Sei sulla pagina 1di 14

A (IN)EFICÁCIA DO SISTEMA PRISIONAL - DA DESCULTURALIZAÇÃO A DESSOCIALIZAÇÃO DO INDIVÍDUO.

Resumo:

Rubens Correia Junior1

O presente trabalho tem como objetivo principal a análise do sistema prisional,

edificando um paradigma para a discussão do encarceramento como fator dessocializador. Tal

análise deve ser construída identificando o sistema prisional como parte da engrenagem de

controle, estigmatização e verticalização social promovida pelo Estado. Secundariamente o

artigo terá como objeto análise da resposta penal, fugindo do seu entendimento clássico

(percebida como mera reação estatal contra atitudes tipificadas nos códigos legais)

considerando o viés segregador da pena, com objetivos de reafirmação do poder e a

perpetuação e consolidação da estratificação social em sua mais aguda verticalidade. Por fim

o trabalho almeja contrapor a quimérica e ineficaz função de ressocialização da pena ao

verdadeiro sentido do sistema prisional discriminalizante, desaculturante e seletivo.

DESCRITORES: Sistema Penal, Prisão, ressocialização, dessocialização.

ABSTRACT

This study has as main objective to analyze the prison system, building a paradigm for

discussion of incarceration as that difficults resocialization. Such an analysis should be

constructed identifying the prison system as part of the control gear, stigmatization social

promoted by the state. Secondly the article will analyze the criminal response object, fleeing

from his classic understanding (perceived as mere reaction state, against attitudes typified in

1 Parecista, advogado e palestrante nas áreas de Direito Público com ênfase em Direito Penal e Criminologia. Professor de “História do pensamento criminológico” em nível de especialização na PUC/MINAS. Professor de Direito Penal, Processo Penal e Criminologia na UNIPAC/MG. Professor de Direito Penal e Direito Público em nível de especialização na UNIT/SE. Pesquisador do grupo Estudos e Pesquisas em Enfermagem, Saúde Global, Direito e Desenvolvimento da USP/RP. É Especialista em Direito Penal e Processual Penal pela Universidade de Franca, pós-graduado em Criminologia pela PUC/BH e doutorando em Direito Penal pela UBA. Lattes: http://lattes.cnpq.br/884630255910732. Site:

legal codes) considering the bias segregating our prisons, with objectives for reaffirmation of power and the perpetuation and consolidation of social stratification in its most acute verticality. Finally the work aims to counteract the chimeric and ineffective role resocialization, pen fuction the true meaning of selective prison system.

KEYWORDS: Penal System Prison rehabilitation, de-socialization.

1. INTRODUÇÃO

O trabalho hora apresentado tem como objeto analisar o sistema prisional, como

paradigma para a discussão do encarceramento como fator dessocializador e sua inserção na engrenagem de controle, estigmatização e verticalização social promovida pelo Estado. A falência do Direito Penal, já preconizada na obra de Baratta (1999), atenta não só a classe jurídica como a população em geral, para a necessidade de mudanças nos sistemas e preceitos penais e de justiça. E o caráter mais nítido da falência da segurança pública é o sistema prisional, uma vez que é ele o arcabouço induvidoso das políticas públicas sustentadas pela classe dominante, onde impera para Loic Wacquant (2007), a política de punir os pobres.

A história da humanidade segundo Foucault (2004) está repleta de tentativas de

reprimir a criminalidade e legalizar os suplícios, as prisões e qualquer outro sistema de

repressão contra àqueles cidadãos que supostamente tenham se situado à margem do Contrato Social Rousseaniano. Nosso país hoje transita entre um sistema de punibilidade excessiva (Direito Penal Máximo), caracterizado por leis mais duras como a lei de Crimes Hediondos e um sistema de abrandamento do sistema penal (Sistema Penal mínimo) marcado por penas alternativas teóricas e não aplicadas. Tais penas alternativas não parecem representar rupturas com o modelo retrógrado penal, mas apenas aditivos, aumentando e legitimando ainda mais o controle formal do Estado.

O Brasil, no campo criminológico, sofre as influências dos movimentos de “lei e

ordem” ou de “tolerância zero” que se edificam no ideário do homem médio e se levantam

como estandarte de toda e qualquer política pública que almeje coibir o aumento da criminalidade. Como bem salienta Thompson (2002), tais movimentos e políticas são bem conhecidos em nosso país, nos acompanham há décadas e até o presente momento não

ofereceram soluções reais para o problema e também nunca representaram a diminuição efetiva da criminalidade em qualquer dos seus aspectos. Passeti (2004) ainda assevera que a sustentação destas políticas de punibilidade máxima tem seus pilares solidificados em nossa cultura pelo patrocínio das classes dominantes. Entre esses pilares, cita o desejo de punição dos “criminosos” pela prática do delito ainda que o ato seja destituído de periculosidade; o pretenso combate a impunidade pela intimidação, que na verdade só acontece contra a classe desfavorecida e dominada; o discurso falacioso da neutralização do indivíduo; e por fim o engodo pós-moderno da ressocialização. Com vistas aos fundamentos vislumbrados frente à aplicabilidade e eficácia do sistema prisional e a eventual dessocialização do indivíduo, faz-se imperioso considerar e edificar alguns questionamentos acerca da questão exposta no presente estudo. Portanto, visamos aqui edificar argumentos que respondam a inquietante indagação: se

o sistema prisional brasileiro, que tem por base a pena privativa de liberdade e o Direito Penal máximo, corresponde e cumpre a função de ressocializar e reinserir o preso na sociedade não só como consumidor e produtor, mas também e principalmente como cidadão.

2. A RESPOSTA PENAL

Nos últimos séculos a reação governamental/estatal, usada na repressão de atitudes consideradas fora dos padrões e desaconselhadas para o bom andamento da sociedade, tal qual a classe dominante supõe, tem como plataforma o Direito Penal. O Estado recorre à pena

para reafirmar ou mesmo edificar o seu poder, suas proibições, deixar claro aos cidadãos qual

é a sua tolerância e permissividade e satisfazer a sua pretensão punitiva. O comportamento “etiquetado” (nas palavras do Labelling Approach) 2 como desviante recebe então, uma resposta penal efetiva com vistas a inibir os comportamentos análogos. Fazendo uma alusão à biologia, o crime em sua perspectiva ideológica pode ser considerado uma doença (que não mata), mas fortalece o sistema imunológico do Estado violento, controlador e verticalizador.

2.1 A função da pena.

2 Labelling Approach é um movimento criminológico edificado nos anos 60, que pregava a quebra do paradigma etiológico-determinista e transferiu o objeto de pesquisa das causas da criminalidade e criminoso para questionar o controle social e suas consequências. Analisava o crime e seu respectivo etiquetamento em uma perspectiva dinâmica.

A pena sempre existiu das mais diversas formas na história da humanidade, no entanto

é

flagrante que a preocupação e as críticas nos últimos séculos aumentaram significativamente

e

se tornaram mais sólidas. Em toda história as penas relatadas e documentadas são reconhecidas pela sua

crueldade e principalmente pela desproporcionalidade entre elas e o suposto crime cometido e

a ausência de oportunidades de defesa do réu. Relembrando a verdadeira função das penas, Salo de Carvalho (2008, pag. 59-60) cita um trecho do Directorium Inquisitorium redigido por Eymerich que assim afirma:

“é costume louvável torturar criminosos, mas reprovo esses juízes sanguinários que inventam tormentos de tal modo cruéis que os acusados morrem ou perdem alguns membros durante a tortura”.

Com Beccaria e a revolução francesa e industrial, a classe burguesa, agora no poder, ansiava por um Direito Penal maquiado e travestido, que garantisse as suas conquistas e

posses, respondesse aos anseios da população e que fosse de uma crueldade menos clara e evidente.

A professora Vera Regina Pereira de Andrade (PEREIRA DE ANDRADE, 1998, p.

157) afirma:

O fundamento do direito de punir (da Justiça Penal) reside no que Ferri denominou,

no campo teórico, responsabilidade social (para com a sociedade) e, no campo prático, quando materializada em Lei, responsabilidade legal.

[

]

O

que Ferri designa, porém, por repressão, é o que contemporaneamente se designa

por prevenção especial (positiva) baseada na ideologia do tratamento e na ressocialização ou readaptação social do criminoso através da execução da pena.

Não obstante as diferentes nomenclaturas, a ressocialização ou readaptação social passou, a partir do século XIX, fazer parte da pauta do Direito Penal e do Sistema Prisional.

A Ideologia da Defesa Social ganha força e se traduz na explicação de Vera Regina

Pereira de Andrade, citada por Genilma Pereira de Moura (PEREIRA DE MOURA, 2005.

p.01) como sendo:

O conjunto das representações sobre o crime, a pena e o direito penal construídas

pelo saber oficial e, em especial, sobre as funções socialmente úteis atribuídas ao Direito Penal (proteger bens jurídicos lesados garantindo também uma penalidade igualitariamente aplicada pelos seus infratores) e à pena (controlar a criminalidade

em defesa da sociedade, mediante a prevenção geral (intimidação) e especial ressocialização).

Essa Ideologia da Defesa Social, tão combatida por Baratta (1999), se enraíza a partir deste momento histórico (Século XIX), onde os princípios da Prevenção e do Fim fundamentam o Direito Penal, alicerçadas que são na polifuncionalidade da pena sendo, nas palavras do autor Italiano, um “Direito Penal do Tratamento”. Por fim seguindo a esteira do pensamento de Augusto Thompson (2002) pode-se

afirmar que as funções oficiaisda pena de prisão são a retribuição do mal, a prevenção da prática de novas infrações e por fim a ideológica função de regenerar o preso e torná-lo um não-criminoso. No entanto os binômios punir/reformar e disciplinar/socializar são problematizações que os defensores da pena de prisão até hoje não conseguiram equacionar, deixando como única alternativa de conclusão de que a quimera da ressocialização é apenas um recurso para acalentar e confortar a consciência da classe burguesa dominante. Assim arremata Augusto

Thompson (2002, p. 16) [

pela consideração de

que aqueles indivíduos estão na cadeia para seu próprio bem a fim de serem melhorados e salvos”. O psicanalista Theodor Reik chamaria isto, mais precisamente, de Bode expiatório.

] o inconsciente coletivo [

]

alivia-se [

]

3. A (IN)EFICÁCIA DO SISTEMA PRISIONAL

3.1 A eficácia do sistema prisional

No Brasil, como em toda latino América, verifica-se que o sistema carcerário cumpre funções meramente fictícias. Onde a engrenagem penal é colocada a serviço de um sistema político-ideológico de exclusão e segregação. Ainda que o princípio da ressocialização seja muito ostentado entre os defensores da punibilidade máxima, e a ideologia da regeneração seja repetida de modo acéfalo entre os doutos e senhores, resta claro que na verdade tais quimeras não se verificam na prática. Seguindo a esteira de Baratta (1999) afirmamos que o sistema prisional hodierno ainda não se livrou das amarras que o prendem a Ideologia da Defesa Social que apesar de ter surgido com a revolução burguesa, ainda permeia o ideário de todo o sistema penal como também o do homem comum.

Tal ideologia que hoje fundamenta a pena se baseia, resumidamente, na legitimação do Estado para reprimir a criminalidade, no crime como representante do mal e a sociedade o paladino do bem, o delito como atitude reprovável e a pena como um contramotivador desse comportamento desvirtuoso. Cirino dos Santos (2008) lembra que Pasukanis já definia a ideologia de proteção da sociedade como uma alegoria jurídica. Nesta senda os objetivos reais do aparato carcerário seria a proteção dos privilégios fundados na sociedade privada, combinados com a garantia do domínio de classe garantida pela repressão com roupagem ressocializadora. Podemos aferir, portanto que o sistema penal é totalmente eficaz no tocante a sua ideologia e objetivos reais, identificados por Baratta (1999) como garantidores da estratificação social e democratizantes da pobreza. Ademais urge salientar que a sistemática e a ideologia de controle e prisionização funciona de maneira bem simples: as prisões e instituições carcerárias, não devem e não podem ser melhores que a vida do mais miserável dos homens livres. Portanto é quimérico acharmos que as melhoras no sistema penitenciário são possíveis.

3.2 A ineficácia do sistema prisional e suas razões

Cientes dos objetivos reais e escusos do sistema prisional e os objetivos ultrapassados da Ideologia da Defesa Social, resta agora analisarmos os pretensos objetivos abstratos e ideológicos da pena e por quais motivos eles não se concretizam e não se efetivam, ou seja a razão da ineficácia dos princípios de ressocialização e regeneração do consumidor do sistema prisional.

Partindo do princípio da ressocialização, obtemperado pela nossa atual realidade, podemos afirmar que a finalidade ideológica da prisão parece ter sido esquecida. Ressocializar ou mesmo socializar a pessoa do condenado, nas situações atuais, é trabalho impraticável.

As razões para a ineficácia do sistema prisional pelo prisma da regeneração do condenado são multifatoriais e multifacetadas uma vez que o sistema prisional apresenta uma série de incongruências e contradições.

Faz-se impossível descrever todas as inconsistências do sistema carcerário, no entanto tentaremos aqui apontar algumas das mais visíveis causas para a derrocada do sistema prisional ressocializador.

Como principais razões, podemos mencionar a violência, crueldade e descaso dos quais os presos são submetidos diariamente, ou os desmandos, torturas e espancamentos freqüentes na rotina dos estabelecimentos penais em nosso país.

Ao preso não é permitida a livre opinião, sendo relegado ao encarcerado apenas o dever de seguir as leis oficiais pré-estabelecidas e principalmente seguir as leis internas e consuetudinárias da instituição. Deve-se lembrar que tais regramentos são bem diferentes dos regramentos sociais que tal sujeito encontrará quando, enfim, regressar à sociedade; Ou seja, o egresso é inserido em um cenário hostil, estranho e agressivo. Uma sociedade da qual não tem conhecimento.

Tudo isso sem contar a insalubridade e as péssimas condições das instalações penitenciárias; somados a falta de preparo técnico das pessoas, coordenadores, diretores utilizados no corpo administrativo. Que contribuem para um ambiente promíscuo dentro dos estabelecimentos prisionais, onde impera a corrupção, aliada ao tráfico e tráfego de drogas.

Estas razões ora apontadas podem ser consideradas como razões materiais da ineficácia do sistema prisional, ou seja, razões práticas e técnicas que impossibilitam na origem que a pena, ao menos em seu sentido ideológico, prospere.

3.3 Da Desculturalização a Prisonização

As razões para a impotência do sistema carcerário frente ao ideário de ressocialização não se resumem às razões materiais e práticas. Augusto Thompson (2002) deixa claro que mesmo a prisão salubre e legalmente constituída não pode recuperar os criminosos, não obstante também não pode ser recuperada para tal função. Seguindo os prolegômenos de Thompson (2002) e Baratta (1999) podemos aferir que a prisão está fadada ao insucesso da ressocialização, isso por que o indivíduo ao entrar em uma cela passa por um processo de desculturalizaçãoque nada mais é que o processo de perda ou destruição total do patrimônio cultural até então adquirido. Como se não bastasse perder ou ser destituído de toda a cultura externa, o encarcerado sofre na prisão um processo

reverso de aculturaçãoque é a aquisição de uma nova cultura, geralmente uma cultura criminosa e desviante, já estigmatizada. Esse verdadeiro processo de assimilação ou de perda de identidade pode ser mais bem vislumbrado seguindo as palavras de Thompson (2002, pág. 23) citando Donald Clemmer que cunhou o vernáculo “prisonização” definindo-a assim:

Assimilação é o processo lento, gradual, mais ou menos inconsciente, pelo qual a pessoa adquire o bastante da cultura da uma unidade social, na qual foi colocado, a ponto de se tornar característico dela. [ ] O termo prisonização indica a adoção, em maior ou menor grau, do modo de pensar, dos costumes, dos hábitos da cultura geral da penitenciária.

Logo a frase popularmente difundida que a prisão é uma escola, não está destituída de sentido, pelo contrário, traduz embora de forma reduzida, o fenômeno que acontece com o encarcerado.

Contribui Thompson (2002, pág. 95): “adaptar-se à cadeia, destarte, significa, em regra, adquirir as qualificações e atitudes do criminoso habitual”

Como exigir uma ressocialização de um indivíduo que mergulha em um sistema que nem de perto lembra a sociedade tal qual conheceu. Em um sistema onde todos são

praticamente iguais (homens, pobres, analfabetos, solteiros) qual sociedade é feita de tamanha homogeneidade? Qual sociedade tem sua alteridade anulada por completo?

A falácia da ressocialização está nesta análise desconstruída, pois a sociedade prisional

é totalmente atípica e assim não podemos falar em ressocializar um indivíduo que não participa de maneira direta na sociedade e como se não bastasse ainda passa por um processo de perda da identidade.

3.4 A seletividade do sistema prisional

A ineficácia fica latente ao verificarmos que tal engrenagem carcerária, tem uma clientela específica que expõe, de maneira irrefutável, a ideologia da prisonização que se traveste em seletividade para o regozijo da classe dominante.

A ressocialização, não se inscreve no índice de prioridade das políticas públicas de

nosso país. O perfil do “cliente” do nosso sistema carcerário pode ser definido como homem, solteiro, de 18 a 29 anos, com ensino fundamental incompleto, autor de furto ou roubo, condenado a menos de oito anos.

Fica claro já neste aspecto que na prisão estão os desfavorecidos sociais. Negar a seletividade neste quesito ou concluir de maneira diferente é afirmar relembrando Lombroso 3 que analfabetos, negros e pobres são mais propensos ao crime ou que os “bem” instruídos, brancos e ricos são exemplos de bons cidadãos e não quebram as normas sociais. E é esta última classe (a dominante) que dita às regras do jogo social, edita as normas penais e subsidia o encarceramento. Outro não é o significante dos crimes contra o patrimônio, que um termômetro da situação social vivida pelo país. Furto e roubo muitas das vezes são indicativos de uma população com uma distribuição de renda desproporcional. Esse ideário leva a impunidade dos crimes de colarinho branco, preconizados por Sutherland 4 , e a prisão de autores de crimes de pequeno ou nenhum potencial ofensivo. Queda-se impossível, depois de conhecidos estes dados e características, pensar o sistema prisional como um sistema de punição igualitário e democrático. Totalmente desestabilizada ficam também as teorias de defesa social como também o badalado Direito Penal do Inimigo 5 . Dentro de um sistema totalmente seletivo, abusivo, concretizador da verticalização social e totalmente respaldado por um poder dominante, a pergunta que se faz é: qual seria a verdadeira definição de inimigo? A resposta não seria outra senão que o inimigo é o desfavorecido economicamente, o proletariado não possuidor de propriedades.

3.5 Dessocialização - A Consequência do Sistema Prisional

Esclarecedor é a opinião de Carvalho (2008. p. 109):

No campo das punibilidades, os distintos sistemas penais da Modernidade fomentaram a objetificação dos sujeitos criminalizados, seqüestrando sua capacidade discursiva e submetendo-os aos laboratórios policialescos e criminológicos.

3 Cesare Lombroso (1935 - 1909) médico italiano, considerado o pai do positivismo italiano que criou a teoria do determinismo atávico no comportamento criminoso.

4 Edwin Sutherland (1883-1950) proeminente criminólogo e sociólogo americano responsável por várias teorias criminológicas entre elas a teoria da Associação Diferencial, e a teoria dos crimes de colarinho branco.

5 Tal teoria do alemão Gunther Jackobs parte do princípio que o criminoso não pode ser considerado cidadão, ou seja passa a ser inimigo do Estado, com isso visa a supressão de garantias processuais destinadas a esses criminosos.

Depois de uma pequena incursão na sistemática prisional brasileiro, podemos perceber com clareza que a ressocialização é uma quimera, sustentada pelo poder dominante via poder público, com o objetivo de justificar o apenamento e a segregação. A ressocialização preconizada pelas teorias da Defesa social esbarra invariavelmente na seletividade demonstrada nas práticas do sistema punitivo. O perfil do preso brasileiro, já abordado anteriormente deixa essa seletividade muito clara. Sendo a ressocialização um chiste do poder público, a dessocialização aparece assim entendida como consequência do ingresso do preso no sistema prisional aculturando-se, assimilando-se e prisionando-se e seu consequente regresso a sociedade não socializado, mas sim estigmatizado. A dessocialização não é fruto apenas do desvirtuamento da ressocialização, mas sim também da inaplicabilidade de todo o trinômio da pena, senão vejamos: Primeiramente temos a neutralização, que não se efetiva, devido à corrupção do sistema carcerário, que permite a troca de informações, a entrada e saída de mercadorias no estabelecimento prisional, o comércio ilegal de drogas e por vezes até armas, as regalias destinadas aos delinqüentes que podem pagar e o livre uso de celulares. Não é segredo para nenhum cidadão que grande parte dos roubos a banco, dos seqüestros e de homicídios são comandados de dentro das penitenciárias e que os supostos chefes do crime organizado continuam com poder e gozam de regalias até mesmo atrás das grades. Muitas das vezes o criminoso ao invés de ser neutralizado, como preconiza da teoria da Defesa social, tem pelo contrário, seu poder potencializado. Já a intimidação resta desacreditada pelos autos níveis de criminalidade e por sua curva em contínuo crescimento. Sempre quando o país passa por um recrudescimento nas penas a criminalidade sofre substancial aumento. Ademais a reincidência, sempre constante, põe por terra qualquer pretensão de intimidação que a pena subjetivamente poderia causar. Esse sistema imprime sua violência para classes totalmente identificadas no seio social, são os pobres, os negros e os analfabetos. Os últimos da cadeia social. Impossível se falar em ressocialização de indivíduos, pois o sistema penal escolhe exatamente aqueles que, de uma forma ampla, não foram verdadeiramente socializados, que verdadeiramente não participaram do pacto social preconizado por Jean-Jacques Rousseau

(2004).

Assim sendo a dessocialização pode ser vista como uma não-socialização, uma socialização às avessas, um etiquetamento, pois o direito penal seleciona diretamente seus clientes e afasta-os do convívio social sob os auspícios do bom andamento da sociedade.

O caráter dessocializador da pena se edifica a todo o momento, e a cada nova lei penal

e a cada recrudescimento do aparato punitivo ele se torna ainda mais claro e robusto. O

aumento progressivo da pobreza, e a multiplicação das disparidades econômicas e socias vem sempre acompanhadas do aumento do número de prisões e penitenciárias e isto não é coincidência.

4. CONCLUSÃO

O Brasil padece hoje, no campo criminológico, dos mesmos males que o resto da

América latina. Ou seja, a insipiente política criminal é voltada apenas para a segurança pública em uma visão policiesca de todo o sistema de justiça penal. Tal visão reducionista do

problema, blindada contra os pensamentos críticos ao sistema criminal, levou o Brasil à situação caótica na segurança pública.

O aparato judicial e o sistema midiático, tal qual conhecemos hoje, tentam encobrir a

característica do sistema prisional de retro-alimentar a violência e causar apenas uma falsa e

passageira sensação de segurança e sustentabilidade de uma pretensa ordem que garanta as benesses das classes abastadas em detrimento das bases da pirâmide social. Seguindo nesta esteira, o Sistema Penal Brasileiro exalta a punição como meio de

combate a criminalidade e perpetua a pena privativa de liberdade como meio mais “eficaz” para essa punição, sob os auspícios da ressocialização que nada mais é que uma quimera das classes dominantes. As análises apresentadas neste trabalho põem em cheque a ideologia da Defesa Social

e sua forma de exteriorização que é o sistema prisional, o arcabouço de todas as teorias justificadoras da estratificação social.

A falácia da readaptação social do condenado fica latente ao verificarmos quais os

clientes da engrenagem penal, quais os alvos da máquina prisional. As histórias da pena e da

prisão deixam claro que os efeitos do encarceramento passam ao largo da fábula da ressocialização. Fica latente pelo aumento da massa carcerária, pelas rebeliões cada vez mais freqüentes, pelas conclusões de maus tratos (presentes, por exemplo, na CPI do Sistema Carcerário realizada no Brasil, nesta primeira década do século XXI), aliadas ao crescente aumento da criminalidade, que os movimentos de Lei e ordem e Tolerância Zero,

apadrinhados pela classe dominante, em nada contribuíram para a diminuição da violência e das desigualdes sociais. A ideologia da Defesa Social associada a esse achatamento dos direitos Humanos levou ao recrudescimento da violência e a solidificação de uma sociedade passiva frente a um estado centralizador, violento e ineficaz. E devido a isso vemos a violência se amalgamar ao eixo da sociedade de maneira indissociável. Onde o Estado falha ao dar suporte aos menos favorecidos, dar condições aos pobres e ao socializar os excluídos, o Direito Penal travestido no sistema prisional aparece para higienizar. A pena de prisão hoje não alcança nenhum de seus objetivos, não consegue neutralizar e ressocializar os menos abastados e estigmatizados como quer a classe dominante e, tampouco traz a diminuição da violência e qualquer tipo de pacificação social. A crise instalada é latente e soluções, embora dispersas, existem apesar de não configurarem soluções imediatas podem sim representar degraus rumo a uma sociedade onde a pena não seja confundida com punição pura e simples ou castigo. Pois no cárcere o indivíduo rompe com a maioria dos seus laços no mundo de fora, rompe com a família e com amigos e na prisão tem de se adaptar a uma nova realidade que em muito difere da realidade livre. O considerado bom preso ou preso com bom comportamento não demonstra que pode viver em sociedade, pelo contrário, ele demonstra que se adaptou a um meio totalmente distinto da sociedade livre. Podemos concluir, portanto que o sistema prisional brasileiro, que tem por base a pena privativa de liberdade e o Direito Penal máximo, não cumpre a função de ressocializar e não reinseri o preso na sociedade nem como consumidor nem como produtor e muito menos como cidadão. O que ocorre na verdade é um efeito contrário, a dessocialização do indivíduo que se torna não apto (ou mais inapto) a vida na sociedade padronizada no modelo ocidental. Portanto, não se ressocializa, pois seletivamente o Direito Penal já escolhe os indivíduos alijados da sociedade. Ideologicamente o Direito Penal continua fiel a sua teoria de defesa social, de segregação de classes e de estigmatização de sujeitos. Em uma sociedade desigual e mutável, o direito penal continua impassível, sem se flexibilizar, tornando-se a cada dia mais centralizador e nefasto.

REFERÊNCIAS

AMORIM, Carlos. CV, PCC: A Irmandade do crime. São Paulo: Record, 2003.492p.

ARANTES, Ester. Do governo dos livres e dos cativos. Considerações sobre a história das prisões no Brasil. 2005. Disponível em: <http://www.pol.org.br/pol/cms /pol /debates/direitos_humanos/direitos_humanos_051118_0148.html> Acesso em: 10 nov. 2008.

BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal. Tradução de Juarez Cirino dos Santos. 3. ed. Rio de Janeiro: Revan, 1999. 254p.

BECCARIA, Cesare de. Dos Delitos e das Penas. Tradução de Torrieri Guimarães. 11. ed. São Paulo: Hemus, 1995. 126p.

BRASIL. Código Criminal de 1830. Disponível em: <http://www.multirio.rj.gov.br /historia/modulo02/codigo_1830.html>. Acesso em: 20 de junho de 2008.

BRASIL. Lei 7.210, de 11 de julho de 1984. Institui a Lei de execução penal. Diário Oficial da União, Brasília, 13 jul. 1984.

CARVALHO, Salo. Anti-Manual de Criminologia. Rio de Janeiro: Lumen Júris, 2008.

228p.

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. 30 anos de vigiar e punir. Disponível em: <www. cirino .com.br/artigos/jcs/30anos_vigiar_punir.pdf>. Acesso em 20 jun. 2008.

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. A criminologia radical. 3 ed. Curitiba: Lumen Juris, 2008.

137p.

DUTRA, Domingos. Relatório Final da CPI do Sistema Carcerário. 2008. Disponível em:

<http://www.domingosdutra.com.br/padrao.aspx?conteudo.aspx ?idcontent=650>. Acesso em: 12 ago. 2008.

FERNANDES, Reynaldo. Desempenho e gasto público em educação no Brasil. Disponível em: <www.ifb.com.br/download.php?tindex=sem_eve&id=9> Acesso em 20 jun. 2008.

FERRAJOLI, Luigi. Derecho y razón, teoria Del garantismo penal. Tradução de Perfecto Andrés Ibáñez, Alfonso Ruiz Miguel, Juan Carlos Bayón Mohino, Juan Terradillos Basoco, Rocío Cantarero Bandrés. Madrid: Trotta,1995. 989p.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Tradução de Raquel ramalhete. 29° ed. Petrópolis:

Vozes, 2004. 262p.

LEITE, Gisele. Breves considerações sobre a história do processo penal brasileiro e habeas corpus. Disponível na Internet: <http://www.mundojuridico. adv.br>. Acesso em 09 jun. 2008.

LISZT, Fran Von. A Teoria Finalista do Direito Penal. Tradução de Rolando Maria da Luz. Porto Alegre: Ricardo Lenz, 2005. 56p.

LOMBROSO, César. O Homem Delinqüente. Tradução de Maristela Bleggi Tomasini. Porto Alegre: Ed. Ricardo Lenz, 2001.556p.

MAYRINK DA COSTA, Álvaro; Raízes da Sociedade Criminógena. Rio de Janeiro:

Lumen Juris,1997. 418p.

MONTEIRO DE AGUIAR, Maria Léa. Somos Todos Criminosos. Niteroi: Eduff, 2007.

127p.

NERI, Marcelo. Retrato do presidiário paulista. Fundação Getúlio Vargas, 2006; Disponível em: < http://www.fgv.br/cps/simulador/retratosdocarcere/20060520Neri Valord1.pdf> Acesso em 24 jun: 2008.

PASSETI, Edson (Coord.). Curso livre de abolicionismo penal. Rio de janeiro: Revan,

2004. 168p.

PASUKANIS. Eugeni. A teoria geral do direito e o marxismo. Tradução de Paulo Bessa. São Paulo: Renovar, 1989. 378p.

PEREIRA DE ANDRADE, Vera Regina. Dogmática e sistema penal: em busca da Segurança jurídica prometida. 1994. Disponível na Internet: <http://www. mundo juridico.adv.br>. Acesso em 09 jun. 2008.

PEREIRA DE MOURA, Genilma. Ideologia da defesa social e a construção da ideologia da punição. 2008. Disponível em: < http://www.conpedi.org/manaus/ arquivos/anais/bh/genilma_pereira_de_moura.pdf > Acesso em 10 nov. 2008

ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social e outros escritos. Tradução de Rolando Roque da Silva. São Paulo: Cultrix, 2004. p.236.

SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia. São Paulo: RT, 2004. 384p. THOMPSON, Augusto. A questão penitenciária: de acordo com a constituição de 1988. 3. Ed. Rio de Janeiro: Forense, 2002. 148p.

THOMPSON, Augusto. Quem são os criminosos? 3°. Ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris,

1998. 178p.

ZAFFARONI, Eugênio Raul. Em busca das penas perdidas. A perda de legitimidade do sistema penal. Tradução por Vânia Romano Pedrosa e Amir Lopez da Conceição. 5°. Ed. Rio de Janeiro: Revan, 2001. 282p.

WACQUANT, Loic. Punir os pobres A nova gestão da miséria nos Estados Unidos. Tradução de Gizlene Neder. 3º Ed. Rio de Janeiro. Revan, 2007. 476p.