Sei sulla pagina 1di 18

A POLÊMICA ENTRE SARTRE E CAMUS Nilson Adauto Guimarães da Silva

A sociedade francesa assistiu, em 1952, a uma intensa polêmica entre Jean-Paul Sartre (1905-1980) e

Albert Camus (1913-1960). 1 Este já manifestara sua divergência em relação a outros contemporâneos, como André Breton (1896-1966). Sartre, por sua vez, mais afeito às batalhas verbais e ideológicas, en- trara em conflito com vários escritores; o mais violento fora até então com François Mauriac (1885- 1970). O conflito entre Sartre e Camus – difundido pela mídia, que tratou exaustivamente da questão

– marcou época, extrapolando o espaço próprio dos escritores e atingindo a sociedade como um todo. Essa controvérsia surge como mais uma entre tantas outras na história da literatura francesa. Uma polêmica opôs o humanismo devoto ao jansenismo, no início do século XVII; no fim desse mesmo sé- culo, ocorreu a famosa Querela entre os Antigos e os Modernos, retomada de certa maneira pelos ro-

mânticos, defensores da liberdade e da inspiração do artista contra as regras formais do neoclassicismo. No Século das Luzes, Rousseau (1712-1778) e Voltaire (1694-1778) travaram uma verdadeira batalha, mesmo que ambos defendessem valores comuns na luta contra tudo o que oprime o indivíduo, sendo reconhecidos dentre aqueles que prepararam a Revolução. Rousseau lançou as bases filosóficas da de- mocracia moderna e defendeu em seus escritos os ideais de igualdade e de liberdade; sua reflexão ajudou

a lançar os ideais originais da Revolução, cuja herança se acha manifesta na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Voltaire, que se revelou um autor engajado, avant la lettre, participou de uma ação pública em defesa dos direitos do indivíduo, quando do caso Calas. 2 No início do século XX, o caso Dreyfus, desencadeado pelos intelectuais revisionistas, tornou-se, na França, uma questão nacional, dividindo as opiniões dos indivíduos em todos os meios e classes so-

ciais. Quando, em 1897, Émile Zola (1840-1902), sobretudo através de seu célebre artigo “J’accuse

”,

tomou a defesa do capitão francês Alfred Dreyfus (1859-1935), os que afirmavam que este fora vítima de um erro judiciário eram ainda poucos. Zola era, naquele momento, um autor de imenso sucesso junto ao público. De extrema fecundidade, como escritor e como jornalista, era o líder do grupo na- turalista, tendo alcançado fama e riqueza e suscitado o ciúme de seus contemporâneos. Controverso

o bastante para fracassar em suas candidaturas à Academia Francesa, Zola era odiado sobretudo pelos

conservadores, considerado pela crítica burguesa um autor obsceno e tachado pela imprensa católica

de anticlerical militante. Assim, segundo Michel Winock, a audácia que o grande romancista manifes-

ta quando do caso Dreyfus se explica em parte por esta situação dúbia: rico e famoso, permanecia, ao

mesmo tempo, às portas do establishment. 3 Zola seria ainda, desde a infância, imbuído da paixão pela justiça, advinda das injustiças infligidas

à memória de seu pai e sofridas por sua mãe, quando esta, viúva, não recebeu o que lhe era de direito, parte das ações que o marido detinha numa companhia em Aix-en-Provence. Alguns viram a interven- ção de Zola no caso Dreyfus como uma oportunidade de autopromoção. De toda forma, em 1897,

245

Zola se inflamou na defesa de Dreyfus, como uma nova vítima emblemática. Seu artigo no Figaro pro- duziu grande escândalo, sua coragem suscitou múltiplas manifestações em todo o país e surtiu seus fru- tos, mas ele recebeu os golpes da crítica antissemita, foi condenado a um ano de prisão e a pagar uma multa de 1.000 francos. A batalha de Zola pela correção de um erro judiciário que fez de um inocente um bode expiatório, sua luta por verdade e justiça, foi travada num contexto de antissemitismo violento e despertou paixões

políticas. Por isso angariou muitos adversários, dentre os principais os escritores Maurice Barrès (1862- 1923) e Charles Maurras (1868-1952). Defensor de Dreyfus e da República, Zola precisou se opor aos antissemitas e aos partidários do nacionalismo, do tradicionalismo e da monarquia, tomando parte, na verdade, num embate de grupos sociais e opiniões políticas divergentes.

de Zola, e se associando a

Ferdinand Brunetière (1849-1906) na crítica à presunção dos “intelectuais”; esse termo, cunhado no auge da questão, começou a se difundir. Assim, meio século antes de Sartre e Camus, o caso Dreyfus fez surgir não apenas o termo “intelectual”, mas igualmente a figura do escritor engajado. Não foi apenas uma palavra que se criou, mas também uma missão: Barrès defendeu a “preservação nacional”; para ele, verdade e justiça eram abstrações; para Zola eram justamente estas que interessavam. O ideal da autonomia individual, do caráter sagrado da pessoa – bebido nas fontes da Declaração dos Direitos Humanos e na regra enunciada no século das Luzes, segundo a qual uma sociedade não pode fundar sua existência sobre a negação da justiça – era visto pelos nacionalistas como uma filoso-

fia individualista, contra a qual eles proclamavam o imperativo da sobrevivência da espécie e da nação,

a defesa necessária das instituições que, como o Exército e a Igreja, eram seus pilares. Diferentemente,

os defensores de Dreyfus, apesar de suas falhas, professavam a universalidade da lei moral: em todo ho- mem, é preciso respeitar o homem, o gênero humano. Os defensores do nacionalismo recusavam essa universalidade em nome do grupo, da nação, da tribo, donde a xenofobia e o antissemitismo. Percebemos, assim, que o engajamento não significa, necessariamente, empenho na defesa de valo- res humanos; ele pode supor, simplesmente, uma militância, um envolvimento com questões políticas

e sociais, e uma tendência maior para o envolvimento em questões polêmicas. Barrès e Maurras eram,

também, intelectuais. Como eles, na França do século XX, inúmeros escritores engajados, alguns mais, outros menos expressivos, emprestaram sua pena à propagação do racismo, do antissemitismo, do na- cionalismo e do fascismo; entre outros, sem reproduzir a extensa lista elaborada no momento dos com- bates da Liberação, podem ser citados Édouard Drumont (1844-1917), Paul Bourget (1852-1935), Léon Daudet (1867-1942), Henri Massis (1886-1970), Pierre Drieu La Rochelle (1893-1945), Robert Brasillach (1909-1945), Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) e Marcel Jouhandeau (1888-1979). Mesmo entre os defensores da causa comum do dreyfusismo, houve controvérsias, como a oposi- ção entre Charles Péguy (1873-1914) e Jean Jaurès (1859-1914). Por trás de um desentendimento em torno do movimento político anticlerical conhecido como Combismo (de Émile Combe, 1835-1921), que levou à separação entre Igreja e Estado, em 1905, parecem se misturar questões pessoais, rancores, invejas e frustrações, características próprias das querelas políticas e literárias. Péguy teve também um desentendimento com Daniel Halévy (1872-1962), além da oposição aos escritores antissemitas como Barrès, Maurras e Drumont. Respondendo a Halévy, Péguy evocou as diferenças de classe que existiam entre ele, oriundo de uma família que vivia em ambiente rural e cuja mãe não sabia ler, e Halévy, que pertencia a uma família da alta burguesia. Péguy rompeu ainda com Georges Sorel (1847-1922) e se afastou da esquerda, do movimento operário, do socialismo de sua juventude, sem se ligar, no entanto, ao nacionalismo dos antissemitas e dos neodefensores da monarquia. 4

Barrès se engajou no antidreyfusismo, replicando o artigo “J’accuse

246

André Gide (1869-1951), afastado de todo conformismo e dotado de uma exigência de sinceri- dade, precisou enfrentar inúmeras batalhas, sobretudo em função dos tabus sobre sua vida sexual e de

suas denúncias dos métodos políticos usados na União Soviética stalinista. Gide, em seu Voyage au Con- go (1927), denunciou o que denominou exploração desavergonhada na África equatorial, combatendo

o regime colonialista francês. Inicialmente simpatizante do comunismo, Gide o denunciou em Retour

de l’URSS (1937), afirmando que lá não existia mais comunismo, existia apenas Stalin; essa viagem, re- alizada em 1935, lhe trouxe incomparavelmente mais animosidade do que sua ida à África. Ele atraiu assim os ataques tanto de escritores católicos, como Paul Claudel (1868-1955) e François Mauriac (1885-1970), que por sua vez era alvo do ódio de Roger Martin du Gard (1881-1958), quanto dos sim- patizantes ou defensores do comunismo, como Henri Barbusse (1873-1935). É sobretudo Louis Ara- gon (1897-1982) quem encarna a condenação de Gide pelo partido comunista, numa carta de extrema perversidade enviada ao diretor de Les Lettres françaises, em 25 de novembro de 1944, intitulada “Le re- tour d’André Gide” – carta que Georges Bernanos (1888-1948) considerou a ata de uma execução mo- ral. Gide teve ainda uma controvérsia com Jean Guéhenno (1890-1978), que o tratou com zombaria num artigo escrito para a revista Europe, em 1930. Guéhenno, por sua vez, em 1921, teve uma diver- gência com Romain Rolland (1866-1944), que foi, como Gide, crítico da ditadura comunista. 5

O próprio Gide anota em seus diários, em fevereiro de 1943, uma consideração sobre as polêmi-

cas, com a qual Michel Winock, em sua obra Le Siècle des intellectuels, abre o capítulo dedicado a Al- bert Camus:

Há, e sempre haverá, na França (salvo sob a ameaça iminente de um perigo comum) divisão e partidos; ou seja, diálogo. Graças a ele, o bom equilíbrio de nossa cultura: equilíbrio na diversidade. Sempre em face de um Pascal, um Montaigne; e, em nossos dias, em face de um Claudel, um Valéry. 6

O movimento surrealista, que publicou seu Primeiro Manifesto em outubro de 1924, dirigiu ata-

ques póstumos a Anatole France (1844-1924), numa oração fúnebre venenosa, “Un cadavre”, na qual se lê: “Que haja festa no dia em que se enterra o engano, o tradicionalismo, o patriotismo, o oportunismo,

o ceticismo e a falta de sentimento!” 7 André Breton, expoente do movimento surrealista, era, por essa época, ardente defensor do marxismo-leninismo. Há também a oposição de Paul Nizan (1905-1940) a Emmanuel Mounier (1905-1950) e seu personalismo, visto como rótulo enganador de um fundo de in- dividualismo burguês. Merece ser citado ainda André Malraux (1901-1976), que atraiu os ataques princi- palmente dos opositores de Charles de Gaulle (1890-1970). Malraux encarnou em seu tempo o modelo do escritor francês engajado, tanto pelo conteúdo de sua obra quanto por suas ações militantes. Seu ro- mance Le Temps du mépris, de 1933, é diretamente dirigido contra o regime nacional-socialista de Hitler.

Convergências e divergências

Não passaremos em revista todos os escritores franceses engajados ou que se envolveram em con- trovérsia com seus pares; a lista seria longa. Esse curto elenco de opositores já é suficiente para nos fa- zer imaginar de que maneira as disputas parecem uma constante no espaço literário da França, onde o escritor goza de um estatuto privilegiado na sociedade, sendo solicitado a manifestar suas opiniões e a definir seus posicionamentos. Além de possíveis diferenças pessoais, as disputas são suscitadas por po- sicionamentos estéticos, filosóficos e políticos. Por isso mesmo, elas se intensificam no século XX, em que há uma profusão de correntes e movimentos literários, com embasamentos estéticos diversos, que frequentemente se impõem por meio da oposição a posicionamentos anteriores. Nesse século há, igual-

247

mente, uma intensa efervescência política e social, com as duas Grandes Guerras, a expansão e a deca- dência do comunismo, a libertação das ex-colônias de países europeus, os totalitarismos e toda a carga de violência e perturbação social que os conflitos trouxeram. Portanto, as querelas fazem parte da histó- ria da literatura francesa, marcada pela ação de escritores engajados em questões sociais, e se revelam o espaço privilegiado do interdiscurso, devido ao confronto de opiniões divergentes.

interdiscurso, devido ao confronto de opiniões divergentes. Sartre e Camus na casa de Picasso, 16 de

Sartre e Camus na casa de Picasso, 16 de junho de 1944. Foto de Brassaï (detalhe) © Gilberte Brassaï.

“Meu caro Camus, nossa amizade não era fácil, mas sentirei falta dela.” 8 Assim inicia Sartre o tex- to de sua resposta a Camus, selando a ruptura entre eles. A controvérsia entre os dois escritores foi de- flagrada pela publicação do ensaio de Camus L’Homme révolté, em 1951. A repercussão da polêmica, largamente divulgada pelos meios de comunicação de massa, é proporcional ao peso representativo dos dois escritores no momento. Em 1952, dentre inúmeros grandes nomes da literatura francesa do século XX, Sartre e Camus ocupavam uma posição de destaque; eles já dispunham, então, de grande renome e popularidade, obtidos, sobretudo, durante a Resistência e o imediato pós-Segunda Guerra. Eles já encarnavam, então, a figura do intelectual engajado, sendo ambos vistos como referências literárias, mas igualmente como referências de “homens públicos”. Ambos atuaram em diversos cam- pos: no da literatura, em diversos gêneros (romance, conto e dramaturgia, esta particularmente apta, na França, à popularização dos autores), no da filosofia e, ainda, de maneira marcante, no do jornalismo, em que se envolveram de forma direta, participando da direção de periódicos e ao mesmo tempo pu- blicando inúmeros artigos, críticas literárias e crônicas políticas. Até o final do século XIX, às vezes reunindo homens de letras e políticos, os salões parisienses fun- cionavam como ponto de encontro e espaço de discussões apaixonadas; é o caso daqueles de M me Au- bernon (1825-1899), de Léontine Arman de Caillavet (1844-1910), 9 de M me Strauss (1849-1926), viúva de Bizet (1838-1875), da marquesa Arconati-Visconti (1840-1923), de M me de Loynes (1837- 1908). Os salões puderam figurar ainda, durante algum tempo, como uma espécie de antecâmara da Academia, ou espaço de difusão de ideias estéticas e políticas. Em meados do século XX, as inúmeras

248

revistas, voltadas exclusivamente ou não para a literatura, já tinham assumido o espaço deixado pelos salões e contribuíam para tornar conhecidas as obras literárias, juntamente com seus autores. Logo após a liberação de Paris, duas vozes dominaram a imprensa quotidiana: a de François Mau- riac, no Figaro, e a de Camus, em Combat. Combat fora um dos órgãos mais importantes da imprensa clandestina sob a Ocupação; em novembro de 1943, quando Camus era seu diretor-chefe, o jornal ti- nha uma edição de 300.000 exemplares. 10 Já havia algum tempo, Camus conhecia bem o espaço edito- rial e mantinha contato com grandes escritores, como André Malraux e André Gide. Este último apa- drinhou a revista L’Arabe, criada em 1944, em Argel, e dirigida por Jean Amrouche (1906-1962), tendo como comitê diretor Maurice Blanchot (1907-2003), Jacques Lassaigne (1911-1983) e o próprio Ca- mus, que nessa revista publicou Le Minautore, em fevereiro de 1946. Em 1945, Sartre fundou sua revista, Les Temps Modernes. Em 1952, a revista tinha uma edição men- sal de 10.000 exemplares; no momento da polêmica, foi feita do número de agosto de 1952 uma segun- da tiragem, que logo se esgotou. Em Paris, dezenas de artigos comentaram a ruptura; por exemplo, Sa- medi Soir e France Illustration, em 6 de setembro de 1952 e 21 de setembro de 1952, respectivamente.

setembro de 1952 e 21 de setembro de 1952, respectivamente. Autores publicados por Les Temps modernes

Autores publicados por Les Temps modernes, 1947. Arquivos da Editora Gallimard.

249

Camus e Sartre eram os escritores mais populares durante o apogeu do existencialismo, figuras em- blemáticas, considerados as duas grandes vozes da vida intelectual francesa do pós-guerra, não só em função de participarem do universo do jornalismo, mas em função também de suas publicações e de suas atividades durante a Resistência. Antes do contato pessoal, os dois escritores se conheceram através de seus textos. Camus comentou Sartre, tratando de La Nausée, em 1938, e de Le Mur, em 1939. 11 Em 1942, Sartre comentou Camus, escrevendo sobre L’Étranger. 12 Camus comunicou a seu antigo professor, Jean Grenier (1898-1971), sua impressão sobre o artigo:

O artigo de Sartre é um modelo de “desmontagem”. Claro, existe em toda criação um elemento instintivo

que ele não aborda. A inteligência não tem um papel tão importante. Mas na crítica essa é a regra do jogo, e é bom que seja assim, porque muitas vezes ele me ilumina sobre o que eu queria fazer. Vejo também que a maioria de suas críticas são justas, mas por que este tom ácido? 13

De fato, já em sua “explication de l’Étranger”, Sartre, como filósofo agrégé da famosa École Norma- le Supérieure, tenta rebaixar Camus, o pretenso filósofo dotado apenas de um diplôme d’études supérieu- res da Université d’Alger. Em seu artigo Sartre escreve: “Camus mostra certa vaidade em citar textos de Jaspers, de Heidegger, de Kierkegaard, que ele parece, aliás, nem sempre compreender bem.” 14 Camus encontra pessoalmente Sartre e Simone de Beauvoir (1908-1986) em junho de 1943, duran- te a estreia da peça Les Mouches. Inicia-se então uma amizade; ambos reconhecem o que há de comum entre eles e alimentam uma estima mútua. Camus irá então solicitar a Sartre vários artigos que serão publicados em Combat, particularmente sobre os anos da Ocupação. Camus não gosta de ver seu nome atrelado ao de Sartre, mas este, viajando pelos Estados Unidos em 1945, em entrevistas, faz elogios ao amigo. Para a revista Vogue, Sartre afirma que a Resistência ensina que a literatura não é uma atividade fútil, independente da política, e que se podem distinguir duas gerações de escritores franceses, uma de antes da guerra, Maurice Blanchot, Georges Bataille (1897-1962) e Jean Anouilh (1910-1987), e outra que compreende Michel Leiris (1901-1990), Jean Cassou (1897-1986) e Albert Camus. Este seria, se- gundo Sartre, o arquétipo do escritor engajado, um modelo de sua nova teoria do engajamento. 15 Durante sua segunda viagem aos Estados Unidos, em 1946, Sartre faz em Nova York uma confe- rência em que faz alusões, em tom de elogio, a Camus. 16 Ele inicia a conferência comentando o mal- estar que a peça Antigone (1944), de Anouilh, teria suscitado entre os críticos de teatro nova-iorquinos, que detectaram na personagem uma falta de “caractère”. Sartre explica então que, entre os jovens auto- res franceses, depois de 1940, a preocupação em pintar caracteres, demonstrar os mecanismos de uma paixão ou analisar um complexo é suplantada pela vontade de colocar os personagens em situações, confrontados com limites por todos os lados. Sartre insere no comentário seus próprios pontos de vista filosóficos, como a ideia de que o homem não detém uma “natureza humana” definida de uma vez por todas, mas é um ser inteiramente inde- terminado e que deve escolher seu próprio ser, por meio das escolhas que faz em situações específicas. Sartre faz uma breve alusão a Les Bouches inutiles (1945), de Simone de Beauvoir, passa a comentar as peças de Camus e afirma:

Se acontece a um de nós apresentar um caráter no palco, é unicamente com a finalidade de se livrar logo

dele. Por exemplo, Calígula, no início da peça de Albert Camus, que traz este nome, tem um caráter. Somos levados a crer que ele é gentil e bem-educado, e sem dúvida ele é realmente assim. Mas essa doçura e essa modéstia desaparecem subitamente quando o príncipe faz a terrível descoberta da absurdidade do mundo.

A partir de então, ele vai escolher se tornar o homem que convence os outros dessa absurdidade, e a peça

conta então de que maneira ele realiza seu projeto. 17

250

Na sequência imediata, Sartre retoma sua visão da liberdade humana e continua falando do teatro na primeira pessoa do plural; assim ele se inclui entre os “jovens dramaturgos franceses” e reúne, como defensores de uma mesma concepção, seu nome ao de Simone de Beauvoir, Anouilh e Camus. Além de aproveitar a oportunidade para difundir sua filosofia, Sartre se insere entre os novos escritores e, assim, sob a aparência de uma homenagem prestada a amigos, desenvolve sua autopromoção:

O homem livre nos limites de sua própria situação, o homem que escolhe, queira ou não, para todos os

outros quando ele escolhe para si mesmo – é este o tema de nossas peças. Para substituir o teatro de caracte- res nós queremos um teatro de situações; nosso objetivo é explorar todas as situações que são mais comuns à experiência humana, aquelas que se apresentam pelo menos uma vez na maioria das vidas. 18

Após afirmar que “se nós rejeitamos o teatro de símbolos, queremos, contudo, que nosso teatro seja um teatro de mitos”, Sartre se refere a outra peça de Camus, comentando agora Le Malentendu (1944):

Os personagens do Malentendu de Albert Camus não são símbolos, são de carne e osso: uma mãe e uma filha, um filho que retorna de uma longa viagem; suas experiências trágicas bastam por si mesmas. E, contu- do, estes personagens são míticos no sentido de que o mal-entendido que os separa pode servir de encarna- ção a todos os mal-entendidos que separam o homem de si mesmo, do mundo, dos outros homens. 19

As referências de Sartre a Camus serviram certamente à difusão das obras deste último, que, entre- tanto, via com descontentamento seu nome e suas obras serem associados ou incorporados indiscrimi- nadamente ao nome e à filosofia do “papa do existencialismo”. Numa entrevista a Les Nouvelles littéraires, feita por Jeanine Delpech e publicada em 15 de novem- bro de 1945, Camus afirma:

Não, não sou existencialista. Sartre e eu sempre nos admiramos de ver nossos nomes associados. Pensamos até em publicar qualquer dia um pequeno anúncio em que os abaixo-assinados afirmarão não ter nada em comum e recusarão a responder pelas dívidas que eles possam ter contraído respectivamente. Enfim, é uma brincadeira. Sartre e eu publicamos todos os nossos livros, sem exceção, antes de nos conhecermos. Quando nos conhecemos, foi para constatar nossas diferenças. Sartre é existencialista, e o único livro de ideias que eu publiquei, O mito de Sísifo, era dirigido contra os filósofos chamados existencialistas

20

A mesma recusa em se filiar diretamente ao pensamento de Sartre se manifesta em outra entrevista, a Servir, em 20 de dezembro de 1945:

O que toca os leitores das crônicas que lhe são consagradas é encontrar frequentemente seu nome associado ao de

Jean-Paul Sartre, como se você fosse um discípulo do filósofo existencialista. Ora, O estrangeiro está bem distante dos contos sartrianos, da mesma forma que O mito de Sísifo, em que você critica

– Em que eu critico exatamente – interrompe Camus – a filosofia existencialista. Na verdade poucas pes-

soas sabem exatamente o que é o existencialismo. Assim se explicam muitas coisas. Tudo o que posso dizer,

de

minha parte, é que:

– Não sou um filósofo. Não creio o bastante na razão para crer num sistema. O que me interessa é saber

de

que maneira é preciso se conduzir. E mais exatamente de que maneira se pode conduzir quando não se

crê nem em Deus nem na razão.

2º – O existencialismo tem duas formas: uma, com Kierkegaard e Jaspers, desemboca na divindade pela crí-

tica da razão, a outra, que eu chamarei o existencialismo ateu, com Husserl, Heidegger e logo Sartre, acaba também numa divinização, mas que é simplesmente a da história, considerada o único absoluto. Não se crê

mais em Deus, mas se crê na história. [

].

21

251

Com efeito, no Mythe de Sisyphe (1942), Camus classifica a atitude existencialista como suicídio fi- losófico. Ainda, numa carta ao diretor de La Nef, em janeiro de 1946, Camus se opõe à filiação forçada de seu pensamento e de sua obra aos de Sartre:

Li o artigo que Henri Troyat dedicou a Calígula no último número de la Nef. Obrigado por ter me enviado. Fiquei sensibilizado pelas intenções de Troyat e pela nobreza de seu tom. Mas começo a ficar levemente (muito levemente) impaciente com a confusão permanente que me associa ao existencialismo. Enquanto o mal-entendido corria nos jornais, a questão não era grave demais. Mas que ela ganhe hoje as revistas prova bastante a falta de informação em que se encontra a crítica. Uma vez que Troyat escreve: “Tudo na peça de Camus não passa de uma ilustração dos princípios existencialistas de Sartre”, eu me sinto assim obrigado a esclarecer três pontos: [

22

Camus observa então que Caligula foi escrito em 1938, antes que o existencialismo sartriano esti- vesse formulado; que Le Mythe de Sisyphe continha uma crítica aos filósofos existencialistas, aplicável a Sartre; e que dizer que o mundo é absurdo não equivale a uma aceitação do existencialismo, que é uma filosofia completa, uma visão do mundo que supõe uma metafísica e uma moral. Camus reafirma ainda que não tem confiança na razão o bastante para entrar num sistema. Camus e Sartre são contemporâneos e vivem num momento marcado por guerras, revoluções e conflitos sociais. Eles propõem uma vasta transformação social e afirmam a responsabilidade do escri- tor que, colocado numa dada situação histórica, é condenado a exercer sua liberdade, tomando posição. Ateus, eles afrontam o problema de buscar as bases de uma moral quando não se crê em Deus. Próxi- mos em muitos aspectos, os dois escritores têm, contudo, particularidades essenciais e tomam posições estéticas e políticas diferentes e, às vezes, conflitantes. Filosoficamente, os dois escritores apresentam alguns pontos de partida semelhantes, mas suas vi- sões da natureza e da realidade humanas não são as mesmas; em Sartre, ela é mais negativa, em Camus, mais positiva. Basta comparar L’Étranger (1942) com La Nausée (1938) para se perceber o contraste en- tre a sensibilidade física de Meursault e o desgosto de Roquentin pela realidade corporal. Toda obra, para além de seu interesse literário ou filosófico, inscreve-se num contexto que lhe con- fere uma significação particular, especialmente as obras de autores preocupados com a sociedade da qual fazem parte. Camus e Sartre, e suas obras, são inseparáveis de seu contexto, que é explicitamente discu- tido em função do engajamento dos autores. O contato entre eles é mais forte imediatamente após a Li- beração; já a ruptura se dá sob o impacto da Guerra Fria e do agravamento do conflito entre os Estados Unidos e a União Soviética, quando eles se colocam em campos opostos. Como afirma Ronald Aron- son: “Embora Camus nunca tenha sido partidário do capitalismo, nem Sartre um comunista stricto sen- su, esses dois adversários acabaram representando forças muito mais amplas do que eles próprios.” 23 Ou seja, os dois encarnam o conflito histórico-mundial, a oposição entre o Oriente e o Ocidente. Assim, Camus e Sartre, num contato que durou poucos anos, nunca tiveram uma amizade real- mente próxima e tinham profundas diferenças de temperamento, de comportamento, de visão de mun- do, de origem social, de posicionamento político e ideológico. Desde os primeiros contatos por meio de seus textos, nunca houve uma adesão mútua e espontânea. Houve certa admiração, marcada, porém, por reticências que deixavam antever um possível conflito entre eles.

A polêmica

Simone de Beauvoir fez, em seus escritos memorialísticos, inúmeras referências a Camus, além da caricatura deste traçada em Les Mandarins (1954). Entretanto, as lembranças são escritas muito tardia- mente, às vezes décadas após a vivência das situações, e tais escritos são marcados pela parcialidade. Para

252

Simone de Beauvoir, Camus não passava de um provinciano que fora para Paris em busca de sucesso;

a imagem que ela passa do escritor é grosseira, negativa e deturpada; o retrato que ela pinta da amizade entre Sartre e Camus acaba sendo um dos mais falsos possíveis. O que se explica, em parte, pela proxi- midade que ela mantinha com os dois. Como afirma Aronson:

O que complica ainda mais a percepção que Beauvoir tinha de Camus é o fato de que ela se oferecera a ele como amante, e fora rejeitada. Isso nos lembra que Simone de Beauvoir não era simplesmente uma observa-

dora do relacionamento Sartre-Camus, mas esteve profundamente implicada nele [

].

24

Diferentemente de Sartre, Camus teve uma atuação política desde sua juventude. Através do teatro, ele já entrava na luta contra a ameaça nazista. Membro do Partido Comunista durante dois anos, de 1935 a 1937, Camus foi um militante ativo que conheceu a notoriedade, principalmente como diretor de uma trupe de teatro em Argel que apresentava peças políticas de vanguarda. Sartre levou certo tempo para sair de sua bolha e se implicar no mundo. Ele e Beauvoir permane- ceram apolíticos nos anos 1930 e alheios ao pragmatismo da ação; a “conversão” política de Sartre só ocorreu depois da guerra, da Ocupação da França pelos nazistas e da Resistência. Antes de 1946, quando Winston Churchill (1874-1965) fez um discurso sobre a “Cortina de fer- ro”, e antes mesmo da publicação de Le Yogi et le commissaire (1945), e de Le Zéro et l’infini (1945), de Arthur Koestler (1905-1983), Camus já havia rejeitado o comunismo, sem, por isso, optar pelo capita- lismo. No calor do embate de ideias, Sartre foi considerado um vencedor; só depois, com o decorrer da história, é que foi reconhecida a admirável e irrepreensível lucidez de Camus em relação à configuração real do marxismo. Entretanto, na batalha entre os dois escritores, o mais interessante não é saber quem saiu vencedor, nem mesmo se é possível identificar um vencedor; o mais instigante é o que a polêmica

revela a respeito do contexto literário, social, político e histórico, e o que ela revela a respeito do emba- te subjacente a todo discurso.

A polêmica não pode ser encarada como algo sempre negativo. Para o estudioso da literatura, ela é

extremamente interessante, pois desvela o contexto dos escritores e de suas obras e esclarece sobre os re- cursos argumentativos, que não estão presentes apenas no discurso das controvérsias. Tomar a palavra é posicionar-se e defender uma opinião, pois a linguagem nunca é inocente, nunca é um simples meio de transporte de ideias existentes em si mesmas. Mesmo no discurso pretensamente “neutro”, como aquele das ciências, ou das notícias “imparciais”, está subjacente toda a visão de mundo de quem fala ou escreve

e busca adesões: o papel persuasivo é inerente ao próprio exercício da linguagem.

A linguagem da propaganda comercial, por exemplo, explorando junto com a língua os gostos, as

opiniões e a psicologia e mobilizando todos os recursos persuasivos possíveis, facilmente nos faz crer que temos necessidades imprescindíveis. Mas a publicidade comercial em momento algum deixa explícito que tais necessidades são artificiais e criadas; ela tampouco esclarece que seus reais objetivos são pro-

pagar o consumismo e aumentar o lucro das marcas que divulga. No discurso polêmico sabemos, pelo menos, e logo de início, que se trata de posições divergentes ou antagônicas, e que, portanto, interesses pessoais, opiniões diferentes e extravasamento de emoções podem estar em jogo. Heidegger, comentando a alegoria da caverna presente na República, de Platão, 25 afirma que ser li- vre em sentido próprio não está num gozo tranquilo, mas em ser libertador. O filósofo é aquele que sai, ou é arrancado, da caverna. Ser livre é agir junto à história, participar e colaborar no debate entre ver- dade e não verdade. Essa admoestação à liberdade parece um argumento à necessidade do engajamento, para o intelectual. Porém, mais do que isso, Heidegger pode reunir em poucas linhas os termos debate, disputa, discussão e luta, e atribuir-lhes um conceito positivo, graças a sua concepção de filosofia e de

253

verdade. Ele mostra que, já em Platão, a verdade como “desencobrimento” supõe a força, a discussão e o questionamento por meio da palavra humana para que se desvele o ser. Para Heidegger, o filósofo não é aquele que põe sua época em conceitos, pois a verdade não se iden- tifica com uma definição, não é uma “correção” sintetizada numa sentença abstrata. A verdade estaria mais próxima do desvelamento do ser pela atuação do homem. Nessa perspectiva, ao abordarmos os adversários que se debatem em seus discursos, percebemos que a “razão” não está na conclusão do dis- curso, ou numa sentença isolada de um ou de outro, mas na discussão e no questionamento, no pro- cesso todo de que ambos participam, contribuindo para que se afaste o encobrimento e se retire da não verdade a verdade. Donde a contribuição do embate de ideias. Em seus encontros e debates, Camus e Sartre falam de política. Sartre pensa que é preciso escolher: cami- nhar com os comunistas ou contra eles, com a União Soviética ou com os Estados Unidos. Camus também tenta pensar a revolução, mas imagina uma Revolta que evitaria ao máximo a violência e o sangue. Simone de Beauvoir e Sartre teriam, diferentemente de Camus, pontos de vista extremamente maniqueístas. 26 Camus estava a par dos grandes embates políticos que se travavam na sociedade. Em 1951, como bom conhecedor do ambiente acadêmico, social, cultural e político de sua época, ele podia imaginar que as críticas dirigidas à revolução de tipo stalinista produziriam reações adversas: os ataques ao seu ensaio puderam ser, de certa forma, previstos por Camus. Em 1951, antes da publicação de L’Homme révolté, Camus repassa fragmentos do ensaio a algumas revistas; Les Cahiers du Sud publicam o capítulo sobre Lautréamont (1846-1870). Logo surge no se- manário Arts um artigo de André Breton, que acusa Camus de conformismo. Na sua resposta, Camus afirma que se esforçou por mostrar justamente que o niilismo é gerador de conformismo e servidão e contrário às lições da Revolta. O livro, lançado em novembro de 1951, recebe os primeiros ataques da imprensa comunista. A imprensa de direita se limita a resumir ou parafrasear as passagens dedicadas ao comunismo e a Karl Marx (1818-1883), acentuando a crítica do marxismo presente no livro e praticamente ignorando as considerações literárias, concentradas no capítulo “Révolte et art”. A esquerda intelectual não comunis- ta manifesta-se em France-Observateur, dirigido por Claude Bourdet (1909-1996), que define Camus como um intelectual de esquerda não comunista. Para Bourdet, é preciso trabalhar com os comunistas franceses, apesar de sua submissão aos soviéticos. Camus recusa essa posição. Em novembro de 1951, Sartre solicita ao comitê de redação de sua revista Les Temps Modernes um voluntário para fazer a resenha de L’Homme révolté. Em fevereiro de 1952, Sartre encontra Camus num bar e lhe informa que a crítica da revista não vai ser favorável. Francis Jeanson (1922) publica então, em maio de 1952, em Les Temps Modernes, seu violento ar- tigo sobre o ensaio: “Albert Camus ou l’âme révoltée”. 27 Jeanson julga que Camus é incapaz de passar da revolta metafísica à revolta histórica, que se configuraria na atuação do Estado comunista; ele não admite que Camus tenha questionado Hegel e Marx e não aceita suas simpatias pelo sindicalismo revo- lucionário ou social-democrata dos países escandinavos. Camus teria feito uma pseudofilosofia e uma pseudo-história das revoluções. A revista informa a Camus que publicaria uma resposta sua. Datada de 30 de junho de 1952, a ré- plica aparece no número de agosto de Les Temps modernes. 28 Camus não nomeia Jeanson e começa seu artigo com um “Monsieur, le Directeur”, por considerar que o diretor é solidário do artigo, o que irri- ta Sartre. Em sua resposta, Camus tenta mostrar que seu livro não nega a história, mas critica a atitude que busca fazer dela um absoluto. Ele lembra uma nota do livro em que afirma que Marx mistura em sua doutrina “um método crítico muito válido e um messianismo utópico muito contestável”. 29 Poucos sabem em Paris que Camus foi membro do partido comunista.

254

Les temps modernes , agosto de 1952. Arquivos da Editora Gallimard. Sartre responde, por sua

Les temps modernes, agosto de 1952. Arquivos da Editora Gallimard.

Sartre responde, por sua vez, e ataca tanto a obra quanto o autor; usa fórmulas tocantes, nomean- do seu adversário, e dá suas lições, dizendo que, para merecer o direito de influenciar os homens que lutam, é preciso primeiro participar de seus combates; embora ele próprio tivesse se preocupado pouco com as questões sociais antes da Segunda Guerra, quando Camus já se engajava. Sartre suaviza o tom e conclui o artigo dizendo esperar que o silêncio faça esquecer a polêmica. Entretanto, Jeanson escreve um novo artigo, com novos insultos e a mesma violência.

255

Carta manuscrita de Sartre em resposta ao artigo de Albert Camus. Bibliothèque nationale. Paris, foto

Carta manuscrita de Sartre em resposta ao artigo de Albert Camus. Bibliothèque nationale. Paris, foto © Bibliothèque nationale de France.

À época, Sartre se aproximava dos comunistas e tentava conciliar existencialismo e marxismo; para ele, o Partido Comunista Francês representava a classe trabalhadora. Quanto à União Soviética, apesar dos campos soviéticos, ele pensa que ela continua dando a imagem do socialismo. Sartre crê ainda no socialismo de face humana, para o futuro. Ele não adere nem ao stalinismo nem ao PCF, mas não quer romper com o partido, pois ainda acredita no empreendimento revolucionário que o PCF encarnaria a longo prazo; ele se torna então um dos mais representativos compagnons de route do partido.

256

Para Camus, os crimes do totalitarismo devem ser denunciados sem esperas nem circunstâncias atenuantes. Assim, para além dos ataques pessoais ou literários, o núcleo da polêmica é a divergência diante do comunismo. Em Les mains sales (1948), Sartre levanta o problema dos fins e dos meios, mas numa ótica deli- beradamente política. Hoederer e seus camaradas de partido são confrontados com um problema con- creto de tática e de aliança. A questão que lhes interessa não é saber se é moral “sujar as mãos”, mas de- terminar o que é politicamente eficaz naquele momento. Hoederer defende na peça não ter objeção de princípio contra o assassinato político, que seria praticado em todos os partidos. 30 Assim, o tema de Les mains sales mostra como seu autor aceita a violência nas lutas por transformação social. 31 Camus não concorda com a configuração dogmática e violenta do comunismo. Antes de L’Homme

révolté, a crítica ao totalitarismo de Estado, ao dogmatismo, ao autoritarismo e à violência já estava pre- sente em L’Étranger e, de forma especial, em La Peste. Também na peça Les Justes, ele questiona o valor da ação revolucionária contaminada pelo crime e pela desonra. Para Camus, é preciso combater o mal

e a injustiça sem recair no crime e lutar contra a violência sem agir violentamente. As noções de Revolta e de Absurdo, em Camus, remetem a um comportamento ético e a um en- gajamento sociopolítico que os pressupõem. A passagem do Absurdo à Revolta constitui a superação de uma atitude niilista com vistas à fundamentação de uma exigência ética. Na encruzilhada entre seu

pensamento filosófico e sua obra romanesca e dramática, encontra-se a estética de Camus, associada à reflexão ética que, inspirada pela Revolta, dá as diretrizes da criação artística. Os textos em que mais di- retamente podemos encontrar essa estética camusiana são o artigo “Le témoin de la liberté”, publicado em 20 de dezembro de 1948 e recolhido em Actuelles I, o capítulo “La création absurde” do Mythe de Sisyphe, e o capítulo “Révolte et art”, de L’Homme révolté. A avaliação negativa de L’Homme révolté afeta retroativamente a leitura que se faz de La Peste (1947): ao criticarem o ensaio, Jeanson e Sartre voltam ao romance. Jeanson o classifica de “metafísico”

e de “crônica transcendental”. Sartre, que já havia publicado sobre ele dois artigos favoráveis, de cola-

boradores importantes, 32 passa a considerá-lo de forma negativa, como uma “mistificação”. Em sua resposta a Jeanson, Camus observa que Les Temps modernes se recusam a ver uma evolução de L’Étranger a La Peste, no sentido da solidariedade e da participação. Com efeito, o ensaio e o roman- ce fazem parte do mesmo “ciclo da Revolta”. A passagem de L’Étranger a La Peste, como a passagem de Le Mythe de Sisyphe a L’Homme révolté, corresponde à mesma evolução: a experiência do Absurdo nas- ce do sentimento de que o homem não está em harmonia com o mundo e desemboca na expressão da Revolta, na ação coletiva; encaminha-se da subjetividade para a sociedade, do herói solitário para o he- rói solidário. Tardiamente, Jeanson e Sartre veem bem que, antes de L’Homme révolté, em La Peste já havia uma relação entre moral e política, entre teoria e prática. O personagem Tarrou não aceita a violência como meio, porque não se trata simplesmente de reverter o papel entre explorado e explorador, mas de buscar uma forma de não ser “nem vítima nem carrasco”. 33 Camus não aprova a revolução a qualquer preço, mas também não aprova a resignação, nem a pre- tensa abstenção diante dos conflitos sociais, pois não acredita que exista neutralidade política. Seu en- gajamento político é bastante precoce e, ainda na Argélia, afastado da carreira acadêmica por questões de saúde, dedicou-se ao teatro e ao jornalismo e se engajou em atividades de ordem cultural e política. Durante a polêmica com Sartre, Camus não faz alusão a sua passagem pelo partido comunista, mas retoma sua condenação das duas sociedades, a socialista e a capitalista. Camus conheceu de perto a mi- séria, a desigualdade e as injustiças que imperavam entre o povo argelino, e que ele e sua família sofre- ram, por isso afirma: “Não aprendi a liberdade com Marx. É verdade, aprendi com a miséria.” 34

257

Tanto Sartre quanto Camus consideram que é impossível manter-se ausente do embate de forças antagônicas presentes na sociedade. Esse jogo de forças característico da sociedade como um todo faz parte também da sociedade literária e se revela especialmente em textos polêmicos. Dominique Maingueneau, retomando os estudos sociológicos de Pierre Bourdieu, destaca bem o caráter social e institucional do exercício da literatura e mostra que um autor não pode produzir enun-

ciados literários sem se colocar como escritor no campo literário e sem se definir com relação às repre- sentações e aos comportamentos associados a esse estatuto. Assim, o “contexto” da obra literária não é apenas a sociedade considerada em sua globalidade, mas, antes de tudo, o “campo literário”, que obe- dece a regras específicas e se inscreve na obra, que por sua vez nele está inscrita. 35

A polêmica entre Camus e Sartre é uma situação típica do embate de forças e da busca do escritor

por ocupar seu espaço no campo literário. Por mais diferentes que sejam as posições estéticas e ideoló- gicas dos dois escritores, ambos fazem igualmente parte do campo literário, campo que não se inscreve na sociedade como simples parte ou espaço, mas como um espaço fronteiriço, distinto mas indissociá- vel da sociedade como um todo. O ambiente da polêmica e os textos produzidos no seu calor demonstram de forma explícita que

o escritor não enuncia em um terreno neutro e estável, mas em um espaço institucional, nutrindo sua obra do caráter problemático de sua participação no campo literário e na sociedade. Sem “localização”, não há instituições que permitam legitimar ou gerir a produção e o consumo das obras e, consequente- mente, não há literatura; mas sem “deslocalização” não existe verdadeira literatura. 36 Mediante o controle externo, como nos regimes totalitários e nos países dominados por ditaduras,

o escritor vigiado e conivente com o poder político pode chegar a uma produção literária, mas não a “obras” literárias; pois o próprio pertencer problemático do escritor ao grupo supõe uma participação, mas não uma completa assimilação. Camus, ao ser interrogado sobre os “valores da arte” na sociedade

comunista, afirma numa linha de reflexão muito próxima dessa:

não se pode dirigir a literatura, pode-se no máximo suprimi-la. A Rússia não a suprimiu. Ela acreditou

poder se servir de seus escritores. Mas esses escritores, mesmo de boa vontade, serão sempre heréticos por sua própria função. 37

] [

Maingueneau mostra como os discursos são objetos que aparecem ao mesmo tempo como integral- mente linguísticos e integralmente históricos. Ele denomina “paratopia” a localização paradoxal e pro- blemática, o pertencer ao campo literário que não é ausência de todo lugar, mas uma difícil negociação entre o lugar e o não lugar. 38

O caráter de escritor e intelectual paratópico de Camus é acentuado por sua origem proletária e por

sua presença na França na condição de francês argelino, sentindo-se sempre um pouco estrangeiro, nem somente argelino, nem inteiramente francês. Camus se insere de forma paratópica nos campos literário

e filosófico também porque se manteve afastado dos círculos intelectuais e dos meios acadêmicos, desde

que, por motivos de saúde, foi proibido de seguir a carreira de professor. Ele permaneceu assim à mar- gem do grupo dos filósofos de profissão; e ele próprio se exclui de certo campo, ao afirmar que não é um filósofo e que não crê na razão o bastante para crer num sistema. De fato, a filosofia, desde Kant, é universitária, e ela o é mais do que nunca na França, no momento em que Camus escreve seus ensaios, marcados pela forma literária e contrários ao puro tratado de exposição sistemática. Sartre teve uma origem social tipicamente burguesa e cresceu no ambiente de uma biblioteca.

Apesar de seu engajamento político bastante tardio, mas radical, encarnou logo a figura do intelectual simbólico tornado intocável por sua celebridade internacional; seu aspecto de intelectual escandaloso

e “maldito” parece provocado e sua marginalidade, reivindicada. Sartre passou pelos rituais universitá-

258

rios do concurso da agrégation e, como bom filósofo de formação, gostava dos sistemas. Era cartesiano

e voltado para a especulação, não desconfiando da razão nem das abstrações. Camus foi precipitadamente associado à corrente “existencialista”, mas o Existencialismo corres- ponde, em primeiro lugar, ao pensamento de Sartre. Dizendo não ser nem filósofo nem existencialista, Camus já afirma que não faz parte da tribo de Sartre. Mesmo à época em que tinham contato, Camus mantém certa distância; por ocasião da polêmica entre eles, as diferenças entre os dois autores se refor- çam e fica claro que eles não pertencem à mesma família intelectual. Conforme a leitura proposta por Maingueneau, a obra surge por meio das tensões do campo literá- rio, no seio de comunidades restritas que disputam um mesmo território institucional. Ela se constitui implicando os ritos, as normas e as relações de força próprias dessas instituições literárias. Fazem parte da enunciação os problemas levantados pela sua inscrição social. A partir do momento em que se escre- ve e se publica não se pode sair do campo literário, campo que vive da tensão entre os integrantes das tribos e os que permanecem à margem. Assim, as “tribos” se repartem no campo literário baseadas em reivindicações estéticas distintas. Todo escritor se insere numa tribo, ou mais, que elege – de escritores do passado ou contemporâneos, conhecidos pessoalmente ou não –, e o modo de vida, bem como as obras dessa tribo lhe permitem legitimar sua própria enunciação. 39 Nesse sentido, Camus expõe de forma clara que o pensamento absurdo vem de uma longa tradi- ção. De fato, a noção de Absurdo teria suas origens no século III com Tertuliano (c. 160–222), con- tinuando com Pascal (1623-1662) e chegando a Kierkegaard (1813-1855). Ante as grandes tradições filosóficas racionalista e empirista, Camus se insere na linha de filósofos marginais, como Kierkegaard, Schopenhauer (1788-1860) e Nietzsche (1844-1900). Trata-se da “tribo” que prolonga a “tradição do pensamento humilhado” 40 e que critica o racionalismo. A inserção de Camus nessa “família” mostra-se logo no início do Mythe de Sisyphe, quando o autor diz que sua sensibilidade absurda deve muito a cer- tas cabeças contemporâneas, que ele cita ao longo da obra. Camus concorda com as premissas do existencialismo tal como se encontram em Pascal, Nietzsche, Kierkegaard e Chestov (1866-1938), pois esses autores partem do clima próprio do Absurdo, mas dis- corda das conclusões dos existencialistas seus contemporâneos, por acreditar que tais conclusões são contraditórias em relação às premissas e desembocam numa fuga. Por isso Camus chama de “suicídio filosófico” 41 a conclusão existencialista, uma fuga que desemboca num princípio absoluto: o transcen- dente, a história absolutizada, ou um princípio racional unificador do real. Quanto aos literatos, Camus elegeu para si uma tribo de autores que são igualmente criadores e teó- ricos, críticos que pensam a própria atividade, como Balzac (1799-1850), Sade (1740-1814), Melville (1819-1891), Stendhal (1783-1842), Kafka (1883-1924), Proust (1871-1922), Malraux, Dostoievski (1821-1881), Tolstoi (1828-1910), Faulkner (1897-1962). Sua inserção nessa tribo também se faz pela opção diante das obras que adaptou para o teatro, obras de autores como Malraux, Calderón de la Barca (1600-1681), Larivey (1541-1619), Dino Buzzati (1906-1972), Faulkner e Lope de Vega (1562-1635). Assim, se os escritores formam geralmente “microssociedades” de admiração mútua ou de rejeição, Ca- mus deixa claro quais são seus autores preferidos e de quais ele se sente herdeiro. Em Genèses du discours (1984), Dominique Maingueneau aborda os textos do ponto de vista de sua gênese e de sua relação com o interdiscurso, levando em consideração a relação de um discurso com seu “exterior” enunciativo. Maingueneau se afasta de certa vulgata estruturalista ao pôr em questão “a su- posta autarquia dos discursos”. Trata-se de uma abordagem próxima da pragmática, que busca articu- lar no ato verbal enunciado e enunciação, linguagem e contexto, palavra e ação, instituição linguística

e instituições sociais. 42

259

Assim, podemos analisar a controvérsia entre Sartre e Camus e os textos que dela derivaram à luz dos estudos de Maingueneau, que vê na polêmica um processo de interincompreensão. Conforme Maingueneau, o estudo da especificidade de um discurso supõe relacioná-lo com outros. Nos textos da controvérsia, com a evocação explícita de uns aos outros, podemos perceber mais claramente a presença do interdiscurso, como espaço composto pelos diversos discursos. A propósito de Marx, Sartre, em seu artigo “Réponse à Albert Camus”, acusa Camus de brincar com conhecimentos de segunda mão. 43 O tom de Sartre é superior, como o de um professor que fala

a um aluno. Mas pode-se perguntar se seus conhecimentos sobre Marx são mais aprofundados do que

os de Camus. Raymond Aron, leitor paciente de Marx, estava persuadido de que ambos eram quanto a isso igualmente limitados. Ao acusar Camus de incompetência filosófica, Sartre, na verdade, vale-se de um argumento de autoridade, servindo-se de sua posição no campo, como filósofo reconhecido. 44 Respondendo ao artigo de Jeanson, Camus fala de Sartre sem nomeá-lo. Sartre, por sua vez, chama- do de burguês, responde aplicando a Camus o mesmo qualificativo. A resposta de um supõe e retoma de maneira direta o discurso do outro; de maneira explícita, o texto se constrói como intertexto. Os textos desta polêmica têm uma cena de enunciação que parece a de uma correspondência, já pela forma de apresentação, semelhante a uma carta. A sequência, carta-crítica, resposta e réplica, lem- bra um diálogo, mas na verdade há apenas uma semelhança com a correspondência pessoal, pois são cartas que, embora nelas pese um aspecto de defesa pessoal, tratam profundamente de posições estéti- cas, sociais e políticas e são publicadas em jornais e revistas. Tanto Camus, que não nomeia Sartre, quanto Sartre, que evoca diretamente seu interlocutor, com um reforço criado pela repetição, praticam um jogo retórico, pois na verdade não se trata de uma carta

privada. O interlocutor visa em primeiro lugar não tanto a seu adversário direto, mas se dirige primaria- mente à comunidade acadêmica e política e, por extensão, a toda a comunidade de leitores dos jornais

e das revistas nos quais os textos são publicados. No texto de Sartre, há um Camus visto da perspectiva sartriana. Sartre igualmente é descrito do ponto de vista de Camus, pois no texto polêmico cada um introduz o Outro em seu fechamento, ao traduzir seus enunciados dentro da categoria do Mesmo, e só se relaciona com este Outro sob a forma do “simulacro” que constrói dele. Isso só acentua os mal-entendidos. 45 Abordando uma peça de Sartre e antes de reproduzir um comentário dele, Francis Jeanson escreve:

“O autor de As mãos sujas, intrigado em razão de uma falsa interpretação de sua peça, propôs-se a defi- nir o verdadeiro sentido que ele desejava que lhe fosse dado.” 46 Camus, por seu lado, foi sensível, des- de o início de sua carreira, ao tema e à situação do mal-entendido – título de uma de suas peças –, que combatia e que era às vezes agravado por suas intervenções, e que ele parecia viver com uma dolorosa intensidade, como demonstram, além dos prefácios e textos introdutórios, suas cartas de protesto. Camus revela que, mesmo antes da polêmica com Les Temps Modernes, a recepção negativa de seu ensaio o incomodava. Ele parece tomar as críticas de Sartre como um ataque pessoal e vive a querela du- rante muito tempo. Talvez porque, embora o aspecto autobiográfico de Camus seja sutil em suas obras, estas dificilmente se separam dele próprio, e até em L’Homme révolté, de maneira contida, ele fala de si mesmo: “Sem parecer, faço ali minhas confissões”, escreve a Mamaine Koestler. 47 Mais do que discutir o desejo que têm os escritores de reivindicar um controle para a interpretação de seus textos, importa observar como o mal-entendido não é um acidente de percurso, acessório ou evitável, mas um constituinte mesmo do discurso. A relação polêmica em seu sentido amplo está longe de ser um encontro acidental de dois discursos que se teriam instituído independentemente um do ou- tro, e o conflito não vem se juntar do exterior a um discurso autossuficiente, mas é uma de suas condi-

260

ções de possibilidade. Não há, de um lado, o sentido e, de outro, certos “mal-entendidos” contingentes na comunicação, mas, num só movimento, o sentido como mal-entendido. 48 Assim, se tentarmos pôr em paralelo os textos de Camus e Sartre e encontrar uma relação entre eles, é interessante observar que tais textos foram construídos já numa relação de interdependência, consti- tuindo-se através da incompatibilidade e do conflito. Os discursos não se formam independentemente uns dos outros para serem em seguida postos em relação, mas se formam já de maneira relacional no interior do interdiscurso. Dessa maneira, a relação interdiscursiva mostra a interação semântica entre os discursos como um processo de tradução e de interincompreensão; nesta perspectiva, os textos pu- blicados em Les Temps Modernes que produziram entre Camus e Sartre uma polêmica foram ao mesmo tempo por ela produzidos.

Notas

1 O presente artigo constitui a retomada e o desenvolvimento do capítulo “O interdiscurso”, de nossa tese A Revolta na obra de Albert Camus: posicionamento no campo literário, gênero, estética e ética, defendida em junho de 2008, junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da UFRJ.

2 Em 1761, Marc-Antoine Calas, jovem protestante prestes a se converter ao catolicismo, foi encontrado morto na casa de seu pai. Este foi logo acusado de ter assassinado o filho por razões religiosas e condenado. Ele foi torturado e executado – sem provas –, e após uma investigação precipitada, numa cidade hostil aos protestantes. Voltaire, a par do ocorrido, lançou-se numa batalha, fazendo com que a Justiça retomasse o caso e abalando a opinião pública. Ele terminou por obter a reabilita- ção de Calas e de sua família. Posicionando-se contra o fanatismo religioso, Voltaire mostrou como o peso do preconceito re- ligioso determinou a decisão da justiça; esta questão está presente em seu ensaio Traité sur la tolérance, publicado em 1763.

3 Cf. WINOCK, Michel. Le siècle des intellectuels. Paris: Seuil, 1999, p. 21.

4 Cf. WINOCK, 1999, p. 135.

5 Cf. WINOCK, 1999, p. 210, 276, 489.

6 GIDE apud WINOCK, 1999, p. 500. Nessa e nas demais citações, tradução nossa.

7 BRETON apud WINOCK, 1999, p. 218.

8 SARTRE, Jean-Paul. Situations IV. Paris: Gallimard, 1964, p. 90.

9 Salão frequentado por Anatole France e um dos modelos do salão de M me Verdurin, personagem de À la recherche du temps perdu, de Marcel Proust.

10 Cf. WINOCK, 1999, p. 504.

11 Os artigos foram publicados no jornal Alger républicain, respectivamente em 20 de outubro de 1938 e 12 de março de 1939, e estão reunidos em CAMUS, Albert. Essais. Paris: Gallimard, 1965, p. 1417-1422.

12 Trata-se do artigo “Explication de L’Étranger”, publicado em fevereiro de 1943, e retomado em SARTRE, Jean-Paul. Si- tuations I. Paris: Gallimard, 1947, p. 92-112.

13 CAMUS, Albert & GRENIER, Jean. Correspondance. Paris: Gallimard, 1981, p. 88.

14 SARTRE, 1947, p. 94.

15 Cf. TODD, Olivier. Albert Camus, une vie. Paris: Gallimard, 1996, p. 541.

Conferência publicada em tradução para o inglês na revista americana Theatre Arts, vol. XXX, n o 6, de junho de 1946, com o título de “Forger of Myths: the young playwrights of France”.

16

17 SARTRE, Jean-Paul. Un théâtre de situations. Paris: Gallimard,1992, p. 60.

18 SARTRE, 1992, p. 60-61.

19 SARTRE, 1992, p. 57-69.

20 CAMUS, 1965, p. 1424.

21 CAMUS, 1965, p. 1427.

22 CAMUS, Albert. Théâtre, récits, nouvelles. Paris: Gallimard, 1962, pp. 1745-1746.

23 ARONSON, Ronald. Camus & Sartre, amitié et combat. Paris: Alvik, 2005, p. 13.

24 ARONSON, 2005, p. 35.

25 Cf. HEIDEGGER, Martin. Ser e verdade. Bragança Paulista/Petrópolis: São Francisco/Vozes 2007, p. 195.

26 Cf. TODD, 1996, p. 542 e 545.

261

27 JEANSON, Francis. “Albert Camus ou l’âme révoltée”. Les Temps Modernes, avril 1952.

28 Essa resposta de Camus foi enviada em forma de carta a Les Temps Modernes. Cf. CAMUS, 1965, p. 754.

29 CAMUS, 1965, p. 766.

30 Cf. SARTRE, Jean-Paul. Les mains sales. Paris: Gallimard, 1948 (quadro 4, cena 3).

31 Cf. ARONSON, 2005, p. 356.

32 Os artigos foram escritos por René Étiemble e Jean Pouillon e publicados em Les Temps Modernes, na edição de novem- bro de 1947.

33 CAMUS, 1965, p. 331.

34 CAMUS, 1965, p. 798.

35 Cf. MAINGUENEAU, Dominique. Le contexte de l’oeuvre littéraire. Paris: Dunod, 1993, p. 28, e MAINGUENEAU, Dominique. Le discours littéraire: paratopie et scène d’énonciation. Paris: Armand Colin, 2004, p. 72.

36 Cf. MAINGUENEAU, 1993, p. 27.

37 CAMUS, 1965, p. 382.

38 Cf. MAINGUENEAU, 2004, p. 72.

39 Cf. MAINGUENEAU, 1993, p. 30-31.

40 Cf. CAMUS, 1965, p. 114.

41 Cf. CAMUS, 1965, p. 114, 122, 187, 208 e 312.

42 Cf. MAINGUENEAU, Dominique. Genèses du discours. Bruxelas: Pierre Mardaga, 1984, p. 15.

43 Cf. SARTRE, 1964, p. 90.

44 Cf. TODD, 1996, p. 779 e 786.

45 Cf. MAINGUENEAU, 1984, p. 11.

46 JEANSON, Francis. Satrte. Trad. Elisa Salles. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987, p. 41.

47 CAMUS apud TODD, 1996, p. 767.

48 Cf. MAINGUENEAU, 1984, p. 12

Referências

ARONSON, Ronald. Camus & Sartre, amitié et combat. Paris: Alvik, 2005.

CAMUS, Albert. Théâtre, récits, nouvelles. Paris: Gallimard, 1962 (Bibliothèque de la Pléiade).

Essais. Paris: Gallimard, 1965 (Bibliothèque de la Pléiade).

CAMUS, Albert & GRENIER, Jean. Correspondance. Paris: Gallimard, 1981.

HEIDEGGER, Martin. Ser e verdade. Trad. Emmanuel Carneiro Leão. Bragança Paulista/Petrópolis: São Fran- cisco/Vozes, 2007.

JEANSON, Francis. “Albert Camus ou l’âme révoltée”. Les Temps Modernes, avril 1952.

Sartre. Trad. Elisa Salles. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987.

MAINGUENEAU, Dominique. Genèses du discours. Bruxelas: Pierre Mardaga, 1984.

Le contexte de l’oeuvre littéraire. Paris: Dunod, 1993.

Le discours littéraire: paratopie et scène d’énonciation. Paris: Armand Colin, 2004.

SARTRE, Jean-Paul. Situations I. Paris: Gallimard, 1947.

Les mains sales. Paris: Gallimard, 1948.

Situations IV. Paris: Gallimard, 1964.

Un théâtre de situations. Paris: Gallimard, 1992.

SILVA, Nilson Adauto Guimarães da. A revolta na obra de Albert Camus: posicionamento no campo literário, gêne- ro, estética e ética. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras UFRJ, 2008. Tese de doutorado.

TODD, Olivier. Albert Camus, une vie. Paris: Gallimard, 1996.

WINOCK, Michel. Le Siècle des intellectuels. Paris: Seuil, 1999.

262