Sei sulla pagina 1di 36
FABIO KONDER COMPARATO Doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra Doutor em Direito da Universidade de Paris Professor Emérito da Faculdade de Direito da Universidade de Sio Paulo A AFIRMACAO HISTORICA DOS DIREITOS HUMANOS T edicao, revista ¢ atualizada 2010 Editora Saraiva INTRopUCAO SENTIDO E EVOLUCAO DOS DIREITOS HUMANOS Situacgao do Homem no Mundo O que se conta, nestas paginas, é a parte mais bela e im- portante de toda a Histéria: a revelagao de que todos os seres humanos, apesar das imimeras diferengas bioldgicas e culturais que os distinguem entre si, merecem igual respeito, como tini- cos entes no mundo capazes de amar, descobrir a verdade e criar a beleza. Eo reconhecimento universal de que, em razdo dessa radical igualdade, ninguém — nenhum individuo, género, etnia, classe social, grupo religioso ou nagdo — pode afirmar-se su- perior aos demais. Este livro procura mostrar como se foram criando e esten- dendo progressivamente, a todos os povos da Terra, as institui- bes juridicas de defesa da dignidade humana contra a violéncia, o aviltamento, a explorago e a miséria. Tudo gira, assim, em torno do homem e de sua eminente posigio no mundo. Mas em que consiste, afinal, a dignidade humana? A tesposta a essa indagagao fundamental foi dada, suces- sivamente, no campo da religiao, da filosofia e da ciéncia. A justificativa religiosa da preeminéncia do ser humano no mundo surgiu com a afirmagdo da fé monoteista. A grande contribuigSo do povo da Biblia 4 humanidade, uma das maiores, alids, de toda a Hist6ria, foi a ideia da criagao do mundo por um Deus tnico e transcendente. Os deuses antigos, de certa forma, faziam parte do mundo, como super-homens, com as 13 mesmas paixées e defeitos do ser humano. Jahweh, muito ao contrario, como criador de tudo 0 que existe, € anterior ¢ supe- rior ao mundo. Diante dessa transcendéncia divina, os dias do homem, disse o salmista, “‘siio como a relva; ele floresce como a flor do campo, roga-lhe um vento e j4 desaparece, e ninguém mais teconhece seu lugar” (Salmo 103). No entanto, a criatura hu- mana ocupa uma posigao eminente na ordem da criagdo. Deus the deu poder sobre “os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra” (Génesis 1, 26). A cada um deles 0 homem deu um nome (2, 19), o que significa, segundo velhissima crenca, sub- meter o nomeado ao poder do nomeante'. Eo que o Salmo 8 exprimiu em forma cintilante: “Quando vejo o céu, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que fixaste, que é um mortal, para dele te lembrares, eum filho de Addo, que venhas visitaé-lo? Eo fizeste pouco menos do que um deus, coroando-o de gléria e beleza. Para que domine as obras de tuas m4os sob seus pés tudo colocaste: ovelhas e bois, todas eles, e as feras do campo também; as aves do céu e os peixes do oceano que percorrem as sendas dos mares”. Mais tarde, com a afirmag&o da natureza essencialmente tacional do ser humano, pée-se nova justificativa para a sua 1, Para os antigos, com efeito, o nome exprime a esséncia do ser. Um homem sem nome ¢insignificante, em todos os sentidos da palavra (J6 30, 8); € como se ndo existisse (Eclesiastes 6, 10). O nome de lahweh, pronunciado pelo sacerdote sobre 9 povo, protege-o (Niimeros 6, 27). Daf a razio do 2° mandamento do decélogo mosaico: “Nao pronunciards em vio o nome de Iahweh teu Deus, pois Tahweh no deixard impune aquele que pronunciar em vao 0 seu nome” (Deuterondmio 5, 11). 14 fresco. eminente posigéo no mundo. A sabedoria grega expressou-a com vigor, pela voz dos poetas e filésofos. Numa passagem do Prometeu Acorrentado (445-470) que marca a transigéo da explicagio religiosa para a filoséfica, Fisquilo poe na boca do lit4 as seguintes palavras: “Ouca agora as misérias dos mortais e perceba como, de criangas que eram, eu os fiz seres de razio, capazes de pensar. Quero dizé-lo aqui, nao para denegrir os homens, mas para lhe mostrar minha bondade para com eles. No inicio eles enxergavam sem ver, ouviam sem compreender, e, semelhantes As formas oniticas, viviam sua longa existéncia na desordem e na confusao. Eles desconheciam as casas ensolaradas de tijolo, ig- noravam os trabalhos de carpintaria; viviam debaixo da terra, como 4geis formigas, no fundo de grotas sem sol. Para eles, no havia sinais seguros nem do inverno nem da primavera florida nem do verao fértil; faziam tudo sem recorrer 4 1azdo, até o momento em que cu lhes ensinei a drdua ciéncia do nascente e do poente dos astros. Depois, foi a vez da ciéncia dos ntimeros, a primeira de todas, que inventei para eles, assim como a das letras combinadas, memoria de todas as coisas, labor que engendra as artes. Fui também o primeiro a subjugar os animais, submetendo-os aos arreios ou a um cavaleiro, de modo a substituir os homens nos grandes trabalhos agricolas, e atrelei as carruagens os cavalos déceis com que se ornamenta 0 fasto opulento. Fui o tinico a inventar os veiculos com asas de tecido, os quais permitem aos marinheiros correr os mares”. Na verdade, a indagagao central de toda a filosofia é bem esta: — Que é o homem? A sua simples formulagao jé postula a singularidade eminente deste ser, capaz de tomar a si mesmo como objeto de reflexdo. A caracteristica da racionalidade, que 15 a tradigio ocidental sempre considerou como atributo exclusi- yvamente humano, revela-se sobretudo nesse sentido reflexivo, a partir do qual, como se sabe, Descartes deu infcio a filosofia moderna. A justificativa cientifica da dignidade humana sobreveio com a descoberta do processo de evolugio dos seres vivos, embora a primeira explicacao do fendmeno, na obra de Charles Darwin, rejeitasse todo finalismo, como se a natureza houvesse feito varias tentativas frustradas, antes de encontrar, por mero acaso, a boa via de solugdo para a origem da espécie humana. Ora, apesar da aceitagiio geral das explicagées darwinianas, vai aos poucos abrindo caminho no mundo cientifico a convic- ¢Ho0 de que no é por acaso que o ser humano representa 0 Apice de toda a cadeia evolutiva das espécies vivas. A propria dinamica da evolugao vital se organiza em fungio do homem. Os partidarios do chamado “principio antrépico” reconhe- cem que os dados cientificos nao permitem afirmar (nem negar, alids) que o mundo e o homem existem e evoluem em razio da vontade de um sujeito transcendente, que tudo criou e tudo pode destruir. O que esses cientistas sustentam, com bons argumen- tos, é que o encadeamento sucessivo das etapas evolutivas obedece, objetivamente, a uma orientagio finalistica, inscrita na propria légica do processo, e sem a qual a evolugao seria tacionalmente incompreensivel. A transformagao biolégica dos hominideos, aliés, como hoje se reconhece, é um processo Unico e insuscetivel de reprodugio*. Nestas condigoes, é razoa- 2. Cf. L.D. Barrow e F. J. Tipler, The Anthropic Cosmological Principle, Oxford University Press, 1986; Michael Denton, Evolution: A Theory in Crisis, Londres Burnett), 1985; idem, The Long Chain of Coincidence, traduzido para o francés sob o titulo Z’évolution a-t-elle un sens?, Patis, Fayard, 1997; J. Demaret e D. Lambert, Le principe anthropique, Paris, Armand Colin, 1994. 3. Cf. John C. Eccles, Evolution of the Brain: Creation of the Self, Routledge, Londres ¢ Nova York, 1989, p. 217. 16 vel aceitar-se, como postulado cientifico, que toda a evolugio das espécies vivas se encaminhou aleatoriamente em diregio ao ser humano, como poderia, também de forma puramente aleatéria, ter conduzido 4 degeneragao e 4 morte universal? Muito mais abstrusa que a explicagdo mitoldgica e religio- sa tradicional parece, assim, a ideia de que o advento do ser humano na face da Terra seria o resultado de um estupendo acaso. Pois se a evolugdo avanga sem rumo, como nave desbus- solada através da Histéria, esta nada mais seria, como exclamou o desespero de Macbeth, que a tale, told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing’. Se a humanidade ignora 0 sentido da Vida e jamais poderd discerni-lo, é impossivel dis- tinguir a justiga da iniquidade, o belo do horrendo, 0 criminoso do sublime, a dignidade do aviltamento. Tudo se identifica e se confunde, no magma ca6tico do absurdo universal, aquele mesmo abismo amorfo e tenebroso que, segundo o relato bibli- co, precedeu a Criagio. Para a sabedoria antiga, alids, a geragdo do mundo nao tem apenas um sentido ontolégico, com o nascimento dos diversos entes que 0 povoam. Ela exprime, antes, um sentido axiolégico, com a organizag4o de uma escala universal de valores, que vai aos poucos se explicitando. F importante observar que, no relato biblico da Criagao, 0 mundo ndo surge instantaneamente, completo e acabado, das maos do Criador. As criaturas vio se acrescentando, umas as outras, como etapas de um vasto programa, simbolicamente ordenado na duragao de um ciclo lunar. O primeiro casal hu- mano s6 entra em cena na derradeira etapa do processo gene- sfaco, quando todos os demais seres terrestres j4 haviam sido engendrados. Na tradicao eloista’, ohomem foi criado A imagem 4, Ato V, cena V. 5, Segundo a teoria mais geralmente aceita, os cinco primeiros livros da Biblia (o Pentateuco) procedem de quatro fontes distintas, amalgamadas no texto atual. A 17 e semelhanga de Deus (Gn 1, 26-27). JA na tradigao javista, diferentemente, “Deus modelou o homem com a argila do solo” — adamah, em hebraico, nome coletivo que passa a designar o primeiro ser humano, Addo (Gn 2, 7). A Biblia apresenta, pois, o homem como situado entre o Céu e a Terra, como um ser a um s6 tempo espiritual e terreno. Ora, a verdade — hoje indiscutivel, de resto, no meio cientifico — € que o curso do processo de evolugao vital foi substancialmente influenciado pela aparicao da espécie huma- na. A partir de entao, surge em cena um ser capaz de agir sobre o mundo fisico, sobre 0 conjunto das espécies vivas e sobre si proprio, enquanto elemento integrante da biosfera. O homem passa a alterar 0 meio ‘ambiente e, ao final, com a descoberta das leis da genética, adquire os instrumentos hdbeis a interferir nO processo generativo e de sobrevivéncia de todas as espécies vivas, inclusive a sua prépria. Na atual etapa da evolugdo, como todos reconhecem, o componente cultural é mais acentuado que o componente “natural”. Até o aparecimento da linguagem, a evolugiio cultural foi quase imperceptivel. A partir de entao, no entanto, ou seja, a contar desse marco histérico decisivo, ha cerca de 40.000 anos, a evolugao cultural cresceu mais rapida- mente do que nos milhdes de anos que a precederam®. O homem perfaz indefinidamente a sua prépria natureza — por assim dizer, inacabada — ao mesmo tempo em que “hominiza” a Terra, tornando-a sempre mais dependente de si proprio. Foi exatamente essa concep¢io do homem — demiurgo de si mesmo e do mundo em torno de si — que um jovem huma- fonte javista, assim denominada porque nela Deus toma o nome de Iahweh, seria origindria do reino de Juda. A fonte eloista, onde Deus é comumente designado como Elohim, € origindria de Israel. 6. Jared Diamond, The Rise and Fall of the Third Chimpanzee, citado por Chris- tian de Duve (Prémio Nobel), Poussiare de vie — Une histoire du vivant, Paris, Fayard, 1996, 404. 18 nista italiano, Giovanni Pico, senhor de Mirandola e Concordia, apresentou em 1486 em famoso discurso académico’. Tmaginou ele que 0 Criador, ao completar sua obra, haven- do povoado a regio supraceleste com puros espiritos e o mun- do terrestre com uma turba de animais de toda espécie, vis e torpes, percebeu que ainda faltava alguém, nesse vasto cenario, capaz, de apreciar racionalmente a obra divina, de amar sua beleza e admirar-lhe a vastidao. A dificuldade, no entanto, é que j4 nao havia um modelo proprio e especffico para a composigao dessa ultima criatura. Todas as formas possiveis — de grau infimo, médio ou superior — haviam sido utilizadas e especificadas na criagao dos demais seres. Decidiu entéo o Criador, em sua infinita sabedoria, que aquele a quem nada mais podia atribuir de préprio fosse con- ferido, em comum, tudo o que concedera singularmente as outras criaturas. Mais do que isso, determinou Deus que o ho- mem fosse um ser naturalmente incompleto. “Nao te damos, 6 Addo, nem um lugar determina- do nem um aspecto préprio nem uma fungao peculiar, a fim de que o lugar, o aspecto ou a fungio que dese- jares, tu os obtenhas ¢ conserves por tua escolha ¢ deliberagao préprias. A natureza limitada dos outros seres é encerrada no quadro de leis que prescrevemos. Tu, diversamente, nao constrito em limite algum, de- terminards tua natureza segundo teu arbitrio, a cujo poder te entregamos. Pusemos-te no centro do mundo, para que dai possas examinar a tua roda tudo o que nele se contém. Nao te fizemos nem celeste nem imortal, para que tu mesmo, como artifice por assim dizer livre 7. Oratio Ioannis Pici Mirandulae Concordiae Comitis. Cito da edicto bilingue, latina ¢ italiana, sob o titulo Discorso sulla Dignita dell’Uomo, aos cuidados de Giuseppe Tognon, Brescia, Editrice La Senola, 1987. 19 e soberano, te possas plasmar e esculpir na forma que escolheres. Poderds te rebaixar a irracionalidade dos seres inferiores; ou entdo elevar-te ao nfvel divino dos seres superiores”. A sabedoria teltirica do Riobaldo, de Grande Sertdo: Ve- redas, exprimiu a mesma convicgio, no doce falar dos Gerais: “Mire, veja: 0 mais importante e bonito, do mun- do, ¢ isto: que as pessoas nao esto sempre iguais, ainda nao foram terminadas — mas que elas vio sem- pre mudando. Afinam ou desafinam”. Na verdade, a primeira reflexdio do homem sobre si mesmo surgiu, concomitantemente, em varias civilizacdes, num perio- do decisivo da Histéria. O Periodo Axial e seus Desdobramentos Numa interpretagao que Toynbee considerou iluminante’, Karl Jaspers? sustentou que o curso inteiro da Historia poderia ser dividido em duas etapas, em fungaio de uma determinada €poca, entre os séculos VII II a.C., a qual formaria, por assim dizer, o eixo histérico da humanidade. Dai a sua designaco, para essa época, de periodo axial (Achsenzeit). No centro do periodo axial, entre 600 e 480 a.C., coexis- tiram, sem se comunicarem entre si, alguns dos maiores dou- trinadores de todos os tempos: Zaratustra na Pérsia, Buda na India, Lao-Tsé ¢ Confiicio na China, Pitagoras na Grécia e 0 Déutero-Isafas em Israel. Todos eles, cada um a seu modo, foram autores de vis6es do mundo, a partir das quais estabele- 8. Cf. Mankind and Mother Earth — A narrative history of the world, 1976, Oxford University Press, p. 177. 91. Von Ursprung und Ziel der Geschichte, ed. em 1949, 8 ed., Munique/Zuri- que, R. Piper & Co. Verlag, 1983, p. 19-42. 20 ceu-se a grande linha diviséria histérica: as explicagdes mito- légicas anteriores séo abandonadas, ¢ 0 curso posterior da Hist6ria passa a constituir um longo desdobramento das ideias ¢ principios expostos durante esse periodo. O século VIII a.C. 6 apontado como o inicio do perfodo axial", nao sé porque é 0 século de Homero, mas sobretudo porque nele surgiram os profetas de Israel, notadamente Isaias, aos quais se deve a elaboragao do auténtico monoteismo. Até entio, com efeito, a religido dos hebreus era, como ja se disse, de certa maneira uma monolatria: sé Iahweh podia ser adorado como Deus verdadeiro, mas a existéncia de outras divindades era, nao raro, admitida. Foi durante 0 periodo axial que se enunciaram os grandes princfpios e se estabeleceram as diretrizes fundamentais de vida, em vigor até hoje. No século V a.C., tanto na Asia quanto na Grécia (0 “sé- culo de Péricles”), nasce a filosofia, com a substituigéo, pela primeira vez na Historia, do saber mitolégico da tradigio pelo saber légico da raziio. O individuo ousa exercer a sua faculdade de critica racional da realidade. Nesse mesmo século, em Atenas, surgem concomitante- mente a tragédia ¢ a democracia, e essa sincronia, como se observou, ndo foi. meramente casual'!. A supressio de todo poder politico superior ao do préprio povo coincidiu, histo- ricamente, com 0 questionamento dos mitos religiosos tradi- cionais. Qual deveria ser, doravante, o critério supremo das ages humanas? Nao poderia ser outro sendo o proprio ho- mem. Mas como definir esse critério, ou, melhor dizendo, 10. Toynbee sustenta que o inicio desse perfodo remontaria a c. 1060 da era pré- -crist, quando surgiram os primeiros profetas sirios, provaveis inspiradores dos profetas de Israel. 11. Cf, Jacqueline de Romilly, La Tragédie Grecque, Paris (PUF), 1973, p. 14-5, & Pourquoi la Gréce, Paris, Editions de Fallois, 1992, p. 185 es. 21 quem € 0 homem? Se j4 nao h4 nenhuma justificativa ética para a organizagao da vida humana em sociedade numa ins- tancia superior ao povo, o homem torna-se, em si mesmo, 0 principal objeto de andlise ¢ reflexdo. A tragédia grega, mui- tos séculos antes da psicandlise, representou a primeira gran- de introspec¢ao nos subtetrfneos da alma humana, povoados de paixGes, sentimentos e emogées, de cardter irracional e incontroldvel. O homem aparece, aos seus préprios olhos, como um problema, ele é em si mesmo um problema, no sentido que a palavra tomou desde logo entre os gedmetras gregos: um obstaculo a compreensiio, uma dificuldade pro- posta A razaio humana. Na linha dessa tendéncia a racionalizagio, durante o periodo axial, as religides tornam-se mais éticas e menos rituais ou fantasticas. Em lugar dos antigos cultos da natu- reza, ou da adoragao dos soberanos politicos, busca-se al- cangar uma esfera transcendental ao mundo e aos homens; ou ent#o, como na China, desenvolve-se a veneracio aos antepassados como modelos éticos para as novas geragdes. Algumas ideias cardeais do ensinamento de Zaratustra — a imortalidade da alma, o Julgamento Final, a atuagio divina sobre o mundo através do Espirito Santo — sio assimiladas pelo judaismo e, por intermédio deste, passam ao cristianis- mo € ao islamismo. A fé monotefsta alcanga em Israel sua expresso mais pura no século VI a.C. com o Déutero-Isaias, o autor anénimo dos capitulos 40 a 55 do Livro de Isajas. A relagao religiosa torna- ~se mais pessoal e o culto menos coletivo ou indireto: a grande inovagdo é que os individuos podem, doravante, entrar em contato direto com Deus, sem necessidade da intermediciio sacerdotal ou grupal. Enquanto isso, a forga da ideia monote- fsta acaba por transcender 0s limites do nacionalismo teligioso, preparando o caminho para o culto universal do Deus nico e 22 a concérdia final das nagdes!*. O cristianismo, em particular, levou As Ultimas consequéncias o ensinamento ecuménico de Isafas, envolvendo-o na exigéncia de amor universal!*. Por outro lado, em meio & multiddo dos mini-Estados ¢ cidades-Estados da época, com culturas locais préprias e em perpétua guerra entre si, comegam a ser tecidos lagos de apro- ximacio e compreens4o miitua entre os diversos povos. Con- ficio e Moti fundam as primeiras escolas, 4s quais acorrem. alunos de todas as partes da China. Buda inicia seus longos périplos pelo vasto continente indiano. Os filésofos gregos viajam pela bacia do Mediterraneo como exploradores e cop- selheiros de governantes. As primeiras escolas de filosofia instalam-se na Grécia, atraindo discipulos de toda a Hélade. Herédoto narra suas viagens, comparando os diferentes costu- mes e tradigées dos povos, 0 que ensejou a compreensio da relatividade das civilizagées. Em suma, é a partir do perfodo axial que, pela primeira vez. na Histéria, o ser humano passa a ser considerado, em sua 12. “Dias viro em que o monte da casa de Tahweh ser4 estabelecido no mais alto das montanhas ese algaré acima de todos os outeiros. A ele acorreriio todas as nages, muitos povos virio, dizendo: *Vinde, subamos ao monte de Iahweh, a casa do Deus de Jacé, para que ele nos instrua a respeito dos seus caminhos © assim andemos nas suas veredas’. Com efeito, de Sido sairé a Lei, e de Jerusalém, a palavra de Iahweh. Ele julgard as nages, ele corrigira a muitos povos. Estes quebrardo as suas espadas, transformando-as em relhas, as suas langas, a fim de fazerem podadeiras. Uma nagio nfo levantard a espada contra a outta, nem se aprenderé mais a fazer guerra” (Isaias 2, 2-4, versio da Biblia de Jerusa- lém). 13. Nos textos evangélicos, j4 foram discernidas pelo menos 24 citagées do Livro de Isafas. 23 igualdade essencial, como ser dotado de liberdade e razio, nao obstante as muiltiplas diferengas de sexo, taga, teligifio ou cos- tumes sociais. Langavam-se, assim, os fundamentos intelectuais para a compreensdo da pessoa humana e para a afirmagio da existéncia de direitos universais, porque a ela inerentes. Vejamos como se foram elaborando historicamente esses conceitos. A Pessoa Humana e seus Direitos A ideia de que os individuos e grupos humanos podem ser teduzidos a um conceito ou categoria geral, que a todos englo- ba, é de elaboracio recente na Histéria. Como observou um. antropélogo", NOS povos que vivem 4 margem do que se con- vencionou classificar como civilizagio, ndo existe palavra que exprima 0 conceito de ser humano: os integrantes do grupo sfo chamados “homens”, mas os estranhos ao grupo sao designados por outra denominagio, a significar que se trata de individuos de uma espécie animal diferente. , Foi durante o periodo axial da Hist6ria, como se acaba de assinalar, que despontou a ideia de uma igualdade essencial entre todos os homens. Mas foram necessatios vinte e cinco séculos para que a primeira organizacao internacional a englobar a quase totalidade dos povos da Terra proclamasse, na abertura de uma Declaraciio Universal de Direitos Humanos, que “todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. ; Ora, ssa conviccao de que todos os seres humanos tém dircito a ser igualmente respeitados, pelo simples fato de sua humanidade, nasce vinculada a uma instituigao social de capi- tal importancia: a lei escrita, como fegra geral e uniforme, igualmente aplicdvel a todos os individuos que vivem numa sociedade organizada. 3834 Claude Lévy-Strauss, Anthropologie structurale deux, Paris, Plon, 1973, p. 24 A lei escrita alcangou entre os judeus uma posigao sagrada, como manifestag4o da propria divindade. Mas foi na Grécia, mais particularmente em Atenas, que a preeminéncia da lei escrita tornou-se, pela primeira vez, o fundamento da socieda- de politica. Na democracia ateniense, a autoridade ou forga moral das leis escritas suplantou, desde logo, a soberania de um individuo ou de um grupo ou classe social, soberania esta tida doravante como ofensiva ao sentimento de liberdade do cidadio. Para os atenienses, a lei escrita € o grande antidoto contra o arbitrio governamental, pois, como escreveu Euripides na pega As Suplicantes (versos 434-437), “uma vez, escritas as leis, o fraco e o rico gozam de um direito igual; o fraco pode respon- der ao insulto do forte, e o pequeno, caso esteja com a raz4o, vencer © grande”, Mas ao lado da lei escrita (nomos éngraphos), havia tam- bém entre os gregos uma outra nogdo de igual importancia: a de lei nio escrita (nomes dgraphos). Tratava-se, a bem dizer, de noc&o ambigua, podendo ora designar o costume juridica- mente relevante, ora as leis universais, originalmente de cunho teligioso, as quais, sendo regras muito gerais e absolutas, niio se prestavam a ser promulgadas no territério exclusivo de uma 86 nacao'’, E neste tiltimo sentido que a expresso “leis nao escritas” é usada na Antigona, de Sdfocles, com o acréscimo do adjetivo “divinas”. Sem divida, a proibicao de se enterrarem os cadé- veres dos cidadaos que se haviam revoltado contra 0 governo, com a cominagao da pena de morte para o transgressor, era um 15. CE. Xenofonte, Memorabilia, TV, iv. 19-22: *Vocé sabe o que significa lei no escrita, Hipias? — Sim, aquelas leis que so uniformemente observadas em todos 08 paises, — Pode-se dizer que foram os homens que as fizeram? —NAo, pois como poderia ser assim, se a humanidade nfo pode se reunir em assembleia e se todos os homens no fulam a mesma lingua? —Entio, quem as teria feito, a seu ver? — Pen- so que os deuses fizeram essas leis para os homens, pois a primeira lei a ser obser- vada pelos homens é a de adorar os deuses”. 25 simples decreto (psefisma) de Creonte, no uma lei auténtica (nomos), votada pelo povo; muito embora Séfocles, sem dtivi- da ignorante dessa distingio técnica, empregue sempre a pala- vra nomos. Mas a oposigao substancial, denunciada por Antigo- na diante do tirano, continuaria a mesma, Caso se tratasse real- mente de uma lei: “Sim, pois nao foi Zeus que a proclamou (a ‘lei? de Creonte)! Nao foi a Justica, sentada junto aos deuses do reino dos mortos; néo, essas nao sao as leis que os deuses tenham algum dia prescrito aos homens, e eu nao imaginava que as tuas proibicdes pessoais fossem. assaz poderosas para permitir a um mortal descumprir aquelas outras leis, nao escritas, inabalaveis, as leis divinas! Estas néo datam nem de hoje nem de ontem, e ninguém sabe o dia em que foram promulgadas, Po- deria eu, por temor de alguém, qualquer que ele fosse, expor-me & vinganga de tais leis ?” (versos 450-460), Nas geragées seguintes, o cardter essencialmente religioso dessas “leis nao escritas” foi sendo dissipado. Em Aristételes, elas sfo chamadas “leis comuns”, reconhecidas pelo consenso univer- sal, por oposigdo as “leis particulares”, préprias de cada povol®, Foi nessa acepgio de leis comuns a todos os POVos que os roma- nos adotaram a nogao grega de leis no escritas, com a expressao ius gentium, isto é, o direito comum a todos os povos"”. Descartado o fundamento religioso, foi preciso encontrar outra justificativa para a vigéncia dessas leis universais, aplicé- veis portanto a todos os homens, em todas as partes do mundo. Para os sofistas e, mais tarde, para Os estoicos, esse outro fun- damento universal de vigéncia do direito s6 podia ser a nature- za (physis). 16. Retérica, I, 1368 b. 17. Tus gentium est quo gentes humanae utuntur (Ulpiano, Digesto 1, 1, 4). 26 No “século de Péricles”, Antifonte (480 — 411 a.C.)* fundou-se sobre a existéncia de uma igual natureza para todos os homens, em sua critica A divisdio da humanidade em gregos e barbaros, aqueles obviamente superiores a estes: “[...] os que descendem de ancestrais ilustres, nds os honramos e veneramos; mas os que nado descendem de uma familia ilustre, nado honramos nem veneramos. Nisto, somos barbaros, tal como os outros, uma vez que, pela natureza, bérbaros e gregos somos todos iguais. Convém considerar as necessidades que a natu- reza imp6e a todos os homens; todos conseguem prover aessas necessidades nas mesmas condig6es; no entan- to, no que concerne a todas essas necessidades, nenhum. de nés é diferente, seja ele barbaro ou grego: respiramos oO mesmo ar com a boca e€ 0 nariz, todos nés comemos com 0 auxilio de nossas mfos [...]”". Em outros autores gregos, a igualdade essencial do homem foi expressa mediante a oposicdo entre a individualidade propria de cada homem e as fungdes ou atividades por ele exercidas na vida social. Essa fungio social designava-se, figurativamente, pelo termo présopon, que os romanos traduziram por persona, com 0 sentido proprio de rosto ou, também, de mascara de tea- tro, individualizadora de cada personagem. No didlogo Alcibiades, por exemplo, o Sécrates de Platéo procura demonstrar que a esséncia do ser humano est4 na alma, no no corpo nem tampouco na unido de corpo e alma, pois 0 homem serve-se de seu corpo como de um simples instrumen- 18, Segundo toda a probabilidade, o sofista Antifonte parece ser o grande orador € professor de retérica elogiado por Tucidides (A Guerra do Peloponeso, VIII, 68). 19, Tradugio do fragmento intitulado Da Verdade, XLIV, B, publicado em Les Présocratiques, bibliotheque de la Pleiade, Paris, Gallimard, 1988, p. 1107-8; texto grego e tradugao alema em Hermann Dicls e Walther Kranz, Die Fragmente der Vorsokratiker, v. 2, Zurique, Weidmann, 1996, p. 352-3. 27 to. De onde se segue que a individualidade de cada ser humano nao pode ser confundida com a sua aparéncia, estampada no tosto (présopon): “—- Sécrates: Ah! estou vendo, era isto que, ha pouco, diziamos: que Sécrates, servindo-se da palavra, fala com Alcibiades; que ele nao se dirige ao teu rosto (0u pros to son présopon), mas ao préprio Alcibiades. Ora, tu és a tua alma!” (130, e). A oposicao entre a mascara teatral (papel de cada individuo na vida social) ¢ a esséncia individual de cada ser humano — que veio a ser denominada com o termo personalidade — foi, em seguida, longamente discutida e aprofundada pelos estoicos. A filosofia estoica desenvolveu-se durante seis séculos, desde 0 momento em que Zenio de Citio comegou a ensinar em Atenas, em 321 a.C., até a segunda metade do século Tl da era crista. Mas os seus principios permaneceram em vigor du- rante toda a Idade Média e mesmo além dela. Muito embora nao se trate de um pensamento sistematico, 0 estoicismo organizou-se em torno de algumas ideias centrais, como a unidade moral do ser humano ea dignidade do homem, considerado filho de Zeus e possuidor, em consequéncia, de direitos inatos e iguais em todas as partes do mundo, no obs- tante as intimeras diferengas individuais e grupais. Foi, justamente, para explicar essa unidade substancial do ser humano, distinta da aparéncia corporal, ou das atividades que cada qual exerce na sociedade, que os estoicos Jangaram mao dos conceitos de hypdstasis e de proésopon. O primeiro, correlato de ouséa, que na lingua latina traduziu-se por substan- tia, significava o substrato ou suporte individual de algo. Epic- teto péde assim dizer, numa das suas ligGes de vida”: 20. Manual, XV. 28 “Lembra-te que és ator de um drama, breve ou longo, segundo a vontade do autor. Se é um papel (prd- sopon) de mendigo que ele te atribui, mesmo este re- Ppresenta-o com talento; da mesma forma, se é 0 papel de coxo”!, de magistrado, de simples particular. Pois cabe-te representar bem o personagem (prdsopon) que te foi confiado, pela escolha de outrem”. Em outra passagem de sua obra, ele reafirma a ideia de que o papel dramatico que cada um de nds representa na vida nao se confunde com a individualidade pessoal: “Haverd um tempo em que os atores trdgicos acre- ditario que suas mdscaras (présopa), seus calgados”, suas roupas, sao eles mesmos. Homem, tu nada mais és aqui do que matéria para a tua ago ¢ teu papel (prd- sopon) a desempenhar. Fala um pouco para se ver se és um ator trigico ou cémico; pois, exceto a voz, tudo o mais €é comum a ume outro; e se the tiramos os cal- cados e a mascara (prdsopon), se ele se apresenta em cena com a sua propria individualidade, o ator tragico desaparece ou sobrevive ainda? Se ele tem a voz cor- respondente (a esse papel), sobrevive””?. Na tradigio biblica, Deus € o modelo de pessoa para todos os homens. Sem diivida, 0 cristianismo, proclamando o dogma da Santissima Trindade (trés pessoas com uma s6 substancia), quebrou a unidade absoluta e transcendental da pessoa divina. Mas, em compensagao, Jesus de Nazaré concretizou na Histé- 21. B de se lembrar que Epicteto era coxo. 22, Na tragédia grega, os alores usavam calgados altos — o eoturno — e na. co- média, calgados baixos, chamados soco. De onde a designaciio metonimica da tra- , Bédia ¢ da comédia por esses dois tipos de sapato. “Matéria é de coturno ¢ nao de soco”, disse Camées em Os Lusfadas (canto X, estrofe VU), referindo-se a epopeia itima portuguesa, 23. Discursos, Livro I, cap. XXIX, 41 a 43. 29