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Volume I: ESTADO, GESTÃO PÚBLICA, DESENVOLVIMENTO E UNIVERSIDADE

Volume II: EPISTEMOLOGIA, METODOLOGIA E TEORIA

Volume III: ESTUDOS ORGANIZACIONAIS CRÍTICOS

Volume IV: RELAÇÕES DE TRABALHO

Referências

Título: Volume Ii: EPISTEMOLOGIA, METODOLOGIA E TEORIA.

Curitiba; EPPEO, 2017.

Organização: Profa. Dra. Camila Brüning

Apoio técnico: Josiane Sassi

APRESENTAÇÃO José Henrique de Faria

Encontra-se disponível, para consulta e/ou download gratuito, no site www.eppeo.pro.br, um conjunto de Quatro Volumes contendo artigos que publiquei em Revistas e Eventos, como autor e coautor, desde 1978. No total são 127 artigos. A organização, sistematização e edição foram feitos competentemente pela Professora Dra. Camila Brüning. Os textos escaneados foram pacientemente processados por Josiane Sassi. Agradeço profundamente a elas pelo carinho e cuidado. É um belíssimo presente e também uma oportunidade para reflexão. Os artigos estão organizados em ordem cronológica e divididos em quatro temas: Volume I: ESTADO, GESTÃO PÚBLICA, DESENVOLVIMENTO E UNIVERSIDADE; Volume II: EPISTEMOLOGIA, METODOLOGIA E TEORIA; Volume III: ESTUDOS ORGANIZACIONAIS CRÍTICOS; Volume IV: RELAÇÕES DE TRABALHO. Ao voltar a vários destes textos, que ficaram na gaveta da memória, chamou a atenção o fato de que alguns deles já não merecem mais minha aprovação, mas, de certo modo, eles fazem parte do processo de superação conceitual e teórico e tiveram sua importância. Outros apresentam conceitos e concepções repetidas e reelaboradas: entendo que, nestes casos, não se trata de mera repetição, mas dos conceitos procurando sua identidade e seu lugar nas reflexões e na realidade. Quando os conceitos e concepções surgem, inspirados no real concreto, eles nem sempre encontram de imediato sua forma mais elaborada. Em geral, eles permitem certa aproximação, às vezes precária, com a realidade. A necessidade de tensionar o real para superar sua aparência fenomênica exige a movimentação do conceito. Figurativamente, o conceito tem vida ao revelar e se revelar. De fato, conceitos e concepções se defrontam, pela via do pensamento, com o objeto que pretendem representar na consciência do sujeito. Esta tensão permanente altera o conceito ele mesmo (processo de elaboração), seu lugar na teoria (propriedade de alocação), sua capacidade de representação do real para o sujeito pesquisador (condição de precisão) e sua forma textual (lógica de exposição).

Efetivamente, no processo de produção do conhecimento, de elaboração teórica, há um constante movimento dos objetos e do sujeito pesquisador, de maneira que nem aqueles permanecem como estavam, eles mesmos (ontologicamente) e para o pesquisador (epistemologicamente), e nem este é como era (ontológica e epistemologicamente) em sua relação com os objetos. Ambos mudam e, em decorrência, conceitos, concepções e teorias também se alteram. Em síntese: o sujeito não é o mesmo na interação com o objeto e este já não se apresenta do mesmo modo para o sujeito. As alterações, por vezes, são radicais (atingem a raiz do problema), amplas e explícitas; outras vezes são também radicais, mas localizadas e sutis; outras, ainda, são formais e decorrem de uma necessidade expositiva. O pesquisador, quando expõe sua teoria, não necessariamente dimensiona o seu alcance, o que vai se constituindo à medida que o concreto ele mesmo se revela em sua estrutura, ao mesmo tempo em que a consciência dele se apropria como coisa pensada em diferente nível de elaboração. Ao reler os artigos, pude observar, igualmente, que além do processo de produção teórica e de sua exposição, o método de pesquisa também foi se modificando, também foi evoluindo na orientação das relações com os objetos de pesquisa, com o concreto investigado. Não é nenhuma novidade, pois método e teoria são sobredeterminados, o que reforça a tese de que ontologia, epistemologia, teoria e método andam necessariamente juntos na produção do conhecimento científico. Poder-se-ia especular se o pesquisador não seria um tipo de sujeito obsessivo, às vezes compulsivo, em sua relação com o objeto de pesquisa e em sua condição de elaboração teórico-conceitual. O pesquisador busca na produção teórico-conceitual uma inteireza e integridade, uma virtuosidade estética e formal, um rigor definitivo e inquestionável, mas este é um objetivo praticamente inatingível devido à própria dinâmica do concreto. Assim, nem bem um texto está publicado e o pesquisador já dá início a uma espécie de insatisfação crítica com alguns trechos do texto. De um lado, isso constitui o processo mesmo de desenvolvimento teórico-conceitual e metodológico. De outro, aponta para o paradoxo de que o que está pronto não está acabado e jamais estará. Nada é definitivo na atividade científica, exatamente porque tanto sujeito como objeto se movem contraditória e permanentemente.

Estes volumes contêm o registro deste movimento de produção acadêmica e, como dito no início, mesmo que não reconheça mais alguns conceitos, teorias, métodos e concepções, elas fazem parte deste processo. Aqui vale uma metáfora:

na construção de um edifício entram todos os materiais e estruturas, bem como todos os estrados externos que permitem que o edifício seja erguido. Mas, uma vez que o edifício está pronto, para estar disponível ao fim ao qual se destina, é preciso remover aqueles andaimes que foram absolutamente necessários no processo de construção. Assim também é o edifício teórico: os andaimes conceituais são necessários no processo de produção de uma teoria, mas não são essenciais quando esta alcança seu termo, seu desfecho contingente.

Volume II: EPISTEMOLOGIA, METODOLOGIA E TEORIA

Este volume é composto pelos artigos publicados pelo Prof. Dr. José

Henrique de Faria, como autor e coautor, e categorizados por ele como trabalhos

que versam sobre o tema “Epistemologia, metodologia e Teoria”.

Compõem este volume os seguintes trabalhos, aqui apresentados nesta

ordem:

1. FARIA, J. H. de; MENEGHETTI, Francis K. ; STEFANI, D. Razão Tradicional e Razão Crítica: os percursos da razão no ensino e a pesquisa em Administração

na concepção da Teoria Crítica. Revista de Ciências da Administração, v. 18, p.

em:

140-154,

https://periodicos.ufsc.br/index.php/adm/article/download/2175-

8077.2016v18n45p136/pdf

2016.

Disponível

2. FARIA, J. H. de. Epistemologia Crítica do Concreto e Momentos da Pesquisa:

uma proposição para os Estudos Organizacionais. RAM. Revista de Administração Mackenzie (Online), v. 16, p. 1-36, 2015. Disponível em:

http://www.scielo.br/pdf/ram/v16n5/1518-6776-ram-16-05-0015.pdf

3. FARIA,

as

concepções de Pêcheux e Bakhtin. Teoria e Pratica em Administração, v. 5, p.

51-71,

http://periodicos.ufpb.br/index.php/tpa/article/download/26399/14430

em:

J.

H.

de.

Análise

2015.

de

Discurso

em

Estudos

disponível

Organizacionais:

4. FARIA, J. H. de; MARANHAO, C. M. S. A. ; MENEGHETTI, Francis Reflexões Epistemológicas para a Pesquisa em Administração: Contribuições de Theodor W. Adorno. RAC. Revista de Administração Contemporânea (Online), v. 17, p. 642-660, 2013. disponível em:

http://www.scielo.br/pdf/rac/v17n6/a02v17n6.pdf

5. FARIA, J. H. de; MENEGHETTI, F.

Dialética Negativa e a Tradição

Epistemológica em

(Impresso),

https://portalseer.ufba.br/index.php/revistaoes/article/download/11141/805

3

Estudos

18,

Organizacionais.

p.

119-137,

Organizações

2011.

&

Sociedade

em:

v.

Disponível

6. FARIA, J. H. de. Consciência Crítica com Ciência Idealista: paradoxos da redução sociológica na fenomenologia de Guerreiro Ramos. Cadernos EBAPE.BR (FGV), v. 7, p. 419-446, 2009. Disponível em:

http://www.spell.org.br/documentos/download/1038

7.

FARIA, J. H. de. Ciência, Tecnologia e Sociedade. Cadernos ANDES (Brasília), Brasília, v. 1, p. 36-46, 2003.

8. FARIA, J. H. de. Epistemologia e Método em Hegel: A Fenomenologia e a Ciência da Lógica. In: XL EnANPAD, 2016, Salvador. Anais do XL EnANPAD. Rio de Janeiro: ANPAD, 2016. v. 1. p. 1-13. Disponível em:

http://www.anpad.org.br/~anpad/abrir_pdf.php?e=MjEzMTI=

9. FARIA, J. H. de; WALGER, C.

1-16.

Materialismo Racional: a Epistemologia

In: EnEO 2014,

2016, Belo Horizonte. Anais do EnEO 2014. Rio de Janeiro: ANPAD, 2016. v. 1.

p.

http://www.anpad.org.br/~anpad/abrir_pdf.php?e=MjA3Nzc=

em:

Crítica de Gaston Bachelard e os Estudos Organizacionais

Disponível

10. FARIA, J. H. de. Dimensões da Matriz Epistemológica em Estudos em Administração: uma proposição. In: EnANPAD, 2012, Rio de Janeiro. Anais do EnANPAD 2012. Rio de Janeiro: ANPAD, 2012. v. 01. p. 01-01. Disponível em:

http://www.anpad.org.br/~anpad/abrir_pdf.php?e=MTQ2ODc=

11. FARIA, J. H. de. O MATERIALISMO HISTÓRICO E AS PESQUISAS EM ADMINISTRAÇÃO; uma proposição. In: XXXV EnANPAD, 2011, Rio de

Janeiro. XXXV EnANPAD 2011. Rio de Janeiro: ANPAD, 2011. v. 1. p. 01-16.

em:

Disponível

http://www.anpad.org.br/~anpad/abrir_pdf.php?e=MTMyNzM=

12. FARIA, J. H. de. Economia Política do Poder: uma proposta Teórico- Metodológica para o estudo e a Análise das Organizações. In: II Encontro Nacional de Estudos Organizacionais - ENEO, 2002, Recife. Anais do II ENEO. Rio de Janeiro: ANPAD, 2002. Disponível em:

http://www.anpad.org.br/~anpad/abrir_pdf.php?e=NDYyMw==

http://dx.doi.org/10.5007/2175-8077.2016v18n45p140

Artigo recebido em: 1º/05/2015 Aceito em: 19/02/2016

RAZÃO TRADICIONAL E RAZÃO CRÍTICA: OS PERCURSOS DA RAZÃO NO ENSINO E A PESQUISA EM ADMINISTRAÇÃO NA CONCEPÇÃO DA TEORIA CRÍTICA

Traditional Sense and Reason Critical: the routes of reason in teaching and research in administration in understanding of critical theory

José Henrique de Faria

Professor Titular do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Paraná. Curitiba. PR. Brasil. Professor Titular do PPGS/ISAE-PR. Curitiba. PR. Brasil. E-mail: jhfaria@gmail.com

Francis Kanashiro Meneghetti

Professor do Departamento Acadêmico de Gestão e Economia e do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Curitiba. PR. Brasil. E-mail: fkmeneghetti@gmail.com

Dorival de Stefani

Professor da UNINTER. Curitiba. PR. Brasil. E-mail: dorivaldestefani@gmail.com

Resumo

Questionar a razão que constrói as razões é condição essencial para compreender como se constitui, na atualidade, o ensino e a pesquisa em Administração. Para tanto, o objetivo central deste trabalho é refletir sobre a prática científica caracterizada pela Razão Tradicional (Ciência Moderna) e pela Razão Crítica. Não se trata de avaliar o status dessas razões, mas de propor uma reflexão sobre a prática científica. Assim, faz-se mister verificar o que é razão, sua relação com o Iluminismo e o que se entende por Eclipse da Razão; o entendimento e as características da Razão Tradicional e sua relação com o capitalismo e o progresso; o entendimento e as características da Razão Crítica e sua relação com o materialismo histórico; a relação entre Razão Tradicional e Razão Crítica. A Razão Crítica supera a Razão Tradicional não por negação, mas por incorporação. A Razão Crítica que questiona os porquês, as utilizações, os interesses, as consequências históricas e os resultados obtidos pela ciência.

Palavras-chave: Razão Crítica. Razão Tradicional. Ciência Moderna. Administração.

Abstract

Question the reason that builds the reasons is essential for understanding how, are lately, teaching and research in management. Therefore, the main objective of this paper is to reflect about the scientific practice characterized by the Traditional Reason (Modern Science) and the Critical Reason. It is not a question of assessing the status of these reasons, but to propose a reflection about scientific practice. Thus, it becomes necessary to check what is right, its relationship with the Enlightenment and what is meant by Eclipse of Reason; understanding and characteristics of the Traditional Reason and its relationship to capitalism and progress; understanding and characteristics of Reason Criticism and its relationship to historical materialism; the relationship between Traditional Reason and Critical Reason. Reason Critical overcomes the Traditional Reason not by denial, but by incorporation. The Critical Reason questioning the whys, uses, interests, historical consequences, the results obtained by science.

Keywords: Critical Reason. Traditional Reason. Modern Science. Administration.

Reason. Traditional Reason. Modern Science. Administration. Esta obra está sob uma Licença Creative Commons

Esta obra está sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso.

Razão Tradicional e Razão Crítica: os percursos da razão no ensino e a pesquisa em administração na concepção da teoria crítica

1 INTRODUÇÃO

Não é possível dizer que haja entendimento único do que seja razão e tampouco que haja alguma sociedade que a conceba da mesma forma ao longo da própria história. A razão modifica-se, assim como as relações entre os indivíduos e destes com a realidade concreta vivenciada. Todavia, é possível identificar um conjunto de pressupostos, aceitos, compartilha- dos, questionados e modificados pela interação dos sujeitos – individuais e coletivos – ao longo de um período histórico com a finalidade de compreender a realidade. O conhecimento verdadeiro é o projeto de toda epistemologia desde os filósofos antigos.

Na modernidade, a razão é a força que procura libertar os homens do mito, do preconceito, da inércia, do dogma, da falsa consciência, da mera aparência, do ineditismo e do mecanicismo. É a faculdade de compreensão da realidade por meio do entendimento do mundo real e como este modifica a consciência dos sujeitos. No entanto, a racionalidade esbarra no idealismo, nas abstrações, nos modelos estruturados, nas funções, na lógica dos conceitos e nas reduções.

O conceito de razão, quando consumado por um

entendimento materialista histórico da realidade e tem

a dialética como elemento central na sua construção,

não deixa de levar em conta a subjetividade. Embora

o cognoscível se dê pela primazia do objeto, ou seja, o que o homem pode conhecer é criado e reformulado constantemente pela interação do sujeito (sua consci- ência) com o objeto, isso não significa a negação da abstração e dos motivos do espírito.

A Ciência Moderna (não se esquecendo de que

não há uma única ciência, mas várias, cada uma delas ligada ao seu período histórico e baseada em elabora- ções epistemológicas específicas) é caracterizada pela influência do Iluminismo. A maior defesa da Ciência Moderna está em ressaltar que esta possibilitou a do- minação da natureza pelos homens. Exemplos disso são os conhecimentos sobre a energia atômica, a ge- nética, a nanotecnologia, a compreensão do espaço, a produção, enfim, tudo que se confirme por responder

às necessidades humanas.

O objetivo central deste ensaio é refletir criti- camente sobre a ciência caracterizada pela Razão Tradicional (Ciência Moderna) e pela Razão Crítica.

Não se trata de avaliar o status destas razões, mas de propor uma reflexão sobre a prática científica. Tam- pouco se trata de uma questão nova, mas é ainda um tema necessário para apontar a relação entre a ciência e a lógica da produtividade capitalista como fator de progresso. Para tanto, serão verificadas estas questões:

a) que é razão, sua relação com o Iluminismo e

O

o

que se entende por Eclipse da Razão.

b) O entendimento e características da Razão

Tradicional e sua relação com o capitalismo e

o progresso.

c) O entendimento e características da Razão Crítica.

d) A relação da Razão Tradicional e da Razão Crítica.

Adicionalmente, procurar-se-á, a título de conclu- são, relacionar as reflexões esboçadas ao longo deste estudo com o campo da Administração, procurando extrair desse campo algumas possibilidades do desen- volvimento de uma teoria crítica.

As reflexões aqui apresentadas são fundamen- tadas, principalmente, em Max Horkheimer, um dos fundadores da Teoria Crítica da sociedade e integrante da Escola de Frankfurt. Seus estudos têm como ob- jetivo não apenas contrapor-se ao autoritarismo, ao preconceito, às formas dogmáticas de compreensão do mundo, mas, essencialmente, fazer com que a razão questione os próprios pressupostos, livrando-se, assim, de qualquer tipo de formalização, de dogmatização ou compreensão mecanizada da realidade.

2 ECLIPSE DA RAZÃO ILUMINISTA

A razão é uma construção histórico-social. Não é possível pensar, questionar e refletir além dos limites do homem ou da sociedade em que se insere, podendo- -se, portanto, falar da multiplicidade da razão, cada qual relacionada a seu contexto. Assim, pode-se falar em razão grega, relacionada aos pensadores gregos antigos, como Sócrates, Aristóteles e Platão, e em razão filosófico-cristã, com São Tomás de Aquino e Santo Agostinho, entre outros.

Cada sociedade em sua determinidade histórica, sua vivência e suas condições materiais e espirituais específicas cria sua forma de compreensão da realidade, baseada

José Henrique de Faria • Francis Kanashiro Meneghetti • Dorival de Stefani

em entendimentos compartilhados e em pressupostos coletivamente aceitos. Em cada período histórico destacam-se pensadores ou um conjunto de ideias que rompem com a forma tradicional de conceber

a realidade, naquilo que Bachelard (2006) chama

de “ruptura epistemológica”, o que não implica uma renúncia por completo das ideias e dos pressupostos antigos que forneciam sustentação para compreensão

daquela realidade. Essa mudança não é gratuita, pois,

a consciência do indivíduo não é formada sem que

haja relação com o mundo concreto vivido. Não é possível, ainda, deixar de reconhecer que um estado de consciência coletiva negue a história passada em favor de um novo entendimento do presente, uma vez que este só se afirma porque a história o produziu.

Nesse sentido, o Iluminismo ou o Esclarecimen- to, tal como traduzido em Dialética do Esclarecimento (ADORNO; HORKHEIMER, 1985) deve ser entendido como “tendência intelectual, não limitada a qualquer

época específica, que combate o mito e o poder a par-

tir da razão”. Dessa forma, “[

tendência trans-epocal, que cruza transversalmente

a história e que se atualizou pela Ilustração, mas não

começou com ela, nem se extinguiu no século XVII” (ROUANET, 1987, p. 28). Assim, as principais carac- terísticas do Iluminismo são os de “livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 19), superar a superstição, imperar sobre a natureza, ter a técnica como essência do saber, destruir a intuição mítica e compreender a realidade por meio da abstração.

A Ciência Moderna é consequência das trans- formações históricas que se potencializam com o advento do Iluminismo. Tal período é consequência de transformações econômicas e sociais vivenciadas por mudanças concretas. Para Horkheimer (1990, p. 7), a ciência é força produtiva, é um fator do processo histórico que exige uma nova compreensão da reali- dade, sobretudo da produção, que tem como objetivo atender às necessidades de consumo dos indivíduos

e, sobretudo, auxiliar o homem a dominar a nature-

za. No entanto, a razão inerente à Ciência Moderna apresenta contradições, porque se tornou mero “[ ] instrumento útil para os fins da vida diária, que deve emudecer, entretanto, frente aos grandes problemas e ceder lugar às novas forças mais substanciais da alma.” (HORKHEIMER, 1990, p. 8).

o Iluminismo é uma

]

A crise da ciência tem sua origem antes mesmo

da ascensão do Iluminismo, pois,

o processo histórico trouxe consigo um

aprisionamento da ciência como força produtiva

Além disso, a ciência, [se entendida] como

meio de produção, não está sendo devidamente aplicada. A compreensão da crise da ciência depende da teoria correta sobre a situação atual, pois a ciência como função social reflete no presente as contradições da sociedade. (HORKHEIMER, 1990, p. 12)

] [

] [

A razão que o Iluminismo cria, no entanto, não se

consolida apenas na Ciência Moderna, pois a filosofia que a fundamenta tem seus representantes, entre eles, os pragmáticos William James, John Dewey e Charles S. Peirce, criticados por Horkheimer (2000) em Eclipse da Razão, sendo possível, portanto, argumentar que não só a filosofia fundamenta o pragmatismo, mas tam- bém o empirismo, o neopositivismo e a concepção dos enciclopedistas, os quais solidificaram a razão atual.

Há uma crise de ordem filosófica, que se apresen- ta como crise da razão e que se manifesta pela ascen- são do irracionalismo, da renúncia da ordem moral, das posturas autoritárias, da primazia dos interesses econômicos sobre os sociais. Todos esses exemplos aderem à afirmação da Razão Tradicional, norteadora das ações e das regras que regulam a sociedade pela valorização apaixonada do utilitarismo, pela razão instrumental, pelo cálculo quantitativo e pelo fetiche do progresso. O que é vivenciado, desse modo, é um Eclipse da Razão (HORKHEIMER, 2000), em que esta

é

reduzida à “[

]

faculdade de classificação, inferência

e

dedução, não importando qual o conteúdo específico

dessas ações: ou seja, o funcionamento abstrato do mecanismo do pensamento”. Essa razão, denominada razão subjetiva por Horkheimer, está relacionada a meios e fins e consolida-se como racionalidade técnica

e racionalidade instrumental.

3 RAZÃO TRADICIONAL E O FETICHE DO PROGRESSO

A crença que os enciclopedistas iluministas de-

positavam na razão como elemento libertador dos

homens caiu em “descrédito”. No entanto, afirmar que

o projeto da razão iluminista fracassou integralmente

Razão Tradicional e Razão Crítica: os percursos da razão no ensino e a pesquisa em administração na concepção da teoria crítica

é denotar que ela não é completamente deturpada ou

inconsistente. É certo que a Razão Tradicional, entendi- da aqui como racionalidade técnica e/ou instrumental, não pode livrar os indivíduos da dominação do homem pelo homem; todavia, sua contribuição no processo de “controlar” a natureza provoca um significativo ganho social.

Para Horkheimer, a razão quando passa a ser racionalidade instrumental perde sua força emanci- patória. Nas palavras de Rusconi (1969, p. 194) “[…]

la razón científica – en su exactitud formal – está en- caminada a la operatividad cotidiana, pero se aparta de la comprensión de la sociedad como totalidad. De esta forma desempeña una función conservadora del orden existente”. A operacionalização do uso da razão como instrumento de dominação, seja ela de qualquer natureza, já é condição primeira para o engessamen- to da razão no seu sentido amplo e maior. Por isso, Horkheimer e Adorno (1991, p. 22) afirmam que “[ ]

a própria razão tornou-se mero instrumento auxiliar do aparato econômico que tudo abrange”.

Inseridos em um sistema econômico em que

a busca pelo lucro é a regra, a razão, transformada

em racionalidade técnica, tornou-se instrumental, ou seja, mais uma forma de diferenciação na busca e manutenção do domínio sobre o outro. Entende-se por outro, a natureza, sem excluir os homens. Tentar dominar a natureza, ou melhor, torná-la submissa à

lógica dos interesses individuais, é um processo de su- jeição que provoca reações adversas nos dominadores. Como nada é estático, ou tende a simples inércia, há

a possibilidade da ruptura do conceito de razão como

sendo simplesmente um aparato instrumental. Para que tal fato ocorra, primeiro é necessário romper com as concepções que caracterizam o sentido atual de razão.

No século XX a razão se tornou oportunista. Como não pode progredir sem os grandes meios de que só os Estados dispõem, ela per- deu sua autonomia; tornou-se uma prestadora de serviços. Sua essência já não é teórica, mas instrumental. (SAINT-SERNIN, 1998, p. 196)

Por esse motivo desalentador da atual concep- ção de razão, conforme argumenta Kant (2000), ela necessita de uma “disciplina” para si mesma, apesar de ela mesma ser o princípio gerador da disciplina e do progresso em geral. Na atualidade, o sentido de

disciplina e de progresso também atingiu a lógica da inércia do não questionamento da realidade social.

A ausência do pensamento dialético provocou

a uniformização da função intelectual, por

força da qual se perfaz a dominação sobre os sentidos, a resignação do pensar à produção da unanimidade, [o que] significa um empobreci- mento tanto do pensar como da experiência. (HORKHEIMER; ADORNO, 1991, p. 26)

] [

É mais uma das formas que denuncia a des- preocupação de fazer os indivíduos serem donos dos próprios pensamentos. É a negação da oportunidade dada à sociedade de se transformar cada vez mais e direcionar seus esforços na direção da supressão de

qualquer forma de violência. A crescente banalização

da violência leva a certos absurdos sociais, “[

qual a violência do sistema sobre os homens cresce

a cada passo que os liberta da violência da natureza, denunciando como obsoleta a razão da sociedade racional.” (HORKHEIMER; ADORNO, 1991, p. 28).

Por estar inserido no mundo economicista das

transformações aparentes e superficiais, “[

ser pressionado para dar uma resposta, o homem médio dirá que as coisas racionais são as que se

mostram obviamente úteis, e que se presume que todo homem racional é capaz de decidir o que é útil

a ele” (HORKHEIMER, 2000, p. 13). Essa concepção

pragmatista-utilitarista, contudo, desconsidera que o indivíduo racional é expressão estanque da não refle- xão social. As críticas tornam-se previsíveis e, muitas vezes, meras reproduções de pensamentos expostos

por uma autoproclamada mídia crítica, interessada em suas próprias elaborações com fins propriamente

políticos. O crédito na imagem do outro passa a ser

a moeda das relações críticas sociais. A razão, dessa

forma, passa a ser mais uma mercadoria, como outras quaisquer.

Como sugere Broner (1997, p. 95), apesar de

chegar a afirmações tão “pessimistas” como essas, “[ ]

o pensamento [de Horkheimer] mudou ao longo dos

anos. Mas, Max Horkheimer nunca renunciou a seu compromisso com a teoria crítica. Uma preocupação com a negação do sofrimento e a força emancipatória da subjetividade livre nunca o deixou”. A luta para tornar cada indivíduo dono do próprio pensamento sempre foi uma constante na trajetória desse autor.

ao

na

]

]

José Henrique de Faria • Francis Kanashiro Meneghetti • Dorival de Stefani

Para compreender ainda melhor essa limitação da

razão, é preciso identificar o que levou a razão, desde

a época do Iluminismo até a atualidade, a perder suas características essenciais como força emancipadora.

Não se pode negar que

Somos os herdeiros, para melhor ou pior, do Iluminismo e do progresso tecnológico. Opor-se aos mesmos por um regresso a estágios mais primitivos não alivia a crise permanente que deles resultou. Pelo contrário, tais expedientes nos conduzem do que é historicamente racional às formas mais horrendamente bárbaras de dominação social; o único meio de auxiliar a natureza é libertar o seu pretenso opositor, o pensamento independente. (HORKHEIMER, 2000, p. 130)

É importante esclarecer que Horkheimer não se opõe à evolução tecnológica; tampouco, aos ganhos que a ciência adquiriu durante as transformações

históricas. Sua incondicional luta é sempre contra a dominação do homem sobre o homem. Para fun- damentar tal luta, é natural que sua atenção esteja voltada para a forma como a ciência evolui e para as consequências decorrentes dela: por essa perspectiva,

a razão tornou-se seu objeto de estudo. Na tentativa

de encontrar respostas para as incoerências sociais e humanas, que nem de longe foram solucionadas pelos avanços científicos, o seu objeto de crítica reflexiva passa a ser a razão. Por essa linha de raciocínio, é possível identificar alusões entre a razão e a natureza:

A razão, embora servindo à função de domi- nar a natureza, é gradualmente reduzida a ser uma parte da natureza; não é uma faculdade independente, mas algo orgânico, como tentá- culos ou mãos, que se desenvolve através da adaptação às condições naturais e sobrevive porque demonstra ser um meio adequado de dominá-las, particularmente no que se refere a adquirir comida e evitar o perigo. (HORKHEI- MER, 2000, p. 127)

Com o intuito cada vez maior de dominar a na- tureza e de transformá-la para o próprio benefício, os indivíduos passaram a idolatrar a ciência, direcionando os discursos proféticos e milagrosos aos avanços dela decorrentes. O conceito de progresso passa a ser atribu- ído não à razão no seu sentido mais amplo, mas à sua expressão parcial, à racionalidade técnica. Com esse

novo sentido de progresso, os questionamentos sobre as contradições naturais surgidas como consequências do avanço científico e técnico ganham destaque. As ciências humanas (Filosofia, Sociologia, Antropologia e outras) são secundárias do ponto de vista dos interes- ses do sistema de capital, se não são capazes de gerar resultados econômicos. A subordinação da ciência à ideologia dominante, que busca incessantemente o acúmulo da riqueza dos grupos minoritários, subverte os interesses coletivos (HABERMAS, 1997). As novas descobertas científicas que não se encaixam nessa lógica do capital estão fadadas à “marginalidade” do conhecimento social.

O emprego de todos os meios físicos e intelec- tuais de domínio da natureza é impedido pelo fato de esses meios, nas relações dominantes, estarem subordinados a interesses particulares e conflitivos. A produção não está dirigida à vida da coletividade nem satisfaz às exigências dos indivíduos, mas está orientada à exigência de poder de indivíduos e se encarrega também da penúria na vida da coletividade. Isso resultou inevitavelmente da aplicação, dentro do siste- ma de propriedade dominante, do princípio progressista de que é suficiente que os indiví- duos se preocupem apenas consigo mesmos. (HORKHEIMER, 1991, p. 48)

Essa exacerbação do conceito de razão como racionalidade técnica reduz a capacidade de questio- namento dos avanços científicos, no que tange às refle-

xões filosóficas, sociológicas e históricas. Incorporadas aos interesses dominantes, a utilização dos avanços científicos é aquela que melhor atende aos interesses dessa classe. Para comercializá-la, indagações funda- mentais dos interesses coletivos não são feitas. Os cien- tistas, nesse modelo, passam a ser parte do processo

de trabalho, que é “[

coisas que o capitalista comprou, entre coisas, que lhe pertencem. O produto desse processo pertence-lhe do mesmo modo que o produto do processo de fermen- tação em sua adega” (MARX, 2001, p. 219).

A perda da capacidade questionadora da nova realidade criada pelos avanços científicos alimenta a cisão da neutralidade da ciência. Subordinada aos interesses do capital, a ciência deixa de produzir conhe- cimento socialmente vinculados, passando, portanto, a atender interesses mercantis. De forma significativa, os financiamentos para desenvolvimentos de pesquisas,

um processo que ocorre entre

]

Razão Tradicional e Razão Crítica: os percursos da razão no ensino e a pesquisa em administração na concepção da teoria crítica

mesmo os das agências públicas de fomento, ao enfa- tizarem as demandas e as parcerias com o sistema de capital, persistem também nessa esfera, na medida em que beneficiam projetos de pesquisas com potencial para produzir maior rentabilidade aos interesses desse sistema. Ainda que haja aporte de recursos para aten-

der os interesses coletivos sem se curvar aos interesses econômicos, o volume relativo de aporte financeiro para pesquisas socialmente vinculadas são reduzidos

e, muitas vezes, escassos 1 .

Toda essa subordinação à lógica econômica é decorrente do avanço do capitalismo como sistema econômico predominante. Após a Revolução Ilumi- nista, a forma de organização dos meios de produção favoreceu a valorização da técnica. Como base nesse avanço técnico, algumas correntes de pensamentos foram fundamentais para a expansão, do modo ca- pitalista de produção, sendo as do positivismo, do funcionalismo e do pragmatismo as mais expressivas. Pensadores não diretamente vinculados à Escola de Frankfurt (Lukács, Gramsci, por exemplo) já haviam feito significativas críticas à tendência dogmatizadora

dos métodos de análise da realidade social. No entanto,

é com os intelectuais dessa escola que a crítica ganha

relevância. Horkheimer, por exemplo, atribui o conceito de Teoria Tradicional a esses dois métodos de análises, fundamentando sua crítica não contra o positivismo,

o pragmatismo ou o empiriocriticismo propriamente

ditos, mas contra a tendência totalitária dessas formas de análises em todas as esferas das ciências.

Estudando as contribuições marxistas sobre o trabalho, Horkheimer (1991, p. 50) percebe que a

figura tradicional da teoria, da qual a lógica formal é uma parte, pertence ao processo de produção por efeito da divisão do trabalho em

A teoria como momento de

uma práxis que conduz a novas formas sociais

sua forma atual. [

[

]

]

não é uma roda dentada de uma engrenagem em movimento.

A divisão do trabalho, mais propriamente a pro- priedade privada, é que leva à alienação. A separação do objeto produzido do ser que o produz é decorrente da organização dos meios de produção. A lógica formal

1 Como se sabe, desde Poulantzas (1977), o Estado, enquanto fator de coesão da manutenção da unidade de uma formação social específica, também precisa dar curso às demandas de frações não dominantes para garantir sua legitimidade como Estado Capitalista.

funciona como mantenedora da separação entre produ- to e produtor; suas contribuições estão fundadas para

perpetuar a separação que garante a reprodução das diferenças econômicas e sociais. O trabalho, que em tese deveria ser a base constitutiva da práxis dos indivíduos como seres sociais, torna-se apenas mais uma esfera que perpetua a dominação do homem pelo homem, como

já propunha Marx (2012) nos Manuscritos.

Para aceitar essa condição “imposta”, a ideolo- gia é o mecanismo que procura manter estáveis tais relações econômicas e sociais, alimentando-se, para isto, também da teoria tradicional. As reproduções das leis, verificadas no sistema positivista, são engessadas como verdades quase absolutas. Por esse motivo, “[ ] quanto mais as idéias se tornam automáticas, instru- mentalizadas, menos alguém vê nelas pensamentos com um significado próprio. São consideradas como coisas, máquinas.” (HORKHEIMER, 2000, p. 30).

A Razão Tradicional, expressa na racionalidade

técnica, vem a ser elemento essencial na formação da concepção de progresso aceita e valorizada na sociedade. “O progresso da civilidade ocorrido desde

o século XVIII até o início do XX foi obtido preponde- rantemente ou em sua totalidade sob a influência do Iluminismo” (HOBSBAWM, 1998, p. 270). O discurso predominante aponta esse conceito de progresso como

o único meio de “guiar” a evolução dos indivíduos e

da sociedade, ainda que impregnado de ilusões, tal

como a crença incondicional de que as ciências podem explicar tudo. As ciências são fontes de respostas, mas, ao mesmo tempo em que respondem a uma indagação, criam outras tantas que necessitam ser respondidas.

A proposição da Teoria da Relatividade por Einstein

trouxe respostas significativas para a física; entretanto,

suas descobertas questionaram princípios fundamen- tais da física quântica, aceitas quase que inquestiona- velmente antes dessa teoria. E mesmo a teoria de Eins- tein vem sendo questionada a partir dos experimentos no laboratório de acelerador de partículas.

a crença de que os acon-

tecimentos históricos desenvolvem-se no sentido desejável, realizando um aperfeiçoamento crescente” (ABBAGNANO, 2000, p. 799). O desejável, que em tese deveria corresponder ao consenso coletivo como orientador do processo histórico, é apropriado por poucos. O destino social, portanto, não é uma escolha social ampla, mas uma condição imposta pelas elites que dominam a técnica e, consequentemente, condi- ciona sua utilização.

O progresso é “[

]

José Henrique de Faria • Francis Kanashiro Meneghetti • Dorival de Stefani

O emprego da técnica, no fomento crescente da

tecnologia, é incorporado nas ações sociais e no sentido de progresso. A cada nova descoberta, a tecnologia

é contemplada com discursos proféticos de soluções

para os problemas humanos. Todavia, essa tecnologia expressa, somente, o desenvolvimento de técnicas com o intuito de dominar a natureza e sua utilização é condicionada à aplicação como instrumento, denomi- nando, assim, a chamada racionalidade instrumental.

A razão engendrada nesses avanços técnicos é

de natureza formal, baseada nas leis e aplicações que destituem o questionamento coletivo das consequên- cias que levam à sua utilização ou à apropriação desses conhecimentos por alguns poucos. Assim,

A tecnologia, como modo de produção, como

a totalidade dos instrumentos, dispositivos e

invenções que caracterizam a era da máquina,

é assim, ao mesmo tempo, uma forma de or-

ganizar e perpetuar (ou modificar) as relações sociais e uma manifestação do pensamento e dos padrões de comportamento dominantes, um instrumento de dominação e controle. (MARCUSE, 1999, p. 74)

Como a sociedade encontra-se seduzida pelo

fetiche do progresso, à medida que novos produtos são apresentados aos consumidores, a esperança de que possam satisfazer seus desejos é renovada. Todavia, não é o consumidor quem escolhe as mercadorias a serem produzidas e tampouco a forma como o são, mas

o inverso. Muitas das técnicas atuais de marketing são

desenvolvidas com o objetivo de colocar no mercado determinados produtos para serem consumidos por pú- blicos alvos específicos. Esse processo separa aqueles

que não possuem renda compatível para a compra de determinadas mercadorias, daqueles a quem estas são destinadas, em um movimento de inclusão e exclusão das possibilidades de consumo.

Assim, a sociedade de produtores e consumido- res, consequência das relações de produção atuais, é importante para acentuar as diferenças sociais. Aqueles que, por exemplo, não têm renda suficiente para pagar tratamentos genéticos sofisticados, manter a alimen- tação saudável ou mesmo ter o tempo necessário de descanso para o seu bem-estar social, se não forem subsidiados por políticas públicas específicas, são banidos dos ganhos obtidos pelos avanços científicos.

A razão que justifica e legitima esse sistema econômico

insere-se mais propriamente em uma racionalidade superficial, em que o pressuposto básico é antes a separação da sociedade em classes de produtores e

consumidores do que para um sistema capaz de prover

a igualdade entre os indivíduos através do consumo social de mercadorias.

A produção em massa necessita da tecnologia

para promover o ganho de produtividade e eficiência na produção. No entanto, o uso dessa tecnologia, baseada na racionalidade técnica, nem sempre traz benefícios que atinjam, democraticamente, a todos.

Todo discurso que apresenta a tecnologia como solução para os problemas do homem está em conformidade com o princípio da técnica como elemento central na evolução material dos meios de produção; entretanto, não corresponde totalmente à necessidade do avanço material da sociedade. Enquanto a evolução material limita-se ao uso da técnica nos meios de produção, todos os fatores dele decorrentes são excluídos da análise mais crítica das possíveis consequências tra- zidas pela racionalidade técnica, ou seja, a técnica incrementa a melhora da produtividade, da eficiência, do gerenciamento, da redução de desperdício; todavia, todos os problemas causados por essas melhoras, tais como a precarização do trabalho e sua intensificação

e o incremento aumento de doenças psicossomáticas

no trabalho, não são colocados nos debates cotidianos senão pela crítica.

Por esse motivo,

O progresso [no sentido ideal da palavra] não

é doação espontânea da técnica, mas uma

construção intencional, pela qual os homens decidem o que deve ser produzido, como e para quem, evitando ao máximo os custos sociais e ecológicos de uma industrialização selvagem. Esse progresso não pode depender nem de de- cisões empresariais isoladas nem das diretrizes burocráticas de um Estado centralizador, e sim, de impulsos emanados da própria sociedade. (ROUANET, 1987, p. 31-32) 2

O sistema capitalista faz da ciência mais uma das

várias mercadorias comercializáveis. Os trabalhadores encontram-se alienados dos resultados de sua produ- ção, inclusive dos conhecimentos que conseguiram gerar nos processos de trabalho, como já se sabe des- de o advento da Organização Científica do Trabalho

2 Acrescente-se: da sociedade organizada.

Razão Tradicional e Razão Crítica: os percursos da razão no ensino e a pesquisa em administração na concepção da teoria crítica

(FARIA, 2004). As apropriações dessas descobertas são

e foram utilizadas para atender a interesses particula- res, muitos deles representando a barbárie humana.

A construção da bomba atômica, das armas químicas e

das armas de fogo utilizadas nas guerras e a elaboração de planejamentos táticos para se vencer as batalhas são apenas alguns dos exemplos do uso da razão técnica para a barbárie (MÈSZÀROS, 2002). Por isso,

] [

mas sob condições em que os padrões de conduta pública permanecem no nível a que foram reduzidos nos períodos anteriores de barbarização. Até agora não deram nenhum indício significativo de estarem novamente se elevando. (HOBSBAWM, 1998, p. 271)

hoje as sociedades humanas estão falindo,

É com essas reflexões, acerca da Teoria Tradi-

cional, que Horkheimer chega à afirmação de que a

sociedade capitalista tende a ser totalitária. Esse sistema reduz as possibilidades daqueles que não querem se submeter à sua lógica, levando-os, quase que inevita- velmente, à escassez material e econômica. A ideologia, fundamentada nos meios de produção impostos por condições materiais de existência, submete os indivídu- os a pensarem que só há uma possibilidade para obter

o progresso, que é a adoção dos princípios capitalistas

de produção e consumo. Essa ideia pode ser facilmente verificada pela observação de que muitas sociedades reduziram seu sentido de felicidade ao simples ato de produzir e consumir. As implicações dessa forma de ver o mundo excluem os indivíduos de relações mais solidárias. O individualismo valoriza-se frente à individualidade e ganha novo status de valor moral. As relações impessoais intensificam e engendram a tolerância das diferenças sociais. Para serem mantidos como sistema dominante, alguns discursos devem ser fundamentalmente ilusórios. Entre os discursos possí- veis, o que mais se destaca, na atualidade, é a relação que se faz entre tecnologia e progresso.

4 RAZÃO CRÍTICA

A fundamentação de uma Razão Crítica está

baseada na possibilidade constante das reavaliações necessárias sobre a realidade que envolve a sociedade. Contrário a isto, leis definitivas não são compatíveis com a lógica das transformações constantes e fomen-

tam as mesmices do pensar linear. Enfim, são o cerne da imutabilidade do mundo material e imaginário. Perpetuam-se como verdades incomensuráveis e inquestionáveis, tornando os indivíduos passivos, fazendo com que aceitem sua realidade sem questio- namentos, destituindo-os, desse modo, de serem donos do próprio destino.

Na iminente necessidade de mudar essa reali- dade, a Razão Crítica transforma-se constantemente. Suas bases questionadoras são permanentes e suas fundamentações são consequências das transfor- mações históricas e materiais da história. Uma das características das bases questionadoras é a fuga do determinismo, pois as contradições internas subja- centes são objetos que transformam os conceitos e pressupostos que, a princípio, parecem ser estáticos.

Para que essas contradições não sejam o próprio “apri-

a razão não pode se

tornar, ela mesma, transparente enquanto os homens agem como membros de um organismo irracional.” (HORKHEIMER, 1991, p. 45).

Para compreender de que forma o materialismo histórico constitui a engrenagem do Razão Crítica, é necessário, antes, compreender a sua dinâmica na evolução material e histórica da sociedade. Ao longo da história da humanidade, o conceito de razão tomou vários contornos, todos tangenciados pelas relações materiais de sua época. Na iminência de tornar a na- tureza “controlável”, os indivíduos buscaram soluções técnicas para compreender os seus fenômenos e utilizá- -los em benefício próprio; entretanto, os benefícios decorrentes da capacidade de controlar a natureza não são distribuídos equitativamente. Isso ocorre porque

o homem é também parte integrante da natureza e,

por assim se constituir, é passível de ser controlador

e controlado.

sionamento” da sociedade, “[

]

A consciência da sua realidade é outro fator que influencia no entendimento de razão diante da pers- pectiva histórica. As conquistas técnicas que permitiram ao homem realizar viagens espaciais, decifrar o código genético humano ou transformar matérias-primas em produtos de consumo, hoje estão “enraizadas” no cotidiano dos indivíduos. Essas descobertas, pratica- mente inimagináveis nas primeiras décadas do século passado, hoje se constituem elementos centrais da vida cotidiana. As mortes decorrentes de infecções bacteria- nas, que na Antiguidade eram dadas como ações pro-

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vocadas por vontade divina, com o desenvolvimento do microscópio e com os avanços da microbiologia, passaram a ser vistas de outra forma: não mais como vontade divina, mas como decorrência das condições materiais. Assim, é inegável que a consciência se modifique conforme a transformação das relações

materiais e sociais for acontecendo. O inimaginável e

a ficção passam a ser vistos como transitórios, como causas dos conhecimentos que podem ser expandidos

e interpretados de outra forma.

Esse processo de transformação histórica em que a consciência individual e coletiva se insere é consequência da dialética das condições materiais de

existência e, posteriormente, das relações de produção. Um exemplo é o uso do relógio, pois, com seu apare- cimento e o advento de relações econômicas cada vez mais baseadas na produtividade por tempo de trabalho,

a

noção de tempo se transforma. As horas, os minutos

e

até os segundos ganham importância no processo de

produção. Assim, naturalmente o relógio, que era um produto caro e, portanto, objeto do desejo de consumo, passa a ser de uso comum, instituindo-se como objeto necessário. Não se pode desperdiçar mais tempo, pois

“tempo é dinheiro”: essa lógica passa a constituir um dos pressupostos dos novos métodos de produção.

Na atualidade, já não basta o controle do tem- po em segundos, na medida em que os milésimos de segundos tornaram-se medida natural de muitas

situações. Os supercomputadores que fazem milhões de cálculos, as posições de largada na competição das marcas e fábricas vinculadas aos carros de Fórmula 1

e a infinidade de informações transmitidos pelas redes de dados, são apenas alguns exemplos dessa nova noção de tempo.

Todas essas transformações são fatores elementa- res na constituição da consciência dos indivíduos. Sua realidade concreta e imaginária passa a ter parâmetros baseados na interação do eu com o objeto, mais espe- cificamente entre o ser e sua realidade material. Essa relação entre ser e objeto, entre o sujeito e o resultado de seu trabalho, está caracterizada fundamentalmente pela separação entre trabalho manual e intelectual.

A divisão do trabalho passa a ser divisão social do tra-

balho, responsável por mudar a forma como a história

é concebida e analisada.

A história não é senão a sucessão de diferentes gerações, cada uma das quais exploram os

materiais, os capitais, as forças produtivas que lhe são transmitidas pelas gerações precedentes; assim sendo, cada geração, por um lado, conti- nua o modo de atividade que lhe é transmitido, mas em circunstâncias radicalmente transforma- das, e, por outro lado, ela modifica as antigas circunstâncias entregando-se a uma atividade radicalmente diferente; chega-se a desnaturar esses fatos pela especulação, fazendo-se da história recente a finalidade da história anterior. (MARX, 1998, p. 47)

A divisão do trabalho remete a uma divisão social

do trabalho. Na interação com o processo de transfor- mação da natureza, cada indivíduo adquire consciência específica, mediada com a consciência histórica da sociedade. Os agentes transformadores da natureza compreendem o mundo através da alienação gerada na divisão do trabalho e na sua relação com as condi- ções materiais de existência. A consciência universal não se consolida pela fragmentação da percepção que os indivíduos adquirem na interação com a realidade. Mesmo os imaginários sociais são consequências dessa interação com o mundo material 3 .

A separação entre mundo material e imaginário

traz como consequência a alienação da percepção. São as condições materiais de existência que levam a sociedade a promover as relações de produção. Das novas formas de relações de produção, muito em con- sequência da nova divisão internacional do trabalho, é que surgem as necessidades de intercâmbios globais de produção e consumo, gerando o que se conhece, na atualidade, como globalização ou, mais propriamente, globalismo (FARIA, 2004). Este, pela relação dialética com o trabalho, transforma suas relações, configurando as novas características de produzir e consumir. Por isso,

[…] la “teoría crítica” denuncia la separación factual entre individuo y sociedad como un

producto histórico de la división del trabajo y

En efecto, el funcionamiento del

sistema social presentado como mecanismo ‘natural’ es sólo el mecanismo del capitalismo. (RUSCONI, 1969, p. 207)

de clase. [

]

Como denúncia da fragmentação do mundo em partes isoladas, os métodos tradicionais de análise social destituem a percepção da análise baseada no

3 Não é esta a proposta de Castoriadis (1985), para quem é o imaginário instituído que transforma a sociedade.

Razão Tradicional e Razão Crítica: os percursos da razão no ensino e a pesquisa em administração na concepção da teoria crítica

todo. Dessa forma, os métodos também estariam “contaminados” por metodologias inadequadas para a percepção da totalidade. A divisão do trabalho constitui igualmente divisão na ciência, mais especificamente dos métodos de análises. Não se pode afirmar que haja algum método que possa descrever a realidade na totalidade; entretanto, é necessário evitar as distorções provocadas por tendências de fragmentações, de aná- lises funcionais, de criação de leis gerais sem levar em conta as particularidades, por evocar generalizações que se perpetuam como verdades inquestionáveis. As teorias se modificam ao longo da história, con- sequência natural das transformações do universo concreto e da quebra dos limites humanos no plano do conhecimento.

O mundo concreto ocorre independente do ho-

mem, que é parte integrante da natureza, e, portanto,

agente que se transforma dentro da história da socie- dade. Por isso, como

A solução dos problemas reais e decisivos dos quais a humanidade padece, sobretudo no presente momento histórico, depende do resul- tado das lutas entre grupos sociais, então quem decide sobre a força de uma teoria é, antes de qualquer coisa, a circunstância até onde seu princípio estrutural é decidido pelas tarefas de tal grupo e não pela situação particular do seu autor. (HORKHEIMER, 1990, p. 116)

A consciência histórica é um dos elementos-chave para a formação e transformação da Razão Crítica. Fugindo das generalizações que fundamentam as ideias dominantes, quase sempre expressas pelas elites intelectuais, o materialismo histórico é uma alternativa essencial para as teorizações que se tornam elementos das contradições futuras. Rompendo os limites materiais de existência e modificando as relações de produção, as ideias se modificam ao longo do processo histórico. Teorias que parecem explicar a realidade atual, no fu- turo serão objetos que denunciam suas utilidades para as formulações das novas teorias que as substituíram.

A Razão Crítica aspira a pensamentos que englo-

bem a conscientização da sociedade e não à imposição das ideias dominantes de cada época. Não se pode negar que haja certa pretensão nessa afirmativa; to- davia, é pela emancipação social que a emancipação dos indivíduos se consolida. Apesar de óbvio, a tota- lidade não pode ser separada das partes. Mesmo que

as limitações humanas sejam o maior obstáculo para a consolidação da emancipação individual e social, sua efetivação só é possível pela busca incessante do escla- recimento. É por essa perspectiva que a Teoria Crítica da Sociedade, proposta por Horkheimer, afirma que a

Separação entre indivíduo e sociedade, em virtude da qual os indivíduos aceitam como naturais as barreiras impostas à sua atividade, é eliminada na teoria crítica, na medida que ela considera ser o contexto condicionado pela cega atuação conjunta das atividades isoladas, isto é, pela divisão dada ao trabalho e pelas diferenças de classes. (HORKHEIMER, 1991, p. 44)

As ideias dominantes são consequências da vida material das classes dominantes, conquanto as formas de visualizar o mundo não fogem das interpretações dos interesses dessas classes. Para reproduzir a vida material de acordo com seus interesses são necessárias condições materiais mínimas para as demais classes sociais. A esperança de pertencer à elite é um dos fe- tiches que legitimam e intensificam a exploração e as desigualdades materiais e sociais. Com a separação de trabalho manual e intelectual, uma dimensão nova ga-

nha proporções de desigualdade. O mundo do pensar

é legitimado por racionalidades que criam justificativas, aparentemente coerentes e justas, mas estas podem ser também formas ilusórias de criar uma sociedade baseada em uma “ditadura das ideias”. Pequenas certezas, expressas em ditados populares, superstições

e frases prontas, são colaboradoras do mundo estático

que tenta se impor, de forma a amenizar as incertezas sociais que tanto amedrontam os indivíduos, quando se impõe a necessidade de mudar. Para chegar a um pretendido consenso, pequenas frações de formadores de opinião popular apropriam-se de espaços na mídia para reproduzirem ideias que não favorecem o apareci- mento do pensamento emancipado de que a sociedade necessita para romper com as ideias dominantes.

As contradições sociais, engrenagem das transfor- mações históricas, são desvirtuadas como necessida- des imanentes para as transformações das condições materiais de existência. Com a tentativa incessante de fazer prevalecer as relações materiais dos grupos dominantes, a ideologia é elemento central na manu- tenção das ideias desses grupos. Os estudos críticos que surgem, nesse contexto, não se comprometem com a emancipação da sociedade, pois a crítica que

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fazem se mostra fragmentada e embutida de soluções não democráticas.

Para mudar a realidade social e as “visões” par- ciais do mundo, as ideias dominantes necessitam ser rompidas. Tal rompimento é condição essencial na postura do comportamento crítico. Não é o pensa- mento que muda a realidade, mas esta que transforma aquele. São necessárias, portanto, práticas sociais que incorporem, pela consciência crítica dos sujeitos, o entendimento de suas próprias práxis. O mundo das ideias pode influenciar, mas não provoca as mudan- ças necessárias. A ação concreta é fundamental para romper com os preconceitos, com as préconcepções, com a inércia do pensamento uniforme e unidimen- sional. Assim,

O comportamento crítico consciente faz parte

do desenvolvimento da sociedade. A cons- trução do desenrolar histórico, como produto necessário de um mecanismo econômico, contém o protesto contra esta ordem inerente

ao próprio mecanismo, e, ao mesmo tempo, a

idéia de autodeterminação do gênero humano, isto é, a idéia de um estado onde as ações dos homens não partem mais de um mecanismo, mas de suas próprias decisões. (HORKHEIMER, 1991, p. 59)

No intuito de mudar a realidade social, faz-se necessário compreender a lógica das transformações históricas, identificar as contradições e vislumbrar a trajetória do encadeamento dos fatos. Identificar a ideologia dominante, o grau de consciência social, a capacidade dos indivíduos de pensarem por si mesmos, é compreender até que ponto a sociedade é capaz de criar seu próprio destino. Desmistificar o andamento da história da humanidade, das barbáries sociais, das formas de alienação presentes na sociedade é procu- rar compreender a evolução material e dos meios de produção responsáveis pelas mudanças estruturais. Portanto, “[…] el progreso social es siempre una tarea histórica, y no una necesidad mística.” (HORKHEI- MER, 1986, p. 136).

O processo histórico engendra a formação da consciência histórica, de que surge a constituição his- tórica dos indivíduos. Da mesma forma, a sociedade constitui sua história pela sua capacidade de agir em favor ou contra a conscientização individual e coletiva. É por essa perspectiva que Horkheimer afirma que:

O desejo de um mundo sem exploração nem

opressão, no qual existiria um sujeito agindo de fato, isto é, uma humanidade autoconsciente,

e no qual surgiriam as condições de uma

elaboração teórica unitária bem como de um pensamento que transcende os indivíduos, não

representa por si só a efetivação desse mundo.

A transmissão mais exata possível da teoria

crítica é condição para o êxito histórico. Mas essa transmissão não ocorre sobre a base firme de uma práxis esmerada e de modos de com- portamento fixados, mas sim medida pelo seu interesse na transformação. (HORKHEIMER, 1991, p. 67)

Práxis é a palavra-chave para a constituição

da consciência individual e coletiva. A relação entre teoria e prática refletida abriga papel fundamental na formação do ser crítico, voltado sempre para a compreensão das transformações das teorias como consequência natural da dialética das condições materiais de existência e de suas consequências. Por

a teoria crítica não almeja de forma alguma

apenas uma mera ampliação do saber, ela intenciona emancipar o homem de uma situação escravizadora”

(HORKHEIMER; MARCUSE, 1991, p. 70). O conhe- cimento que não emancipa é estéril. Está subordinado

à inércia de se manter em repouso constante sem

possibilitar compreender as transformações sociais.

O conhecimento caracterizado pela Razão Tradicional

escraviza os indivíduos às parcialidades geradas pelas formas equívocas de compreender as transformações da natureza. São realidades, quase sempre baseadas em pressupostos imaginários, que incorporam a ide- ologia dominante. Não correspondem à ideia de que

“[

é realizada, exatamente, na medida que a história se transforma, completamente, em História Universal” (MARX, 1979, p. 145).

O compromisso da Razão Crítica é com a eman- cipação dos indivíduos e da sociedade, uma vez que, isolado desta, o sujeito não existe. Compreender as transformações das relações sociais é condição fundamental para entender seu papel histórico. Com- preender as transformações históricas e o papel dos homens nesse processo configura-se como elemento central para romper com os discursos prontos de uma sociedade que tende a mercantilizar, inclusive, o pen- samento crítico.

a emancipação de todo indivíduo, em particular,

isso, “[

]

]

Razão Tradicional e Razão Crítica: os percursos da razão no ensino e a pesquisa em administração na concepção da teoria crítica

Permitir que as contradições se tornem elemen- tos centrais das mudanças sociais é a afirmação do compromisso com a manutenção da Razão Crítica voltada aos interesses coletivos. Por outro lado, a Razão Tradicional

[

]

é capaz de destruir apenas inverdades. [

]

O

pensamento que revela a irracionalidade só

permanece vitorioso se as forças que sustentam uma ideologia perdem em eficácia também por outras razões. A teoria é apenas um elemento no processo histórico. (HORKHEIMER, 1990, p. 108)

Enquanto houver a possibilidade das transfor- mações teóricas de uma sociedade é sinal de que

sua existência está se transformando. No entanto, as transformações não são atos isolados. Mesmo que uma teoria seja criada por um único personagem,

é a congruência e a aceitação da sociedade, ou de

uma parcela dela, que legitimará a aceitação dos seus pressupostos, isso porque:

O indivíduo absolutamente isolado foi sempre

uma ilusão. As qualidades pessoais mais esti- madas, tais como a independência, o desejo de liberdade, a simpatia e o senso de justiça, são

virtudes tão sociais quanto individuais. O indi- víduo totalmente desenvolvido é a consumação de uma sociedade totalmente desenvolvida.

A emancipação da sociedade, mas o resultado

da liberação da sociedade da atomização. Uma atomização que pode atingir o cume nos períodos de coletivização e cultura de massas. (HORKHEIMER, 2000, p. 138)

A sociedade caracteriza-se pela unidimensiona-

lidade porque há considerável número de indivíduos que não primam por pensar sobre sua realidade

política, econômica e educacional. A falta de reflexão

e de autocrítica caracteriza uma sociedade que não

consegue vislumbrar a necessidade de modificar sua maneira de ser. As críticas prontas da indústria cultural parecem ser suficientes para aqueles que já assumiram sua condição de indivíduos atomizados dentro de um sistema que o aprisiona também pela omissão.

O projeto de uma Razão Crítica está fundamenta-

do na concepção de que as transformações históricas são as engrenagens do aparecimento das contradições.

Fugir das generalizações é compreender que, para se fazer uma crítica, é necessário incorporar as razões que as fundamentam.

Como certa vez observou Bertolt Brecht: só alguém dentro de uma situação pode julgá-la, e ele é a última pessoa que pode julgar. Uma vez que nossos interesses, crenças e discursos representam aquilo que em princípio nos faz sujeitos, simplesmente desapareceríamos se tentássemos manter distância para uma análise crítica. (EAGLETON, 1998, p. 43)

As críticas de Horkheimer à subversão da razão

não são críticas ao avanço da racionalidade tecnoló- gica, mas sim ao uso dessa de maneira a favorecer a dominação do homem pelo homem. As atomizações

e o mundo cada vez mais administrado, consequência

do avanço técnico decorrente do progresso sistemático da Razão Tradicional, implicam a desumanização das relações sociais. “Se é próprio do homem que seu agir seja determinado pela razão, a práxis social dada, que dá forma ao modo de ser (Dasein), é desumana, e essa desumanidade repercute sobre tudo o que ocorre na so- ciedade” (HORKHEIMER, 1991, p. 46). Com o intuito de romper com as práticas desumanas, os indivíduos procuram repensar constantemente suas ações sociais, seja como ato isolado ou como seres participantes do processo histórico.

Uma sociedade mais emancipada caracteriza- -se pelo seu poder de crítica e de criatividade. Essa

perspectiva é limitada porque tais características en-

contram-se ameaçadas, pois “[

o desenvolvimento

do ‘sistema’ da civilização industrial substitui os fins pelos meios e transforma a razão em instrumento para atingir fins, dos quais a razão não sabe mais nada”

(REALE; ANTISERI, 1991, p. 847). A razão utilizada

como instrumento limita os indivíduos em relação ao entendimento do processo histórico. Nesse sentido,

a emancipação é reduzida ao esclarecimento, isto é,

“produto” de construção social, conhecimento gerado

e utilizado por indivíduos reificados. Para romper com

essa perspectiva, a emancipação por meio da Razão Crítica é um atributo coletivo, de benefício geral e

individual pelo processo dialético ao longo das con- tradições históricas.

]

José Henrique de Faria • Francis Kanashiro Meneghetti • Dorival de Stefani

5 PERCURSOS DA CIÊNCIA NA ADMINISTRAÇÃO: POR UMA CONCLUSÃO

É quase consenso no meio acadêmico de que

não há pesquisa científica quando não se aborda o objeto estudado em forma empírica. É preciso, con- tudo, distinguir a necessidade do campo empírico na elaboração do conhecimento científico, do empirismo tradicional, para o qual somente as fundamentações positivas são campos seguros para a construção cien-

tífica. Para os empiristas, o ensaio teórico não propicia

a devida aproximação com o objeto estudado, pois é

como forma redundante de discorrer sobre um mesmo tema já estudado com distanciamento da realidade.

Essa é uma forma de atribuir à ciência na Admi- nistração uma concepção pragmática, em muitos casos devido ao não conhecimento de outras dimensões epistemológicas (FARIA, 2012) e de suas contribuições para a construção da ciência. Diante disso, o ensaio teórico é visto com “desconfiança” para o avanço científico. Entretanto, o ensaio teórico (baseado na Razão Crítica que questiona a razão), que contemple objetivos bem delimitados, argumentos fundamenta- dos e justificativas lógicas, é importante para elaborar novos questionamentos, reflexões e críticas a temas já estudados. O ensaio permite questionar as razões (interesses, convicções, valores, morais) por trás dos resultados de pesquisas com verificações empíricas.

O ensaio teórico não é um fim em si mesmo,

mas um momento necessário para a reflexão crítica das teorias disponíveis. A pesquisa de decorre de uma investigação a partir do concreto é, sem dúvida, a que permite o conhecimento renovado, mas ela também exige uma crítica teórica. Como exposto no início, o objetivo deste ensaio é refletir criticamente sobre a ciência caracterizada pela Razão Tradicional (Ciência

Moderna) e pela a Razão Crítica. Não se trata de avaliar

o status destas razões, mas de propor uma reflexão

sobre a prática científica. Embora não seja um tema

novo, é ainda necessário para apontar a relação entre

a ciência e a lógica da produtividade capitalista como

fator de progresso. Os ensaios permitem a elaboração de questionamentos sobre o que se pode fazer com os conhecimentos já criados pelas ciências. Na prática da Administração (caracterizada pela Ciência Moderna), por ser tida como força produtiva na construção de conhecimentos que têm como fim proporcionar eficácia

e eficiência na produção, gestão, comercialização de

produtos, a forma como a Razão Tradicional impera evidencia o predomínio do uso técnico e instrumen- tal do conhecimento. A ascensão do Iluminismo e a solidificação da razão para fins utilitários fizeram com

que os resultados se materializassem em produtos de domínio da natureza. A consolidação dessa razão é a afirmação da Razão Tradicional, legitimada pelo fetiche do progresso que o capitalismo engendra.

Assim, a Razão Tradicional constitui manifestação direta da evolução das relações de produção estabele- cidas na sociedade. No entanto, toda situação tem sua contradição. A promessa da distribuição dos benefícios do progresso para todos e da consolidação do capita- lismo, como opção democrática e igualitária, não se evidencia na realidade, como apontam as estatísticas oficiais. A Razão Crítica, como empreendimento que visa compreender a totalidade por uma perspectiva histórica analisando as contradições inerentes ao ca- pitalismo, a partir da compreensão de como as forças produtivas, os meios de produção e as relações sociais estavam organizados historicamente e evoluíram, somada à forma como se apresentam na atualidade, analisa dialeticamente como a sociedade se constitui.

A relação entre Razão Tradicional e Razão Crítica não é de oposição, mas de superação por incorporação da segunda pela primeira, ou seja, a Razão Crítica não nega nem rejeita os avanços possíveis, mas questiona

a utilização desses avanços e as consequências de seu uso inadequado para a sociedade.

Assim, enquanto a Razão Tradicional possibilita

o avanço material e imaterial no campo da Admi-

nistração por meio da produção de tecnologia, de conhecimentos específicos, da criação de modelos que visam sistematizar e orientar o progresso da dominação da natureza pelos homens, a partir da razão técnica e instrumental, a Razão Crítica é responsável por ques- tionar e avaliar as consequências que tais avanços tecnológicos e de conhecimento podem provocar, se utilizados contra os homens.

Não é objetivo deste estudo classificar os estudos

e pesquisas realizados anualmente no campo da Ad-

ministração por suas vinculações à Razão Tradicional ou à Razão Crítica. Apesar dos levantamentos serem importantes para compreender os processos de ensino

e pesquisa nessa área, entende-se que não é relevante

uma tal classificação atribuindo às pesquisas certos status como uma forma de julgamento. O importante,

Razão Tradicional e Razão Crítica: os percursos da razão no ensino e a pesquisa em administração na concepção da teoria crítica

aqui, é considerar que a estrutura nuclear da Teoria Crítica está nas reflexões instigadas, na capacidade de provocar novas reflexões em relação ao campo da Administração e às formas como se produzem os saberes transmitidos nas práticas de ensino, além de questionar as razões por trás da razão que está cons- truindo o conhecimento científico nessa área.

Desta forma, é preciso registrar os avanços da teoria crítica no campo da Administração, desde as publicações de Maurício Tragtenberg a partir do final dos anos 1970, até a incorporação da mesma, formal- mente, em 2008, nos Encontros da ANPAD nas áreas de Estudos Organizacionais, Relações de Trabalho e Ensino e Pesquisa em Administração. Embora ainda sejam minoritários entre os trabalhos apresentados, os estudos com base na teoria crítica tiveram um im- portante incremento, como se pode verificar em uma simples visada nos Anais dos EnANPAD. Também é necessário destacar a importante presença dos estudos críticos nos Congressos Brasileiros de Estudos Organi- zacionais, que em 2016 realizam seu quarto evento.

A prática científica na Administração, apesar de majoritariamente mais próxima dos pressupostos da Razão Tradicional, tem revelado que a produção de

conhecimento baseado na Razão Crítica é uma reali- dade em artigos, livros, teses e dissertações. Assim, se, por um lado, o desenvolvimento das forças produtivas está mais relacionado à Razão Tradicional, por outro,

é esta mesma Razão que proporciona as contradições

necessárias para a persistência da Razão Crítica, pois

é a partir da crítica que, historicamente, o conheci-

mento novo emerge. Ainda que, atualmente, o ensino de graduação (e, igualmente de pós-graduação) em Administração e as pesquisas na área enfatizem os pressupostos da Razão Tradicional (e Instrumental), a recente valorização da teoria crítica pode se constituir em espaço relevante para a Razão Crítica como forma de conhecimento emancipador.

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RAM, REV. ADM. MACKENZIE, 16(5) SÃO PAULO, SP SET./OUT. 2015 ISSN 1518-6776 (impresso) ISSN 1678-6971 (on-line) http://dx.doi.org/10.1590/1678-69712015/administracao.v16n5p15-40. Submissão: 22 jul. 2014. Aceitação: 16 fev. 2015. Sistema de avaliação: às cegas dupla (double blind review). UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE. Silvio Popadiuk (Ed.), Ana Silvia Rocha Ipiranga, Eloisio Moulin de Souza e Maria Luisa Mendes Teixeira (Ed. convidados), p. 15-40.

EE

epistemologia crítica do concreto e momentos da pesquisa:

uma proposição para os estudos organizacionais

JOSÉ HENRIQUE DE FARIA

Doutor em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Professor titular do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Avenida Prefeito Lothário Meissner, 632, 2º andar, Jardim Botânico, Curitiba – PR – Brasil – CEP 80210-170 E-mail: jhfaria@gmail.com

Este artigo pode ser copiado, distribuído, exibido, transmitido ou adaptado desde que citados, de forma clara e explícita, o nome da revista, a edição, o ano e as páginas nas quais o artigo foi publicado originalmente, mas sem sugerir que a RAM endosse a reutilização do artigo. Esse termo de licenciamento deve ser explicitado para os casos de reutilização ou distribuição para terceiros. Não é permitido o uso para fins comerciais.

JOSÉ HENRIQUE DE FARIA

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RESUMO

O objetivo deste estudo é propor, a partir de uma epistemologia crítica do concreto

(ECC), um procedimento metodológico que explicite os três momentos fundamen- tais de toda a pesquisa orientada por tal epistemologia. Não se trata de um roteiro a ser seguido, mas de uma reflexão sobre a forma processual de ação do pesquisador que tem a finalidade de orientá-lo em sua prática de maneira que ele possa com- preendê-la. A pesquisa não se realiza de forma automática, direta e simples. Toda a pesquisa comporta momentos distintos, porém integrados, em seu processo de realização. Tais momentos não se reduzem a contatos e tampouco à quantidade de vezes em que o sujeito pesquisador estabelece relações com o objeto de sua pes- quisa, mas às formas como essas relações se desenvolvem e se transformam. São,

de fato, momentos caracteristicamente distintos e integrados de apropriação do real

pelo pensamento a partir do real. Cada momento da pesquisa é constituído de um conjunto de ações interativas entre o pesquisador e o seu objeto, e não há uma sucessão predefinida de eventos tais que de um momento a outro haja uma passa- gem linear, natural e automática. O pesquisador evolui de um momento a outro quando supera as limitações de cada momento anterior, porém não de forma sucessiva, pois não existe qualquer garantia de que, a partir das ações interativas do sujeito pesquisador com o objeto, não haja necessidade de se voltar ao entendi- mento de determinados elementos constitutivos da fase anterior. A proposição dos três momentos da pesquisa em uma ECC para os estudos organizacionais procura sugerir que toda a pesquisa, nessa dimensão, é um processo que tem o real como primazia e que a relação do sujeito pesquisador com o concreto não é direta, imedia- ta, simples e definitiva. Há um ir e vir necessário entre o sujeito e a realidade estu- dada para que ele possa apreendê-la em sua totalidade cognoscível e, portanto, em sua essência dinâmica e contraditória, e não apenas em sua aparência fenomênica.

PALAVRAS-CHAVE

Epistemologia crítica do concreto. Momentos da pesquisa. Estudos organiza- cionais. Primazia do real. Metodologia.

RAM, REV. ADM. MACKENZIE, 16 (5), 15-40 SÃO PAULO, SP • SET./OUT. 2015 • ISSN 1518-6776 (impresso) • ISSN 1678-6971 ( on-line )

epistemologia crítica do concreto e momentos da pesquisa

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INTRODUÇÃO

Os epistemólogos da ciência tiveram que aceitar, para usar uma expressão de Engels (1979), que a filosofia que foi expulsa da casa da ciência pela janela entrasse pela porta. Ora, se a ciência não necessitava da filosofia para evoluir (já que o que possuía eram técnicas, métodos, experimentos e testes), era porque ela admitia uma teleologia, ou seja, admitia que ela fosse uma teoria das causas finais. Dito de outro modo, admitia que fosse um conjunto de especulações cujo objetivo era alcançar o conhecimento da finalidade dos fenômenos de maneira abstrata. Desse modo, a ciência da ciência pretendia ser uma unidade do saber. Segundo Lecourt (1980, p. 11), dizer que uma ciência da ciência é possível significa, além disso, afirmar que a “ciência” pode revelar, pela simples refle- xão sobre si própria, as leis de sua constituição, isto é, de seu funcionamento

e sua formação. Consiste em afirmar que o discurso científico tem a virtude

intrínseca – e excepcional – de poder enunciar, por si próprio, sem sair de si, os

princípios de sua teoria e seus métodos e procedimentos. Noutros termos, o “dis- curso científico”, soberanamente autônomo, não teria de dar contas a ninguém

e construir-se-ia sem choques nem obstáculos no espaço da pura cientificidade por si próprio instituído, arranjado e delimitado.

A inexistência de obstáculos, na concepção de Lecourt (1980, pp. 11-12),

se dá porquanto qualquer obstáculo seria, desde logo, localizado, enunciado e, por direito, superado pelo próprio discurso científico implícito, mantido con- sigo mesmo, em seu foro íntimo e que só ele pode esclarecer, como e quando desejar. A consequência imediata desse processo autorregulador é que, se são as leis do próprio discurso científico que determinam o seu desenvolvimento, seus métodos e procedimentos, e se ele não tem obstáculos, a conclusão do saber é sempre possível, bastando apenas remover algumas dificuldades meramente formais que, momentaneamente, constituem um entrave. Tudo não passa de uma questão puramente técnica, em que a história da ciência é apenas um desenvolvimento,

uma evolução que “conduz o conhecimento do erro à verdade” e em que “todas

as verdades se medem pela última que aparece” (Lecourt, 1980, p. 12), como, em certa medida, defende Popper (1975, 1998, 2006).

A ciência, assim, demanda uma vigilância que só pode ser epistemológica

e, por conseguinte, uma prática metodológica que lhe corresponda. De maneira

geral, epistemologia pode ser conceituada como o estudo científico e filosófico

do conhecimento que tem por objeto o saber científico, filosófico, cultural, social

e técnico, visando explicar os seus condicionamentos (históricos, sociais, lógicos,

matemáticos ou linguísticos), organizar e sistematizar as suas relações, esclare- cer os seus vínculos e avaliar os seus resultados e suas aplicações. A epistemologia

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é, em essência, crítica, mas nem toda epistemologia é uma epistemologia crítica

do concreto (ECC) quando se trata de sua prática, como bem o demonstra a onto- logia fenomenológica de Sartre (2009), por exemplo. Geralmente, alhures, se entende que uma pesquisa científica necessita de

coerência teórica. De fato, mas essa concepção remete ao mesmo problema,

ou seja, a coerência teórica é garantida pela própria teoria que se afirma em si mesma. Trata-se da teoria dando os contornos de sua coerência a si mesma a partir dos próprios pressupostos. Do mesmo modo que ocorre com a ciência,

a garantia da coerência teórica demanda uma orientação epistemológica. É a

dimensão epistemológica que confere à teoria sua coerência. Isso ocorre porque toda epistemologia possui uma metodologia que lhe corresponde.

Nesse sentido, o objetivo deste estudo é propor, a partir de uma ECC, um procedimento metodológico que explicite os três momentos fundamentais de

toda a pesquisa orientada por tal epistemologia. Não se trata de um roteiro a ser seguido, mas de uma reflexão sobre a forma processual de ação do pesquisador que tem a finalidade de orientá-lo em sua prática de maneira que ele possa com- preendê-la. Essa proposta decorre da prática de mais de três décadas de pesquisa

e publicações, de orientações de quase 50 dissertações e teses, e da produção

coletiva do grupo de pesquisa registrado no Conselho Nacional de Desenvolvi- mento Científico e Tecnológico (CNPq) desde 2002. Esse conjunto de produções é, dessa forma, o campo empírico que autoriza estas reflexões que, como tais, estão em processo de desenvolvimento.

2 A EPISTEMOLOGIA CRÍTICA

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Os estudos organizacionais recorrem, necessariamente, a várias disciplinas:

administração, economia, sociologia, psicologia, antropologia, linguística, políti- ca, filosofia, saúde, engenharia (com destaque para a ergonomia), entre outras. Sendo assim, trata-se de estudos multidisciplinares, transdisciplinares e interdis- ciplinares. Nesta reflexão, parte-se de uma concepção interdisciplinar por esta ser, antes de qualquer coisa, uma atitude e uma práxis científica, filosófica, técnica e pedagógica dos sujeitos pesquisadores individuais e coletivos, em torno de uma epistemologia e metodologia que integram as diversas disciplinas em um mesmo corpo teórico. Trata-se, portanto, de uma unidade, na qual as categorias de análise,

os conceitos e as concepções originárias das disciplinas diversas atuam ao mesmo tempo, simultaneamente, na produção e no desenvolvimento do conhecimento. Nesse contexto da interdisciplinaridade, a epistemologia, do ponto de vista da ciência, deve ser referida como estudo científico e filosófico do conhecimento pro- duzido pela ciência, cultura, filosofia e tecnologia. Assim, a epistemologia não se

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ocuparia de quaisquer conhecimentos, mas daqueles que têm por objeto o saber científico, cultural, técnico e filosófico. A epistemologia, desse modo, estuda esses saberes com base na vigilância recíproca que ciência e filosofia fazem uma sobre a construção e produção da outra. Quebra-se aqui a fórmula da partenogênese, pois, em todos os casos, há uma crítica externa. Desse modo, a epistemologia deve, por- tanto, ser reconhecida e referida como o estudo sistemático do conhecimento, que se vale tanto da ciência quanto da filosofia em suas diversas disciplinas.

A ECC, em consequência, é o estudo científico e filosófico do conhecimento

que tem por objeto o saber científico, técnico, cultural e filosófico de um conjun- to autônomo e crítico de práticas (ações) e saberes conscientes baseados em ins- tâncias integradas de mediação (objetosujeito), quais sejam: 1. não dogmáticas

ou absolutas, mas flexíveis e coletivas, em que todo o objeto do conhecimento pode ser matéria (princípio), instrumento (meio) e produto ou forma (fim);

2. sem conteúdos prévios, mas construídas por meio da sistematização das suas

relações, do esclarecimento dos seus vínculos, da avaliação de seus resultados

e suas aplicações; 3. não hierarquizadas, em que o objeto e o sujeito do conhe- cimento são mediados e mediadores, em que a alternância e a polivalência do objeto e do sujeito no que se refere à mediação são a regra e não a exceção;

4. baseadas no primado do concreto sobre o pensamento, com uma necessária

integração dinâmica e contraditória entre ambos.

A questão central de toda epistemologia, no sentido mencionado, é: Como o

conhecimento científico, técnico, cultural e filosófico se produz? Desse modo, a epistemologia se ocupa do método, dos procedimentos, das formas de produção do conhecimento. Existem dois condicionantes principais da produção do conhe- cimento que se encontram em um nível pré-epistemológico. Nessa linha de racio- cínio, pode-se afirmar, com Bachelard (2006), com base em seu conceito de vetor epistemológico, que os dois polos extremos que constituem os paradigmas iniciais

pré-epistemológicos a partir dos quais se move a epistemologia são:

Empirismo ou experimentação: a origem do conhecimento provém unicamen-

te da experiência. O conhecimento decorre da redução do ser ou do objeto ao

pensamento.

Racionalismo: o real é plenamente cognoscível pela razão ou inteligência e não pela intuição, vontade, sensibilidade etc. A origem do conhecimento é deter- minada por princípios racionais, inatos ou a priori, ainda que se possa con- dicionar a validade do seu uso à disponibilidade de dados empíricos.

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Esses polos, de certa maneira, encontram-se, respectivamente, na raiz da filosofia materialista de Aristóteles e na filosofia idealista de Platão. De acordo com Grayling (1996, p. 38, tradução nossa):

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O paradigma de conhecimento para os racionalistas é a matemática e a lógica, em que verdades necessárias são obtidas por intuição e inferência racionais. Ques- tões sobre a natureza da razão, a justificação da inferência e a natureza da verda- de, especialmente da verdade necessária, pressionam para serem respondidas. O paradigma dos empiristas é a ciência natural, em que observações e experimen- tos são cruciais para a investigação. A história da ciência, na era moderna, dá sustentação à causa do empirismo, mas, precisamente por essa razão, questões filosóficas sobre percepção, observação, evidência e experimento têm adquirido grande importância.

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A noção de totalidade, na perspectiva da ECC, não se refere ao conheci-

mento total, completo e definitivo do objeto, mas à recusa à fragmentação. É

nesse sentido que se afirma que o caráter específico da contradição não é abso- luto e não tem sentido quando separado da totalidade. A totalidade é gnosioló- gica e não a totalidade da apreensão integral do objeto. O específico não tem valor senão em relação à totalidade gnosiológica, na medida em que ambos são inseparáveis. Essa categoria da totalidade compreende a relação do simples para

o complexo. Para Marx (1974), o método que analisa os fatos sem investigá-los

em sua totalidade, em suas contradições e seus movimentos, termina por pro- por leis universais abstratas aplicáveis a quaisquer casos. Ainda de acordo com Marx (1977), os fatos não são coisas concretas dadas imediatamente aos senti- dos, pois sua concretude existe apenas dentro da totalidade específica: nesse sentido, os fatos precisam ser mediados pelo pensamento e pela práxis humana para que possam ser apreendidos como tais (pela consciência) e não em sua aparência ou superficialidade.

A essência do método de Marx (1974) é que a análise social consiste em um

vaivém constante entre as partes e o todo. Não simplesmente um movimento em uma só direção, mas em ambas; não uma simples interação, mas complexa,

dinâmica e contraditória. A parte não pode ser retirada do todo para ser examina- da em separado dele e depois, mecanicamente, inserida novamente na análise:

os fatos empíricos devem estar integrados na totalidade em que se encontram ou

vão permanecer abstratos, superficiais e teoricamente enganadores. Epistemologicamente, enquanto para os idealistas é o pensamento que cria

a realidade, sendo esta a manifestação exterior da ideia, para a ECC o objeto é o

mundo material, e a contradição é histórica e social: é o mundo material que é dialético, que está em constante movimento, pois historicamente as mudanças decorrem das contradições surgidas a partir do processo de produção social.

A dialética apresenta-se também na relação objetosujeito, a qual nem é sepa-

ração absoluta e nem ligação imediata, mas separação sempre ao mesmo tempo

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renovada e suprimida, de maneira a ser finalmente conciliada por meio de media-

ções sucessivas. A primazia é assim do real, e é na dialética objetosujeito que o real concreto, por meio de mediações sucessivas, se concilia consigo mesmo na forma de real pensado. Portanto, a supressão da separação objetosujeito não

é a supressão do próprio objeto e da objetividade do sujeito, mas a afirmação da dialética de uma relação dinâmica e tensionada.

A ECC, portanto, recusa a epistemologia idealista e especulativa, segundo

a qual o movimento se encontra em um universo transcendente ao movimento

real, concepção que destrói a autonomia do movimento da realidade para reassu- mi-lo em seguida, no plano da subjetividade, como ideia. Para a ECC, a prima- zia é do real porque é no próprio movimento do real que “o princípio do movi- mento se exprime total e integralmente. Porque se dá no interior da situação, o movimento atinge a situação. Porque se dá no ser, é movimento do ser” (Calvez, 1959). Essa relação dinâmica objetosujeito ou matériaconsciência, mediada pelo pensamento, é a forma de se apropriar do real concreto como real pensado, não permitindo a fuga do pensamento como um elemento exterior e anterior à relação 1 . Para a ECC, o método que concede ao pensamento exteriorizar-se para reconstruir e colocar movimento no objeto não tem nenhuma outra existência além das próprias categorias definidas pelo pesquisador. Tal método somente pode ser útil como filosofia da abstração ou filosofia da ideia, ou seja, como espe- culação. É por essa razão que, como aponta Calvez (1959), para o método dialé- tico na perspectiva da ECC o conhecimento da matéria jamais é definitivo, abso- luto e total. O objeto pensado é necessariamente uma abstração, uma redução do real ao pensamento. Assim, o conhecimento é sempre relativo às condições 1. internas, objetivas e subjetivas, do sujeito pesquisador; 2. do método e dos instrumentos utilizados para a apropriação; 3. do objeto, sejam ontológicos ou

gnosiológicos; 4. do estágio do conhecimento científico disponível; e 5. do con- junto das relações objetivas (econômicas, jurídico-políticas, ideológicas, culturais

e sociais) e intersubjetivas presentes no plano histórico e social investigado.

A pesquisa, assim, não se realiza de forma automática, direta e simples.

Toda a pesquisa comporta momentos distintos, porém integrados, em seu pro- cesso de realização. Tais momentos não se reduzem a contatos e tampouco à quantidade de vezes em que o sujeito pesquisador estabelece relações com o objeto de sua pesquisa, mas às formas como essas relações se desenvolvem e se transformam. São, de fato, momentos caracteristicamente distintos e integra-

dos de apropriação do real pelo pensamento a partir do real. Cada momento da

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1 Isso não significa a defesa da concepção de uma tábula rasa. Todo o sujeito pesquisador traz consigo teorias, metodologias, valores, experiências, decorrentes de suas relações sociais e daquelas legadas pela história e cultura. O que se argumenta aqui é a recusa a um pensamento preconceituoso, preconcebido, pré-elaborado sobre o objeto antes de se estabelecer com ele uma relação dialética.

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pesquisa, como se verá adiante, é constituído de um conjunto de ações intera- tivas entre o pesquisador e o seu objeto, e não há uma sucessão predefinida de eventos tais que de um momento a outro haja uma passagem linear, natural e automática. Não existem, portanto, medidas, indicadores, modelos e orientações operacionais da “passagem” de um momento a outro na produção do conheci- mento científico. Esse movimento é dinâmico, complexo e contraditório, decor- rente da adequação do desenvolvimento do processo de pesquisa aos objetivos da investigação, ao problema investigado e às limitações condicionantes de todo o processo de investigação. O pesquisador evolui de um momento a outro quando supera as limitações de cada momento anterior, porém não de forma sucessiva, pois não existe qualquer garantia de que, a partir das ações interativas do sujeito pesquisador com o objeto, não haja necessidade de se voltar ao entendimento de determinados elementos constitutivos da fase anterior. Todos os momentos são marcados por uma dinâmica dialética na relação objetosujeito, por meio de uma tensão entre contrários em cada unidade cate- gorial. Para efeitos de distinção, podem-se denominar esses momentos de pré- -sincrético, sincrético e sintético, conforme exposto detalhadamente adiante. Por ora, é necessário indicar que a passagem de um momento a outro decorre da superação das contradições naquele momento (naquela unidade de contrários) que se sintetizam no momento seguinte (do pré-sincrético ao sincrético e deste ao sintético). O terceiro momento, contudo, longe de se tornar a verdade absolu- ta sobre o objeto, distante de ser a tese das teses, mostra dialeticamente que as certezas contêm dúvidas, que o definitivo é provisório, que a totalidade é relativa e que o conhecimento produzido pelo sujeito sobre o objeto é apenas um estágio de um processo indefinido. Para a epistemologia crítica, o sujeito somente se constitui plenamente como sujeito na produção de suas condições materiais de existência, de maneira que a mediação entre o real e a consciência é sempre realizada pelo pensamento em condições específicas ou em lócus de mediação:

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A mediação pelo pensamento se dá por meio das atividades relativas às prá- ticas da produção das condições materiais de existência.

A mediação do pensamento pela prática política se dá pelas ações de inter- venção dos sujeitos na realidade social, com a finalidade de lhe dar direção, de intervir em sua condução de forma ativa.

A mediação do pensamento pela organização se dá pelas vinculações que os sujeitos coletivos obrigatoriamente fazem, formal ou informalmente, com associações (políticas, sindicais ou de outra natureza, inclusive de lazer), escolas e empreendimentos (heterogeridos ou autogeridos), pois é próprio dos sujeitos coletivos o estabelecimento de vínculos sociais comuns.

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epistemologia crítica do concreto e momentos da pesquisa

A mediação do pensamento pelas instituições se dá pela aceitação social rela- tiva ao conjunto de regras, valores éticos e morais, elementos da cultura, crenças, mitos e configurações simbólicas e imaginárias.

É da interação complexa, dinâmica e dialética do sujeito com o real, nos

limites dados por este, pelo próprio sujeito, pelos meios de produção do conhe-

cimento e pelo conhecimento humano historicamente acumulado e acessível, que se vão desenvolvendo os modos de apreensão e construção do conhecimento

e de construção da lógica formal e abstrata com os quais o sujeito individual se

relaciona com o mundo. Esses modos se encontram em constante renovação, desenvolvimento e mesmo em transformação, embora a transformação de um modo de apreensão em outro não seja uma atividade comum ou regular para esse sujeito. As estruturas do sujeito e do real não são estáticas. Ambos estão em constan- te movimento, de forma que a percepção do sujeito sobre o real varia conforme se desenvolvem suas estruturas e seus modos de construção do conhecimento,

e conforme se processa a dinâmica do real. Quanto à percepção do objeto, isto é,

a elaboração intelectual sobre ele, com suas classificações, ordenamentos e con-

cepções, não se trata ainda, do ponto de vista científico, de teoria, mas de conhe- cimento. Conhecer é interagir com a realidade ou com dados abstratos e integrá- -los, com a mediação do pensamento reflexivo, às próprias condições objetivas e subjetivas do pensamento, enquanto a formulação de teoria exige procedimentos

e requisitos metodológicos oriundos da epistemologia.

É importante observar, todavia, que, apesar das diferenças individuais, a cen-

tralidade da construção do conhecimento não está no indivíduo, mas no coletivo. Há um limite no desenvolvimento do saber, o qual é sempre passível de ser superado, mas que estabelece de pronto uma fronteira. Tal limite é justamente o fato de que o conhecimento humano é coletivo, é uma produção coletiva e, por- tanto, histórica e social. Dito de outra forma, a condição de produção do conhe- cimento individual pertence, obviamente, ao indivíduo em sua interação com o meio físico (material) e social (das relações entre os sujeitos), e em sua capacida- de de construção da lógica abstrata. Sem essa interação não há possibilidade de produção do conhecimento e da lógica. Mas o conhecimento individual pertence ao conhecimento coletivo não apenas porque é elaborado em uma condição his- tórica e social, mas igualmente porque o limite dado do conhecimento individual (que pode, é e deve ser ultrapassado) é exatamente o conhecimento coletivamente produzido, ainda que parte dele não esteja disponível de forma organizada e sistematizada. Para a concepção de epistemologia como estudo do conhecimento, o saber desenvolvido pela ciência, filosofia, cultura e tecnologia apenas estabelece limites

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permanentemente reconstruídos do conhecimento humano. Entende-se que o conhecimento da realidade é relativo, provisório, com vários significados e in- terpretações. Isso se opõe às visões empirista e idealista da construção do co- nhecimento que decorrem de uma crença iluminista no poder e na infalibilidade

da ciência, a qual teria todas as respostas e abrangeria todo o saber socialmente importante. Para a ECC, ao contrário, o conhecimento humano excede o conheci- mento científico não apenas pelo simples motivo tautológico de que se trata de conhecimento humano, mas também porque a ciência não consegue apropriar-se totalmente do conhecimento social.

O conhecimento é cumulativo, porém não justaposto, e só se transforma

por meio de um processo contínuo de renovação crítica, de recusa à reprodu- ção, de resistência ao dogmatismo, à sacralização e à transformação dos sabe- res, inclusive ou principalmente os teóricos, em crenças míticas ou religiosas.

Transformações contínuas acumuladas resultam, de uma perspectiva temporal não regular e não previsível, em saltos qualitativos, em rupturas paradigmáticas ou epistemológicas, em novas e revolucionárias teorias. Mesmo que estas sejam propostas ou defendidas por indivíduos e representem um avanço no limite de uma área do conhecimento humano acumulado, que indiquem uma transpo- sição de uma determinada fronteira, isso não significa que seja uma transposi- ção individual. Dito de outra maneira, mesmo que o produto seja individual, a produção será necessariamente coletiva, pois o produtor, nesse momento, não

é senão um sujeito que, pelas suas condições diferenciadas, é capaz de, em si e

por si mesmo, organizar, sistematizar e transmitir o que o coletivo desenvolveu em potência.

A produção do conhecimento científico, como parte diferenciada e específi-

ca do conhecimento humano, em razão das suas condições de produção, é, por- tanto, um processo evolutivo e contínuo de acumulação e renovação quantitativa e qualitativa de saberes (Koyré, 1982), sejam estes reconhecidos e validados por uma comunidade academicamente constituída, de acordo com regras e procedi- mentos por ela formulados, ou socialmente aceitos por seus efeitos nas práticas coletivas. Entretanto, o processo de produção do conhecimento não é mera evo-

lução acumulada e contínua, pois se desenvolve social e historicamente, ou seja,

é condicionado reflexivamente pela produção das condições materiais (objetivas e

subjetivas) de existência da humanidade. Para apropriar-se do real concreto, especialmente no desenvolvimento do

conhecimento científico, o sujeito toma como ponto de partida esse real e não a ideia que tem sobre ele. O real concreto é levado para o pensamento como reflexão, indagação, tensionamento, dúvida, elaboração, enfim, é tomado como abstração até que se torne real pensado, até que o sujeito seja capaz de reproduzir o real concreto pela via do pensamento como real pensado. O ponto de partida é o

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ponto de chegada, não mais como o real concreto de onde saiu, mas como con- creto pensado. Tem-se, então, a forma de produção do conhecimento. Essa é a condição do sujeito individual e coletivo de, partindo do real concreto, apropriar-se desse real (abstração), de forma a organizá-lo em categorias de análise provocadas pelo real, de maneira a elaborar conceitos ou mesmo um esquema de interpretação conceitual produzido pelo pensamento (real pensado) aliado à condição de com- preensão da dinâmica do real, a qual é capaz de romper o próprio real pensado, por resistir à sua forma (superação dogmática), e provocar uma nova interpreta- ção (renovação do real pensado).

3 PRIMAZIA DO REAL OU DA IDEIA? O MÉTODO NA PESQUISA

A inteligência social coletiva jamais conseguiu dar conta de todos os fenôme- nos naturais e/ou sociais. Esse não é um problema apenas da ciência hodierna. Em seu limite, a ciência pode indicar momentos e tendências que se encontram em elaboração no processo atual. O conhecimento do real concreto não é defini- tivo, ainda que possa ser duradouro. Dessa forma, é importante escapar tanto da simples repetição do que a ciência já domina quanto de uma concepção precon- ceitual, na qual o pesquisador define o esquema teórico pressuposto com o qual deseja entender a realidade antes mesmo de se defrontar com ela. Nessa mesma forma, o pesquisador também define as categorias de análise (as variáveis) por meio de um esquema teórico já dado, ou seja, inicia a análise de um ponto de partida “pré-categórico”. Essa opção é um limite que se encontra estabelecido não pelo objeto, mas pelo próprio sujeito pesquisador que, ao escolher antes a teoria, os conceitos, as variáveis e os procedimentos de coleta e tratamento de dados para depois escolher o campo empírico (o real), desde logo define a forma de acessar ao campo empírico nos limites previamente decididos. As deficiências encontradas pelo pesquisador em cada etapa de pesquisa dizem respeito ao próprio objetivo da investigação, à questão de pesquisa e às limitações teóricas, técnicas e do campo empírico, entre outros motivos que devem ser rigorosa e permanentemente avaliados pelo sujeito pesquisador. Tra- ta-se, então, de detalhar cada uma das etapas. Contudo, quando o pesquisador define, em seu gabinete de pesquisa, o referencial teórico e os instrumentos de coleta de dados a priori, independentemente do objeto que deseja investigar, ele se encontra submetido ao racionalismo, ao idealismo, à especulação. Ao confron- tar sua ideia, segundo seu método, com a realidade examinada, fatalmente tenderá a encontrar o que pretendia ter encontrado antes mesmo de encontrá-lo, positiva

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ou negativamente, confirmando ou negando sua “hipótese”. Desse modo, o

objeto, a matéria, dificilmente oferecerá resistência ao esquema, ao método e

à

consciência. O pesquisador, dessa forma, também jamais poderá apreender

o

real de uma forma mais aproximada do que aquela que já estava delimitada

anteriormente. Pouca coisa poderá sair desse script previamente ensaiado. Se acontecer de o sujeito pesquisador perceber que o real tem mais a dizer do que o esquema de apreensão idealmente concebido ou que o que tem a mostrar possui um formato diferente do que aquele previsto na estampa teórica racionalizada no seu gabinete, o próprio procedimento o levará a buscar recortar a realidade para fazê-la caber no esquema previamente montado ou manipular o formato do esquema não para ampliá-lo, mas simplesmente para ajustá-lo à realidade

encontrada. Isso ocorre porque, desde o início, a captura do real estava antes na ideia do que na relação entre o real e a ideia, entre a matéria e a consciência, entre o objeto e o sujeito.

A captação imediata do real, na perspectiva de Bachelard (2006, p. 17), atua

como um dado confuso para o sujeito, uma captação fenomenológica provisória

e convencional, que necessita ser “inventariada” e “classificada”. É a reflexão

sobre o objeto que dará sentido ao fenômeno inicial, pois não se pode confiar nas informações que os dados imediatos fornecem. No entanto, essa captação provi- sória é necessária, pois permite que o objeto se manifeste, que se apresente, que não seja estranho ao sujeito, de modo a evitar que este, ao se defrontar com aque- le, só veja aquilo que idealmente concebeu e não o que o objeto tem realmente a mostrar. A continuidade da relação entre o sujeito e o objeto de sua investigação promove o que Bachelard (2006, p. 17) chama de “sequência orgânica”.

O concreto é concreto já que constitui a síntese de numerosas determinações, ou seja, a unidade da diversidade. Para o pensamento [para o idealismo] constitui um processo de síntese e um resultado e não um ponto de partida. É para nós [materialistas históricos] o ponto de partida da realidade e, portanto, da percepção e da representação. No primeiro caso, a concepção plena se dissolve em noções abstratas. No segundo, as noções abstratas permitem reproduzir o concreto pela via do pensamento (Marx, 1974, p. 38).

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O movimento que vai do concreto ao concreto não é uma circularidade

simples em que o sujeito pesquisador volta a encontrar o ponto de partida tal como o deixou. É um percurso dialético enriquecido com as múltiplas deter- minações do real que o sujeito foi capaz de desvendar e com as reelaborações que ele foi capaz de fazer em suas reflexões, pois ambos, sujeito e objeto, se moveram no processo. Dessa forma, o real concreto que o sujeito reencontra é

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apenas aparentemente o mesmo de onde ele saiu, pois o concreto não se apre- senta mais ao sujeito em sua forma fenomênica e este não o percebe mais como conhecimento imediato. Ao reproduzir o concreto, o sujeito o faz em sua forma apropriada pelo pensamento, como real pensado, elaborado, sintético, como tota- lidade síntese de sentido, pois o sentido do real deve ser buscado nele mesmo e não fora dele. Como se nota, o concreto encontra-se no ponto de partida e no ponto de chegada. A primazia é, portanto, do objeto, pois é a partir dele que se podem elaborar conceitos e teorias, ou seja, que se podem apresentar, no plano formal, os resultados das investigações. Como afirmam Marx e Engels (1976, p. 8), a “exposição está naturalmente condicionada pelo seu objeto”. Contudo, se o real não for considerado pelo pesquisador em toda sua riqueza e extensão, ele será abandonado como concreto e não será reencontrado no ponto de chegada do pro- cesso científico nem em seu aspecto fenomênico, reduzido. Como argumenta Marx (1974), a representação plena é volatilizada na determinação abstrata. Desse modo, para a ECC, o real deve estar igualmente no ponto de saída (conhecimento imediato) e no de chegada (conhecimento mediado) do processo científico. Há aqui, contudo, uma questão crucial que diferencia o método na ECC de outros métodos: o concreto pensado é uma reprodução enriquecida do concreto no plano da consciência e não uma produção do concreto pela consciência. De fato, ao contrário de outros métodos, para a ECC não é o processo cien- tífico que constitui, que faz ou que produz o concreto, ainda que aparentemente seja assim que possa ser percebido em uma leitura apressada. Tampouco a pri- mazia do real consiste em uma garantia de que todo o processo de investigação leve ao seu retorno (ao concreto). Métodos inspirados na primazia do real, no campo empírico, tais como o positivismo e o pragmatismo, partem do concre- to imediato, porém o destroem analiticamente no curso do processo científico fixando abstrações, determinando utilidades e elaborando leis em decorrência de repetições causais diretas, enfim, produzindo e deduzindo o concreto com base em determinações simples. Métodos inspirados na primazia da ideia, da razão, tais como a fenomenolo- gia, o funcionalismo e o estruturalismo, por seu turno, buscam conceber o real não a partir dele, mas como resultado do pensamento, das reduções, das suspen- sões, dos modelos (simulacros), das relações funcionais previamente esperadas, enfim, do pensamento que se move por si mesmo. Nesse caso, é a condição de aprofundamento do pensamento em si mesmo sobre a coisa que produz o enten- dimento da coisa como resultado, ou seja, partindo da ideia para a coisa (objeto, concreto), avança-se para a coisa e retorna-se à ideia enriquecida da coisa. Não é o concreto que se desvenda e enriquece e nem o sujeito que se move, mas o pensamento sobre a coisa que se transforma a partir de si mesmo.

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A questão que se coloca para o pesquisador em geral e para os que se dedi- cam aos estudos organizacionais em particular passa a ser, então, como proceder na relação com o real a partir da primazia deste. Tal procedimento é o que se tentará propor, a seguir, identificando os três momentos da produção do conhe- cimento na perspectiva da ECC.

4 OS MOMENTOS DISTINTOS DA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO

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Como indicado no início, toda a construção do conhecimento científico interdisciplinar, do ponto de vista da ECC e da metodologia que lhe corresponde, se dá em momentos distintos, porém não lineares, da relação do sujeito pes- quisador com o objeto (da consciência com a matéria). Para desenvolver essa concepção, foi necessário tomar de empréstimo, não de forma literal, as con- cepções nem sempre da mesma matriz epistemológica, de Bachelard (2006), com ênfase na ideia de conhecimento aproximado (Bachelard, 2004); de Marx (1974, 1977), especialmente o Capítulo 8 da Contribuição à crítica da economia política em que o autor descreve seu método; de Pagès, Bonetti, Gaulejac e Des- cendre (1987), especialmente no que se refere ao capítulo da metodologia; e de Bourdieu, Chamboredon e Passseron (1999). O que se procurará fazer aqui é uma proposição original sobre os momentos da prática da pesquisa, baseada em sua prática concreta, que não estão explicitados literalmente em nenhum desses autores, mas que empresta deles orientações epistemologicamente coerentes 2 . Entende-se, com base nesses autores, que os momentos da pesquisa se dife- renciam por suas características na relação objetosujeito. Esses momentos podem ser classificados em três categorias de análise. A primeira corresponde

a uma aproximação precária do sujeito pesquisador com o objeto de sua pesqui- sa no campo empírico definido (pré-sincrética); a segunda corresponde a uma

aproximação deliberadamente construída, na qual se encontra o conhecimento valorizado pela relação entre o sujeito pesquisador e o objeto (sincrética); a ter- ceira corresponde à apropriação do objeto pela consciência como produção do conhecimento propriamente científico (sintética). Todos esses momentos são atravessados pela dialética, internamente e entre essas categorias, como se verá

a seguir.

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A ausência de citações diretas não é nenhum descuido. Trata-se de uma elaboração original que sintetiza as contribuições assinaladas, mas que não as reproduz ipsis litteris.

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4.1 O MOMENTO DA APROXIMAÇÃO PRECÁRIA

A aproximação precária ou a fase pré-sincrética da pesquisa refere-se ao pri-

meiro momento da pesquisa. Nesse momento, o sujeito não consegue apreender

a realidade em profundidade, pois os diversos elementos constitutivos do real e

suas relações aparecem de forma desorganizada, ininteligível, confusa, disforme

e multifacetada. Nesse momento, portanto, o sujeito pesquisador estabelece rela- ções fenomênicas com o objeto, ou seja, o objeto se apresenta em sua condição aparente, de forma que o sujeito pesquisador adquire um conhecimento aproxi- mado da coisa, mas não conhece a estrutura da coisa.

A aproximação precária corresponde a uma relação primeira do sujeito com

o objeto de seu conhecimento, na qual não se processa uma elaboração científica,

pelo sujeito, sobre o objeto e sobre o próprio pensar. O objeto precariamente per- cebido o será, mesmo assim, a partir da iniciativa do sujeito, com as condições determinantes do pensamento, que são histórica e socialmente produzidas. Da aproximação precária para a construção de um objeto elaborado, o sujeito neces- sitará refletir sobre sua percepção tanto quanto sobre o seu pensar. Assim, essa aproximação precária fornecerá os primeiros elementos de uma investigação, cabendo ao sujeito investigador ordenar essas primeiras informações e classifi- cá-las, de forma a poder retornar ao real com seu esquema aprimorado, de modo

a definir suas categorias de análise. Para elaborar a teoria, o sujeito necessita seguir procedimentos reconheci- dos pela ciência, mas não precisa disso para produzir conhecimento. O conhe- cimento científico é uma ruptura em relação ao conhecimento fornecido pela aproximação precária, não obstante dependa deste para se materializar. A ciência é, assim, uma organizadora do conhecimento produzido coletivamente, social e historicamente, mas é, na elaboração sistematizada do conhecimento, que se pode permitir toda a criatividade do pensamento. De fato, um primeiro contato do sujeito com o objeto – a aproximação pre- cária – se dá a partir da iniciativa do sujeito (com suas condições de pensamen- to) em sua investigação sobre o objeto, o qual, contudo, nesse nível da relação, aparecerá para o sujeito apenas com sua aparência mais imediata: a informação que o sujeito retira está na forma manifesta do objeto. Nessa fase, ocorre uma percepção primária. Kosik (1976) chamará essa fase de fenomênica, ou seja, fase da percepção do objeto em si. Percepção primária ou fenomênica é aquela na qual sujeito e objeto estabe- lecem uma relação frágil, em que a ação intelectual científica é pouco exigida. Se toda a relação se encerrasse aí, o sujeito teria apenas tido informações acerca do

objeto (objeto em si), mas não consciência dele e de sua ação sobre ele (objeto

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para si), já que a tomada de consciência é uma reconstrução e, desse modo, uma construção original que se superpõe à construção devida à “ação”. Quando se encontra pela primeira vez diante do real que pretende investi- gar, o sujeito pesquisador tem apenas uma noção geral, vaga e confusa sobre o real. E, no entanto, essa é uma relação necessária. O que se cria, nesse momen- to, é uma “ilusão”. “O conhecimento científico é sempre a reforma de uma ilusão.” Não se pode, pois, “continuar a ver na descrição, mesmo minuciosa, de um mundo imediato, mais do que uma fenomenologia de trabalho ” (Bachelard, 2006, p. 17). Essa noção ainda confusa se dá, portanto, em uma primeira apro- ximação entre o sujeito e o objeto que pretende investigar, em que aquele busca, por meio de um conhecimento marcadamente sensível, ser “apresentado” ao objeto que investiga, visando alcançar a primeira objetividade. Isso ocorre por- que, como sugere Bachelard (2006, p. 35), “se uma organização de pensamento não pode ser a narrativa de um processo de pensamento, não é ainda uma orga- nização racional”. A aproximação precária pode ser planejada (ou intencional) e circunstancial (ou casual):

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Aproximação precária planejada é aquela em que o pesquisador, tendo defi- nido seu objeto de estudo e seu campo empírico, dirige-se a ele com inten- ção de conhecê-lo cientificamente, ou seja, o sujeito pesquisador planeja sua relação com o objeto ao conhecê-lo já como objeto naquele campo. Por exemplo, o pesquisador pretende estudar o processo de trabalho em uma unidade produtiva de produção flexível. Define sua abordagem como um estudo de caso aprofundado e escolhe como campo empírico a Fábrica de Veículos ABC que se localiza na cidade XYZ. O conhecimento que o pes- quisador tem sobre o tema escolhido decorre de leituras realizadas com a intenção de conhecer o tema ou que o despertaram para o tema. O sujeito, assim, não se dirige ao seu objeto como um recipiente vazio a ser preen- chido de empirismo. Ao mesmo tempo, não se dirige ao objeto com um esquema teórico preconcebido (ou com um esquema pré-teórico), com con- ceitos, definições, categorias, formulários e modelos. É a interação com o real que permite ao sujeito, com o conhecimento social acumulado que já possui, evoluir para o conhecimento valorizado. A aproximação precária

não é, como se pode perceber, uma atitude empirista. O que se valoriza na relação entre o sujeito pesquisador e o objeto de sua investigação é a pri- mazia do real e não a intuição e a experimentação. Assim, o sujeito pesqui- sador não chega à percepção primária como uma tábula rasa, como supõe

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o empirismo 3 . A primeira aproximação é uma forma de o pesquisador se relacionar abertamente com o objeto, sem conceitos prévios definidos, sem apriorismos categoriais, sem uma teoria limitadora, embora já realize sua aproximação a partir de um esquema teórico histórica e socialmente produzido. O sujeito, portanto, chega ao objeto com um modo de pensar histórico e social, com o qual tentará organizar os novos conhecimentos fornecidos pelo objeto a partir do objeto.

Aproximação precária circunstancial ou casual é aquela na qual o sujeito tem um conhecimento anterior do objeto e do campo empírico, porém não como objeto do conhecimento. A definição do objeto e do campo empírico prova- velmente decorrerá do fato de o sujeito pesquisador pretender estudar o que já conhece a partir de sua experiência social. Por exemplo, considerando o caso anterior, o sujeito trabalha ou trabalhou na Fábrica de Veículos ABC. Ao buscar desenvolver uma pesquisa, aproveitará esse conhecimento apro- ximado, essa aproximação precária, na qual não conheceu o objeto como objeto de pesquisa, mas como objeto de trabalho, para evoluir em direção a uma aproximação de segunda ordem.

Em resumo, o real é a base da ciência para a ECC, e a relação do sujeito com o real é dialética. Entretanto, o conhecimento científico difere daquele imedia- tamente sensível do qual o sujeito não se apropria totalmente, porque o elabora apenas precariamente. A consciência imediatamente sensível é indiferenciada e vazia, e, portanto, nega-se como consciência e como saber elaborado. Do ponto de vista do conhecimento científico, portanto, a primeira consciência do pesqui- sador resulta de uma “aproximação precária com o objeto”. Nessa fase da relação objetosujeito, o objeto escapa ao sujeito quando este o contradiz, quando o enfrenta, questiona-o, submete-o às primeiras tensões. O objeto não se revela inteiramente ao sujeito senão em sua forma fenomênica, e tampouco o sujeito apreende o objeto senão em sua forma aparente. Essa contradição desencadeia uma síntese primária em que o pesquisador é instado a refletir sobre o objeto, sobre si mesmo e sobre a relação dialética dele com o objeto, o que lhe permite avaliar ambos e suas relações. Como resultado dessa síntese primária, a per- cepção do sujeito acerca do objeto eleva-se para uma aproximação relativamente elaborada, em que sujeito e objeto movem-se em direção um ao outro, ainda sob tensão. A consciência sensível do sujeito é parcialmente preenchida à medida que o objeto vai se revelando em sua qualidade.

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3 O conceito de tábula rasa foi utilizado por Aristóteles como metáfora indicando que a consciência não possui um conhecimento inato a ser preenchido. John Locke o emprega como uma questão epistemológica que fundamenta o empirismo, argumentando que todo o conhecimento se baseia na experiência empírica, já que “não existem ideias inatas”.

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4.2 O MOMENTO DA APROXIMAÇÃO DELIBERADAMENTE CONSTRUÍDA E DO CONHECIMENTO VALORIZADO

A aproximação secundária (segunda aproximação) ou deliberadamente construída corresponde ao momento em que o sujeito pesquisador, já tendo conhecido seu objeto no campo empírico, procura apropriar-se de conceitos,

análises e estudos já produzidos para auxiliá-lo no aprofundamento de sua pes- quisa. Trata-se de um momento sincrético, em que o pesquisador encontrará conceitos que o ajudam no entendimento da estrutura do objeto em sua totali- dade cognoscível. Nessa fase, o pesquisador poderá observar que existem fatos para os quais não há ainda teoria consistente desenvolvida, o que o obrigará

a desenvolver, ele mesmo, a teoria. Nesse momento, ocorre um processo de

tensão entre o pesquisador e o objeto ou, dito de outra forma, entre a matéria e

a consciência, mediado pelo pensamento. O sujeito ainda não possui um domí-

nio sobre o objeto em sua totalidade dinâmica sempre relativa 4 , mas encontra-se em processo de construção dela. Esse processo de construção deve desembo- car em uma apropriação do objeto real pelo sujeito como objeto pensado, que é

o terceiro momento da pesquisa. Conhecimento valorizado é, portanto, aquele em que o sujeito, tendo refle- tido sobre o objeto que investiga e recorrido a teorias disponíveis na literatura

para melhor entendê-lo, volta ao objeto, porém já não de maneira confusa e con- vencional. Essa volta já recorre a técnicas de pesquisa, e já há uma problematiza- ção primariamente definida, mas ainda em construção. O pesquisador delimita

o objeto que investiga, separa o essencial do secundário, dá voz ao objeto de

forma seletiva, de tal forma que o conhecimento se valoriza. Ocorre, nessa fase, uma tensão entre o conhecimento do sujeito pesquisador individual e o conheci- mento coletivo científico, já que a aplicação concreta do conhecimento científico se dá por meio de um processo de criação intelectual no qual o sujeito organiza

e sistematiza a apreensão do real pelo pensamento. Se o sujeito reflete sobre o objeto e sobre sua interação com ele, se há uma ação e uma reflexão (se há uma práxis), o objeto não se dá a conhecer mais ao sujeito em sua aparência imediata, pois trata-se, agora, de um objeto elabo- rado e, como tal, resultante da atividade do sujeito. Essa fase é sincrética porque o

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4 Um objeto plenamente cognoscível não é um objeto que se possa conhecer em sua totalidade. Isso não ocorre somente porque, quando se abstrai, já se reduz o real ao pensamento. Isso ocorre também porque o conhecimento é sempre relativo ao estágio de evolução da ciência, à capacidade do pesquisador, ao momento e às condições histórico-sociais, aos instrumentos de pesquisa, entre outros fatores que interferem na relação do sujeito com o objeto.

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conhecimento é valorizado por meio de uma percepção elaborada. Essa fase é, por- tanto, aquela na qual o sujeito pode conceituar, descrever, organizar, classificar, enfim, pensar sobre o objeto e sobre sua atividade de investigação, elaborar seu conhecimento, o que afetará seus modos de apropriação do real, bem como as relações entre o sujeito e o objeto. Essa transformação na relação sujeito-objeto também afetará a percepção que o sujeito tem do objeto, em um processo dinâ- mico e dialético. Tal dinâmica é mais intensa quando o objeto é outro sujeito, que observa, percebe e pensa. Nessa fase, ocorre uma racionalização, pelo sujeito, sobre a forma de apreen- são do objeto. Como afirma Bachelard (2006, p. 36), aqui “o racionalismo rea- liza-se na liberdade de interesses imediatos; coloca-se no reino de valores refle- tidos”, que podem ser considerados como “reino de reflexão sobre os valores do conhecimento”. Resumidamente, a segunda fase do processo científico, para a ECC, é aquela em que a relação dialética objetosujeito é intensa e persistente, de maneira que mais e mais o objeto se revela ao sujeito e este mais e mais dele se apropria, porém agora como objeto relativamente elaborado. Sujeito e objeto movem-se

à medida que o conhecimento eleva-se, aprofunda-se, estende-se e qualifica-se.

A segunda fase do processo científico é a fase do conhecimento relativamente elaborado, renovado ou do conhecimento valorizado, que se constitui na nega- ção do conhecimento imediato, da síntese primária conferida pela aproximação

precária. Porém, esse conhecimento renovado e valorizado que se opõe e se con- tradiz ao conhecimento precário, à medida que o recusa e o enfrenta, forma com ele uma unidade necessária, pois o conhecimento renovado não existe sem

o conhecimento precário, já que para negá-lo deve ser parte constitutiva deste. Quando o pesquisador se aprofunda no conhecimento do objeto, ele coloca em tensão permanente o conhecimento renovado e valorizado com o conhecimento

imediato, ou seja, tanto o objeto vai se dando a conhecer qualitativamente quanto

o pesquisador vai renovando seu conhecimento sobre o objeto. Tal tensão faz suscitar uma síntese.

4.3 O MOMENTO DA APROPRIAÇÃO DO OBJETO PELO PENSAMENTO E DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO

Trata-se, nesse terceiro momento, não mais de uma aproximação, mas de uma elevação do pensamento. É um momento em que o conhecimento pro- duzido a partir do objeto recorre a métodos científicos e a procedimentos de

apreensão e interpretação do real. Para Marx (1977), quando o homem constrói

o quadro objetivo do mundo por meio da reflexão, o próprio ato de conhecer não

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só lhe permite mudar (ou intervir sobre) a realidade, como de fato a muda, pois

o pensamento é parte dessa realidade. Chama-se aqui de conhecimento cientificamente apropriado, portanto, aquele em que ocorre uma apreensão científica do real, de forma que o objeto elaborado ou apreendido transforma-se em objeto teórico, em objeto construído

segundo as regras da ciência. Para tanto, há um percurso que é necessário seguir

e ao qual o sujeito deve submeter seu ato, seu fazer. Isso não significa, entre-

tanto, a submissão do pensamento às técnicas de sua apreensão, sob pena de reduzir a teoria a uma simples reprodução condicionada externamente. As téc- nicas guiam o sujeito em sua relação com o objeto, mas não podem limitar os movimentos dele. Desse modo, partindo de relações do sujeito com o objeto e do avanço pro- porcionado pela própria ciência no domínio conceitual, vai sendo possível elabo- rar abstrações cada vez mais sutis, as quais suscitarão a definição de categorias analíticas e de conceitos. Da totalidade estruturada a que se chega no segundo momento, passa-se à totalidade em movimento, e, para que ela seja apreendida como tal, é necessário sistematizá-la por meio de categorias de análise forneci- das pelo real ele mesmo ao pensamento. Essas considerações indicam precisamente que tanto o pesquisador quan- to o objeto pesquisado estão em movimento e, portanto, em uma condição em que ambos se produzem durante a trajetória da investigação. A percepção do sujeito pesquisador e sua condição de interpretação do real movem-se à medida que investiga. Ao mesmo tempo, move-se o real, que não apenas fornece ao investigador novos elementos, mas também revela a essência dialética dos seus elementos constitutivos: sujeito e objeto não se constituem em uma unidade, mas interagem dinâmica e contraditoriamente. A realidade independe do sujeito pesquisador, mas não é externa a ele quando este dela se apropria, ainda que com ele não se venha a confundir. Se o sujeito e o objeto fossem uma unidade, uma única e mesma coisa, tanto o sujeito seria redutível ao objeto como este ao sujeito, e, assim, toda a realidade seria plena e totalmente cognoscível em quais- quer circunstâncias. A realidade existe conscientemente para o sujeito pesquisador quando ele interage com ela, e essa interação se dá por um processo no qual o pesquisador percebe o real segundo um modo de apropriação que lhe é próprio, construído

ao longo de seu desenvolvimento cognitivo e de suas relações histórico-sociais. Ao mesmo tempo que se dá essa percepção, desencadeia-se uma reelaboração da lei- tura do real, pois quanto mais se aprofunda a interação dialética sujeitoobjeto, mais este é dado a conhecer àquele, de forma que o sujeito pode cada vez mais dominar o objeto, mesmo sabendo que esse domínio esteja indicando o quanto o

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objeto é ainda desconhecido para o sujeito. Desse modo, há um ponto em que o sujeito pesquisador entende ter alcançado o limite possível, objetivo e subjetivo, da sua investigação, operando um corte em suas dúvidas, corte sempre necessa- riamente arbitrário, embora justificado teórica e metodologicamente, e jamais definitivo. Esse terceiro momento não é, definitivamente, o da verdade absoluta e inquestionável, o momento da tese das teses, do último estágio do saber. É ape- nas um momento em que o pesquisador alcança o limite de sua compreensão

e não o limite definitivo do entendimento da realidade. A produção do conhe-

cimento, nesse momento, mostra que as certezas contêm as próprias dúvidas, que o que parece definitivo é apenas provisório e que a totalidade cognoscível é

a superação da fragmentação, encontrada no primeiro momento, e da estrutura

formal, encontrada no segundo momento, e não o saber absoluto de todo o real. Em resumo, a superação da tensão entre o conhecimento precário e o conhe- cimento renovado e valorizado, a negação entre o conhecimento imediatamente sensível e o conhecimento relativamente elaborado, resulta na apropriação sin-

tética objetivamente definida (porém jamais final) do objeto pelo sujeito. Essa é

a terceira fase do processo científico, a fase da síntese dialética do processo, na

qual o pesquisador alcança o conhecimento da relação essênciaforma, que lhe permite elaborar os conceitos e organizar, enfim, a ideia da totalidade cognoscí- vel do objeto (do objeto não fragmentado). Isso não é senão uma síntese dialética ou, em outros termos, não é senão o real concreto sintetizado na forma de real pensado. Nessa fase, o pesquisador retorna ao real qualitativamente enriquecido, pois é a passagem do abstrato (do conceito) ao concreto (concreto pensado) que constitui o método da ECC.

5 EPISTEMOLOGIA CRÍTICA E MOMENTOS DA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO EM ESTUDOS ORGANIZACIONAIS: POR UMA CONCLUSÃO

Como se pôde observar, em conclusão, os três momentos expressam dife- rentes fases do processo pelo qual o conhecimento científico em estudos orga- nizacionais é produzido pelo sujeito pesquisador no marco da ECC. Não são momentos sequenciais e lineares. Passa-se de um ao outro em um movimento contínuo de ida e vinda. Em resumo, a fase pré-sincrética é a que antecede à

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apreensão da totalidade cognoscível. A realidade aparece em elementos distintos, desconectados e confusos. A fase sincrética é a que permite elaborar a concep- ção da totalidade cognoscível do objeto, na qual os elementos antes difusos são integrados e relacionados de forma a oferecer uma percepção do objeto, mas ainda não lhe permite compreendê-lo em movimento, ou seja, a visão de tota- lidade da estrutura não é ainda a da totalidade dinâmica do objeto (há, ainda aqui, uma pseudoconcreticidade). A fase sintética é a que permite elaborar a síntese do objeto não apenas em sua totalidade cognoscível, mas também em

seu movimento e em suas contradições internas; é o momento da apreensão do real concreto como real pensado, ou seja, uma concreticidade. A apropriação sintética é definitiva no que se refere ao estágio da pesquisa em que o pesquisa- dor encerra sua investigação. No entanto, tal apropriação jamais é final, porque

o conhecimento se renova à medida que a ciência, a filosofia, a tecnologia, a

cultura e a história avançam, e conforme o real se modifica. De início, parte-se de uma realidade confusa, não organizada, sem clareza quanto ao seu conteúdo,

em que prevalece a aparência externa do objeto, ou seja, o objeto se deixa ver em uma condição fenomênica, como coisa. Não se passa desse momento para o da apreensão elevada de maneira imediata. Há, necessariamente, um momento intermediário, na qual o pesquisador, já tendo refletido sobre o objeto e bus- cado definições, conceitos e análises disponíveis na literatura científica, volta ao objeto com o intuito de organizar e sistematizar a realidade pesquisada, de ultrapassar a leitura da forma, da aparência, para encontrar também o conteúdo,

a essência, a estrutura da coisa. Nessa fase, as contradições, embora não estejam

ainda apropriadas pela consciência, aparecem reveladas ao sujeito pesquisador e seus significados tornam-se inteligíveis. O Quadro 1 e a Figura 1 resumem a pro- posta sobre os momentos da produção do conhecimento científico em estudos organizacionais, a partir de uma ECC, aqui expostos. Convém reafirmar, na apreciação do quadro e da figura, que a realidade em

si mesma jamais é apreendida em sua inteireza absoluta, ou seja, jamais é apre-

endida totalmente. A totalidade refere-se à recusa à fragmentação do objeto em partes e à análise de uma parcela do real sem levar em conta o todo. A totalida- de, no sentido de uma apropriação absoluta do real, é inatingível. A totalidade, portanto, é a totalidade cognoscível, ou seja, apreendida relativamente, em sua redução pensada, abstrata. Parafraseando Espinoza (1979), o conceito do cão não

late. Nesse caso, a totalidade é sempre relativa à sua condição de apreensão como realidade pensada.

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quadro 1

MOMENTOS DA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO

Aproximação precária do sujeito com o objeto.

Aproximação valorizada do sujeito com o objeto.

Apropriação do objeto pelo sujeito.

COMO O OBJETO APARECE AO SUJEITO

Realidade confusa, disforme, sem identificação das relações internas e externas; real multifacetado, polissêmico.

Realidade cognoscível relativamente organizada e sistematizada; relações internas e externas explícitas; unidade diversificada e contradições reveladas; significados inteligíveis; totalidade formalmente estruturada.

Realidade cognoscível apreendida pela consciência; dinâmica das relações estabelecida; contradições identificadas; totalidade em movimento; real concreto como real pensado.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Figura 1

TRAJETÓRIA DO PROCESSO METODOLÓGICO PÓS-APROPRIAÇÃO DO OBJETO Objeto Definição das categorias de análise (a
TRAJETÓRIA DO PROCESSO METODOLÓGICO
PÓS-APROPRIAÇÃO DO OBJETO
Objeto
Definição das
categorias de
análise (a partir
do real concreto).
Formulação dos conceitos e
significados dos elementos
constitutivos do objeto (a partir
das categorias de análise).
Desenvolvimento da teoria
(exposição coerente e
sistematizada) como expressão
da realidade em termos abstratos.
Elevação ao
apreendido
concreto como
como real
conhecimento
pensado.
elaborado.

Fonte: Elaborada pelo autor.

A realidade pensada é limitada em vários pontos, como: pela linguagem,

pelos instrumentos de leitura (técnicas de coleta e tratamento de dados; equi-

pamentos, aparelhos), pela teoria disponível, pelas condições internas objetivas

e

subjetivas do pesquisador, e pelas formas como a realidade se defronta com

o

pesquisador (tensão dialética, contradições, acessibilidade, disponibilidade de

informações etc.).

A proposição dos três momentos da pesquisa em uma ECC para os estudos

organizacionais procurou sugerir que toda a pesquisa, nessa dimensão, é um processo que tem o real como primazia e que a relação do sujeito pesquisador com o concreto não é direta, imediata, simples e definitiva. Há um ir e vir neces- sário entre o sujeito e a realidade estudada para que ele possa apreendê-la em sua totalidade cognoscível e, portanto, em sua essência dinâmica e contraditória, e não apenas em sua aparência fenomênica.

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THE CRITICAL EPISTEMOLOGY OF THE CONCRETE AND THE MOMENTS OF THE RESEARCH:

A PROPOSITION FOR ORGANIZATIONAL STUDIES

ABSTRACT

The aim of this study is to propose, from a critical epistemology of concrete – CEC approach, a methodological procedure that explicitly states the three fun- damental phases of all research conducted within this epistemology. This is not

a blueprint to be followed, but a reflection of researchers’ procedural actions,

guiding them in their practice towards understanding it. The research does not take shape in an automatic, simple and direct manner. All the research involves

distinct moments, although integrated in its process of accomplishment. Such moments can not to be reduced to the contacts or on the amount of times the researcher establishes relations with the object of his investigation. They also take into account the ways in which these relationships develop and are changed. They are, in fact, characteristically distinct and integrated moments of appro- priation of the concrete by integrated thinking from the real. Every moment of the research consists of a set of interactive actions between the researcher and his/her object. There is no predefined succession of events in such a way that, from one moment to another, there is a natural, automatic and linear passage between those moments. The researcher evolves from one moment to another when he/she overcomes the limitations of each previous moment, but not in

a linear manner,once there is no guarantee that, from the interactive actions

between the researcher and his/her object, going back to the understanding of certain constituent elements of the previous phase is not needed. The proposi- tion of these three research phases in a CEC approach for organizational studies suggests that all research, in this dimension, is a process that has the concrete as primacy and that the researchers’ relationships with the concrete is not direct, immediate, simple and definitive. It is necessary a two-way procedure between the researchers and the phenomenon that they are studying, so that they may learn it in its knowable totality and, therefore, in its dynamic and contradictory essence, and not only in its phenomenal appearance.

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KEYWORDS

Critical epistemology of concrete. Moments of research. Organizational studies. Primacy of the real. Methodology.

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epistemologia crítica do concreto e momentos da pesquisa

LA EPISTEMOLOGÍA CRÍTICA DE LO CONCRETO Y LOS MOMENTOS DE LA INVESTIGACIÓN:

UNA PROPUESTA PARA LOS ESTUDIOS ORGANIZACIONALES

RESUMEN

El objetivo de este estudio es proponer, desde una epistemología crítica de lo concreto (ECC), un procedimiento metodológico que explique los tres momen- tos fundamentales de toda la investigación orientada por esta epistemología. No se trata de un guión que deba ser seguido, mas de una reflexión sobre la forma de proceder del investigador que tiene la finalidad de orientarlo en su práctica de manera que pueda comprenderla. La investigación no tiene lugar automáticamente, de forma simple y directa. Toda la investigación implica dife- rentes momentos, pero integrados, en su proceso de realización. Esos momentos no se reducen a los contactos o a la cantidad de veces que el sujeto investigador establece relaciones con el objeto de su investigación, pero indican las formas en que esas relaciones se desarrollan y se transforman. Son, de hecho, momentos característicamente distintos e integrados de apropiación de lo real por el pen- samiento a partir de lo real. Cada momento de la investigación consiste en un conjunto de acciones interactivas entre el investigador y su objeto y no hay even- tos predefinidos en una sucesión tal que de un momento a otro ocurra un pasaje natural, automático y lineal. El investigador se desarrolla de un momento a otro cuando supera las limitaciones de cada fase anterior, pero no de forma sucesiva, porque no hay ninguna garantía de que, partiendo de las acciones interactivas entre el investigador y el objeto, no se haga necesario volver a la comprensión de ciertos elementos constitutivos de la fase anterior. La propuesta de los tres momentos de la investigación en una ECC para estudios organizacionales trata de sugerir que toda la investigación, en esa dimensión, es un proceso que tiene lo real como primacía y que la relación del investigador con lo concreto no es directa, inmediata, sencilla y definitiva. Hay una necesidad de ir y venir entre el sujeto y la realidad estudiada para que él pueda comprenderla en su totalidad cognoscible y, por tanto, en su esencia dinámica y contradictoria y no sólo en su aspecto fenoménico.

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PALABRAS CLAVE

Epistemología crítica de lo concreto. Momentos de la investigación. Estudios organizacionales. Primacía de lo real. Metodología.

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REFERÊNCIAS

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Teoria e Prática em Administração, v. 5, n. 2, 2015, pp. 51-71 Análise De Discurso

Teoria e Prática em Administração, v. 5, n. 2, 2015, pp. 51-71 Análise De Discurso Em Estudos Organizacionais: As Concepções de Pêcheux e Bakhtin José Henrique de Faria

Análise De Discurso Em Estudos Organizacionais:

As Concepções De Pêcheux E Bakhtin

José Henrique de Faria

Universidade Federal do Paraná - Programa de Pós-Graduação em Administração E-mail: jhfaria@gmail.com

Resumo

O objetivo deste ensaio é refletir sobre a Análise de Discurso em Estudos Organizacionais

segundo as concepções de Pêcheux e Bakhtin. Não se trata de uma proposição operacional de Análise de Discurso - AD, mas de uma discussão acerca dos cuidados sobre sua prática. A justificativa para este ensaio deve-se ao fato de que a utilização de entrevistas qualitativas

e de análise de documentos e textos impressos em pesquisas nas áreas dos Estudos

Organizacionais tem aumentado de forma exponencial nos últimos quinze anos no Brasil.

Para Michel Pêcheux há uma relação discursolínguasujeitohistória ou

discursolínguaideologia, em que o discurso é estudado não apenas enquanto forma linguística, mas como forma material da ideologia e em seu contato com o histórico, pois é aí que a materialidade específica do discurso se constitui. Já a teoria da linguagem de Bakhtin, em sua concepção dialógica, proporciona a apreensão de um processo de compreensão de um referencial heurístico (enquanto procedimentos pelos quais o sujeito, através de processos, regras ou métodos, descobre o sentido das palavras) de grande valia para a compreensão da estratégia de análise do discurso. O que se pode concluir é que quando se analisa um discurso é necessário considerar que o mesmo não tem sentido sem que haja uma interpretação, um significado que lhe dê visibilidade.

Palavras-Chave: Análise de discurso. Pesquisa qualitativa. Estudos organizacionais. Formação discursiva dialógica.

Artigo submetido em 29/09/2015 e aprovado em 30/10/2015, após avaliação double blind review.

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Teoria e Prática em Administração, v. 5, n. 2, 2015, pp. 51-71 Análise De Discurso

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Discourse Analysis In Organization Studies:

Pêcheux And Bakhtin Concepts

José Henrique de Faria

Universidade Federal do Paraná - Programa de Pós-Graduação em Administração E-mail: jhfaria@gmail.com

Abstract The aim of this essay is to reflect on discourse analysis in Organization Studies according to Pêcheuxs and Bakhtins concepts. It is not an operational propose of discourse analysis DA, but a discussion about the cautions of its practice. The reason is that the use of qualitative interviews and document analysis, as well as printed texts on Organization Studies research, are rising substantially over the last fifteen years in Brazil. For Michel

Pêcheux, there is a relation discourselanguagesubjecthistory or

discourselanguageideology, in which the discourse is researched not only as a linguistic form but as the material form of the ideology and in touch with the historical. Thus, it is the manner that the concrete materiality of discourse is shaped. The Bakhtins language theory, in its dialogic conception, provides the apprehension of an understanding process of a heuristic basis (qua proceedings that subject through the process, rules or methods, discover the meaning of the words) with high value for the discourse analysis strategy understanding. What is possible to conclude is that when an analysis of a discourse is needed to consider that it does not have sense without an interpretation, a meaning that gives it visibility.

Keywords: Discourse Analysis. Qualitative Research. Organization Studies. Dialogic Discursive Construction.

Manuscript received on September 29, 2015 and approved on October 30, 2015, after one round of double blind review.

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1 Introdução Teoria e Prática em Administração, v. 5, n. 2, 2015, pp. 51-71 Análise

1 Introdução

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O objetivo deste ensaio é refletir sobre a Análise de Discurso em Estudos Organizacionais segundo as concepções de Pêcheux e Bakhtin. Não se trata de uma proposição operacional de Análise de Discurso - AD, mas de uma discussão acerca dos cuidados sobre sua prática. Tradicionalmente, do ponto de vista epistemológico, AD é um método orientador que abriga várias e distintas concepções e não simplesmente uma ferramenta ou uma técnica. Neste sentido, duas questões complementares se colocam de pronto. A primeira é que a AD, ao abrigar distintas concepções teóricas impõe, aqui, uma limitação de espaço para o desenvolvimento das reflexões, o que implica, na prática, a escolha de apenas duas delas. Mesmo tendo por critério a proposta de uma análise dedicada de discurso, é um corte necessariamente arbitrário que acaba por deixar de fora, por exemplo, a Análise de Discurso Crítica proposta por Fairclough (2001), a arqueologia e o discurso como prática, proposta por Foucault (1996; 1997) e a hermenêutica e o discurso como texto, proposta por Ricoeur (1990; 2000). A segunda questão remete ao fato de que como cada uma das concepções de AD possui uma epistemologia e uma metodologia que lhes correspondem, neste ensaio as dimensões epistemológicas de Pêcheux e de Bakhtin serão tratadas aqui em suas duas vertentes: estruturalista e dialógica, respectivamente. A justificativa para este ensaio deve-se ao fato de que a utilização de entrevistas qualitativas e de análise de documentos e textos impressos em pesquisas nas áreas dos Estudos Organizacionais tem aumentado de forma exponencial nos últimos quinze anos no Brasil. Isto não ocorreu sem certa resistência dos adeptos dos métodos quantitativos paramétricos e não paramétricos. Poder-se-ia sugerir duas hipóteses para explicar porque este fenômeno estaria ocorrendo: (i) o acesso à literatura sobre o uso de metodologias qualitativas tornou-se mais abrangente, mais didático e mais operativo; (ii) a suposição de que a análise dos discursos em entrevista qualitativa e em textos impressos é relativamente mais simples, menos trabalhosa, mais rápida e fácil do que as respostas obtidas através de instrumentos de coleta nos quais se utilizam métodos estatísticos. No entanto, dependendo da forma como são conduzidas, as análises de discursos podem ser mais simples do que as análises quantitativas quando tomadas como simples técnicas, ou estas podem ser mais fáceis do que a interpretação dos discursos quando esta for tomada em sua dimensão epistemológica. Na prática da pesquisa, contudo, tanto uma quanto outra são trabalhosas, demandam critérios rigorosos de aplicação e uma condição especial para tratar com as subjetividades, seja na montagem dos questionários

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(especialmente no caso das pesquisas quantitativas), seja na interpretação dos dados ou dos discursos. As ferramentas quantitativas, com destaque para a estatística, demandam um razoável investimento na preparação do instrumento de coleta de dados e em sua aplicação e análise, embora o processamento seja bastante facilitado por softwares como o Statistical Package for Social Science SPSS. Os que optam pela visão quantitativa podem inclusive argumentar que os instrumentos de coleta de dados elaborados a partir de questionários abertos, seminários de discussões, sessões de brain storming, análise de documentos, entre outros, são “mais fáceis” e ao mesmo tempo carregados de subjetividades. Trata-se de uma falsa concepção. Ambos os métodos são de difícil uso, ambos são complexos e exigem extremos cuidados por motivos muito semelhantes: a inevitável subjetividade na montagem dos instrumentos de coleta e/ou na interpretação dos dados. Em se tratando da construção do conhecimento científico a partir da análise dos discursos contidos nas expressões orais e escritas dos sujeitos, a relação entre as formas de condução e de interpretação das entrevistas qualitativas e dos textos impressos, sejam oficiais ou não, e a região epistemológica mais geral à qual estas formas se vinculam, precisa estar objetiva e claramente definida, para que o sujeito pesquisador não cometa inconsistências analíticas na apropriação dos discursos como base empírica para

fundamentar a teoria desenvolvida. Considerando que em toda a pesquisa que se vale da técnica de coleta de dados através da entrevista qualitativa e que aplica a análise dos discursos se produz uma inevitável interação entre o sujeito pesquisador e o sujeito do objeto da pesquisa que habita o campo empírico (o entrevistado, o produtor do texto impresso, o redator de documentos, o responsável pelo desenvolvimento de programas, entre outros), é igualmente importante considerar que o discurso produzido nesta interação é relevante e, como ambos os sujeitos falam, é necessário destacar qual é a fala e para que é esta fala. Isto significa a capacidade de distinguir:

i. Se a fala do sujeito do objeto é a sua própria fala;

ii. Se é um discurso adaptado à interpretação ou se é a tradução do que o sujeito do objeto julga ser sua fala adequada diante do discurso do sujeito pesquisador ou do interlocutor a quem o produtor do texto impresso, o relator de documentos, o responsável pelo desenvolvimento de programas, se dirige.

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Daí decorrem, inevitavelmente, duas questões: (i) em que medida o pesquisador, mesmo não intencionalmente, pode conduzir ou influenciar o discurso do sujeito do objeto, no caso das entrevistas qualitativas, ou ser tentado a ler e interpretar o texto impresso de uma perspectiva que não é aquela dos que estão inseridos no contexto das mensagens, das falas, enfim, do discurso do referido texto? (ii) Em que medida o conhecimento assim registrado faz parte do procedimento científico e, portanto, possui uma condição epistemológica? É sabido que para os textos impressos, tais como relatórios, documentos, manuais e notícias, jornais internos, comunicados, entre outros, também se pode utilizar da ferramenta denominada “análise de conteúdo”, que trabalha, quantitativa ou qualitativamente, com o que o texto propriamente contém, geralmente utilizando-se de categorias de análise previamente definidas, de maneira a compreender o que o texto expressa. Aqui, se busca um conjunto de elementos que possuam, para o pesquisador, um significado que possa ser percebido pelo método, que possa ser transformado em um indicador de frequência, que possa ser detectado por justaposições ou o que o programa buscar identificar (Bardin, 1997). Mas este procedimento difere da Análise de Discurso. Primeiro, porque a AD, como foi dito, não é uma técnica de pesquisa, mas um campo do saber com diferentes concepções, as quais se valem de métodos próprios para serem operados. Segundo, porque a AD pretende compreender o sentido da palavra manifesta através do discurso, o que torna essencial localizar a posição sócio-histórica do sujeito do discurso, sua ideologia, seu contexto e suas condições de inserção no mundo da cultura para apreender o sentido e o significado do discurso. Convém insistir, mais uma vez, que a análise do discurso encontra-se igualmente nos textos impressos formais, tais como relatórios, registros, documentos oficiais, comunicados, entre outros, tanto quanto nos textos impressos “informais”, como notícias (tanto aquelas publicadas na mídia quanto nos jornais internos), nos folders, em manuais de treinamento e onde mais esteja a palavra manifesta. Mas, está também onde a palavra não se encontra manifesta, no não dito, no que não pode ser pronunciado às claras. É aqui, no não dito, que a subjetividade pode deixar de ser uma aliada da interpretação e se transformar em um desvio ideológico ou político. Por este motivo, a interpretação do não dito deve ser realizada a partir de um controle efetivo dos significados e sentidos orientados pelo recorte previamente estabelecido.

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É importante apontar que uma diferença fundamental entre a análise de conteúdo e

do discurso, entre outras, é também a forma de acessar o objeto (Pêcheux, 1993). Se a opção por utilizar a entrevista qualitativa e as fontes documentais por parte do pesquisador tem como finalidade, explícita ou não, escapar dos problemas das técnicas quantitativas, é preciso ficar atento. O uso de ferramentas qualitativas de coleta de dados, especialmente aquelas que serão submetidas à análise de discursos, pode ser muito mais complexa que o uso de técnicas quantitativas, pois envolve:

a. Uma questão ontológica: refere-se ao sujeito enquanto sujeito ou ao sujeito concebido como tendo uma condição comum, inerente a todos e a cada um dos sujeitos, de tal forma que seu discurso possui certa universalidade;

b. Uma questão sócio-histórica: ainda que se possa admitir certa ontologia do ser, esta não é uma unidade sólida. Assim, a questão sócio-histórica trata da concepção de que os sujeitos estão inseridos historicamente no mundo das relações sociais e, portanto, na produção das condições materiais de sua existência;

c. Uma questão epistemológica: todo discurso contém um conhecimento (a ser

desvendado, com frequência) cuja matriz geradora pode provir de distintas dimensões. Assim, este ensaio pretende, como já anunciado, refletir sobre os processos discursivos e as análises dos discursos a partir das concepções de Pêcheux e Bakhtin tendo como referência do campo empírico as manifestações discursivas na construção do conhecimento científico na área dos estudos organizacionais.

2 A Análise do Discurso

De acordo com Gill (2002) existem pelo menos cinquenta e sete variedades de análise de discurso, que partem de concepções diferentes e de diferentes referenciais teóricos, mas que são abrigados sob uma mesma denominação. Pode-se deduzir, desta observação, que a profusão de variedades leva os pesquisadores a uma constante confusão sobre qual é a forma mais adequada à sua análise. De pronto, deve ficar claro que a forma, a concepção ou técnica de análise utilizada, assim como a metodologia, depende do objeto. É este que condiciona a técnica de pesquisa e não o inverso. De fato, se o objeto for a investigação comparativa da preferência de consumidores de produtos de higiene pessoal em diferentes bairros da cidade, por exemplo, o questionário

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fechado com análise estatística é a técnica mais recomendável. Mas, se o objeto for a avaliação em profundidade da percepção dos empregados quanto a procedimentos de uma organização referente à política de gestão de pessoas, a entrevista qualitativa será a técnica mais apropriada, pois a pesquisa quantitativa, neste caso, trará as respostas “prontas”, alinhadas, dispostas em um questionário que de antemão oferece alternativas ao sujeitos entrevistados não deixando lugar para outras falas que não as falas selecionadas pelo questionário. Pode-se, neste último caso, utilizar uma estratégia de pesquisa que possibilite a manifestação do discurso livre e, a partir dele, que se execute uma abordagem quantitativa. De fato, se o sujeito pesquisador fizer um levantamento qualitativo em profundidade com os empregados sobre a política de gestão de pessoas, fatalmente chegará a uma situação de esgotamento de percepções novas, ou seja, os discursos tendem a ser repetitivos e nada mais acrescentam de novo à investigação. O sujeito pesquisador, deste modo, pode, então, organizar as falas, sistematizá-las, agrupá-las em categorias de análise e, com isto, elaborar um questionário fechado, com o qual poderá aferir até que ponto os discursos dos sujeitos objeto da pesquisa (os entrevistados na investigação qualitativa) possuem ressonância nos demais sujeitos da organização. Com isto, pode-se obter uma avaliação quantitativa a partir de uma investigação qualitativa. Os dados obtidos na avaliação quantitativa podem confirmar ou autorizar a investigação qualitativa ou, de outro modo, podem desautorizar as falas.

Se o pesquisador pretende buscar a elaboração coletiva de um processo, o mesmo

pode:

i. Realizar entrevistas em grupos, orientadas, com temas definidos, com roteiros e tempos determinados, com uma condução que confira a palavra a todos de igual forma;

ii. Trabalhar a partir de técnicas como “brain storming”, em que a palavra e as ideias brotam livremente e o pesquisador as registra para uma sistematização e análise posterior. Neste caso, o pesquisador não interfere nos discursos senão, no máximo, para incentivá-los;

iii. Tentar “construir” o processo coletivo dos sujeitos, com a finalidade de entendê-lo, a partir de uma análise clínica das manifestações de cada elemento do grupo e, neste caso, precisará utilizar técnicas de entrevistas mais próximas às utilizadas pela psicologia.

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Em qualquer dos casos, os cuidados metodológicos devem ser rigorosos. Mas em nenhum deles se trata de AD e sim, de análise de conteúdo dos discursos, que é outro procedimento igualmente válido, mas com proposta e finalidade diferentes. Independentemente das várias formas disponíveis, a AD deve considerar que a linguagem não é uma forma neutra de expressão, mas uma forma carregada de sentidos, de história, de ideologia, de sentimentos não manifestos, de inconsciente e que todos estes elementos compõem o discurso na construção da vida social (Gill, 2002). A linguagem não se encontra unicamente na fala ou nos textos, isto é, nos discursos manifestos. Neste sentido,

a AD deve ser considerada não uma simples ferramenta de coleta de dados, mas uma

disciplina de interpretação resultante da integração de diferentes abordagens (Orlandi,

1999; 2003). Tal integração, segundo Caregnato & Mutti (2006) e Orlandi (2003), advém das seguintes contribuições:

i. Da linguística: incorpora a noção de fala para a de discurso;

ii. Do materialismo histórico: incorpora a teoria da ideologia;

iii. Da psicanálise: incorpora a noção de inconsciente

Trata-se, então, sempre levando em conta o propósito desse ensaio, de destacar alguns pontos relevantes das duas concepções de análise de discurso.

3 Pêcheux: a materialidade do discurso no contexto sócio-histórico

O processo de análise discursiva tem a pretensão de interrogar os sentidos estabelecidos em diversas formas de produção, que podem ser verbais e não verbais, bastando que sua materialidade produza sentidos para interpretação. Michel Pêcheux

(2002) estabelece uma relação discursolínguasujeitohistória ou

discursolínguaideologia, em que o discurso é estudado não apenas enquanto forma

linguística, mas como forma material da ideologia e em seu contato com o histórico, pois é

aí que a materialidade específica do discurso se constitui.

Michel Pêcheux elabora sua teoria do discurso com base na concepção althusseriana de ideologia, ainda que em vários dos seus textos afirme que o conceito de formação discursiva com o qual trabalha é emprestado de Foucault. No entanto, para Foucault (1996; 1997) o que importava eram as relações entre o falar e o fazer, e não a autonomia das práticas discursivas, a qual recusava. Como sugere Grangeiro (s/d), ao invés de ideologia, Foucault trabalha com a constituição de saberes/poderes, os quais não passariam necessariamente

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pela questão das classes sociais e não estariam necessariamente determinados, nem mesmo em “última instância” pelos fatores econômicos. Para Pêcheux, a formação discursiva é o que em uma dada conjuntura “determinada pelo estado de luta de classes, determina o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma arenga, de um sermão, de um panfleto, de uma exposição, de um programa, etc.)” (Pêcheux, 1995). Grangeiro (s/d), a propósito, considera que são perceptíveis duas bases epistemológicas fundamentais na teoria de Michel Pêcheux: as teses althusserianas de luta de classes e ideologia e a perspectiva de fulcro na linguística em que se encontra a questão dos gêneros do discurso e da materialidade linguística”. Sobre isso, Grangeiro (s/d) & Baronas (2004) indicam que são possíveis duas aproximações teóricas: Mikhail Bakhtin, com a questão dos gêneros do discurso e Roger Chartier com a questão da materialidade do discurso. Para Pêcheux (1993), a língua é a forma de materialização da fala, contando com os planos materiais e simbólicos. O discurso produzido pela fala sempre terá relação com o contexto sócio-histórico. Considere-se, por analogia, o discurso de um gestor, que parte de um compromisso com a direção da organização, que assume a ideologia professada pela organização. Na perspectiva de Pêcheux, seu discurso é “sempre pronunciado a partir de condições de produção dadas”, de tal forma que é necessário considerar que o mesmo expressa os interesses de determinado grupo, que fala por um determinado grupo. Isto sugere que

É impossível analisar um discurso como um texto, isto é, como uma sequência linguística fechada sobre si mesma, [sendo] necessário referi-lo ao conjunto de discursos possíveis a partir de um estado definido das condições de produção” (Pêcheux, 1993).

Neste sentido dado por Pêcheux, todo o discurso contém uma expressão ideológica, pois o sujeito não é um “indivíduo autônomo” que fala por si, mas um sujeito que pertence ao coletivo e, deste modo, consciente ou inconscientemente, apodera-se do discurso coletivo e de seu sentido. Esta relação de pertença a um coletivo e à ideologia que este professa é “condição necessária para que o indivíduo torne-se sujeito do seu discurso ao, livremente, submeter-se às condições de produção impostas pela ordem superior estabelecida, embora tenha ilusão de autonomia”. (Pêcheux, 1993). Ao se adotar o pressuposto de Pêcheux adota-

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se a concepção segundo a qual a análise do discurso poderá resultar em uma interpretação ou em uma nova interpretação, isenta de julgamento.

A formação discursiva constitui-se na relação com o interdiscurso e o intradiscurso. O interdiscurso significa os saberes constituídos na memória do dizer; sentidos do que é dizível e circula na sociedade; saberes que existem antes do sujeito; saberes pré-construídos constituídos pela construção coletiva. O intradiscurso é a materialidade (fala), ou seja, a formulação do texto; o fio do discurso; a linearização do discurso. (Caregnato & Mutti, 2006)

Pêcheux relaciona o conceito de formação discursiva ao problema da ideologia e da luta de classes, extraindo de Foucault a concepção “materialista e revolucionária”, que é a do discurso como prática. Ainda com relação à formação discursiva em Pêcheux, o que se observa é uma profunda reelaboração das teses althusserianas, principalmente no que diz respeito à interpelação do sujeito pela ideologia. Em Les Vérités de La Palice (Pêcheux, 1975), por exemplo, Pêcheux coloca a problemática da teoria materialista dos processos discursivos sob o signo das condições ideológicas de reprodução/transformação das relações de produção. Ao acentuar a questão da transformação, está apontando claramente uma perspectiva de afastamento de possíveis interpretações funcionalistas do texto authusseriano. No trabalho apresentado em 1977 em um Simpósio no México sobre o discurso político, “Remontemos de Foucault a Spinoza”, Pêcheux (1977; 1978) rediscute a noção de ideologia, abrindo espaço para a questão das fronteiras maleáveis da formação discursiva. Como bem observa Gregolin (2005), Pêcheux opera com a categoria marxista da contradição dos dois mundos em um só, de que o gérmen do novo está dentro do velho ou, na reformulação leninista, o um se divide em dois, o que significa que uma ideologia não é idêntica a si mesma, ela só existe sob a modalidade da divisão, e não se realiza a não ser na contradição que com ela organiza a unidade e a luta dos contrários (Pêcheux, 1977). Assim, a formação discursiva é uma unidade dividida que embora seja passível de descrição por suas regras de formação, por suas regularidades, não é una, mas heterogênea, não de forma acidental, mas constitutiva. Assim, no interior de uma mesma formação discursiva coabitam vozes dissonantes que se cruzam, entrecruzam, dialogam, opõem-se, aproximam-se, divergem, existindo, pois, espaço para a divergência, para as diferenças, pois uma formação discursiva é “constitutivamente frequentada por seu outro” (Pêcheux,

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1995). Esse “outro” da formação discursiva é justamente o interdiscurso, noção profundamente importante por estar relacionada com, entre outras, três questões fundamentais: memória discursiva, que aprofunda a relação da linguagem com os processos sócio-históricos; relação do interdiscurso com o intradiscurso, a posição do sujeito do/no discurso; não-evidência do sentido. Assim, é necessário, na pesquisa qualitativa, especialmente na AD, levar em conta, como já foi dito, o contexto histórico e cultural em que o mesmo é pronunciado para que se possa compreender a materialidade da fala, na medida em que é esta materialidade que fornece os elementos primários dos sentidos que o sujeito do objeto de pesquisa pretendeu emprestar à sua fala. São elementos primários porque a palavra manifesta contém percepções não reveladas, operações inconscientes, pré-construções de sentido, resultados elaborados ou não de relações sociais vividas (individuais e coletivas), flashes da memória, subjetividade e, igualmente, interesses, disfarces, mentiras, criações deliberadas e outros componentes que fazem parte do jogo de poder.

Entende-se como memória do dizer o interdiscurso, ou seja, a memória coletiva constituída socialmente; o sujeito tem a ilusão de ser dono do seu discurso e de ter controle sobre ele, porém não percebe estar dentro de um contínuo, porque todo o discurso já foi dito antes”. (Caregnato & Mutti, 2006).

É importante tomar em consideração, igualmente, para além da materialidade objetiva, que a língua não é transparente e homogênea como aparenta ser, o que a torna capaz de equívocos, falhas e deslizes, pois ao não existir um único sentido para um enunciado, permite que se façam diversas leituras do mesmo. O sentido, na realidade, não pertence às palavras, pois são simbólicos, abertos e inexatos e, por isso mesmo, são incompletos. Uma palavra pode ter mais de um sentido, como por exemplo, na frase: “é muito cara para mim”. O contexto pode permitir elucidar se o discurso pretende dizer se “é muito dispendiosa para mim” ou se “é muito importante para mim”. O simples enunciado não basta. Na análise do discurso é necessário buscar no que foi enunciado o seu real significado através da interpretação do sentido (significado) e não apenas considerando a inserção do discurso no modo de produção, na ideologia e no interior da luta de classes, ainda que estas categorias sejam fundamentais. Este, aliás, é um dos problemas com o qual se defronta a análise que mede a frequência com a qual uma palavra aparece no discurso, pois não leva em conta nem os sentidos e nem as categorias mencionadas.

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Para o pesquisador, em seu processo de construção do conhecimento científico, a perspectiva de Pêcheux sugere que é necessário, na análise do discurso, dominar a expressão ideológica e o sentido do discurso coletivo em que a fala ou o texto se insere para se sentir autorizado a interpretá-los. Portanto, o discurso não pode, nesta perspectiva, ser interpretado à luz de uma teoria prévia, de um esquema de interpretação separado do lugar de sua produção concreta. Ao pesquisador não cabe julgar o discurso ou tentar enquadrá-lo em um esquema aprioristicamente montado para entendê-lo, mas interpretá-lo a partir de seu lugar de constituição. Há, aqui, um problema a ser resolvido, que é o de se ter vários sentidos: do pesquisador; do coletivo que produz o discurso; da fala dos sujeitos que exteriorizam o discurso oral ou de forma escrita; da teoria de referência. A existência de vários sentidos pode levar o intérprete a não ter nenhuma interpretação real, apenas uma leitura metafísica, idealizada, da realidade em análise. O problema que o pesquisador precisa resolver na produção do conhecimento científico, de forma a evitar emprestar ao discurso proveniente das falas de seus entrevistados e dos textos impressos que analisa, é encontrar um sentido que não seja o da mediação dos vários sentidos. Este aspecto é importante, pois não há como o sujeito pesquisador, nesta perspectiva, desfazer-se, pura e simplesmente, dos sentidos que histórica e socialmente produziu para si ou que incorporou e que estão no seu discurso e na leitura que faz dos demais discursos. Também não pode isolar os discursos dos entrevistados e do coletivo em que estão inseridos sem lhe propor nenhuma interpretação, pois neste caso a análise pode ser uma descrição empirista ou uma reprodução de apenas um sentido, sem avaliação crítica, sem parâmetro, solto no mundo, porém não inserido nele. Do mesmo modo, não pode interpretar os discursos a partir de uma teoria produzida anteriormente ou externamente aos mesmos, descolada do lugar da sua produção, insensível, portanto, aos sentidos neles presentes, já que define axiomaticamente seu próprio esquema de interpretação.

4 Bakhtin: o processo dialógico e a negociação de significados

A teoria da linguagem de Bakhtin, em sua concepção dialógica, proporciona a apreensão de um processo de compreensão de um referencial heurístico (enquanto procedimentos pelos quais o sujeito, através de processos, regras ou métodos, descobre o

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sentido das palavras) de grande valia para a compreensão da estratégia de análise do discurso. Visando esclarecer como se dá o contato entre duas ou mais vozes ou palavras com sentidos diferentes (que é o significado de dialogia, ou diáfora), Bakhtin descreve a compreensão como um processo em que as enunciações do sujeito que ouve contatam e confrontam as enunciações do sujeito que fala (Wertsch & Smolka, 2001), de maneira que, o sujeito que ouve formula, a cada palavra da enunciação que está buscando compreender, um conjunto de palavras próprias:

Qualquer tipo genuíno de compreensão deve ser ativo, deve conter já o germe

Compreender a enunciação de outrem significa orientar-

se em relação a ela, encontrar o seu lugar adequado no contexto correspondente. A cada palavra da enunciação que estamos em processo de

compreender, fazemos corresponder uma série de palavras nossas, formando uma réplica. Quanto mais numerosas e substanciais forem, mais profunda e

real é a nossa compreensão (

contra-palavra. (Bakhtin, 1992).

Compreender é opor à palavra do locutor uma

de uma resposta (

).

).

Segundo esta concepção dialógica da linguagem de Bakhtin (1986; 1992, 2000), a compreensão exige do interlocutor uma “negociação de significados” entre a palavra do sujeito que fala, que transmite a palavra, e o sujeito que ouve, que recepciona esta palavra ou, o que é o mesmo, entre o discurso pronunciado e o discurso a ser compreendido. A concepção dialógica do processo de compreensão deve ser levada em consideração sempre que se analisa o conteúdo do discurso, na medida em que a tradução do que se fala (a palavra de quem fala) pode ser sobreposta pela réplica (a palavra de quem ouve). Para o receptor, esta tradução oferece a garantia de uma “estabilidade cognitiva potencialmente maior do que a que poderia ser alcançada através da manutenção dos dois discursos [entrevistado e entrevistador] em sua integridade e autenticidade” (Sepulveda & El-Hani, 2006). Para Bakhtin,

Qualquer enunciação, ainda que na forma imobilizada da escrita, é construída como uma resposta a enunciações anteriores, ao tempo em que também antecipa reações ativas da compreensão, estando em contato direto com enunciados alheios. Desta maneira, qualquer enunciação supõe alguma forma de contato entre duas ou mais vozes e, portanto, tem como partes essenciais a dialogia e a polifonia” (Sepulveda; El-Hani, 2006).

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A enunciação é, portanto, produto de uma interação entre dois indivíduos

socialmente organizados. Ainda que não haja um interlocutor real, a expressão de um indivíduo sempre se dirige a um auditório social próprio bem estabelecido (Bakhtin, 1992).

A estrutura da enunciação encontra-se no meio ou na situação social mais imediata, que

obrigam o discurso interno a realizar-se em uma expressão exteriormente definida. Assim,

o sujeito que fala, necessariamente recorre a uma linguagem social, a um discurso que é

peculiar a certo estrato ou grupo social (Wertsch & Smolka, 2001). Deste modo, o sujeito apropria-se de certo repertório de fórmulas correntes estereotipadas que se adaptam ao canal de interação social que lhe é reservado (Bakhtin, 1992). Para cada esfera da atividade humana, ou para cada esfera da comunicação verbal, são gerados tipos de enunciados relativamente estáveis no que diz respeito ao tema, à composição e ao estilo, que foram denominados por Bakhtin “gêneros de discurso”. Como observado por Wertsch (1991), em Estética da Criação Verbal encontra-se uma discussão acerca da importância teórica da distinção entre gêneros de discurso primários e secundários, tanto para a elucidação da natureza do enunciado como para o esclarecimento do “difícil problema da correlação entre língua, ideologias e visão de mundo” (Bakhtin, 2000). De acordo com Bakhtin, os gêneros secundários, desenvolvidos em circunstâncias sociais de produção mais complexas, absorvem e transmutam, durante seu processo de formação, os gêneros primários, que se constituíram em circunstâncias de uma comunicação verbal espontânea. Assim, quando o pesquisador realiza uma entrevista em uma organização, é possível esperar que o discurso do entrevistado, se provém do gênero primário, esteja impregnado da ideologia do discurso que provém do gênero secundário. É assim, por exemplo, que os empregados utilizam o discurso da empresa. Qual a importância deste fato na produção do conhecimento científico em Estudos Organizacionais? A não identificação das diferenças de gênero leva o pesquisador a tomar um discurso pelo outro, não identificando na interpretação do sentido dos discursos provenientes do gênero primário o quanto foram absorvidos e transmutados pelo discurso secundário, o que pode implicar na indução ao erro de interpretação e, portanto, de uma apreensão falsa do real. Bakhtin não elaborou uma tipologia completa dos gêneros de discurso, mas é possível deduzir alguns critérios para distinguir diferentes gêneros: (i) o conteúdo semântico de referência: refere-se ao tema da enunciação; (ii) os aspectos relativos à expressão: refere-se à relação entre as emoções e os valores que o sujeito que fala estabelece com o que enuncia

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e que aparece na seleção das palavras, frases, expressões, na entonação da voz, na acentuação daquilo que representa um sistema de valores; (iii) a estrutura de composição do enunciado; refere-se ao processo de criação de um enunciado, o qual ocorre quando se coloca a significação da palavra em contato com a realidade efetiva, atribuindo-lhe uma entonação expressiva, típica e própria de um gênero de discurso valorativo (entusiasmo, reprovação e encorajamento). Para Wertsch & Smolka (2001), o critério que de fato interessava a Bakhtin era o da forma como a fala entra em contato, indispensável para a compreensão da estrutura composicional do enunciado. Neste ponto, é importante deixar claro que “voz”, na concepção de Bakhtin, se refere à perspectiva do falante, “relacionada à sua visão de mundo, ao seu horizonte conceitual, ao seu lugar social” (Mortimer & Machado, 2001). Tendo em vista o modo como as vozes entram em contato e se relacionam na composição de certas formas de enunciados, Bakhtin estabelece a distinção entre discurso de autoridade e discurso internamente persuasivo. Na perspectiva de Bakhtin, “num discurso de autoridade, as enunciações e seus significados são pressupostos como fixos, não sendo passíveis de serem modificados ao entrarem em contato com novas vozes” (Mortimer & Machado, 200). Em contraste, o discurso internamente persuasivo é permeado por contra-palavras, sendo resultante da negociação de significados com o discurso do outro. Ele apresenta “uma estrutura semântica ‘aberta’, que pode ser até mesmo capaz de revelar novas ‘maneiras de significar’” (Mortimer & Machado, 2001). Para entender como diferentes vozes entram em contato na composição de enunciações em Bakhtin, é necessário buscar a noção de dualismo funcional, segundo a qual todos os textos podem desempenhar duas funções básicas:

i. Função unívoca: comunica significados adequados; ii. Função dialógica: cria novos significados. No primeiro caso os discursos caracterizam-se por não apresentarem espaço suficiente para que a voz receptora influencie a voz transmissora. No segundo caso, os discursos permitem maior negociação de significados entre as diferentes vozes colocadas em relação. Associada à noção de dualidade funcional dos textos encontra-se, portanto, a distinção entre discurso de autoridade e discurso internamente persuasivo, a qual se apresenta como ferramenta para a elucidação dos contatos entre discursos, como, por exemplo, entre os discursos gerenciais e dos trabalhadores, dos pesquisadores e dos sujeitos

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objeto da pesquisa na produção da fala, entre trabalhadores associados a uma Organização Solidária de Produção e um órgão público de fomento econômico ou apoio social. Outro elemento importante é a concepção de apreensão apreciativa do discurso e a caracterização das tendências de apreensão ou reação ativa ao discurso do outro (Bakhtin, 1992), que apenas pode ser desvendado quando é analisado o modo como se dá a transmissão da palavra no contexto narrativo, em uma perspectiva chamada de dialógico- enunciativa. Neste caso, o discurso é considerado pelo sujeito que fala como sendo construído e enunciado autonomamente pelo outro, de tal forma que para colocar tal discurso no contexto da narração, o sujeito que fala precisa seguir regras sintáticas, adotar estilos e elaborar composições tais que o discurso possa estar associado a uma unidade narrativa. Assim, quando o pesquisador toma as formas dos discursos do outro, pode encontrar igualmente tendências sociais estáveis e pertinentes de recepção e apreensão ativa destes discursos. Caso o pesquisador consiga ler este discurso, o mesmo pode compreender como, na realidade, o discurso do outro é apreendido ou “como o receptor experimenta a enunciação de outrem na sua consciência, que se exprime por meio do discurso interior” (Bakhtin, 1992). Bakhtin trata de duas tendências fundamentais da reação ativa ao discurso de outro, ou seja, das orientações da inter-relação dinâmica do discurso e do contexto narrativo.

i. Esforço para criar fronteiras nítidas e estáveis entre a enunciação e o discurso, com o objetivo de conservar a integridade e autenticidade do mesmo. Neste caso, quanto mais dogmática a palavra, mais impessoais as formas de transmissão do discurso do outro e mais nítidas e invioláveis as fronteiras que o separam do resto da enunciação. (Bakhtin, 1992);

ii. Esforço para desfazer a estrutura fechada do discurso, de maneira a absorvê-lo e

apagar suas fronteiras, dando lugar à infiltração, pelo narrador, de réplicas e comentários no discurso do outro. Oposta à tendência anterior, esta se refere ao contexto narrativo (Bakhtin, 1992). A preocupação de Bakhtin parece ser a relação entre a infraestrutura (as relações de produção) e a consciência, tal como a mesma se materializa no discurso. É desta forma, por exemplo, que Rojo (2001) o analisa. Yaguello (1992), sugere que o trabalho de Bakhtin pretende responder à questão: “Sendo o signo e a enunciação de natureza social, em que medida a linguagem determina a consciência, a atividade mental; em que medida a ideologia determina a linguagem?”. Bakhtin (1992) oferece a resposta: “a essência deste problema,

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naquilo que nos interessa, liga-se à questão de saber como a realidade (a infraestrutura) determina o signo, como o signo reflete e refrata a realidade em transformação”.

5 Considerações Finais: interpretação ou metafísica?

Uma parte pertinente da crítica vinda dos adeptos dos métodos quantitativos decorre do fato de que tem sido comum encontrar textos acadêmicos recheados de transcrições de extratos de entrevistas e de textos impressos, muitas vezes sem explicações sobre quem é o sujeito da fala (qual sua história social), o que o sujeito fala (qual é sua perspectiva no tema), de onde o sujeito fala (em que local, em que espaço político ou organizacional), quando o sujeito fala (em que contexto micro e macro social) e com quem o sujeito fala ao falar, seja com o pesquisador ou outro interlocutor. Tais estratos pretendem ser a comprovação da realidade pesquisada, quando de fato são apenas ilustrações, ainda que significativas, da mesma, pois nestes casos a realidade não foi apropriada pela pesquisa a partir do conjunto das entrevistas, ou seja, de uma correta análise dos discursos contidos nos textos impressos ou nas falas, mas deduzidas de entrevistas subjetivamente selecionadas e trazidas para o interior do texto acadêmico. De fato, não se trata de análise de discurso, mas de transcrição selecionada de trechos discursivos. A rigor, não se trata sequer de análise de conteúdo. Para tornar ainda mais frágil este procedimento, os autores impõem ao trecho selecionado alguma consideração aproximada retirada de algum texto teórico de referência, imputando arbitrariamente a ambos uma relação puramente imaginária. A teoria deixa de ser um aporte para uma análise e se torna, repentinamente, uma confirmação de que o discurso emitido no campo empírico tem uma legitimidade conceitual e, logo, “científica”. Como se pôde observar pelas concepções de Pêcheux e Bakhtin, quando se analisa um discurso é necessário considerar que o mesmo não tem sentido sem que haja uma interpretação, um significado que lhe dê visibilidade a partir dele mesmo e não de uma arbitrariedade externa. É certo que quem faz a interpretação, quem atribui significado, é o sujeito pesquisador (o analista do discurso), mas é também certo que este sujeito carrega consigo, em sua análise, sua própria história, suas relações sociais e afetivas, de forma que a interpretação pode conter tanto o sentido e o significado que lhe dá o sujeito da fala, quanto o que lhe dá o sujeito da análise da fala. É necessário, deste modo, cuidar para que a análise do discurso não resulte em um amálgama de dois sentidos e dois significados que produzem

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outros sentidos e significados e que, ao final, apresentem-se vazios ou distorcidos para os objetivos da pesquisa. Este problema pode ser agravado pela escolha prévia do recorte teórico, ao contrário do que normalmente se acredita. Ao definir antecipadamente o recorte teórico e as categorias de análise que recobrem o eixo da investigação, o analista pode estar deduzindo um sentido e um significado antes mesmo de o discurso se pronunciar. Em nome de uma regularidade da formação discursiva no confronto entre sentidos-significados heterogêneos, o analista empresta um sentido-significado pré-construído não pelas relações histórico- sociais, mas por uma interpretação teórica desta, interpretação ela mesma carregada de um ou de vários sentidos-significados. Assim, partindo de uma interpretação dada pelo recorte teórico com seu próprio sentido-significado ou o sentido-significado que lhe deu a interpretação do analista, este busca no discurso do objeto do campo empírico um sentido que o mesmo alcançará mediante uma interpretação que já lhe pertencia “em si” antes mesmo de lhe pertencer “para si”. Em outro extremo, no qual o discurso é, “em si”, em seu aspecto fenomênico, a tradução plena da realidade, o que o mesmo contém acaba por ser tudo o que pode nele ser contido, de onde ou não resulta nenhuma interpretação ou, ao contrário, dá margem a qualquer interpretação. Neste caso, uma interpretação feita ao sabor das aparências primeiras contém um sentido-significado que é próprio do analista, dado pelas suas relações sociais e afetivas. Ao final, a realidade pode simplesmente desaparecer em meio à metafísica dos sentidos e das interpretações (significados). Assim, a mediação, na produção do conhecimento científico a partir da análise dos discursos, deve levar em conta os vários sentidos presentes nas relações que aí se estabelecem em busca de seus significados, ou seja, em busca de um “equilíbrio” analítico na interpretação dos discursos e dos seus sentidos, sem ceder, em um extremo, às facilidades do empirismo, da descrição, da transcrição que fala por si e, tampouco, em outro extremo, sem cair na armadilha da rigidez dos esquemas previamente definidos. Um método esquemático e uma estreita organização da investigação científica, neste caso, retiram a fecundidade da produção do conhecimento, pois, por mais paradoxal que pareça, como alerta Bachelard (2006), “a organização racional das ideias prejudicaria a aquisição de novas ideias”. Para Ghiraldelli (2007) o problema é que a palavra “interpretação” tal qual é utilizada na filosofia contemporânea, não tem relação com desvelar, descobrir, revelar, esclarecer,

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elucidar. A palavra interpretação, continua Ghiraldelli, vem da tradição de Nietzsche contra Platão e toda a metafísica ocidental, para quem não existem fatos, apenas interpretações ou, não existem textos, apenas versões. O legado de Nietzsche é contra o realismo platônico e qualquer outra forma de realismo.

“Mais do que em qualquer outra época, portanto, é a palavra interpretação que está na jogada atualmente. Todos dizem que vão interpretar, e esperam fazer isso corretamente, mas isso não quer dizer que vão dar a última palavra, como no sentido que desvelar tinha e ainda tem. É claro que para os representacionistas, e não para

os pragmatistas, isso gera um paradoxo. Mas isso (

a perspectiva pragmatista que implica em não usar do representacionismo,

implicaria em escrever algo

sobre (

de mostrar sua fraqueza por meio de argumentos do tipo do Slingshot ou por meio de argumentos contra a ideia de ‘esquema-conteúdo’” (Ghiraldelli, 2007).

)

)

Como se pôde acompanhar, discurso é, genericamente, uma prática social de produção de falas e textos. Todo discurso é uma produção social e histórica e não uma construção, seja individual ou social, como pretende o construtivismo (Berger & Luckmann, 2001). Portanto, o discurso deve ser analisado considerando (i) seu lugar nas relações sociais de produção das condições materiais de existência, (ii) o contexto histórico-social (formação social) em que se expressa, (iii) as condições (políticas, culturais, ideológicas e simbólicas) em que se manifesta e suas práticas de produção; (iv) a visão de mundo necessariamente vinculada à dos sujeitos da fala e à sociedade específica em que vivem. O texto é o produto formal com registro elaborado pela atividade discursiva e, assim como a fala, é o objeto do campo empírico de análise do discurso. O texto formal e a fala são manifestações produzidas historicamente pelos sujeitos da ação, em um dado modo de produção e em uma formação social determinada, sobre as quais o sujeito pesquisador se debruça para buscar as indicações que conduzem à investigação científica. A forma de análise do discurso e as metodologias de apropriação da condição discursiva variam. Contudo, para o sujeito pesquisador é preciso sempre considerar que o objeto da AD não pode ser apenas o discurso em si mesmo, mas o discurso para os sujeitos que o produzem e que o pronunciam, seu sentido e seu significado. O contexto onde o discurso é produzido e pronunciado é a situação histórico-social onde se encontra a fala e o texto, é a formação social que o contém, envolvendo os sujeitos da ação, outros textos e outras falas produzidos no entorno desta formação social e que com ela se relacionam. Se o contexto é a moldura de um texto, o contexto envolve elementos

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tanto da realidade do autor quanto do receptor, e a análise destes elementos ajuda a determinar o sentido e o significado do discurso para quem o pronuncia e para quem o interpreta. Dito de outro modo, na análise de um discurso deve-se, de imediato, saber que há um autor e um intérprete, ambos sujeitos com determinada identidade social e histórica e, a partir disto, situar o discurso como forma de compartilhamento desta identidade. Como exposto logo no início, a AD é uma concepção e não uma ferramenta de análise como, por exemplo, a estatística, e seus usuários devem obrigatoriamente definir qual concepção a ser considerada em suas análises. Não existe uma e única Análise de Discurso. Assim, se o pesquisador em Estudos Organizacionais opta pela Análise de Discurso em seu procedimento metodológico, deve indicar com clareza e fundamento qual a concepção de AD que o orienta.

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de Janeiro, v. 17, n. 6, art. 1, pp. 642-660, Nov./Dez. 2013 Reflexões Epistemológicas para a
de Janeiro, v. 17, n. 6, art. 1, pp. 642-660, Nov./Dez. 2013 Reflexões Epistemológicas para a

Reflexões Epistemológicas para a Pesquisa em Administração:

Contribuições de Theodor W. Adorno

Epistemological Reflections on Business Administration Research: Contributions of Theodor W. Adorno

José Henrique de Faria E-mail: jhfaria@gmail.com Universidade Federal do Paraná - UFPR PPGADM/UFPR, Av. Prefeito Lothário Meissner, 632, 2° andar, 80210-170, Curitiba, PR, Brasil.

Carolina Machado Saraiva de Albuquerque Maranhão E-mail: carola.maranhao@gmail.com Centro Universitário UNA Centro Universitário UNA, Av. João Pinheiro, 515, 30130-180, Belo Horizonte, MG, Brasil.

Francis Kanashiro Meneghetti E-mail: fkmeneghetti@gmail.com Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR Av. Sete de Setembro, 3165, PPGTE, Sala 5, 80230-901, Curitiba, PR, Brasil.

Reflexões Epistemológicas

Resumo

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O pensamento de Adorno passou a ser considerado nas pesquisas também na área de administração,

especialmente nos assim chamados estudos organizacionais (Batista-dos-Santos, Alloufa, & Nepomuceno, 2010; Faria, 2004; Paes de Paula, 2008, 2012). O presente ensaio pretende contribuir para com as reflexões epistemológicas e suas implicações no uso da dialética como método de análise. A contribuição de Adorno para as pesquisas em administração se materializam em pelo menos 6 pontos: (a) combate à instituição dos sistemas totalitários de compreensão; (b) indicação de que, quando os pensamentos são elementos da práxis, estes passam a ter potencial concreto no mundo objetivo; (c) a primazia do objeto faz do sujeito um objeto qualitativamente

distinto; (d) o objeto a ser estudado não é nada sem o sujeito que vai estudá-lo, pois, sem o sujeito, o momento

do objeto não existe; (e) o sujeito pensa a realidade principalmente por concepções e por conceitos; (f) sendo a

realidade estudada não plenamente cognoscível, aquilo que não se mostra somente pode ser conhecido por meio daquilo que se mostra, ou seja, o não conceito só pode ser conhecido por meio do conceito, pois a relação de mútua existência permite afirmar que existe uma totalidade em potência.

Palavras-chave: T. W. Adorno; teoria crítica; estudos organizacionais; dialética negativa.