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From: VI “LUTERO” E PENSEI NO QUE VOCÊ PROPÕE!

To: contato@caiofabio.com

Sent: Sunday, August 19, 2007 15:29

Subject: A RELIGIÃO ACHA JESUS LOUCO - sempre achou!

Caro Caio:

Espero que seu pai esteja bem, em franca recuperação.

Li seu texto “A RELIGIÃO ACHA JESUS LOUCO – sempre achou”, logo após ter
assistido o filme “LUTERO”, sobre o seu chamado e a sua vida. De fato é
impossível não encontrar similaridades entre o contexto onde Lutero – sem
que tivesse intenção, acaba por provocar o maior cisma religioso da história
até hoje-e os dias de hoje.

Naquele filme vi o esforço de Lutero, movido pelo amor a Deus e pela força da
revelação do Evangelho, em restaurar o verdadeiro propósito da igreja, de
dentro para fora, e também ver a destruição que seus algozes promoveram em
retaliação a sua posição. Ele foi taxado de louco e de demônio pelos seus
pares.

Não pude deixar de ver traços similares a desta caminhada de Lutero em sua
jornada, até hoje. Durante 30 anos você tentou –assim como Lutero- mudar a
cabeça da “igreja”. De dentro para fora. Mas os fariseus e a vida te obrigaram a
fazer seu cisma pessoal, e através disso, muitos tem podido receber e muitos
outros recuperar o verdadeiro Evangelho de Jesus.

Seu esforço em despertar consciências para o Evangelho foi por mim lembrado
no filme quando Lutero, diante do imperador da Alemanha e dos
representantes do papa, mencionou: “... porque fazer algo contra a consciência
não é seguro nem saudável.”, em especial para não transformarem, nos dias
voláteis de hoje, a Graça em “graxa”.

Enfim, querido amigo, quando te chamam de louco, demônio, herege ou de


“elogios” similares comparam-te, contextualmente, a quem historicamente é
reverenciado por eles mesmos. O grande medo destes é perder o controle das
“massas”, e é que a consiência do Evangelho faz: liberta as pessoas colocando-
as em posição de poder tomar suas próprias decisões caminhando na sua
experiência com Deus. Isto suas pregações e textos do site tem promovido em
grande escala.

Que o Senhor continue usando sua vida como uma pedra de tropeço para
aqueles que nada tem do Evangelho em si mesmos e de uma pedra de esquina
para ajustar o coração de cada um no caminho.

Eliézer.
___________________________________________________________

Resposta:

Querido irmão Eliézer: Graça e Paz!

Lutero foi um homem; e nada além de apenas um homem. Ele não era o homem
moralmente mais ilibado de sua sociedade [longe disso]; nem o mais culto;
nem o mais inteligente; nem o mais sábio [a sabedoria andou muito longe dele
muitas vezes], nem o mais influente; e menos ainda o mais “adequado”; pois,
psicologicamente era um homem com muitos tormentos; e, depois de conhecer
a Graça, ainda assim sofreu algumas seqüelas de outros tempos.

De fato, Lutero era um homem muito doente de alma e coração; e sofria de


males psicológicos que hoje o poriam sob forte indicação para ajuda
psiquiátrica e psicológica; sem falar que é obvio que, hoje, ele deveria viver
sob medicação e assistência médica.

Tudo o que não havia em Lutero era equilíbrio psicológico; nem antes, nem
durante e nem depois do advento da Reforma.

De fato, para mim, Lutero foi o pivô, o elemento histórico e fenomenológico de


uma força Inconsciente Coletiva que estava pronta para derramar-se sobre a
Europa já fazia alguns séculos; embora nos últimos cem anos antes de Lutero a
tal força tivesse ganhado muito mais intensidade com os pré-reformadores;
todos eles pessoas bem mais equilibradas que o Reformador alemão.

Assim, Lutero não é um Paulo; ele está mais para um Gideão; para um homem
apanhado pelas circunstancias e que teve seu papel beneficamente
superlativizado pelas perseguições que sofreu; de modo que um Lutero
“deixado”, não perseguido, teria sido um Lutero sem significado histórico.

Quando sua angustia de alma foi aplacada um pouco pelo entendimento do


texto de Paulo aos Romanos (e depois aos Gálatas), sua insurgência contra
Roma veio misturada com muitos elementos convergentes — a saber: o clamor
das ruas, a insatisfação de muitos clérigos, a necessidade que alguns
principados europeus tinham de ter um motivo religioso que os permitisse
romper com o papado por uma causa nobre (e a “Reforma” lhes pareceu ideal);
e, sobretudo, pela perseguição romana, a qual deu a ele [Lutero] o imediato
status de inimigo qualificado do maior poder da terra: a Igreja de Roma.

De fato foi Roma quem promoveu a Reforma, e não Lutero.

Eu disse que a consciência dele foi aplacada pela informação do texto, e ele
creu no que estava dito; e, pelo texto ele foi adiante sem retroceder. No
entanto, não foram a paz, a experiência do sossego de alma, o derramar de
amor e Graça, e a alegria da boa liberdade — os elementos motivacionais de
Lutero. Não! O texto havia dado a ele as razões de base teológica para romper
com Roma, mas o fruto não era de excelência espiritual, mas, sobretudo, de
natureza apologética; e historicamente capaz de receber o influxo de muitas
forças e poderes hostis a Roma presentes naqueles dias de trevas.
Quanto mais leio sobre Lutero (ou, sobretudo, leio Lutero mesmo: suas cartas,
sua correspondência com amigos, príncipes e reis), mas me convenço do
seguinte:

1. Ele era um homem em busca de libertação para suas pulsões sexuais


descomunais;

2. Ele revoltava-se com a opressão da Igreja sobre o povo;

3. Ele foi impactado intelectualmente pela certeza de que se Paulo estava


certo, a Igreja de Roma estava errada;

4. Ele não hesitou (tanto por convicção como também por revolta) em
enfrentar Roma com a verdade do Evangelho;

5. Uma vez que isso foi feito o próprio Lutero se tornou símbolo de algo
maior do que ele;

6. O amparo que teve para traduzir a Escritura para o alemão popular


deu ao que iniciara o poder revolucionário que o movimento ganhou;

7. A alquimia do movimento misturava piedade pessoal do povo, muita


revolta popular, uma grande dose de interesse político numa eventual
ruptura com Roma, e o grito libertário de Lutero, o qual se
fundamentava na Escritura, e, nela, sobretudo, em Paulo.

Entretanto, tudo o que aconteceu [com a perseguição sofrida em razão da


opressão de Roma], incitou os ânimos de Lutero também de modo errado,
pessoal, briguento, provocativo, e, por vezes, para além de toda medida de
sabedoria e bom senso.

Mesmo assim, quando é a hora, até o louco e de fato descontrolado pode ser o
instrumento do momento. Ninguém nunca sabe!

O que sei é que Lutero se fosse meu contemporâneo, eu mesmo, como irmão e
amigo, recomendaria a ele que se tratasse com urgência.

Num artigo aqui do site, meu filho Ciro [autor do artigo] disse, e eu concordo
com ele, que Lutero é uma das pessoas mais difíceis de se “precisar” na
história. Isto porque quase todos os fatos de sua vida são sempre
interpretados doutrinariamente, de um lado ou de outro.

Está na hora de se salvar Lutero da Reforma e a Reforma de Lutero;


historicamente falando.

Entretanto, a inadequação humana dele para com o que de fato aconteceu


exclusivamente pela Graça Soberana, é a melhor expressão da liberdade de
Deus usando até Lutero, até qualquer um; dependo de Seu desígnio.
Lutero, porém, está longe de ser meu herói.

Irmão sim, mas não herói; isto é que é difícil de explicar aos Reformados e
Protestantes.

Isto porque, por um lado, temos muitos protestantes tentando torná-lo um


homem absolutamente “santificado” e basicamente sobre-humano. Por outro
lado vemos alguns apologistas católicos e/ou ateus, querendo pintá-lo como
uma encarnação demoníaca de pura maldade.

Conhecer os escritos de Lutero e sua vida é então um exercício fascinante para


qualquer um que se interesse pela psicologia do homem da Reforma. E mais:
pela alma coletiva que se estabeleceu no movimento Reformado e isso muito
tem a ver com o próprio espírito separatista de Lutero.

Aliás, eu diria que se não fossem seus defeitos, dificilmente ele teria tido
virtudes tão próprias para o momento histórico.

Sim! Pois o homem Lutero, fora daquela hora, de muito pouca valia teria sido
para a causa da fé. E digo isto ainda que fazendo admissão de que muito do
que se chamou de Reformar nada mais foi que insurreição política motivada
pelos impulsos mais mesquinho dos poderosos contemporâneos do
Reformador.

Não concordo com muita coisa, mas entendo o fenômeno sem pieguice.

Contradições...

Por um lado vemos um historiador famoso e lingüista como Heinrich Von


Treitschke (protestante), dizendo que "Lutero inventou o Novo Alemão em um
dia". Enquanto Janssen (católico) diz que "Lutero não fez qualquer
contribuição à língua alemã". As duas posições são não são verdadeiras. Lutero
traduziu para o Alemão a obra mais difundida durante os próximos séculos,
indubitavelmente isso influenciou a língua alemã. Entretanto, ele não a criou,
obviamente.

Lutero ajuda seus comentadores, tanto positivos quanto negativos, por ser
uma criatura de profunda e absoluta contradição. Era capaz de afirmar e negar
a mesma coisa em um espaço pequeno de tempo, o que nos permite citá-lo em
quase qualquer tipo de ocasião, dependendo da utilização que queiramos dar a
ele.

Sua personalidade tinha marcas de profunda neurose e sem dúvida ele tinha
tendências a surtos psicóticos. Uma vez, durante uma missa, enquanto se lia a
passagem do Evangelho sobre o Gadareno, ele teve uma crise, e caiu no chão
gritando: "Não estou possuído. Não estou possuído!"
Ele tinha também uma personalidade maníaco-depressiva, e procurava vencer
sua depressão através de excesso de trabalho ou excesso de oração; e depois
passava por períodos de profunda melancolia e quietude; e que podemos ver
nos seguintes exemplos:

“Eu preciso de duas secretárias. Eu praticamente não faço nada o dia todo a
não responder e escrever cartas.”.

Isto ao mesmo tempo em que diz:

“Eu sou pregador do Convento e do Refeitório; e sou vigário do distrito; e, por


isso, sou onze vezes mais que um Priorado; sou responsável pelos
reservatórios de peixe de Leitzkau; e sou agente no Torgau no interesse da
paróquia em Herzberg. Dou aulas em St. Paulo, e estou trabalhando em
pesquisas nos Salmos e hinos. De fato, raramente me sobra tempo para
assumir minhas funções e fazer as missas. Fisicamente estou bem, mas sofro
em espírito. Por quase todos os dias na semana passada eu fui jogado entre a
morte e o inferno; de tal modo que ainda tremo por todo o meu corpo e sinto-
me exausto. Tempestades de desespero e de blasfêmia assolaram-me e eu
tinha perdido Cristo quase completamente” (Luther's Letters, Enders Edition,
vol. 1, pp. 66, 67, e vol. 6, pg. 71).

Também temos o oposto disto; e conforme o que lhe aconteceu já em 1521:

“Estou aqui, em total mornidão; tenho negligenciado a oração; e ando sem ter
em mim qualquer suspiro ou desejo pela Igreja de Deus. Estou incendiado por
todos os desejos possíveis desta minha carne descontrolada. É o ardor de
espírito o que eu deveria sentir. Mas, ao invés disso, é o ardor da carne;
desejo; preguiça; mornidão; sonolência—é o que me possui” (ibid. vol. 3, page
189).

Lutero também tinha uma obsessão com o demônio, tinha a tendência de


atribuir qualquer coisa que se lhe opunha à obra de Satanás, e talvez assim
tenha instituído o germe da mania-demoníaca que vemos em boa parte das
igrejas reformadas.

Temos múltiplas citações dele a respeito de suas constantes lutas com Satanás,
mas uma das mais clássicas é: "Satanás dorme comigo mais freqüentemente
do que minha esposa.”

Lutero também não tinha limites na língua, e não se importava em falar


vulgarmente (inclusive com pungentes alusões sexuais); sendo essas algumas
das coisas que mais seus acusadores usaram contra ele em seu tempo, e que
ele em si mesmo assumiu sem pudores.

Não só falava como escrevia vulgarmente, e não era exatamente uma pessoa
muito paciente como ele mesmo confessa:

“Ira age como um estimulante para todo o meu ser. Ela afina minha esperteza,
põe um fim aos assaltos do diabo e me conduz ao que não temo. Eu nunca
escrevo ou falo melhor do que quando estou com raiva. Se eu desejar compor,
escrever, falar, orar e pregar bem, eu tenho que estar com raiva (“Table Talk,”
1210).”

Essa passionalidade de Lutero é uma de suas maiores características


psicológicas. Lutero era sem dúvida Bipolar.

Uma de suas frases mais clássicas foi comentada por Nietzsche, em sua crítica
ao espírito anti-racionalista romântico alemão:

Lutero diz:

“Se eu pudesse conceber pela razão que o Deus que mostra tanta ira e
malignidade pudesse ser misericordioso e justo, de que me valeria a fé?”

E Nietzsche comenta:

“Desde tempos antigos, nada jamais criou maior impressão sobre a alma
alemã; nada tentou a alma alemã também mais que esta dedução [de Lutero],
a mais perigosa de todas, a qual por todas as verdades é pecado contra o
intelecto: credo quia absurdum est.”

Essa passionalidade também acaba se refletindo em sua própria auto-


percepção. Lutero acaba se convencendo que a Palavra de Deus não é Sola
Scriptura, porém Solo Lutero.

Podemos ver isso em diversas passagens em que ele fala coisas como:

“Quando estou com raiva, não estou apenas expressando a minha ira, mas a ira
de Deus”.

“Santo Agostinho e Santo Ambrósio não podem ser comparados a mim”.

“Nem em mil anos Deus derramou dons tão grandes sobre qualquer bispo como
Ele derramou sobre mim” (E61, 422).

“Deus me indicou sobre toda a Alemanha, e eu audazmente me comprometo e


declaro que quando vocês me obedecem, de fato e sem nenhuma dúvida, vocês
estão obedecendo não a mim, mas a Cristo” (W15, 27).

“Quem quer que não me obedeça, não está desprezando a mim, mas a Cristo”.

“Quem quer que rejeite minha doutrina não pode ser salvo”.

“Ninguém deve se levantar contra mim”.

“O que eu ensino e escrevo permanecerá verdade mesmo que o mundo inteiro


caia em pedaços” (W18, 401).

Lutero também acabou criando as sementes da igreja triunfante, que iguala a


Deus a sua causa - própria:
“Se Deus se preocupa com os interesses de Seu Filho, então Ele cuidará dos
meus; minha causa é a causa de Jesus Cristo. Se Deus não se interessa pela
glória de Cristo, Ele estará pondo o que é Seu em perigo; e Ele mesmo terá de
aceitar a vergonha”.

Ao mesmo tempo Lutero é capaz de brigar com esse Deus e esse Jesus [que ele
mesmo criou] sempre que sua vontade não é feita:

“Eu tenho mais confiança na minha mulher e nos meus discípulos do que eu
tenho em Cristo” (“Table Talk”, 2397b). “Deus muitas vezes age como um
homem louco”; “Deus é estúpido” (“Table Talk”, No. 963, W1, 48).

Lutero também é capaz de ver em Jesus sua própria fraqueza; ao comentar


João 4 acerca de Jesus e da mulher samaritana, ele afirma:

“Jesus cometeu adultério com a mulher do poço sobre a qual nos fala João.
Não estavam todos perguntando: ‘O que vem Ele fazendo com ela? ’ Em
segundo lugar ele adulterou com Maria Madalena; e por último com a mulher
flagrada em adultério, a quem Ele despediu tão suavemente. Assim, até Jesus,
que era tão santo, tem de ter sido culpado de fornicação antes de morrer”
(“Table Talk”, 1472) (W2, 107).

Lutero também [em sua teologia] acabou completamente esquecido de


qualquer tipo de movimento para fora de si mesmo e em relação aos outros;
pois chega até mesmo ao ridículo ao falar:

“Não interessa o que o povo faz; só interessa o que eles crêem”. “Deus não
precisa de nossas ações. Tudo o que Ele quer é que oremos a Ele e que lhe
sejamos gratos. Mesmo os exemplos de Cristo significaram nada para Ele
mesmo. Não tem importância como Cristo se comportou — o que Ele pensava é
tudo o que interessa” (E29, 196).

Assim, não é de se estranhar que ele gostaria de arrancar Tiago da Bíblia!

Porém ao mesmo tempo, Lutero nos afirma a realidade da humanidade em


pecado; mas parece só conceber a Graça como indulgência, e nunca como
poder transformador do ser; a começar do dele:

“Seja um pecador e peque com ousadia, mas creia mais ousadamente ainda.
Todos os homens, incluindo os santos e os apóstolos são pecadores. Todo bom
santo é um bom pecador. Os apóstolos eram pecadores... Eu creio que os
profetas frequentemente pecavam graves pecados”.

Agora com relação a três aspectos que a Igreja em geral assume como
inegociáveis da espiritualidade cristã: temperança (especialmente no álcool),
sexo e falar a verdade; eis como ele via a questão.

Sobre o álcool Lutero escreve e afirma que o povo alemão bebia tanto que
somente uma calamidade os faria parar de beber. E conclui: “Eu sei que não
pratico o que ensino” (Enders, 2, 312).
E, de fato, honestamente, ele realmente não praticava:

“Deus considera a bebedeira um pecado pequeno; tem que considerar; afinal,


quem pode parar com isto?”

“De acordo com o ditado, temos que nos compor com os tempos; e os tempos
são ruins; as pessoas estão piores; nossos atos mais que piores... Até aqui a
bebida tem me impedido de escrever e de ler; vivendo com os homens tem-se
que viver como eles vivem”.

“Se eu tiver um copo de cerveja, vou quer o barril”.

“Estou atormentado por infecções na garganta como nunca antes;


possivelmente resultado do vinho forte, o qual aumentou a inflamação; ou
pode ser uma bofetada de Satanás”.

“O que é necessário para que alguém viva uma vida de autocontrole não existe
em mim”.

Seu amigo Alexander chega a afirmar que Lutero era viciado em beber demais
e incapaz de parar.

Casamento e sexo...

Também sobre o casamento ele era ambíguo. Podemos vê-lo afirmando coisas
muito belas e interessantes, moralizantes até; apresentando-se como o
restaurador da posição nobre do casamento na sociedade:

“Nenhum dos ‘Pais da Igreja’ jamais escreveu qualquer coisa notável sobre o
casamento”.

Entretanto, ele também demonstra sua fraqueza sexual quando escreve a


respeito de sua própria sexualidade:

“Em vez de reluzir no espírito, estou reluzindo na carne”.

“Eu queimo com todos os desejos de minha carne e que me comem e me ardem
com chamas de desejo. Resumindo: Eu que deveria ser um do espírito, estou
comendo meu próprio coração pela minha entrega à carne, através da lascívia,
da preguiça, da mornidão e da sonolência” (Enders 3, 189).

E continua afirmando o que seria a solução de seu problema:

“O ferrão da carne pode ser facilmente diminuído tão somente haja meninas e
mulheres à disposição”.

“O corpo pede uma mulher e precisa tê-la”.

“Casar é um remédio para a fornicação”.


Lutero também tem uma atitude extremamente pragmática sobre o casamento;
a qual chocaria muitos Luteranos de hoje.

Lutero retira conscientemente o casamento da lista de sacramentos por uma


razão muito prática: ele acha que o casamento não tem nada a ver com Deus.

“O casamento é uma coisa externa, do corpo, como qualquer outra coisa


passível de manipulação”.

“Casamento é como qualquer outro negócio”.

“O corpo nada tem a ver com Deus. Nesse sentido alguém pode nunca pecar
contra Deus, mas apenas contra seu próximo”.

“Embora as mulheres sintam vergonha de confessar, mas tanto as Escrituras,


como a experiência, nos dizem que entre milhares de mulheres não há sequer
uma que seja casta”.

Ao mesmo tempo em que assim diz, ele é extremamente incoerente ao não


conseguir dissociar sexo e pecaminosidade em sua obsessão:

“Embora eu fale muito bem do casamento, não farei tamanha concessão à


natureza humana a ponto de admitir que não haja pecado na conjugalidade
(...) o ato conjugal nunca é praticado sem pecado”.

O ato conjugal, de acordo com Lutero, é “um pecado que em nada difere do
adultério e da fornicação”.

Lutero não “racha” com Agostinho nesse sentido. E não consegue também
deixar seu machismo adoecido: “A palavra e a obra de Deus são muito claras:
As mulheres foram criadas para se tornarem ou esposas ou prostitutas”.
(W12, 94). "

Lutero também chega a afirmar coisas que boa parte da igreja atual não
conseguiria conceber: “Se você não quer, outra quer. Se a esposa não quer,
tome a sua serva.“ (E20, 72). "Não é vedado a um homem ter mais de uma
mulher”. (E33, 327.).

Lutero não tem mesmo problemas em admitir sua atividade sexual e afirma
em Abril de 1525 em uma carta a Spalatin (tentando encorajá-lo a casar-se) o
seguinte:

“Um amante de renome como eu não se casa. (...) Eu já tive simultaneamente


três mulheres (...) mas você é tão péssimo amante que não tem coragem de
se casar nem com uma mulher só”.

De repente, meses depois, ele se casa com Catherina Von Bora, e escreve:

“Calei a boca daqueles que caluniavam a mim e a Catherine Von Bora”.


“Também me casei, e com uma freira. Eu poderia ser celibatário se não tivesse
razões especiais para decidir não o ser. E assim fiz para desafiar o diabo e
suas hostes, os meus opositores, os príncipes e os bispos, já que todos foram
tolos o bastante para proibirem o clero de se casar. E eu estaria disposto, de
coração, a causar um escândalo ainda maior se conhecesse outra coisa mais
bem engendrada para deixá-los furiosos e agradar a Deus“.

Sobre outro dos absolutos morais de sua época, a honestidade a qualquer


custo, Lutero afirma coisas belas como:

“A meu ver, não há no mundo um vício mais infame do que mentir”.

Porém ao mesmo tempo não tem problema em relativizar qualquer absoluto,


inclusive este:

“Os votos só têm de ser cumpridos enquanto for psicologicamente possível. Se


não for mais possível, tem-se a permissão de quebrá-los”. E isso nós podemos
ver exemplificado em sua relação pastoral com o Landgrave Filipe de Hesse.

Filipe de Hesse, um dos príncipes que o apoiavam, era casado e tinha alguns
filhos. Aos 35 anos de idade ele tentou obter de Lutero uma autorização para a
bigamia, com o argumento de que era incapaz de se abster da fornicação e do
adultério, pois nunca amou sua mulher, que obteve num casamento político.
Diz que ela lhe era desagradável, feia e fétida; e que é forçado a cometer
fornicação ou pior, e que sua própria irmã, Elisabeth, lhe pedia para tomar uma
concubina, e não tantas prostitutas. Lutero, ao lidar com essa situação social
(temos que agradecer a Filipe por sabermos dessa situação, pois ele exigiu de
Lutero sua posição por escrito), diz claramente (com a colaboração de
Melachton):

“Declaramos, sob juramento, que isso deve ser feito em segredo (...) Não é
nada incomum que os príncipes tenham concubinas (…) e este modo de vida
discreto seria mais ameno do que o adultério.” (Documento datado de 10 de
Dezembro de 1539 / Luther's Letters, De Wette — Seidemann, Berlin, 1828,
vol. 6, 255-265)

O segredo estourou e Melachton se envergonhou profundamente, enquanto


Lutero disse sem maiores pudores:

“Um ‘sim’ dito em segredo deve permanecer como um ‘não’ para o público e
vice-versa.” “Que importância teria se, em favor de um bem maior e da Igreja
Cristã, alguém tivesse de contar uma boa e categórica mentira?” (De Wette,
vol. 6, 263) (Lenz, Luther's Letters, Leipzig, 1891, vol. 1, 382)

Semelhantemente a Lutero, Calvino, Zwinglio e Knox, todos publicamente


escreveram e aprovaram assassinatos para o avanço da causa Protestante.

A ânsia de poder dos reformadores já trouxe dentro de si a semente da nova


institucionalização.

Assim, a consciência da Graça chegou à Reforma de modo completamente


poluído.
Surgiu uma crença bíblia na justificação pela fé, e uma renovação da idéia de
ler a Bíblia; embora Lutero desejasse fazer uma triagem na Escritura; pois,
Tiago, Hebreus e o Apocalipse tinham para ele pouco valor.

Faltou existencialidade na Reforma, e sobrou forma e doutrina; e tudo à moda


do “método religioso-científico”, criado pelos pais da Igreja Romana, a fim de
interpretarem a Bíblia.

Lutero, por exemplo, jamais soube coisa alguma acerca de Jesus como Chave
Hermenêutica para se entender a Escritura; e todo seu método de leitura se
baseava nas noções hermenêuticas dos gregos.

Logo a doutrina se tornou espada e aparato de guerra no serviço da causa


político-religiosa.

Também é possível notar a profundidade do surto narcisista de Lutero quando


a coisa toda convergiu subitamente para ele.

O Grande valor de Lutero é a loucura de sua coragem; embora seja uma


coragem alucinada e sem equilíbrio; e, por vezes, muito atrelada a orgulhos,
vaidades e disputas pessoais.

Assim, voltar à Reforma é voltar ao que não leva ao inicio de nada desejável;
sendo desejável apenas à alternativa Católica daqueles dias.

Em meu livro “Sem Barganha com Deus” eu digo o que vejo de bom na
Reforma, embora deixe claro que, para mim, ela foi apenas um Catolicismo que
fez Dieta; e nada, além disso.

Nossa busca tem exclusivamente a ver com Jesus e com o Evangelho. Portanto,
Lutero é para mim como um dos juízes toscos do tempo antigo; usado por Deus
como um Sansão ou um Gideão; porém, longe de se parecer com um homem do
Novo Testamento.

Além disso, o espírito de Lutero [o lado ruim de seu espírito conturbado e de


sua mente surtada] ainda define muitas das doenças encontradas no meio
cristão da ala protestante [seja reformada, ou seja, o sub-grupo chamado
pentecostal; e, antes deles, os Puritanos].

Assim, quando olho para o Evangelho, vejo em Lutero um homem das cavernas
em relação à Graça; e que parou no entendimento tão logo criou uma
“doutrina”, a qual, pouca pacificação lhe trouxe ao ser.

De fato, Lutero se parece muito com o Evangélico que creu na doutrina, tornou-
se religioso na crença, mas não conseguiu experimentar a Graça como bem
pessoal. Dá tanta culpa feita rebelião e tanta luta psicológica com o “diabo”.
O que Deus deseja fazer hoje é muito mais, e não tem na Reforma nada além
de História; pois, conforme ensinou Jesus, não se põe remendo de pano novo
em vestes velhas.

Oremos pelo Novo!

Novo é o que nos aguarda!

Nele, que usa a todos para um fim proveitoso, ainda que muitas vezes
chocante,

Caio

20/08/07

Manaus

AM
----- Original Message -----

From: A HITÓRIA DOS HOMENS E A HISTÓRIA EM DEUS – Lutero ainda...

To: contato@caiofabio.com

Sent: Monday, August 20, 2007 20:26

Subject: RES: A RELIGIÃO ACHA JESUS LOUCO - sempre achou!

Amado Caio:

Obrigado pela sua resposta a minha carta, especialmente pelo enriquecedor e


esclarecedor relato da vida de Lutero, sua psicose e contradições.

Quando em minha carta ressaltei os aspectos da vida de Lutero que me


lembravam que tenho visto na sua caminhada, ressaltei aquelas que
referenciavam o aspecto mais contundente da pregação que tenho ouvido:
Graça, Amor e consciência do Evangelho.

Não entrei em detalhes como o interesse político e pessoal da conveniência de


uma ruptura da Alemanha com o papado; tampouco na vida polêmica de
Lutero; nem de sua formação intelectual, na melhor tradição católica. São fatos
que creio, não farão parte daquilo que Deus singelamente começou através de
sua vida e dos mentores que a você se agregaram. Certamente Deus usa a Seu
tempo, quem achar melhor para cumprir os seus propósitos – seja mula, Paulo,
Lutero ou Caio.

Li o “Sem Barganhas com Deus” e concordo que institucionalização da


Reforma, que prevalece até hoje dentro das denominações evangélicas
(qualquer que seja sua vertente) é herança de Roma e que o “carma” de Lutero
é intensamente presente no cotidiano de muitos que se dizem “crentes”. Hoje
se converter significa na grande maioria das vezes somente mudar de papa.
Creio piamente que este não é, e nem será nosso caminho.

Nosso caminho é o Caminho!

Jesus, o Caminho, é onde se fazem novas todas as coisas!

E é esse Novo que quero experimentar e viver.

Eliézer.

_____________________________________________________________

Resposta:

Querido Eliézer: Graça e Paz!


É claro que entendi que sua associação original tinha a ver como filme (que é
belo, bem feito, resumido, e bem carregado da essência da mensagem de
Lutero). Portanto, não pense o contrário. Eu, todavia, decidi aproveitar sua
carta e expandir algo que me parece importante; ou seja: a desbeatificação de
Lutero, a fim de que haja a desbeatificação da Reforma.

Para os Protestantes Reformados [e também o seu subproduto: o mundo


evangélico] Lutero é uma espécie de Elias ou João Batista [esse é o
significado]; e a Reforma é uma espécie de Pentecoste Doutrinário; ou seja: um
pentecoste de intelecto e letras.

Ora, é inegável o impacto histórico, social, econômico, ideológico, intelectual,


psicológico, ético, e de projeto de sociedade [que seria de democracia
capitalista] que a Reforma provocou.

Entretanto, impacto conforme acima citado teve também a Revolução


Francesa, ou a Alemanha de Hitler, ou mesmo a criação do Estado de Israel. A
1ª mudou a concepção do ocidente acerca das Monarquias. A 2ª mudou a
História presente e futura [infinitamente mais do que já percebemos]. A 3ª
mudou a geopolítica do mundo para sempre [é esperar e ver]. E nem por isso
foram boas por terem sido tão históricas [a 2ª foi-é diabólica]. Entretanto,
todos esses fenômenos mudaram a História.

O fenômeno da Reforma mudou a História do lado de fora mais do que na


existencialidade. Assim como o surgimento do “Cristianismo” [sob os auspícios
de Roma; Constantino] aconteceu como o cair de um meteoro: Bum! E
morreram uns dinossauros; e os ratos cresceram como mamíferos a mamarem
nas tetas da “igreja recém inventada” por um ato de um Pentecoste Imperial.
O “Espírito Santo” do “Cristianismo” atendia pelo nome de Constantino.

Ora, eles [esse eventos-adventos] provocaram profundos impactos na Terra e


nos fenômenos do mundo [especialmente todos aqueles fenômenos que são
filhos do dinheiro; incluindo a política]. Mas, segundo o Evangelho, podem não
ter significado quase nada. Afinal, na fé, o maior rio do mundo não é o
Amazonas, mas o Jordão. Assim como o maior dentre os nascidos de mulher
não foi Nabucodonozor, nem Alexandre, nem César, nem Gandhi, mas João
Batista, que não teve quase qualquer impacto na História, exceto por falar a
verdade acerca de Jesus.

A Igreja de Jesus é um fenômeno sutil, sem aparência, sem beleza a ser


fotografada, sem poder a ser demonstrado, sem nada súbito que a ponha num
patamar de glória ou de reconhecimento.

Igreja “reconhecida” já é “igreja”.

Foram os quatro primeiros séculos da Igreja [totalmente sem “História ou


reconhecimento”] aqueles que até hoje nos significam o que possa no mínimo
ser Igreja entre os homens; não no máximo; pois, “outras obras maiores
farão”, prometeu Jesus para sempre.

Assim, a verdadeira História da Igreja não aparece nos “Livros de História da


Igreja”. São atos apostólicos somente inscritos nos corações.
Por isso a Igreja-Caminho não sabe nem de onde vem e nem para onde vai... É
duro, mas tem que ser assim.

Dessa forma [como para Jesus o que é elevado entre os homens é abominação
diante de Deus], se virar culto histórico, é porque é elevado diante dos
homens, e já não tem [se é que teve] significado para Deus.

Na História só se pode mesmo fazer Re-Forma. A História tem forma. Torna-se


fixa. Portanto, o melhor a se fazer na História é uma Reforma.

É coisa do homem para o homem!

No reino, no entanto, não se faz Reforma jamais; pois, é como por vinho novo
em odre velho, ou remendo de pano novo em veste velha.

Ora, no reino tudo tem a ver com o Dia Chamado Hoje. Foi isto que Jesus disse
ao moço que queria primeiro sepultar seu pai. “Deixa os da história carregarem
a história. Tu, porém, vai e prega o reino de Deus.”

Não que isso nos conduza a qualquer forma de niilismo histórico. Ao contrário,
passa-se a desejar conhecê-la ainda mais; pois, nela, na História, reside o
germe de nossa grande tentação; posto que a História é a vida eterna dos
mortais.

Entretanto, foi a perspectiva inversa o que fez de Jerusalém o centro do mundo


e não Roma; apesar de historicamente o centro do mundo ter sido Roma,
enquanto Jerusalém não era nada.

Digo isto para dizer que o fenômeno da Reforma Protestante tem todas as
características dos fenômenos humanos, conforme todos os que se tornaram
História.

A Igreja, por exemplo, foi se tornando... Assim como o reino: uma sementinha
aqui, outra ali; uma sombra aqui, outra ali; uma lâmpada aqui, outra ali, e
outras acolá. E não veio como uma montanha de sal, ao contrario, o sal
apareceu conforme existisse massa a ser salgada. E mais: o sal só cumpre seu
papel se dissolver-se na massa; pois, sal visível não serve para nada.

A única manifestação de fogo e chamas do Novo Testamento só aconteceu para


120 pessoas. Ora, isso para não falar que Jesus não só resistiu à tentação de
pular do Pináculo do Templo, como também não foi aos céus do Pináculo do
Templo.

Ora, por isto até hoje se discute se Jesus foi ou não histórico; e o debate sobre
o Cristo Histórico apenas prova a minha tese. Afinal, um Jesus
esmagadoramente histórico não seria discutido; pois estaria “fixado”. Ele,
entretanto, se faz história nas historias dos outros, e não em Sua própria, visto
que Ele não é como uma torre de Salvação numa Paris mundial. Ao contrário,
Ele é invisível aos olhos da História, só sendo visto pelos que vêem a história
que somente se discerne pela fé.
O descaso de Jesus para com a fixidez da História é chocante. Pode ser bem
ilustrado pelo fato de Ele escrever no chão [sabia escrever], e não ter deixado
nada escrito de Si mesmo. Para Jesus o que não fosse ato não merecia virar
ata. E mesmo o que era ato, Ele só escrevia nos corações; deixando que outros
escrevessem não “A História de Jesus”; mas, antes disso, a história de como
eles O viram. Daí cada evangelho ter sua própria ótica. E tudo não fixo.

As coisas do reino não dão para serem afixadas em portas de Catedrais; essa é
a verdade. Não! Elas são invisíveis aos olhos; são suaves e poderosas; e
esmagam pela sutileza.

Com diz o Salmo 77:

“Pelo mar foi o Seu caminho; porém, não se acham os Seus vestígios”.

Ou seja: o mar abre, mas ninguém sabe como.

“É o vento”, dizem.

“É mesmo!”; digo eu.

Se quisermos que a Reforma seja ainda impregnada do vírus do Evangelho,


então, esse culto às Tábuas da Lei de Lutero e à Revelação Institutas de
Calvino, precisam acabar; e necessitam ser apenas o que foram: eventos
históricos, com coisas boas e outras ruins; e, nada mais...

Além disso, achei que era bom mostrar como um pregador da Graça como
Lutero pôde viver tão pouco do beneficio dela em si mesmo.

Assim, acabam-se também os mitos como o do “príncipe dos pregadores”; ou o


do “boca de ouro”; ou do “leão da Alemanha”; ou do “Doutor de Genebra”.

O chamado não é para fazer Reforma. O chamado é para crescer na Graça e no


conhecimento de Jesus; não como texto de doutrina ou teologia, mas como
experiência da Graça se expandindo na totalidade de nosso ser, e não apenas
como fenômeno de poder e influencia do lado de fora.

Um grande beijo com todo carinho, mesmo sem saber se meu paizinho ainda
estará na Terra amanhã!

Assim, despeço-me Nele, que de ninguém se despede,

Caio

20/08/07

Manaus

AM