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J

ROGER

BASTIDE

ARTE · , E . SOCIEDADE

,

f!

. ~

m 570

i lB326,

Tradução de

GILDA DE MELLO E SOUZA

DEDALUS - Ace r vo - FFLCH-HI

Arte e soc i edad e /

IIIIII*IIIIIIII~IIIII~I!~~~~~~!~~IIIIIIIIIIIIIII

i

~

II -

S8D-FFLCH-USP

LIVRARIA MARTINS EDITOR4

Rua - 15 de Novembro,

195 -- São Paulo

t ~~OD

)

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j

A SÉRGIO MILLIET.

soc iól o g o e crítico

de arte, ê ste

pequeno livro de estética socio- lógica.

cNQ

1213 *

. /

Este livro é o resumo muito sintético

du m

curso rea l izado

Ciências e Letras da Univers i dade

Paulo em 1939 e 1940. Cum , pre - me agradecer

aqui a co l aboração de Gilda de Me ll o e Souza,

na Facilidade

de Fil osofia,

de São

que o tradu z iu

para o português

.

< ,

faculdade' ~e ~OSOfli Ciências l tras

Blbliotec

' ntrll

IN T R O DUÇÃO

O PROBLEMA DOS V ALOR E S, A ESTÉTICA E A SOCI OL OGI A

E ' c o nhecida

a dis ti nção entre

os juizos de reali-

dade, que explicam aquilo que é e os juizos de valor, que avaliam e manifestam preferências. Com êstes úl- timos nós nos desprendemos do mundo concreto para nos colocarmos num mundo ideal, que tanto pode ser criação do nosso , desejo como da nossa vontade ou do nosso amor. Kant já distinguia a dignidade da pessoa humana, valor moral, o preço da afeição, valor esté- tico, e o preço do mercado, valor econômico (1). Um

século mais tarde fundava - s ' e a axiologia ou teoria dos valores, a qual, no entanto, não mudará os dados do problema, já esboçados na classificação kantiana: a es- tética faz parte da axiologia, deve por conseguinte obe- decer às s u as leis gerais da mesma forma que a mo- ral e a eco n omia política. Mas há também uma hierar-

\

quia de valores e portanto uma distinção entre

os três

mundos: do desejo material, da admiração e da avalia- ção moral . Devemos, no inicio dêste livro, antes de estudar a estética propriamente dita, dizer algumas pa- lavras sôbre a axiologia qr t e a compreende ' e lhe procura as leis mais gerais ao mesmo tempo que se esforça por avistar a sua especificidade e situá-Ia numa escala de valores. No entanto, sendo êste um livro de sociologia, nã o no s p odemos limitar à apresentação dum simples . resumo dos trabalhos de axiologia . Devemos ao contrá- rio, desde já, nos preocupar e m propor uma interpreta- ção e esboçar u ma axiolog i a sociológica, como prefácio

a uma estética sociológica.

( 1) Kant: "Fondements d e Ia metaphysique e l e s moeurs", trad. d e D e lbo s , pg. 1 6 0 .

10 ROGER

BASTIDE

o prime i ro moment o na consti t uição da a x iologia

é caracteriza d o pela reação da psicologia sôbre

n o mia po l ítica.

as l eis do valor, mas essas leis eram deduzidas

ção de um i ndivíduo médio, experimentando sempre o

mesmo prazer a seguir de uma mesma excitação, sen-

tindo o mesmo desejo em face de u m mesmo objeto, a mesma repugnância em face de um mesmo esf õ r ç o

A fragilidade dessas conc l usões tornava-se manifesta,

d esde que as aproximássemos d os dados da observação

p sico l ógica. Pode-se datar a oposição d a s duas ci ê ncias

do momento em que Weber, e em seguida , Fechner, for-

que fazia da

mularam

sensação o l ogaritmo da excitação. Inexata devido à

provava, no en-

a eco-

"A economia clássica tinh a por objeto

da no-

a l ei, ou pelo menos a hipótese,

'essa fórmula

su a rigidez matemática,

tan t o, que a i ntensidade de um estado de conciência

n ão é proporcional à quantidade de excit a ção" (2).

F o i com efe i to de s sa l e i de Fechner, que G o s s e n e

Bõhn-Bawerk tiraram a lei da utilidade-limite

qual demonstra, c omo a de Fechner, n ã o haver r ela ções

constantes

c i tam. Nossas necessidades vão decrescendo à medida

qu e as sat i sfazemos até um determinado mom en to

qu e

qu e t a men te, es t abelecer

(3), a

entre nossos desejos e os objetos que o s ex -

em

desa p arecem e mesmo, se a exci t ação continua, e m

se tra n sformam num desp r azer.

E ' mais f á c i l, cer -

êsse li mi te para as nece ssi dad es

naturais como a fome ou a sêde, que para a s n eces -

s id a de s soc i ais: s ab e - se quantas

t os centil i tros

mas nã o

se sa b e q uantos cavalos são ne c essários para um s po r l-

m a n , qua n tos metros de ren d a p a ra uma mulher mun-

dan a; no entan t o, pode - se afirmar

e qu'e, a c a da novo objeto

acre s centado aos já pos s uído s , o prazer ' ex p erimen t ado

c ieda d e t am b ém é inevitáve l

gr am a s

d e p ão , q u an -

de água um honrem ne ces sita,

que para êst e s a sa- ,

v a i d ecrescen do ràp i damen t e ( 4 ) .

(2)

G. Ric h a rd: "L a c o n scie nce m o ral e e t l 'experience mo-

r a l e", París, 1937, p g , 48 -

c ontra ela f o rmul adas , ver Foucau l t, "La psico-ph y si , qll e ", P a rí s. (3) G o ssc n: " E ntwicke l unf des Gesetzes des menschtich en

Verkcrs und ter d ar aus fliessenden Regeln für m e nschtich es

h a n de l n, pg. 3 1 -

d e I a va l e ur é co n omíque".

S ôb r e a l ei d e F ech n er e as c r i t i cas

cf. Bõhn-Bawerk : " Fon deme n ts de Ia theori e

d 'éco n o mi e

pol i tiqu e"

- 24,

( 4 )

C h ar l es G id e : " Pr í n ci p es

ed ., P ar í s, 1923, pg. 44.

ARTE

E SO C IEDAD E

11

Imaginemos, diz Ch. Gide resumindo os trabalhos

da chamada 'escola austríaca , que a quantidade de água,

de que posso dispor num dia, est e ja colocada

d es numerados.

dade para mim , po is me f ornece a b e bid a indispensável à minha v i da; o s e gundo tem um p ouco menos, pois vai se rv i r apenas ao c ozimento dos me u s l eg u mes; o tercei-

ro, ainda m e n o s , pois destina - se

quarto menos a inda , pois só me servirá para regar mi-

nhas plantas,

terei mai s á g ua do

em que

em bal-

O b a l de n.? 1 é o q u e tem mais utili-

à mi nh a "toilette";

o

e tc

E c h egará um momento

que me será necessário, os baldes n."

2 0 a 100 n ão tendo para mim, evidentemente, nenhuma

u t i l i dad e.

sej a o úl timo a ter para mim alguma utilidade: a de

lav ar , por exemplo,

eco n o mi stas austríacos provaram que nenhum dos ou-

tros bal des tem u m valor superior

lida d e dêste úl timo. Com efeito, se eu derramar

n.? 1 , q u e se destinava a matar minha sêde, não me con - side r arei perdido por isso; sacrificarei, para o substi t uir ,

um novo b a lde , aqu ê l e q u e me é menos útil, isto é, o 6 . °.

Eis porqu e os ou t ro s.

Os

Paremos

no balde n.? 6 e imaginemos

o ladrilho

de minha cozinha.

que

ao medido pela uti-

o bal d e

é ês t e qu e de t e r mina

a u ti l id ad e

de to d os

não pe l a uti l i-

d ade total, mas s omente

que s e n ec e ss ita: essa ut i l idade não é a mes m a para

cada un i d ade poss u ída e vai d ecrescendo,

pois a i n ten-

si d a d e da n ecess i dade vai diminuindo

núm er o de un i dade s po ssuídas aumenta.

da última unidade possuí-

da - da p orção menos ú til, pois corresponde à última

n e ces sidad e s ati s f e it a-

lidade de tôdas as outr as. P o rlsso chamam-na utilidade

Em suma , " o va l o r é ' de t erminado,

p ela uti l idade

d a po rçã o

de

à medida

que o

E ' por t a nto

a uti l idade

que determina

e limi t a

a uti -

final" (5).

O segundo mom e nto na c o n st itu içã o

d a a xio lo gia

será a proc u r a

v alores, tanto aos valores estéticos como aos va l ores eco - i lô mic à s. O fi l ósofo americano Marshall Urban reduz

de

d as l eis comuns a tôdas as esp é cies

( 5)

Ch ar les Gide : o . c ., pg . 61 .

12 ROG E R

BASTIDE

ess a s leis a tr ês principais : a lei do limiar, a do valor

decresce nt e , e a do s val o res complem e nt a r es

(6).

d a psico f ísica de

Fechner: é o mais fraco estado de conci ê ncia resultan-

te da difer e nça entre duas excitações. Quando a excita-

ção em qu es t ã o c re s ce de uma maneira

sa cã o cre sce d e uma maneira descontínua. Em axiolo-

gia a l e i ex prim e q ue o que importa não é o objeto ex-

do de s ejo, mas sim o in -

di v í d uo pensan t e , as disposições da conciên c ia que ava-

lia. Ari s tóteles

s i do p revi amente conhecido". Há sem dúvida, na natu- reza , m u it as cois as que existem e que pod e rí a mos dese-

é como se el a s

nã o 'e x is tis se m. Para que a necessidade nasça, é preciso

que nos s a conci ê ncia tome previamente conhecimento das coisa s .

- u ma g e n e ralização d a lei da utilid ade - l i m it e

quer que tôda sa-

ti s f aç ão do hom e m diminua de grandeza e de íntensida-

d e à m e dida que se repita, até o momento em que a

saci e d a d e nar a m-n a

out r o s v alor es a lém dos econômicos -

que nada mais é que

a pl icada a

A noção de l imi a r é a i nd a t i rada

contínua, a sen-

t e rior, o ex c itan t e provocador

dizia: "nada pode ser amado sem ter

não as conhecemos

jar, m a s e nquanto

A

lei do valor d e cre s cente

e o mal-estar substituam

o pra z er. Relacio-

à l e i do hábito de Maine de B i ran, a qu a l n o s

diz qu e a se n s ib i lidad e se entorpece com o c ontinuar

da ex c i ta ção e qu e o v alor se extingu e quando a s acie-

da de é atin gi d a

principalm e nte

a economia política. Mas declara, igualmente, que os

valores estéticos não lhe escapam e que é ela quem ex- plica a relatividade dos juízos de gôsto através do tempo. As transform a ções que a história registra, como a polê- m i ca d os an t igos e dos moderno s, a b a t a lha d o s clássi- cos e do s rom â nti c o s , a ss i n alam o a p a re cim e nto da sa- ci e d ade em r e l a ç ã o às antigas formas d e art e e a n e - c ess id a de d e r e nov a r as excitações para que o prazer torne a surgir.

(7). Urban acha que e s sa l e i é válida para os valores de consumo, logo, para

(6) W il h ur Marshall Urban: "VaIuation, Iaws ", Londr es, 1909, pg. 142-185.

its natur e a nd

(

7 )

Maino de Bira n:

" Influ e n ce d e I'ha bítu d e S Ul' I a f on -

c t i on de p e nser".

comparação

Ed. 'I'isse r and, Pari s , 1922. -

foi feita por G. Richard, o. c . , pg. 52.

Tomo lI. A

\

A RTE

E

S O C I E D A DE

13

A lei dos valore s c o mp le m en t a r e s dem o n stra que há sempre mai s n u m todo que n a soma dos eleme n tos t o- mados sepa ra d a men te . Nossas necessida d e s n ão p o dem

ser satisfei t as i so l a da mente : "A necessid ad e de com e r , pelo menos no homem civiliz a do, implica a necessid a d e de um grande número d e obj e t o s mobiliário s, tai s co mo

pratos, co po s, g ar-

mesa, cadeira, guardanapo,

toalh a ,

fos, facas e mesmo , para atin g ir o máximo de s atis f a-

ção, é necessário, como no s banqu e te s,

isso a certos prazeres toi l etfes, música, etc

vemos , j á desempenha um pap e l no mu n d o eco nômico,

para Urban é v á lida p rincipalmente pa ra os va l or e s

ideai s , i sto ç ão", com o

exemplo , "o valo r dum caráter, expresso pe l o conju n to

de uma vida, é sup e r ior ao dos divers o s a to s m a ni f e s - tados" (9). D êsse modo a s l eis da axiologia são , preci -

as ordens de va -

l o r es .

rar q uia

pa p el mais important e

domínio ide a l , e a t erc e ira ,

ti m o qu e n o o ut ro . Chega m os as s im ao t e rceiro mom e nto da axiologi a,

que estudará as r e l ações en t re cada es p é ci e de valor,

po i s a pesar da identidade de suas l ei s há mesmo a ss i m

que reti-

s ament e , leis g e r a i s aplic áv eis

Mas ei s que uma di stin çã o se de line i a , uma hie -

um

es t é t i c os :

a ssociar t u do

flores, lu zes, cris tai s ,

" (8). Mas s e e ssa l e i como

é, aquê l es que chama d e "simples aprecia -

os val o res mora i s ou e s téticos.

Na ética, por

a tôd as

se esboça, poi s a segunda le i de se mp en ha

no d om í n io e c o nômico

ao contrário,

q u e no mais n e ste úl -

diferenças entre ê l es . Fo r am êstes prob l e mas

v e ram e m especia l a a t en ç ão d o s filósofos conte m porâ

ne os, que r se t ratasse

mora l , ( critica do m a t e ria l i s mo marxi s ta: relacões en t re

a c ultu ra ' e a civil i zação)

nômico e o estétic o, (c r ít i ca do maquinicis mo

e da r up-

tura ent re a ar te e o ofício) quer enfim, do c onflito en-

quer do conflito e ntr e o e c o-

d o co nflil o e ntr e o 'e conômic o e o

tre a est é ti c a e a m oral

(p r obl e ma

Como bem mostr a m no ssas r e f erê ncias a F e chner

da arte pe l a a r t e).

e Maine de Biran, tôda essa a x iolog i a s e apóia na psi-

c ologia:

Na

do qu e Ribot chamava a " l óg ic a do s s e ntim e ntos".

a t e oria do s val ores não é se n ã o um capí t ulo

( 8)

(9)

C h. G i d e : o . c ., p g , 46. G. Hich a rd : o.c . , ns. 52.

14 ROGER

BASTIDE

medida, pois, que a estética pertence à axiologia, de-

pende também da psicologia. Mas, uma vez constituída, a sociologia quis se liber- tar dêsse domínio, e Durkheim publicou sôbre o assun- to um artigo célebre: "Jugements de valeur et de réalité", cuja importância é capital, pois faz a axiologia passar da psicologia individual para as ciências sociais. (10)

não pode ser a pessoa, diz

êle, porque não há nada mais diverso que as sensibili-

dades: cada um tem sua afetividade própria; no entan- to, para um povo determinado os valores permanecem

constantes e gerais. Também

médio de Quetelet, pois há desacôrdo entre a conciên- cia moral média, o gôsto comum 'e o que é considerado como ideal para o santo ou para 6 artista. Si quisermos , retirar os valores das apreciações subjetivas só nos res-

O objeto da avaliação

não pode ser o homem

ta, pois, atribuí-los à sociedade. Os valores são coisas coletivas. A prova

disso é a

sua variabilidade. Essa variabilidade, a dos juízos de

gôsto, por exemplo, ou dos juízos morais, não se expli-

ca pela lei da saciabilidade,

válida para o mundo moral; ela

dos grupos humanos. A cada estrutura social correspon- de um conjunto de valores particulares. E cada vez que se passa de uma para outra o conjunto muda paralela-

mente.

pode ser

pois essa lei não

surge da diversidade

I, ',~í

Mas como pode a sociedade ser geradora de valo-

res? Compreende-se evidentemente

Mas tem a

sociedade desejos? uma vida afetiva? A resposta a essa dificuldade está na teoria durkheimeana da existência de uma conciência coletiva. Quando os homens se en- contram reünidos desprende-se de suas reüniões uma

Os sentimentos se

intensificam, novas fôrças surgem. O indivíduo não per- tence mais a si próprio, é arrastado por uina conciência

nova que tanto pode conduzí-Io a atos heróicos como a loucuras destruidoras. Por tudo isso essa vida nova se opõe à nossa vida quotidiana, como o ideal se opõe à realidade. E com efeito, observa Durkheim, foi exa-

vida psíquica de um gênero novo.

nosso desejo seja uma fonte de avaliação.

muito bem que

(10)

Em "Rev.

de Metaphysique et de Morale" -

1911,

pg. 445-7, Reeditado em "Sociologie et Philosophie".

ARTE

E

SOCIEDADE

15

tamente nas épocas em que os homens se encontraram mais intimamente aproximados uns dos outros, ou que as assembléias se multiplicaram, ou que as trocas psíquicas se intensificaram, que nasceram os gran-

des ideais: pequenas comunidades fervorosas de santos

e de apóstolos,

revolução de 89 e agitação operária, onde se levanta- ram novos valores políticos. Nesses momentos de vida intensa o ideal é sentido em si com tal violência que tende a se incorporar ao real; mas a ilusão não dura muito . Desde que se extingue o comércio sentimental

ou intelectual que unia os indivíduos, desde que a pes- soa se encontre novamente só, tudo que disse, sentiu,

pensou

onde se forjaram

os valores cristãos,

durante o período de exaltação, lhe aparece

Ise separa do real para constituir um mundo à parte.

através

do véu da

lembrança: o ideal nesse momento

E'

claro que êsses ideais se esfacelariam logo, não fôssem

de tempos em tempos revivificados pela comunhão so-

cial . Daí a utili d ade

cas, das manifestações artísticas. O ideal é sempre uma

criacão social . E é por isso, aliás, que é uma fôrça ativa. Abando- nado a si próprio o indivíduo - não teria a idéia de se ultrapassar. O ideal não é aquilo que falta e de que se tem necessidade, não é aquilo que se deseja, pois então nada mais seria que a falta de alguma coisa: o

ideal tem uma realidade positiva, é uma fôrça constran- gente. Além disso é impessoal; aparece corno tendo um

se

fôsse de origem individual . E' essa a concepção de Dur-

kheim. Ela é excessivamente geral . Mas um

valor abstrato e geral, o que não se compreenderia

das festas, das cerimônias públi-

de seus

discípulos, Bouglé, aplicou-a às diversas ordens de va- lores e, 'entre outros, aos valores estéticos. (11). Infelizmente a teoria sociológica dos valores apóia- -se numa concepção da conciência coletiva que pro-

vocou críticas devido ao seu realismo. Foi assim que

Gaston Richard encontrou uma contradição entre a ar-

gumentação de "Jugements de valeur et deréalité",

d e "Les formes élémentaires de Ia vie religieuse", que,

no entanto, não

e

é muito posterior ao artigo que acaba-

. (11 )

1922.

Bouglé : "Leçons sur I'evolution des valeurs", Paris,

~

16

ROOEn

BASTIDE

m o s de analisar. Enquanto

lidad e do s v a lores era a razão al e gada pa r a os a t ribuir à s oci ' e dade , agora Durkheim distingue o c onceito e m- pí r ico, que é uma construção do indivíduo , do c o n ce ito

ló g ico ou cat eg oria,

na tese de 1911 3 variabi-

que é de ori ge m s oci a l , e a raz â o

qu e o faz dar essa origem social ao con ce ito lógico é

que

ri c o é mutáv e l ' e móvel (12) . Esta crítica não m e parece irrespondível,

pois po -

de-se di s tin g uir a Sociedade com letra m a iúscula d a s

êste é fi x o e imutável, enquanto

o conceito empi -

sociedades particula res .

Não existem Robin s ons puros;

a vida social é um fenômeno constante e universal; o

que e xplic a ria,

como o e s paço, o tempo, a causa l ida d e, a identidade, s ã o

e n c ontrad as e m todos os homens: é que todos s ã o ser e s

soc i ais , ' t od o s pert e n c em

d a . Mas essa s ociedad e pode rpuito bem revestir f o r-

ma s d if e r e nt es

ria r a co n ce p çã o

o espaç o não é conc e b i do p 'e lo prim it ivo da me s ma for-

ma que é conc ebido todos e n q u ad ram

Do mesmo modo, diríamos, todos distinguem o feio do

aliás, por q ue as categorias

da raz ã o ,

a u ma sociedad e que os amol-

pod e v a -

s e g undo os caso s . Eis p o rque

qu e cada um faz des s as cat eg o r ia s :

p o r nós, nem a causalidade;

mas

s uas p e rc e pçõe s

nas formas

a priori .

b e l o, todo s t ê m um idea l

res n asce m da comunhão e exa l tação col e tiva, fenôme -

estético, porque êsses valo -

no s s o c iai s universai s.

v ari ar

t o rai s, e s cr avagis ta s e ou tr as .

Mas os id e ais de be l eza podem

sociais, guerreiras, pas -

s e g undo as estr utu ras

E, no entanto,

(13

).

n ã o deixa d e ser verdade

d e u m a

que, com

coletiva, Durkheim dei -

no da filo- hipótese

a s ua t e o r ia da compreen s ão

xo u o t e rr e no

da c i ê n c ia pura pa r a ' entrar

Enquanto

não pas sa

sofia

d e t r abalho , como nas " R egras do mé t odo socio l óg i cc > ",

para ass ' egurar a ob j e tivi tla d e

d a socio l og ia , t u d o co r-

( 1 2)

Comparar " Ju ge m e nt s

de v a l e ur et de réalité"

co m Conclu são lI I

"L e s f or m es é lémen t a i r e s

pg. 616 - 627 c . , L i vro II, cap o VI I -- pg , 307 - 320 . (13) O ca ráter filosófico da t , e oria durkhei m eana dos va-

lores, tid a como ci e ntífica , é pôs t o e m evidê ie n cia por G. Ri-

re li g l ieuse", Stras-

chard: " L ' atheisme dogma tiqu e e n soc i o lo g

burg o , 1 92 9 ~ G . G ur vi t c h : "Mo r a l e t h eor iqu e et science des

d e I a v i e r e li g i e us e" ,

_

~ !

J

\

A" TE

E

S O C'

E DA DE

17

r e bem . M a s quando é formulada como um fato real

c e xplica tiv o , e nt ã o caí m os n o d omíni o da di s puta e ,

r e alm en t e,

p on t o fo i ob j e to de controv é rsias incessantes. Não qu e -

re m os p e n e t r ar nessas controvérsias pois não quere-

saber que as soci e -

ê sse

tan to na F r a nça

de fil o sofia .

como no estr a ngeiro ,

m os tratar

Basta-nos

d a d es s ão fa t os , qu e ê sses fato s p o dem se r analisados,

que as so-

ci

não nos f ará ava n çar n e nhum

menos s i quisermos uma ax iol og ia cientí f i ca e não uma

isso

pa s s o na a x i o l og ia , pelo

d es cri t os e classifieados.

Po u co n o s i m por t a

ou ad iç õ e s

e dades

s e ja m

sínteses

d e uni dades;

axio l og ia f i l os ó fica. No s s a po s i ç ão pode definir-se

da seguin te manei- sõ br e os quais es-

tão to d os de acôrd o : existem va l ores - exis t em socie -

ra : par t imos

d êsses d ois p rinc íp ios

dades . Sem e l aborar ' nenhuma hipótese sôbre a origem

OU a natureza

conduzi r a con - devemos exa -

minar s omente a incid ê ncia d ê ss e s dois fa t os um s ôbre

o outro.

A axio l ogia clássica, a l iás, nos leva a isso pois

trovérsias inúteis para o nosso assun t o,

reza do laço socia l , que nos poderia

d os valores, sôbre a orígem ou a natu-

reconhece ao lado dos fins pr i már i os individ u ais,

fins

secundários

sociais . Não in t e rdita

n ossa tentativa

da

!)

axiologia soc i o l óg i ca. O cons u mo d a r iqu eza, p or exem -

plo, é indivi du a l;

essas famí l ias estão ag rup a d as

mas o i n d iv ídu o

vive em famí l ias,

e m c l asses soc i ais e em

nações. E todos êsses g r u p os inf l uem na ma n eira pe l a

qual consum i m o s nossas r iqu ezas. Nossas menores ne-

o sono, su -

c e ssidades co m o a necessidade

de dorm i r,

põem tôda u m a e d ucaçã o

socia l q ue varia com os c li-

ma s , a s c ultur as, as camadas sociais. Só a sociologia po- d e rá faz er -nos compreender a evo l ução histórica dos

~ va l ores, s u as metamorfoses e s u as co l aborações.

por-

t anto, acreditamos possível uma axio l og ia soc i o l ógica.

Esta deve ace it ar en t anto, trans p orta d as

ci o l o gia ger al, vão ass umir um nov o a s pecto .

as t rês l eis de Urban, as quais, no

da psicologia

af e tiva para a so-

A lei do limi ar

é v á l i d a

t anto p ara

as co l etivida-

Assim como há na na -

tureza I ô r ç as

tamb é m tôda a Idade Média viveu à margem do Medi- terrâneo em contacto com os monumen l os greco-roma-

des com o para os i n di v ídu os .

úteis, cuja exi s tência

n ã o suspei t amos,

AnTE

E

SOCIEDADE

17

re b e m ,

e e xpl i ca th ' o ,

, ponto foi ob j eto de controv é rsia s inc e ssantes, N ão qu e-

êsse

e ,

re alm en t e

M as quando

é formulada

c omo um fato r e a l

da d is put a

e ntão caí m os u o dom ínio

tauco na Fra n ç a

co m o n o e s tr a n ge iro,

re n1 . ( ) S p e n e l ra r nessas controv é r s ia s

mos tratar de f ilosofia.

Basta-no s

poi s n ã o quer e -

s a b e r que as so c i e -

dad e s são fa t os, que êsses fato s p o d e m se r an alis a d o s ,

descritos e cl a ss if i cados.

c i edades

Pouco no s i m porta

que a s so -

isso

pas s o na a x iolog , pelo

científi c a e não uma

se jam

sínt es es

ou adiçõe s d e uni da des; ia

ia

não nos fará avançar nenhum

m enos s i qu iser mos uma a x iolo g

ax i o l Nossa og i a filo posição s ófica. pode definir-se da seguinte manei-

ra: partimos

dêsses dois principios sôbre os quais es-

tã o todos d e acôrdo:

dad es. Sem e laborar n e nhuma hipótese sôbre a origem

e x i s tem socie-

existem valor ' es -

o ú a natureza

dos valores, sôbre a ori g em OU a natu-

r ez a do laço s ocial, que nos poderia

trovérsia s

conduzir a con-

inúteis para o nosso a s sunto, d e vemos e x a-

d ês S 'es d ois falos um sô b re

minar so m e nte a incid ê n c ia

A ax iologia cl ás sic a , aliás, nos leva a i s so p o is

r ec onhece a o lado do s fins prilnários individu a is , f in s

° o utr o .

se cundários

a

plo, é ia individual;

d a

sociológica. O consumo da riqueza, por exem-

sociais. N ão interdita nossa tentativa

mas o indivíduo

x iolog

vive em famílias,

ess as famílias estão agrupadas em classes s ociais e em nações. E todos êsses grupOS influem na maneira p e la qual con s umimos nossas riquezas. Nossas menor es ne-

ces sidades co mo a necessidade

põem tõda uma educação

o sono, s u-

s ocial que varia com os cli-

de dormir ,

m a s, as c ul t ur as, a s ca mad a s soc iais. Só a s ociol og ia po-

d e rá f a z er -no s compr e ender

v alores , s uas metamorfos ' es e suas colaboraçõ ia e s.

por-

a e volu ção

hist óric a dos

sociológica.

tanto, acreditamos possível uma axiolog

Esta de v e aceitar as tr ê s leis de Urban, as quais, no

en tanto, transport a d a s

ciologia geral, vão assumir um novO aspecto.

da p s i co l o gi a

a f e tiva para a so-

as coletivida-

A lei do limi a r

é válida

tanto para

de s como p ara os indivíduos.

tur e z a fôrças út eis,

Assim como há na na-

c uia ex istê ncia n ã o suspeitamos,

tamb é m t ô d a a Idade Média v i v eu à margem

terrân eo em c ont a cto com o s monum e nlos gr ec O -

do M ro ma e di-

-

A R T E

E

S O C I E D A D E

19

ram en te socio ló g i cas -

soc i e d a d es . Sempre qu e as soc i edad e s são ho m o gêneas,

qu e

t em trad i cionalme nt e e, po r conseg u inte, a saciedade

p arece não ex i st ir. Po r o utro l ado, sempre q u e há uma

d e a r t e subsis -

e la d e p end e

da es t r utu ra

da s

o regi m e é c omunit ári o ,

as for m as

e

e lit es , de mobilidad e

s tr a tif ' i c a ç ã o

s ocial acompanhada

d e circu la ção

das

v e rtical, sur g e e ntão a saciedade ,

a n e c ess idad e de renovar os v a lor e s, tanto econômicos

com o es t é tic os. A es tratif ic a ç ão s o m ente não basta ; ela

po de ex pli ca r a co- ex ist ê ncia numa

e s t é ti cas di fere nt e s,

me das ca s tas fechadas, 'entre as quai s não h á comuni-

mesma nação de

mas es ta s, c omo a c ontece ]) . 0 regi -

ca ções ou p oss í veis p a ssagens para assegurar uma me -

tr a -

diciona l mente se m que surja o prob l ema da saciedade . À e stra ti f i c a cão d eve acrescen t ar - se a mobilida d e . N um

dado mom e nt o a s e lit es s e a b orrecem das for m as d e

arte q u e as n ovas cialmen t e e, af i m

c l asses c op iam para se cla s s i f i car so -

de se d i fe r e n ciarem ,

rem, inve nta m n o vas for m a s i n éd it as e orig i nais .

ciedade s o ci al é um a d as f orm as da lut a de classes (16 ).

A t e rc ei r a le i , a d a co mp le m e ntarid a de, por ma i s t e m po pois n os c on d uz ao problema

flitos e da h iera rqu ia

l hora de c l assificação

soc i a l ( 15 ) , po d em subsistir

de se d i sting u i-

A sa-

nos reterá dos co n-

dos v a lores.

Tr ata- se , pr im e i rame nte,

de saber q u ais sã o as re -

e os va - a soc i ologia norte -

lações ex i s t entes lores e st é ti cos .

-ame ric a n a d e Giddin g, dá uma res p os t a i n te r essa nt e

e nt ra os v alo res eco n ômicos

A ês t e pr ob lema

(17) . O s fat os d e c ul t u ra

e ' os fatos de economia 'estão

 

(

1 5)

Ex i s t e a ind a

um p r o c esso

mís t i c o

de m u d an ça

de

cas t a.

E ' a pr á ti ca

da v irtud e ,

o dh a rm a , qu e es t á li ga d o ao

sansa ra , o u d o ut ri n a

d a tr a n s mi g r ação

das a l mas :

de p ois

d a

morte,

a qu ê J e q u e seg uiu o b o m caminho

sobe na es c a l a

da s

ca stas

e r e na s c e

numa

cas t a s up er i o r

(v.

Max

Web er : "Ge-

a nm e lt e A u fsãtz e z ur ReJ i gionssozio J o gi ' e " ,

s

quan to

ca sta, que tem uma forma co muni tária.

dos vivos existe tr ad i ciona Ji sm o

s

vivo, o i ndi v í d u o

ac i e d a d e es t é tic a.

(

16)

E .

Tomo TI).

M a s , e n- em s u a no m u n d o a u sê n c ia de .

Par i s,

es t á co mo qu e a p r i sio n ado

Eis porqu e

n a a r te e, por t ant o,

e t le ni vea u ",

Go hl o t : " L a harr ' i êr e

1 9 3 0 do

- Encontrar-se-á

e s u a

fe n ôm e n o

mais l o n ge , à pg. 111, a a n álise deta lh a d a

impo r tâ n cia na sociologia estética.

(1 7 )

Giddi n gs : " Studi es

i n th e theory

New York, 1922, p g. 2 7 e se gs.

o f human so c iety".

20 ROGER

BASTIDE

inextricàvelmente misturados. Nossas escolas, nossas academias artísticas, vivem do produto dos impostos, que provêm, sobretudo, dos benefícios realizados pe-

Mas essa união não im-

entre a economia, que visa fins uti-

las fábricas ou pelas minas.

ped e a distinção

litários e a cultura, que visa o prazer social . ' Uma sa-

tisfaz nossas necessidades fisiológicas, outra nossas ten- dências intelectuais ou sentimentais. Então como con-

ceber suas relações?

a "'evolução da cultura é a evolução duma economia do consumo". S ' egundo Giddings, é um êrro dos economis-

tas colocar o estudo do consumo depois do da produ- ção. Todo indivíduo faz o que faziam os reis de França,

isto é, regula suas receitas

suas despesas sôbre suas receitas. Temos n ' ecessidade

de ter galerias de quadros,

xo

realizá-Io que nossa produção ' está organizada: "O tipo

de vida não é a quantia ou a substância

lação possue num determinado momento, é o que a pa- lavra significa literalmente: o tipo, o ideal de confôrto e de luxo que uma classe ou um povo se esforça para

realizar

A resposta a essa pergunta

é que

s ô bre

suas despesas, e não

igrejas, algum lu- de vida, e ' é para

que uma popu-

teatros,

de mobiliário, um certo gênero

, Assim compreendido,

o tipo de vida é, sem

dúvida nenhuma, a causa e não o efeito da produção".

E o qu~ é verdadeiro

princípio o homem tirou seus alimentos da natureza an- tes de qualquer trabalho de produção; mas nossos de- sejos se multiplicaram e se diversificaram através das diferentes civilizações, místicas ou guerreiras: são es-

de conceber as coisas e a

existência que explicam a diversidade das necessida-

des segundo os povos, e é para satisfazê-Ias que a pro- dução se organiza diferentemente. Bem se vê que essa solução é precisamente o contrário do materialismo his-

é o regime da produção,

hoje assim o foi sempre.

Pois no

sas culturas, essas maneiras

tórico.

Não

a tnrra-estru-

tura econômica que explica

mas, ao contrário, é a concepção estética das coisas que

regula e dirige a vida econômica (18).

as ideologias estéticas,

(18) Sôbre o materialismo histórico

e sua contribuIção

para a estética sociológica, ver mais longe pgs. 43, 44, 45 e 46. Não voltaremos à critica que aqui fizemos e que vai ser com-

Pro-

pletada nas páginas seguintes, afim di não a repetirmol.

ARTE

E

SOCIEDADE

21

Encontr a mos uma tese análoga em G. Richard, o qual também procurou estabelecer as relações entre os valores de cultura e os valores econômicos, chegando a conclusões aproximadas.

A lei da saciedade explica

menos a criação de va-

lores que a sua destruição. Conseqüentemente, uma apa- rição de novos valores só pode provir da subordinação da economia, (onde a saciedade age abertamente), a mo- tivos ideais superiores. Em primeiro lugar motivos mo- rais: o crédito público, par exemplo, que é a mais com-

plexa forma da troca, só é possível pela confiança do cidadão na ordem social de seu país, confiança que supõ e não somente a estabilidade dos valores econômi- cos , mas ainda "uma confiança de natureza moral na probidade corrente, na disposição dos homens a cumprir suas promessas verbais e, sobretudo, no respeito do Es- tado pelos seus comyromissos". São ' ainda motivos mo- rais os que encontramos na origem da produção, pois esta repousa sôbre o trabalho, da mesma forma que

sôbre a matéria prima e o capital. Ora, o trabalho é ín-

separável do esfôrço e da vontade e supõe a razão

ciplinando constantemente as tendências inferiores. O

dis-

consumo está submetido igualmente à disciplina das necessidades; é verdade qUe assistimos freqüentemen- te à tentação de justificar a sensualidade indo até

a depravação, o jôgo, a cupidez, o espírito plutocrático, apresentando-os como verdadeiros móveis do consumo. <\. temperança vê-se então transposta diante da opinião

nública como um obstáculo à prosperidade.

Mas ne-

nhuma paixão escapa à sadedade e tôda economía que a tome como móvel, expõe-se ao merecido castigo das crises periódicas (19).

. Em segundo lugar, motivos lógicos. O paralelismo dos progressos das ciências físicas e das grandes indús-

poremos então uma crítica de ordem diferente não mais axio - lógica mas especificamente sociológica; veremos que o mate-

rialismo histórico não pode explicar os fatos de divórcio entre

do meio social e que se qui-

s e rmos fazer desaparecer

sai r da sociologia para passarmos à psicologia social, o que nos a fa s tará do assunto dêste livro.

êsse divórcio seremos obrigados a

a cultura e o regime da produção

(19)

G. Richard:

o. c. pg. G5-G8.

22

ROGRR

BASTIDR

tri a s é um fato p atente. Porém, como explicá-l o ? Foi o desenvolvimentó industri a l que estimulou o progresso da Física, ou foi o dese n vo l vim'ento da Física que tor- no u possíveis as aplicações econômicas ulteriores? Bas-

ta l ançar uma vista de olh o s sôbre a história da s ciê n-

cias para se ver que as descobertas

c u lo XVIII procedem dum movimento de idé i as q ue c o- meçou com D'escartes, Repler, Ga l ileu, e que êsse séc ul o XVII, que criou a ciência moderna, trouxe muito po u- cas inovações em maté r ia industrial . A conclusão sa lt a aos olhos: "é o movimen t o econômico que se explica pelo movimento das idéias científicas, isto é, no fundo,

industri ai s

do sé-

pela procura desinteressada

piritual da sociedade que reage sõbre a vida material

da verdade.

E' a vida 'es-

e a dirige" E por fim, (20)! motivos estéticos. A necessidade de ha-

bitação é uma necessidade econômica e, no entanto, en-

tre esta indústria

e as a r tes: plásticas

é bem difícil tra-

çar uma linha de demarcação. revela três séries de rel a ções:

Com efeito a história

entre a casa dos vivos e

a casa dos mortos (túmulos),

dos deuses (templos), e n tre a dos superiores e a dos in-

de ordem inferior que

feriores, e é sempre a habitação

e a

entre a dos mortais

se modela sôbre a que lh e está acima - os escravos co- piam os senhores e êst e s copiam os deuses. A imprensa não é apenas uma ind ú stria importante que ocupa nu- merosos operários, é ainda uma indústria que supõe ou- tras: a metalurgia pa r a as máquinas, a agricultura para o papel . E tõda essa vasta engrenagem é posta em mo- vimento para satisfazer a necessidade que temos, de ler cada manhã as n o tí c ia s d o dia. Necessidade recente,

mas é preciso não esq u ecer q u e o j orna l já havia sid o prec e dido p'ela ga zeta, qu e se apresentava como um li-

vro e m m inia tura. si dade desint er e ssada ,

Ora, o l ivro responde ' a um a nece s -

a uma t e nd ê n c ia

cultural ,

a n e-

cessidade de l eitura ; foi es ta qu e so b s ua fo rm a ín r e- r ior crio u o jorna l e que n a s u a forma superior se sa -

t isfaz pe l o l i vro. D um a m anei r a

gera l , todo desejo de -

sinteressado, todo fe r v or 'estét i co tem, p ara se rea l izar,

(20) G. Richard:

" L e r õ l e e t I a va l e ur de l 'analog ie dans

Ia synthes e des scie n ces socia l es" ( A r chiv. f . a n gerva ndt e

S o z .

ARTE

E

SOCIEDADE

23

necessidade de meios (é a célebre distinção axiológica

entre os valores intrínsecos e os valores instrumentais),

e êstes meios criam valores econômicos (21).

As co nclu sõ e s de Gaston Richard _ se aproximam bas- das de Gidding s. D essa inc id ên c ia entre a socio-

lo g ia ameri c an a e ' a soc i o lo gi a f ra n cesa podemos con- cluir que o inferior n ão se ex pli ca pelo superior mas

tante

que o contr á r i o é qu e é ve rd a d ei ro ( 2 2). Por aí vemos

o inter ês se que u m fil ós of o po d eria encontrar nessas

con s tatac ões . Ma s d eixe mo s a fil osof i a e voltemos à so- ciolo g ia. ' M os t ra m os q u e a axio l ogia podia prestar-se a

u ma ~ i I l te r pretação a x iolo g ia soc i o l ógica

sociológica, entretanto eis, que essa

se torna o centro e o VInculo da

so c iol og ia ge r a l . Foi, com efe i t o, u ma qu estão que preocupou seria-

ment e o s p e n sadores, a de saber Q que devia ser a so-

cio l og i a geral em re l ação às ciências sociais particula -

r es, como a e c onomia po l í ti ca, o direito, etc Durkheim f az da so c io l og i a o corpo das ciências particulares,

as qua i s, no ' entanto, abandonam seus métodos própríes

para aceitar a tese das representações coletivas e se me- tamo rfos ea r em assim em capítulos da sociologia geral

( 23) . Mas os economistas, juristas. " querem manter a i nde p endência das suas disciplinas. Para reconciliá-Ias com a sociologia ~as_ta estabelecer a unidade e ligação dos v al ores. A criaçao dos valores econômicos não po-

de ser compreendida sem o estudo da cultura, cuja evo-

lução a sociologia nos descreve. Sem ela o homem te- ria obedecido à lei do mínimo esfôr ç o, que é, como sa- bemos, o postulado da economia clássica. Se o homem venceu sua preguiça foi porque seguiu os valores supe- riores. Dêsse modo cada ciência social pode, se quiser, cons~rvar s,uas téc~ : lÍc~s, mas a unidade da soCiologia SubSIste, pOIS seu f'im e estudar a cooperacão dos valo- •

r es no seio da sociedade concreta.

(21)

Servimo- n os a q u i dum curso inédito de G. Richard :

"Les rapports entre Ia socíologie et Ia psychologie".

S e m dúvid a , para G. Richard aqui entra a lei da cau-

s~Iidade recíproca e os valores econômicos reagem, por sua vez, sobre os valores de cultura.

(23) Durkheirn e Fau c onnet: "Soc i o l og i c e t sciences s oci a , l es" (Rev. Phi l os, 1930).

(22)

PAíS

GRÉCIA

I

D ADE

MÉDIA

SÉC. XVII

SÉC. X IX

I EST A DO SOCIAL I

E S TAD O DOS ESPíRITOS

IDEAL

ARTE

Cidade livre, guer- P e rfeiç ã o de corpo. Equilíbrio

das Jovem n u e de ra- A estatuária.

reira, prov i d a escravos.

de

f a culd a d es que a vida, muito ce-

r e br a l p e rturb a .

o u muit o

m a nu a l ,

n ão ~

ça bela.

Opressão.

Invasão.

Depredação feu- dal . Cristianismo

exal t ado.

A côrte,

Intemp e r a nça

de imaginação

su- O monge estático As c atedr a is.

cavaleiro I .

e

amoroso.

o

p e r- e xcitad a . Delicadeza da sen - sibil i d a d e f e minina.

,

" Sa vo i r- v i v rc " . Dign i dade I ôes aristocr á t ic o s.

dos s a- O homem honra- d o.

A tragéd i a si ca ,

A democracia i ndus- I Grandeza das a mb i ções desenc a - F a usto.

trial e e ru d it a .

I

deadas

e ma l- es t ar do s d e sejos

We r t h e r.

.

insae i ados .

!

I

10

\

r

om a nce.

clás

27

1

FORMAÇi\O E DESENVOLVIMENTO DA ESTÉTICA

SOCIOLÓGICA

Já f oi di t o a p ro p ós ito da es t é t ica sociológica, e com algum. aparên c ia de verdade, que seu conteúdo é bem mais velho que seu nome ( 1). Com eMto, quando pela primeira vez os filósofos se interessaram pela arte . o que reteve antes de tudo s ua atenção foi a influência que 'ela não podia deixar de ter sôbre a vida social dos i n divídu o s. Platão expulsa os poetas da República por- qu e ê l es constituem um per i go para o futuro da Cid a de terrestr e, 'e mais tarde OS padres da igreja irão conde-

nar a s seduções da arte, que retardam

ou impedem a

realizacão Há . muito da Cidade tempo, divina. portanto, já se percebera

que a

arte não é um s i mp l es j ô g o individual sem conseqüên- cia mas que, pelo con tr a r io, age sôbre a vida coletiva, pode transformar o destino das sociedades. Mas êste é apenas um dos aspeelos da questão, pois deve-se exa-

minar igualmente se a recíproca não é verdadeira ,

se

a arte não é t ambé m um produto da vida coletiva e se o seu destino não está em funcão do destino das so- ciedades. ~ste segundo aspecto . ia estética sociológica levou muito mais tempo paca se desenvolver e é preciso que espe r emos o sécu l o XVIlI para ver enfim a idéia se

impor. No entan t o

p or e ssa época a socio l ogia

a ind a

se

confunde c om a ge o g r a fi a dos c l imas e quan d o se fala na influência do meio pensa - se an t es de tu do n o meio físico. E' o ponto de vista de J. B. Dubos (2) , . conside -

--

( (2) 1)

ale

Ch . Lalo: "L' ar t et Ia vie so c1

J . B . D u bos : " R e f lexion s c ritiq ues SUl' la l 1 0esle et

" pg, 1.

Ia l1einture", 2 vo l . , Pa ris. 1 719.

ARTE

E SOCIEDADE

rado g-eralmente como o precursor da estética científica,

ponto

de vista

que perdurará

no correr

do século

para

se expandir finalmente

na obra de Mme. de 5tael

(3). A diferença entre a poesia do norte e a do sul é

de

explicada antropologicamente

por uma diferença

imaginação

e d e riva ,

' em últ ima

análise,

da' o po si -

cão e ntre o c é u n eb ul o so e me lancólic o d o norte, com

s ua s tem p es tad es e bo r r ascas ,

n a l . P o r é m , com Mme . d e Sta e l j á pas samos da geogra-

fi a p ar a

a socio l ogia p r o pri a m e nt e di ta , e eis-nos lança -

e a luz do céu meridio -

d os numa n ova pista da qual o autor bem

t is mo : "Eu queria mostrar lite r atura e as insti tuI cões

a relação q ue

sente o inedi - existe entre a

soc i ais de ca da século e de

cada país; êsse trabalh~ ainda não foi feito em nenhum

livro conhecido" (4). E mais adiante: "Observando

as

diferenças características que exi s tem entre as obras dos italianos, dos ingleses, dos alemães 'e dos franceses, pensei poder demonstra r que as institU I ções políticas e religiosas são da maior importância nessas diversidades constantes" . Infelizmente, a realização não foi tão boa

o ponto de

vista da baronesa de Copet fôsse muito restrito e não

da arte mas ape-

qUÇlnto a intenção .

Isso não tanto porque

se tratasse de tôdas as manifestações

nas da literatura, mas principalmente porque no seu

p'ensamento houve a predominância

do normativo sô-

hre o explicativo, seu fim , essencial continuando

a ser

a procura dos gêneros literários

nham a uma nação livre como a França da Revolução .

Ela própria, aliás, o percebeu, e desculpou-s'e muito fe- mininamente: "Eu bem sei o quanto é fácil me censu- rarem por misturar desta maneira as afeições de minha alma com as idéias gerais que êste livro deve conter:

e do estilo que convi-

mas eu não posso separar

minhas

id é ias de meus sen-

timentos" A l iás, (5). não surpreende

tí f er as a s p ri meir as

p ois a socio l ogia propriamente

que tivessem sido infru -

tentativas de estética sociológica,

dita ainda não existia.

Devemos pois examinar

agora

como esta surgiu

, e se

(3)

Mme, de Staél : "De Ia litterature considerée dans ses

rapports avec les i n s t it ut ions sociales. 2 vo1 . , Paris. A n VIII.

(4) Idem: Prefácio . (5) Idem.

28

R o G . E R

B A S TI

D E

a qu ê l es qu e são considerados ordinà r iament e como seus verdadeiros fundadores, foram obrigados a r eservar um

lug a r à estética nas suas obras. reservaram.

E se foram, que lugar

I

A sociologia data de

Augusto Comte. Foi êle o pri-

positivas du-

da

estática

dades humana s e m relacão às sociedades animais não é a ordem mas o progresso, a sociologia remonta, de

uma maneira

Ora, esta

meiro a lançar as bases verdadeiramente

ma ciência das sociedades e a distinguir a dinâmica

social . Mas, como o que caracteriza '

definitiva, à lei dos três estados.

as socie-

não exprime unicamente a evolução do espírito huma-

no, nem as transformações

também uma significação estética.

da estrutura

social; tem

O que define o estado teológico é a preponderân-

ci a da imaginação

também a faculdade principal

sôbre a razão.

Ora, a imaginação

do artista. Pode r - s e-i a,

ê

pois, supor

que a primeira ,

etapa tivesse favorecido

g randemente

a arte.

Seria

no entanto

incorrer

num

grave êrro pois o mito só pode transformar-se

numa

fonte de inspiração

objeto de cr e nça, isto é, quando a fantasia

çar em tôrno dêle. A arte, portanto,

cido no estado teológico, quando êste já se estivesse de- sagregando (6). O monoteismo da Idade Média foi mais favorável à arte que o politeismo antigo porque a eman- cipação das mulheres tornava possível uma idealização dos sentimentos domésticos, da mesma maneira que o

na medida em que cessa de ser um

pode esvoa-

só poderia ter nas-

aparecimento

dividual . "Mas essa ímpulsão geral, fonte bastante des-

conhecida da arte moderna, não pôde persistir por mui- to tempo porque a Idade Média devia constituir, sob todos os aspectos, apenas um a imensa transição. Quan- do a língua e a sociedade se encontraram formadas, de

tal modo que a aptidão estética do regime pôde, enfim,

da dignidade

pessoal o da existência

in- .

dar ori g em a produções

duráveis, a situação católico-

(6)

A . Cornt e : "Discours préliminaire sur I'ensemble du

ARTE

E

SOCIEDADE

29

-feudal já se achava radicalmente alterada pela prepon- derância crescente do movimento negativo" (7). A Re-

são as duas formas sucessivas de

forma e a Revolução,

que se revestiu o movimento

gas instituições,

de dissolução

das anti-

Ora, seu "destino

negativo" não po-

dia convir à arte. Para salvá-Ia foi-se obrigado então a voltar, por um retôrno verdadeíramente pa r adoxal em séculos pretensamente cristãos, ao velho politeismo: Re- nascença, classíc í smo. T lsías não se pode parar o curso

da evolução

pôde manter por muito tempo uma forma de pensamen-

to condenada

t er atos que tornarão a "presid ê ncia

e foi assim que não somente

a arte não

como ainda, no século XVIII, serão os li-

espiritual" do mo-

v i mento de decomposição

ainda; com o romanti s mo

r o destino que

d e ; ela se degradará, d e smoralizando

seus órgãos e seu público, e se transformará

social .

Ir-se-á

mais longe

a arte perderá seu verdadei- e melhorar a Humanida-

ao mesmo tempo

em apo-

é encantar

logista

do individualismo

que, como se sabe, é para A.

Comte

destrutor

de tôda vida social . O advento do po-

sitivismo, longe de prejudicar o vôo da imaginação, de-

volverá

ção e o afinamento 00 sentimento altruísta, sô bre a qual a sociedade pode repousar.

à arte seu "destino

positivo",

isto é, a educa-

única base

A sociologia de Comte reserva, pois, um lugar à es-

tétícn

mas, como se vê, a explicação

do passado não

tem outro fim senão conduzir-nos , a uma glorificação do futuro. A preocupação essencial do sistema é fazer-nos

as

suas possibilidades de desenvolvimento e que só as for-

pensar que a sociedade

ainda não deu à arte t ô das

necerá quando já tiver entrado no estado positivo. , Or a , tal fim apologético nos afasta duma ciência verd a deir a -

mente digna dêsse nome.

Se a sociologia pode se per-

mitir a rigor algumas predições racionais, ainda que hi- potéticas e freqüentem ente contraditas pelos fatos, de-

v e , no entanto, s e inte r ditar

que foi o pai da sociologia não foi, no entanto, o cria- dor da estética sociológica.

d e t ô d a p r o f e c i a.

A qu êle

Ternos, aliás, outra

razão par a não pa ra r mos

no

si s tema cornteano .

Não há

dúvida,

'e é êste o seu

(7)

Idem: Pio 297

30 ROGER

BASTIDE

g rande m é rit o, que A. Comte per c ebeu co m clareza a

e x istênc i a

e as condi ç õe s sociais do momento.

a enco n tr o u

c i ólo g os contemporâneos se recu s am a f a z e r da Huma-

nidade o bjeto de ciência. A Huma n idad e

O r a , o s s o-

Ma s essa li gaç ã o ê l e

a t ravés da lei dos tr ê s est ados.

de uma ligação entre a vi d a d as be la s -art es

é a penas uma

a bstra çã o;

o que é preciso 'estudar

s ã o as s oci e dades

concret as. no fund o n ã o um a ver dadeir a

Donde s e conclue que a l e i dos tr ê s estados

da história

e

n ad a mai s é que uma filo s ofi a

lei .

A estética

soc i o ló g ica, para

e

x is t ir,

deve pro c ur a r

uma base mais só l id a.

A

q u e m i r em os p e dir es sa b as e ?

Onde o p osi ti vís -

m

o n ão conse guiu n os contentar , se rá acaso ma i s f e l iz

a

c iên c ia soc i a l d os di s cípulos

d e D e P l ay ?

A

nomenc l atura de H. d e T ourvi l lenos

propõe u m

pl

an o d e est udo das sociedades,

ele v an do- s'e d a s ativi-

dad e s as m ais s i mpl es, o lugar, o trabalh o ,

com p lexas .

da cu lt ura inte lect ual , clien t e l a -- ins t r um ent os

- soa l - . Mas os d efensore s d a Ci ê ncia S oc ial pr e o c upa- '

ram-se princip alm e nt e 'e m e x amina r a s r e p er cu ssões do l uga r sô b re o m o do de trabalho e d ê st e s ô bre a est ru -

tu ra d a famí lia, ne g li ge ncia ; ndo em g eral a id é ia d e c o n s -

até as mais

A arte não foi e s que c ida:

entr a no qu a dro

cujas subdivisõe s sã o: ob j eto -

ofi c inas -

op er a çã o -

p es -

t it u i r uma soc iolo g i a das belas-ar t es .

sage m, aprox imar d e sta nomencl a tura a sis tem ati z açã o

de Ast uraro,

o r d e m genética : fatos econômico s , fato s polít icos, f a t o s

P o de- s e, d e p as -

q ue classifica os fatos soc i ai s na seg uin te

m ora i s, fa t os re li g iosos, fatos artí s t i co s

f a t os cien t ífic o s . Ora, essa ordem

u m a ordem de co ndi c ionante

co m q ue as a rt es d ep e n d am,

t ado econômico, po l í tico , m o ral , e re li gioso do m e i o n o

anális e, do e s-

e , fin a lm e n te ,

hist ór i ca é t a mb ém

a condi c ionado, o q ue f a z

em últim a

qu a l se d ese n v ol v eram.

Havia

aí uma possível

base

p a r a uma e s tética s ociológica e Baratono

muito justa-

m

e nte a tentou (8). Ma s, no no s so par e cer,

a investigaç ã o

sociológica

deve caracterizar - se pe la mais c o mplet a pr ud ê nci a. D e-

vemos desconfia r d e tô das a s sis tem a t iz aç õ e s u m pouco

prematuras dema i s,

c omo a s qu e ac ab a mos

d e assina-

(8)

A . BaraLo n o: " So ci olog ia e s t é t ic a ". C i vi t a-Nova, Ma r -

c h e 1 899 ( p r efác i o

d e As turaro).

ARTE

E

SOCIEDADE

31

lar. Foi o que se compreendeu

c l arame n te

n o f im do

século XIX, quando a sociologia notou que s u a fu n çã o

primordial era constituir primeiramente

seu método.

l og i sm o e o s oci o l og i s mo, 'e ntre Tarde e D urk h eim ,

bate do q u al devi a s a i r t ô da a so c io l og i a conternporâ-

uea, sob se u s m a is div ersos aspec t os .

se u o bj e t o

e

E' a época do grande debate entre o p sic o -

d e-

Ao co n trá r io do qu e se d iz ord i nàriamente,

nã o é

nas " Leis d a imitaçã o "

Tarde,

"Lógica social"

q ue se e ncontra

(aí só está a s u a in t e r-p s icol ogi a)

(9) .

O q u e caracter iza

a soc i o l ogia d e , mas na su a

são

o homem

suas crenças e seus d e sejos; ora, êstes podem tan t o se c ombater como s e conciliar no interior de uma mesma a tividade. Donde a necessidade duma teologia socia l , que se proponha justamente fazer convergir cren ça s e desejos. Entretanto, todo acôrdo só pode ser f ei to agru- pando-se os fins psíquicos em quadros muito vas t os: a s c ategorias. E eis porque assim como existem categorias

individuais, ' espaço, tempo, causalidade, asquais u n i fi - cam o caos interior, existem também catego ri as s o ciais ;

o chefe, Deus, a língua, que unificam

constituem" o espíri t o social". E' erigindo a l ista d es- s as categorias que Tarde encontra o problema estético.

o ca o s co le t i v o e

em si mesm a , nã o

procura apenas agradar

a atenção do sociólogo -

carregada de unificar os desejos doshomens . t Est â de-

n-

A arte não tem sua finalidade

- - se assim fôsse, não re t eri a

ela é uma categoria so c i al

e

monstracão se efetua em três momentos:

L") • A

arte

nada mais é que um meio

egípcia, por exemplo, visa a conserva-

em vista de

da ci- a a rt e

um fim. A " ar t e

ção do corpo humano, a arte grega, a glorificação

E' c l aro que pode haver uma evo l ução :

rea l ista do Egito tornou-se completamente convenc i ona l .

Mas isso não significa

mesma, ela apenas mudou de finalidade:

da de.

que a arte se baste então a si

em vez de

. se rvirao cu lto do s m o rt o s

far aônico . Tamb é m pod e

se r ve, daí em d i an t e, ao culto

acon t ecer

que ' a a r t e , e m ve z

de

de se r útil, se torne um fator de desorganizaçã o e

dissolução .

tada de fora, ou do estrangeiro

Mas então "é um sinal de que foi impor -

como na Roma dos Ci -

(9)

G. Ta rd e :

" La l o giqu e socia le " , P a ris 1 89 5.

32 ROGEn

BASTIDE

pi õ e s. "

n a F ra n c a da Renascenca.

o u duma civilização

morta que r e vive, como

ne s te c a s o, é imoral

A arte,

e d i ss olv e nte, pois traz consigo sua finalidade, a aspira-

do luga r e m qu e na s -

num a ano -

'em confli t o com o polo

ha bitu al e t r adicional dos corações que ela desorienta". A li á s , al ém dos fins particulares próprios a cad a civili- z ação, o fi m s up er i o r da arte é reconciliar o s de s ejo s opo s to s , a calmar as nostalgias apaixona da s , harmoni- z a r Os e s píritos.

ção es pec i al, coletiva e patriótica

ce u, a qual no seu novo meio, transformada

m a lia in d i v idual,

se encontra

2.°)

A a r te

não só tem uma função s ocial como

' t ambém

empreg a para a realiza r

meios soeiais, i s to é,

"pro c essos q u e

se i mpõ em à fantasi a

do arti s ta mai s l i-

b erto, t ip os ou gê n e ros consagrados, filhos da tradi ção

ou da moda, da i mitaçã o sob sua dupla fo r ma".

A s no -

vidades sã o se mpre pequenas ou tímidas. O artist a per - manece antes de tudo um conformista: há a ssunt os q ue

não po d e t ra t a r e outros que lhe são impostos e . T ard e chega mesmo ao e x tremo de denunciar na originalidad e

a tod o cu s t o dos artistas contemporâneos, uma forma d e se rvid ão, se rvidão à mais tirânica das modas.

Da m e s ma maneira que Lalo, como v e r e m os

3

.°)

ma i s a d i ant e, f oi l e vado a separar

t icas d a s cond i ç ões estéticas da arte, Tarde descob re na

a r te du as 'es p é cies de finalidade:

as condições a n e st é-

anestética e e st é t i ca .

Já v im os a p ri meira, pol ític os , etc., se gundo

p o ss í ve l s ub i r -se ainda mais alto, até o elemento artí s-

so-

ciais na s qu ais se encontra prêso? Evidentemente qu e sim . E nqu a nto no organismo social as artes t é cnica s cor r es pondem às funções de nutrição, respondem a ne-

t i c o pur o , de s embaraçado

a arte servindo

a fins r e ligioso s,

não se r i a

as civilizações, mas

de tôdas as combinaçõe s

cessid ad es r egu lar e s e constantes, a s bela s -artes cor re s- pon d e m às necessidades de reprodução, ao amor. Ela s s ão " o g r a nde mágico, o grande encantador das serpen-

t e s da s almas", no sentido que socializam

m ais ind ivi d ua l no homem . - as sensacões e os s enti-

men t o s. "Fabric ando-nos

dad e n a tu ral, de senvolvendo-o e aperfeiçoando-o sem c e ssa r , os poetas e artistas superpõsm e, em parte, sub s-

o que h á de

o teclado de ' nossa sen sibi li -

títuem à nossa sensibilidade natural, inata, inculta, di -

ARTE

E S O CIEDADE

33

ferente e m c a da um de nós e 'essencialmente i nc o m u ni -

cável, uma sensibi li dade colet i va, seme l han t e pa ra t o -

do s e, com o tal , i m p ressionável ' às vibrações social, p r ec i s ament e p o rque nasc e u dêle".

do me io

como a soc i e d ade na no s sa sensi b i - -

p o rta nt e a qu e o D I '. B lond e l cham o u " p sicologia co l e -

l i d ad e .

E' a ssi m q u e Tarde nos mo s tra

amolda o n os s o eu psí qui c o, p ene tra

P o r isso m e s mo nos tr a z uma co ntr i bu i çã o

i m

t iv a " .

M a s s i fa zemos ps i c ologia col e ti va não faz e mos,

própri a m c nf0 fa l ando , so ci o lo gi a . O q u e pr eoc upa Tar -

de sã o m e n os a s rel ações entre a s ar t es ' e os grupos so -

c i a i s , que as rel a ções da s artes com a vida psí qu ica , o problema da socialização, pela arte, da psiq u e i nd i v i - dua l . Estarnos longe ainda de uma verdadeira 'es t é tica

é

s ocio l ógica e é a Durkheim,

d e vemos agora dirigir .

por conseguin t e, q u e n os

Ta l vez aquêle que tan t o f'êz pa-

ra constit u ir u ma s o cio l ogia in d ependente

d o

noss o es tudo.

na v er d ade H'lUIWnW tt ' f i HIR 9 H '!f1 u ' IRr ~g c H s ~ a o

c élebre da Sociedade Francesa de Fi l osof ia , co ntra V i- tor B as h , a p o s s i b i li da d e c a s up erior i da d e d u ma es t é -

e objetiva

det e nha á chave dO J l'Ob l ema que cons i ste o objeto

E

~1,Jd!ldo dp fifO(lA';a riêncja~ p I erras

tica sociológica que seria, n o se u sentid o . a úni ca for m a científica da estética. In fe lizm en te, se o e n co n t ramos

fi r me nos princípios, as r ea l i za ções

de siludir . Com efeito, Durk h eim não te m nenhuma idéia

o riginal em estét i ca -

sica

d e Schil l er e S pe nc er, q U'~ r e l aciona a arte a o j ôgo,

faze n do - a u ma ati v idade de l uxo . Limit a - s e a penas

a inte g rar

permanece fie l à velha tese clás-

não de i x am de nos

essa teoria

no conj u n t o

de sua soc iolo g ia.

( 1 0) pr o -

as f ont es d as nossas mais a l tas a tiv í -

n a r e l i -

gião. A arte, como a c iê nc i a e o d ev er, nasce do ardor ' místico das multidões reünid a s. O' papel da s cerim ô n ia s primitivas, como as cerimônias tot ê micas, é 'e xalt ar p e la

dad ' es intelectuais e mo rais

" Les formes é l é m e ntair es

curam descobrir

de Ia vie re li gieuse"

e enco n tram-nas

co munhão as ' e ner g ias individu a i s, -Ias s ai r de s u as vida s o r dinár ias

mu n do profano - e fazê -I a s viver numa vida mais a l t a , que será o m u ndo s a gr ad o . Mas nessa exaltaçã o da s

a fazê-

d e m an e ira

-

qu e con stiturr ã n

o

(10)

P a r ís 1912.

34

ROGER

BASTIDE

en

e r g ias haverá

sempre um excesso que t e rá necessi-

d a de de se d es p e nder

e que se de s pen de rá

por nada,

no p ra ze r, nos g ritos, nas gesticula ç ões, nas dansas: "As

princ i p a is gião .,

O estad o e f e rv e scente ' e m que se e ncontram os

fi é is reünidos

exuberantes que não se deixam submeter fàcilmente a fins muit o ' d e finidos . Escapam em part e s e m finalida- de, d esdo b ra m- s e pelo simples prazer de s e desdobrar, d e l e itam- s e numa espécie de jôgo". Por e ss a mesma r a - zã o o s ri tos , ao lado de sua significação prática, dei x am

a

f o rma s da a rte parecem

se traduz

ter na s c i do da reli-

por movimentos

no exterior

sempr e a rt e .

sas s e rev e st e m naturalmente dum aspecto de fe s ta, en-

q u a nto inve r s am e nte, as festas, mesmo l e igas, tom a m

d e v ez em quando um , caráter

Durkh e im teve r azão d e ex aminar o proble m a d as

Consagraremos a ê l e ,

nes t e livro, um lugar importante. Mas como se v ê , n ão

f'êz m ais q ue uni r a s eu sistema g e ral a t ese sp encer ia-

al g um lu g ar para

a recreação,

i s to é , para

E' i ss o q ue explica porque as cerimô ni as

religioso (1 1 ).

religio-

n J " ig211 S c o l e ti va s das belas - artes .

na

d a a r t e, at ividade

de j ô go,

s e m ' e n s ai a r

a criação

du

m a e st é t i ca original . Tarde tinha confundido

a e s t é -

ti c a s ociol óg ica com uma questão de psicolo g ia soc i a l ;

a e s c ola d e Le Play tinha se limitado, o q u e é p o u co ,

a si tuar a a rt e numa nomenclatura

se s er vira da lei dos três estados, menos com uma f ina- lidade teórica que prática, para mostrar que só a ordem

da s o c i e d a d e positivista permitir i a o pro g r esso das

b e las-art es .

a l iás, fà -

c ilmente. Os fundadores da sociologia, ocupado s , e m

lançar a s ba s es duma ciência nova, não podiam t r atar

e Augu s to Co rnte

E s s as i nsufic i ências

se ex plic a m,

ap

r ofundad a mente,

de questões t ã o particulare s como

aq

u elas que constituem a 'estética sociológica .

É sta foi fundada

mo , so b ou t r a s influências

ver agora.

por outros homens e, talv e z m e s-

espirituais.

E' o que vamos

(11)

D ur k heirn : idem, pg, 145 - 7.

ARTE

E

SOCI E D A DE

Il

35

Dois movimentos de idéias in f luíram particular-

me n t e s ôb r e os e s píritos e pa r tic i param da form ação do c l i ma intelectual que, com o correr dos a no s, tornou

po s sí v el uma est ét ica so c ioló g ica: o roma nt i smo e o pré

-r a faelísmo.

O romantismo nasceu dos e x ces s os d e c i vi lizaç ã o e

d o art i ficiali s mo,

no fim do século X V III . A utiliza ç ão

d e r egras dava or i ge m a o b ras f r ias e se m vida, ao p a sso que a a r te popula r aprese nta va , ao con trá r i o , qu a lq u er coisa de ingên uo e s adio qu e r e fre s c av a o coração. A poesia devia, pois, se - retemperar ne s sa f onte de juven-

é

anôn im a, s ub s iste ape na s n a tradição ora l par a o n d e c a-

da n arr a dor ,

faz com que, em ú ltim a aná l ise , a o bra concluída seja ao

tude , par a c on ti n uar

a viv er .

Mas a a r t e popular

c a d a b ard o tr a z a sua contrib uí ção

; o que

me s mo tempo d e t o d o o mundo e de ning u ém .

sumo, nas s u as o ri g ens a ar t e é c o l e t i va e n ã o i ndivi-

dua l , ex pr i me o gê n i o d o po v o, d a raç a, e nã o o e s f' ô r ç o

p e s soal . R e c o nh ecem os

E m re -

a fa-

a í a i déi a qu e i ns pirou

mosa , tese de Gr i mm sô bre a s ori ge n s da epopéia.

O

que era verd a d e

p a r a . a e p o p éi a,

e r a -o p a ra

tôdas

as

outras manifes taç õe s catedrais gótic a s.

e

sté tica s ,

c o mo por exemplo, as '

H o je em di a a t e se r o m â ntica

f o i abandona d a.

J.

Béd ie r destruíu a t eoria duma literatura popular anô- nima e co l etiva (12) e a co mp os i çã o d a s cated r a i s é Ieíta s e g undo um p l a n o m u i t o er u di t o e s i mbó li c o para não

ser obra de arquite t os de tal e n t o.

há dúvida, na construç ão d es sa s i g . r e jas medievais: em

Estrasburgo; em St . Denis , e m Chartre s , em Ru ã o, ban- dos de fiéis carre g avam as p e sadas pedras do edifício

em construção, par a ndo de tempos em tempos para en- toar cânticos ou faz e r co n f iss ões públ i cas dos pecados.

E tal v ez tenh a m o s aí uma c ruz a da

diz Lalo, estas "não e ram c ruzadas estétic a s", pois, efe -

O povo int er veio, não

popular. Mas como

4 voI. (12)

J. Bédier; "L e s I é g c nd es épique s", P a ri s, 1 9' 0 8 , s. p . ,

3G

ROGER

BAS'l'ID E

tivamente ,

qu ena , limit ava -se

a parte

da multidão

a n ô nim a

'era bem p e -

a "um trabalho de o p erá r i os"

(1 3 ) .

Uma s ociologia di g na de tal nom e n ão p od e , e nt re -

A pala-

pa r a

qu e dela p ossamo s ti r ar alguma coi sa m ai s q u e desenvol-

vimentos lit e r ár io s ou s 'e ntimentais. Um gru po é tnico tem

v r a "povo"

tanto, se c o nf un dir com uma Volks ps ico l og i e .

( Vo lk)

é , com efeito, mu i t o imprecisa

s empre uma estrutura pa r t i cular;

é essa estru tu ra ,

essa

compo s i çã o soc ial qu e o s ociólogo d eve exam in a r.

Em

tôda sociedade há oficin a s de trabalho, con f raria s

reli -

giosa s , grup os

de ve procurar,

t i-

po s de agrup a mentos;

s ó fica e nt re a ar te e o povo N a d a resta então da tese românti c a ?

n ão pensamos

d e a l g um a mane i r a , mo e d a fé coleti v a .

prévio p reparo

r i or é o nascimen to de um mito: "O p oeta ép i co não

é p ica é an-

de idade e de se x o, e o qu e o est udi oso

quando estuda estétic a, é a li gação exis-

tipos de a r t e e o s dif eren tes

nunca a ligação pu ram ent e fi l o-

Pessoa l me nt e,

te n te e nt re os difer e ntes

as sim. O artista só pod e criar quando ,

s e e ncontra po s suíd o d o entusias-

Nã o há criacão indi vidua l

sem um

s ocial e popular:

e ê s se prepar o

ante-

é pica

a mat é ri a

é o cr i ador

da maté ri a

t erio r a êl e e de c ria çã o

li za d a

nio de expressão , o p oet a chama-a pa ra

perpé t u a

po e mas todo u m tr a balho

t ransf o rmado e m mito vitórias militares l o n g í n q uas . E'

coletiva, já s e e nco ntr a cri s ta-

n o espírit o da coletividade quando, co m o se u gê-

u ma p r esen ç a

Homero conden s ou e o r ga n izo u em seus

coletivo ant e ri or

qu e h a v i a

ass im q u e o m ito é a c ondição preliminar

da ep opéia"

(1 5 ). T rad uz am o s

es s a s fórmulas e m t êr m os soc i o l ógi-

as obra s de ar t e - só são po s sív e i s

cos e t e rem o s a idéia de que as artes -

e m geral e não s omente as epopéias

e só viv em a t ra v és das representaçõ e s coletivas.

A e s t é ti ca rom â ntica,

apesar de ter uma ba s e fal s a ,

a jud o u os espí r itos a elaborar, compreender,

aceitar e n -

fim, com mai s facilidade, uma sociologia da s belas-art es .

(1 3 )

(14 ) "Année so c íologique", 1909-1912.

(15)

Lalo : " L ' art . e t Ia vie socíale " , pg. 1 5 2.

Fi d e li n o

d e Figueir e do : " A

ép i ca p o rtu g u esa " .

P a ulo , 1938' , pg. 13.

S.

ARTE

E

SOCIEDA D E

37

a l ém

na Ingla-

terra, s urgia um novo movimento que também devia

concorrer

de 1850 . Mas por essa época, principalmen t e

O movimento romântico

para a associação

não fo i, n a ve rd ade,

da arte ao povo . E ' o mo-

ou o canto r e q ue ,

vimento de que Ruskin foi o profeta

c omo o romantismo, constituíu

mu nd o m o derno: " O espírito do homem b aniu a b e leza

da f a ce da t e rra e da forma humana,

uma r e a ção

co ntr a

o

na m ed i da em qu e

a

ação

do homem

pode se r b e m sucedi da

em f'az ê - lo .

O

mes m o s i ste m a q u e con s istia em empo ar

os c a be l os,

e nfeitar o rosto com pintas , apertar

pés, redu z iu

ma n c has escuras" (16) .

R u s k i n pa r te d a pintur a d e T ur n e r e remo nta para lá da R enascença a uma compreen s ão mais p r ofunda

da pint ur a p r é - rafae l ista

o corp o, afive lar o s

a

as ruas a muros de tijolos e os q u ad ros

.

e da arquitetura

gó tica . O r a,

a

a r te m e dieval

que ê l e v ai c e leb ra r

d a í em di a nt e com

o

mesmo a r dor

co m qu e c e l e br ara

a pi n t u r a

i n gle sa

turneria na ,

é a ema-

nação da cava l aria. Na m e dida em que e l a es t á l iga -

Ru skin se faz apo l ogista

da guerra, n ão

da à cavalaria,

co m o

um jôg o s up er ior ( 1 7) ; n a med i da e m q u e e l a es t á li-

é um a ar t e a r r a iga d a

no povo, es t á lig a da

ao trab al h o das c orp o ra ç ões

da guerra ind u str i a l ,

mas

'e à fé c a tó lic a,

da g u erra

concebida

gada às c or p ora ç õ'es , R u s k in yê na arte" a ex p ress ão

prazer que o homem ad q uire n o tr a ba lho " . E se in s ur -

ge con t ra o maq u inismo: é no traba l ho criad o r e liv r e

que re a l i za m os a b e l eza,

d o

p o rtan t o

"nã o con di z b e m com

a nossa imorta l i d ade recorrer a me i os que c ontr as tam

com a aut o ridade da von t a d e , ou pe r m i ti r q ue um

trum e nt o

a s coisas que governa .

s u a l idade

m e em mecan i s m o os raros momen t os felizes

d e v i a te r deriva do a l g um socia li smo cristão ou pelo

" Daí

in s -

d e que nã o n ecess i te s e int e rp o r ha entr e e la e

há ba s t a nte

gr os seirice e sen -

na 'exist ê ncia humana

par a que se transfor -

men os r el i gio s o, q u e t er i a uma d i f u s ão muito ~ rande

e c o nti nu a r i a

a pr e pa rar

os espí r i t os

para a i d é ia du-

(16)

J ohn Huskin : " Les P e intres mod er nes " , tr a d.

. Ci t ado de John Ru s kin :

franc.,

P ari s 1914 , pg. 119 .

(17)

" L a Bible d'Am íe ns", tra d .

franc . , Paris , 1890, pg . 71 .

I

38

ROGER

BA S TIDE

m a explicação

por fatores col e tivos (18). Romantismo e pré-rafaelismo criaram a ssi m o cli- ma sentimental que tornou possível a a p ar ição ult e r ior duma estéti c a s o c iológica . Vejamos a g or a a p re para-

da arte não pelo fator in div idual

ma s

ção intelectual . Para be m c ompreender a filosofia das b elas - artes

de Ta i ne (19) , é p r eci s o s ituá-Ia no conj u n to de s u a f i -

lo s ofia. E s ta f o r m ou-se sob a dupla influ ê nci a de Spi -

nos a e do s em p iris ta s

ne o mai s ri gor o s o determinismo e os empiri s t as lh e in-

for ~ a r am que noss as id é ias nada mais sã o do que tra ns -

f o rm a ç ões d as imp re s sõ es tidos:

s e ttsu,

ingleses . Spinosa en s i nou a Tai -

que nos v ê m de n ossos s e n -

quod prius n o n [u e ri i in

que vai a p l i c ar

à e s té-

nihil est in ini e lectii

São êsses os princípios

t ica , s e ndo q ue , e m p r ime i r o lugar, o d o d e te r m ini smo :

"I nvenções do arti s ta e simpatia

é es p o nt âneo, apa re n t e m e nte livre, tão capl'i choso como

o v en t o qu e sopra .

do públi co, tudo isso

Tod a via, como o vento que sop r a ,

t udo isso se subor d i na

xas " .

a ~ ond i ções prec i sas e a l eis fi-

que o sá bi o d eve desco b rir:

São as l eis fi x a s

a e sté ti c a d e T a i r re se r á port a nt o

Com ef eito, d on de vêm no s -

sa s idéias sô b re o b elo? el as não po dem. se r inatas, pois

u ma estét ica c ie n t í -

fi ca. E empírica ta m bém .

mu dam com os lugare s 'e os te mpo s; v êm , portanto

de

fora, do e x t er io r.

pertence ,

Ora, para

em que

o artista

o exterio r

é o

m e io e o momen t o

e s u as idéias não

vive, é a c i vil i z açã o à qua l

poderão , jamai s, de ix a r de

S ô b re essa p r,e p a ra çã o se nti me nt a l à s ociologia e s-

t é ti c a, e ncontrar-se-ão ensinamentos úteis no livro d e O . H . A. N e edh a m _ " L e d e veloppem e nt de I' e sth e t i qu e soc i o l ogi qu e e n F ra n ce e t en A n g l ete rr e a u X I X sié c l e" , Paris, 1916 .

Int ro du çã o d e

(1864) - "Philosophi e d es

,

(18 )

(1! )

Taine : "La Font a ine et ses fatl e s " -

"Hls t oi r e de Ia li t tcra tu re a ri g la i se '

bea l lx-ar t s" . 4 vol. (18 65 - 9 ) -

e t d' hi s t o i rc", París 1866 - Ar tigo sôbr e Rac i ne em "No u vcaux

Paris, 18 ' 6 5 . Con s ult ar os dois

trabalh o s de P. L a comb e : "La psychologie d e s indi v idu s e t des

ess ai s de cr i t iq u e et d'histoir e ",

Pre fá cio de "Essais dc cri t i qu c

. soc ie t és c h e z T a i n e , histor i en

de Ia littératur e",

P a r i s ,

1 906,

e "T ai ne, hi storie n et sociol o gue", París, 1909.

ARTE

E SOCIEDADE

39

ex p ri m ir essa civi li zação. A estética de Taine não será pois somente científ i ca, será também sociológica (20).

Entr e t a n to,

n o iníc i o

a ex pli cação

geográfica . é

prep o nder ante , sobre t udo em La Fontaine e suas fábu - l as, onde o gên io do fabulista, todo m e d i das e cambian-

te s , é p ô s t o em rela çã o com o clima d a Ilha de França,

a do ç ura do céu, e a harmonia das pa is a gens. Mas o

ponto de vista mai s propr i amente

empo lg a . O qu e det e rmhlar á

obra de a r t e será o es t a do g eral dos espí r ito s e dos cos-

tu nre s d o m ei o.

positiva, cri a dora, pr o priament~ falando - é essencial- mente seleti va . Ass i m como, para que uma planta c r e s -

ça é n ecessá r io que n u merosas circuns t ân c ias concor-

r a m , d e tal mod o que se uma das circunstâncias

a t em p e r atura

deve se a d aptar, se modificar - o que faz com que o

clima exerça entre as espécies um a sor t e d e es c o lh a ,

não deixando vingar pinheiros, em outr os sim ta m bé m há pa r a

que age c o mo a t e m peratura física . Ela não produz

a -

as s im um

l ugar na s ua es t ética sociológica para o elemento indi - vidual . Mas en t re as di f erentes ' es p écies de ta l ento

s ocioló gico logo o

em diante

a

de a go ra

A l i á s, es s a não é u m a determinacão

muda,

por 'exemplo, a p l anta para não morrer

em certos luga r es nada além de na d a a l é m d e l a ranje i r as

as-

- o ar ti s t a uma t emperatura moral

n

e Taine r ese rva

da, não i ns ti ga os t a l e n tos

uma , seleção se op e ra nec e ssàriam e n t e.

m e l a n có l ic a , por exemplo , só deixará passar obras

Uma sociedade

m e l a n cóli c as,

'e isso porque

as tristezas

que atingem

o

públi co a t i n ge m t am b ém

o a rtis t a

-

porq u e

as

im

p r essões q u e o gênio recebe u na infância, as que co n-

tin u a r ece b endo todos os dias, são impressões

porque s u a obra , enfim , s ó con seg u i r á ag r a d ar na me -

tri s t es -

dida e m q u e es tiv er de c on fo r midade

s eu público , q ue é um pú bli co me la ncó l ico . clusão: ••o me i o , i s to é , o es t a do ge r a l d os

dos espí r i to s, de t erm ina a es p éc i e das obras

lerando apenas aque l as q u e l he sã o conformes e e l im i- nando as outras espéc i es po r uma sé r ie d e o b stácu los

com as idé i as de

Em con - costumes e d e arte, to -

. ( 20) F e l dma n n "L'es th é t i qu e f r a n çaise c o ntempor a ine" Par is (N. E. S.) 1937.

40 ROGER

BASTIDE

interpo s tos

desenvolvimen to". , T e mos assim a célebre teoria da ra ç a

vidual ) ( 21 ) , do meio (f ator geográfico), e do momen-

to (fator sociológico). Aí e s tão, n ã o há dúvida,

r essantes e que teremos de gua r dar, Entr e tanto , n ã o

podemos fazer de Taine o verdadeiro fundad o r da es - tética sociológica. ~le é apenas um precursor. Cont e n- tou - se, com efeito, em colocar l ado a lado a fisiologia ,

a geografia e a história e não somente na su a fórmula

gera l mas também na definição de cada um dos s e u s t êrmos. E' a ss im que sua de fin içã o do meio contém , ao

mesmo tempo, 'e l e mentos físi c os e sociológicos, o clima

política e social do

out ro. A gi n do dêsse mo d o a é redit o u ser m ais completo

e de ataques renovados a cada p as so do seu

(fa tor i n d i -

algumas s u ges tõe s inte -

e o solo de um lado, a organiz a ção

 

n a rea l idade

cessava de o ser de sde o momento em

_

qu

e se im aginou tal . Po i s Durkh e im mostrara, c l ara-

diversa da

d o deter mi nísmo geog ráf ico . tst e últim o é de , essência

é de essência psi-

co l ógica, depende das r ep r e sent ações

p ossíve l u n ir num t o do c oisa s tão dispa ra tadas

lon ge de se harm on i z are m, d est r oe m -se mutuamente. Co m m uita justeza se d is se re s id ir o êr r o de Taine no seu "naturalismo", qu e o le v ou a colocar no mesmo plano de e x plicação coisas tão integralmente contrá- r ias. De t a l modo qu e , e m v ez de de scob r ir a verdadeira soluç ã o so c ioló g ica do prob l ema da arte, T a ine voltou-

natura l , f ísica, en quanto o prim e iro

m ente, qu e a coação so c ia l er a d e n a t u r eza

co l etivas .

Não é e que ,

-lhe as costas (22) . Guyau, c o mo Taine, ta mb ém parti u do empi r i s mo

inglês, c on servando

t ema, a fi l osofia do p r aze r. A d if i c ul dade, porém, é e n contrar a passagem do egoísmo ao altruísmo. A arit-

no e nt a nto s ó a parte moral do sis-

(21)

Na r e a l idade

a r aça, c or n o o mo m en t o , t em um du-

p l o s e nt i do e m Ta i ne, com p o rt a

a o m es m o t empo o fa t or t n -

dividu a l

e o f a t o r étnico, como n ota r emos lendo su a defini ção .

São, d i z ê l e, "e s sas disposições i n atas e here d i t árias

m e m traz cons i go à luz e que, ordirràr í am e nte, são a junt adas

difer e nças m arcad a s no temp e ra m e nt o e n a estru t ura do corpo " .

(22) Va l entin Fe l d m a nn : " L 'es th é tiqu e française contem- pora í n e", P a ri s, 1937.

que o h o -

às

-,

ARTE

E SO C IEDADE

41

m é tica do s prazeres d e B e ntham, a ssim como a transfe- r ên cia associ a tiva de Stuart Mill, não conseguiram trans- p o r o obstáculo. Guyau p e nsou achar a solução no vi- t ali s mo , pelo qual a vi d a n ã o era somente conservação mas também ex p ansão e amor . Passando da moral à

estética encontramos o mesmo pri n cí p i o -

de Guyau será ao mesmo temp o vita lista e sociológica.

a apli-

car o têrmo à arte.

aquí, ràp i damente, s eu pensamento ( 23 ). Tôda 'emoç ão um pouco mais in t e n sa

comunicar, a se dif u ndir :

N o entanto, aqu e la qu e o é a o m áx imo é, sem dúvida,

a emoção estét i ca. D ia nte dum belo espetáculo, duma

palsagem grandiosa, nosso gôzo interior é tão intenso,

que não o podemos guardar n e cessidad e d e compartilh á -lo , tros , de s enti-I o em comum:

tende a se

a estética

Talvez mesmo tenha sido êsse a ut o r o p rimeiro

E' por isso q u e d evemos resumir

tôda emoç ã o é contagiosa.

apena s

para nós, temos .

de comunicá-l o aos ou-

Et quand j e voi s l e b e au, je ooudrais ê tre deux .

P o risso mes mo a emo çã o e s tética é criadora da so-

de comunhão po-

li da rie dade

s oci a l . Es sa n e ce s sida de

d e s e es tender

aind a

a lé m, a t é a s impatia

universal,

at é a braçar

r e za inteira.

a v ida d as plant as,

das coisas e da natu-

O que . é verdadeiro

emoção estética, tam- isto é , a emoção que

obr a d e a rt e p rovo ca e m nós. Esta compõe-se de

o que nos une ao ar- ser e s i m ag inários in-

par a

a

b é m é para uma

dois elem en t o s de so l id ar iedade :

t ist a e o q u e

ve nta dos po r êste últ imo.

a e mo ç ão artística,

nos u ne aos o ut ros

O h om e m de gênio é j us t am e nt e aqu ê le indivíduo

que p o ss ue um tal po der de amor, que l h e é p o ss ível

criar per s ona gens

vos, objetos de afei ç ão c om . o s quais podemos simpati - zar. O artista cria assim uma so c iedade ideal, uma so- ciedade possível . Mas , como o " público s e c o mu n ica c om

ê : sses sere s, sa íd os da ima g in açã o d um gr and e criado r ,

q ue se v ão t or nar par a nós seres vi-

forma-se igualm en te e m t ô rn o

desta vez real - a soc iedad e d o s admiradores . Guyau

d el es unia soc i edade ,

( 23)

. rI S, 1800 _

G u ya u : " L 'ar t

a u p oi n t

de vue so c io lo g iqu e",

Pa-

C o ns u lta r Fo u i ll ée :

" La ni o r a l e, l 'a r t e t Ia re lí g i o n

d ' a pr es

Guya u ",

París, 188 9- .

42 ROGER

B AST I DE

retoma aqui a co mp araçã o p lat ônica do poeta com o amante, que comunicando s u a i nfluênc i a d e elo em elo, forma uma corrente inte i r a , animada pela mesma in- f lu ên c ia .

E' as si m que Guyau de certo mod o com pl e ta

T ai-

ne e apresenta o segund o aspe c to da sociolo g ia estética .

Taine mostrava a socieda d e sus c itando ou condicionan -

d o o gê n io, Guyau, o gê n i o cr ian do

n ova sociedade.

dois pensamentos comp l e menta res :

ou daquel e meio, o gên io é um criador de meios novos 011 um modificador d e meios an tigos" . G u y a u, no en- tanto, preocupo u- se q u a se u n ic a m ente com o segundo aspecto do prob l ema .

bem êsses

por sua vez uma

si n tetiza

"Tendo saído d ês t e

A frase seg uin te

Mas essa teoria

se c h oca

co m u ma forte objeção. de ar t e.

prim or d ial

desta ú l tima

P a ra

p o der ju l gar

à se du ção d a simpa-

Não

Com 'efeito, existe ao lad o do g ê n io a crí t ica

Ora, parece

deve ser a "insociab i lid ade" .

que a qu a lid ad e

com

segur a nça, é necessá r i o s ubtrair- s e

t ia para fazer f un cionar

é, na t uralmente, a o p inião de Guya u . Para êle a qua-

l idade lida d e

E'

preciso deixar - se "hi p notizar"

xar-se penetrar

quiser m os comp r ee nd ê -Ia bem . Ch egamos assim ao se-

g u in t e p aradoxo,

do- se d o C i d, m a s que não o é para ta n t as o br as que n ão iremos nomea r a q u í : o públ ico, não tendo uma

p razão contra o pro f issio n a l .

do ser, se

some n te a inteligência.

dominante d o cr íti c o é êsse poder de sociabi-

que, em quan tid a de

mai or, p roduz

o gênio.

p e l a o bra de arte, dei-

po r e l a a t é as prof ' u ndezas

que talve z

s e ja verdadeiro

tratan-

res i s tente

à ob r a do ar ti s t a,

tem sempr e

e r sona l idade

A sociologia

de G u ya u , c omo a de Taine, não no s

satisfaz. Deixemos de

lado o que ela encerra

de vita-

l ismo - con t ra o q u al Lalo desferiu uma cr íti ca severa

mas justa, e à qua l e n v i a mo s o l e it o r ( 24 ) - e examine - mos ap e nas o q u e é pro priam en t e s oc i ológic o . A tese é

vaga e imp r ecisa .

mas sugestõ es , parti c ula r men t e

r a

concretos e

Contém, ass i m como a de T ' ain e , al g u-

sôbre a arte como cr i ad o -

de novos meios . Mas lim it a- se à exp o s i ção de um pon-

em se u apoio f atos

t o de vista, n ã o trazendo

( 24)

L a l o : " Intro d u c t io n

à l' e sthétiqu e " ,

P arí s 191 2 .

ARTE

E

SOCIEDADE

43

pr e cisos.

dividual, a análise da emoção . Permanece pois, de . acôr-

E' que parte de um ' e lem e nto p s icológi c o

e in-

do com o seu princípio,

na nossa opinião u ma es t ética sociológica não pode re-

pousar s ôbre u m po n to de partid a psic o lógico. Só pode

f und ar- s'e existente s

das relações reais

mais subjetiva que objetiva. Ora,

sôbre u m es tu d o p acie nt e

en tr e os gru p os soc i a i s e os t i p o s de arte.

Taine e Gu y au pre p a ra r am ,

portant o, os caminhos

para uma est é ti c a so ciológ i c a. Não a fu ndaram, porém.

lU

Pode-se pôr em dúvida si o marxismo

é ou não uma

socio l ogia, mas, de todo o modo, é certo que êle trouxe um a 'expli c ação da arte que auxi l iou os espíritos a se fa-

miliarizarem

com uma concepção sociológica da esté -

tic a . Sabe - se, efetivamente, que o materialismo histórico transtorna o ponto de vista tradicional da . onipotência

das idéias e exp l ica a super - estrutura

dades por sua ínf r a -e strutura econômica: "O modo d e produção da vida material determina o processo de vida

social, política e intelectua l

cia d os homens que determina a realidade : é, ao con -

das nossas so c ie-

N ã o é a conciên -

em geral .

trário, a realidade

social que det e rmina a conciência"

(25). Sem dúvida, essa super-estrutura

ideológica, uma

vez constituída, pode adquirir certa independência

me s mo reagir sôbre a infra - estrutura

e

que lhe deu nas -

cimento, para modificá - Ia. O que, aliás, não impede que as fôrças de produção acabem sempre sobrepujando-as. O materialismo econômico se apresenta, portanto, como

uma

doutrina da onipotência expUcativa do fator eco-

n ô m i c o: "Não é verda d e, escreve Engels, que a situação

todo o resto não

Mas há uma ação re-

' eco n ô m ica sej a a única cau s a ativa e

seja ma i s que um efeito pass i vo .

cí proca s ô bre a ba se da n ecess i d a de e c o n ômi ca, qu e em

última i nstância acaba sempre por pre v alecer"

(26) .

A arte não de ve constituir

uma exceção à re g ra e,

a s sim como a vida política, a vida moral deve depender

do modo de produção

da época . Porém não é tanto em

(2 5)

K a rl Ma r x : "C r i t i qu e de l 'é c o n omie polifique", 1819.

(26)

"De v enir social" An o Hl .

.

44

ROGER

BASTIDE

Mar x como e m seus discípulos, Plekhanov, Bukharine,

Bagdanoff', Ickowicz,

t ra m os u ma expl ic ação marx i s t a da estética. Ickowicz.

p r i ncipa l mente, parte de T ai ne cuja s conclu s ões aceita:

a obra de arte é determinada

ritos e dos costumes

l ida sôbre a qual é possível fu ndamentar-s e .

estado dos e s píritos e dos costumes, donde resulta

sua vez? C a i j á feito ' da s nuvens?

Paul l e Pape (27), etc . , q ue encon-

pe l o estado g e r al dos espí-

da époc a .

Existe aí uma base só-

Pois êsse

por

"Para nó s é e vidente:

o m eio

social

é criado

por cond i ções

econômicas

A teoria de T a i ne é o ponto de transição

ent re o m é todo

histó-

rico". E Bukharine por seu turno : "A an á lise at e nta

reve l a que , de uma maneira ou de outra, di ret a, indi- retarnente, o u por uma série de ligações intermediárias,

a arte, n os seus múlt i plos aspectos, é determinada pelo re g ime econ ô mico e pelo nível da técnica social".

signi-

fic a tivo que o fundado r do materialismo histórico, o pró-

soci o lógico da art e e o método do materialismo

A te s e é clara .

Mas de que va l e?

E' b a stante

prio

Marx, pa r e ç a hes i tar na aplicação

de seus princí-

pios

ao domínio da estética,

ou antes, quer e ndo apli cá -

-l o s f i qu e e mbar aç a do, lim i te- se a difi c uld a d es , a contra - dições que a l iás recon h ece , confessando com tôda a s in -

ceridade: "Sab e - se qu e na arte os períodos d e d e t e r m i - nadas flora ç õ e s não estão de modo algum r e l a cionado s com o des e nvolvim e nto geral da sociedad e, n e m, por

conse g uint e,

po r as s i m

di ze r , d a or ga ni zaç ã o

r a m o br ígados, p ar a poder entro s ar

O s pr óp ri o s disc ípulo s fo-

co m a ba se materi a l ,

s oci a l".

a o ssa tura

a a r t e

na i n fra-

- es tr u tu ra , a co l oc ar uma sé rie int e ir a de i nt ermeàiários entre um a e outra. E' o que s ust e nta A . Lab r iola

quand o , se pr ec a ve ndo

do marxismo , af irma que entre a c au s a e o e feito exis-

contra a s apli caç õe s si mplistas

---- ---- ' --- ,

(27) Ba g d a noff:

"Die K un st u nd d as Pro l etar i a t " .

Wo l -

Paris, 1928

gast , 1919 -

- Ickowicz: "La litterat u re

Paul le Pape : "Ar t e t materia l isme",

à I a l u m iere d u ma t e rialisme

his-

to ri que".

Par i s 1929 -

Bukhar i ne:

"La theorie du mat é ria -

lis me hi s tor iqu c " , Paris,

1927 -

Led e r e r: "Er b nn e run g s gabe

f ür M a x Web e r" ,

chte und Kla sse n be nwusstsein" , "Les qu es tion s fond a m e ntal e s

L evy : "SUl ' I a necessi t e d' un e soci ol og i e d e l 'a rt "

Tomo lI, Müni ch 19~'3 - Ber l in, 1933 -

Lukacs : "Geschí - G . Plekh a nov

H.

du marxi s me " , Pari s, 19 2 7

(II . o Co n g r es-

so Internacion a l de Es t é t ica - I - P ar í s, 1 9 3 7 ) .

ARTE

E SOCIEDADE

45

t e m forçosamente outr o s fator e s (2 8 ). E is p o r exe mplo, o esquema de Ple kh anov:

1)

2)

est a do das fôrç as produti v as; as rela ç õ es econômicas cond i c i onada s p o r es s as fôrças;

sôbre as ba-

ses econômicas ;

3 ) o regime socia l-p olt t ico ,

e d if icad o

4 ) a ps i cologia do homem socia l , determinada

5)

e as ar t es qu e re fl e tem

em

p a rte d ire t a menle pela economia, e m parte por todo o r egi m e s o cia l-p o líti c o sô b r e e la e d i ficado;

as i de ologias cologia.

ess a p s i-

O es qu ema d e Ickow i cz é um pouco d if er ente:

1)

2)

3)

4)

o