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Dossiê Jovens: diferentes olhares, múltiplas abordagens

Jovens pobres: modos de vida

JOVENS POBRES: MODOS DE VIDA, PERCURSOS URBANOS E TRANSIÇÕES PARA A VIDA ADULTA

PAULO CARRANO *

*Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF); bolsista produ- tividade do pesquisador do Cnpq, nível 2; bolsista jovem cientista do nosso estado/Faperj; coordenador do Observa-

tório Jovem do Rio de Janeiro/UFF. E-mail: paulocarrano@yahoo.com.br

RESUMO: CARRANO, P. Jovens pobres: modos de vida, percursos urbanos e transições para a vida adulta. Ciências Humanas e Sociais em Revista, Seropédica, RJ: EDUR, v. 30 n 2, p. 62-70, jul-dez, 2008. As investigações sobre as identidades juvenis centradas sobre determinados temas (cultura, trabalho, lazer, escolarização etc) têm, em grande medida, investido em aspectos parcelares da vida dos jovens e perdido de vista os contextos concretos de existência dos sujeitos investigados. A investigação sobre os modos de vida dos sujeitos jovens em suas relações com os espaços-tempos da cidade pode permitir a ampliação da compreensão para além dos estudos recortados por temas, conferindo maior complexidade de análise dos objetos investigados. O reconhecimento de eventos, disposições aprendidas e processos de interação nos permitem compreender, principalmente, os sentidos dos percursos dos jovens nos espaços da cidade. Os percursos e as redes de relacionamentos que se configuram no espaço são significativos para a compreensão das trajetórias pessoais e o processo de transição para a vida adulta.

Palavras-chave: jovens – cidade – modos de vida

ABSTRACT: CARRANO, P. Poor Young people: lifestyle, urbans origens and adult life transitions. Ciências Humanas e Sociais em Revista, Seropédica, RJ: EDUR, v. 30 n 2, p. 62-70, jul-dez, 2008. The investigations focused on youth identities based on certain topics (culture, work, recreation, education etc) are invested in partial aspects of the young peoples lives and lost sight of the existence of specific contexts of the investigated. The research about the young people ways of life in their relations with the city space-time could allow the expansion of understanding in addition to studies that are focused on other subject and give greater complexity of analysis of the objects investigated. The recognition of events, learned rules and procedures of interaction allows us to understand, especially, the meanings of the routes of young people in the city. The pathways and networks of relationships that are up in space are significant to understand the personal trajectories and the transitions process to adulthood.

Key Words: young people – city – ways of life

INTRODUÇÃO

O inventário dos percursos urbanos se apresenta como um modo particular de des- crever a cidade sem dissociá-la dos sujeitos que a constituim. Uma aposta de pesquisa que temos feito é trazer para o centro da análise o emaranhado de mediações e conexões que permitem visualizar práticas concretas relaci- onadas com o trabalho, a moradia, as relações familiares, a educação escolar e não escolar,

o consumo, as mediações com o tráfico de drogas e a polícia, os serviços urbanos, den- tre outros aspectos relacionados com os mo- dos de vida dos jovens pobres na cidade. A noção de território não se confunde com os limites sócio-espaciais dos locais de moradia dos jovens. Neste sentido, a “comu- nidade” não deve ser espaço social único de referência para a investigação, uma vez que compreender o modo de vida dos jovens pela perspectiva de se enxergar uma comunidade ampliada conformada pelos percursos, medi-

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ações sócio-culturais e redes de relacionamento estabelecidas nos espaços da cidade e, em muitos casos, em redes de relacionamentos que transcendem o âmbito municipal. O inventário, a descrição e a análise de trajetórias e percursos pessoais e coletivos podem permitir não apenas a elaboração de co- nhecimentos sobre biografias e dinâmicas de ação coletiva juvenil como também contribuir para desvelar partes significativas do comple- xo jogo de atores (TELLES & CABANES, 2006) que se dá nos relacionamentos dos su- jeitos jovens com escolas, trabalho, ongs, pro- jetos governamentais, ações de filantropia, envolvimentos partidários e religiosos, associativismos diversos, milícias, traficantes etc. Essa orientação pode contribuir para uma maior aproximação da real configuração do tecido social que constitui determinado espa- ço popular em que jovens articulam seus mo- dos de vida e de experimentação do tempo de juventude.

A CIDADE COMO ESPAÇO-TEMPO DE PRÁTICAS EDUCATIVAS

As redes de subjetividade se entrelaçam para a formação dos sujeitos históricos. San- tos (1995) afirma ser a nossa existência uma rede de subjetividade que se tece em múlti- plas e complexas relações cotidianas. As re- des que se estabelecem nos contextos familia-

res, do mundo do trabalho, da cidadania, e nos contextos da mundialidade concorrem para a formação de sujeitos cada vez mais imersos em processos de grande complexidade social

e em contato com saberes que cada vez mais

se apresentam como transversais. A investiga- ção preocupada com a relação dos jovens com

a cidade enfrenta o desafio de inventariar a

pluralidade de caminhos que, em última ins- tância, se cruzam para constituir sujeitos e gru- pos sociais. As cidades e os seus territórios pre- cisam se apresentar como redes de relações e práticas que configuram um amplo espectro dos fatos sociais educativos (CARRANO,

2003).

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A cidade como espaço de práticas

educativas não se resume ao âmbito das apren-

dizagens institucionais, tais como aquelas que ocorrem na escola e em outros espaços não escolarizados de aprendizagem constituídos com a intenção pedagógica de educar. A cida- de pode ser considerada educativa também no sentido ampliado de espaço-tempo social de relacionamentos, experiências públicas, compartilhamento de significados e vivência de situações conflitivas mais ou menos bem resolvidas pelos sujeitos.

O mundo do trabalho, as relações fa-

miliares, a participação em atividades educativas orientadas, a participação no cir- cuito de produção e consumo de mercadorias culturais, os percursos pela cidade, o acesso à fruição de bens culturais materiais e imateriais, a vivência ou negação da experiência pública da circulação pelas ruas e espaços públicos, dentre outras possibilidades desigualmente distribuídas pelo tecido urbano, compõem uma complexa rede educativa que envolve espa- ços formais de aprendizagem e possibilidades para experiências informais que configuram a dimensão educativa de uma cidade. Para Lefebvre (1981), o espaço trans- formou-se na sede do poder. É nele, funda- mentalmente, que ocorre a reprodução das re- lações sociais e é nesta perspectiva que na vida contemporânea há a centralidade das relações cotidianas, do urbano e das diferenças. O cor- po vivido na cidade é simultaneamente vulne- rável e resistente à reprodução social, assina- la o autor francês. Melucci (2005), por sua vez, aponta também para a centralidade da vida cotidiana nas sociedades complexas contem- porâneas, pois são nas relações cotidianas que indivíduos constroem o sentido de seu agir. O inventário desses sentidos coloca o acento na importância da pesquisa do tipo qualitativo.

ESPAÇOS E TERRITÓRIOS URBA- NOS

O espaço urbano intensifica os antago- nismos de interesses que se constituem por

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uma participação diferenciada e desigual dos processos de produção e reprodução da vida

social. Isso significa dizer que a cidade não é experimentada e apropriada por todos da mes- ma maneira. Esse diferencial de apropriação dos recursos materiais e simbólicos da cidade pode ser apontado como um dos fatores que organizam a produção das identidades soci- ais. Para visualizar essa tensão entre sujeitos situados em diferentes lugares sociais de apro- priação dos recursos urbanos basta que pen- semos nas desiguais condições de vida em tor- no dos espaços de moradia, lazer e trabalho.

É possível afirmar com Lefebvre (1969) que

o direito (material e simbólico) à cidade não é igual para todos os seus habitantes. A organização social das cidades cria restrições geográficas e simbólicas para a

constituição do livre trânsito das identidades.

É neste sentido que não é possível falar de

identidades apenas restringindo a análise a seus aspectos culturais. Cruz (2000), consi- derando tanto a inserção dos sujeitos nas es- truturas de produção quanto o papel da cultu- ra na elaboração das subjetividades, concebe os atores urbanos em três grandes categorias:

a) os integrados à estrutura de produção; b) os disponíveis (que mesmo sem estar dentro do sistema produtivo são suscetíveis de ser re-

crutados); e c) os circulantes, que gravitam sem destino aparente na estrutura de produção. Telles (2006) em seu estudo sobre as tramas da cidade, as trajetórias urbanas e seus territórios, afirma a necessidade de repensar- mos crítica e teoricamente a questão urbana e

a cidade considerando as metamorfoses dos

“problemas urbanos”. Os problemas já não são os mesmos analisados em estudos marcantes das décadas de 1970 e 1980 e que criaram re- ferências analíticas importantes para compre- ender as contradições presentes nas relações entre capital e trabalho no quadro de expan- são da “cidade fordista”. Os anos 1990, que demarcam a consolidação do modelo neoliberal de organização do Estado e da eco- nomia, são também momentos de início das transformações que incidem sobre a produção do espaço urbano e o tecido social contempo- râneo.

Jovens pobres: modos de vida

Ainda segundo Telles (idem), na análi- se das desigualdades, as noções de dualização social além de não darem conta da realidade teriam o efeito de produzir uma imagem desfocada do mundo social. Para ela, estaría- mos frente não a dualizações, mas sim à disjunção ou dissimetria (esta sim problemáti- ca), sobretudo no que diz respeito aos jovens de bairros empobrecidos da cidade, entre integração econômica, integração política e integração cultural. Nesse quadro de disjunção, ocorrem transformações societárias que com- binam a experiência do desemprego e do tra- balho em mercados excludentes, instáveis e precários em conjunto com a integração dos indivíduos e suas famílias em circuitos de bens culturais e simbólicos da sociedade de consu- mo. Essa lógica atravessa toda a sociedade atin- gindo até mesmo os territórios tradicionalmen- te considerados como lugares paradigmáticos da pobreza desvalida (VALLADARES, apud TELLES, op. cit: 51). A sociedade se vê tam- bém atravessada por processos societários iné- ditos e novas formas de sociabilidade, subjeti- vidade e construção de identidades. Há novos padrões de mobilidade e acesso aos espaços ur- banos e seus serviços, ambivalentes redes so- ciais são tecidas entre a dinâmica familiar, os espaços de lazer e consumo e o crescente mun- do das ilegalidades que articula formas diver- sas de criminalidade e o tráfico de drogas Os fenômenos acima descritos podem ser enxergados como vetores sociológicos que ainda precisam de esforço investigativo para a sua melhor compreensão, sobretudo se consi- derarmos seu caráter recente e as distintas for- mas e conteúdos que os mesmos podem assu- mir em diferentes contextos urbanos. Em algu- mas cidades – tais como Niterói e Rio de Ja- neiro – as noções de centro e periferia são pou- co elucidativas sobre a história da produção dos espaços urbanos. Se, por um lado, é possível compreender morros e favelas como áreas de segregação, por outro, não podemos ignorar a multiplicidade de conexões que os espaços se- gregados estabelecem em relação aos demais territórios da cidade. O acompanhamento dos trajetos e percursos dos jovens pobres pode permitir desenhar novos contornos do espaço

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urbano e ajudar na compreensão da cidade que

a eles se oferece nas tramas de socialização que emergem da cidade por eles praticada.

PRÁTICAS TERRITORIAIS JUVENIS

Os jovens recebem espaços da cidade prontos e sobre eles elaboram territórios que passam a ser a extensão dos próprios corpos:

uma praça se transforma em campo de fute- bol, sob um vão de viaduto se improvisa uma pista de skate ou um baile de black music (ou forró, por exemplo); o corredor da escola – lugar originalmente de passagem – se torna ponto de encontro e sociabilidade ou uma rua se transforma em espaço para o street basket. Os diferentes territórios juvenis são também lugares simbólicos para o reconhecimento das identidades em comum; é em torno de deter- minado território que se constitui o grupo de iguais. A identidade do grupo precisa se mos- trar publicamente para se manter e, assim, cada

grupo cria suas próprias políticas de visibili- dade pública que podem se expressar pela roupa, pela mímica corporal, em vocabulári- os e gramáticas exclusivos ou num novo esti-

lo musical.

A cidade é transformada de espaço anôni- mo a território pelos jovens atores urbanos que constroem laços objetiváveis, comemoram-se, celebram-se, inscrevem marcas exteriores em seus corpos que servem para fixar e recordar quem eles e elas são. Essas marcas se relacio- nam com processos de representação, verda- deiras objetivações simbólicas que permitem distinguir os membros dos grupos no tempo e no espaço. As marcas podem ser objetivadas no próprio corpo (uma tatuagem) ou mesmo habitar o corpo como adereço de identidade, tal como acontece com os bonés que se trans- formaram em fonte de tensão permanente em algumas escolas que não toleram seu uso, tal- vez por não enxergarem que esses são signos que representam a extensão da própria subje- tividade dos jovens alunos que reagem ao te- rem de deixar “parte de si” fora do espaço- tempo da escola.

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A construção das identidades pelos gru- pos supõe práticas de aprendizagem e alguns jovens instituem lutas simbólicas através dos compromissos cotidianos que assumem com determinado processo de identização coletiva que existe no contexto de práticas permanen- tes e mutantes de definição das identidades. É possível afirmar que os jovens das clas- ses populares articulam territórios próprios na ruína dos espaços da cidade que sobraram para eles. A relativa ignorância dos adultos acerca da materialidade social e do simbolismo das práticas juvenis é fonte de mal-entendidos, incompreensões e intolerâncias acerca das ati- tudes e silêncios dos jovens. A pesquisa social sobre os grupos juvenis tem contribuído para decifrar sinais e estabelecer pontes para o diá- logo entre os jovens e o mundo adulto que administra as crises relacionadas ao declínio de realização dos projetos institucionais. No que pese a importância dos estudos sobre os grupos e as identidades coletivas juvenis, ain- da há, notadamente no Brasil, largo campo a explorar naquilo que se refere ao estudo das trajetórias sociais e percursos – usos da cida- de – dos jovens dos espaços populares. Há, por exemplo, um cenário de novos vín- culos de sociabilidade juvenil com a partici- pação de jovens em projetos e programas so- ciais – de ongs e governos – focados em co- munidades populares. A análise do fenômeno da geração dos jovens de projeto (social) en- contra-se na agenda de aprofundamento das investigações sobre os vínculos entre a juven- tude popular e as novas mediações sociais. Me- diações estas que tanto são capazes de alargar campos de possibilidade e de articulação de alternativas de futuro quanto organizar proces- sos de tutela e controle do tempo livre da ju- ventude pobre que se associam ao conjunto das práticas de gestão e controle da pobreza urbana. 1

A “QUESTÃO” JUVENIL

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Uma das características de nossas so- ciedades contemporâneas está relacionada com a velocidade das mudanças que ocorrem nas esferas da produção e reprodução da vida social. Sem dúvida, os jovens são atores-cha- ve desses processos e interagem com eles al- gumas vezes como protagonistas e beneficiários das mudanças e por outras so- frem os prejuízos de processos de “moderni- zação”, produtores de novas contradições e desigualdades sociais. As preocupações com a juventude se orientam em grande medida pela percepção de que as próprias sociedades se inviabilizam com a interdição do futuro das gerações mais jovens. Sobre esta juventude ameaçada se depositam também as esperanças da renova- ção, muitas vezes se idealizando uma natural capacidade dos jovens para a transformação e a mudança. Melucci (1997) questiona a existência de uma “questão juvenil”, no plano da abstra- ção que a categoria juventude é normalmente situada. Em geral, a juventude só aparece como problema pelo diagnóstico de que ela enquan- to categoria que incorpora um grupo etário é potencialmente conflitiva. Entretanto, a juven- tude só é conflitiva em conjuntura social es- pecífica. Os jovens tanto podem ser fatores de integração no mercado cultural de massas, como podem se constituir como atores do con- flito social numa mobilização antagonista. O conflito e a possibilidade de transformação que ele instaura só se explicitam, portanto, no tem- po e no espaço. Para Melucci, ser jovem não é tanto um destino, mas implica na escolha de transformar e dirigir a existência. Nesta perspectiva, os jovens são a pon- ta de um iceberg que, se compreendida, pode explicar as linhas de força que alicerçarão as sociedades no futuro (MELUCCI, 2001 e 2004). Hoje, eles possuem um campo maior de autonomia frente às instituições do deno- minado “mundo adulto” para construir seus próprios acervos e identidades culturais. Há uma rua de mão dupla entre aquilo que os jo- vens herdam e a capacidade de cada um cons- truir seus próprios repertórios culturais.

Jovens pobres: modos de vida

Um dos princípios organizadores dos pro- cessos produtores das identidades contempo- râneas diz respeito ao fato dos sujeitos seleci- onarem as diferenças com as quais querem ser reconhecidos socialmente. Isso faz com que a identidade seja muito mais uma escolha do que uma imposição. É neste sentido que se com- preende que uma das mais importantes tare- fas das instituições, hoje, é contribuir para que os jovens possam realizar escolhas conscien- tes sobre suas próprias trajetórias pessoais. É nesse contexto de intensas transformações nas formas e conteúdos das instituições sociais que interferem em suas condições e capacidades de promoverem processos de socialização que gestores de políticas públicas, em diferentes níveis de governo, são desafiados a formular, executar e avaliar políticas públicas dirigidas aos diferentes públicos jovens. Um importante campo de pesquisa pode se constituir em torno das reflexões so- bre o lugar e a efetividade das instituições socializadoras que possuem influência e res- ponsabilidades sobre a vida juvenil. Em gran- de medida, fala-se em crise ou declínio das instituições. Até que ponto este, que já é con- siderado um fenômeno de âmbito mundial, se realiza plena ou parcialmente nas instituições com as quais as jovens gerações interagem no Brasil? No lugar de se falar em crise ou fim das instituições (tais como a família, a escola e o trabalho) não seria mais adequado buscar identificar e compreender as mutações societárias que promovem a perda da unidade do mundo social e suas consequentes trans- formações no plano institucional? Assim, tor- na-se importante a realização de estudos que aprofundem conhecimentos e inventariem a multiplicidade de situações que configuram as diferentes e desiguais formas de se experimen- tar tempos e espaços da vivência da juventu- de.

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JUVENTUDE: TRANSIÇÕES E TRAJETÓRIAS

Um dos traços mais significativos das so- ciedades ocidentais é que crianças e jovens passam a ser vistos como sujeitos de direitos e, especialmente os jovens, como sujeitos de consumo. A expansão da escola, a criação de mercado cultural juvenil exclusivo e a postergação da inserção no mundo do traba- lho são marcas objetivas da constituição das representações sociais sobre o ser jovem na sociedade. A realização plena deste ideal de jovem liberado das pressões do mundo do tra- balho e dedicado ao estudo e aos lazeres é objetivamente inatingível para a maioria dos jovens. Entretanto, este ideal-tipo de vivência do tempo juventude é visivelmente existente no plano simbólico. Bourdieu (1983) afirmou que a juven- tude é apenas uma palavra, trazendo a refle- xão sobre a necessária relatividade histórica e social deste ciclo de vida que não pode ser enxergado como uma coisa em si, mas que deve ser visto em seu aspecto relacional no contexto dos diferentes grupos sociais, socie- dades e classes de idade. Somos sempre o jo- vem ou o velho de alguém, disse também o sociólogo francês. Porém, é preciso conside- rar que “juventude” é noção produtora de sen- tidos e contribui para o estabelecimento de acordos e representações sociais dominantes. As passagens entre os tempos da infân- cia, da adolescência, da juventude e vida adulta podem ser entendidas como “acordos societários”. De certa forma, as sociedades estabelecem acordos intersubjetivos que defi- nem o modo como o juvenil é conceituado ou representado (condição juvenil). Em algumas sociedades, os rituais de passagem para a vida adulta são bem delimitados e se configuram em ritos sociais. Em nossas sociedades urba- nas, principalmente, as fronteiras encontram- se cada vez mais borradas e as passagens de época não possuem marcadores precisos. Al- gumas dimensões marcavam o fim da juven- tude e a entrada dos jovens no mundo adulto:

terminar os estudos, conseguir trabalho, sair

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da casa dos pais, constituir moradia e família, casar e ter filhos. Essas são “estações” de uma trajetória societária linear que não pode mais servir para caracterizar definitivamente a “transição da juventude para a vida adulta”. A perda da linearidade neste processo pode ser apontada como uma das marcas da vivência da juventude na sociedade contemporânea. Pais (2003) apresenta este processo de passa- gem das formas lineares de transição para pas- sagens de características inéditas que se po- deria descrever como de “tipo yo-yo”, rever- síveis ou labirínticas. Sposito (2000) comenta sobre a exis- tência da “dissociação no exercício de algu- mas funções adultas” (descristalização) ou se- paração entre “a posse de alguns atributos do seu imediato exercício” (latência). As etapas da vida obedecem cada vez menos às normatizações e às regulações das instituições tradicionais como a família, a escola e o tra- balho sem constituírem fases muito bem defi- nidas (descronologização). 2 Assim, é preciso ter em conta as mui- tas maneiras de ser jovem hoje e de se fazer adulto. Em conjunto com a representação do- minante, ou definição etária, sobre aquilo que é o tempo da juventude, os jovens vivem ex- periências concretas que se aproximam mais ou menos da “condição juvenil” representada como a ideal ou dominante. Em outras pala- vras, nem todos os jovens vivem a sua juven- tude como uma situação de trânsito e prepara- ção para as responsabilidades da vida adulta. Isso significa dizer, por exemplo, que para jovens das classes populares as responsabili- dades da “vida adulta”, especialmente a “pres- são” para a entrada no mercado de trabalho, chegam enquanto estes estão experimentando um tipo determinado de vivência do tempo de juventude. As desigualdades educacionais, carac- terizadas principalmente pelas baixas taxas de universalização de educação média e superi- or no Brasil, acentuam a heterogeneidade do que pode ser denominado de “estruturas de transições”. 3 A trajetória de busca e inserção no mundo do trabalho dos jovens, especial- mente os das famílias mais pobres, é incerta,

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ou seja, estes ocupam as ofertas de trabalho disponíveis que, precárias e desprotegidas em sua maioria, permitem pouca ou nenhuma pos- sibilidade de iniciar ou progredir numa car-

se apresenta como orientação teórico- metodológica de análise que reconhece os conceitos de estruturas de transição e trajetó- rias sociais, mas privilegia a noção de per-

reira profissional. A informalidade é crescen-

cursos juvenis nos territórios da cidade e as

te

à medida que se desce nos estratos de renda

redes de relacionamentos que aí se desenro-

e

consumo do beneficiário do emprego. O

lam. Este tem sido nosso esforço na consoli-

aumento da escolaridade, em geral, coincide com maiores chances de conseguir empregos

dação de uma trajetória de pesquisa na interface entre os estudos sobre educação e

formais, algo decisivo para os jovens, consi- derando que o desemprego juvenil no Brasil

juventude nos contextos urbanos.

é,

em média, quase três vezes maior que o do

conjunto da população. Enxergando por esse prisma é possível afirmar que os condicionantes sociais que de- limitam determinada estrutura de transição (processo de mudanças para distintas situações de vida) interferem na constituição das traje- tórias sociais dos jovens, na constituição de seus “modos de vida” e na possibilidade que encontram de elaborar seus sentidos de futu- ro.

Se, por um lado, transição serve para fa- zer referência a um duplo processo que inclui mudanças biológicas próprias do crescimento e os marcos de passagem de determinadas si- tuações de vida a outras (a maternidade ou não maternidade, a inatividade ou vida produtiva etc), por outro lado, na noção de trajetória o importante não é a sequência dos distintos marcos característicos da geração de novos indivíduos adultos, mas sim as posições que o indivíduo ocupa ao longo da sua vida e que caracterizam sua biografia. Reconhecer que os jovens são construto- res de suas próprias trajetórias biográficas sig- nifica reconhecer também as relações de interdependência dessas mesmas trajetórias com as relações e condicionantes sociais (DUBET, 1994; CHARLOT, 2000). A busca por identificar e interpretar as diferentes maneiras pelas quais os jovens ela- boram suas trajetórias pessoais e praticam determinado modo de vida passa pelo inven- tário e compreensão dos valores, condutas e práticas sociais que os mobilizam rumo aos seus projetos pessoais e arranjos sociais cole- tivos. Nesta perspectiva, a análise sobre os percursos nos diferentes territórios da cidade

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(Footnotes) 1 O caráter normativo das ações públicas para os jovens pressupõe o que seria desejável para estes a partir de determinadas concepções (adultas) sobre suas necessidades. Alguns pro- jetos e programas sociais parecem possuir de antemão as respostas sobre aquilo que os jo- vens precisam (e desejam?). Em geral as ofer- tas de atividades possuem caráter pedagógi- co-formativo, ainda que muitas vezes sejam ofertas esvaziadas de sentido e de incipiente qualidade, e estabelecem controles tutelares sobre o uso do tempo. Algo diferente e pouco praticado nas referidas iniciativas é a indaga- ção sobre o que os jovens são capazes de de- sejar e fazer pessoal e coletivamente, entre pares de idades ou em colaboração com adul- tos. Sobre as representações e práticas domi- nantes que organizam ações públicas para os jovens. Sobre isso ver: Spósito, 2007. 2 Dubet (2006:32) assinala que as instituições da modernidade têm encontrado dificuldade de fazer valer seus programas institucionais. Por programa institucional defini-se o proces- so social que transforma valores e princípios em ação e em subjetividade por intermédio de

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um trabalho profissional específico e organi- zado. Para melhor compreensão, o autor apre- senta o seguinte esquema: Valores/princípios

> Vocação/profissão > Socialização: indivíduo

e sujeito (tradução própria).

3 De maneira distinta, no Chile, por exemplo, ocorre uma espécie de homogeneização par- cial da estrutura de transições nos distintos se- tores da juventude, que se deve principalmen- te às transformações ocorridas no plano edu- cacional. As altas taxas de cobertura em edu- cação secundária, somada à obrigatoriedade que recentemente se definiu de doze anos de escolarização, de alguma maneira fez com que

a grande maioria dos jovens apresente uma

estrutura de transição similar até a idade em que se normalmente se completa a educação secundária (SOTO E LEON, 2008: 51).

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