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Brown Universi

<;Oandavo>

EDITORA— PROPRIETÁRIA

GOMPANHÍAMELHORAMENTOS

DE SAD PAULO

CAYEnôAS, SAD PAULO E RIO

ASSIS CINTRA

NOSSA PRIMEIRA

HISTORIA

(COM 5 GRAVURAS)

iiffllHiííi

1922

EDITORA-PROPRIETARIA

COMPANHIA MELHOBAMENTOS DE S. PAULO

(Waisztlog Irmãos Inoorporido)

CAVEIRAS. S. PAULO E RIO

çiÁo meu ami^o

um dos mais Belios espíritos da juris-

prudência, do magistério e da politica

do ÇBrasil, as minÇas Çomena^ens.

klÁssís Cintra

m

o precursor de Cabral

D. Dinis, o académico, em 45 aaiiios cie governo

preparara o então Jovem reino de Portugal para a

conquista dos mares; e, com tal objectivo, nas terras

de Leiria, fizera plantar uma verdadeira floresta

de pinheiros © outras madeiras aproveitáveis nas

construcções navaes. Assim, em 1322, já a bandeira

portuguesa tremulava, beijada pela brisa, nos mas-

taréos das naves d'El-Ilei. Foi nesse anno que a majestade lusa mandou a Génova e Veneza, com

amplos poderes para firmai^ contratos, um dos seus

melhores ministros. E dessas plagas vieram para

Portugal marinheiros práticos nas investidas do

Oceano, e com elles o fidalgo genovês Manoel Pe-

çanho, afamado capitão dosi mares Italianos. A este

conferiu D.

Dinis o

posto de Almirante da s.ua

frota galharda. Quiz, porém,

a

sorte que

ao

rei

académico não coubesse a gloria de desencantar o

mysterio atlântico, conforme fora seu desejo. ís^o

leito de morte pediu ao filho que completasse o

trabalho tão auspiciosamente principiado, e fizesse

a grandeza, e a fama de Portugal no desbravamento

dos mares desconhecidos.

D. Affonso, o bravo, não se esqueceu do pedido

paterno. Cercado de homens de grande valor, quaes

o fidalgo Diogo Pacheco, o bispo do Porco,

o

.al-

mirante Peçanho, investiu contra o mysterio dos

mares. O fracasso de varias tentativas não o de-

moveu de sua idéa.

A expedições succediam-se expedições. Um dia aportou em Lisboa um dos capitães Sancho

NOSSA PRIMEIRA HISTORIA

Brandão. Desgarrando -se no Mar do Occidente, cas-

tigado pela tempestade, e impellido por uma cor- rente mysteriosa, o capitão Sancho alfim abordava

uma terra magnifica, habitada por homens nus, opulenta em arvores da tinta vermelha. Tentara

contornal-a, navegando para o norte. Não o pôde,

porém descobriu outras Hhas. Carregando comsigo

aiguns homens e algumas produoções da terra, San-

cho Brandão e seus bravos marinheiros vellejai^am

para Portugal, ansiosos para incrustarem na co-

roa portuguesa a gloria do primeiro descobrimento

nos mares do Occidente.

Orgulhoso pela victoria conseguida e grato ao

valente marujo que lhe dera uma terra nova, Af-

fonso IV baptizou a grande ilha do páo vermelho

com o nome de Ilha do Brasil ou de Brandão.

como era de

praxe, communicou ao Papa Clemente VI o aus-

picioso acontecimento, em carta escripta de Mon- temór-o-Novo. E assim se expressou: íí Diremos

reverentemente a Vossa Santidade que os nossos natu-

raes foram os primeiros que acharam as menciona-

dirigimos para alli (ilhas

do occidente) os olhos do nosso entendimento, e de- sejando pôr em execução o nosso intento, mandámos

das ilhas do

Em

12 de Fevereú^o

de

1343,

lá as nossas gentes e algumas náos para explorarem

a qualidade da terra, as quáes, abordando ás ditas ilhas, se apoderaram, por força, de homens, animaes

e outras cousas e as trouxeram com grande prazer

aos nossos reinos». (Documento do Archivo Secreto

do Vaticano, livro 138, folhas 148 e 149). Juntou-se á carta um mappa da região desco-

berta e nelle se a inscripção Insula do Brasil

ou de Brandam. Desde ahi os portugueses' monopo-

lizaram o commercio do páo -brasil, provindo da

ilha de Brandão. Tanto assim que, em documentos

do século XIV, existentes em bibliothecas européas,

o PRECURSOR DE CABRAL

vem sempre a noirue Brasil ligada ao de Portugal:

O BrasU de Portugal, diziam os ingleses no fim

do século XIV.

No livro de Geoffroy Cliauoer, intitulado The

Canterhury Tales, anno de 1380, ha os seguintes

versos, em que siu^ge o vocábulo brasil ligado ao

nome de Portugal:

«He lolceth

as a sparhatvk his eyen

Rim nedeth not his colour for

to dyen

With Brasil, no ivith grain, of Portugal. »

(Conto n.° 11, epilogo).

E no Mabinogioín,

anno de

1376;

«

and Brasil of Portingali »

liesin, XII,

144).

(R.

of Ta-

Os grandes mappas do século XIV, posterio-

res a 1343, inserem, uma ilha no Oceano Atlântico-,

mais ou menos na posição actual do Brasil, e com

uma configuração approximada á da America do

a terra

Sul. Isso quer dizer que depois de 1343

foi explorada conveniente meinte pelos portugueses,

pois era uma possessão de Portugal.

Benjamin Smith affirma na pag. 180 de sua

Cfclopedia «Brasil island ivhich appeared on maps

of

the Atlantic, as arly the Í4*^ century».

Em. 1375, Carlos V, Rei da Erança, mandou ao Vaticano um cartographo de Maiorca para copiai^

o mappa português, com ordem de corrigir e am-

pliar o original, conforme as explorações feitas de

1343 a 1375. Esse mappa interessantissimo acha-s-e

exposto na Bibliotheca Xacional de Paris, secção de

iconograpliia

(III, 132, s. XVI).

Nelle se encon-

tra a Ilha do Brasil, com a conformação

sição da America do Siú, mais ou menos. No mappa -mundi de Ranulf Nyggeden, dese-

e

po-

nhado em

1360 e

conservado no

British Mu-

NOSSA PRIMEIRA HISTORIA

seum, de Londres,

Brasil na mesma posição em

aclia-se inscripta

a

Illia

que ella surg^e

do

no

mappa de Carlos

V.

Essa constatação é feita também em três. im- portant is Simas cartas geo^raphicas, quaes as de

e

Mcolo Zeno (anno de 1380), Beccliario

(1435)

Andréa Bianco (original de 1436, e copia de 1448).

Este ultimo offereoe uma explicação que elucida perfeitamente o caso. Diz elle que a Ilha do Brasil

(Insula de Brasil)

está distante do Cabo Verde,

no mar Atlântico, cerca de 1.500 milhas. Pois não

é essa, mais ou menos, a distancia do Cabo Verde

ao Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco?

O mappa de Pêro Vaz Bisagudo, que era co-

pia do velho mappa porcuguês do Vaticano, traz

a Ilha do Brasil, na distancia de 1550 milhas .do

Cabo

Verde. E o bacharel João

Martim,

cosmo

grapho e medico da esquadra de Cabral, em carta

ao rei de Portugal,datada de 1.° de maio de

manda o seu soberano procurar o «Mappa Bisa-

1500,

g-udo»,

que era muito antigo, diz elle, e

onde se

encontraria a situação verdadeira da terra que Ca-

bral descobria de novo. Eis o tópico dessa carta que

se encontra na Torre do Tombo, Corpo chronologico,

parte 3.a, maço

2, doe. n. 2 :

« Quanto, Senor, el sytyo desta terra mande vosa alteza

traer un mapamundi que tyene pêro vaaz bisagudo e por ahi

podra ver vosa alteza el sytyo desta terra, en pêro aquel mapa-

mundi non certifica esta terra ser habytada ou no: es mapa-

mundi antigao ».

« Si vossa alteza quizer vêr a posição desta

terra, dizia a d. Manoel I o cosmographo da ,es-

1500, mande

qua.dra de Cabral em 1.° de maio de

buscar o mappa mundi de Bisagudo, que neile en- contrará o sitio em que estamos agora; porem esse

mappa,

é ou não habitada.

que é antigo, não informa si

esta

terra

o PRECURSOR DE CABRAL

Ahi está: os portugueses não descobriram o

Brasil em 1500 porque nos seus mappas

antigos

já se achava inscripta essa terra de novo descoberta,

isto é, já descoberta e mais tarde abandonada.

Em 2 de Março de 1450 o Infante de Por-

tugal doou ao fidalgo flamengo Joe van den Berge,

natural de Bruges, e vulgarmente conhecido por

Jacome de Bruges, umas ilhas açorianas. No do-

cumento de doação, que se encontra na Torre do

Tombo (Eegistro de ilhas, p^ortos e costas) ha uma

referencia á ilha do Brasil, descoberta pelo bravo

Sancho Brandão.

As ilhas Flores e Corvo^ foram doadas em 1464 a uma senhora de Lisboa D. Maria de Vilhena.

O flamengo Guilherme van den Haagen, em nome

da donatária, recebeu o documento de doação, hoje

archivado na Torre do Tombo. Nessa provisão real

ha uma referencia á Ilha do Brasil.

No século XV, ora se encontra a ilha com o nome de Brasil, ora com o de Brandão.

Vimos em alguns mappas do

século

XV e

XIV apenas a legenda Ilha de Brandam applicada

á Ilha

do Brasil.

É o que se Vê, por exemplo,

no mappa de Paulo ToscaneUi.

A respeito

da Illia

do

Brasil,

ainda cumpre

globo terrestre de Martim Behaim, feito

em 1487 e repiroduzido na Alemanha em 1492, an-

tes do descobrimento da America (a reproducção é de Março e o descobrimento é de Outubro). Esse Martinho da Bohemia, como lhe chamava João de Bancos, viveu alguns annos na Ilha de Fayal (Aço-

res), pois o primeiro donataiio dessa ilha fora seu sogro, o capitão neerlandez Jobst van Heurter (vul-

garmente conhecido por Joz CUtra). Pois Behaim

também inscreve em seu Globo Terrestre a Ilha

do Brasil.

citar

o

Em 1498 d. Manoel mandou secretamente o

10

NOSSA PRIMEIRA HISTORIA

Capôitão Duarte Pacheco Pereií^a explorar a Ilha

do Brasil e venficar sua piosição astronómica. E

é

o próprio capitão Duarte quem

nos

conta tal

cousa em sua informação ao Rei, inserta no livro I.

cap. 2.0, pag. 3), do Esmeraldo, escripto em

1498.

aE por tanto, bemaventurado Frincipe, te-

mos sabido e visto como no

terceiro anno de vosso

Reynado do hano de Nosso Senhor de mil quatrocentos e noventa e oito, donde nos vossa Alteza mandou

descobrir a parte oucidental passando alem a gran-

deza do mar ociano honde he achada e navegada huma tam grande terra firme com muitas e grandes

Ilhas adjacentes a éllà

que sé

estende a

satenta

graaos de Ladeza da linha equinocial contra o polo

por esta costa sobredita do mesmo circulo

equinocial em diante por vinte e oyto graaos de Ladeza contra o polo antárctico he achado nella munto e

fino Brasil, com outras muitas couzas de que os

navios deste Reyno vem grandemente carregados. »

Attente-se bem no dizer do capitão Duarte Pa-

checo ao Rei:

<<

anno de 1498, em que vossa majestade nos

mandou descobrir a parte, occidental, passando além

do mar oceano (Atlântico), onde se achou uma terra com abundante e fino Páo Brasil, num.a distancia

de 28 gráos do

ctico.

polo antárctico

e

70

do

polo

Positivamente, era a America do Sul,

era

ár-

o

Brasil.

Duarte Pacheco regressou a Portugal depois de sua viagem exploração e sérvio de guia a

Cabral no espalhafatoso descobrimejito do Brasil. Mas

esse espalhafato era necessário para que assim pu-

desse a diplomacia portuguesa dar um choque real

na habilidade espanhola e na astúcia do Papa Ale-

xandre VI, porfiado em lesar o nobre 'Portugal.

Os liistoriadores do Brasil não mencionam o

o PRECURSOR DE CABRAL

11

Qome de Duarte Paclieco Pereira na lista dos Ca-

pitães que acompanharam Cabral. Mas Damião do

Góes, na Chronica de D. Manuel, escripta em 1530, na parte I, capitulo LVIII, folha 39, manuscripto original da Torre do Tombo, faz menção de seu

nome, quando elle recebeu uma instrucção impor-

tante de Cabral.

Mas o próprio Pêro Vaz de Caminha em sua

carta diz:

«

e assy seguimos

nosso

caminho por

esíé

mar, de longo, até ter ça-feira oitavas paschoá,

que foram vinte

è um. dias de Abril,

alguns signaes de

terra. »

que topamos

Navegar de longo é uma expressão antiga que

significa atravessar. Assim, a esquadra de Ca-

bral sahio de Lisboa para atravessar o Atlântico

(navegar de longo)

e

não para costear a Africa

ou delia se afastar ligeiramente com receio de cal- marias, como contam os historiadores patrícios.

Cumpre notar aqui que, até chegar ao Brasil,

a esquadra de Cabral não foi batida por temporaes

que a impellissem a um desvio do plano estudado

em Lisboa.

No Archivo da Torre do Tombo (maço I, leis,

n.o 21, Armário II) encontram-se 12 folhas das ins-

trucções secretas dadas a 'Pedro Alvares Cabral. Contêm apenas a 2.^ parte das instrucções, fal- tando as relativas ao Brasil, que foram subtrahi-

das criminosamente o hoje param no archivo de

um opulento oolleccionador europeu. Ahi se o

registro do archivo de Lord Stuart, o mesmo em- baixador que carregou para Londres o original do

Cancioneiro de Rezende © outros manuscriptos pre-

ciosos. A carta de Vaz Caminha permaneceu es-

quecida durante três séculos e somente no principio

do século passado é que foi descoberta. Nesse do-

cumento diz o escrivão da Armada:

12

NOSSA PRIMEIRA HISTORIA

desta vossa

vossa

»

alteza a nova do achamento desta vossa Novà Isso quer dizer que Cabral escreveu a d. Ma-

nue. Os outros capitães que também escreveram

frota e asy os outros

«

posto

que o

capitam nioor

capitães escreveram a

foram os companheiros de Cabral nessa viagem,

Duarte Pacheco e Américo Vespucio, conforme pu-

demos verificar no estudo dos documentos desse

tempo. Essa carta de Pedro Alvares Cabral ora

se encontrou entre os importantíssimos documentos

que pertenceram a Lord Stuart. Nella se lê este

tópico que resolve a questão : «

em ohidencia a

instruçam de vosa alteza navegamos no Ocidente

e tomamos posse, com padram, da

Terra

de

vo-

sa alteza que os antiguos cliaMavam Brandam ou

Brasil ».

Mas por que, dirão, naturalmente, os curiosos,

mas por que houve a comedia do descobrimento

do Brasil em 1500? Essa é uma historia que por

si merece as honras de outro capitulo.

se conclue que D.

Manuel, em verdade,

E delia

foi

um

rei afortunado, porque teve os melhores navegantes

e os melhores diplomatas do seu tempo.

O seu antecessor perdera, a Ilha do Brasil pela

comedia representada por Colombo. E elle, d. Ma-

nuel, a recuperou com a comedia de Cabral. As-

túcia contra astúcia, comedia contra comedia. É uma

historia interessante que estudaremos de outra. E

veremos, então, a habilidade dum ministro portu-

guês levar de vencida a sophistica dum papa es-

panhol: Alexandre VI. (1)

(l)

o

que o leitor acabou de lêr é o resumo de um meu

livro sobre o

descobrimento do Brasil, resumo que forneci aos dois mais importantes jornaes ds nossa pátria "O Correio da Manhã" e o "Jornal do Commercio", que o publicaram,

porém com incorrecções levadas a conta do iinotyoista, do revisor e da minha pés-

sima e quasi hieroglifica escripta. Reproduzindo-o aqui, embora não faça parte da

obra '']\'ossa primeira historia", penso despertar a attenção dos estudiosos ipara o

meu livro próximo : O Descjhrimento do Brasil, com reproducções de mappas dos

séculos XIV e XV e documentos interessantíssimos em fac-simiíes.

(5b>

^

(j**rt^-^ffi*-*rJ*^ A>**#tt^ A\LyjM, a/}^^%[Zg-iiJ ^f^^^

C-JvhS-w^ -r-^-M^^Tt ;v/\3na;^t ^ô^-jA ^A^ ^-Ovi^^ >^^ «^t Êj^^X^

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^^^>f^uj^~^l^fj^f^ ^^^f^j^^-ffã^'

Fac-simile da primeira pagina da carta de Caminha em 1500

P ^ft^-^^à^-rt^^y^^/^a^^pf--^

Fac-siniile da ultima pagina da carta de Caminha em 1500

II

Carta de Pêro Vaz de Caminha a D. Manuel

A primeira pagina da nossa historia foi incontestavelmente a carta

narrativa de Pêro Vaz Caminha, descoberta em 1807 na Torre do

Tombo pelo padre Ayres do Casal. Ei-la, na integra:

SXOR

posto que o capitam moor desta vossa frota e asy

os outros capitaães screuam a vossa alteza a noua

do adiamento desta vossa ten^a noua que se ora

neesta naueg^açom acliou nom leixarey também de

dar disso minha com ta a vossa alteza asy como eu

millior poder aimda que pêra o bem contar e falar

o saiba pior que todos fazer (pêro tome vossa alteza

minha inoramçia por boa vomtade, a qual bem certo

crea que por afrenio sentar nem afear aja aquy de

poer mais ca aquilo

marinliajem e simgraduras do caminlio nom darey

que

vy e me

pareceo)

da

aquy comta a vossa alteza porque o nom

sabe-

rey fazer

e

os pilotos deuem teor esse cuidado,

e por tanto shor do que

dig'uo.

que a partida de belem como vosa alteza sabe foy segunda feira ix de março, e sabbado xiii do

ey de falar começo e

dito mes amtre as biii e ix oras nos adiamos antre

as canareas mais perto da grani canarea e ai}'

amdamos todo aquelle dia em calma a vista delas

obra de três ou quatro legoas. e domingo xxij do

dito mes aas x oras pouco mais ou menos ouuemos

vista das ilhas do cabo verde.

s. da ilha de sam

nicolaao. segundo dito de pêro escolar piloto, e a

noute seguimte aa segunda feira lhe amanheceo se perdeo da frota vaasoo d ataydo com a sua naao

14

NOSSA PRIMEIRA HISTORIA

sem hy auer tempo forte nem contrairo pêra poder seer. fez o capitam suas deligençias pêra o adiar

a hunas e a outras partes e nom pareçeo mais. E

asy seguimos nosso caminiio per este mar de lomgo ataa terça feira doitauas de páscoa que foram' xxi

dias d abril que topam/os alguíís synaaes de terá

seemdo da dita illia[ segundo os pilotos deziam obra

de bi" ix ou Ixx, ^ lego as. os quaes heram muita cam-

tidade deinias compridas a que os mareantes clia-

mam boteliio e asy outras a que também chamam

Rabo dasno. E aa quarta feira seguinte poia manhaã topamos aves a que chamam fura buchos, e neeste

dia a oras de bespera ouuemos vista de terá. s. pri- meira-mente d huum gramde monte muy alto e Re-

domdo e d outras serras mais baixas ao sul dele e

de terra chaam com gramdes aruoredos ao qual

monte alto o capitam pos nome o monte pascoal E

aa terá a terá da vera cruz. mandou lamçaa^ o prumo

acharam xxb braças e ao sol posto obra de bj legoas

de terá sm^gimos amcoras em xix braças a.mcorajem

limpa, aly jouuemos toda aquela noute e aa quinita

feira pola maiihaã fezemos veUa e seguimos di-

reitos aa terra e os nauios pequenos diante himdo

por xbii xbj xb

legoa

de

em direito

ten^a

da

xiiij xiij xij x E ix braças ataa mea

omde todos iançamos amcoras

ou

boca de

hurnn

Rio

e

mais

menos e daly ouuemos vista d homeês que am-

dauam pela praya obra de bij ou biij segundo chegaríamos a esta amcorajem aas x oras pouco

mais ou menos e daly ouuemos vista d homeês que

amdauam pela praya ol)ra de bij ou biij segundo

os nauios pequenos diseram por chegarem primeiro.

/ aly lançamos os batees e esquifes fora e vieram

logo todolos capitaães das naaos a esta naao do

capitam moor e aly falaram, e o capitam mandou

1 660 ou 670 learuas.

A CARTA DE CAMINHA

15

no batel em terra nicolaao coellio pêra veer aquele

Rio e tamto que ele começou pêra la d liir acodiram pela praya liomeés quando dous quando três de nianeii-a que quaaiíio o batel chegou aa boca do

Hio iieram aly. xbiij

ou xx lionieés pai'dos todoe

nuus sem neiíliuua cousai que lhes cobrise suas ver-

gonhas,

traziam

arcos nas naãos e

suas seetas.

vynham todos Rijos pêra o batel e nicolaao coelho

lhes fez sinal que posesem os arcos e eles os po-

seram. aly nom pode deles auer fala nem entendi- mento que aproveitasse polo mar quebrar na costa,

soomente deu lhes huuni barete vermelho e huua

carapuça de linho que leuaua na cabeça e huum sombreiro preto. E huum. deles llie deu huum som-

breiro de penas d aues compridas com huua copezi-

nha pequena de penas vermellias e pardas coma

de papagayo e outro lhe deu huum Ramal grande

de comtinhas brancas meudas que querem parecer

d aijaneira as quaaes peças creo que o capitam

manda a vossa alteza e com isto se volueo aas

naaos por ser taa^de e nom poder deles auer mais fala por aazo do mar.

a noute seguinte ventou tamto sueste com chuua-

ceiros que fez caçar as naaos e especialmente a

capitana E aa sesta poia manliaã aas biij

oras

per conselhos dos pilotos

pouco mais ou menos

mandou o capitam leuamtar amcoras e fazer vela

e fomos de lomgo da costa com os bataes; e esquifes

amarados per popa comtra o norte pêra veer se

achauamos alguúa abrigada e boo pouso omde jouuesemos pêra tomar agoa e lenha, nom por nos

minguar mas por nos' acertarmos aquy e quamdo

fezemos vela seriam ja na praya asentados jumto

com o Rio obra de Ix ou ,lxx homeés que se jum- taram aly poucos e poucos / fomos de lomgo e

mandou o capitam aos. nauios pequenos que fosem mais chegados aa terra e que se achasem pouso

16

NOSSA PRIMEIRA HISTORIA

seguro pêra as imaos que amaynasem. E seendo nos pela costa obra de x legoas domde nos leuam-

tamos adiaram os ditos nauios pequenos huum aRe-

cife com huum porto dentro muito boo e muito

seguro com liuúa muy larga entrada e meteram se dentro e amayiiaíram. e as naaos aPiibaram

so-

breles. e huum pouco amte sol posto amaynaram

obra d huua legoia do aRecife e ancoraram se em

xi braças. E seendo afonso lopez nosso piloto em huum d aqueles nauios pequenos per mandado do capiitam por seer homem vyuo e deestro pêra isso

meteo se loguo no esquife a somdar o porto demtro

e tomou em huúa almaadia dous d aqueles home és

da terra mancebos e de boos coiros, e huum deles

trazia huum arco e bj ou bij seetas e na praya

andauam muitos com seus arcos e seetas e nom

lhe aproueitaram trouue os logo ja de noute ao capitam omde foram Recebidos com muito prazer e

festa.

a feiçam deles he seerem pardos maneira d auermelhados de boõs Rostros e boos narizes bem

feitos (amdam nuus sem nenhuua cubertura nem

estimam nenhuiia cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas, e estam acerqua disso com tanta ino-

cemcia como teem em mostrar o Rostro.) traziam

ambos os beiços de baixo furados e metidos per

eles senhos osos d oso bramcos de compridam d

huua maão trauessa et de grosura d huum fuso d

algodam e agudo na ponta coma fiu^ador. metem

o que lho

fica anfcre o beiço e os demtes he feito coma Roque d enxadrez e em tal maneira o trazem aly em- caxado que lhes nom da paixam nem lhes torua a

nos pela parte de dentro do beiço e

fala nem comer nem beber. / os ca.belos seus sam

coredios e amdauam trosquiados de trosquya alta

toais que de sobre pemteni de boa gramdura e

Rapados ataa por cima das orelhas, e huum deles

A CARTA DE CAMINHA

17

trazia per baixo da solapa de fonte a fomte pêra

detrás huúa maneií-a de cabeleira de penas d aue

amarela que seria de 'compridam d liuum couto muy

basta e muy çaráda que Uie cobria o toutuço e as orelhas, a qual amdaua pegada nos cabelos pena

e pena com huúa comfeiçam bramda coma ceí-a

e nom no era. de maneha que amdaua a cabeleira

muy Redomda e muy basta e muy igual que nom

fazia mingoa mais lauajem pêra a leuantar / o

capitam quando eles vieram estaua asentado em

huiia cadeira e liuna, alcatifa aos pees por estrado

e bem vestido com huum colar d ouro muy grande ao pescoço, e sancho de toar e simam de miranda

e nicolaao coelho e sár&s corea e nos outros que

aquy na naao com ele liimos asentados no cliaão per esa alcatifa / acemderam tochas e emtraram e

íiom fezeram nenhuua niençam de cortesia nem de falai' ao capitam nem a nimguem. pêro huum deles

pos olho no calar do capitam e começou d acenar

com a maão pêra a terra e despois pêra o colar

como que nos dizia que avia em terá ouro e tam-

bém vio liuum castiçal áe prata e asy meesmo

acenaua pêra a terá e entam pêra o castiçal como

que avia também prata / mostraram lhes huum papagayo pardo que aquy o capitam traz / to- maram no logo na maão e acenaram píera a terra como que os avia hy / mostraram Jhes huum car-

neiro nom fizeram dele mençam. m.ostraran lhes

huna ga-linha. casy aviam medo dela e nom lhe

queriam poer a maão e despois a tomaram com_a

espantados. / deran lhes aly de comer pam e pes-

cado cozido, confeitos fartees

mel

e

fig^os

pasa-

dos. nom quiseram comer d aquilo casy nada e

alguúa cousa se a prouauam lamçauam na logo fora. trouueran lhes vinlio per huã taça peseran

lhe asy a boca tam malaues e nom gostaram dele nada nem o quiseram mais /trouueram lhes agoa

18

NOSSA PRIMEIRA HISTORIA

per liuúa albarada tomaram dela sonhos