Sei sulla pagina 1di 73

Seminário Adventista Latino Americano de Teologia

Instituto Adventista de Ensino

[Clique em SUMÁRIO]

UM ESTUDO SOBRE O DOM, O BATISMO E A PLENITUDE DO ESPÍRITO SANTO NO NOVO TESTAMENTO

Dissertação

Apresentada em Cumprimento

às Exigências do Curso de Mestrado em Teologia

Por

Roberto Biagini

Janeiro – 1984

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

2

CAPÍTULO

SUMÁRIO

PÁGINA

I. INTRODUÇÃO

 

.

3

II. O DOM DO ESPÍRITO SANTO

 

5

Nos Sinóticos

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

5

Em João

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

6

Em Atos

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

13

Em Paulo

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.20

III. O BATISMO DO ESPÍRITO SANTO

 

31

 

Nos Evangelhos

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

31

. Em I Coríntios

Em Atos

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

34

38

IV. A PLENITUDE DO ESPÍRITO SANTO

 

43

 

Em Lucas

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

43

Em João

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

49

Em Atos

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

52

Em Paulo

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

61

V.

CONCLUSÃO

 

68

BIBLIOGRAFIA

 

70

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

3

CAPÍTULO I

INTRODUÇÃO

Grande parte dos cristãos hoje vive aparentemente vidas vazias, sem a plenitude do Espírito como descrita no Novo Testamento, referente à vida dos cristãos primitivos após o Pentecostes. É possível hoje, como ocorreu no passado, vivermos vidas cheias do Espírito Santo? Ou deveríamos esperar isso para o segundo Pentecostes, a Chuva Serôdia, que ainda está no futuro? O objetivo final deste estudo visa despertar os leitores, e aqueles que ouvirem estes pensamentos, para a possibilidade e importância de uma vida cristã plena do Espírito Santo. Estas páginas escritas visam uma compreensão maior desse magno assunto, a fim de que haja uma vivência prática de suas realidades cristãs. Esta pesquisa não se preocupa com as muitas controvérsias que se têm levantado sobre o assunto, mas analiza algumas distorções do texto bíblico e são aqui tratadas para maior esclarecimento. Tampouco focaliza os profundos conceitos teológicos da Pneumatologia ou do Carismatismo. Esse trabalho não se preocupa também com a parte escatológica do derramamento do Espírito em sua plenitude futura. Limitamo-nos a examinar os conceitos estabelecidos no Novo

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

4

Testamento quanto à possibilidade presente de viver o cristão uma existência cheia do Espírito Santo. Portanto, nos três capítulos que seguem se apresenta o Espírito Santo como um dom, um batismo e uma plenitude. Propomo-nos neste estudo a apresentar os sãos princípios bíblicos e teológicos sobre o assunto em pauta. Se este estudo ajudar os leitores a alcançarem o objetivo espiritual aqui delineado, nós nos sentiremos plenamente recompensados.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

5

CAPÍTULO II

O DOM DO ESPÍRITO SANTO

Nos Sinóticos

Tanto Mateus (1:18) como Lucas (1:35) indicam que Maria recebeu o dom do Espírito Santo, cujo poder criativo gerou nela o nascimento de Jesus. Todos os três Evangelhos relatam a pregação de João Batista de que a missão de Cristo seria batizar no Espírito Santo. 1 Todos os três evangelistas relatam o batismo de Jesus, momento em que Ele recebeu a plenitude do Espírito Santo vindo sobre Si em forma de pomba. Todos os três Evangelhos relatam que o Espírito O conduziu ao deserto onde foi

tentado por 40 dias (Mat. 3:11, 13-4: 1; Mc. 1: 9-13; Lc. 3:21, 22; 4: l, 2).

Embora em diferentes contextos, tanto Mateus (12:18) como Lucas (4:18) apontam ao cumprimento da profecia de que o Messias seria dotado do Espírito. Mateus diz que o poder de Jesus sobre os espíritos maus era devido ao dom do Espírito Santo (12:28) e afirma que isto trazia a presença do reino de Deus; os outros dois Evangelhos implicam isto preservando a advertência sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo (Mc. 3: 28-30; Lc. 11: 20-26). Lucas possui a promessa de que o Pai dará

1 Mateus 3:11 e Lucas 3:16 acrescentam "com fogo"; isto falta em Marcos.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

6

o Espírito aos discípulos de Jesus (Lc.11:13). Tanto Mateus (10:20) como Lucas (12:12) preservam a afirmação de que quando os discípulos enfrentassem a perseguição, não deveriam se preocupar com o que dizer porque o Espírito Santo lhes ensinaria naquela mesma hora, as coisas que deviam dizer. Marcos substancia estas palavras no monte das Oliveiras (Mc. 13:3,11). Em sumário, os sinóticos concordam em que Jesus foi dotado pelo Espírito Santo para cumprir Sua missão messiânica, que Sua missão incluiria uma dotação plena do Espírito, e que Seus discípulos seriam capacitados pelo Espírito a enfrentar pelo Mesmo, quaisquer dificuldades que poderiam encontrar.

Em João

O quadro em João é completamente diferente dos outros evangelistas, embora não contraditório. Uma das mais impressionantes diferenças entre os sinóticos e o quarto evangelho é o lugar que este dá ao Espírito Santo, especialmente no discurso do cenáculo com seu ensino exclusivo sobre o Paracleto. 1

1 George E. Ladd, A Theology of the New Testament, (Grand Rapids, Michigan; Eerdmans, 1981), p.

286.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

7

1. João 1:33. O Dom do Espírito

e o Messias. João, como os

Sinóticos, registra a descida do Espírito sobre Jesus (Jo.1:32-34), embora apresente uma ênfase diferente sobre o fato: isto é um sinal do Batista. Contudo, mais tarde, afirma que Deus Lhe deu o pleno dom do Espírito Santo (Jo.3:34-35). 2. João 3:5. O Dom do Espírito e a Regeneração. A afirmação acerca do nascimento do Espírito integra a doutrina joanina do dom do Espírito Santo em seu dualismo vertical do mundo de Deus em cima e do

mundo dos homens embaixo. Isto é claro na afirmação: "

não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (Jo. 3:5). A palavra grega "anothen" pode ser traduzida ou por "de novo", ou por "de cima". Do ponto de vista da estrutura vertical do pensamento de João, "de cima", 1 isto é, "de Deus" (Jo.1:13), adapta-se ao contexto melhor do que "de novo". Este nascimento de cima (regeneração) é o mesmo nascimento da água e do Espírito (Jo. 3:5). Se a água é uma referência ao batismo, como cremos que seja, não há necessidade de pensar em regeneração batismal. 2 Na igreja primitiva, profissão de fé em Cristo e batismo eram praticamente eventos simultâneos. Batismo em água, acompanhado da confissão de Cristo, era o sinal externo da fé.

se alguém

1 Idem, p. 290. 2 George E. Ladd, Op. Cit., p. 290.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

8

Purificação com água, acompanhada do Espírito Santo, tem a sua base no Antigo Testamento (Sl. 51:7,11; Ez.36:25-27). A idéia é naturalmente que o homem não tem vida inerente, que esta vida é um dom de Deus que só pode ser efetivado por obra interior do Espírito Santo que faz do crente um filho de Deus.

O batismo, considerado meramente como um rito, e à parte da operação do Espírito, não pode comunicar a nova vida. Sem o Espírito, isso é uma farsa. Ele é um sinal verdadeiro somente como um sinal de uma graça interna e espiritual. 1

3. João 4:23-24. O Dom do Espírito e a Adoração. Lemos as palavras de Cristo à samaritana: "Mas vem a hora, e já chegou, quando os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, porque são estes que o Pai procura para Seus adoradores" (Jo. 4:23). A palavra "espírito" se refere ao Espírito Santo e não à adoração espiritual interior como oposta às formas externas. 2 Isto é evidente do contexto: "Deus é Espírito" (v. 24). Pelo fato de que Deus é Espírito, Ele não pode ser limitado a um lugar, seja Jerusalém ou Gerizim. Pelo fato de que o Espírito Santo está para vir ao mundo, os homens podem adorar a Deus em qualquer lugar se eles são

1 Marvin R. Vincent, Word Studies in the New Testament, (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1965), Vol. II, p. 92.

2 George E. Ladd, Op. Cit., p. 292.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

9

motivados pelo Espírito Santo. Somente aqueles que são nascidos do

Espírito podem adorar a Deus na maneira em que Ele deseja ser adorado.

O apóstolo Paulo confirma o fato de que necessitamos do Espírito

para adorar a Deus: "Porque nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito" (Fl. 3: 3), ou seja, adoramos a Deus através do Espírito.

"Nós adoramos a Deus em espírito". Leia-se com os melhores manuscritos: "Que adoramos pelo Espírito de Deus". A palavra "latréia", adorar, é usada especialmente para o serviço cerimonial judaico (comp. Rm. 9:4; Lc. 2:37; At. 26:7). Nós cristãos, diz Paulo, não somente temos a verdadeira circuncisão, mas também a verdadeira adoração. 1

4. João 14:16-17. O Dom do Espírito e o Paracleto. Desde que os

discípulos entraram em contato com o seu Mestre, o Espírito da verdade sempre tinha habitado com eles no Senhor, e agora, na própria partida de Cristo estaria neles. 2

O Espírito tinha estado evidentemente com os santos do Velho

Testamento, e em algum sentido real tinha estado neles (Sal. 51:10-11). Contudo, o Velho Testamento fala mais freqüentemente do Espírito vindo sobre os homens do que estando dentro deles. O Velho Testamento divisa a salvação messiânica, quando uma nova dimensão do

1 C. Caffin, Philippians, Exposition and Homiletics, (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1975),

B.

p. 111.

2 H. Lightfoot, St. John's Gospel, (Grand

R.

Rapids, Michigan: Eerdmans, 1956), p. 270.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

10

Espírito será dada ao povo de Deus (Jl. 2:28; Ez.36:26-27). Desde que

Jesus estava cheio do Espírito (Lc. 4:1), Sua presença significava que o Espírito tinha estado com os discípulos em uma nova forma. Contudo, Jesus lhes promete que eles também ainda deveriam ser habitados pelo

mesmo Espírito: "O Espírito da verdade

vós" (Jo. 14:17). A promessa escatológica deve ser cumprida, e uma nova dimensão do Espírito é experimentada no interior dos discípulos. "E eu rogarei ao Pai, Ele vos dará outro Consolador" (Jo.14:16). Jesus falou da vinda do Espírito como um "outro (allon) Parakleto". Isto

habita convosco e estará em

implica em que Jesus já tinha sido um "Parakleto" para com Seus discípulos, e que o Espírito viria para tomar Seu lugar e continuar Seu ministério com eles.

"Um outro". Gr. allos, um outro da mesma espécie. Jesus mesmo era um Consolador (Parakletos - cf. I Jo. 2:1). Jesus deixaria Seus discípulos (Jo.13:33), mas Ele pediria ao Pai para enviar Aquele que era como Ele para permanecer com os discípulos, não temporariamente como Ele tinha estado, mas "para sempre". 1

Este fato é evidente pela semelhança de linguagem, usada para o Espírito e para Jesus. O Parakleto virá (Jo. 16:13); assim também Jesus veio ao mundo (Jo. 5:43; 16:23; 18:37). O Parakleto vem do Pai (Jo.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

11

14:16); assim também Jesus veio do Pai (Jo. 16:27-28). O Parakleto é um dom do Pai (Jo. 14:16); assim também Jesus é um dom do Pai (Jo. 3:16). O Pai enviará o Parakleto (Jo. 15:26); assim também Jesus foi enviado do Pai (Jo. 3:17). O Parakleto será enviado no nome de Jesus (Jo. 14:26); assim também Jesus veio no nome do Pai (Jo. 5:43). "Em muitos modos o Parakleto está para Jesus como Jesus está para o Pai". 1 Se o Parakleto é o Espírito da Verdade (Jo. 15:26), Jesus é a Verdade (Jo. 14:6); se o Parakleto é o Espírito Santo (Jo. 14:26), Jesus é o Santo de Deus (Jo. 6:69). "Como um outro Parakleto, o Parakleto é, por assim dizer, um outro Jesus". 2 No entanto, alguns comentaristas vão longe demais em identificar o Cristo glorificado como o Espírito. 3 Contudo, enquanto há de fato uma identidade de função, João mantém a distinção: O Espírito não é Jesus; o Espírito é um outro Parakleto. O idioma que João emprega sugere que o Parakleto seja uma personalidade separada, mais do que o poder divino do pensamento do Velho Testamento. 4 O Espírito é retratado em termos pessoais. 5

1 R. E. Brown, The Paraclete, (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1967), p. 126.

2 Idem, p. 128.

3 E. F. Scott, The Fourth Gospel, (Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1906), p. 343.

4 George E. Ladd, Op. Cit., p. 295.

5 Charles K. Barret, John, (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1957), p. 402.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

12

Jesus,

antecipando o Pentecoste, prometeu a Seus discípulos a comunicação do Divino Espírito, neste incidente: "E havendo dito isto, soprou sobre eles,

e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo" (Jo. 20:22).

5.

João

20:22.

O

Dom

do

Espírito

e

a

Antecipação.

Esta passagem levanta dificuldades à luz da vinda do Espírito no Pentecoste, que pode ser resolvido em uma de três maneiras. Ou João não conhecia nada a respeito do Pentecoste e substitui esta história de tal modo que ela se torna em efeito o Pentecoste joanino; ou realmente houve dois dons do Espírito; ou o assoprar de Jesus sobre os discípulos era uma ativa parábola promissória e uma antecipação à real vinda do Espírito no Pentecoste. 1

Não se admite que um cristão qualquer escrevesse de Éfeso no primeiro século e desconhecesse o Pentecoste. Também é difícil crer que houvesse realmente duas comunicações do Espírito, sem evidências a favor, mas havendo contra: o Espírito não podia ser dado senão até após

à glorificação ou ascensão de Cristo (Jo. 7:39); e se Jesus realmente deu

a Seus discípulos o Espírito, nós devemos conceber duas ascensões (ver Jo. 20:17). Ademais, não há evidências de que os discípulos entrassem em sua missão cristã antes do Pentecoste. Não há, contudo, objeção

1 George E. Ladd, Op. Cit., p. 289.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

13

substancial para tomar o incidente joanino como uma viva parábola que foi realmente cumprida no Pentecoste. 1

Em Atos

1. Atos l:5. O Dom e a Profecia. O dom do Espírito no livro de

Atos ocorre primeiramente como um cumprimento da profecia vetero- testamentário (Isa. 32:15; 44:3; Joel 2:28) e neotestamentário (Mt. 3:11; Mc. 1:7, 8; Lc. 3:16; Jo. 1:33 e At. 1:5) no Pentecoste, e é chamado batismo (At. 1: 5), poder (At. 1:8), plenitude (At. 2:4), e dom (At.

11:17). Nesta circunstância, o Espírito Santo desceu (At. 1:8), foi derramado (At. 2:17, 18), caiu (At. 11:15) sobre os discípulos, em

número de cerca de 120 pessoas (At. 1:15, 2:1). A seguir, temos na própria ocorrência do Pentecoste a doutrina dos apóstolos, particular- mente expressa por Pedro, segundo a qual o dom do Espírito Santo será associado com o batismo das águas e o perdão dos pecados (At. 2: 38). Então, seguem outras ocorrências do derramamento do Espírito (At. 8:

17); 10: 45;19: 6).

2. Atos 2: 1-4. O Dom e o Pentecoste: A Ocorrência, a Doutrina e

os Conversos. O capítulo 2 de Atos registra o cumprimento da profecia que, como vimos, apontava à ocorrência do Pentecoste.

1 Loc. Cit.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

14

Primeiramente, o que significa "Pentecoste"?

significa

"qüinquagésimo", uma referência a 50 dias entre o início da Festa dos

Pães Asmos e a Festa dos Primeiros Frutos (Festa das Semanas ou Pentecoste). 1

Pentecoste.

Gr.

pentekostes,

do

adjetivo

que

"Ao cumprir-se o dia do Pentecoste, estavam todos reunidos no mesmo lugar" (At. 2:1). As pessoas que se reuniam, evidentemente não eram somente os apóstolos, mas o número de 120 mencionados em At. 1: 15. O dom do Espírito lhes foi dado abundantemente, de tal sorte que "todos ficaram cheios do Espírito Santo, e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem" (At. 2:4), a fim de atender à urgente necessidade da pregação do Evangelho a todo o mundo, e em todos os idiomas conhecidos da época (Mc. 16:15). Desse modo, o Espírito foi derramado como maior dom do Céu, inaugurando uma nova era. 2 Daí em diante o dom do Espírito se associou a uma ampla variedade de experiências, sendo a capacidade de falar em línguas desconhecidas apenas uma entre muitas. A doutrina acerca do dom do Espírito, entretanto, não deve ser retirada da experiência que tiveram os apóstolos e os outros

1 SDA Bible Commentary, Op. Cit., Vol. VI, pp.133-134. Quanto ao dia em que caiu o Pentecoste, ver Albert Barnes, The Acts, (Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1956) , p. 20. 2 James Montgomery Boice, The Gospel of John, (Grand Rapids, Michigan: Zondervan Publishing House, 1978), Vol. IV, p. 180.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

15

beneficiados, como se devêssemos prová-la em todos os pormenores; a doutrina deve ser obtida do ensino dos apóstolos. No próprio dia do Pentecoste, o apóstolo Pedro nos dá um vislumbre doutrinal. A multidão que o ouvia, compungida em seus corações pelo pecado de haverem crucificado a Jesus, perguntaram o que

deviam fazer. A resposta veio sem dilação, do apóstolo: "Arrependei-vos

e cada um de vós seja batizado em nome do Senhor Jesus Cristo para

remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo" (At. 2:37, 38). Dessas palavras, notamos várias coisas associadas com o dom do Espírito: 1) Arrependimento, 2) Batismo, 3) Crença de que Jesus é o Messias (Cristo) - fé, e 4) Perdão dos pecados. Com efeito, a Bíblia

ensina: 1) que o arrependimento vem pelo amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito que nos é outorgado (Rm. 2:4; 5:5); 2) que

o batismo está relacionado com o dom do Espírito (Jo. 3: 5); 3) que a fé

no Messias depende do mesmo dom (Gl. 3: 13-14); 4) que o perdão dos pecados igualmente depende do dom do Espírito (Ez. 36: 25-27). Como um resultado do derramamento do Espírito Santo, e da aceitação da doutrina dos apóstolos como palavra de Deus nesses termos, houve naquele dia histórico um acréscimo de "quase três mil pessoas" (At. 2: 41).

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

16

3. Atos 4: 31; 5: 32. O Dom do Espírito e as Condições. Bruner 1

faz um importante estudo no livro de Atos para provar a tese de que o recebimento do dom ou o batismo do Espírito é incondicional, em contraste com a doutrina dos pentecostais, que buscam condições e evidências externas.

que em cada uma das maiores passagens sobre o

batismo no Espírito em Atos - 1:4 (pré--Pentecoste); 2:33 (Pentecoste); 2:38-

39 (pós-Pentecoste); 8:20 (Samaria); 10:45 (Cesaréia, e também 11:17); e talvez implicitamente 19:2 (Efésios: elabete cf. tb. 15:8: dous) o Espírito Santo acha-se ou como "promessa" ou como "dom". O Espírito em Atos nunca é "alcançado" ou "obtido" (cf. Atos 8:19-20 ktasthai!), Ele é sempre um presente, isto é, Ele é o Espírito de Deus. Portanto, aqui no início de Atos, Lucas dá ao Espírito o nome pelo qual Ele deve ser entendido no restante do livro: Ele é a promessa do Pai. 2

É instrutivo notar

Com efeito, o Espírito é dado sob condições? Precisamos orar pelo Espírito? Necessitamos obedecer para que Ele nos seja dado? Os pentecostais dizem que sim; afirmam que o batismo espiritual (do Espírito) não pode realmente acompanhar a fé inicial, e portanto, detalham as condições que os crentes geralmente falham em cumprir. Mas, se depois do batismo das águas forem cumpridas as condições, alcançarão aquela experiência do batismo no Espírito. Qual o significado das passagens que tratam das condições do recebimento do Espírito? Duas passagens são geralmente introduzidas: a

1 Frederich D. Bruner, A Theology of the Holy Spirit, (Grand Rapids, Michigan:

pp. 155-224.

2 Idem, p. 154.

Eerdmans, 1973),

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

17

primeira, para a condição da oração (At. 4:31, cf. Lc. 11:13); a segunda, para a condição da obediência (At. 5:32). Notemos primeiramente em At. 4: 31 a "condição" de oração para a recepção do Espírito: "Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo, e, com intrepidez, anunciavam a Palavra de Deus" (At. 4:31). Em primeiro lugar, é importante observar que o Espírito Santo, de acordo com o texto não foi dado porque Ele fosse pedido. Isso é algumas vezes passado por alto. Os discípulos pediram intrepidez para anunciarem a Palavra. Portanto, e sem dúvida, o resultado é o dom ou o ser cheios do Espírito. O fato interessante é que não há nenhum registro, em Atos, de homens orando para que eles possam receber o Espírito Santo. 1 Em At. 1:14, não nos é dado nenhum objeto de oração, e em At. 8:15 não são os recipientes que oram. É a oração mais importante para Lucas do que o batismo, como um meio de receber o Espírito Santo? A pergunta é irrelevante porque o batismo cristão não é nem destituído de oração (Lc. 3:21-22; At. 22:16), nem nas passagens acima é simplesmente a oração em si o meio da recepção fundamental – mas é o

1 Idem, p. 171. Contraste a pretensão de Andrew Murray de que onde quer que os discípulos foram cheios do Espírito Santo isso foi porque oraram para ser cheios, citado e seguido por Ochenga, cf. Frederich D. Bruner, Op. Cit. , p. 171.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

18

batismo. Conforme o próprio Lucas, que exalta o fato da oração do batismo de Jesus, não é exatamente a oração em qualquer circunstância ou lugar, mas é a oração no batismo onde o clássico encontro com Jesus ocorre. Após este encontro, em todas as vidas dos crentes, a oração é o meio contínuo da recepção do Espírito. Mas oração e batismo não deveriam ser colocados às expensas um do outro. Podemos estar seguros de que é próprio e mesmo desejável, para os crentes, pedir pelo Espírito continuamente (Lc. 11:13; 18:1), e podemos ser levados a crer que onde quer que haja oração desejável entre os cristãos pelo serviço de Cristo (cf. At. 4:31), haverá o pleno dom do Espírito. Entretanto, os textos de Lc. 11 e At. 4 são endereçados aos cristãos, e mesmo tomados juntamente, eles não ensinam a necessidade de orar pela primeira recepção plena do dom do Espírito Santo. Eles realmente ensinam que a oração de um simples cristão traz a provisão contínua do Espírito Santo, enviado pelo Pai; se o Espírito é especialmente solicitado (Lc. 11:13) ou se não (At. 4:31). 1 Bruner nega igualmente que haja necessidade de obediência para a recepção do Espírito:

A obediência de que trata At. 5:32, antes que uma condição, é o resultado do dom do Espírito. O texto não diz nem que o Espírito Santo será dado àqueles que O obedecem, nem que o Espírito Santo foi dado àqueles que previamente O obedecem, mas interessante e sugestivamente, que o

1 Loc. Cit.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

19

Espírito

Santo

foi

dado

no

passado

àqueles

que

agora O estão

obedecendo

Obediência é o presente resultado do dom anterior do

Espírito. 1

Schweitzer ignora esse fato quando afirma que "de acordo com At. 5:32, a obediência deve preceder a recepção do Espírito". 2 Bruner alcança ainda um sentido mais profundo no próprio contexto, segundo o qual Pedro e os apóstolos estavam falando ao sumo sacerdote e ao Sinédrio (v. 27-29), cuja única obediência necessária que faltava era a obediência da fé: "A obediência que faltava no Sinédrio e presente nos apóstolos era simplesmente fé em Cristo". 3

Tirar de At. 5:32 as multifárias condições pentecostais de obediência deve ser calculada a criar mais rapidamente um sinédrio do que uma igreja. 4

4. Atos 11:17. O Dom do Espírito e os Gentios. O ensino de Atos parece indicar aos judeus a seguinte verdade: Tão incondicional é o recebimento do dom do Espírito que até os gentios puderam recebê-lo. Foi o apóstolo Pedro que disse estas surpreendentes palavras, o próprio que participou do Pentecoste: "Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor Jesus" (At. 11: 17) .

1 Idem, p. 172. Ver também Arnold V. Wallenkampf, New by the Spirit, (Mountain View, California:

Pacific Press, 1978), p. 50.

2 Citado por Frederich D. Bruner, Op. Cit., p. 171.

3 Idem, pp. 172-173.

4 Loc. Cit.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

20

Para os judeus, isso não era fácil aceitar; mesmo para Pedro, que precisou de uma revelação especial, através de uma visão, da qual ele aprendeu a preciosa lição de que "Deus não faz acepção de pessoas, pelo contrário, em qualquer nação, aquele que O teme e faz o que é justo Lhe é aceitável" (At. 10: 34-35). Os judeus conversos, ouvindo que Pedro pregava o Evangelho também aos gentios, tão indignados ficaram que lhe disseram: "Entraste em casa de homens incircuncisos e comeste com eles!" Estas palavras intolerantes despertaram, no entanto, uma sábia resposta de Pedro que lhes contou a história a partir da visão e do derramamento do Espírito sobre as pessoas da casa de Cornélio (At. 11:4-17). O resultado foi alegria e louvor a Deus (At. 11:18).

Em Paulo

l. O Dom em Romanos

Paulo começa

apresentando o Espírito como uma dádiva em Rm. 5:5, onde afirma que através desse dom temos o amor de Deus derramado sobre os nossos corações. Mas por que o Espírito nos foi outorgado e pode espalhar o amor de Deus em nós? Há alguma condição aí imposta? O contexto desse capítulo indica os resultados da justificação (5:1-5) e a base dela

1)

Rm. 5:5

O

Dom

o Amor.

O apóstolo

e

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

21

(v. 6-11), ou seja, a morte de Cristo. O v. 5 diz-nos portanto, que o dom do Espírito que derrama o amor divino em nós, o "amor de Deus" (Rm. 5:5), e o "amor do Espírito" (Rm. 15:30) é um dos benditos resultados da justificação, a qual foi garantida pela morte de Cristo: "Porque Cristo morreu a seu tempo pelos ímpios". "Mas Deus prova o Seu amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores" (Rm. 5:6 e 8). Não fosse a morte de Cristo, não receberíamos o dom do Espírito e nada saberíamos do amor de Deus.

A esperança do cristão não é baseada sobre alguma coisa no próprio

cristão, mas sobre a segurança do imutável amor de Deus por ele

grande ê o amor de Deus por Suas criaturas que Jesus morreu por nós quando nós éramos ímpios e rebeldes inimigos. 1

Tão

2) Rm. 8:9-11 - O Dom e a Vida Interior. Nesta passagem, Paulo enfatiza o dom do Espírito habitando no cristão. "E se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dEle" (v. 9). Se o Espírito habita no crente, isso demonstrará que ele não está vivendo "na carne", não mais vive de acordo com os ditames e impulsos da natureza inferior (v. 4), mas é guiado pelo Espírito Santo (v. 14). O v. 11 indica que o habitar do Espírito no interior do crente se revelará também no próprio exterior, vivificando o seu corpo abatido pelo poder do mesmo Espírito.

1 SDA Bible Commentary, Op. Cit. , Vol. VT, pp. 525, 527.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

22

3) Rm. 8:15 - O Dom e a Adoração. O Espírito Santo nos foi dado

para que pudéssemos nos dirigir a Deus como Pai e fôssemos Seus filhos adotivos: "Porque não recebestes o espírito de escravidão para viverdes outra vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai" (Rm. 8:15).

A frase "espírito de adoção" aparece nas duas versões de Almeida

com a letra inicial "e" minúscula para a palavra "espírito", como também há outras versões com a letra "E" maiúscula. No primeiro caso, os tradutores interpretam a palavra "espírito" como consciência, ou senso de adoção, que é característico daqueles que são admitidos a esta relação de filiação. No segundo caso, "Espírito de adoção" (com E maiúsculo) é uma referência ao Espírito Santo como produzindo a condição de

adoção. O comentário bíblico adventista não se define sobre as duas posições. 1

O contexto, porém, indica que Rm. 8:15 se refere ao Espírito Santo,

como é fácil depreender do verso anterior, do verso posterior, e de todo o

capitulo. Entretanto, temos mais duas afirmações de Paulo que apóiam esse ponto de vista. A primeira está em I Co. 2:12, onde ele mais uma vez contrasta "espírito do mundo" com o "Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente". A

1 Idem, p. 567.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

23

segunda afirmação é um paralelo entre Rm. 8: 15 e Gl. 4: 6: "E, porque vós sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai". 1 4) Rm. 8: 23 - O Dom e as Primícias do Espírito. "E não somente ela (a criação), mas também nós que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo" (Rm. 8:23). O que são as "primícias do Espírito?"

Primeiros frutos. Gr. aparchê. Esta palavra é usada na LXX para os primeiros frutos da colheita, a porção que era primeiro colhida e consagrada a Deus como uma oferta de gratidão (Êx. 23:19; Lv. 23:10; Dt. 26:2). 2

As "primícias" ou "primeiros frutos" do Espírito podem ser entendidos como os dons iniciais do Espírito Santo, o penhor do pleno derramamento do poder divino. O Espírito Santo tinha vindo em medida especial no dia de Pentecoste, e Suas bênçãos continuaram, como é evidenciado pelos vários dons espirituais (I Co. 12-14) e pela transformação do caráter que distinguia o cristão dos outros homens (Rm. 8: 4-5), o primeiro vivendo no Espírito e os últimos vivendo na

1 Como apoio à essa idéia, consultar Henry Alford, The Greek Testament, (Chicago: Moody Press, 1968), Vol. II, p. 391; John Knox, Romans Exegesis, (Nashville: Abingdon Press, 1978), p. 516.

2 SDA Bible Commentary, Op. Cit., Vol. VI, p. 571.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

24

carne. Mas tudo isso era apenas uma bênção inicial, o primeiro dom do Espírito. Mas quais são os gemidos do crente? Por que geme, se possui as "primícias do Espírito?" Que tipo de gemido podem dar "aqueles que foram iluminados e provaram o dom celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa Palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro" (Hb. 6:4, 5)? O cristão possui as grandíssimas e preciosas promessas de Deus e por elas se torna co-participante da natureza divina (II Pe. 1:4); aprende a estar "contente em toda e qualquer situação" (Fl. 4:11) e transborda de júbilo mesmo em face de terríveis provações (I Co. 7: 4). Como pode, então, gemer? Este é o paradoxo:

possuir as primícias do Espírito e ainda estar gemendo! Lloyd-Jones sugere que o gemido dos cristãos de Rm. 8:23 nada tem que ver com o "homem miserável" de Rm. 7:24.

O problema com o homem em Rm. 7:24 é que ele não está certo de

sua salvação. Ele nada sabe sobre a glória que está por vir. Daí, ele é um "desgraçado homem" e clama: "Quem me livrará?" Mas o homem em Rm. 8:

23 está gemendo porque ele conhece a liberdade, ele provou as "primícias

do Espírito", e ele está ansiosamente aguardando entrar na glória

gemido é o resultado da certeza; aquela miséria foi o resultado da incerteza que clama: "Quem me livrará?" 1

A evidência exige que ao contrário do que tantos expositores afirmam, o homem de Rom. 7 está preocupado unicamente com as suas

Este

1 D. Martyn Lloyd-Jones, Romans 8:17-39, (M. Road, Edinburgh: Banner of Truth, 1975), p. 93.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

25

falhas apontadas pela Lei, conforme o próprio contexto; enquanto o homem do capítulo 8 está interessado e ansioso pela redenção, porque sabe que nela o corpo será transformado, o que resolverá o problema de suas faltas e pecados contra a Lei. O contraste é muito claro: 1) Rom. 7:14 diz que esse homem é carnal; Rom. 8:4 diz que o homem é spiritual, porque anda no Espírito. 2) Rom. 7:14, 25 ú.p. indica que ele é escravo da lei e da carne; Rom. 8:1-2 afirma a libertação dele. 3) Rom. 7:14 diz que ele está "vendido"; Rom. 8:3,23,34 afirma que ele foi comprado pela propiciação e aguarda

a redenção final. 4) Em Rom. 7:15-20, lemos que ele está confuso sobre como cumprir a Lei; em Rom. 8:4,8-9, vemos que este homem cumpre o preceito da Lei e agrada a Deus. 5) Em Rom. 7:24, constatamos que esse homem está desesperado, porque ignora o seu Libertador; em Rom. 8, ele tem certeza de sua libertação e conhece o Libertador Jesus Cristo (v.

1, 16, 31, 34, 37). Portanto, o homem do capítulo 7 é o retrato de um fariseu

preocupado em guardar a Lei para se salvar, na qual ele tem prazer (v. 22), mas ainda não descobriu o caminho de como se libertar do pecado.

O verso 25 na primeira parte não é a descoberta desse homem, porque no

final do mesmo verso ele ainda é escravo. As palavras "Graças a Deus por Jesus Cristo" (v. 25) são uma antecipação, um parêntesis do apóstolo

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

26

Paulo que está ansioso para nos transportar ao capítulo seguinte, onde ele descreve a vida vitoriosa do verdadeiro cristão. O cristão recebe o dom do Espírito, goza das suas primícias, mas a aquisição destes primeiros dons apenas aumenta nele o desejo de uma recepção mais ampla no futuro. Devemos entender, portanto, que neste sentido, a nossa salvação aqui e agora é ainda incompleta. A posição do cristão no que tange à salvação no presente é que ele está salvo e seguro em Cristo, e enquanto nEle, não precisa temer porque não mais está sob

o espírito de escravidão, mas possui a liberdade no Espírito (I Jo. 5:11,

12; Rm. 8:2, 15; II Co. 3:17; Gl. 5:1). O cristão está salvo agora, ele é um filho de Deus, ele é regenerado, ele participa da natureza divina, ele está em Cristo. O cristão morreu com Cristo, ressuscitou com Ele, está assentado com Ele nos lugares celestiais (Ef. 2:5-6), e isso é absoluto! Contudo isso não é absoluto! Este é outro grande paradoxo da teologia paulina: o cristão já alcançou a redenção pela justiça de Deus em Cristo (Rm. 3:22, 24), mas ele aguarda tanto a justiça (Gl. 5:5) como

a redenção (Rm. 8:23). Ele possui a adoção (Rm. 8:15), mas aguarda a adoção (Rom. 8:23). A solução deste paradoxo está no sentido

escatológico da redenção. O cristão está salvo, mas o seu corpo não está;

o pecado ainda permanece em sua natureza. Este corpo mortal ainda

necessita da salvação. O cristão foi salvo da pena do pecado (Rm. 3:25) -

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

27

isto é justificação; o cristão está sendo salvo do poder do pecado (Rm. 6:14, 22) - isto é santificação; o cristão será salvo da presença do pecado (Rm. 8:17) - isto é glorificação. O cristão geme pela chegada do tempo quando ele receberá o dom inefável da imortalidade (I Co. 15:51-54) pelo "Espírito da glória" (I Pe. 4: 14), porque "Esse mesmo (Deus) que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos, vivificará também os vossos corpos mortais, por meio do Seu Espírito que em vós habita" (Rm. 8:11). Então, o "Espírito da graça" (Hb. 10:29) mostrará "nos séculos vindouros a suprema riqueza da Sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus" (Ef. 2:7).

2. O Dom do Espírito em Coríntios

Paulo escreve aos Coríntios sobre o dom do Espírito como demonstração de poder (I Co. 2:4). Num contraste real, afirmou que não recebemos "o espírito do mundo, e sim, o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nós foi dado gratuitamente" (I Co. 2:12). O dom do Espírito nos foi dado como revelação (I Co. 2:10) das coisas que "se discernem espiritualmente" (I Co. 2:14), pelo que agora temos no dom do Espírito, "a mente de Cristo" (I Co. 2:16) . Em I Co. 3:16 e 6:19, Paulo repete o ensino de Rm. 8:9, 11 sobre a habitação do Espírito no crente, mas acrescenta a figura do santuário

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

28

que é o nosso corpo, e portanto deve ser mantido sagrado, o que se consegue na realização de todas as coisas com o fim de glorificar a Deus (I Co. 6:20; 10:31) .

Paulo lembra aos coríntios que eles foram batizados: "Tais fostes

alguns de vós; mas vós vos lavastes

e no Espírito do nosso Deus" (I Co. 6:11). Isso indica tanto o batismo nas águas como no Espírito. Mas a doutrina do batismo no Espírito se

encontra em I Co. 12:13, a qual consideraremos no próximo capítulo. Em I Co. 12 o dom do Espírito vem pela manifestação dos vários dons que são distribuídos na igreja, a todos os que foram batizados no Espírito, "a cada um, individualmente" (I Co. 12:11), promovendo a união dos membros do corpo de Cristo (v. 27). Em II Co. 1:22 e 5:5, o dom de Deus é o "penhor do Espírito". Paulo usa aqui a palavra "arrabon", um penhor monetário para ilustrar o dom do Espírito, como uma primeira prestação, uma segurança de sua plena herança no porvir (Rm. 8:16, 17).

em o nome do Senhor Jesus Cristo

O penhor do Espírito pode ser considerado equivalente às "primícias do Espírito" (Rm. 8:23) que são uma amostra do que a colheita no fim do mundo será. 1

"As promessas que temos recebido não são meras promessas, elas são tão bem cumpridas a nós e em nós que garantem no porvir a sua

1 SDA Bible Commentary, Op. Cit., Vol. VI, pp.

833-834.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

29

plena

equivalente no hebreu é 'primícias' (Rm. 8:23)". 1

fruição

A

palavra

"arrabon",

traduzida

penhor

A

figura

3. O Dom do Espírito nas Epístolas Menores

Em Gálatas o dom do Espírito não vem através de recursos humanos, mas pela fé (3:2, 5, 14); aqui temos um forte argumento contra a condicionabilidade do recebimento do Espírito.

A mais clara ilustração da diferença entre o dom da iniciação fundamental do Espírito e o dom continuo do Espírito para a vida cristã, pode ser observado comparando Gál. 3: 2 e seu aoristo com Gál. 3: 5 e seu particípio presente. 2

Paulo considera os dois meios competitivos do Espírito na Galácia (fé e obras) como sendo mutuamente exclusivos ( gr. ñ, "ou", Gál. 3:2). O "ñ" do texto não permite nenhuma mistura de lei-obras de um lado e fé-pregação de outro como meios para receber o livre dom de Deus. O dom é recebido, ou livremente, ou por devoto esforço; não os dois juntos. Mas a segunda opção é descartada. 3 Em Gál. 4:6, Paulo fez um paralelo com Rm. 8:15, afirmando que o Espírito é dom de Deus aos nossos corações para que em nós possa

1 F. W. Farrar, Corinthians Exposition, (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1975), Vol. II, p. 6.

2 Frederich D. Bruner, Op. Cit., pp. 171-172. Para os tempos dos verbos mencionados, ver Henry Alford, Op. Cit., Vol. III, pp. 24-25.

3 A Theology of the Holy Spirit, Op. Cit. , p. 237.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

30

clamar: "Aba, Pai". Em Gál. 4:29, faz um paralelo com João. 3:5, ao afirmar o nascimento "segundo o Espírito". Em 5:18, faz um outro paralelo com Rm. 8:14, segundo o qual, se temos o dom do Espírito, somos guiados por Ele. Em 5:22, há um paralelo com Col. 1:8, no qual se salienta o fruto do amor através do ou "no Espírito". Em Fil. 3:3, há um paralelo com Jd. 20 e Jo. 4:23 sobre a adoração através do Espírito. Em I Ts. 4:8, há um paralelo com At. 5:32 sobre o livre dom do Espírito, cujas coisas não devemos rejeitar. Em II Ts. 2:13, há um paralelo com I Pe. 1:2 sobre a santificação operada pelo Espírito. Finalmente em Hb. 6: 4 (para os que consideram Paulo o autor), há um paralelo com Rm. 8:23 e I João 4:13, segundo o qual nos tornamos "participantes do Espírito", temos as "primícias do Espírito", e recebemos "do Seu Espírito".

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

31

CAPÍTULO III

O BATISMO DO ESPÍRITO SANTO

A palavra "batismo" não ocorre na Bíblia relacionada ao Espírito,

mas ocorre o assunto na forma verbal. Há 7 passagens que merecem atenção especial, visto serem as únicas que nos oferecem alguma informação. Cinco delas são proféticas, uma é histórica e a última e mais importante para nosso estudo, é didática.

Nos Evangelhos

A primeira ocorrência se encontra em Mt. 3:11: "Eu vos batizo com

água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim

batizará com o Espírito Santo e com fogo". Estas palavras proféticas são

de João Batista e têm o seu paralelo com Mc. 1:8; Lc. 3:16 e Jo. 1:33.

O anúncio de João sobre a vindoura atividade divina envolve 2

aspectos. Haveria de ocorrer um batismo dúplice: com (ou em) o Espírito Santo e com (ou em) fogo. Mateus e Lucas mencionam "com fogo", o que foi omitido em Marcos e João. Esta profecia de João tem sido sujeita a diversas interpretações. O ponto de vista da maioria é que João Batista anunciou um batismo de fogo. Ele proclamou um iminente julgamento de fogo purificador. A

vos

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

32

idéia do batismo com o Espírito é vista como uma adição à luz da experiência do Pentecoste. É evidente que o batismo com fogo está incluído, mas não é evidente que o batismo com (em) o Espírito Santo seja um acréscimo. Em Mt. 3:10 e 12, está claro o julgamento de fogo; mas isso não exclui o batismo no Espírito. João Batista tem uma história muito relacionada com o Espírito Santo para que suas palavras sejam aceitas como um acréscimo posterior, inspirado e motivado no Pentecostes. Ao contrário, cremos que o antecedeu. Ele estava "cheio do Espírito Santo" desde o ventre materno (Lc. 1:15), e "a boca fala do que está cheio o coração" (Mt. 12:34). Além disso, o Batista está falando de Cristo e de Sua obra; Ele igualmente estava "cheio do Espírito Santo" (Lc. 4:1), e não só falou abundantemente acerca do Espírito (Jo. 14-16), como também confirmou a profecia de João Batista (At. 1:5), e foi do mesmo modo confirmado por Pedro (At. 11:16). Outra alternativa é o pensamento de que o batismo de "pneuma" não é do Espírito Santo, mas do sopro abrasador do Messias que destruirá Seus inimigos (Is. 11:4 cf. II Ts. 2:8). Entretanto, a expressão grega "pneumati agio", traduzida como Espírito Santo, não deve ser traduzida como "sopro santo", nem ser entendida assim, porque não é lógico lingüisticamente, porque exigiria outro adjetivo no lugar de "santo" que designasse destruição; não é lógico biblicamente, pois o

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

33

objeto do batismo é o povo que aceitava a mensagem de arrependimento,

designado pelo pronome pessoal "vos" ("Ele vos batizará

Tampouco a tradução "sopro santo" encontra paralelo, nem no hebraico de Isaías (Is. 11:4), e nem mesmo em Paulo que escreveu em grego (II Ts. 2:8). A tradução "Espírito Santo" é coerente com todas as passagens paralelas que tratam do batismo no Espírito. Cristo não teria dito aos discípulos que eles seriam batizados no Espírito Santo (At. 1: 5), como um cumprimento da profecia de João Batista, se as palavras deste se referissem apenas à destruição pelo sopro divino. Entretanto, se Is. 11 deve ser evocado, então note-se que o contexto sugere (11:1-5) os dois aspectos da justiça dAquele sobre quem repousa "o Espírito do Senhor" (11: 2), e não apenas um. Um terceiro ponto de vista é que João anuncia um só batismo que inclui dois elementos purificando e refinando o justo, mas punindo o ímpio. Isto é sugerido pelo contexto. Não é o caso de ser o justo batizado com o Espírito sem o fogo, e o ímpio ser batizado com o fogo sem o Espírito. Este é um só batismo, mas que envolve os dois elementos. Pelo fato de que no original não existe preposição ao lado da palavra "puri"

").

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

34

(fogo), concluímos pela gramática referir-se a um só batismo, 1 que purifica o pecador arrependido e destrói o pecador impenitente. O Espírito Santo é chamado por Isaías o "Espírito Purificador" (4:4) que limpa a culpa do povo de Deus com água (4: 4) e com "fogo chamejante" (4: 5). O próprio Isaías foi purificado com uma "brasa viva" do altar de Deus (6:6). No passado, o mundo foi purificado pelas águas, nas quais pereceram os ímpios (II Pe. 3:6); no futuro, o mundo será purificado pelo fogo (3:7).

O Espírito de Deus consumirá o pecado em todos quantos se submeterem ao Seu poder. Se os homens, porém, se apegarem ao pecado, ficarão com ele identificados. Então, a glória de Deus que destrói o pecado, tem que destruí-los. 2

Em Atos

A quinta passagem referente ao batismo no Espírito Santo é At. 1:5:

"Porque João, na verdade, batizou com (em) água, mas vós sereis batizados com (em) o Espírito Santo, não muito depois destes dias". Esta é uma declaração profética de Cristo que após a Sua ressurreição orientou os discípulos para que esperassem em Jerusalém o cumprimento

por não colocar o fogo sob a regência de uma outra preposição

(que teria necessitado o conceito dele como um elemento distinto) , implicando que este é apenas outro aspecto de um e o mesmo batismo". A. Lukyn Williams, St. Matthew, (Grand Rapids, Michigan, Eerdmans, 1974), p. 73.

2 Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, (Tatuí, São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 1990), p. 107.

1 Note as palavras de Williams: "

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

35

da "promessa do Pai" acerca do Espírito Santo (v. 4). Isso denota que o

batismo no Espírito Santo era a "promessa do Pai" que se cumpriria no Pentecoste e que também teve outras designações: Em Lc. 24:49, ser

batizado no Espírito é ser revestido do poder; em At. 2:4, quando a profecia se cumpriu no Pentecoste, ser batizado no Espírito é ser cheio do Espírito; em At. 10:44 e 45 e 11:15 e 16, as expressões "caiu o Espírito Santo sobre todos", "foi derramado o dom do Espírito Santo" são equivalentes a "batizados com o (no) Espírito Santo". Portanto, ser batizado no Espírito é possuir o dom e a plenitude do Espírito, e por conseguinte, os capítulos II, III e IV deste trabalho apresentam verdades intimamente relacionadas, que se referem ao mesmo assunto em pauta. A sexta passagem das 7 referências ao batismo no Espírito é histórica - At. 11:16: "Então me lembrei da palavra do Senhor, como disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com

o Espírito Santo". São palavras de Pedro, discursando sobre o

derramamento do Espírito aos gentios, após a sua visão do lençol

baixado à terra (At. 10). Refere-se ao dom do Espírito à casa de Cornélio simultaneamente com a crença desses gentios em Jesus como resultado

da pregação de Pedro. A referência é significativa porque mostra que o

Espírito Santo devia ser dado aos gentios justamente como havia sido

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

36

dado aos judeus; em outras palavras, não deveria haver dois níveis ou duas espécies de cristãos dentro da igreja. O verso seguinte (17) refere-se ao batismo com o Espírito como sendo o "mesmo dom" concedido aos discípulos quando creram em Jesus Cristo. Isso indica que o batismo no Espírito é uma experiência que ocorre quando alguém manifesta fé em Jesus. Entretanto, não há no livro de Atos nenhum intervalo significativo de tempo decorrido entre crer em Cristo e o batismo das águas. Isto é evidente do dia do Pentecoste (2:41), do batismo dos Samaritanos (8:12), do batismo do eunuco etíope (8:36-37), de Cornélio (10:47-48), de Saulo (9:18), de Lídia (16:14-15), do carcereiro (16: 31-33), etc. 1 Ora, se crer

em Cristo está relacionado ao batismo das águas, o batismo das águas está ligado, por sua vez, ao batismo no Espírito; aquele que é batizado no nome de Cristo porque crê, recebe o dom do Espírito, o que equivale a dizer: é batizado no Espírito Santo.

Alguns eruditos, entretanto, escolhem a experiência em Samaria onde o dom do Espírito foi subseqüente à fé e resultou somente da imposição das mãos (At. 8:14-17), e defendem a teologia de que o batismo do Espírito é uma "segunda obra da graça" após a fé salvadora. 2

1 George E. Ladd, Op. Cit., p. 350.

2 Note as palavras: "O batismo com o Espírito Santo é uma operação do Espírito Santo separada e distinta de Sua obra regeneradora". - R. A. Torrey, O Batismo com o Espírito Santo, (Belo Horizonte, MG., Editora Betânia, 1979), p. 5. Ver também A Theology of the N T, Op. Cit., p. 346.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

37

Porém, é óbvio que não há um simples padrão em Atos. A questão é: qual é o padrão normativo, Samaria ou Cornélio? Se Samaria é normativo, então podemos aceitar o ponto de vista de que o batismo do Espírito é uma experiência subseqüente à fé salvadora. Contudo, Samaria parece ser a exceção. Tanto a casa de Cornélio, como Paulo receberam o Espírito quando creram; e os discípulos de João em Éfeso receberam o Espírito quando foram batizados em nome de Jesus (At. 10:44-48; 9:17;

19:1-7).

Com efeito, Samaria era exceção. 1 A conversão dos samaritanos foi o primeiro movimento do Evangelho além de Jerusalém. Contudo, havia preconceito nas relações entre judeus e samaritanos (Jo. 4:9). Portanto, como diz Bruce, "alguma especial evidência pode ter sido necessária para dar certeza a estes samaritanos, tão acostumados a ser desprezados como estranhos pelo povo de Jerusalém, de que eles foram plenamente incorporados à nova comunidade do povo de Deus". 2 Além disso, Pedro e João como líderes da igreja judaica, necessitavam a experiência de que Deus estava Se voltando para o mundo gentílico, porque eles ainda não tinham claramente esta visão.

1 Ver Colin Brown, ed. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, (São Paulo, Edições Vida Nova, 1981), Vol. I, p. 280: "A argumentação tem de partir da regra e não das exceções como as de At. 8:15-17 e 10:44-48, que mostram o dom do Espírito ora anterior, ora posterior ao batismo".

2 F.F. Bruce, The Book of Acts (1954), p. 182 - citado por George E. Ladd, Op. Cit., p. 347.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

38

Pedro se considerava um bom judeu e pretendia continuar assim (At. 10:14), a despeito do fato de que era cristão. 1 Nós podemos concluir que o padrão normal é que o batismo no Espírito ocorre no momento da fé salvadora, que nos tempos do Novo Testamento era praticamente simultâneo com o batismo nas águas, incorporando os crentes à igreja (At. 2:38-41).

Em I Coríntios

A sétima referência ao batismo do Espírito é didática e portanto muito importante para o nosso estudo porque apresenta a doutrina, e é a única afirmação direta do assunto: I Co. 12:13: "Pois em um só espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito". O primeiro ensino deste verso (e de fato de todo o capitulo) é a unidade dos cristãos. Os cristãos de Corinto haviam dado ênfase demasiada e exclusiva a certos dons de tal modo que isso estava provocando divisão; mas Paulo escreve para mostrar que eles realmente são um. O argumento principal é que eles foram batizados por um Espírito em um corpo de

1 Ladd cita Dunn que crê que o Espírito não fora dado aos samaritanos porque eles ainda possuíam uma fé inadequada. George E. Ladd, Loc. Cit., p. 347. Ver também interessante comentário de Bruner sobre o "ainda não" de At. 8: 16: "A relação do batismo do Espírito (o "ainda não" indica) é a

A desconexão singular (At. 8:16) foi prontamente resolvida (8:17)". Frederich

relação de coesão

D. Bruner, Op. Cit., p. 177 e 178.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

39

Cristo. Isto é uma imediata reprovação àqueles que desejam enfatizar o batismo do Espírito Santo como subseqüente à fé salvadora, definido como uma "segunda obra da graça", para dividir os cristãos e a comunhão.

Cisma é de fato o resultado histórico da divisão pentecostal do batismo em Cristo para todos os crentes e o batismo no Espírito para cristãos especialmente dedicados. Um movimento que começa dividindo a recepção da Divindade culmina em dividir a comunhão dos crentes. 1

Paulo deseja enfatizar a unidade dos cristãos no presente contexto (I Co. 12). Como poderia ele agora demonstrar a real unidade dos cristãos a uma igreja ameaçada de se dissolver, de um lado "os espirituais", e de outro, "os cristãos", como se as duas classes fossem distintas? Nos primeiros versos do cap. 12, Paulo tinha unido o Espírito, Cristo e o crente tão indissoluvelmente como ele os imagina agora. Paulo aqui discorre sobre o evento – o "acontecimento" – do batismo como o mais adequado para comunicar aos cristãos sua unidade no corpo uno de Cristo. Se I Co. 12:13 é interpretado como falando de um segundo, subseqüente e separado batismo no Espírito Santo, além do batismo em Cristo, para apenas alguns cristãos, então, há violência não somente às

1 Idem, p. 293. "Batismo pelo Espírito não é a assim chamada segunda obra da graça, ou uma bênção especial que o cristão está procurando; antes isso ocorre na vida de cada crente ao tempo de sua regeneração". N. A. Woychuk, The Indispensable Holy Spirit, (Missouri, BMAI, 1975), p. 56.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

40

todos"), mas ao propósito do texto em seu

contexto. O peso da mensagem corintiana é a unidade de todos os batizados em Cristo Jesus, a igreja completa de Corinto e mesmo além deles (1:2). Em I Co. 12:13, Paulo está ensinando não um batismo espiritual incomum recebido só por uns poucos; ele está ensinando o gracioso batismo cristão através do Espírito dado a todos. A unidade dos cristãos é assegurada, confirmada e exibida através do simples e contudo profundo evento de iniciação através do qual cada cristão passa e pelo qual todo cristão recebe o mesmo dom espiritual. Isso nos leva à segunda ênfase do verso: não só unidade, mas universalidade da experiência para todos os crentes. A palavra "todos" é decisiva, porque Paulo escreve que "todos nós fomos batizados", e "a todos nós foi dado beber de um só Espírito". Em outras palavras, como vimos, o batismo do Espírito Santo não é alguma experiência secundária e especial para alguns cristãos, mas é uma experiência inicial de todos pela qual, de fato, se tornaram cristãos. 1

palavras do texto ("todos

O batismo aqui mencionado (I Co. 12:13) é sem dúvida o que acompanha o batismo pela água no caso de qualquer filho de Deus verdadeiramente renascido. O batismo de água é sem valor, a menos que o batismo tenha nascido de novo pelo Espírito Santo (Jo. 3:5, 6, 8). É através

1 "Batismo com água é um sinal e selo do batismo com o Espírito

Batismo de água é o rito de

iniciação cristã, porque o batismo do Espírito é a experiência de iniciação cristã". John R. W. Stott, The Baptism and Fullness of the Spirit, (Downers Grove, Illinois, Inter Varsity Press, 1964, p. 28.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

41

da obra do Espírito Santo que os homens se tornam membros do corpo de Cristo. 1

A próxima questão é sobre o agente do batismo do Espírito Santo. Para se entender isso, precisamos estudar a preposição "en" do grego das passagens que tratam do assunto. Esta preposição pode ser traduzida "em", ou "com" (dativo), ou ainda "pelo" (instrumental). 2 A tradução "com água" (Mt. 3:11), sugere ligeiramente um batismo por aspersão, e portanto deve ser rejeitada porque a própria palavra batismo já implica em imersão. 3 A tradução "pelo Espírito" em Mt. 3:11 (e passagens paralelas) é defendida por Woychuk e Charles Ryrie 4 em todos os textos. O autor deste trabalho prefere a tradução "no Espírito" pelas seguintes razões: 1) É evidente a analogia da água e o significado da palavra batismo: batismo é sempre imersão em alguma coisa; 2) É claro nos textos dos Evangelhos que o Agente é Cristo, que realiza o batismo no Espírito. 5 Mesmo que o contexto de I Co. 12:13 indique o Espírito como o Agente, como alguns afirmam, 6 isso não impede que haja dois agentes: Cristo enviando o Espírito pelo Pai, e o Espírito realizando a obra; 3) Em I Co. 12:13, a palavra "beber" vem do grego "epotisthemen"

1 Francis D. Nichol, Op. Cit., Vol. VI, p. 772.

2 The Indispensable Holy Spirit, Op. Cit., p. 57. 3 A palavra grega é "baptisma" de "baptizõ" e significa imersão. Siegfried H. Horn, SDA Bible Dictionary, (Washington, D.C., Review and Herald Publishing Association, 1979), p. 118.

4 The Indispensable Holy Spirit, Op. Cit., p. 57-58.

5 Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, (Tatuí, SP: CASA, 1990), p. 171.

6 George E. Ladd, Op. Cit., p. 542.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

42

que também pode ser traduzida por "imerso": "nós fomos imersos em um

só Espírito". 1 Desse modo, tanto a palavra batizados como imersos

sugerem a preposição "em"; 4) A versão de Almeida, Edição Revista e

Atualizada no Brasil, apóia essa tradução. Finalmente, concluímos do

exposto que para as passagens paralelas a Mt. 3: 11, a melhor tradução é

"Ele vos batizará no Espírito Santo"; e para I Co. 12: 13: "Pois, por um

só Espírito todos nós fomos batizados em um " corpo 2 Isso faz do

Espírito o Agente (cf. I Co. 12: 11), juntamente com Cristo (Mt. 3: 11).

As passagens paralelas a I Co. 12:13, igualmente ensinam o batismo

nas águas relacionado com o batismo no Espírito. Em Ef. 4: 4 e 5, lemos

acerca de "um Espírito" e "um só batismo": não há aqui nenhuma

sugestão a batismos inferior e superior. Em João 3:5, o novo nascimento

significa concomitantemente "nascer da água e do Espírito", o que

significa uma referência direta ao batismo nas águas 3 que traz consigo o

batismo do Espírito. Em At. 2:38, o batismo em nome de Jesus Cristo

traz o dom ou o batismo do Espírito 4 ou a plenitude do Espírito Santo. 5

1 George E. Ladd, Op. Cit., p. 543.

2 Essa posição foi tomada pela versão de Casidoro de Reina, La Santa Biblia, (México, Sociedades Bíblicas Unidas, 1960), nas sete referências em estudo.

3 O Desejado de Todas as Nações, Op. Cit., p. 172.

4 Comparar At. 10:45 com 11:15-17.

5 Comparar At. 1:5 com 2:4.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

43

CAPÍTULO IV

A PLENITUDE DO ESPÍRITO SANTO

"Pleroma" é a palavra grega para plenitude, embora não esteja associada ao Espírito Santo no Novo Testamento. Entretanto, o sentido está implícito na expressão "cheio do Espírito". As palavras "cheio do Espírito Santo" são exclusivas do evangelista Lucas que usou essa expressão catorze vezes, quatro no Evangelho que leva o seu nome e dez no livro de Atos dos Apóstolos, as quais passaremos a considerar, primeiramente no Evangelho, com um intervalo em João e depois retornaremos em Atos à expressão em pauta.

Em Lucas

1. Lucas l:15. João Batista. O primeiro de quem se diz que seria "cheio do Espírito Santo" é João Batista. Conforme a lei do nazireado (Nm. 6:3), ele se absteria "de vinho e de bebida forte". Logo se percebe o contraste (que ocorre também em At. 2:4, 15-17 e Ef. 5:18): ele não será cheio de bebida alcoólica; será cheio do Espírito Santo.

não deveria haver

dúvida quanto ao tipo de estímulo que os move à ação. A forma mais baixa de estimulo exclui a forma mais alta. João deveria ser iluminado, santificado e guiado pela influência do Espírito Santo. 1

Com aqueles que Deus escolheu para Seu serviço

1 The SDA Bible Commentary, Op. Cit., Vol. V, p. 674.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

44

João Batista foi cheio do Espírito para a realização de uma obra específica de Deus: preparar "o caminho do Senhor", endireitar as veredas do Messias (Lc. 3:4), em cumprimento à profecia de Malaquias (4:5-6; cf. Lc. 1:15-17). O Dr. Champlin nota o detalhe das palavras "do ventre materno", desde quando seria João Batista cheio do Espírito, e o relaciona à predestinação:

Ele seria cheio do Espírito Santo não temporariamente apenas, mas desde antes do seu nascimento. João Batista era um instrumento especial, e não temos quaisquer indicações aqui quanto à natureza do exercício de seu livre arbítrio, aceitando esse privilégio. 1

Conta o evangelista que Maria foi a uma

cidade de Judá, "entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Ouvindo

esta a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre; então Isabel ficou possuída do Espírito Santo" (Lc. 1:39-41). A expressão "ficou possuída" é tradução na versão Revista e Atualizada (RA) que corresponde à "ficou cheia" da edição Revista e Corrigida (RC). A palavra grega original é "eplésthe" que se traduz

2. Lucas 1:41.

Isabel.

1 R. N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado, (São Paulo: Edições Vida Nova, 1975), Vol. II, p. 10. Compare a outra posição em The SDA Bible Commentary, Op. Cit., Vol. V, p. 674; idem, Vol. VIII, p. 873.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

45

literalmente "ficou cheio (a)", 1 como a RA traduziu em Lc. 1:15, e 67, e traduziu "ficou possuída" em Lc. 1:41. Em Lc. 1:15 vimos que João Batista seria cheio do Espírito Santo. Agora notamos que há uma interação implicada das palavras do evangelista, isto é, do bebê sobre a mãe, e não o reverso; quando uma mãe reconheceu a outra, o precursor ainda não nascido sentiu a presença de seu Mestre, "a criança estremeceu de alegria dentro" da mãe, e ao ser ele nesse momento cheio do Espírito Santo, o mesmo Espírito encheu a sua mãe (v. 15 e 44). Nesse caso, portanto, se descreve o momento quando o precursor recebeu o Espírito para a obra que lhe correspondia, "já do ventre materno" (Lc. 1:15), como foi antes mencionado. Isabel, por sua vez, ficou cheia do Espírito para poder testificar alegremente do Messias que estava no ventre de Maria, e este foi um testemunho profético, pois ela ainda não tinha sido notificada do fato. O significado disso parece ser que ela ficou cheia de alegria; com uma disposição de louvor a Deus; com um espírito profético, ou um conhecimento do caráter da criança que nasceria de Maria. Tudo isso foi produzido pelo Espírito Santo. 2

1 Stephens, Elzevir, Griesbach, The Englishman's Greek New Testament, (Grand Rapids, Michigan:

Zondervan P. House, 1973), p. 148.

2 Albert Barnes, Notes on Luke, (Grand Rapids,

Michigan: Baker Book House, 1956), p. 9.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

46

É digno de nota que realmente o Espírito Santo encheu a um bebê não nascido (v. 15), e que o próprio bebê correspondeu ao poder e à presença do Espírito Santo. Não é certo, portanto, assumir que efeitos espirituais possam ser sentidos apenas quando a mente já está desenvolvida a um certo grau de entendimento. Observamos que a criança não nascida é chamada "to brefos" que mostra que "tá bréfe" 1 mencionado em Lc. 18:15 eram "infantis" e contudo podiam e receberam de fato uma bênção espiritual de Jesus. O poder do Espírito da graça não é de modo nenhum limitado como os homens podem argumentar e concluir. 2

Como uma filha de Deus Isabel já era cheia do Espírito que a moveu à fé e à fidelidade. Mas o encher de que Lucas agora fala é extraordinário, para esta vez somente, carismático, capacitando-a a falar profeticamente através de uma iluminação reveladora. 3

Este sacerdote (Lc. 1:5) seria o pai de

João Batista; nascendo o filho, ele ficou "cheio do Espírito Santo" e "profetizou" (Lc. 1:67) . Aqui notamos logo que Zacarias ficou cheio do Espírito para que pudesse profetizar acerca da obra do filho. Entretanto,

3. Lucas 1:67. Zacarias.

1 The Englishman's Greek New Testament, Op. Cit., p. 148, 214.

2 Richard C. H. Lenski, The Interpretation of St. Luke's Gospel, (Minneapolis, Minnesota: Augsburg Publishing House, 1961), p. 78.

3 Loc. Cit.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

47

o hino que compôs era, não uma simples profecia, mas um hino profético no seu mais amplo sentido.

A palavra "profetizar" significa: 1º) Predizer futuros eventos; 2º) Celebrar os louvores de Deus (I Sm. 10:5, 6); 3º) Ensinar ou pregar o Evangelho. Ver notas sobre Rm. 12:6. Este hino de Zacarias participa de todos os três aspectos. Ele é empregado especialmente nos louvores de Deus, mas também prediz o futuro caráter e pregação de João. 1

Se conservamos em mente este amplo significado de "profetizar", concluiremos facilmente que João Batista (Mt. 11:9 e Lc. 1:76), Isabel (Lc. 1:41-45) e Zacarias (Lc. 1:67) ficaram cheios do Espírito Santo para fins proféticos. "O Espírito vem sobre eles, enche-os e os capacita para que se expressem com divina inspiração". 2 É interessante notar pela evidência das frases do cântico de Zacarias (Lc. 1:68-79) e pelo verso 70, que ele deve ter estado estudando meticulosamente as profecias do Velho Testamento. 3 Isso leva a outra conclusão: o estudo cuidadoso das Escrituras está relacionado com o Espírito Santo e pode nos fazer cheios dEle. 4. Lucas 4:1. Jesus. O Salvador, "cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e foi guiado pelo mesmo Espírito, no deserto". Aqui temos a plenitude do Espírito em Cristo. "Cheio do Espírito Santo" tem o seu

1 Albert Barnes, Op. Cit., p. 13. Ver o conceito de Richard C. H. Lenski, Op. Cit., p. 99.

2 Michael Green, Creo en el Espíritu Santo, (Miami: Editorial Caribe, 1977), p. 183.

3 SDA Bible Commentary, Op. Cit., Vol. V, p. 690.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

48

primeiro comentário no próprio texto: "e foi guiado" (Lc. 4: 1). Mateus diz: "levado" e Marcos, "o Espírito O impeliu". Ser cheio do Espírito é ser controlado inteiramente pelo Seu poder e Sua vontade. O segundo comentário, temos em Lc. 4:22: "Todos Lhe davam testemunho e se maravilhavam das palavras de graça que Lhe saíam do lábios". "Jamais alguém falou como Este Homem" (Jo. 7:46). Mt. 24, Mc. 13 e Lc. 21 testificam da veracidade das palavras do ex-cego quando disse que Jesus era profeta (Jo. 9:17). Certamente, como João Batista foi mais do que profeta (Mt. 11:9), muito mais Aquele de Quem ele testificava; Jesus era mais do que Profeta (Is. 9: 6; 33: 22). Entretanto, mais esta vez notamos que a plenitude do Espírito é dada com objetivo profético. Jesus sempre foi cheio do Espírito através de toda a Sua vida na Terra; Ele sempre Se submeteu completamente ao Espírito que O "guiava", "levava", "impelia" e controlava. Mas às vezes, falava em forma profética, no sentido amplo ou restrito, ungido pelo Espírito (Lc. 4:18), e as multidões se admiravam (Lc. 4:22). Quando o Espírito repousava sobre Cristo, Ele profetizava (Mt. 12: 18 e Lc. 4:14, 15). Ou quando Se defrontava com pessoas endemoninhadas, era pelo poder do Espírito que expelia os demônios (Mt. 12:28). Além disso, a plenitude do Espírito Santo se manifestava em Cristo para realizar obras de misericórdia (Lc. 4:18). Com efeito, como diz Green, Jesus é o "supremo

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

49

exemplo" da plenitude do Espírito Santo; 1 nunca será superado (Sl.

45:7).

Em João

1. João 3: 34. O Messias. João, como os sinóticos, registra a descida do Espírito sobre Jesus (Jo. 1:32-34), embora apresente uma ênfase diferente sobre o fato: isto é um sinal do Batista. Contudo, mais tarde, apresenta a plenitude do Espírito Santo no Messias nestes termos:

"Pois o Enviado de Deus fala as palavras dEle, porque Deus não dá o Espírito por medida" (Jo. 3:34).

A afirmação citada acima é difícil de se fazer exegese porque nem o sujeito (na versão inglesa usada) nem o objeto do verbo "dá" é mencionado. Contudo, este verso pode ser entendido à luz da próxima declaração: "O Pai ama o Filho e todas as coisas tem confiado às Suas mãos" (Jo. 3: 35). Isto sugere que é o Pai que dá ao Filho uma plena medida do Espírito. Esta é uma assertiva de João que implica que era pelo poder do Espírito que Jesus conduzia Seu ministério - uma nota predominante nos sinóticos. 2

Embora Jesus fosse Deus e Homem, contudo, como Profeta ("o Enviado de Deus fala as palavras dEle" - Jo. 1:34), Deus O ungiu (Jl. 2:28; Hb. 1:9; At. 10:38), Deus O revestiu com as influências de Seu Espírito, para que assim fosse completamente qualificado para Sua grande obra (Dt. 18:15; Lc. 24:19).

1 Creo en el Espíritu Santo, Op. Cit., p. 182. 2 A Theology of the New Testament, Op. Cit., p. 288.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

50

Os profetas do passado receberam o Espírito "por medida". Eliseu

porção dobrada do teu espírito" (I Rs. 2:9). Mas

Jesus foi cheio do Espírito "como a nenhum dos Teus companheiros" (Hb. 1:9). Ele não recebeu "o Espírito por medida" (Jo. 3:34-35). NEle residia a maior plenitude (se assim podemos dizer), porque o Espírito desceu e pousou sobre Ele de tal modo que Se tornou o "batizador" no Espírito (Jo. 1: 33; Mt. 3: 11).

pediu a Elias: "Peço-te

Os profetas foram inspirados em ocasiões particulares para entregar mensagens especiais. O Messias estava continuamente cheio do Espírito de Deus. 1

2. João 1:16. A Igreja. "Porque todos nós temos recebido da Sua plenitude, e graça sobre graça" (Jo. 1: 16). No verso 14, o evangelista tinha dito que Cristo estava "cheio de graça e de verdade". Dessa plenitude que evidentemente recebeu ao ser cheio do Espírito Santo (Lc. 4:l, 18, 22), ele agora diz que todos os discípulos e depois toda a Igreja tinha recebido (At. 1:15, 2:1-4; 4:31). Isto significa que a origem de sua abundante graça e verdade para entender o plano de salvação, para pregar o Evangelho, para viver em santidade, era a plenitude de Cristo, o qual "cheio do Espírito Santo" comunicou-O aos discípulos e à Igreja e

1 Albert Barnes, Op. Cit., p. 212.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

51

batizou-os nEle (Jo. 1: 33). O Espírito habitava nEle, não como um vaso, mas como em uma fonte, como em um oceano infinito. 3. João 7:37-40. O Crente. Era o oitavo dia, o último dia da festa dos tabernáculos (Jo. 7:2, 37), quando Jesus "Se levantou e exclamou: Se alguém tem sede, venha a Mim e beba. Quem crer em Mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva" (Jo. 7:37-38). No último dia da festa era costume realizar uma solene cerimônia nesta maneira: o sacerdote enchia um recipiente de ouro com água da fonte de Siloé (Jo. 9:7), que era levada com grande solenidade, acompanhada pelo clangor de trombetas, através da porta do templo, e, sendo misturada com vinho, era derramada sobre o sacrifício no altar. A origem deste costume é desconhecida. Alguns supõem, e provavelmente seja o caso, que isso surgiu de um errôneo entendimento da passagem de Is. 12:3:

"Vós com alegria tirareis águas das fontes da salvação". É certo que Moisés não ordenou tal cerimônia. Provavelmente, Jesus "se levantou e exclamou" enquanto eles estavam realizando esta cerimônia para que Ele pudesse: primeiro, ilustrar a natureza de Sua doutrina por esse meio, e segundo, desviar a atenção deles de um rito não ordenado e que não conferia vida eterna. 1

1 Idem, p. 260.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

52

do seu interior fluirão rios de água viva".

Estas palavras foram proferidas por Cristo e João acrescentou este comentário explicativo: "Isto Ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nEle cressem; pois o Espírito até esse momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado". Aqui temos a plenitude do Espírito no crente: "do seu interior fluirão rios de água viva". Qual a condição para receber tal plenitude? Apenas crer em Jesus: "quem crer em Mim". Até aquele tempo, certas medidas das influências do Espírito já tinham sido dadas na conversão e santificação dos antigos santos e profetas. Mas a plenitude de que trata Jesus só viria após a Sua glorificação, ou ascensão ao Céu. Hoje todo crente pode receber abundante plenitude de bênçãos espirituais que fluirão como rios de si para os outros, como canais da graça divina.

"Quem crer em Mim

Aquele que está em viva comunhão com Cristo se torna ele mesmo um

centro de influência espiritual

grande verdade que satisfaz seus próprios anseios não pode por muito

O verdadeiro crente que compreende uma

tempo sopitar a expressão dela. 1

Em Atos

O que significa ser cheio do Espírito? Precisamos lembrar que esta é uma linguagem figurada. Espírito Santo não é um líquido ou um gás,

1 SDA Bible Commentary, Op. Cit., Vol. V, p. 982.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

53

ou uma mera influência; nem nós somos simples receptáculos físicos. O Espírito Santo é uma Pessoa divina e nós somos pessoas humanas. "Ser

uma figura de linguagem que significa ser

controlado pelo Espírito". 1 Tal como foi Jesus Cristo (Lc. 4:1; Mt. 4:1; Mc. 1:12).

cheio do Espírito é

Falar do controle do Espírito é uma outra maneira de designar o controle de Cristo. Ser cheio do Espírito significa, portanto, ser controlado por Jesus Cristo. Significa deixá-Lo viver e operar através de nós. Significa experimentar aquilo que Paulo falava quando disse: "Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus que me amou e a si mesmo Se entregou por mim" (Gl. 2:20). 2

Se permitirmos a Jesus Cristo nos controlar através do Espírito Santo, o que irá Ele realizar? Com que objetivo foi dada a plenitude do Espírito Santo? Em Jo. 7:37-39 e Gl. 2:20 lemos sobre a plenitude objetivando a salvação e a vida cristã. Entretanto, no livro de Atos lemos acerca de outros objetivos em 10 circunstâncias, em 11 textos que falam de pessoas cheias do Espírito. Estas ocasiões descrevem "enchimentos" especiais a cristãos que já viviam em plenitude, e nesses textos veremos os diferentes objetivos porque foram especialmente cheios do Espírito Santo.

1 James D. Grane, O Espírito Santo na Experiência Cristã, (Rio de Janeiro: JUERP, 1979), p. 115.

2 Idem, p. 116.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

54

1. Atos 2:4. Pentecostes. "Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem". Foi o que aconteceu no dia histórico do Pentecostes. Do contexto sabemos que as "outras línguas" eram cerca de 15 dialetos conhecidos e falados no mundo mediterrâneo daquele tempo. Cheios do Espírito Santo, esses galileus indoutos e os demais discípulos em número de cerca de 120 (At. 1:15) receberam a capacidade de falar das grandezas de Deus (At. 2:11) em línguas estrangeiras que nunca haviam estudado ou falado antes. Portanto, o objetivo do ser cheios do Espírito foi a capacidade de se comunicarem claramente para poderem pregar o Evangelho a todo o mundo conhecido de então (Mc. 16:15; At. 1:8).

Os milagres da Bíblia não eram simples prodígios que despertavam pasmo; tinham sempre um propósito prático. E assim esse dom do

Pentecostes fez possível que o testemunho evangélico se pudesse dar em

um só dia a ouvintes de muitas nações diferentes

oportunidade providencial de poder dirigir-se a homens de muitos países e nações tão diferentes devia recordar aos discípulos a presença e o poder prometidos do Mestre e a segurança que lhes deu de que seriam testemunhas suas "até aos confins da Terra". 1

O dom de línguas e a

Ralph Earle apresenta o propósito daquele milagre pentecostal nos seguintes termos:

O propósito disto parece ter sido a mais efetiva evangelização da multidão de judeus e prosélitos, muitos dos quais compreenderiam melhor a

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

55

mensagem do Evangelho em sua própria língua materna (v. 8) do que no aramaico ou no grego comum. 2

2. Atos 4:8. Pedro. Aí lemos que Pedro, cheio do Espírito Santo, se dirigiu às autoridades e anciãos do povo, acusando-os corajosamente de contrariarem os desígnios de Deus na sua maneira de tratar a Jesus Cristo, "a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dos mortos" (v. 10). Tal conduta é um flagrante contraste com o medo que Pedro antes revelou diante de uma criada no pátio da casa do sumo sacerdote (Mt. 26:69-72). A coragem de enfrentar as autoridades com o testemunho do poder da palavra do evangelho foi nesse caso o objetivo pelo qual Pedro foi cheio do Espírito Santo. Pedro estava cheio do Espírito Santo quando disse às autoridades estas palavras: "E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos" (At. 4:12). Pedro não só teve ousadia para enfrentar as autoridades, como intrepidez para pregar o Evangelho. E João estava ao seu lado. Isso causou a admiração daqueles homens, que "ao verem a intrepidez de Pedro e João, sabendo que eram homens iletrados e incultos, admiraram-se; e reconheceram que haviam eles estado com Jesus" (At. 4:13).

2 Ralph Earle, Beacon Bible Commentary, (Kansas City, Missouri: BEACON H. PRESS, 1965), Vol. VII, p. 277.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

56

Embora (Pedro) já estivesse cheio do Espírito desde o dia do Pentecoste é novamente cheio do Espírito Santo neste caso para o mui importante propósito de dar testemunho de Jesus. Nada de línguas, nada de louvor, nada de irrepetíveis experiências, senão de intrépida pregação. 1

Aqui (At. 4:8) há um outro encher. O homem (Pedro) que já tinha sido batizado e cheio no dia do Pentecoste é cheio novamente, cheio para um

propósito especial certa tarefa. 2

em termos de capacidade e poder para realizar uma

3. Atos 4:31. A Igreja. "Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo, e, com intrepidez, anunciavam a palavra de Deus" (At. 4:31). Este é o terceiro exemplo. Aqui vemos toda a igreja cheia do Espírito Santo. O propósito foi novamente o poder para pregar com intrepidez a Palavra de Deus. Este é um caso semelhante repetido. Estas pessoas já tinham sido batizadas, eles já tinham sido cheios quando foram batizados, mas são cheios novamente. Isto é algo que pode ser repetido muitas vezes. 3 4. Atos 6:3. Os Sete Diáconos. O quarto exemplo tem que ver com o problema que surgiu na igreja em Jerusalém a respeito do cuidado para com as viúvas indigentes. A solução proposta pelos apóstolos e aprovada pela igreja foi selecionar "sete homens de boa reputação, cheios do

1 Michael Green, Op. Cit., p. 184.

2 D.M. Lloyd-Jones, Life in the Spirit, (Murrayfield Road, Edinburgh: Banner of Truth, 1975), p. 43.

3 Loc. Cit.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

57

Espírito e de sabedoria" (At. 6:3), que fossem encarregados desse serviço. Aqui temos uma igreja empenhada num programa de ajuda econômica a pessoas necessitadas. A administração de tal programa, para ser bem sucedida, exigia duas coisas: uma compreensão clara do que deveria ser feito e os recursos necessários para trabalhar. Nesse caso, os sete homens escolhidos não foram cheios para atender à necessidade, mas foram escolhidos porque já eram cheios do Espírito e de sabedoria, e a necessidade foi suprida. Este era o característico deles: eram cheios do Espírito e de sabedoria .

Certamente que os cristãos deveriam ser cheios do Espírito como o foram Jesus (Lc. 4:1), Estêvão (At. 6:5), Barnabé (11:24) e os sete (6:3). Tal deveria ser o permanente estado do cristão, mas este pode buscar enchimentos excepcionais do Espírito para também excepcionais circunstâncias, particularmente quando tem a oportunidade de testificar para Cristo. 1

5 e 6. Atos 6:5; 7:55. Estêvão. "Elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo" (At. 6:5). Estêvão foi um dos sete diáconos escolhidos, e aqui ele é destacado particularmente talvez como "um prelúdio de seu martírio". 2 Como os outros seis diáconos, Estêvão já era cheio do Espírito e por isso foi escolhido para servir como diácono. As evidências deste enchimento são logo vistas: "Estêvão, cheio de graça e

1 Michael Green, Op. Cit., pp. 185-186.

2 Ralph Earle, Op. Cit., Vol. VII, p. 325.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

58

poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo" (At. 6:8). Então, alguns homens da sinagoga dos Libertos "discutiam com Estêvão, e não podiam sobrepor-se à sabedoria e ao Espírito com que ele falava" (At.

6:9, 10). Aqui notamos o poder do seu testemunho. Finalmente ele foi levado ao Sinédrio e apedrejado. "Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no Céu e viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à Sua direita, e disse: Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem em pé

à destra de Deus" (At. 7:55, 56).

Estêvão estava cheio do Espírito Santo habitualmente, mas por causa de circunstâncias peculiares, por causa da crise em que se achou, embora

fosse cheio do Espírito, ficou "cheio do Espírito" novamente

e uma

habilidade particular lhe foi dada para enfrentar seus acusadores e para falar a Palavra de Deus com intrepidez e convicção. 1

7. Atos 9:17. Saulo. Este é o sétimo exemplo encontrado em Atos. Chegando ao fim de três dias de cegueira, Ananias se aproximou de

Saulo, por indicação do Senhor, para que não somente recobrasse a visão, mas para que a sua vazia existência fosse cheia do Espírito Santo,

o que logo ocorreu.

Lemos que Saulo recebeu a vista, foi batizado, tomou alimentos e se fortaleceu saindo depois para dar valoroso testemunho de Jesus na mesma cidade aonde havia pensado prender a todos os seguidores de Jesus que pudesse encontrar. 2

1 Life in the Spirit, Op. Cit. , p. 45.

2 Creo en el Espíritu Santo, Op. Cit., p. 185.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

59

Aqui temos o relato da conversão de Saulo, quando foi batizado nas

águas e no Espírito (Jo. 3:5; At. 2:38; I Co. 12:13; At. 9:17-18), inclusive ficando cheio do Espírito Santo. "Atos 2:4 e 9:17 referem-se ao enchimento inicial do Espírito Santo". 1 8. Atos 11:24. Barnabé. "Era homem bom, cheio de Espírito Santo e de fé". A narrativa se refere a Barnabé que tinha sido enviado pela igreja em Jerusalém para investigar algumas informações sobre a conversão de gentios e Antioquia da Síria. Diz-se que ele era "cheio do Espírito Santo", e "muita gente se uniu ao Senhor" (At. 11:24). A plenitude que possuía Barnabé habitualmente em sua virtuosa vida cristã, como "homem bom" e cheio de fé, era a razão por que foi escolhido e enviado a Antioquia (At. 11:22), onde ocorreu logo após eficiente evangelização e era também a razão deste eminente sucesso. Barnabé não ficou repentinamente cheio do Espírito para evangelizar, mas foi evangelizar porque já era cheio do Espírito Santo. 9. Atos 13:9. Paulo. Na ilha de Chipre, Paulo enfrentou um mágico, chamado Elimas, que tentava impedir o procônsul romano de se tornar cristão. Mas "Paulo, cheio do Espírito Santo, fixando nele os

o cessarás de perverter os retos

olhos, disse: Ó filho do diabo caminhos do Senhor? Pois agora

ficarás cego

por algum tempo"

1 Beacon Bible Commentary, Op. Cit., Vol. VII, p. 300.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

60

(At. 13:9-11). O texto diz que imediatamente caiu sobre ele a escuridão e andava à roda, procurando quem o guiasse. Aqui a plenitude do Espírito foi dada a Paulo repentinamente, objetivando "a autoridade para repelir a oposição satânica" 1 (como Cristo em Mt . 12:28), mas ainda relacionado ao testemunho evangélico (At. 13:10, 12).

Não há dúvida de que a miraculosa cegueira de Elimas influiu muitíssimo para persuadir ao procônsul quanto ao poder de Deus, mas o realmente assombroso é que se nos diz que o convenceu "a doutrina do Senhor". Uma vez mais a plenitude do Espírito aparece diretamente relacionada com o dar testemunho. 2

Lloyd-Jones estabeleceu a diferença entre o enchimento inicial de Paulo e o enchimento repentino que ocorre nesse relato, desse modo:

O registro de sua (de Paulo) conversão e o registro de ser ele batizado no Espírito é dado no nono capítulo do livro de Atos. Mas no décimo terceiro capítulo verificamos que Paulo está falando, e isso é o que nos é dito, no

verso 9: "Paulo, cheio do Espírito Santo, fixou nele os

Ele foi

"cheio" para que pudesse falar a este homem (Elimas), e destemidamente reprová-lo. 3

Portanto, o Saulo que foi cheio em At. 9:17 é o mesmo Paulo novamente cheio em At. 13:9. O primeiro é o enchimento inicial que deve ser também habitual, contínuo, através da vida cristã; o segundo, é

1 James D. Crane, Op. Cit., p. 119.

2 Michael Green, Op. Cit., p. 185.

3 Life in the Spirit, Op. Cit., p. 43, 44.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

61

um enchimento para uma função específica, mas principalmente, para testificar do poder e da Palavra de Deus. 10. Atos 13:52. Os Discípulos. Em Antioquia da Pisídia, os discípulos estavam sendo perseguidos, "porém transbordavam (grego:

pleroun - ficaram cheios) de alegria e do Espírito Santo" (At. 13:52).

O contexto é esclarecedor. Trata-se de circunstâncias onde predomina

o dar testemunho e a perseguição. Estão cumprindo o papel de servo quanto

a ser luz para os gentios e levar a salvação até os confins da Terra (13: 47). Estão sofrendo a sorte do Servo através da rejeição e oposição gerais. Mui apropriadamente estes discípulos dispõem daquilo com que estava dotado o Servo; ou seja: do próprio Espírito. 1

Em Paulo

Em Rm. 15:29, Paulo usa a expressão "plenitude da bênção de

Cristo". O significado dessa expressão pode ser encontrado no mesmo capítulo: "E o Deus da paz vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo" (v. 13);

possuídos de bondade, cheios de todo o conhecimento" (v. 14);

sinais e prodígios pelo poder

do Espírito Santo" (v. 19); "

Em Gál. 4:4, lemos acerca da "plenitude do tempo", quando "Deus enviou Seu Filho". A expressão "nascido de mulher" indica a plenitude

estais "

" graça que me foi outorgada" (v. 15); "

valores espirituais" (v. 27).

1 Creo en el Espíritu Santo,

Op.

Cit.,

p.

185.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

62

da humanidade de Cristo (Rm. 8:3, Hb. 2:14), enquanto que as palavras:

"Seu Filho", implicam a plenitude da Sua Divindade (Jo. 5:18; 10:37, 38; 14:11). Deus enviar o Seu Filho significa enviar a Sua plenitude divina (Hb. 1:3; Cl. 2:9); Deus enviar o "Espírito de Seu Filho" (Gl. 4:6) significa enviar não só a Sua plenitude (At. 5:3, 4), como a plenitude da bênção de Cristo (Rm. 15:29). Esta é a prometida "bênção de Abraão", "em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos pela fé (não pelas obras da lei) o Espírito prometido (Gl. 3:2, 5)". Assim, Paulo sugere que sejamos cheios do Espírito pela fé, ao dizer que devemos ser "guiados pelo Espírito" (Gl. 5:18) e "andemos também no Espírito" (Gl. 5:25), pois isso é o que significa ser cheio do Espírito (Lc. 4:1). 1

Os meios apostólicos da plenitude, contudo, não são diferentes dos meios apostólicos da iniciação: a simples mensagem de fé (Gl. 3:2, 5). 2

Paulo fala novamente em Ef. 1: 10 sobre a "plenitude dos tempos", quando Deus fez convergir em Cristo a plenitude das "coisas, tanto as do Céu como as da Terra". A seguir, em 1:23, fala da plenitude da igreja, "a qual é o Seu corpo, a plenitude dAquele que a tudo enche em todas as coisas", o que nos leva a Jr. 23:24: "Porventura não encho Eu os Céus e a Terra? diz o Senhor". Em 3:19, podemos ser "tomados de toda a

1 Comparar a definição de James D. Crane, Op. Cit., pp. 115-116, com a de LeRoy E. Froom, La Venida del Consolador, (Mountain View, California, Pacific Press, 1975), p. 148.

2 A Theology of the Holy Spirit, Op. Cit., p. 240.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

63

plenitude de Deus" ao conhecer o amor de Cristo que é segundo o amor de Deus (Jo. 3:16) e segundo o "amor do Espírito" (Rm. 15:30 e Cl. 1:8). Em 4:10, Cristo desceu à Terra e subiu ao Céu "para encher todas as coisas" e enviou dons à Igreja para a sua edificação até que todos cheguemos à "estatura da plenitude de Cristo" (v. 13). Mas é em Ef. 5:18 que Paulo fala claramente da plenitude do Espírito Santo: "E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução - mas enchei-vos do Espírito". O verbo "pleroun" (encher) se usa somente 2 vezes com referência ao Espírito Santo de modo indireto (Rm. 15:13 e Cl. 1:8 e 9) e outras 2 vezes de um modo direto descritivo (At. 13:52) ou admoestativo (Ef. 5:18). 1 Os pentecostais citam Ef. 5:18 para ensinar a necessidade de obter a plenitude do Espírito que os cristãos não possuem no batismo das águas e ser cheios definitivamente. A isto, Bruner responde desse modo:

"Enchei-vos (plërousthe) do Espírito". Precisamos apenas indicar que este verbo designa não a recepção uma vez por todas do Espírito Santo (neste caso o aoristo imperativo teria sido usado), mas a presente e contínua responsabilidade e privilégio dos cristãos de estar sendo cheios do Espírito. 2

1 No original grego, Ef. 5:18 tem o verbo no aoristo, imperativo, voz passiva, presente contínuo, plural. Ver W. H. Endruveit, Movimento Carismático, (São Paulo, Gráfica do Instituto Adventista de Ensino, 1977), p. 36; J. Stott, Batismo e Plenitude do Espírito Santo, (S.Paulo, Edições Vida Nova, 1988) p. 44-45. 2 A Theology of the Holy Spirit, Op. Cit., p. 171.

Espírito Santo – Dom, Batismo e Plenitude no NT

64

A mais clara ilustração da diferença entre o dom da iniciação fundamental do Espírito e o contínuo dom do Espírito para a vida cristã, pode ser observado comparando-se Gl. 3:2 e seu aoristo com Gl. 3:5 e seu particípio presente. 1

O Dr. Endruveit, num estudo comparativo de Atos e Efésios chega à conclusão de que há três diferentes maneiras em que "estar cheios do Espírito" ocorre.

1) Primeiro, algumas vezes estar cheio do Espírito refere-se a uma experiência momentânea que qualifica alguém a uma tarefa que ele deve desempenhar 2) Em segundo lugar a expressão "cheio do Espírito" é empregada para

descrever certos tipos de pessoas. Neste caso um adjetivo é usado ao invés do verbo

Em Ef. 5:18 o verbo está no

presente significando que nós devemos continuamente ser cheios do

Espírito. 2

3) Em terceiro lugar

ação

Temos portanto, na passagem em pauta um "presente continuo". 3 Assim, a correta tradução seria: "E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas continuai sendo cheios do Espírito" - estai perpetuamente sendo cheios do Espírito, deixai isso continuar, permiti ser esta a vossa constante condição. Ser cheio do Espírito é ser controlado por Sua influência. 4 Um homem ao ser cheio de vinho, é inteiramente controlado por seu poder

1 Idem, pp. 171-172, rodapé. V. também pp. 236-239.

2 Movimento Carismático, Op.