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ALQUIMIA CÓSMICA

18/09/2005

Alquimia cósmica

Bem antes de existirem alquimistas humanos, o Universo já


realizava o suposto milagre da transmutação no coração das
estrelas

MARCELO GLEISER
COLUNISTA DA FOLHA

Durante a Idade Média e até o início do século 18, alquimistas


tentaram um feito impossível: a transmutação de elementos
químicos, em particular chumbo, em ouro, usando reações químicas
comuns. O impossível aqui, como foi descoberto bem mais tarde,
não é a transmutação dos elementos em si, mas fazê-lo usando
reações com energias típicas de reações químicas, baseadas na
troca de elétrons entre elementos.

O problema é que a identidade de um elemento químico, se é


hidrogênio, carbono ou manganês, não vem do número de elétrons
circulando em torno de seu núcleo, mas do de prótons no núcleo.
Hidrogênio, o elemento mais simples e mais comum no Universo,
tem apenas um próton no núcleo. Hélio, o próximo, tem dois.
Leitores familiarizados com a Tabela Periódica sabem que os
elementos são arranjados (da esquerda para a direita) de acordo
com o seu "número atômico", o número de prótons no núcleo. Ouro
tem 79 e chumbo, 82.

Transmutação só é possível quando muda o número de prótons no


núcleo. Para isso, são necessárias reações nucleares com energias
milhões de vezes maiores do que as energias típicas das reações
químicas. Não dá para aquecer chumbo com um foguinho, misturá-
lo com outros compostos e obter ouro. O que não significa que a
alquimia não tenha sido importante para o desenvolvimento da
química, especialmente devido à identificação de vários elementos.
Mas a verdadeira alquimia precisa de física nuclear.

Bem antes de existirem alquimistas humanos, uns 13 bilhões de


anos antes, o Universo já realizava o suposto milagre da
transmutação no coração das estrelas.

É impossível olhar para o mundo à nossa volta e não se perguntar


de onde vieram os elementos químicos que compõem as coisas da
natureza. Pedras, plantas, água, animais, carros, poluição, tudo é
composto de 92 elementos, do hidrogênio ao urânio, combinados
em moléculas. A origem desses elementos está profundamente
ligada à história cósmica. E nós também, já que somos feitos
desses mesmos elementos.

Durante o primeiro minuto de sua existência, o Universo não tinha


átomos. Apenas prótons, nêutrons (a outra partícula que compõe o
núcleo) e elétrons viajavam pelo espaço, interagindo violentamente
entre si e com a radiação, como pedaços de legume em uma sopa
em ebulição. (A água, nessa analogia, é a radiação.) Quando a
temperatura da sopa cósmica caiu abaixo das equivalentes às
energias nucleares, os núcleos dos três elementos mais simples
(hidrogênio, hélio e lítio) foram formados.

Os primeiros átomos só surgiram 400 mil anos mais tarde, quando


elétrons juntaram-se aos prótons para formar hidrogênio e hélio.
Com eles, estrelas puderam nascer. Delas, surgiram os elementos
mais pesados.

No coração das estrelas ocorre a fusão do hidrogênio em outros


elementos. As enormes pressões geram temperaturas de dezenas
de milhões de graus, que causam reações capazes de fundir
prótons com prótons, formando, como num jogo de lego, outros
elementos. Nas estrelas como o Sol, a fusão vai até o carbono e
oxigênio. Nas mais pesadas, até o ferro. São elas as fornalhas
alquímicas do cosmo. Quando morrem, explodem com tal força que
os elementos mais pesados que o ferro podem ser formados, até o
urânio. O oxigênio da água, o sódio e o cloro do sal, o carbono da
sua pele e das plantas, todos foram forjados em estrelas, os
grandes laboratórios alquímicos do cosmo. Pense nisso na próxima
vez em que colocar sal no feijão.

Marcelo Gleiser é professor de física teórica do Dartmouth College,


em Hanover (EUA), e autor do livro "O Fim da Terra e do Céu"

Fonte:
Autor: MARCELO GLEISER
Origem do texto: COLUNISTA DA FOLHA
Editoria: MAIS! Página: 9
Edição: São Paulo Sep 18, 2005
Seção: + CIÊNCIA; MICRO/MACRO