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CREIO REDESCOBRINDO O ALICERCE EsprrITUAL MicHaELt Horton & Creio, © 1999, Editora Cultura Crist. Publicado originalmente com o titulo We Believe, © 1998 by Michael Horton pela Word Publishing. Traduzido com permis- so. Reprodugio proibida. I* edigdo - 2000 3.000 exemplares Traducéo: Denise Meister Revisdo: Nilza Agua Flavia Bartkevicius Cruz Editoracao: lesarela Torres Marra Capa: Idéia Dois Publicacao autorizada pelo Conselho Editorial: Claudio Marra (Presidente), Aproniano Wilson de Macedo, Augustus Nicodemus Lopes, Fernando Hamilton Costa, Sebastiado Bueno Olinto. impressao e acabamento: assahi gréfica e editora Itda. €DITORA CULTURA CRISTA Rua Miguel Teles Junior, 382/394 - Cambuci 01540-040 - S40 Paulo - SP — Brasil C.Postal 15.136 ~ Sao Paulo - SP ~ 01599-970 Fone (0°11) 270-7099 ~ Fax (0°*11) 279-1255 www.cep.org.br—cep@ceporg.br Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas Editor: Cléudio Antonio Batista Marta Apresenta¢ado No limiar do novo milénio, encontramo-nos numa cultura que abraga as mudangas e almeja novas experiéncias. A curiosidade freqiientemente ofusca 0 compromisso ao que € provado e a verdade. A “escolha” é tida como o Gnico absoluto e a “mudanga” como um imperativo. Contra esse pano de fundo sempre inconstante, as verdades que serviram como Ancora da civilizagdo por séculos sio, agora, motivo de discussao, des- tituigao e, algumas vezes, descrédito. Os cristéos sio confrontados com in- certezas sobre a veracidade das Escrituras, a deidade de Jesus Cristo e a auto- ridade de um Deus pessoal, transcendente. Em muitos casos, até mesmo mes- tres cristdos populares favorecem o relativismo a verdade revelada, absoluta. Por séculos, os crentes se agarraram ao Credo dos Apéstolos, um docu- mento antigo, rico em histéria, como uma expresso cristalizada da fé cris- ti, Nesse volume cuidadosamente pesquisado, 0 tedlogo Michael Horton explora os tesouros profundos do Credo e nos revela a riqueza incompard- vel e a estabilidade que ele oferece aos cristaos. Horton nos lembra que a Igreja primitiva enfrentou tentagdes similares as que enfrentamos hoje, mas recusou-se tenazmente a alterar suas crengas. Ele nos encoraja a nos ancorarmos nas crengas eternas, antigas de nossos pais espirituais. A Lisa, prova para mim de que doutrina e vida nunca precisam estar separadas. Capitulo Um.... Tempo de se Posicionar: O Que um Antigo Credo Pode Nos Dizer Hoje? Capitulo Dois ...... Deus nas MGos de Pecadores Ilrados CREIO EM DEUS PAI, TODO-PODEROSO, CRIADOR DO CEU E DA TERRA Capitulo Trés — Como Podemos Conhecer a a Deus? CREIO EM JESUS CRISTO, SEU UNICO FILHO, NOSSO SENHOR. Capitulo Quatro ...... E se Deus Fosse Um de Nos? ..CONCEBIDO POR OBRA DO ESPIRITO SANTO, NASCEU DA VIRGEM MARIA, Capitulo Cinco Eis o Cordeiro! PADECEU SOB O PODER DE PONCIO PILATOS, FOI CRUCIFICADO, MORTO E SEPULTADO; DESCEU AO HADES Capitulo Seis.. Ainda ee ‘Acreditar t na Ressurreica AO TERCEIRO DIA RESSURGIU DOS MORTOS. 7 Capitulo Sete .. Elevado em Gléria, Retornando no Julgamento SUBIU AO CEU E ESTA A DIREITA DE DEUS PAl, TODO-PODEROSO. DE ONDE HA DE VIR AJULGAR OS VIVOS E OS MORTOS. Capitulo Oito....... . 145 A Descida da Pomba CREIO NO ESPIRITO SANTO 163 Capitulo Nove . Quem Precisa da Igreja? NA SANTA IGREJA UNIVERSAL NA COMUNHAO DOS SANTOS . 185 Capitu Encontrando o Perddo CREIO... NA REMI © DOS PECADOS - 201 GotloOre 0009) De Volta ao Futuro CREIO... NA RESSURREICAO DO CORPO E NA VIDA ETERNA. Capitulo Doze we. Um S6 Caminho? A Alegacdo Escandalosa Prefdcio Escrevi este livro para pessoas comuns que gostariam de saber, muitas vezes secretamente, sobre 0 que realmente existe no coragao do Cristianis- mo e 0 que poderia ser dito a alguém que, agitado pelos muitos desafios as reivindicagées biblicas dos nossos dias, luta para identificar os limites do invélucro. CREIO reafirma as “linhas basicas” do Cristianismo, expos- tas téo claramente no Credo dos Apédstolos, afirmando a importancia de um retorno aos principais interesses centrais do Cristianismo. CREIO segue as afirmagées basicas do Credo dentro da historia da redengao. Em outras palavras, tragaremos cada declaragao do Credo em seu desenvolvimento bfblico na hist6ria, do Génesis ao Apocalipse. Duran- te 0 percurso, interagiremos com os criticos mais importantes das reivindi- cagGes cristas e as relacionaremos ao nosso entendimento de nés mesmos, como cristos, e do nosso mundo neste ambiente “pdés-moderno”. Minha esperanga € que este livro possa Ihe ser uma fonte wtil na sua busca de crescimento no conhecimento, apreciagao e gratidao a Deus, que nos fez para si mesmo. Michael Horton Credo dos Apostolos Cc em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do céu e da terra; E em Jesus Cristo, seu tinico Filho, nosso Senhor, Que foi concebido por obra do Espirito Santo, Nasceu da virgem Maria, Padeceu sob o poder de Péncio Pilatos, Foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao Hades; Ao terceiro dia ressurgiu dos mortos. Subiu ao céu e estd a direita de Deus Pai, Todo-poderoso, De onde ha de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espirito Santo; Na santa Igreja universal; Na comunhao dos Santos; Na remissao dos pecados; Na ressurreigéo do corpo; E na vida eterna. Arsen 10 Tempo de se Posicionar: O Que um Antigo Credo Pode Nos Dizer Hoje? “Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos.” Quando consideramos © mundo de hoje, o cristéo é forgado a concordar com a sintese freqiiente- mente citada de Dickens sobre a Inglaterra Vitoriana. Talvez seja somente 0 que C. S. Lewis chamou de esnobismo cronolégico que atribui tal significado A nossa geragao. Mas, a despeito dos perigos da importéncia exagerada, os que vivem hoje sio, sem divida nenhuma, testemunhas da transigao de um periodo para uma nova época. Nenhum ramo de aprendizado, nenhuma voca- ¢do, tempo passado, religiaio ou esforgo cultural é indiferente a essas enormes mudangas. As certezas presuncosas da modernidade ja se passaram; foram substituidas pelo cinismo irreprimivel do pés-modernismo. Das universidades as noticias da midia, as duas Gltimas décadas foram anima- das por conversas de revolugio: A era moderna chegou ao fim, 0 eu pés-moderno esté em ascensio. Contudo, ninguém esta seguro de que tal “eu” até mesmo exista. Como Stephen Toulmin mostrou, cada era, na qual as placas tect6nicas da cultu- ra variam dramaticamente, conduz a um senso esmagador de confusio e anteci- pagiio.' Em 1611, o poeta e pregador John Donne expressou a ndusea da sua gerag&o enquanto a ent’o chamada idade moderna alcangava a sua maioridade: Porque cada homem solitério pensa que deve ser uma fénix, E que nao pode haver nenhum outro do mesmo tipo do qual ele é, Somente ele. (“The Anatomy of the World”)? Entre as duas Guerras Mundiais, William Butler Yeats explorou os mes- mos sentimentos, s6 que desta vez com a ansiedade advinda das falhas da- quele mundo — falhas que assombravam Donne: As coisas se desintegram; o centro nao pode sustentar; A mera anarquia est4 solta sobre 0 mundo;... ll CREIO O melhor carece de toda convicgao, enquanto o pior est4 cheio de intensidade apaixonada. (“The Second Coming”? Quando 0 dogmatismo religioso foi desafiado pelo dogmatismo racionalista ¢ cientifico durante o Iuminismo dos séculos XVII e XVIII, pensava-se que uma nova era de potencial humano ilimitado seria desen- cadeada. Finalmente, a supersti¢ao seria pisada pelos pés da raziio; a con- fianga nas proprias experiéncias e convicgées iria expulsar as tribos bar- baras de autoridade religiosa e secular. Guerras religiosas iriam desapa- recer no mundo dominado pelo agnosticismo sensivel. Agora, a verdade era que os cientistas e filésofos sabiam, enquanto permitia-se que 0 povo religioso tivesse suas opinides. Os primeiros reivindicavam 0 dominio publico, e deveria ser permitido ao ultimo qualquer opiniao religiosa pri- vada que Ihe fosse conveniente. Mas, naturalmente, as guerras nado cessaram, mesmo com a “guerra para ter- minar com todas as guerras” do Presidente Wilson. As visdes utépicas, auxilia- das por um pesado maquindrio, demandaram mais vidas em um século do que em todos os séculos anteriores juntos. A escatologia crista estava secularizada numa visio de progresso evolucionario, enquanto homens ¢ mulheres domina- dos pela raz&o encontravam novos e eficientes modos de criar o céu na terra. Mas poucas pessoas nos dias de hoje falam tao triunfantemente sobre a Nova Jerusalém. Esse nimo foi captado até mesmo na cultura popular, como na con- fissiio de Sting de que havia perdido sua fé na ciéncia, no progresso, nos politi- cos € na igreja que havia dado sua ajuda para a conspiragio moderna. Em 1920, T. S. Eliot perguntou: Onde esté a Vida que perdemos vivendo? Onde est a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde esté 0 conhecimento que perdemos na informagio? Os ciclos do Céu em vinte séculos Nos conduziram para mais longe de DEUS e mais perto do P A Igreja ea Cultura A propria igreja esta freqiientemente presa a cultura. Ao tentar ganhar os “desprezadores cultos”, muitas vezes tem mantido seus mais ricos tesou- ros nos cofres. Ironicamente, justamente quando a cultura estava reagindo 12 Tempo de se Posicionar contra a modernidade — incluindo as proibigdes do sobrenatural — a igre- ja estava alterando seu credo para estar atualizada. Essa tendéncia a se aco- modar em vez de confessar a fé continua inquebrantavel. Eliot continua: E a Igreja deve estar sempre construindo, e sempre se deterio- rando, e sempre sendo restaurada...° Atualmente, a igreja esta meramente dizendo 0 que a cultura jé ouve de outras fontes: Rotary Club, qualquer partido polftico, terapeutas, espe- cialistas de marketing, celebridades ¢ animadores de programas de TV. Somos como aqueles do soneto de Milton que falharam em perceber que “novos inimigos se levantam, ameagando amarrar nossas almas com as correntes seculares”. Queremos ser apreciados, populares, ¢ bem-sucedi- dos, ser fotografados com todas as pessoas certas e ganhar um lugar na ribalta da cultura popular. Queremos que nossas igrejas cresgam e exer- gam influéncia. Mas a tarefa da igreja em se perguntar o que Eliot propés no seu poema é sempre dificil: “Por que os homens deveriam amar a Igreja?” Afine Ela thes diz sobre Vida e Morte, e sobre tudo que eles esqueceriam. Ela é delicada onde eles seriam duros, e dura onde gostariam que fosse suave. Ela lhes diz sobre 0 Mal e o Pecado, e outros fatos desagradaveis.° Mas, nos dizem, nossa era é singular. Ea era da sofisticagiio tecnolégica e da supervia da informagio. Nao muito tempo atras, numa entrevista a revista Newsweek um pastor do Estado do Arizona disse: “As pessoas, hoje em dia, nao estio perguntando sobre justificagao, santificagao e questdes similares”, Esse pastor dificilmente seria classificado como de uma linha liberal, todavia, ele optou por uma abordagem religiosa amigdvel que tenta nao entediar as pessoas com, bem... o Cristianismo. Indubitavelmente, esse pastor assinaria embaixo da doutrina ortodoxa, mas iria parecer que tais compromissos tém muito pouco em comum com seu ministério efetivo. Se temos de julgar a igreja pelos sermdes populares, listas de best-seller cristéos, ou pelo espago cedido nas estantes das livrari- as evangélicas aos livros de doutrina crista e relagdo entre verdade e vida, a igreja parece ter pouco interesse nas questdes de Deus, muito menos nas respostas. De volta ao poema de Eliot: 13 CREIO A Igreja negada, a torre destruida, os sinos tombados, © que temos para fazer A niio ser permanecer com as mos vazias e viradas para cima 7 Numa era que avanga progressivamente para 0 A Semente da Igreja O cristo que esta alerta aos indfcios de Deus na histéria, sabe que 0 mo- delo é sempre mas noticias seguidas de boas noticias. O Evangelho sempre tem a Ultima palavra sobre o pecado, a morte e a tentagdio — quer seja do crente individualmente ou da igreja em geral. Afinal de contas, foi no mundo caido como resultado do desejo pelo poder que nossa raga ouviul o antincio surpreendente da graga salvadora: A semente da mulher vai esmagar a cabeca da serpente. Aquele que havia enganado o casal real a buscar a prépria auto- nomia seria, ele mesmo, destruido. E justamente quando o mundo estava, com aversao e escdrnio, olhando para o corpo desfigurado do Messias cruci- ficado, Deus estava agindo para a salvaco dos seus inimigos. Um pequeno grupo de discfpulos estava amontoado num sétao em Jerusa- 1ém, esperando prisiio imediata e execugao, quando o Espirito Santo desceu em poder e transformou um quarto cheio de pescadores trémulos, ex-prostitutas, doutores, negociantes, advogados e coletores de impostos numa comunidade de testemunhas cujo ensino destruia os poderes das trevas. Finalmente, 0 sangue deles se tornou a semente da igreja. Era um tempo de se posicionar, até mesmo na arena onde morreram para o divertimento de fandticos animados. Sim, nos dizem, mas vivemos em um perfodo de pluralismo religioso, e existem pressGes enormes para se atenuar o dogmatismo da ortodoxia. Natu- ralmente, os dias dos martires também foram dominados pelo pluralismo re- ligioso. Se os cristios tivessem alegado que Jesus era um caminho, ou talvez. o melhor caminho, ninguém teria se aborrecido com eles. Se tivessem sugeri- do 0 Cristianismo como aliado do império na formagao do patriotismo, mo- ralidade e virtude civica, teriam sido bem-vindos e Jesus, certamente, teria sido incluido no pantedo dos patronos divinos figis de Roma. Mas sua reivin- dicagio — a que os colocou em dificuldade — era que Cristo era a tinica revelagio salvadora de Deus. Eles declararam que ele sozinho segurava a chave para a hist6ria, para 0 entendimento da personalidade e da sociedade, do pecado e salvagao, e que sua ressurreigao histérica sera seguida por um retorno hist6rico para o julgamento de todos aqueles que 0 recusam. 14 Tempo de se Posicionar “Somos publicamente acusados de sermos atefstas e criminosos culpa- dos de alta traigio”, escreveu Tertuliano. No ano 177 da era crista, Atendgoras relatou, “Quando os cristdos proclamam que existe s6 um Deus e que ele somente é conhecido em Cristo, uma lei é colocada em vigor contra nés”. Roma concluiu que as reivindicagées de verdade final, ptiblica e exclusiva. certamente os fazia inimigos da paz e ordem ptblicas. O historiador e ofici al romano, Tacitus, conjeturou que Nero perseguia justamente os cristéos “por causa do ddio deles pela raga humana”. Policarpo, um discfpulo de Joao, foi constrangido pelo chefe da policia a renunciar as suas crengas. “Como eu poderia blasfemar contra meu Rei Salvador?”, ele respondeu. “Ouga a minha confissio sincera,” disse Policarpo ao oficial, “Eu sou um crist&o. Se vocé deseja aprender 0 que € 0 Cristianis- mo, reserve um tempo para ouvir-me.” Recusando a oferta, o oficial fez uma tiltima adverténcia, mas Policarpo respondeu, “Vocé me ameaga com fogo que queima por uma hora ¢ se apaga pouco tempo depois, vocé nao conhece 0 fogo do julgamento vindouro e do castigo eterno para os impios. Por que espera? Comece 0 que deseja.” Quando ele foi levado a arena repleta, a multidao gritava: “Ele é 0 mes- tre da Asia! O pai dos cristdos! O destruidor de nossos deuses!” Quando seu corpo malogrou em ser consumido pelas chamas fracas, o executor desfetiu um golpe com um punhal no peito do santo.* Quando tudo est 4 mostra, deve-se determinar se as préprias convic- gGes sao dignas de se morrer por elas. Ameagas a parte, essa comunidade de martires foi criada no bergo da igreja apostélica, onde os crentes se junta- vam diariamente para ouvir os ensinamentos dos apéstolos, receber comu- nhio, e para adorar a Deus com oragiio e cangdes. O problema produz paciéncia quanto a persegui¢ao, mas esses foram tempos de grande avango para a igreja, tanto em profundidade como em tamanho. As pessoas conhe- ciam 0 que criam e a razo pela qual criam. E nesse ponto se posicionavam. Herdis e Hereges Mas quando a perseguicio se transformou em tolerancia apés a conver- so noticiada de Constantino em 313 d.C. e a eventual adogao oficial do Cristianismo, a popularidade teve o seu prego. A “Cristandade” se tornou uma confusao de mito popular e alegagées biblicas, freqitentemente secula- rizadas para bem maior do império. Foi durante esse periodo que a igreja 15 CREIO enfrentou uma violenta investida de heresias. Em 325, trezentos bispos se reuniram, representando os mais remotos lugares da expansio crista até a data, tao longe quanto a Pérsia e representantes dos godos. No meio dessa assembléia religiosa estava um jovem chamado Atanasio que se tornou, mais tarde, o Bispo de Alexandria e defensor da fé. Em pauta estava a heresia Ariana, que negava a deidade eterna de Jesus Cristo e, conseqiientemente, a Trindade. Uma vez que os lideres da igreja cristé concordaram com essa con- fissao comum em um conselho universal, o Credo de Nicéia se tornou a base para a instrugao de cada novo cristo e era exigido no seu batismo. Essa abordagem de estabelecer um debate doutrindrio foi ilustrada pri- meiramente no Conselho de Jerusalém, registrado em Atos, quando os apés- tolos chegaram a um consenso sobre 0 fim dos requerimentos judeus para os convertidos gentios e a aceitagdo total dos argumentos de Paulo em Galatas. Mais ainda, o modelo de inserir declaragdes confessionais ou de credo no culto de adoragao regular foi formulado na prépria Biblia. Assim como a adoragiio judaica inclufa o Shem de Deuterondmio 6 (“Ouve, Is- rael, o SENHOR nosso Deus é 0 tinico SENHOR; Amaras, pois, oSENHOR teu Deus de todo o teu corago, de toda a tua alma, e de toda a tua forga”), a confissio de Pedro (“Tu és 0 Cristo”) se tornou a pedra sobre a qual Cristo construiu a sua igreja (Mc 8.29). Entre os primeiros escritos do Novo Testa- mento, Paulo introduz as declaragdes confessionais oficiais também na liturgia (1 Tm 3.16; 1 Co 8.6; 15.3-7). Alguns foram introduzidos na forma de hinos (Fp 2.6-11; Cl 1.15-20). Mais ainda, havia afirmagGes Trinitarias implicitas no Novo Testamento (Mt 28.19; 2 Co 13.14). Jé em 107 d.C., Indcio, o Pai Apostélico, esbogou uma declaragdo de credo usada vastamente contra a facedo gndstica que negava as caracteristi- cas fisicas da pessoa e obra de Cristo: Seja surdo, portanto, sempre que alguém falar a vocé separada- mente de Jesus Cristo, que é da linhagem de Davi, que é de Ma- ria, que nasceu verdadeiramente, comeu e bebeu, foi verdadeira- mente perseguido sob Péncio Pilatos, foi verdadeiramente cruci- ficado ¢ morreu a vista dos seres do céu, da terra e do inferno, que também foi verdadeiramente levantado de entre os mortos. Mais ou menos cingiienta anos mais tarde, surgiu uma simula que ex- pandiu aquela de Inacio: “[Creio] no Pai, o Governador do Universo, e em Jesus Cristo, nosso Redentor, no Santo Espirito, o Paracleto, na Santa Igre- 16 Tempo de se Posicionar ja, e no Perdao dos Pecados.” Aqui comegamos a ver surgindo a forma do nosso atual Credo dos Apéstolos. Essas stimulas de fé foram cada vez mais necessdrias uma vez que os apéstolos e seus pupilos nao viviam mais e a igreja estava envolvida em erros. Contrario A tradig&o medieval de que os apéstolos esbogaram o Credo dos Apéstolos por inspiragao divina apés a Ascensao, essa respeitada simula, todavia, continha os elementos basicos das declarag6es usadas por volta do ano 100 d.C. Na verdade, foi o Credo de Nicéia (325) que se tornou a pri- meira stimula oficial da fé crista universalmente aceita, e essa é a razdo pela qual os principais corpos —— Ortodoxos Orientais, Catélicos Romanos e Protestantes — tém adotado ambos os credos como contendo os artigos necessrios para a salvagio. Um Credo para as Geragées Embora a Reforma tenha purgado a igreja das superstigdes medievais e das adigdes ao Cristianismo apostélico, os Reformadores defenderam fir- memente 0 Credo dos Apéstolos e 0 de Nicéia como necessdrios para a profissao cristé genufna. Eles nao estavam apenas enfrentando os erros da Igreja Romana, mas havia também um reflorescimento das heresias antigas entre as facgGes radicais. As principais confissées Protestantes e catecis- mos seguem 0 esbogo do Credo dos Apéstolos, sendo que Calvino até mes- mo modelou suas famosas Institutas da Religido Crista a partir dele. O Credo dos Apéstolos merece atengiio renovada em nossos dias. Serve a ambas as fung6es, a negativa e a positiva: a primeira, excluindo Os erros que estao especialmente espalhados, em nossos dias, pelas sei- tas e pelos Protestantes liberais; a tiltima, fornecendo um caminho para introduzir uma nova geragao nos fundamentos. Nas vésperas da Refor- ma, os pais nao podiam ensinar o credo a seus filhos porque eles mes- mos nao o conheciam. O mesmo se aplica aos nossos dias, como 0 Gallup e outras agéncias de pesquisa pUblica tém, dolorosamente, mos- trado de maneira tao clara. Por meio deste livro, ent&o, vamos escavar os tesouros da nossa fé hist6- rica num esforgo para cunhar moedas para uma nova geragio. Podemos ganhar essa geragao pela graga de Deus, mas isso exigiré um compromisso renovado na busca da verdade e na aplicagiio vigorosa dela nossa situagdo contemporanea. Talvez o colapso da cultura da modernidade, da mesma 17 CREIO forma como o da Roma antiga, seja a ocasiao para alguns avangos surpre- endentes do reino de Cristo. Somente uma nova era de fé pode nos preser- var do fim profetizado no poema sombrio de Eliot: Eo vento devera dizer: “Aqui passaram ateus decentes; Seu tinico monumento a estrada de asfalto E mil bolas de golfe perdidas.”” Para nos posicionarmos, temos de conhecer trés coisas: nossa fé bi- blica, nosso préprio tempo e as diferengas entre os dois. Isso requer nao somente um conhecimento da verdade, mas um desejo de defendé-la a qualquer custo, a despeito do modo como a cultura — ou a prépria igreja — possa recebé-la. Temos de acreditar, no mais profundo do nosso cora- ¢4o, que a maior crise nao é politica, moral ou cultural, mas espiritual — isto é, teoldgica. O fato de a maioria dos americanos alegar serem cris- tdos evangélicos € 0 testemunho de que tamanho nao é substituto para profundidade. Mais ainda, podemos até mesmo dizer que a heresia nao é a pior coisa que a igreja pode encarar. Enquanto sao toleradas no Catoli- cismo Romano e no Protestantismo de hoje, as perigosas alegagdes da heresia freqiientemente conduzem a uma clareza maior e a uma convic- gao na igreja de Cristo. Fazendo com que a igreja pense mais a fundo na sua confissado, a heresia é com freqliéncia transformada, pela graga de Deus, em um meio de fortalecimento do testemunho da igreja. Se € para haver uma recuperag&o genuina, temos de abandonar nossa obsessiio por sintomas e nos voltar 4 verdadeira crise: 0 silenciamento do antincio cristdo claro. Quer seja por heresia, ignorancia, distragao ou apa- tia, o testemunho cristio tem sido grandemente silenciado. Isso nao é o mesmo que dizer que nao existe uma grande quantidade de energia e zelo, para nao mencionar os recursos, gastos nas atividades que chamamos de “evangelisticas”, Mas a mensagem salvadora tem sido silenciada. Algumas vezes ela é alterada e acabamos, nas palavras de Paulo, com “um outro evangelho que nao é o evangelho”. Mas, freqiientemente, a enfermidade é sutil. Muitas vezes, a espada do Espirito tem caido das maos do soldado, No conflito entre o Espirito de Cristo e 0 espirito da era, igrejas perfeitamente {ntegras podem perder seu vigor. E tém perdido. Temos de conhecer a Palavra e ter o desejo de usd-la. A “ortodoxia” circunda ambas as tarefas. Nao é suficiente assinar embaixo, especialmente nos nossos dias de Cristianismo de bar. Da mesma forma como os cristéos 18 Tempo de se Posicionar primitivos, devemos estar desejosos de trabalhar, com consisténcia, a nossa confiss&o doutrinaria de Cristo na construgiio da nossa adoracio, evangelis- mo, € na nossa propria vida. Sentar-se € muito mais facil do que se levantar. Um dos “pecados mortais”, indoléncia ou preguiga, é freqiientemente tolerado nos circulos cristaos. Observadores externos e vozes preocupadas dentro da igreja tem levantado o assunto do antiintelectualismo. Tao preocupados com as ima- gens piscando nas telas, como os camponeses medievais eram dependen- tes das imagens em vez das palavras, nossa era tem se entregado, de forma condescendente, ao empreendimento do “embotamento”. Mas a perda do dominio do que realmente importa vai ainda mais longe do que © pensar preguigoso. Criticos dessa indoléncia cognitiva n&o sao “inte- lectuais” que querem avistar sabichdes em cada pessoa. O todo da pessoa esté envolvido nessa indoléncia. Nao é s6 0 fato de que nao pensamos 0 suficiente; nao amamos o sufi- ciente e, mais ainda, nao amamos as coisas certas. C. $. Lewis escreveu: “Nosso Senhor acha que nossos desejos nao séo muito fortes, mas muito fracos. Somos criaturas de meio corag4o, brincando com bebida, sexo e ambigao, embora 0 regozijo infinito nos seja ofertado, como uma crianga ignorante que quer continuar fazendo bolos de barro na favela porque nao pode imaginar o significado da oferta de um feriado no mar. Somos agrada- dos de forma muito facil”.!° A igreja, ouvimos dizer, tem de satisfazer as necessidades do povo; nao pode simplesmente ignorar as questdes que o povo esté levantando hoje. Naturalmente, isso é verdade. Educar, simplesmente, nao é suficiente para a igreja; ela deve se dirigir ao todo da pessoa no contexto total da vida dessa pessoa. Nao devemos ignorar a conex{o entre 0 texto da Escritura e a expe- riéncia dos homens e mulheres que vivem hoje. Questées de Vida e Doutrina Mas 0 problema € 0 expresso aqui por Lewis. Nossas necessidades sen- tidas so triviais. Nido é sé 0 fato de que elas sao centradas no homem mas que Os prazeres de tal religiao sao escassos da paz eterna que vem do enten- dimento integro da fé. Estamos tao envolvidos em dicas para a vida, para os relacionamentos e para 0 sucesso na vida que perdemos a grandeza do pla- no de redeng&o da ira de Deus. Somos criangas “fazendo bolos de barro na 19 CREIO favela” quando poderfamos estar gozando de um feriado na praia. Nosso pecado nao consiste apenas em exigir que Deus nos faca felizes, mas em sermos to esquecidos do que é a verdadeira felicidade. Pensamos que temos todas as respostas, mas nem mesmo sabemos quais sao as perguntas certas. Conhecer o que se acredita nao é somente um assunto intelectual, em- bora também o seja. Estamos amando alguém ou alguma coisa com nossa mente e nosso coragdo, mas é a Deus ou a nds mesmos? Nao estamos so- mente falhando em amar a Deus com a nossa mente, mas também com o nosso “coragio, alma, e forga’”’. As afirmagées classicas que considerare- mos neste livro nfo sdo apenas para encher a nossa mente com pensamen- tos maravilhosos, mas tém 0 objetivo de despertar nossa alma, de alegrar 0 nosso coragao e de animar as nossas mios. Sempre que as pessoas clamam pelo pratico e preferem falar sobre a dimensao horizontal — por exemplo, relacionamentos e sucesso — a ver- dade nao dita é que elas amam mais a si mesmas e umas As outras do que a Deus. Seu interesse em Deus est4 em usd-lo como meio de alcangar um fim; em vez de glorificd-lo e gozd-lo para sempre. Outros focalizam no conhecimento de todas as doutrinas corretas. No entanto, as doutrinas se tornaram 0 objeto da sua adora¢io em vez da pessoa divina 4 qual essas doutrinas tencionam descrever. Em ambos os casos, cristaos decidem no lugar de Deus, e adoram e servem & criatura em vez do Criador. “Alguns se agarram a doutrina, outros 4 vida”, ouvimos dizer. Mas isso € um tanto impossivel. Mostre-me uma pessoa que est4 contente com uma religido meramente intelectual e eu lhe mostrarei alguém vazio e digno de piedade. Igualmente, se encontrasse uma pessoa satisfeita em estar ocup: da s6 com sentimentos agradaveis, alegres e contentes e atividades anima- das, seria facil prever que tal pessoa acabaria se ressentindo desses senti- mentos e desprezando as atividades no devido tempo. Quando © produto velho perde seu brilho, a obsess&o do ontem é rapidamente trocada por um novo modelo que promete uma realizagao maior. Tanto o intelectual seco como o sentimentalista molhado, sao preguigo- sos. Ambos falham em amar bem a Deus. Veja, mesmo se Deus curasse a todos, fizesse com que todos fossem ricos e consertasse a vida de cada um, a religido egoista ainda seria forte — nado porque as pessoas estariam exi- gindo demais, mas porque estariam se acomodando com muito pouco. Deus quer abrir os céus de suas riquezas espirituais em Cristo e nos dar nossa heranga como seus filhos. Ele quer nos dizer quem ele é e como nos salva da sua ira. E aqui estamos nés, perguntando se ele tem balinha no bolso! 20 Tempo de se Posicionar Um dos grandes culpados em todo esse empreendimento € 0 antiinte- lectualismo. No livro vencedor do prémio Pulitzer, Anti-Intellectualism in American Life, Richard Hofstadter mostra que a fé evangélica construiu a tinica tradig¢ao intelectual indfgena da América, mas como o Puritanismo degenerou para o reavivalismo, a nacdo perdeu seu equilibrio intelectual. Enquanto os evangelistas Reformados do Grande Despertamento foram tam- bém presidentes de Princeton e Yale, evangelistas desde Charles Finney tém, na verdade, se vangloriado da sua falta de educagao. O evangelicalis- mo tem um legado de antiintelectualismo que nao somente incapacita seu testemunho ao mundo que 0 assiste, mas também abre a propria igreja aos mais extraordindrios alcances de estupidez e incredulidade. O antiintelectualismo nfo é humilde. A humildade diz, “eu nao sei, mas darei uma olhada nisto”. O orgulho diz, “eu nao sei, e est tudo bem”. Con- cluir que as coisas que estado fora do meu alcance de conhecimento, discer- nimento ou experiéncia nao sao dignas de se conhecer é o m4ximo da arro- gancia. Nao sou a medida para todos os valores, todas as verdades e todo 0 significado. Nao sou o centro do universo. O antiintelectualismo também € arrogante no seu argumento pelo equi- librio. As pessoas freqiientemente imploram por equilibrio quando nao querem perder tempo para pensar pelo seu préprio ponto de vista, Sus- tentar uma posigao dita de centro nos livra do trabalho de ter que, na verdade, usar habilidades criticas. Evitando que 0 pensamento se proces- se, ele é um mero ato de vontade que tenta erguer a frouxidio do nosso pensamento preguigoso. No entanto, esse argumento pelo equilibrio nao nos tem impedido de reivindicar uma superioridade moral por ter a gra- ¢a, moderagao e desembarago sofisticado de nos posicionarmos acima e fora do debate. Além disso, 0 antiintelectualismo € arrogante no seu igualitarismo. Igualitarismo € 0 espirito de nossa era que insiste em que todos sao iguais. Positivamente, 0 igualitarismo comega pela insisténcia na igualdade pe- rante a lei, mas entdo prossegue até o ponto de insistir na igualdade das habilidades, destrezas e autoridade. Conseqiientemente, o antiintelectua- lismo alega que as visGes de uma pessoa sao tao validas quanto as de outra — nao importa se mal concebidas ou nao — porque todas as idéias, assim como todas as pessoas, sao criadas iguais. O antiintelectualismo faz com que 0 igualitarismo seja possivel através do “nivelamento do campo”. Enquanto em eras passadas a consulta aos anciaos sdbios e aos livros dos grandes pensadores era considerada um ato de humildade, o 21 CREIO antiintelectualismo considera tal consulta como um ato elitista. Nestes tempos, a igreja deveria se posicionar a parte de tal arrogancia mundana. Infelizmente, ela freqiientemente se acha no leme desse navio de tolos. O Caso da Ortodoxia Nesse contexto, a “ortodoxia” tem se tornado uma das palavras mais pejora- tivas do vocabulério contemporaneo, e é também uma das mais mal entendidas. Assim como em quase tudo, existem dois extremos a serem evitados. De um lado, estéo aqueles — nés os chamaremos de “experimentalistas” — que enfatizam 0 ato pessoal de fé. Tornar-se cristao, para eles, é essenci- almente uma questao de tomar uma decisaio. Em muitos casos, na verdade, os eventos evangelisticos piiblicos sdo encenados e existe pouco contetido efetivo de proclamagao da verdade cristé. O foco esté em mover as pessoas a tomarem uma decis4o, a se tornarem “nascidas de novo”, ou a devotarem suas vidas novamente. Mas, pelo menos nessa forma extrema, tal aborda- gem é uma forma sublimada de obras de justiga. Enquanto, muitas vezes, resistem a tentagdo de transformar outras atividades em obras pelas quais, de algum modo, se possa obter a graga de Deus, a tentagdo dos experimen- talistas € transformar a pr6pria fé em seu oposto, uma espécie de decisaio meritéria ou experiéncia de qualificagao que faz a pessoa entrar no favor de Deus. Mas somos lembrados na Confissio de Westminster que os crentes so justificados (declarados justos diante de Deus) “nao... em razo de qual- quer coisa neles operada ou por eles feita, mas somente em consideragao 4 obra de Cristo; nao Ihes imputando como justiga a prépria fé, 0 ato de crer ou qualquer outro ato de obediéncia evangélica, mas imputando-lhes a obe- diéncia e a satisfagio de Cristo, quando eles o recebem e se firmam nele pela fé, que nao tém de si mesmos, mas que é dom de Deus (Cap. XI. 1). “Fé na fé” é uma heresia especialmente americana, desde que somos todos cri- ados com otimismo e 0 espirito do “posso fazer” que € muito efetivo no mercado mas destrutivo na religiaéo. Nao somos salvos por acreditar, mas por Cristo; essa é a razio pela qual devemos ter Jesus e sua obra salvadora apoiados diante de nés constantemente, em vez de imperativos vazios para acreditar, confiar, decidir, escolher e daf por diante. Ao mesmo tempo, existe 0 perigo oposto. Vamos chaméa-lo de “intelec- tualismo”. Aqui, no estou pensando particularmente sobre um QI alto ou sofisticagao académica, mas na idéia de que a fé € meramente acreditar 22 Tempo de se Posicionar que, em vez de acreditar em. Essa é a visio de que a fé est em proposigées em vez de estar em uma pessoa. No lugar de Jesus Cristo como o objeto da fé, as doutrinas sobre Jesus se tornam nossa esperanga. Esse relacionamen- to dificilmente é um relacionamento vivo com uma pessoa, sendo compre- ensfvel que as pessoas com essa visio distorcida de fé mostrem pouco inte- resse pessoal em Deus ou na fé e pratica cristés. Elas recebem consenti- mento para todas as coisas certas, e essa é a sua religiaio. Na verdade, mui- tas vezes lutam veementemente pela sua ortodoxia, mas na pratica real seus coragées estao longe daquele a quem as suas palavras se referem. Estes dois tipos de fé séo imperfeitos. Um € ato sem objet: objeto sem ato. Em um, nada é ganho; no outro, nada é perdido. O que temos de perceber é que a fé genuina — como conhecimento, consentimen- to e confianga — € 0 ato de se langar na promessa de Deus em Cristo. A fé, esta habilidade de dizer, “eu creio...”, mais do que o modo experimentalista ou intelectualista, é um dom de Deus, mas somos nés quem cremos. Deus nao cré por nos ¢ as verdades nao nos salvam simplesmente por serem ver- dades. Temos de nos arriscar. Diferentemente da observagio distante de um bidlogo que estuda or- ganismos num microscépio, 0 conhecimento que temos de Deus é pesso- al, assim como © conhecimento que temos de outras pessoas. Sem conhe- cer algo sobre uma determinada pessoa, mal podemos estabelecer um relacionamento, mesmo porque, conhecer coisas sobre uma pessoa nao é © mesmo que conhecer uma pessoa. O conhecimento da verdade é um meio para um fim maior, o fim de gozar efetivamente da bondade pater- nal de Deus e do perdao em Cristo. Na fé crista, nado estudamos Deus e a verdade cristé como observadores, mas como participantes. Isso requer envolvimento pessoal, enquanto nos posicionamos: “Eu creio...” Eu es- tou assumindo responsabilidade pessoal pela minha reagio a essa “boa nova”. Aqui, nds nos arriscamos, nfo meramente em termos de estarmos certos, mas em termos de sermos salvos. Deus € 0 meu Deus. “Quem vocés dizem que eu sou?”, pergunta Jesus. “A palavra ‘heresia’ nao significa mais estar errado”, G. K. Chesterton escreveu no inicio desse século. “Na pratica ela significa ser lticido e cora- joso.”"" Em seu livro The Heretical Imperative’, Peter Berger mostra que hoje é, na verdade, necessdrio ser “herege”. Como Billy Joel afirmou sobre honestidade, a ortodoxia € “uma palavra tao solitaria” e “raramente ouvi- da” quando todos sao “tao falsos”. O que parece ter importAncia é a aparén- cia das coisas, nao o que elas sao. Afinal de contas, “a imagem é tudo”. 23 CREIO Normaimente nao fazemos fogo no meio da sala de estar ou em qual- quer lugar onde temos vontade de sentir seu calor. Mas também nfo cons- trufmos uma lareira e amontoamos madeira cuidadosamente s6 para a fitar- mos, tremendo de frio. Entendida corretamente, a ortodoxia constréi e cul- tiva um fogo que expulsaré a escuridao e aquecera com seguranga 0 corpo € aalma, até mesmo no clima mais sombrio. Quando nossas esperangas esto congeladas e nossos coragdes endurecidos, 0 Bom Pastor nunca falha em nos conduzir ao abrigo. Ele mesmo junta a lenha (“Santifica-os na verdade; a tua Palavra é a verdade”, Jo 17.17), e nos faz habitar em seguranga. Tire de mim a doutrina ortodoxa, e meu fogo me consumiré; impega a doutrina de pegar fogo e ela permaneceré fria e inttil. Entao, vamos parar de nos acomodar com qualquer uma das duas, a madeira cuidadosamente empilhada, mas inttil, ou o fogo incandescente mas sem controle. Além disso, ao invés de nos acomodarmos com tao pou- co; com as coisas triviais que chamamos de “praticas” e “relevantes”, va- mos fixar nossos olhos em Jesus, o autor e consumador da nossa fé (Hb 12.2), empilhando nossas fontes negligenciadas, juntando os gravetos da verdade das paginas sagradas das Escrituras. Entao, vamos abanar a chama até que seu brilho possa ser visto de longe pot almas desabrigadas que pro- curam calor e luz numa noite fria de inverno. 24 DOIS Deus nas Mdos de Pecadores Irados CREIO EM DEUS PAI, TODO-PODEROSO, CRIADOR DO CEU E DA TERRA. “Dé-me algo em que possa acreditar.” Esse é 0 pedido de uma banda popular, representante de um tema florescente nas letras de rock atuais. Com 0 sucesso de hits como “What If God Was One of Us”, “Tell Me All Your Thoughts On God” e “Dear God”, fica claro que muitos jovens que- rem ouvir sobre Deus hoje em dia. Mas como ouvirao sem um pregador? Como uma pessoa razoavelmente jovem, eu mesmo, muitas vezes, observo as pessoas da minha prdpria geragao falando sobre a sua falta de diregio. Quando escuto o suficiente, acho que estao fazendo perguntas a respeito de Deus. Muitos sabem que a sua confusio é mais profunda do que as quest6es comuns sobre metas profissionais, casamento, relaciona- mentos, e outras coisas que consideramos como os tépicos mais relevan- tes para os que buscam. Muitas vezes, a queixa que ougo é mais ou me- nos assim: “Eu costumava ir 4 igreja, mas ninguém me disse a razdo pela qual eu deveria acreditar nela”. Entediados com as atividades, muitos dirigentes de jovens e pastores pensavam que estavam, na verdade, atra- indo os jovens; muitos agora esto convencidos de que se existem respos- tas, a igreja nao é o melhor lugar para encontré-las. Mas eles nao podem parar de fazer as perguntas. Alguns anos atras, J. B. Phillips escreveu um pequeno livro bastante popular, Your God Is Too Small . Entre os falsos deuses que muitas pessoas adoram no lugar do verdadeiro, Phillips descreveu 0 Policial Residente, Sobrevivéncia dos Pais (Parental Hangover), Formidével Homem Velho (Grand Old Man), Meigo-e-Suave (Meek-and-Mild), Seio Celestial (Heavenly Bosom), Diretor Administrativo, e outros rivais. A melhor tatica de Satands nao sao as suas heresias Sbvias, mas a transformagao gradual do Deus biblico em um idolo de religiao domesticada. A anélise de Phillips é ainda mais impressionante com a idade: 25 CREIO Ninguém fica realmente tranqililo ao encarar 0 que chamamos “vida e morte” sem uma f€ religiosa. O problema com muitas pessoas hoje € que elas nao encontraram um Deus grande o sufi- ciente para as suas necessidades modernas. Enquanto a sua ex- periéncia de vida cresce em varias diregdes, e seus horizontes mentais sio expandidos a ponto da perplexidade com relagao aos acontecimentos mundiais e descobertas cientificas; suas idéias sobre Deus permanecem imensamente estaticas.'? Ao chegarem as descobertas adultas (0 que parece acontecer muito mais cedo nos dias de hoje), muitas pessoas que foram criadas na igreja, ou ignoram a grande distancia entre a sua visio de Deus e a sua experiéncia do mundo, ou jogam tudo fora em favor de alguma outra coisa. “Indubitavelmente, existem cristd@s com conceitos infantis a respeito de Deus que nao podem se manter de pé quando se deparam com um problema durante cinco minutos,” escreve Phillips. “Se é verdade que existe alguém encarregado de todo 0 mistério da vida e da morte, dificilmente podemos esperar escapar de um senso de futilidade e frustra- co até comecarmos a vé-lo como ele € e quais sfo seus propésitos.”* Ver como Deus € € quais sao seus propésitos é 0 que esse capitulo ird tratar com precisao De Sentir Medo a Sentir-se Bem As teorias nos sao permitidas. Uma das minhas teorias € mais ou menos como este resumo cru: O Deus do fundamentalismo estava to irado inexordvel em sua disciplina, que a cruz como a boa nova do perddo de Deus e da graga justificadora permaneceu nas sombras. O hinista pode ter tido a confianga de que Cristo “havia calado 0 sonoro trovao da Lei” e “extinguido a chama do Monte Sinai”, mas no que diz respeito a muitos, isso teve pouca influéncia na experiéncia austera de crescer como um Pro- testante conservador ou Catdlico Romano. Contudo, gradualmente, uma nova gerago (“novos evangélicos” do pés- guerra) anelava por um Deus de amor e liberdade. A diferenga entre essas duas geragGes nao pode ser facilmente detectada nas teologias sistematicas ou nas publicagSes mais tedricas, mas tomou forma no piilpito e nos bancos das igrejas. O sistema mudou. Os sermGes e os hinos mudaram. Os livros cristéos populares mudaram. As pessoas queriam saber que Deus era amigavel, acessfvel, que os aceitava como eram: jeans, cabelos compridos, e todo 0 resto. 26 Deus nas Mdos de Pecadores Irados Mas uma vez que isto foi uma tendéncia amplamente popular em vez de académica, nao houve muito debate. Para dizer a verdade, al- guns fundamentalistas entrincheiraram-se e comegaram uma cruzada contra os “neo-evangélicos” que estavam surgindo, mas, em muitos ca- sos € a despeito de protestos, a mudanga ocorreu até mesmo dentro das igrejas fundamentalistas. E, sem dtivida, muitos adultos mais velho: que se recordavam dos dias de maos mais pesadas, se sentiram alivia dos com a nova énfase. Uma vez que essa énfase mais positiva era uma tendéncia popular, nao parece ter havido muito interesse em se repensar a estrutura doutrind- ria que produziu anteriormente tanta ansiedade, ou criou a necessidade para as novas énfases. Em vez de pensar por meio de uma perspectiva teoldégica mais rica com a ajuda de reflexGes por parte de cristios sdbios em outros tempos e lugares, 0 evangelicalismo simplesmente se inclinou para um ponto de vista muito mais inclinado ao espirito dos tempos. As- sim como os liberais protestantes acomodaram sua teologia 4 moderni- dade, os evangélicos tém se inclinado a acomodar a sua pregagao e dicta popular as “necessidades sentidas”. E provavel que o sentimentalismo secular, as categorias terapéuticas e relacionais, a subjetividade e 0 dese- jo pela experiéncia direta e intensa tenham dirigido essas tendéncias em vez de qualquer controvérsia doutrindria que possa ter sido representada. E a memGria hesitante do fundamentalismo — ambas, caricaturada e real — ofereceu o pano de fundo negro. Mas a geragdo emergente nao sabe o que era encontrar mamie e papai em casa depois da escola, muito menos pais rigorosos que pareci- am onipresentes e que serviam como analogias a Deus. Se tiveram contato com igrejas evangélicas, é mais facil terem encontrado o vazio doutrindrio no lugar do dogmatismo. Muito mais orientados para a pra- tica até mesmo do que seus pais do pds-guerra, eles sio a “geracio TV”; e até mesmo os adolescentes da igreja hoje sabem mais sobre os nomes dos ndufragos infelizes de Gilligan’s Island do que sobre os dos doze apéstolos. Nao é suficiente explicar onde essa geragao se encontra; a verdadeira questao € se estd onde deveria estar. A igreja nao existe para conformar, mas para transformar, comegando com a renovacao da mente (Rm 12.1,2). Na minha propria experiéncia, os cristios mais jovens so fascinados com as questées definitivas, e muitos dentre os que nao esto na igreja sao atra- idos a comunidades de fé; nas quais a doutrina, vida e adoragao sao diferen- 27 CREIO tes da sua rotina didria. Qual é a razdo pela qual muitos jovens por volta dos 20 anos esto aparecendo em bandos em conferéncias de teologia? Por que eles esto procurando teologia séria ¢ liturgia nos cultos da igreja, buscan- do ser governados pelas Escrituras, tentando recuperar a continuidade com a geraco anterior? Talvez estejam fugindo, nao do rigor fundamentalista, mas da trivialidade sem significado. Julgando a Deus Naturalmente, isso nao significa que a gerac’o que estou descrevendo ir correr em massa rumo 8 cristianidade biblica! Se a nossa era fundamen- talista conduziu as pessoas 4 imagem de uma deidade fraca e antes desam- parada, a diregio atual parece estar colocando Deus em julgamento. Se os filhos dos fundamentalistas se rebelaram contra um deus cruel nos anos sessenta, a geragio MTV parece estar reagindo contra o sentimentalismo evangélico com uma vinganga. Se a deidade da fé evangélica contempora- nea, da adoragio e da vida é “muito pequena”, parecem dizer, é hora de coloca-la em julgamento. Assim como os monarcas que s6 governaram porque seus stiditos aflitos eram muito medrosos para falar abertamente, os idolos sao facilmente der- rubados quando suas fraquezas sio descobertas. O Dia da Bastilha moder- no chegou. E enquanto muitas pessoas estao fazendo perguntas sobre Deus hoje, isto nao acontece sem um certo tom de interrogagao. Isso é compreen- sivel, dada a historia recente. Até que ponto, eles perguntam, um Deus bom poderia ter permitido o Holocausto? O Vietna? Os desastres naturais que nos sao retratados nos noticiérios noturnos? Por mais que a praga que literalmente despovoou Londres no século XVII tenha sido lamentada sonoramente, ela foi encarada com confianga na providéncia. Mas hoje, mesmo a mais leve pincelada de tragédia é sufi- ciente para que as massas marquem uma data de julgamento para o Todo- Poderoso. Jonathan Edwards acendeu o fogo do Grande Reavivamento com “Pecadores nas Maos de um Deus Irado”’, porém hoje, como R. C. Sproul mencionou, 0 enredo se 1é ao contrario: Deus est4 nas maos de pecadores irados. E, muitas vezes, por mais estranho que possa parecer, nao so os que mais sofrem hoje (por exemplo, os pobres e marginalizados de nacdes sub- desenvolvidas) que chamam a Deus para uma prestagao de contas, mas os de formagao relativamente privilegiada. 28 Deus nas Mdos de Pecadores lrados Visées Atuais de Deus Duas alternativas extremamente convincentes & visdo classica de Deus como “o Pai Todo-Poderoso” devem ser brevemente mencionadas. Molda- da pelos horrores de Auschwitz, uma dessas visdes é a teologia do Deus sofredor. Teodi € a defesa de Deus a luz do mal, e o modo popular de expor esse problema € 0 que se segue: Se Deus pode acabar com 0 sofri- mento mas nao o faz, ele nao é bom. Por outro lado, se Deus quer acabar com 0 sofrimento mas nao pode, ele naéo é Todo-Poderoso. Um desses atri- butos tem que desaparecer; manter os dois é simplesmente uma contradi- cdo. A teodicéia cristé tenta encarar esse dilema. Nos nossos dias, Deus € freqiientemente identificado com 0 mundo, 0 Criador e a criagao se fundem. Uma versio extrema disso tem suas raizes no filésofo alemao G. F. W. Hegel (1770-1831), que identificou Deus com tudo 0 que € real e, conseqiientemente, racional. De acordo com Hegel, a histéria é a auto-realizagao de Deus enquanto o Espirito progressivamente transforma tudo; através de impulsos radicais, de tese em antitese, 0 que resulta em uma sintese maior. Quando atribufdo A teologia, isso significa que a cruz é 0 simbolo da morte de tudo (tese) que é requerido para a ressur- reig&o de tudo (antftese), resultando em um novo estdgio da auto-realizagao da hist6ria (i.e., de Deus). Para Hegel, esse processo foi marcado por um otimismo animador, mas a guerra e a injustiga em escala maciga mudaram o entéo chamado progresso. Nos anos 60, os tedlogos da “Morte de Deus” discutiram isso tao vigorosamente que a revista Time a transformou em matéria de capa com 0 titulo, “Is God Dead?” Outros tém sido mais contidos. Para eles, embora Deus nao esteja morto, esta sofrendo. Essa visao, ultimamente, tem se tornado popular até mesmo nos circulos evangélicos. Na verdade, Christianity Today discursou sobre essa visio na sua edigao de 3 de Fevereiro de 1997. Ambos os artigos sobre 0 assunto promoveram essa visio, um deles até mesmo argumentando que o “erro” da visao classica podia ser tragado até ao Credo Calced6nio (451 d.C.). Apelando as referéncias biblicas nas quais Deus é descrito como “aflito”, “arrependido”, “satisfeito” e daf por diante, os proponentes do sofrimento de Deus nfo aceitam a interpretagao tradicional de que estas referéncias sejam antropomorfismos — isto é, figuras de linguagem nas quais Deus se descreve em termos humanos para que possamos entender melhor 0 seu carater. Embora dificilmente seja um tedlogo ortodoxo, Hans Kiing oferece uma critica ressonante dessa posigiio, porquanto é “mais inspirada em Hegel do 29 CREIO que na Biblia”. Ninguém tem tentado brigar mais com o Holocausto e com o sofrimento em geral do que Kiing, mas ele observa corretamente que nao podemos aniquilar a “bondade” de Deus para encontrar uma explicagao facil para o sofrimento. Ele escreve, Uma olhada na Escritura pode acalmar tais ousadias especulativas... Conferida em uma linguagem antropomérfica, a Biblia Hebrai- ca, algumas vezes, atribui todo o cfrculo de sentimentos e atitu- des humanas a Deus... Mas em parte alguma a diferenca entre Deus e os seres humanos é suprimida, nem o sofrimento humano ea dor simplesmente declarados como sendo © sofrimento ¢ a dor de Deus e, por essa razio, transfigurado. Em nenhum lugar a santidade de Deus se transforma em impiedade, sua fidelidade em infidelidade, sua confiabilidade em falibilidade, sua miseri- cérdia divina em comiseragio humana. Para a Biblia Hebraica, embora os seres humanos falhem, Deus nao falha; quando os se- res humanos morrem, Deus ndo morre junto. Porque “eu sou Deus endo homem, o Santo no meio de ti”, declara Oséias 11.9 contra qualquer humanizagio de Deus, embora nesse ponto, como em qualquer outro, exista uma fala antropomérfica da “compaixiio” de Deus por seu povo."* Quanto a essa énfase no cardter imutével de Deus, o Novo Testamento revela a mesma histéria. Jesus clama a Deus, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, porque o sofrimento do Deus-Homem nio € 0 so- frimento da propria natureza divina. Kiing nos encoraja a “protestar enfati- camente contra um entendimento masoquista € tolerante de Deus, de acor- do com o qual um Deus fraco tem que se torturar até a ressurreigao através do sofrimento e morte, se é que ele nao va sofrer eternamente”.'> Se Deus é afetado pelo que ocorre fora de si mesmo, ele é dependente desses fatores para seu prazer ou dor. Conseqiientemente, ele é uma vitima do mal, juntamente com o resto de nds. Pode ser que algumas pessoas se sintam amparadas em pensar que Deus sente a sua dor, mas se isso acontece a custa da sua invulnerabilidade 4 mudanga, frustragao, desespero e sofrimento, Deus nao é mais ditil numa crise do que 0 terapeuta ou o vizinho simpitico. Se alguém est4 preso dentro do elevador de um prédio em chamas, um bombeiro do lado de fora que pode derrubar a porta é preferivel a um cole- ga também preso, mas que entende o problema. Sendo onisciente, Deus 30 Deus nas Mdos de Pecadores Irados conhece a nossa dor e ouve 0 nosso clamor. E, em Cristo, Deus experimen- tou nosso sofrimento humano porquanto foi o Deus-Homem. Mas como Deus, foi capaz de nos resgatar porque possufa os atributos perfeitos que nds nao possuimos. Uma vez que ele, em si mesmo, est4 acima de qualquer sofrimento, nao pode ser afetado ou embaragado por qualquer coisa que acontega no mundo. Quando age, o faz por causa da sua forga, abundancia, auto-suficiéncia e liberdade, e nao por causa de fraqueza, necessidade, de- pendéncia ou constrangimento. Embora isso possa nao resolver a nossa cu- riosidade sobre o problema do mal e do sofrimento, é uma boa nova aqueles que esto sofrendo de fato. A segunda das duas alternativas modernas para “Deus Todo-Poderoso” tem sua fonte na critica de Karl Marx ao poder e a hierarquia, critica que tem sido influente nas teologias feministas ¢ liberacionistas. Marx disse que 0 criticismo da religiao como 0 “6pio do povo” foi o ponto de partida para um criticismo implacavel do status quo em cada campo. De acordo com 0 te6- logo Sallie McFague, por exemplo, 0 patriarcalismo judaico-cristéo que pe- netrou a igreja primitiva foi o produto de um conceito mondrquico de Deus. Um rei viril governa sobre uma hierarquia de poderes menores, todos os quais reinam sobre mulheres e outros membros marginalizados da socieda- de. Conseqiientemente, a teoria continua, a teologia justificava e produzia culturas hierarquicas e patriarcais. A figura representada no “Aleluia” do Messias de Handel (“Rei dos reis e Senhor dos senhores”, “porque o Senhor onipotente reina”) é “muito perigosa”, escreve McFague.'® Naturalmente, essas atribuigdes da soberania monarquica nao se originaram com Handel, mas com a propria Escritura. Intimamente relacionada & nogao de um “Deus sofredor”, a figura alter- nativa sugerida pelos tedlogos feministas é a de uma deidade vulnerdvel que, distinta do Deus “masculino” de poder e indiferenga estdica ao senti- mento, é um companheiro de viagem. A teologia do processo, mesmo quando nao explicitamente dirigida aos temas feministas, é outra expressdo popu- lar dessas idéias basicas. Deus, sugerem os proponentes, nao é um rei sobre tudo, mas um amante que nos convida a nos tornarmos co-criadores, co- sofredores e co-redentores. Primeiro, essa é uma critica complicada e merece muito mais atencao do que podemos dar aqui. E verdade que a igreja, algumas vezes, tem se afastado da histdria biblica usando a filosofia grega para a sua defesa de um Deus que nao sofre. Para dizer a verdade, a igreja, por séculos, abusou da sua autorida- de com exercicios inacreditaveis de tirania e injustica. Ainda age assim em 31 CREIO muitos lugares. O Protestantismo Americano e 0 Catolicismo Latino-ameri- cano nos lembram dos perigos de uma igreja que perde seu papel profético através do sustento do status quo na politica e na sociedade. Mas essa critica se encaixa no que os Iégicos chamam de “falacia genética”, Isto é, enquanto as realidades histdricas nio podem e nunca deveriam ser negadas, é errado culpar a teologia crista per se, a ndo ser que exista um elo causal claro. Muitos dos exemplos citados (conversées forgadas de pagaos, as Cruza- das, a Inquisi¢gao) aconteceram, de fato, em um ambiente no qual a teologia girava mais em torno da veneragiio a Maria do que em volta do “Deus Todo- Poderoso”. Todavia, isso nao produziu uma hierarquia feminista. Em mui- tos paises catélicos hoje, a opressao severa a mulheres continua a acontecer em culturas profundamente comprometidas com 0 culto 4 Virgem. Além disso, Jesus foi um critico profundo das injustigas sociais da sua €poca, por exemplo, com respeito a opressio e tirania; e quebrou tabus com respeito 4s mulheres, estrangeiros e excluidos sociais. E, ainda, as Escritu- ras nos mostram que Deus era seu pai, nao sua mae (ou “pai e mae”), e Jesus era o Filho de Deus, nao uma crianga sem sexo, e o Deus soberano dos profetas e apdéstolos nao era nenhum outro sendo aquele a quem até mesmo Jesus confessou sua subordinagio no seu ministério terreno. Nin- guém jamais proclamou “Deus, 0 Pai Todo-Poderoso” tao vigorosamente (e tao evangelicamente) como Jesus Cristo. A critica de Deus como pai e todo-poderoso tem objegdes profundas. Acima dos desafios biblicos ébvios, é falha até mesmo na sua andlise do problema. Admite que o patriarcado é inerentemente opressivo, nao impor- tando os muitos exemplos contraditérios que podem ser encontrados na histéria. Afinal de contas, desde que a maioria das sociedades através dos tempos tem sido patriarcal, como alguém pode destacar esse fator como definitivo? Os crist&os explicam historicamente as sociedades caidas em termos de coragdes humanos cafdos, nao em termos de boas pessoas presas em mas instituigdes. Enquanto, certamente, nao minimizam o ponto de que as instituigdes, assim como os individuos, sao pecaminosas, as Escrituras em nenhuma parte identificam o patriarcado como inerentemente opressi- vo a despeito do fato de que muitos patriarcas o tenham sido. O patriarcado divino nao sanciona os sistemas de poder injustos e opres- sivos; antes, é precisamente o seu juiz. Quem pode ignorar a indignago de Deus contra 0 poderoso que oprime o fraco na sociedade, incluindo o po- bre, o estrangeiro e as mulheres? Aprendemos, por exemplo, que na legisla- cao civil de Israel as mulheres receberam direitos que nao pertenciam a elas 32 Deus nas Mdos de Pecadores Irados na antigiiidade. Foi um Deus bom quem criou, preserva e salva, um Pai que “resiste aos soberbos mas da graga aos humildes” (Tg 4.6), que cuida cari- nhosamente de seus filhos e usa seu poder para reconciliar 0 pecador a si mesmo, a despeito do pecado e da resisténcia. Em vez de projetarmos nossa experiéncia moderna de sociedades patri- arcais e paternidade empobrecida na religiao, devemos permitir que a his- téria biblica nos oriente novamente as nogoes reais de paternidade e poder. Podemos nos simpatizar com mulheres e homens que tém sido vitimas de figuras de pai inadequadas e até mesmo destrutivas. Nao é de surpreender que tantas mulheres identifiquem o patriarcado com a opressao, a violéncia € a injustiga. E nunca podemos simplesmente rejeitar nossa experiéncia pessoal no processo de interpretagio. Mas o “€” sociolégico nao reflete necessariamente o que deve ser. A despeito dos longos sofrimentos, aqueles cujos pais foram ausentes, conde- nadores ou cruéis podem ter 0 conceito de “pai” transformado pela histéria de um “Pai Eterno, com Poder para Salvar”. Quanto mais conhecemos as agdes redentoras de Deus na hist6ria, maiores serao as nossas chances de superarmos a priséo de nossas préprias experiéncias limitadas. Em vez de abandonarmos esses modelos, devemos permitir a versio de Deus para redimir nossa experiéncia de paternidade e soberania. Ao fraco e oprimido, um libertador soberano surge como boas novas. Os criticos esto certos em chamar a atengao para o fato de que visGes religiosas patriarcais podem criar culturas opressivas. Quando projetamos nossas imagens paternais terrenas sobre Deus, nés as fazemos concretas. Se é com isso que Deus se parece, raciocinamos, entéo, quem pode duvidar? Se vivemos numa cultura na qual os homens crescem pensando nas mulhe- res como objetos ou ferramentas para seus préprios fins, provavelmente irdo erguer uma deidade chauvinista para dar credibilidade a projegdio. Mas isso é pura idolatria. Longe de sancionar o patriarcado destrutivo, a auto- revelagao de Deus o julga como ninguém mais. Se, por exemplo, alguém tivesse de simplesmente jogar fora as imagens masculinas e substitui-las por femininas, isso dificilmente seria capaz de resolver o problema da vio- léncia contra as mulheres. Somente um Pai Bom pode julgar um mau e nos mostrar 0 que é a paternidade real. Entdo, ambos, os chauvinistas que “pro- jetam” sua masculinidade distorcida sobre Deus e os feministas que tentam ir de encontro a esse desafio “projetando” suas proprias imagens nao bibli- cas, acabam se encaixando na idolatria. Nao so as nossas imagens, mas a Palavra de Deus, que deve moldar a nossa fé e pratica. 33 CREIO Uma razio pela qual essa afirmagao pode, de fato, curar em vez de re- forgar os relacionamentos paternos malévolos € 0 fato de a paternidade de Deus ser a fonte de todas as paternidades. Isso, no comego, soa um tanto estranho porque somos acostumados a trabalhar analogicamente nossos ca- minhos a partir do que conhecemos melhor (relacionamentos humanos) ao que € mais remoto (relacionamentos divinos). Mas Deus construiu seu paradigma intertrinitério em nossa psiqué humana. O Filho é eternamente gerado do Pai e o Espirito Santo procede dos dois. Nao existiu um tempo em que 0 Filho nao era e, conseqtientemente, nenhum tempo quando 0 Pai nao era um pai. O relacionamento é construfdo na prépria estrutura da Trin- dade. Assim, enquanto na pratica nada podemos fazer a nao ser sermos influenciados pelas nossas experiéncias terrenas em nossas vis6es da pater- nidade de Deus, o Bom Pai pode consertar nossas imagens distorcidas. Po- demos fazer isso porque aprendemos que a boa paternidade nao procede de pais humanos, mas do préprio Deus. Afinal, ele inventou a idéia. Como veremos adiante neste estudo, 0 conhecimento do “Deus Todo-Pode- roso” dificilmente, em si mesmo, é encorajador, especialmente quando sabe- mos, ld no fundo, que estamos em divida para com Deus e que ele é nosso juiz. Deus é Todo-Poderoso em ira, em justiga, e em gloria ofuscante. Mas quando adicionamos 0 titulo pessoal Pai 4 equagao, e através da incorporagao em Cristo podemos chamé-lo de nosso Pai, 0 poder ilimitado e a vontade indestrutivel de Deus se tornam boas novas para nés: Ele € poderoso para salvar. Essa é uma importante adverténcia a alguns que parecem considerar a soberania de Deus como o centro da mensagem crista. Importante como é, essa énfase s6 pode levar ao temor, divida e desespero, a menos que seja lida por meio das lentes da vontade salvadora de Deus, assegurada em Cris- to pelas promessas do Evangelho. E 0 Evangelho que faz com que a afirma- gio da onipoténcia de Deus seja uma nova bem-vinda, em vez de temivel. Mas, para considerarmos seriamente 0 nosso campo missionario, tere- mos de considerar a nossa fé de forma ainda mais séria. E isso significa que 6 tempo de derrubarmos o idolo do sentimento popular, de nos arrepender- mos das nossas buscas triviais e de recuperarmos a visio suprema de Deus que sempre conduziu aos mais notaveis avangos do reino de Cristo através da histéria. Nao devemos somente eliminar a idéia de um deus desgracioso, mas também do idolo do sentimentalismo. Nenhum dos dois é grande 0 suficiente para roubar os coracGes e as mentes de nossa era desiludida, es- pecialmente 4 face do mal, da opressao, da violéncia e da morte. Mais im- portante, nenhuma das visGes representa o Deus da Biblia. 34 Deus nas Mdos de Pecadores Irados Conhecendo o Deus Que Estd Presente Imagine uma amiga dizendo a vocé que est4 apaixonada por um homem que ela conhece hé algum tempo. Durante semanas, ela fica olhando fixa e silenciosamente através de vocé, como se a face do seu amado estivesse projetada na parede as suas costas. Finalmente, quan- do vocé est chegando das compras, ela corre até vocé quase derruban- do as sacolas dos seus bragos. “Eu estou apaixonada!”, ela anuncia. “Vamos nos casar!”’ Durante todo esse tempo, no entanto, vocé lhe per- guntou continuamente sobre este homem. Como ele é? O que faz? De onde é? Quem so seus pais? Mas tudo o que vocé consegue siio olhares vazios. “Eu nao sei”, ela finalmente responde. “Eu nada sei a respeito dele; cu s6 quero conhecé-lo.” A cena tola que estou descrevendo é uma situacéio que a maioria de nés consideraria como improvavel. Usualmente, nao nos apaixonamos por al- guém sem saber nada sobre essa pessoa. E se vissemos alguém fazendo isso, provavelmente dirfamos que ele ou ela estaria se encaminhando para um desastre. Chamamos tal encantamento superficial de paixonite ou en- fatuamento em vez de amor maduro, adulto. Contudo, quando se trata de Deus, parece que nos sentimos perfeitamente livres para substituir a emo- ¢4o pelo entendimento. Do comego ao fim da Escritura, somos chamados a experimentar a Deus através de alguma auto-revelacio, da sua parte, de quem ele é e do que tem feito por nds. Teologia é uma palavra que vem de duas palavras gregas: Theos, Deus, e logos, razio. Assim como a biologia € 0 estudo da vida (bios), a teologia é 0 estudo de Deus. Como podemos dizer que nao precisa- mos da teologia? Isso é equivalente a dizer que nao precisamos saber coisa alguma sobre Deus para sermos cristaos. Todos nés precisamos da teologia, porque necessitamos de Deus. Na verdade, pode-se dizer, sem exagero, que toda a Biblia se ocupa com teolo- gia, uma vez que tudo nela € projetado como a auto-revelagio de Deus em Cristo. Ela nos fala sobre sua natureza, seus propdésitos e sua atividade. Se no gostamos de teologia, no amamos a Deus e nio amamos a Biblia Felizmente para nés, Deus nao nos deixou para entendermos as coisas por conta prépria, uma vez que nossa imaginagao é uma “fabrica de idolos”. Ele tomou a iniciativa de falar conosco e nos mostrar como ele é. Por causa da sua revelagao generosa de si mesmo, somos capazes de contemplar bre- vemente alguns dos atributos e agGes de Deus. 35 CREIO Atributos Incomunicdaveis de Deus Quando grandes mentes cristis exploram as Escrituras, sio capazes de discernir varios atributos — caracteristicas afirmadas por Deus como per- tencentes a sua natureza. Estes se dividem em duas categorias: incomunica- veis e comunicaveis. Os primeiros sao os atributos que pertencem somente a Deus; os tiltimos sao os atributos que a humanidade compartilha com Deus como portadores sua de imagem. Deus é Auto-Existente e Auto-Suficiente Em primeiro lugar, Deus € auto-existente e auto-suficiente. Uma das questées mais antigas na filosofia, e talvez a mais freqiientemente formula- da pelas criangas, é “Quem fez Deus?” A questo é baseada no dilema com respeito 4 dtivida da existéncia de algo no universo que seja eterno. Se di sermos que nada do que vemos pode ter vindo a existéncia sem uma causa, eventualmente voltamos ao préprio Deus. Entéo, quem fez com que Deus existisse? Aristoteles insistiu em que Deus foi a Primeira Causa, 0 ser eter- no que faz com que todas as coisas existam mas que, ele mesmo, nao tem origem e€ nao é criado. Enquanto essas nogGes se tornaram crescentemente presas a filosofia grega, as Escrituras afirmam 0 impulso basico da declaragao de Aristoteles. E impossi- vel para nés entendermos completamente a auto-existéncia de Deus porque nao temos nenhum ponto de referéncia andélogo em nés mesmos ou no mundo. Para nés, tudo é, de alguma forma, o produto ou efeito de outra coisa. No entanto, quando Deus revelou seu nome a Moisés, néio houve diivida de que a auto-exis- téncia e a auto-suficiéncia eram nao somente verdadeiras, mas também que toda anatureza de Deus podia ser resumida dessa forma. Da sarga ardente, ela mesma um simbolo no sentido de que queimava mas nao se consumia, Deus chamou Moisés, € no curso da conversa, 0 pa- triarca perguntou, “Eis que, quando cu vier aos filhos de Israel e lhes disser :*O Deus de vossos pais me enviou a vés outros’, e eles me perguntarem: Qual é 0 seu nome? Que Ihes direi? Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirds aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vos outros” (Ex 3.13-14). Muito melhor do que qualquer especulagao filoséfica, a prépria auto- revelagio de Deus do seu nome oferece a expressao mais clara de sua auto- 36 Deus nas Mdos de Pecadores Irados existéncia e auto-suficiéncia. “Com quem comparareis a Deus? Ou que cousa semelhante confrontareis com ele?” (Is 40.18). Quando se trata dos atribu- tos incomunicaveis de Deus, nao existe ser andlogo N&o podemos apontar para outra pessoa auto-existente e auto-suficiente e dizer: “E assim que Deus é”. Paulo declarou em Atenas que, diferente- mente dos deuses da mitologia grega, 0 Deus verdadeiro “Nem é servido por maos humanas, como se de alguma cousa precisasse; pois ele mesmo € quem a todos da vida, respiragio e tudo mais” (At 17.25). Foi ele, diz 0 apdstolo, quem fixou os limites para as suas criaturas: onde nascerao, vive- rio e morrerao. As deidades greco-romanas eram homens e mulheres glori- ficados, projegGes dos generais mais poderosos, dos governadores mais s4- bios e dos atletas mais habilidosos. Mas Paulo desafia a sua visio de Deus como “homem magnificado” comegando com a auto-existéncia e a auto- suficiéncia de Deus. Deus nao precisa de nada nosso, mas nao podemos respirar sem ele: “pois nele vivemos, e nos movemos, ¢ existimos” (At 17.28). Deus estd presente conosco no mundo que fez e sustém, mas nds, agora, somos peca- dores correndo como Adio e Eva através da floresta para escapar da sua presenga. Pelo menos, sabemos muito sobre nds mesmos. No entanto, para aqueles que foram adotados por Deus, 0 mundo se torna, nas palavras de Calvino, “o teatro da gl6ria de Deus”, um lugar onde a onipresenga de Deus traz prazer e admiracio, substituindo 0 medo eo horror. Essa verdade € colocada em forma de louvor em Romanos 11.34-3 Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro Ihe deu a ele para que Ihe venha a ser restituido? Porque dele, e por meio dele, e para cle so to- das as cousas. A ele, pois, a gl6ria eternamente. Amém. E dificil para nds, especialmente nos nossos dias em que Deus é muito pequeno, realmente concordarmos com o fato de que ele nao nos criou por- que estava solitario ou porque faltava algo em si mesmo. Ele gozava da companhia eterna da comunhio Intertrinitéria, cada pessoa da Divindade contribuindo com inesgotavel prazer, alegria e contentamento. Ainda que, admitamos; e seja profundamente humilhante, devemos, todavia, reconhe- cer que se nenhum de nés tivesse nascido, Deus estaria bem, Ele criou a partir da forga, nao da fraqueza; a partir da abundancia, nao da necessidade; a partir de um excesso de regozijo, nao porque estava vazio. 37 CREIO Devemos nos guardar de tentar entender os atributos incomunicaveis de Deus imaginando analogias a nés mesmos. Precisamos de nossos pais, nos- s0s cOnjuges, nossos amigos, filhos, empregos, e daf por diante. Mas Deus nao precisa de ninguém e de nada para sua felicidade eterna. Tudo para ele é uma questo de sabedoria e escolha autodeterminada, enquanto para nds, nossas decisdes siio sempre determinadas por uma necessidade percebida. Nosso Salvador colocou isso da seguinte forma: “Porque assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo” (Jo 5.26). Nés temos vida a partir de Deus, mas Deus tem vida em si mesmo. Deus é Imutdvel Um segundo atributo divino incomunicavel é a imutabilidade. Uma mu- tagao é uma mudanga de uma coisa para outra. Atribuir imutabilidade a Deus é dizer que ele nunca muda. Muitos tedlogos modernos tém atacado esse € outros atributos relacionados a ele como devidos, sobretudo, a filoso- fia grega, com sua celebragiio da estatica, do inalterado, do ser perfeito que se op6e ao crescimento e a evolugdo. Mas esta é realmente a razao para séculos de compromisso com esse ensino? Primeiramente, a filosofia grega nunca chegou a um acordo sobre este assunto, embora Platao e os discfpulos do Estoicismo tenham exercido uma influéncia enorme sobre o pensamento ocidental. Deve-se reconhecer que algumas formulagGes desses atributos soam muito mais como especulagio filoséfica do que como auto-revelagio biblica, mas a Escritura, de fato, declara que Deus é imutavel: ele nunca muda. O nome divino, “EU SOU O QUE SOU”, nio somente aponta para a auto-existéncia de Deus, como também para o seu cardter imutavel. Ele nao disse, “EU ESTOU ME TORNANDO UM SER ABSOLUTO”, como Hegel, Whitehead e muitos outros filésofos e te6logos modernos teriam preferido. O salmista menciona que enquanto Deus muda os céus antigos ¢ a terra como uma ama troca fraldas, ele mesmo nao muda: “Eles perecerdo, mas tu permaneces; todos eles envelheceréo como um vestido, como roupa os mudards, e serao mudados. Tu, porém, és sempre 0 mesmo” (SI 102.26,27). Na verdade, “mesmo” aqui € 0 nome hebraico traduzido em Exodo 3 na sarga ardente: “Eu Sou”. Assim, a distingiio qualitativa entre Deus e tudo 0 que ele fez é medida pelo fato de que tudo muda, enquanto ele permanece o que sempre foi e o que sempre sera. 38 Deus nas Mdos de Pecadores lrados Deus declara de si mesmo, “eu, o SENHOR, nao mudo” (MI 3.6). Ele diz que Israel pode ter conforto nisto (v. 7). Afinal, se ele mudasse, poderia, com certeza, ter quebrado seu pacto com seu povo desobediente e té-lo consumido! Paulo se refere as nagdes como trocando a gloria de um Deus imutavel, perfeito, 4 de uma deidade imperfeita e mutavel (Rm 1.22). Isto, afinal, € 0 objetivo da imutabilidade de Deus. Se estivesse mudan- do na sua propria esséncia e ser, isto sugeriria que seria possivel para ele mudar-se da imperfeigio a perfeigio, da falta de conhecimento a suficién- cia, da caréncia de amor ou misericérdia 4 plenitude da graga, da falta de poder sobre uma situagdo particular & vit6ria sobre forgas rivais. Esses pon- tos, que Paulo atribui a idolatria grega, estdio, na verdade, sendo discutidos explicitamente até mesmo em circulos evangélicos nos nossos dias. Esse argumento desafia a confissdo de abertura de toda a fé crista: “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso”, Tiago insiste que com o verdadeiro Deus “nao pode existir variacdo ou sombra de mudanga” (Tg 1.17). Para os estdicos gregos e Platéo, a mudan- Ga, em si mesma, era negativa: o que é perfeito nunca muda, enquanto a mudanga de coisas € inerentemente inferior (porque est’io mudando). No entanto, essa nao é a defesa biblica da imutabilidade de Deus. Por exemplo, na santificagdo, 0 crente esta sendo mudado gradualmente para a imagem de Deus. No caso das criaturas (assim como do movimento histérico), a mudanga pode ser boa ou ma, dependendo da diregao. Em qual diregaio Deus muda? Ou em diregio a uma perfeig&o maior ou para longe dela. Se negamos a imutabilidade de Deus, precisamos por sua perfeigio de lado também. Conseqiientemente, 0 argumento biblico para a imutabilidade de Deus nao é uma preferéncia pelo “que nao muda”, como no pensamento gre- go, mas de apegarnos a convicgio de que Deus esté além da perfeigdo. Naturalmente, existem passagens que sugerem que Deus muda. Por exem- plo, lemos sobre Deus “se arrependendo” de ter criado a humanidade. Essa expresso é usada também em outros lugares. Pode-se perguntar 0 mesmo quando as Escrituras falam de Deus indo e vindo, julgando e perdoando, con- denando e, entio, mostrando misericérdia quando 0 povo se voltava para ele. Esses exemplos nio indicam claramente uma mudanga? Naturalmente que sim. Mas, que tipo de mudanga? Em cada um destes casos, existe uma mu- danga na relagiio de Deus com as suas criaturas, mas nunca a mudanga é atribuida ao seu ser. Embora ele mesmo nao mude, seu envolvimento volun- tario com as criaturas que mudam significa que suas agdes, nesse dominio sempre varidvel da hist6ria, s6 podem ser descritas por nds nesses termos. 39 CREIO Quando a Escritura, entao, fala de Deus se arrependendo ou mudando de idéia, somos forgados a uma das duas conclusdes. Ou podemos dizer que a Escritura se contradiz, o que € impossivel para aqueles que a tomam como a propria auto-revelagio de Deus, ou que Deus esté falando em antropo- morfismos, como se fosse um ser humano. Deus fala freqiientemente desse modo para que possamos entendé-lo, da for- ma como um pai fala a uma crianga. Por exemplo, quando as Escrituras falam de vir para debaixo das asas de Deus para reftigio, como em Rute 2.12, entendemos que 0 autor estava descrevendo uma verdade sobre Deus de uma forma que nao é literalmente verdadeira. Deus nao é um passaro gigante, e o autor néio espera que acreditemos que ele seja. Embora dito num contexto de narrativa hist6rica em vez de poesia, pretende-se que seja uma figura de linguagem, da mesma forma como a América é citada como um balaio de gatos. A realidade é que Deus € carinhoso e nos cobre com suas misericérdias salvadoras como se fosse um pdssaro. Porque 0 carater imutdvel de Deus nao é algo que encontramos em nés mesmos, Deus se apropria de ricas metaforas e comparagdes com o mundo natural e com as experiéncias didrias para nos ajudar a conhecé-lo. Similarmente, a Escritura atribui a mudanga a Deus porque existem mudangas nas suas relagGes dentro da histéria humana, devido ao fato de que nés mudamos e somos parte de um mundo histérico que esté sempre mudando. Mas 0 fato € que ele nao é como nés nesse aspecto: “Porque eu, o SENHOR, nao mudo” (M1 3.6). Deus € infinito e eterno e é perfeito em todos os seus atributos, sem mudanga ou melhoras. Assim como era no principio, ele € agora, e seré para sempre. Nés, por outro lado, somos inconstantes e propensos 4s mu- dangas assim como o tempo. Em um minuto estamos apaixonados por al- guém ou excitados com algum novo emprego e, no préximo minuto, esta- mos desencantados e deprimidos. E bom saber que aquele em quem coloca- mos a nossa confianga nao é como nés nesse aspecto. Deus é Onisciente e Onipotente Terceiro, Deus € onisciente e onipotente. Isto é, ele conhece todas as coisas e tem poder sobre todas elas. Podemos conhecer algumas coisas e ter controle sobre outras, mas a sabedoria de Deus e 0 seu poder nao tém limites. Deus nao tem que chegar ao conhecimento através da razo ou da observagio. Antes, ele possui todo o conhecimento em si mesmo em todo o tempo (Jé 37.16). 40 Deus nas Mdaos de Pecadores lrados O conhecimento de Deus nao € como o nosso, nem em contetido nem em modo. Em contetido, 0 seu conhecimento € infalfvel e perfeito: Deus nao pode errar no que acontece. Em modo, é imediato ¢ intuitivo, Em ou- tras palavras, diferente de nés, Deus nao alcanga um grau de conhecimento. Ele conhece o fim a partir do comego em um ato de reflexdo: Lembrai-vos das cousas passadas da antiguidade; que eu sou Deus, nao hd outro, eu sou Deus, ¢ no hé outro semelhante a mim; que desde o prinefpio anuncio o que ha de acontecer e des- de a antiguidade, as cousas que ainda nao sucederam; que digo: ‘© meu conselho permanecerd de pé, farei toda a minha vontade. Eu o disse, eu também o cumprirei; tomei este propésito, tam- bém o executarei. (Is 46.9-11) Varias passagens biblicas relatam o conhecimento prévio de Deus das acdes futuras das criaturas. A profecia depende da crenga no conhecimento prévio de Deus: “Eis que as primeiras predigdes j4 se cumpriram, e novas cousas eu vos anuncio; e, antes que sucedam, eu vo-las farei ouvir” (Is 42.9). Além disso, Deus nao somente conhece o futuro; ele controla 0 futuro. Sua onisciéncia e onipoténcia estao em perfeita harmonia. Na verdade, ele decretou tudo o que se sucede e é por essa raziio que ele conhece o futuro em cada detalhe. Dificilmente um es- pectador passivo, simplesmente conhecendo os atos futuros de suas criaturas, Deus é, na realidade, um arquiteto ativo da histéria. Ele é “Deus, Todo-Podero- so, Criador do Céu e da Terra”. Até mesmo os resultados de um jogo de dados s&o determinados por Deus em cada caso (Pv 16.33). As profecias da Escritura apdiam-se nessa suposigao; que Deus nao so- mente conhece passado, presente e futuro em cada detalhe, mas que isso acontece porque ele decretou o fim a partir do comego de acordo com seu préprio conselho secreto. Como o Breve Catecismo de Westminster decla- ra, “Os decretos de Deus sao seus propésitos eternos, de acordo com o con- selho da sua propria vontade, por meio do qual, para sua propria gloria, ele pré-ordenou tudo o que se sucede” (VII). Paulo escreve, “ nele [Cristo] no qual fomos também feitos heranga, predestinados segundo o propésito daquele que faz todas as cousas confor- me 0 conselho da sua vontade...” (Ef 1.11). Se isso € verdade, como os humanos podem ter qualquer atividade li- vre? Esta tem sido a quest&o que tem intrigado tedlogos e fildsofos por séculos. Porém, Deus parece pensar que nos € suficiente saber que ele € 41 CREIO soberano e que nés somos responsveis. Deus sempre consegue 0 que quer, mas de tal maneira que a atividade humana nao seja minada ou destrufda. Enquanto parece que as Escrituras nao resolvem esse mistério, alguns te6- ricos preferem rejeitar um ou outro, ou a soberania divina ou a atividade humana. Essa op¢ao por uma das duas posigdes nao é disponivel a nés, por mais tentadora que seja. Na verdade, é a soberania ilimitada de Deus que faz com que as decisGes e atividades humanas sejam possfveis e significativas. Se Deus nao tivesse planejado o futuro em cada detalhe, nao haveria razao para acreditarmos que suas promessas seriam cumpridas, que a salvagao iria triunfar sobre a destrui- ¢ao, ou que a vida iria vencer sobre a morte. Nossas agdes tém um significado porque sao parte de um plano maior do que podemos até mesmo compreender. Batendo as minhas asas, dentro da sua gaiola Eu flutuo, mas nfo para fora.” Assim como 0 oceano é para os peixes € 0 céu para os passaros, a sobe- rania de Deus € 0 ambiente que cria a historia significativa para nés. Dentro do oceano, existe uma liberdade aparentemente ilimitada, mas ele € sempre © oceano e nada mais. O peixe nao pode ser outra coisa a nao ser peixe, e criaturas — mesmo as criadas 4 imagem de Deus — nao podem ser 0 Cria- dor. Quando tentam alcangar essa posi¢ao, mergulham em miséria. S6 um Deus com bondade e sabedoria perfeitas pode ordenar 0 universo ¢ a hist6- ria de tal forma, que mesmo as coisas que tencionamos com maus propési- tos Deus projeta para um bom fim (Gn 50.19,20). Deus s6 pode administrar todas as coisas juntas para o bem (Rm 8.28) porque ele tem controle sobre cada varidvel da equagdo. A percepgiio de que nada acontece sem um propdsito ou sem um significado, mesmo que assim parega para nés, deveria nos confortar. Saber que existe uma razio para tudo, mesmo que nio saibamos encaixar ainda as pegas do quebra- cabega, é uma grande seguranga quando as tempestades da vida nos sobre- vém. Aqueles que rejeitam 0 controle providencial de Deus sobre cada acon- tecimento nao ganham, desse modo, a liberdade, mas se encontram na es- cravidao a alguma forma de determinismo: acaso, destino, o poder de ou- tros, ou a sua propria voluntariosidade. Temos de perceber que existem disputas tremendas contra a nossa crenga na providéncia de Deus hoje. Uma coisa é confessa-la verbalmente, mas outra bem diferente é experimenta-la como uma Ancora profunda na alma. O Iluminismo 42 Deus nas Mdos de Pecadores Irados deixou-nos com a crenga de que do dominio fenomenal (0 qual podemos obser- var com os nossos sentidos) e o dominio numénico (0 que repousa acima de nossa experiéncia) sdo divididos por um golfo que estd sempre em expansaio (veremos mais sobre isso em um capitulo posterior). Deus deve existir como uma causa primeira, e talvez até mesmo intervenha de tempos em tempos, mas as leis cientificas sfo as estruturas que governam a existéncia didria, pelo que podemos ver. Esse é 0 argumento vigente pelos tltimos trezentos anos. Por causa dessa perspectiva de “Deus das lacunas”, a tendéncia tem sido de absorver a natureza na graga ou a graca na natureza. Em outras palavras, muitos concluem que se a existéncia de Deus, seus atributos ¢ atividade nao podem ser, de fato, observados no microscépio ou telesc6pio ou em experimentos de obser- vacao, se ele realmente existe, nao deve estar ativo nas ocupagées didrias. Em reacdo, outros tém argumentado que Deus é tao ativo que o miraculoso é 0 modo normal de Deus de se envolver nos assuntos humanos. No processo, a doutrina da providéncia tem se perdido. Precisamos re- cuperar 0 senso de que Deus é tao ativo na rotina normal dos eventos nao miraculosos como é na criagdio do mundo, na Ressurreigdo, no Novo Nasci- mento e na Segunda Vinda. O nascimento de uma crianga pode nao ser miraculoso, deduzindo-se que ele segue as causas naturais comuns estabelecidas por Deus, mas é um exemplo notavel da atividade de Deus mesmo nos detalhes nao miraculosos da vida. Sua Palavra nao somente criou o mundo, mas mantém cada elemento e cada dtomo intactos e no seu curso (CI 1.16,17). Nao temos de requerer 0 miraculoso a fim de reconhecer a mao paterna de Deus nas circunstancias mais ordindrias da vida didria. Deus Estd em Todos os Lugares Um outro atributo incomunicavel de Deus é a s é a verdade de que Deus esté em todos os lugares e enche todo o universo. Afinal, ele é espirito e nao é limitado a nenhum lugar espago-temporal particular. E dificil compreender a Deus como uma pessoa quando, realmente, ele nao é como qualquer pessoa que conhecemos, entao projetamos imagens de Deus que refletem mais proximamente nossos préprios correspondentes. Na imaginagio popular, por exemplo, Deus é visto, algumas vezes, como “o homem 14 de cima”, um velho e formidavel patriarca com uma longa barba branca. Mas Deus é diferente de qualquer pessoa. Justamente porque nao possui um corpo fisico (independentemente da encarnagio do Filho), 1a onipresenca. A onipresenga 43 CREIO Deus esta presente em todos os lugares. Conseqiientemente, de acordo com Romanos 1 e 2, 0s atributos invisiveis de poder e majestade de Deus esto em exibi¢ao em todos os lugares. Isso significa que devemos abandonar a imagem popular de Deus como localizada em um lugar particular “lé em cima”, em um lugar distante desse mundo. Deus esté presente nas ruas de Nova York, assim como est4 nos mais altos céus. Nao existe um lugar onde Deus nao esteja. Até mesmo no inferno, Deus esté presente no julgamento. A despeito do curso da queda e de nossa prépria pecaminosidade, sabe- mos que Deus existe. Mas esse senso da sua presenga universal, algumas vezes, se torna um motivo para nos desviarmos do verdadeiro Deus e ado- rarmos a nés mesmos através de idolos de nossa imaginagao, coragiio, men- te e mao. Por causa desse senso da presenga universal de Deus na beleza da natureza, identificamos a Deus com a criagao, confundindo o Criador com a criatura. Mas a fé cristé insiste — contra aqueles que expulsam Deus desse mundo (defstas) e aqueles que o consideram como indiscernivel do mundo (panteistas) ou habitando nele de alguma forma (panentefstas) — em que o Deus que esta presente em todos os lugares é, todavia, distinto do cosmos que ele fez. Nossas mentes devem ser contidas aqui, onde as expli- cages dao lugar a adoragao humilde aos segredos misteriosos de Deus. Atributos Comunicdveis de Deus Esses atributos so as caracteristicas que compartilhamos com Deus pela virtude do fato de que fomos criados 4 sua imagem. Diferentemente das pedras e rvores, fomos criados por Deus para um relacionamento pessoal com ele. Assim como Adio no encontrou uma esposa adequada entre os animais até que Deus criou uma esposa de seu préprio corpo, assim Deus criou para si mesmo um ser que pudesse compartilhar caracteristicas co- muns com ele, suficientes para que uma comunicagao genufna, livre e uma interagiio significativa com a obra de suas mfios pudessem acontecer. Deus é Santo O primeiro dentre esses atributos comunicaveis de Deus é a santidade. Assim como possuimos inteligéncia, conhecimento e a habilidade de go- vernar sem sermos oniscientes e onipotentes, fomos criados em santidade. 44 Deus nas Mdos de Pecadores Irados Mas a santidade de Deus nao é apenas diferente da que ele dotou a humani- dade na criagao quanto 4 quantidade e sim, quanto a qualidade. Na presen- ¢a de Deus, a verdadeira santidade desmantela nossas pretensGes. Foi s presenga santa de Deus que Isafas se tornou subjugado pelo sentido de que nao somente os outros, mas ele mesmo, estava “destruido” por causa do seu pecado (Is 6). Da mesma forma, Pedro disse a Jesus, “Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador” (Lc 5.8). Mesmo que nio tivesse havido a queda da graga e que nossos pecados niio tivessem nos separado de Deus, ainda iria existir uma distancia entre o Criador e a criatura. Dizer que Deus é santo € o mesmo que dizer que ele é diferente de qual- quer outro ser existente. Do verbo hebraico “ser separado”. santidade se refe- re inicialmente a singularidade de Deus. Nesse sentido, a santidade de Deus é a sintese de todos os seus atributos. No tocante a seus atributos incomunica- veis, ele é inteiramente distinto das suas criaturas. Mesmo de acordo com seus atributos comunicaveis — aqueles compartilhados pela humanidade na criagao — Deus possui essas caracteristicas em si mesmo e de forma imutd- vel. Ele é distante e separado de tudo que fez. Isso nao quer dizer que o seja em termos espago-temporais, uma vez que lembramos o fato de que Deus é espirito e enche os céus e a terra. Distintamente do “relojoeiro cego” do pen- samento moderno, Deus € intimamente envolvido em cada detalhe da vida terrena. Contudo, seu envolvimento é distinto do de qualquer criatura. Mas a santidade tem uma outra conotagio, a da perfeigio moral. E nes- se sentido que Adio e Eva foram criados 4 semelhanga de Deus. Essa per- feigio moral afeta essencialmente o relacionamento, nao as agdes, embora a agio seja expressio do relacionamento. Ser santo e justo nas ages é, primeiramente, estar num relacionamento certo e separado para os propési- tos e interesses desse relacionamento. “Eis o que tio-somente achei’”, concluiu o Pregador, “que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astticias” (Ec 7.29). Criada para intimidade com Deus, a humanidade rejeitou essa santidade que pertence a Deus por essén- cia eterna. Em vez de ser separado dos animais ¢ para o Senhor, eles quiseram ser deuses, eles mesmos, e, em seu lugar, tornaram-se como animais. Deus é Bom Novamente, em um sentido, s6 Deus é bom, como Jesus observou (Mc 10.18). Embora a humanidade tenha sido criada boa, Adio e sua posterida- 45 de escolheram ser maus. Mas Deus é a prépria bondade e a possui como uma escolha eterna e imutavel que flui de sua natureza perfeita. Como um Criador bom, Deus da vida, respiragiio, comida, Agua, abrigo, e cada dom bom e perfeito para cada criatura vivente (SI 145.9-16; Tg 1.17). Ele é 0 Senhor da chuva e da colheita, e tem prazer na felicidade de nossa juventu- de, no gozo do casamento e do ato de amor, no conforto da velhice, e casas cheias nos feriados. Dizer que cremos em “Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra” nao é simplesmente dizer que cremos em uma proposta, mas que essa afirmagao nos leva a uma pessoa. Ele é 0 Criador Todo-Poderoso, mas é também Pai. Antes de falarmos sobre a Queda e a relagdo da humanidade com Deus depois que 0 julgamento foi pronunciado, temos de perceber que Deus criou todas as coisas boas, uma vez que esse € 0 tinico modo como Deus pode criar coisas. Ele é amavel e nio guarda rancor. Ele € paciente mais ansioso em derramar béngiios do que maldigées. Ao mesmo tempo, Deus € justo e irado com a presenga de qualquer coisa que viole o seu cardter perfeito. Freqiientemente, langamos os atribu- tos de Deus um contra 0 outro como se, por exemplo, tivéssemos de esco- Iher entre a onipoténcia de Deus e a bondade ou entre sua ira justa e sua bondade paternal. Mas esse problema € nosso, nao de Deus. Durante sua paz eterna, Deus estava perfeitamente feliz em nao expressar sua ira, gozando da obediéncia da sua hoste celestial antes da queda de Liicifer e seus anjos. Distintamente da sua santidade, retiddo, perfeigdo, amor, onipoténcia, justiga e bondade, Deus nao exercita a ira perpetuamente e sem interrupg¢ao. Antes, essa é expressa por Deus quando seus atributos so afron- tados e sua santidade escarnecida. Embora possamos achar quase impossivel falar sobre a ira de Deus, as Escrituras sao claras sobre essa expressio divina. Foi a sua consciéncia da santidade de Deus, e a ira que precisa se ex- pressar quando a santidade é violada, que fez com que Adao e Eva fugissem da presenga de Deus. Mas eles sé sabiam que haviam violado a santidade de Deus porque foram originalmente criados, eles mesmos, em santidade. Onde as pegadas de Deus na criagiio haviam sido, uma vez, fonte de confor- to e existéncia propositada, agora eram sinais de julgamento. Em vez de gozar da presenga divina, cada canto do mundo glorioso que havia testemu- nhado a majestade de Deus era, agora, um inferno para a humanidade. Esta tem sido a natureza humana desde a Queda: fugir de Deus e da sua ira. No meio de Israel, Deus determinou se mostrar como santo. Nem mes- mo o menor desvio na adoragio sagrada era tolerado. Recordamo-nos do 46 Deus nas Maos de Pecadores Irados fogo que imediatamente consumiu os filhos sacerdotais de Araéo quando ofereceram fogo sem autorizagado diante do Senhor (Lv 10.1-7), e do julga- mento que reivindicou tantas vidas na rebeliio de Coré (Nm 16). O Salmo 2 € 0 primeiro de muitas “cang6es de guerra” que antecipam 0 julgamento a ser executado pelo Messias. La, Deus € descrito com o rindo no céu, zombando das maquinagées das nagGes pagiis. O Pai diz ao Filho: Com vara de ferro as regerds © as despedagaras como um vaso de oleiro. Agora, pois, sede prudentes: deixai-vos adver- tir, juizes da terra. Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos nele com tremor. Beijai o Filho para que se nao irrite, ¢ no 6 rei perecais no caminho: porque dentro em pouco se the inflamara a ira, (SI 2.9-12) Mas Deus nao é arbitrario em sua ira como um monarca cruel que mal- trata seus stiditos. Em sua bondade, Deus até mesmo se encarrega de derro- tar as forgas que os levantaram contra seu reinado, forgas que escravizam as multidées e criam a injustiga. E importante sabermos que aquele que esté exercendo sua ira é 0 Criador bom, justo e longdnime. A execugiio da sua ira, conseqiientemente, € boa nova para aqueles que so oprimidos pelos inimigos de Deus. “Como espinheiros, antes que vossas panelas sintam deles 0 calor, tanto os verdes como os que estaio em brasa, serio arrebatados como por um redemoinho. Alegrar-se-d 0 justo quando vir a vinganga; banhard os pés no sangue do {mpio. Entdo se dira: Na verdade, ha recompensa para o justo; ha um Deus, com efeito, que julga na terra”. (S1 58.9-11) O crente sabe que merece a ira de Deus tanto quanto o mais vil pecador. “Somos consumidos pela sua ira”, declarou o salmista (SI 90.7). Por qué? “Diante de ti puseste as nossas iniqiiidades e, sob a luz do teu rosto, Os nossos pecados ocultos. Pois todos os nossos dias se passam na tua ira, acabam-se Os nossos anos como um breve pensamento... Quem conhece o poder da tua ira? E a tua célera, segundo o temor que te € devido?” (vv. 8-11) Deus fala em derramar sua ira como se fosse um cdlice de vinho amargo (Os 5.10). No caso de alguém supor que isso seja uma diferenga entre o Antigo e o Novo Testamentos, foi nosso Senhor encarnado que falou mais diretamente sobre a ira ¢ 0 julgamento de Deus. No meio da descrigao do amor incompardvel de Deus em mandar seu Filho, lemos: “Por isso quem 47 CREIO cré no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra 0 Filho nao vera a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36). Do comego ao fim do Novo Testamento, lemos sobre a ira divina e sobre 0 Ultimo julgamento a se realizar no fim dos temp Deus é Infinito e Pessoal Finalmente, Deus é pessoal. Ele nao é uma forga, um principio, uma mera razo de ser ou primeira causa, mas é “Deus, 0 Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra”, Até certo grau, as forgas, como as maquinas, podem ser controladas. Pelo menos podemos prever seus movimentos, mas Deus nao é uma fonte de poder passivo em algum lugar no universo. Ele é infinito e pessoal, porém mais ativamente envolvido no tempo e espago do que todos nés juntos. Ele é transcendente — completamente diferente de nés — porém condescendeu em criar-nos 4 sua imagem e a entrar em um relacionamento conosco falando e agindo na histéria. C. S. Lewis comenta o quanto é perturbador descobrir que o Deus que existe é pessoal: Um “Deus impessoal” — bem e bom. Um Deus subjetivo de be- leza, verdade e bondade, dentro de nossas proprias cabecas — melhor ainda. Uma forga de vida sem forma movendo-se através de nés, um vasto poder ao qual podemos recorrer ~ melhor de todos. Mas Deus mesmo, vivo, puxando do outro lado da corda, talvez aproximando-se de uma velocidade infinita, 0 cagador, rei, marido — este é um assunto bem diferente. Chega um momento quando as criangas que estavam brincando de assaltantes se ca- Jam repentinamente: isso foi realmente som de passos no corre- dor? Chega um momento em que as pessoas que estio trabalhan- do superficialmente com a religiio (“A procura do homem por Deus!”) recuam repentinamente. Suponha que realmente o en- contremos? Nés nunca pretendemos que isso acontecesse! Pior ainda, suponha que Ele nos encontre?!* Embora Deus, 0 Pai, nio seja uma pessoa humana, ele € uma pessoa e possui a identidade de existéncia pessoal, individual. Conseqiientemente, nos dirigimos a ele como “Pai”, como o nosso Senhor nos ensinou a orar. Ludwig Feuerbach, Karl Marx e Sigmund Freud estavam entre os pensado- 48 Deus nas Mdos de Pecadores Irados res modernos que sustentaram que “Deus” era nada mais além de uma projegao dos desejos do eu alienado. A despeito do seu cinismo agndstico, existe uma certa verdade nessa declaragao. Essa é a razao pela qual nossa imaginagao é uma “fabrica de fdolos”: nés realmente nos projetamos 2 nos- sa visio de Deus. Fazemos isso por, pelo menos, duas razGes, penso. Primeira, queremos criar Deus & nossa imagem porque somos pecado- res € queremos um deus que ir nos servir, nao nos julgar. Segunda, nada podemos fazer a nao ser buscar analogias que nos aju- dem a nos relacionarmos com esse Deus descrito na Escritura. Os tedlogos chamam isso de analogia entis, ou analogia do ser. Enquanto Deus é dife- rente de nds, existem algumas similaridades devidas ao fato de que fomos criados 4 sua imagem. Conseqiientemente, nao é inteiramente imprdéprio que tenhamos analogias de Deus a partir de nossa propria experiéncia, des- de que as restrinjamos e testemos pela prépria auto-revelagdo de Deus na Escritura. Nenhum ser humano é mais formativo na nossa construgio de analogia para Deus do que nosso pai terreno. Estou certo de que uma das razGes pelas quais comecei a estudar teo- logia como minha disciplina favorita foi o fato de meu pai ter sido uma analogia positiva. Quando oro, “Pai nosso que estas no céu, santificado seja o teu nome”, nao preciso primeiro parar e distinguir 0 bom Pai no céu das minhas imagens de uma infancia terrivel, como muitas pessoas 0 fazem. A crise da paternidade em nossa sociedade, muito lamentada pe- los grupos seculares e também religiosos, tem seus efeitos no nosso en- tendimento de Deus. Assim como os antropélogos tém demonstrado, as pessoas de cada cultura procuram coisas, ao seu redor, que sirvam de analogias para as verdades invisiveis. No ministério pastoral, tenho visto um bom ntimero de pessoas criadas por pais abusivos ou ausentes que, todavia, foram ca- pazes de cicatrizar suas feridas com a ajuda da doutrina biblica de Deus. Elas aprenderam a entender a ira de Deus como algo diferente do abuso arbitrario e injusto e tém sido capazes de relaciond-la com a sua bondade, justiga e santidade. Todos esses atributos (assim como outros que nado consideramos) sao es- senciais se vamos confessar que cremos em “Deus Pai, Todo-Poderoso, Cria- dor do Céu e da Terra”. Ele é Deus e nao existe nenhum outro. Ele néio com- partilha seu poder e gléria com ninguém e nao depende de ninguém e de nada para sua felicidade, vida, regozijo, ou para a realizag%o dos seus planos. Ele faz todas as coisas perfeitamente e ninguém pode frustrar seus propésitos. 49 CREIO No entanto, a despeito desse poder ilimitado e dessa majestade, Deus é também infinitamente bom e amoroso. Ele nado usa seu poder de forma injusta ou cruel, nem fecha seus olhos a face da rebelidio ou transgressdes contra seu cardater santo. Seu amor nunca é subversivo da sua justiga; sua bondade paternal nunca é expressa de modo a violar sua santidade e sobera- nia. Ele nunca é uma dessas coisas contra as outras, mas € todas elas de uma vez € a0 mesmo tempo. Reduzir Deus ao amor ou a ira, & bondade ou a soberania, a misericérdia ou A santidade, é 0 mesmo que adorar um outro deus de modo geral. Adora- mos ao verdadeiro Deus quando temos diante de nds aquele que € 0 tinico Deus porque possui todos esses atributos conjuntamente, sem imperfeigaio ou melhoria, alteragao. O Pregador nos lembra sobre a importancia de ela- borarmos a nossa teologia antes que as crises de dtivida e sofrimento nos assaltem no conflito da vida: Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que e cheguem os anos dos quais dirs: Nao tenho neles prazer; antes que se escurecam o sol, a lua e as estre- venham os maus di Jas do esplendor da tua vida, e tornem a vir as nuvens depois do aguaceiro; no dia em que temerem os guardas da casa, os teus bragos, e se curvarem os homens outrora fortes, as tuas pernas, € cessarem os teus moedores da boca, por jd serem poucos, e se escurecerem os teus olhos nas janelas; e os teus labios, quais portas da rua, se fecharem; no dia em que niio puderes falar em alta voz, te levantares 4 voz das aves, e todas as harmonias, filhas da misica, te diminufrem; como também quando temeres 0 que & alto, ¢ te espantares no caminho, e te embranqueceres, como flo- resce a amendoeira, e 0 gafanhoto te for um peso, € te perecer 0 apetite; porque vais a casa eterna, e os pranteadores andem rode- ando pela praga; antes que se rompa o fio de prata, e se despeda- ce © copo de ouro, e se quebre o cntaro junto a fonte, e se desfa- a a roda junto ao pogo, e 0 pé volte & terra, como o era, e 0 espirito volte a Deus, que o deu. (Ec 12.1-7) TRES Como Podemos Conhecer a Deus? CRISTO, (CREIO EM JESUS CRIST SO SENHOR. US SEU UNICO FILHO, NO: “Onde esté teu Pai?”, os fariseus perguntaram a Jesus. Aos ouvidos dos fariseus, a resposta de Jesus foi ultrajante: “Nao me conheceis a mim nem a meu Pai... Vés sois c4 de baixo, eu sou 14 de cima; vés sois deste mundo, eu deste mundo nao sou. Por isso, eu vos disse que morrereis nos vossos pecados, porque, se nao crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados” (Jo 8.19-24). Posteriormente, Jesus teve uma conversa semelhante com seus préprios discfpulos: “Se vds me tivésseis conhecido, conhecerfeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e 0 tendes visto”. (Jo 14.7) Essas declaragdes foram surpreendentes. Jesus nado somente alegou ser 0 Gnico através do qual o Pai poderia ser conhecido, mas também que vé-lo era equivalente a ver o Pai. A despeito de uma declaragao tao clara como essa, Filipe ainda tinha uma questo subseqiiente: “Senhor, mostra-nos 0 Pai, € isso nos basta”. Jesus respondeu, “Filipe, hd tanto tempo estou convosco, € nao me tens conhecido? Quem me vé a mim vé 0 Pai; como dizes tu: Mostra-nos 0 Pai?” (Jo 14.8,9). O que significa conhecer a Deus? Os fariseus pensavam que conheciam a Deus. Afinal, eram zelosos pelas boas obras, ansiosos em manter os ritu- ais e regulamentos que haviam se acumulado na tradigao judaica. Mas Je- sus Ihes disse que eles, na verdade, nao conheciam a Deus. Embora clamas- sem serem filhos de Abraao, eram, na verdade, filhos do deménio Jo 8.39,44). Pensando ser os guias espirituais de Israel, eram, na realidade, cegos € destituidos de qualquer justig¢a. Eram inimigos de Deus. Com a avaliagao inflexivel de Jesus em mente, poderia parecer que essa questao de conhecer a Deus é tao mais dificil do que alguns de nds acredi- tamos. Quem nao acha que conhece a Deus? Algumas vezes, esse conheci- 51 CREIO mento presumido de Deus é expresso de forma explicita, como no Hero of a Thousand Faces , de Joseph Campbell. Em outras, é exposto de forma implicita como na oragao nao sectéria. Em cada caso, o pressuposto natural & que Deus é uma entidade geral 14 fora que pode ser conhecida a parte da auto-revelacao particular de Deus nas Escrituras e da pessoa e obra de Cris- to. No entanto, do comego ao fim das Escrituras, som: presentados a Jesus Cristo — por promessa e cumprimento — como aquele no qual e através de quem Deus se torna conhecido. Isso nao é complicado ou dificil; 86 € preciso conhecer a pessoa certa. Resumindo, ninguém conhece ou ado- ra a Deus sem ser através de Cristo. Muitas vezes na histéria de Israel, foi grande a tentagao de seguir as nagdes em seus hdbitos religiosos e culturais. As nagdes mantinham seus deuses préximos. Elas podiam tocd-los e vé-los. Por que Israel tinha de adorar um Deus que era invisivel e nao podia ser tocado? “Nao me poderds ver a face”, disse Deus a Moisés; “porquanto nenhum homem vera a minha face e vivera” (Ex 33.20). Mas a promessa era que, um dia, 0 proprio Deus viria em carne, e que nesse dia seus servos iriam tocd-lo com suas maos, vé-lo com seus olhos e ouvi-lo com seus ouvidos. E agora, um carpinteiro de Nazaré estava anun- ciando, “Quem me vé a mim, vé o Pai... Em verdade, em verdade eu vos digo: antes que Abraio existisse, EU SOU” (Jo 14.9; 8.58). Jesus estava reivindicando, em sua prépria pessoa, os atributos descritos no capitulo anterior. Ele era Deus encarnado: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nds, cheio de graga e de verdade, e vimos a sua gléria, gléria como do unigénito do Pai” (Jo 1.14). Conseqiientemente, Joao podia declarar: “O que era desde o princfpio, o que temos ouvido, 0 que temos visto com os nossos préprios olhos, 0 que contemplamos, ¢ as nossas maos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nds a temos visto, € dela damos testemunho e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com 0 Pai e nos foi manifestada), 0 que temos visto e ouvido anunciamos também a vés outros, para que vés, igualmente, mantenhais comunhio conosco. Ora, a nossa comunhio é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo 1.1-3). Isso est4 muito distante de uma nogdo ambigua de “deus”! Assim como Paulo falou aos atenienses, devemos declarar & nossa cultura: “Pois esse que adorais sem conhecer € precisamente aquele que eu vos anuncio” (At 17.23). E essa explicacao girou em torno do Deus Encarnado. Distintamen- te da especulacao filosdfica grega, a auto-revelagaio de Deus € publica, in- confundivel e simples. Se alguém deseja saber como Deus é, deve olhar 52 Como Podemos Conhecer a Deus? para Jesus Cristo. Ele é Deus em exposig&o. Ninguém pode ver a face da majestade descoberta de Deus, mas em Cristo, Deus escondeu sua majesta- de ¢ se vestiu de humildade. Ele é Deus entre n6: Todas as outras representagoes fisicas do Deus invisivel so como be- zerros de ouro. Mas, apropriando-se de um hino cristao primitivo, 0 apésto- lo Paulo lembrou aos colossenses que: Ele [Jesus] é a imagem [eikon, da qual obtemos a palavra icone] do Deus invisfvel, o primogénito de toda a criaco: pois. nele, foram criadas todas as cousas, nos céus e sobre a terra. as visi- veis ¢ as invisiveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer princi- pados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as cousas. Nele, tudo subsiste ["é consolida- do”]. Ele € a cabega do corpo, da Igreja. Ele € © principio, 0 primogénito de entre os mortos, para em todas as cousas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a ple- nitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus, (Cl 1.15-20). Imagine isso: Jesus Cristo, semelhante a nés em cada aspecto exceto pelo pecado, foi nada menos do que “a exata representagaio do Deus invisi- vel”! S6 podemos adorar ao verdadeiro Deus através dessa pessoa, dessa manifestagao particular de Deus em nossa carne e em nossa hist6ria mundi- al de tempo e espago. Nossa era nao est4 muito interessada em precisio teol6gica. “Deus”, para a maioria dos americanos, é uma pessoa importante em quem devem acreditar, mas néo parece fazer muita diferenca quem ele € ou se aquele a quem adoram como Deus seja 0 préprio. Freqiientemente considera-se temerario que alguém morra ateu, mas uma inquietag&o muito menor é expressa sobre 0 status eterno da pessoa que, embora acredite em “Deus”, rejeita a Cristo. E importante que percebamos que Jesus Cristo nao € simplesmente a mais perfeita expressao da natureza divina, mas que ele é Deus. Fora dele, n&o ha Deus, mas meros idolos de nossa imaginagao. Algumas vezes, até mesmo os crist@os conservadores do a impressio de que nao importa se as criangas nas escolas ptiblicas oram a Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, ou a Ald, ao “Poder Maior”, a Krishna, ao deus finito dos Mérmons, a4 deidade nao Trinitaéria das Testemunhas de Jeova ¢ liberais Protestantes, 53 CREIO ou a luz divina interior. O interesse é simplesmente no fato de que existe algum reconhecimento do lugar de “Deus” na sociedade. “Talvez isso nao seja o Cristianismo tradicional”, escreveu um pastor, “mas é, com certeza, um passo na diregio correta”. Mas, no Antigo e Novo Testamentos, tudo 0 que vai além da adoragio ao verdadeiro Deus é chamado de idolatria; e idolatria nunca é um passo na diregao correta. Adorar a um “Deus” geral € uma coisa ruim. Vamos sim- plesmente ter de perceber que o Cris anismo no considera a religitio como algo benigno e honroso, mas faz reivindicagdes ptiblicas que se opdem di- retamente as de cada rival. A partir da perspectiva crista, a religiao nao é menos temerdria do que 0 ateismo. Procurar conhecer ou adorar a Deus através de qualquer outro modo que pela pessoa e obra de Jesus Cristo &0 mesmo que pedir a irae a confusao. E um Deus tinico que nos é descrito pelo préprio Deus na Escritura e na histéria. Cristo é a chave para se conhecer a Deus. Fora dele, nao haveria mundo, discurso humano, nenhum relacionamento com Deus. Na verdade, fora do Filho, nao haveria Deus algum, uma vez que 0 tinico Deus que realmente existe é a Trindade: um em esséncia, trés pessoas. Essa € a razao pela qual a Escritura descreve a Deus por meio da revelagdo de Cristo em promessa € cumprimento, do Génesis ao Apocalipse. Conhecemos a Deus vendo-o em acio, e toda a histéria biblica & sobre a sua ago em Cristo, prenunciada em promessa e realizada no cumprimento. Nao é “Deus”, mas esse Deus — lavé — que € 0 objeto da nossa adoragiio. No é por meio de experiéncias pessoais, especulando ou tecendo redes de opinides razodveis sobre Deus, que chegamos a conhecer 0 verdadeiro Criador e Redentor, mas localizan- do a acio divina na histéria. Quanto a nés, Deus é bem mais conhecido pelo seu envolvimento em relacionamentos pessoais aos quais ele vincula a sua autoridade, Em outras palavras, Deus é conhecido quando se revela nas Escrituras, nao quando 0 “encontramos” por nds mesmos. A questio nao é “Como Deus deveria ser, dadas as nossas experiéncias ou premissas filos6ficas?”, mas “Como Deus tem, na verdade, se mostrado?” Essa é a razdo pela qual Jesus Cristo — e nao a especulagao filosdfica — deve ser nosso guia a Divindade. Fora Cris- to, nem mesmo a propria Biblia deve nos guiar ao Pai. Embora nosso Salva- dor esteja em todos os lugares das Escrituras, € possivel ler até mesmo a Palavra inspirada de Deus, de um modo que ignore o papel central de Jesus. Essa foi a principal critica de nosso Salvador ao modo como os fariseus liam as Escrituras (Jo 5.39.40). n 2 Como Podemos Conhecer a Deus? Nao se deve pensar em Deus & parte de Cristo por duas razGes: Ele é 0 Filho eternamente gerado, a segunda pessoa da Santa Trindade, e falar so- bre “Deus” € se referir 4 Trindade. Segundo, foi o Filho—nao o Pai ou o Espirito Santo — quem se tornou homem e revelou Deus a humanidade. Isso nos leva ao coragiio de nossa afirmagio nessa linha do Credo: “Seu Unico Filho, Nosso Senor.” O Filho Eterno O credo de Israel foi resumido no Shema: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é 0 nico SENHOR” (Dt 6.4). Eles nao deveriam ter outros deuses (Ex 20.3). Enquanto 0 monoteismo (crenga em um tinico Deus) se encontra no coragiio da religiao biblica, a triunidade de Deus foi mantida a partir do préprio principio. Com certeza, isso se torna mais claro nos capitu- los consecutivos da histéria redentora; todavia, mesmo no ato de abertura do. drama, podemos ver Deus agindo na Divindade tritina. O Pai fala a Palavra, enquanto o Espirito Santo paira sobre a face das 4guas (Gn 1.2,3; Jo 1.1-3). Quando chegamos & criag’do de Addo, lemos: “Também disse Deus amos 0 homem & nossa imagem, conforme a nossa semelhanga” (Gn 1.26). Trés interpretagdes foram oferecidas a respeito do uso do plural, “fagamos” e “nossa”. Alguns argumentam que a referéncia é ao plural de majestade — o “nés real”. Deus, aqui, esta falando como um personagem real. O proble- ma com essa interpretagao é que ela depende inteiramente da convengio da historia e lingua inglesas. Nao temos nenhuma evidéncia de que governa- dores do Antigo Oriente Médio tenham adotado uma convengio gramatical semelhante. Sendo assim, essa interpretagiio nao parece ser plausivel. Uma segunda opiniao é a de que 0 uso do plural se refere a Deus, a seus anjos e as hostes celestiais. Mas, a menos que estejamos querendo dizer que acriagdo 4 imagem de Deus foi, realmente, uma criagdo 4 imagem de Deus e dos anjos, essa interpretagao apresenta problemas. Além disso, essa ima- gem é expressa em dominio, o qual pertence peculiarmente a Deus e nao aos anjos. Mais tarde em Génesis, somos confrontados com o Anjo de Iavé (Jeova), que € descrito com 0 proprio lavé e também distinto de Tavé (Gn 16.7-13; 18.1-21; 19.1-28).” inalmente, o prximo versiculo anuncia: “Criou Deus, pois, o homem a sua imagem, a imagem de Deus 0 criou; homem e mulher 08 criou” (v.27). Por essa razdo, pode parecer que Deus esta se referindo, aqui, a si mesmo 55 CREIO sozinho, mas a si mesmo como uma pluralidade de pessoas. Essa terceira interpretagdo parece ser mais consistente com a narrativa assim como com restante das Escrituras. Temos, em outras palavras, a primeira referéncia a pluralidade de pessoas dentro da Divindade tinica. A base real para a Trindade, assim como para qualquer outra revelagio da natureza de Deus, deve ser encontrada na agio divina, ndo na contem- plagio abstrata da natureza divina. Conseqiientemente, a doutrina da Trin- dade, embora revelada um tanto obscuramente no Antigo Testamento, € claramente exposta na obra da redengao quando culmina no envio do Filho e, em seguida, no derramamento do Espirito. Primeiro, o Novo Testamento reconhece a identificagio do Redentor de Israe] no Antigo Testamento como ninguém mais do que o prdprio Iavé e, entao, aplica essa identidade ao homem Jesus Cristo (Mt 1.21; Le 2.11; Jo 4.42; GI 3.13; 4.4-5; Fp 3.20; Tt 2.13-14). Como Louis Berkhof mostra, 0 Antigo Testamento apresenta lavé como habitando os coragdes do seu povo (S174.2; 135.21; Is 8.18; 57.15; Ez 43.7-9; JI3.17, 21; Ze 2.10-11), enquan- to o Novo Testamento aplica isso especificamente ao Espirito Santo que habita na sua igreja (At 2.4; Rm 8.9-10; 1 Co 3.16; Gl 4.6; Ef 2.22; Tg 4.5). Deus envia o filho (Jo 3.16; G1 4.4; Hb 1.6; | Jo 4.9), e tanto 0 Pai quanto 0 Filho enviam o Espirito (Jo 14.26). No batismo de nosso Senhor, hd a voz do Pai pronunciando sua béngaio sobre 0 Filho, com a presenga adicional do Espirito Santo em forma de uma pomba. Uma referéncia ainda mais direta 4 Trindade é encontrada na formula batismal, em que o sacramento deve ser efetuado em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo (Mt 28.19). Primeira Corintios 12.4-6, 2 Corfntios 13.14, e | Pedro 1.1 também se referem ao Pai, ao Filho, e ao Espirito Santo. Na sua propria vida e ministério, Jesus estava ciente da sua eterna filia Em Mateus 11.27, ele diz de si mesmo; “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senao 0 Pai; e ninguém conhece 0 Pai senao o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. A Grande Comissio proce- de da prépria pessoa de Cristo: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18). Isso, claramente, é uma violagdo do coragao da fé de Israel (i.., monotefsmo), a n&o ser que Jesus Cristo seja quem ele reivindi- cava ser: Deus, o Filho em carne. “Ora, ninguém subiu ao céu”, disse Jesus, “senao aquele que de 14 desceu, a saber, o Filho do homem [que esté no céuJ” (Jo 3.13). Vemos, mais uma vez, a importéncia de vir a conhecer Deus através das suas agGes histéricas quando Jesus diz: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jo 5.17). Isso nao quer dizer que 0 Pai 56 Como Podemos Conhecer a Deus? estava de férias, mas que o papel do Filho na historia redentora tinha, entao, assumido um significado mais direto. O Pai planeja a nossa redengao, o Filho a garante e o Espirito Santo a aplica. Os protestantes liberais tentaram atenuar tais passagens dizendo que Jesus supunha ser 0 Filho de Deus da mesma forma que todos nds somos filhos de Deus. Mas o ptiblico original de nosso Senhor nao tinha dificulda- de para compreender seu significado: “Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam maté-lo, porque nao somente violava o sébado, mas também dizia que Deus era seu préprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (v. 18). Isso nao foi simplesmente uma espécie de antincio que os jovens judeus faziam circulando pela cidade! Nao foi visto como uma referéncia benigna e ami- gavel 4 paternidade universal de Deus e irmandade do homem, mas como uma declaragio de nada menos do que igualdade com Deus. Como Jesus respondeu a percepgio deles? Ele disse, “Esperem um mi- nuto! Vocés me entenderam mal”? De modo aigum! Ele disse: Pois assim como 0 Pai ressuscita e vivifica os mortos, assim tam- bém 0 Filho vivifica aqueles a quem quer. E o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo o julgamento, a fim de que todos hon- rem 0 Filho do modo por que honram o Pai. Quem niio honra 0 Filho nao honra o Pai que 0 enviou. (vy. 21-23, énfase adicionada) Estas palavras, “do modo por que”, séo inconfundiveis. Jesus estava alegando que era igualmente digno de adoragao divina da mesma forma como 0 préprio Pai. “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.36). A presenga de Jesus entre nés é a propria presenga de Iavé, nosso Criador e Redentor que se incumbe pessoalmente de nos resgatar. Jesus Cristo era e é “a imagem do Deus invisivel” (Cl 1.15). Isso nos leva a segunda afirmagao nessa linha do Credo. O SENHOR Soberano O Evangelho de Mateus descreve uma cena extraordinéria: Reunidos os fariseus, interrogou-os Jesus: Que pensais vés do Cristo? De quem € filho? Responderam-Ihe eles: De Davi. Repli- cou-lhes Jesus: Como, pois, Davi, pelo Espirito, chama-lhe Se- 57 CREIO nhor, dizendo: Disse 0 Senhor ao meu Senhor: Assenta-te & mi- nha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés? Se Davi, pois, Ihe chama Senhor, como é ele seu filho? E ninguém Ihe podia responder palavra, nem ousou alguém, a par- tir daquele dia, fazer-lhe perguntas. (Mt 22.41-46) Conhecendo sua linhagem terrena, os fariseus reconheceram que Jesus pertencia 4 casa de Davi, como a Escritura profetizara sobre 0 Messias. Jesus, entao, apresentou-lhes um enigma: no Salmo 110.1, Davi esta se re- ferindo ao Filho futuro que, nao obstante, j4 existe como seu Senhor! Como. pdde Davi chamar um de seus descendentes de “Senhor”? E natural que os fariseus esti vessem totalmente amarrados em vista des- sa questo teoldgica! Eles tinham reconhecido Jesus como um descendente de Davi, mas identificd-lo como 0 “Senhor” de Davi? Isso seria identificar Jesus como nada menos do que o Mesias, aquele que se senta a destra do Pai até seus inimigos serem feitos seus escabelos. Qualquer que fosse a conclusio sobre Jesus, os fariseus tinham de admitir 0 argumento de que o descendente messianico futuro de Davi (quem quer que fosse) era seu Se- nhor existente e presente. Como vimos, Jesus, em outra passagem, identificou-se como o “EU SOU” do Antigo Testamento (Jo 8.48-59); 0 auto-existente, auto-suficien- te, onipotente, onisciente, santo, justo, amoroso, zeloso, misericordioso, ir: do, bom Deus de Abraao, Isaque ¢ Jacé. Aténitos com esse antincio, os judeus indagaram: “Es maior do que Abraao, 0 nosso pai, que morreu? Tam- bém os profetas morreram. Quem, pois, te fazes ser?” Nosso Senhor respondeu dizendo que o Pai o honrava. Mais ainda, ele disse: “Abraao, vosso pai, alegrou-se por ver 0 meu dia, viu-o e regozijou- se... Em verdade, em verdade eu vos digo: antes que Abraio existisse, EU SOU” (vv 58). Mais uma vez os judeus nao tiveram problema em enten- der as alegagdes de Jesus: “Entao pegaram em pedras para atirarem nelez mas Jesus se ocultou e saiu do templo” (v. 59). Os Ifderes judeus entendiam Jesus muito melhor do que os protestan- tes liberais de hoje. O Jesus proclamado pelos liberais é um tanto benig- no. Ele é simplesmente um exemplo superior de alguém que possufa uma consciéncia de Deus ao extremo, dificilmente o tipo de alegagio que po- deria causar exaltagao. O Novo Testamento afirma a fé do Antigo Testamento em um Deus (por exemplo, 1Co 8.6; 1Tm 2.3), mas afirma com clareza, “porque aprouve a on Ss Como Podemos Conhecer a Deus? Deus que, nele, residisse toda a plenitude...” (C] 1.19). Somos informados de que devemos aguardar pacientemente “a bendita esperanca e a manifes- tagio da gléria do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tt 2.13). Nos primeiros escritos do Novo Testamento, as testemunhas apostélicas da divindade de nosso Salvador proibiram claramente a tendéncia dos teolégos modernos de separar o Jesus da histéria do Cristo da fé. Isto, como se a “invengio” de Paulo de Jesus como Deus fosse diferente do Jesus Cristo descrito pelos préprios discfpulos. Se alguém deseja negar a divindade de Jesus, os Evangelhos também devem ser renunciados. Mais do que isso; o Antigo Testamento também é igualmente insistente em que aquele que viria e garantiria a redengao seria nada menos do que o proprio lavé. O Cristianismo depende inteiramente da divindade de Cristo, assim como a antecipagio do Antigo Testamento. Se Jesus nao é quem disse ser, ndo é, também, um guia Util ou um exemplo singular para o que significa ser filho de Deus. Antes, é um dos maiores charlatées da hist6ria, um homem que se iludiu e que, na verda- de, foi culpado da maior blasfémia, justamente como os judeus disseram. Nada do que nosso Senhor diz sobre si mesmo, ov que os apéstolos di- zem sobre ele, é desconexo dessa alegagio de divindade. Conseqiiente- mente, aqueles que tomam 0 que querem do Novo Testamento (Beatitudes, o Sermio do Monte, etc.), nao tém raz%o em acreditar que suas sobras estimadas de Cristianismo tém mais validade do que os delirios de um mascate religioso. Quando 0 Novo Testamento, por essa razao, atribui 0 titulo de “Senhor” a Jesus Cristo, 0 propésito é claramente teolégico, Nao sao boas maneiras, mas a afirmagiio da divindade de Cristo que leva os apéstolos a dirigirem- se dessa forma a ele. Devemos guardar na mente que os préprios apéstolos eram judeus. Na verdade, Paulo era um judeu da mais alta ordem académi- ca e religiosa. Cada um deles sabia 0 que “Senhor” significava como um titulo, e, ousadamente, o aplicaram a Jesus de Nazaré. Jesus era 0 mesmo Senhor que trouxe o mundo a existéncia (Jo 1.1) e que o sustenta pelo seu poder (CI 1.17), Foi ele quem apareceu em sua condigao pré-encarnada aos santos do Antigo Testamento. Afirmar, simul- taneamente, a crenga em um Deus (1Tm 2.5) e a crenga de que Jesus é Deus (Tt 2.13) € 0 mesmo que confessar a fé no senhorio do Filho como uma expressao necessdria da sua natureza, nfo meramente como um exer- cicio ou papel. Existe um Deus, mas trés pessoas na Divindade: trinda- de em unidade. 59 CREIO O Que Isto Tem a Ver Conosco? Os mirtires cristdos primitivos morreram no por causa de uma expe- riéncia que tiveram; nem por princfpios morais ou religiosos e idéias filos6- ficas, mas por causa do aniincio de um envolvimento pessoal de Deus nos assuntos humanos. Nao era um “Deus-em-geral” que tinham em mente — 0 “Deus Desconhecido”, sem nome, sem face, de Atenas. Era esse Deus par- ticular conhecido em Jesus Cristo. Suas vidas se penduravam no balango de duas palavras, Christos Kyrios: “Cristo é Senhor”. Se tivessem simplesmente renunciado a essa alegagio a respeito do senhorio universal e deidade de Jesus Cristo, poderiam ter crido, reivin- dicado ou praticado o que quer que desejassem. Poderiam ter prossegui- do buscando prosélitos, ajudando a construir fibra moral, e continuando com seus rituais interessantes e até misteriosos. Tudo o que tinham a fazer era desistirem dessa particularidade inflexivel — a convic¢do de que Jesus era a tinica auto-revelacdo personificada de Deus, Salvador e Senhor, 0 tinico caminho verdadeiro de salvagio. Tudo o que tinham a fazer era negar que, a parte dele, todas as pessoas estavam eternamente perdidas. Tudo insistia nesse simples tema: as testemunhas cristas e suas préprias vidas. Hoje, algo muito mais sutil do que ledes e imperadores lundticos ameaga essa afirmagio crista. Nosso “cativeiro Babilénico” assume a forma da modernidade, 0 espirito da época que tem moldado o mundo em que vivemos. Quando o Iluminismo convenceu os homens e as mu- Iheres que as reivindicagdes de verdade religiosa pertenciam ao domi- nio do mistico, do “além” e do impenetravel, grande parte da igreja reduziu a “verdade” a mera “opiniaio”. “Para mim, Cristo é Senhor” substituiu a confissao inflexivel dos martires. O titulo de Jesus tornou- se “meu Senhor e Salvador pessoal”, em vez de Senhor e Salvador. Em outras palavras, as alegagdes objetivas da verdade foram reduzidas a alegagdes subjetivas de experiéncia. No inicio deste século, William James disse que o teste de uma alega- ao de verdade religiosa é “seu valor em termos experimentais”. Em outras palavras, vai funcionar? O pragmatismo faz sentido como um modo de jus- tificar as alegagdes somente se nao houver acesso as explicagGes racionais, cientificas ou histéricas. E é precisamente isso, 0 que a mente moderna conclui sobre as alegagoes religiosas. O missiondrio indiano e bispo Lessli Newbigin descreve essa substituigao da verdade pela opiniao: 60 Como Podemos Conhecer a Deus? Certamente, nao tem mais do que cem anos desde que as criangas nas escolas escocesas aprenderam, cedo na infaincia, o fato de que “o fim principal do homem era glorificar a Deus e gozé-lo para estrelas € sempre”. Isso era tio verdadeiro como o movimento d: a Batalha de Bannockburn. Hoje, isso nao é tido como fato. Pode ser incluido na apostila de estudos religiosos, juntamente com as crengas de budistas, hindus, e mugulmanos; porque é “fato” que algumas pessoas tém estas crengas. Mas, em si mesmo, nao é um fato; é uma crenga que algumas pessoas sustentam.” O abismo entre “Sabemos” e “Cremos” ficou ainda maior na subversio do certo e errado em favor da vontade do fildsofo alemao Friedrich Nietzsche. Conseqiientemente, a escolha pessoal reina. “Os valores” substituiram a “verdade” e a “preferéncia” aos “fatos”. O pensamento moderno concluiu que ou a nossa mente descobre ou impée uma estrutura sobre a realidade (racionalismo, idealismo), ou é uma lista em branco sobre a qual a realida- de escreve as suas verdades (empiricismo). Nao é s6 0 abismo entre Deus e © mundo observavel que se assume na modernidade, mas um abismo entre o conhecedor e 0 que é conhecido (i.e., sujeito e objeto). Enquanto 0 racionalismo e 0 idealismo prometiam um conhecimento de tudo, os pensadores pés-modernos, que esto agora repudiando esse em- preendimento falho, freqiientemente se divertem em um agnosticismo “jo- coso” com relagao a qualquer significado e verdade definitiva. Isso esté refletido em uma apreciagao saudavel pela finitude humana, mas também assume a forma de ceticismo: a crenga de que ninguém pode realmente conhecer qualquer coisa exceto pelos préprios sentimentos subjetivos e opi- nides. Em outras palavras, nao € s6 a religido que foi transferida do dominio da verdade para o da opiniao. Essa falacia se aplica a todo o conhecimento. Isso, naturalmente, pode funcionar para fildsofos e cientistas sociais, antropélogos, especialistas literdrios e outros teéricos. Mas, até mesmo es- sas pessoas prosseguem lendo livros de hist6ria como se eles transmitissem alguns detalhes acurados de outros tempos. Ainda esto consultando jor- nais cientificos para os resultados de experimentos e estudos. O senso co- mum opera em um nivel mais profundo do que a especulagio sofisticada, e ninguém pode escapar disso — nem mesmo 0s fildsofos que consideram o senso comum como uma nogio fora de moda. Varios filésofos de ciéncia, em anos recentes, conduziram algumas dis- cussGes tteis sobre esse t6pico, muitos deles influenciados por Michael 61 CREIO Polanyi.”! Como um relativista moderno ou pés-moderno pode nivelar as acusagGes de inadequabilidade ou tolice? Existem certas coisas que até mes- mo 0 cientista mais dedicado assume antes que possa sequer comegar a duvidar de outras coisas. Por exemplo, ja foi provado que o mundo existe objetivamente ¢ nao simplesmente como uma projegdo da mente humana? Cremos que outras pessoas existem além de nés mesmos. Mas alguém pode provar essa suposigio? Algum experimento j4 provou que o mundo é racional e aberto a in- vestigagao critica? Como podemos estar certos de que as regras da ldgica fio verdadeiras? Como podemos confiar nos nossos sentidos na percep- cdo da realidade? Os cientistas avangaram porque assumiram essas coi- sas, ¢ foi somente pela pressuposic¢ao dessas hipéteses nao provadas que puderam, ent&o, comegar a investigar e duvidar de outras coisas. Aqueles que comegam e terminam com divida, conseqiientemente, nao tém base para a propria divida. Deve-se crer em algumas coisas a fim de duvidar ou desacreditar de outras. Com certeza, nao podemos conhecer tudo, e mesmo 0 que conhecemos, conhecemos em parte. Isso, afinal, é dito na Escritura: “Porque, agora, ve- mos como em espelho, obscuramente, ent&o, veremos face a face. Agora, conhego em parte; entéo, conhecerei como também sou conhecido” (1Co 13.12). Todavia, conhecer em parte nao é o mesmo que nao conhecer nada. O Evangelho Segundo Kant Immanuel Kant foi, talvez, 0 mais importante fildsofo moderno. Kant acreditava que existia um domjnio invisivel ao qual nenhum de nés tem acesso. Esse domjnio, que inclui Deus, nao pode ser observado empirica- mente nem provado racionalmente. Todavia, temos de acreditar nele; de outra forma, como poderiamos acreditar em moralidade? Newbigin € ttil nessa questao: Aos seguidores de Kant, pode-se colocar essa questo: “Como vocé sabe que o ntimeno incognoscivel existe? E aquele que diz que toda a verdade de Deus nao pode ser descoberta em Cristo Jesus, 0 cristo pode perguntar honestamente, “Qual é a fonte de conhecimento que Ihe diz isto?” Como aquele que duvida pode saber tanto sobre o incognoscivel?... Mas a busca é séria apenas 62 Como Podemos Conhecer a Deus? se aquele que busca estiver seguindo algum indicio... O relativismo que ndo deseja falar sobre a verdade. mas somente sobre “o que é verdade para mim” é uma evasio do assunto sério que é a vida. E uma marca do trégico desiinimo em nossa cultura contemporanea. E um sintoma preliminar de morte.” O Cristianismo nao pode existir como uma opiniao uma vez que é um clamor de verdade universal; verdade publica, nao sentimento privado. Di- ferentemente de outras religides, o Cristianismo cai no esquecimento quan- do insiste em que suas alegagdes sobre como Deus é, como nés somos, e como Deus se revelae salva sao hist6ricas por natureza. Quando, por exem- plo, um budista alega a crenga no Nirvana, ou quando um hindu alega a crenga na reencarnagao, essas alegagGes ndo so questionadas com base num conhecimento ao qual todos tém acesso. Para ser um mugulmano, deve- se simplesmente aceitar que Maomé é 0 profeta de Deus e que 0 Alcordo € inspirado. Mas 0 Cristianismo diz que algo aconteceu na histéria que per- tence ao registro piblico, como qualquer outro evento histérico. A vida, a morte, a ressurreigao, a ascensio e o retorno de Jesus Cristo nao so ligdes morais ou espirituais titeis, mesmo se nao tivessem realmente acon- tecido, E seu carter hist6rico é que faz com que a alegagiio da verdade religi- osa seja valida. Se eu dissesse que havia descoberto a cura do cancer quando, na verdade, havia descoberto somente o quanto o puiblico é ingénuo quando se trata de uma cura pela qual procuramos desesperadamente, nao haveria forma de tornar verdadeiro 0 meu anincio falso. Meus alunos poderiam defender a minha alegagao dizendo que ela representava o desejo universal por tal cura e, afinal, tinha dado ao mundo uma esperanga renovada para 0 que poderia acontecer se todos trabalhassem duro o suficiente. Mas nada poderia salvar tal antincio falso do desprezo e escarnio do puiblico. Similarmente, quando os interesses estao tao altos, Jesus e seus apdsto- los (até os profetas que predisseram a sua existéncia séculos antes) nao podem ser perdoados se suas alegacGes histéricas forem falsas. Nao existe salvagiio da religiao cristé por meio de apelos a razdo universal ou 4 expe- riéncia sendo, de algum modo, ilustrada por essas alegacoes. O liberalismo moderno insiste que 0 importante na religiaio sao as idéi- as — verdades universais que sao superiores e se encontram acima das ale- gagoes historicas da Biblia. Deus pode ou nao ter criado o mundo do nada; pode nao ter havido um Adao histérico que foi criado a imagem de Deus e imergiu a raga no julgamento e na depravagio; o Exodo pode nunca ter 63 CREJO realmente acontecido exceto na imaginacao religiosa vigorosa dos judeus antigos; um rabi judeu pode nunca ter sido corporalmente ressuscitado de entre os mortos na Palestina no século I. Todavia, os liberais modernos insistem que esses “mitos” sao importantes porque ilustram algo que é ver- dadeiro e significativo: idéias, princfpios, desejos e esperangas. A Biblia pode ser mais uma revelacio das aspiragées religiosas dos seres humanos do que uma revelagao do carater de Deus e da sua atividade na histéria. No entanto, afirmam que isso nao significa que ela seja um guia insignificante para a vida religiosa e moral. Mas no podemos aplicar critérios de julgamento a uma religifio que se opée a tais critérios como estranhos. O Cristianismo baseia todas as suas alegagGes em eventos puiblicos. Se esses fatos nao aconteceram, nao existe razao para acreditarmos que o Cristianismo seja um guia de confianga para qualquer coisa exceto as reflexdes desencaminhadas de uma seita extraor- dinariamente iludida. Veremos isso em maiores detalhes quando discutir- mos a Ressurreigao. A alegagio de Jesus Cristo como o Filho eterno do Pai e Senhor do universo nao é apenas uma declaragao de crenga privada; é uma declaracao de verdade publica. Em um mundo cujas visdes se assemelham bastante ao relativismo pluralista de Atenas e Roma antigas, verificamos que nossa men- sagem ainda é “tolice para os gregos e escindalo para os judeus”, Nada mudou nessa frente de batalha e devemos, ainda, estar desejosos de firmar- mos nossas vidas nessas duas palavras: Christos Kyrios. A parte dessa con- fisso, nada mais é importante. “Pela Fé, através do Espirito Santo” Em maio de 1934, um grupo de tedlogos e pastores luteranos e reformados se juntaram para confessar a fé diante da oposigao que nao era diferente do fogo confrontado pelos martires do século I. Esse ajuntamento foi chamado de Sinodo Confessional da Igreja Evangélica Alem, reunido porque o grupo acreditava que, somente através da confissao de fé, podiam ser 0 sal que nao perderia seu sabor e se tornaria parte do perverso Reich de Adolf Hitler. A essa altura, a Igreja Evangélica da Alemanha, dominada pelo libera- lismo e pietismo, tinha chegado a ponto de considerar as doutrinas como obstaculos divisores da experiéncia cristé genuina e unidade nacional. Mui- tos dos seus principais tedlogos e lideres zombavam das alegacGes de ver- 64 Como Podemos Conhecer a Deus? dades crist&s com suas préprias alegagdes de conhecimento universal atra- vés do idealismo filoséfico e do racionalismo. E sua versio “iluminada” do Cristianismo como sentimentalismo religioso e moral fez com que fosse possivel, para eles, a adogio oficial dos dogmas nazistas, seguir a Hitler como lider, e mudar o nome da Igreja Evangélica para a Igreja do Reich. Em oposicao a essa apostasia, o Sinodo Confessional esbocou a Decla- ragéo Barmen. O preambulo declarava: “Em opo: as tentativas de esta- belecer a unidade da Igreja Evangélica Alema através de falsa doutrina, pelo uso da forga e praticas insinceras, 0 Sinodo Confessional insiste em que a unidade das Igrejas Evangélicas na Alemanha s6 pode vir da Palavra de Deus, pela f€, através do Espirito Santo”. - Oartigo primeiro do Sinodo insistia: “A fundagio inviolavel da Igreja Evangélica Alema € 0 Evangelho de Jesus Cristo como atestado a nés na Santa Escritura e trazida 4 luz novamente nas Confiss6es da Reforma... Estamos unidos pela confissio de um Senhor da tinica, santa, catdlica e apostolica igreja”, diziam. Quando um dos lideres do Sinodo Confessional encontrou-se com Hitler, informou ao ditador que a igreja tinha somente um rei e um messias. Preso pouco tempo depois pela Gestapo, o Pastor Martin Nieméller foi absolvido pela corte, mas enviado imediatamente a Sachsenhausen e Dachau como “prisioneiro pessoal” de Hitler. Embora tenha sido libertado pelas tropas aliadas em 1945, varios outros pastores confessionais nao tiveram a mesma sorte. Entre eles estava 0 mértir Dietrich Bonhoeffer. “Minhas Joias... Meu Vestido Festivo” Para 0s lideres do Sinodo Confessional, confessar a Cristo como 0 Filho de Deus e nosso Senhor nao era apenas um assunto de consentimento oficial para os ensinos da igreja. Envolvia aceitar pessoalmente o préprio Jesus Cristo, Em um sermao sobre a parabola de Jesus sobre as vestes nupciais, Nieméller atacou a idéia de que o grande inimigo do Cristianismo era 0 ateismo e a imoralidade. “Esse € um pensamento criado pelo homem, mas nao serviré no momento em que Deus nos abordar: ‘Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial?”” A veste nao é um assunto de indiferenga para ele. Precisamos nos arrepender — despirmo-nos de nossa velha veste de hipocrisia, que € realmente pecado, e acreditarmos em Cristo — que é nos vestir da sua justiga. “Queridos amigos”, disse Niemédller, “essa é a tentagao real para nds, cristaos da igreja: 6: a CREIO Nao falo daqueles que vém & igreja para ouvir algo especial ou interessante, algo que ndo est nos jornais. “Verdadeiramente, eles tiveram a sua recompensa.” Também nio falo aos que vém para espionar, para prenderem o Senhor Jesus Cristo e cravarem- no na cruz. Esses, também, tm a sua recompensa. Estou pensan- do em nés que viemos muitas vezes e ndio pudemos decidir a dizer adeus & nossa hipocrisia, a fim de sucumbirmos totalmente a graca misericordiosa de Deus. “Muitos so chamados porém poucos sio escolhidos.” Pertencemos — niio, vocé pertence — no, eu pertengo a estes poucos escolhidos, que constroem sua esperanga e confianga totalmente na graga porque sabem que Cris- to, o Senhor, ganhou a graga de Deus por nés, na cruz? Que Deus possa nos ajudar, oramos, a crer e a professar nossa creni precioso sangue de Cristo e a sua justiga Sio as minhas jdias, o meu vestido festivo. Vestido neste glorioso manto de graga Ousadamente encontrar-me-ei perante a face de Deus.** No final das contas, confessar “Creio em Jesus Cristo, tinico filho [de Deus], nosso Senhor” nao é simplesmente conhecer a verdade e aceitd-la como uma verdade ptblica, mas confiar na pessoa que vem a nds envolta nas promessas e declaragdes das Escrituras. O diabo € bastante ortodoxo. Diferentemente daque- les que seduz, ele nunca questiona a deidade ou senhorio de Cristo como verda- des objetivas, uma vez que, mesmo agora, as cadeias chocalhantes que 0 pren- dem a sua cela escura o lembram dessas verdades. Mas fé em é mais do que fé que. Muitos dos que serao condenadas no ultimo dia criam na doutrina correta, mas nunca permitiram que essas verdades preciosas os conduzissem pela mio a pessoa sobre quem falavam tio elogiientemente. Confiamos em Cristo como Senhor universal ¢ nosso préprio Rei Re- dentor? Sua deidade eterna deve banir para 0 exilio todos os principes ri vais. Sua reivindicagao ao titulo real sobre 0 céu e sobre a terra deve rece- ber a nossa mais completa homenagem. Individualmente, isso significa que devemos declarar guerra aos nossos préprios coragdes pecaminosos e con- tinuar nessa batalha, por mais que falhemos, até estarmos salvos no outro Jado da frente de batalha. Corporativamente, isso significa que devemos destronar as forgas da modernidade que trabalham contra 0 reino de Cristo, mesmo quando elas nos prometem os reinos deste mundo. 66 Como Podemos Conhecer a Deus? Nao podemos mais permitir que politicos, métodos de marketing, pragmatismo e os apelos do consumismo, da terapia ou da experiéncia reli- giosa abstrata e especulagao reinem na igreja. Como nosso profeta supre~ mo, apenas a palavra de Cristo deve ser crida e obedecida. Como nosso sacerdote supremo, devemos confiar exclusivamente na sua redencao, jus- tificag&o e obra santificadora. Como nosso Rei supremo, sua vontade reve- Jada deve, exclusivamente, guiar e dirigir a missao e os métodos da igreja. Assim como ele libertou seu povo da escravidao no Egito e 0 conduziu através do seu comando soberano, assim também podemos somente crer em Jesus Cristo, tendo-o como Filho de Deus e nosso Senhor, porque ele nos tomou para si mesmo como seu povo pactual. Rodeados pela nuvem de testemunhas na arena celestial, possamos nds também receber a graga de Deus para confessar, “Jesus Cristo é Senhot para a gloria de Deus, o Pai. , pelo poder do Espirito Santo, 67 OUATRO E se Deus Fosse Um De Nos? .-QUE FOI CONCEBIDO POR OBRA DO ESPIRITO SANTO, NASCEU DA VIRGEM MARIA. Num grande sucesso das paradas de rock de 1996, “What If God Was One of Us” (E se Deus fosse um de nés), Joan Osborne imaginava em voz alta como seria encontrar-se com Deus em um 6nibus. E se ele fosse “sé um pateta como todos nés”, tentando chegar em casa depois do trabalho? Vocé realmente acredita que Deus foi um de nds? Esta liqiiidado o fato de que o Criador e Governador Todo-Poderoso, o Filho Eterno e Senhor Soberano, tornou-se de fato “um de nds” e assim permanece até esse exato momento? O Conto das Duas Sementes A hist6ria surpreendente da encarnagao de Jesus comega nos primeiros capitulos do Génesis. Quando Eva deu 4 luz o primeiro filho, o chamou de Caim (“Aqui Esta Ele”), provavelmente pensando que este fosse o filho prometido que iria esmagar a cabeca da serpente e abater a maldi¢ao. De- pois do julgamento ter sido pronunciado, o Evangelho é anunciado apaixo- nadamente: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendéncia e o seu descendente”, disse Deus a serpente. “Este te ferira a cabega, e tu Ihe ferirés o calcanhar” (Gn 3.15). Daquele momento em diante, a serpente comecou sua luta histérica para frustrar o avanco da linhagem messianica. Se ela pudesse, de algum modo, esconder-se nas sombras e levantar as nagdes contra a Jinhagem pactual e interceptar até mesmo um elo na cor- rente de sucesso da semente, talvez pudesse destruir as intengdes redento- ras de Deus. Melhor ainda, se 0 diabo pudesse somente corromper a linha- gem da descendéncia, conduzindo a dinastia da fé 4 apostasia e ao casa- mento com os filhos e filhas dos incrédulos, nao sobraria nenhum para car- regar. a esperanga messianica. 69 CREIO Vemos exemplos de ambas as estratégias nos capitulos seguintes de Em Génesis 4, Caim mata Abel, o primeiro profeta de Deus depois da queda de Adio, como 0 préprio Jesus reconheceu (Mt 23.35). “Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrificio” (Hb 11.4), entao Caim mata seu irmao por causa do édio. Lucifer teve sucesso ao zombar da promessa de Deus? Nenhum. No lugar de Abel, Deus envia Sete, cujo nome significa “O Eleito”. Sete iria carregar a tocha para a outra geragao. E quando as duas genealogias sao colocadas lado a lado no fim do capitulo, a linhagem de Caim é descrita pelas suas realiza- Ges terrenas na cidade do homem, enquanto que a de Sete é distinguida pelo antincio, “dai se comegou a invocar o nome do SENHOR” (Gn 4.26). A despeito das novas esperangas levantadas pelo novo filho, a linhagem da familia de Sete, finalmente, se tornou menos interessada em Deus do que no sucesso terreno. Enquanto as geragGes passavam, eles se tornavam crescentemente corruptos. “Como se foram multiplicando os homens na terra, ¢ hes nasceram filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, toma- ram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhe agradaram” (Gn 6.1,2). Eva tomou 0 fruto quando viu “que a drvore era boa para se comer, agradavel aos olhos, e drvore desejavel para dar entendimento”. E agora os filhos de Deus viram que as filhas dos homens “eram muito bonitas”. Fi- Thos nasceram dessa unido entre os filhos de Sete e os de Caim e 0 povo nio era mais santo, separado para 0 Senhor. A serpente havia triunfado no final? Noé foi um “filho de Deus” que ainda era fiel ao pacto da graga. Embo- ra fosse um pecador que s6 podia se colocar diante de Deus por causa da misericérdia divina, Noé “caminhava com Deus”. “Pela fé, Noé, divina- mente instruido acerca de acontecimentos que ainda nao se viam e sendo temente a Deus, aparelhou uma arca para a salvaciio de sua casa; pela qual condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiga que vem da fé” (Hb 11.7). Satands havia perdido outro jogo. Depois do diltivio, Cam, filho de Noé, foi expulso da familia pactual as- sim como Caim havia sido; mas Sem, 0 filho crente de Noé, se tornou o herdeiro da promessa. Deus também prometeu trazer os descendentes de Jafé, irm&o de Sem, para as tendas de Sem. Aqui temos uma promessa primitiva de trazer as nagGes gentias para a igreja. Sem se tornou o pai dos povos semiticos, mas sua linhagem também se tornou ao fim corrupta até que sobrou apenas um homem: Abrao. Deus encontrou Abrao em Ur dos Caldeus, uma terra cheia de superstigéo. Essa linhagem divina, incluindo o pai de Abra, tinha se tornado tao apéstata que havia adotado a adoragao paga a lua. 70