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SABEM

DEMAIS

EX-MAFIOSOS INTERNACIONAIS E JORNALISTAS NOS REVELAM COMO DESBRAVAM EM LIVROS OS ESQUEMAS DA MÁFIA E COMO CONVIVEM COM A CERTEZA DE ESTAR NA MIRA DE UMA ARMA

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BATE-PAPO DESPOJADO COM

MARCELO ADNET,

O ATOR, HUMORISTA E EXPORTADOR DE NIÓBIO

ENTREVISTA TIM BURTON

“AS PESSOAS RECLAMAM QUANDO TRABALHO COM JOHNNY DEPP E TAMBÉM QUANDO NÃO TRABALHO COM ELE”

| editorial |

H istórias de máfias sempre chamaram a atenção do público (quem não se lembra das façanhas de Al Capone ou de O poderoso chefão?), da mídia e, consequentemente, do mercado editorial. A reportagem de capa desta edição fala da onda de publicações com essa temática e de como seus autores conseguem apurar os fatos, localizar fontes e se infiltrar nessas organizações criminosas.

Conseguimos, por exemplo, conversar com Frank Calabrese Jr., o ex-

mafioso que delatou seu próprio pai para o FBI. Também entrevistamos

o fotógrafo belga Anton Kusters, que, depois de mais de um ano de

negociação, conseguiu a autorização para acompanhar e fotografar o cotidiano da Yakuza, poderosa organização criminosa japonesa. Mudando de gato para sapato (risos), a boa novidade para o mês de

outubro é a inauguração, no dia 30, da segunda Livraria Cultura na capital pernambucana, nossa 15ª loja. Fica no Shopping Rio Mar e traz para Recife

a quinta unidade do Teatro Eva Herz que, por sinal, acaba de completar

cinco anos de intensa programação e sucesso em São Paulo. O projeto, do arquiteto Fernando Brandão, divide a área de 2.900 m² em dois andares que contam com espaços gourmet, infantil, digital e toda a infraestrutura necessária para transformar a frequência do público em uma experiência para além do consumo de produtos culturais, onde entretenimento, con- teúdo de qualidade, troca e compartilhamento de ideias fazem parte do dia a dia. A Geek.etc.br, com seu acervo especializado no universo dos nerds, ou seja, quase todos nós (risos), também está contemplada em uma área específica para comportar os quase 10 mil itens de seu acervo. No Paço Alfândega, abriremos, no dia 21 de novembro, separadamente da Livra- ria, outra loja Geek semelhante à do Conjunto Nacional (SP). Boa leitura!

Pedro Herz

| sumário |

| sumário | nossa capa Cadillac feito especialmente para Al Capone em 1938 © Bettmann/CORBIS também

nossa capa

Cadillac feito especialmente para Al Capone em 1938 © Bettmann/CORBIS

também nesta edição

6 Salada cultural com ou sem leite condensado

44 Regência verbal: aprenda

a usar para não se dar mal (desculpem a rima infame)

60 Os títulos mais vendidos

você descobre no nosso gráfico

Os títulos mais vendidos você descobre no nosso gráfico 10 Marcelo Adnet: nosso entrevistado devasso anda
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Marcelo Adnet: nosso entrevistado devasso anda subindo pelas paredes

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Cansada de ser o patinho feio, a poesia mostra que não está para brincadeira

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Mesmo no além, David Foster Wallace não para de incomodar. Sorte a nossa!

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Putz Grill

do CQC, com seus CDs preferidos

Lá vem Oscar Filho,

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Os fetiches de Jairo Bouer. Ops!

O que Jairo Bouer pensa sobre fetiches

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Você piraria se pudesse gravar com os Beatles? A brasileira Lizzie Bravo conseguiu

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Proteja seus dedos! Um mafioso pode estar te vigiando enquanto lê esta matéria

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O tempo passou, o cabelo mudou, mas a

voz de Lana Bittencourt continua a mesma

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Amor, futebol, guerra, paz

nem só de fumo se faz um Bob Marley

Porque

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Karina Buhr estreia sua coluna e revela por que detesta glutamato monossódico

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A máfia não vai gostar das brincadeiras de João Montanaro, MZK e Ricardo Coimbra

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Faturar medalhas é com ele mesmo: os livros favoritos de José Roberto Guimarães

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Quer pagar quanto? O idioma português em 10X sem juros

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A decepção com Tim Burton: ele não é

nostálgico e nem traz de volta os mortos

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Corrida enigmática em 1.200 páginas com Haruki Murakami? Faça sua inscrição aqui

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O cineasta Marcelo Gomes tem

cara de mau, mas é só fachada

| expediente |

redação Publisher Pedro Herz diretor de redação Sérgio Miguez diretora de arte Carol Grespan editor-chefe Gustavo Ranieri editora Clariana Zanutto redatora Mirian Paglia Costa assistente de redação Giovanna Angelini revisora Carina Matuda Videomaker Pedro Alves

Colaboram nesta edição texto Claudio Dirani, Guilherme Bryan, Mauricio Duarte, Pedro Caiado, Rafael Rodrigues, Ronaldo Bressane, Wilgen Arone ilustração João Montanaro, Marcelo Cipis, MKZ, Mauricio Planel, Nelson Provazi, Orlando Pedroso, Ricardo Coimbra, Walter Vasconcelos Fotografia Melissa Haidar

Colunistas Jairo Bouer, Karina Buhr, Thaís Nicoleti

agradeCimentos Anton Kusters, Marcelo Gomes, Rodrigo Faour

Produtora gráfica Elaine Beluco Projeto gráfico Carol Grespan Pré-impressão e impressão Pancrom tiragem 30 mil exemplares

Publicidade Giovani Guedes tel: (11) 3170-4033 ramal 2590 giovani.guedes@livrariacultura.com.br

Natalia Teixeira tel: (11) 3170-4033 ramal 2590 nteixeira@livrariacultura.com.br

Jornalista responsável Gustavo Ranieri | MTB 59.213

Contato

revistadacultura@livrariacultura.com.br

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução sem autorização prévia e escrita. O conteúdo dos anúncios é de responsabilidade dos respectivos anunciantes. Todas as informações e opiniões são de responsabilidade dos respectivos autores, não refletindo a opinião da Livraria Cultura. Preços sujeitos a alteração sem prévio aviso. Os preços promocionais para associados do + Cultura são válidos no período de 05/11 a 04/12/2012.

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Vai fingir que não
entendeu o recado?
Na Europa, EspEcialmENtE, há quasE um lEilão para dEscobrir o NomE rEal do artista dE rua britâNi-
co baNksy. tabloidEs já publicaram alguNs rumorEs sobrE sua idENtidadE E até quE Estaria morto.
iNdEpENdENtEmENtE dE quEm sEja, é dElE a obra acima, uma das cENtENas dE stENcils prEsENtEs Em
cidadEs do muNdo E iNtEgram o livro Banksy – Guerra e spray, cuja Edição NacioNal acaba dE chEgar
ao mErcado. FortEs críticas sociais E avErsão a qualquEr tipo dE autoritarismo são caractErísticas
do trabalho quE o artista rEaliza dEsdE o Fim dos aNos 1980. “Às vEzEs, Eu mE siNto tão ENjoado com
a situação do muNdo quE NEm coNsigo tErmiNar miNha sEguNda torta dE maçã.” (Gustavo RanieRi)
fotos: divulgação

Trio de respeiTo

Em O fim da canção, os compositores luiz tatit, Zé Miguel Wisnik e arthur Nestrovski cantam e tocam 23 músicas em combinações variadas, alternando faixas conhecidas, como Capitu e Pra que chorar, com inéditas. o repertório vai do samba ao rock e da balada ao baião. (giovanna angelini)

Toda alma

o ex-vocalista e fundador da banda inglesa Simply red, Mick Hucknall, lança American Soul, o seu segundo álbum solo desde o fim do grupo. além de músicas inéditas, o cantor também interpreta os já consagrados sucessos de sua antiga banda. (GA)

Algo AlojAdo dentro de nós

Primeiro longa-metragem de Juliana Reis, Disparos chega aos cinemas neste mês mostrando como a violência presente em nossas relações interpessoais pode ser mais evidente do que a que está nas ruas. “O humor do filme vem da surpresa do espectador ao ver retratado com naturalidade os nossos ab- surdamente violentos códigos sociais”, nos conta a diretora. “Minha intenção foi escapar do maniqueísmo, cujo prazo de validade na nossa sociedade já está vencido: a dos ricos (‘trabalho e tenho direito ao meu carro importado’), a dos pobres (‘sou pobre e vitíma da injustiça social’); ou ainda dos gêneros (‘sou mulher/sou gay e vítima da injustiça falocrata/homofóbica’).” (GR)

benVenuto, giorgio

falocrata/homofóbica’).” (GR) benVenuto, giorgio o pintor italiano giorgio Morandi (1890-1964), célebre por

o pintor italiano giorgio Morandi (1890-1964), célebre por

retratar natureza morta em seus trabalhos, ganha, até fevereiro de 2013, uma exposição em sua homenagem em Porto alegre.

o artista teve como inspiração as obras de Paul cézanne e

Pablo Picasso. em Giorgio Morandi no Brasil, serão exibidas cerca de 40 pinturas do artista, além de 15 gravuras. (ga)

Conversas

Juliette Minces, Gilberto Freyre e o Nobel de Literatura Octavio Paz estão entre as 32 personagens de A força da pala- vra, livro lançado originalmente há quase duas décadas e que ganha nova edição. Escrito por Betty Milan, trata-se de uma série de entrevistas com grandes pensadores, que conversam sobre temas variados, de arquitetura e exílio a cinema e literatura. (Gr)

Os caras pintadas

Em uma recente entrevista concedida à imprensa americana, os integrantes do Kiss afirmaram que Lady Gaga é a única estrela do rock atual. a cantora também já admitiu gostar muito do grupo e acredita que seus fãs mereçam shows com espetáculos, fogos, luzes piscando e muita maquiagem. Eles se apresentam em são paulo, rio de Janeiro e porto alegre, só que em dias diferentes. E quem sabe a banda e a cantora não arranjam um tempinho para se encontrar nas terras tupiniquins? se depender deles, tudo pode acontecer! (Clariana Zanutto)

Interpretação

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Interpretação | drops | ideiaS guardadaS Com edição de Cezar de almeida e Roger Bassetto e
Interpretação | drops | ideiaS guardadaS Com edição de Cezar de almeida e Roger Bassetto e

ideiaS

guardadaS

Com edição de Cezar de almeida e Roger Bassetto e introdução de arnaldo antunes, os rascunhos, desenhos e pensamentos de lourenço Mutarelli foram compilados em A vida com efeito – Os sketchbooks de Lourenço Mutarelli. as páginas dos cadernos do escritor e quadrinista são reveladas pela primeira vez nesta coleção de cinco volumes, apresentando uma viagem por lugares desconhecidos, por uma mente criativa e instigante. (cz)

TchAu, TchAu!

Quem estava com saudades (e quem também não aguentava mais) da saga dos vampiros mais pop de todos os tempos terá uma grande razão para comemorar: dia 15 de novembro chega aos cinemas a última parte da série, A saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2. Após o nascimento de Renesmee, filha de Bella Swan (Kristen Stewart) e Edward Cullen (Ro- bert Pattinson), os Cullen se unem a outros clãs de vampiros para prote- ger a criança dos Volturi. Com o fim da trama, o jeito é esperar a estreia da adaptação de Cinquenta tons de cinza para o cinema, publicação que era uma fan fiction de Crepúsculo, ou seja, foi baseada na história de amor entre Bella, Edward e Jacob. (cZ)

CAPETA DANçANTE

Quem acompanha a carreira da norte-americana Amanda Palmer sabe que é difícil separar a força da sua música da força de sua performance. Em Theatre Is Evil não é diferente. No novo álbum feito com a banda The Grand Theft Orchestra, ela imprime, com propriedade, experimentalismo, agito e drama. (GR)

Sob a direção de Regina Braga, a cantora e compositora Zélia Duncan estrela o espetáculo TôTatiando, inspirado na obra de Luiz Tatit. A can- tora dá voz ao rico material produzi- do pelo compositor. “Não é show. É a proposta de representar algumas de suas músicas”, explica. Após a tempo- rada em São Paulo e em Belo Horizon- te, o espetáculo segue neste mês para Curitiba (dias 10 e 11) e Rio de Janeiro (27 e 28, além de 4 e 5 de dezembro). (GA)

fotos: divulgação

JovEM soBRE MuRo dE BERliM No dia dE sua quEda / alEMaNHa, NovEMBRo dE 1999
JovEM soBRE MuRo dE BERliM No dia dE sua quEda / alEMaNHa, NovEMBRo dE 1999
Ray MoNd dEPaRdoN/MagNuM PHotos/ la ti NstoCk BRasil©

Ícones da fotoGRafia

Henri-Cartier Bresson, Robert Capa, Philippe Halsman e Werner Bischof. Esses são apenas alguns dos principais nomes da fotografia mundial, cujos trabalhos mais importantes fazem parte do livro Mag- num – Contatos, da famosa agência internacional de fotografia. a publicação apresenta 435 imagens de mais de 69 profissionais, retratando fatos históricos e marcantes do mundo de 1930 a 2010. (ga)

Janelas

abertas

O clássico cine São Luiz, em Recife, abriga, do dia 9 a 18, a quinta edição do Janela Inter- nacional de cinema do Recife, festival que, neste ano, apre- senta na mostra competitiva de curtas-metragens 52 produções, entre nacionais e internacionais. O grande destaque do festival é a retrospectiva com dez ícones da sétima arte, como O leopardo, de Lucchino Visconti, e Taxi Driver, de Martin Scorsese. (Gr)

GUARDE ESSE NOME:

LiLiAN MAiRA

o rosto já não passa despercebido pela cena de Campo grande, Mato grosso do sul, onde se apre- senta em bares e saraus. Com apenas 21 anos, li- lian Maira não tem nenhum contrato com gravadora e nem EP gravado, embora isso faça parte de seus planos. faz tudo na base da raça e boa vontade, registrando suas composições em um gravador ca- seiro e disponibilizando vídeos no youtube. Nada que impeça o reconhecimento de seu talento, ex-

teriorizado em canções, na maior parte, intimistas, como O jardim de casa e Sonhos humildes. “sou uma pessoa movida pela intuição na minha música,

nos meus caminhos

acho que por isso a músi-

ca sai leve e sutil, que nem a alma e as intenções. sou amor da cabeça aos pés, uma espatifada ro-

mântica”, conta a artista, que, além da carreira solo, prepara para levar a outros estados o show Girem os sóis, com a banda os Caramujos. (gr)

draMa

argentino

Com Ricardo darín e Jérémie Re- nier no elenco, o longa argentino Elefante branco retrata a villa vir- gen, um dos locais mais violen- tos de Buenos aires, que, comu- mente, costuma ser deixado de lado da vida portenha. diante de tamanha degradação e da polí- cia corrupta que nada faz para melhorar a situação, dois sacer- dotes se unem para “salvar” os moradores, mesmo que isso co- loque suas vidas em risco. (ga)

inspiração na natureza

Já são 40 anos em que a artista Miriam Mamber se dedica a criar joias com os mais inusitados ma-

teriais, incluindo fungos, sementes

e outras matérias-primas. O con-

junto de sua obra pode ser conhe- cido no livro que leva o seu nome

e será lançado neste mês. (G r )

| entrevista | marcelo adnet

Tesões múlT iplos Por Clariana Zanutto fotos melissa haidar
Tesões
múlT
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Por
Clariana
Zanutto
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M arcelo Adnet tem mais de 1 milhão de seguidores no Twitter e provo- ca

M arcelo Adnet tem mais de 1 milhão de seguidores no Twitter e provo- ca risos até com a apresentação pre- sente no perfil da conta. A profissão?

“Exportador de nióbio e professor de papia- mento.” Tudo fictício, claro, mas nem tanto. Porque Adnet não é professor, mas de fato sabe falar papiamento, língua que aprendeu em uma recente viagem para Aruba. Aos 31 anos, o ator e comediante carioca da zona sul se divide entre a apresentação dos programas Comédia MTV e Adnet viaja, ambos da MTV Brasil, a preparação para a estreia do filme Os penetras, que entra em cartaz dia 30 deste

mês, o casamento com a também humorista

Dani Calabresa, o futebol com os amigos e

a ponte aérea Rio-São Paulo. São tantos os

compromissos que tivemos de marcar duas datas para fazer esta entrevista: a primeira para o bate-papo, e a segunda, três semanas depois, para as fotos. Com 12 filmes em seu currículo, Os pe- netras marca uma nova fase na vida de Ad- net: a de participar da produção do roteiro do filme e, consequentemente, parar para pensar e elaborar muito melhor os seus projetos. Ao longo de três meses, ele, o di- retor Andrucha Waddington, o também ator e comediante Eduardo Sterblitch e o roteirista Marcelo Vindicatto quebraram a cabeça juntos para montar o roteiro a mui- tas mãos. “Foi muito legal. Uma, duas vezes por semana a gente se reunia durante algu-

mas horas, lia, dava várias sugestões, escre- via alguma coisa junto, relia, botava alguns pontos, mudava, mudava”, conta ele, que in- terpreta no longa o malandro Marco Polo. Na conversa a seguir, Marcelo Ad- net não fala apenas sobre o novo fil- me e sua carreira. Opina sobre o papel atual do humor nas mídias, as neces- sárias mudanças de fases da vida e conta

o que lhe dá tesão – em todos os sentidos.

| entrevista | marcelo adnet

Soube que a identificação com o projeto de Os penetras e com o Andrucha Waddington foi quase imediata. Foi assim mesmo? Ele [o Andru-

cha] me ligou e logo de cara eu já queria fazer o fil- me, mesmo antes de me familiarizar bem. Traba- lhei com vários diretores da Conspiração Filmes, mas com ele ainda não tinha feito nada. E sempre ouvia os mitos sobre o Andrucha, essa mitologia ‘Andruchiana’, além do fato de achá-lo um ótimo cineasta. Então ele me mandou o roteiro, a gente já começou a se encontrar, lemos o roteiro algumas vezes com algumas duplas e depois chegou o Edu [Eduardo Sterblitch]. Quando o Edu leu, a gente não teve a menor dúvida de que ele era o Beto. E aí

a gente criou o filme junto, em três meses.

Mas o roteiro não estava pronto já? Já existia um roteiro. A gente foi aprimorando e fazendo a oito mãos: Edu, Andrucha, o roteirista Marcelo Vindicatto e eu. Tivemos três meses pra isso. Foi muito legal. Uma, duas vezes por semana a gente se reunia durante algumas horas, lia, dava várias sugestões, escrevia alguma coisa junto, relia, bo- tava alguns pontos, mudava, mudava. Depois, na hora de filmar no set, a gente mudava de novo e, no momento do ‘ação’, o Edu e eu improvisávamos uma coisa e outra.

E como foi esse seu primeiro trabalho com o

Andrucha? Foi um filme que teve essa carac- terística de ser bem aberto, bem vivo, e isso é

muito legal. A melhor coisa de trabalhar com

o Andrucha foi isso. Para pessoas tão autorais e

irrequietas como o Edu e eu, trabalhar com um cara assim é muito bom. O filme é dele, mas ele não pegou tudo para si e resolveu sozinho – ele abriu muita coisa pra gente.

Foi uma liberdade de criação que você nunca teve antes então. Não porque não deixaram, mas

é que antes, em outros projetos, o envolvimento foi

menor, tive menos tempo. O fato de a gente ficar três meses na mesa antes criou um grande envol- vimento. Quando se cria algo assim, cria-se um in- teresse. Aí você quer que dê certo e trabalha para aquilo acontecer.

A preparação para o seu personagem, Marco

Polo, aconteceu durante esses três meses ou você começou assim que terminou o roteiro? Ao lon- go desses três meses, a gente preparou mais que os personagens, a gente preparou o filme inteiro. Então, meu personagem está lá não para contar a história dele, mas para contar o filme. Eu, por me

envolver tanto, por saber a história de trás pra fren- te, frente pra trás, cena por cena, me foquei não no meu personagem, sabe? Mas no todo, e isso é também uma grande diferença. Às vezes, você vai participar de um filme e foca em se destacar. Nesse caso, havia horas pra gente se destacar, claro. Mas

o principal era contar a história que a gente criou.

E trabalhar com o Eduardo, como foi? Porque parece que a parceria entre vocês funcionou muito bem. Foi muito legal! Ele é um cara único, um cara louco, que tem um humor realmente di- ferente, só dele, uma estranheza, uma insistência, um surrealismo, uma anticomédia às vezes. Então foi ótimo estar com um cara que é muito bom e que, quando você faz uma dupla, você tem ali todo um espelho que o cara joga pra você e você joga pra ele. E foi muito legal porque criou mesmo uma intimidade, a gente se manda mensagem, se fala,

vê o trabalho um do outro, às vezes dá um pitaco. E tem uma coisa que fica além. E isso é muito bom

E tudo graças a esse processo de envolvimento.

Como você imagina que o espectador irá se identificar com a história do longa? O meu per- sonagem é bem Copacabana, bem Rio de Janeiro, picareta. O Edu é mais o interiorano maluco, es- tranho. Mas acho que as pessoas vão se identificar muito com o Edu, com a situação dele, porque é um personagem que tem muito carisma e você torce por ele. E comigo vão se identificar porque, puta, já conheço um cara que é meio parecido, meio picareta, meio safado, meio malandro. Então, são figuras completamente opostas, que no meio do filme se cruzam e se encontram num lugar, mesmo começando no oposto. O filme se passa mais ou menos em 48 horas. São os dias 30, 31 de dezembro e o início do dia primeiro do ano.

Muitos atores falam que a crítica pega pesado com os filmes nacionais de humor. Você concor- da? A crítica é livre, é profissional e não pessoal. Tem que saber lidar, tem que respeitar qualquer tipo de crítica, qualquer manifestação. É como se um jogador entrasse em campo e falasse: “Não me vaiem, não me chamem de viado”, sabe? Vão cha- mar você de viado, vão te vaiar. As pessoas hoje veem televisão com o Twitter acessado para falar mal da programação. O VMB mesmo, o prêmio Multishow, toda premiação, é uma coisa para des- truir o cabelo, o nariz, a roupa, a piada. As pessoas gostam disso, de destruir o próximo. Então, acho que todo mundo que se expõe está pronto para ser detonado, destruído, pisado, massacrado, o que for.

ser detonado, destruído, pisado, massacrado, o que for. Você percebe alguma dificuldade em fazer co- média
ser detonado, destruído, pisado, massacrado, o que for. Você percebe alguma dificuldade em fazer co- média

Você percebe alguma dificuldade em fazer co- média no cinema? A gente tem uma dificuldade no Brasil de achar o tom da comédia no cinema. Porque a gente faz muita comédia em TV, mas quando se faz um filme, quase que se transfere a TV para o cinema, parece um episódio do seriado esticado. E é difícil acertar o tom. A língua portu- guesa é caricata e traz estereótipos com ela. A ma- neira como você escolhe como vai falar já te joga num registro. Temos ótimos elencos, diretores, produtoras, intenções. Já foram feitos filmes ruins, às vezes, porque o registro do humor é uma coisa complicada. A gente gosta de demonstrar mais hu- mor do que de criá-lo na situação.

E como você avalia o humor nas diversas mí- dias brasileiras? Nunca, na história deste país, fizemos humor tão intensamente quanto hoje. Tudo tem humor. O cara vai vender absorvente e ele quer fazer um comercial engraçado. O cara vai vender metralhadoras, quer fazer um comer- cial engraçado pra vender. Hoje se dá uma im- portância aos comediantes no sentido de serem grandes embaixadores da verdade ou da críti- ca. É uma fase que vai passar, é claro que ela vai marcar, mas vai diminuir um pouco esse frisson.

Você acredita que o crescimento do stand up comedy representa um ótimo momento para o humor? Hoje em dia, há pessoas que fazem stand up que surgem do nada, sabe? A famo- sa frase, “Volta pro escritório, Praxedes”. Às

As pessoAs hoje veem Televisão com o TwiTTer AcessAdo pArA fAlAr mAl dA progrAmAção. é

As pessoAs hoje veem Televisão com o TwiTTer AcessAdo pArA fAlAr mAl dA progrAmAção. é umA coisA pArA desTruir o cAbelo, o nAriz, A roupA, A piAdA. As pessoAs gosTAm disso, de desTruir o próximo. enTão, Acho que Todo mundo que se expõe esTá pronTo pArA ser deTonAdo, desTruído, pisAdo, mAssAcrAdo, o que for

pArA ser deTonAdo, desTruído, pisAdo, mAssAcrAdo, o que for vezes, o cara fez um texto legal,
pArA ser deTonAdo, desTruído, pisAdo, mAssAcrAdo, o que for vezes, o cara fez um texto legal,
pArA ser deTonAdo, desTruído, pisAdo, mAssAcrAdo, o que for vezes, o cara fez um texto legal,

vezes, o cara fez um texto legal, mas ele não é um comediante, não é uma pessoa engraçada, mas fez um texto “oi e pá e tal”. É um momento muito bom na verdade, é um momento demo- crático, que você pode se filmar em casa e colo- car na internet. Não depende de patrocinador, não depende de emissora e de nada. Mas, junto com isso, vêm coisas como a superexposição. Tem bastante coisa ruim no meio das coisas boas, o que é natural.

Como você encara a reação dos artistas que fi- cam bravos com imitações? Também acho que

é a livre manifestação de opinião. Todo mundo

é livre pra achar o que quiser e agir como qui-

ser. Comigo nunca aconteceu. Às vezes, acho que tem que ter um cuidadinho envolvido. E às vezes, o cara vê como uma homenagem, e não uma sacanagem. Tem a sacanagem e a home- nagem, e a fronteira é difícil de definir. Mano Brown, Dinho Ouro Preto, Zé Wilker são gran- des figuras que poderiam ficar bravas. Quando a pessoa não é muito famosa, ela fica feliz, mas, quando é consagrada, tem mais chances. Mas nunca aconteceu isso comigo.

Você ficou conhecido pelo programa 15 mi- nutos, no qual imitava várias personalidades. Sente falta dessas imitações? Não sinto a menor falta de imitar as pessoas, engraçado isso. Acho que fiquei de saco cheio de fazer imitação, sabia? Você me viu fazer 12 imitações, mas eu vi todas.

Na verdade, a primeira vez que te vi foi no filme Pode crer, e lá você também imitou uma ou duas pessoas. Ah! Do próprio filme. Aí é legal, é inte- ressante. Não é porque acho ruim, cafona, passado, não é nada disso. Mas é uma questão de saturação mesmo. A gente gosta de fazer coisas diferentes. O 15 minutos eu achava ótimo, achava muito legal, tenho saudade sim de receber um e-mail maluco e ter de fazer devaneios. A gente cansa das coisas, né? Já fiz tanto isso. Não é por vaidade, é sincero, sabe? Amanhã, posso querer de novo, mas não tenho mais vontade, não é uma coisa que me dá tesão.

E o que te dá tesão hoje? Hummm!

No trabalho (risos)! Ah tá (risos)!

Mas, se quiser, pode falar na vida íntima tam- bém (risos)! Essa é uma ótima pauta. Hoje, o que me dá tesão é pensar e criar. Mais do que pensar, criar. Por mais que eu tenha feito bastante, ainda gosto de fazer música. Mas isso que a gente fez em Os penetras ainda me atrai muito. O fato de poder trabalhar um roteiro, trabalhar uma ideia, mais do que chegar aí e ligar a câmera e vamos fazer. Sem- pre fiz improviso pra caramba, então, talvez ago- ra seja o momento de pensar mais, de criar mais, roteirizar as coisas. Pensar nelas assim. Mas tenho múltiplos tesões profissionais!

? Na vida sexual, con-

centro o meu tesão na Dani; na vida profissional,

Então, e na vida íntima

sou uma devassa, porque tenho tesões múltiplos. Gosto de falar sobre esporte, de fazer música. Fiz stand up agora, os últimos foram em Miami, Curaçao e Londres. Fiz um em espanhol, um em papiamento e um em inglês. Isso foi um puta te- são pra mim. Porque era fora do país e ninguém me conhecia, ninguém tinha me visto na vida. Era um renascimento, uma coisa do zero. Isso me deu um puta tesão.

E como foi fazer um show em papiamento,

aprender o idioma? Fui para Aruba um dia e cheguei lá de noite. Quando acordei, vi aquele lugar lindíssimo e as pessoas falando uma língua que era muito engraçada, muito fácil de enten- der e uma mistura de inglês, espanhol, portu- guês, holandês e um pouquinho de índio lá da ilha. E como adoro línguas estrangeiras, comecei

a falar com as pessoas e comprei o jornal de lá

para entender. Não existe uma gramática de pa- piamento, “aprenda a falar”. Você não encontra, não existe. Então comecei a ouvir várias músicas, músicas caribenhas, e aprendi na marra, enten- de? Foi assim que rolou.

A sua apresentação em Londres foi durante as

Olimpíadas. Como foi a experiência de gra-

var o programa por lá? Pô, foi ótimo. Foi muito legal estar em Londres pela MTV, com a Dani

e o Bento. Mas tem uma diferença entre o que

é experiência pessoal e o que vai pra TV. Falo

de experiência pessoal porque a gente estava lá

| entrevista | marcelo adnet

e nem viu os Furos [Furo MTV] diários no ar.

Eu vi o Adnet em Londres, gostamos da expe- riência de fazer o stand up num pub e viver aquela onda londrina. Foi o máximo, adorei.

E tem também o seu novo programa, o Adnet

Me dá um super tesão também. Tem

a experiência pessoal, a TV e o fato de trans-

formar 20 horas de material em 20 minutos. É muito difícil. A partir do programa de Aruba, comecei a entrar na edição também, e aí é uma coisa que toma um baita tempo.

viaja

Quais os lugares que visitou com esse novo programa? Miami, Jamaica, Aruba, Bósnia, Itália e Portugal.

Qual foi o mais legal? Bósnia.

Deve ser bem diferente! Exato. Pela surpresa. Eu conhecia várias coisas de lá. Escolho lugares com que tenho identificação.

Falando um pouco do seu relacionamento com a Dani, muita gente deve imaginar que com vocês é comédia o dia inteiro, já que os dois são humoristas. Não é assim, né? Temos aqui a teoria do Cesar Cielo que é a seguinte:

de segunda a domingo, ele nada de 8 a 10 horas por dia, treinando. Quando ele sai da piscina, ele não quer entrar na piscina de novo. Imagina que ele chega em casa e “porra, vou dar uma nadada”. Então, todo mundo precisa de equilí- brio na vida. Quando a gente chega em casa,

dá risada, cria coisas juntos e tal, mas tem uma coisa de cansaço mesmo, e precisa baixar a bola. Claro que você não é 24 horas. Os grandes co- mediantes que fazem há muito tempo comédia são quase em sua totalidade loucos, ranzinzas, isolados e complicados, porque o comediante é

a sua própria piscina. Para nadar, o Cielo preci- sa de uma piscina, mas o comediante nada em

si mesmo, “imita aí, vai, faz”. Às vezes, a gente

fica um pouco exausto. Porque é o nosso traba- lho, e isso se confunde.

E quando você está na rua, supercansado, e

chega alguém e pede uma imitação. O que você pensa numa hora dessas? Penso em muitas coi- sas, dependendo da abordagem da pessoa. Se for uma abordagem educada, você é educado de volta. Mas você tem que relativizar. Já passei por pessoas que fiquei feliz de vê-las. Então, procuro ser – mesmo que esteja cansado, apressado, mal

procuro ser – mesmo que esteja cansado, apressado, mal humorado ou triste – sempre bacana, porque

humorado ou triste – sempre bacana, porque não sei qual é a relação que aquela pessoa tem comigo. Talvez seja uma boa relação.

E quais são as suas maiores inspirações entre

atores e comediantes do cinema e da TV? O Monty Python e a TV Pirata são uma grande in- fluência. Gosto muito do trabalho do Peter Sellers, mas não que eu olhe e diga: “Vou fazer igual”. É uma admiração. Passa a ser uma referência. Mas tenho uma inspiração mais direta com pessoas não famosas. Para fazer o Marco Polo, tem o meu amigo Pedrão, do Humaitá. Ele chama a própria casa de estrutura. A casa dele é supersimples. Ele fala assim: “Vamos passar na estrutura” (risos). No filme, tem uma hora que abro a porta da minha casa pro Beto e falo: “Bem-vindo à estrutura”. Uma influência direta do Pedrão. Quer dizer, é o cara e a galera lá da praia. E alguém joga mal lá na altinha e fala “puta, tá vindo o maior pé de macaco aí”.

Então você também bate uma bola? Jogo em Ipanema. Mas é altinha só, não gosto de correr na ponta direita, ficar marcando.

E seus próximos planos? Pode falar alguma

coisa? Ir pra casa, escrever a coluna de hoje pro jornal O Globo, entregar até às 9 da noite, pedir

pro jornal O Globo , entregar até às 9 da noite, pedir nA vidA sexuAl, concenTro

nA vidA sexuAl, concenTro o meu Tesão nA dAni; nA vidA profissionAl, sou umA devAssA, porque Tenho Tesões múlTiplos

sou umA devAssA, porque Tenho Tesões múlTiplos uma comida, fazer a refeição, escovar os dentes, passar

uma comida, fazer a refeição, escovar os dentes, passar o fio dental, ver um filme e depois, quem sabe, ir na internet e ver algumas coisas, fazer pesquisas, ver vídeos e dormir. Agora, planos profissionais, tô perdidaço editando o Adnet viagens; Os penetras ainda é um trabalho que exige um esforço final antes da estreia, de di- vulgar o filme, e a gente acredita muito nele. O Comédia também merece uma baita atenção, fazer mais clipes agora no final do ano, dar uma acelerada. Acho que isso já é o suficiente!

Em relação à investida de outras emissoras, rola muito? Rola de vez em quando, “Vamos conversar aí, um dia”. Numa ótima. Não é nada assim: “Temos uma mala com 100 mil dólares, pegue e assine”. Nada muito enfático, direto. É sempre “Vamos conversar, ver o que você quer, ver o que a gente pode fazer”. Acho isso muito honroso. Encaro sempre como uma oportuni- dade muito legal, não vejo com desdém.

O que você está ouvindo, vendo, curtindo ul- timamente? Estou em uma onda de ver filmes antigos, tanto americanos quanto italianos. Es- tou ouvindo música de Curaçao e Aruba e da Bósnia. E lendo, só revista da Gol, da TAM, pra lá e pra cá, além de fazer palavras cruzadas.

Ou seja, o lugar mais fácil para te encontrar é no avião. Sempre! Tô direto lá. Se tem um voo entre o Rio e São Paulo, a possibilidade de eu estar nele é de 13% (risos).

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| coluna | jairo bouer ILUSTRAçÃO: MARCELO CIPIS
| coluna | jairo bouer
ILUSTRAçÃO: MARCELO CIPIS

Por onde caminham nossos desejos?

F enômenos recentes, como o sucesso da trilogia Cinquenta tons de cinza, que já vendeu mais de 400 mil cópias desde julho no país – encarado por muitos como literatura “pornô soft”, com alguns requintes de crueldade e controle – e a su- perexposição na mídia que mereceu o leilão da virgindade da

garota catarinense Catarina Migliorini, 20 anos, em um reality show aus- traliano, geram uma reflexão interessante sobre o papel que fetiche e fan- tasia ocupam no imaginário dos brasileiros e como tudo isso pode trazer pistas reveladoras sobre como anda a sexualidade por aqui. Cinquenta tons de cinza conta a história de uma garota que se deixa seduzir por um homem mais experiente, rico e charmoso, que a guia por um novo mundo de descobertas sexuais. Muita gente viu no livro um tratado sobre fetiches e sadomasoquismo, embora a autora, Erika Leonard James, trabalhe muito mais a questão do controle. O grande “barato” de Mr. Chris- tian Grey era controlar a vida sexual de Anastasia Steele, 21, que, por sua vez, também tinha prazer em ser conduzida por ele nessa aventura. Conto de fa- das dos tempos modernos, em que valores como consumo, exibicionismo e exposição andam tão em alta? Talvez! De qualquer forma, o romance que vi-

rou febre entre as mulheres pode revelar o desejo que continua lá, escondido no imaginário feminino – apesar de todas as mudanças alcançadas nas últi- mas décadas – de se ver resgatada da mesmice sexual por um príncipe encan- tado que tudo conhece e tudo revela. Para muitos, a reação ao livro demons- tra, também, um “bê-a-bá” tão grande de nossa vida sexual cotidiana que qualquer possibilidade do minimamente diferente já causaria um alvoroço. Já o episódio do leilão da virgindade pode dar pistas de como alguns homens ainda enxergam essa questão. Segundo o site do projeto Virgins Wanted, a maior parte dos lances pelo “troféu” da garota – arrematada por um japonês por US$ 780 mil – foi dada por nossos patrícios, apesar de o programa ser gravado na Austrália. Por que será que os brasileiros ofereceram quase R$ 500 mil pelo hímen da catarinense, parte tão dis- creta da anatomia feminina que não tem nenhuma relação com o pra- zer sexual feminino e que se acreditava em baixa nos tempos recentes? Sim, porque, com a mudança dos hábitos e costumes das últimas gerações,

o que era interditado (a perda da virgindade antes do casamento) passou a ser

lugar comum. Hoje, a maioria das garotas tem suas experiências sexuais ini- ciais ainda nos tempos da escola. Eles e elas tendem a enxergar o hímen muito mais como empecilho do que como símbolo de um ideal a ser preservado. Por que, então, voltar ao século passado? Certamente não pelo prazer da mulher! Pela quantidade de dinheiro oferecida, imagina-se que os autores dos lances são também homens ricos, mais velhos e experientes, que talvez tenham uma fantasia de controle parecida com a de Mr. Grey, já que, na cabeça deles, deve ser mais fácil mandar em alguém e se exibir para uma pessoa que nada conhece do que para quem já está na estrada há algum tempo. E mais: poder expor essa conquista (disputada na adrenalina de um leilão) também deve ter seu sabor especial, ainda mais em um mo- mento em que o narcisismo masculino anda tão em alta. No fundo, porém, tanto o leilão como o livro podem revelar um lado mais empobrecido e, talvez, sombrio, dessa sexualidade masculina. Por que não “brincar” de igual para igual com alguém que saiba, conheça

e desafie, em vez de entrar em um jogo tão desnivelado de poder? Será

medo de lidar com as próprias falhas e inseguranças? Será receio de ar- riscar? Será que, na realidade, essa fantasia do controle, como acontece com a maioria dos fetiches, não limita de forma clara, em vez de ampliar (o que seria muito mais rico), as possibilidades, experiências e o universo sexual das pessoas mais crescidinhas?

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JAIRO BOUER É MÉDICO PSIQUIATRA E COMUNICADOR NA ÁREA DE SAÚDE E COMPORTAMENTO. UMA DE SUAS PAIXÕES, QUANDO NÃO TRABALHA, É CUIDAR DE TARTARUGAS

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| música |

bob marleY em DeZ temas

Documentário DirigiDo por Kevin macDonalD aborDa aspectos caros na obra Do ícone Do reggae, como religião, política, música, futebol, maconha, mulheres e amor

Por

guilherme

36 anos foram mais do que sufi- cientes para transformar Ro- bert Nesta Marley, nascido em 6 de fevereiro de 1945 no vila- rejo Nine Mile, da Jamaica, em

um dos maiores ícones da música mundial. Bob Marley faleceu em Miami, nos Estados Unidos, em 11 de maio de 1981, mas continua sendo re- verenciado mundo afora e teve a vida contada no documentário Marley, dirigido pelo norte-ameri- cano Kevin Macdonald, previsto para chegar aos cinemas brasileiros no final deste mês.

Música

Após mudar-se para a capital da Jamaica, Kingston, com 6 anos, indo morar em um dos bairros mais pobres, Trench Town, Bob Marley correu sérios riscos de entrar para as pesadas gangues locais, mas foi salvo, aos 16 anos, ao gra- var o single Judge Not. O primeiro sucesso veio em 1964, Simmer Down, com os The Wailing Wailers. A partir daí, outros sucessos se segui- ram, responsáveis por propagar o reggae pelos quatro cantos do planeta. “Marley foi o primeiro artista do então chamado Terceiro Mundo a con-

bryan ilustração

mauricio

planel

seguir projeção internacional. Hoje, com a força da internet, isso parece corriqueiro, mas, entre os anos 1970 e 1980, era impensável”, garante o jornalista Carlos Albuquerque, autor do livro O eterno verão do reggae.

Maconha

Da capa do álbum Catch a Fire, de 1973, a um pote colocado em cima da sepultura, a “ganja” – como é chamada pelos rastafáris a maconha, con- siderada por eles uma erva sagrada – também foi muito presente na vida e na obra do músico, tanto que a expressão aparece em canções como Ganja Jun e Legalize It, na qual garantia ser ela boa para gripe, asma, tuberculose e trombose. “A erva não aparecia apenas nas músicas de Marley, mas de todos os artistas que, como ele, seguiam os prin- cípios do rastafarianismo”, analisa Albuquerque.

Futebol

A paixão pelo futebol começou quando o Santos, de Pelé, foi jogar na Jamaica, e era tão de- clarada que ele fez parte da equipe local House of Dread. Além disso, na estátua que fizeram para ele em Kingston, Marley aparece com uma bola nos

pés. Talvez poucos saibam, mas, em 19 de março de 1980, o cantor esteve no Brasil e participou de uma legítima “pelada” no Rio de Janeiro, com os funcionários da Ariola contra alguns dos artistas contratados pela gravadora no Brasil, como Chico Buarque, Alceu Valença e Toquinho. “Ele era meio pé duro esforçado. Fazendo música e jogando

bola

O mesmo prazer da brincadeira e do im-

proviso. Continuar criança e brincando no plane- ta”, comenta o ator, cantor e compositor Evandro Mesquita, que foi convidado a participar do jogo pelo veterano Paulo Cézar Lima, mas chegou só quando a partida havia terminado e, mesmo as- sim, trocou alguns passes com o ídolo.

Mulheres

Logo no início da carreira, Bob Marley co- nheceu Alpharita Anderson, a Rita, que integrou o conjunto vocal I Threes, que acompanhava os Wailers. Com ela, que foi a mulher “oficial”, em meio a outros relacionamentos, o ícone do reggae teve quatro de seus 12 filhos, entre os quais estão os renomados Ziggy e Stephen Marley, além de Kymani Marley, Julian Marley e Damian Marley (vulgo Jr. Gong), que também seguiram a carreira

musical. “Bob Marley criou algumas canções per- feitas, como Is This Love e Waiting in Vain, mas, ao mesmo tempo que escrevia coisas inacreditáveis sobre a mulher e a relação com elas, era machista, sexista e batia nas esposas dele”, relata Toni Garri- do, vocalista da banda Cidade Negra.

Amor

O amor, tanto de um homem por uma

mulher como entre as pessoas, sempre esteve presente nas músicas compostas e interpreta- das por Marley. “One love! / One heart! / Let’s get together and feel all right”. “A música One

Love tem três leituras explícitas: pode ser ape- nas uma música de amor, uma leitura sexual de um casal e/ou um grito político e panfletário de

‘estamos juntos, somos fortes

Genial”, avalia Evandro Mesquita. Essa temática

apareceu também no álbum Kaya, de 1978.

Vamos à luta!’.

PAz

O ídolo maior do reggae pregava a paz, não

apenas em seu país, mas também em outros lugares, principalmente nas nações africanas, a ponto de fazer questão de se apresentar no Zimbábue, país ao qual dedicou uma canção em que afirma que todo homem tem o direito de decidir seu próprio destino. “Bob Marley era um guerreiro no sentido de transformar a socie- dade com suas palavras e gestos. A Jamaica de sua época vivia grande inquietação política. Na véspera da eleição entre os dois rivais, em um concerto, Bob intimou os dois políticos a subir ao palco e uniu suas mãos, clamando por paz entre os irmãos jamaicanos”, diz o radialista e músico Jai Mahal, especialista em reggae e inte- grante da banda Jai Mahal e os Pacíficos da Ilha.

GuerrA

“Até que não exista cidadão de primeira / E se- gunda classe de qualquer nação / Até que a cor da pele de um homem / Seja menos significante do que a cor dos seus olhos / Haverá guerra”, cantou Bob Marley, na música War, do álbum Rastaman

Vibrations, de 1976. “Ele era um cara que pregava

o amor universal e a paz, só que estava lá com o

Peter Tosh na base da luta armada, praticamente. Era um ativista político ferrenho e não necessaria- mente um pacifista”, descreve Garrido.

PolíticA

“Antes de fazer sucesso mundial (com a ajuda da gravadora Island, do conterrâneo branco Chris Blackwell), Marley já tinha enorme reputação na

Jamaica. Era um líder e abraçava as causas de sua terra de uma maneira quase messiânica”, garante Jai Mahal. Contar com o apoio de Bob Marley nas campanhas eleitorais, portanto, era um trunfo de- cisivo. Em 1976, ele topou realizar um show para

o candidato socialista Michael Marley, do Partido

Nacional do Povo. Porém, alguns dias antes, sofreu um atentado, que resultou em um tiro no peito dele. A esposa, Rita, foi baleada de raspão na cabe- ça, e o empresário, Don Taylor, levou cinco tiros. Era o mais nítido sinal de que ele estava incomo- dando, e muito, os conservadores.

reliGião

sou natural; não é

uma religião, é só uma coisa natural que a gente tem”, declarou Bob Marley em entrevista ao fotó- grafo e escritor Fikisha Cumbo, em 1975. Porém,

ele foi convertido por Rita à religião rastafári, que teve na Jamaica a primeira organização do planeta,

a Sociedade para a Salvação da Etiópia, que, desde

“Eu não tenho religião

a década de 1930, tinha como imperador Ras Ta-

fari Makonnen, mais tarde Hailé Selassié. A crença religiosa teve inúmeras manifestações na obra do músico, a partir do álbum Soul Rebels, de 1970, e teve papel fundamental na morte dele, vítima de um câncer que se espalhou por cérebro, pulmão

e estômago. “A causa mortis dele está totalmen-

te ligada à religiosidade. Ele sabia dos riscos que estava correndo e da importância que tinha vivo, inclusive”, enfatiza Toni Garrido, referindo-se à decisão do cantor de não amputar o dedão de seu

pé direito quando, em 1977, foi diagnosticado nele

o início do câncer chamado melanoma maligno –

que dali se ramificou para outras partes do corpo. Segundo a religião seguida por Marley, um corpo não deveria ser violado jamais.

SociedAde

Até hoje, as marcas de Bob Marley podem ser claramente percebidas na sociedade jamaicana, a qual fez questão de retratar em inúmeras músicas, caso de Trench Town, na qual descreve o ato de subir o rio Cane para lavar os dreadlocks (forma de manter o cabelo em espécies de bolos cilín- dricos, semelhantes a cordas, no topo da cabeça) numa pedra. “Ele vai ser sempre o grande ícone da cultura jamaicana, mas é ingênuo acreditar que as novas gerações não tenham seus próprios ídolos ou não ouçam seus próprios sons, que são bem diferentes daquele produzido por Marley em sua carreira”, garante Albuquerque. “Bob Marley é o Tom Jobim da Jamaica. As pessoas sabem da im-

portância dele e que é fundamental, maravilhoso e grande, mas não ficam falando dele o tempo todo

e nem o ouvindo”, conclui Toni Garrido, que gra-

vou e remixou discos lá e participou dos três mais

importantes festivais locais de reggae. c

Toni Garrido, que gra- vou e remixou discos lá e participou dos três mais importantes festivais

| economia |

QuAnto vAle o nosso idiomA?

Estamos acostumados a mEdir o valor Econômico dos objEtos a quE um idioma dá nomE, E não do idioma Em si. sE a língua portuguEsa EstivEssE numa pratElEira dE supErmErcado, Estaria Em um Empório dE luxo ou EsquEcida a um canto, Em promoção num mErcadinho?

Por

Wilgen

Arone ,

da

a lemanha

ilustração

orl A ndo

pedroso

U estudo sobre o valor idioma, solicitado pelo

Instituto Camões ao Insti- tuto Superior de Ciências

Trabalho e da Empre-

(ISCTE), em Portugal,

m

do

do

sa

revela que 17% do PIB do país equivalem a ativida-

des ligadas direta ou indiretamente à língua portuguesa. Apesar de o estudo não visar o Bra- sil, a pesquisa indica que o fenômeno se repete em coeficientes aplicáveis aos países lusófonos. O índice da potencialidade do idioma foi apre- sentado por atividades econômicas, levando em conta a importância relativa da comunicação e da compreensão em campos diferentes. O PIB de um ramo específico foi multiplicado para entender o valor agregado da língua portuguesa na economia, a partir do peso relativo das atividades com maior conteúdo de língua envolvido. Privilegiando, des- sa maneira, relações econômicas que exigem uma dada língua e descartando atividades que podem ser executadas por trabalhadores de outra nacio- nalidade ou competência linguística. As indústrias culturais têm um conteúdo linguístico muito forte. Portanto, ensino, cul- tura e telecomunicações seriam celeiros auto- máticos de atividades em que o idioma é pri- mordial. “Nas telecomunicações, precisamos da

língua em 100% para podermos nos comunicar.

Além dessas atividades, há outros ramos, como

a administração pública e o setor de serviços”,

explica José Paulo Esperança, professor de fi- nanças do Instituto Universitário de Lisboa e

coordenador do estudo O Valor Econômico da Língua Portuguesa.

Já o setor secundário, como a indústria, por

exemplo, atrai maior conteúdo de língua para

a economia como um todo. Por último, vêm as

atividades do setor primário, em que o peso de um idioma é menor ou só relativo. No Brasil, é

o que ocorreria, por exemplo, com a extração

de petróleo e de minérios, ou os agronegócios.

Apanhar morangos ou fazer algo similar, são atividades que podem ser executadas por um imigrante estrangeiro, que não tem conheci- mento do idioma.

O crescimento sustentado da última déca-

da fez o gigante da língua portuguesa saltar aos olhos globais. O Brasil virou protagonista das relações comerciais mantidas entre países lu-

sófonos, mercado que movimenta um PIB que passou de US$ 1,9 trilhão em 2009 para US$ 2,3 trilhões em 2010, diz o Banco Mundial. Já o PIB dos imigrantes de língua portuguesa em outros países gira em torno de US$ 107 bilhões (2009). Línguas diferentes são barreiras para a co- municação e o comércio, equivalentes a tarifas

que podem ir de 15% a 22%. Esperança acredita que a divergência linguística provoca complica- ções na hora de negociar. “Um livro, por exem- plo, escrito em outro idioma, precisa ser tradu- zido para ser lido em português. Neste caso, há um custo significativo, que encarece o produto.” Estudo da Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos (Apex), de 2011, mostra que os negócios realizados em lín- gua portuguesa cresceram 11,7% nos três anos anteriores. O fluxo do comércio entre o Brasil e os outros sete membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) pulou de US$ 6,5 bilhões em 2008 para US$ 7,26 bilhões em 2011. Países de língua portuguesa, princi- palmente Angola e Moçambique, são econo- mias grandes e em franco desenvolvimento, que oferecem inúmeras oportunidades de negócios para empresas brasileiras. “Há um grande inte- resse dos empresários brasileiros por estes paí- ses, o que certamente tem, em alguma medida, relação com a questão linguística”, exemplifica Rogério Bellini, diretor de negócios da Apex.

EMBAIXADOR DA LÍNGUA

O português, quinto idioma mais falado no mundo, está representado em todos os conti- nentes. Na Europa, ele é a língua oficial de Por- tugal; na África, de Angola, Guiné-Bissau, Mo-

çambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe; na Ásia, do Macau, ao lado do

çambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe; na Ásia, do Macau, ao lado do chinês; na Oce- ania, do Timor Leste; e, na América, do Brasil, país que, de acordo com o Banco Mundial, re- presenta 77% dos mais de 249 milhões de falan- tes do idioma. Mas o que tem feito a língua ad- quirir maior importância é o destaque político, econômico e cultural que a CPLP, em especial o Brasil, vem recebendo no cenário internacional. Mas aprender um idioma não é suficiente. Quem o faz tem que assimilar a cultura do país onde ele é falado. “A cultura brasileira tem ca- racterísticas próprias que, se bem entendidas e absorvidas, dão vantagens competitivas a quem

a absorve”, diz Susanna Florissi, diretora interna- cional da HUB editora. Empresas que estão in- vestindo no país procuram capacitar seu pessoal para que ele possa se comunicar e formar laços comerciais com seus clientes. “Só quando se fala

o mesmo idioma é que se pode construir um

relacionamento com parceiros de negócios. Se você trabalha com um tradutor, isso não acon- tece”, explica Sabine Klinkebiel, representante da América Latina da August Herzog Máquinas. Os benefícios para os falantes da língua não se limitam ao mundo dos negócios, mas chegam também à cultura de onde ela é fala- da. Exemplos são as novelas brasileiras, que se espalharam pelo mundo inteiro, assim como as

músicas. O idioma passa ainda a ganhar noto- riedade no planeta por meio de personalidades que o falam. Os mais conhecidos no momento, segundo a pesquisa do ISCTE, são o ex-presi- dente do Brasil, Lula da Silva, os jogadores de futebol Ronaldinho Gaúcho, Cristiano Ronaldo e Figo. Entre os literários, destacam-se Fernan- do Pessoa, José Saramago, Paulo Coelho, Amá- lia Rodrigues e Luís de Camões.

ApRENDIzADO DO IDIOMA

Segundo a revista inglesa Monopole , a lín- gua portuguesa está se firmando estratégica e economicamente de forma significativa. Exem- plos são a demanda crescente de curso de por- tuguês para estrangeiros, fluxo de jovens que participam de intercâmbio e o ensino da língua para filhos de imigrantes. Para se ter uma ideia, segundo Florissi, a procura de cursos de por- tuguês para estrangeiros teve um aumento de, no mínimo, 40% de 2011 a 2012 e o número de pessoas que presta o Celpe-Bras (exame oficial de proficiência em língua portuguesa vertente brasileira) não para de crescer. Uma das virtudes da internet para a língua portuguesa foi o feito de unir os falantes dos países lusófonos. Com essa integração, o idio- ma ganhou força e valor no mundo virtual. De sétima língua mais falada na web em 2007, o

português é hoje a quinta, ficando atrás apenas de inglês, chinês, espanhol e japonês, que, com exceção do Japão, possuem muito mais falantes do que os países da CPLP. O dado é da pesquisa Internet World Users by Language, de 2011. Há um ano, cidadãos portugueses residen- tes na Suíça enviaram uma petição ao governo português para assegurar o ensino da língua e

o acesso à cultura portuguesa para seus filhos. Na Alemanha, as aulas começaram a ser in- troduzidas no final dos anos 1990. Embora o português não seja um idioma regular como o

francês e o inglês, ele é oferecido, em alguns es- tados, para crianças cuja língua-mãe é o portu- guês. O aprendizado é destinado aos pequenos do ensino básico e até a décima série do ensino secundário. “Se essas crianças atuarem na área de importação e exportação, elas terão mais vantagens sobre outras crianças que tiveram

e não aproveitaram a mesma oportunidade. É

claro que, se uma criança domina um terceiro idioma, além do alemão, ela terá vantagens so- bre outras que não dominam”, diz Wolf-Jürgen Karle, do Ministério da Educação, Ciência, Es-

pecialização e Cultura da Renânia-Palatinado. Seja qual for o idioma, ninguém nega que o multilinguismo aumenta, mais tarde, não só as chances da vida profissional, mas também aju- da a fortalecer culturas.

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ilustração: carol grespan

| poesia |

a utilidade dos versos

ViVendo boa fase, embora ainda menos popular do que os demais gêneros, a poesia amplia seu espaço no mercado e assume até o papel de escape do mundo mais materialista

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E xistem livros

que parecem

ser mais co-

mentados do

que lidos. É

o caso, por

exemplo, de

Ulisses, ro-

mance do escritor irlandês James Joyce. Publicada em 1922, a obra revolucionou a literatura do século passado, sendo até hoje referência para diversos autores. Sua impor- tância e seu impacto o alçaram ao status de mito, e é comum ver pes- soas referindo-se a ele mesmo sem conhecê-lo plenamente. A poesia, se fosse um livro apenas, poderia

ser comparada ao efeito de Ulisses. Embora esteja presente há milê- nios em todos os lugares, não é no- vidade alguma para quem transita no meio editorial – ou mesmo para quem o acompanha à distância – que o gênero é pouco vendido e colocado de lado por editores e li- vreiros. De acordo com a terceira edição da pesquisa Retratos da Lei- tura no Brasil, realizada pelo Ins- tituto Pró-Livro em 2011 e cujos resultados foram divulgados em

março deste ano, a poesia está em sétimo lugar no ranking de prefe- rência dos leitores. Mas é também neste ano que tal gênero parece respirar novos e bons ares, tanto de popularidade como de recepção dentro das edito- ras, que não só iniciaram o proces- so de reedição das obras de nomes clássicos, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Ce- cília Meireles e Mario Quintana, como aumentaram suas apostas em autores contemporâneos já conhe- cidos, como Fabrício Corsaletti, Paulo Henriques Britto, Ana Mar- tins Marques e Antonio Cicero. Mas por que a poesia, que apa- rentemente é tão popular, é menos lida do que o romance e até mesmo do que o conto, gêneros que, teo- ricamente, exigem mais tempo do leitor? O crítico e poeta Antonio Brasileiro, que recentemente teve reeditado o seu volume de ensaios Da inutilidade da poesia e publi- cou a coletânea de poemas Desta varanda, diz que, “de modo geral, romances são mais fáceis de ler. Mas o que penso é que os verda- deiros poetas são bem poucos. E o

que acontece? Uma grande quanti- dade de pessoas publica poesia sem ter uma real vocação. Essas pesso- as julgam erroneamente a poesia, embora sejam, muitas delas, bem intencionadas. Daí a quantidade de livros que, na verdade, não são poe- sia – e, desse modo, não conseguem atrair os leitores. E aí vai todo mun- do pro brejo, bons e maus poetas são desprezados”.

RetRato pRomissoR

O editor Leandro Sarmatz, que cuida da reedição da obra de Drummond, expressa opinião oti- mista com relação ao espaço da poesia no mercado. “A poesia pode até ser considerada o ‘patinho feio’ em termos de divulgação e mer- cado, mas ela não está em maus lençóis. Se bem produzidos (como livro, como produto editorial), ou bem traduzidos, e bem trabalha- dos pelas próprias editoras, os li- vros contam com um público fiel e numeroso. Claro, é gênero de multidinhas, não de multidões. Mesmo assim, as vendas de bons livros de poesia são constantes, atravessam os anos.”

 

O catalisador, se assim pode-

recursos de que dispõe: intelecto,

 

mos chamar, dessa movimentação do nosso mercado editorial em

torno da poesia brasileira parece ter sido as reedições bem-sucedi- das das obras de grandes poetas, como João Cabral de Melo Neto

experiência, emoção, sensibilida- de, sensualidade, intuição, senso de humor, memória etc.” Para alguns estudiosos, os próprios escritores brasileiros teriam parcela de culpa pela não

principalmente os poetas. “É claro que há uma poesia para poetas”,

diz o editor Leandro Sarmatz, “as- sim como há um tipo de romance para romancistas. Uma produção mais arcana, mas elusiva, de ex- perimentação – fundamental para

e

Vinicius de Moraes, iniciadas

formação de um público leitor

a

literatura, mas que, claro, não

respectivamente em 2007 e 2008 por duas das maiores editoras que

colas. “O fato é que a poesia escrita

e

relido. O leitor do poema deve

no país. Um exemplo para rever- ter esse quadro foi o manifesto a

encontra grande eco junto a um público maior”. Porém, continua,

atuam no Brasil. Para Sarmatz, o aumento de vendas e a divulgação se devem principalmente a dois fa-

favor de uma literatura de entre- tenimento brasileira, divulgado em 2010 e assinado por escritores

“os bons poetas contemporâneos brasileiros – como Eucanaã Fer- raz, Carlito Azevedo, Francisco

tores: “A qualidade imensa de uma

e

editores como Lucia Betten-

Alvim, Armando Freitas Filho,

produção que atravessou o século

court, Angela Dutra de Menezes,

Angélica Freitas, Antonio Cicero

20 e veio, até hoje, influenciando

Celina Portocarrero, Luis Edu-

leitores assíduos e frequentes para

e

muitos outros – são bem lidos

sucessivas gerações de autores e

ardo Matta, Felipe Pena, Tomaz

e

conseguem atravessar essa fron-

marcando a vida dos leitores; e ao papel da escola – e das adoções escolares – na perpetuação desses grandes nomes”. Todavia, o poeta e filósofo An-

Adour, Barbara Cassará, Halime Musser, Ana Cristina Mello e Marcela Ávila. Afirmando estar “preocupados com a formação de

teira do experimental e pouco acessível sem, no entanto, barate- ar um centímetro de suas exigên- cias estéticas”. Mas o fato é que, mesmo com

tonio Cicero, um dos mais elogia-

a

ficção brasileira”, os signatários

todas as dificuldades relaciona-

tra animador. E é com otimismo

a

ser consolidada nos próximos

dos escritores brasileiros em ativi- dade, critica o fato de não serem formados leitores de poesia nas es-

sempre teve ardentes e fieis, porém poucos, leitores. Não se aprende a ler poesia, digo ler para dentro, não para fora, nas escolas brasi- leiras, o que é lamentável”, reforça

do chamado “Manifesto Silvestre” afirmam: “Os academicismos, jo- gos de linguagem e experimen- talismos vazios não nos interes- sam. Respeitamos a produção que segue estes parâmetros, mas nosso caminho é inverso”. Uma preocupação compreensível, haja vista o alto índice de analfabetis-

das à leitura que o nosso país apresenta, o panorama se mos-

que Ivan Junqueira, poeta, tradu- tor e crítico literário, membro da Academia Brasileira de Letras, vê essa espécie de retomada do gênero que, segundo ele, tende

ele, que foi um dos convidados da última edição da Flip, a Festa Li- terária Internacional de Paraty, e aproveitou a ocasião para lançar Porventura, seu mais recente livro de poesia. Mas o que seria ler para dentro? “O poema tem que ser lido

mo funcional entre os estudantes brasileiros. De acordo com estu- do divulgado pelo Instituto Paulo Montenegro em julho deste ano, apenas 35% dos estudantes do ensino médio do país têm o nível pleno de alfabetização. Mas nem uma coisa – o expe-

anos. “Não me parece tratar-se de moda, mas de uma aposta edito- rial não apenas na divulgação de nossos grandes poetas, mas tam- bém num indiscutível aumento de interesse dos leitores, o que é extremamente benéfico para um conhecimento mais amplo de nos-

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entrar na temporalidade do poe- ma, deixando que interajam uns com os outros, no tempo que para tanto se fizer necessário, todos os

rimentalismo de alguns autores – nem outra – o baixo número de leitores bem capacitados – deve ser empecilho para os escritores,

sa melhor poesia. Ademais, é pre- ciso entender que, quanto mais o mundo se torna materialista, mais necessária se faz a poesia.”

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| música | GEORGE, RINGO E LIZZIE! A HISTÓRIA DA BRASILEIRA QUE, EM 1968, AOS 16

GEORGE, RINGO E LIZZIE!

A HISTÓRIA DA BRASILEIRA QUE, EM 1968, AOS 16 ANOS, CANTOU COM OS BEATLES NO ESTÚDIO ABBEY ROAD. NO ANO EM QUE SE COMPLETAM 50 ANOS DO LANÇAMENTO DO PRIMEIRO SINGLE DO QUARTETO, ELA PREPARA LIVRO COM FATOS E FOTOS DOS ARTISTAS MAIS FAMOSOS DE TODOS OS TEMPOS

POR

cLAUdio

dirANi

–É apenas mais um dia de rotina. Faz zero grau. Estou à espera de ver mais uma vez “os garo- tos”. De repente, Paul McCartney sai do estú- dio. Do nada, ele pergunta: “Alguém aí con- segue sustentar uma nota aguda?”. Respondo:

“Sim, eu consigo”. Algum tempo mais tarde,

Mal [o assistente Malcolm Evans] me guia até Paul. Ele explica o que quer de mim e mostra a música ao piano. John toca violão.

– Você vai cantar: “Nothing’s Gonna Change My World, nothing’s gonna

change my mind (sic)”. Isto é um teste. À noite, volto para gravar “pra valer”.

– Volto para o “gelo” da rua. As inglesas resmungam: “Você não podia

ter ido, não é britânica”. Rebati: “Alguma de vocês canta?”. Se calaram. Os

Beatles voltam. John brinca comigo: “E aí, cantora

Vamos lá, você está

agendada para as oito!”. Mal Evans está de volta para me levar ao Studio

Three. Os Beatles estão lá, com Mal e Neil [o produtor Neil Aspinall]. George Martin fica mais na sala de controle.

Three. Os Beatles estão lá, com Mal e Neil [o produtor Neil Aspinall]. George Martin fica

FOTOS: DIVULGAÇÃO

FOTOS: DIVULGAÇÃO – Antes de ensaiar, soltam piadas e improvisam bastante. George acende alguns incensos. Não

– Antes de ensaiar, soltam piadas e improvisam bastante. George acende

alguns incensos. Não consigo reparar

Paul e George se reve-

zam na bateria de Ringo e fazem muita

Estou com blusa estampada

laranja, e uso um desses crachás com le- tras miudinhas: “Sexo demais deixa você míope”. John usa calça preta, suéter preto e camisa estampada. Ele lê meu crachá e faz uma careta engraçada (risos) – Hora de trabalhar. Falta uma voz para reforçar o coro. (Tanto eu como minha amiga londrina, Gayleen Pease, cantamos em coral). Peço para chamar a Gayleen. Paul mexe em meus cabelos para ajustar o fone de ouvido. Primeiro, divido o microfone com John. Ele in-

siste: “Chegue mais perto do mike [modo coloquial de abreviar, em inglês,

mais perto!”. Depois, repito a dose com Paul. Subimos à

sala de controle, onde agora gravamos sozinhas e ouvimos o playback.

microphone]

em mais nada

bagunça

Todos nos elogiam. Paul pede para eu “cantar em brasileiro” (risos). Nada feito! Ringo e George brincam comigo, mas o assunto é mais com John e

Paul. Quase três horas no estúdio

As palavras acima são de Elizabeth Villas Boas Bravo, carioca da Penha e fa- nática pelo quarteto desde os 13 anos. Foram escritas em 4 de fevereiro de 1968 no diário intitulado por ela de A Day In e Life – Diário de Lizzie Bravo. Na época, vivendo em Londres, Lizzie seguia os Beatles onde fossem. Naquele dia, foi escolhida para fazer coro na canção Across e Universe, cuja versão com a sua voz está no disco de caridade No One’s Gonna Change Our World, de 1969.

Foi rápido demais!

COME TOGETHER

Rio de Janeiro, Jardim Botânico, 2012. Lizzie Bravo está em seu escri-

tório, de onde vislumbra o Cristo Redentor, mergulhada em fotos, diários,

Um rico scrapbook dos tempos em que viveu na capital

inglesa, entre 1967 e 1969. Finalmente, o livro Do Rio à Abbey Road (cerca de 300 páginas) está próximo de chegar ao mercado (a previsão é para o início de 2013), em português e inglês, com introdução do historiador britânico Mark Lewisohn, autor de e Complete Beatles Chronicle e da biogra a, em três volumes, e Beatles – e Complete Story. Quem olha para o passado da autora – eternizado pelos momen- tos partilhados com o grupo desde sua chegada à Inglaterra –, nem calcula o que ela passou para gerar o seu “bebê”. “A primeira vez que

ensaiei escrever foi em 1980

mas a morte de John não me permitiu

cartas, discos

continuar”, desabafa a hoje secretária do músico Chico Adnet. “Muito tempo passou, mas decidi registrar a história que mudou totalmente minha vida”, reflete Lizzie, que ganhou do pai, Luiz Carlos Bravo (ex- -funcionário da Encyclopædia Britannica), a passagem para ir a Lon- dres na adolescência. “Naquela época, ou você ia para a Europa ou

fazia baile de debutante. Tínhamos boas condições financeiras. Mi- nha amiga Denise (Werneck) foi primeiro, e, logo em meu primeiro

Na página ao lado, Lizzie Bravo e John Lennon posam para foto no estacionamento do Abbey Road, em 1969; acima, Lennon clicado por ela em frente a casa de Paul McCartney, em 1967; e a brasileira em frente aos estúdios, em 1969. No detalhe, botom utilizado por ela durante a gravação de Across The Universe

FOTO: divulgaçãO

| música |

dia por lá, consegui ver os quatro!”, relembra a fã, que transmitiu à atriz e cantora Marya Bravo (filha de seu casamento com o maestro pop Zé Rodrix) toda sua devoção pelos Beatles. Ao aterrissar na Terra da Rainha, Lizzie jogou as malas em um alber- gue na Noel Street. Sem hesitar, seguiu para a Abbey Road guiada pela amiga Denise, que já sabia que os astros estavam por lá. “Sentamos na

escada e, de repente, ouço uma voz familiar: ‘Com licença?’ Era John Len- non, acompanhado pelo Ringo Starr. Minutos depois, apareceram Paul McCartney e George Harrison”, conta. O registro desse momento, aliás, está em uma luva, usada para tirar a poeira do Rolls-Royce Phantom V de John. “Guardo a luva até hoje. Nunca lavei.” Apesar de trocar poucas palavras com os músicos naquela tarde, Li- zzie – que acabara nos braços do assistente do grupo, Mal Evans, choran- do de emoção – repetiria a peregrinação diariamente, até 1969 (com um breve intervalo, em 1968, para retornar ao Rio), nos horários de folga de suas atividades pela cidade – ela trabalhou como camareira em um hotel

e também como au-pair [um tipo de babá] em residências.

WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS

A hoje psicóloga Denise Werneck dá o seu lado da aventura: “Diria que foi meu maior desafio, chegar sozinha, aos 15 anos, e descobrir tudo. Foi uma enorme alegria levar a Lizzie para ver o John”, conta. Denise se recorda muito bem do momento em que sua amiga foi convidada para a gravação no Abbey Road. “Fiquei felicíssima ao ver Lizzie entrar no estúdio, mas morri de inveja por não ter uma voz à altura de cantar com os Beatles”, brinca. Essa fábula pop é apenas um acorde, se comparada ao que estará nas pá- ginas de Do Rio à Abbey Road. Mais do que outro livro sobre os Fab Four, a publicação é costurada por detalhes extraídos dos diários de Lizzie e de seus amigos, como a própria Denise, e o inglês Gordon Bryce. Um dos pontos centrais é o relacionamento respeitoso com os The Beatles – algo que ela nunca sonhara em manter nos tempos em que ia ao cinema “namorar” os rapazes em Help! (assistiu ao filme cerca de 100 vezes!). “O Paul foi o Beatle com quem mais conversei. Foi algo que diria mais próximo de uma amizade”, destaca Li- zzie, que voltou a conversar com McCartney somente 20 anos depois, em um evento pré-show. “Eles eram muito normais, sem qualquer afetação. A simpli- cidade deles não me permitia vê-los como ídolos”, ratifica. John, George e Ringo também se relacionaram com Lizzie. Porém, de forma mais discreta. No caso de Lennon, ela revela: “Não lembro ter ganhado nada deles, a não ser em uma ocasião. Recebi um recado de An- thony Fawcett [assessor pessoal de John] para ir atrás de colheres e formas de bolo. Peguei com ele o dinheiro e comprei. Mais tarde, recebi uma co- lher de pau e uma forma autografadas por John e Yoko”, conta. Mas Lizzie ainda guarda diversos outros autógrafos dados por John – o seu favorito. Foi a morte de John Lennon, inclusive, o que motivou, na opinião do DJ americano Andre Gardner – que há anos comanda na Filadélfia

o tradicional programa de rádio Breakfast with The Beatles –, o fim

da relação próxima entre fãs e seus ídolos. “Antes, tudo era mais fácil. Os astros de rock eram muito acessíveis. As coisas mudaram após o

assassinato de Lennon”, reflete. Mas, ao rever as histórias – seja longe ou perto de seus amados –, Lizzie Bravo sabe bem qual é o único ponto divergente da letra de Across The Universe – música que fez sua vida girar há quatro déca- das: “Nada vai mudar o meu mundo”. Nada, a não ser a chance de ter participado da história dos Beatles.

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Paul McCartney fotografado por Lizzie na saída do Saville Theatre, em 16 de abril de 1967

Trechos dos diários

“O Ringo foi com ele – uma das meninas emprestou o guarda-chuva pra eles irem até o carro. Ele foi um amor. Paul saiu lá pelas 4h da manhã, casaco marrom claro até os joelhos, calça azul-marinho e pulôver vermelho. Falou com a gente um minutinho e foi embora” (22 de fevereiro de 1967)

“John saiu dos estúdios às 4h40 da manhã, com uma jaqueta na mão. Perguntei pra que servia aquela roupa, e ele me disse que era pra capa do disco novo. Virou o cabide pra me mostrar melhor” (28 de março de 1967)

“Estava quase dormindo em pé, com meu chapelão preto, John e Yoko olharam pra mim quando saíram. Tô muito cansada” (12 de agosto de 1969)

| coluna | karina buhr

| coluna | karina buhr O sabOr que mata e apressa G lutamato monossódico. Aquela coisa

O sabOr que mata e apressa

G lutamato monossódico. Aquela coisa que tem no tempero do miojo e em um monte de co- mida expressa, porque a gente tem muita pres- sa, pra deixar os sabores mais aguçados. Sabor já aguça, existe pra aguçar, não pra ser agu-

çado. Antes, tinha guerra. Dizia-se especiarias. Brigava-se por tempero. Nossos ouvidos e olhos, além de nossa goela, receptora de hormônios de galinhas inchadas, recebem to- neladas do tal aditivo. Senão, os apressados não são fisgados. A música precisa ser cada vez mais rápida e alta e só mais

rápida e alta. Não pra acrescentar, mas pra trocar, exterminar outras formas. Os peitos cada vez mais inflados, caso peque- nos sejam. Se forem grandes, o ideal é diminuí-los, pra depois inflá-los nos métodos atuais. O videoclipe de quatro minutos

é longo, a edição do filme tem que deixar o sujeito tonto. Não

é pra acrescentar, é pra trocar, pra acompanhar a estabanação

geral. O grande lance é nausear a criatura, pra emocioná-la. São Paulo contém glutamato. Aqui, até vereador gluta- mata. Ele abusa do tempero, ele não mata um, mata 36. O que é um, nos tempos de hoje? Cada vez menos com pausas, cada vez mais agonia, cada vez menos silencia. A campeã era a estação Sé, lá pelas 18h. Foi ultrapassada, coitada, por uma linha amarela. Saí do Butantã tranquila. Ia caminhando, pensando e o ônibus chegou chegando. Aquela lotação que a gente já conhece, mas achei todo mundo mais apressado na-

quele dia. Quando aconteceu um movimento de descida co-

letiva, fui junto. Não contrariaria o fluxo, eu estava tranquila. E fui levada, sem me esforçar, pra estação do metrô. Não pre-

cisava, mas ia ser bom pegar o metrô, chegaria mais

Ainda sem forças pra sair do fluxo, minha alegria era quan- do chegavam as escadas rolantes. Aí eu respirava tanto! Mas elas acabam um dia. Cheguei onde queria e todos queriam também, na Avenida Paulista. Fiz todo o percurso sem pres- tar atenção em nada, sem olhar uma indicação de sentido, só deixei fluir e, pela primeira vez, isso tinha um sentido ruim. Cheguei ao meu destino antes da hora. E fiquei esperando meu namorado, olhando o povo apressado. Outro dia, fui assistir de novo a um filme de que gostei muito, O sétimo selo. Me deu uma coceira no braço, uma sede, achei o sofá duro. Não conseguia desligar do dia, aí

rápido.

me deu um sono, irreal pra mim naquele horário. Decep- cionadíssima, levantei e fui dormir. Um desfecho medíocre na minha crise de abstinência monossódica. É um filme glutamato zero! É um filme força total, que bate na cara, mostrando que a gente talvez tenha perdido a capacidade de ser espectador que respira. Num ataque não habitual de otimismo, pensei que não! Um banho de mar pode resolver. Um banho de mar, com certeza, resolve. Só não sei quando vai dar, mas se tem algo que resolve, é um banho de mar.

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BAIANA, RECIFENSE, PAULISTANA E UNIVERSALISTA, Karina Buhr É CANTORA, COMPOSITORA, PERCUSSIONISTA, DESENHISTA (SIM, A ILUSTRAÇÃO PRESENTE NESTA PÁGINA TAMBÉM É DELA) E ASSINA A PARTIR DE AGORA ESTA COLUNA NA REVISTA DA CULTURA

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foto: Gareth Cattermole/Getty ImaGes for BfI

| miniping | tim burton

Tim BurTon:

o ressusciTador

for BfI | miniping | tim burton Tim BurTon: o ressusciTador E 1984, quando ainda dava

E 1984, quando ainda dava os primeiros passos no cinema, Tim Bur-

ton realizou, com patrocínio da Disney, o curta-metragem Franken- weenie. Após a finalização do filme sobre uma criança que ressuscita seu amado cãozinho, o diretor norte-americano – nascido em Bur- bank, Califórnia – foi demitido sob o argumento de que teria gasto os recursos do estúdio em uma produção sombria demais e sem apelo infantil. 30 anos e muitos sucessos de bilheteria depois, Burton, com 54 anos, retorna ao mundo de Frankenweenie com a ajuda de um time

animadores. Em um papo descontraído durante o lançamento do

filme no Festival de Cinema de Londres, vestindo nada além de preto e ostentando seu icônico penteado desgrenhado, o aclamado diretor de

clássicos como Os fantasmas se divertem, Edward mãos de tesoura e A noiva cadáver, explicou à

Revista da Cultura por que resolveu retomar essa história que considera “pessoal demais”.

m

de

O Frankenweenie atual surgiu de um curta- -metragem homônimo que você fez em 1984. Por que voltar ao seu passado, recu- perar essa história e fazer este filme? Quan- do fiz o curta-metragem, eu o fiz com ato- res reais. Mas, ao longo dos anos, voltei aos meus desenhos originais e percebi que pode- ria tratá-los com a técnica [de animação] de stop motion. Esse é um projeto muito pessoal. Comecei a lembrar meus anos de faculdade, as crianças da minha turma, os professores e desconhecidos que tiveram locais específi- cos em Burbank, minha cidade natal. A ideia central e a criatividade permanecem intactas, assim como a estrutura inicial, centrada na história de Frankenstein. Além disso, acres- centei novos personagens e monstros.

Mas, analisando o lado sombrio de seus fil- mes e o usual desenho de suas personagens, você afirmaria que suas memórias da infân- cia foram tão desagradáveis? Todos temos um passado. As pessoas acham que tenho uma tendência negativa em relação às minhas raízes, mas na verdade é exatamente o oposto. Quando era criança, sofria porque sentia que não pertencia ao local, ao bairro, à sociedade etc. E assim me escondia em um mundo de monstros, filmes ou imagens. Para mim, foi uma maneira de lidar com meus sentimentos, que às vezes, era positiva.

Mas essa história fez a Disney despedi-lo

há 30 anos

contratado por outro estúdio (risos). Na- quele tempo, tive a oportunidade de fazer um curta-metragem com a Disney, o que é incrível. Nenhum estúdio permitia a um di- retor gastar dinheiro fazendo curta. Aqueles anos eram muito lentos para a animação, comparando com os avanços de hoje em dia. Sempre serei grato, pois pelo menos eles me deixaram tentar.

Sim, mas também me fez ser

O diretOr nOrte-americanO que detesta HOllywOOd fala sObre seu nOvO filme, frutO dO amOr pOr um cãO e pOr frankenstein, e sObre Os mitOs que rOndam sua figura

Por

Pedro

Caiado

,

de

l

ondres

Podemos dizer então que sua infância afetou

As inspi-

rações e sentimentos que você tem durante a infância permanecem com você para sempre. Por exemplo, se você foi uma criança solitária, o sentimento de solidão continua de certa ma- neira, mesmo que você cresça, faça amigos, for- me uma família e se torne bem-sucedido.

sua visão e estética como cineasta

Que tipo de criança você era? Há muitas me- mórias minhas em Frankenweenie. Como o personagem Victor, eu gostava de fazer filmes em oito milímetros, também queria ser um cientista louco, porque soava divertido e não gosto de esportes. As memórias são engraçadas, porque, às vezes, não são exatamente como a realidade exata, parecendo mais com um so- nho. É um exercício interessante.

Você tinha um cachorro? Ele também morreu

e você tentou ressuscitá-lo? Eu tinha um ca-

chorro que faleceu quando eu estava com uns 3 anos, mas não tentei reanimá-lo. É um filme de fantasia (risos). Se você tem um animal de estimação quando criança, ele de alguma ma- neira se torna seu primeiro amor. A realidade é muito diferente da animação e, por isso, quan- do se trata de animais, há coisas na animação que você pode e que não conseguiria com um animal de estimação real. O stop motion tem suas limitações, mas, neste caso, senti que com essa técnica conseguiria uma versão mais pura.

E foi feito em 3D também. Queria fazê-lo em

3D, porque senti que a combinação de preto e branco, stop motion e 3D permitiriam aos es- pectadores apreciar melhor o trabalho dos ani- madores e todos os pequenos detalhes. Achei importante destacar a arte por trás do filme.

A pergunta que todos devem ter feito: por

que Johnny Depp não está neste filme? Ele es- tava ocupado (risos). Além disso, as pessoas re-

clamam quando trabalho com ele quando não trabalho com ele.

E também

Por outro lado, você volta a trabalhar com Wi- nona Ryder pela terceira vez. O que o atrai nela? Ela ainda se parece com uma menina de 10 anos (risos). Isso não mudou. Winona tem algo de es- pecial, algo que me fez conectar com ela há 24 anos, quando fizemos Os fantasmas se divertem. Só posso descrevê-la como uma pessoa de alma antiga. Foi o que senti quando a conheci. A me- lhor coisa deste projeto para mim foi poder vol- tar a trabalhar com ela, Martin Short, Catherine O’Hara e Martin Landau, com os quais havia tra- balhado no passado. Como era um projeto mui- to pessoal, foi ótimo estar com eles novamente.

Por que, assim como em outros filmes, você gosta de trazer os mortos de volta à vida? Não gosto, não estou em casa ressuscitando mortos (risos). Eles são fantasias. Se alguém me per- gunta se eu ressuscitaria meu cachorro, a res- posta seria não. Lembro-me de ter visto um ví- deo russo dos anos 1960, no qual experimentam manter viva a cabeça de um cachorro. Terrível.

Mas Tim Burton é um ser nostálgico? Não, neste caso, é apenas o visual do filme que é nostálgico. Não só vejo filmes em preto e branco como en- contro algo muito belo e comovente nesse estilo. Mas não passo o dia em casa revivendo memó- rias (risos). Não vejo nem meus filmes anteriores.

Nenhum deles? Não mesmo. Pensava que, con- forme o tempo passasse, iria ser mais fácil assistir aos meus trabalhos, mas tenho problema para as- sisti-los. Gostaria de conseguir, mas não consigo.

Os estúdios de Hollywood estão apostan- do em produções homogêneas e similares, enquanto seus filmes são muito pessoais e exigem um estudo por serem produções de grande orçamento. Como você analisa esse

quadro? Não sei. Acho que depende do tipo de filme. Frankenweenie não foi tão caro como são os filmes de animação hoje em dia. Os estúdios se sentem mais confortáveis se você oferecer um filme baseado em uma história em quadri- nhos. Mas isso nunca vai mudar.

Martin Landau explicou que você pediu para ele criar o personagem do professor como um “europeu”, sem dizer especificamente o que quer dizer ser europeu. O que significa isso para você? Não tenho tempo para pensar nesta resposta (risos). O que pedi é que fosse alguém acessível. Uma pessoa que os outros não en- tendem casualmente se torna um personagem europeu, mas também há os americanos que ninguém entende, incluindo eu mesmo.

As pessoas falam de você como um gênio do cinema. É intimidador receber esse tipo de reação do público? Bem, nem todo mundo me acha um gênio (risos). Sou uma pessoa bem tímida. Há vezes em que as pessoas vêm com elogios ou alguém aparece com uma tatuagem de um dos personagens dos meus filmes, e eu penso: Uau! É bem incrível. Mas o melhor real- mente é quando você se conecta com as pes- soas. Se algo que você fez afeta alguém de uma maneira positiva, isso para mim é o mais bonito de tudo, e também o mais assustador.

Você vive há muitos anos em Londres e está distante de Hollywood. É intencional? Sempre me achei um estranho em Los Angeles. Lá, você tem que dirigir para tudo, não pode andar, nunca sabe que dia do ano é, não existem estações do ano definidas. A polícia pode até te parar se você esti- ver andando a pé (risos). E, em Hollywood, você não pode fugir daquele mundo. No restaurante, o garçom te entrega roteiros. Enquanto aqui, tenho oportunidade de ir a lugares diferentes e conversar com pessoas que falam de outras coisas também interessantes, e não só de filmes. É o que sinto.

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| literatura |

tão longe, tão Perto

Em novo livro traduzido, lançado no Brasil quatro anos após o autor comEtEr suicídio, david FostEr WallacE avalia à distância a sociEdadE próxima aos sEus olhos

Por

Thiago

Venanzoni

ilustração

nelson

pro V azi

“S er um turista massificado, para mim, é se tornar um puro americano contem- porâneo: alheio, ignorante, ávido por algo que nunca poderá ter, frustrado de um modo que nunca poderá

admitir. É macular, através de pura ontologia, a própria imaculabilidade que se foi experimentar.

É se impor sobre lugares que, em todas as formas

não econômicas, seriam melhores e mais verda-

deiros sem a sua presença. É confrontar, em filas

e engarrafamentos, transação após transação, uma

dimensão de si mesmo tão inescapável quanto do- lorosa: na condição de turista, você se torna eco- nomicamente significativo, mas existencialmente detestável, um inseto sobre uma coisa morta.” Este fragmento, extraído do ensaio Pense na lagosta, presente na mais recente obra traduzida do autor e lançada por aqui com o curioso título Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, sintetiza um dos fortes pilares da litera- tura de David Foster Wallace (ou DFW) – que se suicidou em 2008, aos 46 anos, e até então pou- co conhecido entre leitores brasileiros: trabalhar sob os códigos que identificam o movimento da sociedade pós-industrial, tais como o turista, a ironia, o machismo, o individualismo etc. Tal ca- racterística se nota tanto em seus ensaios, como no exemplo acima, quanto em seus contos ficcionais. Para o escritor brasileiro Antônio Xerxe- nesky, a ficção de Wallace é de um “experi-

mentalismo cansativo, muito preocupado em recriar as engrenagens do pensamento, do cére- bro, que obsessivamente analisa todas as ações”, diz, preferindo os ensaios. Caetano Galindo, pesquisador e professor de literatura na Univer- sidade Federal do Paraná, também reconhece os contos do autor americano, de quem é tradu- tor, como “laboratórios de experimentação for- mal”. Porém, acredita em uma hibridação entre as várias linguagens abordadas, formando uma narrativa única: “Foster Wallace era um homem de ideias, um egresso da filosofia, e, fora do re- gistro formal, é certo que ler a obra toda dele, ficção e não ficção, é perceber que os mesmos temas, as mesmas ideias e obsessões tendem a se remanifestar”. Já o crítico literário Sérgio Rodrigues acre- dita que o autor tanto se aproxima como se dis- tancia das linguagens: “Há momentos de certo hibridismo entre linguagens, sem dúvida, mas não me parece que DFW esteja especialmente interessado em apagar essa fronteira”, finaliza.

PRÓXIMO AOS SIGNOS

Um dos pontos altos da recém-lançada bio- grafia do autor, Every Love Story Is a Ghost Story: A Life of David Foster Wallace, escrita por Daniel T. Max (ou D.T. Max), é a sua intensa rela- ção crítica com os códigos da sociedade, observa- da em cartas enviadas a amigos e laudas com ras- cunhos pessoais. Conforme nos conta o biógrafo, Foster Wallace nunca foi muito apegado à política

ou às causas sociais, como militante, e sempre se mostrou liberal. “Em sua vida adulta, David leva

a política mais a sério, mas penso que seria er-

rado dizer que ele era verdadeiramente político.” É consenso que seu interesse principal era

a vida interior das pessoas, bem provavelmen- te por essa razão não acreditava que a política poderia nos tocar tão profundamente quanto outras forças, tais como o mercado e os rela- cionamentos pessoais. Talvez por isso, ainda, se mostrasse à parte, apesar de bastante próximo dos movimentos que a sociedade promovia, como um analista deles. Um bom exemplo dessa face antropológica de Wallace está em sua grande análise a respeito da ironia. No ensaio sobre o tema, intitulado A aura da ironia, o autor evidencia uma caracte- rística marcante da sociedade: a de tratar cini-

camente qualquer possibilidade de sinceridade, criando uma série de códigos que servem para desqualificar como simplórias as tentativas de ir direto à verdade mais despojada das coisas, e, segundo Galindo, “que ficaram relegadas aos domínios do obscurantismo, da religião”. De acordo com o crítico Sérgio Rodrigues, a ironia, para o literato norte-americano, era boa para destruir valores fajutos, mas imprestável na hora de construir algo para pôr no lugar de- les. E essa ironia não era apenas um objeto de análise social, apesar de ser nociva a todas as relações, mas também merecia uma observação mais próxima ao discurso literário. Porém, Ro- drigues não compactua totalmente com a visão do autor. “Acho que ele até exagera um pouco:

se a ironia em estado puro é mesmo opressiva e vazia, não acredito que se possa descartá-la por completo, nem como instrumento crítico nem como condimento para temperar o estilo.”

E LONGE DA PÓS-MODERNIDADE

Na visão de Xerxenesky, a rejeição da ironia que Foster Wallace exprime, e sua busca inces- sante pela sinceridade “é um grande diferencial,

e é aí que está a possibilidade de transcendência

à pós-modernidade”, a qual, para alguns filósofos,

como o pós-estruturalista Jean-François Lyotard, é uma condição de esvaziamento, ou um descrédito quase completo pelos grandes metarrelatos. E, em contrapartida, a valorização de teses que não são fundamentadas, que muitas vezes têm uma raiz empírica, ou partem de uma matriz legitimadora, como a televisão, por exemplo. Para fazer o para- lelo, a ironia que DFW refuta, em breve análise, se apropria dessa lacuna aberta pela pós-modernida-

de, aliando-se ao individualismo e ao cinismo no discurso. Em suas próprias palavras, o autor

de, aliando-se ao individualismo e ao cinismo no discurso. Em suas próprias palavras, o autor afirma, ao se referir ao exemplo dado: “A televisão vi- rou do avesso a velha dinâmica de referência e redenção: hoje é ela que pega elementos do pós- -moderno – a metalinguagem, o absurdo, a fa- diga sarcástica, a iconoclastia e a rebelião – e os remodela para fins de assistência e consumo”.

OUTROS DISTANTES

Jonathan Franzen (autor de, entre outros, Liberdade e As correções), assim como DFW, é um dos principais autores da atualidade. Além dessa proximidade em estilo e reconhecimento, os dois ainda nutriam uma amizade muito gran-

de. Para Caetano Galindo, Franzen sempre foi o “meta-Wallace, o para-Wallace e o anti-Wallace”, no sentido de os dois terem uma relação muito próxima, de troca constante. “Eles acreditavam estar lidando com os mesmos problemas e, em certa medida, com os mesmos paradoxos, mas cada um abordava as questões de lados com- pletamente diferentes”, completa. O professor destaca que Franzen acredita ser preciso voltar

a certa literatura pré-pós-moderna para quebrar

os paradigmas atuais que persistem. Ainda é possível elencar outros literatos que fazem parte desse imaginário contemporâneo, tal como Thomas Pynchon (de Vício inerente e Con- tra o dia) e Jeffrey Eugenides, que escreveu As vir- gens suicidas, levado ao cinema por Sofia Coppo-

la, A trama de casamento e Middlesex – ganhador do Prêmio Pulitzer. Sobre esses autores e suas rela- ções com DFW, Galindo explica: “O primeiro era para ele uma influência central, e o foi para toda uma geração; o segundo já encontra um mundo pós-Wallace, sendo mais influenciado do que in- fluência, apesar de sua reconhecida qualidade”. Sobre o fato de ser uma referência para ou- tros literatos, o jornalista da New Yorker D.T. Max é contundente: “Apesar de muita gente ne- gar que David Foster Wallace apareça nos livros,

é

muito claro que ele serviu de inspiração”. Para

o

biógrafo, o falecido escritor era uma pessoa

atraente para se transformar em ficção, por cau- sa de seu comportamento bastante incomum, opiniões claras e firmes, e gostos exóticos. E qual seria a principal contribuição de David Foster Wallace, e dos citados, para os escritores contemporâneos? Para Xerxenesky,

a

resposta é objetiva: “A clareza do raciocínio,

o

estilo, que é mergulhado em cultura pop, e

a

autoconsciência, brutal e implacável”. c

autoconsciência, brutal e implacável”. c

| capa |

foto: © Bettmann/CorBIS

O fim da OmertÀ:

quandO a máfia deixa de ser secreta

Cada vez mais abundante, a literatura sobre organizações mafiosas Cumpre o papel de desvendar seus meandros para o públiCo. para isso, se vale da Coragem de seus autores: de jornalistas e agentes infiltrados do fbi a ex-mafiosos, Como miChael franzese e frank Calabrese jr., que delatou o pai para defender a família

Por

Mauricio

Duarte

c omo é possível desbravar as entranhas das organi- zações criminosas mais secretas do planeta e sair de lá vivo para contar a história? Jornalistas, historiadores, agentes da lei, magistrados e ex-mafiosos arrependidos são os responsáveis por descortinar para o grande público a crueza e brutalidade desse universo, tantas vezes glamourizado por Hollywood e impresso em dezenas de livros surgidos no mercado nos últimos anos. Mas o retrato fiel está bem distante das cores pintadas nas telas do cinema. Para escrever sobre a máfia, é preciso ter uma rede de contatos extensa e confiável. Quase sempre, ela é criada dentro da po- lícia e da magistratura. Dessa forma, é possível ter acesso não apenas aos processos envolvendo os grandes criminosos, como também ter a oportunidade de se encontrar com delinquentes dispostos a falar. “Tudo gira em torno da credibilidade. Sigo os eventos mafiosos desde os anos 1980. Nos últimos 32 anos, tive a oportunidade de encontrar e trabalhar com muitas pessoas. Por meio desses contatos, criei uma vasta rede de informações e conhecimento”, conta o jornalista e escritor italiano Antonio Nicaso, autor de diversos livros premiados sobre o tema, entre eles ‘Ndrangheta: Le radici dell’odio, sobre a máfia calabresa. Attilio Bolzoni, autor de Il capo dei capi, é repórter do jornal italiano La Repubblica e, desde 1983, escreve sobre a Cosa Nostra, máfia siciliana, posteriormente exportada para os Estados Unidos. Várias de suas reportagens acabaram virando livro, abordando e analisando o tema por um aspecto mais profundo. Para ele, o principal parceiro de um autor que quer escrever sobre o crime organizado é o Judiciário. “A parte mais difícil é recolher o material da Justiça, aquele que ainda não foi reve- lado. Você precisa dar muita atenção ao tempo de publicação, para coincidir com o momento em que a magistratura torna essas informações públicas. Assim, haverá material fresco no livro”, revela o jornalista.

Corpo de Giuseppi “Joe the Boss” Massari, assassinado em 15 de abril de 1931, em Nova York

foto joe PIStone: mIke alBanS/nY DaIlY newS vIat GettY ImaGeS foto johnnY DePP: DIvulGação

DaIlY newS vIat GettY ImaGeS foto johnnY DePP: DIvulGação | capa | Existem também os policiais

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Existem também os policiais disfarçados que resolvem contar suas histórias. O caso mais conhecido é o do agente do FBI Joe Pistone, que se tornou Donnie Brasco para se infiltrar em uma família criminosa nos anos 1970. Mais re- centemente, Joaquin Jack Garcia publicou um livro chama- do Infiltrado – O FBI e a máfia, em que o ex-agente norte- -americano conta como teve um “curso de máfia” para poder se tornar um homem de confiança de um dos chefões da família Bonanno, de Nova York. Aprendeu a comer, falar, an- dar e ganhar dinheiro como um membro da Cosa Nostra. A operação levou 32 associados da família à prisão. Um dos relatos mais contundentes já escritos sobre a vida de um mafioso surgiu de um impulso de Gay Talese, papa do new journalism norte-americano. Em um determinado dia, quando estava no tribunal, ele se aproximou de Bill Bonanno, chefe da família que leva seu nome, e simplesmente pediu para sentar em uma mesa e conversar, pois gostaria de escrever um livro sobre ele. Claro que a proposta foi recusada de imediato. No entan-

to, com o tempo, o repórter foi ficando cada vez mais próximo do mafioso, sendo até mesmo convidado para jantares em sua residência e compartilhando confidências enquanto o chefão tentava se livrar de atentados de rivais e de processos na Justiça. O resultado é o livro Honra teu pai, lançado em 1971. A obra aprofunda-se como poucas na psicologia motivacional da máfia e na vida cotidiana, muitas vezes tediosa, desses criminosos. Há ainda os que veem o processo todo de dentro e decidem contar suas histórias. Não precisam investigar. A própria experi- ência pessoal, na maioria das vezes aterradora, e a busca de uma espécie de redenção, dão a eles todo o embasamento necessário. Preferem ocupar o lugar do autor em vez de apenas servir como fonte. São os “infames”, os “arrependidos”. Nessa classe se en- quadra Frank Calabrese Jr., autor do livro Operação segredos de família, em que descreve sua trajetória no crime e como delatou seu próprio pai para o FBI. Ele ingressou na máfia de Chicago aos 18 anos, levado pelo pai, que ocupava o posto de assassino principal do chefe da organização.

máfia de Chicago aos 18 anos, levado pelo pai, que ocupava o posto de assassino principal

O que era um laço patriarcal tornou-se uma prisão psico- lógica para Frank, que acabou detido junto com seu progeni- tor em uma penitenciária de Michigan. Ao ingressar na vida mafiosa, o associado precisa entender que seu clã está acima dos laços de sangue. Na cadeia, Frank percebeu que ele e sua família haviam se tornado vítimas da tirania psicopata de seu pai, que hoje soma 75 anos. “Eu tinha duas opções e não gos- tava de nenhuma delas. Uma era esperar até que eu e meu pai saíssemos da prisão, nos confrontássemos nas ruas e um de nós sairia morto e o outro preso. A outra era cooperar com o FBI e mantê-lo atrás das grades para sempre. Escolhi o FBI, porque meu pai era muito bom em matar, e eu provavelmen- te seria morto”, afirma em entrevista à Revista da Cultura.

corridas palestras usando sua história de vida como exemplo de mudança. “Gosto de escrever. Estou agora no meu quinto livro

e trabalhando em um roteiro para um filme sobre minha vida.

Escrevo sobre coisas que vivi. Sinto-me muito recompensado ao saber que as pessoas se sentem encorajadas e inspiradas pelas minhas experiências. Aprendi muitas coisas durante meu tem- po como membro da família Colombo. Aprendi a negociar com algumas das pessoas mais espertas e cruéis nas ruas. Aprendi

a ler as pessoas, o valor do poder e do dinheiro. Aprendi a re-

conhecer oportunidades. Negócio é negócio, seja ele legal ou ilegal. É preciso lidar com isso de maneira habilidosa”, conta. A “onda” de arrependidos começou com o siciliano Tom- maso Buscetta (1928-2000) na década de 1980. Até então,

foto: DIvulGação
foto: DIvulGação

O capo eternizado por Marlon Brando em cena de O poderoso chefão. Na página ao lado, no alto, o verdadeiro Joe Pistone e, abaixo, Johnny Depp no papel de Donnie Brasco em filme homônimo

Frank conta que, enquanto escrevia o livro, pensava sempre no pai e em como as coisas poderiam ter tomado um rumo diferente. No entanto, diz que sua escolha pode fazer “muitas, muitas pessoas dormirem mais seguras à noite”. Nesse ramo está também Michael Franzese, um autêntico homem de negócios de Nova York. Nos anos 1980, como capo da família Colombo, chegou a gerar de 5 a 8 milhões de dóla- res por semana para os cofres da organização, principalmente com contrabando de gasolina. Ficou na cadeia por dez anos e, incentivado pela mulher, decidiu deixar a vida de mafioso. A melhor maneira de se proteger foi tornar-se um homem públi- co. Escreveu sua autobiografia, Blood Covenant, que alcançou o status de best-seller. Atualmente, é figura cativa em programas de televisão, escreve livros sobre táticas de negociação e dá con-

revelar os meandros das atividades realizadas pela máfia era um tabu. Detido em 1984, o italiano iniciou um trabalho de colaboração com o juiz Giovanni Falcone (1939-1992). Pela primeira vez, a Justiça e a população tiveram a dimensão exata da vastidão dos negócios da Cosa Nostra, da conivên- cia velada do poder público, seus rituais de iniciação e o mo- dus operandi dos grandes chefes. A partir das revelações de Buscetta, foi instaurado o maxiprocesso, entre 1986 e 1987. O trabalho de Falcone rendeu 19 sentenças de prisão perpé- tua e 2.665 anos atrás das grades a 338 mafiosos. Por fim, existem os grandes romances sobre o assunto, que narram as sagas dos criminosos de forma ficcional. Foi dessa maneira que Mario Puzo (1920-1999) se tornou célebre com o épico O poderoso chefão. Aqui no Brasil, o escritor Sil-

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vio Lancellotti usou histórias verídicas para compor seu Hon- ra ou Vendetta. Em dez anos, coletou o material por meio de “leituras de livros, contatos pessoais e entrevistas”. Além dis- so, chegou a conhecer diversos mafiosos, entre eles o ilustre John Gotti (1940-2002), líder da família Gambino em Nova York e famoso por gostar de holofotes tanto quanto uma es- trela pop. “Estive com dezenas de mafiosi na Sicília. E com o Gotti, em Nova York. Todos absurdamente gentis”, lembra.

AMEAÇAS

A parte mais complicada para os autores de livros que

expõem a máfia é tentar levar uma vida normal apesar do medo. As ameaças de morte sempre chegam, cedo ou tarde,

e nenhum deles é descuidado o bastante para decidir esperar

para ver se são reais ou não. Para os ex-mafiosos, o senti- mento de estar sempre em fuga de alguma coisa é mais fami- liar. Para os outros, que se arriscam nessas investigações, é preciso entender que a vida pode sofrer mudanças drásticas. Antonio Nicaso nunca se iludiu achando que, pelo fato de ser um jornalista conhecido, pudesse escapar de se tor- nar um cadáver ilustre. “Em 1989, sobrevivi a um atentado de um carro-bomba na Itália. Desde então, tenho recebido inúmeras ameaças. Gosto de dizer que tenho a coragem do medo. O que tento evitar é a paranoia do medo.” Apesar dis- so, o autor hoje vive em Toronto, no Canadá, de onde obser- va as movimentações da máfia de sua terra natal. Como repórter de um dos maiores jornais da Itália, Bolzoni enfrentou uma situação parecida. Contudo, para ele, telefone-

mas e cartas anônimas não preocupam. Não lhe dão medo. O pânico reside nas ameaças sutis, aquelas em que quase nem se percebe o perigo, a não ser que você seja experimentado no uni- verso mafioso. “Por exemplo, quando um advogado de defesa de um chefe se aproximou de mim, sorrindo, e disse que seu cliente não havia ficado contente com um artigo que eu tinha escrito havia três ou quatro meses. Essa, acho, era uma ameaça verdadeira, perigosa. Feita com um sorriso”, explica.

Já para os que em algum momento de suas vidas se habi-

tuaram a ameaçar os outros, a recíproca da violência é algo até esperado. Calabrese sabe disso e tomou a resolução de dis-

pensar o serviço de proteção à testemunha oferecido pelo FBI.

Não adiantou a força policial insistir. Agora, é quase como se andasse por aí com um alvo pintado na testa. “Isso não é para mim. Não sou aquele que corre e se esconde. Conheço as ruas

e seus habitantes muito bem, mas também sei que um dia

qualquer alguém pode aparecer atrás de mim e me dar um tiro na cabeça. É a escolha que fiz”, relata. O fato de ele ter convivido com a morte de perto durante toda a vida tornou a aceitação dela mais natural do que para o restante das pessoas. Ouvir Franzese dá a mesma sensação de que ele está pre- parado para tudo, embora seja mais cínico ao falar do assunto. Recentemente, recebeu uma ameaça de morte pelo Facebook. “Essa pessoa precisa ser uma palhaça para fazer uma ameaça pela internet.” Para ele, que já conviveu no passado com juras de morte da família Colombo, isso é uma espécie de piada. O

ex-criminoso arremata dizendo que está tudo bem “em morrer quando a hora chegar”. “Não tenho pressa de morrer, mas tam- bém não tenho medo da morte. Amo minha família e quero es- tar com eles enquanto Deus permitir. Sou cristão e acredito que Deus tem um lugar para mim no paraíso”, diz. Se todos os autores ou mesmo magistrados que lutam para desmistificar a máfia sofrem ameaças, hoje em dia dificilmente elas são levadas a cabo. As organizações aprendem com a expe- riência. Portanto, nem sempre foi assim. Um episódio funesto marcou a história da Itália no início da década de 1990, mobili- zou a população e forçou o poder público a tomar medidas mais rigorosas contra o domínio mafioso. O clã dos Corleoneses, da Cosa Nostra, liderado por Toto Riina, conhecido como capo dei capi (chefe de todos os chefes), ficou famoso por recolher cadá- veres ilustres das ruas do sul do país. No auge da luta antimáfia liderada pelo juiz Falcone, o chefão se viu desesperado e partiu para o terrorismo. Em 1992, após o sucesso do maxiprocesso, o magistrado passou a ser o alvo número 1. No dia 23 de maio da- quele ano, após várias tentativas frustradas de assassiná-lo, dina- mitaram a estrada pela qual passava junto com seus dois carros de escolta. Morreu ao lado da mulher. Virou um herói nacional e

a máfia siciliana nunca se recuperou do golpe que lhe foi impos- to por Falcone. “É verdade, ainda não se livraram de mim. Mas

a minha conta com a Cosa Nostra continua aberta. Será quitada

somente com a minha morte, natural ou não”, costumava dizer.

CÍRCULO SEDUTOR

Como explicar o fascínio que a máfia provoca nas pessoas? Passando por cima do que é retratado nas telas de cinema, nos seriados de televisão e nas páginas dos livros, o que pode atrair tanto o interesse do público? Há vários fatores, como a aura de sociedade secreta, quase religiosa, das organizações. O estilo de vida dos grandes chefes também é um atrativo. Muitas vezes, pela capacidade de investir dinheiro ilegal e torná-lo legal, são consi- derados grandes empresários. Contudo, basicamente uma única palavra define a fascinação causada por esse universo: poder. Franzese, que já teve esse tipo de poder nas mãos, é categórico ao dizer que “as pessoas veem o poder, o dinheiro, as mulheres, é sedutor. Essa fascinação ocorre principalmente aqui nos EUA. O laço e a irmandade entre os homens também atrai muita gente. Um amigo meu do FBI sintetizou isso muito bem. Uma vez ele me disse que a Europa tinha a realeza, e nós tínhamos a máfia”. Entender os motivos que tornam a máfia tão convidativa para o interesse popular passa por uma explicação antropológi- ca. Bolzoni lembra que a organização existe oficialmente na Si- cília desde a unificação da Itália, em 1861. O novo país e a máfia nasceram e cresceram juntos. Um cordão umbilical liga os dois. Essa é a diferença primordial entre um criminoso comum e um mafioso. “O crime comum sempre viveu à margem da socieda- de e tem sido sempre combatido pelo poder. A criminalidade mafiosa sempre viveu dentro da sociedade e sob a proteção do poder. Mais do que uma questão de fascínio, eu diria que há ra- zões históricas e políticas que levaram ao desenvolvimento e à inclusão em todos os níveis da sociedade”, conta.

foto: © GIannI GIanSantI/SYGma/CorBIS

Grupo de viúvas aguarda pelo julgamento dos mafiosos que assassinaram seus maridos

soMente coM a voz

A missãO dE umA jOrnAlistA brAsilEirA: rEtrAtAr A lutA dAs mulhErEs COntrA A máfiA itAliAnA

Por Gustavo ranieri

Durante seis anos, a jornalista lucia helena Issa viveu em roma, onde ingressou na organização repórteres Sem frontei- ras. ao preparar uma de suas matérias, conheceu uma fonte siciliana e descobriu por meio dela um importante momento que a Sicília atravessava. “estava transformando-se de uma região com cenário de guerra civil em uma região cujas mulheres estavam obtendo vitórias na luta contra a Cosa nostra”, conta. as tais mulheres foram a motivação para lucia escrever o livro Quando amanhece na Sicília… A luta das mulheres e da sociedade civil contra a máfia siciliana, fruto de um trabalho extenso, com mais de 90 entrevistas. “Seja na Sicília, onde mais de 10 mil pessoas foram assassi- nadas pela máfia nas décadas de 1980 e 1990, seja em Sarajevo ou em Beirute, depois que o conflito armado acaba e a imprensa internacional se retira do local, não se fala mais sobre a população civil ou sobre a condição de vida de mulheres que perderam seus maridos, viram seus filhos mortos, perderam suas casas e passaram a viver como párias.”

Quais foram as maiores dificuldades para produzir Quan- do amanhece na Sicília… A luta das mulheres e da so- ciedade civil contra a máfia siciliana? a maior dificuldade e emoção foi obter a confiança e a cumplicidade daquelas mulheres maravilhosas, superando as barreiras do medo e do silêncio que anos de omertà havia imposto a elas.

Aliás, os membros da máfia tomaram conhecimento do seu trabalho? Você se infiltrou para conhecer o funciona- mento da organização? em nenhum momento me infiltrei na máfia. meu objetivo era descobrir como a sociedade civil, em especial as mulheres, estava obtendo tantas vitórias contra, le- vando mafiosos célebres a julgamento com seus depoimentos. fui para a Sicília sendo exatamente quem eu era, uma jornalista brasileira que morava em roma. mesmo assim, em alguns mo- mentos, senti medo por estar num dos bairros mais perigosos de Palermo e descobrir que o chefe da Cosa nostra local sabia exatamente quem eu era e o que estava fazendo ali. ele foi gentil e até galanteador, como os mafiosos costumam ser em Palermo, mas deixou muito claro que eu não deveria estar ali.

Como as mulheres presentes em seu livro praticam a luta delas? E como lidam com a violência? ao contrário do que alguns possam pensar, o livro não retrata ex-mu- lheres de mafiosos que agiram por vingança, mas mães que tiveram seus filhos ceifados pela máfia, mulheres de juízes assassinados que hoje lutam por uma Palermo de paz, esposas de ativistas mortos. hoje, há 329 grandes mafiosos sicilianos na prisão, incomunicáveis. e muitos fo- ram denunciados por mães, mulheres que corajosamente desafiaram a Cosa nostra.

O que você mais aprendeu no convívio com as persona- gens do seu livro? tudo o que testemunhei das mães da Sicília e de outras regiões do mundo devastadas pela dor mu- dou meu olhar para o mundo. ninguém passa incólume por experiências assim. a vida ganha uma nova dimensão. hoje, dou valor a pessoas e fatos que realmente tenham valor, sou menos consumista, passo mais tempo com minha filhota e aprendi que, às vezes, nos lugares mais feios e devastados, vivem as pessoas mais bonitas.

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Nicaso repudia a glorificação do modo de vida da orga- nização. Ele acredita que, na América, filmes retratando a vida de mafiosos de maneira errada substituíram os clássicos westerns. De acordo com o escritor, é preciso mostrar os ma- fiosos como eles são realmente. Não homens de honra e res- peito, mas simplesmente criminosos. “As pessoas ficam atraí- das pelo glamour associado à máfia: família, regras, tradições que estão em declínio na sociedade atual. Em geral, as pessoas provavelmente não entendem que atualmente apenas uns pou- cos mafiosos se tornam ricos, enquanto a maioria acaba pobre ou morta. Não há nada de positivo sobre a máfia”, arremata. Uma das razões pelas quais Calabrese Jr. resolveu contar sua perturbadora história em um livro foi justamente para desmistificar a noção de máfia arraigada na cultura norte- -americana. Segundo ele, Hollywood teve um papel deter- minante na noção que temos hoje em dia da vida de um mafioso. “Eles não veem ou ouvem as vítimas”, desabafa. De acordo com o ex-criminoso, o sentido de relação fraternal propagado pelos mafiosos é uma enganação, já que a família

é “corroída” por dentro.

RELAÇÕES COM A ARTE

A máfia tem uma relação significativa com o cinema. Não só por ser fonte inesgotável para roteiristas e dire- tores. O caminho inverso também já foi muito produtivo. Os criminosos enxergaram na sétima arte uma ótima ma- neira de aplicar seu dinheiro legalmente e ainda contar com seus polpudos lucros. Nada a ver com diletantismo. Mafioso não gosta de arte. Gosta de poder. Possuir um quadro de um pintor famoso, por exemplo, é apenas uma maneira de demonstrar status. Não há qualquer aprecia- ção estética. Não há mecenas na máfia. Só o lucro é visado. Franzese chegou a investir no cinema. Ele foi produtor do filme Knights of the City, de 1986. Ele mesmo deixa claro que queria apenas buscar mais lucro. “Nunca conheci um mafioso interessado em obras de arte. Na época, eu estava muito motivado para ganhar dinheiro e o negócio do cinema era atrativo. Apareceu uma oportunidade no meu caminho e tirei vantagem dela. Mas eram só negócios para mim”, revela. Durante a década de 1990, organizações criminosas procu-

raram a sétima arte para investir parte de seu dinheiro e tentar angariar algum status no meio social. Nicaso lembra que filmes chineses e japoneses eram alvos fáceis, por serem menos contro- lados. “Na Itália, alguns produtores contrataram associados de baixo nível para interpretar pequenos papéis em filmes”, comenta. Calabrese Jr. também recorda uma experiência cinemato- gráfica vivida por seu pai. Durante as filmagens de O poderoso chefão [rodado em 1972 e com duas sequências, uma de 1974 e

a outra de 1990], de Francis Ford Copolla, ele ensinou um dos

atores a manipular uma faca retrátil. Gianni Russo interpretava Carlo, casado com Connie, filha do chefão Corleone, vivido por Marlon Brando (1924-2004). O ator costumava ir jantar em sua casa sempre que estava em Chicago. “Meu pai deu a ele uma faca

e mostrou como usá-la. A marca registrada de meu pai era matar

como usá-la. A marca registrada de meu pai era matar Por Dentro Da Yakuza fotóGrafo BelGa

Por Dentro Da Yakuza

fotóGrafo BelGa Conta Como foI a ProDução Do lIvro De arte SoBre a famoSa máfIa jaPoneSa e a ConvIvênCIa De DoIS anoS Com ela

Por Gustavo ranieri

em uma madrugada de 2008, sentado em um bar de tóquio, no japão, o fotógrafo belga anton kusters e seu irmão, o especialista em marketing malik, bebiam cerveja discutindo sobre possíveis projetos que fariam juntos quando um membro da Yakuza entrou no estabelecimento e foi conversar com taka-san, proprietário do local e amigo deles. naquele instante, souberam o que queriam fazer: acompanhar e registrar em fotos a Yakuza, associação de crime organiza- do fundada no início do século 17 e formada por algumas famílias e seus clãs. “meu irmão e eu negociamos por dez meses antes de conseguir a per- missão. tivemos de provar que éramos de confiança, assim como nossas intenções. também tivemos de convencê-los de que este era um projeto de arte documental e não jornalístico. Depois de autorizados, esperamos me- ses até que os membros da família pudessem ser formalmente informados de que seriam seguidos e fotografados”, conta anton. o resultado foi o belo livro Odo Yakuza Tokyo, cuja segunda edição acaba de ser lançada. É sobre a famosa máfia japonesa e a convivência com os seus participantes esta entrevista dada por anton kusters à Revista da Cultura. o fotógrafo, que já engata dois novos projetos – Heavens, para compreender o holocausto, e A Little Glow in the Dark, sobre como nos conectamos com as pessoas que estão perto de nós –, também prepara uma exposição com o material da Yakuza para abril de 2013.

fotoS: DIvulGação

fotoS: DIvulGação Você participou dos encontros da Yakuza? Como os membros da orga- nização são de
fotoS: DIvulGação Você participou dos encontros da Yakuza? Como os membros da orga- nização são de

Você participou dos encontros da Yakuza? Como os membros da orga- nização são de fato: gentis, sérios, bem humorados? nunca participei de nada. era sempre uma mosca na parede, testemunhando tudo. eu só não ti- nha permissão para acompanhar quando eles faziam reuniões mensais para discutir os compromissos e planos. eles foram perfeitamente gentis comigo e garantiram que eu estaria sempre seguro fotografando. e são, na maior parte do tempo, pessoas sérias, mas, como seres humanos, são engraçados às vezes.

Então você nunca recebeu nenhuma ameaça. E nem protege, hoje em dia, sua família ou você mesmo de alguma maneira? não, nunca. todos estavam cientes de que eu queria apenas ver, documentar, sem qualquer julgamento o tanto que fosse possível. e não há necessidade de sentir medo ou proteger minha família. Se sou respeitoso, eles são respeitosos.

muitos jornalistas, escritores e fotógrafos foram mortos pela máfia ao redor do mundo ou precisam viver escondidos. Como observa esse cenário? Para mim, isso não acontecerá. tudo o que fiz girou em torno de respeito, e fui claro e limpo com as minhas intenções. Para a Yakuza, confiar na minha palavra é mais importante do que qualquer contrato, e, ao mesmo tempo, eles sentem que nada é mais importante do que manter a palavra deles também.

Você testemunhou alguma cena de violência durante o período com a Yakuza? nós acordamos que eu não fotografaria cenas de violência, por- que significaria ser cúmplice e a polícia estaria apta a me prender imedia- tamente. não há violência em Yakuza [o livro], mas, nas minhas imagens, você pode ver indiretamente as provas da violência.

no passado, se um membro da Yakuza fazia algo errado, para pedir desculpas e mostrar fidelidade, ele cortava uma parte de seu dedo. isso acontece ainda? Depende da situação, mas sim, isso ainda acontece de vez em quando. não tanto quanto antes, pois muitos jovens membros querem frequentar a sociedade regularmente sem que possam ser imedia- tamente identificados como membros da Yakuza.

Como você observa o universo real da máfia? É muito diferente do que hollywood mostra? É muito mais sutil em minha opinião. não sou expert em tudo da Yakuza, mas para mim é muito mais “pressão” do que “violên- cia”. muito mais “mito” e “força”. Claro que a violência acontece, mas, por causa do mito, vê-se que a pressão quase sempre funciona para conseguir que a negociação seja feita. então, o jogo da Yakuza é muito sutil e difícil de combater. Pelo que vi, definitivamente não é verdade que eles sempre an- dam pelas ruas com armas matando. Sim, muitas coisas ruins e extremas acontecem, mas essas ações não são o que define “ser Yakuza”.

Você ainda mantém contato com eles? Sim, quando vou ao japão, pres- to respeito ao meu contato.

E o que mais te surpreendeu na convivência com a máfia? Sur- preendeu o que eles pensam sobre os valores japoneses. eles acre- ditam em ter uma função ativa na sociedade do japão. também sur- preendeu que a maioria das coisas aconteça com um tom discreto de violência. Sinto que eles entendem muito bem o mito que os circunda e o usam ativamente. [Com eles] aprendi muito sobre comportamento social, paciência e a educação japonesa.

foto: © alBerto PIzzolI/SYGma/CorBIS

foto: © alBerto PIzzolI/SYGma/CorBIS | capa | Imagem do atentado que matou o juiz Falcone na

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Imagem do atentado que matou o juiz Falcone na Itália, em 1992

com as próprias mãos. Primeiro, ele batia e estrangulava a vítima com uma corda. Depois, para ter certeza de que estava morta, cortava a garganta de orelha a orelha”, relata. As ligações da família Calabrese com o show business não param por aí. Um tio de Frank inspirou uma cena brutal de as- sassinato no filme Cassino, de Martin Scorsese, e um dos capan- gas de seu pai era guarda-costas de Frank Sinatra (1915-1998) sempre que o cantor estava em Chicago. Ele também acabou sendo detido e condenado na operação deflagrada após a reso- lução de Calabrese Jr. de colaborar com o FBI. Um exemplo derradeiro e ilustrativo de como o cinema e o universo mafioso dialogam vem do coração da máfia napolitana, a Camorra. Quando a polícia invadiu uma mansão e prendeu Nicola Schiavone, herdeiro do chefe do clã dos Casalesi, notou a decoração milionária e de mau gosto. Concluiu que a inspiração havia vindo do filme Scarface, em que Al Pacino entra na pele de um gângster cubano emigrado para os EUA. O chefe mafioso, responsável por dúzias de assassinatos, tráfico de drogas e armas, logo ganhou o apelido de seu colega das telonas.

AS ORGANIZAÇÕES HOJE

Engana-se quem pensa que as organizações mafiosas ao redor do mundo se enfraqueceram. Embora aumente cada vez mais o número de informações sobre o modo como agem, elas encontram meios de se reorganizar e ressurgir, quase sempre com violência renovada. A Cosa Nostra na Sicília, a ‘Ndranghe- ta’ na Calábria, a Camorra em Nápoles, ou seus emigrados nos EUA, procuram estar sempre um passo à frente do mundo dos negócios legalizados. Como qualquer empresa moderna, ela di- versifica seus empreendimentos para dificultar o rastreamento e aumentar as fontes de renda. Mas ainda é no tráfico de drogas que reside sua principal entrada de recursos, pois nenhum outro ramo garante maior margem de lucro. Nicaso reforça a tese de que estamos muito longe de es- crever o obituário da máfia. “Ela é um produto da moderni- dade, um fenômeno capaz de lidar com qualquer mudança e se adaptar a diversas situações. Após a exposição que sofreu

na Itália na década de 1990, a máfia tem se mantido discreta para evitar a polícia e a atenção da imprensa. Assim, pode gerenciar melhor suas atividades”, explica. Ou seja, nada de ostentação de poder e dinheiro – um comportamento historicamente muito mais comum nos ma- fiosos norte-americanos do que nos italianos. Estes últimos, mesmo movimentando milhões de euros por dia, costumam passar seus melhores anos em bunkers construídos nas zo- nas agrícolas do país europeu, em paisagens desoladas, ocul- tos em galinheiros ou estábulos. Bolzoni compartilha essa opinião do colega. O ataque lide- rado por Falcone em 1992 realmente atingiu a organização de um modo jamais visto. Além de expor o aparato criminoso da máfia, também a acertou na parte mais importante de sua sim- bologia: a honra. A partir do momento em que “homens de honra” passam a colaborar com a polícia, desmorona o mito de lealdade e irmandade vendido pela organização e sintetiza-

das na palavra omertà. Porém, isso não significa que eles dei- xaram de estar inseridos nas diversas camadas da sociedade.

“A Cosa Nostra foi desmantelada sob o ponto de vista mili-

tar. Mais lento é o efeito sobre os ativos da máfia. É muito difícil

localizar e cortar as relações entre ela e a política. A máfia sicilia- na não é tão forte como era há 20 ou 30 anos, é definitivamente mais fraca. Mas nós ainda não descobrimos onde estão as imen- sas riquezas acumuladas pelos chefes da Cosa Nostra nos anos 1960 e 1970 com o tráfico internacional de drogas”, diz.

A força da máfia está em sua simbologia, seu aspecto

mitológico. Sua característica de seita, seu misticismo meio pagão meio católico, seus segredos antes impenetráveis. Quebrar o código de silêncio mafioso, a omertá, é a maior das traições. Existe um ancestral provérbio siciliano que diz:

“Aquele que é cego, surdo e mudo viverá cem anos em paz”. Para existir, as organizações precisam contar com a ignorân- cia do poder policial e civil. Portanto, a informação nas mãos do povo é o maior inimigo dos criminosos. É o suficiente para situar a literatura sobre o assunto como mais do que um simples registro histórico ou almanaque de curiosidades.

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É bom limpar o sangue aqui

InfIltrados na máfIa a nosso pedIdo, os desenhIstas rIcardo coImbra, João montanaro e mZK nos contam suas versões dIvertIdas dos fatos

a nosso pedIdo, os desenhIstas rIcardo coImbra, João montanaro e mZK nos contam suas versões dIvertIdas
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fotoS: Jeremy Sutton-Hibbert/Getty imaGeS

a triLoGia ‘1Q84’, Do JaPonÊS e maratoniSta HaruKi muraKami, tem Seu Primeiro VoLume PubLiCaDo no braSiL. uma CorriDa De LonGa DiStÂnCia (1.200 PÁGinaS) Que VaLe a Pena VenCer Por RONALDO BRESSANE

H aruki Murakami é louco por corridas de longa distância. Depois da maratona de Kafka à beira- -mar, chega ao Brasil a trilogia 1Q84, um verda- deiro Ultraman – os livros 1 e 2 têm 737 páginas na edição em espanhol. A edição da trilogia em inglês sai em outubro com 928 páginas, capa de Chip Kidd; em português, acaba de ser lança- do o primeiro volume – o 2º e o 3º estão prome-

tidos para 2013. No Japão, o primeiro livro vendeu 1 milhão de exempla- res só no primeiro mês; até o momento, 5 milhões foram vendidos – e já existem rumores de que Murakami estaria escrevendo um quarto volume. Números à parte, não podemos nos apartar deles para falar da obra. Os livros 1 e 2 foram estruturados tendo O cravo bem-temperado, de J. S. Bach, como inspiração (cada um tem 24 capí- tulos, 12 com narrativa em Aomame, 12 em Tengo, 24 prelúdios e fugas em to- dos os tons, maiores e menores). Tengo

e Aomame são típicos personagens de

Murakami: solitários, obsessivos, idios- sincráticos, fascinados por música e pelo

ideal da precisão. Tengo é um professor de matemática trintão que vive sozinho (mas tem uma namorada que é casada, tal como o K de Minha querida Sput- nik) e faz uns bicos como preparador de

texto para um editor. Aomame é uma professora de artes marciais, trintona, que vive sozinha (mas costuma sair à noite para caçar homens maduros) e faz uns freelas como assassina de aluguel.

mi

evoca em sua escrita. A música, presente mais como princípio ordenador

do

que como mera trilha de fundo, comparece na obsessão pela Sinfonie-

ta, de Leoš Janáček, e também no gosto de Tengo por jazz dos anos 1940 e 1950 (refletindo o gosto do próprio Murakami). Relatos obscuros de Checov – além da máxima checoviana “Se uma arma aparece no início de um relato, ela deverá ser disparada até seu fim” – sem falar, claro, em George Orwell, agregam diversas camadas à narrativa, que se passa no ano de 1984. Quer dizer, se passa e não se passa, ao mesmo tempo – por conta de um contato com enigmáticas criaturas chamadas Little People, citadas no livro Crisálida no ar, algumas per- sonagens passam a viver em um tempo-espaço chamado 1Q84. Orfandade, seitas obscuras, conflitos entre realidade e fantasia, embates com a memória, crítica ao burocratismo japonês e pitadas de cultura pop, sexo e violência são outros subtemas murakamianos.

FÔLEGO LONGO

violência são outros subtemas murakamianos. FÔLEGO LONGO O imenso sucesso do livro parece ter tornado Murakami

O imenso sucesso do livro parece ter tornado Murakami ainda mais ermitão do que ele já é. Não chega a ser um Dal- ton Trevisan ou Thomas Pynchon, uma vez que já concedeu entrevistas, sempre raras – a última foi em 2009. Tal como acontece com grandes escritores, o me- lhor caminho para conhecer o homem por trás da escrita parece ser, paradoxal- mente, sua própria obra. É o que aconte- ce com seu livro mais autobiográfico: Do que eu falo quando eu falo de corrida, talvez o melhor livro de autoajuda já es- crito (muito porque foi escrito por um escritor de verdade). Japonês residente no Havaí, Murakami começou a correr aos 30 anos, em 1982, quando largou a boemia como dono de bar de jazz em Tóquio, abraçou a carreira de escritor e parou de fumar. Um ano depois, comple- tava a mítica rota entre Atenas e Marato-

na, na Grécia. Quase 30 anos depois, mantém a rotina de correr 10 quilô-

metros por dia e pelo menos uma maratona por ano. Neste livro, o triatleta prova como o exercício da corrida se associou ao da escrita de modo tão bem-sucedido – mesclando sentido da vida, filosofia e educação física, a publicação oferece lições e reflexões tanto a leitores quanto a corredores.

A primeira “lição” de Murakami é ter um mantra durante a corrida. O dele é: “A dor é inevitável. Sofrer é opcional”. Outro ponto destacado por Mu- rakami como ligação entre escrita e corrida é o fato de seu único adversário

ser o próprio corredor, o que faz da atividade uma prática 100% solitária –

justamente o que motiva tanto escritores quanto atletas. No seu mundinho, o que Murakami aprecia quando está dentro de seu amado par de Mizunos é o silêncio: “Tudo o que tenho a fazer é olhar a paisagem que passa por mim. E

A rotina de Tengo começa a mudar

quando ele recebe a incumbência de re- editar – praticamente reescrever – um livro misterioso que chegou à edito- ra, escrito por Fukaeri, uma sedutora adolescente de 17 anos: Crisálida no ar. A rotina de Aomame começa a mudar quando ela recebe a incumbência de matar um homem tão pode-

roso quanto bizarro. Rigorosa feito um relógio, a máquina narrativa de Murakami vai sutilmente encadeando as experiências vividas por Tengo

e Aomame até o fim – quando, contrariamente ao teorema, as duas para-

lelas se encontram. No terceiro volume, Murakami se aproxima dialetica-

mente de Tengo e Aomame via Ushikawa, um investigador que persegue

a dupla de protagonistas. O engenhoso modo de narrar, melodioso e al-

gumas vezes construído sobre repetições (ou refrões?) praticamente con-

dena o leitor à página seguinte, o que explica o seu imenso sucesso pop.

Já o sucesso de crítica se estende para além da conhecida precisão nipô-

nica, alcançando as diversas intertextualidades que o pós-moderno Muraka-

foto: Jeremy Sutton-Hibbert/Getty imaGeS

| perfil | haruki murakami

não penso em nada que seja digno de mencionar”. No entanto, trilha sonora

é fundamental: Murakami adora Sympathy for the Devil, dos Stones. E correr,

lembra o japonês, tem muito a ver com… tropeçar. Micos são inevitáveis. O embaraço do escritor é singelo: “Me sentia constrangido que os vizinhos me vissem correndo – a mesma sensação que tive ao ver pela primeira vez o título ‘romancista’ colocado entre parênteses depois do meu nome”.

acontecer. Não acho que tem graça passar dois anos em uma história com um argumento pré-determinado.” Muitos leitores poderão se surpreender com a onipresente juventude das personagens de Murakami – quase como se ele só se ocupasse mesmo de gente nova, talvez um dos motivos por ele ser considerado um autor pop por excelên- cia. “Quando um escritor envelhece, acaba escrevendo sobre sua faixa etária – e os leitores também envelhecem com o escritor”, explica. “Mas tenho mais inte- resse na juventude de hoje. Não que tenha amigos de 20 e poucos, nem assisto animações ou gosto de ler literatura pra celular. Mas descobri que podia escre- ver sobre um garoto de 15 anos em Kafka à beira-mar e sobre uma garota de 19 em After dark, quase como se eles fossem eu. Em 1Q84, eu tinha que pensar em como seria a psique de Aomame aos 10 anos. Precisei cavar nos processos cognitivos e emocionais de uma mulher e tentar escrever da sua perspectiva.” Sempre foram temas importantes em sua obra o sexo e a violência, mo- tores em 1Q84 – a cena culminante do segundo livro impacta por combinar de modo surpreendente crueza e beleza (calma, não vamos tirar a sua surpresa, leitor). “Em 1Q84, não há uma descrição de gente arrancando pele humana (como The Wind-Up Bird Chronicle) ou matan- do um gato (como em Kafka à beira- -mar), mas há cenas de sexo e violência. Deve haver leitores que não gostam, mas para a história elas são necessárias.” Outro ponto a destacar nos dois primeiros volu- mes de 1Q84 é o fato de Murakami nar- rar, pela primeira vez, na terceira pessoa. “Sempre tento criar um novo sistema de linguagem para cada trabalho. Fiquei feliz com a terceira pessoa, pois senti como se

o mundo tivesse ficado maior. De acordo

com Wittgenstein, há dois tipos de lingua-

gem: objetiva, lógica e facilmente compre- endida por qualquer um, e privada, que

é difícil de explicar via linguagem. Bem

cedo na minha carreira, pensei que um romancista tem os dois pés no reino da linguagem privada. Mas desde que – não sei quando – descobri que a linguagem em um romance ganha uma força especial se habilidosamente conseguir mistu- rar e alternar ambas as linguagens, a história mesma ganha mais dimensões.” Embora fale de modo tão particular à sociedade de hoje, é compre- ensível que um autor tão recluso, adepto de esportes outdoor e decla- radamente obcecado pelo jazz dos anos 1940 seja distante da internet a ponto de quase nunca acessar o próprio e-mail e ainda escrever em velhos processadores de texto. “O progresso da tecnologia criou novas divisões na sociedade”, afirma o escritor. “Há necessidade de uma vasta classe de trabalhadores intelectuais – os programadores. Por vivermos tão conecta- dos a computadores, me preocupa que nossa criatividade acabe amarrada em nós mesmos, em nossos mundos – como um rascunho do 1984 de Orwell. Outro problema é ser quase impossível viver sem depender da internet e do inglês em algum nível”, destaca Haruki Murakami. “Precisa- mos de um sistema que deixe que diferentes países mostrem suas culturas

únicas para conter essa tendência à homogeneização do pensamento.”

FICÇÃO X REALIDADE

Ainda que raras, há boas entrevistas com Haruki Murakami que aju- dam a compreender seu modo de pensar – e como ele chegou à perfeição for- mal de 1Q84. “Sempre quis escrever um romance sobre um passado recente, inspirado em Orwell”, disse, na única entrevista que concedeu depois do lan- çamento da trilogia, ao jornal Yomiuri Shimbun. “Outra fonte foi o incidente envolvendo a seita Aum Shinrikyo; já havia escrito sobre as 60 vítimas do ata- que de gás Sarin em Tóquio e fui a vários julgamentos. Mas minha raiva sobre esse incidente não passava. Queria escrever sobre Hayashi Yasuo, que foi capturado depois de matar oito pessoas. Ele entrou na Aum Shinrikyo, recebeu lavagem ce- rebral, acabou virando um assassino e foi parar no corredor da morte. Você pode achar que seria uma pena justa, mas ele não era um criminoso exatamente. Então, comecei a pensar em um homem deixado sozinho do outro lado da lua, em como ele sentia medo da morte. Esse foi o ponto de partida de 1Q84. O muro que separa

o criminoso do inocente é mais fino do

que pensamos – como ficção e realidade.”

mais fino do que pensamos – como ficção e realidade.” O papel do escritor, para Murakami,

O papel do escritor, para Murakami,

é criar histórias opondo-se a posições

do fundamentalismo e a mistificações. Ele se vê como um contador de histó- rias. “Uma história permanece”, disse,

“se encontrar um espaço no coração de alguém. Pode não ser efetiva como uma história oral, mas cresce ao longo do

tempo – especialmente desde que a in- ternet vive uma enxurrada de opiniões,

é mais importante do que nunca que a história seja poderosa.” Sobre o processo de escrita de 1Q84, Murakami é ao mesmo tempo claro e vago. Ele não deixa de se mostrar profundamente grato ao sistema matemático de Bach em O cravo bem-temperado, mas também abre es- paço para a indefinição própria à inspiração. Quando começou a escrever

o livro no Havaí, no outono de 2006, tinha pouco mais que os nomes das

personagens e uma ligeira ideia do argumento. “Decidi alternar as histó- rias de Aomame e Tengo em tons maiores e menores”, conta, a respeito do tanto de música barroca que há na trilogia. “Uma vez, vi em um cardápio um prato com ‘aomame’ [pera azul], e achei perfeito. Simultaneamente me ocorreu o nome de Tengo – e foi como se o livro já tivesse sido escrito. Queria escrever uma história sobre um homem e uma mulher de 30 anos que tivessem se encontrado quanto tinham 10 anos, mas ficaram muito distantes. Se tenho um argumento fixo, não consigo escrever bem. Preciso de uma ideia imprecisa, de uma imagem, uma suspeita de que algo vai

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| coluna | thaís nicoleti

Regência veRbal em paRes antônimos

| thaís nicoleti Regência veRbal em paRes antônimos 44 M uita gente reclama de não conse-

44

M uita gente reclama de não conse-

guir compreender o sentido da

regência verbal. Aparentemente,

as preposições que ligam verbos

e nomes a seus complementos já

se esvaziaram de qualquer conteúdo semânti- co, o que torna muito difícil saber usá-las sem lançar mão de memorização ou de frequentes consultas a dicionários. Não se pode dizer que isso não seja verdade, mas as coisas não são tão obscuras quanto po- dem parecer à primeira vista. Há feixes de seme- lhanças e contrastes que podem ajudar a encon- trar o sentido perdido das palavras relacionais. Não é novidade que uma das funções do prefixo “des-” é criar antônimos. De contente, fazemos descontente; de amor, desamor; de concertar, desconcertar; de arrumar, desarru- mar – e assim por diante. Observemos, então, o que ocorre com a regência de boa quantidade de verbos antônimos entre si. Alguém se acostuma a fazer alguma coisa, mas desacostuma-se de fazê-la. Acostumou-se a viver só, mas desacostumou-se de viver só. Nes- se caso, em particular, é possível observar que a prefixação acompanha a regência: acostumar- -se a, desacostumar-se de.

Esse comportamento é verificável em ou- tros pares: adaptar-se a uma situação, mas de- sadaptar-se de uma situação; afeiçoar-se a algo ou a alguém, mas desafeiçoar-se de algo ou de alguém; anexar-se a, mas desanexar-se de; apren- der a, mas desaprender de; autorizar alguém a fazer algo, mas desautorizá-lo de fazer algo etc. É muito comum observarmos o emprego inadequado das preposições como fruto da hipercorreção, que é, na verdade, uma pseu- docorreção. O falante da língua faz algum tipo de raciocínio – no seu entender, lógico ou, pelo menos, sensato – que “corrige” um uso linguís- tico interpretado como “incorreto”, embora le- gítimo à luz da norma culta. Não é raro que pessoas imaginem que a regência esteja ligada ao radical do verbo, de modo que, se cremos em algo, temos de descrer em algo. Pode parecer sensato, mas nem sem- pre funciona. Como vimos nos casos acima, a regência pode estar ligada à prefixação da pala- vra, não ao seu radical. Cremos no poder divi- no, mas descremos da justiça dos homens; con- fiamos em alguns, mas desconfiamos de outros. Vemos, assim, que os verbos iniciados pelo prefixo “des-” (de negação) tendem a construir- -se com a preposição “de” (obrigá-lo a fazer algo

e desobrigá-lo de fazê-lo). Isso não significa, po-

rém, que se trate de uma regra “infalível”, pois seria fácil desmenti-la. Obedecemos às leis e, da mesma forma, desobedecemos a elas. Nesse caso, não há nenhuma variação de regência liga- da à prefixação. Os verbos transitivos diretos que têm antônimos formados com o prefixo “des-” também não costumam sofrer alteração de re- gência (respeitar ou desrespeitar algo, fazer ou desfazer algo, montar ou desmontar algo etc.). Merecem observação os verbos que regem complemento introduzido pela preposição “em” na acepção de “introduzir em algum lugar” por oposição aos que regem complemento introduzi- do por “de” na acepção de “tirar ou extrair de al- gum lugar”. Esses pares de antônimos reforçam seu conteúdo semântico por meio da regência, expres- sa na oposição em/de. Vejamos alguns casos ilus-

trativos: prender o quadro na parede/ desprender o quadro da parede; colar o cartaz no muro/ descolar

o cartaz do muro; alojar as pessoas na casa/ desa-

lojar as pessoas da casa; aparecer em algum lugar/ desaparecer de algum lugar; apoiar-se no corrimão/ desapoiar-se do corrimão; enterrar as mãos no bol- so/ desenterrar as mãos do bolso etc. Vemos, assim, que aprender a regência verbal não depende só da memorização.

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thaís nicoleti É AUTORA DO LIVRO REDAÇÃO LINHA A LINHA, CONSULTORA DE LÍNGUA PORTUGUESA EM EMPRESAS E ACAbA DE ESTREAR O bLOG ThAISNICOLETI.bLOGfOLhA.UOL.COM.bR

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FOTO Oscar FilhO: wesley alissOn / cds: divulgaçãO

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ator e apresentador fala do programa ‘cQc’, do espetáculo que mantém há quatro anos e da campanha que encabeça contra a embriaguez no trânsito

Anti-

herói

“C uste o que custar”, além de nome do programa televisivo CQC, parece também ser o melhor

lema para descrever um de seus apresentado- res: o paulista Oscar Filho, que, em fevereiro de 2012, assumiu a difícil missão de subs- tituir o gaúcho Rafinha Bastos na bancada da atração, exibida todas as segundas-feiras pela TV Bandeirantes. “Pensei que o nível de comparação com o Rafinha seria muito gran- de, mas isso não aconteceu tanto quanto eu imaginei. É óbvio que os fãs do Rafinha vão defendê-lo, mas as pessoas souberam me res- peitar bastante e os dois me receberam com uma liberdade muito grande”, comemora. Os dois no caso são Marcelo Tas e Marco Luque. Ator de formação, pelo Instituto de Artes e Ciências (Indac), ele chegou ao programa em

função de um vídeo de stand up comedy di- vulgado pela web. “A mídia da internet é muito forte, porque também é muito democrática. As pessoas não são obrigadas a ver aquilo. E não é ao vivo”, comenta. Neste mês, Oscar Filho engrena as últimas apresentações do espetá-

em cartaz no Teatro Gazeta,

culo Putz Grill

, em São Paulo, com o qual ganhou o 10º Prê- mio Jovem Brasileiro, como Melhor Show de Stand Up Comedy, de 2011. “Esse é o espetá- culo que estou fazendo desde 2008. É o mesmo show com uma ou outra coisa nova, mas 98%

é a mesma coisa, para as pessoas reverem. São

os melhores textos que escrevi desde 2005.” Com relação ao gênero stand up, o humo- rista e apresentador garante que o momento de maior boom já passou e que agora está na fase de as pessoas selecionarem o que realmen- te apreciam. “Mas elas procuram bastante ain- da, porque é um tipo de humor muito simples e com o qual se identificam muito rápido. É o cara ali de cara limpa. Não é um personagem”, explica. E acrescenta: “A maioria dos humoris- tas de stand up não é ator. Eles são publicitá-

rios, dentistas, engenheiros. Inclusive, acho que

é um tipo de humor bem democrático. O que

você precisa ter é muita qualidade de texto”. Atualmente, Oscar Filho também está bastante envolvido com o movimento “Não foi acidente”, que visa mudar as leis de trân- sito no Brasil e foi lançado em 1º de outubro no próprio CQC. Já chamou tanta atenção que conta com o apoio do ministro das Ci- dades, Aguinaldo Ribeiro, e da presidente Dilma Rousseff. “Ainda falta metade das assinaturas, ou seja, 591 mil. A importância da campanha é total, porque, hoje em dia, as pessoas ainda estão meio alienadas em relação à bebida no trânsito. Elas acham que podem ser uma espécie de super-herói”, enfatiza ele, que conta abaixo quais são seus álbuns de música favoritos.

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conta abaixo quais são seus álbuns de música favoritos. c Thriller, live era: ’87-’93, aos vivos,
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Thriller,

live era: ’87-’93,

aos vivos,

Ópera do MalaNdro,

GreaTesT hiTs iii,

Michael Jackson

Guns N’roses

Chico César

Chico Buarque

Queen

“É um cd que ouço desde

“O axl está com a voz

“É supersimples

“É a trilha sonora da

“são várias músicas

que era criança. gosto da

na melhor fase. O cara

a

instrumentação.

peça dele, que é muito

de diferentes fases

maioria das músicas. Tem um som bacana, sem dizer tecnicamente, porque não

canta ao vivo e na época não tinha os programas de computador para

então, dá para você prestar bem atenção às letras,

bacana e tem várias pessoas cantando. a própria Ópera do malandro

e tem alguns convidados também. Foi uma boa junção de personalidades

sou músico.”

melhorar a voz na hora.”

o

que é muito bacana.”

é uma música muito legal.”

para cantar Queen.”

A monumental obra-prima de Bergman como você nunca viu Depois de muita expectativa, a Versátil
A monumental obra-prima de Bergman
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Depois de muita expectativa, a Versátil apresenta Fanny & Alexander, o mais belo lme de Ingmar Bergman, em várias versões:
COLEÇÃO DEFINITIVA
(Caixa com 2 DVDs duplos)
Caixa com a versão de cinema,
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Pela primeira vez no Brasil,
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Fanny & Alexander em alta
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Cinema Noir & Música Clássica DVD Duplo
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DVD duplo com as duas versões desse clássico noir com Humphrey Bogart, mais o remake A Arte de Matar, com Robert Mitchum.

Premiado lme alemão sobre o suposto triângulo amoroso entre Clara, Robert Schumann e Johannes Brahms.

Mitchum . Premiado lme alemão sobre o suposto triângulo amoroso entre Clara , Robert Schumann e

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/ DVDs: DiVuLgaçãO | preferidas | dvds | lana bittencourt Sempre menina Ícone dos anos 1950,

Sempre menina

Ícone dos anos 1950, a cantora pode ser vista no especial ‘a diva passional’, em homenagem aos seus 80 anos

N ão é nada fácil chegar aos 80 anos cantando com a mesma afinação e potencial do iní- cio da carreira, que já conta 58 anos. Irlan Figueiredo Passos, ou simplesmente Lana Bittencourt, faz parte deste seleto grupo. O segredo está em fazer exercícios vocais

diariamente e, segundo ela, nunca ter fumado, bebido ou usado outros tipos de drogas. A can-

tora pode ser assistida no especial A diva passional, que será exibido dia 17 deste mês no Canal Brasil e lançado, no início de 2013, em DVD e CD duplo. Com roteiro, direção geral e idealiza- ção de Rodrigo Faour, trata-se do registro de dois shows realizados no Teatro Rival, no Rio de Janeiro, em outubro de 2010 e março de 2011, com participação de Ney Matogrosso, Bororó, Alcione e Rogéria. “Foi legal, porque perguntei para o pessoal: ‘Vocês estão do meu lado?’. Aí o Ney disse: ‘Sempre estamos do seu lado, Laninha’. Então, foi tudo feito na base do amor.”

A carioca, nascida em 5 de fevereiro de 1932, estreou na música em 1954 na Rádio Tupi e, no

mesmo ano, gravou o primeiro disco em 78 rotações. Entre seus maiores sucessos estão Se alguém telefonar, de Alcyr Pires Vermelho e Jair Amorim; Castigo, de Dolores Duran; Little Darlin (do gru- po norte-americano Diamonds); e Na baixa do sapateiro, de Ary Barroso. “Conheci Ary Barroso bem menina. Ele gostava da minha voz e dizia: ‘Que potencial tem essa menina! Dá para cantar músicas de exaltação’. Em função de a minha voz ser bem forte”, garante. Por isso, gravou vários dis- cos de samba, como o hoje clássico Exaltação ao samba, depois reeditado como Exaltação à Bahia. Apelidada de “A internacional”, por falar português, inglês, francês, italiano e espanhol, Lana

também ficou conhecida por ser uma das primeiras intérpretes de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. “O Vinicius era muito meu amigo. Eu o conheci bem novinho no Itamaraty, porque trabalhei por três meses na biblioteca. Sou biblioteconomista, tradutora e intérprete. Também

fazia traduções de livros didáticos. Inclusive, cantava lá nas festas e reuniões. Ele era embai- xador do Brasil e muito querido”, conta ela, que ainda trilhou carreira na TV e no cinema.

A partir de 1966, porém, Lana Bittencourt, que para nós indica os seus filmes favoritos, se

afastou progressivamente da carreira até retomá-la no final dos anos 70. De lá para cá, gravou apenas três álbuns, todos independentes. Não por menos, o espetáculo A diva passional é um

retorno aos palcos muito bem-vindo.

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diva passional é um retorno aos palcos muito bem-vindo. c TarDe DemaiS para eSQUeCer, Leo mcCarey

TarDe DemaiS para eSQUeCer, Leo mcCarey “É o retrato de um amor quase impossível, mas verdadeiro e raro. Tem um lirismo e uma beleza muito leves. canto a música deste filme no teatro.”

muito leves. canto a música deste filme no teatro.” Ben-HUr, William Wyler “É um épico. um

Ben-HUr, William Wyler “É um épico. um filme histórico que retrata, no final, como as pessoas se transformam e se voltam para Deus e acabam com o barbarismo que havia naquela época.”

Deus e acabam com o barbarismo que havia naquela época.” O GUarDa-COSTaS, mick Jackson “romântico e

O GUarDa-COSTaS, mick Jackson “romântico e com uma mulher maravilhosa, que era a Whitney Houston, como uma atriz de cinema e que canta no filme. após ser ameaçada várias vezes, ela contrata um guarda-costas.”

ameaçada várias vezes, ela contrata um guarda-costas.” CanTanDO na CHUVa, Stanley Donen e Gene Kelly “De

CanTanDO na CHUVa, Stanley Donen e Gene Kelly “De todos os filmes que vi,

o que mais amei foi este.

É a história de um artista que

quer, com dificuldade, mostrar

seu trabalho. não teve até hoje cena mais linda que a de Singin’in the Rain.”

hoje cena mais linda que a de Singin’in the Rain .” a nOViÇa reBeLDe, robert Wise

a nOViÇa reBeLDe, robert Wise

“É a história belíssima

de uma freira, que vai trabalhar como babá numa casa e acaba se apaixonando pelo pai das crianças.”

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“Aperte o cinto para uma viagem rica em desafios, brigas e segredos.” USA Today NOS
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A história da Fiat desde
os primeiros dias de sua
fundação em 1899, com
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Chrysler em meio à crise
de 2008, e de como seu
CEO, Sergio Marchionne,
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Snopes S — até a decadência de
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Yoknapatawpha, Y Mississippi, o
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FOTO JOSÉ ROBERTO GUIMARÃES : IVO GONZALEZ / AGÊNCIA O GLOBO / LIVROS: DIVULGAÇÃO

| preferidas | livros | josé roberto guimarães

| preferidas | livros | josé roberto guimarães JORNADA NAS ESTRELAS Depois de se tornar o

JORNADA NAS ESTRELAS

Depois de se tornar o primeiro brasileiro tricampeão olímpico, com o ouro do vôlei feminino em Londres, ele sonha repetir o feito em quatro anos no Rio de Janeiro

A s medalhas de ouro da seleção masculina de vôlei em Barcelona, em 1992; da seleção femini- na, em Pequim, em 2008; e em Londres, em 2012, têm um nome em comum: é o do técnico José Roberto Guimarães, que, por tradição da competição, nunca levou uma medalha para

casa. “Isso não me incomoda de maneira alguma. Nenhum técnico na história dos Jogos Olímpicos ganhou uma medalha. O mais importante que ca para mim é a missão cumprida e o trabalho bem feito. Daí faço as jogadoras subirem no pódio e receberem as suas medalhas para o nosso hino tocar para o mundo inteiro ouvir. Esse é o momento mais importante e culminante.” Paulista da pequena cidade de Quintana, José Roberto esteve em quadra de 1969 a 1981, período em que jogou em clubes do Brasil e Itália, além de atuar na Olimpíada de 1976, em Montreal. Foi em 1992 que ele se tornou treinador, quando de cara ganhou uma medalha de ouro, comandando os rapazes, em Barce- lona. No entanto, a identi cação com as meninas é tão intensa que ele nunca mais pensou em comandar o time masculino. “Eu me especializei tanto no vôlei feminino. Fiz isso durante dois ciclos olímpicos e saí do Brasil para continuar aprendendo. Vou encerrar minha carreira, espero eu, com equipes femininas”, analisa. A conquista mais recente veio em agosto, quando a seleção feminina venceu uma partida histórica e emocionante contra as favoritas norte-americanas. Após sair perdendo por 11 a 25, a equipe promoveu uma virada de 25 a 17, 25 a 20 e 25 a 17. “O que fez a diferença foi a forma tática como nós jogamos e a determi- nação do time. Fizemos uma partida exuberante e todas as jogadoras estavam muito bem. Nós cometemos

pouquíssimos erros a partir do segundo set. O time se impôs e parecia que tinha ganhado a maioria das últi- mas competições”, comemora ele, que passou os últimos seis anos treinando equipes na Itália e na Turquia, e acaba de voltar ao Brasil para comandar a Amil/Campinas, no Campeonato Paulista. Mas o sonho parece estar mesmo voltado para uma nova conquista daqui a quatro anos, na Olimpíada do Rio de Janeiro. “En- quanto eu tiver essa vontade e paixão pelo esporte de competição, de querer ensinar e fazer parte, é legal. Seria, logicamente, um sonho. Vai ter muito trabalho pela frente. Há um planejamento a ser feito. Nós te- mos um time que está treinando há vários anos. Tem uma seleção muito bem montada”, avalia. Nada muito complexo para um técnico que, mesmo nos momentos de concentração que antecedem os jogos, continua pensando em vôlei enquanto se distrai ouvindo CDs ou lendo alguns livros, como os que indica aqui. c

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CAPITÃES DA AREIA, Jorge Amado “Foi um livro que marcou a minha juventude, em que

ia algumas vezes

à Bahia jogar e estava

fazendo capoeira –

o que lembra um

pouco o que o Jorge Amado escreveu.”

OPEN, Andre Agassi “Ele conta sua vida desde que começou no tênis, como o pai elaborava seus treinos, as bolas que rebatia, os campeonatos em que jogou, além dos namoros com a Brooke Shields e Stef Graf.”

MICHAEL JORDAN, David Halberstam “Ele me marcou ao dizer que errou mais do que acertou e porque as bolas passavam na mão dele nos últimos segundos do jogo e ele

tinha que decidir. É muito legal ler como funciona

a cabeça de um astro.”

ENCANTADORES DE VIDAS, Eduardo Moreira “Ele foi discípulo do Monty Roberts e, neste

livro recente, conta sua vida e a do Nuno Cobra. Ele traça um paralelo da maneira de ser

e da história de vida de cada um deles.”

O HOMEM QUE OUVE CAVALOS, Monty Roberts

“Gosto da relação do homem com o animal, de conseguir tirar do animal

a melhor performance.

Gosto muito da frase:

‘Temos que ir devagar na preparação, porque

temos pressa’.”

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2ª sEmana - DE 01/10 a 07/10vendidos, semana a semana* 1ª sEmana - DE 24/09 a 30/09 3ª sEmana - DE 08/10

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4ª sEmana - DE 15/10 a 21/102ª sEmana - DE 01/10 a 07/10 3ª sEmana - DE 08/10 a 14/10 *O gráficO

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ficção em inglês

1. THe cAsUAl VAcAncY

J.K. Rowling

little BRown-USA

2. fifTY sHADes, V.1 –

fifTY sHADes of gReY e.l. JAmeS RAndom HoUSe

3. fifTY sHADes, V.3 – fReeD

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4. fifTY sHADes – BoXeD seT

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5. fifTY sHADes, V.2 – DARKeR

e.l. JAmeS

RAndom HoUSe

6. 1984,

geoRge oRwell

PlUme

7. song of ice AnD fiRe,

V.5 - A DAnce WiTH DRAgons geoRge R.R. mARtin BAntAm BooKS

8. song of ice AnD fiRe,

V.1 - A gAme of THRones geoRge R. R. mARtin BAntAm BooKS

9. THe HoBBiT – film Tie-in eDiTion

J.R.R. tolKien HARPeR USA 360 10. cloUD ATlAs (moVie Tie-in eDiTion) dAvid mitcHell RAndom HoUSe

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1. A QUeDA –

As memóRiAs De Um pAi em 424 pAssos

diogo mAinARdi

RecoRd

2. cARceReiRos

dRAUzio vARellA

comPAnHiA dAS letRAS

3. A ARTe De escReVeR Bem

(liVRo De Bolso) dAd SqUARiSi e ARlete SAlvAdoR

contexto

4. eU não consigo emAgReceR

PieRRe dUKAn

BeSt SelleR

5. o pAÍs Dos peTRAlHAs ii

ReinAldo Azevedo

RecoRd

6. o liVRo DA psicologiA

váRioS AUtoReS

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7. nAo HÁ DiA fÁcil –

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8. sUA ViDA em moVimenTo

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