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Romanos Exposigao sobre Capitulo 1 O EVANGELHO DE DEUS D. M. Lloyd-Jones Fes PUBLICAGOES EVANGELICAS SELECIONADAS Caixa Postal 1287 01059-970 — Sao Paulo - SP Titulo original: The Gospel of God Editora: The Banner of Truth Trust Primeira edicdo em inglés: 1985 Copyright: Mrs. D. M. Lloyd-Jones Tradugao do inglés: Odayr Olivetti Revisao: Antonio Poccinelli Capa: Sergio Luiz Menga Permiss4o gentilmente concedida pela Banner of Truth Trust para usar a sobrecapa da edic&o inglesa Primeira edigdo em portugués: 1998 Impressao: Imprensa da Fé PREFACIO Desde a morte de Martyn Lloyd-Jones em 1981, muitos leitores das exposigdes de Romanos perguntam se nao haverd mais livros desta série. Este volume faz parte da resposta a essa indagagdo. Todos os seus sermées foram gravados em fita e ja estavam transcritos em 198]. Vao até Romanos 14:17 (“Porque o reino de Deus n&o é comida nem bebida, mas justiga, e paz, e alegria no Espirito Santo”), quando, tendo ele concluido a sua exposi¢do com a palavra “paz”, a enfermidade pés fim ao seu ministério na Capela de Westminster. Foi em 1968. Dai em diante ele dedicou muito tempo a editoragao dos sermées transcritos, e temos a satisfagéo de continuar esse trabalho de preparo para publicagéo, com base nos mesmos principios seguidos com relacao aos livros anteriores. Hé uma excegdo que merece mengao. Era pratica habitual do Dr. Lloyd-Jones, quando preparava material para publicagao, cortar todas as referéncias incidentais ao local da reuniao em que fora feita a prelegao. Um livro, diferentemente de um sermAo, é para sempre. O salientado acima era sua pratica, e¢ gora a nossa, omitir tais referéncias —“segunda-feira passada”, “os jornais de ontem”, etc. Mas a primeira prelecao, contido no primeiro capitulo, nos propicia fascinante penetracao em sua mente, sobre como ele planejara, sob Deus, por em execugao o que provavelmente foi a obra mais cara ao seu coragdo. Por isso a deixamos como esté, a fim de que os que nunca o ouviram pregar obtenham algo do sabor da sua personalidade ~ seu entusiasmo por sua tarefa, a clareza da sua mente analitica, seu desprazer em ser de algum modo imobilizado por um programa previamente anunciado, e, acima de tudo, o seu profundo desejo de que os nossos coragées fossem aquecidos por esta grandiosa Epistola e de que Deus fosse glorificado. Também deixamos integralmente, no inicio de um dos capitulos, o seu sumdrio da semana anterior. Os que 0 ouviram lembraréo com que esmero, bom professor que ele era, costumava fazer-nos recordar o que tinhamos aprendido na ocasido anterior. Naturalmente, na forma de livro a repetigao ndo € tao necessaria, mas as vezes achamos 0 sumArio quase téo emocionante como toda a prelegdo prévia. Portanto, deixamos 0 comego do capitulo 24 como esté, para que o leitor veja e aprecie o seu método. Somos gratos por tudo que os leitores do Dr. Lloyd-Jones nos disseram, falando sobre como os seus livros os tém ajudado. Gostariamos de pedir-lhes que orem por nés, em nosso trabalho de prepara-los para publicagao, e esperamos que Deus continue a.usar estes livros em Seu servigo. Bethan Lloyd-Jones Ealing, agosto de 1985 INDICE Uma abordagem espiritual necessdria — a importancia desta Epistola na historia da Igreja— a conversio e a capacitagao de Paulo — 0 falso contraste entre dons naturais e o Espirito Santo. 2D sesessees sore 28 Os leitores ¢ os seus antecedentes circunstanciais — a fundagio eo carater da igreja (em Roma)-—o motivo para escrever-lhes: firmd-los na verdade ~ andlise da Epistola—capitulos 4-8 tratam da certeza da salvagio. A centralidade de Cristo - 0 escravo, redimido e capturado por Cristo - a verdadeira definig&o de um apéstolo — suas marcas e sua autoridade — Paulo chamado pelo Senhor ressurreto. 4. wee 63 As qualificagdes apost6licas de Paulo — sua igualdade com os demais — sua missio entre os gentios — relevancia, ent&o e agora — a “sucessao apostélica” — separado desde o ventre da sua mie. 5. . sssssssssnce 76 O significado da palavra “evangelho” — a maior boa nova que j4 ouvimos— 0 evangelho de Deus em trés Pessoas — a primazia do Pai ~ as limitagdes da apologética. O método de argumentag&o de Paulo, partindo do Velho Testamento — as promessas, as profecias e os tipos — proclamagao e predigao —a revelagdo ea inspirag&o conforme Pedro — os escritos sagrados, a Palavra de Deus. . 109 A demora da vinda de Cristo — 0 uso do Velho Testamento para provar a continuidade do evangelho - a verdadeira natureza da Igreja Crista e a doutrina do remanescente — a suficiéncia, a autoridade, a unidade, a necessidadece a cocréncia das Escrituras — a consolagéo do Velho Testamento. Cristo é 0 centro do evangelho—o Filho de Deus encarnado~-Sua verdadeira humanidade —0 elo de ligagéo com a profecia c especialmente com a casa de Davi —a relevancia para hoje. Uma série de contrastes ~ feito: declarado — fraqueza: poder — carne: 0 espirito de santidade—o significado da ressurreigdo —a instalagéo do Deus- -homem como 0 Mediador. 10 ...... wee 163, Osenhorio de Jesus — Jesus Cristo, o Salvador ungido ~ profeta, sacerdote, rei ~a impossibilidade de separar Salvador e Senhor—a base de tudoo que Paulo ée faz—a obediéncia da fé. LD ceecsecseecsnearesncense see 180 Encargo e submissao — Christmas Evans e o sandemanismo — pelo nome de Cristo — glorificando a Cristo pela palavra, pela vida e pelo testemunho. V2 srsecsees wee 195 Pertencentes a Cristo — 0 fundamento, amados de Deus ~ vocagiio geral e eficaz ~ separados para Deus e Seu louvor — os santos e a santidade. 13 211 A doutrina ea pratica—a graga levando a paz com Deus - experimentando apaz de Deus ~ doutrinas implicitas — uma extraordinariae animadora obra de Deus em Roma. 14... soveeesnense 227 O desejo de Paulo de visitar Roma — fortalecendo as criangas em Cristo - forma e substancia—a vida de oragao do apéstolo —agao de gragas mediante Cristo —um grande intercessor. Desejo, orag&o e submissao 4 vontade de Deus - prospero, pela béngao de Deus ~ obstaculos e diregéo —perseverando na orago —“O homem propée, mas Deus dispée”. 16 256 A atitude de Paulo para com a sua obra — 0 servi¢o religioso — 0 perigo do servigo meramente externo — métodos carnais ¢ espirituais — zelo carnal e paixao divina — “ilimitado amor divino”. 17 vse ssssenseneeese 271 Os limites que o apéstolo impés a si mesmo — as riquezas do evangelho - 0 poder e a autoridade do evangelho—fortalecendo mediante ensino completo. Modéstia genuina de Paulo —a prova real do crente~autoridade espiritual e catolicismo — a Igreja como comunidade — 0 encorajamento do apéstolo, decorrente da fé dos irmaos — 0 perigo dos “movimentos”. 19 vase servers 301 Na obrigagdo de pregar o evangelho —a capacidade de transmitir o evangelho —anecessidade universal de todas as nagées e de todos os tipos de homens — Paulo e sua habilidade para alcangar a todos ~ 0 evangelho total para o homem total --o constrangimento. Método légico - envergonhando- se do evangelho — 0 escandalo da cruz — louce por amor de Cristo ~ evangelhos falsos, populares — 0 motivo certo para nao nos envergonharmos — poder singular para salvar. 21... seuss: aocennen sarseeseens 333 Boas novas gloriosas — triplice libertagio do pecado ~ reconciliagdo e restauragdo— salvagao, passado, presente e futuro — 0 método de Deus. 22 wae ssnvseseers 346 O poder de Deus para salvar — a a efich ia do evangelho — a Palavra eo Espirito — a prescrigdo divina ~ primeiro para 0 judeu - esperanga para todos. O evangelho revelado — justiga aceitavel a Deus — revestidos da justica de Cristo —0 carater tinico da f€ cristé —o instrumento — Lutero e Habacuque. 2 srssssansscessssosssncces 380 Sumirio— aimportancia do trecho, de 1:18a3:20-a necessidade de provar- -se o evangelho —a histéria e a futilidade da civilizacao — andlise geral do teferido trecho. 25.. ae 396 Comegando com a nossa relacao com Deus — as experiéncias € as seitas — atitudes modernistas e incrédulas para com a ira de Deus — concepgao determinante quanto 4 evangelizagdo escrituristica - a comprovagao do Novo Testamento —a pratica do nosso Senhor, dos apéstolos e dos grandes evangelistas. 26. 414 Anatureza da ira de Deus—maneiras pelas quais ela é revelada—julgamentos na histéria -a ira ea cruz—a ira agora e posteriormente. 27. +0 429 Ocarater do pecado~ impiedade e injustiga — conexao e ordem —pecados e pecado-mera moralidade e o evangelho social — religiéo antropocéntrica (centralizada no homem) — evangelizacao verdadeira. 28. 444 A total indefensabilidade do homem — senso universal de Deus — Deus manifesto na criagao, na providéncia e na hist6ria—revelagao geral e especial -suprimindo a verdade — filosofia orgulhosa e iniqua. A rejeigio de Deus — idolatria e mitologia — reveréncia perante o Deus da Biblia — loucura ¢ sordidez - abandono judicial - a necessidade de avivamento. 10 Esta noite” eu gostaria de dar as boas-vindas aos amigos que ndo pertencem a esta igreja em particular e que talvez estejam conosco, e se disponham a continuar conosco nestes estudos da Epistola aos Romanos. Em atengio a eles, talvez seja melhor, de maneira muito geral, indicar-lhes como este culto é conduzido normalmente. Primeiramente e acima de tudo, desejo salientar que se trata de um culto. E uma ocasiao para adoracdo. Sou um daqueles que nao reconhecem nenhum estudo da Palavra de Deus que n4o seja acompanhado de adoracdo. A Biblia nao é um livro comum -é 0 Livro de Deus, eéum livro acerca de Deus e das relagdes do homem com Ele. Portanto, toda vez que consideramos ou estudamos a Biblia estamos, necessariamente, prestando culto. Noutras palavras, nao me proponho a estudar esta grande Epistola de maneira meramente intelectual ou académica. Ela foi redigida como uma carta escrita por um grande pastor. Nao € um tratado teoldgico, escrito por especialistas e para professores. E uma carta escrita a uma igreja, ¢, como toda literatura neotestamentaria, tinha em vista um objetivo e um fim praticos. O apéstolo estava interessado em ajudar estes cristaos de Roma, em edificd-los e firm4-los em sua f€ santissima, e, querendo Deus, e na medida da minha capacidade, certamente estarei tentando fazer a mesma coisa. Esta é, pois, uma ocasiao para adoragao, e nado apenas para uma prelegao. “ Este primeiro sermio foi pregado em 7 de outubro de 1955. i O Evangelho de Deus Além disso, nao anuncio publicamente um programa, e por esta razao: quando vocé esta estudando a Palavra de Deus, nunca sabe exatamente quando vai terminar. Pelo menos eu tenho uma profunda impressao de que é este 0 caso, acreditando, como acredito, na presenga e no poder do Espirito Santo. Sabemos por experiéncia que Ele vem subitamente sobre nés — Ele ilumina a mente e sensibiliza 0 coragdo — e eu creio que todo aquele que expe as Escrituras deve estar sempre aberto para as influéncias do Espirito Santo. E por isso que alguns de nés nao transmitimos sermées pelo radio c pela televisao, porque achamos dificil dar-nos bem com limites de tempo nestas quest6es. Pergunto o que aconteceria com um ocasional culto irradiado se o Espirito Santo de repente dominasse o pregador! Bem, da-se exatamente a mesma coisa numa ocasiao como esta. Posso ter pensado em planejar certa porcao e dizer certas coisas, €, portanto, eu poderia sumariar um plano de estudos, mas, como digo, é minha profunda esperanga que 0 Espirito Santo me dominaré, tanto a mim, e as minhas idéias, como a todo e qualquer pequeno programa que eu tenha. Por isso irei semana apds semana, confiante naquela orientagao e diregdo, sem prometer nenhuma medida para cada sexta-feira. Passemos ao assunto que nos traz aqui. Propomo-nos a examinar, considerar e estudar, da maneira que indiquei, a Epistola do apdéstolo Paulo aos Romanos. Obviamente, devemos comegar com algumas consideragGes gerais. A prépria Epistola nos concita a proceder assim e, num sentido, forca-nos a fazé- -lo. E, na verdade, todo estudo prolongado das Escrituras deve ter-nos ensinado que é sempre bom fazer uma pausa no inicio de qualquer destas Epistolas do Novo Testamento. Ha muito que aprender das palavras iniciais da introdugao. Eum grande erro passar as pressas pela introdugao destas grandiosas Epistolas. Se vocés as examinarem bem, e se lhes fizerem perguntas, verao que elas tem muito conhecimento e informagaéo espiritual para dar-lhes. Por exemplo, quando chegamos a esta Epistola, a primeira coisa que notamos a seu respeito € que, das 12 Romanos 1 diversas cartas inclufdas no cinon do Novo Testamento, ela é a primeira. Ela vem imediatamente apés 0 livro de Atos dos Apéstolos. E, é claro, isso levanta uma questdo: “Por que ela se acha ai, na primeira posigao?” A resposta nao é que ela foi a primeira carta que o apéstolo escreveu; disso estamos absoluta- mente certos. Nao ha divida nenhuma de que a primeira Epistola das que ha na Biblia, a primeira que foi escrita pelo apéstolo Paulo é a Primeira Epistola aos Tessalonicenses. Assim, a Epistola aos Romanos nao é a primeira do Canon por sera primeira na ordem cronolégica. Entao, por que é a primeira? Ha quem diga que é porque € a mais longa, mas, quanto a mim, concordo com os que rejeitam essa explicagao. Dou-lhes a opiniao de que ela ocupa a primeira posicdéo porque o Espirito Santo deu a Igreja sabedoria para compreender que ela é a primeira em importancia. Ela foi posta em primeiro lugar desde o principio, e todos concordam com essa posigao. Ela é reconhecida como a Epistola na qual somos postos face a face com todas as verdades fundamentais das Escrituras. Assim é que, depois de nos ser feito, em Atos, um relato de como a Igreja foi formada, estabelecida e propagada, o que seria mais natural do que a Igreja—as igrejas, em toda parte — ser lembrada do alicerce basico sobre o qual ela sempre deve estar firmada? “Ninguém pode pér outro fundamento”, diz este mesmo apéstolo escrevendo aos corintios (1 Corintios 3:11), € aqui, repisando o ponto, ele firma todas as verdades fundamentais. Certamente isso é algo a que bem podemos dar énfase. Sempre foi opiniao universal na Igreja Crista através dos séculos que Romanos é a Epistola que, mais que todas as outras, trata dos pontos fundamentais, e se vocés examinarem a histéria da Igreja, penso que verao que isso € o que tem sido reiteradamente sustentado. Ha um sentido em que podemos dizer com toda a veracidade que, possivelmente, a Epistola aos Romanos teve um papel mais importante e mais crucial na historia da Igreja do que qualquer dos outros livros da Biblia. Esse é um assunto 13 O Evangelho de Deus da maior significacéo. Devemos ler e estudar a Biblia toda — sim! Mas, se pela histdria da Igreja fica evidente que, em parti- cular, um livro foi utilizado assim, de maneira excepcional, por certo convém que lhe demos atengao excepcional. Permitam-me lembrar-lhes, pois, algumas das coisas que foram feitas na hist6ria da Igreja por meio desse livro especial. Poderiamos fazer uma demorada digressao sobre isso, mas apenas vou fazer destaque de alguns dos pontos salientes. Vejam, como primeiro exemplo, a converséo de Agostinho, aquele homem extraordinario. Suponho que em muitos aspectos € correto dizer que, entre o encerramento do canon do Novo Testa- mento ¢ a Reforma Protestante nao houve na Igreja Crista nenhuma pessoa mais importante do que Agostinho de Hipona. Vocés se lembram da histéria dele. Ele era professor - um homem brilhante. Todavia, apesar de ser um filésofo profundo, sua vida era imoral, dissoluta. Vocés se lembram de como ele foi convertido? Aflito ecom a alma em agonia, estava sentado num jardim certa tarde, quando ouviu a voz de uma crianca dizendo: “Tolle, lege”. “Tome e leia, tome ¢ leia.” Levantou-se, foi para o seu alojamento e abriu o Livro, e eis 0 que ele leu no capitulo treze da Epistola aos Romanos: “Andemos dignamente, como em pleno dia, nao em orgias e bebedices, nado em impudicicias e dissolugées, nao em contendas e citimes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e nada disponhais para a carne, no tocante as suas concupiscéncias”. E ali a verdade de Deus refulgiu sobre ele, ¢ ele foi convertido e salvo, e veio a ser uma luz orientadora na Igreja Crista. Na&o somente isso! A Igreja teve que passar por um periodo de conflitos e lutas logo apés a conversao desse grande homem. Havia um mestre na Igreja cujo nome era Pelagio, e este come- cou a pregar e a propagar o que se tornou conhecido como heresia pelagiana. Ora, nao se pode contestar que, se aquele ensino fosse aceito pela Igreja Crista, teria significado a sua ruina. Mas a Igreja foi salva da heresia pelagiana naquele tempo por Agostinho, que refutou e finalmente demoliu o ensino de 14 Romanos 1 Pelagio simplesmente expondo a Epistola aos Romanos. Ela foi a base, o alicerce sobre o qual a fé da Igreja foi mantida, estabelecida e capacitada a ter continuidade. Também muitas pessoas, penso eu, sabem e compreendem que a Epistola aos Romanos foi certamente o documento crucial em relacgéo 4 conversao de Martinho Lutero e que, portanto, levou ao real principio da Reforma Protestante. Em 1515, quando ainda era catélico romano, Martinho Lutero, na época professsor de teologia, resolveu dar aulas aos seus alunos sobre a Epistola aos Romanos. E foi quando ele estava estudando justamente essa Epistola que a verdade da justificagao pela fé, e pela fé somente, raiou em sua mente, em seu coragéo e em todo o seu ser. Isso levou aquela tremenda mudanga em sua vida que realmente desencadeou a Reforma Protestante. Essa grande doutrina, mencionada jé no capitulo primeiro desta Epistola e também na Epistola aos Galatas, foi o meio pelo qual se deu aquela virada total na vida de Lutero. Assim, podemos ver ai também como a Epistola foi utilizada por Deus num marco divis6rio vital da histéria da Igreja Crista. Igualmente na vida de Jodo Bunyan a mesma Epistola, de novo junto com a Epistola aos Galatas e também com os comentarios de Lutero, foi empregada por Deus em sua conversao. E talvez mais conhecido de todos é 0 relato da conversio de Joao Wesley, em 24 de maio de 1738, na Rua Aldersgate, em Londres. Deixem-me lembrar-lhes como foi que aconteceu. O Espirito de Deus estivera operando nele; os Irm4os MorAvios 0 vinham ensinando sobre a doutrina da justificagao pela fé sem obras e, embora a tivesse entendido com a mente, tivera que dizer: “Nao a senti”. Foi num estado de grande agitagao da alma, da mente e do coragao que ele foi, sem boa disposigéo, a uma reunido na Rua Aldersgate. Aconteceu que naquela reuniao alguém — um dos irmios cristéos — estava lendo o Prefacio e Introdugao do Comentario da Epistola aos Romanos, de Martinho Lutero, e Wesley sentou-se e se pés a ouvi-lo. E enquanto ouvia, viu que o seu coracdo foi “aquecido 15 O Evangelho de Deus estranhamente”, e ele ficou ciente de que Deus tinha perdoado os seus pecados — “até os meus”, diz ele. Ali mesmo e naquela mesma hora foi-Ihe dada uma firme certeza da salvacdo, a qual o tornou do abjeto que era como pregador num grande e poderoso evangelista. Permitam-me dar-lhes s6 mais um exemplo do uso que o Espirito Santo fez da Epistola. Houve um notavel movimento evangélico” no continente europeu no inicio do século dezenove. Comecou especialmente na Suiga; depois espalhou- ~se até a Franga, e também teve certa influéncia na Holanda. A vida protestante no continente se tornara mortiga e muito formal, mas de repente surgiu essa nova luz, ocorre esse reviver, o que levou a um movimento deveras notavel. Fico a perguntar quantos de vocés sabem que isso aconteceu da seguinte maneira: havia dois escoceses de sobrenome Haldane — Robert e James Alexander Haldane. Eram leigos, mas foram grandemente usados por Deus na Escécia e noutros lugares naquele tempo. Robert Haldane esteve na Suiga, em Genebra, e um dia, quando estava sentado ao ar livre, ouviu a conversa de alguns jovens que estavam sentados ao seu lado. Percebeu que eram estudantes de teologia; percebeu também que eles ignoravam a verdade no sentido evangélico, e que, portanto, ignoravam o seu poder. Isso pesou em seu coracio. Haldane esteve com eles varias vezes e, por fim, resolveu fazer algo para ajuda-los. Assim foi que Robert Haldane convidou aqueles jovens, e eles levaram outros, para que fossem ao seu quarto, e o que ele fez foi simplesmente expor-lhes a Epistola aos Romanos, versiculo por versiculo, e explicar-lhes as suas poderosas e gloriosas verdades. O Espirito Santo, que o induziu a fazer isso, honrou-o quando ele o fez, e aquelas reunides singelas levaram a conversdo de alguns grandes homens. Um deles, Merle “Como noutras obras, ndo fazemos uso da forma inglesa “evangelicalism”, € procuramos resgatar o sentido cristo e biblico da palavra “evangélico”. Nota do tradutor. 16 Romanos 1 d@’Aubigné, ficou famoso pela producdo da obra que, em muitos aspectos, é a modelar histéria da Reforma Protestante. Houve outro homem, chamado Gaussen, autor de um excelente livro sobre a inspiragéo das Escrituras. Ambos esses homens foram convertidos naquelas reuniées. Outro homem, chamado Malan, também foi convertido e, entre outros, Monod e Vinet, nomes que eram conhecidos na Franca. Resultou dessa exposicio da Epistola aos Romanos, feita por Robert Haldane, que todos eles acabaram se tornando poderosos homens de Deus, e os grandes mestres que foram. Af estao, pois, algumas ilustrag6es de como Deus usou esta notavel Epistola para propagar o Seu reino. Mas, queiram permitir-me também que eu lhes comunique alguns testemunhos da sua grandeza e do seu valor, dados por homens de Deus. Um dos grandes pregadores da Igreja Crista Primitiva —certamente um dos pregadores mais elogiientes que a Igreja ja conheceu — foi Joao Criséstomo, de Constantinopla. Ele dizia que a Epistola aos Romanos é tao extraordindria que ele ouvia a leitura dela duas vezes por semana. Ele queria ouvi-la para captar a sua mensagem. Ougam também o que diz Martinho Lutero sobre ela: “Esta Epistola é a parte principal do Novo Testamento” — significando que é0 livro mais grandioso do Novo Testamento-— “eo mais puro evangelho, e merece que o cristao nao somente a saiba de cor palavra por palavra, porém também trate dela diariamente como 0 pao diario para a alma, pois nunca podera ser lida demais, nem estudada demais, nem assimilada demasiadamente bem, e quanto mais for manuseada, mais deleitavel se tornara e melhor sabor tera”. Pergunto: quantos dos aqui presentes neste momento poderiam recité-la para mim, palavra por palavra? Notem que Lutero disse que devemos aprendé-la desse modo, confid-la 4 meméria, conhecé-la em nossos coragoes, lé-la constantemente, porque, diz ele, quanto mais vezes vocés 0 fizerem, “mais deleitavel se tornardé e melhor sabor tera”. Tomo a liberdade de dar-lhes a opinido doutra pessoa. 17 O Evangelho de Deus Suponho que uma das mentes mais agudas que a historia da literatura inglesa conheceu foi a de Samuel Taylor Coleridge ~ homem notavel; e o que Coleridge disse desta Epistola foi que “€a mais profunda obra escrita que existe”. Ai estd um literato, um erudito, autor de livros tais como Biographia Literdria, homem que nao somente conhecia a literatura inglesa, mas igualmente era versado na literatura alema. Era conhecedor dos classicos. Contudo, esse homem péde dizer que a Epistola aos Romanos é “a mais profunda obra escrita em existéncia”. Nao estou dizendo estas coisas somente para justificar o nosso ensino desta grande Epistola, mas também esperando que, ao fazé-lo, estaremos examinando a nés mesmos e fazendo estas perguntas: “Terei compreendido tudo isso acerca da Epistola aos Romanos? Quando percorri a Biblia, eu me detive neste livro? Fiz uma pausa e dediquei tempo a ele? Dei-me conta da sua profundidade?” E agora, tendo dito estas coisas preliminares, consideremos a Epistola propriamente dita. Vemmos que a sua primeira palavra € 0 nome PAULO; é uma Epistola escrita por um homem chamado Paulo. Aqui sou compelido a deter-me. Nao posso ir adiante, porque, como eu disse anteriormente, se vocés pararem e observarem estas coisas logo no inicio, encontrardo rica verdade. Vejamos agora esta primeira palavra, Paulo. Eo nome do homem que esta escrevendo, e ele esté escrevendo uma carta aum grupo de cristéos da grande cidade de Roma, a metrépole do mundo daquele tempo. Est4 escrevendo a cristaos, a maioria dos quais é composta de gentios. Que coisa admiravel e espantosa! Que coisa admiravel, este homem, dentre todos os demais, escrever uma carta como esta a uma igreja mormente gentilica! Por que digo isso? Digo-o a luz da hist6ria deste homem. Temos uma pequena sinopse dessa histéria no capitulo 3 de Filipenses, que devemos ler para prover-nos do cenario de fundo. Esta é uma das coisas mais admiraveis que ja aconteceram. Mais admirdvel que a Epistola aos Romanos é 0 fato de Paulo escrevé-la. La estava este homem, anteriormente 18 Romanos 1 um judeu austero, fanatico, nacionalista, que odiava o Senhor Jesus Cristo e tudo quanto se relacionava com Ele, que O considerava blasfemo, que tentava destruir a Igreja Crista, que foi para Damasco respirando ameagas e mortes a fim de poder exterminar a pequena igreja daquela cidade. A seguir, lembremo-nos de como ele viu o Senhor ressurreto, e de como toda a sua vida foi transformada, e de como ele se tornou poderoso defensor da fé e apéstolo para os gentios. Isso posto, ai esta algo que devemos analisar um pouco, pois nao podemos deixar de ficar impressionados coma maneira maravilhosa pela qual Deus preparou este homem especial para a sua tarefa especial. Que tipo de homem era ele? Ja lhes falei da sua convers4o, mas estudemos um pouco mais a pessoa dele. Que € que vemos? Vemos que ele era um homem dotado de incomum e excepcional habilidade natural. Isso é inquestio- nével. E algo que transparece em toda parte em suas Epistolas, e naquilo que nos é dito sobre ele no livro de Atos, Este homem foi, indubitavelmente, um dos grandes cérebros, nao sé da Igreja mas também do mundo. Isso é reconhecido por incrédulos. Lembro-me de que, quando se aproximava o fim da Segunda Guerra Mundial, foi feita aqui em Londres uma série de prelecdes sobre “As Maiores Mentes de Todos os Séculos”. Foi planejada e organizada por uma sociedade secular, mas na lista dos homens assim considerados estava este homem, 0 apéstolo Paulo, porque tiveram que reconhecer e admitir que ele foi uma das principais mentes de todos os séculos. E isso é algo que sobressai claramente em tudo o que ele faz. Vocés nao podem deixar de notar o seu tremendo poder de raciocinio, sua légica, seus argumentos, 0 modo como ele dispée as suas provas e os seus fatos, e os apresenta. Ele era, entéo, um homem deveras admiravel, mesmo que somente contemplado do ponto de vista natural e considerada a sua capacidade incomum. No entanto, em acréscimo, notem 0 seu nascimento, a sua formag4o educacional e 0 seu preparo pratico. Estou tentando mostrar-lhes como Deus estava preparando este homem paraa 19 O Evangelho de Deus grande tarefa que lhe designara, e isso tudo ja nos € sugerido simplesmente por seu nome. Primeiramente e acima de tudo, ele era judeu. Sobre isso ele nos disse tudo — hebreu de hebreus, da tribo de Benjamim, etc. Sim, mas nao somente isso; também foi educado como fariseu; teve o privilégio de sentar-se aos pés de Gamaliel, o maior mestre dentre os fariseus, ¢ ali, sob aquele ensino especializado e competente, ele mesmo veio a ser um especialista na lei judaica, pelo menos como esta era ensinada e interpretada pelos fariseus. Diz-nos ele que sobrepujou a todos os demais em exceléncia. Evidentemente ele foi o méximo em todas as provas. Ele simplesmente pode embeber-se em conhecimento e informacgio, e ai esta ele, pois, “o fariseu dos fariseus”, um especialista no entendimento e na interpretagaéo judaicos da lei de Deus. Sim, mas outra coisa a respeito dele é que ele era cidadaéo romano de nascimento. Certamente vocés recordam que, no livro de Atos, quando Paulo teve que fazer a sua defesa apés ter sido preso, ele assinalou que era “cidadao de Tarso, cidade nao pouco célebre” (Atos 21:39), ¢ que nascera livre. Era um cidadao romano, um homem livre. Pois bem, isso era de grande significagao: uma alta honra. Lemos sobre pessoas as quais foi dada liberdade ou que receberam o titulo de cidadaos de Londres ou de alguma outra cidade, honra grandemente apreciada. Bem, naquele tempo era algo de ainda maior valor ser cidadao nato do Império Romano — e este homem, natural da cidade de Tarso, era cidadéo romano por direito de nascimento, com todos os privilégios que esse fato implicava. Lemos em Atos sobre como ele fez uso dessa cidadania em mais de uma ocasiao, e sem diivida 0 usou muitas outras vezes de que nao fomos informados, durante a realizacgio do seu trabalho como evangelista. Outro fato importante nessa conexao foi ter sido criado numa cidade chamada Tarso. Como se sabe, Tarso era um dos principais centros de cultura; as outras duas eram, é claro, Atenas, na Grécia, e Alexandria, no Egito. Contudo Tarso, de acordo 20 Romanos 1 com as autoridades, era igual a Atenas e Alexandria nesta questéo de cultura grega. E, ao ler-se o livro de Atos, vé-se que 0 apéstolo tinha sido bem preparado neste aspecto também. Ele era homem de cultura. Ele conhecia os poetas gregos ¢ podia cita-los. Ele conhecia as produgées literdrias dos filésofos gregos, e podia cita-los. Ele tinha esse substrato da cultura grega em sua melhor expressao, em acréscimo a sua cidadania e ao seu nascimento, no sentido natural, como judeu. Por que me demoro nisso tudo? Bem, por esta razao: esta Epistola nos mostrar4 que este homem de Deus foi levantado por Deus para duas realizag6es especiais. Uma delas era defender a fé crista contra os judeus, ou contra 0 judaismo. Ele trata disso em quase todas as suas Epistolas. Dentre todos os homens, foi ele que teve de contender por outros. Diz-nos ele no capitulo dois da Epistola aos Galatas que teve até de resistir ao apdstolo Pedro na cara sobre essa questio. Pedro estava comecando a desviar-se nesse ponto. Temia 0 judaismo. E quem pode dizer 0 que aconteceria com a Igreja Crista, se o apéstolo Paulo nao fosse capaz de resistir-lhe e refuté-lo, e de trazé-lo de volta a um verdadeiro entendimento do evangelho. Vemos, pois, que nao se pode duvidar de que o conhecimento que o apéstolo tinha da posigéo dos judeus, conhecimento que obtivera em sua criacdo e instrucao aos pés de Gamaliel, foi de inestimavel valor. Ele conhecia a causa do outro lado melhor do que os préprios antagonistas, e assim, como cristao, pode enfrentd-la, mostrar as suas faldcias e finalmente refuta-la. Permitam-me colocar 0 ponto doutra maneira. A dificuldade com relacéo a muitas pessoas honestas e sinceras era esta: como podiam conciliar as Escrituras do Velho Testa- mento € 0 seu ensino com este novo evangelho, com esta nova fé? A acusagao que os judeus faziam especialmente contra 0 evangelho era que este consistia em algo esptirio, que nao vinha de Deus, que era uma clara contradigdo de tudo 0 que o Velho Testamento ensinava, que era uma inovacdo, e, por isso, advertiam o povo contra ele. E uma das grandes tarefas 21 O Evangelho de Deus desempenhadas por Paulo foi a conciliagao do ensino do Velho Testamento com o do Novo. Ele foi, se € que vocés se lembram, para a Arabia apés a sua conversao, e 14, sem dtivida, passou 0 tempo meditando precisamente nessa questo. Ele foi iluminado pelo Espirito Santo. Examinou as Escrituras, que ele conhecia tao bem! Encontrou Cristo nelas, em toda parte, de modo que, quando escreveu as Epistolas, péde fazer as citacdes que fez, péde usd-las no ponto certo; ele conhecia a causa dos judeus por dentro e por fora, devido a formagao dele e seu passado; tudo isso foi de inestimavel valor para ele. A segunda grande realizacgao para a qual este homem de Deus foi chamado foi a de agir como apéstolo dos gentios. Ele nos diz isso no capitulo quinze desta Epistola aos Romanos. Ele engrandece o seu oficio como apéstolo dos gentios, e € é6bvio que o fato de ser ele um cidaddo romano era de inestimavel valor nesse ponto. Acaso nao seria também ébvio que o seu conhecimento da literatura e da cultura gregas era igualmente valioso? Ai esté um homem que n4o somente tem o evangelho para pregar, mas que também entende 0 povo a quem prega. Vejam o modo como ele expressa 0 ponto quando escreve aos corintios, no capitulo nove da Primeira Epistola; diz ele: “Fiz- -me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns. Para os que estéo sem lei, como se estivera sem lei... para ganhar os que estao sem lei”. Ele pode falar como judeu. Ele pode falar como gentio.Ele conhece os elementos basicos de formagao das duas culturas. E assim ele sabe pregar 0 evangelho a ambas, sabe pregd-lo a todos os homens. De fato ele nos diz, logo no primeiro capitulo da Epistola aos Romanos: “Eu sou devedor, tanto a gregos como a barbaros, tanto a sébios como a ignorantes. E assim, quanto esté em mim, estou pronto para também vos anunciar o evangelho, a vés que estais em Roma”. Penso que temos ai uma daquelas coisas admiraveis que se véem quando se contempla a maneira maravilhosa pela qual Deus faz com que se cumpram os Seus propésitos — como Ele estivera preparando este homem para todas estas coisas 22 Romanos 1 grandiosas que Ele o incumbiu de realizar. Mas certamente aqui topamos com um principio de real valor pratico para nés no presente momento. Deixem-me express4-lo do seguinte modo: qual é a relagao que h4 entre o Espirito Santo e Sua obra por um lado, e os dons naturais e a educacio por outro? Estou certo de que essa pergunta se tem apresentado a vocés como um problema, e muitas vezes ela tem sido debatida. Muitas vezes isso levou a confusao, e penso que é 0 que esté acontecendo atualmente. Alguns parecem ter a idéia de que absolutamente nada importa, exceto que 0 homem seja convertido e receba o dom do Espirito Santo. Isso, dizem eles, € tudo 0 que se necessita, e os dons naturais nao tém a minima importancia. Se a pessoa é cheia do Espirito Santo, nada mais importa; o Espfrito € todo-poderoso. Certamente toda essa énfase sobre Paulo ser judeu, conhecer algo da cultura grega, ter a cidadania romana, nao tem nenhuma significado. Nada importa, exceto que o homem nasga de novo, seja convertido e tenha dentro de si o Espirito. Pois bem, ha certas coisas nos escritos deste homem, permitam-me dizé-lo, que parecem dar certo colorido aquela idéia. Na Primeira Epistola aos Corintios, no capitulo primeiro, o apéstolo assinala com magnifica eloqiiéncia que “...Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sdbias...”, Vocés se lembram do argumento. No capitulo dois da mesma Epistola diz cle que “...o homem natural nao compreende as coisas do Espirito de Deus, porque lhe parecem loucura; e néo pode entendé-las, porque elas se discernem espiritualmente”. E ainda na Segunda Epistola aos Corintios, no capitulo dez, diz ele: “Porque as armas da nossa milicia nado sao carnais, mas sim poderosas em Deus, para destruigao das fortalezas”. E entao, baseados nisso, hd os que alegam que, seguramente, néo importa quais sejam os dotes naturais da pessoa; nao importa se ela é inteligente ou nao, se é instruida ou ignorante — nada importa, senao o poder do Espirito. Ora, que dizer disso? Creio que vocés concordarao comigo 23 O Evangelho de Deus em que uma sugestao desse pensamento é corrente hoje em dia. Por alguma razao assombrosa, parece que se considera quase como um requisito que a pessoa nao tenha habilidade natural em relagdo as coisas do evangelho, que nao tenha grandes poderes naturais, e que nao tenha demasiado entendimento, conhecimento e preparo. Nao haveria uma tendéncia de se dizer isso? E uma tendéncia que vimos noutros dominios. Acaso isso n4o foi parte da nossa dificuldade em geral antes da eclosio da guerra em 1939? Nao havia a tendéncia de se confiar em quem dissesse: “Nao sou inteligente, sou apenas honesto”? Como se nao fosse possivel ser inteligente e honesto ao mesmo tempo! “Sou um homem simples; nao tenho pretensaéo de possuir grande entendimento, e nao sou grande orador; sou simples- mente um homem comum, um homem honesto.” E acreditévamos nele. Ao mesmo tempo, havia outro, muito mais capaz, que nos advertia de que corriamos grave perigo. Pois bem, a tendéncia era dizer: “Ah, vocé nao pode confiar nesse homem, ele é inteligente demais, é um promotor de guerras; nao Ihe dé ouvidos. Vocé nao pode confiar nesses homens habilidosos, fiquemos com o homem simples e comum”, Bem, vocés se lembram do que aconteceu — quase levou 4 desgraga e aruina da Inglaterra. Dito isso, ha o perigo, digo eu, de usarmos semelhante argumento quanto a propagacao do evangelho, mas é uma falacia terrivel, e deixem-me mostrar por que digo isso. A Biblia o contradiz. Vao lendo a Biblia c notem os homens que Deus usou de mancira assinalada, e verao em cada caso que cles eram homens notaveis, homens de destacada capacidade, que Deus tinha preparado de maneira incomum. Vejam Moisés, por exemplo, com a sua habilidade natural e com o saber que adquiriu na casa de Farad, com tudo o que isso significou para ele em termos de preparagao. Vejam um homem como Davi. Leiam os seus salmos. Que pessoa extraordindria! Que homem de destacada competéncia! Vejam Isaias. Leiam os seus argumentos vigorosos; observem a sua linguagem inflamada e 24 Romanos 1 emocionante. Ele foi um grande poeta, entre outras coisas. Vejam um homem como Jeremias, que tinha sido preparado para ser pregador; observem o seu método de argumentagao. E poderiamos prosseguir nisso mais e mais. Depois, chegando ao Novo Testamento, uma preparacéo semelhante ocorreu nio somente com este homem, Saulo de Tarso, que se tornou Paulo; € evidente que ocorreu igualmente com 0 apéstolo Joao que, embora nao recebendo capacitacao tao completa, evidentemente foi um homem de considerdvel capacidade. Vocés nao véem o ensino dessa verdade somente na Biblia; véem-no também na historia da Igreja através dos séculos. Ja mencionei Agostinho. Mencionei Martinho Lutero. Poderia mencionar Joao Calvino, Jonathan Edwards e Joao Wesley — homens de capacidade e, no sentido natural, extraordinaria- mente dotados. Tais so os homens que se vé que Deus usou de maneira muito notavel para aconcretizac4o dos Seus propésitos na extensdo do Reino e no progresso da Igreja. H4, entdo, certos principios que podemos deduzir; permitam-me apenas anoté-los para vocés, Nao ha nada de errado nos dons naturais em si. & Deus quem dota a todos os homens de dons naturais; o homem nao cria os seus préprias dons. Um Shakespeare nao é o responsdvel pela obtencdo da sua habilidade. Todos os dons sao outorgados por Deus; portanto, é antibiblico e anticristéo desacreditar os dons naturais. A fé crista nao da prémio 4 ignorAncia e 4 estulticia. Nao ha vantagem na vida crista que se enquadre nessa categoria. Entretanto, deixem- -me avangar um pouco mais. Em segundo lugar, nao devemos por a nossa confianga nos dons naturais, nao devemos gloriar- -nos neles. E é com isso que 0 apéstolo Paulo estava preocupado quando escreveu aos corintios. A dificuldade que havia com os cristéos corintios nao era que eles tinham dons, porém que se jactavam deles e se gloriavam neles. Ora, isso é algo que é denunciado em toda parte, nas Escrituras. Nao ha nada de errado nos dons, propriamente ditos, mas se eu me gloriar neles, ou pensar que porque os tenho nao preciso do Espirito Santo, entao 25 O Evangelho de Deus estarei totalmente errado. Os dons naturais nao sao descartados nem deixados de lado pelo Espirito Santo. O Espirito Santo exerce controle sobre eles e faz uso deles. Pois bem, é assim que podemos entender a maneira pela qual Deus usou os homens mencionados nas Escrituras. Notem como cada um deles tem 0 seu préprio estilo. Se alguém lesse para vocés um trecho da profecia de Isaias, vocés o reconheceriam? Nao o reconheceriam? Vocés seriam capazes de dizer: “Isso é Isaias”. Certamente, se eu lesse uma parte das Epistolas de Paulo, ninguém que tenha algum conhecimento das Escrituras sonharia em opinar que é de Pedro ou de Joao. Nao! Cada um desses homens teve o seu estilo peculiar — eles nao escreveram igualmente — n4o foram aut6matos. O Espirito Santo nao lhes fez um ditado. O que o Espirito Santo fez foi tomar esses homens com todos os seus dons e capacidades para usd-los e empreg4-los. Veremos tudo isso 4 medida que formos percorrendo esta Epistola aos Romanos. Nesta carta ficaremos impressionados com a ordem, com a légica, com os argumentos, com a energia com que Paulo escreve. De todas essas caracteristicas naturais, de todos esses atributos que o natural Saulo de Tarso tinha, o Espirito tomou posse, e eles séo demonstrados em sua magnificéncia nesta Epistola aos Romanos. Ah, como é importante que entendamos isso! A nossa doutrina sobre a inspiragdo das Escrituras nao é a do ditado mecanico. O Espirito Santo tomou os homens que a Ele se renderam, e fez uso de todos os dons de que tinham sido revestidos. Foi Deus quem lhes deu esses dons. Foi Deus que providenciou para que Paulo nascesse em Tarso. Foi como Deus planejou prepard-lo. Deus tinha uma tarefa para ele. Por isso vocés véem a gléria de Deus brilhando em toda a obra dele. O homem certo na hora certa para a tarefa especial! Observem esse fato no caso de Martinho Lutero. Era esse 0 homem que havia de iniciar a Reforma Protestante, 0 homem que foi preparado como monge, o homem que conhecia muito bem 26 Romanos 1 Roma por dentro. Sao tais homens que Deus usa. Ele nao toma alguém que nada sabe dessas coisas, enchendo-o do Espirito e fazendo uso dele. Nao, Ele sempre preparou 0 homem para 0 Seu servico, e tem continuado a fazé-lo através dos séculos. Meus caros amigos, digo-lhes que ha nisso uma licdo pessoal para mim e para vocés. Vocés foram convertidos recentemente? Bem, nao deixem que o diabo os tente, levando-os a pensar que os seus dons naturais nao tém valor e sao intiteis. Vocés faziam uso da sua personalidade na velha vida — Deus quer usd-la na nova. Vocés usavam os seus dons na sua velha vida, em seus negocios, no seu pecado. Os mesmos dons podem ser utilizados no seu testemunho cristao, no seu procedimento cristao. Essa é a ligdo que vejo aqui. Todos nés temos dons; tratemos de devolvé-los a Deus para que faga uso deles. Nao queiramos ser como os demais. Nao fomos destinados a isso. Deixemos que Deus use os dons que Ele nos deu, para que cu 4 minha maneira, vocés a sua, € os outros as suas diferentes manciras, possamos ser, todos juntos, como um grande coral, cantando as diferentes vozes num vigoroso céntico de louvor a Deus. Deus faz a mesma coisa na natureza e na criagao. Nao existem duas flores iguais, dois passaros idénticos; cada criatura tem algo diferente das outras, e com isso Deus manifesta a Sua gloria na variedade eno encanto da natureza. Paulo - sim! O homem certo e necessario para lancar o fundamento, para salvaguardar a verdade contra o judaismo, para apresenta-la em toda a sua gloria aos gentios. Paulo, como vimos, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apostolo, ¢ separado para o evangelho de Deus. 27 2 “Paulo... a todos os que estais em Roma.” — Romanos 1:1,7 Depois de fazer um exame geral da Epistola e do homem que a escreveu, 0 préximo ponto que devemos considerar, da mesma maneira introdutéria geral, é a identidade das pessoas para as quais ele escreveu a carta. No versiculo 7 do primeiro capitulo ele nos diz que ela foi escrita e destinada “A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos...” (VA, ARA: “chamados para serdes santos”). Nao me proponho nesta altura a tomar essa descrigéo pormenorizadamente, como tampouco entramos nos pormenores do que 0 apéstolo diz sobre si mesmo como o autor. Ainda estou introduzindo a Epistola, porque penso que estas consideragées preliminares sao de vital importancia. Por isso nos contentamos em dizer que ela foi enderegada “A todos os que estais em Roma” — aqueles irmaos “amados de Deus, chamados santos”. Porventura € uma coisa espléndida e maravilhosa que alguma vez surgisse a ocasido para que 0 apdstolo escrevesse uma carta aos cristaos de Roma — Roma, dentre todos os lugares? Aqui somos logo levados a lembrar-nos da plena maravilha do evangelho. E-nos muito dificil — e, todavia, nem tanto nos dias atuais — reconstruir 0 cen4rio e lembrar-nos das condicées da Roma antiga. Bem, se nao vemos isso com clareza; tudo o que precisamos fazer é ler 0 que o préprio Paulo diz neste capitulo primeiro, do versiculo 18 ou 19 até o fim, e com isso teremos alguma idéia de como era a vida neste mundo, e no Império Romano em particular. E um quadro de degradacio tao terrivel B Romanos 1:1,7 como jamais foi tragado. E foi de um mundo como esse — do meio de pessoas que viviam nesse tipo de atmosfera e que tinham esse tipo de vida — que estes destinat4rios tinham vindo a juntar-se como cristios, e é a eles que Paulo escreve sua carta. Ha somente uma explicagéo para a mudanga deles, como também h4 somente uma explicagéo para o fato de pessoas crist&s se assentarem aqui, neste edificio, semana apés semana. Ha sé um fator que pode transformar em santos, homens e mulheres pertencentes as terriveis categorias acima descritas, e é desse fator que Paulo fala no versiculo 16: “Nao me envergonho do evangelho de Cristo”, diz ele, “pois é o poder de Deus para salvacéo”. Nenhuma outra coisa teria produzido cristéos no Império Romano e em Roma. Mas 0 evangelho podia fazé-lo, e 0 fez, e o resultado foi que 0 apéstolo escreveu uma carta a essas pessoas. Como foi que elas se tornaram cristas? Como foi que estes cristaos de Roma tinham vindo a existir? E muito importante dar resposta a essa pergunta. A resposta é primeiramente uma negativa. A igrejaem Roma ndo foi fundada pelo apéstolo Paulo. Como ele explica na Epistola, ele nunca tinha estado 14. Tinha esperado poder estar 14, mas até entao fora “impedido”. Como ele diz nesta introdug4o, “Deus me é testemunha de como incessantemente fago mengio de vés, pedindo sempre em minhas oragées que nalgum tempo, pela vontade de Deus, se me ofereca boa ocasiao de ir ter convosco. Porque desejo ver- -vos...”, mas ele diz que tinha sido impedido. Assim, a igreja nao foi fundada pelo apéstolo Paulo, e, de acordo com todos os cAlculos, embora nunca os tivesse visto, ele escreveu esta carta por volta de 58 d.C. Se vocés fizerem uma pesquisa no livro de Atos, verao que ela foi escrita provavelmente perto do fim da terceira viagem missiondria de Paulo. Leiam especialmente 0 capitulo vinte de Atos, e também o capitulo dezesseis desta Epistola. Notem alguns dos nomes que ele menciona, as saudag6es que ele envia a um homem chamado Gaio, que vivia em Corinto, e a outros. Estes estabelecem mais ou menos 0 29 O Evangelho de Deus fato de que a carta foi escrita por volta de 58 d.C., quando se aproximava o fim da sua terceira viagem missiondria. O importante, porém, é que a igreja em Roma nao foi fundada pelo apdstolo Paulo; tampouco pelo apéstolo Pedro. Agora vocés véem por que estou levantando esta questao da origem da igreja em Roma. “Bem”, diré alguém”, “como é que vocé pode resolver tao facilmente assim este problema que tem agitado tantas mentes?” Quero responder essa pergunta com outra. E concebivel que, se a igrejaem Roma fosse fundada e estabelecida pelo apéstolo Pedro, nenhuma referéncia, de qualquer espécie, seria feita a ele na carta? N&o sé isso. Temos no capitulo quinze desta Epistola uma declaragao especifica do apéstolo Paulo de que nunca foi sua pratica interferir em obra alheia. Diz ele que nao fora chamado para “edificar sobre fundamento alheio”; ele proprio haveria de ser um pioneiro. Portanto, pode-se afirmar com seguranga que, se 0 apéstolo Pedro tivesse fundado e estabelecido aquela igreja, Paulo nao lhe teria enviado esta carta. Era contra a sua pratica, diz ele. Assim, a nossa primeira resposta seria a auséncia do nome de Pedro — nem sequer uma remota referéncia a ele —e esta franca contradigao daquilo que o apéstolo Paulo nos declara ter sido seu costume e seu habito. Além disso - e este fato tem que ser concedido mesmo pela igreja catélica romana — nao ha nenhuma verdadeira prova historica, nem mesmo fora do Novo Testamento, de que Pedro estava l4 naquele tempo. Ai est4 a prova, eu diria, e é muito importante. Mas podemos ir além e dizer que aquela igreja nio foi tampouco fundada por nenhum apéstolo. Nao ha referéncia a nenhum deles, c, de novo, seria violar a expressa pratica do apéstolo Paulo. Entao, como foi que esta igreja em Roma veio a existir? Ha bem pouca diivida, parece-me, de que foi da seguinte maneira: no capitulo dois de Atos somos informados, pela lista dos diversos religiosos, judeus e prosélitos que tinham subido para a festa do dia de Pentecoste em Jerusalém, que alguns deles 30 Romanos 1:1,7 tinham vindo de Roma. Logo, certamente nao é preciso ter muita imaginagao para ver que alguns deles provavelmente foram convertidos quando ouviram o apéstolo Pedro, que eles estavam entre os trés mil, e que voltaram para Roma e propagaram as boas novas, transmitiram a mensagem e a demonstraram em suas vidas. Essa € provavelmente uma parte dos fatos, mas houve algo mais. Roma era, naturalmente, a sede do governo imperial, a metrépole do Império Romano, a Londres, por assim dizer, de todo 0 vasto esquema de governo, e muita gente ia e vinha de todas as partes deste grande e extensamente espalhado império — soldados e outros, pessoas comuns. Lemos a respeito de Aqiiila e Priscila; tinham ido para 14, néo nasceram 14. Muitos viajavam, indo e vindo, e assim alguns cristaos ficaram em Roma. E, indubitavelmente, segundo estas duas linhas, aqueles a quem Paulo estava escrevendo tinham se tornado cristaos; alguns deles eram judeus e alguns eram gentios. O préximo ponto de que desejo tratar é que o cardter daquela igreja é muito interessante. A lista de saudacdes que temos no tiltimo capitulo (e considerar 0 ultimo capitulo é tao importante como considerar a introdugao desta carta, porque 14 Paulo volta as particularidades) mostra que era uma igreja heterogénea. Havia alguns judeus entre eles — judeus conver- tidos, judeus cristaos. Alguns deles eram parentes do apédstolo —ele faz referéncia a eles — mas provavelmente a maioria era de gentios, Outra coisa muito interessante é esta: que a lista do capitulo dezesseis indica que muitos escravos se haviam tornado cristaos. Sempre que vocés virem referéncia aos que sao da “familia” (ARA: “casa”) de alguém, poderao entendé-la como referéncia a seus escravos; é assim que eles eram descritos. A tinica observagao geral a mais que eu gostaria de fazer acerca da igreja em Roma é a seguinte: vocés observam que 0 apéstolo diz que est4 escrevendo “a todos os que estaisem Roma, amados de Deus”. Terfamos direito de usar um argumento como este — que ele nao esta escrevendo 4 igreja de Roma, e sim a 31 O Evangelho de Deus igreja em Roma? Se vocés percorrerem as saudagdes em todas estas Epistolas do Novo Testamento, acharao interessante descobrir esse mesmo ponto. A maneira caracteristica de Paulo dizé-lo é esta: ele estd escrevendo a igreja de Deus em Corinto, ou em Efeso, ou em algum outro lugar. Ele nao diz, a igreja de Corinto, etc. Nao é esse 0 conceito neotestamentario de igreja, absolutamente. E a mim me parece, como também pareceu a muitos dos nossos antepassados, que nao é biblico falar da igreja de algum lugar debaixo do sol, porque sempre devemos preservar esta distingdo. A igreja é uma reuniao de crentes auténticos. Eles podem estar em Londres, em Roma, em Corinto, em Efeso, ou em qualquer outro lugar; nao saodo lugar nesse sentido. Estao ali, mas sao cidadaos do céu. Naturalmente, humanamente falando, ainda sao cidadaos das suas cidades terrenas, mas Paulo da énfase a esta distingao. Nao se pode explicar isso em termos de Roma ou Corinto: “A todos os que estais em Roma”. Quanto ao corpo, estais em Roma, porém o que ha de importante a vosso respeito é que fostes “chamados para serdes santos”. Outra coisa é que geralmente se vé que o Novo Testamento fala muito mais acerca de “igrejas”do que acerca da Igreja — as “igrejas na Galdcia”(VA),” e assim por diante. E, obviamente, nesse sentido, poderiam existir diversas igrejas em Roma. Vocés se lembram de que, ao enviar saudagées a Aqiila e Priscila, Paulo declara que também deseja enviar saudacées a igreja que esté “em sua casa”. Noutras palavras, cles nao tinham um grande * A particula “de” nao tem necessariamente significagao possessiva. Os diciondrios da lingua portuguesa dao grande lista de usos e sentidos da particula “de”. Assim, dizer, e.g., Igreja Presbiterianado Brasil, nao é dizer que o Brasil € dono dessa denominagao evangélica. A expressio “do Brasil”apenas indica que essa igreja estd radicada no Brasil e que os seus objetivos visam, primeiramente, em termos operacionais, atender as necessidades do povo brasileiro. “No Brasil”, no exemplo citado, seria anglicismo. Mas, mesmo em portugués, em termos de énfase, é valida a distingdo feita pelo autor. Nota do tradutor. 32 Romanos 1:1,7 prédio central, mas em Roma os cristaos se reuniam em suas casas, uns aqui, outros ali. Sim, porém sdo igrejas, todas elas, pois o apéstolo fala acerca da igreja “em sua casa” (i.e., na casa deles). Também aqui seria possivel desenvolver 0 tema elabor- adamente, mas eu penso que grande parte da confusio moderna deve-se ao fato de que falamos demais da “Igreja”, em vez de pensarmos em termos de “igrejas”, em vez de pensarmos em reunides dos santos, no meio das quais est4 Cristo, e esta é uma distingdo muito importante. A préxima questao 4 qual nos dirigimos é a seguinte: af esta Paulo escrevendo uma carta aos cristaos residentes em Roma. Por que lhes escreveu? Qual a razao disso? Ele tinha que ter alguma raza para escrevé-la, e no versiculo 11 ele nos diz que foi esta: “Desejo ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais confortados”. Essa é a razio — eles precisavam ser “confortados”, ou “confirmados” (ARA). A conversao nao é 0 fim; é 0 comego. Embora um homem possa estar realmente convertido e ter nascido de novo, pode estar em perigosas condicées. Por qué? O apéstolo no-lo diz no tiltimo capitulo —no capitulo dezesseis, versiculos 17 e 18: “Rogo-vos, irm4os, que noteis os que promovem dissensdes e escandalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais nfo servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e€ com suaves palavras e lisonjas enganam os coragées dos simplices”. Quando leio isso, quase me sinto como se Paulo estivesse escrevendo a cristéos modernos. Eu vos escrevo, diz ele, com 0 fim de “confirmar-vos”. Ha pessoas que andam por ai empregando boas palavras e argumentos especiosos. Sao tao insinuantes, parecem tao finos, e os crentes simples e os ignorantes prestam-se a dar-lhes ouvidos, e a serem levados por todo vento de doutrina. Sermos convertidos nao basta; precisamos ser confirmados e edificados. Certamente isso nunca foi mais necessdrio do que hoje, e ai est4 por que convém estudar a Epistola aos Romanos. Este é um problema persistente. Havia 33 O Evangelho de Deus falsos mestres naquele tempo — os judaizantes e outros — e eles estavam levando pessoas a extraviar-se, e muitos cristaos estavam perdendo a alegria. Vejam os galatas, por exemplo. Pareciam ter perdido quase tudo por terem dado ouvidos a esses outros mestres. Esta acontecendo a mesma coisa hoje. Nao existe ensino tao falso hoje em dia como as idéias de que “nao importa 0 que vocé ensina”. Ali a doutrina era especificamente errada, mas hoje a tendéncia é dizer que a doutrina absolutamente nao importa — que, contanto que a pessoa tenha algum tipo de experiéncia, a doutrina nao importa. “Certamente podemos ser ecuménicos na evangelizacao, de qualquer forma”, dizem. Mas eu digo: “Quem é este Cristo? Com que se parece?” “Ah, mas agora”, dizem eles, “vocé esta causando divisdes; vocé nao deve fazer essas perguntas. O que se deve fazer é conseguir que as pessoas se convertam primeiro, e depois podemos pensar em ensind-las,” Entretanto precisamos certificar-nos de que elas sejam firmadas, que busquem o fundamento certo, porque “ninguém pode pér outro fundamento, além do que ja esta posto”. Existe por af ensino falso, e, portanto, convém que estudemos esta Epistola, para que nos firmemos. Vocés sabem, muitos daqueles cristéos romanos, e outros, acabaram morrendo por sua fé; eram langados aos ledes na arena, suas casas eram incendiadas, eles eram submetidos as injusticas mais cruéis, e, todavia, resistiam como homens. Por qué? Porque eles néo somente sabiam em quem criam, mas também no que criam. Eles estavam de tal modo fundados na fé que resistiam como rochas. Que dizer, também dos reformadores e mArtires protestantes ~ Latimer e Ridley, e os demais? Que foi que levou esses homens a fogueira? Ha unicamente uma resposta — eles sabiam em que criam! Vocés sabem que alguns daqueles homens morreram pela doutrina da justificagao pela fé somente? A igreja catélica romana n&o gostava dessa doutrina e dizia: “Se vocé continuar dizendo que o homem € justificado pela fé somente, nés 0 queimaremos na estaca” — e eles iam para a estaca e 34 Romanos 1:1,7 morriam alegremente. Mas cu pergunto quantos cristaos professos, hoje, estariam dispostos a fazer isso — e falo nado somente dos liberais e modernistas, porém também dos evangélicos. Que pena! Uma terrivel tendéncia que afirma que essas coisas no importam est4 se insinuando entre nés. Os martires séo homens que sabem no que créem. Eles compreendiam, digo eu, que a doutrina da justificagao somente pela fé é tao verdadeiramente vital e tao amplamente importante que nao se rendiam a prego nenhum, nem mesmo ao preco das suas vidas. De igual maneira, Ridley e Cranmer, em particular, permaneceram firmes na questao da Ceia do Senhor. Eles diziam: “Vocé nao recebera gracga quando comer o pao que se diz haver passado pelo processo de transubstanciacao. E mentira. Comer nao transmite graga, nesse sentido mecanico”. Por isso iam para a fogueira. Vocés véem como é importante saber doutrina! E que negacdo das Escrituras € dizer que nao importa muito o que vocé cré, contanto que vocé diga que é cristéo, em termos gerais, ou dizer que vocé nao precisa apegar-se a estas doutrinas como absolutas! Pois, seguindo estas linhas, 0 préximo passo ldégico sera dizer que, contanto que o homem pense que € cristéo, bem, trabalhemos com ele e, assim, Deus o abengoaré. Nao é esse o ensino da Epistola aos Romanos e dos homens que, crendo nessa Epistola, morreram para defendé-la. Oxal4, queira Deus dar-nos tal conhecimento desta verdade que nés também estejamos dispostos a resistir em sua defesa! Nao acho que corremos grande perigo de ir parar na fogueira. Vivemos numa época em que se afirma que n4o importa 0 que cremos. E, todavia, nao é preciso ter muita imaginagdo para ver que bem poder4 acontecer que soframos perseguicao. Nao estou muito certo de que jé nao tenha comecado nalguns circulos, e de que provavelmente aumentar4; portanto digo: certifiquemo-nos de que conhecemos a verdade. Isso me leva 4 minha proxima divisao. Qual é 0 ensino da Epistola? Agora vou oferecer-lhes uma andlise dela, e vou fazé-lo deliberadamente, porquanto acredito 35 O Evangelho de Deus que é essencial que tenhamos uma visdo do todo, para ent&éo podermos entender as diversas partes do argumento. Permitam- -me ilustrar o que estou querendo dizer com isso. Hé muitos que tém problema com esta Epistola. Eles dizem: “Sempre a achei dificil, nao consigo entendé-la”, e se perguntamos: “Onde estd o seu problema, em particular?” eles geralmente respon- dem: “Nos capitulos cinco, seis, sete e oito — ai est4 o problema, principalmente nos capitulos seis, sete e oito”. Ora, quero dar- -lhes a opiniao de que eles estéo com problema nesses capitulos porque os tém visto aos retalhos, em vez de vé-los como um todo. Naturalmente eu sei que ha pessoas que tém terrivel dificuldade com o capitulo nove — e isso nao é surpresa. Mas nesta altura néo é com estes que eu estou particularmente preocupado. Estou mais preocupado com os que parecem errar na classificagaéo que fazem. Por conseguinte, examinemos agora a Epistola como um todo; procuremos ter uma visdo panoramica da grande e sélida argumentagdo. Muitas classificagdes tém sido sugeridas, e por certo hé uma diviséo preliminar ébvia. Os onze primeiros capitulos sao doutrindrios, e todo o restante, do capitulo doze ao dezesseis, € pratico — é a aplicagéo da doutrina jé firmada. Essa € uma subdiviséo fundamental. Contudo é quando chegamos a subdivisio da primeira parte que eu creio que devemos ser cautelosos, e que devemos ser exatos em nossa subdiviséo. Quantos de vocés estio familiarizados com uma classificagéo como esta? As pessoas dizem: “Capitulo primeiro a quatro, Justificacao; capitulos cinco a oito, Santificagao; capitulos nove a onze, Parentéticos, sobre o caso particular dos judeus e a sua solucéo”. Pois bem, o parecer que Ihes dou vigorosamente é que essa classificacdo € muito enganosa, e acaba sendo danosa, e é porque muitos a adotaram que ficaram em dificuldade nos capitulos cinco, seis, sete € oito. Ea classificagio que se vé na Biblia de Scofield, porém que nao se restringe a esta — muitos a copiaram dali, e ela veio a ser muito conhecida. Todavia eu quero sugerir algo diferente a vocés, como 36 Romanos 1:1,7 segue: primeiramente, no capitulo primeiro, do versiculo 1 a 15, temos uma saudacao preliminar, e uma introdugao geral do tema. E o tema, Paulo nos dé a conhecer de imediato, é 0 evangelho de Deus. Ele nos diz isso logo no primeiro versiculo. E sobre isso que ele vai escrever em seguida. E assim ele se apresenta; envia saudagées, etc.; dé gracas a Deus por eles, e assim por diante, e ent&éo diz: “Vou escrever-vos sobre o evangelho de Deus”. Que é, entao, esse evangelho de Deus? Bem, ele comega a dizer-nos no versiculo 16 do capitulo primeiro, e eu Ihes diria que, do versiculo 16 do primeiro capftulo ao fim do capitulo quatro, ele comega a desenvolver este seu grande tema sobre o evangelho de Deus, e especialmente em termos da justificagao pela fé somente. Permitam-me fazer a seguinte colocagéo: a boa nova que ele tem que dar-lhes é que Deus introduziu 0 meio de salvagéo dos homens mediante Jesus Cristo. “Nao me envergonho do evangelho de Cristo”, diz ele, “pois é 0 poder de Deus para salvagao de todo aquele que cré...” Deus esta realizando algo. Ele o estd realizando em Cristo. E 0 apéstolo dird no versiculo 17 que o que Deus est realizando em Cristo é que Ele esté dando ao homem a justiga de Cristo. Assim é que, 0 que temos agora é salvacéo como dom de Deus, que nos dé de graga a justica de Cristo, e nao uma salvacao resultante de algum esforgo do homem. E disso que Paulo esta falando — e fica emocionado. “De que falarei?” indaga ele. Bem, aqui esta: “Nao me envergonho do evangelho de Cristo, pois € 0 poder de Deus para salvagdo de todo aquele que cré.., Porque nele se descobre a justica de Deus de fé em f€...”. “E algo totalmente novo”, exclama Paulo, Sao boas-novas. E nova noticia. Daqui por diante nao vamos pensar mais na justica em termos do que 0 homem faz, e sim, numa justiga que Deus da —justiga que vem de Deus em Jesus Cristo mediante a fé. E é para todos, para o judeu € 0 gentio; nao somente para o judeu, mas também para o grego. E ele continua desenvolvedo esse grande tema. Pois bem, eu afirmo, é isso que Paulo faz, desde 0 versiculo 16 do 37 O Evangelho de Deus primeiro capitulo até o fim do capitulo quatro. Examinemos isso em detalhe s6 um pouco mais. Nos versiculos 16 e 17 ele de novo expde 0 mesmo fato grandioso; notem a énfase: poder de Deus — justiga de Deus — justiga de Deus, nao do homem, e de fé em f€. E depois a citagdo: “O justo viveré por fé”. Ai estao as suas grandes énfases. Vejamo-lo agora desenvolver o tema. Seu primeiro ponto é que todos a precisam —todos tém necessidade dela. Do versiculo 18 ao fim do capitulo primeiro ele mostra como os gentios a necessitam — quiao terrivelmente a necessitam. No capitulo dois ele mostra como igualmente os judeus a necessitam — ¢ isso a despeito do fato de que eles tém a lei. Esse € 0 argumento af. Depois, no capitulo trés, ele faz algo interessante; dos versiculos 1 a 20 ele se ocupa de uma objecao. Alguém lhe teria dito, 4 luz disso, tendo ele chegado ao fim do capitulo dois: “Muito bem, pois; vocé realmente esta dizendo que nao havia nenhuma vantagem em ser judeu, ¢ que os judeus nunca foram um povo especial, e nunca estiveram numa posicao especial, e que nao havia vantagem nenhuma na lei”. “Nao se enganem a esse respeito”, diz o apéstolo, e naqueles vinte primeiros versiculos ele mostra a importancia dos judeus e o privilégio dos judeus, e o que Deus tencionava fazer por intermédio deles. Paulo mostra, digo € repito, a posic&o dos judeus e a funcao da lei. Depois, do versiculo 21 ao versiculo 31, o paragrafo final do capitulo trés, ele faz a sua vigorosa e magnifica exposig¢ao da doutrina da justificagéo pela fé somente. Ele mostra que Deus 0 fez do modo como fez por causa do Seu carater — para que Ele fosse “justo e justificador daquele que cré em Jesus”. Nao somente nao h4 outro meio pelo qual salvar os homens — Deus o fez desse modo porque é 0 tinico meio consoante e coerente com a Sua santidade, retidao e justiga. Esses versiculos certamente constituem uma das mais grandiosas € mais nobres declaragdes de todo o ambito das Escrituras. E a passagem classica a respeito da justificagao pela fé somente, e também a respeito da doutrina da expiagiio. 38 Romanos 1:1,7 Chegamos entao ao capitulo quatro, e vemos aqui Paulo fazendo outra coisa tremenda. Neste capitulo ele prova que 0 que ele dissera no capitulo trés foi sempre o modo como Deus procede com o homem, que Deus sempre trata o homem e 0 abengoa em termos de fé. Ele prova isso, é claro, coma notdvel fé que Abrado teve,e também faz uma citagdo dos salmos de Davi, que diz a mesma coisa. “Nao se espantem”, diz pratica- mente 0 apéstolo, “com este ensino acerca da justificagio pela £€ somente. Leiam o Velho Testamento, e veraéo que Deus sempre tratou os homens com base no principio da fé. Vejam o nosso pai Abraao” — e prossegue, elaborando a argumentagao completa — que tudo é de graca e pela fé. Vocés nao poderao entender a histéria dos filhos de Israel do comeco ao fim, a nao ser que captem 0 principio da fé. Assim é 0 capitulo quatro, e que capitulo tremendamente importante ele 6, porque nele o apéstolo prova que nao hé nenhum novo principio, por assim dizer, envolvido neste plano de salvagao em Cristo. Nos capitulos cinco a oito chegamos, naturalmente, a real dificuldade, e aqui me parece que muitos se desviam por causa da maneira pela qual tendem a colocar a questéo mais ou menos assim: “Que € que temos aqui?”, indagam, e dizem: “Bem, primeiro Paulo expée os sete resultados da justificagao, e depois, no versiculo onze do capitulo cinco, ele passa a falar da doutrina da santificag&o, continuando até o fim do capitulo oito”. Pois bem, na minha opiniao, o que ha ai é um grave entendimento erréneo da Epistola. O que me parece que o apdstolo estd fazendo nessa passagem, comecando no versiculo primeiro do capitulo cinco e indo até o fim do capitulo oito, 6, antes, o seguinte: est4 mostrando, demonstrando e asseverando a certeza, a plenitude e a finalidade desta grande salvacao. Ele nos est4 dando um quadro descritivo da completa e absoluta seguranga do cristao. Esse é o tema, nao um tema subsididrio como o da santificacéo, mas um tema muito maior. Seu interesse agora é mostrar que este plano de salvagao em Cristo pela fé da suprimento para a totalidade do futuro do crist4o, do principio 39 O Evangelho de Deus ao fim, na verdade indo além disso, pois é 0 plano segundo o qual Deus est4 levando ao cumprimento de todos os Seus propésitos com relacéo ao mundo inteiro. A doutrina aqui éa da seguranga: a finalidade, a plenitude, a certeza absoluta da salvagao do cristao. Permitam-me mostrar-lhes como ele o faz. Ao que me parece, ele o faz no versiculo 2 do capitulo cinco. Primeira- mente, como é seu costume, ele resume o que vinha dizendo: “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; pelo qual também temos entrada pela féa esta graca, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperanga da gloria de Deus”. Isso € glorificagao.Isso é a finalidade. Isso é o alvo supremo. E é disso, pois, que ele vai tratar. Por isso cu gostaria de analisar os quatro capitulos, cinco, seis, sete e oito, da seguinte mancira: 0 cristao, nesta salvacao, se acha numa posicao de seguranga absoluta. Por qué? Ele tem trés respostas para a pergunta: primeiramente, ele goza seguranca porque a acio € de Deus — nao € do cristao; é de Deus. Ele enfatiza isso repetidamente. Foi Deus que teve misericérdia de nés, “estando nés ainda fracos”, etc. “Mas Deus prova 0 seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nés, sendo nés ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque se nés, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando j4 reconciliados, seremos salvos pela sua vida...”. E aco de Deus, e porque é aco de Deus, nao pode ser frustrada. Além disso, em segundo lugar, estamos absolutamente seguros gracas 4 maneira pela qual Deus 0 faz— Ele nos incorpora em Cristo e nos une a Cristo. A terceira razao, diz ele, € que, como resultado da minha uniao com Cristo, 0 Espirito Santo esté em mim, e esté agindo poderosamente em mim. Essa é, pois, em termos gerais, a minha andlise do ensino desses quatro capitulos. Permitam que agora eu o expresse em particular, nos 10 primeiros versiculos do capitulo cinco, onde Paulo esta 40 Romanos 1:1,7 introduzindo os seus trés temas. Vocés verao que eles so apenas mencionados ali, nos dez ou onze primeiros versiculos. Depois, do versiculo 11 ao fim desse capitulo cinco, ele trata especial- mente da doutrina da nossa uniao com Cristo. Vocés se recordam daquele argumento maravilhoso — que estévamos todos em Ad§o, mas agora estamos em Cristo. Que contraste! Trata-se da gloriosa exposicao da doutrina da nossa uniao com Cristo. E, todavia, vocés véem, aquelas outras classificagdes dizem que nesse ponto Paulo introduz a doutrina da santificagio. Nao é disso que ele esté falando; na verdade, o termo “santificagao” nem é mencionado. Nao! Ele quer que saibamos da nossa seguranc¢a absoluta por estarmos em Cristo. Passemos agora aos capitulos seis e sete, onde ele trata de argumentos, objegdes e dificuldades quanto a este ensino. Ele o introduz, vocés se lembram, dizendo: “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que a graca abunde?” Ele imagina alguém que, tendo chegado ao fim do capitulo cinco, diz: “Paulo, de repente vocé se tornou um antinomiano? Acaso vocé nao perdeu o rumo, deixando que a sua eloqiiéncia o desvairasse? Vocé no esta ensinando uma doutrina que afirma que nao importa o que a pessoa faz porque quanto mais pecar- mos mais abundante ser4 a graca?” “Nao estou dizendo nada disso”, diz o apdstolo, e nos capitulos seis e sete ele refuta essa terrivel idéia, comecando com a expressdo — “De modo nenhum” (VA: “Nao o permita Deus”). Nao permita Deus que alguém entenda mal a minha doutrina. Como € que ele encara entao essa acusacdo de antinomianismo? Bem, ele o faz da seguinte maneira: no capitulo seis ele trata disso de modo muito pratico, com vistas a nossa vida didria e As nossas quedas em pecado. E como se ele imaginasse alguém dizendo: “Olhe aqui, Paulo, vocé exagerou no quadro. O fato é que os homens ainda caem em pecado, e vocé n4o lhes est4 dizendo que vivam de conformidade com a lei para que possam dominar 0 pecado”. “A resposta”, diz Paulo, “€ que estamos unidos a Cristo. Fomos crucificados com Ele, 41 O Evangelho de Deus ressuscitamos com Ele. Nés, como seres, j4 néo estamos em Ad§o, estamos em Cristo, e em Cristo estamos absolutamente seguros.” “Bem, por que é que pecamos?”, pergunta alguém. “O pecado”, replica o apéstolo, “permanece no corpo, em nossos membros mortais, e a maneira de lidar com esse problema é vocés compreenderem a sua posicao em Cristo e se considerarem mortos para o pecado mas vivos para Deus” — e desenvolve em detalhe esse ponto. Essa éa argumentacao geral do capitulo seis. Ele a si mesmo se absolve da acusagio de antinomianismo; ele explica que o pecado continua no crente, e mostra que é sé pela compreensao da verdade acerca de nds mesmos, em uniao com Cristo, que podemos sobrepuja-lo. Depois, no capitulo sete, ele continua a tratar do assunto em termos da lei. Algumas daquelas pessoas tinham se apegado a idéia de que, conquanto vocé tenha crido no evangelho, digamos, vocé ainda precisa continuar a salvar-se pela obediéncia a lei. Por isso 0 apéstolo toma a questo no capitulo sete e diz: “Olhem, vocés precisam parar de uma vez de pensar na lei, vocés morreram para a lei. Assim como a mulher casada fica livre quando morre o marido, assim vocés estao absolutamente livres da lei nesse sentido. Nao pensem mais na lei nesses termos”. Nao somente isso! Ele continua, dizendo- -Ihes que, em razao da profundidade e do poder do pecado, a lei nunca fora capaz de salvar ninguém no passado, e nunca sera capaz de salvar ninguém no futuro. E é esse o argumento da segunda metade do capitulo sete; na primeira metade ele nos mostra a nossa libertagao da lei no sentido do seu poder de condenar-nos; na segunda ele declara que, se eu confiar na minha observancia da lei para livrar-me do pecado, estarei condenado ao fracasso. Ele desenvolve essa questao, vacés recordam, de maneira intensamente pessoal. Nao hé nenhum vestigio de que ele tenha passado por alguns estgios; ele nao esta pensando em estagios. Ele nao est4 pensando em passar do capitulo sete ao capitulo oito. Ele esté mostrando o propésito eterno de Deus e sua 42 Romanos 1:1,7 certeza e seguranga absoluta, e que nada pode deté-lo. Ele esta explicando por que ainda temos 0 problema do pecado, e que nunca poderemos livrar-nos disso em termos dos nossos préprios esforcos, mas que o que vai livrar-nos é a nossa relagao com o Senhor Jesus Cristo, Assim ele conclui, dizendo: “Dou gracas a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor”. Nao é que eu, como cristio, tentei fazer isso primeiro, eu mesmo, e sé mais tarde decidi olhar para Cristo e desse ponto em diante prossegui pela fé. Nao é isso que o apéstolo est4 dizendo. Eis 0 que ele est4 dizendo: “Oucgam-me; 0 que os est4 salvando, ¢ os salvard, e finalmente os levara a gloria, é que vocés estéo em Cristo — tudo mais ser4 inttil”. E de novo um desenvolvimento desta grande doutrina da unido, dessa maneira particular. Assim chegamos ao fim do capitulo sete; morremos para a lei, e dessa maneira Deus estd agindo poderosamente em nés. Como Ele o faz constitui o tema do capitulo oito, Nao ha lacuna, vocés véem; nao ha contradicao; ha simplesmente uma continuacao. Ele esté mostrando esta certeza absoluta, e nos quatro primeiros versiculos do capitulo oito ele resume o ponto até onde havia chegado. “Portanto, agora nenhuma condenagao ha para os que estéo em Cristo Jesus.” Falemos disso com clareza. Estamos seguros. A lei nunca poderia ter feito isso porque estava enferma pela carne, e nunca foi seu propésito fazé-lo. O que est realizando essa obra é esta nova lei do Espirito da vida em Cristo Jesus. E porque estamos em Cristo e dEle estamos recebendo vida. Ele a esté produzindo em nés. Estamos completamente protegidos por nossa relagio com Ele. Como é que Ele faz isso por nés? Bem, em particular, diz Paulo —e este €o0 tema mais importante do capitulo oito — Ele o faz mediante o Espirito Santo, que esté em nés. Pois bem, como vocés se lembram, esse foi 0 terceiro tema, e vejamos como Paulo o desenvolve. O Espirito Santo, diz-nos ele nos versiculos 5 a 9, da-nos uma mente nova. Nos versiculos 10 e 11 diz-nos ele que o Espirito Santo ressuscitara até os nossos corpos mortais e, portanto, livrara do pecado 0 corpo, como 43 O Evangelho de Deus livre j4 est o espirito. Nos versiculos 12 e 13 diz-nos ele que, enquanto estivermos aqui, o Espirito Santo nos capacitara a crucificar os feitos do corpo, e nés temos que fazer isso. O pecado nao é tirado de nés. Nés mortificamos os feitos do corpo gracas ao Espirito Santo e por meio do Espirito. Nos versiculos 14 a 17 diz apéstolo que o Espirito faz isso dando-nos seguranga, o Espirito de adogao. Nos versiculos 18 a25 vemos que o Espirito o faz propiciando-nos uma ampla visao do grandioso e supremo propésito de Deus. Nos versiculos 26 e 27 ele nos mostra como o Espirito Santo nos ajuda a orar. Vocés véem a idéia — tudo est completo em Cristo, mas nés ainda estamos na terra. Onde esta a minha seguranca? Eis a minha seguranga: eu estou em Cristo, sim — mas 0 pecado ainda esté em meu corpo. Que é que eu posso fazer a respeito? Bem, Cristo me enche com 0 Seu Espirito, eo Espirito me habilita a p6r em agao essa realidade. “Operai a vossa salvagéo”, como Paulo diz noutro lugar (Filipenses 2:12,13), “com temor e tremor; porque Deus é 0 que opera em v6s tanto 0 querer como 0 efetuar, segundo a sua boa vontade.” Entao, naturalmente, do versiculo 28 ao fim do capitulo, ele simplesmente resume tudo outra vez. Ele fizera as suas declarag6es pormenorizadas, desenvolvera a matéria seguindo trés linhas, e agora faz um sumdario, colocando-o na forma destes desafios vigorosos. “Sabemos”, diz ele, “que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus”, e mais adiante prossegue, dizendo: “Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nés, quem ser4 contra nés? Aquele que nem mesmo a seu préprio Filho poupou, antes 0 entregou por todos nés, como nos nao daré também com ele todas as coisas?” Ele j4 o dissera no capitulo cinco: “Se nés, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando jé reconciliados, seremos salvos pela sua vida”, Seguranca! Certeza! E entao, por assim dizer, Paulo deixa-se ir adiante com estas tremendas questées e desafios: “Quem ha que possa condenar-nos? Nao ser4 Deus, porque é Ele que nos justifica. Nao sera Cristo, porque foi Ele que morreu 44 Romanos 1:1,7 por nés. Haver alguém, nalgum lugar? Nao! Todas as vozes foram silenciadas. Poderaé 0 homem condenar-nos? A persegui¢ao poder fazé-lo? Nao, nada pode fazé-lo”. E depois vem o grande climax — “Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou”. Ninguém poder4 privar-nos desta salvacdo. Estou absolutamente seguro. “Estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem 0 porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos podera separar do amor de Deus, que esté em Cristo Jesus nosso Senhor”. Vocés nao véem que todo o tema dos capitulos cinco, seis, sete e oito é seguranga, e que ai, em Cristo, justificado livremente por Sua graga, o meu fim é seguro? “Acs que chamou a estes também justificou” — ele salta — “a estes também glorificou”. E depois, nos capitulos nove, deze onze, ele mostra que tudo isso, longe de contradizer o que Deus fizera anteriormente por intermédio dos judeus, é realmente uma confirmagio, se tao- -somente vocés entenderem o propésito de Deus. Isso constitui uma parte essencial do argumento de Paulo. Deus nao entrou em contradigéo conSigo mesmo; Ele ainda est realizando a mesma coisa. Ele escolheu pessoas 14 na antigitidade — escolheu os judeus para comecar com eles, ¢ deixou de lado os restantes, as outras nagGes, € continua fazendo isso — esta doutrina do remanescente. E atividade de Deus, salvacao feita por Deus! Deus a efetuando! E continuard a efetud-la até que a plenitude dos gentios tenha chegado e todo o Israel seja salvo, e a Igreja esteja completa em sua totalidade. E depois, tendo desenvolvido o tema, Paulo para e diz: “Que podemos dizer sobre isso?” — “O profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como da ciéncia de Deus! Quio insondaveis sao os seus juizos, e quaéo inescrutaveis os seus caminhos!” Homem nenhum pode pesquisar o Seu pensamento, ¢ ninguém jamais O ajudou ou Lhe deu conselho. E tudo de Deus. Por que morreram os 45 O Evangelho de Deus miartires protestantes? O grande lema deles, o que eles colocavam acima das suas prioridades, era esta verdade: somente Deus deve ser glorificado. SOLI DEO GLORIA. E se 0 conceito que vocés tém da salvacao em algum aspecto nao dé a Deus toda a gloria, provavelmente vocés nao a entenderam. “Porque dele e por ele e para ele sAo todas as coisas; gléria, pois, a ele eternamente. Amém.” 46 3 “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apéstolo, separado para o evangelho de Deus.” — Romanos 1:1 Tendo completado a nossa introdugao da Epistola, agora estamos em condicées de proceder a um pormenorizado estudo e consideracdo do seu contetido, Comecaremos considerando esta parte preliminar e introdutéria, que se vé aqui no primeiro capitulo, e partimos do versiculo primeiro: “Paulo servo de Jesus Cristo, chamado para apédstolo, separado para o evangelho de Deus”. Pois bem, é sempre importante dar cuidadosa atengao as introdugées de todas as Epistolas do Novo Testamento, mas talavez seja especialmente necessdrio quanto 4s Epistolas do apéstolo Paulo. As vezes sinto que muitos cristdos se privam de algumas béngdos grandiosas e vitais por ignorarem estas declaragées preliminares. A nossa tendéncia é passar por elas apressadamente e pensar que as introdugées sao sem impor- tancia. Queremos chegar a porcéo “carnuda”, como Ihe chamamos, aquilo que realmente nos interessa, e assim, sem perceber, passamos por alto muitas coisas que sao do maior valor possivel para 0 cristéo. Deixem-me ilustrar isso considerando o que o apéstolo nos diz aqui, neste primeiro versiculo. Penso que veremos que ele infunde nele, de maneira espantosa, doutrina muito importante e vital. Ele nunca visitara Roma, e embora conhecesse alguns dos cristéos romanos, nunca se havia encontrado com a grande maioria, e eles nao o conheciam. Por isso ele comega a Epistola apresentando-se a eles desta maneira: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apéstolo, separado para o evangelho de Deus”. Ora, vocés véem ai trés declaragées. E de imediato 47 O Evangelho de Deus devemos perguntar por que o apéstolo as fez. Que diferente sentido ele atribuiu a cada uma delas? Ele as fez nalguma ordem significativa, ou as redigiu simplesmente como lhe vieram? Essas sfo algumas das questées que devemos Jevantar, se estamos interessados em descobrir 0 que o apéstolo tinha em mente. , Vejam, entao, esta primeira frase: “servo de Jesus Cristo”. “E quem sou”, diz 0 apéstolo, “e 0 que sou”. Pois bem, se vocés percorrerem as Epistolas dele, veraéo que esse é 0 seu modo caracteristico de descrever-se; ele pensa instintivamente em si em termos desta bendita Pessoa, como se pudéssemos dizer que o que ha de mais importante acerca deste homem, Paulo, que lhes esté escrevendo, é que ele é um “servo de Jesus Cristo”. Noutras palavras, qualquer outra coisa mais que eles soubes- sem ou nao soubessem a respeito dele, o que quer que eles lembrassem ou esquecessem, seu desejo era que de imediato pensassem na bendita Pessoa que se tornara o centro da vida de Paulo. Todo o seu ser girava em torno desta Pessoa, e ele nao podia pensar em si mesmo separadamente de Cristo. Vocés verao que ele faz isso em todas as suas cartas e notarao que, pode-se dizer, ele dé logo a doutrina completa acerca desta Pessoa, Jesus Cristo — Jesus, a pessoa humana que viveu neste mundo, o infante de Belém, 0 menino, o homem, o carpinteiro — Jesus Cristo. Tudo isso tem que ser introduzido. Mas nao é s6 isso — Jesus € 0 Cristo, e “o Cristo”quer dizer 0 ungido, aquele que foi ungido por Deus para realizar uma obra particular. Ora, esse era, naturalmente, o ensino do apéstolo em sua totalidade— que Jesus é 0 Cristo. Abram o livro de Atos e leiam as narrativas ali registradas do seu ministério e do seu ensino, e verdo que era assim que Paulo pregava. Ele sempre tinha duas grandes divisdes em seus sermées: uma era sobre a necessidade que havia de que Cristo sofresse; a outra era que Jesus, “este Jesus que eu vos prego”,é o Cristo. Eis ai o Salvador do mundo, aquele que foi ungido por Deus a fim de salvar homens e mulheres, e na passagem que estamos estudando Paulo nos 48 Romanos 1:1 comunica logo de inicio essa verdade; Jesus Cristo é 0 seu tema. Vocés se lembram de que em Corinto ele estivera determinado a nao saber coisa alguma, entre os corintios, a nao ser Jesus Cristo, e Ele crucificado. Aqui foi esse 0 seu tinico tema, a pessoa que ele sempre pée no frontispicio do seu ensino. Contudo, isso é, por certo, algo que nos leva a fazer uma breve pausa. Nao temos necessidade de ir além, no exame da perspectiva doutrindéria nesta conjuntura, porque seremos forgados a fazé-lo de novo mais adiante, mas, de qualquer forma, devemos fazer uma pausa para assinalar que essa nao era somente a grande caracteristica do apéstolo Paulo; é, dentre todas as coisas, a que sempre deve caracterizar o cristo. Nao importa sobre o que o apéstolo escreve; As vezes ele precisa escrever uma carta porque as pessoas lhe enviam perguntas, ou porque ocorrem dificuldades. Nao tem a minima importancia qual seja a ocasido; ele néo consegue comegar a escrever sem nos apresentar Jesus Cristo imediatamente. Para 0 apdstolo Paulo, Jesus Cristo era o principio e o fim, o tudo-em-todos. Sem Ele Paulo nao tinha nada. Afirmo, pois, que uma boa maneira de submeter a prova a nossa profissao de fé crista é simplesmente aplicar esse teste a nds mesmos. Jesus Cristo esté em primeiro lugar? Ocupa Ele o centro? Vocés podem ver que nesta introdug&o o apéstolo O menciona pelo menos cinco vezes. Tive ocasiao de notar recentemente que nos catorze primeiros versiculos da Epistola aos Efésios ele O menciona quinze vezes. Paulo nao pode afastar-se dEle, por assim dizer; ele tem que ficar mencionando o Nome. Ele faz uso das expressdes “Jesus Cristo”, “o Senhor Jesus Cristo”, “Jesus Cristo nosso Senhor”, e outras mais. Observem-no em suas Epistolas; ele esté sempre usando oNome,e é evidente que fazé-lo da-lhe grande prazer. E a questo, repito, é: “Isso é verdade a nosso respeito? Jesus Cristo estd centralizado em nossas mentes, em nossos coragées e em nossa conversacao?” Quer dizer — e aqui falo ao povo cristao, aos crentes — quando conversamos uns com os outros, estamos sempre falando de alguma experiéncia ou de alguma béngéo 49 O Evangelho de Deus que recebemos, ou estamos falando do Senhor Jesus Cristo? Nao hesito em asseverar que, 4 medida que crescemos na graca, falamos menos a respeito de nds mesmos e das nossas experiéncias, e muito mais a respeito dEle. O apéstolo est4 sempre falando acerca do seu Senhor, e ele espera que estes romanos estejam pensando no Senhor, nesta bendita Pessoa, e nao em quem esta escrevendo. Aprendamos, pois, esta licao deste poderoso homem de Deus, que poderia ter escrito extensamente acerca de tudo o que tinha dito, e de tudo o que ele tinha conseguido realizar, mas que nfo escreve a estas pessoas de Roma com esse fim. Ele quer escrever-lhes acerca de Jesus Cristo, e assim, logo de inicio, introduz o Seu nome. Quanto a si préprio, ele é tao-somente um “servo de Jesus Cristo”, e se gloriava nesse titulo. Para ele nao havia nada mais maravilhoso do que ser um servo, e, lembrem-se, a tradugio correta aqui é “escravo”, “cativo”; essa é a palavra que 0 apdéstolo utiliza, e éa palavra normalmente utilizada por ele. O apdstolo Pedro faz uso dela também, e assim procedem os demais apdstolos, exatamente da mesma maneira. “O escravo de Jesus Cristo”, esse € 0 homem que est escrevendo, diz o apéstolo. Entao, o que € que ele quer dizer com essa express40? Bem, sugiro-lhes que ele quis dizer uma porgao de coisas. Penso que, primeiramente, ele a estava empregando num sentido geral, apenas para descrever-se como cristéo, pois todo cristéo é “escravo cativo” de Jesus Cristo, Vejam a maneira pela qual o apéstolo coloca isso em | Corintios 6:19,20. Nessa passagem ele os faz lembrar-se de que os seus corpos séo o templo do Espirito Santo, ea seguir diz: “Nao sois de vs mesmos. Porque fostes comprados por bom prego”. “Vocés néo devem tornar-se culpados do pecado da fornicagao”, diz noutras palavras Paulo. “Vocés nao percebem quem vocés sio? Nao percebem que os seus corpos séo 0 templo do Espirito Santo, e que n4o sao de vocés mesmos? Vocés nao tém direito de fazer 0 que quiserem com os seus corpos; vocés foram comprados por prego. Vocés foram tirados daquele mercado onde eram escravos sem 50 Romanos 1:1 nenhuma possibilidade de libertacio; o Filho de Deus veio e, pelo prego do Seu precioso sangue, Ele os comprou e 0s livrou do mercado.” Esse é 0 sentido da palavra “redengao”. E a libertagao do cativeiro e da escravidéo em que vocés se encontravam, sob o dominio de satan4s, o diabo. Assim, tendo conhecido essa libertag4o, o apdéstolo gosta de descrever-se dessa maneira. Noutras palavras, ele est4 dizendo a estes cristaos romanos: “Eu, Paulo, sou como vocés; sou um de vocés; eu lhes pertengo, porque todos nés pertencemos a Cristo. Sou um pecador salvo pelo sangue de Cristo; nada mais tenho para dizer a meu respeito. Fui um perseguidor, um blasfemo, uma pessoa insultuosa, porém obtive misericérdia”. Ele fora resgatado redimido, ¢ essa é a primeira coisa que cle tem para dizer sobre si mesmo. E, volto a dizé-lo, essa é a verdade concernente a todos nés, se somos crist4os, pois ninguém se faz cristao. Cada um de nds nasceu escravo do diabo, e s6 podemos ser libertos dessa escravidao pelo precioso sangue de Cristo. Naturalmente Pedro diz exatamente a mesma coisa. “Sabendo”, diz ele, “que nao foi com coisas corruptiveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa va maneira de viver que por tradic&o recebestes dos vossos pais, mas com 0 precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado” (1 Pedro 1:18,19). E, portanto, como cristaos, n&o somos livres; fomos comprados por Cristo. Pertencemos a Ele. Ele é 0 nosso Amo e Senhor. A idéia de que vocé pode crer em Cristo como Salvador somente, e depois talvez, anos mais tarde, possa ir adiante e tom4-l10 como seu Senhor, é uma negacao das Escrituras. Desde o momento em que Ele 0 poe em liberdade, Ele é 0 seu Senhor. Nao somos nés que decidimos toma-lo como Senhor. E Ele que, como Senhor, nos compra naquele mercado e nos livra, e nds passamos a pertencer a Ele. Nunca somos livres. Eramos servos cativos de satanés; agora somos servos cativos do Senhor Jesus Cristo. Ah, se téo-somente nos lembrdssemos sempre disso! Se téo-somente vivéssemos 51 O Evangeiho de Deus sempre a luz dessa gloriosa verdade! Queira Deus dar-nos a graga de lembrar-nos sempre disso, e de viver de acordo! Todavia eu penso que, na frase em foco, Paulo estava desejoso de sugerir uma segunda coisa, ou seja, de levd-los a saber desde logo qual a sua atitude para com este Senhor. Ele é um escravo cativo, nao somente de fato, mas também no espirito. Nao havia nada que ele mais gostasse de dizer do que o seguinte: “Vivo, néo mais eu, mas Cristo vive em mim” (Galatas 2:20). Ele é um escravo no sentido de que todo aquele que ama é escravo da pessoa a quem ama. Ele fora cativado. Fora capturado. Se vocés percorrerem as Epistolas dele, verao que ele esta dizendo isso constantemente. No capitulo primeiro de 2 Corintios diz ele que somos exatamente como as pessoas que se véem ao redor de um grande vencedor quando este regressa a Roma depois de ter conquistado algum grande territério. HA uma parada militar, um desfile triunfal, vé-se o grande general em sua carruagem, e as diversas pessoas por ele capturadas estéo em volta dele. Vocés encontrarao 0 mesmo pensamento noutros lugares — em 2 Corintios, capitulo 2, por exemplo. Ah, como Paulo é devotado a Cristo! Ele o expressa talvez com maior intensidade noutra frase (e estou certo de que isso estava em sua mente quando ele se descreveu como escravo de Cristo), Ele é um pregador, diz ele, e quando se indaga por que prega, sua resposta 6: “O amor de Cristo me constrange”. De novo, vocés véem, ele estd impossibi- litado; € um homem preso no torno, e este o vai apertando: “me constrange — o amor de Cristo”. Nao é ele que esté decidindo fazer alguma coisa; ele nao pode reprimir-se a si proprio: “Ai de mim, se nao anunciar o evangelho!” Ele tem que fazé-lo. Sou obrigado a fazé-lo, diz ele. Todas essas coisas trazem aluz asua devogao a Cristo. Sou um escravo, diz ele, Seu escravo voluntario. Ele néo somente me comprou, mas eu n&o quero outra coisa, nao quero que ninguém mais sejao meu senhor; nenhum outro é meu senhor. Entreguei- -me a Ele. Ele me conquistou. Cativou-me. Absorvo-me nEle, 52 Romanos 1:1 sou escravo de Jesus Cristo. Ter-nos-ia Ele cativado dessa maneira, meus amigos? Sabemos algo desse amor? Seria Ele o Senhor das nossas vidas, do nosso pensamento, de todas as nossas atividades? Ah, como Paulo se gloriava em dizer isso a respeito de Cristo, “Esse é 0 tipo de homem que sou”, diz ele, “fui conquistado completa- mente por Ele, capturado e arrebatado; nfo sou meu.” Depois penso que, realmente, em terceiro lugar, ele estava desejoso de dizer que nao estava escrevendo por sua conta, porém que, num sentido verdadeiramente literal, ele de fato estava escrevendo como servo do Senhor Jesus Cristo. Noutras palavras, ele nao é um individuo isolado escrevendo uma carta em carater privado a algumas pessoas nas quais est4 interessado, ou das quais ouvira falar. Nao! Ele est4 escrevendo de maneira muito especial; ele é realmente um servo de Jesus Cristo, tem uma incumbéncia especial confiada a ele, e o seu desejo é que eles a conhegam. Ai, vocés podem ver, ele nos conduz a sua segunda expressao: “chamado para apéstolo”. Sugiro-lhes que hé uma gradacio definida nessas trés expressdes. Ele nos faz saber o que lhe sucedera, que ele se tornara crist4o, e 0 que isso quer dizer; depois ele nos leva adiante por meio daqueles outros passos ¢ estagios, ¢ aqui ele chega a uma express4o sumamente importante — “chamado para apéstolo” — ou, como alguns a traduzem (talvez mais acuradamente), “um chamado apéstolo”. Bem, devemos examinar ambas essas palavras, porque as duas sdo tremendamente importantes, nao somente para o entendimento da Epistola aos Romanos, mas também quanto a todas as demais Epistolas. Quero tentar mostrar-lhes que vocés n&o poderao sequer entender a situagao religiosa moderna, que realmente nao poderdo ler inteligentemente o seu jornal, se nao souberem o sentido dessas palavras, “chamado”e “apéstolo”. Ha coisas acontecendo hoje no mundo eclesiastico, e relatadas nos jornais, que sé podem ser entendidas quando compreendemos corretamente esses dois termos. Assim vocés véem que esta 53 O Evangelho de Deus Epistola é bem atual. Permitam-me mostrar-lhes 0 que estou querendo dizer. Que €um apéstolo? Bem, Paulo nos quer dizer nessa passagem que ele nao é um servo de Jesus Cristo apenas num sentido geral; ele €é uma classe particular de servo; na verdade é um apéstolo. Ora, por que ele se dé ao trabalho de dizer isso logo no comego, e de o restringir com a palavra “chamado”? Bem, ao lerem o Novo Testamento, principalmente estas Epistolas, vocés verao que havia algumas pessoas que nao se dispunham a aceitar Paulo como apéstolo, ou a reconhecé-lo como tal. Ele tinha opositores; ele sofreu amarga perseguicéo, e nenhum homem foi mais difamado que ele. Havia os que diziam que ele nao era apéstolo porque nunca tinha acompanhado o Senhor Jesus Cristo nos dias da Sua carne, nunca ouvira o Seu ensino, e assim por diante; ce, além disso, néo gostavam da pregacao dele aos gentios. Se lermos as suas Epistolas, veremos que constantemente ele era submetido a essa falsa representac4o; todas as formas de alusdes malignas e insinuagées eram feitas acerca dele, porém nenhuma com mais freqiiéncia do que precisamente esta — que realmente ele nao era apéstolo, mas um convencido que se havia posto a si mesmo em evidéncia e, portanto, era enganoso e perigoso para as igrejas. Por isso, como norma, 0 apéstolo, num ponto ou noutro da maioria das suas Epistolas, mostra com todo o vigor que ele é apdéstolo, que escreve como apéstolo, e que é tao apéstolo como qualquer dos doze. Pois bem, sugiro-lhes que ele esta fazendo isso aqui, portanto que devemos ter claro entendimento deste titulo, “apéstolo”. Que é isso, entéo? Bem, é um titulo oficial, e muito especial. Isso também tem sido discutido muitas vezes, todavia me parece essencial que consideremos esse termo como um designativo indicando um oficio especial e peculiar. Permitam- me consubstanciar o que digo mostrando-lhes como ele é especial. Vocés encontrarao em Mateus, capitulo dez, versiculos 1e 2, estas palavras: “E, chamando os seus doze discipulos, deu- -lhes poder sobre os espiritos imundos, para os expulsarem, ¢ 54 Romanos 1:1 para curarem toda a enfermidade e todo o mal. Ora os nomes dos doze apéstalos so estes...”, No versiculo primeiro Mateus lhes chama “discipulos”, e no versiculo dois muda para “apéstolos”. Por que a mudanga? Por que a diferenga? Nao sio apéstolos todos os discipulos? A resposta é que nao. Vocé pode ser discipulo sem ser apéstolo. Os termos nao s4o sinénimos; no s4o intercambiaveis. $6 certos discipulos tornaram-se apdstolos, Para provar isso, deixem-me ronduzi-los a Lucas 6:12,13, especialmente ao versiculo 13: “E quando ja era dia, chamou a si os seus discipulos, e escolheu doze deles, a quem também deu o nome de apéstolos”. Pois af esta, naturalmente, uma vez por todas. Vocés véem que havia grande nimero de discipulos, mas desse nimero, do corpo maior, o nosso Senhor escolheu deliberadamente doze, e [hes chamou, ¢ somente a eles, apéstolos. Meu parecer a vocés é, pois, que é importante que compreendamos que esse é um designativo que indica um oficio muito especial e peculiar. Somente doze homens foram desse modo escolhidos e nomeados apéstolos. E quando vocés percorrerem os quatro Evangelhos, veréo a mesma coisa no Evangelho Segundo Joao, nao t&o claramente, talvez, como nos outros, porque o nome nao é utilizado ali, embora a idéia seja dada com toda a clareza. Agora, voltemos 4 nossa indagacao, “Que é um apéstolo?”. Bem, digamos que é costume dizer sobre isso que, se formos ao diciondrio, veremos que apéstolo é alguém que é “enviado”, ¢ isso é perfeitamente verdadeiro. O apéstolo é alguém enviado, e as vezes o termo é empregado dessa maneira no Novo Testamento. Contudo, quando significa isso e nada mais, 0 contexto mostra claramente que alguém envia outrem como mensageiro, como um enviado. No entanto, 0 termo “apéstolo” é muito maior do que isso; é muito mais rico, e tem uma conotagéo mais ampla. O apdéstolo nao é meramente alguém enviado; é alguém, um mensageiro, enviado com uma miss4o. Mas é ainda mais forte que isso, o que é importante porque se pode enviar alguém em missao de varias maneiras. Vocé pode 55 O Evangelho de Deus enviar um homem numa missdo e dar-lhe uma carta para entregar, ou envid-lo com uma espécie de mensagem verbal. Sim, porém também pode enviar um homem para representar vocé; pode envid-lo como seu delegado; pode envid-lo a uma reunido para votar em seu lugar, e para falar em seu lugar. Pois bem, o termo “apéstolo” inclui a idéia de delegado, de modo que uma definic&o preliminar da palavra seria que é alguém a quem se confia uma missao e a quem s4o dados poderes para cumpri-la. Todavia, até mesmo além disso, 0 uso do termo no Novo Testamento mostra muito claramente que ha também um propésito definido no envio, ¢ que a pessoa enviada é enviada com autoridade para representar outra. Sugiro, pois, como boa definic&o de apéstolo, algo assim: apdstolo é alguém escolhido e enviado com uma miss4o especial como representante autorizado de quem o envia. Nessa definig&éo nao Ihes dou somente 0 que me parece inevitdvel como definig&o decorrente do estudo do Novo Testamento; dou-lhes também a definigao dada pela erudic&o mais recente especializada nessa questao. Um grande e novo dicionario da Biblia foi produzido nestes Ultimos anos na Alemanha; todo o mundo o reconhece como padrao, e como o mais autorizado — e é dessa maneira que 0 termo apéstolo é definido ali. Pois bem, isso é algo novo entre as autoridades; ha bem poucos anos atrds* elas nao diriam isso; negavam boa parte dessa definigao, contudo retornaram a ela. O que a Biblia sempre afirmou com clareza, e a maioria dos credos evangélicos sempre salientou, agora até os eruditos, no sentido técnico, ratificam, manifestando-se de acordo. Portanto, esta € uma parte essencial do nosso entendimento do oficio de apéstolo. Quais so, entdo, as marcas e os sinais de um apdéstolo? Quais as suas qualificagGes ou caracteristicas? E ébvio que estas coisas sao de grande importancia. Eis a primeira: ninguém que “ Esta expoigio foi feita em 1955. 56 Romanos 1:1 n§o tivesse visto o Senhor ressurreto poderia ser apdéstolo; 0 apéstolo tinha que ser testemunha da ressureicgio. Ha duas declaragées nas Escrituras que provam isso fora de toda divida. A primeira esta no capitulo primeiro de Atos. Vemos ali, vocés recordam, os apéstolos reunidos no cenaculo, exceto Judas, que cometera suicidio. Conversavam sobre a designagao de alguém no lugar de Judas, e o que lemos no versfculo 21 € 0 seguinte: “B necessdrio pois que, dos vares que conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nés, comecando desde 0 batismo de Joao até ao dia em que dentre nés foi recebido em cima, um deles se faga conosco testemunha da sua ressurreigao”. Permitam-me mostrar-lhes outra declaragao com 0 mesmo fim; escrevendo aos corintios, diz 0 apdstolo Paulo: “Nao sou eu apéstolo? Nao sou livre? Nao vi eu a Jesus Cristo Senhor nosso?” (1 Corintios 9:1). Ele teve que defender o seu titulo de maneira muito especial em Corinto, ¢ teve que dar provas de que ele era apéstolo. “Nao vi eu a Jesus Cristo Senhor nosso?” “Sou uma testemunha da ressurreigéo”, é o que diz ele. “Sou apéstolo.” Essa é a sua prova disso. Vocés véem, pois, que isso constitui realmente uma parte importante do nosso entendimento desse termo. A segunda verdade quanto a um apéstolo era que ele tinha que ser chamado especialmente para ser apéstolo. Vocés j4 viram isso no caso dos doze, com base nas passagens biblicas que citei, e logo voltarei ao ponto no caso do apéstolo Paulo. Antes de um homem poder ser apéstolo, ele tinha que ser “chamado” definida e especificamente pelo proprio Senhor. E claro, naturalmente, excluindo aqueles outros usos da palavra “apéstolo” aos quais me referi anteriormente, mas quando se trata da designacdo e do titulo a que o termo se refere, sempre devemos incluir esse elemento. A proxima verdade acerca de um apéstolo é que ele é alguém a quem é dada autoridade e € dada uma comissao para fazer certas coisas. Uma delas é que Ihe é dada autoridade e comiss4o para operar milagres. Ougam 57 O Evangelho de Deus de novo o apéstolo Paulo na seguinte declaragao registrada em 2 Corintios 12:12: “Os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vés com toda a paciéncia, por sinais, prodigios e maravilhas”. “Como é que vocés podem continuar contestando que sou apéstolo?”, questiona Paulo; verdadeira- mente os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vocés.” E os sinais foram milagres, maravilhas e atos poderosos (cf. VA). Essa é, pois, outra caracteristica de um apéstolo. N&o somente isso; esta claro que os apéstolos tinham também poder para dar e comunicar dons espirituais a outros. Tinham poder para transmitir o Espirito Santo a outros, e também para dar certos dons, que s4o dados pelo Espirito Santo, pela imposico das maos. Esse era outro sinal da sua autoridade e da sua comiss4o. Mais importante ainda, porém, foi a autoridade a eles dada para ensinarem, definirem doutrina e firmarem as pessoas na verdade. Naturalmente, isso é de vital importancia. Nao somente isso; foi-lhes dada autoridade para estabelecerem a ordem das igrejas; eles ordenavam ancidos, nomeavam presbiteros. Decidiam quest6es quando surgiam discuss6es; as quest6es eram enviadas a essa espécie de “concilio” dos apéstolos. Portanto, eles estavam numa posi¢ao autorizada para decidir sobre ensino e doutrina, e falavam com a autoridade do proprio Senhor Jesus Cristo. Tudo isso é préprio de um apéstolo. Eentao, quais sao os resultados disso tudo? Bem, eis alguns deles: estes apdstolos alegavam que falavam com autoridade vinda de Deus; afirmavam que falavam como representantes de Cristo, e que as pessoas deviam ouvi-los, nao como a homens apenas, mas como a homens que falavam da parte de Deus. Paulo lembra aos tessalonicenses: “... havendo recebido de nés a palavra da pregacao de Deus, a recebestes, naéo como palavra de homens, mas (segundo é na verdade), como palavra de Deus...” (1 Tessalonicenses 2:13). “Vocés sabiam”, diz ele. “Vocés sabiam que nao estavam simplesmente ouvindo palavras de um homem.” Diz ele também, noutro lugar: “Porque, ainda que 58 Romanos 1:1 eu me glorie mais alguma coisa do nosso poder, 0 qual o Senhor nos deu para edificagao...”(2 Corintios 10:8). O Senhor Ihe dera autoridade para edificagao. Ele diz a mesma coisa no capitulo treze da mesma Epistola, versiculo 10: “Portanto, escrevo estas coisas estando ausente, para que, estando presente, nfo use de rigor, segundo o poder que o Senhor me deu para edificagio...”. A mesma coisa—o poder, a autoridade. Noutras palavras, Paulo sempre afirmava que tinha esta autoridade excepcional que unicamente o Senhor podia outorgar — e que nao estava meramente pregando; estava pregando como vaso escolhido do Senhor Jesus Cristo. E, de maneira muito interessante, os apéstolos nao somente afirmavam isso quanto a si mesmos, mas diziam isso uns dos outros. Vocés recordam aquela grande declaragio feita pelo apéstolo Pedro acerca do apéstolo Paulo e seus escritos? “...como também o nosso amado irmao Paulo” semelhantemente havia tratado dessa questéo em suas diversas Epistolas, “que os indoutos e inconstantes torcem e igualmente as outras Escrituras, para sua propria perdic4o” (2 Pedro 3:15,16). Pedro est4 dizendo nessa passagem que os escritos deste apdéstolo Paulo sao Escrituras; diz ele: “... igualmente as outras Escrituras”, com 0 que ele se refere 4s Escrituras do Velho Testamento. Ele atribui As Ep{stolas de Paulo uma autoridade igual 4 das Escrituras do Velho Tetamento. Trata-se de um apdéstolo descrevendo a autoridade de um colega de apostolado. Portanto, isso é de grande significagdo para nés. Devemos lembrar-nos de que as palavras destes apdéstolos, quer as registradas no livro de Atos, quer as escritas nestas diversas Epistolas, tém autoridade divina. Eles foram autorizados por Deus a escrevé-las, Foram comissionados pelo Senhor Jesus Cristo. Eles foram dirigidos e guiados pelo Espirito Santo. As Epistolas do Novo Testamento sao singular e divinamente inspiradas. Assim é que, se alguma vez vocé entrar em discussao com alguém que diga: “Ah, isso é sé Paulo. Eu creio no evangelho, no evangelho simples. Sou seguidor de Jesus; isso 59 O Evangelho de Deus af é s6 Paulo”, vocé deve demonstrar-lhe que ele est4 contradizendo o proprio Senhor Jesus, porque foi o Senhor que deu autoridade ao Seu servo. Ele deu autoridade aos apéstolos, e esses apdéstolos reconheceram este apéstolo, e eles dizem que o que ele escreve tem autoridade igual até a das Escrituras do Velho Testamento. E, de maneira muito interessante, sabemos pela histéria que quando a Igreja Primitiva chegou a definir e a determinar o canon do Novo Testamento — havia ent&éo grande nimero de escritos crist&os, ¢ a questo era o que devia ser incluido e o que devia ser deixado fora ~ sabemos que 0 Espirito Santo levou a Igreja Primitiva a decidir desta maneira: ela dizia que, se um documento que pretendesse ser um Evangelho ou uma Epistola, e nao pudesse ser rastreado direta ou indiretamente, até as suas origens num apéstolo, com autoridade apostélica, ele nao devia ser incluido. A prova da apostolicidade foi a prova empregada pela Igreja Primitiva, com a sabedoria a ela dada pelo Espirito Santo, na determinagio do cénon do Novo Testamento. Pois bem, tudo isso é indicativo do fato de que o apéstolo é um homem dotado de autoridade nica; é-Ihe dada a doutrina; é- -Ihe dada a verdade. O Senhor lhe daa verdade; 0 Espirito Santo o guia, e ele a transmite. Ele € um servo escolhido, especialmente enviado para representar o Senhor e falar por Ele dessa maneira. “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apéstolo.” Finalmente, permitam-me falar da palavra “chamado”. Esse € um dos fatos mais importantes acerca de Paulo, e é por isso que ele introduziu o termo. Por que ele diz que é um “chamado”apéstolo? E, sem divida, a fim de deixar claro para os cristéos de Roma que ele é verdadeiramente apéstolo. No capitulo primeiro de Galatas ele se expressa mais fortemente ainda; ougam-no no versiculo primeiro: “Paulo, apéstolo (nao da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos)”. Que maravilhosa declaragao entre parénteses! — “Paulo, apdstolo — sim”, diz ele, “nao cometam nenhum erro sobre isso — eu nao 60 Romanos 1:1 me nomeei a mim mesmo. Nao estou me posicionando a mim mesmo como apéstolo, como fizeram alguns desses falsos mestres. Todavia, nem pelos outros apéstolos eu fui designado, nem por homem nenhum; “no da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo”. “Chamado.” Um homem escolhido, escolhido pelo ato soberano do Senhor Jesus Cristo, “Sim”, declara Paulo, “sou tao apdstolo como os doze. Fui chamado exatamente da mesma maneira que eles 0 foram; tenho amesma autoridade; sou igual a cles. Sou apéstolo, um chamado apdstolo”, Certamente, esta € uma das coisas mais admiraveis da histéria. Se é possivel ousar fazer uso desta expressao, este é 0 ato culminante, a suprema obra-prima do nosso bendito Senhor —ter escolhido Ele assim para apéstolo alguém que tinha sido o Seu principal inimigo. Ele escolheu aqui um homem que no tinha estado com Ele nos dias da Sua carne, que nao pertencia ao circulo dos doze, que nao tinha ouvido o Seu ensino, que n4o tinha visto os milagres, que nao estivera com eles na crucifix4o, que nao estivera com eles quando Ele entrou no cendculo apés a Sua ressurreig&o. Ele nao estava 14. Era um de fora, entao, e durante anos depois disso, um blasfemo, um perseguidor tentando exterminar 0 cristianismo e, todavia, é apéstolo como os demais. Como foi isso? Ah, exclama Paulo, Ele proprio me chamou, me escolheu e me autorizou exatamente como fez com os outros (1 Corintios 15:8). Ele est4 falando sobre o modo como o Senhor ressurreto Se revelara a Cefas ¢ aos outros apéstolos, e a testemunhas escolhidas, e —- ougam — “por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo”! Sim, ele tinha visto o Senhor ressurreto, nao durante os quarenta dias como os outros, porém muito depois dos quarenta dias, bem depois do dia de Pentecoste, e muito depois dos tempos em que o Senhor havia feito estas revelagdes a Seu respeito a testemunhas escolhidas especialmente. Mais tarde Ele deu esta visao especial de Si mesmo a este homem, a este fariscu blasfemo e perseguidor, que saira de Jerusalém para 61 O Evangelho de Deus Damasco, respirando ameacas e mortes. “Por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo.”No entanto, apesar de eu ser tal coisa, Ele fez isso por mim, e Se revelou a mim. Eu O vi; Ele me chamou; Ele me comissionou. Paulo reivindica essas coisas. E se quiserem um relato minucioso disso, vocés 0 verao, é claro, no capitulo vinte e seis do livro de Atos. Ainda no esgotei, até aqui, nem mesmo 0 pleno contetido do chamamento do apéstolo. Mas ai esta a realidade grandiosa, dramatica e vital. Dei a vocés uma lista de coisas que sao as marcas e os sinais que caracterizam um apéstolo, e vimos que a primeira qualificagao é que ele tenha visto 0 Senhor ressurreto. E Paulo viu o Senhor ressurreto. Nunca se restrinjam a descrever 0 que aconteceu com Paulo no caminho de Damasco simplesmente em termos da visdo que ele teve. Eu sei que ele diz: “Nao fui desobediente 4 visdo celestial” (Atos 26:19), entretanto com 0 uso da palavra “visao” ali ele nao quer dizer o que nés queremos dizer quando dizemos que alguém teve uma visdo. O apéstolo Paulo viu literalmente o Senhor ressurreto. E nds temos que asseverar isso. Houve outros que tiveram visGes, mas isso nao fez deles apéstolos. $6 poderia ser apdstolo quem tivesse “visto”de fato o Senhor ressurreto. Num fulgurante segundo 0 apéstolo Paulo viu 0 rosto do Senhor glorificado, e, portanto, é uma testemunha da ressurrei¢ao. Isso faz parte vital da histéria dele. Querendo Deus, mais adiante vamos tratar de outros elementos e aspectos do seu chamamento, e da sua descricdo adicional de si mesmo como alguém que foi “separado para o evangelho”. 62 4 “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apéstolo, separado para o evangelho de Deus.” —Romanos 1:1 Estivemos estudando tudo 0 que Paulo quer dizer quando se descreve a si mesmo como “chamado para apéstolo”, ¢ 0 pr6ximo ponto que devemos firmar é, naturalmente, que o apéstolo também foi comissionado de maneira muito especial, e pessoalmente, pelo Senhor, e isso é deveras vital. A declaragio cldssica a respeito acha-se no capitulo vinte e seis do livro de Atos, onde Paulo, estando em julgamento, por assim dizer, diante de Agripa e Festo, diz 0 seguinte, nos versiculos 16 a 18 — passagem da maior importancia, se compreendemos 0 que ele dizali sobre si mesmo. O Senhor ressurreto lhe esta falando, e diz: “Mas levanta-te e pée-te sobre teus pés, porque te apareci por isto, para te por por ministro e testemunha tanto das coisas que tens visto como daquelas pelas quais te aparecerei ainda; livrando-te deste povo, e dos gentios, a quem agora te envio, para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres a luz, e do poder de satands a Deus; a fim de que recebam a remissao dos pecados... pela fé em mim”. Pois bem, ai esté a comissao do apéstolo. O Senhor ressurreto nao somente lhe aparece, mas lhe diz especificamente que o fizera para comissioné-lo, para envid-lo como apéstolo, um dos poucos escolhidos, que foram chamados e separados muito especificamente para esta grande finalidade de proclamar a verdade concernente a Ele, e isso de maneira autoritativa. Mas ha mais uma coisa interessante, algo que com facili- dade podemos omitir, ou que talvez nao tenhamos o cuidado O Evangelho de Deus de observar. Torno a dizer que nao podemos permitir-nos passar rapidamente por essas declaracées preliminares de qualquer destas Epistolas, ou por qualquer comentario que parega ser algo 4 parte, proferido por este grande homem, pois ele aqui nos diz nado somente que viu o Senhor dessa maneira, e que ndo somente foi chamado e comissionado por Ele para ser apéstolo, mas também ~ ¢ isto é outra marca e sinal de um apéstolo, vocés se lembram — que a verdade lhe foi ensinada pessoalmente pelo Senhor. Agora Paulo esté muito preocupado com isso. Permitam-me dar-lhes a prova do que estou dizendo, baseado em GAlatas, capitulo um, versiculos 11 ¢ 12: “Mas faco-vos saber, irmaos, que 0 evangelho que por mim foi anunciado nao é segundo os homens. Porque nao o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelagao de Jesus Cristo”. Este evangelho nao lhe foi ensinado pelos outros apéstolos; se fosse assim, ele nao seria apéstolo. E por isso, entao, que ele faz essa argumentagao, e se vocés continuarem lendo esse capitulo primeiro da Epistola aos Galatas, verao que ele continua salientando e repetindo isso; diz ele: “Mas quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mae me separou, e me chamou pela sua graca, revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, nao consultei a carne nem 0 sangue, nem tornei a Jerusalém, a ter com os que jd antes de mim eram apéstolos, mas parti para a Arabia, e voltei outra vez a Damasco. Depois, passados trés anos, fui a Jerusalém para ver a Pedro...”. Nao para que pudesse aprender de Pedro. Nao para que ele se fizesse aprendiz ou aluno de Pedro, para que Pedro lhe ensinasse a verdade. Absolutamente nao! Ele era igual aos demais apéstolos, como nos diz no restante desse capitulo. A afirmacao do apéstolo Paulo é que a verdade que ele pregava lhe fora dada pelo Senhor, pessoalmente, nao por um mestre humano. A mensagem do evangelho, seu completo entendimento, tinha sido dada a ele diretamente pelo mesmo Senhor que ensinara os doze nos dias de Sua carne na terra. 64 Romanos 1:1 Pois bem, tudo isso é de tremenda importancia. Faz parte da declaragdo de Paulo de que ele é um “chamado” apéstolo, e eu quero consubstanciar esse ponto doutrindério ainda mais, porque o apédstolo o diz noutros dois lugares. Vocés verao que ele o diz em | Corintios, capitulo onze, versiculo 23 — vocés se lembram dessa passagem com relagaéo 4 comunhao da Ceia do Senhor: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei...”. De novo, é a mesma alegacdo de que ele nao o aprendeu de homens, nem lhe foi ensinado por homens. E vocés podem observar que cm 1 Corintios 15:3 ele torna a defender o mesmo ponto, dizendo: “Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi...”. Notem ainda o argumento adicional no versiculo 11, sobre a sua igualdade com estes homens; diz ele: “Ento, ou seja eu ou sejam eles, assim nds pregamos e assim haveis crido”. Noutras palavras, ele se afana em asseverar esta sua igualdade absoluta com os outros apéstolos. Ele € um “chamado”apéstolo. Ele é plenamente apéstolo — tao plenamente como Pedro. Notem ent&o que ele prossegue e faz a terceira reivin- dicag&o, de que o Senhor, ao fazer isso tudo, comissionou-o de maneira muito especial para ir aos gentios, de modo que ele pode dizer em Romanos: “Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apéstolo dos gentios” - esse é 0 seu titulo — “glorificarei o meu ministério” (11:13). Foi o Senhor que, como vimos em Atos 26:18, ali o comissionou muito especialmente para que fosse aos gentios. Ele se gloria no fato de que ele, que era “hebreu de hebreus”, e um homem tao rigido como se poderia ser, no sentido nacionalista, vai ser agora o apéstolo dos gentios. Ele engrandece o seu oficio. Permitam-me, entéo, resumir o ponto dizendo que o apéstolo est4 muito interessado em que estes cristaos em Roma compreendam que ele é realmente apéstolo, de plenos direitos, e que nao ha divida nenhuma a respeito. “Por que é que vocé esta dando tanta énfase a isso?”, indagara alguém. Ha uma boa razao. Havia muitos, naqueles primeiros tempos da Igreja, que 65 O Evangelho de Deus se diziam apéstolos. Por exemplo, vocés podem ler o seguinte, no livro de Apocalipse: “Eu sei as tuas obras, e 0 teu trabalho, e a tua paciéncia, e que nao podes sofrer os maus; e puseste a prova os que dizem ser apéstolos e 0 nao sao, e tu os achaste mentirosos” (2:2). Havia muitos que se arrogavam esse titulo, alegando que eram apéstolos, e assim 0 apéstolo Paulo, natural e acertadamente, estava muito interessado em que nao ficasse duvida alguma sobre essa questdo. Ele é igual aos outros apéstolos, e dé énfase a isso neste ponto pelo seguinte motivo: ele quer que os membros da igreja em Roma saibam que quando ele escreve, como esté escrevendo, ele o faz com plena autoridade apostélica, o que significa que ele esté escrevendo com a plena autoridade do Senhor Jesus Cristo. Ele 6 embaixador; é repre- sentante; ele é autoridade plena. O que ele escreve nao é uma carta pessoal; néo 6 um homem escrevendo a varios outros homens e mulheres. No! O homem que est4 escrevendo é alguém que foi chamado e a quem foi dada a mensagem que lhe cabe transmitir; escreve com autoridade singular, pelo que diz: “Nao sou somente “servo de Jesus Cristo”; sou “um chamado apéstolo”. Certamente vocés véem 0 significado disso. Mas, como nao ha nada nas Escrituras que nao seja sempre de aplicagdo pratica, este me parece que € um ponto muito importante para nés também. Estamos vivendo numa época de muitas reivin- dicagées, época em que existem todos os tipos de movimentos nos quais, queiramos ou n4o, podemos muito bem estar envolvidos e, portanto, convém que tenhamos idéias claras sobre esta matéria, Que dedugao podemos fazer, pois, do que vimos acerca do sentido desta frase, desta palavra “apdéstolo”? Bem, a primeira dedugdo que eu sugiro que podemos fazer é que nao existe, obviamente, essa coisa chamada de sucesso apostélica; e de imediato vocés véem a relevancia desse ponto. A igreja catélica romana nao somente afirma que 0 papa € 0 vigario de Cristo; também faz esta outra reivindicagéo — da sucessao apostélica. 66 Romanos 1:1 Isso, porém, nao se limita a igreja de Roma. Existem outros ramos da cristandade que tanto gostam de empregar o termo “catélico” concernente a si mesmos, e eles também sao muito enfaticos nessa reivindicacao de sucessao apostélica. Esse é um dos grandes argumentos apresentados para terem um episcopado, para terem bispos. Nao me entendam mal; ha eclesidsticos que, embora acreditem em bispos, nao concordam com a reivindicagao de sucessao apostélica. Mas os anglicano- -cat6licos e os eclesidsticos da alta igreja, assim chamados, costumam dizer, todos eles, que o bispo — um bispo — é da propria esséncia da igreja, nado somente do bem-estar da igreja, mas do proprio ser da igreja, e que nao existe igreja sem bispo. Essa foi uma grande questo no século 17, vocés sabem, e penso que pode bem ser uma grande questdo neste século também. Tanto, que pode causar divisdéo até na Igreja da Inglaterra, se for feita presso sobre certos pontos. Essas questées estdo aparecendo nos jornais atualmente.* O que se afirma, vocés véem, € que esses bispos séo descendentes diretos dos apéstolos — sucessao apostdlica — e a minha contestagao é que um correto entendimento do termo “apédstolo” certamente mostra que a sucess4o apostélica é pura impossibilidade. Uma das marcas essenciais de um apéstolo é que ele possa dar testemunho da ressurreigao do Senhor Jesus Cristo. Logo, como é que alguém que vive hoje pode ser apdéstolo? Nao faz sentido! E, naturalmente, sabemos que nem se tenta fundamentar a sucesso apostélica nas Escrituras, e sim na tradicao. A verdade é que, se tomarmos a posicao escrituristica, ver-se-4 que toda essa quest4o é, por definigéo, completamente impossivel. Nao somente isso! O préprio apéstolo Paulo, escrevendo aos ef€sios, afirma que a Igreja Crista é edificada “sobre o fundamento dos apéstolos e profetas” (Efésios 2:20). Certamente n&o continuamos a construir o fundamento, 0 alicerce; alicerce € algo que se faz no comego, e s6 no comego. Nao se estende 0 “1955 67 O Evangelho de Deus alicerce. Uma parede erguida sobre um alicerce nao é uma extens&o desse alicerce; a parede est sobre o alicerce, e é essaa afirmacao de Paulo. O alicerce é constituido pelos apéstolos e profetas, e esse alicerce nao continua sendo lancado. Além disso, é por certo mais que claro que, se posso dizé-lo com reveréncia, desde que se concluiu a formagao do canon do Novo Testamento, realmente nao ha necessidade de apéstolos. Como vimos, uma das fungdes dos apéstolos era ministrar ensino autoritativo. Vocés se lembram de que j4 vimos Pedro referir-se 4s Epistolas de Paulo neste contexto, dizendo que nelas ha “pontos dificeis de entender”, e que os homens as torcem, como igualmente torcem “as outras Escrituras, para sua propria perdigao”. Ora, os apdstolos falavam com autoridade. Nao hesito em chegar ao ponto de dizer que eles falavam de maneira inerrante. Foram-lhes dados o poder e a mensagem, e eles falavam como representantes do Senhor ressurreto, que os tinha enviado. Falavam como homens enviados por Deus, tao definidamente, e de maneira tao inspirada, como os profetas do Velho Testamento. Segue-se ent@o que, uma vez que temos as Escrituras do Novo Testamento — 0 canon do Novo Testamento — temos alio ensino autorizado, e dai, naturalmente, nao ha mais necessidade de apéstolos. E é ai que se vé a sabedoria de Deus agindo por todos os 4ngulos concebiveis. Enquanto o Canon nao estava a disposicao, havia necessidade de apéstolos e dos que estavam diretamente ligados a eles e por eles foram instruidos. Uma vez completo o Canon autorizado, deixou de haver necessidade de apéstolos. Ha outra prova muito interessante disso tudo, prova que poderia ter escapado da nossa observacdo. Que cuidado 0 apéstolo tem com as suas frases introdutérias! Em 1 Corintios ele diz: “Paulo, chamado apéstolo de Jesus Cristo” - de novo a nossa frase — “pela vontade de Deus, e o irmao Séstenes” (1:1). Vocés véem, Séstenes é um irm4o. Agora, quem pensaria que essas coisas tém tanta importancia? Se vocés simplesmente 0 notassem, poderiam muito bem dizer que o apéstolo é muito egoista, dizendo: “eu e Séstenes”; por que nao 68 Romanos 1:1 diz: “Séstenes e eu”?* Pois bem, vocés véem que nao temos ai mera questéo de etiqueta; é questdo de falar com autoridade recebida de Deus, e Paulo sabia que era um apéstolo do Senhor Jesus Cristo, e que Sdstenes, por excelente homem que fosse, e santo, nao era apéstolo; logo — “e 0 irmao Séstenes”. Deixem-me, porém, dar-lhes outro exemplo; no primeiro versiculo da Epistola aos Colossenses temos: “Paulo, apdstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, e 0 irmao Timéteo”. Ora, é mais que é6bvio que Timéteo era um grande favorito do apédstolo, Contudo nao era apéstolo. Ele também €é “nosso irmao” (VA). E 0 apédstolo nao pode eleva-lo acima disso; ele nao pode dispor-se a fazer apdstolos. Ele nao diz: “Pois bem, Timéteo é 0 homem que vird apés mim; ele vai ser apdstolo, e assim haver4 sucessao através dos séculos”. Nao, absolutamente! “Paulo, apéstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, e 0 irmao Timoteo.” Especialmente quando contrastamos isso com o primeiro versiculo da Epistola aos Filipenses, onde vemos isto: “Paulo e Timéteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos...”. Vocés véem, quando Paulo se descreve como “servo” de Jesus Cristo, ele e Tim6teo s4o iguais. Timéteo é servo de Jesus Cristo, tanto quanto o apéstolo Paulo. Por isso, quando a questao é de “servo”, ambos estao juntos; nao, porém, quando ele emprega o designativo “apéstolo” — entéo hd uma diferenga. Timéteo é servo, mas nao é apéstolo. Agora, pois, vocés véem a importancia de que sejam examinadas estas frases uma por uma. “Paulo, servo de Jesus Cristo” - “chamado para apéstolo”. A singularidade desta grande posicao! Nao pode ser repetida. Desde aqueles primeiros tempos ndo houve mais apéstolos, e toda pretensdo de apostolado vai diretamente contra 0 ensino do Novo Testamento acerca do sentido do termo. Nao preciso desenvolver esse ponto, mas é preciso assinalar que, se todos nés tivermos que entrar numa * Essas formas tém que ver com o génio da lingua. Dizer em portugnés “Eu e Fulano”, nfo nos leva a pensar em egoismo. Como tampouco nos leva a pensar em egoismo 0 uso de maitiscula para dizer “eu” em inglés. A presente nota nio enfraquece em absoluto a argumentacao do autor. Nota do tradutor. 69 O Evangelho de Deus grande igreja mundial, com a Igreja Ortodoxa Grega, a igreja catélica romana e varios movimentos catdélicos, seremos solicitados a crer na sucess4o apost6lica, a crer que os bispos vém até os nossos dias sem nenhuma interrup¢io, e que hoje ha homens que sao apéstolos tanto quanto Paulo e os outros do século primeiro. Ah, meus amigos! Como é importante examinar estas frases, e nao pular sobre elas para chegar a algum versiculo favorito, como 0 versiculo 16 — “No me envergonho do evangelho de Cristo...”, pensando que a matéria da Epistola comeca realmente ali. Acaso vocés nao conseguem ver que o primeiro versiculo est4 repleto de doutrina vital? E porque tantos de nés muitas vezes tém negligenciado a doutrina que ai esta, logo no inicio, que caimos como presa facil dos argumentos falsos que nos rodeiam. Passemos agora a terceira frase: “separado para o evangelho de Deus”. Ai est4 a préxima afirmagao que o apéstolo faz a respeito de si mesmo — e sugiro-lhes que ai ele sobe um degrau ainda mais alto, e que vamos subindo com cada frase: “servo de Jesus Cristo” — “chamado para apdéstolo” — “separado para 0 evangelho de Deus”. Por que digo isso? Bem, permitam-me expressar-me assim: h4 os que diriam que o sentido aqui é apenas que 0 apéstolo tinha sido separado, chamado e posto & parte para pregar o cvangelho. Mas, se s6 significasse isso, nao haveria realmente por que dizé-lo, porque j4 o dissera sob 0 termo “apdstolo”. Vimos que uma parte vital da comissao do apéstolo era que ele ensinasse e pregasse o evangelho com autoridade, e também o escrevesse: assim, se ele estivesse dizendo apenas “separado para a obra de pregar o evangelho”, bem, ent&o eu diria que isso seria tautologia, e Paulo nao é culpado disso. As expressGes de que ele faz uso, ele sempre as emprega com meticuloso cuidado, e eu desejo mostrar-lhes, portanto, que o que af esta nado é mera repetigao. Ele esté acrescentando algo 4 sua descricado de si mesmo, ele nos esta levando a um nivel mais alto, a um nivel sumamente glorioso. 70 Romanos 1:1 Qual sera, entao, a forca da palavra “separado”? Significa “posto a parte”. E tragada uma linha diviséria, e as pessoas sao postas a parte. Portanto, diz 0 apédstolo que ele foi posto a parte para o evangelho de Deus. O que é que ele quer dizer exatamente com ser posto a parte para a obra de Deus? Pergunto-me se aqui Paulo no estava, por assim dizer, fazendo um jogo com uma palavra e seu sentido. Vocés se lembram do que ele era antes de ser convertido? Era um fariseu, eo sentido do termo “fariseu” no hebraico é “separado”, alguém posto a parte. Os fariseus se punham 4 parte. Eles andavam no outro lado da rua, tinham todo o cuidado para que as suas vestes n&o tocassem ninguém, para que eles nao se tornassem impuros, e eles néo queriam nada com os publicanos e pecadores. Esse é 0 fariseu biblico. Portanto, seria pura imaginacao sugerir que o apéstolo estava dizendo algo como o seguinte: outrora eu me separei a mim mesmo como fariseu, mas a grande verdade sobre mim é que fui separado pelo préprio Deus para esta grande obra que tenho © privilégio de realizar, parte da qual estou realizando agora, quando escrevo esta Epistola a vocés? Estou certo de que foi assim. A falsa separagao — a verdadeira separagdo! Separacao feita pelo homem! Separacao feita por Deus! Prossigamos entio, para seguir 0 pleno sentido do que Paulo quer dizer aqui. Afortunadamente para nés, ele nos diz noutra Epistola o que ele quer dizer. Creio que vocés estao comecando a entender 0 que estou fazendo. Vocés véem, nao posso expor a Epistola aos Romanos sem expor todas as outras Epistolas a0 mesmo tempo, e acho que se vocés nao fizerem a mesma coisa, errarao em sua exposicéo de Romanos. Todos os escritos de Paulo tém que ser tomados juntos. Ele nos diz exatamente o que quer dizer em Galatas 1:15,16. Acho-o profundamente comovente; comecemos no versiculo 13: “Porque j4 ouvistes qual foi antigamente a minha conduta no judaismo, como sobremaneira perseguia a igreja de Deus ea assolava. Ena minha nacdo excedia em judaismo a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradigdes de meus pais”. E entao: “Mas 7 O Evangelho de Deus quando aprouve a Deus, que desde 0 ventre de minha mae me separou” — ai esta a palavra! — “e me chamou pela sua graca, revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, ndo consultei a carne nem o sangue”. Ai est4 o que ele quer dizer — “separado para 0 evangelho de Deus”. Quando? Desde o ventre de sua mae— muito antes de ser chamado para apéstolo, ele fora separado por Deus precisamente para esta tarefa que esta realizando agora quando escreve uma carta para a igreja em Roma. Ah, esta é uma grande doutrina biblica! Jeremias diz algo semelhante, vocés recordam, quando se apresenta. Diz ele que Deus lhe falara da seguinte maneira: “Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saisses da madre te santifiquei: 4s nagdes te dei por profeta” (1:5). Foi isso que Deus disse a Jeremias. Antes mesmo que Ele o formasse no ventre de sua mie, e antes que ele saisse daquele ventre, Ele o conhecia e o tinha separado, tinha-o santificado e 0 dera por profeta as nacées. E, naturalmente, ha muitos outros exemplos eilustracdes disso. Como vocés sabem, a mesma coisa aconteceu verdadeiramente com Joao Batista — “cheio do Espirito Santo, ja desde o ventre de sua m&e”, € o que nos é dito — e também, num sentido, foi o que aconteceu com Moisés, Sansao e muitos outros. E disso, pois, que Paulo esta falando; e assim vocés véem que se trata de um degrau mais alto. “Servo” de Jesus Cristo — sim! Como todos os outros cristaéos. Timéteo, Sdstenes, todos sao servos de Jesus Cristo. Todos nés somos. Ah, sim, mas “chamado apéstolo”. Ah, isto nao para ai, declara Paulo. Se vocés querem realmente saber a extenséo da minha autoridade, eu fui separado desde o ventre de minha mae para fazer precisamente o que estou fazendo. Paulo nao foi somente chamado para ser apéstolo; foi preordenado por Deus para ser pregador do evangelho, antes do seu nascimento. Encontraremos essa idéia muitas vezes nesta grande Epistola, e, portanto, é importante que logo de inicio saibamos algo a respeito. O apéstolo esta sempre falando sobre estas coisas — sobre nD Romanos 1:1 esta separacao, e sobre esta aco de Deus. Vemo-lo, vocés se lembram, no capitulo nove, onde ele diz: “Amei Jac6, e aborreci Esat”, Quando? Antes que eles nascessem. Quando ainda estavam no ventre materno: “nao tendo eles ainda nascido”, e antes deles terem feito qualquer coisa. Foi o que Deus disse a respeito deles. Separado, entéo, para o evangelho de Deus quando ainda no ventre materno, antes que nascessem. Por qué? Bem, o livro de Atos nos responde: “Conhecidas de Deus sao todas as suas obras, desde 0 principio do mundo” (15:18, VA). Neste ponto chegamos, digo eu, face a face com a grande, gloriosa e fortissima doutrina da soberania de Deus. O “chamamento” de Paulo nao foi um pensamento posterior; nao foram os eventos e as circunstancias que o fizeram acontecer. Constituiu parte do eterno propésito, pré-conhecimento e conselho de Deus. E 0 apéstolo quem o diz. Discutam com ele, se quiserem, mas estar4o discutindo com um homem que fala com a autoridade do Senhor ressurreto — com um “chamado” apéstolo. Cuidado, pois! Ele afirma que foi separado para este evangelho desde o ventre de sua mae. Digo-Ihes que encon- traremos este termo numerosas vezes. Termo que nos ensina que ha um plano ce um propésito na mente de Deus. No caso deste homem vemos isso claramente, nfo vemos? Estivemos pensando em sua maravilhosa preparacdo; nada disso foi acidental. Nao foi acidental ter ele nascido Saulo de Tarso, naquela curiosa mistura de cultura grega e cultura hebraica. Nao foi por acaso ter ele nascido cidadao livre, e do Império Romano! Nenhuma dessas coisas foi acidental. Tudo fazia parte do grande plano de Deus elaborado na eternidade, nao somente antes do nascimento de Paulo, mas antes da formacao do mundo, Tudo isso estava na mente de Deus. Ele o fez acontecer. Agora, esta questéo do tempo me é muito interessante. Talvez vocés digam: bem, se foi propdsito de Deus fazer de Paulo um grande pregador do evangelho aos gentios, por que Ele nao a fez logo de uma vez? Mas seria loucura fazer tal pergunta! A determinagao do tempo daquilo que Deus faz é uma das coisas 73 O Evangetho de Deus mais fascinantes da Biblia. Vocés vao lendo a Biblia e por vezes quase chegam a dizer a si préprios: bem, nao ha nenhum plano aqui; tudo esté acontecendo de qualquer maneira, de algum modo; todos podem fazer o que querem, tanto os homens como as mulheres. Mas vocés vao adiante, e vao ver: “vindo a plenitude dos tempos” — no momento certo— Deus agiu, e agiu 4 Sua maneira. Poderfamos pensar que Paulo deveria ter sido convertido quando estava de pé vendo os homens apedrejarem Estévao até ele morrer, quando puseram suas roupas aos seus pés. Mas nao foi nessa ocasiao que aconteceu. Deus lhe permitiu blasfemar. Deus lhe permitiu respirar ameagas e mortes, e fazer muitas outras coisas contrarias ao nome do Senhor Jesus Cristo. Por qué? Nao sei. Deus 0 sabe, e somente Deus 0 sabe. Posso sugerir uma resposta, se vocés quiserem. Pode ser a maneira pela qual Deus nos mostra, fora de toda dtvida e maquinacgéo, que o apéstolo nunca tomou a decis4o de ser cristéo, mas que ele teve que ser apreendido quando estava no caminho de Damasco. Deus 0 mostra seguindo o seu caminho com toda a violénciae fiaria ofensiva, e entao o deteve. A questio do tempo é muito interessante. Muitas coisas que parecem totalmente opostas ao que se podia esperar sao permitidas, porém o fim é sempre certo. Esse € 0 argumento de Paulo nos capitulos nove, dez e onze desta grande Epistola aos Romanos. Nao se enganem, diz ele; vocés pensam que 0 propésito de Deus falhou porque no presente a maioria dos judeus esta rejeitando Jesus como o Cristo. Nada disso, continua ele. Deixem-me conduzi- -los através do Seu grandioso plano; e os conduz através desta grande extensao da histéria e Ihes mostra que 0 propédsito de Deus vai ser cumprido, Tudo esté ali, nos capitulos nove, deze onze — sim, mas tudo est4 aqui também, no primeiro versiculo —“Separado para o evangelho de Deus”. Separado quando ainda no ventre da sua mae, antes de nascer. Foi ali que Deus 0 apartou para isto; 0 propdsito segue diretamente o seu curso, apesar de toda a contradigao e oposi¢ao. Finalmente, quero dizer o seguinte: Paulo ensina que 14 Romanos 1:1 precisamente esta mesma coisa aplica-se 4 minha salvacao e a de vocés, e nao hd nada que eu conhega que seja tao glorioso e ao mesmo tempo téo humilhante. Segundo este apédstolo, a minha salvacio foi determinada antes da fundagao do mundo. Leiam as suas Epistolas; esse é 0 seu ensino. Antes da fundagéo do mundo os nossos nomes foram escritos no livro da vida do Cordeiro. Nao é assombroso? Deus separou este homem para esta tarefa especial antes do seu nascimento. Nao estou dizendo que isso é necessariamente verdade a nosso respeito, se bem que, posso dizer, cada vez mais eu passo a acreditar que 6! Nao posso fugir 4 conclusado de que estou neste pulpito neste momento pela mesma razéo. Nao posso dizer que fui eu que me decidi pelo ministério cristao. E esta consciéncia da mao de Deus, o constrangimento, a compulsio, se quiserem, este senso que um homem est4 cumprindo o seu destino e esta fazendo aquilo para o que Deus o destinou, seguindo o Seu propésito. Mas, digo eu, pensem vocés o que pensarem sobre chamamentos, estes constituem simples e claro ensino das Escrituras com relagéo a cada um de nés. E, meus amigos, haveria algo mais maravilhoso e mais poderoso do que isto — que o onipotente e eterno Deus conheceu vocés antes da fundacao do mundo - conheceu cada um de vocés, individualmente? Apesar de ser Ele tao grandioso e tao elevado, eterno ¢ sempiterno, conhece-nos desta maneira, um por um. E um grande mistério! Est4 além do nosso entendimento. E maravilhoso e assombroso. Pensar que o glorioso Deus esta olhando por nés e nos conhece, um a um! Essa é a maneira biblica, entendo eu, de pregar santidade e santificagao. Se tao- -somente nos déssemos conta de que os Seus olhos estao sobre nés, que Ele nos conhece desta maneira intima, e que Ele Se interessa por nds deste modo especial, ent&o, 4 luz de todas estas coisas, 0 efeito sobre mim, em todo caso, é levar-me a usar as palavras do apdstolo Pedro: “Que pessoas vos convém ser em santo trato, e piedade?” (2 Pedro 3:11). 75 5 “.. oevangelho de Deus...” — Romanos 1:1 Temos visto, entéo, que o apdstolo aqui, como provavelmente o fard muitas vezes, esté comprimindo num espaco diminuto o grande contetido do seu evangelho. E mesmo uma sinopse concisa, se vocés 0 preferem. Mas isso torna duplamente importante que, de alguma forma, vejamos algo desse contetido que ele coloca assim, em tao poucas palavras, e, portanto, a melhor coisa que podemos fazer é simplesmente examinar as palavras propriamente ditas. Ele foi “separado”, diz ele préprio, “para o evangelho de Deus”. Pois bem, muitas vezes penso que estamos tao familiarizados com a palavra “evangelho” que deixamos de compreender o seu profundo e tremendo significado. Significa, todos nés sabemos, “boas novas”, “boa noticia”, e € justamente isso que As vezes receio que nos inclinamos a esquecer. Abrimos os nossos dicionérios e vemos que o evangelho significa boas novas, e ficamos nisso. Descobrimos 0 sentido exato. Somos fil6logos; temos interesse pelos significados das palavras e suas derivagées, e por vezes todo 0 estudo das Escrituras sé termina em palavras. Concluimos na letra, e jamais conseguimos chegar ao espirito. Se dissermos que sabemos que evangelho significa boas novas, a quest4o realmente importante entao é: sera que 0 evangelho chegou a nés como boas novas? Seria esse 0 nosso real entendimento da propria substancia, e nado meramente da palavra que a descreve? Naturalmente, o apéstolo Paulo estava muito preocupado com isso; ele jamais consegue mencionar essa palavra, ou vi) Romanos 1:1 aproximar-se dela nalgum ponto, sem emocionar-se e como- ver-se até 4s profundezas do seu ser. E eu acredito que ele introduz a palavra logo no inicio a fim de lembrar-nos certos contrastes. Agora ele é um pregador das boas novas; nao é mais, por contraste, um mestre da lei. Ele havia sido um mestre da lei, um fariseu, como vimos, e um grande perito, mas nao havia boas novas com relagao 4 lei. A lei nunca fora destinada a ser boa nova. A lei, como 0 veremos dizer, “foi ordenada por causa das transgressdes” (Galatas 3:19). A lei viera para destacar com exatidao o pecado. A lei nunca foi dada como meio ou método ou caminho da salvacao. Jamais se pode pensar na lei como boas novas, em nenhum sentido, embora haja, é certo, um elemento da graca na lei. A lei, como tal, nao é evangelho. Pois bem, ha muitos que nao conseguem entender isso. Parecem pensar que Deus deu aos filhos de Israel a lei com 0 fim de conceder-lhes uma oportunidade de salvar-se por si mesmos. Mas 0 apéstolo fard grande esforgo para mostrar que isso éuma tragica incompreensio da lei; e, portanto, pensar que o evangelho veio somente como um pensamento posterior, depois que a lei falhou, é entender mal tanto a lei como 0 evangelho. Nao, nao é isso, garante Paulo. Ele j4 nao é mestre da lei; é um “arauto” das boas novas. Ou, de igual maneira, podemos dizer que o evangelho nao é meramente um aniincio de que Deus vai perdoar pecados, porque isso também era algo conhecido na antiga dispensagao. H4 uma grande e maravilhosa doutrina do perdao de pecados no Velho Testamento. Logo, 0 que ha de peculiar no evangelho tampouco é isso, e de novo sera entender mal o evangelho pensar nele unicamente como um antincio de que os nossos pecados vao ser perdoados. HA abundantes declaracées disso nos documentos do Velho Testamento. Nao é isso. Isso nao é a boa nova. Outra negativa talvez muito importante é a seguinte: a mensagem do evangelho nao é primariamente um apelo para que fagamos algo; isso de novo nAo seria boa nova. Ha pessoas, como vocés sabem, que parecem pensar no evangelho, na 77 O Evangelho de Deus Mensagem crista, apenas como um grande apelo para que os homens e as mulheres vyivam uma vida digna, tenham boa moralidade, sejam éticos, etc. Agora, nao me cabe criticar os outros, mas nao tenho divida de que muito disso serd ouvido no proximo domingo.’ Em toda ocasiao nacional ou civica esse é 0 tipo de coisa que se ouve, e so feitos apelos em prol do comportamento, da lealdade para com a patria, e assim por diante. Isso nao é boa nova e, logo, nao é o evangelho. Nao é a mensagem crista, mas freqiientemente passa como tal. As vezes se lhe dé o designativo de “religiao da escola publica”, que é simplesmente um apelo para a boa conduta e para 0 bom comportamento. Mas isso nao écristianismo. Dirigir um apelo as pessoas nao é o mesmo que proclamar boas novas a elas; nao sao boas novas simplesmente dizer as pessoas que elas devem ser melhores, e que devem fazer grandes esforgos nessa dire¢ao; na verdade, é quase exatamente 0 oposto. Paulo diz, porém, que ele é um “arauto” do evangelho; ele foi exortado a dar boas novas. Que sera isso, entéo? Bem, obviamente é algo muito especial e, por certo, mais tarde o apéstolo ird dizer-nos exatamente o que é, Uma pista ele j nos da aqui mesmo; é algo concernente ao Filho de Deus. E, de fato, algo concernente a Deus e ao que Ele fez. Reitero, nao é primariamente um apelo para que fagamos algo. E um antincio, uma proclamacao que nos é feita do que Deus realizou. Vocés véem, ele expressa isso magnificamente nos versiculos 16 e 17: “Nao me envergonho do evangelho”. Por qué? “E o poder de Deus para salvagdo” — nao uma exortacado aos homens para se salvarem a si mesmos, € sim, o caminho da salvacaéo segundo Deus — “de todo aquele que cré; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justica de Deus.” Isso é 0 que h4 de novo! Pois bem, isso é algo que vocés nao véem no Velho Testamento. O perdio esté 14, mas esta plena exposigao * Domingo das Lembrangas. (Rememorando a Primeira Guerra Mundial. Adendo do tradutor.) 7B Romanos 1:1 desta justiga que vem de Deus é nova, e é 0 elemento especial e nico que faz do evangelho o evangelho; e é porque 0 apéstolo compreende isso que o evangelho sempre o comove. Ora, a declaragéo que acabo de citar é um exemplo do que podemos chamar litotes: “Nao me envergonho”, expresséo com a qual ele realmente diz: tenho orgulho dele, gabo-me dele; nenhuma outra coisa € tao grande como isto. Euma daquelas declaragées positivas dadas em forma negativa. Ele diz: “Néo me envergonho”, e quer dizer, “Estou absolutamente emocionado com isso, mal me posso conter.” Esse é, entaéo, 0 primeiro aspecto que devemos sempre compreender acerca do evangelho, e é algo que, conforme a Biblia, sempre deve caracterizar 0 evangelho. Se vocés retrocederem ao Velho Testamento e examinarem as profecias da vinda deste evangelho, veréo que todas elas so liricas. Pensem em Isaias, capitulo 35! Pensem em Isajas, capitulo 55! Quando isso vier, 0 coxo saltard como 0 cervo, ¢ todos os homens estarao cantando e se regozijando. Essa € a nota; sé pensar nisso, s6 a sugestdo disso, sempre introduz este elemento de louvor, de regozijo e de agdo de gracas. No Evangelho Segundo Lucas, capitulo dois, versiculos 1- 20, exatamente 0 mesmo ponto sobressai. Aparece um anjo a alguns pastores de noite, no campo, e diz: vejam, tenho “novas de grande alegria” para vocés. Essa é a nota—novas, boas novas —evangelho! E vocés recordam que depois que os pastores foram para Belém e verificaram essas coisas, é-nos dito que eles voltaram “...glorificando elouvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto”. Essa é a apresentacao do evangelho; como 0 coro celestial cantou louvores a Deus — “Gléria a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens”. Isso é, pois, uma parte vital e essencial do evangelho. Pois bem, meus amigos, nao adianta prosseguir enquanto eu nao fizer uma pergunta, e a pergunta outra vez é esta: foi assim que o evangelho chegou a nds? Poderiamos dizer com sinceridade neste momento que esta é a maior e a melhor boa 79 O Evangelho de Deus nova que j4 ouvimos? Estou chegando a conclusdo de que, se nao pudermos dizer isso, ent4o, para dizé-lo da maneira mais suave, deviamos duvidar muito que somos cristaos. Ou esta éa maior boa nova que jd ouvimos, ou nao 6; e se para nds nao é, bem, ha razées para isso. Se vocés nao estao cientes de que o evangelho éa boa nova mais grandiosa que jé entrou neste mundo, ou que jé foi recebida pelo homem, isso pode ser porque vocés tém um sentido imperfeito de pecado, e uma insuficiente percepgéo da sua pecaminosidade. Claro, ha os que pensam que eles estao bem como estéo porque sao boas pessoas e tém vida elogiavel. O evangelho nao é boa nova para elas. Elas nunca sentiram necessidade de receber ajuda e, por isso, nao se emocionam face ao evangelho e ndo véem quao maravilhoso ele é. Os que se julgam capazes de acertar-se por si mesmos estéo na mesma situacéo. Nao ha absolutamente nenhuma duvida sobre isso. Uma compreensao inadequada da nossa pecaminosidade é, provavelmente, a maior causa isolada da nossa incapacidade de alegrar-nos sempre no Senhor, e de compreender que esta mensagem € a maior boa nova que 0 mundo ja recebeu. Examinemo-nos a nés mesmos. Se lhes falta alegria, 0 que vocés devem fazer nao é tentar produzir alguma alegria dentro de si mesmos; é ir 4 Biblia, a lei, e constatar a sua pecaminosidade. Positivamente, o caminho para a alegria sempre passa pela percepgio da gravidade do pecado. E isso. Outra razio para a nossa falta de regozijo é, talvez, a nossa incapacidade de aperceber-nos das conseqiiéncias do pecado. Se adotarmos a filosofia ¢ a atitude modernas de desacreditar no inferno e nas penas eternas, e acreditarmos que, visto que Deus € amor, de alguma forma todos estaréo bem no fim; se acreditarmos que apés a morte as nossas almas serao aniquiladas e deixardo de existir depois de uma limitada aplicagao de castigo que misericordiosamente tera fim, e que toda essa questdo ¢ condicional — bem, teremos que ver que, assim como diminui- mos dessa maneira a nossa crenga na punigao do pecado, assim 80 Romanos 1:1 diminuimos as boas novas do evangelho, E, de novo, essa é também uma freqiiente causa da nossa falta de alegria. O anico outro aspecto que eu gostaria de mencionar é a incapacidade de compreender a grandeza da prépria salvagdo. Quero dizer com isso que temos a tendéncia de reduzi-la simplesmente a perdao. Preocupados mormente com a possibilidade de escapar da punicao do inferno, como tantos de nés estamos, queremos 0 perdao, e se achamos que o temos, damo-nos por satisfeitos. Nao temos visto as boas novas em sua altura e em sua profundidade, em seu comprimento e em sua largura — privamo- -nos da grandiosidade de toda essa realidade. Portanto, o apdstolo esté obviamente interessado na grandeza e na gléria do evangelho; é por isso que ele esta escrevendo esta carta aos crist4os em Roma; ele quer que cles tenham conhecimento disso. Ele ouviu dizer que eles j4 estao na fé, mas parece desejoso de ver se eles a compreenderam realmente. Ele pega a pena e, inspirado como sabe que é, e com a autoridade de um chamado apéstolo, vai expd-la a eles em toda a sua plenitude e grandeza. O evangelho! Ah, com que facilidade empregamos esse termo! Com que leviandade o repetimos! Sou téo culpado disso como qualquer outra pessoa. Deveria ser-nos impossivel usar a palavra “evangelho”sem explodirmos, digamos, num hino de louvor e gratidao. Boas novas que nos vém de Deus, isso é 0 evangelho. E isso me leva ao ponto mais importante de todos — é 0 evangelho de Deus. Noutras palavras, é 0 que Deus fez acerca do homem, e acerca da salvacdo. E é por isso que, naturalmente, é algo completa- mente tinico e novo. Nao vou escrever-lhes, diz 0 apéstolo, a respeito de alguma filosofia humana; nao vou dar-lhes as minhas idéias pessoais quanto a como se deve viver; nao vou dizer-lhes 0 que o homem tem que fazer; vou dizer-lhes 0 que Deus fez. E isso! As boas novas de Deus! Pois bem, esta descrigéo aqui dada — esta definigéo do evangelho — é extraordinaria; penso que vocés concordariam. Ha outras descrigées do evangelho dadas no Novo Testamento; 81 O Evangelho de Deus ele € chamado o evangelho da paz, o evangelho do Reino, 0 evangelho da salvacao, o evangelho eterno, e hé outros titulos, designativos e adjetivos empregados. Mas certamente nao ha nenhum que seja utilizado tao constantemente, em especial por este apostolo, como a presente descrigéo, numa forma ou noutra: “o evangelho de Deus”. Todavia nem aio apéstolo para, como vocés podem ver; ele faz algo aqui que eu devo salientar doravante, orando no sentido de que o Espirito Santo nos capacite a todos a ver a sua absoluta primazia e centralidade. Vocés notam que logo de inicio 0 apéstolo nos apresenta a grande e central doutrina da santa e bendita Trindade. Ougam-no: “Paulo... separado”, diz ele, “para o evangelho de Deus” (deixemos fora 0 versiculo 2 por um momento ~ ele estd entre parénteses, na VA, e corretamente) acerca de seu Filho, que nasceu da descendéncia de Davi segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo 0 Espirito de santificagao (0 Espirito Santo), pela ressurreicgfo dos mortos”. Esse é 0 evangelho para o qual ele fora separado. E um evangelho no qual Deus o Pai e Deus 0 Filho e Deus 0 Espirito Santo estao interessados. E obra, a obra especial, a obra gloriosa das trés Pessoas, cada uma delas participando dela. Pois bem, como ja lhes tenho feito lembrar, 0 apéstolo esté escrevendo sob a influéncia, a diregdo e a inspiragao do Espirito Santo, e, portanto, quando ele se expressa desse modo, nao esta fazendo algo acidental; nao esta fazendo algo que ele poderia ter deixado de lado. Paraa compreensao global desta posigao, é absolutamente vital que isto seja salientado. Deixem-me tentar exp6-lo da seguinte maneira: h4 alguns que parecem conceber o evangelho unicamente em termos do Pai. Vocés conversam com eles, e eles afirmam que s4o cristaos e que créem no evangelho. Vocés lhes pedem que lhes expliquem 0 que querem dizer com evangelho, o que querem dizer quando afirmam que sao cristaos, e eles Ihes respondem, vocés ouvem, e notam que eles terminam sem mencionar 0 nome do Senhor Jesus Cristo. Falam muito acerca de Deus; falam sobre 0 recebimento do 82 Romanos 1:1 perdao de Deus; falam sobre orar a Deus; falam sobre o fato de serem guiados por Deus, e assim por diante, mas toda a sua prosa acaba sem mengao do nome do Filho — e, todavia, eles se consideram cristaos. Parecem ter um cristianismo sem nenhuma ligagéo com o Filho, Agora, esse tem sido sempre o perigo peculiar aos misticos naturais. Os misticos, vocés véem, nao somente créem em Deus. Eles sabem, eles acreditam, que é possivel a pessoa ter completo conhecimento de Deus, ter uma direta experiéncia de Deus. Isso est certo. Mas, geralmente, o problema dos misticos é que, pensando que isso é possivel, eles o buscam sem o Senhor Jesus Cristo. Apanham os seus manuais sobre misticismo, passam pela “trevosa noite da alma” etc., até chegarem ao estagio final de contemplacao. Esse é um perigo constante com relagao aos misticos. Dizem eles que o que vocé deve fazer é voltar-se para si mesmo e examinar-se, olhar dentro de si mesmo — que Deus esta em vocé. Ha muitos livros que ensinam isso: alguns deles tornaram-se muito populares. Vejam um livro que foi muito popular, amplamente popular, h4 uns quarenta anos, intitulado In Tune with the Infinite (Em Harmonia com o Infinito), Esteve em voga entre muitos cristaos, mas, na realidade, é uma tipica ilustragéo do que estou dizendo. Ele lhes oferece uma experiéncia de Deus, diretamente, sem que o Senhor Jesus Cristo seja absolutamente essencial. Ai vocés tém, pois, um perigo — unicamente o Pai. Mas, sejamos justos ¢ admitamos que ha alguns que parecem dar toda a atencdo e toda a énfase unicamente ao Filho, esquecidos inteiramente do Pai. Estes séo os que as vezes vao tao longe que chegam a dar a impresséo de que o Pai tem relutancia em perdoar-nos, e (vocés poder4o ver isso em certos hinos) retratam o Senhor Jesus Cristo como tendo que pleitear com 0 Pai que nos perdoe — que Ele vai 4 presenca de Deus e diz: Eu morri por eles, e os adquiri; ¢ 14 esta Ele, retratado na atitude de tentar persuadir a Deus a perdod-los! Para tais pessoas, 0 cristianismo esta, todo ele, unicamente no Filho, e 0 Pai é 83