O João mandou lavar o carro (*pelos funcionários).

b. O João mandou lavar o carro (com o encarregado).

254

5. Avaliação da proposta alternativa

Em suma, a análise que apresentamos nas seções 3 e 4 assume que não há mudança estrutural entre PE e PB, somente uma alteração em termos de traços formais, especialmente os relacionados ao movimento do verbo. Tendo em vista que nossa análise contesta aspectos de uma análise já existente, nesta seção são discutidos os argumentos da proposta alternativa, segundo a qual a perda da subida de clíticos se deve à inclusão de uma projeção TP encaixada (cf. CYRINO 2010). Tais argumentos resumem-se a dois fatos: a possibilidade de ocorrência do marcador de negação ou de uma cópia do sujeito no domínio mais baixo, discutidos em seguida. Primeiro, sobre a negação no domínio infinitivo, os dados apresentados por Cyrino (2010) apontam que o fenômeno seria muito comum no PB — cf. (24). Apesar de esse fato ser enquadrado como uma especificidade do PB, no francês também se encontram exemplos semelhantes — cf. (25):

(24)

hoje eu vou não rimar nada com nada, e não estou nem ligando… (eunamultidao.blogspot.com, em CYRINO 2010: 205)

(25)

Si on veut ne pas aller dans les endroits où la démocratie (www.rtl.francês)

ne

règne

pas

‘Se a gente quer não ir nos lugares onde a democracia

não reina’

Com base nos dados em (24), Cyrino (2010) afirma que haveria uma negação sentencial nesses casos e, portanto, sendo NegP uma projeção relacionada à categoria TP, haveria evidência de projeção de um Tempo encaixado. No entanto, da mesma forma que para o PE (cf. DE ANDRADE 2010), compreendemos que a negação seria de constituinte, e não sentencial. Esses dados apresentam uma ênfase na ação denotada pelo infinitivo, ou está inserida num contexto em que a opção do falante é colocada em ênfase, ou seja, em que a negação do infinitivo não tem necessariamente como contrário a proposição sem negação, mas é uma opção entre tantas que se colocam. Isso deriva de a negação de constituinte não obedecer a lei do meio excluído, segundo a qual uma proposição é falsa, ou verdadeira. Note que usualmente os verbos que permitem esse tipo de construção são ir e querer, e os modais poder e dever, desde que com significado epistêmico. Dois testes são apresentados nesse sentido: a preservação de pressuposição e o escopo relativo da negação.

255

Desde Jackendoff (1969) observou-se que a negação de constituinte implica uma pressuposição relativa ao elemento negado. Segundo Chomsky (1972), mesmo quando a negação sentencial e de constituinte não se diferenciam em termos de posição na sentença, seria possível ter uma ambiguidade, e, de novo, uma pressuposição (nesse caso, de que o evento negado já ocorreu). Em John [ (doesn’t like) mushrooms ], Chomsky observa que a sentença pode ser usada como sinônimo de dislike, ou seja, uma negação do verbo like com escopo limitado a ‘( )’. Nesse caso, se pressupõe que John já teve uma experiência com cogumelos; ou como uma negação sentencial, como escopo amplo ao predicado, marcado com ‘[ ]’, em que ele não gostaria de cogumelos a priori. Dessa forma, se, em PB e francês, só a negação de constituinte estaria disponível, isso estaria na base da relação entre significado epistêmico do modal quando a negação é baixa. Note-se que naturalmente constroem-se pressuposições a partir da leitura de sentenças como em (27a-b), como se parafraseia em (26a’-b’):

(26)

Preservação de pressuposição

a. Pré-temporada do flamengo em 2013 deve não acontecer no Ninho do Urubu

a’. ‘As pré-temporadas do Flamengo normalmente ocorriam no Ninho do Urubu’

b. Tandis que l’arbre d’où vient le crayon peut ne pas devenir planche

‘Enquanto que a árvore de onde vem o lápis pode não tornar-se prancha b’. ‘O tipo de árvore usada para fazer lápis é usualmente cortada (em prancha)’

Segundo, tem-se o teste do escopo do quantificador, que aplicamos tão-somente ao francês (cf. DE ANDRADE 2010 para testes referentes ao PE, reprodutíveis em PB). A negação sentencial pode estender seu escopo para a oração inteira, mas não a negação de constituinte, e ne não seria uma real marca de negação, mas uma marca de escopo da negação em francês (cf. GODARD 2004). Em (27), comparam-se dois exemplos, um em que ne+Adv estão junto a um verbo finito, outro em que ne+Adv estão junto a um infinitivo em contexto de “reestruturação”, numa posição de adjunção a vP:

(27)

Teste: escopo do quantificador

a. Tous les étrangers n’ont pas de carte d’identité. ‘Todos os estrangeiros não têm uma carteira de identidade (=CI).’ Int-1: ne > Q: ‘Não é o caso que todos os estrangeiros têm uma CI.’ Int-2: Q > ne: ‘Para todos os estrangeiros, é o caso que eles não têm uma CI.’

256

b. Les étrangers commencent tous à ne plus aller au Louvre. ‘Os estrangeiros começam todos a não ir mais ao Louvre.’ * Int-1: ne > Q: ‘Não é o caso que todos os estrangeiros pararam de ir ao Louvre.’ Int-2: Q > ne: ‘Para todos os estrangeiros, é o caso que eles pararam de ir ao Louvre.’

Como esperado, no primeiro caso há ambiguidade entre escopo largo e estreito; no segundo caso, a interpretação com escopo largo é bloqueada, o que se deveria à impossibilidade de a negação se alçar, por estar adjunta ao constituinte, seguindo propostas como a de Choi (2004). Finalmente, voltamos à questão do pronome-cópia, primeiramente observado para o PB em Cyrino (2010), com exemplos como (24b), sobre os quais já mostramos haver correlatos em francês em (24a). A interpretação dada por Cyrino (2010) para tais dados é que o PB teria um Tempo completo (ou seja, não defectivo), mesmo no complemento de verbos de reestruturação. Consideramos, por outro lado, que o fato de o sujeito focalizado ocorrer entre o V Fin e o V Inf seria indício não de um Tempo capaz de licenciar o sujeito baixo, mas do não-movimento do verbo infinitivo para uma posição Inf, acima de vP, onde se aloja o sujeito. Para além disso, a focalização seria resultante da realização de traços-phi do sujeito, em sua posição de base, devido a uma regra de pronúncia relacionada ao escopo estreito do acento. 89 Note-se a seguinte frase, do PE, que demonstra ser o sujeito-cópia em posição baixa possível somente em posição pós-infinitivo, nessa variedade — cf. (28). Se o sujeito está entre os verbos, trata-se do sujeito movido para o domínio superior, em posição VS — cf. (29). Isso está em conformidade com a teoria aqui esboçada para o pronome-cópia, e com a teoria de movimento do verbo apresentada na seção 3. 90

89 Assumimos que o foco estreito é atribuído na posição mais à direita, pois não há uma leitura claramente

contrastiva em (24b), segundo os informantes, o que faz sentido se o foco contrastivo normalmente envolve uma posição “mais à esquerda”). Para tal leitura ser obtida, seria adequado ou um sujeito pré-verbal (OS CAPITALISTAS

tentam moldar o capitalismo); ou um afterthought (Os capitalistas tentam moldar o capitalismo

90 Um dos pareceristas anônimos referiu uma série de de trabalhos recentes que tratam desse problema, desenvolvidos em paralelo a este, dentre os quais citamos Guimarães & Mendes (2013). A análise é bastante similar à apresentada aqui, porém mais detalhada e enfocando o problema da realização do pronome-cópia. A principal diferença face ao presente trabalho diz respeito à adoção, ali, de uma análise “conservadora” quanto à seleção de uma estrutura TP pelo verbo flexionado, o que leva os autores a suporem que, com verbos transitivos, os falantes do PB poderiam focalizar tanto a posição Spec,TP quanto Spec,vP do domínio encaixado:

,

ELES).

257

(28)

Os meninos

querem fazer

ELES o trabalho.

(AMBAR

1992:

99)

(29)

já muito tentei eu fazer para que as coisas fossem bem melhores (conversadegajo.blogs.sapo.pt)

 

Note-se a possibilidade de interposição do adverbial já muito após a sequência VS tentei eu, no exemplo acima.

6. Conclusão

Este trabalho mostrou que é possível oferecer uma análise unificada para a perda da subida de clíticos em português brasileiro (PB) e em francês. A análise prevê que em alguns contextos a subida pode ainda ser realizada. Para tanto, é crucial que se adote o modelo em que a subida de clíticos é dependente de dois fatores: a seleção de uma estrutura sintática reduzida (cf. DE ANDRADE 2010) e a extensão da fase que inclui o verbo infinitivo. A proposta de Cyrino (2010) de que haveria um T completo no complemento dos verbos de “reestruturação” no PB poderia explicar dados do PB popular, o que estaria em conformidade com a existência de infinitivos flexionados em contexto usualmente de controle/alçamento, como eles tentaram saírem, mencionado naquele trabalho. Contudo, sendo tais dados inaceitáveis na norma culta do PB, a existência de uma projeção TP fica sem sustentação, nesse dialeto.

REFERÊNCIAS

(i)

a. O Pedro queria ELE consertar o carro.

b. ?O Pedro queria consertar ELE o carro.

Neste trabalho consideramos que a opção (ib) tem aceitabilidade degradada porque faz parte da gramática do PE,

portanto, compreendida como “periferia” da gramática do PB. Sobre a questão da ocorrência do elemento focalizado no Caso nominativo, supomos que se trata do resultado do estatuto default desse Caso em português.

258

AMBAR, M. Para uma sintaxe da inversão sujeito-verbo em Português. Lisboa: Colibri,

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260

Morfologia

260 Morfologia “EU IA PUM LADO ELA IA TAMBÉM”: DESCRIÇÃO PROSÓDICA DO CLÍTICO PREPOSICIONAL “PARA” NA

“EU IA PUM LADO

ELA IA TAMBÉM”: DESCRIÇÃO PROSÓDICA DO

CLÍTICO PREPOSICIONAL “PARA” NA VARIEDADE DO NOROESTE

PAULISTA

Fernanda Marcato IBILCE /UNESP – Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquista– Câmpus de São José do Rio Preto – SP

Resumo: Este texto objetiva descrever o comportamento prosódico da preposição para do

Português Brasileiro (PB) falado na variedade de São José do Rio Preto (SP). Neste trabalho,

para a análise fonológica dos dados, toma-se por base a teoria de Nespor e Vogel (1986),

sobre os domínios prosódicos, e assumem-se os argumentos de Bisol (2005), sobre o

comportamento dos clíticos no Português do Brasil. Como material de pesquisa, são utilizados

32 inquéritos de fala espontânea selecionados da amostra censo do banco de dados

IBORUNA, resultado do projeto Amostra Linguística do Interior Paulista – ALIP (FAPESP

03/08058-6), em função das variáveis extralinguísticas controladas nesse banco de dados, a

saber: (i) faixa etária, (ii) grau de escolaridade, e (iii) sexo/gênero. Com base na análise de

oitiva dos inquéritos de fala, encontramos processos segmentais e de sândi externo a que essa

preposição está sujeita. Neste trabalho, descrevemos todos esses processos e focalizamos a

análise dos processos de juntura de sândi vocálico externo, como os de degeminação,

ditongação e elisão, por possibilitarem investigar o fenômeno da cliticização. A partir da

descrição da preposição para na variedade a ser investigada, busca-se contribuir para

caracterização e ampliação da descrição do Português falado na região do Noroeste Paulista,

além de proporcionar uma reflexão a respeito do estatuto prosódico desse elemento clítico em

Português.

261

Palavras-chave: Variação Linguística; Português; Prosódia; Preposição; Clíticos.

1. Introdução

A preposição para, que é objeto de análise neste estudo, foi selecionada por exibir, na

variedade do Português Europeu (PE), funcionamento de clítico prosódico. Nos termos de Camara Jr. (1970), do ponto de vista sintático, os clíticos são considerados formas dependentes de outras, como verbos e nomes, estando ligados ou ao elemento que os antecedem (ênclise) ou ao que os seguem (próclise), não sendo livres ou presos, uma vez que apresentam uma autonomia intermediária. Do ponto de vista fonológico, são partículas átonas, isto é, elementos clíticos, que não têm estatuto de vocábulo fonológico. Nesta pesquisa,

interessa apenas o clítico fonológico por possibilitar investigar características da prosodização

no PB.

No que se refere à questão teórica abarcada neste estudo, observa-se que, em função de sua natureza complexa, os clíticos exibem diversas maneiras de se juntar ao seu hospedeiro fonologicamente. Devido à complexidade desses elementos, na literatura fonológica, encontramos propostas antagônicas quanto à definição de seu estatuto prosódico, como mostraremos na seção 2. Em resumo, os clíticos podem ser definidos ou como pertencentes à

palavra fonológica, caso em que se assemelham a afixos, ou como pertencentes à frase fonológica, caso em que se assemelham a palavras independentes.

A hipótese desta pesquisa é a de que a relação entre o clítico e seu hospedeiro pode ser

evidenciada por meio da análise de processos fonológicos de sândi vocálico externo a que está

sujeita a preposição para. 91 Da mesma forma que o comportamento prosódico dos clíticos pronominais dá pistas de características da interface sintaxe-fonologia, como argumentam Galves e Abaurre (1996), partimos da premissa de que a preposição em estudo também evidencia essa interface, notadamente, no estabelecimento de um domínio prosódico de aplicação dos processos segmentais de sândi externo. Vislumbramos, portanto, investigar a

91 Bisol (1992) afirma que o fenômeno de sândi vocálico corresponde a um processo de ressilabificação que ocorre no domínio de um mesmo enunciado entre duas palavras. Esse processo leva a três resultados possíveis, a saber: a degeminação, a ditongação e a elisão. Quando as vogais forem iguais, há a degeminação; quando forem diferentes entre si, pode haver ditongação; quando a primeira vogal da sequência vocálica for /a/, tem-se elisão.

262

possibilidade de haver evidências segmentais da prosodização da preposição para na variedade do PB falada no interior paulista. Quanto à relevância do estudo desse item que exerce a função sintática de preposição, em Eu doei muitas roupas pra você., justifica-se em razão de: (i) não haver análises de natureza fonológica dessa preposição no PB; e, sobretudo por, (ii) haver fenômenos fonológicos que afetam tal elemento de modo a evidenciar características do seu status prosódico. Por fim, cabe destacar que os resultados que serão obtidos a partir desta pesquisa, além de poderem contribuir para caracterização e ampliação de uma descrição inédita do Português falado na região do Noroeste Paulista, também proporcionarão uma reflexão a respeito do estatuto prosódico da preposição para em Português. Cabe destacar que o presente texto está organizado da seguinte maneira: a seção 2 trata dos subsídios teóricos sobre o estatuto prosódico dos clíticos e o aparato teórico da Fonologia Prosódica; a seção 3 apresenta o material e o córpus utilizados nesta pesquisa, bem como dos aspectos metodológicos seguidos; na quarta seção, apresentam-se as considerações finais sobre a descrição prosódica da preposição para, seguidas das referências bibliográficas.

2. Questão Teórica

Os clíticos compreendem palavras funcionais, como preposições, pronomes átonos, artigos, conjunções e, apesar de serem o foco de muitas investigações em diferentes línguas, são itens difíceis de se classificar, sobretudo, no que concerne ao seu estatuto prosódico. Enquanto as palavras lexicais, como verbos e nomes, são sempre palavras fonológicas, por receberem acento de palavra, as palavras funcionais apresentam um padrão variável entre as línguas, podendo ser interpretadas de diversas maneiras. Dentre os trabalhos que tratam da diferença entre clíticos e palavras de conteúdo, diferenciando-os, destacamos o trabalho de Mascaró (2002). Segundo o autor, os clíticos, inserem-se entre a palavra e o morfema. Para o autor, um clítico é uma forma átona, formado por um morfema ou por um conjunto de morfemas, e aparece ligado a outra palavra. De acordo com Zwicky (1985), outro autor que diferencia os clíticos dos itens lexicais, os clíticos assemelham-se a afixos, por serem unidades dependentes fonologicamente e não poderem ocorrer isoladamente em uma estrutura argumentativa. Diferentemente da proposta desse autor, Vigário (2001) afirma que os clíticos não se assemelham a afixos, uma vez que: (a) não

263

afetam a mudança do acento de uma palavra fonológica, (b) não se submetem às regras aplicadas apenas a afixos, e (c) podem ser manipulados por operações sintáticas. No que diz respeito à definição do elemento clítico, Nespor e Vogel (1986), retomando a tradição da teoria fonológica, afirmam que os clíticos são definidos ou como pertencentes à palavra fonológica, caso em que são considerados semelhantes aos afixos, ou como pertencentes à frase fonológica, caso em que são considerados semelhantes às palavras independentes. Para as autoras, os clíticos são dependentes fonologicamente, por isso, embora sejam semelhantes à palavra, não podem ser definidos como tal, uma vez que não podem se estabelecer por si mesmos no discurso. Nespor e Vogel (1986) destacam, ainda, que esses itens nem sempre se enquadram nas definições propostas pela teoria fonológica, uma vez que seu comportamento fonológico é, muitas vezes, diferente dos afixos, bem como das palavras independentes. 92 Ou seja, existem fenômenos fonológicos que são característicos apenas do grupo composto por uma palavra mais um ou mais clítico(s). Quanto à possibilidade de as palavras funcionais, como os clíticos preposicionais em estudo, serem prosodizadas como palavras fonológicas independentes, Selkirk (1984) afirma, para as palavras funcionais do inglês, que há três situações em que recebem o acento tonal: (i) quando pronunciadas isoladamente; (ii) em posição final de sintagma; e (iii) quando são focalizadas. Para dados do PE, Vigário (1999) postula que somente os complementizadores podem ocorrer como palavras fonológicas, visto que, quando em posição final de sintagma entoacional, recebem a proeminência (acento) desse domínio. Nos demais casos, por serem prosodicamente fracas, as palavras funcionais são formas consideradas clíticas. Podemos observar algumas semelhanças no que concerne às palavras funcionais monossilábicas do PB. Por não formarem um pé, 93 não recebem o acento primário, o que impossibilita que sejam prosodizadas como palavras fonológicas independentes. Entretanto, cabe salientar que, embora algumas palavras funcionais dissilábicas recebam acento lexical, tornam-se facilmente cliticizáveis. A exemplo disso, temos a preposição para, que pode não ser prosodizada como uma palavra fonológica independente, por sofrer o processo de redução

92 Nespor e Vogel (1986) propõem sete domínios prosódicos hierarquicamente organizados – sílaba (), pé (Σ), palavra fonológica (), grupo clítico (C), frase fonológica (), frase entoacional (I) e enunciado fonológico (U). Portanto, o sintagma entoacional constituí um dos níveis da hierarquia prosódica (área da fonologia que analisa processos fonológicos suprassegmentais, isto é, que sejam maiores do que o segmento).

93 De acordo com Silva (2011), o pé métrico consiste na unidade rítmica com um nó dominante e um recessivo que compõem a organização fonológica do acento. São formados nas projeções dos núcleos que constituem as sílabas.

264

na sílaba candidata a receber acento primário. O fato de esse item sofrer um processo fonológico característico de sílabas átonas evidencia que tal sílaba não porta acento lexical. De modo geral, verificamos, no PB, que as palavras funcionais monossilábicas são palavras átonas e, por conseguinte, prosodizadas como clíticos. Por outro lado, as palavras lexicais são portadoras de acento primário e prosodizadas como palavras fonológicas independentes, a menos que não sofram processos fonológicos característicos de sílabas átonas.

3. Material e Metodologia

O material desta pesquisa é composto por 32 inquéritos de fala espontânea, selecionadas da

amostra censo do banco de dados IBORUNA, disponível em www.iboruna.ibilce.unesp.br.

Por haver esse banco de dados de fala, com variáveis sociolinguísticas controladas, elegemos a variedade do PB riopretense para estudo. Como fenômenos de análise, são utilizadas as ocorrências da preposição para identificadas nessas amostras de fala. Esse banco de dados é composto de dois tipos de amostra de fala: Amostra Censo, composta por 152 amostras de fala controladas sociolinguisticamente, e Amostra de Interação Dialógica, composta por amostras de fala de interação social coletadas em situações não- controladas. Para esta pesquisa, foram utilizados apenas inquéritos da Amostra Censo. As amostras são provenientes do município São José do Rio Preto e de mais seis municípios circunvizinhos, a saber: Bady Bassit, Cedral, Guapiaçu, Ipiguá, Mirassol e Onda Verde. Os informantes selecionados para a composição do banco de dados foram estratificados de acordo com as seguintes variáveis sociais: (i) sexo/gênero (masculino/feminino); (iii) nível de escolaridade (1º Ciclo do Ensino Fundamental; 2º Ciclo

de Ensino Fundamental; Ensino Médio; Ensino Superior); (iii) faixa etária (de 7 a 15 anos; de

16 a 25 anos; de 26 a 35 anos; de 36 a 55 anos; mais de 55 anos); e (iv) renda familiar (mais de 25 salários mínimos; de 11 a 24 salários mínimos; de 6 a 10 salários mínimos; até 5 salários mínimos). As quatro variáveis sociais controladas nesse banco de dados não serão consideradas para a discussão abarcada neste texto. Deixaremos a análise de cunho sociolinguístico para outra ocasião. Cada informante produziu cinco gêneros narrativos, sendo eles: (i) narrativa de experiência; (ii) narrativa recontada; (iii) descrição; (iv) relato de procedimento; e (v) relato de opinião. Nesta pesquisa, desprezamos o tipo de texto como uma variável relevante para o

fenômeno da prosodização.

265

No que se refere à composição de nossa amostra, os informantes selecionados atendem a: (a) ambos os gêneros/sexos; (b) todos os níveis de escolaridade; e (c) as quatro últimas faixas etárias. 94 Cabe destacar que consideramos somente as situações de adjacência entre a preposição estudada e as palavras precedentes/seguintes, e o consequente descarte das ocorrências em que houve algum tipo de “quebra” do contínuo fônico. A justificativa é a de que, nos contextos excluídos, haveria outros fatores prosódicos em jogo. Dentre os fatores condicionantes, descartamos as ocorrências em que houve hesitação, ou

começa dá(r) droga

po po teu filho na escola”), pausa (“pegava po

po Brasil::

seja, quando ocorreram os fenômenos de alongamento (“um traficante

pra médicos”) e repetição (“pra dar paz po::

A justificativa dessa exclusão se pauta por trabalhos de natureza fonético-

fonológicos, como o de Nascimento e Chacon (2006). O fenômeno hesitativo restringiria a

possibilidade de ocorrência dos processos pós-lexicais de sândi vocálico externo, foco de análise neste trabalho.

Esse fator nos motivou à exclusão de todos os dados em que as marcas linguísticas ocorreram nas amostras de

fala. Passemo-nos aos resultados obtidos da análise de oitiva. , 95

).

4. Descrição e Análise dos Dados

Objetivo desta seção é apresentar as realizações da preposição para, identificadas a partir da transcrição fonética de base perceptual. Como apresentado na seção 2, são consideradas 1982 ocorrências desse item. Verificam-se, na Tabela 1, a seguir, os resultados obtidos.

Tabela 1. Processos fonológicos para para

94 A exclusão da faixa etária que compreende os informantes de 7 a 15 anos se deve ao fato de que, caso adotássemos uma análise de viés variacionista, não poderíamos fazer o cruzamento dessa variável extralinguística com a variável grau de escolaridade que compreende os informantes de nível superior de instrução. Também não consideramos a variável renda familiar para a seleção dos informantes que compõem nossa amostra por ter sido observado pelo coordenador do Projeto ALIP, ainda no decorrer da coleta de dados, que essa variável está co-determinada por outra, a escolaridade (GONÇALVES, 2007).

95 Cabe destacar, ainda, que uma análise de base acústica, com o auxílio do programa PRAAT, por exemplo, não é possível de ser realizada em função da qualidade dos arquivos sonoros.

266

Ocorrências/

Processos

Exemplos

Contextos

%

 

“me deu uma casa pra nós em São

 

Redução

Redução, Sândi Vocálico Externo: Degeminação

Paulo” “tem uma divisão:: na porta que é

pra o(u)tro comodozinho o(u)tra porta pa saída” “depois uma época continuei

com

1102/1982

348/444

55,60

78,38

Redução, Sândi Vocálico Externo: Ditongação

trabalhando de empregado pr[au]s o(u)tros”

287/475

60,42

Redução, Sândi Vocálico Externo: Elisão

“nós vendemos o látex

a borracha

 

puma empresa aí” “há também dois banhe::(i)ros… dos homens o(u)tro das mulheres para que cada um possa í(r) no seu…”

193/560

34,46

Nenhum Processo Fonológico Observado

52/1982

01,82

1982

100

Da tabela anterior, pode-se observar a ocorrência de dois tipos de fenômenos fonético- fonológicos para o item para: o processo de redução, de natureza lexical, e os processos de sândi vocálico externo degeminação, ditongação e elisão, de natureza pós-lexical. Passaremos a tratar de cada um dos processos observados. 96 A redução fonológica é um termo genérico que abrange vários tipos de processos, os quais são caracterizados pela queda de um ou mais segmentos. 97 No que diz respeito ao item para, quando o processo fonológico de redução se aplica, leva à realização de duas formas, a saber:

pra e pa. Na Tabela 2, constatam-se resultados para cada uma das formas.

Tabela 1. Ocorrências da realização da preposição para

Formas

Exemplos

Ocorrências

%

Para

“depois de uma época continuei trabalhando de empregado para os outros” “nós fomos embora pra São Paulo”

52

02,62

Pra

1428

72,05

Pa

“eu tinha que trabalhá(r) pa pô(r) dentro de casa”

dinhe(i)ro

502

25,33

Total

1982

100

96 Optamos por apresentar, primeiramente, o processo segmental de redução e, em seguida, os processos de sândi vocálico externo de acordo com os seus índices de aplicação.

97 Um exemplo de redução de mais de um segmento é o processo de redução silábica, o qual é caracterizado pela queda total de uma sílaba cujo contexto segmental é definido pela dessemelhança dos fones. De acordo com Alkmim & Gomes (1982), a ocorrência desse processo está relacionada a regras que se aplicam somente a certos itens lexicais caracterizados como proclíticos, como em [pfa’la], pode falar.

267

Destacamos, da tabela acima, que, das formas observadas, houve uma preferência de 72,05% pela realização, na fala dos informantes, da forma pra, seguida da forma pa, em 25,33% das ocorrências, e da forma para, em apenas 02,52% dos dados. A forma pra pode ser caracterizada como decorrente de apagamento da vogal /a/ e a forma pa, como decorrente de

apagamento da vogal /a/ e do tepe //. Em ambos os casos, as formas passaram a ser

monossílabos. Considerando o modelo métrico de sílaba proposto por Selkirk (1984), bem como as discussões apresentadas por Bisol (1992, 1996), propomos uma representação fonológica da aplicação do processo de redução para a preposição para, a seguir.

a) Desassociação 1

Esquema 1. Representação do processo de redução b) Ressilabificação

1 Esquema 1 . Representação do processo de redução b) Ressilabificação c) Estrutura Nova 1 d)
1 Esquema 1 . Representação do processo de redução b) Ressilabificação c) Estrutura Nova 1 d)

c) Estrutura Nova 1

d) Desassociação 2

268

268 e) Ressilabificação 2 f) Nova Estrutura 2 A partir da estrutura inicial, a qual é

e) Ressilabificação 2

268 e) Ressilabificação 2 f) Nova Estrutura 2 A partir da estrutura inicial, a qual é
268 e) Ressilabificação 2 f) Nova Estrutura 2 A partir da estrutura inicial, a qual é

f) Nova Estrutura 2

268 e) Ressilabificação 2 f) Nova Estrutura 2 A partir da estrutura inicial, a qual é

A partir da estrutura inicial, a qual é composta por duas sílabas leves, estrutura CV, representamos, em (a), a possibilidade de ocorrer a desassociação de C’ e V’. Por determinação do Princípio de Licenciamento Prosódico proposto por Itô (1986), ocorre a ressilabificação, representada em (b), resultando a forma pra, como representado em (e). Podemos constatar, ainda, a possibilidade de haver uma segunda etapa da redução por meio da qual a forma pra resultará na forma pa. Assim, representamos que haverá desassociação do tepe, que passou a constituir um ataque complexo na estrutura pra. Novamente o Princípio de Licenciamento Prosódico atua, dirigindo a ressilabificação, representada em (f). Dessa última fase do processo, emerge a forma pa. Por meio desta proposta, a forma reduzida pa não é resultado de um processo de queda da segunda sílaba de para, isto é: para>pa. Dessa proposta, resulta que o fenômeno de redução da preposição tenha duas fases de aplicação: se

269

ocorrer apenas a primeira fase, o resultado é pra, se ocorrer duas fases, o resultado é pa, o que tem como consequência propor que o fenômeno seja: para>pra>pa. No que concerne ao fenômeno de sândi externo de degeminação, vale lembrar que. segundo de Bisol (1996), o processo é desencadeado pela juntura de sequência de vogais idênticas. Essa sequência provoca um choque dos núcleos envolvidos e, por sua vez, a atuação do Princípio do Contorno Obrigatório, que inibe segmentos adjacentes iguais no mesmo nível. Outro aspecto a ser salientado sobre a aplicação de processos de sândi envolvendo para diz respeito ao fato de ser um monomorfema. Trazendo as considerações de Veloso (2003) a esse respeito, o item para pode ser classificado como um monomorfema preposicional por carregar informações gramaticais que devem ser preservadas. Veloso (2003), ao investigar, em dados da variedade falada em Goiânia, contextos de aplicação dos processos de sândi externo vocálico ditongação, degeminação e elisão nos monomorfemas, selecionou sequências constituídas por: (i) item lexical mais a presença de um monomorfema, como em hoje à noite; (ii) monomorfema mais item lexical, como em para escola; e (iii) monomorfema mais monomorfema, como em para a. Para todas as sequências, a autora constatou a possibilidade de aplicação do processo. Quanto aos dados de para desta pesquisa, observamos, assim como Veloso (2003), a possibilidade de aplicação da degeminação nas sequências constituídas de monomorfema mais item lexical e de monomorfema mais monomorfema. Os resultados obtidos são expressos, a seguir.

Tabela 3. Aplicação do processo de degeminação com o item para

Item

Monomorfema + Monomorfema

Monomorfema + Item Lexical

N

%

N

%

para

319/377

(84,62)

29/67

(43,28)

Descritos os resultados obtidos para a degeminação, passamos, a seguir, a tratar do fenômeno da ditongação em contexto de sândi externo. Considerando o item para, duas sequências são observadas: (i) vogal baixa /a/ mais a alta anterior /i/, como em para investigar, ou (ii) vogal baixa /a/ mais a alta posterior /u/, como em para urbanizar. Desse modo, em todos os contextos em que o processo se aplicou, houve a formação de um ditongo crescente. Cabe retomar, ainda, as considerações de Veloso (2003) sobre os monomorfemas, segundo as quais o item para pode ser classificado como um monomorfema por veicular informações

270

morfológicas que devem ser preservadas. Quanto ao fenômeno da ditongação, Veloso (2003) observou a sua aplicação em todas as sequências constituídas por: (i) item lexical mais um monomorfema, como em hoje à noite; (ii) monomorfema mais item lexical, como em para escola; e (iii) monomorfema mais monomorfema, como em para o. Na Tabela 3, observamos a aplicação do fenômeno da ditongação para a preposição para em 60,42%. Tendo em vista os segmentos do item para, obtivemos, como ambientes favoráveis à ocorrência do fenômeno, as sequências: (i) monomorfema mais monomorfema; e (ii) monomorfema mais item lexical.

Tabela 4. Aplicação do processo de ditongação com o item para

Item

Monomorfema + Monomorfema

Monomorfema + Item Lexical

N

%

N

%

para

07/181

(03,87)

280/294

(95,24)

Conforme explica a Tabela 4, o contexto mais favorecedor à aplicação do processo foi da sequência constituída por monomorfema mais item lexical, com em para estudar. Para o fenômeno da elisão envolvendo o item para, verificamos que, das 1982 ocorrências desse item, 560 sofreram o processo fonológico, tendo ocorrido a aplicação da elisão em 34,46%. A elisão diz respeito ao apagamento de vogais em posição desacentuada de final de palavra, quando o item seguinte inicia-se por vogal de qualidade diferente. No caso da preposição para, há a possibilidade de a vogal baixa ser elidida se a vogal da palavra seguinte for diferente de /a/, como em para escola. Assim como observado por Veloso (2003), em dados desta pesquisa, constatamos a ocorrência do fenômeno da elisão para a preposição para e suas formas variantes pra ~ pa. Verificamos, como ambientes favoráveis para a aplicação do fenômeno, as sequências: (i) monomorfema mais monomorfema; e (ii) monomorfema mais item lexical.

Tabela 5. Processo de elisão com o item para

Monomorfema + Monomorfema

Monomorfema + Item Lexical

Item

N

%

N

%

para

193/228

(84,65)

00/332

(00,00)

271

Da Tabela 5, observamos que houve 84,65% de aplicação da elisão, quando a sequência é composta por dois monomorfemas, com em para o, para esse, para onde. Por outro lado, quando obtivemos a sequência formada por um monomorfema mais elemento lexical, como em para informar, verificamos o bloqueio do processo em todos os contextos. Dessa forma, interpretamos que há a possibilidade de aplicação do processo, no primeiro caso, porque há a preservação do monomorfema nos elementos remanescentes de cada uma das formas: para o > pru > pu. Todavia, no segundo caso, o monomorfema preposicional não

é preservado, como em *pr[iiii]nformar >*p[ii]nformar, fato que gera restrições para a

aplicação do fenômeno. Retomando a Tabela 5, cabe destacar que, dos 228 ambientes favoráveis à aplicação do processo de elisão, na sequência composta por monomorfema mais monomorfema, 181 correspondem à sequência para o, contexto também favorável à aplicação do processo de ditongação (uma vez que o artigo definido o se realizou foneticamente como uma vogal alta [u] em todas as ocorrências). Dos 47 contextos restantes, como em para esse, houve a aplicação do referido processo em 24 dos contextos, o que equivale a 51,06%. Dada a possibilidade de aplicação de ditongação ou elisão nesses contextos, exploramos, na Tabela 6, uma descrição da sequência para o, considerando as possibilidades de aplicação dos dois processos.

Tabela 6. Sequência para o e os fenômenos de ditongação e elisão

Sequência

Ditongação

Elisão

Nenhum Processo Observado

N

%

N

%

N

%

Para o

05/181

(02,76)

169/181

(93,37)

07/181

(03,87)

A partir da tabela acima, observamos que a sequência de monomorfema mais monomorfema

constituída de para o favoreceu o fenômeno de elisão, em 93,37% dos dados, realizando-se como pr[u]. Em menor percentual, com 2,76%, verificamos a formação de um ditongo, como em pr[au]. Em 3,87% dos dados, não averiguamos nenhum processo fonético-fonológico afetando os monomorfemas. De modo geral, podemos salientar que os resultados indicam essa sequência como grande favorecedora para a aplicação da elisão.

272

Quanto aos 332 ambientes em que monomorfema para foi seguido de um item lexical, ressaltamos que 294 eram contextos que também possibilitavam a ocorrência da ditongação, como em pra [i]studar. Como apresentaremos, a seguir, quando temos essa sequência, são raros os casos em que não há a formação de um ditongo. Dos 38 ambientes restantes, era possível a observação apenas do fenômeno da elisão, visto que não tínhamos a presença de uma vogal alta no início do vocábulo seguinte, mas a das vogais média-baixas /e, o/, como em pra [e]sse.

Considerações sobre a Prosodização da Preposição “para” no PB

Neste texto, procuramos apresentar uma descrição prosódica da preposição para do PB falado na variedade de São José do Rio Preto (SP), Noroeste Paulista. Da transcrição fonética de base perceptual realizada, identificamos a ocorrência de dois tipos de fenômenos fonético- fonológicos para essa preposição em estudo: (i) os lexicais, por meio dos quais os segmentos da preposição são afetados, como o processo de redução; e (ii) os pós-lexicais, como os processos de sândi vocálico externo degeminação, ditongação e elisão. Verificamos a ocorrência dos processos de degeminação e ditongação quando a preposição é seguida por um item lexical e/ou gramatical, como em pr[ai]nformar, pr[ai]sso. Por outro lado, não constatamos a ocorrência de fenômeno de elisão quando a preposição é seguida de itens lexicais, como em *prinformar. Observamos a elisão somente quando há, na sequência, outro elemento gramatical, como em pruma. Retomando aos argumentos de Bisol (2005) sobre as restrições de aplicação do fenômeno da elisão, no caso dos monomorfemas, constatamos o bloqueio da regra em virtude de a preposição para carregar informações morfológicas que devem ser preservadas. Segundo Bisol (2005), o fato de haver o bloqueio da elisão dentro no interior de palavra pode ser uma evidência de que o clítico e seu hospedeiro constituem um grupo clítico. Nesse sentido, a análise dos dados evidencia a possibilidade de a preposição para ser prosodizada no domínio do grupo clítico, isto é, no componente pós-lexical juntamente com uma palavra fonológica, denominada seu hospedeiro. Teríamos, ainda, de acordo com Bisol (2005), outro forte indício da constituição do grupo clítico: a redução silábica da preposição para ~ pra ~ pa, haja vista que, por esse item sofrer um fenômeno que é característico das sílabas átonas, confirmar-se-ia o seu caráter cliticizável.

273

Referências Bibliográficas

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168,1996.

O clítico e seu hospedeiro. Porto Alegre: Letras de Hoje, 2005. p.163- 184. CÂMARA JR, J. Estrutura da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Vozes, 1970. GALVES, C.; ABAURRE, M. B. M. Os clíticos no português brasileiro: elementos para uma abordagem sintático-fonológica. In: CASTILHO, A. T.; BASÍLIO, M. (Orgs.) Gramática do Português Falado. Campinas: Ed. UNICAMP, v. IV Estudos Descritivos, p. 273-319,1996. GONÇALVES, S. C. L. Banco de dados IBORUNA: amostras eletrônicas do português falado no interior paulista. Disponível em: <http:// www.iboruna.ibilce.unesp.br>. O português falado na região de São José do Rio Preto: constituição de um banco de dados anotado para o seu estudo. Relatório científico final apresentado à FAPESP, 2007. Disponível em: http://www.iboruna.ibilce.unesp.br/histórico/relatoriofinal. ITÔ, J. Syllable Theory in Prosodic Phonology. Massachusetts. PhD. Massachusetts:

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Empúries, v. 1 [fonética i fonologia; morfologia], p. 39-86, 2002. NASCIMENTO, J. C.; CHACON, L. Por uma visão discursiva do fenômeno da hesitação. Alfa (ILCSE/UNESP), v. 50, p. 59-76, 2006. NESPOR, M.; VOGEL, I. Prosodic Phonology. Dordrecht: Foris Publications, 1986. SELKIRK, E. Phonology and syntax: the relation between sound and structure. Cambridge Mass: MIT Press, 1984. VELOSO, B. S. A elisão de monomorfemas em casos de sândi vocálico externo em três variedades do português. 113f. Dissertação de Mestrado. Campinas, SP: Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, 2003. VIGÁRIO, M. On the Prosodic Status of Stressless Function Words. In: KLEINHENZ, U.; HALL, T. A. (ed.). Studies on the Phonological Word. Amsterdam: John Benjamins, 1999. The prosodic word in European Portuguese. Tese (Doutorado). Lisboa: Universidade de Lisboa, 2001. ZWICKY, A. M. Clitics and particles. Language. Washington: Linguistic Society of America, v. 61, p. 283-305, 1985.

274

274 A MORFOSSINTAXE DA COMPOSIÇÃO NEOCLÁSSICA 1. Introdução Vitor Augusto Nóbrega 9 8 Universidade de São

A MORFOSSINTAXE DA COMPOSIÇÃO NEOCLÁSSICA

1.

Introdução

Vitor Augusto Nóbrega 98 Universidade de São Paulo

Radicais presos caracterizam-se por apresentar problemas para as teorias morfológicas que defendem uma clara divisão entre os processos de derivação e composição. Sua opacidade morfológica sugere um estatuto intermediário entre um afixo e um radical, uma vez que são presos como afixos, e com conteúdo lexical como os radicais. Nesse contexto, um conjunto expressivo de unidades morfológicas que apresentam tais características são os chamados radicais neoclássicos (i.e., radicais oriundos do grego antigo ou latim), formadores de palavras morfologicamente complexas no português brasileiro (doravante, PB), a saber, os compostos neoclássicos. Esses compostos são estruturados com base em pelo menos um elemento preso dessa ordem, a exemplo de oftalmologista, neuropsicólogo, agronegócio e hidromassagem. Nossa proposta de trabalho assenta-se sobre a hipótese inicial de que o modo de formação dos compostos em questão integra-se ao sistema morfológico do PB, apesar de seus formantes serem empréstimos de línguas clássicas. Prova disso são as diversas palavras atestadas nas bases de neologismos, refletindo o fato de que esses radicais estão ativos para

98 Agradeço ao CNPq pelo financiamento concedido a minha pesquisa de Mestrado, da qual o presente artigo é parte (Processo 134069/2012-9).

275

novas formações (e.g., fotodepilação, autobiofotografia, agroecologia, neurocomputador, eletroacupuntura, hidropilates). Abordamos o assunto assumindo um modelo de gramática não-lexicalista, a Morfologia Distribuída (doravante, MD; cf. HALLE; MARANTZ, 1993), em que a sintaxe é tida como o único componente gerativo, formador tanto de palavras quanto de sentenças. Admitimos que um modelo que toma a estrutura morfológica como sendo estrutura sintática, tal como faz a MD, fornece a possibilidade de se avaliar as diferenças estruturais relativas aos compostos formados por radicais – a composição neoclássica em específico –, dos compostos formados por palavras (e.g., limpa-vidros, peixe-espada, casca-grossa). Por essa razão, perseguimos duas questões principais a fim de sugerir uma proposta morfossintática para a composição neoclássica e, de modo amplo, para os compostos formados por radicais, que são: (i) como são estruturados os compostos formados por radicais em um modelo não-lexicalista e (ii) qual a relevância sintática do elemento de ligação presente entre seus radicais (viz., a vogal -o-, em agr-o-logia, ou -i-, em agr-i-cultura). O desenvolvimento das perguntas elencadas acima fica como se segue: na seção 2, descrevemos o que vem a ser a composição neoclássica no PB, explorando as propriedades morfossintáticas relacionadas aos seus membros constituintes. Na seção 3, discutimos o que são os elementos de ligação para os compostos neoclássicos, e se eles carregam ou não alguma função gramatical, argumentando, em seguida, que eles devem ser tratados como exigências fonológicas, e não sintáticas. Na seção 4, descrevemos, brevemente, o modelo teórico da MD, demonstrando como as estruturas desses compostos são derivadas e em que ponto da derivação os elementos de ligação são inseridos.

2. A Composição Neoclássica

A composição neoclássica é, normalmente, distinguida dos demais tipos de composição por nela estarem presentes radicais presos de origem grega ou latina, os quais não apresentam as mesmas capacidades de licenciamento sintático encontradas nos radicais vernaculares de uma língua particular (e.g., gat-o, cas-a). Suas três características morfossintáticas gerais estão resumidas abaixo, por Amiot e Dal (2007, p. 323) e Gonçalves (2011, p. 13-15):

(1)

a. Ausência de realização sintática nas línguas-tomadoras:

276

São formas livres nas línguas de origem, grego antigo e latim, e funcionam, nas

línguas tomadoras, como constituintes presos de palavras, não recebendo morfemas

gramaticais, por exemplo: (a1) *“Eu tomei dois copos de hidros”, (a2) *“Eu vi dois

antropos com chapéu hoje”;

b. Tipo de vocabulário que formam:

São unidades formalmente aprendidas, formadoras de termos técnicos ou

científicos,

c. Presença de uma vogal de ligação entre os componentes:

São conectadas por uma vogal -i- ou -o- para formação de um composto, sendo a

vogal -i- relacionada a formas oriundas do latim, tal como em agricultura e

fungicida, e a vogal -o-, a formas provenientes do grego, como em biologia e

termômetro.

Essas características conjugam os traços mais salientes dos radicais neoclássicos e de

suas formações, principalmente as propriedades (1a) e (1c), que evidenciam aspectos

morfossintáticos específicos relacionados às restrições de licenciamento e às exigências

referentes à concatenação, respectivamente. A característica (1b), no entanto, é restritiva e

desconsidera dois aspectos importantes: (i) a presença de muitos desses radicais no uso

corriqueiro da língua, e (ii) o fato de que o falante, apesar de, hipoteticamente, adquiri-los em

um estágio tardio, apresenta um conhecimento sobre o que são e de como operam.

As propriedades morfológicas gerais, elencadas na Tabela 1, abaixo, ilustram a

heterogeneidade comportamental e a variedade de possíveis combinações a partir dos radicais

neoclássicos. À guisa de ilustração, trazemos exemplos com morf-, hidr- e neur-:

PROPRIEDADES

 

EXEMPLOS

 

I:

Capacidade

de

anexação

a

outros

(a) Com

dois

radicais:

morfologia,

radicais neoclássicos

 

hidroelétrica, hidrocefalia, neurometria

 

(b) Com

três

radicais:

morfofonologia,

neuroendoscopia, neuropsicomotor 99

99 A recursividade, ou seja, a possibilidade de concatenação de vários radicais para a formação de um composto, é uma característica peculiar dos compostos neoclássicos (e.g., oftalmo-otorrino-laringo-log-ista, aero-foto-geo- graf-ia).

277

II: Capacidade de anexação a unidades

hidromassagem,

hidroginástica, neurociência,

não neoclássicas

 

neuroimagem

 

*morf- Ø 100

III:

Capacidade

de

derivar

novas

(a)

Sufixação:

morfe,

morfema,

hídrico,

   

hidrante,

hidratar,

neuronal,

neurose,

palavras

neurônio, neurite

 

(b)

Prefixação:

monomorfêmico,

hiperidrose,

desidratar, polineuropatia

 

IV:

Capacidade

de

transitar

no

antropomorfia, morfologia

 

composto

   
 

*Ø -hidro, *Ø neuro

 

V: Capacidade de serem truncadas 101

 

morfo (morfologia), hidro (hidroginástica),

 

hidro (hidromassagem), neuro (neurologia)

TABELA 1: Propriedades morfológicas dos radicais neoclássicos.

Percebemos, na Tabela 1, que, apesar de apresentar um comportamento preso, as

unidades neoclássicas se assemelham a um radical na maioria dos casos (e.g., os dados das

propriedades I, III, IV, e V), e, somente em um deles, há a sugestão de um comportamento

afixal (e.g., os dados da propriedade II).

Explorando seu licenciamento sintático, notamos que os radicais neoclássicos podem

ser licenciados em dois contextos:

(2)

Contextos de licenciamento sintático para os radicais neoclássicos

(i)

Quando categorizados por um conjunto restrito de sufixos: -ico, -ema, -ose, -

ante, -onal, -ite 102 ;

(ii)

Quando estão em contextos de composição: hidr-o-log-ia, antrop-o-morf-ico,

neur-o-metr-ia.

100 Utilizamos “Ø” para apontar a ausência de determinada propriedade para o radical neoclássico em questão.

101 Podemos considerar a capacidade da recomposição de algumas formas truncadas de compostos neoclássicos como uma sub-propriedade da propriedade V, tal como ocorre com tele (e.g., televisão tele (forma truncada) telecurso) e foto (e.g., fotografia foto (forma truncada) fotonovela).

102 Vale salientar que a combinação dos sufixos com os radicais não se dá de maneira uniforme (e.g., *morf-ante; *hidr-onal; *neur-ema).

278

É importante observar que esses radicais não apresentam licenciamento sintático a partir da inserção de uma vogal temática, como ocorre com os demais radicais da língua. Esse fato sugere que os radicais neoclássicos não pertencem a nenhuma das quatro classes nominais do PB (i.e., Classe I - /o/; Classe II - /a/; Classe III - /e/ e Classe IV - ; cf. ALCÂNTARA, 2010). Além disso, o fato de não pertencerem a uma classe nominal não os inclui na Classe IV, das palavras conhecidas como atemáticas, já que mesmo os radicais dessa classe são licenciados sintaticamente. Não é possível dizer também que a vogal de ligação -o-, presente na maioria dos compostos neoclássicos e em suas formas truncadas (e.g., hidr-o-ginástica; hidr-o), seja um morfema de Classe I, uma vez que em compostos como music-o-log-ia, denunci-o-crac-ia e cam-o-terapia não são as vogais temáticas dos radicais de primeira posição que preenchem o ponto de junção (i.e., *music-a-log-ia, *denunci-a-crac-ia, *cam-a-terapia), mas sim a vogal -o-, fato que evidencia seu aspecto de conexão entre radicais e não de informação temática. Por outro lado, a vogal -o- não pode ser analisada como o expoente fonológico de um núcleo categorizador, uma vez que, hidro, por exemplo, existe como forma truncada de um composto (e.g., dos compostos hidrologia, hidroterapia, hidroginástica), mas não como um radical que, ao ser categorizado pelo sufixo -o, assume o significado de “água”:

(3)

pelo sufixo - o , assume o significado de “água”: (3) Entretanto, não é consensual o

Entretanto, não é consensual o posicionamento de que os radicais neoclássicos carregam informação categorial. Cannon (1992) e ten Hacken (1994) defendem que os radicais neoclássicos são destituídos de propriedades categoriais, adquirindo-as quando concatenados a um sufixo. ten Hacken (1994), por exemplo, sugere que anthropomorph é uma base formada por radicais presos, anthropo e morph, e que as informações categoriais que essa base possa vir a ter depende do sufixo com o qual se concatena (e.g., se for -ic, será um adjetivo). Namer e Villoing (2006), por sua vez, propõem que os radicais neoclássicos são categorizados, pois podem conter características verbais quando carregam propriedades

279

predicativas (e.g., no francês, [anthropo N phage V ] A ‘antropofagia’, [géno N cide V ] A/N ‘genocida’). Voltaremos a essas questões de licenciamento e categorização na seção 4, deste artigo, ao explorar como as informações compiladas até aqui podem ser formalizas na derivação sintática desses compostos. Passemos, agora, para a discussão das propriedades relativas aos compostos neoclássicos. Do ponto de vista morfossintático, os compostos neoclássicos podem ser flexionados apenas em sua borda direita, tal como pode ser visto com os exemplos em (4a) e (4b), diferentemente dos compostos formados por palavras do PB, em (4c) e (4d):

(4)

a. sex-ó-loga-s/*sex-ó-s-loga; neur-o-transmissore-s/ *neur-o-s-transmissor

b. sex-ó-logu-inha/ *sex-inh-o-loga; neur-o-transmissor-zinho/*neur-inh-o-trasmissor

c. sofá-s-cama/ *sofá-cama-s; tren-s bala, *trem bala-s

d. sofá-zinho-cama/ *sofá-cam-inha; trenz-inho bala/ *trem bal-inha

O mesmo pode ser dito para os casos de derivação, já que os compostos neoclássicos não apresentam morfemas derivacionais internamente, tal como ilustrado em (5):

(5)

a. #morf-em-o-log-ia (a partir de morf-ema)

b. *neur-os-o-log-ia

(a partir de neur-ose)

Além disso, nos casos em que o composto é formado de acordo com a propriedade I (i.e., a capacidade de anexação a outros radicais neoclássicos), seu segundo membro não constitui uma palavra autônoma da língua caso seja combinado a um sufixo categorizador isoladamente, tal como representado em (6), o que sugere a ocorrência de parassíntese em algumas dessas formações, como descrito em (7), evidenciando, assim, a presença de um único morfema categorial nesses compostos.

(6) (7) a. antropologia *antropolog + ia/antrop- + *logia
(6)
(7)
a. antropologia
*antropolog + ia/antrop- + *logia

280

b. psicogenia *psicogen + ia/psic- + *genia

Tendo em vista o que se apresentou até o momento, podemos dizer que os compostos neoclássicos são formados pela concatenação de duas raízes, as quais são categorizadas por um único núcleo categorizador. Antes de desenvolver tal hipótese, exploramos as características dos elementos de ligação presentes em sua estrutura na próxima seção.

3. Distribuição dos elementos de ligação nos compostos neoclássicos

Elemento de ligação, interfixo, conector, sufixo vazio semanticamente, sufixo sem caso ou morfema de ligação são termos empregados pela literatura para designar o mesmo fenômeno: um elemento que ocorre na lacuna entre dois constituintes de um composto. Esses elementos de ligação estão presentes em diversas línguas, o que pode ser verificado em (8), e nas chamadas composições neoclássicas, sendo muito produtivos em algumas (e.g., no russo, cf. PERKLES, 2008), e marcadores do processo de composição em outras (e.g., no grego moderno, cf. RALLI, 2008).

(8)

(AL) 103

hund-e-futter

cachorro-EL-comida

‘comida

para

cachorro’

(HL)

boek-em-kast

livro-EL-caixa

‘estante’

(NO)

arbeid-s-dag

trabalho-EL-dia

‘dia de trabalho’

(SE)

jord-a-färd

terra-EL-viagem

‘viagem’

(GR)

Δiavol-o-θiliko

diabo-EL-mulher

‘mulher promíscua’

(LA)

verb-i-velitatio

palavra-EL-disputa

‘disputa verbal’

(PO)

gwiazd-o-zbiór

estrela-EL-coleção

‘constelação’

(DELFITTO, FÁBREGAS, MELLONI, 2011, p. 4)

Sabemos, a partir das características elencadas por Amiot e Dal (2007, p. 323) e Gonçalves (2011, p. 13-15), apresentadas em (1), que a composição neoclássica é marcada

103 (AL) = alemão; (HL) = holandês; (NO) = norueguês; (SE) = sueco; (GR) = grego moderno; (LA) = latim; (PO) = polonês.

281

pela presença de uma vogal que conecta os radicais do composto. A seleção dessa vogal, por sua vez, tem um correlato histórico, relacionado à etimologia do membro de segunda posição, seguindo a distribuição em (9):

(9)

Distribuição dos elementos de ligação nos compostos neoclássicos

 

a. Se o radical de segunda posição é de origem grega, adicione a vogal -o-

b. Se o radical de segunda posição é de origem latina, adicione a vogal -i-

(10)

a. turism-ó-logo, term-ô-metro, psic-o-grafia, hom-o-fobia

[+grego]

b.

pragu-i-cida, cafe-i-cultura, vin-í-cola

[+latino]

Sincronicamente, podemos assumir que a vogal -o- é a forma menos marcada para ocupar essa posição de conexão, uma vez que é amplamente encontrada na combinação entre um radical preso e qualquer outro elemento livre do PB, como pode ser verificado em (11):

(11) hidr-o-avião, psic-o-terapia, neur-o-transmissor, eletro-choque, hetero-normativo

Além disso, o caráter default advogado à vogal -o- encontra evidências adicionais em compostos formados por radicais vernaculares, nos quais essa vogal é a responsável por conectar tais radicais em um composto:

(12)

a. “Kassab-o-sserrista é assim: se for pra ganhar voto vira amigo de Lula e Dilma na hora.”

b. “Escovas muco-dental e dent-o-bucal específicas para bebês.”

c. “Sem dúvida, por ser vis-o-gestual, a língua de sinais beneficia o surdo.”

Contrariamente à distribuição em (9), a literatura acerca da composição neoclássica discute se essas vogais não seriam parte de um dos membros do composto. Neste trabalho, assumimos, de antemão, que as unidades neoclássicas são radicais, já que podem derivar novas palavras, o que faz com que as vogais de ligação sejam vistas como elementos dissociados. Uma vez dissociados, duas hipóteses podem ser lançadas acerca de sua natureza:

ou (i) são um requerimento fonológico, ou (ii) são um requerimento sintático (e.g., DI SCIULLO, 2005, 2009).

282

Considerando as propostas sugeridas para essas vogais de ligação no PB, percebemos que a maioria dos estudiosos as classifica como elementos de ligação (e.g., SANDMANN, 1989; LAROCA, 1994; KEHDI, 2002). A mesma hipótese é assumida por Villalva (2000) e por Rio-Torto e Ribeiro (2011), para o português europeu. Gonçalves (2011), por outro lado, afirma que essas vogais não são conectores, e, seguindo a análise de Bauer (1998), para o inglês, argumenta que elas pertencem ao primeiro membro do composto, tomando como evidências para essa análise a manutenção da vogal de ligação nas formas truncadas de seus compostos, tal como em foto (de fotografia), hetero (de heterossexual) e quilo (de quilograma). Contudo, uma análise como a de Gonçalves (op. cit.) não consegue explicar os dados de derivação (relativos à propriedade III, cf. Tabela 1), fazendo com que a gramática contenha duas formas distintas, hidr- e hidro, solução nada econômica. Para as diversas línguas que apresentam elementos de ligação em suas palavras compostas, uma série de análises distintas foi sugerida, tal como comenta Ralli (2008). Detendo-nos, particularmente, na proposta elaborada por Di Sciullo (2005, 2009), construída em uma visão lexicalista de gramática, os compostos das línguas naturais carregam uma projeção funcional, a qual é legível na interface semântica (i.e., LF, do inglês logical form), e pode ou não ser legível na interface fonética (i.e., PF, do inglês phonetic form). Tais projeções contêm operadores semânticos responsáveis por denotar as relações internas entre os membros de um composto (e.g., AND ‘e’, OR ‘ou’, SORT ‘tipo de’, IN ‘em’, WITH ‘com’), possibilitando, assim, sua interpretação semântica em LF. As representações dessas projeções estão ilustradas em (13), abaixo:

(13)

dessas projeções estão ilustradas em (13), abaixo: (13) Di Sciullo (2005, 2009) defende que as projeções

Di Sciullo (2005, 2009) defende que as projeções funcionais supracitadas são requeridas para interpretação fonética dos compostos que contêm elementos de ligação, tal como os compostos das línguas balcânicas, do grego moderno e do esloveno. Como exemplo, a autora traz os dados do grego moderno, em (14), os quais devem ser estruturados como em

(15):

283

(14)

a. pagovuno pag-VL-vun- montanha de gelo-NEU ‘ice-berg.’ b. kapnokalierjia kapn-VL-kalierg- -i-

-o

NOM-SG

-a

cultivo de tabaco -ivo-FEM NOM-SG ‘cultivo de tabaco.’

(15)

de tabaco -ivo-FEM NOM-SG ‘cultivo de tabaco.’ (15) (Grego Moderno) (DI SCIULLO, 2009, p. 153) Para

(Grego Moderno)

(DI SCIULLO, 2009, p. 153)

Para Di Sciullo (2005, p. 18), a relação semântica entre os membros de compostos com um elemento de ligação é restrita à relação de coordenação nas línguas românicas e no inglês. No entanto, os compostos neoclássicos do PB mostram uma variedade de relações semânticas presentes entre seus membros, tal como a relação de subordinação (i.e., relação núcleo-complemento), e a relação de atribuição (i.e., relação núcleo-modificador), as quais devem ser explicadas pelo operador SORT, e não pelo operador OR.

(16) SUBORDINADOS

ATRIBUTIVOS

COORDENADOS

blogofobia

equoterapia

heteromachista

aracnofobia

ecochato

sociocultural

transfobia

hidropilates

agrosilvopastoril

hidrologia

neuroestimulação

sino-japonês

Nesse sentido, não é possível dizer que os elementos de ligação sejam os expoentes fonológicos de projeções funcionais, já que eles parecem não carregar qualquer informação sintático-semântica, uma vez que não são responsáveis por distinguir compostos coordenados de compostos atributivos, por exemplo. Para corroborar essa conclusão, trazemos mais dados

284

do grego moderno, retirados de Ralli (2009), em que uma mesma vogal de ligação está presente em diferentes relações semânticas, afastando a visão de que essas vogais tenham qualquer conteúdo relacional:

(17)

a. xaz-o-koritso

(Atributivo)

(Grego Moderno)

 

boba menina

 

“menina boba” b. mavr-o-aspros preto branco “preto e branco”

(Coordenado)

 

c. nixt-o-

puli

(Subordinado)

noite pássaro “pássaro da noite”

(RALLI, 2009, p. 458)

Com base nas informações reunidas até esse ponto do artigo, passemos, agora, à demonstração de como ocorre a derivação sintática dos compostos neoclássicos.

4. A estrutura formal da composição neoclássica

Nesta seção, demonstramos como são formados os compostos neoclássicos. Primeiramente, expomos o modelo teórico não-lexicalista da MD, sob o qual nossa proposta se assenta, e, em seguida, apresentamos como se processa a derivação da estrutura sintática desses compostos, bem como a influência dessa estrutura na inserção de elementos de ligação.

4.1 A Morfologia Distribuída

O modelo teórico assumido neste trabalho é a MD, proposto por Halle e Marantz (1993), que defende que a gramática das línguas naturais apresenta um único componente gerativo, capaz de gerar palavras e sentenças. Nesse modelo, a visão de um léxico gerativo, detentor de regras particulares para a formação de palavras, dá lugar a uma arquitetura da gramática sintaticocêntrica, em que a sintaxe é a única responsável por combinar primitivos a fim de gerar estruturas complexas.

285

Devido às alterações que a arquitetura da gramática sofre com a retirada de um léxico gerativo, a derivação sintática procede da seguinte maneira: raízes e morfemas abstratos são retirados de uma lista de primitivos, a Lista 1, e combinados através de operações sintáticas (e.g., Merge e Move), sendo, posteriormente, enviados para as interfaces fonética e semântica. No caminho para a interface fonética, a estrutura gerada pelo sistema computacional pode sofrer reajustes a partir de operações morfológicas (e.g., fissão, fusão, empobrecimento), e, somente após esses reajustes – se necessários – os nós terminais recebem informação fonológica através do processo de inserção de vocabulário, os quais estão presentes em uma segunda lista, a Lista 2 (ou Vocabulário). Uma terceira lista, a Lista 3 (ou Enciclopédia), por fim, fornece a interpretação semântica, relacionando Itens de Vocabulário (doravante, IVs) a significados. Deve-se salientar que as raízes presentes na Lista 1 são categorialmente neutras, adquirindo informações categoriais a partir da concatenação com um núcleo definidor de categoria: v, n, a (e.g., [raiz + n], [raiz + v]), gerando, assim, verbos, nomes e adjetivos. Além disso, como pôde ser notado, a MD não apresenta um primitivo que seja a “palavra”. No entanto, a combinação de seus primitivos – raízes e morfemas abstratos – via um conjunto de procedimentos, gera núcleos complexos, que são, grosso modo, equivalentes à noção de palavra.

4.2 A hipótese do elemento de ligação

Tendo descrito, brevemente, o modelo teórico sob o qual nossa hipótese se alicerça e os contextos sintáticos em que a categorização se faz necessária, iremos, a partir de agora, descrever como os compostos neoclássicos são derivados, detendo-nos nas relações gramaticais que emergem da combinação entre radicais. Como vimos na proposta de Di Sciullo (2005, 2009), a heterogeneidade das relações gramaticais internas aos compostos formados por radicais, como os neoclássicos, é capturada por projeções funcionais que carregam informações semânticas (e.g., SORT “tipo de”, AND “e”, IN “em”). Para a autora, a presença de elementos de ligação são evidências para a presença dessas projeções, sendo a vogal -o-, nas línguas românicas e no inglês, responsáveis por garantir as relações de coordenação. Sua generalização, porém, não consegue explicar os compostos neoclássicos se assumirmos que a vogal -o- é somente o núcleo de uma projeção AND, visto que seria necessário postular que o léxico contivesse três diferentes -o- (o 1 -SORT-, como em equ-o-

286

terapia, o 2 -AND-, como em agr-o-silv-o-pastoril, e o 3 -IN-, como em hidr-o-ginástica). Da mesma forma, a assunção de que o elemento de ligação é o expoente fonológico dos núcleos dessas projeções funcionais não explica os dados do grego moderno, tal como visto em (17). Contudo, a proposta de Di Sciullo (2005, 2009) não é de todo descartável, uma vez que a ausência de informação semântica nos elementos de ligação apenas impossibilita seu aparecimento como núcleo dessas projeções funcionais. Por esse motivo, assumimos, como a autora, a presença dessas projeções funcionais internas à composição, pontuando que os elementos de ligação nos compostos formados por radicais não representam a realização fonológica de uma informação sintático-semântica, e são inseridos, exclusivamente, por requerimentos fonológicos. Dessa forma, asseguramos a interpretação semântica entre os membros do composto, através das projeções funcionais, descritas na última seção, e admitimos que, no PB, os núcleos dessas projeções são relevantes para a sintaxe, mas não contêm um expoente fonológico. Assim, a estrutura de qualquer composto neoclássico fica representada como em (18), exemplificada em (19):

(18)

fica representada como em (18), exemplificada em (19): (18) (19) As estruturas em (19) descrevem, de

(19)

representada como em (18), exemplificada em (19): (18) (19) As estruturas em (19) descrevem, de modo

As estruturas em (19) descrevem, de modo geral, como os compostos neoclássicos são formados, sendo, portanto, a união de duas raízes através de um núcleo funcional, em que a

287

raiz modificadora c-comanda a raiz modificada, e a relação gramatical estabelecida entre elas

é fornecida a partir do tipo do operador semântico presente no núcleo F que as concatena. A

informação categorial, por sua vez, é dada por um núcleo definidor de categoria (que pode ser

n, v ou a), o qual c-comanda toda a estrutura, e fornece informação categorial ao composto como um todo. Os elementos de ligação serão inseridos no composto no caminho para a forma

fonológica (PF), concomitantemente à linearização da estrutura. Para transformar a estrutura gerada pela sintaxe em um continuum pronunciável, as etapas de linearização focalizam a proximidade entre os constituintes da estrutura a fim de colocá-los na ordem padrão da língua,

e é nesse momento que a inserção do elemento de ligação é negociada. Assumindo a estrutura genérica proposta em (18), será a junção linear entre as duas raízes (√β√α) que exigirá a inserção das vogais de ligação. Como vimos em (9), a inserção da vogal de ligação respeita, em certa medida, informações etimológicas. Por esse motivo, admitimos que há um diacrítico ‘҂’ nas raízes de segunda posição que exigem a inserção da vogal marcada -i- (e.g., cid-, cultur-, -voro, -fugo); nos demais casos, a vogal menos marcada -o- é inserida, tal como sintetizado pela regra em (20), abaixo:

(20) Regra para inserção do elemento de ligação Nos contextos em que √β termina em consoante e √α começa em consoante, insira a vogal /i/ logo após √β, caso √α contenha o diacrítico ҂. Nos demais contextos, insira a vogal /o/.

Desse modo, a sequência resultante da linearização exige a inserção de vogais de ligação quando o primeiro radical termina em consoante e o segundo inicia-se em consoante. Já a marcação ou não da raiz por um diacrítico determina qual vogal será inserida. Com isso, explicamos como a estrutura dos compostos neoclássicos estabelece as relações semânticas entre seus constituintes, via a assunção de uma projeção funcional, e como os elementos de ligação são inseridos na estrutura gerada pelo componente sintático.

288

A composição neoclássica, caracterizada pela presença de pelo menos um radical

preso, é vista, neste artigo, como um processo de formação de palavras integrado à morfologia

do PB, e pode ser explicada a partir dos mesmos mecanismos responsáveis por gerar os

compostos canônicos dessa língua (i.e., compostos formados por palavras, tal como salva- vidas, peixe-espada, algodão-doce). Em sua estrutura, notamos a presença de uma vogal de ligação destituída de informação semântica, e inserida no composto por razões estritamente fonológicas. Formalmente, nossa análise aponta que raízes, utilizando a nomenclatura da MD, são combinadas a partir de uma projeção funcional que carrega informações semânticas como SORT ‘tipo de’, AND ‘e, OR ‘ou’, IN ‘em, ou WITH ‘com’, responsáveis por denotar as relações estabelecidas internamente ao composto. A junção linear entre as duas raízes, no momento da linearização da estrutura, induz a inserção de uma vogal de ligação toda vez que

a raiz de primeira posição terminar em uma consoante e a raiz de segunda posição iniciar-se em consoante, ficando a seleção da vogal de ligação relegada à presença ou não de um diacrítico nas raízes de segunda posição.

6.

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290

290 CATEGORIZAÇÕES E CONFIGURAÇÕES LINGUÍSTICAS: OS NOMES E OS VERBOS 1 0 4 1. Introdução Susana

CATEGORIZAÇÕES E CONFIGURAÇÕES LINGUÍSTICAS: OS NOMES E OS VERBOS 104

1. Introdução

Susana Pereira Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa

Clara Nunes Correia Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa

Tradicionalmente nos estudos gramaticais a oposição entre Nome e Verbo pode ser, ou é, reduzida à evidência formal das suas propriedades morfossintáticas. Mesmo em línguas em que essas evidências não são flexionalmente marcadas (como por exemplo na língua THAI, de acordo com Lazard (1998a)), a necessidade de se estabelecer uma fronteira entre estas duas entidades parece ser transversal na descrição linguística. Nos estudos da semântica, esta oposição/diferenciação surge, na generalidade das teorias, como crucial, defendendo-se que incidem sobre cada uma delas determinadas categorias gramaticais (tempo/aspeto para o verbo; quantificação para o nome). Por outro lado, e seguindo a mesma linha de argumentação, os estudos sobre referencialidade (cf. Frege 1892;

* Este trabalho foi financiado por Fundos Nacionais através da FCT -Fundação para a Ciência e a Tecnologia no

âmbito do projeto PEst-OE/LIN/UI3213/2013.

104 Na redação deste texto adota-se o Acordo Ortográfico de 1990, em vigor desde 2009, de acordo com a norma do PE.

291

Russell 1919; Kripke 1977; e.o.) induzem a que seja o nome (e não o verbo) o detentor das possibilidades de referenciação. Neste trabalho, pretendemos discutir de que forma a observação de dados explorados a partir

de configurações específicas do Português Europeu podem ativar um conjunto de critérios em

que a relação Verbo/Nome pode ser estabilizada, desencadeando, não de forma individual, mas em interdependência os valores atribuídos a cada uma dessas entidades.

2. O que é um Nome? O que é um Verbo?

Nas diferentes relações que os nomes definem com os verbos (semanticamente consideradas como entidades de predicação), encontramos um caso de estudo que consideramos interessante para esta análise: o caso dos enunciados equativos (EE). Quando tradicionalmente se afirma que, num enunciado equativo, o verbo ser é um verbo pleno, definindo não uma relação de predicação, mas uma relação de identificação entre duas expressões referenciais, as duas questões que se colocam são:

Estas formas verbais estabelecem relações com os argumentos de natureza relacional? Os argumentos comportam informação que ultrapassa a relação morfológica de uma entidade categorizada como Nome?

Seguindo de perto as propostas de Frege [1892] (1991), ao considerarem-se as condições para

a construção de enunciados equativos, verifica-se que a correferencialidade entre as

expressões referenciais é obrigatória e que só há correferencialidade entre expressões referenciais se elas foram definidas. Este facto é inerente à definição básica de um EE. Recorrendo, como forma de ilustração, ao tradicional EE – a estrela da manhã é a estrela da tarde –, mostra-se que nenhuma das expressões é, por si só, construtora de referência, por um lado, e, por outro lado, que as formas de ser, quaisquer que sejam as marcas de flexão que este verbo apresente, não são portadoras de qualquer valor que ultrapasse a mera identificação entre duas entidades de natureza referencial. Assim, o ponto interessante da discussão prende-se com o facto de a referência não ser construída linguisticamente, mas fazer parte do conhecimento dos falantes, sendo, por isso, de natureza pré-construída.

292

Deste modo, e com este caso de exemplificação, pode defender-se que o estatuto de Nomes e Verbos está dependente das configurações que estes assumem para construir (ou representar) um dado estado de coisas. Esta generalização poderá ser extensível a formas de ser, em PE, com valor predicativo (cf., a

título de exemplo, os leões são animais simpáticos (exemplo de Lyons 1977), ou o João é / foi / tem sido / será um linguista brilhante). Em todos os casos o que estará em causa é o valor do estado de coisas construído, sendo este definido (a partir dos 3 exemplos com ser), de acordo com operações de natureza enunciativa /predicativa, que podem:

a) Definir operações de equivalência entre ocorrências (EE);

b) Construir localizações sobre uma dada expressão referencial (ser predicativo, com valor +genérico);

c) Construir, através de predicação, o complementar linguístico de uma noção

(EPred, -genérico) (cf. Culioli [1989] 1990:195). Assim, e de acordo com este autor “(…) [i]n each case, what is performed is basically founded on elementary interlocking schemes of categorization, individuation and location, in their turn based on identification and differentiation. (…)”, verificando-se, por outras palavras, que todos os processos de linguagem são processos inerentemente de representação (abstrata) de formas e de construções produzidas (e reconhecidas) num dado sistema linguístico. Seguindo esta proposta pode defender-se que os processos reguladores de categorização num dado sistema são formatados a partir da forma como as ocorrências linguísticas se organizam, dando estabilidade (categorial) às entidades que permitem produzir

e reconhecer (i.e., validar) as diferentes produções linguísticas dos falantes. Em termos

extensionais – e procurando dar resposta ao título deste ponto de análise – O que é um Nome?

O que é um Verbo? – dir-se-á que a sua delimitação – terminológica – pode assentar nas

propriedades semânticas das formas disponíveis em PE, de acordo com as configurações que

estas formas definem.

3. Categorias & taxionomias: criatividade teórica ou terminológica?

Um dos problemas inerentes à fronteira entre Nomes e Verbos passa, inevitavelmente, pela forma como estas entidades são focadas nas diferentes Gramáticas. Se recuarmos em termos de fixação gramatical do Português, encontramos em João de Barros [1540] 1971, uma distinção descritiva entre estas duas entidades:

293

Nome (segundo définçám dos gramáticos) é aquele que se declina per cásos sem tempo, sinificando sempre algua cousa que tenha corpo ou sem corpo: que tenha corpo como hómem, páu, pédra; sem corpo, Gramática, sciencia e doutrina. E cada um dos Nomes tem estes açidentes: Calidade, Espéçia, Figura, Género, Número, Déclinaçam per cásos, (…)” (Barros [1540]1971: 299) Vérbo (segundo définçám de tódolos gramáticos) é ua voz ou palavra que demonstra obrar algua cousa, o qual nam se declina, como o nome e pronome, pér casos, mas conjuga-se per módos e tempos (…). / Os Latinos partem os séus verbos em sustantivos e ajetivos. / Dos primeiros temos este só verbo, sou, ao qual chamamos substantivo porque demonstra o ser pessoal da cousa (…) . / verbo ajetivo podemos chamar todolos outros. (…)” (Barros [1540]1971:325)

A análise destas definições levar-nos-ia a outra discussão, sendo, no entanto de reter a oposição aqui apresentada, tendo como base, mais do que a forma, as funções (referenciais ou predicativas) que lhe estão adstritas. Na Nova Gramática do Português Contemporâneo (NGPC), de Cunha & Cintra (1984), o conceito de Nome não é definido. Os autores seguem o elenco de partes do discurso aristotélico (substantivos, adjetivos, artigos…), encontrando-se associado ao substantivo duas definições:

1- Substantivo é a palavra com que designamos ou nomeamos os seres em geral. (…) 2 – do ponto de vista funcional, (…) é a palavra que serve privativamente de núcleo do sujeito, do objeto direto, do objeto indireto e do agente da passiva. (Cunha & Cintra 1984:177).

Por outro lado, e na mesma gramática, verbo

(…) é uma palavra de forma variável que exprime o que se passa, isto é, um acontecimento representado no tempo (…) [não tendo], (…) sintacticamente, uma função que lhe seja privativa, pois também o substantivo e o adjetivo podem ser núcleos do predicado. Individualiza-se, no entanto, pela função obrigatória de predicado, a única que desempenha na estrutura oracional. (…)” (Cunha & Cintra 1984:377).

Centrando-se em pressupostos diferentes, a Gramática da Língua Portuguesa (GLP), de Mateus et al. (2003), assume, em termos gerais, o Nome como núcleo de um SN e o Verbo como núcleo de SV, verificando-se, no entanto, uma total heterogeneidade de tratamentos de acordo com os módulos da gramática que formatam esta gramática. Note-se, por isso, que não existe qualquer sistematização conceptual à volta destas entidades, nem uma inter-relação (ou remissão) entre os diferentes módulos que semântica, sintática ou morfologicamente as suportam. Esta autonomização de tratamento, se por um lado assenta em descrições supostamente exaustivas das diferentes categorias gramaticais, impede, sob o ponto de vista de uma caracterização que se pretenderia clarificadora de um funcionamento descritivo, uma qualquer sistematização útil para a discussão que aqui está em causa. Assim, os Nomes e os Verbos são o que são, ou evidenciam propriedades que lhes são extrínsecas e que resultam,

294

em última análise, de marcas morfológicas específicas (marcas diferenciadas de flexão), das diferentes estruturas sintáticas em que ocorrem, ou dos valores que manifestam – construtores de referência (para as expressões nominais), operadores aspetuais e/ou temporais para os predicadores (que não são, necessariamente verbos). Esta dispersão de análise pode ser, no entanto, resolvida. A Gramática descriptiva de la Lengua Española (Bosque & Demonte (eds.) 1999), por exemplo, constitui um bom exemplo de um percurso que é capaz de aliar módulos da gramática e partes do discurso, garantindo não só uma estabilidade descritiva (e terminológica) como uma inter-relação na análise destas entidades. Apesar desta estabilidade, encontramos, recorrentemente, os mesmos parâmetros:

relações de natureza distribucional, relevância de marcas flexionais, delimitação de valores a partir da interação de Nomes e Verbos com todas as outras formas que coocorrem numa dada proposição. Assim, e de forma recorrente, verifica-se que a oposição entre Nomes e Verbos, qualquer que seja a abordagem em que os diferentes estudos assentam é de ordem taxionómica (baseada na terminologia), observando-se uma continuidade entre modelos de gramáticas (em relação ao tempo, e mesmo de língua para língua) e não categorial. Esta estratégia (nem sempre claramente assumida, e muitas vezes não explicitada) acarreta alguns problemas.

Partindo de um pressuposto diferente, e ao pretender estabilizar o conceito de categoria gramatical, Desclés (1989) propõe uma ‘fórmula’ em que interliga aquilo a que chama um sistema de formas gramaticais (F), um sistema de significação ( (assente numa metalinguagem de natureza metateórica) e um sistema de correspondências (não biunívoca) entre F e  (S)S, conceptualmente, é a variável que permite a definição de estratégias de codificação e de descodificação, estratégia responsável pela interpretação das sequências linguísticas em que uma dada ‘forma’ ocorre. Assim, para este autor, o sistema de formas gramaticais, caracteriza-se por integrar as ‘categorias’ taxionómicas, disponíveis na tradição gramatical e as propriedades distribucionais inerentes às gramáticas das diferentes línguas. A fórmula proposta por Desclés, formalmente <<F, R S >, visa evidenciar que as deformabilidades que uma dada forma pode assumir, independentemente do sistema linguístico em que ocorre, são previsivelmente reguladas. Como consequência imediata poderemos, e aceitando esta perspetiva, prever que, nas línguas naturais, a categorização gramatical não é dada à partida, mas resulta da interdependência dos valores manifestados pelas diferentes formas linguísticas, podendo, por exemplo, uma mesma forma – ou construção - desencadear, predominantemente, valores de natureza referencial ou predicativa.

295

4. Categorias e unidades lexicais: uma questão de representação

A questão da representação reveste-se de um poder explicativo central, se a questão da categorização se colocar da seguinte forma: i) como se manifestam nas configurações das diferentes línguas as operações subjacentes à atividade de linguagem?; ii) como são representados, nas diferentes línguas e em cada língua particular, os valores das categorias gramaticais que motivam essas configurações? Na abordagem culioliana, as formas empíricas são entendidas como vestígios de operações predicativas e enunciativas, e não como etiquetas lexicais ou gramaticais, podendo estabelecer-se uma aproximação das operações linguísticas a operações cognitivas: aquilo sobre o que opera uma operação linguística, i.e., um feixe de representações (noção predicativa), é precisamente o que não está presente na forma empírica (cf. Bernard 2003). Na medida em que os itens lexicais são construídos em cada enunciação, a sua identidade é uma abstração, definida teoricamente pelo conceito de noção. Para a descrição linguística, a grande vantagem do conceito de noção é não supor uma categorização prévia e fixa do que se vai constituir como uma unidade lexical. 105 Deste modo, à rigidez dos procedimentos categoriais, baseados na noção de oposição distintiva, opõe-se uma continuidade de valores, visível na variabilidade de usos de uma unidade lexical. A procura de uma alternativa ao princípio de uma lógica categorial, que preside maioritariamente à análise linguística, é fundamental no programa culioliano e é motivada pela observação da dinâmica e da plasticidade inerentes ao funcionamento das línguas. O objetivo da teoria é, assim, “a reconstrução, mediante um processo formal e teórico, das noções primitivas e operações elementares, regras e esquemas que geram categorias gramaticais e padrões específicos a cada língua” (Culioli, [1989] 1990 :179). Para Culioli & Desclés (1981:78 e 79) “(…) uma categoria gramatical é um sistema de correspondências entre noções gramaticais (constituídas por operações e operadores), que

105 Como refere Franckel (1998:16), “Une unité lexicale relève, dans les énoncés où elle est mise en jeu, de rapports variables à une notion dont elle constitue des occurrences variables. Sans entrer dans l’exposé des types de régularité qui régissent la construction des occurrences, nous soulignons qu’une unité n’a ni sens préétabli ni référence virtuelle, qu’elle relève de rapports variables à un contenu notionnel instable, associé à des représentations physico-culturelles et que ce rapport se structure au sein des énoncés où elle est mise en jeu.”

296

representam valores, e marcadores morfossintáticos localizáveis nos textos em que os segmentos são categorizados nas classes linguísticas.” Nesta perspetiva, a própria definição de categoria gramatical demarca-se claramente da noção

de classe ou categoria linguística, que resulta de processos taxionómicos.

Tal como as noções gramaticais, as noções predicativas, que dão origem à lexicalização nas categorias sintáticas N e V, são pré-enunciativas. Tratando-se de um sistema complexo de representação de propriedades físico-culturais, a noção não deverá ser confundida com os itens lexicais, nem deve ser assimilada a acontecimentos localizados espácio-temporalmente. A possibilidade de construção de ocorrências de uma noção decorre de um esquema de individuação que supõe a sua ancoragem espácio-temporal e a sua localização no espaço topológico de um domínio nocional.

Compreende-se assim que comer, depenicar e devorar sejam ocorrências de uma mesma noção, constituindo lexicalizações do gradiente do domínio nocional, com substituição lexical, em que há uma orientação para o Interior - Ele não come, devora! - ou para o Exterior - Ele não come, depenica!. Da mesma forma, se compreende que uma forma, categorialmente um V, possa remeter diretamente para a noção quando surge na forma do infinitivo em enunciados como: Fumar mata. O valor referencial de genericidade assumido neste contexto permite-lhe ocupar o lugar privilegiado das expressões referenciais, na função sintática de sujeito.

A manipulação deste enunciado mostra igualmente que a combinação da forma verbal com

possíveis N, funcionando como objetos, obedece a restrições ligadas à compatibilidade de valores de determinação verbal e nominal: *fumar o cigarro mata. Na mesma linha de análise, justifica-se a equivalência entre as predicações: ele escreve / ele é escritor, em que a predicação de uma propriedade sobre o sujeito é construída pela associação do valor aspetual do presente ao valor de ‘individuação’ das ocorrências de uma mesma noção predicável, que é lexicalizada nas categorias linguísticas N escritor ou V escrever, assumindo ambas o papel de predicador. Contudo, o valor assim construído sofre alterações se a relação entre as operações associadas a determinada categoria gramatical e respetivos marcadores linguísticos se alterarem: ele escreve cartas todos os dias; ele escreveu dois livros (≠ ele é escritor) / ele é o escritor que recebeu o prémio Pessoa (≠ ele escreve). Este último exemplo permite evidenciar a existência de uma relação estreita entre aspeto e quantificação, o que pode justificar uma via de investigação em que se procura fornecer uma análise integrada da interdependência entre determinação nominal e determinação verbal.

297

Neste sentido, a determinação é entendida como uma categoria gramatical abstrata, fundamentalmente transcategorial, em que as categorias linguísticas N e V constroem valores de determinação em interdependência.

5. Categorias gramaticais e estruturas actanciais

A possibilidade de tratar diferentes categorias de uma forma transcategorial poderá fornecer a base teórica para os argumentos empíricos, apresentados por Lazard (2003), em favor da existência de uma relação inequívoca entre a ‘individuação do objeto’ nas estruturas actanciais e categoria gramatical ‘aspeto’. Os fenómenos relacionados com a transitividade podem constituir uma expressão colateral, nuns casos, ou subsidiária, noutros, da categoria aspeto, dependendo da organização das categorias linguísticas em cada língua particular e do papel do objeto na expressão de contrastes semânticos (cf. Pereira 2009). Os exemplos que se apresentam, de seguida, podem ser entendidos como diferentes estratégias linguísticas para expressar contrastes semânticos relacionados com a estrutura actancial. Esses contrastes semânticos, que resultam de diferentes formas de construção da ocorrência de uma noção, definem valores aspetuais.

5.1. V+N qualifica ou especifica a ocorrência da noção

Na forma como é definida por Lazard (1998a:96), a zona-objeto permite avaliar as diferentes construções do objeto em termos de proximidade gramatical em relação ao verbo, tendo em conta o seu comportamento morfossintático. De acordo com a noção de proximidade gramatical, e entendendo a zona-objeto como um contínuo, situam-se na zona mais próxima do verbo os objetos internos, os objetos cognatos e os objetos de medida; numa zona intermédia os objetos ditos canónicos ou prototípicos, 106 e

106 Segundo Lazard (1998b: 100), “On peut mettre en rapport cette notion de distance de l’objet avec une notion de transitivité conçue comme scalaire, et montrer que le maximum de transitivité est atteint dans le cas d’un objet total, défini, animé ou humain, c’est-à-dire bien individué, et que ce maximum se situe vers le milieu de la zone objectale (…) Dans cette construction de transitivité maximale, l’objet est l’objet prototypique, celui qui est le plus susceptible de devenir ‘sujet’ du passif dans les langues où cette transformation est admise.” Assim, um objeto pouco individuado situa-se à esquerda do objeto prototípico, enquanto um objeto muito individuado se situa à sua direita, representando ambos um decréscimo de transitividade.

298

numa zona mais distante do verbo os que ocorrem nas construções de marcação diferencial do objeto.

5.1.1. V+N qualifica a ocorrência da noção

A ideia de que o N opera uma qualificação é particularmente evidente em línguas como o árabe em que o objeto cognato pode coocorrer com outro objeto na mesma frase:

(1) yafhamu

l-’adab-a

fahm-am

‘amîq-an

he.understands

ART-literature-ACC

understanding-ACC

deep-ACC

‘He has a profound understanding of literature’ (lit. he understands literature a profound understanding)

(‘ele compreende a literature uma profunda compreensão’)

(Lazard 2003:8) Do ponto de vista semântico-referencial, os objetos mais próximos do verbo tendem a ser indefinidos e não humanos. Estes valores semântico-refenciais que caracterizam os N são interpretados como um indicador da sua dependência do verbo e pouca autonomia gramatical. Neste sentido, Lazard considera que os objetos próximos, como os objetos cognatos, representam uma qualificação do processo, sendo vistos preferencialmente como qualificadores ou determinantes do predicado, e não como termos autónomos da frase ou actantes. O contraste entre *o João chorou o / um / choro(s) e o João chorou um choro convulsivo, em que se evidenciam as restrições impostas ao N que coocorre com o V chorar, exemplifica este tipo de configuração.

5.1.2. V+N especifica a ocorrência da noção

A proximidade em relação ao V pode assumir outras formas, mantendo-se, no entanto, de

forma generalizada as características semântico-referencais do N. Os dados da língua indonésia mostram que um verbo intransitivo (prefixo ber-), que não tem objeto, admite a ocorrência de um SN desde que este obedeça às restrições de não ter determinante e ter sentido genérico:

(2) Ali

ber-tanam

kopi

PN

PFX-plant

coffee

‘Ali is a coffee grower’

(Lazard 1998a:94)

299

A marca de intransitivo nestes contextos pode ser interpretada como uma forma de

especificação da noção, que é predicada sobre o sujeito e lhe atribui uma propriedade. Ainda que o português não apresente mecanismos morfossintáticos equivalentes aos da língua

indonésia, é possível descrever os meios de que dispõe para construir enunciados com uma significação próxima, assim como as restrições envolvidas, como nos exemplos (3) e (4):

(3)

Ele escreve romances / ensaios (= ele é romancista / ensaísta)

(4)

Ele corre a maratona (= ele é maratonista)

Tal como na língua indonésia, nos exemplos do português o N a individuação de N é mínima,

assumindo o N um valor genérico, marcado pelo determinante , no caso de (3), e pelo

definido, no caso de (4), em coocorrência com o presente do indicativo. A especificação da noção expressa pela forma verbal corresponde a uma configuração que não admite a substituição destes marcadores sem que seja comprometida significação construída, como se pode constatar pela comparação dos exemplos acima com (5) e (6), respetivamente:

(5)

Ele escreveu esse ensaio (≠ ele é ensaísta)

(6)

Ele correu uma maratona (≠ ele é maratonista)

5.2. V+N constituem uma noção complexa

Para Lazard, ficam claramente fora da zona-objeto os objetos incorporados, visto que na

incorporação, e mesmo em formas menos rígidas de coalescência, 107 o N perde a sua função

de

actante, ou seja, um nome incorporado pode denotar um Paciente, Instrumento, etc., mas

ao

contrário do que acontece com os actantes, não é marcado como tal pela sintaxe. As formas

de

coalescência podem corresponder a uma construção de incorporação, em que um termo

nominal é inserido na forma verbal ou a uma exigência de adjacência. No plano semântico-referencial o N coalescente é não referencial, não tem determinante e tende a formar uma unidade semântica com o verbo, por isso o composto ou quase-composto

assume o valor de uma unidade lexical.

107 Entre os instrumentos de actância, i.e., entre os processos gramaticais que asseguram as ligações entre os actantes e o predicado, Lazard integra a coalescência, que pode implicar uma maior ou menor fusão entre o verbo e o nome: “Coalescence can take other forms apart from atual incorporation; it can also consist of phonetic or morphological modifications of the noun and/or verb: single stress, vocalic harmony, specific sandhi, particular form of the noun or verb or both and obligatory adjacency, in such a way that they cannot be separated by another element.” (Lazard 1998a:14).

300

Nas línguas em que a incorporação não é um processo sintático produtivo, essas construções são entendidas como fenómenos lexicais, ou seja, as expressões são fixas no léxico. Da análise que faz das línguas europeias, Lazard (1998b) conclui que a incorporação e a coalescência, enquanto mecanismos sintáticos, não existem nas línguas da Europa. No

entanto, em expressões do tipo prendre feu, porter plainte, faire appel, rendre justice, Lazard considera que se pode reconhecer um índice de coalescência na ausência de artigo, mas neste caso, como no de outras línguas, em que por analogia podemos incluir o português, trata-se de sequências lexicalizadas, i.e., sequências habitualmente deixadas fora da análise por se tratar

de ‘expressões fixas’.

Uma hipótese alternativa, no que respeita ao entendimento deste tipo de expressões, procura integrá-las numa caracterização semântica unificada dos predicadores verbais, tendo por base a definição de uma forma esquemática, tal como é proposto por Correia (2006).

Nos trabalhos de Correia & Campos (2004) e Correia (2004), o trabalho sobre as expressões fixas, integrado num contexto mais alargado da análise de verbos como dar, fazer e ter,

identificados na literatura como verbos suporte (Vsup), permite estabelecer alguns pontos de contacto com as observações de Lazard:

a) por um lado, trata-se de construções que apresentam uma quase total imutabilidade no seu funcionamento, não permitindo qualquer manipulação do SN (e.g., fazer fé, dar o berro), que tipicamente é determinado pelo artigo definido ou pelo

determinante ;

b) por outro lado, o facto de, como refere Lazard, o N tender a formar uma unidade semântica com o verbo, revelando o seu carácter complexo ou cristalizado, pode ser entendido como o resultado de uma formatação nocional específica, ou seja, de uma formatação de natureza compacta.

Expressões fixas podem ser entendidas como representações de natureza cognitiva (i.e., nocionais), ou seja, representações diretas de noções complexas. Neste sentido, Neste sentido, pode argumentar-se que a sua estabilidade e a sua não-deformabilidade são de ordem cognitiva e não linguística.

5.3. V+N delimitam a ocorrência da noção

A proposta de uma teoria da perfetivação, desenvolvida por Paillard (1989), reforça

igualmente a necessidade de ultrapassar uma visão redutora do aspeto em russo, apoiada na problemática dos pares aspectuais.

301

A oposição entre os pares aspetuais Imperfetivo / Perfetivo, fundadora da noção de Aktionsart

ou aspeto lexical (marcado morfologicamente por um prefixo), constitui uma ilusão criada pelo paralelismo estabelecido entre as formas verbais no passado.

A existência de uma correlação entre as propriedades do objeto e o aspeto pode ser

evidenciada pelo exemplo de uma língua com formas verbais distintas para o par perfetivo / imperfetivo, o palauano, em que apenas os verbos perfetivos exibem concordância com o

objeto:

(7) A ngalek a milenga a ngikel

child

‘The child was eating fish’ (8) A ngalek a kill-ii a ngikel child eat(PERF)-AGREE fish

eat (IMPF)

fish

‘The child ate up the fish’

(Josephs 1975:254, apud Hopper & Thompson 1980:275)

Se neste exemplo a existência de correlações entre o objeto e o aspeto se reflete numa

marcação morfossintática precisa, como a presença de traços de concordância, nos diferentes sistemas linguísticos essas correlações podem envolver a articulação de marcadores de

diferentes categorias gramaticais. De forma semelhante, é a interdependência entre a determinação verbal e nominal, associada ao PPS, que permite a delimitação de ocorrências

da noção nos exemplos:

(9) (esta manhã) o João escreveu o relatório para a JNICT (10) o João escreveu o relatório durante duas horas e fartou-se

6. Conclusão

O trabalho agora apresentado integra-se num projeto mais geral – estudo das formas e

construções do português 108 .

Com este estudo pretendemos mostrar que:

108 Este projeto é desenvolvido no Grupo Gramática & Texto do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa (CLUNL).

302

as formas empíricas são consideradas vestígios de operações predicativas e enunciativas e não etiquetas lexicais ou gramaticais;

é possível estabelecer uma aproximação entre operações linguísticas e operações cognitivas;

a delimitação das ocorrências linguísticas pode assentar nas propriedades semânticas das formas disponíveis numa dada língua, de acordo com as configurações que estas formas definem (cf. Bernard 2003).

A síntese acima apresentada visa, sobretudo, uma definição de um posicionamento teórico e

epistemológico que obriga não só a uma visão transcategorial da análise do funcionamento das formas e das construções que caracterizam as línguas naturais, como a uma perspetiva de análise que, em termos operacionais, ligue os diferentes módulos da gramática (neste caso,

morfologia/sintaxe/semântica).

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305

305 INCORPORAÇÃO DE NUMERAL NA LIBRAS Aline Garcia Rodero Takahira 1 0 9 USP/CAPES Resumo: Incorporação

INCORPORAÇÃO DE NUMERAL NA LIBRAS

Aline Garcia Rodero Takahira 109

USP/CAPES

Resumo: Incorporação de numeral é um fenômeno bastante produtivo nas línguas de sinais. De acordo com Schuit (2007), no geral, a incorporação ocorre com números de um a cinco, com menos frequência de seis a nove, e nunca com números a partir de dez. Já Mathur & Rathmann (2011) afirmam que algumas línguas de sinais permitem incorporação parcial de número acima de dez e mostram que o sinal com o numeral incorporado pega sua configuração de mãos do numeral, e a localização e o movimento do outro sinal. Este trabalho tem por objetivo descrever e analisar como se dá a incorporação de numeral na Língua de Sinais Brasileira (LSB ou libras). Buscamos investigar com quais numerais a incorporação é observada na libras e usamos a proposta de fusão para a formação de um nó complexo (SIDDIQI, 2009) com base na Morfologia Distribuída (MD, HALLE & MARANTZ, 1993) para explicar como a incorporação de numeral acontece morfossintaticamente. Mostramos que a fusão de uma raiz, por exemplo, √ANO, e traços como [n] e [dual] leva ao processo de incorporação de numeral, como em [NumP [n [dual] [n] √ANO]. A competição fará com que o item de vocabulário mais especificado, no caso, aquele com incorporação de numeral, entre na derivação. Palavras-chave: Fusão; Incorporação de Numeral; Língua de Sinais Brasileira; Morfologia Distribuída.

1. Introdução

Este trabalho tem por objetivo descrever e analisar como se dá a incorporação de

numeral na libras. A incorporação na libras é observada em alguns dados especialmente com

os números de um a quatro e na maior parte dos casos a configuração de mão do número é

incorporada na mão dominante, aquela que apresenta movimento, do sinal ao qual é

109 Agradeço a CAPES pelo financiamento de minha pesquisa de Doutorado e a Professora Doutora Ana Paula Scher pela orientação deste trabalho.

306

incorporado. Dados como UM-HORA, DOIS-DIA, TRÊS-SEMANA e QUATRO-ANO 110 ilustram o processo de incorporação de numeral na mão dominante na libras. Porém, encontramos um dado que se comporta de forma diferente. No exemplo MÊS, o número é incorporado na mão não-dominante, aquela que não apresenta movimento. Uma vez que o fenômeno investigado aqui é observado em uma língua de modalidade vísuo-espacial, a libras, cabe pontuarmos alguns fatores que serão importantes para o entendimento deste trabalho. Primeiramente, os sinais são constituídos por uma combinação de cinco parâmetros, sendo eles: i) configuração de mão (CM): o formato que a mão toma para realizar a sinalização; ii) ponto de articulação ou localização (PA): a localização espacial do sinal; iii) movimento (M): o tipo de movimento realizado, retilíneo, espiral, etc.; iv) orientação ou direcionalidade (O): a direção para a qual a palma da mão está virada durante a sinalização; e, v) expressões não-manuais: englobam expressões faciais e corporais que também podem se dividir em expressões afetivas e expressões gramaticais. Os três primeiros parâmetros apresentados foram apontados por Stokoe (1960), no primeiro estudo que considerou uma língua de sinais, a americana (ASL, do inglês, American Sign Language), como uma língua natural. Esses parâmetros são chamados também de parâmetros primários. São os parâmetros primordiais para a formação de um sinal. Mais tarde, os dois últimos parâmetros foram acrescentados na descrição das línguas de sinais. Esses cinco parâmetros, ou cinco grupos de fonemas disponíveis na língua, são as menores unidades distintivas da libras que, quando combinados, formam um sinal. Um segundo ponto que vale destacarmos é que na libras, bem como em outras línguas de sinais, alguns sinais equivalem a palavras e também a morfemas, uma vez que muitos sinais da libras são monomorfêmicos. Sobre sinais monomorfêmicos, Supalla (1980) propõe um contínuo morfológico para a ASL onde de um lado há formas “novas”, formadas por combinação de morfemas, e do outro lado há formas “congeladas”, ou seja,

110 Nesse tipo de representação para os sinais da libras, que será usado em vários pontos deste trabalho para citações e glosas, usamos palavras da língua portuguesa em caixa alta para nos referirmos a um significado aproximado para o sinal da libras (eles não se equivalem completamente, mas na falta de um alfabeto escrito para a libras, usamos a língua portuguesa para um significado aproximado ou possível); hífen para indicar quando duas (ou mais) palavras do português são usadas para descrever um único sinal; e, @ para indicar a ausência da marca de gênero nessa língua, como é feito em muitos trabalhos desde Ferreira-Brito (1995), Felipe (2006), Figueiredo-Silva & Sell (2009), entre outros.

307

monomorfêmicas 111 . Há na libras alguns casos nos quais processos morfológicos são observados, como composição, flexão, incorporação, onde podemos depreender diferentes morfemas a partir do que chamamos “morfologia vísuo-espacial”. Por “morfologia visuo- espacial” entendemos características morfológicas na modalidade visuo-espacial, que podem ser expressas por mudança ou alteração de um dos cinco parâmetros que compõem um sinal, levando a um dado significado. Apontados esses fatores iniciais, passamos para o fato de que as línguas naturais apresentam um processo bastante produtivo conhecido como incorporação já bem descrito na literatura. Nas línguas orais, incorporação nominal foi investigada em Baker (1988). Nas línguas de sinais, há trabalhos que investigam a incorporação nominal, como Meir (2001), sobre a língua de sinais israelense (ISL). Nas línguas de sinais, incorporação de numeral é um processo bastante produtivo. Schuit (2007) descreve tal fenômeno a partir de trabalhos sobre as línguas de sinais holandesa, americana, britânica, argentina e catalã, como um fenômeno que no geral ocorre com números de um a cinco, com menos frequência de seis a nove, e nunca com números a partir de dez. Mathur & Rathmann (2011) descrevem esse o processo nas línguas de sinais alemã, americana e japonesa, e mostram que o sinal com o numeral incorporado pega sua configuração de mãos do numeral, e a localização e o movimento do outro sinal. Eles também discutem que algumas línguas de sinais permitem incorporação parcial com números acima de dez. Algumas perguntas que se colocam até esse ponto são as seguintes:

1- Há casos de incorporação de numeral na libras? Se sim: 1a Com quais nomes os numerais na libras incorporam? 1b Até qual número a incorporação ocorre? 1c A libras apresenta incorporação parcial com números acima de 10? 2- Como a incorporação se dá? 2a O sinal com o número incorporado pega sua configuração de mãos do numeral, e a localização e o movimento do outro sinal, como ocorre em outras línguas de sinais (MATHUR & RATHMANN, 2011)? 2b Há alguma diferenciação entre incorporação do numeral na mão dominante ou na mão não-dominante?

111 Veja também a discussão sobre sinais “congelados” ou monomorfêmicos em Meir (2001) para a ISL (Língua de Sinais Israelense) e Zwitserlood (2004) para a NGT (Língua de Sinais Holandesa).

308

2c Como explicar a ocorrência de incorporação de numeral na mão não-dominante, que vimos com o sinal MÊS? 3- Como a incorporação de numeral da libras pode ser explicada morfossintaticamente?

Nossa análise considera o arcabouço teórico da Morfologia Distribuída (MD). Seguindo a proposta de Siddiqi (2009), dentro da MD, usamos a proposta de fusão para a formação de um nó complexo para explicarmos como se dá a incorporação na libras. Assim, consideramos que para os dados de incorporação de numeral ocorre a fusão da raiz √, com traços como [n] e o traço dual, trial ou quatrial, como em: [NumP [n [dual/trial/quatrial] [n] √X]. A competição vocabular faz com que o item mais especificado, no caso, aquele com incorporação de numeral, entre na derivação. Assumimos também que em casos nos quais fusão deve ser bloqueada para se gerar número sem incorporação, como em DOIS MENINO,

se gerar número sem incorporação, como em DOIS MENINO, em que o numeral não se incorpora,

em que o numeral não se incorpora, deve haver uma especificação na entrada vocabular para indicar que uma dada raiz, no caso √MENINO não pode aparecer na presença de certos traços. Essa proposta deve dar conta das diferentes possibilidades de incorporação de numeral nas línguas de sinais e será discutida com mais detalhes na seção 5 deste trabalho.

2. Incorporação de numeral nas línguas de sinais

O fenômeno da incorporação de numeral é um fenômeno já bastante estudado em diversas línguas de sinais do mundo, como mencionamos acima e como veremos mais detalhadamente adiante, em 2.1, com base na literatura, Em 2.2, trazemos uma discussão do que já foi dito sobre incorporação de numeral na libras.

2.1 Incorporação de numeral em algumas línguas de sinais 2.1.1 Schuit (2007)

Schuit (2007) trata a incorporação de numeral como uma construção morfológica na qual um elemento lexical, um sinal, se adiciona a outro e a construção resultante é uma única palavra. Ele ressalta que a incorporação de numeral ocorre mais frequentemente com sinais que denotam tempo. Esse autor descreve a incorporação de numeral a partir de trabalhos sobre as línguas de sinais holandesa (NGT), americana (ASL), britânica (BSL), argentina

309

(Argentine SL) e catalã (Catalan SL), e procura verificar se características encontradas em

incorporação de nome, já bastante discutido nas línguas orais, também se repetem em

incorporação de numeral.

Primeiramente, ele mostra que na NGT é possível sinalizar “três semanas”, por

exemplo, com ou sem incorporação, o que mostra que incorporação é opcional. Além disso,

destaca que incorporação de numeral apresenta distribuição limitada, ou seja, é um fenômeno

que no geral ocorre com números de um a cinco, com menos frequência de seis a nove e

nunca com números a partir de dez. Isso se dá, pois, o número dez, por exemplo, em algumas

línguas de sinais apresenta a mesma configuração de mão que o número cinco, porém com

movimento e orientação diferentes. O autor ressalta que, nesse caso, a incorporação desse

número poderia causar ambiguidade. Em outros dialetos, números de dez a vinte são

sinalizados com ambas as mãos ou apresentam movimento, o que também impossibilita a

incorporação.

2.1.2 Mathur & Rathmann (2011)

Mathur & Rathmann (2011) descrevem o processo de incorporação de numeral em

língua de sinais alemã (DGS), americana (ASL) e japonesa (Nihon Shuwa) e mostram que o

sinal com o número incorporado, pega sua configuração de mãos do numeral, e a localização

e movimento do outro sinal, formando, assim, o sinal incorporado, como em (1) 112 :

(1)

Numeral

Sinal CMb PAb Mb Incorporação de Numeral CMa PAb Mb

Sinal CMb PAb Mb Incorporação de Numeral CMa PAb Mb CMa PAa Ma Ainda, afirmam que
CMa PAa Ma
CMa
PAa
Ma

Ainda, afirmam que em algumas línguas de sinais há a possibilidade de incorporação

parcial de números maiores que dez. Nesses casos, apenas o segundo membro do numeral,

como o número dois em “doze”, é incorporado. Para esses casos, eles propõem:

112 Tradução nossa.

310

(2)

Numeral Sinal CMa CMb CMc PAa PAc Ma Mb Mc Md CMa Incorporação de Numeral
Numeral
Sinal
CMa
CMb
CMc
PAa
PAc
Ma
Mb
Mc
Md
CMa
Incorporação de Numeral
CMb
PAa
PAc
Ma
Mc
Md

O primeiro membro do numeral é completamente sinalizado e a CM do segundo

numeral é incorporada no sinal que mantém seu PA e seus dois Ms.

2.2 Incorporação de numeral na libras

2.2.1 Brito [1995] (2010)

Brito [1995] (2010) é a primeira autora a fazer uma descrição mais detalhada da

LIBRAS. Muito do que é discutido naquele trabalho toma como base estudos da ASL e uma

observação minuciosa dos fenômenos que ocorrem na libras.

Essa autora considera principalmente os três parâmetros principais, apresentados em

Stokoe (1960): CM, PA e M. Ela menciona que o processo de incorporação de numeral é

produtivo na libras.

2.2.2 Quadros & Karnopp (2004)

Quadros & Karnopp (2004) trazem uma breve descrição do processo de incorporação

na libras com base em descrições da ASL, como Rathmann & Mathur (no prelo) 113 . As

autoras afirmam que na libras a incorporação se dá a partir da CM do numeral que é

incorporado no sinal que mantém seu PA e M. Elas apontam os exemplos: DIA, MÊS e

HORA para ilustra a incorporação de numeral na libras.

113 Que citamos neste trabalho como Mathur & Rathmanm (2011).

311

3. Morfologia Distribuída

A MD é um dos desenvolvimentos mais recentes da Teoria Gerativa que assume que a

formação de palavras e sentenças se dá no único componente gerativo da arquitetura da

gramática, o componente sintático. Não há, nesse modelo, um componente lexical com caráter

gerativo. O que, em modelos anteriores, era resolvido no léxico, na MD, é distribuído pelos

outros componentes da gramática. A gramática é organizada como mostra a figura abaixo. A

Estrutura Morfológica (MS, do inglês Morphological Structure) faz interface com a sintaxe e

com a fonologia. A fonologia é vista como o componente interpretativo que realiza

representações sintáticas fonologicamente.

(3)

Arquitetura da gramática DS (D-Structure)

|

SS (S-Structure)

3

(Logical Form) LF

|

MS (Morphological Structure)

PF (Phonological Form)

(Halle & Marantz, 1993, p.114)

Há três propriedades centrais que definem essa teoria:

i) Inserção Tardia – categorias sintáticas são puramente abstratas, não têm conteúdo

fonológico. A expressão fonológica dos nós terminais sintáticos é inserida apenas no

mapeamento para a Forma Fonológica (PF, do inglês Phonological Form);

ii) Subespecificação de Itens de Vocabulário – as expressões fonológicas não precisam

ser completamente especificadas para as posições sintáticas em que vão se inseridas. Os Itens

de Vocabulário (IVs) podem ser formas default inseridas quando um item mais especificado

não estiver disponível; e,

iii) Estrutura Hierárquica Sintática All The Way Down – elementos da sintaxe e da

morfologia entram nos mesmos tipos de estrutura constituintes.

A sintaxe opera (move e merge) sobre os traços morfossintáticos selecionados do

inventário disponível. Os IVs competem para inserção nos nós terminais e o item mais

especificado ganha essa competição.

312

Halle & Marantz (1993) mostram que dois tipos de competição podem ocorrer na

inserção de vocabulário: inserção livre de contexto e dependente de contexto, ou alomorfia

condicionada. Os autores apresentam os IVs de passado do inglês, como mostramos em (4):

(4)

[+past] ↔ -Ø / [+forte] [+past] ↔ /-t/ / [-forte] [+past] ↔ /-d/

(Halle & Marantz, 1993, p. 123)

Nessa análise, os alomorfes de passado -t e Ø têm precedência sobre –d, pois, –t e Ø

impõem condições sobre a raiz verbal, enquanto –d é a forma inserida nos demais casos.

Siddiqi (2009) adota o aparato teórico da DM, mas toma uma perspectiva um pouco

diferente em relação às operações em MS e spell-out. Ele adiciona uma condição de economia

na gramática: Exponência Minimizada – a derivação mais econômica será aquela que realiza

maximamente todos os traços formais da derivação com o menor número de morfemas.

(5)

a. Entrada de vocabulário para speak (“falar”) 114 √SPEAK → speak

 

[v]

/spik/

b. Entrada de vocabulário para spoke (“falou”)

 

√SPEAK → spoke

 

[v]

/spowk/

[past]

c. Entrada de vocabulário para speech (“discurso”) √SPEAK → speech

 

[n]

/spit∫/

(SIDDIQI, 2009, p. 39)

(6)

John spoke (“John falou”).

114 Tradução nossa.

313

313 (7) John speaks (“John fala”). (SIDDIQI, 2009, p. 39) (SIDDIQI, 2009, p. 48) Se a

(7)

John speaks (“John fala”).

313 (7) John speaks (“John fala”). (SIDDIQI, 2009, p. 39) (SIDDIQI, 2009, p. 48) Se a

(SIDDIQI, 2009, p. 39)

(SIDDIQI, 2009, p. 48)

Se a raiz √SPEAK pode deixar de fundir com [PRESENT] para resultar em speak, prevemos que ela também pode falhar e não fundir com [PAST] e resultar em *speaked. Assim, a fusão deve ser bloqueada para disparar morfologia regular, mas deve ser permitida em casos de supleção.

314

Siddiqi (op. cit.) propõe uma especificação

aparecer na presença de certos traços.

(8)

a. Entrada de vocabulário para speak 115 √SPEAK → speak

[v]

/spik/

┐[3sg]

b. Entrada de vocabulário para spoke √SPEAK → spoke

[v]

/spowk/

[past]

c. Entrada de vocabulário para speech

√SPEAK → speech

[n] /spit∫/

vocabulário para speech √SPEAK → speech [n] /spit∫/ para indicar que um dado IV não pode

para indicar que um dado IV não pode

(SIDDIQI, 2009, p. 51)

Essa análise leva a crer que há duas derivações diferentes competindo: uma na qual o

traço [3sg] funde, e uma onde ele não funde. Deve haver essas duas derivações, uma que

funde outra que não funde, para todas as sentenças.

(9)

John ate.

funde outra que não funde, para todas as sentenças. (9) John ate. 1 1 5 Tradução

115 Tradução nossa.

(SIDDIQI, 2009, p. 52)

315

(10)

*John eated.

315 (10) *John eated. (SIDDIQI, 2009, p. 53) Exponência Minimizada é uma restrição usada para a

(SIDDIQI, 2009, p. 53)

Exponência Minimizada é uma restrição usada para a escolha da derivação mais econômica entre duas derivações com os mesmos traços formais. Essa é a derivação que vai convergir.

4. Incorporação de numeral na libras: nossos dados 4.1 Metodologia de coleta de dados

Primeiramente, observamos e coletamos dados em contexto natural, em conversas com membros da comunidade surda, fluentes no uso da libras, ou seja, “sinalizantes nativos”. Para este primeiro trabalho, fizemos uma gravação com dois informantes Surdos 116 com o intuito de confirmar a produtividade de alguns dados já observados em uso e ilustrar os sinais mencionados neste trabalho, com ou sem incorporação. Para a coleta de dados de forma espontânea, mostramos figuras e quadrinhos, sem o uso da língua portuguesa escrita nem

116 Agradecemos aos sinalizantes Daniel e Ricardo pelos dados gravados e pelas discussões sobre o tema deste trabalho.

316

datilologia, e pedimos para nossos informantes nos contarem uma história ou explicarem a situação expressa na ilustração. Dessa forma, os dados necessários foram eliciados. Para trabalho futuro, pretendemos coletar dados de mais membros da comunidade surda através de gravações que estão disponíveis no site Youtube, e também pretendemos fazer gravações de conversas (entrevistas) com tema dirigido para confirmarmos o uso de alguns dados em contextos específicos.

4.2 Breve descrição dos dados

Nas gravações realizadas, observamos a sinalização dos dados: HORA, HORA (duração), DIA, SEMANA, MÊS, ANO, REAL, descritos brevemente abaixo. Por uma questão de espaço, não poderemos incluir fotos de todos os sinais neste artigo, então, apenas chamamos atenção para alguns deles e descrevemos outros observando a CM, que é o que vai mudar nos casos de incorporação de numeral. Dividimos os sinais com ou sem incorporação de número em quatro grupos, sendo:

i) número 1 pertencente à forma base do sinal – esses são sinais realizados com a CM do número 1 (um fonema); neste caso, consideramos que a CM faz parte do sinal substantivo, logo, esses são sinais sem incorporação do número 1:

(11) HORA (Duração): CM em “1”, PA na frente da face, M circular 117

CM em “1”, PA na frente da face, M circular 1 1 7 (12) DIA: CM
CM em “1”, PA na frente da face, M circular 1 1 7 (12) DIA: CM

(12) DIA: CM em “1” ou em “D”, PA na lateral da testa, M semicircular para frente

117 Neste exemplo em especial há a expressão facial e uma repetição do movimento que indica “muitas horas”.

317

317 (13) MÊS: uma mão CM em “1” e a outra em “A”, PA na frente
317 (13) MÊS: uma mão CM em “1” e a outra em “A”, PA na frente

(13) MÊS: uma mão CM em “1” e a outra em “A”, PA na frente do corpo, M retilíneo da mão com CM em “A” de cima para baixo

M retilíneo da mão com CM em “A” de cima para baixo (14) a. HORA: CM
M retilíneo da mão com CM em “A” de cima para baixo (14) a. HORA: CM

(14)

a. HORA: CM em 1, PA apontando para o pulso na frente do corpo, M circular.

b. SEMANA: CM em 1, PA na frente do corpo, M retilíneo para frente.

ii) sinal com incorporação do número 1 – esses são sinais em que a CM base não é formada pela CM do número “1”, (15)a, assim, quando a CM “1” (nesse caso um morfema numeral) é acrescentada no sinal, tem-se incorporação de numeral, como em (15)b; (15) a. ANO: CM em “S”, PA uma mão sobre a outra na frente do corpo, M circular de uma mão em torno da outra.

b. UM-ANO: CM em “S” e em “1”, PA uma mão sobre a outra na frente do corpo, M

circular da mão que está por cima (com a CM em “1”) em torno da outra mão.

iii) sinal com incorporação dos números de 2 a 9 – esses são os mesmos sinais apresentados em i) e ii) que podem incorporar os números de 2 a 9, mas não obrigatoriamente.

318

Frequentemente observamos a incorporação até o número 4. Ocasionalmente há incorporação

de 5 a 9, como acontece em outras línguas de sinais. Com números acima de 10 não

observamos incorporação parcial, como acontece em outras línguas de sinais 118 .

iv) sinal sem incorporação de número – todos aqueles que não incorporam a CM de

nenhum numeral, como no exemplo em (16).

(16) CARRO: CM em “S”, PA mãos na frente do corpo, M para cima e para baixo alternado.

Nesse sinal a forma DOIS CARRO seria sinalizada separadamente: primeiramente, o

numeral e depois o sinal CARRO.

5. Nossa análise: Incorporação de numeral da libras na Morfologia Distribuída

Dentro do modelo teórico da MD, usamos a proposta de Siddiqi (2009) de fusão para a

formação de um nó complexo para explicar como se dá a incorporação na libras. Seguindo

esse autor, consideramos Exponência Minimizada – a derivação mais econômica será aquela

que realiza maximamente todos os traços formais da derivação com o menor número de

morfemas. Conforme mostramos em (17), a fusão da raiz √ANO, com traços [n] e [dual] leva

ao processo de incorporação de numeral.

(17)

a.

NumP

2

[dual] n 2 [n] √ANO b. NumP 2 n 2 √ANO [n] [dual] Competição Pouco
[dual]
n
2
[n]
√ANO
b.
NumP
2
n
2
√ANO
[n]
[dual]
Competição Pouco especificado
Pouco especificado
Candidato inserido

ANO: √ANO [n] DOIS: [dual] DOIS-ANO: √ANO [n] [dual]

118 Dedino (2012) relata a incorporação do número 10 em: DIA, HORA, MÊS, POR-HORA, REAL e SEMANA, apresentados em gráfico. Porém, tais dados não foram ilustrados em seu trabalho e a coleta de dados não foi feita a partir de sinalização espontânea. Ressaltamos que em todos os dados que analisamos a incorporação de numeral foi observada até o número 9 e em alguns exemplos apenas. Uma pesquisa mais aprofundada deve ser feita para que possamos verificar a possibilidade de incorporação de numeral superior a 10 em alguma variedade da libras.

319

Dada a existência de exemplos com uma raiz que não sofre incorporação, como

√MENINO, em (18), prevemos que se √MENINO pode deixar de fundir com [dual] para

resultar em DOIS MENINO, a fusão também pode falhar com √ANO e resultar em ?DOIS

ANO.

(18)

a.

NumP

2

[dual] n 2 [n] √MENINO b. NumP 2 [dual] n 2 √MENINO [n]
[dual]
n
2
[n]
√MENINO
b.
NumP
2
[dual]
n
2
√MENINO
[n]

Assim, em alguns casos a fusão deve ser bloqueada, para gerar número sem

incorporação, mas deve ser permitida nos casos em que há incorporação. Então, propomos

uma especificação “ ” na entrada vocabular para indicar que uma dada raiz não pode

aparecer na presença de certos traços, como em (19).

(19)

aparecer na presença de certos traços, como em (19). (19) a. Entrada vocabular com incorporação: √HORA,

a. Entrada vocabular com incorporação:

√HORA, √DIA, √SEMANA, √MÊS, √ANO, √REAL

= TRÊS-HORA, DOIS-DIA

[n]

[singular], [dual], [trial], [quatrial]

b. Entrada vocabular sem incorporação:

√BOLA, √CARRO, √MENINO

= TRÊS BOLA, DOIS CARRO

[n]

√BOLA, √CARRO, √MENINO = TRÊS BOLA, DOIS CARRO [n] [singular], [dual], [trial], [quatrial] Essa proposta deve

[singular], [dual], [trial], [quatrial]

Essa proposta deve dar conta das diferentes possibilidades de incorporação de numeral

nas línguas de sinais.

6. Conclusões

320

Neste trabalho, discutimos como funciona a incorporação de numeral na libras e apresentamos uma proposta formal, dentro do arcabouço teórico da MD, para os dados apresentados. Retomando as questões apresentadas no começo deste trabalho, mostramos que os numerais na libras, no geral, se incorporam a nomes que remetem a um significado de tempo. Como vimos, esses nomes são: HORA (duração), HORA, DIA, SEMANA, MÊS e ANO; além disso, observa-se incorporação também em um nome que remete a um significado de “dinheiro”, REAL. A incorporação no geral se dá até o número 4 e pode variar em alguns casos incorporando até 9. Mostramos também que nenhum caso de incorporação parcial, ou seja, com números acima de 10, foi encontrada. Sobre a segunda questão levantada, como a incorporação se dá, vimos que, assim como ocorre em outras línguas de sinais (MATHUR & RATHMANN, 2011), na libras o sinal com o número incorporado pega sua configuração de mãos do numeral, e a localização e o movimento do outro sinal. Ainda não foi possível saber se há formalmente alguma diferenciação entre incorporação do número na mão dominante ou na mão não-dominante, assim, as questões 2b e 2c ficam para pesquisa futura. Sobre a proposta morfossintática no modelo da MD para a incorporação de numeral, mostramos que usando a teoria de formação de núcleos complexos apresentada por Siddiqi (2009) damos conta de explicar esse processo morfológico. Precisamos ressaltar que dentro dessa análise uma questão ainda deve ser colocada:

A- Como podemos dar conta da opcionalidade de incorporação no sinal? B- A teoria que adotamos neste trabalho tem meios de explicar tal opcionalidade? Essas questões são importantes dado o fato de que, em contextos enfáticos, por exemplo, um indivíduo poderia sinalizar “4 anos”, QUATRO-ANO, de uma outra forma, sem incorporação, como: QUATRO ANO. Nesse caso, há ênfase através da expressão facial e da lentidão e/ou repetição do movimento para o numeral QUATRO. Este ponto fica para pesquisa futura.

7. Referências

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321

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323

323 O COMPORTAMENTO MORFOLÓGICO E SEMÂNTICO DE VERBOS TERMINADOS EM - ICAR E –ISCAR NO PORTUGUÊS

O COMPORTAMENTO MORFOLÓGICO E SEMÂNTICO DE VERBOS

TERMINADOS EM -ICAR E –ISCAR NO PORTUGUÊS BRASILEIRO:

DIMINUTIVIZAÇAO E PLURALIDADE

Paula Roberta Gabbai Armelin 119 Universidade de São Paulo (USP)

Resumo: este trabalho investiga o comportamento morfológico e semântico de verbos terminados em –icar e –iscar no português brasileiro, tais como em saltaricar e mordiscar. Morfologicamente, propomos que os dados em análise apresentam comportamentos diferentes. Enquanto as formações em -icar estão em relação derivacional com contrapartes verbais simples, os verbos terminados em –iscar são derivados a partir de nomes terminados com o morfema de diminutivo –isco. Semanticamente, tratamos as formações em –iscar e –icar como pluracionais e, a partir daí, baseados em Cusic (1981) e Tovena & Kihm (2008), trazemos várias características dessa pluralidade. Uma das propriedades detectadas nas formações em questão é a interpretação de diminutivo. Para dar conta desse fato, a nossa proposta é a de que, apesar de o efeito semântico ser o mesmo, ele é derivado de maneiras diferentes nos dois conjuntos de dados. Assim, nos verbos em –iscar, a diminutivização é fruto da presença do morfema -isco de diminutivo. Já nas formações em –icar, a própria pluralização das fases é que desencadeia a interpretação de diminutivo. Mais especificamente, como a multiplicação de fases se dá internamente às fronteiras do evento, para não ultrapassar tal fronteira há um efeito de diminuição dos subeventos que o compõem.

Palavras-chave:

Pluralidade

Verbal;

Diminutivos;

Morfologia

Derivacional;

Português

brasileiro.

Introdução

119 Agradecimentos ao CNPq (Processo 140146/2011-3) pelo apoio financeiro concedido à pesquisa, ao Grupo de Estudos em Morfologia Distribuída da USP (GREMD) pelas valiosas discussões, bem como aos pareceristas anônimos pelas contribuições.

324

Neste trabalho investigamos o comportamento morfossemântico de verbos formados

pelos sufixos –iscar e –icar no Português brasileiro (PB), tal como em mordiscar e bebericar,

por exemplo. Crucialmente, há em todas essas formações a interpretação de que o evento

denotado por tais verbos é composto por uma pluralidade de subeventos. No entanto, é

bastante interessante o fato de que há uma interpretação de diminutivo associada a cada um

dos subeventos que compõem tal pluralidade. Assim, a denotação de mordiscar, por exemplo,

é um conjunto formado por ‘pequenas mordidas’, ou por ‘pequenos subeventos de morder’,

do mesmo modo que a denotação de bebericar é um conjunto formado por ‘pequenos goles’,

ou mais precisamente, por ‘pequenos subeventos de beber’.

(1) Representação das denotações:

a. Evento de mordiscar = {pequena mordida 1 , pequena mordida 2 , pequena mordida 3 , etc.} b. Evento de bebericar = {gole pequeno 1 , gole pequeno 2 , gole pequeno 3 , etc.}

Para explicar essas duas propriedades detectadas nas formações em questão, a saber, a

pluralidade dos subeventos e a interpretação de diminutivo, a análise proposta neste trabalho

está dividida em duas etapas, sendo uma delas morfológica e a outra semântica. Do ponto de

vista morfológico, será necessário investigar a que tipo de categoria morfológica pertencem

-iscar e -icar.

A partir do recorte morfológico passamos, então, para a análise semântica, na tentativa

de detectar, exatamente, qual elemento da formação morfológica é que desencadeia a

semântica de pluralidade dos subeventos que compõem o evento denotado pelos verbos

formados em –iscar e –icar. Nesse mesmo sentido, buscamos detectar qual elemento da

formação morfológica é responsável pelo efeito de diminutivo encontrado nas formações em

questão. Assim, será necessário, do ponto de vista semântico, entender quais são as

propriedades e restrições que caracterizam essa pluralidade. Para tanto, tomamos dois

trabalhos específicos como base teórica: Cusic (1981) e Tovena & Kihm (2008).

Este artigo está dividido da seguinte maneira: na seção (2) trazemos uma apresentação

dos dados, explicitando a metodologia de formação do corpus. Já na seção (3), expomos o

embasamento teórico sobre o qual nossa análise se desenvolve, a saber, os trabalhos de Cusic

(1981) e de Tovena & Kihm (2008). Para cada um dos trabalhos em questão há uma subseção

específica de confronto com os dados do PB. A seção (4), por sua vez, é composta pela

análise morfológica e pela análise semântica que propomos para dar conta os verbos formados

325

com –iscar e –icar no PB. Por fim, trazemos, na seção (5), as considerações finais que encerram este trabalho.

2. Apresentação dos dados

O corpus que analisaremos neste artigo foi selecionado através do dicionário Houaiss, em sua versão eletrônica de 2008. Utilizando a ferramenta de busca disponibilizada pelo dicionário, procuramos por todas as palavras terminadas em –icar e –iscar. A partir daí, selecionamos somente aquelas que apresentam interpretação pluracional. Os resultados podem ser vistos abaixo:

2.1 Palavras terminadas em -icar

A busca inicial por palavras terminadas em –icar retormou 404 formações, entre as quais selecionamos os dados abaixo:

Formação

Significado

Bebericar

Beber a goles pequenos <bebericou calmamente um licor>; beber pouco, mas em ação repetida, frequente <o passarinho bebericava (a sua água) na bacia do jardim>

Cosicar

realizar pequenas costuras <gostava de cosicar na varanda da casa>

Debicar

Comer aos bocadinhos, pequena quantidade de; beliscar, provar <o menino não jantou, só debicou (em) alguns biscoitos>

Depenicar

1. desprender aos poucos, penas ou pelos do corpo de <depenicar uma galinha> 2 comer aos poucos, saboreando pequenas porções petiscar, lambiscar <depenicou (em) um prato de batatas fritas>

Mordicar

morder de leve e repetidas vezes; mordiscar

Namoricar

namorar passageiramente ou sem intenções mais sérias; namoriscar <namoriscar não é com ele, suas paixões são sérias e profundas>

Paparicar

comer pouco ou aos poucos <levou horas a paparicar doces de amêndoas>

Saltaricar

dar saltinhos

Tossicar

tossir fraca e repetidamente; tossir levemente

Tremelicar

tremer ou fazer tremer continuamente <o vapor tremelicava a tampa da panela>

Quadro 1 – dados com verbos terminados em –icar.

2.2 Palavras terminadas em -iscar

A busca inicial por palavras terminadas em -iscar retornou 45 formações, entre as quais selecionamos os dados abaixo:

Formação

Significado

Ciscar

remexer (solo), revolver cisco <uma galinha ciscava o chão>

Chapiscar

aplicar uma camada de chapisco a (parede, muro) usando a colher de pedreiro para lançá-lo em golpes repetidos

326

Chuviscar

chover pouco, a intervalos <chuviscou o dia inteiro>

Faiscar

lançar ou fazer (faíscas, centelhas, clarões) <no momento do curto, os aparelhos elétricos faiscaram>

Lambiscar

comer pouco, sem apetite, ou em pequenas porções entre uma e outra refeição; provar, beliscar

Mordiscar

morder de leve e repetidas vezes

Namoriscar

namorar passageiramente ou sem intenções mais sérias; namoriscar

Neviscar

nevar pouco

Peniscar

comer pouco e sem demonstrar apetite

Petiscar

comer um pouco, apenas para provar ou por falta de apetite <ela petiscou (a salada)>

Rabiscar

cobrir de rabiscos <a criança ficou horas rabiscando>

Troviscar

trovejar pouco

Quadro 2 – dados com verbos terminados em –iscar.

3. Discussão Teórica

A discussão teórica deste artigo está baseada em dois trabalhos, a saber, Cusic (1981), que propõe parâmetros na análise da pluracionalidade tranlinguisticamente, e Tovena & Kihm (2008), que se debruçam sobre a pluracionalidade interna de dados do francês e do italiano.

3.1 Os Parâmetros de Cusic (1981)

No que diz respeito à pluralidade de eventos, é preciso ressaltar que há uma vasta possibilidade de interpretação exibida pelos marcadores verbais nas línguas do mundo. No entanto, tal variação não parece ser arbitrária, já que é possível reconhecer nos marcadores pluracionais uma classe que apresenta semelhanças de comportamento. É nessa linha de raciocínio que Cusic (1981) propõe que a variação de interpretação dos marcadores pluracionais resulta da interação entre quatro parâmetros, a saber: (a) parâmetro da fase/evento/ocasião; (b) parâmetro da medição relativa; (c) parâmetro de conectividade e (d) parâmetro de distributividade. Tais parâmetros serão discutidos juntamente com os dados analisados neste trabalho.

3.2 Os Parâmetros de Cusic e os dados em –iscar e –icar

Quanto ao parâmetro da fase/evento/ocasião é crucial notar que a pluralidade dos verbos formados em –iscar e –icar é uma pluralidade interna ao evento, ou seja, as

327

fases que compõem o evento é que são plurais. A diferença de denotação entre a

pluralidade do evento e a pluralidade das fases pode ser vista na representação abaixo:

(2) Pluralidade de eventos com -iscar:

Chuviscou várias vezes hoje. [[chuviscar]]: {chuviscar 1 , chuviscar 2 , chuviscar 3 , etc}

(3) Pluralidade de fases com -iscar:

Chuviscou uma vez hoje. [[chuviscar]]: {chover pouco 1 , chover pouco 2 , chover pouco 3 , etc}

O marcador adverbial ‘várias vezes’ na sentença em (2) deixa clara a interpretação de

que há mais de um evento. Em (2) temos, portanto, o que Cusic (1981) propôs ser uma

pluralidade externa. Já o marcador ‘uma vez’ na sentença em (3) explicita a singularidade do

evento: o evento de ‘chuviscar’ ocorreu uma única vez. Dentro dessa singularidade de evento,

há, no entanto, uma interpretação plural interna a ele. Tal pluralidade interna é resultado da

multiplicação das fases do evento. O mesmo ocorre para os verbos terminados em –icar:

(4) Pluralidade de eventos com -icar:

O passarinho bebericou a água várias vezes.

[[bebericar]]: {bebericar 1 , bebericar 2 , bebericar 3 , etc}

(5) Pluralidade de fases com -icar:

O passarinho bebericou a água uma única vez hoje.

[[bebericar]]: {pequeno gole 1 , pequeno gole 2 , pequeno gole 3 , etc}

O marcador adverbial ‘várias vezes’ em (4) deixa clara a existência de mais de um

evento, ao passo que o marcador ‘uma única vez’ em (5) assegura que estamos diante de um

único evento. Dentro desse evento singular em há, no entanto, uma pluralidade que é interna a

ele e explicada por uma multiplicação das fases que o compõem. Assim, as formações

terminadas tanto em –iscar, como em –icar trazem uma pluralidade que se dá internamente

às fronteiras do evento.

Primeira generalização semântica: -iscar e –icar são unidades morfossemânticas que pluralizam a fase e mantém o evento singular.

No que diz repeito ao parâmetro da medida relativa, uma fato interessante é que as

fases do evento são carregadas de uma interpretação de diminutivo, tanto para as formações

com –icar quanto para aquelas em –iscar. Assim, as fases de ‘saltaricar’ são ‘pequenos

saltos’; as fases de ‘tossicar’ são ‘pequenas tosses’. Desse mesmo modo, as fases que

328

compõem ‘mordiscar’ são’ pequenas mordidas’. Note que os saltos contidos em ‘saltaricar’ e

as mordidas contidas em ‘mordiscar’ são, de alguma maneira, menores em intensidade do que

os nomes ‘salto’ e ‘mordida’ denotam na língua. Assim, as fronteiras de tempo do evento

visto como um todo são mantidas constantes, havendo um efeito de diminuição que atua sobre

as fases 120 .

efeito de diminuição que atua sobre as fases 1 2 0 . ao quanto as fases

ao quanto as fases plurais que compõem os eventos podem ou não estar separadas por

intervalos de tempo:

(6) Contexto: O João deu uma pequena mordida no pão às 10h. Voltou às 11h e deu outra pequena mordida. Voltou às 13h e deu outra pequena mordida. Voltou às 17h e deu outra pequena mordida.

Sentenças:

(a)

O João mordiscou o pão.

(a) O João mordiscou o pão. Verdadeira

Verdadeira

(b)

O João mordiscou o pão várias vezes.

Falsa

Note que a soma das ‘pequenas mordidas’ torna a sentença verdadeira, ainda que as

fases estejam separadas no tempo. Como ‘mordiscar’ é necessariamente composto de fases

plurais, cada ‘pequena mordida’ não é um evento de ‘mordiscar’, o que torna a sentença em

(b) falsa. É importante notar que ‘mordiscar’ é um verbo transitivo. Vejamos agora o que

acontece quando estamos diante de um verbo não possui argumento interno:

(7) Contexto: A criança deu um pequeno salto às 10h. Às 11h deu outro pequeno salto. Às 13h deu outro pequeno salto. Às 17h outro pequeno salto. Sentenças:

(a)

A criança saltaricou.

Falsa(a) A criança saltaricou.

(b)

A criança saltaricou várias vezes.

Falsa(b) A criança saltaricou várias vezes.

Quando temos um verbo intransitivo como ‘saltaricar’ parece haver necessidade de

conectividade das fases no tempo, o que justifica a falsidade da sentença em (7a). Parece,

então, que o objeto direto é que possibilita a separação das fases no tempo: mantendo

120 Como veremos adiante, tal noção de diminutivo foi detectada em Tovena & Kihm (2008) para os dados do francês e do italiano.

329

constante o argumento interno, as fases podem ser separadas no tempo; em não havendo

argumento interno é necessário que as fases estejam, por sua vez, conectadas no tempo. Já a

falsidade de (7b) é explicada pela necessidade de que os eventos formados por –icar e –iscar

sejam compostos por uma pluralidade de fases. Assim cada ‘pequeno salto’ não constitui em

si um evento de ‘saltaricar’. Dessa maneira, nos dois contextos delineados acima, sentenças

formadas por verbos terminados em –icar ou em –iscar são falsas se o evento não é formado

por uma pluralidade de subeventos.

o evento não é formado por uma pluralidade de subeventos. dados em análise. Um primeiro ponto

dados em análise. Um primeiro ponto a se ressaltar é que a pluralidade interna aos eventos

terminados em –icar e –iscar não depende de marcas morfológicas de plural em nenhum dos

argumentos:

(8) Argumento interno singular/ Argumento externo singular

(a)

O menino mordiscou um biscoito.

(b)

O menino bebericou uma cerveja.

Em (8a) e (8b) temos um exemplo com –iscar e um exemplo com –icar,

respectivamente. Em ambos, o argumento interno e o argumento externo são singulares. A

interpretação da pluralidade de fases, no entanto, é um requerimento dessas formações.

Assim, nas sentenças acima há um único evento, mas esse evento é composto, internamente,

por várias fases.

Quarta generalização semântica: a pluralidade de fases das formações em –icar e – iscar não depende da pluralidade dos argumentos.

O cenário fica consideravelmente diferente com a pluralização do argumento interno.

Vamos aos exemplos:

(9) Argumento interno plural/ Argumento externo singular

(a)

O menino mordiscou os biscoitos.

(b)

O menino bebericou as cervejas.

Em (9a) e (9b) temos sentenças com o argumento interno plural e o argumento externo

singular. O resultado dessa combinação é a interpretação de que há mais de um evento: para

cada biscoito em (9a) há um evento de mordiscar; enquanto para cada cerveja em (9b) há um

330

evento de bebericar. Assim, o que acontece nos exemplos acima é que a pluralidade do

argumento interno multiplica a quantidade de eventos. Trata-se de uma pluralidade externa,

diferente da pluralidade desencadeada pelas formações em –icar e –iscar. A pluralidade de

eventos dos exemplos acima parece ser distribuída a partir dos argumentos internos. Então,

para cada evento de ‘mordiscar’, por exemplo, parece ser necessário que o argumento interno

seja fixo, ou seja, é necessário que o argumento interno seja mantido constante.

Quinta generalização semântica: os eventos com –iscar e –icar são singularizados a partir do argumento interno.

Vejamos agora alguns dados em que o argumento externo é pluralizado, mas o

argumento interno é mantido singular:

(10)

Argumento interno singular/ Argumento externo plural

(a)

Os meninos mordiscaram um biscoito.

(b)

Os meninos bebericaram uma cerveja.

Nas sentenças em (10a) e (10b) acima duas interpretações são possíveis. Uma delas é a

interpretação distributiva. Assim, em (10a) para cada menino há um evento de ‘mordiscar um

biscoito’ e, em (10b), para cada menino há um evento de ‘bebericar uma cerveja’. Outra

interpretação possível é a coletiva. Nesse caso em (10a) houve um único evento de ‘mordiscar

um biscoito’ e os meninos o fizeram coletivamente e em (10b) houve um único evento de

‘bebericar uma cerveja’ e os meninos o fizeram juntos.

Sexta generalização semântica: a pluralidade do argumento externo desencadeia leituras distributivas ou coletivas.

Uma vez discutidas as propriedades em –icar e-iscar através dos parâmetros de Cusic

(1981), vamos à analise feita por Tovena & Kihm (2008) para dados do italiano e do francês.

3.3 Tovena & Kihm (2008): dados do italiano e do francês

Tovena & Kihm (2008) analisam verbos do francês, como mordiller, e do italiano

como mordicchiare como verbos pluracionais. Do ponto de vista morfológico, os autores

argumentam que tais dados não são formados por processo derivacional, na medida em que

331

não é possível recortar em tais formações em dois morfemas como /mord/ + /ikky/, por exemplo. Os argumentos para tal análise são os seguintes:

(A)

Presença massiva de verbos que apresentam uma dessas terminações especiais, sentido pluracional, mas não podem ser pareados com verbos simples sem a terminação em questão. Assim, em grande quantidade dos casos não há um verbo simples do qual tais formações podem ser derivadas.

(B)

Exuberância formal da classe comparada à relativa uniformidade semântica de seus membros, ou seja, há muitas terminações que multiplicam as fases de um evento singular. Segundo os autores, são pelo menos nove no francês e quatorze no italiano. Apesar da grande quantidade de formas, o efeito semântico é único: pluralidade de fases;

(C)

Derivações verbo-verbo nas línguas românicas são, em geral, feitas por elementos prefixais. Assim, não é comum em línguas desse tipo que verbos derivem outros verbos a

partir de um sufixo;

(D)

Todos os verbos simples – em francês e italiano – pertencem à primeira conjugação, enquanto os verbos não-pluracionais correspondentes podem pertencer a qualquer classe. A classe de conjugação é, segundo os autores, propriedade de uma base simples, o que sugere que as sequências fonológicas que pluralizam as fases são, no italiano e no francês, parte de uma base simples e não elementos de uma derivação.

A partir desses argumentos, a análise dos autores é que mordiller, mordicchiare e outros pluracionais desse tipo não são formas derivadas de suas contrapartes simples (mordre

e mordere), mas sim formas de palavras que possuem bases simples. Para sustentas tal

análise, faz-se necessária uma regra que associe as respectivas terminações às suas

contrapartes simples. O que os autores buscam, então, é explicar a ligação estreita que há entre mordiller (‘mordiscar’) e mordre (‘morder’), por exemplo. Do ponto de vista semântico, os autores propõem que o submorfema pluracional codifica duas operações de decomposição: (i) o evento é igualado com a pluralidade das fases

e (ii) pelo menos um participante é decomposto em partes e as fases são tipos de subeventos

que afetam partes desse participante. As duas propriedades centrais que buscamos explicar nos dados com –iscar e –icar do PB também são detectadas pelos autores nos dados do francês e do italiano, a saber, a pluralidade envolvida nas formações em questão é uma pluralidade de fases e, em cada fase, também é encontrado um efeito de diminutivização. Acoplado à ideia de que é a fase e não o

evento em si que é pluralizado, os autores detectam uma série de propriedades semânticas

332

nesses elementos. Uma delas é que a pluralidade interna apresentada por essas formações é independente de qualquer pluralidade expressa na posição de argumento. Além disso, os autores propõem uma restrição de participante único para cada papel temático: argumento interno e argumento externo precisam ser mantidos constantes em todas as fases do evento. Nesse mesmo sentido, para os autores, não é possível delimitar as fases individualmente, sendo a duração delas definida somente no nível do evento. Há uma restrição, desse modo, de conectividade entre as fases do evento. Já o efeito de diminutivização encontrado nas formações em questão, os autores propõem que há uma operação de fragmentação do argumento interno que, em cada fase, é apenas parcialmente atingido. Essa atuação sobre uma parte do objeto direto é que dá a interpretação de diminutivo encontrado nessas formações.

3.4 Discutindo a Análise de Tovena & Kihm (2008)

O primeiro ponto a ser ressaltado é que nenhum dos argumentos de Tovena & Kihm (2008) contra a derivação parece ser convincente para os dados do PB. Abaixo, discutimos os argumentos dos autores, trazendo contestações para cada um dos argumentos listados de (A) a (D) na subseção acima. Os fatos abaixo parecem apontar em favor de uma análise derivacional para as formações em –iscar e –icar no PB:

(A) Todos os verbos da tabela com –icar e com –iscar apresentam uma forma simples, verbal ou nominal da qual podem ser derivados (cf. tabelas na seção de análise morfológica abaixo); (B) Para dizer que não há nenhuma nuance de significação derivacionalmente relevante para todos os numerosos afixos citados pelos autores (9 para o francês e 14 para o italiano) seria necessária uma análise extensa de cada um desses formadores. Assim, cada um desses afixos precisaria ser analisado separadamente, sendo que as análises, tanto do ponto de vista morfológico, quanto semântico não precisa ser categoricamente uniforme para todas as terminações que desencadeiam a pluralidade. Para os dados do PB, por exemplo, proporemos que o comportamento morfológico das formações com –iscar é diferente do comportamento morfológico das formações com –icar. Especialmente para as formações em –iscar, mostraremos que o único verbalizador presente na derivação é a terminação –ar, indicadora da primeira conjugação. Nesse sentido, é comum encontrar as contrapartes terminadas com –isco

333

na formação de nomes como chuvisco, por exemplo. Assim, o que se teria é a formação nome-verbo e não verbo-verbo como descrito pelos autores em questão. (C) O fato de as formações pluracionais pertencerem sempre à primeira conjugação independentemente da conjugação do verbo simples com os quais elas relacionam também acontece no PB. No entanto, esse fato parece ser um argumento para uma análise propriamente derivacional: formações novas de verbos costumam pertencer à primeira conjugação, pois essa é a conjugação mais produtiva de línguas como o PB.

Outro ponto a ser ressaltado na análise de Tovena & Kihm (2008) é a necessidade da postulação de uma regra de redundância que relacione as formações estudadas pelos autores às suas respectivas contrapartes simples. Como a regra é específica para cada terminação e dada a grande quantidade de terminações que desempenham o papel de pluralizador de fases, então, para cada terminação pluracional seria necessária uma regra de redundância o que não seria econômico na gramática. Semanticamente, confrontando a seção 3.2, em que analisamos os dados do PB através dos parâmetros de Cusic (1981), com a seção 3.3, em que trazemos a proposta de Tovena & Kihm (2008) para os dados do PB, já é possível ver algumas concordâncias e algumas diferenças de análise. Primeiramente, nos dados do italiano, do francês e do PB o que encontramos é uma pluralidade de fases associada a um feito de diminutivização. No entanto, enquanto Tovena & Kihm (2008) propõem que as fases precisam estar conectadas no tempo, o que propomos para o PB é diferente: em verbos transitivos é possível que haja lacunas de tempo entre as fases; em verbos intransitivos tais fronteiras temporais não podem ocorrer. Nesse mesmo sentido, tanto na nossa proposta, quanto em Tovena & Kihm (2008) a pluralidade de fases é independente da marcação morfológica de plural nos argumentos. No entanto, para os autores é preciso que haja manutenção do argumento interno e do argumento externo em cada fase. Há ainda, na proposta dos autores uma espécie de requerimento de não- distributividade do argumento externo. Nossa proposta, no entanto, é a de que o que singulariza a fase é somente o argumento interno. Tal proposta permite que vários agentes participem das fases que compõem os eventos analisados.

4. As análises

334

Esta seção traz as análises morfológicas e semânticas propostas para os verbos

pluracionais terminados em –icar e –iscar no PB.

4.1 A análise Morfológica

As hipóteses abordadas na análise morfológica das formações em –iscar e –icar no PB

serão as seguintes hipóteses: (a) tais elementos não são morfemas, mas sim submorfes, tal

como proposto em Kihm & Tovena (2008) para as contrapartes dessas unidades em dados do

italiano e do francês. Nesse caso, eles devem simplesmente ser considerados partes de uma

raiz; (b) são morfemas verdadeiros, sendo morfologicamente independentes da raiz e (c) são

unidades subdivisíveis em dois morfemas diferentes: -isco (formador de nomes) mais –ar

(formador de verbos) para –iscar e –ico (formador de nomes) mais –ar (formador de verbos)

para –icar.

(11) As hipóteses morfológicas

(a)

Hipótese (1): -icar e –iscar não são morfemas

Base de mordiscar: {mordisc-} Formação morfológica: [[mordisc-] + [-ar]]

Base de bebericar: {beberic-} Formação morfológica: [[beberic-] + [-ar]]

(b)

Hipótese (2): icar e –iscar são morfemas Base de mordiscar:{mord-} Formação morfológica: [[mord-][-iscar]]

Base de bebericar: {beber-} Formação morfológica: [[beber-][-icar]]

(c)

Hipótese (3): -iscar e icar são unidades divisíveis em dois morfemas

Base de mordiscar: {mord-} Formação morfológica: [[mord][-isc-][-ar]]

Base de bebericar: {beber-} Formação morfológica: [[beber][-ic-][-ar]]

Um primeiro ponto a ser ressaltado é que o PB possui uma variedade considerável de

morfemas diminutivos. Dois deles são justamente os morfemas –isco e –ico. Assim, o que

queremos detectar nessa análise morfológica é se esses morfemas de diminutivo estão, de

fato, presentes nas formações terminadas em –iscar e –icar ou se tal recorte morfológico é

inviável.

É notável que todos os verbos com –icar da tabela 1 possuem um verbo simples

correspondente que pode servir de base para sua a derivação. Da mesma forma, é bastante

importante notar que as formações terminadas em –ico não são gramaticais, com exceção das

formas ‘namorico’ e ‘paparico’.

335

Formação em –icar

Possível verbo de base

Formação com –ico

Bebericar

Beber

*beberico

Cosicar

Coser

*coserico

Debicar

Bicar

*bebico

Depenicar

Depenar

*depenico

Mordicar

Morder

*mordico

Namoricar

Namorar

namorico

Paparicar

Papar

paparico

Sataricar

Saltar

*saltarico

Tossicar

Tossir

*tossico

Tremelicar

Tremer

*tremelico

Quadro 3 – Possíveis bases para as formações em –icar.

Para as formações em –icar no quadro acima não é possível recortar –ico como um

morfema independente, uma vez, que as formações com –ico na terceira coluna são, em sua

grande maioria, agramaticais. Assim a hipótese morfológica (11c) acima delineada fica

descartada para as formações terminadas em –icar. Para sustentar tal hipótese, seria

necessário postular um estágio no qual as formações terminadas em –ico efetivamente

existissem. Ficaria bastante difícil, no entanto, explicar o motivo pelo qual tais formações em

ico não se superficializam na língua.

De o fato, todas as formações em –icar possuem uma contraparte verbal simples da

qual elas podem ser derivadas. A hipótese em (1) de que –icar seria parte de uma raiz fica

difícil de ser defendida. Tal hipótese é justamente a defendida por Tovena & Kihm (2008)

para os dados do italiano e do francês. No entanto, os autores precisam lançar mão de uma

regra de redundância que, crucialmente, deixa de ser necessária ao se assumir uma análise

derivacional. A análise derivacional dá conta da forte relação semântica e morfológica que há

entre as formas simples e as formações em –icar:

(12) Tossir – Tossicar

a. Relação morfológica: mesma base

b. Relação semântica: há ‘pequenos eventos de tossir’ em ‘tossicar’

A nossa proposta, então, é que a hipótese morfológica (2) acima delineada seja a mais

viável para as formações terminadas em –icar. Nesse sentido, tais formações estão em relação

derivacional com contrapartes verbais simples, sendo -icar um morfema independente da

base. A análise eleita está representada abaixo:

Análise morfológica para {-icar} - Hipótese (2): {-icar} é um morfema Base de saltaricar: {saltar-} Formação morfológica: [[saltar-][-icar]]

336

Já no que diz respeito às formações em –iscar podemos notar que o cenário é

consideravelmente diferente:

 

Formação em –iscar

Possível nome de base

Ciscar

cisco

Chapiscar

chapisco

Chuviscar

chuvisco

Faiscar

faísca

Lambiscar

lambisco

Quadro 4 – as formações

Mordiscar

*mordisco

Namoriscar

*namorisco/ namorico

 

Neviscar

nevisco

Peniscar

penisco

Petiscar

petisco

pode ver no

Rabiscar

rabisco

Trovisco

trovisco

muitos dos

Possível bases para em –iscar.

Como se

quadro acima, em

as

contrapartes terminadas em –isco são formações gramaticais da língua. A presença desse

morfema –isco é consideravelmente interessante porque ela pode ser a responsável pelo efeito

de diminutivização detectado nessas formações 121 .

É preciso ressaltar que a hipótese de que –isco seja parte da base, ou seja, a hipótese

(1) acima fica descartada para as formações em –iscar, dada a contra-argumentação feita à

proposta morfológica de Tovena & Kihm (2008) e a disponibilidade no léxico de formas

simples terminadas em –ico encontradas no quadro 4. Assim, defendemos que para as

formações em –iscar a melhor hipótese morfológica é a dada em (3) acima e repetida abaixo:

casos,

Análise morfológica para {-iscar}: Hipótese (3): -iscar é divisível em dois morfemas. Base de mordiscar: {mord-} Formação morfológica: [[mord][-isc-][-ar]]

Tal hipótese é capaz de captar elementos interessantes das formações com –iscar: (i)

o fato de que formas terminadas em –isco, de fato, se superficializam na língua; (ii) o efeito

de diminutivização causado pelo próprio morfema {-isco} de diminutivo; (iii) a relação

semântica e morfológica entre as formações com –iscar as suas contrapartes simples.

Enfim, defendemos que morfologicamente as formações com –iscar e –icar

apresentam comportamentos distintos: verbos terminados em –icar são derivados a partir de

verbos simples, enquanto verbo terminados em –iscar são derivados a partir de nomes

121 O efeito de diminutivização das formações em –icar receberá uma análise diferente na seção seguinte.

337

terminados com o morfema de diminutivo –isco. Tal proposta estabelece uma relação bastante interessante com o fato de as formações em –iscar serem consideravelmente mais produtivas que os verbos em –icar: no primeiro grupo há uma maior composicionalidade dada pela junção entre base + morfema de diminutivo + verbalizador.

4.2A análise Semântica

É importante notar que apesar da diferença de comportamento morfológico das formações em –icar e –iscar, as propriedades semânticas por elas apresentadas são bastante semelhantes. A análise semântica que propomos é resultado das características geradas pelo confronto entre os dados do PB e os parâmetros de Cusic (1981), bem como pelo confronto entre os dados do PB e a proposta de Tovena & Kihm (2008) para os dados do francês e do italiano. Assim, para as formações em –icar e –iscar no PB propomos que:

A pluralidade envolvida nas formações com –icar e –iscar é, necessariamente, uma pluralidade de fases;

As fases plurais contidas nas formações com -iscar e –icar são menores em intensidade do que as formas simples correspondentes;

Se o argumento interno é mantido fixo, é possível que as fases que compõem os eventos formados por –icar e –iscar sejam separadas no tempo. Em não havendo argumento interno, não pode haver lacunas de tempo entre as fases.

A pluralidade de fases das formações com -iscar e –icar não depende da pluralidade dos argumentos;

Os eventos em –iscar e –icar são singularizados a partir do argumento interno;

Argumento externo plural geram leituras coletivas ou distributivas. Resta-nos discutir mais de perto o efeito de diminutivização detectado nas fases das formações em –iscar e –icar no PB. Tal efeito de diminutivização é fácil de explicar nas formações em –iscar: ele seria dado pela própria presença do morfema -isco de diminutivo. Assim, quando há a formação do evento com o verbalizador -ar, a forma que a recebe já foi diminutivizada pelo morfema -isco, ou seja, a diminutivização é anterior à multiplicação das fases dada pela transformação do nome em verbo. Nesse sentido, como explicar, então, o mesmo efeito nas formações em -icar?

338

A nossa proposta é a de que, nesse caso, a própria pluralização das fases é que desencadeia a

interpretação de diminutivo. Mais especificamente, a multiplicação de fases se dá

internamente às fronteiras do evento. Para não ultrapassar tal fronteira, há um efeito de

diminuição dos subeventos que compõem esse evento. Para as formações terminadas em

icar, então, a nossa proposta é a de que o efeito de diminuição é posterior ao efeito de

pluralização, diferentemente do que acontece com as formações em –iscar.

5. Considerações finais

Neste artigo analisamos formações verbais do PB terminadas em –iscar e –icar. A

análise foi dividida em duas etapas: uma morfológica e outra semântica.

Do ponto de vista morfológico, propomos que –icar e –iscar possuem

comportamentos diferentes. Enquanto as formações em –icar estão em relação derivacional

com contrapartes verbais simples, os verbos terminados em –iscar são derivados a partir de

nomes terminados com o morfema de diminutivo –isco.

Já do ponto de vista semântico, detectamos várias propriedades dos dados terminados

em –icar e –iscar a partir dos trabalhos de Cuscic (1981) e Tovena & Kihm (2008), que foram

confrontados com dados do PB. Centralmente propomos que a pluralidade envolvida nas

formações com –icar e –iscar é, necessariamente, uma pluralidade de fases e que as fases

plurais contidas nas formações com -iscar e –icar são menores em intensidade do que as

formas simples correspondentes. No que diz respeito especificamente ao efeito de

diminutivização, propomos que nas formações em –iscar: ele seria dado pela própria presença

do morfema {-isco} de diminutivo. Já nas formações em –icar, propomos que para não

ultrapassar a fronteira do evento há um efeito de diminuição dos subeventos que internamente

compõem esse evento.

Referências selecionadas:

BASÍLIO, Margarida. A morfologia no Brasil: indicadores e questões. Delta, v. 15, n. especial, p. 53-70. 1999. BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna. 2002.

CUSIC, David Dowell. Verbal plurality and Aspect. PhD. Dissertation, Stanford University,

1981.

HOUAISS. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva,

339

LASERSOHN, Peter Nathan. Plurality, Conjunction, and Events. Dordrecht, Boston: Kluwer Academic Publishers, 1995. ROCHA, Luis Carlos. Estruturas Morfológicas do Português. Minas Gerais. UFMG, 2003. TOVENA, Lucia M. & KIHM, Alain. Event internal pluractional verbs in some Romance languages. Recherches linguistiques de Vincennes 37, p. 9-30. 2008.

340

340 VARIAÇÃO PARAMÉTRICA EM PREDICADOS COMPLEXOS E NOMES COMPOSTOS: UM ESTUDO TRANSLINGUÍSTICO 1. Introdução Julio

VARIAÇÃO PARAMÉTRICA EM PREDICADOS COMPLEXOS E NOMES

COMPOSTOS: UM ESTUDO TRANSLINGUÍSTICO

1.

Introdução

Julio William Curvelo Barbosa ˀ Pós-doutorado - Universidade de São Paulo

O objetivo deste trabalho é apresentar, de maneira resumida, os resultados de Barbosa

(2012), que discute a noção de Parâmetro na Gramática Gerativa e as consequências de

adoção dos modelos teóricos da Semântica Cognitiva (TALMY, 2000) e da Morfologia

Distribuída (HALLE; MARANTZ, 1993) para a análise dos dados relevantes ao Parâmetro de

Composição (doravante PC, cf. SNYDER, 1995). A partir das observações empíricas sobre o

português brasileiro (doravante PB), será proposta uma reformulação da proposta do PC, já

que sua cobertura empírica não explica a presença de construções dativas, causativas,

locativas e de relato perceptual. Além disso, o trabalho aponta que existe uma relação entre

expressões nominais do tipo N+de+N do Português Brasileiro (PB) e nomes compostos do

tipo N+N do inglês.

Com base nos dados analisados, este trabalho sugere que as construções abarcadas

pelo PC e que não possuem contraparte no PB envolvem, de fato, dois parâmetros: (i) O

Parâmetro de Realização Fonológica de Núcleos, relevante para fenômenos de estrutura

diádica básica (HALE; KEYSER, 2002) – nomes compostos, construções dativas e

construções de objeto duplo, e (ii) o Parâmetro de Emolduração, que lida com os fenômenos

ˀ Este trabalho é uma versão reduzida de parte da discussão desenvolvida em minha Tese de Doutorado (BARBOSA, 2012). Agradeço aos pareceristas anônimos pelas sugestões e comentários. Todos os erros remanescentes são de minha inteira responsabilidade.

341

de estrutura diádica composta (idem) – construções resultativas e verbo + partícula. Neste

artigo, porém, apenas o Parâmetro em (i) será apresentado.

Na seção 2, são apresentadas as noções que motivam a análise proposta neste trabalho.

Na seção 3, são apresentados argumentos contra a abrangência do Parâmetro de Composição.

A seção 4 lida com a análise das expressões N+de+N como compostos. Na seção 5, é

proposta uma extensão da análise de compostos para o fenômeno da alternância dativa. A

seção 6 traz as conclusões do artigo.

2.

Relacionando a Semântica Cognitiva à Gramática Gerativa: a importância do

traço de modo

Talmy (2000) aponta que línguas germânicas (e.g., inglês (1)), e românicas (e.g.,

espanhol (2)) diferem na lexicalização de eventos de movimento, em especial nos traços de

direção e modo 122 :

(1)

The bottle

floated

into the cave.

(1) The bottle floated into the cave. MOVIMENTO + MODO DIREÇÃO (2) La botella entró a

MOVIMENTO +

MODO

DIREÇÃO

(2)

La botella entró

a

la

cueva (flotando).

The bottle MOVED-in to the cave (floating)

MOVIMENTO + DIREÇÃO
MOVIMENTO
+ DIREÇÃO

MODO

‘A garrafa entrou na caverna boiando/foi boiando para dentro da caverna’ (adaptado de TALMY, 2000, vol. 2, p. 49)

Essas propriedades tipológicas podem ser estendidas para outros “dois eventos mais

simples e a relação entre eles (macro evento)”, que é “também passível de conceptualização

entre um único evento fundido, e assim, pode ser expresso por uma única sentença”

(TALMY, 2000, p. 213, tradução minha). Dessa maneira, sugere-se que mudança de estado

seja considerada um tipo de evento paralelo ao evento de movimento. Barbosa (2008) segue

nesse caminho, e mostra que construções resultativas (de mudança de estado) são impossíveis

122 Para outros trabalhos relacionando as propostas de Talmy (2000), Snyder (1995) com a gramática gerativa, cf. Mateu & Rigau (1999). Para uma proposta semelhante à Mateu & Rigau (1999) para o PB, cf. Marcelino (2007).

342

em PB por conta de uma assimetria entre mudança de estado e modo nas línguas germânicas

(3) e românicas (4):

(3)

John

hammered [causou com marteladas]

the metal

flat.

‘John

o metal

[ficar achatado]’

 
 
 
 

CAUSA + MODO

ESTADO RESULTANTE

‘John flattened/caused the metal to become flat by hammering it.’ ‘John achatou/deixou o metal achatado martelando-o.’ (BARBOSA 2008; p. 51)

(4)

João

martelou [causou _ ficar martelado]

o prego

torto. [(_martelado) torto)]

João

o prego

CAUSA +
CAUSA
+
torto. [(_martelado) torto)] João o prego CAUSA + ESTADO RESULTANTE MODO ‘João martelou o prego, e

ESTADO RESULTANTE

MODO

‘João martelou o prego, e o prego ficou martelado de um modo torto’

variação:

direção/mudança de estado ou modo? A possibilidade de realização de expressões de

movimento após os verbos em (5) mostra o esvaziamento semântico do traço em um dos

elementos; apesar disso, modo nos verbos do PB não aparenta ser tão natural (6):

Assim,

surge

a

seguinte

questão:

quais

os

traços

relevantes

para

a

(5)

a. Ela entrou pra dentro.

 

b.

O cachorro saiu pra fora.

c.

As crianças acabaram de subir pra cima.

d.

Eu vou ter que descer lá pra baixo sozinho e buscar tudo?

(6)

a. ?Ela tropeçou pra dentro.

 

b.

?O cachorro rastejou pra fora. 123

c.

?As crianças acabaram de engatinhar pra cima.

d.

?Eu vou ter que plantar bananeira lá pra baixo sozinho e buscar tudo?

Uma solução? Um parâmetro que explicite sintaticamente a relação vista em (5) e (6):

(7)

Parâmetro de Emolduração Uma língua denota [modo] em v. {sim} = inglês {não} = PB

3.

O Parâmetro de Composição e o problema da cobertura empírica

123 Em (6), essa sentença parece ser mais aceitável que as demais. Talvez isso decorra da maior produtividade do uso de pra fora como expressão cristalizada. Agradeço ao parecerista anônimo por apontar esse fato.

343

O Parâmetro de Composição (Snyder, 1995) em (8) traz fortes evidências de aquisição

que sugerem que a presença massiva de compostos N+N (8) e a existência de predicados

complexos (9) estejam diretamente relacionadas:

(8)

Parâmetro de Composição: A gramática (não) permite livremente que itens lexicais de classe aberta, não afixais, sejam marcados como [+Afixal]

 

a. [ N° [ N° coffee] [ N° cup]]

b. [ N° [ A° black] [ N° bird]]

c. [ N° [ V° guard] [ N° dog]]

(SNYDER 1995; p. 27)

(9)

a. Resultative: John painted the house red.

b. Verb-Particle: Mary picked the book up / picked up the book.

c. Make-causative: Fred made Jeff leave.

d. Perceptual report: Fred saw Jeff leave.

e. Put-locative: Bob put the book on the table.

f. To-Dative: Alice sent the letter to Sue.

g. Double Object Dative: Alice sent Sue the letter.

(SUGISAKI; SNYDER, 2002; p.9) Por não apresentar produtividade em compostos do tipo de (9), PB deveria ser

marcado negativamente para o parâmetro; porém, as traduções para o português dos dados em

(10) não apresentam uma ausência uniforme em PB, com pelo menos quatro delas ocorrendo

livremente na língua (11). A questão que surge é: o que bloqueia (11), mas não (10) em PB?

(10)

a. Fred made Jeff leave.

(Causativa)

a'.

Fred fez Jeff sair.

b.

Fred saw Jeff leave.

(Perceptual)

b'.

Fred viu Jeff sair.

c.

Alice sent the letter to Sue.

(Dativa)

c’.

Alice enviou a carta para Sue.

d.

Bob put the book on the table.

(Locativa)

d'.

Bob pôs o livro na mesa.

(11)

a. John hammered the metal flat.

(Resultativa)

b. The man who you were talking about is here.

(Isol. de preposição)

c. John gave Mary a new house.

(Objeto duplo)

d. John picked the book up /picked up the book.

(Verbo+partícula)

A hipótese aqui levantada é a de que existam propriedades distintas nas construções

possíveis no PB e nas do inglês. Essas construções podem ser divididas da seguinte maneira:

(12)

Predicados complexos exclusivos do inglês: (i) atribuição temática dupla para o argumento interno no verbo; ou (ii) ausência da preposição no predicado com dois argumentos internos.

Construção

Predicado

Núcleos

Núcleos

Argumentos

complexo

verbais

predicadores

internos

344

Resultativa Isolam. de prep. Verbo+partícula Objeto duplo

hammer + flat

hammer

hammer + flat

metal

talk + about

talk

talk + about

the man

pick + up

pick

pick + up

the book

give (?Mary)

give

give (?Mary)

a house (?Mary)

(13)

Predicados complexos que ocorrem em inglês e em PB: (i) dois domínios flexionais distintos (dois verbos distintos) ou (ii) presença obrigatória da preposição para relações temáticas dos verbos com dois argumentos internos.

Construção

Predicado

Núcleos

Núcleos

Argumentos

complexo

verbais

predicadores

internos

Causativa

make + leave fazer +sair

make + leave fazer + sair

make + leave fazer + sair

Perceptual

see + leave ver + sair

see + leave fazer + sair

see + leave ver + sair

Dativa

send + to Sue enviar + para Sue

send

send

a letter + Sue uma carta + Sue

enviar

enviar

Locativa

put + on the table pôr + sobre a mesa

put

put

the book + the table o livro + a mesa

pôr

pôr

Evidência independente para essa separação pode ser apresentada a partir dos dados de

aquisição no PB. Barbosa & Simioni (2011) mostram estudo longitudinal de aquisição de

duas crianças, R e L, entre 1;9 e 4;11; esse estudo mostra as construções em (13) e

expressões nominais complexas surgindo na gramática de falantes do PB a partir de 2;0 anos:

(14)

Dativos

a. Dá t[c]omida p(r)o pintinho.

(R., 2;0.20)

b. O Ped(r)inho deu pe(i)ss[x]inho p(r)á mim.

(R., 2;2.2)

c. Me dá a o(u)tra ponte.

(R., 2;10.14)

d. Me dá (a)qui.

(L., 2;3.11)

e. Daí eu ent(r)ego p(r)os meu(s) amiguinho(s).

(L., 4;5.7)

(15)

Locativos

a. Vamo pega(r) verdu(ra) p(r)a po(r) aqui.

(R., 2;0.20)

b. Então eu vou da(r) uma enfiada disso na p(r)esilha da Daniela. (R., 2;9.16)

c. (Es)se aqui não é de bota(r) ali.

(L., 2;0.7)

d. Põe aqui, mamãe.

(L., 2;1.25)

e. Você pode coloca(r) aqui na cadeira.

(L., 4;0.8)

(16)

Perceptuais

a. Tô escutan(d)o o home fala(r).

(R., 2;6.8)

b. Vem ve(r) eu corre(r) que eu pulo.

(R., 3;0.7)

c. Quero ve(r) os anõezinhos caíra[e]m.

(R., 3;0.18)

(17)

Causativos

a. É quem que fez{e} fica(r) aqui.

(R., 2;1.5)

b. Deixa eu passa(r), mamãe, deixa?

(L., 2;2.28)

345

 

(L., 4;6.13)

(18)

Expressões nominais complexas com preposição

a. galinha do b[v]id[z]i(

)nho

(R., 2;0.20)

b. um pedacinho de bolo

(R., 2;0.20)

c. tu(do) caz[r]a de b(r)uxa.

(L., 2;2.28)

d. do(r) de ba(rr)iga, mamãe.

(L., 2;3.11)

Considerando as questões empíricas apontadas, é necessário: (i) reformular o

Parâmetro de Composição, de modo a representar adequadamente as restrições que devem

ocorrer, entre inglês e PB, e (ii) explicar as relações entre emolduração de eventos (TALMY,

2000) e a restrição da realização de modo em verbos (e, consequentemente, de predicados

complexos). Por questões de espaço, este trabalho não apresentará toda a discussão dos

predicados complexos, e ficará centrado na discussão da existência de compostos no PB e as

questões de alternância dativa (construções dativas e de objeto duplo). 124

4. Aproximando compostos N+N do inglês e “compostos” N + de + N do PB

Snyder (1995) afirma que a produtividade é central para a presença de uma construção

em uma língua; o PB, como uma língua românica, não apresenta produtividade na formação

de compostos do tipo relevante. Não haveria uma maneira de expressar a mesma informação

semântica de um nome composto do inglês? Jakobson (1971, p. 264) diz que “as línguas

diferem essencialmente no que elas devem expressar, e não no que elas podem expressar”. A

proposta aqui sugerida é que, para formar um nome composto, o PB exija a presença da

preposição de como mediadora da relação entre os nomes, enquanto compostos do inglês não

o fazem. Para que tal proposta possa ser devidamente avaliada, é importante mostrar as

propriedades definidoras de compostos no inglês, e observar tais traços nos dados do PB.

Olsen (2008) diz que os compostos apresentam os seguintes traços:

(a)

Produtividade;

(b)

Recursividade;

(c)

Interpretação vaga e ambígua;

(d)

N+N: padrão mais regular;

(e)

Está sujeito a especializações de significado que “devem estar gravados no léxico”.

124 Para uma abordagem mais completa, com detalhes sobre o Parâmetro de Emolduração, cf. Barbosa (2012).

346

Observando os dados do PB, é possível notar várias semelhanças entre as propriedades

dos compostos do inglês em (a)-(e) e as expressões N+de+N no PB:

Produtividade (a) + N+N: padrão mais regular (e):

(i)

Villavicencio, Finatto & Possamai (2005): De é a palavra mais escrita no PB, especialmente quando precedida por nomes, com base no Banco de Português – http://www2.lael.pucsp.br/corpora/bp/index.htm, composto então por 223 milhões de palavras.

(ii)

Davies & Preto-Bay (2008): de é a segunda palavra mais usada no português – aparecendo 1.691.442 vezes em um corpus de 20 milhões de palavras, baseado majoritariamente na seção dos anos 1900 do Corpus do Português (www.corpusdoportugues.org).

(iii)

Teixeira (2009), a partir de um corpus de dez edições da revista National Geographic, analisando correspondentes de tradução de compostos, observa que:

a construção N de N é de fato a mais utilizada por tradutores

humanos para expressar a relação entre os elementos de um composto em língua portuguesa, totalizando 91 (incluindo as expressões com artigos) das 165 ocorrências analisadas, conforme

dados da tabela

Recursividade (b):

(TEIXEIRA, 2009, p. 135)

(19) [[Bolo de [merengue de limão]] de [[dona de casa] de [cidade de interior]]] é sempre gostoso. (Cf. ‘(A) countryside city’s housewife lime meringue cake is always tasty’, em inglês)

Interpretação vaga e ambígua (c) + Estar sujeito à especialização de significado que “devem estar gravados no léxico” (d):

A preposição de mostra o mesmo tipo de ambiguidade que um composto quando em

contraste com uma expressão com a preposição para no PB; além disso, expressões em PB

com de também possuem informações implícitas, dependentes de contexto:

(20)

a.

dog

food

 

cachorro comida “comida feita para cachorros”

 

b.

food

for

a dog

 

para “comida (disponível/feita/que pode ser dada) para um cachorro”

comida

um cachorro

(OLSEN, 2008, p.10)

347

c. comida de cachorro

d. comida para cachorro

Por conta dos fatores apontados acima, qual a melhor maneira de representar essa

semelhança semântica, e manter a diferença superficial de ordem sintática? É postulado aqui,

com base em DiSciullo (2005) e Hale & Keyser (2002), que uma projeção funcional P

selecione as raízes formadoras do composto, e um operador SORT (tipo) determine a relação

semântica presente:

(21)

wo

n

n

F

 

wo

 

F

juice/suco

wo

cup/copo

F

ball/bola

SORT

orange/laranja

coffee/café

golf/golfe

Nesta análise, sugere-se que, em PB, a realização de SORT seja obrigatória, feita pelo

conteúdo fonológico da preposição de. A ordem “inversa” de núcleos do inglês é derivada a

partir da regra em (22), gerando a estrutura em (23):

(22)

Regra de Deslocamento Compulsório Um elemento ocupando a posição [Comp, P] deve se concatenar a [Spec, P], sempre que P não tiver conteúdo fonológico.

(BARBOSA, 2012, p. 198)

(23)

n

 

wo

n

P

 

wo

 

P

3

wo

j

P

orange

juice

SORT

 

t j

coffee

cup

golf

ball

A diferença nos compostos do inglês e do PB se dá, portanto, pela impossibilidade de

conteúdo fonológico nulo para SORT em PB, marcado negativamente para o parâmetro (24):

348

(24)

Parâmetro de Realização Fonológica Preposicional Uma língua permite que preposições omitam o conteúdo fonológico de seus núcleos em PF. {sim} = inglês {não} = PB

(BARBOSA, 2012, p. 198)

Com a análise acima, sugere-se que a variação entre as formações do PB e do inglês se

dê após spell-out, e o Parâmetro em (24) explique a variação superficial. Sem a distinção entre

léxico e sintaxe, a formação dos compostos deixa de ser um problema: compostos são

expressões sintáticas, seja em inglês, seja em PB.

5.

Estendendo

o

Parâmetro

alternância dativa

de

Realização

Fonológica

de

Núcleos

para

a

Conforme as propostas de Scher (1996) e Armelin (2007), entre outros, estruturas

dativas sem preposição são impossíveis em (quase todos os dialetos de) PB. Por conta desse

fato, este trabalho propõe uma extensão da análise de compostos para as construções da

alternância dativa. Um tipo de análise para construções dativas (25) e de objeto duplo (26)

sugere que elas sejam vistas como derivadas uma a partir da outra (LARSON, 1988):

(25) a. John sent a letter to Mary. b. VP 2 SpecV’ V’ 2 V
(25)
a. John sent a letter to Mary.
b.
VP
2
SpecV’
V’
2
V
VP
g
2
e
NP
V’
4
2
a letter
V
PP
g
4
send
to Mary
(LARSON, 1988, p. 348)
(26)
VP
3
Spec V’
V
3
V
VP
g
ro
send
NP i
V’
4
3
Mary
V’
NP

349

g

t

3

V

349 g t 3 V e 4 NP i a letter g (LARSON, 1988, p. 353)

e

4

NP i

a letter

g

(LARSON, 1988, p. 353)

Dentre os trabalhos que defendem análises alternativas para a proposta de estruturas

derivadas, podem ser citados Pesetsky (1995) e Harley (2002). Nesses trabalhos, é sugerido

que existam duas leituras, e, portanto, duas estruturas. Construções de objeto duplo, por

apresentarem leitura de transferência de posse permitem a alternância (27c), enquanto as

construções dativas que apresentam leitura locativa não o fazem (27d). A estrutura para

construções de objeto duplo pode ser vista em (28), enquanto a estrutura dativa é apresentada

em (29):

(27)

a.

The editor

sent

the article

to Sue.

 

O

editor

enviou o artigo

para Sue

‘O editor enviou o artigo para Sue.’

 

b.

The editor

sent

the article

to Philadelphia.

 

O

editor

enviou o artigo

para Philadelphia

‘O editor enviou o artigo para Filadélfia.’

 

c.

The editor sent Sue the article.

 

d.

??The editor sent Philadelphia the article.

 

(HARLEY, 2002, p. 35)

(28)

Estrutura para as construções de objeto duplo (PESETSKY, 1995)

para as construções de objeto duplo (PESETSKY, 1995) (29) Estrutura para as construções dativas (PESETSKY,

350

350 Outro argumento utilizado para defender duas estruturas para dativas e construções de objeto duplo é

Outro argumento utilizado para defender duas estruturas para dativas e construções de

objeto duplo é a possibilidade de expressões idiomáticas entre o verbo e o argumento com

papel temático de tema:

(30)

a.

Max

gave

his all

to

Linguistics.

 
 

Max

deu seu tudo

para

Linguística

‘Max deu tudo de si para a Linguística.’

 
 

b.

Alice gives hell

to

anyone

who

uses

her.

 

Alice dá inferno

para

qualquer um

que

use

dela

training wheels. treinamento rodas ‘Alice inferniza qualquer um que use as suas rodinhas de bicicleta.’

 

c.

Oscar will give the boot

to

any

employee

that shows.

 

Oscar vai dar a bota para up late.

qualquer empregado

que mostrar

cima atrasado ‘Oscar vai mandar embora qualquer empregado que chegar atrasado.’

 

d.

The Count

gives the creeps

to everyone.

 
 

O conde

dá os arrepios para todo mundo

‘O conde dá arrepios em todo mundo.’

 
 

e.

Phyllis should show her cards

to

other

 

Phillis deveria mostrar

dela cartas

para

outros

group participants. grupo participantes ‘Phyllis deveria abrir o jogo com os outros participantes do

grupo.’

(HARLEY, 2002, p. 41)

Um problema para adotar esse tipo de análise advém do fato que PB não possui

construções de objeto duplo, apesar de alguns dialetos como o falado na Zona da Mata

Mineira, apresentar dativas sem preposição no argumento alvo (doravante PBM, cf. SCHER,

351

(31)

Relação ordem de argumentos/presença de preposição em inglês, PB, e PBM

argumentos/presença de preposição em inglês, PB, e PBM (ARMELIN; BARBOSA, 2012) Apesar de não apresentar

(ARMELIN; BARBOSA, 2012)

Apesar de não apresentar construções de objeto duplo, é possível obter leituras de transferência de posse e locativa a partir da construção dativa no PB (32):

(32)

Transferência de posse em construções dativas (ARMELIN, 2011)

352

352 (ARMELIN, 2011, p. 139) Uma ambiguidade semelhante pode ser vista nas expressões nominais complexas do

(ARMELIN, 2011, p. 139)

Uma ambiguidade semelhante pode ser vista nas expressões nominais complexas do

PB, com relação a posse e origem:

(33)

a.

carrot cake = a cake made of/with carrots ‘bolo de cenoura = um bolo feito de/com cenouras’

b.

wooden house = a house made of/with wood ‘casa de madeira = uma casa feita de/com madeira’

c.

amusement park = a park with amusing rides ‘parque de diversões = um parque com brinquedos divertidos’

d.

London girl = garota (que está sempre/vem) em/de Londres

e.

USP student = aluno (que estuda/vem) na/da USP

f.

freshwater fish = peixe (que vive/é encontrado) em água doce

353

A partir dessas propriedades vistas no PB, é sugerido que nos compostos N+N do inglês e os compostos 125 N+de+N do PB, assim como nas construções de objeto duplo e dativas, os traços [locativo] e [posse] sejam responsáveis pela diferença de realização dos itens de vocabulário que denotam esses traços em cada língua, como nas tabelas (34) e (35), abaixo; dessa forma, a diferença paramétrica entre PB e inglês é derivada não só das propriedades do Parâmetro de Realização Fonológica de Núcleos, mas também da (im)possibilidade de preenchimento das posições de núcleo preposicional, o que resulta na generalização abaixo:

(34)

Possibilidades de combinação dos traços [posse] e [locativo] em inglês

de combinação dos traços [posse] e [locativo] em inglês (35) Possibilidades de combinação dos traços [posse]

(35)

Possibilidades de combinação dos traços [posse] e [locativo] em PB

125 De acordo com um parecerista anônimo, duas propriedades morfológicas são discrepantes no composto “bolo de cenoura”, que:

- Pode ser modificado (bolo delicioso de cenoura versus *pé sujo de moleque)

- Aceita manipulação sintática (de cenoura esse bolo não é versus *de moleque esse pé não é).

No caso de expressões mais cristalizadas, como na leitura em “pé de moleque” é um doce, e não um pé, a formação composicional não é mais transparente, e não deve, de fato, sofrer modificações internas. Minussi

(2008), com base nos dados do hebraico, sugere que esse tipo de composto cristalizado é o “composto” por excelência. Neste trabalho, a noção de composto se confunde com a de sintagma, e o grau de lexicalização dessas expressões derivaria o contraste apontado. Uma discussão mais detalhada das características em compostos pode ser vista em Barbosa (2012, 2013). Agradeço ao parecerista anônimo pela questão apontada.

354

354 Desse modo, qual seria a melhor análise para lidar com os dados do PB? Duas

Desse modo, qual seria a melhor análise para lidar com os dados do PB? Duas

estruturas não- relacionadas, ou uma estrutura derivada da outra? Bresnan & Nikitina (2008)

mostram que dados tidos como impossíveis pelos defensores de duas estruturas não-

relacionadas para as construções de alternância dativa são livremente encontrados no corpus.

Logo, estruturas derivadas explicariam melhor o fenômeno:

(36)

VERBOS DE APLICAÇÃO CONTÍNUA DE FORÇA Karen spoke with Gretchen about the procedure for registering a complaint,

and hand-carried

her

a form,

but Gretchen never completed it.

 

mão-carregou ela um formulário

 
 

(BRESNAN; NIKITINA, 2008, p.4)

(37)

VERBOS DE MODO DE FALA Shooting the Urasian a surprised look, she muttered him a hurried resmungou ele uma apressada apology as well before skirting down the hall. desculpa

 

(BRESNAN; NIKITINA, 2008, p.5)

(38)

EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS “EXCLUSIVAS DE DOUBLE OBJECT” a. GIVE A HEADACHE TO (DAR UMA DOR-DE-CABEÇA PARA) From the heads, offal and the accumulation of fishy, slimy matter, a stench or smell is diffused over the ship that would give a headache to the most athletic constitution.

dar

uma dor-de-cabeça

para a mais atlética constituição

b. GIVE A PUNCH TO (DAR UM SOCO PARA)

355

When the corpse was bloodless, he got up and grinned to Ethan-vampire, oh so happy. “Oh yesssss!”. He gave [a punch to] 126 his deu um soco para seu

old

“Let’s find a bar, Ethan.” (BRESNAN; NIKITINA, 2008, p.5)

mate.

velho companheiro

Assim sendo, é proposto que a estrutura para as construções de alternância dativa seja

única, e uma é derivada a partir da outra. Assim como no caso dos compostos, a propriedade

de o PB não permitir a omissão do conteúdo fonológico do núcleo de F – por ser uma língua

marcada negativamente para o Parâmetro de Realização Fonológica de Núcleos ((24), acima)

– gera a estrutura em (39), abaixo. Com a aplicação da operação de deslocamento

compulsório em inglês, a estrutura resultante (impossível em PB) é (40):

(39)

v

 

wo

v

F

gave

wp

deu

DP

F

 

5

qp

 

a book

F

DP

um livro

to [locativo]/ø [posse] para

 

5

John

 

o João

(40)

v

 

wo

v

F

gave

wp

 

DP

F

 

3

ro

 

DP j

DP

F

DP

 

5

5

ø [posse]

t j

 

John

a book

6. Considerações finais

Neste trabalho, foram discutidas questões sobre variação paramétrica, argumentando-

se que existam dois parâmetros que lidam com a operação de composição. Essa operação na

derivação computacional, de acordo com o que foi desenvolvido neste trabalho, gera tanto

expressões nominais (compostos) quanto expressões verbais (predicados complexos). A

126 Uma parte do dado foi deduzida a partir dos dados restantes, já que não aparece no texto original – provavelmente, por um erro de digitação.

356

natureza desses parâmetros levanta questões sobre os modelos de variação paramétricas, em

particular, sobre a noção de léxico. Com as questões discutidas ao longo deste trabalho,

acredita-se ter atingido uma contribuição empírica importante, no sentido de explicitar as

distinções e semelhanças dos fenômenos sintáticos analisados tanto em PB, quanto em inglês.

No âmbito teórico, a contribuição deste trabalho foi para o desenvolvimento das

teorias nela citadas, de modo a oferecer reflexões acerca das questões de variação paramétrica

e translinguística, dos critérios de classificação de predicados complexos e nomes compostos,

bem como da explicitação sintática das intuições de emolduração presentes no modelo da

Semântica Cognitiva (TALMY, 2000). Acredita-se também que essas noções possam ser

tomadas como o ponto de partida para uma concepção de variação paramétrica que lide com

as vantagens apresentadas pelo modelo teórico da Morfologia Distribuída (HALLE;

MARANTZ, 1993), e que as variações ditas “lexicais” possam ser integradas ao componente

computacional sintático, fato desejável sob o ponto de vista de economia conceptual, um dos

objetivos das correntes minimalistas atuais.

Referências Bibliográficas

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358

Semântica

358 Semântica A EXPRESSÃO DO DESLOCAMENTO NAS LÍNGUAS NATURAIS: ANÁLISE DA ESTRUTURA [V m a n

A EXPRESSÃO DO DESLOCAMENTO NAS LÍNGUAS NATURAIS: ANÁLISE DA ESTRUTURA [V maneira + Prep loc ]

1. Introdução

Valdilena Rammé Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Este artigo apresentará uma breve exposição da proposta de análise encontrada na dissertação de mestrado de Rammé (2012) e de pesquisas subsequentes para o comportamento particular em PB, em inglês e em francês de um grupo de verbos da classe dos verbos de maneira de movimento 127 - entre eles: andar, rolar, pular, correr, dançar, flutuar, nadar - em sua interação com as preposições locativas 128 em (dans do francês e in do inglês), sob (sous/under) e sobre (sur/on) na expressão do deslocamento 129 , assim como procurar translinguisticamente evidências para uma estrutura conceitual universal para os eventos de movimento. O comportamento dos verbos de maneira de movimento e das preposições locativas tem sido amplamente discutido na Semântica, especialmente em teorias cognitivas que levam

127 Talmy (2000), Kopexca, Pinker, Ramchand

128 Jackendoff, Bonami, Pantcheva, Fabregas, Svenenious

129 Quando a sentença denota um evento de movimento que especifica o seu alvo no objeto da preposição, ou, na nomenclatura de Talmy (2000): quando uma Figura se desloca em direção a um Fundo, em contraste com o movimento que em a Figura muda de posição em relação ao Fundo. Pinker (1989): movimento inerentemente direcionado.

359

em conta traços conceituais profundos. Talmy (2000) diria que os verbos de maneira de movimento carregam tanto o traço de Movimento quanto o traço de Maneira, por uma regra de conflação de conceitos, e que, tipologicamente, línguas como o inglês tendem a usar esses verbos para descrever a maneira específica com que um movimento é feito:

(1) John swam across the river. enquanto que línguas como o português tendem a deixar a especificação da maneira para predicações secundárias. Assim, a versão para o português da sentença em (1) seria:

(2) João atravessou o rio nadando. Em resumo, o lugar onde cai traço de Maneira nos itens de superfície estaria dividindo tipologicamente famílias de línguas e ao mesmo tempo, criando uma classe de verbos de movimento com comportamento sintático diferenciado e previsível.

1.1. Evidências a favor do traço Maneira como definidor de uma classe verbal

No francês, as evidências sintáticas para tal traço estão no fato que, enquanto os verbos de trajetória são obrigados a formar o passé composé com o auxiliar être (ser, estar), exemplo (3), os verbos de maneira de movimento formam o passé composé com o auxiliar avoir (ter), (4)

(3)

Elle est partie (Ela partiu).

(4)

Elle a couru (Ela correu).

Paralelamente, no inglês, os elementos desta classe permitem a causativização,

enquanto que a classe de verbos de movimento inerentemente direcionado, como o verbo ir, não aceitam:

(5)

a. The dog ran. (O cachorro correu)

b.

Bob ran the dog. (*Bob correu o cachorro)

(6)

a. Sue went home. (Sue foi para casa)

b. *Bob went Sue home. (*Bob foi a Sue para casa)

1.2. Evidências contra o traço Maneira como definidor de uma classe verbal

Embora em inglês os verbos de movimento direcionado recusem categoricamente a causativização, por outro lado, já se observou que, enquanto muitos verbos de maneira de movimento aceitam a causativização, o verbo swim (nadar) foge à regra:

(7) a. Sue swam to the shore. (Sue nadou até a margem)

360

b. *Bob swam Sue to the shore. (*Bob nadou Sue até a margem)

Além disso, translinguisticamente, como notaremos em dados desta pesquisa, os verbos de maneira de movimento se comportam de formas distintas quando aparecem em estruturas com as preposições locativas, enquanto que os verbos de movimento inerentemente

direcionado tendem a se comportar mais homogeneamente. No inglês, estes últimos recusam categoricamente a preposição puramente locativa in para indicar o alvo do seu movimento, enquanto que exigem que o alvo seja introduzido por uma preposição direcional:

(8) a. John went to/*in the shop. Ao mesmo tempo, no PB (9), a preposição locativa em é usada em distribuição complementar com as preposições direcionadas para introduzir o alvo do movimento de um verbo de movimento inerentemente direcionado:

(9) a. Joana foi ao/no mercado. Finalmente, quando investigamos o comportamento dos verbos de maneira de movimento com as preposições locativas, encontramos ainda mais performances excêntricas:

alguns verbos (correr, rolar, pular) quando emparelhados com preposições locativas apresentam leituras ambíguas para o lugar introduzido pela preposição, podendo ele ser o alvo do movimento ou, simplesmente, o local onde o movimento iniciou e terminou:

(10) a. Joana correu no quarto.

b. A bola rolou sob (embaixo da) a mesa.

c. Joana pulou na piscina.

Outros verbos (nadar, andar, dançar, flutuar) não denotam essa ambiguidade quando empregados com as mesmas preposições:

(11) a. Joana nadou na piscina do clube.

b. Joana andou no parque.

c. Joana dançou no palco do Faustão.

d. O bebê flutuou na água com desenvoltura.

Ao mesmo tempo, quando testados com uma preposição direcional, como para, tais verbos, novamente, não se comportam de maneira homogênea. Assim, observamos em (12) que os verbos correr, rolar, pular produzem sentenças gramaticais em construções com a preposição para, enquanto que os verbos dançar, nadar, andar e flutuar causam, no mínimo, estranhamento quando em tais construções (13):

(12) a. Joana correu para a escola.

b. A bola rolou para o gol.

361

(13)

c. Joana pulou para o jardim.

a. *Joana dançou para o quarto.

b. ?Joana nadou para a margem.

c. *O corpo flutuou para a margem.

d. ?Joana andou para casa.

Neste ponto, nos deparamos com dois problemas: primeiro, como explicar a ambiguidade de leituras licenciadas pelas construções dos verbos correr, rolar e pular com preposições locativas. Segundo: dados os fenômenos até aqui examinados, como poderíamos prever que verbos de maneira de movimento aceitam quais preposições, ao mesmo tempo em que prevemos de maneira produtiva as leituras esperadas de tais construções. Estes problemas nos levaram a buscar uma proposta alternativa que pudesse dar conta do grande grau de variação observado dentro do PB e translinguisticamente. Assim, nosso

caminho tomou dois rumos: em um primeiro momento, decompomos os significados dos verbos de maneira de movimento e das proposições locativas dentro de teorias de base cognitiva que nos deram as ferramentas para defender uma teoria conceitual-cognitiva de variação (sessão 2). Ao mesmo tempo, como tais teorias não dão conta do grau mais fino da variação aqui observada, partimos para uma teoria alternativa que organiza os traços conceituais primitivos apresentados na teorias anteriores de uma maneira mais formal, a Nano-sintaxe (sessão 3). Na sessão 4, forneceremos, então, uma breve análise de alguns exemplos do PB em comparação com algumas versões em inglês e em francês, e deixamos para a sessão 5 os comentários finais.

2. Decompondo significados na base cognitiva

Assim como Talmy (2000) acreditamos que, ao estudarmos a expressão do deslocamento em línguas naturais, sejamos capazes de isolar e classificar alguns elementos dentro do domínio do significado que, relacionando-se entre si, influenciam a forma da estrutura de nossas línguas, definindo, por exemplo, em que estruturas sintáticas os verbos de uma determinada classe natural podem aparecer, e quais estruturas são bloqueadas para estes verbos. Entre estes elementos estão os elementos semânticos (primitivos) do tipo

362

Movimento’ (Motion), ‘Trajetória’ (Path), ‘Maneira’ (Manner) e ‘Causa’ (Cause), e elementos de superfície como verbo, adjuntos, subordinadas (subordinate clauses), e o que podemos caracterizar como ‘satélite’ 130 (Talmy, 2000). Ainda segundo o autor, e em conformidade com autores de teorias distintas 131 , a estrutura de uma língua natural seria definida pela relação direta entre os elementos semânticos e os possíveis elementos de superfície através dos quais eles se realizariam. Estas relações poderiam variar de uma língua à outra, mas seriam de número limitado e respeitariam algum tipo de regulamentação que está diretamente ligada ao nosso sistema cognitivo. Analogamente, Pinker (1989) propõe que as crianças em fase de aquisição, logo, nosso sistema linguístico também, são sensíveis a traços mais profundos do que esta organização de superfície que leva em conta somente a quantidade e a ordem dos constituintes da sentença. Como já observamos, somente os itens de superfície não nos dão informações suficientes para explicar por que podemos dizer algo como correr para mas não nadar para. Ou por que correr em pode ser ambíguo enquanto que dançar em terá sempre a mesma denotação locativa. Para o autor, esses traços são conceitos primitivos de ordem cognitiva que se encontram na estrutura profunda dos verbos.

2.1. Algumas observações dentro da Teoria Decomposicional de Pinker (1989)

Tomemos o verbo rolar à luz da Teoria Decomposicional de Pinker (1989) baseada nas categorias ontológicas de Jackendoff (1983). Nela, o evento de deslocamento denotado pelo verbo rolar é considerado primeiramente na sua forma mais simples: uma situação autônoma. A representação, em (14), do evento é constituída de uma Função GO (representando um movimento dinâmico sem controle) seguida de constituintes que representam os argumentos do verbo. Chamamos este evento e seus constituintes de EVENT- GO.

(14)

A bolo rolou no gramado.

constituintes de EVENT- GO. (14) A bolo rolou no gramado. 1 3 0 O que Talmy

130 O que Talmy (2000) chama de satellites são elementos como as preposições up e down nos phrasel verbs do inglês (go up, go down) e os afixos.

131 Pinker (1989), Jackendoff (1983).

363

Nesta representação, o primeiro constituinte depois da Função é o argumento interno do verbo que é introduzido por uma Função THING com colchetes representando um espaço a ser preenchido por um sintagma nominal segundo as regras de correspondência. Mais à direita, o elemento introduzido pelos constituintes PATH ou PLACE é um argumento interno indireto com espaço para um sintagma preposicional acompanhado de um sintagma nominal. O argumento externo, o agente com volição e/ou intenção, não aparece na estrutura mais básica, e quando é necessário ativá-lo, ele ingressa como o primeiro argumento de um EVENT-ACT mais alto na decomposição onde a estrutura mais básica do verbo é encaixada através de uma relação denominada efeito (effect) como observado em (15):

(15) João rolou a bola na grama.

como observado em (15): (15) João rolou a bola na grama. Nada impede, nesta teoria, que

Nada impede, nesta teoria, que o sujeito da Função THING do EVENT-GO seja o mesmo que o sujeito da Função THING no EVENT-ACT. Nestes casos, entendemos por que João, em (16) abaixo, pode ser interpretado como o agente e o experienciador do evento de rolar 132 (observe-se que os indexes de ambas as funções THING estão anotados com x):

(16) João rolou na grama.

132 Recomendamos a leitura de Rammé (2012) para uma discussão mais detalhada.

364

364 O limite de tal teoria, no entanto, está no fato de não conseguir dar conta

O limite de tal teoria, no entanto, está no fato de não conseguir dar conta de explicar por que, nos dados abaixo, a função PATH (to) do complemento preposicionado em (17) aceitaria a preposição em que seria, pelo menos em primeira análise, somente compatível com PLACE:

coca).

(17) Um cisco voou no meu olho.

com PLACE: coca). (17) Um cisco voou no meu olho. Ou por que em (16a-b), temos

Ou por que em (16a-b), temos a leitura ambígua já discutida.

(16)

a. João correu no mercado.

b. João correu no mercado (comprar uma

in to
in
to

Ao contrário do PB, como já ressaltado na sessão 1.2. (exemplo 8), o inglês é uma língua onde estas Funções PLACE e PATH tendem a corresponder a itens de superfície

365

distintos e onde um único item de superfície não poderia ser inserido como argumento de ambas as funções sem que o sentido completo da construção fosse alterado 133 .

É de conhecimento mais ou menos geral que é raro uma preposição apresentar

equivalente exato de uma língua à outra, contudo, é preciso ressaltar que, por mais variados que sejam os itens lexicais usados para se falar de um determinado arranjo espacial em línguas diferentes, há traços ou conceitos que, necessariamente, devem estar presentes. Exemplo disso é o fato que, para garantirmos uma boa versão em português ou em francês de uma frase original do inglês e vice-versa, necessitamos essencialmente encontrar vocabulário que acione no nosso sistema cognitivo a ideia de trajetória e/ou de distribuição espacial, esteja este traço-conceito dentro de um afixo, de uma preposição, dentro de uma locução prepositiva ou em uma complexa expressão nominal, para citar. Finalmente, há pelo menos duas outras observações que devemos levar em conta: (a)

estes traços são menores do que os itens lexicais de superfície que formam as sentenças que proferimos, e (b) a correspondência traço conceitual–item lexical não é, necessariamente, de um para um. De fato, Jackendoff (1983) propõe uma decomposição das preposições espaciais em traços primitivos que estão se arranjando (por processos de conflação) dentro de verbos e de preposições usados na expressão do sentido espacial, seja ele de movimento ou de localização.

2.2. Jackendoff (1983) e os traços conceituais dos eventos espaciais

Antes de mais nada, é importante lembrar que, para o autor, as preposições não são um lugar em si, mas sim funções-de-lugar 134 , i.e., o lugar a ser referido é a relação entre uma determinada preposição e seu objeto de referência. Por exemplo, nas notações de Jackendoff (1983), temos a seguinte regra formal para expressar o conceito de lugar:

(18) [ Place x] [ Place PLACE-FUNCTION ( Thing y)]

O mais interessante porém, para além da distinção entre os sentidos de Lugar e

Trajetória 135 que podem ser denotados pelos SPs já analisados em Pinker (1989), é que dentro

133 No inglês, a versão go in tem, na verdade, a tradução de entrar em PB, não podendo, portanto, ser usado como argumento para a construção acima verbo + preposição.

134 Do inglês “PLACE-FUNCTION”, Jackendoff (1983).

135 Do inglês, PLACE e PATH. Usamos letras iniciais maiúsculas para nos referirmos aos conceitos de Lugar ou de Trajetória e não a um lugar ou trajetória específicos.

366

da teoria discutida em Jackendoff (1983), o conceito de Trajetória, por sua vez, tende a ser mais complexo e apresentar uma estrutura mais variada que o conceito (mais simples) de Lugar 136 . Analogamente à estrutura de Lugar, a estrutura interna de uma Trajetória usualmente consiste de uma função-de-trajetória e um objeto de referência. A complexidade, no entanto, surge quando o argumento da função-de-trajetória é um lugar. Jackendoff (1983) nota que, em inglês, muitas preposições são ambíguas entre serem uma função-de-lugar pura e uma função-de-trajetória TO + função-de-lugar (entre elas as preposições sobre (on/over) e sob ou embaixo de (under)):

(19)

a. The mouse is under de table. / O rato está sob a mesa. [Place UNDER ([Thing TABLE])]

b. The mouse ran under the table. / O rato correu sob/embaixo da mesa.

[Path TO ([Place UNDER ([Thing TABLE])])]

Evidência para tal alegação é encontrada, por exemplo, no alemão, que apresenta marcação de caso distinta no complemento da preposição quando esta é usada como uma função-de-lugar ou como uma função-de-trajetória: preposições usadas como função-de- trajetória requerem o caso acusativo (in + das = ins) como em (20e), enquanto que preposições usadas como função-de-lugar requerem o caso dativo (in + dem = im), como em (20d). Enquanto isso, o PB, o francês e o inglês aceitam leituras ambíguas para a construção pular em – como ilustrado em (20a-c):

(20)

a. Joana pulou na água (ambíguo entre alvo/lugar do movimento)

b. Joana jumped in the water (ambíguo entre alvo/lugar do movimento)

c. Joana a sauté dans l’eau (ambíguo entre alvo/lugar do movimento)

d. Joana hat im (in+dem) wasser sprung (lugar do movimento)

e. Joana ist ins (in+das) wasser sprung (alvo do movimento/deslocamento)

Fundamentado por tais evidências, o autor propõe que o conceito de Trajetória pode ser dividido em outros conceitos organizados em três categorias segundo o tipo de relação que possuem com seu objeto de referência. A primeira categoria é chamada pelo autor de Trajetórias delimitadas (bounded paths), i.e., seu objeto de referência é o alvo ou ponto final

136 Propostas teóricas mais recentes como Svenonius (2008) e Roy & Svenonius (2009) sugerem que mesmo o conceito de Place possa ser decomposto em outros traços mais finos, embasando suas análises em dados translinguísticos de diversas línguas naturais. Para este trabalho, no entanto, tais declarações não foram considerados.

367

do movimento e/ou a fonte ou ponto inicial do movimento. Esses dois conceitos são

representados pelas preposições DE e PARA, as funções básicas das Trajetórias delimitadas.

A segunda categoria inclui Direções, onde o objeto de referência não se encontra dentro da

trajetória, mas é um ponto de referência um pouco distante de seu ponto de início ou fim, como uma distância estendida não específica: no inglês, a função básica de tal trajetória é seria TOWARD ou AWAY FROM, algo como “em direção de” ou “para longe de” no PB. Finalmente, na terceira categoria das Trajetórias estão as Rotas (do inglês, routes), onde o objeto de referência seria um ponto no interior da Trajetória e o ponto final ou inicial do movimento nunca seria especificado. A única informação que pode ser inferida da leitura desta trajetória é a de que, em algum momento do deslocamento, o objeto em movimento pode ser localizado em algum ponto em relação ao objeto de referência. O conceito de VIA expressa a função-de-trajetória para a categoria de rotas.

2.3. Limites das teorias conceituas-cognitivas

Apesar de nos fornecer, como Talmy (2000) e Pinker (1989), ferramentas para explicar muitos dos exemplos de variação encontrados em nossos dados, a proposta de Jackendoff (1983) também apresenta seus limites: tal conjectura não nos possibilita explicar de que maneira os traços até aqui apresentados estão organizados nos itens de superfície, ou que regras estão regulando sua conflação dentro de um determinado item lexical em uma língua e não em outra, bem como não nos possibilita esclarecer de que forma estruturas como ir em podem ser gramaticais em PB, ou como correr em possa ser ambígua. Assim, encontramos na Nano-sintaxe uma teoria que leva em conta tais traços primitivos e que, ao mesmo tempo, nos apresenta o formalismo necessário para elucidar as questões acima levantadas. Na próxima sessão, exporemos brevemente tal teoria, assim como uma análise dos nossos dados para ilustrar o funcionamento do sistema.

3. A Nano-sintaxe

A Nano-sintaxe é uma teoria sobre a arquitetura da gramática relativamente recente que postula que o Léxico não existe como módulo independente com seus próprios primitivos

e regras de combinação, mas é, na verdade, um constituinte do módulo sintático. Este módulo

é, por sua vez, um sistema combinatório, referido aqui como Sintaxe de Primeira Fase,

368

sistema este que a Ramchand (2008) considera universal e que opera anteriormente a inserção. Desta forma, uma das vantagens é que partimos da ideia de que existe apenas um módulo combinatório, e não dois ou três, com apenas um grupo de primitivos e um grupo de operações. Esta perspectiva simplifica a análise e elimina a necessidade de se procurar explicar regras de ligação entre a estrutura lexical, profunda, e a estrutura sintática, de superfície. Esta nova hipótese é proposta inicialmente por Michal Starke dentro de um grupo de pesquisa trabalhando na University of Tromsø, Tromsø, Noruega. Este grupo possui colaboradores desenvolvendo suas pesquisas em uma tese fortemente translinguística e com a cooperação de pesquisadores como Pavel Caha, Peter Svenonious, Marina Pantcheva e Gillian Ramchand. Tal abordagem da arquitetura da gramática integra os resultados de 30 anos de pesquisa em Princípios e Parâmetros assim como o crescente estruturalismo da Semântica. O fio condutor de tal teoria leva em conta a observação (já mencionada em ouros momentos deste trabalho) de que os nós terminais das estruturas sintáticas foram ficando cada vez menores à medida que as árvores sintáticas foram crescendo, i.e., reduzir um complemento preposicionado ao nó PP não daria conta de explicar a variação que observamos, por exemplo, em nossos dados sobre a expressão do deslocamento no PB. Assim, foi preciso estabelecer que tais nós terminais, em um dado ponto, se tornaram menores que um morfema. Esta constatação trouxe uma consequência imediata: morfemas e palavras não poderiam continuar a ser considerados o spellout de um único terminal. Ao contrário, um único morfema deveria “atravessar” ou se espalhar sobre vários terminais sintáticos e, portanto, corresponderia a uma frase sintática completa. Há duas conclusões que decorrem desta constatação: a primeira delas é que frases sintáticas inteiras estão guardadas no léxico, e não apenas terminais; a segunda é que, por causa deste fato, não pode haver nenhum Léxico antes da sintaxe – i.e. a Sintaxe não é projetada a partir do Léxico. Estas conclusões, por sua vez, trazem implicações sérias para um trabalho sobre a arquitetura da gramática que deseje dar conta de explicar de maneira bem sucedida seus dados empíricos: como não pode haver Léxico antes da Sintaxe nem esta pode ser uma projeção daquele, devemos assumir uma nova versão do módulo Sintático-Semântico. Este seria um único nível que cria itens lexicais montando árvores a partir de traços conceituais que, por sua vez, constituirão os itens lexicais.

369

Assim, o significado ou representação semântica de um determinado evento é representado ao organizar-se os seus traços conceituais em uma árvore. Para Ramchand (2008), os conceitos primitivos que estariam regulando a estrutura dos eventos de maneira de movimento são: (i) INCIADOR (nó INIT) – conceito na base da distinção argumento externo vs. interno, também considerado a Causa quando implicar um processo 137 ; (ii) UNDERGOER (nó PROC) – sujeito do processo: aquele que sofre alguma mudança, seja ela de estado, localização, etc; (iii) PATH (nó PATH) – complemento do UNDERGOER, este constituinte é diretamente mapeado para sobre a extensão material do objeto 138 ; (iv) RESULTEE (nó RES)–

este constituinte define uma classe de eventos que são obrigatoriamente télicos. Os verbos que carregam esse traço indicam que seu argumento não passa simplesmente por uma mudança, ele também termina em um estado final que já é especificado pelo verbo em si (chegar, quebrar, encontrar); finalmente, o nó (v) RHEME (nó RHEM) pode ser complemento do RESULTEE ou do INICIADOR, seu conteúdo define as propriedades dos outros constituintes. Tais conceitos estariam, por sua vez, organizados hierarquicamente no seguinte modelo:

(21)

InitP

hierarquicamente no seguinte modelo: ( 2 1 ) InitP DP3 Init’ (sujeito da causa) Init ProcP

DP3

Init’

(sujeito da causa)

modelo: ( 2 1 ) InitP DP3 Init’ (sujeito da causa) Init ProcP DP2 Proc’ (sujeito

Init

ProcP

( 2 1 ) InitP DP3 Init’ (sujeito da causa) Init ProcP DP2 Proc’ (sujeito do

DP2

Proc’

(sujeito do processo)

da causa) Init ProcP DP2 Proc’ (sujeito do processo) ResP Proc DP1 Res’ (sujeito do resultado)

ResP

Proc

Init ProcP DP2 Proc’ (sujeito do processo) ResP Proc DP1 Res’ (sujeito do resultado) 1 3

DP1

Res’

ProcP DP2 Proc’ (sujeito do processo) ResP Proc DP1 Res’ (sujeito do resultado) 1 3 7

(sujeito do resultado)

137 Compreende todas as especificações sutis relacionadas com diferentes constituintes das cadeias causais, mas

só é considerado causa de fato quando implicar um processo, em caso contrário, sua existência indica somente

um estado.

138 A presença deste constituinte implica um grupo de verbos cujo o limite do evento (boundedness) ou ausência

dele (unboundedness)

dependerá da extensão material do objeto.

370

Res

XP

Analogamente, também encontramos um tratamento elegante para os primitivos que estariam representando as relações espaciais e suas correspondências com os itens de superfície. Como o conceito de PATH pode ser destrinchado em outros conceitos, Fábregas (2007), Pantcheva (2007) e Svenonius (2008) assumem que dentre eles o conceito de PLACE – Lugar seria o mais profundo/básico 139 . Acima deste, se construiriam os conceitos de PATH- Alvo, PATH-Rota e PATH-Fonte, todos traços que podemos observar em um evento de movimento dinâmico. Para as preposições aqui analisadas, a estrutura esperada seria como aquela em (22):

(22) PATH-GoalP

esperada seria como aquela em (22): (22) PATH-GoalP <spec> PATH-Goal’ PATH-Goal PlaceP <spec>

<spec>

PATH-Goal’

aquela em (22): (22) PATH-GoalP <spec> PATH-Goal’ PATH-Goal PlaceP <spec> Place’ Place DP O grande

PATH-Goal

PlaceP

(22) PATH-GoalP <spec> PATH-Goal’ PATH-Goal PlaceP <spec> Place’ Place DP O grande argumento é que

<spec>

Place’

PATH-Goal’ PATH-Goal PlaceP <spec> Place’ Place DP O grande argumento é que estas estruturas seriam

Place

DP

O grande argumento é que estas estruturas seriam universais e a variação de uma língua à outra seria, então, explicada ao assumir-se que diferentes elementos de superfície estariam lexicalizando diferentes nós terminais das estruturas acima, i.e., carregariam um arranjo diferente de traços. A combinação destes elementos de superfície se daria, desta forma, respeitando a hierarquia do sistema e outras regras que resumimos abaixo. Na próxima sessão, analisaremos alguns dados do PB em contraste com versões em inglês das mesmas sentenças para ilustrar os conceitos listados até aqui.

4. Análise das estruturas [V maneira + Prep loc ] dentro da Nano-sintaxe

139 Aconselhamos fortemente a leituras destes textos para argumentação e defesa de tais declarações.

371

Primeiramente, seguindo Svenonius (2009), assumiremos que os eventos de movimento direcionado carregam, além dos traços acima enumerados, o traço/nó DIR encaixado abaixo do nó PROC 140 . Este traço estaria diferenciando verbos de movimento que denotam um alvo e verbos de movimento que não especificam nada sobre o ponto final de seu deslocamento. Neste sentido, nossa hipótese é a de que uma preposição que carregue em seu arranjo puramente o traço de trajetória (a preposição para do PB) poderia se encaixar sob este nó, como podemos observar em (23a-b) (representação linear: o traço mais à direita é o mais profundo):

(23) a. ir b. correr PROC-DIR

para

o quarto.

para

o quarto.

PATH

DP

Ao mesmo tempo, um verbo que não carregasse tal nó não seria capaz de formar uma

estrutura bem formada com tal preposição pois uma parte dos traços necessários para compor a estrutura do movimento direcionado estariam faltando:

(24)

a. *dançar

para

o quarto.

PROC-Ø

PATH

DP

 

A presença do traço/nó DIR dentro de certos verbos de maneira de movimento e não dentro de outros seria capaz de explicar por que em outras línguas, como o inglês, a sentença em (24) seria gramatical. A variação aconteceria na especificidade dos itens lexicais que uma língua ou outra estariam usando para expressar os eventos de movimento, enquanto que a estrutura do evento seria universal. Assim, poderíamos sugerir que a representação para o verbo dance teria a estrutura abaixo:

(25) a. dance

to

the room.

PROC-DIR PATH

DP

Concluímos, desta forma, que a ausência do traço DIR em certos itens lexicais estaria bloqueando o uso da preposição para com os verbos nadar, andar, dançar e flutuar enquanto que os verbos correr, rolar e pular teriam este traço em suas estruturas, explicando a

140 Para discussão sobre a relevância sintático-semântica desse traço sugerimos a leitura de Svenonius (2008,

372

gramaticalidade/agramaticalidade das sentenças em (12) e (13), reproduzidas abaixo como (26) 2 (27) respectivamente:

(26)

a. Joana correu para a escola.

b. A bola rolou para o gol.

c. Joana pulou para o jardim.

(27)

a. *Joana dançou para o quarto.

b. ?Joana nadou para a margem.

c. *O corpo flutuou para a margem.

d. ?Joana andou para casa.

Resta-nos explicar a ambiguidade na leitura das construções [V maneira + Prep loc ] com os verbos correr, pular e rolar. Neste caso, acreditamos poder sugerir que a ambiguidade surge

de um conjugado de traços dos verbos de maneira de movimento que podem conter o traço DIR com a estrutura complexa que possui a preposição em no PB. Nesta língua, o item lexical em possuiria o arranjo PATH-Goal-PLACE, o que já licenciaria seu uso com os verbos de movimento direcionado. Quando em arranjo com os verbos de maneira de movimento que não contivessem o traço DIR, seu nó PATH (superior na estrutura arbórea) ficaria fora da representação, fenômeno que respeita a Condição de Ancoragem (Anchor Condition): tal regra regula que “uma entrada lexical pode substituir somente as estruturas sintáticas que incluam seu traço mais baixo” (Patcheva, 2007), isto é, deve-se respeitar a hierarquia dos traços que formam a árvore e somente os traços que se encontram em uma posição mais alta no arranjo sintático podem ser ignorados ou ficarem de fora da representação. Tomemos novamente os exemplos de (11), reproduzidos abaixo em (28) (traço entre parênteses estaria fora da estrutura):

(28) a. nadar/andar/dançar/flutuar

PROC

em

(PATH-Goal)-PLACE

a piscina/o parque

DP

Já quando o verbo carregar o traço DIR, a estrutura completa da preposição pode ser acionada para entrar no arranjo de um evento de movimento direcionado, ou então, ficar fora da representação para se encaixar em um arranjo de movimento puramente locativo. Como

373

não temos outro item no PB que possa ser considerado uma preposição puramente locativa, será a preposição em que deverá servir para as duas representações 141 . Ao mesmo tempo, como em Rammé (2012), sugerimos que, em PB e em francês, temos dois itens lexicais diferentes para correr, pular e rolar carregando duas estruturas: a primeira seria uma estrutura contendo somente o traço PROC comum a todos os verbos de maneira de movimento, e a segunda seria um tipo de verbo de conflação que copiou a propriedade remática de Maneira do complemento de PROC para dentro do núcleo do verbo leve ir.

Acompanhamos Ramchand (2008) que segue, por sua vez, Hale and Keyser (1993 apud Ramchand, 2008:91-92) ao assumir que alguns verbos congregam os traços de seu complemento em seu núcleo de VP através de um movimento sintático que se sintetizaria em um processo de conflação como definido em (29) baixo:

(29) Conflação: Conflação consiste no processo de copiar a assinatura-p (o conteúdo fonológico) do complemento para dentro da assinatura-p do núcleo 142 .

Em Rammé (2012), sugerimos que, quando dizemos Joana correu no quarto em PB ou Jeanne a couru dans la chambre em francês, temos em mente algo como o evento “Joana foi no quarto correndo” ou “Jeanne est allée dans la chambre en courant”, como podemos constatar no quadro 143 abaixo:

Joana correu no quarto

=

Joana foi no quarto correndo

Jeanne a couru dans la chambre

=

Jeanne est allée à la chambre en courant

A bola rolou no gol

=

A bola foi para dentro do gol rolando

Le ballon a roulé dans le but

=

Le ballon est allé dans le but en roulant

141 Em uma língua onde houver uma preposição puramente locativa, esta terá preferencia na inserção, observando-se ao mesmo tempo (a) o Pricícipio do Sobreconjunto (Superset Principle) e (b) do Lixo Minimizado (Minimized Trash). O primeiro garante que “quando vários itens lexicais competem, aquele que identificar o mínimo sobreconjunto de traços sintáticos é escolhido” (Starke, 2007 apud Fábregas, 2007). Esse princípio também assume que todo traço sintático seja spelled-out, assim, uma dada estrutura poderia ser lexicalizada por mais de um item de superfície, como é o caso dos phrasalverbs do inglês (enter vs. go in). O segundo assume que, considerando que todos os traços sintáticos da estrutura tenham spellout, o item que possuir o mínimo de traços sobressalentes é inserido. 142 Adaptado de Ramchand, 2008:94.

143 Reprodução parcial do Quadro 15 de Rammé 2012: Exemplos das construções correr vs. ir correndo, escorregar vs. ir escorregando, rolar vs. ir rolando e voar vs. ir voando no PB.

374

Como consequência destas observações, em (29a-b), desta forma, podemos verificar as duas estruturas em que os verbos de maneira de movimento correr, pular e rolar e a preposição em podem ser inseridos 144 :

(29) a.

Evento:

PROC-DIR

 

correr 1 /rolar 1 /pular

1

 

Traços dos itens:

PROC

b.

Evento:

PRO

 

correr 2 /rolar 2 /pular

2

 

Traços dos itens:

PROC-DIR

PATH-PLACE

em

(PATH-)PLACE

DP

PLACE

em

PATH-PLACE

DP

DP

DP

Assumimos que ambiguidade destas construções seria sempre resolvida

pragmaticamente.

5. Considerações finais

Neste trabalho, propomos uma breve análise das construções [V maneira + Prep loc ] em dados do PB comparados ao inglês e ao francês à luz de teorias semântico-cognitivas. Vimos que a defesa da existência de traços conceituais profundos subsistindo às estruturas de superfície das línguas naturais tem longa história literatura. Recentemente, no entanto, uma teoria sintático-semântica que integra o formalismo da teoria sintática e as observações de diversos autores que acreditam que nos traços conceituais profundos foi proposta: a Nano- sintaxe. Analisamos, então, nossos dados à luz desta nova proposta e sugerimos uma nova resposta para as leituras divergentes possíveis paras as construções acima. Neste sentido, propusemos que o bloqueio que alguns verbos criam para a preposição para em PB se deve ao fato de que tais itens, em PB, não carregam o traço DIR em suas estruturas. Analogamente, sugerimos que a preposição em carrega um arranjo de traços mais completo que aquele que carrega a preposição para, explicando sua produtividade com verbos de movimento direcionado e a ambiguidade que seu uso cria ao lado dos verbos correr, rolar e pular.

144 Indicamos, novamente, a leitura de Rammé (2012) para uma análise mais detalhada deste fenômeno e outras sugestões de decomposição.

375

Como este artigo é um breve esboço do trabalho desenvolvido na dissertação de Rammé (2012), não foi possível, entretanto, abordar as particularidades que os próprios verbos correr, rolar e pular possuem. Indicamos essa leitura para aqueles que se interessarem em vislumbrar outras possíveis análises para a variação que observamos em PB e translinguisticamente nos dados que expressam movimento, ou para aqueles que se interessam pela Nano-sintaxe.

6. Referências

FÁBREGAS, A. 2007. Tromsø Worki ng Papers on Language & Linguistics: Nordlyd 34.2, special issue on Space, Motion, and Result, ed. by Monika Basic, Marina Pantcheva, Minjeong Son, and Peter Svenonius. An Exhaustive Lexicalisation Account of Directional Complements, pp. 165–199. CASTL, Tromsø. Acessível em: http://www.ub.uit.no/baser/nordlyd/

JACKENDOFF, Ray (1983). Semantics and Cognition. Cambridge, MA: MIT Press.

PATCHEVA, M. 2007. Nordlyd 36.1, special issue on Nanosyntax, ed. Peter Svenonius, Gillian Ramchand, Michal Starke, and Knut Tarald Taraldsen. Directional expressions cross- linguistically: Nanosyntax and lexicalization, pp. 7–39. CASTL, Tromsø. Acessível em:

http://www.ub.uit.no/baser/nordlyd/

PINKER, S. 1989. Learnability and cognition: The acquisition of argument structure. Cambridge, MA, US: The MIT Press.

RAMCHAND, G. C. 2008. Verb meaning and the Lexicon: a first pahse syntax. New York: Cambridge University Press

SVENONIUS, P. 2010 Spatial P in English, in Cartography of Syntactic Structures, ed. by G. Cinque and L. Rizzi, Oxford University Press.

2008, Microparameters of Cross-linguistic variation: Directed motion and Resultatives (with Minjeong Son), in the Proceedings of the 27th West Coast Conference on Formal Linguistics, ed. by Natasha Abner and Jason Bishop, pp. 388-396. Cascadilla Press, Somerville, Ma.

TALMY, L. 2000. Toward a Cognitive Semantics, vol.1 e 2. Cambridge MA: MIT Press.

376

376 A PRESSUPOSIÇÃO NO GÊNERO TIRA: UMA INTERPRETAÇÃO SEMÂNTICO- PRAGMÁTICA INTRODUÇÃO Josilane Márcia

A PRESSUPOSIÇÃO NO GÊNERO TIRA: UMA INTERPRETAÇÃO SEMÂNTICO- PRAGMÁTICA

INTRODUÇÃO

Josilane Márcia Justiniano da Silva Programa de Pós-Graduação em Linguística Universidade Federal da Paraíba

O estudo da pressuposição não é recente, visto que, desde a lógica de Port-Royal, este fenômeno vem sendo estudado. Autores como Ducrot (1972), Frege (1978), Levinson (1983), Ilari (2000) e Moura (2006) são alguns dos que se debruçaram sobre esse assunto. O objeto de investigação é o mesmo, o que se diferencia em cada um dos autores é a maneira como procuram explicar a pressuposição, ou seja, o ponto de vista adotado. Alguns a situam no domínio da semântica, outros, no da pragmática. Diante do exposto, objetivamos, com este trabalho, discutir como se estabelece a construção dos sentidos do gênero tirinha a partir da presença da pressuposição, levando em consideração o contexto no qual esta ocorre. Nosso intuito é verificar se uma análise do contexto semântico é suficiente para a definição das possibilidades de interpretação, ou se é necessário levar em conta também uma leitura do contexto pragmático. Para alcançar nosso fim, buscamos subsídio teórico em Ilari (2000), Souza (2000), Moura (2006), Pires de Oliveira e Basso (2007). Apresentamos as posições desses autores e definimos nosso próprio olhar sobre essa questão. Utilizamos como corpus de investigação 7 tirinhas de Mafalda, do escritor argentino Quino, coletadas no site http://clubedamafalda.blogspot.com.br.

377

1. A pressuposição: um fenômeno semântico ou pragmático?

Partindo dos pressupostos teóricos de Ilari (2000), observamos que ele sugere

estabelecer um limite entre semântica e pragmática (limite este muito discutido na literatura, mas com posições diversas) a partir do estudo dos dêiticos, da pressuposição, dos performativos e das implicaturas conversacionais.

O autor acredita que os três primeiros fenômenos citados têm interpretações

previsíveis, a partir do léxico empregado e das construções gramaticais onde ocorrem, posição

também defendida por Souza (2000). Apenas para o último – as implicaturas conversacionais – não é possível prever as interpretações, uma vez que são puramente pragmáticas, no sentido que atribuímos a este termo, ou seja, aquela interpretação que parte do sentido literal da

sentença (contexto semântico), mas se estabelece pelo contexto extralinguístico, relacionando- se, também, com as intenções do locutor. Ilari defende que não há uma dependência hierárquica entre as disciplinas sintaxe, semântica e pragmática, como propuseram alguns autores, mas uma interação entre elas para a interpretação da significação dos enunciados, que ele prefere denominar de níveis de interpretação. A interpretação semântica seria, a seu ver, sempre o primeiro momento – e geralmente suficiente. É válido ressaltar, no entanto, que, em suas análises, o autor adota a perspectiva da semântica de valor de verdade, ou seja, a semântica formal. Em se tratando dos dêiticos, dos performativos e das pressuposições, o linguista defende que não é sempre necessária a menção ao contexto pragmático para uma explicação satisfatória. Sendo assim, acredita que a interpretação semântica nesses casos é calculável a partir do léxico empregado na construção da própria sentença. Portanto, para este autor, a pressuposição é uma questão que se resolve no próprio contexto semântico.

O que este estudioso entende por pragmática, então, é uma interpretação mais

complexa, intuitivamente válida, porém que se dá no nível do contexto extralinguístico e que,

por não ser convencional, não é passível de ser calculada. No caso das implicaturas conversacionais, especificamente, o autor acredita que há o envolvimento da pragmática, de forma abdutiva, ou seja, quando uma interpretação aparece como a melhor explicação para o fenômeno em estudo, num contexto particular. Outros conceitos que, segundo ele, estariam no domínio da pragmática seriam a vagueza, várias figuras retóricas e a maioria dos operadores argumentativos, uma vez que sua interpretação não é estabelecida a priori pela sentença.

378

Moura (2006), por sua vez, ao discutir a pressuposição, retoma a distinção feita por Ducrot (1987) entre posto e pressuposto. Isto é, posto é a informação que se encontra no sentido literal das palavras de uma sentença, enquanto pressuposto é uma informação inferida a partir do posto. Uma observação importante a fazer é que, para o entendimento do conteúdo posto, segundo os autores, é necessário que o conhecimento do pressuposto seja compartilhado entre os interlocutores, caso contrário a aceitação da sentença pode ser prejudicada.

A contribuição de Moura para o dilema entre interpretação semântica e pragmática

está na definição de contexto. Em outras palavras, ele separa a abordagem semântica da pressuposição da abordagem pragmática a partir da definição de contexto, e é essa noção que adotaremos para análise das tiras nesta pesquisa.

Conforme este autor, há pressuposições que, para serem compreendidas, é necessário que já façam parte do repertório de conhecimento dos interlocutores. Sendo assim, nesses casos, acreditamos que uma interpretação semântica não é suficiente. Por isso, concordamos com Souza (2000), quando discute, com base em Stalnaker (1972), a necessidade de considerar pressuposições semânticas e pressuposições pragmáticas. Consideremos o exemplo clássico:

(1) Joana adoeceu antes de terminar sua tese. (Levison, 1983, apud. Moura, 2006)

Em exemplos como esse fica evidente que a interpretação dessa sentença não pode ser previsível a partir do léxico da sentença, pois não sabemos, apenas pelo ativador de

pressuposição “antes de”, se Joana terminou ou não a tese. É necessária, então, uma continuidade discursiva ou conhecimento compartilhado entre os interlocutores para a interpretação adequada da sentença. Se adotarmos a primeira possibilidade, a pressuposição será considerada semântica, uma vez que a interpretação dar-se-á pelo léxico empregado. Por outro lado, se o conhecimento compartilhado resolver a ambiguidade, então estaremos diante de uma pressuposição pragmática.

É importante destacar que Moura (2006), com base em Levinson (1983), considera

que o exemplo (1) pode desencadear ou não uma pressuposição. A explicação dada é a seguinte: se os interlocutores sabem que Joana terminou a tese, então (1) está informando que ela estava doente quando isso aconteceu. Nesta interpretação, o autor considera que há a

pressuposição de que ela terminou. Por outro lado, se eles sabem que Joana não terminou a

379

tese, o exemplo citado está fornecendo uma explicação para a não conclusão do trabalho, e a pressuposição é cancelada. ´ Este autor diferencia, ainda, dois tipos de contexto: o contexto semântico e o contexto pragmático. O primeiro diz respeito à especificação de uma informação na própria continuação discursiva. Esse tipo de especificação é responsável, por exemplo, por disfazer ambiguidades de pressuposição ou mesmo cancelá-la. Vejamos os exemplos:

(2) Não serei a única a reclamar da prova. (2a) Não serei a única a reclamar da prova, pois outros alunos já reclamaram.

Em (2), há uma ambiguidade quanto aos pressupostos ativados, pois essa sentença pode ser interpetada de duas formas distintas. A primeira leitura poderia ser feita da seguinte forma: outros alunos já reclamaram da prova e eu também vou reclamar, por isso não serei a única. A segunda interpretação poderia ser a seguinte: ninguém reclamou da prova e eu não serei a única a fazer isso. Ao utilizar (2a), essa ambiguidade é desfeita, uma vez que só é plausível a primeira interpretação. Há casos também nos quais uma possível pressuposição é cancelada pela continuação discursiva, como podemos ver no seguinte exemplo:

(3) Não me arrependerei de ter viajado, pois não viajei.

Observe que a própria continuação dicursiva (não viajei) cancela o pressuposto de que o locutor dessa sentença tenha viajado. O contexto pragmático, por sua vez, ocorre quando a interpretação depende das crenças, conhecimento de mundo e intenções dos interlocutores. Citamos o exemplo apresentado por Moura:

(4) O sanduíche de presunto acabou de sair pela porta da esquerda.

Inicialmente, a descrição definida “o sanduíche de presunto” causa estranhamento, pois mostra um sanduíche com capacidade para andar. Mas, como essa interpretação não se mostra adequada para a sentença, o interlocutor procura outra referência para a expressão. Para uma interpretação plausível dessa sentença, é necessário levar em conta, por exemplo, que ela foi pronunciada no contexto de uma lanchonete onde os funcionários costumam se

380

referir aos clientes, não pelos nomes, mas pelos produtos consumidos, tratando-se, portanto, de uma interpretação pragmática. É neste momento que trazemos os postulados de Pires de Oliverira e Basso (2007), segundo os quais há um jogo de apostas que permeiam a interpretação. Sendo assim, a referência de “o sanduíche de presunto” é estabelecida na medida em que o ouvinte aposta que a intenção do falante, ao usar essa descrição definida, é se referir a um cliente. Se o conhecimento dessa expressão não é do conhecimento de ambos, a interpretação fica prejudicada. Os autores afirmam, ainda, que:

ao passo que o pragmático só pode ser

‘calculado’ a posteriori, isto é, podemos explicar o cálculo depois que o fizemos, mas não há como saber de antemão o resultado, porque ele depende

o objeto semântico é previsível

de fatores imponderáveis (de uma combinação de muitos fatores). (PIRES DE OLIVEIRA; BASSO, 2007, p. 11)

Segundo esses autores, esse procedimento também ocorre com as implicaturas e é por este motivo que Ilari (2000) as considera como uma prática de abdução, já que o raciocínio feito pelos interlocutores não é lógico, mas subjetivo. Diante do exposto, algumas conclusões podem ser resumidas: 1) a pressuposição é um fenômeno semântico e/ou pragmático; 2) há dois contextos distintos – um semântico e um pragmático; 3) a interpretação das proposições ora se dá considerando apenas o contexto semântico, ora necessita também de uma aposta; 4) não há dicotomia entre semântica e pragmática para a análise da pressuposição, mas uma interação que, às vezes, é necessária, para o entendimento desse fenômeno.

2. Pressuposição, acarretamento e implicatura

Antes de passar para a análise das pressuposições nas tiras, é necessário fazer uma distinção entre pressuposição, acarretamento e implicatura, uma vez que são três maneiras de fazer inferência, mas de natureza distinta. A primeira, como já afirmamos, é uma inferência feita com base em um conteúdo posto, como em:

381

(5) André deixou de beber.

A partir dessa sentença, infere-se, através da partícula “deixou de”, que André bebia

antes. Se negarmos essa proposição e afirmarmos (5a), ainda assim o pressuposto de que

André bebia antes se mantém.

(5a) André não deixou de beber.

A inferência por acarretamento ocorre quando é possível deduzir uma informação B a

partir de uma informação A, ou seja, o conteúdo de A implica necessariamente o conteúdo de B. Vejamos um exemplo para ficar mais claro.

(6) Maria tem margaridas em casa. (6a) Maria tem flores em casa.

Se aceitarmos o conteúdo de (6) como verdadeiro, necessariamente temos que aceitar também a afirmação de que Maria tem flores em casa. Essa inferência é possível porque o grupo das margaridas pertence ao grupo das flores. Dessa forma, se negamos o conteúdo de (6), a informação contida em (6a) pode não ser mais verdadeira. Observe:

(6b) Maria não tem margaridas em casa.

A partir dessa nova sentença, a informação contida em (6a) pode tornar-se falsa. Sendo

assim, somente no contexto conversacional é que essa sentença pode ser verificada. Por ser passível de ser cancelada quando se nega a proposição e por apresentar essa relação de implicação, essa inferência é chamada na literatura de acarretamento. Há, ainda, um terceiro tipo de inferência: a implicatura. Esse fenômeno se baseia não a partir do conteúdo posto, como ocorre nos dois primeiros tipos, mas deriva das intenções do locutor quando afirma uma determinada sentença. Consideremos mais uma vez o exemplo:

(5) André deixou de beber.

382

Note-se que, além do pressuposto de que André bebia antes, podemos fazer outros tipos de inferência:

(5b) André agora terá mais saúde. (5c) A esposa de André está muito feliz.

Essas interpretações não são semânticas, estão no domínio do contexto pragmático, ou seja, dependem do conhecimento e intenções dos interlocutores, logo não são calculáveis e são passíveis de serem canceladas.

3. Análise das tiras

É válido ressaltar que não tivemos como preocupação fazer um levantamento exaustivo das pressuposições presentes nas tiras, nem tampouco classificá-las, uma vez que é um fenômeno recorrente na linguagem. Nosso intuito foi discutir aquelas que saltam aos olhos, através de alguns ativadores, a fim de confirmar se uma interpretação semântica é suficiente para o entendimento ou se é necessário evocar o contexto pragmático.

Tira 1

ou se é necessário evocar o contexto pragmático. Tira 1 Na tira 1, percebemos que a

Na tira 1, percebemos que a personagem Mafalda diz que vai acalmar a mãe para que esta não fique preocupada com sua ida ao jardim-de-infância, por isso afirma que vai estudar bastante. O que provoca o humor é que, ao tentar “confortar” a mãe, acaba, na verdade, fazendo uma crítica. De acordo com o ponto de vista presente na fala da menina, podemos inferir que as pessoas que casam e não continuam seus estudos são frustradas e medíocres.

383

Essa inferência é desencadeada pelo uso da pressuposição. Observamos que a expressão “vou começar” ativa a pressuposição de que Mafalda ainda não está no jardim-de-infância e a expressão “não vou ser uma mulher frustrada e medíocre como você” pressupõe que ela considera a mãe como tal. A pressuposição, neste caso, é uma estratégia utilizada para que a crítica seja vista como uma informação compartilhada entre as duas, colocando como novidade apenas que a menina não vai ser frustrada e medíocre também.

Tira 2

a menina não vai ser frustrada e medíocre também. Tira 2 Nesse caso, o humor se

Nesse caso, o humor se constrói pela ingenuidade da menina, que desconhece que o livro grosso do qual fala trata-se de um dicionário e que, por isso, seu pai só lê um pequeno trecho cada vez que o consulta, certamente uma palavra desconhecida. Nesta tira, a expressão “nunca vai terminar”, no período utilizado, atualiza a pressuposição de que o pai de Mafalda começou a ler um livro grosso. No entanto, é o conhecimento compartilhado entre entre os interlocutores da função de um dicionário, presente no segundo quadrinho da tira, juntamente com as imagens, que permite a leitura adequada do texto, pois apenas o uso da pressuposição não garante o humor.

Tira 3

384

384 O humor dessa tira se estabelece pelo fato de o pai de Mafalda ficar surpreso

O humor dessa tira se estabelece pelo fato de o pai de Mafalda ficar surpreso por está sendo ouvido através de um aparelho eletrônico quando, falando sozinho, diz que “se o papa tivesse filhos ele não pensaria assim!”, ou seja, não acharia que a televisão une as famílias. A voz da pessoa que o está escutando do outro lado da máquina pergunta se ele ficou louco ou se quer ser demitido por comunismo. Nesse caso, na expressão “não quero que a Mafalda se torne uma telemaníaca idiota!” pressupõe-se que que a menina não é “uma telemaníaca idiota”.

o próprio papa disse que a televisão une as famílias” que

atualiza um bloqueio, uma vez que o verbo “dizer’ indica que o locutor, no caso o pai de Mafalda, não assume o possível pressuposto como verdadeiro. É tanto que em seguida ele acrescenta: “se o papa tivesse filhos ele não pensaria assim”, que ativa a pressuposição de que ele não os tem, através da condicional mais verbo no subjuntivo. Mais uma vez se confirma a importância da pressuposição como um elemento essencial na construção dos sentidos desse gênero textual.

Há também a expressão “

Tira 4

como um elemento essencial na construção dos sentidos desse gênero textual. Há também a expressão “

385

Nesta tira, Manolito, amigo de Mafalda, apresenta-se inconformado pelo fato de a professora haver lhe atribuído o conceito “‘péssimo’ outra vez”. Percebemos que essa expressão ativa o pressuposto de que ela já havia dado esse conceito antes, pelo menos uma vez, o que faz com que o menino fique irritado, pois, segundo ele, um freguês, ou seja, um aluno que vai à escola todos os dias não merece esse conceito. O humor se estabelece justamente pelo uso do pressuposto e pela justificativa que vem logo em seguida, assim como pelo conhecimento compartilhado entre os interlocutores de que Manolito é filho de um comerciante e trabalha em um mercado. Podemos dizer, então, que os elementos textuais – pressuposição, imagens e as várias implicaturas que esse texto desencadeia –, juntamente com o conhecimento de mundo dos interlocutores, corroboram para a construção dos sentidos dessa tira.

Tira 5

para a construção dos sentidos dessa tira. Tira 5 O humor dessa tira se dá pelo

O humor dessa tira se dá pelo fato de Mafalda ligar o rádio e ouvir no noticiário que morreu uma grande personalidade do cinema, mas a menina não sabe de quem se trata, pois a programação já estava encerrando, e o locutor da rádio não cita o nome do falecido. Ela, assustada, deseja que não se trate da morte do Pica-Pau, personagem da qual, certamente, gosta muito. A pressuposição, neste caso, é desencadeada pela expressão “Sua morte priva o cinema de uma de suas maiores personalidades”, pois indica que há pelo menos mais uma personalidade no cinema além da que falaceu.

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386 Nesta tira, o pai de Mafalda, ao vê-la brincando com meninos, imagina que seria bom

Nesta tira, o pai de Mafalda, ao vê-la brincando com meninos, imagina que seria bom ela ter também meninas como amigas, mas, ao ver que sua filha briga com os meninos, que saem correndo da presença dela para não serem atingidos por objetos, como cadeiras, indaga- se se seria bom para as meninas terem a Mafalda como amiga. Pelo contexto da tira, percebemos que talvez as prováveis amigas não suportariam brincar com uma menina que atira os objetos nos amigos quando está irritada. O pressuposto de que ela não tem amigas está no trecho “seria bom se a Mafalda tivesse umas amiguinhas”, atualizado pelo uso da condicional mais verbo no subjuntivo. Além da pressuposição, as imagens cooperam decisivamente para a leitura adequada do texto.

Tira 7

decisivamente para a leitura adequada do texto. Tira 7 Nesta tira, Mafalda engana seu amigo Filipe,

Nesta tira, Mafalda engana seu amigo Filipe, enrolando um cordão em uma bolacha recheada, fazendo-o acreditar que trata-se de um ioiô. Ao perceber que foi enganado, o menino vai queixar-se com Manolito, que provavelmente estava vendendo ioiôs. O pressusposto de que outras pessoas já haviam comprado o brinquedo está na expressão “eu também acabei comprando”, atualizado pela partícula “também” e mesmo pela própria

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imagem do menino com um ioiô na mão, o que mostra que, pelo menos ele já havia comprado o brinquedo antes de Mafalda.

CONSIDERAÇÕES

Diante do que expusemos na interpretação das tiras, percebemos que a pressuposição é um elemento essencial na construção dos sentidos desse gênero textual e que, juntamente com outros elementos, estabelece o humor dos textos analisados. O uso desse fenômeno, como discutido por Ilari (2000) e Souza (2000), a partir dos ativadores, torna a interpretação previsível. Porém temos que levar em consideração que a leitura das imagens e o conhecimento prévio do leitor também auxiliam no entendimento das tiras. Sendo assim, não podemos dispensar a contribuição pragmática, ou seja, a consideração desses recursos que estão fora da sentença, para a construção dos sentidos do gênero em estudo.

Na tira 1, por exemplo, a pressuposição presente na trecho “não vou ser uma mulher frustrada e medíocre como você” pressupõe que a mãe de Mafalda é uma mulher frustrada e medíocre, mas essa pressuposição não está marcada por nenhum elemento na sentença. O autor da tira coloca essa informação como sendo compartilhada pelos leitores e a informação nova que aparece é o fato da menina não querer ser igual à mãe. Um leitor que não é habituado a ler as tiras da Mafalda pode não entender o motivo da crítica, que é feita de outras maneiras, em outras tiras da personagem. Já na segunda tira, o conhecimento prévio da função de um dicionário é fundamental para a compreeensão do texto, pois, para uma criança que não conhece, é natural fazer a observação que a menina fez, e assim por diante. Por isso, achamos mais adequado considerar a pressuposição nesse gênero como um fenômeno semântico-pragmático, uma vez que uma interpretação semântica é sempre válida, mas a contribuição pragmática é necessária para estabelecer o sentido pretendido pelo locutor das tiras. Sendo assim, acreditamos que, com essa análise, apresentamos uma proposta de leitura, mas de forma alguma estamos esgotando as possibilidades de interpretação, sendo nosso olhar apenas uma das várias formas que se pode abordar esse assunto, pois, conforme afirma Moura (2006), às vezes “as pressuposições dependem do gosto do freguês”.

388

REFERÊNCIAS

DUCROT, Oswald. Princípios de semântica linguística: dizer e não dizer. Tradução de Carlos Vogt. São Paulo: Cultrix Ltda, 1972.

O dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987.

FREGE, G. Lógica e Filosofia da linguagem. São Paulo, Cutrix/EDUSP, 1978.

ILARI, Rodolfo. “Semântica e pragmática: duas formas de descrever e explicar os fenômenos

da significação”. Estudos Linguísticos. Belo Horizonte, v.9, n.1, p.109-162, jan./jun. 2000.

LEVINSON, S. Pragmatics. Cambridge Press, 1983.

MOURA, H. M. M. Significação e contexto. Florianópolis: Insular, 2006.

PIRES DE OLIVEIRA, Roberta; BASSO, Renato Miguel. “A semântica, a pragmática e os

seus mistérios”. Revista virtual de Estudos da Linguagem – ReVEL. v. 5. n. 8, março de

2007. ISSN 1678-8931 [WWW.revel.inf.br].

SOUZA, Heberth Paulo de. “A pressuposição linguística na estrutura da língua portuguesa”.

Dissertação defendida na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – Belo Horizonte,

2000. Disponível em <http://bib.pucminas.br/teses/Letras_SouzaHP_1.pdf>

SITE CONSULTADO:

http://clubedamafalda.blogspot.com.br

389

389 CATÁLOGO DE VERBOS DO PORTUGUÊS BRASILEIRO 1. Introdução Márcia Cançado UFMG Luisa Godoy UFMG Luana

CATÁLOGO DE VERBOS DO PORTUGUÊS BRASILEIRO

1. Introdução

Márcia Cançado

UFMG

Luisa Godoy

UFMG

Luana Amaral

UFMG

O trabalho que apresentamos neste texto, chamado de “Catálogo de Verbos do

Português Brasileiro”, é um estudo amplo e exaustivo sobre o léxico verbal do português

brasileiro (PB) 145 . Fizemos uma catalogação dos verbos do PB, organizando-os em classes, a

partir de generalizações a respeito da semântica e da sintaxe dos verbos, nos valendo para tal

classificação da linguagem formal da decomposição de predicados. Muitas das informações

registradas em nosso catálogo são uma síntese da pesquisa sobre o léxico verbal do PB que

vem sendo realizada por Cançado, desde 1995.

Entendemos que classes verbais são grupos de verbos que compartilham propriedades

não só semânticas, mas também sintáticas. Mais especificamente, os verbos são classificados

através de suas propriedades semânticas que têm impacto no seu comportamento gramatical -

na realização sintática de seus argumentos (FILLMORE,1970; DOWTY, 1989, 1991; LEVIN,

1993; LEVIN; RAPPAPORT HOVAV, 2005; CANÇADO, 2005). Baseadas nessa proposta,

dividimos a análise do léxico verbal do PB em três partes. A primeira (CANÇADO; GODOY;

390

AMARAL, no prelo), que comporta a catalogação das classes de verbos de mudança, é a que apresentamos neste texto. Nesta primeira parte do trabalho, catalogamos 860 verbos, divididos em quatro classes (verbos de mudança de estado, verbos de mudança de estado locativo, verbos de mudança de lugar e verbos de mudança de posse) 146 . Apresentamos também cerca de 5630 sentenças relativas a propriedades sintáticas e semânticas envolvendo os verbos listados e corroborando a classificação proposta. O Catálogo de Verbos do Português Brasileiro (Parte I – Verbos de Mudança) é dividido em duas grandes seções. Na primeira, apresentamos os subsídios teóricos que sustentam a classificação dos verbos proposta. Na segunda grande seção, apresentamos uma lista dos 860 verbos de mudança do PB e das cerca de 5630 sentenças que exemplificam as propriedades semânticas e sintáticas dos verbos.

2. Metodologia de coleta de dados

Inicialmente, fizemos a coleta dos verbos a serem catalogados, através do Dicionário de Verbos de Borba (1990) e através de trabalhos nossos já realizados (CANÇADO, 2005; GODOY, 2008; AMARAL, 2009; entre outros). Essa etapa de coleta dos verbos se deu de uma maneira meticulosa e manual. Os verbos de cada classe foram coletados a partir de testes que evidenciam suas propriedades semânticas – como o acarretamento– e sintáticas – como a capacidade de apresentar sentenças agentivas, causativas, alternâncias transitivo-intransitivas, passivas, construções com instrumentos, entre outras. Se nessa etapa o nosso objetivo foi um levantamento abrangente e exaustivo do léxico verbal, então justificamos essa busca em um dicionário de verbos como sendo uma maneira mais eficiente de se coletar dados dessa natureza, em oposição a, por exemplo, uma busca em um corpus de dados de língua real. Um corpus de língua real deveria ter uma extensão enorme, para que nele encontrássemos os 860 verbos diferentes que listamos aqui. Em um dicionário de verbos, por outro lado, encontramos quantidade e variedade de verbos.

146 Ressaltamos que os “nomes” das classes buscam explicitar as suas propriedades semânticas, mas a definição de uma classe verbal é dada pela estrutura de predicados e tais nomes são utilizados apenas para facilitar a referência a determinada classe.

391

Em um segundo momento, passamos para a construção de sentenças gramaticais e agramaticais com cada um dos verbos coletados. Esse trabalho foi feito com muita cautela, pois partimos do princípio de que deveria haver unanimidade no julgamento das autoras acerca da gramaticalidade de cada sentença. A partir da listagem das propriedades sintáticas que iríamos observar, como a transitividade e a possibilidade de o verbo ocorrer em alternâncias e construções, elaboramos sentenças que exemplificassem cada uma das propriedades relativas a cada verbo. Também foram elaboradas sentenças agramaticais, para mostrar que determinada propriedade sintática não se manifesta em determinada classe verbal. A etapa da construção e da análise dos dados durou cerca de dois anos. Um ponto importante do nosso trabalho é justificar o uso do dado de intuição. A elaboração de sentenças a partir da intuição de falantes é uma ferramenta metodológica que permite testar as propriedades sintáticas e semânticas dos verbos que observamos, manipulando tempo, aspecto gramatical, número de argumentos etc., de forma a constatar o que é permitido e também o que não é permitido na língua. Por meio das sentenças construídas, somos capazes de mostrar, por exemplo, que verbos como quebrar formam passiva (o vaso foi quebrado pelo menino), e que verbos como amadurecer não aceitam a passivização (*a fruta foi amadurecida pela Maria). Está fora do nosso objetivo descritivo, por outro lado, mostrar o que é frequente ou o que é usado. Para pesquisas que têm tais objetivos, o corpus de língua real abarca os dados ideais, mas não para o tipo de pesquisa que realizamos aqui. Além disso, se queremos testar os limites da gramaticalidade das propriedades sintáticas em relação às classes, valendo-nos de dados negativos, não podemos utilizar um corpus de língua real 147 . Além da nossa intuição de falantes, foram utilizados também dois outros recursos para a elaboração e o julgamento de sentenças: exemplos de outros autores e pesquisa no site de busca Google (o Google funcionou para nós como uma espécie de quarto julgamento de gramaticalidade, e não como fonte de dados).

3. As classes analisadas

147 Argumentação semelhante é encontrada em Laporte (2008).

392

Tomamos como ponto de partida os verbos mais estudados na literatura em semântica lexical. Primeiramente, temos os verbos que denotam mudança de estado, como quebrar, muito estudados na literatura (FILLMORE,1970; HALE; KEYSER, 2002; LEVIN; RAPPAPORT HOVAV, 1995, 2005; RAPPAPORT HOVAV; LEVIN, 2002; dentre outros). Outras duas classes de verbos também muito analisadas são as classes conhecidas como locativo (enjaular) e locatum (apimentar) (CLARK; CLARK, 1979; HALE; KEYSER, 2002). Essas três classes também já foram investigadas no PB, no trabalho de Cançado e Godoy (2012). Acrescentamos ainda ao nosso trabalho os verbos de mudança de estado locativo (acomodar), classe apontada por Godoy (2012). O que essas classes têm em comum

é o sentido mais amplo de mudança. Como já dissemos, uma classe verbal é definida a partir das propriedades semânticas dos verbos que possuem impacto em seu comportamento gramatical (mais especificamente, na realização sintática de seus argumentos). Por isso, escolhemos para representar as classes verbais uma linguagem formal da representação do sentido que explicita tais propriedades semânticas, a decomposição de predicados. Vejamos a representação de uma classe de verbos como exemplo e quais são os elementos dessa linguagem:

(1) v: [[X ACT] CAUSE [BECOME Y <STATE>]] 148

Na decomposição de predicados, os elementos semânticos recorrentes entre os grupos de verbos são representados como predicados primitivos; em (1), ACT, CAUSE, BECOME e STATE. As variáveis X e Y representam argumentos que saturam um predicado: X satura a posição argumental de ACT (agir) e Y satura STATE (estado). O metapredicado BECOME (ficar/tornar-se) toma Y <STATE> como seu argumento. O metapredicado CAUSE (causa), que representa o sentido causal do evento, toma como argumentos os dois subconjuntos notados entre colchetes, ou seja, os dois subeventos representados por [X ACT] e por [BECOME Y <STATE>]. Segundo Dowty (1979), dessa relação bieventiva, podemos derivar

o aspecto lexical de accomplishment, que é o tipo de evento denotado pelo verbo. Se o evento

148 As estruturas propostas no catálogo são baseadas nos trabalhos de Rappaport Hovav e Levin (1998), Levin e Rappaport Hovav (2005), Cançado (2010), Cançado e Amaral (2010) e Cançado e Godoy (2012).

393

for monoeventivo, representado apenas pelo segundo tipo de subevento, podemos dizer que se trata de um verbo que denota um evento de achievement 149 . A estrutura em (1) representa o sentido recorrente de todos os verbos de mudança de estado. Entretanto, os verbos individualmente também apresentam um sentido que é idiossincrático. Esse sentido, que chamamos de raiz, tem relação com os nomes dos verbos e vem representado entre colchetes angulados. As raízes dos verbos, apesar de veicularem um sentido idiossincrático, podem também ser classificadas quanto a determinados tipos ontológicos. No exemplo acima, as raízes dos verbos de mudança de estado são classificadas ontologicamente como STATE. Mas ainda temos raízes que pertencem a categorias ontológicas tais como THING (coisa), PLACE (lugar), entre outras. Com essas informações, estamos aptos a tratar das classes aqui analisadas. A seguir apresentamos a nossa proposta de classificação dos verbos de mudança do PB e as propriedades semânticas e sintáticas desses verbos.

3.1 [[X ACT] CAUSE [BECOME Y <STATE>]]

A primeira classe verbal analisada é também a mais numerosa dentre os verbos de mudança do PB, com 681 verbos. Os verbos dessa classe são “apelidados” de “verbos de mudança de estado”, pois denotam uma mudança para um estado final. Vejamos alguns exemplos:

(2) O governo estatizou a empresa. (3) A soprano quebrou a taça de cristal. (4) As armações da Rosa preocuparam a Maria. (5) O calor apodreceu as frutas.

Genericamente, esses verbos podem ser representados pela seguinte estrutura de decomposição de predicados:

149 Para mais detalhes sobre a linguagem da decomposição de predicados e a derivação de aspecto lexical e papel temático a partir das estruturas, ver Cançado, Godoy e Amaral (2013b).

394

(6) v:[[X ACT] CAUSE [BECOME Y <STATE>]]

Entretanto, mas especificamente, podemos dividir os verbos de mudança de estado em quatro subclasses, de acordo com especificidades de seu primeiro subevento:

(7) estatizar: [[X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y <ESTATAL>]] (8) quebrar: [[X ACT (VOLITION) ] CAUSE [BECOME Y <QUEBRADO>]] (9) preocupar: [[X ACT/STATE] CAUSE [BECOME Y <PREOCUPADO>]] (10) apodrecer: [BECOME Y <PODRE>]

Apesar dessas pequenas diferenças, esses verbos são classificados em uma grande classe por apresentarem duas características em comum: o acarretamento de mudança de estado e a alternância causativo-incoativa. Vejamos cada uma dessas subclasses:

3.1.1 [[X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y <STATE>]]

A primeira subclasse é composta por 24 verbos. Propomos que esses verbos podem ser

parafraseados como X agindo volicionalmente causa Y se tornar um determinado estado e são

representados formalmente pela seguinte estrutura de decomposição de predicados:

(11) v: [[X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y <STATE>]] (12) estatizar: [[X ACT VOLITION ] CAUSE [ BECOME Y <ESTATAL>] ]

A partir da estrutura proposta podemos inferir que esses verbos, que são bieventivos e,

consequentemente, denotam um evento de accomplishment, atribuem volição necessária ao seu primeiro argumento. Isso significa que esses verbos exigem um agente como sujeito, não aceitando uma causa nessa posição e, por isso, aceitam a passivização e um instrumento na posição de adjunto. Esses verbos se caracterizam por apresentarem o acarretamento tornar-se um estado e apresentarem a alternância da forma transitivo-causativa para a forma intransitivo-incoativa:

(13) a. O presidente estatizou a empresa. → FORMA TRANSITIVA C/ SUJEITO AGENTE b.*A eleição do presidente estatizou a empresa. → FORMA TRANSITIVA C/ SUJEITO CAUSA

395

c. O presidente estatizou a empresa com a nova lei. → ADJUNTO INSTRUMENTO

d. A empresa foi estatizada (pelo presidente). → PASSIVA SINTÁTICA

e. A empresa tornou-se estatal. ACARRETAMENTO DE MUDANÇA DE ESTADO

f. A empresa (se) estatizou. → FORMA INTRANSITIVA

Ainda podemos derivar da estrutura a grade temática e a estrutura sintática dos verbos da subclasse:

(14) NP 1 V NP 2 (15) {Agente, Paciente}

3.1.2 [[X ACT (VOLITION) ] CAUSE [BECOME Y <STATE>]]

A segunda subclasse é composta de 435 verbos. Propomos que esses verbos podem ser

parafraseados como X agindo volicionalmente ou não causa Y ficar em um determinado estado e são representados formalmente pela seguinte estrutura de decomposição de

predicados:

(16) v: [[X ACT (VOLITION) ] CAUSE [BECOME Y <STATE>]] (17) quebrar: [ [X ACT (VOLITION) ] CAUSE [BECOME Y <QUEBRADO>] ]

A partir da estrutura proposta podemos inferir que esses verbos, que também são

bieventivos, e, consequentemente, denotam um evento de accomplishment, são verbos que aceitam tanto uma causa, quanto um agente como papel temático para o seu argumento sujeito, aceitam o argumento que denota a causa do evento em posição de adjunção, e, devido à possibilidade de agentividade constatada nesses verbos, aceitam um instrumento em posição de adjunção e aceitam a passiva sintática. Esses verbos ainda se caracterizam por apresentarem o acarretamento ficar em um estado e apresentarema alternância da forma transitiva para a forma intransitiva:

(18) a. O João/ a queda quebrou o vaso. FORMA TRANSITIVA C/ SUJEITO AGENTE OU CAUSA

b. O João quebrou o vaso com um martelo. → ADJUNTO INSTRUMENTO

396

d. O vaso ficou quebrado. ACARRETAMENTO DE MUDANÇA DE ESTADO

e. O vaso (se) quebrou (com a queda). → FORMA INTRANSITIVA C/ ADJUNTO CAUSA

Ainda podemos derivar da estrutura a grade temática e a estrutura sintática dos verbos da subclasse:

(19) NP 1 V NP 2 (20) {Causa (Agente), Paciente}

3.1.3 [[X ACT/STATE] CAUSE [BECOME Y <STATE>]]

A terceira subclasse é composta por 159 verbos. Propomos que esses verbos podem ser parafraseados como X causa Y ficar em um determinado estado e são representados formalmente pela seguinte estrutura:

(21) v: [[X ACT/STATE] CAUSE [BECOME Y <STATE>]] (22) preocupar: [ [X ACT/STATE] CAUSE [BECOME Y <PREOCUPADO>] ]

A partir da estrutura proposta podemos inferir que esses verbos, que também são bieventivos e, consequentemente, denotam um evento de accomplishment, são verbos que não aceitam o modificador VOLITION para o predicado primitivo ACT, ou seja, não aceitam um agente como sujeito, só aceitando nessa posição um argumento que denote uma causa. Também aceitam essa causa em posição de adjunção na forma incoativa e, devido à sua natureza não agentiva, eles não aceitam um instrumento como adjunto e não aceitam a passiva sintática. Ainda, se caracterizam por apresentarem o acarretamento ficar em um estado e apresentarem a alternância da forma transitiva para a forma intransitiva:

(23) a. A arrogância da Rosa preocupou a Maria. →FORMA TRANSITIVA C/ SUJEITO CAUSA b.*A Rosa preocupou a Maria com uma carta. →ADJUNTO INSTRUMENTO

c. *A Maria foi preocupada (pela Rosa). →PASSIVA SINTÁTICA

d. A Maria ficou preocupada. ACARRETAMENTO DE MUDANÇADE ESTADO

e. A Maria se preocupou (com a arrogância da Rosa). →FORMA INTR. C/ SE E ADJ. CAUSA

397

Ainda podemos derivar da estrutura a grade temática e a estrutura sintática dos verbos da subclasse:

(24) NP 1 V NP 2 (25) {Causa, Paciente}

3.1.4 [BECOME Y <STATE>]]

A quarta subclasse comporta 64 verbos. Propomos que esses verbos podem ser parafraseados como Y ficar em um determinado estado e são representados formalmente pela seguinte estrutura de decomposição de predicados:

(26) v: [ BECOME Y <STATE>] (27) amadurecer: [ BECOME Y <MADURO>]

A partir da estrutura proposta podemos inferir que esses verbos são monoeventivos e, consequentemente, denotam um evento do tipo aspectual achievement. Os verbos dessa classe se caracterizam por terem a forma intransitiva e, por isso, não aceitarem a passiva sintática. Ainda, esse tipo de verbo aceita a inserção de uma causa (a alternância intransitivo-incoativa para a transitivo-causativa, sem o clítico se), aceitando na forma incoativa a causa em posição de adjunção. Também se caracterizam por apresentarem o acarretamento ficar em um estado:

(28) a. A banana amadureceu. → FORMA INTRANSITIVA

b. *A banana foi amadurecida (pela cozinheira). → PASSIVA SINTÁTICA

c. O calor amadureceu a banana. FORMA TRANSITIVA C/ SUJEITO CAUSA

d. A banana amadureceu com o calor. FORMA INTRANSITIVA C/ ADJUNTO CAUSA

e. *A banana se amadureceu. → FORMA INTRANSITIVA C/ SE

f. A banana ficou madura. ACARRETAMENTO DE MUDANÇADE ESTADO

Ainda podemos derivar da estrutura a grade temática e a estrutura sintática dos verbos:

398

(30) {Paciente}

3.2 [[X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y <STATE> IN Z]]

A segunda classe analisada, com 69 verbos, “apelidada” de “verbos de mudança de

estado locativo”, comporta verbos que podem ser parafraseados como X agir volicionalmente causa y ficar em determinado estado em algum lugar. Vejamos um exemplo:

(31) A babá acomodou o bebê no berço.

Esses verbos apresentam a seguinte estrutura:

(32) v: [[X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y <STATE> IN Z]] (33) acomodar: [ [X ACT VOLITION ] CAUSE [ BECOME Y <ACOMODADO>IN Z] ]

A partir da estrutura proposta podemos inferir que esses verbos, que também são

bieventivos e, consequentemente, denotam um evento do tipo aspectual accomplishment, são estritamente agentivos, não aceitando uma causa como sujeito e aceitando a passiva sintática construída com o locativo. Esses verbos ainda se caracterizam por acarretarem o sentido ficar em um determinado estado em algum lugar e não aceitarem a alternância transitivo-

intransitiva:

(34) a. A mãe acomodou o menino na cama. → FORMA TRANSITIVA C/ SUJEITO AGENTE

b. *O carinho da mãe acomodou o menino na cama.→ TRANSITIVA C/ SUJ. CAUSA

c. O menino foi acomodado na cama. → PASSIVA SINTÁTICA C/ LOCATIVO

d. O menino ficou acomodado na cama. ACARRET. DE MUDANÇA DE ESTADO LOCATIVO

e. *O menino (se) acomodou na cama. → FORMA INTRANSITIVA 150

399

Ainda podemos derivar da estrutura a grade temática e a estrutura sintática dos verbos da classe:

(35) NP 1 V NP 2 PP (36) {Agente, Paciente, Locativo}

3.3 [[X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y IN <PLACE>]]

Existe uma terceira classe de verbos, com 15 verbos, “apelidada” de “verbos de mudança de lugar”, que comporta verbos que podem ser parafraseados como x agir volicionalmente causa y ficar em um lugar. Vejamos um exemplo:

(37) O domador enjaulou o leão.

Esses verbos apresentam a seguinte estrutura de decomposição de predicados:

(38) v: [[X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y IN <PLACE>]] (39) enjaular: [ [X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y IN <JAULA>] ]

A partir da estrutura proposta podemos inferir que esses verbos são também bieventivos e, consequentemente, denotam um evento de accomplishment. Eles só aceitam um agente na posição de sujeito e, por isso, aceitam a passiva sintática, não aceitando em tal posição uma causa. Ainda se caracterizam por acarretarem o sentido de ficar em um lugar, aceitarem uma construção com um sintagma preposicionado cognato e não aceitarem a alternância transitivo-intransitiva:

(40) a. O domador enjaulou o leão. FORMA TRANSITIVA C/ SUJEITO AGENTE

b. *A coragem do domador enjaulou o leão. → FORMA TRANSITIVA C/ SUJEITO CAUSA

c. O leão foi enjaulado (pelo domador). → PASSIVA SINTÁTICA

400

d. O leão ficou na jaula. ACARRETAMENTO DE MUDANÇA DE LUGAR

e. O domador enjaulou o leão em uma jaula especial. → SP COGNATO

f. *O leão (se) enjaulou. → FORMA INTRANSITIVA 151

Ainda podemos derivar da estrutura a grade temática e a estrutura sintática dos verbos da classe:

(41) NP 1 V NP 2 (42) {Agente, Paciente}

3.4 [[X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y WITH <THING>]]

A quarta classe é composta por 94 verbos e é “apelidada” de “verbos de mudança de posse”. Esses verbos podem ser parafraseados como x agir volicionalmente causa y ficar com algo. Vejamos um exemplo:

(43) O chef apimentou a carne.

Esses verbos apresentam a seguinte estrutura de decomposição de predicados:

(44) v: [[X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y WITH <THING>]] (45) apimentar: [ [ X ACT VOLITION ] CAUSE [ BECOME Y WITH <PIMENTA>] ]

A partir da estrutura proposta podemos inferir que esses verbos são também bieventivos e, consequentemente, denotam um evento de accomplishment. Esses verbos só aceitam um agente na posição de sujeito e, por isso, aceitam a passiva sintática, não aceitando uma causa em tal posição. Acarretam o sentido ficar com coisa, aceitam uma construção com um sintagma preposicionado cognato e não aceitam a alternância transitivo/causativa- intransitivo/incoativa:

401

(46) a. A cozinheira apimentou a comida. → FORMA TRANSITIVA C/ SUJEITO AGENTE

b. *O cozimento apimentou a comida. → FORMA TRANSITIVA C/SUJEITO CAUSA

c. A comida foi apimentada (pela cozinheira). → PASSIVA SINTÁTICA

d. A comida fi cou com pimenta. ACARRETAMENTO DE MUDANÇADE POSSE

e. A cozinheira apimentou a comida com pimenta malagueta. →SP COGNATO

f. *A comida (se) apimentou. → FORMA INTRANSITIVA

Ainda podemos derivar da estrutura a grade temática e a estrutura sintática dos verbos da classe:

(47) NP 1 V NP 2 (48) {Agente, Paciente}

4. Outras propriedades

Além das propriedades sintáticas e semânticas que são características das classes verbais (como a alternância causativo-incoativa, a possibilidade de um PP cognato, a possibilidade de causa em adjunção, e outras que apresentamos na seção anteiror), apresentamos também no catálogo exemplos de outras propriedades que podem ser encontradas nos verbos, mas que não pertencem rigorosamente a uma determinada classe verbal. Essas propriedades, apesar de não serem classificatórias, constituem fenômenos interessantes a respeito do léxico verbal do PB e, com o objetivo de fazer uma ampla descrição, apresentamos também tais propriedades. As outras propriedades sintáticas que apresentamos são a reflexivização, a alternância parte-todo e a alternância agente-beneficiário. No catálogo, listamos exemplos dessas três alternâncias para cada verbo que as aceita. Vejamos alguns exemplos:

(49) Reflexivização:

a. O menino se aqueceu. (verbo de mudança de estado)

b. O idoso se abrigou no asilo. (verbo de mudança de estado locativo)

402

d. O menino se agasalhou. (verbo de mudança de posse)

(50) Alternância parte-todo:

a. O guarda-roupa abriu a porta (com a ventania). (verbo de mudança de estado)

(51) Alternância agente-beneficiário:

a. A Maria alisou os seus cabelos com a cabeleireira do shopping. (verbo de mudança de estado)

b. O produtor engarrafou o vinho com uma empresa especializada. (verbo de mudança

de lugar)

c. O João alicerçou a casa com um pedreiro do bairro. (verbo de mudança de posse)

Com relação a propriedades semânticas que não são classificatórias, apresentamos a caracterização de determinados verbos como “recíprocos” e “psicológicos”. Apesar de esses verbos serem tratados como uma classe na literatura, eles não compoem uma classe verbal da maneira como definimos no catálogo, ou seja, compartilhando propriedades não só semânticas, mas também sintáticas. Vejamos alguns exemplos:

(52) Afastar→ RECÍPROCO

(53) Alegrar→ PSICOLÓGICO

Verbos dos tipos recíproco e pscicológico somente ocorrem na classe de verbos de mudança de estado.

5. Conclusão

Acreditamos ter apresentado uma ampla descrição e uma classificação dos verbos de mudança do PB em nosso Catálogo de Verbos do PB. A nossa expectativa é que esse trabalho possa ser utilizado por pesquisadores como fonte de dados e também como subsídio teórico para a realização de diversos tipos de pesquisa, tanto com relação aos verbos quanto com relação às propriedades sintáticas e semânticas apresentadas. Acreditamos também que o nosso trabalho possa ser usado por pesquisadores da área de tipologia linguística e para a comparação da estrutura argumental de outras línguas com relação ao português brasileiro. Como conclusão, apresentamos um quadro geral das principais propriedades analisadas no Catálogo:

403

 

PROPRIEDADES CLASSIFICATÓRIAS

 
PROPRIEDADES CLASSES
PROPRIEDADES
CLASSES
 

ESTRUTURA ARGUMENTAL

 

PRO PRIEDADES LÉXICO- SEMÂNTICAS

 

PRO PRIEDADES SINTÁTICO- SEMÂNTICAS

 

2

   

{AGENTE, PACIENTE}

{CAUSA (AGENTE), PACIENTE}

{CAUSA, PACIENTE}

{AGENTE, PACIENTE, LOCATIVO}

   

ACCOMPLISHMENT

   

MUDANÇA DE ESTADO

MUDANÇA DE LUGAR

MUDANÇA DE POSSE

ACEITA SUJ. AGENTE

 

ACEITA SUJ. CAUSA

 

ACEITA ALTERNÂNCIA TRANSITIVA

ACEITA PP CAUSATIVO COM

ACEITA SE INCOATIVO

ACEITA PP COGNATO

NP V NP1

NP V NP 2 PP1

NP V1

{PACIENTE}

BIEVENTIVO

ACHIEVEMENT

MUDANÇA

PASSIVA

INSTRUMENTO

[X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y <STATE >] ] Exemplo: O governo estatizou a empresa .

[

 

 

 

   

 

   

 

 

     

 

 

 

 

 

     

 

 

   

24

verbos

[X ACT (VOLITION) ] CAUSE [BECOME Y <STATE >] ] Exemplo: O João quebrou o vaso .

[

 

 

 

   

 

   

 

 

     

 

 

 

 

 

     

 

 

   

435

verbos

[X ACT/STATE] CAUSE [BECOME Y <STATE >] ] Exemplo: A filha preocupou a mãe .

[

 

 

 

   

 

   

 

 

     

 

 

 

 

 

     

 

 

   

158

verbos

[BECOME Y <STATE >] Exemplo: A banana amadureceu .

64

verbos

 

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[[X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y <STATE > IN Z]] Exemplo: O marceneiro acomodou a mobília no quarto .

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[[X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y IN <PLACE >]] Exemplo: O domador enjaulou o leão .

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[[X ACT VOLITION ] CAUSE [BECOME Y WITH <THING >]] Exemplo: A cozinheira apimentou a comida .

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Tabela 1. Quadro geral das propriedades.

Legenda:

Nenhum verbo da classe



Todos os verbos da classe

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406

406 FOCO SOBREINFORMATIVO E ALARGAMENTO DE DOMÍNIO 1. Introdução Fernanda Rosa da Silva USP – CAPES

FOCO SOBREINFORMATIVO E ALARGAMENTO DE DOMÍNIO

1. Introdução

Fernanda Rosa da Silva USP – CAPES

O presente trabalho pretende investigar as restrições semânticas e pragmáticas de um tipo de foco a que chamamos de foco sobreinformativo. A partir deste fenômeno, discutiremos como fatos do discurso podem desencadear fenômenos semânticos. O foco sobreinformativo foi investigado em Rosa-Silva (2012) e este apresenta características semânticas e pragmáticas distintas. Nosso objetivo é destacar tais características. Neste artigo assumimos, conforme Chomsky (1971), que as sentenças apresentam uma estrutura bipartite: entre pressuposição e informação nova. Pressuposição representa o tópico da sentença e informação nova, o foco. Estes elementos estão presentes na estrutura informacional, termo introduzido por Halliday (1967), que calcula as distinções de foco e pressuposição em relação a entidades do discurso. Foco e tópico podem ser identificados pelo teste questão/resposta (cf. Zubizarreta (1998)). O elemento que responde à questão corresponde a uma nova informação e recebe a função de foco. O elemento introduzido pela questão tem função de tópico e traz uma pressuposição ou informação dada pelo contexto. 152

152 No final do trabalho, em apêndice, apresento uma tabela resumida com os principais conceitos de tópico e foco apresentados e discutidos.

407

(2) A: Quem chegou? B: O JOÃO F chegou.

Em (2), o sintagma representado pelas letras maiúsculas “O JOÃO” tem a função do foco na sentença B, isto porque traz ao contexto uma informação nova, requerida pela questão em A. Já a pressuposição de que “alguém chegou” trata-se de uma informação já presente na questão e é denominada de tópico. A este tipo de foco, que se limita a trazer a informação requerida, Zubizarreta denomina de foco de informação ou não-contrastivo 153 . Se assumirmos que toda sentença é formada pelo que é conhecido e o que é informação nova, conforme Chomsky (1971), que defende que para cada sentença existe um par (F,P), F de foco e P, pressuposição, então, as sentenças em geral apresentam um foco de informação. Zubizarreta apresenta uma estrutura de asserção (AS) para este tipo de foco como o exemplo abaixo:

(3) A 1 : Existe x, tal que x chegou. A 2 : O x tal que x chegou é [ F o João].

Na estrutura acima, A 1 representa a pressuposição e A 2 a informação nova. Além do foco de informação, Zubizarreta apresenta outro tipo de foco, em que a resposta não representa a informação solicitada para o elemento dado pelo contexto e sim para um novo elemento.

(4) A: O João chegou? B: O PEDRO F chegou, (não o João).

Em (4), o falante ao ser questionado sobre “o João”, responde que “o Pedro chegou”, contrariando a informação solicitada. Focos como estes são chamados pela autora de contrastivos. Este tipo de foco tem a estrutura de asserção como segue:

(5) A 1 : Existe x, tal que x chegou. A 2 : É falso que o x (tal que x chegou) é o João & o x (tal que x chegou) é [ F o Pedro]

153 Na verdade, Zubizarreta (1998) refere-se a este tipo de foco, como foco não-contrastivo. Foco de informação é denominado por Kiss (1998).

408

Foco contrastivo, como no exemplo acima, contém, em sua asserção uma negação, a qual identifica que a propriedade dada, no caso “x chegou”, não pertence ao indivíduo em questão, “o João”, mas sim a outro indivíduo que é inserido no discurso, “o Pedro”. 154 Rosa-Silva (2012) apresenta um tipo de foco a que nomeia de foco sobreinformativo. Compare os dois contextos a seguir:

(6) A: O João foi pra festa?

B:

O João foi pra festa.

(7) A: O João foi pra festa?

B: TODO MUNDO foi pra festa.

Em (6), a resposta em B apresenta um tipo de foco já amplamente investigado pela literatura, o que Zubizareta chama de foco de informação, já que o falante em B responde exatamente ao perguntado. Já (7), com foco sobreinformativo, o falante responde ao perguntado e ainda dá informações além do solicitado por julgar serem relevantes. Ele quer enfatizar que a propriedade “x ir pra festa” é aplicada a um conjunto do elemento mais saliente no contexto. O falante traz a informação que julga ser mais relevante para o contexto. Apesar de num primeiro momento parecer que o falante infringe o Princípio Cooperativo de Grice (1975), na verdade privilegia o cumprimento da máxima de relevância. Nossa proposta é que essa atitude pragmática desencadeia uma operação de alargamento de domínio. 155

O presente artigo está organizado da seguinte maneira: na seção 2 apresentamos a

análise pragmática para o foco sobreinformativo. Logo mais, na seção 3, faremos uma análise

154 Há ainda o foco classificado por Kiss (1998) por identificacional que tem o traço mais exaustivo. Esse foco

tem uma interpretação do tipo x e apenas x. Um exemplo de foco identificacional ou exaustivo pode ser visto

abaixo:

(i)A: Quem chegou? B: O JOÃO chegou, (e ninguém mais).

155 Para mais informações sobre o fenômeno do foco sobreinformativo e mais contextos em que este fenômeno ocorre, ver rosa-silva(2012)

409

semântica deste tipo de foco. Por fim, na seção 4, apresentaremos algumas considerações e conclusões sobre este estudo.

2. Análise pragmática do foco sobreinformativo

Nesta seção, faremos uma análise pragmática do foco sobreinformativo e apresentaremos as condições necessárias para que o foco sobreinformativo seja adequadamente empregado. Para isso, tomamos como ponto de partida as propostas de Roberts (1996) e Büring (1999 / 2003). Estas serão apresentadas a seguir.

2.1 Roberts (1996)

Roberts (1996) afirma que todo discurso é voltado para responder questões, sejam elas implícitas ou explícitas. As respostas para estas questões podem ser completas ou parciais. Um exemplo de resposta completa pode ser identificado no diálogo abaixo, em (8):

(8) A: Os alunos da Letras foram pra festa? B: Sim, foram.

Ao responder “sim, foram”, o falante B dá informações sobre todos os elementos do conjunto de alunos de Letras, já que a propriedade de ir pra festa é aplicada a todos os alunos de letras. Compare com o diálogo a seguir:

(9) A: Os alunos da Letras foram pra festa? B: Os do primeiro ano foram pra festa.

No contexto em (9), a resposta de B implica que o falante não tenha informações sobre os demais alunos, já que dá informações apenas sobre os alunos do primeiro ano e Letras. A sentença poderia ser completada por algo do tipo: os demais alunos, eu não sei. Respostas como (9)B são denominadas por Roberts de respostas parciais.

410

Em Rosa-silva(2012), apresentamos um contexto com resposta que não é nem parcial nem completa. São, portanto, distintas das apresentadas por Roberts. Observe o diálogo abaixo:

(10) A: Os alunos da Letras foram pra festa? B: TODOS OS ALUNOS DAS HUMANAS foram pra festa.

Na resposta acima, o falante, ao responder que “todos os alunos das humanas foram pra festa” responde ao questionado, já que a faculdade de letras é um sub-conjunto das faculdades de ciências humanas, e ainda traz informações além, dizendo que os alunos das demais faculdades também foram. Por trazer ao contexto informações além das solicitadas, denominamos tal resposta de resposta sobreinformativa.

2.2 Büring (1999, 2003)

Büring (1999, 2003) afirma que ao responder parcialmente ou contrastivamente uma pergunta, o falante faz uso de uma estratégia do discurso e marca prosodicamente o elemento dado pelo contexto, ou tópico. Para formalizar estratégias na estrutura do discurso, o autor propõe que esta estrutura seja organizada a partir do que ele denomina de d-tree ou árvore do discurso. Observe a estrutura abaixo proposta por Büring para o contexto de resposta parcial, dado anteriormente, em (9):

(11)
(11)

Ao fazer uso da resposta parcial, o falante responde a uma questão dominada pela questão dada no discurso. Com isso, dá uma resposta parcial para a última e responde

411

completamente a questão dominada por Q, SQ 1 . Compare com a estrutura de d-tree para o contexto e resposta sobreinformativa, apresentado em (10):

o contexto e resposta sobreinformativa, apresentado em (10): Repare que ao dar uma resposta sobreinformativa, o

Repare que ao dar uma resposta sobreinformativa, o falante dá uma resposta completa para uma questão implícita do tipo Q “Os alunos da Humanas foram pra festa?’. Com isto responde completamente também as questões acarretadas por Q: SQ 1 , SQ 2 e SQ 3 ., conforme indicado na d-tree acima. A questão Q, desta forma, domina diretamente a resposta “TODOS OS ALUNOS DA HUMANAS foram pra festa”. O falante, com tal resposta, quer deixar claro que a propriedade em discussão não é exclusiva dos alunos da letras, mas pertence a todos os indivíduos do conjunto.

3. Semântica do foco sobreinformativo: alargamento de domínio

Nesta seção, faremos uma análise semântica do foco sobreinformativo e defendemos que ocorre uma operação complexa de alargamento de domínio. Para isso, tomamos como ponto de partida as propostas de Rooth (1985), para o valor semântico do foco e Erteschik- Shir (2007) para processos complexos de focalização. Assumimos, neste trabalho que toda sentença é formada pelo que é conhecido e o que é informação nova, conforme Chomsky (1971), que defende que para cada sentença existe um par (F,P), F de foco e P, pressuposição. Pressuposição contém os elementos de tópico que representam informações já conhecidas no contexto. Foco, por sua vez, representa os elementos ou informações novas.

412

Rooth(1995) propõe uma semântica para o elemento da estrutura informacional denominado foco, a qual ele chama de valor de foco. Segundo o autor, as sentenças apresentam seu valor ordinário e valor de foco. Observe o contexto abaixo:

(13) A: O que o João leu? B: O João leu UM ARTIGO F . 156

Em (13)B, o constituinte que traz a informação nova e representa o foco da sentença é o NP “Um artigo”. O tópico, que contém a informação dada pela questão é a pressuposição de que “O João leu algo”. O valor de foco da sentença (13)B, segundo Rooth, é o conjunto de proposições possíveis para a resposta de (13)A. Veja a representação do valor do valor ordinário e de foco de (13)B abaixo, considerando que os elementos disponíveis no discurso sejam: um artigo, um livro e uma revista.

(14)

(15) [[( 13 )B ]] f = {O João leu um artigo, O João leu um livro, O João leu uma revista}

[[( 13 )B ]] 0 = x: artigo(x) & leu (j,x)

A forma lógica em (14) apresenta o valor ordinário da sentença (13)B enquanto (15) apresenta o valor semântico de foco desta mesma sentença. O conjunto de proposições acima contém a proposição (13)B. Portanto, representa uma resposta adequada, ou congruente 157 , para o contexto dado acima. Entretanto, Büring (1999) observa que o valor de foco, não é capaz de delimitar alternativas de respostas para contextos com tópicos contrastivos ou parciais, por exemplo. Um tópico contrastivo ocorre quando o falante deseja mover a conversação para uma entidade diferente da dada no discurso. Já o tópico parcial não responde exaustivamente ao que foi requerido, mas apenas a uma parte da questão.

(16) A: Que artigo os alunos leram?

156 As notações adotadas são as mesmas utilizadas por Büring (1999), em que o símbolo “/” representa um pico de acento com curva ascendente, que identifica tópico e o símbolo “\” representa o pico de acento com curva descendente, que identifica foco. “T” subscrito indica o constituinte com função discursiva de tópico e F subscrito, o constituinte com função discursiva de foco.

157 Congruente – termo utilizado por Rooth(1995), Roberts (1996) e Büring (1999 / 2003) para declarar que determinada sentença é adequada para responder à pergunta dada.

413

B: /O JOÃO T leu O DO CHOMSKY F

(17) A: Que artigo o João leu?

B: Bom, /O PEDRO T leu \O DO CHOMSKY F

Os exemplos acima representam o que Büring denomina respectivamente de tópico

parcial e tópico contrastivo. No primeiro, em (16), o falante B não responde totalmente à pergunta feita por A, mas apenas à informação que corresponde a um indivíduo do conjunto de alunos, “João”. Já em (17), o falante B não responde ao que é solicitado é dá uma informação referente a um elemento novo no contexto, “Pedro”. Em ambos os casos, a resposta obtida não representa a esperada.

O autor também identificou que para a resposta ser apropriada nos contextos acima

foram necessários dois acentos prosódicos distintos: o acento de foco, que tem como característica um pico de acento descendente; também um acento típico de tópico parcial ou contrastivo, que tem seu pico com curva ascendente. Estes são representados pelas notações subscrita T, para tópico e F, para foco. Sem estes, as construções seriam inadequadas. As respostas obtidas não fazem parte do valor de foco. Observe, abaixo, o valor de foco para (16)B e (17)B, respectivamente, considerando que no domínio haja os seguintes indivíduos:

{João, Pedro, artigo do Chomsky e artigo da Kratzer}.

(18) [[( 17 )B ]] f = {O João e o Pedro leram o artigo do Chomsky, O João e o Pedro leram o artigo da Kratzer, O João leu o artigo do Chomsky e o Pedro leu o artigo da Kratzer, João leu o artigo da Kratzer e Pedro leu o artigo do Chomsky}

(19) [[( 17 )B ]] f = { João leu o artigo do Chomsky; João leu o artigo da Kratzer }

Note que em (18) não há uma proposição do tipo “O João leu o artigo do Chomsky”, resposta dada em (16)B. As proposições possíveis são apenas de respostas completas, sem apresentar uma proposição de resposta parcial, como ocorre no exemplo acima. O valor de foco de (17)B, apresentado em (19) também não possui a proposição obtida como resposta “O Pedro leu o artigo do Chomsky”, mas somente respostas relacionadas ao indivíduo “João”. Para ser possível calcular o valor semântico de sentenças como as apresentadas acima, Büring definiu o valor de tópico, que representa um conjunto de questões, ou um conjunto do conjunto de proposições possíveis para determinado contexto. Para cada

414

elemento disponível, há um conjunto de proposições. A soma destes conjuntos consiste no valor de tópico da sentença. Para (16)B, por exemplo, suponhamos que o conjunto de alunos seja formado pelos indivíduos: João e Pedro. Para cada indivíduo há um conjunto de proposições. Para João: {O João leu o artigo do Chomsky, O João leu o artigo da Kratzer}. Para Pedro: {O Pedro leu o artigo do Chomsky, O Pedro leu o artigo da Kratzer}. O valor de tópico de (16)B, portanto é a junção destes conjuntos, como segue:

(20) [[( 16 )B ]] t = {{O João leu o artigo do Chomsky, O João leu o artigo da Kratzer}, {O João leu o artigo do Chomsky, O João leu o artigo da Kratzer}}

Como cada conjunto representa o valor ordinário de uma questão 158 , a denotação do valor de tópico de (16)B pode ser representada por um conjunto de questões.

(21) [[( 16 )B ]] t ={Que artigo o João leu?, Que artigo o Pedro leu?}

Outro tipo de tópico, a que Büring chama de tópico puramente implicacional, é apresentado a seguir.

(22) A: A sua esposa foi pra festa? B: A /MINHA T esposa \NÃO F foi pra festa.

158 Para Hamblin, uma questão denota um conjunto de proposições (Q-alternative set). Observe a seguinte questão:

(i) O que o João comprou?

A pergunta acima tem seu significado semântico formado por um conjunto de proposições possíveis para

respondê-la. Suponhamos que no contexto, há três alternativas possíveis de objetos que João possa comprar:

livros, roupas e calçados. Q-alternative set da questão será o conjunto de proposições: {o João comprou livros, o

João comprou roupas, o João comprou calçados}. A denotação formal de (i), então, é a seguinte:

(ii) [[O que o João comprou? ]] = {o João comprou livros, o João comprou roupas, o João comprou calçados}

Os participantes do discurso, ao ouvirem a questão e aceitá-la, buscam, dentro das alternativas acima, uma

resposta adequada para ela.

415

A sentença (22), a não ser pelo acento de tópico, responde exatamente ao requerido pela questão em A, pois o valor de foco de (22)B é representado por duas alternativas, já que (22)A apresenta uma pergunta sim/não. O valor de foco é o seguinte:

(23) [[( 22 )B ]] f = {A minha esposa foi pra festa; A minha esposa não foi pra festa} 159

Como pudemos observar, a resposta dada em (22)B pertence ao seu valor de foco. No entanto, o acento ascendente no constituinte de tópico em B indica que o falante deseja trazer ao contexto questões alternativas. Responde ao que A pergunta, mas deixa no ar questões como: A esposa de Pedro foi pra festa?; A esposa de Marcos foi pra festa?; A esposa

Estas questões podem determinar a continuidade da conversação. Mais

formalmente teríamos o valor de tópico a seguir.

de x foi pra festa?

(24) [[( 21 )B ]] t = {A minha esposa foi pra festa?; A esposa do Pedro foi pra festa?; A esposa do Marcos foi pra festa?}

Os contextos de tópico puramente implicacional possuem uma característica similar aos contextos de foco sobreinformativo. No primeiro, o falante lança ao contexto questões a mais que acredita ser relevante para a conversação e as deixa sem resposta. Nos contextos apresentados de foco sobreinformativo, no entanto, o falante, além de lançar outras perguntas que não fazem parte do common ground, responde completamente a uma super- questão que domina a questão dada, e em consequência disso, responde automaticamente a todas as questões lançadas, ou seja, não deixa nenhuma das questões em aberto Tal falante indica que está respondendo parcialmente a uma super-questão como:

“Quem foi pra festa?”. A diferença deste exemplo de Büring para as respostas sobreinformativas, portanto, é que enquanto em contextos como (22), o falante indica que está respondendo parcialmente a uma super-questão e deixa as demais sub-questões em aberto, nas respostas sobreinformativas, o falante responde completamente à super-questão a qual a

159 Como o contexto (22) apresenta um exemplo de pergunta polar, em que há duas possibilidades de resposta:

sim ou não, o valor de foco é constituído por uma proposição positiva e outra negativa. Ainda, nestes casos, no PB, o acento prosódico que indica o elemento de foco recai sobre o elemento negativo, se a resposta for negativa, ou no verbo da sentença, se a resposta for positiva.

416

questão explícita está submetida. Com isso, o falante, ao mesmo tempo em que lança as perguntas, as responde, saturando qualquer tipo de pergunta relacionada àquele contexto. Para contextos de foco de informação, o falante, dentro deste conjunto de alternativas, seleciona uma delas. No caso do contexto em discussão, o falante seleciona a alternativa: “O João foi pra festa”. Já para contextos de foco sobreinformativo, o falante seleciona todas as alternativas disponíveis no discurso. Observe o contexto com foco sobreinformativo já apresentado ateriormente.

(25)

A: O João foi pra festa? B: TODO MUNDO foi pra festa.

Considerando o conjunto de alternativas seja: {O João foi pra festa, O Pedro foi pra festa, o Marcos foi pra festa}, ao responder B, o falante selecionou todas elas. O foco sobreinformativo realiza uma operação de alargamento de domínio, pois a partir de um único indivíduo, seleciona os demais e lança este conjunto no contexto. Desta maneira, há uma operação de união entre todas as alternativas. Essa operação é oposta a proposta por Ertershick-Shir (2007) para tópico restritivo. Segue, abaixo um exemplo similar ao da autora

(26)

A: Quais de seus alunos foram pra festa? B: O JOÃO foi pra festa.

No contexto acima, há uma pressuposição de que: “existem alunos que foram pra festa”. Segundo a autora, a partir do conjunto dado pela pergunta em (26)A, o conjunto de alunos,o falante focaliza um indivíduo “o João”, e lança no contexto. Erteschik-Shir denomina esta operação de processo complexo de focalização. Segue, abaixo a formalização de tal ooperação.

(27)

[{João foc , Pedro, Marcos…} top ] top [foi pra festa] top

No contexto de foco sobreinformativo, entretanto, ocorre uma operação oposta, em que um elemento dado pelo contexto é destacado, no caso do nosso exemplo, “ O João” que é inserido pela pergunta e, a partir deste elemento, o domínio é expandido para todo o conjunto a que tal elemento faz parte “TODO MUNDO”. Então, todo o conjunto é focalizado e destacado no contexto, conforme formalização proposta abaixo:

417

(28)

[{João} top , Marcos, Pedro (TODO MUNDO)] foc [foi pra festa] top

4. Algumas considerações

A partir deste breve estudo podemos concluir que atitudes pragmáticas podem desencadear operações semânticas distintas. Se o falante opta por uma estratégia de resposta, tal estratégia influencia nos processos semânticos a serem produzidos. O fenômeno de foco sobreinformativo, em especial, apresenta uma operação de alargamento de domínio. Tal operação consiste em selecionar todas as alternativas de foco do domínio e realizar uma operação de união de tais alternativas. Essa operação ocorre porque o falante julga ser mais relevante trazer informações de todos os elementos do domínio, do que apenas sobre o elemento dado.

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419

419 PLURACIONALIDADE DE EVENTOS EXPRESSA POR REDUPLICAÇÃO NO PORTUGUÊS BRASILEIRO Aline Garcia Rodero Takahira 1 6

PLURACIONALIDADE DE EVENTOS EXPRESSA POR REDUPLICAÇÃO NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Aline Garcia Rodero Takahira 160 USP/CAPES

Resumo: Este trabalho tem como objetivo principal investigar o fenômeno da pluracionalidade de eventos no português brasileiro (PB) em casos nos quais essa pluracionalidade é expressa por reduplicação do verbo. Tratamos de dados como: i) Foi um rouba-rouba no amigo secreto ladrão; e, ii) A Maria andou andou ontem. No primeiro exemplo, temos uma construção com ser/ter + um + forma verbal + reduplicação da base verbal. No segundo exemplo, contamos com uma entonação especial que sobe na segunda sílaba da primeira cópia verbal e desce na segunda sílaba da segunda cópia. Primeiramente, apresentamos a descrição desses tipos de dados. Buscamos mostrar que, no PB, a reduplicação é possível em casos nos quais há cópia da palavra toda, no caso, a forma verbal. Além disso, mostramos que essa reduplicação leva a uma interpretação pluracional que pode ter diferentes possibilidades de leitura dentre os tipos de leituras pluracionais propostos por Cusic (1981).

Palavras-chave: Pluracionalidade; Eventos; Reduplicação do Verbo; Português Brasileiro.

160 Agradeço a CAPES pelo financiamento de minha pesquisa.

420

1. Introdução

A pluracionalidade (ou pluralidade) é um fenômeno que ocorre nas línguas naturais.

Cusic (1981) chama de pluracionalidade a marca morfológica que denota múltiplas ações,

normalmente ações repetidas ou repetitivas. No mesmo sentido, para Lasersohn (1995),

marcadores pluracionais se anexam ao verbo para indicar a multiplicidade de ações,

envolvendo múltiplos participantes, tempos ou locais. “Os marcadores pluracionais não

indicam a pluracionalidade dos argumentos do verbo, nem a pluracionalidade do verbo por si

só: o verbo representa a ocorrência de eventos múltiplos” 161 (LASERSOHN, 1995, p. 241).

Cabredo Hofherr & Laca (ta) chamam de pluracionalidade de eventos:

qualquer meio linguístico de expressar uma multiplicidade de eventos, seja através de marcadores verbais (reler), adverbiais (duas vezes, frequentemente, sempre, de novo), ou adnominais (John morou em países diferentes, cada menino construiu uma canoa, John consertou várias bicicletas) 162 .

No português brasileiro (PB), esses tipos de pluracionalidade são representados como

nos exemplos abaixo:

(1)

Pluracionalidade dada por um marcador verbal

a. O João refez o exercício.

b. A Maria vai bebericar alguma coisa.

Nos exemplos em (1), os morfemas re- e -icar dão a leitura pluracional para os

eventos denotados pelos verbos. Em (1)a, re- traz a leitura de novamente, de forma que o

evento de fazer o exercício aconteceu por uma segunda vez. Em (1)b, -icar traz a leitura de

que o evento de beber alguma coisa vai ser feito em pequenas porções, várias “bebidinhas

menores”.

(2)

Pluracionalidade dada por um marcador adverbial

161 Tradução nossa.

162 Idem.

421

a. Eu cai duas vezes.

b. A Maria vem sempre aqui.

Nos exemplos em (2), os advérbios duas vezes e sempre dão a leitura pluracional para os eventos denotados pelos verbos cair e vir, respectivamente.

(3)

Pluracionalidade dada por um marcador adnominal

a. O João leu muitos livros.

b. Cada aluno saiu por uma porta.

Nos exemplos em (3), muito e cada e vários dão a leitura pluracional para os eventos denotados pelos verbos ler e sair, respectivamente. Ainda, a pluracionalidade pode ser expressa pela reduplicação. Couto & Silva (2001) apresentam uma conceituação formal de reduplicação com base em Kiyomi (1995):

(4) Reduplicação Dada uma palavra com a forma fonológica X, a reduplicação refere-se a XX ou xX (em que x é parte de X e x pode aparecer antes, após ou no interior de X). Condições:

(i) XX ou xX deve ser semanticamente relacionado a X. (ii) XX ou xX devem ser produtivos.

Haji-Abdolhosseini et al (2002) descrevem a reduplicação verbal morfofonológica em Niuen, uma língua oceânica do subgrupo Tongic. Eles dividem a reduplicação em três tipos com pelo menos três significados para a reduplicação verbal que caem no domínio da pluracionalidade. “A adição de um morfema pluracional reduplicativo traz uma especificação de número ou quantidade para o verbo” (HAJI-ABDOLHOSSEINI et al, 2002, p. 484). A leitura pluracional confere sentido iterativo, frequentativo ou intensivo, como em:

(5)

Reduplicação

e PAST knock ABS

a. Ne

noko

ia

she

e

ABS

gutuhala.

door

‘She knocked on the door (probably once but not necessarily)’.

b. Ne

nokonoko

e

ia

e

gutuhala.

422

PAST knock.RD ABS she ABS door ‘She knocked on the door (many times)’.

A repetição denotada pela pluracionalidade verbal frequentemente é a repetição de uma fase, ou seja, o evento de “bater” (knock) em (5) é um evento único com repetições internas. Em PB, também há reduplicações. Porém, segundo Couto (1999) 163 , Gonçalves (2004) e Couto & Mello (2009), nessa língua a reduplicação tem a função de derivar substantivos a partir de verbos, como em: empurra-empurra, troca-troca e bate-bate. Com base em Couto (1999), Gonçalves (2004) ressalta duas operações de reduplicação particularmente produtivas no PB: (i) a cópia da sílaba tônica de prenomes para formar hipocorísticos, como em (6)a-c; e, (ii) a reprodução de todos os elementos de um verbo para formar um substantivo (lexicalizado) (6)d-f:

(6)

a. Fátima > Fafá

b. Angélica > Gegé

c. Carlos > Cacá

d. Puxa-puxa 'doce'

e. Bate-bate 'carrinho de autopista'

f. Pega-pega 'brincadeira i n f a n t i l'

Vialli (2010, p. 86) aponta que a reduplicação:

não raro, é classificada equivocadamente como fruto de uma Composição em uma série de obras de caráter normativo-tradicional, dentre elas a Moderna Gramática da Língua Portuguesa (BECHARA, 1998) e a Nova Gramática do Português Contemporâneo (CUNHA & CINTRA, 1985). Nessas obras, o vocábulo corre-corre é classificado como composição, quando, na verdade, trata-se de caso de reduplicação de base verbal (

163 Não tivemos acesso a essa obra original.

423

Kehdi (2001) apresenta dados como (7), para exemplificar um tipo de reduplicação (ou redobro intensivo) no PB, e (8) que mostra reduplicação de um substantivo levando a uma leitura que o autor chama de adjetiva:

(7)

a. Ela é linda, linda.

b.

Vou já, já.

(8)

Esse é o queijo queijo (ou seja, o queijo de verdade) 164 .

Agora que delineamos os casos de marcadores pluracionais no PB, de (1) a (3), além de alguns tipos de processo de reduplicação encontrados na literatura dessa língua, de (6) a (8), passaremos para os dados que discutiremos neste trabalho. Ressaltamos que não encontramos os tipos de dados como os apresentados abaixo, em (9) e (10), na literatura sobre o PB:

(9)

a. Foi um rouba-rouba no amigo secreto ladrão.

b.

Teve um empurra-empurra no metrô hoje de manhã.

(10)

a. A Maria andou andou ontem.

b. Eu chorei chorei por causa do acidente.

Nos exemplos em (9), temos uma construção com ser/ter + um + forma verbal + reduplicação da base verbal. Em (10), contamos com uma entonação especial que sobe na segunda sílaba da primeira cópia verbal e desce na segunda sílaba da segunda cópia. Na seção 4 abaixo, trazemos mais dados desse tipo para discutirmos em nossa análise. Por ora, vale ressaltar que os dados como os em (9) nos parecem bastante produtivos na língua oral e escrita, e os dados que apresentamos na seção 4 foram retirados de sites

164 Esse tipo de dado ilustra casos de reduplicação contrastiva, como estudado por Jackendoff et al (2004). É diferente dos dados que vamos estudar neste trabalho, como em (9) e (10), no sentido de que esses dados, como o em (8), não necessitam de entonação especial e trazem uma leitura diferente, que não tem a ver com pluracionalidade.

424

brasileiros. Os dados em (10) são dados que não encontramos na forma escrita, tanto porque a exigência de uma entonação específica não poderia ser confirmada na forma escrita. Assim, para esses dados consideramos falas de falantes nativos do interior de SP e capital. Mais adiante, chamaremos essas construções de reduplicação que expressa pluracionalidade verbal. Pretendemos discutir esse ponto no decorrer das próximas seções. Com base nesta discussão inicial e nos exemplos apontados acima, algumas questões se colocam:

1-

A reduplicação verbal é um fenômeno produtivo no PB?

2-

Os dados em (9) e (10) trazem, de fato, uma leitura pluracional?

3-

Como se dá a relação entre reduplicação e pluracionalidade?

4-

O operador pluracional * está presente em todos os casos de reduplicação verbal no PB?

Neste trabalho vamos discutir sobre a semântica de verbos reduplicados no PB. Buscaremos mostrar que esse tipo de reduplicação traz uma leitura pluracional. Nossa análise é realizada através de uma proposta baseada nos pressupostos teóricos colocados em Cusic (1981), Rose (2008), Araújo (2002), entre outros. Essa investigação nos levará a uma descrição apurada dos dados do PB e, assim, a um maior conhecimento dos mecanismos de pluracionalidade verbal nas línguas naturais. Este trabalho se divide da seguinte forma: na seção 2, apresentamos a proposta de pluracionalidade verbal de Cusic (1981); na seção 3, discutimos o trabalho de Rose (2008) e Araújo (2002), com o intuito de discutirmos a reduplicação em duas línguas naturais, o emerillon e o PB; na seção 4, trazemos nossos dados do PB separados em dois subgrupos:

construção com ser/ter + um + forma verbal + reduplicação da base verbal; e, construções com uma entonação especial já descrita acima; na seção 5, trazemos nossa análise visando responder as questões colocadas acima; e, na seção 6, encontram-se as conclusões.

2. Cusic (1981)

Se considerarmos as possibilidades de leituras exibidas por marcadores pluracionais em todas as línguas, a lista é potencialmente grande conforme Cusic (1981, p. 74 e 75). Esse autor afirma que:

425

O

que vale notar sobre o verbo plural, seja formado por reduplicação

ou

por outros mecanismos, é que ele deve servir para indicar não só a

repetição de uma ação, como deveríamos esperar se nossa ideia de pluracionalidade verbal estivesse limitada à noção de frequência, mas também à uma gama enorme de outros significados plurais:

repetição, ocasiões ou eventos repetidos, consequências persistentes, agentividade habitual, qualidade distribuída, incoatividade, resultado

cumulativo, intensidade, pluralidade de locais de ação, duração, continuidade, conação, distribuição, celeratividade/retardatividade, aumentativo, diminutivo” 165 .

Muitos dos exemplos apresentados em Cusic (1981) apresentam reduplicação. No

entanto, o autor aponta que essa escolha é feita apenas para ilustrar a diversidade de

significados expressos pela pluracionalidade de eventos (que se dá não só por reduplicação,

mas também por outras formas, como já discutimos acima neste trabalho).

Ele ressalta que a reduplicação sempre está associada com os significados que ele

inclui no domínio da pluracionalidade. Se é assim, devemos esperar que as línguas que

possuem reduplicação possam também usar tal mecanismo para expressar pluracionalidade.

Colocamos esse ponto como uma possibilidade, não como uma regra, visto que a

reduplicação pode trazer leituras diferentes de leituras pluracionais como já apontamos nos

exemplos de (6) a (8) acima no PB.

3. Reduplicação

Nesta seção, vamos trazer alguns trabalhos que discutem o processo de reduplicação

em línguas naturais. Essas informações servirão de base para olharmos e discutirmos nossos

dados nas próximas seções.

3.1 Rose (2008)

165 Tradução nossa.

426

Rose (2008) trata de dois modelos de reduplicação que ocorrem no emerillon, uma

língua tupi guarani falada na Guiana francesa por 400 falantes. Ela define reduplicação como

o processo “

mesma base com uma certa função semântica” (ROSE, 2008, p. 125), como em:

no qual uma parte ou a totalidade de uma base é copiada e afixada a essa

(11)

a.

zewe. “todos os dias”.

b.

ze-zewe. REDUP-todos os dias “realmente todos os dias”.

(12)

a.

zawl

olɨ.

 

gato

estar contente

“O gato está feliz”.

b. i-ʤal

seu mestre

olɨ-olɨ. REDUP-estar contente

“Seu mestre está muito contente”.

A autora exclui os exemplos a seguir, pois não considera reduplicação casos nos quais em uma sequência de dois elementos idênticos, um deles não existe independentemente:

(13)

o-wiwi

* o-wi.

3-limpar

“Ele limpa”.

Ela ressalta que a reduplicação enquanto processo morfológico difere do fenômeno da repetição. Temos repetição em (14), e reduplicação do verbo em (15):

(14)

o-mõ-gaʔu,

o-mõ-gaʔu,

o-mõ-gaʔu.

3-CAUS-beber

3-CAUS-beber

3-CAUS-beber

“Eles estão bebendo, eles estão bebendo, eles estão bebendo”.

(15)

o-itũ-itun,

o-kusu-kusu(g)-katu-eʔe,

pug

o-iɲu-iɲuɲ.

427

“Ele os cheirou, os lavou bem e os colocou um de cada vez”.

A autora ressalta que reduplicação no emerillon se dá sobre as subpartes das partes do discurso, ou seja, os verbos, como em (15), os advérbios, como em (11), os nomes quando são predicativos ou predicados nominais possessivos, predicados adjetivais, e numerais. “O fenômeno de reduplicação é produtivo sobretudo com predicados e verbos” (ROSE, 2008, p.

127).

3.2 Araújo (2002)

Araújo (2002) investiga a morfologia de truncamento e processos de reduplicação no PB. Entende reduplicação como o processo morfológico que envolve cópia de uma parte de uma palavra (reduplicação parcial) ou da palavra toda (reduplicação total), promovendo um novo item lexical ou uma nova informação morfológica. Ele aponta [123] x → [123123] y como modelo geral de reduplicação e trata esse processo como um mecanismo de formação de palavras produtivo no PB. Ele afirma que “a reduplicação em PB atua como um morfema aspectual de iteratividade, isto é, a palavra reduplicada funciona como uma forma repetitiva da base” (ARAÚJO, 2002, p. 75). O autor ressalta que há vários tipos de reduplicação e foca na reduplicação total verbo x -verbo x que resulta em novos substantivos. Ele dá exemplos como:

(16)

Reduplicação: uma flexão da base verbal é copiada:

matar: mata-mata

pegar: pega-pega

(17)

corre-corre

pula-pula

pisca-pisca

gira-gira

rola-rola

quebra-quebra

Araújo (2002) chama atenção para o fato de que todos os exemplos em (16) e (17) são casos de reduplicação total e são itens lexicais diferentes de suas bases verbais copiadas. Nesses exemplos, ele assume que todas as palavras-base são formas derivadas de verbos e possuem um conteúdo lexical independente. Assim, descarta exemplos como reco-reco uma

428

vez que a forma reco não ocorre independentemente. Ainda, afirma que a forma da base verbal é a terceira pessoa do singular do modo indicativo de um radical verbal dissilábico.

3.3 Vialli (2010)

Vialli (2010) investiga o fenômeno da reduplicação de base verbal, como em bate-bate e pega-pega, sob a perspectiva teórica da Gramática das Construções (GOLDBERG, 1995). Ela ressalta que a reduplicação de base verbal é um processo através do qual se originam nomes a partir de verbos de ação. Ela aponta as características desse tipo de formação:

a seleção de um verbo-base sempre na terceira pessoa do singular do presente do indicativo. O que torna essa base perfeita para sofrer uma reanálise é ser destituída de suas principais marcas verbais, modo e tempo. Sendo assim, revela-se como uma forma não marcada em língua portuguesa e é exatamente essa característica que propicia sua reinterpretação como substantivo (p.86).

Logo, o conteúdo veiculado pelo verbo utilizado como base do

processo é apenas aspectual e seleciona eventos. Outro ponto importante nesse caso é que a base verbal será sempre acionada intransitivamente, dado o caráter genérico da construção. Trata-se, portanto, de um verbo que veicula conteúdo aspectual e que, para

selecionar eventos, é acessado intransitivamente, destituído de seus argumentos. Isso leva a um caráter mais genérico, propício à criação

) (

de substantivos

(p. 88).

Ela discute que a forma final substantiva indica sempre aspecto iterativo:

O conteúdo aspectual presente no verbo é canalizado para a forma substantiva, mas é reanalisado para indicar iteratividade, repetição, ou seja, a ação sugerida pelo verbo executada repetidamente. O evento evocado por essa repetição é nomeado pela própria base verbal repetida e reinterpretada como substantivo, nesse caso (p.86).

429

Ainda, a autora discute que o processo pode levar à formalização de significado, estendendo-se da nomeação de eventos para coisas, como em bate-bate que se refere ao nome de um brinquedo que bate repetidamente.

4. Dados do PB

Nesta seção, apresentamos alguns dados com reduplicação verbal no PB que trazem uma leitura pluracional. Esses dados são apresentados de forma agrupada divididos nas subseções a seguir. Em 4.1, apresentamos nossos dados de construções com ser/ter + um + forma verbal + reduplicação da base verbal. Esses dados foram retirados de sites, blogs, páginas eletrônicas, conforme indicado em notas de rodapé. Eles também passaram por nosso julgamento de gramaticalidade. Em 4.2, apresentamos as construções que necessitam de uma entonação especial, como já descrevemos no início deste trabalho. Esses dados foram colhidos de fala espontânea e/ou são dados que consideramos gramatical e produtivos.

4.1 Ser/ter + um + reduplicação da base verbal

Esses dados são do tipo já apresentados em (9) acima. Em todos eles percebemos uma leitura pluracional no sentido que o evento se dá várias vezes, distribuído por vários participantes.

(18) Hoje foi um corre corre 166 na escola! Nosso chá Literário recebeu visita de um representante do projeto 167 .

166 Os destaques dos verbos reduplicados nos exemplos são nossos.

167 http://emheltonveloso1.blogspot.com.br/2012/05/hoje-foi-um-corre-corre-na-escola-nosso.html.

430

A interpretação geral que se dá para esse tipo de sentença é aquela na qual “corre- corre” significa que várias pessoas se apressaram, passaram pela escola. Apenas em contextos muito especiais, poderíamos interpretar a distribuição por espaço ou tempo, como em:

(19)

Hoje vai ser um corre corre para mim.

No sentido de que eu (um participante) vou precisar correr para vários lugares (distribuição no espaço) ou vou precisar correr para fazer várias coisas o dia todo (distribuição no tempo). Ainda, poderíamos pensar que “correr” em (18) e (19) traz um significado “idiomático”, de forma que não significa exatamente o evento de “correr”. Descartemos esse dado e olhemos para outros exemplos, então:

(20)

aqui, foi um chora chora (

hehehehehhhe que viagem viu? 168

Aê galera, essa ultrasom é de minha primaaaaaaaaaaaa

) chora

no dia que escaniei a foto

minha mãe, chora minha tia (mãe de Beta)

(

)

(21)

Qual foi o recorde de tempo de jogo?

(

)

era umas 5 hrs

e e foi um rouba rouba geral

acabamos

as 9 da noite

quase falimos o banco

hehe

totalmente lokura

169

sem contar

q

(22) Não só no de ontem, mas em todos os debates, o que vimos foi um foge-foge discarado dos dois principais candidatos a presidência 170 .

(23) Só que nesse duelo de Titãs, foi um cai cai danado. Faltas e mais faltas. Expulsão do Emerson… Clima quente e exaltado 171 .

(24)

Para ser honesta, foi um empurra empurra para conseguir algumas fotos 172 .

168 http://www.fotolog.com.br/tuidinho/8696476/.

169 http://www.orkut.com/Main#Main$CommMsgs?cmm=1223108&tid=20719548&na=1&nst=1.

170 http://valletudo.wordpress.com/page/4/.

171 http://globoesporte.globo.com/platb/santos-vanessa-faro/2012/06/14/.

431

(25) Bom eu estava no colegio com uns amigos e naquele dia eu levei minha camera de 7.2

MegaPixels uma otima resolução

intervalo

estava la com meus camaradas e na hora do

eu

começou

a curtição foi um tira tira foto pra la um tira tira foto pra ca

173

(26) Foi um quebra-quebra total", explicou. Celia relatou que várias garrafas de vidro

foram atiradas no palco 174 .

(27) Foi um compra-compra intenso, essa quarta, no Leilão Movimento Pró-Criança, com renda total para o Espaço Maria Helena Marinho, pilotado por João Marinho. No final das contas, foram vendidos 37 dos 44 quadros colocados a venda via doações de artistas plásticos locais 175 .

Em todos os exemplos de (20) a (27) há a leitura de que temos vários subeventos do mesmo tipo do evento denotado pelo verbo reduplicado. Em todos os casos, há uma distribuição por participantes. Assim, “chora chora”, “rouba rouba”, “foge-foge”, “cai cai”, “empurra empurra”, “tira tira foto”, “quebra quebra” e “compra compra” significa que ocorreram vários eventos de “chorar”, “roubar”, “fugir”, “cair”, “empurrar”, “tirar foto”, “quebrar”, e “comprar”, respectivamente. Esses eventos, nos exemplos apontados, são distribuídos por participantes em um número desconhecido, mas que deve ser sempre maior ou igual a 2.

4.2 Reduplicação da base verbal com entonação

172 https://casaedecor.wordpress.com/author/vitoriarichter/.

173 http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20081115220232AApQJ5l.

174 http://musica.terra.com.br/noticias/0,,OI5745613-EI1267,00-

SP+show+do+Mr+Catra+termina+em+tumulto+em+Bebedouro.html.

175 http://pe360graus.globo.com/daliana/print.aspx?mId=2492&tId=BLG.

432

Os dados apresentados em (10) são casos de sentenças com reduplicação verbal que necessitam de uma entonação especial e trazem a leitura pluracional. Mais alguns exemplos são apresentados abaixo:

(28)

Ontem eu fui ao centro da cidade e andei andei.

(29) Na semana retrasada eu não consegui correr na academia nenhum dia, mas em compensação na semana passada eu corri corri.

(30)

O João chorou chorou.

Esses exemplos com a base verbal reduplicada e uma entonação especial trazem a pluracionalidade do evento denotado pelo verbo reduplicado. Nesses casos, claramente não há uma distribuição por participantes, mas há respectivamente, uma leitura de que há vários eventos de “andar” (distribuído em vários tempos do dia ou espaços dentro do centro da cidade) ou um evento de “andar” marcado com intensidade, vários eventos de “correr” (distribuído no tempo, por vários dias da semana), vários eventos de “chorar” (distribuído por tempo e/ou espaço – esses eventos de “chorar” podem ter acontecido em vários locais que lembravam da mãe dele que morreu ou em vários dias da semana, por exemplo – nessas situações a sentença seria verdadeira) ou um evento de “chorar” marcado com intensidade. Ainda, encontramos um exemplo na internet que traz um dado parecido com o tipo considerado aqui:

(31)

pedaço de bolo =P fazi séculos que não comia um, e quando entrei no blog da minha amada

comi um

Bom, hoje fiquei em casa com meus pais e assistimos filmes

huuum,

tive que comer uuma fatia de bolo

tb HAHAHAHAHAHAHAHAHA comi comi o bolo, minha janta será o shake, pra não

abusar das calorias diárias

Mari, vi aquele pedaço de torta de chocolate no post dela

água

já bebi 2 litros

faltam

apenas mais um

176

176 http://majaponesa.blogspot.com.br/2009/10/ser-feliz-e-o-que-importa.html.

433

A diferença, é que esse dado traz um argumento interno do verbo. De qualquer forma, sem a gravação da sentença, não temos como saber se a entonação necessária seria dada, ou se foi a intenção da escritora do blog de produzir um dado desse tipo ou de outro qualquer.

5. Reduplicação e pluracionalidade no PB

Com base na discussão dada nas seções anteriores, chamamos atenção para o fato de que, diferentemente dos dados tratados em Araújo (2002), entre outros, nossos dados de reduplicação de base verbal não levam à formação de um substantivo novo. Ou seja, os dados apresentados na seção 4 não são itens lexicais diferentes, como são aqueles tratados em Araújo (2002), Vialli (2010), entre outros, como bate-bate (referindo-se ao carrinho, o brinquedo) e pega-pega (referindo-se à brincadeira). Defendemos que nossos dados se tratam de casos de reduplicação da base verbal que levam à pluracionalidade de evento, como vimos discutindo. Esses tipos de dados formados por reduplicação da base verbal no PB servem para indicar não só a repetição de uma ação, mas também outros significados pluracionais discutidos por Cusic (1981): como repetição, e ocasiões ou eventos repetidos. Vimos que Cusic (1981) ressalta que a reduplicação sempre está associada com os significados que ele inclui no domínio da pluracionalidade. Assim, como esperado, o PB, que permite a reduplicação verbal apresentada neste trabalho, também usa esse mecanismo para expressar pluracionalidade. Seguindo a argumentação de Rose (2008), podemos dizer que a reduplicação que ocorre no PB tem a totalidade de uma base copiada, a base verbal (nesse caso sem afixação a essa mesma base), trazendo uma função semântica, dentre aquelas já apontadas acima. Nessa reduplicação, os dois elementos da sequência de dois elementos idênticos, existem independentemente. Esse fenômeno do PB também é diferente da repetição. Sobre as características da reduplicação apontadas por Vialli (2010), nos exemplos do tipo em 4.1 também não temos os argumentos do verbo realizados, são verbos destituídos de seus argumentos, porém, nos exemplos em 4.2, pelo menos o argumento externo se realiza. No geral, nesses casos, observamos a base verbal é acionada intransitivamente. Porém, dados do tipo daquele apresentado em (31) precisam ser considerados em trabalho futuro e esses pontos precisam ser mais apurados.

434

6. Conclusões

Neste trabalho mostramos que há casos de reduplicação no PB nos quais uma base verbal é reduplicada e isso expressa pluracionalidade verbal. Com base na discussão desenvolvida, podemos responder as questões colocadas na introdução. Primeiramente mostramos que a reduplicação verbal é um fenômeno produtivo no PB, inclusive nos casos que apontamos na seção 4, que leva a uma leitura de pluracionalidade de eventos. Os dados em (9) e (10) trazem, de fato, uma leitura pluracional, como foi mostrado nas seções 4 e 5 acima.

Sobre a relação entre reduplicação e pluracionalidade, como Cusic (1981) afirma, são muitas as possibilidades de leituras exibidas por marcadores pluracionais (inclusive a reduplicação) em todas as línguas. Ele ressalta que a reduplicação sempre está associada com os significados que ele inclui no domínio da pluracionalidade. Na seção 2, levantamos a hipótese de que as línguas que possuem reduplicação possam também usar tal mecanismo para expressar pluracionalidade. Isso foi verificado para o PB nos casos que tratamos na seção 4 deste trabalho. Sobre o questionamento se o operador pluracional * está presente em todos os casos de reduplicação verbal no PB, mostramos que não. Até onde vimos, apenas os exemplos tratados na seção 4 deste trabalho trazem uma leitura pluracional, diferente de dados como pula-pula e bate-bate que formam substantivos e são itens lexicais diferentes. O tipo de dado tratado neste trabalho necessita de um tratamento muito mais detalhado. Além disso, as questões abaixo também ficam para pesquisa futura:

1-

A reduplicação de base verbal pode acontecer com qualquer tipo de verbo no PB?

2-

Há algum tipo de restrição para que um verbo seja reduplicado, levando à leitura pluracional?

7. Referências

ARAÚJO, G. Truncamento e Reduplicação no PB. Revista Estudos da Linguagem, Belo Horizonte, v.10, n.1, p.61-90, jan./jun. 2002.

435

BECHARA, E. Moderna Gramática da Língua Portuguesa. Rio de janeiro: Nova Fronteira,

1998.

CABREDO HOFHERR, P.; LACA, B. Introduction — Verbal plurality and distributivity. In:

CABREDO HOFHERR & LACA (sld.). Verbal plurality and distributivity, Niemeyer, Tübingen. (ta).

COUTO, H. H. A reduplicação em português. Lusorama 40, p. 29-49, 1999.

; MELLO, M. A. C. R. Os compostos no crioulo português da guiné-bissau. Papia. 19, p. 69-79, 2009.

; SILVA, D. E. G. Repetição e reduplicação em língua franca. Papia. 11, p. 18-26,

2001.

CUNHA, C. F.; CINTRA, L. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

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437

437 SER E ESTAR E A DISTINÇÃO PREDICADO-DE-INDIVÍDUO X PREDICADO-DE- ESTÁGIO 1. Apresentação Marília Costa Pessanha

SER E ESTAR E A DISTINÇÃO PREDICADO-DE-INDIVÍDUO X PREDICADO-DE- ESTÁGIO

1. Apresentação

Marília Costa Pessanha UFPR/Fundação Araucária Maria José Foltran Universidade Federal do Paraná/CNPq

Em geral, classificam-se as propriedades que atribuímos a indivíduos conforme o seu caráter permanente e duradouro em oposição ao seu caráter transitório. Propriedades como alto, grande, redondo expressariam características inerentes do indivíduo e propriedades como triste, atrasado, inquieto, ao contrário, são entendidas mais como um estado passageiro. Carlson (1977) propõe que nossa linguagem estabelece a existência de indivíduos que podem ser espécies ou objetos. Objetos são coisas comuns do tipo “meu livro” ou “Maria” e espécies são grupos de entidades definidas culturalmente mediante alguma propriedade comum como “cachorros” ou “seres humanos”. Para o autor, os indivíduos acontecem no mundo enquanto estágios. Um estágio é uma realização espaço-temporal de um indivíduo. “Maria” ou “João” no momento de seu nascimento, ou “Maria” ou “João” que eu conheci na festa do sábado são estágios de um mesmo indivíduo. Por sua vez, os sintagmas verbais são classificados por Carlson em dois tipos básicos: predicados-de-indivíduo (individual level predicates) versus predicados-de-estágios (stage level predicates). Predicados-de-indivíduo expressam propriedades que são permanentes ou tendencialmente estáveis. Predicados-de-estágios, ao contrário, atribuem a indivíduos propriedades transitórias ou episódicas. Explicitadas dessa forma, as noções predicados-de-indivíduo e

438

predicados-de-estágio passam a ser suporte para importantes distinções aspectuais: as línguas humanas são sensíveis a essas distinções. A tradição gramatical costuma relacionar o uso dos verbos ser e estar às noções apresentadas acima: enquanto ser é usado para denotar propriedades permanentes constituindo um predicado-de-indivíduo, estar veicularia propriedades transitórias, configurando um predicado-de-estágio. O objetivo central deste trabalho é investigar as propriedades selecionais de ser e estar no português brasileiro e conferir se o comportamento desses verbos pode ser de fato relacionado a noções aspectuais. Em outras palavras, queremos ver se há fatos linguísticos que comprovam que ser e estar seriam uma lexicalização das propriedades aspectuais apresentadas. Para tanto, vamos dividir este trabalho em três partes, além da apresentação. Na seção 2, procuramos resgatar um pouco da história de ser e estar no português, no espanhol e no catalão, línguas em que os usos de ser e estar são muito parecidos. Na seção 3, descreveremos os contextos de ser e estar no português moderno. Na seção 4, procuramos refletir sobre a lexicalização de estar como um verbo de marcas aspectuais próprias.

2. Um pouco de história.

Antes de entrarmos no detalhamento dos contextos em que ser e estar aparecem, achamos útil falar um pouco da história desses verbos. Em latim, o verbo STARE (estar em pé, permanecer) tinha um conteúdo lexical bastante específico: era usado em sentenças locativas. ESSE, ao contrário, era usado em diversas configurações sintáticas, além das que expressavam existência, seu significado original. Batllori & Roca (no prelo) descrevem o comportamento desses dois verbos no espanhol e no catalão modernos e contrastam esses usos com as construções do latim clássico 177 . Partindo da descrição dos usos latinos, os autores arrolam as construções mais recorrentes com os verbos esse e stare em construções locativas, passivas, existenciais e copulativas. Mostram que stare vai progressivamente ocupando os espaços exclusivos de

177 Os autores fazem uma abordagem diacrônica, levantando as ocorrências em diferentes épocas do espanhol e do catalão. Vamos aqui recorrer apenas aos usos atuais nessas línguas.

439

esse. Essas configurações sintáticas variam nas diferentes línguas românicas e também envolvem relação com verbos diferentes de esse e stare, como habeo, teneo, por exemplo. O verbo stare era usado para denotar posição física e, assim, ficava muito próximo de sedere (ficar em posição fixa).

(1) a. Sto ad ianuam.

b. Pugna stetit.

(2) a. Puer in sella sedet.

b. Toga sedet umero.

‘Estou em frente à porta’.

‘A batalha continuou.’ ‘O menino senta (está sentado) na cadeira.’

‘A beca ficou parada no ombro.’ 178

Os autores resumem os usos latinos de esse e stare no quadro em (3). O uso copulativo é dividido em ‘predicado-de-individuo’ (PI) e ‘predicado-de-estágio’ (PE), com base no uso contemporâneo das formas derivadas desses verbos. O quadro mostra que o latim usava sempre esse para expressar um ou outro predicado.

(3) Latim

TIPO DE SENTENÇA

VERBO USADO

 

PI

ESSE

Copulativo

PE

ESSE

Locativo

STARE, SEDERE / ESSE

[+del]

[-del]

Existencial

ESSE

Passiva

ESSE

Progressivo

ESSE

Observa-se que o uso copulativo era exclusivo de esse; mesmo as locativas podiam ser com esse em exemplos do tipo “Roma in Italia est”. Nesses casos, a localidade expressa é permanente, inalienável. Diferentemente, as locativas com STARE (1) ou SEDERE (2) têm intrinsecamente um limite temporal, expressando uma propriedade transitória. Os autores

178 Os exemplos em (1) e (2) são de Batllori e Roca (no prelo).

440

atribuem essa distinção à presença de um traço sintático [delimitado] na projeção aspectual AspP (cf. [+del] e [–del] no quadro). Batllori e Roca mostram como se realizam as mesmas configurações sintáticas no espanhol e no catalão contemporâneos. Observa-se, como já foi comentado, o avanço de estar sobre ser: Estar passa a ocupar muitas das posições exclusivas de ser, como mostram os quadros em (4) e (9), despontando em contextos marcadamente locativos, enquanto ser fica quase restrito às copulativas que denotam predicados-de-indivíduo e construções passivas.

(4) Espanhol moderno

TIPO DE SENTENÇA

VERBO USADO

 

PI

Ser

Copulativo

PE

Estar

Locativo

Estar

Passivo

ser / estar

Existencial

haber / estar

Progressivo

Estar

As passivas são o único contexto de convivência das duas cópulas, não havendo livre alternância entre elas. O verbo estar seleciona particípios de verbos eventivos com mudança. Em (5), justificada refere-se a um estado final de la ganancia. Esse tipo de passiva é chamada resultativa (Marín 2000, Batllori & Roca), estado resultante (Zagona) ou predicação adjetival (Zagona 2010, Camacho no prelo). Ser, em contrapartida, seleciona particípios de verbos de estado, processos e eventivos sem mudança. Assim, verbos como amar (estado) ou acariciar (processo) só podem ser apassivados por ser. Essa construção é chamada passiva verdadeira (Zagona 2010, Camacho no prelo) ou passiva sintática (Zagona).

(5) Es una compañía espectacular que lo ha hecho muy bien y la ganancia que han registrado sus acciones está justificada. 179 (6) Tu mujer es amada por otro hombre

179 Extraído do site do jornal El País. http://economia.elpais.com/economia/2013/01/02/actualidad/ 1357117906_154396.html. Acesso em 02 de janeiro de 2013.

441

(7) El perro ha sido acariciado

Por fim, é interesante notar que alguns verbos como construir admitem os dois verbos, porém com leituras distintas: em (9a), a construção da casa ainda está em andamento, enquanto em (9b) já existe uma casa produzida. (8) a. La casa es construida. b. La casa está construida. 180 Passemos agora ao catalão moderno:

(9) Catalão moderno

TIPO DE SENTENÇA

VERBO USADO

 

PI

Ser

Copulativo

PE

estar – ser

Locativo

ser / estar

Passiva

ser / estar

Existencial

haver-hi / ser

Progressivo

Estar

Em primeiro lugar, observa-se que as cópulas PE diferem do padrão do espanhol (e, veremos adiante, do padrão do português brasileiro) ao admitirem dois verbos diferentes para o mesmo tipo de predicado. Batllori & Roca argumentam que a maioria das sentenças copulativas em catalão funciona como em espanhol, relacionando PE a estar e PI a ser; alguns casos, porém admitiriam qualquer das cópulas indistintamente (seriam casos de duas estruturas em competência). A segunda discrepância é na forma dos locativos. Sentenças locativas com estar como (10b) indicam os limites temporais da presença do sujeito na localidade em questão – elas inclusive permitem a especificação desses limites através de expressões como molt de temps. Já sentenças com ser como (10a) não informam essa restrição, denotando meramente uma localização.

180 Os exemplos (6-8) são de Marín (2000), (2004) apud Batllori & Roca (no prelo).

442

(10)

a. En Joan és a casa de l’Anna.

b. En Joan està molt de temps a casa de l’Anna. Assumimos que o processo que derivou ser e estar no catalão e no espanhol modernos a partir de esse/sedere e stare latinos foi o mesmo que ocorreu no português. Ilari & Basso (2006) observam que, no português, o verbo ser é substituído pelo haver na formação de tempos compostos entre os séculos XIV e XV. Além disso, nessa mesma época, o verbo de ligação ser é suplantado por estar ao lado de adjetivos que indicam propriedades transitórias (o rei era cansado / o rei estava cansado). Apresentamos a seguir as configurações sintáticas representativas de um e de outro verbo no português para, no final, compararmos com as línguas apresentadas nesta seção. As ocorrências que descreveremos a seguir são específicas do português brasileiro. Ficamos devendo, neste estágio da pesquisa, uma comparação com o português europeu.

3. A distribuição de ser e estar em PB 3.1. Contextos exclusivos Vamos iniciar enumerando os contextos que admitem somente ser ou somente estar. São eles:

a) predicados de identificação Predicados em que se identifica um elemento dentre vários permitidos pelo contexto. Essas construções só podem ocorrer com ser, conforme apresentamos em (11) e (12).

(11)

Meu filho é/*está o de camisa azul.

(12)

A chefe do departamento é/*está ela.

b) uso auxiliar Os usos auxiliares das cópulas apresentam distribuição oposta, isto é, ser é o auxiliar da passiva em (13) e (14); estar é auxiliar aspectual na construção de aspecto durativo (15) e na construção de aspecto prospectivo (16).

(13)

O gol foi/*esteve marcado por João.

(14)

As paredes foram/*estiveram pintadas de branco.

(15)

A economia *é/está crescendo (nos últimos anos).

443

(16)

O concerto *é/está para começar.

c) predicados DP e de+DP

A construção ser+DP de (17a) constitui a forma mais usada. No entanto, encontramos estar+DP como estratégia discursiva diferenciada. Em casos como (17b), o falante anuncia que a passagem de Maria pelo cargo é mais transitória do que se imagina – o verbo estar implica uma restrição temporal bem mais marcada. Observe-se que (17a), por sua vez, não expressa um estado permanente de Maria. O sentido de atuação restrita é mais apropriadamente veiculado pela estrutura estar+de+DP, completamente incompatível com ser. O exemplo em (18) demonstra isso, além do fato de a aceitabilidade da sentença ser maior com a introdução de um restritor temporal como nesta assembleia.

(17)

b. ?Maria está secretária do departamento.

(18)

a. Maria é secretária do departamento.

Maria *é/está de presidente nesta assembleia.

3.2. Contextos de co-ocorrência

a) predicado adjetival

Adjetivos relacionados a qualidades temporárias (predicados-de-estágio) ocorrem com estar, enquanto adjetivos relacionados a qualidades permanentes (predicados-de-indivíduo) ocorrem com ser. Em (19a), fria é uma propriedade passageira de carne, enquanto em (19b) frio é uma propriedade constante do Polo Norte. Este é o ambiente privilegiado para se falar em distinção entre predicados-de-indivíduo x predicados-de-estágio.

(19)

b. O Polo Norte é frio.

a. A carne está fria.

Há adjetivos, no entanto, que ocorrem exclusivamente com uma das cópulas, como demonstram (20) e (21).

(20) A menina *é/está cansada. (21) A menina é/*está alta.

b) predicado PP

444

Também no caso dos PPs, a distinção entre os que ocorrem com ser ou estar apresentam nuances que não são muito fáceis de serem explicitadas em termos de sentido. Os exemplos (21-26) demonstram isso. Porém aqueles relacionados a direção, denotando alvo, não ocorrem com estar, conforme (27):

(22) Eu *sou/estou com fome. (23) Nós *somos/estamos com nossos livros. (24) Eles *são/estão de bicicleta. (25) Em casa de ferreiro, o espeto é/*está de pau. (26) O intercambista é/*está da Coréia. (27) O presente é/*está para João

Consideramos esses os contextos bastante relevantes para entendermos melhor os usos de ser e estar. Na próxima seção, vamos buscar sistematizar esses contextos, relacionando-os às noções predicados-de-indivíduo versus predicados-de-estágio.

4. Ser e estar e a marcação aspectual

Nesta seção, vamos retomar as noções de predicados-de-indivíduo (doravante PI) e predicados-de-estágio (doravante PE) para avaliarmos a correspondência entre esses conceitos e o uso de ser e estar no português. A distinção entre PI e PE aparece na literatura linguístico-filosófica para explicar fatos linguísticos diferenciados. Em Carlson (1977), essa distinção aparece como uma abordagem que buscava explicar o fenômeno da genericidade. Mais tarde, Kratzer (1988) redimensionou os conceitos baseada na ideia de que PE teria um argumento evento extra (argumento davidsoniano) para uma localização espaço temporal. Os PI, ao contrário, não apresentariam tal argumento. Chierchia (1988), por sua vez, parte da análise de Kratzer e, seguindo Parsons (1990), argumenta que todos os predicados tem um argumento evento davidsoniano, mas no caso dos PI, esse argumento precisa ser ligado a um operador genérico. A partir dessas abordagens, as noções de PI e PE passam a fazer parte da distinção aspectual dos predicados, já que estariam ligadas às noções de temporalidade interna das eventualidades. Nesse sentido, há várias tentativas de caracterizar ambos os predicados – PI e PE. Vamos nos apoiar nessas caracterizações para tentarmos avaliar se de fato ser e estar

445

seriam, respectivamente, a lexicalização de PI e PE. Uma análise muito próxima a esta foi feita por Camacho (2012) para o espanhol e servirá de contraponto para o nosso trabalho. É importante observar que as noções PI e PE se aplicam a predicados, a VPs e a nossa análise avalia se ser e estar integrariam predicados exclusivamente de um ou outro tipo.

4.1. Definindo as propriedades Chierchia (1988) estabelece três tipos de PI:

a. Verbos estativos: saber, amar, odiar;

b. Todos os NPs predicativos: ser homem, ser mamífero;

c. Adjetivos como inteligente, alto, azul, etc.

É importante lembrar que, nesse trabalho, Chierchia analisa os PI como genéricos inerentes e usa os PE apenas como contraponto. Assim, identifica os PI a partir de seis critérios: estatitividade estável, uso de locativos, complementos de verbos de percepção, there sentences do inglês, plurais nus, advérbios de quantificação. De imediato, podemos descartar os testes com there sentences porque não há possibilidade de usarmos os verbos sob análise na coda dessas sentenças, já que, em PB, o verbo que integra as sentenças existências é o ter (o haver apenas em registro mais formal). Vamos, portanto, analisar os cinco critérios restantes.

4.1.1. Estatividade estável Os PI são aspectualmente estativos e se opõem a estativos episódicos (PE). Observa- se, em geral, que nem sempre é fácil decidir se a propriedade é transitória ou estável. Em geral, as noções envolvidas são vagas. Se alguém é inteligente ou alto (no sentido físico), claramente tende a reter essa propriedade. Quando testamos essa propriedade, o uso de ser e estar é particularmente útil para estabelecermos a diferença entre o que é tendencialmente estável ou não.

(28)

a. João é alto.

b.

João é doente.

(29)

a. ??João estava alto.

b. João estava doente.

Na verdade, o que é estável ou transitório é a propriedade expressa pelos adjetivos. Ser alto não é uma propriedade que se altera, a não ser em contextos muito específicos.

446

Quando deixamos de ver uma criança em fase de crescimento e a encontramos depois de algum tempo, é comum falarmos:

(30)

a. Nossa, como você está alto!

b. Você está mais alto que seu pai!

Com doente, o uso de ser e estar é providencial para expressar a estabilidade ou transitoriedade do estado. Essa diferença pode ser realçada pelo uso de advérbios temporais.

(31)

a. ??João era doente ontem / no mês passado.

b. João estava doente ontem / no mês passado.

Portanto, quando se usa ser e estar com adjetivos, esses verbos constituem, sim, uma forma privilegiada que o português tem para expressar transitoriedade ou estabilidade. Essa questão já não é tão clara quando usamos DPs como predicados. Vimos anteriormente que usamos, em geral, ser quando o predicado é um DP. No entanto, a ideia de estabilidade não é tão evidente nesses casos.

(32)

a. O João é o atual ministro de educação.

b. O João era o ministro de educação ontem / no mês passado.

Embora não possamos dizer nesses casos que ser atesta estabilidade, o uso de estar, ao contrário, veicula claramente a ideia de algo transitório.

(33)

a. O João está de ministro de educação.

b. O João está ministro de educação.

O uso de estar, nesses casos, exige a preposição. (33b), como já dissemos anteriormente, é uma exploração discursiva da ideia de transitoriedade. Concluímos, portanto, que quando o predicado é um adjetivo, ser e estar podem ser usados como teste para PI e PE. Quando o predicado é um DP, consideramos que se usa estar para veicular a ideia de transitoriedade, mas ser é neutro nesse contexto.

4.1.2. Locativos

447

Chierchia faz menção aqui à restrição dos PIs em relação aos modificadores locativos. Os exemplos do autor estão em (34).

(34) a.??John is intelligent in France. b.??John knows latin in his office.

Para os nossos propósitos, no entanto, esses exemplos não servem, pois o que está em jogo em (34) são as propriedades ser inteligente e saber latim. O que podemos observar aqui é a ocorrência com ser e estar com predicados PPs, em especial os locativos. Como já vimos na seção 3.2, há nesses casos nuances difíceis de captar. Os exemplos (22-26), repetidos aqui por conveniência, mostram isso.

(22) Eu *sou/estou com fome. (23) Nós *somos/estamos com nossos livros. (24) Eles *são/estão de bicicleta. (25) Em casa de ferreiro, o espeto é/*está de pau. (26) O intercambista é/*está da Coréia.

Em relação aos locativos, parece que outras propriedades entram em jogo. Camacho (2012) afirma que o tipo de sujeito também interfere na seleção da cópula. Sujeitos passíveis de movimento exigem a cópula estar (35). Sujeitos eventivos (36) ou sujeitos inanimados não-movíveis (37) ocorrem com ser, salvo nos casos em que há orientação para uma localidade (cf. (38) e (39)). No entanto, quando queremos expressar mudança de lugar, o uso de estar tem preferência (40-41).

(35) Os peixes *são/estão naquele aquário. (36) A festa é/*está na discoteca. (37) A farmácia é/*está na rua da faculdade. (38) O Curso de Linguística Geral é naquela prateleira. (39) Ao passar pela farmácia, vire à direita; a escola é em frente à biblioteca. (40) A farmácia mudou. Agora, está na rua da faculdade. (41) A: Não consigo achar o Curso de Linguística Geral que ficava sempre aqui. B: Está naquela prateleira.

448

Concluindo esta seção, observamos que embora os contextos com predicados PPs não possibilitem uma generalização – este é um contexto que requer uma análise mais aprofundada – as expressões com estar expressam mais facilmente mudanças, o que denota transitoriedade. Consideramos ser neutro neste contexto.

4.1.3 Complementos de verbos de percepção Em geral, complementos de verbos de percepção são analisados como predicados que expressam PE. Com base nos exemplos abaixo, Chierchia observa que PIs não se encaixam adequadamente nesse contexto.

(42) a. *I saw John a linguist.

b. *I saw John tall.

(43) a. I saw John drunk.

b. I heard Mary beat John.

Os exemplos acima podem ser transferidos para o português com os mesmos resultados. No entanto, quando usamos complementos oracionais com verbos finitos, não conseguimos observar nenhum contraste.

(44) a. Eu vi que o João é alto.

b. Eu vi que o João está nervoso.

Constatamos, ainda, que o uso de complemento oracional com os verbos ser e estar no infinitivo não é possível (45), embora seja possível com outros verbos (46).

(45) a. *Eu vi o João ser alto 181 .

b. *Eu vi o João estar nervoso.

(46) a. Eu vi a Maria bater no João. b. Eu ouvi o João cantar samba.

181 Essa restrição precisa ser mais bem explicada. Algumas construções como “Eu vi o João ser grosseiro com os convidados” são boas.

449

A impossibilidade de (45) pode ser observada também com outros verbos estativos.

(47)

a. *Eu vi o João gostar de pudim.

b. Eu vi que o João gosta de pudim.

A princípio, parece que a restrição do infinitivo diz respeito a estados, mas não vamos nos aprofundar nisso aqui. Os complementos de verbos de percepção, principalmente em relação aos resultados de (45-47) precisam de uma atenção maior e deixaremos para o desdobramento desta pesquisa. Consideramos, portanto, esse teste inconclusivo. Camacho considera também os complementos de verbos tipo considerar, que são classificados como contextos exclusivos de PI, como se observa em (48).

(48)

a. Eu considero o João inteligente.

b. ??Eu considero o livro aberto.

Os predicados colocados nesse contexto favorecem uma leitura de PI. Em geral, esses complementos aparecem sem a cópula. Num registro mais formal, no entanto, podemos recuperar a cópula que deve aparecer necessariamente antes do sujeito. Nesse caso, achamos possível usar tanto ser como estar.

(49) a. Considero ser o João inteligente.

b. O juiz considerou estar a empresa apta para receber novos financiamentos.

Consideramos esse contexto também inconclusivo para nosso objetivo.

4.1.4 Plurais nus Segundo Chierchia, PIs interagem facilmente com bare plurals, pois selecionam leituras universais, genéricas. Observamos que, nesses casos, somente ser pode ocorrer. Nos casos em que estar é aceitável (50c), a interpretação só pode ser existencial. Lembremos porém que a preocupação de Chierchia é comprovar que o argumento evento de PIs está ligado a um operador genérico. Os exemplos em (50) são insuficientes para se comprovar que predicados genéricos se expressam com ser e não com estar. Lembremos que predicados de

450

espécie, por exemplo, podem ser expressos com estar, como em (51). Camacho diz que predicados com estar seguidos de particípio podem ter leitura genérica., conforme (52).

(50) a. Baleias são mamíferos.

b. Bombeiros são disponíveis.

c. Bombeiros estão disponíveis. (=Há bombeiros disponíveis)

(51) A baleia está em extinção. (52) Cachorros estão proibidos neste edifício.

Consideramos os exemplos (50-52) também inconclusivos para nossos propósitos, porque entrelaçam noções outras cuja relação com o nosso tema não é muito explícita.

4.1.5. Advérbios de quantificação A ideia é que somente PEs podem ocorrer com advérbios que permitem uma ancoragem espaço-temporal. Os exemplos de Chierchia (53) mostram que PIs encontram restrições nesse contexto. Novamente aqui os exemplos envolvem fatos linguísticos que não permitem dizer que o efeito de agramaticalidade se deve exatamente ao uso de PIs e PEs. Kratzer (apud Chierchia 1988) observa que ao inserirmos um DP indefinido ou um plural nu nessas sentenças, elas se tornam gramaticais.

(53) a. ??When John knows Latin, he always knows it well.

b. When John speaks Latins, he always speaks it well.

(54) a. When a Moroccan knows Franch, she knows it well.

Com os verbos ser e estar, o contexto em pauta privilegia estar (55).

(55) a. Quando o João está nervoso, saia de perto.

b. ??Quando o João é nervoso, saia de perto.

Schmitt 1992 (apud Camacho 2012) cita exemplos do português brasileiro em que ser pode aparecer numa sentença com quando, como (56). Os exemplos com ser de Schmitt dizem respeito a formas de agir, ou ACT BE ser (ser cruel, ser grosseiro, ser amável). Temos indícios para afirmar que expressões com ser que expressam formas de agir têm um

451

comportamento diferente. Pudemos notar isso no comportamento de verbos de percepção. Mostramos esse contraste abaixo em (57).

(56) Quando o João é cruel/grosseiro, ele é verdadeiramente cruel/grosseiro.

(57)

a. *Eu vi o João ser alto/inteligente. b. Eu vi o João ser indelicado/cruel com os alunos.

Em (57b), fala-se de uma forma de agir, de um comportamento. Nesse caso, o predicado com ser+modo de agir é perfeitamente aceitável.

5. Conclusão

Argumentamos neste trabalho que a distinção PI versus PE não se sobrepõe com a distribuição total dos verbos ser e estar no português brasileiro. A seção 2 mostra que, em três línguas ibero-românicas – espanhol, catalão e português – o estar expandiu seus contextos de ocorrência, deixando de ser um verbo semanticamente pleno e tornando-se uma nova cópula nessas línguas. Em seguida, apresentamos a distribuição das duas cópulas no PB, em ambientes que permitem co-ocorrência e naqueles que aceita apenas uma das cópulas. Sistematizamos esses dados a partir de testes para PI/PE, demonstrando que a construção cópula+AP exprimirá PE sempre que o verbo for estar e PI quando o verbo for ser, constituindo, assim, o contexto em que realmente podemos comprovar a relação de PEs com estar e de PIs com ser. Já em construções cópula+DP, ser fará a sentença ter um sentido neutro, enquanto estar restringirá temporalmente o sentido do DP tornando-o um PE. De maneira semelhante, com PPs, as expressões com ser tendem a assumir um sentido neutro e aquelas com estar, um sentido transitório ou de mudança. Os testes de complemento de small- clause, de complementos de verbos de percepção e com plurais nus mostraram-se inconclusivos, demandando atenção especial em desdobramentos posteriores da pesquisa. Finalmente, estar é a cópula privilegiada para usos em sentenças quantificadas por advérbios, salvo quando a expressão adverbial indica uma forma de agir. Por ora, concluímos que estar é um verbo marcado para aspecto. Isso é coerente com sua diacronia, uma vez que o traço de localidade de stare, que exigia complementos delimitados espaço-temporalmente, atua em algum nível na seleção de complementos de estar. O ser, em contrapartida, é um verbo

452

transparente para aspecto, o que faz dele a cópula default, isto é, a cópula utilizada para complementos não-marcados aspectualmente: expressões genéricas, existenciais e universais. Nossa pesquisa fica devendo uma reflexão em relação ao uso desses verbos como auxiliares. Possivelmente, teremos resultados parecidos. Wachowicz (2007) já observou que, em contexto de auxiliaridade, estar é um verbo marcado para aspecto.

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UFPR.

453

453 UM OLHAR SOBRE O MUITO(A) NO PORTUGUÊS BRASILEIRO: O CASO (OU NÃO) DA AMBIGUIDADE Autor:

UM OLHAR SOBRE O MUITO(A) NO PORTUGUÊS BRASILEIRO: O CASO (OU NÃO) DA AMBIGUIDADE

Autor: Kayron Campos Beviláqua Afiliação: Mestrando em Linguística – UFPR/Capes

1.

Introdução

Neste trabalho, analisaremos os diversos usos do quantificador muito(a) associado ao sintagma nominal nu singular no PB. Descritivamente, o singular nu – a versão abreviada de sintagma nominal nu singular – é um sintagma sem determinante aparente, sem marca de pluralidade. PIRES DE OLIVEIRA e ROTHSTEIN (2011) levantam, pela primeira vez, a hipótese de que esse sintagma ocorre também com quantificadores e sintagmas de medida. Neste artigo, vamos investigar essa questão olhando-a atrvés do comportamento de muito. O muito(a) parece ter propriedades bastante peculiares, pois se combina tanto com nomes que a literatura especializada considera como massivos, como com nomes considerados contáveis. 182 Vejamos os exemplos abaixo:

(1) Júlio desperdiçou muita água. (volume)

(2) João carregou muita árvore. (unidade e volume)

Em (1), temos o quantificador muita, que está operando sobre água, um nome massivo. O sintagma água não pode ser contado ou medido diretamente numa escala cardinal porque é um nome de massa, para tanto ele precisa se combinar com um sintagma de medida, como volume ou litros. Já na sentença em (2), o muita está quantificando sobre um nome que é

182 A distinção massa e contável é controversa. Ver, por exemplo, GILLON (1992), CARLSON (1998), ROTHSTEIN (2010a).

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aparentemente contável e singular, árvore. A interpretação preferencial da sentença em (2) é de que há unidades contáveis de árvore e que o João as carregou. Essa é a interpretação que indicamos por ‘unidade’. Dizemos interpretação preferencial porque ela não é a única possível. Perceba que também é possível a interpretação massiva de sentenças como em (2). Clarificando um pouco a interpretação massiva: imagine que, no contexto em que (2) é proferida, o que está em questão não são as unidades de árvores, mas sim outros aspectos, como volume, peso, ou altura, etc. João carregou muita árvore pode, portanto, ser dito quando João carregou uma porção de árvore que não é passível de contagem, mas que representa algo acima do esperado numa determinada escala de volume ou de peso. Nesse caso, não interessa quantas unidades de árvore o João carregou, mas o volume ou peso de árvore. Ele pode, inclusive, ter carregado uma grande quantidade de árvore, mas vinda de poucas árvores. Temos, portanto, dois usos e interpretações distintas para um mesmo item lexical.

O muito(a) também se combina com nomes de massa que admitem leitura cardinal, isto é, de contagem de unidades, como é o caso de nomes como mobília, bagagem, prataria, etc. Mobília parece ser um nome de massa porque não aceita pluralização ou contagem, que são os testes aceitos na literatura para definir se um nome é ou não massa:

(3) ??Comprei duas mobílias. (classificador)

A interpretação da sentença em (3) é possível se supomos um classificador, por exemplo, dois conjuntos de mobília.

Mas quando temos uma sentença com muita a leitura contável está disponível:

(4) O João tem muita mobília em casa. (unidade e volume)

Ao proferir a sentença em (4), o falante pode querer se referir a diferentes unidades de mobília que João tem, como mesa, cadeira, etc. A sentença também admite leitura de volume, quando não importam as unidades, mas sim o volume do mobiliário para um determinado espaço, por exemplo. A sentença em (4), portanto, admite tanto a leitura de unidades de mobília quanto de volume.

Nesse momento, algumas questões se fazem pertinentes: Seria então o muito(a) um quantificador ambíguo, que pode quantificar tanto contável quanto massivamente, a depender

455

do contexto? Ou seriam os nomes ambíguos entre contável e massivo? Podemos aventar outra hipótese para o caso do muito(a) no PB? Para responder essas questões devemos olhar para o tipo de comparação efetuada pelo muito(a) e percebermos que critérios estão sendo mobilizados na comparação. O objetivo deste trabalho é, então, verificar a interpretação de sentenças, como as apresentadas acima e discutir a possibilidade de uma hipótese ambiguista, mostrando que, apesar de ser uma saída possível, não é a mais econômica. Assim, construímos argumentos contrários à hipótese de ambiguidade para o muito(a), comparando-a à proposta de PIRES DE OLIVEIRA e SOUZA (no prelo), que, para o caso da comparação e da combinação com quantificadores como muito, a hipótese se explica assumindo que o singular nu denota a espécie e é, portanto, um predicado raiz, em que não há uma unidade definida, nos termos de PIRES DE OLIVEIRA e ROTHSTEIN (2011).

Para discutir as questões aqui brevemente apresentadas, dividimos este artigo em quatro seções. Na primeira seção, fazemos uma descrição dos usos do muito que iremos analisar e também um paralelo entre o muito e o que parece ser a forma plural no PB – muitos – e também seus correspondentes no inglês. Essa comparação pode revelar aspectos do muito no PB. Na segunda seção, discutimos o teste da comparação proposto por Bale e Barner (2009) e as generalizações propostas, demonstrando que não se aplicam aos nossos dados. Na seção seguinte, descrevemos a hipótese do muito(a) como ambíguo e expomos argumentos contra essa hipótese, como também apontamos para a hipótese baseada em PIRES DE OLIVEIRA e SOUZA (no prelo). Por fim, as conclusões de nossa pesquisa.

2. MUITO/MUITOS X MUCH/MANY

Primeiramente, seguindo a literatura (CRESSWELL 1976, KLEIN 1980, entre outros), entendemos que o muito atua numa escala de graus. Semanticamente, há uma propriedade de gradação: uma escala ordenada em graus e um seletor que determina o grau ao qual a propriedade de uma entidade pertence, comparando este grau a outros numa mesma escala. Vejamos em: João comprou muitos livros. A interpretação é que o número de livros que o

João comprou está acima do padrão. A escala é, portanto, a escala dos cardinais – um, dois,

- Suponha que o padrão para comprar livros seja comprar dois livros. Nesse caso, para

que a sentença seja verdadeira, o João deve ter comprado mais do que dois livros.

três

No entanto, não nos interessa aqui a semântica do muito enquanto um quantificador de graus, mas o fato de que, em sentenças com o muito, sempre temos duas interpretações

456

possíveis - contável e massiva – quando estamos diante de um singular nu ou de um nome de massa falso (“fake mass noun” 183 ). Dessa forma, procurando entender melhor o comportamento quantificacional do muito no PB, fazemos uma comparação entre o muito/muitos e o que parece ser o par análogo no inglês, much/many.

Uma das mais claras distinções que se faz no estudo de línguas naturais sobre quantificadores é entre quantificação massiva e contável (ver, por exemplo, PELLETIER (1975), CARLSON (1998)). Quantificadores massivos constituem expressões que denotam certa quantidade de massa, um agregado de massa. Por exemplo, much, em inglês, é um quantificador massivo, pois se combina apenas com nomes massivos, formando expressões como: much water e much cake. Em contraste, quantificadores contáveis constituem expressões que se combinam com nomes contáveis e denotam, informalmente, quantidades de coisas tomadas em suas unidades, exigem a escala de cardinais. Em inglês, many é um quantificador contável, pois forma expressões como: many boys e many cakes e *many cake é agramatical. Essa especificação pode ser verificada pela agramaticalidade das combinações apresentadas abaixo:

(5)

a.*much boys

b.*many water

c.??much boy

d.*many boy

Portanto, em inglês, temos claramente o par much/many, onde: many atua como o operador contável- já que quantifica apenas sobre nomes contáveis plurais, e much como o operador de massa (CHIERCHIA 1998). Entretanto, podemos ter casos, como em (5c), no qual estamos diante do “moedor universal” ou “universal grinder”. Um tópico importante na discussão sobre massa e contável nas línguas é o chamado “universal grinder”. Conforme demonstrado por PELLETIER (1975), os nomes podem facilmente mudar da categoria contável para a categoria massiva. Essa mudança é autorizada pelo moedor universal, que transforma um nome contável em um nome de massa. “In principle, any count term that has physical objects

183 Usaremos a terminologia proposta por CHIERCHIA (2010) para nomes como furniture e mobília.

457

in its extension can be used as a mass term given an appropriate context”. 184 (PELLETIER, 1975. p.176). De acordo com PIRES DE OLIVEIRA e SOUZA (no prelo), o moedor universal é disparado

por uma incompatibilidade de tipo semântico entre um nome

singular – a steak ‘um bife’, an object ‘um objeto’, the object ‘o objeto’ – e uma estrutura de comparação que exige um nome cumulativo (plural ou massa), isto é, que tenha partes próprias ou pelo menos algum tipo de estrutura interna. Essa incompatibilidade irá desencadear a partição do indivíduo singular em suas (sub)partes próprias”. (p.8).

“[

]

Assim, em (5c), much boy, esperamos que a interpretação seja de mais partes de um garoto do que o padrão. No inglês, alguns nomes podem aparecer tanto em contexto contáveis como massivos, por ex.: paper, rock, stone, thought e judgment, porém uma vez usados para denotar indivíduos, como um contável, eles não poderão denotar massivamente e o uso para denotar indivíduos, em contextos de comparação, só ocorre com o nome plural. Assim, nas sentenças abaixo, em (6a), a interpretação só poderá ser de indivíduos, enquanto em (6b) a única interpretação possível é de massa.

(6) a. too many apples

b. too much apple

No PB, essa distinção entre quantificadores massivos e contáveis é talvez menos clara do que no par de quantificadores do inglês (apesar de, numa análise rápida, tratarmos o muitos como um operador contável e o muito como um operador especializado para massa), e isso nos leva à dúvida sobre o muito, já que ele se combina tanto com predicados que são aparentemente contáveis como carro sem gerar uma sentença agramatical, quanto com predicados massivos como água:

(7) Tem muito carro na caçamba do caminhão.

(8) Júlio desperdiçou muita água.

184 Tradução nossa: Em princípio, qualquer termo contável que tem objetos físicos na sua extensão pode ser usado como termo d emassa num contexto apropriado.

458

Esse pode ser um indício de que muito não equivale a much, no inglês ou que a análise do inglês para much precisa ser repensada, ou será que temos, em (7), o moedor universal funcionando? Se vamos explicar a interpretação de volume possível para a sentença em (7), não podemos apelar para o moedor universal, porque ele irá gerar a interpretação de que tem mais partes de um dado carro do que a caçamba do caminhão pode suportar, essa não é a leitura que estamos querendo apreender. O que acontece na leitura de “moedor universal” é que na comparação há uma leitura de porções de um indivíduo que é obtida quando temos um predicado singular no escopo do comparativo. Essa situação gera uma incompatibilidade de tipo semântico e resulta na transformação do indivíduo singular no conjunto de suas partes.

E quanto ao muitos e many, eles teriam a mesma distribuição? Vejamos os contrastes nos exemplos a seguir:

(9) a. John has too many stones. (leitura cardinal)

b. João tem muitas pedras (leitura cardinal)

(10) a. John has too much stone. (leitura massiva)

b. João tem muita pedra. (leitura massiva e leitura cardinal)

(11) a. * John has too many stone.

b. João tem muitas pedra(s). (leitura cardinal)

(12) a. * John has too much stones.

b. *João tem muita pedras.

Note que many se combina apenas com predicado plural, como atesta a agramaticalidade de (11a) e a gramaticalidade de (9a). Note também que stone se combina tanto com many, numa sintaxe contável, exemplo (9a), quanto com much, exemplo (10a). Assim, uma proposta bastante aceita para o inglês (BALE e BARNER (2009), BARNER e SNEDECKER (2005), entre outros) é a da ambiguidade para um número restrito de itens lexicais no inglês: quando um predicado como stone aparece, em contextos de comparação, sem morfologia de número, é um nome massivo ou não contável, quando aparece combinado com many e consequentemente com morfologia plural é um predicado plural, permitindo somente a leitura cardinal, isto é, a leitura de que há uma ou mais unidades bem definidas.

459

Quanto aos exemplos do PB, muitos se combina apenas com predicados plurais, como é o caso de (9b) e (11b). Em (11b), pedra é um predicado plural, apesar de a pluralidade aparecer marcada apenas no quantificador. Veja que não podemos ter (12b), em que o quantificador não apresenta marca de pluralidade, que só ocorre no nome. A supressão de marca morfológica de número é um fato generalizado no PB e tem sido enfocado frequentemente pela investigação sociolinguística por meio dos trabalhos de GUY (1981); SCHERRE (1988), entre outros. Assim, temos a certeza de que o predicado que segue o quantificador muitos é sempre plural, como acontece com o many, mesmo que a marca morfológica não apareça no nome, somente no quantificador, portanto.

Já o muito se mostra diferente do much, pois ao se combinar com predicados como pedra, (10b), gera interpretação massiva e contável, isto é, a sentença é verdadeira em duas situações distintas: o número de pedras que o João tem é maior do que o normal ou o volume/peso é maior. Esse problema de decidir se estamos diante de um predicado singular ou de um predicado massivo se coloca de uma maneira aguda porque, numa primeira olhada, não temos certeza sobre muito, já que ele é homófono de muito(s) e se combina com predicados que à primeira vista se comportam como contáveis sem gerar uma sentença agramatical e sem ter a interpretação característica dos massivos, que é a leitura não cardinal. Perceba que, uma vez que temos um predicado associado ao much, como em (10a), só temos leitura de massa. Esse é, na verdade, o critério para termos certeza de que o nome que segue much é massivo. Contudo, é sempre bom ter em mente o problema dos nomes de massa como mobília e furniture, em inglês, que irão problematizar ainda mais essa descrição. Como então se comportam esse tipo de nome de massa - mobília, bagagem, prataria, etc. com muito e muitos?

(13) Limpei muitas mobílias de casa. (unidade)

(14) Tenho muita mobília na sala. (unidade, volume)

Em (13), só podemos estar falando de peças da mobília, ou seja, as unidades, por causa da presença do plural. Em (14), diferentemente do que é relatado para o inglês (BALE e BARNER (2009)), a comparação é possível tanto entre as unidades de mobília quanto com outras medidas relevantes, por exemplo: o volume. Vejamos os dados do inglês:

460

(15) *There are too many furniture.

(16) There was too much furniture crowding every room. 185

Em inglês, furniture apenas se combina com much, como mostra a agramaticalidade de (15). Já a sentença em (16) é gramatical e embora furniture seja um nome de massa e, como tal só deveria aceitar comparações de escalas contínuas, ele aceita também leitura cardinal. Na seção seguinte, veremos que, para Bale e Barner (2009), nomes de massa se dividem no léxico em duas classes: os que são não atômicos, água, e os que são atômicos, mobília. Isso permite que mobília possa ser comparada por suas unidades, mas também pelo volume, uma questão sobre a qual os autores predizem contrariamente: o nome de massa furniture só aceita comparação por número, em decorrência do sistema que eles propõem.

Em resumo, vimos, até agora, que é possível a interpretação massiva e contável de sentenças como em (17) abaixo.

(17) Pedro carregou muito livro. (unidade, volume)

Além do mais, há os chamados “fake mass nouns” que admitem leitura cardinal e massiva, como é o caso de mobília. Veja:

(18) O João tem muita mobília. (unidade, volume)

Dessa forma, na próxima seção, examinaremos a semântica de sentenças do tipo de (17) e (18), no sentido de entender que tipo de comparação está sendo operada, trazendo para a discussão o teste proposto por BALE e BARNER (2009).

3. O TESTE DA COMPARAÇÃO: BALE AND BARNER (2009)

Em “The Interpretation of Functional Heads: Using Comparatives to Explore the Mass/Count Distinction”, Bale e Barner argumentam que o melhor teste para detectarmos se estamos diante de um nome de massa ou um contável é observar seu comportamento nas sentenças comparativas: nomes contáveis só admitem interpretação cardinal, isto é, em que contamos o número de indivíduos, enquanto que os nomes massivos são comparados

185 Tradução nossa: Havia muita mobília lotando cada cômodo. Fonte:

http://edition.cnn.com/2012/03/01/living/confessions-compulsive-declutterer/index.html

461

utilizando escalas não cardinais, como volume ou peso, por exemplo. O nome de massa aceita escalas contínuas (densas, isto é entre um ponto da escala e outro há um infinito de pontos intermediários), enquanto que o nome contável só aceita a escala cardinal, que é pontual ou discreta. Para usar um exemplo dos autores:

(19)

a. Esme has more chairs than Seymour has tables. b. Esme has more water than Seymour has juice.

Note que nas sentenças acima, a dimensão que está sendo comparada muda de acordo com a denotação dos nomes. Assim, em (19a), o número de cadeiras é comparado ao número de mesas. Em (19b), o volume de água é comparado ao volume de suco. As estruturas de comparação permitem classificar os nomes em termos da dimensão do que está sendo comparado, começando principalmente com a distinção entre nomes que permitem a comparação por número e aqueles que não aceitam.

Como dissemos anteriormente, semanticamente, muito e seus correlatos (muitos, pouco) estabelecem uma comparação: algo é muito ou pouco em relação a um padrão dado contextualmente. Dessa forma, é de se esperar que encontremos com muito o mesmo comportamento da comparação. Vamos analisar a seguinte sentença:

(20) Tem muito menino no carro. (cardinal e volume) A sentença permite leitura contável e massiva. Suponhamos a situação do carro e que apenas dois meninos entraram, mas eles são bem gordos e juntos ultrapassam em muito o espaço do

carro. A sentença em (20) é feliz nesse contexto e tem interpretação de massa, não importa o número de meninos (diferentemente do que aconteceria se tivéssemos um sintagma plural muitos menino(s)). Mas (20) também aceita a interpretação contável. Se, por exemplo, ao invés de apenas dois meninos, tivermos 15 meninos na mesma situação e esse número é maior do que o carro pode suportar. Temos uma semelhança com nomes como mobília:

(21)

Tem muita mobília no carro. (cardinal e volume)

Podemos, com (21), comentar sobre o número de móveis que está dentro do carro ou sobre o volume da mobília. Nesse ponto, o teste proposto aponta para o seguinte: quando na leitura contável, carro tem leitura cardinal; quando comparado numa escala contínua, massiva, carro tem leitura de volume. Sendo assim, o muito é ambíguo. Veja que ao aplicarmos o teste da

comparação proposto, veremos que há duas interpretações: cardinal; e a interpretação não

462

contável, na qual o que está em comparação são outras dimensões, como peso ou volume, mas não a cardinal. Dessa forma, o teste não foi suficiente para definir se estamos diante de um nome de massa ou contável. Então, chegamos a diferentes resultados: ou o teste da comparação proposto também não é um bom critério para distinguir massa e contável, pois, como vimos, numa sentença como em (20) as duas interpretações são possíveis, e o que vai determinar o critério de comparação são as circunstâncias do uso; ou, o teste da comparação funciona e, em sentenças como em (20), estamos sempre diante de uma ambiguidade. Esse é o ponto que discutiremos na próxima seção. Antes disso, vejamos os desdobramentos da teoria proposta ainda em BALE e BARNER (2009). Os autores propõem uma generalização quanto à distinção contável-massivo que segue: “Nenhum termo que pode ser usado numa sintaxe contável pode também ser usado

numa sintaxe massiva para denotar indivíduos”. 186 Segundo os autores, em inglês esse quadro

é problematizado pelo fato de o nome stone, sem morfologia de número, só aceitar

comparação por volume, como vimos em (10a). Para os autores, stone tem uma contraparte contável, stones – portanto, a raiz stone parece ser contável. Assim, se um nome aparece em contextos tanto massivos quanto contáveis, ele vai denotar indivíduos como contável, mas nunca como um nome de massa, e denota massa na sintaxe de massa e nunca indivíduos. Por exemplo:

(22) a. too many stones. (apenas contável) b. too much stone. (apenas massa)

Perceba que essa generalização não se aplica ao PB, uma vez que no exemplo em (20) temos acesso às duas interpretações, assim como no exemplo em (23):

(23) João comprou muito livro.

A sentença, portanto, vai contra a predição de BALE e BARNER (2009). Eles afirmam:

“nossa abordagem prediz que línguas com a distinção massa-contável exibirão as mesmas

186 Tradução nossa: “No term that can be used in count syntax can also be used in a mass syntax to denote individuals.”

463

generalizações do inglês, independente de diferenças de item-a-item em como as palavras são usadas.” 187 Não é isso o que os dados do PB mostram. E como analisar sentenças como em (21)? Outra generalização discutida por BALE E BARNER (2009) diz o seguinte: “Some mass nouns (in the context of use) have individuals in their denotation and others do not.” 188 Essa generalização diz respeito a alguns nomes em inglês, como furniture (mobília), que admitem a interpretação cardinal em contexto de comparação, como exemplificado em (24):

(24) John has more furniture than Mary. (apenas leitura cardinal)

Embora não discutida pelos autores, a sentença em (24) também tem uma leitura de volume. Não só no PB, mas acreditamos que também no inglês. Se for isso, a proposta semântica apresentada pelos autores faz predições incorretas. Esse é certamente o caso no PB:

(25) João tem mais mobília que Maria.

Esse é um dado inesperado para Bale e Barner, porque nomes de massa que têm átomos deveriam permitir apenas comparações por unidades e não é isso o que ocorre em (25); os autores afirmam que nomes de massa que são objetos, como furniture, só podem receber leitura cardinal. É o caso de estarmos comparando tanto o número de unidades de mobília que o João possui a mais que a Maria, como também é o caso de haver uma comparação entre o volume de mobília de João em relação ao de Maria. Em sentenças com o muito parece acontecer o mesmo tipo de comparação:

(26) João despachou muita bagagem.

187 No original: “Our view predicts that languages with a mass–count distinction will exhibit the same generalizations as in English, regardless of item-by-item differences in how words are used. So long as a word can denote individuals as a mass noun, it should not appear also in count syntax.” (249-250). 188 Tradução nossa: Alguns nomes de massa (no contexto de uso) denotam indivíduos, enquanto outros não.

464

Num aeroporto, ao despachar bagagem, o que importa não são as unidades de bagagem, mas sim o peso. Entretanto, também é possível, em (26) nos referirmos às unidades de bagagem, malas. Assim, nomes como mobília, bagagem, prataria, etc. parecem funcionar como os nomes contáveis e como nomes de massa em contexto de comparação no PB. BALE E BARNER (2009) propõem em seu modelo uma explicação para o caso de nomes como furniture só aceitarem interpretações contáveis. No modelo proposto por esses autores, no léxico há dois tipos de raízes: as raízes não atômicos – que incluem os nomes contáveis como boy e os nomes de massa como water – e as raízes atômicas – que incluem apenas os nomes de massa que têm átomos, como furniture. Além disso, os nomes vêm

marcados no léxico como contáveis, representado por um “c” subscrito junto ao nome, boy c ,

e os nomes massivos vêm sem nenhuma marca: water e furniture. Há duas operações

disponíveis: a operação de individualização e a de identidade. A individualização só ocorre com os predicados não atômicos e marcados como contáveis. Já a operação de identidade

ocorre com os nomes de massa. A operação de identidade garante que o nome raiz furniture, porque ele denota um reticulado atômico 189 , só irá permitir a comparação por número de exemplares. Enquanto que water só terá a comparação por escalas não cardinais. Para além

do fato de que há muito de estipulação nesse modelo, ele leva a predições incorretas, dado que

a interpretação massiva é possível para furniture como é para mobília no português. Como explicar a leitura massiva nesse modelo? Não há nenhuma explicação. Na próxima seção, discutiremos a hipótese da ambiguidade para o caso do muito e mostraremos que isso implica também uma ambiguidade generalizada para os nomes como livro, menino, etc.

4. A (NÃO) AMBIGUIDADE

Se levarmos em consideração que o muito ora tem como domínio massa ora contáveis, podemos afirmar que se trata de um quantificador ambíguo. Vejamos as seguintes sentenças:

189 Um reticulado é uma estrutura matemática construída a partir de elementos atômicos (os contáveis) ou moleculares (massa) ou construídos por somas, sem átomos, e uma operação de soma. Sua utilização para representar os nomes plurais e de massa foi proposta por Link (1983) e desde então tem sido adotada na literatura em semântica, com modificações.

465

(27) Tem muito aluno no corredor. (28) Tem muitos alunos no corredor.

Tanto em (27) quanto em (28) temos acesso a uma mesma interpretação: de que o número de alunos no corredor está acima do padrão, ou seja, estamos falando que o número de unidades de alunos é maior do que um padrão dado contextualmente para alunos no corredor. A sentença em (27), entretanto, é ambígua entre essa leitura e uma leitura massiva, já discutida em sentenças anteriores, em que o que importa não é o número de alunos, mas seu volume ou peso. Imagine que o corredor é bastante estreito e há dois alunos bem gordos. Dessa forma, podemos afirmar que (27) é um reflexo da sentença em (28) sem os morfemas de plural em muitos e alunos. Isso explicaria a interpretação contável. Esse é o muito contável, vamos representar por muito c . O muito massivo vamos representar sem subscritos. Essa é a hipótese da ambiguidade do muito, embora superficialmente só vejamos um muito, temos, na verdade, muito que seleciona nomes de massa e muito c que seleciona nomes contáveis e é o mesmo que aparece em muitos; temos, portanto, dois quantificadores, o massivo e o contável. Isso ocorre devido ao processo bastante comum no PB de perda de morfema de plural. Como acontece com os nomes em determinadas posições sintáticas, o mesmo processo também aconteceria com o muito. Assim, o muito c seria homófono de muito(s - PL) e seria então apenas uma variante dessa outra forma, sem nenhuma contribuição semântica. Haveria ainda um outro muito que só se combina com nomes massivos. Logo, temos tanto interpretação massiva quanto contável em sentenças como em (27), porque temos ali dois itens muito. Para que isso seja possível, o nome sob o escopo do quantificador precisa ser plural em interpretações cardinais, e um nome de massa quando tivermos leitura massiva. Dessa forma, não só o muito é ambíguo, mas também todos os nomes nus que aparecem sob o seu escopo. Assim, no PB aluno, quando sob o escopo de muito, ora é um predicado plural ora é um predicado massivo. Logo, duplicamos todos os nomes, temos menino contável plural, menino contável singular e menino massivo. Essa não é uma hipótese econômica, mas pode ser que seja o caso. Entretanto, que tipo de problema ela coloca? Um ponto que essa hipótese precisa explicar é porque há interpretação plural, se não há nenhuma informação na sentença que indique isso. Por exemplo:

(29) Os último aluno saiu. (30) O último aluno saiu

466

Em (29), temos a interpretação plural, pois o plural está expresso no determinante. Veja que sem a presença do morfema na sentença, não podemos ter a pluralidade. Então, como podemos admitir que muito seja também muitos, se não há nenhuma informação sentencial de plural? Trabalhos linguísticos já citados anteriormente (GUY (1981); SCHERRE (1988), entre outros) mostram que a perda de morfema de plural no PB só ocorre no nome e não no elemento mais à esquerda, no caso de (30), o determinante, que é um item funcional. Então esse não pode ser o caso para os sintagmas quantificados que estamos estudando, afinal o esperado é que o plural se mantenha no quantificador. Outra questão é que, segundo essa hipótese, deveria se esperar que a sentença abaixo fosse gramatical:

(31) *Tem muito alunos no corredor.

Se o muito é ambíguo e carrega as informações de plural de muitos, ele deveria se combinar perfeitamente com alunos, que é plural, mas não é isso o que ocorre. Essa hipótese parece aceitável por dar conta das duas interpretações possíveis em sentenças com o muito. Porém, parece ser barrada quando confrontada com outros dados do PB. Como pudemos notar, a hipótese da ambiguidade carrega alguns problemas para si. Uma hipótese que parece apontar para uma completa ambiguidade no sistema nominal é complicada do ponto de vista da plausibilidade psicológica. Isso gera um problema para a aquisição da língua materna. Como é que a criança vai adquirir esses conceitos? Como ela vai adquirir a distinção contável-massivo no PB se todo o sistema nominal é ambíguo? Vamos ter que dizer que todos os nomes contáveis são ambíguos, eles podem ter leitura massiva ou contável. Só assim, explicamos como árvore pode apresentar as duas leituras no contexto de comparação. E por que os nomes massivos não seriam também ambíguos entre contável e massivo? Afinal, em sentenças com nomes massivos, a interpretação contável não é acessada, como em:

(32) Tem muito leite no meu café. (33) Luiza perdeu muito sangue.

467

Uma hipótese proposta por PIRES DE OLIVEIRA e SOUZA (no prelo) trata nomes como sangue e leite como nomes de massa que não têm átomos naturais 190 e que têm sempre interpretação contínua (de volume ou peso), se combinando perfeitamente com o muito. Ainda segundo essa hipótese, o muito é um quantificador não contável, isto é permite diferentes escalas contínuas e discretas (cardinal). De fato, não podemos ter uma quantificação com muito em que só haja interpretação contável, é sempre possível achar um contexto em que a leitura é de peso ou volume:

(34) Ele tem muita caneta no bolso. (35) Tem muita cerca nesse terreno. (36) João levou muita bagagem.

Nas três sentenças acima, são possíveis tanto a interpretação cardinal, como massiva. Podemos afirmar que sempre que uma sentença, como as apresentadas de (34) a (36), apresenta possibilidade de interpretação contável do predicado, há também uma interpretação massiva. Muito disponibiliza sempre a interpretação não contável, que é impossível com muitos. Essa parece ser uma generalização correta. Quanto ao caso de nomes como bagagem, em (36), acontece que através das línguas nomes massivos podem ser comparados por diferentes escalas e caso sejam naturalmente atômicos podem também ser comparados via cardinalidade, o que significa que não há dois tipos de nomes massivos. O chamado singular nu - nomes como livro, carro, menino, etc. – são massivos.A diferença entre os nomes de massa “tradicionais” e o singular nu é que sua raiz permite uma versão contável, ao passo que as raízes dos nomes de massa não permitem (*águas 191 ). Logo, ele pode ser comparado tanto através de escalas contínuas quanto a cardinal. Aqueles que denotam aglomerados com átomos naturais (mobília) irão permitir comparação por quantidade de indivíduos atômicos, quando essa for a comparação relevante no contexto, e se

190 Conceito que aparece em Rothstein (2010a) para distinguir o domínio natural do domínio linguístico ou conceitual. Essa distinção é necessária porque há certos nomes que embora sejam contáveis – e, portanto, atômicos no domínio do linguístico -, não têm átomos naturais no mundo. Por exemplo, reta é um nome contável, podemos dizer duas retas, mas não há uma unidade no mundo que seja independente do contexto, qualquer pedaço de reta conta como uma reta.

191 A única possibilidade de interpretarmos é se tivermos algum tipo de classificador escondido e cuja cardinalidade está sendo comparada: João bebeu muitos tipos de água, muitas garrafas de água. Nesse caso temos um nome contável medindo a substância água.

468

comportam como os nomes massivos naturalmente atômicos; assim, a diferença entre o singular nu no PB e mobília ou furniture é que menino tem uma versão contável que aparece no plural em meninos, ao passo que furniture ou mobília não têm. Essa hipótese parece indicar para uma solução unificadora para o caso do muito, em detrimento da hipótese da ambiguidade, a qual é sempre mais dispendiosa e, por isso, só deve ser assumida caso não seja possível uma explicação unificadora.

5.

CONCLUSÕES

A partir do que foi exposto, somos levados a tirar algumas conclusões. Primeiramente, os dados apresentados mostraram que muitos é um quantificador especializado para predicados plurais, tendo como correspondente, no inglês, many. Lembrando que o muitos opera sobre plurais mesmo que a marca morfológica não apareça no nome, somente no quantificador, portanto. Enquanto o muito não é correspondente ao much, no inglês. Já o much se combina principalmente com nomes de massa e também a nomes como furniture. Também, com certa restrição, a nomes como stone, porém uma vez associados ao much, esses nomes não podem denotar unidades. Mas esse não é o caso do português. Predicados associados ao muito, seja carro, pedra ou mobília, geram interpretação massiva e contável, isto é, a sentença é verdadeira em duas situações distintas: o número é maior do que o normal ou o volume/peso (ou outra medida não cardinal) é maior. Vimos que os nomes de massa que não têm átomos naturais, como água, têm sempre interpretação contínua (de volume ou peso) e se combinam perfeitamente com muito. Concluímos também que o comportamento do singular nu e dos nomes de massa atômicos na comparação mostra que as generalizações de Bale e Barner não se sustentam para o PB.

Do ponto de vista teórico, apresentamos a questão de estarmos diante de uma ambiguidade, em relação ao muito, o que nos levaria ao fato de que nomes como menino às vezes é massa e às vezes é contável – paralelamente muito às vezes é um quantificador massivo e às vezes é um quantificador contável. No entanto, argumentamos contrariamente, mostrando que uma completa ambiguidade no sistema nominal é complicado do ponto de vista da plausibilidade psicológica. O que também gera problemas para a aquisição da língua, já que a criança tem que adquirir esses conceitos. Assim, fica difícil se no PB todo o sistema nominal é ambíguo. Desse modo, concluímos que a hipótese da ambiguidade não se sustenta perante os argumentos apresentados. Parece-nos que a proposta de estarmos sempre diante de

469

uma única interpretação de menino e muito é sempre um quantificador não contável é mais plausível, como fazem PIRES DE OLIVEIRA e SOUZA (no prelo). Em que pese o fato de esse trabalho não propor outra explicação para o fenômeno, o muito, como vimos, só se combina com nomes nus, então uma proposta explicativa para esse caso deve olhar de perto a semântica desses nominais. Por exemplo, de acordo com a proposta de PIRES DE OLIVEIRA e ROTHSTEIN (2011), para os nomes nus, ele sempre denota a espécie e é construído a partir do predicado raiz que não tem átomos delimitados. Assim, espera-se que o singular nu no PB possa sempre ter leitura de volume, como vimos que é o caso dos exemplos do trabalho Sendo assim, outra solução para o caso do muito é afirmar que ele só quantifica sobre a espécie. Pesquisa que está em andamento e que deve ser apresentada posteriormente, em trabalhos futuros.

6.

REFERÊNCIAS

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470

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471

471 VERBOS DE MOVIMENTO NAS LÍNGUAS ROMÂNICAS: ANÁLISE COMPARATIVA (PORTUGUÊS, ESPANHOL, FRANCÊS, ITALIANO E ROMENO)

VERBOS DE MOVIMENTO NAS LÍNGUAS ROMÂNICAS: ANÁLISE COMPARATIVA (PORTUGUÊS, ESPANHOL, FRANCÊS, ITALIANO E ROMENO)

Adriana Ciama Universidade de Bucareste

1.

Introdução

O

objetivo do presente estudo é apresentar uma análise comparativa dos eventos de

movimento em inglês e nas principais línguas românicas: português (a variante brasileira),

espanhol, francês, italiano e romeno. Na primeira parte, debruçar-nos-emos sobre as

principais teorias que estão na base do nosso estudo, nomeadamente, os padrões tipológicos

de L. Talmy (1974, 1985, 2000) e as análises de D. Slobin (1996, 1999, 2004), para depois, na

segunda parte, apresentarmos a análise propriamente dita. Mais precisamente, com base num corpus previamente construído, será analisada a tradução dos eventos de movimento de inglês para as cinco línguas românicas, com o intuito de evidenciar as convergências e as divergências entre essas línguas no que diz respeito à expressão a nível linguístico dos eventos de movimento. Dado que a tipologia de Talmy tem carácter global, é natural considerar que se perde a especificidade de cada língua pelo universalismo a que pretende. Será portanto um dos nossos objetivos analisar não só o modo como as línguas românicas diferem do inglês, mas também o modo como as línguas românicas diferem entre elas, visto que se enquadram no mesmo padrão tipológico. De forma que, de acordo com a metodologia adotada, a análise incidirá tanto numa abordagem inter-tipológica (inglês vs línguas românicas), como intra-tipológica (português vs espanhol vs francês vs italiano vs romeno), visando realçar as semelhanças e as diferenças entre as línguas analisadas.

2. Quadro teórico

472

Nos anos oitenta, L. Talmy estabeleceu uma tipologia espacial das línguas, sendo o esquema cognitivo de movimento constituído por quatro componentes semânticas, nomeadamente,

FIGURA + MOVIMENTO + PERCURSO + FUNDO [+MANEIRA / CAUSA] Co-event (TALMY, 1985, p. 57),

onde FIGURA se refere à entidade que se move em função de um ponto de referência FUNDO 192 , o PERCURSO refere-se à direção ou à trajetória seguida pela entidade móvel FIGURA em relação

ao FUNDO e MOVIMENTO refere-se à presença per se da componente semântica movimento. As

outras duas componentes semânticas que aparecem entre parênteses retos, MANEIRA e CAUSA, constituem o que Talmy chama Co-event (TALMY, 2000, p. 26) e referem-se a um ação secundária, visto que apresenta carácter facultativo em determinadas línguas.

A tipologia proposta por Talmy baseia-se portanto na lexicalização 193 das componentes

semânticas referidas nas formas de superfície para exprimir um evento de movimento. Mais precisamente, será em função da “fusão de significado” 194 dessas componentes semânticas a nível linguístico, isto é, num único morfema, que Talmy estabelece dois padrões tipológicos principais das línguas. No primeiro padrão, as línguas satellite-framed, como as línguas germânicas, eslavas, fino-úgricas, entre outras, incluem-se as línguas que lexicalizam no lexema verbal as componentes semânticas MOVIMENTO e MANEIRA, sendo o PERCURSO expresso atraves de satélites 195 . O esquema cognitivo de movimento apresenta-se, neste caso, da

seguinte forma: FIGURA + [MOVIMENTO + MANEIRA] + PERCURSO + FUNDO 196 . No segundo padrão,

típico das línguas românicas e semíticas, por exemplo, incluem-se as línguas verb-framed em que as componentes semânticas MOVIMENTO e PERCURSO são lexicalizadas no lexema verbal, sendo a MANEIRA expressa independentemente do verbo, quer através de um gerúndio ou infinitivo, quer através de um adjunto adverbial. Neste caso, o esquema cognitivo é FIGURA +

[MOVIMENTO + PERCURSO] + MANEIRA + FUNDO.

192 Apesar de os termos que designam essas duas componentes semânticas serem diferentes de autor para autor (por ex., Figura / Fundo, Figura / Configurante, Trajector / Marco), adoptamos no presente trabalho os termos mais usuais de Figura e Fundo.

193 L. Talmy define lexicalização da seguinte forma: “Lexicalization is involved where a particular meaning component is found to be in regular association with a particular morpheme” (TALMY, 1985, p. 59).

194 “Fusão de significado” é a tradução do termo conflation e refere-se “loosely, to any syntactic process whereby a more complex construction turns into a simpler one” (TALMY, 1974, p. 207).

195 Os satélites são elementos linguísticos dependentes do verbo, que assinalam a direção do movimento. Embora seja difícil às vezes distinguir claramente quais os elementos que merecem o estatuto de satélites, podem no entanto exemplificar-se através das partículas verbais em inglês (to run across / into / out of) ou dos prefixos em latim (involare).

196 Ao longo do trabalho, indicamos entre parênteses retos as componentes semânticas lexicalizadas no lexema verbal.

473

Ao compararmos os dois padrões tipológicos acima referidos, consideramos que a seguinte ilustração seria relevante para pôr em destaque as diferenças entre eles:

ingl. They FIGURA
ingl. They
FIGURA
ran out MOVIMENTO PERCURSO MANEIRA
ran
out
MOVIMENTO
PERCURSO
MANEIRA
of the hut FUNDO
of the hut
FUNDO

ptg. (Eles)

saíram

correndo

da cabana

esp. (Ellos)

salieron

corriendo

de la cabaña

fr. Ils

sortirent

précipitamment

de la hutte

it. (Loro)

uscirono

correndo

dalla ca anna

Observamos portanto que a diferença entre os dois padrões tipológicos reside na forma como são lexicalizadas no lexema verbal as componentes semânticas MOVIMENTO, PERCURSO e MANEIRA. O inglês lexicaliza no verbo as componenetes semânticas MOVIMENTO e MANEIRA,

recorrendo desta forma a verbos de movimento (V movimento ) seguidos de satélites referentes ao PERCURSO, ao passo que as línguas românicas lexicalizam as componentes MOVIMENTO e PERCURSO, recorrendo portanto a verbos de direção (V direção ) seguidos ou não de um adjunto adverbial referente à componente MANEIRA. Assim, as diferenças semânticas e sintáticas entre

os dois padrões apresentam-se da seguinte forma:

línguas germânicas: [MOVIMENTO + MANEIRA] + PERCURSO → V movimento + satélites línguas românicas: [MOVIMENTO + PERCURSO] ± MANEIRA → V direção [± advérbios] Desta forma, o elemento fundamental parece ser a componente semântica PERCURSO e, na nossa opinião, a sua importância explica-se pelo facto de qualquer evento de movimento implicar obrigatoriamente uma direção.

2.2. PERCURSO atélico vs PERCURSO télico

A tipologia de L. Talmy foi retomada por inúmeros linguistas, sendo alvo de elogios, mas

também de melhorias e revisões. Deter-nos-emos sobre dois estudos que conseguem, a nosso ver, trazer à luz algumas nuances mais próximas da realidade linguística. Na linha teórica de Talmy e com o objetivo de esclarecer algumas distinções no interior

da mesma língua no que diz respeito ao modo como a componente semântica PERCURSO vem

474

expressa, J. Aske (1989) propõe distinguir dois tipos de PERCURSOS em inglês e em espanhol, nomeadamente, o PERCURSO atélico, que se refere a um movimento direcionado, e o PERCURSO télico, que se refere à transição de um lugar para outro 197 . Por outras palavras, os dois tipos de PERCURSO perfilam dois tipos de situações espaciais distintas: primeiro, uma deslocação sem mudança de localização (ingl. He ran along the road / through the tunnel), segundo, uma deslocação com mudança de localização (ingl. He ran into the house / out of the house). Segundo o mesmo autor, sempre que o lexema verbal incorpora as componentes MOVIMENTO e MANEIRA, portanto sempre que se trata de V movimento , os dois tipos de PERCURSO são usuais em inglês, ao passo que em espanhol é possível apenas a expressão de um PERCURSO atélico: esp. Juan bailó hacia la puerta / hasta la puerta / en círculos / de un lado para outro. El globo flotó para arriba / abajo / adentro / afuera (ASKE, 1989, p. 3). A distinção entre o PERCURSO atélico e o PERCURSO télico parece essencial para uma melhor compreensão das línguas verb-framed, como as línguas românicas. Retomando a análise de J. Aske, D. I. Slobin (1996, 1999, 2004) demonstra que, conforme as propriedades tipológicas atribuídas às línguas românicas, o espanhol lexicaliza o PERCURSO télico no verbo, mas que, contrário a essa tendência tipológica, descreve o PERCURSO atélico através de uma preposição. Afinal, esta última possibilidade reproduz o tipo de expressão atribuído tipicamente às línguas satellite-framed, como o inglês:

esp. PERCURSO télico com V direção [MOVIMENTO + PERCURSO] → El hombre entró corriendo a la casa vs PERCURSO atélico com V movimento [MOVIMENTO + MANEIRA] → El hombre corrió hasta la casa.

D. I. Slobin aplicou e justificou parcialmente a tipologia de L. Talmy. Em vez de recorrer à noção PERCURSO télico, Slobin propõe o critério boundary-crossing constraint (ou seja, constrangimento travessia de fronteira) (SLOBIN, 1996, p. 215), segundo o qual a transição de um estado inicial para um estado final é expressa nas línguas românicas através de V direção e nunca através de satélites, tal como acontece em inglês. Este constrangimento explicar-se-ia pelo facto de as línguas românicas não terem no seu sistema meios linguísticos disponíveis para expressar linguisticamente tal transição espacial. Desta forma, em espanhol, um V movimento seguido de um sintagma preposicional pode exprimir só a direção ou o alcance

475

de um ponto final, mas não pode exprimir tanto a direção, como a travessia de fronteira, ao contrário do que acontece, por exemplo, com as preposições inglesas into ou out of. Do que acima ficou exposto, verificamos, primeiro, que a tipologia proposta por L. Talmy se baseia na lexicalização da componente semântica PERCURSO quer no verbo, quer no satélite e que se trata de uma tipologia que poderíamos chamar de dicotómica, visto que as línguas se enquadram num ou noutro padrão tipológico. Segundo, a tipologia proposta por D. Slobin baseia-se na lexicalização da componente semântica MANEIRA. Ao confrontar romances em espanhol e em inglês e as respetivas traduções, D. Slobin observou que os tradutores espanhóis eliminam metade das informações relativas à componente MANEIRA (SLOBIN, 1996). Por isso, propõe uma nova tipologia em função da expressão a nível linguístico dessa componente semântica, de forma que seria mais natural classificar as línguas ao longo de um continuum e não de acordo com uma dicotomia: “it seems more useful to put languages on a cline of manner salience: high-manner-salient languages and low-manner-salient languages” (SLOBIN, 2004, p. 26). Os falantes das línguas que põem em destaque a componente MANEIRA costumam oferecer mais informações relativamente a essa componente quando confrontados com descrições de situações de movimento (inglês), ao passo que os falantes das línguas românicas, por exemplo, deixam em segundo plano a componente MANEIRA e só oferecem esta informação se for colocada em primeiro plano. Apresentamos abaixo um segundo exemplo, tirado do corpus que trabalhámos, onde observamos que as línguas românicas eliminam, na tradução de inglês, a componente semântica MANEIRA, tal como afirma D. Slobin:

ingl. Dori FIGURA
ingl. Dori
FIGURA
climbed down to the bottom branch MOVIMENTO PERCURSO MANEIRA FUNDO
climbed
down
to the bottom branch
MOVIMENTO
PERCURSO
MANEIRA
FUNDO

ptg. Ele

desceu

esp. El enano

descendió

fr. Le nain it. Dori

descendit

Ø até o galho mais baixo

Ø a la rama más baja

Ø jusqu’à la dernière branche iù basso

sul ramo

3. Análise A análise comparativa que realizámos baseia-se num corpus previamente construído, mais precisamente, foram analisados sessenta e sete eventos de movimento tirados do famoso

476

livro The Hobbit (1937) de J.R.R Tolkien e a sua tradução para as cinco línguas românicas:

ptg. O Hobbit; esp. El Hobbit; fr. Le Hobbit; it. Lo Hobbit; rom. Hobbitul 198 . Os eventos analisados em inglês apresentam o mesmo esquema cognitivo,

nomeadamente, FIGURA + [MOVIMENTO + MANEIRA] + PERCURSO (±FUNDO), em que, os verbos

lexicalizam as componentes semânticas MOVIMENTO e MANEIRA, sendo o PERCURSO expresso através de um satélite. Portanto, todos os eventos se referem a um movimento direcionado, com ou sem travessia de fronteira. Para facilitar a análise, os sessenta e sete eventos de movimento foram divididos em dois modelos principais e dentro de cada um desses modelos foram analisadas as traduções para as línguas românicas, prestando atenção aos meios linguísticos utilizados. No primeiro modelo foram incluídas as construções que se enquadram

no esquema FIGURA + [MOVIMENTO + MANEIRA] + PERCURSO, ao passo que no segundo modelo

incluímos as construções segundo o esquema FIGURA + [MOVIMENTO + MANEIRA] + PERCURSO +

FUNDO. A diferença reside portanto na expressão ou não a nível de superfície da componente semântica FUNDO. Desta forma, propomo-nos observar, primeiro, se nas línguas românicas é possível a expressão de PERCURSOS télicos com V movimento , como em inglês, e, segundo, se nas línguas românicas a componente semântica MANEIRA é omitida, tal como defende D. Slobin, em grande parte dos casos, sempre que os tradutores recorrem a V direção . Uma vez realizada a análise das traduções para as línguas românicas, observamos que os padrões de tradução podem dividir-se, por seu turno, em dois grandes grupos, nomeadamente, o grupo dos V direção e o dos V movimento :

A. V direção [MOVIMENTO + PERCURSO] ± MANEIRA ± FUNDO

B. V movimento [MOVIMENTO + MANEIRA] ± PERCURSO ± FUNDO

Por outras palavras, dos sessenta e sete eventos de movimento analisados em inglês, as cinco línguas românicas recorrem tanto a V movimento , como a V direção , mas não de modo igual se compararmos os números das ocorrências na tabela apresentada abaixo:

198 J.R.R. Tolkien, The Hobbit (1937), disponível em <http://100bestebooks.files.wordpress.com/2011/12/j-r-r- tolkien-the-hobbit1.pdf>; O Hobbit, trad. Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta, São Paulo, 2003; disponível em <www.portaldetonando.com.br>; El Hobbit, disponível em <www.druzhbanarodov.com.ua/downloads/El%20Hobbit.pdf>; Le Hobbit, trad. Francis Ledoux, disponível em <http://www.fichier-pdf.fr/2012/12/21/bilbo-le-hobbit-j/bilbo-le-hobbit-j.pdf>; Lo Hobbit, disponível em <http://libros-videos.com/files/biblio/italiano/J.R.R.%20Tolkien%20-%20Lo%20Hobbit~2791.pdf>; Hobbitul, disponível em <http://e-books1.blogspot.pt/2010/12/hobbitul-tolkien-j-r-r.html>. Acessos em 7 de jan. 2013.

477

ingl. FIGURA + [MOVIMENTO + MANEIRA] + PERCURSO ± FUNDO: 67 ocorrências

 

padrões nas línguas românicas

ptg.

esp.

fr.

it.

rom.

A. V direção : [MOVIMENTO + PERCURSO] ± MANEIRA ± FUNDO

35

24

29

17

28

B. V movimento : [MOVIMENTO + MANEIRA] ± PERCURSO ± FUNDO

32

43

38

50

39

Se em português, o número dos V direção é quase igual ao dos V movimento , nas outras línguas românicas observamos uma clara preferência para os V movimento , portanto verbos que lexicalizam as componentes semânticas MOVIMENTO e MANEIRA. No que diz respeito ao padrão A, quando as línguas românicas recorrem a V direção , isto é, verbos que lexicalizam na raiz verbal as componentes semânticas MOVIMENTO e PERCURSO, observamos que se omite a componente MANEIRA na maioria das vezes em português, o que não acontece por exemplo em espanhol e italiano. Apresentamos na tabela abaixo o número das ocorrências em que se omite a componente semântica MANEIRA quando os tradutores optam por V direção e ilustramos este fenómeno a seguir nos exemplos (1-3):

 

ptg.

esp.

fr.

it.

rom.

Vdireção: [MOVIMENTO + PERCURSO] ± MANEIRA ± FUNDO

35

24

29

17

28

Omissão da componente MANEIRA

26

5

14

4

15

(1) ingl. Groans came from inside, and out crept a most unhappy dwarf. ptg. De dentro saíram gemidos, e também um anão muitíssimo infeliz. fr. Des gémissements s'élevèrent de l'intérieur, et en sortit un nain extrêmement chagrin. it. Da dentro provennero dei grugniti e un nano sommamente infelice uscì fuori tutto aggranchito. MAS esp. Se oyeron unos quejidos y un enano de aspecto lastimoso salió arrastrándose. rom. Înăuntru s-au auzit nişte mârâieli şi un pitic, cât se poate de amărât, s-a târât afară.

kept back those that crawled up.

ptg. Bilbo (…) manteve afastadas as que subiam. fr. Bilbo (…) arrêta celles qui montaient. MAS esp. Bilbo (…) mantuvo a raya a las arañas que subían trepando. it. Bilbo (…) trattenne quelli che si arrampicavano su. rom. Bilbo (…) îi opri pe cei care încercau să se caţăre sus.

(2) ingl. Bilbo (

)

(3) ingl. They crept further down the tunnel. ptg. Desceram mais pelo túnel. rom. Intrară mai adânc în tunel. MAS esp. Se arrastraron túnel abajo estremeciéndose. fr. Ils se tapirent plus loin dans le tunnel. it. Essi strisciarono più in giù nel tunnel.

Ao mesmo tempo, observamos que a componente semântica MANEIRA, quando não se omite, pode vir expressa através de um verbo (no gerúndio ou infinitivo) ou através de um advérbio (ou locução adverbial), tal como se pode observar nos exemplos (4-6):

478

(4) ingl. Beorn clapped his hands, and in trotted four beautiful white ponies ptg. Beorn bateu palmas e entraram trotando quatro belos pôneis brancos… esp. Beorn batió las manos, y entraron trotando cuatro hermosos poneys blancos… fr. Beorn claqua des mains, et entrèrent en trottant quatre magnifiques poneys blancs… it. Beorn battè le mani ed ecco che entrarono trottando quattro bei pony bianchi… rom. Beorn bătu din palme şi apărură la trap patru ponei albi şi frumoşi…

(5) ingl. It is well that I have found you! said the man striding forward. ptg. Que bom que o encontrei! disse o homem avançando a passos largos. fr. Il est heureux que je vous aie trouvé! dit l'homme, s'avançant à grandes enjambées. it. «Meno male che ti ho trovato!» disse l'uomo avanzando a grandi passi.

(6) ingl. Some of the more foolish ran out of the hut as if they expected the Mountain to go golden in the night. ptg. Alguns dos mais tolos saíram correndo da cabana como se esperassem que a Montanha se transformasse em ouro no meio da noite. esp. Algunos dé los más necios salieron corriendo como si esperasen que la Montaña se convirtiese en oro por la noche. fr. Quelques-uns parmi les plus sots sortirent précipitamment de la hutte comme s'ils s'attendaient que la Montagne se changeât en or dans la nuit. rom. O parte dintre cei mai slabi de înger ieşiră alergând din cocioabă, de parcă s-ar fi aşteptat ca Muntele să se prefacă în aur, în miez de noapte.

Quanto ao segundo padrão de tradução para as línguas românicas (cf. a primeira tabela acima apresentada), portanto, quando os tradutores optam por V movimento , isto é, verbos que lexicalizam as componentes semânticas MOVIMENTO e MANEIRA, tornou-se necessário tomar em conta a diferenciação entre PERCURSOS atélicos e télicos (cf. supra 2.2), daí a nossa opção por analisar as ocorrências em função deste critério. No que diz respeito ao PERCURSO atélico, portanto de [+direção], e de acordo com as análises de Aske (1989) e Slobin (1996, 1999, 2004), as línguas românicas podem exprimir tal PERCURSO só com V movimento , tal como se pode observar nos exemplos (7-9):

(7) ingl. Up the trees quick! cried Gandalf; and they ran to the trees at the edge of the glade ptg. Subam nas árvores, depressa! gritou Gandalf. E eles correram para as árvores na borda da clareira… esp. ¡A los árboles, rápido! gritó Gandalf; y corrieron hacia los árboles del borde del claro… fr. Dans les arbres, vite ! cria Gandalf. Et ils coururent aux arbres qui bordaient la clairière… it. «Sugli alberi, presto!» gridò Gandalf; e corsero verso gli alberi sul limitare della radura… rom. Repede, sus, în copaci! strigă Gandalf. Se repeziră deci la copacii din marginea poienii…

(8) ingl. Soon a single runner was seen hurrying along the narrow path. ptg. Pouco depois um único batedor foi visto correndo ao longo da trilha estreita. esp. Pronto se vio a un mensajero que corría por la senda estrecha. fr. Bientôt on vit un coureur seul gravir vivement le sentier étroit. it. Presto si vide un uomo tutto solo affrettarsi su per lo stretto sentiero.

(9) ingl. Quickly Bilbo trotted to the door and took the torch esp. Bilbo trotó rápido hasta la puerta y tomó la antorcha…

479

fr. Bilbo trotta vivement jusqu'à la porte et prit la torche… it. Bilbo trottò velocemente verso la porta e prese la torcia…

Relativamente ao PERCURSO télico, portanto de [+travessia de fronteira], prestámos atenção especial a esta componente semântica, visto que, de novo, conforme as análises acima apresentadas (cf. supra 2), tal componente não pode ser expressa nas línguas românicas através de V movimento , mas apenas através de V direção . De acordo com este critério, analisámos dezoito ocorrências e chegámos às seguintes conclusões. Primeiro, observámos que os PERCURSOS télicos raramente se tornam PERCURSOS atélicos, portanto, em poucos casos exprime-se só a direção, em vez de se exprimir a travessia de fronteira, tal como ilustramos nos exemplos 11 e 12 abaixo:

(11) ingl. The wolves that had caught fire and fled into the forest had set it alight in several places. esp. Los lobos alcanzados por las llamas habían huido al bosque, y habían prendido fuego en varios sitios. MAS ptg. Os lobos que tinham pegado fogo e fugido floresta adentro tinham-na incendiado em vários trechos. fr. Les loups qui avaient pris feu et s'étaient enfuis dans la forêt l'avaient enflammée en plusieurs points. it. I lupi che avevano preso fuoco ed erano fuggiti nella foresta l'avevano incendiata in più punti. rom. Lupii care luaseră foc fugiseră în pădure şi o aprinseseră în mai multe locuri.

(12) ingl. It is some good being a wizard, then

esp. De algo vale ser mago entonces —…y me deslicé por la grieta antes que se cerrase.

MAS ptg. Então ser mago tem algo de bom fechasse. fr. Il sert donc à quelque chose d'être magicien se refermât.

it. «Allora serve a qualcosa essere uno stregone chiudesse».

and

slipped inside the crack before it closed.

e escorreguei para dentro da fenda antes que ela se

et je me glissai dans la crevasse avant qu'elle ne

e m'infilai nella fenditura prima che si

Segundo, observámos que todas as cinco línguas românicas podem exprimir um PERCURSO télico com V movimento , expressando desta forma todas as componentes semânticas e através dos mesmos meios linguísticos que o inglês, nomeadamente, V movimento e advérbios de direção:

ptg. para dentro / para fora / para trás; esp. adentro / fuera / (hacia) adelante / atrás; fr. en avant / en arrière; it. fuori / dentro / su / avanti; rom. afară / înăuntru / înapoi / (în) sus / jos. Ao mesmo tempo, é de salientar o número elevado de ocorrências em italiano:

(13) ingl. The dwarves rushed out of their great gate; but there was the dragon waiting for them. ptg. Os anões correram para fora pelo seu grande portão, mas lá estava o dragáo à espera deles. it. I nani si precipitarono fuori dalla grande Porta, ma trovarono il drago ad aspettarli. rom. Piticii s-au repezit afară pe Poarta Principală; dar dragonul era acolo, şi-i aştepta.

(14) ingl. He was in such a rage that he jumped off his seat and himself rushed at Thorin with his mouth open.

480

fr. Il était dans une telle rage qu'il sauta à bas de son siège et se précipita en personne, bouche ouverte, sur Thorïn. it. Era talmente arrabbiato che saltò su dal suo sedile e si precipitò lui stesso su Thorin colle fauci spalancate. rom. Era atât de furios, încât sări jos de pe scaun şi se repezi el însuşi la Thorin, cu gura deschisă.

(15) ingl. He wanted to rush straight off into the wood after the lights. ptg. Queria correr direto para dentro da floresta atrás das luzes. esp. …y quiso correr directamente bosque adentro hacia las luces. it. Voleva precipitarsi diritto dentro al bosco, verso le luci.

Ao mesmo tempo, observámos que nas línguas românicas existem outras estratégias linguísticas que permitem a expressão de PERCURSOS télicos com os V movimento . Primeiro, a existência de verbos que lexicalizam na sua raiz três componentes semânticas, a saber, [MOVIMENTO + MANEIRA + PERCURSO] e que, junto com preposições de interioridade (ptg. em; esp. en; fr. dans; it. in; rom. în), exprimem as mesmas componentes semânticas que o inglês, tal como se pode observar nos exemplos (16-18):

(16) ingl. so they all left the path and plunged into the forest together. ptg. então todos deixaram a trilha e mergulharam juntos na floresta. fr. Ils quittèrent donc tous le sentier et plongèrent d'un commun accord dans la forêt. it. così abbandonarono tutti il sentiero e si tuffarono insieme nella foresta. rom. Aşa că părăsiră cu toţii poteca şi se cufundară împreună în inima pădurii.

(17) ingl. Just at that moment the wolves trotted howling into the clearing. esp. En ese preciso momento los lobos irrumpieron aullando en el claro. rom. Tocmai în clipa aceea lupii se repeziră urlând în luminiş.

(18) ingl. He wanted to rush straight off into the wood after the lights. fr. Il voulait se précipiter tout droit dans la forêt vers les lumières. rom. Voia să se repeadă în pădure, după lumini.

Segundo, a presença no sistema linguístico romeno da preposição (etimologicamente) composta din (<de + în), que contém os traços semânticos [+afastamento] e [+interioridade]. Com V movimento , é possível a expressão de PERCURSOS télicos, sendo esta possibilidade típica, ao nosso saber, só à língua romena, visto que nas outras línguas românicas se utiliza apenas a preposição de cujo semantismo aponta para o traço semântico [+afastamento]:

(19) ingl. The Master of the town sprang from his great chair. rom. Stăpânul oraşului sări din fotoliul lui mare. MAS ptg. O Senhor da cidade pulou de sua grande cadeira. esp. El gobernador de la ciudad se movió nervioso en la gran silla. fr. Le Maître de la ville se dressa de son grand fauteuil. it. Il Governatore della città si alzò dal suo scanno.

Finalmente, a terceira estratégia possível nas línguas românicas, apesar de poucas ocorrências constarem no corpus analisado, refere-se aos verbos prefixados, onde o prefixo se refere à

481

componente semântica PERCURSO e a raiz verbal lexicaliza as componentes MOVIMENTO e MANEIRA, de forma que as três componentes semânticas vêm lexicalizadas no lexema verbal, tal como ilustramos nos exemplos (20-23):

(20) ingl. The wolves that had caught fire and fled into the forest had set it alight in several places. fr. Les loups qui avaient pris feu et s'étaient enfuis dans la forêt l'avaient enflammée en plusieurs points.

(21) ingl. Just at that moment the wolves trotted howling into the clearing. esp. En ese preciso momento los lobos irrumpieron aullando en el claro. fr. Juste à ce moment, les loups débouchèrent, hurlant, dans la clairière.

(22) ingl. It is some good being a wizard, then

it. «Allora serve a qualcosa essere uno stregone». «

chiudesse.

and

slipped inside the crack before it closed.

e

m'infilai nella fenditura prima che si

(23) ingl. The stars were coming out behind him in a pale sky barred with black when the hobbit crept through the enchanted door and stole into the Mountain. ptg. As estrelas surgiam atrás dele, num céu pálido manchado de negro, quando o hobbit passou pela porta encantada e enfiou -se na montanha.

Por se tratar de uma estratégia que as línguas românicas herdaram do latim, estas línguas apresentam claramente V movimento prefixados, sendo alguns prefixos mais transparentes, outros mais opacos semanticamente, e alguns mais produtivos, outros menos produtivos:

port. acorrer, afluir, percorrer, sobrevoar, extrair, escorrer, escoar, escapar, intercalar, transportar, entrepor, derrocar etc. esp. acometer, acorrer, afluir, despeñar, extraer, escapar, escurrir, intercalar, recorrer, sobrevolar, transportar, interponer etc. fr. accourir, amener, parcourir, survoler, s’envoler, s’enfuir, s’en aller, enfouir, enfermer, valer, bouler, intercaler, entreposer, transporter etc. 199 it. percorrere, acorrerre, sorvolare, intercalare, intromettere, trasportare etc. rom. a parcurge, a survola, a scurge, a scăpa, a extrage, a intercala, a transporta, a interpune etc.

4. Conclusões Em conclusão, queríamos salientar que a abordagem inter-tipológica (inglês vs línguas românicas) revelou que as línguas românicas, enquanto línguas verb-framed, nem sempre se

482

comportam de acordo com os termos expostos por Talmy e Slobin. As cinco línguas românicas apresentam várias estratégias semelhantes às propriedades das línguas satellite- framed, nomeadamente, construções com V movimento e advérbios de direção cujo comportamento é igual ao dos satélites em inglês; verbos que lexicalizam tanto a componente semântica MANEIRA, como PERCURSO; verbos prefixados, onde o prefixo se refere à componente semântica PERCURSO e a raiz verbal lexicaliza as componentes MOVIMENTO e

MANIERA.

Por seu turno, a abordagem intra-tipológica revelou que as línguas românicas – apesar de pertencerem ao mesmo padrão tipológico – não se comportam de modo idêntico, sendo algo difícil enquadrá-las rigorosamente num determinado padrão, de acordo com a lexicalização seja da componente PERCURSO, seja da componente MANEIRA. Consideramos que será melhor situar as línguas românicas numa escala, ao longo de uma gradação, onde o italiano parece apresentar mais vezes as estratégias idênticas às línguas satellite-framed, pela expressão de PERCURSOS télicos com V movimento , ao passo que o português apresenta mais propriedades e características das línguas verb-framed, pela eliminação mais frequente da componente semântica referida. Ao mesmo tempo, as várias estratégias linguísticas identificadas nas línguas românicas demonstram a complexidade tipológica destas línguas.

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2004. Disponível em <http://theses.univ-

Lyon.

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484

Pragmática

484 Pragmática (IM)POLIDEZ E ATENUÇÃO NO DISCURSO JURÍDICO: UMA ANÁLISE DE PETIÇÕES INICIAIS 1. Introdução

(IM)POLIDEZ E ATENUÇÃO NO DISCURSO JURÍDICO: UMA ANÁLISE DE PETIÇÕES INICIAIS

1.

Introdução

Mariana Paula Muñoz Arruda Universidade Federal do Paraná

O objetivo deste estudo é identificar as formas de atenuação e analisar e discutir os

possíveis efeitos de cortesia ou não, em textos escritos do discurso jurídico. Este trabalho é

parte de uma pesquisa mais ampla de doutorado na Universidade Federal do Paraná.

A escolha do tema petições iniciais cíveis foi escolhido aqui para dar continuidade a

estudo anterior (Muñoz Arruda 2010), no qual utilizamos a metodologia de orientação pragmalinguística encontrada em Brown e Levinson ([1978] 1987), mediante a qual realizamos estudos qualitativos e quantitativos sobre (des)cortesia. Para o trabalho atual pretendemos avançar no estudo do tema, buscando identificar atividades de imagem (face-work), redefinidas por Bravo (2004), em amostras de petições judiciais cíveis, e estudar os possíveis efeitos da (des)cortesia, observando as considerações

de Bravo (2002, pp. 141-172) sobre atividades de imagem em geral e atividades de cortesia em particular dentro de um contexto definido, no nosso caso, o discurso jurídico. O corpus escolhido está representado por amostras de petições iniciais cíveis no português brasileiro (do estado do Paraná, Brasil) e a análise far-se-á principalmente a partir da perspectiva da imagem de afiliação e a de autonomia propostas por Bravo (2004, p. 30) e Kaul de Marlangeon (2005, p. 303).

A nossa hipótese é a de que as atividades de imagem possam ser próprias do estilo

comunicativo específico do discurso jurídico.

485

A seguir, apresentamos na sessão 2 a descrição do corpus e a metodologia. Na 3, a

fundamentação teórica. Na sessão 4, apresentamos as amostras de petições cíveis em português, nas quais mostraremos diferentes atividades de cortesia que observamos em nossos

materiais. A sessão 5 traz resultados provisórios, e a 6, considerações provisórias.

2. Corpus e metodologia

Foram colhidas amostras do corpus com a finalidade de detectar qualitativamente a (des)cortesia. Os dados foram coletados em Curitiba (Brasil), no Tribunal de Justiça do Paraná, em 2009, através de fotocópias feitas pela autora, mediante as devidas autorizações

dos juízes. Reunimos dez petições cíveis em português

Para este texto preliminar, escolhemos

dez amostras aleatoriamente, por ser este um estudo inicialmente qualitativo.

A petição inicial – objeto escolhido como corpus para este trabalho – é apresentada

pelo prejudicado quando não tenha sido possível encontrar uma solução amistosa entre as partes, o que implica o exercício da ação correspondente. No caso do direito civil – que foi escolhido aqui – o prejudicado promove uma ação civil (Alcaraz Varó e Hughes, 2002, p.

234).

Em relação à metodologia empregada para este estudo adotamos a orientação sociocultural (Bravo 2004), com o objetivo de estudar a interface entre atividades de imagem com efeitos de cortesia e sem efeitos de cortesia, buscando contrastar os diferentes tipos de imagem a partir da perspectiva da imagem de afiliação e autonomia segundo os conceitos de Bravo (2004, p. 30) e Kaul de Marlangeon (2005, p. 303). Para Bravo (1999, 2003, 2004, 2005) a autonomia abarca aqueles comportamentos relacionados com a imagem que um integrante de um grupo tem de si mesmo e a que os outros têm dele como um indivíduo com contorno próprio. A afiliação se refere a comportamentos relativos a desejos de ver-se e ser visto como um individuo identificado com as qualidades do grupo. Kaul de Marlangeon (2005) explica que o conceito de afiliação exacerbada corresponderia ao conceito de afiliação de Bravo, de ver-se e ser visto como adepto ao grupo, a ponto de escolher a descortesia em sua defesa. A refratariedade em Kaul de Marlangeon corresponde ao conceito de autonomia de Bravo, isto é, autonomia exacerbada de ver-se e ser visto como opositor ao grupo. Trata-se de uma atitude oposta à afiliação e ambas correspondem à descortesia de fustigação de Kaul de Marlangeon (2005, p. 303), a partir da ótica sociocultural de Bravo (2004, 2005).

486

Também consideraremos os conceitos de atenuação com a perspectiva pragmalinguística (Briz Gómez, 1995) e os atos de fala de Searle (1980 [1969]). A seguir, apresentamos os conceitos encontrados nesses estudos escolhidos para o nosso trabalho.

3. Fundamentação teórica

Nesta

sessão

faremos

uma

breve

explanação

sobre

as

diferentes

perspectivas

escolhidas da literatura, com a finalidade de aplicá-las ao corpus do presente estudo.

3.1. Noções introdutórias

Encontramos na literatura muitas definições de cortesia, as quais se complementam de alguma maneira. Para este trabalho, escolhemos a definição de Bravo (2005): “una actividad comunicativa cuya finalidad propia es quedar bien con el otro y que responde a normas y a códigos sociales que se suponen en conocimiento de los hablantes. Este tipo de actividad en todos los contextos considera el beneficio del interlocutor. El efecto que esta actividad tiene en la interacción es interpersonalmente positivo.” (Bravo 2005, pp. 33-34). Seguimos com uma citação textual da autora, a qual reflete o seu direcionamento científico em direção aos fundamentos teóricos que identificam o fenômeno da cortesia, como de natureza pragmática e sociocultural:

“En los estudios sobre la cortesía, sus representantes más citados — Lakoff (1973), Brown y Levinson (1987 [1978]) y Leech (1983) — adhieren a una pragmática que llamo formal, en la cual la figura del hablante es central y el oyente sólo adopta un rol pasivo de intérprete de las intenciones del primero. El nivel para el análisis es el enunciado (micronivel), reduciéndose el contexto a lo necesario para justificar in situ la interpretación. Desde esta perspectiva, el analista se ocupa de establecer las condiciones para una interacción exitosa tanto en lo lingüístico como en lo social. Se trata de una micropragmática en la que la unidad de análisis está constituida por los actos de habla y sus consecuencias en un espacio limitado al enunciado. La aproximación al texto parte de considerarlo autónomo y autosuficiente, es decir que el contexto extralingüístico no es tomado en cuenta por quienes le utilizan.” (Bravo 2008, pp. 12-13)

3.2. As imagens de autonomia e afiliação

Bravo (1999, 2004), considera que os aspectos da imagem social propostos por Brown e Levinson (1987 [1978]) baseados em Goffman (1967), o negativo (necessidade de não

487

imposição nas ações) e o positivo (necessidade de aprovação da personalidade e de que se compartilhem os próprios desejos e pontos de vista) “apelan a contenidos de imagen de carga socio-cultural y que, por lo tanto, no pueden ser trasladados entre culturas” (Bravo 2009, p.

19).

Para Bravo (2004), os comportamentos de cortesia podem ser classificados conforme se orientem à imagem de autonomia, que é aquela mediante a qual um integrante de um grupo adquire um contorno próprio dentro do mesmo. A afiliação é o desejo de imagem que permite identificar-se com o grupo e pode ser preenchido, por exemplo, com privacidade ou confiança, e é perfilado em cada cultura segundo a sua idiossincrasia. Desta forma, não se assume que estas categorias contenham carga sociocultural alguma até que não sejam utilizadas para sistematizar os comportamentos em estudo (Bravo 2004, p. 30). Estas categorias vazias de autonomia e afiliação de caráter geral foram propostas por Bravo (1999) como alternativas às imagens positiva e negativa de Brown e Levinson (1987 [1978]).

3.2. A descortesia Kaul de Marlangeon (2010, p. 72) aplica o conceito de comunidade de prática (Wenger 1998) a diferentes corpora de descortesia e revela a vantagem metodológica de levar em conta a comunidade de prática como unidade social. O caráter da organização da comunidade de prática na qual ocorre a descortesia objeto de estudo, segundo essa autora (Kaul de Marlangeon 2010, p. 77), pode ser:

institucional (de interesse público, estável, sujeita a normas) ou

não institucional

Em geral, uma comunidade de prática institucional, como é a comunidade de prática que estamos estudando, pode predispor aos membros investidos de poder a exercer descortesia. No nosso caso, a comunidade de prática está composta de advogados (os quais escrevem a petição inicial/falantes) e juízes (os quais recebem a petição inicial/ouvintes). É possível que um indivíduo numa comunidade de prática experimente afiliação exacerbada ao grupo, a ponto de escolher a descortesia em sua defesa (Kaul de Marlangeon 2010, p. 78). Em Kaul de Marlangeon (2008) encontramos uma tipologia do comportamento verbal descortês explicitado para a cultura hispanofalante. Tentaremos utilizá-la para a avaliação da descortesia nas amostras estudadas de petições iniciais do português.

488

Consideraremos que tal tipologia de comportamento descortês é explicitada para o comportamento verbal, e não para o escrito, e específico para avaliar a descortesia observável na cultura hispanofalante. As escalas de tipos de descortesia, segundo Kaul de Marlangeon (2008, p. 263) são as seguintes:

a) Atos formalmente descorteses com um propósito cortês.

b) Atos descorteses involuntários:

(i)

Cometimento de uma gafe (“metedura de pata”).

(ii)

Não utilização (involuntária) da polidez esperada pelo ouvinte.

(iii)

Prescindência (involuntária) de cortesia.

c) Autodescortesia.

d) Atos formalmente corteses com um propósito descortês.

e) Economia deliberada da cortesia esperada pelo ouvinte.

f) Silêncio “abrumador”.

g) Descortesia de fustigação.

3.4. A atenuação O emprego de mecanismos atenuadores constitui parte fundamental das atividades de cortesia e imagem (Albelda Marco 2008; Bravo 1993, 2004, 2005; Bernal 2007; Briz Gómez 1995, 2003, 2007). Os diversos procedimentos de atenuação descritos na bibliografia consultada incidem em dois níveis: no conteúdo proposicional e na força ilocutiva. Em Briz Gómez (1995, 1998, 2003) encontramos duas categorizações gerais conforme o grau de incidência do fenômeno, a atenuação do dito e a atenuação do dizer. A atenuação do dito ou do conteúdo proposicional assim rotulada por Briz Gómez e que atenua também indiretamente o dizer, é aquela pela qual minimiza-se a quantidade ou expressa-se um elemento da proposição de forma vaga ou imprecisa. A atenuação direta do dizer ou da força ilocutiva de um ato de fala parte da tipologia clássica de atos de fala de Searle (1980 [1969]), nos quais a atenuação pode afetar atos asertivos, diretivos, comissivos e expressivos. Dentro dos atos diretivos, convém distinguir os que realizam em benefício do eu e expressam pedido, dos que se realizam em benefício do tu e expressam conselho. Os mecanismos para atenuar os atos diretivos são numerosos e muito diversos. Assim, por exemplo, pode-se conjugar o verbo no condicional, ou no imperfeito, empregam-se verbos e advérbios modais como poder, permitir, querer, fórmulas estereotipadas condicionais ou concessivas, perguntas indiretas, etc. Sobre os atos

489

assertivos, a estratégia primordial da atenuação dirige-se fundamentalmente a evitar a responsabilidade do falante em relação ao que diz, mediante a expressão de dúvida ou de possibilidade, da delimitação do juízo à subjetividade (chegaram tarde, creio eu), ou evitando a adscrição do enunciado a si próprio como ocorre nas impessoalizações. Nas expressões de asserções em forma de dúvida ou de possibilidade costuma-se empregar verbos e estruturas modais como supor, crer, pensar, parecer, imaginar, não sei, na minha opinião, advérbios modalizadores como talvez, seguramente, provavelmente, etc. A minimização da força ilocutiva mediante impessoalização apresenta também diversas possibilidades: a despersonalização da origem deíctica do enunciado (pelo visto, ao parecer, a forma se, etc.), o evitar a referência direta ao próprio falante como origem de uma opinião ou de um juízo (Briz Gómez 2008, pp. 167-204). Há que se considerar dois tipos de atenuação dos atos de fala assertivos: atenuações dos assertivos para suavizar ou relativizar a expressão das opiniões ou julgamentos do próprio falante e a atenuação que pretende reduzir o compromisso epistêmico do falante à verdade que está expressando. Neste caso a atenuação é conseguida, ao expressar em forma de dúvida aquilo que realmente se conhece com certeza. Os comissivos são atos de fala pelos quais o falante promete atuar de acordo com as suas palavras. Se são atenuados, o falante expressa um menor compromisso com as suas propostas. Os atos expressivos, no caso de serem atenuados, costumam ocorrer quando está em jogo a imagem do interlocutor (insultos, recriminações, queixas) (Albelda Marco 2010, pp. 50-52). A seguir apresentamos o corpus escolhido, representado por amostras de petições iniciais cíveis, sendo dez do português.

4. Análise de amostras de petições iniciais cíveis Apresentamos na sessão 4.1 as amostras de petições iniciais cíveis em português.

4.1. Amostras de petições iniciais cíveis em português

(1)

Tendo em vista o descaso e pouca consideração da REQUERIDA, quanto a cobrar valores abusivos e exagerados, os REQUERENTES não vislumbram outra alternativa, senão o ajuizamento da presente ação.

Nesta primeira amostra – “o descaso e pouca consideração” – o ato é defender o autor da ação. A estratégia é uma ameaça à imagem social do réu. Nesta amostra consideramos que

490

houve autonomia exacerbada por parte do advogado, que corresponde ao conceito de refratariedade, de ver-se e ser visto como opositor ao grupo, porque aquele que critica, agride, combate, quer expressar que está numa atitude refratária em relação a aquilo que suscita a sua oposição (Kaul de Marlangeon 2005, p. 303). Em “não vislumbram outra alternativa”, ocorre uma atenuação para suavizar a descortesia anterior em relação ao juiz, ao utilizar a descortesia em relação ao réu. Neste caso, ocorre atenuação 200 com cortesia segundo a definição de Bravo (2005, p. 33). No entanto, pode ser que não se configure a cortesia se, na opinião do juiz, o advogado tenha violado direitos e obrigações adequados para este momento.

(2)

Não se pode tirar de vista ademais, que a tudo o quanto foi dito acima, soma-se o aspecto relacionado com a função social do contrato. Com efeito, o contrato, mesmo este objeto da presente revisional, possui várias funções e dentre essas funções destaca-se obviamente a econômica, que é a que mais interessa para o momento.

Em “não se pode tirar de vista”, “soma-se” e “destaca-se” a atenuação ocorre através da utilização da forma impessoal gramatical se com a minimização do dizer e a ocultação do eu, ou seja, construções que escondem o agente da ação. Observando o tipo de atenuação direta do dizer de Briz Gómez (1995, 1998, 2003), baseado em Searle (1980 [1969]), encontramos os atos assertivos nos quais a estratégia primordial de atenuação dirige-se fundamentalmente a evitar a responsabilidade do falante em relação ao que diz. Neste caso, a impessoalização minimiza a força ilocutiva mediante o uso da forma se, evitando a referência direta ao próprio falante para suavizar a expressão de julgamento do advogado com a finalidade de salvaguardar a sua própria imagem. Observamos que em nosso estudo o foco é colocado na realização de atos que implicam eventuais ameaças à imagem social dos participantes e se realiza uma atividade comunicativa cuja função seja atenuá-la. Sob esta ótica temos uma atividade de imagem com efeito de cortesia.

200 Para Bravo, “la función atenuadora no depende de la forma sino de la evaluación de una amenaza; sólo entonces estaremos en presencia de una atenuación, pero no en otro caso” (Bravo 2005, p. 32).

491

Segundo Bravo, “uno de los rasgos de la cortesía es el de tener un efecto social

positivo, pero existen actividades comunicativas con el mismo efecto que no pueden ser

clasificadas como de cortesía puesto que su objetivo no incluye el ‘quedar bien con el otro’.

Por eso es que pensamos que es más adecuada la denominación de ‘efecto de cortesía’.”

(Bravo 2005, p. 35).

(3)

Donde, por consequência, assevera-se que o desequilíbrio contratual salta aos olhos em uma breve leitura.

O primeiro exemplo – “assevera-se” – apresenta a forma impessoal gramatical se com

a ocultação do eu, forma de atenuação de antecede a ameaças como “salta aos olhos” e “uma breve leitura”.

Ocorre, então, uma atenuação antecipada, como emergente da sua relação com a

presença de uma ameaça, pois essas duas expressões – “salta aos olhos” e “uma breve

leitura”- poderiam ser interpretadas como ironias ou descortesias, e ficariam atenuadas pela

forma se. Neste caso, a atividade de imagem pode apresentar-se como cortês, porque a

imagem do destinatário resulta envolvida (sempre que o juiz não interprete como ironia e perceba o advogado como parte do grupo).

Desta maneira, podemos observar a imagem de afiliação de Bravo (2004), pois com as

expressões “salta aos olhos” e “uma breve leitura”, apesar de ser descortês, o advogado demonstra pertencer ao mesmo grupo do juiz, de profissionais do direito, porque somente

quem pertence a este grupo pode perceber que o desequilíbrio contratual “salta aos olhos em

uma breve leitura”.

(4)

De efeito, pela fórmula e critérios utilizados pela REQUERIDA para o cálculo do seu crédito, tem-se inabalável certeza da exigência de juros sobre juros, prática que, conforme determina a lei (Decreto n. 22.626/33, arts. 4 e 11) é nula de pleno direito, porque possibilita a cobrança de juros capitalizados.

No extrato 4, encontramos dois casos de atenuação: “tem-se” – no qual ocorre o uso

”, com a

do se com ocultação do eu, seguido da ameaça “inabalável certeza da exigência de

atenuação posterior “conforme determina a lei”.

492

Através da impessoalização com a redução do compromisso do falante com o dito, ocorre a minimização da imposição e mantêm-se a distância e o poder do juiz. Nesta amostra, ocorre atividade de imagem com a finalidade de proteger aspectos da imagem do falante. O efeito de cortesia se apresenta através da ocultação do eu antes da afirmação categórica que ameaça a imagem do juiz, seguida de outra atenuação com citação da lei, onde encontramos a imagem de afiliação de Bravo (o indivíduo vê a si mesmo como parte do grupo), com a finalidade de destacar a imagem do juiz. Esta amostra apresenta atividades de imagem com efeito de cortesia segundo a metodologia utilizada (Bravo 2002,

2005).

(5)

Nesse caso, invoca-se ainda o comando ínsito contido no artigo 591, do Código Civil (CC), pois cediço que a capitalização de juros, sob qualquer ângulo evidenciado, é prática vedada por lei, ou seja, prática nula pleno jure. E sendo dessa forma, todas as operações firmadas com base nesse critério não podem ser validadas ex vi do artigo 166, incisos II e VII, também do CC.

Com a utilização da forma impessoal gramatical se – “invoca-se” – e em “pois cediço que” ocorre despersonalização com a minimização de expressão de julgamento e de responsabilidade do falante (escritor). Em “E sendo dessa forma”, ao dar explicações, realiza uma atenuação prévia à imposição “todas as operações firmadas com base nesse critério não podem ser validadas ”, atitude que configurava atividade de imagem com efeito de cortesia, ao ocorrer proteção da imagem do interlocutor (Bravo 2002, p. 142). Assim, vê-se diminuída a distância social entre falante e ouvinte (escritor/advogado e leitor/juiz). Neste extrato, observamos atividades de imagem a partir da perspectiva de imagem de afiliação de Bravo, pela segurança que apresenta o advogado como conhecedor da lei e, ao mesmo tempo, observamos atividade de autonomia, quando este afirma categoricamente que “todas as operações firmadas com base nesse critério não podem ser validadas”. Neste caso, os conteúdos de imagem adquirem formas que unem os elementos de ambos.

(6)

Ainda, nem se compara o poder econômico-financeiro da REQUERIDA, uma das maiores entidades bancárias do país, com a situação financeira em que se encontram

493

os REQUERENTES. A hipossuficiência é latente, merecendo bem por isso a proteção judicial.

Com a expressão “A hipossuficiência é latente”, temos uma ameaça que é atenuada pela ocultação do tu em “merecendo bem por isso a proteção judicial”, na qual não se refere ao juiz, mas ao poder judicial. Assim, observa-se a preservação tanto da distância quanto do poder, pois a construção não é direta, mas atenuada, com a intenção de proteger a imagem do juiz. Dessa forma, ocorrem atividades de imagem com efeito de cortesia.

(7)

Caracterizado está que a citação pode ocorrer na pessoa de um dos gerentes da Instituição Requerida ou representante legal. Porém, ad cautelam, pede-se que quando da realização da citação, o Sr. Meirinho a realize no gerente da conta da autora.

Em “Caracterizado está que…” existe uma ameaça à imagem social do juiz, porque o advogado está manifestando-se como se fosse o juiz, pareceria até que está decidindo, e não solicitando. Em seguida, minimiza essa imposição com a utilização de “Porém, ad cautelam,

ou seja, “Porém”e o “se” servem como atenuadores da primeira sentença. Ao

pede-se que

utilizar o advogado a atenuação, a qual contribui com a cortesia, observam-se atividades de imagem com efeito de cortesia, com a finalidade de proteger a sua imagem e a do juiz.

”,

(8)

Dos fatos narrados infere-se que houve lesão do direito do Autor quando se verifica que poderá estar pagando valores muito acima do que realmente deve, por uma dívida que sabidamente não é aquela cobrada pela Requerida. Além do mais, a Requerida – como as demais instituições financeiras do país – dispõe de mecanismos de coação contra os consumidores em geral, e os utiliza sem escrúpulos para a realização das suas pretensões, tanto que consta no contrato a possibilidade de ingressar com medida judicial no sentido de cobrar os valores contestados, mesmo que comprovado está que existe saldo devedor muito inferior junto à Requerida do que o que vem sendo cobrado.

494

Na amostra apresentada, em meio a atenuações como “infere-se” e a menção ao que

estipula o contrato (e não o advogado), encontramos um caso de descortesia de fustigação – a

qual está constituída por comportamentos volitivos, conscientes e estratégicos, destinados a

ferir a imagem do interlocutor (Kaul de Marlangeon 2005, p. 302) – em “e os utiliza sem

A expressão “sem escrúpulos” não se

escrúpulos para a realização das suas pretensões

aceita numa linguagem jurídica. Dessa forma, as atenuações não foram efetivas.

Com isso, o advogado corre o risco de perder a sua imagem, já que os ataques às

imagens dos outros têm como consequência a perda da própria imagem.

Aqui o advogado faz uso de um ato de fala descortês, onde ameaça a imagem do grupo

e ressalta a sua própria imagem de autonomia. Dessa forma, estamos diante de um exemplo de

refratariedade (Kaul de Marlangeon 2005, p. 166).

”.

(9)

Entendem, os REQUERENTES, que, em face da evidente robustez do direito invocado, não se faz necessário o oferecimento de caução; contudo, se Vossa Excelência entender necessária a prestação de caução, requerem o prazo de 05 (cinco) dias para fazê-lo.

Neste parágrafo encontramos as ameaças “evidente robustez” e “não se faz

necessário”, frases que podem lesionar a imagem de autonomia do juiz, pois o advogado

informa ao juiz que o direito invocado é robusto e por esse motivo não é necessária a caução.

Em seguida, em “contudo, se Vossa Excelência” aparece atenuação com demonstração

de respeito ao juiz, através da forma “Vossa Excelência”, deixando a decisão a cargo do juiz. Neste extrato, identificamos atividades de imagem com efeito de cortesia, desde que o

juiz o interprete como tal, e não como ironia.

(10)

Nosso ilustre Desembargador também utilizou-se das citações proferidas pelo Prof. Adroaldo Furtado Fabrício, que explica ainda:

No extrato 10, temos um exemplo de atividade de imagem de afiliação, porque em

“Nosso ilustre Desembargador” o advogado inclui-se no mesmo grupo do juiz, ao comentar

495

sobre uma decisão de outro juiz e ressaltar aspectos que o fazem identificar-se com as qualidade do grupo (Bravo 2004, p. 30). Nesta amostra, encontramos cortesia valorizante (Bernal 2009, p. 174). Em “Nosso ilustre Desembargador”, o advogado realça a imagem do interlocutor, mediante o ato de elogiar um juiz, ou seja, elogiar alguém do mesmo grupo profissional ou comunidade de prática do juiz a quem se dirige. Portanto, nesta amostra temos uma atividade de imagem de cortesia.

5. Resultados provisórios

Os resultados provisórios observados foram obtidos através de parâmetros encontrados nos estudos citados. A incidência das atividades de imagem com efeito de cortesia e sem efeito de cortesia e as atividades de imagem de autonomia e afiliação de Bravo e Kaul de Marlangeon estão presentes no quadro seguinte.

Tabela 1. Incidência de atividades de imagem no corpus

 

Atividades de imagem

 

Com

Sem

Autonomia

Afiliação

Refratariedade

Afiliação

efeito de

efeito de

(Bravo)

(Bravo)

(autonomia

exacerbada

cortesia

cortesia

exacerbada)

(Kaul de

(Kaul de

Marlangeon)

Marlangeon)

7

0

1

4

3

0

Como se pode observar, os resultados provisórios mostram diferenças referentes à incidência de atividades de imagem, que nos permitem esboçar algumas hipóteses:

a) A afiliação encontrada se reflete nos conhecimentos compartilhados dos advogados e juízes;

b) A autonomia se reflete na liberdade de ação para aplicar estes conhecimentos;

c) Este estudo da linguagem judicial apresenta atividades de imagem com efeito e sem efeito de cortesia, expressando significados do usuário da língua na comunidade sociocultural à qual pertence.

496

O discurso jurídico se produz numa situação comunicativa ritualizada e submetida a condicionamentos. Tal característica foi observada na análise dos resultados, os quais apontam a ocorrência de frequentes ameaças do advogado em relação ao juiz, sob a forma de afirmações categóricas. Não obstante, as ameaças se apresentam atenuadas nas amostras dos textos estudados. Quanto à nossa hipótese inicial de que o discurso jurídico tenha um estilo próprio, além do já exposto sobre atividades de imagem, observamos que ocorreu com frequência a minimização da força ilocutiva mediante impessoalização em nossa amostras, representada pela forma se, evitando a referência ao próprio falante como origem de uma opinião ou de um julgamento (Briz Gómez, 2008). Observamos que a forma se aparece nove (9) vezes em dez (10) amostras estudadas. Em razão disso acreditamos que poderá ser válida a ampliação do corpus e o estudo da cortesia sob este prisma, dado que este estudo está restrito ao corpus escolhido.

6. Considerações provisórias

Neste trabalho estamos nos propondo a estudar as atividades de imagem com efeitos de cortesia e sem efeitos de cortesia em petições iniciais cíveis em português. Com os resultados preliminares apresentados, acreditamos haver realizado a distinção entre atividades de imagem com efeito e sem efeito de cortesia, como propusemos ao início do trabalho. Esperamos que estes estudos possam contribuir de alguma maneira para o conhecimento das atividades de imagem de cortesia e descortesia no contexto judicial. Pensamos que as formas distintas de como ocorrem as atividades de imagem sejam próprias do estilo comunicativo do discurso jurídico. No decorrer da pesquisa seguiremos aumentando o corpus de análise e pretendemos utilizar a consultação com outros linguistas, advogados e juízes.

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500

500 A MODALIDADE DEÔNTICA EM WEBCOMENTÁRIOS: UM ESTUDO FUNCIONALISTA DA LÍNGUA ESPANHOLA 1. INTRODUÇÃO Victória

A MODALIDADE DEÔNTICA EM WEBCOMENTÁRIOS: UM ESTUDO FUNCIONALISTA DA LÍNGUA ESPANHOLA

1. INTRODUÇÃO

Victória Glenda Lopes Batista 201 Universidade Federal do Ceará

O polo funcionalista da linguagem, ou Corrente Funcionalista, surgiu em 1926 em contrapartida às correntes teóricas vigentes: o Gerativismo e o Estruturalismo, pois, ao contrário das mesmas, define a língua como uma estrutura maleável, proveniente de atividades socioculturais, uma vez que o objetivo e a função principal da língua e da linguagem é a comunicação. Diferentemente do pensamento saussureano, o funcionalismo descreve a língua como um sistema passível de mudanças, devido às necessidades de cada contexto comunicativo, as categorias semânticas, sintáticas e pragmáticas da língua alteram-se constantemente. Nesse sentido, o funcionalismo propõe um estudo pancrônico da língua em uso, observando a evolução das mudanças tanto pela sua evolução histórica, quanto num dado contexto histórico (MARTELLOTA, 2003, p. 27). Desde suas vertentes europeia e norte-americana, o funcionalismo se opõe à teoria de antigos pesquisadores da língua, por acreditarem que a língua é um sistema maleável, a todo o momento sofrendo alterações por parte de seus falantes, uma vez que a comunicação se efetiva mesmo em expressões que não obedeçam à gramática normativa em sua totalidade,

201 Graduanda em Letras-Espanhol pela Universidade Federal do Ceará. Bolsista de Iniciação Científica da FUNCAP, em apoio ao projeto de pesquisa “Modalidade deôntica em língua espanhola”, coordenado pela profa. Dra. Nadja Paulino Pessoa Prata (DLE/UFC). Contato: viviglenda@gmail.com

501

expressões essas que, segundo a proposta de Frei (apud. MARTELLOTA, p. 21) caracterizam alterações funcionais devido à necessidade da comunicação.

A análise funcionalista ultrapassa as fronteiras de um estudo baseado estritamente na forma e observa como determinada estrutura se comporta no momento da interação comunicativa. A, língua, nessa perspectiva funcional, é concebida, primordialmente, como atividade sociointerativa situada e não como um objeto autônomo, cuja análise da estrutura é desvinculada de seu uso em situações comunicativas. (ARAÚJO; TIMÓTEO, 2011, p. 312).

Segundo o polo funcionalista, prima-se a ideia da competência comunicativa, uma vez que objetiva-se estudar o modo como os falantes se comunicam plenamente, daí a necessidade de estudos de situações reais da comunicação, uma vez que a língua reflete a expressão da experiência e conhecimento de seus respectivos falantes. Em suma, é reconhecido, no funcionalismo, o caráter não autônomo da língua, já que as estruturas gramaticais adaptam-se às necessidades e experiências comunicativas dos seus processadores, bem como os contextos históricos de comunicação. Em suma, o funcionalismo vai além da estrutura gramatical, buscando no meio discursivo a motivação para os fenômenos da língua, uma vez que a função-mor da língua e a interação entre individuas, essa função deve, de alguma forma, condicionar o código linguístico. Orientado aos nossos estudos, coletamos ocorrências reais de textos em espanhol, visando observar o comportamento dos falantes nativos do espanhol em expressar valores deônticos em meio à argumentação, coletando um corpus de ocorrências de dois jornais espanhóis, nos comentários do setor de opinião. Em relação à organização deste trabalho, ele se divide em: (i) uma breve introdução ao conceito de modalidade deôntica, (ii) nos resultados, em que apresentamos a metodologia, a análise de algumas ocorrências e a discussão e (iii) nossas considerações finais.

2. MODALIDADE DEÔNTICA

O campo da modalidade subdivide-se em modalidade lógica e modalidade linguística, em que a modalidade lógica se presta à avaliação de proposições, ao passo que a modalidade linguística estuda diferentes porções de conteúdo gramatical, definida como uma “qualificação de enunciado relativa ao julgamento do falante, sobre a verdade da proposição” (NOGUEIRA, 2011, p. 61). Para Halliday (1985), a modalidade pode ser definida como “uma avaliação do falante acerca da probabilidade ou do grau de evidência daquilo que está

502

afirmando.”. Em Lyons (1977) temos a divisão das modalidades em: alética, epistêmica e deôntica, no qual a modalidade alética não constitui um objeto de interesse estando ligada à noção, estando ligada à ideia de verdade de uma proposição, e, portanto, sendo alvo de interesse da Lógica. Em relação à modalidade epistêmica, temos o conceito de possibilidade e necessidade, subdividindo-se em: possível/impossível e contingente/necessário. A modalidade epistêmica pode estar ligada às razões lógicas, mas insere-se também no contexto epistêmico, uma vez que pode ser expressa em diferentes porções de conteúdo gramatical, em que o falante orienta seu discurso de acordo com as noções de verdades possíveis/impossíveis ou contigente/necessárias de seu enunciado. No tocante à modalidade deôntica, ela vincula-se à ideia de conduta, uma vez que, como explicita Neves (1996), “está relacionada à necessidade ou à possibilidade dos atos realizados por agentes moralmente responsáveis, o que implica um controle intrínseco dos eventos.”, ou seja, a modalidade deôntica se presta a ideia de conduta necessária por parte do falante sobre a verdade de sua proposição. Para Palmer (1986), em relação aos modelos básicos de modalidade deôntica, distinguem-se dois: o diretivo, quando o falante tenciona alcançar o convencimento ou chamar a atenção de alguém para o que está sendo dito; e o comissivo, que caracteriza uma ameaça ou promessa realizada pelo falante, e está ligada aos valores deônticos de obrigação, permissão e proibição.

3. RESULTADOS: ANÁLISE E DISCUSSÃO

3.1. Metodologia

No que tange à metodologia, o caráter funcionalista da nossa pesquisa sugere uma delimitação de um corpus de estudos, uma vez que estudamos modalidades deônticas expressas em contextos reais de comunicação. Partindo desse princípio, foi desenvolvida uma análise quantitativo-qualitativa de webcomentários oriundos de dois periódicos espanhóis de divulgação on-line, constituindo duas partes de aproximadamente 10.000 palavras cada, extraídas de cada jornal, completando, ao final, um corpus de estudo constituído por cerca de 20.000 palavras, a fim de avaliar o modo em que os nativos da língua espanhola processam

503

seus discursos e articulam suas expressões de âmbito deôntico em contextos informais de

comunicação, bem como a construção da persuasão, uma vez que os comentários estudados

constituem um caráter predominantemente argumentativo. Vejamos o Quadro 1:

Periódico

Webcomentário (no. de palavras)

P1

10.570

P2

10.377

Total (no. de palavras)

20.947

Quadro 1: Quantidade de palavras do corpus de webcomentários

A razão principal de escolhermos o gênero webcomentário se explica na sua riqueza

em argumentações e opiniões pessoais, uma vez que os comentários provêm de textos do setor

de opinião de seus respectivos jornais, fomentando debates sobre o tema central das

produções escritas, em que os autores dos comentários avaliados expressam sua opinião

acerca do tema tratado nos textos. Outra razão se deve ao fato de gênero webcomentário

carecer de estudos, uma vez que se trata de um gênero relativamente novo, proveniente do

aumento do consumo de informações on-line, sendo então, um tema rico para avaliações.

Após a delimitação do nosso corpus, iniciamos a etapa de busca às ocorrências de

cunho deôntico, realizando leituras dos comentários extraídos, revisando e reajustando de

acordo com as análises quantitativo e qualitativa, de forma a passar as ocorrências à nossa

ficha de análises quantitativas. Para isso, utilizamos o programa SPSS, de modo a separar as

categorias de acordo com os valores deônticos, suas formas de expressão, e tempo e modo

verbal. Para análise qualitativa, não utilizamos nenhum programa, apenas separamos as

ocorrências para serem avaliadas à parte, a fim de posteriormente levá-las à discussão.

3.2. Análise e discussão dos dados

Em relação às ocorrências encontradas, quantificamos 52 expressões da modalidade

deôntica no Periódico 1 (P1), ao passo que, no Periódico 2 (P2) foram encontradas 61

ocorrências, totalizando 113 expressões modais nos comentários on-line, avaliados quanto à

formas de expressão e valores deônticos, explicitados no tópicos a seguir.

504

3.2.1. As formas de expressão da modalidade deôntica em webcomentários

Em relação às formas de expressão da modalidade deôntica, podem ser explicitadas sobre vários meios. Na modalidade deôntica, as expressões consideram os valores

anteriormente citados (permissão, proibição e obrigação) demandando, assim, uma autoridade por parte do falante. Para isso, os valores modais podem ser expressos em espanhol, por exemplo, por:

a) Auxiliares Modais: poder, deber, haber quer, tener que, etc;

b) Verbos Plenos: proibir, obrigar, permitir;

c) Adjetivos Modais: é obrigado, é permitido, é proibido;

d) Advérbios Modais: obrigatoriamente, necessariamente.

Podemos observar tais formas de expressão, por exemplo, em (1) e (2):

1.

La forma en que te ganes la vida, revela lo que eres. Quienes asaltan, secuestran, extorsionan, colocan bombas, y se dedican al narcocultivo a lo largo y ancho del país, son maleantes que viven del delito. Nada romántico puede dibujarse como aureola de las FARC. Son, simplemente, bandidos liderados por unos cuantos ideólogos. (P1- Texto 12)

2.

Aunque resulte chocante, creo que a España le resultaría rentable un País Vasco

independiente. Si no estoy mal informada, solo aportan unos 500 millones al año al estado en concepto de pago por las instalaciones comunes, como carreteras financiadas por el gobierno nacional. Y el año pasado Patxi López se negó a pagarlos. Si se independizan, por un lado podremos estudiar qué pasa cuando un país se sale del euro. Por otro, podemos negociar con ellos la amortización de esas instalaciones comunes. (P2- Texto 2). Em (1) observamos uma expressão de valor de proibição (Negação da permissão= Nada puede) realizada por meio de um verbo auxiliar e de um verbo Infinitivo (Poder+Dibujar). Apesar da interferência do adjetivo “Romântico” na construção, o valor da expressão não é afetado, trazendo a ideia de não ser possível produzir uma boa imagem das FARC, uma vez que, sob a ótica do falante, o grupo é visto como criminoso. Já em (2), encontramos uma expressão de permissão deôntica, também expressa por um Verbo auxiliar + Verbo Infinitivo (Poder+ Estudiar/ Poder+ Negociar), no qual o falante explica uma situação de vantagens econômicas diante de um impasse político que seu país passa,

505

mostrando as mudanças que aconteceriam no quadro político/econômico do país e que situações passariam a ser permitidas. Em relação às estratégias de asseveração e mitigação da modalidade deôntica, o futuro do pretérito confere um valor de asseveração da modalidade, como observado em (3):

3. El Coran es un libro que deberia estar prohibido, lleno de violencia contra todos y

todo. (Periódico 1- Texto 3). Em (3) o futuro do pretérito (condicional) reforça a ideia de obrigação, combinada ao adjetivo que expressão uma proibição, aportando uma espécie de dever sobre a sociedade, como sendo a obrigação de se proibir a leitura do Alcorão como medida de segurança. No que tange aos tipos de auxiliares modais usados, percebemos, em nossas observações, uma preferência pelo auxiliar modal deber, no sentido base de obrigação deôntica, como em (4):

4. Hay momentos en nuestra vida en los que debemos saber elegir , hay muchos

hay total confianza en nuevos

desafios por delante pero unidos los podemos vencer

partidos como

UPYD

Partido Ciudadanos

Sociedad Civil y Democracia

Foro

Asturias

y rechazar el bipartidismo PP & PSOE , que ceden y pactan con los

nacionalistas

SaLuD. (P2- Texto 1.)

Como observamos em (4), o falante orienta sua argumentação a um sentido de obrigação, para que saibam escolher entre os partidos políticos de seu país. Nota-se um compartilhamento de obrigação, em que o falante se inclui ao utilizar a primeira pessoa do plural e retira qualquer marca de autoridade, afirmando que todos devem ter a obrigação de

escolher corretamente seus partidos políticos. Observamos também uma grande ocorrência das perífrases tener (que) e haber (que),

ambos expressando também o valor de obrigação deôntica, exemplificadas em (5) e (6):

5. Como no la culpa de del sr Zapatero, a ver quien hizo el ladrillazo? Aznar, quien pidió mano de obra para su ladrillazo Aznar, creo que se entiende bien quien trajo a quien y porque, solo tienes que ir a la hemeroteca de cualquier periodico para informarte, eso si tu ceguera intelectual te lo permite (P1- Texto 3).

6. Entonces, para que seguir juzgando a exmilitares de regimenes de derechas que cometieron asesinatos, si esos paises ahora viven en paz? Perdon para ETA y tambien para FARC? si sellega a un acuerdo de paz,deben olvidar los familiares d elas victimas que hay que perdonar y olvidar, que la justicia tiene que rendirse ante la paz? (P1 –Texto 12).

506

Em (5) e (6), observamos o uso das perífrases Haber (que) e Tener (que), em que ambas expressam o dever de obter informações e levantar a hipótese sobre uma obrigação inerente a um indivíduo, respectivamente, uma vez que nelas são tratadas questões de âmbito político e social. No tópico seguinte, apresentaremos os valores deônticos encontrados em nossos estudos.

3.2.2 Valores deônticos

No que se refere aos valores deônticos instaurados nos webcomentários, constatamos que a obrigação prevalece em mais de 60% dos casos, como podemos ver pelo Gráfico 1:

Permissão 17,7% Proibição Obrigação 21,2% 61,1% Gráfico 1: Valores deônticos instaurados nos webcomentários
Permissão
17,7%
Proibição
Obrigação
21,2%
61,1%
Gráfico 1: Valores deônticos instaurados nos webcomentários

Quanto ao valor de obrigação, como valor base da modalidade deôntica, obteve-se uma predominância esperada, uma vez que os textos conferem um caráter argumentativo. Para isso, observa-se uma predominância do auxiliar deber, bem como as perífrases tener (que) / haber (que), como mostram os exemplos anteriores (4), (5) e (6). Já em relação aos valores de permissão e obrigação, poucas ocorrências foram identificadas, em comparação às expressões de obrigação, uma vez que, para inserir tais noções, faz-se necessário um reconhecimento universal de uma hierarquia, para que se possa instaurar a autoridade de se proibir/permitir. Além disso, particularmente quanto ao valor da

507

permissão, acreditamos que a baixa ocorrência desse valor se deve também ao fato do verbo auxiliar poder não expressar limites claros entre a permissão deôntica e a possibilidade epistêmica, sendo por muitas vezes ambíguo, como em:

7. Muchas gracias por su atención y por su comentario. Alemania defiende sus intereses, pero no lo podría hacer sin socios importantes (aunque de pequeño tamaño). España podría haber esterilizado esa política de tipos bajos no diré con facilidad pero lo podría haber hecho: desde fijando coeficientes (de inversión sectorial a las cajas) a suprimir la deducción por vivienda. (P1- Texto 4). Ao contrário de um exemplo claro do valor de permissão, exemplificado em:

8. Totalmente en desacuerdo. Fuiste a la Cochinchina (que no la Conchinchina, pero bueno). Sabes donde queda? Lo dudo. Vietnam y Camboya son mas que asequibles. Dormir en un sitio decente y limpio sale por 5 dolares, y puedes comer la mejor sopa

de carne del mundo, con toda la verdura que quieras, por uno. (P1- Texto 7) Nos textos argumentativos, a expressão da opinião e a construção do convencimento não devem deixar margens à ambiguidade, do contrário podem gerar dúvidas de sentido e até conflitos, daí um distanciamento por parte dos falantes em relação ao modal auxiliar poder ao expressar permissão. No tocante à proibição, observou-se um maior uso negativo dos auxiliares, como no poder e no deber, uma vez que, como não há um acordo firmado de autoridade, tais construções modais sugerem uma proibição sob a forma de sugestão ou falta de compromisso social, como em:

9. Los organismos de seguridad no deben bajar la guardia porque los planes terroristas no cesan y estas mentes criminales no duermen mucho tiempo ni se van de vacaciones. (P1- Texto 3).

10. Sin dinero o con 4 perras gordas, viajar a la cochinchina es un auténtico suicidio o la mejor forma de meterse en problemas de manera innecesaria. Igual que alguien que no puede mantener un caro Mercedes no lo debería comprar… (P1- Texto 7)

Em (9), instaura-se uma proibição por parte do falante, que consiste alertar sobre ameaças terroristas ao país, e por isso os órgãos públicos devem manter-se atentos. Já em (10)

a proibição de se comprar um Mercedes é manifestada como uma sugestão, uma vez que o

falante não possui autoridade para proibir nada plenamente. Outro elemento que nos chamou

a atenção foi a ambiguidade da negação do verbo poder (no poder), uma vez que não limite claro entre falta de capacidade ou proibição do ato de comprar o automóvel.

508

Em relação à frequência das formas de expressão dos valores deônticos, constatamos uma preferência pelos auxiliares para expressar os valores de permissão, proibição e obrigação, como podemos ver na Tabela 1:

Tabela 1: Formas de expressão da modalidade deôntica versus Valores deônticos

da modalidade deôntica versus Valores deônticos Valor deôntico   Obrigação Proibição
da modalidade deôntica versus Valores deônticos Valor deôntico   Obrigação Proibição

Valor deôntico

 

Obrigação

Proibição

Permissão

Total

Formas de

auxiliar

67

23

16

106

expressão

verbo pleno

1

3

4

substantivo

1

1

adjetivo

1

1

2

Total

69

24

20

113

A nítida preferência do valor de obrigação se deve ao fato de, além de constituir um valor base da modalidade deôntica, se dar no contexto de textos argumentativos, sobre diversos temas, inclusive políticos, daí a necessidade de se instaurar um conceito de obrigação social, a fim de tornar a argumentação mais firme, como observamos em (11):

11. Todos debemos estar vigilantes si no queremos que Eurabia acabe siendo una realidad, esto va en serio, aunque algunos no se hayan querido enterar todavía y cada vez que se condena el yihadismo salen con argumentos surrealistas. (P1- Texto 3) Em (11), instaura-se uma obrigação social de atenção ao contexto político em que o país está inserido, devido a ameaças terroristas, o locutor recorre ao sentimento de vigilância a fim de garantir atenção para com o país e com a sociedade. Também podemos constatar a falta de autoridade por parte do falante, uma vez que ele compartilha a ideia expressa por ele, incluindo-se como indivíduo social que também deve estar atento aos acontecimentos históricos de seu país.

4. CONCLUSÃO/ CONSIDERAÇÕES FINAIS

509

Devido à problemática da falta de estudos relacionados ao gênero webcomentários, nossa pesquisa fundamenta-se numa base inicial, fixando-se principalmente nas construções modalizadoras utilizadas pelos falantes (como e de que modo eles utilizam as expressões modais e que efeitos de sentido são obtidos por elas), e analisando principalmente as formas de expressão da modalidade deôntica por parte de falantes da língua espanhola. Diante disso, observamos uma predominância do valor deôntico de obrigação por parte dos falantes, no que tange à construção do convencimento em suas argumentações. Na expressão desse valor, observamos uma grande utilização do auxiliar deber. Também nos foi chamada a atenção pela grande ocorrência das perífrases Tener (que)/ Haber (que). Em relação aos valores de permissão e proibição, não foram identificadas muitas manifestações, uma vez que tais valores apresentam um aspecto menos geral, por necessitarem de um reconhecimento de uma hierarquia, pois apenas um indivíduo em posição autoritária teria a condição de permitir ou proibir algo ou alguém. Constatamos também, em relação ao valor de obrigação, que na maioria dos comentários opera-se uma indução ao sentimento de dever social entre os falantes, principalmente em relação aos debates de nível político, em que os indivíduos fomentam seu discurso com base nas obrigações sociais de modo a convencer seus leitores e assim disseminar suas opiniões e compartilhar ideias, efetivando assim, efeitos de sentido com base na subjetividade modal.

REFERÊNCIAS

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Publishers, 1985. LYONS, John. Modality. In: Semantics. V.2. Cambridge, Cambridge University Press, 1977.

A visão funcionalista da linguagem no século XX.

In: CUNHA, M. A. F. da; OLIVEIRA M. R. de; MARTELLOTA M. E. (Orgs.). Lingüística

MARTELLOTA, M.E.; AREAS, E. K

510

NEVES, Maria Helena de Moura. A modalidade. In: KOCH, I.G.V. (org.). Gramática do

português falado. Vol. VI: desenvolvimentos. Campinas: Editora da UNICAMP - FAPESP,

1996.

NOGUEIRA, M. T. Modalidade e argumentação. In: NOGUEIRA M. T.; LOPES M. F. V. (Orgs.). Modo e Modalidade: gramática, discurso e interação. Fortaleza: Edições UFC, 2011, PALMER, F. R. Mood and modality. Cambridge, Cambridge University Press, 1986. PESSOA, N. P. Modalidade deôntica e discurso publicitário: A construção da persuasão. In:

NOGUEIRA M. T.; LOPES M. F. V. (Orgs.). Modo e Modalidade: gramática, discurso e interação o. Fortaleza: Edições UFC, 2011.

511

511 MODALIDADE DEÔNTICA EM LÍNGUA ESPANHOLA: UMA ANÁLISE EM GÊNEROS TEXTUAIS (EDITORIAL E ARTIGO DE OPINIÃO)

MODALIDADE DEÔNTICA EM LÍNGUA ESPANHOLA: UMA ANÁLISE EM

GÊNEROS TEXTUAIS (EDITORIAL E ARTIGO DE OPINIÃO) 202

INTRODUÇÃO

André Silva Oliveira 203 Maria de Fátima de Sousa Lopes 204 Universidade Federal do Ceará

Neste trabalho, trataremos da categoria linguística modalidade deôntica em língua

espanhola através da análise de dois tipos de gêneros textuais, o editorial e o artigo de

opinião. Para isso, realizamos uma análise das principais expressões modalizadoras, no intuito

de verificar a possível relação existente entre os tempos verbais e os modos verbais que

servem para atenuar ou asseverar o valor deôntico. Os dados para este artigo foram coletados

em jornais publicados em língua espanhola, com difusão on-line. Para tal finalidade,

empregamos a perspectiva funcionalista, tendo em mente de que a língua funciona como um

instrumento de interação social.

Partindo do pressuposto de que a modalidade “constitui uma categoria linguística por

meio da qual o falante codifica conteúdos e intenções” (PESSOA, 2011, p. 93), buscamos

fazer uma análise das principais expressões da modalidade deôntica, sem excetuar a relação

que há entre essas expressões com as características dos dois tipos de gêneros em questão

analisados. Procuramos verificar se há também algum tipo de relação entre o uso dessas

expressões deônticas, o valor deôntico instaurado e as intenções pelo autor empregadas neles.

202 Trabalho vinculado ao projeto “Modalidade deôntica em língua espanhola”, coordenado pela profa. Dra. Nadja Paulino Pessoa Prata (DLE/UFC).

203 Graduando em Letras-Espanhol. Contato: andresgimenezaragon@gmail.com

204 Graduanda em Letras Português-Espanhol. Contato: fatimalopess@yahoo.com.br

512

Vale salientar que o autor ao escrever seu texto, procura fazê-lo pensando em determinados elementos comunicativos que possam interferir no seu sentido, pois é evidente que há uma clara intenção dele ao escrevê-lo, e esta intenção está direcionada aos seus futuros leitores. Em relação à estrutura deste trabalho, ele está composto em três partes distintas, a (i) versa sobre as principais características que norteiam a perspectiva funcionalista, pressuposto teórico para nossa investigação; a (ii) sobre a definição de modalidade, especificamente modalidade deôntica; e a (iii) sobre os resultados da pesquisa, tendo em vista o corpus que fora constituído para a análise.

1. FUNCIONALISMO: PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS

O funcionalismo é uma corrente linguística que delimitou seu objeto de estudo estabelecendo uma estreita relação entre a estrutura gramatical de uma determinada língua e o seu uso em diferentes contextos comunicativos. Em geral, os funcionalistas entendem que a língua(gem) é um instrumento de interação social (MARTELOTTA, 2011, p. 157). Dessa forma, o interesse de investigação linguística sobrepassa a questão da estrutura gramatical, de modo a ampliar a análise linguística numa estreita relação de aspectos pragmático- discursivos, buscando entender a situação comunicativa existente entre os interlocutores, seus propósitos discursivos e o contexto em que está inserida a chave para a motivação linguística (MARTELOTTA, 2011, p. 158). Segundo Neves (1997, p. 41) é necessário que seja considerado o sistema linguístico em uso e que consideremos que a principal função da língua seja de atuar como instrumento de interação social. Há assim, uma preocupação com as relações (ou funções) entre a língua como um todo e as diversas modalidades de interação social, e não somente com as características internas da língua. Ainda de acordo com Neves (1997, p. 03), a língua “não pode ser descrita como um sistema autônomo, já que a gramática não pode ser entendida como cognição e comunicação, processamento mental, interação social e cultura, mudança e variação, aquisição e evolução”. Dessa forma, os funcionalistas defendem que a língua desempenha funções sociais, ou seja, funções que são externas ao sistema linguístico. A partir desta visão, concebe-se a não autonomia da língua, como assim discute Martelotta (2010, p. 158) ao dizer que “(…) a língua não constitui um conhecimento autônomo, independente do comportamento social, ao contrário, reflete uma adaptação, pelo falante, as distintas situações comunicativas”.

513

2. MODALIDADE DEÔNTICA: APONTAMENTOS

As teorias gramaticais de cunho mais tradicionalista, referem-se à questão da modalidade fazendo referência a categoria de modo. Cunha (2001 apud SCHLEE, 2006, p. 1317) classifica de “modo” as diferentes formas que determinado verbo toma para indicar a atitude do falante em relação ao fato que ele enuncia para seus interlocutores, atitude essa que pode ser de certeza, de dúvida, de suposição, de mando, etc. Dessa forma, de acordo com Nascentes (1960 apud SCHLEE, 2006, p. 1318), “modo” seria a flexão pela qual se exprime a atitude mental do falante, em relação ao processo indicado pelo verbo, na medida em que o enunciado é transmitido, indicando dúvida ou desejo por parte do enunciador. Pode-se perceber pelo que foi enunciado anteriormente que ambas as definições relacionam a categoria de modo à forma do verbo. Portanto, a definição de “modo” encontra- se atrelada as formas verbais de modo, indicativo, subjuntivo e imperativo. Pode-se também fazer outro tipo de referência a “modo” ao se fazer um estudo dos principais auxiliares modais que, ao combinar-se ao infinitivo de um determinado verbo ou ao gerúndio de um verbo principal, busca determinar com mais objetividade e clareza como se realiza ou se deixa de concretizar uma ação verbal (SCHLEE, 2006, p. 1319). Em relação à modalidade, que abarca categorias gramaticais diversas através de seu estudo da categoria discursiva da própria modalidade, percebe-se que aquela envolve aspectos diversos, que vão desde definir a noção básica de modalidade, até a questão de saber em que tipo de grau e por quais meios o enunciador adéqua a modalidade ao seu discurso (SCHLEE, 2006, p. 1320). Quando se estuda modalidade, pode-se compreendê-la como o meio pelo qual o enunciador utiliza-se de seu discurso em prol de suas próprias intenções. Essa expressão de atitude é marca desse recurso, pois o enunciador preocupa-se com a forma de emitir o seu enunciado para que o interlocutor reaja de maneira positiva ou negativa em relação ao que está ouvindo (LIMA e ROCHA, 2008, p. 72). De acordo com Pinto (1994 apud LIMA e ROCHA, 2008. p.72), a modalidade insere-se na função interpessoal, pois apresenta como finalidade máxima a expressão das crenças, opiniões ou pensamentos a respeito de certo assunto, como uma maneira de interagir com as outras pessoas, mostrando os próprios critérios de verdade e valor. Tradicionalmente, quando se refere a análises linguísticas, costuma-se classificar em modalidade “deôntica” e “epistêmica”. Cervoni (1989 apud LIMA, 2009, p. 43) define que a

514

“modalidade epistêmica” trata-se de toda expressão que busque implicar numa referência à crença, ou ao conhecimento que se tem de um estado de coisas, abrangendo assim, a toda expressão pertencente ao registro do saber. A “modalidade deôntica”, pressuposto básico para este trabalho, abrange toda expressão que implique numa referência a norma ou a outro qualquer critério de avaliação, seja ele social, individual, ético ou estético, ou seja, a modalidade deôntica pertenceria ao registro do dever. Neves (2000, p.62 apud LIMA, 2009, p. 54) determina que a “modalidade deôntica” traz consigo, em graus diferentes, certa dimensão “epistêmica”, podendo expressar quatro coisas diferentes se forem expressões afirmativas, seriam elas: necessidade, obrigatoriedade, possibilidade e permissão. Tratando-se de expressões negativas, podemos encontrar, nesse caso ocorrendo uma inversão de polaridade, modalizadores verbais que expressariam:

ausência de necessidade, ausência de obrigatoriedade, impossibilidade e proibição. Nesse caso, o discurso seria classificado como autoritário. A modalidade deôntica, de uma maneira geral, consiste na seleção de formas de transmitir dada informação com base em valores morais, éticos, normas de conduta, etc. (como ocorre com a modalidade deôntica) a variados sujeitos, uma vez que estes podem modificá-la. Desta forma, “a modalidade se apresenta como escolha, consciente ou não, do enunciador” conforme nos informa Sedeño (2001) 205 . Entretanto, há algumas controvérsias a respeito da concepção de modalidade, e muitos autores acreditam que ela é uma característica atribuída à oração, mas vamos tratar aqui da modalidade como um conjunto de traços utilizados no ato comunicativo. Deste modo, consideramos que a “modalidade constitui uma categoria linguística por meio da qual o falante codifica conteúdos e intenções (…) de modo a atuar sobre o ouvinte, ou melhor, a interagir com o ouvinte, seja ampliando, modificando ou

substituindo sua informação pragmática (

A modalidade deôntica se relaciona ao aspecto de “ordem” expresso no discurso e estabelece uma conexão com o eixo da conduta, que o falante necessita ter para codificar o conteúdo com o qual pretende interagir com o ouvinte. Assim, é possível dizer que a modalidade deôntica é a escolha, consciente ou não, do falante com o propósito de fazer crer o ouvinte. Neste sentido, a modalidade deôntica no geral expressa os valores semânticos de obrigação, permissão ou proibição, uma vez que se relaciona a normas morais, sociais etc.

)”

(PESSOA, 2011, p. 93).

205 Nossa tradução. O original diz: “la modalidad se presenta como elección, consciente o no, del enunciador” conforme nos informa” (SEDEÑO, 2001, p. 102).

515

Para exemplificar o que abordamos sobre a modalidade deôntica, temos os seguintes fragmentos citados por Sueli Costa (2009, p. 4), em que o primeiro ponto traz o sentido de obrigação e o segundo possui sentido de permissão:

1. Juan debe comer. (Ordena-se que ele coma)

2. Juan puede salir. (Permite-se que ele saia)

Tendo em vista que a modalidade é um recurso argumentativo, fazendo-se necessário dizer que a modalidade deôntica se caracteriza por estar vinculado a valores de índole “interna” ou “externa”, o que pode servir ao convencimento do ouvinte 206 na ação

verbal ou por uma “compulsão interna”. Nesse sentido, Sueli Costa (2009, p. 4) explica que as

externas ou internas ao sujeito obrigado,

autorizado ou aconselhado a fazer algo” 207 . Compreendemos que fazer uma abordagem a respeito da modalidade é tratar das escolhas enunciativas do falante dotado de determinada informação pragmática para que, em determinada situação comunicativa, sua intenção seja bem sucedida ao chegar ao ouvinte, de modo a estabelecer assim uma interação. Nesse sentido, a “modalidade linguística é entendida como o modo pelo qual o falante qualifica o enunciado por ele produzido, ou seja, é o julgamento dos falantes sobre as possibilidades ou obrigações envolvidas naquilo que está sendo dito.” (PESSOA, 2011, p. 92).

“origens da modalidade deôntica podem ser (

)

3. RESULTADOS: ANÁLISE E DISCUSSÃO

A análise da modalidade deôntica em língua espanhola se fez com base no corpus selecionado e constituído para descrever a língua em uso. O corpus por nós constituído foi montado a partir de textos escritos em língua espanhola (variedade peninsular), extraídos dois jornais com difusão on-line na internet. A análise foi feita em dois gêneros textuais tidos

206 Os termos “falante” e “ouvinte” são termos prototípicos relativos à Gramática Funcional, de Dik (1997).

207 Nossa tradução. O original diz: “Las orígenes de la modalidad deóntica pueden ser (…) externas o internas al sujeto obligado, autorizado o aconsejado a hacer algo” (SUELI COSTA, 2009, p. 4).

516

como argumentativos, quais sejam o editorial e o artigo de opinião, a partir dos quais foram coletadas as expressões típicas da modalidade deôntica.

3.1. METODOLOGIA

Nossa pesquisa se inicia com a seleção de dois jornais divulgados on-line 208 , a partir dos quais coletamos o nosso corpus: o Periódico I (doravante P1) e o Periódico II (doravante P2). Foram coletados 40 textos, com aproximadamente 21.217 palavras distribuídas de modo equivalente entre os dois gêneros textuais. Para a análise dos editoriais, foram coletadas 5.353 palavras do P1 e 5.289 palavras do P2, totalizando 10.642 palavras. Para a análise dos artigos de opinião, foram coletadas 5.541 palavras do P1 e 5.034 palavras do P2, totalizando 10.575 palavras, como podemos ver no Quadro 1:

Periódico

 

Editorial (no. de palavras)

Artigo (no. de palavras)

Total por periódico (no. de palavras)

P1

5.353

5.541

10.894

P2

5.289

5.034

10.323

Total

por

gênero

10.642

10.575

21.217

textual

(no.

de

palavras)

Quadro 1: Constituição do corpus em língua espanhola

Em relação ao artigo de opinião, ele visa argumentar e expressar determinado ponto

de vista sobre um assunto específico, sem que a ação argumentativa torne-se evidente, pois ela é produto de um conhecimento prévio por parte de seus interlocutores (FERREIRA,

2012). De acordo com Perelman e Olbrechts-Tyteca “

toda argumentação visa à adesão dos

208 Por questões de conduta científica, os nomes dos jornais foram substituídos pelos códigos informados no corpo do texto. Além disso, vale mencionar que o foco desta pesquisa é descrever e analisar os modalizadores deônticos em língua espanhola e não relacionar o uso de tais elementos ao tipo de jornal, motivo por que aqui também não se explicitam os nomes dos periódicos.

517

espíritos e, por isso mesmo, pressupõe a existência de um contato intelectual”. Pois seu ”

principal objetivo é de estimular “

OLBRECHTS-TYTECA apud FERREIRA, 2012). O artigo de opinião pode ser classificado como um gênero textual de caráter opinativo, em que o autor expõe e defende sua opinião baseado em uma determinada temática real e, normalmente, polêmica, controversa, procurando, através de alguns meios que possam sustentar sua opinião, convencer e influenciar os seus leitores. Por isso, o artigo de opinião está constituído pelas seguintes condições: o autor que produz o texto assume a sua posição de autor de maneira discursiva, tendo em consideração seus possíveis leitores, produzindo a partir de um contexto institucional e social; posicionar-se de forma clara e concisa, frente a um assunto (STRIQUER, 2010). Melo (1985, p.79 apud PEREIRA e ROCHA, 2006. p. 58), caracteriza o editorial como sendo um tipo de gênero jornalístico que expressa a opinião oficial de uma determinada empresa diante dos fatos de maior repercussão na atualidade. A partir dessa definição, podemos entender que o editorial se trata de um tipo de texto que emite uma opinião de um determinado jornal, mas sem apresentá-la de qualquer modo aos seus leitores. Diferente de outros tipos de gêneros textuais que expressam a opinião de um determinado autor, sendo um jornalista, um colaborador ou apenas um leitor, de maneira pública e sendo ele o responsável pelo seu texto, o editorial é de inteira responsabilidade da instituição que o editora. Escrever um editorial não implica que o autor seja o dono da empresa, nem que represente a opinião de todos aqueles que a compõe (PEREIRA e ROCHA, 2010. p. 57). Diante do exposto sobre o artigo de opinião e o editorial, ressaltamos que estes foram escolhidos para nosso trabalho por se tratarem de dois tipos de textos argumentativos que melhor expressam a posição de um falante (escritor), propiciando, dessa forma, uma provável relação com a modalidade deôntica.

(PERELMAN e

uma mudança na cabeça dos ouvintes

3.2. ANÁLISE E DISCUSSÃO

Após a análise qualitativa de cada ocorrência, passamos à análise quantitativa com ajuda do SPSS. Detectamos, então, em nosso corpus, 100 ocorrências envolvendo o modo e o tempo verbal nos dois tipos de gêneros textuais analisados e 06 casos não verbais, mas casos de verbos funcionando como substantivos e adjetivos.

518

3.2.1. ANÁLISE E DISCUSSÃO: MODO VERBAL

Em relação ao modo verbal foram encontrados 96 casos de verbos no modo indicativo e 04 casos de verbos utilizados no modo subjuntivo e 06 casos de não verbais, mas casos de verbos funcionando como substantivos e adjetivos. Vejamos na tabela 01:

Modo Verbal

Frequência

Porcentagem (%)

Indicativo

96

90,56

Subjuntivo

04

3,78

Não se aplica

06

5,6

Total

106

100

Tabela 01: Modalizadores verbais em relação ao modo verbal

Podemos perceber que o modo verbal de maior expressividade trata-se do modo indicativo que é utilizado para assegurar a veracidade dos fatos apresentados, mostrando-os de maneira atualizada aos seus leitores. Assim, Sánchez (2007) coloca modo indicativo como indicador de fatos reais e objetivos, sendo empregado, geralmente, para expressar a ação que está situada em um lugar determinado e que ocorre no momento em que se fala da ação verbal. Como os gêneros textuais em questão aqui estudados abordam fatos da atualidade, era de se esperar que os modalizadores verbais utilizados se encontrassem no modo indicativo, assegurando a atualidade dos acontecimentos expressos. Vejamos (1) e (2):

una

equivocación.”(Artículo 8- P1) 209 (2) “Por eso ha sido adecuada la reacción templada del presidente del Gobierno, aunque debe en el futuro evitar dar alas a sus subordinados más fanáticos de la retórica

neocentralizadora.” (Editorial 2- P1) 210

(1)

“Y

el

encargo

que

debe

satisfacer

va

más

allá

del

rastreo

de

209 Tradução nossa: “E o encargo que deve satisfazer vai mais além da sondagem de um erro” (Artículo 8- P1)

210 Tradução nossa: “Por isso foi adequada à reação moderada do presidente do governo, ainda que deve no futuro evitar dar asas a seus subordinados mais fanáticos da retórica neocentralizadora” (Editorial 2- P1)

519

Nesses dois exemplos acima, podemos perceber que o verbo modal deber fora empregado no modo indicativo e expressando a obrigatoriedade daquilo que fora dito pelo autor. Dessa forma, a utilização do verbo deber, nos dois casos acima citados, expressa uma ordem de maneira objetiva e certa, sendo este um dos pressupostos básicos do modo indicativo. Vejamos (3) e (4):

(3) “¿Puede decírselo mismo de los periodistas?” (Artículo 1- P1) 211 (4) “En realidad, por mucho empeño y entusiasmo que ponga el niño, son los 'terceros' a quienes corresponde el reto y la responsabilidad de determinar si un chaval puede llegar a ser un 'crack'.” (Editorial 2 – P2) 212

Nesses dois exemplos acima, percebemos que o verbo modal poder fora empregado também no modo indicativo e expressando a permissividade do que fora relatado pelo autor. Dessa maneira, o verbo poder utilizado nos dois casos acima indicam uma possibilidade deôntica de uma eventual ocorrência no momento em que se propõe a ação. Em sequencia, observemos:

(5) Pero, como recordaba Milagros Pérez Oliva en su artículo de despedida, la interpretación no puede ser una coartada para la deformación, hay que partir de los hechos. (Artículo 8- P1) 213 (6) La expropiación de YPF a Repsol no puede obviamente beneficiar a España, ni a las empresas concernidas, pero tampoco a Argentina. (Editorial 3-P1) 214

211 Tradução nossa: “Pode se dizer o mesmo dos jornalistas?” (Artículo 1- P1)

212 Tradução nossa: “Na realidade, por muito empenho e entusiasmo que ponham o menino, são os terceiros a quem corresponde o desafio e a responsabilidade de determinar se um jovem pode chegar a ser um ‘crack’.” (Editorial 2 – P2)

213 Tradução nossa: “Mas, como recordava Milagros Pérez Oliva em seu artigo de despedida, a interpretação não pode ser uma justificativa para a deformação, tem que partir dos acontecimentos.” (Artículo 8- P1)

214 Tradução nossa: “A expropriação de YPF a Repsol não pode obviamente beneficiar a Espanha, nem às

520

Em (5) e (6), percebe-se que o verbo modal usado em poder, foi o modo indicativo. Nesses casos há uma proibição do fato expresso pelo autor, ou seja, indicando assim a negação de uma ordem enfática e enérgica. Podemos inferir assim, de acordo com a Real Academia Española - RAE (2010), que

o modo verbal constitui uma das manifestações da modalidade. De acordo com a RAE, o

modo revela a atitude do falante ante a informação fornecida, ou seja, seu ponto de vista sobre

o conteúdo do que é apresentado ou se descreve.

3.2.2. ANÁLISE E DISCUSSÃO: TEMPO VERBAL

Em relação ao tempo verbal, foram registrados 71 casos de verbos no presente (englobando o modo indicativo e o subjuntivo), 24 modalizadores no futuro e apenas 05 casos de modalizadores verbais no pretérito. Vejamos na Tabela 02:

Tempo Verbal

Frequência

Porcentagem (%)

Presente

71

66,98

Pretérito Perfeito

01

0,94

Pretérito Imperfeito

04

3,77

Futuro do Presente

02

1,88

Futuro do Pretérito

22

20,75

Não se aplica

06

5,6

Total

106

100

Tabela 02: modalizadores verbais em relação ao tempo verbal

Podemos perceber que os dois tempos verbais de maior expressividade, tratam-se do presente e do futuro do pretérito (ou condicional), sendo utilizados para asseverar a força do modalizador deôntico. De acordo com a Real Academia Española (2010) o presente expressa a coincidência da situação designada no momento em que se fala. A coincidência pode ser exata se o predicado tem a natureza pontual, e a isto chamamos de presente pontual (ou presente momentâneo). O habitual, no entanto, é que o momento da enunciação reste ainda incluso certo intervalo de duração indeterminado que ocupa a situação referente ao predicado no presente. Se a situação está em curso, o presente adquire valor progressivo. Também podemos constatar que o presente possa se referir a ações futuras e expressar uma ordem (SÁNCHEZ ALFARO, 1998).

521

Já em relação ao futuro do pretérito (ou condicional). A Real Academia Española (2010) o designa como uma ação posterior à outra do pretérito, podendo ser caracterizado como o futuro do passado; pois se trata de um tempo relativo e apresentando pontos de contatos tanto com o futuro como pontos em relação ao pretérito imperfeito. Vale ressaltar que esse mesmo tempo é utilizado para referirem-se a conselhos, desejos ou simples cortesia por parte do falante. Vejamos:

(7) “En el fondo, quienes hacemos el diario y quienes lo leen pertenecemos a una misma, heterogénea y dinámica comunidad en la que la confianza debe renovarse cada día.” (Artículo 8- P1) 215 (8) “Abrir el foco hacia las zonas periféricas es un ejercicio de transparencia que debería estar presente en toda reflexión sobre el futuro de la ciudad.” (Artículo 2- P1) 216

Nesses dois casos, o verbo deber fora utilizado no presente e no futuro do pretérito, respectivamente, causando no leitor uma impressão de compromisso com o que está sendo dito, o que nos faz classificar o modalizador deôntico deber dentro do valor deôntico de obrigatoriedade. Como o futuro do pretérito designa uma ação posterior, este tempo se torna um instrumento essencial para que se assevere a obrigatoriedade da modalidade deôntica, de maneira a convencer o leitor. Passemos agora a (9) e (10):

(9) “Hay ejemplos en EEUU, recuerda García, como 'Singles' de Amazon, que se puede considerar una pequeña editorial que ha publicado ya más de 160 artículos". (Editorial 85 – P2) 217

215 Tradução nossa: “No fundo, quem faz o diário e quem o ler pertence uma mesma, heterogênea e dinâmica comunidade na que a confiança deve renovar-se cada dia” (Artículo 8- P1)

216 Tradução nossa: “Abrir o foco para as zonas periféricas é um exercício de transparência que deveria estar presente em toda reflexão sobre o futuro da cidade.” (Artículo 2- P1)

217 Tradução nossa: “Há exemplos em EEUU, recorda García, como ‘Singles’ de Amazon, que se pode considerar um pequeno editorial que publicou já mais de 160 artigos.” (Editorial 85 – P2)

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(10) “Alguien podría decir que los responsables son los políticos. No hace ningún favor que el flamante secretario de Estado de Cultura tome al personal por tonto y declare en la rueda de prensa.” (Editorial 102 – P2) 218

Nesses dois casos, o verbo poder fora também utilizado no presente e no futuro do pretérito, respectivamente, estabelecendo uma probabilidade, o que nos faz recorrer ao valor deôntico de permissão, encontrando-se no domínio do dever. Dessa forma, constatamos que a utilização do modo indicativo e dos tempos verbais no presente e no futuro do pretérito (ou condicional) são utilizados para asseverar a modalidade deôntica e assegurar a atualidade daquilo que é dito aos leitores.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da breve análise aqui exposta, podemos concluir que o editorial e o artigo de opinião, textos de caráter argumentativo, expressam a modalidade deôntica em relação ao modo e ao tempo verbal por meio predominante do modo indicativo e dos tempos verbais no presente e no futuro do pretérito (condicional). Assim, constatamos que a modalidade deôntica por embasar-se no meio pelo qual o enunciador transmite o seu discurso a fim de convencer o seu interlocutor, procura por meio dos modalizadores verbais (modo e tempo) assegurarem a veracidade dos fatos apresentados, mostrando-os de maneira atualizada e enfática aos seus leitores. Vale ressaltar que observamos poucas ocorrências do modo subjuntivo em função deste não expressar a realidade concisa dos fatos, transparecendo, assim, incertezas com relação às ocorrências. Assim, as expressões da modalidade deôntica se manifestam de acordo com as características do gênero textual (nesse caso, editorial e artigo de opinião), pois elas não se manifestam por si só. Nesse caso, se o gênero não objetiva interagir com o ouvinte/leitor nem atuar sobre ele não há porque utilizar a modalidade deôntica. Mas como os gêneros aqui

218 Tradução nossa: “Alguém poderia dizer que os responsáveis são os políticos. O brilhante secretário do Estado de Cultura não faz nenhum favor em tomar o pessoal por estúpido e declarar na roda de jornais.” (Editorial 102 –

P2)

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trabalhados lidam diretamente com o receptor, então utilizar à modalidade deôntica é uma estratégia de interagir, ampliar, modificar ou substituir informações, de acordo como vemos em algumas propostas funcionalistas.

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525 PERTINÊNCIA E ENUNCIAÇÃO: A INSTITUIÇÃO DO SENTIDO TEXTUAL- DISCURSIVO Antônio Luiz Assunção UFSJ Universidade

PERTINÊNCIA E ENUNCIAÇÃO: A INSTITUIÇÃO DO SENTIDO TEXTUAL- DISCURSIVO

Antônio Luiz Assunção UFSJ Universidade Federal de São João del-Rei

Neste trabalho, pretendemos examinar e propor uma articulação teórica entre dois quadros de análise de fenômenos linguístico-discursivos: a Análise Crítica do Discurso e a Teoria da Relevância. Consideramos essa articulação importante na medida em que ela nos permite repensar o processo de construção das condições de produção do sentido. Não podemos considerar que essas condições sejam dadas, ainda que tenhamos nos acostumados a ouvir

falar de contextos como se esses fossem evidentes em si mesmos e, como tais, preexistissem ao ato de enunciação. Com esse trabalho, queremos discutir o idealismo teórico que pressupõe figuras discursivas como objetos do mundo e, por isso, dadas ao conhecimento e percepção humana de forma imediata. Portanto, este trabalho tem como objetivo promover uma articulação entre os quadros teóricos da Análise Crítica do Discurso e da Teoria da Relevância

a partir das discussões acerca do processo de produção de sentido no discurso. Nessa

articulação teórica, temos como objetivo ainda refletir sobre o sentido produzido pelos discursos que circulam na sociedade e sobre o modo como nós temos acesso a essa forma de fazer sentido que orienta nossas ações no mundo.

A discussão teórica levará em conta a ideia de que os enunciados produzidos pelos usuários

criam automaticamente expectativas que orientam o processo de produção de sentido dos interlocutores, assegurando, ou pelo menos, buscando assegurar o sentido pretendido por aquele que produziu os enunciados, como proposto por Grice (1975). O modelo da Teoria da Relevância, como proposto por Sperber & Wilson (1986,1995) sugere que todo enunciado

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envolve um nível de capacidade meta-representacional. Isso ocorre porque na produção do sentido, atribuem-se intenções informativas e comunicativas ao estímulo produzido.

Para este trabalho adotaremos uma concepção de discurso que, como observam Lilie Chouliaraki e Norman Fairclough (1999), o compreenda como uma forma de poder e consideraremos ainda que as práticas discursivas constituem o lugar para a construção de sistemas de crenças/valores. Por fim, há que considerar que os discursos não só organizam-se a partir das posições sociais a que estão vinculados os sujeitos sociais envolvidos nas práticas sociais descritas pelos discursos, mas também, como instâncias de poder, organizam esses agentes sociais nas representações dos eventos sociais discursivizados. Tomar como pressupostos as posições sociais, como proposto acima, implica considerar as condições de produção dos enunciados, de acordo com as quais um indivíduo apropria-se da língua para fazê-la funcionar e, ao fazer isso, institui a si mesmo na posição de sujeito da enunciação e o outro como seu interlocutor (cf. Benveniste, 1989).

Sob esse ponto de vista, devemos considerar as condições de produção de sentido essencialmente dinâmicas em sua natureza, por se constituírem no processo mesmo da produção discursiva. Já foi reconhecido o idealismo teórico que pressupõe figuras discursivas como objetos do mundo e a linguagem como capacidade de representação. Ao se questionar essa função representativa da linguagem, tornou-se lugar comum considerar que esses objetos do mundo, dados ao conhecimento e à percepção humana, quando apreendidos sob as condições de produção de sentido, passam por um procedimento de construção e não de representação e que, portanto, o discurso não representa os objetos de que fala, nem os indivíduos que falam no processo de interação, mas os constitui como sistemas de referência e situam os sujeitos em posições de fala, assegurando determinada percepção do real aos indivíduos, enquanto usuários da língua.

As discussões resultam de projeto de pesquisa mais amplo “Cognição e Discurso: por uma abordagem discursiva e cognitiva integrada da produção de sentido na linguagem humana”, cujo objetivo foi promover um diálogo entre essas duas abordagens da produção de sentido, assumindo como pressuposto teórico que duas dimensões, a discursiva e a cognitiva, estão intrinsecamente imbricadas no processo de construção de sentido, de tal forma que uma pressupõe a outra. Da perspectiva da abordagem discursiva, adotamos a abordagem discursiva da Análise Crítica do Discurso, assumindo como postulado teórico que os processos de

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produção de sentido caracterizam-se como fatores fundamentais para assegurar a constituição de uma ordem consensual capaz de garantir a eficácia dos jogos de linguagem na busca do sentido pretendido. Nessas discussões, fazemos coro a vários estudiosos que têm apontado para a necessidade de a Análise Crítica do Discurso abrigar em seu quadro teórico considerações acerca dos processos cognitivos envolvidos na compreensão dos discursos. Desse modo, pretendemos com esse trabalho avançar um pouco nessa discussão, buscando, para isso, refletir sobre uma possível articulação entre esses dois quadros teóricos, aquele da Teoria da Relevância e o modelo teórico da Análise Crítica do Discurso. 1. O modelo teórico da Teoria da Relevância

Tomar como ponto de partida discursivo o quadro da ACD implica adotar uma abordagem teórico-crítica do discurso, na qual se considera a linguagem como uma prática social. Para nós, compreender o discurso como uma prática social constitui um modo de repensar a produção dos sentidos que circulam no meio social como uma inscrição dos sentidos produzidos em um sistema de referência, de acordo com o qual as formas de pensar e agir no mundo estão organizadas. Segue dessas considerações, a necessidade de se buscar uma teoria dos procedimentos cognitivos que nos permita compreender a linguagem como uma prática social e como uma capacidade cognitiva para a produção de sentido. Há nessa perspectiva, no nosso entendimento, uma concepção dialética: se a produção de sentido pressupõe um processamento cognitivo do enunciado percebido, o processamento cognitivo, requerido nas interações com o mundo depende, por sua vez, da produção de sentido para que, como já observamos, possamos acionar os sistemas de referência que organizam essa relação com aquilo que chamamos de realidade, enfim, com o mundo das vivências.

Nessa linha de raciocínio, se considerarmos que a interação com o mundo e com os agentes sociais neles situados submete-se a um conjunto de crenças e valores sociais que é responsável pela compreensão que se tem dessas interações, não há como desconsiderar o papel do processamento cognitivo como um mecanismo responsável por esse sistema de crenças e valores. Para Van Dijk (1998), as relações de poder que se engendram, bem como os efeitos de dominação e manipulação produzidos no e pelo discurso derivam da capacidade das representações discursivas do mundo, dos agentes e dos eventos descritos de influenciar po modo de pensar dos indivíduos históricos e consequentemente sua ação no mundo.

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Sob essa perspectiva, esse sistema de crenças e valores só se constitui socialmente e adquire legitimidade a partir de uma ordem consensual que define os sentidos do verdadeiro ou do provavelmente verdadeiro para uma determinada ordem social, num tempo e espaço histórico

e cultural determinado. Mais ainda, torna-se necessário assegurar a constituição e o

funcionamento dessa ordem consensual, que reproduz e garante a manutenção da organização social, para que as interações sejam possíveis. Afinal, os interlocutores, ao interagirem-se, situam-se como sujeitos históricos e, portanto, em consonância com crenças e valores sociais

e com a cultura da comunidade. Há que considerar, no entanto, que embora sujeitos

históricos, os interlocutores devem apreender sua experiência individual e, para isso, precisam

se situar na dinâmica dos sentidos produzidos afirmados nessa ordem consensual a que estão

submetidos. É necessário, como sujeitos histórico-culturais, que os interlocutores, por exemplo, façam inferências, estabeleçam relações de implicação, retomando saberes que se apresentam muitas vezes subliminares; implícitos que, por esse funcionamento, asseguram a estabilidade do sentido. Essa negociação do sentido possível com o sentido estabilizado na ordem consensual constitui o jogo de linguagem com o qual os interlocutores devem se haver para viver e significar sua experiência de mundo,

Parece-nos, portanto, interessante e produtivo considerar um modelo teórico, como a Teoria da Relevância, como proposta por Sperber e Wilson (2004) e retomada nos trabalhos de Moeschler (1994,1996) entre outros, que, por propor um sistema de interpretação dos enunciados na qual se opera uma análise linguística e uma análise inferencial dos enunciados.

A análise linguística surge como possibilidade, como vimos, da concepção de linguagem

como prática social. A abordagem da ACD parece-nos relevante quando se considera outra característica fundamental da TR. De acordo com essa teoria cognitivista, no processamento do sentido torna-se necessário postular a construção do contexto de realização em que os enunciados aparecem e devem ser interpretados. Desse ponto de vista, o contexto é construído enunciado por enunciado, resultando de um conjunto de proposições contextuais, derivado da interpretação dos enunciados precedentes, dos consequentes, do ambiente situacional em que esse o ato de comunicação ocorre e, por fim, da memória de longo termo, de acordo com a qual as informações acerca do mundo podem ser acessadas.

As informações presentes na memória de longo termo são, de acordo com essa abordagem, de três tipos: lógica, enciclopédica e lexical. As informações lógicas correspondem a relações lógicas estabelecidas entre os conceitos, ao passo que as informações enciclopédicas referem-

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se aos conhecimentos que os sujeitos possuem e acionam e, por fim, as informações lexicais

dizem respeito ao conhecimento linguístico. A compreensão do enunciado conta ainda com a noção de ambiente cognitivo, compreendido como um conjunto de fatos manifestos num dado

momento histórico ao qual o indivíduo, enquanto um sujeito historicamente situado, tem

acesso. Esse conjunto de fatos manifestos deve estar organizado de tal forma que os interlocutores sejam capazes de reconhecê-los, representá-los, aceitando-os como verdadeiros

ou

provavelmente verdadeiros.

(1) Ambiente cognitivo

O ambiente cognitivo de um indivíduo é um conjunto de fatos que lhe são manifestos

(2) Um fato é manifesto para um indivíduo em um dado momento se e somente se ele é capaz de representá-lo mentalmente e de aceitar essa representação como verdadeira ou provavelmente verdadeira (Moeschler, 1994, p. 23)

O

ambiente cognitivo, como expresso em Moeschler, pode ser compartilhado, definindo-se

como um ambiente cognitivo mútuo quando os indivíduos em uma interação reconhecem um mesmo conjunto de fatos manifestos sendo capazes de representá-los e aceitá-los. Como Moeschler observa, a partir do ambiente cognitivo são extraídas as assunções contextuais que

oferecerão as diretrizes para a interpretação dos enunciados produzidos na interação. Contudo,

a escolha de uma ou outra assunção contextual depende da aplicação do Princípio de

Pertinência que pressupõe em todo ato de comunicação sua pertinência ótima, definindo-a como em (3):

(3) a. Todas as escolhas são iguais no todo, quanto mais um enunciado, interpretado em relação a um contexto, produzir efeitos contextuais, mais esse enunciado é pertinente.

b. Todas as escolhas são iguais no todo, quanto mais um enunciado, interpretado em relação a um contexto, demande esforço de tratamento, menos esse enunciado será pertinente.

Se considerarmos essa conceituação da Pertinência dos enunciados, a questão que se coloca refere-se ao modo como essa pertinência se institui, na medida em que ela depende da relação indiretamente proporcional ao esforço de tratamento do processamento cognitivo. Disso

530

resulta que se os enunciados são interpretados em relação ao contexto, essa noção assume uma importância fundamental para o quadro da Teoria da Pertinência. Contudo, o que define um contexto? Como ele se constitui? É possui delimitar as fronteiras do contexto de um enunciado? O que está dentro e o que está fora dos limites desse contexto? Mais ainda: como garantir, essa nos parece a questão se considerarmos a linguagem como uma prática social, a otimização do contexto, para que assunções possam ser produzidas a partir do estímulo enunciativo?

De uma perspectiva discursiva, no entanto, poderíamos contribuir com a TR por pressupor que a aceitação desses fatos como verdadeiros poderia ser altamente restritivo do ato de fala em uma comunidade de fala, na medida em que a aceitação pressupõe um estar em acordo, o que não é necessariamente relevante para o ato de comunicação em si mesmo. Compreendemos que a perspectiva da TR implica considerar a relevância do ato comunicativo em si, mas ao fazer isso desconsidera a recepção desse ato de fala e as condições de produção de sentido no qual esse dizer se constitui. Parece-nos importante considerar que os fatos manifestos que compõem o ambiente cognitivo sejam apreciados e que essa apreciação organizará o evento interativo, promovendo a negociação dos sentidos produzidos. Segue desse ponto de partida a possibilidade da integração de uma análise pragmática de caráter cognitivo, inferencial com uma perspectiva discursiva que compreende o sentido produzido como resultado de negociações e não como algo que preexiste ao próprio ato de enunciação numa determinada situação de interação específica.

Segue um ponto relevante, nesse trabalho, a compreensão de que o contexto caracteriza-se como o resultado de uma construção. Dessa forma, ainda que ele seja responsável pela interpretação dos enunciados, oferecendo injunções contextuais, o contexto só se constitui como produto desse enunciado, quando se considera uma situação real de comunicação, na qual encontramos sujeitos que, como locutores, possuem intenções para dizer aquilo que dizem. Não se discute aqui outras questões referentes ao sentido discursivo que trazem outras problemáticas, mas o sentido naquilo que a TR se coloca como interpretação de um enunciado. Se um indivíduo possui intenções de dizer algo, se se considera a linguagem como uma prática social de intervenção, então não há como não levar em consideração o fato de que seu enunciado será produzido para cumprir essa intenção e, como tal, serão construídos contextos nos quais ele tenha validade, para que possa ser eficaz e cumprir sua função comunicativa.

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Considerem o diálogo entre o enunciado-texto “Os ‘hoyts’ é nosso”, em (4), e alguns outros enunciados, que enumeramos logo em seguida, produzidos a partir da publicação do enunciado (4).

(4) Os ‘hoyts’ é nosso

Erro de grafia

Seria cômico se não fosse deprimente. Mas no primeiro dia do encontro dos prefeitos, Em Brasília, já deu para sentir o nível de instrução e escolaridade de alguns mandatários de cidades do país. A presidente da União dos Municípios da Bahia, Maria Quitéria, resolveu estender uma faixa, na Esplanada, para marcar posição e reivindicar seu quinhão na distribuição dos royalties do petróleo. Até aí, beleza. Mas eis o texto: “A presidenta da União dos Municípios da Bahia, Maria Quitéria, e os prefeitos baianos presentes na luta dos hoyts (sic) pela Bahia e pelo Brasil”. É triste. (Lauro Jardim)

(5) 29/01/2013 às 22:42- Pois é Lauro, sou do tempo em que os corruptos no Brasil eram ilustrados…Mesmo quando roubavam muito, sempre deixavam alguma obra civilizatória em sua passagem pelo poder…Agora os corruptos são ignorantes… deixam apenas terra arrasada

(6) 29/01/2013 às 17:16 - Se os caras são analfabetos em português, você ia querer que eles soubessem inglês

(7) 29/01/2013 às 7:24 - Coimbra, talvez por haver escrito às 3 da manhã, você tenha deixado escapar um acento, uma vírgula e o fecha parêntese. É certo que não se tem a obrigação de saber a grafia correta de palavras estrangeiras, porém é muito fácil conferir antes de publicar! No caso, a anta prejudicou toda população baiana, que não deverá receber o que não existe. No entanto, o problema maior é que a anta será a condutora das ações de uma comunidade, inclusive as de educação dos jovens.

(8) 29/01/2013 às 3:31 - Erro? Não vejo. Na frase 99% esta escrito com português correto. A única palavra escrita em outro idioma (que não é o nosso é considerado erro? Brazil! Até quando vamos nos rebaixar aos estrangeirismos? (http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/tag/hoyts/, acessado em 29/01/2013)

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Ao considerarmos como os enunciados de (5) a (8) dialogam com (4), não nos parece que a questão possa ser definida em termos de enunciados verdadeiros ou provavelmente verdadeiros, na medida em que cada qual organizou o seu sistema de referência de uma forma particular. Também não me parece que no diálogo ilustrado acima, produzido em situações reais de interação, haja algum problema quanto ao ambiente cognitivo dos indivíduos que, de uma forma ou de outra, interagem com o articulista Lauro Jardim da revista Veja. O que nos parece, ao considerar os exemplos acima, o enfrentamento de posições não derivam das postulações propostas pela Teoria da Relevância no que tange ao tratamento dado aos enunciados: todos os enunciadores de (5) a (8) fizeram a inferência, compreenderam o enunciado-texto dado em (4). Mas como tratar, por exemplo, o enunciado em (8)? Cada enunciador produziu, a partir de uma dada posição discursiva, uma inferência do texto- enunciado: depreenderam sentidos políticos em um texto, cuja questão política não me parece estar em foco. O que autorizaria, por exemplo, o diálogo entre (5), que estabelece uma relação entre o “erro de grafia”, tema do texto, e a questão da corrupção na política brasileira, entre ser político e ser culto, entre conhecer a grafia de uma língua e ser considerado culto; ou ainda, como relacionar a interação entre o texto-enunciado (4) em (7), repetido abaixo.

(7) 29/01/2013 às 7:24 - Coimbra, talvez por haver escrito às 3 da manhã, você tenha deixado escapar um acento, uma vírgula e o fecha parêntese. É certo que não se tem a obrigação de saber a grafia correta de palavras estrangeiras, porém é muito fácil conferir antes de publicar! No caso, a anta prejudicou toda população baiana, que não deverá receber o que não existe. No entanto, o problema maior é que a anta será a condutora das ações de uma comunidade, inclusive as de educação dos jovens.

No enunciado (7), o leitor faz uma crítica à escrita e à postura de um comentarista, referido como Coimbra, diante do erro do outro. Há ainda o modo como esse leitor dá sequência a seu texto, estabelecendo uma relação entre a incapacidade da escrita de uma palavra em língua ”

estrangeira, que comentou que “não se tem a obrigação de saber a grafia

e o prejuízo da

população baiana pelo não recebimento daquele que não existe. Nesse momento, faz inferência de que uma vez que a palavra estrangeira foi escrita de forma inadequada não poderia ser lida de forma adequada e, portanto, não designaria objeto algum. Mais ainda a

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relação que esse leitor entre a (in)competência da presidente da União dos Municípios da Bahia e o seu desempenho como “condutora das ações de uma comunidade”.

Essas condições de validade para os enunciados produzidos se constituem a partir de sua inscrição em um sistema de crenças, em um sistema de referência e de acordo com as intenções dos envolvidos na interação: seja por parte do alocutário que deve partir do seu sistema de referência para qualificar os enunciados do outro como pertinentes, para que eles possam produzir os efeitos de sentidos pretendidos e serem considerados verdadeiros ou provavelmente verdadeiros; seja por parte do locutor que deve assegurar que seu enunciado tenha as condições de ser legitimado naquilo que pretende e, para tanto, deve produzir um contexto de validação das assunções contextuais para assegurar os efeitos de sentido que pretende. Mas em que sentido, o enunciado (4) é pertinente para os diferentes enunciadores apresentados em (5) a (8)?

Isso implica, para nós, que a pertinência dos enunciados não pode ser definida intrinsecamente, mas submetida a condições externas e internas de produção do enunciado produzido. Não basta inserir o enunciado em uma série de enunciados, analisando aqueles que precedem e aqueles que seguem o dizer que se pretende interpretar, posto permite apenas retomar o entorno do enunciado a ser interpretado, recuperando os valores lexicais, enciclopédicos e lógicos do enunciado por estabelecer entre eles determinado tipo de relações na textualidade do discurso. O que se chama atenção aqui diz respeito ao fato de que se fala em processo de interação entre falantes que, como sujeitos situados histórica e culturalmente possuem intenções e não há como interpretar um enunciado sem levar em conta a questão claramente enunciativa na qual se pergunta pelos motivos segundo os quais alguma coisa foi dita? Ou seja, qual a intenção de dizer o que se diz? Essa pergunta não pode receber uma resposta em uma situação interativa real apenas por meio da análise dos componentes textuais que envolvem o enunciado produzido. Considere novamente o enunciado acima e os respectivos comentários gerados.

Enfim, não é da natureza dos enunciados serem pertinentes ou não. A pertinência deve ser vista como um objeto construído; é, pode-se dizer, um valor discursivo, um objeto buscado por aquele que produz o enunciado, visando sua eficácia, o que implica reconhecer no outro, destinatário desse enunciado, sua capacidade de representação e aceitação. O que está em jogo nessa discussão é a premissa clara de que estamos tratando da linguagem em uso, em

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funcionamento em uma determinada situação de fala. Segue, novamente, que a pertinência não é da natureza do enunciado em si, pois como saber se um estímulo é mais ou menos pertinente na produção do sentido pretendido pelo enunciado no ato mesmo de produção? Mais: como identificar e reconhecer os elementos linguísticos, acrescentaríamos, ou discursivos, responsáveis pela pertinência do enunciado em jogo?

Esses questionamentos tornam-se mais evidentes quando se considera a definição de relevância ótima presumida em todo ato de comunicação e, digamos, suas condições de realização:

(9) Presunção de Relevância Ótima

a. O estímulo ostensivo é relevante o suficiente para valer a pena o esforço de processamento da audiência

b. É mais relevante o (estímulo) que é compatível com as preferências e habilidades do

comunicador.)

Como os próprios autores observam, pressupõe-se a partir das condições (a) e (b) um determinado funcionamento do estímulo no qual se considera que os interlocutores esperam um estímulo ostensivo seja “relevante o suficiente para que valha a pena o esforço de processamento”. A questão que se coloca é saber se se processa um enunciado antes para saber se ele é relevante ou se ao se processar, o que parece mais viável, define-se que esse estímulo não é relevante. Se levar essa questão em conta, com essa precisão requerida pelo quadro teórico, o conceito de relevância parece perder sua validade teórica: ou porque é inútil, não diz nada acerca do processamento da linguagem; ou porque ele deve ser assumido como um princípio primeiro, como proposto, no sentido mesmo do Princípio de Cooperação de Grice (1975), de que todo dizer é dito para dizer alguma coisa. Contudo, se condição (b) reforça esse posicionamento; qual seja: se se deve prever a compatibilidade do enunciado, enquanto estímulo, com as preferências e habilidades do comunicador, como ficam as habilidades e preferências do outro, o destinatário, alocutário do enunciado produzido? Também não tem ele preferências e habilidades? Como isso pode definir a pertinência de enunciado, a não ser que se considere o enunciado como uma proposição ideal, o que implica necessariamente em desconsiderar a Teoria da Relevância como um quadro teórico que trata do uso da linguagem, na medida em que não poderia se aplicar a uma situação de interação entre interlocutores.

535

É importante frisar, portanto, que quando se pretende refletir sobre as condições de produção do sentido, sob a concepção da linguagem como prática e ação social, devem-se afirmar a algumas questões referentes ao discursivo e ao enunciativo em sua relação com a problemática do processamento cognitivo da linguagem. Assim, talvez se consiga compreender o seu funcionamento e sua capacidade de construir as condições de produção de inferências, de uma perspectiva discursiva, considerando-se, por exemplo, o papel dos sistemas de crença que tornam possível aos sujeitos viver suas vidas histórica e socialmente. É preciso ressaltar, em contrapartida e como face da mesma moeda, o papel dos processos de inferência para que os sujeitos possam processar os sistemas de referência que organizam seu modo de pensar, falar e agir no mundo em que vivem.

2. Algumas considerações finais

Como observamos acima, a compreensão dos enunciados considera ainda a noção de ambiente cognitivo comum, compreendido como um conjunto de fatos que o indivíduo reconhece e representa como falso ou verdadeiro ou ainda como provavelmente verdadeiro, uma vez compartilhado por mais de um indivíduo caracteriza-se como um ambiente cognitivo comum. Chamamos a atenção para fato de que tratamos de um texto escrito, publicado em uma revista informativa online e que isso implica imaginar que o ambiente cognitivo do locutor pode não ser partilhado. Aliás, considerando o aspecto interacional de qualquer ato de comunicação, ainda que se pressuponha sua Relevância ótima, a possibilidade de haver entre dois ou mais interlocutores uma diferença em termos de ambiente cognitivo deve ser levada em conta. Desse modo, os fatos podem não ser manifestos da mesma maneira e, portanto, ser representados diferentemente, fazendo com que os indivíduos qualifiquem como falsa uma representação que para o outro é verdadeira. Nessa perspectiva, entende-se que o jogo interacional entre interlocutores pressupõe uma construção conjunta de um ambiente cognitivo comum.

Essa hipótese, do ponto de vista da relevância, atenta para o fato de o locutor, ao produzir seu enunciado, pressupor um ambiente cognitivo comum, entendendo desse modo que a manifestação de um fato por si mesmo, pode possibilitar ou mesmo implicar uma representação aceita para o outro, no caso, seu interlocutor, como falsa, verdadeira ou

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provavelmente verdadeira. Caso contrário, compete a esse locutor, para tornar eficaz seu enunciado, construir uma representação do fato manifestado a ele como possivelmente representável e aceitável para o outro. Essa condição não implica a distância dos interlocutores; ou seja, vale para a conversação, em que os interlocutores estão presentes no momento da enunciação, como na escrita, caso do nosso exemplo, em que os interlocutores não estão presentes no momento da enunciação.

Essa hipótese está de acordo com a descrição de ambiente cognitivo exposto em Moeschler(1994, p. 23), que postula para o fato manifesto a um indivíduo uma marcação temporal tanto do ponto de vista da manifestação como de sua representação. Isso implica que o indivíduo que percebe um enunciado, num tempo de enunciação específico, pode não aceitar a representação do outro como verdadeira, falsa ou provavelmente verdadeira, nesse momento de percepção. Nesses termos, o ambiente cognitivo mútuo será construído visando construir uma representação dos fatos comum aos interlocutores. Assim, o locutor apresenta um fato que lhe foi manifestado num dado momento e busca construir um ambiente cognitivo através da produção de seus enunciados de modo que o interlocutor possa aceitar essa representação como possível, caracterizando a Relevância do enunciado produzido. No caso da conversação, essa construção é negociada conjuntamente, buscando uma representação possível para os interlocutores envolvidos nessa interação. No caso da escrita, o locutor constrói, através de seus enunciados, uma rede de relações objetivando construir esse ambiente cognitivo comum.

Assim, sob a perspectiva da Teoria da Relevância, a presunção da Relevância ótima de todo ato de comunicação, pressupõe que o locutor no momento de produção desse ato ou acredita que seus interlocutores compartilham de seu ambiente cognitivo, portanto, acredita na existência de um ambiente cognitivo mútuo ou então ele constrói esse ambiente. Caso contrário, o interlocutor pode questionar a relevância desse ato de comunicação, levando a questionar a relevância daquilo que se diz. Nesses termos, os enunciados requerem a construção de um contexto de interpretação, de acordo com o qual o locutor exponha os motivos segundo o quais o seu enunciado se justifique, tornando possíveis os fatos que pretende tornar manifestos e possa assegurar, assim, a inferências adequadas para a compreensão do seu enunciado. Contudo, como Giora(1997) sugere a Relevância não é uma via de mão única, ela pressupõe os dois lados da interlocução: o locutor elege a informação que lhe é pertinente e ou interlocutor atenta para o que é relevante para si. Como a autora

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observa os “Ouvintes vão prestar atenção apenas à informação que parece relevante para eles, ou seja, a informação que enriquece o seu conjunto de premissas com um custo razoavelmente pequeno.” (p.18).

Assim, se o princípio de relevância, como sugere Giora(1997), restringe a escolha do contexto, se é a busca de relevância que determina o contexto, é necessário pressupor que a relevância não se define senão como um objeto construído na interação entre os

interlocutores. Caso contrário, torna-se necessário pressupor uma categoria definida a priori e

o problema permanece: o que define a relevância, apenas o fato de ela ser pressuposta em

todo ato de comunicação ostensiva. Acontece que o custo do processamento depende de certa

forma do ambiente cognitivos dos indivíduos; ou seja, um indivíduo pode ouvir um enunciado

e criar contextos de interpretação para esse enunciado sem custo algum ou com menor custo,

ao passo que outro pode ouvir o mesmo enunciado a um custo maior e fazer opção então por aquela interpretação de menor custo; mas essa escolha das proposições contextuais está restrita pelo princípio de Relevância ou pelo ambiente cognitivo do indivíduo ou ainda pela inexistência de um ambiente cognitivo comum entre o locutor do enunciado e o interlocutor que o interpreta. Mas é importante considerar, sob uma perspectiva enunciativa que essa divergência de posições pode definir uma situação de polêmica e não necessariamente de incompreensão, na medida em que justamente por ser relevante e pelos interlocutores não partilharem o mesmo ambiente cognitivo fazem inferências distintas e, por isso, discordam. Isso pode ser observado na comparação dos enunciados (4) a (8) apresentados acima.

Se considerado sobre esse prisma, o princípio de Relevância não diz nada, senão de si mesmo. Para evitar essa impropriedade, é necessário supor que o ambiente cognitivo, mútuo ou não, que possibilita os efeitos contextuais seja construído para que torne eficaz o princípio de Relevância. Voltando à carga, nenhum ato comunicativo pode ser pertinente a menos que pressuponha que os interlocutores compartilham um ambiente cognitivo comum. Parece-me que, sob essa perspectiva, aquilo que se chama de Relevância não se insere nos usos linguageiros, sendo uma categoria absoluta, implicando a existência de situações de interação lingüísticas ideais. Ao contrário, uma proposta que busque situar a questão do ambiente cognitivo como uma construção remete para situações de interação reais.

Por fim, há que reconsiderar o Princípio de Relevância de uma perspectiva não idealista, mas aquela que envolve o usuário da língua em situações reais de uso, julgando e avaliando os

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enunciados como resultados dos estímulos percebidos, mas também é preciso reconhecer também que a que a relevância não está no enunciado, mas que, como ocorre com toda produção de sentido, ela surge negociada, na medida em que se devem considerar outras variantes no processamento do sentido: entre elas, a posição do alocutário, suas habilidades, preferências e principalmente seu sistema de referência, responsável pelo modo com ele organiza e atua no mundo em que vive. É preciso compreender ainda que a relevância é o objeto de discurso em disputa, aquilo pelo que se luta e se constrói na arena discursiva, pois assegurar um dado sentido como verdadeiro implica sua estabilização e inscrição nos sistemas de referência do outro. Portanto, a relevância pode ser um conceito importante se melhorado e ampliado, pois, lembrando Barthes, podemos observar com ele que os discursos são fascistas:

lutam para vencer o dialogismo constitutivo da linguagem, objetivando o dizer único e sua qualificação como verdadeiro; os discursos visam, enfim, instaurar o império da monofonia para definir, desse modo, como os sujeitos devem atuar e significar suas experiências de mundo.

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540 RELEVÂNCIA E MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA: ANÁLISE DE ENTREVISTAS COM OS CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS

RELEVÂNCIA E MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA: ANÁLISE DE ENTREVISTAS COM OS CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS

Eliane Velloso Missagia 219 Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ) lilivellomi@hotmail.com

Resumo Este trabalho objetiva investigar os procedimentos linguístico-discursivos utilizados nos processos de representações sociais em entrevistas feitas com os candidatos à presidência dos Estados Unidos em 2012, Mitt Romney e Barack Obama. Partimos da noção de que os textos midiáticos podem assumir caráter manipulador ao trazer representações que satisfaçam os interesses de determinados grupos. Assumimos também que as entrevistas atuam nesse processo e se caracterizam por um jogo entre interlocutores no qual ocorre uma disputa de poder em torno dos sentidos que constituiriam suas visões de nação, da crise econômica, bem como das necessidades dos americanos. É feita, portanto, uma investigação da relação entre mídia e os processos de constituição da opinião pública sob a problemática da manipulação. Do ponto de vista metodológico, este trabalho adota como proposta uma articulação entre a Teoria da Relevância, Sperber e Wilson (2002) e a Análise Crítica do Discurso, partindo das noções de Van Dijk (2008) e de Van Leeuwen (2008), como uma forma de se investigar as práticas representacionais dos interlocutores em questão.

Palavras-chave:

Eleições americanas, Representações Sociais,

Manipulação,

Teoria

da

Relevância

219 Aluna de mestrado pela UFSJ - Bolsista Capes

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Introdução As eleições para presidente dos Estados Unidos, realizadas no dia 06 de Novembro de 2012, receberam grande destaque durante o período de campanha. Seu caráter acirrado, revelado pelas pesquisas de intenções de voto, soma-se ao fato de se tratar de um país onde o voto não é obrigatório, o que pode tornar ainda mais desafiadora a tarefa de convencimento do eleitorado. Como consequência, pode-se esperar que, em suas declarações públicas, os candidatos Barack Obama e Mitt Romney tenham se empenhado na tentativa de atuar a favor de suas respectivas campanhas. Dentro desse contexto, este trabalho busca investigar os procedimentos lingüístico- discursivos utilizados nos processos de representação operados pelos dos candidatos em questão, ao serem entrevistados. Nesse sentido, buscou-se observar as estratégias manipuladoras utilizadas pelos mesmos, partindo do princípio de que o objetivo da manipulação seria o controle das representações sociais compartilhadas pelas pessoas. Sendo assim, as versões de mundo preferidas dos grupos poderosos são colocadas em destaque e seus interesses são atendidos. Articula-se a esse quadro a Teoria da Relevância de Sperber e Wilson (2002), partindo da noção de que a aceitação de determinadas representações como verdadeiras ou possivelmente verdadeiras se dá pela constituição de enunciados que serão aceitos como relevantes, uma vez que, de acordo com o princípio comunicativo da teoria de Sperber e Wilson, a relevância de um enunciado seria atestada pela simples produção do mesmo, considerando-se que um falante cria a expectativa de relevância ótima pelo próprio ato de dirigir-se a alguém. Nesse sentido, as representações sociais construídas poderiam ser facilmente aceitas pelos leitores. Nossa preocupação volta-se, portanto, para relações entre linguagem e poder, atentando para a importância da linguagem nas relações e lutas de poder e, principalmente, para as relações entre manipulação e discurso. Dessa forma, foram selecionadas duas entrevistas, uma com Barack Obama, inserida na revista “Rolling Stone” (13 de Setembro de 2012), e outra com Mitt Romney, concedida ao ABC News (25 de Outubro de 2012). Buscamos investigar o processo de produção de sentido no domínio político a partir de seis enunciados das entrevistas em questão, adotando uma proposta metodológica que articule a Análise Crítica do Discurso e a Teoria da Relevância. Nessa perspectiva, a linguagem se relaciona com a experiência social dos sujeitos, de maneira que os contextos social e político em que se inserem os leitores das entrevistas em questão atuam sobre o processamento das informações veiculadas, determinando a interpretação dos enunciados e até mesmo as suas capacidades de resistir a investidas manipuladoras.

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1. Manipulação Discursiva e Representações Sociais Segundo Van Dijk (2008), a manipulação é uma das várias noções cruciais na Análise Crítica do Discurso que requerem atenção especial por implicarem abuso discursivo de poder.

O autor ressalta que a maior parte da manipulação desenvolve-se através da fala e da escrita e

observa que a manipulação não envolveria apenas o exercício do poder, mas o abuso de poder, a dominação, constituindo uma forma de influência deslegitimada por meio do discurso, onde os receptores são vistos como vítimas, uma vez que não possuiriam as ferramentas necessárias para resistir à manipulação. Ainda segundo o autor, o que define essa forma de convencimento é, principalmente, servir aos interesses de grupos poderosos e ferir

os interesses dos grupos menos poderosos, reproduzindo ou podendo reproduzir desigualdade. Van Dijk propõe a adoção de um marco teórico multidisciplinar global, triangulando uma abordagem social, cognitiva e discursiva. Nesse sentido, a manipulação seria um fenômeno social, porque envolve a interação e o abuso de poder entre os atores sociais; um fenômeno cognitivo, porque implica a manipulação das mentes dos participantes; e um fenômeno discursivo, porque é exercida, principalmente através da escrita e da fala. O autor ainda ressalta que uma das condições para se exercer dominação é o acesso aos meios de comunicação de massa e ao discurso público, um privilégio frequentemente compartilhado pelos membros da elite simbólica (políticos, jornalistas, acadêmicos, professores, etc.). Nesse sentido, ele observa que a manipulação “precisa ser definida em termos de grupos sociais, instituições ou organizações” (VAN DIJK, 2008, p. 239). A manipulação ocorre, portanto, quando falantes e escritores estão manipulando os outros em seus papéis como um membro de uma coletividade dominante. O autor atenta para o fato de que a manipulação envolve o controle das mentes, ou seja, dos conhecimentos, opiniões e ideologias, os quais, por sua vez, controlam as ações dos indivíduos. Nesse sentido, o discurso envolve o processamento da informação na memória de curto prazo, resultando na compreensão dos enunciados, “esse processo é estratégico no sentido de ser propositalmente direcionado, operar em vários níveis da estrutura do discurso e ser hipotético” (VAN DIJK, 2008, p. 241). O discurso manipulador, no entanto, direciona-se para resultados mais estáveis e foca na memória de longo prazo: conhecimentos, atitudes e ideologias. Os manipuladores utilizariam, portanto, estratégias discursivas para a formação e ativação de seus modelos preferidos, manipulando discursivamente o modo como os receptores entendem um evento.

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A forma de manipulação mais influente se concentra nas crenças mais gerais e abstratas, de maneira que, como observa Van Dijk, se um partido político quer aumentar sua popularidade com os eleitores, tentará mudar de forma positiva a atitude dos eleitores em favor desse partido. “A manipulação, assim, centraliza-se na formação ou modificação de representações mais gerais socialmente compartilhadas sobre importantes questões sociais” (Van DIJK, 2008, p. 246).

A manipulação é ilegítima em uma sociedade democrática porque (re)produz ou pode (re)produzir desigualdade: ela serve aos interesses dos grupos poderosos e seus falantes e fere os interesses dos grupos e falantes menos poderosos. (VAN DIJK, 2008, p. 239)

Admitindo o papel desempenhado pelas representações sociais nesse processo, faz-se necessário destacar as proposições de Van Leeuwen (2008), que afirma que todos os textos, todas as representações de mundo devem ser interpretados como representações de práticas sociais alem de como interações. Por isso, o autor ressalta a importância de se considerar a diferença entre a prática social e a representação da prática social e as diferentes maneiras pelas quais uma mesma prática social e seus elementos podem ser representados. Sendo assim, o autor destaca: “[…]I will insist on the difference between “doing it” and “talking about it,” and on the plurality of discourses—the many different possible ways that the same social practice can be represented […]” (VAN LEEUWEN, 2008, p. 6) Dentro do quadro teórico desenvolvido por Van Leeuwen, destaca-se a noção da construção da legitimação discursiva. O autor admite a existência de quatro categorias de legitimação: (a) pela autorização, que é a autorização pela referência à autoridade de uma lei, de uma tradição ou de uma pessoa investida de autoridade institucional; (b) pela avaliação moral; (c) pela racionalização; e (d) pela mythopoesis, que são narrativas que retratam recompensas para ações legítimas e punições para ações ilegítimas ou desviantes. As escolhas na produção dos enunciados são importantes, na medida em que revelam os discursos que os atravessam. Nesse sentido, os entrevistados têm, diante de si, um sistema linguístico a partir do qual irão construir a sua própria representação do mundo e dos sujeitos sociais. Os enunciados produzidos serão inferencialmente interpretados pelos leitores, que, por sua vez, podem ou não estar munidos das ferramentas necessárias para resistir à manipulação discursiva. Dessa forma, ressalta-se a importância de se analisar as práticas representacionais dos entrevistados, uma vez que estes podem estar fazendo uso de

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movimentos manipuladores para controlar as representações sociais compartilhadas por grupos de pessoas.

2. Teoria da Relevância Propõe-se, nesse trabalho, uma articulação entre a Análise Crítica do Discurso e a Teoria da Relevância, uma abordagem inferencial à pragmática que se baseia em dois princípios gerais: o princípio cognitivo (de que a mente humana busca a maximização da relevância) e o princípio comunicativo (de que os enunciados geram expectativas de sua relevância). A teoria da relevância seria, segundo Sperber e Wilson (2002, 2004), uma tentativa de desenvolver o modelo inferencial de Grice, que, também segundo os autores, veio com a intenção de estabelecer uma alternativa ao modelo de código. A meta da pragmática inferencial é descrever como o receptor infere o sentido do emissor com base nas evidências fornecidas e, segundo Sperber e Wilson, as expectativas de relevância levantadas por um enunciado são precisas e previsíveis o suficiente para guiar o ouvinte ou o leitor ao significado do falante ou escritor. No caso da entrevista, chamamos atenção para o fato de que o enunciado de pergunta juntamente com o enunciado de resposta seriam responsáveis pelo levantamento das expectativas de relevância e, consequentemente, pela orientação do leitor ao significado do entrevistado, pois ambos atuariam na construção de um ambiente cognitivo favorável à interpretação dos enunciados. Segundo os autores, um input é relevante para um indivíduo quando se conecta a conhecimentos prévios, gerando efeitos cognitivos positivos, de maneira que o seu processamento valha à pena. Dessa maneira, deve haver um equilíbrio entre efeitos cognitivos e esforço de processamento. Nesse sentido, Rauen (2005) observa , ao descrever as proposições da Teoria da Relevância, que um leitor, engajado no processo de compreensão, tem o objetivo de atingir uma interpretação que satisfaça sua expectativa de relevância ótima. Dessa maneira, ele, com base na codificação lingüística e seguindo um caminho do menor esforço, deve enriquecer o enunciado explícito até alcançar uma interpretação que satisfaça suas expectativas de relevância. Nesse processo, ocorre o enriquecimento pragmático da forma lógica não proposicional, de modo que se obtenha uma explicatura. É também possível que existam premissas implicadas que geram conclusões implicadas nesse processo, essas conclusões seriam as implicaturas, ou seja, as possíveis interpretações pretendidas pelo enunciado. Ocorre, portanto, no processo de interpretação dos enunciados, uma articulação

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entre os enunciados de base, ou seja, dos elementos codificados linguisticamente, com as informações prévias dos leitores: informações enciclopédicas, lexicais ou lógicas. Ao propor uma articulação entre a noção de manipulação discursiva e a perspectiva da Teoria da Relevância, este trabalho defende que, muitas vezes, os efeitos cognitivos alcançados podem parecer um avanço epistemológico, ou seja, um acréscimo de conhecimento para o leitor, mas, na verdade, eles estariam atuando de forma ilegítima na representação de mundo que esse leitor tem. Sendo assim, compreende-se que a expectativa de relevância levantada pela comunicação ostensiva de enunciados pode tornar difícil a identificação da reprodução do poder por meio do discurso, uma vez que o leitor espera a relevância máxima do enunciado produzido. Nessa perspectiva, a relevância atribuída aos enunciados poderia facilitar a constituição das representações como verdadeiras ou provavelmente verdadeiras. Caracterizadas e reconhecidas como tal, essas representações, presentes em entrevistas e em outros gêneros textuais, assumem um papel importante na manipulação por garantir que os interlocutores compartilhem a crença nessa verdade fabricada.

3. Análise dos dados:

3.1. Entrevista com Mitt Romney:

Para a compreensão dos enunciados, o leitor deverá acessar determinados conhecimentos prévios relacionados a eventos próximos à data da entrevista, às políticas de relações externas dos partidos democratas e republicanos, a conflitos, dentre outros 220 . Passemos, portanto, à análise do seguinte fragmento inicial F 1, o qual já se encontra desenvolvido em sua forma lógica proposicional:

F 1 : “STEPHANOPOULOS: Boy, there has been quite a controversy in the last

couple of days [poucos dias anteriores à entrevista], since those killings in Libya, the chaos in the Middle East. And we [ouvintes do discurso de Romney] heard some of that at your [de Romney] event today. President Obama has stepped in [a respeito dos ataques] as well. He [Obama] said your [de Romney] comments

220 Admite-se que, ao descrever as possíveis inferências do leitor, por mais que se busque objetividade, é inevitável que o esforço de compreensão particular do analista transpareça. Torna-se necessário ressaltar que o que se pretende é ilustrar como as informações poderiam ser inferencialmente processadas e compreendidas nesse ato comunicativo.

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on Tuesday night displayed a tendency of yours [de Romney] to “shoot first and aim later.” What’s your [de Romney] response? MITT ROMNEY: Well, early on [antes da declaração de Romney], with the developments [ações violentas] in Egypt, the embassy [embaixada Americana] there [no Egito] put out a statement which stayed up on their [da embaixada] website for, I think, 14-15 hours.”

A embaixada americana no Cairo, na época da divulgação do filme “The innocence of muslins”, cujo conteúdo ofensivo desencadeou os ataques à embaixada, divulgou a seguinte declaração: “We firmly reject the actions by those who abuse the universal right of free speech to hurt the religious beliefs of others.” A essa declaração, Romney responde publicamente: “It’s disgraceful that the Obama administration’s first response was not to condemn attacks on our diplomatic missions, but to sympathize with those who waged the attacks.” Temos, portanto, a declaração feita pela embaixada americana que, segundo Romney, teria sido rapidamente retirada, e o comentário de Romney, ao qual Obama responde dizendo que o oponente “atira primeiro e mira depois”. A resposta atingirá relevância ao responder à acusação de Obama, de que Romney atira primeiro e mira depois. Nesse sentido, a partir de informações enciclopédicas, é possível levantar a suposição de que ele está fazendo referência à postura ofensiva de Romney e do partido Republicano, no que diz respeito à política externa, principalmente com relação aos países do Oriente Médio. Romney, por sua vez, responde tratando da retirada da declaração por parte da embaixada. Essa resposta deve ser relacionada à acusação feita por Obama, uma vez que se espera a relevância ótima do enunciado. Sendo assim, serão levantadas informações a respeito do ato de “retirar o que se diz”. Quando se retira algo que foi dito, pode-se supor que foi um erro dizê-lo e que houve precipitação por parte de quem o disse, o que pode remeter à expressão utilizada por Obama: “atira primeiro, mira depois”. Dessa maneira, constrói-se o contexto cognitivo favorável à interpretação da resposta de Romney, e encontra-se a implicatura possivelmente pretendida: I 1 : O próprio governo americano atirou primeiro e mirou depois, ao fazer a declaração e concorda que ela é inapropriada, uma vez que a retirou horas depois de divulgá-la. Romney, portanto constrói uma representação do então governo americano que condiz com as acusações feitas a ele por Obama, levantando a possibilidade de hipocrisia do oponente. Nesse sentido, observa-se a estratégia geral da manipulação discursiva constituída pela outro-apresentação negativa, a qual Van Dijk (2008) considera bastante típica do relato tendencioso dos fatos. Ao mesmo tempo, Romney defende sua posição ao sugerir que a

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embaixada americana, da mesma forma que ele, considerou a declaração contra a intolerância religiosa inapropriada dentro daquele contexto. Dessa maneira, o recuo da embaixada em sua declaração seria a afirmação de que Romney está certo: Tal declaração não deveria ter sido feita, e o país não deve se desculpar por seus valores morais de liberdade de expressão. Partindo da perspectiva de Van Leeuwen (2008), identifica-se, na resposta de Romney, a legitimação por modelo de autoridade, ou seja, se Obama se comporta dessa maneira, Romney também estaria autorizado a fazer o mesmo. Romney sugere que Obama tenha uma política tão ofensiva quanto a do partido republicano. É necessário ressaltar que Romney não recusa a caracterização atribuída a ele por Obama, ele não nega que “atira primeiro e mira depois”, apenas afirma que o outro candidato não é diferente, desviando a atenção do leitor para as ações do oponente. Dessa maneira, o entrevistador segue com suas perguntas:

F 2 : “GEORGE STEPHANOPOULOS: How about the film that seems to have sparked all this, the ‘Innocence of Muslims’ film? Secretary Clinton today [25/10/2012] said she [Secretária de estado Hillary Clinton] thought it [o filme] was disgusting. How would you [Romney] describe it [o filme]? Mitt Romney: […] Of course, we [americanos] have a First Amendment. And under the First Amendment, people are allowed to do what they [pessoas que vivem em território onde a primeira emenda se aplica] feel they want to do. They have the right to do that (o que quiserem), but it’s not right to do things that are of the nature of what was done by, apparently this film [‘The innocence of Muslims’].”

Ao fazer referência à primeira emenda, ele nos remete a questões de liberdade e nossas expectativas de relevância limitam a noção, destacando a suposição de que se trata da liberdade de expressão, uma vez que o que está em jogo é a divulgação de um filme. Dessa maneira, a questão da liberdade de expressão é levantada, legitimando a produção do filme pela autoridade impessoal de uma lei e levantando a suposição de que condenar aqueles que o divulgaram seria atuar contra a liberdade de expressão assegurada pela primeira emenda. Ele constrói, em seguida, outra oração adversativa em relação à anterior deslegitimando a produção do filme pela avaliação moral, ou seja, com referência a sistemas de valores, mas sem a legitimação de normas oficiais. Há, dessa maneira, uma contraposição entre o “ser permitido por lei” e “ser moralmente correto”. Acrescenta-se a essa distinção o uso do termo “apparently”, como um advérbio de modo relacionado à ofensa cometida pelo filme, colocando em dúvida a crença de

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que o filme possa ter ofendido alguém. Constrói-se, portanto, a implicatura I 2 : Os que produziram e divulgaram o filme estavam apenas exercendo seu direito de se expressar, mas as normas de boa conduta não permitem o ataque a outras religiões, se é que houve mesmo um ataque. Romney parece sugerir um contraponto entre a liberdade garantida pela lei dos estados Unidos e o sistema jurídico adotado pela maioria dos países muçulmanos, baseado nos ensinamentos do Islã. Para Van Dijk, a estratégia do discurso manipulador é se concentrar, discursivamente, nas características cognitivas e sociais do receptor, as quais o tornam menos resistentes à manipulação. Nesse sentido, o uso de noções de liberdade em tal contraposição, pode fazer apelo a emoções relevantes do eleitorado. Dessa maneira, ao fazer referência à primeira emenda, dizendo “nós (americanos) temos a primeira emenda”, supõe-se que “eles (islâmicos) não tem a primeira emenda”. Observa-se, a polarização discursiva e, mais uma vez, o uso da estratégia de manipulação discursiva constituída pela auto-apresentação positiva, ao sugerir a superioridade moral dos Estados Unidos, que permite debate, propagando a liberdade de expressão e a outro-apresentação negativa, ao fazer referência à ausência de um sistema de leis que assegure a liberdade de expressão em países islâmicos. Ao tratar da primeira emenda, ele também se envolve em um movimento manipulador, fazendo referência a “normas, valores e ideologias fundamentais que não possam ser negados ou ignorados” (Van DIJK, 2008, p.255). No entanto, a liberdade de escolha religiosa, contra a qual o filme atenta, é deixada de lado. Nesse sentido, vale destacar que, no caso das influências ilegítimas do processamento discursivo, determinadas informações são ressaltadas em detrimento de outras, fazendo com que o resultado da compreensão seja parcial, como sugere Van Dijk (2008). Segue o último enunciado da entrevista de Mitt Romney:

F 3 : “GEORGE STEPHANOPOULOS: […] The president (Barack Obama) said last night [24/10/2012] that Egypt is not an ally [dos Estados Unidos]. Do you [Romney] agree [que o Egito não seja aliado]? And what would you do about it [sobre a aliança entre Egito e EUA]? Romney: Well, right now, officially, Egypt is an ally of the United States, under the policy of the United States.[…] And George, this nation [Egito] has a population of 80 million people. This [Egito] is the heart of the Arab world. It’s important for us [norte americanos] to establish relationships with the people there [no Egito], with the government there [no Egito], to draw them [Egípcios] into a sphere of influence such that they– they’re a peaceable nation [Egito] […] And if I [Romney] were president, I would do virtually everything in my [de Romney] power to make sure they [Egípcios] understand what the requirements

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are to remain an ally of the United States, and to help them [Egípcios] understand how important it is for them [Egípcios] to be an ally of ours [dos

Estados Unidos] and the West.”

Por mais que, a princípio, Romney declare que o Egito é um aliado, com o uso do advérbio “officially”, é possível que se levante a suposição de que, em alguma outra esfera (não oficial), o e Egito possa estar se afastando dessa aliança. A ativação de conhecimentos lexicais, por meio do adjunto adverbial de modo também pode nos remeter a suposições acerca das relações políticas que o Egito estabelece com outros países, sugerindo certa instabilidade do país, que poderia se posicionar de maneiras diferentes oficial e extra- oficialmente. Romney, em seguida relata o que faria para manter o Egito como aliado enquanto presidente dos Estados Unidos, admitindo, mais uma vez, suas dúvidas a respeito da estabilidade e, até mesmo, da existência dessa aliança. Quando o termo “aliança” aciona nossos conhecimentos prévios, somos levados a pensar em um acordo entre duas entidades em prol de um objetivo em comum. Seria, portanto, uma ação recíproca. No entanto, Romney desconsidera os requerimentos que poderiam ser estabelecidos pelo Egito para tal aliança, enfatiza a importância de se cumprirem os requerimentos estabelecidos pelos EUA. Nesse sentido, é possível levantar a suposição de que o Egito teria mais a ganhar com a aliança, na medida em que deveria fazer mais esforços para mantê-la ou construí-la. Uma possível implicatura pode, então, ser construída I 3 : É possível que o Egito rompa com a aliança a qualquer momento, mas a aliança deve ser mantida principalmente pelo bem deles e farei o necessário para que eles entendam as vantagens que podem obter permanecendo aliados dos EUA.

Dessa maneira, ele enfatiza as “boas ações” dos EUA, que atuariam em favor de todos os países aliados e a inferioridade do Egito, que não seria capaz cumprir com acordos oficiais, devendo se submeter ao plano que os norte americanos traçaram para ele. Van Leeuwen (2008) ressalta a importância de se investigar a maneira como os papéis são distribuídos nas representações sociais de acordo com os interesses do falante. No enunciado em questão fica clara a posição passiva do Egito em contraposição com a ativação dos EUA, cujas ações se direcionam ao outro país. A aliança com os Estados Unidos é apresentada como uma situação desejável a todos os países e, em consequência, o cumprimento dos requerimentos necessários para se estabelecer tal aliança seria fundamental. Ao governo americano, caberia a tarefa de fazer os árabes

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compreenderem a importância dessa aliança, compreenderem os requerimentos necessários e garantir o cumprimento desses requerimentos, trazendo esses povos para dentro da esfera de influência dos Estados Unidos. Nesse processo, o que estaria em jogo é a pacificação do Egito. Nesse sentido, Romney também apela para emoções fortes dos eleitores, ao levantar a questão da paz, que seria garantida pela intervenção norte americana. 3.2. Entrevista com Barack Obama:

Em seguida foi analisada a entrevista concedida por Barack Obama à revista “Rolling Stone”. Passemos à primeira parte:

F 4 : “Rolling Stone: Many observers have commented on how Romney has misrepresented or even changed his [de Romney] positions in this last leg of the campaign – that he's [Romney] been like a chameleon on plaid. Do you [Obama] feel that he [Romney] has lied [durante sua campanha] to the American people? Barack Obama: In the first debate, he [Romney] made as good a presentation as he [Romney] could on what is a fundamentally flawed economic theory. […]But understand, there's no doubt that what he [Romney] has campaigned on for the last year [2011/2012] is what he [Romney] believes, because we've [norte americanos] seen it before. […]His [de Romney] basic theory is that if folks at the top [classe alta] are doing well and are unencumbered, that prosperity will rain down on everybody else [sociedade norte Americana], because they'll [classe alta] make better decisions about allocating capital. I've [Obama] got a different theory. I [Obama] believe that when middle-class families are doing well [economicamente], then we [sociedade norte Americana] all do better [economicamente]. Because those [classe media] are customers […].”

A resposta de Obama atingirá relevância ao informar se Obama acredita que Romney tem mentido em suas declarações públicas. Somos levados a supor que Romney não estaria mentindo, apenas estaria apresentando aquilo em que realmente acredita, e aquilo em que ele acredita seria errado. Em seguida, Obama apresenta qual seria essa teoria falha de Romney, e levanta a suposição de que ele seja um candidato que se volta aos interesses das classes mais altas e acredita que o sucesso dessa minoria se reflita em todo resto da sociedade americana. Sendo assim, do ponto de vista lógico, é levantada a suposição de que, para Romney, quanto mais um indivíduo possui, mais relevante ele se torna para a economia. Obama desenvolve sua resposta enfatizando sua posição a favor da classe média, avaliada por ele como sendo a mais importante esfera da sociedade por exercer o papel de consumidor. Nesse sentido, através de nossas informações lógicas, é possível inferir que, quanto mais um indivíduo

551

consome, mais relevante ele se torna para a economia. Seria possível alcançar I4: Romney não mente, apenas expõe sua equivocada teoria econômica que pressupõe que quem move a economia são os mais abastados. Eu, por outro lado, acredito que a classe média é o que move a economia através do consumo. Mesmo sugerindo que Romney não mente, Obama estrutura seu discurso de maneira que, segundo Van Dijk (2008), pode haver restrição da possibilidade de resistência à manipulação, na medida em que desacredita o oponente. Dessa forma, Obama apela para

ideologias e atitudes relevantes do eleitorado ao apresentar a postura econômica do oponente

e a sua própria postura, na medida em que um governo que favoreça apenas aos que já se encontram em uma boa situação econômica pode parecer ameaçador para a maioria da população. Estabelece-se não apenas a apresentação negativa de Romney, como um político com

crenças falhas, torna-se relevante também observar a representação feita das duas esferas da sociedade norte americana apresentadas na resposta de Obama: a classe média e a classe alta,

à qual ele se refere como aqueles que estão no topo. O enunciado tenta desacreditar a ideia de que a classe alta seja a responsável pelo bom andamento da economia e reforçar a crença no papel fundamental exercido pela classe média nesse bom andamento, por meio do consumo. Sendo assim, o valor atribuído a um cidadão seria, como se supõe a partir da resposta de Obama, determinado pelo poder de consumo do mesmo. Van Leeuwen (2008, p. 42) também chama atenção para a “funcionalização dos atores sociais”, o que ocorre quando Obama se refere à classe média como “custumers”, ressaltando a função desses indivíduos. A atenção do governo deveria, portanto, se voltar para aqueles que consomem mais e, dessa maneira, determinam a situação econômica do país. Essa postura revela a concepção de uma sociedade baseada no consumo, onde aquele que consome seria responsável pelo bem de todos. Sendo assim, há a legitimação do consumo pela racionalização, que, de acordo com a perspectiva de Van Leeuwen, seria constituída pela referência a metas e resultados. Dessa maneira, seguem as perguntas:

F 5 : “R.S.: You [Obama] sometimes use the term "fair shake." FDR [ex presidente] had the New Deal [programa de desenvolvimento], Lyndon Johnson [ex presidente] had the Great Society [programa de desenvolvimento],. Is the Fair Shake [programa de desenvolvimento de Obama] something you'd [Obama] be comfortable with to describe your [de Obama] legacy? Obama: […] it [Ter o Fair Shake como representative de seu legado politico] sounds pretty good to me [Obama]. But look, the key thing I've [Obama] tried to communicate, and I will continue to try to communicate to the American people,

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is that when you talk about economic fairness, it's (falar sobre justiça econômica) not just an issue of fairness – it's (falar sobre justiça econômica)

also an issue of growth. Republicans, and certainly Mitt Romney, often tries to frame this [o Fair Shake] as ‘Obama's a redistributionist’, […]”

O entrevistador indaga se o entrevistado gostaria que o “fair shake” fosse representativo de seu legado político. O leitor deveria acessar seu conhecimento prévio a respeito do que se entende pela expressão, que denomina uma postura política que prega a justiça econômica para todos os norte americanos. O leitor deve, portanto, associar conhecimentos prévios a respeito do andamento das campanhas ao enunciado de base para alcançar a suposição de que Obama estaria se defendendo das acusações de distributismo feitas a ele pelos republicanos. Nesse sentido, por mais que Obama, a princípio, não recuse a medida como definidora de seu legado, ele a justifica com uma adversativa, buscando desconectá-la de uma simples divisão das riquezas. Levantam-se as suposições de que a divisão igualitária da riqueza de um país não pressupõe o crescimento econômico desse país e de que os republicanos vêm insistindo nesse argumento contra a ideia de Obama. Nossos conhecimentos enciclopédicos do termo “justiça econômica” nos levam à suposição de que se trate, realmente, de uma divisão justa das riquezas e, consequentemente, da diminuição da desigualdade social pela intervenção do governo. Mas essa justiça não seria suficiente, Obama recusa essa postura ao acrescentar à sua concepção de justiça o crescimento econômico e supõe-se que, para se fazer justiça econômica, seja necessário não apenas distribuir, mas aumentar as riquezas. Constrói-se, portanto, um ambiente cognitivo que possibilitaria a interpretação do enunciado de resposta, e seria possível alcançar I 5 : Aceito o “fair shake” como definidor do meu legado, desde que a justiça econômica que o termo implica abranja também o crescimento econômico, não sou distributista. Nessa implicatura, temos também a economia como foco. O termo “fair shake” demonstra, mais uma vez a intenção política de se colocar como um herói da classe média, contrastando-se com o partido republicano. Observa-se, portanto, a estratégia geral da auto apresentação positiva e outro apresentação negativa, bem como a tentativa de desacreditar as ideias do partido oponente, o que também constituiria, segundo Van Dijk, uma estrutura discursiva que pressupõe restrições para se resistir à manipulação. Ao se defender da acusação do partido republicano, Obama se envolve ainda em outro movimento manipulador, ao indicar seus bons atos, suas boas intenções, e as acusações infundadas dos opositores. É possível

553

observar também a ênfase no fato de que o entrevistado se interessa pelo crescimento econômico, em oposição à hipótese de que ele seria um distributista.

F 6 : “R.S.: The auto bailout helped rescue states like Ohio from economic disaster. What, in turn [em retotno à ajuda econômica], have you [Obama] learned from the people of Ohio during your many visits to the state [Ohio]? Obama: […] It's [o auto bailout] not just a paycheck for them [população de Ohio] – they [população de Ohio] really take great pride in making great products, making a great car. One plant we [Obama] went to, a bunch of workers had [antes da chegada de Obama] just won the lottery, and they [trabalhadores] were still showing up to work every single day.”

Dentre as informações que o receptor deveria acessar está a compreensão de “bailout”. É possível que o leitor suponha que se trata de uma ajuda que o governo fornece às empresas que correm o risco de ir a falência. É possível supor também que a ajuda em questão teria sido dada durante o mandato de Obama. E, através de informações lógicas, é possível inferir que o Estado de Ohio precisou dessa ajuda. No entanto, a suposição mais importante para a compreensão do enunciado está relacionada ao andamento da disputa por votos por colégio eleitoral que ocorre nos Estados Unidos. Nesse sentido, o receptor poderia retomar o fato de que Ohio foi considerado um estado de votos menos previsíveis, podendo determinar as eleições. A afirmação de que, para o povo de Ohio não é só uma questão de pagamento se relaciona à noção de bailout, e, na tentativa de atribuir relevância ao enunciado, é possível que se compreenda a afirmativa como uma forma de declarar que a ajuda oferecida pelo governo ao estado não significa apenas evitar a falência, mas também a manutenção do bem estar social. Essa suposição é reforçada pela narrativa de um evento em que determinados trabalhadores de Ohio ganharam na loteria, e mesmo assim continuaram trabalhando. Do ponto de vista lógico, o enunciado permite que se suponha que a motivação dessas pessoas para continuar trabalhando não seja o dinheiro. Sendo assim, é possível que se alcance I 6 :

Aprendi que a ajuda oferecida pelo governo ao povo de Ohio não é apenas econômica, contribuímos também para a satisfação pessoal dessas pessoas, que gostam de trabalhar. Sendo assim, Obama faz uso de estratégias manipuladoras ao produzir o enunciado de resposta, ao enfatizar suas boas ações, tratando de como a ajuda do governo ultrapassa a esfera econômica, garantindo a satisfação pessoal dos indivíduos. Nesse sentido, ele também legitima seu programa de desenvolvimento pela “avaliação moral” (VAN LEEUWEN, 2008. p. 109). Há também a manipulação através do apelo a emoções dos receptores, ao dar ênfase

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ao trabalho árduo dos habitantes de Ohio e ao descaso pelo dinheiro. Sendo a conquista de votos dos cidadãos de Ohio decisiva para o resultado das campanhas, o entrevistado representa os habitantes de Ohio de maneira positiva, enfatizando o trabalho árduo e desinteressado pelo dinheiro dessas pessoas. Também é possível compreender que Obama busca atribuir um outro valor ao trabalho, não sendo apenas um meio de sustento, mas sendo também o local onde o individuo pode encontrar a satisfação pessoal. Sendo assim, haveria também uma legitimação adicional desse trabalho pela avaliação moral, sendo que o trabalho faria as pessoas felizes.

Considerações Finais A partir dos enunciados de reposta produzidos pelos entrevistados, foi descrita uma possível trajetória inferencial seguida pelos leitores. Por meio das implicaturas encontradas, observou-se que os candidatos construíram seus enunciados com o objetivo de manipular as crenças, os conhecimentos, as opiniões e ideologias dos leitores, de maneira que as representações do povo americano, de suas necessidades, de seus rivais, bem como de seus temores e esperanças para o próximo governo atendiam aos interesses dos respectivos entrevistados, através da articulação de estratégias manipuladoras; das representações dos elementos das práticas sociais e da legitimação de determinadas ações. Sendo assim, foi possível observar que determinadas informações foram ressaltadas em detrimento de outras, havendo, portanto, direcionamentos ilegítimos do processo de compreensão discursiva de acordo com os interesses em jogo. Sendo assim, a utilização de estratégias de manipulação discursiva foi recorrente nos enunciados selecionados, como a auto-apresentação positiva e outro-apresentação negativa; a indicação dos seus bons atos, suas boas intenções, e das más intenções do opositor; o apelo a emoções fortes do eleitorado que poderia deixá-los incapacitados de resistir à manipulação; referência a normas, valores e ideologias, que também poderia tornar os receptores incapazes de resistir a esse processo manipulador; a polarização discursiva; o empenho em desacreditar fontes alternativas; indicação da inferioridade moral de oponentes, etc. Sobre a representação dos elementos das praticas sociais, foi possível observar a distribuição desigual de papéis, através da apassivação de indivíduos do Oriente Médio, em oposição à ativação dos governantes norte americanos, a funcionalização e generalização das classes sociais americanas. Os processos de legitimação das ações também foram recorrentes, de maneira que as ações dos entrevistados e as ações que se articulam com seus interesses foram legitimadas pela autoridade institucional, pela autoridade de leis, pela racionalização e

555

pela avaliação moral. Conclui-se, portanto, que, no ato de interpretação das respostas, o leitor pode ter sido levado a aceitar as representações preferidas dos candidatos como verdadeiras, o que os levará a adotar posturas condizentes com essas crenças, atendendo aos interesses dos manipuladores.

Referências Bibliográficas:

RAUEN, F. J. Inferências em resumo com consulta ao texto de base: estudo de caso com base

na Teoria da Relevância. Linguagem em (Dis)curso – LemD. Tubarão, v. 5, n. esp., p. 33-57,

2005.

SILVEIRA, J. R. C. da; FELTES, H. P. de M. Pragmática e cognição: a textualidade pela relevância e outros ensaios. 3. ed. Porto Alegre: Edipucrs, 2002. VAN DIJK, T. A. Discurso e Manipulação. In: Discurso e Poder. São Paulo: Contexto, 2008.

p. 232-263. VAN LEEUWEN, Theo. The representation of social actors. In:. Discourse and Practice. Oxford: Oxford University Press, 2008. p. 55-74. VAN LEEUWEN, Theo. The discursive construction of legitimation. In: VAN LEEUWEN, Theo. Discourse and Practice. Oxford: Oxford University Press, 2008. p.105-123. WILSON, Deirdre; SPERBER, Dan. Relevance theory. In: HORN, L.R.; WARD, G. The Handbook of Pragmatics. Oxford: Blackwell, 2002, p. 607-632. Sites Consultados:

˂http://www.rollingstone.com/politics/news/obama-and-the-road-ahead-the-rolling-stone-

interview-20121025˃Acesso em: 30 de Novembro, 2012

˂http://abcnews.go.com/blogs/politics/2012/09/full-transcript-george-stephanopoulos-and-

mitt-romney/˃ Acesso em: 30 de Novembro, 2012

556

Linguística da enunciação

556 Linguística da enunciação DIÁRIO REFLEXIVO NO AMBIENTE VIRTUAL (AVA) DO CURSO DE LETRAS: DIZER A

DIÁRIO REFLEXIVO NO AMBIENTE VIRTUAL (AVA) DO CURSO DE LETRAS:

DIZER A SI ATRAVÉS DO OUTRO

MARIA ESTER VIEIRA DE SOUSA Professora Doutora da Universidade Federal da Paraíba JULIA CRISTINA DE LIMA COSTA Doutoranda da Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal da Paraíba

Considerações iniciais

Nesses últimos anos, com o uso cada vez maior da rede digital e da Tecnologia da

Informação e Comunicação (TIC), vemos surgir práticas sociais e discursivas nunca antes

observadas. É o que ocorre, por exemplo, com a modalidade de ensino a distância que vem

assumindo, sem dúvida alguma, um papel muito importante no cenário educacional brasileiro.

De acordo com Campos (2007), a EaD surge como uma alternativa para democratizar o

acesso ao ensino, com vistas à capacitação de um número maior de pessoas com formação

superior, além de propiciar aos professores dos municípios a oportunidade de adquirirem a tão

desejada e exigida qualificação em sua área de atuação.

Tendo em vista o avanço crescente dos cursos a distância oferecidos pelas

Universidades Públicas, é comum que circulem discursos e revelem “olhares enviesados”

sobre essa modalidade de ensino, principalmente, no tocante ao processo de formação dos

professores e em relação à aquisição de práticas de aprendizagens que esse campo de

investigação permite. Esse artigo se insere nesse espaço de discussão, ao pretender investigar

os processos de subjetivação que se estabelecem nos discursos de alunos do Curso de Letras

da modalidade de ensino a distância da Universidade Federal da Paraíba (UFPB Virtual), no

momento em que esses alunos observam as práticas de ensino (ação docente) do professor de

língua. Em outras palavras, pretendemos analisar em que medida os sujeitos alunos inscrevem

em seus discursos marcas de uma reflexão sobre a prática docente observada que possam vir a

557

interferir na sua futura atuação em sala de aula. Nesse sentido, partimos da compreensão de que, ao falar sobre o outro – o sujeito professor –, o sujeito aluno revela a si mesmo, criando um espaço de subjetividades que dialogam com o presente e com o futuro (o vir a ser professor). Para dar conta desses objetivos, utilizaremos como dados de análise diários reflexivos escritos por esses alunos, na condição de pesquisadores. Esses dados foram selecionados a partir de um corpus constituído por 40 diários reflexivos, coletados no ambiente Moodle da UFPB Virtual, no período letivo 2012.2, como resultados de uma atividade solicitada na disciplina Pesquisa Aplicada ao Ensino Língua Portuguesa (PALP), produzidos após pesquisa que esses alunos desenvolveram em salas de aula de língua portuguesa. Como fundamentação teórica de nosso estudo, utilizaremos a produção de Bakhtin/Voloshinov ([1929] 1986) 221 , Bakhtin ([1935] 1997), especificamente, lançando mão das noções de dialogia e de alteridade. Nessa mesma perspectiva, também recorremos a autores que se alinham à Teoria Dialógica e à Linguística da Enunciação. A apresentação desse artigo será disposta em três partes: na primeira, abordaremos alguns conceitos que fundamentam a análise dos dados; na segunda, apresentaremos o contexto e situaremos nosso objeto de estudo – o discurso de alunos de Letras, presente em diários reflexivos produzidos em condição de pesquisa da disciplina mencionada. Na perspectiva da análise que empreenderemos, recortaremos alguns enunciados desses diários para analisar em que medida os sujeitos alunos inscrevem em seus discursos marcas de uma reflexão sobre a prática docente observada que possam vir a interferir na sua futura atuação em sala de aula. Por último, apresentaremos a conclusão final com os resultados possíveis nesse estágio das análises.

1. O princípio dialógico em Bakhtin e no Círculo e a noção de alteridade

Dentre os pressupostos epistemológicos que integram a teoria referenciada como de autoria de Bakhtin e do Círculo, destacamos para essa discussão o princípio do dialogismo.

221 Como ainda não há um consenso a respeito da autoria da obra Marxismo e filosofia da linguagem, atribuída ora a M. Bakhtin, ora a V. N. Voloshinov, optamos por citar como Bakhtin/Voloshinov. Sobre essa polêmica, ler Faraco (2009).

558

Esse princípio, de certa forma, permeia toda produção teórica desse grupo e representa, do nosso ponto de vista, o elemento-chave para compreensão dos fenômenos discursivos. No sentido mais amplo do termo, o dialogismo é o princípio constitutivo da linguagem e condição sine qua non para que haja sentido no discurso/enunciado. Ignorar a natureza dialógica da linguagem é apagar a relação que existe entre linguagem e vida (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1986). Ou seja, na linguagem, as multivariadas vozes sociais se cruzam e polemizam entre si, produzindo um diálogo que, ao mesmo tempo em que reflete, refrata o discurso de outrem. Bakhtin (1997) considera o dialogismo mesmo nas produções aparentemente monológicas, isto é, sempre encontramos a relação dialógica em todo gênero do discurso, desde os gêneros primários, identificados pelo autor como sendo aqueles constituídos em circunstâncias de uma comunicação verbal espontânea, como, por exemplo, um diálogo cotidiano, uma carta, dentre outros, até os mais complexos (gêneros secundários), os que surgem numa condição de convívio sociocultural bem desenvolvido e organizado, predominantemente o escrito-artístico, científico, entre outros. Conforme Bakhtin (1997), há sempre uma resposta, quer seja em menor ou maior grau, que se manifesta não só em relação ao enunciado do(s) outro(s), mas também na relação do locutor com o próprio objeto do discurso. Em suas palavras: “A resposta transparecerá nas tonalidades do sentido, da expressividade, do estilo, nos mais ínfimos matizes da composição” (BAKHTIN, 1997, p.

317).

Para o autor, o fenômeno do dialogismo é realizado a partir de diferentes dimensões. As relações dialógicas ocorrem tanto entre interlocutores situados numa relação sócio- histórica como também se realizam no diálogo do sujeito consigo mesmo (discurso interior) e nos discursos que respondem uns aos outros, ora convergindo, ora divergindo. Conforme Bakhtin/Volochinov (1986) e Bakhtin (1997), a unidade fundamental da língua é o enunciado, entendido aqui como toda comunicação verbal. O diálogo ocorre entre interlocutores situados numa relação sócio-histórica, que se realiza em um tempo e local específicos, no entanto, sempre inacabado e infinito, devido às variações da realidade circundante. O autor é contundente em afirmar que nesse processo vivemos no universo das palavras do outro, de tal modo que as complexas relações de reciprocidade com a palavra do outro em todos os campos da cultura e da atividade completam toda a vida do homem. Para Bakhtin e o Círculo, a identidade não é algo inato ao ser, ela é construída e, ao mesmo, (trans)formada a partir das trocas interacionais entre os indivíduos, entre os grupos sociais e/ou culturais. Vem de fora, dos outros, não é algo gerado internamente, não é

559

congênito, antes, se forma na superfície extraterritorial, ou seja, vem das forças/relações sociais e culturais nas quais o sujeito, nas mais variadas esferas da vida social, se encontra inserido. A esse respeito, ele diz:

Tomo consciência de mim, originalmente, através dos outros: deles recebo a palavra, a forma e tom que servirão para a formação original da

Assim como o corpo que se

forma originalmente dentro do seio (do corpo) materno, a consciência do homem desperta envolta na consciência do outro. (BAKHTIN, 1997, p.

378) (grifos nossos)

representação que terei de mim mesmo. [

]

Assim, temos que o sujeito constrói sua identidade pela alteridade. Ela é constituída

através do permanente diálogo com o Outro 222 , isto é, no/pelo processo da interação entre o

“Eu e o Outro” ou entre o Eu e o(s) Outro(s) sujeito(s). sujeito

Como afirma Sobral (2009, p.81), o

] [

marcas dos aspectos sociais e históricos de sua vida em sociedade, de sua ‘inter-subjetividade’, que vão se integrando gradativamente à sua identidade, a partir dos deslocamentos de suas posições individuais que as relações com os outros provocam etc.

traz na constituição de sua condição de sujeito, de sua ‘subjetividade’, as

Nessa mesma direção, Bauman (2005) afirma que não existe uma identidade unificada, completa e única. Para o autor, ela é construída pelas diferenças. Como percurso ampliado deste conceito, encontramos na tese de Hall (2008, p.109-110) a concepção de identidade como processo cultural concebida nos discursos sociais em uma dada sociedade:

as identidades são construídas dentro e não fora dos discursos que nós

precisamos compreendê-las como produzidas em locais históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas

Acima de tudo são

construídas por meio da diferença e não fora dela. Isso implica o reconhecimento radicalmente perturbador de que é apenas por meio da relação com o Outro, relação com aquilo que não é, com precisamente aquilo que falta com aquilo que tem sido chamado exterior constitutivo, que o significado “positivo” de qualquer termo e, assim, sua “identidade” poder ser construída. (grifos do autor).

específicas, por estratégia e iniciativas específicas [

] [

]

Atentamos para o fato de que a identidade tem um caráter eminentemente social, construída pelos sujeitos em processos interacionais e, ao mesmo tempo, constituindo esses sujeitos pelas diferenças.

222 No sentido bakhtiniano do termo, o “outro” refere-se não apenas ao outro presencial, mas também ao ‘virtual’, ou seja, é o outro dialógico, que representa as “outras vozes” que podem estar presentes nos enunciados.

560

Frente às posturas teóricas evocadas, podemos concluir que a constituição identitária não se fundamenta na identificação da semelhança. Ao contrário, é concebida essencialmente na relação do eu com a alteridade e as diferentes práticas discursivas que, por sua vez, são instrumentos necessários nesse processo de constituição dos sujeitos e de seus lugares e marcas identitárias. Em suma, a identidade do sujeito é influenciada/marcada pela alteridade, pela presença do outro e, também, formada e transformada a partir das posições que ele ocupa nas mais variadas esferas da vida social, adquirindo contornos diferentes, conforme o contexto sócio-histórico de que participa. Bakhtin (1997) ressalta os processos de subjetivação a partir de três categorias inter- relacionadas, a saber: 1) a imagem que tenho de mim (eu-para-mim); 2) a imagem que tenho do outro (o-outro-para-mim); 3) a imagem que o outro tem de mim (eu-para-o-outro). Nesses processos, segundo Bakhtin (1997, p. 45), o eu ocupa um lugar marcado e construído pela relação com o outro, mas, ao mesmo tempo, singular e específico:

Devo identificar-me com o outro e ver o mundo através de seu sistema de valores tal como ele o vê; devo colocar-me em seu lugar, e depois, de volta ao meu lugar, completar seu horizonte com tudo que se descobre do lugar que ocupo fora dele; devo emoldurá-lo, criar-lhe um ambiente que o acabe, mediante o excedente da minha visão, de meu saber, de meu desejo e de meu sentimento. (grifo nosso).

Desse modo, a noção de “excedente de visão” torna-se igualmente fundamental para entender a constituição do sujeito bakhtiniano. Em outras palavras, podemos dizer que para Bakhtin o reconhecimento de si se dá pelo reconhecimento do outro e de si próprio. Isso significa admitir que a subjetividade constrói-se a partir de relações com a alteridade, mas não se fecham nela. Ou seja,

Por mais perto de mim que possa estar esse outro, sempre verei e saberei

algo que ele próprio, na posição que ocupa, e que o situa fora de mim e à

o mundo ao qual ela dá as costas, toda uma

série de objetos e de relações que, em função da respectiva relação em que podemos situar-nos, são acessíveis a mim e inacessíveis a ele. Quando estamos nos olhando, dois mundos diferentes se refletem na pupila dos nossos olhos. (BAKNTIN, 1997, p. 43)

minha frente, não pode ver; [

]

Assim, no dizer de Bakhtin, a imagem que temos de nós mesmos nunca coincide com a imagem que o outro faz de nós ou a que fazemos do outro, no entanto, sempre aprendemos com a imagem que formamos do outro e sempre transcendemos essa imagem.

561

2. Contextualização do corpus

escritos por pesquisadores, que também

são professores de Línguas, sobre as aulas de outros professores, das quais participam na qualidade de alunos. Os autores são, portanto, observadores - participantes” (MAZZILO, 2007, p. 4). No nosso caso, os diários foram escritos por alunos, na condição de pesquisadores, matriculados na disciplina “Pesquisa Aplicada ao Ensino de Língua Portuguesa (PALP)”, alocada no 6º período currículo do Curso de Letras da modalidade de ensino a distância da Universidade Federal da Paraíba (UFPB Virtual) 223 . Vale ressaltar que muitos dos nossos alunos já atuam como professores em sala de aula há algum tempo (tanto em escola da rede pública como na escola da rede privada), assim, muitos desses discentes já

têm uma relação com a prática e com toda a complexidade que envolve o trabalho docente. A atividade que resultou na produção desses diários foi pensada no conjunto da disciplina mencionada como uma forma de acompanharmos a distância o percurso da pesquisa em sala de aula de língua portuguesa. Chamou-nos a atenção o modo como os alunos se representam e como representam o outro (o professor da sala da aula em que a pesquisa foi realizada) ou a imagem que se tem de ser professor. Em função disso, passamos a ficar mais atentas a essas formulações e decidimos construir um corpus que pudesse ser objeto de investigação. O corpus, constituído nessa fase, é composto, no total, por quarenta diários reflexivos dos quais foram utilizados para a análise apenas uma amostra de dez diários. Para a produção dos diários, foi apresentada na plataforma moodle a seguinte orientação:

Os diários reflexivos são, via de regra, “[

]

Esse é um texto de natureza mais subjetiva e, geralmente, escrito em primeira pessoa. Sugerimos que você faça um relato de suas visitas à escola, refletindo sobre o que mais lhe chamou a atenção, as dificuldades que

Ou seja, você poderá apresentar

enfrentou para a realização da pesquisa

suas impressões sobre a pesquisa; registrar dúvidas, inseguranças; fazer

comentários; apresentar fatos que o surpreenderam ou lhe chamaram a

atenção nessa visita à escola etc

Você também deverá fazer uma reflexão

acerca da importância ou não de realizar uma pesquisa em sala de aula, considerando a sua formação como futuro professor. Esse texto deverá ter,

no mínimo, 500 palavras.

223 Essa disciplina está sob a responsabilidade da professora Maria Ester Vieira de Sousa e, em 2012.2, contava com os seguintes tutores: Júlia Cristina de Lima Costa, Mônica Vieira de Sousa Gurjão e Daniel Vitor da Silveira Costa.

562

O objetivo principal dessa atividade era levar os alunos a escrver sobre a visita à

escola, sobre o trabalho do professor, primordialmente, além, é claro, de refletirem sobre a

importância de o professor fazer de sua sala de aula um ambiente de pesquisa e de revisão de

suas posturas e registrarem o que mais lhes chamou atenção, como os fatos mais

surpreendentes, as impressões, as inseguranças, as dúvidas e, principalmente, as dificuldades

que enfrentaram durante a realização da pesquisa. É importante dizer ainda que, através do

diário, tanto os tutores como a professora da disciplina tinham a possibilidade de perceber os

conflitos e procurar as soluções viáveis para eventuais dificuldades surgidas no momento da

realização da pesquisa em sala de aula, uma vez que a pesquisa era uma etapa decisiva para a

elaboração do relatório final e requisito essencial para conclusão da disciplina. Passemos,

então, à análise dos dados.

3. O discurso do aluno/pesquisador sobre a docência 3.1 O futuro docente: o “Eu” para “mim”

Iniciemos a análise apresentando um fragmento de um diário em que sujeito-aluno

reflete sobre a atuação do outro, o professor em sala de aula, e, ao mesmo tempo em que

observa, avalia e julga o trabalho desse outro, repensa e constrói o seu próprio fazer docente.

Vejamos o relato 224 :

] [

uma vez que desperta em nós a seguinte indagação: Este caminho posso trilhar? Será que estou sendo compreendida? O material que estou utilizando no caso das aulas na hora da pesquisa (o livro didático sozinho é suficiente?), Como deve ser meu comportamento em sala de aula? Tenho de ser linha dura, ou meio termo? O ideal

como futura professora é de fundamental importância uma pesquisa desta forma,

seria que todos que fizessem licenciatura tivessem esta oportunidade para que analisassem como é e como deveria ser o papel do professor, e também em relação

ao aluno [

]

(Aluna JA) (grifos nossos)

Inicialmente, é interessante verificar, nesse fragmento, que a aluna assume

inicialmente a voz do grupo e enuncia em nome da coletividade, para introduzir alguns

questionamentos ou algumas inquietações sobre o vir a ser professor(a): “uma pesquisa desta

224 Os diferentes depoimentos serão identificados pelas iniciais dos nomes dos alunos para preservar o anonimato dos nossos sujeitos informantes.

563

forma, uma vez que desperta em nós a seguinte indagação. Já os questionamentos que se seguem são enunciados em primeira pessoa: Este caminho posso trilhar? Será que estou sendo compreendida?. Há, nesse caso, um deslocamento entre o eu e o nós que talvez se justifique pelo fato de ela estar dividindo a “responsabilidade” do que é anunciado com outros professores e, possivelmente, com colegas de curso, claramente evidenciado no enunciado “O ideal seria que todos que fizessem licenciatura tivessem essa oportunidade”. Notemos que o endereçado ao outro provoca um jogo imbricado da palavra e da contrapalavra, em conflito, em concorrência, no sentido bakhtiniano do termo. Conforme Bakhtin (1997), esse interlocutor que dialoga com um oponente invisível reproduz (ainda que na interioridade) os conflitos, a voz da coletividade, a voz do outro, mesmo que o outro não venha especificado na enunciação. De qualquer modo, é preciso verificar que prevalece, no discurso, a voz que enuncia em primeira pessoa e passa a estabelecer, a partir da categoria do “Eu para mim”, o que o sujeito pensa sobre o ser professor e o que é o trabalho docente. Trata-se de uma voz que revela um diálogo consigo mesmo e que se dirige para si mesmo. Nesse sentido, no registro de suas reflexões, a aluna demonstra ansiedade por uma prática diferenciada e, ao mesmo tempo, conflitos com a realidade educacional, trazendo à discussão marcas e características de uma identidade ao mesmo tempo individual e coletiva. Passemos a observar um fragmento de outro diário:

Essa pesquisa tem sido importante para a minha formação, para me conscientizar sobre a realidade escolar, e me estimular na fomentação de ideias que possam me preparar e aperfeiçoar os métodos de ensino que eu pretendo aplicar no exercício da

docência. As observações de aula, as entrevistas que apliquei a professores e alunos de séries, escolas e realidades diferentes me fizeram observar que é necessária uma reinvenção nos métodos de ensino, uma maior inculturação na realidade dos alunos, penetrar no seu contexto cultural e linguístico visto que os tempos mudaram, e hoje ao invés de apenas aprender regras gramaticais é necessário preparar o indivíduo para um letramento mais relevante, formá-los para adquirir capacidade comunicativa nos

mais variados contextos de interação social [

] (Aluna SM)

Nesse fragmento, percebemos que, no processo constante de avaliação, o discurso do sujeito (agente-produtor do diário) traz a tona fragmentos do discurso acadêmico. Em outros termos, enquanto o aluno/pesquisador fala sobre a prática do outro professor, sobre o seu fazer, ou melhor, “seu deixar de fazer”, surge eco do conhecimento adquirido na graduação do curso de Letras. Isso pode ser observado quando ela utiliza terminologias próprias dessa área de atividade “contexto cultural e linguístico, letramento, capacidade comunicativa, interação

564

social [

aluna-pesquisadora a partir de um discurso que prega a ineficiência do “modelo tradicional” – de ser professor – frente às necessidades e exigências atuais. Por exemplo, quando enfatiza a

importância da descentralização da Gramática Normativa em troca de um ensino mais

visto que os tempos mudaram, e hoje ao invés de apenas

aprender regras gramaticais é necessário preparar o indivíduo para um letramento mais

relevante [

dessa profissional. Enfim, no discurso da aluna pesquisadora, há uma preocupação com o ensino e com a prática pedagógica do docente. E, ao avaliá-lo, constrói sua própria identidade enquanto ser

professor, marcando ou assinalando um lugar diferenciado e em consonância com as expectativas em relação à atuação docente na atualidade, conforme inclusive os referenciais oficiais da educação, a exemplo dos Parâmetros Curriculares para o Ensino Fundamental e Ensino Médio. Passemos a um outro relato:

Parece-nos, portanto, que esse é um aspecto importante na formação inicial

contextualizado e reflexivo: “[

É relevante observar que a imagem ideal de ser professor é construída pela

]”.

]

]”.

Como exerço o magistério há mais de dez anos, confesso que muito do que

observei já faz parte do meu cotidiano. Contudo muito

acrescentou algo mais a minha atuação [

enriquecedora, porque através da observação da prática escolar de outra professora, pude perceber muitos aspectos que necessito melhorar como docente. Houve uma troca produtiva de experiências que certamente me tornou uma profissional muito melhor. (Aluna MC) (grifos nossos)

do que observei também Essa experiência foi muito

]

Notamos que a aluna MC constrói o seu lugar atual de professora a partir da avaliação

que faz do outro, ou seja, ao falar sobre o outro – o professor atuação foi observada –, a aluna revela a si mesma, mostra-se incomodada com suas próprias ações, ao ponto de repensar sua

prática e querer mudá-la: “[

a minha atuação [

A esse respeito, Bakhtin diz: “Tomo consciência de mim, originalmente, através dos outros:

deles recebo a palavra, a forma e tom que servirão para a formação original da representação que terei de mim mesmo” (1997, p. 378). Isto significa dizer que eu me constituo enquanto sujeito na interação com a alteridade, ou seja, nesse processo constante de reflexão e autocrítica, pela avaliação que fazemos dos outros, nos constituímos como pessoa e nos transformamos.

contudo muito do que observei também acrescentou algo mais

]

]

pude perceber muitos aspectos que necessito melhorar como docente”.

565

3.2. O outro para mim: imagens de professor

Nesse item, analisaremos, mais especificamente, as imagens que os sujeitos alunos constroem acerca de “ser docente”, a partir da observação da atuação do professor em sala de aula. Vejamos um relato completo:

Nas visitas realizadas tive o privilégio de observar coisas que muitas vezes se ouve falar, porém eu vi, do tipo “Menino te senta! Para de atazanar na aula! Tu és um

burro!” Coisas que para um formador de opinião e de senso crítico é inadmissível, mas quando paramos para analisar o perfil do professor, sua formação, o que ele escolheu como modelo de vida, chega-se a conclusão que só se pode esperar isso

Não estou aqui colocar o aluno na condição de coitado e o

educador de diabo, mas o que observei é que o professor como forma de prender o aluno em sala de aula só tem a chamada e nem um atrativo a mais. Uma das professoras é bem dinâmica nota-se a vontade que ela tem em despertar o aluno para que este interaja, participe, tira suas dúvidas, se sintam que a professora pode ser uma amiga. Enquanto a outra parece que ela traz os problemas de casa e despeja nos alunos, então, para os que tiveram uma boa base em língua portuguesa se segura, porém aqueles que não tiveram a sorte de ter um bom professor de português que tenha didática e que saiba passar o assunto, torna-se desmotivado e com toda razão, o professor chega na sala de aula pede para o aluno abrir o livro didático ler um texto uma única vez com uma turma de 6º ano e pede para que estes respondam um exercício também do mesmo livro, perdoe-me que posso está enganada, mas tenho minhas dúvidas que aquela professora leu o texto e as atividades em casa, devido a

mesmo, infelizmente. [

]

leitura ser muito ruim e na hora da resposta tinha de está consultando as respostas do livro. (Aluno JA)

Primeiro, chama a atenção o modo como a aluna enuncia o fato: “ouvir dizer” e “ver”. De um lado, tem-se a voz do senso comum (se ouve falar) sobre o modo como o professor trata o aluno; de outro, a voz do sujeito que viu “essas coisas” acontecerem. Embora a atitude do professor seja reprovada (“Coisas que para um formador de opinião e de senso crítico é inadmissível.”), a aluna justifica essa atitude em função do “modelo de vida que ele escolheu”. Ou seja, parece que o modo de agir do professor em sala projeta apenas uma relação consigo mesmo e não com o outro (o aluno). Nesse caso, nega-se a alteridade constitutiva de todo sujeito e, principalmente, a natureza específica da relação professor- aluno, conforme analisa Sousa (2002). Nessa perspectiva, o professor passa a ser caracterizado como um profissional que não é capaz de prender a atenção do aluno; que não sabe usar outros recursos didáticos (só o LD); que não prepara sua aula (“tenho minhas dúvidas que aquela professora leu o texto”); que leva para sala de aula o embrutecimento da vida. Há claramente uma imagem de

566

professor despreparado, desmotivado e, ao mesmo tempo, irresponsável: “[

dúvidas que aquela professora leu o texto e as atividades em casa, devido a leitura ser muito ruim e na hora da resposta tinha de está consultando as respostas do livro.” (grifos nossos0 Essa imagem bastante negativa está presente em muitos diários nos quais também se encontram marcas linguísticas que revelam uma tentativa do sujeito aluno de se distanciar dessa imagem negativa e construir para si uma imagem recoberta pela positividade. Nesse sentido, é importante perceber que, explicitamente, também se constrói a imagem de um professor dinâmico, responsável e preocupado com a participação e com a aprendizagem dos alunos. É isso o que sugere a aluna quando apresenta a imagem de professor decadente e a confronta com outra professora descrita como “bem dinâmica” e amiga, como uma profissional que revela “a vontade em despertar o aluno para que este interaja, participe, tira suas dúvidas”.

tenho minhas

]

Essa imagem que se aproxima do ideal de professor e, ao mesmo tempo, responde ao desejo do futuro professor, também reconhecida/percebida no professor real, aquele que é objeto da observação do aluno pesquisador, está presente em outros relatos:

percebi que a professora elaborou bem sua aula, estava cheia de boa vontade e

disposição para trabalhar com a turma, além de dividir e discutir os problemas de relacionamento com a turma. Assim sendo, parte dos alunos tiveram uma boa

participação e interação na aula [

] [

] (aluna MA)

Vejamos que o professor ideal é descrito como aquele que tem “boa vontade e disposição”, como aquele que é capaz de propiciar a participação do aluno, a interação em sala e capaz de solucionar “problemas de relacionamento”. Esses aspectos dizem respeito a um saber-fazer, apontado como inerente ao sujeito professor, que, a princípio, faz parte de uma competência que extrapola a formação docente no que concerne ao conteúdo de ensino. Nessa perspectiva, a aluna MA acrescenta:

] [

determinante enquanto profissional comprometido com a aprendizagem do educando e

preocupado com a relação humana do grupo com quem o mesmo convive. (aluna MA)

faz-se necessário que o educador seja um tanto preparado, pois sua postura é

É importante registrar que, quando se trata de falar sobre o outro ou sobre o que espera desse outro ideal, os enunciados presente nos diários são sempre marcados por estruturas injuntivas, a exemplo de “faz-se necessário” ou “é preciso”. Citemos apenas mais um recorte em que essas marcas podem ser observadas:

567

É preciso que o professor tenha consciência da sua importância na sala de aula como mediador do conhecimento e que traga no seu gene intelectual o diálogo como premissa de um ensino prazeroso e diversificado, onde cada um dos sujeitos possam ser colaboradores do aprendizado de todos. É necessário que o aluno compreenda a promoção da interação como um aprendizado para o mundo, para as relações sociais e para o desenvolvimento intelectual de cada um. (Aluno H)

De modo geral, nesse momento, ecoam, nesses diários, teorias sobre o perfil do professor ou a voz dos documentos oficiais sobre a educação. A fim de explicitar essa relação dialógica, citamos dois trechos dos PCN do Ensino Fundamental:

Ao professor cabe planejar, implementar e dirigir as atividades didáticas, com o objetivo de desencadear, apoiar e orientar o esforço de ação e reflexão do aluno, procurando garantir aprendizagem efetiva. Cabe também assumir o papel de informante e de interlocutor privilegiado, que tematiza aspectos prioritários em função das necessidades dos alunos e de suas possibilidades de aprendizagem. (PCN, 1998, p.22)

Uma rica interação dialogal na sala de aula, dos alunos entre si e entre o professor e os alunos, é uma excelente estratégia de construção do conhecimento, pois permite a troca de informações, o confronto de opiniões, a negociação dos sentidos, a avaliação dos processos pedagógicos em que estão envolvidos. (PCN, 1998, p.24)

Nesses documentos, o professor é definido como mediador entre o aluno e objeto de ensino e é

apontado como referência ou modelo para o aluno, devendo, para tanto, assumir a “condição de

locutor privilegiado, que se coloca em disponibilidade para ensinar fazendo.” (PCN, 1998, p. 66). Se

voltarmos a todos os fragmentos dos diários citados ao longo desse trabalho, veremos que essa é uma

referência sempre presente e que reflete o acesso dos alunos de Letras a esses documentos. É

necessário, contudo, perceber que o prolongamento desse discurso, necessariamente, não significará

uma prática que o incorpore. Há condições do dizer e do fazer que não se recobrem, embora seja

bastante positivo esse conhecimento.

Considerações finais

No que diz respeito aos resultados preliminares, verificamos que o aluno na posição de pesquisador avalia de forma crítica a atuação docente, frequentemente, elencando diferentes problemas nas aulas observadas e, em consequência, apontado para um ensino de língua deficiente. Ao lado dessa atitude crítica, o aluno também revela ansiedade por uma prática

568

diferenciada e, ao mesmo tempo, demonstra conflitos com a realidade educacional. Nesse

processo de constituição, o discurso do sujeito aluno evidencia marcas e características de

uma identidade (individual e coletiva) conflituosa, demonstrando, inclusive, lacunas em sua

formação para estabelecer uma prática que possa corresponder aos seus anseios e desejos.

Como ponto positivo, percebemos que a experiência da pesquisa em sala de aula

consegue desestabilizar as “verdades” e certezas do sujeito aluno sobre o ensino e a

aprendizagem, ao mesmo tempo em que serve como um espelho para que esse aluno

pesquisador possa refletir, com maior fundamento, acerca de sua futura atuação enquanto

docente.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail [Volochinov]. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 3. ed. São Paulo: Hucitec,

1986.

Estética da criação verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

BAUMAN, Zygmut. Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

CAMPOS, F C. A; SANTORO, F; BORGES, M. (Org). Cooperação e aprendizagem on-line. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, 167 p.

HALL, S. A identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

Quem Precisa da Identidade? In: SILVA, T. T. (Org.) Identidade e Diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis - RJ: Vozes, 2008.

MAZILLO, Tânia Maria da Frota. O diário do professor-aluno: um instrumento para avaliação do agir. In: GUIMARÃES, Ana Machado. O Interacionismo Sociodiscursivo:

questões epistemológicas. São Paulo: Mercado de Letras, 2007.

SOBRAL, Adail. Do dialogismo ao gênero: as bases do pensamento do Círculo de Bakhtin.

Campinas-SP: Mercado das Letras, 2009.

SOUSA, Maria Ester Vieira de. As surpresas do previsível no discurso de sala de aula. João

Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2002.

569

Linguística do Texto

569 Linguística do Texto A CORREÇÃO DE TEXTO NO ENSINO SUPERIOR: UM DIÁLOGO (POSSÍVEL) ENTRE PROFESSORES

A CORREÇÃO DE TEXTO NO ENSINO SUPERIOR: UM DIÁLOGO (POSSÍVEL) ENTRE PROFESSORES E ALUNOS DO CURSO DE LETRAS

Crígina Cibelle Pereira Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN Rosa Leite da Costa Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN Maria Leidiana Alves Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN

Considerações iniciais

A produção de texto na academia, especialmente na área de estudos da linguagem, tem sido alvo de muitas pesquisas, haja vista a necessidade de uma reflexão constante por parte de professores/pesquisadores sobre a qualidade do ensino oferecido a alunos que, quase sempre, chegam à academia acreditando que escrever é seguir fórmulas “produzir redações”, que se destinam a correção de problemas gramaticais e de estruturas. Assim, neste trabalho, buscamos compreender, mais especificamente, como se dá a produção e o ensino do ensino de texto em Curso de Letras de uma mesma instituição pública de ensino superior. Norteia nossos trabalhos o princípio dialógico da linguagem proposto por Bakhtin (1997), segundo o qual o texto em suas mais diversas materializações, pela interação verbal, constitui-se objeto de estudo. Este é o objetivo central do Grupo de Pesquisa em Produção e Ensino de Texto (GPET), criado em 2008, e filiado ao Departamento de Letras do CAMEAM e ao Curso de Mestrado em Letras da UERN. Nosso grupo congrega pesquisadores que investigam as práticas de produção e ensino de texto em contextos de uso diversos. O texto é focalizado em sua organização e funcionalidade, em seus processos de interação e

570

discursivização, considerando, entre outros, os aspectos da multimodalidade, da argumentação, e a especificidade dos gêneros discursivos. Sendo assim, neste trabalho, nosso foco incide sobre a atividade de correção dos textos solicitados nos Cursos de Letras (Português, Inglês, Espanhol). Para tanto, tomaremos como objeto de análise respostas de alunos e professores, mais especificamente, recorremos à parte do questionário, que foi aplicada aos alunos, a qual interroga: Como se dá a correção de textos que você produz? E as interrogações dirigidas ao professor: Você realiza o trabalho de correção dos textos que são solicitados? Como se dá essa correção? A aplicação dos questionários obedeceu ao critério sorteio de disciplinas, uma disciplina do primeiro ano e uma do último ano de cada curso, responderam as questões todos os alunos presentes. Do mesmo modo, aplicamos os questionários aos professores – por ano e curso. Depois disso, tabulamos os dados e elaboramos quadros, que irão subsidiar as nossas análises. Em vista disso, apresentamos, a seguir, uma breve discussão acerca da atividade de correção de texto desenvolvida nos cursos mencionados, pautando-nos nos estudos sobre a produção de texto (FIAD, 2008; BUNZEN, 1997; ANTUNES, 2003, 2006) e na linguagem como interação social (BAKHTIN, 1997).

1 Por uma noção de linguagem e de escrita

Falar sobre escrita enquanto atividade interativa e exercício da faculdade de linguagem implica, inicialmente, apresentar a noção de linguagem que nos orienta. Para Antunes (2003), toda atividade pedagógica de ensino do português subjaz uma concepção de língua subjacente, seja de forma explícita, seja intuitivamente. Bakhtin (1997) concebe a linguagem como uma ação social, em que os sujeitos estabelecem vínculos de comunicação entre si, uma vez que suas atividades se realizam na interação social. Em seus estudos, o autor vincula as interações verbais não apenas às situações face a face, mas a interações sociais mais amplas como as situações enunciativas, a processos dialógicos, aos gêneros discursivos e à dimensão estilística dos gêneros. Desse modo, para o autor, o caráter dialógico da linguagem está presente na enunciação, concebida por ele como um diálogo do nosso dito com outros já ditos. De acordo com Bakhtin (1997), todo enunciado está perpassado, clivado pelo que já foi dito anteriormente e até mesmo pelos enunciados ainda não ditos, de forma que não existe uma

571

linguagem original, um enunciado novo, “meu”. Ao contrário, o nosso discurso é constituído/perpassado pelo discurso do outro ou é uma resposta ao discurso do outro. Nos termos de Bakhtin, concebemos a linguagem não como um sistema abstrato, gramatical e homogêneo, mas sim como uma realidade viva, heterogênea, uma vez que é constituída e caracterizada pelas diversas vozes sociais. Por isso, a compreensão da noção bakhtiniana é tão necessária, pois nos permite compreender o falante enquanto participante ativo nos diálogos sociais e nas “arenas de discussão”, relação que pressupõe o outro (em relação ao locutor) membro da comunicação verbal, condição essencial para que haja interação. Nessa concepção, a interação é possível no diálogo em que o outro, interlocutor, não apenas “recebe” passivamente, mas participa de forma ativa, tem voz, assumindo, assim,

o que o autor chama de posição responsiva. Desse modo, no plano do dialogismo, da interatividade e da responsividade, o sujeito, constituído socialmente, é considerado um ser de resposta, que assume diante dos enunciados uma posição responsiva, aceitando-os (total ou parcialmente), refutando-os, completando-os, executando-os, pois, conforme afirma Bakhtin (2007, p.290), “toda compreensão é prenhe de resposta”. Partindo desse princípio, a escrita de um texto é vista enquanto processo e atividade durativa, como defende Antunes (2006). Ela não acontece isoladamente nem pontualmente no ato de tomar lápis e papel nas mãos, mas ao longo de leituras e reflexões que fazemos. Segundo a autora, o insucesso da escrita é decorrente da visão estática e pontual desta, como se escrever se resumisse apenas a um ato mecânico de fazer sinais sobre uma folha de papel com começo e fim estabelecidos num estipulado intervalo de tempo. Por ser um processo, a escrita compreende etapas distintas, porém integradas de

realização, que vão desde o planejamento, passando pela escrita até o momento de revisão e reescrita. O resultado final do texto, portanto, vai depender de como o aluno executou cada uma destas etapas. Nesse processo, o papel do professor é imprescindível, uma vez que ele não pode perpetuar a prática de uma escrita sem leitor, sem destinatário. Isto porque na escrita

o outro é pressuposto, existe um tu, um alguém com quem se divide a escrita para cumprir

determinada função comunicativa e social. Assim, concordamos com Antunes (2006), ao compreender que a natureza interativa da escrita implica esses diferentes momentos e um movimento oscilatório de procedimentos, cada um pressupondo reflexões e posições de alguém que é sujeito e autor de um dizer e de um fazer para o outro ou para outros sujeitos, que também são ativos e cooperantes nesse

processo.

572

2 A atividade de correção de texto: diálogos no processo de escrita

Sem o outro, do outro lado da linha, não há linguagem. (ANTUNES, 2003)

Por muito tempo vivenciamos situações de ensino em que a correção de qualquer produção escrita era, conforme Costa Val (et. al. 2009), um momento de acerto de contas em que o professor verificava se os alunos aprenderam ou não a lição de gramática normativa. Ao professor cabia o papel de “higienizar o texto”, conforme diz Geraldi (2000), fazendo uma limpeza dos “erros” encontrados referentes a aspectos ortográficos, de pontuação, uso do acento grave, concordância, regência, entre outros aspectos. Enquanto pouca ou nenhuma atenção era dada ao conteúdo, por exemplo. Essa avaliação desconsiderava o trabalho textual do aluno, ignorando suas intenções comunicativas e ignorando a natureza do gênero. Nesse sentido, perde-se a dimensão comunicativa do texto e o aluno não é estimulado a dominar e refletir sobre o processo de escrita que envolve a interligação entre forma, conteúdo, contexto e propósito dos diversos textos produzidos. Durante os anos 1980, originou-se uma nova tendência, oposta, privilegiando o conteúdo em detrimento da forma, condenando, assim, as teorias gramaticais formalistas e a postura prescritivista do ensino. Ao professor cabe agora desempenhar um papel fundamental na condução do processo de aprendizagem, uma vez que suas propostas de escrita e suas interações sistematizadas, durante e após a atividade de produção de texto, contribuem para o desenvolvimento da capacidade de escrita do aluno. Nessa perspectiva, a avaliação é entendida como uma atividade de leitura, que compreende um diálogo perante o texto e que se apresenta sob formas e momentos diversos em que as estratégias de escrita podem e devem incluir momentos e recursos para que o aluno refaça o texto. No processo de reescrita, o aluno é direcionado pelas orientações feitas mediante a correção do professor, que atua nesse processo como mediador, propiciando a reflexão do aluno sobre sua produção. Conforme Assis (2006, p.04), “as práticas de correção/apreciação/análise de textos (turno do professor) e de escrita/reescrita (turno do aluno) podem ser concebidas como turnos de uma interação construída no solo dialógico das ações de ensino e de aprendizagem”. Assim, fazendo um diálogo com Bakhtin (1997),

573

poderíamos associar a correção a uma forma de manifestação da compreensão responsiva ativa do professor mediante o discurso do aluno e não apenas uma maneira técnica de corrigir textos, a higienização textual, ou a finalidade de atribuir uma nota, quase sempre a um único gênero, a avaliação escrita. Assim, o processo de produção de texto pressupõe a intervenção do professor, cuja atitude responsiva ativa perante o texto do aluno pode variar de acordo com o tipo de correção realizado pelo professor. Entre esses tipos de correção textual encontram-se, conforme Serafini (2001), a resolutiva, a classificatória e a indicativa. Para complementar essa classificação das correções textuais, Ruiz (2009) apresenta um quarto tipo: a textual- interativa. A correção resolutiva consiste na apresentação e solução dos problemas detectados nos textos, na correção indicativa o professor indica e aponta os problemas encontrados nos textos, a correção classificatória é caracterizada pelo apontamento da natureza dos problemas através de uma metalinguagem codificada e específica e pala correção textual-interativa o professor estabelece uma interlocução não codificada com o aluno através de recados, discutindo problemas de diferentes níveis do texto e, em alguns casos, apresentando solução ou sugestão para a atividade de reescrita (RUIZ, 2009). De acordo com estudos feitos por Assis (2006), a correção resolutiva parece ser a que menos contribui para o processo de escrita do aluno, para seu amadurecimento e reflexão sobre suas habilidades de escrita, uma vez que este já encontra a solução pronta para os problemas de seu texto. Já os outros três tipos de correção demandam ao aluno uma atitude analítica e reflexiva sobre o texto, o que nos leva a enfatizar a importância desses padrões de correção vinculados ao trabalho de reescrita. Assim, a correção/avaliação do texto, além de interativa, também é processual, não é um acontecimento pontual, que acontece num intervalo de tempo determinado, conforme sustenta Antunes (2006, p.168):

De alguma forma, a avaliação vai acontecendo também enquanto se está escrevendo:

pela reflexão, pela análise cuidadosa, persistente, na procura da melhor palavra, da melhor e mais adequada forma de dizer o que pretendemos dizer. Isso vale, sobretudo se a avaliação que temos em mente é aquela destinada a nos dar o parâmetro de nossa melhor escrita e não aquela que fará o professor com o fim de nos dar uma nota.

Abordar a avaliação/correção do processo de produção de texto nessa perspectiva é uma forma de assumir o que Bakhtin chama de atitude responsiva ativa enquanto sujeitos da

574

interação verbal, tanto por parte do aluno-autor que ao escrever pressupõe o outro, quanto por parte do professor-leitor que assume o papel de interlocutor que dialoga com o texto do aluno. Como reitera Antunes (2006, p.179), a avaliação, aqui tomada também como correção, se colocada em nossa atividade pedagógica “na sua função maior de reguladora do processo de aprendizagem em curso”, sem esquecermos que a atividade de ensino é inerentemente interativa obteríamos mais êxito. Antunes (2006) ainda fala da correção considerando os elementos pragmáticos do texto ou os elementos da situação em que este ocorre. Trata-se, aqui, de considerar a natureza do gênero textual produzido, observando, segundo a autora, as intenções pretendidas, o domínio discursivo, o interlocutor previsto, as condições materiais de produção do texto, de forma que essa avaliação do texto não se limite aos aspectos linguísticos que aprecem em sua superfície. Deste modo, avaliar um texto é interagir com o outro, com o interlocutor e com a dimensão dos gêneros discursivos.

3 A correção de textos: dando voz ao aluno

Apresentamos, abaixo, os quadros com as categorias de respostas dadas pelos alunos à pergunta: Como o professor realiza a correção dos textos que você produz?

a) Curso de Língua Portuguesa

COMO O PROFESSOR REALIZA A CORREÇÃO DOS TEXTOS QUE VOCÊ PRODUZ?

PERÍODO INICIAL DO CURSO

TOTAL

PERÍODO FINAL DO CURSO

 

TOTAL

Faz apontamentos no texto com atribuição de notas

1

Faz apontamentos no texto com atribuição de notas

1

Corrige organização e estrutura do texto

2

Reorganiza o texto

 

1

Faz apontamentos de ordem teórica sem refacção.

1

Corrige

aspectos

teóricos

e

3

gramaticais

Faz apontamentos orais.

2

Não devolve os textos

 

1

Corrige aspectos de ordem teórica

1

Corrige aspectos de ordem teórica

 

2

Corrige aspectos gramaticais

1

Não respondeu

 

1

Quadro 1 – Como o professor realiza a correção dos textos que você produz?

O quadro mostra que os alunos do período inicial do Curso de Letras/português apontam diferentes aspectos na correção de textos, a saber: (i) 01 (uma) resposta afirma que na correção os apontamentos são feitos no texto e recebe atribuição de notas; (ii) 02 (duas)

575

respostas afirmam que a correção é feita observando os aspectos da organização e da estrutura do texto; (iii) 01 (uma) considera os aspectos de ordem teórica e menciona que não é feita uma refacção; (iv) 02 (duas) falam de uma correção oral, 01 (uma) destaca que são feitas observações teóricas apenas e (v) 01 (uma) considera que há uma correção de aspectos gramaticais. Já no período final, os alunos também dão diferentes respostas para a questão, vejamos: (i) 01(uma) resposta fala dos apontamentos no texto com atribuição de notas; (ii) 01 (uma) diz que a correção consiste na reorganização do texto, porém não deixa claro que aspectos são considerados nessa reorganização; (iii) 03 (três) respostas falam de uma correção que considera aspectos teóricos e gramaticais; (iv) 01 (uma) diz que os textos não são devolvidos; (v) 02 (duas) falam dos aspectos gramaticais e (iv) um aluno deixou a questão em branco.

Pelo que vimos, os alunos de Letras/português não mencionam a reescrita de texto como parte do processo de correção. Ao contrário disso, há uma afirmação de que os apontamentos são feitos no texto, mas não é cobrada uma reescrita. Nestes termos, na voz do aluno, a correção de textos, por um lado, pressupõe uma interação entre professor e aluno através dos apontamentos feitos no texto, mas, por outro lado, essa correção limita esse diálogo ao considerar que tais apontamentos bastam, assim a correção textual-interativa não chega a etapa de pedir a reescrita, tornando-se, dessa forma, uma correção indicativa, que somente aponta os problemas encontrados nos textos, algumas vezes com a finalidade de atribuir ou justificar a nota. Vemos também que, para o aluno, os professores consideram com muita veemência uma correção de conteúdo, o que é louvável se compreendermos que estamos tratando de textos acadêmicos, os quais, nos seus variados gêneros, sempre pedem o domínio de conteúdo por parte do aluno. No entanto, somos da opinião de que a correção deve considerar a própria natureza do gênero produzido, de forma que falar de conteúdo não deve ser apenas conteúdo teórico, mas deve ser também o conteúdo atrelado à natureza do próprio gênero, não basta considerar o domínio das leituras, das teorias estudadas, é preciso relacionar esse conhecimento ao gênero que se produz. E, neste sentido, vemos que nenhum aluno menciona uma correção relacionando conteúdo/gênero, alguns falam da organização do texto, limitando-se ao aspecto estrutural. Os alunos também mencionam, sem dá explicações, uma correção feita oralmente. Entendemos que o professor faça apontamentos (sobre o texto e não no texto), o que limita a interação à situação imediata de comunicação, isto é, ao momento da sala de aula, possivelmente encerrando a discussão sobre o texto, sem pedir a reescrita. Vejamos também os resultados obtidos na pesquisa com os alunos de Língua Inglesa.

576

b) Curso de Língua Inglesa

COMO O PROFESSOR REALIZA A CORREÇÃO DOS TEXTOS QUE VOCÊ PRODUZ?

PERÍODO INICIAL

TOTAL

PERÍODO FINAL

TOTAL

Critérios não definidos pelo aluno (apenas diz que há correção)

3

Faz apontamentos orais

1

Faz apontamentos no texto com atribuição de nota

1

Faz apontamentos (não definidos) para a refacção

1

Corrige aspectos de ordem teórica

1

   

Quadro 2 - Como o professor realiza a correção dos textos que você produz?

O quadro mostra que os alunos do período inicial do Curso de Letras/inglês consideram que a correção dos textos é feita observando três aspectos: (i) 03 (três) respostas apenas reconhecem que a correção existe, mas não apontam os aspectos trabalhados; (ii) 01 (uma) resposta diz que são feitos apontamentos no texto com atribuição de notas e (iii) 01 (uma) resposta fala de uma correção que considera aspectos de ordem teórica. Já no período final, observamos apenas que: (i) 01(uma) resposta diz que a correção é oral e (ii) 01 (uma) fala de apontamentos no texto visando a uma refacção. Como vemos, os alunos de língua inglesa não mencionam, em suas respostas, diversas formas de correção de texto feita pelo professor, diferentemente do que vemos nos alunos de língua portuguesa. Nesse sentido, acreditamos que a não definição dos alunos sobre como se dá a correção, pode ser indício de uma correção que não evidencia os critérios avaliativos e que não estabelece diálogo com o texto, o professor não se coloca enquanto leitor, propriamente dito, do aluno, não interage com ele, apenas recebe e devolve o texto, possivelmente com a finalidade de atribuir uma nota ou de fazer apontamentos orais em sala. Dado interessante é o posicionamento de apenas um aluno que faz questão de dizer que recebe o texto com apontamentos, mas que não é pedida uma reescrita, nisto notamos que o aluno tem consciência da importância da reescrita e que ele sente falta dessa escrita processual para a sua formação, escrita esta que, conforme Antunes (2006), é uma avaliação não classificatória, de nota, mas processual, com a função maior de ser reguladora do processo de aprendizagem em curso, uma vez que a atividade de ensino é inerentemente interativa. As outras respostas seguem os mesmos parâmetros dos alunos de língua portuguesa, evidenciando-se, portanto, a comunhão de perspectivas, apesar destes alunos estarem em cursos diferentes. Observemos também os dados referentes ao curso de língua espanhola.

577

c) Curso de Língua Espanhola

COMO O PROFESSOR REALIZA A CORREÇÃO DOS TEXTOS QUE VOCÊ PRODUZ?

PERÍODO INICIAL

TOTAL

PERÍODO FINAL

 

TOTAL

Faz apontamentos orais

1

Faz apontamentos orais

 

1

Através da utilização de recursos visuais

1

Através

da

utilização

de

recursos

1

visuais

Com apontamentos para refacção

1

Faz apontamentos no texto

 

3

Corrige aspectos de textualidade

1

Com orientação (não especificada)

1

Com orientação (não especificada)

3

   

Quadro 3 - Como o professor realiza a correção dos textos que você produz?

O quadro mostra que no curso de língua espanhola, os alunos do período inicial consideram diferentes aspectos na correção dos textos produzidos, a saber: (i) 01 (uma) resposta diz que são feitos apontamentos orais; (ii) 01 (uma) fala que são usados recursos visuais (sem especificar); (iii) 01 (uma) considera que são feitos apontamentos visando a uma refacção, 01 diz que são corrigidos aspectos de textualidade e (iv) 03 (três) reconhecem uma orientação sem especificá-la. No que tange ao período final do curso, os alunos colocam que diferentes são as formas de correção, a saber: (i) 01 (um) aluno diz que a correção é feita por meio de apontamentos orais; (ii) 01 (um) aluno diz que é através da utilização de recursos visuais; (iii) 03 (três) alunos revelam que a correção se dá através de apontamentos no texto e (iv) 01 (um) aluno mostra que não se tem uma orientação sobre a correção. Os dados referentes à correção de texto no curso de língua espanhola revelam uma realidade, em parte, diferente do que vimos nos outros cursos. Ainda que uma única vez, a correção é citada como parte do processo de produção textual; outro aspecto que nos chama a atenção é a correção através de recursos visuais, neste caso, entendemos que professor e aluno discutem, questionam, e encontram soluções para os mais diversos problemas de ordem textual. Nestes termos compreendemos que a correção é executada contemplando três dos quatro tipos de correção discutidos neste trabalho: a correção resolutiva, a correção indicativa e, principalmente, a correção textual-interativa. Podemos entender, ainda, que a utilização de recursos visuais na correção textual configura-se em um diálogo para além do estatuto do texto escrito, qual seja, o contexto de produção e recepção do texto. Nesse sentido, professor e aluno passam a ser vistos como “produtores” desse texto, uma vez que agora o texto passa a ser entendido conjuntamente e, provavelmente, encaminhado para uma reescrita.

578

Destacamos, ainda, neste curso as questões de textualidade apontadas como elementos de correção, o que indica que o professor vai além dos elementos gramaticais do texto. Por fim, a exemplo das outros cursos, segundo os alunos, muitos dos critérios de avaliação do texto não são especificados pelo professor, este seria o caso em que a correção se dá com a finalidade de apenas atribuir uma nota ao texto.

4 A correção de textos: com a palavra, o professor

Assim como fizemos aos alunos, interrogamos os professores sobre a correção de textos feita por eles.

a) Você realiza trabalhos de correção desses textos que são solicitados?

CURSOS

TOTAL DE QUESTIONARIOS APLICADOS

RESPOSTAS

Letras Português

02

Todos responderam sim

Letras Inglês

02

Todos responderam sim

Letras Espanhol

02

Todos responderam sim

Quadro 4 – O trabalho de correção dos textos solicitados pelo professor no primeiro e último anos dos cursos

Podemos perceber que os (06) seis professores dos cursos de letras (português, inglês e espanhol) são unânimes em afirmar que realizam o trabalho de correção dos textos solicitados. Esse nos parece um dado importante, uma vez que nos leva a acreditar na existência de um leitor, interlocutor para os textos produzidos pelos alunos. Interessa-nos, ainda, saber como se dá essa correção:

b) Como se dá essa correção?

CURSO

PERÍODO INICIAL

PERÍODO FINAL

Letras Português

Aspectos do conteúdo. Corrige também questões de coerência e ortografia.

Por etapas. Apontamentos para reescrita.

Letras Inglês

Aspectos do conteúdo. Corrige também questões de coerência e ortografia.

Apontamentos

(não

especificados) numa única versão do texto.

Letras Espanhol

Apontamentos orais.

Por etapas. Da forma (estrutura)

579

Aspectos linguísticos e aspectos de textualidade. ao conteúdo semântico.

Aspectos linguísticos e aspectos de textualidade.

ao conteúdo semântico.

Quadro 5 – Como se dá a correção dos textos solicitados pelo professor

Conforme podemos ver, os professores dos cursos de letras definem a correção de textos que dizem realizar. Nestes termos, vemos que todos eles apontam quase os mesmos critérios na correção de textos, destacando-se os aspectos de textualidade, a coerência, em especial, e, ainda, a correção gramatical do texto. Vemos, assim, que nas disciplinas do primeiro ano do curso, os professores mantêm uma correção preocupada em melhorar ou apontar os problemas mais visíveis do texto, preocupando-se também com a “higienização do texto” (GERALDI, 2000). Já em disciplinas do período final, os professores anunciam a realização de uma escrita processual, por etapas. Um dos professores é enfático ao assumir que corrige apenas uma única versão do texto, isso demonstra que ele reconhece, na teoria, a importância que deveria ter a reescrita no processo de produção do texto, mas, na prática, ele não a incentiva. Vale enfatizar também que os professores pouco ou nada fazem menção fazem a uma correção que considere a especificidade dos gêneros propostos, apenas na resposta de um dos professores do período final, conforme indica o quadro acima, quando ele menciona uma correção voltada para a estrutura, levando em conta o aspecto semântico do texto, pode indicar uma preocupação com a especificidade do gênero para a produção. Não considerar essa especificidade é desconsiderar as questões de estilo, de propósito comunicativo dos textos e de interlocução, é deixar de lado o que Antunes (2006) chama de uma correção que considera os elementos do estatuto pragmático do texto ou dos elementos da situação em que o texto ocorre.

5 Na arena do diálogo: professores e alunos

Os dados apresentados permitem-nos fazer algumas comparações. Vemos que os alunos de língua portuguesa do período inicial e o professor da disciplina mantêm aproximações em suas respostas, de modo que nenhuma das partes cita a reescrita como uma das etapas da produção do texto, ao contrário disso, uma resposta de aluno menciona que não há reescrita, isso mostra que o aluno tem consciência da importância desta etapa para a sua produção textual. O professor não diz que a finalidade de sua correção é a nota, no entanto

580

fica o questionamento: Esse professor não teria uma herança das aulas de português em que “redações” eram pedidas e entregues de volta com apontamentos sobre alguns aspectos, inclusive gramaticais? Como não sabemos que textos são produzidos, entendemos que, se na disciplina forem produzidos outros textos além da tradicional prova escrita, o professor deve primar pela reescrita de texto, seja na produção de resumos, de resenhas, textos geralmente pedidos para auxiliar a aprendizagem de conteúdos, seja na produção de monografias e artigos, gêneros solicitados em períodos finais do curso. Em se tratando do diálogo entre alunos e professor do período final, deste mesmo curso, uma das respostas dos professores não nos permite entender como seriam ou quais seriam as etapas, as quais ele menciona para a correção, o professor somente afirma que faz apontamentos para a reescrita. Já nas respostas dos alunos, não há menção explícita à reescrita, alguns apontam para uma reorganização do texto, há afirmações de que são feitos apontamentos com a finalidade de atribuição de uma nota. Além disso, nas afirmações dos alunos do período inicial, os aspectos que mais se destacam são a correção de conteúdo e de elementos gramaticais. Apesar de não desconsiderarmos que todos esses critérios sejam importantes para a reescrita, chamamos a atenção para o fato de que os alunos no final do curso, mesmo já tendo passado pelo estágio supervisionado, não se posicionarem explicitamente sobre a reescrita, pois como vimos até mesmo alunos no início do curso reconhecem sua importância. No curso de língua inglesa, percebemos uma comunhão entre as respostas de professor

e alunos no momento em que ambas as partes reconhecem a correção textual com foco no aspecto de ordem teórica ou ainda quando o aluno afirma que o professor faz apontamentos

no texto, mesmo sem definir o foco da correção, bem como, quando o professor diz corrigir aspectos teóricos, gramaticais e de coerência. O que fica mais evidente neste diálogo é que, se

o professor corrige estes aspectos, o aluno desconhece esses critérios, reconhece que há uma

correção, mas não sabe como ou em que seu texto está sendo avaliado. Nestes termos, o texto fica prejudicado, pois não se estabelece um entendimento entre professor/aluno no que tange à correção. Com isso, a correção do texto pouco atende aos anseios do professor e o aluno continua com problemas com a produção textual. Por fim, o diálogo entre alunos e professores do curso de língua espanhola se dá por uma aproximação bastante evidente no período inicial, embora o professor não fale em reescrita. Já no período final apenas a abrangência da resposta do professor “por etapas da

forma ao conteúdo” permite estabelecer a relação com os dizeres do aluno, que vão dos

581

apontamentos orais aos apontamentos no texto, e acreditamos que, se um professor realiza a correção com a ajuda de recursos visuais (tecnológicos), como diz o aluno, isso contempla o que está dito na voz do professor, que diz fazer uma correção por etapas, uma escrita processual, portanto.

Considerações finais

Pelo que vimos nos dados analisados, a correção de textos em disciplinas dos cursos de letras investigados revela-se ainda como um campo de pesquisa que merece ser mais ainda investigado. Entendemos que a avaliação do texto acadêmico deve ser, antes de tudo, um processo de interação, no qual professor e aluno juntos construam sentidos para o texto. Nestes termos, velhas práticas como apenas mencionar oralmente os erros mais comuns dos textos ou fazer apontamentos escritos do tipo “confuso”, “precisa melhorar”, “o que é isso?” “trecho truncado”, entre outros, pouco colaboram para uma escrita de qualidade, além disso, fazer apontamentos dessa natureza como forma de justificar uma nota atribuída também é simplificar o processo de produzir textos. No universo acadêmico, o professor tem a possibilidade de incentivar a produção de textos variados, nos períodos iniciais do curso, por exemplo, ainda quando o aluno geralmente chega com a ideia sólida de redação, é possível incentivar a produção de textos tais como: (i) resumo, se o professor quer um texto que ajude o aluno a compreender melhor o conteúdo trabalhado; (ii) resenha, se o professor quer que o aluno, após sucessivas leituras, lance um olhar analítico sobre determinado objeto; (iii) roteiro de seminário, quando o aluno precisa fazer uso das duas modalidades da língua; e (iv) tantos outros gêneros, os quais distanciam o ensino de texto e a correção da velha prática de correção da prova escrita. Nestas situações de comunicação diversificadas, a correção também deve ser diversificada, obviamente aspectos gramaticais ou de textualidade se aplicam à correção de todo e qualquer texto, assim como as do domínio de conteúdo teórico. No entanto, limitar a correção ao apontamento dessas questões, sem considerar a escrita como um processo de ida e volta do texto, no qual sejam considerados os elementos pragmáticos do texto ou os elementos da situação em que este ocorre, quais sejam, as intenções pretendidas, o domínio discursivo, o interlocutor previsto, as condições materiais de produção do texto, é, sem dúvida, negar o, em grande parte, a necessidade de uma escrita dialógica é, sobretudo, não fazer caso da posição responsiva, pela qual o sujeito, constituído socialmente, é considerado

582

um ser de resposta, que aos enunciados aceita-os (total ou parcialmente), refuta-os, completa- os, executando-os. Assim, professores e alunos precisam lançar conjuntamente um olhar sobre o texto, desfazer os mal-entendidos, reformular, negociar pontos de vista, tornar o texto aceitável. “Limpar/higienizar” o texto é apenas um dos aspectos dessa negociação, semelhante à metáfora do iceberg, a qual afirma que apenas uma pequena parte do gelo aparece, mas na profundeza do oceano encontra-se a real dimensão do problema.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, I. Aula de Português: encontro e interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.

ANTUNES, I. Avaliação da produção textual no ensino médio. In: BUZEN, C.; MENDONÇA, M.; KLEIMAN, A. B. [et.al.]. Português no ensino médio e formação do professor. São Paulo: Parábola Editorial, 2006. p.163-180.

ASSIS, J. A. Correção de textos, reescrita e formação de professores: diálogos do/no processo de

ensino

http://www.pucminas.br/seminarioprograd/documentos/prograd_seminario_documento_juliana.pdf. Acesso em: 10/05/2011.

em:

e

de

aprendizagem.

Disponível

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 2 ed. São Paulo: Martins, 1997.

BESSA, J. C. R. (Coord.). Produção, organização e ensino de textos na educação superior. Projeto de Pesquisa. Pau dos Ferros: UERN, 2009. [Projeto aprovado pelo Edital FAPERN n° 016/2009].

COSTA VAL, M. da G. [et. al] Avaliação do texto escolar: Professor-leitor/Aluno-autor. Ed. rev. e ampl. – Belo Horizonte: Autêntica Editora Ceale, 2009.

GERALDI, J.W. O texto na sala de aula. São Paulo: Editora Ática, 2000.

RUIZ, L. D. Como corrigir redação na escola: uma proposta textual-interativa. São Paulo: Editora Contexto, 2009.

583

583 A ESCRITA ALÉM DA LÍNGUA PORTUGUESA: UMA COMPARAÇÃO DE PROPOSTAS DE PRODUÇÃO TEXTUAL ENTRE LIVROS

A ESCRITA ALÉM DA LÍNGUA PORTUGUESA: UMA COMPARAÇÃO DE PROPOSTAS DE PRODUÇÃO TEXTUAL ENTRE LIVROS DIDÁTICOS DE HISTÓRIA E DE GEOGRAFIA

Rodrigo Luiz Silva Pessoa 225 Universidade Federal do Rio Grande do Norte Maria da Penha Casado Alves 226 Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Na produção acadêmica atual, muito se tem pesquisado sobre as atividades de escrita no Livro Didático (LD) de Língua Portuguesa, todavia, essa preocupação deveria ser expandida para as demais áreas do conhecimento (como as outras disciplinas do ensino básico), tendo em vista que a leitura e a escrita são ferramentas utilizadas em todas as atividades escolares, mesmo que o foco não seja a Língua Portuguesa, pois elas são fundamentais para práticas sociais responsivas e responsáveis. Na nossa atual conjuntura social, o enunciado escrito é cada vez mais valorizado em diversas atividades do mundo da vida, como é possível comprovar com a grande circulação de documentos escritos nos mais diversos suportes de textos. A ideia é corroborada nas palavras de Schaffer (2006) ao afirmar que a função de ensinar a leitura e a escrita não é apenas ao professor de Língua Portuguesa e sim de todos os professores, cada qual adaptando a leitura da melhor forma para sua área do conhecimento. A concepção de escrita aqui apresentada advém das concepções de Bakhtin (2011), que entende a linguagem como uma prática constitutiva, dialógica, sócio-histórica e situada, não se limitando apenas à decodificação de signos linguísticos, mas sim colocando o

225 Aluno de graduação em Letras – Língua portuguesa e literatura; bolsista voluntário de Iniciação Científica; membro do grupo “práticas discursivas na contemporaneidade”.

226 Professora adjunta do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFRN.

584

sujeito como constitutivo do processo na construção de sentido, produzindo enunciados

sempre de uma maneira responsiva aos outros discursos/vozes/enunciados. Com base nessas

concepções e nos artigos anteriormente produzidos pelo mesmo projeto de pesquisa (As

concepções de leitura e de escrita em livros didáticos da educação básica), esse trabalho

objetiva fazer uma análise comparativa entre Livros Didáticos (LD) das disciplinas de

História e de Geografia, destinados ao 9º ano do Ensino Fundamental. Com essa análise,

espera-se observar como esses LD estão tratando a questão da escrita dentro das suas

atividades, ou seja, se as propostas para alguma produção textual estão no livro apenas para

atender uma demanda posta pelos atuais editais do LD ou porque os próprios autores

consideram esse tipo de atividade como algo fundamental para a formação de um

leitor/escritor proficiente. Também se espera observar qual das disciplinas está em

consonância com as atuais abordagens da escrita, do texto, e do que preconiza os documentos

da educação básica. Quanto às metodologias utilizadas, foram analisados, de maneira

comparativa, dois LD, sendo um de cada disciplina, em uma abordagem qualitativo-

interpretativista.

Palavras-chave: Escrita; Livro Didático; História; Geografia.

INTRODUÇÃO A leitura e a escrita sempre foram ferramentas as quais o ser humano utilizou em larga

escala, principalmente, após o início da era contemporânea, na qual a oralidade perdeu

bastante prestígio no que diz respeito a usos formais dentro das mais variadas situações

enunciativas, ou seja, a utilização da escrita, a qual já se dava em larga escala, passou a

assumir um espaço ainda maior dentro do nosso cotidiano, com a contribuição de eventos

como a globalização e o advento da Internet, por exemplo. Dessa maneira, a leitura e a escrita

nos rodeiam de todas as maneiras, seja através de publicidade, televisão, computador etc.

Diante desse quadro, é imprescindível para um cidadão ter um bom conhecimento

dessas ferramentas para efetuar as suas práticas sociais de maneira efetiva,

independentemente da sua área de atuação no mercado de trabalho ou escolhas da vida

pessoal. Com a leitura e a escrita tão institucionalizadas, é possível concluir que é dever da

escola fornecer os meios para que a leitura e a escrita sejam apreendidas da melhor maneira

possível (indo além do sentido de decodificação), percebendo que o ato da enunciação

envolve uma série de fatores os quais devem ser levados em consideração no momento em

que um enunciado é constituído.

585

Já dentro do ambiente escolar, é de comum acordo que se observa o uso do Livro Didático (LD) como o principal suporte do professor no momento em que ele ministra as suas aulas. Independente da disciplina ministrada (Geografia, História, Língua Portuguesa etc.), a leitura e a escrita devem ser inseridas no livro didático, pois, como já foi dito é o principal recurso procurado por professores e alunos. Portanto, ele deve estar bem estruturado para atender a essa demanda, sempre focando questões de leitura e escrita através de exercícios. Tendo esse objeto em mente, este trabalho visa efetuar uma análise de propostas para produção de texto encontradas em LD das disciplinas de História e Geografia e julgar se a abordagem conferida a esse tipo de atividade segue, de alguma maneira, as orientações para a leitura e a escrita que podem ser encontradas nos documentos oficiais, bem como se correspondem a situações que possuem semelhança com a realidade e com as práticas sociais do indivíduo que escreve. Através dessa análise comparativa, será possível perceber se as disciplinas de História e Geografia, assim como qualquer outra área, observa se a o que eles propõem como atividades de escrita são, de fato, formativas para o aluno e se seguem uma concepção de linguagem que esteja em em consonância com as recomendações sobre leitura e escrita encontrada nos PCN, as quais, mesmo sendo inicialmente direcionadas a área de língua portuguesa, são aplicáveis em qualquer outra disciplina, tendo em vista que o conhecimento de leitura e escrita são universais, como veremos adiante. Em termos de objetivos específicos, serão verificados se as propostas de escrita dos livros possuem as características da concepção de linguagem como interação (que é a recomendada pelos PCN), tais como: situação enunciativa, presença de interlocutores, gênero discursivo no qual o enunciado será veiculado, horizonte social, estilo, interlocução, etc. A linha de pesquisa desse estudo segue um projeto que busca uma melhor compreensão dos Livros Didáticos (LD) de todas as disciplinas do ensino básico no que diz respeito à leitura e à escrita, procurando, inclusive, LD que sejam recomendados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), os quais já passaram pela aprovação do Ministério da Educação (MEC).

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Esse trabalho, assim como a pesquisa como um todo, está ancorado na concepção de linguagem proposta por BAKHTIN (2011), considerando a linguagem como dialógica e constitutiva, isto é, os enunciados que produzimos estão sempre antecipando enunciados posteriores e sendo influenciados por outros enunciados outrora proferidos, dessa forma a

586

linguagem é compreendida como prática social concreta, composta de interlocutores

responsivos ativos, e não o esquema falante-ouvinte, como verifica-se no trecho:

Cada enunciado é um elo na corrente complexamente organizada de

Desse modo, o ouvinte com a sua

compreensão passiva, que é representado como parceiro do falante

nos desenhos esquemáticos das lingüísticas gerais, na corresponde ao

(BAKHTIN, 2011,

p. 272) Outra característica da linguagem segundo Bakhtin é que os enunciados produzidos por

nós estão sempre sob um formato específico e relativamente estável, o qual é denominado

gênero discursivo. A maneira como falamos nosso enunciado está submetida às suas

circunstâncias de produção (situação enunciativa), ou seja:

outros enunciados [

].

participante real da comunicação discursiva [

].

A vontade discursiva do falante se realiza antes de tudo na escolha de um gênero do discurso. Essa escolha é determinada pela especificidade de um dado campo da comunicação discursiva, por considerações semântico-objetivas (temáticas), pela situação concreta da comunicação discursiva, pela composição pessoal dos seus

participantes, etc. [

].

(BAKHTIN, 2011, p. 282)

Um terceiro ponto que Bakhtin destaca e no qual esta pesquisa se baseou foi a questão da

produção humana ser infinita em relação aos gêneros discursivos e, por isso, qualquer tipo de

enunciado está no enquadro de um gênero discursivo, como diz o autor: “A riqueza e a

diversidade dos gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da

multiforme atividade humana [

Além de Bakhtin esse texto também se ancora em noções propostas por GUEDES &

SOUZA apud SCHAFFER (2006), que dizem respeito ao fato de que a leitura e a escrita não

serem incumbências apenas do professor de Português, mas conhecimentos os quais

atravessam todas as disciplinas da escola, já que o conhecimento da leitura e escrita é

fundamental para as práticas sociais dos cidadãos em geral.

Ensinar é ensinar a ler para que o aluno se torne capaz dessa apropriação, pois o conhecimento acumulado está escrito em livros, revistas, jornais, relatórios, arquivos. Ensinar é ensinar a escrever porque a reflexão sobre a produção de conhecimento se expressa por escrito. (GUEDES & SOUZA apud SCHAFFER, 2006, p. 17) Quando detalharmos a questão sobre o LD de Geografia, é possível ver que a escrita

ainda não é abordada de maneira adequada dentro das práticas dos livros e que eles ainda

precisam ser aperfeiçoados nessa área, ou seja:

De modo geral, o escrever com o livro didático, paralelamente ao ler o livro didático, tem sido atividade pouco explorada. Expor por escrito, desenvolver argumentos com base em vivências e em leituras especializadas, pertinentes ao seu nível de escolaridade,

]”

(BAKHTIN, 2011. p. 262)

587

qualificar a produção textual, são solicitações pouco frequentes no ambiente escolar. (SCHAFFER, 2006, p. 101) Outro enfoque no qual o artigo se embasou está presente em Freitas que traz uma noção

inicial sobre o conceito de livro didático (aliás, conceito controverso entre os especialistas) e

apresentando algumas de suas características, como materializar a disciplina escolar, ou, nas

próprias palavras do autor:

o livro é o suporte privilegiado da disciplina. Ele veicula os seus

principais constituintes: os conteúdos, ou seja, núcleo sobre o qual ela se constitui, a natureza temática e as limitações com as demais disciplinas. (FREITAS apud OLIVEIRA, M. M. D. & OLIVEIRA, A. F. B., 2009, p. 13) Em relação ao LD de História, é possível considerar que a disciplina tem um “poder”

especial: o de expor os fatos de acordo com a interpretação que o autor tem sobre o que

escreve, por meio da linguagem. Existem LD que foram vítimas desse tipo de manipulação,

principalmente, no período ditatorial, como indica SEAL (2009): “A linguagem utilizada

nestes, supostamente neutra e inocente, pregava e disseminava uma série de preconceitos de

classe, etnias, de mistificações. Manipulavam informações e legitimavam a dominação e

exploração da burguesia” (SEAL, 2009, pág.71).

Outra característica do LD se faz presente quando pensamos nele como ferramenta que

tem, entre outras, a finalidade de produzir sentidos para os seus leitores, algo que é feito

através da leitura, como diz FREITAS (2009, p. 14): “A última característica significativa do

livro didático é o fato de ele ser planejado e organizado para o uso em situação didática: para

ser lido – no seu sentido mais abrangente, para produzir sentido”. A noção da escrita também

atravessa a questão da produção de sentido, juntamente com a leitura, e para termos esse fim,

o LD deve tratar a linguagem da mesma maneira que ela é utilizada na sociedade pelo

estudante. Eis algumas abordagens de produção textual no LD de Geografia que analisamos.

) (

METODOLOGIA DA PESQUISA

A pesquisa seguiu um caráter qualitativo, ao lidar com os dados dos LD, analisando as

propostas de produção de texto encontradas em cada um deles, segundo o referencial teórico

utilizado. Assim, procurou-se comparar as propostas dos LD das disciplinas para ver qual

delas possuía um maior número de critérios para uma proposta de produção textual adequada.

Os livros utilizados são destinados ao 9º ano do ensino fundamental, das disciplinas de

Geografia e História (as suas referências completas podem ser observadas entre as referências

bibliográficas para o trabalho). Alguns critérios de avaliação de proposta são, segundo os

conceitos de Bakhtin (2011): se a proposta explicita o gênero discursivo a ser escrito,

588

interlocutores, situação social imediata, horizonte social, estilo, interlocução e intenção comunicativa. Também é válido ressaltar que os LD em questão estão incluídos no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Portanto, assume-se que há algum tipo de controle de qualidade para que um LD possa ser encaixado no programa. É de se esperar também que, por participarem desse programa, estejam seguindo uma linha teórica que esteja de acordo com o que é recomendado pelos PCN.

ANÁLISE Para efeitos de análise, foram escolhidas duas figuras para serem inseridas neste trabalho. A figura 1 corresponde a uma atividade de produção de texto do LD de História, enquanto a figura 2 é uma atividade de produção do LD de Geografia.

de produção de texto do LD de História, enquanto a figura 2 é uma atividade de

Figura 1

589

Observando o quadro “A imagem como fonte”, a figura 1 nos mostra uma proposta para que o aluno produza um gênero simples: uma legenda para a imagem em questão. Entretanto, para que o aluno possa ser capaz de fazer tal texto, deve ter noções sobre o que está sendo denotado pela imagem, algo que o LD provavelmente contempla ao abordar o assunto do capítulo. Podemos dizer, portanto, que a proposta dá as orientações ao aluno no sentido do que deve ser escrito, ou seja, da ordem do conteúdo do texto. Em relação aos fatores da situação comunicativa, observa-se que o livro dá algum direcionamento ao aluno no que diz respeito a: gênero discursivo que deve ser produzido (uma legenda). Quanto a direcionamentos sobre: interlocutores, situação social imediata, horizonte social, estilo, interlocução e intenção comunicativa; o LD não traz essas informações para o aluno. Em resumo, dos sete fatores extralinguísticos postos em questão através da teoria enunciativa bakhtiniana, o LD contempla apenas um deles. A falta dos outros critérios deixa um vácuo na proposta da produção, pois o aluno irá passar a produzir um texto apenas com o interesse de entregar ao professor para que ele possa corrigi-lo, assim, desmotivando o estudante para futuras produções. Apesar de ser uma proposta para produzir um texto curto e simples, o aluno poderia fazer uma série de modificações em seu texto a partir de informações como quem são os interlocutores do texto, o que possibilitaria ao aluno a adequação de suas escolhas lexicais dependendo do seu público-alvo, por exemplo. Em relação ao horizonte social e à situação social imediata, eles seriam capazes de dizer ao aluno a que época adequar o seu texto, pois como estamos tratando de História, a época em que o texto é produzido é determinante para saber os seus efeitos (fazendo uma analogia, uma notícia em relação à Guerra Fria tem interpretações diferentes para nós, contemporâneos, e para as pessoas que viveram essa época). Uma possível intenção comunicativa do texto também é omitida pela proposta. Sem ela, o aluno não pode realmente escrever seu texto de maneira consciente, pois sabemos que só produzimos enunciados quando há algum tipo de intenção por trás. Portanto, uma proposta de produção de texto que não traga alguma intenção comunicativa se torna extremamente artificial. Dessa maneira, a proposta que está sendo analisada possui sérios problemas em relação ao que é pedido, pois ela se apresenta de maneira bastante limitada em fatores que extrapolam o mero conteúdo do texto, dando a entender que a concepção de linguagem do autor pode não levar em consideração tais fatores e que o conteúdo do texto propriamente dito é o mais

590

importante. Na verdade, é necessário perceber que essas condições de produção são capazes de direcionar o texto tanto quanto o conteúdo propriamente dito. A figura 2, contida no LD de Geografia, corresponde a produção textual de cada capítulo do livro, intitulada de “Registro final”

cada capítulo do livro, intitulada de “Registro final” Figura 2 Em relação á figura 2, podemos

Figura 2

Em relação á figura 2, podemos observar a atividade intitulada de “Registro Final”, que é a atividade de produção a qual o livro propõe ao fim de cada capítulo. Essa atividade, assim como a analisada anteriormente, procura informar o aluno sobre o conteúdo tratado através de textos (embora a atividade anterior se utilizasse apenas do recurso visual, enquanto essa utiliza tanto o verbal quanto o visual). Há a exposição de um anúncio e também de uma notícia.

Em relação aos critérios estabelecidos para a análise, pode-se dizer que o LD não contempla nenhum deles, porque quando é pedido para o aluno que ele produza um texto

591

opinativo, não é dado nenhum gênero discursivo para o aluno, e sim um tipo de texto 227 . Gêneros discursivos do tipo opinativo seriam artigo de opinião, carta argumentativa, etc. Dessa maneira, pode-se concluir o que já foi dito anteriormente: a atividade em questão não contempla nenhum dos aspectos extralinguísticos que já foram explicados anteriormente. Com isso, é possível perceber que a atividade é bastante limitada nos aspectos que estão sendo discutidos, pois não consegue recriar algum tipo de situação que corresponda à uma real situação comunicativa em que a escrita seja necessária. Assim como foi explicado anteriormente, a presença de fatores como: interlocutores, situação social imediata, horizonte social, gênero discursivo, etc. são determinantes para a produção de qualquer texto em nossa sociedade. A atividade trazida pelo LD falha em fazer isso, tornando a proposta, assim como a anterior, bastante artificial.

CONSIDERAÇÕS FINAIS

Após a análise das propostas que foram trazidas, é possível concluir que ainda há muito a ser feito para que os autores de todas as áreas do conhecimento tenham a consciência de que a tarefa de ler e de escrever não deve ser pensada apenas no ensino e nos livros didáticos de língua portuguesa, e sim nos livros de todas as áreas, tendo em vista que todas elas se utilizam desse recurso para o desenvolvimento delas. Obviamente, o professor de língua portuguesa possui uma obrigação maior no que diz respeito a essas questões, afinal, essa é sua especialidade, mas isso não significa que essa responsabilidade recaia inteiramente nele, pois as questões de língua que são ensinadas nas aulas de português certamente serão usadas não apenas na escola, mas nas práticas sociais dos sujeitos, tendo em vista que agimos através da língua. Portanto, é necessário, antes de qualquer reforma em livros didáticos de qualquer área, que os responsáveis pelo ensino, tanto em nível de escola quanto em nível de instituições como o Ministério da Educação, criem a consciência de que a leitura e a escrita proficientes não devem ser responsabilidades exclusivas do professor de português. Essa conscientização é o primeiro passo para que o LD possua atividade de produção textual que vão além das meras orientações sobre o conteúdo do texto, levando também em consideração os fatores que foram abordados no presente artigo, pois não adianta as

227 Segundo ADAM (2008), os tipos textuais são: narrativo, argumentativo, dialogal, descritivo, injuntivo e explicativo.

592

atividades serem completamente situadas sócio-historicamente se os professores não têm a consciência e nem conhecimento para saber como proceder com essas atividades com seus alunos, tornando a leitura e a escritas ferramentas as quais ele usará em todas as suas práticas sócias.

REFERÊNCIAS ALVES, M.P.C. O diário de leitura e o exercício da contrapalavra. In: ZOZZOLI, R. M.D; OLIVEIRA, M.B.F. (Orgs.). Leitura, Escrita e Ensino. Alagoas: EDUFAL, 2008. BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011. SCHAFFER, N.O. Ler e escrever: compromisso de todas as áreas. Porto Alegre: UFRGS,

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593

593 A ESTRUTURA MASSN NA PRODUÇÃO DO TEXTO DE OPINIÃO: CONSIDERAÇÕES SEMÂNTICO-DISCURSIVAS 2 2 8 1

A ESTRUTURA MASSN NA PRODUÇÃO DO TEXTO DE OPINIÃO:

CONSIDERAÇÕES SEMÂNTICO-DISCURSIVAS 228

1 INTRODUÇÃO

Marcos Antônio da Silva Universidade Federal da Paraíba/Proling/CAPES Erivaldo Pereira do Nascimento Universidade Federal da Paraíba/CNPq

Cotidianamente, estamos interagindo nas mais diversas esferas da nossa sociedade.

Nossas interações ocorrem por intermédio da linguagem e, conforme é postulado por Ducrot

(1988), a língua é argumentativa por natureza.

Dessa forma, sempre que nos relacionamos com outros indivíduos, estamos, de

alguma maneira, querendo impor ou apresentar um ponto de vista nosso, com o desejo de que

o outro, nosso interlocutor, aceite esse ponto de vista como sendo o mais plausível. Estamos,

assim, agindo argumentativamente, por meio da língua e na língua.

Já que consideramos que a língua é por natureza argumentativa, podemos dizer que no

interior da própria estrutura de uma determinada língua há elementos que possibilitam o

encadeamento de argumentos, levando o ouvinte/interlocutor a elaborar determinadas

conclusões. A esses elementos, Ducrot e Vogt (1980), em seus estudos, denominaram de

operadores argumentativos.

228 Esta pesquisa está atrelada ao projeto ESAGD (Estudos Semântico-Argumentativos de Gêneros do Discurso:

redação escolar e gêneros formulaicos) e tem apoio do CNPq - Processo 501922/2009-1.569.

594

Assim, norteados pela Teoria da Argumentação na Língua, proposta por Anscombre e Ducrot (1988, 1994), intentamos, com este artigo, apresentar uma análise da estrutura masSN em textos de opinião produzidos por alunos egressos do ensino médio durante o PSS (Processo Seletivo Seriado 2009), da UFPB. É preciso ressaltar que essa estrutura, o mas, aqui especificado por masSN, é apresentada pelas gramáticas tradicionais como estrutura responsável por unir elementos/termos de mesmos valores sintáticos. Já para os autores da Teoria da Argumentação na Língua, a função desse elemento vai além da de unir termos equivalentes, mas funciona de forma argumentativa nas relações entre os enunciados, como veremos posteriormente nas análises. Salientamos, ainda, que Vogt e Ducrot (1980) diferenciam dois tipos de mas: um masPA e um masSN, mas que nosso empreendimento dará conta apenas do segundo tipo, o masNS, visto a inexistência dessa estrutura nos nossos compêndios escolares e, ainda assim, o seu uso nas redações analisadas. Nossos estudos serão guiados pela Teoria da Argumentação na Língua, proposta por Anscombre e Ducrot (1994), conforme já pontuamos, bem como pelas contribuições de Ducrot (1997, 1988), Guimarães (1987), Koch (2007), dentre outros.

2 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

Os estudos acerca da argumentação com ênfase na língua têm seu marco inicial com a publicação da obra L`argumentation dans la langue, em 1983 229 , da autoria de Jean-Claude Anscombre e Oswald Ducrot. A proposta apresentada por Ducrot e colaboradores (1988) na Teoria da Argumentação na Língua (TAL) trata-se de uma reação à concepção tradicional de

argumentação. Esses estudiosos, segundo Nascimento (2005, p.17), rejeitam “[

a

concepção de língua como conjunto de regras independentes de toda enunciação e contexto, negando a ideia de que a língua tem primeiramente uma função referencial e que o sentido do

enunciado se julgue em termos de verdade ou falsidade [

Destacamos ainda que, mesmo

]

]”.

229 A obra datada de 1983 refere-se à edição francesa La argumentation dans la langue, no entanto, utilizaremos a edição espanhola La argumentacion en la lengua, datada de 1994 e Polifonia y argumentacion, de 1988.

595

sendo estruturalista, Ducrot (1994) leva em consideração o contexto em que o enunciado é produzido e deixa claro que o seu compromisso, enquanto estruturalista, não consiste em tentar descrever a língua como uma forma de dar informações sobre o mundo, mas como uma forma de construir discursos. Dessa forma, Ducrot (1988), ao elaborar sua teoria da argumentação, explicita que esta tem como objetivo fazer oposição à noção tradicional de sentido, pois, de acordo com esse autor, são descritos, tradicionalmente, três aspectos de sentidos dos enunciados: objetivos, subjetivos e intersubjetivos. Cada um desses aspectos estaria relacionado com uma função, em relação ao enunciado. O aspecto objetivo teria como função representar a realidade; o subjetivo, revelar a posição do locutor diante da realidade e o intersubjetivo referir-se às relações existentes entre os locutores e seus interlocutores, frente ao fato enunciado. Exemplificando como ocorre a distinção entre esses três aspectos ou indicações, Ducrot (1988, p. 50) apresenta os seguintes exemplos:

Exemplo 01:

Pedro é inteligente.

Com efeito, há presente no enunciado os três aspectos: o objetivo – descreve Pedro; o subjetivo – ao indicar sentimento/admiração do locutor em relação a Pedro, e ainda o intersubjetivo – quando o locutor revela ao seu interlocutor que o mesmo pode confiar em Pedro.

Em relação ao segundo exemplo, proposto também por esse autor (1988, p.50), temos:

Exemplo 02:

Faz bom tempo.

Da mesma maneira que ocorre no primeiro exemplo, há nesse enunciado a presença também dos três aspectos. O objetivo descreve a condição do tempo naquele exato momento da enunciação; o aspecto subjetivo revela que a condição presente do tempo agrada ao locutor (condição essa que poderia ser de chuva, sol forte, sol ameno) e, por último, o aspecto intersubjetivo, uma vez que, ao pronunciar tal discurso, o locutor poderá revelar, se esse for seu objetivo, um convite a um passeio ou uma ida à praia.

596

Ao analisar esses dois exemplos, Ducrot (1988) afirma que, tradicionalmente, os aspectos objetivos são chamados de denotação, enquanto os subjetivos e intersubjetivos de conotação. Para esse autor, é necessário acabar com a separação entre denotação e conotação, devido ao fato de que a linguagem ordinária não possui uma parte objetiva e, além disso, os enunciados, para esse autor, não dão acesso direto à realidade. Assim, para esse autor, se é possível que a linguagem ordinária possa descrever a realidade, isso é realizado por meio dos aspectos subjetivos e intersubjetivos. Dessa forma, retomando o primeiro exemplo, ao descrever Pedro, o locutor revela já sua admiração (esta subjetiva) por Pedro. É ainda necessário que o locutor tenha admiração (subjetiva) pela inteligência para poder enunciar tal discurso. Ducrot (1988) lembra ainda que, ao afirmar que “Pedro é inteligente” (aspecto objetivo), o locutor revela a forma como seu interlocutor deve portar-se com Pedro (aspecto intersubjetivo). Ou seja, Pedro é inteligente, você pode contratá-lo / ele dará conta das atividades etc. Por conseguinte, Ducrot (1988) une os dois aspectos - subjetivos e intersubjetivos - e os denomina de valor argumentativo, passando a compreender esse valor como a orientação argumentativa que uma palavra dá ao discurso. Além disso, esse autor (1988, p. 50) afirma que:

De fato, no meu ponto de vista, o emprego de uma palavra torna possível ou impossível uma certa continuação do discurso e o valor argumentativo dessa palavra é o conjunto dessas possibilidades ou impossibilidades de continuação discursiva que seu emprego determina 230 . (Tradução nossa)

Os estudos em torno da argumentação na língua, propostos por Ducrot e colaboradores, passaram por algumas modificações, evidenciando, por meio das pesquisas, que a sua teoria não pode/deve ser vista como concluída. O que prova essas modificações são as evoluções referentes ao conceito de argumentação e no que diz respeito às funções dos operadores, por exemplo, que podem ser observadas nas várias etapas 231 dessa teoria que

230 En efecto, a mi juicio el empleo de una palabra have possible o impossible una cierta continuación del discurso y el valor argumentativo de esa palabra es el conjunto de esas possibilidades o impossibilidades de continuación discursiva que su empleo determina.

231 Por motivo de espaço, não trouxemos uma discussão mais ampla sobre a evolução da Teoria da argumentação na Língua. Uma leitura mais completa, no tocante às etapas dessa teoria, pode ser vista em SILVA (2010).

597

compreendem os estudos sobre a argumentação na língua, desenvolvidas por esses estudiosos, e que seguem em parcerias nos dias atuais com Marion Carel e atual etapa da teoria, a Teoria dos Blocos Semânticos. Nosso trabalho é norteado pela terceira etapa dessa teoria, A Argumentação como Constituinte da Significação, pois é nessa etapa que os autores afirmam que a argumentação está na língua, isto é, a língua é, por natureza, argumentativa. Ainda nessa terceira etapa, diferentemente das outras duas primeiras etapas, nas quais não foram introduzidos valores argumentativos à língua, Ducrot e colaboradores (1994) compreenderam a argumentação como algo inerente à língua. Os operadores como pouco, um pouco, também, que entre outros, de acordo com os autores, podem não apenas favorecer certas argumentações, mas devem proporcionar outras. Esses mesmos operadores, nas frases, devem ser utilizados de forma que os enunciados determinem as direções argumentativas que orientarão os interlocutores/ouvintes a determinadas conclusões. Além da discussão sobre os operadores argumentativos, é no interior da Teoria da Argumentação que Ducrot e colaboradores (1988) introduzem a noção de polifonia, trazida do universo musical, com o objetivo de quebrar com a ideia da unicidade do sujeito. Assim, os autores distinguem dois tipos de polifonia: a de locutores e a de enunciadores.

discurso relatado em estilo

direto”, como declara o autor (1987, p. 185). Ducrot propõe o seguinte exemplo para essa

A polifonia de locutores pode ser encontrada no “[

]

forma de polifonia:

Exemplo 03:

João me disse: eu virei.

A polifonia de locutores pode ser identificada, no exemplo, por meio das duas marcas

linguísticas pronominais: “me” e “eu”. Sendo assim, podemos afirmar que o locutor L1 é responsável pelo enunciado como um todo “João me disse: eu virei”, enquanto que o locutor L2 é responsável pelo segmento “eu virei”. Convém salientar que o segmento “eu virei” é relatado por L1 no momento do evento comunicativo e que, dessa forma, não se trata de dois enunciados, mas segundo esse estudioso, o que ocorre no exemplo “João me disse: eu virei” é que há aí dois locutores em um único enunciado.

598

No caso do exemplo 03, dos dois locutores presentes, L1 é o responsável pelo enunciado em sua totalidade e ao L2 é atribuída apenas uma parte desse enunciado, ou seja, o relato “eu virei”. Em relação à polifonia dos enunciadores, esse tipo ocorre no momento em que o locutor apresenta, no enunciado, pontos de vista diferentes, consoante Ducrot (1987). Ainda

conforme esse autor (1987, p. 193), “[

através deste, a enunciadores de quem ele organiza os pontos de vista e as atitudes”. Um dos elementos responsáveis pela ativação da polifonia de enunciadores é o operador argumentativo masPA. No entanto, durante as análises das produções e com base em Martorelli (2005), vimos que é possível identificar a polifonia de enunciadores também nos enunciados produzidos com a estrutura retificadora masSN. Porém, é interessante que se explicite que, nesse caso, a polifonia não é ativada pela estrutura mas, mas pelo elemento

negativo não, marca da “negação polêmica”.

o locutor, responsável pelo enunciado, dá existência,

]

2.1 Sobre a estrutura mas

é a palavra invariável usada

para ligar orações ou termos semelhantes (de mesma função sintática) de uma oração.” Para esses autores, a palavra mas está presente nas orações coordenadas adversativas, bem como porém, contudo, todavia, entanto, entretanto e ainda as locuções no entanto, não obstante,

nada obstante, introduzindo essa oração e exprimindo contraste, oposição ou compensação em relação à anterior. Como exemplos, os autores apresentam (1997, p. 302):

Conforme Nicola e Infante (1997, p. 232), conjunção “[

]

Exemplo 04:

Este mundo é redondo mas está ficando muito chato (Barão de Itararé) e O amor é difícil mas pode luzir em qualquer ponto da cidade (Ferreira Gullar).

é a palavra invariável que

estabelece relação entre duas orações ou entre dois termos que exercem a mesma função sintática”. Esses autores trazem como exemplo a oração:

Faraco e Moura (2002, p.369) afirmam que conjunção “[

]

599

Gostaria de ler bastante, mas não tenho tempo.

Nada mais, sobre a questão de argumentação, presença de outros enunciadores e mesmo sobre o fato de poder ser utilizado como retificador, é dito sobre essa estrutura. Vogt e Ducrot (1980), ao se dedicarem à questão do mas, identificaram dois tipos dessa estrutura: um masPA, operador argumentativo por excelência, segundo os autores, e o

masSN, que tem a função de retificar algo dito na proposição anterior. Sobre o fato de o masSN exigir que a proposição anterior seja negativa, Guimarães (1987, p. 61), ao realizar estudos sobre o funcionamento das conjunções no português, afirma

função de correção de algo suposta ou realmente dito

antes”, como no exemplo exposto pelo autor:

que esse conectivo aparece com a “[

]

Exemplo 06:

Ela não é nadadora mas atleta.

Dessa forma, explicando a estrutura do funcionamento do masPA, Ducrot e Vogt

sua função é introduzir uma proposição q que orienta para

uma conclusão não-r oposta a uma conclusão r para a qual p poderia conduzir”. Como exemplo para o exposto, os autores nos dão o seguinte enunciado: Ele é inteligente, masPA estuda pouco. Assim, seja Ele é inteligente (p), essa proposição orientará o interlocutor para a

conclusão r (possivelmente, ele é muito estudioso), no entanto, o masPA introduz uma outra proposição estuda pouco (q) gerando, portanto, uma conclusão não-r que diverge da

conclusão anterior r indicada pelo segmento. Consoante Koch (1999, p. 17), os operadores têm como função relacionar semanticamente elementos no interior do texto, essenciais para a interpretação do mesmo. A pesquisadora afirma ainda que “A coesão, por estabelecer relações de sentido, diz respeito ao conjunto de recursos semânticos por meio dos quais uma sentença se liga com a que veio antes, aos recursos semânticos mobilizados com o propósito de criar textos”. Trata-se, portanto, de um “elo coesivo” o funcionamento desses recursos coesivos, na produção textual. Essa autora (2007, p.31), dentre uma possível classificação para os operadores argumentativos, inclui a estrutura “mas” no grupo dos operadores de contraposição, enquanto

(1980, p.104) afirmam que “[

]

600

(porém, contudo, todavia, no entanto, etc.), embora (ainda que, posto que, apesar de (que), etc.)”.

Assim, a partir da leitura desses teóricos, podemos observar que a estrutura mas (seja masPA ou masSN) tem mais relevância do que apresenta a maioria dos manuais didáticos, quando aferem a essa estrutura o poder apenas de ligar termos. Como mostram os pesquisadores estudados, o mas, além de trazer outros pontos de vista para o interior do enunciado, pode também funcionar como sinal de retificação, além de orientar os enunciadores para conclusões distintas. É com base nesses estudiosos que realizaremos nossas análises, mas apenas com o olhar voltado para o masSN.

3 ANÁLISES

As produções aqui analisadas foram coletadas na COPERVE, em fevereiro de 2009, após o PSS (Processo Seletivo Seriado) realizado pela Universidade Federal da Paraíba. Após a coleta dos textos, deu-se início à leitura e às análises das produções. Em seguida, foram realizadas a descrições quanto ao funcionamento da estrutura mas e os resultados apontaram para apenas dezoito ocorrências do masSN, dentro de um universo de quinhentos textos. Consoante os estudos empreendidos por Ducrot e Vogt (1980), o mas pode ter, também, a função de retificar algo dito anteriormente no enunciado, nesse caso, estaremos nos referindo ao masSN. O operador masPA, que tem função argumentativa, como já pontuamos, não será observado nas nossas análises. Cabe aqui ressaltar que, conforme fora dito na seção anterior, a polifonia presente no enunciado com masSN não é ativada por esse elemento, mas pela partícula negativa não, presente no primeiro segmento do enunciado. Ressaltamos ainda que, das dezoito ocorrências dessa estrutura identificadas no nosso corpus, trouxemos para nosso artigo um total de cinco casos, objetivando evitar repetições nas análises.

Texto 01:

601

deve-se ter o cuidado de não deixar a grandiosidade deste

ato ser ofuscada por interesses pessoais em busca de “estereótipos padrões”, pois, não estamos lidando com produtos, mas com vidas.

(TP) 232

], [

No exemplo do texto 01, o locutor retifica a forma como as crianças devem ser

tratadas: não como meros produtos que podem ser escolhidos por “padrões”, mas como

crianças que necessitam de cuidados.

Analisando a polifonia presente nesse exemplo, é possível identificar os seguintes

enunciadores:

E1: Estamos lidando com produtos.

E2: Não estamos lidando com produtos.

E3: Mas com vidas.

A posição do locutor diante dos enunciadores é a seguinte: rechaça totalmente E1,

identifica-se com E3 e aprova E2.

Texto 02:

não são todas as famílias adotando por uma questão de

amor, mas sim por um questão de dinheiro, afim de lucrar com a

exploração infantil. (TP)

] [

Em relação ao recorte 02, o locutor responsável pelo texto utilizou o masSN com a

função de retificar o fato de um outro enunciador ter dito que “todas as famílias (estão)

adotando por uma questão de amor”. Conforme é possível observar nesse caso, o locutor do

texto deseja impor o seu ponto de vista de que há famílias que estão adotando “por uma

questão de dinheiro, a fim de lucrar com a exploração infantil.”

É possível identificar no recorte 02 os seguintes enunciadores:

232 As marcas TP indicam que os textos foram transcritos de forma parcial. Os marcados com TT indicam transcrição na totalidade.

602

E1: Todas as famílias estão adotando por uma questão de amor.

E2: [

E3: Mas sim por uma questão de dinheiro, a fim de lucrar com a exploração infantil.

]

não são todas as famílias adotando por uma questão de amor.

O locutor rechaça parcialmente E1, aprova E2 e se identifica com E3.

Texto 03:

Por isso, a solução para esse problema não está no “tratamento”, mas sim na “prevenção”, ou seja, deve haver um cuidado maior por parte dos genitores para impedir a união dos gametas, utilizando métodos anti-concepcionais. (TP)

No exemplo do texto 03, o masSN introduzido na segunda proposição foi usado para

retificar o enunciado dito anteriormente, ou seja, “que a solução para esse problema não está

no “tratamento”. Lembramos que essa negação já se trata de uma negação a algo dito antes,

por um outro enunciador. Trata-se da negação à ideia de que “A solução para esse problema

está no ´tratamento´”.

Polifonicamente, termos os seguintes enunciadores:

E1: A solução para esse problema está no tratamento.

E2: Por isso, a solução para esse problema não está no tratamento.

E3: Mas sim na “prevenção”, ou seja, deve haver [

].

O locutor recusa E1, identifica-se com E3 e aprova E2.

Texto 04:

A solução para o menor abandonado no Brasil não está especificamente ligada a adoção, mas sim a conscientização dos governantes que deveriam se preocupar com o futuro dessas crianças

[

].

(TP)

Observando o exemplo do recorte 04, podemos afirmar que o fato negado na primeira

proposição é a questão de que a solução para o problema do número de menores abandonados

603

estaria ligada à adoção. Esse fato é negado pelo enunciador E2 e retificado pelo enunciador

E3, que afirma que a solução está ligada à “conscientização dos governantes que deveriam se

preocupar com o futuro dessas crianças”.

É possível identificar os enunciadores seguintes:

E1: A solução para o menor abandonado no Brasil está ligada à adoção.

E2: A solução para o menor abandonado no Brasil não está especificamente ligada à adoção.

E3: Mas sim a conscientização dos governantes que deveriam se preocupar com o futuro

dessas crianças.

As posições do locutor responsável pelo texto, frente aos enunciadores, são: rechaçar

parcialmente E1, identificar-se com E3 e aprovar E2.

Texto 05:

A adoção não resolve o problema dos menores abandonados, mas, já seria um bom começo, e junto à outras medidas, tornaria as coisas bem mais fáceis. (TP)

Ao analisarmos o exemplo do texto 05, percebemos que o masSN na segunda

proposição aparece com a função de retificar algo enunciado na proposição anterior, que, por

sua vez, já se trata de uma negação a algo dito por um outro enunciador.

A ideia negada, nesse exemplo, é a de que a adoção resolve o problema do menor

abandonado, quando, segundo o locutor, a adoção “seria um bom começo”. O locutor

apresenta um rechaço parcial, ou seja, que o a adoção não soluciona completamente a questão

dos menores abandonados, mas que de alguma forma ajudaria a solucioná-lo.

A distribuição polifônica dos enunciadores do texto 05 pode ser representada da

seguinte maneira:

E1: A adoção resolve o problema dos menores abandonados.

E2: A adoção não resolve o problema dos menores abandonados.

E3: Mas já seria um bom começo, e junto a outras medidas, tornaria as coisas bem mais

fáceis.

604

O locutor rechaça parcialmente E1, aprova E2 e se identifica com E3.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Se compararmos a quantidade de ocorrências identificadas com o uso do masSN,

apenas 18, em relação ao masPA, esse dado demonstra que os alunos não mostram tanta

familiaridade com essa estrutura em comparação com o operador masPA, com função

argumentativa, verificada em 129 ocorrências, em um total de 500 textos. Talvez, isso possa

ser explicado pelas próprias características do texto de opinião, o qual pede/exige que os

locutores argumentem em relação a um certo ponto de vista apresentado e, por não ser visto

como um operador argumentativo por excelência e não se faça presente nos manuais

escolares, o número de ocorrência tenha sido tão pequeno.

Mas, ainda que tenha sido utilizado em um número bem inferior ao masPA, o masSN

apresentou algumas questões não identificadas ou descritas por Ducrot (1988) em suas

análises. O primeiro ponto relevante é a utilização da polifonia marcada pelo elemento

negativo não, responsável por ativar índice de polifonia. Consequentemente, teremos a

presença dos enunciadores ou pontos de vista.

A análise dos enunciadores em enunciados com masSN não foi realizada pelo autor

anteriormente citado, dessa forma, o mesmo não verificou as posições do locutor em relação

aos possíveis enunciadores. Ao fazermos essas análises e aplicar a distribuição polifônica nos

enunciados construídos com o operador masSN, verificamos que duas posições são possíveis,

por parte do locutor, em relação ao E1: ora o locutor pode rechaçar totalmente esse

enunciador, ora pode rechaçá-lo de forma parcial.

Logo, nos chama a atenção o fato dos produtores de texto, nesse caso, os alunos saídos

do ensino médio, não “aprenderem na escola” o uso dessa estrutura, já que os livros didáticos

não apresentam tal uso/funcionamento para a estrutura mas e, ainda assim, eles a utilizam em

seus textos, e com eficiência.

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606

606 A RESPONSABILIDADE ENUNCIATIVA EM ITINÉRAIRE D’UN VOYAGE EN ALLEMAGNE E TROIS ANS EN ITALIE, SUIVIS

A RESPONSABILIDADE ENUNCIATIVA EM ITINÉRAIRE D’UN VOYAGE EN

ALLEMAGNE E TROIS ANS EN ITALIE, SUIVIS D’UN VOYAGE EN GRÈCE

1. Introdução:

Alyanne de Freitas Chacon Universidade Federal do Rio Grande do Norte Maria das Graças Soares Rodrigues Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Este trabalho propõe analisar o fenômeno da Responsabilidade Enunciativa em dois

relatos de viagem: Itinéraire d’un Voyage en Allemagne (1857) e Trois Ans en Italie, Suivis

d’un Voyage en Grèce 233 (1864/1872). Diante de diversas noções que podem ser empregadas

para se analisar a RE, basear-nos-emos nas noções de Ponto de Vista e Locutor e Enunciador.

Para esta discussão, utilizaremos, sobretudo, os pressupostos de dois teóricos: Oswald Ducrot

e Alain Rabatel, uma vez que é possível apontarmos convergências e divergências entre as

noções apresentadas por eles. Ressaltamos que as considerações apresentadas por Rabatel

servirão de base para nossa análise. Por fim, seguiremos a metodologia qualitativa de natureza

interpretativista.

2. Fundamentação teórica

A Responsabilidade Enunciativa (doravante RE) é um tema que já foi e ainda é

abordado por muitos teóricos. Dentre eles, optamos por utilizar, nesta exposição, os

pressupostos de Ducrot e Rabatel, que já fez análises sobre essa temática em obras literárias.

233 Doravante Itinéraire e Trois Ans.

607

Como nossos corpora são relatos de viagem, a assunção da RE pode ser nitidamente identificada, haja vista que uma das características desse gênero, é que o viajante (escritor/enunciador) narre sua própria viagem e, portanto, apresente suas percepções acerca dos lugares por onde passa, o que confere um caráter pessoal ao que está sendo enunciado. Assim, uma vez que a assunção da RE pode ser facilmente identificada, observaremos, a partir da noção de Ponto de vista (PDV) e Locutor e Enunciador, se é possível encontrar nesses relatos marcas de não assunção da RE. Nossa proposta une linguística e literatura. Portanto, trabalharemos com uma teoria linguística em corpora literários. Os teóricos da Teoria Escandinava da Polifonia Linguística (ScaPoLine), que também tratam da questão da RE, consideram importante essa junção da linguística e da literatura.

D’une part, les littéraires fournissent souvent à la bonne surprise des linguistes de nombreux exemples pourvus d’interprétations souvent assez subtiles qui, pour les linguistes, représentent des faits nouveaux. D’autre part, les linguistes révèlent aux littéraires l’importance systématique qu’ont les faits linguistiques, les aidant ainsi à découvrir parfois des interprétations et des lectures encore plus riches. (NØLKE et al., 2004, p. 22). 234

Assim, enfatizamos a importância de se unir linguística e literatura, pois literários e linguistas podem se ajudar, cada um com suas especialidades, colaborando para uma melhor interpretação/análise de textos. Para se fazer uma análise sobre a RE, é importante compreender algumas noções, como a de ponto de vista (PDV) e os conceitos de Locutor e Enunciador. A distinção entre esses termos não é consensual, elas podem variar segundo os autores. Faremos nossa discussão considerando os pressupostos ducrotianos e rabatelianos. De acordo com Ducrot (1987, p. 142), há uma distinção entre locutor e enunciador. Ele denomina “locutor de um enunciado” o autor que o locutor atribui à sua enunciação.

Este autor pretendido da enunciação é o ser a quem fazem referência o eu e as marcas de primeira pessoa (salvo no discurso relatado em estilo direto). Muitas vezes (sobretudo na conversação oral), mas nem sempre, ele pode ser identificado com o falante, isto é, com a pessoa que, “efetivamente”, produz o enunciado. [

N.B.: Salvo menção contrária, todas as traduções são de nossa autoria. 234 De um lado, os literários fornecem frequentemente, para a boa surpresa dos linguistas, numerosos exemplos provenientes de interpretações bem sutis que, para os linguistas, representam novos fatos. Do outro lado, os linguistas revelam aos literários a importância sistemática que têm os fatos linguísticos, ajudando-os assim a descobrir, às vezes, interpretações e leituras ainda mais ricas.

608

Chamo “enunciadores” às personagens que são apresentadas pelo enunciado como autores destes atos. Todo o paradoxo – que denomino conforme a expressão de Bakhtin, “polifonia” – prende-se ao fato de que os enunciadores não se confundem automaticamente com o locutor. (DUCROT, 1987, p. 142).

Nas versões ulteriores da teoria polifônica, Ducrot não apresenta mais o locutor como autor da enunciação, mas como responsável, a fim de acentuar a diferença entre locutor e falante.

Rabatel (2008, p. 13-4) que, em certos aspectos, também se baseia nos pressupostos ducrotianos, relaciona o homo narrans às definições de locutor e enunciador trazidas por Ducrot:

« le locuteur, responsable de l’énoncé, donne existence, au moyen

de celui-ci, à des énonciateurs dont il organise les points de vue et les attitudes. Et sa position propre peut se manifester soit parce qu’il s’assimile à tel ou tel des énonciateurs, en le prenant pour représentant (l’énonciateur est alors actualisé), soit simplement parce qu’il a choisi de les faire apparaître et que leur apparition reste

significative, même s’il ne s’assimile pas à eux » (Ducrot 1984 : 205). Autrement dit, le locuteur devient le responsable de la mise en scène énonciative. En écho à ces représentations, Homo narrans est triplement sujet, sujet co-acteur, sujet hétérogène, sujet polyphonique, dans les relations que le narrateur entretient avec ses pairs, avec son auditoire comme avec ses personnages, en étant capable de mettre en scène une multiplicité de PDV et de les faire dialoguer entre eux. 235

Selon Ducrot, [

]

Portanto, vemos que, sob a ótica de Ducrot, o responsável pelo enunciado é o locutor, os enunciadores seriam os responsáveis pelos pontos de vista e atitudes. Alguns autores, como Rabatel, posicionam-se diferentemente quanto ao responsável do enunciado, pois, para ele, o responsável pelo enunciado, ou seja, pelo que foi dito, é o enunciador, mesmo que seja um enunciador segundo (e2). À luz da ótica Rabateliana (2008, p. 399), o locutor (L) é a instância que profere um enunciado, e a partir da qual opera a orientação enunciativa. Quanto ao enunciador (E), é a instância que assume o enunciado, a partir da qual operam os fenômenos de qualificação e modalização. A cada vez que o locutor pensa o que diz, ele é também enunciador de seus próprios enunciados.

“o locutor, responsável do enunciado, dá existência, no meio deste, a enunciadores cujo

ele organiza os pontos de vista e as atitudes. E sua própria posição pode se manifestar, seja porque ele se assimila a tal ou tais enunciadores, tomando-o como representante (o enunciador é, então, atualizado), seja porque ele escolheu fazê-los aparecer e que a aparição deles é significativa, mesmo se ele não se assimila a eles” (Ducrot 1984 : 205). Em outras palavras, o locutor se torna o responsável da cena enunciativa. Em relação a essas representações, Homo narrans é triplamente sujeito, sujeito co-ator, sujeito heterogêneo, sujeito polifônico, nas relações que o narrador entretém com seus pares, com seu auditório assim como com seus personagens,

sendo capaz de por em cena uma multiplicidade de PDV e de fazê-los dialogar entre eles.

235 Segundo Ducrot, [

]

609

Ainda segundo Rabatel, a dissociação locutor/enunciador “não é uma sofisticação inútil, pois ela permite dar conta dos múltiplos casos em que um locutor se distancia do seu próprio dizer, ou do dizer de um terceiro ou de um interlocutor”. Nesse caso, o enunciador E1 marca sua distância com um enunciador e2, que pode corresponder, seja a ele mesmo (caso da auto-ironia ou de distância com um ponto de vista anterior, ulterior do sujeito), seja ao interlocutor, seja a um terceiro. Assim, é importante entender o que significa a noção de ponto de vista. Segundo Rabatel (2004, p. 43):

Le PDV se présente comme un donné objectif antérieur à tout jugement, en aval

des données ou des prémisses. Ainsi, avec le PDV, la nature toujours sujette à discussion du posé est masquée par le fait que le posé est présenté sur le mode de l’évidence perceptuelle, et donc est présentée, à ce titre, comme non constestable. La logique naturelle est ainsi faite qu’on accepte facilement ce qui résulte d’une

] [

observation a priori dénuée d’enjeux interprétatifs, puisque ce qu’« on voit de ses yeux » semble correspondre à l’émergence pure des phénomènes, indépendamment de toute intentionnalité humaine. 236

Rabatel (2004, p. 43) também afirma que, de uma forma geral, o PDV “se define pelos meios linguísticos pelos quais um sujeito visa um objeto, em todos os sentidos do termo visar, seja esse sujeito singular ou coletivo”. Com relação ao objeto, ele pode corresponder a um “objeto concreto, certamente, mas também a um personagem, uma situação, uma noção ou um acontecimento, já que, em todos os casos, trata-se de objetos de discurso”. O sujeito, responsável da referenciação do objeto, exprime seu PDV, às vezes diretamente, por comentários explícitos, às vezes indiretamente, pela referenciação do material linguístico. Observamos que, para Rabatel, o PDV pode ser expresso diretamente ou indiretamente e que, a partir do PDV passado pela pessoa que escreve, o leitor é levado a aderir mais fortemente a representações que se configuram, aparentemente, de boa fé, não usando seu senso crítico, que lhe parece supérfluo, já que, aparentemente, não há nada a discutir. Ainda sobre o PDV, ele corresponde a um conteúdo proposicional remetendo a um enunciador ao qual o locutor “se assimila” ou, pelo contrário, distancia-se, consoante Rabatel

o PDV se apresenta como um dado objetivo anterior a todo julgamento, antes das pressuposições e das

premissas. Assim, com o PDV, a natureza sempre sujeita à discussão do que é posto, é mascarada pelo fato de que o posto é apresentado sobre o modo da evidência perpétua, e então é apresentado, nesse sentido, como não contestável. A lógica natural é assim feita para que se aceite facilmente o que resulta de uma observação a priori desprovida de apostas interpretativas, já que o que “se vê com os olhos” parece corresponder à emergência pura

dos fenômenos, independentemente de toda intencionalidade humana.

236 [

]

610

(2005, p. 59). Ele também destaca a importância que a noção de PDV tem para a análise de textos, principalmente por se tratar de um sub-conjunto da problemática geral do dialogismo.

Qu’est-ce donc que le point de vue ? Qu’y a-t-il de commun entre une opinion et un centre de perspective narratif baptisé focalisations narratives par Genette, rebaptisé point de vue (désormais PDV) dans une optique linguistique ? Dans les deux cas, tout objet du discours est représenté par une source énonciative selon ses intentions pragmatiques. Mais cette réponse, malgré sa justesse, ne fait que souligner l’immensité des problèmes connexes qui relèvent de la problématique du PDV, par exemple le rapport entre perception, discours rapporté ou assertion. 237

Assim, a partir dos pressupostos rabatelianos, vemos que o autor relaciona a noção de PDV com a de focalização narrativa apresentada por Genette outrora. Apesar de mostrar que há uma problemática envolvendo essa noção, ele também apresenta vantagens para utilizá-la, ao dizer que o domínio dos mecanismos e ferramentas do PDV é indispensável para a leitura de textos literários e documentais. Ele também acrescenta que o PDV é uma categoria transversal suscetível de ser um formidável operador de leitura, não somente das narrativas, como também de escrituras e produções orais. Rabatel também declara que distinguir o conceito de enunciador é importante, pois, sem ele, teríamos dificuldade para dar conta do implícito, dos pontos de vista que se exprimem em “frases sem fala” (como nos relatos heterodiegéticos) e, finalmente, de todas as situações em que um locutor reporta um ponto de vista ao qual ele empresta sua voz, sem chegar a retomá-lo por sua conta. Consoante o referido autor (2008, p. 56), “todo PDV é assumido, seja diretamente por um locutor/enunciador primeiro, seja indiretamente por um locutor/enunciador segundo, seja ainda por um enunciador segundo não locutor” e acrescenta:

Le locuteur est l’instance qui profère un énoncé (dans ses dimensions phonétiques et phatiques ou scripturales selon un repérage déictique ou selon un repérage indépendant d’ego, hic et nunc). Si tout locuteur est énonciateur, tout énonciateur n’est pas nécessairement locuteur, ce qui revient à dire qu’un locuteur peut faire écho dans son discours à plusieurs centres de perspective modaux, plus ou moins saturés sémantiquement : cette disjonction permet de rendre compte du fait que le locuteur narrateur fait entendre le PDV d’un énonciateur personnage même si son

mais elle permet aussi de rendre

compte des diverses postures énonciatives autodialogiques du locuteur, lorsqu’il se

PDV n’est pas exprimé dans une parole [

],

237 O que é, portanto, o ponto de vista? O que há de comum entre uma opinião e um centro de perspectiva narrativo batizado focalizações narrativas por Genette, rebatizado ponto de vista (doravante PDV) em uma ótica linguística? Nos dois casos, todo objeto do discurso é representado por uma fonte enunciativa segundo suas intenções pragmáticas. Mas essa resposta, apesar de sua legitimidade, só faz reforçar a imensidão dos problemas conexos que emergem da problemática do PDV, por exemplo, a relação entre percepção, discurso reportado ou asserção.

611

distancie de tel ou tel PDV qui avait été le sien, ou qui pourrait être le sien dans d’autres cadres de véridiction [

238

Como vimos anteriormente, Ducrot (1987, p.192-3) considera que enunciador e ponto de vista são termos solidários. Diferentemente, Rabatel (2008, p. 57) acredita que “os dois conceitos não funcionam no mesmo nível, pois a noção de ponto de vista não é tão fundamental quanto o conceito de enunciador, ela tem antes um papel auxiliar na definição de enunciador quando este não for o locutor”. O autor justifica mostrando a ausência de critérios semânticos na definição de ponto de vista. Consoante Rabatel (2008, p. 59), alguns enunciadores são mais importantes que outros, “segundo seu grau de atualização no discurso, segundo a natureza dos fenômenos de responsabilidade enunciativa e segundo a reação dos interlocutores”. Destarte, ele define o que seria o enunciador primário e segundo:

] [

celui à qui on attribue un grand nombre de PDV, réductibles à un PDV général et à une position argumentative globale censée correspondre à sa position sur la question. On nommera principal l’énonciateur en syncrétisme avec le locuteur parce

que ce dernier exprime le PDV à un triple titre [

l’énonciateur primaire, celui qui prend en charge les PDV auxquels il adhère,

].

(RABATEL, 2008, p. 59). 239

les énonciateurs seconds, internes à l’énoncé qui correspondent, dans le cas du

récit, à des personnages, et qui sont de véritables centres de perspective en ce qu’ils agrègent autour d’eux un certain nombre de contenus propositionnels qui indiquent

le PDV de l’énonciateur intradiscursif sur tel événement, tel état, telle notion, etc. (RABATEL, 2008, p. 59). 240

Rabatel explica que, com relação ao enunciador primário, o locutor exprime seu PDV enquanto locutor, através do seu papel na enunciação (esse seria o locutor defendido por Ducrot), enquanto ser do mundo e enquanto sujeito que fala, “aquele a quem se pede satisfações pelo que ele diz e pelo modo como ele diz”.

] [

238 O locutor é a instância que profere um enunciado (em suas dimensões fonéticas e fáticas ou escriturais segundo uma orientação dêitica ou segundo uma orientação independente de ego, hic et nunc). Se todo locutor é enunciador, todo enunciador não é necessariamente locutor, o que volta a dizer que um locutor pode fazer eco em seu discurso a vários centros de perspectivas modais, mais ou menos saturados semanticamente: essa disjunção permite dar conta do fato de que o locutor narrador faz ouvir o PDV de um enunciador personagem

mas ela permite também dar conta das diversas

mesmo se o seu PDV não está expresso em uma fala [

posturas enunciativas autodialógicas do locutor, quando ele se distancia de tal ou tal PDV que tinha sido o seu,

ou que poderia ser o seu em outros contextos de veridição [ o enunciador primário, aquele que assume a responsabilidade dos PDV aos quais ele adere, aquele a quem

se atribui um grande número de PDV, redutíveis a um PDV geral e a uma posição argumentativa global supõe corresponder a sua posição sobre a questão. Nomearemos principal o enunciador em sincretismo com o locutor porque este último exprime um PDV a um triplo título [

os enunciadores segundos, internos no enunciado que correspondem, no caso da narração, a personagens,

e que são verdadeiros centros de perspectiva em que eles agregam em torno deles um certo número de conteúdos proposicionais que indicam o PDV do enunciador intradiscursivo sobre tal acontecimento, tal estado, tal noção,

etc.

240 [

],

239

[

]

]

612

Vejamos uma citação de Rabatel (2008, p. 60) que nos mostra claramente em que sentido ele se distancia de Ducrot:

Notre réflexion sur les différentes variétés de prise en charge énonciative (PEC), en fonction des instances, nous incite à distinguer d’une part la PEC, pour les contenus propositionnels que le locuteur/énonciateur premier (L1/E1) assume pour son propre compte, parce qu’il les juge vrais, d’autre part l’imputation, pour les contenus propositionnels que L1/E1 attribue à un énonciateur second (e2). Dans ce deuxième cas de figure, si l’énonciateur est à la source d’un point de vue (PDV), au sens où Ducrot 1984 le définit, sans être l’auteur de paroles, il est difficile de parler de PEC, par rapport à la conception selon laquelle prendre en charge, c’est parler, dire. C’est pourquoi nous faisons dans une première partie l’hypothèse d’une « quasi-PEC », les guillemets soulignant que cette PEC n’en est pas vraiment une, mais qu’elle est toutefois nécessaire pour que L1/E1 puisse ensuite se déterminer par rapport à ce PDV : en cela, nous nous écartons sensiblement des thèses de Ducrot. 241

Percebemos que a diferença entre a abordagem ducrotiana e rabateliana reside no fato de que Rabatel considera duas situações diferentes, denominando-as “Responsabilidade Enunciativa” e “imputação”. A primeira corresponde aos conteúdos proposicionais que o locutor/enunciador primeiro (L1/E1) assume por sua própria conta, porque ele crê na veracidade desses conteúdos. A segunda corresponde aos conteúdos proposicionais que L1/E1 atribui a um enunciador segundo (e2). Para Rabatel, no caso da imputação, se o enunciador está na fonte de um ponto de vista, mas ele não é o autor das falas, não se deve falar em RE, mas em quase-RE, uma vez que assumir a responsabilidade, é falar, dizer. Nesse sentido, há uma divergência entres os autores citados. Diante do que expusemos, para fazermos nossa análise, basear-nos-emos nos pressupostos rabatelianos, uma vez que estamos mais de acordo com Rabatel, para quem o responsável da enunciação é o enunciador e que o locutor pode trazer, além do seu PDV, o de outra(s) pessoa(s).

3. Apresentação dos corpora

241 Nossa reflexão sobre as diferentes variedades de responsabilidade enunciativa (RE) em função das instâncias incita-nos a distinguir, por um lado, a RE, para os conteúdos proposicionais que o locutor/enunciador primeiro (L1/E1) assume por sua própria conta, porque ele os julga verdadeiros, por outro lado, a imputação, para os conteúdos proposicionais que L1/E1 atribui a um enunciador segundo (e2). No segundo caso apresentado, se o enunciador está na fonte de um ponto de vista (PDV), no sentido definido por Ducrot (1984), sem ser o autor de falas, é difícil falar em RE, com relação à concepção segundo a qual assumir a responsabilidade, é falar, dizer. É por essa razão que fazemos, na primeira parte, a hipótese de uma “quase-RE”, as aspas marcando que essa RE não é verdadeiramente uma, mas que ela é, entretanto, necessária para que L1/E1 possa, em seguida, determinar- se com relação a esse PDV : nisso, distanciamo-nos sensivelmente das teses de Ducrot.

613

O Itinéraire d’un Voyage en Allemagne (Itinéraire) retrata a viagem feita por Nísia

Floresta em 1856, entre os meses de agosto e setembro. A autora viaja na companhia de sua

filha Lívia com quem percorre algumas cidades da Bélgica e da Alemanha. Esse relato é

composto pelas correspondências direcionadas ao filho e aos irmãos que residiam no Brasil, o que o torna, portanto, um relato de viagem diferenciado. Essa obra nos apresenta trinta e quatro cartas ao todo, escritas diariamente 242 . Uma das principais características dessa obra é a riqueza de detalhes existente em cada carta. Poderíamos dizer que essa obra é praticamente como um diário íntimo, pois a autora nos revela a todo tempo suas impressões, as saudades que sentia dos parentes e, principalmente, de seu filho Augusto, que queria que estivesse com ela naquele momento.

O segundo relato, Trois Ans en Italie, Suivis d’un Voyage en Grèce (Trois Ans), trata

dos três anos em que a autora passou em solo italiano, viagem que perdurou de março de 1858 até meados de 1861, tempo suficiente para conhecer, rever os lugares que lhe interessavam e residir em algumas cidades italianas.

O que diferencia os relatos de viagem de Nísia Floresta é que, no primeiro, ela decide

viajar para tentar esquecer sua tristeza interior, o aniversário de morte da sua mãe, ao relatar,

sobretudo, seu estado de espírito. No segundo, Trois ans, Nísia nos mostra não apenas suas emoções, ela vai além, é o livro pelo qual “melhor se delineia a ideologia política da autora, tanto por ter sido realizado num momento de maturidade intelectual, como por refletir as transformações sociais e políticas italianas.” (DUARTE, 1995, p. 302). Outro ponto de bastante relevância entre esses relatos é o aspecto autobiográfico que está fortemente presente neles. Segundo Duarte:

Em qualquer uma das narrativas, apesar do grau de objetividade da descrição, é frequente a intromissão da figura do autor, pois trata-se do relato de uma experiência pessoal, o que, na maioria dos casos, concede a narrativa um aspecto autobiográfico. E o que distingue uma narrativa de viagem de uma outra não é só o tema tratado:

relatar viagens. Há características formais específicas. Cartas, diários, memórias, confissões, crônicas ou simplesmente historiografia figuravam como gêneros os

mais praticados na época [

Em Trois ans en Italie, Nísia Floresta vai utilizar não

apenas uma, mas várias destas modalidades, ao iniciar seu texto como um diário de

viagem e terminar o segundo volume como uma crônica histórica. Opera ainda

].

242 Não encontramos registro apenas no dia 4 de setembro.

614

neste texto uma singular fusão entre as duas formas de diário, “o de viagem” e o “diário íntimo”, além de guardar uma semelhança com o gênero epistolar, quando se dirige a outra pessoa. (1995, p. 288).

A partir do fragmento supracitado, observamos que Duarte já aponta para o caráter

autobiográfico presente em Trois Ans. O gênero autobiográfico também contribui para uma

maior assunção da RE, uma vez que esse tipo de escritura é marcado por “confissões” do escritor, que conta sua história, seus sentimentos, de um modo geral, seus pensamentos.

4. Análise de dados

Todo escritor tem um papel de destaque dentro de sua obra. Por mais que o gênero textual escolhido por ele não o ponha em evidência, o leitor tem consciência de que ele é o “responsável” pelos dizeres/pelas palavras escritas no texto. Algumas vezes, o escritor assume a responsabilidade do que escreve, expressa. Outras vezes, prefere não se “comprometer”, atribuindo o seu dizer a terceiros. Como nossos corpora são relatos de viagem, é importante levar em consideração o papel do autor dentro da obra, principalmente em um gênero textual em que o escritor conta parte de sua história e o uso da primeira pessoa (sobretudo do singular) está fortemente marcado. Em geral, nos relatos de viagem, o escritor (o viajante), tende a utilizar pronomes de primeira pessoa, uma vez que uma das características do gênero é que esse viajante narre sua própria viagem. No Itinéraire, a autora assume a responsabilidade de sua fala, uma vez que ela usa quase que a todo o tempo os pronomes de primeira pessoa “je” e “nous”, o segundo usado quando está na presença da filha ou de amigos, assim como em Trois Ans. Dentre as considerações de Rabatel sobre a noção de locutor (L) e enunciador (E), é válido para nossa análise considerar o fato de que, para ele, todo locutor é enunciador, mas

todo enunciador não é necessariamente locutor. Assim, apesar dessa possibilidade, a partir da leitura do Itinéraire e de Trois Ans, podemos observar que Nísia é L, uma vez que é ela quem narra sua passagem pela Alemanha e Itália, assim como ela é E, pois em quase todos os momentos ela traz o seu PDV.

O fato de Nísia Floresta representar, em seus relatos de viagem, L1 e E1 não quer

dizer que não haja a presença de um enunciador segundo (e2), pois, em algumas circunstâncias ela está narrando fatos históricos e utiliza-se de termos como: “segundo”, “dizem”, “disseram-me”, para esclarecer que a informação que está sendo transmitida é

proveniente de outra pessoa/fonte, portanto, representa outro PDV.

615

Quando isso acontece, temos uma situação de “quase Responsabilidade Enunciativa”

(quase-RE), ou seja, é apenas uma imputação. Rabatel considera duas situações distintas, uma

é a “Responsabilidade Enunciativa”, a outra é o que ele denomina “imputação”. Como vimos,

a primeira corresponde às proposições que (L1/E1) assume por sua própria conta. A segunda

corresponde aos conteúdos proposicionais que L1/E1 atribui a um enunciador segundo (e2). Vejamos alguns fragmentos onde podemos verificar a presença de e2. Primeiramente no Itinéraire 243 :

(1)

Le palais de l’Industrie renferme une riche collection de modèles de tout genre, machine et instruments. Un des côtés est occupé par la bibliothèque royale, qui possède, m’a-t-on dit, 200,000 volumes imprimés, et presque autant de manuscrits [

O palácio da Indústria compreende uma rica coleção de modelos de todo gênero, máquinas e instrumentos. Um dos lados é ocupado pela biblioteca real, que possui, disseram-me, 200.000 volumes impressos e quase a mesma quantidade de manuscritos [

(FLORESTA, 1857, p. 10).

(2)

En face de l’hôtel de ville, se trouve un vaste édifice, nommé la Halle au pain, et plus vulgairement Maison du roi. Ce fût là, m’a-t-on dit, dans une petite salle, que les comtes de Horn et d’Egmont passèrent la nuit qui précéda le supplice auquel les avait fait condamner le duc d’Albe, ce farouche ministre de Philippe II.

Diante do hotel da cidade, encontra-se um amplo edifício, nomeado Halle au pain, e mais vulgarmente Casa do rei. Foi lá, disseram-me, em uma pequena sala, que os condes de Horn e Egmont passaram a noite que precedeu o suplício o qual os tinha feito condenar o duque de Albe, esse feroz ministro de Filipe II.

(FLORESTA, 1857, p. 11).

(4)

Au bas de cette montagne, de jeunes filles paysannes nous attendaient pour nous vendre des souvenirs, tels que le panorama du pays, des aigles, des balles françaises et des balles anglaises trouvées, disaient-elles, dans les champs de Waterloo [

Embaixo desta montanha, jovens camponesas nos

esperavam para nos vender lembranças, como o

panorama do país, águias, balas francesas e balas

inglesas encontradas, diziam elas, nos campos de

Waterloo [

(FLORESTA, 1857, p. 25).

(5)

On montre également aux visiteurs, moyennant la somme dont j’ai parlé plus haut, le bras énorme de cet homme extraordinaire, qui, selon l’expression du grand poëte français, a tenu la boule du monde, et dont le crâne a été le moule de toute une Europe nouvelle.

Mostra-se igualmente aos visitantes, cobrando a soma a qual eu falei mais acima, o braço enorme desse homem extraordinário, que, segundo a expressão do grande poeta francês, segurou a bola do mundo e cujo crânio foi um molde de toda uma nova Europa.

243 Como nossos corpora foram escritos em língua francesa, optamos por apresentá-lo em sua língua de origem. Entretanto, para não limitar o público-leitor, expusemos, ao lado, a tradução em língua portuguesa.

616

(FLORESTA, 1857, p. 44-5).

(6)

L’or et les pierreries brillent sur les reliquaires gothiques et byzantins qui contiennent ces précieux objets. Une châsse d’une valeur et d’une beauté extraordinaires contient le reste des os de Charlemagne ; on dit que cette châsse ne s’ouvre jamais.

O

ouro e as pedrarias brilham sobre os relicários

góticos e bizantinos que contêm esses preciosos objetos. Um relicário de um valor e de uma beleza extraordinárias contém o resto dos ossos de Carlos Magno; dizem que esse relicário nunca é aberto.

(FLORESTA, 1857, p. 45)

(7)

On dîne à table d’hôte dans les hôtels, au son d’une bonne musique ; c’est, dit-on, l’usage e Allemagne [

Janta-se na mesa de hóspedes nos hotéis, ao som

de

uma boa música; é, dizem, o uso na Alemanha

[

].

(FLORESTA, 1857, P. 48)

Vejamos algumas ocorrências encontradas em Trois Ans:

(8)

Quelques palais de Vérone, comme un grand nombre de ceux des autres villes d’Italie, construits par les célèbres architectes italiens, offrent de très-intéressantes galéries, telles que celles appelées Canossa, Bevilacqua, Ridolfi, qui renferment, entre autres peintures, celle du couronnement de Charles V, à Bologne, par Ricci ;

Alguns palácios de Verona, assim como um grande número dos de outras cidades da Itália, construídos pelos célebres arquitetos italianos, oferecem interessantíssimas galerias, como as chamadas Canossa, Bevilacqua, Ridolfi, que compreendem, entre outras pinturas, a do coroamento de Charles V, em Bolonha, por Ricci;

[

].

Ces palais sont, dit-on, au nombre des

[

].

Esses palácios estão, dizem, entre as melhores

meilleures oeuvres de Sammicheli, célèbre architecte né à Vérone.

obras de Sammicheli, famosa arquiteta nascida em Verona.

(FLORESTA, 1872, p. 12-3).

(9)

D’après ce qu’on fait et ce qu’on dit depuis quelque temps dans cette bonne Italie, il est très- aisé de prévoir une prochaine et grande crise qui changera la face actuelle de ses affaires politiques.

Diante do que se faz e do que se diz há algum tempo nesta boa Itália, é muito fácil prever uma próxima e grande crise que mudará a face atual de suas relações políticas.

(FLORESTA, 1872, p. 105).

(10)

La Marine, place ornée d’arbres et de siéges, renferme plusieurs édifices dont l’un très- remarcable, le palais des Tribunaux. On dit que cet édifice fut jadis le palais des princes musulmans.

A

Marinha, praça ornada com árvores e assentos,

possui vários edifícios, dentre eles, um é muito notável, o palácio dos Tribunais. Dizem que esse edifício foi outrora o palácio dos príncipes mulçumanos.

(FLORESTA, 1872, p. 115).

Esses são alguns fragmentos que denotam a presença de e2. Notamos que essas ocorrências de distanciamento por parte de Nísia Floresta apresentam-se com pouca frequência em seus relatos de viagem. O aparecimento de marcas de e2 é mínimo diante das ocorrências em que Nísia assume o seu PDV, ou seja, em que ela é L1/E1. Destarte, apesar de Nísia Floresta representar L1/E1 no Itinéraire, e de assumir seu PDV em, praticamente, todos os momentos, também é possível detectar PDV de e2, quando a

617

norte-rio-grandense utiliza marcas para esclarecer tratar-se da fala de “terceiros”. É válido lembrar que, na maioria das ocorrências, Nísia está se referindo às informações históricas, o que justificaria o uso desse recurso, haja vista que ela não estava presente no momento em que esses fatos aconteceram. Nesse caso, não falamos em RE, mas em um engajamento por parte de Nísia Floresta. Assim, para finalizar este trabalho, concluímos que, apesar dos relatos de viagem de Nísia Floresta apresentarem marcas de assunção da RE, também é possível detectar marcas de não assunção. O fato de encontrarmos poucas ocorrências de e2 pode ser pelo fato de os gêneros textuais que podem ser identificados em nossos corpora, relato de viagem, autobiográfico, contribuírem para uma maior assunção da RE.

5.

Referências

DUCROT, O. Le Dire et le dit. Paris: Minuit, 1984. FLORESTA, N. Itinéraire d’un Voyage en Allemagne. Par Mme. Floresta A. Brasileira. Paris: Firmin Diderot Frères et Cie, 1857. Trois ans en Italie, Suivis d’un Voyage en Grèce. Par une Brésilienne. v 1. Paris:

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618

619

619 A RESPONSABILIDADE ENUNCIATIVA EM TEXTOS ACADÊMICOS: EM FOCO AS INDICAÇÕES DE QUADROS MEDIADORES Cleide Alane

A RESPONSABILIDADE ENUNCIATIVA EM TEXTOS ACADÊMICOS: EM FOCO AS INDICAÇÕES DE QUADROS MEDIADORES

Cleide Alane Dantas Balbino Graduanda do Curso de Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e Bolsista PIBIC/UERN. Jorge Luis Queiroz Carvalho Graduando do Curso de Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e Bolsista PIBIC/UERN Rosângela Alves dos Santos Bernardino Docente do Departamento de Letras da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e doutoranda em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

1 Introdução

A Análise Textual dos Discursos (doravante ATD) é uma abordagem teórica recente, cujos pressupostos se apresentam no livro intitulado “A linguística textual: introdução à análise textual dos discursos” de Jean-Michel Adam (2011), seu fundador. Essa abordagem surge em paralelo às novas concepções sobre a relação entre textos e discursos e situa “a linguística textual como um subdomínio do campo mais vasto da análise das práticas discursivas” (ADAM, 2011, p. 43). Nesse sentido, esse quadro teórico delimita como foco de seus estudos a produção co(n)textual dos sentidos por intermédio da analise de textos concretos. A ATD inicia seus estudos assumindo como objetivo principal “teorizar e descrever os encadeamentos de enunciados elementares no âmbito da unidade de grande complexidade que constitui um texto” (ADAM, 2011, p. 63).

620

A proposta de estudo delineada pela ATD abarca vários níveis textuais, enunciativos e discursivos. Neste trabalho daremos enfoque ao nível da enunciação, focando-nos na categoria denominada responsabilidade enunciativa. Faremos isso por meio da análise da subcategoria designada como indicação de quadros mediadores, a qual se situa, entre outras elencadas por Adam (2011), como uma das possibilidades de estudo da responsabilidade enunciativa. A funcionalidade dos quadros mediadores, ou mediativo, é imputar a responsabilidade enunciativa para uma segunda fonte do saber. Adam (2011) enfatiza que essa funcionalidade do mediativo já vem sendo reconhecida desde os trabalhos de Guentchéva (1994; 1996), e segue, assim, o pensamento desta autora ao estabelecer que o uso do mediativo marca “uma zona textual sob a dependência de uma fonte de saber (mediação epistêmica) ou de percepção (mediação perceptiva). Os enunciados podem, assim, não ser assumidos pelo locutor-narrador.” (ADAM, 2011, p. 115). Tomando como base esse enfoque teórico, este artigo tem como objetivo geral investigar como a categoria das indicações de quadros mediadores (mediativo) atua como marcador da responsabilidade enunciativa. A partir dessa categoria, buscamos: a) descrever e interpretar as estratégias mobilizadas por alunos da graduação em Letras para indicar quem são os responsáveis pelos pontos de vista (PdV) mobilizados em textos acadêmicos; b) examinar de que modo o produtor desses textos materializa diferentes graus de envolvimento e de distanciamento com relação ao coletivo de pontos de vista alheios que nele permeiam. Nesse sentido, nosso trabalho primará por uma abordagem qualitativa de base interpretativa. Para a constituição do nosso corpus, foram selecionadas 5 monografias de conclusão de curso de Letras. Este corpus faz parte do banco de dados da pesquisa A dimensão da responsabilidade enunciativa na construção da autoria em texto monográfico, desenvolvida por nós a partir do Programa de Bolsa de Iniciação Científica (PIBIC), da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Para o nosso embasamento teórico, seguimos os postulados de Adam (2011), fundamentando-nos também em estudos de Guenthéva (1994) e de Rabatel (2005) e nos apoiando em pesquisadores da área, como Passeggi (2010), Rodrigues (2009), Rodrigues, Passeggi e Silva Neto (2010). Ao operarmos a análise das estratégias textual-discursivas utilizadas pelos alunos do curso de Letras para a materialização da responsabilidade enunciativa (RE) no gênero acadêmico monografia, esperamos contribuir para fortalecer o debate envolvendo a produção textual no contexto universitário, especialmente no curso de Letras. Ou seja, oferecemos espaço para o debate a respeito de como o produtor do texto monográfico constrói seus pontos

621

de vistas e dialoga com os de outrem diante da diversidade de vozes alheias que permeiam o texto acadêmico-científico. Nessa primeira parte apresentaremos uma retomada sobre os pressupostos da ATD, sobre texto e discurso, com foco na categoria do mediativo. Em seguida teremos a análise do corpus, dialogando com a teoria aqui apresentada, seguida de uma breve conclusão do que foi analisado e interpretado.

2 Análise textual dos discursos (ATD): surgimento e constituição

A Análise Textual dos Discursos, como é conhecida, surge para atender “à demanda de propostas concretas para a análise de textos” (PASSEGGI, 2010, p. 263). Considerando a complexidade do texto, a ATD surge como o resultado de uma evolução da Linguística Textual (LT), colocando-se como uma ramificação do campo mais vasto da Análise de Discurso (AD). Permitindo-se, portanto, a analisar discursos por meio de textos concretos, a ATD entende que:

O texto é certamente um objeto empírico tão complexo que sua descrição poderia justificar o recurso a diferentes teorias, mas é de uma teoria desse objeto e de suas relações com o domínio mais vasto do discurso em geral que temos necessidade, para nos dar aos empréstimos eventuais de conceitos das diferentes ciências da linguagem, um novo quadro e uma indispensável coerência. (ADAM, 2011, p. 25)

Conforme as palavras de Adam, compreende-se que a ATD articula-se entre a LT e AD, ultrapassando seus limites para que se possa atender a complexidade do texto em suas análises. Podemos perceber essa relação nas seguintes palavras do autor:

É sobre novas bases que propomos, hoje, articular uma linguística textual desvencilhada da gramática de textos e uma análise de discurso emancipada da análise

Postulando, ao mesmo tempo, uma separação e uma

complementariedade das tarefas e dos objetos da linguística textual e da análise de

de discurso francesa (ADF). (

)

discurso

(ADAM, 2011, P. 43)

A abordagem teórico-metodológica proposta por Adam para análise de discursos procura se afastar do procedimento de análise operado pela Análise de Discurso Francesa (ADF), conforme mencionado, e se aproximar da análise de discurso praticada por Maingueneau, conforme observamos na seguinte passagem na qual Adam (2011, p. 43) esclarece qual filiação teórica é usada como apoio para seus estudos: “Nossas referências

622

bibliográficas tornarão explícito o que nos separa do quadro estrito da ADF e nos orienta, sobretudo, para a análise de discurso tal como é delineada por Dominique Maingueneau (1991, 1995).” O autor justifica essa opção apontando uma deficiência na ADF, que, em seus estudos,

não abordou “o texto enquanto tal”, como lhe reprova Georges-Elia Sarfati em

seu pequeno ensaio sobre a AD: “Dada a primazia conferida ao estudo das condições de produção dos textos, a AD não fez uma reflexão específica sobre o estatuto do texto, menos ainda uma teoria específica do texto – teoria que seria congruente com suas problemáticas.” (SARFATI, 2003, p. 432 apud ADAM, 2010, p. 10). [grifos do autor]

] [

Esta limitação da ADF foi um ponto instigante para a ATD na busca por uma nova fase dos estudos textuais-discursivos. Nas seguintes palavras do autor que se seguem, vemos de modo mais detalhado as razões que levaram aos seus novos pressupostos:

É por não ter encontrado senão raras análises de textos considerados em sua realidade material, pouquíssimos questionamentos sobre o estabelecimento de textos integrando o corpus de análise e poucos estudos que levassem em conta a variação desses textos (passagem do oral ao escrito, formas sucessivas de edição e reescritura), que eu tenho reafirmado a necessidade da presença de uma LT e da AT dentro da AD. (ADAM, 2010, p. 10)

Desta forma, entendemos que a ATD trouxe para os seus estudos um modo diferente de analisar seu objeto, um avanço metodológico no sentido de considerar níveis de análises tanto textuais quanto discursivas, o que coloca a linguística textual diante da “ambição de fornecer instrumentos de leitura das produções discursivas humanas” (ADAM, 2011, p. 25). Nesses termos, Adam (2011, p. 23) diz que a LT é “uma teoria da produção co(n) textual de sentido, que deve fundar-se na análise de textos concretos”. A proposta da ATD, diferentemente da AD e LT, é trabalhar o texto colocando-o em relação ao discurso. Com essa afirmação, Adam deixa claro o trabalho realizado nessa nova corrente.

2.3 A responsabilidade enunciativa por meio das indicações de quadros mediadores

A responsabilidade enunciativa se conceitua como a “assunção por determinadas entidades ou instâncias do conteúdo do que é enunciado, ou na atribuição de alguns enunciados ou PdV a certas instâncias.” (PASSEGGI, 2010, p. 299). Portanto, o ato de responsabilizar-se pode dar espaço para uma imputação a depender dos objetivos ou

623

necessidades do locutor/enunciador (L1/E1). Nesse segundo caso, fala-se de quadro mediador. Quando falamos em mediação, estamos nos referindo aos casos em que um primeiro locutor/enunciador (L1/E1) imputa um PdV a um enunciador segundo (e2). A mediação pode se realizar por meio de uma imputação a uma fonte de saber segunda (mediação epistêmica), ou de uma própria observação por parte do L1/E1 (mediação perceptiva). Essa categoria caracteriza-se por manifestar um distanciamento do enunciador no dizer alheio por intermédio de marcas linguísticas específicas, classificadas pelo autor (p. 119) da seguinte maneira:

Marcadores como segundo, de acordo com e para;

Modalização por um tempo verbal como o futuro do pretérito;

Escolha de um verbo de atribuição de fala como afirmam, parece;

Reformulações do tipo (é), de fato, na verdade, e mesmo em todo caso;

Oposição de tipo alguns pensam (dizem) que X, nós pensamos (dizemos) que Y etc.

Guentchéva (1994, p. 8), trabalhando as manifestações do mediativo na língua francesa em seu trabalho Manifestations de la catégorie du médiatif dans les temps du français, coloca que, através dessa categoria, “o enunciador afirma de forma explícita que não é a principal fonte da informação” 244 (GUENTCHÉVA, 1994, p. 8, tradução livre). Para esta autora, ao fazer uso do mediativo, o locutor explicita que não é fonte do saber, isto ocorre porque, ao usar marcas indicadoras do quadro mediativo, ele está imputando a responsabilidade a outrem. Porém, apesar da possibilidade de imputar a responsabilidade do PdV citado ao outro, Rabatel (2009) coloca que o primeiro locutor/enunciador (L1/E1) pode ter participação na responsabilidade do PdV atribuído ao outro por meio da “quase-RE”. A “quase-RE”, segundo seu conceito, é quando L1/E1 imputa um PdV a outrem, mesmo sem se pronunciar, a princípio, sobre esse PdV. Conforme podemos ver na citação a seguir, Rabatel (2009, p. 72, tradução livre) coloca que a quase-RE “não é uma RE verdadeira, mas que é, todavia necessária para que L1/E1 possa em seguida se situar em relação a esse PDV” 245 . Desta forma, o L1/E1 sempre se posiciona ao PdV de outrem, assumindo parte da responsabilidade.

244 “l’énonciateur indique de façon explicite qu’il n’est pas la source première de l’information” (GUENTCHÉVA, 1994, p. 8) 245 “n’em est pás vraiment une, mais qu’elle est toutefois nécessaire pour que L1/E1 puisse ensuite se déterminer par rapport à ce PDV” (Rabatel 2009, p. 72)

624

A assunção do L1/E1 na “quase-RE” nos permite abrir espaço para a discussão do PdV, isto porque, a responsabilidade enunciativa traz consigo um PdV, quer seja ele assumido quer seja ele imputado. Esse PdV “corresponde a um conteúdo proposicional remetendo a um enunciador ao qual o locutor ‘se assimila’ ou ao contrário, se distancia” 246 (RABATEL, 2005, p. 59, tradução livre). Deste modo, quando identificamos no enunciado alguma das marcas citadas por Adam (2011) em relação às indicações de quadros mediadores, interpretamos o PdV e consequentemente sua origem. A responsabilidade enunciativa dessas PdV é identificada considerando não somente os marcadores já mostrados anteriormente, mas considerando também o contexto e o cotexto, se for necessário, como nos ressalta Rodrigues (2009, p. 12), quando afirma que a “assunção da responsabilidade enunciativa nem sempre é observável apenas pelo conteúdo proposicional, mas também a partir das relações dialógicas entre os enunciados”. Deste modo, é necessário que o pesquisador esteja atento tanto ao contexto quanto ao cotexto, para identificar o PdV, em alguns casos quando este não estiver exposto explicitamente.

3 Análise do corpus

De acordo com Adam (2011), a responsabilidade enunciativa pode ser assinalada e/ou imputada através de diferentes marcas linguísticas. Com o objetivo de mostrar como essas marcas se apresentam e atuam, analisaremos as estratégias utilizadas pelo produtor do texto monográfico para indicar quem são os responsáveis pelos PdV apresentados em seu texto. Para isso, iremos considerar a categoria das indicações de quadros mediadores (mediativo). Buscamos saber, também, como o L1/E1 materializa diferentes graus de envolvimento e de distanciamento com relação ao coletivo de pontos de vista alheios nos textos analisados. Como vimos, o quadro do mediativo, na ATD, é abordado como uma categoria da responsabilidade enunciativa que permite a imputação da responsabilidade a outrem, como também permite identificar o grau de envolvimento do locutor com pontos de vista alheios.

246 correspond à un contenu propositionnel renvoyant à um énonciateur auquel le locuteur « s’assimile » ou au contraire dont il se distancie” (RABATEL, 2009, p. 12)

625

Considerando, neste trabalho, os marcadores do mediativo citados por Adam (2011),

faremos, nesta seção, a análise do corpus delimitado para este trabalho, buscando identificá-

los e analisá-los de modo a considerar os pressupostos da ATD e atender aos objetivos aqui

propostos. O nosso corpus de análise nos permitiu observar a presença de alguns marcadores

com recorrência diversificada. O gráfico a seguir indica os marcadores encontrados e o

número de ocorrências.

Marcadores do Mediativo 55 44 35 22 18 Segundo Afirma que Para Como diz o
Marcadores do Mediativo
55
44
35
22
18
Segundo
Afirma que
Para
Como diz o
autor
De acordo
com

Gráfico 1 - Marcadores do Mediativo.

Entre os marcadores listados, observa-se que há uma recorrência relativamente

aproximada, com destaque para os marcadores segundo e afirma que. Porém,

independentemente de maior ou menor frequência, percebemos que em todos os casos, há

uma atuação no sentido de permitir ao L1/E1 imputar a responsabilidade a outrem e se apoiar

no PdV alheio, quando almejado. Vejamos a seguir fragmentos ilustrativos dessas

ocorrências:

Fragmento 01:

Dessa forma segundo Mussalim (2006, p. 105):

ao contrário, a significação não é sistematicamente apreendida por ser da ordem da fala e, portanto, do sujeito, e não da ordem da língua pelo fato de sofrer alterações de acordo com as posições ocupadas pelos sujeitos que enunciam.

Assim, para a autora, essa dicotomia Saussureana é retomada para mostrar os processos de significação em um outro espaço não concebendo o sujeito e o sentido como individuais mas como históricos e ideológicos.

(M10, p.12)

626

No exemplo acima, o L1/E1 recorre à voz de Mussalim (2006, p. 105) para discutir

sobre os processos de significação. Ele usa o marcador segundo e traz o discurso citado de

forma direta. Essa recorrência é denominada de mediação epistêmica que, de acordo com

Adam (2011, p. 115), ocorre quando o locutor-narrador recorre a uma fonte de saber. Com

essa mediação epistêmica, o L1/E1 traz o PdV do outro, imputando a responsabilidade para

outrem. Após citar as palavras de Mussalim (2006, p. 105), o L1/E1 usa o marcador para, que

precede um breve resumo das palavras da autora imputando novamente a ela a

responsabilidade enunciativa; assim sendo, L1/E1 tenta mostrar explicitamente sua não

assunção com relação ao que está sendo dito, porém, não se distancia do PdV, uma vez que,

no decorrer da discussão teórica feita, ou seja, pela observação do co(n)texto, percebemos

que o L1/E1 não contraria as palavras citadas, pois elas fazem parte da filiação teórica do seu

trabalho monográfico.

Fragmento 02:

O discurso apresenta-se como tridimensional, pois abarca a linguagem, a história e a ideologia. Brandão (2004, p. 18) afirma que:

As grandes vertentes que vão influenciar a corrente francesa de Análise do discurso são, do lado da ideologia, os conceitos de Althusser e, do discurso, as ideias de Foucault. É sob a influência dos trabalhos desses dois teóricos que Pêcheux, um dos estudiosos mais profícuos da Análise do Discurso, elabora os seus conceitos.

Fica nítido que a corrente francesa recebe uma grande influência desses dois estudiosos que vão marcar o desenvolvimento desse campo de estudo. Essa autora nos apresenta a AD em três momentos (ou fases), intituladas AD1, AD2 e AD3, como faz também Mussalim

(2001).

(M06, p. 19-20)

No exemplo acima, podemos perceber que o L1/E1 recorre à voz alheia, nesse caso a de

Brandão (2004, p. 18). Assim, podemos perceber a imputação da responsabilidade

enunciativa ao outro pela presença materializada da marca afirma que, usada para abrir

espaço para a retomada da voz do outro, por meio do discurso direto. Após imputar a

responsabilidade enunciativa, L1/E1 comenta as palavras de Brandão (2004, p. 18). Apesar de

não haver marcas no fragmento que mostrem sua posição de aproximação/distanciamento do

PdV alheio, não parece haver discordância. Mais uma vez é o co(n)texto que nos ajuda a

compreendermos essa questão, pois, dado que a filiação teórica do trabalho monográfico em

627

questão assenta-se sob os estudos da AD francesa, fica evidente a adesão ao PdV citado. Assim, podemos entender que há por parte do locutor uma concordância com o PdV imputando a outrem.

Fragmento 03:

Para Marcuschi (2003, p. 13), existem dois tipos de suportes, os convencionais “elaborados tendo em vista a função de portarem ou fixarem textos”, e os incidentais “que operam como suportes ocasionais ou eventuais com uma possibilidade ilimitada de realizações na relação com os textos escritos.” Ele diz ainda que qualquer superfície física pode funcionar como suporte. Diante disso, entendemos que o facebook funciona como um suporte que permite aos usuários se comunicarem de forma interativa e dinâmica, através de textos com recursos de sons e imagens, sendo, portanto caracterizado como um suporte virtual, do tipo convencional que possibilita a apresentação desse gênero.

(M08, p. 29)

Com o objetivo de discutir sobre o facebook como um novo suporte pelo qual pessoas se comunicam

interativa e dinamicamente, e com o conhecimento das exigências em textos acadêmicos relacionadas à

autoridade e veracidade do conteúdo exposto, o L1/E1 inicialmente faz uma retomada das palavras de Marcuschi

(2003, p. 13), trazendo-as tanto de modo direto quanto indireto, imputando desse modo a reponsabilidade ao

autor citado. Para essa retomada, ele se utiliza da marca linguística para, quando recorre ao discurso direto, e usa

a expressão Ele diz ainda que, quando recorre ao discurso indireto. Posteriormente, o L1/E1 expõe seu PdV

sobre a visão sobre essa rede social como suporte de comunicação, materializado na marca linguística

entendemos que, sendo este, portanto, o momento em que o L1/E1 se posiciona a favor do PdV alheio.

Fragmento 04:

Sabendo-se dessa flexibilidade e que não se pode controlar o surgimento de novos gêneros discursivos, Bakhtin diz que:

A riqueza e a diversidade de gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e porque em cada campo dessa atividade é integral o repertório de gêneros do discurso, que cresce e se diferencia à medida que se desenvolve e se complexifica um determinado grupo. (BAKHTIN, 2003, p. 262).

Com essa afirmativa, entendemos que os gêneros do discurso se apresentam nas mais variadas formas e são passíveis de mudanças, sendo possível se adaptar às necessidades dos falantes da língua, tendo em vista a capacidade de desenvolvimento desses a partir de evoluções culturais, sociais e comunicativas.

(M08, p. 21)

No exemplo exposto acima, identificamos que L1/E1, objetivando mencionar o avanço dos gêneros

dentro das comunicações sociais, recorre à voz de Bakhtin, trazendo para seu discurso autoridade e credibilidade

e imputando a responsabilidade ao referido autor. O L1/E1 faz essa retomada se utilizando da marca linguística

628

diz que e traz as palavras de Bakhtin de forma direta. Após citar as palavras de Bakhtin, o L1/E1 retoma a ideia

central da citação, com o uso da expressão com essa afirmativa, e se posiciona de modo a concordar com o PdV

do discurso citado. Podemos perceber esse posicionamento a partir do uso do verbo entender na 1ª pessoa do

plural, momento em que a voz do locutor aparece no texto. Assim, apoiando-se no PdV alheio, o L1/E1 mostra

uma posição de concordância em relação ao que é dito.

Fragmento 05:

Orlandi (2007, p.31) também remete à memória discursiva tratando-a como interdiscurso, vejamos:

tem suas características, quando pensada em relação ao

discurso. E nessa perspectiva, ela é tratada como interdiscurso. Este é definido

como aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente. Ou seja, é o que chamamos de memória discursiva: o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada de palavra.

A memória [

]

De acordo com o fragmento transcrito acima, podemos considerar que o interdiscurso e a memória discursiva estão intrinsecamente ligados, são noções indissociáveis e interdependentes.

(M03, p.28)

Neste trecho, podemos inferir que a parte inicial do texto não é assumida pelo L1/E1 e, sim, imputada a

uma fonte de saber, no caso aqui analisado, Orlandi (2007, p. 31), que é uma autora filiada à AD francesa.

Posteriormente a essa imputação, ele se posiciona favoravelmente com relação ao PdV de Orlandi, isto pode ser

identificado pelo uso do verbo poder conjugado na primeira pessoa do plural, materializando a voz do L1/E1 e

principalmente seu posicionamento.

A partir da análise feita, identificamos no corpus uma recorrência significativa do uso de marcas

linguísticas como: segundo; afirmam; para; de acordo com e como diz o autor. A observação desses dados nos

leva a pensar que o uso frequente e muitas vezes repetida desses marcadores se deu por consequência da

necessidade do L1/E1 de recorrer a outras vozes na tentativa de validar e dar autoridade a suas ideias. Essa

necessidade é consequência do próprio gênero acadêmico que exige um aporte teórico como suporte. Percebeu-

se também uma recorrência maior por parte dos locutores/enunciadores de sempre entrarem em conformidade

com os autores citados, atestando a ausência de distanciamentos em relação aos PdV alheios. Atribuímos isso ao

fato de que, no caso do texto acadêmico produzido pelo aluno da graduação em Letras, trata-se de sujeitos que

não falam do lugar de especialistas da área (ou de pesquisador experiente), de modo que lhe permita questionar

ou fazer comentário crítico.

4 Considerações finais

Com o objetivo de identificar e interpretar as marcas do mediativo, para analisarmos o envolvimento do

L1/E1 com o PdV alheio, em monografias de conclusão do curso de Letras, percebemos que o procedimento da

imputação do PdV a outrem ocorre com bastante frequência, a partir de marcadores como segundo e afirma, de

629

acordo com, entre outros. Percebemos, ainda, que o posicionamento de L1/E1 mostra-se recorrentemente

favorável aos PdV alheios citados no texto. Isso pôde ser identificado através de marcas presentes no co(n)texto,

como por exemplo, a demarcação de uma filiação teórica que indica, sobretudo, a posição que o produtor do

texto acadêmico irá adotar.

A imputação da responsabilidade enunciativa em textos acadêmicos, assim, pode ser vista como um

fenômeno natural no qual o aluno, produtor do texto monográfico, procura delimitar o espaço entre seus dizeres

e os dizeres do outro. Além disso, a recorrência a diferentes PdV é um procedimento característico do gênero

estudado. Esse trabalho contribuiu, dessa forma, para identificar e analisar uma das diferentes maneiras pelas

quais o primeiro locutor/enunciador, atribui a responsabilidade dos enunciados ao outro e mostra seu

engajamento.

Este artigo trabalhou uma das categorias marcadoras da responsabilidade enunciativa (indicação de

quadro mediadores) em monografias de alunos da graduação em Letras, deixando-se aqui espaço para que

outros estudos venham aderir ao tema e contribuir tanto com a escrita acadêmica quanto na divulgação e

desenvolvimento de pesquisas no campo da ATD

Referências

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J. G. da. (Orgs.). Análises textuais e discursivas: metodologias e aplicações. São Paulo: Cortez, 2010. p. 150-

RODRIGUES, M. das. G. S.; PASSEGGI, L.; SILVA NETO, J. G. da. “Voltarei. O povo me absolverá

”:

195.

631

631 ABORDAGEM DO TEXTO NAS PROVAS DO SAEPE: UM SISTEMA DE DECODIFICAÇÃO. RESUMO Marina Maria da

ABORDAGEM DO TEXTO NAS PROVAS DO SAEPE: UM SISTEMA DE

DECODIFICAÇÃO.

RESUMO

Marina Maria da Glória Gomes Bolsista de Iniciação Científica – PIBIC/Cnpq Rafaela Cunha Costa Bolsista de Iniciação Científica – PIBIC/Cnpq

O presente artigo busca analisar as questões do Sistema de Avaliação Educacional de

Pernambuco (SAEPE) juntamente com os procedimentos e as orientações utilizadas pelos

elaboradores para a construção da prova, investigando as noções de texto e compreensão que

os elaboradores mobilizam ao fazer as questões e, que competências são exigidas dos alunos.

Tivemos como corpus principal o Guia de Elaboração de Itens, onde fizemos um paralelo

entre a noção de texto e compreensão – abordada pelo Sistema – com a abordada por

Marcuschi. Assim, os resultados obtidos corresponderam ao propósito que motivou a escolha

do tema deste trabalho.

PALAVRAS-CHAVE: Avaliação, SAEPE, codificação, compreensão.

ABSTRACT

El presente artículo busca analizar las cuestiones del Sistema de Evaluación

Educacional de Pernambuco (SAEPE) juntamente con los procedimientos y las orientaciones

utilizadas por los elaboradores para la construcción de la prueba, investigando las nociones de

texto y comprensión que los elaboradores movilizan al hacer las cuestiones y, qué

competencias son exigidas de los alumnos. Tuvimos como corpus principal el Guía de

Elaboración de Ítem, donde hicimos un paralelo entre la noción de texto y comprensión – que

el sistema ha abordado – con la que Marcuschi ha abordado. Así, los resultados obtenidos han

correspondido al propósito que ha motivado la escoja del tema de este trabajo.

632

PALABRA LLAVE: Evaluación, SAEPE, codificación, comprensión

1.

INTRODUÇÃO

O Sistema de Avaliação Educacional de Pernambuco (SAEPE) é um método de avaliação externa feita anualmente em colégios da rede pública de ensino do Estado de Pernambuco. Este sistema tem por objetivo propor como complemento da avaliação interna – avaliação feita pelo professor individualmente com os alunos, como provas, seminários, pesquisas, etc. – outra avaliação: a externa, sendo essa a que avalia o grande grupo, ou seja, esse tipo de avaliação mostra como os alunos, dos colégios municipais e estaduais, estão desenvolvendo o processo de aprendizagem. Esse Sistema de avaliação aferi as habilidades dos alunos nas áreas de Matemática e Língua Portuguesa em períodos específicos de escolarização (5º ano, 9º ano e 3ª série do Ensino Médio), e isso se dá através de uma prova com questões baseadas na Matriz de Referência do SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica). O resultado dessa avaliação “serve” de elemento para a formulação de políticas educacionais, acompanhamento da qualidade da educação e informações para que gestores e professores possam repensar sobre a eficiência dos métodos de ensino. Nesse artigo faremos uma análise da prova de Língua Portuguesa do SAEPE, partindo de duas teorias: 1) da visão do texto dentro de um paradigma estruturalista – em que

o texto dá apenas uma interpretação, sendo um sistema de decodificação emissor – mensagem

– receptor; 2) da proposta de Marcuschi – que vê o texto como uma ação linguística e que vai

além de uma única interpretação. Iniciaremos a discussão a partir das diferentes teorias acerca da noção de texto, tendo como foco principal os processos de compreensão textual. Em seguida, tentaremos investigar os procedimentos de elaboração das questões da prova do SAEPE e implicações causadas pelos descritores da Matriz de Referências nas alternativas consideradas “incorretas” interferindo, assim, no resultado do aluno. Buscaremos encontrar essas respostas através da análise feita no Guia de Elaboração de Itens, disponibilizado no site do SAEPE, que orienta os professores a prepararem as questões que serão abordadas na prova e no Boletim do Sistema de Avaliação 2010, que tem como objetivo possibilitar discussões sobre os resultados alcançados.

633

Ao ver a Língua como um instrumento transmissor de informação, exclui-se a ideia de que o leitor seja livre para fazer suas possíveis interpretações acerca de um determinado texto. Essa concepção da linguagem é entendida como algo externo ao indivíduo formando um conjunto de códigos que não depende do contexto em que é realizado, por isso perguntas como: “O que o autor quis dizer no texto?”, são geralmente feitas, principalmente, em livros didáticos. Segundo Jakobson:

“A finalidade primeira da teoria da informação, tal como a formula, por exemplo, D.

M. McKay, é "isolar de seus contextos particulares aqueles elementos abstratos de

representações que possam ficar invariáveis em nova formulação”” (JAKOBSON,

07, p.49) 247 .

Ou seja, no processo de interação locutor-ouvinte/autor-leitor não é possível fazer elucidações sobre o que foi mencionado. E, é indo contra essa e outras ideias que veem o texto como um “sistema de códigos” que queremos discutir neste trabalho. A linguística de texto, que surge em meados da década de 80, e vem para mudar o enfoque na discussão sobre texto, compreende a língua como atividade e interação sendo construída por uma tríade com os elementos fundamentais para a construção do sentido: texto, autor e leitor (coautor). É sabido que um único texto desencadeia em cada pessoa uma manifestação particular, o leitor, ao defrontar-se com o mesmo, faz uso de atividades cognitivas e históricas que são requeridas no processo de compreensão. Não se deve descartar, aqui, os critérios de textualização que ajudam a situar o texto em uma sequência “lógica” e possível de ser compreendido, mas, assim como Marcuschi, ressaltamos que os conhecimentos de mundo influenciam na construção das inferências durante a leitura.

] [

que o sentido não reside no texto. Assim, embora o texto permaneça como o ponto

de partida para a sua compreensão, ele só tornará uma unidade de sentido na

os conhecimentos individuais afetam decisivamente a compreensão, de modo

interação com o leitor. (Spiro apud Marcuschi, 1999).

Enquanto uma teoria vê o texto como um instrumento transmissor de informação exigindo do leitor uma percepção precisa e detalhada, a outra, sociointerativa, defende que a

247 Jakobson, Roman. Linguística e Comunicação. Disponível em http://www.cantinhodarevisao.com.br/ resources/Roman%20Jakobson%20-%20Ling%C3%BC%C3% ADst ica%20e%20Comunica%C3%A7%C3 % A3o_--WwW.LivrosGratis.Net-- pdf

634

leitura é um processo de seleção e não fornece compreensões definitivas, assim, a compreensão deixa de ser entendida como simples decodificação de mensagem. Ao longo dos anos, buscou-se apresentar várias teorias a respeito do significado de compreensão. Podemos partir então de dois pontos: a compreensão é uma atividade de decodificação ou que é uma atividade inferencial. A idéia de compreensão como decodificação é um sistema há anos utilizado como modelo nas escolas e exames nacionais. A língua é considerada como homogênea, autônoma e transparente, desse modo, seria o texto a representação clara do que o autor quis dizer e o leitor tem a missão de decodificar toda a informação de forma objetiva, centrado no código. A ideia de compreensão como atividade inferencial propõe uma visão da língua como sociointerativa, considerando então o fato de que ao fazer uma leitura utilizamos um conhecimento prévio sobre o assunto. E esse conhecimento prévio está associado ao contexto, é aí então que a pragmática ganha importância, por possibilitar que o leitor perceba as diversas situações em que se pode interpretar um texto. Vejamos MARCUSCHI (2008, p.

233)

“Sendo uma atividade de produção de sentidos colaborativa, a compreensão não é um simples ato de identificação de informações, mas uma construção de sentidos com base em atividades inferenciais. Para compreender bem um texto, tem-se que sair dele, pois o texto sempre monitora o seu leitor para além de si próprio e esse é um aspecto notável quanto à produção de sentido.”

Encarando o fato de que a língua não é transparente, quando criamos enunciados desejamos que eles sejam compreendidos, mas não teremos domínio sobre isso. Uma vez que a compreensão é uma atividade colaborativa, ela necessita do outro para que ganhe sentido e isso se dá numa interação, num encontro de sentidos que serão depositados pelo autor e leitor. Ou seja, compreender um texto não é entender as frases se organizam, é conseguir produzir sentidos, situar contextos. De acordo com Falcone (2012) 248 o autor orienta e não determina a leitura, por isso tem um papel tão importante quanto o do leitor, tornando-se um coautor, por atuar no sentido de reelaboração do texto. O texto não é algo pronto e a leitura não é decodificação, é compreensão.

248 Notas de aula da disciplina Linguística III UFPE.

635

Nesse sentido, buscamos analisar o papel do aluno-leitor nas provas do SAEPE, ou seja, ver a colocação do mesmo no processo de compreensão do texto: como leitor coautor do texto ou como leitor passivo. Segundo lembra Travaglia (2009, p. 94),

O professor deverá deixar de perguntar “o que o autor quis dizer com esse texto” [ ] e passará a discutir com os alunos qual (quais) o(s) efeito(s) de sentidos que o texto pode produzir tal como está constituído e dentro das condições de produção em que foi produzido.

Nessa reelaboração do texto não se é permitida as superinterpretações, pois mesmo adotando essa teoria há interpretações consideradas “não aceitáveis” tendo em vista que o texto direciona todas as outras formas possíveis de o mesmo ser interpretado.

3. ANÁLISE DA PROVA DO SAEPE

Examinando um pouco a área do ensino de leitura e compreensão, podemos perceber que há muitos impasses que impedem essa formação em sala de aula. Um desses impasses é a falta de tempo específico para leitura e interpretação. Para a elaboração das provas do SAEPE são levados em consideração alguns critérios que vão desde o perfil do elaborador até a estrutura das questões. O elaborador deve ter domínio da área de conhecimento a ser avaliada, deve estar familiarizado com o público ao qual se avaliará os processos de desenvolvimento e aprendizagem. Além disso, é exigida também a experiência em elaboração de questões, de modo que o elaborador tenha conhecimento de bons itens e de erros frequentemente cometidos. Os itens preparados para o SAEPE passam por diversas etapas (validação do conteúdo, revisão, pré-teste, etc.) e são elaborados pelos profissionais da educação que utilizam, como já citado anteriormente, a Matriz de Referência do SAEB que é composta de seis tópicos e juntos somam 21 descritores de desempenho. As questões da prova passam por três etapas: escolha de um descritor (que avalia uma única habilidade), a construção do enunciado (suporte e elaboração do comando para resposta) e a construção de alternativas para resposta. Ao formar um enunciado – que seria o estímulo para que os estudantes buscassem solucionar a problemática trazida – o elaborador utiliza-se de um dos diversos suportes/gêneros (charge, poema, música, anúncio publicitário, matéria jornalística, etc.) que venham apresentar informações necessárias para a resolução da questão e um estímulo para que os estudantes mobilizem recursos cognitivos.

636

Mas, ao analisar as etapas desse processo de elaboração, encontramos falhas que prejudicam o resultado do aluno. Uma dessas falhas se dá na construção das alternativas de resposta que o aluno é “obrigado” a escolher. Por avaliar uma única habilidade em cada questão os organizadores, dentro de cinco alternativas possíveis, requerem do aluno uma única alternativa correspondente ao descritor escolhido. Assim as alternativas consideradas “incorretas” são chamadas de distratores.

Exemplo 1:

os distratores, produzem informações importantes para a avaliação, na medida

em que apontam possíveis caminhos de raciocínio dos estudantes (grifo nosso), delimitando a etapa do desenvolvimento da aprendizagem em que o estudante se encontra.

(GEI, p.26)

] [

Podemos observar, aqui, que os distratores confundem o aluno, pois se compararmos as alternativas “incorretas” com outros – dos 21 descritores – teremos todas as respostas válidas. Segundo o próprio Guia de Elaboração, os distratores são alternativas incorretas, mas plausíveis.

Exemplo 2:

Assim, os distratores que apresentam soluções supondo erros que os estudantes costumam cometer são mais plausíveis de serem escolhidos por aqueles que não consolidaram a habilidade requerida (grifo nosso), oferecendo informações sobre as dificuldades encontradas. No caso de distratores que são imediatamente descartados, a resposta correta surge do processo de eliminação, e não da ação reflexiva sobre a tarefa solicitada. Portanto, é recomendável que não se proponham alternativas mutuamente excludentes, nem que sejam construídas de forma a induzir o acerto por exclusão. (GUIA DE ELABORAÇÃO DE ITENS, p.26).

A compreensão de texto está atrelada a cognição. O leitor precisa identificar os signos que compõem a escrita e compreender o significado dela. Em sala de aula é possível notar que nem todos os alunos possuem as mesmas habilidades, alguns podem responder as

637

questões de acordo com os descritores exigidos, e outros podem responder as mesmas questões de acordo com outros descritores, pois as inferências de cada um dependem do conhecimento de mundo e do conhecimento prévio que fora adquirido sobre a língua e sobre o contexto abordado no texto e que é exigido durante a interpretação. Logo, não há espaço para haver respostas únicas para determinadas perguntas que são feitas a respeito do texto.

O intuito desse exame é de que o aluno leia, interprete o texto e em seguida responda a algumas questões. Mas o que nos chama atenção é justamente a maneira como o aluno deve respondê-las. A forma escolhida para avaliá-los não condiz na prática. Os alunos se deparam com uma prova que possui textos e perguntas de múltipla escolha, onde apenas uma resposta é aceita, mesmo que não esteja de acordo com o que o aluno pôde entender e interpretar também como certo.

Podemos utilizar como exemplo uma das questões contidas no guia de elaboração da prova de português do SAEPE, que serve como modelo para que os elaboradores formulem outras questões. Nesse guia as questões são comentadas e demonstradas às habilidades que se podem exigir do aluno através de cada item.

Exemplo 3: Leia o poema abaixo e responda à questão.

O último andar No último andar é mais bonito: do último andar se vê o
O último andar
No
último
andar
é
mais
bonito:
do
último
andar
se
o
mar.
É
que
eu
quero
morar.
O
último
andar
é
muito
longe:
custa-se
muito
a
chegar.
Mas
é
que
eu
quero
morar.
Todo
o
céu
fica
a
noite
inteira
sobre
o
último
andar
É
que
eu
quero
morar.
Quando
faz
lua
no
terraço
fica
todo
o
luar.
É
que
eu
quero
morar.
Os
passarinhos
se
escondem
para
ninguém
os
maltratar:
no último andar.
De
se
avista
o
mundo
inteiro:
tudo
parece
perto,
no
ar.
É lá que eu quero morar:
No último andar.

638

MEIRELES, Cecília. Ou isto ou aquilo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1981, p.85.

(PO443054) “Os passarinhos se escondem”, nesse poema, onde é o ?

a) Céu.

b) Mundo inteiro.

c) Terraço.

d) Último andar.

Guia de Elaboração de Itens, 2009, p. 70.

Segundo o guia de elaboração, essa questão avalia a capacidade do aluno perceber

que o texto se constitui de partes interligadas, formando uma rede de significação e para isso

pedem que o estudante identifique alguns elementos que promovem o encadeamento do

texto. Porém, percebemos que mesmo utilizando como suporte um poema, o elaborador

limitou toda a construção de sentido que se poderia ter – a respeito do eu lírico, da melodia,

das imagens dispostas em cada verso – a apenas a utilização do advérbio “lá” no poema. É

nesse sentido que vemos a passividade em que é posto o aluno, tendo apenas que decodificar

a mensagem e não podendo atribuir qualquer sentido ao texto, já que nesse caso, o sentido já

está contido nele.

A questão abaixo está associada ao descritor D-11 onde o aluno precisa distinguir um

fato de opinião relativa a este fato:

Exemplo 4:

PRINCESA NENÚFAR ELFO-ELFA Nasceu já bem pálida, de olhos claros e cabelos loiros, quase brancos.
PRINCESA NENÚFAR ELFO-ELFA
Nasceu já bem pálida, de olhos claros e cabelos loiros, quase
brancos. Foi se tornando invisível já na infância e viveu o
resto da vida num castelo mal-assombrado, com fantasmas
amigos da família. Dizem que é muito bonita, mas é bem
difícil de se saber se é verdade.
Leia o texto abaixo e responda à questão.
SOUZA, Flávio de. Príncipes e princesas, sapos e lagartos:
Histórias modernas de tempos antigos. Editora FTD, p, 16. fragmento
(P044625) A opinião das pessoas sobre a princesa é de que ela
a) é muito bonita.
b) é pálida, de olhos claros.
c) tem cabelos quase brancos.
d) vive num castelo.
Guia de Elaboração de Itens, 2009, p.66.

639

Marcuschi ao fazer análises em livros didáticos desenvolveu nove tipologias que definem os tipos de perguntas de compreensão textual, são elas: a cor do cavalo branco de Napoleão, cópias, objetivas, inferenciais, globais, subjetivas, vale-tudo, impossíveis e metalinguísticas. Neste caso verificamos que as questões dos exemplos 3 e 4 são consideradas objetivas, pois indagam sobre conteúdos objetivamente inscritos no texto e, fazem parte dos 53% das perguntas encontradas nos livros didáticos. Observamos que as questões acima exigem o mínimo do aluno, utilizando fatos explícitos no texto como resposta. Esse nível de questão não irá explorar o cognitivo do aluno, nem tampouco exigir dele uma capacidade de inferência, já que a resposta está claramente em um trecho do suporte. O ideal não é que o elaborador deixe explícita a resposta, mas que venha nortear o aluno, deixar “pistas” através de contextos para que o mesmo possa inferir determinada ideia apontada pelo autor.

4.

CONCLUSÃO

Os resultados obtidos pelo SAEPE são indicados em uma escala de proficiência definida pelo SAEB, distribuída em: elementar I, elementar II, básico e desejável. Ao alcançar

o nível mais alto da escala – que corresponde ao nível alcançado pelo aluno do ensino médio

– o aluno mostra que possui domínio nas escalas inferiores. Conclui-se, então, que esse tipo de abordagem avaliativa impede o aluno de chegar a um nível pleno de leitura e compreensão, onde o mesmo analisa e relaciona as partes do texto comparando e avaliando informações, limitando-o entre um nível rudimentar – localizando apenas as informações explícitas – e um nível funcional, compreendendo o texto através de pequenas inferências. O sistema de educação mesmo buscando formar um senso crítico nos alunos, inovar nos métodos de ensino e nos materiais didáticos, utiliza-se de uma forma de avaliação que conserva um modelo de “prisão”, impedindo os alunos de pensar nas diversas possibilidades de compreensão que se pode ter de um texto. E é dessa forma que a educação está sendo avaliada.

Como já havíamos exposto na introdução, um dos objetivos desse exame é o de que professores e gestores possam pensar sobre a eficiência dos métodos de ensino. Não queremos, aqui, criticar a eficiência do SAEPE, nem de seus organizadores. Porém, de acordo com a noção de texto, por nós abordada, acreditamos que essa avaliação e seu resultado

640

deveria trazer a reflexão não somente do ensino, mas também dos possíveis processos de compreensão que os alunos podem desenvolver.

5.

BIBLIOGRAFIA

Aprender a ler e compreensão do texto: processos cognitivos e estratégias de ensino. Disponível em: <http://www.rieoei.org/rie46a07.htm>. Acesso em: 04 de outubro de

2012.

Estado de leitura / Valdir Heitor Barzotto (org.) – Campinas, SP: Mercado de letras:

Associação de leitura do Brasil, 1999. (coleção Leituras no Brasil) Guia de Elaboração de Itens de Língua Portuguesa – SAEPE. Disponível em:

http://www.saepe.caedufjf.net/wp-content/uploads/2012/06/GUIA_DE_ELABORACAO_-

PORTUGUES.pdf. Acesso em: 20 de setembro de 2012. Jakobson, Roman. Linguística e Comunicação. Disponível em:

http://www.cantinhodarevisao.com.br/resources/Roman%20Jakobson%20-

0Ling%C3%BC%C3%ADstica%20e%20Comunica%C3%A7%C3%A3o_--

WwW.LivrosGratis.Net -- pdf MARCUSCHI, Luiz Antônio. 1946 – Produção textual, análise de gênero e compreensão / Luiz Antônio Marcuschi. – São Paulo: Parábola Editora, 2008. Notas de Aula da disciplina de Linguística III, ministrada pela Prof. Dr. Karina Falcone. Processos que levam à compreensão de textos. Disponível em:

http://www.scielo.br/pdf/pe/v11n1/v11n1a17.pdf>. Acesso em: 04 de outubro de 2012. Revista Língua Portuguesa. Ano 7 – Número 83 – Setembro de 2012. Revista Pedagógica – SAPE 2011. Disponível em: < http://www.saepe.caedufjf. Net/wp- content/uploads/2012/07/SAEPE_Boletim_v3_LP_5EF_2011.pdf. Acesso em: 06 de outubro de 2012. Sistema de Avaliação Educacional de Pernambuco. Disponível em: <http://www. saepe.caedufjf.net/>. Acesso em: 20 de setembro de 2012. Travaglia, Luiz Carlos. - Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática. São Paulo - Editora Cortez 2009.

641

641 ARGUMENTAÇÃO EM QUESTÃO: ANÁLISE DO DISCURSO ARGUMENTATIVO EM TEXTOS DE OPINIÃO PRODUZIDOS POR ALUNOS

ARGUMENTAÇÃO EM QUESTÃO: ANÁLISE DO DISCURSO ARGUMENTATIVO

EM TEXTOS DE OPINIÃO PRODUZIDOS POR ALUNOS RECÉM-INGRESSOS NO

ENSINO SUPERIOR

1. Introdução

Ana Paula Martins Alves Universidade Federal do Ceará

Mônica de Souza Serafim Universidade Federal do Ceará

Estudos sobre a argumentação têm sido desenvolvidos desde os tempos de

Aristóteles. Sob a concepção de que o sujeito falante apresenta um argumento como

justificativa para determinada conclusão, a argumentação defendida pelos estudos retóricos

pauta-se numa “verdade” do senso comum ou das leis gerais como princípios organizadores

do mundo. Neste pensamento, o argumento se constitui por um fato que implica uma

conclusão, podendo ser analisada por vias não linguísticas.

Todavia, esse campo de investigação ganhou particular relevância nas últimas

décadas. Teóricos como Oswald Ducrot, Patrick Charaudeau e Chaim Perelman& Olbrechets-

Tyteca, dentre outros, têm apresentado relevantes contribuições sobre o tema, destacando

diferentes aspectos sobre o processo argumentativo.

A Teoria da Argumentação na Língua (TAL), defendida por Oswald Ducrot

(1977), apresenta um novo conceito de argumentação, diferente da concepção dos estudos

retóricos. Segundo a ATL, a argumentação está na língua, ou seja, encontra-se marcada nas

escolhas linguísticas. Para tanto, os encadeamentos argumentativos possíveis no discurso não

estão ligados apenas às informações que elas veiculam, mas à estrutura linguística dos

enunciados. Destarte, os sentidos dos enunciados indicam a direção da continuação do

diálogo, orientando o interlocutor a certo tipo de conclusão.

642

Assim, sob o ponto de vista da argumentação na língua, em que o encadeamento argumentativo está ligado à estrutura linguística dos enunciados, a presente pesquisa teve como escopo investigar o discurso argumentativo em textos de opinião de estudantes do 1º semestre do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará, destacando a contribuição da utilização de marcadores argumentativos na construção do sentido do texto. Ao observarmos o cotidiano escolar, percebemos que a argumentação não compõe

a estrutura curricular do processo de ensino e aprendizagem do ensino fundamental I, apenas

nos anos finais desse nível de ensino podemos ver uma iniciação ao estudo da argumentação,

e somente no ensino médio a argumentação, enquanto produção textual passa a ter

obrigatoriedade na estrutura curricular de ensino de Língua Portuguesa. Todavia, no ensino superior espera-se que o estudante universitário seja capaz de se posicionar criticamente frente às temáticas estudadas e, além do mais, seja capaz de defender, de forma eficaz, seus

pontos de vista. Nesse contexto, surgiram os seguintes questionamentos: Como se configura o

discurso argumentativo dos alunos recém-ingressos no ensino superior? Como se dá a utilização de marcadores discursivos nos textos produzidos por alunos do 1º semestre do ensino superior? Quais relações discursivas/argumentativas são estabelecidas a partir do uso

de marcadores discursivos?

Nosso esforço em estudar essa temática pretende, no entanto, contribuir para a compreensão da produção textual, a partir da utilização de marcadores argumentativos, no início do ensino superior. Dessa forma, acreditamos que a presente pesquisa oferecerá

importantes contribuições a respeito da argumentação na escrita do estudante universitário, e apontará lacunas que poderão ser trabalhadas ao longo do curso superior, visando uma formação mais eficaz. Segundo a tipologia científica, que classifica os diversos tipos de pesquisas, este estudo caracterizou-se como uma pesquisa do tipo explicativa, uma vez que visou aprofundar

o conhecimento de uma realidade (GIL, 2007), bem como de base interpretativa e de caráter

descritivo. Os dados foram coletados no final do semestre de 2012.1 num contexto de estudo sobre produção textual e contou com a participação de 22 alunos recém-ingressos no ensino superior. Após a exibição do vídeo “Vida Maria” e debate sobre questões levantadas a partir da percepção dos alunos, estes produziram um texto de opinião sobre as oportunidades educacionais no Brasil.

643

A análise dos dados pautou-se nos pressupostos teóricos ducrotianos da Teoria da Argumentação na Língua (TAL), bem como nos pressupostos teóricos de Bakhtin (2003) e Koch (1992, 1997, 2003, 2006). Nesse contexto, buscamos identificar nas produções dos alunos marcas linguísticas específicas como marcadores argumentativos, tais como conjunções e conectores, assim como o valor-argumentativo de tais elementos para a organização dos enunciados e do texto, uma vez que estes funcionam como articuladores textuais e orientam a argumentativamente nos enunciados. Na análise dos dados, seguimos procedimentos qualitativos e quantitativos. Uma vez que entendemos o trabalho com formas quali-quantitativas como um modo de complementar e amplificar as informações, objetivando um melhor entendimento com base em diferentes pontos de vistas. O presente trabalho está divido em três partes. Na primeira resenhamos o estado da arte acerca do percurso histórico da argumentação, abordando especificamente a teórica de base do nosso trabalho, a Teoria da Argumentação na Língua. Nesta primeira parte apresentamos os principais conceitos importantes para a compreensão da análise dos dados da pesquisa. Na segunda parte, temos uma seção expositiva e analítica, em que apresentamos e analisamos os dados encontrados em textos de opinião de alunos recém-ingressos no ensino superior. E por fim, na última parte, tecemos nossos considerações finais a respeito da teoria de base e da nossa análise textual.

2. Teoria da Argumentação na Língua – TAL

Contrapondo-se aos estudos retóricos, para os quais a argumentação encontra-se especialmente na organização dos discursos e na escolha de argumentos, Oswald Ducrot e Jean-Claude Anscombre propõem uma teoria semântica de interpretação do sentido dos enunciados, a Teoria da Argumentação na Língua (TAL) 249 , em que a argumentação está marcada nas escolhas linguísticas. Para a TAL, o processo argumentativo tem origem nos próprios elementos linguísticos, dessa forma, os encadeamentos argumentativos possíveis dos enunciados estão

249 No original Argumentation Dans La Language - ADL

644

ligados não apenas às informações que eles veiculam, mas à estrutura linguística dos

enunciados. Desse ponto de vista, um enunciado pode ser considerado um argumento que visa

não apenas uma conclusão, mas uma série de conclusões. (CABRAL, 2010). Assim, tomando

por base o exemplo citado por Cabral (2010), quando comentamos com alguém Este

restaurante é muito bom! (p.16), podemos, por meio desse enunciado, fazê-lo admitir, dentre

várias possibilidades, que devemos ir jantar lá, ou que o restaurante deve ser caro.

Ademais, a autora (op. cit.) afirma ainda que faz parte do sentido de um enunciado

indicar a direção da continuação do diálogo, bem como orientar o interlocutor em direção a

certo tipo de conclusão, uma vez que a argumentação é um traço constitutivo dos enunciados.

Segundo Ducrot:

A argumentação, com efeito, muito diferente do esforço de persuasão,

é para mim um ato público, aberto, não pode realizar-se sem se

denunciar enquanto tal. Mas isto é dizer que um enunciado argumentativo apresenta sua enunciação como levando a admitir tal ou tal conclusão. (1987, p. 174).

Dentre os pressupostos da TAL, destacamos: a) a argumentação está na língua; e

b) o encadeamento argumentativo é a estrutura básica argumentativa.

A Teoria da Argumentação na Língua, ao longo de sua existência passou por

várias reformulações. Tendo início em 1983 com a publicação de L’argumentation dansla

langue, Oswald Ducrot e Jean-Claude Ancombre lançam a fase Standard, contrapondo-se à

visão tradicional de argumentação afirmam que a argumentação não é constituída apenas por

um fato, posteriormente a teoria sofre alterações e então temos a fase da Teoria dos Topoi,

momento em que Ducrot e colaboradores resgatam uma palavra de origem grega, topo, e

introduz o conceito bhaktiniano de polifonia. Fechando esse período de mudanças, chegamos

à terceira fase, momento atual da teoria, a Teoria dos Blocos Semânticos.

O ser humano é capaz de interagir socialmente por meio da língua, selecionando

os meios linguísticos adequados a seus propósitos, a fim de atingir determinados resultados.

Segundo Koch (1992), ao interagirmos através da linguagem, atuamos sobre nosso

interlocutor a fim de obter determinadas reações, bem como objetivamos estabelecer relações,

causar efeitos, desencadear comportamentos. Assim, de acordo com a autora:

] [

argumentativo: pretendemos orientar os enunciados que produzimos no sentido de determinadas conclusões (com exclusão de outras). Em outras palavras, procuramos dotar nossos enunciados de determinada força argumentativa. (KOCH, 1992, p.29)

se pode afirmar que o uso da linguagem é essencialmente

645

Como ressalta Ducrot (1988), a argumentação está na língua, destarte toda língua possui em sua gramática mecanismos que permitem indicar a orientação argumentativa dos enunciados. Tais mecanismos são denominados marcas linguísticas da argumentação. (KOCH, 1992). De acordo com Koch (1992), são marcas linguísticas da enunciação ou da argumentação os marcadores de pressuposição; indicadores modais ou índices de modalidade; indicadores atitudinais ou índices de avaliação e de domínio; tempos verbais; índice de polifonia e os conectores, denominados operadores argumentativos. Vale ressaltar que a TAL se desenvolveu a partir da análise dos conectores, ou ‘palavras vazias’. Destarte, Ducrot e seus seguidores, a partir de seus estudos, propôs que os conectores não eram, simplesmente, termos de ligação como definia a gramática tradicional, mas sim palavras de ligação e orientação, uma vez que articula as informações e os argumentos do texto (CABRAL, 2010). Corroborando com esta ideia, Fávero (1991) e Koch (2006), dentre outros estudiosos, mostraram que os conectores, além de auxiliarem na construção da coesão de um texto, sinalizam a argumentação. Por isso é que Koch (2006) denomina os conectores de operadores argumentativos. Os marcadores de pressuposição são aqueles elementos presentes nos enunciados que introduzem conteúdos semânticos adicionais. Além dos operadores argumentativos (conectores), podemos citar como elementos linguísticos introdutores de pressuposição:

verbos que indicam mudança ou permanência de estado, tais como ficar, começar a, continuar, permanecer, entre outros; verbos que são complementados pela enunciação de um fato, tais como: lamentar, lastimar, sentir, saber, etc.; e certos conectores circunstanciais, por exemplo, desde que; depois que; visto que; etc. (KOCH, 1992) Em relação aos indicadores modais, também denominados modalizadores, Koch (1992) afirma que estes são importantes na construção do sentido do discurso, bem como na sinalização do modo como o que se diz é dito. O estudo dos modalizadores originou-se na lógica clássica e ramificou-se para a semântica moderna. Todavia, no nosso estudo, não abordaremos os aspectos lógicos, mas sim focaremos nos meios linguísticos pelos quais os modalizadores se apresentam no discurso, tais como advérbios ou locuções adverbiais (talvez, provavelmente, certamente, etc); verbos auxiliares modais (poder, dever, etc.); construções de

auxiliar + infinitivo (ter de + infinitivo, precisar + infinitivo, etc.); e orações de modalizadores

(tenho certeza de que

, etc.).

646

Por indicadores de atitude, em consonância com Koch (1992), compreendemos aquelas palavras que indicam o estado psicológico com que o locutor se representa diante dos enunciados que produz, por exemplo, infelizmente; francamente, etc. No que diz respeito aos tempos verbais, podemos afirmar que, além de caracterizarem a ordem do discurso, estes fazem distinção quanto ao tipo de atitude comunicativa do locutor, podendo ser um comentário ou um relato. Não obstante, em ambas as atitudes comunicativas, podemos perceber a argumentação nos enunciados. (KOCH, 1992). Segundo Koch (1997), “O termo Operadores Argumentativos foi cunhado por O.

para designar certos elementos da gramática de uma língua que têm por função

indicar (‘mostrar’) a força argumentativa dos enunciados, a direção (‘sentido’) para o qual

apontam” (p. 30). Assim, na media em que funcionam como elementos responsáveis pelo direcionamento argumentativo pretendido pelo locutor, os marcadores argumentativos constituem relações discursivas ou argumentativas que delineia a estratégia argumentativa escolhida por esse locutor. Para Koch (2003) os marcadores argumentativos, além de direcionarem argumentativamente o enunciado, funcionam como articulares textuais, uma vez que podem encadear segmentos textuais de qualquer extensão como: períodos, parágrafos, subtópicos e sequências textuais ou partes inteiras do texto. Assim, estabelecem interdependência semântica e/ou pragmática por intermédio de relações discursivas, assumindo importante papel coesivo sequencial e funções enunciativas ou discursivo-argumentativas, além de permitirem a progressão do texto.

Ducrot, [

]

Destarte, pautamos nossa pesquisa nos estudos de Koch (1992, 1997, 2003), que fundamentados na teoria ducrotiana, relativa à orientação argumentativa dada por marcadores, destaca as seguintes relações discursivas ou argumentativas:

a) Conjunção – Constatada a partir dos marcadores: É, também, não só, como, além de, além disso, ainda, nem (e não). Tais marcadores correlacionam enunciados e argumentos e direcionam para uma mesma conclusão.

b) Disjunção argumentativa – estabelecida pelos marcadores: ou, ou então, quer quer,

os quais introduzem argumentos alternativos, em enunciados distintos,

seja

seja,

levando a conclusões diferentes ou opostas.

c) Contrajunção – através dos marcadores, tais como, mas (porém, contudo, todavia etc) enunciados de orientação argumentativa são contrapostos, direcionando a conclusões contrárias.

647

d) Explicação ou justificativa – manifesta-se através dos marcadores porque, que, já que, pois, etc. que visam dar uma justificativa ou explicação relativamente ao enunciado anterior.

e) Comprovação - através de um novo ato de fala acrescenta-se uma possível comprovação

da asserção apresentada no primeiro, expresso pelo marcador: tanto que.

f) Conclusão – a partir dos marcadores: portanto, logo, por conseguinte, pois, etc., insere-se um enunciado conclusivo em relação a dois (ou mais) anteriores.

g) Comparação – possui um caráter eminentemente argumentativo, expresso pelos

(do) que e evidencia

entre o que se compara, uma relação de inferioridade, superioridade ou igualdade. h) Generalização/exemplificação – na qual o enunciado posterior expressa uma generalização do fato anterior ou uma extensão da ideia nela contida: Aliás, também, é

marcadores (Tanto, tal)

como

(quanto),mais

(do)

que, menos

verdade que, bem, mas, de fato, realmente.

i) Contraste – expressa pelos marcadores: mas, ao passo que. O enunciado seguinte apresenta uma declaração que contrasta com a do primeiro.

j) Correção/redefinição - Constituída através de um enunciado que corrige, suspende ou

redefine o conteúdo do primeiro. Constatada através dos marcadores: isto é, se, ou, ou melhor, de fato, pelo contrário, quer dizer. Ressaltamos que, autores como Guimarães (2001) e Freitas (2006) ampliam a compreensão de Koch (2003) no que diz respeito às relações discursivas/argumentativas estabelecidas pelos marcadores argumentativos. Tais autores acrescentam as relações de

gradação, pressuposição e restrição. No entanto, na nossa pesquisa trabalhamos somente com as relações apresentadas por Koch (1992, 1997, 2003).

3. O gênero em foco: texto de opinião

Adotamos a perspectiva de gêneros postulado por Bakhtin (2003), para o qual é impossível comunicar-se verbalmente a não ser por algum gênero. Posição esta também adotada por outros autores como Bronckart (1999) e Marcuschi (2005), os quais tratam a língua nos aspectos discursivos e associativos. Para Bakhtin (2003), os gêneros reproduzem as condições específicas de cada campo da atividade humana através do seu conteúdo temático, estilo de linguagem e construção composicional. De acordo com o autor “todos esses três elementos – o conteúdo

648

temático, o estilo e a construção composicional – estão indissoluvelmente ligados ao todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um campo de comunicação.” (p. 261-262).

O texto de opinião é um gênero pertencente ao domínio jornalístico, que circula,

geralmente, em sessões de opinião de jornais, periódicos e revistas, sendo um meio de comunicação social, não apenas informativo, mas também formador de opinião.

A tabela a seguir, elaborado por Perreira (2008), e adaptado por nós, sintetiza a

estrutura de um texto de opinião. Contudo, ressaltamos que nosso estudo aborda somente dois dos índices de organização do texto de opinião, a saber: Marcadores argumentativos e

relações discursivas.

TABELA 1: Estrutura do texto de opinião

     

Elementos paratextuais

 

Título

Estrutura linguística

 

Índices de enunciação

Índices

Índices de

lexicais

organização

Situação

Voz do locutor Vos do(s) enunciador(es) Modalizadores Dêiticos

 

Disposição

comunicativa

Campos

tipográfica

Modelo

de

semânticos

Progressão temática

Textos

argumentação

contraditórios

Marcadores

de

 

Argumentativos

Opinião

(Construído/

Relações discursivas

 

mais

Estrutura composicional

Propósito

construído)

Apresentação do tema Apresentação da tese Argumentos para justificar a tese Conclusão (retomada da tese/ indicação de perspectivas)

comunicativo

Elementos paratextuais

 

Identificação do articullista

4. Resultados e análise

(Adaptado de PEREIRA, 2008)

Tomamos por base, nessa pesquisa, o pressuposto que a argumentação é inerente a língua e concordamos com a afirmação ducrotiana que o uso da língua é argumentativa. (DUCROT, 1989). Nessa perspectiva, analisamos as relações discursivas ou argumentativas estabelecidas nas produções escritas de estudantes recém-ingressos no ensino superior. Para

649

tanto, analisamos 22 textos de opinião sobre educação, escritos por alunos do 1º semestre do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará. Em nossa análise, encontramos 188 marcadores argumentativos, em um universo de 22 textos de opinião, distribuídos em 30 formas diferentes de marcadores, estabelecendo 10 tipos de relações discursivas/argumentativas distintas. A tabela abaixo sintetiza tais achados:

TABELA 2: Marcadores Discursivos/Argumentativos e Relações discursivas

 

Marcadores Argumentativos

Relações Discursivas

E, entretanto, assim, ou

ou,

pois, seja, visto

Conjunção, disjunção, contrajunção, explicação,

que, porém, logo, portanto, dessa forma,

comprovação,

conclusão,

tanto

quanto,

mas, então, até, ou seja, também,

comparação,generalização/exemplificação, contraste e correção/redefinição.

contudo, por consequência, por meio da, apesar de, ademais, além, por outro lado, sobretudo, já que, por isso, uma vez que, dessa forma.

O gráfico 1, apresenta a frequência de utilização dos marcadores argumentativos nos textos de opinião escritos pelos participantes. Ao o analisarmos, percebemos que a frequência de uso variou entre 2 e 18 marcadores, conforme podemos notar nos textos de A12 e A1, respectivamente. GRÁFICO 1: Frequência de Utilização de Marcadores Argumentativos

notar nos textos de A12 e A1, respectivamente. GRÁFICO 1: Frequência de Utilização de Marcadores Argumentativos

650

Percebemos, também, que houve uma variação na quantidade de marcadores utilizados por cada aluno. Por exemplo, os alunos A17 e A18 utilizaram 6 tipos diferentes de marcadores, ao passo que o aluno A12 utilizou apenas 1. No entanto, o aluno A22 ganha destaque no gráfico 1, por ter utilizado uma quantidade relativamente grande de marcadores (14 marcadores), e uma variação consideravelmente pequena de tipos de marcadores (2 tipos). Isso nos leva a interpretação de um texto relativamente limitado no que diz respeito às relações discursivas/argumentativas. Vejamos na tabela a seguir, a relação da quantidade de tipos de marcadores utilizados por texto.

TABELA 3: Quantidade de tipos de marcadores utilizados nos textos

Quantidade de tipos de marcadores utilizados

Quantidade de textos

No mínimo 1 tipo

01

No mínimo 2 tipos

03

No mínimo 3 tipos

08

No mínimo 4 tipos

06

No mínimo 5 tipos

02

No mínimo 6 tipos

02

A tabela nos revela que houve uma grande utilização de no mínimo 3 ou 4 tipos de marcadores diferentes, isso nos demonstra que há uma certa variabilidade de marcadores e por conseguinte uma variabilidade de relações discursivas nos textos analisados.

Em relação aos tipos de marcadores, e e mas aparecem como os mais utilizados pelos alunos. Logo em seguida vem assim e pois. Esse marcadores reforçam os resultados do gráfico 2, segundo o qual, as relações com maior frequência nos textos foram: conjunção, contrajunção, explicação e conclusão. Todavia, em alguns trechos das produções dos alunos percebemos uma variabilidade de relações. Vejamos o exemplo a seguir:

“Há uma negligência por parte do Governo em relação tanto ao sertão quanto à educação, pois essa última não é precária apenas no interior, mas também na cidade. Porém, no sertão existe a falta de infraestrutura demasiada na educação, na saúde, nos serviços básicos, etc, mostrando que a permanência numa condição de vida, muitas vezes miserável, não é uma escolha do indivíduo, mas uma opressão, uma coerção, da sociedade.” (A18).

651

Nesse trecho, notamos que o aluno utilizou seis marcadores diferentes (tanto

quanto, mas também, porém, que, mas) e cada um estabeleceu uma relação discursiva distinta.

Vejamos:

Em “Há uma negligência por parte do Governo em relação tanto ao sertão quanto

à educação[

mas também na

de

]” encontramos a

relação de contrajunção, em “[ mostrando que a permanência numa condição de vida,

temos uma explicação e em

infraestrutura demasiada na educação, na saúde, nos serviços básicos, etc [

cidade” temos a relação de conjunção, em “[

precária apenas no interior [

pois essa última não é

]”,

percebemos a relação de comparação, já em “[

]”

]

temos a relação de explicação. Em “[

]

]

Porém, no

]”

]

sertão existe a falta

muitas vezes miserável, não é uma escolha do indivíduo [

“[ mas uma opressão, uma coerção, da sociedade” se estabelece a relação de contraste.

]

Em suma, temos cinco tipos de relações discursivas/argumentativas diferentes em

apenas um parágrafo.

O gráfico 2 apresenta a quantidade de relações discursivas encontradas nos textos

dos alunos.

GRÁFICO 2: Relações Discursivas (Argumentativas)

alunos. GRÁFICO 2: Relações Discursivas (Argumentativas) As relações de conjunção, contrajunção, explicação e

As relações de conjunção, contrajunção, explicação e conclusão foram as mais

frequentes nas produções dos alunos, conforme ilustramos no exemplo a seguir:

Então, pode-se concluir de uma forma bem geral que é importante o papel da educação e do local onde vivemos para concretizar uma funcionalidade econômica e social para um determinado grupo social, porém a força de vontade de cada um

652

também pode contribuir para a criação dessas oportunidades, e não apenas esperar para que esses fatores apareçam de forma totalmente exterior. (A17)

Nesse trecho, o estudante A17 utiliza 4 marcadores argumentativos. Ao utilizar o

então estabelece relação de conclusão, o porém estabelece relação de contrajunção, o também

e e não apenas relação de conjunção.

Um aspecto interessante a destacar é que, em meio aos textos foi possível

localizar casos em que no mesmo trecho há marcadores distintos estabelecendo a uma única

relação. Por exemplo:

No entanto, uma outra questão seria conveniente de análise; até que ponto essas oportunidades não seriam apenas mais uma forma de entrar nessas convenções sociais? Pois, se pararmos para observar, enxergaremos que a falta ou excesso de oportunidades só indicaram um grau de submissão a determinados padrões.” (A14)

Os marcadores no entanto, pois e ou estabelecem a relação de contrajunção,

caracterizando o parágrafo com uma força argumentativa que se direciona contrariamente as

ideias anteriores do texto.

O exemplo a seguir, por outro lado, nos mostra o mesmo marcador estabelecendo

relações diferentes em um mesmo parágrafo.

“Somos esbaldados e soterrados por oportunidades, por possibilidades de escolhas, e essa liberdade nos cega e nos faz esquecer de algo importante e complementar, e não excludente, dela que é a segurança.” (A22)

Nesse exemplo, o marcador argumentativo, e, ora estabelece relação de

contrajunção e ora de conjunção. Em “Somos esbaldados e soterrados por oportunidades, por

possibilidades de escolhas, e essa liberdade nos cega [ e em “[ e não excludente, dela

] e nos faz

esquecer de algo importante e complementar [

Ao analisarmos os dados, percebemos uma notória influência da oralidade nas

produções dos participantes. Os marcadores e e mas são os mais frequentes nos textos, estes

que é a segurança” a relação estabelecida é de contrajunção, ao passo que em “[

]”

]

]”

estabelece relação de conjunção.

também são os mais utilizados oralmente quando argumentamos ou narramos algum fato.

Em linhas gerais, o marcador argumentativo mais utilizado foi o e, e

consequentemente a relação discursiva/argumentativa mais frequente foi a conjunção.

653

Enquanto que, a conjunção teve frequência de 59 utilizações, a mais próxima foi a contrajunção com 31 utilizações. Nesse contexto, notamos que a argumentação dessa turma se caracteriza, primeiramente, pela correlação de enunciados que formam argumentos que apontam para uma mesma conclusão. No entanto, chamamos a atenção para a relação menos frequente nas produções, a comprovação, que teve frequência de 1 utilização. Também se apresentam com baixa utilização as relações de correção, generalização e contraste. A ausência de tais relações tornam os argumentos do grupo analisado mais próximo da oralidade, e talvez, mais distante do discurso elaborado. Percebemos que tais relações são mais complexas de serem utilizadas, bem como menos frequentes na oralidade. Acreditamos que por esse motivo elas se apresentam com baixa frequência nos textos dos alunos. Todavia, cremos que essas relações precisam ser melhor trabalhadas em sala de aula, a fim de tornar nosso o discurso argumentativo dos nossos alunos mais elaborado e forte.

5. Considerações finais

Neste estudo, discutimos a argumentação sob o ponto de vista teórico e prático. Investigamos o discurso argumentativo em textos de opinião de estudantes recém-ingressos no ensino superior, tencionando perceber a contribuição do uso de marcadores argumentativos e o estabelecimento das relações discursivas para a construção do sentido do texto. Para tanto, analisamos 22 textos de alunos do 1º semestre do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará, sob os enfoques qualitativo e quantitativo, os quais nos subsidiaram nossas conclusões. Sabemos que o texto de opinião é um gênero essencialmente argumentativo, um gênero que se organiza seguindo uma linha argumentativa que inicia com a identificação do tema e segue apresentando diferentes argumentos de forma a justificar ou refutar uma tese, até se chegar à formulação de uma tese final. Os marcadores argumentativos funcionam como articuladores dos enunciados, formando os argumentos e conduzindo o discurso para uma determinada conclusão. Assim, após a análise de dos textos, notamos que as relações discursivas mais frequentes foram: conjunção e contrajunção, representadas pelos marcadores argumentativos

654

“e” e “mas”. Porquanto, o discurso argumentativo escrito da turma analisada apresentou forte influência da oralidade. Ademais, os marcadores argumentativos e as relações discursivas fazem parte do vocabulário da língua/linguagem dos redatores, todavia há a necessidade de ensino que explore seu valor argumentativo e seu papel organizador do texto. Concluímos, portanto, que os marcadores argumentativos e as relações discursivas, por orientarem argumentativamente os enunciados, contribuem, apesar de não serem as únicas marcas linguísticas com essa função, para a instituição do sentido e o alcance do propósito comunicativo do argumentador. Acreditamos, contudo, que o ensino da argumentação deve se dar desde os anos mais tenros de escolarização, pois muitas são as habilidades a serem desenvolvidas. Todavia, sugerimos mais pesquisa com os marcadores argumentativos, no sentido de observá-los em gêneros orais e escritos e em diferentes níveis de escolarização, associando-os às diferentes relações discursivas e aos diferentes propósitos comunicativos.

Referências

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Martins Fontes, [1953] 2003.

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Les enchelles argumentatives. Paris: Minuit, 1980.

O dizer e o dito. Trad. Eduardo Guimarães. Campinas, São Paulo: Pontez, 1987.

Polifonia y argumentacion: conferências del seminário – teoría de la argumentacion y análisis del discurso. Universidade del Valle: Cali. 1988.

655

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FREITAS, M. de O. Técnicas e operadores argumentativos em redação de universitários.

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HTTP://gel.org.be/4publica-estudos-2006/sistema06/1029.pdf. Acessado em 12 de ago. de

2012.

GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2007.

GUIMARÃES, E. Texto e argumentação: um estudo de conjunções do português. Campinas:

Pontes, 2001.

KOCH, I. G. V. A Inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 1992.

O Texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 1997.

Desenvolvendo os segredos do texto. São Paulo: Contexto, 2003.

ELIAS, M. V. Ler e compreender os sentidos do texto. 2. ed. São Paulo:

Contexto, 2006.

MARCUSCHI, L. A. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONÍSIO, A. P., MACHADO, A. R., BEZERRA, A. A. (orgs) Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro:

Lucerna, 2005.

PEREIRA, M. E. De A. A construção do discurso argumentativo em Artigos de opinião

Fortaleza, 218 folhas. Dissertação (Mestrado em

Linguística). Programa de Pós-Graduação em Linguística, Universidade Federal do Ceará.

Fortaleza, 2008.

produzido por alunos do ensino médio.

656

656 AS REPRESENTAÇÕES DISCURSIVAS DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER Maria de Fátima Silva dos Santos Universidade

AS REPRESENTAÇÕES DISCURSIVAS DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Maria de Fátima Silva dos Santos Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN

1

Introdução

Este artigo aborda sobre a construção de imagens da violência contra a mulher, com

base na noção de representação discursiva (Rd) proposta por Adam (2008). O objetivo é

investigar as operações semânticas mobilizadas pelos agentes policiais para construir as

representações discursivas da violência, bem como dos sujeitos envolvidos na cena

enunciativa em históricos de boletins de ocorrência e no inquérito policial. Desse modo,

exploramos, entre outras questões, as operações semânticas mobilizadas pelos agentes

responsáveis pela elaboração escrita dos boletins de ocorrência e do inquérito policial para

construir a imagem da violência contra a mulher, bem como do sujeito agressor.

A representação discursiva (Rd) remete ao nível semântico do texto, por isso, sua

descrição será feita com base nas seguintes categorias de análise e construção do significado:

referenciação, predicação, aspectualização, localização e analogias. A análise fundamenta-se

nos pressupostos teóricos e metodológicos advindos da Análise Textual dos Discursos (Adam,

2008), dos estudos linguísticos do texto e do discurso (Koch e Elias, 2006; Marcuschi, 2012;

Maingueneau, 2005, 2011, Amossy, 2011, entre outros), bem como de alguns estudos

voltados para a temática da violência contra a mulher (Queiroz, 2008; Passinato, 2004,

Oliveira, 2004).

A metodologia adota uma abordagem documental, de base qualitativa, em que se

investiga um corpus constituído de inquéritos policiais originados a partir de denúncias

registradas em boletins de ocorrência, em uma delegacia especializada de amparo à mulher,

em Natal-RN.

657

As competências necessárias para a elaboração do registro da ocorrência, bem como da representação discursiva da violência contra a mulher, com referência precisa aos sujeitos envolvidos na cena enunciativa envolvem uma rede complexa de fatores, além da mobilização de diferentes conhecimentos, muitas das vezes desconhecidos, por parte de alguns policiais e escrivães responsáveis pelo registro da ocorrência no boletim e do relatório no inquérito policial. Dentre esses conhecimentos, podem-se citar os cognitivos, interacionais, linguísticos, textuais e discursivos, dentre outros. Por isso, a relevância e a pertinência de se pesquisar a respeito desses documentos oficiais para abordar questões relacionadas tanto à estrutura composicional quanto aos aspectos semânticos, estilísticos, textuais e discursivos desses gêneros. Outro aspecto a considerar é que esta pesquisa suscita o debate sobre a temática da violência contra a mulher, tema que tem despertado o interesse de investigadores em algumas áreas do conhecimento (Ciências Sociais, Direito, Saúde, dentre outras), porém, pouco explorado no âmbito dos Estudos Linguísticos do Texto. No que concerne à configuração textual desse artigo, seu conteúdo encontra-se assim organizado: inicialmente, abordamos sobre a noção de Representação discursiva (Rd) que corresponde à dimensão semântica do texto, na perspectiva da Análise Textual Discursiva (ATD), com base nos pressupostos teóricos e metodológicos propostos por Jean-Michel Adam (2008). Em seguida, descrevemos alguns procedimentos de construção semântica da proposição, com base nas operações que a ATD define para a sequência descritiva (ADAM, 2008, p. 215-224), a saber: tematização, aspectualização, relação e expansão por subtematização. Por fim, identificamos, no corpus, as cinco categorias semânticas selecionadas neste trabalho para a construção das representações discursivas.

2 Noção de Representação discursiva

Segundo Adam (2008, p. 103), “Toda proposição enunciada possui um valor

descritivo. A atividade discursiva de referência constrói, semanticamente, uma representação, um objeto de discurso comunicável”. Em outras palavras, uma representação semântica do

discurso constrói-se, minimamente, a partir de “[

o desenvolvimento de uma predicação a seu respeito. A forma mais simples é a estrutura que

um tema ou objeto de discurso posto e

]

associa um sintagma nominal a um sintagma verbal”. (grifos nosso). Semanticamente, uma proposição pode, também, se reduzir a um nome e a um adjetivo.

658

A esse respeito, Rodrigues, Silva Neto e Passeggi (2010, p. 173), por sua vez,

toda proposição, na condição de ‘microuniverso semântico’, constitui uma

representação discursiva mínima.”. Nessa perspectiva, segundo esses autores, “A dimensão referencial da proposição apresenta uma certa ‘imagem’ do(s) referente(s) discursivo(s), posto

que cada expressão utilizada categoriza ou perspectiva o referente de uma certa maneira.”. Assim, nesta concepção, a linguagem faz referência e todo texto passa a ser concebido como uma proposição de mundo que solicita do sujeito interpretante (desempenha o papel de intérprete das mensagens) uma atividade semelhante, mas não simétrica, de (re)construção dessa proposição de (pequeno) mundo ou Rd. Adam (2008, p. 115) afirma que “Em termos de teoria linguística da enunciação, o texto é, ao mesmo tempo, uma proposição de mundo e de sentido, um sistema de determinações e um espaço de reflexividade metalinguística”. Desse modo, “Todo texto

constrói, com maior ou menor explicitação, uma representação discursiva do seu enunciador, do seu ouvinte ou leitor e dos temas ou assuntos que são tratados”. (RODRIGUES, SILVA NETO e PASSEGGI, 2010, p. 173). O sujeito falante sabe que a língua nem sempre pode dizer tudo, e que, em certas situações, a comunicação pode ser falha, mas ele sabe, também, que isso não é suficiente para impedir a referência ao mundo, às palavras, à própria situação de enunciação e aos co-enunciadores. Com o intuito de articular o campo linguístico da análise dos discursos ao da retórica e ao da teoria da argumentação, Adam (2011) aproxima a noção de representação discursiva daquilo que Jean-Blaise Grize 250 (1996) designa como imagem do locutor no modelo que ele

propõe de esquematização: “O conceito-chave da lógica natural [

portanto, de representação discursiva.”. Grize (1978, p. 48) distingue a imagem da noção de

é o de esquematização,

observam que “[

]

]

representação nesse mesmo modelo: “Eu distinguirei as representações das imagens desta forma: as representações são aquelas do locutor, enquanto as imagens são propostas pelo discurso. As imagens são aquilo que a esquematização permite ver. As representações só podem ser inferidas a partir de índices, as imagens podem, em princípio, ser descritas com base nas configurações discursivas.”. Adam (2011) apresenta quatro razões principais para abordar a representação discursiva nos termos da noção de esquematização proposta por Grize. Primeiro, porque

659

qualquer ‘atividade discursiva’ origina uma esquematização que remete tanto a um processo

(enunciação) quanto a um resultado (enunciado). “Definir o objeto da análise de discurso

menos como um enunciado, um texto ou um discurso do que como um uma esquematização

discursiva é, deliberadamente, reunir, em um mesmo termo, a enunciação como processo e o

enunciado como resultado.”. (ADAM, 2011, p. 96). Assim, a atividade discursiva deve ser

considerada, antes, uma esquematização-processo que leva a muitas esquematizações

resultados. Isso porque, “[

fase em um movimento argumentativo dinâmico complexo que prepara e conduz ao

seguinte.”. (ADAM, 2011, p. 101).

Segundo, esquematizar significa construir uma representação discursiva parcial e

seletiva de uma realidade, de modo que qualquer discurso constrói uma espécie de

microuniverso semântico, que envolve sempre uma dimensão descritiva, conforme enfatiza

Grize (1996):

cada uma das proposições que constituem o texto é somente uma

]

Uma esquematização tem [

Mesmo arriscando-se a uma descrição cujos elementos são imaginários, o autor deve, em todos os casos, se dedicar à escolha dos aspectos que representará, ele deve selecionar os traços pertinentes de sua referência. (GRIZE 251 , 1996, apud ADAM, 2011c, p. 102).

sempre alguma dimensão descritiva.

]

Essas esquematizações, segundo Adam, passam por predicações que se apoiam não

sobre conceitos verdadeiros, mas sobre noções. Essa imprecisão faz com que cada sujeito em

situação de interação interprete o que lhe é proposto, de modo que de esquematização em

esquematização, as noções (imagens) se transformam e evoluam.

A terceira razão apresentada por Adam encontra-se associada à ideia de que a

coerência do microuniverso construído pela atividade de esquematização discursiva encontra-

se marcada por dois fatores: a) a finalidade do esquematizador e b) as expectativas que o

esquematizador prepara para seu auditório. Desse modo, “Uma esquematização tem por

função fazer alguém ver alguma coisa, mais precisamente, é uma representação discursiva

orientada para um destinatário sobre como seu autor concebe ou imagina uma determinada

realidade.”. (GRIZE 252 , 1996, apud ADAM, 2011, p. 105).

251 GRIZE, Jean-Blaise. Logique naturelle & communications. Paris: P.U.F., 1996.

252 Idem.

660

Dessa forma, conforme enfatiza Grize, a essência de uma esquematização deve ser reconstruída por seu destinatário, logo, deve ser interpretada, com vista à construção do sentido do texto. Esse autor ressalta, ainda, que uma representação discursiva é sempre situada, o que requer do analista conhecimento que a ultrapassem. Cita como exemplo que um discurso de geometria sobre os triângulos contém as informações necessárias para a sua interpretação. Já um artigo de jornal sobre o Triângulo das Bermudas exige o domínio de vários conhecimentos que não estão no artigo. Desse modo, o trabalho analítico de reconstrução deve pautar-se em três pontos, quais sejam: a situação sociodiscursiva da interação, as condições de produção e as condições de recepção. Finalmente, na quarta razão apresentada, “toda esquematização é uma proposição de imagens”, Adam (2011) afirma que é necessário distinguir o sujeito no mundo e a imagem esquematizada desse sujeito no discurso. Por “sujeito no mundo”, o autor entende a pessoa do orador com sua função (lugar) e o(s) papel(eis) que assume, com seus fins próprios, seus pré- construídos culturais e representações da situação de enunciação, do objeto do seu discurso, do auditório (B) e as representações psicossociais de si mesmo. Essas representações devem ser distinguidas das imagens dos diferentes componentes propostos pela esquematização e, ainda, reconstruídas pelo sujeito interpretante (ouvinte ou leitor). De fato, para interagir com o outro, o locutor constrói uma representação da situação da qual participa, ou seja, constrói uma imagem não apenas do seu interlocutor e do tema ou objeto de seu discurso, mas também uma imagem de si mesmo enquanto interveniente no processo comunicativo. É o que nos mostra o quadro 1, reproduzido de Adam, que sintetiza o sujeito no mundo e a imagem esquematizada desse sujeito no discurso:

Quadro 1: O sujeito no mundo e a imagem esquematizada desse sujeito no discurso

661

661 Fonte: Adam, 2011, p. 108 Conforme ilustrado no quadro 1, B é um sujeito no

Fonte: Adam, 2011, p. 108

Conforme ilustrado no quadro 1, B é um sujeito no mundo que tem uma representação de A anterior – presente (ou ausente) em sua memória discursiva – ao discurso. Adam (2011, p. 108) afirma que “É precisamente do confronto dessa representação psicossocial de A com o ethos esquematizado do orador que surge uma figura que é a do outro, um outro sempre imaginário (A)”. A esse respeito, Grize (1996, p. 69) postula: “Eu denomino representação aquilo que

é relativo a A e B e imagem aquilo que ‘é visível no texto’.”. Deste modo, esquematização é uma proposição de imagens – imagem do esquematizador em (A), imagens do coesquematizador em (B), imagens do tema do discurso em (T). Conforme se observa, Grize teoriza, portanto, três imagens de base; Adam, por sua vez, insiste sobre as imagens da

situação de interação sociodiscursiva em curso, as imagens da língua do outro ou daquela que

o outro espera que se produza e as imagens da materialidade do discurso. De acordo com essa perspectiva, Ana Caldes (2009), por sua vez, em concordância com os estudos de Grize, entende que enquanto representação discursiva uma esquematização assume um caráter tanto seletivo quanto funcional, por duas razões: Primeiro, porque quem esquematiza seleciona, de entre as imagens possíveis, a que melhor se adéqua à situação de interação em que está engajado. Segundo, uma esquematização se orienta em função de um

662

interlocutor e que objetiva, de alguma forma, intervir sobre ele, de modo a induzi-lo a participar do universo de sentido proposto pelo próprio discurso. A esse respeito, por seu turno, Ramos (2011), baseado nos pressupostos teóricos de Adam, elabora um esquema no qual a representação discursiva posiciona-se em uma situação de interação em que o sujeito A constrói uma imagem de si mesmo, do seu interlocutor B e do tema de seu discurso. Do mesmo modo, o interlocutor B (re)constrói uma imagem de si mesmo, do locutor A e do conteúdo temático. A figura a seguir sintetiza bem o que se acaba de dizer:

Figura 1: As Representações discursivas (Rd)

Representações Locutor A Locutor B Imagem ou Rd de A Imagem ou Rd de B
Representações
Locutor A
Locutor B
Imagem ou Rd
de A
Imagem ou Rd
de B
Imagem ou Rd
dos temas
Imagem ou
Rd de B
Imagem ou
Rd de A
Imagem ou
Rd dos temas

Fonte: Adaptado de Ramos, 2011, p. 43.

Essas imagens ou representações são construídas com base nos objetivos e intenções dos sujeitos em situações de interação, nas representações psicossociais e nos pré-construídos culturais. Logo, pode-se considerar que, do ponto de vista discursivo, uma representação discursiva sugere a construção de três imagens: a imagem do locutor (A) interveniente na situação de comunicação, do tema (T) do seu discurso e do interlocutor (B) (virtual ou não) ao qual aquele se dirige. Conforme observa Rute Amossy (2011, p. 9), “Todo ato de tomar a palavra implica a construção de uma imagem de si.”. No entanto, a autora acrescenta, logo em seguida, que o locutor não precisa, necessariamente, fazer seu autorretrato, tão pouco detalhar suas qualidades nem falar explicitamente de si. “Seu estilo, suas competências linguísticas e enciclopédicas, suas crenças implícitas são suficientes para construir uma representação de sua pessoa.”. Assim, o locutor efetua em seu discurso uma representação de si. Contudo, conforme ressalta a autora, essa representação de si não se limita a uma técnica apreendida ou a um artifício: ela se efetua, frequentemente, na interação com o outro, nas trocas verbais mais corriqueiras e mais pessoais.

663

3 As macrooperações descritivas de construção das Representações discursivas

Descrevemos, nesta seção, alguns procedimentos de construção semântica da proposição, com base nas operações que a ATD define para a sequência descritiva (ADAM, 2008, p. 215-224), a saber: tematização, aspectualização, relação e expansão por subtematização.

Operações de tematização A tematização é a macrooperação principal que garante unidade a um segmento, caracterizando-o como uma espécie de sequência. Adam (idem, p. 217-218) afirma que essa operação pode ser aplicada de três maneiras bastante distintas para a construção do sentido:

pré-tematização (ou ancoragem), pós-tematização (ou ancoragem diferida) e retematização (ou reformulação).

Na primeira aplicação, a denominação imediata do objeto encontra-se ancorada no

início do período descritivo. Já na segunda, ocorre uma denominação adiada do objeto, em que a descrição é nomeada no curso ou no final da sequência. Nesse caso, em que a descrição

é dada tardiamente, a descrição pode permanecer obscura, dificultando, assim, a construção do sentido. Finalmente, na terceira aplicação por retematização, ocorre uma nova denominação ou reformulação do referente (objeto do discurso). Operação de aspectualização

A macrooperação de aspectualização apoia-se na tematização. Agrupa duas

operações: fragmentação e qualificação. O primeiro caso consiste em selecionar partes do

objeto da descrição por meio da fragmentação ou partição desse objeto, tendo em vista a focalização pretendida, ou seja, o objetivo da ação verbal. No segundo caso, colocam-se em evidência as propriedades do todo e ou das partes selecionadas pela fragmentação para

atribuir-lhe uma qualidade. Essa operação “[

grupo nominal nome + adjetivo e pelo recurso predicativo ao verbo ser.”. (ADAM, 2008, p.

219).

Operação de relação A macrooperação de relação agrupa duas outras operações – contiguidade e analogia. A primeira envolve uma situação temporal que situa o objeto de discurso em um tempo histórico ou individual e, ainda, uma situação espacial que relaciona o objeto de discurso com outros objetos suscetíveis de tornar-se o tema de um procedimento descritivo. Na relação por

é realizada, geralmente, pela estrutura do

]

664

analogia a descrição do todo ou das partes são colocadas em relação com outros objetos por meio da assimilação comparativa ou metafórica. Operações de expansão por subtematização

A extensão por subtematização consiste na expansão descritiva de qualquer operação

a (ou combinada com) uma operação anterior. Essa extensão independe do objeto da descrição e do gênero de discurso. Adam (Idem, p. 223) explica que “Na medida em que um segmento descritivo não comporta nenhuma linearidade intrínseca, a passagem do repertório de operações à textualização implica a adoção de um plano.”. Desse modo, os planos de textos e suas marcas específicas são fatores decisivos para a legibilidade e a interpretação de qualquer descrição.

4 As categorias semânticas de construção das Representações discursivas

Referenciação

A categoria semântica de referenciação é um conceito bastante desenvolvido pela

Linguística de Texto (Koch e Marcuschi, 1998; Koch e Elias, 2006; Cavalcante, 2011, dentre outros). Neste trabalho – a exemplo de Rodrigues, Silva Neto e Passeggi (2010); Ramos (2011) –, reinterpretaremos a operação semântica tematização como um caso específico de referência / referenciação. Para abordarmos o conceito de referenciação, acreditamos ser necessário iniciarmos com a apresentação do que se entende por referente. Segundo Cavalcante (2011, p. 15), “[ ] referentes são entidades que construímos mentalmente quando enunciamos um texto. São realidades abstratas, portanto, imateriais.”. Contudo, a autora ressalta que os referentes não são significados, muito embora reconheça que não é possível falar de referência sem recorrer aos traços de significação. Observe-se o fragmento abaixo:

Fragmento retirado do BO 1253/12

A vítima compareceu a esta Unidade Policial para informar que manteve um relacionamento com o autor durante oito anos, não tendo filhos com o mesmo. Todavia, relatou que acerca de três meses rompeu sua relação, em virtude não ter sentimentos por este, alegando ainda não suportar mais o fato de ter que se relacionar com ele na prisão, onde cumpria pena por tráfico de drogas.

665

Podemos perceber nesse fragmento a presença de três referentes, isto é, três entidades, três objetos de discurso – o primeiro refere-se à denunciante, categorizada de A vítima; o segundo, diz respeito ao relacionamento mantido entre a vítima e o autor do fato; o terceiro, o autor do fato, nesse caso, o agressor. Dispensável dizer que representamos cognitivamente essas entidades porque sabemos o significado das expressões referenciais que se manifestam nesse fragmento. Apesar de os referentes, em geral, se realizam por meio de expressões referenciais, eles também não são formas. Isso significa que o modo como o enunciador e seus possíveis interlocutores constroem a representação dos referentes (objetos de discurso) em suas mentes nunca é o mesmo em qualquer situação efetiva de comunicação. Ainda, segundo a autora, o ato de referir é sempre uma ação conjunta. “É na interação, mediada pelo outro, e na integração de nossas práticas de linguagem com nossas vivências socioculturais que construímos uma representação – sempre instável – dessas entidades a que se denominam referentes.”. (CAVALCANTE, 2011, p. 15-16). Cavalcante (op cit.) divide, nos trabalhos sobre referenciação, duas maneiras de abordar os objetos de discurso dentro de um texto. A primeira prioriza a manifestação das expressões referenciais no cotexto para descrever diferentes processos de introdução, de anáfora e de dêixis. A segunda, por sua vez, prioriza a construção sociocognitivo-discursiva do objeto de discurso em detrimento do critério primário da explicitação das expressões referenciais. De acordo com a primeira perspectiva, existem duas possibilidades de introdução do referente. Na primeira possibilidade, os objetos de discurso são introduzidos no texto pela primeira vez por meio da ocorrência de introdução referencial. Na segunda, os referentes já mencionados no texto são evocados por pistas explícitas no cotexto. No primeiro caso, as expressões referenciais tem a função de introduzir, formalmente, um novo referente no universo discursivo. Já no segundo caso, tem a função de promover a continuidade de referentes já estabelecidos no universo discursivo. Observe-se o fragmento seguinte:

Fragmento retirado do Boletim de Ocorrência n° 1253/12

A vítima1 compareceu a esta Unidade Policial para informar que [1]manteve um relacionamento2 com o autor3 durante oito anos, não tendo filhos com o mesmo3. Todavia, [1]relatou que acerca de três meses [1]rompeu sua relação2, em virtude não ter sentimentos por este3, alegando ainda não suportar mais o fato de ter que se relacionar com ele3 na prisão, onde [3]cumpria pena por tráfico de drogas.

666

Nesse fragmento, composto por dois períodos, os referentes – A vítima, um relacionamento e o autor – são introduzidos formalmente no texto pela primeira vez. O referente A vítima é retomada pelo pronome elíptico ela (1). Por sua vez, o referente um relacionamento é evocado pela expressão anafórica sua relação (2). Do mesmo modo, o referente o autor é retomado pelas expressões anafóricas o mesmo, este, ele e pelo pronome elíptico ele (3). Predicação Essa categoria semântica não se encontra em Adam (2008), mas será utilizada neste trabalho como uma categoria de análise, tendo em vista que a predicação (verbal) é uma operação que remete, conforme observa Rodrigues, Silva Neto e Passeggi (2010, p. 175), “[ ] tanto à operação de seleção dos predicados, no sentido amplo (ações, estados, mudanças de estado etc.), como ao estabelecimento da relação predicativa no enunciado.”. Com relação ao papel que os verbos desempenham em um enunciado, Neves (2006) afirma que além de assumirem uma posição central numa estrutura predicativa, são responsáveis pelo acionamento de uma estrutura argumentativa, podendo indicar as seguintes funções: ação (função de sujeito agente); processo (sujeito afetado ou experimentador); ação- processo (sujeito agente/causativo e sujeito afetado/efetuado); e estado (sujeito neutro ou inativo).

A esse respeito, segundo Perini (2010, p. 135), “Quando conhecemos o verbo de uma oração – isto é, seu significado e os complementos com que ele co-ocorre – podemos determinar boa parte da estrutura das orações em que ele figura.”. Cita como exemplo o verbo confiar: a presença desse verbo em uma oração prever que haverá um sujeito com o papel temático 253 de Experienciador 254 ; que por sua vez, exige um complemento governado pela preposição em, com o papel de Causador de experiência, como em (1):

(1)

253 “Papel temático é a relação semântica que existe entre o verbo e os diversos sintagmas que co-ocorrem com

relação de

significado que liga uma palavra que exprime ação, estado ou evento (muitas vezes um verbo, mas nem sempre)

com as unidades que exprimem os participantes dessa ação, estado ou evento”. (PERINE, 2006, p. 121).

ele na oração.”. (PERINI, 2010, p. 147). Em outras palavras, o papel temático diz respeito à “[

]

254 Os papeis temáticos “[

]

experienciador / causador de experiência se vinculam a verbos de significado

667

] [

(fragmento retirado do termo de declaração do IP prestado pela vítima referente ao BO 446).

Paulo 255 a agredia fisicamente, alegando que não tinha confiança nela.

Importa ressaltar, ainda, que o sujeito pode ter várias funções semânticas. Observe-se que em 1, o sujeito Paulo assume dois papeis temático; no primeiro caso, Paulo assume o papel temático de agente da ação verbal (agredir). No segundo caso, Paulo é o experienciador, ou seja, é o ser que experimenta um fenômeno interno, nesse caso específico, o sentimento (emocional) de desconfiança. Aspectualização Essa categoria semântica refere-se às características ou propriedades atribuídas tanto aos referentes (objetos de discurso) como também aos verbos em enunciados ou estruturas de predicações.

Fragmento retirado do Boletim de Ocorrência n° 1253/12

A vítima compareceu a esta Unidade Policial para informar que manteve um relacionamento com o autor durante oito anos, não tendo filhos com o mesmo. Todavia, relatou que acerca de três meses rompeu sua relação, em virtude não ter sentimentos por este, alegando ainda não suportar mais o fato de ter que se relacionar com ele na prisão, onde cumpria pena por tráfico de drogas. Disse que em março registrou um BO nesta Especializada em desfavor do autor pelo crime de ameaça [

Segundo Ramos (2011, p. 51), “No texto empírico, a aspectualização pode ser evidenciada por meio de expressões qualificativas e atributivas (adjetivos, locuções adjetivas, predicativos) e expressões adverbiais (exceto espaçotemporais)”, que se relacionam aos referentes e aos processos verbais. Localização Essa categoria semântica é um desdobramento da operação de “relação por contiguidade” proposta por Adam (2008). Segundo Rodrigues, Silva Neto e Passeggi (2010),

255 Por questões éticas, os nomes mencionados aqui serão fictícios, a fim de preservarmos a identidade dos sujeitos envolvidos nas cenas descritas nos boletins de ocorrência.

668

“[

processos e os participantes.”: Vejam-se os fragmentos a seguir:

]

a localização indica as circunstâncias espaçotemporais nas quais se desenvolvem os

Fragmento retirado do Boletim de Ocorrência n° 851/12

HISTÓRICO DA OCORRÊNCIA Relata a vítima que o acusado chegou na data acima citada, em sua residência, chamando-a para ver uma TV em sua casa, na intenção de fazerem negócio. Que quando a vítima entrou na casa do acusado, o mesmo foi logo fechando a porta, tirou sua blusa e baixou sua roupa íntima. Que o acusado amarrou as mãos da vítima com uma camisa e tampou sua boca com uma camisa. Que o acusado tocou nos seios da vítima e fez sexo oral nela. Que em seguida a mesma conseguiu tirar o pano da boca e gritar; e conseguiu abrir a porta e sair correndo com as roupas arriadas.

Detalhes e precisões: fragmento retirado do BO 446/11

Natureza da ocorrência: Tentativa de homicídio Local do fato: Residência da vítima Data e hora do fato: 11 de fevereiro de 2011, por volta das 20 horas e 40 minutos. [ ]

HISTÓRICO DA OCORRÊNCIA A vítima compareceu a esta Unidade Policial e disse que viveu em união estável com o acusado por 06 meses, e que estão separados há 02 meses; que o acusado na última sexta feira (11/02/2011), invadiu a residência da sua ex-companheira e golpeou a mesma por várias vezes com uma faca do tipo peixeira [

Ainda com relação à localização, Perini (2006, p. 123-124) destaca o papel temático localizando / local em que o primeiro elemento expressa a posição, ou seja, indica a localização do evento descrito (a residência da sua ex-companheira). Já o segundo elemento, por sua vez, especifica o lugar em que se dar o evento ou estado expresso pelo verbo (golpeou a mesma por várias vezes). Por sua vez, Marcuschi (2012) não considera alguns aspectos da localização (local, data, assinatura), como pertencentes ao texto. Para ele, esses elementos, denominado por ele de contextualizadores, contribuem para situar o texto num universo contextual de interação. Ou seja, esses elementos não são necessários para a textualização, mas contribuem para a contextualização. No caso específico do boletim de ocorrência, esses elementos

669

contextualizadores (local, data, assinatura, timbre da instituição, dentre outros) são fatores fundamentais para que se possa determinar com maior precisão a origem do documento, onde, quando, quem e em que circunstâncias ocorreram os fatos registrados. Analogias Essa categoria semântica será abordada neste trabalho como um desdobramento das operações de “relação por assimilação” proposta por Adam (2008). A analogia é uma operação que estabelece relações semânticas de semelhanças entre termos distintos (cf. Ramos, 2011).

A analogia pode ser explícita, pelo emprego de termos de comparação ([

pela sua porta fazendo pouco dela, assoviando, como se nada tivesse acontecido) e implícita,

a agredia

fisicamente, alegando que não tinha confiança nela vítima, sendo doente de ciúme.).

] passa

pelo aspecto de transferência de sentido (metáforas, metonímias etc.) ([

]

5 Considerações finais

Conforme visto, a representação discursiva remete ao nível semântico do texto, por isso, sua descrição pode ser feita com base nas categorias de referenciação, predicação, aspectualização, localização e analogias. Assim, a entrada para a construção de uma representação discursiva pode ser assim resumida: oferece informações referenciais que responde às perguntas: quem?, o quê?, onde?, quando? por quê? e como?. Se a proposição tiver um verbo, deve-se, pois examinar sua valência. Acrescenta-se a isso o valor de estado, de ação mais ou menos intencional de agentes, ou de simples acontecimentos. Ao núcleo proposicional podem juntar-se constituintes periféricos mais ou menos autônomos:

circunstanciais ou construções deslocadas que têm um valor de tematização da parte predicativa de uma proposição cujo tema-sujeito está na frase núcleo. (ADAM, 2008, p. 114). Logo, a representação discursiva é construída pelos participantes da interação, a partir dos enunciados, em função de seus objetivos e intenções e dos conhecimentos de mundo partilhado, bem como de seus pressupostos culturais.

670

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672

672 BLOG JORNALÍSTICO: GÊNERO DISCURSIVO RESUMO Daglécia dos Santos Pinto 2 5 6 Universidade Federal da

BLOG JORNALÍSTICO: GÊNERO DISCURSIVO

RESUMO

Daglécia dos Santos Pinto 256

Universidade Federal da Bahia

Este trabalho busca analisar o gênero blog jornalístico a partir da noção de gênero do discurso, proposta por Bakhtin (2011). Tem como aporte teórico os pressupostos teóricos da perspectiva dialógica bakhtiniana, na qual os interlocutores estão situados em um ambiente histórico e social, e que, no momento da produção e/ou compreensão textual, interagem com outros discursos, outras vozes. Para tanto, será realizado um levantamento bibliográfico sobre a concepção de linguagem e gênero apoiado nas perspectivas teóricas de Bakhtin e, em seguida, serão analisados três blogs jornalísticos, com base nas três características do gênero discursivo. Este estudo se justifica porque o exercício com este gênero em sala de aula possibilita o trabalho com a linguagem em uso, contextualizada, bem como o desenvolvimento da leitura crítica, visto que o leitor, ao dialogar com todos os aspectos constituintes do texto, efetuará estratégias para a sua produção de sentido.

Palavras-chave: Gênero discursivo. Blog jornalístico. Dialogismo.

ABSTRACT

This paper aims analyze the journalist blog genre based on the proposals of Bakhtin (2011) on the speech genres. For this, will be focused the dialogical perspective, in which the interlocutors are situated in a historical and social environment, and that, at the moment of production and/or comprehension, interact with other discourses, other voices; and the

256 Mestranda em Língua e Cultura (UFBA), Especialista em Gramática e Texto (UNIFACS), Graduada em Letras com Inglês (UNIFACS). E-mail: daglecia.santos@gmail.com

673

concept of speech genres. Thus, will be made a literature review about the concept of language and gender supported by the theories perspectives of Bakhtin, and then, will be analyzed three journalism blog based on three characteristics of speech genre. This study is justified because the exercise with this genre, in the classroom, enables the work with the language in use, contextualized, and the development of critical reading, as the reader, to engage with all aspects of the text constituents, will effect strategies for producing the same effect.

Keywords: Speech genre. Journalist blog. Dialogism.

1 INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como objetivo aplicar a teoria do gênero discursivo proposto por

Bakhtin (2011) aos gêneros produzidos em ambientes digitais. Para isso, foram selecionados

três blogs, os quais foram analisados com base nas três características de gênero discursivo:

conteúdo temático, forma composicional e estilo.

Ao falar, produzimos enunciados de acordo com a situação comunicativa, por isso,

cada campo de realização da comunicação elabora, conforme Bakhtin (2011, p. 279), “[ ]

tipos relativamente estáveis de enunciados [

Estes enunciados, por sua vez, conforme aponta Marcuschi (2008), são realizações

o que denominamos de gêneros do discurso.

]”,

linguísticas com objetivos específicos e em determinadas situações sociais.

Portanto, ao considerar que a linguagem se realiza por meio de gêneros, é mister

afirmar que a escola não pode ficar afastada dos modos de produção social do gênero. Pois,

conforme os PCN (1998, p. 77), “[

ficcionais e os não-ficcionais, que circulam socialmente”. Vale lembrar que é necessário que

os modos de produção de um determinado gênero sejam trabalhados em sala, desta forma, o

aprendiz poderá dominar diversos gêneros, tornando-os produtores e leitores.

a escola deve incorporar em sua prática os gêneros, os

]

As crianças e adolescentes, em virtude do constante uso da Web, “estão se

autoletrando [

implica numa necessidade de mudança no ensino, em especial a prática de letramento, pois,

desta maneira, o indivíduo conseguirá estabelecer relações entre os elementos que constituem

(XAVIER, s.d., p. 3), o que caracteriza uma nova forma de aprender e

]”

o texto e os vincula a realidade social, política e histórica de forma crítica, possibilitando sua

inserção às práticas sociais com participação ativa e consciente.

674

A escolha dos blogs, neste trabalho, foi motivada pelo fato de que estes caíram no

gosto dos jovens e possibilitaram a emergência de uma nova profissão: os blogueiros. Além de ser utilizado por alguns professores como material de apoio didático.

2 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS BAKHTINIANOS

A língua é um fenômeno social que se concretiza no momento da comunicação, na

interação entre interlocutores, na qual participam sujeitos históricos e concretos e conforme

Brait (2005, p.93), “[

social concreta no momento e no lugar da atualização do enunciado”.

a linguagem não é falada no vazio, mas numa situação histórica e

]

Para o filósofo Bakhtin (apud FIORIN, 2008), a linguagem constitui-se dialógica. Brait (2005) destaca duas dimensões que podem ancorar a questão do dialogismo:

“[

existente entre os diferentes discursos que configuram uma comunidade, uma cultura, uma sociedade.” (BRAIT, 2005, p. 94). Pode-se observar que esta primeira dimensão corresponde ao diálogo com outros discursos.

o dialogismo diz respeito ao permanente diálogo, nem sempre simétrico e harmonioso,

]

“Por outro lado, o dialogismo diz respeito às relações que se estabelecem entre o eu e

o outro nos processos discursivos instaurados historicamente pelos sujeitos, que, por sua vez,

(BRAIT, 2005, p. 95). Em relação à

segunda dimensão, pode-se perceber que o discurso ocorre na relação entre sujeitos, entre o

eu e o outro.

se instauram e são instaurados por esses discursos. [

]”

O sujeito, conforme Fiorin (2008, p. 55), “[

]

age em relação aos outros; o indivíduo

não implica a perda da

constitui-se em relação ao outro”, contudo, vale ressaltar que isso “[ individualidade, mas seu enriquecimento” (SOBRAL, 2012, p. 180).

]

O sujeito bakhtiniano, sobremodo, é um sujeito híbrido, pois ao mesmo tempo em que

é social, é individual. É um sujeito social na medida em que se posiciona ideologicamente,

conforme as crenças e/ou posições de um determinado grupo social. Por isso, sua fala é iminentemente construída pela dos outros, visto que, de acordo com Bakhtin (2011, p. 300),

“[

o falante não é um Adão bíblico, só relacionado com objetos virgens ainda não

]

675

(2011, p. 300), “[

sempre têm uma expressão verbalizada. Tudo isso é discurso do outro (em forma pessoal ou impessoal), e este não pode deixar de refletir-se no enunciado. [

Uma visão de mundo, uma corrente, um ponto de vista, uma opinião

]

Os enunciados, então, podem ser vistos como uma resposta ativa às vozes

interiorizadas, vozes sociais que estão em circulação na sociedade. O texto, portanto, é o “[ ]

não existe fora da sociedade, só existe nela e para com ela

]” [

comunicativa, em que o sujeito tem uma atitude responsiva ativa diante do que lhe foi exposto no momento da interação. Essa atitude responsiva do sujeito não está livre de conflitos, pois o

produto da criação ideológica [

(BARROS, 2005, p. 27). Seu sentido é construído de forma dialógica em uma situação

]

sujeito pode não concordar, fazer adaptações, acrescentar ou retirar informações etc.

Para entendermos a concepção de gêneros discursivos, antes, faz-se necessário entender o que são enunciados. Os sons, as palavras e as orações são as unidades da língua,

sozinhas/isoladas, fora de contexto, não possuem sentido, não se tornam um ato comunicativo, visto que se encontram fora de uma situação comunicativa. Mas, as palavras ou orações, ao carregarem sentido, quando representam a intenção do locutor e provocam no interlocutor uma atitude responsiva, pautadas em uma situação comunicativa e imbricados de elos histórico-ideológicos, se tornam enunciados.

cada enunciado particular é individual, mas cada

campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso.” Portanto, os gêneros do discurso consistem em formas mais ou menos estáveis de enunciados produzidos conforme a situação de interação, já

que sempre falamos por meio de gêneros.

Para Bakhtin (2011, p. 262), “[

]

3 BLOGS E JORNALISMO

De acordo com Komesu (2004), o surgimento do blog ocorreu em agosto de 1979 com a utilização do Blogger, software lançado pela empresa do norte-americano Evan Williams, inicialmente tratado como um diário online, em uma perspectiva pessoal, no qual se escrevia sobre as diversas experiências do escritor.

676

Nota-se que o gênero diário é um dos principais ancestrais do blog. Miller (2012)

afirma que o gênero diário é elástico e cita a pesquisa sobre este gênero realizada por Thomas

Mallon (1984), na qual “[

faz a distinção entre vários tipos principais, segundo conteúdo e

estilo, entre os quais estão as crônicas 257 , os registros de viagem, os diários de peregrinações

religiosas (ou diários espirituais/emocionais), as confissões, os diários de presos.” (MILLER,

2012, p. 82).

]

O blog também herdou do diário a organização cronológica e cumulativa, suas

publicações são organizadas a partir da mais atual e, à medida que a página for rolando para

baixo, pode-se chegar às publicações anteriores. E, assim como os diários, os blogs versam

sobre diferentes temas, podendo abarcar desde a vida pessoal, como comentários sobre

acontecimentos íntimos – correspondência com os diários pessoais –, a questões sociais e

políticas, por exemplo. Miller (2012, p. 87) aponta que

“[

começaram a mudar e a se adaptar, a passar por uma especiação, por assim dizer. Logo depois que todo mundo pensou que sabia que um blog era um diário online, começamos a ouvir falar de j(ornalismo)- blogs, blogs esportivos, fotoblogs, blogs educativos, blogs de viagem

[

o crescimento do blog não foi simples ou linear: os blogs

]

Os blogs jornalísticos visam divulgar informações de cunho noticioso e opinativo,

podendo-se afirmar que são novos modos de produzir e divulgar notícias em tempo atual, ou

seja, novos veículos de informação. Sua atualização periódica lhe confere o caráter de

imediatidade, garantindo-lhe o valor de verdadeiro e real.

Segundo Komesu (2004), a estrutura dos blogs é leve, geralmente apresenta textos

breves, descritivos e opinativos; além de permitir que o seu leitor teça comentários sobre as

publicações (posts), o que o torna interativo e participativo. No caso dos blogs jornalísticos,

observa-se que muitos estão dedicados a um tema específico – economia, política, esporte etc.

257 As crônicas neste caso podem estar se referindo a escrita de narrativas de eventos que seguem uma ordem cronológica.

677

3.1 BLOG JORNALÍSTICO COMO GÊNERO DO DISCURSO

Os avanços na área da tecnologia digital possibilitam o surgimento de novos gêneros em ambientes virtuais, o que caracteriza as novas formas de comportamento comunicativo de uma sociedade pós-moderna. Diante deste contexto de práticas comunicativas na mídia

podem ser considerados como um sistema

virtual, temos os blogs, que atualmente “[

padronizado de publicação na internet.” (ORMUNDO, 2004, p. 68).

]

O software para criação de um blog permite que o criador/administrador produza

textos tanto no Word quanto em HTML, os textos produzidos em HTML permitem a inserção não apenas de textos escritos, como também a inserção de imagens, vídeos, links etc., o que o

caracteriza como multimodal.

Os posts são marcados temporalmente conforme a data de sua postagem que podem

aparecer antes do texto ou ao final, ou após o título do post, a escolha dependerá do designer adotado. Nota-se que em blogs jornalísticos, a atualização é constante, o que o caracteriza como uma ferramenta para atualização ou publicação de novas informações em tempo atual, sem a necessidade de aguardar a impressão da próxima edição do jornal.

Outro ponto importante em relação aos blogs é a constante interação com os seus leitores – percebe-se que em alguns há seguidores assíduos. Esta interação pode ocorrer através de links, curtidas (ferramenta do Facebook), twitadas (ferramenta do Twiter). O post também pode ser compartilhado por e-mail para outros leitores. A ferramenta comentários dos blogs, além de permitir que o leitor teça comentário sobre o post, é um grande indicativo da popularização do blog.

Dentre as possibilidades de interação, destacam-se os comentários, visto que se pode notar o quanto a compreensão é uma atividade responsiva, pois com esta ferramenta o leitor pode acrescentar informações, refutá-las, concordar etc. e, a depender da polêmica do texto publicado, é possível perceber um verdadeiro debate sobre seu tema. Outro aspecto que é válido observar é a intertextualidade, a retomada de outros textos, algumas vezes explícitos no próprio texto ou por meio de links, e outras implícitas.

os blogs têm uma história própria, uma função

específica e uma estrutura que os caracteriza como um gênero, embora extremamente variados nas peças textuais que albergam.”, já que esta ferramenta permite a inserção de variados recursos semióticos. Podem assumir várias formas, a depender das escolhas feitas no

Para Marcuschi (2004, p. 60), “[

]

678

momento em que é construído, mas as atividades envolvidas na prática de blogar, segundo

Miller (2012), são as mesmas, independente do tipo de blog.

Considerando que os blogs jornalísticos exercem uma função específica e social e,

objetivo retórico influenciar a opinião ou

a ação [

caracterizado pelas múltiplas semioses e por carregar uma série de gêneros. Todo o conjunto

assim como os gêneros jornalísticos, têm como “[

(MILLER, 2012, p. 81), podemos afirmar que se trata de um gênero discursivo

]

]”

de elementos que compõe o blog como as publicações, os links, os hiperlinks, as curtidas etc.

não podem ser considerados isoladamente.

um

locus físico ou virtual com formato específico que serve de base ou ambiente de fixação do

gênero materializado como texto.”. Pode-se considerar que a ferramenta de criação do blog e

o local virtual em que é disponibilizado são o suporte do gênero blog.

Sobre a noção de suporte, Marcuschi (2008, p. 174) afirma que se trata de “[

]

4 OS BLOGS E AS CARACTERÍSTICAS DO GÊNERO DISCURSIVO: BREVE

ANÁLISE

De acordo com Bakhtin (2011, p. 261),

O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana. Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, ou seja, pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua mas, acima de tudo, por sua construção composicional.

Os gêneros, então, podem ser caracterizados de acordo com seus elementos: o

conteúdo temático, estrutura composicional e estilo (BAKHTIN, 2011). Vejamos os

exemplos:

679

(1) Maria Inês Dolci

679 (1) Maria Inês Dolci Disponível em <http://mariainesdolci.folha.blog.uol.com.br/>. Acesso em: 14 jun. 2013.
679 (1) Maria Inês Dolci Disponível em <http://mariainesdolci.folha.blog.uol.com.br/>. Acesso em: 14 jun. 2013.

Disponível em <http://mariainesdolci.folha.blog.uol.com.br/>. Acesso em: 14 jun. 2013.

680

(2) Blog de trânsito

680 (2) Blog de trânsito Disponível em < http://www.ibahia.com/a/blogs/transito/2012/08/07/sem-transito-para-

Disponível em < http://www.ibahia.com/a/blogs/transito/2012/08/07/sem-transito-para- chegar-ao-aeroporto/>. Acesso em: 20 dez. 2012.

681

(3) STF absolve Duda Mendonça por evasão de divisas e lavagem de dinheiro

Duda Mendonça por evasão de divisas e lavagem de dinheiro Disponível em

Disponível em <http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2012/10/15/stf-absolve-duda- mendonca-por-evasao-de-divisas-lavagem-de-dinheiro-470297.asp>. Acesso em: 20 dez.

2012.

O conteúdo temático não corresponde ao assunto específico do texto, mas ao domínio

de sentido de que se ocupa o gênero.

No exemplo (1), observa-se que o conteúdo temático está relacionado à defesa do

consumidor e, dentro do tema, nota-se a abordagem de vários assuntos relacionados. O

exemplo (2) está relacionado à questão do trânsito, cujo assunto do post está ligado a crítica

sobre a construção do Metrô de Salvador e os engarrafamentos que assolam a cidade. O

exemplo (3), cujo conteúdo temático é a política, apresenta como assunto a absolvição de dois

acusados no que diz respeito a um dos itens do processo do mensalão pelos ministros do

Supremo Tribunal Federal (STF). Nota-se que cada blog jornalístico tende a abordar temas

682

específicos, no caso do terceiro exemplo, é válido ressaltar que por haver outros colaboradores, antes dos títulos das publicações consta a informação do tema a ser abordado.

A estrutura composicional diz respeito ao modo como o texto é organizado,

estruturado. Nos exemplos (1), (2) e (3), sobressaem em sua composição os seguintes elementos: a assinatura (quem fez a publicação); marcação temporal (quando a publicação foi feita); os links interativos (curtir, tweetar, comente, E-mail, compartilhe) – ferramenta que possibilita a interação entre leitor-leitor e leitores-autor do post.

A possibilidade do leitor do blog deixar comentários sobre o post lido nos faz retomar

a concepção de compreensão como atividade responsiva, pois este leitor, através dessa

ferramenta, pode fornecer respostas, construindo ou acrescentando informações ao post. Como também, pode ter acesso aos demais comentários feitos por outros interlocutores, os quais pode não concordar, entrando em conflito. Observa-se que alguns posts, de tão

polêmicos que são, apresentam grande índice de participação dos internautas a partir da ferramenta “comentários”, e muitas dessas participações originam um verdadeiro debate (ver

a quantidade de comentários feitos no post do terceiro exemplo: 25).

seleção de meios linguísticos (lexicais, fraseológicos e

gramaticais) em função da imagem do interlocutor e de como se presume sua compreensão responsiva ativa de enunciado” (FIORIN, 2008, p. 62). Pode-se observar nos exemplos (1), (2) e (3) que a linguagem empregada é formal, as publicações são apresentadas de forma sucinta e objetiva.

O estilo consiste na “[

]

O exemplo (2), apresenta uma mescla entre o gênero notícia e o artigo de opinião. No

início percebe-se a inserção de outro discurso, que se encontra entre aspas, e ao final a fonte de onde foi retirado. O trecho citado serve como base a crítica feita em relação à situação das obras do Metrô de Salvador e os engarrafamentos cotidianos por toda a cidade, nota-se então

a posição da autora, Cristina Aragón, perante a situação.

Os elementos constituintes do gênero discursivo: conteúdo temático, estilo, estrutura

estão indissoluvelmente ligados no

todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação”.

composicional, conforme Bakhtin (2011, p. 262), “[

]

Comunicamo-nos por meio de gêneros, portanto, o não domínio do gênero significa a falta de vivência com as diferentes esferas comunicativas da língua. A escola deve estar atenta

a este fato e possibilitar ao aluno a convivência com os diferentes campos da atividade

683

humana, visto que essa vivência o orientará quanto à construção e compreensão de textos produzidos em diferentes situações.

o advento da Internet vem contribuir para o

surgimento de práticas sociais e eventos de letramento inéditos, bem como deixa vir à tona gêneros textuais, até então, nunca vistos nem estudados.” Isto proporciona a procura por novas estratégias de ensino que cumpram a tarefa de alfabetizar e letrar, inclusive letrar digitalmente, haja vista que o século em que vivemos demanda novas formas de produção social, completamente diferentes das formas tradicionais, e que se encontram em constante evolução. Para que o sujeito tenha um bom desempenho no campo cultural, econômico ou político, este precisa saber utilizar de forma adequada os gêneros orais, escritos e digitais.

De acordo com Xavier (s.d., p. 6), “[

]

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Bakhtin (2003, p. 261) aponta que “todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem”. E que a linguagem se realiza por meio de gêneros. Portanto, para interagir com o outro, é necessário que o indivíduo saiba se expressar, dominar diversos gêneros, em diferentes entornos sociodiscursivo.

Com o advento da Internet e o surgimento de novos gêneros, ressalta-se a importância

de se trabalhar com eles, pois, conforme aponta Marcuschi (2004, p. 62), “[

pode passar à margem dessas inovações sob pena de não estar situada na nova realidade dos usos linguísticos”.

a escola não

]

O exercício com o gênero blog jornalístico, por exemplo, em sala de aula, possibilita o trabalho com a linguagem em uso, contextualizada, bem como o desenvolvimento da leitura crítica, visto que o leitor, ao dialogar com todos os aspectos constituintes do texto, efetuará estratégias para a produção de sentido do mesmo. Contribuindo, também, para o trabalho com gêneros que circulam socialmente e favorecendo a prática de letramento.

REFERÊNCIAS

684

BARROS, Diana Luz Pessoa de. Contribuições de Bakhtin às Teorias do Discurso. In:

BRAIT, Beth. Bakhtin, dialogismo e a construção do sentido. 2. ed. São Paulo: Editora da Unicamp, 2005. p. 25-36. BAKHTIN, Mikhail M. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 261-306. BRAIT, Beth. Bakhtin e a natureza constitutivamente dialógica da linguagem. In: BRAIT,

Beth. Bakhtin, dialogismo e a construção do sentido. 2. ed. São Paulo: Editora da Unicamp, 2005. p. 87-98. BRASIL. MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais – Ensino Médio: Linguagens, códigos e suas tecnologias. Brasília: MEC/SEF, 1998. CAMPOS, Maria Inês Batista. Questões de literatura e de estética: rotas bakhtiniana. In:

BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin, dialogismo e polifonia. São Paulo: Contexto, 2012. p. 113-

149.

FIORIN, José Luiz. Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo: Àtica, 2008. KOMESU, Fabiana. Blogs e as práticas de escrita sobre si na internet. In: MARCUSCHI, Luiz Antônio; XAVIER, Antônio Carlos (Org.). Hipertexto e Gêneros digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. p. 110-119. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. In: MARCUSCHI, Luiz Antônio; XAVIER, Antônio Carlos (Org.). Hipertexto e Gêneros digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. p. 13-67. MILLER, Carolyn R. Gênero textual, agência e tecnologia: estudos. DIONÍSIO, Angela Paiva; HOFFNAGEL, Judith Chambliss (Orgs.). São Paulo: Parábola Editorial, 2012. ORMUNDO, Joana. Comunicação mediada pelo computador: blog – gênero discursivo emergente. Cadernos de Linguagem e Sociedade, 7, 2004/05. p. 67-82. SOBRAL, Adail. Estética da criação verbal. In: BRAIT, Beth. Bakhtin, dialogismo e a construção do sentido. 2. ed. São Paulo: Editora da Unicamp, 2005. p. 167-187. XAVIER, Antonio C. S. Letramento digital e ensino. Disponível em <http://www.ufpe.br/nehte/artigos/Letramento%20digital%20e%20ensino.pdf>. Acesso em:

19 jan. 2013.

685

685 ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS DE ENVOLVIMENTO ENUNCIATIVO NA ESCRITA ACADÊMICA: ANÁLISE DE TRABALHOS DA PRÁTICA COMO

ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS DE ENVOLVIMENTO ENUNCIATIVO NA ESCRITA ACADÊMICA: ANÁLISE DE TRABALHOS DA PRÁTICA COMO COMPONENTE CURRICULAR Vanessa Fabíola Silva de Faria Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Introdução Este trabalho é parte da pesquisa empreendida no curso de doutorado do Programa de Pós Graduação em Estudos da Linguagem, da UFRN, sob a orientação da professora doutora Maria das Graças Rodrigues. Nosso objetivo geral é identificar como se dá o gerenciamento de vozes no interior de textos produzidos por alunos de graduação, delineando os aspectos do mediativo na escrita acadêmica, mais especificamente nos trabalhos da Prática como Componente Curricular de diversas disciplinas do curso de Licenciatura em Letras. Neste trabalho, em específico, procuro rastrear nos textos selecionados, apenas uma amostra do corpus, quais marcas linguísticas apontam para a assunção da responsabilidade enunciativa (RE) na escrita acadêmica, concluindo que algumas categorias de análise podem ser propostas como estratégias discursivas para o engajamento enunciativo, dentre elas a o julgamento (ou apreciação), o uso do imperativo (bem como outras formas deônticas), o uso do futuro do presente e locuções verbais com valor de futuro, o uso de dêiticos (como os pronomes de 1ª pessoa), e, por fim, a adjetivação, considerada neste trabalho como o recurso mais produtivo para a análise, sendo o mais representativo dentre as estratégias de engajamento. A pesquisa se situa no campo da Linguística onde se imbricam pressupostos da Linguística Textual (LT), da Análise Textual dos Discursos (ATD) e dos estudos sobre a enunciação e sobre os gêneros. Na análise dos textos, o fio condutor a guiar as reflexões propostas são os conceitos e categorias formuladas no quadro teórico da ATD, especialmente os conceitos relativos à responsabilidade enunciativa (RE), dentre os quais se destacam as noções de mediativo, enunciação mediatizada, e PdV. Iniciamos este trabalho, então, tratando

686

de discutir tais conceitos para no tópico seguinte apresentar as escolhas metodológicas e a análise de uma pequena amostra dos dados coletados, apresentando também as categorias de análise da RE.

1. A Análise Textual dos Discursos (ATD)

Este tópico se ocupa da apresentação da Análise Textual dos Discursos (ATD), proposta por Adam (2011) e situada num campo mais amplo da Linguística Textual. A abordagem teórico-metodológica, proposta na ATD, se configura como uma resposta às demandas impostas na análise de textos, alicerçada num conjunto de reflexões teóricas e epistemológicas que permitem estabelecê-la no campo da Linguística de Texto, por sua vez, inscrita, nas reflexões deste autor, no campo mais vasto das análises das práticas discursivas (Adam, 2011, p.24). Feitas essas poucas considerações iniciais, apresentaremos, na sequência, algumas das principais noções da ATD, primeiramente seu modelo textual-discursivo, compreendido em níveis, depois uma breve descrição dos níveis que compõem a dimensão textual neste modelo, e por fim, uma descrição um pouco mais detalhada do nível específico que nos importa neste trabalho: a Responsabilidade Enunciativa.

1.1 O modelo textual da ATD (os níveis dos discursos) Uma das principais contribuições de Adam (2011) é, sem sombra de dúvida, a proposta de articulação entre texto, discurso e gênero, base para a redefinição dos campos de domínio da Linguistica Textual e da Análise do Discurso. O autor concebe as três dimensões, a saber, texto, discurso e gênero, interrelacionados em imbricados em níveis, como se pode visualizar no esquema 1 (Adam, 2011, p.61) transcrito abaixo:

687

687 Nesta representação, o discurso é compreendido como uma instância mais ampla onde se encerram gêneros

Nesta representação, o discurso é compreendido como uma instância mais ampla onde se encerram gêneros e textos. Tal representação se configura, evidentemente, como uma abstração, que deveria ser compreendida não num plano bidimensional, mas num plano tridimensional; do modo possível de se representar, parece que se trata de encaixamentos, quando, na verdade, não é desta maneira que o autor concebe. Adam concebe essas dimensões numa relação dinâmica e articulada. No nível do discurso compreendem-se a intencionalidade, objetivos de comunicação linguisticamente expressos pelos atos ilocucionários, realiza-se numa determinada formação sociodiscursiva, cujo socioleto é partilhado pelos membros da mesma comunidade discursiva 258 , e mediada pelos gêneros, ou como sintetizado pelo autor: “Toda a ação de linguagem inscreve-se, como se vê, em um dado setor social, que deve ser pensado como uma formação sociodiscursiva, ou seja, como um lugar social associado a uma língua (socioleto) e aos gêneros de discurso.” (Adam, 2011,

p.63).

258 Considero bastante conveniente, aqui, o conceito de comunidade discursiva postulado por Swales (1990, p.9) para quem a noção de comunidade discursiva diz respeito aos usos da língua e dos gêneros em contexto profissional, de modo que os membros de uma dada comunidade compartilham um maior conhecimento de suas convenções : [comunidades discursivas são]redes sócio-retóricas que se formam de modo a trabalhar por um conjunto de objetivos comuns. Uma das características que os membros estabelecidos dessas comunidades discursivas possuem é a familiaridade com os gêneros específicos que são usados na busca comunicativa destes conjuntos de objetivos (Swales, 1990, p.9).

688

Nesta perspectiva o texto se constrói a partir de um conjunto de unidades típicas básicas heterogeneamente agrupadas de modo a formar os gêneros, elemento articulador das dimensões textuais e discursivas. A proposta da ATD concebe o texto formado por proposições (unidade mínima de análise, produto de um ato de enunciação, cf. Adam, 2011, p.108), que, no conjunto, se organizam a partir de um processo sócio-histórico de fixação, e formadas por duas dimensões: i) uma dimensão diz respeito à configuração, e ii) a outra dimensão se relaciona à noção de sequência. O aspecto configuracional implica em alguns pressupostos semântico-pragmáticos que funcionam no espaço de uma dada sequência textual, forçosamente configurando-a. Por outro lado, a dimensão sequencial diz respeito ao modo pelo qual o texto se organiza em sequências de proposições típicas, cf. Adam (1987). Lembro, por fim, de que se trata de um modelo de análise ascendente, ou seja, se postula que a partir da análise dos elementos mínimos, num percurso ascendente, chegar-se-á às questões do discurso.

Idealmente um texto deveria ser analisado em todas as suas dimensões, no entanto, não há impedimentos para que se eleja uma das dimensões para a análise. Neste trabalho analisamos a Responsabilidade Enunciativa (N7) selecionando algumas das categorias apresentadas por Adam (2011).

1.2 A Responsabilidade Enunciativa

Uma das principais categorias de análise da ATD, a Responsabilidade Enunciativa (RE) se apresenta como uma das dimensões da proposição-enunciado (junto com a representação discursiva e valor ilocucionário) que consiste em assumir e/ou atribuir uma porção de um texto a um ponto de vista (PdV) 259 . Podemos resumidamente considerar a RE como uma dimensão constitutiva do texto que permite dar conta do desdobramento polifônico, como um posicionamento do locutor-narrador diante de uma proposição enunciada, e mecanismo que permite a atribuição de uma porção de um texto a um ponto de vista.

259 PdV é a sigla utilizada por Adam (2011), no entanto o conceito também é discutido por outros autores, que a grafam PDV (Rabatel), pdv (Nolke, Flottum e Norén).

689

Desta forma, um enunciado pode ser assumido (ou não) pelo locutor-narrador. O esquema

2, abaixo ilustra a relação entre as dimensões constituintes da proposição-enunciado:

entre as dimensões constituintes da proposição-enunciado: Adam (2011) considera os termos RE e PdV como equivalentes

Adam (2011) considera os termos RE e PdV como equivalentes e reconhece-os como

mecanismos de gerenciamento das vozes que circulam nos textos, situando, assim, tais

mecanismos, no âmbito da polifonia: “A responsabilidade enunciativa ou ponto de vista

(PdV) permite dar conta do desdobramento polifônico(

)”

(Adam, 2011, p.110).

1.2.1 Marcadores do escopo da RE

Segundo Adam (2011) a RE de uma proposição pode ser marcada por um grande

número de recursos linguísticos. No quadro abaixo, transcrito de Passeggi et al (2010),

encontram-se elencadas a maioria desses recursos, destes escolhemos alguns para este

trabalho.

Ordem

Categorias

Marcas Linguísticas

1

Índices de pessoas

 

Meu, teu/ vosso, seu

2

Dêiticos

Espaciais

e

Advérbios (ontem, amanhã, aqui, hoje) Grupos nominais (esta manhã, esta porta) Grupos preposicionais (em dez minutos) Alguns determinantes (minha chegada

Temporais

3

Tempos verbais

 

Oposição presente x futuro do pretérito Oposição presente x pretérito imperfeito e perfeito

4

Modalidades

 

Modalidades sintático-semânticas maiores:

 

Téticas (asserção e negação) Hipotéticas (real) Ficcional e Hipertéticas (exclamação) Modalidades objetivas (dever, ser preciso)

690

   

Modalidades Subjetivas (querer, pensar, esperar) Modalidades Intersubjetivas (imperativo, pergunta, dever, [tu/vós] poder) Verbos e Adverbios de opinião (crer, saber, duvidar, ignorar, convir, declarar que, talvez, sem dúvida,

certamente, provavelmente,

)

Lexemas afetivos, avaliativos e axiológicos

5

Diferentes tipos de representação da fala

Discurso direto Discurso direto livre Discurso indireto Discurso narrativizado Discurso indireto livre

6

Indicações

de

Marcadores como segundo, de acordo com, para Modalização por um tempo verbal como o futuro do pretérito Escolha de um verbo de atribuição de fala como afirmam, parece Reformulações do tipo é, de fato, na verdade, e mesmo em todo caso Oposição de tipo alguns pensam (ou dizem) X, nós pensamos (ou dizemos) que Y, etc.

quadros mediadores

7

Fenômenos

de

Não coincidência do discurso consigo mesmo (como se diz, para empregar um termo filosófico) Não coincidência entre as palavras e as coisas (por assim dizer, melhor dizendo, não encontro a palavra) Não coincidência das palavras com elas mesmas (no sentido etimológico, nos dois sentidos do termo) Não coincidência interlocutiva (como é a expressão? Como você costuma dizer)

modalização

autonímica

8

Indicações de um suporte de percepções e de pensamentos relatados

Focalização perceptiva (ver, ouvir, sentir, tocar, experimentar) Focalização cognitiva (saber ou pensamento representado).

As categorias acima elencadas permitem-nos o estudo da RE (ou PdV)

materializados de formas diversas. Dentre essas possibilidades Adam (2011) considera dois

tipos de PdVs associados: o PdV anônimo da opinião comum (introduzido por verbos dicendi

na terceira pessoa do singular ou plural) e o quadro mediador (mediação epistêmica e

mediação perceptiva).

O PdV anônimo da opinião comum associado ao distanciamento ao distanciamento

do locutor narrador, se materializa com as operações descritas nos itens 5e 6 quadro acima.

Ainda tratando da RE, exploramos, neste trabalho, o conceito de mediativo, outro

conceito igualmente importante já que Adam (2011) concebe as marcas de RE como formas

do mediativo, termo que o autor traz dos trabalhos de Guentcheva (1994 e 1996) como

691

categoria marcadora de uma zona textual sob dependência de mediação epistêmica ou

perceptiva, assim, prosseguimos discutindo o conceito do mediativo no tópico seguinte.

1.2.2 Mediativo (Mediatif/ Mediativité)

Recusando o termo evidentialité, Guentcheva (1996) retoma o termo mediatif, já

introduzido nos estudos linguísticos franceses desde 1956, e explica sua preferência:

Le terme “evidentiel”, um faux ami de l’anglais eviential, evoque l’evidence, c’est-à-dire la constatation directe. or ni l’oui-dire, ni le non-vu, ni l’inferentiel ne peuvent être consideres comme dês evidences. Il est d’ailleurs significant que le terme russe neocevidnost adopté dans la description dês langues samoyedes, par exemple, designe la non-evidence. D’autres termes tel data-source, adopté par M.J. Hardman (1986) pour lês langues jaqi, revêtent uns sens plus étendu et englobent la connaissance aussi bien personelle que médiate dês faits de lapart de l’enonciateur. (GUENTCHEVA, 1996, p.13)

Também compreendemos que o termo mediatif responde melhor à questão do

envolvimento/distanciamento do enunciador com seu enunciado, em vez de evidentialité, que

seria um falso cognato, porque o termo mediativo, conforme adotado por Guentcheva (1996),

designa uma categoria gramatical que permite ao enunciador referir-se a uma determinada

situação enunciativa pela qual ele não assume a responsabilidade, por não ter testemunhado o

fato enunciado e dele ter tomado conhecimento por vias indiretas, seja por ouvir dizer , seja

por indícios que o levem a deduzir ou inferir. Tais estratégias discursivas permitiriam ainda

vislumbrar graus de distanciamento em relação ao que é relatado:

Par médiatif (ou ce que l'on appelle le plus souvent non-testimonial

em français ou evidential en anglais), je désigne la catégorie

grammaticale qui permet à ľénonciateur de marquer formellement

divers degrés de distanciation à l'égard des faits qu'il énonce lui-même

et de signifier par là que la connaissance de ces faits lui est parvenue à

travers une perception en quelque sorte médiate. (GUENTCHÉVA,

1993, p.57)

Para melhor compreendermos a noção de mediativo, faz-se necessário retomar

alguns conceitos, dos quais a autora parte. A noção de enunciador, no quadro do mediativo é

de fundamental importância, uma vez que é a instância que pode se responsabilizar pelo fato

enunciado. Partindo de Bally, Desclès e Guentcheva (1997, p.1) admitem que qualquer

enunciado pode ser analisado em um “modus”, subjacente a um “dictum”. A distinção,

692

embora antiga (remonta aos estoicos, com a noçao de lexis) é retomada em Linguistica, a partir de Bally. Em sua Teoria geral da Enunciação, este autor estabelece que todo enunciado combina a representação de um processo ou um estado, que é o dictum, mas este dictum é afetado por uma modalidade, correspondente à intervenção do sujeito falante, tal dimensão é o modus. A modalidade, se define, sob esta perspectiva, como uma atitude responsiva do sujeito falante frente a um conteúdo qualquer, é um posicionamento do locutor, assim, entendemos o que Bally declara: “toda enunciação do pensamento pela língua é condicionada lógica, psicológica e linguisticamente. Esses três aspectos somente se recobrem em parte; seu papel respectivo é muito variável e muito diversamente consciente nas realizações da fala” (Bally, 1965, p.35). Um enunciado (ou frase, termo equivalente na obra), então, é constituído linguisticamente e tem em si um lado lógico e um psicológico.

A enunciação é o ato que um sujeito realiza ao comunicar os seus pensamentos.

Pensar é “reagir a uma representação constatando-a, apreciando-a ou desejando-a” (Bally, 1965, p.35), e a representação consiste em uma noção da realidade que cada sujeito tem em si mesmo. Bally adverte que “é preciso cuidar para não confundir pensamento pessoal e pensamento comunicado” (Bally, 1965, p.37). Assim, um sujeito tem uma noção de realidade, criando uma representação do mundo, dos outros e de si mesmo. Para exprimir seus pensamentos pessoais, ele faz com que conceitos virtuais, do sistema linguístico (equivalentes aos signos saussurianos), sejam atualizados, tornando-se conceitos reais, isto é, ligados à sua representação da realidade. Ou seja, o sujeito toma os conceitos da língua – que são criados na mente de todos os sujeitos de uma comunidade linguística – e faz com que se identifiquem com a sua representação de mundo, pois “para se tornar um termo da frase, um conceito deve ser atualizado. Atualizar um

conceito é identificá-lo a uma representação real do sujeito falante” (Bally, 1965, p.77). Ou seja, o sujeito, ao enunciar, faz um uso individual e único do sistema linguístico. Retomando o que foi dito mais acima, a frase – ou enunciado, a realização da fala – é composta linguística, lógica e psicologicamente. Se a sua porção linguística é a materialização da enunciação, onde estão as porções lógica e psicológica?

A forma lógica da frase é a noção direta e objetiva que o sujeito tem em contato com

os signos da língua antes que opere subjetivamente sobre elas. Bally chama essa parte da frase de dictum. Já a porção psicológica é justamente aquela referente à “operação psíquica que o sujeito opera sobre ela” (Bally, 1965, p.36), isto é, o ato de atualização em si, que o autor denomina modus ou modalidade. Deste modo, o modus pode ser entendido como a alma do

enunciado. Não por acaso o autor (1965, p.35) afirma que a modalidade, tanto quanto o

693

pensamento, se constituem essencialmente pela operação ativa do sujeito falante. O valor de

uma frase está tão intrinsecamente relacionado à enunciação quanto à modalidade, de tal

forma que não se pode avaliar um sem considerar o outro, embora Bally admita que seria

didaticamente conveniente estudar separadamente as três partes da enunciação, mas admite

também que os fatores psicológicos do pensamento são tão bem engrenados na estrutura

lógica que não se pode abstraí-los e, por conseguinte, a forma linguística não se separa das

outras duas para fins de análise. Assim, o autor considera que na análise lógica das formas de

enunciação se encontram igualmente considerações sobre as outras duas ordens.

Admitimos que toda frase contém, obrigatoriamente, uma modalidade que permite ao

locutor julgar o que uma coisa é ou não é, avaliar o desejável e o indesejável, querer ou não

querer. O modus e o dictum, são, aparentemente, duas noções que se imbricam e são

necessárias à realização de um enunciado.

Deve-se ainda acrescentar o fato de que o autor considera que a questão da reação do

sujeito enunciador é subordinada à definição da representação. É também uma relação muito

estreita que mantém os termos de uma frase, logicamente constituídos (o sujeito modal, o

verbo modal e o dictum). Para Bally (1965), um enunciado como “Eu creio que este réu é

inocente” apresenta um sujeito pensante (eu), operando um ato de julgamento (creio) sobre

uma representação (a inocência do réu). Assim, para este autor, todo enunciado é constituído

de um sujeito modal (x, o que reage), e de um dictum (a representação, ou objeto da reação).

Conforme observado por Desclès e Alrahabi (s/d), a teoria da enunciação pressupõe a

constituição de um enunciado a partir de várias operações, das quais nos interessa o

desengajamento enunciativo. A operação de desengajamento realizada por um enunciador

consistiria em aplicar um operador complexo, designado como modus, sobre um operante,

designado como dictum (ou relação predicativa) com a finalidade de se obter um determinado

resultado. Tal distinção entre modus e dictum não se dá no nível concreto, mas num nível

mais abstrato onde o modus e o dictum são representados por operações lógico-gramaticais.

Também Guentcheva e Desclès (1997) definem o meadiativo a partir das relações entre o

modus e o dictum:

A la suite de E. Benveniste, nous appelons “sujet énonciateur” le sujet modal qui est partie constitutive du modus. Ce sujet énonciatif prend en charge ce qui est dit - le dictum -, c’est-à-dire ce qui est exprimé par une relation prédicative. Chaque énoncé qui est la manifestation linguistique d’un acte d’énonciation est donc le résultat d’une opération complexe de “prise en charge”, soit directement, soit médiatement, par un énonciateur d’une représentation prédicative ou d’un dictum. L’opération de prise en

694

charge est décomposable en plusieurs opérations élémentaires. La prise en charge fait nécessairement appel à l’opérateur d’énonciation

où JE désigne le sujet énonciateur et DIS un

opérateur verbal d’énonciation. Cet opérateur reste souvent non

, noté par “JE

DIS”,

exprimé directement dans les énonciations directes mais il est toujours sous-jacent aux énonciations. Le dictum tombe alors sous

l’opérateur d’énonciation “JE

opérande de cet opérateur. (GUENTCHEVA e DESCLÉS, 1997,

ou en d’autres termes, il est

DIS”

P.1)

O mediativo se constrói a partir de uma ruptura que se estabelece na relação

predicativa. Em Culioli (1990) observamos que numa enunciação qualquer, o enunciador

valida (ou não) as relações predicativas, seja por meio de recursos sintáticos, seja por meio de

marcadores não exclusivos deste valor. Guentcheva (1994,p.9) afirma que a categoria do

mediativo é organizada em torno de três valores: fatos relatados (quando se trata de fatos dos

quais se toma conhecimento a partir do discurso de outrem, incluindo-se aqui os rumores e o

diz-que, e os conhecimento advindos da tradição: lendas, mitos, narrativas históricas, etc ),

fatos inferidos (aqueles inferidos pelo sujeito enunciador) e fatos de surpresa (cuja

constatação imprevista é motivo de surpresa para o sujeito enunciador).

Em Guentcheva (1994, p.11) se admite que: “L’hypothèse que nous avançons ici est

la suivante: toute occurrence d’un énoncé mediatif introduit nécessairement une situation

d’enonciation médiatisée Sit M qui est em rupture par rapport à la situation d’enonciation Sit 0. .

Assim, compreendemos que o valor mediativo é uma operação sobre uma ruptura enunciativa

e que Sit M é referencialmente independente de Sit 0 . Essa ruptura pode ser total ou afetar

apenas um dos parâmetros, os enunciadores ou os instantes. Importa-nos, então, compreender

duas instâncias: um S M , um enunciador mediatizado, fundamentalmente indeterminado, em

ruptura com S 0 e um T M , um instante mediatizado, fictício, em ruptura com T 0 .

2. Metodologia

Este trabalho se propõe a delinear a assunção da responsabilidade enunciativa em

textos acadêmicos produzidos no âmbito das Práticas como Componente Curricular de

diversas disciplinas, que comportam a componente, de um curso de Licenciatura em Letras.

Para isso se utiliza de uma pesquisa documental, de base interpretativista, indutiva, seguindo

os procedimentos da análise documental.

Quanto à abordagem da pesquisa classificou-se como qualitativa, partindo-se do

princípio (cf. Richardson, 1989) de que a pesquisa qualitativa lida, predominantemente, com

dados qualitativos, ou seja, a informação coletada pelo analista não se expressa por meio de

números, mas pode considerá-los no tratamento dos dados, e ainda assim, se os números e as

695

conclusões neles baseadas representam um papel de menor relevância classifica-se a pesquisa

como qualitativa.

Trabalhamos, neste artigo, com uma amostra dos textos que compõe a base de dados

da pesquisa do doutorado. Para este estudo selecionamos seis artigos, sete relatórios e três

projetos de pesquisa, produzidos no âmbito das Práticas como Componente Curricular em

diferentes disciplinas de um curso de Licenciatura em Letras. Apresentamos na sequência as

categorias de análise empregadas.

2.1. Estratégias de engajamento enunciativo: as categorias de análise empregada na amostra dos dados.

Guentcheva (1994 e 1996) procura determinar categorias do mediativo

exclusivamente em tempos e modos verbais do francês e do búlgaro. Neste trabalho,

procuramos focar algumas estratégias discursivas de engajamento enunciativo, assim,

tentamos delinear algumas estratégias discursivas específicas visando este objetivo. Dentre as

estratégias elencamos aqui o julgamento (ou apreciação), o uso do imperativo (bem como

outras formas deônticas), e, por fim, a adjetivação, considerada neste trabalho como o recurso

mais produtivo para a análise, sendo o mais representativo dentre as estratégias de

engajamento. Tais categorias se enquadram na tabela 1 anteriormente transcrita:

Ordem

Categorias

Marcas Linguísticas

4

Modalidades

Modalidades objetivas (dever, ser preciso) Modalidades Subjetivas (querer, pensar, esperar) Verbos e Advérbios de opinião (crer, saber, duvidar, ignorar, convir, declarar que, talvez, sem dúvida,

certamente, provavelmente,

)

Lexemas afetivos, avaliativos e axiológicos

2.2 Trabalhando com os dados: Estratégias de assunção enunciativa

Como já se argumentou anteriormente, Adam observa que há inúmeras unidades

linguísticas passíveis de serem tomadas como marcadores de RE. Iniciamos nossa análise nos

detendo numa categoria que pareceu relativamente produtiva no corpus selecionado, as

modalidades. Apresentaremos a seguir apenas algumas ocorrências, pois elencá-las todas

estenderia demasiadamente o tópico:

696

Modalidades: ao construir um enunciado deôntico, o enunciador

compromete-se com a proposição enunciada, uma vez que assume totalmente

a relação predicativa. Consideramos que tanto o uso do imperativo até as

várias modalidades deônticas são operações que garantem uma forte assunção

do conteúdo proposicional, pois são construções com graus variados, mas

fortes, de associação entre elocução e força ilocucionária. Vejamos os

exemplos a seguir:

Modalidade objetiva: (dever, ser preciso, ser importante, ser necessário, etc)

Art.1 :

Devemos acrescentar ainda que, (

eles, todos esses mecanismos de funcionamento do discurso repousam no que

que deve haver uma base de apoio entre

)E

chamamos formações imaginárias.

Art.3

É importante considerar que um texto deve ser constituído de maneira que sua estrutura deve conter todas as marcas linguísticas para que ele seja facilmente entendido, sendo assim, é necessário ter cuidado com emprego da elipse, pois seu uso indevido pode prejudicar o sentido do texto.

Proj.1

Primeiramente temos que analisar o contexto do enunciado que segundo Orlandi

pois o efeito de sentido não depende apenas do discurso, mas

também dos objetos visuais.

(2009,p.31) (

),

Rel.1

O educador deve ter certos cuidados ao alfabetizar, pois se ele usar a afirmação

de que cada letra possui um som, poderá tornar ainda mais confuso as

informações para o aprendiz. (

o alfabetizando, mas sendo necessária a sua correta aplicação como componente

da disciplina o educador deve saber usá-la.

Contudo a fonética é de suma importância para

)

Rel.2

Independentemente disto, é preciso tomar cuidado, pois em determinado momento, esta nasalidade não marcada pode alterar o significado da palavra.

Modalidade Subjetiva:

Art.5

Quero aqui deter-me na semântica; o que observei no estudo empregado foi que

a semântica formal, a semântica da enunciação ou argumentativa e a semântica cognitiva, por exemplo, estudam o mesmo fenômeno, mas com conceitos e enfoques diferentes, e que a todo momento surgem palavras a todo momento.

Rel.3

697

Esperamos que esta pesquisa contribua para estudos de correção e melhoramento na forma de falar e grafar o português das séries iniciais.

Proj.2

Pensamos que objeto escolhido, a propaganda da Abrinq sobre a mortalidade infantil, apresenta elementos que dão conta de satisfazer os conceitos propostos em relação ao nosso recorte. Neste último fragmento, a escolha pelo verbo de percepção não desqualifica sua classificação como uma asserção deôntica,

Verbos e advérbios de opinião

Art.4

As ideias propagadas nesta época, muito possivelmente tiveram grande responsabilidade para a constituição das atitudes racistas sofridas, dentre outros casos, principalmente pelos povos negros e indígenas

Rel.4

Percebemos fortemente a relação entre escrita e oralidade nos textos dos alunos a que tivemos acesso.

Rel.5

Cremos que a consciência fonológica, ou o conhecimento acerca da estrutura sonora da linguagem, desenvolve nas pessoas ouvintes o contato destas com a linguagem oral da sua comunidade com diferentes formas linguísticas a que qualquer indivíduo é exposto ( )

Rel.6

Sendo de nosso conhecimento, que é um compromisso da escola ensinar a língua, quanto no domínio (quando usada na fala), quanto no seu registro através da escrita (regras e normas gramaticais). Portanto sabemos que justamente no momento do letramento, nos referimos agora às series iniciais, fica evidente o choque entre a variante o que o aluno já tem construído como conhecimento, e da variante padrão que o professor necessariamente trabalhará com o aluno.

Lexemas afetivos, avaliativos e axiológicos: Por meio do uso de adjetivos e demais lexemas capazes de reportar uma dimensão avaliativa ou afetiva, o enunciador constrói explicitamente uma relação de compromisso com o que diz, aumentando a força da elocução. Tal estratégia pode revelar também uma certa gradação, especialmente em se tratando dos lexemas avaliativos e afetivos, comoo veremos nos exemplos abaixo:

Art.2

O filme “O cheiro do Ralo” aborda a história de Lourenço, personagem de Selton Mello, um antiquário que para ser bem sucedido em seus negócios precisou se

tornar uma pessoa insensível(

conseguir tocar a bunda ele percebe que a

valorização que ele a atribuiu foi maior do que o valor que ela realmente poderia ter, e ao perceber que aquele “objeto” tão desejado não passava de uma simples

bunda, ele se decepciona. Art. 4

) (

estudo aprofundado sobre a cultura ( )

Proj.2

para entender o conceito de homem é de fundamental importância um

)Após

Chego ao final de minha análise compreendendo que a historicidade é um componente fundamental para a produção de sentidos ( )

Rel.2

698

Elas dizem serem ruins os livros que vem completados, que é o caso da maioria dos livros para a 1ªsérie, segundo essas professoras, esses autores duvidam da capacidade do professor e lhes chama de “burro”. Mas, penosamente, dizem que a maioria dos professores dessas séries preferem esses livros respondidos.

Rel.7

Considero absurda esta inversão de valores ! O Brasil investe R$ 9.700 por ano em cada estudante do Ensino Superior, valor 14 vezes mais que um aluno do

O problema não está nos R$ 9.700 gastos anualmente

Ensino Fundamental (

com um universitário, mas com os míseros R$ 730,38 que se investe num estudante de 1ª a 8ª série.

).

3.Conclusão

Numa conclusão provisória ( levando-se em conta que este trabalho representa um levantamento preliminar dos dados coletados) os dados apontam para a existência de vários recursos linguísticos que favorecem o distanciamento e/ou responsabilização por parte do falante em relação ao conteúdo proposicional de um enunciado.

Inicialmente, aventávamos a hipótese de que o sub-gênero em análise poderia estar relacionado aos eventos de assunção enunciativa destacados, o que poderia ser atribuído a uma maior afinidade com a produção de um determinado gênero, em detrimento de outros. No entanto, a distribuição quase uniforme das ocorrências de assunção, categorizadas nos itens modalidade objetiva,

subjetiva e uso de lexemas avaliativos, afetivos e axiológicos, demonstra que o uso de tais estratégias não está exatamente relacionado à produção de um determinado gênero, mas, principalmente, ao modo como o produtor de textos acadêmicos, em disciplinas de graduação, se relaciona com o referencial teórico estudado e com seu objeto de estudo, quais relações ele consegue produzir entre seus dados e as análises que consegue produzir à luz do referencial teórico. Em trabalho anterior observei a ocorrência de desengajamento/ distanciamento enunciativo, e também com o mesmo corpus não parece haver oscilação nas ocorrências, em outras palavras, há uma distribuição praticamente uniforme tanto de engajamento quanto de desengajamento enunciativo nos mesmos textos estudados, o que nos levou a ponderar sobre a possibilidade de essas ocorrências estarem associadas não exatamente ao gênero, mas, sobretudo, às características textuais de cada seção que compõe cada um dos sub-gêneros pesquisados, a saber, relatórios, projetos de pesquisa e artigos.

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Língua

700

700 ETHOS E ESTILO NOS TEXTOS DE ARNALDO JABOR Jussara Maria Jurach Universidade Federal do Paraná

ETHOS E ESTILO NOS TEXTOS DE ARNALDO JABOR

Jussara Maria Jurach Universidade Federal do Paraná

A partir da consideração de que o estilo individual pode ser depreendido da recorrência de características do modo de dizer apresentadas em uma totalidade de textos produzidos por um autor, este trabalho trata das características de estilo individual observadas em um conjunto de textos que têm como temática principal a política, publicados por Arnaldo Jabor, no jornal O Estado de S. Paulo. A concepção de estilo adotada provém dos estudos de Fiorin (2008) e de Discini (2009), os quais relacionam o estilo ao modo de dizer, ou seja, ao ethos, noção esta baseada, sobretudo, nas discussões empreendidas por Maingueneau (1995). Com o objetivo de identificar características de estilo individual a partir da recorrência, foram coletados, no período de um ano e dois meses, 56 textos publicados por Jabor no referido jornal e, dentre estes, selecionados 30 para o estudo, por terem como temática principal a política. Por um lado, foram percebidas regularidades na maneira de inserção de vozes sociais que configuram efeito argumentativo e fortalecem a imagem de intelectualidade do colunista. São recorrentes remissões a discursos típicos ao partido comunista, aos clássicos da literatura nacional e mundial, assim como a frases célebres de personalidades, que conferem uma isotopia actorial e uma coerência argumentativa ao conjunto de textos do autor e, assim, uma característica de estilo. A remissão a vozes sociais, em vários casos, foi observada pela maneira de exploração do recurso da intertextualidade, principalmente stricto sensu. Por outro lado, verificou-se recorrente a exploração de experiências pessoais relatadas no texto de modo teatralizado, que constituem um ethos experiente e, assim, também atribuem credibilidade e autoridade para os posicionamentos do autor sobre a política. No início de um conjunto de textos, o autor repete o procedimento de narrar de modo utópico e sentimental

701

suas vivências políticas durante a juventude, quando participou do aparelho comunista e foi militante de esquerda. Para tanto, utiliza-se de verbos no pretérito imperfeito e essencialmente introspectivos, os quais inserem pensamentos transcritos entre aspas e lembranças de diálogos, constituindo uma teatralização. No desenvolvimento desses textos, o autor tende a assumir uma postura mais áspera e rígida, a fim de argumentar sobre a política atual, quando se utiliza predominantemente de verbos no presente do indicativo e não-factivos, no entanto, fortalecidos pelo movimento textual de constituição de um ethos experiente. Há em um conjunto de textos, portanto, uma polarização entre a postura do autor no passado e no presente, colocadas em uma relação de causa e consequência: a sua vivência com a política o tornou o sujeito “casca-grossa” que, nos textos estudados, critica duramente o governo de Lula, Dilma e outros petistas.

1. Estilo e ethos

Como o estilo ocorre pela recorrência e pela diferença, para Fiorin (2008) e Discini (2009) este se depreende de um conjunto de traços recorrentes que definem uma singularidade pela diferença com o outro. De forma bastante clara, Fiorin (2008) explica que os traços recorrentes envolvem características do plano do conteúdo, como a repetição de temas, e do plano da expressão, como a organização das palavras e construções textuais. É esse conjunto de traços que levam ao estilo, não um detalhe isolado. Conforme Discini (2009, p. 28), “O estilo é efeito de individuação dado por uma totalidade de discursos enunciados”. O recorte feito no estudo é a seleção apenas de textos que tratam de política. Essa escolha remete à tentativa de estabelecer o estilo do autor tendo por base uma linha temática e um efeito de unidade na totalidade. A temática política é predominante nos textos publicados pelo autor no jornal impresso de onde se coletou o material A motivação dos textos, de modo geral, reflete os fatos em destaque na mídia e em discussão na sociedade do momento da publicação. A partir disso, estilisticamente Jabor situa acontecimentos, contemporâneos às condições de escrita dos textos, paralelamente a fatos solidificados na história e na memória dos leitores. Com isso, reformula os sentidos e confere a marca de presença de um eu para a montagem de novos jogos de sentido. Fiorin (2008) e Discini (2009) aliam, em seus trabalhos de reconhecimento do estilo, contribuições da Semiótica greimasiana e da Análise do Discurso de linha francesa, nesta, principalmente dos estudos de Maingueneau (1995) sobre ethos.

702

Dessa forma, para a compreensão do encaminhamento teórico presente nos estudos sobre estilo dos autores aqui considerados, cabe ater-se a determinados termos e definições provenientes dessas linhas teóricas e tentar situá-los conforme os diferentes encaminhamentos teóricos de que provêm. Um desses termos, proveniente dos estudos de Greimas e Courtés (1986) e de destaque no estudo de Discini (2009), é o de isotopia deduzida de uma totalidade. A presença das isotopias atribuiria ao discurso a impressão de coerência, em um dado estilo, pois, ao conferir uma continuidade nos referenciais figurativos, serviria como ponto de apoio para o sentido e, assim, mantenedor de uma pertinência que leva à credibilidade. Essas recorrências que dão um caráter de homogeneidade e regularidade aos discursos de um mesmo enunciador são chamadas de isotopias. Os princípios de análise do estilo, em Discini (2009), baseiam-se na observação das isotopias que se configuram interdiscursivamente, em diferentes tematizações e contextos de uma totalidade, a fim de conferir a recorrência da ilusão referencial do enunciado. “Cumpre então, na análise do sentido, que se faça o exame de procedimentos pelos quais a ilusão referencial de um mundo reorganizado por um eu é construída numa totalidade de discursos.” (DISCINI, 2009, p. 72). Os estilos são constituídos pelos efeitos de sentido produzidos pelo discurso. É pelas manifestações discursivas que ocorre uma sistematização do efeito de sentido apreensível pelas isotopias. Na observação do estilo de um autor, portanto, é possível detectar um discurso circular, pois se repetem percursos temáticos e composicionais que conferem um efeito de individualidade à totalidade e, com isso, vão reconstruindo a totalidade e definindo um modo de ser no mundo. A cada parte há uma força englobante, em que se faz presente o estilo da totalidade. É pelas partes que se forma o corpo que o enunciatário incorpora continuamente. Conforme a autora, há um “querer-fazer” e um “dever-fazer e ser” que levam o enunciatário a seguir um “valor do valor” da totalidade, por onde também é construída a regra.

Na base da construção recorrente do valor do ‘valor’, está uma direção ideológica.

É assim que se constrói a voz, o corpo, o caráter, supostas representações figurativas e éticas de uma totalidade. É assim que, ao responder, polêmica ou convergentemente, a outras vozes de um tempo histórico, o estilo se firma como dialógico e ideológico. (DISCINI, 2009, p. 63).

703

O encaminhamento ideológico permite, inclusive, a diferenciação, que se reafirma a

cada parte da totalidade, formando a unidade de sentido. Em todo estilo está pressuposta uma diferença e a construção de uma pertinência de preferências, o gosto por isto e não por aquilo,

a defesa a este e não àquele, e a constituição da corporalidade que acontece por meio dessa

diferença em relação ao outro. Portanto, a formação do sujeito envolve a dialogia, pois o efeito de individualidade depende da diferença com o outro. Discini (2009) alerta que o termo “individualidade” deveria ser grafado entre aspas, justamente pela presença do outro de que necessita para significar, a partir da diferença. Assim como o signo, que precisa da diferença com o outro para significar, ou seja, de uma exterioridade, a unidade de um discurso e de um estilo também se funda na distinção com os demais discursos e com os demais estilos. Para Fiorin (2008, p. 104) o estilo leva a um ethos que se caracteriza na contradição com outro. Nesse sentido, retoma a máxima bakhtiniana de que o estilo são dois homens. “O estilo, sendo um fato discursivo, constitui-se heterogeneamente. É na oposição ao outro que se

constrói. Por isso, como todo discurso, ele mostra seu direito e seu avesso, ou seja, exibe-se a

si mesmo e ao outro em oposição ao qual se constituiu”.

Discini (2009) ressalta a presença das dicotomias para a existência do estilo, como ao notar as constâncias presentes no estilo, dadas pela recorrência das construções narrativas, sintática e semanticamente, e as inconstâncias, correspondentes ao discurso, ao diálogo, ao

outro.

A autora admite que há rupturas na unidade de sentido da totalidade, porém, essas

rupturas não destroem a continuidade que permite uma totalidade enquanto abstração. Há recorrências nas escolhas temáticas, nas figuras e na composição, que levam a uma direção ideológica, mesmo passível de algumas diferenças. Fiorin (2008, p. 96) trata do papel da instância da enunciação na configuração do

estilo.

Há, no estilo, como em todos os fatos discursivos, um aspecto ligado à produção do texto e um relacionado a sua interpretação. Isso significa que o estilo toma forma na interação entre produção e interpretação, ou seja, numa práxis enunciativa, o que quer dizer que é um fato da ordem do acontecimento e não da estrutura. Sendo controlado pela instância da enunciação, o estilo aparece nas formas discursivas e nas formas textuais.

704

Assim, nota-se que para Fiorin (2008) e Discini (2009) a análise do estilo não deve basear-se apenas em marcas estruturais, mas também nos discursos materializados pelas formas textuais, considerando-se as condições de interação em que ocorrem os enunciados. Ao compreender o sujeito como inscrito social e historicamente, a linha de estudo

acerca do estilo considerada neste trabalho aponta para a construção da imagem do autor por meio do discurso, a qual ocorre concomitantemente à determinação do estilo.

Conforme Fiorin (2008, p. 104), “é na oposição ao outro que o estilo se constrói (

mostra um ethos em contradição com outro”, pois se constitui como um fato discursivo, que sempre dialoga com o outro na produção do sentido. Ao seguir esse encaminhamento, Discini (2009) faz uma relação entre estilo e ethos. Para ela, o ethos define-se pelo conjunto de representações sociais, constituídas por um modo de dizer, que conferem uma maneira de presença no mundo para um autor discursivo. Para tanto, a autora apoia-se em Maingueneau (1995). Este estabelece a noção de corpo, a fim de elaborar o conceito de ethos na perspectiva discursiva, que corresponde a uma maneira de habitar o espaço social. O conceito de corpo definido por Maingueneau (2008) remete a um ‘corpo enunciante’, configurado por uma ‘voz’ que se especifica historicamente, a partir da determinação de um imaginário do corpo que configura a enunciação assumida por este. Segundo Maingueneau (2008, p. 65), “o ethos implica em uma forma de mover-se no espaço social, uma disciplina tácita do corpo, apreendida por meio de um comportamento.” A relação entre ethos, corpo e estilo no trabalho de Discini (2009) fica clara a partir da seguinte afirmação: “Acreditamos que esse corpo, no estilo, se (re)constrói pelas recorrências do dito, o que se pode enfeixar no que denominamos fato de estilo. O fato de estilo aponta para as recorrências do dito, que pressupõem recorrências do modo de dizer.” (DISCINI, 2009, p. 57). Conforme a autora, o ‘fato de estilo’, diz respeito a uma unidade formal e abstrata do estilo, mas passível de análise por um percurso em que se nota a geração do sentido. Além disso, por remeter à totalidade, o fato de estilo dá forma para o corpo. Ao corresponder à união entre conteúdo e expressão, não é apreensível apenas na textualização de maneira intrínseca, mas em uma totalidade que envolve o processamento do sentido. Portanto, na perspectiva teórica de Fiorin (2008) e Discini (2009) acerca do estilo, é por meio do ethos que se depreende um estilo, uma imagem de um autor. Segundo Discini (2009, p. 57), “estilo é ethos, é modo de dizer”. Em outras palavras, Discini (2009) afirma a não relevância do sujeito real e de seu percurso biográfico. O interesse recai inteiramente, para a compreensão do estilo, no sujeito

) um estilo

705

constituído discursivamente. Essa presença discursiva corresponde a uma existência verdadeira fundada em um conjunto discursivo, em que o sujeito polemiza, converge ou diverge com este, em consonância com um caráter firmado por uma unidade virtual do sentido, dada pelo discurso. A “verdade” ocorre pela pertinência de sua postura enquanto um sujeito que produz um idioleto, um modo próprio de dizer e, com isso, de presença no mundo. A sua verdade funciona pela diferenciação em relação ao outro, com o que se produz uma identidade.

Características de estilo individual nos textos de Arnaldo Jabor

Tem-se, nesta dissertação, a preocupação em seguir critérios objetivos para a apreensão do estilo de Arnaldo Jabor como autor discursivo nos textos sobre política publicadas no O Estado de S. Paulo. Essa investigação visa a perceber maneiras de singularidade do autor com base em marcas linguísticas, fugindo de um subjetivismo questionável. Juntamente com as questões composicionais, de ordem linguística, o estilo envolve escolhas temáticas e posicionamentos ideológicos. As formas de inserção de um posicionamento ideológico podem ser investigadas na materialidade linguística por diversos vieses. Ao partir do uso de recursos intertextuais para fazer a investigação, nota-se como há uma presença trabalhada pelo autor no texto para a produção dos sentidos, mesmo quando dá voz a outros autores, presença essa sempre permeada por imagens de si e dos leitores, que configuram seu ethos e seu estilo. São marcas do posicionamento do sujeito, por exemplo, além do conteúdo intertextual, a escolha dos verbos dicendi nas citações tanto diretas quanto indiretas e as explicações acerca dos sentidos que pretende dar a certas palavras, em um exercício que demonstra que a língua não é neutra e nem transparente. Mais do que elemento de completude textual e de estilo nos textos de Arnaldo Jabor, a remissão trabalhada a outros textos consegue propiciar credibilidade ao que o autor escreve. A referência a textos consolidados no meio social e o diálogo com estes conferem autoridade para os argumentos do autor. Interpenetram-se nos textos de Jabor, fundados tematicamente por alguma informação factual do momento da escrita, vários outros textos, sobretudo solidificados na história política nacional e mundial. A carga histórica é retomada por termos representativos de momentos políticos marcantes, ligados ao discurso marxista, ao comunismo, ao socialismo, à revolução

706

russa e à ditadura militar. A presença desses termos no contexto das crônicas do autor produz determinados efeitos de sentido críticos que revelam uma prática típica aos textos de Jabor. Com isso, ao entender estilo como recorrência, pode-se afirmar que é um elemento estilístico

do autor.

Essa intertextualidade fundada pela presença de termos que remetem a vários outros textos sobre política mundial e nacional diz respeito a uma intertextualidade constitutiva, a qual está

na base da produção dos sentidos de qualquer enunciado. Os sentidos a que remetem esses

termos, quando postos na situação discursiva dos textos, promovem novos efeitos de sentido.

A presença do enunciador está no jogo que este faz entre os termos escolhidos para a

constituição desses efeitos. Dessa forma, considera-se que há uma heterogeneidade constitutiva de todo dizer, porém, não o apagamento do papel do sujeito na produção deste. É comum nos textos de Jabor a referência a fatos vivenciados pelo autor desde a sua juventude para fortalecer a argumentação crítica a respeito da política brasileira. Em uma sociedade como a ocidental, que presa por certa objetividade como forma de credibilidade, o relato da experiência pessoal facilita a adesão a posicionamentos e a aceitação destes. Com o relato da vivência de militante da esquerda, Jabor busca autorizar, dar credibilidade às críticas feitas à esquerda (PT, sindicatos, Lula, Dilma, dentre outros). Em muitos casos, Jabor inicia os textos tratando de acontecimentos pessoais do passado para, então, inserir os comentários sobre a política atual. Fica clara, nas crônicas de Jabor, uma polarização entre o autor no passado e no presente. Os relatos do passado mostram os ideais de uma ‘velha esquerda’ da qual Jabor fazia parte. A partir disso, o autor constitui uma encenação em que ressalta algumas das características típicas à maneira de pensar daquela época. O relato dessa experiência pessoal é marca de estilo e, ao mesmo tempo, recurso argumentativo. Diferentemente da posição que assumia no passado, no presente o autor se coloca fora dessa “velha esquerda” e, portanto, com autoridade para criticá-la, pois relata que já vivenciou suas experiências de esquerda. Conforme fica claro nos trechos extraídos da crônica “A volta do bode preto da velha esquerda” (Arnaldo JABOR. O Estado de S. Paulo, 31 ago. 2010), uma das quais será analisada abaixo, Jabor se apresenta na atualidade como participante da “verdadeira esquerda que amadureceu”, afinado com o ex-presidente Fernando Henrique, para o autor, “o melhor governo que já tivemos de 94 a 2002”. Enquanto isso, a perspectiva do passado representa a posição combatida e chamada pelo autor de “uma esquerda que quer continuar a bobagem”. No presente, esta posição é atribuída ao PT, aos sindicatos, a Lula e a Dilma Roussef.

707

Nota-se, linguisticamente, nesse processo, o jogo entre a primeira pessoa do singular e a primeira pessoa do plural, que demonstram como o autor fala respectivamente em nome de si, sobretudo quando relata as experiências do passado, e em nome de uma coletividade, quando parte para a crítica ao governo vigente. No entanto, a presença da primeira pessoa do singular, quando utilizada nos textos, não significa, no caso de Arnaldo Jabor, que o caráter ideológico dos textos é pertencente apenas a uma perspectiva particular assumida pelo autor, até porque, sabe-se que os textos publicados em um jornal devem, de modo geral, seguir a linha editorial deste. Assim, o viés ideológico veiculado nos textos de Jabor no O Estado de S. Paulo tem conformidade com este jornal, ou seja, o discurso do autor está em sintonia, ideologicamente, como o discurso do veículo. Desse modo, mais do que uma simples forma de assumir a responsabilidade pelo dizer, o uso da primeira pessoa do singular nos textos em estudo revela uma forma de atribuição de autoridade aos comentários sobre política dada pelo próprio autor. Isso porque, a partir da narração de vários momentos vivenciados por Jabor, com destaque para fatos da sua juventude, quando participou da UNE e apoiava os ideais comunistas, o autor se caracteriza como alguém e autorizado a falar sobre a política do Brasil e constitui um ethos de experiência. Para a explicitação de como Jabor se apoia na perspectiva pessoal para fortalecer seu posicionamento, assim como o modo que explora a autotextualidade e constitui um efeito de teatralidade, foram tomados como modelos representativos do conjunto dois textos: “O camarada de nariz cor-de-rosa” (Arnaldo JABOR, O Estado de S. Paulo, 6 abr. 2010) e “A volta do bode preto da velha esquerda” (Arnaldo JABOR, O Estado de S. Paulo, 31 ago.

2010).

Texto 1

O camarada de nariz cor-de-rosa

Eu tinha 18 anos e vivia na UNE, ali na Praia do Flamengo, ao lado do botequim Cabanas, onde fundamos o CPC (Centro Popular de Cultura) saindo pelo Brasil para "conscientizar o povo alienado, a classe média conformista e os operários ignorantes e explorados no Terceiro Mundo, com uma classe dominante títere do imperialismo norte-americano". Éramos assim em 1963. Como eu era orgulhoso da minha

708

condição de comunista

minha vida tem um sentido

romântico

muitos queriam derrubar o Exército sem uma reles pistola e eu pensava: "Meu

Vejo na memória a grande bandeira negra na

porta da UNE quando o Eisenhower visitou o Brasil: "We like Fidel." Por isso, sofro

ao ver o Fidel Castro caquético e trêmulo dentro de um abrigo "Adidas" e me

pergunto: "Por que "Adidas"?

e o socialismo eram imagens impalpáveis que viriam quase que por magia, sem

lutas, sem sangue

bem

operários eram figuras alegóricas, de dorsos fortes, com martelos na mão. Eu e meus colegas fazíamos o jornal dos estudantes e ficávamos até altas horas na oficina vendo os gráficos fecharem as páginas no chumbo. Olhávamos fascinados aqueles homens, cobrindo-os de perguntas e gentilezas. E os operários até estranhavam nosso forte amor. "Serão veados?", pensava o povo. Não; éramos comunistas. A miséria era-nos irresistível. Como não cair na sedução revolucionária, com Che dirigindo Cuba, barbudos e jovens como beatniks políticos? Eu me lembro de um amigo que falava: "O marxismo supera a morte!" "Como?", dizia eu espantado. "Claro; uma vez dissolvido no social, o indivíduo perde a ilusão pequeno-burguesa de ser uma pessoa. Ele só existe como espécie, como ser social. E aí não morre. O marxista não morre." E eu, em êxtase religioso, sonhava com a vida eterna. Havia um chefe do Partidão Comunista que me fascinava. Ele era o camarada Jacques, aliás Tadeu, aliás sei-lá-o-quê. Ninguém sabia o nome dele direito; era judeu, triste, tinha o nariz cor-de-rosa em forma de couve-flor e usava meias brancas soquete com sapatos pretos "tanque" Polar, de onde sobravam os gordos tornozelos. Sempre fui meio louco e ficava olhando esses detalhes, pensando: "Como ele pode ser tão heroico com estas meias brancas e estes sapatos?" Para o doce camarada Jacques, tudo era culpa do "imperialismo". "Qual é a "contradição principal" do Brasil?", perguntava. "É o imperialismo norte-americano!", respondíamos como num colégio. Chamava-se a isso "dar assistência à base estudantil". Um dia, eu estava num apartamento ("aparelho") conjugado em Copacabana, onde havia um sofá-cama velho. Diante de mim, a bela companheira Marina. Esperávamos os outros camaradas, para mais uma reunião da "base". Ninguém chegava. De repente, eu estava em cima da Marina, beijando-a, traindo a revolução num infinito prazer culposo. Batem na porta. Em pânico, nos arrumamos. Entrou o chefe de nariz cor- de-rosa. Eu olhava Marina. A culpa ali não era do imperialismo. Era nossa. No sofá- cama, havia uma mancha úmida. Ninguém viu. Ao lado da mancha, saía um chumaço do estofamento. Naquela mancha havia uma vida nova pra mim (eu era

Era como um direito que tínhamos porque éramos do lado do

Tenho saudades desse tempo nacionalista, onde tudo era claro, quando os

em revolução como de futebol. O PCB

deus

Éramos tão românticos ? antigamente tudo era

Com a luta armada, conhecemos a tragédia previsível. Lembro-me que

Sim. Eu pensava: "Como sou feliz! Somos o sal da terra, "

eles vão morrer e não sabem

"

Falávamos "

quase virgem). No chumaço de paina, eu vi que alguma coisa ia fracassar na

709

revolução brasileira. Como salvar o País com um chefe de nariz cor-de-rosa e um exército de sofás esfarrapados? Nossa alma ibérica rançosa, nosso mal endógeno de patrimonialistas, nada disso nos interessava. O Brasil era um país "puro", e toda a culpa de nosso atraso era só do "imperialismo norte-americano", a contradição principal. Na época, o perigo ianque era um mal geral que nos ameaçava e absolvia ao mesmo tempo. E eu ficava olhando o nariz cor-de-rosa de couve-flor do camarada Jacques, enquanto sonhávamos com a revolução que faríamos com a ajuda do governo Jango (até para fazer revolução tínhamos de contar com apoio do Estado). Em 64, quando caiu tudo, com a chegada dos tanques de guerra, com o fogo na UNE, com todas as ilusões perdidas, o pobre camarada nos reuniu e murmurou trêmulas palavras como "subestimamos o imperialismo", "hesitação da militância". Seu nariz estava branco de tristeza. O nosso camarada Jacques supervisor da base da UNE caiu na clandestinidade. Anos depois, eu o vi passando na rua, oculto atrás de uma plástica, com o nariz operado. Naquele nariz falso, artificial, detectei a chegada da pós-modernidade, o prenúncio da queda do Muro de Berlim. Penso nisso com saudade e medo, porque hoje, 40 anos depois, neste governo há muitos babacas que ainda pensam assim e fazem a cabeça do nosso Lula, que está delirando em "fremente lua de mel consigo mesmo". Penso nisso porque se

esvaíram os sonhos mais belos e porque, depois do Lula, que soube (bendito seja

conter os jacobinos saudosos da guerra fria, pode haver a vitória do "regressismo"

)

mais burro, de uma velha e fracassada visão do Estado-pai. Podem jogar fora todas as conquistas da modernização democrática. Se fosse vivo, o querido camarada de nariz cor-de-rosa perguntaria: "Qual a contradição principal?” Hoje, responderíamos: "É a "revolução" dos oportunistas e incompetentes, camarada Jacques.” (Arnaldo JABOR, O Estado de S. Paulo, 6 abr. 2010).

Texto 2

A volta do bode preto da velha esquerda

Meu primeiro grande amor começou num "aparelho" do Partido Comunista Brasileiro em 1963, meses antes do golpe militar. Era um pequeno apartamento conjugado na Rua Djalma Ulrich em Copacabana, em cima de uma loja de discos. No apartamento, havia um sofá-cama com a paina aparecendo por um buraco da mola, entre manchas indistintas - marcas de amor ou de revolução? Na parede, um cartaz dos girassóis de Van Gogh e, numa tábua sobre tijolos, livros da Academia de Ciências da URSS. Um companheiro me emprestara a chave com olhar preocupado,

710

sabendo que era para o amor e não para a política. "Cuidado, hein, se o dirigente da "

"base" souber

Eu era virgem de sexo com namoradas, pois pouquíssimas moças "davam", nessa época anterior à pílula; transar para elas era ainda um ato de coragem política. As

moças iam para a cama pálidas de medo, para romper com a "vida burguesa", correndo o risco da gravidez - supremo pavor. Famintos de amor, usávamos até Marx para convencer as meninas. "Não. Aí eu não entro!", gemiam, empacadas na porta do apartamento. Nós usávamos argumentos que iam de Sartre e Simone até a revolução: "Mas, meu

bem

direita " Tudo era ideológico em Ipanema - até a praia tinha um gosto de transgressão

política. Éramos assim nos anos 60.

A guerra fria, Cuba, China, tudo dava a sensação de que a "revolução" estava

próxima. "Revolução" era uma varinha de condão, uma mudança radical em tudo, desde nossos "pintinhos" até a reorganização das relações de produção. Não fazíamos diferença entre desejo e possibilidade. Eu era do "Grupo Vertigem", como colegas radicais nos apelidaram. Nossa revolução era poética, Rimbaud com Guevara; era uma esperança de um tempo futuro em que a feia confusão da vida se harmonizaria numa perfeição política e estética. Para os mais obsessivos, era uma

A sexualidade é um ato de liberdade contra a

- disse-me, vendo a gratidão em meus olhos.

deixa de ser "alienada"

tarefa a cumprir, uma disciplina infernal, um calvário de sacrifícios para atingir não sabíamos bem o quê. Tínhamos os fins, mas não tínhamos os meios.

E, como todos, tínhamos horror ao demônio do capital e da administração da

Por isso, a incompetência era

realidade para a luta (coisa chata, sem utopia

arrepiante. Ninguém sabia administrar nada, mas essa mediocridade era compensada

Nunca vi gente tão

por bandeiras e frases bombásticas sobre justiça social, etc

incompetente quanto a velha esquerda que agora quer voltar ao poder como em 63,

)

de

novo com a ajuda de um presidente. Assim como foi com Jango, agora precisam

do

Lula. São as mesmas besteiras de pessoas que ainda pensam como nos anos 60 e,

pior, anos 40. "Revolução" era uma mão na roda para justificar sua ignorância, pois essa ala da

não precisava estudar nada

esquerda burra (a inteligente cresceu e mudou

profundamente, por serem "a favor" do bem e da justiça - a "boa consciência", último refúgio dos boçais. Era generosidade e era egoísmo. A desgraça dos pobres

nos doía como um problema existencial nosso, embora a miséria fosse deles. Em nossa "fome" pela justiça, nem pensávamos nas dificuldades de qualquer revolução,

as tais "condições objetivas"; não sabíamos nada, mas o desejo bastava. Como hoje,

os idiotas continuam com as mesmas palavras, se bem que aprenderam a roubar e mentir como "burgueses".

)

711

A democracia lhes repugnava, com suas fragilidades, sua lentidão. Era difícil fazer

uma revolução? Deixávamos esses "detalhes mixurucas" para os militantes tarefeiros, que considerávamos inferiores, "peões" de Lenin ou (mais absurdo ainda) delegávamos o dever da revolução ao presidente da República, na melhor tradição

de dependência ao Estado, como hoje. Deu nos 20 anos de bode preto da ditadura.

Por que escrevo essas coisas antigas, estimado leitor? Porque muita gente que está aí, gritando slogans, não quer entender que a via mais revolucionária para o Brasil

de hoje é justamente o que chamávamos de "democracia burguesa", com boquinha

de nojo. Muita gente sem idade e sem memória não sabe que o caminho para o crescimento e justiça social é o progressivo aperfeiçoamento da democracia, minando aos poucos, com reformas, a tradição escrota de oligarquias patrimonialistas. Escrevo isso porque acho que a luta de hoje é entre a verdadeira

esquerda que amadureceu e uma esquerda que quer continuar a bobagem, não por romantismo, mas porque o Lula abri-lhes 260 as portas para a lucrativa pelegagem. Vejo, assustado, que querem substituir o patrimonialismo "burguês" pelo

sindicalista, claro que numa aliança de metas e métodos com o que há de pior na política deste país. Vão partir para um controle soviético e gramsciano vulgar do Estado para ter salvo-condutos para suas roubalheiras num país sem oposição, entregue a inimigos da liberdade de opinião. Escrevo isso enojado pela mentira vencendo com 80% de Ibope, apagando como da história brasileira o melhor governo que já tivemos de 94 a 2002, com o Plano Real, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, com a telefonia moderna de hoje, com o Proer que limpou

os bancos e impediu a crise nos atingir, com privatizações essenciais que mentem ao

com a diminuição da pobreza em 35% e que

abriu caminho para o progresso econômico de hoje que foi apropriado na "mão grande" por Lula e seus bolchevistas. Ladroeira pura, que o povo, anestesiado pelo

Bolsa-Família e pelas rebolations do Lula na TV, não entende. Também estou enojado com os vergonhosos tucanos apanhando na cara por oito anos sem reagir. O governo Lula roubou FHC e o mais sério período do País e seus amigos nunca o defenderam nem reagiram. São pássaros ridículos em extinção. Tenho orgulho de que, há 40 anos, no apartamento conjugado do Partidão com minha namorada, eu gostava mais dos girassóis de Van Gogh do que dos livros de Plenkanov. Por isso, para levar meu primeiro amor ao apartamento, usei uma cantada de esquerda: "Nosso amor também é uma forma de luta contra o imperialismo norte- americano." E ela foi. (Arnaldo JABOR. O Estado de S. Paulo, 31 ago. 2010).

povo que "venderam nossos bens

",

260 sic

712

Em ambos os textos, é possível notar o predomínio da inserção da voz alheia a partir

da memória pessoal de Jabor. No primeiro, “O camarada de nariz cor-de-rosa”, a maioria das

formas intertextuais é de uma espécie de “citações diretas” de conversas do autor com pessoas

que fizeram parte do seu passado no partido comunista, como o “camarada Jacques”, “um amigo militante do aparelho comunista” e a voz coletiva do CPC, citada por Jabor sob a

primeira pessoa do plural. Apesar de tratar de um período marcante e muito comentado na história política nacional, ao invés de utilizar fontes que são tradicionalmente citadas e, por isso, reconhecidas por todos, Jabor produz um texto que promove a impressão de aproximação do leitor com os fatos, pois confere ao escrito um caráter pessoal e até certo ponto confessional, além de oferecer ao leitor a possibilidade de conhecer outros personagens. Assim, causa a impressão

de mediar o conhecimento de como funcionavam “os bastidores” da política nacional. Ainda,

o uso de termos “camarada”, um “amigo”, “colegas” promovem a aproximação dos leitores

com o relato, pois seu texto se difere da formalidade e a objetividade dos textos oficiais sobre

a história política. As “citações diretas” apresentadas por Jabor neste texto, em sua maioria, são citações constituídas a partir da sua própria memória pessoal. Desse modo, remetem a possíveis textos produzidos em algum momento de sua vivência, mas não efetivamente localizáveis pelos leitores. Assim, constituem um recurso utilizado pelo autor para dar um efeito de realidade, já que seus textos se constituem entre um espaço real e fictício e com caráter teatral. Logo no início do texto “O camarada de nariz cor-de-rosa” (JABOR, O Estado de S. Paulo, 6 abr. 2010), o autor narra uma passagem da sua juventude, precisamente aos 18 anos, quando fundaram (ele e outros comunistas, segundo o texto) o Centro Popular de Cultura (CPC), com

a finalidade de levar para a população os ideais comunistas de revolução contra o

imperialismo capitalista. O autor assume seu passado comunista e narra sobre a empolgação revolucionária do grupo. Para tanto, cita trechos, a partir da sua memória, dos discursos pertencentes aos líderes do CPC e aos demais participantes do grupo, o que também fortalece

o caráter de proximidade de Jabor com a história política brasileira. A participação do autor

no partido comunista explica a presença da temática sobre o comunismo tão recorrente em seus textos, assim como a constante citação dos termos relacionados aos partidos socialistas soviéticos.

713

O texto apresenta, inclusive, transcrições dos pensamentos do autor, entre aspas. Esta presença dos pensamentos fortemente marcada revela como o autor confia na sua trajetória pessoal como recurso argumentativo para seus textos, o que confere um ethos de autoridade, além de promover o efeito de teatralidade, típico aos textos de Jabor.

A autotextualidade, nos textos de Jabor, não se constitui apenas pela transcrição de trechos de

seus próprios textos em outros, mas também pela citação de suas próprias falas e pensamentos. Assim, há dois modos típicos de autotextualidade que constituem o estilo do autor, os quais produzem efeitos de sentido diferenciados: um o da utilização de trechos de seus próprios textos, sem fazer citação, que aparecem em novos textos com assuntos semelhantes e, outro, o da citação de suas próprias falas e pensamentos de modo teatralizado, quando o autor se coloca como um “personagem” no interior do texto. Portanto, o discurso direto, que configura teatralidade ao texto, é outro elemento de estilo marcante. A citação dos diálogos e do pensamento de Jabor, além de conferir teatralidade, fortalece o efeito de proximidade entre os leitores e o autor, pela característica dos verbos utilizados para inserir as citações. Os verbos utilizados no texto para os relatos pessoais são essencialmente introspectivos. Isso pode ser claramente exemplificado no trecho a seguir:

] [

sentido

armada, conhecemos a tragédia previsível. Lembro-me que muitos queriam

derrubar o Exército sem uma reles pistola e eu pensava: "Meu deus "

morrer e não sabem

quando o Eisenhower visitou o Brasil: "We like Fidel." Por isso, sofro ao ver o Fidel

eles vão

Vejo na memória a grande bandeira negra na porta da UNE

Com a luta

Eu pensava: "Como sou feliz! Somos o sal da terra, minha vida tem um

"

Éramos tão românticos ? antigamente tudo era romântico

Castro caquético e trêmulo dentro de um abrigo "Adidas" e me pergunto: "Por que

"Adidas"?

"

[

]

(JABOR, O Estado de S. Paulo, 6 abr. 2010).

O pronome em primeira pessoa e o verbo “pensava”, no pretérito imperfeito, repetido em dois

momentos nesse trecho, demonstram a presença do autor que escreve com base na memória pessoal e que assume um processo de introspecção no texto. Isso é reforçado pelos demais verbos que constituem o relato, como o verbo no presente seguido do pronome pessoal, “lembro-me”, e o outro, também no presente, “vejo”, sucedido da locução adverbial de lugar, “na memória”.

714

Além disso, o autor não se mostra um observador distante do passado, pois pela presença dos verbos no presente, expressa que ainda existe envolvimento pessoal de sua parte perante os encaminhamentos políticos. O verbo “sofro”, pela sua denotação e por estar em primeira pessoa, antecedido pela expressão anafórica “por isso”, que retoma o relato mnemônico feito pelo autor, faz com que seja possível notar que Jabor, apesar de se colocar como alguém experiente para falar, não se distancia dos fatos atuais para fazê-lo. Pelo contrário, funda-se, assim, um jogo entre a memória mais distante e pessoal, representada no texto a partir dos verbos no pretérito imperfeito, e os acontecimentos mais recentes, dados pelos verbos no presente, que atualizam a presença do autor como alguém que vivencia intensamente os fatos políticos, conforme um ethos engajado. Koch (2008) faz algumas considerações sobre o papel dos tempos verbais nas constituições textuais. Seguindo a proposta de Weirinch (1964), a autora demonstra que “a forma verbal presente nada tem a ver com o Tempo: ela constitui, justamente, o tempo principal do mundo comentado, designando uma atitude comunicativa de engajamento, de compromisso.” (KOCH, 2008, p. 37). Já o uso do pretérito imperfeito, segundo as observações da autora, institui uma postura narrativa do enunciador e converte o coenunciador a simples ouvinte de fatos já ocorridos em um tempo anterior à tomada de palavra. Esses dois movimentos são produzidos por Jabor. Nos relatos pessoais, por meio do pretérito imperfeito, leva ao conhecimento do leitor a sua experiência pessoal. Já o uso do presente do indicativo, com o qual faz as críticas ao atual governo, convida para o engajamento a favor do seu posicionamento. Jabor inicia o segundo texto, “A volta do bode preto da velha esquerda”, com um trecho que trata de um cenário que pode ser reconhecido no texto “O camarada de nariz cor- de-rosa”, em que narra uma passagem de um relacionamento amoroso que teve no apartamento situado em Copacabana, onde funcionava o “aparelho” do partido comunista. Nos dois textos, repete-se o cenário do sofá-cama com uma mancha úmida, a apropriação do lugar para encontros amorosos pelo autor e o medo de ser descoberto pelo chefe do grupo comunista. Apesar de ser uma memória, o autor a narra e a relaciona com a forma que via a política do país naquele momento. No restante do Texto 2, algumas referências a outras vozes são feitas no interior de citações da fala do próprio autor, como nos casos em que remete a Marx e Sartre e Simone de Beauvoir, respectivamente. A maioria das demais vozes alheias não possui um enunciador cuja atribuição acontece de forma explícita.

715

Em ambos os textos o autor situa sua participação nas reuniões no grupo comunista em 1963, um ano antes da Ditadura Militar, e comenta sobre o seu posicionamento de esquerda ao governo na época. Estes temas também são comuns no conjunto de textos do autor e se revelam marcantes da sua trajetória política durante a juventude. Além disso, o autor caracteriza como utópicos e românticos os ideais que tinha juntamente com os demais colegas do ‘aparelho’ comunista e o seu posicionamento de esquerda, porém afirma a existência de uma esquerda que “evoluiu” e outra que explora corruptamente o governo, a qual seria representada por Lula e seus aliados. Nas próprias palavras de Jabor, no texto “A volta do bode preto da velha esquerda” (JABOR, O Estado de S. Paulo, 31 ago. 2010): Escrevo isso porque acho que a luta de hoje é entre a verdadeira esquerda que amadureceu e uma esquerda que quer continuar a bobagem, não por romantismo, mas porque o Lula abri-lhes 261 as portas para a lucrativa pelegagem”. Nota-se, ainda, que ao inserir as citações na teatralização, o autor não costuma utilizar verbos dicendi que marquem total certeza. De modo geral, as citações são antecedidas por verbos de introspecção ou de pouca certeza, como “pensar”, “achar”, “parecer”, “perguntar”, “responder”. Essa marca é representativa em um conjunto de textos analisados. Além de serem utilizados para inserir a autotextualidade, é comum o uso desses verbos de pouca certeza anteriormente às citações de trechos constituídos pelo próprio autor e atribuídos a outras vozes, as quais também conferem a teatralidade aos textos. Este trecho exemplifica o posicionamento do colunista, que também pode ser verificado pela autotextualidade trabalhada entre as diferentes vozes do autor neste texto, uma encenada no passado, quando fazia parte da esquerda militante e outra, no presente, quando critica as práticas da “velha esquerda” que atualmente está no poder, segundo o autor. Por essas marcas, a postura pessoal se revela como um dos principais elementos de constituição do estilo de Jabor.

2. Considerações finais

261 sic

716

Por meio dessas análises, é possível notar como o autor confia na sua experiência pessoal para

a construção de seus textos. Há grande recorrência da inserção da voz alheia a partir da sua própria memória e dos seus relacionamentos pessoais, sempre permeados por determinados fatos relacionados à história política do país.

A autotextualidade como elemento de teatralidade acontece num grande número dos textos e ocorre de diferentes maneiras: pela citação dos próprios pensamentos e de trechos de diálogos que Jabor recompõe a partir de uma memória pessoal, além da citação de partes de seus próprios textos, de modo geral, sem fazer remissões explícitas. Como recorrente, as experiências pessoais do autor em questão fundamentam a visão crítica do deste acerca da política e da sociedade brasileira atualmente, e são contadas de modo que conferem essa teatralidade ao texto.

É possível afirmar que a teatralidade, nas crônicas do autor, produz uma proximidade com os

leitores, não apenas pelo fato de conferir dinamismo ao texto, mas por promover um processo de intimidade com o autor. Este, ao relatar suas brincadeiras de adolescência, seus namoros e casos da juventude revela um ethos sonhador, que apreciava o mundo com sensibilidade e curiosidade. No jogo de transição entre ethos de sensibilidade para um de rigidez na observação dos fatos,

o autor assume, no segundo momento do texto, depois que comenta sobre a Ditadura Militar,

uma tonalidade mais áspera e direta e um ethos experiente e de “casca grossa”, situação

causada pelas vivências com a política brasileira.

REFERÊNCIAS

DISCINI, N. O estilo nos textos. São Paulo: Contexto, 2009. FIORIN, J. L. Em busca do sentido: Estudos discursivos. São Paulo: Contexto, 2008. GREIMAS A. J.; COURTÉS, J. Dicionário de semiótica. Vol. I. Trad. Alceu Dias de Lima et alli. São Paulo: Cultri,. 1989. JABOR, A. O camarada de nariz cor-de-rosa. O Estado de S. Paulo. 6 abr. 2010. A volta do bode preto da velha esquerda. O Estado de S. Paulo. 31 ago. 2010. KOCH, I.G.V. Argumentação e linguagem. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2008. MAINGUENEAU, D. O contexto da obra literária. São Paulo: Martins Fontes, 1995. A propósito do ethos. In: MOTTA, A. R.; SALGADO, L. (org.) Ethos discursivo. São Paulo: Contexto, 2008.

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WEIRINCH, H. (1964). Tempus. Besprochene und Erzähite Welt. Trad. esp. Ed. Gredos, Madrid, 1968.

718

718 FOLDER INSTRUCIONAL: UM MÉTODO GRÁFICO-TEXTUAL POTENCIALIZADOR NA APREENSÃO DE INFORMAÇÕES Juliana Serafim

FOLDER INSTRUCIONAL: UM MÉTODO GRÁFICO-TEXTUAL POTENCIALIZADOR NA APREENSÃO DE INFORMAÇÕES

Juliana Serafim Universidade Federal de Pernambuco (UFPE/PIBID-CAPES) Pedro Simões Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

1. Introdução

Apresentamos neste trabalho um estudo sobre campanhas governamentais de trânsito veiculadas em folders instrutivo-educativos que foram elaborados e que são distribuídos pelo Departamento de Trânsito do Estado de Pernambuco (DETRAN-PE), tendo como objetivo central a investigação do modo como os folders possibilitam a construção didático-educativa de informações por meio das campanhas que eles veiculam. Essas informações são quase sempre encapsuladas em linguagens complicadas e de difícil acesso, como é o caso das legislações de trânsito, por exemplo, o que dificulta o contato da população em geral com as leis que regem a organização do trânsito. Daí, iremos nos debruçar sobre o suporte textual folder com a intenção de compreender sua configuração e os artifícios que ele permite ao Governo lançar mão para tornar a informação mais acessível e orientar a construção de sentido.

Para isso, tomamos como âncora teórica estudos em suportes e gêneros textuais constituídos a partir de uma perspectiva sociorretórica e multimodal, haja vista a necessidade de compreender os gêneros como formas tipificadas e retóricas de ação social, que se

719

constituem em situações recorrentes de uso e que organizam as atividades humanas e os suportes como os ambientes nos quais todo gênero textual é veiculado, permitindo ao texto/discurso sua circulação na sociedade. Esse pensamento toma como certo que os gêneros nos guiam no processo de compreensão e ação no mundo, e por isso se apresenta como relevante na medida em que podemos com ele entender o modo como as campanhas governamentais de trânsito são configuradas para que haja uma orientação social de sentido que extrapole as complicações das regras de trânsito encapsuladas na legislação e que torne a informação mais acessível.

Pensando assim, é necessário ter em mente também que um estudo dos diferentes suportes nos quais essas campanhas são veiculadas contribui para o entendimento de como tais campanhas circulam na sociedade, como podem alcançar grande massa social e possibilitar uma elaboração didática das informações. Assim, tomamos o folder como um suporte textual que, diante de sua configuração, permite ao Governo do Estado a veiculação didática de informações com o objetivo de instruir a população acerca do agir no trânsito. As análises dos folders se darão a partir do que vem sendo estudado acerca da Multimodalidade Discursiva (KRESS & VAN LEEUWEN, 1996; DIONISIO, 2005; MOZDZENSKI, 2008; ALMEIDA, 2008), bem como da questão do suporte textual (MARCUSCHI, 2003, 2008; BEMQUERER, 2008). É importante destacar que não estamos em busca de discutir, neste estudo, questões acerca da natureza dos folders – se se tratam de suportes textuais ou gêneros textuais. Sabemos bem que esses tipos de questões são bastante discutidos nos estudos em gêneros e suportes e que apresentam complicações e falta de conclusões entre os estudiosos da área, mas não é nosso objetivo uma tentativa de esgotamento do tema e uma possível “compreensão conclusiva” – se é que isso é possível no plano da investigação científica – da questão.

Nosso corpus é constituído de dez folders que foram elaborados pelo DETRAN-PE, mas apenas um será aqui explorado no decorrer da análise, tendo em vista as limitações de espaço deste trabalho. Nestes folders analisaremos os aspectos que compõem sua configuração e que permitem a organização e realização social do gênero (aqui, a campanha governamental), lançando mão de conceitos e ferramentas analíticas difundidas na Multimodalidade. Esta sociedade da informação na qual estamos mergulhados, e que vem se firmando a cada dia, apresenta-se cada vez mais visual, como aponta Dionisio (2005), em que as imagens e outros diferentes tipos de texto/discurso têm ganhado espaço. E, diante dessa realidade, percebemos que as campanhas veiculadas nos folders se apresentam marcadamente

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como campanhas semioticamente híbridas, o que apenas conta a favor de uma melhor didatização e possibilidade de acesso às informações. Disso, chegamos à importância dos estudos em Multimodalidade, que buscam contemplar os fatores diversos que contribuem para a constituição dos textos de nossa sociedade atual. Este estudo, assim sendo, se apresenta como relevante na medida em que busca investigar a ação dos gêneros textuais em suportes de comunicação – os folders instrutivos, neste caso – que permitem a circulação social de informações bastante importantes no tocante à orientação quanto às leis de trânsito e suas configurações, dando-se isso a partir do uso de hibridismos semióticos e linguagens diversas na composição dos textos/discursos.

2. Considerações sobre suportes textuais: quando o gênero é veiculado socialmente

Neste trabalho, tomamos como ponto de partida a noção de que os suportes textuais veiculam socialmente gêneros de natureza escrita, e também visual, de maneira que se entenda que todo gênero é veiculado em um suporte, que lhe permite circulação na sociedade. Este pensamento foi desenvolvido por Marcuschi em seus trabalhos (2003, 2008) acerca dos suportes textuais e são ainda pouco esclarecidos e discutidos, como lembra o próprio linguista. De todo modo, a tese central é a de que “todo gênero tem um suporte” (MARCUSCHI, 2003, p. 09) e que com um estudo acerca de suportes textuais nós temos condições de compreender o modo como os gêneros ganham circulação no meio social. Antes de discutirmos de forma mais pontual a questão do suporte, pensamos ser necessária uma abordagem dos gêneros e do modo como eles contribuem para a reprodução da estrutura social e orientação de sentido.

Ao desenvolver a teoria da dualidade da estrutura, Giddens (2003) entendeu que a construção da sociedade se dá a partir da relação existente entre a estrutura social e as ações humanas, ou seja, que a estrutura social não é um dado determinado com o qual mantemos uma relação passiva, ao mesmo tempo em que não são apenas nossas ações as responsáveis pela construção da sociedade: nosso agir no mundo reproduz a estrutura social e também contribui para sua constituição. Esse pensamento aparece como relevante para a realização deste trabalho na medida em que tem como certo que a estrutura social não é um dado à parte da ação humana. Tendo em vista que nossas ações são atravessadas pela linguagem e organizadas em forma de gêneros textuais (MARCUSCHI, 2007, 2008; MILLER, 2009; BAZERMAN, 2009), entender que a sociedade se constitui por esta via de mão dupla –

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construção social reprodução social – é fundamental para compreender também as funções que os gêneros desempenham em determinada cultura.

Para isso, entretanto, faz-se necessário pensar os gêneros como formas de ação e não como instrumentos estanques que se “estruturam” culturalmente. Segundo Marcuschi (2008), ao discutir os gêneros do discurso como tipos relativamente estáveis, Bakhtin (1997) pareceu estar mais preocupado com a questão da relatividade do que com a questão da estabilidade dos gêneros. Porém, grande parte dos estudiosos que deram continuidade aos estudos bakhtinianos enfatizaram no caráter estável e estanque dos gêneros, de modo a deixar de lado as funções que esses desempenham no meio social. Os trabalhos desenvolvidos por Carolyn Miller e Charles Bazerman, nos Estudos Retóricos de Gêneros (ERG), rompem com este pensamento estrutural em vista da compreensão das ações retóricas dos gêneros no mundo. Por isso caracterizá-los como formas tipificadas de ação, como “frames para a ação social” (BAZERMAN, 2006, p. 23, grifo do autor) e por isso, também, apontar que conhecer um gênero e agir por meio dele significa compreender nossa atuação na sociedade.

Desta compreensão, entendemos que mais do que tornar específica uma análise da similaridade que pode haver entre as formas que os gêneros possuem, devemos observar o modo como os gêneros são postos em situações reais e recorrentes de uso, tal como bem nos diz Marcuschi (2008). Miller (2009) aponta a recorrência não como algo simplesmente materialista, mas sim, como uma forma similar ou análoga a outras situações. É pelo fato de serem recorrentes que os gêneros, ao invés de se estruturarem, se estabilizam na sociedade. Tomando o objetivo de entender o modo como o suporte textual folder dispõe de possibilidades que permitem ao Governo a construção didática e de “fácil” entendimento de informações de trânsito em suas campanhas, nós precisamos nos ater, neste estudo, não apenas às características formais que esse gênero (campanha governamental) possui, mas, antes de tudo, ao impacto social que tal gênero causa e aos sentidos que ele orienta por meio de sua circulação no folder instrutivo-educativo, que pode potencializar o processo de compreensão a partir de sua configuração e de seu alcance social.

Nesta mesma linha, Marcuschi (2008) discute a natureza sociocognitiva dos gêneros, pois nossas ações de linguagem são ações que operam na interface cognição-sociedade. Assim, podemos entender os gêneros como enquadres sociocognitivos; como os modos que organizamos os elementos discursivos e cognitivos que se fazem fundamentais para que possamos nos inserir nas mais diferentes situações de uso. Os postulados de Marcuschi são de

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fundamental importância, já que não percebemos as ações sociais desvinculadas do caráter cognitivo. Para isso, é necessário compreender, sobretudo, que a cognição não é um estado mentalista e individual, mas sim, uma construção social e que os gêneros nos orientam sociocognitivamente em nossas ações mundanas (MARCUSCHI, 2007, 2008).

Dionisio (2005), em estudos sobre multiletramento e gêneros multimodais, alerta-nos para a realidade dos gêneros também como artefatos multimodais, além de seu caráter sociocognitivo e retórico. Esta estudiosa toma como certo a natureza multimodal dos gêneros a partir dos estudos da Semiótica Social, desenvolvidos por Gunther Kress e Theo van Leeuwen. Para eles, toda ação de linguagem se dá a partir de semioses múltiplas, que não se limitam apenas à técnica da escrita para que possa se realizar. A escrita é vista, assim, apenas como um dos modos de representação textual que pode compor informações (KRESS & VAN LEEUWEN, 1996; DIONISIO, 2005). Isso mostra que a leitura deixa de ser um simples modo de decodificação e emerge enquanto atividade cognitiva de produção de sentidos que pode se realizar mediante diferentes formas de texto/discurso, ou diferentes gêneros, como ilustrações, gráficos, tabelas, desenhos, palavras etc.

Neste rumo, entendemos que os gêneros, enquanto formas tipificadas de ação retórica, que se constituem de diferentes formas de linguagem, o que faz deles artefatos multimodais (DIONISIO, 2005), ganham espaço e se realizam na sociedade a partir dos ambientes físicos que permitem sua veiculação, ou seja, os suportes textuais, tendo em vista que todo gênero é veiculado em um suporte (MARCUSCHI, 2003). Em vista disso, o folder será aqui trabalhado como um suporte textual que pode veicular variados tipos de gêneros, como convite, campanha governamental, guia de instrução, programação de evento etc. Essa discussão, em todo caso, assim como outras que envolvam questões desta natureza, é um tanto complexa, já que alguns teóricos acreditam serem os folders objetos que se constituem como gêneros e não como suportes. Mesmo diante dessa constatação, não iremos nos deter neste estudo a uma discussão – talvez enfadonha – que busque travar a definição de folder como gênero ou suporte. Desse modo, seguiremos o posicionamento de Marcuschi (2008), que assim postula:

Tudo indica que o folder pode ser tido como um suporte de gêneros diversos, embora haja quem o trate como gênero. Admitindo que o folder é um suporte que porta gêneros tais como campanhas publicitárias, campanhas governamentais, publicidades, instruções de uso, currículos, prospectos e assim por diante. Existem folders com mais de um gênero. Mas a questão do folder não é clara e há pouco consenso sobre o caso (MARCUSCHI, 2008, p. 182, grifos do autor).

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O suporte textual é um espaço de formato convencional e específico criado para

veiculação de textos, podendo ser de natureza incidental em alguns casos. Suportes incidentais são ambientes que não tem como propósito a veiculação de um gênero. Um simples exemplo pode ser o caso dos muros que, mesmo não tendo sido criados com a pretensão de serem espaços que portem gêneros, podem assim serem vistos no momento em que textos de gêneros específicos forem neles veiculados. Os grafites, por exemplo, enquanto gêneros textuais, que são postos em muros de uma cidade, findam por caracterizar tais espaços, de modo incidental, como suportes textuais. Marcuschi (2008b), em estudos acerca de suporte textual, como foi dito anteriormente, lembra que este tema é complexo e não muito bem esclarecido entre estudiosos da área. Há quem defenda que determinadas coisas são gêneros, enquanto que há quem advogue por uma caracterização de tais coisas como suportes.

O folder é um caso de suporte convencional, haja vista que sua configuração se dá

com objetivos delimitados e específicos, seja para qualquer tipo de gênero que venha a ser nele veiculado. As campanhas governamentais de trânsito tomadas para análise neste artigo são elaboradas com propósitos sociorretóricos muito específicos, assim como todo gênero textual. E para que tais propósitos possam ser alcançados, essas campanhas são veiculadas nos folders de forma estratégica, já que eles se constituem enquanto um suporte que pode alcançar ampla circulação social.

Diante do que foi aqui explanado, podemos concluir que, pensando a sociedade ao passo da teoria da dualidade da estrutura de Giddens (2003), os gêneros textuais são formas de ação plásticas e dinâmicas, de natureza multimodal, que se situam historicamente em situações recorrentes de uso sociorretórico, que organizam nossas ações no mundo e, consequentemente, que contribuem para a organização da estrutura social, de modo que eles ao mesmo tempo em que interferem nas atividades humanas, são também interferidos por elas. E, para entender a circulação dos gêneros em uma dada comunidade, é preciso também entender como os suportes nos quais eles aparecem veiculados são constituídos e configurados: “a discussão sobre o suporte nos leva a perceber como se dá a circulação social dos gêneros” (MARCUSCHI, 2003, p. 10). No caso dos folders, discutiremos mais pontualmente, no próximo tópico, sua configuração a partir do estudo que realizaremos das campanhas governamentais neles veiculadas.

724

3. O folder instrutivo: a configuração de seus elementos na construção da informação

Os folders de trânsito distribuídos pelo Departamento de Trânsito de Pernambuco, e aqui selecionados para análise, possuem, claramente, caráter didático. Sua elaboração e divulgação visa maior disseminação das informações através de mensagens de “fácil” compreensão, que permitem aos sujeitos uma forma mais acessível às ordens que determinam as leis que compõem a legislação de trânsito. E essas mensagens são sempre constituídas de semioses diversas, com textos verbais aliados, geralmente, a textos visuais, o que apenas facilita o processo de compreensão a partir das orientações de sentido que tais mensagens possibilitam. Segundo Dionisio (2005), para a Teoria da Cognição da Aprendizagem Multimídia, os textos compostos de imagens e palavras possibilitam maior aprendizado por parte dos sujeitos se comparados aos textos que são constituídos apenas de imagens. Partindo deste pressuposto central, e também de que a escrita é apenas uma das formas de representação e constituição textual, como defendem Kress e van Leeuwen (1996) no estudos da Semiótica Social, discutiremos agora o modo como os folders se constituem e possibilitam às campanhas governamentais de trânsito a veiculação didática de informações.

fazermos a seleção, tanto dos signos quanto dos

modos de organização, visamos à eficiência da expressão e da comunicação.” (AGUIAR, 2004, p. 56), ou seja, para a realização deste estudo, faz-se importante observar nas análises o modo como os diferentes signos que compõem os textos se organizam. Esta investigação é

norteada pelos trabalhos em Multimodalidade Discursiva e Semiótica Social, lançando mão de ferramentas e categorias analíticas que emergiram em Kress & van Leeuwen (1996) e sua Gramática Visual e que foram amplamente desenvolvidas em trabalhos da área por Dionisio (2005), Almeida (2008) e Mozdzenski (2008). Estes trabalhos apontam para uma organização metafuncional na construção de significados através do que foi proposto por Halliday (1994), na Linguística Sistêmico-Funcional (LSF), acerca das funções ideacional, interpessoal e textual. A partir dessas funções, Kress & van Leeuwen (1996) nos apresenta os seguintes olhares de análise multimodal: representacional, interativo e composicional, sendo esse último o que será levado em conta no decorrer das análises, haja vista que com ele nós podemos compreender a organização/combinação dos elementos visuais de determinada imagem e, nesta linha, a integração dos diferentes elementos que compõem o texto, entendendo como tais elementos mantém uma interação coerente entre si. Dentro do principio composicional, há três sistemas inter-relacionados: a) Valor informacional; b) Saliência; c) Estruturação.

Com isso, entendemos que ao “[

]

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Com o valor informacional, entendemos o valor de informação de determinada imagem, sendo ele estabelecido pelo posicionamento dos elementos dentro da composição visual. Neste ponto são considerados critérios como esquerda/direita; centro/margem; topo/base. Analisando a saliência, a ênfase é dada ao grau de importância que determinada imagem possui dentro da composição visual, de modo a perceber a hierarquia estabelecida entre as imagens na situação analisada. Neste sistema, fatores como intensificação ou suavização de cores; contrastes; brilhos e superposição são dados importantes na construção de sentido da imagem. Já a estruturação concentra o modo como os elementos estão interligados ou não, em determinado gênero gráfico-textual e através do tipo de conexão:

plano de fundo, linhas, cores etc.

Com as análises de todos esses componentes, que emergiram nos trabalhos de Multimodalidade, esperamos compreender o modo como o folder se configura e permite o desencadeamento das ações sociorretóricas do gênero campanha governamental. Iremos nos voltar, agora, para o folder selecionado para discussão analítica.

agora, para o folder selecionado para discussão analítica. Folder Departamento de Trânsito do Governo do Estado

Folder Departamento de Trânsito do Governo do Estado de Pernambuco

Os primeiros elementos a serem analisados são os recursos semióticos que compõem o texto, como por exemplo, as cores e o letreiramento. Com relação ao primeiro, verificamos

726

que as cores utilizadas, como o azul em diferentes tons, trazem uma noção de identidade do folder com o órgão responsável por ele, nesse caso o DETRAN-PE. Isto auxilia na ligação direta que o público alvo faz entre o responsável pelo material (e todas as evocações sociais que este tem como símbolo que é) e o folder instrutivo. As outras cores como vermelho, laranja e amarelo são empregadas a fim de chamar a atenção do público para a chamada “Turminha do Fonfon”, já que são cores vibrantes. Já a indumentária das personagens é listrada – preto e branco - com o objetivo de simbolizar a faixa de pedestres, de uso tão recomendado pelo DETRAN. Observando o suporte, nas bordas do folder nota-se que além da utilização da cor azul (já compreendida aqui anteriormente), tem-se a presença das cores verde, amarelo e vermelho. Essas trazem a simbologia do Governo do Estado de Pernambuco o qual utiliza essas cores em diversas campanhas publicitárias. Isso traz um caráter de identidade do folder com o Estado e suas ações.

Observando o segundo recurso semiótico destacado aqui, analisamos o letreiramento na construção do folder. Com relação ao emprego da cor, este recurso está devidamente empregado, contrastando com plano de fundo e em harmonia com todos os outros elementos do folder. Os títulos em caixa mais alta com relação ao corpo do texto fazem com que o publico alvo atente para a informação tida como “mais importante” com rapidez e eficácia. A fonte, devidamente aplicada, também é condizente com a proposta.

Partindo para os sistemas inter-relacionados com o princípio do valor composicional – a) valor informacional, b) saliência; c) estruturação – analisamos duas imagens do folder:

imagem (1), localizada na parte inferior do primeiro quadro e imagem (2), localizada no terceiro quadro do folder. Segundo os postulados de Kress & Van Leeuwen (1996) sobre o valor informacional, temos do lado esquerdo o que chamamos de dado, nomenclatura aplicada à informação já conhecida. Já as imagens que estão do lado direito, aplicamos ao conteúdo que possui um novo conceito, algo ainda desconhecido, uma nova informação. Outro elemento importante quanto ao posicionamento dos elementos é o conceito de topo/base, o que está na parte superior da composição visual chamamos de ideal e na parte inferior se encontra a parte que chamamos de real, sendo que este apresenta a informação concreta, enquanto que aquele possui uma possibilidade de concretude.

Em (1), notamos inicialmente que a personagem representada está fazendo malabares com garrafas de bebidas e celulares, como maneira de entretenimento, distração. Seu posicionamento, localizado na parte inferior do quadro, faz com que a imagem e a ação de tal

727

personagem da ‘turma do Fonfon’ ganhe a denotação de realidade e os objetos utilizados como entretenimento sejam colocados no mesmo patamar de distração. O fato de a imagem estar posicionada do lado direito do quadro corrobora ainda mais para esse teor de realidade e traz um novo olhar sob o uso de celular no trânsito. Isto faz com que a leitura da imagem oriente o sentido do leitor para notar o uso do celular como uma forma de distração no trânsito mortal, tal como o é o uso de bebidas alcoólicas.

Ainda em (1), do ponto de vista da saliência, que trata da utilização de alguns recursos semióticos dentro da construção de sentido da imagem, como por exemplo, cores, contraste, plano de fundo, sobreposição etc., podemos observar a utilização de cores fortes, vibrantes que chamem a atenção dos leitores, como o amarelo, laranja e vermelho, Além do vestuário da personagem, fortemente marcado pela utilização de listras – pretas e brancas – a fim de trazer a simbologia da faixa de pedestre a construção e identificação da personagem.

Já com relação ao terceiro sistema – estruturação – abordado pelo princípio norteador desta investigação, trabalhamos com a noção de conexão. Para um melhor entendimento, citamos Kress & van Leeuwen (apud ALMEIDA, 2008, p. 08):

A conexão é criada toda vez em que as conjunturas que marcam as unidades distintas dos textos visuais estão ausentes. Diz-se, então, que a imagem possui uma estruturação fraca, já que seus elementos estão interligados em fluxo continuo, através de cores e formas semelhantes, vetores conectivos, ou seja, em função da ausência de linhas de estruturação, o que evoca um sentido de identidade de grupo.

Diferentemente do conceito de conexão, temos a desconexão, que segundo Almeida (2008) é criada pela presença de elementos de saliência, imprimindo assim um sentido de individualidade e diferenciação à imagem (estruturação forte). Sendo assim, podemos afirmar que o conceito de conexão em (1) é de estruturação fraca, pois todos os seus elementos estão interligados em um fluxo contínuo através dos recursos semióticos que compõem todo o gênero.

Inicialmente levando em consideração o primeiro sistema da função composicional, partimos para a análise da imagem (2) quanto ao seu valor informacional. Observa-se o posicionamento da imagem com relação ao quadro: enquadramento mais posicionado para o lado esquerdo e na parte inferior do quadro. Como já dito anteriormente, do lado esquerdo temos o que chamamos de dado e isso remete a uma informação já conhecida. Ao articular essa noção à imagem, verificamos uma consonância entre as duas. Já que, como se pode perceber, a imagem traz a cena de um acidente provavelmente causado pelo uso de bebida

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alcoólica (representada na mão da personagem da “Turma do Fonfon”) e posteriormente pelo ato de dirigir. Essa “progressão” de fatores, como já é conhecida e vinculada pelos órgãos de trânsito, resulta em acidentes em diversos níveis.

Abordando a saliência nesta imagem, nota-se o uso de cores vibrantes no vestuário da personagem, também a fim de chamar atenção do público leitor. A escolha da cor majoritariamente empregada, o vermelho, está condizente com a harmonia do texto, já que contrasta com o fundo e traz uma ideia de sobreposição, de ênfase. Um elemento que chama atenção é o chapéu da personagem, que representa um cone. Na linguagem de trânsito, o cone se tornou um símbolo de advertência, transformando-se em uma convenção social. Quanto à conexão, podemos dizer que esta imagem também possui uma estruturação fraca, já que, diante da realidade do suporte, a imagem está ligada a todos os elementos de forma contínua, evocando um sentido de identidade (cores, vetores, estruturação etc.).

Com estas análises, podemos perceber como a campanha de trânsito do Governo do Estado de Pernambuco se organiza textualmente, de modo que, a partir de todos os componentes semióticos que constituem o discurso, haja orientação de sentido e haja também uma significação da realidade, tal como pensa Fairclough (2008) ao apontar que os discursos significam a realidade e reproduzem a estrutura social. Assim, mais que representar ou espelhar realidades, essas campanhas vão significando o mundo, construindo situações que possam levar os leitores a compreender a importância de determinadas orientações de trânsito que muitas vezes se encapsulam em linguagens complexas, como é o caso da linguagem das leis de trânsito.

Considerações finais

Com a realização deste trabalho, pudemos compreender o modo como o folder se organiza enquanto suporte textual e como possibilita a realização de gêneros textuais, aqui a campanha governamental de trânsito, a partir dos aspectos multimodais que constituem os textos/discursos. Assim, podemos concluir que se apresentam relevantes e importantes estudos em suporte textual, pelo fato de que com eles nós entendemos a circulação dos gêneros na sociedade, tendo em vista as funções retóricas que tais gêneros desempenham. E, para isso, os trabalhos em multimodalidade são fundamentais, já que os hibridismos semióticos estão por toda parte e contribuem para a construção da orientação de sentido. Isso

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mostra como estamos imersos em uma sociedade em que as informações se apresentam de

forma bastante rápida e constante, o que levam os textos a se constituírem de variadas

semioses, que apenas contribuem para um melhor e potencial acesso da população às

informações.

REFERÊNCIAS

AGUIAR, V. T. O verbal e o não verbal. São Paulo: Unesp, 2004.

ALMEIDA, D. B. (org.). Perspectivas em análise visual: do fotojornalismo ao blog. João Pessoa: Editora da UFPB, 2008.

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BAZERMAN, C. Gêneros, agência e escrita. São Paulo. Cortez, 2006.

Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo. Cortez, 2009.

DIONISIO, A. Gêneros multimodais e multiletramento. In: KARWOSKI, A.; GAYDECZKA, B. & BRITO, K. (org.) Gêneros textuais: reflexões e ensino. Palmas e União da Vitória. Kaygangue, 2005.

FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Brasília. UnB, 2008.

GIDDENS, A. A constituição da sociedade. São Paulo. Martins Fontes, 2003.

KRESS, G. & VAN LEEUWEN, T. Reading images: the grammar of visual design. New York. Routledge, 1996.

MARCUSCHI, L. A. Cognição, linguagem e práticas interacionais. Rio de Janeiro. Lucerna,

2007.

A questão do suporte dos gêneros textuais. Língua, linguística e literatura. 2003, v. 1, n.1, pp. 9-40.

Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo. Parábola, 2008b.

MILLER, C. Estudos sobre gênero textual, agência e tecnologia. Recife. UFPE, 2009.

MOZDZENSKI, L. Multimodalidade e gênero textual: analisando criticamente as cartilhas jurídicas. Recife. UFPE, 2008.

730

730 LEITURA E INTERTEXTUALIDADE NO LIVRO DIDÁTICO DE PORTUGUÊS Adriana Letícia Torres da Rosa Universidade Federal

LEITURA E INTERTEXTUALIDADE NO LIVRO DIDÁTICO DE PORTUGUÊS

Adriana Letícia Torres da Rosa Universidade Federal de Pernambuco José Batista de Barros Universidade Católica de Pernambuco

1. Nosso percurso na análise de práticas de leitura

Ler é numa primeira instância possuir elementos de combate à alienação e

O ato de ler se constitui num instrumento de luta contra a

A leitura, se efetuada dentro de moldes críticos, sempre leva á

produção ou construção de outro texto: o texto do próprio leitor. Em outras palavras,

a leitura crítica sempre é geradora de expressão: o desvelamento do próprio SER do leitor, levando-o a participar do destino da sociedade a qual ele pertence. EZEQUIEL SILVA

ignorância. (

)

)

dominação. (

Entender e contribuir para o processo de formação do leitor é, sem dúvida, uma ação de interesse dos educadores, sobretudo daqueles do domínio das Letras, sejam professores, sejam pesquisadores. O desenvolvimento da proficiência em leitura é de suma importância no estudo de língua materna. O trabalho com as práticas de leitura envolve o aprimoramento dos processos cognitivos de mobilização e articulação de conhecimentos de mundo, dentre os quais os enciclopédicos e os linguístico-textuais, que contribuem para a compreensão e interpretação da linguagem situada em contextos sociointerativos. No âmbito escolar, a educação em leitura, na nossa perspectiva, não só permite ao aluno habilitar-se na produção de sentido no seu contato autor-texto-leitor, como também participar de práticas sociais, acessando os bens culturais que circulam na sua comunidade.

A intertextualidade é um fenômeno estreitamente articulado à produção de sentido da linguagem, pois

se instaura nas relações dialógicas humanas e é elemento constitutivo dos textos. Nesse sentido, reconhecer,

identificar, resgatar, fontes intertextuais dos textos com os quais nos deparamos em atividades de leitura é uma

ação de extrema relevância para (re)construção do sentido e, consequentemente, para formação do leitor.

731

Situado nesse campo de entendimento, este trabalho é um recorte do projeto de pesquisa “Relações

intertextuais no livro didático de português – o espaço dado ao conselho de autoajuda”, desenvolvido pela

pesquisadora Adriana Rosa, de 2008 a 2011, com apoio da Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade Federal de

Pernambuco no seu programa Enxoval para recém-doutor, tendo na equipe de trabalho a aluna bolsista Tamires

Maria de Oliveira (Programa Bolsa de incentivo acadêmico/ FACEPE) e o professor colaborados José Batista de

Barros. O referido projeto teve como propósito central investigar a abordagem do livro didático quanto ao

funcionamento intertextual do gênero conselho de autoajuda como desdobramento da tese de doutorado “Faces

do funcionamento intertextual do conselho de auto auja” (ROSA, 2008).

Com essa parte, objetivamos apresentar um estudo analítico das relações de intertextualidade

identificadas no trabalho pedagógico de leitura do livro didático de português. Assim, nesse momento,

pretendemos evidenciar as estratégias intertextuais exploradas pelos livros nos seus exercícios de leitura e

compreensão de textos, considerando, não apenas o conselho de autoajuda, mais também os variados gêneros

textuais abordados, observando a contribuição do material didático para a formação de leitores.

Tomando por base uma metodologia de caráter qualitativo, contudo apoiada em estudos quantitativos,

como objeto de análise, selecionamos atividades de 3 coleções de livros didáticos de língua portuguesa,

totalizando 12 exemplares, do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, aprovadas pelo Ministério da Educação do

Brasil através da avaliação do Programa Nacional do Livro didático – PNLD/2008:

CEREJA, William Roberto; Magalhães, Thereza Cochar. Português Linguagens. Editora Ática. SOARES, Magda. Português uma proposta para o letramento. Editora Moderna. TAKAZAKI, Heloísa. Linguagens no século XXI. Editora IBEP.

Os livros didáticos foram elencados como universo da pesquisa pelo fato desse material ser usado em

larga escala pelos docentes em escolas públicas e privadas brasileiras, e, considerando o contexto das primeiras,

por questões sociopolíticas mais amplas as quais não nos deteremos aqui em aprofundar, são em grande parte

apontados pelos professores como o material pedagógico mais presente em sala de aula.

Nossos referenciais teóricos aportam-se em autores que focam os aspectos sociais e discursivos da

linguagem na sua correlação com o estudo textual. Nesse bojo, destacamos os trabalhos associados à Teoria dos

Gêneros do Discurso (Bakhtin/Volochínov, 2002; Bakhtin, 2003); entre outros teóricos que concebem a

linguagem como forma de interação social, para citar alguns: Bazerman (2006, 2005), Freire (1986) Koch &

Elias (2008), Kleiman (2004), Marcuschi (2008), Rosa (2003, 2008), Silva (1991).

2. Leitura e intertextualidade: entendendo relações

uma atividade interativa altamente complexa de produção de sentidos, que se

realiza evidentemente com base nos elementos linguísticos presentes na superfície textual e na sua forma de organização, mas requer a mobilização de um vasto

conjunto de saberes no interior do evento comunicativo. Ingedore Koch e Vanda Elias

) (

Leitura. Aderimos a proposições teóricas voltadas para os estudos do letramento que concebem o ato

de ler como uma prática social de uso da linguagem situada em contextos comunicativos históricos. Nesse

732

sentido, ler significa muito mais que reconhecer um código linguístico e suas formas de decodificação, mas, sobretudo atribuir significados ao texto, envolvendo-se em um processo sociocognitivo de construção de sentidos mobilizados pelo diálogo com o outro. Por fim, ler, numa sociedade letrada, é ainda uma ação política, um exercício de cidadania, posto que com base nessa atividade é possível incluir-se socialmente ao acessar os bens culturais circulantes. Assim, na compreensão e interpretação textual, como nos lembram Marcuschi (2008) e Kleiman (2004), condições textuais, pragmáticas, interativas, cognitivas, bem como objetivos e expectativas de leitura vão influenciar. Relativo a isso, reforçamos que os conhecimentos prévios do leitor serão decisivos para construção do sentido textual: os conhecimentos enciclopédicos, dos gêneros textuais e das formas de textualização, entre outros.

Os conhecimentos dos gêneros textuais, por exemplo, crônica, carta, conselho, debate, notícia, favorecem ao leitor realizar inferências sobre os conteúdos temáticos, composições e estilos de um texto, entendendo-o como uma unidade de comunicação verbal. Em consonância, pois, com a teoria dos gêneros do discurso de Bakhtin (2003), ao interagirmos pela linguagem o fazemos por meio de um gênero: as diversas esferas sociais, em razão dos seus propósitos, elaboram suas formas relativamente estáveis de enunciados as quais trazem em si informações que vão além de elementos textuais, mas ligadas aos posicionamentos socais e às relações humanas em instituições da sociedade. Bakhtin, na sua concepção dialógica da linguagem, situa um gênero como um elo da comunicação verbal, o que evidencia o fenômeno dos enunciados de nascerem como resposta ao já dito; bem como pressupor uma futura resposta a nascer de outros enunciados àquele relacionados. Nesse contexto, nas releituras da obra bakhtiniana, Kristeva (1986) cria o termo intertextualidade para designar a propriedade que os textos têm de serem repletos de fragmentos de outros textos, sejam manifestos diretamente ou não, sejam inseridos conscientemente ou não, sejam aceitos quanto ao seu conteúdo ideológico ou não. Defendemos que o funcionamento intertextual é constitutivo dos gêneros, consequentemente dos textos circulantes na sociedade (cf. ROSA, 2008). Assim, trata-se de um elemento chave para o trabalho pedagógico: identificar estratégias de intertextualidade na leitura de um texto favorece o aprofundamento da compreensão e interpretação textual pela percepção das maneiras que um autor se vale para reestruturar e responder os textos do passado e ainda renovar e rearticular o repertório das práticas sociodiscursivas anteriores em novos contextos com novas funções comunicativas. Portanto, nessa perspectiva, o estudo de atividades pautadas na análise intertextual é linguagem basilar para formação de leitores competentes.

3. A relação entre textos nas atividades do livro didático

Ao analisar as questões de leitura, compreensão e interpretação de textos, dos livros didáticos observamos diferentes formas de abordagens das relações de intertextualidade, às quais enquadramos em categorias, junto a sua incidência, a saber:

Relação de texto lido com outro de gênero diferente (36%)

Relação do texto lido com outro do mesmo gênero (29%)

733

Exploração das referências manifestas/constitutivas apresentadas ou inferidas do próprio

texto (20%)

Relação do texto lido com protótipo do gênero ao qual se classifica (15%)

As porcentagens apresentadas respectivas às categorias citadas apontam que os livros didáticos

abordam diversas formas de estudo da intertextualidade nos seus exercícios de leituras, contudo algumas são

bem mais exploradas que outras. Sobre essa abordagem do LDP, faremos uma explanação, focando as categorias

por em ordem de frequência, apresentando exemplos e análises das propostas de atividades à luz da nossa teoria

de base.

I. Relação de texto lido com outro de gênero diferente

Nessa categoria, observamos propostas em que há uma orientação para que o aluno relacione

comparativamente textos de gêneros distintos. O objetivo envolve a identificação das características dos diversos

gêneros com base na busca de identidade ou divergências de entre elementos dos textos quanto a conteúdo;

ponto de vista dos autores; função social do texto; suportes e domínios discursivos onde circulam; como também

objetivos de leitura; conclusão dos leitores diante do conteúdo dos textos; contexto de publicação; dentre os

aspectos mais presentes. No exemplo (01), após a leitura de uma tira de Adão Iturrusgarai, publicada na Folha de

São Paulo em 2003, sobre crises de adolescentes questiona-se:

(01)

O humor da tira está em transpor para o mundo de hoje a história de Peter Pan, o menino que não queria crescer.

a) Na sua opinião, por que a menina afirma com tanta ênfase que não quer crescer?

b) Para você, nos dias de hoje, o que é melhor: ser adulto ou ser criança?

(CEREJA E MAGALHÃES / 6º ano, p.61)

O exemplo (01) mostra uma atividade de leitura que correlaciona textos quanto ao seu conteúdo

temático: conto de Peter Pan (lido anteriormente pelo estudante) e tirinha. Não há, nesse caso, uma reflexão

sobre as particularidades dos gêneros textuais em si, mas o foco está em abordar as temáticas comuns aos textos

trabalhados em sala. Na sua maioria, o enfoque quanto ao conteúdo caminha por essa linha de reflexão, deixando

de explorar as identidades intertextuais de conteúdo que podem existir entre os gêneros: por exemplo, o fato de

notícias, charges e reportagens tratarem num dado momento histórico dos mesmos fatos. No exemplo (02), a

seguir, as comparações entre textos visam a marcar identidades ou divergências quanto a pontos de vista sobre

um tema:

(02)

O modo de ver um produto falsificado é diferente na reportagem e na carta.

a) Na reportagem, tênis falsificado é pirataria. Para quem? Por quê?

b) Na carta, tênis falsificado é a realizações de um sonho. Para quem? Por quê? (SOARES / 7º ano, p.121)

Nesse exemplo, solicita-se que o aluno reconheça as opiniões e os fundamentos apresentados pelos

produtores dos textos, comparando-os. No caso em tela, primeiramente o aluno lê uma reportagem sobre a crise

da pirataria, produtos falsificados, no Brasil; posteriormente, lê uma crônica, em forma de carta, escrita com base

nessa reportagem. Comparando os textos, a divergência de ponto de vista sobre o tema é alvo de destaque. Em

outras atividades, o foco está na aproximação desse ponto de vista. Algo importante, quanto ao exemplo (02) em

734

particular, é que há uma preocupação da autora do livro didático em marcar redes de intertextualidade entre

textos do domínio jornalístico, evidenciando que um cronista (re)cria os fatos do cotidiano publicados na mídia,

seja imprimindo uma visão de adesão ou não ao que já foi noticiado, imprimindo uma crítica social, com o

intuito de sensibilizar os leitores.

(03)

Que semelhanças são possíveis de se estabelecer entre essa tira e o relato do professor Patrick Wajnberg, quanto:

a) À história contada?

b) À estrutura dos textos?

Que diferenças fundamentais podem ser apontadas entre os dois textos, quanto:

a) Ao aspecto ficcional?

b) À finalidade?

(HELOÍSA HARUE / 9º ano, p.15)

No exemplo (03), há uma comparação entre textos, um relato pessoal divulgado na internet e uma tira.

A proposta visa a explorar as identidades de conteúdo e aspectos formais relacionados à composição dos

gêneros, a tipologia textual narrativa. Também, num cruzamento de leituras, busca-se diferenciar os textos

quanto ao mundo ficcional ou real que os mesmos retratam e ainda à sua função social. Nessa atividade, há uma

abordagem significativa no que tange à percepção dos processos de relações entre gêneros na tentativa de se

caracterizar cada qual com base nas suas aproximações ou nos seus distanciamentos discursivos e textuais.

II. Relação do texto lido com outro do mesmo gênero

Nesse caso, as atividades de leitura partem para comparação de textos que podem ser enquadrados na

mesma classificação quanto ao gênero. Não tão distante da categoria anteriormente comentada, as indagações

abordam aspectos referentes a: conteúdo; ponto de vista (autor do texto; fontes citadas no texto); função social;

leitor presumido e reação que os textos despertam nos leitores; suporte e contextualização; grau de

informatividade dos textos; estrutura composicional do gênero.

(04)

As piadas que circulam tratam de uma grande variedade de temas. É claro que nem todos riem das mesmas coisas, somos capazes de rir de muitos assuntos, inclusive de problemas sérios como doenças ou morte e até de nossos próprios defeitos. (Seguem dois textos do gênero piada) Qual é o tema comum a essas piadas? (HELOÍSA HARUE / 6º ano, p.105)

Partindo da noção da identidade de conteúdo temático que os textos de um mesmo gênero

recorrentemente possuem, e da função social da piada, considerando os efeitos que esse gênero causa nos

leitores, questiona-se a respeito um tema “sério” como o da “morte”, que é trabalhado com “humor” na anedota,

abordado os dois textos apresentados para leitura. O conteúdo temático, e como esse é tratado no texto, dá pistas

aos leitores de como identificar um gênero textual, assim a atividade contribui para o reconhecimento dessa

propriedade dos textos. Contudo, nem sempre a abordagem segue tal direcionamento, em muitas das questões,

apenas se requer do aluno a comparação entre textos do mesmo gênero para verificar como tratam da mesma

temática, sem que haja uma reflexão sobre o próprio caráter social e discursivo desse gênero.

(05)

735

- Os dois autores usam o termo desnecessário, para se referir ao uso de palavras e

expressões inglesas, mas é diferente o que cada um considera desnecessário: qual é a

diferença?

- Os autores têm opiniões diferentes quanto à relação do povo brasileiro com o uso frequente de palavras e expressões inglesas. Qual é a opinião de cada autor? (SOARES / 7º ano, p.72)

Quanto ao exemplo (05), após ler dois artigos de opinião sobre o mesmo tema, “uso de

estrangeirismo”, questiona-se sobre as diferenças de opiniões entre os autores dos textos. Trabalhando aspectos

da argumentação e da tomada de posicionamento do leitor frente às suas leituras, o exercício como um todo

orienta os estudantes a um debate para possam assim formar também suas opiniões. Tendo por base a nomeação

dos textos lidos como “textos argumentativos”, os alunos poderão inferir que além da temática, a organização

tipológica e o propósito comunicativo dos textos se aproximam, e, portanto, ambos se relacionam por

comungarem da mesma categoria.

O foco comparativo na leitura, por vezes, está na identificação das marcas típicas de cada gênero, para

que os alunos reconheçam a funcionalidade interacional da linguagem, seus processos de recepção e produção:

(06)

Leia e veja estes poemas: (Seguem três textos do gênero poema, estilo concretismo) 1. Estes poemas apresentam diferenças em relação aos que você leu em capítulos anteriores. Na sua opinião, eles foram feitos para serem apenas lidos? (CEREJA E MAGALHÃES / 7º ano, p.112)

No exemplo (06), abordam-se as marcas típicas, e também, traços estilísticos particulares de tipos de

poemas distintos: o “convencional” e o “concreto”. Nesse caso, a leitura associa poemas cujos traços visuais são

representativos de sua estética, mostrando que diferem dos poemas que até então os alunos tiveram acesso na

própria coleção de livros didáticos. Evidenciam-se também na atividade os processos de leitura envolvidos nas

duas formas de produção de poemas. Essa comparação entre textos do mesmo gênero é de fundamental

importância para percepção de que há espaço para dinamicidade e plasticidades quando o assunto é gênero

textual.

III. Exploração das referências manifestas e constitutivas apresentadas ou inferidas do próprio texto

Sem dúvida, quanto à exploração de referências intertextuais, o uso do discurso citado, direta ou

indiretamente, foi o mais freqüente nos exercícios de leitura. Contudo, outras formas de retomada intertextual

foram evidenciadas, mesmo que em menor escala como é o caso da intertextualidade por alusão, menção e

referências bibliográficas, ou ainda relações constitutivas entre gêneros para citar as mais evidentes.

(07)

8- A reportagem cita quatro cientistas: Alan Dressler, Jill Tarter, Christian de Duve e Alan Sandage. a) Jill Tartes é astrônoma, os outros três são astrofísicos. Consultando um dicionário, encontre a diferença entre Astronomia e Astrofísica. b) Quais dos quatro cientistas apresentam argumentos para fundamentar suas afirmações? Que argumentos são apresentados? 9- Qual seria a opinião do autor do texto anterior (Onde estão os ETs) sobre os pontos de vista apresentados nesta reportagem a respeito da existência de ETs? (SOARES / 9º ano, p.22)

736

O exemplo (07) objetiva levar o aluno a reconhecer o uso do discurso citado como apoio

argumentativo em reportagem. O repórter Flávio Dieguez, autor do texto “A hora do encontro”, revista

Superinteressante (12/12/1999) vale-se da citação de diversos estudiosos sobre Astronomia e Astrofísica para

discutir a polêmica da existência ou não de vida fora da Terra. A questão 8 e a 9 discorrem sobre a

fundamentação dos cientistas sobre o tema, bem como a opinião do autor frente à polêmica posta. Nesse caso, o

uso do discurso citado é tido como fundamental para se confrontar opiniões e se tomar posicionamentos sobre os

temas sociais.

Observamos que há uma tendência em se abordar a intertextualidade manifesta ou constitutiva com

base na análise funcional do texto, contudo ainda verificamos resquícios da tradição pedagógica em exercícios

nos quais o discurso citado é trabalhado no sentido apenas formal, como em frases descontextualizadas em que

se pede para passar do discurso direto para o indireto sem que se considere a função desse processo.

(08)

4. No trecho: “A notícia subiu e desceu rapidamente os corredores do colégio,

atravessou as ruas do bairro, transpôs a sala dos professores e chegou à sala da diretora, que levantou e, em brado forte e retumbante, proclamou:”

a) Observe que a notícia “subiu e desceu” os corredores do colégio, saiu da escola e

voltou até chegar à sala da diretora. O que esse movimento de vai-e-vem sugere

quanto ao comportamento das pessoas diante da novidade?

b) A expressão “brado forte e retumbante” cria uma relação de intertextualidade com

outro texto bastante conhecido dos brasileiros. Qual é ele?

c) A palavra proclamar significa “anunciar, falar publicamente com solenidade”. Em

que situações ela geralmente é empregada?

d) Conclua: O que o narrador sugere quanto à fala da diretora ao empregar a palavra

proclamar e a expressão “brado forte e retumbante”? (CEREJA E MAGALHÃES / 8º ano, p.200)

No exemplo (08), após a leitura da crônica “O índio” de Edson Rodrigues dos Passos, há uma seção

de questões de interpretação textual. Dentre as questões, estão aquelas que dizem respeito à identificação de

relações entre textos: no 4º quesito, verificamos a abordagem da intertextualidade manifesta quando se pede para

o

aluno identificar a origem da expressão “brado forte e retumbante” constante na crônica e ademais reconhecer

o

porquê do seu uso no texto. Assim, a referência a textos alheios, crônica resgatando o hino nacional, é

apresentada como um elemento de construção do sentido da crônica lida: forma e função estão associadas para

identificação de novos significados em novos contextos de uso.

(09)

4. O texto nada mais é que uma descrição dos gráficos apresentados, com destaque

para os pontos que o autor julgou relevantes. Além disso, há comentários sobre os

gráficos.

a) Que informação é dada no texto e não consta nos gráficos?

b) Quais os responsáveis pelas informações dadas, ou seja, as empresas que fizeram

essa pesquisa?

C) Qual é a importância de se citar essas fontes?

(HELOÍSA HARUE / 6º ano, p.60)

No exercício exposto em (09), aborda-se a respeito da intertextualidade constitutiva: a construção de

uma reportagem “A hora do rush”, revista Veja (31/03/1999), na sua recorrência composicional a diversos

gêneros, no caso em tela, ao apoio de gráficos extraídos de outros textos. Nessa questão, fica evidente não

apenas o caráter constitucional do uso do gráfico em reportagens, mas também a identificação dos responsáveis

737

pela divulgação das informações constantes nesses gráficos e ainda o fato da credibilidade que as fontes podem

dar a uma informação.

IV. Relação do texto lido com protótipo do gênero

Uma diversidade de questões de leitura aborda o estudo do texto com base na sua relação com o

gênero a que pertence. Dentre os aspectos mais trabalhados, estão a finalidade do texto e o ponto de vista do

autor; as características composicionais do gênero, especialmente, os elementos da narrativa ou da

argumentação; o suporte de sua veiculação; e também traços referentes ao seu conteúdo temático ou perfil de

leitor.

(10)

Discuta com o seu professor e colegas. Qual a finalidade de um texto como “A verdadeira história de Cinderela”? (HELOÍSA HARUE / 7º ano, p.79)

No exemplo (10), a questão 1 sugere uma discussão sobre um texto baseado no conto de fadas

“Cinderela”. Contudo, “A verdadeira história de Cinderela”, de G. Rabelo, trata-se de uma recriação intertextual,

em forma de texto teatral, a qual satiriza o texto de base. Nesse exercício, está em pauta a identificação do

propósito comunicativo do texto lido, não apenas relacionado à intensão do seu autor, mas ainda se abre espaço

para a discussão da diferença entre um conto e uma peça teatral. Nesse caso, a mediação do docente para

condução do estudo intertextual é fundamental.

(11)

1. Nas novelas de cavalaria, os heróis são geralmente cavaleiro andante, isto é,

cavaleiros que caminham solitariamente em busca de aventuras e de fama. Esse perfil de herói é confirmado no texto 1? Por quê? 2. No texto 2, Percival chega ao castelo de Brancaflor.

a) Qual é a situação do castelo da guarda e de seus habitantes?

b) Qual é a causa dessa situação?

c) Que indícios, no texto, comprovam que a situação material do castelo tinha sido

diferente no passado?

3. Brancaflor e Percival encarnam, respectivamente, o ideal feminino e o ideal do

herói das novelas de cavalaria.

a)

Quais são as qualidades físicas e morais de Brancaflor?

b)

E de Percival?

4.

Anguingueron, por sua vez, é o típico vilão nesse tipo de história. O que o faz ser

um vilão? (CEREJA E MAGALHÃES / 7º ano, p.43)

O exemplo (11) foca no trabalho de construção da personagem do herói como elemento típico das

narrativas das novelas de cavalaria. A leitura de duas novelas é indicada: “Percival no castelo de Brancaflor” de

Jacqueline Mirande, e “A noite das confusões” de Cervantes. E, posteriormente, aspectos relativos à constituição

do herói, do vilão e da personagem feminina (ideal de mulher) são tratados como prototípicos desse gênero

textual.

(12)

Segundo as definições de artigo e reportagem, o artigo é que contém a opinião do autor. Vocês acham que a reportagem A hora do encontro só traz informações e interpreta os fatos, ou ela ainda contém, como é próprio dos artigos, a opinião dos jornalistas que a escreveram a respeito de ETs? (SOARES / 9º ano, p.23)

738

Em (12), enfoca-se a opinião do autor como uma característica comum aos gêneros artigo e

reportagem. A exposição e interpretação de fatos e informações são marcas consideradas pela referida

abordagem como essenciais para se reconhecer um texto do gênero jornalístico reportagem e inferencialmente

distingui-lo do artigo. Assim, as marcas discursivas da produção textual e aspectos da sua textualização são

critérios para o reconhecimento de um gênero.

(13)

- Que informações são imprescindíveis num cartaz?

- O que é mais importante, a imagem ou o texto? Explique.

- Em que lugares um cartaz como esse pode estar exposto? Por quê? (HELOÍSA HARUE / 7º ano, p.90)

No exemplo (13), aspectos relativos ao conteúdo temático, à composição e à natureza do suporte são

evidenciados para se questionar sobre a classificação do texto quanto ao seu gênero. Após a leitura de um cartaz

da peça teatral “O corcunda de Notridame”, os alunos são levados a reconhecer que o conteúdo informativo, o

uso da linguagem verbal e não verbal, bem como o seu processo de circulação são traços marcantes da

constituição do cartaz.

4. Considerações finais

Neste artigo, apresentamos as abordagens da intertextualidade em atividades de leitura, destacando

procedimentos de trabalho com o tema no livro didático. Salientamos que dentre as estratégias mais usadas para

tal estão: relacionar um texto lido com outro de gênero diferente; relacionar um texto lido com outro do mesmo

gênero; explorar as referências manifestas ou constitutivas apresentadas ou inferidas do próprio texto; e ainda,

relacionar um texto lido com protótipo do gênero ao qual se classifica.

Os dados mostram que o que mais se explora quando se trata de relações entre textos são aspectos

ligados à natureza do conteúdo textual; ao ponto de vista do autor do texto; aos elementos tipológicos da sua

composição (narração e argumentação, primordialmente), em menor incidência a função social dos gêneros.

Nesse contexto, relações que explicitem marcas recorrentes dos processos de consumo (foco no leitor: seu perfil,

sua suposta reação frente ao texto, etc) e do processo de circulação, nem sempre são alvos dos exercícios;

também fica claro que traços estilísticos dos gêneros pouco foram enfatizados.

A pesquisa evidencia com os dados obtidos que: as relações entre textos estão na pauta dos livros

didáticos; nessas relações, elementos de ordem social, discursiva e textual são abordados, contudo não com a

mesma equivalência; o foco do trabalho com a intertextualidade é o relativo ao conteúdo temático dos textos, e o

relativo ao uso do discurso citado; uma gama de gêneros textuais está em análise, contudo há o privilégio do

tratamento com os textos do domínio da literatura (crônicas, poemas e contos) e os do jornalismo (reportagens e

entrevistas).

Analisando o seu livro didático, o professor pode potencializar com os seus alunos os aspectos

positivos oferecidos pelas atividades de leitura e redimensionar os problemas, detectados, revendo as abordagens

pedagógicas a fim de favorecer a formação dos leitores na escola.

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SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura na Escola e na Biblioteca. 3. ed. Campinas: Papirus,

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740 LINGUÍSTICA E CRÍTICA GENÉTICA: UMA APROXIMAÇÃO POSSÍVEL Márcia Helena de Melo Pereira Universidade Estadual do

LINGUÍSTICA E CRÍTICA GENÉTICA: UMA APROXIMAÇÃO POSSÍVEL

Márcia Helena de Melo Pereira Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Introdução Neste trabalho, procuramos estabelecer uma aproximação entre linguística e crítica genética, uma área ligada à literatura que visualiza o texto sob a perspectiva processual. Desde seu nascimento, em 1968, na França, essa área do conhecimento tem procurado rastrear o percurso de criação de determinados escritores consagrados por meio dos rascunhos, manuscritos, notas de pesquisa e outros documentos processuais deixados por eles durante suas produções textuais. Afinal, no trajeto do escritor (assim como de qualquer outro escrevente) há perdas, acréscimos, digressões, novas interpretações etc. Esses documentos de processo são reunidos, classificados, analisados e interpretados em relação ao texto considerado acabado pelos autores, pois ele representa a forma mais próxima daquilo que desejavam de sua obra. O objetivo é tentar compreender o processo que presidiu o desenvolvimento dessas obras. Portanto, o objeto de estudo da crítica genética é o manuscrito. Nossa proposta é encarar textos produzidos por escolares também do ponto de vista de sua criação, de sua gênese, assim como faz a crítica genética. Como nasce um texto em ambiente escolar? Esta é uma de nossas questões. A metáfora do iceberg é pertinente para ilustrar a posição que estamos propondo. Podemos dizer que o texto considerado acabado é apenas a ponta do iceberg que esconde, na parte submersa, todo o processo de sua constituição, ou seja, nela ficam as várias operações distintas e sucessivas realizadas pelo sujeito em sua criação textual, tais como: escolhas vocabulares em detrimento de outras, acréscimos de palavras, inversões da ordem de enunciados, rasuras, hesitações etc. Estes dados processuais, se registrados, podem ser de suma importância para a compreensão da relação que o escrevente mantém com o texto e com o discurso que o envolve, ajudando-nos, portanto, a compreender melhor a relação do sujeito com a linguagem.

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No entanto, há uma dificuldade que o pesquisador que procura estudar e compreender dados processuais de escolares encontra: sua operacionalização. Como registrá-los? Neste artigo, mostraremos como conduzimos uma pesquisa que trabalhou com dados processuais nesse ambiente. A nosso ver, estas descrições do processo de constituição de textos podem auxiliar o trabalho do professor em sala de aula, pois, como pesquisas linguísticas têm evidenciado, ensinar a produzir textos prestigiados pela escola é uma de suas maiores dificuldades. Para auxiliá-lo nessa tarefa, o professor pode lançar mão dessas descrições, além das descrições de categorias descritivas das estruturas, globais ou locais, de um produto. Tais atividades reflexivas evidenciam o lado operoso de ajustamento da escrita, tendo o gênero textual um papel importante nesse trabalho. É justamente na metodologia de apreensão da linguagem em seu status nascendi que nossa pesquisa foi inovadora. Primeiramente, usamos um software francês chamado genèse du texte, desenvolvido pela Association Française pour la Lecture, em 1993, com objetivos pedagógicos. Com ele pudemos acompanhar todo o processo de produção do texto que comentaremos, neste trabalho, pois suas idas e vindas, suas substituições, novas ordenações, pausas, acréscimos, puderam ser registrados em forma de relatórios com a presença de todas as modificações operadas durante sua escrita. Nosso objetivo foi averiguar como dois sujeitos de uma escola particular do interior de São Paulo, escrevendo conjuntamente e de acordo com determinadas condições de produção, mostraram ter se apropriado do gênero do discurso narrativa de ficção. Mais especificamente, procuramos apreender o que esses sujeitos demonstraram conhecer sobre esse gênero e como a construção social dele aparecia em suas escritas e também falas. Para completar ainda mais a apreensão do processo de construção desse texto, acrescentamos dois outros recursos metodológicos ao software genèse du texte:

uma gravação em vídeo do momento de elaboração do texto e uma entrevista posterior com os próprios sujeitos questionando-os a respeitos das operações de reescrita que realizaram. Mais detalhes dessa metodologia serão dados à frente.

1. Crítica genética: breve histórico Lê-se em Salles (2000, p. 9) que os estudos genéticos iniciam-se em 1968. Neste ano, o CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique), da França, recebe os manuscritos do poeta alemão Heinrich Heine, que tinham sido comprados pela Biblioteca Nacional francesa, em 1966. Ao tentarem lidar com esses manuscritos, os pesquisadores do CNRS enfrentaram uma série de problemas metodológicos. Louis Hay, que gerenciava o CNRS naquele momento, e que foi inclusive seu idealizador, cria uma pequena equipe de pesquisadores,

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também de origem alemã, para tentar organizar, classificar, explorar e editar essa coleção. Mais tarde, houve a criação de um laboratório dentro do próprio CNRS que iria se dedicar especificamente ao estudo dos manuscritos literários: o ITEM (Institut des Textes et Manuscrits Modernes). Inicialmente, os pesquisadores que lidam com documentos processuais precisam constituir e organizar o emaranhado desses documentos. Para isso, o crítico genético deve seguir uma série de etapas a fim de torná-los legíveis. Biasi (1997, p. 21-23) enumera quatro grandes fases de pesquisa, nesse primeiro momento: 1) devem agrupar essa documentação. Nesta fase, o pesquisador deve fazer um trabalho de inventário e de prospecção, coletando o conjunto dos documentos de processo relacionado com a obra estudada; 2) devem especificar as peças do dossiê. Estas peças deverão ser separadas por espécie (notas documentárias, rascunhos, manuscritos definitivos, o do copista etc.) e por fase (pré-redacional, redacional etc.); 3) devem fazer a classificação genética. Esta fase centra-se no conjunto dos “rascunhos”, os quais receberão duas classificações: uma no eixo paradigmático, que classificará os estados sucessivos de elaboração do mesmo fragmento, e outra no eixo sintagmático, que promoverá o encadeamento desses diferentes fragmentos; 4) por último, devem fazer a decifração e a transcrição dos documentos. A primeira permite comparar, em detalhes, os diferentes estados de um mesmo fragmento e classificá-los uns em relação aos outros; a segunda é fixada em uma transcrição que poderá ser publicada, se for o caso, para que possa ser julgada pela comunidade dos críticos. Portanto, o crítico genético necessita, a priori, colocar em ordem e tornar legível o material ‘manuscritológico’, para que a crítica genética possa efetuar seu estudo interpretativo. Trata-se de um trabalho operoso de reconstituição, feito pelo crítico genético. Para interpretar o conjunto desses manuscritos, a crítica genética criou métodos de análise de gênese textual. Quanto às rasuras deixadas no texto, por exemplo, repartiam-nas em quatro operações: adição, apagamento, substituição e permuta. A articulação dessas quatro operações tal como feita pela crítica genética pode ser útil à linguística, como mostraremos adiante. Ao organizar criticamente os documentos processuais, surge um novo texto formado por esses materiais, após certa convivência do crítico com eles, para evidenciar os sistemas lógicos que o organizaram. Bellemin-Noël (1993, p. 141) conceitua esse novo texto de “prototexto”. Assim o define: “uma certa reconstrução dos antecedentes de um texto, estabelecida pelo crítico com o auxílio de um método específico, destinada a ser objeto de uma leitura em continuidade com o dado definitivo”. Há, portanto, a presença do crítico

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genético em todas as etapas da pesquisa. Dessa forma, definir o prototexto “como um objeto construído é admitir uma pluralidade de construções possíveis” (Salles, p. 62). A crítica genética, no entanto, não se limita a um mero registro desses momentos singulares e/ou gerais observados nos documentos de processo. Segundo Salles (p. 68), “a crítica genética não escapa do sonho das ciências humanas de encontrar explicações e leis. Seus pesquisadores estão empenhados em buscar as leis (ou algumas leis) que regem a criação artística”. Aliás, a área exige de seu pesquisador a procura de instrumental teórico que o habilite a analisar e interpretar seu material e, dessa maneira, poder falar em explicações ou leis. É nesse momento que ela abre espaço para uma prática interdisciplinar. Em outras palavras, desde seu nascimento os estudos genéticos necessitam de um arcabouço teórico capacitado a propor explicações relativas ao processo criativo. Nós estamos propondo o uso do aporte teórico da linguística para interpretarmos dados processuais deixados em textos escritos por escolares. Em 1991, a pesquisadora francesa Fabre-Cols propõe fazer a transposição dos métodos de análise de gênese textual propostos pelo ITEM para o campo didático. Dedicada ao tema da gênese do texto infantil desde 1982, Fabre-Cols é referência para os pesquisadores interessados no estudo do processo de escrita de textos de escolares. Segundo a autora (1991),

o conhecimento dos trabalhos realizados pelo ITEM permitiu-lhe lançar um novo olhar sobre

a escrita ao encará-la sob a perspectiva genética, pois perguntas comumente lançadas sobre o

texto, tais como “de que maneira escrevemos?” puderam ser reformuladas para “por quais encadeamentos escrevemos?”, “conforme quais sequências?”. A pesquisadora lembra que, ao fazer a transposição dos métodos de análise usados pelo ITEM para o contexto escolar, procurou observar as peculiaridades de cada um dos contextos de Segundo Fabre-Cols (2002), os pesquisadores do ITEM propõem uma classificação das rasuras de acordo com três critérios: 1) há aquelas que ocorrem on line, que são as rasuras feitas durante a produção do primeiro jato de escrita, e aquelas que ocorrem a posteriori, fruto de uma releitura do texto feita pelo autor; 2) classificam-nas em formais (correções de ortografia ou de morfossintaxe, pontuação etc.) ou de conteúdo (quando elas afetavam claramente o conteúdo ou o sentido do texto); 3) repartem-nas em quatro operações: a) adição/acréscimo: ocorre quando um elemento linguístico é inserido no texto, sem que haja a substituição de nenhum outro de uma versão precedente; b) apagamento: um elemento linguístico já presente no texto é apagado sem que nenhum outro o substitua na versão seguinte; c) substituição: um elemento linguístico é apagado enquanto um outro é adicionado para substituir o primeiro, de modo que um e outro funcionem como equivalentes em um

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determinado contexto; d) permuta: um elemento linguístico, então presente no texto, sofre uma mudança de sentido, quando movimentado/trocado. O grande mérito do trabalho de Fabre-Cols está justamente na descrição rigorosa que ela realiza dessas quatro meta-operações utilizadas nos processos de reescrita de alunos em fase inicial de aprendizagem da escrita.

A pesquisadora, portanto, chamou a atenção daqueles que se dedicam ao ensino para o

potencial didático dos rascunhos de escolares e contribuiu com os estudos sobre a escritura ao

promover uma taxonomia descritiva sobre os tipos de rasuras que os textos iniciais da criança apresentavam. Quanto aos trabalhos realizados no Brasil sobre refacção de textos e que também olham para dados processuais de textos de escolares, citamos as pesquisas desenvolvidas no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp pelas pesquisadoras Abaurre, Mayrink- Sabinson e Fiad. Podemos encontrar exemplos desses trabalhos na obra das autoras intitulada

“Cenas de aquisição da escrita”. Em suas pesquisas, elas adotaram os pressupostos teóricos- metodológicos do chamado paradigma indiciário de investigação, apresentado por Ginzburg (1968), pois o autor considera que os dados sinalizam para hipóteses. No texto “Sinais: raízes de um paradigma indiciário”, Ginzburg lança as bases desse modelo epistemológico em que procura decifrar pistas através de indícios. Esse modelo também dialoga com a crítica genética, pois através de seus pressupostos teórico-metodológicos temos a possibilidade de examinar, através de pistas, sinais, o processo e marcas individuais presentes em dados processuais, como os que estamos propondo neste trabalho. Afinal, entra-se em questões processuais através de indícios.

A pesquisa realizada por Leal (1999) é outro exemplo que faz a ponte entre crítica

genética e linguística com enfoque em textos de escolares, e que também considera o

paradigma indiciário como pressuposto metodológico. Em seu trabalho, a autora procura compreender de que modo crianças em fase inicial de aquisição da escrita se relacionam com o texto que produzem, na forma como lidam com as convenções da língua escrita.

A PUC-SP e a USP também possuem grupos que se dedicam aos estudos genéticos. A

PUC-SP hospeda o C.E.C.G. (Centro de Estudos de Crítica Genética), que é dirigido por Cecília Almeida Salles. Esse centro dedica-se ao estudo do processo de criação artística de diversas áreas como teatro, cinema, artes plásticas, dança, arquitetura. A USP hospeda outro grupo e é, inclusive, sede da APML (Associação de Pesquisadores do Manuscrito Literário). A USP edita, também, a revista Manuscrítica, que divulga estudos realizados em crítica genética. Há outros grupos menores: Telê Porto Ancona Lopes coordena a equipe Mário de

Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo; Silvia

745

Anastácio mantém um grupo na Universidade Estadual da Paraíba; Marlene Gomes Mendes é responsável por outro grupo na Universidade Federal Fluminense.

2. Questões metodológicas Neste trabalho, como já antecipamos, mostraremos dados do processo de construção de um texto escrito conjuntamente por dois sujeitos de uma escola particular do interior de São Paulo. Eles são do sexo feminino e estavam cursando o primeiro ano do Ensino Médio quando a pesquisa foi realizada, em 1999. Propomos às estudantes escrever uma narrativa de ficção para que pudéssemos registrar seus dados processuais. De antemão, frisamos que tal texto deveria ser escrito em dupla, pois tínhamos um propósito bem definido com essa atitude: o fato de haver dois sujeitos conversando sobre o que iriam ou não escrever produz um efeito diferenciador em relação à maioria das pesquisas já realizadas sobre o processo de produção de texto. Na verdade, as intervenções e trocas que marcam toda essa situação geram um resultado singular que seria completamente diferente caso houvesse somente um sujeito produzindo o texto, ou somente fosse possível o acesso ao produto final. Além disso, a escrita conjunta nos abriria novas possibilidades de interpretação para a atividade de refacção, como, por exemplo, considerar as reformulações orais feitas por estes sujeitos diante do texto que estavam escrevendo como uma espécie de “reescrituração” não textualizada. Antecipamos, também, que usamos um software francês chamado genèse du texte, desenvolvido pela Association Française pour la Lecture, em 1993, com objetivos pedagógicos, que nos possibilitou o acesso a todas as idas e vindas, as substituições, as novas ordenações, as pausas etc., efetuadas pelos nossos sujeitos ao longo da construção do texto. Como isso seria possível? O genèse du texte grava todas as operações realizadas pelos escreventes durante a escrita de um texto e depois nos disponibiliza relatórios contendo todas essas operações de reescrita feitas. Para ilustrar seu funcionamento, vejamos um trecho de um dos relatórios que o programa pode gerar, o hitorique, que mostra a gênese do texto passo a passo:

OPERATIONS EM ECRITURE. ajout de «Já». ajout de «faziam». ajoute de «três». ajout de «anos». ajout de «que».

746

ajout de «Roberto». ajout de «Almeida». ajout de «Pratos».

Attente=00:00:31

ajout de «vivia». ajout de «em». ajout de «uma». ajout de «luxuosa». ajout de «mansão». remplacement de «vivia» par «vivirea». suprression de «vivirea». ajout de «residia».

E assim vai-se tendo acesso a todo o processo escritural do texto. No trecho acima, as estudantes fazem uma modificação. Depois de terem escrito que “Já faziam três anos que Roberto Almeida Pratos vivia em uma luxuosa mansão”, voltam ao verbo “vivia” e alteram seu tempo verbal: de “vivia” para “vivirea”. Há um erro de digitação em “vivirea”, mas os indícios apontam que desejavam o tempo verbal pretérito mais-que-perfeito. Em seguida, substituem o verbo “vivirea” por “residia”.

Percebe-se, também, que o software genèse du texte foi programado para registrar os dados do processo com base nas pesquisas conduzidas pelo ITEM (Institut des Textes et Manuscrits Modernes). O programa isola as quatro operações canônicas utilizadas nos processos de reescrita, já comentadas, e descreve todo o processo da escrita com base na sucessão dessas operações

Além do genèse du texte, acrescentamos à pesquisa dois outros recursos metodológicos: uma gravação em vídeo do diálogo mantido pela dupla a respeito do texto que estavam produzindo, e uma entrevista posterior com as próprias estudantes, gravada em áudio. A gravação em vídeo nos possibilitou entender/apreender, de forma pontual, quais foram as indagações, as reflexões que as escreventes apresentaram nos momentos de apagamentos e substituições. A entrevista foi feita uma semana após a elaboração do texto com o objetivo de questionar as estudantes a respeito dos motivos que as levaram a apagar, a substituir, a adicionar, a trazer determinado elemento linguístico etc. Para elaborar as perguntas que foram feitas nessa entrevista, analisamos os relatórios gerados pelo genèse du texte e a gravação em vídeo, pontuando os diversos episódios que nos chamaram a atenção.

747

3. Revelando o processo da escrita Esta foi a proposta de produção textual que entregamos à dupla:

PROPOSTA DE PRODUÇÃO DE TEXTO Crie uma narrativa, encaixando livremente, em algum lugar do seu texto, os ingredientes abaixo:

Meia-noite. Um uivo. Um homem solitário.

1.1 Instruções gerais

Sua narrativa deverá ser em 3ª pessoa.

Abaixo mostraremos, a título de ilustração, apenas dados da gênese do primeiro parágrafo do texto que G. e J. escreveram, pois, como é de se supor, este espaço não comporta dados tão extensos. Contudo, como G. e J. fazem um planejamento prévio da estória que iriam escrever, ficamos sabendo qual o encaminhamento que darão a ela. Como o leitor poderá conferir, a seguir, mesmo considerando apenas os dados processuais da conversa inicial que a dupla mantem entre si, praticamente, eles têm muito a nos revelar acerca desse texto e dos sujeitos que o escrevem. Este foi o primeiro parágrafo da narrativa.

Já faziam três anos que Roberto Almeida Pratos residia em uma luxuosa mansão, no Morumbi, na agitada cidade de São Paulo. Apesar de ostentar tamanha riqueza, enfrentava uma crise em seus negócios, que foram mal administrados desde a morte de seu querido pai.

Vejamos, então, como G. e G. arquitetaram seu texto. Esclarecemos que, na coluna à esquerda, apresentaremos a transcrição da gravação em vídeo que fizemos do momento da elaboração textual que estamos considerando e, na coluna à direita, apresentaremos a transcrição da entrevista posterior que realizamos com a dupla. Quem digita o texto é J.; G. senta-se ao seu lado.

Vídeo

Entrevista

Primeiras palavras

Pesquisador: Aí a primeira pergunta, gente: de

748

G.: tá, então a gente vai começar falando

onde vocês tiraram a ideia desse enredo? G.: é Pesquisador: ou seja, do Roberto com problemas nos seus negócios, da emergente Melhor: o que influenciou vocês a escolher esse enredo? Algo que leram, que ouviram, que alguém contou? G.: ah, a gente já escutou bastante história de de ligados com assim

que

a gente conta uma história pra todo

mundo entender que

J.: tá, vamo começar logo com isso. G.: a gente dá a entender que a história vai

tratar, falar de lobisomem, de

de monstro e

no final a gente muda. A gente vai utilizar a

idéia do cachorro J.: é, pode ser.

G.: tipo assim, o cara tava fugindo, tinha seqüestrado o cachorro da vizinha e quando

J.: pessoas que aparentam ser importante, só que na verdade não têm muito dinheiro.

eles passaram

um grupo de amigos passou,

G.: tem muita história assim que

de pessoas

deu a calhar que o cachorro tava uivando, aí eles viram um vulto passando assustado porque tinha um cachorro no colo, acharam que fosse um lobisomem, eles perseguiram e no final vão ver que não era nada disso que eles estavam pensando. Então, tá. J.: e a gente deixa pra pôr isso aqui no fim. Começa assim, oh G.: falar o quê? J.: porque a gente tem que contar uma história primeiro, como que esse grupo chegou no lugar.

que não aceitam a, a J.: situação financeira. G.: a situação de outros que não eram, que não

nasceram, sabe, de família

que já tem um

nome, que tão emergindo por causa do trabalho,

tem muita gente que não aceita

a gente já

escutou bastante notícia sobre isso ou mesmo em

história, em alguns casos mais

Acho que foi a

primeira idéia que surgiu. G.: E também o tema que você deu já sugere é

uma coisa de, de monstro, de lobisomem. A gente quis mudar um pouco.

G.: tem que começar também vizinha do cachorro, né.

falar sobre a

J.: na hora que a gente viu o tema, a gente pensou em fazer alguma coisa que não era óbvia. G.: uma coisa mais, assim, diferente, que provocasse, sei lá, que chamasse mais a atenção e a gente mudou, tentou achar J.: personagem que teria muito a ver com a história. G.: muito a ver com a história de meia-noite, lobisomem, muito ligado a isso, porque normalmente quando você ouve meia-noite,

J.: é, depois fala isso. G.: bem, mas tem que falar do homem, vai ter

que falar do que na casa e J.: tipo uma casa

tipo assim, morava há anos

o cara era o maior pobre.

G.: não, mas pra morar perto da casa da

mulher, não pode.

J.: ah. G.: tipo assim, ele J.: tem que ser um decadente.

 

essa

esse tema, você já pensa em monstro. A

gente tentou, colocou um pouco assim pra não

749

G.: isso, é o que eu ia falar, decadente. Tinha uma casa boa, mas tava passando por dificuldades, sei lá, a gente inventa qualquer profissão pra ele. J.: tipo assim, oh: é aquelas pessoas que tem a família muito rica, sabe, entrou em decadência e a vizinha era uma emergente, alguma coisa assim. Ele tinha raiva da vizinha também. G.: tudo bem. Então, como a gente coloca? J.: como a gente começa? G.: tem que começar dando a idéia de que

tem que falar que

tem que falar do lugar

fugir muito, mais

 

J.: mas ao mesmo tempo, a gente precisava colocar o tema e pra isso a gente teve que usar esses jovens aí, por isso que também teve essa mudança.

[

]

G.: na verdade a gente queria

era assim

é

fazer pensar que a gente ia falar sobre monstro, mas a gente já sabia que a gente não queria, a gente não queria falar sobre monstro porque to Normalmente os textos que tratam esses temas sempre levam ao J.: ah, pelo título e G.: monstro. A gente queria fazer uma história que não desse, que desse a entender que fosse um

não precisa nem falar do lugar, depois a gente

fala do lugar, mas que nem, é

já fazia tipo

já fazia três anos que

aí dá o nome do cara,

morava em tal lugar, na cidade, a gente fala

monstro, mas que no final não fosse.

 

Pesquisador:

que efeito de sentido

vocês queriam provocar com isso? J.: curiosidade. G.: curiosidade, deixar o texto mais

[

]

deixar

o texto mais interessante, pra não ficar também

sempre ch não ter a obrigação de

suspense, porque isso aqui não é suspense na

aquela coisa ch

J.:

e não

ter

que

f

verdade.

 

[

]

G.: a gente tinha o que

que você tinha dado, só

que a gente não queria falar das mesmas coisas.

Quando pensa em uivo, em meia-noite, você pensa em monstro. O que que a gente fez? A

gente

pra num

E não houvesse essa quebra, a

gente ia ter que acabar contando o que era o plano e pra dar o ar de suspense, a gente propôs, pra só no final quem tá lendo descobrir o que realmente aconteceu. J.: e pra não ficar cansativa a história, porque até

750

que a gente não falou muito de tempo, né, que

tava acont

A gente tava dando as características

de cada pessoa, mas não tava correndo a história,

na verdade. Aí nesse ‘meia-noite’ que começou propriamente, aconteceu os fatos e se você fosse continuar contando, assim G.: ia ficar cansativo. J.: até chegar meia-noite

Incialmente, recordamos que essas são apenas as palavras iniciais da dupla, antes de iniciar a escrita do texto. Nelas, já encontramos índices reveladores da relação dessas alunas com o texto que estavam escrevendo e de suas próprias constituições enquanto sujeitos. Reiteramos sobre o quão rico podem ser dados processuais como estes que estamos mostrando, pois, se não os tivéssemos, não teríamos como obter as informações acima apresentadas apenas considerando o produto final escrito. Vejamos algumas delas. Grosso modo, G. e J. planejam narrar uma estória que inicialmente desse a entender para o leitor que estariam contando uma estória de monstros ou lobisomens, mas que no final revelasse uma surpresa: tratava-se, na verdade, de um homem segurando um cachorro. Mas essa revelação deveria ser feita apenas no final, pois era intenção delas criar uma atmosfera de mistério. As alunas decidem que um grupo de jovens se depararia com o vulto de um homem segurando um cachorro e, então, iria imaginar tratar-se de um monstro. No entanto, antes de inserirem a entrada desses jovens na estória, G. e J. percebem que, primeiramente, deveriam “contar uma estória, como que esse grupo chegou no lugar”, conforme as palavras de J. Lançando uma hipótese sobre esse dado, podemos supor que a dupla procura ancorar o texto em uma situação comunicativa determinada, por isso sente a necessidade de apresentar ao leitor, inicialmente, as personagens, o local onde os fatos se desenrolariam e parte da trama, para que ele pudesse compreender a estória. Notamos, também, que nesse planejamento que fazem, G. e J. incluem as partes da narrativa enumeradas por Labov e Waletsky (1967). Elas deixam entrever a orientação, a complicação e a resolução da narrativa. Comecemos pela orientação. A dupla identifica as personagens que habitariam o cenário: um decadente empresário, uma emergente, um grupo de jovens. O empresário já é, inclusive, caracterizado pelas estudantes, neste trecho: era uma pessoa que pertencia a uma família abastada, que vivia em uma bela casa, mas que entrara em decadência; identifica

751

também o lugar: as residências da emergente e do empresário. Esta parte da narrativa, a

orientação, fica bem explícita no final do excerto que citamos da gravação em vídeo, quando

aí dá o nome do cara, morava em tal lugar, na cidade, a

Um outro exemplo bem explícito de orientação é quando J. salienta: “porque a

gente tem que contar uma história primeiro, como que esse grupo chegou no lugar”. Quanto à complicação, elas armam o seguinte conflito para a narrativa: o empresário sequestra o cachorro da vizinha e foge com ele, levando-o em seu colo. No momento da fuga, passa pelo local um grupo de jovens. O cachorro uiva. Como o grupo vê apenas um vulto e escuta o uivo, pensa na possibilidade de aquilo ser um lobisomem. A resolução proposta é a seguinte: o mistério se dissolveria quando o grupo de jovens percebesse que o vulto que havia visto era, na verdade, um homem segurando um cachorro, e

não um lobisomem. Chegar a essa resolução foi, desde o início, o objetivo da dupla. Nesse diálogo inicial que expusemos, as estudantes explicitam a intenção de criar uma narrativa que desse a entender para o leitor que estavam contando uma estória de lobisomens, mas que revelasse uma surpresa, no final. Retomemos as palavras de G.: “a gente dá a entender que a

de monstro e no final a gente muda. A gente vai

utilizar a ideia do cachorro”. Portanto, as estudantes demonstram conhecer o gênero do discurso em que estavam se manifestando. Já nesse primeiro trecho exposto, G. e J. incluem dois elementos constituintes dos gêneros discursivos: a estrutura composicional e o conteúdo temático. O trabalho de Labov e Waletsky (1967) identifica seções que fazem parte da estrutura composicional dos gêneros. As estudantes incluem essas seções, como mostramos. Vimos que a estória se passaria entre um decadente empresário e uma emergente. A entrevista posterior que fizemos tem mais a nos revelar a respeito dessa decisão. A dupla salienta que, para compor o enredo, haviam se inspirado em notícias que costumavam sair em jornais sobre emergentes. Algumas dessas pessoas aparentavam ser importantes, mas não tinham dinheiro. G. e J., portanto, valem-se de informações de fora da escola, tomando contato com o mundo que as cerca, ou seja, lendo jornais e revistas, assistindo a televisão, ouvindo estórias contadas por outrem, etc. Fazemos questão de frisar esse ponto porque, como sabemos, o “mundo” que os alunos recebem da escola costuma ser um mundo de conteúdos insólitos, que não tem significação nem utilidade imediata para eles. As respostas de G. e J. mostram o quão rico podem ser as experiências pessoais vividas por cada aluno, fora dos muros da escola.

história vai tratar, falar de lobisomem, de

G. diz: “não precisa nem falar do lugar, depois a gente fala do lugar, mas que nem, é

fazia

tipo

gente fala

já fazia três anos que

752

Quase no final do diálogo transcrito acima, podemos ver como G. e J. solucionam um problema de coerência que surge: J. define o vizinho da emergente como pobre. Mas como ele poderia ser pobre sendo vizinho de uma emergente rica que mora em bairro de classe média alta? Resolvem a incoerência caracterizando a personagem de decadente, ou seja, o homem morava em uma boa casa, mas estava passando por dificuldades financeiras. A entrevista que realizamos com elas forneceu-nos um dado bastante revelar sobre suas constituições enquanto sujeitos, nesse momento da elaboração textual. Segundo G. e J., os ingredientes que deveriam compor a narrativa: meia-noite, o uivo, o homem solitário suscitam, à primeira vista, estórias de monstros ou lobisomens, que geralmente fazem suas aparições à meia-noite, vindos de algum cemitério ou lugares sombrios. Mas elas evitam tais estórias por achá-las comuns, banais. Ao invés disso, procuraram criar uma estória diferente:

o leitor seria levado a pensar que a estória que escreveriam seria de algum monstro; só no

final o enigma se dissolveria. No dizer de J.: “na hora que a gente viu o tema, a gente pensou em fazer alguma coisa que não era óbvia”. O depoimento das estudantes mostra que a escolha em fugir de um tema já desgastado foi consciente. G. e J. demonstram possuir uma intenção enunciativa com essa escolha que

deixar o texto

mais interessante, pra não ficar aquela coisa ch

feita sem maiores entraves. As estudantes puderam trabalhar no interior do gênero narrativa com certa flexibilidade, articulando seus elementos constitutivos com certa subjetividade. Para construir a atmosfera de mistério que queriam, as alunas optam por uma narrativa não linear, com saltos e cortes. Fogem, assim, do modelo de narrativa em que personagens, tempo e espaços são apresentados de maneira sucessiva e as ações e situações desenvolvem-se cronologicamente. Diante das várias formulações disponíveis para construir o gênero narrativa de ficção, as alunas selecionam, escolhem, privilegiam uma determinada maneira, com a qual buscaram expressar certo efeito de sentido para obter o intento desejado, nessa situação de comunicação específica. Portanto, a todo instante, observamos como a dupla vai demonstrando conhecer o gênero. Nesse caso, G. e J. souberam explorar as possibilidades que ele lhes proporciona. Ao rejeitar estórias de monstros e lobisomens, G. e J. priorizam um tema social e expõem nuanças de duas classes da sociedade brasileira, naquele momento: a dos emergentes (em plena ascensão) e a dos decadentes (também crescente em função dos problemas econômicos do país). No texto, as estudantes trazem à tona determinadas preocupações que fazem parte do universo dessas classes e que circulam socialmente, quais sejam: preocupações

(chata). Essa escolha pôde ser

realizam. G. diz qual é essa intenção: “curiosidade, deixar o texto mais ”

[

]

sempre ch

753

com moradias em bairros luxuosos, com nomes e sobrenomes, com festas de aniversário para cachorros etc. Ou seja, retratam um mundo fútil e inútil em terra de descamisados. Com essa decisão, elas demonstram uma capacidade de distanciamento, de olhar de fora e de falar de fora dos acontecimentos a que estavam submetidas. Em outras palavras, G. e J. posicionam-se frente a um discurso, olham de fora e inserem-se em uma rede de formulações que as antecedeu e produzem seus enunciados nessas redes de memória, interpretando a forma como a sociedade se representa. Portanto, achamos que G. e J. retratam a sociedade brasileira de maneira crítica e avaliativa, colocando os grupos sociais em questão em posição de alvo de críticas. Por todos esses indícios que acabamos de expor, estamos interpretando o “olhar crítico” dessa dupla como um traço caracterizador de um estilo subjetivo, neste gênero. Vejamos, agora, os registros que o software genèse du texte fez da escrita do primeiro parágrafo do texto, nosso recorte para comentários. Foi através desse registro que partimos para a análise da gravação em vídeo, atentas à revelação que a conversa entre as duas estudantes podia nos dar a respeito dos momentos específicos das modificações operadas no texto, inclusive.

1) As estudantes escrevem: já faziam três anos que Roberto (pausa) Almeida Pratos (pausa) vivia em uma luxuosa mansão

2) Em seguida, posicionam o cursor na palavra “vivia”, trocam-na por “vivirea” e em seguida apagam-na e escrevem em seu lugar “residia”. O texto passa a ser: “já faziam três anos que Roberto Almeida Pratos residia em uma luxuosa mansão.

3) Retornam o cursor para a posição original, na palavra “mansão” e inserem uma vírgula. E

mansão, no Morumbi, na agitada cidade de São Paulo (pausa).

Continuam: No entanto, (pausa) enfrentava uma crise em seus negócios (pausa). Inserem uma vírgula e continuam a escrita: ,apesar de ostentar tanta riqueza. (pausa).

continuam o texto:

4) Voltam ao trecho que haviam acabado de escrever, posicionam o cursor depois da palavra “negócios” e acrescentam: negócios, mal administrados por ele desde a morte de seu querido pai. Fazem uma longa pausa. Em seguida, apagam todo o último trecho que haviam terminado de escrever: “no entanto, enfrentava uma crise em seus negócios, mal administrados por ele desde a morte de seu querido pai”. Escrevem em seu lugar: Apesar de ostentar tamanha riqueza, enfrentava uma crise em seus negócios, que foram mal administrados desde a morte de seu querido pai. Fazem uma pausa e depois inserem ponto final.

754

5) Posicionam, enfim, o cursor na próxima linha para iniciarem a escrita do segundo parágrafo.

Não há como nos estender mais. Como mostramos, além de o genèse du texte ter nos proporcionado os dados processuais desse texto em ordem cronológica, as gravações em vídeo e áudio completaram a apreensão de seu processo.

Conclusão Nossa intenção, neste trabalho, foi chamar a atenção para o percurso que o aluno faz até chegar ao texto que considera definitivo. Procuramos compreender o trajeto de um trecho de um texto escrito por duas estudantes do primeiro ano do Ensino Médio, a partir dos rastros deixados por elas de seu fazer escritural. Vimos que esse processo foi marcado por momentos de opção, de busca da melhor palavra, frase, estrutura sintática, coerência etc., tendo em vista o gênero textual utilizado. Quando olhamos apenas “textos prontos”, bem feitos, muitas vezes não nos damos conta de que por trás dele existe um processo complexo da trajetória daquele sujeito em relação à língua, ao discurso e ao gênero. Com esse exemplo ilustrativo, também pudemos mostrar que dados processuais nos permitem chegar a detalhes muito específicos da construção de um texto, ajudando o pesquisador a entender melhor a relação do sujeito com a linguagem. Por exemplo, os dados processuais mostraram que G. e J. rejeitaram estórias estereotipadas de monstros e lobisomens, pois queriam escrever sobre algo que não fosse óbvio. Afinal, os três ingredientes da proposta de produção textual: meia-noite, um uivo, um homem solitário, suscitava, à primeira vista, tais estórias. Ao recusarem essa ideia, abraçaram um tema social e colocaram a classe dos emergentes e decadentes como alvo de críticas. A dupla expôs nuanças do universo dessas classes, que muitas vezes circulam socialmente, e se posicionaram frente a um discurso. Portanto, é possível fazer a ponte entre linguística e crítica genética, pois esta área literária volta-se para o processo de produção e não para o produto definido, somente, com o objetivo de tentar compreender esse processo e os mecanismos que sustentam a produção textual. Processo este dinâmico, em mutação, em que é possível as alterações, as correções etc. A crítica genética tem por objetivo de investigação a compreensão desse processo e dos mecanismos que sustentam a produção textual. De nossa parte, focamo-nos no processo de produção textual de escolares e estamos propondo essa possibilidade de olhar o texto também

755

sob sua gênese, nos moldes da crítica genética, mas tendo a linguística como arsenal teórico para interpretar o percurso realizado pelo escrevendo durante a escrita de seu texto. Com a utilização do software genèse du texte e das gravações em vídeo e áudio, vimos uma maneira de se obter dados processuais na escola.

REFERÊNCIAS ABAURRE, M. B. M.; Mayrink-Sabinson, M. L.; Fiad, R. Salek. Cenas de aquisição da escrita. São Paulo: Mercado de Letras, 1997.

BELLEMIN-NOËL, J. Reproduzir o manuscrito, apresentar os rascunhos, estabelecer um prototexto. Revista Manuscrítica, São Paulo, n. 04, p. 127-161, 1993.

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FABRE-COLS, C. La linguistique génétique: une autre entrée dans la production d’écrits. Repères, Paris, n. 04, p. 49-58, 1991.

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756

757

757 LITERATURA E BULLYING : UMA IMAGEM REFLETIDA A PARTIR DO OLHAR DO OUTRO Lívia Cristina

LITERATURA E BULLYING: UMA IMAGEM REFLETIDA A PARTIR DO OLHAR DO OUTRO

Lívia Cristina Cortez Lula de Medeiros Pedagoga – Marinha do Brasil (MB) Marly Amarilha Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Explora-se, neste artigo, a possibilidade que a experiência estética da leitura do texto literário apresenta de estabelecer relações com a própria vida e, a partir dessa vivência, desenvolver-se olhar mais sensível e crítico sobre o mundo circundante. Para Iser, a experiência de leitura que considera o leitor como parte constitutiva do texto muda também sua interpretação. A participação do leitor no processo de significação textual “evidencia o potencial de sentido proporcionado pelo texto” (ISER, 1996, p.54). Nessa linha de raciocínio e, considerando-se as provocações e angústias decorrentes de fatos violentos em ambientes escolares como o bullying, desenvolveu-se estudo bibliográfico em que se evidenciam marcas desse fenômeno em textos de contos de fada. O objetivo da proposta é destacar o potencial da literatura para o debate sobre esse perturbador comportamento e trazê-lo para as aulas de leitura em nossas escolas. A discussão que se apresenta é originária da dissertação “Literatura e Educação: o bullying nos contos de fada, uma discussão possível” (2012), desenvolvida no grupo de pesquisa Ensino e Linguagem (CNPq/UFRN) do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Sua relevância consiste em apresentar ao professor subsídios para ampliar suas competências no ensino de leitura e literatura a partir do (re)conhecimento do potencial problematizador e crítico do texto literário, fundamental para o trabalho educativo sobre a prática do bullying nas escolas.

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Selecionou-se o estudo sobre o conto O Patinho Feio (1844), de Andersen, por este possibilitar interface entre a Literatura e o bullying e proporcionar material fecundo para momentos de debate. Na reflexão que segue, partiu-se do estudo pioneiro de Olweus (2006) de onde se deriva o conceito de bullying que norteará todo o trabalho. De acordo esse pesquisador, Bullying ou “vitimização”, caracteriza-se pela situação em que uma pessoa é atacada ou “vitimizada” e exposta, repetidamente, a ações negativas partidas de uma ou mais pessoas. Complementa Olweus:

a expressão “ação negativa” deve ser mais especificada. É ação negativa

quando alguém intencionalmente inflige ou tenta infligir, ferir ou inquietar outro – basicamente o que é entendido como comportamento agressivo. Ações negativas podem ser realizadas por palavras (verbalmente), por exemplo, ameaças, zombaria, implicância e chamando nomes. É uma ação

negativa quando alguém bate, empurra, chuta, belisca ou reprime outro – por contato físico. Também é possível haver ações negativas sem uso de palavras ou contato físico, tal como fazer caretas ou gestos sujos, intencionalmente excluindo alguém do grupo ou recusando-se a cumprir com os desejos de outras pessoas (OLWEUS, 2006, p. 9, tradução nossa).

] [

A partir desse conceito, estabelecemos as categorias de Intimidação; Demonstração de Poder; o Controle sobre a Vítima; Submissão/Passividade/Medo; Atitudes de Mudança; o Desejo de Vingança; o Reforço da Agressão; a Omissão/Neutralidade e as Atitudes Positivas. Essas categorias se apresentam nas interrelações que ocorrem entre os agressores, as vítimas e os espectadores, como unidades do triângulo que se forma no contexto da agressão perpetrada. É na configuração desse triângulo que a personagem principal da história vivencia o bullying. Na análise do texto, as ações de bullying e expressões que mais demonstram o contexto desse tipo de violência presente no conto O Patinho Feio, foram destacadas com o modo “itálico”. A leitura de textos literários é um caminho capaz de tocar a sensibilidade e provocar o pensamento crítico do leitor, visto que, como arte, permite ao leitor emocionar-se e refletir, passando do processo de identificação ao julgamento; possibilita, portanto, analisar suas emoções e distanciar-se do seu mundo durante a leitura e para além desse o momento. Assim,

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proporciona ao leitor continuada vivência de experiências e sensações que foram marcantes no seu encontro com o texto e que podem perdurar por toda sua vida. Martha (2010) destaca que algumas características, inerentes às histórias literárias, possibilitam ao leitor, um momento de análise interior:

O modo de narrar – o embate de perspectivas diferentes e a experiência de acontecimentos ambíguos vividos pelos protagonistas como projeções de suas consciências – confirma a catarse, uma vez que a vivência de fatos contraditórios libera os leitores da submissão a modelos a que foram

submetidos em seu meio social e familiar. [

Assim, tanto a instauração dos

conflitos quanto os modos como se dissipam as angústias que assaltam as personagens possibilitam aos receptores que reflitam sobre suas experiências, reconheçam as emoções que experimentam no cotidiano das relações humanas, e promovam, ao mesmo tempo, a liberação de temores

que os assaltam e angustiam (MARTHA, 2010, p.140).

]

Essa interação do leitor com o texto pode fazê-lo construir uma nova maneira de enxergar a sua própria condição de vida e a de outros. Esse encontro pode ser potencializado quando a leitura do texto literário vem articulada a um momento de discussão, favorável ao levantamento de questionamentos e dúvidas. Quando via mediação, ampliam-se as possibilidades de se debater assuntos e acontecimentos que participam da vida social, da escola, como é o caso do bullying. Ao se abrir a discussão sobre tema que está no plano ficcional, os alunos poderão revelar seus sentimentos e se posicionarem diante das situações apresentadas pela narrativa sem se exporem. Além disso, essa experiência promove o caráter formador da literatura que “pré-forma a compreensão de mundo do leitor, repercutindo então em seu comportamento social” (ZILBERMAN, 2004, p. 38). Jauss (apud ZILBERMAN, 2004, p. 39) complementa essa ideia ao afirmar que “A relação entre a literatura e o leitor pode atualizar-se tanto no terreno sensorial como estímulo à percepção estética, como também no terreno ético enquanto exortação à reflexão moral”. Dessa maneira, por meio das leituras é possível fazer um paralelo entre as histórias e a realidade, assim, a partir do encontro com o texto, o leitor poderá ampliar o seu poder de argumentação a respeito de assuntos antes desconhecidos, como ocorre em relação ao bullying, fenômeno vivenciado por muitos, mas ainda esclarecido e discutido entre poucos.

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Portanto, o envolvimento proporcionado pela ficção possibilita à criança entender melhor a si e ao seu entorno, na medida em que estimula sua imaginação, ajuda a desenvolver seu intelecto e a tornar claras suas emoções, estar em harmonia com suas ansiedades e aspirações, reconhecer suas dificuldades e formular soluções para os problemas que a perturbam e, o mais importante, permite todo esse desenvolvimento sem que a criança corra risco algum, justamente, por estar no mundo do imaginário.

1. Um patinho em conflito: a imagem refletida a partir do olhar do outro

João Paulo, um garoto da 5ª série, 11 anos, vinha sofrendo perseguições de

Por ser tímido e sensível, chorava com facilidade e não

alguns colegas [

conseguia responder aos ataques de alguns companheiros de escola,

Seu aspecto era

passando a ser rejeitado pelos meninos da turma [

triste e deprimido. Parecia que estava sempre com medo de que algo ruim

O fato era que estava sofrendo muito e queria

].

].

lhe acontecesse. [

]

unicamente que o deixassem em paz (FANTE, 2005, p. 31-32).

Fante (2005), ao relatar a situação vivenciada por João Paulo, mostra o quanto a vítima de bullying se sente perdida e fica abatida em meio as ações de agressão, sem saber como agir, aumentando, cada vez mais, seu sofrimento. Esse caso, descrito na epígrafe, retrata as condições em que uma típica vítima se configura: o garoto é atacado, continuamente, por seus colegas de escola, pelo simples fato de ser tímido e se sente incapaz de revidar aos ataques (OLWEUS, 2006), tornando-se ainda mais retraído, triste e deprimido, da mesma maneira como se sente o personagem principal de O Patinho Feio (1838), ao ser rejeitado e agredido, por ser considerado feio, pelos outros animais que cruzam o seu caminho, no decorrer do conto.

A história O Patinho Feio (1838) se inicia com o nascimento de uma ninhada de patinhos. A mãe pata, entretanto, surpreende-se com o mais novo de sua prole, a ponto de exclamar: “– Patinho enorme, este! – disse ela – E é diferente de todos os outros” (ANDERSEN, 1978, p. 242). Essa constatação da mãe pata é compartilhada pelos outros animais da história, que passam a rejeitar o patinho em decorrência da sua forma física, configurando-se como um

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caso típico de bullying, na medida em que o patinho passa a ser alvo constante de agressões. Segundo Olweus (2006), o(s) agressor(es) aflige(m) a vítima com atos repetidos de violência. Esse fato agrava o sofrimento do patinho que vê reforçada e ampliada a sua situação de agredido diante das inúmeras atitudes de intimidação de que é vítima “O pobrezinho era perseguido por todos. Até os irmãos eram maus com ele” (ANDERSEN, 1978, p. 243). Diante das ações de violência, o patinho foge em busca de paz, mas continua a encontrar, em sua jornada, outros agressores que também o repudiam por sua feiúra. Essa condição perdura até o momento em que ele ao ver a sua imagem refletida na água, descobre- se cisne, tornando-se bonito aos olhos de todos. Tatar (2004) destaca que essa peculiaridade de “mudança natural do personagem”, existente na história O Patinho Feio, difere da característica mais marcante e comum ao gênero conto, em que o personagem principal é “jogado” ao mundo e tem que vencer todas as adversidades para assim alcançar a felicidade. Percebe-se, nesse conto, que o personagem principal não faz um grande esforço a fim de vencer as adversidades, ele aguenta todas as agressões e ao final, numa atitude de aceitação frente à possibilidade de ser morto pelas belas aves, não só descobre ser um cisne, como se torna o mais belo cisne do lago.

Em O Patinho Feio, não é expressa nenhuma necessidade de fazer algo. As coisas simplesmente estão traçadas pelo destino e se desenrolam de acordo com isso, independentemente de o herói agir ou não, enquanto que na história de fadas são os atos do herói que modificam sua vida (BETTELHEIM, 2007, p. 150).

Essa diferença na estrutura do conto não diminui, entretanto, a relevância de se analisar essa história, isto porque nela há outras características essenciais a esse gênero, como, por exemplo, a certeza de que, ao final, o indivíduo pode alcançar o sucesso - particularidade comum aos contos de fada. Assim, o final feliz na ficção oferece um alento às vítimas: o de que é possível vencer a luta. Todavia, na história, antes de descobrir-se cisne, o patinho incorpora a submissão/passividade/medo diante das ações dos outros animais, caracterizando-se como uma vítima típica, ficando completamente vulnerável às agressões, como se pode perceber já no início da história: “Os outros patos ao redor, vendo o bando, criticaram em voz alta. – Vejam só! – diziam – Vamos ter mais essa turma toda aqui dentro. Como se já não fôssemos

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gente de sobra. E olhem como é feio aquele patinho! Esse não vamos tolerar” (ANDERSEN, 1978, p. 243). No trecho acima se observa uma característica comum entre os agressores: a identificação de um “ponto fraco” na vítima, nesse caso, a feiúra do patinho, sua aparência física. Segundo Olweus (2006), a aparência não é o principal requisito para a escolha de uma vítima por parte do agressor, sendo esta apenas um agravante. Todavia, no conto em questão,

a aparência fora de padrão é escolhida como motivo para desencadear as agressões físicas e verbais às quais o personagem é submetido: “Uma pata voou para a ninhada e bicou na cabeça do patinho feio” (ANDERSEN, 1978, p. 243), a mãe do patinho protesta, afirmando que ele nada fizera e, portanto, deveria ser deixado em paz. Mas a pata agressora responde: “-

Sim. Mas é muito grande e esquisito [

243).

Nota-se que a atitude dos agressores do patinho se assemelha à dos bullies da vida real, visto que, assim como o patinho é agredido sem nada ter feito, as vítimas reais também são indivíduos inocentes que nunca fizeram mal aos seus agressores. A intenção do bully (valentão), ao escolher a sua vítima é a de encontrar alguém sobre quem possa exercer seu controle através da intimidação, alimentando, dessa maneira, sua autoafirmação. A mãe, inicialmente, numa atitude positiva, busca mostrar as qualidades do patinho:

“Vejam como ele usa as pernas direitinho, como ergue a cabeça. É meu filho, sim! Olhando- se bem para ele, vê-se que é até muito bonito” (ANDERSEN, 1978, p. 242). Entretanto, os outros animais, insistentemente, pedem que ela “dê um jeito” no patinho desengonçado: “São todos bonitos, menos aquele ali, que não saiu bem. Gostaria que minha amiga desse um jeito nele” (ANDERSEN, 1978, p. 243), disse a velha pata que tinha um pano na perna, reforçando a agressão.

]

E isso é quanto basta!” (ANDERSEN, 1978, p.

- Não há mais jeito a dar madame – disse a mãe dos patinhos – Ele não é bonito, mas tem um bom gênio e nada tão bem como qualquer um dos outros. Se quer que o diga, nada até um pouco melhor. Com o crescimento, creio, ele se tornará mais bonito. Pode ser também que com o tempo ele se torne um pouco menor. Ele esteve tempo demais dentro do ovo, e por isso não saiu com uma boa estampa. E a pata afagou-o e catou-lhe a nuca com o bico. – Além disso – acrescentou – é um pato macho, e aí não importa tanto. Creio que será bem forte e irá adiante ”(ANDERSEN, 1978, p. 243).

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No entanto, apesar da súplica da mãe, “o pobre patinho feio, nascido por último, era bicado, empurrado e escarnecido. Não só os patos, mas também as galinhas o maltratavam a valer” (ANDERSEN, 1978, p. 243). Diante de todas as investidas, o patinho ficou cada vez mais triste e desesperado, tornando as agressões mais frequentes a partir da sua própria submissão, passividade e medo, permitindo então que ocorresse o controle sobre o personagem-vítima:

Ele é grande demais! – diziam todos. [

todo [

ir nem onde ficar, triste e desesperado por ser tão feio e vítima de

e avançou para o patinho. O patinho coitado não sabia para onde

inchou-se

]

[até] o peru macho [

]

]

zombarias de todo o galinheiro. [

diante foi ficando cada vez pior” (ANDERSEN, 1978, p. 244).

]

Foi assim no primeiro dia e daí por

Esse trecho mostra o caráter repetitivo e cruel das agressões físicas e verbais sofridas pelo patinho. Os próprios irmãos eram maus com ele: “Tomara que o gato te pegue, bicho feioso” diziam (ANDERSEN, 1978, p. 244). Até mesmo a mãe, que havia estado em sua defesa, afirma não querer vê-lo mais, pelo fato de ele estar “causando” muito atrito com os animais do quintal. Não é essa a postura que a maior parte dos pais adota diante da situação de agressão ao qual o filho é submetido. Entretanto, como afirma Silva (2010), os pais, geralmente, atribulados com os afazeres do dia-a-dia, não dão a atenção devida aos seus filhos, deixando de observar, de forma mais acurada, o comportamento destes. Assim, não há nem mesmo o diálogo sobre temas importantes, como, por exemplo, o dia-a-dia na escola, como se as crianças e jovens não tivessem problemas que precisassem do auxílio dos adultos. Há também aqueles pais que, quando ficam a par da situação de bullying vivenciada pelo filho (a), por não saberem como agir, acabam colocando “a culpa” na timidez, ou ainda, incentiva-o (a) a revidar - o que só faz piorar a situação. A verdade é que os pais, muitas vezes desinformados, acabam tentando minimizar os efeitos do bullying, abafando a situação, na tentativa de que esta venha a se resolver naturalmente, agindo à semelhança da mãe do patinho, que, por não aguentar a pressão, abandona o filho à própria sorte, sem levar em consideração as duras consequências que essa atitude possa gerar.

764

O autor do livro Proteja seu filho do bullying - Allan L. Beane (2010) - relata a triste história do seu filho, Curtis, que sofrera bullying na infância e, posteriormente, na adolescência, após perder dois dedos, em decorrência de um acidente de automóvel. Beane (2010) narra que a autoestima do seu filho ficou completamente abalada e que, mesmo na vida adulta, ele não conseguiu superar a depressão e a ansiedade geradas pelas agressões, o que o fez procurar nas drogas ilícitas um alívio para a sua dor, o que resultou em sua morte aos 23 anos. Pode-se perceber, através do testemunho de Beane (2010), que, apesar de já informado sobre o assunto e de ter conseguido acabar com o bullying sofrido por Curtis, mudando-o de escola, não obteve o mesmo sucesso, quando, no ensino médio, o garoto voltou a ser perturbado cruelmente e foi levado, tempos depois, indiretamente, à morte. Em sua trajetória, o patinho também não conta com a compreensão da família. No quintal, ele é agredido por um grupo de animais e pela própria família e, ao fugir, enfrenta outras tantas agressões que o deixam cada vez mais convencido da sua condição de “criatura abominável”, incapaz de despertar qualquer sentimento que não seja o de aversão. Todas essas ações têm como foco “a feiúra” e se configuram como bullying, tendo em vista a constante prática de violência que resulta no estabelecimento de uma relação desigual de poder, em que a subordinação e o controle se fazem presentes intimidando a vítima. É a percepção de controle sobre a vítima o fator que impulsiona e satisfaz o agressor, sendo essa satisfação potencializada quando assistida e até reforçada pelos espectadores, pois, dessa maneira, o agressor se torna mais forte ao observar que é o sujeito dominante da situação, enquanto, no sentido contrário, a vítima vai ocupando o lugar de mais fraca, criando, assim, um ciclo vicioso entre agressor e vítima. O patinho sofre o bullying no quintal diante de todos os outros animais e a situação é amplificada, pois seus agressores se multiplicam a cada nova situação de escape que o personagem busca. O Patinho Feio, acreditando na sua condição de feiúra, foge em busca de paz e continua sua peregrinação a procura de refúgio. A fuga se constitui em uma saída reiterada pelas vítimas do bullying. São inúmeros os casos de crianças que fogem de casa, da escola porque são vítimas constantes de abusos físicos e psicológicos nesses ambientes. A última fuga costuma ser a mais radical e dramática, quando a vítima, não encontrando outra saída, comete o suicídio, como observou Olweus em seu estudo (2006) e como fizeram os atiradores de escolas nos Estados Unidos (2008) e no Brasil (2011), que, após perpetrarem suas vinganças, também se mataram.

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Ler O Patinho Feio salientando o drama do bullying que o personagem vive, possibilita que se discuta a visão que grande parte das vítimas vai construindo de si mesma, a partir do que os outros enxergam, e como isso pode afetar no desenvolvimento da identidade do indivíduo. Sem dúvida, a aparência física pode ser um atributo potencializador da situação de agressão. Apesar de não ser o principal (OLWEUS, 2006), requer atenção quando se trata da vida de pessoas que se magoam, profundamente, com as insinuações maldosas e difamadoras.

O personagem principal dessa história se sente perdido em meio a tanta rejeição,

passando a não acreditar em si mesmo como sujeito que tem seu valor, construindo uma auto-

imagem deturpada, gerando muito sofrimento e resignação ao pensar que as pessoas têm o

direito de o maltratar, justamente porque, de fato, ele também se convence de que é muito feio

e, portanto, merece todo esse repúdio.

É no momento em que a mãe já o abandona, que o patinho apavorado diante de tanta agressividade - “Os patos o bicavam, as galinhas o beliscavam, e a moça encarregada de

alimentá-los dava-lhe pontapés” (ANDERSEN, 1978, p. 244) – foge: “Aflito, o patinho fugiu,

e voou por cima da cerca. Lá fora, nas moitas, os passarinhos levantaram vôo, assustados.

Ali ficou a noite

inteira, triste e cansado” (ANDERSEN, 1978, p. 244).

Deve ser porque sou tão feio, pensou o patinho, e fechou os olhos. [

]

O sentimento que constantemente guia o patinho é o medo, o que o leva a se

desvalorizar cada vez mais, a ponto de relacionar o levantar voo de passarinhos com o fato de estes terem se assustado com a sua feiúra e tal pensamento deixa-o cada vez mais triste e

desamparado. Assim como o patinho incorporou o discurso e as atitudes dos outros animais, as vítimas, do mundo real, também passam a acreditar que merecem as agressões sofridas, apresentando uma baixa autoestima que pode levá-las a atos extremos como o suicídio.

] [

desespero quase sempre traduz o fato de que a vida perdeu sentido. Digo quase sempre, pois pode haver casos em que sofrimentos demasiado

depressão

paralisa. O suicídio é a decisão da paralisia definitiva (LA TAILLE, 2009,

p. 70).

insuportáveis levam a um desespero incontornável. [

uma coisa é certa: sejam quais forem as diversas causas, tal ato de

]

a

766

Da mesma maneira que o meio social do patinho incutiu-lhe na cabeça a imagem de que ele era realmente feio, a sociedade real também é responsável por produzir vítimas depressivas ou suicidas que sofrem de bullying, ao não promover alternativas que possam vislumbrar mudanças. O desespero em não ser aceito é o que leva o patinho a fugir, procurando assim novos caminhos e, especialmente, paz; entretanto, apesar de longe do seu quintal, ele continua

imerso em situações de agressão verbal e física, por parte de outros animais que encontra pela estrada. Os primeiros que cruzam o seu caminho são duas marrecas, que logo expressam o

Mas isso a nós pouco importa, desde

que não te cases com gente da nossa família ” (ANDERSEN, 1978, p. 244), deixando o

Mas que o deixassem em

paz, entre os juncos, bebendo água do brejo” (ANDERSEN, 1978, p. 244). Apesar da continuidade das agressões, o maior desejo do patinho, naquele momento, nada mais é do que ter paz, assim como João Paulo, garoto do caso descrito na epígrafe, desejava. As vítimas de bullying, em sua maioria, desejam apenas que a violência cesse, para que elas possam seguir a vida com tranquilidade. No conto, justamente no momento em que o patinho parece ter encontrado dois gansos selvagens que, de certa forma, o aceitam como ele é demonstrando atitude positiva de acolhida, tiros ecoam e os dois gansos morrem, deixando o patinho, mais uma vez, desesperado e solitário.

A tentativa em fazer amigos e a frustração em perdê-los costuma ser situação frequente entre as vítimas de bullying. Fragilizados em suas relações têm o quadro de tristeza agravado, como ocorre com o patinho. Diante do susto de ter perdido seus novos companheiros gansos, o patinho se depara com outro obstáculo: cachorros que também estão na caçada; felizmente, estes não o pegam e, mais uma vez, o patinho associa o fato dos cachorros não o terem mordido com a sua feiúra, afirmando: “Sou tão feio que nem o cachorro quis me morder” (ANDERSEN, 1978, p. 245). E, mesmo após os tiros terem cessado, o patinho deprimido demorou muito tempo até ter coragem de sair do lugar. A depressão é uma das consequências decorrentes do sofrimento causado pelos ataques de bullying. É uma doença que afeta o humor, os pensamentos, a saúde física e o comportamento do indivíduo. “Os sintomas mais característicos de um quadro depressivo são:

tristeza persistente, ansiedade ou sensação de vazio; sentimento de culpa, inutilidade e

reforço às ações de agressão “- És um bocado feio. [

]

patinho desolado, já que estava mesmo pensando em se casar “[

]

767

esses sentimentos de inutilidade e de culpa que vive o patinho, por acreditar que todos os inoportunos acontecimentos de sua vida são consequências da sua falta de beleza. Na sequência, o patinho encontrou um casebre e o adentrou; lá, morava uma velha com seu gato e sua galinha, que, por sua vez, se sentiam muito inteligentes e tinham certeza de que eram metade do mundo (ANDERSEN, 1978). O patinho, por mais que se esforçasse em expor seu ponto de vista, não conseguia transpor a “sabedoria” que o gato e a galinha

então cala a boca! Sabes arquear as costas, ronronar, e

então não podes dar opinião em conversa de gente grande. O patinho

meteu-se num canto acabrunhado” (ANDERSEN, 1978, p. 247), pois achava que se podia ter outra opinião, mas não se sentia forte o suficiente para enfrentar o embate. A partir desta passagem, percebe-se a primeira tentativa de atitude de mudança do patinho em busca de ser ouvido. Mesmo diante das barreiras, confidencia à galinha o seu desejo de flutuar na água, o que não é muito bem aceito por esta, que, numa demonstração de poder sobre ele, logo responde: “Sai-te com cada ideia! – retrucou a galinha – Não tens o que fazer. Por isso vens com essas ideias malucas. Põe ovos ou faze ronrom, que isso passa” (ANDERSEN, 1978, p. 247). O patinho, mais uma vez, procura ser entendido e afirma: “- Mas é tão bom boiar na água! É tão gostoso mergulhar até o fundo, e ter água por cima da cabeça” (ANDERSEN, 1978, p. 247). Contudo, por mais que o patinho insistisse em expor suas ideias, a galinha só fazia insistir em diminuir a sua opinião, deixando-o muito aborrecido e fazendo-se sentir-se totalmente incompreendido.

acreditavam ter. “Sabes pôr ovos? [

faiscar os olhos? [

]

]

Estás louco, isso sim. [

todo o bem que te foi feito! Não viestes a um quarto quente, para a companhia de gente da qual podes aprender alguma coisa? Mas és um idiota metido a besta; e nem tem graça falar contigo! Em mim podes crer: só

Digo-te coisas desagradáveis e é por elas que

quero o seu próprio bem [

Não te metas a sabido, guri! Dá graças a Deus

]

]

se conhecem os verdadeiros amigos. Trata logo de pôr ovos ou aprende a

ronronar ou faiscar os olhos (ANDERSEN, 1978, p. 248).

Percebe-se a intenção da galinha em manter o controle sobre o patinho, buscando mostrar que ele realmente nada sabe e que, portanto, deve obedecer às diretrizes impostas para ser reconhecido. Nota-se a intenção da galinha ao afirmar ser uma verdadeira amiga, mesmo proferindo palavras rudes contra o patinho, tal como fazem alguns bullies ao

768

afirmarem que suas agressões não fazem mal e que devem ser aceitas como simples brincadeiras. É justamente diante da incompreensão de seus pares, em mais uma atitude de mudança, que o patinho decide ir embora do casebre “– Creio que vou sair pelo mundo afora

– disse o patinho. [

E foi-se embora (ANDERSEN, 1978, p. 247-248). Entretanto, “todos

os animais o desprezavam por sua feiúra” e ele continuava triste, sem saber que rumo seguir.

Até que, o patinho encontra lindas aves - “Eram de um branco brilhante, com longo

pescoço delgado e flexível. Eram cisnes. Soltavam gritos muito estranhos, abriram as longas e

vendo-as, o patinho feio sentiu algo estranho

esplêndidas asas, e partiram da região fria [

(ANDERSEN, 1978, p. 248). Foi o encantamento pelas belas aves que fez o patinho sentir, pela primeira vez, uma sensação diferente e, mesmo sem saber o nome daquelas aves, ele gostava delas, o que, de certa forma, dá indícios de que o patinho, nesse momento, se abre

para o novo e se deixa levar, extasiado com tamanha beleza.

]

]

Virou-se na água, como uma roda, esticando o pescoço, bem alto, na ânsia de vê-las melhor, e soltou um grito tão agudo e esquisito que ele próprio se assustou. Não lhe saiam da cabeça as maravilhosas aves, as aves felizes. [ ] Não sabia o nome daquelas aves, nem para onde voavam, mas apesar disso gostava delas como nunca antes gostara de alguém. Não sentiu inveja. Como poderia ter ousado desejar para si uma tal delícia, ele que já se teria dado por muito feliz se os patos o tivessem tolerado em sua companhia, pobre bichinho feio? (ANDERSEN, 1978, p. 248).

Sem saber reconhecer um ato de bondade, pois em toda a sua vida só conheceu a hostilidade, o patinho que, com o rigoroso inverno ficara preso no gelo, tem medo da família do camponês, que demonstrando uma atitude positiva o salvara do frio, como se vê na seguinte passagem:

[

Dentro da casa o patinho

reanimou-se. As crianças queriam brincar com ele, mas ele, pensando que

libertou o patinho e levou-o para casa [

aproximou-se e quebrou o gelo com o tamanco,

]

um camponês [

]

].

lhe queriam fazer mal, assustou-se, fugiu e foi cair direitinho no latão de

].

Por felicidade, a porta estava aberta, e por ela o patinho saiu e foi ocultar-se

leite [

].

A mulher gritou e procurou atingi-lo com o tenaz do fogão [

769

entre uns arbustos, na neve caída à noite, e ali ficou deitado, inerte (ANDERSEN, 1978, p. 249).

Assim, o patinho voltou a sofrer. Felizmente, conseguiu sobreviver a mais essa adversidade, até a chegada da primavera, que marca a mudança definitiva em sua aparência. Não é fácil apagar toda a humilhação sofrida pela vítima, é como se toda a agressão passasse a fazer parte dela, e, mesmo após cessados os ataques, sua consequência pode durar por um longo período, ou mesmo nunca acabar, de maneira que toda a sua vida passa a receber indefinidamente influência das situações de violência, refletidas nas suas ações (ROLIM, 2010). Nessa lógica, mesmo ao reconhecer as lindas aves que vira antes, o patinho continua a temer represálias devido à sua condição de feiúra. “Num ímpeto, ele abriu as asas, que

O

fizeram maior rumor que antes [

patinho reconheceu as formosas aves, e sentiu-se tomado por uma estranha melancolia” (ANDERSEN, 1978, p. 249-250). Entretanto, numa atitude de coragem, exclama: “– Vou até lá; ao encontro daquelas aves reais. Irão matar-me de bicadas porque eu, tão feio, me atrevo a aproximar-me delas. Mas não me importo” (ANDERSEN, 1978, p. 250). Porém, para sua surpresa, ao baixar a cabeça à espera da morte, ele vê sua imagem refletida, que nada tem a ver com um patinho feio e, sim, com um belo cisne. É nesse momento que ele, enfim, se reconhece como um ser belo.

]

Da mata saíram três formosos cisnes brancos [

]

Não importa ter nascido num galinheiro, entre patos, quando se saiu de um ovo de cisne. Sentiu-se até satisfeito com as angústias e adversidades sofridas. Sentia agora a ventura, as maravilhas que o aguardavam. E os

grandes cisnes nadaram ao redor dele, afagando-o o bico [ [cisne] é o mais bonito – diziam todos – Tão jovem e belo! [

muito, muito feliz, mas não ficou vaidoso nem soberbo. Pensou no quanto

fora perseguido e escarnecido, e ouvia agora todos dizerem que ele era o

– Nunca sonhei com tanta

felicidade quando eu era um patinho feio (ANDERSEN, 1978, p. 250-251).

– O novo Sentiu-se

]

]

mais lindo entre todas as aves lindas [

]

O sofrimento do patinho pode ser visto como uma jornada de provas para que no final sua atitude de conformação seja compensada pela descoberta de sua verdadeira identidade. Entretanto, o bullying não é um teste de resistência que possa contribuir positivamente na

770

formação da identidade de alguém, haja vista os resultados dos estudos de Olwens e de outros especialistas. Os estudos sobre o bullying permitem identificar que o patinho feio é um personagem literário vitimizado ao longo da história; seu final feliz não decorre da ajuda de outros, de sua decisão em mudar seu destino, tampouco sua felicidade não parece deixar marcas de todo o sofrimento passado, esse é apenas um pensamento ligeiro. A solução literária encontrada para o patinho pode não ser o final que as vítimas reais de bullying encontram. Entretanto, lendo e discutindo a história que conta o longo sofrimento do patinho, crianças e jovens podem se tornarem sensíveis e críticos sobre essa injustificada violência. Podem, a partir dessa experiência estética, mudar atitudes, comportamentos e, quem sabe, construírem um ambiente de paz no seu entorno. É essa relação texto x vida que possibilita ao leitor a experiência de confronto com a situação de bullying, seja como vítima, espectador ou agressor ou como alguém que se prepara para os desafios da existência.

2.

REFERÊNCIAS

ANDERSEN, Hans Christian. Contos de Andersen. Tradução Guttorm Hansse. Ilustrações originais de Vilh Pedersen e Lorenz Frolich. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

BEANE, Allan L. Proteja seu filho do bullying. Tradução de Débora Guimarães Isidoro. Rio de Janeiro: BestSeller, 2010.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. 21. ed. Tradução de Arlete Caetano. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

CALHAU, Lélio Braga. Bullying: o que você precisa saber: identificação, prevenção e repressão. 2. ed. Niterói, RJ: Impetus, 2010.

FANTE, Cleo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para paz. 2. ed. Campinas, SP: Verus, 2005.

771

; PEDRA, José Augusto. Bullying escolar: perguntas e respostas. Porto Alegre:

Artmed, 2008.

FRANZ, Marie-Louise Von. A interpretação dos contos de fada. 4. ed. Tradução de Maria Elci Spaccaquerche Barbosa. Revisão de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003.

HELD, Jaquecline. O imaginário no poder. Tradução de Carlos Rissi. São Paulo: Summus,

1980.

LA TAILLE, Yves de. Formação ética: do tédio ao respeito de si. Porto Alegre: Artmed,

2009.

MARTHA, Alice Áurea Penteado. No olho do furacão: situações-limite na narrativa juvenil. In: AGUIAR, Vera T. de; CECCANTINI, João Luís; MARTHA, Alice Áurea P. (Orgs.). Heróis contra a parede: estudos de literatura infantil e juvenil. São Paulo: Cultura Acadêmica; Assis: ANEP, 2010. OLWEUS, Dan. Bullying at school: what we know and what we can do. Malden: Blackwell,

2006.

SERRA, Paolla. Atirador de Realengo confessa em novo vídeo que bullying motivou o ataque, 2011. Disponível em: http://extra.globo.com/casos-de-policia/atirador-de-realengo- confessa-em-novo-video-que-bullying-motivou-massacre-1600031.html: Acesso em: 25 maio

2011.

SILVA, Ana Beatriz B. Bullying: mentes perigosas nas escolas. Rio de Janeiro: Objetiva,

2010.

ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. 11. ed. São Paulo: Global, 2003.

Estética da recepção e história da literatura. São Paulo: Ática, 2004.

772

772 MECANISMOS DE REFERENCIAÇÃO NO GÊNERO CARTA ABERTA: UMA ANÁLISE DOS TEXTOS PRODUZIDOS PELOS ALUNOS DO

MECANISMOS DE REFERENCIAÇÃO NO GÊNERO CARTA ABERTA: UMA

ANÁLISE DOS TEXTOS PRODUZIDOS PELOS ALUNOS DO CURSO FIC

LINGUAGEM E ARGUMENTAÇÃO – IFRN NOVA CRUZ

1. Introdução

Jeane Gomes de Paiva (IFRN- Bolsista de Pesquisa e Extensão) Elis Betânia Guedes da Costa (PPgEL/UFRN, IFRN- Campus Nova Cruz)

Para que uma redação seja bem elaborada são necessários diversos procedimentos,

entre os quais a coesão é um dos fatores essenciais para que haja progressão textual. A coesão

textual é um termo que designa mecanismos linguísticos que estabelecem no texto uma

continuidade de sentido entre diversos elementos da estrutura textual. Esses mecanismos

compreendem, na linearidade do texto, processos léxico-gramaticais que são fundamentais

para a compreensão de sentido.

Considerando a importância desses mecanismos, principalmente a repetição e a

anáfora, na elaboração dos textos e a dificuldade que muitos alunos apresentam, delineamos

esse estudo que tem como objetivo a identificação e análise destes mecanismos com o

propósito de compreender como os alunos as usam quando produzem uma Carta Aberta.

2. Metodologia

No ano de 2011 aconteceu no IFRN, Campus Nova Cruz, um curso FIC (Formação

Inicial Continuada) que tinha como título “Linguagem e Argumentação”, tal curso objetivava

a capacitação e aperfeiçoamento na escrita de alunos da comunidade externa nos textos

predominantemente argumentativos, os gêneros abordados em tal curso foram: Artigo de

Opinião e Carta Aberta, sendo o mesmo ministrado pela professora Elis Betânia Guedes da

773

Costa e o professor Luiz Alberto Celestino, com o acompanhamento dos bolsistas: Jeane Gomes de Paiva e João Marcos Borges da Silva. Após o término desse curso constatamos a necessidade de analisar os textos produzidos pelos alunos, observando principalmente os recursos coesivos. Para esse artigo

destacamos o estudo da repetição e da anáfora, tendo em vista que uma das dificuldades mais frequentes diz respeito ao uso dos elementos de referenciação em produções textuais. Diante disso, os estudos de Adam (2008) e Koch (2010) serviram como base para as análises realizadas.

O corpus do nosso estudo é formado por 13(treze) textos de gênero Carta Aberta.

Considerando o fato de esse gênero ser solicitado em processos seletivos, acreditamos que este estudo tenha também um aspecto colaborativo devido a vinculação do gênero tratado com a realidade do aluno.

O curso em questão apresentava uma carga - horária de 60 horas e dividia-se em três

módulos: (1) Noções de texto, coesão e coerência, (2) Oficina de Artigo de Opinião e (3) Oficina de Carta Aberta. Uma vez que tais gêneros apresentam discursões sobre temas polêmicos, nós bolsistas, ficamos com a responsabilidade de pesquisar e abordar polêmicas atuais para que os alunos tivessem noção do conteúdo que seria solicitado nas produções textuais.

Sendo assim, defendemos que esclarecimentos sobre os temas polêmicos se fazem essenciais para tais gêneros uma vez que proporcionam ao aluno uma visão ampla de forma que ele assuma um posicionamento acerca do assunto que está sendo tratado. Entre esses temas, o conceito de justiça foi abordado para subsidiar a proposta de produção de uma Carta Aberta.

3. Fundamentação Teórica Nessa seção iremos apresentar algumas considerações sobre princípios de textualidade, coesão, referenciação, repetição e anáfora. Em seguida abordaremos brevemente o gênero textual Carta Aberta, tendo em vista que os textos analisados posteriormente pertencem a tal gênero. Quando falamos em texto temos a ideia que são apenas palavras interligadas por meio de conectivos, porém um texto para estar organizado realmente, visto que para que as ideias contidas neste estejam encadeadas, é preciso que suas partes estejam conexas, por isso, precisa-se de recursos coesivos que garantam a progressão textual. A coesão textual é definida por Koch como sendo:

774

Forma como os elementos linguísticos presentes na superfície textual se interligam, se interconectam, por meio de recursos também linguísticos, de modo a formar um ‘tecido’ (tessitura), uma unidade de nível superior à da frase, que dela difere qualitativamente. (KOCH:

1999, p. 35)

A coesão textual exige a presença de conectores para assegurar que a consolidação

semântica do texto possa ocorrer, podemos citar entre as principais funções da coesão: criar, estabelecer e sinalizar os laços que deixam ligados os segmentos, isto é, promove a continuidade do texto. Esta estrutura linguística tem formato sintático e gramatical, porém é de extrema relevância associar a mesma ao caráter semântico, pois exige elementos que proporcionam a interpretação do texto.

A constituição da coesão textual se dá por meio de dois elementos fundamentais para

a progressão do texto: a sequenciação e referenciação. O processo de sequenciação ou coesão

sequencial:

Diz respeito aos procedimentos linguísticos por meio dos quais se estabelecem, entre segmentos do texto (enunciados, partes de enunciados, parágrafos e sequências textuais), diversos tipos de relações semânticas e/ou pragmáticas, à medida que se faz o texto progredir. (KOCH: 2010, p. 53).

Já a coesão referencial ou referenciação é, segundo Koch (2010, p. 31) “aquela em

que um componente da superfície do texto faz remissão a outro(s) elemento(s) nela presentes ou inferíveis a partir do universo textual.” Este mecanismo é o encarregado de remeter elementos que pode fazer referência e/ou inferência, dentro do âmbito textual, de acordo com

o seu contexto. Podemos também dizer que esse procedimento pode ser visto como um processo introdutório de referentes, uma vez que antes de ser feita a reativação de um referente no texto é necessário a sua introdução. Esse processo sinaliza a focalização ou desfocalização do referente, sendo que cada um desses elementos gramaticais estabelece conexões, articulações, ligações, ou seja, relações necessárias à interpretação textual e assim, concatenando as ideias propostas. Ainda em relação à referenciação, Koch e Elias (2008, p. 135), a destaca como sendo uma “atividade discursiva, na qual, o processamento textual se dá numa oscilação entre vários movimentos: um para frente (projetivo) e outro para trás (retrospectivo), representáveis parcialmente pela catáfora e anáfora.” A catáfora pode ser compreendida com sendo uma

775

representação de um elemento linguístico que para sua interpretação depende de um outro termo que virá depois para completar o sentido do texto, ou seja, a catáfora se dá como um processo remissivo a um termo posterior. Exemplo: Maria olhou-o e disse: - João, estás preocupado?. No exemplo supracitado é perceptível a presença da catáfora uma vez que o termo antecedente (olhou- o) precede o referente (João).

3.1. Repetição Segundo Antunes (2005, p. 60) “a repetição, enquanto procedimento coesivo, inclui os seguintes recursos: paráfrase, paralelismo e repetição propriamente dita de uma palavra ou de uma expressão”. Pela impossibilidade de analisarmos todos os recursos focaremos na repetição propriamente dita.

Segundo Marcuschi (1992), em seu estudo acerca da “repetição na língua falada – formas e repetições”, há um questionamento sobre a importância da repetição, pois deixa-se de ser um vício de linguagem quando se trata da oralidade e passa a ser estratégia de coesão e envolvimento possibilitando uma maior naturalidade nas atividades interacionais. Dessa forma, ele destaca as funções principais como sendo de esforço, ênfase, coesão, coerência e efeito estilístico. Além desse pesquisador, muitos outros têm se dedicado a investigar esse fenômeno linguísticos, como por exemplo Bessa Neto(1991). Acerca da repetição Marcuschi (1992, p. 31) apud Costa (2010, p. 30) define como sendo a “produção de segmentos discursivos idênticos ou semelhantes duas ou mais vezes no âmbito de um mesmo evento comunicativo”. Sendo assim, este autor subdivide a repetição em: (1) Literal – quando não ocorre variação nem de forma, nem de conteúdo; (2) Lexicais com variação – quando apresenta variação de número, gênero, pessoas ou tempos verbais e (3) estrutural – quando a estrutura sintática da oração não apresenta alterações. Apresentaremos a seguir alguns exemplos dos tipos informados, os mesmos foram retirados de Costa (2010). Em síntese:

Literal - O povo brasileiro é muito diferente das pessoas de outros países, as pessoas mistas. Tem pessoas morenas?

Com variação - Nossa sociedade deve sim! Entender que é preciso repensar a

políticas salariais de forma que o salário não só garanta o que é a necessidade básica do

cidadão

776

Estrutural – A população mundial deve tomar atitudes urgentes no que se diz respeito

ao aquecimento global. A população mundial deve mobilizar-se. Marcuschi (1992, p. 31) apud Costa (2010, p. 30) que tanto a repetição de palavras (estrutura) como a repetição de conteúdo (sentido) constitui repetições e são caracterizadas pela existência de uma matriz (M) que no decorrer do discurso é retomada, podendo ser representada por (R) repetição, estando sempre relacionadas a um foco (F), que interferem na caracterização do tipo de repetição em vários níveis: fonológico, morfológico, sintático, lexical, semântico ou pragmático. Mas não impede a criatividade ou atividade reformuladora. Enfim, o uso da repetição de palavras e suas funções sintáticas em um texto oral ou escrito não prejudicam seu processo de construção se forem bem empregadas e sem excessos, concretizando, portanto a finalidade de unir elementos que garantam sua compreensão de forma completa, sem tornar a leitura um exercício cansativo.

3.2. Anáfora Dentre os vários processos que a referenciação abrange, abordaremos em particular o mecanismo da anáfora. A anáfora é tida com um elemento que substitui um elemento antecedente a que se faz remissão, ou seja:

É a remissão a um referente citado anteriormente, com o intuito de dar progressão ao texto, com o acréscimo de novas informações. Ela retoma (reativa) referentes previamente introduzidos no texto, estabelecendo uma relação de correferência entre o elemento anafórico e seu antecedente. (KOCH & ELIAS: 2009, p. 136). A anáfora é uma palavra ou expressão de valor referencial que remete ao discurso anterior, uma vez que, para a interpretação de uma determinada expressão com termos anafóricos depende da interpretação de outra expressão presente no contexto denominada de antecedente, podemos dizer que anáfora é um termo, palavra ou expressão que faz, por meio de elementos linguísticos, referência a outro termo já mencionado no texto, a remissão textual permite a ancoragem em uma informação dada e, com isso, mediante a introdução da informação nova, opera-se a progressão textual. Existem vários tipos de anáforas, e no quadro a seguir serão apresentados os tipos analisados em nosso corpus de acordo com Koch (2004) e Adam (2008).

QUADRO 01:Tipos de Anáforas

Anáfora Pronominal

777

Anáfora Demonstrativa

Anáfora Associativa

Anáfora por Hipônimo/hiperônimo

Dentre os vários tipos da anáfora iniciaremos com a Anáfora Pronominal. Este tipo de anáfora ocorre quando um pronome é introduzido no texto e tem a função de retomar a outro termo que já foi dito, ou seja, o termo é retomado por um pronome, ele faz uma “ponte de sentido”, uma vez que ele colabora para a remissão anterior ao termo e é facilmente percebida pelo fato de ter um antecedente linguístico explícito no contexto. Exemplo 01:

“Tudo começou com um ovo de chocolate que trazia dentro um caracol de brinde. Montou-o, colocou-o no vidro do carro passando a transportá-lo consigo.” (Revista Visão, 3 de Abril de 2008, p. 12) apud (MARQUES 2009, p. 39) No exemplo supracitado percebemos, por duas vezes, a retomada ao termo “ovo de chocolate” pelo pronome “o” caracterizando assim a ocorrência da Anáfora pronominal. A Anáfora Demonstrativa que faz uso dos pronomes demonstrativos para que haja a remissão de um termo anterior, haja vista que esse sentido possa ser interpretado a partir de uma demonstração indicados por pronomes demonstrativos ou termos que possam ser caracterizados também demonstrativos. Exemplo 02: O cachorro de Débora é muito amoroso, porém o gato não gosta dele. Neste exemplo podemos ver o pronome demonstrativo “dele” faz referência ao termo “cachorro” caracterizando a Anáfora Demonstrativa. Outro tipo de anáfora é a Anáfora Associativa é aquela realizada por meio de segmentos, ela refere-se a um objeto no discurso que não foi mencionado explicitamente no texto, a interpretação da mesma pode ser feita referencialmente a partir de dados que são introduzidos no universo discursivo. Vejamos o exemplo a seguir, que retrata um caso de anáfora associativa, pois a relação estabelecida baseia-se em esquemas cognitivos e relação de inferência. UM CARRO CAI DE 160 METROS ACIDENTE. Devido a uma derrapagem na estrada, ontem pela manhã no desfiladeiro entre Oberalp e Sedrum (Grisons), um carro fez um mergulho de 160 metros. Ferida nas costas, a passageira foi transferida de helicóptero para o hospital regional de Coire, informou

778

a polícia e Grison. Quanto ao motorista, ficou apenas levemente

ferido. 262 Acerca do exemplo supracitado é importante ressaltar que, através da inferência de elementos, torna-se perceptível que os termos “a passageira” e “o motorista fazem remissão

ao introduzido anteriormente no texto (carro). Pode ser melhor compreendido no comentário de Adam (2011, p.135):

O fato de que se pode fazer retomada por um definido (a passageira, o

motorista), que remete ao carro introduzido no título e no início do artigo, explica-se porque as presenças se um motorista e de uma passageira podem ser inferidas com base nos conhecimentos lexicais. Fala-se, nesse caso, de anáfora associativa. A esse respeito, deve-se, pois, entender que a inferência é ponto crucial para a

percepção da anáfora associativa. A Anáfora por hipônimo/hiperônimo pode ser efetuada a partir da utilização de hipônimos e hiperônimos, como termos anafóricos. Hiperônimo pode ser compreendido como sendo uma palavra que representa um significado mais abrangente que o seu hipônimo. Como podemos ver no exemplo abaixo:

Exemplo 03:

Nesse sentido, Koch (2004), apud Rodrigues (2010, p. 4) comenta:

A retomada, por meio de um hiperônimo, de um objeto de discurso

previamente introduzido por um hipônimo constitui estratégia referendada pela norma, que assegura um mínimo de estabilidade informacional, visto que a anáfora por hiperonímia funciona necessariamente por recorrência a traços lexicais. Sendo assim, faz-se necessário afirmar que todas as relações usadas são de fundamental importância para que ocorra a anáfora, a referenciação e, contudo, a coesão textual. Dentre as funções das anáforas podemos citar a realização de retomadas de termos anteriormente citados, a contribuição para o engajamento das palavras e a progressão textual que se fazem muito importante para que o texto fique coeso.

779

3.3. Carta Aberta Como foi anunciado anteriormente passamos agora a refletir sobre o gênero Carta Aberta. Este pode ser entendido como um gênero que possui características homogêneas em relação a outro tipo de carta, como é a Carta Pessoal, porém se difere em alguns quesitos. Primeiramente, na questão da semelhança entre Carta Aberta e Carta Pessoal, é explicitamente perceptível a ideia que as duas se tratam de carta, já em relação às diferenças entre as duas é válido ressaltar a questão do destinatário, que na Carta Pessoal é destinada a um amigo, parente ou alguém próximo da pessoa que está escrevendo esta, levando em consideração que em tal gênero apenas uma pessoa assina, em contrapartida a Carta Aberta tem como característica determinante ser aberta, ou seja, é destinada a uma autoridade pública, uma pequena população ou até mesmo uma nação, e pode ser assinada por uma pessoa ou um grupo de pessoas. Outra divergência é que a Carta Pessoal trata apenas de interesses comuns entre um ou dos interlocutores envolvidos na mesma, porém a Carta Aberta referencia-se a interesses coletivos, um problema consensual.

Segundo Silva (2002, p. 73) “a carta aberta pode atuar com o fim de justificar um dado episódio que pretensamente possa manchar a imagem de uma organização social, uma pessoa pública e uma categoria social e assim por diante”. Em outras palavras a Carta Aberta trata de um interesse comum ao grupo ou pessoa que representa. Silva (2002, p. 73) ainda acrescenta que “esse gênero tem como finalidade discursiva publicitar algo”. Geralmente, é exposta numa Carta Aberta uma questão polêmica, tendo em vista que a mesma trata-se de um texto em que predomina as sequêencias argumentativa e injuntiva, uma vez que requer do autor não só a exposição de um fato ao público, mas também a defesa de um ponto de vista, visando influenciar as pessoas a tomar alguma atitude em relação ao fato denunciado.

Podemos dizer que a carta aberta é composta por aspectos estruturais que contém os elementos seguintes:

• Título – onde é evidenciado o destinatário da carta;

• Introdução – onde é estabelecido o problema a ser resolvido;

• Desenvolvimento – onde é analisado o problema, onde é feita a apresentação dos

argumentos, a fundamentação dos mesmos, ou seja, o ponto de vista do(s) emissor(es).

• Conclusão – onde é solicitado uma possível resolução do problema apresentado. Situado o percurso teórico passaremos para a análise do Corpus.

4. Resultados e Discussão

780

Os textos produzidos por tais alunos foram desenvolvidos a partir da proposta da

organização de um texto argumentativo, mais especificamente de gênero Carta Aberta pelo

qual o destinatário é a população mundial e o assunto em questão é a justiça.

4.1. A repetição lexical nos textos analisados

Para eficácia da análise, seguiremos a classificação proposta por Bessa Neto (1991) já

apresentada anteriormente. Para uma melhor compreensão comentaremos exemplos retirados

dos textos, seguindo uma ordem sequencial. Iniciaremos nossa análise identificando os

diferentes tipos de repetição (literal, com variação e estrutural) recorrentes nos textos

analisados.

Para identificarmos melhor os tipos de repetições mais utilizados nos mesmos, foi

elaborado o quadro a seguir.

QUADRO 02 – Ocorrência das repetições lexicais nos textos do curso FIC

ALUNO

Repetição

Repetição

Repetição

Repetição

Número

Número

literal

com

Estrutural

estrutural

de

total de

variação

literal

com

palavras

repetições

variação

por texto

A1

20

7

----------------

2

247

28

A2

23

6

---------------

----------------

293

29

A3

7

4

----------------

2

149

13

A4

12

13

----------------

----------------

231

25

A5

11

----------------

4

----------------

221

15

A6

7

5

5

----------------

135

17

A7

9

5

2

3

203

19

A8

12

3

---------------

----------------

178

15

A9

9

8

----------------

2

183

19

A10

12

5

2

5

192

24

A11

23

3

2

2

237

30

A12

6

2

----------------

2

79

10

A13

5

8

---------------

2

126

15

TOTAL

156

69

13

20

2474

259

De acordo com o que foi observado no quadro acima, as repetições lexicais encontradas

nos textos somam 259, chegando a conclusão que a repetição literal foi a mais utilizada, sendo

encontrada em todos os textos, totalizando 156 casos. Em sua maioria essa repetição, ocorre

de 10 a 20 vezes, em média em cada texto. O número máximo identificado deste tipo de

repetição encontra-se nos textos com código A2 e A1, resultando num total de 23 repetições

em cada um, na qual a palavra “justiça” foi utilizada, sem nenhuma alteração.

Em segundo lugar aparece a repetição lexical com variação, que ocorre na maioria dos

textos analisados, totalizando um número de 69 casos. Essa variação se dar no número

781

(singular/plural), outro bastante identificado é a variação de gênero (masculino/feminino) e

variações verbais, principalmente em relação ás formas nominais ( infinitivo, gerúndio e

particípio ).

Para melhor compreensão da análise textual, destacamos o texto A11, tal texto está

digitado da mesma forma que foi escrito pelo aluno(a):

Texto 11:

CARTA ABERTA À POPULAÇÃO

Osama Bin Laden foi o maior terrorista que existiu nos últimos 10 anos ele aterrorizou demais as pessoas, principalmente o país (EUA), seu ataque maior foi as torres Gêmeas (World Trade Center). Em 2 de maio de 2011, o mundo comemorou a sua morte com muita alegria (especialmente o povo norte-americano), todos acham que a justiça foi feita. No país mais afastado fizeram a maior divulgação, muitas vozes fizeram coro junto às vozes dos líderes norte-americanos Barak Obama e Hillary Clinton. Pois eles acharam que a justiça estava feita com as próprias mãos. Mas será que é dessa maneira que a justiça é feita? Acredito que não pois a justiça maior é a de Deus, quando for o dia do juízo final tenho certeza que o fim dele vai ser o lago de fogo eterno com o diabo e seus anjos. Não podemos fazer justiça com nossas mãos, porque acredito que ninguém pode tirar a vida de ninguém, mesmo sendo o maior terrorista dos últimos tempos, sei que é muito difícil para aquelas famílias, mas se elas pararem para pensar dessa maneira que penso, porque acredito na bíblia que é a palavra de Deus, vai ter um juízo para ele e esse juízo é verdadeiro, ele vai pagar por todos os seus crimes. Pois com a morte do terrorista eles acharam que viveriam mais tranquilo e os mortos que a justiça estava feita.

O texto 11 apresenta 237 palavras. Sendo considerado um texto relativamente extenso.

Num todo o mesmo apresenta quatro tipos de repetições citados neste corpus como critério de

análise. Podemos observar que o autor(a), procura cumprir as regras básicas para à elaboração

do gênero textual: carta aberta, solicitado no curso FIC de linguagem e argumentação.

Porém, demonstra algumas fragilidades no que se diz respeito a construção da

argumentação e progressão temática, chegando inclusive a distanciar-se da temática sugerida.

Como podemos verificar o tipo de repetição mais recorrente é a lexical literal, pois a

palavra “justiça” é repetida 6 vezes. Muitas das quais são desnecessárias como pode ser

observado no fragmento “Acredito que não pois a justiça maior é a de Deus, quando for o dia

782

do juízo final tenho certeza que o fim dele vai ser o lago de fogo eterno com o diabo e seus

anjos. Não podemos fazer justiça com nossas mãos, porque acredito que ninguém pode tirar a

vida de ninguém

progressão textual.

Como podemos observar o uso excessivo das repetições prejudicam a

”.

4.2 A anáfora nos textos

Pela impossibilidade de apresentarmos isoladamente a análise de todos os textos

optamos por apresentar o quadro a seguir que resume as ocorrências de anáforas nos textos

em questão, em seguida iremos apresentar a análise do texto 13, tal escolha deve-se ao fato do

quase todos os tipos de anáforas destacados em nossa pesquisa, exceto a Anáfora por

Hipônimo/Hiperônimo.

QUADRO 03: Ocorrência de anáforas nos textos

CÓDIG

Nº DE

Nº DE

Nº DE

Nº DE

TOTAL DE

O DO

DE

ANÁFOR

ANÁFORA

ANÁFOR

ANÁFORA

ANÁFORA

TEXTO

PAL

A

DEMONSTR

A

POR

S POR

AVR

PRONO

ATIVA

ASSOCIA

HIPÔNIMO/

TEXTO

AS

MINAL

TIVA

HIPERÔNI

MO

002

247

01

--

--

--

01

003

294

--

01

01

--

02

005

149

--

02

01

--

03

006

232

03

--

--

--

03

008

222

03

--

--

--

03

009

136

--

01

01

--

02

012

203

--

--

01

--

01

015

178

01

01

--

--

02

016

183

01

--

01

--

02

017

187

01

--

01

--

02

018

237

07

01

--

--

08

020

77

01

01

01

--

03

021

121

02

01

--

--

03

TOTAL

2466

20

08

07

0

35

Como podemos observar no quadro acima, as anáforas identificadas somam 35 que

aparecem nos textos divididos em tipos diferentes de anáforas. A anáfora pronominal é a mais

frequente nos textos, uma vez que a mesma totaliza 20 das 35 ocorrências de anáforas

presentes nos textos analisados. O pronome “sua” aparece por cinco vezes nos textos

referenciando a palavra “morte”, faz-se pertinente dizer, de acordo com a análise, que foi a

mais recorrente nos textos em questão.

783

Ainda em relação ao quadro, é perceptível que tanto as anáforas demonstrativas

quanto as anáforas associativas ocorrem em mesmo número, já em relação à anáfora por

hipônimo/hiperônimo não foram ocasionadas em nenhum dos textos em análise, uma vez que

existe por parte dos alunos um desconhecimento para com este tipo de anáfora que é

considerado mais complexo em relação a outros tipos de anáforas, como a pronominal.

Vejamos agora a análise de um texto, conforme anunciamos anteriormente, vale

ressaltar que tal texto foi digitado da mesma forma da versão original.

Texto 13-

CARTA ABERTA Os atentados sobre os Estados unidos foi de grande agressão a toda sociedade americana. A tragédia do dia 11 de setembro de 2001 trouxe grandes consequências a população. Passando tantos anos o país ainda sofre com sentimento de insegurança e medo. Foram 3.044 vítimas entre elas mulheres homens e crianças mortas cruelmente, mais podemos afirmar que toda população americana foi vítima desta grande tragédia. Por isso pedimos e temos a certeza do apoio de toda a sociedade.

No texto 13, pode ser identificada a ocorrência de diferentes tipos de anáforas: a

anáfora pronominal, a anáfora demonstrativa e a anáfora associativa. A anáfora pronominal,

como já foi citada anteriormente é mais comum, ocorre na expressão “entre elas” na qual o

pronome pessoal de terceira pessoa (elas) retoma ao termo citado anteriormente “vítimas”; já

a anáfora demonstrativa aparece quando é mencionado o pronome demonstrativo “desta”

retomando a palavra do parágrafo anterior “tragédia”. Esta mesma palavra “tragédia” ao

retomar ao termo “Os atentados sobre os Estados unidos” concretiza a ocorrência da anáfora

associativa, pois a faz a associação de que a tragédia citada é os atentados sofridos pelos

Estados Unidos.

5. Conclusões

Um dos quesitos que interfere na produção textual e consequentemente na

referenciação é a questão voltada para o gênero textual solicitado. Foi percebido na pesquisa,

que os alunos apresentam grandes dificuldades para elaborar textos de caráter argumentativo e

posicionar-se em relação a determinado assunto, fato esse que pode justificar o uso excessivo

784

de repetições lexicais e implica de forma direta no processo de progressão textual, tornando a leitura de tais textos desinteressante. A escassez da anáfora é um dos fatores que faz com que haja necessidade de o autor recategorizar referentes de um texto e com isso, torna-se mais difícil direcionar o mesmo ao objetivo pretendido que é a progressão textual, tendo dificuldades principalmente em textos argumentativos. A análise desenvolvida mostrou também que na maioria das vezes os alunos desconhecem o mecanismo da anáfora, principalmente os tipos mais complexos como associativa e por hipônimo/hiperônimo, com isso se faz necessário que seja trabalhado de forma mais intensa esse assunto possibilitando aos alunos relacionar a teoria e a prática, o que implicará na produção de textos mais coesos e menos repetitivos. No curso em questão dedicamos 6 horas/aula para trabalhar os princípios de textualidade com maior foco na coesão, porém a análise de tais textos mostra que deve ser dedicado mais tempo a esse conteúdo, tendo em vista que muitas vezes os alunos não o estudaram no Ensino Médio e tem uma grande dificuldade na interpretação e produção de textos. 6. Referências ADAM, Jean-Michel. A linguística textual : introdução à análise textual dos discursos. São Paulo : Cortez, 2008. ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência/ Irandé Costa Antunes. São Paulo: Parábola Editorial, 2005. COSTA, Elis Betânia Guedes da. Mecanismos de coesão referencial na produção escrita de alunos concluintes do ensino fundamental. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós- graduação em Estudos da Linguagem- PPgEl/UFRN, para obtenção do grau de Mestre). Natal, 2010. KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. Desvendando os segredos do texto – 6. ed. São Paulo:

Cortez, 2009. KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. A coesão textual - 22. ed. São Paulo: Contexto, 2010. MARCUSCHI, Luiz Antônio. A repetição na língua falada: formas e funções. Tese para concurso de Professor Titular. Recife, UFPE, 1992. MARQUES, Isilda Gaspar. Anáfora associativa: propostas de abordagem em contexto escolar. Dissertação de Mestrado em Linguística e Ensino. Faculdade de Letras da

Universidade de Coimbra,

http://www.uc.pt/uid/celga/recursosonline/dissertacoes/dissertacoesdemestrado/isildagasparm

arques Resgatado em:16/05/2012).

2009.

(Disponível

em:

785

RODRIGUES, Alex de Britto. A (não) manutenção da informação na anáfora por hiperônimo. Anais do IX Encontro do CELSUL. USSC- Palhoça, 2010. (Disponível em:

http://www.celsul.org.br/Encontros/09/artigos/Alex%20de%20Britto.pdf. Resgatado

em:15/05/2012).

SILVA, J. Q. G. Um estudo sobre o gênero carta pessoal: das práticas comunicativas aos indícios de interatividade na escrita dos textos. (Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras – Estudos Linguísticos/ UFMG, para a obtenção do título de doutora). Belo Horizonte, 2002.

786

786 O PROCESSO DE REFERENCIAÇÃO ANAFÓRICA EM TEXTOS DE ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL 1 Introdução Tatiana

O PROCESSO DE REFERENCIAÇÃO ANAFÓRICA EM TEXTOS DE ALUNOS DO

ENSINO FUNDAMENTAL

1 Introdução

Tatiana Celestino de Morais Graduando em Letras Português (UFS)

Os processos referenciais são vistos como atividades em que as realidades e os

objetos de discurso são modificados e recategorizados pelos seus sujeitos sociais, que

determinam seus universos discursivos a partir de procedimentos de ordem social, cognitiva e

interacional.

Este trabalho procura identificar estratégias de progressão referencial em textos

escolares, tendo em vista os processos de referenciação anafórica, os quais garantem o

princípio básico da textualidade, ou seja, o estabelecimento de relações entre as partes. Desse

modo, ressaltamos, no âmbito da Linguística Textual (LT), a relevância de levar em

consideração aspectos sociais, cognitivos, culturais e interacionais no que concerne ao estudo

da compreensão, produção e funcionamento de textos. Com isso, as questões relacionadas à

referenciação e progressão textual (KOCH; ELIAS, 2008) são de suma importância para a LT,

que concebe o texto não como um produto acabado e sim em constante construção pelos

interlocutores que o elaboram.

Nessa direção, partimos do pressuposto teórico-analítico que entende a referenciação

como atividade discursiva, a qual é vista “de tal modo que os referentes passam a ser objetos-

de-discurso e não realidades independentes” (KOCH; MARCUSCHI, 1998, p.173). Assim,

vê-se a importância de levar em consideração o fato de que a realidade, o mundo e a língua

não estão prontos e acabados, podendo ser modificados e seus sentidos ampliados e

reconstruídos.

Nesse sentido, analisaremos algumas estratégias de referenciação na construção dos

sentidos do texto mobilizadas por alunos do Ensino Fundamental. Este estudo tem como

787

objetivo suscitar reflexões sobre os processos de referenciação anafórica, destacando-se as relações anafóricas indiretas. Essas relações serão analisadas em textos de alunos do 8º ano do Ensino Fundamental, da Escola Municipal “Carvalho Neto”, situada na cidade de Simão Dias- Sergipe. Para isso, observamos como esses alunos recorrem a estratégias de referenciação no momento de construção textual, especialmente, o uso das anáforas indiretas vistas como “estratégia em que um novo referente é apresentado como já conhecido, em virtude de ser inferível por conta do processamento sociocognitivo” (CAVALCANTE, 2012, p.123). Desse modo, verificamos como os sujeitos do discurso, no processo de interação, nas suas práticas cognitivo-discursivas fazem uso dos processos referenciais em uma situação de produção escrita. Para isso, partimos, pois, da concepção interacional (dialógica) da língua, na qual os sujeitos são vistos como atores/construtores sociais (KOCH, 2008). Então, vemos que, por meio dos processos da referenciação, o texto não apenas progride, como também permite aos alunos/escritores mostrarem as suas opiniões, os seus valores e saberes sobre o mundo, demonstrando, de forma significativa, o poder argumentativo desses discentes diante de determinados temas discutidos em sala de aula. A metodologia utilizada foi a produção escrita de textos dissertativos, pelos alunos. Estas resultaram de discussões, em sala de aula, mediante interação da pesquisadora iniciante com os alunos e a professora regente de língua portuguesa. Para isso, foram debatidos textos que compreendiam os mais variados temas (polêmicos, sociais, políticos, dentre outros), os quais serviram como base para a elaboração dos textos escritos deles, estimulando, dessa forma, seus conhecimentos prévios e saberes internalizados. Os textos utilizados neste trabalho foram selecionados em uma turma composta por vinte e quatro alunos da turma e escola citada acima. Nesse sentido, num processo de análise qualitativa, mediante a escrita desses alunos é que foi possível analisar como recorrem a estratégias de referenciação anafórica no momento de construção de sentidos, tendo em vista o uso das expressões referenciais, levando em conta não somente os conhecimentos linguístico, enciclopédico, cognitivo, social, mas também a realidade que eles fazem parte, a cultura a que estão inseridos, enfim, tudo aquilo que trazem consigo. O trabalho em questão encontra-se fundamentado nos trabalhos de Mondada e Dubois (2003), Cavalcante (2012), Marcuschi (1998, 2005), Koch (2008, 2009), Koch; Elias (2008), dentre outros. Assim, propõe-se analisar, nesses textos dissertativos escolares, a construção de sentidos vista por meio de processos e estratégias de referenciação, especialmente, das

788

anáforas indiretas que são “formas nominais que se encontram em dependência interpretativa

de determinadas expressões da estrutura textual” (KOCH, 2006, p.107). Para tanto,

procuramos percorrer um trajeto, dentro de uma perspectiva sociocognitiva e interacional, que

tenha como relevância os valores, pontos de vista e o reconhecimento de saberes prévios

desse público-alvo.

A seguir, apresentamos, em um primeiro momento, alguns aspectos que diz respeito

à referenciação. Em seguida, teremos como foco a discussão sobre os processos de

referenciação anafórica tendo em vista as análises das produções dissertativas dos alunos.

I. Referenciação

Nos estudos mais atuais sobre referenciação o tem prevalecido são os aspectos

concernentes ao sociocognitivismo e suas práticas ligadas à análise textual, levando-se em

conta a dinamicidade discursiva dos objetos do discurso.

Nesse contexto, partimos do entendimento que referir é, sobretudo, construir uma

discursivização do mundo, em que se fazem presentes às escolhas do sujeito em função de um

querer dizer. Dessa forma, Koch (2009) enfatiza que

] [

tradicionalmente atribuído, como simples representação extencional de referentes do mundo extramental, mas sim como aquilo que designamos, representamos, sugerimos quando usamos um termo ou criamos uma situação discursiva referencial. Com essa finalidade, as entidades designadas são vistas como objetos-de-discurso e não como objetos-do-mundo (KOCH, 2009, P. 59).

não se entende aqui a referência com sentido que lhe é mais

Desse modo, a autora chama a atenção para o fato de que a nossa mente não funciona

como um sistema fotográfico do mundo, nem como um espelho, isto é, a nossa forma de

enxergar e dizer o real não coincide com o real. Assim, a nossa mente reelabora os dados a

fim de apreendê-los e compreendê-los. Pois para ela “a reelaboração deve obedecer a

restrições impostas pelas condições culturais, sociais, históricas, e, finalmente condições de

processamento decorrentes do uso da língua” (KOCH; MARCUSCHI, 1998 apud KOCH,

2009, p.59).

Nessa direção, as autoras, Mondada e Dubois (2003), destacam que a referenciação diz

respeito “a uma relação entre o texto e a parte não linguística da prática em que ele é

produzido e interpretado” (MONDADA; DUBOIS, 2003, p.20). Desse modo, notamos a

questão ligada à substituição da noção de referência pela de referenciação. Para elas, os

789

objetos do mundo a que o discurso faz referência são objetos que se (re)constroem no processo discursivo. Daí, a noção de referência passa a de referenciação, tendo em vista que não se trata apenas de um ato de designação do mundo, mas de uma (re) construção dinâmica deste mundo através de práticas discursivas. Nesse sentido, é importante pontuarmos as diferenças entre as categorias referir, remeter e retomar, postuladas por Koch (2009, p. 59), como (i) a retomada implica remissão e referenciação; (ii) a remissão implica referenciação e não necessariamente retomada e (iii) a referenciação não implica pontualizada nem retomada (KOCH, 2009, p. 59). Assim, a determinação referencial possui relação direta com os elementos do co(n)texto, porém não necessariamente como retomada referencial, conforme afirma Koch “sendo a referenciação um caso geral de operação dos elementos designadores, todos os casos de progressão referencial são baseados em algum tipo de referenciação, não importando se são os mesmos elementos que recorrem ou não” (KOCH, 2009, p.59). Desse modo, observa-se que conhecer as estratégias de referenciação, é, sobretudo, compreender um processo de estruturação textual de fundamental importância, visto que o ato de referir é sempre uma ação conjunta. Então, vemos que a referenciação é a atividade de construção de referentes depreendidos dentro do próprio texto/discurso através da utilização das expressões referenciais. Vejamos no exemplo abaixo do texto (1), essa questão do referente textual.

(1) Respeitar as diferenças é amar as pessoas como elas são. Eu acho que deve respeitar para ser respeitado, muitas gentes não dar respeito e quer ser respeitado. As pessoa não tem que ter o preconceito pelo que elas são e se ter respeito pelo que ela é. Porque o pardo não pode discriminar o preto nem o rico discriminar o pobre. Porque nois somos todos inguais não na aparência mas sim por dentro , tem que amar e respeitar as pessoas do jeito que elas são[ ]

Na produção desse texto (1), verificamos, por exemplo, que o aluno/produtor menciona, entre outras, estas expressões referenciais “as pessoa”, “muitas gentes”, “o

preconceito”, “o pardo”, “o preto”, “o rico”, “o pobre”, que vão contribuir para a progressão/desenvolvimento do texto, é o que se chama de referentes textuais ou entidades presentes na construção e reconstrução dos sentidos. Essas formas linguísticas possuem

informações importantes, opiniões, pontos de vista ([

respeitado, muitas gentes não dar respeito e quer ser respeitado. As pessoa não tem que ter o

Eu acho que deve respeitar para ser

]

790

preconceito pelo que elas são e se ter respeito pelo que ela é [

em questão. Assim, vemos que para introduzir os referentes no texto, os quais contribuem para a construção dos sentidos, o aluno utilizou formas linguísticas que estão presentes no cotexto, as quais contribuem significativamente na progressão referencial do texto. Estas são selecionadas pelo autor/produtor no momento da interação não apenas com as formas linguísticas, mas também com os aspectos sociais, cognitivos e culturais que terão papel importante na trajetória argumentativa do texto. O tópico seguinte se propõe discutir os referentes textuais e processos referenciais anafóricas, tendo em vista que se trata de um recurso textual-discursivo de significativa relevância na construção de sentido e progressão do texto.

atitudes, sobre a temática

])

II. Processos referenciais anafóricos

No momento da elaboração do modelo textual, a seleção e a determinação, dentre os vários processos de referenciação, muitas vezes, é um ato involuntário, o qual vai depender de alguns fatores relacionados ao autor, como: a situação em que se encontra da sua vontade e maneira de expressar, do seu ponto vista, do seu conhecimento prévio, de seus domínios e papéis sociais, enfim, de um leque de elementos que influenciam diretamente na linguagem e no modo de escrever, de se expressar. Nesse sentido, grande parte dos estudiosos consideram a referenciação anafórica como sendo um processo cognitivo que possui relação direta com a memória discursiva, a qual determina o conhecimento que o produtor do texto ou falante possui em relação ao referente central em questão ou em destaque na elaboração do modelo textual. Para Marcuschi (2005), a anáfora é na sua essência um fenômeno de semântica textual de natureza inferencial e não um simples processo de clonagem referencial. Dessa forma, observa-se que as anáforas desempenham papel importante na progressão textual, visto que além de elas reforçarem a ideia que vem sendo desenvolvida no modelo textual, talvez realizem ligação com outros assuntos guardados no cognitivo, os quais servem de base para que haja o entendimento global do discurso, ampliando-o a fim de melhor compreensão, mostrando assim competência, e o conhecimento prévio do produtor do texto. No que concernem às anáforas indiretas diz-se que ela estão diretamente ligadas a estratégias de referenciação por associação pelo fato de não existir nenhum referente explícito no texto. Para Koch (2009)

791

As anáforas indiretas caracterizam-se, assim, pelo fato de não existir no co-texto um antecedente explícito, mas sim um elemento de

relação [

a interpretação; ou seja, trata-se de formas nominais que se encontram

em dependência interpretativa de determinadas expressões da estrutura textual em desenvolvimento, o que permite que seus referentes sejam ativados por meio de processos cognitivos inferenciais, possibilitando, assim, a mobilização de conhecimentos dos mais diversos tipos armazenados na memória dos interlocutores (KOCH, 2009, p. 107.)

e que é decisivo para

],

que se pode denominar âncora [

]

Vemos, assim, que elas desempenham papel fundamental na progressão textual a

partir de dois processos de estratégia de referenciação: pela ativação (introdução), inserindo

novos referentes em todo o texto, dando-lhe novas informações, e pela reativação que vai

fazendo remissão aos mesmos domínios de referência. Daí observa-se que as anáforas não

podem ser vistas apenas como formas de retomar antecedente presente no cotexto, sendo

resumida a questões direcionadas a coesão textual.

As anáforas indiretas remetem a informações que já estão presentes na memória,

sendo um modo de referência textual que constrói e lança novos referentes textuais ativando

uma gama de conhecimentos cognitivos dos interlocutores. Essas fazem uso de expressões

definidas anafóricas sem a existência de um referente explicito no (co)texto, em outras

palavras, ela insere novos elementos informações no cotexto, a partir do que vem sendo

desenvolvido, sem contudo, fugir do tema proposto, contribuindo significativamente para o

desenvolvimento da coerência. Desse modo, vale ressaltar que a anáfora indireta se utiliza de

expressões referenciais sem a existência de um referente explicito no texto.

O processo de referenciação anafórica ativa um objeto-se-discurso através de

elementos discursivos não existindo, necessariamente, uma relação correferencial, daí,

notarmos que elementos anafóricos não apresentam um antecedente explícito. Vejamos o

exemplo.

(2) Respeitar as diferenças é amar as pessoas como elas são. Muitas pessoas não

respeitam os outros porque são diferentes.

O maior problema das pessoas é ser o que não são na realidade. Racismo,

preconceito, bullying, falta de educação acabam fazendo com que nosso planeta

seja “imundo”, cheio de pessoas sem amor próprio.

Ser diferente não é uma doença é normal. [ ]

792

Observa-se, no interior do texto (2) sobre “O respeito às diferenças”, a recorrência de usos de expressões referenciais com a função anafórica. Por exemplo, as formas nominais “Muitas pessoas”, “O maior problema”, “Racismo”, “preconceito”, “bullyng”, “uma doença”, são responsáveis pelo desenvolvimento/progressão do texto, isto é, pela continuidade e/ou identificação da entidade central, já que essas expressões referenciais nominais relacionam-se com o referente textual introduzido no início do texto “O respeito às diferenças”, o qual lhe serve de âncora. Assim, vale dizer que Koch (2002) ressalta que o uso de anáforas nominais se constitui como um dos processos de referenciação mais importantes e produtivos da textualização.

III. Análises dos textos dissertativos

A seleção e a determinação dentre qual processo ou estratégia de referenciação escolher ocorre no momento da produção textual está diretamente ligada à situação em que se encontra o sujeito produtor. Nesse sentido, vai depender dos ambientes/contextos em que se relaciona da sua cultura, pontos de vista, valores e papéis sociais, bem como de diversos fatores de ordem sociocognitiva e discursiva que exercem influência na linguagem e na maneira de escrever e se expressar. Vejamos a identificação dessas estratégias no exemplo do texto (3).

(3) Respeitar as diferenças é amar as pessoas como elas são. Muitas pessoas não

respeitam os outros porque são diferentes, no seu jeito de se vestir, de andar, ser,

Mas, na realidade, isso não importa. O que

importa é você ser você e não ligar para o que as pessoas falam, pois falar é fácil difícil é demonstrar o que você é.

falar. por sua cor, sua classe social,

A âncora representada nesse exemplo é a expressão referencial “o respeito às diferenças”. No decorrer da progressão textual, alguns referentes são construídos como: “amar as pessoas como elas são”, “sua cor”, “sua classe social”, as quais contribuem para a construção de sentidos, atribuindo-lhe novas significações. Além dessas e outras expressões, identificamos como exemplo de anáfora indireta a expressão “isso”, o qual resume (encapsula) as proposições explicitadas no cotexto, possuindo relação direta com a entidade central “o respeito às diferenças”.

793

Sua interpretação aparece no modelo de mundo textual, relacionado ao cotexto sociocognitivo, característica desse tipo de estratégia referencial. Assim, destaca-se o fato de que essas inferências só possuem entendimento por meio do conhecimento de modo partilhado entre os interlocutores, através de modelos mentais, que se relacionam de modo direto com o cognitivo. Dessa forma, só é possível dizer que estes referentes possuem relação com a entidade “o respeito às diferenças” quem detém conhecimento e entende sobre este assunto, desse modo observamos que os alunos mostram argumentos bastante relevantes e concisos sobre a temática abordada. Koch (2004) diz que categorizamos o mundo tomando como ponto de partida a nossa capacidade de percepção (social, cultural) e motora (física). Assim, no discurso, as palavras possuem distintos significados, pois estão relacionados à visão de alguém. Dessa forma, observa-se que o sujeito/produtor tem disponível uma gama de alternativas para designar referentes, os quais não são cossignificativamente, tendo em vista que a significação será sempre contextualizada. Nessa direção, para Cavalcante (2012, p. 123), “as expressões que retomam referentes já apresentados no texto por outras expressões são chamadas de anáforas indiretas ou anáforas correferenciais”. Desta forma, destaca-se que a anáfora indireta se constitui como um tipo de referência textual em que os interactantes constroem referentes baseados na intenção e no contexto em que estão inseridos. Segundo Koch (2002) e Marcuschi (2005), as anáforas indiretas caracterizam-se por não possuírem um termo antecedente ou subseqüente explicitamente no cotexto, porém há uma expressão presente no cotexto ou contexto sociocognitivo com o qual estabelece relação, denominado âncora. Nesse sentido, Koch (2008) postula que ativação ancorada ocorre quando um novo objeto de discurso é introduzido estabelecendo alguma associação com elementos presentes no cotexto ou no contexto sociocognitivo. Dessa forma, as âncoras são fundamentais para interpretação das anáforas indiretas, pois estabelecem relações de sentido entre as informações já dadas com as informações novas garantindo a textualidade, ou seja, as relações entre as partes, e mobilizando informações/conhecimentos que estão guardados na memória discursiva dos indivíduos. Nessa direção, Marcuschi (2005) considera que a anáfora indireta trata-se de um processo de referência textual, em que se constroem sentidos ao longo do modelo textual, à medida que se insere referentes de acordo com a intenção dos produtores em uma determinada situação de interação. Enfim, as estratégias inferenciais e os processos cognitivos

794

caracterizam-se um universo textual, tendo relevante contribuição no processo da textualidade. Vejamos o exemplo (4).

(4) O respeito às diferenças é uma forma de demonstra educação e carinho com as pessoas, ser diferente é ser especial Deus fez nós com muitas qualidades, todos nós

temos algo especial. Não importa se somos deficiente, temos o nariz maior, lábios nas carnudos, cabelos nas crespos ou cachados, enrolados de todas as cores todos lá no fundo temos algo especial somos filhos de Deus. Também não importa se somos careca, pobre, rico, ou até mesmo portador de aguma doença, se somos homossexual, temos que respeitar, principalmente os sentimentos dos outros a opinião e a aparência não julgá-la antes de conhecer. O Bullyng também é uma falta de respeito com as pessoas muitas vezes se torna violência e isso pode acabar com a morte de muitas pessoas. Não importa se somos

somos vida vamos

de cores diferentes tamanhos, pesos, qualidades de vida e etc respeitar amar as pessoas como elas são . Essa é a minha opinião.

“O bullyng” é uma expressão nominal definida, a qual desempenha o papel de anáfora indireta, pois não apresenta um antecedente explícito no cotexto. Com isso, estabelece uma relação indireta com sua âncora, representação pela palavra “o respeito”. Como podemos notar, mesmo não tendo uma relação explícita da anáfora com seu termo antecedente, há uma relação de vínculo coerente, isto é, o próprio co(n) texto nos leva a determinar relações entre o respeito e o bullyng. Desta forma, observa-se que o modelo de mundo textual é que nos proporciona condições de interpretabilidade, a partir de nosso conhecimento de mundo e potencial de inferência. Ainda neste exemplo, observamos que algumas expressões ligam-se a entidade central “o respeito às diferenças”, como: “forma de demonstra educação e carinho”, “ser especial”, “os sentimentos dos outros”, “a opinião e a aparência”, todas estas expressões surgem no modelo de mundo textual com a intenção de fazer ligação/menção ao referente textual “o respeito as diferenças”, sendo que cada uma delas traz, simultaneamente, uma nova categorização ao tema em questão. Outros sintagmas que destacamos e também exercem o papel de anáforas são “violência”, “a morte de muitas pessoas”, que desencadeiam o assunto “O bullyng” e funcionam como um esquema cognitivo a partir do qual podem aparecer diversos elementos possíveis de serem ativados, reativados e interpretados.

795

Vemos, então, que os elementos anafóricos assumem significados a partir de um querer dizer do sujeito produtor, desta maneira nota-se que o sentido desse objeto do discurso não deve ser individualizado, e sim está relacionado com o contexto sociocultural dos interlocutores. Daí dizermos que cada sujeito apresenta diferentes interpretações, as quais estão atreladas aos seus domínios sociais e aos diferentes pontos de vista que possuem.

(5) Respeitar as diferenças é amar as pessoas como elas são. Respeito é bom e todo mundo gosta. Se a pessoa é negra, ou tem alguma deficiência física devemos respeita-la, todos nois somos inguais seja branco, negro, pardo ou tenha alguma deficiência física. Porque ninguém e melhor que ninguém, temos que amar o próximo, e o respeito entre nois deve existi sempe seja na sala de aula ou nas

igrejas católica ou evangélica, ou em qualquer lugar[

]

No texto acima (5), tem-se como referente introdutório “O respeito às diferenças”, que é reconstruído/reativado à medida que o texto vai sendo construído, a ele são atribuídas novas informações, a partir da introdução/ativação de novos referentes inseridos no modelo textual. Desse modo, observa-se que novas entidades que se relacionam com o tema proposto, vão sendo lançadas servindo de complemento para interpretação levando-se em conta o contexto em questão, são elas: “a pessoa é negra”, “deficiencia fisica”, questões ligada à etnia “branco”, “negro”, “pardo”, ao contexto religioso através de “igreja católica ou evangélica”. Nesse sentido, é possível notarmos diversos referentes novos que foram inseridos no cotexto, bem como a ativação de conhecimento de mundo e de situação mobilizados pelo autor para o leitor, tendo em vista que através disso, diversas interpretações surgem na mente de um determinado indivíduo que se depara com esse modelo textual. Daí estabelece ligações semânticas a todo o momento, contribuindo de modo significativo para o desenvolvimento textual e sociocognitivo, mostrando as competências desse sujeito. Assim, percebemos que todas essas expressões referenciais destacadas acima tem o referente central “O respeito às diferenças”, como âncora, para isso leva-se em conta o contexto, tendo em vista que todas essas expressões pertencem ao mesmo campo semântico, que rodeia o tema em questão.

(6) Respeitar é viver a vida sem criticar o próximo. É aprender com os erros e aceitar a si e aos erros alheios. Respeitar sua próprias escolhas e não exigir dos outros qualiddaes que nem você próprio possui. Quem se aceitar como é consegue respeitar a si e aos outros. Respeitar é não se impurtar com as diferenças de cor, se

796

possuem bems, religião ou sexo, é viver a vida apoiar com firmeza e aprender

com as diferenças[ ]

Nesse outro exemplo (6), o produtor/aluno aborda o tema “O respeito às diferenças”,

de maneira ampla, caracterizando-o como “viver a vida sem criticar o próximo”,

demonstrando está informado com os diversos debates da mídia, de modo especial, no que

concerne ao respeito que todos devem ter com a diversidade.

Percebe-se também que o autor do texto atribui ao “O respeito às diferenças” uma

questão que se deve ter como ponto de partida o ato de aceitação tendo em vista que “quem se

aceitar como é consegue respeitar a si e aos outros”, mostrando que um dos principais

problemas relacionados à falta de respeito é justamente o fato de que as pessoas não se

aceitam e também não respeitam as escolhas do outro.

Nesse sentido, quanto a referenciação anafórica, existe entre os novos referentes

textuais inseridos casos de recategorização anafórica, em que as informações que vão sendo

lançadas trazem um novo sentido para a questão “O respeito às diferenças”, trazendo uma

nova situação a cada instante, primeiro “não se importar com as diferenças de cor”, nem com

a questão da classe social “se possuem bems”, nem tampouco com a diferença relacionada

“religião ou sexo”. Enfim, todas essas questões recategorizam e reconstroem o sentido da

entidade central “o respeito às diferenças”.

Assim, é importante destacarmos o que diz Bronckart (2003) que “os textos são

produtos permanentes nas formações sociais ou sócio-historicamente construídas”. Desse

modo, percebemos que tantos textos quanto à linguagem em si se constituem como resultados

das relações sociais, culturais, reais que fazem parte dos domínios sociais de cada indivíduo.

Corroborando com essa ideia Kock (2008) diz que

O texto é considerado como manifestação verbal, constituída de elementos linguísticos de diversas ordens, selecionadas e dispostas de acordo com as virtualidades que cada língua põe a disposição dos falantes no curso de uma atividade verbal, de modo a facultar aos interactantes não apenas a produção de sentidos, como a fundear a própria interação como prática sociocultural (KOCH, 2008, p.31)

Assim, observamos que a autora chama a atenção para o fato de que na atividade de

produção textual, o produtor/autor mobiliza diversos tipos de conhecimentos representados na

memória, a partir das estratégias de processamento de caráter sociocognitivo e textual. Dessa

797

forma, é importante frisar que partilhamos da concepção de Koch (2008) a qual atribui que “o sentido não está no texto, mas se constrói a partir dele, no curso de uma interação”.

Considerações finais

Na maior parte dos casos, pode-se notar que o ensino de língua portuguesa tem se direcionado para as produções escritas dos alunos como um lugar propício à correção de erros relacionados à gramática normativa. Neste trabalho, tendo como suporte teórico a Linguística Textual, foi possível mostrar, a partir de textos de alunos do ensino fundamental, que este é um espaço constituído através de interação e ação, espaço em que se constrói e reconstrói a todo o instante pelos sujeitos/alunos que produzem, inserindo em seus textos, pontos de vista, conhecimentos prévios, valores e crenças. Ao analisar os textos desta pesquisa, observamos as marcas/pistas deixadas pelo sujeito. Nesse sentido, tendo em vista os estudos baseados na Linguística Textual, entendemos que os referentes e a maneira como progridem no texto, não podem ser caracterizadas levando em consideração apenas as expressões referencias, mas também todo um conjunto de marcas (sociais, cognitivos, culturais, históricos) que o texto mostra e articula para que o sentido seja reelaborado por cada interlocutor. Ao observarmos o referente textual “O respeito às diferenças”, presente nos textos dissertativos dos alunos do ensino fundamental, através do uso de anáforas, foi possível notar que os alunos apresentam uma visão ampla sobre o tema, eles ativam todo o processo sociocognitivo do leitor a fim de que outras questões a nível social, cultural dentre outras, venham a ser mencionadas. Assim, partimos de uma concepção em que o texto não seja visto apenas pelo viés gramatical e, sim, como uma visão mais ampla concebida como um ponto de encontro entre linguagem, indivíduo e sociedade. Portanto, é possível pensarmos numa noção mais ampla de língua e linguagem em que os professores possam refletir sobre as orientações direcionadas às atividades de produção de textos, tentando revê-las, tendo em vista que o texto não se constitui como um produto acabado e sim como um processo.

REFERÊNCIAS

798

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799

799 O TESAURO JURÍDICO: UM ESTUDO DO GÊNERO NO DIREITO AMBIENTAL RESUMO André Anderson Cavalcante Felipe

O TESAURO JURÍDICO: UM ESTUDO DO GÊNERO NO DIREITO AMBIENTAL

RESUMO

André Anderson Cavalcante Felipe

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem – UFRN

Apresentamos um projeto de pesquisa em andamento que estuda os aspectos linguísticos do tesauro com o objetivo de identificar como ele se constitui enquanto gênero e como os processos de textualização são desenvolvidos. Como objetivos específicos, pretendemos verificar a arquitetura textual do gênero tesauro, com base na linguística textual e nos estudos de gênero; e elaborar um inventário analítico que caracterize os procedimentos de textualização do tesauro. As teorias utilizadas são: a linguística textual, a análise textual dos discursos, os estudos de gêneros do texto e do tesauro. A metodologia é caracterizada como um estudo bibliográfico-documental de tipo exploratório, tendo como corpus os tesauros desenvolvidos na área do Direito, coletado em buscadores na internet, periódicos eletrônicos, sites governamentais e bases de dados, nos idiomas português, francês, inglês e espanhol. Até o momento, iniciamos a análise do corpus para posteriormente, dar prosseguimento a pesquisa, observando o gênero tesauro através da análise das a) funções, finalidade educacional, profissional ou técnica; b) especificidades, densidade da representação da informação e do conhecimento; e c) linguagens, grau de especificidade linguística. Acreditamos que a pesquisa poderá sinalizar melhorias para a construção de tesauro utilizados em áreas do conhecimento com grande complexidade linguística e terminológica, como a área do Direito.

Palavras-chave: Tesauro. Linguística textual. Estudos de gênero.

ABSTRACT

We present an ongoing research project that studies the linguistic aspects of the thesaurus with the objective of identify how it is constitute as a genre and how the processes of textualization are developed. As specific objectives, we intend to verify the textual architecture of the genre thesaurus based on textual linguistic and studies of gender; and elaborate the inventory analytical that characterize the features procedures textualization of the thesaurus. The theories used are: textual linguistics, textual analysis of speeches, studies of genres text and thesaurus. The methodology is characterized as a bibliographic documentary-type exploratory, with the corpus in the thesauri developed in the area of law, collected from search engines on the Internet, electronic journals, government websites and databases, in languages portuguese, french, english and spanish. So far, we

800

started the analysis of the corpus for later to continue the search, looking the gender thesaurus through the analysis of the) functions, educational purposes, professional or technical b) specificities, density representation of information and knowledge, and c) languages, linguistics degree of specificity. We believe that the research may signal improvements for building thesaurus used in areas of knowledge with great linguistic and terminological complexity, as the area of law.

Keywords: Thesaurus. Textual language. Gender studies

1 INTRODUÇÃO

No contexto social em que vivemos, a informação caracteriza-se como algo essencial para a construção de conhecimento e cresce de forma exponencial mobilizada pelo avanço científico, tecnológico, midiático, dentre outros. Contudo, para que a informação seja de fato utilizada pelos indivíduos de forma a possibilitar conhecimento, faz-se necessário uma série de fatores que vão desde a produção da informação até a sua utilização pelos indivíduos. Se levarmos em conta a produção informacional desenvolvida pelas universidades federais brasileiras, que nos últimos, devido às ações do projeto REUNI 263 e suas versões, tiveram um aumento no número de programas de pós-graduação stricto sensu, perceberemos que a informação produzida necessita de ações organização, tratamento e disseminação, para o público acadêmico, bem como, os demais indivíduos sociais. Dessa forma percebemos que não basta produzir informação sem promover meios para torná-la acessiva, ciente que sua existência está relacionada à forma ou condições de como o indivíduo entende identifica ou percebe o sentido que ela demonstra. Ressaltamos aqui, a necessidade de pesquisas que promovam o estudo dos instrumentos e/ou ferramentas utilizadas para o controle, organização, tratamento e disseminação de informações científicas e profissionais, produzidas e utilizadas pelas diversas áreas da ciência no Brasil. O presente trabalho apresenta um projeto de pesquisa em andamento que realiza um estudo dos aspectos linguísticos do tesauro, com o objetivo de identificar como eles se constituem enquanto gênero e como são desenvolvidos os processos de textualização. Como objetivos específicos, pretendemos verificar a arquitetura textual do gênero tesauro, com base

263 Programa do Governo Federal de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais do país. Disponível em: <http://www.reuni.mec.gov.br>.

801

na linguística textual e nos estudos de gênero; e elaborar uma arquitetura textual para a construção de tesauros, através do desenvolvimento de um inventário analítico que caracterize seus procedimentos de textualização.

O referencial teórico apresentado tem como meta a fundamentação da pesquisa para a

realização da análise dos processos de textualização do tesauro. Para isso, utilizamos pressupostos teóricos da linguística textual e análise textual dos discursos, sob a perspectiva

de autores como: Fávero e Koch (2000), Adam (2011), Silva Neto (2012), Barbisan (2007)

Santos e Passeggi, (2010). Já para estudo dos aspectos teóricos e metodológicos do tesauro, consultamos as teorias desenvolvidas por autores como: Dodebei (2002) Kobashi (2003)

Currás (1996) Cintra (2004) entre outros.

A metodologia é baseada no estudo bibliográfico-documental de tipo exploratório, tendo

como enfoque para efeito prático, os tesauros desenvolvidos da área do Direito, por ter vasto

campo conceitual e linguístico, e, além disso, fazer parte dos interesses da base de pesquisa em que atuamos, vinculada ao CNPQ. Para a coleta dos dados, utilizamos buscadores na internet, periódicos eletrônicos, sites governamentais e bases de dados, usando os idiomas:

português, francês, inglês e espanhol.

As teorias e ações metodológicas presentes neste trabalho mostram a evolução da pesquisa até

o momento. A próxima ação da pesquisa terá como finalidade o aprofundamento nos estudos

de gêneros para verificar como o tesauro se constitui enquanto gênero textual, mediante a

análise do corpus obtido. Acreditamos que a pesquisa poderá sinalizar melhorias para a construção de tesauros utilizados em áreas do conhecimento com grande complexidade linguística e terminológica, como o caso do Direito. A seguir, serão expostos os conceitos da linguística textual e da análise textual dos discursos que fundamentam a pesquisa.

2 LINGUÍSTICA TEXTUAL E ANÁLISE TEXTUAL DOS DISCURSOS

A linguística textual (LT) busca compreender os elementos que compõe a língua, tanto no

viés formal, quanto no viés discursivo. Para Fávero e Koch (2000, p. 11), a LT constitui-se como um ramo da linguística que começou a desenvolver-se na Europa em 1960, com o objetivo de investigar o texto e todos os elementos que o constitui, considerando-o, a forma específica de manifestação da linguagem. Hoje, a LT busca entender a língua enquanto texto (forma) e enquanto discurso (uso social),

ou seja, texto e discurso. Dessa forma, faz-se necessário entender “que o texto é uma junção

802

de conceitos como língua, gênero, discurso, enunciado, co(n)texto etc., atuando simbioticamente”. (SANTOS; PASSEGGI, 2010). Diante das perspectivas existentes para análise de texto, Fávero e Koch (2000) destacam três mecanismos no âmbito da LT utilizados para entender o plano de conteúdo de um texto:

a) semântica textual, responsável pelas regras válidas para a determinação recíproca dos signos verbais no texto e a sua compatibilidade dentro do contexto;

b) sintaxe textual, responsável por analisar os elementos constitutivos do texto, os sintagmas e os morfemas, sugerindo meios de reduzir a complexidade da significação dos mesmos, para instituir sentido ao texto

c) gramática textual, responsável em explicar o que faz com que um texto seja um texto, propriedade denominada textualidade.

Muitas pesquisas utilizaram e ainda utilizam estes mecanismos, perfeitamente legítimos, para a compreensão do plano de texto, contudo, Adam (2011, p. 76) salienta que

A tarefa da linguística textual é definir as grandes categorias de marcas permitam estabelecer essas conexões que abrem ou fecham segmentos textuais mais ou menos longos. Essas marcas cobrem apenas parcialmente as categorias morfossintáticas definidas no âmbito da linguística da língua. [ ] Os domínios textual e morfosintático são diferentes e bastante independentes. Essa "distorção", essa defasagem entre as categorias da gramática e as da linguística do texto não deve causar surpresa.

Dessa forma, a LT deve elaborar meios para definir e organizar as classes de análise que estão na seara língua e do discurso. Diante desse objetivo, Adam (2011, 43) sugere a “LT como um

subdomínio do campo mais vasto da análise das práticas discursivas”, propondo a análise textual dos

discursos (ATD) que implica em “uma articulação de uma LT desvencilhada da gramática de texto e uma

análise de discurso emancipada da análise de discurso francesa”.

A ATD aumenta a possibilidade de analisar os elementos intrínsecos e extrínsecos do texto com a finalidade de chegar ao discurso de forma mais abrangente, ou seja, a análise do discurso mediada pelo texto. Os estudos em ATD envolvem questões relacionadas aos textos, à linguagem, às línguas, aos atos linguísticos e à fala. (ADAM, 2011). A ATD tem como base a análise das funções das categoriais da língua e do texto, ressaltando que, língua e texto não se distinguem na função, apenas apresentam questões diferenciadas teórica e metodologicamente. (SILVA NETO, 2012). Sob a perspectiva da ATD, analisa-se o texto pela língua, e o discurso pelo texto. Do ponto de vista teórico existe uma hierarquia onde a língua se organiza pelo texto e o texto materializa o discurso. Em outras palavras, o discurso só é acessado pelo texto e o texto só e desenvolvido pela língua.

803

Para a ATD toda atividade de abordagem do texto precisa ser feita numa perspectiva da língua e não do discurso. Isso tem implicação séria sob o ponto de vista da metodologia utilizada e do viés teórico utilizado, porque existem abordagens discursivas do texto e abordagens linguísticas do texto. Para a realização da ATD, Adam (2011) propõe a existência de quatro níveis possíveis de atuação, presentes na Linguística Textual, conforme estão estabelecidos na figura 1.

Figura 1 – Análise dos discursos proposta por Adam (2011)

1 – Análise dos discursos proposta por Adam (2011) Fonte: (ADAM, 2011). A figura apresenta duas

Fonte: (ADAM, 2011).

A figura apresenta duas divisões, dentre elas uma é reservada à Linguística Textual. Neste campo incluem-se quatro níveis de análise relacionados entre si:

a) as palavras, que se combinam num nível lexical e morfossintático em proposições;

b) as proposições, que se combinam e se organizam em períodos e sequências;

c) os períodos e/ou sequências, que se organizam em plano de texto;

d) o plano de texto, que promove a estrutura do texto no todo.

A ATD não estipula uma ordem cronológica ou sequencial de estudos desses níveis, como

também, não estipulam a quantidade de níveis a serem estudados para repercutir em uma pesquisa legítima da Linguística Textual. Adam (2011) deixa claro a abrangência e o limite da ATD, além de apontar os elementos

pertencentes à área do discurso de forma a sistematizar e facilitar os procedimentos dos estudos em ATD, através dos quais busca entender o discurso pelo texto.

A expressão “análise dos discursos” é utilizada Adam (2011) para mostrar que, teoricamente,

quando se analisa um texto, ele está composto por vários discursos existentes simultaneamente, ao passo que, o analista opta em escolher apenas um deles para estudar. Ao ter acesso a um texto, percebemos que ele apresenta vários discursos simultaneamente,

804

contudo, ao estudá-los faz-se um recorte de determinado discurso, a despeito de sua coexistência. Adam (2011) estabelece cinco níveis ou planos de análise do discurso para fins de estudo ou pesquisa.

Figura 2 – Planos da análise do discurso

ou pesquisa. Figura 2 – Planos da análise do discurso Fonte: Adam (2011). Os cinco níveis

Fonte: Adam (2011).

Os cinco níveis ou planos de análise do discurso propostas pela ATD possibilitam categorias

de

análise mais refinadas para os estudos do texto e do discurso, visto que, cada um dos níveis

ou

planos desencadeiam uma série de outras especificidades e detalhes para serem estudados.

Dessa forma torna-se perfeitamente viável e legítimo estudar de forma isolada ou conjunta os níveis ou planos da ATD sugeridos por Adam (2011). Para a análise do plano de texto que constitui o tesauro a pesquisa irá ter com base o nível 4 (Textura, proposições enunciadas & períodos).

A ATD recorre ao termo proposição-enunciado, para se referir a mecanismos como: frase,

sequência, período, entre outros. O termo proposição enunciado é visto também numa perspectiva enunciativa e não só na perspectiva gramatical e lexical. (ADAM, 2011).

A proposição-enunciado é um enunciado qualquer constituído de um conteúdo que aponta

para o referente e apresenta algo que se diz sobre ele. Ressaltamos aqui o fato de que um enunciado é tudo aquilo que é dito; e uma proposição é um enunciado que apresenta dois componentes básicos, também entendidos como argumentos:

a) aquilo que se fala, representado na ATD pela letra p;

805

b) aquilo que se diz a respeito representado na ATD pela letra q.

Essa exigência para a composição de uma proposição é válida para qualquer enunciado. Vale lembrar também que a proposição existe numa perspectiva também enunciativa e não somente

numa perspectiva textual gramatical, como no exemplo abaixo:

1 - Maria!

No exemplo 1 a ação interlocutiva chamada enunciado é estabelecida, mas, em contra partida, não apresenta o conteúdo proposicionado p e q. No quadro da ATD, um enunciado é considerado proposição quando existe a forma mais simples de um argumento linguístico: p e q, entendida aqui como a representação linguística do enunciado.

Já no exemplo 2 percebemos a existência de uma proposição-enunciado, porque o conteúdo

proposicionado p e q está presente no texto da seguinte forma:

2 – Onde você estava Maria?

[Maria] = p (Aquilo que se fala); [Onde você estava] = q (Aquilo que se diz a respeito).

Diante do exemplo a cima, podemos dizer que nós falamos com um referencial, referente a alguma coisa no mundo, dizendo alguma coisa a respeito disso. Em outras palavras, nos situamos em relação ao mundo em três posições:

a) falante = eu;

b) interlocutor = com quem falamos;

c) referente = de que ou quem falamos.

Tudo que é dito tem que ter pelo menos: p & q, contudo, na gramática tradicional, nem

sempre o sujeito fica claro porque está quase sempre relacionado à pessoa.

3 – Ouviram um tiro.

Na linguística isso não funciona porque existem sítios (lugares) que o p não é sujeito.

Exemplo:

4

– Aula de música.

A

frase gera um enunciado com conteúdo proporcional, ao tematizar algo e logo após atribuir

o

conteúdo do que vai tematizar. Ressalta-se também que o conteúdo proporcional pode

incidir sobre o interlocutor e sobre o referente.

O início e o fim da proposição-enunciado são marcados por um segmento formal oral ou

textual (escrito) da seguinte forma:

a) No formato textual, apresentam-se através da letra maiúscula no início da frase e do

ponto final no fim da frase;

806

b)

No formato oral, demonstram-se através das entonações e pausas, onde o falante percebe as pausas pela experiência.

3 O TESAURO

Para Currás (1995, p. 88), tesauro “[

coordenada, usada com fins documentários, onde os elementos linguísticos que compõem termos simples ou compostos encontra-se relacionados entre si sintática e semanticamente”. Caracteriza-se por linguagem especializada pelo fato de ser desenvolvida para atuar contextos informacionais específicos, conforme a finalidade documentária de seus desenvolvedores. O tesauro é uma linguagem normalizada por seguir padrões de construção e utilização já instituídos no contexto científico, tanto no meio nacional quanto no internacional. Temos por

é uma linguagem especializada, normalizada, pós-

]

exemplo a ANSI/NISO Z39.19 norma responsável Segundo esta norma, o tesauro é desenvolvido para atingir cinco propósitos:

1. Tradução: fornecer um meio para converter a linguagem natural dos

autores, indexadores e usuários para um vocabulário que pode ser usado para

indexação e recuperação da informação;

2. Consistência: promover a uniformidade tanto no formato, quanto na

atribuição de termos.

3. Indicação de relacionamentos: indicar relações semânticas entre os

termos.

4. Rotular e pesquisar: propor hierarquias coerentes e claras em um sistema

de internet, para ajudar os usuários a localizar objetos de conteúdos

desejados.

5. Recuperação: servir como um auxílio na busca e localização de conteúdos

informacionais. (ANSI/NISO Z39.19, 2005, p.19). (Tradução nossa).

Diante dos propósitos expostos a cima, podemos admitir que o tesauro é um recurso utilizado por um domínio específico do conhecimento, para fins de controle terminológico de informações, com a finalidade de auxiliar os processos de recuperação, tratamento e disseminação em sistemas de informação, bem como, a contribuir para a melhoria das atividades do indexador. As normas mais atuais de padronização de tesauros existentes no Brasil, ainda trazem como principais finalidades a consolidação de uma definição normativa para elaboração de tesauros com foco estritamente ligado ao processo de recuperação da informação. Isso mostra uma visão limitada da utilização dessa ferramenta que poderia possibilitar ganhos educacionais significativos. Contudo, as definições em relação ao tesauro tem sofrido evoluções, além de

807

construções teóricas e metodológicas, pela introdução de novos modelos cognitivos e

abordagem centrada no usuário. (MOREIRA; MOURA, 2003).

3.1 A ESTRUTURA DO TESAURO

Com base as produções de autores como Cintra (2004), Kobashi (1996, 2003), Dodebei

(2002), Currás (1996) entre outros, a estrutura do tesauro estabelece os seguintes

componentes:

a) NE – Nota explicativa;

b) UP – Usado Para (USE);

c) TG – Termo Geral;

d) TE – Termo Específico;

e) TR – Termo Relacionado.

Para esses autores, existem tipos distintos de relações nos tesauros, onde a relação os

descritores individuais é mais relacionada aos estudos da língua, visto que, eles adotam uma

apresentação sistemática onde são apresentados termos, palavras, conceitos e definições de

forma estruturada mantendo relações sintático- semânticas da seguinte forma: a) relações de

equivalência, b) relações hierárquicas e c) relações associativas.

3.1.1 Relações de equivalência

As relações de equivalência se estabelece entre o descritor preferido e o descritor não-

preferido, podendo ocorrer situações em que mais de um descritor possa ser considerado

como referentes a um mesmo conceito. (CURRÁS, 1996). A reciprocidade é expressa através

das seguintes convenções:

USE: expressão que antecede o descritor preferido;

UP: (usado para): expressão que antecede o descritor não-preferido.

Vejamos exemplos desse tipo de relação entre temos no quadro 1.

Quadro 1 - relação entre temos

Mamíferos

UP: Cachorros

Cachorros

USE: Mamíferos

Fonte: (DODEBEI, 2002).

808

Esse tipo de relação permite o controle de situações típicas da linguagem natural, como os

sinônimos e quase-sinônimos.

3.1.2 Relações hierárquicas

As relações hierárquicas se estabelecem através de níveis sucessivos de superordenação e

subordinação entre os descritores, constituindo-se em traço distintivo entre um tesauro

sistemático e uma lista de termos não estruturada, como é o caso dos glossários ou

dicionários. (DODEBEI, 2002). Esta relação é expressa pelas seguintes abreviaturas:

a) TG - (termo genérico), é a expressão que antecede o descritor superordenado;

b) TE - (termo específico), é a expressão que antecede o descritor subordinado.

Vejamos o exemplo a seguir:

Quadro 2 - Relações hierárquicas

LINHAS RODOVIÁRIAS NA

LINHAS RODOVIÁRIAS NA

TG:

TE

xxxxxxxxxx Serviços de transporte Linhas rodoviárias municipais

xxxxxxxxxx Serviços de transporte Linhas rodoviárias municipais

SERVIÇOS DE TRANSPORTE NA xxxxxxxxxx

TE

Linhas Rodoviárias

LINHAS RODOVIÁRIAS MUNICIPAIS NA xxxxxxx

TG

Linhas Rodoviárias

Fonte: (CURRÁS, 1996)

Percebemos a cima o sistema hierárquico existente entre os termos. Suas relações

obedecem a uma ordem que vai do geral ao específico. Os termos são eleitos de modo a

representar da melhor maneira a área do saber a ser controlada terminologicamente.

3.1.3 Relações associativas

As relações associativas cobrem as relações entre pares de descritores que não são membros

de um conjunto de equivalências, e nem podem ser organizados em uma hierarquia, na qual

um descritor subordina-se a outro mais abrangente. (CURRÁS, 1996). Esta relação é indicada

809

pela abreviatura TR (termo relacionado), ou seu equivalente em outro idioma, como no

exemplo a seguir:

Quadro 3 - Relações associativas

PÁSSAROS

TR:

ORNITOLOGIA

TR:

Ornitologia

Pássaros

Fonte: (DODEBEI, 2002).

Autores como Cintra (2004) e Dodebei (2002), recomendam um estrito controle sobre a escolha

dos descritores qualificados como associados, evitando-se os excessos do julgamento subjetivo.

Como regra geral, pode-se dizer que um dos descritores deve ser facilmente inferido conforme os

quadros de referência compartilhados pelos usuários de um índice, enquanto o outro é empregado

como descritor de indexação. Mais especificamente, com frequência, se verá uma situação em que

um dos descritores é um componente necessário em qualquer explicação ou definição do outro, de

tal modo que o descritor PÁSSAROS, por exemplo, forma uma parte necessária na explicação de

ORNITOLOGIA.

Um dos principais desafios no processo de construção de um tesauro refere-se estabelecer

uma coerência entre a seleção de vocabulário, domínio conceitual escolhido, os objetivos

(público alvo), as fontes consultas e a forma de apresentação (MOREIRA; MOURA, 2006).

4 METODOLOGIA

A pesquisa se distingue como um estudo bibliográfico-documental do tipo exploratório cujo

objetivo é a formulação de questões ou de um problema, com a finalidade: desenvolver

hipóteses, ampliar o campo de conhecimento do pesquisador sobre o fato fenômeno para

realização de uma pesquisa futura mais precisa, ou modificar e clarificar conceitos.

(MARCONI; LAKATOS, 2006).

A abordagem qualitativa foi escolhida por sua característica dinâmica de trabalhar com um

universo de significados que representam os detalhes e as riquezas que podem ser encontradas

nas coletas de dados. Esse tipo de abordagem reforça a necessidade de uma fundamentação

teórica bem definida e concisa sem deixar pontos de fuga, para evitar críticas.

Utilizamos o método bibliográfico como procedimento para obter os dados da

pesquisa. Nesse tipo de perspectiva metodológica, o pesquisador deve assumir uma atitude

810

harmonizada acerca do objetivo que trabalha, visto que é uma pesquisa marcada pela subjetividade. (GIL, 2008). Os dados avaliados e analisados pela pesquisa foram coletados através de uma pesquisa realizada na internet, visto que, possibilitam a compreensão interpretativa dos significados da realidade observada, através de recursos informacionais de origem primária secundária e/ou terciária. Buscamos coletar todos os tesauros jurídicos ou relacionados à área do direito, existentes em

formato impresso e digital, disponibilizados nos seguintes idiomas: português, francês, inglês e espanhol. Para isso optou-se primeiramente em criar estratégias para o levantamento bibliográfico levando em consideração as seguintes fontes:

a) motores de busca;

b) bases de dados;

c) revistas científicas.

Com base nas estratégias de busca da lógica Booleana utilizou-se várias combinações entre os

termos para o desenvolvimento da pesquisa: tesauros, direito, tesauro jurídico, utilizando em todas as línguas propostas pela pesquisa. Dentre os motores de busca elegemos os mais importantes seguintes: a) google, b) yahoo, c) ask, d) alta, e) vista, f) bing, g) gennio h) apocalx, i) duckduckgo, l)blekko,

A pesquisa nas bases de dados jurídicas, levaram em consideração o acesso aos documentos e

a abrangência na área jurídica. Conseguimos acesso a importantes bases nacionais e

internacionais em todos os idiomas estipulados. Dentre os principais destacamos os seguintes:

a)

Em língua Portuguesa: Acervo da Biblioteca do Conselho da Justiça Federal – CJF; Bases de Dados Jurídico-Documentais - Ministério da Justiça - Portugal,

b)

Em língua Francesa: Base de Données du Centre de Documentation Européenne, Base de données Juridiques de la Fonction Publique;

c)

Em língua Espanhola: Boletín Oficial del Estado -Espanha, Sistema Argentino de Informática Jurídica, Datos del Diario Oficial Anfitrion - República de Chile,

d)

Em língua Inglesa: Cambridge University Library, University of Oxford - Bodleian

Law Library, American Law Sources, LawRunner - Legal Research Tool. Elegemos uma lista de revistas científicas na área jurídica, estabelecendo o critério do acesso integram aos documentos, pois, diferente do Brasil e alguns países, grande parte dos periódicos eletrônicos internacionais são pagos, contudo, conseguimos acesso a periódicos gratuitos em todos os idiomas estabelecidos pela pesquisa.

811

a) Em língua Portuguesa: Âmbito Jurídico, A Priori, Revista dos Tribunais, Tribuna Do Direito, TR Lex, Universo Jurídico;

b) Em língua Francesa:Actualitè e droit international, project erudit - revues electroniques, Journal de droits de l'homme,Uniform law review

c) Em língua Espanhola: InDret:, Revista Aletheia, Revista General de Legislación y Jurisprudencia, Revista Jurídica de Catalunya;

d) Em língua Inglesa: Education and Law Journal, First Amendment Law Review, Federal Communications Law, Emory International Law Review.

5 RESULTADOS PARCIAIS

Apresentamos aqui as ações realizadas pela pesquisa até o momento. As próximas atividades

estarão voltadas para o estudo do gênero textual, tanto no que diz respeito à construção do referencial teórico para o embasamento da análise do corpus, quanto no que compete ao desenvolvimento da análise do corpus recolhido, de modo a identificar os mecanismos que sinalizam os aspectos textuais que identificam as especificidades do tesauro como gênero textual.

A perspectiva teórica que embasará o estudo do gênero textual, num primeiro momento, terá

como base a obra de Adam e Heidmann (2011), onde mostram um posicionamento teórico e metodológico sobre o estudo dos gêneros estabelecendo seis proposições que contribuirá para rever o ampliar o conceito de gênero textual. São elas:

a)

todo texto participa de um ou de vários gêneros;

b)

os gêneros são práticas normatizadas, cognitivamente e socialmente indispensáveis;

c)

os gêneros são tão diversos quanto as práticas discursivas;

d)

os gêneros são categorias dinâmicas em variação;

e)

os gêneros existem apenas no âmbito de um sistema de gêneros;

f)

a genericidade envolve todos os níveis textuais e transtextuais.

A primeira proposição faz menção à característica dinâmica do texto, voltando-se ao fato da

diversidade de enunciados que podem estar presentes em um texto de qualquer área do conhecimento. Dessa forma é importante considerar que “todo efeito de texto, em qualquer língua que seja, nas suas manifestações escritas ou orais, ordinárias ou artísticas, é acompanhado de um efeito de genericidade que depende de vários regimes de genericidade”. (ADAM; HEIDMANN, 2011).

812

Devemos considerar que o texto é construído com uma intencionalidade, o que permite dizer que acaba sendo resultado de outros textos, além é claro, da intelectualidade do autor. A ressignificação do texto e de todos os componentes que envolvem sua criação, como por exemplo, o contexto cultural e social, que influencia direta o indiretamente na criação de um texto. A segunda proposição aponta a diversidade e variedade de gêneros textuais, que está estritamente ligada ao talento e a capacidade de criar e recriar do ser humano. O gênero texto amplia seus limites à medida que aumenta a complexidade dos fatores envolvidos para sua criação, em especial aqueles relacionados diretamente com a sociedade como mostram Adam

e Heidmann (2011, p.22) ao informarem que “a escolha operada por uma sociedade entre

todas as codificações possíveis do discurso determina seu sistema de gêneros, lugar de manifestação e de diversificação da língua, os gêneros definem-se não ontológica e

isoladamente, mas por contraste no âmbito de um sistema codificado de gêneros”.

A terceira proposição discute o caráter estrutural do gênero textual, enfatizando que eles são

identificados e compreendidos pelos indivíduos devido as suas características normativas, englobando os aspectos linguísticos, enunciativos, gráficos, dentre outros. Para Adam e Heidmann (2011, p. 23-24)

os gêneros são, pois, definíveis como regulações das práticas

sociodiscursivas dos sujeitos e da produção de enunciados em discurso. [ ] É preciso conceber, bem claramente, os gêneros como inseparáveis dos

Nesse

caso, os usos podem bem ser qualificados e normatizados. As normas sociodiscursivas que governam os gêneros não são tão constritoras como as regras morfossintáticas que regem as línguas.

sistemas históricos de pensamento desses grupos socioculturais. [

]

A quarta proposição trata sobre a variação dinâmica das categorias dos gêneros textuais, visto

que, o texto pode ser interpretado de diferentes formas, de modo que pode ser categorizado como um gênero diferente do que foi estabelecido, em outras palavras, a apropriação do texto

pelo leitor e a dinamicidade dos enunciados presentes no texto, podem resultar em um a nova forma de entendimento ou compreensão do texto. Adam e Heidmann (2011, p. 24) ressaltam que tais fatores estão

] [

de interação e as visadas ou os objetivos dos leitores constringem mais ou menos esses últimos a respeitar o princípio de identidade ou, pelo contrário, dele se liberar ao introduzir mais ou menos variações inovadoras,

ligados às condições pragmáticas de todo ato de enunciação: a situação

813

afastamentos, jogando tanto com a língua quanto com os sistemas de gênero disponíveis.

A quinta proposição menciona que a existência dos gêneros textuais estão relacionadas ao

contexto de um sistema de gêneros, ou seja, a utilização e compreensão de um gênero textual por um indivíduo, está diretamente ligada ao conjunto de elementos sociais que o envolve. A existência do gênero textual.

Decorre das observações precedentes uma dupla ruptura em relação as concepções ontologizantes dos gêneros: de um lado, um gênero só se define de modo relativo no interior de um sistema de gêneros e, de outro, um

gênero não se define como classe fundada numa gramática de critérios fixos

e estritos, em termos de possessão ou não de tal ou tal propriedade

linguística. O julgamento de participação de um texto a um (ou vários) gênero(s) é, ao mesmo tempo, flutuante e sistêmico, como a maioria das

outras operações humanas de categorização. A categorização e a definição de categorias são operações fundamentais que permanecem, na maior parte

do tempo, intuitivas.

A

sexta e última proposição explica relação do gênero com os níveis textuais e transtextuais,

de

modo que o gênero

afeta os diferentes componentes da textualidade e da transtextualidade,

mas, em contrapartida, esses diferentes componentes, ou planos de textualização, manifestam a genericidade de um texto de forma sempre desigual. Por textualidade, designamos as forças centrípetas que asseguram a unidade e a irredutível singularidade de um dado texto, e por transtextualidade, as forças centrífugas que abrem todo texto para vários outros textos. (ADAM; HEIDMANN, 2011, p. 26)

] [

Mediante aos avanços no estudo de gênero a serem realizados, buscaremos identificar se existe inconsistência ou falta diretrizes em relação a construção de tesauros conforme a matriz clássica, pela qual foi construída e que define sua utilização nos processos de organização da informação. Pretendemos finalizar esta etapa enfatizando as diferenças entre os tesauros a serem analisados, apresentando as limitações, utilizações, diferenças e aplicações entre eles, e por fim, fazendo as comparações com outros gêneros que são bastante relacionados ao tesauro, dentre eles: dicionário, enciclopédia, lista de cabeçalho de assunto.

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814

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Planejamento e execuções de pesquisas, amostragens e técnicas de pesquisa, elaboração, análise e interpretações de dados. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2006.

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SILVA NETO, João G. Tópicos de Linguística textual. Natal: UFRN / CCHLA, 2012. Notas de Aula.

815

815 ORIENTAÇÃO ARGUMENTATIVA: RECATEGORIZAÇÃO DE REFERENTES EM DISCURSOS POLÍTICOS Isabela Marília Santana

ORIENTAÇÃO ARGUMENTATIVA: RECATEGORIZAÇÃO DE REFERENTES EM DISCURSOS POLÍTICOS

Isabela Marília Santana (Mestranda - Universidade Federal de Sergipe) Geralda de Oliveira Santos Lima (Doutora - Universidade Federal de Sergipe) Glícia Kelline Santos Andrade (Mestranda – Universidade Federal de Sergipe)

1 Introdução A Linguística Textual (doravante LT), que representa uma tradição predominantemente europeia (BLÜHDORN; ANDRADE, 2009), tem adotado, na atualidade, concepções discursivas e sociocognitivas para análise de textos, além de afirmar que os sentidos dos textos se estabelecem a partir de elementos de ordem social, cognitiva, cultural, histórica, levando em consideração crenças, valores, posições e desejos de seus interlocutores (VAN DIJK, 2012). No interior dessa perspectiva, a linguagem é vista como uma ação compartilhada na relação entre sujeitos e realidade, na qual esses interlocutores são vistos como atores ou construtores sociais (KOCH, 2010). É nesse contexto que surgiram diversas questões pertinentes aos estudos da LT, entre as quais, destacamos a recategorização de referentes, uma das estratégias referenciais, que implica na elaboração de sentidos no texto. Para Koch (2004), a (re)construção de linguagem constitui uma atividade interativa bastante complexa de produção de sentidos, na qual os sujeitos sociais (re)elaboram seus modelos de mundo textuais, transformando-os em objetos de discurso (MONDADA; DUBOIS, 2003), em função de um querer dizer, e levando em conta a relação entre sujeito, percepção, língua e mundo. Entender a referência de maneira não representacional introduz uma gama de atores sociais que dão sentido a língua e ao mundo. É possível, então, adotar uma concepção interacional (dialógica) da língua, na qual, segundo Marcuschi (1983), o texto

816

deve ser visto como uma sequência de atos de linguagem (escritos e/ou falados). Ele ainda destaca que os indivíduos “são responsáveis pelos processos de formação de sentidos comprometidos com processos sociais e configurações ideológicas.” (MARCUSCHI, 1983, p.22). Este linguista, além de enfatizar o caráter social imbutido nas atividades de linguagem, salienta a questão sociocognitivo como constitutiva da interação. O que nos leva a observar que o texto “é o resultado de uma ação social e de uma ação cognitiva” (CAVALCANTE, 2010, p.59). Conforme Custódio Filho (2012), os pressupostos sociocognitivistas investem no entrecruzamento de aspectos culturais e cognitivos para as explicações dos fenômenos relacionados à produção e transformação do conhecimento. O objetivo geral deste trabalho consiste, portanto, em identificar e analisar algumas ocorrências de recategorização de referentes em discursos políticos, a partir da hipótese de que essas anáforas podem atuar na/para a construção da orientação argumentativa. Assim sendo, centramos nosso estudo em textos ou discursos produzidos por sujeitos candidatos a prefeito e a vereador, em campanha eleitoral, em 2012, na cidade de Simão Dias, interior de

Sergipe. Nossa atenção recai, sobretudo, nas ocorrências de estratégias linguísticas, cognitivas

e interacionais, observando como eles desenvolvem enunciados com a pretensão de persuadir,

convencer, atrair apoio e confiança, em suas campanhas eleitoreiras, a partir de um jogo argumentativo instaurado pelos sujeitos falantes, em que as descrições nominais, por meio de esquemas e estratégias referenciais complexas, ajustam-se, modificam-se, reconstroem

sentidos em função de uma intenção discursiva, comunicativa e, principalmente, persuasiva, estabelecendo relações intersubjetivas.

2 Referenciação e Argumentação Argumentar é agir de modo persuasivo, é dar opinião, justificar seus posicionamentos

e defender um ponto de vista, é uma atividade discursiva indispensável ao ser humano, ao

cidadão contemporâneo em suas práticas sociais. Nesse sentido, além do indivíduo expor seus argumentos que sustentem um querer-dizer, ele se utiliza de mecanismos linguístico- cognitivos capazes de indicar a sua orientação argumentativa. Recorre a palavras e expressões que o auxiliem no processo de convencer e que sejam pertinentes ao contexto situacional e interativo. É necessário evidenciar que a argumentação pode e merece ser considerada não apenas um tipo textual, mas também uma prática discursiva e persuasiva. A referenciação, objeto de pesquisa de vários estudiosos da área (MONDADA; DUBOIS, 2003; APOTHÉLOZ; PEKAREK DOEHLER, 2011, KOCH, 2009; MARCUSCHI,

2007; CAVALCANTE 2012), aparece como uma atividade discursiva construtora de

817

sentidos, na qual a referência “diz respeito às operações efetuadas pelos sujeitos à medida que

o discurso se desenvolve; e que o discurso constrói os ‘objetos’ a que faz remissão (‘objetos-

de-discurso’), ao mesmo tempo que é tributário dessa construção” (KOCH, 2009, p. 15).

Os processos referenciais, como afirma Apothéloz (2003), vão muito além da mera

inserção e retomada de expressões referenciais ao longo do texto, visto que essas ações vão

construir e/ou reconstruir os sentidos e ampliar os domínios de significação ao passo que

novas informações vão sendo inseridas. O que vai determinar a orientação argumentativa do

texto/discurso. Assim, a função das expressões nominais não é apenas referir, mas também

contribuir para a elaboração dos sentidos, “indicando pontos de vista, assinalando direções

argumentativas, sinalizando dificuldades de acesso ao referente e recategorizando os objetos

presentes na memória discursiva” (KOCH, 2006, p.106).

Ao longo do texto, os processos de referenciação (a introdução referencial, a anáfora e

a dêixis) são executados e repetidos, transformando, a todo instante, os modelos cognitivos

(VAN DIJK, 2004) existentes em unidades complexas. Desse modo, essas estratégias

referenciais são responsáveis pela (re)categorização de todo o modelo textual em função de

um querer-dizer, sendo bastante relevantes para a produção e compreensão de textos, atuando

no estabelecimento e organização das informações, na continuidade temática e argumentativa

do discurso. Assim, os indivíduos, diante de suas práticas sociais (HANKS, 2008), inserem

em seus textos/discursos o que lhes é pertinente para convencer o outro de suas pretensões.

Lima (2007), ao levar em conta em seus estudos tais discussões, postula que

os processos de categorização e de referenciação põem em relevo não somente um sujeito real, mas, sobretudo, um sujeito sócio-cognitivo, ‘que constrói o mundo ao curso do cumprimento de suas atividades sociais e o torna estável graças às categorias – notadamente às categorias manifestadas no discurso’ (MONDADA; DUBOIS, 1995, p.276). Isso pressupõe a dinamicidade desses processos, daí a existência da possibilidade real de recategorização (LIMA, 2007, p.

80).

Em consonância com essa autora, o locutor pode, por ocasião da interação verbal,

lançar mão do material linguístico (formas referenciais) que tem a sua disposição, de modo

condizente com as intensões do momento, em uma dada atividade discursiva, cabendo a esse

sujeito o direito de selecionar as formas de referenciação adequadas a seu propósito de

comunicação. Além disso, ele pode, por recategorização, enquanto construção dinâmica, que

se manifesta como forma nominal referencial e desempenha um papel argumentativo na

818

(re)elaboração da coerência dos mais diversos textos socialmente compartilhados (LEITE, 2007), recorrer a mecanismos cognitivos, socioculturais, linguístico-textuais e interacionais que procuram, interativamente, dar conta da dimensão múltipla que esse fenômeno pede assumir no interior da dinâmica textual. Nesse panorama, uma questão de grande importância, que corrobora com o que foi mencionado e que permeia os estudos sobre referenciação, é a reconstrução da realidade.

Blikstein, citado por Koch (2009), afirma que a realidade para o indivíduo não passa de um produto de nossa percepção cultural. Ou seja, “a realidade é fabricada por toda uma rede de estereótipos culturais, que condicionam a própria percepção e que, por sua vez, são garantidos

(KOCH, 2009, p. 51). Assim, o indivíduo transforma o real

em referente de acordo com seu projeto de dizer, suas crenças, opiniões, posicionamento e intenções. Essa instabilidade de categorias influencia a formação dos pontos de vista dos interlocutores sobre os objetos de mundo, ou seja, o que é atribuído a um referente pode ser reconstruído ou até mesmo alterado mediante a uma mudança de contexto, de opinião, de finalidades discursivas (MONDADA; DUBOIS, 2003). Nesse sentido, é que relacionamos a referenciação e a argumentação, já que as escolhas lexicais feitas a partir das estratégias e processos de referenciação (como uma estratégia argumentativa) têm a ver com um projeto de dizer e de sentido, destacando a orientação argumentativa, uma das funções cognitivo-discursivas das expressões nominais referenciais (CAVALCANTE, 2012). Dessa forma, o discurso é orientado argumentativamente por uma vontade de fazer sentido, por um querer-dizer ocasionando o encadeamento referencial, as expressões nominais se combinam e apresentam o objeto. O ato de argumentar constrói instâncias de significação por meio do encadeamento de expressões atributivas, predicativas, persuasivas, dentre outras, que recategorizam o texto como um todo, “a interação social por intermédio da língua caracteriza-se, fundamentalmente, pela argumentatividade.” (KOCH, 2000, p.19). Diante disso, pode-se dizer que as palavras são instrumentos da argumentação, os elementos disponíveis no repertório linguístico são utilizados de maneira criativa para enriquecer seus textos, dando mais credibilidade, assumindo carga argumentativa e levando em conta a interação com o outro.

e reforçados pela linguagem [

]”

3 O texto/discurso político A argumentação não se encerra na seleção lexical, também engloba aspectos discursivos, enunciativos e até mesmo comunicativos no momento da “troca social”, capazes de modificar, alterar e reconstruir contextos. Considerando, no caso, que quando se fala em

819

argumentação e política é significativo destacar os inúmeros posicionamentos e intenções que fazem com que os políticos abordem determinados assuntos e, consequentemente, determinadas palavras e expressões ao longo dos seus textos/discursos. Charaudeau (2006) diz que o discurso político pode ser representado como um jogo de máscaras. No momento do pronunciamento das palavras deve ser levado em conta o que foi dito (presente no cotexto) e também o que ficou implícito, considerando esse processo como resultado de uma estratégia do enunciador. Ele ainda afirma que para que haja argumentação é necessário que exista um projeto de sentido, um sujeito falante e um sujeito-alvo. Desse modo, o sujeito que argumenta almeja alcançar seus objetivos através da persuasão, do convencimento, e para isso utiliza de várias estratégias eficazes que possam enriquecer seus modelos textuais discursivos. Perelman e Olbrechts-tyteca (1996) expõem a importância das escolhas linguísticas na argumentação e afirmam que a opção por um determinado termo servirá como indício de distinção de familiaridade ou de simplicidade, e essa seleção lexical é considerada relevante ao contexto, que, por vezes, servirá à argumentação, situando o objeto do discurso numa dada categoria. Assinalam também que “o fato de selecionar alguns elementos e apresentá-los ao auditório já implica a importância e a pertinência deles no debate. Isso porque semelhante escolha confere a esses elementos uma presença, que é um fator essencial da argumentação” (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 1996, p. 132). A partir de alguns fragmentos de discursos políticos, de candidatos a prefeito e a vereador da cidade de Simão Dias/SE, serão mostrados alguns aspectos, que evidenciam essa orientação argumentativa no desenvolvimento da progressão referencial do texto, e algumas estratégias de referenciação importantes para construção do modelo textual, as quais vão facilitar essa progressão persuasiva textual. Observemos o exemplo a seguir:

(1) Amigos de Simão Dias, a juventude pede seu espaço, é preciso oxigenar o legislativo municipal e criar mecanismos para acabar com a mesmice. Simão Dias não pode mais conviver com o passado e precisa olhar para o futuro. Os nossos professores merecem o cumprimento do piso, chega de filas para atendimento médico e o esporte tem que ser prioridade. Nesta eleição não há espaço para o

medo. É hora de mudança. Vote em [

] (Cand. A).

Podemos perceber, no exemplo acima, pelas orientações deixadas no texto, que o sujeito, no caso o político, objetiva, além de transmitir informações e expor opiniões,

820

desenvolver enunciados com a pretensão de persuadir, convencer, atrair apoio e confiança. É perceptível o jogo argumentativo instaurado em que ocorrências referenciais (“oxigenar o legislativo municipal”, “criar mecanismos”, “acabar com a mesmice”, “conviver com o passado” “olhar para o futuro”), por meio da interação de esquemas e de estratégias

complexas, ajustam-se, modificam-se, reconstroem sentidos em função de uma intenção discursiva, comunicativa e, principalmente, persuasiva estabelecendo relações intersubjetivas. Alguns enunciados são mencionados ao longo do texto com base em um projeto de

dizer (“Amigos de Simão Dias, a juventude pede seu espaço [

merecem o cumprimento do piso, chega de filas para atendimento médico [

uma carga persuasiva, própria do discurso político e sinalizam estratégias argumentativas de grande relevância na categorização e recategorização desse discurso, instaurando diversos sentidos dentro do texto, a partir dos objetos de discurso reconstruídos, reelaborados, uma vez

que são dotados de ideologias e de valores socialmente adquiridos no fluxo dinâmico das ações discursivas.

criar mecanismos para acabar com a

mesmice”. “Simão Dias não pode mais conviver com o passado e precisa olhar para o futuro”), explicitadas durante a progressão textual, culminam no enunciado “É hora de mudança”, as quais estão articuladas a essa predicação durante ou no momento da construção do discurso proferido, pois sua compreensão/interpretação passa a ser dependente de outros processos estabelecidos com outras ocorrências (inter)textuais, o que contribui para a recategorização do processo comunicativo. Pode-se dizer que o sintagma “mudança” se enquadra como uma anáfora encapsuladora que por meio de um processo de referenciação engloba vários aspectos que são lançados ao longo do texto/discurso e que operam cognitivamente através das inferências e das pistas que são dadas via o uso de processos referenciais que fazem parte do mesmo universo político-discursivo. Ao mesmo tempo em que o locutor traz o referente “mudança” assinalando expressões que o fazem referência e o reconstrói, ele traz o referente “mesmice” também recategorizado por expressões, tais como, “passado”, “chega de filas”, “medo” que deslocam o interlocutor, através de operações cognitivas individuais e sociais, de um cenário apático, sem perspectiva à uma positividade marcada pelo termo “mudança”. Percebe-se, diante desse fato, a dualidade posta em evidência, termos antagônicos como estratégia textual-argumentativa e persuasiva. Assim, corroborando com Mondada e Dubois, que postulam: “uma categoria lexical impõe um ponto de vista, um domínio semântico de referência, a concorrer com outras

“Os nossos professores

]”). Eles trazem

]”.

No exemplo acima, as ocorrências (“é preciso [

]

821

categorias sugeridas, e produzindo sentido a partir do contraste com as precedentes”

(MONDADA; DUBOIS, 2003, p. 33).

Nota-se, diante dessa análise, que o conhecimento partilhado é de suma importância

para que o discurso possa surtir efeito, o sujeito deve se preocupar com os termos que utiliza

para que não distancie seu público-alvo do contexto em que ambos estejam inseridos, afinal

seu objetivo é persuadi-lo. Assim, a coerência, como critério de textualidade trazida por

Beaugrande e Dressler