A NOITE DE NATAL
Sophia de Mello Breyner Andresen
O AMIGO
A FESTA
A ESTRELA
Fotografias e composição:
Manuela DL Ramos, Outubro 2010
Era uma vez uma casa pintada de
amarelo com um jardim à volta.
No jardim havia tílias, bétulas, um cedro muito antigo, uma
cerejeira e dois plátanos.
A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen
Fotografia: Manuela DL Ramos
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Era debaixo do cedro que Joana brincava.
Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao grande tronco escuro.
Depois imaginava os anõezinhos que,
se existissem, poderiam morar
naquelas casas.
maior e mais complicada para o rei dos anões.
E fazia uma casa
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Joana não tinha irmãos e brincava sozinha. Mas de vez em quando vinham brincar os dois primos ou outros meninos. E, às vezes, ela ia a uma festa.
Mas esses meninos a casa de quem ela ia e que vinham a sua casa não eram realmente amigos: eram visitas.
Faziam troça das suas casas de musgo e maçavam-se imenso no seu jardim.
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Fotografia: Manuela DL Ramos
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E Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros
meninos. Só sabia estar sozinha. Mas um dia encontrou um amigo. Foi numa manhã de Outubro. Joana estava encarrapitada no muro.
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E passou pela rua um garoto.
Estava todo vestido de remendos e os seus olhos brilhavam
como duas estrelas.
Caminhava devagar pela beira do passeio sorrindo às folhas do Outono.
0 coração de Joana deu um pulo na garganta.
— Ah! — disse ela.
E pensou:
«Parece um amigo. É exactamente igual a um amigo.»
E do alto do muro chamou-o:
— Bom dia.
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0 garoto voltou a cabeça, sorriu e respondeu:
— Bom dia!
Ficaram os dois um momento calados.
Depois Joana perguntou:
— Como é que te chamas?
— Manuel — respondeu o garoto.
— Eu chamo-me Joana.
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E de novo entre os dois, leve e
aéreo, passou um silêncio. Ouviu-se tocar ao longe o sino de uma igreja.
Até que o garoto disse:
— 0 teu jardim é muito bonito.
— É, vem ver.
Joana desceu do muro e foi abrir o
portão.
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Fotografia: Manuela DL Ramos
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E foram os dois pelo jardim fora.
0 rapazinho olhava uma por uma cada coisa.
Joana mostrou- -lhe o tanque e os peixes vermelhos.
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Mostrou-Ihe o pomar, as laranjeiras e a horta.
E chamou os cães para ele os conhecer.
E mostrou-Ihe a casa da lenha onde dormia um gato.
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E mostrou-lhe todas as árvores…
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…e as relvas e as flores.
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— É lindo, é lindo —
dizia o
rapazinho gravemente.
— Aqui — disse Joana — é o
cedro. É aqui que eu brinco.
E sentaram-se sob a sombra redonda do cedro.
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A luz da manhã rodeava o jardim:
tudo estava cheio de paz e de
frescura.
Às vezes, do alto de uma tília caía
uma folha amarela
que dava voltas no ar.
Joana foi buscar pedras, paus e
musgo e começaram os dois a
construir a casa do rei dos anões.
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Brincaram assim durante muito tempo.
Até que ao longe apitou uma fábrica.
— Meio-dia — disse o garoto — , tenho de me ir embora.
— Onde é que tu moras?
— Além nos pinhais.
— É lá a tua casa?
— É, mas não é bem uma casa.
— Então?
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Fotografia: Manuela DL Ramos
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— 0 meu pai está no céu. Por isso somos muito pobres. A minha mãe trabalha todo o dia mas não temos dinheiro para ter uma casa.
— Mas à noite onde é que dormes?
— 0 dono dos pinhais tem uma cabana onde de noite dormem uma vaca e um burro. E por esmola dá-me licença de dormir ali também.
— E onde é que brincas?
— Brinco em toda a parte. Dantes morávamos no centro da cidade e
eu brincava no passeio e nas valetas. Brincava com latas vazias, com
jornais velhos, com trapos e com pedras.
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Agora brinco no pinhal e na estrada. Brinco com as ervas, com os
animais e com as fIores. Pode-se brincar em toda a parte.
— Mas eu não posso sair deste jardim! Volta amanhã para brincar
comigo.
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E daí em diante todas as manhãs o
rapazinho passava pela rua. Joana esperava-o empoleirada em cima do muro.
Abria-lhe a porta e iam os dois sentar-se sob a sombra redonda do cedro.
E foi assim que Joana encontrou um amigo.
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Era um amigo maravilhoso.
As fIores voltavam as suas corolas quando ele passava, a luz era mais brilhante em seu redor
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e os pássaros
vinham comer na palma das suas mãos as migalhas de
pão que Joana ia buscar à
cozinha.
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Passaram muitos dias, passaram muitas semanas até
que chegou o Natal. E no dia de Natal Joana pôs o seu vestido de veludo azul, os seus sapatos de verniz preto e muito bem
penteada às sete e meia saíu do quarto e desceu a escada.
Quando chegou ao andar de baixo ouviu vozes na sala grande; eram as pessoas crescidas que estavam lá dentro. Mas Joana sabia que tinham fechado a porta para ela não entrar.
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For isso foi à sala de jantar ver se já lá estavam os copos.
sua vida
fechados dentro de um grande armário de madeira escura que estava no meio do corredor.
Esse armário tinha duas portas que nunca se abriam completamente e uma grande chave. Lá dentro havia sombras e brilhos. Era como o interior de uma caverna
cheia de maravilhas e segredos.
passavam
Os
copos
a
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Estavam lá fechadas muitas coisas, coisas que não eram precisas para a vida de todos os dias, coisas brilhantes e um pouco encantadas: loiças, frascos, caixas, cristais e pássaros de vidro.
Até havia um prato com três maçãs de cera e uma
menina de prata que era uma campainha. E também um grande ovo de Páscoa feito de loiça encarnada com flores doiradas. Joana nunca tinha visto bem até ao fundo do armário. Não tinha licença de o abrir. Só conseguia que a criada às vezes a deixasse espreitar entre as duas portas.
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Nos dias de festa, do fundo das
sombras do interior do armário saíam os copos.
|
Saíam |
claros, |
transparentes |
e |
|||
|
brilhantes, tilintando no tabuleiro. |
||||||
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E para |
Joana |
aquele |
barulho |
de |
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|
cristal |
a |
tilintar |
era |
a |
música |
das |
|
festas. |
||||||
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Joana deu uma volta a roda da mesa.
Os copos já lá estavam, tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma fonte de montanha do que do fundo de um armário.
As velas estavam acesas e a sua luz atravessava o cristal.
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Em cima da mesa havia coisas maravilhosas e
extraordinárias:
bolas de vidro, pinhas douradas e aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas.
Era uma festa. Era o Natal.
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A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen
Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas
Noites de Natal as estrelas são diferentes. Abriu a porta e desceu a escada da varanda. Estava muito frio, mas o próprio frio brilhava.
e das cerejeiras
tinham caído. Os ramos nus desenhavam-se no ar como rendas pretas. Só o cedro tinha os seus ramos cobertos.
As folhas das
tílias, das bétulas
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E nessa escuridão
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as estrelas cintilavam, mais claras do que tudo. Cá em baixo era uma festa e
por isso havia muitas coisas brilhantes:
velas acesas, bolas de vidro, copos de cristal.
Mas no céu havia uma festa maior, com milhões e milhões de estrelas.
Joana ficou algum tempo com a cabeça levantada.
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Não pensava em nada.
Olhava a imensa felicidade da noite
no alto céu escuro e luminoso, sem nenhuma sombra. Depois voltou para casa e fechou a porta.
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— Ainda falta muito tempo para o jantar? — perguntou ela a uma criada que ia a atravessar o corredor. — Ainda falta um bocadinho, menina - disse a criada.
Então Joana foi à cozinha ver a cozinheira Gertrudes, que
era uma pessoa extraordinária porque mexia nas coisas quentes sem se queimar e nas facas mais aguçadas sem se cortar e mandava em tudo, e sabia tudo. Joana achava-a a pessoa mais importante que ela conhecia.
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A Gertrudes tinha aberto
o forno e estava debruçada sobre os dois perus do Natal. Virava-os e regava-os com molho. A pele dos perus, muito esticada sobre o peito recheado, já estava toda doirada.
— Gertrudes, ouve uma coisa — pediu Joana. A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os perus.
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— 0 que é? — perguntou ela.
— Que presentes é que achas que eu vou ter?
— Não sei — disse Gertrudes — , não posso adivinhar.
Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e por isso continuou a fazer perguntas.
— E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes?
— Qual amigo? - disse a cozinheira.
— 0 Manuel.
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— 0 Manuel não. Não vai ter presentes nenhuns.
— Não vai ter presentes nenhuns ?
— Não — disse a Gertrudes abanando a cabeça.
— Mas porquê, Gertrudes?
— Porque é pobre. Os pobres não têm presentes.
— Isso não pode ser, Gertrudes.
— Mas é assim mesmo — disse a Gertrudes fechando a tampa do forno.
Joana ficou parada no meio da cozinha. Tinha compreendido que era “assim mesmo”. Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo.
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Todas as manhãs a ouvia discutir com o homem do talho, com a peixeira e com a mulher da fruta. E ninguém a podia enganar. Porque ela era cozinheira há trinta anos. E há trinta anos que ela se levantava às sete da manhã e trabalhava até às onze da noite.
passava na
vizinhança e tudo o que se passava dentro das casas de toda a gente. E sabia todas as notícias,
e todas as histórias das pessoas.
E
sabia
tudo
o
que
se
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E conhecia todas as receitas de cozinha, sabia fazer todos os bolos e conhecia todas as espécies de carnes, de peixes, de frutas e de legumes. Ela nunca se enganava. Conhecia bem o mundo, as coisas e os homens.
Mas o que a Gertrudes tinha dito era esquisito como uma mentira. Joana ficou
calada a cismar no meio da cozinha.
De repente abriu-se a porta e apareceu uma criada que disse:
— Já chegaram os primos. Então Joana foi ter com os primos.
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Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram todos para a mesa.
Tinha começado a festa do Natal. Havia no ar um cheiro de canela
e de pinheiro.
Em cima da mesa tudo brilhava:
as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas doiradas.
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E as pessoas riam e diziam umas as
outras: «Bom Natal». Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa.
E vendo tudo isto Joana pensava:
Gertrudes se
enganou. 0 Natal é uma festa para toda a gente. Amanhã o Manuel vai-me contar tudo.
Com certeza que ele também tem presentes.
Com
certeza
—
que
a
E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão alegre como antes.
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0 jantar do Natal era igual ao de todos os anos. Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananazes.
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No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a porta e entraram na sala.
As luzes eléctricas estavam apagadas. Só ardiam as velas do pinheiro.
Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore do Natal.
Mas era sempre como se fosse a primeira vez.
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Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que
pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho de
uma estrela se tivesse aproximado da Terra. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.
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E no presépio as figuras de barro,
o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida.
Era uma conversa que se via e não se ouvia.
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Joana olhava, olhava, olhava. As vezes lembrava-se do seu amigo Manuel. Um dos primos puxou-a por um braço:
— Joana, ali estão os teus presentes. Joana abriu um por um os embrulhos e as caixas: a boneca, a bola, os livros cheios de
desenhos a cores, a caixa de tintas.
À sua volta todos riam e conversavam. Todos mostravam uns aos outros os presentes que tinham tido, falando ao mesmo tempo.
E Joana pensava: «Talvez o Manuel tenha tido
urn automóvel.»
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E a festa do Natal continuava. As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e
nos sofás a conversar e as crianças sentaram-se no
chão a brincar. Até que alguém disse:
— São onze horas e meia. São quase horas da
missa. E são horas de as crianças se irem deitar.
Então as pessoas começaram a sair.
0 pai e a mãe de Joana também saíram.
— Boa noite, minha querida. Bom Natal — disseram eles. E a porta fechou-se.
Daí a um instante saíram as criadas.
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A casa ficou muito silenciosa. Tinham ido todos
para a Missa do Galo, menos a velha Gertrudes, que
estava na cozinha a arrumar as panelas.
E Joana foi à cozinha. Era a altura boa para falar com a Gertrudes.
— Bom Natal, Gertrudes — disse Joana.
— Bom Natal — respondeu a Gertrudes.
Joana calou-se um momento. Depois perguntou:
— Gertrudes, aquilo que disseste antes do jantar é verdade?
— O que é que eu disse?
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— Disseste que o Manuel não ia ter presentes
de Natal porque os pobres não têm presentes.
digo
fantasias: não teve presentes, nem árvore de
Natal, nem peru recheado, nem rabanadas. Os
pobres são os pobres. Têm a pobreza. — Mas então o Natal dele como foi?
Está
claro
é verdade. Eu
que
não
—
— Foi como nos outros dias.
— E como é nos outros dias?
— Uma sopa e um bocado de pão.
— Gertrudes, isso é verdade?
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— Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite. — Boa noite — disse Joana. E saiu da cozinha.
Subiu a escada e foi para o seu quarto.
Os seus presentes de Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os um por um. E pensava:
«Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas
e livros. São tal e qual os presentes que eu
queria. Deram-me tudo o que queria. Mas ao Manuel ninguém deu nada.»
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dos
presentes, Joana pôs-se a imaginar o frio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se a imaginar a Noite de Natal naquela casa que não era bem uma casa, mas um curral de animais.
E sentada
na beira
da cama,
ao
lado
«Que frio lá deve estar!», pensava ela.
«Que escuro lá deve estar!», pensava ela. «Que triste lá deve estar!», pensava. E começou a imaginar o curral gelado e sem
nenhuma luz onde Manuel dormia em cima das
palhas, aquecido só pelo bafo de uma vaca e de um burro.
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— Amanhã vou-lhe dar os meus presentes — disse ela. Depois suspirou e pensou:
«Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que e a Noite de Natal.»
à janela, abriu as portadas e através dos
vidros espreitou a rua. Ninguém passava. 0
Manuel estava a dormir. Só viria na manhã
seguinte. Ao longe via-se uma grande sombra
escura: era o pinhal.
Foi
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Então ouviu, vindas da torre da Igreja, fortes e claras, as doze pancadas da meia-noite. «Hoje», pensou Joana, «tenho de ir hoje. Tenho de ir lá agora, esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite de Natal.»
Foi ao armário, tirou um casaco e vestiu-o.
Depois pegou na bola, na caixa de tintas e nos livros. Apetecia-lhe levar também a boneca, mas ele era um rapaz e com certeza não gostava de bonecas.
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Pé ante pé Joana desceu a escada. Os degraus estalaram um por um. Mas na cozinha
a Gertrudes fazia muito barulho a arrumar as
panelas e não a ouviu.
Na sala de jantar havia uma porta que dava para o jardim. Joana abriu-a e saiu, deixando-
a ficar só fechada no trinco.
Depois atravessou o jardim. 0 Alex e a C hiribita ladraram. — Sou eu, sou eu — disse Joana. E os cães, ouvindo a sua voz, calaram-se. Então Joana abriu a porta do jardim e saiu.
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Quando se viu sozinha no meio da rua teve vontade de voltar para trás.
As árvores pareciam enormes e os
seus ramos sem folhas enchiam o
céu de desenhos iguais a pássaros
fantásticos.
E a rua parecia viva.
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Estava tudo deserto. Àquela hora não passava ninguém. Estava toda a gente na Missa do Galo. As casas, dentro dos seus jardins, tinham as portas e as janelas fechadas. Não se viam pessoas, só se viam coisas. Mas Joana tinha a impressão de que as coisas a olhavam e a ouviam como pessoas.
«Tenho medo», pensou ela. Mas resolveu caminhar
para a frente sem olhar para nada.
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Quando chegou ao fim da rua virou à direita e meteu
a um atalho entre dois muros. E no fim do atalho encontrou os campos, planos e desertos.
Ali, sem muros nem árvores nem casas, a noite via-se melhor. Uma noite altíssima e redonda e toda brilhante.
0 silêncio era tão forte que parecia cantar.
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Muito ao longe via-se a massa escura dos pinhais.
«Será possível que eu chegue até lá?», pensou Joana. Mas continuou a caminhar.
Os seus pés enterravam-se nas ervas geladas. Ali no
descampado soprava um curto vento de neve que lhe cortava a cara como uma faca.
«Tenho
frio»,
caminhar.
pensou
Joana.
Mas
continuou
a
À medida que se ia aproximando dele, o pinhal ia- se tornando maior. Até que ficou enorme.
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Joana parou um instante no meio dos campo. «Para que lado ficará a cabana?», pensou ela.
E olhava em todas as direcções à procura de um
rasto. Mas à sua direita não havia rasto, à sua esquerda não havia rasto e à sua frente não havia rasto.
«Como é que hei-de encontrar o caminho?», perguntava ela. E levantou a cabeça.
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Então viu que no céu,
lentamente, uma estrela caminhava. «Esta estrela parece um amigo», pensou ela. E começou a seguir a estrela.
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E a brisa passava
entre as agulhas dos pinheiros,
que pareciam murmurar frases incompreensíveis. E vendo-se assim rodeada de vozes e
de sombras Joana teve medo e quis fugir.
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Mas viu que no céu, muito alto,
para além de todas as sombras, a
estrela continuava a caminhar.
E seguiu a estrela.
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Já no meio do pinhal pareceu-lhe ouvir passos. «Será um lobo?», pensou. Parou a escutar. 0 barulho dos passos aproximava- se. Até que viu surgir entre os pinheiros um vulto muito alto que vinha caminhando ao seu encontro.
«Será um ladrão?», pensou.
Mas o vulto parou na sua frente e ela viu que era um rei. Tinha na cabeça uma coroa de oiro e dos seus ombros caía um longo manto azul todo bordado de diamantes.
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— Boa noite — disse Joana.
— Boa noite — disse o rei — Como te
chamas?
— Eu, Joana — disse ela.
— Eu chamo-me Melchior — disse o rei. E perguntou:
— Onde vais sozinha a esta hora da
noite?
— Vou com a estrela — disse ela.
— Também eu — disse o rei, também eu vou com a estrela.
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E juntos seguiram através do pinhal.
E de novo Joana ouviu passos.
E um vulto surgiu entre as
sombras da noite.
Tinha na cabeça uma coroa de brilhantes e dos seus ombros caía um grande manto vermelho
coberto de muitas esmeraldas e
safiras.
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— Boa noite — disse ela —. Chamo-me Joana e vou com a estrela. — Também eu — disse o rei — , também eu vou com a estrela e o meu nome é Gaspar.
E seguiram juntos através dos pinhais.
E mais uma vez Joana ouviu um barulho de passos e um terceiro vulto surgiu entre as sombras azuis e os pinheiros escuros.
Tinha na cabeça um turbante branco e dos seus ombros caía um longo manto verde bordado de pérolas. A sua cara era preta.
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— Boa noite — disse ela. — 0 meu nome é Joana. E vamos com a estrela. — Também eu — disse o rei — caminho com a estrela e o meu nome é Baltasar.
E juntos seguiram os quatro através da noite.
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Já quase no fundo dos pinhais viram ao longe uma claridade E sobre essa claridade a estrela parou. E continuaram a caminhar.
Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana viu um casebre sem
porta.
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Mas não viu escuridão, nem sombra,
nem tristeza. Pois o casebre estava cheio de claridade, porque o brilho dos anjos o iluminava.
E Joana viu o seu amigo Manuel.
Estava deitado nas palhas entre a vaca e o burro e dormia sorrindo.
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Em sua roda, ajoelhados no ar, estavam os anjos. 0
seu corpo não tinha nenhum peso e era feito de luz sem nenhuma sombra.
E com as mãos postas os anjos rezavam ajoelhados no ar. Era assim, à luz dos anjos, o Natal de Manuel. — Ah — disse Joana -, aqui é como no presépio!
aqui é como no
— Sim presépio.
— disse
o rei
Baltasar — ,
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Então Joana ajoelhou-se e poisou no chão os seus presentes.
FIM
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A NOITE DE NATAL
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nesta versão incluíram-se, para além de ilustrações de Júlio Resende da edição de 1989,
a imagem da árvore de Natal da autoria de Maria Keil, ilustradora da 1ª edição (1959), e
fotografias do Jardim Botânico do Porto sediado na antiga Quinta do Campo Alegre que
pertenceu ao tio de Sophia Mello Breyner Andresen e onde a autora brincou em criança.
Fotografias e composição:
Manuela DL Ramos, Outubro 2010
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