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MARIA LIONCA ESCREVER DIREITO PELAS LINHAS TORTAS DA VIDA (uma abordagem didactica)* A. AUGUSTO FERNANDES -a' ndo 6 apenas uma pega literdria herdada de um dos maiores criadores literdrios do nosso século. Este pequeno conto, dotado da simplicidade que caracteriza as grandes obras de arte, esconde dentro de si, inteiro na sua grandeza de homem, Aspero e duro como os que antigamente se diziam de “antes quebrar que torcer', aquele que para si escolheu nome atrancado & montanha maninha torga, Quereriamos que a sua abordagem nio fosse pretexto para mero estendal de termos técnicos ou estruturas da morfologia do conto, mas sobretudo ponto de partida para, embora amparados pelas estruturas, reflectirmos um pouco sobre a condigo humana e nos entregarmos ao prazer do texto, nfo v4 a complexidade das estruturas desfocar a itidez de uma mensa vida em centrada sobre uma filosofia pragmética da Globalmente, a narr percurso da sua existénc psiquismo, talhado nc autor, iva esboga um perfil, tao singelo no como complexo nos meandros do seu spero granito da montanha, como o do préprio Galafura, vista da terra cha, parece 0 t pelo tempo, mas de sélido granito’ 10 mundo. Um talefe encardido Assim comega esta pequena obra-prima: Dizer que 0 incipit do conto é constituido por uma catilise de carécter espacial seria empobrecer essas linhas. Mais importante sera, * Texto refundido a partir de uma comunicagio apresentada nas VI Jornadas de Formagdo de Professores (UCP/Viseu, 20 e 21 de Abril/95) e publicado na revista Mathesis 6 (1997), 319-332 in Contos da Montanha, S*edigio, Coimbra, 1976. 168 A. AUGU TO FERNANDES. sem diivida, sublinhar que ele contém em si, 4 maneira da abertura da Opera, 0 germe dos temas a desenvolver. De facto, esboca a tracos largos a fisionomia de um espago — Galafura — 0 cendrio onde ir decorrer 0 enredo. Mas importa sobretudo considerar a perspectiva sob a qual tal espago nos € descrito: — primeiramente, a aldeia surge num plano de profundidade obtido em contraplongé — “vista da terra cha parece o talefe do mundo”: langada para os altos, marca a distincia que a separa das chas coisas féceis do homem da planicie, com todas as conotagies de elevagio, de pureza e até da sacralidade herdada dos remotos antepassados que aos deuses consagravam os cumes dos montes, ainda hoje, por todo o norte de Portugal, pontilhados dos flocos nevados das ermidas. E essas conotagdes permanecem habituais a0 longo da obra de Miguel Torga, A dimenséo sacral subjacente ao seu isolamento espacial é reforgada pela exigé icio inerente A caminhada para se alcangar a aldeia — “duas horas de peniténcia” Embora de ressonancias biblicas, em Miguel Torga esta dimensio penitencial da caminhada é de uma sacralidade leiga, ou talvez druidica, no baseada no transcendent, mas insita no Amago das coisas, intrinsec cia do sac aos proprios elementos cosmogénicos: 0 ar — “o céu a servir-lhe de telhado"(1. 4 ); a 4gua — a fonte /* 0 Varosa que corre ao fundo, no abismo” (I. 5); ¢ sobretudo a terra, representada pela fraga e, mais globalmente, pela montanha. Através de um zoom, a narrativa aproxima-nos da aldeia, delineada muito esquematicamente na essencialidade e despojamento de uma qualquer aldeia transmontana Lé, € uma rua comprida, de casas com craveiros & jane menos alegres, o largo, 0 cruzeiro, a igreja e uma fia. Montana”. (J, 11-15) , duas quelhas mite a jorrar Agua muito Aqui est4 a palavra magica: como sintese basica do elemento terra, ela surge tirgida de muitos sentidos, enchendo todo um periodo sem verbo, sem adjectivos, solitaria na sua imponéncia espacial, como © enorme ventre gravido da terra-mae — MONTANHA (I. 14): E no so fortuitas estas sugestes matriciais, porquanto esta descrigdo traz uma intengao muito explicita, como no-lo indicia o seu remate, um curtissimo perfodo condensado numa frase simples e, ESCREVER DIREITO PELAS LINHAS TORTAS DA VIDA 169 além de simples, eliptica e metaforica: “O bereo digno da Maria Lionga” (I. 14) Esti langado o primeiro tramo temético do conto, crucial para a compreensio da seméntica da narrativa: esta simbiose plena, placentéria, entre a personagem ora introduzida que da nome 20 conto © a terra em que ela afunda as suas raizes; € a enunciagdo de um dos temas mais caros a Miguel Torga e mais representativos na sua obra, aquilo que escolarmente se vem chamando de telurismo torguiano A breve catilise que se segue, umas escassas doze linhas, reforga essa simbiose ao fazer sucinta apresentaco da protagonista paralela a apresentagao ja feita da aldeia. Se simples e despojada de bens é Galafura, assim o € Maria Lionga: /.../“e nem ler sabia! Bens —- og seus dons naturais. Mais nada. Nasceu pobre, viveu pobre, morea pobre” (I. 20). A pequena frase trimembre, secamente assindética, com o seu ritmo iterativo por forga da isomettia e quase isofonia (s6 varia a primeira silaba — Nas-cew po-bre / vi-veu po-bre | mor-reu po-bre) indicia no estrato fénico um outro subtema, o da regularidade compassada de uma vida cuja descricao ora se inicia. Aquela sacralidade que, jé vimos, aureolava 0 picoto de Galafura, himba também Maria Lionga, mas de uma forma mais intensa ainda’ jeligiosa mesmo, expressa por uma comparacao: “Fala-se nela e paira logo no ar um respeito silencioso, uma emocio contida, como quando se ouve tocar a Senhor fora” (1. 16). Para aquilatarmos da intensidade desta religiosidade gerada pela simples evocagdo do seu nome ¢, de algum modo, captarmos as Conotagdes que se evolam da comparacio utilizada, “como quando se ouve tocar a Senhor fora”, necess4rio tornaria ter vivido essa velha Pratica da religiosidade rural jé esquecida, verdadeiro ritual de Passagem ¢ pacificacao: do alto do campanirio os sinos langam o apelo plangente porque o Cristo abandona momentaneamente o altar No seu templo para, nas maos do prior, ir ao encontro das misérias dos mortais € ajudar alguma alma a passar as alpoldras para 0 Além, Pelas tuelas da aldeia ou pelos carreiros que levam as quintas vai-se arrastando negra procissao de amargura e siléncio, atrés da umbrela fue abriga esse Cristo tornado viator — 0 viético. E quem anda por Tonge, nas fainas agricolas, esquece por instantes a terra que o upa Para se associar ao transe apertado daquele irm&o que luta com a morte ¢ apelar A benevoléncia daquele Deus bom que a todos acode na 170 A. AUGUSTO FERNANDES sua necessidade. E 0 drama da morte esbatia-se: no era aquele acto terrivelmente solitério e anénimo das enfermarias; — vivéncia comunitéria sacralizada pela presenga do Além experimentada pela comunidade rural de antanho numa indefinivel mistura de susto espanto, de tristeza e esperanga E, portanto num contexto assente sobre os tramos desses dois campos semanticos antinmicos, o da riqueza sacral e o da pobreza de bens, que se tece “a riqueza duma existéncia que ia ser a legenda de Galafura” (1. 27). A metéfora da legenda, langada como um enigma que o posterior desenrolar da intriga ir gradualmente desvendando, em correlagdo com a ja aludida metéfora do berco balizam uma intima conexio de ciprocidade entre as duas personagens, Galafura e Maria Lionga, aquela servindo de ber¢o a Maria Lionga, esta servindo de legenda a Galafura. Todo o desenrolar da narrativa mais no sera que o explicitar desta profunda relagao de reciprocidade. Embora linear na sua simplicidade de conto, a narrativa nao deixa de langar uma certa perplexidade no leitor pela presenga de dois conjuntos antitéticos de indicios, os disforicos, de pobreza, de despojamento, e os euféricos, de sacralidade. E € este contexto de contradi¢ao que precede a primeira fungao cardinal da narrativa que nos fala exactamente de morte, da morte de Maria Lionga: “Quando Deus a levou, num Margo que se esforcava por dar remate prazenteiro a trés meses de invernia sem paralelo na lembranga dos velhos, Galafura nao quis acreditar” (1. 29). Interrompamos momentaneamente o discretear sobre 0 texto para observarmos como ele se poderia representar esquematicamente:? Para uma mais fécil leitura dos esquemas, importa consi inte: — as figuras rectangulares representariam as catdlises que, como vemos, $30 extremamente escassas neste e no conto em geral; —as figuras elipticas representam os momentos de progressto da intriga; —e a amplitude do eixo vertical de cada figura tem um tamanho proporcional & extensio textual de cada catélise ou sequéncia representada, Temos assim uma representacao global da estrutura do conto: uma catdlise inicial, seguida de quatro quéncias de peso desigual, ESCREVER DIREITO PELAS LINHAS TORTAS DA VIDA estrutura narrativa t6picos de leitura ate nici ulcers SERIO Y wean i pe Peron ¥ lagen ds aes 2 subsea do tem Le essen ‘dveufemismo depo ae ~ personage laa con 2) pe persnagcn enletiv od at es ea gerd de Calta on Buenina € moc mulher ‘casamento fe Learns Riso — dessa scien Peds 1 deorpo ke iis pst thio da yetese da GENDA sas da \, - msi reaocia cds perturba cs forge : interes partida ¥ efogchs staguceaze M, Longe fF tasweapa Rao age pao Bs Gels amas recsters 0 deste, has fp stundanand w nero file rerdcte ara copa peranece ¥ weego do supe ml deM Le pelo int de ns partisans Manca: Lowes prmundis i deste Jade 1s vie fomgea $s oxo egresso NEE “pens miner alts pertrbounem delve 0 ‘A. AUGUSTO FERNANDES ta desludese sn ape: do a deere aac do hoe egos pi opie prs ata ea ela cei ead LEGENDA stand dt mess remincia Goh input re mann Teper brad Niicleos teméticos | **Uma outra apresentagao do telurismo torg) simbélico da serra, da casa, da fonte. 3no. — atear no significad “*Proposta de valores humanos capazes de dar sentido a vida e & relagao | com a comunidade (construgo para a cidadania) da vida como forma «| Por questdes pedagégicas, nfo nos inibimos de incluir no texto Estas representages esquematicas por entendermos que uma das grandes necessidades (20 encontro da qual, em parte, vieram os estruturalismos) do ensino de hoje € a de ajudar os alunos a arrumarem os conhecimentos que permanentemente os submerge. Para tanto nao hesitamos em recuperar a velha receita da divisio do texto em partes, a cada uma dando seu titulo, procurando embora conferir-Ihe um outro grau de objectividade ¢ rentabilidade baseadas em dois critérios: o de presenga/auséncia ou modificagao das proprias categorias da narrativa € 0 da identificagio dos nexos légico- semanticos que o texto institui entre essas partes ou momentos. Ora, observando o esquema, uma primeira questo se nos poe, dado que a narrativa opera uma inversio sobre 0 tempo da histéria: qual 0 significado de a narrativa comegar exactamente pelo final da intriga —a morte da protagonista? ESCREVER DIREITO PELAS LINHAS TORTAS DA VIDA 173 Muito sintomaticamente, a heroina foi i comparagiio, marcada pela presenga de thénato. tocar a Senhor fora". Situa-se, portanto, no inter que a natragao da sua vida é agora introduzida pelo episédio da sua morte, querendo significar que a morte tem um efeito epifanico, um Poder iluminante sobre o que deixou para trés e se chamou vide. Ou Sela, €& luz da morte que deve ser lida a legenda aludida no incipit, ¢ cuja esséncia € constituida pelos acontecimentos de que se tecera 4 vida de Maria Lionga. Reflectindo um pouco sobre esta metéfora fuleral, supomos que 0 sentido do termo legenda deverd ser encontrado a meio do percurso entre © Glimo latino “legenda” que, enquanto gerundivo de legere, significa aquilo que deve, que tem de ser lido, e a actual palavia cognata — lenda — algo situado entre a realidade e a ficgao. Assim, Maria Lionga seria, enquanto legenda, aquela realidade Que deveria ser lida para inteiro entendimento de Galafura na sua gsséncia, nao apenas de espago, mas de aldeia personificada, com biografia prépria porque auténtica personagem colectiva Entendida como lenda, a metéfora remete-nos para aquele resquicio de realidade historica que, uma vez depurada e transfigurada cla meméria colectiva, ¢ permanece como ponto de referencia ético Para 0s comportamentos da comunidade, heranca feita pela cultura comunittia que cada geracdo transmite oralmente & geragio seguinte. introduzida por aquela s — "como quem ouve rior da légica instituida Olhada a partir do seu terminus, a vida tem um outro sentido, um significado novo ¢ pleno traduzido pela expressiio que fecha esta Primeira sequéncia — “o sol de Galafura” — metaforizagao do quarto clemento cosmogénico que nos faltava ainda, 0 fogo enquanto principio vital. Do ponto de vista formal, talvez no deixe de ter interesse observar que toda esta primeira sequéncia esté contida num tinico Pardgrafo como que sugerindo a sua unicidade intrinsec: caracter inconsitil. © seu Galafura € investida, ja 0 dissemos, do estatuto de personagem colectiva que, a partir deste momento, vai sendo progressivamente humanizada, na sua grande alma plural, através de gestos ¢ sentimentos to humanos como os expressos pelas acgde acreditar, esperar, perdoar e acompanharé os passos da cruz da vida de Maria Lionga em permanente contraponto. A. AUGUSTO FERNANDES Embora a formulagdo eufemistica da morte — “quando Deus a levou” — tenda a desdramatizar 0 acto do tespasse, Galafura nio quer acreditar e manifesta a sua dor e incredulidade pelas express6es aténitas do prior e da Joana R6. $6 0 Dr. Gil, enquanto elemento estranho @ comunidade, se mantém impassivel. E 0 espanto dolorido de Galafura, perante a morte de quem julgara eterna, € hiperbolicamente expresso através. de uma comparagiio de raiz, mais uma vez, profundamente telirica: “Foi como se um vedor afirmasse que a fonte da Corredoura ia secar. Sabia-se de sobejo que a fonte da Corredoura era eterna, por ser um olho marinho”(|. 54). O grande pasmo perante 0 mistério da morte e a experimentagao da efemeridade do que se cria eterno. Esta exigéncia de eternidade que, desde os seus primérdios, a humanidade requer para os seus mortos e que a comunidade de Galafura deseja para Maria Lionga é expressa pela comparaco com a fonte, metéfora natural da permanéncia, da gratuitidade e da transparéncia, e esté na génese da lenda, forma transferida de permanéncia, de sobrevivéncia na meméria colectiva. Com a morte excresce na alma humana a petitio aeternitatis que tem a sua forma de expresso plastica no mito. Mas a natureza, porque é natural € medos a nfo perturbam, € que aceita as coisas com uma outra naturalidade, passe a redundancia, como se conhecesse, em seu saber cOsmico, 0 verdadeiro sentido dos acontecimentos. Essa natureza personificando a participago do cosmos omnimodo nessa morte, euforiza o entero, como se de uma “romagem” se tratasse, com “o ar tépido da primavera” ¢ “a singeleza das flores silvestres”. E mais uma metéfora ¢ outa comparacao sublinham o cardcter no jé apenas sacral, mas marcadamente litiirgico do fechamento da sequéncia:/.../“pareceu a todos uma romagem yoluntéria e simples ao cemitério, onde deixavam como uma Salve-rainha pela alma dos defuntos 0 corpo de Maria Lionga” (1. 67) Globalmente tomada, toda esta sequéncia da morte mais nao é, portanto, que a sagracao do mito de Maria Lionca e a clarificagao de uma existéncia que, s6 agora, olhada no seu todo do limiar do Além, assume um significado coerente. A sequéncia seguinte, a que poderiamos chamar de menina e ‘moga, por representar a sua vida de solteira, desenha um perfil cujos tragos, apontados mediante uma caracterizagao alternadamente directa indirecta, parecem reforgar a positividade dos indicios produzidos ESCREVER DIREITO PELAS LINHAS TORTAS DA VIDA 175 na catdlise inicial, deixando-nos prever que a construgdo da legenda de Galafura se ird realizar por tilhos de luminosa felicidade. Um deus slorioso parece afastar dela todas as maleitas e enxovalhos a que qualquer crianga pobre de uma aldeia pobre de Tris-os-Montes cet necessariamente sujeita: Qualquer coisa de singular a preservava do monco das constipagbes, dos remendos mal pregados, das nédoas de mosto nas trasfegas” (I 78} t€ @ uma iniciago nos mistérios da sexualidade feita segundo | a bruteza dos instintos, ela & poupada. A sua beleza quase imaterial se, | Pore ado. atrai os olhares perplexos dos rapazes, defende-a, por outro, de qualquer pensamento menos limpo: “Olhavam-na numa | espécie de enlevo, como a um fruto dum ramo cimeiro que a natures quisesse amadurecer plenamente, sem pedrado, num sitio alto onde « um desejo arrojado e limpo o fosse colher” (1. 91). Mais uma vex a imagem utilizada se mantém fiel A isotopia da terra ¢ daquilo que da terra brota. Essa comparacao com um fruto dum ramo cimeiro sugere uma situaco de superioridade moral, bem acima Gas misérias do quotidiano mesquinho da aldeia. E, nesta progressio de ideias, é com naturalidade que os anseios morais da personagem colectiva, porque colectivamente inealizaveis, surgem projectados sobre a personagem individual: “Embora igual as outras /\-/ havia a gua volta um halo de pureza que simbolizava a propria pureza de Galafura. Na pessoa de Maria Lionga convergiam todas as virtudes ds povoagio"(1. 95), | A introdugdo de uma nova personagem — 0 Lourengo Ruivo acabadinho de chegar da tropa, com as unhas limpas da tetra des cavas — da infcio a terceira sequéncia — Maria Lionga mulher, a mais longa, como o esquema permite de imediato observar porque mais significativa. Na sequéncia légica das sugestes langadas pelos indicios disseminados ao longo das sequéncias anteriores, o leitor ndo hesitard em ver no Ruivo o previsto principe encantado que, como ¢ de lei nos Contos populares em cujo contexto nos sentimos inseridos, embalados RAKE © real vivido e © maravilhoso sonhado, consigo trard a almejada Felicidade © aquele consabido “viveram felizes para sempre”, desenlace que deleitava a nossa imaginagao infantil. Porque a tanta beleza e bondade assim reunidas outro destino ndo pode competit nossa expectativa associa-se a de Galafura: “E Galafura, depois do 176 A. AUGUSTO FERNANDES arroz doce, pés-se confiada a espera da felicidade futura do c: 105). Mas o narrador, com a omnisciéncia que o caracteriza, no deixa gue tal ilusdo perdure e langa o primeiro aviso através de um indicio disférico que depressa descai em prolepse de mau pressdgio: “S6 0 destino, fiel as misérias do mundo, sabia que fora reservado & Maria Lionga um papel mais significativo: ser ali a expresso humana dum sofrimento levado aos confins do possivel"(. 109). De passagem, ¢ j& que falamos da omnisciéncia do narrador, cumpre-nos informar que, na realidade, ele no € to omnisciente como parece a primeira vista. Se, por um lado, revela uma omnisciéncia declarada no que conceme a dimensdo temporal da narrativa, revelada através de prolepses ¢ de imimeros indicios, parece retrair-se perante a protagonista: quando o discurso se tece em torno da sua figura, o narrador remete-se para uma prudente focalizagao interna suportada pela sempre atenta personagem colectiva de Galafura. B através do olhar de Galafura que nés a acompanhamos na implicidade do seu quotidiano: “velhos e novos acostumaram-se quele rosto mitido”, “dava mesmo gosto vé-la passar”; “ninguém lhe punha um dedo”; “Galaf confiadamente espera”; ‘Galafura saudava nela” Este tipo de focalizagdo permite ao narrador manter Maria Lionga permanega envolta na sua aura de mistério, e que todas as perspectivas se mantenham em aberto relativamente a prossecugiio da narrativa, 0 que jé nao seria tao credivel sob uma perspectiva omnisciente. Em resume, a intriga da terceira sequéncia, denegando os indicios euféricos até aqui produzidos, mostra-nos a vida de Maria Lionga decaindo no vulgar fadario de qualquer mulher de aldeia, casada nada feliz, por sinal. Trés subsequéncias, em gradac&o progressiva a0 nivel da mancha textual, escalonam esse movimento catabélico da intriga, como pode ver-se no esquema: primeira — 0 Ruivo, depois de ter gerado um filho, toma-se de covardia perante a desmesura das responsabilidades e a magreza das perspectivas oferecidas pela terra segunda — o Ruivo deserta para o Brasil, renegando a triplice fidelidade devida 4 mulher, ao filho e a terra; terceira — 0 Ruivo regressa para morrer. Maria Lionga viveré longamente a espera, primeiro, depois a solidéo a que sio votadas as vitivas de vivos, segundo a expresséo ESCREVER DIREITO PELAS LINHAS TORTAS DA VIDA 177 feliz de Joaquim Lagoeiro’ e, por fim, apenas a vida que tem ao seu alcance, pacificados j4 os seus alvorogos incumpridos. A monotonia que se instalou na sua caminhada existencial é pendularmente marcada pela pergunta ritual do padre, pela Péscoa, quando ela percorre o seu Calvario a caminho da loja da Putificacdo em demanda de noticias: — “Nada, Maria?”. — Nada.” E verdade que 0 Lourengo voltara; “de rosto esquelético ¢ cor de palha /.../ comido dos vicios do mundo”, totalmente outro, voltara para a mulher que ainda 0 acolhe e para Galafura que lhe perdoa a deser¢o, Mas voltara sobretudo ao encontro da terra-mae para que esta The acolha em seu seio os ossos descarnados. Uma versio macabra da parébola do filho prédigo Ao longo desta terceira sequéncia comega a operar-se a transfiguracao do perfil de Maria Lionga, talhado agora pela solidao ¢ Pela dor da “separaedo expiatoria”. Em vez da decadéncia esperada, ela emerge da platitude da aldeia para se elevar a altura de um paradigma perante o olhar aténito de Galafura. “Sem renincia ou revolta na voz” (I. 151), mantinha aquela contengZo de quem, operando, opera no campo da propria consciéncia e para contas que sao apenas suas. Nessa solidao a forga vem-Ihe do intimo purificado pela luta, sem qualquer socorro exterior, chame-se religiio ou amizade e € por essa intima dinémica que se agiganta. Um campo semantico se tomou, entretanto, avassalador — 0 da fidelidade que, até certo ponto, se identifica com o da permanéncia: fidelidade a0 marido ausente, fidelidade aos deveres de mae e de dona de casa, fidelidade a terra e, sobretudo, fidelidade a si propria. Ha nesta imutabilidade e apagamento uma grandiosidade que lhe permite encarar os acontecimentos como se estes ndo tivessem direct amente a ver com ela. Com a serenidade com que recebe um marido infiel que volta para morrer, com essa mesma o enterra e recomeca a pagar outras contas, as da doenca e do enterto. E a sequéncia encerra-se com uma expresso metaférica que exprime aquela contengdo lendaria que estamos habituados a ouvir como propria dos velhos sages do estoicismo helénico: “A trovoada no perturbou nem ao de leve o ritmo dos seus passos” (1. 211) “O filho, 0 Pedro, é que nao resistiu ao desencanto” (1. 213) — assim comeca a quarta e dltima sequéncia. Sob o efeito desse * Jonquim Lagoeiro, Viivas de Vivos, Editor al Minerva, Lisboa, 1973, 178 A. AUGUSTO FERNANDES. desencanto, Pedro inicia um ciclo existencial que repete os passos do pai: a desergdo, a morte e o acolhimento final, Maria permanece. E na consciéncia colectiva de Galafura o seu vulto agiganta-se mais ainda, nela saudando “uma permanéncia que resgatava a traigao do marido e a fraqueza do filho” alando da permanéncia e até de uma espécie de imutabilidade de Maria Lionga perante tudo 0 mais que passa, facil se torna a tentagao de a classificar como personagem plana, dado que, em contexto escolar, frequentemente se apresenta como sua caracteristica basica 0 manter-se inalterdvel ao longo de toda a narrativa. Ora, em nosso entender a personagem de Maria Lionga é profundamente modelada, atendendo sua densidade psicolégica, A sua riqueza interior e, acima de tudo, a unicidade individualizada do seu agir Nao podemos deixar de notar ainda que, 2 medida que a narrativa avanga, a caracterizagao da personagem vai-se torando quase exclusivamente indirecta, ou seja, processada através de accdes e comportamentos. Este pormenor nfo é despiciendo, porque ao desvalorizar 0 visivel, objecto da caracterizagao directa, 20 desvalorizar-se 0 parecer em favor do ser, esté-se a reforcar 0 tépico da exemplaridade que brota da maneira de estar no mundo ¢ na vida E pelo agir que se constréi a legenda. Alias, contrapondo o poder da acciio ao da palavra como formas possiveis de exemplaridade, seria curioso verificar a desvalorizacao da palavra em favor da accao, dado que ao longo de toda a narrativa Maria Lionga nao profere mais que trés brevissimas réplicas, catorze palavras ao todo, tantas quantas as estagdes da Via-Sacra. Coincidéncia talvez, quanto 20 ntimero, mas no quanto ao significado dessa escassez, sobretudo num pais palreiro a sul como € este nosso onde, da religido a politica, a exuberancia verbal sobrepuja de longe a coneretez das acces... A expresso desta permanéncia € confiada a uma dupla comparagao também ela enraizada no perimetro experiencial das gentes de Galafura e no campo seméntico da terra, imutavel ponto de referéncia: “Como a mimosa familiar do adro, ou a fonte incansdvel do largo, assim a viam, segura e repousante no seu posto e capaz de todos os herofsmos de um ser humano” (1. 227) E quando o final desta sequéncia nos mostra aquela mulher que consumira os anos da existéncia no seu posto, fiel a um dever aceite sem escolha, agora com 0 filho morto nos bragos, a sua grandeza tragica de mulher s6 evoca em nés aquela outra mulher de filho morto ESCREVER DIREITO PELAS LINHAS TORTAS DA VIDA 179 hos bragos Pieta. ue 08 artistas de todos os tempos vém designando por A sequéncia «Mulher» e a sequéncia «M: Hn 8 visivelmente paralela: os mesmos passos dados por pai e Filho, © mesmo regresso para o repouso final no regaco da Terra, regaino ,acolhimento da parte daquela que simboliza a propria Permanéncia, aureolada pela dimens4o trigica da imutabilidade, do espaco E 0 conto fecha precisamente com o retorno ao tema inicial do Paralelo entre Maria Lionga e a terra que a vira nascer —- 0 grande leit-motif da natrativa. Nzo apenas como Galafura, mas como Terra- inde, um dos arquétipos fundamentais na idiossincrasia Torguiana, E, com efeito, de reter © paralelismo entre Terra e Mie — ambac Fecundas, ambas fiéveis na reprodugio dos ciclos vitals, ambas acolhedoras, no transito final, de desertores e transfugas. E Galafure retine ambas em si: a Terra ¢ a Mae. Vale a pena ler esse final »> tém uma construgdo @ pouco, no macho do Preguigas, o Pedro subia derradeiro sono em Galafi © regago eterno de sua mi serra para domnir 0 ura, que era ao mesmo tempo a terra onde nascera ¢ itando agora compreender 0 mistério de tanta forca interior esta pobre mulher nascida do povo, nada no conto nos permite, {do Vimos, encontrar-Ihe @ origem na religido ou em qualquer outra motivacao transcendente Entramos no tema do titanismo: d jessa intima adesio a terra ¢ aos seus valores Ihe vem a forga, te ma jé enunciado, como vimos, no uicipit € agora retomado no fechamento do conto. A sua vida parece alimentar-se dos pr6prios gestos do quotidiano sempre repetidcs mas semire com um sentido que the € dado pela sua radicagao no espago envolvente, a casa, a aldeia, os lameiros, a montanha, Por isso, nese momento, mais claramente vemos a sua morte como auténtico acto de Pacificagao suprema e de reinsereo numa globalidade plena, apenas momentaneamente perturbada pela breve crispagio dos - dois conturbados dias a que chamamos vida. Esta figura extraordindria de Maria Lionga deixa-nos um tanto Perplexos enquanto saida da pena de Miguel Torga, o angustiado, o ‘evoltado, 0 insubmisso. O criador da rebeldia do corvo Vicente, o desafiador, como Job, de um Deus, a quem grita nos seus verson “Agora somos dois obstinados, / mudos ¢ malogrados,/ Que apenas 180 ‘A, AUGUSTO FERNANDES véo a par na teimosia" *... esse mesmo da ser a esta mulher sada da pobreza do povo, alheia 4 cultura livresca ¢ as filosofias existenciais. Maria Lionga transfigura-se assim em simbolo da aceitagio ¢ da permanéncia, diriamos mais, da obstinag3o necessaria para, pedra a pedra, se construir a vida Estranhamente, consultando 0 seu sentido de parabola, a Ieitura do conto empurra-nos para consideragdes de talhe moralizante, como se saidas de uma das enciclicas do Papa Woitila. Nestes tempos, assentes na légica do hedonismo e da efemeridade, tio escassos de valores auténticos e fundamentantes de uma praxis valida, quando, para nés, professores-educadores, € cada vez mais urgente criar valores que tomem credivel o acto educativo, aparece um artista de envergadura mundial como Miguel Torga a propor para nossa meditagao valores aparentemente tio arcaicos e fridos como sejam a renincia, a fidelidade, a maternidade, a permanéncia no dever, a confianga no Homem. E o valor da Vida, valor maior em si mesma, ainda que despojada de todas as gratificagdes que a roda da Fortuna poderia trazer-nos... ¢ ndo quis! “Miguel Torga, Cémara Ardente, Coimbra, 1962.