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CAMPOS, A. P.; FELDMAN, S. A.; FRANCO, S. P.; NADER, M. B.; SILVA, G. V. (Org.) Anais eletrônicos do II congresso Internacional de História Ufes/Université de Paris-Est: cidade, cotidiano e poder. Vitória: GM Gráfica & Editora, 2009, p. 1-12.

QUANDO O CLAUSTRO CONQUISTOU A CIDADE: OS MONGES DE MOISSAC E A PRIMEIRA CRUZADA

Maria Cristina C. L.

Pereira 1

Mesmo sem deixar o claustro, os monges do mosteiro cluniacense de Moissac tiveram uma participação significativa na divulgação da idéia de Cruzada, contribuindo para a pregação do papa Urbano II – ele mesmo antigo monge de Cluny. Teria sido forjada no scriptorium daquele mosteiro do sudoeste da França a famosa carta do papa Sergius IV (1009-1012) que servira como uma das incentivadoras para a partida de exércitos para “libertar” Jerusalém, ao denunciar os abusos dos "impiis paganorum" no Santo Sepulcro. E além do texto do scriptorium, em um dos capitéis historiados do claustro encontramos uma referência à tomada da Cidade Santa: soldados com cruzes em frente aos muros de uma cidade designada como Jerusalém. Assim, neste trabalho buscaremos demonstrar como os monges, os oratores por excelência da sociedade medieval, não só usaram de suas armas espirituais para colaborar na libertação de Jerusalém, mas também de suas armas intelectuais: textuais e figurativas. É importante lembrar, inicialmente, que o papel de Cluny na preparação e no desenrolar da primeira Cruzada foi interpretado por historiadores da primeira metade do século XX de maneira bastante diametralmente oposta: havia aqueles, como Anouar Hatem (1932, p. 45), que afirmavam que os monges haviam tomado em armas para defender a Igreja, enquanto outros, como Étienne Delaruelle (1964, p. 115), sustentavam o total desinteresse dos monges por tudo o que dissesse respeito ao mundo fora do claustro. Mas essas posições foram revistas e relativizadas: de acordo com Cowdrey (1973, p. 300), os monges de Cluny tiveram uma participação ativa, mas só no domínio da religiosidade, promovendo a idéia de “guerra santa” através de suas devoções.

1 PPGA/UFES

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Nessas discussões, o mosteiro de Moissac é muitas vezes citado por causa da já

mencionada encíclica do papa Sergius IV 2 . No entanto, desde o século XIX, Julius von Pflugk-Harttung (1877, p. 390-396) já a denunciava como falsa. Os motivos para essa afirmação são muitos, desde a inconsistência cronológica e a abundância de anacronismos, a questões estilísticas e ao fato de que se trataria de um hapax entre os escritos desse papa. Isso não impediu, no entanto, que alguns historiadores fizessem uso desse documento tomando-o como legítimo. Esse foi o caso de Carl Erdmann (1977, p. 113- 117), que buscava encontrar as origens da idéia de Cruzada antes de Urbano II – e as teria encontrado na carta de Sergius, que para ele teria sido escrita cerca de 80 anos antes dos sermões do papa no concílio de Clermont, em novembro de 1095. Mas essa posição constituía uma exceção, sobretudo tendo em vista que desde 1950, Alexandre Gieysztor (1950, p. 11-12; 26), que havia comparado paleograficamente a encíclica a manuscritos provenientes de Moissac, demonstrara a grande similitude entre eles. E ele concluíra que a autoria da carta deveria ser atribuída ao scriptorium de Moissac, por encomenda do papa Urbano II, quando ele passara por aquele mosteiro, em maio de

1096.

A maioria dos historiadores mais recentes se mostram convencidos das hipóteses de Alexander Gieysztor (é o caso de Capelle, 1981, p. 83; Müssigbrod, 1988, p. 150; Piazzoni, 1992, p. 261; Schein, 1995, p. 124), embora persistam alguns questionamentos em relação ao verdadeiro papel desempenhado por Urbano II nessa falsificação e sua datação. Assim, o paleógrafo Jean Dufour (1972, p. 101-102) data a carta entre 1075 e 1080, ou 1088, o que eliminaria a participação direta de Urbano II, mas que faria de Moissac um dos principais centros de propaganda da Cruzada (Dufour, 1972, p. 9). De fato, como mostra Dufour, o latim utilizado não é o da corte papal, e sim o da França do sudoeste. Além disso, encontramos vários títulos na biblioteca de Moissac que mostravam o interesse daqueles monges por história, sobretudo romana – contradizendo a imagem angelical e afastada do século daqueles monges evocada por Delaruelle. Ademais, outras falsificações também foram encontradas no cartulário daquele mosteiro. No que diz respeito à data, como lembra Cowdrey (1970, p. 185), a

2 "Sciad igitur Christiana intentio, quia ego, si Domino placuerit, per memetipso cupio pergere ex marino litore et omnes Romanos seo Italie cum Tuscie uel qualicumque Christianus nobiscum uolunt pergere, ut gente Agarena, Domino auxiliante, cum omnes ostiliter desidero interficere et sanctum Redemptoris sepulchrum uolo restaurare incolomes". (Apud. Gieyzstor, 1950, p. 33).

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estadia do papa em Moissac foi curta, o que dificultaria a realização da falsificação durante esse período. A falsificação poderia, pois, ter sido feita antes, como parte das estratégias de reaproximação da comunidade com o papado, após o estremecimento das relações durante o abaciado de Hunaud, quando o mosteiro de Moissac havia anexado à força a catedral de Saint Sernin. Os cônegos da catedral haviam recorrido à autoridade de Roma para reverter a situação. O novo abade, Ansquitil, que assumira em 1085, buscara reverter essa situação e reatar os laços com o papa. Essa política mostrou-se bem sucedida, pois o papa acabou por se tornar um defensor daquele mosteiro, ordenando, por exemplo, aos bispos de Cahors, Toulouse, Agen e Lectoure que apoiassem a recuperação de várias igrejas usurpadas de Moissac. Além disso, ele consagrou a igreja do mosteiro – ainda inconclusa – e doou uma relíquia do Santo Lenho para o altar da santa cruz (Crozet, 1937, p. 58-59). Mas não se deve ver apenas um interesse material nessa aproximação com o papado, por mais importante que ele fosse. Os monges de Moissac muito provavelmente compartilhavam da visão de Urbano II a respeito da necessidade de um combate pela reconquista do Santo Sepulcro. A diferença estaria nos meios empregados, já que os

monges não iriam combater fisicamente 3 . Mas eles contribuíram a criar e a inspirar as condições ideais para aquela reconquista – como as que poderiam, por exemplo, ter influenciado o conde de Toulouse, Raymond IV, um dos principais líderes da primeira Cruzada. Essa falsa encíclica seria, portanto, mais um argumento para o sucesso do périplo de um ano que o papa havia feito pelo centro e sudoeste da França. A visita começara em agosto de 1095 e seu ponto alto foi Clermont, para o concílio que se realizou em novembro daquele ano, quando o papa teria pedido pela primeira vez aos

fiéis que partissem em Cruzada para o Oriente

4 . Durante sua viagem, o papa se

hospedou em pelo menos 13 estabelecimentos cluniacenses, instituição que foi em grande parte responsável pela logística da viagem (Crozet, 1937; Becker, 1997). Por ocasião das paradas, o clero aproveitava a presença do papa para consagrar igrejas – as

3 Não há notícia de nenhum monge cluniacense que tenha tomado parte da primeira Cruzada. Apenas Guibert de Nogent cita um monge – cujo nome não fornece – que pertenceria ao “mosteiro mais conhecido de todos” (Apud Constable, 1997, p. 182). No entanto, é certo que o mosteiro de Cluny recebeu antigos cruzados, como lembra Constable (1997, p. 182). 4 Seu discurso durante o Concílio, que não foi preservado, é recontado, em várias versões, por Foucher de Chartres, Geoffrey de Vendôme, Robert le Moine, Baudri de Bourgueil, Guibert de Nogent e Guillaume de Malmesbury. Sobre essa questão, ver, entre outros: Munro, 1906; Cowdrey, 1970.

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já construídas e mesmo aquelas ainda em obras, como a de Moissac (Crozet, 1937) – e o papa aproveitava ainda para continuar sua campanha em favor da Cruzada. Não é fruto do acaso, portanto, se dentre as relíquias trazidas para as consagrações estão pedaços cruz. Pelo menos duas igrejas as receberam quando da consagração de seus altares dedicados à santa cruz: Trinité de Vendôme e Saint Pierre de Moissac. Em Moissac não se conserva quase traço escrito algum da estadia de Urbano II e

– além da entrega da relíquia e da consagração. No claustro,

também, há um capitel que mostra, em duas de suas faces, uma cruz gemada exibida por anjos.

Esse é um outro ponto chave de nosso dossiê: o claustro, com seus capitéis. Também em relação a ele há controvérsias de datação. Uma inscrição em um dos pilares diz que o claustro foi feito (factus est) em 1100. É muito pouco provável que um claustro da dimensão do de Moissac, com seus 76 capitéis, tivesse sido construído em apenas um ano. A maioria dos historiadores opta por ver nessa data sua conclusão (entre eles: Durliat, 1962, p. 12; Lyman, 1967, p. 33-34; Yarza Luaces, 1990, p. 111; Droste, 1996, p. 18-19). Alguns poucos, o início (como Hearn, 1981, p. 120-121). E outros, ainda, preferem não fechar a questão, optando por dizer “por volta de 1100” (Schapiro, 1982, p. 7; Porter, 1923, p. 203). No entanto, de todos os argumentos apresentados, os de K. Horste nos parecem os mais convincentes, sobretudo por suas comparações com a catedral de Saint Sernin de Toulouse: as obras teriam se iniciado em 1096 e terminado em 1100 (Horste, 1992, p. 115). O capitel que mais nos interessa se localiza na galeria norte. Uma edificação simétrica ocupa quase a totalidade da face leste. No primeiro plano há uma construção retangular com duas porta frontais. De cada lado se eleva da teto uma pequena torre retangular com uam janela. No meio, no eixo central, ao mesmo tempo sobre o teto e atrás do edifício, há uma grande cúpula – provavelmente octogonal, pois cinco de seus lados são aparentes. No ângulo direito dessa face, vê-se uma cruz com haste longa, segurada por um personagem que se situa já na face norte desse capitel. Esse personagem porta um livro na mão esquerda, está descalço e veste uma túnica longa. Sua cabeça foi destruída, mas seu corpo está virado para a direita, para a construção. A seu lado, mas virado para a outra direção, se encontra um personagem com barba e uma

do que ele teria dito 5

5 O único documento seguramente escrito pelo papa em Mosisac é uma bula de 13 de maio confirmando a afiliação da abadia de Saint Orens d'Auch à ecclesia cluniacense (Bernard et Bruel, t. 5, n. 3707, p. 54).

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veste mais curta. Ele carrega uma bolsa gravada com uma cruz e uma lança na mão esquerda.

bolsa gravada com uma cruz e uma lança na mão esquerda. Fig. 1 e 2 –
bolsa gravada com uma cruz e uma lança na mão esquerda. Fig. 1 e 2 –

Fig. 1 e 2 – Capitel do claustro de Moissac – galeria norte – faces leste e norte. Fotografias da autora.

Na face oeste há dois outros personagens, vestidos como o anterior. O que está à esquerda, e de face para o espectador, tem uma alabarda na mão direita e uma espada na esquerda. O da direita está voltado para sua esquerda e tem uma alabarda e uma bolsa gravada com a cruz.

esquerda e tem uma alabarda e uma bolsa gravada com a cruz. Fig. 3 e 4

Fig. 3 e 4 – Capitel do claustro de Moissac – galeria norte – faces oeste e sul. Fotografias da autora.

E na face sul, há mais um personagem vestido da mesma maneira, olhando para sua direita, com uma lança na mão direita e uma espada na esquerda. No ângulo direito dessa face, há um anjo, que está voltado para o persongem anterior. Ele tem a mão direita levantada em gesto de bênção e tem uma cruz na outra mão. Sua asa esquerda avança para a face leste, ficando ao lado da construção. Para resumir: vê-se uma construção amuralhada ladeada por uma cruz e uma asa e circundada por um personagem com a cruz, quatro com armas e um anjo. Não há inscrição alguma nesse capitel.

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Certamente, esse capitel não passou desapercebido pela literatura especializada, que no entanto não está de acordo sobre sua interpretação. Para Marguerite Vidal, trata- se de um simples desfile militar precedido da cruz (Vidal, 1959, p. 131), mas não há indício de movimento. E não haveria razão para a presença do anjo e do homem com a cruz em uma parada. A interpretação de Ètienne Delaruelle é mais simbólica: seria a representação da Jerusalém celeste (Delaruelle, 1964, p. 114, n. 63). O problema é que já há uma representação da Jerusalém em um capitel na galeria oposta, com uma inscrição: IHERUSALEM SANCTA. Leah Rutchick sugere a possibilidade de ser uma referência à Reconquista da Península Ibérica, já que Moissac tomou parte indiretamente desse processo (Rutchick, 1991, p. 268). Mas não há nenhum traço orientalizante nesse capitel – enquanto podemos encontrar caracteres cúficos em um outro. E ainda, Alexander Gieysztor vê nessas imagens a translação das relíquias de São Bento (Gieysztor, 1950, p. 23). Essa interpretação é a mais particular de todas, e embora seja a única em que o autor busca de fato justificá-la, em nossa opinião ela não se sustenta. Ele identifica a edificação ao mosteiro de Monte Cassino, o que não se justifica. Ademais, não haveria razão para tantos personagens armados para uma cerimônia religiosa – ainda mais sem a presença dos despojos do santo, em uma imagem bastante diferente da translatio de Santo Estêvão, representada em um outro capitel do claustro. As interpretações mais correntes, no entanto, associam esse capitel ao contexto da Cruzada: seria a entrada dos cruzados em Jerusalém (Lagrèze-Fossat, 1874, t. 3, p. 341); a chegada dos cruzados em Jerusalém (Rupin, 1897, p. 294); os cruzados frente a Jerusalém (Schapiro, 1985, p. 2); ou a tomada de Jerusalém (Sirgant, 1996, p. 299). Em um ponto, Gieysztor tem razão: se se mantém a data final da construção como 1100, seria pouco tempo para que a notícia da tomada da cidade, em 1099, tivesse chegado a Moissac e inspirado um capitel – considerando-se que, nesse caso, o claustro todo estaria em construção, porque não seria lógico conceber que se deixaria um capitel para depois, ou que se substituísse um já pronto. Mas, por outro lado, a referência à cidade e aos cruzados nos parece clara. Por um lado, estão as cruzes nas bolsas. Elas não parecem ser um acréscimo posterior, como os muitos graffiti do claustro. Elas estão bem centradas e bem marcadas. E mesmo se na época da primeira Cruzada a cruz ainda não tinha sido fixada como o símbolo por excelência daquelas expedições – o próprio termo Cruzada ainda não era utilizado, mas sim viagem, caminho, "iter hierosolynitanum" – encontramos

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algumas referências à cruz nas fontes. É o caso, por exemplo, da versão de William de Malmesbury, monge do século XII, do discurso de Urbano II: segundo ele, o papa teria dito que os Cruzados deveriam portar uma cruz nas roupas para exteriorizar sua fé (Malmesbury, 1889, t. 2, p. 396). Além disso, não se pode esquecer da importância das relíquias da cruz trazidas pelo papa. Por outro lado, a forma arquitetônica octogonal acima dos muros na face leste poderia fazer referência ao Santo Sepulcro, como pensa também Raymond Rey (Rey, 1955, p. 66). Estudos recentes têm demonstrado que um dos principais objetivos da primeira Cruzada, de acordo com as fontes era de fato o Santo Sepulcro. Sylvia Schein chega mesmo a afirmar que o Santo Sepulcro teria eclipsado Jerusalém como objetivo final da primeira Cruzada – situação que teria se invertido na segunda (Schein, 1995, p. 126). Um de seus argumentos são os textos que falam explicitamente da liberação do Santo Sepulcro, como por exemplo uma carta do conde Raymond de Saint Gilles na qual ele explica que o objetivo de sua expedição é: "ad dominici sepulcri liberationem" (Schein, 1995, pp. 122-123). Na crônica do mosteiro de Saint Maixent, compilada no século XII, o próprio Urbano II teria falado explicitamente do Santo Sepulcro (Schein, 1995, pp. 122-123). Apesar dessas referências, não se pode esquecer do peso simbólico de Jerusalém, e do próprio termo recorrente, "iter hierosolynitanum". Ou seja, ambos estavam entre os objetivos dos cruzados. Assim, nos parece que a solução de de Meyer Schapiro é a melhor delas, em nosso entender, por ser justamente vaga: os cruzados estão frente a Jerusalém. No entanto, ainda assim ela não está inteiramente correta, porque de fato os personagens estão ao lado da cidade. E, sobretudo, não há razão de se supor que os escultores tenham querido fazer alusão à conquista da cidade, propriamente dita. Não se está em um período em que se busque realismo nas imagens. Tratar-se-ia, ao contrário, de mostrar em imagens a intenção dos monges, do papa e dos futuros cruzados, pois no momento do início da construção do claustro, ou da elaboração de seu plano, a expedição à Terra Santa estaria em gestação. O capitel mostraria, assim, a intenção, o desejo de retomar a cidade santa, e ao mesmo tempo a certeza de que isso iria acontecer. Estamos frente a uma construção ideal, ideológica, uma representação e não uma constatação de um fato, o que seria anacrônico, nos dois sentidos. Além disso, o capitel não mostra uma batalha, mas uma cena estática, quase de exibição.

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É importante lembrar que há um outro capitel representando Jerusalém no claustro, na galeria oposta, mas quase na mesma altura. E, diferente do que afirmou Gieysztor, que não seria possível analisar comparativamente esses dois capitéis porque o claustro teria tido sua disposição original alterada no século XIII, somos de opinião contrária a essa alteração. Insistimos, portanto, que a comparação é válida, e que o paralelo topológico entre eles não é uma simples coincidência. Nesse outro capitel há também uma mesma imagem circundando todas as faces, mas nesse caso são os muros da cidade que estão em todas elas, em um continuum. E sobre seus muros, há personagens armados – mas sem cruzes. Também há, nos muros, uma inscrição precisando que se trata da Jerusalém santa (Pereira, 2001, p. 545-555). E se essa é a Jersualém celeste, a do outro capitel é, indefectivelmente, a Jerusalém terrena, aquela onde Cristo tem seu sepulcro, evocado pela cúpula octogonal. A insistência no tema da muralha, do fechamento, nos dois capitéis tem seguramente sua origem no texto do Apocalipse, com sua descrição detalhadas dos muros de Jerusalém. Mas ela poderia também ter uma relação com o próprio claustro, esse espaço retangular e fechado, onde os monges poderiam ter uma prova da cidade celeste que os aguardaria. Jerusalém era, portanto, uma realidade para os monges de Moissac, não somente enquanto imagem compondo seu habitat, sua paisagem, mas também enquanto espera para o futuro, enquanto objetivo de vida. A liturgia, a leitura de textos bíblicos, patrísticos e exegéticos alimentavam o estabelecimento da Jerusalém celeste como o alvo por excelência a ser atingido, e também como uma realidade sempre presente. Sabe-se, por exemplo, que durante o Advento, ela era citada em numerosos cantos e leituras bíblicas, assim como na liturgia do domingo da Quaresma, no ofício das Trevas dos três últimos dias da Semana Santa, e no ofício da consagração de uma igreja (Rose, 1952, pp. 389-403). Além disso, ela era lembrada em muitos dos salmos cantados pela comunidade durante a semana 6 . Especificamente em relação a Moissac, encontram-se também referências a Jerusalém em seu hinário, datado da primeira metade ou da

– mas

metade do século XI (Dufour, 1982, p. 123). A cidade é aí citada três vezes 7 nunca em um contexto de guerra.

6 São os salmos : 51, 20; 68, 30; 79, 1; 3; 102, 22; 116, 19; 122, 1-9; 125, 2; 128, 5; 135, 21; 137, 5-7; 147, 2; 12. 7 Hymnarius Moissiacensis, hinos n. 93, 128, 133.

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No capitel, também há que se observar que aqueles que estão mais perto da cidade são o anjo e o homem com uma cruz – que poderíamos identificar a um religioso, talvez mesmo um monge, por sua veste longa, como a de São Bento em outro capitel. E isso seria mais um elemento a tirar o peso sobre o aspecto de conquista militar e aproximar a imagem a uma construção idealizada e simbólica. Uma representação ideal do que seria a conquista da Jerusalém espiritual pelos monges, que não deveriam tomar parte fisicamente da Cruzada, como lembrava, por exemplo Pedro Damião (PL 144, col. 456). Mas Jerusalém estava próxima também a Moissac de forma mais "material". Em 1088, o patriarca grego do Santo Sepulcro, Euthymios II, enviou o abade de Jerusalém, Sergius, a Moissac. O patriarca possuía terras próximas a Moissac, em um lugar chamado, de maneira sugestiva, de Sancto Pulcro 8 , que ele concedeu ao mosteiro em troca de uma renda anual 9 . Assim, já havia ligações entre Moissac e Jerusalém. Talvez mesmo algum documento em nome desse Sergius teria sido "aproveitado" para a falsificação da encíclica em nome do outro, Sergius IV, o que foi brevemente sugerido por Dufour (1972, p. 101-102). De toda forma, há que se observar que o discurso que fez o papa em Moissac não caiu em terreno virgem. O mosteiro, de certa maneira – inicialmente econômica – já devia obediência ao Santo Sepulcro, que fora nomeado literalmente pelo patriarca como o recebedor (ao lado de Deus) da renda paga por Moissac. Além disso, a carta firmada entre o abade Sergius e o abade de Moissac se concluía com um apelo bastante particular (que não deixa de lembrar a própria pregação da Cruzada) a todos aqueles que fizessem um "bem" ao dito lugar, o Sancto Pulcro:

além dos benefícios materiais, receberiam também as orações do patriarca e de seu abade e o perdão de seus pecados. Os monges de Moissac tinham certamente interesses na Cruzada: por causa de sua proximidade com o papa; por suas relações com a Igreja de Jerusalém. Contudo, o

8 Hoje, Salvetat de Montcorbeil. 9 "Ego Sergius abbas Hierosolimitanus qui ex praecepto domini mei Heusemii Patriarchae veni in partibus Galliarum trado, et comendo sub attestatione Dei omnipotentis Ecclesiam, et locum vocatum de Sancto Pulcro cum hac descriptione in manu, et prouidentia abbatii et seniorum Cluniacensium seu

Moisiacensium scilicet Domni Hugonis abbatis, et omnium successorum eius ut habeant et possideant per manum supradicti Patriarchae, et omnium successorum eius in perpetuum. In tali vero ratione ut omnibus annis census ipsius honoris fideliter reddatur Deo et sancto Sepulchro, et fidelibus Patriarchae legatis facta descriptio ista anno ab incarnatione Dominicae millesimo octuagesimo octauo, praesidente Romana Eccesiae domno Urbano papa segundo. Et est autem supra memoratus locus in pago Tholosano

Ego Sergius ex parte Dei omnipotentis et domini mei Patriarchae

in parrochia Montis Orbellis? (

omnibus hominibus loco supradicto bene facientibus dono partem et societatem in omnibus beneficiis, et orationibus nostris et absolutionem omnium peccatorium suorum". Doat 128, 216-217v.

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interesse pela Cruzada mostra sobretudo a importância de Jerusalém como modelo de cidade a ser conquistada – pelas armas espirituais, sobretudo, além das figurativas, das políticas, das ideológicas.

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