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PHILIP PETTIT

TEORIA DA LIBERDADE

Coordenador e Supervisor

LUIZ MOREIRA

Tradutor

RENATO SÉRGIO PUBO MACIEL

Belo Horizonte -

2007

TEORIA DA LIBERDADE Coordenador e Supervisor LUIZ MOREIRA Tradutor RENATO SÉRGIO PUBO MACIEL Belo Horizonte -
Copyright © 2007 by Editora Dei Rey Ltda. Copyright © para a edição britânica de

Copyright © 2007 by Editora Dei Rey Ltda. Copyright © para a edição britânica de A Theory of Freedom: from the

Psychology to the Politics of Agency: Philip Pettit, 2001.

Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, sejam quais forem os meios empregados, sem a permissão, por escrito, da Editora. Impresso no Brasil 1 Printed in Brazi/

Esta obra foi publicada

originalmente em inglês com

o título A Theory of

Freedom:

from the Psychology to the Politics of Agency, por Polity Press,

Cambridge, Grã-Bretanha, 2001.

Coleção Dei Rey Internacional

Coordenador e Supervisor: Luiz Moreira

DEL

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LTDA.

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PS 11

Pettit, Philip. Teoria da liberdade/ Philip Pettit; tradução de Renato Sérgio Pubo Maciel; coordenação e supervisão Luiz Moreira. - Belo Horizonte: Dei Rey, 2007.

272p.

Título original: A theory of freedom: from the Psychology to

the Politics of Agency

ISBN 85-7308-889-3

1.

Liberdade- Teoria. 1. Título.

CDD:323.44

 

CDU: 342.721

Bibliotecária responsável: Maria Aparecida Costa Duarte

CRB/6-1047

AGRADECIMENTOS

Acumulei muitas dívidas no percurso da escrita deste livro. Meus agradecimentos a David Held, pela proposta do projeto,

e a Victoria McGeer, por ter-me acompanhado no processo de

discussão de ambas as fases do trabalho, tanto no início quanto

na versão final. Um muito obrigado a Michael Smith, com quem

eu compartilhei muitas das idéias de responsabilidade e liber- dade que aparecem aqui e quem foi sempre uma grande fonte de desafio e iluminação nos temas tratados neste livro (ver

Pettit e Smith, 1996). Meus agradecimentos àqueles que leram

a versão inicial e que deram muita ajuda com os seus comentá-

rios. Michael Ridge e Jay Wallace ajudaram incalculavelmente

- Michael pelas longas discussões e Jay por suas longas e

detalhadas observações. Também não poderia deixar de, men- cionar os comentários de leitores anônimos, também de inesti- mável ajuda. Finalmente, os meus agradecimentos a John Braithwaite e Geoffrey Brennan, com quem mantive longas e contínuas discussões - discussões estas que se prolongaram por mais de vinte anos - sobre muitos temas centrais do livro.

O texto derivou de cursos em seminários de graduação que

ministrei como Professor Visitante na Universidade de Colúmbia, em 1999, mas a maior parte deste livro foi escrita,

em minha base permanente, na Escola de Pesquisa em Ciências Sociais da Universidade Nacional da Austrália. Também agra- deço a todos aqueles que participaram do seminário em New York e o tomaram tão frutífero e agradável para mim, como também aos muitos colegas com os quais tive a oportunidade

de discutir o material tratado no seminário.

,

SUMARIO

APRESENTAÇÃO

Alexandre Travessoni

xi

OORODUÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA

••. •••. •. ••• ••

•••

•• .

•• .

1

1. CONCEITUANDO A LIBERDADE .

••••• •••••• . ••• •••

 

9

1.1 As conotações da liberdade

9

l.2Aarrnadilhadaliberdade

 

12

1.3 Construindo a conotação da liberdade

16

1.4 A forma primária de adequação para se considerar alguém responsável

20

1.5 O Principal fato para conceituar a liberdade como adequação para ser responsável

25

1.6 Outras vantagens de conceituar a liberdade como adequação para ser considerado responsável

28

1.7 A liberdade como uma propriedade objetiva e antropocêntrica

36

Conclusão

42

2. LIBERDADE COMO CONTROLE RACIONAL

 

45

2.1 Em direção a uma teoria da liberdade

45

2.2 Da ação livre para

outras liberdades

48

2.3 A teoria da ação livre

50

Vil

2.4 O problema com a teoria da ação livre

 

55

2.5 A teoria como ela se aplica ao livre self

58

2.6 O problema com a teoria do selflivre

 

60

2.7 A teoria como ela se aplica à pessoa livre

61

2.8 O problema com a teoria da pessoa livre

62

2.9 A necessidade do controle racional

 

65

 

Conclusão

66

3. LIBERDADE COMO CONTROLE VOLITIVO

•••••.• ••.••••••

69

3.1

Do livre selfaoutras liberdades

69

3.2

Uma teoria do livre self

70

3.3

O problema com essa teoria do livre self

75

3.4

A teoria como ela se aplica à ação livre

80

3.5

O problema com essa teoria da livre ação

80

3.6

A teoria como ela se aplica à pessoa livre

84

3.7

Problema com a teoria da pessoa livre

 

85

3.8

A

necessidade do controle volitivo,

5.

propriamente entendido

 

87

Conclusão

88

4. LIBERDADE COMO CONTROLE DISCURSIVO •••

••.•.•.•••.••

91

4.1 Da pessoa livre a: outras liberdades

91

4.2 Uma teoria da pessoa livre

92

4.3 Interação discursiva

93

4.4 Relacionamentos discursivo-amigáveis

96

4.5 Controle discursivo

98

4.6 Além do problema prévio para a pessoa livre,

 

coerção hostil é inconsistente com o controle discursivo

a

101

4.7 A coerção amigável é consistente com o controle discursivo

105

4.8 Formas de influência que são inconsistentes com o controle discursivo

107

4.9 A teoria como se aplica ao selflivre

110

4.10 A pessoa e o

self

111

4.11 A identidade pessoal e a selfidentidade

113

4.12 O selflivre

119

4.13 Além do problema prévio ao selflivre

120

4.14Ateoria tal como se aplica à ação livre

125

4.15 Além do problema prévio da ação livre

129

4.16 O problema modal

 

131

4.17 O

problema recursivo

135

4.18 Um bônus

138

Conclusão

142

LIBERDADE E COLETIVIZAÇÃO

•. ••

•• .

•• . ••••••••. •. •. •• •

145

5.1 Dos agentes individuais aos coletivos

145

5.2 Há sujeitos coletivos?

 

146

5.3 O dilema discursivo

148

5.4Acoletivização da razão

153

5.5 Arealidade dos sujeitos coletivos

 

158

5.6 Os sujeitos coletivos são candidatos para a liberdade

160

5.7 Os sujeitos coletivos podem gozar da liberdade.

166

5.8 Responsabilidade: individual e coletiva

169

Conclusão ······················································ 170

6.

LIBERDADE E POLITIZAÇÃO

•• . •••

•.

•• .

•• .

173

 

6.1 Em direção ao ideal político de liberdade

173

6.2 Os ideais contendores

177

6.3 O

ideal da não-limitação

 

179

6.4 O ideal da não-interferência. Em direção ao conceito de não-interferência

 

182

6.5 Primeira crítica

185

6.6 Segunda crítica

188

6.7 O ideal da não-dominação. Na direção do conceito da não-dominação

 

191

6.8 Uma terceira atração

196

6.9 A história republicana da idéia

 

199

Conclusão

207

7. LIBERDADE E DEMOCRATIZAÇÃO

211

7.1 Em direção a uma filosofia política republicana

211

7.2 O perigo do imperium

 

214

7.3 Interesses comuns assumidos

 

216

7.4 Forçando o Estado a trilhar os interesses comuns assumidos e somente tais interesses

220

7.5 A dimensão autoral na democracia

 

222

7.6 A dimensão editorial na democracia

225

7.7 Recursos

procedimentais

 

231

7.8 Recursos consultivos

 

;

234

7.9 Recursos de apelação

235

7 .1 OA perspectiva emergente

237

Conclusão

 

239

CONCLUSÃO ••.•

••.•

••

•.••

••

••.••.••.•.•••••.•.•

241

-

APRESENTAÇAO

241 - APRESENTAÇAO Alexandre Travessoni* O livro de Philip Pettit, Teoria da

Alexandre Travessoni*

O livro de Philip Pettit, Teoria da Liberdade, que ora se apresenta ao leitor, aborda um tema de extrema relevância para as teorias moral e política contemporâneas: a liberdade. Desde o início da modernidade o tema tem sido objeto das mais varia- das abordagens. Na avaliação de Pettit, dois pontos importan- tes devem ser resgatados: (i) o tratamento conjunto da liber- dade da vontade e da liberdade política, que vêm sendo, por alguns, enfrentados isoladamente, violando os exemplos de Kant e Hobbes e (ii) a tradição republicana de entender a liberdade como não-dominação, oriunda do período romano e com re- presentantes na Itália renascentista e no período pré-revolucio- nário, que foi substituída por uma concepção liberal de liber- dade, a saber, a liberdade enquanto não-interferência. No plano da liberdade da vontade os problemas legados pelas teorias da modernidade nascente podem ser resumidos da seguinte forma: existe realmente a liberdade da vontade? Em que ela consiste? Como se sabe, Immanuel Kant conce- beu a liberdade como idéia, pressuposto da razão pura que é

*

Professor do Programa de Pós-graduação em Direito da PUC Minas e da Faculdade de Direito da UFMG.

também prática. Enquanto pressuposto essa idéia não pode ser "provada" ou "conhecida" como o são os juízos das ciências da natureza, devendo, contudo, ser pensada. A idéia de liber- dade, propriedade de a razão ser lei para si mesma, não se confunde, em Kant, com a liberdade de escolha, embora a ela se relacione. Esta, que é propriedade de seres que são ao mesmo tempo numenais e fenomenais (seres humanos), con- siste na possibilidade de agir de acordo ou contra a lei, enquan- to aquela consiste, como já ressaltado, na propriedade de a razão ser lei para si mesma. Portanto, em Kant, existe uma idéia de liberdade que deve ser pensada para que seja possível a moralidade (englobando tanto a moral stricto sensu quanto o direito) e a liberdade de escolha, que existe por ser o homem ao mesmo tempo racional - devendo por isso agir de acordo com a lei - e sensível, podendo agir contra a lei ou, pelo me- nos, não movido pelo respeito a esta lei. Para um ser somente racional não haveria liberdade de escolha, pois ele sempre agiria por razão;.neste caso, a lei moral seria descritiva. Para um ser meramente fenomenal as ações jamais podem ser guiadas pela razão, mas somente pela sensibilidade; um tal ser tem somente, nas palavras de Kant, arbítrio bruto. Estando os seres humanos em uma condição intermediária, isto é, pertencendo aos mundos numenal e fenomenal, devem agir por razão, embora possam não o fazer. A liberdade de escolha depende, portanto, em Kant, de dois elementos, a saber: (i) a idéia de liberdade e (ii) a pertinência dos seres humanos ao mundo fenomenal. Mas mesmo se aceitarmos ambos os elementos resta ain- da a pergunta: existe realmente essa liberdade de escolha ou estão as escolhas e, conseqüentemente, as ações que delas decorrem, previamente estabelecidas? Da aceitação do faktum da liberdade e da constatação da pertinência dos seres huma- nos ao mundo fenomenal não se prova, a meu ver, a liberdade de escolha, ou seja, uma espontaneidade do querer que deter- mina a escolha. O próprio Kant levantou, como se sabe, a pos- sibilidade de não existir a liberdade de escolha e de ela ser, na verdade, nada mais que a ignorância das causas: se pudésse- mos descobrir todas as causas da ação, poderíamos então pre- ver exatamente o que alguém vai escolher e, conseqüentemente,

o modo como vai agir. Neste caso a causalidade por liber-

dade estaria aniquilada e restaria a causalidade da nature- za. Ora, mas se não houvesse liberdade de escolha, isto é, se nossas ações estivessem naturalmente determinadas, não po-

deria então haver responsabilidade e imputação.

Pettit inicia sua abordagem afirmando que a liberdade pode ser discutida em três domínios: o da ação, o do self e o da pessoa. Como leremos na introdução, o primeiro envolve a li- berdade da ação desempenhada pelo agente em uma ou outra ocasião, o segundo diz respeito à liberdade do ser que está implícita na habilidade do agente para identificar-se com as coisas realizadas e o terceiro se relaciona à liberdade das pes- soas em desfrutar um status social que faz com que a ação seja realmente delas, e não uma ação que seja provocada sob a pressão dos outros. Após isso, já no primeiro capítulo, Pettit

vê três possibilidades de conotações da liberdade, a saber, a possi.:.

bilidade do agente em ser diretamente responsabilizado por aquilo que fez, a característica de a ação ser do agente, isto é,

ter sua assinatura e, por fim, a característica de a ação não ter sido determinada por uma gama de antecedentes. Vemos então que essas três possíveis conotações de liber- dade da vontade que Pettit identifica, a saber, a responsabili- dade, a autoria e a não-determinação, de algum modo se rela- cionam àqueles temas abordados por Kant, de forma diferente, em sua filosofia prática. Como se sabe, na Fundamentação, Kant parte de um conhecimento moral da razão para chegar ao conhecimento moral filosófico, passa deste à metafísica dos costumes e, por fim, chega a uma crítica da razão prática, para concluir que os imperativos da moralidade só são possíveis se pensarmos a idéia de liberdade. Pode-se mesmo dizer que Kant pressupõe a liberdade da razão enquanto idéia já no ponto de partida - e por isso esse pressuposto é faktum da razão - e da constatação factual da pertinência do homem ao mundo feno- menal, isto é, da submissão de sua vontade também à sensibi- lidade, constata a existência - a meu ver, não demonstrada - da liberdade de escolha. A desvantagem desse caminho é que

o passo em que se constata a existência da liberdade de esco-

lha não pode ser deduzido das premissas iniciais, ou seja, além do pressuposto da liberdade universal há de se adotar um segun- do pressuposto, o de que os dois elementos contidos nas primei- ras premissas (a liberdade universal e a pertinência do homem ao mundo fenomenal) levam necessariamente à constatação da liberdade de escolha. Sua vantagem é que, uma vez presumida a liberdade de escolha, o critério para determinar a correção da ação já está estabelecido: a liberdade universal. Pettit, de certa maneira, procede como Kant, pois parte das intuições comuns sobre a liberdade da vontade para procu- rar estabelecer suas conotações. Mas, ao contrário de Kant, não adota o pressuposto de uma liberdade universal, mas sim

o da liberdade da vontade como adequação para ser consi- derado responsável, que ele próprio considera uma presunção

a ser testada ao longo de todo o livro. A partir daí, procura

desenvolver um critério que explique como se dá essa escolha, passando pelas teorias do controle racional e do controle volitivo para, finalmente, chegar à teoria do controle discursivo, que considera a mais adequada para explicar a liberdade da vontade. Nesse percurso Pettit testa as três teorias nos três domínios da liberdade (ação, selfe pessoa), concluindo que as duas primeiras são insuficientes para tornar uma ação livre, para considerar o selflivre e para explicar a liberdade da pes-

soa. Pettit conclui então pela adoção do modelo da liberdade como controle discursivo, por considerá-lo o mais adequado para explicar os três domínios já referidos.

A teoria da liberdade como controle discursivo é, nas pró-

prias palavras de Pettit, diferente das demais. Enquanto a teo- ria do controle racional é, primeiramente, uma teoria da ação livre e, por extensão, uma teoria do selflivre e da pessoa livre,

e a teoria do controle volitivo é, primeiramente, uma teoria do self livre e, por extensão, uma teoria da ação livre e da pessoa livre, a teoria do controle discursivo é, primeiramen- te, uma teoria da pessoa livre e, por extensão, uma teoria do self livre e da ação livre.

A interação discursiva ocorre, na visão de Pettit, quando

as pessoas tentam resolver um problema comum por meios

comuns e discursivos, isto é, através de uma conversação, ra- ciocinando em conjunto, uns com os outros. Essa interação pode ser amigável, quando as partes da conversação não obs- truem nem colocam em perigo ou restringem a influência discursiva entre si, ou não-amigável; quando elas o fazem. Nesse sentido, uma pessoa livre é aquela que tem habilidade para discursar e ter acesso ao discurso. Para Pettit, nem sempre participamos dessas conversações para decidir o que fazemos. Portanto, a teoria que defende, em suas palavras, estabelece que a existência da capacidade raciocinativa e relacional é suficiente para a liberdade da pessoa, independentemente de até onde de fato ela a exerce. Quando, por exemplo, agimos por hábito, colocando-nos no "piloto-automático", parecemos não estar sujeitos ao controle discursivo. Mas, em primeiro lu- gar, pode-se argumentar ter havido o controle discursivo antes da adoção desse hábito e, em segundo lugar, pode-se dizer estar esse controle presente, enquanto capacidade, mesmo quando a ação é habitual, pois quando encontramos uma situação dife- rente daquelas com as quais estamos habituados ele volta a ser exercido, uma vez que colocamos em dúvida nossos hábitos. A teoria do controle discursivo vem portanto superar uma insuficiência dos modelos anteriores, racional e volitivo, con- sagrando uma liberdade que é discursiva, ou, na linguagem de Pettit, que diz respeito à pessoa. Assim Pettit procura, seguin- do a atual tendência de - usando um termo de Cirne Lima - colocar a liberdade na roda do discurso, desenvolver, como Habermas, uma teoria da autonomia dialógica. Mas Pettit o faz de um modo diferente, não falando, como Habermas, em uma situação ideal reguladora do discurso em oposição às situa- ções reais, e sim em uma dualidade interação discursiva amigável/não-amigável, que pode até ser comparada à dualidade habermasiana, mas que dela difere significativamen- te. A situação amigável é aquela situação em que não há coer- ção, ou pelo menos não há certo tipo de coerção, já que, para Pettit, a coerção amigável, isto é, aquela que é guiada pelos interesses do próprio coagido, é admitida. Ela pode ser compa- rada a uma situação ideal do discurso somente em um sentido:

se nossas interações discursivas sempre fossem amigáveis sempre seriamos livres. Infelizmente, as interações nem sem- pre são amigáveis e por isso elas assumem, em certo sentido, um aspecto idealístico. Mas é preciso ressaltar que a interação amigável de Pettit tem um caráter de realidade muito maior que o da situação ideal do discurso. Esta nunca será efetiva- da plenamente, permanecendo sempre como idéia regulado- ra, aquela pode muito bem ser efetivada plenamente em várias situações, embora dificilmente seja sempre efetiva-

da. As exigências da situação ideal parecem, portanto, mais rigorosas que as da interação discursiva amigável, que não é, em Pettit, como a situação ideal, nesse sentido, ideal. Um outro ponto de contato entre Habermas e Pettit é a pres- suposição da igualdade dos participantes do discurso. No capítu- lo 4 Pettit afirma, como já ressaltei, que a teoria da liberdade como controle discursivo é uma teoria da pessoa livre. Ora, pes- soa é aquela que se relaciona ou interage de forma comunicati- va com outras, que, portanto, são iguais. Além disso, quando trata da liberdade política, Pettit enfatiza a universalidade dos sujeitos protegidos pela liberdade enquanto não-dominação. Estabelecida uma teoria da liberdade individual, Pettit pas- sa à liberdade política. Antes disso e para isso, aborda a inte., ressante questão da personalidade dos sujeitos coletivos. Pettit combate a idéia de Anthony Quinton, para quem quando atri- buímos a um sujeito coletivo determinadas características dos seres humanos, tais como capacidade de julgar, de ter inten- ções e coisas semelhantes, o fazemos apenas de forma meta- fórica. Para Pettit a prova da inadequação dessa intuição de Quinton é o fato de que sujeitos coletivos muitas vezes tomam decisões diferentes daquelas da maioria de seus membros. Para demonstrar essa intuição, Pettit, no Capítulo 5, parte do "dile- ma discursivo", que é uma versão generalizada do "paradoxo jurisprudencial", concluindo que os grupos tendem geralmente a um uso coletivo da razão, isto é, que as decisões dos grupos podem não concordar com as decisões da maioria dos mem- bros do grupo, sobretudo quando a razão é coletivizada, o que, em sua opinião, tende a acontecer na maioria dos casos. Essa

XVI

interessante idéia do uso coletivo da razão tem, a meu ver, significativas repercussões tanto no processo legislativo das democracias contemporâneas quanto na teoria jurídica da per- sonalidade. No primeiro caso, considerando que o processo decisório sobre a produção de leis é desenvolvido por mem- bros de um parlamento, é interessante perguntar se eles proce- dem, usando as expressões de Pettit, através do uso individual ou do uso coletivo da razão. No segundo caso é interessante comparar, para fins de reconhecimento da personalidade jurí- dica de determinadas coletividades, o tradicional critério jurídi- co da necessidade para fins práticos com o critério, posto por Pettit, da coletivização da razão.

O próximo passo de Pettit é a demonstração que, tendo

personalidade, podem as coletividades ter ações e selves li- vres, bem como ser pessoas livres.

A partir daí Pettit se dedica ao problema da liberdade polí-

tica. Sendo um sujeito coletivo, o Estado tem liberdade de agir como os demais sujeitos coletivos, tendo a peculiaridade de ao contrário desses sujeitos (i) poder adotar medidas coercitivas e (ii) não possibilitar, de modo geral, que seus membros o aban- donem. Vejamos rapidamente essas duas características. Pri- meiramente, o Estado, ao contrário dos demais sujeitos coleti- vos, tem um poder de imperium, que implica poder ele cobrar tributos, impor sanções e punições, ou seja, ter o monopólio da coerção. Em segundo lugar, as pessoas não podem abandonar o Estado como abandonam, por exemplo, uma associação de classe ou um sindicado. No caso de um sujeito não-estatal, sua própria sobrevivência está ameaçada se não efetivar o interes- se comum das pessoas, pois então muitos o deixarão. Como isso não é possível no caso do Estado, o risco de um poder arbitrário aparecer é considerável. Esse é o tema central da abordagem da liberdade política que faz Pettit no Capítulo 6. Como se sabe, um dos problemas fundamentais da teoria política dos primeiros teóricos modernos era: "como permane- cer livre estando submetido ao poder do Estado?". A meu ver, essa pergunta só é possível, no caso das teorias contratualistas, porque elas, assim como Pettit, tratam da liberdade da vontade

xvii

ao mesmo tempo em que tratam da liberdade política. Nos teó- ricos contratualistas essa união se dá partindo do conceito de liberdade da vontade em direção ao conceito de liberdade polí- tica. A própria idéia de "contrato" social evidencia essa ten- dência: o sujeito coletivo, ou seja, o Estado, é explicado a partir de um "acordo de vontades", vontades essas que são vontades de indivíduos. Essa tendência se deve, como se sabe, à inver- são, pelo humanismo moderno, da concepção política oriunda da Antigüidade grega, que considerava a parte mais importan-

te que o todo e, conseqüentemente, o Estado mais importante

que o ser humano. Mesmo em Hobbes, para quem o importan-

te

era justificar a existência da lei - porque qualquer lei é boa -

e

do leviatã, a justificativa é a manutenção da liberdade do

homem, que é concebida, de acordo com a visão de Pettit, com base no modelo da liberdade enquanto não-interferência, que mais tarde se tornaria o lema do liberalismo. A essa visão do contratualista Hobbes se contrapõem, para Pettit, teóricos contratualistas como Montesquieu e Rousseau, que, embora compartilhando com Hobbes o pro- blema fundamental de explicar a já referida questão "como permanecer livre estando submetido ao poder do Estado?", adotam uma posição republicana de liberdade enquanto não- dominação. Podemos dizer que Montesquieu tenta garantir essa não-dominação, ou como ele próprio diz em O Espírito das Leis, evitar o despotismo, por meio da separação de po- deres, também acolhida no modelo democrático de Pettit. Em O Contrato Social, Rousseau identifica essa não-domina- ção de que fala Pettit com a não submissão de alguém a nin- guém mais que si mesmo. A liberdade enquanto autonomia, descoberta por Rousseau, não. pode ser desprezada por qualquer teoria da democracia, como não é por Pettit, embora este trate do governo democrá- tico em um plano de autonomia diferente do de Rousseau. Para Pettit a democracia é o governo que efetiva os interesses co- muns assumidos pelas pessoas, pressupondo, portanto, sua au- tonomia, mas indo além da mera identificação da não-domina- ção com a vontade geral.

xviii

Segundo Pettit, somente uma teoria da liberdade entendida como não-dominação garante o modelo democrático. Isso por- que o regime democrático está ligado essencialmente não à idéia de liberdade como não-limitação e não-interferência, mas com o combate ao arbítrio. Políticas públicas, leis ou medidas governamentais são arbitrárias quando não efetivam os inte- resses comuns das pessoas. Se a liberdade for compreendida como não-interferência, como no modelo liberal, as pessoas poderiam ser tão livres sob o poder de um leviatã quanto sob um poder republicano. Mas uma vez concebida a liberdade como não-dominação; cabe perguntar: como efetivá-la? Segundo Pettit, um primeiro passo é garantir um sistema eleitoral que submeta a escolha dos cargos políticos ao escrutínio popular, ou seja, usando uma expressão romana, um sistema republicano. Mas Pettit perce- be que a mera eleição de representantes dos eleitores não garan- te que as ações estatais não sejam arbitrárias. Como já havia intuído Hans Kelsen, acreditar que a vontade dos representantes sempre corresponde à vontade dos representados é uma fic- ção, que Pettit sabiamente não assume: ele constata que a pro- dução político-governamental pode ser influenciada por fato- res diversos do interesse comum das pessoas. Por isso, ao lado da idéia de democracia representativa passa a desenvolver a idéia de democracia contestatária, isto é, um sistema de gover- no em que as decisões de governo (incluindo as decisões legislativas) são sempre contestáveis. As formas institucionais dessa dimensão são desenvolvidas por Pettit no Capítulo 7. Dessa forma, desenvolve Pettit, de forma encadeada e coerente, esse louvável empreendimento de uma teoria ampla da liberdade, que não fragmenta seu estudo em dois comparti- mentos, liberdade da vontade e liberdade política, mas, seguin- do a melhor tradição da nascente filosofia moderna, incorpora ao estudo da liberdade política o estudo da liberdade da von- tade. Essa união responde positivamente à nossa intuição fun- damental de que a liberdade política não pode ser compreendi- da ou sequer estudada sem a consideração da liberdade da vontade. Afinal de contas, trata-se, na verdade, de dois aspec-

xix

tos de uma só liberdade, estando assim a liberdade política indissociavelmente ligada à liberdade da vontade, já que se re- laciona àlimitação dessa liberdade da vontade e é formada por deliberações que têm sede nessa liberdade da vontade de indi- víduos que compõem o Estado. A liberdade enquanto não-interferência não pode, a meu ver, justificar um Estado realmente democrático. Pettit ac~rta. Se fosse essa a concepção de liberdade que define o regrme

democrático, então Estados que consideramos despóticos teriam necessariamente que ser considerados democráticos, pois eles podem de fato intervir em pequena medida. Isso ~ontra~iznos- sa intuição fundamental de que eles de fato nao efetivam a liberdade. A liberdade não pode ser entendida meramente como não-interferência, pois essa concepção não impede a domina- ção e a opressão. Talvez Paley, citado por Pettit no Capítulo 7, tenha razão quando afirma que "se fosse possível que o bem- estar e a satisfação do povo pudessem ser tão cuidadosamente estudados e previstos nas publicações oficiais de um príncipe

despótico

então uma forma absolutista de governo não sena menos livre que a mais pura democracia", isto é, usando uma terminologia de Kant, talvez um príncipe despótico pudesse dar ao povo a lei que ele, o povo, daria a si próprio. Mas com? isso é_ po~co provável, além de os representantes ser~m eleitos ~e~odica­ mente faz-se necessária uma democracia contestatona, para que o ideal kantiano da autonomia transcendental ~ejagaran- tido, isto é, para que as leis, políticas públicas e medidas gover- namentais possam valer enquanto leis universais, ou usando a terminologia de Pettit, possam efetivar os interesses comuns assumidos pelas pessoas.

quanto nas resoluções de uma assem~léia pop~lar,

INTRODUÇÃO;À EDIÇÃO BRASILEIRA

Este livro difere de outros livros-padrão, no que concerne ao tratamento da liberdade, na tentativa de fornecer discus- sões de temas conectados com a livre vontade e a liberdade política. Procura por uma teoria embasada na liberdade clássi- ca, que compreende os modelos exemplificados por Thomas Hobbes no século XVII e Immanuel Kant no século XVIII, como também pelos seus contemporâneos e sucessores imedia- tos. Conquanto Hobbes e Kant tiveram idéias bem diferencia- das ao falar sobre a livre vontade e a liberdade política, eviden- temente, e não trataram esses tópicos de forma isolada e distinta, ainda que a visão deles, em cada uma das áreas, tivesse par- tido de uma mesma e profunda raiz. Para que procurar por uma teoria nos moldes clássicos e abrangentes? Para que tentar reunir temas que agora perten- cem a diferentes áreas da literatura e até mesmo a disciplinas tão distintas? Faço duas observações para explicar a aborda- gem que adotei, uma delas conceituai e a outra metodológica. A observação conceituai é que a palavra "liberdade", como é usada em contextos psicológicos e políticos, apresenta uma conotação própria que respalda implicações análogas. Assim, para mencionar a conotação que é priorizada neste livro, o fato de dizer que alguém é livre em qualquer um dos contextos, significa normalmente que pode ser responsabilizado por aqui- lo que faz no exercício da liberdade. Suponhamos que se diga

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TEORIA DA LIBERDADE

que alguém não tem liberdade de vontade em um certo dorrú- nio de atividade, isso implica diretamente que ele não deveria ser responsabilizado por aquilo que faz. Ou suponhamos que

se diga que um indivíduo não sofra falta de livre vontade como tal, mas sofre a falta de uma liberdade política específica, diga- mos, a liberdade de falar contra o governo. Novamente isso implica que o indivíduo não pode ser responsabilizado - pelo menos não completamente responsabilizado - por não ter tido

a coragem de falar. Em cada caso há uma ligação entre a atribuição de liberdade e a imputação de responsabilidade e ninguém pode pensar que seja um mero acidente. Isso mostra uma continuidade de uso e de significado por meio dos dois domínios da liberdade de expressão. Mas o fato de que as liberdades das vontades e as liberda-

des políticas estão conceitualmente conectadas nesse sentido

- e conectadas, como veremos, em outras formas também -

não se contradiz quando tratadas juntas. A compartimentalização

que nós encontramos na literatura contemporânea sobre liber- dade poderá ainda ser útil e produtiva, poderá ainda represen- tar uma divisão lucrativa de trabalho erudito. Contudo, penso que não poderá. A razão desperta minha segunda observação metodológica.

O tipo de teoria perseguida na filosofia, seja na área da

psicologia ou da política, inevitavelmente procura regimentar várias intuições de forma a colocá-las juntas, para compor uma estrutura geral atraente. Tenta encontrar o que John Rawls (1971) chama de equilibrium refletivo entre as intuições par- ticulares ou julgamentos - ou se preferir, os dados da teoria - ou as demandas mais gerais e sistematizadas que a teoria de- fende. A observação metodológica que eu gosto de fazer e que, possivelmente, fará sentido sob este conceito de filosofia teórica, é que se procure uma teoria única para os dois dorrúnios conceituais conectados, em vez de uma teoria diferente para cada um. Penso que isso faz sentido, em particular, a respeito dos domínios da livre vontade e da política de liberdade.

O argumento para tal reivindicação metodológica é o de

que os dados, tomados separadamente em cada um dos dois

INTRODUÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA

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domínios conectados, poderão deixar a escolha da teoria dras- ticamente indeterminada, enquanto os dados, nos dorrúnios to- mados em conjunto, influem para coagir a escolha de uma teo- ria única e abrangente. Os dados, em cada um dos dorrúnios separados, podem ser coerentes com um equihôrio múltiplo mais ou menos satisfatório e, ainda, os dados dos domínios tomados juntos podem ser coerentes com um equilibrium, ou com uma pequena farrúlia de equilibria. Quando nós colocamos os do- rrúnios, coagimos os pontos de vista a serem defendidos em cada domínio, não só pelas intuições disponíveis na área, mas também pelas intuições disponíveis no outro domínio. Temos certeza de que há mais coações em uma teoria satisfatória e podemos assim reduzir o número de candidatos igualmente plau- síveis a uns poucos ou até mesmo a um só. A lição derivada dessa observação é que, enquanto as intuições do dorrúnio-específico podem ser coerentes com mui- tas teorias sobre a livre vontade com muitas teorias de liber- dade política, a combinação dos dois conjuntos de intuiçôes é capaz de coagir significativamente a escolha de uma teoria da liberdade única e unificada. E, de fato, esse é o meu pen- samento. Há muitas teorias sobre a livre vontade e muitas teorias sobre a liberdade política e poucas perspectivas para eliminar definitivamente qualquer uma das opções em cada área. As intuições que guiam as teorias da livre vontade têm conexão com o que significa dizer que o agente poderia ter feito de outra forma, com o que está envolvido quando se pensa que um agente realiza uma ação em seu próprio nome e também com o que é para o agente estar responsável por uma ação e assim por diante. E essas intuições têm provado que são capa- zes de ser interpretadas de uma forma múltipla e mais ou me- nos sistematizadas satisfatoriamente. As intuições que guiam as teorias da liberdade política relacionam-se com o fato de que aumentando-se o custo de uma opção, isso inibe o agente da mesma forma que se a opção tivesse sido removida, ou pode-se dizer que tanto os obstáculos naturais como os seres humanos interferem com sua escolha, ou também com o fato

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TEORIA DA LIBERDADE

de que a pessoa pode ser privada da liberdade sem sofrer uma interferência real ou similar. E novamente essas intuições têm- se inclinado a uma multiplicidade de construções teóricas. Em vista da indeterminação da teoria nas duas áreas, faz sentido voltar à conexão conceitual entre a livre vontade e a liberdade política e apreciar as perspectivas de uma teoria da liberdade no sentido geral, único e unificado. E é isso o que fiz neste livro. Tento formular uma teoria que ao mesmo tempo influencie as discussões sobre a livre vontade e a liberdade política e sobre as conexões entre as duas. Procuro uma teoria que interprete a livre vontade, de tal forma que ela sustente uma linha defensível da liberdade política, e também uma teo- ria que interprete a liberdade política de uma maneira que seja compatível com a linha que foi defendida para a livre vontade. Em outras palavras, procuro uma teoria que seja coagida em cada uma de suas partes, pelas implicâncias dessas partes, por meio de todas as áreas psicológicas e políticas, nas quais nós usamos a linguagem da liberdade. Penso que é mais difícil enxergar como esse tipo de teoria unificada, aqui apresentada, pode ser alterada sem perdas significantes, do que enxergar como alterar qualquer uma das posições familiares compartimentalizadas, defendidas a respeito da livre vontade e a liberdade política. Retomarei a essa dis- cussão na Conclusão deste livro. Ao falar em livre vontade e liberdade política, venho usan- do a terminologia que surgiu sob o domínio da comparti- mentalização, que eu rejeito. A linguagem que eu prefiro e a linguagem que eu utilizo neste livro não acentua a distinção entre os temas políticos e psicológicos como tais. Prefiro falar da liberdade no agente do que da livre vontade, evitando assim qualquer sugestão que limite o poder psicológico da autodeter- minação. Não falo da liberdade política, mas do ideal que a liberdade no agente sustentaria como alvo para a ação política. Enquanto descrevo isso como um ideal político de liberdade e ainda como um ideal de liberdade política, rejeito a sugestão de que tal ideal represente um domínio autônomo da teoria.

INTRODUÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA

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A liberdade no agente, como eu a considero dentro de meu

projeto de unificação, tem três aspectos: primeiro, envolve a liberdade da ação desempenhada pelo agente em uma outra ocasião; segundo, a liberdade do ser que está implícita na habi- lidade do agente para se identificar com as coisas realizadas, mais do que olhar para elas como um simples espectador; e, terceiro, a liberdade das pessoas envolvidas para desfrutar um status social que faz com que a ação seja realmente delas e não uma ação que seja provocada sob a pressão dos outros. Assim interpretada, a liberdade no agente tem um aspecto tan- to social quanto psicológico e a discussão dessa liberdade, ine- vitavelmente, nos leva além da esfera da livre vontade, como concebida tradicionalmente, e dentro de temas politicamente relevantes.

A liberdade no agente contrasta com a liberdade na esfera

do agente, na qual essa liberdade é uma função a respeito de quantas e quão significantes são as opções disponibilizadas mediante parâmetros impessoais sob os quais um agente exer- cita sua liberdade, isto é, os parâmetros ditados por uma ordem natural tumultuada ou um sistema social coagente. As ques- tões que têm a ver com a esfera da oportunidade na qual a liberdade é exercida, só são apresentadas nos dois últimos ca- pítulos deste livro. Na primeira parte, eu assumo que o ambien- te disponibilizará suficientes opções para que as pessoas fa- çam escolhas e me concentro na questão do que isso significa e o que significa desfrutar o agenciamento da liberdade - liber- dade de ação, de ser e de pessoa - para fazer as escolhas.

O livro está organizado em sete capítulos .e pode ser útil

para providenciar uma breve visão. No primeiro capítulo me refiro ao conceito de liberdade, especificamente como ele é utilizado do lado do agenciamento, e argumento que ele está unificado pela conexão com a responsabilidade. Ser livre em um sentido geral é estar totalmente adequado para ser respon- sabilizado, isto é, merecer completamente os tipos de reações que caracterizam as relações cara a cara, ou seja, as que envol- vem ressentimento ou gratidão. A ação livre, o ser livre, a pes-

soa livre não são nem mais nem menos que os tipos de ação:

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TEORIA DA LIBERDADE

ser e pessoa compatíveis com a dita adequação, elas têm, como explicarei oportunamente, responsabilidade compatível.

Tal caracterização do conceito de liberdade levanta a questão do que ela é - assumindo que há uma estrutura simples sendo construída - que faz com que alguém seja adequado para ser responsabilizado. Os Capítulos 2, 3 e 4 exploram essa questão no contexto do agente individual, como distinto dos agentes coletivos, referindo-se a três teorias da capacidade envolvida que se associam, respectivamente, ao controle racional, ao controle volitivo e ao controle discursivo. Atearia da liberdade como controle racional começa com uma descrição da liberda- de em ação, a teoria da liberdade, como controle volitivo de uma descrição da liberdade no ser e a teoria da liberdade, como controle discursivo, com uma descrição da liberdade na pes- soa, mesmo que cada uma sirva para gerar uma visão geral do agenciamento da liberdade. Argumento contra as duas primei- ras teorias e defendo a teoria da liberdade - especificamente,

a teoria da liberdade no agente individual - que a associa ao controle discursivo. Até agora a teoria da liberdade como controle discursivo envolve uma visão da pessoa livre, com um aspecto social e político a respeito da mesma. Mas os últimos três capítulos do livro abrangem mais explicitamente questões sociais e políti- cas. O Capitulo 5 argumenta que agendamentos coletivos, não somente sujeitos individuais, podem possuir liberdade como controle discursivo e assim estendi a teoria previamente de- senvolvida em capítulos centrados no indivíduo e também conectada com os capítulos mais sociais que os seguem. O Capítulo 6 argumenta que um desses agendamentos coletivos,

o Estado, deveria ser parcialmente responsabilizado por iludir o

povo com a idéia de um amplo gozo da liberdade como contro- le discursivo e de que a melhor concepção desses requerimen- tos que o Estado pode monitorar vantajosamente - a melhor concepção política de liberdade - é fornecida pelo ideal repu- blicano da não-dominação. O Capítulo 7 considera o perigo de

que qualquer Estado poderoso poderá representar, por si mes- mo, o gozo do povo por meio da não-dominação e, finalmente,

INTRODUÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA

do controle discursivo e argumenta que o remédio jaz na de- mocratização, em que aquele é representado envolvendo duas dimensões: eleitoral e contestatária. O livro termina com uma breve Conclusão, na qual demonstro como os traços mais im- portantes da posição defendida refletem a metodologia holística discutida nesta Introdução.

A conclusão é um tratamento da liberdade sob um único tema, que está envolvido em toda fala sobre a liberdade- aquela da adequação necessária para ser responsabilizado, há uma teoria geral a respeito do que seja constituir a tal adequação dos agentes - o controle discursivo e essa teoria fornece um ponto de partida desde o qual podemos ver como as discussões sobre a liberdade fazem parte do contexto do coletivismo, politização e democratização. A linha geral de argumentação poderá ser obtida a partir da leitura dos sumários conclusivos que aparecem no final de cada capítulo.

Conceituandoaliberdade

Conceituandoaliberdade Vimos na Introdução que a linguagem de liberdade se apli- ca ao lado do agenciamento

Vimos na Introdução que a linguagem de liberdade se apli-

ca ao lado do agenciamento - o principal enfoque deste livro -

e à esfera onde o agenciamento é exercido. E distinguimos três domínios nos quais o agenciamento da liberdade está em

discussão: o da ação, o do self e o da pessoa. A abordagem pressupõe que há um conceito de liberdade, único e unívoco, em discussão quando nós falamos em uma ação livre, um ser livre e uma pessoa livre. E a questão à qual agora nós voltamos

é a seguinte: qual conceito, assumindo que exista algum, unifi- ca a liberdade de expressão nesses três domínios?

1.1 As conotações da liberdade

Predicar a liberdade de um agente, em particular, de alguma

coisa que o agente fez, é sugerir que ao menos três diferentes tipos de coisas acontecem (O'Leary-Hawthome, Pettit, 1996).

A primeira é que o agente pode ser diretamente responsabili-

zado por aquilo que fez, mas se a ação foi livre, então não tem

como pensar em responsabilizar o agente pela resposta que ele deveria ter dado. A segunda é que a ação escolhida livremente

é uma ação que o agente pode possuir, pensando: isto aqui

carrega a minha assinatura, isto sou eu. E a terceira é que a escolha do agente não foi totalmente determinada por uma certa gama de antecedentes, não foi totalmente determinada, por

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TEORIA DA LIBERDADE

exemplo, por uma sugestão hipnótica ou um complexo incons- ciente de condicionamento infantil. Qualquer descrição do conceito de liberdade deve levar em conta essas conotações de responsabilidade, possessão e subdeterminação e perguntar qual delas, se existir alguma, é a maior determinante básica da forma em que aplicamos o con- ceito. A descrição oferecida deve explicar por que cada uma das conotações se sustenta ou parece sustentar-se no nosso uso comum do termo. Deve explicar como o conceito de liber- dade em um agente pode aplicar-se ao nível de ação, self e pessoa. Deve apoiar as intuições que achamos amplamente compulsivas em nossa visão de agenciamento humano. E idealmente deve se adequar com uma teoria plausível do que na realidade constitui a liberdade no agente. Como sugeri na Introdução, a descrição deve procurar um equfübrio reflexivo (Rawls, 1971) -um equihôrio que requer um ajustamento re- flexivamente desenvolvido de um lado ou do outro - entre os diferentes elementos. Meu plano, neste capítulo, é desenvolver uma aproxima- ção que priorize a conotação de responsabilidade, Em um pen- samento recente, essa aproximação volta a Um ensaio de Peter Strawson, publicado pela primeira vez nos anos de 1960, sobre "Liberdade e Ressentimento", que foi adotado de diferentes maneiras por diversos escritores desde então (Strawson, 1982; Watson, 1082; Wolf, 1990; Fisher, 1994; Pettit, Smith, 1996; Wallace, 1996; Scanlon, 1998). Existem muitas considerações que favorecem essa aproximação, mas o melhor argumento que o apóia é aquele que nos conduz para uma visão satisfatória de toda a área, sendo que o argumento está disponível somente à luz do que virá depois. O compromisso para analisar a liber- dade, em termos da responsabilidade, deve ser visto como uma presunção que será testada ao longo do livro e não somente no breve conteúdo deste capítulo. O tema já foi mencionado na Introdução. Neste capítulo trataremos em profundidade do que está envolvido no pensamento da liberdade, partindo da perspectiva de responsabilidade, e identificaremos algumas considerações

CONCEITUANDO A LIBERDADE

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que apóiam a aproximação. Uma primeira razão para favorecê- la, é que ela promete agir melhor do que as outras alternativas para salvar as três conotações. Existe pouca ou nenhuma ra- zão para pensar que a ação subdeterminada, ou a ação que é totalmente possuída pelo agente, tem que ser uma matéria pela qual o agente possa ser responsabilizado. Mas há uma razão para pensar que qualquer ação pela qual o agente poderá ser responsabilizado, será subdeterminada de uma forma signifi- cativa e será uma coisa que o agente pode e deve possuir.

A subdeterminação não conotará responsabilidade, porque

um evento qualquer que venha ocorrer dentro de mim, ou pelas minhas mãos, não será necessariamente algo pelo qual poderei ser responsabilizado. A posse não conotará responsabilidade. Poderei identificar como distinta~intimamente minha uma res- posta ou um estado, um hábito ou uma habilidade pela qual não poderei· ser responsabilizado. Pode ser alguma coisa que vem

para mim - felizmente, eu acho - pelas graças dos genes ou pela história familiar. Mas a perspectiva de responsabilidade salva todas aquelas outras conotações, porque há uma certa subdeterminação e uma certa posse implícita na mesma idéia de ser adequado, para ser responsabilizado por alguma coisa.

A conexão com a posse aparece no fato considerado ade-

quado para ser responsabilizado por ter feito A em vez de B, e eu fiz A, então aquela escolha pode ser deixada à minha porta - representada como minha - de uma maneira que conota um grau de posse. O self, que é adequado para ser responsabiliza- do, deve ser aquele que não esteja alienado da ação de fazer A. O agente deve ser capaz de refletir sobre os pensamentos que o levaram à ação e a ação, em si, na primeira pessoa: "isto é o que eu tinha em mente e foi isto o que eu fiz."

A conexão com a subdeterminação é um pouco menos di- reta, mas, mesmo assim, mais razoavelmente obrigatória. Se eu estivesse adequado a ser responsabilizado por ter feito A ou não-A, então a consciência que eu teria de A deveria ter sido capaz de me conduzir a A, a consciência de que eu teria de não-A teria que ter sido capaz de me conduzir a não~A. Isso significa·que fatores causais diferentes de minha consciência,

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TEORIA DA LIBERDADE

sobre o que eu deveria fazer, não podem ter determinado por completo o que eu fiz, eles não podem ter previsto minha res- posta. Esses antecedentes, de qualquer maneira que eles pos- sam ser caracterizados, devem ter subdeterminado a minha escolha. Assim como a descrição dada aqui, da maneira como con- cebemos a liberdade, começa pela conotação de responsabili- dade, outras descrições da liberdade começarão a partir de outras conotações. Neste livro, não examinaremos explicita- mente as aproximações rivais, nem mesmo consideraremos o apoio que tais objeções podem dar à concepção da liberdade como adequada para ser responsabilizada. Coloco observações em lugares que podem prever muitas objeções óbvias, mas não perco muito tempo com tais objeções. De qualquer maneira, a discussão dos vários temas nos conectará a uma literatura de- senvolvida em busca das concepções rivais da liberdade. Na discussão do Capítulo 3, por exemplo, analisaremos largamen- te os trabalhos de Frankfurt (1998), sobre a análise da liberda- de como posse. Mas por bem ou por mal, o livro desenvolve a concepção da liberdade como responsabilidade e tenta atrair e elucidar o mérito sem entrar em uma permanente dialética com as alternativas.

1.2 A armadilha da liberdade

Dependendo de que conotação é dada à prioridade na conceitualização da liberdade - se alguma for priorizada - a problemática do livre agenciamento dará uma idéia diferente, uma problemática diferente, por assim dizer, que ficará em des- taque. Sob a conotação da responsabilidade, a liberdade é uma· problemática na medida em que ela é recursiva em caráter, sob a conotação da posse, ela será problemática na medida em que tenha um aspecto baseado na primeira pessoa, e sob a conotação de uma escolha subdeterminada e sob a conotação de uma escolha subdeterminada, ela é problemática na medida em que envolve uma certa possibilidade modal. Analisaremos esses problemas em uma ordem inversa.

CONCEITUANDO A LIBERDADE

O problema modal que a subdeterminação levanta preten- de explicar como é possível que, para alguma coisa que pode ser livremente feita, o agente tenha sido capaz de fazer uma coisa diferente em troca. Sob a interpretação mais radical, isso significa dizer que no momento da escolha não deve ter sido possível para o agente, apesar do regime causal e da historia causal do mundo até aquele ponto, ter agido de outra forma (Sartre, 1958; Van Inwagen, 1983). A menos que se espere que o momento seja tomado sem entusiasmo, a escolha dificil- mente atrairá defensores (Lewis, 1986, Ensaio 25), essa con- dição está em tensão com uma pintura naturalística do univer- so, isto é, com uma pintura do universo sob a qual cada aspecto do mundo, incluindo a liberdade dos agentes, é fixado no lugar pela maneira em que o mundo está constituído e a forma em que está organizado por lei, no domínio microfísico postulado na física (Pettit, 1993b; compare com Jackson, 1998). Deixe- mos que o mundo seja governado por uma lei determinística e a condição será diretamente excluída. Deixemos ele ser· go- vernado por uma lei indeterminística e, ainda assim, não estará claro, como se supõe, que os agentes preencherão os espaços que a mencionada lei deixa vazios e, se eles os preencherem, não é claro o porque de isso não comportar indeterminismo. Tem havido outras interpretações da condição modal, vi- sando fazer com que a subdeterminação envolvida na liberda- de pareça ser menos problemática. As interpretações enten- dem a condição modal como subdeterminação por meio de uma série selecionada de antecedentes e não por meio de tudo o que acontece até o momento da escolha. As interpretações representam a capacidade dos agentes para agir de forma di- ferente de como eles agiram, se não de maneira contrária a todas as influências causais sobre a ação, ao menos contrárias a esses antecedentes particulares; Mas essas interpretações tropeçam com uma variedade de problemas como agora se sabe (cf. Berofsky, 1987). Uma corrente entende uma condição como aquela em que, se o agente não a tivesse escolhido, então, ele teria feito de outra forma (Moore, 1911, Capítulo 6; Ayer, 1982). Mas isso

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TEORIA DA LIBERDADE

não é correto. Escolher ou desejar ou qualquer outro cognato é uma ação, de modo que sempre haverá uma pergunta sobre se ela por si só satisfaz a condição ou não. Tal pergunta causará um retrocesso indefinido. Uma outra corrente, mais popular, considera a condição como determinante de uma ação que o agente não teria escolhido como forma de agir, ou seja, o agen- te não desejou agir daquela forma. Concluindo, o agente não teria agido daquela forma se tivesse uma escolha (Davidson, 1980, Ensaio 4). Esta proposta não está sujeita à mesma difi- culdade que a anterior, uma vez que o desejo não é uma ação e a questão não enfrenta se, ela é ou não uma ação livre. Mas é problemática em outro aspecto. De acordo com o que a condi- ção estipula atualmente, é possível entender que os desejos do agente tenham-se desviado, porque o condicionamento e o treino aos quais o agente fora submetido desde criança, poderiam ter sido diferentes do que realmente foram (Chisholm, 1982). Ocor- re que o mundo possível, onde os desejos do agente são dife- rentes de como eles realmente são, é, sem dúvida, um mundo muito remoto. Então, para chegar a ele desde o mundo real, teríamos primeiro que transformar o passado real, fazendo-o diferente de como ele foi. É como conseqüência da armadilha modal, que a concei- tualização da liberdade, em termos de subdeterminação, é co- locada em uma posição central. Aarmadilha que a conceitua- lização de liberdade, em termos de posse, coloca nessa posição sustenta o aspecto pessoal de liberdade. Isso consiste no Jato de que, para qualquer coisa feita livremente, o agente deve ser capaz e, sem dúvida, obrigado a ver a ação como sendo sua. O agente não pode ser separado da ação ou do processo que conduz à ação, da mesma forma que ele pode ser separado de um reflexo, ou uma patologia, ou, até mesmo, uma obsessão ou compulsão. O agente não é um mero espectador ou observa- dor do que acontece, ele deve identificar-se com aquilo que ele próprio fez. Foi dada uma particular atenção a essa armadilha desde que o trabalho de Harry Frankfurt (1988) conceitualizou a li- berdade - estritamente, como ele observou, liberdade da von-

CONCEITUANDO A LIBERDADE

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tade - em termos de posse. Naturalmente associamos o livre agenciamento com a operação de um certo processo que con- duz à ação e, naturalmente, pensamos que qualquer processo objetivo pode ser caracterizado em um vocabulário na terceira pessoa. Então, como é que o agente pode estar presente na primeira pessoa? Como pode o agente ver a ação distintamen- te como sendo sua? A pergunta levanta um sério desafio. Qual- quer processo objetivo se prestará a caracterização em tercei- ra pessoa - levando em consideração uma seqüência de causa e efeito - que não inclui a menção do self, somente de eventos que ocorrem dentro do self (Chisholm, 1982). E então haverá sempre uma pergunta de como o agente é capaz de se ver em um processo associado com ação livre, possuindo e assumindo a ação de alguma coisa que ostenta sua assinatura. A conceituação de liberdade, em termos de responsabili- dade, coloca uma armadilha diferente na posição de destaque. Isso está associado com o que eu descrevo como um caráter recursivo de responsabilidade, supondo que eu seja o respon- sável por uma ação. Presumivelmente será assim, porque tal ação está sob controle de algum outro fator em mim, por assim dizer, as minhas crenças e desejos. Por simples intuição con- cluímos que o caráter recursivo da responsabilidade aparece no fato de que devo ser responsável por essas crenças e dese- jos. Se eu não fosse responsável por eles, então presumivel- mente isso me liberaria da minha responsabilidade também com a ~ção,ou seja, eu poderia rejeitá-la como o produto de alguma coISa que não está dentro da minha esfera de responsabilida- de. Mas se eu for responsável pelas crenças e desejos que estão no controle da ação, então, presumivelmente, sou res- ponsável por elas, em virtude de elas estarem sob controle de algum fator a mais que está ainda dentro de minha aparência, por assim dizer, nos meus hábitos em formar e revisar as mi- nhas crenças e desejos. O caráter recursivo da responsabilida- de ~ignificaque devo ser igualmente responsável pelos hábitos, mais uma vez, e estarei liberado e assim por diante, indefinida- mente. Deixemos a minha responsabilidade ser modificada por uma certa seqüência de fatores controladores e talvez isso faça

TEORIA DA LIBERDADE

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com que eu seja responsável por cada elo dessa corrente. Não posso ser responsável por alguma coisa como conseqüência da operação de um fator controlador, pelo qual eu também não sou responsável. A responsabilidade é, inerentemente, recursiva por natureza. A natureza recursiva da responsabilidade parece implicar um retrocesso indefinido ao longo das linhas de influências controladoras, em virtude das· quais uma ação é atribuída a um agente em primeiro lugar (cf. Klein, 1990; Strawson, 1994; Kane, 1996; Hurley, 1999). O problema é de uma classe que apresenta dificuldades para as quais as outras conceitualizações atraem a nossa atenção. Em cada caso, o livre agenciamento está associa- do a uma condição que é maior do que a natureza, aparentemen- te, é capaz de proporcionar. Em cada caso, o agenciamento livre está dissimulado de uma maneira que o faz parecer incoerente com a representação naturalística do universo. Uma vez que conceituamos a liberdade em termos deres- ponsabilidade, por hábito, ou como é usual, nos concentrare- mos na discussão do livre agenciamento - particurlamente na discussão da ação livre - na armadilha recursiva. Mas as ou- tras armadilhas se apresentarão também. O problema da pri- meira pessoa associado à conceitualização da liberdade em termos de posse, aparecerá aqui na discussão da liberdade no self. E a dificuldade modal que está associada à conceitua- lização da liberdade em termos de subdeterminação, será ex- plicitamente discutida no Capítulo 4, no qual defendemos ateo- ria da liberdade - particularmente a teoria da ação livre - controle discusivo. Tentarei mostrar neste ponto que a teoria da liberdade como controle discursivo fornece suficientes re- cursos para resolver a dificuldade modal, assim como o proble- ma recursivo.

como

1.3 Construindo a conotação da liberdade

A coerência para falar da liberdade sob a abordagem a ser feita aqui, vem de uma ligação entre o fato de ser livre e o de ser considerado responsável. "Dever" implica "poder". Como

CONCEITUANDO A LIBERDADE

já foi dito, o que quer que as qualificações possam desejar im- por sobre aquele princípio, elas dão um bom depoimento para a conexão que eu tenho em mente. Se um "dever" é direcionado a um sujeito, supõe-se que exista um "poder" adequado pre- sente. Se há uma obrigação imposta a um sujeito, supõe-se que ele tenha capacidade para desempenhar aquela obrigação. O sujeito é um agente livre e a sua ação é uma ação livre, na medida em que ele é capaz de ser considerado responsável pela escolha relevante. Mais especificamente, o sujeito é livre, exatamente, na medida em que ele é capaz de ser considerado responsável pelo critério implícito na prática. Alguém é livre, eu diria, até o ponto em que estiver adequado para ser conside- rado responsável.

A noção de adequação para alguém ser considerado res-

ponsável, está fundamentada na prática comum pela qual nos consideramos responsáveis pelas coisas que fazemos e proce- de imputar a culpa àquelas ações que nós achamos más e elo- giar aquelas que nós achamos boas. Uma completa adequação para o sujeito ser considerado responsável por uma certa es- colha, é estar de tal forma que não importa o que faça, será completamente merecedor de culpa, se a ação for má, e será completamente merecedor de elogio, se a ação for boa. O quanto de culpa e elogio que realmente obterá varia dependendo dos fatores ortogonais, tais como, as expectativas que tenham a respeito do sujeito e o desempenho dos outros. Ter a completa adequação para ser considerado responsável é o mesmo que ter a completa qualificação para receber qualquer nível de elo- gio ou de culpa oferecido. Qualquer um agente é livre na medi- da em que o é no seu self e na sua pessoa e isso lhe permite fazer escolhas pelas quais estará completamente adequado para ser responsabilizado nesse sentido. E a sua ação, em um caso dado, será livre na medida em que se materialize de uma forma que lhe permita achar-se como completamente adequado para ser considerado responsável.

A prática de imputar elogios e culpas e considerar a pes-

soa responsável não é um exercício intelectual no qual nós rea-

lizamos uma auditoria do comportamento de um frente ao com-

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TEORIA DA LIBERDADE

portamento de outro, para, então, meditar sobre as respostas apropriadas. Essa prática está gravada em algumas de nossas reações mais básicas em relação ao outro, como quando senti- mos ressentimento pelo dano que alguém nos causa ou grati- dão por uma boa coisa que alguém nos fornece. Essa prática também aparece na indignação que sentimos quando alguém é maltratado por uma terceira pessoa ou na aprovação, quando é bem tratado. Mas de qualquer forma, é tanto uma questão de sensibilidade e afeto quanto um problema de cognição e julga- mento. A prática está profundamente enraizada na arquitetura de nossa psicologia, comprometida com algumas de nossas mais fortes emoções (Strawson, 1983; Wallace,.1996). O quadro adotado aqui é aquele que, quando nós pensa- mos em um agente como livre, só o fazemos na medida em que pensamos sobre ele como merecedor de tal tipo de reação, seja ela uma resposta negativa ou positiva. Ser merecedor de uma reação é o mesmo que ser adequado para ser considera- do responsável. É claro que nem toda ação livre comprometerá nossas reações, algumas podem ser suficientemente neutras para não elidir ressentimento ou gratidão, indignação ou aprova- ção. Mas até mesmo uma ação neutra, se for da livre iniciativa de um agente livre, emergirá de uma escolha tal que, se o agente fizesse alguma coisa boa, a nossa reação seria positiva, e se tivesse feito alguma coisa má, a nossa reação seria negativa. Nós só vemos os seres humanos como merecedores de reações, tais como ressentimento e gratidão, e sentir essas mesmas reações a respeito dos fenômenos naturais, tais como o tempo ou o ciclo laboral ou ainda a respeito de animais não- humanos e os seus feitos, é, como a maioria pensa, bastante inapropriado, mas os seres humanos e suas escolhas não são sempre merecedoras de reações. Nós, espontaneamente, identificamos pessoas que não es- tão em seu são juízo ou que estão fora de si, como objetos que não são merecedores de ressentimento ou gratidão, e identifi- camos também, sem dificuldade, aqueles casos em que sujei- tos comuns podem ser considerados merecedores de ações e também responsáveis - se eles fizerem alguma coisa má, en-

CONCEITUANDO A LIBERDADE

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tão, por assim falar, existe pouco ou nada para desculpá-los - e casos em que não são. Então, a idéia geral atrás dessa abordagem da responsabi- lidade é esta: nós nos comprometemos com outros seres hu- manos de uma maneira diferente, que envolve a atribuição es- pontânea de responsabilidade, e concebemos a liberdade como uma propriedade dos seres humanos e das ações desempe- nhadas por eles, o que torna essa atribuição apropriada sobre as regras da prática. As nossas atitudes reativas são as lentes pelas quais a imagem do agente livre e da ação livre tomam forma e quando aprovamos as projeções dessas lentes - quan- do pensamos que o agente e a ação são completamente mere- cedores das reações - então pensamos que é apropriado predicar a liberdade. Ser livre é ser de tal maneira que a rea- ção seja apropriada, é estar adequado para ser considerado responsável. Quando a liberdade, nesse sentido, fracassará? Intuitiva- mente a pessoa não será totalmente livre em relação a uma escolha entre A e B, se não tiver consciência da disponibilidade de tais opções no seu ambiente de escolha, se não tiver os recursos conceituais para avaliá-los ou se não estiver funcio- nando de uma forma que permita que avaliação afete o que faz. Ela não será livre totalmente se, como um self, está sujeita a problemas que tornem impossível ou particularmente difícil reivindicar A ou B como algo que fez. O sujeito não será com- pletamente livre se, como pessoa, for a vítima de uma forma de pressão indesejada de coação ou coerção, o que torna mais difícil fazer uma ou outra daquelas coisas. Tais condições ge- ralmente servem para inocentar ou, no mínimo, desculpar um agente, elas removem ou reduzem as responsabilidades. E, então, ser livre é exatamente ser adequado para ser considera- do responsável, embora as condições também contem como fatores que destroem ou diminuem a liberdade do agente. Por conveniência, eu falo, por meio de todo este livro, como se a prática em ser considerado responsável sempre envolves- se mais de uma pessoa, mas precisa ficar claro que também nos consideramos responsáveis pelas coisas que fazemos, nós

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não nos limitamos somente à prática das outras pessoas (Watson, 1996; Oshana, 1997). Se nos sentirmos culpados do que fizemos no passado e nos culparmos por nossas ações, como é que podemos nos sentir igualmente inocentes e achar que não há culpa. Sentimentos de culpa e inocência corres- pondem, no caso da primeira pessoa, ao ressentimento e grati- dão que operam com relação aos outros (Wallace, 1996). O fato de eu falar pouco ou nada sobre a primeira pessoa, não pode ser usado para sugerir que eu não pense que ele é genuí- no ou significante.

1.4 A forma primária de adequação para se considerar alguém responsável

A Filosofia, como a vida, não implica em ser simples, en- tão, obviamente, ocorre que a equação entre a liberdade e a adequação para alguém ser considerado responsável, deve ser qualificada de várias formas. Vamos descrever esse tipo de adequação para alguém ser considerado responsável, que pos- sibilita a equação com a liberdade, como sendo uma forma primária. A prática de se considerar alguém responsável e a concepção associada à adequação de alguém ser considerado responsável podem partir daquela forma primária de·qualquer uma de três formas diferentes. Assim, agora qualifico a minha tese original e afirmo que, a fim de estarem adequadas para serem consideradas responsáveis no sentido primário, as pes- soas devem alcançar três condições a mais: elas devem apare- cer como adequadas a serem consideradas responsáveis, desde a perspectiva anterior à escolha e não só depois dela; devem ser adequadas de uma maneira personalizada, para serem con- sideradas responsáveis e não só adequadas de acordo com os padrões sociais imperantes; e devem ser propriamente ade- quadas para serem consideradas responsáveis e não simples- mente adequadas para serem tratadas como se fossem ade- quadas para serem consideradas responsáveis. Se um agente está adequado para ser considerado respon- sável no sentido anterior à escolha, então ele deve estar em

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uma posição tal que importa o que é feito. A posição não reduz

a sua reivindicação de ser elogiado, no caso de sua ação ser

boa, ou de ser culpado, no caso de sua ação ser má. Antes da escolha, o agente tem que ter os recursos requeridos para po- der optar. Alguns dos recursos necessários serão os poderes gerais ou hierárquicos - que devem comprometer-se com a constituição do agente, como um self, ou status, como uma pessoa - enquanto outros envolverão a escolha particular em questão,· o fato de o agente estar consciente das opções dispo- níveis e de ter acesso a padrões pelos quais é avaliado.

A razão para a primeira qualificação aparece no fato de

que, freqüentemente, elogiamos as pessoas pelas suas ações -

e dessa forma as representamos, ex post, como responsáveis

por aquilo que elas fizeram - quando não eram totalmente ade- quadas, ex ante, de serem consideradas responsáveis pela es- colha, momento em que seria errôneo atribuir-lhes a total liber- dade. Por exemplo, a resistência do agente, que não se quebra sob tortura, pode atrair o nosso louvor generoso, mesmo que

não digamos que o agente esteja totalmente adequado, para ser considerado responsável por suas ações. Não é o caso de que não importa o que a pessoa fez em tal situação, pelo con- trário, teríamos que tê-la como completamente merecedora de elogio por fazer alguma coisa boa e completamente merecedo- ra de culpa no caso de fazer alguma coisa má. Não a teríamos julgado completamente merecedora de culpa se ela tivesse real- mente fraquejado sob a tortura.

Já disse que para ser considerado responsável no sentido

primário, um agente não só deve estar adequado no sentido anterior à escolha, mas também adequado de uma maneira personalizada. A razão para a segunda qualificação é que as considerações sociais podem, às vezes, estabelecer que a jus- tiça, ao lidar com os outros ou, sem dúvida, com nós mesmos, requer que nós ajamos como pessoas similares. Levando em consideração que as pessoas operam mais ou menos na mes- ma situação ou compartilham mais ou menos a mesma educa- ção, hesitamos em ser muito exigentes para determinar se cada uma delas está adequada ou não para ser considerada respon-

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TEORIA DA LIBERDADE

sável. Nossa tendência é dizer que se uma pessoa é considerada responsável, então outras deveriam ser consideradas respon- sáveis também. Em outras palavras, nós estamos impedidos de personalizar a atribuição da adequação para considerar uma pessoa responsável. Não negamos que tal personalização é possível, mas, em muitos contextos sociais, seremos pressiona- dos para padronizar as normas pelas quais julgamos as pessoas. Seria contrário à intuição dizer que a liberdade é padroni- zada, pois isso implicaria em uma comparação com outro indi- víduo. A resposta óbvia é que a questão de alguém ser livre para uma certa escolha será determinada pelo fato de esse alguém estar adequado para ser considerado responsável, em um sentido personalizado e não-padronizado. Naturalmente tal questão será freqüentemente difícil de determinar e essa é uma das razões por que somos pressionados a padronizar. Quanto mais difícil é ajustificativa da exceção, tanto mais desistimulados ficaremos para praticá-los. Mas o fato de ser difícil de deter- minar a resposta para essa questão, não tem importância. O que importa é que a noção de uma adequação para ser consi- derado responsável, faz sentido e nos fornece um agente plau- sível para ser equacionado com a liberdade. Estar adequado para ser considerado responsável no sen- tido primário, requer também o preenchimento de uma terceira condição, isto é, que o agente é adequado para ser considerado responsável e não simplesmente tratado como se ele fosse adequado para ser considerado responsável. Nós, seres huma- nos, não somos somente observadores mútuos, mas também participantes que se influenciam uns aos outros ativamente. Assim, às vezes, tratamos os outros como adequados para se- rem considerados responsáveis, quando, na verdade, eles não exibem realmente essa adequação, conseqüência disso seria o desempenho que pode ser questionado ao induzir outros - di- gamos, as crianças, - à prática da ação ou encorajar aqueles que já estão na prática, para se tomarem mais capacitados, para satisfazer as sua demandas. Isso pode servir a um propósi- to de desenvolvimento mais amplo. Quando equaciono liberdade com adequação para considerar o agente responsável, assumo

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que é a adequação apropriada para ser considerado responsá- vel que está em questionamento e não simplesmente tratado como se fosse adequado para ser considerado responsável. Somos movidos por princípios quando, por exemplo, consi- deramos empresas de processamento de alimentos legalmente responsáveis por qualquer falha nos padrões de saúde, mesmo

aquela que ocorre como resultado da má sorte, isto é, quando lhes impomos estritas responsabilidades legais. Somos movi- dos a isso, quando contamos para os nossos filhos que, aciden-

te ou não-acidente, eles estarão sujeitos à culpa se qualquer

coisa for quebrada durante uma festa e merecerão aprovação e elogio se tudo correr bem. A crescente prática de atribuir

responsabilidades não está baseada na crença de que os agen-

tes que estão sujeitos a ela serão inevitavelmente adequados.

A

prática está baseada na crença, bastante diferente, de que,

se

os agentes são tratados como adequados a serem considera-

dos responsáveis - se for falado para eles que culpa ou elogio, castigo ou recompensa, surgirão independentemente do collhe- cimento e consentimento de sua parte - isso tenderá a tomá-los adequados a serem considerados responsáveis, isso os manterá nos próprios pés, alertas a tudo e a qualquer ameaça provável. Estes não são os únicos casos em que as considerações amplamente desenvolvidas afetam nossas atribuições de res- ponsabilidade, por exemplo: consideremos a dificuldade de con- vencer as pessoas a serem cuidadosas ou conscientes do de- sempenho de certos tipos de ações, a menos que esteja claro, com antecedência, quem será considerado responsável pelo que deu errado ou pelo que deu certo, a não ser que esteja claro o momento de alguém assumir a culpa. Os fatos que antecedem o caso mostrarão que cada parte é totalmente res- ponsável por sua contribuição particular, mas o desenvolvimento racional argumentará a respeito do posicionamento da respon- sabilidade pelo resultado total em uma ou outra pessoa. Isso assegura que há um agente que fiscaliza tudo o que acontece e que evita que as coisas se tomem más. Deverá ficar claro que, se a liberdade é para ser equacionada com a adequação para o agente ser considerado responsável,

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TEORIA DA LIBERDADE

então a adequação tem que ser propriamente adequada, não somente uma adequação de uma espécie ampla de desenvolvi- mento. De qualquer maneira, antes de abandonar o tópico do desenvolvimento, gostaria de chamar a atenção para um pro- blema que surge aqui, isto é, que a linha entre o desenvolvi- mento e o não-desenvolvimento de adequar as pessoas res-

ponsáveis, freqüentemente, será muito embaçada. Vamos imaginar uma situação em que eu culpo uma pessoa por ter feito alguma coisa A em vez de ter feito B, embora eu saiba que, na verdade, ela não percebeu o que estava fazendo e ela fracassou em prever o aspecto A da ação. No caso em desen- volvimento, eu considero a pessoa responsável mais ou menos consciente de que, fazendo-a perceber a culpa, eu posso ajudá-

la a aprender a ser responsável. Em outro momento eu a trata-

rei como pessoa capaz de prever algo como o aspecto A da ação e considerarei que não havia nada sobre a posição dela anterior à escolha - não havia nada nos fatores que contam para o não-exercício da capacidade ou da disposição. Tal tra- tamento reduz a adequação dela para ser considerada total- mente responsável nos feitos de A. O que distingue os dois casos para mim? Tenho que admitir que nada, exceto os pa- drões implícitos na prática comum.

No primeiro, que é o caso em desenvolvimento, eu respon- derei com uma objeção, dizendo: "Esta é uma lição para você e eu espero que você seja mais cuidadoso da próxima vez." No segundo caso, eu responderei dizendo: "Você conhece as re- gras pelas quais nós tratamos alguém, como uma reconhecida

e autorizada respondente, e não há nada nessas regras que lhe

possa desculpar por ter falhado em prever o aspecto A." No primeiro caso, eu trato a pessoa de uma forma estratégica na qual há esperança de induzir o hábito de perceber alguma coi- sa, como o aspecto A da escolha feita. No segundo caso eu a

trato, mais respeitosamente, como uma parte que pode ser es- perada sob especificações pautadas, por ser uma respondente autorizada para perceber aquele tipo de coisa. A idéia aqui é que se houve fracasso em perceber, isso significa que houve afastamento das suas melhores práticas. A pessoa em questão

das suas melhores práticas. A pessoa em questão CONCEITUANDO A LIBERDADE 2 5 tem um bom

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tem um bom desempenho no sentido de atingir um fato contin- gente, mas se marcarmos a contingência do fato - se, em ou- tras palavras, vamos reconhecer o agente respondente ade- quado (Honneth, 1996)- então, teremos que tomar uma atitude

e manifestar que elas deveriam ter feito melhor. Sobre essas idéias falaremos mais no Capítulo 4.

Retomando o tema principal, gostaria que, ao equacionar a liberdade com a adequação para ser considerado responsável, ficasse esclarecido que há: 1) uma adequação para ser consi- derado responsável, anterior àescolha e não posterior ao evento; 2) adequação personalizada para ser considerado responsável,

e não-adequação por alguma convenção padronizada; e, ainda,

3) adequação para ser considerado propriamente responsável,

e não-adequação para ser tratado como se alguém fosse pro-

priamente responsável. Levarei em conta tais qualificações como entendidas no que se segue: sua complexidade leva a um resultado irritante, mas, uma vez reconhecida, não precisa continuar sendo irritante.

1.5 O Principal fato para conceituar a liberdade como adequação para ser responsável

Embora o fato de igualar a liberdade e a adequação para ser considerado responsável pode ser conclusivamente acessado ao longo da jornada, como já enfatizei, existe uma variedade de considerações mais ou menos persuasivas que podem ser organizadas para seu apoio imediato. Nesta sessão observo aquilo que considero ser o argumento principal para conceituar a liberdade como adequação para o sujeito ser consi- derado responsável e, na próxima, caminharei por meio de uma longa lista de outras vantagens que favorecem tal abordagem. O principal argumento para essa abordagem começa da intuição de que não há sentido no pensamento de que, se al- guém fez alguma coisa livremente, ainda assim não pode ser considerado responsável por isso. O argumento é que não há uma forma possível de salvar aquela intuição, a não ser que seja por meio da representação de nosso conceito de ser livre,

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como um conceito de ser adequado para estar considerado responsável.

A liberdade que conota responsabilidade pressupõe uma

conexão a priori - que todos entendemos, sem ter que procu- rar por mais evidências para justificá-la - entre ser livre e ser responsável. Não é que nós saibamos o que é ser livre, mas sabemos o que é ser responsável e achamos, por meio de um exame, que sempre o que o primeiro obtém, o segundo tam- bém obtém. Nosso próprio conceito do que é ser livre faz uma ligação entre ser livre e ser responsável. Alguém que percebeu o que essa conexão tentava obter, fracassará ao tentar enten- der o que era a liberdade ou o que era alguém ser considerado responsável.

Como explicar a conexão, a priori, entre ser livre para fazer alguma coisa e ser responsável por fazê-la? Não há pro- blema sob a suposição de que nós, pessoas comuns, pensamos na liberdade como uma capacidade - qualquer que seja a quan- tidade em si - que faz com que um agente esteja adequado para ser considerado responsável pelas coisas que ele faz. A suposição é que vivemos em um mundo onde continuamente delegamos "deveres" um ao outro, pelas coisas que fazemos, e que achamos a liberdade como os "poderes" que as menciona- das delegações de "deveres" pressupõem. Podemos não sa- ber. nada da metafísica da liberdade, como é sugerida - pode- mos não saber nada do que a liberdade envolve em si própria - mas mesmo assim seremos capazes de reconhecer que algu- ma coisa é apropriada para delegar os "deveres" para as ou- tras pessoas e pensaremos na liberdade como uma capacidade que faz a diferença. Assim não será uma surpresa se admitir- mos, como uma questão a priori, que, se houver liberdade, haverá também responsabilidade.

O principal argumento para igualar a liberdade com ade-

quação para ser considerado responsável, é que enquanto essa

conexão a priori será inteiramente convencional sob a abor- dagem da responsabilidade, ela tem que permanecer misterio- sa sob outras abordagens. Se concebermos a liberdade como autoria ou subdeterrninação, por exemplo, como podemos pen-

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sar a priori, isto é, uma coisa que nós entendemos sem ter que olhar para uma evidência empírica, que se alguém é livre para fazer alguma coisa, então será responsável por aquilo que faz? Ser o autor do que se faz ou ser predeterminado por aquilo que se faz, é uma coisa, e ser responsável pelo que se faz, é outra. Então, como nós, pessoas comuns, podemos considerar forço- so, independentemente da investigação empírica, que a liber- dade sob ambas as explicações conote responsabilidade? Enquanto a concepção de liberdade como adequação para ser considerado responsável fizer com que a conotação da res- ponsabilidade não surpreenda, o benefício pode parecer o re- sultado de um grande custo. Não é que essa forma de pensar sobre a liberdade a toma como uma capacidade vazia e não- explanatória? Isso não significa que não podemos esperar saber mais alguma coisa sobre a liberdade que o médico Dr. Moliére sabia sobre a virtus dormitiva - o poder hipnótico - quando ele vagamente explicou o fato de que o opium coloca as pes- soas para dormir? Isso não significa que, quando invocamos a liberdade de uma pessoa de maneira a explicar porque devería- mos considerá-la responsável, estamos meramente dizendo que o que ela faz para estar adequada para ser considerada respon- sável, explica por que deveríamos considerá-la responsável? Não, não é assim que uma substância que tem o poder hipnótico, no sentido da personagem de Moliére, significa que colocará as pessoas para dormir e nada mais, isso exaure as suas implicações e .também exaure a característica pela qual podemos saber se está presente ou não. Mas que alguém se está adequando para ser considerado responsável, significa que se espera que ele satisfaça a uma variedade de pressões. Uma pessoa será tida como adequada para ser considerada respon- sável por fazer A em vez de B em circunstância C - e como livre, entretanto, em fazer A - somente se acharmos que um número de condições distintas é preenchido (Honoré, 1999). O agente deve ter conhecimento das opções, deve ter os recur- sos para avaliá-las e deve ser capaz de responder a uma ava- liação formulada. O agente deve ser um self, tal que seja pos- sível para ele ver o que é feito como algo feito em seu nome e

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algo que ele pode aprovar como seu. E o agente deve ser uma pessoa tal que o que ele faz não seja sujeito à pressão ou à coerção de outros. Enquanto ser livre é só ter a capacidade associada ao es- tar adequado para ser considerado responsável, então estar adequado para ser considerado responsável é, em si, uma con- dição - ao contrário de ter poderes hipnótico - que fracassa no que se refere à satisfação de uma variedade de pressões interconectadas. E então podemos evocar a liberdade do agente para explicar porque o colocamos responsável e ainda ter su- cesso em comunicar uma mensagem informativa e falsificável, ou seja, que o agente satisfaz uma faixa de pressões associada com ser adequado para ser considerado responsável.

1.6 Outras vantagens de conceituar a liberdade como adequação para ser considerado responsável

Apesar de termos formado a conotação da responsabili- dade, existe um número de outras vantagens que vem no pen- samento sobre liberdade, como aquela capacidade, seja lá o que for, que dá causa para a adequação ser considerada res- ponsável, Isto é, pensando na liberdade dessa forma, podemos preservar muitas das intuições sobre a liberdade que nos ocor- rem naturalmente (Swanton, 1992, 193-4). Eu abordarei aqui, dez vantagens, algumas brevemente e outras extensivamente, outras já foram mencionadas de passagem. A primeira vantagem é que se achamos a liberdade como adequação para ser considerado responsável, então nós não somente podemos explicar a conotação de responsabilidade, mas também damos um certo crédito para a conotação de pos- se e de não-subdeterminação. Observamos na fase inicial, que a ação pela qual eu estou adequado para ser considerado res- ponsável tem que ser, em um sentindo intuitivo, uma ação que eu possua como minha e não uma ação que veio para mim como resultante de forças alheias. E também insistimos que, se eu estou adequado para ser considerado responsável em

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uma escolha entre A e B, a ação que eu tomar deverá ser suficientemente subdeterminada por outros fatores, para deixar espaço para possibilitar meu reconhecimento de que ela está correta.

A segunda vantagem da abordagem da responsabilidade

referente à liberdade é que ela faz do conceito da liberdade uma coisa a mais que um mero brinquedo filosófico. Vimos que a prática de considerar os outros responsáveis está pro- fundamente enraizada na vida humana, como por exemplo, apa- ~ec~ na centralização das reativas, ressentimento e gratidão, mdignação e aprovação. O fato de a adequação ser considera- da como responsável, torna-se evidente para qualquer pessoa envolvida nessa prática, e que isso representa, o que achamos da liberdade do agente, significa que o conceito de agenciamento livre está intimamente entrelaçado no tapete dos sentimentos e respostas humanos inevitáveis. Isso é como queríamos que fosse, e eu obedeço, porque entre os vários tópicos discutidos em Filosofia, nenhum tem uma ressonância tão profunda na reflexão comum como aqueles associados com a liberdade.

A terceira vantagem na conceituação da liberdade como

adequação para ser considerado responsável, é que ela nos permite ver, sem nenhuma tensão, porque deveríamos falar tão prontamente de liberdade nos três donúnios da ação, do self e da pessoa. Um agente será uma pessoa livre na medida em que a sua posição em relação aos outros lhe permitir escolher, de tal forma que ele seja totalmente responsável por aquilo que faz. Um agente será um selflivre na medida em que sua cons- ti~~ção - sua relação com a sua própria Psicologia - lhe per- rmtrr escolher, de tal forma que ele é totalmente responsável por aquilo que faz. E uma ação, será livre por si só, na medida em que ela se materializa em uma forma que permita ao agen- te aparecer como totalmente adequado para ser considerado responsável. A pessoa livre, o self livre e a ação livre são, respectivamente, o tipo de pessoa, self e ação que são consis- tentes, em si próprias, com a total adequação para serem con- si~eradosresponsáveis. Cada um deles tem, na sua forma apro- pnada, completa responsabilidade compatível.

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TEORIA DA LIBERDADE

A quarta vantagem de conceituar a liberdade como ade- quação para ser considerado responsável, é que a equação explica como a liberdade, como nós comumente a concebe- mos, pode vir em graus ou ser perdida completamente. Pode- mos achar que alguém não é responsável por nada - não é um agente responsável - ou não é responsável, em nenhum senti- do, para uma certa ação, ou responsável somente em uma medida menor, ou é responsável, mas sob condições atenuan- tes. E isso explica muito bem porque achamos que pontos simi- lares se aplicam à liberdade. Poderemos pensar que um agen- te, digamos alguém fora da razão, não é livre em sentido nenhum. Podemos achar que um agente livre foi completamente sem liberdade em relação a uma certa opção, não estava disponível para ele, ou podemos achar que a liberdade do agente para escolher aquela opção foi reduzida, mas não totalmente remo- vida, seja em virtude de uma capacidade diminuída ou circuns- tâncias mitigantes. Tudo isso é perfeitamente inteligível, sob a perspectiva da liberdade adotada aqui. A quinta vantagem de equacionar liberdade com adequa- ção para ser considerado responsável, é que nos permite ver porque a liberdade em fazer A em vez de B deveria ser dife- rente da liberdade de fazer A em vez de B ou C. Há uma diferença em ser considerado responsável por A em relação a um grupo de alternativas e ser considerado responsável por A em relação a outro. Alguém pode ser elogiado em fazer A, se a única opção é B, enquanto alguém pode ser culpado, se C é também uma opção. E se a liberdade está constituída pela ade- quação para ser considerado responsável, então não é de se surpreender que igualmente achamos isso como intuitivo para distinguir entre casos de ser livre para fazer A, agora em rela- ção a certo grupo de alternativas ou em relação a outro. Essa vantagem sugere um comentário natural em um caso no qual trataríamos um agente como responsável por uma cer- ta ação, mesmo sem alegar liberdade. Esse é o tipo de caso em que estamos prontos para considerar alguém responsável por fazer alguma coisa A, quando, embora desconhecida, teria que ter feito A de qualquer forma. Se não tivesse feito A por sua

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própria vontade, ele teria sido forçado a fazê-lo, ou teria sido hipnoticamente induzido a fazê-lo, ou talvez um desejo efetivo de fazê-lo poderia ter sido ocasionado dentro dele por meios neurocientíficos (Frankfurt, 1988, Ensaio 1). Embora pudésse- mos considerar que o agente responsável por ter feito A em tal caso - ele o fez com total conhecimento, total consentimento, total capacidade e assim por diante - alguém poderia julgar que não podemos entender que ele fez A como uma livre ação. Assim como podemos achar essa ação livre, também podemos nos perguntar, dada a situação: o agente não poderia ter feito de outra forma? No caso previsto, tratamos a pessoa como adequada para

ter feito A, em· vez

de não-A, mas por fazer A por sua própria vontade, em vez de ter sido manipulada para fazê-lo, por tratar de fazer A por sua própria vontade, em vez de tentar fazer outra coisa qualquer (Otsuka, 1998; Fischer, 1999, 117-19). E, no mesmo sentido, também podemos tratar a pessoa como livre em relação a A. Ela não era livre parafazer A, em vez de não-A, e isso é o que normalmente será tido como pressuposto na atribuição da li-

berdade. Mas ela era livre para fazer A de livre vontade ou ser manipulada para fazê-lo, ela era livre para tentar fazer A de livre vontade ou para fazer uma outra coisa qualquer (compare Davidson, 1980, Ensaio 4, 74-5; Frankfurt, 1988, Ensaio 2,24). A sexta vantagem acrescentada a nossa conceituação da liberdade como adequação para ser considerado responsável, é que, não obstante ao fato que queremos agentes responsá- veis para fazer o bem e evitar o mal, de maneira tal que haja uma assimetria construída na prática de considerar as pessoas responsáveis, ainda a conceituação nos permite pensar em li- berdade simetricamente. A razão é que não existe assimetria na noção. da adequação para ser considerado responsável por uma escolha dada, uma vez que fazemos abstração do que acontece como correto e do que acontece como errado. Estar adequado para ser considerado responsável é ter a capacidade de fazer a opção correta, seja qual for a opção. É a capacidade de fazer o que venha a ser correto - seja A ou B - e não a

ser considerada responsabilizada, não por

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TEORIA DA LIBERDADE

capacidade mais restrita, sendo que A é correta, fazer A, ou dado que B está correto, fazer B. A capacidade mais restrita seria consistente com o não ser capaz de fazer B no primeiro caso, A, no segundo, de maneira que em qualquer um dos ca- sos haverá uma assimetria envolvida (veja Wolf, 1990). Mas a capacidade para fazer qualquer coisa que seja correta envolve não-assimetria, mas ela requer ambas, a capacidade para fa- zer A e a capacidade para fazer B (Pettit e Smith, 1996). Consideremos uma paralela. Posso ter a capacidade de fazer o que um parente moribundo queira, que é pensar bem dele, mas posso não ter a capacidade de pensar bem ou mal dele, caso seja isso que ele me solicite, porque tenho pouca ou nenhuma capacidade para pensar mal daquela pessoa. Em tal caso, não terei completa responsabilidade pela maneira como penso. A completa adequação para ser considerado responsá- vel exige que eu seja totalmente capaz de fazer qualquer coisa que o parente moribundo queira, seja pensar bem ou mal, mais genericamente, ter completa adequação para ser considerado responsável no que diz respeito a escolha entre A e B. Tenho de ser inteiramente adequado para fazer qualquer coisa que esteja correta, seja A ou B, e não só inteiramente capaz de fazer o que pareça ser correto, quer dizer A. A sétima vantagem da perspectiva da responsabilidade so- bre a liberdade, é que ela nos permite ver porque é tão natural pensar que ofertas não possam afetar a liberdade do agente, enquanto as ameaças irão afetar (Nozick, 1969). Tomemos qual- quer capacidade da parte do agente em fazer A ou B, o fato de que uma opção torne-se mais fácil não reduzirá ou removerá essa capacidade, enquanto o fato de que, se uma opção tor- nar-se mais difícil que outra, pode, sem dúvida, reduzi-la ou remo~ vê-la. Se em uma tarde qualquer da semana eu for capaz de correr quinze quilômetros ou rodar quarenta de bicicleta, então eu terei igualmente capacidade para fazer a versão mais fácil, mas eu poderia não ter a mesma capacidade para fazer a versão mais difícil. Isso significa, por analogia, que uma vez que a ade- quação para ser considerado responsável em uma dada escolha pode, certamente, ser reduzida por uma ou por outra opção de

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acesso mais difícil, não precisa ser reduzida por uma ou outra opção de acesso mais fácil, digamos, por meio da remoção das barreiras ou de provisão de incentivos extras. Essa observação explica porque é tão normal achar que as oportunidades podem não afetar a liberdade do agente em fa- zer algo. Evidentemente achamos as oportunidades como uma forma de fazer uma opção mais fácil, sem tornar qualquer ou , tramais difícil. Ou, no núnimo, fazemos isso com oportuni- dades que não contam como tentações óbvias ou mesme- rizantes. Mas, em contraposição, pode ser dito que cada oportunidade necessariamente aumenta os custos relativos ou, como os economistas dizem, os custos de oportunidades de outras opções. Significa que terei mais para renunciar se eu escolher uma das opções menos favorecidas. Essa observa- ção pode nos levar a abandonar a prática comum de contar as oportunidades, freqüentemente coerentes, com a completa ade- quação para ser considerado responsável. Mas mesmo se re- nunciarmos a idéia da prática comum, devemos continuar a reconhecer a diferença entre as oportunidades e ameaças. Esse reconhecimento consistirá no fato de que os custos associados com as oportunidades serão, provavelmente, menos sérios e muito menos desfavoráveis para a responsabilidade que os custos impostos por ameaças comparáveis. A oitava vantagem de conceituar a liberdade como ade- quação para ser considerado responsável, é que ela explica porque Ser livre é um bem tão importante na vida humana. Estar adequado para ser considerado responsável por fazer alguma coisa, é ser um certo tipo de pessoa ou do self- ter um status pessoal adequado e uma adequada constituição do self - e desempenhar essa ação particular de uma forma própria para tal agente. Resumindo, é ser um tipo de agente que pode ser incorporado· a outros dentro de uma prática pela qual uma pessoa considera uma outra como responsável. É para elogiar e justificar nossa escolha particular, talvez a forma mais básica de reconhecimento ou de autorização que os outros podem ofe- recer (Honneth, 1996). Isso explica a poderosa intuição de que qualquer liberdade consiste em algo de valor para os seres hu-

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TEORIA DA LIBERDADE

manos (Dennett, 1984, Capítulo 7). É de tal importância, que qualquer outra coisa, sendo igual, a pessoa se arrependerá de ter perdido e se ressentirá de qualquer outra por reduzi-la ou levá-la embora. E é um bem, sem dúvida, que não pode ser denegrido por meio da sua adaptação às preferências pessoais relativas às circunstancias disponíveis. Assim, os prisioneiros não podem ficar livres por si próprios, embora eles possam aumentar

a felicidade por meio da educação, para desfrutar dos prazeres da vida atrás das grades (Berlin, 1969, xxxviii; Sem, 1958b, 191).

A nona vantagem da conceituação da liberdade para ser

considerado responsável, é que ela explica, de uma forma ge- ral, a suposição que, provavelmente, de outra maneira poderia chegar a ser confusa. Muitos de nós desejamos pensar que

animais como cães e cavalos têm crenças e desejos como nós

e que são igualmente capazes de ações intencionais. E muitos

de nós estamos dispostos a atribuir algum tipo de consciência ou de consciência própria a tais criaturas. Mas mesmo que não

tenhamos inibições nesse sentido, poucos de nós achamos que

é apropriado usar a linguagem da liberdade para descrever as

situações de animais não-humanos. Nós achamos a liberdade algo que pertença somente a nós, seres humanos, e, se nós tivermos alguma, é a nossa melhor parte metafísica (Bramhall, 1962, 43). Essa atitude geral não surpreende, sob a abordagem feita aqui. Nós não consideramos os animais responsáveis pe- las coisas que eles fazem, porque nós não pensamos que eles façam avaliações de suas opções, de modo que podemos considerá-los segundo os valores envolvidos. Se liberdade sig- nifica adequação para ser considerado responsável, então cla- ramente nós não vamos creditar a eles o desfrute da liberdade. Nós podemos dizer que um ambiente dá aos animais maior liberdade do que outros, por exemplo, quando se critica a orga- nização de um zoológico, mas nós não achamos que falar em liberdade tem qualquer aplicação ao modo em que esses ani-

mais exercitam o agenciamento.

A décima e última vantagem de equacionar liberdade com

adequação para ser considerado responsável por uma ação, é que ela faça sentido do porque nós também consideramos as

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pessoas responsáveis por certas conseqüências da ação e por- que tratamos algumas dessas conseqüências, mas não outras, como sustentadas livremente pelo agente. Na medida em que as conseqüências da livre ação forem previsíveis, elas estarão dentro do controle do agente, tão seguramente como as ações em si, e ele será naturalmente apropriado para considerar-se responsável por elas. Afirmar que uma conseqüência é previ- sível, significa que, conforme o nosso critério para considerar uma pessoa responsável, não há nada que desculpe um respondente autorizado por não ter previsto a conseqüência, ninguém que aspire a ser autorizado como um participante na prática de imputar a responsabilidade, pode valer-se de descul- pas que não previu.

As conseqüências da ação livre, pelas quais consideramos as pessoas responsáveis, são, usualmente, as conseqüências de ação passada. Dessa maneira, consideramos alguém res- ponsável pela posse ou exibição de certos hábitos de caráter, como podemos considerar o mesmo agente responsável pela passagem formada na grama do jardim da frente, porque pre- sumimos que tais coisas aconteceram como resultado previsí- vel de seus antigos modelos de ações livres. Consideramos ·pessoas responsáveis por atos de omissão negligente, por exem- plo, que nós vemos como produzido por ações passadas. E nós as consideramos responsáveis também por atos de omissão beneficente - como o fracasso da maior parte das pessoas em, até mesmo, contemplar feitos criminais (Tyler, 1990)-que atri- buímos aos efeitos de escolhas passadas. Com relação às conseqüências de tal ação passada, não achamos que as pessoas a sustentem livremente, já que podem ter muito pouco ou nada que fazer com elas. Conseqüente- mente, não falaremos das pessoas exercendo livremente cer- tos hábitos de negligência ou de ser livremente considerados por esses hábitos. Mas as coisas estão fadadas a serem dife- rentes nesse aspecto, com conseqüências previsíveis de conti- nuar tão distintas da ação passada, desde que as conseqüências de continuar com a ação estejam sujeitas a atual influência do agente. Nesse caso, teremos que pensar no agente como sus-

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tentando as conseqüências livremente. Argumentarei no Capí- tulo 4 que as crenças e os desejos que nós consideramos são, freqüentemente, abraçadas como uma conseqüência contínua e previsível de recepção de nosso selo implícito de aprovação e que, na medida em que damos livremente esse selo de apro- vação, nós nos consideraremos livres por meio das crenças e desejos em questão (Pettit e Smith, 1996).

1.7 A liberdade como uma propriedade objetiva e antropocêntrica

Embora a perspectiva da responsabilidade da liberdade te- nha essas tantas vantagens, é justo que a literatura da liber- dade tenha dado o reconhecimento a ela até recentes décadas. Porque que ela foi por tanto tempo negligenciada, se as cone- xões são tão estreitas como eu sugeri e se ela tem sido marcada pelo princípio que "dever implica poder"? Uma razão pode ser uma dúvida que a abordagem compromete o status da liberda- de como uma propriedade objetiva dos agentes e finalmente volto a essa discussão. Aqueles que consideram a discussão excessivamente metafísica, deverão ir diretamente para o pró~ ximo capítulo.

A questão é se a abordagem nos permite pensar que a

liberdade - a liberdade de uma ação particular ou um agente em particular - consiste em uma característica que pertence, sem controvérsia, a um modo que as pessoas independem do conhecimento que temos delas ou se de fato elas se conhe- cem. Acredito que a equação é consistente com uma aborda- gem fundamentalmente objetivista, mesmo se ela introduz um grau de antropocentrismo. Eu saliento três pontos para argu- mentar essa objetividade.

O primeiro ponto é que, sob a abordagem feita aqui, ser

livre é equacionado com uma característica de ações e agen- tes que é verdade para eles, independentemente deles serem realmente considerados adequados para serem responsáveis. A liberdade consiste no agente ser adequado para ser conside-

rado responsável - especificamente, nas capacidades das qua-

CONCEITUANDO A LIBERDADE

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lidades pessoais para esse tipo de adequação - e não na sua real adequação para ser considerado responsável. Dessa ma- neira, não há indagação em considerarmos alguém livre, na medida em que consideramos alguém para ser responsável em uma determinada escolha. Descobrimos que elas são livres, descobrimos que elas têm tal mérito de serem adequadas para serem responsáveis, não inventamos ou criamos a liberdade que as atribuímos. O segundo ponto a considerar é que essa abordagem não nos compromete a pensar que a liberdade seja uma realidade esquiva. Não significa que a questão de alguém ser livre possa ser respondida afirmativamente, se somos capazes de lidar com elas dentro da prática de adequar as pessoas responsáveis, mas pelo contrário deve ser respondido negativamente. Mes- mo se estivermos lidando com elas em uma outra perspectiva - mesmo se estivermos olhando para elas de um ponto de vista

neurocientificamente estreito - podemos pensar que a pessoa é livre se, e somente se, elas são consideradas adequadas para serem responsáveis dentro da perspectiva da responsabilidade.

A liberdade não precisa ser uma realidade esquiva que vem e

vai-como David Lewis (1996) argumenta que conhecimento vem e vai - pela perspectiva adotada (O'Leary-Hawthome, Pettit, 1996). A liberdade seria esquiva, dessa forma, somente se "X é livre" tivesse que ser parafraseado dentro de outras perspectivas das quais é proveniente pela prática de adequar

as pessoas responsáveis como "X é adequado para ser consi-

derado responsável desde aqui", em que "aqui" distingue a perspectiva adotada atualmente. Mas sob a nossa abordagem, naturalmente, ela deveria ser parafraseada dentro daquelas outras perspectivas como "X é considerado adequado para ser responsável desde lá", em que "lá" escolhe a perspectiva da responsabilidade.

O terceiro ponto é que a equação da liberdade com ade- quação para alguém ser considerado responsável, não signifi-

ca

que a liberdade é uma realidade valor-dependente. Não signifi-

ca,

posso dizer, que dependendo de quais os valores obtidos são

relevantes eles contarão como livres ou não. Tal valor-depen-

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TEORIA DA LIBERDADE

dência estaria implicado na reivindicação de ser certo ou erra- do tratar alguém como sendo adequado para ser responsável. Esse valor é livre em si, eticamente, para determinar como é certo ou justo tratar as pessoas (para as reivindicações que sugerem essa visão veja Wallace 1996; Bilgrami, 1998). Mas sob a abordagem feita aqui, a liberdade permanece como um assunto de como as coisas são vistas de um ponto de vista não- avaliativo. Alguém adequado para ser considerado responsá- vel e, portanto, livre, deve ser tal que outros poderiam certa- mente considerá-lo responsável, pelos critérios implícitos para considerar as pessoas responsáveis. Mas eu como um estra- nho normativamente separado, ainda posso distinguir se alguém está adequado para ser considerado responsável de acordo com esses critérios. Eu mesmo não tenho que fazer nenhum julga~ mento normativo de como elas deveriam ser tratadas. Tenho somente que seguir o critério implícito na prática em ser consi- derado adequado para ser responsável- o qual, por princípio, eu não deveria aprovar - elas devem ser tratadas dessa forma. Que tipo de característica valor-independente poderia de- terminar a liberdade de um agente em fazer algo? Consistente- mente, com a abordagem feita aqui, a característica pode ser uma forma totalmente naturalística de organização e atuação, um modo de ser que está fixado em um lugar conforme o mun- do é em seus aspectos naturalísticos, digamos, conforme está constituído, conforme está organizado por lei, no seu reino mi- croscópio postulado pela física (Pettit, 1993b; cf. Jackson, 1998). A idéia naturalística é que se fôssemos reproduzir a forma em que o mundo real tem em seus aspectos naturalísticos e não fazemos mais nada, mesmo assim iríamos preservar a liber- dade dos agentes. Não há nada a respeito da abordagem de- monstrada aqui que negue a liberdade como um status natu- ralístico, exigindo de nós pensarmos que o mundo não está sujeito à lei natural, determinada ou indeterminada, ou que ele envolva as entidades que escapam à regra de tal lei. Esse co- mentário aparecerá na discussão no Capítulo 4. As três observações feitas até agora apóiam a tese que a equação da liberdade, com adequação para ser considerado

CONCEITUANDO A LIBERDADE

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responsável, não compromete a possibilidade de considerar a liberdade como sendo uma propriedade objetiva dos agentes. Mas, como dito, devemos enfatizar que a abordagem não tem implicações antropocêntricas, para a natureza da liberdade, que dê a ela um papel distinto em relação aos alternativos. Há dois caminhos, em particular, nos quais essa antropocentricidade está salientada. Primeiro, o conceito da liberdade como elucidado aqui é uma perspectiva dependente ou noção res- posta-dependente, e a segunda, a propriedade da liberdade, como esclarecida aqui, é um conceito ligado à realidade. Sob a abordagem feita, o fenômeno no qual a liberdade do agente ou da ação consiste, será não-parasitariamente iden- tificável somente a alguém que é parte para a prática do grupo de pessoas adequadas para ser responsáveis e que tem uma avaliação em outros conceitos exigidos para fazer parte dessa prática. Observadores que não fossem parte dessa prática - os Marcianos talvez - poderiam ser capazes de identificar a propriedade da liberdade como uma propriedade que conduz aqueles que são parte da prática, para atribuir adequação para ser considerados responsáveis, isso faz um paralelo com a for- ma em que as pessoas daltônicas são capazes de identificar a propriedade da cor vermelha, como a propriedade que conduz àqueles que não são daltônicos a atribuir a cor vermelha. Mas a fim de ser capaz de identificar a propriedade da liberdade não-parasitariamente, será essencial para aqueles que assim o fazem serem submergidos na prática de considerar os agentes responsáveis. Será essencial que eles estejam predispostos a reações, tais como, ressentimento e gratidão, indignação e apro- vação, ou estejam no mínimo em uma posição para entender essas reações.

Isso significa que o conceito de liberdade é perspectiva- dependente ou resposta-dependente, como é dito freqüen- temente do conceito da cor vermelha em ser resposta-depen- dente (Pettit, 1991). Para entender o significado de "livre" - para compreender o conceito envolvido - as pessoas têm que estar em uma posição de ver o que a palavra conota, obvia- mente, ver quais ligações com outras palavras e quais ligações

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TEORIA DA LIBERDADE

com a observação. Embora eles sejam capazes de ver que free (livre) conota a responsabilidade, pose e subdeterminação, voltamos aos nossos exemplos anteriores, eles têm que ser ca- pazes de reconhecer ambos os tipos de situação e comporta- mento que são evidentes a favor da liberdade e outros tipos que são a evidência contra a liberdade. Mas a habilidade para reconhecer tais conotações vem, espontaneamente, só com a perspectiva associada com a prática da adequação das pesso- as para serem responsáveis, como a habilidade para reconhe- cer as conotações do vermelho vem só em ter a sensação do vermelho. Se outras pessoas podem entender as conotações que compreendem as pessoas envolvidas na prática e discernir quais conotações eles tendem a achar convincente, isso da for- ma que o daltônico discerne as conotações das cores, para focalizar as pessoas de visão normal. Vale a pena marcar o conceito de liberdade desde uma perspectiva-dependência, mas isso não a compromete objeti- vamente, porque isso significa que o conceito de liberdade é perspectiva-dependente e não que a propriedade selecionada pelo conceito é perspectiva-dependente. Pode ser que pode- mos somente conseguir conceituar a liberdade a partir da res- ponsabilidade da perspectiva - pode ser que a liberdade só se toma saliente a partir daquela perspectiva - mas não há razão para achar que a liberdade busca, dentro da existência, por uma adoção da perspectiva ou não há nada mais em ser livre do que ser visto de uma certa forma naquela perspectiva. A segunda antropocentricidade que é anexada à liberdade sobre o nosso relato, não envolve a realidade ou a propriedade da liberdade, não é só um conceito. Ela consiste no fato, que não, somente a perspectiva da responsabilidade prova, que o ponto de partida necessário para a não-parasitamente controla o conceito da liberdade, ela também prova que um ponto de partida como aquele, somente pode ser ocupado por pessoas que são livres. Somente aqueles que ocupam aqueles pontos de partidas, estão na posição de controle do conceito da liber- dade e são capazes de limitar a propriedade da liberdade. As

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propriedades da liberdade, como podemos colocar, é um con- ceito ligado à realidade. Nesse sentido, o fato da liberdade estar amarrada a um conceito significa que ser livre está a par com o fato de ser amigo ou ter dinheiro. Esse fato é uma propriedade que não podemos atribuí-la às pessoas em compartimentos, sem supor que elas estejam nas posições de reconhecerem e concei- tualizarem o tipo de propriedade envolvida (Searle, 1995). Para ser livre é essencial que alguém esteja em uma posição tal que possa conceituar a liberdade. Não há acesso à propriedade sem o acesso ao conceito. Isso resulta, embora ele possa ser surpreendente, seguir diretamente para o fato de ser considerado adequado para ser responsável, um agente tem que estar em posse dos conceitos como aqueles que suportam o que deve ser feito, o que é justi- ficável ou injustificável, o que é merecedor de culpa e de elo- gio, e deve estar em uma posição para entender as reações como ressentimento e gratidão, indignação e aprovação. Al- guém que não teve acesso a tais conceitos ou a tais reações poderá, como um cachorro, não ser considerado adequado para ser responsável por nada. Mas ter acesso a esses conceitos e reações, é só para ocupar a perspectiva da qual é possível formar o conceito de ser considerado adequado para ser res- ponsável e, conseqüentemente, ser livre. Dessa forma, segue que não há acesso para a propriedade da liberdade, sem o aces- so ao conceito da liberdade. A realidade é um conceito ligado à liberdade. A propriedade da liberdade é um conceito ilimitado, entre- tanto, não significa que ser livre consiste em ser visto como responsável, de uma forma que os idealistas consideram que a realidade de observar as coisas consiste em ser observados. Ela não compromete a objetividade da liberdade, não mais do que o fato que o conceito da perspectiva-dependente. Que a liberdade está presa a um conceito simplesmente significa que entre as condições para compartimentalizar a liberdade é uma condição - a ocupação da perspectiva da responsabilidade -

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TEORIA DA LIBERDADE

que garante o acesso ao conceito da liberdade. Não achamos que a amizade ou o dinheiro seja menos real nem objetivo por estarem presos a um conceito. E também não pensaríamos nada desse tipo a respeito da liberdade.

Conclusão

O conceito de liberdade é aplicado, em primeira estância,

ao agenciamento, nos permitindo falar de ações livres, selves livres e pessoas livres, e, em segunda estância, para o ambien- te de oportunidade dentro do qual o livre agenciamento é exer- cido. Nossa preocupação neste capítulo foi fornecer uma sim- ples e unificada análise do conceito de liberdade como ele é aplicado do lado do agenciamento e a nossa preocupação nos três capítulos seguintes será de fornecer uma teoria da liberda- de tão analisada. Retornaremos as considerações do meio ambiente nos próximos capítulos.

Qualquer análise do conceito de liberdade tenderá a tomar uma ou outra conotação da fala da liberdade e construirá um relato do conceito em tomo daquela conotação. Uma análise bem conhecida foca no fato que a fala da liberdade conota, que o agente não foi predeterminado a agir da forma que ele ou ela agiu, em quanto outras centralizam o fato que a fala da liberdade conota, que o agente foi verdadeiramente o dono daquilo que ele ou ela fez, não foi alguma coisa imposta por fora. A análise adotada aqui prioriza a conotação da responsa- bilidade, distinta das conotações de posse ou súbita-determina- ção. Ela parte de uma prática na qual as pessoas se conside- ram, uma a outra, responsáveis e identificam a liberdade com adequação, sob aquela prática para ser considerada responsá- vel por algo que uma pessoa faz.

A análise da liberdade em termos, respectivamente, da

subdeterminação, posse e responsabilidade colocadas difere- se das armadilhas do centro da discussão. O primeiro, no enfoque do problema de explicar como que é que o autor de uma ação livre poderia ter feito de outra forma. O segundo, no

problema de explicar como o agente necessariamente tem uma

CONCEITUANDO A LIBERDADE

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primeira presença pessoal na ação livre; E o terceiro, em como que um agente pode ser considerado responsável por uma ação livre, dado que um agente também deve ser responsável por qualquer outro fator de controle em virtude do qual a responsa- bilidade obtém em primeiro lugar, dado aquela responsabilida- de, como a colocamos, é recursivo. O enfoque aqui, particular- mente em discussão, da ação livre, será um problema recursivo, mas os outros problemas irão figurar também. A idéia da análise adotada é que nós vivemos e pensamos dentro da prática de considerar um ao outro responsável. Tal idéia faz com que a condição de estar adequado para ser con- siderado responsável é evidente para nós e estádisponível como o referente para a nossa fala de liberdade. A adequação para ser considerado responsável, com a qual a liberdade é igualada sob essa abordagem, tem três características que elaboramos por um bom tempo. É a adequação, antes da escolha que deve ser considerada, responsável por algo que se faz. É a ade- quação personalizada que será considerada responsável e rtão somente a adequação de acordo com critérios padronizados para atribuir responsabilidade. E é a adequação para ser consi- derado propriamente responsável e não a adequação para ser tratado - por razões de desenvolvimento - se uma pessoa fos- se adequada para ser responsável. O principal argumento para a análise da liberdade como adequação para ser considerado responsável, é que ele explica a priori porque, segundo nosso entendimento, ele é livre para fazer uma certa escolha, então ele é responsável por qualquer coisa que faça. A condição em questão não é um vácuo para considerar alguém responsável, mas ela envolve a satisfação de uma variedade de limitações. Por exemplo, se uma pessoa está totalmente adequada para ser considerada responsável por uma escolha, então ela tem de reconhecer as opções dis- poníveis na escolha e a pessoa tem que ser capaz de reconhe- cer os padrões do certo e do errado e aplicá-los a si própria. Existe uma variedade de vantagens anexadas à análise da liberdade, como a adequação para ser considerado responsá- vel, que suporta esse argumento e comentamos em dez deles.

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TEORIA DA LIBERDADE

A

análise explica porque a liberdade conota subdeterminação

e

posse e também a responsabilidade, ela representa a liberda-

de como algo que se liga intimamente com as respostas emocio-

nais, como ressentimento e gratidão, e ela mostra como que a

liberdade pode ser uma característica de uma pessoa, self e

ação. Igualmente, o acesso à liberdade é gradativo e é relativo

às

alternativas a oferecer. Do mesmo modo que se relaciona

às

possibilidades de se fazer o certo ou o errado é algo que se

almeja e não é atribuída a não-humanos. E finalmente ela nos permite reconhecer que enquanto os agentes podem ser consi- derados responsáveis por conseqüências previsíveis das suas ações livres, as conseqüências das ações passadas não serão sustentadas livremente, mas as conseqüências das ações con-

tímias irão.

Essa análise da liberdade a transforma em uma proprie- dade objetiva, porém, claramente antropocêntrica. A liberdade

de um agente consistirá em algo - talvez em algo naturalístico

- que é independente de como olhamos ou tratamos o agente.

Mas o conceito da liberdade será perspectiva-dependente e a propriedade da liberdade é presa a um conceito. O conceito será perspectiva-dependente no sentido que é só dentro da prá- tica de considerar as pessoas responsáveis que podemos do- minar o conceito de liberdade de uma forma não-parasitária. A propriedade da liberdade estará presa a um conceito em um sentido que somente aquele que tem acesso ao conceito da liberdade, terá acesso a possibilidade de instaurar a liberdade neles próprios.

Liberdade como controle racional

liberdade neles próprios. Liberdade como controle racional 2. 1 Em direção a uma teoria da liberdade

2. 1 Em direção a uma teoria da liberdade

A perspectiva da responsabilidade aqui adotada sugere que nós, pessoas comuns, pensemos em liberdade em termos pura- mente funcionais. Concebemo-la com a capacidade em virtude da qual um agente está adequado para ser considerado res- ponsável, satisfazendo, assim, as várias pressões que ela en- volve. Então, a liberdade é identificada por nós pela referência à função que ela desempenha em tornar os agentes adequados para serem considerados responsáveis e seu caráter essencial - o que carrega em si própria - é deixado na escuridão. Seu caráter funcional imediatamente nos leva a uma questão cuja capacidade está nela mesma. É a essa questão que as teorias da liberdade, conforme eu as considero, deveriam ser dirigidas. Nessa descrição existem claras analogias entre a teoria da liberdade e outras buscas intelectuais. As cores são concebidas na ótica como propriedades que tornam possível uma certa faixa de discriminações observacionais e, então, a ciência da cor tenta identificar tais propriedades em termos puramente físicos. Os gens estão funcionalmente caracterizados em Bio- logia por referências ao papel deles na herança e essa carac- terização funcional é complementada por tentativas bioquími- cas, para caracterizar os mecanismos nos quais eles consistem. Vários dispositivos de processo de informação são postulados

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TEORIA DA LIBERDADE

em Psicologia e, então, a Neurociência é chamada a prestar conta de como tais entidades funcionais são implementadas. E assim por diante. Embora a teoria da liberdade tenha uma posição análoga segundo a busca mencionada em cada uin desses casos, tam- bém existe uma importante falta de analogia a ser mencionada. A busca em cada um dos casos é, a posteriori, uma tentativa que requer observações e experimentos empíricos, ao passo que as várias teorias da liberdade a serem consideradas aqui não são empíricas da mesma forma. Cada uma delas aspira a identificar habilidades e realizações que são pressupostas à adequação para serem consideradas responsáveis. Nesse sen- tido, elas pretendem dar um relato substantivo da capacidade em que consiste a liberdade. Mas elas não exigem a identifica- ção das habilidades e realizações mediante a comprovação empírica de casos aceitos de ações livres, livres selves ou pes- soas livres. Tais teorias acarretam, a priori, uma linha diferente de argumentos. Pensemos em como poderíamos começar a articular o tipo de capacidade que esperamos encontrar em alguém que pare- ce estar adequado para ser considerado responsável. A única forma plausível para começar será considerar casos atuais e possíveis por meio dos quais poderemos estar intuitivamente dispostos para analisar uma ação, um selfou uma pessoa como consistente com a responsabilidade - como livre - e identificar um modelo de capacidades que exigimos que estejam presen- tes nesses casos. Esse será um modelo tal que, se estiver au- sente - assim achamos ao consultar as nossas disposições - não estaríamos inclinados a postular a responsabilidade, ao passo que na sua presença poderíamos postulá-la. Não será simples- mente o modelo que encontramos nos exemplos considerados, mas, sim, um modelo que realmente estamos dispostos a esperar. Se a forma natural de continuar tentando dar um relato substantivo de liberdade deve ser feita por meio do acompa.Iiha- mento do método de casos, como tem sido chamado, então, o que isso requer é só um argumento a priori do tipo que perse- guimos ao pensar como a liberdade poderia ser conceitualizada.

LIBERDADE COMO CONTROLE RACIONAL

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Quando começamos a pensar em como conceituar a liber- dade, reflexionamos sobre quais são as conotações que são carregadas na fala sobre a liberdade e em como elas podem ser mais bem organizadas. Quando pensamos que modelos de capacidade constituem a liberdade, refletimos sobre o modelo que estamos dispostos a esperar nos casos em que nós deseja- mos predicar a liberdade das ações, selves e pessoas. É claro que essa iniciativa pode muito bem envolver-nos em uma revi- são de algumas de nossas intuições preexistentes. Nenhuma revisão será requerida, unicamente, no improvável evento de que nossas disposições sejam inteiramente consistentes entre elas próprias e inteiramente consistentes com as preferências ou disposições teóricas que guiarão, naturalmente, o projeto, como, por exemplo, a preferência por encontrar uma capaci- dade única, geral, com a qual assimilar a liberdade. Dizer que o método utilizado na busca por uma teoria de liberdade é um a priori, é o mesmo que dizer que, ampliando o projeto para achar uma conceitualização apropriada de liber- dade, continua-se a implementar a estratégia de um equfübrio refletivo (Rawls, 1971). A idéia será de ir e voltar entre uma descrição geral da capacidade de liberdade e as intuições que temos sobre se existe uma liberdade presente neste ou naquele caso imaginado ou real, mediante a revisão ora de.um, ora do outro, para encontrar um equihbrio estável entre os dois. Quando Rawls descreveu seu próprio uso do equihbrio refletivo, ele disse que começa com um conceito de justiça - ou seja, dando a cada um o que merece - e depois usa o método na teoria da justiça para obter uma concepção satisfatória e mais específi- ca dos merecimentos das pessoas. Podemos dizer, paralela- mente, que começamos com o conceito de liberdade como adequação para alguém ser considerado responsável e que procuramos identificar, na teoria da liberdade, uma concepção satisfatória e mais específica do que a adequação para ser considerado responsável envolve. Este capítulo e os dois seguintes analisam, respectivamen- te, as três teorias da liberdade nesse sentido. A primeira identi- fica a liberdade com o controle racional, a segunda com o con-

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TEORIA DA LIBERDADE

trole volitivo e a terceira com o controle discursivo. Acredito que elas são a grande força de atração nos turbulentos debates levantados pelos tópicos da liberdade. Argumentarei que cada uma das duas primeiras teorias é inadequada como teoria em relação à liberdade como ação, self e pessoa e que a terceira é satisfatória em todos os casos. Então, com a liberdade iden- tificada como controle discursivo, usarei os três capítulos finais do livro para investigar a sua conexão com coletivização, politização e democratização.

2.2 Da ação livre para outras liberdades

A teoria da liberdade como controle racional parte de uma descrição da ação livre e estende sua análise para o selflivre e a pessoa livre. Isso sugere que a questão primeira e básica da liberdade é a que conduz à ação livre e, tendo identificado os requerimentos de uma ação livre, elas justificam o selflivre e a pessoa livre sobre essa base. Alguém terá um self livre na medida em que tenha constituição intrapessoal que combina com a ação livre e alguém será uma pessoa livre na medida em que tenha o status interpessoal que a livre ação exige.

O fato de que a teoria da liberdade se focaliza na ação

livre, em primeiro lugar, separa a teoria da liberdade como controle racional dos dois principais rivais que consideraremos. A teoria da liberdade como controle volitivo inicia-se em um foco da noção do selflivre e, posteriormente, estende sua aná- lise para a ação livre e para a pessoa livre. E a teoria da liber- dade como controle discursivo inicia-se, focalizado na idéia da pessoa livre, ampliando a sua análise, posteriormente, para a ação livre e para o self livre. Tais contrastes serão tratados

nos capítulos seguintes.

A teoria da liberdade como controle racional diz que uma ação

é livre na medida em que seja um exercício do controle racional ou

do poder por parte do agente. Para a entendermos, então, precisa- mos ter a noção do que esse controle e esse poder envolvem. Os agentes gozarão do controle racional ou do poder só na medida em que operarem adequadamente como sujeitos inten-

LIBERDADE COMO CONTROLE RACIONAL

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cionais, isto é, como sujeitos de estados intencionais, como cren- ças e desejos. Tais estados são intencionais no sentido técnico de que eles têm intentio ou direção gravadas neles. Eles são identificados por referência a um estado de coisas sobre as quais estão direcionados, como a crença ou desejo que p, que q, quer ou qualquer um outro (Dennett, 1987). Que será então para as pessoas operar adequadamente como sujeitos intencio- nais (Pettit, 1993a, Capítulo 1)? Distingo dois aspectos do con- trole racional envolvido.

O primeiro aparece no fato que dependente de como as

crenças e desejos aparecem, o agente agirá ora de uma forma,

ora de outra, mais especificamente, o agente fará o que quer que seja racional fazer, à luz das crenças e dos desejos que

estão presentes, para agir da maneira que, de acordo com suas crenças, seus desejos sejam satisfeitos (Stalnaker, 1984). Ele agirá, em outras palavras, sob a direção racional de suas cren- ças e desejos. O agente freqüentemente produzirá respostas

como tiques

que não têm nada a ver com a ação racional. Mas haverá um amplo campo do comportamento sobre o qual as crenças e os desejos terão suprema autoridade.

Os agentes intencionais não agirão somente da maneira em que são diretamente dirigidos por suas crenças e desejos. Embora eles alcancem suas crenças e desejos em primeiro lugar, terão que estar dispostos a atualizá-los, tal como requerido pelas novas informações. Esse é o segundo aspecto do contro- le racional. Vamos supor que agentes intencionais estejam ex- postos a evidências de não-p e esperemos que eles revisem sua crença que p. Vamos supor que eles fiquem expostos a evidências de desejos inconsistentes e esperemos que eles al- terem aqueles desejos. Vamos supor que eles sejam expostos às evidências que p, em que eles já acreditam que se p então q, e esperemos que eles venham a acreditar que q ou que revisem uma de suas crenças originais. E assim por diante.

O primeiro aspecto do controle racional é ação-relação e o

segundo é evidência-relação. O primeiro requer que o agente

aja como suas crenças e desejos ditam racionalmente e o se-

nervosos e reflexos automáticos,. naturalmente,

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TEORIA DA LIBERDADE

gundo requer dele emendar suas crenças e desejos à luz da evidência disponível, de maneira que ele não abrace crenças não sustentadas ou desejos não implementáveis.

Ninguém pensa que sujeitos intencionais comuns, como você e eu, serão perfeitamente racionais de uma maneira evi- dência-relação e ação-relação. Nós todos aceitamos que há circunstâncias desfavoráveis, não importa quão definidas este- jam, nas quais o melhor de nós não se dá bem nesses aspectos (Pettit, 1999b). E reconhecemos que, em qualquer caso, exis- tem limites para quão racional um sujeito finito pode ser, ou seja, até que ponto podemos esperar que um sujeito finito obte- nha implicações nas coisas em que ele já acredita (Cherniak, 1986). Mas está bem claro, ainda, que consideramos o contro- le racional como algo que todos queremos e que alcançaremos em alguma medida. A teoria da liberdade como controle racional diz que atuar livremente e ser um self livre ou uma pessoa livre, equivale nada mais nada menos, a atuar como um sujeito intencional- racional nesse sentido (Davidson, 1980, Ensaio 4). Não impor-

ta em que medida o controle racional seja alcançado, nessa

medida - e só nessa medida - a liberdade também será

alcançada.

2.3 A teoria da ação livre

Como a teoria da liberdade faz para elucidar seu alvo pri- mário, a noção de ação livre? A teoria tem um determinado conteúdo nessa área, na medida em que separa a ação livre- mente escolhida de inúmeras outras possibilidades. Existem no mínimo cinco contrastes salientes. O primeiro e mais óbvio contraste é o tique ou o reflexo -

o piscar, ou o bocejar, ou a contração - que não contam, de

nenhuma maneira, como uma ação. Ele carece de uma cone- xão adequada com as crenças e desejos. Não se trata do agente atuando sem controle racional, ou seja, sem liberdade, mas do agente fazendo alguma coisa que não é objeto para ser consi- derado como livre ou não, é uma resposta não-livre.

LIBERDADE COMO CONTROLE RACIONAL

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Um segundo contraste é a resposta dada por crenças e desejos, mas não de uma maneira correta para produzir uma determinada ação (Davidson, 1980, Ensaio 4). Tomemos, por exemplo, a ação de bater com um bastão de golfe como conse- qüência de um tique nervoso, julgando que obterei como resul- tado a forma de colocar a bola no buraco, por meio de um golpe. Nesse caso as crenças e os desejos tomam o golpe na bola um ato racional, mas o agente não fez isso de uma forma correta para realizar a ação. Por assim falar, ele não produz o movimento em virtude de um estado intencional para tomá-lo

racional, pelo contrário, ele o produz em virtude de serem estados que distraem e desencorajam alguém. Essa resposta, como a do tique ou o automatismo, não é de nenhuma maneira uma ação

e ela conta como sem liberdade mais do que como não-livre. Um terceiro contraste sob essa teoria, a ação livremente escolhida é a ação produzida, não-intencionalmente, quando alguém intencionalmente arremessa uma bola com a raquete de tênis e pode acertar um pássaro. Arremessar a bola e acer- tar o pássaro é uma e mesma ação - assim podemos presumir sem necessidade de analisar outras questões pertinentes (Davidson, 1980, Ensaios 6 e 8) - mas a ação é intencional, conforme a primeira descrição e não é .sob a segunda. Está claro, pelo que .temos falado até agora, que tais ações não- intencionais também contrastarão com ações livres. Elas con- tam como ações, contrariamente aos outros contrastes consi- derados até agora, mas não contam como. ações livremente escolhidas. A atuação de tais ações não é como tal um exercí- cio de controle racional. O quarto contraste com a ação livre, sob essa abordagem,

é a ação que é produzida sob a base de atitudes que são consi-

deradas irracionais ou que conduzem a uma ação de uma ma , neira irracional. Uma ação tem de ser possível para ser consi- derada como livre, mesmo se o agente não é perfeitamente racional, ou, do contrário, nunca haveria ações livres. Mas a um certo nível de defasagem, essa teoria terá que admitir que certa ação é irracional demais para ser considerada como livre. Assim tenderá de admitir que a ação compulsiva ou obsessiva,

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TEORIA DA LIBERDADE

ou a ação que expressa uma ação paranóica ou disposição patológica, não é livremente escolhida.

O quinto e último contraste com a ação livre, nessa teoria

da liberdade como controle racional, envolve uma ação A que

é produzida sobre a base de crenças e desejos do agente, em que não há uma alternativa comparável B, de maneira tal que, se as crenças e desejos do agente a tivessem racionalizado, ele as teria produzido. Nesse caso, o controle do comportamento do agente por seus estados intencionais não é irracional, como no caso anterior, mas não é efetivo. Os estados têm a capaci-

dade de conduzir à alternativa A, se ela é escolhida, mas eles não têm a capacidade de conduzir a qualquer alternativa com- parável B. Sua influência está suspensa ou frustrada, no caso de o agente não tender para A. Este último contraste nos leva de volta ao caso no qual um agente é considerado responsável por fazer A, mesmo que ele tenha sido forçado ou hipnotizado ou induzido neurocien-

tificamente a fazer A, caso não tivesse escolhido fazê-lo pela sua própria volição. Nesse caso, dissemos no último capítulo que o agente está adequado para ser considerado responsável

e está, correspondentemente, livre só em relação a possibilida-

des restritas, fazer A por sua própria volição ou ser manipulado para fazer A, tentando fazer A ou tentando fazer uma outra coisa diferente. Tal observação pode ser justificada sob a teo- ria da liberdade como controle racional. O agente não é livre para realizar A em vez de B, já que o controle racional reque- rido está ausente, mas o agente está livre para tentar fazer A

em vez de tentar fazer B, tendo o menor controle requerido para essa liberdade em particular.

A teoria da liberdade como controle racional diz que a ação

livre, distinta de todas essas cinco classes de antônimos, é uma ação que se materializa sob o controle racional do agente. Ela

se materializa de uma maneira racional, requerida·sob a base de crenças e desejos racionalmente considerados. Mas agora precisamos perceber que, empregando a noção de uma ação que se materializa sob certas influências, essa formulação é deliberadamente abstrata e, sem dúvida nenhuma, ambígua~

LIBERDADE COMO CONTROLE RACIONAL

53

Existem duas possíveis leituras do que é para uma ação livre materializar-se sob o controle racional de crenças e desejos racionalmente considerados. Sob uma leitura mais estreita, a ação deve acontecer como um resultado causal ativo da presença das crenças e dos desejos. Sob uma leitura mais ampla, a ação pode também acontecer sob a influência virtual desses estados. Um entendimento mais estreito diria que as ações livres devem ser, de forma causal, ocasionadas pelos estados psico- lógicos que vão e vem - racionalmente, como supomos - na cabeça do agente. A idéia é que se alguém age livremente, deve ser porque age como um resultado causal do que está pensando, aquilo em que está acreditando e o que está dese- jando. E deve ser que se tivesse pensado em coisas que reque- riam uma resposta diferente, então teria sido causalmente con- duzido por essas crenças e desejos a executar uma ação diferente. A teoria da ação livre entendida dessa maneira es- treita, é relativamente inviável, já que significaria que muitas das ações que qualquer um execute não são livres, porque, enquanto o sujeito é, certamente, capaz de formar crenças e desejos que o leva a fazer isso ou aquilo, muitas vezes ele atua sem se comprometer com qualquer um dos processos. Atua por hábito, inércia ou impulso. Como já dissemos, atua sem pensar. O entendimento mais amplo da teoria da ação livre evita o problema e faz a teoria muito mais plausível. Começa por uma distinção entre controle ativo e virtual e argumenta que o que a ação livre requer, é que crenças e desejos racionalmente con- siderados estejam no controle virtual da ação e não necessaria- mente no controle ativo (Pettit, 1995). Suponhamos que existam leis que ditem quais resultados deverão seguir a aparição de certos fatores controladores C 1 C2 e similares. Chamemos os resultados RI, R2 e assi~po; diante. Uma forma na qual os fatores C podem controlar os resultados R, é causando cada um a aparição do resultado R requerido, quando ele próprio está presente. Esse é um modo de controle padrão ou ativo. Mas uma outra forma na qual os fatores C podem controlar os resultados R, é esta: os fatores C

52

TEORIA DA LIBERDADE

ou a ação que expressa uma ação paranóica ou disposição patológica, não é livremente escolhida.

O quinto e último contraste com a ação livre, nessateoria

da liberdade como controle racional, envolve uma ação A que

é produzida sobre a base de crenças e desejos do agente, em

que não há uma alternativa comparável B, de maneira tal que, se as crenças e desejos do agente a tivessem racionalizado, ele as teria produzido. Nesse caso, o controle do comportamento

do agente por seus estados intencionais não é irracional, como no caso anterior, mas não é efetivo. Os estados têm a capaci- dade de conduzir à alternativa A, se ela é escolhida, mas eles não têm a capacidade de conduzir a qualquer alternativa com- parável B. Sua influência está suspensa ou frustrada, no caso de o agente não tender para A. Este último contraste nos leva de volta ao caso no qual um agente é considerado responsável por fazer A, mesmo que ele tenha sido forçado ou hipnotizado ou induzido neurocien- tificamente a fazer A, caso não tivesse escolhido fazê-lo pela sua própria volição. Nesse caso, dissemos no último capítulo que o agente está adequado para ser considerado responsável

e está, correspondentemente, livre só em relação a possibilida-

des restritas, fazer A por sua própria volição ou ser manipulado para fazer A, tentando fazer A ou tentando fazer uma outra

coisa diferente. Tal observação pode ser justificada sob a teo- ria da liberdade como controle racional. O agente não é livre para realizar A em vez de B, já que o controle racional reque- rido está ausente, mas o agente está livre para tentar fazer A em vez de tentar fazer B, tendo o menor controle requerido para essa liberdade em particular.

A teoria da liberdade como controle racional diz que a ação

é uma

livre, distinta de todas essas cinco classes de antônimos,

ação que se materializa sob o controle racional do agente. Ela se materializa de uma maneira racional, requerida· sob a base

de crenças e desejos racionalmente considerados. Mas agora precisamos perceber que, empregando a noção de uma ação que se materializa sob certas influências, essa formulação· é deliberadamente abstrata e, sem dúvida nenhuma, ambígua.

LIBERDADE COMO CONTROLE RACIONAL

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Existem duas possíveis leituras do que é para uma ação livre materializar-se sob o controle racional de crenças e desejos racionalmente considerados. Sob uma leitura mais estreita, a ação deve acontecer como um resultado causal ativo da presença das crenças e dos desejos. Sob uma leitura mais ampla, a ação pode também acontecer sob a influência virtual desses estados. Um entendimento mais estreito diria que as ações livres devem ser, de forma causal, ocasionadas pelos estados psico- lógicos que vão e vem - racionalmente, como supomos - na cabeça do agente. A idéia é que se alguém age livremente, deve ser porque age como um resultado causal do que está pensando, aquilo em que está acreditando e o que está dese- jando. E deve ser que se tivesse pensado em coisas que reque- riam uma resposta diferente, então teria sido causalmente con- duzido por essas crenças e desejos a executar uma ação diferente. A teoria da ação livre entendida dessa maneira es- treita, é relativamente inviável, já que significaria que muitas das ações que qualquer um execute não são livres, porque, enquanto o sujeito é, certamente, capaz de formar crenças e desejos que o leva a fazer isso ou aquilo, muitas vezes ele atua sem se comprometer com qualquer um dos processos. Atua por hábito, inércia ou impulso. Como já dissemos, atua sem pensar. O entendimento mais amplo da teoria da ação livre evita o problema e faz a teoria muito mais plausível. Começa por uma distinção entre controle ativo e virtual e argumenta que o que a ação livre requer, é que crenças e desejos racionalmente con- siderados estejam no controle virtual da ação e não necessaria:- mente no controle ativo (Pettit, 1995). Suponhamos que existam leis que ditem quais resultados

deverão seguir a aparição de certos fatores controladores,

C2 e similares. Chamemos os resultados Rl, R2 e assim por diante. Uma forma na qual os fatores C podem controlar os resultados R, é causando cada um a aparição do resultado R requerido, quando ele próprio está presente. Esse é um modo de controle padrão ou ativo. Mas uma outra forma na qual os fatores C podem controlar os resultados R, é esta: os fatores C

C 1,

54

TEORIA DA LIBERDADE

estão geralmente seguidos pelos correspondentes resultados R, sob a base de uma ordem causal independente ou colateral. Mas se o fator C não fosse segúido pelo resultado correspon- dente ou se não fosse possível ser seguido por esse resultado, então uma influência corretiva deveria colocar as coisas cor- retamente. Essa correção pode aparecer, por exemplo, pelo próprio fator C, tomando-se causalmente ativo em tal caso e disparando o resultado requerido pelas leis relevantes. Sob qual- quer um desses cenários, os fatores C exercerão o controle sobre os resultados R, não só quando eles estão ativados dessa forma excepcional, mas também quando eles permanecem no fundo e só têm o status de fatores de prontidão. O modo de controle que eles exercem desde a posição de fundo é o que eu descrevo como controle virtual. Sob o entendimento estrito do controle racional da ação livre, o agente forma certas crenças e desejos e é causalmente conduzido a agir como lhes ditam, os estados psicológicos con- trolam a ação livre no modo ativo de controle. Mas ainda nos casos em que não existe um disparo causal da ação realizada, as crenças e os desejos do agente, racionalmente considera- dos, podem estar sob controle virtual. E isso é o que postula o entendimento amplo da teoria. A idéia é que os agentes podem freqüentemente atuar por hábito, inércia ou impulso, encontrando-se, eles próprios, em situações relativamente familiares ou estando expostos a opor- tunidades relativamente familiares. As ações assim executa- das podem não ser ativamente causadas por quaisquer cren- ças e desejos racionalmente considerados. E ainda pode ser que eles se conformem, não somente por acidente, crenças fatais e desejos. Enquanto as ações são realizadas mais ou menos no piloto automático, é possível que o agente seja alertado a respeito de qualquer falha na parte do comportamento, es- pontaneamente, gerado para satisfazer os estados intencionais e seria conduzido por esses estados a ajustar seus comporta- mentos adequadamente. Em tal caso, as crenças e desejos ra- cionalillente considerados não são causas ativas para dirigir as coisas desta ou de aquela maneira, mas há causas de prontidão

LIBERDADE COMO CONTROLE RACIONAL

55

para serem ativadas quando o que ocorre não está conforme requer a razão. No que segue, vou presumir que a teoria conforme a qual uma ação é livre, enquanto ela está racionalmente controlada, interpreta o controle de forma ampla, o que pode envolver um controle ativo ou virtual. A distinção ativo-virtual nem sempre é expressa em termos explícitos --, isso será relevante para nós em posteriores discussões - mas o ponto que ela codifica pode, ocasionalmente, ser encontrada na literatura relevante. Um bom exemplo é fornecido por David Lewis (1983, 181):

Uma ação racional pode ser explicada pelas crenças e de- sejos do agente, mesmo se ela foi feita por hábito e o agen- te não pensou nas crenças e nos desejos que a motivaram. Se alguma vez o hábito parou de servir os desejos do agen- te de aco:r;do com suas crenças, ele teria sido ignorado e corrigido.

2.4 O problema com a teoria da ação livre

Quão convincente é dizer que a ação livre deve ser assimi- lada com a ação racionalmente controlada da forma que foi ilustrada? Naturalmente, a presença do controle racional no sentido procurado assegura que os comportamentos adequados, sem dúvida, contam como ações. Mas tal controle assegura que as ações adequadas são livres ou livremente escolhidas? Conforme o conceito de liberdade desenvolvido no último capítulo, uma ação é livre se, e somente se, ela tem um caráter que é consistente com o fato de o agente ser corretamente considerado responsável por ela. A ação é responsabilidade- compatível. Isso significa que uma ação é livre, se, e somente se, ela se materializa de uma maneira tal que o agente pode ser considerado totalmente responsável. Porém o fato de que uma ação é racionalmente controlada, não assegura que essa con- dição está preenchida. E assim por diante, uma ação pode ser racionalmente controlada sem poder ser considerada livre. O executor de ações racionalmente controladas deve con- siderar crenças e desejos racionalmente e deve agir da manei-

56

TEORIA DA LIBERDADE

ra que eles racionalmente requerem, no rrúnimo, em condições

presumivelmente favoráveis e dentro de limites presumivelmente viáveis. Mas o controle racional é bastante consistente com o fato de o agente não ter qualquer crença para esse efeito, ou seja, que isso ou aquilo é o que o agente deve fazer e que ele pode ser corretamente considerado responsável, esteja ou não conforme essa avaliação. Isso é bastante consistente com o fato de o agente não estar adequado para ser considerado res- ponsável pelo que foi feito. Podem não existir padrões reconhe- cidos ou abraçados pelo agente e padrões aos quais, se supõe,

o agente deveria responder. Consideremos, por exemplo, animais não-humanos. Eles podem muito bem ter crenças e desejos e conformar-se a cer- tos padrões de racionalidade, de acordo com o que o controle racional envolve. De acordo com o que o controle racional requer, esses agentes não precisam ser capazes de reconhecer os padrões de racionalidade e menos ainda ser capazes de re- conhecer padrões de qualquer outro tipo, quer dizer, padrões de prudência ou de moralidade. As pressões de racionalidade que geralmente devem satisfazer, estão articuladas em teorias filosóficas de racionalidade inferidas: prova e ação. Enquanto são racionalmente controlados, no sentido de presente teoria, os. agentes não podem ser capazes de reconJ:iecer os padrões como tais. Eles podem, racionalmente, foimar crenças e dese- jos e agir, racionalmente, à luz dessas crenças e desejos e mes- mo assim não ter crenças a respeito do que seja ser racional e menos ainda qualquer desejo de ser racional, nesse sentido (Pettit, 1993a, Capítulos 1e2; McGeer e Pettit, 2001).

Tal linha de pensamento demonstra que, se um agente está adequado para ser considerado responsável, não somente suas crenças e desejos devem constituir controles racionais do que eles fazem, mas ele deve ter, também, crenças avaliativas so-

bre os efeitos resultantes disto ou daquilo que se exige dele, em termos de racionalidade, prudência ou moralidade, e eles de- vem ter desejos para cumprir com essas avaliações. Somente agentes que são capazes de conhecer os padrões e responder

a eles podem ser considerados responsáveis pelo que fazem e

LIBERDADE COMO CONTROLE RACIONAL

57

podem considerar-se como livres ou não. Os estados intencio- nais de controle que operam em um agente que está completa- mente adequado para ser considerado responsável em uma escolha dada, devem ser susceptíveis à influência de que o agente reconheça - tal como se espera que o agente seja ca- paz de reconhecer - que uma ou outra opção concorde ou deixe de concordar com tais padrões.

Disse, anteriormente, que a principal armadilha da liberda- de, sob sua conceituação em tennos de adequação para al- guém ser considerado responsável, é que a responsabilidade é recursiva. Se um agente é responsável por uma dada ação em virtude de ela estar controlada por certas crenças e desejos, então o agente deve, por sua vez, ser responsável por tais cren- ças e desejos e assim por diante. O problema que surge aqui, é que nós ainda não chegamos à primeira base da recursão que

a responsabilidade aparentemente requer. As crenças· e dese-

jos que estão em controle da ação, não são suficientes para assegurar que o agente possa ser considerado responsável pela ação, menos ainda pelos próprios estados. Eles não precisam incluir crenças para satisfazer padrões de qualquer tipo ou de- sejos que tais padrões venham a satisfazer. Eles não precisam constituir crenças ou desejos em virtude de cuja presença o agente possa vir a estar adequado para ser considerado res- ponsável.

Como poderia a teoria responder a esse desafio? Um dos

mais proeminentes defensores da liberdade - naturalmente li- berdade em ação - como controle intencional, é Donald Davidson, que se vê como defensor de uma linha que ele asso- cia com "Hobbes, Locke, Human, Moore, Schlick, Ayer, Stevenson e muitos outros" (Davidson, 1980, Ensaio 4, 63). Ele pareceria oferecer uma resposta ao desafio quando argu- menta que crer e desejar são estados tais que, para ter qual- quer crença, é necessário ser capaz de acreditar nas crenças

e, a respeito de quais crenças são verdadeiras e quais são fal-

sas,· é necessário ter os conceitos de crença e verdade (Davidson, 1984, Ensaio 11). Qualquer sujeito com tais cren-

ças e conceitos poderia, seguramente, ser capaz de formar

58

TEORIA DA LIBERDADE

crenças a respeito de limitações ou padrões racionais e pode- ria ser capaz de responder ao reconhecimento de que alguma ação ou ação proposta não é o que ele deveria, em raciona- lidade, em prudência ou em moralidade, fazer. Mas a linha do pensamento Davidsoniano sobre essa discussão significa aban- donar a teoria da liberdade como controle racional - e separar- se da maioria daqueles que estão nessa longa linha, com os quais ele próprio se associa - a favor da teoria da liberdade como controle discursivo ou raciocinativo, o agente que ele imagina ser capaz, não só de ser racional, mas de raciocinar. Mais informações no Capítulo 4. Existe alguma outra resposta disponível para a teoria da liberdade como controle racional? A única que eu vejo é falsa e artificial demais para ser duradoura. Penso .em uma res- posta nesse sentido. Talvez a ação racionalmente controlada não seja realmente suscetível à influência do reconhecimento de um padrão relevante, já que o sujeito não pode reconhecer nenhum padrão. Mas isso é tal que, se o agente for capaz de reconhecer padrões desse tipo - uma hipótese remota - en- tão seria adequadamente suscetível. Essa resposta diz que talvez a ação livre não seja responsabilidade-compatível, con- forme as coisas são, mas é tal que poderia ser responsabili- dade-compatível no fantástico evento de que o agente tenha certas capacidades extras. De qualquer maneira, eu acho pouca atração nessa resposta. Ela sugere que um agente - digamos, um animal não-humano - pode ser descrito como sendo capaz de responder a padrões de um tipo que ele não pode, nem mesmo, reconhecer. E o sentido de "capacidade" pressuposto na sugestão é tão bobo como o sentido pressu- posto na velha piada "Você é capaz de tocar piano?": "Eu não sei, nunca tentei".

2.5 A teoria como ela se aplica ao livre se/f

A teoria da liberdade como controle racional começa com a questão da liberdade em ação e, tendo fornecido uma res- posta a essa questão, continua a desenvolver as respostas

LIBERDADE COMO CONTROLE RACIONAL

59

correspondestes às questões, tais como: o que é que direciona

a liberdade no self e a liberdade na pessoa? Alguns podem

considerar que a liberdade em ação é, sem dúvida, um tema de controle racional, sem se sujeitar, conforme a teoria da liberda- de como controle racional, a ter que lidar com o self livre e

com a pessoa livre. Mas eu quero salientar a pura teoria em três áreas - como eu o farei com as puras teorias da liberdade,

como controle volitivo e da liberdade e como controle discursivo

- e não tentarei documentar a possibilidade de abordagens

mistas. Em qualquer caso, esse exercício provara ser mera- mente uma rotina. Temos visto que a teoria da liberdade como controle racio- nal não ajuda, nem mesmo, a dar sentido à liberdade em ação, porque ela fracassa ao tentar assegurar que os controladores da ação respondem à consciência do agente - consciência dis- ponível, como deve ser - sobre a relevância de certos padrões. Mas como a teoria faz para dar sentido à noção do self livre, distinto da livre ação? Ela sugere que um agente será um ser livre - um self res- ponsabilidade-compatível - na medida, e só na medida, em que ele tenha a capacidade para a ação livre, isto é, a capacidade de exercer o controle racional na ação. A presença dessa ca- pacidade assegura que a relação do agente com a sua própria psicologia, sua constituição intrapessoal, lhe permitirá pensar na primeira pessoa sobre o que ele acha e faz e nos permitirá considerá-lo como responsável por suas ações. O selfnão será colocado no rol de um observador que tem que apreciar a gê- nese da ação como um processo alheio, bem-vindo ou não. A teoria da liberdade como controle racional consegue, à primeira vista, assegurar a liberdade do self. Intuitivamente nós todos achamos que os piores inimigos da liberdade de um self, é a sujeição a patologias, tais como, compulsão, obsessão, paranóia, idées fixes, fraqueza da vontade e semelhantes. É a presença de tais fatores que tipicamente alienam a pessoa do que ela faz e é o que nos conduz a questionar se ela está adequa- da para ser considerada responsável. Quando a teoria requer que o ser livre tenha a capacidade de exercer o controle racional,

60

TEORIA DA LIBERDADE

ela requer que ele se libere de tais formas de fixação irracional

e inconstante. E se assimilarmos o selflivre com o self que se

liberou de todas as patologias particulares, então poderemos muito bem concluir que a teoria da liberdade, como controle racional, ajuda, de fato, a dar sentido à liberdade do self.

2.6 O problema com a teoria do se/f livre

Mas isto é muito precipitado. A teoria requer que as cren- ças e os desejos se materializem e mudem de acordo com cer- tas pressões racionais dentro do agente e se manifestem nas ações que ele racionaliza. Em outras palavras, a teoria requer que o processo que se desdobre na psicologia do agente seja, de certa forma, particular, esse processo não será marcado pela influência das várias patologias. Perguntamos, contudo, porque o processo ser de um tipo e não de outro deve significar que o self pode se identificar com o processo envolvido? Por tudo o que nós sabemos, o self ainda terá que ver o processo como algo estranho e imposto. Uma teoria da liberdade do selfnão deve identificar o tipo de controle que nós, intuitivamente, consideramos como sendo simpático a essa liberdade. Essa teoria deve entender, tam- bém, por que deve ser simpática nesse sentido. Deve explicar por que o agente que opera sob tal controle terá pouca ou ne- nhuma dificuldade em se identificar com o que ele pensa e o faz assumindo a responsabilidade, como primeira pessoa, por suas ações. Intuitivamente assimilamos a liberdade do selfcom

a ausência de patologias racionais e podemos estar deliciando-

nos prematuramente com a idéia de que a teoria da liberdade como controle racional assegura essa ausência. Mas espera- se que a teoria possa fazer mais do que isso. Ela deve também ser capaz de explicar por que aquilo que ela assegura, a ausên- cia de patologias, pode figurar na nossa fenomenologia como uma experiência de ser livre em nós mesmos, de fazer as coisas por nós mesmos, em nosso próprio nome.

Por que deve o agente, cujas crenças e desejos operam racionalmente e se manifestam racionalmente em ação, ser

LIBERDADE COMO CONTROLE RACIONAL

61

cap,az de pensar no processo como um processo no qual ele esta presente como autor, ou melhor, como o self pode ser

considerado responsável pelo que é feito? As patologias são certamente fenômenos que o agente pode observar como even- tos impessoais que não o envolve. Mas por que o mesmo não pode ser verdade no que diz respeito às crenças e aos desejos

por que

na~ pode o agente, no qual as crenças e os desejos operam rac10nalmente, encontrar-se distanciado do processo e mal equi-

pado para assumir responsabilidades pelas ações às quais esse processo conduz? A teoria da liberdade como controle racional fracassa no enfoque dessa questão. O fracasso da teoria está freqüentemente escondido na forma em que seus defensores escolhem quando a declaram. A. J. Ayer (1982, 21) diz que um agente é livre para fazer alguma coisa, quando a ação realizada é causada por crenças e desejos de maneira racional, mas não quando é causada por

fatores "que pressionam", tais como, as patologias menciona- das. Mas Ayer, em nenhum lugar, tenta explicar aquilo que faz das crenças e desejos causas que não pressionam - causas como poderíamos colocar, que são consistentes com a liber~

dade do self -, enquanto supõe-se que as patologias

q~e gozam do controle no agente racional? E, ainda,

mencio-

~~da_s encon~ram-se entre causas que pressionam e que são 1mrmga_s da liberdade. Por que é que se supõe que as crenças e os desejos asseguram que sua presença, contrariamente à pre- sença de outros fatores influenciadores, direcionam à liberda- de do seif! A teoria da liberdade como controle racional não tem uma resposta.

2. 7 A teoria como ela se aplica à pessoa livre

A teoria da liberdade, como controle racional, pode ser ampliada à pessoa livre. O que ela diz nessa área é que a pes- soa será livre quando, e só quando, ela relaciona-se com outras pessoas, de uma maneira tal que ela retenha o controle racio- nal sobre suas ações. A pessoa que está no comando racional de suas ações, e mais ninguém, tem controle sobre o próprio

62

TEORIA DA LIBERDADE

comportamento e é exatamente isso que significa ser uma pes- soa livre. É inteiramente plausível dizer que a liberdade de uma pes- soa em relação a outras envolve, nada mais, nada menos, a retenção de um certo tipo de controle básico. A liberdade de uma pessoa requer que os elementos cruciais de controle, quais- quer que eles sejam, não estejam perdidos para qualquer outro agente ou conjunto de agentes. A liberdade consiste em que a pessoa relacionada com outras pessoas faça com que elas pos- sam ser consideradas responsáveis pelo que fazem. Essa respon- sabilidade não é removida em nenhuma medida do agente pelo rol que os outros desempenham quando modelam o que é feito. Nesse sentido, a teoria da liberdade como controle racio- nal articula o tipo de coisa que nós devemos, sem dúvida, espe- rar que uma teoria da liberdade articule na pessoa. Ela diz que a pessoa será livre na medida, e só na medida, em que suas relações interpessoais lhes permitam reter um certo controle de suas ações, mas de qualquer maneira a teoria é contra- intuitiva. Pode ser correto associar a liberdade de uma pessoa ao fato de ter um certo tipo de controle em relação a outras pessoas, porém o controle envolvido não pode ser nada tão simples, quanto o controle racional da ação.

2.8 O problema com a teoria da pessoa livre

O fracasso da teoria toma-se aparente quando inquirimos qual liberdade para a pessoa requer um comportamento deter- minado por parte dos outros. Porque se a liberdade requer que a pessoa retenha o controle racional sobre suas ações, então isso será bastante consistente com o fato de que outras pessoas forçam suas ações para seus próprios fins, mediante ameaças de impor certos custos sobre uma opção em particular. Isso, sem dúvida, será consistente com uma faixa de intrusões - incluindo várias formas de manipulação e de intimidação - que operam da mesma maneira que uma ameaça hostil. O que é surpreendente a respeito da coerção hostil - eu me concentrarei aqui só na coerção - é que ela tipicamente

LIBERDADE COMO CONTROLE RACIONAL

63

deixa o indivíduo coagido com uma escolha e com um controle racional sobre como essa escolha será feita. A coerção tem o efeito de aumentar os custos de fazer uma opção que o intruso quer que a pessoa evite, mas não põe essa opção além do alcance do agente. Assim, quando o ladrão diz "o dinheiro ou a vida", ele deixa a pessoa com uma decisão. Tudo o que acon- tece é que a opção de guardar o dinheiro toma-se extrema- mente cara e assim, sob a teoria de liberdade como controle racional, a pessoa, em tal caso, reterá sua liberdade.

O ambiente para o exercício do controle racional toma-se

naturalmente menos amigável em tal situação, já que defender sua vida ou defender o seu dinheiro é uma alternativa que não

está mais disponível facilmente. A liberdade do agente como tal, em que ela é entendida como controle racional, não está comprometida por um pioramento nas opções enfrentadas pelo agente.

Ela só poderia estar comprometida, se todas as opções desaparecessem, como no caso de sofrer obstrução ou força. Tomo essa tolerância da coerção como sendo tão contra- intuitiva, que a teoria da liberdade como controle racional tem que ser considerada como um relato inadequado da liberdade da pessoa. Em alguns casos, a coerção pode parecer consis- tente com a liberdade, como no caso da obstrução praticada pelos marinheiros de Ulisses, em mantê-lo amarrado ao mastro, isto é, consistente com sua liberdade. Ao mantê-lo amarrado, os marinheiros estão guiados pelo que eles consideram ser, sem dúvida, a real manifestação dos seus interesses. Mas na maio- ria dos casos a coerção é hostil à manifestação dos interesses do coagido e é intuitivamente inconsistente com sua liberdade como pessoa.

A intuição de inconsistência é apoiada pelo fato de que,

nos casos em que as pessoas são coagidas, tendemos a não considerá-las completamente responsáveis pelo que fizeram. Podemos achar que poderiam ter resistido à ameaça em ques- tão, mas não acharemos que estavam completamente adequa- das para serem consideradas responsáveis. Quão adequadas elas estavam dependerá de quão acreditável e quão desafiado-

64

TEORIA DA LIBERDADE

ra a ameaça em questão foi. Podemos achar que a responsabi- lidade pelo que foi feito descansa tanto no coator como no coagido, mas, em qualquer caso, acharemos que a responsabi- lidade do coagido está mitigada ou reduzida. Pode parecer que, ao ampliar a teoria da liberdade como controle racional a partir da ação livre para a liberdade da pes- soa, eu esteja construindo uma teoria da pessoa livre que nin- guém endossa, mas não é assim. Uma famosa defesa de minha posição é fornecida por Thomas Hobbes (1968, 146), quando ele assimila liberdade, no sentido estrito, com "liberdade corpo- ral", em vez de "liberdade civil", e diz que, para qualquer sujeito, tal liberdade "consiste nisto: que ele acha que não há limites para fazer o que ele tem vontade, desejo ou inclinação de fa- zer". Tal visão o conduziu a dizer que a ameaça coercitiva de castigo, enquanto ela pode privar uma pessoa da liberdade civil, não tira dela a liberdade natural ou corporal, não põe um fim à escolha. Mesmo se a pessoa está sujeita à coerção intensa, experimentada por um escravo, ela pode ainda ser livre no sen- tido estrito: "eu não acho razão para que um escravo reclame sob a base de que carece de liberdade" (Hobbes, 1998, 111). A visão hobbesiana tem atraído recentemente o apoio de um grupo muito engenhoso de defensores (Taylor, 1982~Gorr, 1989; Steiner, 1994; Carter, 1999). Eles argumentam que, fa- lando estritamente, coerção e intrusões relacionadas não tiram a liberdade de uma pessoa. Frisando o fato de que se alguém tem controle racional sobre uma escolha, esse alguém é livre. Eles sustentam que só a remoção ou a prevenção de opções podem reduzir a liberdade e, em última instância, podem tornar alguém escravo. Consideram eles que essa é a linha mais dire- ta a ser tomada e que ela tem a grande vantagem de facilitar a medição da liberdade por meio dos indivíduos e grupos. Quaisquer que sejam as vantagens, entretanto, eu considero inteiramente contra-intuitivo dizer que coagir alguém àescolha entre A e B não afeta a liberdade dessa escolha. lan Carter (1999, 224-33) assinala que, enfrentada com ameaça, "seu dinheiro ou sua vida", a pessoa pede a liberdade como um todo, mesmo que não faça a devida comparação entre a liberdade

LIBERDADE COMO CONTROLE RACIONAL

65

de dar ou de guardar o dinheiro. Se a ameaça é sincera, ela perde a liberdade de guardar o seu dinheiro, mas continua vi- vendo. Contudo, essa observação realmente não ajuda. Como

o próprio Carter diz, a pessoa não perde a sua liberdade como

um todo, quando a ameaça é um blefe ou quando a ameaça é feita a alguém por quem ela se preocupa. Ainda em tais situa- ções, a liberdade está reduzida intuitivamente da mesma ma- neira que no caso de uma sincera ameaça.

2. 9 A necessidade do controle racional

Temos visto que a presença do controle racional não é su- ficiente para assegurar a liberdade da ação, a liberdade do self ou a liberdade da pessoa, mas isso levanta a questão de se um grau satisfatório de controle racional é talvez necessário para

a liberdade. Presumirei que é. Estar adequado para ser consi- derado responsável pode não consistir em estar sujeito a um controle racional, tal como temos argumentado neste capítulo, porém,. estar adequado para ser considerado responsável não parece, pressupor que há uma medida satisfatória de controle racional no seu lugar. É difícil ver como podemos pensar um agente como adequado para ser considerado responsável em qualquer escolha ou adequado ei:n geral para ser considerado responsável pelas escolhas, caso não possua a medida de con- trole racional. As duas teorias da liberdade a serem consideradas nos

próximos dois capítulos apóiam tal intuição. O controle volitivo

e o controle discursivo com os quais elas associam a liberdade, respectivamente, pressupõem controle racional no sentido aqui explorado. Então, estritamente falando, a primeira é uma teoria da liberdade como controle racional conjugado com o controle volitivo e a segunda· uma teoria da liberdade como controle racional conjugado com o controle discursivo. O fato de que, de acordo com os relatos oferecidos, o con- trole racional é um elemento da capacidade para ser direcionado

à liberdade, leva a entender que a discussão neste capítulo não tem sido, inteiramente, de significância negativa. O capítulo

66

TEORIA DA LIBERDADE

serve não só para derrotar uma teoria da liberdade familiar, mas também para colocar no lugar um importante elemento que deve ser reconhecido por qualquer alternativa plausível.

Conclusão

Se a liberdade vier a ser conceituada como adequação para o agente ser considerado responsável, então, levanta-se a ques- tão: que tipo de capacidade pode fazer com que ele seja livre? Essa é a questão focalizada por diferentes teorias da liberdade, é o que veremos neste e nos dois próximos capítulos, como os principais adversários. A teoria focalizada neste capítulo diz que a liberdade está essencialmente ligada ao exercício do controle racional. Ela define a ação livre como qualquer ação que está racionalmen-

te controlada por crenças e desejos. Ela diz que alguém será

um selflivre na medida em que tenha a capacidade intrapessoal

para a ação livre. E considera que alguém será uma pessoa livre na medida em que tenha o status interpessoal requerido para a livre ação. Suas relações com outras pessoas o deixam

no controle racional do que ele faz.

Criticamos tal teoria, partindo da presunção de que a liber- dade é adequação para alguém ser considerado responsável.

A ação racionalmente controlada não precisa ser aquela pela

qual o agente possa ser considerado responsável, já que o agente racionalmente controlador pode carecer dos conceitos pressu- postos para ser considerado responsável. O agente pode ser um simples animal não-humano. O agente com a capacidade intrapessoal para o controle racional de suas ações, não será · problematizado pelos usuais bloqueios psicológicos da respon- sabilidade, porém não está claro por que ele estará incapacita- do, por conseguinte, para se ver, a si próprio, como o autor do que acontece em sua psicologia, como o self responsável por isso. E o agente com o status interpessoal requerido pelo con- trole racional de suas escolhas, não preencherá, nessa situa- ção particular, os requerimentos intuitivos para a liberdade e a responsabilidade pessoal. Ter tal controle é consistente com o

LIBERDADE COMO CONTROLE RACIONAL

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sofrimento pela coerção hostil e, em quase todos os casos, essa coerção reduz a liberdade de um agente como pessoa. Mas não importa em que medida a teoria fracasse em mostrar que o controle racional é suficiente para a liberdade de ação, do self ou da pessoa, já que ela identifica plausivelmente uma condição necessária para tal liberdade. A necessidade de reivindicação está construída sobre as outras duas teorias que estaremos considerando.

Liberdade como controle volitivo

3.1 Do livre se/f a outras liberdades

A teoria da liberdade como controle raeional é, em primeiro lugar, uma teoria da ação livre e ela opera uma generalização para tornar-se também uma teoria do livre selfe da pessoa livre. A teoria da liberdade como controle volitivo é uma teoria do livre self, em primeiro lugar, e generaliza, de uma maneira similar, para tornar-se uma teoria da livre ação e da pessoa livre. O mesmo modelo é mantido, de fato, com a teoria da liberdade como controle discursivo; como veremos no próximo capítulo. Começa como uma teoria da pessoa livre e é desenvolvida mais tarde como uma teoria da ação livre e do livre self. Vimos no último capítulo que a teoria da liberdade como controle racional fracassa em nos dar um sentido persuasivo de como um selfvenha a ser livre. Um selfserá livre na medi- da em que não haja nada sobre a psicologia do agente, em virtude da qual ela se distancia daquilo que ele quer, pensa ou faz, e tem que olhar para aquelas atitudes e ações como um espectador impotente. O cenário no qual o agente é um espec- tador impotente da sua própria psicologia, é exatamente um cenário onde devemos pensar que ele é inapropriado para considerá-lo propriamente responsável. Os espectadores são observadores daquilo que se desdobra ante eles e não os seus autores e é inadequado para considerar os observadores como

70

TEORIA DA LIBERDADE

responsáveis pelos acontecimentos que observam. Ainda o cenário do espectador, como aparece, é totalmente consistente com a presença do controle racional.

A teoria da liberdade como controle volitivo começa com

esse problema. A idéia é que se um agente goza do controle volitivo tanto quanto do controle racional do que faz, não há como

ser alienado pelos seus feitos, não há nenhuma perspectiva de o agente ter que ver o processo e o produto da sua psicologia, porque ela está envolvida em uma seqüência impessoal na qual ele teve pouca ou nenhuma participação. Sendo assim, a teoria propõe que é o controle volitivo, além da liberdade- um controle estritamente racional combinado com volitivo - o que constitui uma adequação do agente para ser considerado responsável.

O filósofo que mais tem feito ultimamente para consagrar

a noção de controle volitivo - liberdade da vontade, como ele a coloca-é Harry Frankfurt (1988; 1999), cujo trabalho focali- zamos neste capítulo. É importante lembrarmos que, enquanto Frankfurt constrói a noção de controle volitivo que estaremos discutindo, ele não a coloca no uso que prevemos aqui. Para ele, ser livre envolve a capacidade de se responsabilizar pelo que se faz e argumenta que o controle volitivo dá ao agente a capacidade de assumir a responsabilidade do feito. Para nós, ser livre envolve estar adequado para ser responsável por aquilo que se faz e a teoria a ser examinada sugere que o controle volitivo dá ao agente tal adequação. Assim, a ênfase que damos para a explicação e avaliação da teoria, não necessariamente se compromete com as opiniões de Frankfurt, especialmente com suas opiniões distintas sobre o quanto de responsabilidade e de liberdade o controle volitivo assegura que se conecta com ares- ponsabilidade. Este capítulo não pode ser entendido como um diálogo com o próprio Frankfurt, mas preferivelmente como uma teoria que sua noção de controle volitivo nos ajuda a construir.

3.2 Uma teoria do livre se/f

O primeiro passo em direção à teoria da liberdade como

controle volitivo - em particular, à teoria do livre self - é a

LIBERDADE COMO CONTROLE VOLITIVO

71

observação de que o problema do espectador aparece quando

a ação tomada por um agente fracassa, intuitivamente, para representar a sua livre vontade. Ela pode expressar os desejos do agente e ainda pode até estar sujeita a um controle racional total, mas, desde que não responda à vontade livre do agente, não pode ser considerada totalmente livre. Os agentes serão incapazes de se identificarem com aquilo que ocorre dentro deles ou com aquilo que materializam com suas próprias mãos.

O que ocorre se materializará sem o consentimento de suas von-

tades ou talvez até mesmo contra elas (Frankfurt, 1988, 12). Tal concepção é intuitiva e plausível, já que freqüentemente dizemos que certos desejos e reações ocorrem contra a livre von- tade do agente, sem que por ele haja identificação. Mas essa con- cepção é "analiticamente surpreendente" de acordo com a pró- pria expressão de Frankfurt (1988, 18). O que significa dizer que um agente faz algo que sua livre vontade ou que faz uma coisa contra a sua livre vontade? O que significa dizer que um agente fracassa em se identificar com o desejo ou a ação em questão? Existem diferentes opiniões que deveriam ser desenvolvi- das em resposta a esse desafio, para esclarecimento, e elas gerarão versões diferentes da teoria da liberdade como controle volitivo. Algumas serão coerentes com as noções Aristotélicas e Tomísticas tradicionais do controle deliberativo (Stump, 1996; 1997), outras com as idéias Kantianas de agenciamento autô- nomo (Korsgaard, 1996,1999), outras com imagens da consciên- cia autodeterminante (Sartre, 1958), e outras ainda com o con- ceito de agenciamento-causa polularizado por Roderik Chisholm (1982). Neste capítulo, entretanto, consideraremos somente a versão que se encontra no próprio trabalho de Frankfurt, o qual está intimamente relacionado com um outro, independentemente desenvolvido por Gerald Dworkin (1970; 1988). Ele tem a van- tagem de ser bem conhecido, relativamente evidente e não necessariamente inconsistente com o naturalismo.

A idéia de Frankfurt é que os agentes se identificarão com uma ação A, vendo-a como representante da sua vontade livre, na medida em que eles têm "uma volição de segunda ordem" para fazer A, e também diz que eles terão uma volição para

72

TEORIA DA LIBERDADE

fazer A, na medida em que eles queiram ser controlados pelo desejo de. Eles querem que o desejo seja aquilo que os movi- mentem para atuar efetivamente (Frankfurt, 1988, 15).

Ao introduzir essa análise do controle volitivo, Frankfurt expõe duas idéias distintas. A primeira é que os agentes livres são todos capazes de ter não somente desejos de primeira or- . dem para fazer isto ou aquilo, mas também desejos de segunda ordem para ter desejos de primeira ordem de um tipo ou outro. Os desejos de segunda ordem são os que, como um problema de sintaxe, só podem ser especificados se mencionados por outros desejos. Desejos de primeira ordem são desejos para os quais isso não é verdadeiro. A segunda idéia mobilizada, a ser levada em consideração, é que entre os desejos de segunda ordem do agente pode haver um desejo que seja efetivamente movido por um certo desejo de primeira ordem, que aquele desejo de primeira ordem, como Frankfurt também diz, seja sua vontade. Isso distingue os desejos de segunda ordem, que contam como volições de segunda ordem, dos desejos mais ociosos de segunda ordem, dos desejos de ter exatamente uma experiência de certos desejos de primeira ordem, mas não ne- cessariamente para serem movidos para a ação por eles. Frankfurt afirma que na medida em que os agentes encon- tram a condição para agir de acordo com suas volições de segunda ordem, pode se dizer que eles querem o·que acontece

e se identificam com isso completamente e nessa medida cada

um deles evitará um status de observador e será um livre self que estará totalmente implicado naquilo em que.eles são auto-

res. Ele vê várias formas nas quais os agentes podem falhar, como eu o coloco, em ser um livre self. Uma pessoa pode não ter nenhuma capacidade para formar desejos de segunda or- dem, essa é uma maneira pela qual animais não-humanos fra- cassarão para serem livres selves. Uma outra maneira é ter tal capacidade, mas não ter a habilidade de formar volições de segunda ordem, tal agente será "deficiente", como Frankfurt o coloca, não uma pessoa propriamente dita e ainda outra forma

é ter a capacidade de volições de segunda ordem, mas não por

triunfar no exercício da capacidade nesta ou naquela situação.

LIBERDADE COMO CONTROLE VOLITIVO

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Por outro lado, existem duas maneiras nas quais as pessoas podem não ser bem sucedidas no exercício da capacidade para volições de segunda ordem em dada situação. Uma é o caso em que uma pessoa se ache inadequada para agir de acordo com a sua real volição, isso no caso da adesão involuntária às drogas. E a outra é o caso em que uma pessoa age de acordo com sua volição real - digamos, no caso da adesão voluntária às drogas - mas uma pessoa poderá não ser capaz de agir de acordo com sua volição ou então desejaria o contrário, a pes- soa, por exemplo, poderia se recusar a tomar drogas. Aqui o agente pode agir livremente ao tomar a droga, como intuitiva- mente diríamos, mas carece de controle volitivo ou, como o próprio Frankfurt diria, liberdade da vontade. O fato de Frankfurt considerar que os adeptos voluntários carecem de controle volitivo, demonstra que ele julga o contro- le volitivo como linhas paralelas à noção de controle racional, explicada no último capítulo. O controle racional requer que o agente esteja disposto para formar crenças e desejos em úm modelo racional e esteja disposto, quaisquer que sejam as cren- ças e os desejos, a agir como ele racionalmente requer. O con- trole volitivo requer que o agente esteja disposto a formar cer- tas ordens volitivas superiores em relação ao que faz e está disposto, quaisquer que possam ser as volições, a agir como elas requerem. Os adeptos voluntários não estão no controle volitivo, porque as ordens volitivas superiores para não tomar drogas - uma volição que eles deveriam realizam, mesmo que realmente não a realizem - não se efetivariam mesmo que se materializassem, seriam bloqueados pela adição da pessoa. "A vontade da pessoa é livre somente se ela é livre para ter a vontade que ela quer. Isso significa dizer que, em relação a qualquer um dos desejos de primeira ordem, ela é livre tanto para fazer desse desejo sua vontade ou, pelo contrário, fazer algum outro desejo de primeira ordem como sua vontade" (Frankfurt, 1988, 24). Frankfurt não só modela o controle volitivo paralelamente com a nossa descrição de controle racional, mas também acha que a liberdade requer controle racional - ou no mínimo algo

74

TEORIA DA LIBERDADE

próximo ao controle racional - como também controle volitivo:

"somente em virtude das suas capacidades racionais uma pes- soa é capaz de vir a ser criticamente consciente da sua própria vontade de formar volições de segunda ordem. A estrutura da vontade de uma pessoa pressupõe, por conseguinte, que ela é um ser racional" (Frankfurt, 1988, 17; cf. 22-3). Proponho uma interpretação da teoria do controle volitivo, no sentido dessa passagem, como uma teoria racional combinada com o controle volitivo. O controle racional pode não ser suficiente para a liber- dade da ação, do self ou da pessoa, como vimos no último capítulo, mas ele é intuitivamente necessário para a responsabi- lidade e para a liberdade e a presente teoria honra tal reivindicação. Adicionando o requerimento do controle volitivo ao contro- le racional, da forma como interpretamos teoria, não se trata de um movimento redundante e nem importuno. Não é redun- dante, porque estar no controle racional não implica estar no controle volitivo, afinal animais não-humanos e humanos defi- cientes poderão gozar de controle racional sem controle volitivo. Não é importuno, porque estar no controle volitivo é bastante consistente com estar no controle racional, ele meramente re- quer que um particular subgrupo dos desejos do agente- desejos de ordem superior efetivamente movidos por certos desejos de primeira ordem - sejam mais fortes que outros. Frankfurt não faz a distinção descrita no último capítulo entre modo ativo e virtual de controle, embora fale que estar efetivamente movido por este ou aquele desejo certamente sugere ter freqüentemente um controle ativo em mente. É pos- sível interpretar a teoria de liberdade como controle volitivo, entretanto, com o controle sendo entendido no sentido amplo, no qual ele pode ser tanto ativo quanto virtual e, enquanto eu não comentar mais nada sobre a questão, é como eu a tomo aqui. As críticas que faço à teoria se aplicam até mesmo quan- do permitimos que os desejos de ordem superior controlem os de ordem inferior, somente de modo virtual, e que eles sejam desejos a serem efetivamente movidos pelos desejos de ordem inferior, somente no sentido de que tal movimento pode envol- ver controle ativo e virtual.

LIBERDADE COMO CONTROLE VOLITIVO

75

3.3 O problema com essa teoria do livre se/f

Será que a adição do controle volitivo com o controle racional se encontra além do problema do livre self? A teoria assegura que o self do agente será capaz de se identificar com aquilo que ocorre, reconhecendo sua própria assinatura nas coisas que o agente deseja e faz? Será que ela garante que os desejos e os feitos implicarão a vontade do agente, de tal forma que não haja nenhuma pergunta: sobre ele como autor e não haja dúvida na marcação sobre a propriedade de considerar o agente responsável? Eu não penso assim. O problema com a teoria, que muitos críticos têm observa- do, é que ela dá uma aprovação arbitrária aos desejos de se- gunda ordem, em particular àqueles desejos que contam como volições de segunda ordem (ver, por exemplo, Watson, 1982; Velleman, 1992). Se os meus desejos de primeira ordem como tais são fenômenos que eu posso ver como um observador ou espectador, sem estar implicado como autor, por que o mesmo não pode ser verdade a respeito de minhas volições de segun- da ordem? Por que não posso me encontrar no mesmo impasse em relação a elas? 1

Esse problema referente ao que é tão especial a respeito da volição de segunda ordem não é o mesmo relacionado às questões:

por que não é necessário ter identificações de uma ordem superior, como também por que não é necessário uma identificação de segunda ordem. Frankfurt trata desse outro problema quando argumenta: se eu me identifico em um desejo de segunda ordem com um desejo de primeira ordem para fazer A, então tal iden- tificação ecoará mais alto, em cima de qualquer outro desejo de ordem superior que eu possa ter: eu não só vou desejar querer ser movido efetivamente para fazer A, eu me encontrarei disposto para desejar querer o querer ser movido efetivamente para fazer

A e assim por diante. "Quando uma pessoa se identifica deci-

sivamente com um dos seus desejos de primeira ordem, o com- prometimento 'ressoa' por meio da potencialmente infinita variedade de ordens superiores" (Frankfurt, 1988, 21; 168-9). Nem o problema é levantado para alcançar as questões, por que

eu não deveria fracassar em alcançar uma identificação de segundo

nível, sendo empurrado para o terceiro nível, e por que eu não

76

TEORIA DA LIBERDADE

Consideremos a diferença entre ter um desejo de primeira ordem para fazer algo A e ter um desejo de segunda ordem para ser efetivamente movido pelo desejo de fazer A. Admite- se que o desejo de fazer A eu possa ter de observá-lo na forma de espectador ou observador como uma força que opera den- tro de mim, mas não emana de mim. Mas por que a mesma possibilidade não vai ameaçar o desejo de segunda ordem, para ser efetivamente movido pelo desejo de fazer A? Imaginemos que a ação de fazerA seja manter minha car- teira limpa. E imaginemos que se admita que eu tenha que tratar isso como sendo uma compulsão estranha, pela qual me encontre algumas vezes desapontado. Eu poderia fracassar em identificar-me com ela e fazê-la minha vontade. Mas, agora, suponhamos que eu tenha um desejo de segunda ordem a ser efetivamente movido por esse desejo de limpar minha carteira. Isso significa que tenho, desse modo, de me identificar com o desejo de limpar a carteira e fazer dele minha vontade? Acho que não. Porque imaginemos que eu concebo aquele desejo de segunda ordem, como uma necessidade natural que vem para mim da infância, exercitado nos princípios Vitorianos de que limpeza está próximo aos ensinamentos de Deus. E imaginemos que eu me distancio daquele desejo de segunda ordem, reconhecendo-o pelo que ele é, uma herança não bem- vinda do passado, que eu vejo com desaprovação. A presença de tal desejo de segunda ordem,.--·tal volição de segunda, como ele é - não pode me conduzir a me identificar com o desejo de primeira ordem que ele favorece, tratando-o como minha von-

deveria fracassar em cada nível subseqüente, sendo sempre empurrado para um nível mais elevado. Frankfurt faz a seguinte

afirmação: "Não há teoricamente limite para a extensão das séries

de desejos de ordens mais e mais elevadas, nada, exceto o bom

senso e, talvez, uma economia de fatiga evita que um indivíduo

se recuse obsessivamente a se identificar com qualquer um de

seus desejos, até formar um desejo da ordem superior seguinte.

A tendência para gerar tais séries de atos de formalização de

desejos, que seria um caso de humanização, corre à solta (ou selvagemente), mas também nos leva em direção à destruição da

pessoa" (Frankfurt, 1999, 104).

LIBERDADE COMO CONTROLE VOLITIVO

77

tade. Ele me deixará exatamente na mesma distância de mim mesmo, em que a experiência de compulsão original deve ter me deixado. Em resposta a essa linha de pensamento, defensores da teoria da liberdade como controle volitivo, deveriam observar que a própria descrição do caso até agora pressupõe que há um certo nível no qual tenho desejos que não os trato como estranhos da forma que trato, o desejo de manter minha carteira limpa ou o desejo de ser efetivamente movido por ele. No cenário descrito, estou distanciado dos desejos em virtude da desapro- vação de compulsividade e puritanismo. E isso deve significar, eles podem salientar, que ainda há um desejo de nível superior do qual vejo os de níveis inferiores com desaprovação. Mas se eu vejo os desejos de níveis inferiores com desaprovação da perspectiva do de nível superior, então, presumivelmente, o nível superior é o nível onde a identificação potencialmente começa. É na base dos desejos deste nível que eu posso identificar-me com certos desejos de baixo nível - distanciando-me dos ou- tros - e desse modo espero fazer deles minha vontade. Seguindo essa observação, defensores da teoria da liber- dade como controle volitivo irão negar que controle volitivo começa no primeiro nível, no qual o agente forma desejos a serem efetivamente movidos pelos desejos de nível inferior. Eles dirão que o controle volitivo começa no primeiro nível em que os desejos volitivos formados não são vistos com a impar- cialidade de um nível mais elevado. O nível no qual a identifi- cação começa, então, será levado para satisfazer uma dupla condição: primeiro, que o agente forme desejos a serem efeti- vamente movidos por desejos de nível inferior, e, segundo, que o agente não forme nenhum desejo de nível superior para não ser movido por tais desejos. O próprio Frankfurt parece ter-se movido em direção a esse tipo de opinião em sua obra recente. "No que se refere a hierarquias, uma pessoa se identifica com um de seus próprios desejos mais que com outro em virtude de querer ser movido à ação pelo primeiro desejo mais do que pelo segundo. Mas o que determina que ele se identifique com essa preferência de

78

TEORIA DA LIBERDADE

segunda ordem? O mero fato de ser um desejo de segunda ordem, certamente não lhe dá autoridade particular. O endos- so do desejo de segunda ordem deve ser, em adição, um desejo com o qual a pessoa esteja satisfeita (Frankfurt, 1999, 105). Tal satisfação com um desejo de ordem superior, a saber, é para ser entendido de uma forma totalmente nega- tiva. A satisfação é um estado de todo o sistema psíquico - um estado constituído exatamente pela ausência de qual- quer tendência ou inclinação para alterar a sua condição" (Frankfurt, 1999, 104). A teoria, como emendada nestas linhas, nos conduz a uma boa descrição de quando um agente é um livre self, isto é, alguém cuja psicologia assegura que ele se identifique com o que faz, fazendo disso a sua vontade, e alguém que está ade- quado nesse relato para ser considerado responsável pelos seus feitos? Eu não penso assim. Imaginemos que o desejo a ser efetivamente movido por aquele de manter a minha carteira limpa esteja presente em mim, sem eu possuir nenhum outro de nível superior, em virtude do qual desaprovo aquela volição. Isso ainda não significa, intuitivamente, que me identifique com o desejo de manter minha carteira limpa e faça disso a minha vontade. Para ser consistente com a não desaprovação da vo- lição, isto é, consistente com a não desaprovação de desejo de segunda ordem, a ser efetivamente movido pelo desejo de manter a minha carteira limpa, eu não deveria também aprová- la. Eu deveria observá-la, precisamente, como um espectador indiferente. O fato é que posso adotar qualquer uma das três posições, não somente duas, em relação à volição de segunda ordem. Posso aprová-la, posso desaprová-la e posso fracassar em aprová-la ou desaprová-la. A teoria original sugeria que não importa qual posição adoto, o desejo de segunda ordem iniciará a identificação e isso parece claramente errado. A teoria emen- dada sugere que, se eu fracassar em aprovar ou desaprovar, então, o desejo de segunda ordem iniciará a identificação. Mas isso também parece errado, desde que o fracasso na aprova- ção do desejo de segunda ordem em questão, sugeriria que

LIBERDADE COMO CONTROLE VOLITIVO

79

considerarei o desejo de primeira ordem que ele endossa como um espectador indiferente. Não pensarei que é um desejo em que conta minha vontade livre, mas também não o julgarei como um desejo que responda a minha vontade livre. Ele se apresen- tará como um evento mais ou menos impessoal e não como algo que eu possua propriamente.

Podem os defensores emendar a teoria de liberdade como controle volitivo, como essa crítica sugere? Podem eles dizer que a identificação começa no primeiro nível, no qual há um desejo a ser efetivamente movido por desejos de nível inferior e no qual esse desejo goza a ativa aprovação do agente? Ora, não, porque tal teoria explicará a identificação com o desejo somente nas bases de assumir que há um antecedente, um tipo

de identificação inexplicada com a aprovação postulada. Ateo-

ria explicará porque eu me identifico com o desejo A, qualquer

que seja, dizendo que há um desejo a ser efetivamente movido pelo desejo A presente em mim e que eu aprovo a sua presen- ça. Mas se há um problema que está envolvido na identifica- ção com um desejo, fazendo-o como minha vontade, há um problema similar sobre o que está envolvido na identificação com um ato de aprovação, fazendo-o meu ponto de vista no mundo. Por que eu não deveria achar um ato de aprovação ocorrendo dentro de mim sem ser capaz de me identificar com ele? Por que eu não deveria observar tal ato de aprovação como observador?

Concluo que a teoria da liberdade como controle volitivo começa a partir de um problema sério na descrição do livre self, é dado pela teoria da liberdade como controle racional e fracas-

sa no final, ao resolver o problema. Precisamos ser capazes de

explicar o que é requerido pelo agente para ter um livre self, o

que é requerido pelo agente para estar implicado como autor nas coisas que ele deseja e faz. De outra maneira, não seremos ca- pazes de especificar as condições sob as quais um agente está adequado, nessa descrição, para ser considerado responsável.

A teoria da liberdade como controle volitivo, no mínimo nas

versões que começam das observações pioneiras de Frank-

furt, não nos promete nenhuma resolução·satisfatória.

TEORIA DA LIBERDADE

80

3.4 A teoria como ela se aplica à ação livre

Embora a teoria da liberdade parta como uma teoria do livre self, como controle volitivo também nos leva em direção a uma visão que conduz à liberdade da livre ação e à liberdade da pessoa livre. Ou no mínimo essa é a forma abrangente que eu tomo aqui. Como uma teoria de ação, ela requer que a ação livre deva

estar sujeita não só ao controle racional, mas também ao volitivo.

A ação que é controlada pelas crenças e desejos do agente,

mas sem aprovação volitiva dele, não pode ser considerada como propriamente livre neste relato. O que é requerido em adição é que os desejos que a controlam, são desejos com os quais o agente se identifica em sentido apropriado, desejos que

o agente quer que sejam efetivos em produzir a ação. Tal teoria é similar à teoria da ação livre descrita na última seção. Ela leva a ação livre a ser livre, em virtude do tipo de controle exercido por certos antecedentes. A ação tem que ser racionalmente controlada pelos desejos e crenças racionalmente considerados, como a teoria primária. Especificamente, ela tem que ser controlada racionalmente por crenças e desejos consi- derados racionalmente, conforme o requerimento volitivo, sen- do os desejos aqueles que o agente quer que sejam efetivos. A idéia por trás de ambas abordagens, é que existem fato- res de controle tais que se eles estão no controle de uma ação, então ela é livre, e se eles não estão no controle de uma ação, então ela não é livre. Os antecedentes que favorecem a liber- dade são fatores não-restritivos, como Ayer (1982, 21) coloca- ria, e os antecedentes que removem a liberdade seriam fatores restritivos. Enquanto a primeira teoria sugere que a existência de controle racional é suficiente para tomar certos anteceden- tes não-restritivos, essa segunda teoria diz que eles devem ser,

ambos, controles racionais e volitivos.

3.5 O problema com essa teoria da livre ação

À parte de explicar o problema da noção de controle volitivo que já discutimos em relação ao ser livre, essa teoria da livre

LIBERDADE COMO CONTROLE VOLITIVO

81

ação enfrenta o problema que acompanha aquele levantado pela teoria da liberdade como controle racional. O problema está em que os controladores de uma ação devem responder a padrões que o agente endossa, a fim de tomá-la intuitivamente livre. Eles devem ser respostas ao senso do agente do que ele deve ser ou, no mínimo, isso deve ser assim dentro de possíveis limites presumíveis e sob circunstâncias presumivelmente fa- voráveis. Nem os controladores racionais e nem racionais combinados com os volitivos, parecem capazes de satisfazer tal condição. O problema com a teoria da liberdade como controle racional é que ela não requer que os agentes dos atos livres sejam ca~ pazes de endossar qualquer padrão, sem se falar da capacidade de aplicá-los e de responder a eles. O animal não-humano, por exemplo, pode agir de uma maneira racionalmente controlada mesmo que ele não seja capaz de formar crenças relativas a assuntos tão abstratos como padrões que suportam o que faz. Ele não precisa ser capaz de formar crenças referentes ao que deve fazer, seja em racionalidade, seja em prudência ou moralidade. A teoria da liberdade como controle volitivo evita o proble- ma, na medida em que as volições de ordem superior dos agentes podem ser tratadas como fornecendo padiões aos quais eles se prendem e aos quais também deveríamos prender-nos até eles serem removidos. Tais volições de ordem superior são prescrições auto-endereçadas de um tipo que os animais não- humanos quase, com certeza, não exibem (Frankfurt 1988, 16). Apoiemos a teoria, assumindo que estar adequado para ser considerado responsável envolve, basicamente, estar adequa- do para ser considerado nessas volições de ordem superior. A questão a ser levantada, então, é se a teoria desse modo per- mite aos controladores da ação estarem adequados a respon- der a padrões que o agente endossa. Em um certo nível, parece que a teoria preenche a limita- ção satisfatoriamente. Tomando os controladores imediatos de ação como sendo as crenças e os desejos do nível inferior do agente, isso postula que eles tomem a ação livre só na medida

TEORIA DA LIBERDADE

82

em que eles próprios são responsivos a abolições de ordem superior. A ação teria sido outra, se as volições tivessem sido adequadamente diferentes e a variação de volições estives- sem, sem dúvida, dentro do alcance do agente, "em relação a qualquer um de seus desejos de primeira ordem, o agen~~é livre, seja para fazer do desejo sua vontade ou, pelo contrano, fazer do desejo de primeira ordem, de outro qualquer, sua von- tade" (Frankfurt 1988, 24). Nesse sentido, as crenças e os desejos que a teoria considera estarem em controle da ação livre, estão, eles próprios, sujeitos ao controle de volições de ordem superior. Podemos julgar o agente adequado para ser considerado responsável pelo que ele deve fazer à luz dos es- tados de ordem superior. Mas, infelizmente para a teoria, as coisas não param por aí. A responsabilidade é recursiva, como vimos anteriorme~te, no sentido de que se o agente está adequado para ser conside- rado responsável por uma dada escolha, digamos entre fazer A e fazer B, e por possuir certas crenças e desejos, então, deve estar adequado para ser considerado responsável, por sua vez, por essas crenças e desejos e assim por di~te.O agente po~e ser considerado responsável por algo em virtude da operaçao de um fator pelo qual também não seja responsável. A respon- sabilidade é, por natureza, recursiva. De acordo com a presente teoria, uma pessoa estará ade- quada para ser considera responsável por. certas ações, e~ virtude de ter volições de ordem superior - se prefenr, autoprescrições - que desempenham um rol controlador ao formar seu comportamento. O caráter recursivo da responsa- bilidade significa, então, que, por sua vez, a pessoa deve estar adequada para ser considerada responsável pelas v~lições.de ordem superior e o problema está em que nada na teona explica como isso vai ser assegurado. Nada na teoria da liberdade como controle volitivo sugere que o agente deva estar adequado para ser considerado responsável por volições de ordem superior. A pessoa estará adequada para ser considerada respons~­ vel por tais volições, somente na medida em que houver m~s padrões disponíveis aos quais responde, somente na medida

LIBERDADE COMO CONTROLE VOLITIVO

83

em que reconhece e reage a um senso do dever em conexão, por sua vez, com as volições. Mas tais padrões, sob a teoria que estamos considerando, não precisam estar disponíveis, porque, de acordo com o que a teoria diz, as volições de ordem si;tperior podem representar fatos brutais a respeito dos quais o agente não pode fazer nada. Elas podem ser inamovíveis movedoras do sistema ou, no mínimo, elas podem não ser movi- das da maneira que poderíamos esperar que um agente respon- sável o fizesse. É possível que os padrões associados com as volições sejam padrões dos quais o agente é escravo, sendo incapaz de encontrar um ponto de onde se possa acessá-los ou tentar alterá-los. Penso que isso demonstra que o controle volitivo, como é conceituado por Frankfurt, não tem a possibilidade de reivindi- car a percepção de tudo o que é necessário para que o agente esteja adequado para ser considerado responsável por uma escolha. A presença do controle racional seria insuficiente para tal adequação, porque seria consistente com o fato de o agente não ter senso do dever, seja ele qual for. A presença do controle volitivo seria insuficiente, porque seria consistente com o fato de o agente não ter senso do dever em relação a sua volição ou vontade. As volições podem servir para dar forma aos controladores da ação - crenças e desejos a um nível normal - mas eles mesmos não deveriam estar sujeitos ao tipo de controle requerido pela adequação para ser considerado responsável. Vale a pena notar, ao concluir essa discussão, que o fra- casso do controle volitivo para justificar a conotação de res- ponsabilidade, não significa que fracassará para justificar a conotação de compromisso, seja como for entendida a respon- sabilidade. Isso é importante porque, para serjusto com Frank- furt, ele julga a liberdade como compromisso e usa a idéia de controle volitivo para explicar o que o compromisso requer. Não tenho nada a dizer sobre até que ponto seu projeto tem sucesso. O argumento do primeiro capítulo, que deveria ser sustentado pelo grande apelo da posição mantida neste livro - se indubitavelmente tem apelo - é que a liberdade deve ser conceituada como adequação para ser considerada responsá-

84

TEORIA DA LIBERDADE

vel. Meu enfoque neste capítulo tem sido sobre até que ponto a teoria da liberdade, como controle volitivo, pode entender a liberdade e não em que medida pode se entender a liberdade no sentido de compromisso. -

3.6 A teoria como ela se aplica à pessoa livre

Embora seja desenvolvida, em primeiro lugar, como uma teoria do selflivre, a teoria da liberdade como controle volitivo se amplia para nos dar uma teoria da pessoa livre e ela tam- bém se amplia para nos dar a teoria da ação livre. Sob a perspectiva da responsabilidade, concebemos as pessoas livres como agentes cujas relações com outros são compatíveis com o fato de nós os considerarmos geralmente responsáveis pelas coisas que fazem. O que faz com que· o status de alguém em relação a outros seja compatível com a responsabilidade? A teoria da liberdade como controle volitivo tem uma resposta simples. Ela diz que os agentes serão pessoas livres na medida em que suas relações com outros sejam con- sistentes com o fato de eles serem selves livres, isto é, serem consistentes com o fato de gozar do controle racional combi- nado com o controle volitivo do que eles fazem. Tal visão da pessoa livre é diretamente análoga àquela pro- duzida pela teoria da liberdade como controle racional. Sob essa teoria, como vimos no último capítulo, diz-se que os agen- tes são pessoas livres na medida em que seu status interpessoal é consistente com seu exercício do controle racional sobre o que eles fazem. Sob a presente teoria, diz-se que as pessoas são livres na medida em que sua posição interpessoal é consis- tente com seu exercício do controle racional, combinado com o controle volitivo. Falamos em defesa da primeira teoria, que, no mínimo, ela parece colocar as coisas em linhas gerais corretas. Podemos dizer o mesmo em apoio a esta. Intuitivamente achamos as pessoas livres na medida em que elas gozam de um certo con- trole na relação de umas com as outras. E essa intuição é sus- tentada em ambas as abordagens.

LIBERDADE COMO CONTROLE VOLITIVO

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3.7 Problema com a teoria da pessoa livre

Mas aqui é onde o elogio deve terminar, porque essa teoria da pessoa livre, como a sua predecessora, está sujeita a uma saliente linha de objeção~ Ela tem uma profunda implicação contra-intuitiva, que mesmo a coerção hostil não deve contar como uma ofensa contra a liberdade da pessoa. A coerção hostil é consistente com o fato de o agente reter o controle volitivo racional, combinado com o controle volitivo do que ele faz e assim por diante, à luz da presente teoria, ela não tira a liberdade. As pessoas são coagidas, rudemente falando, quando elas estão sujeitas a ameaças de penalidades e no caso de aceitar ou não aceitar alguma coisa que está disponível, atualmente, como uma opção. As pessoas são coagidas de uma maneira hostil, quando as ameaças não são ditadas por interesses públi- cos ou, no mínimo, a serem admitidos publicamente - o que está pronto para ser admitido publicamente - os interesses do coator, ou seja, os tipos de interesses que ditam como seus marinheiros trataram Ulisses. Tal coerção se distingue da obs- trução danosa pelo fato de que as pessoas coagidas, diferente das obstruídas, ainda mantêm sua escolha original, digamos, entre fazer A ou fazer B. Tudo o que tem mudado é o custo que elas terão que enfrentar,. a ameaça significa que uma ou outra opção será possivelmente mais cara do que se a opção tivesse sido diferente do que foi. Porque mantêm a escolha original, as pessoas que são coa- gidas estão ainda em posição de exercer o controle racional e também o volitivo. Elas estão em uma posição onde podem agir de uma maneira que responde às crenças e desejos rele- vantes relativos à situação e, particularmente, onde elas po- dem agir com fidelidade a seus desejos de ordem superior, de acordo com o que seus desejos de ordem inferior poderiam efetivamente tê-las movido. Assim, minha volição de ordem superior no que diz respeito à situação na qual eu sou ameaça- do com uma agressão física, a menos que eu dê meu dinheiro, pode fazer com que eu não fique zangado nem desafiante, mas

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TEORIA DA LIBERDADE

em troca dê o meu dinheiro. Eu agirei, sob o controle volitivo, na medida em que eu me vire para trazer minha motivação de nível inferior e meu comportamento no mesmo patamar que a minha volição. O fato de que a teoria da liberdade como controle volitivo pode não encontrar defeito com a coerção e semelhantes, mesmo quando tem uma complexão hostil, é uma objeção sig- nificativa. Ela deixa os seguidores da teoria em uma posição na qual eles têm que defender alguma coisa próxima, intuitiva- mente, do que é indefensável. Que eles possivelmente dirão como resposta?

Frankfurt (1988, 39) especula, em um certo ponto, que o tipo de coerção que reduz a liberdade, tem que tornar a obediên- cia psicologicamente irresistível, como se disparasse um efeito mórbido. Isso sugere que a coerção pode querer sustentar o ponto de vista - adotado, como vimos, por alguns defensores da liberdade como controle racional - de que a ameaça coerci- tiva, que meramente aumenta os custos esperados de fazer alguma coisa, não reduz a liberdade, propriamente falando. Mas,

o que ele diz posteriormente demonstra que isso não é assim,

porque continua a oferecer um argumento do porquê a coer- ção reduz a liberdade como controle volitivo, que se aplicaria mesmo no caso de uma coerção que aumente o custo comum. Frankfurt se mostra ansioso no que se refere a sua capacidade de resistir à crítica feita aqui e considerar seu controle volitivo

- e assim a liberdade como controle volitivo - reduzido por

uma coerção hostil regular. Frankfurt (1988, 44) argumenta, para ser específico, que o ato bem sucedido de coerção, no qual a vítima se submete à ameaça de fato, reduz o controle volitivo do agente. Ele sus- tenta que "a pessoa que se submete a (e que não se limita meramente a obedecer) uma ameaça, necessariamente o faz com a finalidade de evitar a penalidade". E argumenta, sobre essa base, que "o motivo de uma pessoa, quando se submete a uma ameaça, é aquele pelo qual preferiria não ser movida, ela

preferia ter um motivo diferente para agir". Parece, então, que

a pessoa que se submete a uma ameaça, necessariamente age

LIBERDADE COMO CONTROLE VOLITIVO

con~a a voli?ão de_ ordem superior para não ser movida pelo deseJO de evitar tais ameaças e que a coerção envolvida na imposição dessa ameaça remove seu controle volitivo. Tal argumento não funciona, entretanto, porque ele escor- reg~ entre dois_ sentidos. Pode ser verdade que a pessoa não querra ser movida por um certo desejo ou motivo de primeira ordem. Se eu sou coagido a dar meu dinheiro a um ladrão ante a ameaça de ser agredido fisicamente, então existe uma razão pela qual eu preferiria não ser movido pelo motivo em questão. E~ preferiria ~ão estar na situação que dispara o desejo de evitar a penalidade ameaçada, eu preferiria não ser movido por esse motivo. Mas, se é assim, é consistente com outra razão, na qual eu posso preferir ser movido pelo motivo. Eu posso muito bem preferir estar na situação em questão a ser movido pelo desejo de evitar a penalidade e não permitir que eu seja fisicamente assaltado.

. D~veficar claro que o controle volitivo requer não que as

situaçoes nas quais o agente se encontra respondam a seus desejos de ordem superior - que alcançaria a fortuna e não a liberdade - mas que as coisas que ele faz, na situação em que s~ encontra, respondam aos desejos. Ao argüir que a teoria da liberdade como controle volitivo proíbe certas formas de coer- ção, Frankfurt toma o controle volitivo no inadequado caminho relacionado com a fortuna e não no caminho que ele deveria ter tomado. Podemos entender que a coerção de um certo tipo, sob essa teoria, diminui a liberdade da pessoa, mas dificilmente podemos endossar essa tentativa para argüir que ela o faz.

3.8 A necessidade do controle volitivo ' propriamente entendido

Vimos na discussão do self livre que podemos pensar em alguns desejos de ordem superior como volições adequadas, somente, na medida em que duas condições são preenchidas: a primeira, são os desejos de ser efetivamente movido por dese- JOS de ordem inferior e de acordo com a formulação original de Frankfurt, a segunda, são os desejos que ostentam o selo de

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TEORIA DA LIBERDADE

aprovação do agente. Reclamamos que a teoria da liberdade como controle volitivo fracassa em explicar o que está envolvi- do na aprovação do agente de certos desejos de ordem superior. Assumindo que tais explicações podem ser fornecidas, entretanto, - assunção será defendida no capítulo seguinte - podemos reter a noção de controle volitivo em sua forma emen- dada e na medida em que fazemos isso, se levanta a questão de se o controle volitivo é necessário para a liberdade de ação, self e pessoa. No primeiro capítulo eu disse que o controle racional. não era suficiente para a liberdade de ação; self ou pessoa, enquanto o controle racional tinha uma boa possibili- dade de ser necessário. Acho que alguma coisa similar aconte- ce com o controle volitivo, propriamente entendido.

A afirmação do controle volitivo, nesse sentido, descansa

diretamente sobre a intuição. Dificilmente podemos pensar que uma ação, self ou pessoa esteja adequada para ser considera- da responsável, se as coisas que o agente fez transgrediram algumas volições que ele tinha formado. Assume a afirmação que um agente tem, volições de ordem superior, no que se re- fere a certos desejos ou feitos. Se esses desejos ou feitos fo- ram contra tais volições, então seria difícil pensar em um agente como alguma outra coisa que não seja um campo de batalha

onde certas respostas estão centralizadas. A intuição não su- gere que os desejos e feitos de um agente devam ser todos controlados por volições de ordem superior, só que, havendo volições de ordem superior no lugar, ele deve desempenhar um rol controlador e é muito difícil resistir a essa intuição.

Conclusão

Os resultados deste e do último capítulo são marcadamente convergentes. Temos visto em cada caso que o tipo de contro- le em discussão é intuitivamente necessário para a liberdade e temos argüido que por razões exatamente paralelas isso não é suficiente.

O controle racional não é suficiente para tomar uma ação

livre, porque ele é consistente com o fato de que os agentes

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não reconheçam padrões pelos quais eles possam ser consi- derados responsáveis em ação. O controle volitivo não é suficiente para tomar uma ação livre, porque ele é consisten- te com o fato de os agentes não reconhecerem padrões pelos quais possam ser considerados responsáveis em volição. Po- demos ser capazes de considerá-los responsáveis no sentido do dever fornecido por suas volições de ordem superior. Mas os agentes não precisam ter senso do dever que pela sua vez sustentem essas volições. As volições podem jazer além de seus controles e além da esfera na qual eles podem ser con- ·

siderados responsáveis.

O controle racional não é suficiente para a liberdade do

self, porque ele é consistente com o self, observando seus de- sejos e ações como um espectador e não como um autor. O controle volitivo não é suficiente para o controle do self, por- que apesar das volições de ordem superior que ele introduz no controle de desejos e ações, fracassa no final em assegurar contra as volições, sendo elas mesmas assuntos que o self tem que observar como um espectador. Podem ser desejos que atraem somente a desaprovação ou indiferença do agente.

O controle racional não é suficiente para a liberdade da

pessoa, porque ele é consistente com o fato de o agente se submeter a ameaças coercivas por parte de outros. O controle volitivo não é suficiente para a liberdade da pessoa exatamen- te pela mes:i;na razão e apesar do argumento de Frankfurt que

pareceria prová-lo de outra maneira. Ao se submeter às amea- ças coercitivas de outros, os agentes podem estar simulando um desejo que eles esperam que seja movido naquela situação, quer dizer, um desejo de que pague ao ladrão e evite a agres- são. E isso pode ser verdade, mesmo se eles preferissem não se encontrar em tal situação.

Liberdadecomo controle discursivo

Liberdadecomo controle discursivo 4 .1 Da pessoa livre a outras liberdades O objetivo da teoria da

4 .1 Da pessoa livre a outras liberdades

O objetivo da teoria da liberdade, como a temos tomado, é

identificar as realizações e habilidades em virtude das quais os agentes estão adequados para serem considerados responsá-

veis em suas ações, em seu self e

a liberdade como adequação para alguém ser considerado res- ponsável - concepção defendida no primeiro capítulo - e tra- balhamos as diferentes teorias que proporcionam diferentes relatos do que constitui tais adequações e vimos que cada teoria tenta identificar o que é preciso na ação do agente, na constitui- ção do seu self, e na sua posição como pessoa para que esteja adequado a ser considerado responsável.

A teoria da liberdade como controle discursivo, em primeiro

lugar, é uma teoria da pessoa livre e, só por extensão, é uma teoria do livre selfe da livre ação. A esse respeito complementa

as duas teorias que acabamos de considerar e rejeitar. Como controle racional é, primeiramente, uma teoria da livre ação e, só por extensão, uma teoria do livre self e da pessoa livre. Como controle volitivo é, primeiramente, uma teoria do livre self e, somente por extensão, uma teoria da livre ação e da pessoa livre. Quando descrevemos as pessoas como livres, freqüen- temente temos duas coisas em mente: na primeira, dizemos

na sua pessoa. Concebemos

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TEORIA DA LIBERDADE

que nos seus agendamentos como pessoas - no agenciamento

a elas permitido por suas posições relativas a outras - elas

estão adequadas para serem consideradas responsáveis, elas não agem sob pressão, ameaça ou coerção, ou seja, pelo que for; e, na segunda, podemos sugerir que elas estão adequadas

para serem consideradas responsáveis em relação ao ambien- .

te de escolhas que tornam significantes em numerosas e clife-

rentes opções disponíveis. Se as suas opções foram restringidas

a umas poucas ou somente a algumas alternativas trivialmente

diferentes, a uma limitação natural ou a um efeito colateral dos acordos sociais, então poderíamos relutar em dizer que eram pessoas livres.

É importante lembrar, entretanto, que temos abstraído da natureza do ambiente em discussão, a teoria da pessoa livre até esse ponto e que continuaremos a fazer assim no presente capítulo. Levantaremos tal abstração mais tarde, assumindo, no momento, que o ambiente torna disponível ao menos o mínimo das opções requeridas pela escolha. Tomamos a teoria da pessoa livre como sendo a teoria da posição que o agente - em particular, um agente individual - tem de ter entre as pes- soas, se ele for considerado como livre nas escolhas que faz.

4.2 Uma teoria da pessoa livre

Deparamos aqui com uma variedade de relacionamentos com os outros, cada um deles caracterizado por seus próprios modelos distintos de poder e vulnerabilidade, autoridade e res- ponsabilidade, e pela reflexão desse modelo na suposição com- partilhada em comum pelas partes. A questão com a qual a teoria da liberdade como controle discursivo começa, está conectada com a pergunta de que se qualquer tipo de relaciona- mento está particularmente adequado à liberdade da pessoa. Atendendo às críticas feitas nos capítulos anteriores, o con- trole racional ou volitivo das ações de uma pessoa é consistente com uma variedade de relacionamentos possíveis com os outros, oscilando do amigável ao hostil, da facilitação à coercibilidade. Tudo o que o controle racional ou volitivo estritamente requer,

LIBERDADE COMO CONTROLE DISCURSIVO

é que os outros não façam uma escolha indisponível por meio de uma obstrução ou força categórica. Se a posição de uma pessoa entre outras é para se tornar livre - se for para deixar qu~ela esteja adequada para ser considerada responsável pelas coisas -'- então essa posição tem que ser mais forte, essa posi- ção deve proibir não só a obstrução da escolha, mas também uma miríade de outras formas coercivas e quase-coercivas, nas quais as pessoas podem intromete