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Paul.Helm A Providéncia de DEUS Série Teologia Crista A Providéncia de Deus © 2007 Editora Cultura Cristé. Publicado em inglés em 1993 com 0 tleulo The Providence of God © Paul Helm 1993. Traduzido ¢ publicado com permissio da Inter Varsity Press, Leiscester, Inglaterra. Todos os direitos sto reservados. 18 ediggo em portugués ~ 2007 3.000 exemplares Tradugéo Vagner Barbosa Revisio Vagner Barbosa Wendell Lessa Vilela Xavier Editoragito e Capa OM Designers Graficos Conselho Editorial Cléudio Marra (Presidente), Ageu Citilo de Magalhaes Jr., Alex Barbosa Vieira, ‘André Luiz Ramos, Fernando Hamilton Costa, Francisco Baptista de Mello, Francisco Solano Portela Neto, Mauro Fernando Meister e Valdeci da Silva Santos, Dados Ingernacionais de ‘na Publicagto (CIP) (CAmara Brasileira do Livro, SP, Beal) Helm, Paul, 1L6470 A providéncia de Deus / Paul Helmy [tadugio Vaguer Barbosa). ~ Sto Paulo: Cultura Crise, 2007. 224ps 16423 em, “Tradugio de The providence of God ISBN 85-7622-028-8 1, Deus. 2, Providénela e goveruo de Deus. 3. Teologia. I. Helm, P Il. Titulo opp 2ied. — 231.5 €DITORA CULTURA CRISTA Ruta Miguel Tees Jt, 394 - CEP 01540-040 - Sto Paulo - SP Caixa Postal 15.136 - CEP 01599-970 - Sio Paulo - SP Fone; (11) 3207-7099 - Fax: (11) 3209-1255 Ligue grétis: 0800-0141963 - www.cep.orgbr - cep@cep.org.br Haveraldo Ferreira Vargas Editor: Cliudio Antonio Batista Marra Sumario Prefacio da Série 1 Orientagao 5 Os trés contextos .. 16 Oladoescuro... 21 Uma agenda de problemas 23 Algumas observagées sobre o método . Ceticismo sobre a ago de Deus .... 2 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? Ocardter de Deus 1. Oconhecimento de Deus 2. A vontade de Deus... 3. Abondade de Deus Acomodagiio Custoe beneficio . Conhecimento médio Umaantinomia? Compatibilismo 3. OEsquema Teolégico Pantefsmoe deismo As atragdes do deism« Tefsmo Conclusio Atitudes do Antigo Testamento Atitudes do Novo Testamento . O mundo é para a Igreja? Providénciae graga... 5. Providénciae Orientagio Discernindo o padrao.... Diregio .. Providéncia, tragédia e destino Providénciae acaso 6. Oraciio e Providéncia ... Deus, vontade livre e oragdo Aeficdcia da oragao peticionaria .. Um problema moral sobre a oragdo 7. Providéncia e Responsabilidade Os problemas .... A relagio de Deus com o universo .. Modelo 1: 0 mal como privagio Modelo srmissao divina .. Modelo 3: compatibilismo divino .. Modelo 4: niveis causais.... Aimportancia dos modelos Aresponsabilidade de Deu: Aresponsabilidade humana Providénciae graga 8. A Providéncia eo Mal ... Algumas conseqiléncias do problema do mal Porque Deus nao impede o mal moral? Obem maior ...... A defesa do bem maior: 0 mal nio-punitivo A defesa do bem maior: mal punitivo A defesa do bem maior: 0 felix culpa: A resposta pessoal ao mal . 9. Reconhecendo a Providéncia Fatalismo ou propésito? Inracionalidade? Razdes? Objetividade ... Aexperiéncia de fraquez: Providéncia e ignorancia do propésito de Providéncia e a resist8ncia ao mal .. Providéncia e a superagaio do mal Prefacio da Série A Série Teologia Crista cobre os principais temas da doutrina crista. Ela oferece uma apresentagao sistematica da maioria das principais doutrinas de uma forma que complement os livros texto tradicionais sem copid-los. Nos- sa maior prioridade sao as abordagens contempor4neas, algumas das quais podem nfo estar em pleno acordo com algum ponto de vista evangélico es- pecifico. A série aponta, portanto, nao apenas para respostas recorrentes a objegGes levantadas ao Cristianismo evangélico, mas também remodela a posigao evangélica ortodoxa de uma forma nova e convincente. A motivagao global é, portanto, positiva e evangélica no melhor sentido. Esta série pretende ser de grande valor para estudantes de Teologia de todos os niveis, quer esses estudantes desenvolvam seus estudos em um se- min4rio ou em uma universidade secular. Ela também é desenvolvida para auxiliar os pastores e os lideres no-ordenados das igrejas. Tanto quanto possivel, foram feitos esforgos para tornar 0 vocabulirio técnico acessivel ao leitor nao acostumado a termos teoldgicos, e a apresentaco evita os extre- mos do estilo académico. Ocasionalmente, isso significa que algumas abor- dagens especificas foram apresentadas sem uma argumentagiio muito pro- funda, levando-se em conta diferentes posigGes, mas, sempre que isso acon- tece, os autores remetem oleitor a outras obras, que discutem 0 assunto com. maior discernimento e profundidade. Com esse propésito, foram providen- ciadas notas bastante oportunas, embora niio sejam exaustivas. AProvidéncia de Deus As doutrinas cobertas por esta série nao sio exaustivas, mas foram es- colhidas para responder a preocupagées contemporaneas. O titulo e a apre- sentagao geral de cada volume ficaram a discrigo do autor, mas as deci- sdes editoriais finais foram tomadas pelos organizadores da série, em acor- do com a IVP. Ao oferecer esta série ao ptiblico, os autores e os editores esperam que ela vA ao encontro das necessidades dos estudantes de Teologia desta gera- aoe traga honrae gléria a Deus, o Pai, ea seu Filho, Jesus Cristo,em cujo servigo esta obra foi desenvolvida desde 0 comego. Gerald Bray Organizador da Série Prefacio Partes desse livro foram escritas durante minha temporada de Estudos de Verdio no H. H. Meeter Center for Calvin Studies, Calvin College and Seminary, Grand Rapids, Michigan, em 1991. Eu sou grato pela oportunidade que essa bolsa de estudos me deu para realizar minha obra académica. Uma pequena seciio do capitulo 2 viu a luz do dia pela primeira vez como parte de “The Impossibility of Divine Passibility”, em The Power and Weakness of God, org. Nigel M. de S. Cameron (Edimburgo: Rutherford House, 1990). Partes do capftulo 6 foram tomadas de “Asking God” (Themelios, September 1986) e “Prayer and Providence” em Christian Faith and Philosophical Theology, org. Gijsbert van den Brink, Luco J. van den Brom and Marcel Sarot (Kampen: Pharos, 1992). Sou grato aos respectivos organizadores e editores desse material pela permissao de reutiliz4-lo aqui. Sou particularmente agradecido ao editor dessa série, Gerald Bray, por seu apoio e por seus conselhos, e aos editores por varios tipos de auxflio. Juntos, eles contribufram consideravelmente para aumentar o prazer que es- crever esse livro me deu. Paul Helm Introducdo Qualquer pessoa que tentar tragar os contomos da teologia crist@ tem uma escolha. Ela pode colocar versdes diferentes de uma doutrina lado a lado com imparcialidade olfmpica, ou pode oferecer seu préprio ponto de vista. Nesse livro eu apresento minha prépria posi¢ao, embora nada seja pecu- liar amim. A principal razao para essa abordagem é tentar evitar a suavidade e a obliqiiidade que geralmente acompanham a colocagao de uma posi¢io ao lado da outra de uma forma “neutra”. Para um autor, oferecer sua propria posigiio gera a esperanga de provar os leitores, convidando-os a colocarem- se ao seu lado e a pensar sobre suas préprias posigdes em um didlogo com outra, que é apresentada nas paginas que eles tém diante de si. Nas paginas que se seguem, eu apresentei a posi¢ao “isenta de risco” da providéncia divina, uma posigiio que eu creio que corresponda tanto ao en- sino da Escritura quanto ao ensino histérico da Igreja. Eu fundamentei essa posig%o com argumentos, e neguei aconveniéncia de outros argumentos ge- ralmente usados para fundamentd-la. Obviamente, esse procedimento niio é recomendado a qualquer pessoa que concorde com a conclusio, embora prefira outros argumentos, muito menos aqueles que entendem que Deus assume riscos. Eu tentei conjugar a fé com a Escritura e com a tradigao teolégica cldssica, que é fundamentada na prépria Escritura. A questo é se essa posigao (ou suas rivais) vai além da Escritura ao dizer coisas que no sao garantidas pela Biblia. Tal possibilidade pode ser A Providéncia de Deus minimizada, se nao totalmente evitada, pela consideragiio da teologia negati- va. A teologia negativa é um elemento necessario a teologia cristd e, sem ddvida, tem suas vantagens. Dizer que Deus é imortal e invisivel, enquanto nos diz o que Deus nao é, nao nos diz nada sobre o que ele é. Isso é tanto necessdrio quanto seguro. Porém, uma teologia totalmente negativa é com- pletamente estéril. Como a Escritura nao é uma biblioteca de livros de teologia sistematica, qualquer apresentacio sistematica de uma doutrina escriturfstica nos convida air além do texto, Nessa nervura, tanto a posi¢ao ortodoxa sobre a pessoa de Cristo quanto a doutrina da Trindade tém sido consideradas, em épocas diferentes, como acréscimos a Escritura. Além disso, a palavra “providéncia” nado aparece na Escritura, pelo menos na Autorized Version,! assim como a palavra “Trindade”. Esse livro sobre’a providéncia de Deus foi escrito na crenga de que nada que nele esteja contido contraria a Escritura. Mas, como a providéncia divina nos ensina, qualquer abordagem de temas profundos — soberania de Deus, liberdade humana, pecado e mal, tragédia humana e de- sastre c6smico — conteré elementos controversos. Convido meus leitores a considerar se esse livro € controvertido além dos limites da Escritura de uma forma inaceitavel. ORIENTACAO A “divina providéncia” ou mesmo a “providéncia de Deus” parece ser uma abstrago fria, académica, uma questo que interessa apenas ao tedlogo sistematico ou a.um filésofo, e no ao crente cristo. Mais que isso, a palavra “providéncia” esta fora de moda, e muito raramente é usada. Isso pode re- forgar 0 ponto de vista de que a discussio sobre a providéncia de Deus, como nés estamos prestes a fazer, € uma questo de interesse académico ou até de interesse histérico. Masseria um erro concordar com essa conclusao, pois nds estamos embar- cando em um estudo sobre a ago de Deus agora. Longe de estudar 0 que é estatico ou abstrato, nds estamos interessados na ago de Deus em nosso mundo eemcomo, de acordo com a Escritura, essa atividade acontece. Portanto, nés estamos focalizando o presente, embora, como nés veremos, aatividade de Deus agora esteja vinculada com o passado (com o plano de Deus) e com o futuro (com o local para 0 qual a atividade de Deus est nos conduzindo). Enquanto nds estamos preocupados principalmente com nosso presente, aenvergadura do tempo que ocupa a duragdo de nossa vida, é importante nio negligenciarmos outros “presentes”, pois enquanto a atividade de Deus é presente para nés agora, essa atividade foi presente também para Napoledo em seu tempo, e, é claro, também para Moisés, Davie Paulo, e, logicamente, A Providéncia de Deus para Jesus. Seria plausivel, mas, apesar disso, precipitado, supor que o caré- ter da atividade de Deus agora seja o mesmo que sempre foi, embora esse seja 0 pressuposto do defsmo. Essa é uma das importantes dreas de conflito entre o deismo e 0 teismo cristo, como nds veremos no préximo capitulo. Mas seria tolo concluir que, como Deus nao age miraculosamente agora, ele pode nunca ter agido assim. Como a palavra “providéncia” indica, a “providéncia de Deus” é uma ma- neira formal de se referir ao fato de que Deus prové. E 0 que seria mais pratico, relevante e terreno do que isso? Portanto, sera util manterem mente a idéiade que Deus prové continuamente. Em nosso estudo, nés vamos nos preocupar muito com aqueles para os quais Deus prové, o que ele prové e como ele prové. Nesse primeiro capitulo, nés vamos comegar tratativas considerando 08 trés principais contextos nos quais, de acordo com a Escritura, inevitavel- mente surgem a questo da providéncia de Deus, sua atividade agora. Os TRES CONTEXTOS Uma importante parte de nossa fé como cristios é que Deus cuida de nés, e que os detalhes ¢ a diregdo de nossa vida esto debaixo do controle proposital de Deus. Nés encontramos conforto no fato de que nada é tao pequeno que possa escapar da atengaio de Deus, nem tio diminuto que nao merega suaaten- ¢4o. Nés encontramos inspiragdo no fato de que Deus tem 0 poder de fazer com que as dificuldades desaparegam. Mas nés também estamos conscientes de que, freqiientemente, quando nés oramos, Deus parece nao responder, e que a tragédia pessoal, a enfermidade eo luto podem ser permitidos por Deus sem qualquer alfvio. Muito do que acontece parece sem sentido e sem propési- to. O Senhor tanto pode tomar quanto pode dar, e os cristéos podem receber coisas mas de suas maos da mesma forma que recebem coisas boas. Nesse misto de bem e mal, os crist&os também podem ser convencidos de que eventos especificos tém ocorrido como resultado do cuidado direto de Deus, e assim. nés podemos considerar alguns eventos de nossa vida como sendo especial- mente “providenciais”. De fato, é exatamente isso 0 que a média dos cristaos tende a pensar sobre 0 exercicio da providéncia divina, isto é, que ela nao se refere a cada detalhe, mas principalmente a certas ocorréncias “providenciais”. A Escritura nos ensina que o amor € 0 cuidado de Deus se estendem aos detalhes de nossa vida em uma grande variedade de formas. Por exemplo, em seu ensino sobre cuidado e ansiedade, Cristo ensina que os fios de cabe- 16 Orientagéo lo da cabega dos crentes estdo contados, e que cada movimento de um pardal é notado por Deus (Mt 10.29-31). Deus permitiu que 0 espinho con- tinuasse na carne de Paulo (2Co 12.7). Quando personagens como Moisés e José olhavam para trés, certamente eles podiam perceber como eventos aparentemente triviais —a tunica talar, o choro de um bebé em um cesto, o esquecimento de um prisioneiro liberto— tudo contribuiu para o cumprimento de seu destino dado por Deus. Mas uma breve reflexo nos mostrar4 que a providéncia de Deus nao toca somente o contexto de assuntos pessoais desse tipo. Nao é como se a vidade cristdos individuais estivesse sendo guiada por Deus e 0 resto da criagio esti- vesse no caos, ea vida de cada crist&o fosse uma ilha de propésito colocada emum mar deconfusao. O que é verdade sobre 0 individuo é, presumivelmente, verdade sobre todos os outros crist&os —cristaos do passado, presente e futu- ro. Todo esse povo inumerdvel est4 exatamente na mesma posigao: Deus os guia (mesmo quando eles nao percebem), cuida deles e, embora sua vida tenha um lado escuro, até mesmo a dor, a perdae a anguistia foram criadas por Deus juntamente com os tempos de prazer e béngiios para promover seu propésito na vida deles. Quando Paulo disse que “todas as coisas cooperam para o bem” (Rm 8.28), ele estava se referindo ao insuper4vel poder e sabedoria de Deus, que ocapacita a reunir esses diversos fios em beneficio de cada cristtioe como parte de seu ou de sua bem-aventuranga. De acordo com Romanos 8, a Igreja foi escolhida em Cristo antes do inicio do mundo, e predestinada para ser conforme a imagem de Cristo. E como ela foi predestinada para esse objetivo glorioso, assim também seu Salvador foi predestinado pelo determinado conselho e presciéncia de Deus para a vergonha e ignominia da cruz, para receber a ira de Deus (At 2.23).O “todas as coisas” de Romanos 8.28, portanto, refere-se a tudo aquilo que acontece na Igreja crista; por algum processo misterioso, Deus é capaz de fazer com que fraqueza e perseguicao, e até mesmo 0 pecado, concorram para o bem da Igreja. Mas hd mais sobre 0 cuidado de Deus do que 0 fato de que ele cuida dos crist&os agora. Ele cuidou deles no passado. De acordo com Paulo, Deus cuidou dele antes mesmo que ele tivesse nascido (Gl 1.15; of. Jd 1) e, o que € ainda mais surpreendente, desde antes da criagdo do préprio universo. Mas esse cuidado nao é somente passado e presente, ele se estende também ao futuro, ao fim da vida dos cristaos, e 4 sua vida eterna além da sepultura, vida na presenga do proprio Deus. A Providéncia de Deus Deus cuida do individuo crist&o agora, mas ele também cuida, cuidou e cuidard de todos os crist’os em todos os tempos. Em alguns assuntos da divina providéncia, tal cuidado pela Igreja é considerado sob a ética da “predestinagao”, sendo estabelecida uma distingao entre a providéncia geral de Deus sobre toda a criagio e a providéncia especial de Deus sobre sua Igreja. Em muitos sentidos, essa é uma distingdo util, porque aponta para o fato de que o propésito providencial tem um objetivo supremo, a salvagio da Igreja. Isso chama a atengfio para o fato de que, enquanto a providéncia de Deus tem muitos objetivos diferentes, a Igreja de Deus tem apenas um Objetivo—conformidade 4 imagem de Cristo (Rm 8.29). Apesar disso, hé uma importante razo para ser cauteloso sobre a énfa- se no contraste entre providéncia e predestinagao. Enquanto as diferengas mencionadas no pardgrafo anterior so importantes, os termos que nds usamos nao devem dar a impressdo de que a sustentagio e 0 controle de Deus sobre toda a sua criag&o seja menos estrito e completo do que sua graciosa sustentacao e controle sobre sua Igreja. Embora um tipo de con- trole seja geralmente exercido por retengdo e 0 outro por dadiva, Deus controla todas as pessoas e eventos da mesma forma. Por esta raziio, ne- nhuma distingdo geral entre predestinagao e providéncia seré feita no de- correr da discussao do assunto. Toda predestinagao € providencial, e todo exercicio de providéncia é predestinado. A Igreja de todas as épocas, entio, foi e é guiada por Deus. Mas é possivel irmais além. Deus criou e sustenta todo 0 universo. Nao somente os individuos crist&os e a Igreja crista so objeto de sua atengo, mas toda a natureza, inclu- sive aquelas forgas e pessoas que sio indiferentes a Deus ¢ até mesmo desafi- adoras dele. Deus € 0 Criador e 0 Sustentador de tudo o que existe. Nisso esto inclufdos, de acordocoma Escritura, centenas de milhdes de galaxias, as hostes de anjos € arcanjos e o proprio Satands, como Jé aprendeu. Essa é, de certa forma, a mais bdsica de todas as relagdes. Nao pode haver duivida sobre o direito de Deus, como Criador e Senhor do universo, de governd- loem todos os assuntos. Em muitas passagens das Escrituras, 0 sustento de toda a criacdio é apresentado em detalhes (e.g., J6 28-40; SI 147-148). Paulo afirmou aos seus ouvintes atenienses que “nds vivemos € nos movemos e temos nosso ser” em Deus (At 17.28). Todas as coisas “‘subsistem” em Cristo (Cl 1.17,18). O detalhe dessa superintendéncia de Deus sobre toda a criagao é mostrado, por exemplo, no fato de que Deus usa pessoas més para trazer & existéncia conseqiléncias nao planejadas por elas (Is 10.7). 18 Orientagaéo O direito de Deus governar aquilo que ele mesmo trouxe & existéncia também é enfatizado. Como 0 oleiro, 0 Senhor tem poder sobre o barro; ele temo direito de fazer o que Ihe agrada com aquilo que criou. E fundamental para a relagdo escrituristica entre Deus e 0 universo que “dele e por ele e paraele sdo todas as coisas” (Rm 11.36). A providéncia divina esta entao vinculada aos interesses dos individuos cristos, aos interesses de todos os cristdos —a Igreja cristi —e aos interes- ses de toda a criagdo animada e inanimada. No restante desse livro nés va- mos nos referir a isso como os trés contextos da providéncia divina. Nenhu- ma consideragao sobre a providéncia divina pode negligenciar esses trés contextos, ou o relacionamento entre eles. Alguém pode ir além e afirmar que sem um reconhecimento da providén- cia divina nao € possivel entender a visio biblica da vida crista, ou da vida corporativa da Igreja, ou do universo como um todo. Os trés contextos niio esto isolados uns dos outros, eles sio paredes permedveis. Como os cris- tos estdio em universo que foi criado, Deus dificilmente cuidaria deles sem ter controle sobre esse universo. Nés podemos ser mais exatos sobre o carter da providéncia divina? Em resumo, os elementos essenciais da providéncia divina sao esses. Deus pre- serva sua criagao e tudo o queela contém. Essa é a forma mais fundamental e mais basica na qual o cuidado ao qual nos referimos pode ser expresso. Preservar é manter em existéncia. Tendo trazido a criagio A existéncia, Deus aconserva existindo. Ela nao tem um poder inerente para sustentar a si mes- ma. Mas se nossa nogio sobre a providéncia de Deus for confinada somente A preservagiio daquilo que Deus criou, ela serd totalmente inadequada quan- do for confrontada com os dados bfblicos. Dessa forma Deus conservaria a criag&io em existéncia, mas 0 que essas coisas fizeram enquanto existiam (0 que elas planejaram e como elas realizaram seus planos, por exemplo) ficaré fora do cuidado de Deus. Ele observaria o que elas fizeram, e nada mais. Deus, portanto, sustenta sua criagio. Ele preserva sua criagao sustentando- a. Enquanto, em qualquer abordagem sobre a providéncia, devemos fazer justi- ga A sua transcendéncia, ou seja, 4 separacio entre Deus e sua criagiioe sua soberania sobre ela, da mesma forma a imanéncia de Deus, isto €, seu fntimo envolvimento coma criagao, deve ser igualmente enfatizado, Nao somente todo &tomo e molécula, todo pensamento e desejo, € mantido em existéncia por Deus, mas cada curva e cada volta de tudo isso est debaixo do controle direto de Deus. Assim como nés sabemos, ele nfo delegou esse controle a ninguém. 19 A Providéncia de Deus mais. Aexata natureza desse controle, e a forma pela qual € poss{vel que nés sejamos precisos nesse ponto, ocupardo nossa atengfo mais tarde. Ocontrole direto do pensamento de homens e mulheres faz surgirem muitas mentes o espectro do fatalismo, isto é, a idéia de que homens e mulhe- res estfio cegamente destinados, talvez pelas estrelas, a um destino especffi- co, independente de suas vontades e planos. Mas essa concepgao ¢ total- mente diferente daquela da providéncia divina pois, na providéncia, 0 controlador nao é cego e o controle nao é exercido independente daquilo que homens e mulheres querem. O controlador é Deus, que é o supremo orientador do universo. Ele exerce seu controle, até onde se refere a homens e mulheres, nao de forma independente daquilo que eles querem, nem (falan- do de forma genérica) impelindo-os a fazer o que eles nio querem, mas através de suas vontades. Como Agostinho disse: Nossas escolhas caem dentro da ordem de causas que é conheci- da como certa por Deus, ¢ esté contida em seu pré-conhecimento — pois as escolhas humanas nao sfio causas dos atos humanos. Segue-se que Aquele que conhecia as causas de todas as coisas nfio poderia estar alheio Aquilo que nossas escolhas eram entre essas causas que eram conhecidas como causas de nossos atos! Aprovidéncia divina, portanto, é direcionada, ou proposital. Como nés j observamos, ao trazer a existéncia todas as matrizes de eventos e sustentd-lasem todas as suas complexidades, Deus tem em vista um certo propésito ou objetivo. Esses propésitos certamente serdio realizados, muito embora, por ser uma parte do quebra-cabega da providéncia divina, seja muito dificil enxergar como o que est4 acontecendo agora possa contribuir para os propésitos de Deus. Acexpressio “fim” ou “fins” é usada deliberadamente. Desse ponto de vista, Deus tem um objetivo em mente, a saber, a manifestago de sua prépria gléria na criagdo e na redengao. Esse propésito tinico pode ser destrinchado como, por exemplo, propésitos relacionados a sua justiga e bondade. E esses prop6- sitos podem ser ainda mais refinados de acordo com a forma pela qual eles afetam pessoas especificas na criagdo e aspectos da criagao néo-humana, tan- to animada quanto inanimada, O propésito de Deus na providéncia relaciona- do ao Sr. Silva pode ser totalmente diferente daquele referente ao Sr. Barbosa ou Aquele referente ao Taj Mahal. Mas, enquanto esses propésitos diferem entre si, eles fazem parte de um s6 propésito divino, de um sé fim. 20 Orientagaéo O que nés vimos até aqui é que hd trés contextos nos quais surgem as questdes da providéncia divina: (1) questdes pessoais de necessidade, de sucesso ou fracasso, ou orientagao; (2) a histéria e o destino da Igreja crista, incluindo todos aqueles eventos que constituem a sua existéncia, principal- mente a obra de Cristo ¢ do Espirito Santo; ¢ (3) toda a criagao, animadae inanimada, na qual existe a vida de individuose da Igreja. A providéncia de Deus age igualmente nessas trés dreas, no hd esfera na qual seu controle seja menor ou menos interessante do que em outra esfera, no ha areas “nado ultrapasse”. Em cada um desses contextos, a providéncia de Deus é exercida na preservagdo de suas criaturas, na sua sustentagao através da histéria,e no seu direcionamento aos objetivos que Deus tem para elas. Os capitulos seguintes discutirao com maiores detalhes alguns dos temas levantados por esse quadro geral. O LADO EscURO Oensino cristao sobre a providéncia divina afirma que Deus cuida e con- trola todas as coisas dentro dos trés contextos apresentados acima. Mas também hé um lado escuro. Os cristiios sabem que Deus os ama, ¢ que eles podem experimentar o cuidado de Deus. Porém, como nés j4 observamos, ha também tempos de perdas pessoais, a experiéncia de abandono, a enfer- midade, contratempos, labuta penosa, ea ocorréncia de eventos cujo pro- pOsito parece ser impossivel compreender. Os cristaos podem pedir a Deus para guid-los eo resultado pode ser totalmente contrério as expectativas. Os eventos de sua vida geralmente parecem nfo ter qualquer relacdio com suas vontades c necessidades, e pode ser totalmente impossfvel discernir um pro- p6sito global para a ocorréncia desses eventos. Isso também é verdade com relagio a Igreja. Embora esteja afirmado na Escritura que a Igreja é a noiva de Cristo, redimida por seu sangue, e 0 objeto do cuidado especial e do amor de Deus, a Igreja crista tem sido frequientemente submetida a uma terrivel perseguigdo, com a qual Deus pa- rece nao se importar. De tempos em tempos ela tem sido liderada por ho- mens cortuptos e fiteis, Ela tem sofrido dissensao interna, fratricfdio, mega- Jomania; ela tem sido sacudida por disputas doutrindrias. Longe de ser a semente da Igreja, o sangue dos mértires tem sido o precursor do eclipse da Igreja em varias partes da terra. Como podem todas essas ocorréncias ser conciliadas com a afirmagao de que Deus cuida e prové em favor da Igreja? a1 AProvidéncia de Deus Isso também é verdade em relag4o ao universo como um todo. Como pode o cuidado providencial de Deus sobre sua criagdo ser conciliado com disfungaio, decadéncia e morte, com guerra e fome, e com os vicios ¢ a incre- dulidade humana? Como pode o cuidado de Deus ser conciliado com cala- midades climéticas, terremotos, tempestades violentas e virus? Esses sfio problemas agudos, muito discutidos e pouco compreendidos e resolvidos. Dentro do escopo de uma obra como essa, é impossfvel abran- ger a vasta discussio que tem sido feita sobre o problema do male as varias estratégias pelas quais as pessoas tém tentado justificar os caminhos de Deus. Uma tentativa pode ser feita para dizer algo sobre essas quest6es mais adi- ante, & luz da doutrina da providéncia divina delineada nos préximos capitu- los. No contexto de uma discussao sobre a providéncia divina, essas ques- tes dificeis parecem levantar dois tipos de problema. HA, em primeiro lugar, problemas relacionados a conhecimento e cren- ga. Dada uma crenga prévia na providéncia de Deus, derivada das Escritu- ras, como nés podemos saber que Deus est4 nos guiando em uma certa diregaio? Como nés vamos decidir 0 que fazer? Além disso, 0 cardter de nossa decisaio mudaré por causa de nossa crenga na providéncia? Nossa atitude seria diferente se nés créssemos que Deus nao “prové” e que, em. vez disso, nés somos guiados por uma espécie de loteria césmica? Essas questdes geralmente se referem a pessoas que precisam fazer a escolha de uma carreira, por exemplo, ou esto tentando estabelecer prioridades en- tre diferentes cursos de ago. Qual é 0 valor do conhecimento de que Deus é ativo nesse processo? Também hé questées morais de um tipo particularmente agudo. O pro- blema do mal é geralmente apresentado como um problema de consis- téncia: como pode a existéncia de um Deus onipotente e bondoso ser consistente com a existéncia do mal moral e das catdstrofes climaticas? Esse é um problema a mais. Mas no contexto do estudo da providéncia divina esse problema é encarado de uma forma mais precisa. Isso acon- tece porque a providéncia divina, pelo menos na forma como nés a en- tendemos, focaliza a onipoténcia de Deus como exercida no controle direto da criagdo. Assim, o problema nao é simplesmente como Deus pode permitir o mal, mas como pode existir o mal em um universo que Deus controla. O “problema do mal” geralmente emerge de uma forma distintiva durante as discussGes sobre a providéncia divina. Suponha que alguém caia do alto 22 Orientagaéo de uma escada, mas nao tenha ferimentos graves. Pode ser dito que 0 fato dessa pessoa ter escapado sem ferimentos graves foi um ato providencial, o que seria amplamente aceito pelos cristaos. Mas 0 que dizer da quedaem si? Ela também foi providencial? O ponto pode ser generalizado. Se dissermos que Deus providencial- mente interveio em Dunkirk, por que ele nao intervém providencialmente com maior freqiiéncia? Por que nado houve interveng¢ao em Belsen ou Auschwitz? Por que, em geral, nao hd mais intervengdes? Em um capitulo posterior sera necessério discutir essas questdes obscuras e também toda a idéia de providéncia como “intervengio” em maiores detalhes. UMA AGENDA DE PROBLEMAS Aproveitando nosso panorama desses problemas, nés podemos su- mariar nossa agenda para estudar a doutrina crista da providéncia divina de uma forma um pouco diferente. Essa doutrina, como se aplica a qual- quer um dos trés contextos em separado, levanta trés tipos de problema que precisam ser satisfatoriamente resolvidos para que a doutrina seja coerente e digna de crédito. O primeiro é 0 problema da relagao da existéncia e da atividade de Deus com a existéncia e a atividade de suas criaturas, particularmente os seres humanos. Como é possfvel preservar a atividade de cada ser humano sem cair no pantefsmo (de acordo com o qual Deus € idéntico ao universo) e nem no defsmo (de acordo com o qual ele é totalmente separado e no mantém qualquer relacionamento com a criagfio)? O segundo conjunto de problemas tem a ver com 0 nosso conhecimento. Considerando que Deus prové, é possivel conhecer, em algum caso especi- fico, o que ele orientou, estd orientando ou vai orientar? Que diferenga operacional pode fazer em uma pessoa 0 fato da providéncia de Deus, ou o fato de que Deus est4 provendo? Oitem final de nossa agenda é discutir os problemas morais que a idéia de providéncia levanta. Como pode o carter moral plenamente bom de Deus ser preservado diante do fato de que ele controla até mesmo as agdes mais perniciosas de suas criaturas? Como nés podemos escapar do ponto de vista cinico de que, ao governar suas criaturas e suas agdes, Deus permite que o fim justifique os meios?Além disso, como nés podemos continuar a afirmar a responsabilidade humana diante de tal controle? 23 A Providéncia de Deus ALGUMAS OBSERVAGOES SOBRE 0 METODO Nessa orientaco preliminar tem sido repetidamente afirmado que nés estamos tentando apresentar a doutrina crista da providéncia. O que isso significa, e 0 que isso implicaem termos de método? Significa, em primeiro lugar, quea fonte de dados a partir da qual essa doutrina éconstruida é a Escritura, ou uma interpretagdo possivel 4 luz de seu ensino. Na hist6ria do pensamento ocidental tem havido algumas tentativas de derivaradou- trina da providéncia divina apenas darazao, Umexemplo notavelé 0 argumento de Gottfried von Leibniz (1646-1716) de que o mundo real é o melhor dos mun- dos possiveis. Outro caso ocorre como parte do argumento da existéncia de Deus, conhecido como o “argumento do estilo”. De acordo com esse argumento, ouniverso mostra claros sinais da existéncia de um poderoso e benevolente Cri- ador, e parte da evidéncia provém da ordem e da coeréncia do universo. A questao importante para nés nao é se essas tentativas tiveram sucesso em estabelecer a doutrina da providéncia divina, mas se elas adotaram 0 método apropriado ao fazer a tentativa. Devemos admitir que o método nao foi apropriado, j4 que o material para a construgdo de tudo o que é distintivo nessa doutrina deve ser encontrado somente na revelagdo especial de Deus. Até onde, quando a doutrina é estabelecida, nés podemos esperar encontrar confirmagao dela em aspectos gerais do universo, é uma questo de debate. O material, até onde for possfvel, ser4 proveniente da Escritura. Mas é claro que a Biblia nao é um livro-texto de doutrina crist, com um convenien- te capitulo sobre a providéncia. A palavra “providéncia” nao aparece na Es- critura. Os dados em termos dos quais um estudo da providéncia de Deus deve ser construfdo estdo espalhados através dos livros da Escrituraem uma grande variedade de formas. Isso nos faz lembrar que a “providéncia de Deus” no é um conceito teérico, mas refere-se a atividade de Deus na vida do individuo. Nossa meta, portanto, deve ser juntar as pontas desses dados emum todo balanceado e consistente. Algumas vezes se faz um contraste entre uma abordagem “indutiva” ¢ “dedutiva” dos dados da Escritura, usualmente com o propésito de aplaudir a abordagem indutiva e desprestigiar a abordagem dedutiva. Todavia, esse contraste é falso. Em qualquer andlise dos dados bfblicos, deve haver ele- mentos de ambas as abordagens. Deve haver, para comego de estudo, algu- ma opinido geral sobre a providéncia divina extraida dedutivamente desses dados. Mas como nossa compreensio é apenas parcial, nem mesmo dedu- 24 Orientagaéo gdes validas sao convenientes para a formulagao de uma doutrina. Dessa forma, é preciso tratar as primeiras derivagdes da doutrina com o devido cuidado, retornando aos dados na crenga de que a crenga original pode ser sutilmente modificada e refinada no decorrer do processo. Uma dedugio inicial deve ser seguida por novas indugGes, que serdo seguidas por dedu- Ges revisadas, até que uma crenga razovel seja extrafda de todos os dados relevantes cobertos pelo estudo. Nesse processo, araz&o humana (a sua mente e a minha) necessariamen- te toma parte. Isso é arriscado, é claro, mas diante das circunstancias é total- mente inevitavel. O clamor que as vezes se ouve em favor de um tratamento “puramente biblico” de uma doutrina, um tratamento totalmente desvinculado endo afetado pela raziio humana, é totalmente impossivel. O que seria uma doutrina biblica como essa? Até mesmo a simples recitagao de textos bibli- cos envolve a razdio humana na selecao dos textos, na decisao de quais tex- tos so relevantes e quais nfo o sio. A forma pela qual nosso raciocinio deve operar é através da articulagdio dos dados da Escritura. B um axioma da fé crist& que a Escritura é auto- consistente. Segue-se, portanto, que contradigdes prima facie ou inconsis- téncias entre os dados devem ser passfveis de resolugao. B fungao da razzio ajudar nessa resolugiio enquanto reconhecer, como em qualquer investiga- ¢4o intelectual, a existéncia de qualquer anomalia ou né que precise ser desa- tado. Tendo extrafdo os dados da Escritura de uma forma tio consistente quanto for possfvel, também é fungao da razdo deduzir, a partir desses da- dos, aquilo que se possa extrair deles, ¢ tirar as implicagdes da doutrina resultante para outras doutrinas cristis. CO desafio a razo humana é evitar impor uma doutrina sobre os dados a priori, abafando e silenciando o testemunho da Escritura, decidindo o que ela deve e o que ela nao deve dizer, Esse é 0 estratagema de todo racionalista, e deve ser evitado a qualquer custo. Como isso pode ser evitado? Nao pelo silenciamento da reflexdo racional, mas pelo seu controle. Mas como? Tem sido dito que as vezes os tedlogos cristos tém tentado extrair a doutrina cristd pela dedugao de um axioma. Isso é especialmente relevante em relagao a providéncia divina. Tem sido alegado especificamente que cer- tos tedlogos cristdos do passado usaram a idéia da predestinagaio como o nico axioma teolégico, fazendo com que tudo o mais fosse derivado dele. Todavia, uma rdpida reflexdo ser4 suficiente para mostrar que isso é um nonsense, pois como pode, digamos, a morte de Cristo ou a proposigfo 25 AProvidéncia de Deus “Cristo morreu por nossos pecados” ser deduzida da idéia da providéncia de Deus? Se Cristo morreu ou nao pelos pecados, depende somente de se a morte de Cristo ocorreu e se ela faz parte da providéncia de Deus. Nés s6 podemos descobrir isso através de um exame dos dados pertinentes. Mas um tipo diferente de proposta pode ser feito, nado porque a provi- déncia divina ou a predestinagao seja o axioma do qual deriva todo o restan- te da teologia crista, mas porque é possfvel derivar a doutrina da providéncia somente do conceito de Deus. Tendo estabelecido a doutrina de Deus a partir da Escritura, pode ser afirmado que a doutrina da providéncia é uma questao de légica. Ela pode ser discernida no carter divino. Parece que o reformador protestante Zwinglio (1484-1531) tentou algumacoisa desse tipo? Tal procedimento nao deixa de ser razoavel. A partir do fato de que Deus €0 Criador do universo, de que ele é santo, de que ele Todo-Poderosoe conhecedor de todas as coisas e de que ele tem propésitos ou objetivos a atingir, muita coisa pode ser deduzida sobre o fato de que ele sustenta e controla sua criago. Mas seria um erro pensar que toda a natureza da pro- vidéncia divina pode ser descoberta dessa forma. Poderia 0 alcance da providéncia de Deus (se, por exemplo, ela se estende nao somente aos atos externos de suas criaturas, mas também aos seus pensa- mentos) ser deduzido apenas a partir do cardter de Deus? Talvez sim. Contu- do, tendo em mente nossos trés contextos, certamente é impossivel derivar apenas do carter de Deus 0 fato de que ele tem uma Igreja e que cuida dela. Esses dados s6 podem ser extrafdos de sua revelacao especial nas Escrituras. O caminho, portanto, é permitir que os dados da Escritura controlem. todo o nosso entendimento da providéncia divina, usando-os para refletir sobre conclusées preliminares 4s quais nossa prévia revisiio de dados jé nos conduziu. Nés partimos de algumas idéias rudes e preliminares sobre a pro- vidéncia divina, e tentamos refin4-las sucessivamente, permitindo que os da- dos da Escritura (em sua total gama de variedades) as modifiquem. Tal idéia preliminar jé foi, de fato, apresentada na orientacdo desse capitulo. Os capi- tulos que se seguem so uma tentativa de refind-la. Quando nés definimos nossa posigao preliminar sobre a providéncia divi- na luz dos dados escrituristicos até a medida em que isso nos foi possivel, 0 que foi exatamente que nés fizemos? E importante reforgar aqui o que est4 ¢ © que nio esté sendo afirmado por tal proposigao doutrindria. O que resulta €um modelo ou parte de um modelo do relacionamento de Deus com sua criagaio, e nao uma teoria. A distingao é importante, e requer explicacio, 26 Orientagaéo Nas ciéncias naturais, uma boa teoria explica a ocorréncia de certos da- dos de uma forma simples e econémica, e possibilita predic¢Ses de ocorrén- cias futuras com base em mais informagées. Tais explicagdes geram entendi- mento, e sobre a base desse entendimento os cientistas sao capazes,em uma certa medida, de controlar o futuro, Mas isso no é 0 que acontece na for- mulagao de uma doutrina crista. Para comegar, embora nés estejamos lidando com complexos conjuntos de dados, esses dados nao ocorrem naturalmente, nem se repetem sob con- digdes experimentais. Os dados sio apresentados como resultado da reve- lagio divina, e de outra forma eles nao seriam conhecidos. Além disso, as informagGes, até onde elas se referem ao relacionamento entre Deus e um outro aspecto de sua criagio, nao possuem precedentes e nem paralelos na experiéncia humana. Doutrinas teolégicas nado podem ser explanagoes cientfficas porque, di- ferentemente da ciéncia, é impossivel apelar a quaisquer leis que as tornem inteligiveis e que permitam que eventos futuros sejam previstos. O que pa- rece mais promissor é se elas puderem ser vistas como explanagées pesso- ais, como certos tipos de explanago na histéria e nas ciéncias sociais — explanagées em termos das razées e da intengao do agente. Deus é, alids, extremamente pessoal. Mas reflexdes posteriores mostraréo que esse no €ocaso. E impossivel tornar os dados inteligiveis invocandoa intengao de Deus, pois a tnica forma de entender as intengdes de Deus é através dos dados que ele escolheu revelar. Nao é como se fosse possfvel ter um aces- so separado e direto 4 mente de Deus para explicar e tornar inteligfvel o que ele esta fazendo e falando a nés na Escritura. O tinico acesso que nés temos & mente de Deus é através daquilo que ele revelou sobre (entre outras coisas) seu papel providencial. Assim, se as doutrinas teolégicas nao sao explanagées cientificas e nao sao explanagées pessoais, o que elas sfio? Eu sugiro que elas niio sfio explanagdes de qualquer tipo. Elas siio modelos que tém, pelo menos, uma fungao dupla. Uma dessas fungées ja foi mencionada: organizar os dados relevantes de uma forma tio coerente e consistente quanto possivel. Parte do objetivo em tais afirmagGes de doutrina é ser exato até onde for possivel. Uma afirmagao exata éaquela que requer o minimo de quantidade de qualificag4o posterior. Aexa- tiddio aqui nao é aquela da teoria cientifica, mas aquela de um sumério. Umexemplo de tal exatidiioéa afirmagdo do Breve Catecismo de Westminster em sua resposta a questdo: Quais sao as obras da providéncia de Deus?> 27 A Providéncia de Deus As obras da providéncia de Deus sao a sua maneira muito santa, sabia e poderosa de preservar e governar todas as suas criaturas, e todas as ages delas. Essa resposta € oferecida, no catecismo, como uma exata afirmagiio da doutrina. Ela tem 0 objetivo de sumariar o ensino da Escritura de uma forma precisa na medida do possivel, usando uma linguagem que exijaa menor qualificag&o possivel. O uso de similes, figuras de linguagem e metéforas é minimizado. Esté perfeitamente claro, contudo, que essa afirmagao ndo é uma teoria. Alguém que creia que essa afirmagiio do catecismo é verdadeira nao € capaz de explicar qualquer coisa que nao tenha sido explicada antes. Possivelmente ela ser4 capaz de atribuir coisas a Deus que nao tinham sido atribufdas antes, mas tal atribui¢do nao funciona como uma explanagiio. A segunda fungi de tais afirmagGes é prevenir ou desencorajar a extra- g4o de falsas inferéncias a partir dos dados que elas sumariam. Por tratar de questdes que no possuem precedentes nem paralelos na experiéncia humana, as proposigGes teolégicas possuem grande potencial de mA compreensio. F facil demais derivar falsas inferéncias a partir delas (ou de partes dela), daf a necessidade de tomar o devido cuidado com essas proposigdes como um todo. Como ilustragdo, nés podemos voltar ao Breve Catecismo, que contém as seguintes afirmagSes: Deus governa e preserva todas as suas criaturas; sua preserva¢4o e governo sobre elas se estende sobre todas as suas agGes; sua preservacio e governo sobre elas é totalmen- te santa, s4bia e poderosa. Entre as inferéncias que essas formulagGes pre- tendem excluir, estio as seguintes: ~ Que Deus preserva e governa apenas algumas de suas criaturas; — Que Deus governa e preserva apenas alguns dos atos de suas criaturas; ~ Que a preservaciio e o governo de Deus sobre suas criaturas é fraco ou inepto; ~ Que a santidade de Deus est4 comprometida pela sua preservagiio e governo sobre algumas agGes de suas criaturas; ~ Que, no governo e na preservacio de suas criaturas, Deus planeja certos fins que ele nao tem poder suficiente para realizar. H4, obviamente, outras inferéncias que nao est&o claramente inclufdas nem excluidas dessa proposi¢io, tais como: 28 Orientagéo — Que no governo e na preservagiio de suas criaturas, Deus governa seus pensamentos e desejos; — Que, ao governar e preservar suas criaturas, Deus age através de agentes intermediérios. Poderia ser argumentado que ages ndo incluem pensamentos, e da mes- ma forma poderia ser contra-argumentado: “Como Deus poderia governar todas as suas criaturas sem governar seus pensamentos?”, Se Deus governa preserva suas criaturas através de agentes intermediérios, ele governae preserva esses agentes intermediarios exatamente da mesma forma? Mas o que est4 claro é que a afirmacao extrafda do catecismo nfo tenta res- ponder quest6es tedricas. O que esta claramente ausente dessa proposigiio é qualquer tentativa de explicar como Deus é capaz de efetuar suas obras de provi- déncia. Ecomo o governador nao é outra criatura, nés podemos estar certos de que qualquer tentativa de explicar esse relacionamento em termos de uma ou outra forma, através da qual as criaturas podem govemar, necessariamente fracassara, Algumas das formas pelas quais uma criatura governa outra sao leis rigo- rosas, acordos, correntes elétricas, cordas, incentivos financeiros, favores sexuais ou prazer, por exemplo, Seria totalmente errado concluir que, como 6 dito que Deus governa sobre suas criaturas e suas agGes, ele, portanto, as governa através de alguma das formas pelas quais uma criatura governa a outra, Talvez haja ocasides em que Deus aja assim, mas seria precipitado concluir que seu governo é ¢ sempre ser dessa forma. Essas consideragées serfio de grande importancia quando nés estudarmos, mais tarde, a questo da harmonia entre o governo divino sobre suas criaturas e a responsabilidade dessas mesmas criaturas. Pode ser que, sempre que uma criatura governe sobre outra, o governado sofra uma diminuigao de sua responsabilidade pes- soal. Mesmo que isso seja verdade, nao se depreende daf que, quando Deus governa, suas criaturas nao sejam responsdveis pelo que fazem. Assim, para resumir, a fungo das proposigdes doutrindrias é dupla — encapsular os dados da Escritura em uma forma reduzida, e dessa forma impe- dirinferéncias precipitadas. Sua fungSo nao é fornecer explanagées daquilo que, por causa de seu cardter sem paralelo, néo pode ser explicado a nés, Ao considerar qualquer aspecto da relagdo de Deus com 0 universo, en- tio, nés estamos lidando com situagdes sem paralelo e que nao podem ser experimentadas diretamente. Isso significa que, ao contrério de nossa abor- dagem as ciéncias naturais, a doutrina resultante nao é capaz de responder 29 A Providéncia de Deus nossas questdes “como?”. E prontamente admitido que, olhando de um pon- to de vista intelectual, essa situagiio nao é a ideal, mas, nessa 4rea, comoem qualquer outra 4rea da investigagao humana, exige-se que os investigadores respeitem o carter dos seus dados de investigagdo, e ndo imponham suas proprias idéias sobre eles. Um dano indescritivel tem sido feito a Igreja crista pela falha em observar esses limites intelectuais. Também hi limites intelectuais de outro tipo. Ao considerar a providéncia divina, nés estamos lidando com a atividade daquele que é o Criador supremamente pessoal e o Senhor do universo. A doutrina da providéncia nos capacita a dizer, sobre qualquer evento ou ago do universo, que Deus 0 trou- xe Aexisténcia ou, pelo menos, permitiu-o como parte de seu controle provi- dencial sobre o todo. Mas o que nos é impossivel é prover uma resposta inte- lectualmente satisfatéria 4 questo “por qué?’”. Essa questo sé tem uma res- posta: “porque Deus quis que fosse assim”. A questio subseqiiente, “por que Deus quis que fosse assim’, nao ha uma resposta esclarecedora. Essa éa razaio pela qual, pelo menos nesta vida, a providéncia divina sera sempre um mistério. Ao lidar com a providéncia de Deus, portanto, nés estamos lidandocom questdes de grande importancia para as quais nao hd explicagao. Isso nfo significa que Deus seja arbitrério ou caprichoso ao lidar com o universo cri- ado. O que significa é que a vontade de Deus, e as santas e sdbias razdes que ele tem para o exercicio dessa vontade, sdo a mais elevada corte de apela- ¢4o (mais elevada no sentido l6gico). Nao pode haver uma corte mais eleva- dae, portanto, mesmo que isso seja insatisfatério, nés devemos nos conten- tar com essa Ultima referéncia 4 vontade de Deus. CETICISMO SOBRE A ACGAO DE DEus A maior parte desse capitulo foi gasta na montagem de uma agenda de problemas e com a formulagao de um método adequado de investigacao. Masé facil antecipar a objegao de que isso levanta uma importante questo. Nossa discussao, por mais preliminar que tenha sido, pressupde que faz sen- tido falar sobre a ago ou atividade de Deus. Muitos fildsofos e tedlogos, porém, tém questionado isso. Eles tém dito, por exemplo, que agdes exigem tempo. Portanto, como um Deus que existe na eternidade pode agir? Tam- bém é dito que uma agao é necessariamente realizada por um agente corpo- ral, mas Deus existe em um estado incorpdreo. Como, entao, pode ser dito que ele tenha realizado uma agdo? 30 Orientagéo E importante separar duas questées distintas. Um tipo de questio ¢ “como nés podemos estar certos, ou até mesmo ter alguma opiniao, de que algum evento especifico (digamos, a travessia de Dunkirk) é um ato de Deus?”. Vamos chamar esse problema de identificagao. Esse tipo de per- gunta pode ser respondida somente através do actimulo de evidéncias do tipo apropriado. Nesse sentido, decidir se um evento é ou nao um ato de Deus nao é um princfpio diferente de decidir se um evento especffico foi ou néio um ato de Napoledo. E necessério analisar as circunstancias. Nés es- peramos discutir esse tipo de questo, sob varias aparéncias, 4 medida que fizermos nossa investigagao. HA, contudo, um tipo mais basico de questo: Como pode qualquer coisa ser tida como um ato de Deus? Essa 6 uma questo conceitual e nos dirige ao problema de identidade. Ela se refere a qualquer idéia de ago divina e é mais basica porque, até que a resposta a essa questo seja dada, nao é possivel discutir questdes de identificagao. Aqui esta uma express4o contemporanea sobre qualquer idéia de agao divina: Quando se diz. que Deus “agiu”, acredita-se que ele tenha realizado um ato observavel no espaco ¢ no tempo, de forma que ele funcio- nou como qualquer causa secundaria; e quando se diz que ele “fa- Jou”, acredita-se que uma voz aud{vel tenha sido ouvida pela pessoa em questiio, Em outras palavras, as palavras “agir” e “falar” foram usadas no mesmo sentido para Deus e para o homem. Nés nega- mos esse entendimento univoco de palavras teolégicas. Para nés, verbos tealégicos como “agir”, “trabalhar”, “fazer”, “falar”, “reve- lar”, € etc no tém o sentido literal de agdes observaveis no espago € no tempo ou de vozes no ar... a menos que se saiba em algum sentido o que a analogia significa, como ela estd sendo usada e qual a sua finalidade, uma analogia € vazia e ininteligfvel.> Dessa forma Langdon Gilkey, e muitos outros, argumenta que nfo se pode dizer que Deus agiu no mesmo sentido em que vocé e eu agimos, e que nio hd um sentido alternativo claro. O que se pode dizer sobre isso? Em primeiro lugar, parece ndo haver fundamento para as ansiedades de Gilkey sobre observabilidade. As ages, tipicamente, consistem de causas nao-observaveis e de efeitos observaveis. Uma pessoa decide fazer algo e, 31 AProvidéncia de Deus entio, cuida para que nao seja impedido e faz o que havia decidido. Por que isso nao se aplicaria no caso de Deus? Sua “vontade” € oculta ands, nfo é observada e nem observavel. Mas a sua “vontade” também é oculta a mim, e aminhaé oculta a vocé. Os efeitos da “vontade” de Deus podem, apesar de tudo 0 que nés ouvimos em contrério, ser publicos e observaveis, como no caso da criagdo material e de tudo o que ela contém e, até mesmo, no caso dos milagres, eventos especfficos dentro da criagdo. Por que nao? Alguns dos efeitos das agdes de Deus podem ser nio-observaveis, assim como os efeitos de algumas agdes humanas (tais como seqliéncias de raciocfnio, ou outras correntes de processos mentais). A observabilidade, portanto, parece nao ter muita relagao com o conceito de acao. Deve ser dito, contudo, que, j4 que nés aprendemos o que é uma agao vendo como outra pessoa se comporta, “agdo” nao pode ter o mesmo sen- tido quando aplicada a Deus e quando aplicada ao Sr. Aratijo. Quando Deus alegadamente fala, por exemplo, cordas vocais nfo tém nada a ver com isso. Essa seria uma séria objec&o somente se a referéncia as cordas vocais fosse parte do sentido de “fala”. Talvez o significado de “fala” seja encontrado nao em referéncia ao corpo, mas pela produg&o de certos efeitos, como 0 efeito de comunicagao. Mesmo que no seja assim — mesmo que 0 significado de “fala” no seja © mesmo quando usado para Deus ¢ para o homem — por que 0 sentido, como aprendido no contexto humano, nao pode ser adaptado para o uso no caso da fala divina? Se “fala” significa “comunicagio por meio do uso de cordas vocais”, por que, no caso de Deus, “fala” nao pode significar simples- mente “comunicagao”? Como William Alston comenta: Mesmo que o significado dos termos de ago humana seja infectado com elementos que impegam que eles sejam aplicados a Deus, simplesmente cerceie esses elementos e veja o que so- bra. Pode ser, e geralmente é, que 0 que sobra seja algo que possa ser inteligivelmente aplicado a Deus, e nessa aplicac¢4o nés tenha- mos sucesso em dizer o que nés pretendemos dizer quando fala- mos em agio de Deus. * Nao h4, portanto, uma razio a priori que possa nos levar aconcluir que Deus nao pode agir, e que por essa razdo qualquer idéia de providéncia divina seja incoerente. 32 2 PROVIDENCIA: ARRISCADA ou ISENTA DE Risco? Antes de analisarmos a providéncia divina em maiores detalhes, h4 um pro- blema maior que precisa ser resolvido. Esse problema é a questo de se, de acordo com a Escritura, a providéncia divina envolve risco ou no, isto é, se envolve risco ou nao para Deus, Aqui se estabelece uma distingiio entre cris- tos que navegam em Aguas profundas. Essa questo esta no coragao do con- flito entre Agostinho e Pelagio, e também no coragiio do conflito da Reforma. Sendo assim, hd pouca esperanga de que esse problema seja resolvido satisfa- toriamente em um capitulo to curto. Contudo, pouco progresso pode ser feito nacompreensio da providéncia divina até que nés tenhamos revisto alguns dos argumentos de cada lado, e tenhamos decidido como nés vamos proceder 4 luz dessa divisaio basica. O propdsito desse capitulo é exatamente esse. A Providéncia de Deus, de acordo com a Escritura, estende-se a tudo 0 que ele criou, incluindo as escolhas de homens e mulheres? Ou sua providén- ciaé limitada, talvez limitada pelo proprio Deus, de forma que ele néo saiba infalivelmente como o universo se desdobrar4? Vamos chamar a primeira dessas opiniGes (na verdade, uma familia de pontos de vista) de ponto de vista isento de risco ou “no-risk” da providéncia de Deus, e a segunda familia ser4 chamada de ponto de vista arriscado ou “risky-view”.' Nossa questo, portanto, é: Qual dessas posigGes é favorecida pela Escritura? A Providéncia de Deus Est claro que existem diferentes tipos de risco. Por exemplo, se nés comegamos algo sem saber como isso vai se desenvolver, nés estamos correndo risco. Um risco de outro tipo, talvez menor que o primeiro, é quando nés nao temos preferéncia formulada ou expressa sobre como nds queremos que as coisas se produzam, e em vez disso temos apenas expectativas, e a partir daf colocamos em movimento eventos que podem conduzir somente a um cumprimento parcial de nossas expectativas, ou até ao nao cumprimento delas, Portanto, segue-se que nés devemos usar “risco” no seu sentido mais forte somente quando tanto as preferéncias quanto as expectativas esto em jogo. Nés nao corremos risco se nés, sabidamente, colocamos em movimento eventos que correrfio exatamente como nés queremos que eles corram. No caso da providéncia divina, os eventos em questo so todos aque- les que, na histéria de todo 0 universo, tornaram-se reais. Nés devemos admitir que se pelo menos um desses eventos pudesse ter se desdobrado de uma forma diferente daquela pela qual Deus previu que aconteceria, entdo Deus teria corrido um risco. O risco pode nao ser muito grande, e sua ameaca iminente pode ser amenizada se nos lembrarmos que até mes- mo se Deus nao determinar infalivelmente 0 que acontecerdé em cada caso especifico, seu controle sobre tudo o que acontece é considerdvel. Contu- do, um risco é sempre um risco, Vocé observard que nés conceituamos risco e isengao de risco em ter- mos do conhecimento de Deus.” Também é possivel formular esses con- ceitos em termos do decreto ou da ordenagao de Deus, e pode-se pensar que essa formulagao estaria mais de acordo com a providéncia de Deus. Se Deus assume um risco, contudo, onde ele é entendido em termos de conhecimento, entdo segue-se logicamente que ele também assume um risco em termos do que ele ordena, pois 0 que cle ordena deve ser igual- mente arriscado. Numerosos tedlogos e filésofos contemporaneos sdo da opinio de que a providéncia de Deus deve ser um negécio de risco. Aqui hd algumas afirmagGes representativas: Bevidente que a opiniio de que o governo aqui proposto de Deus sobre o mundo difere de outros que so comumente mantidos. Mas onde exatamente estd a diferenca? Eu creio que ela pode ser formulada em uma questio simples, mas crucial: Deus corre ris- 34 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? cos? Qu, para apresentar a questo com mais preciso: Deus toma decisées que dependem para sua realizagdo de respos- tas de criaturas livres nas quais as préprias decisées ndo sdo informadas pelo conhecimento de sua realizagéo? Se for as- sim, entao criar e governar 0 mundo é, para Deus, um negécio arriscado. Essa é uma implicagdo das opinides aqui adotadas, e € igualmente evidente que ela seria rejeitada por alguns pensadores cristios — aqueles, por exemplo, que afirmam a teoria da predestinagao, de acordo com a qual tudo o que ocorre é determi- nado somente pelo decreto soberano de Deus.> O valor que considera 0 conhecimento como um bem pode ser mais plenamente percebido pela renincia da possibilidade de ser um completo sabe-tudo, e criar um mundo no qual as agées futu- ras de outros podem ser somente conjecturadas, e algumas vezes nem isso. Se Deus criou o homem a sua propria imagem, ele deve té-lo criado capaz de novas iniciativas e novos impulsos que nao podem ser precisa ou infalivelmente predeterminados, mas que dio ao futuro um perpétuo frescor e uma inexaurfvel variedade de Possfveis pensamentos e agGes, que, tanto da parte.de seus filhos quanto da parte do préprio Deus, cristalizam-se em realidade.* «Deus deve correr riscos reais se ele faz criaturas livres (cente- nas, milhGes ou trilhdes de riscos, se cada criatura faz centenas de escolhas morais significativas). Nao importa quo sutilmente Deus tenha agido ao correr tantos riscos, sua vit6ria sobre cada risco nfio seria antecipadamente provavel.S Que Deus é onisciente somente no sentido atenuado — dado que ele € perfeitamente livre e onipotente — claramente teria resultado de sua prépria escolha. Ao escolher preservar sua prépria liberdade (¢ dar liberdade a outros), ele limita seu proprio conhecimento do que estd por vir. Ele continuamente se limita dessa forma para no po- dar a futura liberdade sua ou de suas criaturas. Com relagaio ao homem, suas escolhas so muito influenciadas pelas circunstancias, € isso torna possfvel que um ser que conhece todas as circunstanci- as preveja 0 comportamento humano corretamente na maior parte 35 A Providéncia de Deus do tempo, mas sempre com a possibilidade de que os homens pos- sam tornar falsas essa previsdes.* As seguintes afirmagGes sao representativas da posig&o de que a provi- déncia ¢ isenta de risco: Muito embora possa nos parecer que todas as coisas acontecem igualmente aos bons e aos maus, j4 que nés somos ignorantes quan- to as razes da providéncia de Deus ao permitir que isso acontega, no hd diivida de que em todas essas coisas boas e mAs acontecen- do aos bons e aos maus hé em ago um plano bem elaborado atra- ‘vés do qual a providéncia de Deus direciona todas as coisas.” Mas Deus protege e governa por sua providéncia todas as coisas que criou, “ensinando de ponta a ponta poderosamente e ordenando todas as coisas sutilmente” (Sabedoria 8.1). “Todas as coisas esto descobertas e patentes aos seus olhos” (Hb 4.13), até mesmo aquelas que, pela livre aco das criaturas, acontecerAo no futuro." Deus, o grande Criador de todas as coisas, fez, direciona, dispde e governa todas as criaturas, ages e coisas, desde a maior até a menor, por sua sabia e santa providéncia, de acordo com seu infa- livel pré-conhecimento, e com 0 livre e imutével conselho de sua vontade, para o prazer da gloria de sua sabedoria, justia, bondade e misericérdia.” Seré observado, a partir dessa selegdo de opinides sobre a providéncia de Deus, que a principal (se nfo a tinica) razdo pela qual uma posi¢io de “risco” sobre a providéncia é assumida é a preocupagao em preservar a liberdade humanae (pelo menos no caso de Swinburne) preservar também a liberdade de Deus. Todos os escritores sustentam a opinido de que somente se a providéncia for um negécio de risco, haverd lugar para 0 exercicio da liberdade humana. “Liberdade” é um termo que tem muitos sentidos, e € muito importante entender qual é o sentido de liberdade humana que esses escritores créem ser essencial salvaguardar, Uma forma de explicar esse sentido é a seguinte. Se nés somos livres, ent&o nés temos o poder de fazer alguma agaio especi- 36 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? fica, ou de deixarmos de fazé-la, muito embora toda a histéria do universo até o ponto dessa escolha seja a mesma, seja qual for a escolha feita. Toda a historia do universo, a partir do ponto de nossa escolha, é consistente tanto coma nossa realizacdio dessa ago quanto com a nossa decisdo de nio realiza- la, Dessa forma, qual agiio é realizada depende de nds, do exercicio de nos- sa liberdade, Uma forma alternativa de expressar isso é, embora niio seja uma forma estritamente equivalente, dizer que nés somos livres ao realizar uma aco somente se, cada circunstancia permanecendo a mesma, nés pu- dermos tomar uma decisiio diferente, Esse é um sentido de liberdade incompativel com o determinismo. So- mente se a liberdade nesse sentido for mantida (como créem escritores como Lucas e Swinburne) pode-se fazer justiga 4 dignidade e A criatividade huma- na, ea responsabilidade humana. Nos capitulos seguintes, quando tratarmos dos diferentes modelos de pro- vidéncia e do eletrizante tema de providéncia e mal, nés vamos considerarem maiores detalhes a questiio da liberdade humana, e particularmente se essa opiniao sobre a liberdade humana é necessdria para manter a dignidade e a responsabilidade humana, Nesse estdgio nés vamos considerar quais sfio as conseqiiéncias da idéia da providéncia divina admitir um ponto de vista nao- determinista da liberdade humana (ou, mais precisamente, quais conseqtiéncias os escritores supra citados esto preparados para aceitar). Essas conseqiién- cias esto relacionadas principalmente com 0 cardter de Deus — seu conheci- mento, sua vontade e sua bondade, incluindo o cardter da graga salvadora de Deus. Esse tiltimo ponto, contudo, nfo é algo que ameace muito a corrente discussiio. Nés vamos comentar brevemente cada um desses elementos. O CARATER DE Deus 1. O conhecimento de Deus Como é tradicionalmente entendido, Deus € onisciente. Isso nao é so- mente uma conseqiiéncia da perfeigéio de Deus de forma abstrata (pois como poderia um ser perfeito ser ignorante a respeito de alguma coisa?), mas tam- bém é decorrente de um dado importante da Escritura. Na Escritura se diz que Deus é aquele que conhece 0 fim desde 0 comego; todas as coisas esto patentes e abertas diante de seus olhos; ele conta os fios de cabelo de nossa cabega; ele sabe quando nos assentamos e quando nos levantamos, ele de Jonge conhece os nossos caminhos; ele sabe do que nds precisamos antes 37 AProvidéncia de Deus que nés pegamos; ele ordena todas as coisas segundo o conselho de sua vontade, e assim por diante. Mas se de fato Deus criou um universo no qual hé risco, entio ele nio € onisciente. A maior parte dos escritores que assume a posigdo de “ris- co” aceita isso. Eles estdo prontos, conseqiientemente, a sacrificar ou ate- nuar a doutrina escriturfstica cléssica da onisciéncia divina em favor da providéncia de risco. Ha muitos argumentos diferentes pelos quais essa atenuagao é defendida, mas para simplificar e focalizar nossa discussdo eu vou me concentrar nos argumentos usados por Richard Swinburne em The Coherence of Theism. Swinburne desenvolve seu raciocfnio com a preocupacio nao somente de preservar a liberdade humana, mas também a liberdade divina. Por causa dessa preocupagio em salvaguardar a liberdade, Swinburne pro- poe a seguinte definigdo restrita de onisciénci: Uma pessoa P € onisciente em um tempo t se e somente se ela souber cada verdadeira proposigao sobre t ou um tempo anterior que & verdadeiro ¢ também conhecer cada verdadeira proposigo sobre um tempo depois de t, de forma que o que ele registra é fisicamente necessitado por alguma causa em t ou antes de t, que 6 verdade."” Essa definigdo pode exigir alguma explicagao. Observe, em primeiro lu- gar, que o que é proposto é uma definigdo geral de onisciéncia, que pode ser aplicada nao somente a Deus, mas a qualquer pessoa. Além disso, quem quer que aplique isso esta no tempo, pois a definigao se refere 4 onisciéncia no tempo. Se Deus é eterno, como alguns afirmam, ent&o essa definigao no pode ser aplicada a ele. Talvez ela possa ser sutilmente modificada. O pensamento bisico por tras da definigdo, contudo, é que um ser onis- ciente conhece tudo sobre o passado e sobre o presente, ¢ ele também sabe o que é “fisicamente necessitado” por qualquer causa no presente ou no passado. Tal ser onisciente saberia, por exemplo, que eu estou digitando essas sentengas em meu computador, ¢ ele saberia também quais seriam os movimentos dos planetas amanhi, e qual seria o estado de qualquer floresta distante, fisicamente inacessfvel a interferéncia humana, amanhi. O que ele nao sabe hoje é qualquer coisa sobre o futuro que dependa de escolhas nao- fisicamente necessérias, particularmente as decisGes humanas. Assim, se eu ainda nao decidi em minha mente, por uma livre agio, se eu vou ou nao 38 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? cortar minha cerejeira amanhi, entio Deus também nio tem como saber qual serd o estado dessa cerejeira amanhi. Ele poderia saber qual seria esse estado se esse estado (livremente decidido sem interferéncia) fosse fisica- mente necessério por seu estado hoje. Swinburne reforga a importdncia de limitar a onisciéncia daquilo que nao € fisicamente necessério, mas essa restrigdo pode nao cobrir todos os casos que ele tem em mente. Alguns afirmam nao que as escolhas humanas sejam fisicamente necessérias, mas que elas siio psicologicamente necessdrias ou até mesmo racionalmente necessérias, isto é, eles afirmam que as escolhas humanas sio resultado nao de estados fisicos prévios, mas de estados psico- égicos prévios, tais como desejos, vontades e preferéncias de varios tipos. Orelato de Swinburne pode ser modificado para cobrir esses casos, sim- plesmente retirando-se a palavra “fisica” de seu enunciado. Ao dizer que Deus (por exemplo) nado sabe o que uma pessoa (incluindo ele mesmo) escolherd livremente amanha, Swinburne nao est4 negando que Deus possa ter crengas sobre o futuro. Ao escolher preservar sua propria liberdade (e dar liberdade a outros), ele limita seu préprio conhecimento do que esté por vir. Ele continuamente se limita dessa forma por nao podar a futura liberdade sua ou de suas criaturas. Com relagdo ao homem, suas escolhas so muito influenciadas pelas circunstincias, e isso torna possfvel que um ser que conhece todas as circunstAncias preveja co comportamento humano corretamente na maior parte do tempo, mas sempre com a possibilidade de que os homens possam tornar falsas essas previsdes.'' Sabendo o que sabe sobre o presente e sobre o passado, Deus pode (como nés observamos anteriormente) ter previsdes bem precisas. Contudo, essas previsGes nao equivalem ao conhecimento. Deus tem crengas ou previ- sdes (ndés podemos presumir), muitas das quais se mostram falsas, por causa de livres decisdes de homens e mulheres, e o que ele supGe que aconteceré na verdade nio acontece. Portanto, a onisciéncia de Deus é ndo apenas restrita, como ja foi indicado, mas sua infalibilidade também é limitada. Nés retornaremos a esse ponto mais adiante. Essa abordagem da onisciéncia difere grandemente daquela que foi feita pelos grandes tedlogos do Cristianismo. Por exemplo: 39 A Providéncia de Deus Sea infinidade de néimeros nfo pode ir além dos limites do conheci- mento de Deus, que a compreende, quem so os poucos homens que nds deverfamos presumir poder colocar limites no seu conheci- mento? ...O fato € que Deus, cujo conhecimento é simples em sua multiplicidade e um em sua diversidade, compreende todas as coi- sas incompreensfveis com uma incompreens{vel compreensdo.? O que quer que possa ser produzido, ou pensado, ou dito por uma criatura, ¢ também 0 que quer que Deus possa produzir, tudo é conhecido por Deus, até mesmo aquilo que nfo vem a existéncia.? Com relagiio ao arrependimento, nés devemos afirmar que ele no é mais aplic4vel a Deus do que a ignorincia."* Enquanto Swinburne reconhece que esse tratamento dado a onisciénciade Deus é menos estrito que 0 tratamento dado pelos tedlogos cristios a Deus, ele alega possuir suporte biblico para isso. Ele cita, por exemplo, o fato de que, no Antigo Testamento, Deus tem certos planos que, ocasionalmente, so muda- dos. Ele mudou seus planos com relagao a Sodoma, quando Abraio intercedeu porela, e poupou Israel quando Moisés intercedeu; ele poupou Ninive quando Jonas pregou, ¢ assim por diante. Em geral, Swinburne diz, Deus nao precisaria fazer promessas condicionais se ele soubesse o que os homens vio fazer. Por outro lado, o Novo Testamento fala bastante sobre o “pré-conhe- cimento” de Deus, mas, por alguma raziio, as vezes ele o faz parecer que nfio é absoluto. O homem pode mudar os planos de Deus." Dessa forma h, de fato, dois tipos de dados escrituristicos. Um tipo indica que o conhecimento de Deus no é qualificado. O outro tipo de dados repre- senta Deus aprendendo, esquecendo, mudando de opiniao, sendo surpreendi- do, e coisas semelhantes, O que, entao, nés deverfamos concluir? Qual parte do conjunto de dados sobre a providéncia divina é nao apenas coerente consi- go mesmo, mas também estd de acordo com todos os dados da Escritura? N6s devemos considerar uma resposta para essa questdo brevemente. 2. A vontade de Deus HA varios sentidos nos quais se diz que Deus tem uma vontade. Deus pode desejar em um sentido de mandamento, e ele pode desejar em um. 40 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? sentido de decreto. Minha cerejeira existe pelo decreto de Deus, mas cle n&o mandou que a 4rvore existisse (nés podemos dizer que ele mandou que a arvore exista, mas nao que ele a mandou existir). Além disso, s6 é possivel dar comandos aquilo que jé existe, e até que Deus tenha comandado que a rvore exista, ndo hd rvore para que ele possa comandar. Nao é facil supor que Deus possa dar ordens a drvores. Mas, de acordo coma Escritura, de tempos em tempos ele dé ordens a homens e mulheres. As vezes esses comandos esto relacionados com pessoas, tempos e lugares especificos; as vezes eles so mais gerais, até mesmo universais em seu al- cance. A ordem de Deus a Abraio para sacrificar Isaque foi especifica. Seu mandamento de proibir 0 roubo foi dado a Israel, e talvez tenha uma aplica- ¢o ainda mais ampla. Nem todo mandamento de Deus é obedecido. A Escritura ensina, contu- do, que até mesmo nas ocasides em que o mandamento de Deus é desobe- decido, a desobediéncia esta de acordo com sua vontade, no sentido de seu decreto. A Escritura est cheia de exemplos desses casos. Foi contra o man- damento de Deus (presumivelmente) que os irmios de José 0 venderam, mas dessa forma Deus havia decretado salvar Israel. Através da desobedi- éncia de Saul, Davi tornou-se rei. Através das inteng6es assassinas dos ju- deus e da fraqueza de Pilatos, Jesus foi crucificado. Talvez esses eventos tivessem sido efetuados sem qualquer violagao do mandamento de Deus. N6és nao devemos especular sobre isso. E suficiente observar que, de fato, eles nao aconteceram dessa forma, mas o que Deus decretou envolvia violagdes de mandamentos que ele mesmo havia dado. Para apresentar a questio paradoxalmente, a quebra de sua vontade tornou- se parte do cumprimento de sua vontade. Nés devemos considerar o cardter da vontade de Deus em maiores detalhes no capitulo 5. Se, contudo, alguém supde uma providéncia de “risco”, esse quadro pa- rece mudar essa suposi¢ao de forma radical. De acordo com alguns tedlogos crist&os que defendem esse ponto de vista, h4 pelo menos algumas ocasides importantes que contém elementos nao decretados por Deus, ou nos quais embora Deus tenha decretado um certo resultado definido, esse decreto é frustrado ou modificado pelo exercicio da libertadora vontade humana. En- quanto, segundo esse ponto de vista, Deus decreta incondicionalmente gran- de parte (por exemplo, aqueles aspectos de sua criagdo que nunca foram afetados por escolhas livres), ele também decreta grande parte condicional- mente, portanto, assumindo riscos. Da mesma forma, assim como seus man- Al AProvidéncia de Deus damentos (por exemplo, nao roubar) podem ser quebrados, assim também aquilo que ele decretou pode ser frustrado, se isso depender de uma escolha livre. Aqueles que fazem tal escolha podem nao saber que esto frustrando 0 decreto de Deus (esse decreto pode no ter sido revelado a essas pessoas), mas isso nao altera o fato em questiio. De fato, contudo, a questio é mais profunda do que isso. De acordo com a visio da providéncia de “isco”, nio somente uma decisio livre pode frus- trar o decreto de Deus, mas 0 ato de Deus decretar qualquer ago humana é inconsistente com o fato de essa agao ser indeterminadamente livre. Como nds j vimos, a esséncia da liberdade indeterminada é o poder de escolher entre A ou nao-A em uma situagiio em que o caréter do universo, a partir do momento da escolha, é fixo. Dessa forma, 0 que Deus pode ou nao pode ter decretado sobre a escolha, antes de sua existéncia, é irrelevante para 0 exercicio da escolha. Varias formas tém sido propostas para mitigar os efeitos dessa colisio entre o decreto de Deus e a libertadora liberdade humana, para minimizar ou eliminar 0 risco. Tem sido proposto, por exemplo, que nés devemos pensar sobre a relagio de Deus com suas criaturas livres como um grande mestre de xadrez , que é capaz de, facilmente, vencer apesar dos movimentos de xa- drez livremente executados por seus aprendizes.'* Talvez a proposta mais influente para evitar a colisdo seja a doutrina do conhecimento médio de Deus. Nés vamos considerar essa possibilidade mais adiante. 3. A bondade de Deus A questo de se a providéncia envolve risco ou nfo também afeta o caré- ter da bondade de Deus. A bondade de Deus pode ser considerada sob varios aspectos, e em quase todos esses aspectos h4 um pomo de discérdia. A principal controvér- sia esté focalizada no alcance da bondade de Deus. Admitindo-se que muitos homens e mulheres levam uma vida tolerdvel e pessoalmente feliz, por que Deus nao faz com que todas as pessoas sejam assim? Por que as béngaos de Deus niio siio para todos? Por que ha discriminag4o? Por que Deus nao abengoa todos da mesma forma? Por que os fmpios prosperam? Se Deus & bome onipotente, por que ele nao organiza todas as coisas de forma que 0 sofrimento seja minimizado ¢ o prazer individual seja maximizado? Essas questGes formam o coragao do problema do mal, e nés vamos analis4-las em maiores detalhes no capitulo 8. 42 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? H4, contudo, outra forma na qual a bondade de Deus pode ser conside- rada e que é menos freqiientemente debatida no presente. Nés podemos chamé-la de questao da intensidade. J4 que Deus deseja ser bom, como esse desejo pode ser efetivamente? Ele pode desejar ser bom para uma pessoa e ser frustrado por essa pessoa? Em outras palavras, ao colocar em execugdo seu plano de ser bom, Deus pode correr riscos? Historicamente, essa questao foi o centro de uma controvérsia sobre a graga salvadora de Deus. A graca é apenas capacitadora ou é efetiva? A resposta a essa questio afetard a providéncia de Deus naquilo que se refere Aexisténcia e ao cardter da Igreja crist. A Igreja é formada como o resulta- do de homens e mulheres beneficiados por certas condigées e circunstncias favordveis providenciadas por Deus em sua bondade ou a bondade de Deus realmente faz com que a Igreja seja formada através da conversao de ho- mense mulheres a Cristo? Na Escritura, a graga de Deus na conversio € poderosa (1Ts 1.5);é um chamado eficaz (Rm 1.6; 9.11; 1Co 1.9; Ef 4.4); 6 comparada a criagaio (2Co 4.6) ¢ a ressurreigao (Ef 2.5) e aum novo nascimento (1Pe 1.23), O Espirito Santo da arrependimento (2Tm 2.25) e fé (Ef 2.8). Tanto a lingua- gem direta quanto a linguagem figurativa usadas com referéncia 4 conversio parecem apontar de forma inequivoca para a idéia de que a graga de Deus € efetiva em assegurar o cumprimento daquilo para o que foi destinada. E dificil enxergar como alguém pode afirmar que (a) a bondade de Deus é efetiva na forma em que esses versos a descrevem (i.e., é suficiente para fazer com que uma pessoa se torne crist@) e (b) que a pessoa tem liberdade total paraescolher se ser4 ou niio convertida. Certamente seria possfvel afirmar que ha muitas escolhas ndo-determinadas, mas que a conversio crista nao esté inclujda entre elas, embora essa nao seja uma posi¢ao facilmente encontrada nahistéria do pensamento cristo. Se, no momento da converso, nds temos total poder de escolha, entdo nés temos 0 poder de rejeitar os esforgos da bondade de Deus para realizar nossa conversao, Isso significaria que, ofere- cendo sua bondade nessas circunstncias, Deus estaria correndo um risco. Eoque dizer das referéncias da Escritura 4 homens e mulheres resistindo a graga de Deus (At7.51)e rejeitando a mensagem de salvagao (At 13.46)? Sera que a Escritura, nesse ponto, é simplesmente contraditéria ou “paradoxal””? Os dados que ela fomece podem ser combinados de forma consistente colocando- se certas passagens prioritariamente acima de outras?B aqui que nés precisamos retornar & questo Jevantada anteriormente sobre a posigo de Swinbume. 43 AProvidéncla de Deus ACOMODACAO Nos estamos, aparentemente, diante de dados incompativeis —dados que, por um lado, afirmam a onisciéncia de Deus e 0 poder de sua gragae, por outro lado, descrevem uma espécie de mudanga em sua mente e homens e snulheres resistindo a sua graga. Como, entiio, devemos proceder para ela- borar, a partir da Escritura, uma doutrina da providéncia biblica? Quais des- ses conjuntos de dados aparentemente inconsistentes ou incompativeis deve ter prioridade sobre 0 outro? Quais dados controlam o todo? Uma alternativa seria dizer que a linguagem sobre a ignorancia de Deus, sobre suas mudangas de opiniao e sobre a resisténcia 4 sua graga so mais basicas para 0 nosso entendimento do que as afirmagées mais gerais (men- cionadas anteriormente) sobre a extensao de seu conhecimento ou sobre a eficdcia de sua graca. Afirmagdes que impliquem na ignorancia de Deus e na sua falta de poder para fazer alguma coisa, portanto, possuem prece- déncia sobre afirmagées diferentes. Como conseqiiéncia, nés serfamos obrigados a manter que em alguns momentos Deus é ignorante, que ele muda de opinido e que estd aberto 4 persuasio, que seus propésitos de bondade podem ser frustrados e assim por diante. E nao somente isso, mas pela paridade de raciocinio a partir da linguagem da Escritura sobre Deus, nés serfamos obrigados a admitir, também, que Deus tem uma rica e con- turbada vida emocional, e talvez até mesmo que ele tenha um corpo e uma localizagio fisica no céu. Como conseqiiéncia da aceitagio desse principio de interpretagdo bibli- ca, a linguagem escrituristica que atribui onisciéncia ou poder gracioso a Deus seria entendida de forma hiperb6lica: atribuir onisciéncia a Deus éexatamen- te como atribuf-la a um especialista humano, a alguém que conhece tudo sobre sua drea de atuagao. Dizer que Deus é gracioso seria como dizer que um amigo generoso, cujos presentes podem ser recusados, é gracioso. A posigdo hermenéutica alternativa seria dizer que afirmagoes gerais con- tidas na Escritura sobre a onisciéncia, vontade e bondade efetiva de Deus é que devem ter precedéncia. A outra linguagem da Escritura, de ignorancia, indecis&o e mudanga deve ser interpretada a luz dessas afirmagées gerais. Hé, portanto, uma escolha direta. Apresentando-a de forma sdbria, pare- ce 6bvio (pelo menos para mim) qual escolha deve ser feita. As afirmagGes sobre a extensdio e a intensidade do conhecimento, poder e bondade de Deus devem controlar as afirmagées antropomérficas e aquelas que atribu- 44 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? em algum tipo de fraqueza a Deus, e nao vice-versa. A abordagem alternativa parece ser totalmente inaceitavel, pois resultaria em um reducionismo teol6é- gico no qual Deus é apresentado em proporgées humanas. Mas sea linguagem que revela Deus como ignorante, vacilantee,em ultima andlise, resistivel, nao pode ser literalmente verdadeira, entao por que ela é empregada na Escritura? Nenhuma resposta melhor foi dada aessa questao do que aquela encontrada nos escritos de Joao Calvino, isto é, que Deus usa essa linguagem para acomodar-se a incapacidade e a fraqueza humana. A acomodagio, a necessidade de Deus se dirigira homens e mulheres em termos que eles possam entender e aos quais eles possam responder, parece ser uma boaexplicagao geral para a ocorréncia de tal linguagem na Escritura, por duas razGes inter-relacionadas. Para comegar, ela preserva 0 sentido proprio de diregiio. A presenga de linguagem antropomérfica na Escritura nao é uma tentativa humana de expressar o inexprimivel, mas uma das formas pelas quais Deus graciosamente condescende as suas criaturas, Como Calvino diz, referindo-se a passagens onde se diz que Deus se “arrepende”: O que, portanto, significa a palavra “arrependimento”? Seu signi- ficado é semelhante a todos aqueles que descrevem Deus para nés em termos humanos. Como nossa fraqueza nio alcanga esse estado exaltado, a descrigao de Deus que é dada a nés deve ser acomodada A nossa capacidade de forma que nés possamos entendé-la. O modo de acomodagiio é usado por Deus para re- presentar a si mesmo a nés nao como ele é em si mesmo, mas como ele parece a nés,'” Aos olhos de Calvino, a diregao do movimento é de Deus para a humani- dade, e nao vice-versa. Além disso, como tal linguagem é um ato de acomo- dagio, ele é também um ato de graga. A revelagiio divina é evangélicaem motivo e em modo, assim como 0 € em contetido. ‘Mas isso nao reduz muito da linguagem da Escritura a uma mera ferramenta pedagégica, uma mera concessiio a fraca capacidade (como pensadores tio diferentes quanto Filo e John Locke tém afirmado)? Enquanto essa pode ser nossa reagiio inicial 4quilo que pode ser um ato psicolégico ou epistemolégico da parte de Deus, hd aqui um ponto légico de extrema importancia. A afirmacio de Calvino nao é que os seres humanos nao compreenderaio Deus a menos que ele resolva falar a eles em linguagem humana. Hé muita 45 A Providéncia de Deus coisa nos escritos de Calvino que mostram que ele tomou um rumo contrério aisso. O simples fato de que ele considera algumas expressdes como aco- modagées implica que é possivel pensar em Deus em formas que sao exatas e ndo-acomodadas. O que, entio, estd por tras da posigdio de Calvino? Ele reconhece que é porque Deus deseja que as pessoas respondam a ele que ele deve represen- tara si mesmo acles como alguém a quem é possivel responder, como al- guém que age no espaco e no tempo em reaco a ages humanas no espaco e no tempo. Somente com tal compreensio é possfvel prover a interagAo divino/humana, que estd no coragdo da religiao biblica. No centro da doutrina de Calvino sobre a acomodacio divina, portanto, estd um ponto légico, a saber, que é uma condigao logicamente necessaria de didlogo entre pessoas que essas pessoas devem agir e reagir no tempo. A onisciéncia e a onipresenga tém prioridade, porque sao propriedades essen- ciais de Deus, enquanto a criagdo de um universo no qual hécriaturas com as quais ele conversa é uma questo contingente. Contudo, se 0 didlogo entre Deus e ahumanidade é real, e ndo apenas verossimil, ent&io Deus nao pode informar aqueles com os quais ele conversa sobre o que eles decidirdio fazer, pois nesse caso eles poderiam decidir nao fazer, e 0 didlogo seria impossfvel. Deus é revelado na Escritura como separado de sua criagZo, como auto- suficiente, e como aquele que traz 4 cxisténcia a criagdo que é distinta de si mesmo. Por outro lado, Deus também € mostrado de forma antropomérfica, sua acdo e seu cardter também so feitos semelhantes aos de animais ea coisas inanimadas. A razdo para tal revelagiio é tio pragmatica quanto légica: a necessidade de representar Deus aos seres humanos de forma que nao (como Calvino teria dito) favorega o torpor natural e a lentidao de nossa mente e, ao mesmo tempo, a necessidade de Deus revelar-se de tal forma que 0 didlogo seja possivel entre si mesmo e as criaturas humanas. Tanto a linguagem antropomérfica quanto a linguagem exata da Escritura so, é claro, igualmente importantes, mas para que possamos construir um registro coerente de Deus, um conjunto de dados deve ter prioridade sobre co outro. Se os leitores créem que dar prioridade ao conjunto metafisico so- bre o conjunto aparentemente figurativo é uma decisdo equivocada, entao serd possivel que eles fagam os necessérios ajustes através da discussaio que segue. Esses ajustes, contudo, nfo sao pequenos, e, se forem considerados consistentemente, surgird um registro substancialmente diferente da provi- déncia divina. 46 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? CustTo E BENEFICIO Agora nés vamos sumariar brevemente nossa discussao até aqui. O custo de uma compreensao de “isco” da providéncia divina, por minimo que seja o grau de risco, é que Deus nao pode ser considerado como infalivelmente onisciente de sua criagdo, nem é capaz de realizar tudo o que ele possa desejar fazer. Haverd, na vida de Deus, necessariamente, alguma frustragio, tais como aqueles objetivos que ele deseja alcangar mas nao consegue, ou teve que alcangé-los de uma outra forma. Deus teria muitas crengas verda- deiras sobre o futuro, ele teria grande volume de informagio e experiéncia, mas seu conhecimento seria semelhante ao meu ou ao seu — ele seria falfvel. Alternativamente, a infalibilidade seria afirmada em detrimento da ignorancia. De forma semelhante, segue-se que 0 exercfcio da graga redentora de Deus nunca poderia, sob a 6tica da providéncia “arriscada” de Deus, ser eficaz. Sua graca seria sempre resistivel por parte da pessoa sobre quemela opera. Se ela nao fosse resistivel, a ago que resultaria dessa graga nao seria uma ago livre, no sentido do conceito de liberdade que foi defendido, pois nada cujo acontecimento tenha sido assegurado pelo poder da graga divina pode ser indeterminadamente livre. Esse seria um resultado irénico, j4 que o ensino de Cristo afirma que, quem quer que seja liberto pelo Filho, é verdadeiramente livre (Jo 8.26).O Novo Testamento parece ndo encontrar incoeréncia na idéia de ser feito para ser livre, e tem pouca preocupagdo com a idéia de que qualquer pessoa cuja acdo é provocada nao pode ser livre ao realizar essa ago. Além disso, como nés observamos brevemente acima, parece que 0 pon- to de vista de “risco” da providéncia divina traz consigo a conseqiiéncia de que Deus estd no tempo, e dessa forma ele nao seria eterno, pois um Deus cujo conhecimentoe propésitos sio modificdveis pelas livres decisdes hu- manas deve estar no tempo, pois qualquer modificagao deve ser feita no tempo. Essa conseqiiéncia é certamente reconhecida e bem-vinda, por exem- plo, por Swinburne e Lucas. Os beneficios da visio de “tisco” podem ser desmantelados 4 presenga de um sé fator — uma posig4o ndo-determinista da livre vontade, uma visio de liberdade que d4 um poder individual, em iguais circunstancias, tanto ao ato quanto ao nao-ato, como ele ou ela escolhe. Tem sido geralmente afirmado que tal ponto de vista sobre a liberdade é incoerente, e, logicamente, nesse caso os beneffcios que pudessem advir 47 A Providéncia de Deus desse ponto de vista seriam perdidos. Eu no vou afirmar que tal opinizio sobre a liberdade humana seja incoerente, mas darei continuidade a ques- tao, em capitulos subseqiientes, ao debate sobre se tal compreensio da liberdade € necesséria para a responsabilidade humana na forma em que seus defensores afirmam. CONHECIMENTO MEDIO Até aqui nés apresentamos a posigfo de “risco” (apoiada sobre uma visio n&o-determinista da liberdade humana) e a posigdo “isenta de risco” como alternativas excludentes, Mas elas podem nao ser excludentes. Pode ser possi- vel combinar a forte posigaio da liberdade humana com a posi¢do da providén- cia divina isenta de risco. Se tal combinagao for possfvel, ela, certamente, aos olhos de muitas pessoas, representard a melhor opgao possivel: uma forte vi- sdo da providéncia e uma forte ¢ nao-determinista visao da liberdade humana. Uma sutil e ambiciosa forma de tentar conciliar a posi¢ao “‘isenta de risco” da providéncia coma idéia de uma ago humana nio-determinista foi feita pelo tedlogo jesufta Luis de Molina (1535-1600). Sua opiniao foi recentemente revivida por Alvin Plantinga e tem recebido novae intensa atengao."* A idéiado conhecimento médio pode ser brevemente explicada da seguinte forma. Como nés podemos entender a idéia da onisciéncia de Deus, a idéia de que Deus conhece toda a verdade? Uma forma util é prestar atengio aos tipos de verdade que existem para Deus conhecer. H4, primeiramente, ver- dades necessdrias, Por exemplo, as leis da légica e da aritmética sdio verda- des necessarias. Tais verdades nao podem ser falsas. Tais verdades no de- pendem de Deus querer que elas sejam verdades; ele as conhece como ver- dadeiras porque ele é onisciente. Entio ha uma mirfade de verdades que sao verdadeiras porque Deus quer que seja assim. Por exemplo, Londres é a capital da Inglaterra, e a batalha de Hastings foi travada em 1066. Essas, e todas as verdades se- melhantes, sio verdadeiras em virtude do fato de que Deus quis que elas fossem verdadeiras, Se Deus nao as tivesse livremente desejado, entao elas nao seriam verdadeiras, Por essa razdo, seu conhecimento sobre elas é cha- mado de conhecimento livre. Elas aconteceram como resultado da livre deciséio de Deus. Deus nao conhece essas verdades em um tempo depois de deseji-las, mas ele as conhece ao deseja-las, e nao da forma como nés conhecemos muitas de nossas agGes ao fazé-las. 48 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? Além desses dois tipos de conhecimento, h4 também o conhecimento que Deus tem das possibilidades que ele nao deseja, mas que existem como pos- sibilidades abstratas. Por exemplo, Bognor Regis é a capital da Inglaterra, e abatalha de Hasting foi travada em 1660. Entre essas possibilidades abstra- tas, ha proposigdes condicionais, Por exemplo, Se Bognor Regis fosse a capital da Inglaterra, Londres teria menos de um milho de habitantes. Outro exemplo: se Jodo tivesse se casado com Joana, eles teriam tido trés filhos. 0 conhecimento que Deus tem de tais possibilidades tem sido chamado de conhecimento médio, um conhecimento a meio caminho entre 0 conheci- mento que Deus tem de verdades necessérias e 0 seu conhecimento li A Biblia dé exemplos do conhecimento que Deus tem de tais possibilida- des, Duas passagens biblicas so particularmente famosas nessa discussio: 1Samuel 23.7-13 e Mateus 11.20-24. O que a primeira passagem deixa claro é que Deus sabia que se Davi continuasse na cidade de Queila, Saul o alcangaria, e que se Saul chegasse a Queila os homens da cidade lhe entrega- riam Davi. O que Jesus afirma na passagem de Mateus é que, se suas pode- rosas obras tivessem sido realizadas nas impenitentes cidades de Tiroe Sidom, elas teriam se arrependido. A partir desses dados nao pode haver divida do fato de que Deus possui oconhecimento médio, o conhecimento de possibilidades que nunca aconte- ceram. Deus sabia o que teria acontecido se Davi tivesse permanecidoem Queila, mas Davi no permaneceu em Queila. Cristo sabia o que teria acon- tecido a Tiro e Sidom se suas poderosas obras tivessem sido realizadas ali, mas suas obras nao foram realizadas ali. Deus, entio, em sua onisciéncia, conhece proposigdes que podem nao ser falsas, e proposigdes que podem ser falsas, mas sdo verdadeiras. Ele também conhece proposi¢ées que podem ser verdade, mas que de fato nao sao verdade, como as que se referem a Davi e Queila e as que se referem a Tiro, Sidom e as obras poderosas de Cristo. E a partir desse vasto leque de possibilidades que Deus deseja o mundo real, o mundo em que eu e vocé habitamos. Deve ser afirmado que tudo isso € terreno comum tanto a Molina quanto a seus oponentes, Todos os lados aceitam a idéia do conhecimento médio de Deus. O que é distintivo na visdo de Molina é que ele afirma que entre as proposi¢des condicionais que Deus conhece esto aquelas que indicam 0 que aconteceria se um individuo realizasse uma agio livre (i.e., nao- determinista). Ele conhece, porexemplo, mirfades de proposigdes do tipo: 49 A Providéncla de Deus (A) Na circunstancia C, se Aline livremente escolhe entre X e Y, ela escolhera Y. E, Molina afirma, é porque Deus conhece todos os resultados de todas as escolhas possfveis que as pessoas fazem, que ele é capaz de criar ~realizar— exatamente aquelas possibilidades que sao necessérias a ele para alcangar seus propésitos, e que envolvem escolhas livres e nao-determinadas. Por- tanto, as livres escolhas das criaturas sio compativeis com o perfeito pré- conhecimento de Deus e com sua providéncia isenta de riscos. Como William Lane Craig, um defensor do conhecimento médio, tem dito: J& que Deus sabe o que qualquer criatura livre faria em qualquer situagao, ele pode, ao criar a situagdio adequada, fazer com que essas criaturas realizem seus propésitos de forma que elas ajam livremente.” ‘Vamos ver como isso acontece em detalhes tomando um exemplo trivial, mas concreto. Suponhamos que, entre as proposig6es que Deus conhece, estejam as seguintes proposi¢des condicionais: (A) Somente se Aline estiver sob a circusntancia C e for livre para escolher entre A e B, cla escolherd A. (B) Somente se Aline estiver sob a circunstancia C* e for livre para escolher entre A ¢ B, ela escolherd B. Suponhamos que Deus queira que Aline escolha B. Nesse caso, Deus claramente produziré a circunstancia C*. Hé uma grande dificuldade, porém, com essa suposigio. E que estamos supondo que Aline seja indeterminadamente livre. Como ela é indeterminadamente livre, ela tem o poder, em um determinado conjunto de circunstancias, de escolher qualquer uma de um nimero de alternativas aber- tas diante de si. Como dizem os defensores do conhecimento médio, qual alternativa Aline escolherd depende somente dela, e nao de Deus. Se é assim, ent&o Deus nao pode saber que (A) ou (B) é verdade. E como ele nao pode saber que (A) € verdade, entio ele nfo pode realizar (A) como um todo. Ele pode realizar Aline, ¢ ele pode realizar a circunstAncia C. 50 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? Oque ele nao pode realizar é Aline livremente escolhendo (A) na circunstan- cia C, pois se Aline vai escolher ou nao fazer (A) quando surgir a circunstan- cia C é algo que cabe somente a prépria Aline. Os proponentes do conhecimento médio apresentam o seguinte quadro sedutor da relagdo de Deus com varias possibilidades condicionais. E como se Deus tivesse diante de si inumerdveis arquivos. Cada um desses arquivos éconsistente e completo. Cada um representa um possivel segmento do uni- verso. Deus vistoria todos os arquivos e seleciona aqueles que, juntos, for- mam esse universo que, em sua sabedoria e bondade, ele deseja trazer 4 existéncia. Entre os arquivos esto aqueles que contém referéncias as livres ag6es humanas em certas circunstancias. Deus realiza esses arquivos que se referem a circunstancias que, se os individuos forem a elas submetidos e agirem livremente, escolherio de acordo com o fim que Deus quer alcangar. Assim, eles dizem, a liberdade humana é preservada, e uma providéncia isenta de riscos também é preservada. A forga do ponto de vista do conhecimento médio é que ele apresenta ouniverso, e inumerdveis outros universos possiveis, como j4 possuindo seu curso, embora em forma condicional. Do resumo total de todas essas condigées, Deus seleciona (ele realiza) algumas delas para realizar o uni- verso. O universo nao pode, por causa da forga da liberdade endossada por Molina, ter uma forma sombria, uma forma de tipo puramente condi- cional, que é a imagem em espelho de como 0 universo ser4 quando for real, pois como ele sera quando ele for real depende, pelo menos em parte, das livres agdes de agentes que sao reais, uma vez que Deus deci- diu criar o universo. Nés nao devemos nos deixar seduzir por esse quadro. Deus niio poderia conduzir 0 curso dos eventos dessa forma, j4 que todos os individuos do universo real possuem liberdade nao-determinada. As circunstancias nunca asseguram a realizacao de uma determinada livre-escolha. Elas apenas pro- videnciam as condi¢Ges para a livre escolha de uma das varias possibilida- des. Portanto, Deus nao poderia “fracamente realizar” certos resultados. Ele no poderia usar seu conhecimento sobre o que uma criatura faria sob certas circunstncias para alcangar um fim desejado. William Lane Craig, em uma exposigio particularmente clara dessa po- sigdo, distingue trés “momentos” légicos na realizagaio do mundo. O se- gundo desses momentos corresponde ao conhecimento médio de Deus. Craig afirma que: St A Providéncla de Deus No segundo momento, que corresponde ao conhecimento médio de Deus, estdio aqueles aspectos do mundo real que s4o conjuntos de assuntos referentes ao que as criaturas livres fardo em qual- quer conjunto de circunsténcias. Por exemplo, nesse segundo momento 0 conjunto de assuntos “se Marcos estivesse sob a cir- cunstancia C, entio ele livremente realizaria a agdo X”, é real. E claro que nem Marcos nemas circunstancias existem ainda, exceto como idéias na mente de Deus. Contudo, se Marcos for realizado por Deus e colocado sob a circunstancia C, entao ele livremente realizar a ago X. Dessa forma, 0 conjunto de assuntos que sio expressos pela verdade contrafatual referente as decisGes livres tomadas pelos seres humanos jé é real nesse segundo momento. Muito embora nesse momento 0 mundo real em toda a sua pleni- tude ainda nio exista, certos aspectos dele j4 existem, a saber, os conjuntos de assuntos logicamente necessArios que correspondem as verdades contrafatuais referentes a liberdade das criaturas.”! Dessa forma, Craig afirma que, antes de Deus decidir criar o mundo, todas as caracterfsticas do mundo que ele estava prestes a criar, incluindo todos os resultados das livres decisdes de suas criaturas, j4 estavam presen- tes em sua mente. Tudo o que Deus teve que fazer ao criar o mundo foi fazer com que essas realidades especificas (que existiam em sua mente) existis- sem de fato. Mas é exatamente esse quadro da relagiio de Deus com as possibilidades que deve ser resistido porque, devido a liberdade humana nao-determinada, ele nio pode ser verdade. Como William Hasker argu- menta, ao criticar esse ponto de vista: “como um agente é genuinamente livre, nao hd verdades contrafatuais que o agente definidamente faria sob varias circunstancias possfveis”.” A fonte dessa confusdo pode estar na falha entre distinguir possibilidades abstratas e realidades concretas. Ha, na mente de Deus, conjuntos de possi- bilidades abstratas como, por exemplo, a idéia de uma certa pessoa possivel, Aocriar uma pessoa real, contudo, Deus cria todas as forgas fisicas e psico- légicas dessa pessoa, e muito mais do que isso. A criagiio nfo é como a abertura da porta da jaula de um leo, é a chamada do ledo a existéncia.” Nés também podemos ser induzidos ao erro por uma analogia extrafda da conclusao oposta. Nés freqiientemente dizemos que conhecemos nossos amigos de forma que nés definitivamente sabemos 0 que eles escolheriam emum dado 52 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? conjunto de circunstncias. Se nés sabemos, seguramente Deus pode saber? Masisso é esquecer nao somente que o conhecimento de Deus ¢ infalivel, mas também que nossos amigos so genuinamente livres, o que significa que,em qualquer conjunto de circunstAncias, eles so livres para escolher o curso oposto daquele que, com base na experiéncia passada, eles de fato escolheriam, Ha entio possibilidades — sobre o resultado de escolhas livres nao-deter- minadas ~ que Deus nao conhece completamente. Portanto, ele nio pode prever todas as possibilidades com respeito a livre escolha de uma pessoa. E assim, como seu conhecimento médio de tais escolhas livres é necessaria- mente incompleto, ele nao pode exercer um controle providencial isento de “risco” sobre sua criagdo através de seu conhecimento médio. Nés comegamos essa discussdo fazendo referéncia a onisciéncia de Deus. Mas aonisciéncia de Deus é limitada por aquilo que é conhecfvel. Se Aline é livre de forma indeterminada, entfo no é conhecfvel, nema Deus, nem ands nem a qualquer outro observador o que Aline far quando, em um dado conjunto de circunstancias, ela for confrontada com uma escolha. Isso de alguma forma envolve um limite sobre a onisciéncia de Deus? Nés estamos dizendo que ha verdades que Deus nao pode conhecer? Diferentes respostas tém sido dadas a essa quest&o. Swinburne, como nés vimos, cré que Deus livremente nega a si mesmo 0 conhecimento daquilo que ele pode- ria conhecer, Outros argumentam que até Aline, como um agente livre, real- mente toma decisées livres, e por isso nao hd nada para saber. Ecomo niio hé nada para saber, nao hd nada para Deus saber. Dessa forma, em vez do conhecimento médio ser uma forma de conciliar a onisciéncia divina (e a pré- ordenagiio) com a liberdade humana, nds devemos concluir que a liberdade humana limita 0 escopo da onisciéncia divina, Tais conjuntos de assunto nao impedem que Deus faga uma suposigao bem fundamentada, uma suposi¢ao habilidosa, sobre o que Aline provavel- mente fard. Talvez, sob a circunstancia C, muito provavelmente Aline faca A. Mas oconhecimento de tais probabilidades corréi a infalibilidade que é clas- sicamente atribufda a Deus, e que os proponentes do conhecimento médio certamente desejam que ele continue possuindo.* UMA ANTINOMIA? Oapelo ao conhecimento médio é ambicioso. Ele tenta preservar tanto a liberdade nao-determinista quanto uma providéncia isenta de risco, que se 53 AProvidéncia de Deus estende sobre todas as agGes particulares. Pode-se dizer que abordagem que nés vamos considerar agora tenta alcangar o mesmo resultado, mas através de meios diferentes e mais modestos. E reconhecido por todas as partes que a relagdo entre a ago divinae as acdes humanas € incompreensivel — nao que seja impossivel entender algu- ma coisa sobre essa relagio, mas que nés nunca podemos esperar compreendé-la plenamente ou explicar como € possivel preservar tanto a so- berania e a independéncia de Deus quanto a responsabilidade humana, Os proponentes do conhecimento médio sem dtivida reconheceriam isso, assim como os proponentes de outras posiges que serao consideradas mais tarde. E possivel argumentar, contudo, que o tema da soberania divina e da responsabilidade humana € to dificil que é imprudente empreender os esfor- gos necess4rios para adquirir até mesmo um modesto entendimento dele, Em vez disso, nds devemos simplesmente aceitar que as Escrituras ensinam tanto uma quanto a outra. Em Evangelizagao e Soberania de Deus, J. I. Packer mostra 0 efeito dessa posigao ao chamar a divina soberania e a responsabilidade humana de antinomia. O ponto bdsico da antinomia — pelo menos na teologia — € que nao se trata de uma contradigo real, embora assim parega. Mas trata- se apenas de uma incompatibilidade aparente entre duas verdades evidentes. D4-se uma antinomia quando dois princfpios sao postos lado a lado, aparentemente inconcilidveis, mas ambos inegaveis. Existem razdes convincentes para que se creia em ambos; cada qual repousa sobre evidéncia clara e s6lida; mas € um mistério que possam estar em harmonia uma com a outra. Percebe-se que cada qual deve ser verdadeira isoladamente, mas nao se pode entender como podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.” Ohomem é umagente moral respons4vel, embora também divinamen- te controlado; o homem é divinamente controlado, embora seja tam- bém um agente moral responsAvel. A soberania de Deus é uma reali- dade, e igualmente é uma realidade a responsabilidade humana A antinomia com que nos defrontamos agora é apenas uma den- tre as varias contidas na Bfblia. Podemos estar certos de que to- 54 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? das elas estdo plenamente harmonizadas na mente ¢ no conselho de Deus, e podemos esperar que haveremos de compreendé-las nos céus. Nesse {nterim, nossa sabedoria deve sustentar, com igual énfase, ambas as verdades aparentemente em conflito em cada caso, mantendo-as juntas na relagdo estabelecida pelas préprias Escrituras, reconhecendo que hé um mistério que no podemos esperar resolver neste mundo.” Ainda hé4 coisas que merecem ser observadas sobre essas posigées. Em primeiro lugar, em termos de categorizagao basica que nés estamos usando nesse capitulo, Packer est4 assumindo uma posigio “isenta de ris- co” com relago a providéncia divina. Isso estd claro a partir de suas afir- magées de que o homem é controlado por Deus, e também a partir do fato de que ele reconhece que hd um problema agudo aqui. Nao haveria pro- blema se ele estivesse pronto a diluir suas alegaces sobre 0 controle divi- no. E somente por causa desse controle (e por causa da responsabilidade humana) que hd um problema em primeiro lugar, O que Packer est dizen- do, de fato, é que, j4 que a providéncia divina € isenta de risco, é impossi- vel ver como ela pode ser conciliada com o fato de que os seres humanos so responsdveis por suas agdes. Deacordo com Packer, a dificuldade em conciliar a soberania divina com a responsabilidade humana é devida a nossa ignorancia. E importante obser- var que ele nao est4 afirmando que a dificuldade surge por causa de alguma contraditoriedade bdsica entre a natureza da soberania divina e da responsa- bilidade humana. Ele nao estd afirmando que as alegagdes de que Deus é soberano e de que homens e mulheres sio responsdveis sejam logicamente contradit6rias —como a afirmagéio de que Eduardo est 4 esquerda de Daniel e Daniel est 4 esquerda de Eduardo. Pelo contrario, ele esta enfatizando que a soberania de Deus e a responsabilidade humana devem ser consisten- tes, j4 que ambas sao verdadeiras. O ponto é, ent&o, que de nosso atual ponto de observagio, nés ndo conseguimos ver como elas sdo consistentes. HA diferentes tipos de ignorancia. Eu posso conhecer seu nome e nfo conhecer seu ntimero de telefone. Essa minha ignordncia é, contudo, facil- mente solucionada, pois eu posso procurar seu nimero de telefone em um catdlogo telef6nico, Mesmo que seu ntimero nao esteja no catélogo, eu pos- so obté-lo perguntando a vocé. Podemos chamar essa ignorncia de igno- rancia contingente. 55 A Providéncia de Deus Essa ignorAncia contingente pode ser contrastada com a ignorancia ne- cessdria, Nés nao sabemos qual visio um camaro tem de uma craca, ou 0 que é ser um morcego. Isso acontece porque nés nao somos camardes ou morcegos, isto 6, nés necessariamente no somos camarGes ou morcegos. Da mesma forma, € impossfvel para nds saber 0 que é ser como Deus ¢ ter sua visio atemporal de sua criagdo. Hé inumerdveis assuntos sobre os quais nds somos necessariamente ignorantes. Packer nem mesmo est afirmando que entre as coisas das quais nés somos necessariamente ignorantes estd o reconhecimento da consisténcia do controle soberano de Deus sobre os seres humanos e sua responsabilidade pessoal. Ele expressa a esperanga de que, no céu, os cristiios entendam cada antinomia que lhes foi apresentada na Biblia, inclusive a antinomia da sobera- nia divina e da responsabilidade humana. Packer parece estar dizendo que nossa ignorncia, embora nao seja absolutamente necessaria, é necessdria nesta vida. Isso acontece porque hd dados relevantes a conciliagio da antinomia que nos sao ocultos, ou porque nossas faculdades de compreen- so sao de alguma forma restritas nesta vida (ou ambas as razdes). Eo que nés podemos dizer sobre a proposig¢ao de Packer de que nés devemos confessar tanto a providéncia divina isenta de risco quanto a res- ponsabilidade humana, admitir nossa ignorancia e deixar a questo de lado? Essa sugestao tem varios pontos positivos. Ela nada sacrifica em termos de posigdes que os cristdos devem manter sobre essa questao, Nao hi limitagdes tedricas nem consideragées fora de qualquer posigao especifica. Na constru- ¢o da doutrina crista ha sempre o perigo de racionalismo, de imposigao a priori de algum princfpio sobre os dados com os quais a doutrina est4 sendo construfda, de restrigfo de uma doutrina Aquilo que nés entendemos sobre ela. Aproposta de Packer evita esses dois perigos. Ao mesmo tempo —e esse € 0 segundo de seus pontos positivos — Packer pode levar em conta toda a gama de dados da Escritura de forma desinibida, deixando de lado qualquer dificul- dade que a consideragao de tais dados possa levantar até que, no céu, nés tenhamos as faculdades necessdrias ou os dados adicionais, ou ambos. Essas so vantagens considerdveis. Mas também hé algumas desvanta- gens. Como nés vimos, Packer afirma que certas doutrinas bfblicas constitu- emantinomias. Mas como ele determinaa existéncia de uma antinomia? Packer diz que ela é “exigida pelos préprios fatos”*, Mas como nés podemos esta- belecer a diferenga entre fatos que sio muito dificeis de conciliar e fatos que so de carter antinémico? Claramente nao é suficiente dizer que no primeiro 56 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? caso 0s fatos nao exigem uma conclusao antinémica, enquanto no outro caso exigem. Packer disse que certos dados constituem uma antinomia, mas 0 processo de raciocfnio nao estd claro. Sejam quais forem os detalhes desse raciocinio, para que seja justificado ele precisa ter uma afirmagao de que todos os passos racionais foram dados para conciliar os dados da soberania de Deus com os dados da responsabi- lidade humana e falharam. O ndmero de tentativas frustradas de conciliagao deve ser suficientemente grande para gerar a conclusao, sobre fundamentos indutivos, de que é razodvel crer que as duas afirmagées sao de cardter antinémico. Mas tal investigagao jé foi feita? A segunda dificuldade talvez seja ainda mais séria. Packer distingue entre uma antinomia e uma autocontradi¢ao de coeréncia ldgica. Uma antinomia é uma aparente inconsisténcia, e nao uma real inconsisténcia. Mas é uma apa- rente inconsisténcia que, nesta vida, nés nao seremos capazes de solucionar. Nao hd forma de realizar uma conciliagao, e nés sabemos disso. Mas entao, nessas circunstncias, qual é a diferenga entre uma aparente inconsisténciae uma real inconsisténcia? Como nés podemos saber que aquilo que chama- mos de antinomia nao é, na verdade, uma inconsisténcia real? Packer, presumivelmente, apelaria 4 Escritura para responder a essa ques- tao. Ele poderia argumentar que, j4 que tanto a soberania de Deus quanto a responsabilidade humana sio ensinadas na Escritura e siio verdades divina- mente reveladas, elas devem ser consistentes, j4 que a verdade é uma s6. Nada que seja revelado por Deus pode ser inconsistente com outra verdade que seja também divinamente revelada, mas muitas dessas verdades pare- cem, aos nossos olhos, ser inconsistentes. O problema com essa resposta é que ela é muito permissiva. Durante a histéria do Cristianismo quase nfo ha limites para o nonsense que tem sido crido porque ele, alegadamente, possui carater biblico. Nao hd diivida de que as doutrinas da providéncia divina e da responsabilidade humana sao caracteristicamente biblicas, de uma forma que outras doutrinas nao o sao. Contudo, a luz daquilo que tem acontecido na histéria, pode-se pensar que algumas tentativas devem ser feitas para mostrar sua consisténcia. De fato, até mesmo o breve tratamento de Packer sobre esse assunto, ¢ apesar do que ele diz sobre simplesmente aceitar a antinomia, ha tragos de uma tentativa de prover alguns desses raciocfnios. Dessa forma é interessante, e até mesmo muito importante, que Packer niio faleem termos de liberdade humana, mas de responsabilidade. Nem mesmo hé algoem seu apelo a idéia de antinomia 57 A Providéncia de Deus que possa impedi-lo de argumentar que a soberania divinae a liberdade humana nao-determinista constituem uma antinomia. Ele se satisfazem fazer referéncia somente a responsabilidade, e nada diz sobre as condigGes da responsabilidade humana. Assim, embora apelar a uma antinomia possa ser uma licenga para a aceitagiio de um nonsense (ou, para ser mais educado, para aceitar afirmagGes de uma natureza fortemente contra-intuitiva), Packer restringe seu uso. Deve ser enfatizado que esses comentarios criticos nao sao oferecidos como decisivos contra a abordagem de Packer. Seus atrativos permanecem, eos leitores devem decidir qual abordagem devem tomar. Contudo, devido A insatisfatoriedade teérica de se apelar a uma antinomia, deve-se fazer uma tentativa de discussao em um est4gio mais avangado. CoMPATIBILISMO és vimos muitas formas pelas quais uma providéncia isenta de risco tem. sido elaborada (notadamente ao se apelar ao conhecimento médio ou ao invocar-se a idéia de uma antinomia), e encontramos dificuldades com todas elas. No caso do conhecimento médio, a dificuldade é com a visio indeterminista de liberdade que seus proponentes adotam. No caso da idéia de antinomia, esté na postura teoricamente permissiva. Na hist6ria do debate sobre a liberdade e a responsabilidade humana, dois pontos de vista contrastantes tém sido identificados: liberdade ndo-de- terminada (&s vezes mencionada como liberdade de indiferenga), e liberdade determinada (as vezes mencionada como liberdade de espontaneidade). Como nés observamos, a atratividade da abordagem do conhecimento mé- dio estd no pressuposto de que a liberdade humana exige a liberdade de indiferenga. De forma oposta, a perspectiva de antinomia pressupée a liber- dade de espontaneidade. De acordo com essa perspectiva, as pessoas rea- lizam agGes livres quando fazem o que querem fazer, néo quando elas tém poder autocausativo, ou qualquer outro tipo de verstio nao-determinada, isto é, elas niio so constrangidas nem compelidas em suas ages, mas o que elas fazem, fazem-no desimpedidamente a partir de suas préprias vontades, de- sejos e preferéncias, objetivos e gosto. A grande vantagem dessa concepgiio da liberdade humana é que, sendo compativel com o determinismo, ela é também compativel com uma pers- pectiva plena da onipoténciae onisciéncia de Deus, e, dessa forma, também com uma compreensio da providéncia isenta de risco. Possiveis desvanta- 58 Providéncia: Arriscada ou Isenta de Risco? gens repousam nas reas da responsabilidade humana e do problema do mal. Nés vamos tentar manusear essas dificuldades em capjtulos posteriores. Talvez seja suficiente, nesse ponto, indicar o pressuposto sobre o qual a discussio subseqiiente ser realizada. Nio é necessario dizer que a politica de tomar uma posigao, mantendo- se nela e seguindo através de suas conseqiiéncias nao pretende constranger oleitor. Os autores naturalmente esperam que, quem quer que leia seus li- vros, acabe sustentando posigdes correspondentes aquelas apresentadas neles. Mas mesmo que meus leitores nfo aceitem uma providéncia divinaisenta de risco e a viséo compatibilista da liberdade humana e o determinismo que eu creio ser mais compativel com ela, o importante é que os leitores se expo- nham as evidéncias que lhes s%o apresentadas. Cada uma das posigées discutidas (conhecimento médio, antinomia e compatibilismo) é consistente com a providéncia divina isenta de risco. Cada posigdo tem suas préprias forgas e fraquezas, que tém repercussdes em outras dreas da teologia cristi. Seguindo esse estudo como ele traga algumas das repercussées do compatibilismo, o leitor naio deve ter dividaem manterem mente as outras posi¢Ges como alternativas. Espero que a discussdo desse capftulo torne mais facil para os leitores, se eles discordarem da linha mestra de argumentagao, a realizacao dos ajustes necessérios para que, até o fim da ex- posigao, eles tenham desenvolvido sua propria perspectiva sobre a providén- cia divina, uma perspectiva que eles creiam ser crist&e defensdvel.” 59 3 O EsQuema TEOLOGICO No primeiro capitulo, nés apresentamos trés contextos nos quais podem surgir questées sobre a providéncia de Deus, a ag&o de Deus agora. Esses trés contextos sdo a orientago pessoal, a vida e a histéria da Igreja crista, e a natureza da relagdo de Deus com o mundo. E ébvio que 0 titimo desses contextos € o mais geral e o mais b4sico dos trés, ¢ por isso nds devemos considera-lo em primeiro lugar. Os outros dois contextos pressupGem acon- siderago da relago de Deus com o mundo. O carter exato desse relacio- namento claramente dar a diregao para o carter dos outros dois contextos. Por exemplo, se ficar estabelecido que a relagao de Deus com o mundo € tal que os milagres so tanto imposs{veis quanto desnecessérios, isso tera um. importante efeito sobre como 0 cuidado providencial de Deus pode ser en- tendido. Da mesma forma, se ficar estabelecido que o relacionamento de Deus com 0 seu universo é totalmente indiferente, ento a orago intercesséria nao tomar4 qualquer parte na orientagao pessoal. As vezes se supde que a questo da relagdio de Deus com o universo é cientffica e pode ser tratada pela cosmologia. Se os cientistas puderem des- cobrir se a origem fisica do universo é devida ao Big Bang ou se o universo existe em um estado fixo, entio, acredita-se, nés estaremos mais proximos de explicar o relacionamento entre Deus ¢ 0 universo fisico, AProvidéncia de Deus # fundamentalmente importante, nado somente para 0 contetido desse ca- pitulo, mas para todo 0 conceito de providéncia divina, deixar claro por que isso é assim. Se a relagdo de Deus como universo fisico puder ser entendida cientificamente, entéio Deus seria parte do universo fisico. Investigar Deus e 0 universo seria como investigar a relagdo de um planeta com outro, ou de uma galaxia com outra, ou o relacionamento de qualquer ente fisico com qualquer outro ente fisico. Mas, de acordo coma Escritura, Deus nfo € uma parte do universo fisico, um individuo que pode ser entendido como uma imensa fonte de poder fisico, Em vez disso, Deus é 0 Criador de todo 0 universo fisico. Ele nao é uma parte do universo, mas o seu autor, Na linguagem da teologia, Deus transcende 0 universo. Alguns assuntos ocupam uma grande soma de espagoe uma grande soma de tempo. Outros ocupam menos. Mas nfo faz sentido perguntar em que lugar do espago e do tempo est 0 universo. Isso seria supor que 0 universo éuma parte de uma dimensio fisica ainda maior. A idéia de que o universo comegou a existir em algum momento no tempo sugere que houve eventos ocorrendo antes da criagao do universo. Mas se tais eventos ocorreram, eles seriam uma parte do universo, e nao uma parte separada dele. Isso também se aplica a criagdo. Se o “principio” mencionado em Génesis 1.1 se refere 4 criagdo de todo o universo fisico, ele nfo pode se referira um evento, como o come¢o de uma partida de futebol ou o comego de uma mo- léstia. Tais comegos pressupdem espaco e tempo. Eplausfvel supor, contudo, que, na criagao do universo, 0 préprio espago eo préprio tempo foram cria- dos, pois eles se relacionam com o que foi criado. Como Agostinho disse: A forma, Deus, como tu fizeste 0 céu e a terra, nao foi aquela pela qual tu fizeste no céu ou na terra. Nem est4 no ar nem na dgua, pois isso pertence ao céu e a terra. Nem tu fizeste o universo dentro da estrutura do universo. Nem foi em nenhum outro lugar, pois ele foi feito antes de ser trazido & existéncia.' Dessa forma, quando nés dizemos que Deus existiu antes do universo, 0 “antes” nao é temporal, mas hierdrquico. Isso significa algo como: 0 universo podia no ter existido, e depende de Deus para sua existéncia, mas Deus nado depende de nada para sua existéncia. Dessa forma, a questio da relagio de Deus com o universo nao €é uma questo cientifica. Entio que tipo de questo ela é? Euma questio metafisica 62 O Esquema Teoldgico ou ontolégica. Para a consideragao desse tema, nés estamos fazendo ques- tées fundamentais sobre a natureza do ser ou da realidade, questdes até mesmo mais fundamentais que aquelas feitas por fisicos e quimicos. A tarefa do fisico ou do quimico é analisar o cardter fisico do universo, suas proprie- dades fisicas basicas e sua hist6ria. As questes ontolégicas se referem ao relacionamento de um tipo de ser com outro ou outros. Dessa forma, uma das disciplinas mentais que tem que ser cultivada no tratamento dessas ques- tées é evitar os modos fisicos de pensar, ou pelo menos aceit4-los para aqui- Jo aque eles se destinam ~ analogias e modelos que somente de forma im- perfeita, e algumas vezes equivocadamente, representam a verdade. Mas se a idéia de criag&o nao é cientffica, ela também nfo é mitica. O cristo deseja afirmar que é verdade que 0 universo foi (ou €) criado por Deus. Mas se isso é verdade, entio nao pode ser um mito, pois 0 mito, pelo menos na compreensio central da palavra, nao é verdadeiro nem falso. 0 mito é um orientador de idéias, que pode ser aceito ou rejeitado de acordo com sua utilidade ou pode ser inspirativo de alguma forma. A quest@o da criagdo do universo é verdadeira ou falsa. Ela é, portanto, algo que poder ser conhecido em principio. Se isso é verdade, ent&o Deus a conhece, e outros também podem conhecé-la. PANTE{SMO E DEisMO Hé relativamente poucas formas poss{veis pelas quais a relagaio de Deus com 0 universo pode ser compreendida. Uma delas, o pantefsmo, é muito interessante, e de tempos em tempos tem sido influente. Contudo, essa nao € uma posi¢io que possa ser aceita pelo Cristianismo. A visdo pantefsta é de que o universo é Deus. Tal ponto de vista nao é aceitavel ao cristo porque nega a distingdo entre Deus e 0 universo, e anula a idéia da criagdo, pois uma das caracteristicas fundamentais da criagdo € que as criaturas sao distintas de seu Criador, e dependem dele para sua existéncia. Essa distingio pode ser expressa da seguinte forma: um objeto é ontologicamente distinto de Deus se houver pelo menos uma propriedade que Deus possui ¢ 0 objeto niio possui, ou vice-versa. E verdade que todos os objetos sao considerados por nds como tendo sido criados. Por exemplo, Deus infinitamente bom, mas nem mesmo 0 santo mais puro é tio bom. O santo mais puro ocupa uma regio particular no espago, mas Deus ndo ocupa regides no espaco, e nem pode ocupar. E 0 que é verdade sobre as proprieda- 63 A Providéncia de Deus des também 0 é sobre as agdes, Se 0 pantefsmo fosse verdadeiro e 0 universo fosse Deus, ent&o (presumivelmente) quando um individuo desse universo pra- ticasse uma aco, segue-se que Deus estaria realizando essa ago, ou talvez que essa agfio fosse (em algum sentido obscuro) praticada em Deus. Mas quando Neville Chamberlain tentou apaziguar Hitler, Deus nao apaziguou Hitler. E, quando Hitler se recusou a ser apaziguado por Chamberlain, Deus se recu- sou a ser apaziguado por Chamberlain. Nao, essas mudangas nao acontece- ramem Deus. E uma implicagio da doutrina crist da criagdio que Chamberlain ¢ Hitler eram dois individuos distintos, cada um criado e sustentado por Deus, e sob o controle providencial de Deus. Por essa raziio é que eles niio podem ser considerados como sendo idénticos a Deus, mas distintos dele. Talvez essa distingdo desponte mais vividamente no caso da responsabili- dade pelo bem e pelo mal —particularmente pelo mal, Embora Hitler tenha sido criado e sustentado por Deus e a sua carreira fmpia estivesse debaixo da supe- rintendéncia de Deus, quando Hitler pecava, Deus nfo pecava e niio podia pecar. Mas se o pantefsmo for verdadeiro, o que quer que seja atribuivel ao universo é atribufvel a Deus, Dessa forma, se no universo Hitler peca, entiio pelo menos nesse sentido Deus peca, ou pelo menos tem alguma imperfeigo. O pantefsmo nao somente nega a distingdo entre Deus e sua criagdo, ele também, obviamente, exclui a idéia de qualquer interagdo entre eles, pois é impossfvel que um ser interaja consigo mesmo. Por essas raz6es, mas principalmente porque desrespeita a idéia crista basica de uma distingio ontolégica entre Deus e sua criagao, o panteismo nao é uma opgao séria. As questées nao so melhores no caso do panentefsmo, a teoria de que 0 universo, embora no seja idéntico a Deus, é uma extensdo ou emanagao dele, Esse ponto de vista, associado mais proeminentemente a teologia do Pprocesso, preserva a distingdo ldgica entre Deus e sua criagiio, e por isso é distinto do pantefsmo. Para o panenteista, Deus ndo € idéntico ao universo. Contudo, o universo nao depende, para sua existéncia, da livre escolha de Deus, mas é uma inevitdvel emanagiio de sua bondade. Isso exclui qualquer interagdo entre o Criador e suas criaturas. Mas outra relagio possivel, o defsmo, tem se mostrado tremendamente popular e influente. O rétulo “deismo” é usado deliberadamente, mas é pre- ciso cuidado para compreendé-lo. Nao é facil extrair a posigfio defsta com relagdo ao relacionamento de Deus com o mundo a partir dos escritos dos deistas, esse grupo de filésofos religiosos livre-pensadores que floresceu na 64 O Esquema Teoldgico Inglaterra no século dezoito. Isso acontece porque eles tinham a tendéncia de adotar um método teolégico negativo. Eles eram contra a revelacio espe- cial e os milagres, e fundamentavam e eram fundamentados pelo surgimento daciéncia newtoniana. E pela extrapolagdo de suas posigdes expressas que aidéia defsta da relagdo de Deus com o universo deve ser entendida. Odefsmo afirma que Deus criou 0 universo de acordo com certas leis fisi- cas e que, pelo poder inerente com o qual o universo foi dotado na criagao, ele desde ent&o tem se comportado de uma forma regular, regido por essas leis. Deus poderia ter criado o universo de acordo com outras leis, mas as leis que elerealmente escolheu usar sublinham sua sabedoria. Como diz 0 filésofo Leibniz: Deus criou substancias e deu-lhes a forca de que precisavam, depois disso ele as entregou a si mesmas, e nada faz além de conservé-las em suas agdes,? A questao de se, de acordo com o defsmo, essas leis fisicas se estendem a todos os aspectos da criacio (inclusive os seres humanos) e se 0 universo, uma vez criado, continuaré existindo indefinidamente, siio temas que podem ser dei- xados de lado, O que é importante e interessante para nosso estudo é a idéia do universo ser dotado de certos poderes que tém persistido desde entéio. Nés examinaremos essa afirmagio de maneira critica mais adiante nesse capitulo. Deve-se observar que, sejam quais forem os seus aspectos que possam comprovadamente ter sido extrafdos da posi¢ao crist4, o defsmo é um pro- gresso considerdvel em relaciio ao panteismo. Ele afirma enfaticamente a distingao entre Deus e sua criagao. Isso resulta claramente na controvérsia defsta de que qualquer criatura é dotada com certos poderes ou proprieda- des, em termos dos quais ela age e interage com outras criaturas de forma regular. A questio nfo € se o desta insiste na disting&o entre Deus ¢ a cria- ao, mas se ele a enfatiza demais. ‘Vamos tentar entender mais exatamente o que o deista afirma através da consideragio de algumas ilustragdes, Se um jogador bate em uma bola de sinuca com 0 taco, entdo a forga comunicada pelo taco a bola garante que ela se moverd pela mesa em uma certa diregdo, a uma certa velocidade (a menos que algo, como um outro jogador, impega que isso acontega). Tudo o que é necess4rio para que a bola se mova € que ela seja atingida pelo tacoe que certas leis fisicas estejam e continuem em vigor. Devido a fricgao ea resisténcia de varios tipos, a bola diminui sua velocidade e eventualmente 65 A Providéncia de Deus para. O jogador, tendo atingido a bola, nao precisa de mais nada para ter certeza de que ela seguird uma certa trajet6ria. Depois que 0 jogador coloca abola em movimento, ele se torna apenas um espectador. Se nés supusermos (talvez de forma menos plausfvel) que o jogador tenha projetado e produzido a bola, o taco ¢ a mesa, ¢ (ainda menos plausivel) tenha de alguma forma estabelecido as leis de forga e movimento envolvidas na tacada e no movimento da bola, entio esse quadro seria um modelo do entendimento defsta sobre a relago de Deus com o universo. Deus é 0 originador e o primeiro motor do universo e de tudo o que ele contém. Tendo comegado o movimento, nao hd mais necessidade de que ele interve- nha para adaptar ou modificar o plano original — no hd necessidade de inter- vengao porque Deus nado somente tem o poder necessério para fazer tudo isso, mas ele é também suficientemente sdbio para organizar todas as coisas de tal forma que nenhuma intervengao seja necessaria (de acordo com os defstas). A questao nfo é que Deus possa nao intervir uma vez que aordem original criada tenha sido colocada em movimento, mas que, por té-la colo- cado em movimento de forma s4bia ¢ eficiente, nao hd necessidade de que ele intervenha para aumentar ou para corrigir 0 que fez. Por tras do defsmo ha, entao, tanto uma perspectiva especffica da relagao de Deus com o uni- verso fisico, quanto uma perspectiva especifica de seu cardter, Isso pode ser expresso de maneira mais formal da seguinte forma: Se um objeto criado O é dotado de poderes P, ento, a menos que Deus intervenha (e nao ha razao para isso), 0 objeto O, em virtude da conservagiio desse sistema por parte de Deus, ter4 poderes P em todos os momentos subse- qiientes de sua existéncia. Esse esquema é mais apropriado quando O é toda a criagio fisica, pois se O € um objeto dentro da criagdo, entdo qualquer esquema tem que permi- tir que O deixe de existir e que, antes que O deixe de existir, ele possa decair fisicamente e tornar-se mais fraco e menos potente, ou crescer e tornar-se mais forte. No é parte do defsmo afirmar que tudo 0 que € criado deixe de existir. A posigdo nfo afirma, contudo, que as coisas que deixam de existire que comegam a existir o fazem em virtude de mais poderes no universo, ¢ que esses poderes basicos séo um primitivo e continuo desenvolvimento do universo fisico. Portanto, se, como resultado do plantio de uma semente no solo, surge uma arvore, ento embora a arvore seja algo novo, os poderes fisicos em virtude dos quais a semente germinou e se desenvolveu sao uma parte do desenvolvimento original do universo. 66 O Esquema Teoldgico Quais sao as conseqiiéncias dessa posi¢ao para a idéia da providéncia divina? Se nés considerarmos possfveis doutrinas diferentes ao longo de um espectro, encontraremos dois extremos opostos. Um é 0 de que um deus, tendo criado 0 universo, nao cuida ou nado tem qualquer relagdo com seu destino, o que significa que o universo pode vir a degenerarem um caos. Por razdes Obvias, essa posigao nao pode ser considerada seriamente como uma op¢iio cristd. O outro extremo é o de um deus que, ao criar 0 universo, criou-o de tal forma que ele faz com que no seja necessdrio 0 exercicio de um cuidado ou uma superintendéncia dele. Essa é a posi¢ao deista, Mas essa posigao cria duas Areas de dificuldade para os cristaos. De acordo com a fé crist4, uma das formas pelas quais Deus age sobre sua criacdo é através dos milagres, que so ag6es diretas sobre a natureza fisica que no possuem precedente. Dessa forma, ocasionalmente, Deus faz com que as ondas do mar Vermelho se abram, a boca dos ledes permanega fechada, os corvos levem carne e, principalmente, ele levanta Cristo dentre os mortos. N6és temos mais a dizer mais adiante sobre 0 lugar dos milagres na providéncia, mas é importante observar que, na perspectiva deista, Deus nao tem necessidade de agir dessa forma. Um deista concordaria que, considerando de forma abstrata, Deus sem diivida tem poder para agir de forma miraculosa. Se ele tem poder para criar ouniverso, entio é plausivel admitir que ele tem poder para mudar o que foi feito. Apesar disso, de acordo com os deistas, Deus nao tem necessidade de agir miraculosamente, porque tal ato seria a compensagio de uma falta de previsdo ou de sabedoria de sua parte, algo inimaginavel para um defsta. Os milagres, por esse ponto de vista, sao reflex6es posteriores — ajustes e regulagens de uma maquina que, considerando-se o poder e acompeténcia de seu Criador, jamais deveria ser necessdria (pensadores como Leibniz, cujo pensamento apresenta aspectos deistas, admitem um lugar para os mila- gres, entendidos como parte da harmonia preestabelecida por Deus entre os reinos da natureza e da graga). Da perspectiva da fé crista, contudo, esse € um componente de um dogmatismo completo. Nao é apropriado argumentar, a priori, o que Deus fard e no faré com e na criagiio fisica, mas — como acontece com qualquer controvérsia—é necessdrio investigar o que Deus tem feito. A Igreja crista, aceitando o testemunho da revelagdo divina, afirma que Deus, de fato, tem agido de forma miraculosa. E j4 que ele tem agido de forma miraculosa, ele deve ter um bom motivo para isso. 67 A Providéncia de Deus Pode parecer que o deismo seja uma posigao de interesse puramente hist6rico. Mas, em suas Bampton Lectures; Maurice Wiles defende um ponto de vista que é notavelmente similar ao dos deistas. A posigdio pode ser rotu- lada de “deismo continuo”. O que a torna deista é que a relagaio de Deus com o universo é limitada a sua criagio. Wiles argumenta que Para © tefsta, que € necessariamente comprometido com uma perspectiva unitéria do mundo, todo o processo de trazer o mundo Aexisténcia, que ainda est4 em curso, precisa ser visto como uma agio criadora de Deus.‘ Como os dejstas, Wiles nao afirma que os milagres so inconcebiveis, Ele argumenta que é necessdrio “abandonar 0 conceito de milagre como uma forma distinta de causago divina direta” sobre fundamentos religiosos: se os milagres so considerados como intervengGes ocasionais de Deus, eles le- vantam a questio de por que Deus ndo intervém mais freqiientemente e mais crucialmente nos negécios humanos. N6s voltaremos a essa questo no tilti- mo capitulo sobre a providéncia e o mal. Mas Wiles também endossa a po- sigdo de Brian Hebblethwaite, que é: Nao deixa de ser razodvel supor que até mesmo a encarnagao tenha sido alcangada sem quebrar a estrutura do mundo natural.* Até aqui essa suposigao foi feita no terreno metaffsico, e parece re- pousar sobre uma confusio, H4 um sentido perfeitamente bom no qual o universo é unitério (uma agao de Deus), isto 6, no sentido de que ele procede de uma vontade ou decreto de Deus. Do ponto de vista de Deus, cada aspecto desse ato tinico é igualmente desejado e igualmente “natu- ral”. Tudo é parte de uma estrutura. Mas pode ainda ser que, quando medido pela experiéncia humana, alguns desses aspectos sejam ativida- des miraculosas, sem paralelo ou sem precedentes. Mas tais eventos, sem paralelo de um ponto de vista humano, nao so “intervengdes” no sentido de que sio um segundo pensamento de Deus, feito sob medida para uma necessidade de violar ou reparar os efeitos de seu primeiro pensamento. Como nés vimos brevemente, é um erro restringir os elementos da manu- tengao do universo pela parte de Deus a sua prontidao, ou a sua “inter- vencio” através da realizagao de milagres. 68 O Esquema Teoldgico ‘Uma segunda area de dificuldade se refere ao lugar da oraciio na provi- déncia divina. De acordo com a fé crista, Deus responde 4 oragio intercesséria. Isto é, certas coisas acontecem no universo somente porque pessoas pediram a Deus que elas acontecessem, e Deus se agradou em atendé-las. Se eles niio tivessem pedido, o evento em questio niio teria ocor- rido ou, pelo menos, se eles n&o tivessem pedido, nao haveria razo para se pensar que 0 evento teria acontecido. Um deista, contudo, (pelo menos se ele for consistente) nao encontraré lugar para tal oragdo intercesséria. A razao para isso j foi mencionada: supor que Deus poderia responder a uma oragao intercess6ria seria supor que Deus possa precisar fazer isso. Tal suposi¢ao é (de acordo com os defstas) inconsistente como podere a sabedoria de Deus, Se Deus é supremamente sdbio e poderoso, comoele pode precisar ser impelido por uma oragao a fazer algo que hé uma boa razAo para que se faga? Ou h4 uma boa razo para se fazer 0 evento pedido na oragao (nesse caso a ora¢iio € oca, pois Deus realizaria esse evento de qualquer forma), ou nfo h4 uma boa razdo para se fazer o evento pedido na oragao (nesse caso, orar para que o evento acontega é intitil, pois todas as oragGes exigiriam que Deus fosse menos sabio do que realmente é, o que ele nao pode ser). Mais uma vez, a razdo da atitude defsta repousa sobre uma vis&o a priori daquilo que Deus pode ou nao pode fazer, ou daquilo que € ou nao razodvel que Deus faga. A relagdo da oragdo com a providéncia divina levanta sérios problemas, aos quais nés daremos atengiio mais adiante. Mas nenhuma abor- dagem a tais problemas pode (como a “solugdo” deista propée) subverter a garantia que o cristao tem, extraida da Escritura, de que deve orar por certas coisas para que possa obté-las. Essa também nao parece uma objegio valida a idéia de eventos miraculosos, a objegio de que tais eventos levantem problemas de interpre- tagdo para seus observadores humanos, ou para alguém que tente comenté- los. A primeira questéio deve ser: “O que sao milagres?”. E a seguinte: “Os milagres podem acontecer?”. Depois disso é necessdrio perguntar se eles de fato ocorreram. Somente se e quando a Ultima questo for respondida de forma afirmativa, é apropriado entrar nas dificuldades que esses dados po- dem apresentar para a interpretagdo. A interpretacdo deve seguir os eventos em questo. Ela ndio pode determinar se esses eventos ocorreram ou nao. Talvez tenha sido dito o suficiente sobre o defsmo tanto para fornecer um sabor de sua esséncia quanto para indicar algo de sua extrema insatisfatoriedade para ocristio. 69 AProvidéncia de Deus AS ATRACOES DO DEiSMO Apesar de suas fraquezas, as formas defstas de pensar exercem uma con- siderdvel influéncia sobre a mente de cristdos que, contudo, nao subscrevem oracionalismo extremo do defsmo. O poder permanente do defsmo repousa sobre o fato de que ele apresenta a relagao de Deus com 0 universo em uma forma que pode ser facilmente pensada em termos humanos: 0 artista e 0 artefato, o engenheiro e a maquina, e assim por diante. Esse quadro pode ser apresentado nos seguintes termos: Deus existia e, entio, “no principio”, ele criou o universo fisico; Deus existia antes do universo fisico que ele criou. Dado que todas as nossas experiéncias sfio de agdes acontecidas no tem- po, é natural que nds pensemos em Deus criando o universo dentro do tem- po. Uma vez que nés fazemos isso, a menos que nés sejamos muito cuidado- sos, nds estaremos a apenas um passo da concepcfo defsta da relagdo de Deus com 0 universo. Estaremos tao perto do defsmo que ser4 necessério emitir formulagoes anti-defstas: “Deus nao abandonou 0 universo que ele criou”; “Deus ainda controla o universo”, e assim por diante. Na segunda afirmacao acima, 0 “antes” é temporal, e 0 “e ento” da primeira afirmagio também expressa uma relagiio temporal. Isso é totalmente agradavel ao defsta. Mas 0 defsmo é evitado, inclusive € feito impossivel, se 0 “antes” em “Deus existia antes do universo” é considerado como um “antes” ontolégico ou hier4rquico. Quando nés afirmamos que, em importancia constitucional, a Rai- nhaé antes do Primeiro-Ministro, esta claro que o “antes” nao é temporal, mas hierarquico. Deus é antes do universo, nao no sentido de que ele existiuemum. tempo antes que o universo fosse criado, mas no sentido de que ele é eterno, e independente do universo. O universo, ao contrrio, esté no tempo e é depen- dente de Deus. Nada existia antes (no tempo) do comego do universo, mas Deus existe eternamente, 0 universo existe por sua vontade etema. E verdade que muitos que niio sao deistas so “temporalistas”, e apdiam a posigfo de que Deus esté no tempo e que ele criou o universo em algum ponto do tempo. Eles afirmam que “o principio” nao tem cardter ontolégico, 70 O Esquema Teolégico mas temporal.* Contudo, tais pensadores nao encontram mais dificuldade que os “eternalistas” para evitar o deismo, e, como 0 defsmo é oposto ao Cristianismo em muitos pontos vitais, essa é uma importante conseqiiéncia negativa do “temporalismo”. Algo que as vezes € dito em favor do deismo é que ele preserva a transcendéncia de Deus sobre sua criago, muito embora ele nao encontre lugar para a insisténcia biblica sobre a imanéncia de Deus. Mas, em vista daquilo que nds temos visto, dificilmente isso pode ser confirmado. Certa- mente, o deista tem uma clara nogao da disting&o entre Deus e sua criacao. Contudo, deve-se levantar a questo de se essa distingdo significa uma ver- dadeira transcendéncia. De acordo com o teismo cristao, Deus transcende 0 universo nao somente por ser separado dele, mas por ser seu fundamento eterno, independente e nao-criado. Na discussdo que se seguird, certas caracterfsticas do teismo cristo j4 foram esbogadas. Agora é o momento de olhar para o teismo mais sistema- ticamente. Para isso, nés usamos 0 conceito que melhor captura a posigao biblica e fornece a mais adequada compreensio do contexto mais basico de interesse nos quais surgem as questées sobre a providéncia divina. TEisMo Euma consegiiéncia fundamental da doutrina biblica da criagiio que Deus nao pode ser identificado com sua criago. Como jé foi observado, nés po- demos expressar essa distingdo em termos formais como segue: Se Ae B existem, e so distintos um do outro, entdo é necessari- amente o caso de que haja alguma proposigdo que seja verdade em relagio a A nfo seja verdade em relagio a B. Dessa forma, que Deus é distinto de mim é provado pelo fato de que eu estou sentado diante de um computador e Deus nao. Apesar de ser verdade, esse fato nao é muito esclarecedor com relagiio disting&o entre Deus e sua criagdo. Quaisquer coisas (digamos, eu e meu computador) sao distintas en- tre si exatamente da mesma forma. Hé verdades sobre meu computador que n§o sao verdades sobre mim, e vice-versa. Como entio nés podemos capturar a distingao entre Deus e sua criagio? Talvez da seguinte forma: Deus esté em uma relagdo especial de distingao 71 A Providéncia de Deus com cada coisa individual, quer essas coisas sejam consideradas individual ou coletivamente. Essa relagiio é tal que Deus se relaciona com todas as outras coisas da mesma forma; elas nao se relacionam com Deus dessa mes- ma forma, e nada que nao seja Deus é relacionado a qualquer coisa que nao seja Deus dessa forma. A relag&o em questio é a de dependéncia continua. Dessa forma, meu computador depende de Deus para a sua existéncia, mas Deus nfo depende do meu computador para sua existéncia. Meu com- putador nao depende de mim, ou de qualquer outra coisa criada, para a continuagiio de sua existéncia. Isso se aplica a cada objeto do universo, e também ao universo como um todo. O universo depende de Deus para sua existéncia, mas Deus nao depende do universo para sua existéncia. Deus nfo depende de nada para sua existéncia: ele é independente e auto-suficiente. Mas pode-se objetar que meu computador no depende de Deus para sua existéncia, e sim de seus projetistas, engenheiros ¢ técnicos que, juntos, sdo responsAveis por sua criagdo. Sua existéncia depende também das pro- priedades do plastico, metal e microchips. Se ele depende dessas coisas para sua existéncia, como ele pode depender também de Deus? Para mudar o exemplo: eu dependo de meus pais para minha existéncia. Como posso depender também de Deus? Nos j4nos familiarizamos com a resposta defsta a essa questdo, mas nés rejeitamos essa resposta por razGes que nao precisamos repetir. Ent&o como meu computador depende de Deus? Bem, ele é dependente nao apenas por ser feito de materiais criados por Deus, mas também por ser de alguma forma sustentado por Deus. Nao apenas o meu computador, mas também o material de que ele é feito e os projetistas e engenheiros que o fabricaram so igualmente sustentados por Deus. Esse é 0 claro ensino da Escritura. Paulo, pregando em Atenas, afirma que “‘nés vivemos € nos movemos ¢ temos nosso ser” em Deus (At 17.28). Escrevendo aos crist&os de Colossos, Paulo enfatiza o “Cristo césmico”. Jesus Cristo é aquele em quem “tudo subsiste” (Cl 1.17). Na terminologia de Joiio, Cristo é 0 Verbo: “sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). Ele é aquele através de quem Deus fez o universo (Hb 1.2). “De alguma forma sustentado por Deus”. O exato sentido no qual objetos que sao distintos de Deus sao sustentados ou preservados por ele é dificil de esclarecer. Como acontece com muitas doutrinas teoldgicas, é mais facil dizer oque isso nao significa do que dizer o que significa, e talvez nds tenhamos que nos contentar com isso. Mais uma vez, é importante lembrar que nés nao estamos 72 O Esquema Teoldégico tentando desenvolver teorias como explicagées cientfficas, mas destacar os dados biblicos de uma forma tio coerente e consistente quanto possfvel. As varias tentativas que tém sido feitas para esclarecer a natureza desse “sustento” serdio consideradas em detalhes em um capitulo posterior, quando nés voltar- mos nossa atengdo para a questo da relagdio da acdio de Deus com a agao de suas criaturas (particularmente pessoas), pelas quais ele é responsAvel. E importante preservar o que pode ser denominado de “dimensio verti- cal” da relagiio de Deus com sua criagdo, e também reforgar essa dimensaio contra a posi¢ao defsta de Deus como o primeiro motor. Nao somente as ages de meus dedos fazem com que as palavras surjam na tela do meu computador, mas também Deus sustenta todo o processo. Ele faz com que meus dedos ¢ o meu computador continuem existindo. Sem esse poder con- servador, o que existe agora deixaria de existir. Se essa dimensio vertical nao for perdida de vista, entio 0 conceito de milagre nao ser um problema, pois um milagre é entao simplesmente a forma que Deus escolheu para sustentar o universo nesse momento. Se ele escolhe sustentar o universo dando a algum de seus aspectos um carter que é (pela experiéncia humana) sem precedentes, isso é claramente uma questo de sua sabedoria e bondade. Deus nao tem que “superar” ou “violar” as leis da natureza. Mas se nosso pensamento for exclusivamente “horizontal”, e se nds pensarmos que as leis da natureza so, em algum sentido, regulamentos inviolveis estabelecidos pelo Criador “no principio”, ent&o qualquer idéia de milagre se torna problematica. Ao enfatizar 0 aspecto vertical da relacdio de Deus com a criagdo, nés nao devemos reforgd-lo a ponto de comprometer as relagdes causais hori- zontais (exemplificada por minha produgio de palavras na tela do computa- dor). Como 0 aspecto vertical pode comprometer as relages causais hori- zontais? Ao argumentar que a sustentacao divina do universo através do tem- po é apenas a relagio causal de todo o universo e, portanto, que as agdes € eventos que nés normalmente pensamos como causa ¢ efeito so algo mais. A idéia intuitiva de causa é daquilo que efetua um evento. Dessa forma, 0 movimento de uma bola de sinuca entra em contato com outra bola, estacio- naria, e comunica forga 4 segunda bola, fazendo-a mover-se. Da mesma forma, apertar as teclas de meu computador provoca, de uma forma mais complicada, mudangas na tela 4 minha frente. Ou assim nés pensamos. Ao lado da tentagdo de supervalorizar a dimensao vertical do relaciona- mento de Deus com 0 universo, ha duas razGes pelas quais os defstas tem. 73 A Providéncia de Deus tentado neg-la ou qualific4-la. A primeira tem a ver com o que € considera- do como um caso causativo especial — 0 efeito causal da mente sobre 0 corpo. Suponha que eu queira matar minha sede e consiga um copo. Sob circunstdncias normais, o desejo é considerado como a causa do movimento de meu brago: é a ele que se deve o movimento do meu brago. Isso, contudo, tem deixado os filésofos perplexos. Como pode um even- to que é mental, e portanto no-fisico, ser a causa de algo que é fisico e, portanto, njo-mental? De onde veio a energia necessdria para mover meu brago? Onde aconteceu 0 evento causal? Em alguma parte de meu corpo? Qual parte? Em nenhuma parte de meu corpo? Onde, entéo? Agora me parece totalmente certo que a vontade da mente seja incapaz de mover até mesmo o menor corpo do mundo, pois est4 claro que nao ha conexdo necessdria entre nossa vontade de mo- ver nossos bragos, por exemplo, e o movimento de nossos bragos. B verdade que eles so movidos quando nés desejamos mové-los, e que, assim, nés somos a causa natural do movimento de nossos bragos. Mas causas naturais no so causas verdadeiras. Elas sio apenas causas ocasionais que agem somente através das forgas e da eficdcia da vontade de Deus, como eu ja expliquei.” Perplexidades sobre a relagdo entre a mente e 0 corpo levaram certos pensadores tefstas, tais como Malebranche (1638-1715), a desatar 0 né gO6rdio e afirmar que atos mentais, tais como os desejos, no causam nada, O que acontece é que Deus organiza sua criagaio de tal forma que certos even- tos siio conjugados com outros. Meu desejo de beber um copo d’dgua é conjugado com o movimento de meu brago. Ele nao causa o movimento de meu brago, ele é a ocasido para o movimento de meu brago. Mas Malebranche nao restringiu o ocasionalismo as relagGes entre a mente e ocorpo: Como a bola no tem o poder de mover a si mesma, eles nao de- vem julgar que a bola em movimento seja a verdadeira e principal causa do movimento da bola que encontra em seu caminho. Eles podem julgar somente que a colisiio das duas bolas é a ocasidio para o Autor de todo o movimento em questio executar o decreto de sua vontade, que é a causa universal de todas as coisas.* 74 O Esquema Teoldgico Oocasionalismo tem sido considerado como um caso classico da cura sendo pior que a enfermidade. Nao é dificil enxergar por qué. Sea relagdo da mente com 0 corpo é misteriosa, entdo a relagaio causal de Deus com sua criagao é igualmente misteriosa, ou mais. Uma segunda razio para enfatizar a dimensao vertical —o “sustento” divi- no — tem lastro na preocupagao de alguns tedlogos em enfatizar a imediaticidade da confianga da criagdo em seu Criador. O sustento divino que, como tem sido afirmado, é uma parte integral do tefsmo cristao, pode ser expresso da seguinte maneira: O que quer que exista em um tempo s6 pode continuar a existir em qualquer tempo subseqilente se nesse tempo Deus desejar sua existéncia. Assim, meu computador, que existe 4s 16 h (suponhamos), pode existir em um momento imediatamente depois de 16 h somente se Deus decretar que ele exista exatamente nesse momento. Ao sustentar 0 objeto dessa for- ma, Deus logicamente o sustenta juntamente com todas as suas causas e outras forgas. A partir dessa posi¢ao é um pequeno, mas importante passo afirmar que O que quer que exista em um momento, existe somente nesse momento. Qualquer coisa que exista depois desse momento deve ser criada por Deus nesse momento. Masessa € uma visao muito radical. O que isso significa é que, o que quer que exista, existe apenas por um momento. Meu computador doméstico, que tem me acompanhado por muitos meses, de fato nao existe. Ele nao é um computador continuo, mas uma série de computadores momentineos, a cada instante criados por Deus. O computador, no momento 1,éum objeto diferente do computador no momento 2, e assim por diante, O mais alarmante, nessa posigaio, € que vocé eeu ndo somos, como nés imaginamos, individuos que existem e se desenvolvem ao longo dos anos, mas um conjunto de individuos momentineos, cadaum suce- dendo ao outro em uma série de fotos de um quadro em movimento. Essa posig&o foi afirmada e desenvolvida pelo tedlogo americano Jonathan Edwards. Ele enfatizou que todos nés dependemos de Deus para nossa exis- téncia e, portanto, para nossa existéncia continuada. cfs) AProvidéncia de Deus O sustento de Deus a cada substéncia criada ou a causa de sua existéncia em cada momento sucessivo equivalente a uma imedi- ata produgdo a partir do nada, em cada momento, porque sua existéncia nesse momento nao é meramente em parte originada em Deus, mas totalmente originada nele, e no meramente em qual- quer parte ou grau, mas de toda a sua exist@ncia anterior... De forma que esse efeito difere da primeira criagdo somente circuns- tancialmente, pois na primeira criagiio nao houve um ato e efeito do poder de Deus antes, Uma vez que ele dé a existéncia, seguem- se atos ¢ efeitos do mesmo tipo, em uma ordem estabelecida.° Essa é, logicamente, uma posi¢ao prepéstera, por todos os tipos de razo. Mas a razo principal, para nosso propésito, pela qual deve ser rejeitada, é que nao hé lugar para a dimensiio horizontal. Nada que existe em um momento pode causar qualquer efeito em um momento posterior, j4 que o que existe em um momento imediatamente deixa de existire é substituido por outro individuo moment4neo, o produto do poder divino imediato. Sejam quais forem os mo- tivos de Edwards e apesar da ingenuidade em elaborar as implicagdes desse ponto de vista, o preco pago € inaceitavel. A causacao levanta muitas perplexi- dades filoséficas, mas a forma de manuseé-las nao é negar que nada pode até mesmo causar alguma coisa, Como, entéo, nés vamos manter as dimensdes vertical e horizontal do sustento divinoem verdadeira harmonia? Haumalongae honordvel tradi¢ao segundo aqual existem causasprimdriase secunddrias. A.causa (ou causas) priméria é 0 sustento divino; as causas secunda- tias sao os poderes causais das coisas criadas: o poder de uma semente germinar, de uma pessoa sentir fome ou descera rua, ¢ assim por diante. Essa distingao é util pordois motivos: o primeiro é que esses dois tipos de causa nao esto emcompe- tic¢&o um como outro. Acausa priméria é uma causa capacitadorae sustentadora, que torna possivel as causas secundérias ¢ traga seus limites. O segundo pontoé quea causa priméria nao é um evento no tempo, como so as causas secundirias, mas uma causa etema que tem todaa criag&o como seu resultado. Tal posicao tem sido amplamente divulgada na teologia crista tanto antes quanto depois da Reforma. Em Aquino, por exemplo: Se Deus proveu para todas as coisas, por si mesmo, e sem interme- didrios, todas as causas secundarias seriam colocadas fora de agiio,'” A providéncia procura seus efeitos através da operagdo de cau- sas secundarias,"" 76 O Esquema Teoldgico Eem Calvino: O sol se levanta dia apés dia; mas € Deus quem ilumina a terra com seus raios. A terra produz seus frutos, mas é Deus quem dé © pao, e é Deus quem dé forga para a nutrig&io desse pio. Em uma palavra, como todas as causas inferiores e secundérias, vistas em si mesmas, velam a gléria de Deus de nossa vista (como freqiientemente acontece), o olho da fé deve enxergar mais alto, e ver a mao de Deus trabalhando com todos os seus instrumentos.'? A Confissdo de Fé de Westminster afirma: Desde toda a eternidade e pelo mui sdbio e santo conselho de sua prépria vontade, Deus ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é 0 autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou a contingéncia das causas secundérias, antes estabelecidas.' Poresse ponto de vista, entao, Deus trabalha através de causas secundé- rias. Elas nao tém poder independente de sua ago. Mesmo assim, elas sto verdadeiramente causais. Deus, considerado como a causa primfria, nao est dentro do universo, mas transcende 0 universo. Nés observaremos mais detidamente esse modelo de hierarquia de causas no capitulo 7. Para resumir 0 que pode ter parecido ser uma discussao sem objetivida- de: o teista (como oposto ao deista e ao panteista) afirma tanto que Deus sustenta © universo que criou quanto que © universo contém agentes que possuem poderes causativos — poderes causativos diferentes, dependendo do tipo de agente. Negar a sustentaco divina forga a pessoa a afirmar que o universo existe em virtude de poderes com os quais se desenvolveu no pas- sado, e a admitir a verso defsta. Negar que o universo contém individuos com forgas causativas, além de ser fortemente contra-intuitivo, tem implica- des devastadoras para a responsabilidade pessoal, pois as pessoas sao res- ponsdveis por aquilo que fazem. Se elas nao fazem, ou se (como disse Edwards) elas nada mais so do que um conjunto de individuos momenténe- os, entio elas podem ser responsaveis somente por aquilo que elas fizeram naquele momento. at A Providéncia de Deus Uma objegao que pode ser levantada contra a visio tefsta é que ela con- funde criago com providéncia. Como pode a posi¢ao apresentada acima fazer justiga ao “descanso” divino, ensinado nos primeiros capitulos de Génesis eem outros lugares? Como podemos dizer que Deus descansa se ele est4 continuamente sustentando o universo? Certamente no se pode dizer que Deus descansa se por “descanso” nés entendemos inatividade ou despreocupagdo. Mas 0 texto diz isso? O que o descanso significa é que a criagao esté completa. Deus ndo continua a criar. Mas ele sustenta o que criou, nao criando continuamente, mas sustentando 0 que esté feito. Ele nao apenas descansa (Gn 2.2), mas também trabalha (Jo 5.17), e nao cochila nem dorme (SI 121.4).!* Parte dessa atividade de sustentacdio envolve a emergéncia de novas coi- sas no universo. Como o universo se desdobra no tempo, 0s individuos nas- ceme mortem, hé evolugdo na natureza, novos objetos (tais como carros e avides) e novas substancias (tais como gases e plasticos) s4o desenvolvidas. Nada disso é uma atividade estritamente criativa, mas uma atividade que envolve a formagio de novos individuos e substancias a partir do que j4 existe, e nao a criagdo de algo novo. Todas essas mudancas estao sob a superintendéncia da providéncia divina, Assim, embora Deus tenha descan- sado de sua obra de criagao, como indica a tipologia do Sabbath, esse des- canso no implica que o universo seja estatico ou imével. Isso nao legitima a despreocupagiio defsta sobre a agdio de Deus com aquilo que foi criadoe colocado em movimento, O que isso implica é que a surpreendente e sem paralelo vontade de Deus de criar o universo a partir do nada est4 completa. Outra objegio levantada contra a visio tefsta € que a relagdo entre o Criador € acriagdo é to préxima e continua que faz. com que o universo seja uma ema- nado de Deus, algo que, porum processo inevitavel, flui de Deus. Mas hé varias raz6es pelas quais 0 teismo néio abraca esse ponto de vista. Em primeiro lugar, a emanagio nio faz justica ao lugar da razao e da vontade de Deus na criagio. 0 universo material e tudo o que ele contém nao pode ser considerado uma exten- sao de Deus. Em vez disso, 0 universo foi criado pela livre vontade e intengaio de Deus. Deus nao foi impelido acriar por qualquer necessidade externa a si mes- mo, enem acriagiio teve a inevitabilidade causal de um processo natural. Até mesmo aqui é necess4rio preservar 0 equilfbrio correto. O universo foi criado pela livre deciséio de Deus. Berrado supor que essa decisiio tenha sido algo frio e calculado. Como diz Aquino, nacriagao, Deus deseja “compartilhar sua prépria bondade, fazendo coisas tao agradaveis a ele quanto possivel”.'S 78 O Esquema Teoldgico ConcLusAo Nesse capitulo nés nos preocupamos em mostrar o mais amplo e mais fundamental contexto no qual o tema da providéncia divina pode surgir: a criagdo divina e, particularmente, o sustento divino do universo. Deve ser reforgado que esse sustento, sendo de carter metaffsico e ontolégico, é fisicamente indetermindvel. Ele nao é uma pega de religiosidade inspirada na ciéncia natural. Ele nao é uma hipétese cientifica que possa es- perar ser confirmada ou desacreditada pela condugiio de experiéncias ou pela realizagdo de observagdes. Suponha que seja afirmado que uma certa ponte seja suspensa por cabos de aco. E possivel verificar esse fato. Mas no é possivel verificar, da mesma forma, a afirmagio de que o universo é sustentado pelo poder de Deus, seu Criador. Que razo hd, entiio, para pensar que o tefsmo expressa a verdade sobre a relag&o de Deus com 0 universo? Se isso ndo pode ser provado nem desprovado pela evidéncia cientifica, por que nds devemos crer? Essa ques- tao pode ser respondida em dois niveis. Em primeiro lugar, a raziio para que o cristao creia est na parte crucial que esse assunto tem na coeréncia da fé crista. A doutrina da divina transcendéncia do universo, e até mesmo da imanéncia, embora nao seja provavel diretamente, é uma condigo necessiria para outros temas que a fé crista afirma. Nés jd tocamos em um desses temas em nossa tentativa de elaborar a relagao de Deus com 0 universo, a saber, o ensino cristao sobre a criagao do universo ex nihilo. Além disso, a fé crista afirma que Deus é 0 Senhor da natureza e o Senhor da historia. Em perfodos cruciais, em varias €pocas “marcantes”, o Senhor tem agido de uma forma sem precedentes na formagao, preservagao e condugio de seu antigo povo de Israel, e supremamente na encarnago. Quando veio a plenitude do tempo, Deus en- viou seu Filho. Sem uma compreensio de Deus como Criador sendo trans- cendente sobre sua criagdo ¢ imanente dentro dela é dificil, se nao impossi- vel, compreender o sentido dessas outras questdes que so, obviamente, criticas para a integridade intelectual da fé crista. Parte da razfo por crer na imanénciae na transcendéncia de Deus —seu papel providencial em seu universo—6, portanto, que ela é coerente em uma légica simples e forma explanatéria com outras doutrinas cruciais. Mas a questo da evidéncia ainda pode ser retomada. Alguém pode dizer que uma razo para que 79 A Providéncia de Deus se creiana transcendéncia e imanéncia divina é a coeréncia dessa doutrina coma fcrist{ como um todo, mas nao hé uma evidéncia mais direta para essa afirma- io? De fato, se isso é verdade, nés podemos esperar que hajaessa evidéncia— no uma evidéncia direta (nds nfo podemos esperar vero sustento divino,como se ele fosse feito por cabos de ago). Contudo, nao podem existir evidéncias indiretas? Nao seria estranho se nao houvesse pelo menos evidéncias indiretas? Outra forma, mais familiar, de apresentar essa questo, é perguntar: hé evidéncia na natureza e na histéria para a existéncia de Deus? Aqueles que respondem na afirmativa se comprometem com alguma forma do “argumen- to de estilo” para a existéncia de Deus. Talvez nés estejamos fazendo uma pergunta mais especffica do que essa. Hé evidéncia agora de que Deus est4 agindo agora da forma imanente que os tefstas afirmam? Pode ou no haver uma evidéncia geral na natureza de que hé um Deus, e de que ele tem certo poder e certo cardter. Mas mesmo que essa evidéncia geral nao exista, essa éuma questio legitima. Tal evidéncia é vista naio como uma prova da existén- cia de Deus, mas como uma conseqiiéncia razodvel dela. O testemunho da Escritura é que hd evidéncia da atividade de Deus na ocorréncia natural de regularidades benéficas na natureza, porexemplo, e par- ticularmente na existéncia da Igreja crista e da mensagem que ela proclama. Nao é, contudo, uma tarefa simples enxergar essa evidéncia. A razdo para isso € oefeito de distorcer do pecado humano, ¢ o fato de que 0 universo criado est sob maldigio. A Escritura nos dé razGes para crer que, no universo ainda no amaldigoado, a evidéncia do papel providencial de Deus era muito mais clara (Gn 2,8-17). Ela também afirma que, na criacdo amaldigoada, a evidén- ciaé muito mais escassa e ambigua. Isso nao significa que, por causa da maldi- gio sobre a criagio e do efeito do pecado humano, Deus nao possa “comple- tar a ligagfio” e seja impedido de tornar conhecido seu cardter. Também nao significa que, por causa do pecado, ele esteja menos no controle do que estaria em um universo sem pecado. Em vez disso, parte dessa maldigdo é exatamente essa ambigiiidade e distorgaio, pois parte da maldi¢&o consiste em Deus reser- var sua bondade e, assim, nesse sentido, deixar que os seres humanos sofram as conseqiiéncias de sua tolice (Rm 1.24-32). Mas, ao dizer isso, nés j4 avan- amos para o segundo contexto da doutrina da providéncia — providéncia na criagdo, queda e redengio. E por isso, é desse tépico que nés vamos tratar. 80 4 PROVIDENCIA NA CRIACAO, Quepa E REDENCAO Os trés diferentes contextos nos quais nés estamos considerando a provi- déncia divina~césmico, eclesidsticp ¢ pessoal — sio como trés diferentes janelas que dao vista a uma atividadé divina pela qual o mundo foi criadoe esta sendo sustentado e redimido. Nesse capitulo nds vamos nos ocupar com 0 segundo contexto — a necessidade de reconciliagao com Deus, e a provisio de reconciliagaoem Cristo. Euma parte integral do Cristianismo afirmar que essa proviso veio na his- t6ria. O Cristianismo nao € primariamente uma ética (como o utilitarismo) ou uma filosofia (como o Platonismo ou 0 Marxismo). E os eventos que o cristo celebra ndo vigoram em algum tipo de reino super-histdrico, isolado da vida cotidiana. A redengdo foi obtida através da hist6ria de uma nacio, Israel, uma hist6ria que culminou na vida de Jesus Cristo, em seu ministério, morte e ressur- reigdo, e na vida da Igreja crista intemacional, que se origina desse ministério. Para ser capaz de pensar claramente sobre esse aspecto da providéncia divina, varios temas preliminares precisam ser considerados ¢ lembrados. NOGOES PRELIMINARES A intengio geral desse livro é fazer um estudo apurado da atividade de Deus agora e, nesse capitulo, da atividade de Deus agora concemente a sua A Providéncia de Deus Igreja. Isso s6 pode ser feito se atentarmos para a antiga atividade provi- dencial de Deus tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Eum fato fundamental da religido cristi que os efeitos da atividade provi- dencial de Deus nao foram uniformes ao longo desse perfodo. Isso nao signi- fica que Deus tenha exercido menos controle providencial em algumas épo- cas do que em outras, como se ele estivesse menos interessado ou menos atento nessas épocas. Em alguns momentos, sua atividade providencial tem tido um grande foco de interesse ptiblico. Esse fato é negado por aqueles que afirmam, por alguma razio, que a atividade de Deus agora deve ser a mesma que em €pocas anteriores e que, como os milagres nfo acontecem hoje, nao érazodvel crer que eles tenham ocorrido hd dois mil anos. Imagine Abraio, ou Davi, ou Joao Batista, ou Mateus, cada um fazendoem seu préprio tempo a pergunta: “Como aatividade de Deus hoje?”. A resposta correta a essa questéio seria diferente em cada caso. A atividade providencial de Deus no tempo de Abraio foi diferente daquela do tempo de Davi, e assim por diante. No tempo de Davi, Deus governava a nagiio de Israel através de uma legislacao detalhada que no havia no tempo de Abraiio. A presenga de Deus foi concentrada no culto do tabemiculo. Pessoas diferentes estavam en- volvidas, é claro, mas o que Deus fazia era diferente em cadaera, e talvez 0 tipo de coisa que ele fazia também fosse diferente. Se nés quisermos ter, em alguma medida, compreensio de como Deus é ativo agora nos assuntos de sua Igreja, entdo € necessdrio levar em conta o que ele fez em sua providéncia antes de agora, pois 0 que ele fez antes esclarece e torna mais inteligivel.o que ele faz agora—embora nao plenamente inteligfvel. A hist6ria bfblica é uma nar- rativa na qual o que aconteceu antes ajuda a fazer sentido do que vird depois. Nosso interesse primario nesse capitulo esta na obra de Deus na redengiio. Seria equivocado imaginar, contudo, que a obra providencial geral de Deus (como nés a entendemos) seja totalmente separada de sua atividade providen- cial especial no que se refere 4 sua Igreja. E um erro pensar que “geral” e “especial” sejam dois titulos para duas caixas separadas. Esse erro € sério, porque tende a nos levar 4 conclustio de que o mundo de Deus € na realidade dois mundos: o “sagrado” (que tem a ver com a redengiio) € 0 “secular” (que tem a ver com os assuntos didrios). Se o mundo for visto dessa forma, nés seremos conduzidos a duas conclusGes: que o mundo sagrado é o mundo de nosso coraciio e de nosso espirito, enquanto o mundo secular é o mundo de nosso corpo; o mundo sagrado é o mundo do domingo, enquanto o mundo secular é o mundo de segunda a s4bado, e assim por diante. 82 Providéncia na Criagdéo, Queda e Redengéo Mas 0 Senhor nosso Deus é um nico Senhor, e 0 universo que ele criou éum s6 universo. B, portanto, mais correto pensar em uma ordem providen- cial, os eventos reveladores de um universo criado, e em Deus tendo diferen- tes propésitos com respeito a diferentes partes ou aspectos dessa ordem. O barco que levou Paulo paraa Italia era semelhante a qualquer outro barco, e o cuidado providencial de Deus orientou e dirigiu seu cursocomo no caso de qualquer outro barco que navegasse para a Itdlia. Contudo, seu propésito para esse barco estava inextricavelmente vinculado com a vidae coma satide de sua Igreja e, portanto, com ocumprimento de seu propésito redentivo para a humanidade, Esse cuidado providencial se estendeu a todos que estavam a bordo, e a vida de todos foi poupada. Contudo, o propésito de Deus para Paulo e seus companheiros foi muito diferente de seu propésito para a vida dos outros passageiros. Outro exemplo pode langar ainda mais luz sobre a questo. Um estudante cristZio ou um funcionério cristo em uma linha de montagem se comporta mais ou menos como qualquer outro estudante ou como qualquer outro funciondrio emumalinha de montagem. Deus, em sua providéncia, sustenta esse funciond- rioem seu trabalho da mesma forma que sustenta aquele que o rejeita ou até blasfema contra ele, Mas a intengao de Deus em sustentar esse funciondrio cristo na linha de montagem é diferente de sua intengao ao sustentar os outros. Assim, a forma de pensar na relagao da Igreja com o mundo nao é como se fossem duas caixas, mas uma ordem providencial de surpreendente com- plexidade, dentro da qual Deus est4 realizando diferentes propésitos com relacio a diferentes pessoas. Como nés podemos saber que existem esses propésitos? De modo geral, nds sabemos da existéncia desses propésitos por causa do fato de que, atra- vés de sua providéncia, Deus tem nos dado sinais que evidenciam esses pro- pésitos, Em particular, a hist6ria de Israel, desde a chamada de Abraaio em diante, é um conjunto de sinais que Deus separou pensando especialmente nos descendentes de Abraiio. A esses sinais podem ser adicionados outros eventos conhecidos na hist6ria, através dos quais a redengao foi obtida,e a continua vida da Igreja e a recriagdo de homens e mulheres em sua conver- so a Cristo, Todos esses sinais dao evidéncia de que, inseparavelmente entretecida dentro da providéncia geral de Deus, hé um cuidado redentivo especial. Pode haver ocasides em que, por um tempo, essa providéncia es- pecial trabalhe sem evidéncias ptiblicas. Por exemplo, sem que Paulo ou qualquer outra pessoa soubesse, a vida pregressa de Paulo, sua educagaoe 83 A Providéncia de Deus seu engajamento farisaico foram uma preparaco nao somente para seu cha- mado a graga (Gl 1.15), mas para o papel especial que ele realizaria na Igreja primitiva como o apéstolo dos gentios. E somente quando hé sinais piblicos dessa providéncia que h4 alguma chance de se identificar a atividade especial de Deus. Mas a auséncia de tais sinais nfo deve nos levar a pensar que a atividade em si esteja ausente, A QUEDA A fé crista € ininteligivel sem a queda, pois no coragiio da fé estd a reden- ¢4o, a restauragao do relacionamento da raga humana com Deus em uma. forma que desagrave a justiga de Deuse resulte em homens e mulheres acei- tos em Cristo e renovados em seu caréter, A restauragao sé é possfvel se homens e mulheres precisarem dela, ¢ se eles precisam de restauragiio é porque houve um lapso, ou uma queda, de sua condigo original. Portanto, a queda é um pré-requisito basico para a redengao. A Escritura fornece um registro da queda nos primeiros capftulos de Génesis, assim como descreve Cristo como 0 tiltimo Adio. Tendo provado que o ponto fundamental para a ininteligibilidade da reli- gido crist& sem a queda é reconhecido, nao ha necessidade de que nés nos metamos em uma discussio sobre 0 exato significado de Génesis 3 ou Ro- manos 5, Génesis 3 é um texto histérico? Addo e Eva foram pessoas reais? Como o registro biblico de Génesis 3 se ajusta 4 ciéncia moderna, especial- mente a teoria da evolucao por selegao natural? Nao é a teoria da evolugao uma teoria de desenvolvimento e aprimoramento, em vez de queda? Felizmente nés nao temos que entrar aqui nessas interessantes e impor- tantes, porém diffceis questdes, porque nesse estudo nds estamos fazendo certos questionamentos sistemdticos. Esses questionamentos se referem ao carter global do papel da providéncia de Deus em seu universo. Detalhes histéricos e exegéticos sio de importancia secundaria. Deum ponto de vista sistematico hd, independente dos detalhes histéri- cos, um limitado ntimero de possibilidades légicas que justifiquem 0 pecado humano, quer haja uma queda ou nao. Se houve uma queda, entio nao im- porta exatamente de que ponto de vista deve-se considerar o papel da providéncia de Deus sobre a queda. Se nao houve uma queda, entio uma outra forma de justificar a entrada do pecado no mundo deve ser fornecida. Essa outra forma pode ou nao ter implicagées distintivas para a doutrina da 84