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— Apanhamos uma enorme quantidade de peras, não para comermos, mas simplesmente para atirá-las aos porcos. Talvez comemos algumas delas, mas nosso verdadeiro prazer consistia em fazer alguma coisa proibida.

Qual era a fonte desta aberrante afeição por injustiça

e maldade? A crise interior de

Agostinho havia chegado ao

auge. Como ele relembra,

-

Uma grande tempestade rompeu dentro de mim, trazendo com ela um grande dilúvio de lágrimas.

E

então a famosa voz, vinda de

uma casa ao lado, alcançou os

ouvidos de Agostinho: 'Pegue-o

e leia, pegue-o e leia'.

A respeito do sofrimento, João

Crisóstomo, em suas homilias

sobre as Epístolas Pastorais,

escreve:

— Pois resta ou beneficiar-nos, ou sermos injuriados pela aflição. Não depende da natureza da aflição, mas da disposição de nossa própria mente.

»

Ler e interpretar bem as

Escrituras não é trabalho fácil.

O estudo dos oito doutores da

igreja (Ambrósio, Jerônimo, Agostinho, Gregório o Grande, Atanásio, Gregório de Nazianzo, Basílio o Grande e João Crisóstomo) mostra que eles tratavam a Bíblia como um livro santo, cujas riquezas podem ser escavadas somente por pessoas preparadas para honrar e obedecer à mensagem nela contida.

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Christopher A. Hall

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PAIS

DA

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3 a Reimpressão

. Editora Ultimato

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SEMINÂRiO CO^üÓHOíá

Seminário

Concórdia

Biblioteca

Seminário Concórdia Biblioteca Copyright © 1998 by Christopher A. Hall Reading Título Original: Scripture with the

Copyright © 1998 by Christopher A. Hall

Reading

Título

Original:

Scripture

with

the

Church

Fathers

Publicado originalmente por InterVarsity Press P.O. Bo x 1400, Downers Grove, IL 60515, USA

Tradução:

Rubens

Castilho

Projeto Gráfico:

Editora

Ultimato

I a

Edição:

Julho

de

2000

Revisão:

 

Bernadete

Ribeiro

Capa:

Foto

de

Shaffer-Smith

/ Stock

Photos

FICHA CATALOGRÁFICA PREPARADA PELA SEÇÃO DE CATALOGAÇÃO E CLASSIFICAÇAO DA BIBLIOTECA CENTRAL DA UFV

Hall, Christopher A. ( Christopher Alan ), 1950-

H174 L

Lendo as Escrituras com os pais da igreja / Christopher

2002

A. Hall; tradução Rubens Castilho. — Viçosa : Ultimato,

2000.

208p.

ISBN 85-86539-34-1 Tradução de : Reading Scripture with the Church Fathers Inclui bibliografia e índice

1. Bíblia - Critica, interpretação, etc. - História - Igreja primitiva, ca. 30-600. 2. Padres da igreja. I. Título.

CDD. 19.ed. 220-6 CDD. 20.ed. 220-6

2003

Publicado com autorização e com todos os direitos reservados à

EDITORA

ULTIMATO

Caixa Postal 43

LTDA,

 

36570-000

Viçosa,

MG

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31

3891-3149 - Fax:

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•www.ultimato.com.br

Para Deb, Nathan, Nathalie e Joshua

SUMÁRI O

PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA

 

9

PREFÁCIO

 

1 3

1. PO R

QU E

LE R OS PAIS?

1

7

2. A MENT E MODERNA E A INTERPRETAÇÃO BÍBLICA

25

3 QUE M SÃO OS PAIS?

.

4 6

4 OS QUATR O DOUTORE S D O ORIENT E

.

5 8

 

Atanásio, Gregório de Nazianzo, Basílio o Grande e João Crisóstomo

 

5 .

O S QUATR O DOUTORE S D O OCIDENTE

 

9 9

Ambrósio, Jerônimo, Agostinho e Gregório o Grande

 

6.

OS PAIS E A ESCRITURA

12 6

Exegese em Alexandria

7.

OS PAIS E A ESCRITURA

14 7

A resposta de Antioquia

8.

DAND O SENTIDO À EXEGESE PATRÍSTICA

16 6

NOTAS

 

18 9

ÍNDICE GERAL

20 5

PREFÁCI O À

EDIÇÃ O

BRASILEIR A

lguns anos atrás, fui convidado para lecionar durante um semestre, a disciplina "Introdução à Teologia Espiritual". Como a intenção era dar uma visão panorâmica da história e do desenvolvimento da espiritualidade cristã, comecei pelos Evangelhos, pelas Cartas de Paulo e pela igreja primitiva. Depois abordei as diversas contribuições dos pais do deserto, Agostinho, Gregório o Grande, Benedito e suas Regras Espirituais, os movimentos mendicantes, a espiritualidade contemplativa e os místicos da Idade Média. Quando introduzi a Reforma e a espiritualidade de Calvino e Lutero, puritanos e pietistas, um aluno, aliviado, disse: "agora o professor está falando dos crentes",

Enquanto falava para os alunos, a sensação era de que o período anterior à Reforma, que compreende o final do primeiro século até o final da Idade Média, havia sido dominado pelos bandidos e o período depois da Reforma, pelos mocinhos. Falar de Agostinho, Benedito, Basílio, Gregório de Nissa, Gregório o Grande. Bernardo de Clairveaux, Juliana de Norwich, Tereza de Ávila e João da Cruz era como falar dos hereges, dos idólatras, da fase negra da história da igreja. Somente no século XVI é que entram em cena os mocinhos, que derrotam os bandidos e dão início à fase do triunfo dos crentes.

Grosso modo, esta tem sido a maneira como o povo evangélico olha para a história da igreja. Para muitos, talvez nem mesmo Calvino ou Lutero signifiquem alguma coisa. Pensam que a igreja nasceu na visão que seu pastor

muitos, talvez nem mesmo Calvino ou Lutero signifiquem alguma coisa. Pensam que a igreja nasceu na

«o

LENDO AS ESCRITURAS COM OS PAIS DA IGREJA

teve na semana passada. A incapacidade de reconhecer a contribuição teológica

e espiritual da igreja entre o período pós-apostólico e o final da Idade Média

demonstra a incapacidade de reconhecer a ação do Espirito Santo na igreja de Cristo em quase quinze séculos. É como se o Espírito permanecesse todo este período em silêncio e inativo. Foram períodos conturbados e difíceis, tanto dentro como fora da igreja, e nenhum dos pais da igreja teve acesso aos recursos teológicos e acadêmicos que temos hoje. Mas sua piedade e devoção, aliadas a um profundo temor e vivência comunitária, proporcionaram uma leitura e compreensão que têm muito a contribuir para com os cristãos modernos. Este livro é um resgate de uma das mais importantes contribuições dos pais da igreja: a leitura e com- preensão da Bíblia. O iluminismo, que exerceu grande influência no pensamento teológico e na leitura e compreensão da Bíblia no período posterior à Reforma, influência da qual somos herdeiros, provocou um divórcio entre o teólogo e a comunida-

de e entre a teologia e a espiritualidade. Ele criou a possibilidade de existirem teólogos que nunca oram, nunca ouvem a voz de Deus e fazem da Bíblia ape- nas mais um livro de estudo e análise científica. Entretanto, para os pais da igreja, fazer teologia e orar eram a mesma coisa. A teologia de Agostinho ou a de Gregório nasceram de sua espiritualidade, de sua relação com Deus, de sua vida de oração. Eles oravam, confessavam, buscavam a Deus, e sua teologia nascia deste relacionamento e de seus conflitos. Eles não liam a Bíblia apenas para defender a teologia cristã dos ataques heréticos, mas também para sua formação espiritual. Antes de ser um texto a ser explorado, a Bíblia era uma palavra que precisava ser ouvida. A integração entre a exegese bíblica

e a experiência espiritual era estreita, o que dava um caráter mais pessoal e uma preocupação mais comunitária à leitura bíblica.

Hoje, a leitura científica e impessoal das Escrituras nos tem conduzido a um relacionamento também impessoal com Deus, a uma compreensão da verdade como apenas uma verdade lógica, e não uma verdade redentora que

nos liberta das ilusões e mentiras que vivemos. Os pais tinham uma preocu- pação mais pessoal e comunitária em sua aproximação da verdade; buscavam

a transformação, a santificação e a preservação da comunidade como fiel de-

positária da revelação. O período em que viveram foi um período cheio de afirmações, credos e declarações, que tinham a ver com a luta para manter a comunidade no caminho da verdade.

Outra diferença entre a herança iluminista e a dos pais da igreja é que

o iluminismo, sendo fortemente determinado pelo racionalismo científico,

aboliu praticamente todo o mistério da revelação. Para a consciência científi- ca, só é verdade aquilo que pode ser racionalmente decifrado e compreendido logicamente. Já os pais, por sua natureza mais relacional e pessoal, preservavam os mistérios e reconheciam que nem tudo podia ser compreendido pela lógica

PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA

da ciência, pela precisão matemática. Sabiam que era preciso render-se ao incompreensível, ao insondável. Neste ponto, é interessante notar que a melhor contribuição para a compreensão da doutrina da Trindade e sua rele- vância para a experiência cristã e espiritual vem do século quarto, e não do período moderno. Por ser uma doutrina imersa em grande mistério, os teólo- gos modernos pensaram pouco sobre ela e o que pensaram permaneceu res- trito ao que pode ser compreendido logicamente. Sua ênfase se deu na Trin- dade econômica, na maneira como Deus revela seu plano salvífico como Cri- ador, Redentor e Santificador. Já os pais da igreja, particularmente os da Capadócia, foram um pouco mais além. Procuraram discernir o relacionamento dentro da comunhã o divina, compreender o mistério do amor e interdependência que há na perfeita comunhão entre as três pessoas divinas. Com isto, eles abriram a porta para que a igreja, mesmo sem compreender todo o mistério, pudesse reconhecer a relevância da Trindade para a vida e a fé cristã. Era com esta postura que Ambrósio aproximava-se das Escrituras, como quem se aproxima de um oceano em cujas profundezas há mistérios insondáveis, Esta forma de aproximar-se da Bíblia o levava não apenas a uma reverência para com o texto sagrado, mas também a uma postura contemplativa para ouvir a voz de Deus. Em seu livro Working the Angles, Eugene Peterson fala da exeges e contemplativa. Segundo ele, não se trata de algo novo que substitua a exegese técnica e teológica, No entanto, nenhuma técnica produz alimento, como ne- nhuma informação produz conhecimento. Para Peterson, existe algo vivo em um livro, algo mais do que palavras e sentenças gramaticalmente ordenadas — existe uma alma. A redescoberta da exegese contemplativa começa basica- mente com a percepção de que toda palavra é fundamentalmente um fenô- meno sonoro e não impresso. Palavras são faladas antes de serem escritas, são ouvidas antes de serem lidas. Com os pais, aprendemos primeiro a contem- plar e ouvir, a reconhecer que Deus fala, que é Ele quem se revela a nós, e não nós que determinamos a revelação. Isto estabelece uma nova base para a com- preensão da Palavra de Deus, que nos liberta da arrogância intelectual.

Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja nos leva ao passado e nos

mostra a maneira como a igreja ouvia, compreendia e respondia a Deus e à sua Palavra. Os pais da igreja receberam este nome porque preocupavam-se com a igreja antes de qualquer outra coisa. Não apenas com a igreja de séculos atrás, mas com a igreja de hoje. Aprender com eles é uma das lições básicas para todo aquele que se interessa pela Bíblia e pela teologia.

Ricardo Barbosa de Sousa

Julho de 2000

PREFÁCI O

PREFÁCI O embro-me da preparação que fiz antes de visitar Londres pela primeira vez. Percorri com

embro-me da preparação que fiz antes de visitar Londres pela primeira vez. Percorri com os olhos a história da famosa cidade, examinei os mapas, situei os logradouros e imaginei como seria cada um deles. Ao chegar a Londres não fiquei desapontado. Ela parecia muito como a idéia que formei com base em minha limitada pesquisa. Entretanto, aconteceram algumas decepções aqui ou ali. Por exemplo, fiquei surpreso ao constatar que o Big Ben era pequeno. As fotos que eu tinha visto — talvez por causa da luz e do ângulo usados pela câmara — exibiam uma estrutura surpreendente, que dominava o cenário. O relógio, embora imponente, não se comparava com as fotos que eu tinha visto. O resultado para este turista foi um certo desapontamento.

Menciono este fato porque a mesma sensação de desapontamento, ou mesmo de desilusão, pode levar o leitor a vacilar ao ler os pais da igreja pela primeira vez, principalmente se as expectativas forem fantasiosas, mal infor- madas ou injustas em relação ao assunto em evidência. Permita-me, pois, desde o início, dizer-lhe o que esperar e o que não esperar das páginas que se seguem. Este é um livro acerca de como os cristãos, em particular os cristãos dos primeiros sete séculos da história da igreja, liam e interpretavam a Bíblia. Ele é especificamente designado a satisfazer às necessidades e perguntas de pessoas interessadas em entrar no mundo da exegese patrística que precisem de um roteiro para guiá-las.

i 4

LENDO AS ESCRITURAS COM OS PAIS DA IGREJA

Uma série de novos comentários importantes dedicados à interpretação bíblica dos cristãos da igreja primitiva, como a Ancient Christian Commentary on Scripture — ACCS — (Antigo Comentário Cristão das Escrituras), da InterVarsity Press, tem surgido e gerado muito interesse. Muitas pessoas que seguem uma série como a ACCS descobrirão que um guia é útil quando come- çam a estudar a exegese dos pais. Este é o papel que procurei adotar neste livro. Meu propósito é apresentar a metodologia e conteúdo da interpretação bíblica patrística o mais clara, simples e corretamente possível. Por que preo- cupar-nos em ler os pais da igreja? Que é um pai da igreja? Como eles lêem a Bíblia? Que metodologias e técnicas utilizam? Que ênfases, temas e caracte- rísticas inclinam-se eles a comentar e que os leitores modernos têm desconsiderado? Como sua leitura da Escritura foi influenciada por seu próprio ambiente lingüístico, político, social e filosófico? Em que eles se distinguem na interpretação? Em que pontos podem eles ocasionalmente tropeçar? Como po- dem os pais ajudar-nos a ler bem a Bíblia hoje? Estas e outras perguntas relevan- tes — e, esperamos, respostas razoáveis — vão ocupar uma boa parte do texto.

Os estudiosos já familiarizados com os pais encontrarão pouca coisa neste livro e ficarão talvez surpresos com suas omissões. Por que, perguntarão alguns, certos pais estão ausentes do texto e outros foram incluídos? Minha resposta é que tanto o espaço como o propósito limitaram minha digressão e análise. Certos personagens que uns ouviriam cuidadosamente em um estu- do patrístico detalhado ficarão quase silenciados neste texto introdutório. Por exemplo, não escrevi em pormenores a respeito das contribuições de exegetas como Ambrosiaster e Ticônio, desconhecidos dos que estão apenas iniciando o estudo da interpretação bíblica patrística, porém velhos familares daqueles que exploraram amplamente este campo. Outros leitores podem perguntar o motivo de eu ter detalhado a exposição de pais que não produziram comentá- rios extensamente, como Gregório de Nazianzo, enquanto passei ao largo das riquezas das tradições siríaca e cóptica.

Meu desejo maior foi introduzir e analisar personagens patrísticos que a igreja, tanto no Oriente como no Ocidente, reconheceu como exemplos de bons leitores da Bíblia e aplicar suas riquezas a uma variedade de necessida- des, discussões e circunstâncias. Por isso, meu enfoque incide sobre os oito grandes doutores ou preeminentes mestres da igreja; Atanásio, Gregório de Nazianzo, Basílio o Grande e João Crisóstomo, no Oriente; Ambrósio, Jerônimo, Agostinho e Gregório o Grande, no Ocidente.

Alguns destes pais escreveram extensos comentários bíblicos. Outros, não. Todos, porém, possuíam mentes saturadas da narrativa bíblica. Todos inter- pretavam a Escritura dentro de ampla variedade de circunstâncias e pessoas. Às vezes, um pai, como Jerônimo, faz a exegese de um texto bíblico em resposta a uma questão levantada em carta por um amigo, ou, ocasionalmente,

PREFÁCIO

^

1 5

por um desafeto. Além disso, Jerônimo deixou muitos comentários bíblicos sugestivos. Alguns pais, como Atanásio e Gregório de Nazianzo, interpretam a Bíblia dentro de um contexto mais amplo de controvérsia teológica. Os trata- dos teológicos, em lugar de comentários bíblicos, oferecem a melhor introdu- ção à exegese. No intento de mostrar, em minha exposição sobre Atanásio, algumas das suas melhores exegeses, surgem os chamados "anões pretos"*, como reação à posição teológica específica, que ele via como ameaça ao evangelho — a de Ário e seus adeptos.

Outros pais importantes, tais como Gregório o Grande e João Crisóstomo, foram pastores talentosos, que interpretavam a Bíblia como a pregavam fiel- mente a suas congregações em Roma, Antioquia e Constantinopla. Em razão de sua exegese derivar do contexto das questões e preocupações pastorais, ela se reveste de um caráter especialmente prático. Nem Gregório nem Crisóstomo permitem que seus ouvintes estudem a Escritura mecanicamen- te. Na realidade, todos os pais insistem que o estudo da Bíblia não deve se tornar um exercício esotérico, intelectual, praticado pelo acadêmico isolado.

Ao contrário, os pais argumentam que a interpretação bíblica é uma ativi-

dade eclesiástica a ser praticada na igreja e para a igreja, no contexto da oração

e da adoração. É um ato comunitário, e não um empenho exclusivamente

individual. A natureza eclesiástica, comunitária e inspiradora da exegese patrística viria como uma surpresa para muitos estudantes modernos da Bí- blia, especialmente para aqueles que se exercitam nas técnicas hermenêuticas do curso acadêmico moderno. Os pais são concordes em sua insistência de que o texto da Escritura abre-se àqueles que se aproximam dela reverente e receptivamente. Em resumo, os pais tratam a Bíblia, coerentemente, como um livro santo, cujas riquezas podem ser adequadamente escavadas somente por pessoas preparadas para honrar e obedecer à mensagem nela contida.

Entretanto, alguns perguntarão: podem os discernimentos e a metodologia interpretativa dos cristãos que viveram há centenas de anos permanecer relevantes para o cristão que vive no limiar do terceiro milênio? Pode-se

construir uma ponte até o mundo dos pais? Creio, seguramente, que tal proje- to de construção é uma possibilidade real. O primeiro passo para concretizar

a associação destes dois mundos interpretadores — o dos pais e o do cristão

atual — é procurar saber como os cristãos de hoje tendem a ler e interpretar

a Bíblia. Depois que a incumbência estiver completa, o restante do livro

explorará a perspectiva hermenêutica e a metodologia dos pais, uma pers- pectiva interpretativa que prontamente suplementará, ajudará e criticará

periodicamente as abordagens da hermenêutica moderna.

(*) Alusão a uma minúscula estrela, cuja iuz raramente é detectávei devido à sua pequena massa, que não produz a necessária abrasão. (N.T.)

A MENTE MODERN A E A

INTERPRETAÇÃO BÍBLICA

m expressivo artigo no TheReformedJournal William J. Abraham comenta: "Qualquer consenso em teologia atualmente começa com a rejeição da tradição cristã clássica, como esta é geralmente conhecida na cultura ocidental". 1

Abraham observa notadamente o sabor fortemente reducionista de muita teologia moderna, um reducionísmo científico que ele relaciona com a aceitação por parte dos teólogos modernos dos "cânones da ciência" e "história crítica", como critérios normativos. A narrativa bíblica da obra salvadora de Deus adapta-se aos limites reducionistas? Nada bem, teme Abraham. Uma vez que os teólogos comecem a escrever confinados na estru- tura reducionista, eles têm pouca escolha além de "reinterpretar a tradição em termos que falarão, como dizem eles, 'significativamente' para a idade moderna". 2 Abraham descreve e analisa também outras características da visão mun- dial moderna. Um a pessoa moderna é "um informado pelos cânons da racionalidade desenvolvida no iluminism o europeu". Para alguns, o iluminismo leva racionalmente a uma rejeição da possibilidade de revelação divina especial e crença em milagres, porquanto a possibilidade de intervenção divina na história não é mais considerada uma opção válida.

ÜB^^I

LEND O A S ESCRITURAS CO M O S PAI S D A IGREJ A

LEND O

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ESCRITURAS

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PAI S

D A

IGREJ A

O resultado desastroso é o isolamento da pessoa secularizada e do teólogo,

"não mais moldados por qualquer forma profunda pelas instituições da cris-

separados e sós em um oceano de individualismo e autono-

mia", 3 Com efeito, argumenta Abraham, muitos teólogos modernos endossa- ram os valores seculares "enquanto mais cristãos do que aqueles do crente

procuram associar a pessoa secular em sua busca para a auten-

ticidade, comunidade, paz e justiça". O resultado é a teologia que olha com

desconfiança como um refazimento e expansão da política e ética do iluminismo. 4

De modo interessante, as recomendações de Abraham para restabelecer e manter a saúde teológica no mundo moderno focalizam as questões da for- mação do caráter. Ou seja: espiritualmente doentes, os teólogos produzem teologia doente. Como podem eles melhorar? Primeiro, Abraham recomenda um cultivo da virtude da humildade. Os teólogos modernos têm sido tentados, por sua própria arrogância, a pensar que podem alcançar mais do que é razoável ou humildemente possível. Uma abordagem mais humilde e auto-cautelosa, aconselha Abraham, cultivaria "um sentido de inadequação em face da absoluta complexidade e mistério da or- dem divina". A teologia moderna, entretanto, tem falhado muitas vezes em reconhecer "a limitação do intelecto humano em sua tentativa de desvelar o mistério da ação de Deus no mundo". O teólogo moderno precisa lembrar que

uma teologia verdadeira e genuinamente cristã seria, com certeza, profundamen-

tandade, mas

tradicional e

te

enraizada na revelação e na tradição, na adoração e oração na comunidade cris-

tã,

em compaixão e serviço no mundo, em temor e tremor perante o prodígio do

evangelho cristão, e em humilde dependência da graça e intervenção do Espírito Santo. Entretanto, são precisamente estas marcas as que escasseiam ños cânons prevalecentes do discurso teológico. 5

Revelação, adoração e tradição são o "ventre fundamental" em que a teolo-

gia é concebida, desenvolvida e fortalecida. Não obstante, ironicamente, mui-

tos seminários têm abandonado estas fontes na tentativa mal orientada de

comunicar o evangelho mais eficazmente à cultura ao seu redor. Como triste

resultado, muitos graduados no seminário sentem-se compelidos a construir

sua própria teologia, partindo dos próprios recursos. Abraham comenta dura-

mente a expectativa ridícula de muitos seminários no sentido de "que cada

estudante de teologia deve. depois de um semestre ou mais, e em breve perí-

odo de estudo, desenvolver seu próprio credo e, em seguida, ser licenciado

para introduzi-lo amplamente em sua igreja", 6

Tracy, Wilken, Ode n e Abraham concordam que o iluminismo tem influ- enciado consideravelmente o modo como os teólogos desenvolvem sua ativi- dade e como os cristãos modernos tendem a ler a Bíblia. Muitos teólogos

A

MENT E

MODERN A

E

A

INTERPRETAÇÃ O

BÍBLICA

A MENT E MODERN A E A INTERPRETAÇÃ O BÍBLICA ocidentais, se não todos — conservadores

ocidentais, se não todos — conservadores ou liberais —, são filhos do iluminismo. Alguns, como Tracy, acolhem esta herança familiar, enquanto Wilken, Oden e Abraham são muito cautelosos em sua reação ante este de- senvolvimento. Se devemos compreender como os pais da igreja liam a Escri- tura e entrar efetivamente em seu mundo, é especialmente importante que examinemos cuidadosamente nosso próprio iluminismo moderno e o cená- rio do pós-iluminismo. Positivamente, muitos pensadores do iluminismo, horrorizados e repug- nados após anos de guerra religiosa, advogaram a tolerância religiosa, liberda- de de consciência, expansão da liberdade política, princípios e filosofia de- mocráticos, reforma legal e da punição humana. Peter Gay lembra-nos corre- tamente que os líderes do iluminismo estavam na frente da batalha pela li- berdade de expandir numerosos frontes importantes, como: "imunidade do poder arbitrário, liberdade de expressão, liberdade de comércio, liberdade de compreender os talentos de outrem, liberdade de réplica estética " Meno s positivo foi o intento entre muitas das luzes dirigentes do iluminismo de questionar crescentemente a coerência, importância e posição moral da doutrina e autoridade cristã. A aderência obstinada à tradição e pers- pectiva lógicas e eclesiásticas sempre terminou, pareceu a muitos, com al- guém sendo provado, torturado ou morto. Isto não quer dizer que a maioria dos pensadores iluministas abandona- ram de repente a crença em Deus. Voltaire argumentava que a crença em Deus era um suporte necessário e racional na vida de todos, exceto os filóso- fos mais avançados. "Quero que meu advogado, meu alfaiate, meus criados, até mesmo minha esposa creiam em Deus, e imagino que assim serei rouba- do e traído no casamento com menos freqüência." 8 E, no entanto, a teologia escorando a crença religiosa advogada por Voltaire e outros foi uma fé drasti- camente restringida; as claras distinções teológicas e os dogmas eclesiásticos continuariam a sujeitar-se à estrutura da racionalidade do iluminismo e sem- pre olhadas com crescente suspeita. Não somente a conduta, mas a proliferação de grupos cristãos, cada qual com suas distinções doutrinais ou culturais, parecem reduzir a plausibilidade de entender a verdade cristã como um todo compreensível e logicamente coerente. Voltaire gentilmente critica tal idéia.

7

Sei com certeza que a igreja é infalível; mas é a igreja grega, ou a igreja latina, ou a igreja da Inglaterra, ou a da Dinamarca e da Suécia, ou aquela da orgulhosa cidade de Neuchâtel, ou a dos primitivos chamados quacres, ou a dos anabatistas, ou aquela dos morávios? A igreja turca tem também as suas características, mas di- zem que a igreja chinesa é muito mais antiga. 9

Não era mais honesto admitir que os horrores dos cem anos do passado foram o resultado do orgulho religioso e da colossal perda da energia intelectual,

28

£p »

LEND O

A S

ESCRITURAS

CO M

O S

PAI S

D A

IGREJ A

uma teimosia em aceitar as possibilidades que a própria razão humana oferecia? O pensamento obscuro, parece, conduziu diretamente à injustiça, Voltaire tinha visto em primeira mão os resultados horríficos do zelo religioso descon-

trolado, Ele advertiu: "Uma vez que sua fé

gência declara ser absurda, tenha cuidado para que, de modo semelhante, sacrifique sua razão no comando de sua vida", 1 0 A sangría e a tirania religiosa, porém, não foram os únicos fatores que levantaram dúvida quanto ao valor da herança e autoridade da igreja. Os de- senvolvimentos básicos na ciência, matemática e filosofia indicavam que a razão humana era capaz de feitos assombrosos. As obras de Bacon, Galileu, Descartes, Newton e Kepler abriram novos panoramas para a mente ociden- tal. Mundos desconhecidos e imprevistos surgiram de um dia para outro atra- indo a exploração. Por longo tempo, a superstição e a tradição opressora havi- am algemado a razão e reprimido seu potencial."

persuade-o a crer que sua inteli-

Para muitos, o princípio da razão prometia livrar a Europa do seu passado perturbado religiosamente. Talvez, sobre a base da própria razão, a humani- dade poderia delinear um meio de pensar e viver religiosamente, o que pode- ria evitar erros passados e abrir novos horizontes para diante. Libertando a mente do passado, as superstições e restrições poderiam somente facilitar esse processo. As possibilidades pareciam infindáveis para o indivíduo autô- nomo racional.

O otimismo inicial de que a racionalidade do iluminismo e a fé cristã eram reconciliáveis, na realidade aliados, provou-se difícil de manter. Alguns intér- pretes, como Richard Tarnas, postularam uma incongruência inerente entre

o modelo do iluminismo do universo como um mecanismo com suas "forças

mecânicas, seus céus materiais e sua terra planetária", e a cosmologia cristã

"tradicional". Quanto tempo passaria para que os pensadores vissem a terra e

a humanidade como ó centro dos propósitos de Deus, se o sol e a terra foram

identificadas "meramente como dois corpos entre incontáveis outros moven- do-se ao longo de um vácuo neutro ilimitado"? 1 2 Mesmo um pensador cristão profundamente consagrado como Pascal surgiu para tremer diante das dimen- sões e implicações de um novo universo, "Estou terrificado pelo eterno silên- cio desses espaços infinitos." 1 3

Com a crescente incongruência da visão mundial do iluminismo e do cris- tianismo, desejaria Deus tornar-se uma hipótese necessária em um mundo em que a razão humana possuía as chaves necessárias para abrir os mistérios mais profundos da vida? À medida que os anos passam, uma corrente clara se afasta da ortodoxia cristã clássica encrespada através da cultura ocidental.

Pela primeira vez em sua longa história, a cultura européia libertou-se de sua ascendência cristã. Enquanto o profundo ceticismo do iluminismo redu- ziu as alegações da religião reveladas como fontes idôneas da verdade e da

A

MENT E

MODERN A

E

A

INTERPRETAÇÃ O

BÍBLICA

^

29

orientação, a religião natural — fundada sobre os princípios e leis universais disponíveis a todos os povos por meio do exercício da razão — prometeu ser uma rica fonte de discernimento para um novo mundo, livrando-se de seu passado. "O que foi verdadeiramente importante tinha sido escrito pelo Cria- dor no grande livro da natureza deixado aberto para todos lerem." 1 4 Alguns tentaram preservar o cristianismo na qualidade de intérprete mais confiável da religião da natureza. Para muitos, o profundo ceticismo do iluminism o quanto à possibilidade de um a interpretação revelada supernaturalmente em um texto autorizado enfraqueceu a abertura do uni- verso para a intervenção de Deus. Logo muitos pensadores, valendo-se das pressuposições do iluminismo, compreenderiam o mundo como um sistema fechado de causa e efeito, com pouco espaço para Deus operar. Como Clark Pinnock observa, "a concepção de um mundo unificado, em toda parte sujei- to à inexorável seqüência de causas e efeitos naturais, tornou-se a mentalida- de dominante, A história bíblica da salvação somente podia ser olhada como mito". 1 5

Com supreendente velocidade, a descendência dos primeiros pensadores do iluminismo teve logo de afastar a necessidade de uma estrutura para inter- pretar a realidade. O ateísmo tornou-se uma opção filosófica amplamente aceita pela primeira vez na história ocidental. Ludwig Feuerbach interpretou Deus como a projeção das mais profundas esperanças e preocupações da hu- manidade. Karl Marx retratou a crença religiosa como um narcótico designa- do a sedar o proletariado por causa da rebeldia contra as injustiças das altas classes endinheiradas. Freud ligou a crença religiosa às profundas neuroses na psique humana, um reflexo de uma busca infantil por segurança e relutân- cia em amadurecer. E Nietzsche, um filósofo cujo sistema desgastou pesadamente em sua própria psique, percebeu claramente que, em um mun- do sem Deus, todos os valores tornam-se relativos e a verdade, meramente uma convenção lingüística e cultural.

A teologia pós-iluminismo demonstra repetidas vezes que sua tonalidade acústica não capta as ondas divinas além daquelas que ressoam da revelação geral ou natural. Como Pinnock afirma, o "extremo mundanismo" da atual teologia é "enervante". Dentro de seus perímetros auto-impostos, o

cenário da vida humana afasta-se de seu contexto, dentro dos propósitos de Deus, para um ambiente de ausência de sentido, para nada mais definitivo do que os sistemas sempre mutáveis e relativos da própria iniciativa humana. Os modernos agora querem ver-se como criadores de seu próprio destino, para viverem a vida sem nenhuma peia divina ou dirigida por quaisquer regras sagradas, mas instala- da no reino dos olhos fechados administrando sua jornada sem preocupação. O que é real para tais pessoas são as causas profanas, contingentes e cegas que as produziram, e os artefatos e instituições que criaram para si mesmas. A vida co- meça com o nascimento e termina com a morte — não há literalmente nenhum outro sentido senão o sentido que elas criam para si mesmas. 1 6

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Em retrospecto, o otimismo filosófico e teológico do iluminismo choca nossa sensibilidade. Decerto alguns princípios do iluminismo levaram a re- formas políticas e progressos tecnológicos importantes. Entretanto, o que é mais surpreendente e preocupante na perspectiva do iluminismo é sua confi- ança ingênua de que a razão opera com autonomia, amplamente livre dos efeitos de disposição pessoal, contexto social, cenário cultural e comunidade religiosa. Não somente a filosofia pós-moderna e a hermenêutica desafiam esta asserção, mas o cristianismo clássico duvida de sua viabilidade fundamental.

Um dito da tradição teológica do Ocidente, transmitida por Agostinho e Anselmo, tinha sido que a fé levara ao entendimento. Tratava-se de uma fé em Cristo fundamentada na autoconsciência do pecado e consciência da ten- tação reiterada para autodecepção e enraizada na autoridade intrínseca da Escritura e na revelação divinamente inspirada, que foi comunicada e ali- mentada pela história de reflexão da igreja sobre o sentido da Palavra de Deus para a humanidade.

A perspectiva do iluminismo manteve esta passagem em sua memória. A compreensão levaria a uma fé amadurecida, e não o contrário. Conseqüente- mente, aqueles aspectos da tradição cristã que falharam em corresponder aos padrões da razão humana — razão liberada, autônoma — foram olhados com suspeita e para muitos definitivamente rejeitados. É surpreendente que a ressurreição, encarnação, Trindade, milagres e outros dons reveladores logo se tornaram negociáveis?

Enquanto pudemos admitir que os cristãos conservadores tinham escapa- do da metodologia teológica aleijada, a hermenêutica evangélica, especialmente nos Estados Unidos, tem sido notadamente moldada por pressuposições cen- trais do iluminismo. Mark Noli, por exemplo, tem registrado a tentativa dos eruditos evangélicos conservadores de interpretar a Bíblia por meio das cate- gorias-chave do iluminismo, 1 7 Eruditos evangélicos concordaram com a pro- funda suspeita da tradição do iluminismo e procederam a realizar uma hermenêutica menos tradicional. O moto "a Bíblia somente" sobreviveu ao ataque do iluminismo contra a tradição, mas somente por tornar-se um texto permanente, cheio de fatos para ser identificados, analisados e categorizados cientificamente.

Nas palavras de Noli. "a 'Bíblia somente' (em ambos os sentidos do termo — com o a suprema autoridade, mas também com o a única autoridade heredi-

tária) sobreviveu ao ataque sobre a tradição que caracterizava a época". 1 8 Como

'um livro gote-

observa Nathan Hatch. a Bíblia "muito facilmente tornou-se

jado dos céus para todos os tipos de homens para usar à sua própria manei- ra". 1 9

Noli explica que os cristãos conservadores esperaram longamente isso e que, como exercitaram suas razões renovadas sob a assistência do Espírito

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Santo, puderam tanto entender a Bíblia como restaurar a igreja para a pureza do Novo Testamento. A história da exegese da igreja, sua tradição de leitura da Bíblia desde a fundação da comunidade cristã inicial em Jerusalém tornou- se agora um inimigo a evitar — alguém que teve de ler a Bíblia corretamente e com segurança, Alexande r Campbell, um líder-luz no moviment o restauracionista, estabeleceu o tom de muitos outros: "Empenhei-me em ler a Escritura como se ninguém a tivesse lido antes de mim". 2 0

O impacto do iluminismo deixou sua marca quando muitos evangélicos

tratavam a Bíblia como um texto científico a ser estudado indutivamente so- mente por razão renovada. "As Escrituras admitem ser estudadas e expostas

sobre os princípios do método indutivo", escreveu James S. Lamar, em 1859, em sua obra Organon of Scripture; or, The Inductive Method oíBiblical

Interpretation (Órgão da Escritura; ou, O Métod o Indutivo de Interpretação

Bíblica), "e

certa e inconfundível como a linguagem da natureza ouvida nos experimen-

tos e observações da ciência." 2 1

Noli insiste que Lewis Sperry Chafer. um dos fundadores proeminentes do Seminário Teológico de Dallas, baseou nitidamente seu próprio critério dispensacional e teologia sistemática na leitura da Bíblia sobre esta conveni- ente abordagem científica para ler bem a Escritura.

quando assim interpretadas, elas nos falam em uma voz tão

Teologia Sistemática é a reunião, comparação, exibição e defesa de todos os fatos

de qualquer e toda fonte sobre Deus e sua

descobrirá que os grandes períodos de tempo de Deus, caracterizados como estão

por propósitos divinos específicos, inserem-se em uma ordem bem

programa de Deus é tão importante para o teólogo como é a planta para o constru-

O

O estudante das Escrituras

tor

ou a carta para o navegante

A teologia, como uma ciência, tem negligencia-

do

este grande campo de revelação [tipologia],

A contemplação da doutrina da

conduta humana pertence apropriadamente a uma ciência, que pretende desco-

A ciência de interpreta- O procedimento lógico e o método

ção [é] geralmente designada hermenêutica,

brir, classificar e exibir as grandes doutrinas da

científico [são as chaves para a hermenêutica]. 2 2

O interesse de Chafer na tipologia harmoniza com o interesse de muitos

pais da igreja no mesmo assunto. Quão surpreendente, pois, é ver a desapro- vação comum do iluminismo das possíveis contribuições da tradição como uma proposição hermenêutica na metodologia de Chafer. Certamente, Noli percebe um a autoconfiança no fundamentalismo protestante "rodeando ar- rogante, manifestado por um antitradicionalismo extremo que desconsiderou inadvertidamente a possibilidade da sabedoria das gerações antigas". 2 3 Noli percebe que Chafer sentiu que sua falta de treinamento teológico formal era realmente uma vantagem, protegendo-o dos erros passados que poderiam influenciar sua própria leitura da Bíblia, O próprio Chafer afirma: "O simples fato de eu não ter considerado a inclusão de um curso em teologia tornou

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possível para mim abordar o assunto com uma mente sem preconceito e preocupar-me apenas com o que a Bíblia realmente ensina." 2 4 Noli contrasta Craig Blaising, um dispensacionalista, que corretamente cri- tica Chafer por sua desconsideração pelo contexto histórico, confundindo o intérprete bíblico. Blaising escreve que Chafer,

não possuía nenhuma percepção metodológica da historicidade da interpretação. Além disso, esta deficiência hermenêutica foi estruturada no exato sentido do

pensamento e prática dispensionalista em sua defesa da interpretação clara, sin-

Temos, pois, uma geração de teólogos que encontram

identidade em uma hermenêutica autoconsciente em que falta consciência da natureza histórica de interpretação. 25

Blaising empenha-se corretamente no sentido de que "todo pensamento teológico, incluindo o próprio pensamento pessoal, é condicionado historica- mente pela tradição, à qual esse teólogo pertence, bem como por fatores pes- soais e culturais, tais como educação ou experiência". 2 6 A pergunta "qual tra- dição?" deve então substituir a esperança efêmera afastada da tradição em conjunto.

gela, normal ou

Fuga da tradição?

Desenvolvimentos recentes indicam que a tentativa do iluminismo de evitar toda autoridade e tradição, fora do raciocínio individual autônomo, re- presenta meramente outra tradição intelectual e cultural, "uma tradição de depreciar o valor da tradição". 2 7 Enquanto pensadores arraigados na compre- ensão otimista do iluminismo sobre a "história como progresso" tendem a manter seus olhos para a frente, Roger Lundin está mais perto da verdade ao observar que "a verdade pode residir na tradição que tem sido reprimida, negligenciada ou esquecida e que está necessitando de recuperação". 2 8

Robert Wilken alega que a desconfiança exagerada do iluminismo na tradi- ção tem levado à surpreendente incapacidade moderna de "aceitar com grati- dão o que veio antes dele e o que se fez em seu favor". Ele lembra-nos que a razão humana recusa-se a funcionar dentro de um vácuo. Ao contrário, ela é "encontrada dentro, e, não, fora das coisas; não é uma qualidade abstrata que existe independemente da mente humana". Sendo assim, é inerente e grandemente razoável "permitir que as mãos sejam guiadas por um mestre, e tolice ir sozinho, como se alguém pudesse tocar violino ou esculpir uma está- tua por estudar uma série de instruções". 2 9

Em muitos campos de trabalho criativo, o mergulho na tradição é a pressuposição para a excelência e a originalidade. Pense, por exemplo, no músico. Nas manhãs de sábado, freqüentemente ouço um programa de jazz na Rádio Nacional Pública, que apresenta entrevistas com pianistas de jazz famosos e não tão famosos, saxo- fonistas, tamborileiros, trompetistas etc, e fico sempre interessado ao ouvir como

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eles falam com tanto respeito de professores, mestres e artistas, e como aprenderam a tocar piano com uma pessoa, começando de acordo com um estilo ou sendo ensinado a soprar o trompete por imitar Louis Armstrong ou algum outro. De modo semelhante, fica-se impressionado com o fato de um intérprete como o cantor folclórico Jean Redpath falar da tradição como a condição necessária para fazer e cantar música folclórica. Quantas vezes somos advertidos a não permitir que as velhas tradições sejam esquecidas! Por quê? Certamente não é por razões históricas ou arqueológicas, mas porque músicos, pintores, escritores e escultores conhecem na ponta dos dedos ou nas cordas vocais ou ouvidos que a imitação é o caminho para a excelência e originalidade. 30

O mesmo pode ser dito da vida intelectual e da obra teológica. Com o

Thomas Ode n coloca, observar os pais da igreja expor a teologia é como assis- tir Willie May s jogar com o meio-de-campo ou Duk e Ellington tocar

Sophisticated' Lady? 1 Se, como Wilken argumenta, o "caminho do aprendiza- do para pensar é por meio dos bons pensadores e deixando que seus pensa- mentos formem nossos pensamentos", é melhor submeter-se a aprender da-

queles escritores que têm demonstrado sua integridade ao longo do tempo, aqueles que têm sido testados pelos anos e tidos comos intérpretes confiáveis do ato redentor de Deus em Cristo. Wilken lembra-nos em Agostinho que a autoridade pode significar confiabilidade, em vez de poder, um respeito esta- belecido "pelo ensino com transparência", imanente em uma pessoa que, por

Ganha-se a

confiança do estudante não simplesmente por palavras, mas também por atos,

pela qualidade da pessoa e, em resumo, pelo caráter". 3 2

A perspectiva de Wilken, alguém modelado pelos anos de imersão nos

escritos dos pais da igreja, oferece um a alternativa sólida para o exagerado individualismo epistemológico e teológico hoje prevelecente. Os cristãos, in- siste Wilken, acharão sua identidade somente por evocarem um mundo inimaginado, um mundo que procurava a verdade "com a mente no coração" — uma comunidade que insistia que a maneira como uma pessoa vive, o que e como ela pensa, e quem ela é são fatores inseparáveis — facilitando uma leitura holística da realidade freqüentemente refletida nos escritos dos pais da igreja.

ações e també m por palavras, inspira a verdade e a

Pós-modernismo: discernimentos e subterfúgios

Em reação e resposta à elevação da razão autônoma pelo iluminismo, a hermenêutica pós-moderna insiste em que é impossível separar a interpreta- ção de um texto do gênero, cultura, linguagem e posição social do intérprete. Em vários sentidos, a perspectiva pós-moderna é uma correção útil para o exegerado individualismo do iluminismo, no qual cada indivíduo, baseado somente na razão, interpreta não somente o texto bíblico, mas o universo. A

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hermenêutica pós-moderna tem-nos ajudado a ver que nosso ambiente cultural, histórico e social afeta e condiciona o que vemos e entendemos do texto e do mundo de outros.

O perigo do corretivo pós-moderno está em sua tendência de arruinar a

ontologia, a epistemologia e a ética na própria interpretação. Como afirma

Richard Rorty, "A hermenêutica

epistemológicos," Os intérpretes pós-modernos, pois, não estão tão "interes- sados no que está no mundo lá fora ou no que acontece na história, como que estão interessados no que podemos obter da natureza e da história para nosso próprio uso". Roger Lundin argumenta que muitos têm perdido a fé no poder da linguagem para espelhar a verdade. Em vez disto, empregamos a lingua- gem como uma ferramenta "terapêutica" "para ajudar-nos a conseguir o que desejamos". 3 3 O resultado é a "cultura da interpretação", na qual o eu autôno- mo isolado e expressivo enfurece-se num cenário subjetivo. Ou, como Alasdair Maclntyre observa, o "perspectivismo subjetivo" triunfa porque o pós-moder- nista admite que a única alternativa para a confiança do iluminismo na racionalidade autônoma é o subjetivismo pós-moderno. 3 4 Lundin esclarece este desenvolvimento:

é o que obtemos quando não somos mais

Em uma época em que a confiança na epistemologia corroeu-se sensivelmente, o perspectivismo surgiu para proporcionar uma oportunidade para o eu isolado —

que estava no centro da ciência, filosofia e arte ocidentais por mais de três séculos

— para manter sua fé em seus próprios poderes. Uma vez que não mais podemos

crer na capacidade do eu para atingir a perfeição moral ou adquirir conhecimento inquestionável, somos ainda capazes, por meio de nossas teorias contemporâneas

de interpretação, de manter a fé naquela capacidade do eu para encontrar satisfa-

ção pelo exercício de seus poderes criativos, 35

Lundin destaca as perguntas dos filósofos pós-modernos, tais como Stanley Fish: "Podemos ainda falar de valores absolutos ou de autoridades fora de nós mesmos?" E o que dizer da tradição? Pode o passado alcançar-nos e ensinar- nos? Ou estão suas riquezas escondidas para sempre atrás de uma parede interpretativa impenetrável? Sendo assim, o resultado é o que Nicholas Wolterstorff chama de "interpretação-universalismo", na qual, como C. Stephen Evans escreve,

a realidade não pode ser conhecida como é em si mesma, mas somente quando surge a nós. humanos. Somente conhecemos coisas relativas aos nossos sistemas

conceituais humanos, e tais sistemas são irredutivelmente plurais e contingen-

tes,

Tudoéinterpretação. 36

Não somente a interpretação devora a concepção, intenção e comunicação, mas os textos servem realmente como veículos de manipulação, exploração e opressão, e são tentativas de autores imporem sua compreensão da realidade sobre nós. Assim, o intérprete deve manusear textos com suspeita e atenção, Somente nosso próprio escudo hermenêutico pode proteger-nos de uma

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inevitável tentativa de outros autores nos dominarem — um escudo popularmente conhecido como a hermenêutica da suspeita. Qual é o programa escondido?, perguntamos. Com o C. Stephen Evans satíricamente adverte, "Fora, Foucault:

Para achara verdade, você terá de lernas entrelinhas." 37 Qual perspectiva do autor é correta? A vitória cabe ao autor que possuí a maior habilidade retórica e poder político. A interpretação engolfa toda a rea- lidade e torna-se a sobrevivência do mais adequado, ou, talvez, do mais esper- to. Nas palavras de Roger Lundin, "Em vez de apelar à autoridade alheia a nós, podemos somente procurar pôr em ordem nossas habilidades retóricas para promovermos as batalhas políticas necessárias para proteger nossas próprias preferências e proibir expressões de preferência que nos ameacem ou inco- modem." 3 8 Na realidade, como argumenta Stanley Fish, uma sociedade construída sobre os princípios hermenêuticos pós-modernos é, de fato, uma sociedade de pragmatistas. A verdade é transmudada naquilo que funciona — preferências pessoais e corporativas, prazeres privados. "Todas as preferências são mo- rais", afirma Fish. 3 9 Richard Rorty define a sociedade justa como "aquela que não tem outro propósito a não ser a liberdade. Ela não tem outro propósito senão tornar a vida mais fácil para poetas e revolucionários, enquanto obser- vamos que eles fazem a vida mais difícil para os outros somente em palavras, e não por ações." 4 0 Parece que a liberdade, é o único absoluto que os pragmatistas pós-modernos podem afirmar, porém é difícil discernir como alguém forma uma ética viável sobre apenas a base da liberdade. Virtudes desenvolvidas eficazmente e providas unicamente em ambiente público são destinadas a secar ou fadadas ao fracasso, morrendo talvez vagarosamente, porém, a despeito de tudo, perecendo no pragmatismo individualista do pós- modernismo.

A situação atual dos fatos

Portanto, onde estaremos no final do século XX ? O inquiridor autônomo do iluminismo tem provado ser auto-enganado e ingênuo. A interpretação e a aquisição de conhecimento não ocorre em um vácuo. Além disso, as pondera- ções que o pós-modernismo oferece parecem levar a um beco sem saída do pragmatismo e perspectivismo, Há uma saída? Ou postulamos uma falsa dicotomia entre a afirmação da tradição e sua completa rejeição? Maclntyre podia be m faltar-nos neste ponto por errar em nosso conceito de tradição. Talvez, "uma tradição genuína não seja marcada por rigidez, mas será distinguida por sua própria capacidade de responder aos legítimos desafios; ao encontrar tais desafios, a tradição pode expandir-se ou modificar-se em meios previamente neutros". 4 1

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É minha crença que a tradição, englobada nas reflexões dos pais da igreja sobre a Escritura, possui a flexibilidade e correspondência para encontrar os desafios interpretativos e éticos que o mundo contemporâneo propõe. Certa- mente, muitos duvidarão da sabedoria e viabilidade de tentar construir uma ponte entre o mundo dos pais e o mundo contemporâneo, Os modernistas do iluminismo, advogando ainda a suficiência epistemológica da razão autôno- ma, vão ficar eriçados ante a necessidade de olhar além de seus próprios atributos racionais. Os pós-modernistas vão rir à socapa ante a minha inocên- cia, entrevendo minha tentativa de ligar com o mundo de outros como um exercício de futilidade e exploração fingida. Vão argumentar, que na melhor hipótese, minha interpretação dos antigos pensamento e cultura cristãos não vão prejudicar outros e podem aumentar meu próprio benefício e prazer; que a distância hermenêutica entre nossos dois mundos, entretanto, continuará inacessível, e enganarei a mim mesmo pensando de outro modo. Muitos intérpretes protestantes conservadores, embora desconfortáveis para se acharem cochilando com o iluminismo e companheiros de cama do pós-modernista, vão frustrar-se para discernir ou apreciar a necessidade de estudar os pais. A profunda suspeita protestante da tradição e sua confiança na capacidade de razão renovada, somente para compreender a Escritura, le- vará muitos a arrepender-se de investir seu tempo e energia na exploração do pensamento patrístico, crendo melhor focalizar o mundo da própria Bíblia. Alguns afirmarão que a interposição dos séculos, caracterizou-se amplamente por distorção e erro, especialmente nos mundos católico romano e ortodoxo. Retornar aos pais como fonte de interpretação parece necessitar uma volta a Roma ou Constantinopla. Para alguns, os reformadores radicais, como Menn o Simons, parecem muito próximos da verdade em seu chamado a um retorno para o mundo primitivo da primeira comunidade cristã do primeiro século.

Alguns antigos escritores cristãos lutaram com situações semelhantes. Tertuliano, escrevendo no terceiro século, argumentava fortemente que a fé cristã somente desenvolveria com segurança dentro de seu casulo cultural, filosófico e bíblico;

O que tem Jerusalém a ver com Atenas, a Igreja com a Academia, o Cristão com os

hereges? Nossos princípios vieram do Pórtico de Salomão, que tinha, ele mesmo, ensinado que o Senhor deve ser buscado com simplicidade de coração, Não tenho nenhuma aplicação para um estóico, ou platônico, ou Cristianismo dialético. 42

Pontes em construção

É realmente possível, no mundo de hoje, as pessoas compreenderem de

forma significativa o mundo dos pais da igreja? Muitos terão suas dúvidas, mas creio que a tentativa deve ser feita. Por ora, se formos bem-sucedidos em

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construir uma ponte para o mundo dos pais, o que encontraremos quando chegarmos aos degraus da sua porta? Descobriremos e experimentaremos uma atmosfera hospitaleira? Seremos alimentados ou enfastiados com o alimento que eles oferecerem? Poderão as idéias do escritor patrístico ser relevantes e compreensíveis a uma pessoa contemporânea?

A construção de uma ponte conceituai e ética nunca é fácil, quer estejamos

tentando compreender o mundo dos pais da igreja, quer a própria Escritura.

Até que ponto, por exemplo, pode-se esperar que uma pessoa, educada em uma sociedade sexualmente calorosa compreenda a idéia da castidade? Como Tim Stafford observa, "Olhe para as capas das revistas na banca de jornal, e será lembrado de quão louca a visão bíblica soa para a pessoa moderna, O norte-americano comum toma isto como uma dádiva que as pessoas desejam

como algo que não lhes pertence

Newman e pensa quão bom ele seria na cama. O que há de errado em desejar algo — desde que você não cometa um crime para tê-lo?" 4 3

Nossa miopia moderna pode convencer-nos de que os pais, sexualmente reprimidos, não poderiam entender ou identificar-se com a propensão sexu- al, lutas e tentações do século XX . E, no entanto, uma vez que entramos em seu mundo, descobrimos que a presente incapacidade de distinguir entre a lascívia e o amor era também parte de seu ambiente cultural e pessoal. Eles também habitaram em uma sociedade lúbrica. Agostinho parece terrivelmente contemporâneo quando relata sua paixão desbragada, entregue aos prazeres:

Fui a Cartago, onde me encontrei no meio de um caldeirão sibilante de lascívia.

Até então, não havia me apaixonado, mas estava de amores com a idéia de fazê-lo,

e esta sensação de que alguma coisa estava faltando fez que eu me desprezasse

por não ser mais ansioso de satisfazer a necessidade. Comecei a olhar em redor para algum objeto para o meu amor. pois estava extremamente desejoso de amar

Amar e ter meu amor correspondido era o desejo de meu coração,

e isso seria totalmente mais agradável se eu pudesse também desfrutar o corpo de

Certamente uma mulher olha para Paul

alguma coisa

quem me

amava. 4 4

Talvez o mundo grego e o romano proporcionem mais paralelos e possibi- lidades de uma compreensão mútua do que alguém teria pensado à primeira vista. Como vimos, tanto o mundo romano como o nosso são sexualmente fervorosos e confusos. O que dizer das inclinações materialistas egoístas e indulgentes da sociedade ocidental? O mundo dos pais foi menos que isto? A extravagância e condescendência marcam ambas as épocas, tanto fora como dentro da igreja. Podemos pensar no imperador romano Vitélio, anteriormen- te o prostituto macho de Tibério, ávido jogador, mestre-de-cerimônias na apre- sentação de Nero no palco de Roma, e notório glutão. 4 5 Suetônio relata uma noite tipicamente onerosa:

A festa mais notória da série foi oferecida a ele por seu irmãos em sua entrada em

Roma: dizem terem sido servido 2.000 peixes magnificentes e 7.000 caças de pena.

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Entretanto, mesmo isto mal se compara em luxúria com uma bandeja extraordinariamente grande que Vitélio dedicou à deusa Minerva, então nome- ada "Escudo da Protetora Minerva". O menu incluía fígado de lúcio, miolo de faisão, miolo de pavão, língua de flamingo e baço de lampreia; e os ingredientes, coletados em cada canto do império, da fronteira da Partia [Persa] ao Estreito Espa- nhol (Estreito de Gibraltar), foram trazidos a Roma por navios de guerra.'' 6

Vitélio sobreviveu às suas farras por meio de vomitivos; tinha simpatia pelos amigos. Simpatizamos com Quintu s Vibius Crispus, um hóspede fre- qüente dos prolongados banquetes de Vitélio, que "viu-se uma vez compelido por doença a ausentar-se por alguns dias da festiva refeição. Porém isto. co- mentou ele confidencialmente a seu camarada, tinha salvado sua vida. 'Se eu não adoecesse', declarou, 'teria morrido". 4 7 Infelizmente, encontramos pais da igreja, como Clemente de Alexandria, manifestando esta mesma propensão para a extravagância e a tolerância em suas próprias congregações:

Aqueles que se regalam diante do que acumularam em suas despensas são tolos

É cômico e totalmente ridículo que homens utilizem urinóis

de prata e bacias de toalete de alabastro transparente, como se fossem apresentar seus conselheiros, e que mulheres ricas em sua tolice utilizam vasilhas de ouro para a coleta de fezes, como se. por serem abastadas, fossem inaptas para aliviar o intestino, exceto em estilo imponente. 4 8

A tentação de viver em dois mundos — o reino deste mundo e o reino de Deus — penetrou com consistência tanto nos pais e em suas congregações, como nos cristãos ocidentais do presente. Por conseguinte, talvez possamos usar a imagem de dois mundos para vantagem nossa, à medida que investiga- mos o mundo dos escritores cristãos do passado.

em sua

Através de outras lentes

Permita-me falar por um momento da minha própria cultura, a dos Esta- dos Unidos da América. Muitos americanos cresceram falando e lendo so- mente uma língua. Os ideais do iluminismo moldaram profundamente a cul- tura americana — filosófica, politica, social e religiosamente. Muitos ameri- canos cresceram em famílias completas. Alguns tiveram relacionamento im- portante com avós, tias e tios. Outros não. Considerável número deles sofreu a dor de crescer com somente um dos pais, como resultado do divórcio, As oportunidades econômicas proliferam para muitos americanos. Muitos deles estão acostumados com alto padrão de vida. Tendemos a ver nosso dinheiro e posses como nossa esfera privativa. Olhos espreitadores não são bem-vindos aqui. As questões sexuais ocupam muito do nosso pensamento, talvez exageradamente. Cada vez mais temos mais e mais tempo de lazer. Somos orientados para o entretenimento e impelidos pela mídia. A violência tanto

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nos repele como atraí. Sabemos o que queremos e o queremos agora. Imediatamente surge a autogratificação para tornar-se a mais alta prioridade. Passamos tem- po irritante de espera, seja no balcão de conferência da mercearia, na parada de ônibus, no terminal da linha aérea, seja na igreja, Embora outras caracte- rísticas da cultura americana possam ocorrer a outros americanos, resolvi apre- sentar uma amostra de como os americanos tendem a ver e viver no mundo que os envolve. De que forma a minha criação na moderna aldeia global pode tanto facili- tar como dificultar minha compreensão do evangelho? Que aspectos do histó- rico de minha família, língua, filosofia política, exposição à mídia, sexo, he- rança eclesiástica, história nacional, temperamento psicológico e outras ca- racterísticas culturais e pessoais ajudam e obstruem meu entendimento da Escritura e sua mensagem central? Qu e são as lentes pessoais e culturais atra- vés das quais leio a Bíblia? Que aspectos da Escritura elas trazem sob foco nítido? Que aspectos elas borram ou distorcem? Aprender a ler a Bíblia pelos olhos dos cristãos de um tempo e lugar dife- rentes revela prontamente o efeito distorcível de nossas próprias lentes cul- turais, históricas, lingüísticas, filosóficas e, sim, até mesmo as teológicas. Isto não é afirmar que os pais não tiveram sua própria perspectiva distorcida e seus pontos obscuros. Deve-se argumentar, porém, que não chegaremos à perspectiva e claridade a respeito de nossas próprias forças e fraquezas, se nos recusarmos a olhar além de nosso nariz teológico e hermenêutico. Deus tem sido ativo ao longo da história da igreja e despojamo-nos, nós mesmos, dos dons do Espírito Santo, quando nos recusamos a nos movermos além da zona de conforto de nossas próprias idéias. Michael Casey oferece um sábio conselho nesta conjuntura. Lembra-nos ele que "o Espírito Santo não cessa de ser ativo na igreja com a última página do Novo Testamento", Ao contrário, no curso dos séculos, a Escritura e o Espí- rito de Deus "infundiram tanto a vida de incontáveis homens e mulheres que eles mesmos tornaram-se evangelhos vivos". Como estes cristãos — neste caso os país da igreja —, viveram e imaginaram as implicações da Bíblia, a sabedoria latente da Escritura transbordou até a superfície em seus sermões, comentários, tratados e orações. Isto não aconteceu infalivelmente, ou inerrantemente, mas de tal maneira que a vida dos cristãos em épocas poste- riores podem ainda beber proveitosamente da fonte da exegese patrística.

Estas ponderações não foram garantidas automaticamente. Somente quando gera-

ções de crentes encontraram nesses textos secundários reflexões acuradas de sua própria experiência espiritual foi que eles começaram a ter alguma medida de

Assim como um bom pregador pode fazer a palavra inspirada vir viva

auctoritas

para aqueles que ouvem, assim a leitura desses tratados cristãos clássicos pode aju- dar a traduzir a Bíblia do passado da história para o presente de nossa própria vida. 49

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Como temos visto, muitos intérpretes pós-modemos duvidam da possibilidade de entrar genuinamente em outro mundo. Discordo, mas constato que o empre- endimento é colossal, requerendo certas disposições da parte do viajante, A mais importante é a humildade — uma disposição de admitir que nossa pró- pria auto-estima é freqüentemente inflada e exagerada. Devemos estar con- vencidos de que os pais da igreja, pessoas que freqüentemente falavam de maneira diferente e viviam de modo estranho — pelo menos a um primeiro olhar — têm realmente alguma coisa que podem ensinar-nos. Nossa capaci- dade para aprender deles será amplamente determinada por nossa disposi- ção de ficar quietos e simplesmente ouvir, talvez com mais atenção, como há

muito não fazemos. Por outro lado, nossa disposição de ouvir será influencia- da por nossas expectativas, esperanças, preconceitos e pressuposições. Al- guns de nós, especialmente os não familiarizados com o mundo do pensa- mento patrístico, teremos de confiar no testemunho de muitos que vieram antes de nós ou descobriram recentemente as riquezas da exegese patrística.

O conselho de Ambrósio vem à mente:

Pois há somente um verdadeiro professor, o único que nunca aprendeu o que ensinou a todos. Mas os homens precisam primeiro aprender o que devem ensi- nar, e recebem o que têm de dar a outros. Ora. o que devemos aprender antes de qualquer outra coisa, senão estar silenciosos para podermos ser capazes de falar? É raro que alguém esteja em silêncio, mesmo quando a exposição falada não lhe faz nenhum bem. 5 0

O ouvir não vem facilmente. Lutamos para superar suspeitas há muito arraigadas. O preconceito passado precisa silenciar, Alguns de nós seremos tentados a reagir muito rapidamente ao erro percebido, Precisamos familiari-

zar-nos com novas palavras, temas e conceitos. E, no entanto, o esforço prova-

rá a recompensa se perseverarmos, Uma de minhas metas neste livro é pro-

ver uma estrutura tão ampla, informativa e conceituai quanto possível para a compreensão do pensamento dos pais, à medida que eles lêem a Bíblia. Meu conselho é envolver sua entrada no mundo dos pais com humildade, consciente de si, com o ouvido atento, com oração e um senso de humor, E melhor sorrir da evasiva patrística periódica do que permitir que nossa ira moralista nos isole de suas ponderações. Somos todos inclinados a errar, To- dos nós estamos prontos a apontar a trave exegética nos olhos de nosso ir- mão ou irmã. Somos todos aptos a ficar cegos à nossa própria fraqueza ao lermos a Escritura. Somos todos incapazes hermeneuticamente em uma ou outra esfera. Como podemos esperar entender a Bíblia, se nos isolamos desne- cessariamente da própria reflexão e história da comunidade? Precisamos da percepção dos outros e de cada um, passados ou presentes, se devemos compreender a Bíblia, Os pais do deserto eram especialmente sensíveis à neces- sidade de humildade e comunidade para se compreender a Escritura:

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MENT E

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INTERPRETAÇÃO

BÍBLICA

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Eles contam a história de outro homem idoso que perseverava no jejum de setenta semanas, alimentando-se apenas uma vez por semana. Ele pediu a Deus [o signi- ficado de] uma certa passagem na Escritura sagrada, e Deus não lho revelou. Disse ele a si mesmo: "Veja quanto labor suportei e isso não me foi de nenhum proveito. Vou, pois, ao meu irmão perguntar-lhe sobre isso." Ele saiu de casa e fechou a porta, e um anjo do Senhor foi-lhe enviado, dizendo: "As setenta semanas do seu jejum não o aproximaram nem um pouco de Deus. Ora, porque você foi humilde e está indo visitar seu irmão, fui enviado para explicar-lhe a passagem." Ele escla- receu-lhe o que procurava e então se foi. 5 1

Ocasionalmente, vamos encontrar os pais enfurecidos, sombrios e perple- xos. Outras vezes perguntaremos: Por que nunca vi isto antes na Bíblia? Com o pude ter sido tão cego? Em seus melhores momentos, os pais levam-nos a um renovado sentido de admiração, respeito e reverência perante Deus e o evan- gelho, Por meio da influência dos pais, a oração e a adoração podem tornar-se companheiras mais freqüentes do nosso estudo exegético, E embora uma maior familiaridade com os pais aumente periodicamente suas próprias fraquezas, nosso próprio obscurantismo será muito mais claro a nós por causa do tempo que dedicamos a figuras como Agostinho, Crisóstomo, Atanásio, Jerônimo, Gregório de Nazianzo, Basílio, Ambrósio ou Gregório o Grande. Quais são as áreas escuras, em nossa cultura ou nossa própria vida, que precisam ser expostas à luz da sabedoria antiga? Francis Young acredita que os pais da igreja pertenceram a uma importante tradição intelectual e lutaram com muitas das mesmas questões que teólogos, filósofos, pastores e leigos enfrentam hoje. "Ver estas questões debatidas em ambiente intelectual e his- tórico totalmente diferente é edificante", diz Young, "pois isto capacita-nos a deixar nossas próprias pressuposições culturalmente condicionadas e ver as questões" sob uma luz mais clara. 5 2 A distância entre o leitor contemporâneo e os pais pode, portanto, tornar-se genuinamente uma vantagem a ser apreci- ada. Michael Casey comenta a liberação tornada possível por esta distância:

Um dos fatores que aprecio ao ler os autores antigos é o fato de eles virem de uma cultura distante. Isto significa que eles constroem sobre uma infra-es- trutura de crenças e valores. Quando comentam sobre um texto ou discur- sam sobre um valor, abordam as coisas de um ângulo diferente, e, assim, freqüentemente têm alguma coisa original a dizer. Isto não significa afirmar que seus valores culturais foram necessariamente melhores do que os nos- sos. Significa simplesmente que eles foram mais atentos a alguns aspectos da verdade do que somos — assim como conhecemos mais do que eles em al- guns assuntos. Quando temos de recorrer aos escritores da antigüidade, te- mos a oportunidade de compensar as áreas escuras inerentes à nossa cultura particular. Eles ajudam-nos a caminhar em direção a uma sabedoria mais in- tegral por desafiar muitos dos nossos pressupostos. Porque eles não são afe- tados por nossa peculiar tendência cultural, podem ajudar a liberar-nos da ideologia invisível inerente a suposições não críticas a respeito da natureza da realidade. 5 3

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g

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LEND O

A S

ESCRITURAS

CO M

O S

PAI S

D A

IGREJ A

Posto simplesmente, ler os pais pode ser surpreendentemente relevante para o cristão contemporâneo, porque eles tendem a detectar facetas do evan- gelho que a sensibilidade moderna geralmente omite. Eles ouvem música na Escritura que, para nós, soa como o velho gramofone. Freqüentemente, eles enfatizam as verdades que os cristãos de hoje muito precisam relembrar. Uma vez que este capítulo aproxima-se do fim, quero antes contar uma história de um exegeta moderno ilustrando este princípio, e, em seguida, relatar um exem- plo específico de uma intuição patrística amplamente desconhecida hoje.

Aproximação hermenêutica

O estudioso do Novo Testamento Dale C. Allison Jr., uma autoridade de

primeira linha no Evangelho segundo Mateus, comenta que o evangelista "não alardeou suas intenções", 5 4 Embora o roteiro de Mateus seja claro em muitos exemplos, Allison observa que "ele também deixou muito não dito, mesmo de importância", Por exemplo, Mateus inclui os nomes de quatro mulheres em sua abertura da herança genealógica de Jesus, mas nunca nos diz por quê,

O que pretendia ele? Allison especula que "talvez nosso evangelista esperava

demasiado de seus leitores ou" — "e esta é minha própria suposição — seus primeiros leitores estavam melhor equipados do que nós". Isto é, os seus primeiros leitores "tinham um conhecimento que nos falta, um conhecimen-

to

Mateus não apenas deixou de informar ao leitor quanto a todas as suas intenções, mas falhou também "em instruir-nos acerca de seus métodos lite- rários". Ele escreveu dentro do contexto de convenções culturais e literárias comuns, que tomou como corretas, como fazem seus primeiros leitores. Não há necessidade de explicar uma coisa que todos entendem. Daí o problema para os leitores de nosso tempo. Eles terão de ir atrás de informações costu- meiras que as pessoas antigas já compreendiam. Allison vê o Evangelho segundo Mateus como "um capítulo de um livro".

Co m isto ele quer dizer que "as citações e alusões escriturísticas onipresentes

— que são apenas alguma ornamentação destacável — enviam o leitor a ou-

tro livro e, assim, ensina que Mateus não é uma entidade completa: muita coisa está faltando." O Evangelho segundo Mateus, entende Allison, "deter-

Ele é, em

min a que ele deve ser interpretado no contexto de outros

sentido fundamental, uma expressão incompleta, um livro cheio de furos". E o leitor que deve suprir o que está faltando, um leitor que possua o conheci- mento que Mateus pressupõe, o qual vem de "uma coleção pré-existente de textos interativos, a Bíblia Judaica". O texto de Mateus é, pois, um "dispositi-

da tradição por trás do Evangelho, a qual deixou de existir".

vo

mnemónico, designado

a acionar as mudanças intertextuais que dependem

de

leitura informada e imaginativa".

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MENT E

MODERN A

E

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INTERPRETAÇÃO

BÍBLICA

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43

O problema central que os leitores contemporâneos enfrentam é a falta

desta formação intertextual. Sem ela, como eles vão saber quando um escri- tor bíblico refere-se a outro texto? Allison acredita que os estudiosos bíblicos falham em prover as anotações que os leitores necessitam para localizar pron- tamente o desempenho literário e as interconexões dos textos. "O tempo transporta-nos de todos os textos e subtextos, e assim invalida nossa capaci- dade de detectar referências tácitas — o que ocorre porque, como a história evolui, as edições anotadas dos clássicos, incluindo a Bíblia, tornam-se cada vez mais distantes,"

A dificuldade básica é a "surdez historicamente condicionada a alusões

oblíquas na Bíblia" por parte dos leitores de nossos dias, Na verdade, por causa da surdez, podemos começar a duvidar se as alusões estão de fato pre- sentes. As notas musicais estão realmente presentes no texto ou não? Antes de concluirmos que estamos simplemente imaginando falsas melodias, Allison apresenta uma útil analogia atual.

Aqueles que habitualmente ouvem música pelo rádio podem, freqüentemente, identificar uma canção popular depois de ouvir apenas uma pequena parte dela. Há os concursos — tenho-os ouvido — que requerem que as pessoas dêem o nome de uma peça musical depois de ouvir somente um pequeno trecho, de ape- nas um ou dois segundos, e consistindo de não mais que dois ou três acordes. O iniciante discernirá somente ruído. Mas para aquele com o conhecimento musical (ganho, seja notado, não por meio de árduo estudo, mas por meio de audição sem esforço), o mais breve fragmento pode evocar um mundo: uma canção, um álbum, um grupo musical. Não foi talvez semelhante com aqueles judeus que primeiro ouviram o Evangelho segundo Mateus? Somos nós algumas vezes forçados a cap- tar uma concordância para perceber conexões que foram uma vez imediatamente percebidas por ouvidos treinados com segurança inconsciente?

Nesta conjuntura, a aproximação hermenêutica dos pais co m o texto bíbli- co é especialmente útil, "Pois eles estavam, por inúmeros meios, mais perto dos cristãos do primeiro século do que nós estamos — pois, ao contrário de muitos de nós, viveram e moveram-se e tiveram seu ser nas Escrituras." De muitas maneiras, as Escrituras — ouvidas por muitos anos pelos escritores patrísticos — foram sua música popular.

Eles ainda liam em voz alta. Eles ainda tinham um pequeno cânon literário. Eles ainda tinham, por causa de seus métodos educacionais, extraordinária perícia para memorizar. E eles ainda ouviam a Escritura cantada. Foram, portanto, harmoniza- dos para ouvir coisas que há longo tempo não ouvimos, coisas que podemos ver somente depois de assimilar concordâncias ou procurando palavras em nossos computadores. Vim a crer que. se acharmos em Mateus ou outro livro do NT uma alusão ao VT, que os pais não acharam, o fardo da prova está sobre nós; e, se eles detectaram uma alusão que nós — aqui estou pensando de comentários moder- nos — não detectamos, a investigação está em ordem.

Como pode o ponto de vista de Allison sobre os pais incentivar os estudiosos e leitores bíblicos a compreender e interagir com a Bíblia mais eficazmente?

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LEND O

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ESCRITURAS

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IGREJ A

Referindo-se à afirmação de Jesus nas Bem-aventuranças: "Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra", Allison admite: "Nenhum comentário conhecido por mim — isto inclui o meu próprio — refere-se a Moisés em conexão com Mateus 5-5." E, no entanto, ele observa, Crisóstomo, Teodoreto de Ciro e Eusébio ligam Moisés ao ensino de Jesus. Teodoreto cita Números 12.3, texto que se refere a Moisés como "varão mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra", Eusébio comenta que "enquanto Jesus prometeu ao manso herança da terra [planeta], Moisés prometeu a Israel a herança da terra [país]", Allison sugere:

Talvez devamos seguir a orientação de Teodoreto e Eusébio e fixar Mateus 5.5 contra as tradições de Moisés. Em mansidão, Moisés foi o exemplar. Ele prome- teu aos israelitas a herança da terra. E ele próprio não entrou na terra. Deste último fato, suficientemente inesperado para provocar muita reflexão rabínica, pode-se extrair que a terceira bem-aventurança promete alguma coisa que Moisés nunca recebeu, Sobre tal interpretação, os membros da nova aliança seriam mais abençoadas do que a principal personagem da antiga aliança: se, no passado, o manso não entrou na terra, agora, que o reino de Deus chegou, o manso herdará a terra. Alguém pensa em Mateus 11.11: o menor no reino dos céus é maior do que aqueles que vieram antes.

Allison continua indeciso acerca da alusão a Moisés em Mateus 5.5. Ele acredita, entretanto, que tal alusão deve ser considerada seriamente, que ela tem possibilidades homiléticas frutíferas, e diz-nos claramente que os própri- os pais ouviram quando atentaram para a passagem. Novamente, a aproxima- ção hermenêutica dos pais para a Escritura assimilou as qualidades tonais do texto que permaneceria mudo para os leitores modernos, se o estudioso, pas- tor ou leigo confiasse somente na exegese recente. Os país ouvem e vêem, quando tendemos a ser surdos e cegos.

Exegese e formação espiritual

Os país afirmaram uma profunda conexão entre a saúde espiritual dos intérpretes e sua capacidade de ler bem a Bíblia. Para os pais, a Escritura deve- ria ser estudada, ponderada e submetida à exegese dentro do contexto da adoração, reverência e santidade. Eles consideravam a Bíblia um livro sagrado que se abria para aqueles, que, eles mesmos, iam crescendo em santidade pela graça e poder do Espírito. O caráter do exegeta determinaria de muitas formas o que era visto e ouvido no próprio texto. Caráter e exegese eram intimamente relacionados. Por exemplo, em sua be m conhecida obra On the Incarnation (Sobre a Encarnação), Atanásio inflexivelmente insiste que

a investigação e o correto entendimento das Escrituras [requerem] uma vida boa e

uma alma

Uma pessoa não pode, por certo, compreender o ensino dos

santos, a menos que tenha uma mente pura e esteja tentando imitar sua

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MENT E

MODERN A

E

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INTERPRETAÇÃO

BÍBLICA

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45

Qualquer um que desejar olhar a luz do sol naturalmente, primeiro limpa bem seu olho, para não fazer, de qualquer modo, alguma aproximação para a pureza daqui- lo para o que ele olha: e uma pessoa, desejando ver uma cidade ou país, vai ao lugar para conseguir isso. De modo semelhante, qualquer um que deseje compre- ender a mente dos escritores sagrados, deve primeiro limpar sua própria vida e aproximar-se dos santos, copiando suas ações. Assim, unidos a eles na comunhão de vida, deve tanto compreender as coisas a eles reveladas por Deus e, dali em diante, fugindo do perigo que ameaça pecadores no julgamento, receberá aquilo que é entregue para os santos no reino do céu. 5 5

Gregório de Nazianzo também oferece muitos dos mesmos conselhos em

suas orações teológicas. Estudar e falar bem sobre Deus não pertence a todos, não "antes de cada audiência, nem em todos os tempos, não sobre todos os pontos; mas em certas ocasiões, e antes de certas pessoas, e dentro de certos limites", Gregório insiste que o estudo teológico "é permitido somente àque- les que foram examinados, e são ex-mestres de meditação, e que foram previ- amente purificados na alma e no corpo, ou, pelo menos, estão sendo purifica- dos". 5 6 Nem Atanásio nem Gregório visualizaram a exegese ou teologia como a atividade acadêmica dos estudiosos bíblicos ou teólogos apartados da vida da igreja, ou da formação espiritual pessoal. Antes, os pais acreditavam, a me- lhor exegese ocorre dentro da comunidade da igreja. As Escrituras têm sido dadas à igreja, são lidas, pregadas, ouvidas e compreendidas dentro da comu- nidade da igreja, e são interpretadas seguramente somente por aqueles cujo caráter está continuamente sendo formado por meio de oração, adoração, meditação, autoexame, confissão e outros meios pelos quais a graça de Cristo

é comunicada a seu corpo. Isto é para dizer que os pais argumentam que qual-

quer divórcio entre o caráter pessoal, a comunidade cristã e o estudo da Escri-

tura será fatal para qualquer tentativa de compreender a Bíblia. Esta aproxi- mação pública holística é seguramente uma metodologia que garante uma investigação estrita em nosso mundo altamente segmentado, individualista, especializado.

A insistência dos pais sobre a saúde espiritual e integridade, à medida que nos aproximamos da Bíblia, é um conselho que devemos acatar. Infelizmen-

te, nossas palavras e nossa vida muito freqüentemente não se juntam. Não somos uma peça. O apelo dos pais para a integridade, para permitir que nossa vida seja moldada pela narrativa da Escritura, dentro da comunidade da igreja — de sorte que possamos compreender e comunicar essa narrativa de uma forma ainda mais fiel — é uma condição necessária para o entendimento do como e do porquê os pais empreendem a tarefa da exegese. Esta dialética entre crescimento espiritual, formação de caráter e compreensão da Escritura

é uma visão patrística decisiva. Examinaremos esta relação com mais deta- lhes em capítulos adiante.

QUE M SÃO OS PAIS?

QUE M SÃO OS PAIS? nome "país da igreja" levanta uma série de questões para as

nome "país da igreja" levanta uma série de questões para as pessoas de hoje: O que é um pai da igreja? Que m o qualifica como pai? Como esses homens receberam esta designação? Qu e qualificações tinham para receber o título? Certos pais são especialmente importantes, talvez em uma classe criada por eles mesmos?

E quanto às "mães" da igreja?

Que dizer das "mães da igreja"? Não havia mulheres importantes contribu- indo para a vida e o pensamento da igreja inicial? O título "pai da igreja" não as discrimina, deixando os leitores da atualidade com a impressão de que somente os cavalheiros eram figuras importantes na cristandade crescente? Não seria um título como "escritor da igreja primitiva cristã" mais apropriado, evitando o risco de mal-entendidos, preconceito e discriminação? E plausível ou sábio reter um título pesado e potencialmente prejudicial, como "pai da igreja," em um contexto moderno? Indubitavelmente, havia muitas mulheres importantes na vida da igreja primitiva, algumas das quais serviam como paradigmas e mentoras para a

QUE M

SÃ O

OS

PAIS?

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igreja-padrão dos pais. 1 Temos o exemplo da viúva romana Marcella, uma das primeiras mulheres ascéticas em Roma. Jerônimo louvou tanto sua devoção a Cristo como sua mente ativa e inquiridora.

E porque meu nome era então muito estimado no estudo das Escrituras, ela nun-

ca veio sem perguntar alguma coisa sobre a Escritura, nem aceitava prontamente minha explanação como sendo satisfatória. Propunha questões de ponto de vista oposto, não por pretender ser contenciosa, mas sim para inquirir. Ela podia apren- der soluções para questões que ela percebia que poderiam tornar-se objeção. Que

Direi somen-

te isto, que tudo quanto em nós fosse reunido depois de longo estudo e extensa

meditação, era quase mudado em natureza; isto ela provou, isto ela aprendeu, isto ela possuiu, Assim, depois da minha partida, se um argumento surgisse acerca de alguma evidência da Escritura, a questão era buscada com ela como juíza. 2

A figura feminina amiga mais próxima de Jerônimo foi Paula, cuja riqueza

tornou possível a construção de muitos mosteiros em Belém. 3 Ela faleceu em 404 d.C. Jerônimo escreveu as seguintes linhas em sua carta memorial à filha dela, Eustochium. Ele sentia-se muito emocionado pela disposição de Paula privar-se de seus filhos por amor do evangelho,

Entre as ásperas penas do cativeiro, de estar em mãos dos inimigos, nada é mais cruel do que os pais serem separados dos filhos. Ela suportou isto com plena

virtude descobri nela, que inteligência, que santidade, que pureza

confiança, embora isto seja contra a lei da natureza; sim, ela o procurava com espírito jubiloso, pouco dedicando ao amor de seus filhos por seu amor por Deus. Confesso que nenhuma mulher amou seus filhos como esta; antes de partir, ela deserdou-se das coisas terrenas e entregou tudo a eles, para que pudesse encon-

trar herança no céu. 4

Não foi apenas a devoção de Paula que cativou os olhos de Jerônimo, Em carta escrita logo após a morte dela, Jerônimo refere-se ao agudo intelecto dessa cristã.

Insistiu comigo que, junto com sua filha, poderia ler

Se em alguma passagem eu ficava confuso e

confessava francamente que ignorava o sentido, ela de todo modo não se conten- tava com minha resposta, mas, por meio de novas perguntas, forçava-me a dizer quais eram os muitos significados possíveis que me pareciam mais prováveis. E eu diria ainda uma outra coisa que pareceria talvez inacreditável para pessoas intrigantes; na minha juventude, aprendi a língua hebraica até certo ponto, com

todo o Velho e o Novo Testamento

Ela memorizou a Escritura,

muito esforço e suor, e estudava infatigavelmente para que, se eu não abandonas-

se a língua, ela não me abandonaria. Quando Paula quis aprendê-la, ela levou o

projeto a ponto de cantar os salmos em hebraico, e sua dicção ecoava sem ne- nhum traço distintivo da língua latina. 5

Melânia, a presbítera, também era renomada por sua erudição e inteligên- cia. Paládio comenta que ela "era muito culta e amante da literatura. Passava noite e dia percorrendo todos os escritos dos comentadores antigos, três mi- lhões de linhas de Orígenes, e duzentas e cinqüenta mil linhas de Gregório, Estêvão I, Pierius, Basílio e outros homens excelentes". De fato, Paládio obser- va que Melânia lia cada obra "sete ou oito vezes". 6

48

£p »

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

Olímpia, uma diaconisa da igreja de Constantinopla, foi inspirada pelo exemplo de Melânia, a presbítera, Ela, como Melânia, possuía uma fortuna pessoal considerável, que prontamente distribuía em benefício da comunidade

cristã, Paládio escreve que ela distribuía intencionalmente suas posses "para os pobres. Ela empenhava-se zelosamente em grandes debates em favor da verda- de, ensinava muitas mulheres, mantinha conversações solenes com sacerdotes, honrava os bispos e era julgada digna de ser confessora em prol da verdade", 7

O relacionamento entre Olímpi a e João Crisóstomo, bispo em

Constantinopla, demonstra o amor e apoio freqüente expressos em dirigir homens e mulheres líderes na igreja. Em 20 de junho de 404 d.C , o bispo

João deixou Constantinopla sob escolta militar para nunca retornar. Ele foi exilado na cidade de Cucusus, nas montanhas da Armênia. A partir dali man- teve uma ativa correspondência com Olímpia. Ela também foi exilada por causa do seu apoio a João.

A proximidade entre Olímpia e João Crisóstomo demonstrada em seu rela-

cionamento é freqüentemente expressa nas cartas que trocavam no exílio.

Crisóstomo compartilha com Olímpia seus recentes problemas de saúde e incita-lhe o ânimo para localizar um remédio que lhe fora útil no passado em seus enjôos, "Preste bem atenção para a restauração de sua saúde física", Crisóstomo aconselha a Olímpia. "Durante uns poucos dias, quando sofri uma tendência de vomitar, devida à condição da atmosfera, recorri ao remédio que

me enviou

e constatei que em apenas três dias de uso dele a enfermidade

foi curada." Crisóstomo repreende amavelmente sua "mais alta reverenda e

Se tomasse o cuidado requerido

diaconisa divinamente estimada Olímpia

de si, estaria em condições mais satisfatórias." 8

De sua parte, Olímpia continuava seu apoio material e espiritual a João.

Tinha sido seu costume cuidar das necessidades dele em Constantinopla, o

que continuou fazendo durante os últimos anos de sua vida no exílio. A obra Life of Olympias, Deaconess (Vida de Olímpia, Diaconisa) retrata Olímpia como possuidora de "uma aparência sem pretensão, caráter sem afetação uma mente sem vanglória, inteligência sem presunção,., caráter sem limites,

excepcional autocontrole

A despeito dos freqüentes e muitas vezes pródigos louvores que as mulhe-

res recebem dos país, marcada ambigüidade tempera a reação patrística a suas contrapartes femininas. Elizabeth Clark sustenta que "a palavra mais apropri- ada com a qual descrever a atitude dos pais da igreja para com as mulheres é ambivalência". As mulheres são retratadas pelos pais como uma

Elas foram fracas tanto

de mente como de caráter — e exibiam coragem, demonstravam proezas prodigi-

o ornamento dos humildes". 9

boa dádiva para os homens — e para o curso do

osas de conhecimentos. Vãs, enganosas, transbordando lascívia — levavam homens

a Cristo, fugiam de encontro sexual, não acenavam às ameaças dos carrascos, adornavam-se com sacos de pano e cinzas. 1 0

QUE M SÃO

OS

PAIS?

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As próprias lentes interpretativas dos pais, fortemente coloridas pela cultura patriarcal em que viveram, levam-nos a ler seletivamente a afirmação da Bí- blia acerca das mulheres, Em sua exegese eles inclinam-se pelas passagens que parecem indicar um a posição subalterna para as mulheres , e superintende m amplament e a s implicaçõe s d e texto s com o Gálata s 5-1 e 3-28 para as relações entre os sexos.

A cultura patriarcal dos pais não era o único fator da coloração de sua

perspectiva sobre mulheres e o relacionamento entre elas e homens na igre- ja. As mulheres ocupavam posições de liderança dentro de "seitas nos limites da cristandade prevalecente", tais como os grupos gnósticos heterodoxos.

Várias seitas gnósticas provavelmente permitem que mulheres batizem, Os movi- mentos carismáticos que apelaram para a inspiração do Espírito Santo foram tam- bém os naturais a permitir a mulheres um papel maior, pois podia-se argumentar

que Deus não discrimina sexualmente na distribuição do charísmata, os dons es- pirituais, É provável que a Igreja Católica tenha reagido a tais seitas, que foram, sem dúvida, um perigo real para a sobrevivência ortodoxa e poder da cristandade, traçando linhas firmes de diferenciação entre os tipos de ofício eclesial permitido

a mulheres nas seitas e os tipos de ofício eclesial permitido a mulheres na Igreja Católica."

Conseqüentemente, o papel das mulheres na igreja primitiva era circuns- crito por limites específicos. Entretanto, como já vimos, as mulheres pude- ram ampliar esses limites expressivamente, renunciando aos papéis tradicio- nais sexuais e domésticos para uma vida de ascetismo cristão — comporta- mento que país como Jerônimo incentivavam. 1 2 Certamente, cerca de um ter- ço das cartas que possuímos de Jerônimo é dirigido a mulheres e amplamente focalizado sobre considerações teológicas e exegese bíblica. 1 3 Jerônimo aplaude a decisão de Paula de modificar drasticamente seu com- portamento como matrona romana, embora sua sociedade circundante — incluindo muitos cristãos — respondessem às suas mudanças de estilo de vida com muita suspeita, difamação e mexericos. Na Epístola 45"Jerônimo queixa-se sarcástica e iradamente:

Ó astúcia de Satanás, que persegues continuamente as coisas santas! Nenhuma

mulher na cidade de Roma mereceu bisbilhotice, exceto Paula e Melânia, que, a despeito de sua riqueza e afastamento de seus penhores de amor [isto é, seus

filhos], levantaram a cruz do Senhor, uma poderosa afirmação, como um estan-

perfumes selecionados, tivessem elas usado seus bens

e sua viuvez como incitamentos de vida luxuriosa e liberdade, teriam sido consi-

deradas damas nobres, mulheres santas, Agora elas estão desejando aparecer be-

darte de fé. Tivessem elas

las em sacos de pano e em cinzas, e com jejum e piolhos, para mergulharem nos

fogos do inferno! 14

O caminho da liberdade para mulheres desejosas de pagar o preço, portan-

to, era trocar as rotinas normais da vida doméstica em uma cultura patriarcal pelos rigores de um estilo de vida ascético, marcado por devoção às disciplinas

50

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

espirituais, tais como oração, jejum e distribuição de esmolas. Dentro deste contexto, porém, tendo afastado os aspectos mais ameaçadores e debilitantes de sua sexualidade, oportunidades de aprender e ensinar existiam — embo- ra ensinar homens em um papel eclesiástico oficial permanecia fora dos limi- tes, como fez o sacerdócio. O documento Apostolic Constitutions (Constituições Apostólicas), do fi- nal do quarto século, sobre a ordem da igreja, refletindo a prática eclesial no Oriente, permite às mulheres servir oficialmente dentro da igreja, como viú- vas e diaconisas, mas não como sacerdotisas ou professoras públicas, Clark acha importante que, de acordo com a tradição oriental representada nes- te documento, diaconisas foram ordenadas. Esta não é a prática da igreja do Ocidente, A ordem de diaconisas, observa Clark, foi de vida curta no Ocidente. Desde o alvorecer da Idade Média "seu papel parece ter sido classificado abaixo do de freira". 1 5 A vida de Macrina, irmã de Gregório de Nissa e Basílio o Grande, é um notável exemplo de sagacidade teológica e espiritualidade prática. Na realida- de, Macrina é freqüentemente conhecida como a "Quarta Capadócia", acres- centada que foi aos três — Gregório de Nazianzo e seus irmãos Basílio e Gregório de Nissa. 1 6 Jaroslav Pelikan apresenta esta descrição:

Não somente era ela, de acordo com o relato de Gregório, o modelo no papel de cristã para ambos os irmãos por sua profunda e ascética espiritualidade, mas, com a morte de seus pais, tornou-se a educadora de toda a família, e isto em ambas as

culturas: cristã e clássica. Através de sua filosofia e teologia, Macrina foi de fato a professora de ambos os seus irmãos, que eram bispos e teólogos, "irmã e profes-

como Gregório a chamou na sentença de abertura do

diálogo On the Souland the Ressurrectíon (Sobre a Alma e a Ressurreição). 17

sora ao mesmo tempo

",

Gregório diz que Macrina, mesmo sendo uma jovem, estudou as Escritu- ras, especialmente o Cântico dos Cânticos de Salomão e os Salmos.

Ela ia até o fim de cada parte do Salmo em seu momento especial, quando se levantava, quando ocupada no trabalho, quando descansava, quando tomava as refeições, quando se levantava da mesa, quando ia para a cama e levantava-se para as orações; sempre tinha consigo os Salmos como bons companheiros de viagem, nunca esquecendo-se deles por um momento.' 8

Tanto a qualidade de vida de Macrina, como o brilho de sua inteligên- cia, impressionavam profundamente seus dois irmãos. Certamente, foi a sua influência, que convenceu Basílio a arrepender-se de seu orgulho in- telectual sobre sua capacidade retórica. Como Gregório comenta, Basílio "desprezou todas as pessoas de valor e exaltou-se em sua auto-importân- cia acima de homens ilustres da província". Foi Macrina quem "o empur- rou com tal rapidez para a meta da filosofia, que ele renunciou ao renome mundano", 1 9

QUE M SÃO

OS

PAIS?

^

51

Mesmo em seu leito de morte, Macrina cumpriu o papel de professora de seu irmão Gregório.

Quando ela me viu aproximando-me da porta, ergueu-se apoiada em seus cotove-

los, incapaz de chegar a mim, pois a febre já havia exaurido sua força

à sua ment e tópicos e, fazendo perguntas, deu-me a oportunidade de falar. < Entrou em tais argumentos de forma detalhada, falando sobre fenômenos natu- rais, lembrando o plano divino oculto em tristes eventos, revelando coisas sobre a vida futura, como se estivesse possuída pelo Espírito Santo, Como resultado, mi- nha alma pareceu falhar um pouco, como sendo levantada para fora da natureza humana por suas palavras, e com a orientação de suas considerações achei-me dentro dos santuários celestiais. 20

Ela trouxe

Mais tarde, Basílio lembraria também o duradouro efeito do ensino tanto de sua mãe Emmelia como de sua avó Macrina a Anciã.

Sempre retive com crescente convicção o ensinamento sobre Deus que recebi de minha bendita mãe e minha avó Macrina, quando menino. Em minha entrada nos anos maduros da razão, não mudei minhas opiniões, mas pus em prática os prin- cípios transmitidos a mim por meus pais. Assim como a semente, quando cresce é minúscula no começo, e depois se torna maior, mas sempre preserva sua identi- dade, sem alteração na qualidade, embora gradualmente aperfeiçoada no cresci- mento, assim considero que a mesma doutrina tem, em meu caso, crescido com o meu desenvolvimento. O que possuo agora não substitui o que recebi no começo. 21

É uma pena que, por causa das considerações e desenvolvimentos cul- turais, históricos e teológicos malconstruídos, não tenhamos um conjun- to expressivo de escritos das mulheres agraciadas que participavam da igreja primitiva. 2 2 Os comentários das Ammas (mães), tais como Sincletice e Sara, surgem nos ditos dos pais do deserto, 2 3 e os poemas de matronas cristãs, tais como os de Proba, têm sido traduzidos para o inglês. 2 4 Jaroslav Pelikan incorporou muitas das reflexões teológicas e exegéticas de Macrina a Jove m em suas conferências sobre a cristandade e a cultura clássica. Para a maior parte, entretanto, falta-nos um importante acervo de obra exegética das mulheres cristãs antigas. Assim, mesmo que eu tenha sido ten- tado a dar a este livro o título Lendo as Escrituras com os Pais e Mães, receio que tal título, embora honrando as antigas mulheres cristãs e acalmando sensibilidades modernas, não refletiria fielmente as realidades passadas, Nós simplesmente não temos base exegética suficientemente ampla para extrair das antigas teólogas e comentadoras cristãs. Com o temos notado, porém, a falta de tal literatura é mais um comentário deplorável sobre a resposta ambígua da igreja às mulheres, em seu meio, do que uma falta de capacidade, inteligência, desejo, talento ou discernimento em suas com- ponentes femininas.

52 Ç&

O que é um pai da igreja?

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

Passamos agora ao próprio título "pai da igreja". A idéia de um pai na fé tem uma longa história no uso bíblico e eclesiológico. O apóstolo Paulo fala de si mesmo como um pai para a igreja de Corinto: "Embora possam ter dez mil tutores em Cristo, vocês não têm muitos pais, pois em Cristo Jesus eu mesmo os gerei por meio do evangelho" (1 Co 4.15, NVI). Às vezes, os rabinos eram chamados país, e o termo ocorre também em círculos pitagóricos e cínicos. Ele geralmente designa um professor que está instruindo e guiando discípu- los para a verdade religiosa e filosófica. 2 5 Clemente de Roma chama aos após- tolos pais quando exorta os coríntios a viverem "em harmonia, sem demons- trar malícia, em amor e paz com contínua bondade, assim como nossos país, dos quais falamos anteriormente". 2 6 No final do segundo século, Irineu afir- mou simplesmente: "Aquele que recebeu o ensino da boca de outro é chama-

do filho do seu instrutor, e este é chamado seu pai." 2 7 Clemente de Alexandria elaborou nestes termos: "As palavras são a progénie da alma. Por isso, chama-

e todo instruído é, em respeito da

mos pais àqueles que nos instruíram sujeição, filho de seu instrutor," 2 8

O termo adquiriu sentido mais técnico desde o quarto século, especial-

mente no contexto das controvérsias teológicas que povoaram o quarto e quinto séculos, Enquanto os bispos — os professores da igreja — tinham sido cha- mados pais do segundo século em diante, bispos que preservaram e protege- ram fielmente as decisões do Concílio de Nicéía (325 d.C) , Constantinopla (381) e Calcedonia (451) receberam esta designação como pessoas dignas de especial consideração por terem preservado o ensino ortodoxo durante o tempo da grande prova.

Este significado mais abrangente de "pai" foi "estendido aos escritores eclesiásticos, à medida que eram aceitos como representantes da tradição da igreja." 2 9 Agostinho, por exemplo, chama Jerônimo de pai, muito embora este não fosse bispo, porque tinha protegido fielmente a tradicional doutrina do pecado original. 3 0 De modo curioso, Vicente de Lerins criticou os escritos de Agostinho contra os pelagianos, porque eles não foram suficientemante apoi- ados pelos "pais". 3 1 Vicente acreditava ostensivamente que as opiniões dos pais mereciam consideração especial.

Se alguma questão nova venha a surgir, sobre a qual essa decisão não tenha sido

comunicada, eles devem então obter recurso junto às opiniões dos santos pais, destes pelo menos, os quais, cada um em sua própria vez e lugar, permanecendo

na unidade da comunhão e da fé, foram aceitos como mestres aprovados; e qual-

quer um destes pode ser achado capaz, com uma só mente e acordo, o que deve

ser considerado a verdadeira e católica doutrina da igreja, sem dúvida nenhuma

QUE M

SÃO

OS

PAIS?

^

53

Características básicas

Boniface Ramsey identificou os quatro critérios básicos usados para deter- minar se uma certa personagem da igreja merece o título "pai". 1. Antigüidade. "Pai" e termos afins, tais como "patrístico", "patrología" e "patrologista", sugerem, acredita Ramsey, "urna certa qualidade venerável as- sociada à idade". 3 3 Ramsey fixa o período dos pais como tendo início por volta do ano 96, com a epístola Fisrt Clement (Clemente I), e terminando no Orien- te com a morte de João de Damasco, em 750. A tradição ocidental às vezes registra datas alternadas para o fim da era patrística, tais como a morte de

Gregório o Grande, em 604, Isidoro de Sevilha, em 636, ou o Venerável Beda, em 735. 3 4 Outros eruditos encerram a era dos pais com os "concílios ecumênicos

de Éfeso (431) e

Calcedonia (451)". 3 5

2. Santidade de vida. Tanto Ramsey como Johannes Quaste n arrolam a santidade de vida como a segunda característica de um pai. À primeira vista, como Ramsey admite, imagina-se como alguns dos pais podiam ser qualificados.

Tertuliano revela uma desagradável tendência fanática e até mesmo cruel, Jerônimo teve um temperamento notoriamente repelente e imperdoável, Teófilo de Alexandria foi um oportunista do pior tipo, e Cirilo de Alexandria perseguiu seus inimigos implacavelmente. 36

Talvez uma compreensão diferente da santidade, argumenta Ramsey, mais em linha com o Salmo 149.6, permita apreender o espírito dos pais: "Nos seus lábios estejam os altos louvores de Deus, nas suas mãos, espada de dois gu- mes, para exercer vingança entre as nações e castigo sobre os povos". Os pais demonstravam um enorme zelo para com Deus e as Escrituras. E, muitas vezes, como acontece conosco, seu zelo manifestava-se tanto em suas forças como em suas fraquezas. Eles têm muito a ensinar-nos sobre reverên- cia, santo temor, auto-sacrifícío, autoconsciência e autodecepção, adoração, respeito, oração, estudo e meditação. Suas contribuições teológicas continu- am sendo fundamentais para as comunidades cristãs católica romana, orto- doxa, anglicana e muitas protestantes. De vez em quando, entretanto, seu zelo nestas áreas transbordava em fendas de suas próprias personalidades. Como comenta Ramsey, "Tal zelo é muito freqüentemente associado a aspec- tos menos salutares — indisposição de comprometer-se, farisaísmo, rigidez, manipulação, irascibilidade e semelhantes". 3 7

Seria prudente observar desde o começo que os pais foram intensamente humanos. Muito freqüentemente, tinham o "pavio curto". Às vezes, eram impacientes, explosivos e mesquinhos. Alguns passavam um tempo muito difícil ouvindo outras perspectivas, diferentes das que adotavam. Apesar disso, seu coração estava ardendo pelo evangelho. Viviam e respiravam as Escrituras.

54 m

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

E muitos, de boa vontade, dedicaram sua vida por amor de Cristo, Eles valorizavam o

estudo. Erraríamos se permitíssemos que suas fraquezas ofuscassem ou im- pedissem as importantes contriuições que seus pensamentos e sua vida po- dem oferecer à igreja hoje. 3. Doutrina ortodoxa. Ramsey focaliza dois aspectos desta característica. Para se qualificar como pai, a pessoa precisava deixar para trás um ensino de alguma natureza, por mais pequeno que fosse, ou pelo menos uma reputação. Segundo, e mais importante, a igreja devia reconhecer o ensino de um pai mantendo-o nos limites da Escritura e tradição. Ramsey admite que este pode ser um padrão razoavelmente arbitrário. Alguns pais poderiam aceitar opiniões que a igreja mais tarde identificaria como heterodoxa, O subordinacionismo, idéia de que o Filho e o Espírito eram, de alguma forma, inferiores a Deus Pai, insinua-se em alguns ensinos patrístícos. Orígenes, um dos grandes eruditos bíblicos na história da igreja, geralmente não é reconhecido como pai por causa de sua idéia do apokatastasis — o ensino pelo qual Deus reconciliaria no final toda a criação e os seres criados para si mesmo, incluindo Satanás. Como e por que Orígenes resvalou na doutrina ortodoxa em sua compreensão da extensão e natureza da recon- ciliação?

apokatastasis

eram a implicação natural de textos bíblicos, com o o Salm o 110.1 (Ps 109.1 LXX): "Disse o Senhor ao meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés'". "Pensamos, naturalmente", comenta Orígenes, "que a bondade de Deus, por meio de seu Cristo, pode chamar a si todas as criaturas a um fim, até mesmo seus inimigos sendo ven- cidos e dominados." 3 8 Orígenes argumentou que a Palavra de Deus era "mais forte do que todos os males da alma", e que a cura, reconciliação e renovação trazidas pela Palavra aplicam-se "a todo homem". A bondade de Deus e o poder da Palavra requerem "a destruição de todo o mal" na consumação final com a derradeira reconciliação de todos os membros da criação de Deus, seja no céu seja na terra.

Orígenes

acreditava

firmemente que

suas

idéias

acerca do

Orígenes parece errar por permitir que suas inferências racionais de cer-

tos aspectos da revelação bíblica ceguem-no perante outras facetas igualmen-

te importantes da natureza escriturística. Se o pecado, o mal e a morte devem

ser final e completamente destruídos, Orígenes pergunta: como podem eles continuar existindo como inimigos na era vindoura, quando toda a criação estiver reconciliada com Deus? Por meio de um processo vagaroso e imper- ceptível, que pode durar "eras incontáveis e imensuráveis", até mesmo o últi- mo inimigo — a morte — será reconciliado com Deus.

E assim Deus será "tudo", pois não mais haverá nenhuma distinção entre o bem e

Essa condição das coisas será

o mal. vendo que o mal não mais

QUE M SÃO

OS

PAIS?

Ä

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restabelecida, na qual a natureza racional foi colocada, quando ela não tinha

necessidade de comer da árvore do conhecimento do bem e do

todos sentirem que a iniqüidade foi removida, e o indivíduo foi purificado e lim-

po, Aquele que é, somente Ele, o único bom Deus, torna-se nele "tudo". Enão no caso de uns poucos indivíduos ou de um número considerável, mas Ele próprio é "tudo em todos", [grifo meu.J E quando a morte não mais existir em nenhum lugar, nem o aguilhão da morte, nem qualquer outro mal, então realmente Deus será "tudo em todos". 39

Quando

Para o mal, demônico, Satanás ou o inferno continuar existindo, ao menos como Orígenes visualizou as questões, Deus deixaria de ser "tudo em todos". Nessa circunstância, a igreja disse; "Não". Ela julgou a dedução de Orígenes como estando fora dos limites do pensamento ortodoxo, e ele perdeu a possi- bilidade de ser considerado um pai no sentido estrito do termo, embora seu pensamento continue a ser estudado e apreciado por muitos. Isso será consi- derado com algum detalhe neste livro.

Ramsey nota que muitos desenvolvimentos na doutrina da igreja, especi- almente no catolicismo romano, não são encontrados nos pais, tornando o critério de ensino ortodoxo difícil de ser aplicado justa ou ecuménicamente. Por exemplo, a ênfase católica romana sobre Maria e o papado desenvolveu- se mais plenamente nos tempos medievais e modernos, e não tem sido reco- nhecida por todas as comunidades cristãs. "Os católicos romanos diriam que tais ensinos representam um desenvolvimento e são, pelo menos, não con- trários à mente dos pais, porém muitas pessoas na tradição da Reforma diri- am que eles são certamente uma espécie de desvio." 4 0 Eu concordaria, Daí a necessidade de aplicar-se alguma coisa mais ampla e limites teológicos mais flexíveis ao determinar a ortodoxia teológica de um pai. Devemos com certe- za incluir as ponderações da tradição romana, mas em conexão com aquelas perspectivas do ortodoxo, do anglicano e do protrestante sobre a exegese patrística.

Os pais afirmam um amplo conjunto de proposições teológicas, que têm permanecido básico para a ortodoxia cristã, extensivo a todas as linhas denominacionais. Ramsey lista especificamente a crença no Deus trino, as plenas naturezas — divina e humana — de Cristo, a eficácia redentora da morte de Cristo sobre a cruz, a autoridade absoluta e a infalibilidade da Escri- tura, a condição decadente da humanidade, a importância do batismo e da Santa Ceia, e a importância vital da oração e de uma vida espiritual disciplina- da. "A crença nessas coisas, que os pais proclamaram unanimente, mesmo de diferentes maneiras, continua sendo a marca distintiva do cristianismo até este dia." 4 1

Os pais foram teólogos sérios, mas sua primeira vocação foi como pastores dentro da igreja. Muitos foram bispos primazes. Sua teologia e exegese possuem uma marcante ênfase pastoral, demonstram preocupação e são altamente

56

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

práticas. Reflexões sobre a Trindade e a encarnação estão entrelaçadas com pensamentos profundos sobre oração e adoração. Os pais fundem profundi- dade e praticabilidade em feição intricada. Como pastores da igreja, eles teologízaram, oraram e pregaram com as necessidades e preocupações no co- ração. Sua identidade e tarefa como pais eram inseparáveis da própria igreja. Píer Franco Beatrice descreve o papel dos pais:

Foi acima de tudo a tarefa dos pais da igreja elaborar aquelas respostas que, por causa de sua autoridade, permanecem ainda pontos de referência para a conscientização eclesiástica hoje. Os pais da igreja são aqueles personagens, quase sempre bispos e, por isso, dotados de responsabilidades pastorais particulares, que influenciaram decisivamente por sua pregação e escritos, ambos de desenvol- vimento da doutrina cristã e formação do comportamento cristão.'' 2

Por causa do importante papel que os pais desempenharam na formação tanto da doutrina como da prática, seus escritos e sua vida podem ajudar-nos a compreender quem nós mesmos somos como cristãos, por que cremos e como nos comportamos no corpo de Cristo, Alguns leitores prontamente res- soarão com a teologia e exegese dos pais, por serem membros de comunida- des cristãs intimamente associadas com fundações patrísticas, Outros senti- rão que estão visitando um país estrangeiro, quando lerem a Bíblia com os país, ao menos em parte, porque suas comunidades cristãs são menos intima- mente ligadas ao mundo da igreja primitiva, Abertura e disposição para ouvir continuam sendo atributos fundamentais para aqueles que ouvirão a música que os pais cantam. Michael Casey arrola três razões para estudar os pais, palavras de conselho para lembrar em páginas futuras:

Primeiro, os pais são os "mais próximos beneficiários da tradição apostóli- ca". Em minhas próprias palavras, eles viveram e trabalharam em aproxima- ção hermenêutica com os escritores bíblicos, especialmente os do Nov o Testa- mento. Segundo, os pais "ajudam-nos a entender nossas próprias raízes" na fé. Terceiro, muitos pais escreveram e viveram como pastores.

Eles escreveram para ajudar as pessoas a agarrar-se ao ensino de Cristo, Até onde conheço, a teologia não era vista como uma profissão ou ocupação no primeiro

Textos

escritos de tal perspectiva tendem a ser existenciais, experimentais e práticos. A teoria não se permite correr livre.'' 3

4. Aprovação eclesiástica, Esta característica final significa que um pai tem sido afirmado como tal pela própria igreja. Como temos visto, alguns escrito- res cristãos exponenciais antigos, como Orígenes, não têm recebido esta de- signação porque o consenso da igreja julgou certo que suas idéias ficassem fora dos limites da ortodoxia. Não obstante, o chamado patrístico à humildade permanece quando avali- amos exegetas, como Orígenes. A ortodoxia do credo, como Henry Chadwick

milênio. Ela foi vista mais como um concomitante do cuidado pastoral

QUE M

SÃO OS

PAIS?

<5a 5 7

sustenta que o próprio Orígenes compreendeu, "sugere nítidas e absolutas

Orígenes viu que as proposições do credo formal têm de

ser afirmadas de uma forma não qualificada e dogmática". Entretanto, Chadwick pergunta perceptivelmente: "se há graus de compreensão, se todos vemos através de um vidro, obscuramente, alguns podem ser capazes de ver um pouco mais claramente do que outros". 4 4 No caso de Orígenes, sua inclinação especulativa levou-o a buscar "as ra- zões e o modelo básico" sob as afirmações essenciais do credo e algumas vezes levou-o a incorrer em erro, mas Chadwick previne todos contra o perigo da excessiva confiança teológica. O próprio Orígenes advertiu que, em "matérias avançadas de teologia, a confiança é possível somente para duas classes de pessoas: santos e idiotas". 4 5 Ahumildade, a disposição de ouvir reiteradamente o texto da Escritura e ver como os outros lêem, interpretam e compreendem- no, lembrando o tempo todo nosso desejo frustrado de escapar da verdade a nós dirigida, permanece um pré-requisito para compreender os pais, suas for- ças e fraquezas, e nós mesmos.

linhas de divisão,

Dentro da classificação mais ampla dos "pais da igreja", encontramos os oito doutores da igreja: Ambrósio, Jerônimo, Agostinho e Gregório o Grande, no Ocidente; e Basílio o Grande, Gregório de Nazianzo, Atanásio e João Crisóstomo, no Oriente. Enquanto Gregório o Grande estendeu os limites ao encontrar o critério da antigüidade, todos os oito satisfazem às outras três características dos pais da igreja. Ademais, eles satisfazem outas duas qualifi- cações: emínens eruditio (eminente entre os pais para o aprofundamento de seu aprendizado) e expressa ecdesiae declaratío (separado por expressa decla- ração da igreja), 4 6 À luz da posição especial destes oito, dedicaremos uma aten- ção mais detalhada à vida de cada um e seus escritos nos dois próximos capí- tulos, focalizando primeiramente os quatro doutores do cristianismo oriental.

OS QUATRO DOUTORES DO ORIENTE Atanásio, Gregório de Nazianzo, Basílio o Grande e João Crisóstomo

OS QUATRO DOUTORES DO ORIENTE

Atanásio, Gregório de Nazianzo, Basílio o Grande e João Crisóstomo

os quatro doutores do Oriente, encontramos os professores pre-eminentes que exemplificam as riquezas do discernimento e exegese patrísticos orientais. Todos os quatro ilustram a fecundidade da interpretação bíblica patrística, embora estes pais tenham praticado sua habilidade exegética em resposta a diferentes questões. Atanásio e Gregório de Nazianz o interpretaram a Bíblia dentro do contexto da controvérsia

ariana. Seu uso da Escritura na resolução de uma questão teológica confusa demonstra bem sua técnica interpretativa e o fruto que ela produz. Com o para Basílio e João Crisóstomo, ambos mostraram ser exegetas agraciados, mas em um cenário menos aquecido e volátil. Aqui estão dois dos grandes pastores da igreja: Basílio servindo como líder de um a comunidad e monástica , Joã o pastoreand o a igreja em Antioqui a e depoi s em Constantinopla . Ambo s leram e explicaram a Bíblia à luz de suas responsabilidades pastorais e, por isso, oferecem compreensão a pastores e párocos ainda hoje.

a Bíblia à luz de suas responsabilidades pastorais e, por isso, oferecem compreensão a pastores e

OS

QUATRO

DOUTORES

DO

ORIENTE

Atanásio (295-373)

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Não havia respostas neutras a Atanásio. Seus amigos teriam desejado dar prontamente sua vida por ele. Seus inimigos anelavam vê-lo e sua lembrança alijados da terra, Alguns zombavam dele, tratando-o como o "anão negro". Dentro de Atanásio ardia uma inteligência vivaz e um coração inflamado por Deus, o Deus que entrou na história humana para libertar a humanidade, tornando-se um de nós para salvar-nos do que tínhamos nos tornado. Robert Payne escreve que

na história da igreja primitiva nenhum foi tão implacável, tão insistente em suas exigências para consigo mesmo ou tão irônico com seus inimigos[como Atanásio], Nele havia alguma coisa de ponderação do revolucionário dogmático moderno:

nada o detinha. O imperador Juliano chamava-o de "homem voluntarioso, somen- te um tanto nanico". Gregório de Nazianzo disse que ele era "angelical em aparên- cia, e ainda mais angelical na mente". De certo modo, ambos estavam dizendo a verdade. 1

Talvez apenas uma personalidade forte como a de Atanásio pudesse travar

as

batalhas teológicas, eclesiásticas e políticas, que foram constantes por qua-

se

toda a sua vida, Gregório de Nazianzo caracterizou-o ao mesmo tempo como

"pilar da igreja" e possuidor de "todos os atributos do pagão". De certa for- ma, Atanásio foi um guerreiro teológico de rua, corajoso, cuidadoso e astuto. Ele não estava em alta posição para aproximar-se do imperador Constantino, quando este montava seu cavalo pela rua, segurando a rédea e ralhando com

o

o animal por sua fraqueza teológica.

Aqui está um home m que escreveu duas obras importantes — An Oratíon Against the Heathen (Um Discurso Contra o Incrédulo) e On the Incarnation

(Sobre a Encarnação) — antes dos vinte anos de idade. Com trinta e três anos foi nomeado bispo da igreja em Alexandria, o que não foi para ele uma tarefa fácil. Por quarenta e cinco anos, Atanásio foi exilado cinco vezes de sua igreja em Alexandria, quase sempre por causa de sua firme oposição às idéias do presbítero Ário. Ário argumentava que o Filho de Deus era uma criatura exal- tada. Atanásio retrucou com uma sólida defesa da proposição de que realmen-

te Deus havia entrado em união com a natureza humana por meio de Jesus

Cristo, A batalha entre os dois e seus seguidores intensificava e decrescia

durante anos.

Amostra hermenêutica. A encarnação do Filho de Deu s foi o grande misté- rio que Atanásio defendeu durante toda a sua vida. Deus Filho, verdadei- ro Deus com o Pai e o Espírito Santo, em grande amor, desejou ligar sua natureza divina à natureza humana no mistério da encarnação. Somente tal humilhação amorosa e graça inefável poderiam salvar a humanidade e oferecer a oportunidade da transformação humana à imagem de Deus. Somente Deus podia salvar, e Ele fez isso porque se tornou o que somos.

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA A idéia de uma encarnação genuína,

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

A idéia de uma encarnação genuína, de Deus invadir nosso mundo para tornar-se o que somos, é uma idéia que faz pequeno o senso racional. O Deus descrito pelos escritores bíblicos é íncriado, invisível, onipotente, onisciente, infinito e imensurável. Estes são apenas alguns dos atributos que lançam uma abertura indelével, inconfundível, intransponível entre o divino e o humano, o Criador e a criatura. Ou assim pareceria, E agora o evangelho, ao menos como Atanásio o compreendeu, proclamou alto e claramente que, em Cristo, a linha entre a divindade e a humanidade tinha sido atravessada. Sem dúvida, argumentou Atanásio, ela deveria ser cruzada, se os seres humanos quisessem salvar-se dos terríveis efeitos do pecado.

Como uma encarnação poderia realmente ocorrer ou fazer sentido teológi- co era outra questão. Como poderia o incriado tornar-se criado? Como poderia o infinito tornar-se finito? Poderia o imensurável ser medido no dedal da natureza humana? Que sentido possível poderia alguém compreender de tais asserções incompreensíveis, aparentemente irracionais? De modo algum, afir- maria o presbítero Ário. Ário, representando o antagonismo teológico central na vida de Atanásio por quase cinqüenta anos, fundou sua cristología sobre certas pressuposições filosóficas, teológicas e bíblicas. Ele discutiu, por exemplo, que a essência divina era uma unidade indivisível. Se isto fosse verdade, seria racionalmen- te incoerente acreditar que Deus pudesse ser dividido em qualquer forma. Por exemplo, Ele não poderia ser divido em partes: uma parte como o Pai, uma segunda como o Filho e uma terceira como o Espírito Santo. Deus não poderia "gerar um Filho divino", pelo menos se a palavra "gerar" retivesse alguma semelhança com seu sentido geralmente reconhecido quando aplica- do à procriação humana.

retivesse alguma semelhança com seu sentido geralmente reconhecido quando aplica- do à procriação humana.
retivesse alguma semelhança com seu sentido geralmente reconhecido quando aplica- do à procriação humana.
retivesse alguma semelhança com seu sentido geralmente reconhecido quando aplica- do à procriação humana.

Uma vez que Ário tinha afirmado a indivisibilidade de Deus como efetiva- mente impedindo a possibilidade da complexidade mais profunda dentro da própria divindade, ele tinha de fazer sentido teológico a partir do Filho, que ele encontrou claramente nas páginas da Escritura. O que ele devia fazer? Ele já havia concluído que este Filho não poderia ser divino no mesmo sentido em que o Pai o era. porque a divindade não era uma substância que pudesse ser dividida como porções de batatas espremidas. A essência divina era uma realidade indivisível. Conseqüentemente, o Filho, de alguma maneira, deve ter tido um começo. Ele não poderia ser eterno no mesmo sentido em que o Pai era eterno, Como Ário estava para expressar, "Houve um tempo quando Ele não existiu".

Se este é o caso, mesmo que o Filho seja uma criatura exaltada, Ele é ainda uma criatura, por mais elevado que possa ser. Se alguém fosse traçar uma linha na areia, dividindo a deidade da criação, o Filho em sua essência deve ser colocado do lado da criação. 2 As deduções que Ário então fez desta

OS QUATRO DOUTORES DO ORIENTE ^ 6 1 surpreendente conclusão são dissonantes. Se o Filho

OS

QUATRO

DOUTORES

DO

ORIENTE

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surpreendente conclusão são dissonantes. Se o Filho é uma criatura, Ele deve ser inferior a Deus e limitado em seu conhecimento de Deus. Ele deve ser sujeito a mudanças e mesmo ao pecado. Pelo lado mais positivo, Ário insistiu que o Filho é a mais elevada e exalta- da de toda a criação de Deus. Ele próprio foi criado antes do tempo — Ele "nasceu fora do tempo". A preeminência do Filho, Ário argumentou, podia ser reconhecida pelos gloriosos títulos dados a Ele nas páginas da Escritura. Ele era mesmo chamado "Filho de Deus". Entretanto, Ário acreditava inflexivel- mente que os títulos dados ao Filho eram metafóricos, na melhor hipótese; honras apontando para a sua maravilhosa posição como a criação mais alta de Deus, mas tudo mal interpretado, se tomado literalmente, Como Ário expres- sou, o Filho "é chamado Deus não verdadeiramente, mas somente no nome" 3 .

Consideremos a seguinte amostragem de textos que foram citados para sustentar a posição de Ário; No Jardim de Getsêmani, Jesus provou angústia e med o (cf. Mt 26.38). Um ser divino experimentaria e expressaria essas emoções e respostas? Que per- guntas Jesus fez durante sua vida aqui? Ao alimentar os quatro mil, Jesus pergunta a seus discípulos quantos pães eles possuíam (Mt 15-34). Em sua crucificação, Ele pergunta por que o Pai o havia abandonado (Mt 27.46). Jesus parece ser ignorante do tempo quanto a todas as coisas que serão "cumpri- das" (cf. Mc 13.4,32). O conhecimento do Pai parece nitidamente maior que o do Filho. Assim sendo, como poderiam Pai e Filho compartilhar a mesma es- sência divina? Como os arianos expressaram;

a mesma es- sência divina? Como os arianos expressaram; Se o Filho fosse, de acordo com

Se o Filho fosse, de acordo com sua interpretação, eternamente existente com Deus, Ele não teria sido ignorante do Dia, mas o teria conhecido como [sendo a]

Palavra; nem teria Ele sido abandonado, se fosse coexistente [com o Pai],., nem

teria orado de modo

Sendo a Palavra, Ele nada teria necessitado. 4

Foi convincente a exegese de Ário? Foram válidas suas pressuposições filo- sóficas e teológicas? Anastasio ficou horrorizado com as implicações do ensi- no de Ário. Enquanto este começou com certas pressuposições filosóficas a respeito da indivisibilidade de Deus, aquele iniciou sua exploração sobre o Filho ao estudar a resposta da Escritura à pergunta; "Que deve Deus fazer, se a humanidade deve ser salva do pecado?" Enquanto Ário buscava coerência e consistência lógica em sua compreensão de Cristo, a focalização de Atanásio era soteriológica. Se Deus tinha de salvar a humanidade, o que teria de acon- tecer? E sobre o que os escritores bíblicos insistiram tinha realmente aconte- cido?

A resposta de Atanásio a Ário pode ser resumida em duas afirmações básicas; 1. Somente Deus pode salvar. Se o Pai enviou o Filho para salvar a humani- dade por meio de sua morte e ressurreição, Deus veio para salvar. Uma sim- ples criatura não pode salvar ninguém. Enquanto Ário trabalhava duro para

62 ^

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

preservar uma condição de exaltado para o Filho, caracterizando-o como elevado acima de todas as outras criaturas, sua compreensão de Cristo hesi- tou nesta conjuntura estratégica. O Cristo ariano, insistia Atanásio, não pode- ria salvar ninguém. Nenhuma criatura possuía capacidade ou prerrogativa

para salvar do pecado. A salvação era a prerrogativa, privilégio e ato potencial

e

o doador tem de conceder o que está em sua posse," 5 Alvyn Pettersen escreve que, mesmo que Cristo fosse "a mais sublime das criaturas", os seres humanos estariam ainda achando-se disputados por dois seres criados, "o Logos e o diabo". A vitória final não poderia ser garantida a ambos. 6 Assim, seguem-se as insistências de Atanásio de que somente Deus pode resgatar a humanidade e que Ele deseja fazer assim. "Que ajuda, então, podem as criaturas receber de uma criatura que, ela própria, necessita de

salvação?

as criaturas fossem criadas por uma criatura." 7

de sofrer por todos e é competente para ser um

Uma criatura nunca poderia ser salva por uma criatura, exceto se

unicamente de Deus. "O criador deve ser maior do que aquele que Ele cria

O Filho "sozinho é capaz

advogado em favor de todos perante o Pai". 8 Somente o Deus infinito, cujos po- deres, competências, amor e graça permanecem ilimitados, pode salvar a huma- nidade. De acordo com Pettersen, "Ele pode relacionar-se com todos e agir por todos. Nenhum dos que são suscetíveis da corrupção mortal está além do alcance do Altíssimo," 9 Deus não apenas possui os atributos necessários para salvar, como tam- bém deseja fazer isto, experimentando amorosamente a encarnação em nos-

so benefício.

Como era direito dele desejar ajudar o homem, Ele veio como homem, tomou a si

a fim de que [o homem] que

[estava] desejoso de conhecê-lo por sua providência e governo do universo, ainda pelas obras feitas por meio de seu corpo, pudesse conhecer o Logos de Deus. que estava no corpo, e, por meio dele, o Pai. Porque, como um bom professor, que cuida de seus alunos, sempre digna-se ensinar por meio mais simples aqueles que não podem aproveitar por meios mais avançados, assim faz o Logos de Deus. 1 0

2. Cristo é adorado nas igrejas cristãs, incluindo aquelas que seguem o

ensino de Ário. Com o pode a igreja adorar Cristo corretamente, se Ele não é Deus?, perguntava Atanásio. Não percebiam os arianos que o que esavam fazendo em seus cultos de adoração não estava de acordo com a sua teologia? Adorar uma criatura é cometer terrível blasfêmia, Na realidade, Atanásio acu- saria, Ário e seus seguidores cometeram blasfêmia em duas questões: adora- ram uma criatura como Deus e chamaram ao Deus encarnado uma simples criatura. O desejo de Ário, como C. S. Lewis o considera, "por uma religião sintética 'de bom senso'" tinha-o levado a um beco racionalista sem saída."

Por uns bons anos pareceu que a posição de Ário tinha ganho o dia. A

Filho era

despeito da afirmação no Concílio de Nicéia

um corpo como o do homem, de origem humilde

(325)

de que

o

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homoousios com o Pai, isto é, partilhava da essência divina com o Pai, a igreja acenou para uma solução mais compreensiva e definitiva de Ário. Na verda- de, por algum tempo pareceu que era Atanásio contra o mundo. Seu firme exemplo inspirou este louvor de C. S. Lewis:

Estamos orgulhosos de que nosso próprio país tenha, mais de uma vez, levantado contra o mundo. Atanásio fez o mesmo. Ele apoiou a doutrina trinitarista, "incólu- me e imaculada", quando parecia que todo o mundo civilizado estava dando as costas ao Cristianismo em favor da religião de Ário — uma daquelas religiões sintéticas "de bom senso", que são tão fortemente recomendadas hoje e que, en- tão como agora, incluía entre seus devotos muitos clérigos altamente cultos. É sua glória ele não ter mudado com o tempo: é sua recompensa que ele agora permane- ça quando aqueles tempos, como todos os tempos, mudaram. 12

A resposta hermenêutica de Atanásio. A leitura de Atanásio da Escritura é, freqüentemente, unida de forma intrincada à sua batalha contra o arianismo. Seus Four Discourses Against the Arians (Quatro Discursos Contra os Aria- nos) provêem-nos de muitos exemplos de como ele lê a Bíblia e aplica seu conteúdo a um problema teológico específico de grande momento. Em sua introdução aos textos dos Evangelhos, tratando da natureza da encarnação, Atanásio primeiro arrola as objeções arianas comuns à possibilidade de Deus tornar-se genuinamente encarnado, Como poderia o Filho ser "o natural e verdadeiro poder do Pai", se, na hora de sua paixão no Getsêmani, sua alma estava angustiada e Ele pediu para livrar-se daquela hora? Como poderia Ele pedir para ser evitado o cálice de seu sofrimento? Certamente, se o Filho partilhava a mesma essência com o Pai, Ele teria possuído o poder para dominar todos aqueles temores. 1 3 Como poderia Jesus crescer "em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens", se Ele era consubstancial com o Pai? Se Ele possuísse toda sabedoria e conhecimento, como seguramente a deidade possui, por que per- guntaria Ele aos discípulos quantos pães tinham no momento do milagre da multiplicação dos pães? Por que Jesus clamou na cruz: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" Por que, em resposta à pergunta dos discípulos sobre os sinais dos últimos tempos, Jesus disse: "Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai" (Mc 13.32). Com o seria possível haver esta divisão de conhecimento dentro da deidade, o Pai conhecendo todas as coisas e o Filho, somente algumas coisas? Como poderia Deus tornar-se um ser humano? "Como poderia o Imaterial gerar sum corpo?" Visto que os judeus adversários de Jesus haviam pergunta- do; Como pode um ser humano ser Deus?, Ário perguntou: Com o poderia Deus tornar-se um ser humano? "Como poderia Ele ser o Verbo ou Deus e, ao mesmo tempo, dormir, chorar e questionar, como o homem?" 1 4 A resposta de Atanásio a estas e outras perguntas focalizam o relaciona- mento entre a divindade e a humanidade de Cristo. Ele argumentou que a

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LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

"finalidade e caráter" da Escritura continha "um duplo relato do Salvador". A Bíblia, de fato, afirmou tanto a divindade como a humanidade de Jesus. Como Filho, Ele existiu como "a Palavra e Resplendor e Sabedoria do Pai". Na encarnação o Filho, intencional e amorosamente, assumiu uma carne huma- na "de uma virgem, Maria, portadora de Deus, e foi feito homem". 1 5 Atanásio acreditava que esta dupla focalização "deve ser encontrada ao longo da Escritura inspirada", e cita várias passagens que afirmam tanto a divindade como a humanidade de Cristo. Ele constata que o ponto crucial do problema é o relacionamento entre Cristo como Deus e Cristo como homem, e centraliza sua atenção nisso. Por outro lado, o Filho tornou-se o que somos "por amor de nós". Porque o Filho juntou-se genuinamente à nossa "carne", Atanásio espera que o leitor perspicaz da Bíblia note que as "propriedades da carne" são realmente atributos do Filho, porque elas são verdadeira- mente suas à luz da encarnação. "Diz-se que as propriedades da carne, como fome, sede, sofrimento, cansaço e outras, são dele porque Ele esta- va na carne," 1 6 Por outro lado, porque o Filho é tanto genuinamente humano como genu- inamente divino, os estudantes da Escritura não devem surpreender-se ao encontrar textos que ressaltam a divindade de Cristo, "as obras características da própria Palavra, tais como ressussitar o morto, restaurar a vista ao cego e curar a mulher com fluxo de sangue", obras extraordinárias, realizadas por meio da carne e que a Palavra havia assumido. Em admirável, inefável co- partipação de atributos, "a Palavra levou as enfermidades da carne como sen- do suas próprias, porque a carne era dela; e a carne contribuiu para as obras da divindade porque a divindade estava nela, porque o corpo era de Deus". 1 7 Aqui estava a resposta de Atanásio à confusão dos arianos sobre a humani- dade e deidade de Cristo. O Verbo não era "externo" à humanidade que Ele havia assumido. Antes, quando o Filho encarnado ministrou, a humanidade e a deidade estavam ambas a serviço em união incompreensível.

E assim, quando houve necessidade de curar a sogra de Pedro, que estava doente de uma febre, Ele estendeu a mão humanamente, mas interrompeu a doença divinamente. E no caso do homem cego de nascença, o cuspe expelido da carne foi humano, mas Ele abriu os olhos divinamente por meio do barro, Na morte de Lázaro, Ele emitiu uma voz humana, como homem; mas divinamente, como Deus, erguendo Lázaro da morte. Estas coisas aconteceram assim, foram manifestadas de tal modo, por ter Ele ter um corpo, não em aparência, mas em verdade. Ele tornou-se o Senhor ao ser revestido de carne humana, e, em tal condição para revesti-lo sobre o todo com as afeições apropriadas a ela; que, ao dizermos que o corpo é propriamente dele, de igual modo podemos dizer que as afeições do corpo foram apropriadas somente a Ele, embora eles não o tocassem de acordo com sua divindade. 18

que as afeições do corpo foram apropriadas somente a Ele, embora eles não o tocassem de

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Em resumo, Atanásio conclui, a natureza divina se apropria da natureza humana, santificando a natureza humana de Cristo e de todos aqueles que ve- nham a crer nele, O Filho vem a nós com amor, torna-se o que somos — exceto a condição de pecado — e convida-nos a "transferir nossa origem para a dele". Cristo age tanto divina como humanamente por meio de seu corpo encarna- do. Quando Ele age com poder, curando o doente e levantando o morto, nota- mos sua divindade em ação. Quando Ele se cansa, faz perguntas, manifesta medo, vemos a sua real humanidade.

Os arianos erraram por lerem a Escritura deficientemente, fracassando em distinguir entre o que era próprio à divindade do Filho e o que era próprio de sua humanidade. Isso levou-os a negar a divindade do Filho. Ou, como afirma Atanásio "olhando para o lado humano do Salvador, julgaram-no uma criatura". Outros hereges cometeriam o erro oposto e negariam a genuinidade da humanidade do Filho. Ambos falharam em compreender quem é Cristo, por causa da falha em ler a Escritura de acordo com o que o próprio evangelho requer, já que a salvação deve ser efetivada.

Para pesquisa adicional. A exegese de Atanásio está geralmente distri- buída em suas obras teológicas, e os escritos focalizados unicamente so- bre a própria exegese são relativamente raros, O exemplo mais claro de um a obra dedicada à exegese, disponíve l em língu a inglesa é The Letter of St. Athanasius to Marcellinus on the Interpretation of the Psalms (A Carta de Santo Atanásio para Marcelino sobre a Interpretação dos Salmos). Ela encontra-s e anexad a à traduçã o de On the Incarnation (Sobre a Encarnação), da St. Vladimir's Press, 1 9 É encontrada também na série The Classics of Western Spirituality (Os Clássicos da Espiritualidade Ociden- tal), publicada pela Paulist Press, acompanhad a por Life of Antony (A Vida de Antônio), de Atanásio. 2 0 Atanásio escreveu comentários sobre os Salmos, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos e Gênesis, mas temos somente fragmentos destes comentários, que ainda têm de ser traduzidos para o inglês [e outros idiomas] . A extens a obra de Atanási o Four Discourses Against the Arians (Quatro Discursos Contra os Arianos) é um a fonte ma- ravilhosa para examinar como ele leu a Bíblia e aplicou seus ensinos a uma questão teológica específica e extremamente difícil. 2 1

Alguns podem se interessar pela trigésima nona Festal Letterpara o ano 367. Nesta carta Atanásio critica obras apócrifas criadas por pessoas "que se aperfeiçoaram em uma ciência mentirosa e desprezível". Para que as pessoas sejam capazes de distinguir entre as Escrituras canónicas e as obras fabricadas, Atanásio põe diante do seu leitor "os livros incluídos no cânon, e passados para outros, e acreditados como divinos". 2 2 Ele arrola os vinte e sete livros do Novo Testamento — a primeira vez que haviam sido declarados canónicos. 2 3

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LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

Gregório de Nazianzo (c. 329-390)

À primeira vista, Gregório de Nazianzo, como muitos dos pais, parece menos

que um provável candidato à liderança pastoral, e menos ainda ao episcopa- do. Anacrónicamente, Gregorio parece ter sido o perfeito introvertido, forte- mente atraído para a solidão, oração e vida contemplativa. Além disso, ele esperava evitar responsabilidades de liderança. Robert Payne pinta um qua- dro vívido deste pai improvável:

Ele era um homem arguto, pequeno e encolhido, calvo, com uma longa barba ver- melha e sobrancelhas vermelhas, como Atanásio, enrugado, quase sempre doen-

te, abatido com as vigílias e jejuns,

rebelde. Ele foi o único homem que é conhecido por ter ousado zombar de Basílio,

Era explosivo, de mau humor, infeliz no meio de muitas pessoas, estranhamente afastado do mundo, Indicado ao Patriarcado de Constantinopla contra sua vonta- de, achou-o ariano e, em poucos meses, converteu-o à fé ortodoxa. Foi o primeiro poeta cristão e escreveu prosa angelicalmente. Durante o tempo todo sua vida gloriou-se no poeta grego Píndaro, que celebrava os atletas e falava somente da glória humana. Ele amou a Deus, depois a arte de cartas, e depois os homens — nesta ordem. 24

Não receava ninguém e tinha um humor

Quem foi este estranho homem que provou-se um poeta dotado, pastor, bispo e teólogo? Gregório nasceu na Capadócia em família razoavelmente rica, que morava em Nazianzo, uma cidade de pouca expressão no mundo medi- terrâneo. Seu pai, Gregório o Ancião, foi por muitos anos membro da igreja dos

hipsistaríanos, "uma seita judaica helenizada que adorava o único Deus, observa- va o Sabbath e guardava as leis sobre comida, mas rejeitava a circuncisão". 2 5

A família de Gregório pôde provê-lo com excelente educação. A partir da

idade de treze anos, ele estudou nos grandes centros educacionais do mundo greco-romano — Cesaréia na Capadócia, Cesaréia na Palestina, Alexandria e, por muitos anos, em Atenas, Gregório concentrou-se particularmente nos retóricos e nos autores clássicos gregos, manifestando amor pelo poder e pela beleza das

palavras, o que se evidencia em suas cartas, orações e poemas.

Atirei ao vento todas as outras coisas: os que o desejarem podem ter riqueza e nascimento ilustre, fama e poder de governar outros homens, todos aqueles pra- zeres terrenos que passam como um sonho. Há, porém, uma coisa a que me atenho — meu poder de palavras, isto somente, e assim não invejo as vicissitudes pela terra e pelo mar, que me deram isto. Que o poder de palavras seja meu e possa pertencer àquele que me chama de amigo. Estimo-o profundamente, e assim colocá- lo-ei sempre em primeiro lugar, exceto antes daquilo que é absolutamente o pri-

meiro — quero dizer, todas as coisas santas e as esperanças que se estendem além

do mundo tangível. 26

Ele ansiava por liberdade para estudar em paz e resmungava contra o dese- jo de outros vê-lo em posições de liderança pastoral. Payne classifica-o como "o estudante perpétuo, o homem que dedica toda a sua vida estudando calma- mente, sem nenhum desejo de ação". 2 7

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Johannes Quasten retrata Gregório como o "humanista entre os teólogos do quarto século", pois ele preferia claramente a vida contemplativa e ascética à vida ativa da liderança eclesiástica. Por outro lado, argumenta Quasten, "a disposição acomodatícia e o senso do dever" de Gregório conflitava com seu desejo de estudo e solidão, continuamente acenando-lhe "o mundo turbulen- to e as controvérsias e conflitos de seu tempo". A vida de Gregório parece-se, então, com uma série de lutas entre afastar-se do mundo e retornar a ele. 2 8 Encontramos em Gregório o cristão introvertido em conflito, aspirando ser deixado com seus livros e vida monástica, mas continuamente atraído por sua igreja para uma vida de serviço comunitário, É a tensão entre estas duas vidas e dois desejos que freqüentemente empurra a sabedoria e a intuição de Gregório para a superfície de sua consciência em benefício da genuína comunidade que ele desejava evitar. Considere-se, por exemplo, o chamado de Gregório para o sacerdócio em Nazianzo. Ele estava vivendo em solidão monástica com seu amigo íntimo Basílio, quando foi intimado por seu pai a retornar ao lar. Tanto o pai de Gregório como a comunidade de Nazianzo estavam convencidos de que Deus o tinha chamado para o ministério ordenado. Entretanto, depois de sua orde- nação, ele deixou Nazianzo e voltou à vida monástica no Ponto. Passado pou- co tempo, ele arrependeu-se, aceitou sua ordenação e retornou a Nazianzo. Logo depois desta confusão, surgiu In Defence of His Flight to Pontus (Em Defesa de sua Fuga para o Ponto), uma oração que se ombreia com a obra On the Priesthood(Sobre o Sacerdócio), de João Crisóstomo, por sua clara apre- sentação das responsabilidades e entraves que se opõem ao ministro cristão. 29

O mesmo padrão de comportamento em atender ao chamado para lideran- ça e serviço, e depois se retirar deste chamado reapareceu na vida de Gregório.

Frederick Norris comenta que este conflito o afligiu por toda a sua vida. Isto é um reflexo de profunda inquietação com relação ao seu visível talento e, ao

mesm o tempo, ao seu desejo de

da pregação para ser um bispo, mas os detalhes da administração pública não encontrou ressonância em sua pessoa. Mais uma vez ele fugiu para o retiro mo- nástico depois de dois períodos dos difíceis reclamos da comunidade". 3 0 Felizmente, Gregório concordou em servir como assistente de seu pai em Nazianzo e, mais tarde, acedeu à solicitação da igreja em Constantinopla e do imperador Teodósio para servir como bispo. Esta mudanç a para Constantinopla, entretanto, aconteceu depois de um período de intenso so- frimento e aflição. No espaço de poucos anos Gregório tinha perdido quatro membros íntimos da família e seu amigo mais próximo pelo poder da morte: seu irmão Cesário, sua irmã Gorgônia, seu pai, Gregório o Ancião, sua mãe, Nona, e Basílio o Grande, Gregório escreveu ao retórico Eudóxio sobre a profunda angústia que essas mortes trouxeram e sua ansiedade sobre o aparente não esclarecimento do mundo cristão ortodoxo sob o ataque do arianismo.

Ele possuía o do m teológico e

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LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

Você pergunta-me como estão meus assuntos. Miseráveis. Perdi dois irmãos: um do espírito, Basílio, e outro da carne, Cesário. Clamarei com Davi: "Meu pai e minha mãe me abandonaram" (Sl 27 (26). 10, BJ). Me u corpo está em estado la- mentável: a velhice está sobre minha cabeça. Cuidados e afazeres aborrecem-me,

como fazem os falsos amigos e o estado da igreja sem pastor. O bem é destruído,

o mal está exposto; estamos à beira-mar à noite sem qualquer luz, Cristo está adormecido. Que mais devo eu suportar? Há somente um livramento do mal — a morte; e mesmo isto amedronta-me, julgando o que eu experimento aqui. 3 1

Que m teria imaginado que o introvertido Gregório tornar-se-ia, em pouco tempo, o pastor e líder que ele já nem esperava mais encontrar em sua época conturbada — de fato, o bispo da sé de Constantinopla? Enquanto o serviço de Gregório em Constantinopla era de curta duração, sua voz e discernimento teológico reforçaram a posição nicena em uma cidade que tinha caído ostensi- vamente em mãos arianas. Cinco importantes orações teológicas que Gregório pregou durante este período tornaram-se o fundamento para a doutrina e pensamento trinitaríanos na ortodoxia oriental e influenciaram também o pensamento e formulação trinitariana no Ocidente.

Em 381 Gregório renunciou como bispo de Constantinopla, recusando-se a envolver-se na controvérsia que se levantara sobre a legalidade canónica da sua indicação como bispo. Abertamente, os opositores de Alexandria discuti- ram que o episcopado de Gregório em Constantinopla violara a lei canónica, porque ele já tinha servido como bispo em outro lugar. "Muito embora ele não tivesse servido em Sásima e tivesse sido apenas auxiliar em Nazianzo", Norris escreve que "ele não considerou a disputa digna de esforço". 3 2 Encer- rando com um prelúdio retórico em uma oração de despedida, Gregório ex- pressou nitidamente seu desaponto sobre a vida em Constantinopla e seu alívio por retornar ao lar.

Ninguém me disse que eu deveria reivindicar com os cônsules e prefeitos e com

os mais ilustres generais, que mal sabiam desfazer-se de sua abundância de pos-

sessões. Ninguém me disse que eu deveria pôr os tesouros da igreja a serviço da

glutonaria, e os gazofilácios a serviço da luxúria. Ninguém me disse que eu deve- ria estar equipado com cavalos soberbos e subisse a uma carruagem ornamentada, e que haveria um grande silêncio no curso dos meus solenes progressos, e que todos deveriam abrir caminho para o Patriarca, como se ele fosse alguma espécie

de animal selvagem, com o povo abrindo espaço em grandes avenidas para deixar-

me passar, quando viesse como um estandarte ao longe. Se estas coisas vos ofen- deram, então vos digo que todas elas pertencem ao passado. Perdoai-me. 33

Gregório retornou a Nazianzo, ministrou lá por um curto tempo e, final- mente, alcançou seu antigo desejo: retirou-se para uma vida de solidão e oração na propriedade da família, em Arianzo, onde morreu em 390. Amostra hermenêutica. Edward R, Hardy considera que Gregório de Nazianzo "seria uma figura desconhecida na história da igreja, bem como entre nós", se não tivesse sido por seus dois anos de intenso e importante ministério

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em Constantinopla. 3 4 Foi durante esse tempo que ele pregou uma série de homílias atacando o agressivo arianismo que havia infectado a maioria das igrejas da cidade. Esses sermões, mais tarde conhecidos com o Theological Orations (Orações Teológicas), deram a Gregório o título de "teólogo", Com o podem eles ajudar-nos a compreender como Gregório leu a Bíblia e conduziu sua obra como um pastor e teólogo? Para responder a esta pergunta, precisamos dizer uma palavra ou duas sobre os teólogos opositores de Gregório. Já discutimos os dogmas do arianismo em nossa exposição sobre a vida e obra de Atanásio. Gregório também retru- cou diretamente a visão ariana de Cristo como criatura exaltada. De certo modo, igualmente importante é a resposta de Gregório na First Theological Oration (Primeira Oração Teológica) à disposição e atitude aberrante de seu opositor ariano de como contemplava Deus, estudava as Escrituras e continu- ava fazendo suas deduções teológicas. Gregório criticou a deficiente posição devocional de seu contendor antes que Deus obstruísse sua capacidade de interpretar bem a Bíblia. Uma vida espiritual doentia mutilou sua habilidade de compreender e explicar a verdade divina. Teologia, afirmou Gregório, não é uma ciência que opera em um vácuo espiritual ou devocional. Antes, a condição da saúde e o bem-estar espiritual e devocional de uma pessoa influenciam nitidamente sua capacidade de interpretar a Escritura correta- mente e comunicar sua verdade fielmente.

A atenção de Gregório pareceu focalizar um grupo ariano radical conheci- do como eunomianos. Este grupo exaltava sua suposta capacidade de pers- crutar racionalmente as profundidades do próprio ser divino. Os eunomianos criam que podiam compreender claramente a essência divina e distinguir os relacionamentos entre Pai, Filho e Espírito Santo, usando unicamente a ra- zão. Ninguém com uma grama de sensatez, acreditavam eles, reconheceria com certeza que havia somente um Deus, o Pai. Proclamar futuras distinções pessoais dentro do ser divino era falar uma algaravia. Na realidade, havia um parco espaço no pensamento eunomiano para a incompreensíbilidade ou mistério de algum tipo.

Os eunomianos foram um punhado de arrogantes e auto-suficientes, pron- tos para usar silogismos racionais para inculcar na mente de seus opositores, mas o tempo todo cegos às drásticas implicações da sua própria metodologia teológica. Gregório de Nissa tachou-os de teólogos amadores, Se alguém lhes

perguntasse qual era o preço do pão, Gregório criticava, eles "diriam que o Pai

é maior e o Filho sujeita-se a Ele, e se alguém pedisse para tomar um banho [eles] replicariam que o Filho é feito do nada". 3 5

Em sua First Theological Oration (Primeira Oração Teológica), Gregório con- centra sua atenção sobre como os eunomianos lêem a Escritura e fazem teologia,

e não sobre seus erros peculiares. Não o surpreende o fato de eles cometerem

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LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

erros críticos, porque desde o começo sua atitude é imperfeita, Ele posiciona-se contra eles, opondo-se tanto a seu "sistema de ensino" como a seu "ajuste da mente". Os eunomianos, afirma Gregório, são pessoas "que se deleitam em conversas profanas e nas oposições da ciência falsamente assim chamada", apreciando "discussões sobre palavras, que não levam a nenhum proveito". 3 6 Gregório fala aos eunomianos em uma linguagem que eles provavelmente acharão "estranha" e "contrária", exatamente porque o milagre da encarnação requer a linguagem de mistério e paradoxo. É esta racionalmente incompre- ensível essência no coração da encarnação que os eunomianos têm tentado eliminar pelo uso de uma metodologia irreverente e racionalística. Em seu estudo de Deus, Gregório acentua, eles esqueceram com quem estão lidando e reduziram os mistérios e maravilhas de Deus aos limites de suas próprias aptidões racionais.

Gregório adverte que não é direito ou prerrogativa de qualquer fulano, beltrano ou sicrano avaliar os mistérios divinos: "o assunto não é tão barato e vulgar". Nem são os mistérios do caráter e obras de Deus exibidos diante de qualquer audiência. Antes, há um lugar, tempo e audiência apropriados para estudar e expor a verdade divina, E sempre há importantes limites a preservar. 3 7

A saúde espiritual e a argúcia hermenêutica não podem ser separadas. Aqueles que falam de Deus devem ser pessoas que examinadas pela comuni-

dade dos crentes, aqueles que "são ex-mestres em meditação, e quem foi pre- viamente purificado na alma e no corpo, ou, pelo menos, que esteja sendo purificado". 3 8 Como pode um olho impuro estudar o puro, ou olhos fracos

contemplarem o sol com segurança? pergunta

Não apenas o discernimento e a sabedoria teológica brotam de um caráter em formação à imagem de Cristo, como também o estudo teológico não é um esporte ou uma competição, um jogo do qual alguém se aproxima petulante ou levianamente. A verdade divina estará aberta somente àqueles para quem ela é de real interesse. Ela continuará fechada àqueles "que fazem dela uma

questão de bisbilhotice prazenteira, como outra coisa qualquer, acerca de ra- ças, ou de teatro, ou de um concerto, ou de um jantar, ou ainda de baixos empregos, Para tais homens, pilhérias inúteis e contradições triviais sobre

estes assuntos são parte de

Jaroslav Pelikan observa que não eram apenas os eunomianos que precisa- vam ouvir as palavras de Gregório. No tempo de Gregório, cerca de cinqüenta anos depois da conversão de Constantino, "a teologia cristã tinha se tornado suficientemente propagada em sua aceitação pela refinada e influente socie- dade bizantina". Pelikan nota que a queixa de Gregório de que "alguns devo- tos de teologia" eram "como os promotores de lutas nas arenas", pessoas cuja "conversa fiada acerca dos dogmas da fé", nas palavras de Gregório, fizeram

Gregório. 3 9

seu divertimento". 4 0

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"cada quadra na cidade um zunzum com suas discussões". O único remédio era mente e coração puros e bom estudo à moda de outrora. 4 1

Pois não é absurdo que, enquanto ninguém, por maior que seja sua grosseria e falta de educação, consente ignorar a lei romana, e enquanto não há lei em favor de pecados de ignorância, os mestres dos mistérios da salvação sejam ignorantes do archai da salvação, por mais simples e inferior que sua mente possa ser no tocante a outros assuntos? 42

Os eunomianos tinham se afastado de muitas frentes. Primeiro, como vimos, falharam em interpretar a Escritura ou falar de Deus de modo reveren- te. Eles demonstraram sua irreverência por tentarem atravessar os limites da finitude da razão humana, que deveriam ter reconhecido em sua pesquisa de conhecimento a respeito de Deus e dos atos redentores na história. Por inqui- rirem além do que a razão humana pode explorar, os opositores de Gregório estavam correndo o risco de transformar um grande mistério em "algo passa- geiro". Eles eram como "cavalos indomáveis e fogosos", que haviam lançado ao solo "nosso cavaleiro razão" por treiná-lo de modo infrutífero. 4 3 Gregório reiterava que, em vez de aprofundar-se com empelho nas cren- ças, de fato mais acolhidas do que compreendidas ineficaz e ingenuamente, estudiosos e pastores sábios e reverentes deveriam dedicar sua atenção a "as-

suntos ao nosso alcance, e em tal extensão que possamos estender" 4 4 Gregório não queria desestimular toda manifestação falada sobre Deus, senão apenas

o discurso, que se auto-iludia por ir além de suas próprias capacidades. Intei-

rado desta alocução irreverente e auto-ilusória, Gregório exortou: Em vez dis- so, "permitamos ao menos concordar que exporemos mistérios sob nossa res- piração e coisas santas de uma maneira santa". 4 5

Segundo, Gregório lembrou seus ouvintes de que o conhecimento de Deus

é um dom a ser recebido reverentemente e guardado carinhosamente. Os

eunomianos, transformando a exegese e a teologia em uma espécie de espor- te recreativo praticado dentro de qualquer contexto, desfilavam coisas santas diante de pessoas que não podiam compreendê-las. Usando as palavras de Jesus, eles atiravam pérolas aos porcos. Atrás desta crítica estava a profunda intuição de Gregório de que a teologia é um tipo de adoração, um empenho santo, algo que floresce no contexto da oração, devoção e adoração, mas defi- nha-se quando transformada em jogo mental acadêmico e especulativo.

Como, pois, devemos estudar Deus e falar dele? Primeiro, devemos "olhar para nós mesmos e polir nosso eu teológico, embelezando-o como uma está- tua", 4 6 Este polimento do caráter ocorre quando o teólogo recusa-se diligente- mente a aceitar qualquer tipo de dicotomia entre palavra e vida.

Por que temos amarrado nossas mãos e armado nossas línguas? Não louvamos tanto a hospitalidade, ou o amor fraternal, ou a afeição conjugal, ou a virgindade. Tampouco admiramos a liberalidade ao pobre, ou o cântico de salmos, ou as vigílias durante a noite, ou as lágrimas. Não encolhemos o corpo por jejuar nem vamos a

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Não fazemos da nossa vida uma preparação para a morte; nem

fazemos de nós senhores de nossas paixões, cientes de nossa nobreza celestial. Não dominamos nossa ira quando ela se inflama e se enfurece, nem nosso orgu- lho que leva à queda, nem a mágoa irracional, nem o prazer impudico, nem o riso debochado, nem olhos indiscretos, nem ouvidos insaciáveis, nem conversa exces-

siva, nem pensamentos absurdos, nem quaisquer coisas ocasionais que o maligno lança contra nós das nossas próprias fontes íntimas. 4 7

Gregório continua censurando com palavras cáusticas e oportunas a contí- nua tentação de praticar a teologia como se pudéssemos separar o exercício da nossa mente do desenvolvimento do nosso caráter. Inegavelmente, esta será uma novela razoável, de certo modo uma idéia estranha para os exegetas

modernos, particularmente para aqueles treinados para elaborar suas exegeses

e teologia sem o contexto e nos limites da academia. Os acadêmicos moder-

nos foram treinados para ver o texto bíblico como um objeto de estudo e análise que pouco difere de outros textos antigos. Sem dúvida, muitos exegetas modernos advogariam a necessidade de a pessoa distanciar-se do texto bíbli- co, a fim de alcançar-lhe o sentido. Na academia, qualquer pessoa faz exegese, alheia à posição da sua fé. Se uma pessoa tem cultivado suas habilidades exegéticas, instrumentos e conhecimento (isto é, linguagens, familiaridade com o ambiente cultural e histórico), pode compreender o texto e a mensa- gem da Bíblia sem levar em conta uma resposta da fé. A exegese e a investiga- ção teológica tornaram-se capacitações técnicas, muitas vezes praticadas à parte da vida da comunidade cristã e da leitura da Escritura ao longo dos séculos. Na busca de um espaço dentro da academia, muitos estudiosos e teólogos bíblicos plantaram-se em solo que não pode prover os nutrientes que Gregório vê como não negociáveis para a integridade teológica e exegética.

Deus por oração

Uma vez que Gregório havia lançado os regulamentos básicos para pensar

e falar bem a respeito de Deus, ressaltando a necessária conexão entre disci-

plina espiritual, saúde espiritual e discernimento teológico, ele estava prepa-

rado para comentar as questões básicas da crístologia. O ambiente para as respostas cristológicas de Gregório era a controvérsia ariana, a discórdia teoló- gica a propósito da divindade do Filho, que continuava fervendo em Constantinopla no final do quarto século. As respostas de Gregório aos aria- nos — às vezes bem parecidas com as de Atanásio — ajuda-nos a compreen- der como Gregório lia e interpretava a Bíblia, e ilustra bem como ele aplicava

o texto da Escritura a um a questão teológica específica. É na ThírdandFourth

Theological Oratíons Concerning the Son (Terceira e Quarta Orações Teológi- cas sobre o Filho) que a capacidade exegética e raciocínio teológico de Gregório

são especialmente evidentes.

Como observamos em nossa discussão sobre Atanásio, uma das principais objeções à divindade de Cristo era o elenco de passagens bíblicas que falam claramente das fraquezas de Jesus: Ele teve fome, sede, ocasionalmente

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manifestou algo como o desconhecimento, experimentou ansiedade no Getsêmani e assim por diante. Como, perguntava o partido ariano, poderia a igreja reconhecer ou identificar alguém que manifesta nitidamente caracte- rísticas de criatura como um ser divino no mesmo sentido em que o Pai o é? Gregorio, como Atanásio, era bem familiarizado com estas objeções arianas e dedicou-se realmente a proclamar o prodígio da encarnação. Ele argumentava que cada uma destas características do Filho encarnado pode ser explicada "no mais reverente sentido, e a pedra de tropeço da letra

ser apagada", se as objeções forem "honestas e não intencionalmente malici- osas". A solução de Gregório, como a de Atanásio, era sustentar que, naquelas passagens, as fraquezas de Cristo pertencem à natureza humana que o Filho assumiu em nosso favor: "O que é elevado você deve atribuir à divindade, e àquela natureza que nele é superior aos sofrimentos e é incorpóreo; mas tudo

o que é humilde deve ser atribuído à condição composta daquele que por

amor de nós fez-se sem nenhuma reputação e foi encarnado". 4 8 Gregório deleitava-se em colocar lado a lado os maravilhosos paradoxos da indescritível união da deidade e humanidade de Cristo:

Ele foi

tentado como homem, mas venceu como Deus,

tou milhares

e oprimidos. Ele teve um sono pesado, mas caminhou levemente sobre o Ele pagou tributo, mas foi tirado de um peixe; sim, Ele é o rei daqueles que o

requereram

lágrimas secarem. Ele perguntou onde puseram Lázaro, porque era homem; mas o

ressuscitou porque era Deus. Ele foi vendido, e muito barato, pois foram somente trinta peças de prata; mas redimiu o mundo, pagando alto preço, pois o preço foi seu sangue. Como ovelha foi levado ao matadouro, mas Ele é o pastor de Israel e

agora também de todo o

Ele foi traspassado e moído, mas cura toda

enfermidade. Ele foi levantado e pregado no madeiro, mas, pela árvore da vida,

Ele nos restaura. Ele morre, mas dá vida, e por sua morte destrói a morte. 49

Ele ora, mas também ouve orações. Ele chorou, mas faz as

Ele foi batizado como homem — mas remiu os pecados como

Ele teve fome — mas alimen-

Ele estava fatigado, mas é o descanso daqueles que estão cansados

Muitas objeções arianas podem ser refutadas, acreditava Gregório, pelo reconhecimento de um princípio hermenêutico fundamental: na encarnação

o Filho assumiu prontamente a condição humana para redimir e renovar a

natureza humana. Intencional e amorosamente, Jesus fez da nossa condição a sua própria. Por isso, quando Ele clamou sobre a cruz: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste", Ele não estava sendo abandonado por seu Pai em termos de sua deidade, como se a deidade estivesse abandonando a deidade, dividindo Deus em partes, por assim dizer. Tal divisão hipotética foi uma das principais objeções arianas à possibilidade da divindade de Jesus. Diante disso, Gregório afirmou:

[Cristo] estava representando-nos em sua pessoa. Pois antes éramos nós os aban- donados e desprezados, mas agora, pelos sofrimentos daquele que não podia so- frer, fomos tomados e salvos, De igual modo, Ele fez suas nossa própria loucura e

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA nossas transgressões; e diz o que

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

nossas transgressões; e diz o que se segue no salmo, pois é bastante evidente que

o Salmo 2 1 [LXX]* refere-se a Cristo. 50

Está aqui, pois, um princípio hermenêutico fundamental seguido por

Gregório e pelos pais em geral. Embora certos nomes e atributos de Jesus sejam claramente característicos de sua deidade inerente, o Filho não pode ser compreendido adequada e reverentemente à parte de sua genuína huma- nidade. Ele tornou-se o que somos, embora permanecendo o que sempre foi,

e é este movimento em amor do infinito para o finito, do incriado para o

criado, do divino para o humano, que provê a chave exegética para muitos textos bíblicos que, de outra forma, permaneceriam inexplicáveis. Em sua Fifth Theological Oration (Quinta Oração Teológica), Gregório dis- cute a deidade do Espírito Santo, uma doutrina questionada por um grupo conhecido como os macedônios, Este grupo negava especificamente a deida- de do Espírito Santo, recusando-se a reconhecer a validade do credo estabele- cido em Nicéia, em 325, e expandido a Constantinopla, em 381. Aparente- mente, os macedônios duvidavam da deidade do Espírito Santo porque, entre outras razões, a Escritura parecia totalmente silenciosa sobre o assunto. Cer- tamente, tal verdade importante teria sido comunicada em termos mais claros. Gregório propõe-se a acalmar seus opositores em seu mal-entendido, dis- cutindo "coisas e nomes, e especialmente seu uso na Escritura Sagrada". 5 1 Mais particularmente, ele postula como um princípio hermenêutico funda-

mental a idéia de revelação progressiva. Isto é, Gregório ensina que a Escritu-

ra apresenta com crescente clareza os propósitos de Deus como atos divinos

para livrar a humanidade do pecado e seus efeitos. Primeiro, a Escritura ex- põe os atos providenciais de Deus na escolha e condução de Israel por meio da transição dos ídolos para a lei. O passo seguinte leva da lei ao evangelho. Finalmene, no que Gregório chama "o evangelho de um terceiro terremoto", há uma transição desta terra "para aquela que não pode estremecer nem mo- ver-se". 5 2 Estas mudanças ou transições não ocorrem de repente ou casualmente. An- tes, Deus apresenta seus propósitos e planos de tal maneira que a humanidade seja persuadida a mudar e crescer de acordo com os desejos de Deus. Portanto, Ele remove e perdoa parcialmente os hábitos antigos, concedendo um pouco do que tende para o prazer, assim como os homens da medicina fazem com seus pacientes — o remédio deles pode ser tirado, sendo habilmente misturado com o que é agradável". 5 3 Por meio dessas mudanças, acomodações e transições gradu- ais, tanto judeu como gentio perceberão e aquiescerão à vontade de Deus, mu- dando de uma posição de imaturidade para uma de maturidade.

(*) Correspond e a o noss o Salm o 22 .

(N.T.)

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No caso da própria teologia, Gregório inverte o processo. Em vez de mudar por dedução ou pelo processo de suposição interpretativa da providência di-

vina, chegamos à clareza doutrinária por meio da revelação progressiva sobre

a base fundamental do passado,

Portanto, o assunto fica assim: O Velho Testamento proclamou abertamente o Pai e mais obscuramente, o Filho. O Novo manifestou o Filho e anunciou a divindade do Espírito. Agora o próprio Espírito habita entre nós e supre-nos com uma de- monstração mais clara de si mesmo. Pois isto não foi seguro, quando a divindade do Pai não era ainda reconhecida abertamente para proclamar o Filho; tampouco quando o do Filho não fora ainda recebido, para sobrecarregar-nos adiante (se é que posso usar uma expressão tão ousada) com o Espírito Santo, 5 ''

Antes, por meio de adições reveladoras graduais, a deidade do Espírito Santo tornou-se cada vez mais clara e, então, a magnificência do próprio Deus trino. O ensino de Jesus, notadamente em João 14-16, habilmente adaptou-se

à capacidade dos discípulos para comprender a obra e a pessoa do Espírito, O

processo revelador inteiro, tanto da compreensão do Espírito como da experi- ência da inserção de sua presença, foi cuidadosamente graduado para corresponder à capacidade dos discípulos de entenderem e aceitarem a ver- dade.

Ele veio gradualmente morar nos discípulos, avaliando-se para eles de acordo com a capacidade deles de recebê-lo, no começo do evangelho, depois da Paixão, depois da ascensão, fazendo perfeitos a eles seus poderes, sendo soprado sobre eles e aparecendo em línguas de fogo. E por certo é pouco a pouco que Ele é declarado por Jesus, como você pode aprender por si mesmo, se ler mais cuidadosamente. 55

Como "luzes rompendo sobre nós, gradualmente", a revelação plena do Espírito ilustra "a ordem da teologia, que é melhor para nós guardar, nem proclamando coisas tão repentinamente nem tampouco mantendo-as escon- didas até o fim". Falar muito depressa seria "não científico", enquanto recu- sar-se a falar quando Deus tinha revelado verdade mais profunda seria agir como ateu. Jesus tinha ensinado que haveria ainda verdades que seus discí- pulos não poderiam suportar. Por um tempo, essas coisas lhes foram oculta- das. Jesus predisse ainda que Ele enviaria o Espírito e, vindo o Espírito, ensi- nar-lhes-ia "todas as coisas".

Para Gregório, a expressão "todas as coisas" inclui a surpreendente e admi- rável revelação de que o Espírito também é divino, partilhando a mesma es- sência divina com o Pai e o Filho, Novamente, esta revelação era mantida secreta por Deus até um tempo "conveniente", quando a capaciadade dos discípulos tivesse sido ampliada para receber a deidade do Espírito sem "in- credulidade por causa do seu caráter maravilhoso".

Esta, pois, é minha posição a respeito destas coisas, e espero que ela seja sempre minha posição, e seja quem for é caro a mim: adorar Deus Pai, Deus Filbo e Deus Espírito Santo, três pessoas, uma divindade, indivisa em honra e glória e substância

76 tí>

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

Pois, se Ele não deve ser adorado, como pode deificar-me pelo batismo?

Mas, se Ele deve ser adorado, seguramente é um objeto de adoração e, se Ele é um objeto de adoração Ele deve ser Deus. Um está ligado ao outro, uma verdadeira corrente de ouro e salvadora. E, por certo, do Espírito vem nosso novo nascimen- to, e do novo nascimento, nossa nova criação, e da nova criação, nosso conheci-

mento mais profundo da dignidade daquele de quem Ele é derivado, 56

e reino

Uma vez que Gregório construiu esta base hermenêutica e teológica, ele continua a inventariar e comentar sobre uma série de passagens que indicam a divindade do Espírito, Ele conclui finalmente comentando as diferenças entre Pai, Filho e Espírito com várias analogias, todas as quais por fim sucum- bem sob o peso do fardo indizível que eles são chamados a suportar. Gregório conclui que é melhor deixar as ilustrações para trás como somente "imagens e sombras", mantendo, em vez disso, "a concepção mais reverente e apoiando sobre poucas palavras, seguindo a direção do Espírito Santo", 5 7 Fundamental na análise trinitaria de Gregorio é a firme convicção de que os textos isolados da Escritura devem ser lidos à luz da narrativa bíblica domi- nante. Porque o Espírito Santo inspirou todos os autores bíblicos, é perfeita- mente legítimo permitir que um texto lance luz sobre outro. Em vez de pro- duzir uma harmonia forçada, a comparação de textos reconhece a autoria predominante do Espírito sobre toda a Bíblia. Porque as Escrituras do Novo Testamento são uma continuação daquelas do Velho Testamento, Gregorio sente-se livre para interpretar este à luz daquele. Falhar em proceder assim é praticar uma literalismo empedernido, que falha em observar a unidade mais profunda da Bíblia no Espírito. Frederick Norris explica.-

Aborrece o teólogo [isto é, Gregorio] que um tipo de literalismo possa embasar a rejeição judaica de Jesus como o Messias. Um amor pela letra pode servir como uma "capa de irreligião", que cega até cristãos sobre a verdade no Escrito Sagrado sobre o Espírito Santo, O nazianzeno aceita que o texto escrito tem um sentido interior que aparece somente quando a Bíblia é lida com muito cuidado. 58

O significado interior da Bíblia revela-se àqueles que a lêem à luz do evan-

gelho. "O Escrito Sagrado tem seu próprio skopos, seu próprio intento", es- creve Norris. E esse intento é feito conhecido à igreja em adoração". 5 9 Como este princípio revela-se na exegese de Gregório?

A resposta exegética de Gregório a questões teológicas específicas provê a

resposta. Ele deixou-nos pouca exegese extensa sobre passagens bíblicas es- pecíficas. Norris, talvez o maior dos especialistas nazianzenos de hoje, obser- va que os escritos de Gregório "sempre representam o pensamento de um teólogo construtivo que ensina e prega dentro de um contexto moldado tanto por adversários polêmicos como por amigos de confissão". 6 0

Proeminente entre essas questões, como temos visto, foi a controvérsia ariana, ela própria um "debate sobre a interpretação" da Escritura "no contex- to das comunidades adoradoras". Gregório e os outros dois grandes teólogos

da Escritura "no contex- to das comunidades adoradoras". Gregório e os outros dois grandes teólogos

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capadócios, Basílio o Grande e Gregório de Nissa, despenderam muito de sua vida defendendo teológica e exegeticamente a adoração da igreja contra aqueles que a solapavam por meio de uma desvalorização do Filho e do Espírito, Ter- mos formulados em Nicéía e Constantinopla, tais como homoousios, physise ousia, eram "um a contextualização abreviada de um grande volum e de exegeses",

O teólogo [Gregório] argumentava que suas posições eram as verdadeiras porque faziam mais sentido acerca de mais textos do que faziam as visões dos arianos As grandes questões teológicas que os capadócios debatiam com seus opositores podem ser seguidas de muito perto atentando para o modo como eles interpretavam a Escritura e para princípios que aplicavam em sua comunida- de da fé. 6 í

Por exemplo, o entendimento de Gregório sobre a importância do contex- to e extensão semântica das frases e palavras da Bíblia permanece válido para os exegetas modernos. Os opositores arianos de Gregório, exegetas que criam ser Jesus uma criatura exaltada, porém não Deus encarnado, usavam várias passagens bíblicas para dar suporte à sua posição. Entre elas estavam 1 Coríntios 15.25, Atos 3.21 e Salmo 110.1. Estas três passagens pareciam indi- car que Cristo reinaria "até" que todos os inimigos tivessem sido vencidos e o reino de Deus "entregue ao Pai". Certamente, "até" indicava um fim de algum tipo, uma mudança de posição relacionada com a superioridade extrema do Pai. Norris explica claramente a metodologia exegética de Gregório e sua rea- ção à posição ariana. A resposta de Gregório é dupla. Primeiro, ele perguntou se outras passa- gens das Escrituras poderiam ajudar a responder como estes três textos deve- riam ser interpretados. Lucas 1.33 afirma que "Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó; seu Reino jamais terá fim" (NVI). Se o Espírito revelou que o reino de Cristo nunca terá fim, Ele não está se contradizendo pela boca de Paulo. O que, então, Paulo quer dizer? Gregório responde a esta pergunta ao indagar se os seus opositores arianos estão definindo estritamente o significado de "até" em 1 Coríntios 15.25. Seu uso no texto significa inevitavelmente um fim de algum tipo, isto é, um fim baseado em certas questões ou eventos atingindo seu auge ou conclusão? Novamente, Gregório compara texto com texto. Se "até" sempre significa si- tuado em um dado ponto, mas não além dele, como entender Mateus 28.20, um texto que fala de Cristo estando com seus discípulos "até" o fim do tem- po? Como Norris pergunta apropriadamente, isto significava que Cristo não estaria com eles depois desse tempo? Sua comunhão terminaria? Como Gregório compreendeu claramente, "até" pode "designar o que acontece até um ponto e não nega qualquer coisa que ocorre depois desse ponto". 6 2 Se "até" possui esta flexibilidade semântica, Gregório pode dar sentido a um texto como 1 Coríntios 15.25: "Pois é necessário que Ele reine até que

78 gg i

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

todos os seus inimigos sejam postos debaixo de seus pés" (NVI). Os exegetas arianos inisistiam que Paulo estava ensinando que o reino de Cristo termina- ria depois seus inimigos fossem vencidos, indicando sua posição inferior à do Pai. À luz do sentido mais amplo de "até", Gregório reconhecia que Paulo disse nada mais que "quando todos aqueles inferiores a ele, submissos ao seu governo, Ele não vai mais precisar produzir submissão sobre eles. Somente em tal sentido seu governo terminará". 6 3

Norrís observa que Gregório compreendeu que "o significado de uma pala- vra no texto também pode ser ampliado quando se conhecem as opções que existem para o sentido daquela palavra na linguagem diária, bem como na Bíblia". 6 4 O exemplo que Norris utiliza da obra de Gregório refere-se à contro- vérsia eunomiana, que já comentamos. A negativa dos eunomianos quanto à igualdade de Pai e Filho baseou-se em textos como João 5.19. Aqui Jesus ensina que "o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai". Os eunomianos inter- pretaram a incapacidade de Jesus agir por si mesmo como sinal de sua desi- gualdade com o Pai e de sua submissão a Ele, Gregório sabia, porém, que, para "compreender o que 'nada pode fazer' significa, o intérprete deve perguntar o que 'nada pode' significa". 6 5 Ele res- pondeu com um estudo detalhado sobre o que significa "não poder", uma análise amplamente baseada sobre como estas palavras funcionam na lingua- gem cotidiana. Norris identificou pelo menos cinco aspectos da exegese de Gregório sobre a expressão "não poder". 6 6

1. Ela pode "referir-se a uma capacidade em um tempo particular com relação a um objeto específico. Crianças pequenas não são atletas formadas, mas podem desenvolver-se para tanto, Um cachorrinho com olhos ainda fe- chados certamente não pode lutar, mas depois poderá ver e atacar."

2. "Não poder" pode referir-se a "alguma coisa que é usualmente verdadei-

ra, mas não é verdadeira de uma perspectiva particular". Por exemplo, Jesus fala de uma cidade "sobre uma colina que não pode ser escondida". Ele diz que ela nunca pode ser escondida? Não. "Se alguém estiver em uma colina mais alta, na mesma linha de visão, a cidade não pode ser vista,"

3. "Não poder" pode referir-se a "alguma coisa impensável" ou não sensí-

vel, "Na celebração de um banquete de casamento, os amigos do noivo 'não

podem' jejuar, enquanto todos ao redor deles estão celebrando."

4. "Não poder" pode "designar uma falta de vontade, como quando Jesus 'não

pôde' fazer milagres por causa da falta de fé das pessoas. Ele não fez obras pode- rosas em sua cidade, mas isso não significa que Ele não tinha poder de fazê-las."

5. "Não poder" pode referir-se a coisas que são simplesmente "impossí-

veis", tais como "Deus não existir ou ser mau, ou uma coisa não existente

existir, ou a soma de dois mais dois ser dez, e não quatro".

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Tendo estabelecido uma ampla relação de possíveis significados para "não poder", Gregorio tinha então de perguntar qual definição é melhor compatí- vel com João 5.19, em que Jesus diz que "nada pode fazer de si mesmo", Um a vez que Gregorio comparou texto com texto, ele chegou a uma conclusão ine- vitável, comentada por Norris:

Porque João 6,57, 16.15 e 17.10 esclarecem que o Filho tem a essência de Deus antes da existência do tempo e sem o envolvimento de causa estranha, o "não poder" de João 5.19 deve ser lido como tendo o quinto sentido, significando algu- ma coisa impossível. Certamente, a Sabedoria não precisa ser ensinada. O Pai não modela ações para seu Filho porque Ele seja ignorante e tenha de aprendê-las. No contexto, João 5.19 enfatiza que o Filho tem tanta autoridade como o Pai. 6 7

Além disso, Norris elucida outra regra útil que Gregorio observou na exegese da Bíblia, João 6.38 fala da vinda de Jesus, não para fazer sua própria vontade, mas a de seu Pai. Alguns arianos interpretaram este versículo como signifi- cando que Jesus tinha uma vontade "diferente da de seu Pai. Eles vêem isto como outro indício de que os dois são separados e, assim sendo, o Filho é certamente subordinado." 6 8 Gregorio contradisse esta exegese ariana com o princípio hermenêutico de que "nem toda afirmação negativa pode converter-se em positiva". Pode a afirmação de Paulo de que Deus salva-nos "não por obras de justiça praticadas por nós" (Tt 3-5) ser mudada em afirmação positiva? Se pode, terminamos com Paulo dizendo "que Deus salvou-nos por causa das 'obras de justiça prati- cadas por nós', trocando o original na tentativa de mudar a afirmação negati- va de Paulo em positiva. Como explica Norris, "Entendido à luz deste princí- pio, João 5-19 significa precisamente que o Filho divino não tem um a vontade divina própria; sua vontade divina é uma com a do Pai." 6 9 Para pesquisa adicional. Podemos organizar as obras de Gregório disponí- vel em língua inglesa em três categorias; cartas, orações e poemas. No final do século dezenove, Charles Gordon Browne e James Edward Swallow traduzi- ram vinte e quatro orações, incluindo as cinco orações teológicas que Gregório pronunciou em Constantinopla. Essa tradução, datada e empoeirada, está dis- ponível na série Nicene and Post-Nicene Fathers (Pais Nicenos e pós-Nícenos), publicada por Eerdmans e Hendrickson. 7 0 Browne e Swallow traduziram tam- bém uma grande coleção das cartas de Gregório. Em 1954, Edward R. Hardy traduziu as cinco orações sobre o Pai, Filho e Espírito Santo para a série Library of Christian Classics (Biblioteca de Clássicos Cristãos), publicada pela Westminster Press. 7 1 Como Gregório não escreveu nenhum comentário bíbli- co, o modo como ele lia, interpretava e aplicava as Escrituras talvez possa ser entendido mediante um meticuloso exame de suas orações. Quatro de suas orações funerais foram traduzidas por Martin McGhire e publicadas pela Edi- tora da Universidade Católica da América, 7 2 que publicou também a tradução de Denis Meehan de três poemas de Gregorio, que contêm ricas alusões à Escritura, 73

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LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

Basílio o Grande (330-379)

A província romana da Capadócia era conhecida por seus cavalos, suas heresias e pelo temperamento de seus habitantes. Robert Payne oferece esta descrição:

Homens que viviam em regiões mais favorecidas gostavam de contar como uma víbora mordeu um capadócio e depois morreu. Eles eram um povo vigoroso e, sob os romanos, tinham a reputação de serem "paus para toda obra" e maus lutado- res, Eram tidos como muito provincianos para se interessarem por acontecimen- tos em outros países. Seus sotaques eram estranhos, insuportáveis aos ouvidos dos gregos, de modo que Libânio, que tinha muitos alunos capadócios em sua grande escola de Antioquia, dizia: "Estou ensinando pombos a arrulhar para as pombas" 7 4

Basílio, como Gregório de Nazianzo, nasceu de rica família cristã, e seu caráter reflete a firme determinação de seus compatriotas capadócios. Seu pai, o presbítero Basílio, era um advogado bem-sucedido e crente fervoroso. Sua mãe, Emmelía, professava a mesma fé do marido e era filha de um mártir. Ambos foram diligentes em transmitir sua fé cristã a seus muitos filhos. As influências positivas sobre a formação de Basílio foram marcantes. Sua avó paterna, Macrina, posteriormente conhecida como Macrina a Anciã, foi discípula de Gregório o Iluminador e uma prestigiosa matrona da família. Gregório de Nissa era um dos irmãos de Basílio. Mais tarde, a tradição cristã reconheceria Basílio, Gregório de Nissa e Gregório de Nazianzo, amigo íntimo de Basílio, como os três grandes pais capadócios.

Talvez a pessoa de maior projeção e influência na grande família de Basílio tenha sido Macrina a Jovem, a filha mais velha na família e uma guia fiel na fé tanto para Basílio como para Gregório. Ela era ligeira para discernir as forças e fraquezas do caráter de Basílio e disposta a punir-lhe o orgulho no empenho pelo máxim o em sua vida. Em sua Life of St. Macrina (Vida de Santa Macrina), Gregório de Nissa confirma que foi Macrina quem levou Basílio à vida cristã ascética.

O grande Basílio, irmão de [Macrina], retornou da escola, onde tinha sido treinado em retórica por longo tempo, Ela certamente percebeu que ele estava grandemente orgulhoso de suas habilidades retóricas; ele desprezava todas as pessoas de valor e exaltava-se com sua importância acima de homens ilustres da província. Mas ela levou-o com tal presteza para a meta da filosofia, que ele renunciou ao prestígio mundano, Desdenhou do fato de ser um assombro por causa da sua retórica. Entregou-se à vida penosa do trabalho, preparando-se para a absoluta pobreza, e livrou-se das peias, voltando-se para a virtude, Mas sua vida e posteriores metas, pelas quais tornou-se famoso em toda parte debaixo do sol, eclipsando a glória de todos aqueles ilustres por sua virtude, exigiria um livro volumoso e muito tempo. 75

Basílio, como Gregório de Nazianzo, teve a boa fortuna de estudar em vári- as cidades importantes, permanecendo mais tempo em Atenas, onde estudou

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por seis anos. Ali estabeleceu sua duradoura amizade com Gregorio de Nazianzo e mergulhou na arte da retórica, adquirindo conhecimento e habilidades que lhe serviriam bem como líder de uma comunidade monástica, pastor, bispo e teólogo. Logo depois de retornar ao Ponto, vindo de Atenas, Basílio aceitou uma posição como professor de retórica na Universidade de Cesaréia. Porém sua carreira acadêmica deveria ser curta. Depois de um ano de ensino, ele passou por uma profunda renovação espiritual e deixou a universidade para estabe- lecer um relacionamento mais profundo com Deus, que lhe tinha sido revela- do em Cristo. Em carta narrando esse acontecimento, Basílio conta ter sido despertado "como se saísse de um profundo sono". Ele fala de sua antiga devoção pela retórica como um "labor vão em que estava envolvido, ocupándo- me em adquirir um conhecimento feito insensato por Deus". Tocado por Cristo, Basílio orou:"que me seja dada orientação para minha introdução nas doutrinas da religião". 7 6 Imediatamente, Basílio começou a mudar seu estilo de vida e suas priori- dades, buscando ansiosamente as Escrituras para saber como os discípulos de Cristo deveriam conduzir sua vida. Como um homem orientado para a ação, apressou-se em dar passos concretos para incorporar aquilo que estava apren- dendo. A mensagem de Cristo para Basílio não comportava nenhum outro compromisso.

Por conseguinte, tendo lido o Evangelho e visto, claramente, que o caminho mais importante para a perfeição é a venda das posses da pessoa, dividindo-as com os irmãos necessitados, a renúncia total pela solicitude desta vida e a recusa de se deixar levar por afeições pelas coisas da terra, orei para encontrar algum dos ir- mãos que tinham escolhido esta forma de vida, a fim de passar com ele a brevida- de da vida e as águas agitadas. 77

Basílio partiu para visitar as comunidades monásticas já estabelecidas na Síria, Palestina, Egito e Mesopotâmia. Ele ficou profundamente impressiona- do pelo que encontrou.

Admirei sua continência no modo de vida e sua resignação no trabalho pesado. Fiquei pasmo ante sua persistência de orar e seu triunfo sobre o sono. Subjugados sem nenhuma necessidade natural, sempre mantendo o alto propósito de sua alma elevada e livre na fome e na sede, no frio e na nudez, eles nunca renderam o corpo: nunca ficavam desejosos de dedicar atenção a isto. Sempre, como que vi- vendo em uma carne que não era deles, mostravam em um ato real o que é perma- necer por alguns instantes nesta vida e o que é possuir a cidadania e o lar no céu. Tudo isto despertou minha admiração. Considerei abençoada a vida desses ho- mens, por realmente mostrarem que "levam em seu corpo as marcas de Jesus". E orei para que eu também, se dependesse de mim, pudesse imitá-los. 78

Esta passagem pode soar estranha aos ouvidos modernos.

retóricos de Basílio podem confundir-nos e sua interpretação do discipulado

Os exageros

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LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

parece selvagem, radical, impraticável e insensata. Mas para ele o díscípulado nunca poderia ser domesticado. A vida era uma curta peregrinação, uma via- gem através de um campo de batalha cheio de armadilhas visíveis e invisí- veis. Alguém poderia percorrê-lo segura e proveitosamente somente por um firme "não" ao comprometimento e à segurança terrena, e um "sim" irrestrito

a Cristo. Os riscos eram muito grandes para agir de outra forma. Sim, Basílio faria muitos cristãos modernos desconfortáveis, particular- mente aqueles educados em ambiente muito rico, onde cada necessidade de alimento, abrigo e roupa é bem suprida. Os mártires modernos e os prisionei- ros da fé reconheceriam mais prontamente sua voz. Sem dúvida, Basílio con- sideraria o abastado estilo de vida do Ocidente, na melhor das hipóteses, uma cortina de fumaça espiritual que, na condição de vida de muitos de seus pró- prios contemporâneos ricos, cegaria alguém para a necessidade de total de- pendência de Deus e sensibilidade para com as necessidades dos pobres da periferia. Mais tarde, enquanto servindo como bispo auxiliar em Cesaréia, Basílio testemunharia em primeira mão os horrores da fome e da ainda maior riqueza dos cristãos fechando os olhos para as necessidades do pobre.

A dor da fome, da qual o faminto morre, é um sofrimento horrível. De todas as calamidades, a fome é a principal, e a mais miserável das mortes é, sem dúvida, aquela pela inanição. Em outros tipos de morte — a espada que põe um rápido fim à vida, ou o rugido do fogo que queima a seiva da vida em poucos instantes, ou as presas dos animais selvagens que dilaceram os membros vitais — a tortura não seria prolongada. A fome, porém, é uma tortura vagarosa, que prolonga a dor; é

uma enfermidade bem estabelecida e oculta em seu lugar, uma morte sempre presente e nunca chegando a um fim, Ela seca os líquidos naturais, diminui o calor do corpo, contrai o tamanho e pouco a pouco drena a força, A carne adere aos

ossos como uma teia de aranha. A pele não tem

Agora, que punição não

deveria ser infligida sobre aquele que passa ao largo de tal corpo? Que crueldade pode ser maior que esta? Como podemos não contar alguém assim como o mais

feroz dos animais ferozes e não considerá-lo um ente sacrílego e assassino? A pessoa que pode curar tal enfermidade e por causa da avareza recusa o remédio pode com

razão ser

condenado como um assassino. 79

Frederíck Norris observa que as habilidades administrativas de Basílio e sua inclinação para a justiça ajudaram-no a evitar maiores sofrimentos duran-

te a fome: "Com a venda de parte de sua herança, dissuadindo muitos negoci-

antes que procuravam tirar vantagem da oportunidade, e reunindo fundos dos abastados, ajudou a evitar um sério desastre na Capadócia". 8 0 Basílio deu um prazo curto àqueles que tentavam desvalorizar a vida rigo- rosa dos discípulos cristãos. Não obstante isso, em suas cartas, vemos aqui ou ali lampejos de uma pessoa que pode ser aberta e honesta sobre suas próprias limitações e pode até mesmo expor suas freqüentes enfermidades em leve auto-deprecíação. Em carta a Melécio, o médico da corte, Basílio fala das doen- ças que freqüentemente interrompem a eficácia do seu ministério: "Febres

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contínuas e violentas de tal modo devastaram meu corpo que parecia ter ficado

Estou tão

fraco que, com certeza, estou mais fraco que uma teia de aranha." 8 1 Basílio não estava sofrendo apenas com a doença, mas o inverno tínha-o apanhado: "Cada estrada é intransitável para mim, e cada lufada de vento traz mais perigo do que o que os poderosos vagalhões trazem aos marinhei- ros. Conseqüentemente, devo refugiar-me em meu dormitório e esperar a primavera, se é que serei capaz de permanecer até então," 8 2 A linha final da carta é especialmente luminosa: "Oremos somente para que nossa vida possa ser ordenada em benefício de nossa alma." Eis aqui o verdadeiro Basílio: ele está sofrendo, sem dúvida, mas não considera isto surpre- endente. O momento atual não é o de comodismo ou vida fácil. Somente os cristãos que se preparam para aceitar voluntariamente o que se lhes oferece para crescimento de sua alma e extensão do reino discernem realmente a essência do evangelho e como ele é vivido nesta passagem em direção ao verdadeiro lar.

Esta é uma forte mensagem de um homem forte. Basílio requer muito dos mais próximos dele e de si mesmo. Ele podia ser arrogante, em alguma oca- sião, precisando de uma censura amorosa de um amigo íntimo, como Gregório de Nazianzo, Em uma carta mordaz, Gregório chama-o às contas por perder o sentido saudável de sua própria perspectiva.

Quão agressivamente e qual um potro você escoiceia em suas cartas! Não me sur- preende que você deva exibir a glória que alcançou recentemente, para tornar-se mais augusto. Mas, então, se você continua a mostrar tal ostentação e tão grande ambição, discursando para mim por condescendência, como um grande metropolita falando a alguém de pouca importância, eu também posso opor orgulho contra orgulho, E isto, evidentemente, está no poder de qualquer um e é talvez o cami- nho mais razoável a seguir. 83

As lutas de Basílio contra o orgulho, portanto, são traços de fenda em uma vontade indómita, um reservatório de determinação e resistência extrema- mente necessário no torvelinho teológico, eclesiástico e cultural do final do quarto século, Com toda probabilidade, somente alguém como Basílio, um homem com grandes forças e fraquezas evidentes, poderia resistir a uma pers- pectiva teológica que havia perdido sua bússola e estava arriscada a mergulhar a igreja futura no pântano do arianismo por décadas à frente. Os empreendimentos de Basílio são notáveis: a instalação de importantes comunidades monásticas na Capadócia; o desenvolvimento de um detalhado código monástico para a regulação da vida comunitária, uma regra monástica para, mais tarde, influenciar Benedicto no Ocidente; forte liderança eclesiás- tica em ocasião conturbada, de desunião e confusão; argúcia teológica perspi- caz e coragem na defesa da plena divindade do Filho e do Espírito Santo, e no desenvolvimento de implicações da doutrina trinitária. Basílio realizou tudo isto em uma vida de cinqüenta anos.

mais magro do que sou — mais magro do que eu mesm o já

84

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

Amostra hermenêutica. O exemplar mais claro que possuímos em tradução inglesa da exegese e estilo homilético de Basílio é seu Hexaemeron, um a sé- rie de nove sermões que ele pregou sobre os seis dias da criação, durante o período da Quaresma, tanto nos cultos da manhã como nos da noite. É difícil determinar a data exata dos sermões, 8 4 Gregório de Nazianzo, amigo íntimo de Basílio, admirava profundamente o Hexaemeron por sua apresentação pictórica da maravilha da criação e seu Criador. "Sempre que manuseio seu Hexaemeron e ponh o suas palavras em meus lábios, sou levado à presença do Criador, compreendo as palavras da criação e admiro o Criador mais do que antes, usando meu mestre como úni- co meio de visão." 8 5 Uma característica admirável da exegese de Basílio é a rejeição enfática da alegoria em sua interpretação da narrativa da criação. Naturalmente, por re- jeitar a alegoria. Basílio lança dúvida sobre o valor de boa parte da obra exegética de Orígenes. Isto é particularmente surpreendente em vista da admiração daquele por este. O que Basílio estaria pensando? Antes e com a ajuda de Gregório de Nazianzo, ele havia reunido uma vasta coleção da obra de Orígenes, a qual ele e Gregório chamavam "Philokalia". No entanto, quando começa a fazer a exegese e prega sobre os capítulos de abertura do Gênesis, ele põe de lado a alegoria como ferramenta interpretativa viável. Por quê? Em sua nona homilia sobre o Hexaemeron, Basílio escreveu o que Jaroslav Pelikan conceitua como "uma das mais vigorosas críticas da exegese alegórica vinda de qualquer teólogo cristão ortodoxo no quarto (ou qualquer outro) sé- culo". 8 6

Conheço as leis da alegoria, embora menos por mim mesmo do que pelas obras de outros. Há aqueles, verdadeiramente, que não admitem o sentido comum das Escrituras, para quem água não é água, mas qualquer outro produto; que vêem em uma planta ou em um peixe o que sua imaginação deseja; que mudam a natureza dos répteis e das feras selvagens para adequá-los às suas alegorias, como os intér- pretes de sonhos, que explicam as visões no sono para fazê-los servir a seus pró- prios fins. Para mim grama é grama; peixe, animal selvagem, animal doméstico, tomo-os todos no sentido literal. 87

Em um sermão anterior, Basílio já havia criticado aqueles que tentavam interpreta r a separaçã o da s água s e m Gênesi s 1.6 d e form a alegórica . O s alegoristas tinham "começado por metáfora" e viram nas águas somente

uma figura para denotar poderes espirituais e incorpóreos. Nas regiões mais altas, acima do firmamento, habita o melhor; nas regiões mais baixas, terra e matéria

Assim, dizem eles. Deus é louvado pelas águas que

estão acima do céu, ou seja, pelos poderes bons a pureza daquelas almas fazem- nas dignas de cântico e louvores a Deus. As águas que estão embaixo do céu repre- sentam os espíritos perversos, os quais caíram de sua altura natural ao abismo do mal. 8 8

são a habitação do maligno

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Diplomaticamente, Basílio reconhece esta "teoria como engenhosa e incapaz de identificar a verdade dela". Como em seu nono sermão, ele compara esta espécie de alegorízação a um sonho ou "contos de velhas". Assim, ele insiste "que por água água é significada". Basílio criticou especialmente a falta de controle hermenêutico dos alegoristas e associou o desejo de alegorizar a uma insatisfação fundamental com o sentido claro da Bíblia. Deus tem-nos falado com clareza. Basílio afir- ma, o que precisamos saber para o crescimento espiritual, edificação e conhe- cimento teológico sadio. O desejo de mover-nos além da claridade revelada de Deus para um significado oculto é um sinal de mal-estar espiritual.

Não exaltarei antes Aquele que, não desejando encher nossa mente com estas vaidades, tem regulado todas as disposições da Escritura visando à edificação e ao aperfeiçoamento de nossa alma? É isto que eles parecem-me não ter compreendi- do, os quais, entregando-se ao sentido distorcido da alegoria, tentaram dar uma majestade à sua própria invenção para o texto. É crerem ser eles próprios mais sábios do que o Espírito Santo e urdir suas próprias idéias sob o pretexto da exegese. 8 9

Grupos como maniqueus, marcionítas e valentinianos, lembrou Basílio a seus leitores, empregaram a alegoria em suas próprias interpretações distorcidas. Enquanto Gênesis afirma que "havia trevas sobre a face do abis- mo", uma escuridão que Basílio descreve como "significando na realidade — ar não iluminado, sombra produzida pela interposição de um corpo ou, even- tualmente, um lugar por alguma razão privado de luz", o maniqueu, o marcíoníta e o gnóstico estavam prontos a imaginar um sentido mais profun- do. "Para eles 'abismo' é um poder maligno ou talvez a personificação do mal, tendo sua origem em si mesmo em oposição à bondade de Deus ou eterna- mente lutando contra ela." 9 0 O caminho hermenêutico muito mais seguro, insistia Basílio, é ficar em silêncio "acerca dessas metáforas e alegorias e simplesmente seguir sem vã curiosidade as palavras da Escritura Sagrada; tomemos a idéia de abismo que ela nos dá". 9 1 Basílio ligava a autoridade do texto de Gênesis ao movimento do Espírito Santo em Moisés, 9 2 insistindo que as palavras do texto são inspiradas: "não há nenhuma süaba inútil". 9 3 Assim, porque o próprio texto é santo, derivado da obra do Espírito Santo, seus intérpretes devem aproximar-se dele com dis- posição reverente. Seja o que for que digamos sobre as idéias contidas no texto, isso deve igualar-se à natureza exaltada de sua fonte divina.

Quão ferverosamente a alma deve preparar-se para receber tais lições elevadas! Quão pura ela deve ser das afeições carnais, quão desanuviada por ansiedades, quão ativa e ardente em suas perquirições, quão ansiosa de encontrar à sua volta uma idéia de Deus que seja digna dele. 9 4

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rá>

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

Em interessante prelúdio ao seu terceiro sermão, Basílio reforça suas primeiras palavras sobre a condição do coração de uma pessoa e sua relação com o entendimento da verdade espiritual. Ao iniciar o sermão, ele observa que vários artesãos locais deixaram seu trabalho para ouvi-lo falar, Basílio louva-os, comentando: "o tempo que vocês dedicam a Deus não é perdido: Ele lhes devolverá com grandes dividendos", E mesmo que as esperanças de ne- gócios de seus ouvintes não tenham se cumprido, "os ensinamentos do Espí- rito Santo, serão um rico tesouro para os anos vindouros", Para compreende- rem as palavras da Escritura, porém, os ouvintes de Basílio deveria deixar seus cuidados mundanos: "Portanto, libertem seu coração de todas as suas preocupações desta vida e dêem atenção cuidadosa às minhas palavras, Que valor há para vocês, se estão fisicamente aqui, mas seu coração está ansioso pelo tesouro terreno?" 9 5

A Escritura revelará sua profundidade aos "ouvintes industriosos", pesso-

as

preparadas para examinar o que acabam de ouvir, Ouvir não é suficiente.

O

que é ouvido deve ser deglutido e digerido, para produzir benefício dura-

douro. Aqui o papel da memória é decisivo. "Possa deles memória manter a palavra para o bem de sua alma; possam eles, ouvintes, por cuidadosa medita- ção, sorver profundamente e beneficiar-se daquilo que digo". 9 6 Em sua quarta homília, Basílio desafia sua audiência mais adiante: "Cansaremos nós de con- templar os prodígios do Senhor, o grande obreiro que nos conclama para a visão de suas obras, ou seremos tardios em ouvir as palavras do Espírito San- to?" 9 7 Ele insiste que "é absolutamente necessário que todos os amantes dos grandes e sublimes espetáculos tragam uma mente bem preparada para estudá- los". 9 8 Não há espetáculo maior que a criação de Deus, e o "ouvido bem prepa- rado" estará pronto a ter sua compreensão aumentada ante os prodígios visí- veis de tal criação "diante do Ser invisível".

Basílio dispôs eficazmente uma fundação de três plataformas para sua exegese: Primeiro, ele insistia que a Escritura vem do Espírito Santo. Ela é divinamente inspirada. Não há aspectos insignificantes do texto. Segundo, ele reitera que um texto sagrado deve ser examinado reverentemente, com uma mente bem preparada e um coração receptivo para a mensagem do pró- prio texto. Terceiro, ele rejeita a alegoria como estratégia hermenêutica apro- priada. O sentido literal do texto proverá material mais do que suficiente para contemplação, intuição e aplicação.

Basílio deleita-se nos capítulos de abertura de Gênesis. Pensem, incentiva ele seus ouvintes, nas implicações da abertura de Gênesis: "No princípio,,."

Se há um princípio, ele afirma, o próprio tempo tem um princípio. Os céus e

a terra não são eternos, mas são criados por um ser racional que, elabora e desenvolve sua criação. Mais importante, talvez, a existência criada não é

"concebida por acaso e sem razão". Antes, o mundo criado tem um fim

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intencional. É uma espécie de "escola, onde almas racionais se exercitam no campo de treinamento, onde aprendem a conhecer Deus", 9 9 No mundo criado, a escola de Deus, não devemos ficar surpresos ao en-

contrarmos lições importantes nos lugares mais inesperados. Basílio deleita-

se em comparar os aspectos da criação com a obra redentora de Deus e a nova

criação, às vezes com mais êxito e outras vezes menos êxito. O oceano, por

exemplo, é declarado por Deus como uma coisa boa, Como pode esta coisa boa apontar para a ainda melhor criação de Deus? Co m um esforço hermenêutico, ele encontra a igreja refletida nos movimentos do oceano.

Se o oceano é bom e digno de louvor perante Deus, quanto mais bela é a assem- bléia de uma igreja como esta, onde as vozes dos homens, das crianças e das mulheres assomam em nossas preces a Deus, misturando-se e ressonando como

as ondas que quebram nas praias, Esta igreja também desfruta uma calma profun-

da, e espíritos maliciosos não podem perturbar-nos com o sopro da heresia. 100

não podem perturbar-nos com o sopro da heresia. 1 0 0 Basílio amplia a imaginação de

Basílio amplia a imaginação de seu auditório, talvez muito longe para a sensibilidade moderna. Entretanto, ele não pode ajudar, mas sim discernir conexões entre a criação de Deus e todas as suas atividades criadoras e reden- toras, "Desejo que a criação possa sensibilizá-los de tanta admiração que em toda parte, esteja onde estiver, a menor das plantas possa trazer-lhe a clara lembrança do Criador." 1 0 1 Se assim é, a criação das plantas verdes leva-nos a pensar na natureza humana, uma conexão que Basílio localiza na literatura profética da Bíblia, Não tinha Isaías dito a mesma coisa, quando escreveu que "toda carne é erva"?

O curto período de vida de um rebento da erva é uma advertência para os

ouvintes sábios.

Realmente, o rápido fluxo da vida, a curta gratificação e prazer que um instante de felicidade dá a um homem, tudo se ajusta maravilhosamente à comparação do profe- ta. Hoje ele tem o corpo vigoroso, engordado pela abastança, e na plenitude da vida, com aparência saudável, forte e poderoso, e energia irresistível; amanhã ele será objeto de piedade, enrugado pela idade ou exaurido pela doença. 1 0 2

E o que dizer da variada mescla de grãos criados por Deus? Uma vez que

para Basílio "você não encontra nada na natureza contrário ao ordenamento divino", seguramente "os grãos inferiores que se misturam com a colheita" são imagem de uma verdade maior; "aqueles que alteram a doutrina do Se-

misturam-se com o

nhor, não sendo instruídos corretamente na palavra

corpo sadio da igreja". 1 0 3 Por que Deus criaria os aspectos diferentes da lua, à medida que o mês aumenta ou decresce? Basílio responde:

Ela apresenta-nos um notável exemplo de nossa natureza. Nada é estável na hu- Assim, a vista da lua, fazendo-nos pensar nas velozes vicissitudes das coisas humanas, deve ensinar-nos a não nos orgulharmos sobre as coisas boas

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LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

desta vida nem gloriar-nos em nosso poder nem sermos atraídos por riquezas

incertas

esplendor por minguar-se gradual e imperceptivelmente, quanto mais abatido de- veria ser à vista de uma alma, que, depois de ter possuído a virtude, perde sua

Se você não pode contemplar a lua sem tristeza quando ela perde seu

beleza por negligência e não se mantém constante em suas afeições, mas é agitada

e muda constantemente porque seus propósitos são instáveis. 1 0 4

A alguns leitores as aplicações de Basílio talvez pareçam estranhas ou afe-

tadas. Ele já tem insistido, porém, que na criação há um plano divino e um modelo dirigindo o atento observador de Deus. Basílio ora para que Deus possa ajudar seus ouvintes verem na lua e no sol "uma idéia ainda mais alta da grandeza de seu Criador". Quando comparados com Deus, o sol e a lua "são apenas uma mosca e uma formiga". Certamente, "todo o universo não pode dar-nos uma idéia correta da grandeza de Deus. Ele contém e Deus usa, entre- tanto, "sinais, fracos e leves em si mesmos, muitas vezes com a ajuda dos mais pequeninos insetos e plantas [para] elevar-nos a Ele". 1 0 5

De erva e lua Basílio passa à vida animal para fazer os mesmos tipos de aplicações. Alguns peixes, observa ele, alimentam-se de lodo. Outros comem ervas e capim que acham na água. Finalmente, alguns comem uns aos outros! Um peixe maior engole um menor e, em seguida, é devorado por outro ainda maior. É uma economia estranha. Mas, por acaso, a vida humana é diferente?

Agimos de outra maneira quando oprimimos os inferiores a nós? Que diferença há entre o último peixe e o homem que, impelido pela ganância de devorar, engo-

le o fraco no redíl de sua insaciável avareza? Esse indivíduo possuiu os bens do

pobre: agarrou-os e fez deles uma porção de sua abundância. Mostrou-se mais injusto e mais miserável do que o miserável. Atente para isto para que não acabe como o peixe, por anzol, por armadilha ou por rede. 1 0 6

A despeito da incapacidade do homem para planejar, racionalizar e desejar adequadamente, o peixe ainda demonstra a capacidade de viver dentro dos limites e sabedoria que Deus lhe deu. Ele sabe, por exemplo, correr do perigo e se esconder quando aparece um predador maior. Como seus próximos hu- manos seguem seu exemplo?

Se os seres privados da razão são capazes de pensar e prover sua própria preserva- ção; se um peixe sabe o que tem de fazer para escapar, que diremos dos que são honrados com o bom senso, instruídos pela lei, incentivados pelas promessas, feitos sábios pelo Espírito e são, apesar disso, menos racionais acerca de seus próprios afazeres do que o peixe? [Presos na armadilha como somos por nossaj brutal indulgência [e] preguiça, a mãe de todos os vícios? 1 0 7

[e] preguiça, a mãe de todos os vícios? 1 0 7 Sim, mesmo os animais irracionais

Sim, mesmo os animais irracionais podem ilustrar as virtudes e vícios da humanidade, Que animal do oceano, pergunta Basílio, pode igualar o rancor do camelo? "O camelo esconde seu ressentimento por longo tempo depois de ter sido fustigado, até que encontra uma oportunidade e então retribuí o cas- tigo." São diferentes os humanos? "Ouça, você cujo coração não perdoa, você

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que pratica a vingança como uma virtude; veja à quem você se assemelha quando mantém sua ira por longo tempo contra seu próximo, como uma faísca escondi- da nas cinzas esperando apenas combustível para pôr seu coração inflamado!" 1 0 8 Basílio alegra-se genuinamente na fecundidade da Escritura, quando ela provê-nos de um rol de virtudes e vícios por meio da analogia, e não da alego-

e voem as

aves sobre a terra", o leitor com discernimento "inquirirá sobre o sentido

destas palavras". Nesta inquirição, "aparece o grande

U m a perfeita ilustração da metodologia de Basílio é a analogia que ele tra- ça entre o ciclo de vida da lagarta-borboleta e o ensino de Paulo sobre o corpo ressurreto. Para muitos gregos, a idéia de um corpo ressurreto fazia pouco sentido filosófica, religiosa ou fisicamente. Como, indagavam muitos, pode- ria um corpo que se descompôs ser levantado dentre os mortos? Como pode- ria este tipo de mudança realmente acontecer? A ressurreição parecia-lhes uma impoossibilidade. Basílio respondeu estimulando seus ouvintes a obser- varem mais de perto as muitas criaturas, como a lagarta, que demonstra esta espécie de metamorfose em seu ciclo de vida. O menor seguramente pode ilustrar o maior. 1 1 0

prodígio do Criador". 1 0 9

ria. Como ele afirma, se a Escritura declara: "Povoem-se as águas

Finalmente, a narrativa da criação culmina na criação da humanidade. Ba- sílio advertiu seus ouvintes de que sua própria criação pode ser a de mais difícil compreensão e apreciação.

Na verdade, a mais difícil das ciências é conhecer a si mesmo. Não somente nosso olho, do qual nada de fora escapa, não pode ver a si mesmo. Nossa mente, tão penetrante em descobrir os pecados de outros, é vagarosa em reconhecer suas próprias faltas. Assim meu discurso, depois de ansiosamente investigar o que é externo a mim, é lento e hesitante em explorar minha própria natureza. A con- templação do céu e da terra não nos faz conhecer Deus melhor do que o estudo atento do nosso ser. 1 "

De repente Basílio mud a da humanidad e e sua tendência para a autodecepção para um a análise do Deu s criador. Por que Gênesi s 1.26 (Faça- mos o homem à nossa imagem) usa a primeira pessoa do plural? Basílio não se equivoca em sua insistência de que aqui temos uma referência ao Filho, a segunda pessoa da Trindade. Muitos estudiosos modernos questionam a dedução de Basílio, vendo o plural como uma pessoa da majestade. Entretanto, ele defende sua exegese em dois aspectos: primeiro, por notar o pronome de segunda pessoa do plu- ral; segundo, por observar as muitas vezes que os escritores do Novo Testa- mento se referem a Jesus ou ao Filho como a imagem de Deus, o Pai.

A quem Ele diz: "em nossa imagem", senão a Ele que é "o brilho de sua glória e a expressa imagem de sua pessoa", "a imagem do Deus invisível"? É, pois, à sua viva imagem, àquele que disse: "eu e o Pai somos um", e "quem vê a mim vê ao Pai" que Deus diz: "Façamos o homem à nossa imagem"." 2

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Basílio ilustra aqui um princípio hermenêutico patrístico que é fundamental. O velho deve ser lido e interpretado à luz do novo, A narrativa da Escritura é uma progressão contínua que culmina em Cristo. Como os textos da Antiga Aliança são orvalhados pela revelação da Nova Aliança, eles florescem ainda mais plenamente.

Para pesquisa adicional. Exemplos da exegese de Basílio são borrifados ao

longo de suas cartas. Quatro volumes de suas cartas foram traduzidos por Roy J. Deferrari para a série Loeb Classical Library. Esta série será de interesse especial para estudantes com conhecimento em grego, uma vez que o texto em grego das cartas de Basílio é incluído na tradução inglesa de Deferrari. 1 1 3 Suas cartas estão disponíveis também na série Nicene and Post-Nicene Fathers

Nicenos e Pós-nicenos), publicada por Eerdmans e Hendrickson. 1 1 4 Esta

edição é particularmente útil, uma vez que traz um índice de textos bíblicos interpretados ou referidos por Basílio. A Editora da Universidade Católica da América também oferece uma tradução das cartas de Basílio, embora com

apenas um volume publicado. Talvez a obra dogmática de Basílio mais conhe- cida seja seu tratado sobre o Espírito Santo, disponível tanto na série NPNF como em uma moderna tradução de David Anderson, 1 1 5 O Hexaemeron, de Basílio, que considero uma obra aprazível, compreensível e talvez o exemplo mais claro de sua metodologia exegética e hermenêutica, também está dispo- nível na série NPNF.

(Pais

João Crisóstomo (347-407)

C o m João Crisóstomo, os leitores preocupados com as tendências alegorizantes de alguns exegetas patrísticos, se sentirão mais à vontade, João cortou seus dentes exegéticos em Antioquia. Os teólogos e estudiosos bíbli- cos treinados em Antioquia eram extremamente precavidos contra a alegoria, embora ainda interessados no significado "espiritual" dos textos bíblicos. Como veremos com algum detalhe no capítulo sete, intérpretes bíblicos antioquenos, como Teodoro de Mopsuéstia, lançaram severos ataques contra os perigos da interpretação alegórica e advogaram maior cautela e modéstia da parte dos exegetas. João, amigo íntimo de Teodoro, era também extremamente pruden- te diante dos perigos e armadilhas da alegorização. Felizmente, os leitores modernos têm amplas oportunidades de encontrar a exegese de João, uma vez que muitos de seus sermões estão disponíveis em tradução inglesa.

João, apelidado de "boca de ouro" (Crisóstomo), cento e cinqüenta anos depois de sua morte no exílio, cresceu, como Agostinho, em família espiritu- almente dividida. 1 1 6 Seu pai, Segundo, era um oficial romano e ostentava o título de Magister Militum Orientis, provavelmente indicando que era um oficial de alto escalão em um exército romano posicionado no mediterrâneo

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oriental." 7 Antusa, mãe de Crisóstomo, foi uma forte cristã e tinha apenas vinte anos quando Segundo morreu; João era ainda um infante. Daquela épo- ca em diante, ela devotou-se a João, provendo-lhe com uma excelente educa- ção, inclusive treinamento em retórica com o retórico pagão Libânio, Por al- gum tempo, João acenou com a idéia de tornar-se advogado, mas foi convenci- do de que Deus o havia chamado para a vida monástica, Antusa, entretanto, era menos do que entusiasmada com a decisão do filho.

Meu filho, não me foi permitido por muito tempo usufruir as virtudes de seu pai, pois assim o quis Deus. Sua morte ocorreu logo depois do seu nascimento, deixan- do-o órfão e a mim, viúva antes do tempo, com todo o fardo da viuvez, que somen- te aquelas que o suportaram podem compreender.,. Por favor, não pense que lhe estou dizendo isto agora como uma censura a você, Mas, em troca de tudo isto, peço apenas um favor: não me imponha uma segunda provação nem provoque

Quando

você tiver levado meu corpo à terra e o tiver juntado com os ossos de seu pai, então ponha-se a caminho em suas longas viagens e navegue os mares que lhe agradem, 1 1 8

novamente minha angústia adormecida. Seja paciente até minha morte

Apesar do pedido de Antusa, a sedução da vida monástica nas montanhas revelou-se muito forte para João, Ele nunca foi um daqueles que fazem qual- quer coisa com hesitação. Por dois anos viveu uma dura vida ascética nas montanhas que pairavam sobre Antioquia. Aqui, ao que parece, ele cumpriu a ordem de "ser vigilante". Robert Payne explica como ele viveu durante aquele tempo:

Ele recolheu-se em uma gruta, onde negava-se a dormir e lia a Bíblia continuamen- te, e passou dois anos sem deitar-se, visivelmente na crença de que um cristão deve estar pronto para obedecer à determinação: "Sê vigilante." O resultado foi inevitável: seu estômago contraiu-se e seus rins foram afetados pelo frio. Sua di- gestão estava sempre difícil. Incapaz de curar a si mesmo, ele desceu a montanha, foi para Antioquia e apresentou-se ao arcebispo Melécio, que o enviou imediata- mente a um médico. 1 1 9

A ida de João a Antioquia foi o começo de uma série de mudanças impor- tantes que o levariam, por fim, à sua indicação como bispo de Constantinopla, uma das grandes sés ou centros eclesiásticos da igreja. Antes de João mudar- se para Constantinopla, ele serviu como diácono e, em seguida, como presbítero na igreja de Antioquia, onde pregou por vários anos, demonstran- do espantosa capacidade de trazer a Escritura à vida, tanto em sua riqueza teológica como em suas aplicações práticas. Johannes Quasten acredita que muitos desses sermões foram pregados em Antioquia entre 386 e 397. Eles ilustram bem a diferença entre a exegese dos antíoquenos e a dos alexandrinos. Quasten resume a habilidade hermenêutica e homilética de João desta maneira:

Sempre ansioso por determinar o sentido literal e opondo-se à alegoria, ele combi- na grande facilidade em discernir o sentido espiritual do texto escriturístico com

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LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

igual habilidade para a imediata aplicação prática, visando orientar os que foram confiados ao seu cuidado, A profundeza de seu pensamento e a solidez de sua exposição dominante são únicas e atraem mesmo os leitores modernos, Ele é igualmente atualizado nos livros do Velho e do Novo Testamentos, e possuí habi- lidade de usar o primeiro para as condições do presente e dos problemas da vida diária. 120

Duas das metáforas favoritas de João para sacerdote e bispo cristãos eram a do treinador de atletismo e a do médico. 1 2 1 Em sua bem conhecida e bem apreciada obra On the Priesthood(Sobre o Sacerdócio), ele compara o pastor a um médico, aquele que "descobriu a multiplicidade de remédios, instrumen- tos e formas de dieta apropriadas para o doente". João observa, entretanto, que, ocasionalmente, um clima saudável ou um sono profundo tornam des- necessária a intervenção do médico. Não assim, porém, com os médicos da palavra. O pregador deve diagnosticar cuidadosamente os males e as necessi-

dades da sua congregação, aplicando fielmente o único remédio eficaz: o ensi-

no pela palavra da

Este é o melhor instrumento, a melhor dieta, e o melhor clima. Ele substitui a medicina, a cauterização e a cirurgia. Quando necessitamos cauterizar ou cortar,

devemos usar isto. Sem ele todo o restante é inútil. Por ele estimulamos a letargia da alma ou reduzimos sua inflamação, removemos excrescências e reparamos de-

boca". 1 2 2

Devemos

ter grande cuidado, portanto, para que a Palavra de Cristo possa habitar ricamente

A menos

que o homem que tenciona vencer compreenda cada aspecto da sua arte, o Diabo sabe como introduzir seus agentes em um único ponto negligenciado e, assim, arrebatar o rebanho. Mas ele fica frustrado quando vê que o pastor domina todo o seu repertório e compreende completamente suas trapaças. 123

Crisóstomo continua a exaltar particularmente as epístolas de Paulo, tanto como escudo contra a falsa doutrina como reservatórios de sabedoria para uma vida saudável. Na verdade, à luz da capacidade de João de interpretar Paulo bem, outros pais viram os dois como almas gêmeas. Ao comentar a exegese de Crisóstomo, Isidoro de Pelúsio escreveu que a sabedoria de João é particularmente evidente em sua exposição da carta de Paulo aos Romanos.

Penso (e não pode ser dito que escrevo para lisonjear alguém) que, se o divino Paulo desejou expor na língua ática seus próprios escritos, ele não teria falado de outra maneira que não a deste famoso mestre; tão notável é a exposição da carta pelo seu conteúdo, sua beleza de forma e sua propriedade de expressão. 124

Para Crisóstomo, a doutrina consistente e o viver saudável permaneceram um todo inseparável. O que sabemos deve afetar profundamente o modo como vivemos, senão a verdade do evangelho é frustrada e o mundo vigilante nota um quadro inclinado da realidade do evangelho. Crisóstomo vê Paulo, acima de todos os outros, como o especialista em fundir o conhecimento à vida.

feitos, e, em resumo, fazemos tudo o que contribui para a sua saúde

em nós, pois nossa preparação não é contra um único tipo de ataque

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Por seus escritos, fortalece as igrejas por todo o mundo como uma parede de aço. Agora mesmo ele permanece entre nós como algum nobre paladino, trazendo para

o cativeiro cada pensamento para a obediência de Cristo e subjugando imagina-

ções e tudo que se exalte contra o conhecimento de Deus. Tudo ele faz por meio daquelas maravilhosas epístolas que nos deixou, tão plenas da sabedoria divina. Seus escritos nos são úteis não apenas para a refutação da falsa doutrina e o esta- belecimento da verdade, como também para nos ajudar a viver uma boa vida, Tal é a qualidade e tal é a força dos remédios deixados a nós por este homem que era imperito para falar! Aqueles que os usam constantemente conhecem seu valor. 125

João ressalta a importância de estudar as Escrituras em sua nova homilia sobre a carta de Paulo aos Colossenses;

Adquiram livros que sejam remédios

Ao menos consigam uma cópia do Novo Testamento, as epístolas

dos apóstolos, o livro de Atos, os Evangelhos, e tomem-nos como seus mestres constantes. Se vocês depararem com a mágoa, mergulhem neles como se fossem uma caixa de remédios; obtenham deles o conforto para os seus infortúnios, seja uma perda, ou morte, ou o luto pela perda de parentes. Não apenas mergulhem neles mas nadem também. Mantenham-nos constantemente em mente. A raiz de todos os males é a falta de conhecimento das Escrituras. 126

A própria imersão de Crisóstomo na Escritura serviu-lhe bem no fim de

sua vida. Um emaranhado de fatores pessoais, políticos e religiosos concorre- ram para sua expulsão de Constantinopla por ordem do imperador Arcádio, em 404. João viveu os três anos seguintes, a caminho da morte (407), em condições extremamente severas e isolado na pequena cidade de Cucusus, no alto das montanhas da Armênia. Nessa época, à medida que sua peregrina- ção terrena arrastava-se em direção ao seu final, anos de reflexão, exegese e pregação produziram fruto em sua própria vida. Amostra hermenêutica. Durante seus últimos anos, João escreveu uma obra final, intitulada On the Providence ofGod(Sobre a Providência de Deus), uma extensa exploração bíblica, teológica e devocional da vida do cristão fiel. 1 2 7 Este tratado ilustra com vivacidade como João lia a Bíblia e aplicava seu ensino a seu próprio sofrimento. João dirige esta obra à sua congregação em Constantinopla, "aqueles per- turbados pelas ações ilegais dos dias recentes, isto é, a perseguição e o logro contra os leigos e muitos sacerdotes". 128 Crisóstomo angustia-se porque seu rebanho em Constantinopla será varrido sobre seus pés por seus próprios julgamentos e sofrimentos. Para evitar esse desastre espiritual, ele contínua a analisar detalhadamente como o cuidado providencial de Deus abrange até mesmo os piores cenários da vida. Sua metodologia prepara

o remédio da palavra [que} alimenta mais do que pão, restaura mais eficazmente

Ouçam-me cuidadosamente,

para a

do que uma droga e cauteriza mais poderosamente do que fogo, sem causar ne-

nhuma dor

Mais aguçado do que o ferro, ele corta com golpe indolor as áreas

94 Çg»

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

O espaço permite somente uma breve consideração de como Crisóstomo

usou a Bíblia para ilustrar suas principais considerações. Ele afirma repetida- mente que, embora possa alguém sofrer como ser humano e como cristão, o único sofrimento prolongado resulta do próprio pecado. Pensem, lembra ele

a seus leitores, nas muitas personagens bíblicas que sofreram injusta, inespe- rada e inexplicavelmente.

Abel é assassinado por seu irmão. Jacó sofre fome enquanto no exílio. José sofre como escravo e prisioneiro, vítima de terrível calúnia. Moisés suporta a contínua rebelião e rejeição de Israel. Satanás ataca Jó com suas incontáveis astúcias. O exílio de Israel na Babilônia expõe Sadraque, Mesaque, Abede-Nego e Daniel a incontáveis perigos. Elias vive uma terrível pobreza como fugitivo e errante, Davi sofre nas mãos de Saul e mais tarde é atacado por seu próprio filho. João Batista é degolado por Herodes. 130

E por acaso, pergunta Crisóstomo, foram quaisquer destas personagens

bíblicas ofendidas para sempre por seus sofrimentos? O sofrimento intenso marca a vida de cada um, mas todos eles escapam da ofensa que perdura. Os mártires da igreja ilustram a mesma verdade. "De que maneira", pergunta Crisóstomo, "os mártires, cuja alma foi quebrantada pelas mais severas tortu- ras, foram ofendidos? Não brilharam eles mais intensamente no exato mo- mento em que foram maltratados, e que outros abriam armadilhas para eles, quando nobremente permaneceram firmes enquanto sofriam as piores ago- nias?" 1 3 1 Crisóstomo argumenta com firmeza que o evangelho de Cristo tem absorvido eficazmente o veneno do sofrimento cristão. As realidades que Deus tem introduzido no mundo por meio de Cristo recebem injúria como uma realidade constante, injusta, maldosa, uma fonte de agravos duradouros para

o cristão, O sofrimento supera a injúria, afirma João, por meio da cruz de Cristo.

Se somos, pois, finalmente injuriados pelos sofrimentos que enfrentamos

nesta vida, isso depende de nossa própria reação a eles, à luz tanto do que Cristo realizou em nosso bem quanto do modo como Ele conduziu e comple- tou sua obra. A perspectiva do cristão e sua disposição diante dos eventos desta vida têm sido profundamente moldadas pela cruz de Cristo? Em suas homilias sobre as Epístolas Pastorais, João escreve: "Pois resta ou beneficiar- nos, ou sermos injuriados pela aflição. Não depende da natureza da aflição, mas da disposição de nossa própria mente". 1 3 2

João não subestimou nem desconsiderou levianamente a realidade da dor

e

do sofrimento humano. Ele sabia plenamente que o sofrimento gerava dor

e

mágoa genuínas e nunca tentou dissimular ou diminuir esse fato. Em suas

cartas a Olímpia, uma amiga também condenada ao exílio, ele escreve sobre seu próprio sofrimento em Cucusus:

O inverno, que se tem tornado mais severo que o comum, trouxe uma tempestade

de desordem interior ainda mais angustiante. Durante os dois últimos meses não

Passei todo o tempo confinado à

fui nada melhor nem pior do que um

OS

QUATRO

DOUTORES

DO

ORIENTE

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minha cama e, a despeito de infindáveis artifícios, não pude livrar-me dos perniciosos efeitos do frio, Embora mantivesse o fogo aceso, suportando uma desagradável nuvem de fumaça, permaneci engaiolado no quarto, coberto com uma porção de agasalhos, Não ousando pôr o pé fora da soleira da porta, suportei extremo sofrimento, vômitos constantes seguidos de dor de cabeça, inapetência e contínua insónia, 1 3 3

João não apenas está plenamente ciente da realidade e validade de seus próprios sofrimentos, como também é diligente em aconselhar Olímpia a cuidar de sua própria saúde por causa da natureza opressiva da doença e sua tendência de exaurir a força espiritual.

Portanto, peço-lhe, cara senhora, como um grande favor, prestar muita atenção à restauração de sua saúde física. Porque o abatimento causa doença; e quando o corpo está exausto e enfraquecido, e permanece descuidado, privado de assistên-

cia médica, clima saudável e abundante suprimento das necessidades vitais, con-

sidere quanta angústia isto

causa. 1 3 4

A correspondência de Crisóstomo com Olímpia demonstra bem sua aten- ção pela fragilidade da condição humana e sua sensibilidade para com uma relação íntima entre o bem-estar físico e o espiritual. 1 3 5 Vemos a mesma com- preensão em seu conselho àqueles que estão aflitos. Por um lado, João não hesita em falar das valiosas lições que podem ser aprendidas com a morte nem da atitude de fé que um cristão deve ter quando ela chega.

Você nasceu um ser humano e, portanto, mortal; por que, pois, aflige-se porque o natural veio para passar? Você angustia-se quando está nutrido por ter comido? Você procura viver sem isto? Aja da mesma forma no caso da morte e, sendo mortal, não procure a imortalidade. Isto foi designado de uma vez por todas. Por- tanto, não se angustie, não faça o papel de pranteador, mas submeta-se às leis, impostas a todos de igual modo. 1 3 6

Por outro lado, João está profundamente cônscio da dor que a separação pela morte causa àqueles que ficaram e reconhece este pesar como uma rea- ção humana própria da natureza. Em suas homilias sobre 1 Coríntios, por exemplo, ele equilibra com maestria ambos os lados da questão em sua dis-

cussão da mágoa de Jó pela perda de seus filhos. Jó era "um pai, e um pai

amoroso; e era apropriado que

a compaixão de sua natureza fosse mostra-

da". O autocontrole e a não demonstração genuína de compaixão e angústia pela perda de seus filhos poderiam ser facilmente interpretados como "mera

insensibilidade. Portanto, ele expressa tanto sua afeição natural como a preci-

são de sua piedade, e em

menta corretamente que mesmo em momentos de tristeza nossa mente deve lembrar-se das verdades do evangelho, mas reconhece também que as lágri-

mas tanto daqueles que sofreram a perda como daqueles que se solidarizam com o desconsolo dos outros — são mais do que apropriadas.

sua dor ele não foi destruído". 1 3 7 Crisóstomo argu-

96 [0

LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

Em suas homilias sobre Romanos, João enfatiza a importância de identificar-se com aqueles que estão tristes, "pois nada há que una o amor tão firmemente como partilhar tanto a alegria como a dor uns com os outros. Porque você está

das dificuldades, não fique também indiferente, sem simpatizar." 138 Ele

reforça este pensamento em suas homilias sobre Atos dos Apóstolos. Tenhamos uma alma pronta a simpatizar e um coração que saiba sentir-se com outros em suas aflições: nenhum temperamento descaridoso, nenhuma desuma- nidade. Embora você não possa proporcionar alívio, pode, porém, lamentar, en- tristecer, preocupar-se pelo que ocorreu. 139

À medida que João medita sobre as Escrituras, ele traça uma importante

distinção entre o sofrimento e o sofrimento prejudicial. Todos os cristãos podem esperar o sofrimento. Na realidade, o cristianismo e o sofrimento an- dam de mãos dadas. Mas, à medida que uma pessoa absorve as realidades do evangelho, qualquer duração e quaisquer efeitos perniciosos do sofrimento são graciosamente suprimidos. Daí resulta o crescimento da alma.

Esta é nossa vida. isto é. a conseqüência natural de um meio apostólico de vida é

Assim, a vida apostólica é intencionalmente designada a

sofrer insulto, maldades, a nunca ter sossego, uma trégua das hostilidades. Toda-

via, porque muitos estão vigilantes, eles não apenas não são injuriados por esses eventos, como também beneficiam-se deles, 140

O sofrimento prejudicial ocorre somente na vida daqueles que conside-

ram as questões indiferentes como males verdadeiros ou que transgridem intecionalmente a ordem moral de Deus. O que significa, para Crisóstomo, que pecado e ofensa autêntica estão intrinsecamente associados. Um exem- plo esclarecedor desta dinâmica é Herodes Antipas, o governador responsável pela injusta execução de João Batista. Muito embora João tenha sido decapita- do, foi Herodes quem colheu a amarga ceifa do pecado. Crisóstomo convida seus leitores a imaginarem a natureza do sofrimento de Herodes, quando foi reprovado por seus pecados pelo prisioneiro João. Imediatamente depois da execução de João, a consciência de Herodes turvou-se "em tal extensão que

ele acreditou que João tinha voltado e estava realizando milagres". 141 No final, ele é reprovado por toda a eternidade, ao passo que João é coroado por sua fidelidade. "Portanto, não pergunte: 'por que foi permitido que João morres- se?' Porque o que ocorreu não foi uma morte, mas uma coroação, não um fim,

mas o começo de uma vida mais

Quando Crisóstomo refletiu sobre a Bíblia, compreendeu ainda mais que, à luz da cruz, o mal e o pecado jamais podem ser a última palavra para aquele que tiver abraçado Cristo. Antes, é como a pessoa compreende a cruz que faz toda a diferença. Pensem no ladrão crucificado com Jesus, exorta Crisóstomo aos seus leitores, que acreditou nos últimos momentos da sua vida. Tanto o ladrão como a multidão ao redor da cruz viram os mesmos fatos ali desenrolados.

longe

sofrer males incontáveis

grandiosa." 142

OS

QUATRO

DOUTORES

DO

ORIENTE

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No entanto, somente a multidão incrédula tropeçou na cruz. O ladrão reagiu de forma totalmente diferente, "Com certeza, o ladrão na cruz condena este tipo de pessoas; pois ele viu Cristo crucificado e não somente não tropeçou em sua fé, como também recebeu naquele evento uma razão maior para pen- sar como cristão," 1 4 3 Quais foram os elementos importantes que cercaram a atitude intuitiva do ladrão diante da cruz? Primeiro, Crisóstomo responde, o ladrão estava dis- posto a ir além das especulações humanas. Isto é, ele estava querendo repri- mir a tentação para compreender o inexprimível. Segundo, sua fé incipiente capacitou-o a ir além da situação imediata. Considerações mais amplas, inclu- indo a esperança no futuro, determinaram sua reação instantânea ao malogro aparente e à morte do Filho. Como esclarece Crisóstomo, "ele alçou-se nas asas da fé e meditou sobre as coisas do futuro." 1 4 4 Sua disposição atenta e submissa perante as ações misteriosas de Deus habilitaram-no a perceber cor- retamente a situação. A multidão, por meio da comparação, foi "insensível e negligente" e perdeu o lado assombroso e benéfico da cruz. As observações da turba basearam-se em aparências, por isso ela foi incapaz de enxergar sob a superfície o sentido mais profundo dos eventos. O episódio da cruz abre-se somente a pessoas capazes de perceber o ato de Deus naquele lugar desolador. Os olhos e ouvidos espiritualmente atentos de alguém faz toda a diferença.

Assim, as Escrituras tornam-se a estrutura interpretativa que João empre- ga para compreender sua própria situação no exílio. Ele exorta seu rebanho de Contantinopla e, sem dúvida, a si mesmo a aprender "a pensar e viver como um cristão", Se eles assim fizerem, o mal dos eventos adversos que cruzarem o caminho de João serão evitados e os benefícios maiores acontece- rão. João insiste infatigavelmente que é nossa reação humana — uma reação governada por uma disposição formada pelo Espírito Santo à medida que as pessoas aceitam as verdades do evangelho e incomporam-nas em sua vida — que é o principal determinante na questão do bem e o mal. Em contraste, aqueles que são "mundanos, difíceis de conduzir, obstinados e completamen- te carnais"continuarão interpretando a providência de Deus, porque faltam- lhes olhos para vê-lo em trabalho. Falta-lhes uma visão que têm somente aque- les que estão exercitando a fé, permitindo que sua perspectiva seja moldada pelo evangelho e agindo em conformidade com ele. No pensamento de João, a sábia interpretação da Escritura é inseparável da sábia interpretação da vida.

Para pesquisa adicional. De todos os país da igreja, exceto Agostinho, a exegese de João é a mais inteligível, acessível e disponível aos leiores moder- nos. Como observa Johannes Quasten, "entre os pais gregos, nenhum deixou um legado literário tão extenso como Crisóstomo." 1 4 5 Temos em tradução in- glesa 90 homilias sobre o Evangelho segundo Mateus, 55 sermões sobre Atos, 32 homilias sobre Romanos, 44 sermões sobre 1 e 2 Coríntios, 1 comentário

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LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

sobre Gálatas, 24 homilias sobre Efésios, 15 sobre Filipenses, 12 sobre Colossenses, 18 sobre 1 Timóteo e 34 sobre Hebreus. Infelizmente, quase todas estas obras foram traduzidas no século dezenove, precisando pelo me- nos ser convertidas para o olho e o ouvido do leitor moderno. Todas estão disponíveis na série Nicene and Post-Nicene Fathers (Pais Nicenos e Pós- nicenos), publicada pela Eerdmans e Hendrickson. A série The Fathers of the Church (Os Pais da Igreja) dedicou dois volumes a 88 das homilias de Crisóstomo sobre João. A linguagem arcaica das traduções mais antigas têm sido modernizadas nas passagens incluídas na série Ancient Christian Commentary on Scripture (ACCS), citada no prefácio,

OS QUATRO DOUTORES

DO

OCIDENTE

Ambrósio, Jerônimo, Agostinho e Gregório o Grande

Ambrósio, Jerônimo, Agostinho e Gregório o Grande s quatro doutores latinos representam uma tradição

s quatro doutores latinos representam uma tradição exegética célebre por sua variedade e riqueza. Os exegetas latinos, tais como Jerônimo e Ambrósio, espelham a confiança da tradição alexandrina sobre a alegoria ao buscarem o sentido dos textos bíblicos. Jerônimo , que Gerald Bray retrata com o "indubitavelmente o maior dos eruditos bíblicos que a igreja latina já produziu", foi inicialmente atraído para o método alegórico de Orígenes. embora mais tarde o viesse criticar duramente. 1 Ambrósio foi o primeiro instrutor de Agostinho nas Escrituras e ensinou-lhe a metodologia interpretativa alegórica de Orígenes. Agostinho, por sua vez, interpretou a Escritura tanto em seu sentido literal como alegórico. Gregório o Grande, um dos maiores pastores da história da igreja, é semelhante a Ambrósio em seu amor por discernir um sentido alegórico mais profundo no texto da Escritura. Embora todos os quatro doutores latinos usassem o método alegórico de interpretação, não é fácil classificar sua tradição exegética, como veremos neste capítulo.

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LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

Ambrósio (c. 339-397)

Ambrósio nasceu em família romana já agraciado com uma distinta

linhagem cristã e romana. Como escreve Robert Payne, ele foi "nascido para a

, sua morte, foi considerado santo, usando a púrpura para a eternidade." 2 Muito provavelmente, a virgem mártir Soteres, uma vítima da perseguição de Diocleciano, fora parenta dele. Ambrósio cresceu em Roma com sua mãe, dois irmãos e uma irmã,pois seu pai morreu quando ele era ainda muito jovem. São relativamente escassas as informações sobre sua infância, Co m trinta e seis anos de idade, Ambrósio foi nomeado pelo governo romano como governador da.provínciaátaliana Aemília-Ligúria, ao norte do país. Suas responsabilidades incluíam a manutenção da paz na cidade de Milão. Charles Kannengiesser comenta a herança romana de Ambrósio:

continuou a viver na púrpura ao longo de sua vida e, bem antes de

púrpura

Embora formalmente arrolado como catecúmeno, ele menteve-se fiel à sua heran- ça familiar cristã, mas não envolveu-se em nenhuma discussão teológica. Seu trei- namento preparou-o para o serviço público. Sua predileção levou-o a preferir os autores gregos, velhos poetas e historiadores clássicos, como também autores mais recentes. Com certeza, sabia de cor Virgílio e Cícero. Filho de abastados proprietá- rios de terras, ansioso por assimilar as tradições humanistas patrocinadas pelos filósofos neoplatônicos de seu tempo. Ambrósio é visto como um dos últimos romanos dotados de completa familiaridade com a cultura grega. 3

Esta formação cultural e lingüística revelou-se muito conveniente quando a carreira de Ambrósio mudou repentinamente e ele viu-se escolhido para substituir o bispo ariano Auxêncio como bispo de Milão. Sua familiaridade com os filósofos gregos, tais como Filo e Plotino, e seu conhecimento dos pais gregos, como Basílio, influenciariam nitidamente a forma sua maneira de in- terpretar a Bíblia. Mas, por que a súbita mudança de carreira de governador romano para bispo?

Auxêncio tinha morrido, e o homem que o substituiria representava notoria- mente tanto o partido dos arianos (pessoas que negavam a divindade de Jesus, mas afirmavam-no como uma criatura exaltada) como o daqueles que defendi- am que Jesus era plenamente divino. O debate teológico em Milão tinha esquen- tado ao ponto de pôr em risco a ordem pública. Em seu papel como governador provincial, Ambrósio interveio, Embora ele fosse fortemente contrário à posi- ção ariana, mantendo-se assim durante toda a sua vida, tanto os arianos como os não-arianos concordaram quanto ao seu chamado para substituir Auxêncio como bispo. Possivelmente, esta aceitação unânime de Ambrósio deveu-se ao reconhecimento de sua reputação como homem íntegro e imparcial em seu pa- pel dentro do goveno romano. 4 Medindo apenas um metro e sessenta centí- metros de altura, Ambrósio era fisicamente inexpressivo. A força de sua perso- nalidade e fé, entretanto, logo o projetariam,

OS

QUATRO

DOUTORES

DO

OCIDENTE

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Ambrósio resistiu ao chamado para o ministério cristão, sentindo-se melhor ajustado a uma vida monástica de solidão e oração. Afinal, ele tinha pouco

treinamento formal para a liderança eclesiástica e tinha ainda de ser batizado.

A comunidade cristã de Milão discordou. Dentro de uma semana ele foi bati-

zado e consagrado bispo. Havia muito que aprender. Mais tarde Ambrósio reconheceria que tinha se tornado exegeta por ter-se tornado bispo, "a des- peito de si mesmo". 5

Entretanto, Bertrand de Margerie observa que a formação de Ambrósio, pelo menos em sentido genérico, tinha-o preparado bem para o ministério cristão da exegese, incluindo "seu conheçimenta-de grego — raro naquele tempo —, seu hábito (desenvolvido na escola) de aprender de cor sua aptidão exegética, resultado da prática da leitura e interpretação do sentido literal, alegórico acima de tudo, moral de um texto poético (Homero e Virgílio)". 6 Sob a orientação de Simpliciano, um presbítero na igreja de Milão, que mais tarde o sucederia como bispo, Ambrósio começou um estudo intenso das Escrituras, uma disciplina que praticaria e modelaria para o resto de sua vida, Agostinho menciona este mesm o Simpliciano em suas Confessions (Con- fissões), descrevendo-o como o pai espiritual de Ambrósio, Ele comenta que Ambrósio amava Simpliciano "como um pai, pois foi por meio dele que tinha

recebido tua graça", 7

Por outro lado, foi a pregação de Ambrósio que tocou Agostinho no meio

de sua profunda luta espiritual, Com grande afeto, Agostinho retratou Ambrósio

como "conhecido ao redor do mundo como um homem a quem poucos havia que igualasse em bondade". Ele convenceu-se de que foi Deus quem o levara a Ambrósio: "de modo que pude ser levado intencionalmente por ele a ti". Ambrósio acolheu Agostinho que diz: "como pai e, como bispo, disse-me quão alegre estava por eu ter vindo". 8 Curiosamente, não foram as idéias de Ambrósio que de pronto atraíram Agostinho, mas seu caráter: "Meu coração queimava diante dele, de início não como um mestre da verdade, da qual eu tinha total- mente perdido a esperança de encontrar em tua igreja, mas simplesmente como um homem que mostrava-me bondade", 9

O caráter de Ambrósio, porém, não teria sido suficiente para convencer

Agostinho a tornar-se cristão. Antes, Ambrósio lia a Bíblia de tal maneira que

as Escrituras tornaram-se acessíveis a Agostinho, que por anos tinha rejeitado

a narrativa bíblica, porque partes da Escritura, em especial no Velho Testa- mento, pareciam-lhe apresentar uma imagem difamante de Deus. Ele ajudou Agostinho a ler a Bíblia de um novo modo, esclarecendo que qualquer texto bíblico contém três sentidos — o literal, o moral e o anagógico ou místico. A possibilidade de a Bíblia ter um sentido mais profundo que o seu sentido literal dissipou o desalento de Agostinho.

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LENDO AS ESCRITURAS CO M OS PAIS DA IGREJA

Comecei a crer que a fé católica, que eu tinha imaginado impossível de ser defendida contra as objeções dos maniqueus, podia perfeitamente ser mantida, especial- mente uma vez que eu já ouvira passagens e mais passagens do Velho Testamento explicadas figurativamente, Essas passagens haviam sido morte para mim quando as tomei literalmente, mas quando as ouvi explicadas em seu sentido espiritual, comecei a censurar-me por meu desespero, ao menos à medida que ele me havia levado a supor que era impossível contra-atacar as pess