Sei sulla pagina 1di 12
A NogAo de Sistema no Direito ofoid Roberto Vaecva Professor de Direito Tributario da UFPR (graduacao e mestrado) e da Faculdade de Direito de Curitiba (graduagao e especializagao), Mestre e Doutor em Direito Tributario (PUC/SP), Estudos p6s-graduados no Instituto de Estudios Fiscales (Madri, Espanha) e Auditor da Receita Federal. * nogdo de ordenamento justdico como um sistema, informa TERCIO SAMPAIO FERRAZ JR., é uma tendéncia historicamente localizada na era moderna, chamada de Era do Direito Racional — 1600 a 1800, aproximadamente — e uma grande, a maior talvez, das contribuigées do Jusnaturalismo.' O vocdbulo sistema é plurissignificativo, como reconhecem os cientistas: “o termo sistema caracteriza-se pela plurivocidade” (MARCELO NEVES’); “El término siste- ma tiene muchos significados, que cada cual utiliza de acuerdo com su propia canveniencia” (NORBERTO BOBBIO?). Polissemia a qual nao escapa a palavra quando utilizada no Ambito do Direito: “Sistema juridico é ex- pressio ambigua que, dependendo do con- texto, pode levar a faldcia do equfvoco” (PAULO DE BARROS CARVALHO‘). Donde a inevitabilidade das aclaragGes ini- ciais: “H no préprio termo sistema uma pluralidade de sentidos que torna a investi- gacto equivoca, se néo for esclarecida de antemao” ” (TERCIO SAMPAIO FERRAZ JR.2). Afastemos, pois, 0 risco da equivocidade. E comecemos © exame da idéia de sistema a pagfir do escélio seguro desse fil6- sofo e tedrice geral do Direito por tiltimo citado: “Entendemos por sistema um con- junto de objetos e seus atributos (reperté- tio do sistema), mais as relagdes entre eles, conforme certas regras (estrutura do siste- ma)”, E coincidente o enfoque de LOURIVAL VILANOVA, que, tratando 1. Conceito de Sistema no Direito: uma investigacao histérica a partir da obra jusfilosdfica de Emil Lask, Sao Paulo: RT, 1976, pp. 7-23, Introdugdo ao Estudo do Direito - Técnica, Deciséo, Dominagéo. Sao Paulo: Atlas, 1988, pp. 64-70 e 166. 2. Teoria da Inconstitucionalidade das Leis. Sao Paulo: Saraiva, 1988. p. 1. 3. Teorfa General del Derecho. Trad. Eduardo Rozo Acufia. Bogoté: Terris, 1987, p. 181. Teoria do Ordenamento Juridico. Trad. Cidudio de Ciozo e Maria Celeste C. J. Santos. Sao Paulo: Polis e Brasilia: UnB, 1989, p. 76. 4. Direito Tibutdrio: Fundamentos Juridicos da Incidéncia. 2. ed. Sé0 Paulo: Saraiva, 1994, p. 39. 5. Conceito... op. cit, p.8. 6. Teoria da Norma Jurldica: Ensaio de Pragmdca da Comunicagéo Normativa. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1986, p. 140. Introdsc&o.., op. ct, p. 165. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, v. 33, 2000 53 54 da mesma nogdo, discorre acerca dos ele- menios (partes de um todo) de suas rela- gdes (vinculos entre as partes —estrutura).? Essa nogdo primeira de sistema pede © merece enriquecimento, cumprindo aprofundé-la mediante 0 desenvolvimento da idéia de estrutura, langando-se um olhar atento as relag6es interpartes. Foi o que fi- zeram aqueles autores que Ihe apontaram a caracteristica da unidade: “A esta composi- cao de elementos, sob perspectiva unitaria, se denomina sistema” (GERALDO ATALIBA®); “...define-se 0 sistema como um conjunto de elementos (partes) que entram em relagdo formando um todo uni- tério” (MARCELO NEVES’) ; “Ha sistema ali onde encontrarmos elementos que se relacionem entre si e uma forma na qual elementos ¢ relagées se verifiquem... O ser sistema requer um principio unificador que presida ao relacionamento das entidades que o compéem” (PAULO DE BARROS CARVALHO"). Terfamos, assim, como que uma no- ¢do segunda de sistema, contemplando um conjunto de elementos (repertorio) que se relacionam (estrutura), compondo um todo unitario (unidade). Da qual ainda se pode José Roberto Vieira avangar para uma nogdo terceira, se recor- darmos que CLAUS-WILHELM CANARIS, que sucedeu a KARL LARENZ na Universidade de Munique, apds empre- ender exame de diversas definigies de sis- tema, concluiu: “H4 duas caracterfsticas que emergiram em todas as definigGes: a da ordenagdo ¢ a da unidade”;!' com as quais concorda plenamente EROS ROBERTO GRAU.! Trata-se de destacar agora a orde- nacao, dado que também caracteriza 0 sis- tema, e que nao obstante esteja, segundo CANARIS, “...na mais estreita relagao de intercimbio...” com o dado da unidade, do, no fundo, de separar”.!? Alids, etimologicamente, a palavra é oriunda do grego systema," ou, mais espe- cificamente, de syn-istemi, no sentido de composto ou construfdo, aludindo a “...idéia de uma totalidade construfda, composta de varias partes”, explica TERCIO SAMPAIO, com amparo em ALOIS VON DER STEIN.'5 Entretanto, aliado a MARIA HELENA DINIZ, acrescenta que, posteri- ormente, mas ainda entre os gregos, juntou- se-the o sentido de ordem, de organizagao; tai como para PLATAO ¢ ARISTOTELES, que utilizaram o termo no sentido de algo 1. _As Estruturas Légicas ¢ 0 Sistema do Direito Positive. Sao Paulo: RT e EDUC, 1977, p. 116, e também pp. 47 € 216. 8. Sistema Constitucional Tributdrio Brasileiro. Sao Paulo: RT, 1956, p. 4. 9, Teoria. op. ct, p. 2. 10, Curso de Direito Tributéria. 7. ed. S20 Paulo: Saraiva, 1995, p. 83. ‘11. Pensamento Sistematico e Conceito de Sistema na Ciéncia do Direito. Trad. A. Menezes Cordeiro. Lisboa: Gulbenkian, 1289, pp. 12¢279. 12. 0 Direito Posto € 0 Direito Pressuposto. S40 Paulo: Malheiros, 1996, p. 19. 13, Pensamento... op. cit, p. 12. 44. CUNHA, Anténio Geraido da. Dicionério Etimoligico Nova Fronteira da Lingua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, p. 728. 15. Conceito.. op. ct p. 9. Divito, Retbrce e Comunicaedo: subsidios para uma pragmtica do discursojurcico. 2. ed. So Paulo: i 1, p. 123, Revista da Faculdade de Direita da UFPR, v. 33, 2000 A Nogao de Sistema no Direito 55 organizado, e para os estéicos, que o utili- zaram para designar 0 conceito de cosmos e para descrever a idéia de “totalidade bem ordenada”.!¢ Eis que presentes j4, no pensamento helénico, quase todos os componentes do significado hodierno do termo. E muito embora nao se possa recusar a procedéncia da assergao de MARIA HELENA DINIZ, repisada por DANIEL COSTA RODRIGUES, de que “...néo chegaram a usar a palavra no sentido que conhecemos hoje”; nem a de TERCIO SAMPAIO, de que “A palavra sistema, entretanto, nao che- gou a ser aceita na terminologia escolar dos gregos, embora a idéia se origine do seu pen- samento”;'® entendemos mais adequado suaviza-las, sublinhando positivamente, com TERCIO SAMPAIO, a admirdvel ri- queza em poténcia contida na semente vocabular primitiva desse povo que inven- tou a filosofia:!® “...podemos dizer que jése encontram na filosofia grega as bases gené- ticas do uso moderno da palavra sistema...” Uma breve ponderagao, contudo, revela que nada ha de to espantoso nessa anteci- pagio semantica, pois, afinal, como reco- 16. FERRAZ JR. Tércio Sampaio. Conceito.... op. nheceue anunciou o génio de FRIEDRICH. NIETZSCHE, “Os Gregos... justificaram a flosofia de uma ver para sempre, pelo sim- ples facto de terem filosofado; e mais do que todos os outros povos” (sic). Eis que poderiamos, entao, encarar © sistema como um conjunto de elementos (repert6rio) que se relacionam (estrutura), compondo um todo coerente e unitario (or- denacio ¢ unidade}. Essa nogdo de sisiema, @ que chamamos de terceira, incorpora a ca- racteristica da ordenagéo ou coeréncia, dado tido como fundamental pela maioria daque- les que jA se debrugaram sobre a questao sistematica. Trata-se de uma “...preferén- cia metédica pela coeréncia do sistema ju- tidico positivo...” (EURICO MARCOS DINIZ DE SANTI”), exibida por “...gran- de parte da doutrina...” (LU[S FERNANDO DE SOUZA NEVES”). De outras plagas, dentre tantos que formulam tal exigéncia, menciormemos te- alguns. HANS KELSEN: “Se, porém, existisse tal coisa como um direito antijuridice, desaparece- tia a unidade do sistema de normas que se presentativamente DINIZ, aria Helena. As Lacunas no Direito. 2. ed. Séo Paulo: Saraiva, 1989, p. 25; Conflio de Normas. Sao Pauio: Saraiva, 1987, p. 12, n?2. 17. DINIZ, Maria Helena. As Lacunas.... op cit, p25; Confito... op.cit,p. 12, n° 2; RODRIGUES, Daniel Costa. Segeranga Cons- ftucional Tibutéria no Sistema Positvo Brasileiro. Leme, LED, 1997,p. 23. 18. Direito.., op. cit, p. 123. 19. CHAUI, Marlena. Comite 4 Filosofia. 4. ed. Sao Paulo: Atica, 1995, p. 20: “A Filosofia, entendida como aspirago ao conheci- ‘mento raciond, bgico¢ sistemtco... ¢ um fato picamente grego". FRAILE, Guillermo. Historia do LéFllsofla- Grecia y Roma, (Biblioteca de Autores Cristianos), V. |. Madrid: Catdlica, 1982, p.55: ‘cong un saber ..) oiganizado, articulado, sistematizado (..) podemas afirmar que hasta los griegos no ha exisido propiamente Filosofia’ 20. Conceito... op. cit, p.9. 21. A Filosofia na Idade Trdgica dos Gregos, (Textos Filoséficos, 11). Trad. Maria Inés Madeira de Andrade. Lisboa: Edigbes 70, 1987, p. 18. 22, Langamento Tributério. 2. ed. Séo Paulo: Max Limonad, 1999, p. 52. 23. COFINS - Contribui¢ao Social sobre o Faturamento ~ LC n* 7091. S80 Paulo: Max Limonad, 1997, p. 37. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, v. 33, 2000 56 exprime no conceito de ordem juridica (or dem de Direito). Mas uma ‘norma contraria as normas’ é uma contradig&o nos termos... nao poderia ser considerada como norma juridica valida — seria nula, o que quer di- zer que nem sequer seria uma norma jurfdi- ca”.4 GIORGIO DEL VECCHIO: “...cada sistema tem uma certa unidade fundamen- tal, enquanto as normas que regulam o ope- rar de um determinade grupo de homens, num certo momento, devem ser, nfo obstante todas as diversidades, coerentes e ndo contraditérias entre si”.2> GEORG HENRIK VON WRIGHT: “...un sistema que es légicamente inmune al conflicto, y de este modo tiene la coherencia...”."* GEORGES KALINOWSKI: “eniendemos por ‘sistema de derecho’ un conjunto de reglas jurtdicas liga- das en un todo coherente...”.27 JUAN- RAMON CAPELLA: “...no impide que puedan presentarse dos normas antinémicas... Lo que antecede basta para denegar al derecho el cardcter de ‘sistema’ (pues ‘sistema’ supone consistencia)”.*® GIACOMO GAVAZZI: “Toda antinomia implica assistematicidade” José Roberto Vieira JUAN MANUEL TERAN: “Sistema es un coniunto ordenado de elementos segiin un punto de vista unitario.”2° JOSE JOAQUIM GOMES CANOTILHO: “...sistema... uma conexéo de princfpios imanentes... constitutivos de uma certa ordem e unida- de...”3! EMMANUEL KANT: “...um con- junto de conhecimentos ordenado segundo principios”.2. | CLAUS-WILHELM CANARIS: “O sistema deixa-se, assim, de- finir como uma ordem axiolégica ou teleolégica de princfpios gerais de Direi- to...”.8 (Grifamos) Da doutrina autéctone, igualmente entre muitos que reclamam a ordena¢ao ou coeréncia para reconhecer a condigao de sistema, lembremos alguns nomes significa- tivos. GERALDO ATALIBA: “...reconhe- cimento coerente e harménico da composigéo de diversos elementos em um todo unitério (...) se denomina sistema” *# CELSO ANTONIO BANDEIRA DE MELLO: “...um conjunto sistematizado de princfpios e normas (...) que guardem en- tre si uma relacao légica de coeréncia e 24. Teoria Pura do Direito. Trad. Jodo Bapiista Machado. 2. ed. Sao Paulo: Martins Fontes, 1987, pp. 283-284. 25. Ligbes de Filosofia do Direito, (Studium). Trad. Anténio José Brandao. 5. ed. Coimbra: Arménio Amado, 1979, p. 355. 26. Noma y Accién - Una investigacién logica, (Estructura y Funcién, 30). Trad. Pedro Garcia Ferrero. Madrid: Tecnos, 1979, p. 210. 27. Apud JUAN-RAMON CAPELLA, EI Derecho como Lenguaje — Un andlisis légica, (Zetein - Estudios y Ensaios, 25). Barcelona: Aol, 1968, p. 142. 28. Idem, ibidem, p. 288. 29. Apud MARCELO NEVES. Teoria.., op. cit, p. 3, n® 10. 30. Filosofia del Derecho, 11. ed. México: Porrua, 1989, p. 146. 31. Direito Constitucional. 4. ed. Coimbra: Almedina, 1989, p. 117. 32, Apud CLAUS-WILHELM CANARIS. Pensamento.. op. cit, p. 10. Noutro canceito Kantian, o fiésofo subliha o dado da urida- de: “Entendo por sistema a unidade dos diversos conhecimentos debaixo de uma idéia” (qoud PAULO BONAVIDES. Curso de Direito Consttucional. 4. ed. S40 Paulo: Malneiros, 1993, p. $0). 38. Pensamento... op: Git, pp. 77 € 280. 94. Sistema... op. ct, p.4. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, v. 33, 2000 A Nogdo de Sistema no Direito unidade compondo um sistema...”." JOSE AFONSO DA SILVA: “...cada instituigéo constitucional concorre para integtar o sen- tido das outras, formando uma rede interpenetrante que confere coeréncia € unidade ao sistema...” ANGELA MARIA DA MOTTA PACHECO: “...se o ordenamento jurfdico é um sistema jurfdi- co, as normas jurfdicas devem manter a uni- dade, a coeréncia e completude”.” MARIA HELENA DINIZ: “O sistema juridicu de- verd, teoricamente, formar um todo coeren- te (...) A coeréncia légica do sistema é exigéncia fundamental (...) do principio da unidade do sistema jurfdico”* JOSE EDUARDO SOARES DE MELO e LUIZ FRANCISCO LIPPO: “...‘sistema’(...) um conjunto ordenado de elementos afins, dis- postos de maneira coerente ¢ l6gica, forman- do uma totalidade ¢ dentro da qual cada elemento mantém uma relagio de interdependéncia com os demais".” EROS ROBERTC GRAU: “Podemos definir sis- tema jurfdico (cada sistema jurfdico) como uma ordem teleoldgica de principios gerais de diveito” © ROMEU FELIPE BACELLAR FI. LHO: “...sistema € mais do que conjunto 57 de normas, é conjunto qualificado pelo inter-relacionamento e ordenagdo. Por con- seqiiéncia, através dos princfpios, as regras (...) so costuradas uma as outras para for- mar um sistema...”. 4! (Grifamos) Conquanto menos numeroso, é ex- pressivo e respeitavel o grupo daqueles para quem a nogdo de sistema prescinde da carac- teristica da ordenagdo ou coeréncia. Desde a Argentina, manifestam-se CARLOS E. ALCHOURRON e EUGENIO BULYGIN: “Algunos autores parecen considerar que la coherencia es propiedad necesaria de todo sis- tema (...) Tal restriccién del significado del tér- mino sistema es dificilmente aconsejable. Conjuntos normativos incoherentes no son tan taros (...) Un sistema no coherente es también un sistema...”. Daqui e no mesmo sentido, LOURIVAL VILANOVA: “O Direito é um sistema com contradigdes”.* De modo se- melhante, MARCELO NEVES: “...a coe- réncia ou compatibilidade interpartes nda se inclui entre as notas essenciais do conceito de sistema”,* cujos passos sio seguidos por ‘outros autores.’ Thteressante considerar, no tema, a curiosa posigo de NORBERTO BOBBIO. 35. Elementos de Direito Administrative. 2. ed, S40 Paulo: RT, 1990, p. 15. Curso de Direito Adininisiratvo. 12. ed. S40 Paul: Malheiros, 2000, p. 25. 36. Aplicabilidade das Nomas Constitucionais. 3. ed. Sao Paulo: Malheiros, 1998, p. 184. 37. Sang6es Tributérias e Sangdes Penais Tributdrias. Séo Paulo: Max Limonad, 1997, p. 147. 38. Conflto... op. cit, pp. 16 6 18. 39. A N&o-Cumulatividade Tributéria. Sio Paulo: Dialética, 1998, p. 17. 40.. O Direito..., op. ct, pp. 19 47. 41. Principios Constitucionais do Proceso Adiministrativo Disciplinar. Sao Paulo: Max Limonad, 1998, p. 148. 42. Introduccién a la Metodologia de las Ciencias Juridicas y Sociales, (Col. mayor Filosofia y Derecho, |). Buenos Aires: Astrea, 1987, pp. 102 @ 86. 43. As Estruturas..., op. ct, p. 139. Também: pp. 38-39, 135, 143, 144, 146, 175, 225, 226-229 e 232-233. 44. Teoria... op. ct, pp. 23. 45. NEVES, Luis Femando de Souza. COFINS.. op. cit, p. 37. ESTEVES, Maria do Rostrio. Normas Gerais de Direito Tributério. 840 Paulo: Max Limonad, 1997, pp. 27-28. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, v. 33, 2000 58 Num momento, o eminente intelectual ita- liano afirma: “...entendiendo por ‘sistema’ una totalidad ordenada, o sea, un conjunto de entes, entre los cuales existe un cierto orden. Para poder hablar de orden es necesario que los entes constitutivos no estén tan solo en telacién con el todo, sino que estén en relacién de coherencia entre si”. Para, noutra opor- tunidade, logo adiante, assewerar: “Dos nor- mas incompatibles, del mismo nivel y contempordneas, son ambas vdlidas (...) son ambas vdlidas en el sentido de que, no obstante su conflicto, contintian existiendo en el siste- ma...” (grifamos). Pela primeira assertiva, MARCELO NEVES 0 arrola entre os que reivindicam a coeréncia como integrante do conceito de sistema; pela segunda, EURICO MARCOS DINIZ DE SANTI 0 inclui entre os que aceitam o Direito Posi- tivo como sistema, mesmo em face das suas antinomias. Inclinamo-nos pela interpre- taco deste Gltimo jurista, uma vez que, parece-nos, conquanto nao explicitado, quando trata do sistema como uma totali- dade ordenada, a exigir coeréncia, est4 a considerar o sistema jurfdico ne sentide da Ciéncia do Direito, ou no sentido de ideal José Roberto Vieira de justiga do direito posto; ¢ quando admi- te normas incompativeis e a subsisténcia do sistema, estd a versar o sistema juridico no sentido do Direito Positivo, tal como se nos apresenta. Do que nao resta divida, porém, € que o Direito Positivo, para BOBBIO, é efe- tivamente sistema.” Na mesma linha, a analise percuciente de PAULO DE BARROS CARVALHO: “...ndo faltam aqueles que negam a possibilidade de o Direito Positivo aptesentar-se como sistema (...) A Ciéncia do Direito, sim (...) atingiria o nfvel de sis- tema. Esse no €, contudo, nosso entendi- nnenite (..) odieity posto hd de ter ane tndnemo de racionalidade para ser recepcionado pe- los sujeitos destinatérios, circunstdncia que lhe garante, desde logo, a condigdo de sistema” (grifamos) .° Quanto 4 fundamental distin- cdo entre o sistema juridico cientifico e o sistema juridico positivo, j4 se pronunciara 0 autor: “O sistema da Ciéncia do Direito é isento de contradigées. Por seu turno, o siste- ma do Direito Positivo abriga antinomias, en- tre as unidades normativas, as quais somente desaparecem com a expedicao de outeas regras” (grifamos).!! Teorla General... op. cit, pp. 177 e 207. Teoria do Ordenamentb... 0p. cit, pp. 71 ¢ 113. Langamento... op. cit, p. 54,1? 84. 4. 41, Teoria... op. ct, p. 3, n° 8. 48, 49. .. Debrugado sobre os significados de sistema jurfdico, e especificamente sobre aquele que ~..2s indudablemente el més interesante..." reflete EOBBIO: “.. sistema juridico no es un sistema deductivo...; si se quiere es un sistema en un sentido ‘menos comprometedor, en un sentido negativo, o sea de un arden que excluye la incompatibiidad de sus partes individuales. Dos proposiciones como: ‘La pizarra es negra'y ‘Elcafé es amargo' son compatibles, pero sin que seimpiquen mutuamente. Por tanto, es inexacto hablar, como se hace muy fecuentemente, de coherencia del ordenamiento jurfcico en su conjunto.. Sien un sistema deductivo aparace una contradiecién, todo el sistema se demumba. En un sistema juridico la admisién del principio quo ‘excluye la incompatibilidad tiene como consecuencia, en caso de incompatibilidad de dos nommas, la caida no ya de todo el sistema, sino solo de una de las dos normas oa lo sumo de ambas" (Teorla General... op. cit, p. 183; Teoria do Ordenamento..., 9p. cit, pp. 79-80). 50. Direito... op. ct, p-39. No mesmo sentido: O Direito Positive como Sistema Homogéneo de Enunciados Dedrticos, in Revista de Direito Tributério. Séo Paulo: RT. n® 45, ju/set 1988, pp. 32¢ 33. 51. Curse... Cp. Ct, p. 9. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, v. 33, 2000 A Nogao de Sistema no Direito Quando nos debrugamos sobre esse tema no passado, embora reconhecendo a tendéncia do direito posto ao ser sistema (GIORGIO DEL VECCHIO e LOURIVAL VILANOVA®), terminamos por negar-lhe tal condig4o, dizendo-a re- servada & Ciéncia Juridica: “..ordem jurfdica positiva, que, por sua vez, tende a ser sistema...” “Temos falado de sistema jurfdi- co. E hora de reconhecer, entretanio, a equivocidade da expresso, que admite no seu recinto tanto a idéia de sistema no Direito Positivo quanto a de sistema na Ciéncia do Direito. J4 adiantamas, ao fechar o item anterior (2.3.1), que 0 ordenamento aponta na direco do ser sistema; mas, aditamos agora, nao logra- 14 s¢-lo, em tiltima instancia. Apenas € to-somente a Dogmatica Juridica (ci- &ncia jurfdica em sentido estrito) é dado atingir tal nivel, porque isenta das con- tradigdes que ndo poupam o conjunto das normas positivadas."» 59 Mas, se desde a manha da filosofia humana, com HERACLITO de Efeso, “Tudo flui (...) nada persiste, nem perma- nece © mesmo”, e se o homem 6, essenci- almente, um ser em processo, nao sera diferente com o homem-cientista. Na ci- &ncia, inclusive na do Direito, de definiti- vo sé existe a certeza de que tudo é provisério. Na quest&o em tela, pensamos hoje de modo diverso: embora destitutdo de plena coeréncia, o direito posto é sistema, pelas raz6es que passamos brevemente a enunciar. Que € coeréncia? Nossos dicionarios invariavelmente mencionam as nogées de ligag&o, harmonia, acordo, congruéncia, nexo ou Conexao entre situagdes, fatos ou idéias. A maior parte deles (cerca de ses- senta por cento), no entanto, refere ainda outro sentido: o de légica ou logicidade para osubstantivo coeréncia (seis léxicos)® e o de légico para 0 adjetivo coerente (onze léxicos).*° 52. VECCHIO, Giorgio del. Direto, Estado e Filosofia. Trad. Luiz Luisi Rio de Janeiro: Politécnica, 1952, po. 72-73: ‘As proposighes juridices singulares (..) ‘endem raturalmente a corstiur-se em sistema..”. LOURIVAL VILANOVA, embora diga e rediga, 20 longo de sua obra, que 0 direito positivo & um sistema, como demonstrado na nota n® 43, retro, em determinados momentos parece hesitar: *...0 direito positivo se nao , tende aser um sistema” (As Estruturas..., op. cit, p. 47); "Se de fato na alcangaa forma-mite de sistema, o ordenamento 6, tendencisimente, quanio maior foro quantum de recionalizacdo, sistema’ (ibidem, p. 215); *..0 ser sistema é a lina tendencial do ordenamento juridico postvo..."ibidem, p. 225). Confia-se nossa tentatva de explicago na nota n* 68, adiante 53. A Regra-Matriz de Incidéncia do IPI: Texto @ Contexio, Curitiba: Juru, 1993, pp. 33 e 35. 54, HEGEL, Georg Wilhelm Friecrch. “Prelegoes sobre a Historia da Filosofia’, in Os Pté-Socrétioos: ragmentos, doxograta@ co- ‘montétios, (Os Pensadores). Trad. José Cavaleante de Souza ot al. 2. ed. So Paula: Abil Cultural, 1978, p. 92. 55. Sé0 0s seguintes dicionarios: AGENOR COSTA, Dicionario Geral de Sinénimos e Locugées da Lingua Portuguésa (sic). V. 1. Rio de Janeiro: Luso-Brasileira, 1960, p. 576. HOUAISS, Anténio. Pequeno Dicionario Encicfopéaico Kcogan Larousse. Rio de Janei- ro: Larousse, 1979, p. 204. FERREIRA, Auréio Buarque de Holanda. Novo Dicionério da Lingua Poruguesa. Fio de Janeiro: ‘Nova Fronteira, 1975, p. $42. CANDIDO DE OLIVEIRA (super), Dicionério Mor da Lingua Portuguesa. V. I. S20 Paulo: Livio’ Mor @ EPB, 1967, p. 587. AZEVEDO, Francistn Ferreira dos Santos. Dicionério Analégico da Lingua Portuguesa (Ialéias Afins). Brasfia: Coordenada, 1874, pp. 221 tf 476) e575. TERTULIA EDIPICA, Diciandrio de Sindnimos da Lingua Portuguesa. 3. e4. Lisboa: Jodo Francisco Lopes, s.d., p.228. 56. S20 0s seguintes dicionairios: SILVA, Adalberto Prado e (oo«rd.), Dicionro Brasilero da Lingua Portuguesa. V. |. $40 Paulo: Mirador-Melboramentos, 1975, p. 440. COSTA, Agenor. Dicionério.. op. cit,p. 576. NASCENTES, Antenor. Diciondrio da Lingua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro: Bloch, 1986, p. 148. FERREIRA, Auréio Buarque de Holanda. Novo... op. cit, pp. 342 e 849. CALDAS, Aulete, Diciondrio Contempordneo da Lingua Portuguésa sic). V. |. 2. ed. Rio de Revista da Faculdade de Direito da UFPR, v. 33, 2000 60 José Roberto Vieira oO eee Uma breve investigagao nos dicionérios fi- loséficos confirma tal significado: NICOLA ABBAGNANO aponta, de um lado, a nao- contradigéo somada & harmonia, e de ou- tro, a nao contrariedade;*7 ANDRE LALANDE, igualmente indicando a nao- contradigao, sublinha o sentido de coerén- cia como consisténcia;*> HILTON JAPIASSU e DANILO MARCONDES DE SOUZA FILHO partem da nogao de ou de consisténcia esta confinado ao ambito da Légica. £ semelhante o raciocinio exemplar de EURICO MARCOS DINIZ DE SANTI, que conclui: “Reside af o desenlace do pro- blema” (grifamos). Com efeito, se 0 pro- blema € logico, a sua perspectiva de solugo est4 no olhar com acuidade para a légica prépria dos sistemas que fazem 0 nosso in- teresse. Nada mais légico! compatibilidade, para também aludirem 4 integridade e A consisténcia;® e eminentes légicos e fildsofos do Direito, como IRVING M. COPI, GEORGES KALINOWSKI, JUAN-RAMON CAPELLA, DELIA TE- RESA ECHAVE, MARIA EUGENIA URQUIJO, RICARDO A. GUIBOURG e FABIO ULHOA COELHO, versam a co- eréncia como consisténcia Idgica. Quan- to A consisténcia, dispomos do esclarecimento competente de JOSE FERRATER MORA: “El concepto de consistencia es un concepto sintdctico”.“ En resumo, 0 estudo dos conceitos de coeréncia O Direito Positive, como complexo de normas em vigor num determinado tempo e lugar, destinando-se a disciplina da vida em sociedade, langa mao de uma linguagem prescritiva de condutas desejadas. J4 a Ci- éncia do Direito, fazendo do Direito Positivo co seu objeto, para descrevé-lo, ordend-lo ¢ hierarquizé-lo, explicando-o, constitui-se como metalinguagem de cunho cognoscitivo e descritivo-explicativo, A cada um desses dis- cursos corresponde uma ldégica especffica: a Ciéncia do Direito a Légica Alética ou Apofantica (l6gica classica, légica das ci- éncias), cujos valores sdo a verdade e a falsi- Janeiro: Delta, 1964, p. 839. FIGUEIREDO, Cndido de. Novo Diionério da Lingua Portuguesa. V. |. 9. ed. Lisboa: Bertrand, 1939, p.594. BUENO, Francisco da Silveira. Diciondro Escolar da Lingua Portuguésa (si). 6.ed. Rio de Janelro: MEC-Fename, 1969, p. 304. MELO, J. Almeida Costa e MELO A. Sampaio. Diciondrio da Lingua Portuguesa. 5. ed. Porto: Porto, 1981, p. 332. CARVALHO, J. Mesauita de. Dicionério Pritico da Lingua Nacional. Porto Alegre: Globo, 1945, p. 233. FONTINHA, Rodtigo. ‘Novo Dicionéo Etimolégico da Lingua Portuguesa. Porto: Domingos Barrera, sd, p.441, TERTULIAEDIPICA, Dicionéro... Op. cit, p. 228. Dicionério de Filosofia, S40 Paulo: Mestre Jou, 1982, p. 136. Vocabulério Técnico ¢ Critico da Filosoiia. Trad. Fatima S4 Correia et al. So Paulo: Martins Fontes, 1993, pp. 166 © 199. Dicionério Bésico do Filosofia. 2. od. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993, p. 51. COPA, Irving M. Introdugdo & Légica. Trad. Alvaro Cabral. 2. ed. S40 Paulo: Mestre Jou, 1978, pp. 387 e 479. KALINOWSKI, Georges. Inroduccién a la Logica Juridica: Elementos de semidtica jurigica, gica de las normas y l6gica jurflica. Trad. Juan A. Casaubon. Buenos Aires: EUDEBA, 1973, pp. 61-62. CAPPELA, Juan-Ramon. El Derecho... op. cit, pp. 279-288. ECHAVE, Delia Teresa; URQUNO, Maria Eugenia; GUIBOURG, Ricardo A. Logica, Proposicién y Norma (Filosofia y Derecho, 9). Buenos Aires: Astrea, 1988, p. 145. COELHO, Fabio Ulhoa. Légica Juric, uma Introdugo— Um Ensaio sobre a Logicidade do Direito (Trihas). $20 Paulo: EDUC, 1992, p. 77; e Roteiro de Légica Juridica, Sao Pauio: Max Limorad, 1966, pp. 65-66. 61. Diccionério de Filosofia. V. |. 6.ed. Madrid: Alianza, 1985, p. 607. 62. Langamento.., op. ct, pp. 53-54. B83 Revista da Faculdade de Direito da UFPR, v. 33, 2000 A Nogdo de Sistema no Direito 61 dade; ao Direito Positivo a Légica Deéntica (ldgica do dever-ser, 6gica das normas), cujos salores sdio a validade e a nab-valida- de® Ora, sob 0 influxo da Légica Alética, as proposigées juridico-cientificas tém preten- sao de verdade, inadmitindo-se as contradi- ges e as contrariedades, sob pena da construgdo de um discurso inconsistente. Eis que o sistema da Ciéncia do Direito exige acoeréncia, em virtude da légica que Ihe é prépria. J& as proposigdes juridico-positivas, sob influéncia da Légica Deéntica, tém preten- sao de validade, cuja dependéncia nao é de eventuais contradigSes ou contrariedades, que so aqui admissiveis, mas dos critétios de pertinéncia, que as acolham ou rejeitem no conjunto.* Eis que o sistema do Direito Positivo prescinde da coeréncia (consisténcia), por forga da légica que Ihe é peculiar® Registre-se que, mesmo ndaio lhe sendo intrinsecamente necessdria a coevéncia, 0 Di- reito Positivo para ela deve inclinar-se, elegen- do-a como ideal. & a ligio de NORBERTO BOBBIO: “...la coherencia no es condicién de validez, pero es siempre condicién para la justicia del ordenamiento”. Nesse mesmo sentido € que ALCHOURRON e BULYGIN, falando dos conjuntos normativos, afirmam: “..la coherencia es un ideal racional”.©' E ein termos de sintese, a palavra sempre admiravel de LOURIVAL VILANOVA: “...que 0 Direito deva ser um sistema isento de contradigdes que atenda ao tequisito de racionalidade, de realizagao da justiga...”. Menciondvamos, hé pouco, trés no- gGes posstveis de sistema. A primeira (reper- tério e estrutura), insuficiente. A segunda (repertério, estrutura e unidade), bastante para explicé-lo no nivel do Direito Positi- vo. A terceira (repertério, estrutura, uni- dade e coeréncia), apta a significd-lo na esfera da Ciéncia do Direito. No que tange & classificagdo dos siste- mas, ficamos com a proposta de MARCE- 63, Tratamosdotema em A Regra-Hatr... op. it, p- 28, seguindo os passos dos mestres: LOURIVAL VLANOVA, As Estruturas... op. cit, pp. 113-115; LUIS ALBERTO WARAT, O Dieito e sua Linguagem, Porto Alegre: Fabris, 1964, pp. 48-52; PAULO DE BARROS CARVALHO, Curso... op. cit, pp. 1:8; JOSE SOUTO MAIOR BORGES, *0 Direito como Fendmeno Lingutstico, 0 Problema de Demarcaeéo da Ciéna Juridica, sua Base Emplca e 0 Método Hipottico-Dedutvo’, n Anudrio do Mestrad em Direio, Recife: Faculdade de Dieito — Universidade Federal de Pemambuco, 14, jarvdez 1988, po. 11-16, 1.1 a 1.10;@ in iéncia Feliz (Sabre 0 Mundo Juridico e Outros Mundos). Recite: Prefeitura da Cidade do Recife - Fundacao de Cultura Cidade do Recife, 1994, p. 123-128, n® 1.1.2 1.10. 64. VILANOVA, Lourival. As Estuturas... op.cit pp. 127 €217-220.ALCHOURRON, Carlos E. eBULYGIN, Eugenio, ntroduccién... op. cit, pp. 118-119. NEVES, Marcelo. Teoria... op. cit, p. 7. 65. No sentido especifco da L6gica Deéntice, pode-se também falar de coeréncia dedntica, como o faz EURICO DE SANTI (Langa- ‘mento..., Op. cit., p. 54). Ainda GABRIEL !VO: “€ possivel a existéncia de contradigdes ou antinomias no sstema do Direito positivo, porquanto a coeréncia aqui redamada néo & da lgica classica @ sim da légica detintica’ (Constivigdo Estadual — ccompeténcia para elaboragéo da Constiticdo do Estado-memtro). S40 Paulo: Max Limonad, 1997, 0. 36). 66. Teora General... op. dt., p. 207. Teoria do Ordenamento..., op. cit, p. 113. 67. Introduccin.., op. cit, p. 102 Assim também MARCELO NEVES, Tecra... op. cit, p. 3; bem como MARIA DO ROSARIO ESTEVES, Normas..., op: Git, p28. €8. As Estrutias... op. cit, p. 139. E resse contexto que encontramos explicagdo para as alusbes do jusfidsofo tendncia do Direito Positivo a ser sistema (nota r? 52). Nelas, VILANOVA usa 0 vocébulo sistema camo para a Ciéncia do Diretto (dotado de ‘coerfncia), no sentido de ideal de racionalidade e justiga. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, v. 33, 2000 62. LO NEVES,® elaborada a partir de LOURIVAL VILANOVA,” e acatada por PAULO DE BARROS CARVALHO" e por EURICO MARCOS DINIZ DE SANTI.?2 Os sistemas sao reais ou empiricos, quando seus elementos sao objetos extralingiifsticos (como o sistema sola, o sistema respiratério, etc.); e sao proposicionais, quando seus elementos si0 objetos lingiifsticos, proposigées. Estes, os sistemas proposicionais, dividem-se em nomolégicos e nomoempiricos. Os sistemas proposicionais nomolégicos sao constitufdos por proposigdes analiticas, que se desenvol- vem, mediante um processo dedutivo, a partir de uma base axiomdatica situada no interior do sistema, nao condicionadas pe- los dados da experiéncia (como os sistemas matemiaticos, légicos, etc.). Os sistemas proposicionais nomoempiricos sao constitui- dos por proposicées sintéticas, formuladas numa linguagem aberta ao aditamento de novos enunciados, e condicionadas pela experiéncia. Por fim, estes, os sistemas proposicionais nomoempiricos, subdividem- se em descritivos ou teoréticos e prescritivos ou normativos. Os sistemas nomoempiricos descritivos ou teoréticos sio0 compostos por proposig6es descritivas dos dados da zeali- dade, com pretensio de verdade (como os sistemas cientificos, inclusive o sistema da 1. Teoria... op. cit, pp. 3-8. José Roberto Vieira Ciéncia do Direito). Os sistemas nomoempiricos prescritivos ou normativos sio0 compostos por proposigées prescritivas dirigidas A conduta humana, com preten- sao de validade (como os sistemas morais, religiosos, etc.; inclusive o sistema do Di- reito Positivo). Parece-nos conveniente grifar a ca- racteristica de unidade dos sistemas. E 0 faze- mos com supedaneo nas palavras com que ETIENNE BONNOT DE CONDILLAC abre o seu “Tratado dos Sistemas”: “Um sistema néo é outra coisa que a disposigéo das diferentes partes de uma arte ou de uma ciéncia numa ordem onde elas se sustentam todas mutuamente, eonde as iiltimas se explicam pelas primeiras. Aquelas que dao vaxao ds outras chamam- Se principios e o sistema é tao mais per- feito quanto os princfpios 0 so no menor némero: € mesmo desejavel que se os reduza aum 86.” (grifamos)?3 Tal unidade € conferida ao Direito, no plano da positividade, pela Constituigéo, fundamento de todas as regras que se distribuem pelos degraus inferiores da hierarquia normativa. O suporte de va- lidade Gltimo, todavia, no plano epistemoldgico, ser4 a norma hipotética fun- damental, esta sim outorgando a unidade de- finitiva ao sistema, em resposta a 69, 70. As Estruturas..., op. cit, pp. 17 99. 71. Curso... op. et, pp. 8486. Direto... op. cit, pp. 41-48. A aceitago da proposta de MARCELO NEVES, por parte de PAULO DE BARROS CARVALHO, no é plena, pois este pensador adverte que *...ndo hd conhecimenio (no sentido pleno) sem linguagem", Togo *..1040 sisterra seria do tipo proposcional’, conde a conclusdo inevitvel:*..a subespécie dos sistemas reais néo pode ser ‘aceita no Ambito do modelo que venho desenvolvendo...” (ibidem, pp. 43-44). . Langamento... op. cit, pp. 49-50. Igualmente MARIA DO ROSARIO ESTEVES, Normas... op. cit, pp. 27-23. n, 73. Tratado dos Sistomas, in Toxtos Escolhids, (Os Pensadores, XXVI). Trad. Luiz Roberto Monzari Sé0 Paulo: Abril Cutural, 1973, ps. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, v. 33, 2000 A Nogao de Sistema no Direito reclamagao de CONDILLAC por um prin- cfpio tinico. “Como a norma fundamental €0 fundamento de validade de todas as nor- mas pertencentes a uma ¢ mesma ordem juridica, ela constitui a unidade na pluralidade destas normas” (HANS KELSEN”). Com isso, aproxima-se 0 siste- ma jurfdico da configuragao de sistema como “a forma das formas”, devida a EDMUND HUSSERL.” Num sistema jurfdico, o repertério é composto por normas, que, encetando rela- ces entre si, agrupam-se em derredor de ou- tras normas, pelas quais foram atrafdas, seduzidas e presas, naquela “reacéo centripeta” de que fala PAULO DE BAR- ROS." Essas normas que compdem de modo especial a estrutura do sistema, exi- bindo excepcional vigor aglutinante, so os principios. Conquanto nao constituam o alvo tematico bdsico destas reflexdes, tomemos a oportunidade para encarecer 0 elevado valor dos princfpios de um sistema juridico, pondo friso na inafastavel exigéncia de atin- gir-se a trama normativa toda, e especialmen- te a constitucional, pela via sistemdtica. Valemo-nos aqui do testemunho confidvel de JOSE AFONSO DA SILVA: 74. Teoria Pura... op. ct, p. 220. 63 “0s elementos da constituigao nao tém valor isoladamente, pois, como se inse- rem num sistema, condicionam-se recipro- camente, de sorte que ndo se podem interpretar uns sem ter presente a significa- Gao dos demais. Influenciam-se mutuamente ¢ cada instituigéa constitucional concorre para integrar o sentido das outras, forman- do uma rede interpenetrante que confere coeréncia e unidade ao sistema, pela cane- xo recipraca de significados”.”” Conexao de significados a que corresponde o “...encadeamento de ‘signi- ficagdes normativas'(...)” referido por TERCIO SAMPAIO FERRAZ JR.,’° que, Jembrado por GERALDO ATALIBA, pro- voca-lhe esta oportuna afirmagao: “Nao ha norma juridica avulsa. $6 é jurédico o precei- to integrado no sistema.” (grifamos)” Muito embora nao deixem de existir aqueles que ousam recusar importancia & idéia de sistema; e entre eles, lamentavel- mente, o pensador singular que foi FRIEDRICH NIETZSCHE, e que chegou a descrever o recurso & nocio de sistema como “caréncia de criatividade juridica”, e mesmo como “doenca do carter”; tal se deu, e de modo restrito, pelo especifico des- crédito que assaltou 0 idealismo hegeliano, conforme esclarece PAULO BONAVIDES.® E nao impediu que esse mesmo constitucionalista elevasse esse con- 75. ApudLOURIVAL VILANOVA, As Estruturas.., op. cit, pp. 115 e 135. E apud PAULO DE BARROS, Curso... op. cit, p. 83; & Direito.., op. ct, p.40. 76. Curso... OD. Git, p.91. 71. Aplicabilidade.... op. cit, p. 104. 78. Conceito... op. cit, p. 173. 79. Reptilia Constivigéo, (Textos Fundamentzis de Dirsito Publivo, 7). Séo Paulo: RT, 1985, p. 102. Na segunda edigdo, atuali- zada por ROSOLEA MIRANDA FOLGOS|, So Paulo: Malheiros, 1998, pp. 128-129. 80. Curso... 0p. cit, pp. 95:96. Revista da Faculdade de Direito da UFPR, v. 33, 2000 64 ceito a condigao de “idéia-forga de nosso tempo”.*! ‘T&o essencial € 0 conceito de siste- ma para a ciéncia em geral, e para a Cién- cia do Direito em particular, que KARL LARENZ assevera: “O sistema significa (...) a Gnica maneira possivel por que o espirito cognoscente consegue ficar seguro da ver- dade: 0 critério da racionalidade intrinseca, a 81. biden, p. 88, José Roberto Vieira preocupacdo imprescindivel de verdadeira cientificidade”®’ Motivo também para a assercio de WILHELM SAUER: “Apenas © sistema garante conhecimento, garante cultura. Apenas no sistema é possivel ver- dadeiro conhecimento, verdadeiro saber.”® RazAo ainda para a sentenga incisiva de H. J. WOLFF: “A Ciéncia do Direito ou € sis- temdtica ou nao existe.” 82. Motedologia éa Ciéncia do Direito, Trad. José Lamego. 2. e4. Lisboa: Gulbenkian, 1989, p. 19. 83. Apud CLAUS.WIILHELM CANARIS, op. cit, p. 5. 84. Apud CLAUS.WILHELM CANARIS, ibidem, loc. ct Revista da Faculdade de Direito da UFPR, v. 33, 2000