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José Carlos Libaéneo ¢ ) é I )datica Sia DIDATICA, José Carlos Libaineo Capa e projeto grifico: Carlos Clémmen -Montagem: Luts Anténio Pinto Barbosa Preparagiio de Originais: Vicente Cechelero ‘Revisdo: Ana Paula Tadeu Massaro, Simone Brito de Araijo, Liege Marucci Composigdo: Dany Editora Lida Coordenaeao editorial: Danilo A. Q. Morales ‘Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorizagio expressa do autor edo editor © 1990 by José Carlos Libineo Direitos para esta edigo CORTEZ EDITORA Rua Barta, 317 ~ Perdizes (0509-000 ~ Sio Paulo ~ SP Tels (11) 3868-0111 Fax: (11) 3864-4290 sail: cortez@cortezeditora.com.br ‘wnww-cortezeditora.com.br Impresso no Brasil - outubro de 2006 Apresentagao da Colecao Apresentacio Prdatica educativa, Pedagogia e Diddtica Pratica educativa e sociedade Educagao, instrugaio e ensino Educagao escolar, Pedagogia e Didatica A Didatica e a formagao profissional do professor Sugestées para tarefas de estudo Bibliografia complementar — : PEERED 2idaione ‘i democratizagéo do ensino A escolarizagao e as lutas democraticas O fracasso escolar precisa ser derrotado As tarefas da escola publica democratica O compromisso social e ético dos professores Sugestdes para tarefas de estudo Bibliografia complementar u 15 16 22 24 27 29 30 33 34 40 47 48 49 Didatica: teoria da instrugdao e do ensino A Didatica como atividade pedagogica escolar Objeto de estudo: o processo de ensino Os componentes do processo didatico Desenvolvimento histérico da Didatica e tendéncias pedagégicas ‘Tendéncias pedagégicas no Brasil ¢ a Didética A Didética e as tarefas do professor Sugestdes para tarefas de estudo Bibliografia complementar cm “. O processo de ensino “ na escola As caracteristicas do processo de ensino Processos didaticos basicos: ensino e aprendizagem Estrutura, componentes e dindmica do processo de ensino A estruturacdo do trabalho docente O cardter educativo do processo de ensino e 0 ensino eritico Sugestées para tarefas de estudo Bibliografia complementar = %u sO processo de ensino e o estudo ativo O estudo ativo e o ensino A atividade de estudo e 0 desenvolvimento intelectual Algumas formas de estudo ativo Fatores que influem no estudo ativo 6 51 52 54 55 57 64 7 74 76 7 78 81 91 96 99 101 102 103 104 105 108 110 Sugestées para tarefas de estudo Bibliografia complementar "Os objetivos e = contetdos de ensino A importéncia dos objetivos educacionais Objetivos gerais e objetivos especificos Os contetidos de ensino Critérios de selegio Sugestdes para tarefas de estudo Bibliografia complementar Easel Os métodos de ensino Conceito de método de ensino A relagdo objetivo-contetido-método Os prinefpios basicos do ensino Classificagao dos métodos de ensino Meios de ensino Sugestdes para tarefas de estudo Bibliografia complementar A aula como forma de organizagaéo do ensino Caracteristicas gerais da aula Estruturagao didatica da aula Tipos de aulas e métodos de ensino 7 uz 118 119 120 122 127 1422 145 146 149 150 153 155 160 173 173 175 177 178 179 191 Sugestées para tarefas de estudo Bibliografia complementar nee A avaliagéo escolar ‘Uma definigao de avaliagao escolar Avaliagao na pratica escolar Caracteristicas da avaliagao escolar Instrumentos de verificagao do rendimento escolar Atribuigao de notas ou conceitos Sugestdes para tarefas de estudo Bibliografia complementar O planejamento escolar Importncia do planejamento escolar Requisitos gerais para o planejamento plano da escola plano de ensino plano de aula Sugestdes para tarefas de estudo Bibliografia complementar ee eee Relagées professor-aluno na sala de aula Aspectos cognoscitivos da interagao Aspectos sécio-emocionais A disciplina na classe Sugestées para tarefas de estudo Bibliografia complementar Bibliografia Geral 193 195 196 198 200 203 217 218 220 221 222 226 230 232 241 246 247 249 250 251 252 254 255 257 Apresentagao da Colecao A Colegio Magistério — 2° Grau compve-se de 25 livros didéticos para o curso de 2° grau abrangendo as disciplinas do Nicleo Comum e da Habilitagio Ma- gistério (antigo curso normal). Esté organizada em duas séries: a série Formagao Geral com 12 livros, sendo um para cada disciplina do Nacleo Comum do 2° grau, © a série Formagdo do Professor com 12 livros, sendo um para cada disciplina da formagio profissional para 0 magistério no ensino de 1° grau. Completa a Cole¢io 0 livro Revendo 0 Ensino de 2° Grau — Propondo a Formacdo de Professores, que oferece as Secretarias de Educagao, aos diretores de escola, as equipes pedagdgicas € a0s professores, diretrizes e orientagdes sobre a organizagio pedagégica, diditica e administrativa dos cursos de 2° grau e da Habilitagdo Magistério, O principal objetivo desta Colegdo € contribuir para a methoria da qualidade do censino ministrado na escola de 2° grau, tanto através da formagio do professor que exerce suas atividades nesse nivel de ensino, quanto daguele que atuard nas séries iniciais do ensino fundamental, mediante livros didéticos com conteiidos pautados pelo seu cardter cientifico e sistematico, em estreitaligagio com exigéncias metodo- logicas do ensino e aprendizagem. As duas séries que compdem a Coleco formam um conjunto orginico de modo a: assegurar um s6lido dom{nio dos contetidos como base para a formagao cientifica e profissional e para a conscigncia critica das tarefas sécio-politicas ¢ pedagégicas do ensino; articular objetivos/conteidos/métodos das disciplinas do Nicleo Comum € das disciplinas de formagio profissional, especialmente as metodologias especificas de ensino das disciplinas do curriculo do 1° grau; favorecer 0 trabalho conjunto dos professores na escola de modo a assegurar, dentro de um projeto pedagdgico unitério, a interdisciplinariedade e as peculiaridades de cada disciplina; propiciar as Secretarias, de Educagio dos Estados possibilidade de formulagao de uma politica unitéria de formagao cientifica e profissional dos seus professores. Cumpre esclarecer que os livros-texto da série Formagdo Geral atendem, também, a exigéncias pedag6gico-di- iticas especfficas dos demais cursos de 2° grau. Cada um dos livros oferece a professores e alunos, além dos textos referentes as unidades do programa, um estudo sobre os objetivos da disciplina, uma proposta de contetidos basicos e indicagSes metodoldgicas para o trabalho conjunto do professor € dos alunos, formas de articulago com as outras disciplinas uma bibliografia com- plementar para aprofundamento de estudos, As unidades de estudo foram elaboradas de modo a abordar os temas em pro- fundidade, assegurando o méximo de informagGes, conceitos idéias, permitindo a0 Professor uma re-selegdo de contetidos, conforme exigéncias de cada escola e carac- 9 terfsticas sécio-culturais © individuais dos alunos. Essa forma de organizagio dos livros-texto possibilita sua utilizagao também nos cursos de pedagogia, licenciaturas ce cursos de aperfeigoamento de professores em exerci Ao langarmos esta Colegio, nossa preocupagio esteve sempre voltada para a escola de I° grau, especialmente para as séries iniciais, entendendo que a methoria da competéncia profissional dos professores & uma das formas de efetivagio do nosso compromisso politico-social na escolarizagio das criancas brasileiras, Sabemos que as miltiplas dificuldades que incidem nas atividades do magisté+io — por exemplo, os baixos salérios, as més condigées de trabalho ¢ as deficiéncias da formagio profissional — advém fundamentalmente de condicionantes estruturais, da sociedade € do sistema de ensino. E inquestionavel que as transformagées no censino sio insepardveis das transformagdes sociais mais amplas, Todavia, acreditamos que a formagao te6rica € pritica do professorado, aliada a uma consciéncia politica das tarefas sociais que deve cumprir, pode contribuir para a clevagao da qualidade do ensino e da formagio cultural dos alunos, condigio coadjuvante para a efetivacao de lutas na diregdo da democracia politica e social. A publicagao da Colegio Magistério — 2° Grau ¢ resultado do “Projeto Dire- trizes Gerais para 0 ensino de 2° grau: Nécleo Comum e Habilitagao Magistério” roposto ¢ desenvolvido, entre os anos de 1985-88, pela COEM — Coordenadoria para Articulagio com Estados ¢ Municipios da SESG — Secretaria do Ensino de 2° Grau do Ministério da Educacdo, com 0 apoio administrativo da Pontificia Universidade Cat6lica de Sio Paulo. © Projeto envolvendo o trabalho de 28 professores especialistas nas disciplinas do Nacleo Comum c da Habilitagio Magistério foi, entdo, coordenado pelos professores Selma Garrido Pimenta e Carlos Luiz Gongalves. Elaborados nos ‘anos de 1987-88, 0s livros que compem esta Colegio vém a piblico gracas ao interesse da Cortez Editora, 20 apoio institucional do MEC/SESG/COEM e do CRUB — Con- selho de Reitores das Universidades Brasileiras A realizagio de um trabalho desta envergadura nijo teria sido possfvel sem o esforgo coletivo e conjugado de muitas pessoas e instiuigbes: os autores, os coorde- nadores do Projeto, o pessoal de apoio administrativo, a equipe de revisdo e compa- tibilizagdo dos textos. Queremos destacar a colaborago da equipe técnica da COEM — Coordenadoria para Articulagio com Estados ¢ Municfpios, especialmente dos professores Célio da Cunha, Nabiha Gebrim de Souza, Heliane Morais Nascimento, Margarida Jardim Cavalcante, Solange Maria de Fétima G. P. Castro, Violeta Moreira de Souza e Nilton Ismael Rosa, que ndo mediram esforsos para que 0 projeto pudesse sobreviver aos tropegos administratives ¢ institucionais. Cabe ressaltar, por fim, que 0s livros desta Colegdo expressam posicionamentos te6ricos de cada autor e no necessariamente os das instituighes que viabilizaram, de um modo ou de outro, sua publicagto, Selma Garrido Pimenta José Carlos Libaneo Coordenadores 10 Apresentacao Os professores de Didatica e os alunos de cursos de formagio de professores tm em mis um manual de estudo. Nele esto contidos os temas que presumivelmente formam 0 conjunto dos conhecimentos e pri- ticas escolares necessdrios para que o futuro professor possa assumir uma sala de aula. Adota-se, neste trabalho, 0 ponto de vista de que a Didatica uma matéria-sfntese, porque agrupa organicamente os contetidos das de- mais matérias que estudam aspectos da pritica educativa escolar — as chamadas ciéncias pedagégicas (Filosofia da Educagdo, Psicologia da Edu- cago, Sociologia da Educagio e outras correlatas) — e as metodologias especificas das matérias do ensino de 1° grau. Em outras palavras, con dera-se a Didética como uma matéria de integracZo: ela se nutre dos co- nhecimentos e priticas desenvolvidos nas metodologias especificas e nas outras ciéncias pedagégicas para formular generalizagdes em torno de co- nhecimentos e tarefas docentes comuns e fundamentais ao proceso de ensino. que se pretende, neste livro, € proporcionar conhecimentos teéricos € priticos que possibilitem aos professores: a) percepedo e compreensio reflexiva e critica das situagées dis no seu contexto histérico e social; ) compreensio critica do processo de ensino na sua fungao de asse- gurar, com eficdcia, 0 encontro ativo do aluno com as matérias escolares , portanto, das condigdes e modos de articulagiio entre os processos de transmissio e assimilagaio de conhecimentos; ©) compreensio da unidade objetivos-contetidos-métodos enquanto es- pinha dorsal das tarefas docentes de planejamento, ditegao do processo de ensino e aprendizagem, e avaliagio; icas, u 4) 0 dominio de métodos, procedimentos ¢ formas de diregio, orga- nizagio ¢ controle do ensino face a situagées diditicas concretas. O pressuposto, assim, € que o professor necessita de uma instrumen- talizagio ao mesmo tempo te6rica e técnica para que realize satisfat mente o trabalho docente, em condigdes de criar sua propria didética, ou seja, sua pratica de ensino em situagdes didéticas especificas conforme 0 contexto social em que ele atue. Este livro esté organizado em onze capitulo, cada qual desdobrado em t6picos e seguido de sugestdes de tarefas de estudo. Ao final de cada capitulo foi incluida uma bibliografia complementar. Os capitulos obedecem a uma seqiléncia légica, com contetidos que vao dos aspectos gerais aos especificos. Isto no impede que o professor organize outra seqiiéncia e acrescente temas no considerados. Também poder ocorrer a superposi¢zo de assuntos tratados em outras disciplinas; esse caso, cabe ao professor entrar em entendimento com os demais colegas para decidir a extensio e 0 grau de aprofundamento de tais assuntos. Por exemplo, os capitulos 1 © 2 tratam de temas relacionados com Sociologia da Educacao, assim como os 6, 10 ¢ 11 apresentam t6picos ligados a Sociologia da Educago e Estrutura e Funcionamento do Ensino. E 0s ca- pitulos 4, 5 e 8 tém muito em comum com Psicologia da Educagio. En- tretanto, havendo ou nio simultaneidade, a recoréncia do mesmo assunto em contextos ou momentos diferentes € benéfica aos alunos. Primeiro, porque o estudo de qualquer matéria requer a compreenstio da educacao escolar na sua globalidade, isto é, nos seus vinculos com 0 conjunto dos processos sociais; segundo, porque a recordaco e a repetigao ajudam a fixar e consolidar os conhecimentos. Os capftulos so desenvolvidos em graus variados de aprofundamento, O professor deve selecionar conceitos e idéias mais relevantes, empregar recursos didéticos (como esquemas e grificos) e, principalmente, ajudar 08 alunos no manejo do livro, na leitura e compreensio dos textos, destaque de idéias principais, consulta bibliografica, formulagio de problemas e per- ‘guntas etc. As dificuldades encontradas no estudo no podem levar os alunos a0 desinimo. O professor deve colocar essas dificuldades como desafios a vencer. Muitos assuntos sero melhor assimilados ao longo do curso; outros ganhardo significado com a pratica profissional. Os alunos devem ser en- corajados a buscar mais conhecimento, a ampliar sua vistio das coisas, a se manterem informados dos acontecimentos politicos, econdmicos, cultu- ais e educacionais, a discutirem com fundamento os problemas da profissio, da cidade e do pais. Para isso, precisam convencer-se da importincia do 12 estudo sistemético e ganhar confianga em relago as suas préprias possi- bilidades intelectuais, Para 0 planejamento, sequéncia e organizagdo da matéria e desenvol- vimento das aulas recomenda-se que o professor leia todo o livro a fim de assimilar seu conteiido e as propostas metodolégicas quanto a diregio do processo de ensino, De nada adiantara o curso de Didatica se 0 professor fizer uma coisa e os alunos forem levados a fazer outra. Ou seja, convém que a cada aula ele desenvolva uma pritica de ensino, uma metodologia, em consondncia com as expectativas que ele tem em relag3o ao modo como os alunos, futuros professores, deverdo atuar na profissdo docente. Quanto ao planejamento, o professor encontraré nos capftulos de 6 a 10 uma orientago para a formulacdo de objetivos, a selego e organizagao de contetidos e desenvolvimento metodolégico. Havendo mais de um pro- fessor, seri preciso programar a sequéncia dos capitulos conjuntamente. Para o desenvolvimento das aulas, além das indicagbes contidas no capftulo 8, sugere-se prever uma variagdo das atividades de ensino, entre- meando aulas expositivas de varios tipos, trabalho independente dos alunos, trabalhos com grupos menores. Convém que, em determinados momentos de execugdo da programagio, os préprios alunos assumam essas atividades, sempre com a orientagdo prévia do professor. Recomenda-se especialmente que 0s alunos leiam livros e artigos, tendo em vista nao apenas desenvolver © hébito da leitura, mas levé-los a confrontar pontos de vista diferentes, ampliar a compreensio dos temas, adquirir disciplina intelectual, conquistar a coragem da divida e a independéncia de pensamento. Em relagdo as tarefas de estudo colocadas ao final de cada capitulo, © professor deve considerd-las como sugestdes. Elas podem ser empregadas nas vérias etapas ou passos didéticos da aula, Entretanto, € fundamental que simultaneamente ds aulas em classe sejam dadas tarefas de pesquisa em escolas da cidade. Evidentemente, isto depende de como a escola e os professores organizem o estigio. Finalmente, cabe uma consideraco a respeito da relagio entre Didética, metodologias especificas das matérias, Pritica de Ensino e Estigio. A rigor, a Diditica € prética de ensino, assim como so pritica de ensino todas as matérias profissionalizantes e as mietodologias espectficas. Ou seja, todas as matérias do curriculo partem, incluem e levam a pritica de ensino. Em particular, hé uma fecundacdo miitua entre Didatica e as metodologias es- pecificas, nao se concebendo uma sem as outras. Seria desejavel que os professores dessas matérias, bem como das demais matérias profissionali zantes — uma vez que todos sio formados no curso de Pedagogia — dominassem 0 contetido da Didatica ¢ das metodologias de ensino das B matérias das quatro séries iniciais do 1° grau. Na pratica, essa situagio nem sempre se verifica; assim as escolas deveriam assegurar 0 trabalho coordenado entre esses professores para que o estégio seja uma tarefa co- nectada com os programas. Tal resultado depende da forma de organizagio curricular adotada em cada escola. A preparagio deste livro niio seria possivel sem a contribuigio de colegas, professores, alunos com os quais foram discutidas estas questes, por meio de conversas, debates, cursos ¢ conferéncias. Como em toda cién- cia, a Pedagogia e a Didética ndio podem dispensar o intercdmbio de opinides ea referéncia continua a pritica real. Algumas pessoas dedicaram seu pre~ cioso tempo a ler os originais, sugerit modificagdes e mostrar outras pers- peetivas de enfoque dos temas, Essas pessoas foram: Selma Garrido Pi- menta, Marli Elisa D. A. André, Maria Liicia Leonardi Libaneo, Maria Augusta de Oliveira, Maria das Gragas Ferreira, Elionora Delwing Koff, As quais desejo registrar meus sinceros agradecimentos. O Autor 14 Capitulo 1 mos nosso estudo de Didética situando-a no conjunto dos co- nhecimentos pedagégicos e esclarecendo seu papel na formagio profissional para o exercicio do magistério. Do mesmo modo que 0 professor, na fase inicial de cada aula, deve propor e examinar com os alunos os abjetivos, contetidos ¢ atividades que serdio desenvolvidos, preparando-os para o estudo da disciplina, também neste livro cada capitulo se inicia com o delineamento dos temas, indicando objetivos a alcangar no proceso de assimilagzio cons- ciente de conhecimentos e habilidades. Este capitulo tem como objetivos compreender a Didatica como um dos ramos de estudo da Pedagogia, justificar a subordinagio do processo didatico a finalidades educacionais ¢ indicar os conhecimentos teéricos e riticos necessérios para orientar a ago pedagdgico-didatica na escola. Consideraremos, em primeiro lugar, que o processo de ensino — objeto de estudo da Didética — no pode ser tratado como atividade restrita 20 espago da sala de aula. © trabalho docente & uma das modalidades espe- ccificas da pritica educativa mais ampla que ocorre na sociedade. Para com- preendermos a importancia do ensino na formagiio humana, € preciso con- 15 sideré-lo no conjunto das tarefas educativas exigidas pela vida em sociedade. A ciéncia que investiga a teoria e a pratica da educag3o nos seus vinculos com a pratica social global é a Pedagogia. Sendo a Diddtica uma disciplina que estuda os objetivos, os conteiidos, os meios e as condigdes do processo de ensino tendo em vista finalidades educacionais, que so sempre soci cla se fundamenta na Pedagogia; ¢, assim, uma disciplina pedagégica. Ao estudar a educagio nos seus aspectos sociais, politicos, econémicos, psicolégicos, para descrever e explicar o fendmeno educativo, a Pedagogia recorre & contribuigo de outras ciéncias como a Filosofia, a Historia, a Sociologia, a Psicologia, a Economia. Esses estudos acabam por convergir na Didatica, uma vez que esta redne em seu campo de conhecimentos objetivos e modos de aco pedagégica na escola. Além disso, sendo a educag&o uma pratica social que acontece numa grande variedade de ins- tituigdes e atividades humanas (na familia, na escola, no trabalho, nas igre- jas, nas organizagées politicas e sindicais, nos meios de comunicagao de ‘massa etc.), podemos falar de uma pedagogia familiar, de uma pedagogia politica etc. e, também, de uma pedagogia escolar. Nesse caso, constituem- se disciplinas propriamente pedagégicas tais como a Teoria da Educacio, Teoria da Escola, Organizagio Escolar, destacando-se a Didatica como Teoria do Ensino. Nesse conjunto de estudos indispensdveis A formagio teérica e pritica dos professores, a Didética ocupa um lugar especial. Com efeito, a atividade principal do profissional do magistério € 0 ensino, que consiste em dirigir, organizar, orientar e estimular a aprendizagem escolar dos alunos. E em fungdo da condugao do processo de ensinar, de suas finalidades, modos e condigées, que se mobilizam os conhecimentos pedagégicos gerais ¢ es- pecificos. Neste capitulo serdo tratados os seguintes temas: pratica educativa e socieda educagio, instrugdo e ensino; Educagdo Escolar, Pedagogia e Didética; a Diditica e a formagio profissional dos professores. ooo0 Pratica educativa e sociedade O trabalho docente ¢ parte integrante do proceso educativo mais global pelo qual os membros da sociedade so preparados para a participagio na vida social. A educagdo — ou seja, a pratica educativa — é um fendmeno social ¢ universal, sendo uma atividade humana necesséria a existéncia e 16 funcionamento de todas as sociedades. Cada sociedade precisa cuidar da formacao dos individuos, auxiliar no desenvolvimento de suas capacidades fisicas ¢ espirituais, prepard-los para a participagio ativa e transformadora nas varias instancias da vida social. Nao hé sociedade sem pritica educativa nem pritica educativa sem sociedade. A pritica educativa nao é apenas uma exigéncia da vida em sociedade, mas também 0 processo de prover 0s individuos dos conhecimentos e experiéncias culturais que os tornam aptos a atuar no meio social e a transformé-lo em fungio de necessidades econdmicas, sociais e politicas da coletividade. Através da ago educativa 0 meio social exerce influéncias sobre os individuos ¢ estes, ao assimilarem e recriarem essas influéncias, tomam-se capazes de estabelecer uma relagio ativa e transformadora em relagZo ao meio social. Tais influéncias se manifestam através de conhecimentos, ex- periéncias, valores, crengas, modos de agir, téenicas e costumes acumulados Por muitas geragées de individuos e grupos, transmitidos, assimilados ¢ recriados pelas novas geragées. Em sentido amplo, a educagao compreende 08 processos formativos que ocorrem no meio social, nos quais os individuos esto envolvidos de modo necessério e inevitavel pelo simples fato de existirem socialmente; neste sentido, a prética educativa existe numa grande variedade de instituigdes © atividades sociais decorrentes da organizagio econémica, politica ¢ legal de uma sociedade, da religiio, dos costumes, das formas de convivéncia humana. Em sentido estrito, a educagio ocorre em instituigdes especificas, escolares ou nao, com finalidades explicitas de instrugao ¢ ensino mediante uma ago consciente, deliberada e planificada, embora sem separar-se daqueles processos formativos gerais. Os estudos que tratam das diversas modalidades de educagio costumam caracterizar as influéncias educativas como no-intencionais e intencionais. A educagéo ndo-intencional refere-se &s influéncias do contexto social ¢ do meio ambiente sobre os individuos. Tais influéncias, também denomi nadas de educagio informal, correspondem a processos de aquisigio de conhecimentos, experiéncias, idéias, valores, praticas, que nio estio ligados especificamente a uma instituiggo © nem sio intencionais e conscientes. Sao situagdes ¢ experiéncias, por assim dizer, casuais, espontineas, nio organizadas, embora influam na formagdo humana. E 0 caso, por exemplo, das formas econémicas ¢ politicas de organizacao da sociedade, das relagées humanas na familia, no trabalho, na comunidade, dos grupos de convivéncia humana, do clima sécio-cultural da sociedade. A educagdo intencional refere-se a influéncias em que hé intengdes € objetivos definidos conscientemente, como é 0 caso da educagao escolar € extra-escolar. Hé uma intencionalidade, uma consciéncia por parte do educador quanto aos objetivos e tarefas que deve cumprir, seja ele o pai, 7 © professor, ou os adultos em geral — estes, muitas vezes, invisfveis atrés de um canal de televisio, do radio, do cartaz. de propaganda, do computador etc, Ha métodos, técnicas, lugares e condicdes especificas prévias criadas deliberadamente para suscitar idéias, conhecimentos, valores, atitudes, com- portamentos. So muitas as formas de educagao intencional e, conforme o objetivo pretendido, variam os meios. Podemos falar da educagio nfo-for- mal quando se trata de atividade educativa estruturada fora do sistema escolar convencional (como é 0 caso de movimentos sociais organizados, dos meios de comunicagio de massa etc.) ¢ da educagio formal que se realiza nas escolas ou outras agéncias de instrugio e educagio (igrejas, sindicatos, partidos, empresas) implicando agdes de ensino com objetivos pedagdgicos explicitos, sistematizagio, procedimentos didaticos. Cumpre acentuar, no entanto, que a educago propriamente escolar se destaca entre as demais formas de educagao intencional por ser suporte e requisito delas. Com efeito, é aescolarizagao basica que possibilita aos individuos aproveitar ¢ interpretar, consciente e criticamente, outras influéncias educativas. E impossivel, na sociedade atual, com o progresso dos conhecimentos cien- tificos e técnicos, € com 0 peso cada vez maior de outras influéncias edu- cativas (mormente os meios de comunicagio de massa), a participagio efetiva dos individuos ¢ grupos nas decisSes que permeiam a sociedade sem a educagio intencional e sistematizada provida pela educagao escolar. As formas que assume a prética educativa, sejam ndo-intencionais ou intencionais, formais ou nao-formais, escolares ou extra-escolares, se in- terpenetram. O processo educativo, onde quer que se dé, é sempre contex- tualizado social e politicamente; hd uma subordinagao a sociedade que the faz. exigéncias, determina objetivos e Ihe prové condigdes e meios de aco. Vejamos mais de perto como se estabelecem os vinculos entre sociedade € educagio. Conforme dissemos, a educagio é um fendmeno social. Isso significa que cla € parte integrante das relagdes sociais, econdmicas, politicas culturais de uma determinada sociedade. Na sociedade brasileira atual, a estrutura social se apresenta dividida em classes e grupos sociais com in- teresses distintos e antagénicos; esse fato repercute tanto na organizacio econdmica ¢ politica quanto na pritica educativa. Assim, as finalidades meios da educagio subordinam-se & estrutura e dindmica das relagdes entre as classes sociais, ou seja, so socialmente determinados. Que significa a expresso “a educagdo é socialmente determinada”? Significa que a pritica educativa, ¢ especialmente os objetivos e contetidos do ensino € 0 trabalho docente, estiio determinados por fins e exigéncias sociais, politicas ¢ ideolégicas. Com efeito, a pratica educativa que ocorre em varias instancias da sociedade — assim como os acontecimentos da 18 vida cotidiana, os fatos politicos e econémicos etc. — € determinada por valores, normas e particularidades da estrutura social a que esta subordinada. A estrutura social e as formas sociais pelas quais a sociedade se organiza so uma decorréncia do fato de que, desde o inicio da sua existéncia, os homens vivem em grupos; sua vida est na dependéncia da vida de outros membros do grupo social, ou seja, a histéria humana, a historia da sua vida e a historia da sociedade se constituem e se desenvolvem na dindmica das relagdes sociais. Este fato é fundamental para se compreender que a organizagao da sociedade, a existéncia das classes sociais, 0 papel da edu- cago estio implicados nas formas que as relagdes sociais vio assumindo pela ago prética conereta dos homens. Desde o inicio da histéria da humanidade, os individuos ¢ grupos trayam relagdes recfprocas diante da necessidade de trabalharem conjun- tamente para garantit sua sobrevivéncia. Essas relagdes vio passando por transformagées, criando novas necessidades, novas formas de organizagio do trabalho e, especificamente, uma divisio do trabalho conforme sexo, lade, ocupagdes, de modo a existit uma distribuigio das atividades entre 0s envolvidos no proceso de trabalho. Na hist6ria da sociedade, nem sempre houve uma distribuigio por igual dos produtos do trabalho, tanto materiais quanto espirituais. Com isso, vai surgindo nas relagGes sociais a desigual- dade econdmica ¢ de classes. Nas formas primitivas de relagées sociais, 05 individuos tém igual usufruto do trabalho comum. Entretanto, nas etapas seguintes da hist6ria da sociedade, cada vez mais se acentua a distribuigao desigual dos individuos em distintas atividades, bem como do produto dessas atividades. A divisdo do trabalho vai fazendo com que 0s individuos passem 4 ocupar diferentes lugares na atividade produtiva, Na sociedade escravista, os meios de trabalho ¢ 0 préprio trabalhador (escravo) sio propriedade dos donos de terras; na sociedade feudal, os trabalhadores (servos) sio obrigados a trabalhar gratuitamente as terras do senhor feudal ou a pagar-lhe tributos. Séculos mais tarde, na sociedade capitalista, ocorreu uma diviséo entre os proprietérios privados dos meios de produgio (empresas, méquinas, bancos, instrumentos de trabalho etc.) © 0S que vendem a sua forga de trabalho para obter os meios da sua subsisténcia, os trabalhadores que vivem do salério, As relagdes sociais no capitalismo so, assim, fortemente marcadas pela divistio da sociedade em classes, onde capitalistas e trabalhadores ocu- Pam lugares opostos ¢ antagénicos no processo de produgao. A classe social proprietaria dos meios de produg3o retira seus lucros da exploragao do trabalho da classe trabalhadora. Esta, & qual pertencem cerca de 70% da populagio brasileira, é obrigada a trocar sua capacidade de trabalho por um saldrio que ndo cobre as sas necessidades vitais ¢ fica privada, também, 19 da satisfagio de suas necessidades espirituais e culturais. A alienagio eco- ndmica dos meios e produtos do trabalho dos trabalhadores, que é a0 mesmo tempo uma alienagio espiritual, determina desigualdade social e conse- glléncias decisivas nas condigdes de vida da grande maioria da populagio trabalhadora. Este é 0 trago fundamental do sistema de organizagao das relagdes sociais em nossa sociedade. A desigualdade entre os homens, que na origem & uma desigualdade econémica no seio das relagdes entre as classes sociais, determina no apenas as condigGes materiais de vida e de trabalho dos individuos mas também a diferenciago no acesso & cultura espiritual, & educagiio. Com efeito a classe social dominante retém os meios de producao material como também os meios de produgdo cultural e da sua difusdo, tendendo a colocé-la 1a servigo dos seus interesses. Assim, a educagdo que os trabalhadores re- cebem visa principalmente preparé-los para trabalho fisico, para atitudes conformistas, devendo contentar-se com uma escolarizagio deficiente. Além disso, a minoria dominante dispde de meios de difundir a sua propria con- cepciio de mundo (idéias, valores, priticas sobre a vida, o trabalho, as relagdes humanas etc.) para justificar, ao seu modo, o sistema de relagoes sociais que caracteriza a sociedade capitalista. Tais idéias, valores e préticas, apresentados pela minoria dominante como representativos dos interesses de todas as classes sociais, stio 0 que se costuma denominar de ideologia. sistema educativo, incluindo as escolas, as igrejas, as agéncias de for- ‘mago profissional, os meios de comunicagaio de massa, 6 um meio pri legiado para o repasse da ideologia dominante. Consideremos algumas afirmagies que so passadas nas conversas, nas aulas, nos livros didéticos: 12 “O Governo sempre faz 0 que € possivel; as pessoas 6 que nfo cola- boram”; 2 “Os professores ndo tém que s¢ preocupar com politica; o que devem fazet & cumprir sua obrigagio na escola” 0 “A educacio é a mola do sucesso, para subir na vida"; © “Nossa sociedade ¢ democritica porque dé oportunidades iguais a to- dos. Se a pessoa nao tem bom emprego ou ndo consegue estudar € porque tem limitages individuais”; 0 “As criangas so indisciplinadas e relapsas porque seus pais no Ihes dio educagdo conveniente em casa”; © “As criangas repetem de ano porque no se esforgam; tudo na vida depende de esforgo pessoal”; c= “Bom aluno é aquele que sabe obedecer”. 20 Essas ¢ outras opinides mostram idéias e valores que ndo condizem com a realidade social. Fica parecendo que o governo se pde acima dos conflitos entre as classes sociais e das desigualdades, fazendo recair os problemas na incompeténcia das pessoas, e que a escolarizagao pode reduzir as diferengas sociais, porque da oportunidade a todos. Problemas que sio decorrentes da estrutura social so tomados como problemas individuais. Entretanto, so meias-verdades, so concepgées parciais da realidade que escondem os conflitos sociais ¢ tentam passar uma idéia positiva das coisas. Pessoas desavisadas acabam assumindo essas crengas, valores e praticas, como se fizessem parte da normalidade da vida; acabam acreditando que a sociedade € boa, os individuos € que destoam, A prética educativa, portanto, € parte integrante da dinamica das 1e- lagdes sociais, das formas da organizagdo social. Suas finalidades e pro- essos sio determinados por interesses antagonicos das classes sociais. No trabalho docente, sendo manifestago da pritica educativa, esto presentes interesses de toda ordem — sociais, politicos, econdmicos, culturais — que precisam ser compreendidos pelos professores. Por outro lado, é preciso ‘compreender, também, que as relagGes sociais existentes na nossa sociedade niio sio estaticas, imutaveis, estabelecidas para sempre. Elas so dinmicas, uma vez que se constituem pela agdo humana na vida social. Isso significa Que as relagdes sociais podem ser transformadas pelos préprios individuos que a integram, Portanto, na sociedade de classes, nfo € apenas a minoria dominante que pde em pritica os seus interesses. Também as classes tra- balhadoras podem elaborar ¢ organizar concretamente os seus interesses ¢ formular objetivos meios do processo educativo alinhados com as lutas pela transformagao do sistema de relagdes sociais vigente. O que devemos ter em mente que uma educagio voltada para os interesses majoritirios da sociedade efetivamente se defronta com limites impostos pelas relagées de poder no seio da sociedade. Por isso mesmo, o reconhecimento do papel Politico do trabalho doceste implica a luta pela modificagio dessas relagdes de poder. Fizemos essas consideragées para mostrar que a pritica educativa, a vida cotidiana, as relagées professor-alunos, os objetivos da educacio, 0 trabalho docente, nossa percepgao do aluno esto carregados de significados sociais que se constituem na dinamica das relagées entre classes, entre Fagas, entre grupos religiosos, entre homens e mulheres, jovens e adultos. Sao 0s seres humanos que, na diversidade das relagGes reciprocas que travam em varios contextos, dio significado as coisas, as pessoas, as idéias; ¢ socialmente que se formam idéias, opinides, ideologias. Este fato é funda- mental para compreender como cada sociedade se produz e se desenvolve, como se organiza e como encaminha a prética educativa através dos seus 21 conflitos € suas contradigdes. Para quem lida com a educago tendo em vista a formago humana dos individuos vivendo em contextos sociais de- terminados, € imprescindfvel que desenvolva a capacidade de descobrir as, relagdes sociais reais implicadas em cada acontecimento, em cada situagio real da sua vida e da sua profissio, em cada matéria que ensina como também nos discursos, nos meios de comunicagdo de massa, nas relagdes cotidianas na familia e no trabalho. © campo especifico de atuagio profissional e politica do professor & a escola, 2 qual cabem tarefas de assegurar aos alunos um sélido dominio de conhecimentos ¢ habilidades, 0 desenvolvimento de suas capacidades intelectuais, de pensamento independente, critico e criativo. Tais tarefas representam uma significativa contribuicao para a formagao de cidadaos ativos, criativos e criticos, capazes de participar nas lutas pela transformagio social. Podemos dizer que, quanto mais se diversificam as formas de edu- cagdo extra-escolar € quanto mais a minoria dominante refina os meios de difusdo da ideologia burguesa, tanto mais a educagao escolar adquire im- portancia, principalmente para as classes trabalhadoras. ‘Vé-se que a responsabilidade social da escola e dos professores é muito grande, pois cabe-Ihes escolher qual concepgao de vidae de sociedade deve ser trazida & consideragiio dos alunos e quais contetidos e métodos Ihes propiciam o dominio dos conhecimentos e a capacidade de raciocinio necessérios & compreensio da realidade social ¢ 3 atividade prética na profissao, na politica, nos movimentos sociais. Tal como a educagio, tam- bém o ensino é determinado socialmente. Ao mesmo tempo que cumpre objetivos e exigéncias da sociedade conforme interesses de grupos e classes sociais que a constituem, o ensino cria condigdes metodolégicas e organi- zativas para 0 processo de transmissao € assimilagao de conhecimentos € desenvolvimento das capacidades intelectuais e processos mentais dos alu- nos tendo em vista 0 entendimento critico dos problemas sociais. Educagio, instrugao e ensino Antes de prosseguirmos nossas consideragdes, convém esclarecer 0 significado dos termos educagio, instrugdo e ensino. Educagdo é um con- ceito amplo que se refere ao processo de desenvolvimento onilateral da personalidade, envolvendo a formagio de qualidades humanas — fisicas, ‘morais, intelectuais, estéticas — tendo em vista a orientagao da atividade humana na sua relago com 0 meio social, num determinado contexto de relagdes sociais. A educagio corresponde, pois, a toda modalidade de in- 22 fluéncias e inter-relagdes que convergem para a formagio de tragos de personalidade social e do caréter, implicando uma concepgio de mundo, ideais, valores, modos de agir, que se traduzem em conviegses ideolégicas, morais, politicas, principios de agao frente a situagdes reais ¢ desafios da vida pritica. Nesse sentido, educacdo € instituigdo social que se ordena no sistema educacional de um pais, num determinado momento historico; é& um produto, significando os resultados obtidos da agao educativa conforme propésitos sociais ¢ politicos pretendidos; é processo por consistir de trans- formagdes sucessivas tanto no sentido histérico quanto no de desenvolvi- mento da personalidade. A instrucdo se refere & formagio intelectual, formago ¢ desenvolvi- ‘mento das capacidades cognoscitivas mediante © dominio de certo nivel de conhecimentos sistematizados. O ensino corresponde a agdes, meios ¢ condig6es para realizagao da instrugo; contém, pois, a instrugio. Ha uma relagdo de subordinagio da instrugiio educagao, uma vez que © processo ¢ o resultado da instrugiio sdo orientados para o desenvol- vimento das qualidades especfficas da personalidade. Portanto, a instrucao, mediante 0 ensino, tem resultados formativos quando converge para 0 ob- Jetivo educativo, isto é, quando os conhecimentos, habilidades e capacidades Propiciados pelo ensino se tornam princfpios reguladores da ago humana, em convicgdes ¢ atitudes reais frente A realidade. Ha, pois, uma unidade entre educagio e instrugao, embora sejam processos diferentes; pode-se instruir sem educar, ¢ educar sem instruir; conhecer os contetidos de uma matéria, conhecer os principios morais € normas de conduta no leva ne- Cessariamente a praticé-los, isto é, a transformé-los em conviegdes e atitudes efetivas frente aos problemas ¢ desafios da realidade. Ou seja, 0 objetivo educativo no € um resultado natural e colateral do ensino, devendo-se supor por parte do educador um propésito intencional e explicito de orientar a instrugo ¢ o ensino para objetivos educativos. Cumpre acentuar, entre- tanto, que 0 ensino é o principal meio e fator da educagio — ainda que no 0 tinico — e, por isso, destaca-se como campo principal da instrugio € educagilo, Neste sentido, quando mencionamos o termo educagao escolar, referimos-nos a ensino, Conforme estudaremos adiante, a educagao € © objeto de estudo da Pedagogia, colocando a aio educativa como objeto de reflexio, visando descrever ¢ explicar sua natureza, seus determinantes, seus processos modos de atuar. O processo pedagégico orienta a educagio para as suas finalidades especificas, determinadas socialmente, mediante a teoria e a metodologia da educagio ¢ instrugdo. O trabalho docente — isto €, a efe- tivagdo da tarefa de ensinar — é uma modalidade de trabalho pedagégico ¢ dele se ocupa a Didatica. 23 Educagao escolar, Pedagogiae Didatica Como vimos, a atividade educativa acontece nas mais variadas esferas da vida social (nas familias, nos grupos sociais, nas instituigBes educacionais, ou assistenciais, nas associages profissionais, sindicais e comunitarias, nas igrejas, nas empresas, nos meios de comunicagao de massa etc.) ¢ assume diferentes formas de organizagdo. A educago escolar constitui-se num sis- tema de instrugdo e ensino com propésitos intencionais, préticas sistema- tizadas e alto grau de organizagao, ligado intimamente as demais priticas sociais. Pela educacao escolar democratizam-se os conhecimentos, sendo na escola que os trabalhadores continuam tendo a oportunidade de prover escolarizacdo formal aos seus filhos, adquirindo conhecimentos cientificos € formando a capacidade de pensar criticamente os problemas ¢ desafios postos pela realidade social. processo educativo que se desenvolve na escola pela instrugo € ensino consiste na assimilago de conhecimentos e experiéncias acumulados pelas geragdes anteriores no decurso do desenvolvimento hist6rico-social. Entretanto, © processo educativo est condicionado pelas relagdes sociais em cujo interior se desenvolve; e as condigdes sociais, politicas e econd- micas af existentes influenciam decisivamente o proceso de ensino e apren- dizagem. As finalidades educativas subordinam-se, pois, a escolhas feitas frente a interesses de classe determinados pela forma de organizagio das relagdes sociais. Por isso, a prética educativa requer uma diregdo de sentido para a formagio humana dos individuos € processos que assegurem a ati vidade prética que Ihes corresponde. Em outras palavras, para tornar efetivo © proceso educativo, é preciso dar-Ihe uma orientagdo sobre as finalidades meios da sua realizagdo, conforme opgdes que se facam quanto ao tipo de homem que se deseja formar € ao tipo de sociedade a que se aspira. Esta tarefa pertence & Pedagogia como teoria e pritica do processo edu- cativo. ‘A Pedagogia € um campo de conhecimentos que investiga a natureza das finalidades da educagio numa determinada sociedade, bem como os meios apropriados para a formagio dos individuos, tendo em vista prepa- ra-los para as tarefas da vida social. Uma vez que a prtica educativa € 0 processo pelo qual so assimilados conhecimentos e experiéncias acumu- lados pela prética social da humanidade, cabe & Pedagogia asseguré-lo, orientando-o para finalidades sociais e politicas, e criando um conjunto de condigdes metodoldgicas e organizativas para viabilizé-lo. 24 O cardter pedagégico da pritica educativa se verifica como ago cons- ciente, intencional ¢ planejada no processo de formagio humana, através de objetivos e meios estabelecidos por critérios s cialmente determinados € que indicam 0 tipo de homem a formar, para qual sociedade, com que propésitos. Vincula-se, pois, a opgdes sociais e politicas referentes ao papel da educagio num determinado sistema de relagdes sociais. A partir daf a Pedagogia pode dirigir e orientar a formulagdo de objetivos meios do proceso educativo. Podemos, agora, explicitar as relagdes entre educagio escolar, Peda- gogia e ensino: a educagio escolar, manifesta¢o peculiar do processo edu- cativo global; a Pedagogia como determinaco do rumo desse processo em suas finalidades e meios de ago; 0 ensino como campo especifico da instrugdo e educagdo escolar. Podemos dizer que o processo de ensino- aprendizagem 6, fundamentalmente, um trabalho pedagégico no qual se conjugam fatores externos e internos. De um lado, atuam na formagio humana como diregdo consciente e planejada, através de objetivos/contet- dos/métodos ¢ formas de organiza¢ao propostos pela escola e pelos pro- fessores; de outro, essa influéncia extema depende de fatores internos, tais como as condigdes fisicas, psiquicas e sécio-culturais dos alunos. A Pedagogia, sendo ciéncia da e para a educagdo, estuda a educagio, a instrugdo e o ensino. Para tanto compde-se de ramos de estudo préprios como a Teoria da Educagao, a Didatica, a Organizagao Escolar e a Histéria da Educagio ¢ da Pedagogia. Ao mesmo tempo, busca em outras ciéncias 08 conhecimentos tedricos e préticos que concorrem para o esclarecimento do seu objeto, 0 fendmeno educativo. Sao clas a Filosofia da Educagio, Sociologia da Educagio, Psicologia da Educagdo, Biologia da Educagio, Economia da Educagio o outras. © conjunto desses estudos permite aos futuros professores uma com- preensio global do fendmeno educativo, especialmente de sitas manifesta- Ges no Ambito escolar. Essa compreensao diz respeito a aspectos sécio- Politicos da escola na dinamica das relagdes sociais; dimensdes filos6ficas da educagio (natureza, significado e finalidades, em conexdo com a tota- lidade da vida humana); relagdes entre a pratica escolar e a sociedade no sentido de explicitar objetivos politico-pedagdgicos em condigées hist6ricas e sociais determinadas ¢ as condigdes concretas do ensino; 0 processo do desenvolvimento humano e o processo da cognicao; bases cientificas para selego e organizagio dos contesidos, dos métodos e formas de organizacio do ensino; articulagao entre a mediagio escolar de objetivos/contetidos/mé- todos e os processos internos atinentes ao ensino e 3 aprendizagem. A Didatica € o principal ramo de estudos da Pedagogia. Ela investiga 08 fandamentos, condigdes e modos de realizagio da instrugio e do ensino. 25 A ela cabe converter objetivos sécio-politicos e pedagégicos em objetivos de ensino, selecionar contetidos e métodos em fungio desses objetivos, estabeiecer os vinculos entre ensino e aprendizagem, tendo em vista 0 desenvolvimento das capacidades mentais dos alunos. A Didatica esté in- timamente ligada a Teoria da Educagio e & Teoria da Organizacao Escolar e, de modo muito especial, vincula-se 4 Teoria do Conhecimento e a Psi- cologia da Educagio. A Didatica ¢ as metodologias especificas das matérias de ensino for- mam uma unidade, mantendo entre si relagdes reciprocas. A Didética trata da teoria geral do ensino. As metodologias especificas, integrando 0 campo da Didatica, ocupam-se dos contetidos e métodos préprios de cada matéria na sua relagdo com fins educacionzis. A Didatica, com base em seus vinculos com a Pedagogia, generaliza processos € procedimentos obtidos na inves- tigagio das matérias especfficas, das ciéncias que dio embasamento 20 ensino ¢ & aprendizagem e das situagdes concretas da pratica docente. Com isso, pode generalizar para todas as matérias, sem prejuizo das peculiari- dades metodol6gicas de cada uma, 0 que é comum e fundamental no pro- cesso educativo escolar. Ha também estreita ligagdo da Didética com os demais campos do conhecimento pedagégico. A Filosofia e a Hist6ria da Educagio ajudam a reflexio em tomo das teorias educacionais, indagando em que consiste 0 ato educativo, seus condicionantes externos ¢ internos, seus fins ¢ objetivo busca os fundamentos da prética educativa A Sociologia da Educagdo estuda a educagdo como proceso social ¢ ajuda os professores a reconhecerem as relagdes entre o trabalho docente © a sociedade. Ensina a ver a realidade social no seu movimento, a partir da dependéncia miitua entre seus elementos constitutivos, para determinar 0s nexos constitutivos da realidade educacional. A par disso, estuda a escola como “fenémeno sociolégico”, isto é, uma organizaco social que tem a sua estrutura interna de funcionamento interligada a0 mesmo tempo com outras organizagdes sociais (conselhos de pais, associagdes de bairros, sin- dicatos, partidos politicos etc.). A prépria sala de aula é um ambiente social que forma, junto com a escola como um todo, o ambiente global da atividade docente organizado para cumprir os objetivos de ensino. A Psicologia da Educag3o estuda importantes aspectos do processo de ensino e de aprendizagem, como as implicagdes das fases de desenvol- viento dos alunos conforme idades ¢ os mecanismos psicolégicos pre- sentes na assimilagio ativa de conhecimentos ¢ habilidades. A Psicologia aborda questdes como: o funcionamento da atividade mental. a influéncia do ensino no desenvolvimento intelectual, a ativagio das po encialidades 26 mentais para a aprendizagem, a organizagtio das relagdes professor-alunos € dos alunos entre si, a estimulagio e o despertamento do gosto pelo estudo etc. A Psicologia, de sua parte, fornece importante contribuigdo, também, para a orientagdo educativa dos alunos. A Estrutura e Funcionamento do Ensino inclui questdes da organizagio do sistema escolar nos seus aspectos politicos ¢ legais, administrativos, ¢ aspectos do funcionamento intemo da escola como a estrutura organiza- cional e administrativa, planos e programas, organizagao do trabalho pe- dagégico ¢ das atividades discentes etc. A Didatica e a formacio profissional do professor A formagio profissional do professor € realizada nos cursos de Habi- a0 Magistério em nivel de 2° grau e superior. Compoe-se de um conjunto de disciplinas coordenadas e articuladas entre si, cujos objetivos © contetidos devem confluir para uma unidade tedrico-metodolégica do curso, A formagio profissional € um processo pedagégico, intencional e organizado, de preparagio tedrico-cientifica e técnica do professor para dirigir competentemente o processo de ensino. A formagio do professor abrange, pois, duas dimensées: a formacao tedrico-cientifica, incluindo a formagio académica especifica nas disciplinas em que o docente vai especializar-se e a formacao pedagégica, que envolve 0s conhecimentos da Filosofia, Sociologia, Hist6ria da Educagdo e da pré- pria Pedagogia que contribuem para o esclarecimento do fenémeno edu- cativo no contexto histérico-social; a formagao técnico-pratica visando 2 Preparacdo profissional especifica para a docéncia, incluindo a Didatica, as metodologias especificas das matérias, a Psicologia da Educagio, a pe: quisa educacional e outras. A organizagio dos contetidos da formagio do professor em aspectos te6ricos € préticos de modo algum significa consideré-los isoladamente. Sio aspectos que devem ser articulados. As disciplinas teérico-cientificas sio necessariamente referidas a pritica escolar, de modo que os estudos especificos realizados no Ambito da formagio académica sejam relacionados com os de formagio pedagégica que tratam das finalidades da educagio € dos condicionantes histéricos, sociais e politicos da escola. Do mesmo modo, os contetidos das disciplinas especificas precisam ligar-se is suas exigéncias metodol6gicas. As disciplinas de formacio técnico-pritica nao se reduzem ao mero dominio de técnicas e regras, mas implicam também By ‘08 aspectos te6ricos, ao mesmo tempo que fornecem 2 teoria os problemas e desafios da pritica. A formago profissional do professor implica, pois, uma continua interpenetragao entre teoria e pritica, a teoria vinculada aos problemas reais postos pela experiéncia pritica e a ago prética orientada teoricamente. Nesse entendimento, a Didética se caracteriza como mediago entre as bases tedrico-cientificas da educacdo escolar e a pratica docente. Ela ‘pera como que uma ponte entre o “o qué” e o “como” do processo pe- dagégico escolar. A teoria pedagdgica orienta a ago educativa escolar mediante objetivos, contetidos e tarefas da formagao cultural e cientifica, tendo em vista exigéncias sociais concretas; por sua vez, a agiio educativa somente pode realizar-se pela atividade prética do professor, de modo que as situagdes didéticas concretas requerem o “como” da interveng3o peda- g6gica. Este papel de sintese entre a teoria pedagégica e a pritica educativa real assegura a interpenetracdo e interdependéncia entre fins e meios da educagio escolar ¢, nessas condigdes, a Didatica pode constituir-se em teoria do ensino. O processo diditico efetiva a mediacdo escolar de obje- tivos, contetidos e métodos das matérias de ensino. Em fungio disso, a Didatica descreve e explica os nexos, relagdes ¢ ligagdes entre 0 ensino ¢ a aprendizagem; investiga os fatores co-determinantes desses processos; inaica prinefpios, condigdes meios de diregHio do ensino, tendo em vista a aprendizagem, que so comuns ao ensino das diferentes disciplinas de contetidos especificos. Para isso recorre as contribuigdes das ciéncias au- xiliares da Educagao e das préprias metodologias especificas. E, pois, uma matéria de estudo que integra e articula conhecimentos te6ricos e priticos obtides nas disciplinas de formagtio académica, formagio pedagégica ¢ formagao técnico-pratica, provendo o que € comum, bisico ¢ indispensavel para o ensino de todas as demais disciplinas de conteddo. A formagio profissional para o magistério requer, assim, uma sélida formagiio teérico-prética. Muitas pessoas acreditam que o desempenho sa- lisfat6rio do professor na sala de aula depende de vocacdo natural ou so- mente da experiéncia pritica, descartando-se a teoria. E verdade que muitos professores manifestam especial tendéncia e gosto pela profissio, assim como se sabe que mais tempo de experiéncia ajuda no desempenho pro- fissional. Entretanto, 0 dominio das bases te6rico-cientificas e técnicas, e sua articulagao com as exigéncias concretas do ensino, permitem maior seguranga profissional, de modo que o docente ganhe base para pensar sua prética e aprimore sempre mais a qualidade do seu trabalho. Entre os contetidos bésicos da Didética figuram os objetivos e ‘arefas do ensino na nossa sociedade. A Didética se baseia numa concepgio de 28 homem e sociedade e, portanto, subordina-se a propésitos sociais, politicos € pedagégicos para a educagio escolar a serem estabelecidos em fungao da realidade social brasileira. A esses assuntos sio dedicados os capitulos 1e2. O processo de ensino é uma atividade conjunta de professores ¢ alunos, organizado sob a direcao do professor, com a finalidade de prover as con- digoes e meios pelos quais os alunos assimilam ativamente conhecimentos, habilidades, atitudes e convicgbes. Este € 0 objeto de estudo da Diditica, Os elementos constitutivos da Didética, 0 seu desenvolvimento hist6rico, as caracteristicas do processo de ensino e aprendizagem e a atividade de estudo como condigio do desenvolvimento intelectual so assuntos tratados nos capitulos 3, 4 € 5, Os objetivos-contetidos-métodos e formas organizativas do ensino, es- pecialmente a aula, constituem o objeto da mediacao escolar, sendo tratados nos capftulos 6, 7 ¢ 8. Os diltimos capitulos tratam de trés importantes aspectos do processo de ensino, ou seja, a avaliagdo escolar, o planejamento didatico e as relagdes professor-alunos na sala de aula, Sugestées para tarefas de estudo Perguntas para o trabalho independente dos alunos © Por que a educagZo ¢ um fenémeno e um processo social? © Explicar as relagées entre a definigio de educagao em sentido mais amplo e em sentido estrito, 3 Podemos falar que nas associagées civis, nas associagdes de bairro, nos movimentos sociais etc., ocorre uma agdo pedagégica? © Que significa afirmar que o ensino tem um cardter pedagégico? © Dar uma definigio de educagaio com suas préprias palavras. 2 Explicar a afirmag plicado por si mesmo” © Qual € a finalidade social do ensino? Qual 0 papel do professor? 2 — Quais as relagdes entre Pedagogia e Didatica? 9 Por que se afirma que a Didatica € 0 eixo da formagio profissional? “Nao hé fato da vida social que possa ser ex- 29 a o Explicar os vinculos entre a Didética e outras cigncias. Explicar por que existe unidade entre Didética e metodologias espe- cificas das matérias de ensino. Temas para aprofundamento do estudo Consultar dois ou trés livros indicados pelo professor para obter um conceito de ideologia Apés estudo individual, organizar uma discusso em grupo sobre for- mas assistematicas e sistematicas de educagio. Discutir as conclusdes com a classe. Pesquisar livros de Portugués ou Estudos Sociais e fazer um levanta- mento de afirmagdes que expressem pontos de vista que nao condizem com a realidade de vida das criangas. Associar esta tarefa com a 13. Ler como tarefa de casa 0 livro Mistificagao pedagdgica, de Bernard Charlot (conforme bibliografia), pp. 11-21, ¢ elaborar cinco perguntas a serem feitas a professores de escolas da cidade. Analisar as respostas ¢ tirar conclusdes, Temas para redagéo ooo0c00 Socializagiio do pedagégico e pedagogizagio da sociedade. Relagdes sociais e educagio escolar. Educagio e desigualdade social. Educagio como ato politico. O processo de ensino e a “realidade” do aluno. A responsabilidade social e profissional do professor. Bibliografia complementar CHARLOT, Berard. A Mistificagao Pedagégica. Rio de Janeiro, Zahar, 1979 (cap. 1) CYRINO, Hélio et ali. Ideologia Hoje. Campinas, Papirus, 1986. GHIRALDELLI JR,, Paulo. 0 Que é Pedagogia. Sio Paulo, Brasiliense, 1988. 30 IANNI, Octavio. Dialética e Capitalismo. Petr6polis, Vozes, 1988. LUCKESI, Cipriano C. Filosofia da Educagao. Sio Paulo, Cortez, 1990. MEKSENAS, Paulo. Sociologia da Educagéo. Sto Paulo, Loyola, 1988. MELLO, Guiomar N. de. “Educagdo Escolar € Classes Populares”. Revista da Ande, (6): 5-9, Sao Paulo, 1983. ____. "Magistétio". Revista da Ande, Sa Paulo, (7): 41-45, Sio Paulo, 1984. PICANGO, Iracy. “O Professor Frente 8 Realidade da Escola Pablica”. Revista da Ande, (5): 31-35, Sio Paulo, 1982. RODRIGUES, Neidson. “Fungo da Escola de 1° Grau numa Sociedade Demo- critica”. Revista da Ande, (8): 17-22, Si0 Paulo, 1984. SAVIANI, Dermeval. “Sentido da Pedagogia e o Papel do Pedagogo™. Revista da Ande, (9): 27-28, S30 Paulo, 1985, —__.. “Sobre a Natureza e Especificidade da Educagao”. Revista Em Aberto (INEP), (22): 1-6, jul/ago. Brasilia, 1984. SEVERINO, Antonio J. Educagdo, Ideologia e Contra-ldeologia. Si Paulo, EPU, 1986. 31 Didatica e NONE RATE VPS A preparaco das criangas ¢ jovens para a participagdo ativa na vida social € o objetivo mais imediato da escola piblica. Esse objetivo € atingido pela instrugio ¢ ensino, tarefas que caracterizam o trabalho do professor. A instrugo proporciona 0 dominio dos conhecimentos sistematizados Promove 0 desenvolvimento das capacidades intelectuais dos alunos. O ensino corresponde as agdes indispensdveis para a realizagdo da instrugio; éaatividade conjunta do professor ¢ dos alunos na qual transcorre o processo de transmissao e assimilagio ativa de conhecimentos, habilidades ¢ habitos, tendo em vista a instrugdo e a educagdo. A Didatica e as metodologias especfficas das disciplinas, apoiando-se em conhecimentos pedagégicos ¢ cientifico-técnicos, sio disciplinas que orientam a agio docente partindo das situagdes coneretas em que se realiza 0 ensino. Ao realizar sua tarefas bisicas, a escola e 0s professores estio cum- prindo responsabilidades sociais e politicas. Com efeito, ao possi alunos 0 dominio dos conhecimentos culturais e cientificos, a educagao escolar socializa o saber ado e desenvolve capacidades cognitivas € operativas para a atuago no trabalho ¢ nas lutas sociais pela conquista dos direitos de cidadania. Dessa forma, efetiva a sua contribuigao para a democratizagao social e politica da sociedade. 33 Entretanto, a escola publica brasileira tem sido capaz de atender 0 direito social de todas as criangas e jovens receberem escolarizagio bisica? Os governos tém cumprido a sua obtigagio social de assegurar as condigdes necessérias para prover um ensino de qualidade ao povo? O préprio fun- cionamento da escola, os programas, as priticas de ensino, o preparo pro- fissional do professor, nao teriam também uma parcela da responsabilidade pelo fracasso escolar? Sabemos que milhares de alunos so excluidos da escola jé na passagem da I* para a 2* série e apenas cerca de 20% dos que iniciam a I* série chegam a 4". As escolas funcionam em condigdes precérias, a formagao profissional dos professores € deficiente, os saldrios so aviltantes, 0 ensino é de baixa qualidade. E necesséria uma reflexio de conjunto para uma compreensio mais correta dos problemas da escola piiblica. Ha um conjunto de causas externas e internas a escola que, bem compreendidas, permitirio avaliar mais claramente as possibilidades do trabalho docente na efetiva escolarizacdo das criangas e jovens. Neste capitulo serio tratados os seguintes temas: a escolarizagio € as lutas pela democratizagdo da sociedade; © fracasso escolar precisa ser derrotado; as tarefas da escola publica democratica; ‘© compromisso ético € social dos professores. oooo Aescolarizacao e as lutas democraticas Proporcionar a todas as criangas ¢ jovens 0 acesso e a permanéncia na escola basica, de 8 anos, no minimo, provendo-Ihes uma sélida e du- radoura formagdo cultural e cientifica, € dever da sociedade e, particular- mente, do poder publico. A escolarizacdo é um dos requisitos fundamentais para 0 processo de democratizagdo da sociedade, entendendo por demo- cratizagdo a conquista, pelo conjunto da populacdo, das condigdes materiais, sociais, politicas e culturais que Ihe possibilitem participar na condug30 das decisées politicas e governamentais. A escolarizaco necesséria é aquela capaz de proporcionar a todos os alunos, em igualdade de condigdes, 0 dominio dos conhecimentos sistematizados e o desenvolvimento de suas capacidades intelectuais requeridos para a continuidade dos estudos, série a série, e par as tarefas sociais e profissionais, entre as quais se destacam as lutas pela democratizago da sociedade. Ao se apropriarem dos conhecimentos sistematizados correspondentes as disciplinas do curriculo do ensino de 1° grau e ao irem formando ha- bilidades cognoscitivas € priticas (como o raciocinio légico, a andlise ¢ 34 interpretagdo dos fendmenos sociais e cientificos, do pensamento indepen- dente ¢ criativo, a observagio, a expresso oral e escrita etc.), os alunos ‘vao ampliando a sua compreensio da natureza e da sociedade, adquirindo modos de ago e formando atitudes e convicgdes que os levam a posicio- nar-se frente aos problemas e desafios da vida pratica. Em um de seus livros, Guiomar Namo de Mello (1987, p. 22) escreve: A escolarizagao basica constitui instrumento indispensdvel & construgio da sociedade democritica, porque tem como funcio a socializagio daquela parcela do saber sistematizado que constitui 0 indispensavel a formagio © ao exercicio da cidadania. Ao entender dessa forma a fungio social da escola, pressupde-se que no & nem redentora dos injustigados ¢ nem reprodutora das desigualdades sociais e, sim, uma das mediagdes pelas quais mudangas sociais em diregao da democracia podem ocorrer, (...) Uma tal concepgio sobre 0 papel da educagao (.) estabelece como objetivo maior da politica educacional a efetiva universalizagio de uma escola bisica unitéria, de cardter nacional. S6 essa escola seré democritica no sentido mais generoso da expressio, Porque garantird a todos, independentemente da regitio em que vivam, da classe a que pertengam, do credo politico ou religioso que professem, uma base comum de conhecimentos ¢ habilidades. A escolarizago tem, portanto, uma finalidade muito pritica, Ao ad- quirirem um entendimento critico da realidade através do estudo das ma- térias escolares e do dominio de métodos pelos quais desenvolvem suas capacidades cognoscitivas formam habilidades para elaborar indepen- dentemente os conhecimentos, os alunos podem expressar de forma ela- borada os conhecimentos que correspondem aos interesses majoritérios da sociedade ¢ inserir-se ativamente nas lutas sociais. Sabemos, entretanto, que a escola piblica estd longe de atender essas finalidades. O poder piblico nao tem cumprido suas responsabilidades na manutengio do ensino obrigatério e gratuito. Falta uma politica nacional de administragdo © gestio do ensino, os recursos financeiros sio insufi- cientes ¢ mal empregados, as escolas funcionam precariamente por falta de recursos materiais e didéticos, os professores sio mal remunerados, os alunos no possuem livros e material escolar. O sistema escolar é usado para fins eleitoreiros ¢ politico-partidérios. Apesar de ter havido, nas ultimas décadas, um aumento de matriculas de alunos provenientes das camadas populares, ainda hé milhdes de criangas fora da escola e uma grande parte dos que se matriculam no consegue continuar seus estudos, Dados recentes do Ministério da Educagio mostram que, ainda hoje, na maioria das regides do pais, cerca de 50% das criangas matriculadas na I* série repetem ou deixam a escola antes de iniciar a 2°, Analisando a evolugo das matriculas 35 : a0 longo dos oito anos de escolarizagio, verifica-se que, no Brasil, de 100 criangas que entram na 1* série, 51 se matriculam na 2*, 35 na 4* e apenas 17 na 8* série. Dados do IBGE, colhidos em 1988, indicam uma taxa de 40% de analfabetos entre a populagio de 5 a 14 anos. E evidente, assim, © descaso € a omissdo do Estado em relagio & escola publica. Além disso, dentro da propria escola hé grandes diferengas no modo de conduzir 0 proceso de ensino conforme a origem social dos alunos, ‘ocorrendo a discriminagio dos mais pobres. Estes, quando conseguem per- manecer na escola, acabam recebendo uma educagio e um preparo inte- ectual insuficientes. Ha uma idéia difundida em boa parte dos educadores de que 0 papel da escola € apenas 0 de adaptar as criangas ao meio social, isto 6, de ajusté-las as regras familiares, sociais e ao exercicio de uma profissdo. Nesse caso, nao se pensa numa educagdo interessada na trans- formagio da sociedade; ao contrério, trata-se de desenvolver aptidées in- fiduais para a integracao na sociedade. Quando um aluno nao consegue aprender, abandona os estudos ou se interessa pouco pela escola, conside- ra-se que sio problemas individuais dele, descartando-se outras explicagdes como as condigdes sécio-econdmicas, a desigualdade social e a responsa- bilidade da propria escola. Esta € uma visio conservadora da escola. Na verdade, entendé-la como meio de adaptacio a sociedade vigente é acreditar que esta é boa, justa, que dé oportunidades iguais a todos; que 0 sucesso na vida depende somente das aptidées e capacidades individuais; que o aproveitamento escolar depende exclusivamente do esforco individual do aluno. Esta idéia no corresponde & realidade. Primeiro, porque numa so- ciedade marcada pela desigualdade social e econdmica as oportunidades no so iguais € muito menos sio iguais as condigdes sociais, econdmicas € culturais de ter acesso e tirar proveito das oportunidades educacionais. Segundo, a educago néio depende apenas do interesse e esforgo individual porque, por detrés da individualidade, estio condigées sociais de vida ¢ de trabalho que interferem nas possibilidades de rendimento escolar. Ter- ceiro, a escola no pode ignorar que as desigualdades sociais so um real obsticulo ao desenvolvimento humano e, por isso mesmo, precisa aliar sua tarefa de transmissio dos conhecimentos as lutas sociais pela transformagio do quadro social vigente. Podemos verificar, assim, que a proposta de um ensino de qualidade, voltado para a formagao cultural e cientifica que possibilite a ampliagao da participagio efetiva do povo nas varias instincias de decisio da socie- dade, defronta-se com problemas de fora e de dentro da escola. As forgas sociais que detém o poder econdmico e politico na sociedade, representadas pelos que governam e legislam, ao mesmo tempo que se mostram omissas 36 € negligentes em relagio a escola piiblica, difundem uma concepgio de escola como ajustamento & ordem social estabelecida. Por outro lado, se € verdade que os fatores externos afetam o funcionamento da escola, hé uma tarefa, a ser feita dentro dela, de assegurar uma organizacao pedagégica, didética e administrativa para um ensino de qualidade associado as lutas coneretas das camadas populares. Para a efetivagao dos vinculos entre a escolarizagdo € as lutas pela democratizagao da sociedade, é necesséria a atuago em duas frentes, a politica e a pedagégica, entendendo-se que a atuagio politica tem carster pedagégico e que a atuacio pedagégica tem carter politico. A atuagio politica implica o envolvimento dos educadores nos movimentos sociais organizagées sindicais e, particularmente, nas lutas organizadas em defesa da escola unitéria, democratica e gratuita. A escola paiblica deve ser unitdria. O ensino basico € um direito fun- damental de todos os brasileiros ¢ um dever do Estado para com a sociedade, cabendo-Ihe a responsabilidade de assegurar a escolarizagio da populacio. E unitéria porque deve garantir uma base comum de conhecimentos ex- pressos num plano de estudos basicos de ambito nacional, garantindo um padrio de qualidade do ensino para toda a populagio. Com base num plano nacional de educagio escolar, cabe aos estados a coordenagao das atividades de ensino, com a cooperagiio dos municipios. A necessidade social e 0 dircito de todos os segmentos da populacao de dominarem conhecimentos basicos comuns e universais de forma alguma implicam a exclusio ou o desconhecimento da cultura popular e regional. Ao contrério, é precisamente pelo dom{nio do saber sistematizado que se pode assegurar aos alunos uma compreensio mais ampla, numa perspectiva de nacionalidade e universa- lidade, da cultura, saberes ¢ problemas locais, a fim de elaboré-los criti- camente em funcdo dos interesses da populacao majoritéria. Importa, pois, que 0 processo de transmissdo e assimilagio dos conhecimentos sistema tizados tenha como ponto de partida as realidades locais, a experiéncia de ida dos alunos ¢ suas caracteristicas sécio-culturais. A escola piiblica deve ser democriitica, garantindo a todos 0 acesso €apermanéncia, no minimo, nos oito anos de escolarizagio, proporcionando um ensino de qualidade que leve em conta as caracteristicas especificas dos alunos que atualmente a freqiientam. Deve ser democritica, também, no sentido de que devem vigorar, nela, mecanismos democriticos de gestio interna envolvendo a participagao conjunta da diregio, dos professores € dos pais. A escola piiblica deve cer gratuita porque € um direito essencial dos individuos para se constitufrem como cidadaos. Isso implica reivindicagées 37 por maior compromisso do Estado com o funcionamento e manutengao da escola piblica, ampliagio de recursos financeiros, definicao explicita das responsabilidades dos governos federal, estadual e municipal etc. As propostas ¢ reivindicagdes em favor da escola publica democritica fazem parte do processo mais amplo das lutas sociais nas quais a classe trabalhadora esta envolvida. A transformagdo da escola depende da trans- formagao da sociedade, pois a forma de organizagao do sistema sécio-eco- némico interfere no trabalho escolar ¢ no rendimento dos alunos. Em nosso ais, a distribuigto desigual da riqueza faz com que 70% ou mais da po- pulagdo vivam na pobreza. Nos grandes centros urbanos e na zona rural © povo € obrigado a viver em precarias condicdes de moradia, alimentaco, satide e educagdo. As familias vivem atormentadas pelo desemprego e 0 saldrio € um dos menores do mundo, apesar de o Brasil ser a 8° poténci econémica mundial. Muitas criangas precisam trabalhar ao invés de irem A escola. A pobreza e as condigdes adversas de vida das criangas ¢ jovens € de suas famflias, sem divida, geram dificuldades para a organizagao do ensino e aprendizagem dos alunos. Isso tudo significa que devemos com- preender os problemas da escola publica dentro da problemtica maior da estrutura social, o que coloca a necessidade da participagao dos educadores nas lutas politicas e sindicais. Entretanto, a consciéncia politica dos professores deve convergir para © trabalho que se faz dentro da escola. Numeroso contingente de alunos provenientes das camadas populares se matricula na escola e os préprios Pais fazem sacrificios para manté-los estudando. O ensino é uma tarefa real, concreta, que expressa 0 compromisso social e politico do professor, pois o dominio das habilidades de ler ¢ escrever, dos conhecimentos cien- tificos da Hist6ria, da Geografia, da Matemitica e das Cigncias, é requisito ara a participago dos alunos na vida profissional, na vida pol dical, ¢ para enfrentar situag6es, problemas e desafios da vida pratica. Um ensino de baixa qualidade empurra as criangas, cada vez mais, para a mar- ginalizagio social. Hi, pois, um trabalho pedagégico-didético a se efetivar dentro da escola que se expressa no planejamento do ensino, na formulagao dos objetivos, na selegio dos contetidos, no aprimoramento de métodos de ensino, na organizagio escolar, na avaliagdo. Ligar a escolarizagio as lutas pela de- mocratizagio da sociedade implica, pois, que a escola cumpra a tarefa que Ihe € prépria: prover o ensino. Democratizagao do ensino significa, basi camente, possibilitar aos alunos 0 melhor dominio possivel das matérias, dos métodos de estudo, e, através disso, o desenvolvimento de suas capa- cidades ¢ habilidades intelectuais, com especial destaque & apren 38 da leitura e da escrita. A participagio efetiva do povo nas lutas sociais ¢ nas instncias de decisio econémica e politica requer que se agregue nelas um ntimero cada vez maior de pessoas e isto depende do grau de difusio do conhecimento. E verdade que acreditar no processo democritico supde confiar no saber do povo e na sua capacidade de tomar decis6es. Mas também verdade que os conhecimentos cientificos e técnicos progridem num ritmo acelerado, pondo exigéncias & escola no sentido de reduzir a distancia entre o conhecimento comum, popular, e a cultura cientifica. Dat a importincia de elevar 0 ensino ao mais alto nivel, contribuindo para colocar de maneira cientéfica os problemas humanos. Ao mesmo tempo, o trabalho pedagégico na escola requer a sua ade- quagio &s condigdes sociais de origem, as caracteristicas individuais e s6- cio-culturais e ao nivel de rendimento escolar dos alunos. A democratizagio do ensino supée o principio da igualdade, mas junto com o seu complemento indispensével, o princfpio da diversidade. Para que a igualdade seja real e ‘no apenas formal, o ensino basico deve atender a diversificagao da clientela, tanto social quanto individual. Isto implica ter como ponto de partida co- nhecimentos e experiéncias de vida, de modo que estes sejam a referéncia para os objetivos, contetidos e métodos; implica que a escola deve interagir continuamente com as condigées de vida da populagio para adaptar-se as suas estratégias de sobrevivéncia, visando impedir a exclusio e o fracasso escolar. Na pritica, trata-se de 0 professor estabelecer objetivos e expec- tativas de desempenho a partir do limite superior de possibilidades reais de desenvolvimento ¢ aproveitamento escolar dos alunos; a partir de um diagnéstico do nivel de preparo prévio dos alunos para acompanhar a ma- (éria, conforme idade e desenvolvimento mental, estabelecem-se padres de desempenho para a maioria da classe, podendo-se daf para a frente exigir tudo 0 que se pode esperar deles. Em sfntese, a escola € um meio insubstituivel de contribuigdo para as lutas democréticas, na medida em que possibilita as classes populares, a0 terem 0 acesso ao saber sistematizado e as condigdes de aperfeigoamento das potencialidades intelectuais, participarem ativamente do processo po- Iitico, sindical e cultural. Uma pedagogia voltada para os interesses popu- lares de transformagio da sociedade compreende 0 trabalho pedagégico docente como o processo de transmissio/assimilagio ativa dos contetidos escolares, inserido na totalidade mais ampla do processo social. E uma pedagogia que articula os conhecimentos sistematizados com as condigdes concretas de vida ¢ de trabalho dos alunos, suas necessidades, interesses e lutas. 39 O fracasso escolar precisa ser derrotado Um dos mais graves problemas do sistema escolar brasileiro € 0 fra- caso escolar, principalmente das criangas mais pobres. O fracasso escolar se evidencia pelo grande mimero de reprovagdes nas séries iniciais do ensino de 1° grau, insuficiente alfabetizagio, exclustio da escola ao longo dos anos, dificuldades escolares no superadas que comprometem o pros- seguimento dos estudos. ‘Vejamos a evolugio da matricula inicial no ensino de 1° grau no Bracil no periodo de 1977-84, conforme dados percentuais do Ministério da Edu- cagao: I" série em 1977 — 100 alunos 2 série em 1978 — 51 alunos 3* série em 1979 — 42 alunos 4" série em 1980 — 35 alunos S* série em 1981 — 35 alunos 6* série em 1982 — 27 alunos T série em 1983 — 22 alunos 8* série em 1984 — 17 alunos Os dados mostram que a escola piiblica brasileira nao consegue reter as criangas na escola, Ao longo dos oito anos de escolarizagio observam-se sucessivas perdas de alunos. Sabemos que esse fato deve ser explicado por fatores externos a escola, mas é evidente que a exclusio das criangas tem a ver, em grau significativo, com aquilo que a escola e os professores fazem ou deixam de fazer. ‘Uma pesquisa da Fundagao Carlos Chagas, de Sao Paulo, em 1981, investigou as causas mais amplas da repeténcia escolar. Sua finalidade foi a de explicar a vepeténcia nao s6 pelas deficiéncias dos alunos, mas por outros fatores como: caracterfsticas individuais dos alunos, as condigées familiares, 0 corpo docente, a interagio professor-aluno e aspectos internos e estruturais da organizagao escolar. Apés o estudo dos dados coletados chegou-se & conclusio de que a reprovacZo nio pode ser atribufda a causas isoladas, sejam as deficiéncias pessoais dos alunos, sejam os fatores de natureza s6cio-econémica ou da organizagao escolar. Mas, entre as causas determinantes da reprovagao (entre as quais as condigdes de vida e as condigées fisicas ¢ psicolégicas), a mais decisiva foi o fato de a escola, na sua organizagao curricular e metodolégica, nao estar preparada para utilizar procedimentos didéticos adequados para trabalhar com as criangas pobres. 40 ‘So muitos os procedimentos didaticos que acabam discriminando so- cialmente as criangas. Por exemplo, jé no inicio do ano letivo o professor costuma “prever” quais os alunos que sero reprovados. Geralmente, essa previsio acaba se concretizando, pois os reprovados no final do ano so geralmente aqueles j4 “marcados” pelo professor. Além disso, alunos com diferente aproveitamento recebem tratamento desigual, pois _o professor prefere os que melhor correspondem as suas expectativas de “bom aluno” Os objetivos so planejados tendo-se vista uma crianga idealizada e no uma crianga concreta, cujas caracteristicas de aprendizagem sto de- terminadas pela sua origem social; ignoram-se, portanto, os conhecimentos e experiéncias, suas capacidades e seu nivel de preparo para usufruir da experiéncia escolar. Muitas vezes, inadvertidamente, os professores estabelecem padrée: nfveis de desempenho escolar, tendo como referéncia o aluno considerado “normal” — estudantes com melhores condicdes socioeconémicas e inte- lectuais vistos como modelos de aluno estudioso. Criangas que no se en- quadram nesse modelo sio consideradas carentes, atrasadas, preguigosas, candidatando-se & lista que o professor faz. dos provveis reprovados. Essa atitude discrimina as criangas pobres, pois a assimilagao de conhecimentos € 0 desenvolvimentos das capacidades mentais dos alunos estio diretamente relacionados com as condigdes (econdmicas, s6cio-culturais, intelectuai escolares etc.) de ingresso na escola, que € 0 verdadeiro ponto de partida do processo de ensino e aprendizagem. £, também, muito comum os professores justificarem as dificuldades das criangas na alfabetizagao e nas demais matérias pela pouca inteligéncia, imaturidade, problemas emocionais, falta de acompanhamento dos pais. E verdade que esses problemas existem, mas nem por isso € correto colocar toda a culpa do fracasso nas criangas ou nos pais. Ha fatores hereditarios que determinam diferentes tipos de inteligéncia, mas a maioria das criangas intelectualmente capazes. Além disso, a influéncia do meio, especial- mente do ensino, pode facilitar ou dificultar o desenvolvimento da inteli- géncia. Se 0 meio social em que vive a crianga no pode prover boas condigdes para o desenvolvimento intelectual, 0 ensino pode proporcionar um ambiente necessério de estimulagio e € para isso que o professor se prepara profissionalmente. Também/ndo se pode jogar a culpa do fracasso na imaturidade do aluno, Essa idéia supde que a maturidade seja algo que vem unicamente de dentro do individuo, algo que depende s6 do tempo e que o professor nao tem muito 0 que fazer sendo esperar. E uma idéia equivocada. O desen- volvimento das capacidades mentais pode ser estimulado justamente pelos 4 conhecimentos ¢ experiéncias sociais, pelas condigdes ambientais e pelo Proceso educativo organizado. As criangas tém, de fato, problemas emo- cionais, mas fazem parte das carzcteristicas humanas e, com conhecimentos adequados da Psicologia, da Biologia, da Sociologia, o professor pode apren- der a lidar com eles. Hé, também, deficiéncias na organizagio do ensino que decorrem dos objetivos e programas (muito extensos ou muito simplificados); da inade- quagio & idade e ao nivel de preparo dos alunos para a sua assimilagdo; da sua nio-vinculagio com os fatos € acontecimentos do meio natural ¢ social; das formas de organizagio da rotina escolar (por exemplo, em boa Parte das escolas pablicas h4 uma redugdo do periodo de permanéncia das ctiangas na escola, suspensio de aulas por qualquer motivo, substituigao de professores etc.). Esse fatos, bastante comuns, comprovam que a escola, o curriculo, os Procedimentos didaticos dos professores no tém sido capazes de interferir Positivamente para atingir 0 ideal da escolarizagio para todos. A inadequada ‘organizagdo pedagégica, didética ¢ administrativa face as caracterfsticas sociais da maioria dos que freqiientam a escola publica tem levado & mar- ginalizagio e, assim, ao fracasso escolar das criangas mais pobres. Por no Conseguirem avaliar com clareza os efeitos da estrutura social sobre o tra- balho pedagégico, as escolas e professores podem tomnar-se, mesmo sem © saber, ciimplices da discriminagio e segregagtio das criangas social e economicamente desfavorecidas. E preciso enfrentar e derrotar o fracasso escolar se se quer, de fato, uma escola piblica democratica, Para isso, € necessdrio rever a concepcaio de qualidade de ensino. A qualidade de ensino é inseparavel das caracte- risticas econ6micas, sécio-culturais e psicolégicas da clientela atendida, $6 podemos falar em qualidade em telagdo a algo: coisas, processos, fend- ‘menos, pessoas, que sio reais. Isso significa que programas, contetidos, métodos, formas de organizagao somente adquirem qualidade — elevam a qualidade de ensino — quando sio compatibilizados com as condicées reais dos alunos, nao apenas individuais, mas principalmente as determi- nadas pela sua origem social. Deficiéncias e dificuldades dos alunos nao io naturais, isso é, nfo sio devidas exclusivamente & natureza humana individual, mas provocadas pelo modo de organizagio econdmica e social da sociedade, determinante das condigées materiais ¢ concretas de vida das criangas, Tais condigées influem na percepgio e assimilagao dos contetidos das matérias, na linguagem, nas motivagdes para o estudo, nas aspiragdes em relagao ao futuro, nas relagdes com o professor. Um psicélogo da educacio, a2 David Ausubel, escreveu: “O fator isolado mais importante que influencia a aprendizagem € aquilo que o aluno j& conhece; descubra-se 0 que ele sabe e baseie nisso seus ensinamentos”. Ora, o que o aluno conhece depende da sua vida real. Esta é uma preciosa ligio, pois freqllentemente a matéria do livro didatico, as aulas, 0s modos de ensinar, os valores sociais trans- mitidos pelo professor soam esttanhos ao mundo social e cultural das crian- as, quando no se vinculam as suas percepgGes, motivagdes, priticas de vida, linguagem. O ensino contribui para a superagao do fracasso escolar se os objetivos e contetidos sio acessiveis, socialmente significativos assumidos pelos alunos, isto é, capazes de suscitar sua atividade ¢ suas capacidades mentais, seu raciocinio, para que assimilem consciente ¢ at vamente os conhecimentos. Em outras palavras: 0 trabalho docente consiste em compatibilizar contetidos ¢ métodos com 0 nivel de conhecimentos, experiéncias, desenvolvimento mental dos alunos. A escola ¢ os professores tém sua parte a cumprir na uta contra 0 fracasso escolar. E, sem divida, o ponto vulnerdvel a ser atacado nesse combate € a alfabetizagio. O dominio da leitura € da escrita, tarefa que percorre todas as séries escolares, é a base necesséria para que os alunos progridam nos estudos, aprendam a expressar suas idéias e sentimentos, aperfeigoem continuamente suas possibilidades cognoscitivas, ganhem maior compreensio da realidade social. A alfabetizagio bem conduzida instrumentaliza os alunos e agirem socialmente, a lidarem com as situagées € desafios concretos da vida prética: é meio indispensével para a expresso do pensamento, da assimilagao consciente ¢ ativa de conhecimentos e ha- bilidades, meio de conquista da liberdade intelectual ¢ politica. As tarefas da escola publica democratica AA finalidade geral do ensino de 1° grau é estimular a assimilagio ativa dos conhecimentos sistematizados, das capacidades, habilidades ¢ atitudes necessérias & aprendizagem, tendo em vista a preparagdo para o prosse- guimento dos estudos série a série, para o mundo do trabalho, para a familia e para as demais exigéncias da vida social. ¥ responsabilidade, também, do ensino de 1° grau, colocar os alunos em condigées de continuarem estudando e aprendendo durante toda a vida ¢ inculcar valores € convicgdes democraticas, tais como: respeito pelos companheiros, solidariedade, capacidade de participagdo em atividades co- letivas, crenga nas possibilidades de transformagao da sociedade, coeréncia 43 entre palavras ¢ agdes e o sentimento de coletividade onde todos se preo- ‘cupam com o bem de cada um e cada um se preocupa com o bem de todos. Como ja sabemos, os objetivos, contetidos e métodos da escola piblica devem corresponder as exigéncias econdmicas, sociais e politicas de cada €poca histérica, no que diz respeito & conquista de uma democracia efetiva para os grupos sociais majoritérios da sociedade. Ao delimitar as tarefas da escola piiblica democrética € necessério levarmos em conta as caracte- risticas da sua clientela hoje, analisando criticamente a escola de ontem e a escola de hoje, a quem serviu no passado e a quem deve servir hoje. Acscola de décadas atrds serviu aos interesses das camadas dominantes da sociedade e para isso estabeleceu os seus objetivos, contéudos, métodos € sistema de organizagio do ensino. Aos filhos dos ricos fornecia educagao geral e formagio intelectual, aos pobres, 0 ensino profissional visando 0 trabalho manual. A escola pela qual devemos lutar hoje visa 0 desenvol- vimento cientifico e cultural do povo, preparando as criangas e jovens para a vida, para 0 trabalho e para a cidadania, através da educagio geral, intelectual e profissional. As tarefas da escola piblica democritica sio as seguinte: 1) Proporcionar a todas as criangas e jovens e escolarizagao bésica e gratuita de pelo menos oito anos, assegurando a todos as condigdes de assimilago dos conhecimentos sistematizados ¢ a cada um o desenvolvi- mento de suas capacidades fisicas ¢ intelectuais. A democratizagio do ensino se sustenta nos princfpios da igualdade € da diversidade. Todos devem ter 0 direito do acesso e permanéncia na escola ¢, ao mesmo tempo, o ensino deve adequar-se As condigdes sociais de origem, as caracteristicas sécio-culturais e individuais dos alunos, € A prética de vida de enfrentamento da realidade que as classes populares criam. 2) Assegurar a transmissio ¢ assimilagao dos conhecimentos e habi- lidades que constituem as matérias de ensino. ‘A democratizagio do ensino supde um sélido dominio das matérias escolares, com especial destaque leitura e & escrita, como pré-condigao para a formagio do cidadio ativo e participante. O ensino das matérias e © desenvolvimento das habilidades intelectuais contribuem para estabelecer 98 vinculos entre 0 individuo e a sociedade, e entre a sociedade e 0 individuo. Amplia no individuo a compreensao de suas tarefas no mundo material ¢ social e alarga os seus horizontes para perceber-se como membro de uma coletividade mais ampla que é a humanidade, para além da sua vivéncia individual e regional nas comunidades rurais ou urbanas. 44 3) Assegurar o desenvolvimento das capacidades e habilidades inte~ lectuais, sobre a base dos conhecimentos cientificos, que formem o pen- samento critico e independente, permitam o domfnio de métodos e técnicas de trabalho intelectual, bem como a aplicag%o prética dos conhecimentos na vida escolar e na pratica social. desenvolvimento de capacidades ¢ habilidades cognitivas € impres- cindivel para 0 domfnio dos conhecimentos e estes imprescindiveis para aquele. Por outro lado, a assimilagZo ativa de conhecimentos e habilidades através do estudo independente proporciona os meios para a aprendizagem permanente, mesmo apés concluida a formacao escolar sistemética, Isso quer dizer que o ensino no se reduz A transmissio de conheci- mentos na forma de transferéncia da cabeca do professor para a do aluno nem somente ao desenvolvimento e exercitagdo das capacidades ¢ habi- lidades. Ao invés de separar essas duas coisas, trata-se de entender 0 ensino como um proceso no qual a transmissio pelo professor se combina com a assimilagdo ativa pelos alunos, pois os conhecimentos so a base material em tomno dos quais se desenvolvem as capacidades e habilidades cognitivas. 4) Assegurar uma organizagio interna da escola em que os processos de gestdo e administragdo e os de participago democritica de todos os elementos envolvidos na vida escolar estejam voltados para o atendimento da fungao bisica da escola, o ensino. Os processos de gestio e administrag4o da escola implicam uma ago coordenada da diregio, coordenaco pedagégica ¢ professores, cada um cumprindo suas responsabilidades no conjunto da ago escolar. Os processos de participagio democratica incluem nao apenas 0 envolvimento coletivo na tomada de decisdes, como também os meios de articulag3o da escola com 6rgios da administragZo do sistema escolar e com as familias. Para a realizagio dessas tarefas a escola organiza, com base nos ob- ivos e contetidos das matérias de ensino, seu plano pedagégico-didatico. ‘6 ntcleo de conhecimentos bisicos da I fase do ensino de T° grau com. poe-se das seguintes matéria © Portugués — O ensino da Lingua Portuguesa tem como principai objetivos: a aquisicao de conhecimentos e habilidades da leitura e escrita; © desenvolvimento de habilidades e capacidades de produgao e recep¢é de mensagens verbais, em diferentes situagGes da vida cotidiana; a com- preensiio e a valorizacdo das variedades dialetais da lingua. O ensino de Portugués € uma das mais importantes responsabilidades profissionais do professor, pois é codigo para a aprendizagem das demais, disciplinas, além de ser instrumento indispensdvel para a participagio social dos individuos em todas as esferas da vida: profissional, politica, cultural. Partindo da experiéncia lingtifstica adquirida pelas criangas no meio familiar 45 € social, elas gradativamente sto estimuladas a dominar a norma-padrao culta da lingua. * Matemdtica — Cumpre dois objetivos basicos: 0 desenvolvimento de habilidades de contagem, célculo e medidas, tendo em vista a resolugio de problemas ligados & vida pratica cotidiana e tarefas escolares; o desen- volvimento de estruturas I6gicas de pensamento, pelo dominio e aplicagio dos contetidos, levando a formagio do raciocinio e do pensamento inde- pendente ¢ criativo e, assim, instrumentalizando os alunos a adquirirem novos conhecimentos te6ricos e priticos. * Historia e Geografia — Estas disciplinas visam estudar 0 homem como ser social, agindo conjuntamente na transformagio do meio fisico e social para satisfagiio de suas necessidades, construindo para si um mundo humano. Através do estudo da vida humana presente, das instituigdes sociais ¢ do funcionamento da sociedade, os alunos devem ser incentivados a com- preender como as relagdes entre os homens ¢ entre as classes sociais vao levando a formas de organizagio sécio-espacial e econdmica, umas cria- doras de desigualdades ¢ injustigas e outras mais igualitarias e mais propicias a0 desenvolvimento das caracterfsticas humanas, A Hist6ria estuda o homem nos diferentes tempos da sua existéncia € nos lugares onde ele vive; como ele vai estabelecendo relagdes com os seus semelhantes através do trabalho, como vio sendo criadas as instituigdes sociais, como o homem vai resolvendo os conflitos entre os interesses das classes sociais. A Geografia estuda as relagdes do homem com o espago natural e como pode transformé-lo em seu beneficio e em beneficio da ‘comunidade humana. O objetivo maximo dessas disciplinas é auxiliar os alunos no conhe- cimento da realidade fisica e social, a partir da realidade mais imediata, de modo a suscitar a compreensio do papel dos individuos e grupos na transformagio da sociedade, tendo em vista um mundo de convivéncia humana que assegure a plena satisfagZo das necessidades materiais e es- pirituais de todos. * Ciéncias (Fisicas e Biolégicas) — O ensino de Ciéncias compreende © estudo da natureza e do ambiente; as relagées do homem com o meio fisico e ambiental; a compreensio das propriedades ¢ das relagdes entre fatos e fenémenos; a apropriagao de métodos e habitos cientificos. Visa também: 0 conhecimento e a reflexdo sobre 0 uso social das tecnologias tendo em vista o aproveitamento racional dos recursos ambientais; formacao dos alunos para a preservacao da vida e do ambiente; aquisigiio de conhe- cimentos, habilidades ¢ habitos relacionados com a sade e com a qualidade de vida; a superagao de crendices, superstigdes e preconceitos. 46 © Educacdo Antistica — £ um importante meio de formagao cultural e estética dos alunos, de desenvolvimento de criatividade e da imaginagio. Inclui atividades de expresstio de emogGes e sentimentos, de desenvolvi- mento da imaginago e desenvolvimento da capacidade de apreciagao das diversas formas de expressio artistica (pintura, escultura, danga, mésica, poesia) populares e eruditas. * Educagao Fisica e Lazer — A Educagio Fisica contribui para for- tificar 0 corpo e 0 espirito, para o desenvolvimento de formas de expresso através do corpo, para formar 0 cardter, a autodisciplina e 0 espirito de cooperagio, lealdade e solidariedade. Além disso, organiza a recreagio e o lazer das criangas. Através dela as ctiangas aprendem jogos e brincadeiras, lusam suas energias fisicas, desenvolvem a capacidade de lideranga e ini- ciativa ete. Ocompromisso social e ético dos professores © trabalho docente constitui 0 exercicio profissional do professor ¢ este € 0 seu primeiro compromisso com a sociedade. Sua responsabilidade € preparar os alunos para se tornarem cidadios ativos participantes na familia, no trabalho, nas associagdes de classe, na vida cultural politica. E umaatividade fundamentalmente social, porque contribui para a formacao cultural e cientifica do povo, tarefa indispensdvel para outras conquistas democrati A caracterfstica mais importante da atividade profissional do professor € a mediagio entre o aluno e a sociedade, entre as condigdes de origem do aluno e sua destinacdo social na sociedade, papel que cumpre provendo as condigées e os meios (conhecimentos, métodos, organizagao do ensino) que assegurem o encontro do aluno com as matérias de estudo. Para isso, planeja, desenvolve suas aulas e avalia o processo de ensino. sinal mais indicativo da responsabilidade profissional do professor € seu permanente empenho na instrugdo ¢ educagao dos seus alunos, diri- gindo o ensino ¢ as atividade de estudo de modo que estes dominem os conhecimentos bésicos e as habilidades, e desenvolvam suas forgas, capa- cidades fisicas e intelectuais, tendo em vista equipé-los para enfrentar os desafios da vida prética no trabalho e nas lutas sociais pela democratizagao da sociedade. 47 O compromisso social, expresso primordialmente na competéncia pro- fissional, € exercido no ambito da vida social e politica. Como toda pro- fissio, 0 magistério € um ato politico porque se realiza no contexto das TelagGes sociais onde se manisfestam os interesses das classes sociais. O compromisso ético-politico € uma tomada de posigdo frente aos interesses sociais em jogo na sociedade. Quando o professor se posiciona, consciente e explicitamente, do lado dos interesses da populagio majoritéria da so- ciedade, ele insere sua atividade profissional — ou seja, sua competéncia técnica — na luta ativa por esses interesses: a luta por melhores condigées de vida e de trabalho e a aco conjunta pela transformagao das condigdes gerais (econémicas, politicas, culturais) da sociedade. Estas consideragGes justificam a necessidade de uma sélida preparagao profissional face &s exigéncias colocadas pelo trabalho docente. Esta & a tarefa bdsica do curso de habilitagao ao magistério e, particularmente, da Didética. Sugestées para tarefas de estudo Perguntas para o trabalho independente dos alunos 5 Qual a relago entre democratizagio do ensino e democratizagio da sociedade? 3 Qual € © sentido social e politico da escola basica unitéria? © Que quer dizer a afirmagio: “A educagdo escolar 6 uma atividade mediadora no seio da pratica social global"? © Distinguir as expressdes “educagao ajustadora” e “educagdo transfor- mador D Analisar os efeitos dos fatores externos e dos fatores intra-escolares no fracasso escolar das criangas. © Comentar a seguinte afirmagi minante da miséria". ‘A ignordncia é 0 fator mais deter- 3 Quai silo as agdes necessérias para conter o fracasso escolar? Quais so as tarefas da escola publica democritica? 2 Como se concretiza na pritica escolar © compromisso social e ético do professor? 48 Temas para aprofundamento do estudo a Percorrer escolas da cidade para fazer levantamento de dados sobre repeténcia ¢ evasiio, através de didrios de classe do ano anterior ou do arquivo da escola (se houver). Colher informagées dos professores sobre as razées das repeténcias e evasdes. © Ler, como tarefa de casa, individualmente ou em grupo, o “Manifesto aos Participantes da IIT Conferéncia Brasileira de Educag3o” e 0 “Ma- nifesto aos Educadores” da IV Conferéncia Brasileira de Educagio, encontrados nos Anais dessas conferéncias. Trazer um resumo para discutir em classe. Utilizar uma das técnicas de trabalho em grupo. 2 Elaborar um questionério para ser aplicado a professores de escolas piblicas com perguntas como: “Quais as caracteristicas de um bom aluno? Como mantém a disciplina na classe? Como resolve 0s pro- blemas de alunos com dificuldades? Ha diferengas entre os alunos pobres ¢ alunos de classe média em termos de aprendizagem? Quais sio essas diferengas? O ensino piorou de qualidade nos tiltimos anos? Por qué?” Temas para redagéo Democratizagao do ensino e fracasso escolar. Fracasso escolar, pobreza e ago do professor. Os contetidos escolares e a democratizagio do ensino. Preparagio profissional do professor e democratizagio do ensino. ooog Bibliografia complementar ANAIS DA III Conferéncia Brasileira de Educagiio (Niter6i-RJ). Sto Paulo, Loyola, 1984, ANAIS DA IV Conferéncia Brasileira de Educagio (Goidnia-GO). Séo Paulo, Cortez, 1988, AUSUBEL, David P. et alii, Psicologia Educacional. Rio de Janeiro, Interame- ricana, 1980, 49 BEISIEGEL, Celso de R. “Relagdes entre Quantidade ¢ Qualidade no Ensino Comum”. Revista da Ande, (1): 49-56, Sa0 Paulo, 1981 BRANDAO, Zaia et alii. Evasdio e Repeténcia no Brasil: a Escola em Questiio. Rio de Janeiro, Achiamé, 1983. CARVALHO, Célia P. de. Ensino Noturno. 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LUCKESI, Cipriano C. e LIBANEO, José C. “Evasio e Repeténcia: Implicagées Pedagégico-didéticas”, Anais do XVI Semindrio Brasileiro de Tecnologia Edu- cacional (ABT), vol. If, Rio de Janeiro, 1985, pp. 81-113, MELLO, Guiomar N. de (org.). Educacao e Transigdo Democrética. So Paulo, Cortez/Autores Associados, 1987. POPOVIC, Ana Maria. “Enfrentando 0 Fracasso Escolar”, Revista da Ande, Q): 17-21, Sao Paulo, 1981 ROSENBERG, Lia. Educagdo ¢ Desigualdade Social. Sao Paulo, Loyola, 1984. 50 Didatica: Teoria da EUS Nos capitulos anteriores procuramos formar uma visio geral da pro- blematica da educagdo escolar, da Pedagogia e da Didética, introduzindo 4 0 necessdrio entrosamento entre conhecimentos tedricos ¢ as exigéncias préticas. Retomaremos, agora, algumas questdes, com a finalidade de apro- fundar mais os vinculos da Didética com os fundamentos educacionais Proporcionados pela teoria pedagégica, explicitar o seu objeto de estudo ¢ seus elementos constitutivos para, em seguida, delinear alguns tragos do desenvolvimento histérico dessa disciplina. No t6pico final, incluimos os principais temas da Didética indispensdveis a0 exercicio profissional dos professores. Neste capftulo serdo tratados os seguintes temas: a Diditica como atividade pedagégica escolar; objeto de estudo: os processos da strugdo e do ensino; (0s componentes do processo didético; desenvolvimento histérico da Didatica e as tendéncias pedagégicas; a Diditica e as tarefas do professor. ooc0o0a0 SI Adidatica como atividade pedagégica escolar Conforme estudamos, a Pedagogia investiga a natureza das finalidades da educago como processo social, no seio de uma determinada sociedade, bem como as metodologias apropriadas para a formacdo dos individuos, tendo em vista o seu desenvolvimento humano para tarefas na vida em sociedade. Quando falamos das finalidades da educagao no seio de uma determinada sociedade, queremos dizer que 0 entendimento dos objetivos, contetidos e métodos da educagdo se modifica conforme as concepgdes de homem e da sociedade que, em cada contexto econémico ¢ social de um momento da histéria humana, caracterizam 0 modo de pensar, o modo de agir e os interesses das classes e grupos sociais. A Pedagogia, portanto, é sempre uma concepgio da diregio do processo educativo subordinada a uma concepcio politico-social. Sendo a educagio escolar uma atividade social que, através de tuigdes proprias, visa a assimilagdo dos conhecimentos e experiéncias hu- manas acumuladas no decorrer da hist6ria, tendo em vista a formagao dos individuos enquanto seres sociais, cabe A Pedagogia intervir nesse processo de assimilagao, orientando-o para finalidades sociais e politicas e criando uum conjunto de condigdes metodolégicas e organizativas para viabilizé-lo no Ambito da escola. Nesse sentido, a Diddtica assegura o fazer pedagégico na escola, na sua dimensio politico-social e técnica; é, por isso, uma dis- ciplina eminentemente pedagégica. A Didética é, pois, uma das disciplinas da Pedagogia que estuda 0 processo de ensino através dos seus componentes — os contetidos escolares, © ensino e a aprendizagem — para, com 0 embasamento numa teoria da educagdo, formular diretrizes orientadoras da atividade profissional dos pro- fessores. E, ao mesmo tempo, uma matéria de estudo fundamental na for- magio profissional dos professores e um meio de trabalho do qual os pro- fessores se servem para dirigir a atividade de ensino, cujo resultado & a aprendizagem dos contetidos escolares pelos alunos. Definindo-se como mediago escolar dos objetivos e conteddos do ensino, a Didatica investiga as condigées e formas que vigoram no ensino €, a0 mesmo tempo, os fatores reais (sociais, politicos, culturais, psicos- condicionantes das relagdes entre a docéncia ¢ a aprendizagem Ou seja, destacando a instrugdo 0 ensino como elementos primordiais do processo pedagégico escolar, traduz objetivos sociais e politicos em objetivos de ensino, seleciona e organiza os contetidos e métodos e, 20 52 estabelecer as conexdes entre ensino ¢ aprendizagem, indica princfpios e diretrizes que iro regular a ago didatica. Por outro lado, esse conjunto de tarefas ndo visa outra coisa sendo 0 desenvolvimento fisico e intelectual dos alunos, com vistas & sua preparagZo paraa vida social. Em outras palavras, 0 processo didatico de transmissio/as- similagtio de conhecimentos e habilidades tem como culmindncia o desen- volvimento das capacidades cognoscitivas dos alunos, de modo que assi- milem ativa e independentemente os conhecimentos sistematizados, Que significa teoria da instrugdo € do ensino? Qual a relagio da Di- datica com 0 curriculo, metodologias especificas das matérias, procedimen- tos de ensino, técnicas de ensino? A instrugio se refere a0 processo e ao resultado da assimilagio sélida de conhecimentos sistematizados ¢ ao desenvolvimento de capacidades cog- nitivas. O micleo da instrugdo so os contetidos das matérias. O ensino consiste no planejamento, organizagio, direcdo ¢ avaliagio da atividade didética, concretizando as tarefas da instrugo; o ensino inclui tanto o tra- balho do professor (magistério) como a direco da atividade de estudo dos alunos. Tanto a instrug3o como 0 ensino se modificam em decorréncia da sua necessaria ligagio com o desenvolvimento da sociedade ¢ com as con- digdes reais em que ocorre o trabalho docente, Nessa ligacdo é que a Didatica se fundamenta para formular diretrizes orientadoras do processo de ensino. curriculo expressa 0s contetidos da instrugdo, nas matérias de cada ‘grau do processo de ensino. Em torno das matérias se desenvolve o processo de assimilagiio dos conhecimentos ¢ habilidades. A metodologia compreende 0 estudo dos métodos, e 0 conjunto dos procedimentos de investigagio das diferentes ciéncias quanto aos seus fun- damentos ¢ validade, distinguindo-se das técnicas que sio a aplicagao es- pecifica dos métodos. No campo da Didatica, ha uma relagio entre os métodos préprios da ciéncia que da suporte & matéria de ensino ¢ os métodos de ensino. A metodologia pode ser geral (por ex., métodos tradicionais, métodos ativos, método da descoberta, método de solugao de problemas etc.) ou especifica, seja a que se refere aos procedimentos de ensino estudo das disciplinas do curriculo (alfabetizagao, Matematica, Historia etc.), seja a que se refere a setores da educacio escolar ou extra-escolar (educagio de adultos, educagao especial, educagao sindical etc.). ‘Técnicas, recursos ou meios de ensino sto complementos da metodo- logia, colocados & disposig’o do professor para o enriquecimento do pro- cesso de ensino. Atualmente, a expresso “tecnologia educacional” adquiriu um sentido bem mais amplo, englobando técnicas de ensino diversificadas, desde os recursos da informatica, dos meios de comunicaco ¢ os audio- visuais até os de instrugio programada e de estudo individual e em grupos. 53 A Didética tem muitos pontos em comum com as metodologias es- pecfficas de ensino. Elas so as fontes da investigagdo Didatica, ao lado da Psicologia da Educagio e da Sociologia da Educagiio. Mas, ao se cons- tituir como teoria da instrugio e do ensino, abstrai das particularidades de cada matéria para generalizar principios e diretrizes para qualquer uma delas. Em sintese, so temas fundamentais da Didatica: os objetivos sécio- politicos e pedagdgicos da educagao escolar, os contetidos escolares, os Princfpios didaticos, os métodos de ensino e de aprendizagem, as formas organizativas do ensino, 0 uso e aplicagao de técnicas e recursos, 0 controle € a avaliagdo da aprendizagem. Objeto de estudo: o processo de ensino O objeto de estudo da da educagao escolar. Na medida em que o ensino viabiliza as tarefas da instrugao, ele contém a instrugéo. Podemos, assim, delimitar como objeto da Didética o proceso de ensino que, considerado no seu conjunto, inclui: os contetidos dos pro- ‘gramas e dos livros didaticos, os métodos e formas organizativas do ensino, as atividades do professor e dos alunos e as diretrizes que regulam e orientam esse processo. Por que estudar o processo de ensino? Vimos, anteriomente, que a educagdo escolar € uma tarefa eminentemente social, pois a sociedade ne- cessita prover as geragdes mais novas daqueles conhecimentos ¢ habilidades que vao sendo acumulados pela experiéncia social da humanidade. Ora, nio € suficiente dizer que os alunos precisam dominar os conhecimentos; € necessirio dizer como fazé-lo, isto é, investigar objetivos e métodos seguros e eficazes para a assimilag3o dos conhecimentos. Esta é a fungio da Didética, ao estudar 0 processo do ensino. Podemos definir processo de ensino como uma sequéncia de atividades do professor e dos alunos, tendo em vista a assimilaglo de conhecimentos € desenvolvimento de habilidades, através dos quais os alunos aprimoram capacidades cognitivas (pensamento independente, observagio, andlise-sin- tese e outras). Quando mencionamos que a finalidade do processo de ensino € pro- porcionar aos alunos os meios para que assimilem ativamente os conhe- cimentos & porque a natureza do trabalho docente & a mediagdo da relacao cognoscitiva entre o aluno ¢ as matérias de ensino. Isto quer dizer que 0 ‘a € 0 processo de ensino, campo principal 4 ensino nao sso de informagées mas também o meio de orga- nizar a atividade de estudo dos alunos. O ensino somente é bem-sucedido quando os objetivos do professor coincidem com os objetivos de estudo do aluno e € praticado tendo em vista o desenvolvimento das suas forcas intelectuais. Ensinar e aprender, pois, siio duas facetas do mesmo processo, e que se realizam em torno das matérias de ensino, sob a diregio do professor. Os componentes do processo didatico Quem circula pelos corredores de uma escola, o quadro que observa € 0 professor frente a uma turma de alunos, sentados ordenadamente ou realizando uma tarefa em grupo, para aprender uma matéria. De fato, tra- dicionalmente se consideram como componentes da agio didatica a matéria, © professor, os alunos, Pode-se combinar estes componentes, acentuando-se mais um ou outro, mas a idéia corrente € a de que o professor transmite a matéria ao aluno, Entretanto, o ensino, por mais simples que possa parecer A primeira vista, é uma atividade complexa: envolve tanto condigées ex- ternas como condigdes internas das situagdes diditicas. Conhecer esas condiges ¢ lidar acertadamente com elas é uma das tarefas basicas do professor para a condugio do trabalho docente. Internamente, a ago didética se refere & relago entre 0 aluno e a matéria, com o objetivo de apropriar-se dela com a mediagao do professor. Entre a matéria, o professor ¢ 0 aluno ocorrem relagdes reciprocas. O pro- fessor tem prop6sitos definidos no sentido de assegurar 0 encontro direto do aluno com a matéria, mas essa atuagio depende das condi dos alunos alterando 0 modo de lidar com a matéria. Cada situagio didética, porém, vincula-se a determinantes econdmico-sociais, s6cio-culturais, a ob- Jetivos © normas estabelecidos conforme interesses da sociedade ¢ seus grupos, ¢ que afetam as decisbes didéticas. Consideremos, pois, que a in- ter-relagdo entre professor ¢ alunos ndo se reduz & sala de aula, implicando relagdes bem mais abrangentes © _ Escola, professor, aluno, pais esto inseridos na dinamica das relagdes sociais. A sociedade nao é um todo homogéneo, onde reina a paz e aharmonia. Ao contrério, hé antagonismos ¢ interesses distintos entre grupos € classes sociais que se refletem nas finalidades e no papel atribuidos & escola, ao trabalho do professor ¢ dos alunos. © As teorias da educagio € as priticas pedagdgicas, os objetivos edu- cativos da escola ¢ dos professores, os contedidos escolares, a relago 55 professor-alunos, as modalidades de comunicago docente, nada disso existe isoladamente do contexto econdmico, social e cultural mais am- plo e que afetam as condigdes reais em que se realizam o ensino ¢ a aprendizagem. © O professor nao € apenas professor, ele participa de outros contextos de relagdes sociais onde €, também, aluno, pai, filho, membro de sin- dicato, de partido politico ou de um grupo religioso. Esses contextos se referem uns aos outros e afetam a atividade pratica do professor. O aluno, por sua vez, mio existe apenas como aluno. Faz parte de um grupo social, pertence a uma familia que vive em determinadas con- digdes de vida e de trabalho, é branco, negro, tem uma determinada idade, possui uma linguagem para expressar-se conforme o meio em que vive, tem valores e aspiragdes condicionados pela sua prética de vida etc. 1D A eficacia do trabalho docente depende da filosofia de vida do pro- fessor, de suas conviegdes politicas, do seu preparo profissional, do salério que recebe, da sua personalidade, das caracterfsticas da sua vida familiar, da sua satisfagiio profissional em trabalhar com criangas etc. Tudo isto, entretanto, nao é uma questo de tracos individuais do professor, pois © que acontece com ele tem a ver com as relagdes sociais que acontecem na sociedade. Consideremos, assim, que 0 processo didatico est centrado na relagio fundamental entre o ensino e a aprendizagem, orientado para a confrontaglo ativa do aluno com matéria sob a mediagio do professor. Com isso, podemos lentificar entre os seus elementos constitutivos: os contetidos das matérias que devem ser assimilados pelos alunos de um determinado grau; a agdo de ensinar em que 0 professor atua como mediador entre o aluno ¢ as matérias; a acdo de aprender em que 0 aluno assimila consciente ¢ ativa- mente as matérias e desenvolve suas capacidade e habilidades. Contudo, estes componentes nao sio suficientes para ver o ensino em sua globalidade. Como vimos, nao é uma atividade que se desenvolve automaticamente, restrita ao que se passa no interior da escola, uma vez que expressa fina- lidades e exigéncias da pritica social, a0 mesmo tempo que se subordina a condigdes concretas postas pela mesma pratica social que favorecem ou dificultam atingir objetivos, Entender, pois, 0 processo didatico como to- talidade abrangente implica vincular contetidos, ensino e aprendizagem a objetivos sécio-poltticos e pedagdgicos e analisar criteriosamente 0 conjunto de condigdes concretas que rodeiam cada situagao didética. Em outras pa- lavras, 0 ensino é um processo social, integrante de miltiplos processos sociais, nos quais esto implicadas dimensdes politicas, ideol6gicas, éticas, pedagdgicas, frente as quais se formulam objetivos, conteddos e métodos 56 conforme opgdes assumidas pelo educador, cuja realizagao est na depen- déncia de condigdes, seja aquelas que 0 educador j4 encontra seja as que ele precisa transformar ou criar. Desse modo, os objetivos gerais e especificos so nao sé um dos componentes do processo didatico como também determinantes das relagdes entre os demais componentes. Além disso, a articulagao entre estes depende da avaliagio das condigdes concretas implicadas no ensino, tais como ob- Jetivos e exigéncias postos pela sociedade e seus grupos e classes, o sistema escolar, os programas oficiais, a formagio dos professores, as forcas sociais presentes na escola (docentes, pais etc.), os meios de ensino disponiveis, ‘bem como as caracteristicas sécio-culturais e individuais dos alunos, as condigdes prévias dos alunos para enfrentar o estudo de determinada ma- téria, as relagdes professor-alunos, a disciplina, o preparo especifico do professor para compreender cada situagio didatica e transformar positiva- mente 0 conjunto de condigdes para a organizaco do ensino. © processo didatico, assim, desenvolve-se mediante a aco reciproca dos componentes fundamentais do ensino: os objetivos da educagao e da instrugao, os conteddos, 0 ensino, a aprendizagem, os métodos, as formas e meios de organizagtio das condigdes da situagao diddtica, a avaliagio. Tais sto, também, os conceitos fundamentais que formam a base de estudos da Didética. Desenvolvimento histérico da Didatica e tendéncias pedagégicas A hist6ria da Didética esté ligada ao aparecimento do ensino — no decorrer do desenvolvimento da sociedade, da produgao e das ciéncias — como atividade planejada e intencional dedicada & instrugo. Desde os primeiros tempos existem indicios de formas elementares de instrugio ¢ aprendizagem. Sabemos, por exemplo, que nas comunidades primitivas os jovens passam por um ritual de iniciagdo para ingressarem nas atividades do mundo adulto, Pode-se considerar esta uma forma de ago pedagégica, embora af ndo esteja presente 0 “didético” como forma estruturada de ensino. Na chamada Antiguidade Classica (gregos e romanos) no perfodo ‘medieval também se desenvolvem formas de agdo pedagégica, em escolas, mosteiros, igrejas, universidades. Entretanto, até meados do século XVI no podemos falar de Didética como teoria do ensino, que sistematize o pensamento didético e 0 estudo cientifico das formas de ensinar. 37 O termo “Didatica” aparece quando os adultos comegam a intervir na atividade de aprendizagem das criangas e jovens através da diregio deli berada e planejada do ensino, ao contrério das formas de intervengio mais ou menos espontineas de antes. Estabelecendo-se uma intengdo propria- mente pedagégica na atividade de ensino, a escola se torna uma instituigao, © processo de ensino passa a ser sistematizado conforme niveis, tendo em vista a adequagdo as possibilidades das criangas, As idades ¢ ritmo de as- similagdo dos estudos. A formacao da teoria didética para investigar as ligagdes entre ensino © aprendizagem e suas leis ocorre no século XVII, quando Joio Amés Coménio (1592-1670), um pastor protestante, escreve a primeira obra clis- sica sobre Didética, a Didacta Magna. Ele foi o primeiro educador a formular a idéia da difusio dos conhe- cimentos a todos e criar principios e regras do ensino, Coménio desenvolveu idéias avangadas para a pritica educativa nas escolas, numa época em que surgiam novidades no campo da Filosofia e das Cigncias ¢ grandes transformagGes nas técnicas de produgio, em con- traposigao &s idéias conservadoras da nobreza € do clero. O sistema de produgao capitalista, ainda incipiente, j4 influenciava a organizagao da vida social, politica ¢ cultural. A Didatica de Coménio se assentava nos seguintes principio: 1) A finalidade da educagio & conduzir a felicidade eterna com Deus, pois € uma forga poderosa de regeneracio da vida humana. Todos os homens merecem a sabedoria, a moralidade e a religiao, porque todos, a0 realizarem sua prépria natureza, realizam os des{gnios de Deus. Portanto, a educagio é um direito natural de todos. 2) Por ser parte da natureza, o homem deve ser educado de acordo com © seu desenvolvimento natural, isto é, de acordo com as caracteristicas de idade e capacidade para o conhecimento. Consequientemente, a tarefa principal da Didética é estudar essas caracteristicas e os métodos de ensino correspondentes, de acordo com a ordem natural das coisas. 3) A assimilagéo dos conhecimentos nao se da instantaneamente, como se 0 aluno registrasse de forma mecinica na sua mente a informacao do professor, como o reflexo num espelho. No ensino, ao invés disso, tem um papel decisivo a percepgio sensorial das coisas. Os conheci- mentos devem ser adquiridos a partir da observago das coisas ¢ dos fenémenos, utilizando ¢ desenvolvendo sistematicamente os érgaos dos sentidos. 4) O método intuitivo consiste, assim, da observacao direta, pelos érgios dos sentidos, das coisas, para 0 registro das impressées na mente do 58 aluno. Primeiramente as coisas, depois as palavras. O planejamento de ensino deve obedecer o curso da natureza infantil; por isso as coisas devem ser ensinadas uma de cada vez. Nao se deve ensinar nada que ‘acrianga no possa compreender. Portanto, deve-se partir do conhecido para o desconhecido. Apesar da grande novidade destas idéias, principalmente dando um impulso ao surgimento de uma teoria do ensino, Coménio no escapou de algumas crengas usuais na época sobre ensino. Embora partindo da obser- vagio e da experiéncia sensorial, mantinha-se o cardter transmissor do en- sino; embora procurando adaptar o ensino as fases do desenvolvimento infantil, mantinha-se 0 método Gnico e o ensino simultaneo a todos. Além disso, sua idéia de que a tinica via de acesso dos conhecimentos é a ex- periéncia sensorial com as coisas no é suficiente, primeiro porque nossas percepgdes freqlentemente nos enganam, segundo, porque j4 ha uma ex- periéncia social acumulada de conhecimentos sistematizados que no ne- cessitam ser descobertos novamente. Entretanto, Coménio desempenhou uma influéncia considerdvel, nio somente porque empenhou-se em desenvolver métodos de instrugdo mais rapidos ¢ eficientes, mas também porque desejava que todas as pessoas pudessem usufruir dos beneficios do conhecimento. Sabemos que, na hist6ria, as idéias, principalmente quando so muito inovadoras para a época, costumam demorar para terem efeito pratico. No século XVII, em que viveu Coménio, e nos séculos seguintes, ainda pre- dominavam préticas escolares da Idade Média: ensino intelectualista, ver- balista e dogmatico, memorizagio e repetigzio mecanica dos ensinamentos do professor. Nessas escolas no havia espaco para idéias proprias dos alunos, o ensino era separado da vida, mesmo porque ainda era grande 0 poder da religido na vida social. Enquanto isso, porém, foram ocorrendo intensas mudangas nas formas de produgdo, havendo um grande desenvolvimento da ciéncia e da cultura Foi diminuindo 0 poder da nobreza e do clero e aumentando o da burguesia. Na medida em que esta se fortalecia como classe social, disputando 0 poder, econdmico € politico com a nobreza, ia crescendo também a neces- sidade de um ensino ligado as exigéncias do mundo da produgio e dos negocios e, ao mesmo tempo, um ensino que contemplasse o livre desen- volvimento das capacidades e interesses individua Jean Jacques Rousseau (1712-1778) foi um pensador que procurou interpretar essas aspiragGes, propondo uma concepgio nova de ensino, ba- seada nas necessidades e interesses imediatos da crianga. 59 As idéias mais importantes de Rousseau so as seguintes: 1) A preparagio da crianga para a vida futura deve basear-se no estudo das coisas que correspondem as suas necessidades e interesses atuais. Antes de ensinar as ciéncias, elas precisam ser levadas a despertar 0 ‘gosto pelo seu estudo. Os verdadeiros professores so a natureza, a experiéncia e o sentimento, O contato da crianga com 0 mundo que a rodeia € que desperta o interesse e suas potencialidades naturais. Em resumo: so os interesses e necessidades imediatas do aluno que determinam a organizagio do estudo e seu desenvolvimento. 2) A educagdo é um processo natural, ela se fundamenta no desenvolvi- ‘mento interno do aluno. As criangas so boas por natureza, elas tm uma tendéncia natural para se desenvolverem. Rousseau nio colocou em prética suas idéias e nem claborou uma teoria de ensino, Essa tarefa coube a um outro pedagogo suico, Henrique Pestalozzi (1746-1827), que viveu e trabalhou até o fim da vida na educagio de criangas pobres, em instituigGes dirigidas por ele proprio. Deu uma grande importancia ao ensino como meio de educagio e desenvolvimento das capacidades humanas, como cultivo do sentimento, da mente e do cardter. Pestalozzi atribufa grande importincia ao método intuitivo, levando 05 alunos a desenvolverem 0 senso de observagio, andlise dos objetos e fenémenos da natureza ¢ a capacidade da linguagem, através da qual se expressa em palavras o resultado das observagdes. Nisto consistia a edu- cacao intelectual. Também atribuia importincia fundamental & psicologia da crianga como fonte do desenvolvimento do ensino. As idéias de Coménio, Rousseau e Pestalozzi influenciaram muitos outros pedagogos. O mais importante deles, porém, foi Johann Friedrich Herbart (1766-1841), pedagogo alemao que teve muitos discfpulos e que exerceu influéncia relevante na Didética e na pritica docente. Foi e continua sendo inspirador da pedagogia conservadora — conforme veremos — mas suas idéias precisam ser estudadas por causa da sua presenca constante nas salas de aula brasileiras. Junto com uma formulagio tedrica dos fins da educagao e da Pedagogia como ciéncia, desenvolveu uma andlise do pro- cesso psicolégico-didético de aquisigiio de conhecimentos, sob a diregao do professor. Segundo Herbart, o fim da educagio ¢ a moralidade, atingida através da instrugdo educativa. Educar 0 homem significa instrui-lo para querer 0 bem, de modo que aprenda a comandar a si préprio. A principal tarefa da instrugio é introduzir idéias corretas na mente dos alunos. O professor € um arquiteto da mente. Ele deve trazer 4 atengdo dos alunos aquelas i 60 que deseja que dominem suas mentes. Controlando os interesses dos alunos, © professor vai construindo uma massa de idéias na mente, que por sua vez vio favorecer a assimilagao de idéias novas. O método de ensino con- siste em provocar a acumulagao de idéias na mente da crianca. Herbart estava atrés também da formulagdo de um método tinico de ensino, em conformidade com as leis psicol6gicas do conhecimento. Es- tabeleceu, assim, quatro passos diddticos que deveriam ser rigorosamente seguidos: 0 primeiro seria a preparago e apresentaco da matéria nova de forma clara e completa, que denominou clareza; 0 segundo seria a asso- ciacdo entre as idéias antigas e as novas; o terceiro, a sistematizacao dos conhecimentos, tendo em vista a generalizagio; finalmente, 0 quarto seria a aplicagdo, o uso dos conhecimentos adquiridos através de exercicios, que denominou método. Posteriormente, os discipulos de Hervart desenvolveram mais a proposta dos passos formais, ordenando-os em cinco: prepara apresentacio, assimilaco, generalizacao ¢ aplicagao, férmula esta que ainda € utilizada pela maioria dos nossos professores. O sistema pedagégico de Herbart e seus seguidores — chamados de herbartianos — trouxe esclarecimentos vilidos para a organizagao da pritica docente, como por exemplo: a necessidade de estruturagio e ordenagao do Processo de ensino, a exigéncia de compreensio dos assuntos estudados ¢ no simplesmente memorizagio, o significado educativo da disciplina na formagio do cardter. Entretanto, 0 ensino é entendido como repasse de idéias do professor para a cabega do aluno; os alunos devem compreender (© que 0 professor transmite, mas apenas com a finalidade de reproduzir a matéria transmitida. Com isso, a aprendizagem se torna mecfnica, auto- ‘miatica, associativa, nfo mobilizando a atividade mental, a reflexio e o pensamento independente e criativo dos alunos. As idéias pedagégicas de Coménio, Rousseau, Pestalozzi e Herbart — além de muitos outros que no pudemos mencionar — formaram as bases do pensamento pedagégico europeu, difundindo-se depois por todo ‘© mundo, demarcando as concepgdes pedagégicas que hoje sio conhecidas como Pedagogia Tradicional e Pedagogia Renovada. A Pedagogia Tradicional, em suas virias correntes, caracteriza as con- cepgdes de educagtio onde prepondera a agtio de agentes externos na for- magio do aluno, 0 primado do objeto de conhecimento, a transmissio do saber constitufdo na tradigio e nas grandes verdades acumuladas pela hu- manidade e uma concepgdo de ensino como impresso de imagens propi- ciadas ora pela palavra do professor ora pela observagio sensorial. A Pe- dagogia Renovada agrupa comentes que advogam a renovacio escolar, ‘opondo-se & Pedagogia Tradicional. Entre as caracteristicas desse movi- 61 mento destacam-se: a valorizagio da crianga, dotada de liberdade, iniciativa € de interesses préprios e, por isso mesmo, sujeito da sua aprendizagem e agente do seu préprio desenvolvimento; tratamento cientifico do processo educacional, considerando as etapas sucessivas do desenvolvimento biol6- gico e psicol6gico; respeito as capacidades e aptiddes individuais, indivi- dualizago do ensino conforme os ritmos proprios de aprendizagem:; rejeigao de modelos adultos em favor da atividade e da liberdade de expresso da crianga. O movimento de renovacdo da educagio, inspirado nas idéias de Rous- seau, recebeu diversas denominagdes, como educago nova, escola nova, pedagogia ativa, escola do trabalho. Desenvolveu-se como tendéncia pe- dagégica no infcio do século XX, embora nos séculos anteriores tenham existido diversos fildsofos ¢ pedagogos que propugnavam a renovagio da educagio vigente, tais como Erasmo, Rabelais, Montaigne & época do Re- nascimento € os jé citados Coménio (séc. XVII), Rousseau e Pestalozzi (no séc. XVII). A denominagio Pedagogia Renovada se aplica tanto a0 movimento da educago nova propriamente dito, que inclui a criagdo de “escolas novas”, a disseminacao da pedagogia ativa e dos métodos ativos, como também a outras correntes que adotam certos prinefpios de renovagaio educacional mas sem vinculo direto com a Escola Nova; citamos, por exem- plo, a pedagogia cientifico-espiritual desenvolvida por W. Dilthey ¢ seus seguidores, e a pedagogia ativista-espiritualista catdlica. Dentro do movimento escolanovista, desenvolveu-se nos Estados Uni- dos uma de suas mais destacadas correntes, a Pedagogia Pragmtica ou Progressivista, cujo principal representante € John Dewey (1859-1952). As jas desse brilhante educador exerceram uma significativa influéncia no movimento da Escola Nova na América Latina e, particularmente, no Brasil. Com a lideranga de Anisio Teixeira e outros educadores, formou-se no inicio da década de 30 0 Movimento dos Pioneiros da Escola Nova, cuja atuagdo foi decisiva na formulagao da politica educacional, na legislagao, na investigagio académica e na pratica escolar. Dewey e seus seguidores reagem & concepgio herbartiana da educagio pela instrugio, advogando a educagio pela agéo. A escola no é uma pre- paragiio para a vida, € a prépria vida; a educacao € o resultado da interagZo entre o organismo € o meio através da experiéncia e da reconstrugio da experiéncia. A fungo mais genuina da educagdo é a de prover condigdes ara promover ¢ estimular a atividade propria do organismo para que alcance seu objetivo de crescimento e desenvolvimento. Por isso, a atividade escolar deve centrar-se em situagdes de experiéncia onde sio ativadas as poten- cialidades, capacidades, necessidades ¢ interesses naturais da crianga. O curriculo nio se baseia nas matérias de estudo convencionais que expressam 62 a l6gica do adulto, mas nas atividades e ocupagdes da vida presente, de modo que a escola se transforme num lugar de vivéncia daquelas tarefas requeridas para a vida em sociedade. O aluno e © grupo passam a ser 0 centro de convergéncia do trabalho escolar. O movimento escolanovista no Brasil se desdobrou em varias correntes, embora a mais predominante tenha sido a progressivista. Cumpre destacar a corrente vitalista, representada por Montessori, as teorias cognitivistas, as teorias fenomenolégicas e especialmente a teoria interacionista baseada na psicologia genética de Jean Piaget. Em certo sentido, pode-se dizer também que o tecnicismo educacional representa a continuidade da corrente progressivista, embora retemperado com as contribuigées da teoria beha- viorista e da abordagem sistémica do ensino. ‘Uma das correntes da Pedagogia Renovada que ndo tem vinculo direto com 0 movimento da Escola Nova, mas que teve repercussdes na pedagogia brasileira, € a chamada Pedagogia Cultural. Trata-se de uma tendéncia ainda pouco estudada entre nés. Sua caracterfstica principal ¢ focalizar a educacao ‘como fato da cultura, atribuindo ao trabalho docente a tarefa de dirigir encaminhar a formaco do educando pela apropriagao de valores culturais. A Pedagogia Cultural a que nos referimos tem sua afiliagdo na pedagogia cientifico-espiritual desenvolvida por Guilherme Dilthey (1833-1911) e se- guidores como Theodor Litt, Eduard Spranger e Hermann Nobl. Tendo-se firmado na Alemanha como uma sélida corrente pedagégica, difundiu-se em outros paises da Europa, especialmente na Espanha, e daf para a América Latina, influenciando autores como Lorenzo Luzuriaga, Francisco Larroyo, J. Roura-Parella, Ricardo Nassif e, no Brasil, Lufs Alves de Mattos e Onofre de Arruda Penteado Junior. Numa linha distinta das concepgGes escolano- vistas, esses autores se preocupam em superar as oposigdes entre a cultura subjetiva e a cultura objetiva, entre o individual e o social, entre 0 psico- 6gico € 0 cultural. De um lado, concebem a educago como atividade do préprio sujeito, a partir de uma tendéncia interna de desenvolvimento es- piritual; de outro, consideram que os individuos vivem num mundo séci cultural, produto do préprio desenvolvimento histérico da sociedade. A educacao seria, assim, um processo de subjetivacao da cultura, tendo em vista a formagio da vida interior, a edificacdo da personalidade. A pedagogia da cultura quer unir as condigdes externas da vida real, isto é, 0 mundo objetivo da cultura, & liberdade individual, cuja fonte é a espiritualidade, a vida interior. O estudo teérico da Pedagogia no Brasil passa por um reavivamento, principalmente a partir das investigagdes sobre questbes educativas baseadas nas contribuigdes do materialismo histérico e dialético. Tais estudos con- vergem para a formulacao de uma teoria critico-social da educagio, a partir 63 da critica politica pedagégica das tendéncias e correntes da educagio brasileira. Tendéncias pedagégicas no Brasilea Didatica Nos tiltimos anos, diversos estudos tm sido dedicados & histéria da Didatica no Brasil, suas relagdes com as tendéncias pedagégicas ¢ a inves- tigago do seu campo de conhecimentos. Os autores, em geral, concordam em classificar as tendéncias pedagégicas em dois grupos: — Pedagogia Tradicional, Pedagogia Renovada e tecnicismo educacional: as de cunho progressista — Pedagogia Libertadora e Pedagogia Critico- Social dos Contetidos. Certamente existem outras correntes vinculadas a uma ou outra dessas tendéncias, mas essas sio as mais conhecidas. Na Pedagogia Tradicional, a Didética € uma disciplina normativa, um conjunto de principios e regras que regulam o ensino. A atividade de ensinar € centrada no professor que expde e interpreta a matéria. As vezes sio utilizados meios como a apresentago de objetos, ilustragdes, exemplos, mas 0 meio principal é a palavra, a exposigdo oral. Supée-se que ouvindo € fazendo exercicios repetitivos, os alunos “gravam” a matéria para depois reproduzi-la, seja através das interrogagdes do professor, seja através das provas, Para isso, é importante que 0 aluno “preste atengo”, porque ouvindo facilita-se o registro do que se transmite, na meméria, O aluno é, assim, um recebedor da matéria e sua tarefa 6 decoré-la. Os objetivi ou implicitos, referem-se & formacdo de um aluno ideal, des sua realidade concreta. O professor tende a encaixar os alunos num modelo idealizado de homem que nada tem a ver com a vida presente e futura, A matéria de ensino é tratada isoladamente, isto é, desvinculada dos interesses dos alunos ¢ dos problemas reais da sociedade e da vida. O método é dado pela l6gica ¢ seqliéncia da matéria, é o meio utilizado pelo professor para comunicar a matéria e nio dos alunos para aprendé-la. E ainda forte a presenga dos métodos intuitivos, que foram incorporados ao ensino tradi- cional, Baseiam-se na apresentagio de dados sensfveis, de modo que os alunos possam observé-los e formar imagens deles em sua mente. Muitos professores ainda acham que “partir do concreto” é a chave do ensino atualizado. Mas esta idéia jé fazia parte da Pedagogia Tradicional porque © “concreto” (mostrar objetos, ilustragdes, gravuras etc.) serve apenas para gravar na mente o que € captado pelos sentidos. © material concrelo é 4 mostrado, demonstrado, manipulado, mas 0 aluno no lida mentalmente com ele, nfo 0 repensa, no reelabora com 0 seu préprio pensamento. ‘A aprendizagem, assim, continua receptiva, automatica, no mobilizando a atividade mental do aluno e 0 desenvolvimento de suas capacidades intelectuai A Diditica tradicional tem resistido ao tempo, continua prevalecendo na prética escolar. E comum nas nossas escolas atribuir-se a0 ensino a tarefa de mera transmissiio de conhecimentos, sobrecarregar aluno de conhecimentos que so decorados sem questionamento, dar somente exer cfcios repetitivos, impor externamente a disciplina e usar castigos. Trata-se de uma pratica escolar que empobrece até as boas intengdes da Pedagogia Tradicional que pretendia, com seus métodos, a transmisséio da cultura geral, isto é, das grandes descobertas da humanidade, e a formagio do raciocinio, 0 treino da mente e da vontade. Os conhecimentos ficaram estereotipados, insossos, sem valor educativo vital, desprovidos de signi- ficados sociais, initeis para a formagdo das capacidades intelectuais e para a compreensao critica da realidade. O intento de formagiio mental, de de- senvolvimento do raciocinio, ficou reduzido a préticas de memorizagio. ‘A Pedagogia Renovada inclui varias correntes: a progressivista (que se baseia na teoria educacional de John Dewey), a ndo-diretiva (principal- mente inspirada em Carl Rogers), a ativista-espiritualista (de orientagio catdlica), a culturalista, a piagetiana, a montessoriana e outras. Todas, de alguma forma, esto ligadas ao movimento da pedagogia ativa que surge no final do século XIX como contraposigao a Pedagogia Tradicional. En- tretanto, segundo estudo feito por Castro (1984), os conhecimentos ¢ a experiéncia da Didatica brasileira pautam-se, em boa parte, no movimento da Escola Nova, inspirado principalmente na corrente progressivista. Des tacaremos, aqui, apenas a Diddtica ativa inspirada nessa corrente e a Didatica Moderna de Lufs Alves de Mattos, que incluimos na corrente culturalista. ‘A Diditica da Escola Nova ou Didatica ativa é entendida como “