Sei sulla pagina 1di 80

A NOITE DE NATAL

Sophia de Mello Breyner Andresen

O AMIGO

A FESTA

A ESTRELA

Fotografias e composição:

Manuela DL Ramos, Outubro 2010

Era uma vez uma casa pintada de

amarelo com um jardim à volta.

No jardim havia tílias, bétulas, um cedro muito antigo, uma

cerejeira e dois plátanos.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia: Manuela DL Ramos

Era debaixo do cedro que Joana brincava.

Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao grande tronco escuro.

Depois imaginava os anõezinhos que,

se existissem, poderiam morar

naquelas casas.

maior e mais complicada para o rei dos anões.

E fazia uma casa

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Joana não tinha irmãos e brincava sozinha. Mas de vez em quando vinham brincar os dois primos ou outros meninos. E, às vezes, ela ia a uma festa.

Mas esses meninos a casa de quem ela ia e que vinham a sua casa não eram realmente amigos: eram visitas.

Faziam troça das suas casas de musgo e maçavam-se imenso no seu jardim.

Fotografia: Manuela DL Ramos

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

5

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

E Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros

meninos. Só sabia estar sozinha. Mas um dia encontrou um amigo. Foi numa manhã de Outubro. Joana estava encarrapitada no muro.

um dia encontrou um amigo. Foi numa manhã de Outubro. Joana estava encarrapitada no muro. Fotografia:
Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

E passou pela rua um garoto.

Estava todo vestido de remendos e os seus olhos brilhavam

como duas estrelas.

Caminhava devagar pela beira do passeio sorrindo às folhas do Outono.

0 coração de Joana deu um pulo na garganta.

Ah! disse ela.

E pensou:

«Parece um amigo. É exactamente igual a um amigo.»

E do alto do muro chamou-o:

Bom dia.

0 garoto voltou a cabeça, sorriu e respondeu:

Bom dia!

Ficaram os dois um momento calados.

Depois Joana perguntou:

Como é que te chamas?

Manuel respondeu o garoto.

Eu chamo-me Joana.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

— Manuel — respondeu o garoto. — Eu chamo-me Joana. A Noite de Natal - Sophia

E de novo entre os dois, leve e

aéreo, passou um silêncio. Ouviu-se tocar ao longe o sino de uma igreja.

Até que o garoto disse:

0 teu jardim é muito bonito.

É, vem ver.

Joana desceu do muro e foi abrir o

portão.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia: Manuela DL Ramos

E foram os dois pelo jardim fora.

0 rapazinho olhava uma por uma cada coisa.

Joana mostrou- -lhe o tanque e os peixes vermelhos.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

Mostrou-Ihe o pomar, as laranjeiras e a horta.

E chamou os cães para ele os conhecer.

E mostrou-Ihe a casa da lenha onde dormia um gato.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

E mostrou-lhe todas as árvores…

Fotografias: Manuela DL Ramos
Fotografias: Manuela DL Ramos

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

12 Em primeiro plano o majestoso Liquidâmbar
12
Em primeiro plano o majestoso Liquidâmbar
Fotografias: Manuela DL Ramos
Fotografias: Manuela DL Ramos

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

DL Ramos A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen Vista do Liquidâmbar a
Vista do Liquidâmbar a aprtir do Jardim dos Jotas 13
Vista do Liquidâmbar a aprtir do Jardim dos Jotas
13

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

…e as relvas e as flores.

Fotografias: Manuela DL Ramos
Fotografias: Manuela DL Ramos
14
14
Flores de Kalmia latifolia Fotografias: Manuela DL Ramos
Flores de Kalmia latifolia
Fotografias: Manuela DL Ramos

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Flores de Jacarandá 15
Flores de Jacarandá
15

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Jardim dos "Jotas" visto do caramanchão das glicínias Fotografias: Manuela DL Ramos 16
Jardim dos "Jotas" visto do caramanchão das glicínias
Fotografias: Manuela DL Ramos
16

É lindo, é lindo

dizia o

rapazinho gravemente.

Aqui disse Joana é o

cedro. É aqui que eu brinco.

E sentaram-se sob a sombra redonda do cedro.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

A luz da manhã rodeava o jardim:

tudo estava cheio de paz e de

frescura.

Às vezes, do alto de uma tília caía

uma folha amarela

que dava voltas no ar.

de uma tília caía uma folha amarela que dava voltas no ar. Joana foi buscar pedras,

Joana foi buscar pedras, paus e

musgo e começaram os dois a

construir a casa do rei dos anões.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

Brincaram assim durante muito tempo.

Até que ao longe apitou uma fábrica.

Meio-dia disse o garoto , tenho de me ir embora.

Onde é que tu moras?

Além nos pinhais.

É lá a tua casa?

É, mas não é bem uma casa.

Então?

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

não é bem uma casa. — Então? A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner

Fotografia: Manuela DL Ramos

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

0 meu pai está no céu. Por isso somos muito pobres. A minha mãe trabalha todo o dia mas não temos dinheiro para ter uma casa.

Mas à noite onde é que dormes?

0 dono dos pinhais tem uma cabana onde de noite dormem uma vaca e um burro. E por esmola dá-me licença de dormir ali também.

E onde é que brincas?

Brinco em toda a parte. Dantes morávamos no centro da cidade e

eu brincava no passeio e nas valetas. Brincava com latas vazias, com

jornais velhos, com trapos e com pedras.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Agora brinco no pinhal e na estrada. Brinco com as ervas, com os

animais e com as fIores. Pode-se brincar em toda a parte.

Mas eu não posso sair deste jardim! Volta amanhã para brincar

comigo.

Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

21

E daí em diante todas as manhãs o

rapazinho passava pela rua. Joana esperava-o empoleirada em cima do muro.

Abria-lhe a porta e iam os dois sentar-se sob a sombra redonda do cedro.

E foi assim que Joana encontrou um amigo.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

Era um amigo maravilhoso.

As fIores voltavam as suas corolas quando ele passava, a luz era mais brilhante em seu redor

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia: Manuela DL Ramos 23
Fotografia: Manuela DL Ramos
23

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

e os pássaros

vinham comer na palma das suas mãos as migalhas de

pão que Joana ia buscar à

cozinha.

24
24

A NOITE DE NATAL

O AMIGO A FESTA A ESTRELA

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Passaram muitos dias, passaram muitas semanas até

que chegou o Natal. E no dia de Natal Joana pôs o seu vestido de veludo azul, os seus sapatos de verniz preto e muito bem

penteada às sete e meia saíu do quarto e desceu a escada.

Quando chegou ao andar de baixo ouviu vozes na sala grande; eram as pessoas crescidas que estavam lá dentro. Mas Joana sabia que tinham fechado a porta para ela não entrar.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen For isso foi à sala

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

For isso foi à sala de jantar ver se já lá estavam os copos.

sua vida

fechados dentro de um grande armário de madeira escura que estava no meio do corredor.

Esse armário tinha duas portas que nunca se abriam completamente e uma grande chave. Lá dentro havia sombras e brilhos. Era como o interior de uma caverna

cheia de maravilhas e segredos.

passavam

Os

copos

a

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Estavam lá fechadas muitas coisas, coisas que não eram precisas para a vida de todos os dias, coisas brilhantes e um pouco encantadas: loiças, frascos, caixas, cristais e pássaros de vidro.

Até havia um prato com três maçãs de cera e uma

menina de prata que era uma campainha. E também um grande ovo de Páscoa feito de loiça encarnada com flores doiradas. Joana nunca tinha visto bem até ao fundo do armário. Não tinha licença de o abrir. Só conseguia que a criada às vezes a deixasse espreitar entre as duas portas.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen Nos dias de festa, do

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Nos dias de festa, do fundo das

sombras do interior do armário saíam os copos.

Saíam

claros,

transparentes

e

brilhantes, tilintando no tabuleiro.

E

para

Joana

aquele

barulho

de

cristal

a

tilintar

era

a

música

das

festas.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen Joana deu uma volta a

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Joana deu uma volta a roda da mesa.

Os copos já lá estavam, tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma fonte de montanha do que do fundo de um armário.

As velas estavam acesas e a sua luz atravessava o cristal.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen Em cima da mesa havia
A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen Em cima da mesa havia

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Em cima da mesa havia coisas maravilhosas e

extraordinárias:

bolas de vidro, pinhas douradas e aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas.

Era uma festa. Era o Natal.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas

Noites de Natal as estrelas são diferentes. Abriu a porta e desceu a escada da varanda. Estava muito frio, mas o próprio frio brilhava.

e das cerejeiras

tinham caído. Os ramos nus desenhavam-se no ar como rendas pretas. Só o cedro tinha os seus ramos cobertos.

As folhas das

tílias, das bétulas

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

E nessa escuridão

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

as estrelas cintilavam, mais claras do que tudo. Cá em baixo era uma festa e

por isso havia muitas coisas brilhantes:

velas acesas, bolas de vidro, copos de cristal.

Mas no céu havia uma festa maior, com milhões e milhões de estrelas.

Joana ficou algum tempo com a cabeça levantada.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen Não pensava em nada. Olhava a

Não pensava em nada.

Olhava a imensa felicidade da noite

no alto céu escuro e luminoso, sem nenhuma sombra. Depois voltou para casa e fechou a porta.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Ainda falta muito tempo para o jantar? perguntou ela a uma criada que ia a atravessar o corredor. Ainda falta um bocadinho, menina - disse a criada.

Então Joana foi à cozinha ver a cozinheira Gertrudes, que

era uma pessoa extraordinária porque mexia nas coisas quentes sem se queimar e nas facas mais aguçadas sem se cortar e mandava em tudo, e sabia tudo. Joana achava-a a pessoa mais importante que ela conhecia.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen A Gertrudes tinha aberto o forno

A Gertrudes tinha aberto

o forno e estava debruçada sobre os dois perus do Natal. Virava-os e regava-os com molho. A pele dos perus, muito esticada sobre o peito recheado, já estava toda doirada.

Gertrudes, ouve uma coisa pediu Joana. A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os perus.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

0 que é? perguntou ela.

Que presentes é que achas que eu vou ter?

Não sei disse Gertrudes , não posso adivinhar.

Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e por isso continuou a fazer perguntas.

E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes?

Qual amigo? - disse a cozinheira.

0 Manuel.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

0 Manuel não. Não vai ter presentes nenhuns.

Não vai ter presentes nenhuns ?

Não disse a Gertrudes abanando a cabeça.

Mas porquê, Gertrudes?

Porque é pobre. Os pobres não têm presentes.

Isso não pode ser, Gertrudes.

Mas é assim mesmo disse a Gertrudes fechando a tampa do forno.

Joana ficou parada no meio da cozinha. Tinha compreendido que era “assim mesmo”. Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Todas as manhãs a ouvia discutir com o homem do talho, com a peixeira e com a mulher da fruta. E ninguém a podia enganar. Porque ela era cozinheira há trinta anos. E há trinta anos que ela se levantava às sete da manhã e trabalhava até às onze da noite.

passava na

vizinhança e tudo o que se passava dentro das casas de toda a gente. E sabia todas as notícias,

e todas as histórias das pessoas.

E

sabia

tudo

o

que

se

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

E conhecia todas as receitas de cozinha, sabia fazer todos os bolos e conhecia todas as espécies de carnes, de peixes, de frutas e de legumes. Ela nunca se enganava. Conhecia bem o mundo, as coisas e os homens.

Mas o que a Gertrudes tinha dito era esquisito como uma mentira. Joana ficou

calada a cismar no meio da cozinha.

De repente abriu-se a porta e apareceu uma criada que disse:

Já chegaram os primos. Então Joana foi ter com os primos.

Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram todos para a mesa.

Tinha começado a festa do Natal. Havia no ar um cheiro de canela

e de pinheiro.

Em cima da mesa tudo brilhava:

as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas doiradas.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

E as pessoas riam e diziam umas as

outras: «Bom Natal». Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa.

E vendo tudo isto Joana pensava:

Gertrudes se

enganou. 0 Natal é uma festa para toda a gente. Amanhã o Manuel vai-me contar tudo.

Com certeza que ele também tem presentes.

Com

certeza

que

a

E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão alegre como antes.

0 jantar do Natal era igual ao de todos os anos. Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananazes.

depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananazes. A Noite de Natal -

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananazes. A Noite de Natal -
depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananazes. A Noite de Natal -
A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen No fim do jantar levantaram-se

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a porta e entraram na sala.

As luzes eléctricas estavam apagadas. Só ardiam as velas do pinheiro.

Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore do Natal.

Mas era sempre como se fosse a primeira vez.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que

pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho de

uma estrela se tivesse aproximado da Terra. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.

de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

E no presépio as figuras de barro,

o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida.

Era uma conversa que se via e não se ouvia.

pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via

47

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Joana olhava, olhava, olhava. As vezes lembrava-se do seu amigo Manuel. Um dos primos puxou-a por um braço:

Joana, ali estão os teus presentes. Joana abriu um por um os embrulhos e as caixas: a boneca, a bola, os livros cheios de

desenhos a cores, a caixa de tintas.

À sua volta todos riam e conversavam. Todos mostravam uns aos outros os presentes que tinham tido, falando ao mesmo tempo.

E Joana pensava: «Talvez o Manuel tenha tido

urn automóvel.»

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

E a festa do Natal continuava. As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e

nos sofás a conversar e as crianças sentaram-se no

chão a brincar. Até que alguém disse:

São onze horas e meia. São quase horas da

missa. E são horas de as crianças se irem deitar.

Então as pessoas começaram a sair.

0 pai e a mãe de Joana também saíram.

Boa noite, minha querida. Bom Natal disseram eles. E a porta fechou-se.

Daí a um instante saíram as criadas.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

A casa ficou muito silenciosa. Tinham ido todos

para a Missa do Galo, menos a velha Gertrudes, que

estava na cozinha a arrumar as panelas.

E Joana foi à cozinha. Era a altura boa para falar com a Gertrudes.

Bom Natal, Gertrudes disse Joana.

Bom Natal respondeu a Gertrudes.

Joana calou-se um momento. Depois perguntou:

Gertrudes, aquilo que disseste antes do jantar é verdade?

O que é que eu disse?

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Disseste que o Manuel não ia ter presentes

de Natal porque os pobres não têm presentes.

digo

fantasias: não teve presentes, nem árvore de

Natal, nem peru recheado, nem rabanadas. Os

pobres são os pobres. Têm a pobreza. Mas então o Natal dele como foi?

Está

claro

é verdade. Eu

que

não

Foi como nos outros dias.

E como é nos outros dias?

Uma sopa e um bocado de pão.

Gertrudes, isso é verdade?

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite. Boa noite disse Joana. E saiu da cozinha.

Subiu a escada e foi para o seu quarto.

Os seus presentes de Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os um por um. E pensava:

«Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas

e livros. São tal e qual os presentes que eu

queria. Deram-me tudo o que queria. Mas ao Manuel ninguém deu nada.»

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

dos

presentes, Joana pôs-se a imaginar o frio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se a imaginar a Noite de Natal naquela casa que não era bem uma casa, mas um curral de animais.

E sentada

na beira

da cama,

ao

lado

«Que frio lá deve estar!», pensava ela.

«Que escuro lá deve estar!», pensava ela. «Que triste lá deve estar!», pensava. E começou a imaginar o curral gelado e sem

nenhuma luz onde Manuel dormia em cima das

palhas, aquecido só pelo bafo de uma vaca e de um burro.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Amanhã vou-lhe dar os meus presentes disse ela. Depois suspirou e pensou:

«Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que e a Noite de Natal.»

à janela, abriu as portadas e através dos

vidros espreitou a rua. Ninguém passava. 0

Manuel estava a dormir. Só viria na manhã

seguinte. Ao longe via-se uma grande sombra

escura: era o pinhal.

Foi

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen 55

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Então ouviu, vindas da torre da Igreja, fortes e claras, as doze pancadas da meia-noite. «Hoje», pensou Joana, «tenho de ir hoje. Tenho de ir lá agora, esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite de Natal.»

Foi ao armário, tirou um casaco e vestiu-o.

Depois pegou na bola, na caixa de tintas e nos livros. Apetecia-lhe levar também a boneca, mas ele era um rapaz e com certeza não gostava de bonecas.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Pé ante pé Joana desceu a escada. Os degraus estalaram um por um. Mas na cozinha

a Gertrudes fazia muito barulho a arrumar as

panelas e não a ouviu.

Na sala de jantar havia uma porta que dava para o jardim. Joana abriu-a e saiu, deixando-

a ficar só fechada no trinco.

Depois atravessou o jardim. 0 Alex e a C hiribita ladraram. Sou eu, sou eu disse Joana. E os cães, ouvindo a sua voz, calaram-se. Então Joana abriu a porta do jardim e saiu.

A NOITE DE NATAL

O AMIGO

A FESTA

A ESTRELA

Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando se viu sozinha no meio da rua teve vontade de voltar para trás.

As árvores pareciam enormes e os

seus ramos sem folhas enchiam o

céu de desenhos iguais a pássaros

fantásticos.

E a rua parecia viva.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Estava tudo deserto. Àquela hora não passava ninguém. Estava toda a gente na Missa do Galo. As casas, dentro dos seus jardins, tinham as portas e as janelas fechadas. Não se viam pessoas, só se viam coisas. Mas Joana tinha a impressão de que as coisas a olhavam e a ouviam como pessoas.

«Tenho medo», pensou ela. Mas resolveu caminhar

para a frente sem olhar para nada.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando chegou ao fim da rua virou à direita e meteu

a um atalho entre dois muros. E no fim do atalho encontrou os campos, planos e desertos.

Ali, sem muros nem árvores nem casas, a noite via-se melhor. Uma noite altíssima e redonda e toda brilhante.

0 silêncio era tão forte que parecia cantar.

a noite via-se melhor. Uma noite altíssima e redonda e toda brilhante. 0 silêncio era tão

61

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Muito ao longe via-se a massa escura dos pinhais.

«Será possível que eu chegue até lá?», pensou Joana. Mas continuou a caminhar.

Os seus pés enterravam-se nas ervas geladas. Ali no

descampado soprava um curto vento de neve que lhe cortava a cara como uma faca.

«Tenho

frio»,

caminhar.

pensou

Joana.

Mas

continuou

a

À medida que se ia aproximando dele, o pinhal ia- se tornando maior. Até que ficou enorme.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Composição: Manuela DL Ramos
Composição: Manuela DL Ramos

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Joana parou um instante no meio dos campo. «Para que lado ficará a cabana?», pensou ela.

E olhava em todas as direcções à procura de um

rasto. Mas à sua direita não havia rasto, à sua esquerda não havia rasto e à sua frente não havia rasto.

«Como é que hei-de encontrar o caminho?», perguntava ela. E levantou a cabeça.

A Noite de Natal-

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Noite de Natal- Sophia de Mello Breyner Andresen Então viu que no céu, lentamente, uma

Então viu que no céu,

lentamente, uma estrela caminhava. «Esta estrela parece um amigo», pensou ela. E começou a seguir a estrela.

Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Até que penetrou no pinhal. Então num instante as sombras fizeram uma roda a sua
Até que penetrou no
pinhal. Então num
instante as sombras
fizeram uma roda a sua
volta.
Eram enormes, verdes,
roxas, pretas e azuis, e
dançavam com grandes
gestos.

66

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia: Manuela DL Ramos
Fotografia: Manuela DL Ramos

E a brisa passava

entre as agulhas dos pinheiros,

que pareciam murmurar frases incompreensíveis. E vendo-se assim rodeada de vozes e

de sombras Joana teve medo e quis fugir.

composição: Manuela DL Ramos
composição: Manuela DL Ramos

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Mas viu que no céu, muito alto,

para além de todas as sombras, a

estrela continuava a caminhar.

E seguiu a estrela.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Já no meio do pinhal pareceu-lhe ouvir passos. «Será um lobo?», pensou. Parou a escutar. 0 barulho dos passos aproximava- se. Até que viu surgir entre os pinheiros um vulto muito alto que vinha caminhando ao seu encontro.

«Será um ladrão?», pensou.

Mas o vulto parou na sua frente e ela viu que era um rei. Tinha na cabeça uma coroa de oiro e dos seus ombros caía um longo manto azul todo bordado de diamantes.

70

Boa noite disse Joana.

Boa noite disse o rei Como te

chamas?

Eu, Joana disse ela.

Eu chamo-me Melchior disse o rei. E perguntou:

Onde vais sozinha a esta hora da

noite?

Vou com a estrela disse ela.

Também eu disse o rei, também eu vou com a estrela.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

— Também eu — disse o rei, também eu vou com a estrela. A Noite de

E juntos seguiram através do pinhal.

E de novo Joana ouviu passos.

E um vulto surgiu entre as

sombras da noite.

Tinha na cabeça uma coroa de brilhantes e dos seus ombros caía um grande manto vermelho

coberto de muitas esmeraldas e

safiras.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

um grande manto vermelho coberto de muitas esmeraldas e safiras. A Noite de Natal - Sophia

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Boa noite disse ela . Chamo-me Joana e vou com a estrela. Também eu disse o rei , também eu vou com a estrela e o meu nome é Gaspar.

E seguiram juntos através dos pinhais.

E mais uma vez Joana ouviu um barulho de passos e um terceiro vulto surgiu entre as sombras azuis e os pinheiros escuros.

Tinha na cabeça um turbante branco e dos seus ombros caía um longo manto verde bordado de pérolas. A sua cara era preta.

Boa noite disse ela. 0 meu nome é Joana. E vamos com a estrela. Também eu disse o rei caminho com a estrela e o meu nome é Baltasar.

E juntos seguiram os quatro através da noite.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

nome é Baltasar . E juntos seguiram os quatro através da noite. A Noite de Natal

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen 75

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen Já quase no fundo dos pinhais

Já quase no fundo dos pinhais viram ao longe uma claridade E sobre essa claridade a estrela parou. E continuaram a caminhar.

Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana viu um casebre sem

porta.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen Mas não viu escuridão, nem

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Mas não viu escuridão, nem sombra,

nem tristeza. Pois o casebre estava cheio de claridade, porque o brilho dos anjos o iluminava.

E Joana viu o seu amigo Manuel.

Estava deitado nas palhas entre a vaca e o burro e dormia sorrindo.

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

Em sua roda, ajoelhados no ar, estavam os anjos. 0

seu corpo não tinha nenhum peso e era feito de luz sem nenhuma sombra.

E com as mãos postas os anjos rezavam ajoelhados no ar. Era assim, à luz dos anjos, o Natal de Manuel. Ah disse Joana -, aqui é como no presépio!

aqui é como no

Sim presépio.

disse

o rei

Baltasar ,

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen Então Joana ajoelhou-se e poisou no

Então Joana ajoelhou-se e poisou no chão os seus presentes.

FIM

A Noite de Natal - Sophia de Mello Breyner Andresen

A NOITE DE NATAL

Sophia de Mello Breyner Andresen

Andresen A NOITE DE NATAL Sophia de Mello Breyner Andresen Nesta versão incluíram-se, para além de
Andresen A NOITE DE NATAL Sophia de Mello Breyner Andresen Nesta versão incluíram-se, para além de

Nesta versão incluíram-se, para além de ilustrações de Júlio Resende da edição de 1989,

a imagem da árvore de Natal da autoria de Maria Keil, ilustradora da 1ª edição (1959), e

fotografias do Jardim Botânico do Porto sediado na antiga Quinta do Campo Alegre que

pertenceu ao tio de Sophia Mello Breyner Andresen e onde a autora brincou em criança.

Fotografias e composição:

Manuela DL Ramos, Outubro 2010

Interessi correlati