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A EDUCAÇÃO INFANTIL DE BELO HORIZONTE NA SOCIEDADE, NA NATUREZA, NA CULTURA

Camila Carvalhal Alterthum48 Em primeiro lugar, vamos refletir sobre o que estamos a tratar aqui: a Educação Infantil em Belo Horizonte. Pensar na relação desta com a sociedade, a natureza e a cultura é simplesmente tratar de tudo o que acontece dentro de uma Unidade de Educação Infantil UMEI, de uma creche conveniada, de uma escola de crianças menores de seis anos. Mas é

também tratar do que há fora dela. É focar nas crianças, seus jeitos de ser, de pensar, de sentir. Mas é também pensar nas educadoras (na grande maioria, mulheres) e educadores seus saberes, suas formações, suas histórias de vida. Sendo assim, todo o corpo de funcionários também é assunto para “sociedade, natureza e cultura”. Que dirá as famílias da comunidade atendida. Trazem para o espaço educativo, suas culturas, suas diversas configurações de família, suas maneiras singulares de educar crianças, de inserilas na sociedade. Bem, essa Educação Infantil, que comporta todos esses sujeitos e assuntos, toma corpo num determinado espaço. Numa casa ou prédio. Mas que nem sempre esteve ali. Algum dia aquilo

foi montanha, foi cerrado, mata atlântica, foi pasto, foi roça, foi beira de rio

uma grande cidade! Somos 2 milhões e quatrocentos mil habitantes, entre negros, brancos, índios, mestiços, crianças, jovens, adultos, idosos, numa área urbana de 330 Km² (Revista

Belo Horizonte em Transformação, 2007). Nosso endereço hidrográfico é a bacia do Rio das Velhas. Acontece também num determinado tempo. Logo depois que o sol nasce, de manhã, de tarde

e até à noite, como é o caso de uma UMEI, que precisa atender as crianças enquanto seus pais catadores de materiais recicláveis realizam seu trabalho pelas ruas da cidade. Um

tempo em que às vezes chove muito e fica até difícil sair de casa para ir à escola. Mas que também faz muito calor, principalmente depois que a camada de ozônio foi atingida pela poluição das atividades produtivas. O famoso aquecimento global. Os mais velhos dizem que em Belo Horizonte não existe mais inverno! Essa é uma importante marca desde tempo histórico em que vivemos: o desafio de preservar a vida no planeta e de concebêlo como a nossa própria casa.

É um tempo que também tem uma conformação política. Estamos em busca de

consolidar as

48 Licenciada em Educação Física pela EEFFTO/UFMG. Mestre em Educação pela FAE/UFMG. Educadora no Centro Lúdico de Interação e Cultura (CLIC), em BH.

e hoje é

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promessas da democracia e de aprender a gerila, tanto num sistema político mais amplo como também nas relações de trabalho, na organização de uma escola e até mesmo com

um grupo de crianças pequenas. Quem é que nunca recorreu a uma votação entre as crianças

para

decidir uma questão coletiva? As questões sobre a inclusão e a diversidade

apresentam

grande avanços, embora a consolidação dos direitos ainda tropece permanentemente

na

desigualdade social, econômica e cultural. É tempo de consolidar o acesso a todos

que

precisam da Educação Infantil como dever do município e de buscarmos coletivamente a construção de uma política de qualidade para esse direito.

Dentro desse tempo e espaço, estamos nós, os seres vivos, que também fazemos parte da natureza. Assim como a água do rio, o calor do fogo do sol, a terra do cerrado da montanha, e

o ar que respiramos e poluímos. Nós educadores, crianças, funcionários, pais, mães,

avós,

tias fazemos parte da natureza.

E o que é que existe entre todos esses sujeitos, esses assuntos, esses tempos, esses

espaços?

Se você respondeu relação, parabéns! Para compreendermos natureza, sociedade e

cultura,

precisamos antes de tudo pensar que a vida, as artes, as cidades, a linguagem e o

trabalho

existem porque existe interação e relação entre tudo o que há sobre o planeta. Trazer para este documento a discussão sobre a relação entre sociedade, natureza e

cultura

não é tarefa simples, pois, assim como todo o conhecimento, há muitas versões,

estudos, e não há uma teoria que explique tudo e seja verdade absoluta. Foram também os olhares de mais de 300 educadoras ao longo da rede de formação de 2008 que ajudaram a constituir esta

parte do documento. Tínhamos a plena clareza de que não teríamos fôlego para tratar de todos os assuntos pertinentes. Elencamos aqueles que nos pareciam mais necessários. São questões que estão latentes no dia a dia da Educação Infantil de Belo Horizonte.

Discussões

que, no final da primeira década do século XXI, podem nos orientar quanto à formação

de

sujeitos inseridos em contextos reais, diversos, repletos de perguntas, de possibilidades, de recriação, de contradições que anseiam por mudanças. O princípio da sustentabilidade

deve

marcar um jeito novo de educar que corresponde às demandas de um tempo histórico

também

singular.

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Certamente será necessário reestruturar as relações: repensando o consumo, a ligação do ser

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humano com a natureza, a convivência entre seres humanos de diferentes gerações,

as

tecnologias, a urbanidade, a memória.

SOCIEDADE NATUREZA CULTURA: UM UNIVERSO DE RELAÇÕES PRA LÁ DE COMPLEXAS

Não se pode tirar uma fotografia da teia da vida porque ela não é material é uma teia de relações. (CAPRA, 2006)

Em primeiro lugar, vamos combinar que o assunto de que trataremos não se esgota por aqui.

Ele é bastante complexo e difícil de ser abordado, pois implica rever todo o olhar de

uma

sociedade sobre seus processos, sobre a cultura, sobre a ciência, sobre a natureza.

São

muitos séculos imersos no materialismo ocidental, prevalecendo a lógica do

pensamento linear, em que as cadeias de causa e efeito sempre tiveram a explicação e o caminho para

verdades

supostamente absolutas. Renné Descartes, importante filósofo que influenciou

profundamente

esse jeito de ver o mundo, diria que o método é necessário para a busca da verdade (regra IV)

e que a ele devemos ser fiéis. Se reduzirmos gradualmente as proposições complicadas e

obscuras a proposições mais simples

procuramos elevarnos

pelas mesmas etapas ao conhecimento de todas as outras (regra V). (DESCARTES, 1999) Se seguíssemos essa lógica, poderíamos fazer três capítulos para as proposições

curriculares

da EI: um para a sociedade, um para a natureza e outro para a cultura. Além deles,

um outro para o brincar já que esse tema é importante na educação das crianças. Depois juntaríamos os quatro com as partes específicas das linguagens e, assim, teríamos como resultado um ótimo método para educar crianças de 0 até 5 anos e oito meses. Tudo bem separadinho, para que

fosse o mais previsível possível. Acontece que as questões da sociedade, da natureza

e da

cultura não funcionam assim. Então chegamos ao segundo combinado. Mesmo sabendo que o assunto é denso e que a

cultura que está consolidada é aquela que fragmenta como forma de simplificar, proponho que nos empenhemos em experimentar fazer diferente. Rever velhos hábitos que já não têm mais sentido. Sair do automatismo do trabalho, que apenas reproduz, para uma prática

pedagógica

ousada, esperançosa, inquieta, subversiva e que acredita em todos os seus sujeitos! E

que

nesse sentido pode adotar outros ângulos ou outros paradigmas para pensar a educação, a sociedade, a natureza e a cultura.

A compreensão sobre como devemos abordar o tema sociedade, natureza e cultura

(SNC) na

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EI é simples e complexo ao mesmo tempo. É simples pelo fato de não precisarmos

criar

nenhuma categoria, nenhum lugar, nenhum tempo específico para ensinar conteúdos

sobre a temática. Não existirá nenhuma aula, nenhum projeto, nem sequer uma folha

mimeografada

com esse título: sociedade, natureza, cultura. Ou, como diria o professor Miguel Arroyo, não há um quintal do conhecimento para SNC. E, se por um lado ficou fácil, por outro vai ficar bem complexo, pois tenho que lhes dizer o que

concluí com as educadoras da Rede de Formação e que mencionei no início deste

texto:

sociedade, natureza e a cultura (SNC) é simplesmente tratar de tudo o que acontece dentro de

uma UMEI, de uma creche conveniada, de uma escola de crianças menores de seis anos e também tratar do que há fora dela.

A definição do que trabalhar, ou o que escolher do currículo, terá como ponto de

partida a

interação da educadora com seu grupo de crianças. A opção pelo formato deste

documento

não por áreas de conhecimento, mas por linguagens, é, de uma certa maneira, uma

tentativa

de não fragmentarmos os conhecimentos que podem ser construídos no entremeio

das

relações entre os diversos sujeitos que compõem o fazer educativo. Não podemos predeterminar, no currículo, quais assuntos serão tratados, quais conhecimentos serão

construídos, embora possamos pensar parâmetros para essa atuação. Aqui em Belo Horizonte, o Projeto Pedagógico dos últimos anos teve o intuito de provocar a mudança do jeito de fazer educação. Buscar desfragmentar o conhecimento e a

aprendizagem

é uma das propostas. Mas, para efetivar essa mudança, é preciso tempo, dedicação,

envolvimento e principalmente diálogo com os nossos antigos jeitos de ver o mundo e

de fazer educação, não é mesmo? Portanto, a proposição curricular de Educação Infantil também tem como referência as propostas anteriores da RME. Então, se o pensamento moderno trouxe tantas implicações para a nossa vida e para

a

maneira como educamos as gerações mais novas, que outras maneiras temos de

compreender a relação entre sociedade, natureza e cultura?

Se não podemos separar para simplificar, vamos reconhecer que estamos diante de

algo

complexo. Vamos admitir que o pensamento complexo é uma maneira de compreender a vida onde a interação entre tudo o que a compõe é importante e decisivo para o que vai suceder. Edgar Morin, sociólogo francês, sugere que a compreensão das relações deva levar

em

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consideração a incerteza (algo que o pensamento moderno condenava). Para ele, a

cada

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interação que ocorre, é provocada uma desordem. Essa desordem gera outras

necessidades

de interações que atuarão no sentido de organizar, mas que por sua vez também

desorganizam outras relações. Assim, estas podem sempre levar a caminhos incertos

ou

desconhecidos. Da mesma maneira, uma interação sempre tem consequências, pois

tudo está interligado, inclusive o ambiente a nossa volta. (Nova Escola, 2008) Este exemplo pode nos ajudar:

Por vivermos numa metrópole, nós, humanos, já causamos uma série de

desequilíbrios

(desordens) no meio ambiente, certo? Então vamos pensar que essa interação que

nós

fazemos com os outros seres vivos, como as plantas e os insetos, causaram um

desequilíbrio

(desordem) nas delicadas relações de uma cadeia alimentar à qual pertence o aedys egypt. Seu predador que mantinha a ordem na cadeia alimentar já não existe mais nos

grandes

centros urbanos, o que levou o mosquito a se reproduzir descontroladamente (desordem), aliado ao fato de termos na cidade as condições ideais para sua proliferação. Assim, de uns anos para cá, nossa cidade apresenta muitos casos de pessoas com dengue. Para tentar amenizar o problema (ordem), a comunidade da creche da Associação

Mineira de

Proteção à Criança participou de uma campanha no bairro em prol da prevenção da

dengue,

em 2003 (Infância na Ciranda da Educação nº 8). As crianças recolheram mais de 15

mil

garrafas PET, evitando, assim, que servissem de local para o mosquito se hospedar (ordem). Junto com elas coletaram milhares de tampinhas, que não teriam nenhuma utilidade, caso não tivessem lembrado que o muro da creche precisava de revitalização. Resolveram

então fazer um mosaico, a partir do tema da música Aquarela, do Toquinho. Logo depararam com

outros

problemas (desordens): não sabiam fazer mosaico e precisavam de dinheiro para realizar o

trabalho. As educadoras e coordenação correram atrás. Encontraram um patrocinador

e

aprenderam a técnica. (ordem). No decorrer do processo, que levou vários anos,

depararam

com vários outros problemas (desordens) e que as fizeram buscar soluções e encontrar saídas. E certamente poderíamos continuar a exemplificar esse movimento constante de ordem e desordem com o mesmo projeto, que levou mais de 3 anos para acontecer e ainda não está

pronto! Pode ter surgido a necessidade de construir conhecimentos matemáticos para

saber

quantas tampinhas ainda iriam precisar, ou aprender a produzir um aviso desenhado

ou

escrito,dizendo “tintafresca”,

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ou ainda ver o trabalho interrompido por conta de uma chuva de granizo que abalou a cidade

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