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Educação Ambiental e Cidadania

Educação Ambiental e Cidadania Autores Nathieli K. Takemori Silva Sandro Menezes Silva 2009
Educação Ambiental e Cidadania Autores Nathieli K. Takemori Silva Sandro Menezes Silva 2009
Educação Ambiental e Cidadania Autores Nathieli K. Takemori Silva Sandro Menezes Silva 2009

Autores Nathieli K. Takemori Silva Sandro Menezes Silva

2009

© 2005 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais.

S586 Silva, Nathieli K. Takemori; Silva, Sandro Menezes. Educação Ambiental e Cidadania / Nathieli K. Takemori Silva; Sandro Menezes Silva. — Curitiba: IESDE, 2009.

176 p.

ISBN: 85-7638-358-6

1. Educação Ambiental. 2. Cidadania. 3. Meio Ambiente. I. Tí- tulo.

CDD 574.507

2. Cidadania. 3. Meio Ambiente. I. Tí- tulo. CDD 574.507 Todos os direitos reservados. IESDE Brasil

Todos os direitos reservados.

IESDE Brasil S.A.

Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482 • Batel

80730-200 • Curitiba • PR

www.iesde.com.br

Sumário

A

questão ambiental no planeta Terra

7

Recursos hídricos e cidadania I

15

Quantidade de água no planeta

16

Usos múltiplos da água

18

As principais causas da contaminação da água

22

A

eutrofização

22

As bacias hidrográficas

23

 

Conclusão

24

Recursos hídricos e cidadania II

27

Lei de Recursos Hídricos

27

Princípio do poluidor-pagador

29

Tecnologias para o uso da água

30

Importância da educação ambiental no uso dos recursos hídricos

31

Conclusão 31

Resíduos sólidos e cidadania

35

Tipos de resíduos sólidos

36

Formas de disposição final dos resíduos sólidos

37

O

lixo que machuca

41

Resíduos sólidos e cidadania II

47

A

coleta seletiva

48

Reciclagem

51

Perspectivas futuras

54

Conclusão 56

O uso do solo

59

Tipos de solos

60

Os ciclos biogeoquímicos

62

A

degradação do solo e a qualidade de vida

63

A

conservação dos solos e a produção de alimentos

65

O

uso sustentável do solo

68

Efeito estufa

77

A

atmosfera

77

Causas do efeito estufa

79

Conseqüências

82

Medidas mitigadoras

83

A camada de ozônio

Radiação solar

89

89

A

destruição da camada de ozônio

90

A

causa da destruição

91

As conseqüências da destruição da camada de ozônio

92

Medidas mitigadoras e Educação Ambiental

94

A hipótese Gaia

97

A

origem da hipótese Gaia

97

As evidências da hipótese

98

Ações humanas e a hipótese Gaia

100

Perspectivas futuras

100

Matrizes energéticas

103

Petróleo

104

Usinas hidrelétricas

105

Biomassa

106

Energia solar fotovoltaica

107

Energia eólica

108

Energia nuclear

108

Uso racional das matrizes energéticas

110

Perspectivas futuras

111

Avaliação de impactos ambientais

117

Impactos ambientais e licenciamento ambiental

119

Características do estudo de impacto ambiental (EIA)

121

O

relatório de impacto ambiental – Rima

123

A Carta da Terra

Princípios

Uma nova ética ambiental através da Ecopedagogia

141

142

149

Ecopedagogia

149

Ecopedagogia e a sociedade

149

Ecopedagia: uma nova proposta

150

Desafios para a Ecopedagogia

153

Antropocentrismo e uso dos recursos naturais

159

A evolução do homem

160

A mudança de pensamento

161

Referências

165

Anotações

171

Apresentação

D esde que o homem surgiu no planeta, utiliza recursos da natureza para suprir suas neces-

sidades básicas relacionadas principalmente à alimentação, abrigo e obtenção de energia.

Certamente vem daí essa postura consumista em relação aos recursos naturais, que durante

vários anos foram vistos como “infinitos”. O desenvolvimento social e cultural da espécie humana, até chegarmos nas características atuais, foi bastante rápido. Se a idade do planeta fosse condensada em apenas um ano, a espécie humana teria surgido aproximadamente às 23 horas e 45 minutos, do dia 31 de dezembro, ou seja, nossa existência é muita curta quando comparada a outras espécies com as quais dividimos a Terra atualmente.

O antropocentrismo coloca o homem no centro do universo, postulando que tudo o que existe

foi concebido e desenvolvido para a satisfação humana. Essa idéia de que tudo nos pertence tem sido a principal justificativa para essa “dominação” dos recursos pelo homem, prática usual há muito tempo. Ainda hoje esta corrente filosófica tem forte influência nas decisões do homem em relação ao uso dos recursos naturais. Porém, várias pessoas já passaram a considerar com maior atenção o pensamento biocêntrico, valorizando a natureza pelas suas características intrínsecas e não somente pela sua uti- lidade prática, partindo do pressuposto que todas as espécies têm direito à vida, independentemente do seu grau de complexidade.

A inclusão da Educação Ambiental nos programas formais de ensino-aprendizagem é funda- mental, mas não pode ser a única iniciativa para mudar esta mentalidade. Ações diretas de mobili- zação e conscientização, além da difusão do pensamento biocêntrico, desde a educação infantil até à idade adulta, assim como a atualização de pais e professores sobre este tema também devem ser consideradas quando se planeja um programa de educação ambiental.

Este livro traz várias informações pertinentes sobre esse assunto, com a intenção de servir como um apoio para os educadores que irão atuar na área. Inicia-se o curso apresentando a postura do homem em relação à natureza desde os tempos remotos até os dias de hoje, mostrando que tais rela- ções vêm sendo cada vez mais pautadas na idéia de recursos infinitos, postura que fica mais evidente quando se explora o tema recursos hídricos. Neste tema são enfocadas as principais características da água, os problemas referentes ao mau uso deste patrimônio e o que está sendo feito para minimizar os impactos decorrentes da ação humana sobre esse recurso.

A questão dos resíduos sólidos, um dos maiores problemas na maioria das cidades brasileiras, é

abordada neste livro de maneira a trazer informações sobre ações e posturas que os cidadãos podem ter para colaborar na minimização dos seus impactos sobre a natureza. Outro tema abordado é o solo, sua origem e principais características, a maneira como é utilizado e as implicações deste na manu- tenção da qualidade ambiental.

Passa-se então ao tema atmosfera, enfocando o aquecimento global provocado pelo efeito estufa e a diminuição da camada de ozônio. Esses temas estão relacionados não só nas suas respectivas cau- sas como também nas ações que devem ser tomadas para minimizar, e quem sabe, frear os processos que ocasionam os efeitos nocivos.

O tema matrizes energéticas é apresentado a fim de mostrar as várias formas de geração de energia, com ênfase principalmente nos efeitos positivos e negativos de cada forma, enfatizando a principal fonte de energia da atualidade, o petróleo, em contraposição aos efeitos benéficos das fontes energéticas renováveis, principalmente as menos poluentes.

Também é apresentada a hipótese Gaia, que considera o planeta um superorganismo capaz de se auto-regular. A hipótese é mostrada e explicada para que o leitor saiba que apesar de amplamente conhecida, existem outras formas de pensamento em relação a esta questão, algumas inclusive con- frontantes com esta. A hipótese Gaia relaciona-se com o que se chamou de Carta da Terra, que por sua vez constitui o fundamento básico da Ecopedagogia, todas estas com forte influência do pensa- mento antropocêntrico, tema que encerra o conteúdo do livro.

O objetivo principal do curso é fazer com que o próprio leitor reflita e avalie sua postura como cidadão frente aos principais temas ambientais contemporâneos, para que depois atue como um edu- cador mais consciente do seu papel transformador; afinal de contas, como podemos ensinar alguma coisa na qual não acreditamos? Como ensinar crianças e adultos a serem responsáveis pelo ambiente se nós, que temos esta responsabilidade, não nos sentimos assim e não agimos assim?

Boa leitura e uma ótima auto-avaliação!

Nathieli Keila Takemori-Silva

Sandro Menezes Silva

A questão ambiental no planeta Terra

Nathieli K. Takemori Silva* Sandro Menezes Silva**

O homem, desde as espécies ancestrais relacionadas, sempre dependeu de

recursos naturais 1 para sua sobrevivência, buscando na natureza, como

todas as demais espécies animais, seus meios de alimentação, abrigo,

proteção contra o frio, entre outras necessidades básicas. Conseqüentemente, sempre provocou um impacto sobre a natureza e, para ilustrar esses impactos, existem vários exemplos na história dos povos antigos, os quais foram responsá- veis pela exploração excessiva de algum recurso natural, visto pela abordagem antropocentrista de questão ambiental.

Os anasazi, que viviam no deserto do Novo México, construíram os pue- blos, edificações que abrigavam as pessoas e que chegavam a quase 1 hectare de extensão, ocupando milhares de troncos de árvores retiradas da própria região da construção. Mas não era um deserto? Existem registros de que na ocasião em que os pueblos foram construídos – eram cercados não por um deserto nu, mas por uma floresta de árvores decícuas e pinheiros.

Istock Photo.
Istock Photo.

Um outro exemplo são os maori, que chegaram à Nova Zelândia há quase 1.000 anos e, num período relativamente curto, foram os principais responsáveis pela extinção do Moa, uma espécie de ave não voadora que chegava a atingir 3 metros de altura e pesar mais de 200 quilos. Registros arqueológicos mostram restos de verdadeiros banquetes de churrascos de Moa realizados pelos maoris. O

Bacharel e Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Fe- deral do Paraná (UFPR), com Mestrado em Botâ- nica em Ciências Biológicas pela Universidade Fe- deral do Paraná (UFPR), com Mestrado em Botâ- nica pela mesma univer- sidade.

com Mestrado em Botâ- nica pela mesma univer- sidade. Licenciado em Ci- ências Biológicas pela Universidade
com Mestrado em Botâ- nica pela mesma univer- sidade. Licenciado em Ci- ências Biológicas pela Universidade

Licenciado em Ci- ências Biológicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com Mestrado e Doutora- do em Biologia Vegetal pela Universidade Esta- dual de Campinas.

1 Recursos naturais. a) De- nominação que se dá à

totalidade das riquezas mate-

riais que se encontram em es- tado natural, como florestas

e reservas minerais. b) São

os mais variados meios de subsistência que as pessoas obtêm diretamente na nature- za. c) O patrimônio nacional nas suas várias partes, tanto os recursos não-renováveis, como jazidas minerais, e os renováveis, como florestas e meio de produção. d) Fontes de riquezas materiais que existem em estado natural;

tais como florestas, reservas minerais etc.; a exploração ilimitada dos recursos natu- rais pode levá-la à exaustão ou à extinção. e) Recursos ambientais obtidos direta- mente da natureza, podendo classificar-se em renováveis

e inexauríveis ou não-reno-

váveis; renováveis quando, uma vez aproveitados em um determinado lugar e por um dado período, são suscetí- veis de continuar a ser apro- veitados neste mesmo lugar, ao cabo de um período de tempo relativamente curto; exauríveis quando qualquer exploração traz consigo, ine- vitavelmente, sua irreversível diminuição.

Educação Ambiental e Cidadania

principal predador da Moa era a águia-gigante, espécie maior do que a maior ave relacionada atualmente vivente – a águia-real ou harpia – foi extinto na mesma época, muito provavelmente porque ficou sem seu principal item alimentar com a extinção do Moa.

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Heinrich Harder.
Heinrich Harder.

A economia e a Terra

(BROWN, 2003)

Nos últimos séculos da civilização maia, uma nova sociedade evoluiu na Ilha de Páscoa, uma área com cerca de 166 quilômetros quadrados no Pacífico Sul, aproximadamente 3.200 quilômetros a oeste da América do Sul e 2.200 quilômetros da Ilha Pitcairn, a região habitada mais próxima. Assentada em torno de 400 d.C., essa civilização prosperou numa ilha vulcânica com solos ricos e vegetação viçosa, com árvores de 25 metros de altura e troncos de 2 metros de diâmetro. Registros arqueológicos dão conta que os ilhéus se ali- mentavam principalmente de frutos do mar, particularmente golfinhos – um mamífero que só podia ser capturado com arpões lançados de grandes canoas oceânicas, uma vez que não apareciam localmente em grande número. A sociedade da Ilha de Páscoa prosperou durante vários séculos, atingin- do uma população estimada em 20 mil. À medida que seus números cresciam, a derrubada de árvores superava a recuperação sustentada das florestas. Final- mente, desapareceram as grandes árvores necessárias para a construção das grandes e resistentes canoas oceânicas, privando os ilhéus do acesso aos gol- finhos e reduzindo, dessa forma, o suprimento alimentar da ilha. Os registros arqueológicos mostram que, a certa altura, ossadas humanas se misturaram às ossadas dos golfinhos, sugerindo uma sociedade desesperada que recorreu ao canibalismo. Hoje, a ilha é habitada por cerca de 2.000 pessoas.

A questão ambiental no planeta Terra

Existem várias pesquisas e trabalhos mostrando que o impacto que a espé- cie humana provoca sobre os recursos naturais é proporcional ao seu grau de apro- priação tecnológica e às necessidades geradas pelos padrões sociais constituídos em centenas de anos de história.

Um marco importante nesta tendência foi a Revolução Industrial, ocorrida no final do século XVIII, a partir da qual houve um grande aumento na utilização dos re- cursos. Na medida em que os núcleos populacionais adensaram-se e se concentraram nas regiões que passaram a dominar as tecnologias disponíveis, a crescente necessida- de de matéria-prima para abastecer estes núcleos em crescimento foi um importante fator de degradação ambiental. As colônias dos países europeus situadas na Ásia, África e Américas serviram em grande parte para suprir estas necessidades, assim como para firmar a supremacia daqueles que detinham a tecnologia em detrimento de outros que ainda dependiam de recursos naturais de forma mais direta.

Este modelo de crescimento foi chamado de modelo linear de desenvolvi- mento, do qual fazem parte o lucro imediato, o uso excessivo de matéria-prima, a produção de grande quantidade de descartes e resíduos do processo produtivo.

As principais conseqüências do aumento da demanda por recursos naturais decorrente do modelo de desenvolvimento linear são:

redução da biodiversidade;

aumento de doenças tropicais;

urbanização de cidades, principalmente na Ásia, África e América do Sul;

grande uso de recursos naturais, com conseqüente escassez localizada de muitos destes;

alta produção de resíduos com baixo nível de reciclagem.

Com o desenvolvimento das tecnologias, o homem também adquiriu conhe- cimentos sobre os acontecimentos naturais no planeta, podendo hoje prever mu- danças climáticas, terremotos, maremotos e outros fenômenos naturais. Foi dessa maneira também que se descobriu os efeitos do modelo linear de desenvolvimen- to, por exemplo, o aquecimento global e a destruição da camada de ozônio.

“Esta é a nossa diferença crucial em relação aos maoris: eles não sabiam ler e escrever. Nós sabemos, e entendemos as conseqüências do que se passou, e fazemos cálculos e projeções para o futuro. Nós, como espécie, não temos a desculpa da ignorância para repetir os mesmos erros.”

Fernando Fernandez

A realidade é que não estamos começando a perder a natureza agora que descobrimos o efeito estufa, já perdemos boa parte dela antes mesmo de conhecê- la, sendo que a situação de nossos ecossistemas naturais é bastante trágica e não é mostrada de forma verdadeira por dados estatísticos. Uma coisa é certa! Cres- cimento populacional desenfreado e desenvolvimento econômico contínuo são situações incompatíveis com a qualidade de vida humana e a conservação da natureza. O crescimento populacional é um grande multiplicador de problemas

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Educação Ambiental e Cidadania

ambientais, pois gera desmatamento para os vários usos do solo, aumenta a pres- são de caça, o tráfico de animais e o extrativismo, aumenta a poluição, provoca mudanças climáticas, estimula atividades ambientalmente depredatórias e gera a degradação da qualidade de vida em geral.

Pensando nisso, muitos de nós já começamos a pensar no futuro e em for- mas alternativas para diminuir os impactos que estamos causando no ambiente. As atitudes que foram tomadas até agora continuam sendo necessárias, porém são insuficientes. Ainda é preciso mais!

A conservação deve ser ensinada em todos os lugares – escola, casa, tra-

balho. As pessoas aprendem quando observam outros fazendo, assim como as

crianças. Reeducar uma sociedade que cresceu depredando o ambiente onde vive

é uma tarefa difícil, mas não impossível. É importante lembrar que, com uma

população cada vez mais numerosa, mudar o mundo sozinho fica cada vez mais difícil. Obviamente ninguém está pensando nisso, mas se cada um fizer sua parte

na construção de um mundo mais justo, ficará bem mais fácil.

“Não há ato ecologicamente neutro; todos nós tornamos o mundo cada dia um pouquinho melhor ou um pouquinho pior com nossas ações.”

Fernando Fernandez

Uma nova maneira de pensar precisa ser desenvolvida. Livrar-se da ilusão de que os recursos são infinitos e de que o planeta consegue curar-se sozinho é o primeiro passo para a mudança de pensamento.

O papel da Educação Ambiental precisa ser desempenhado desde a educa-

ção infantil, sendo a postura ambientalmente correta dos educadores e da própria instituição de ensino imprescindível na educação das crianças.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação coloca a educação ambiental como

tema transversal para que ela possa ser abordada em todas as disciplinas e não ape- nas em ciências. É importante ressaltar que Conservação da Natureza é diferente

de Cuidados com a Natureza, pois nem tudo o que é feito em favor do ambiente contribui efetivamente para conservar a natureza. Um exemplo disso é promover

a limpeza da sala de aula, fazendo com que os alunos ajudem a mantê-la limpa e

organizada. Isso desenvolve a percepção dos bens comuns, ou seja, que cada um é responsável pelo ambiente onde vive. No entanto, a postura de não produzir resí- duos sólidos é mais efetiva na conservação da natureza. Outra percepção a ser de- senvolvida é a de que os seres vivos não devem ser conservados apenas porque eles são úteis aos seres humanos, e sim por terem direito à vida tanto quanto nós temos. As “aulas” de educação ambiental precisam ser claras e objetivas, com o foco na informação e no desenvolvimento crítico dos consumidores.

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A questão ambiental no planeta Terra

“Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as pre- sentes e futuras gerações.”

Constituição Federal, artigo 225

Hoje, o que está em voga é o chamado mercado verde, no qual os con- sumidores optam por produtos que degradem menos o ambiente. Papel reci- clado, geladeiras e sprays sem CFC (clorofluorcarbono), produtos orgânicos,

madeira certificada e uso de energia solar são alguns dos exemplos dessa área em plena expansão, porém ainda pouco explorado no Brasil. Encontra-se no mercado também tecidos produzidos a partir de PET (politereftalato de etileno) reci- clado, plásticos biodegradáveis, tintas à base de silicatos de potássio, entre outros.

Um fato importante que marca a maneira como os governos vêm tratan- do o ambiente aconteceu no final do século XX, quando 179 países passaram a discutir as questões ambientais do planeta, dando origem à Agenda 21. (ver texto complementar)

A preservação é dever de todos

“A Agenda 21 reúne o conjunto mais amplo de premissas e recomen - dações sobre como as nações devem agir para alterar seu vetor de desenvol- vimento em favor de modelos sustentáveis e a iniciarem seus programas de sustentabilidade.”

Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente do Governo de Luís Inácio Lula da Silva

A situação ambiental pela qual passa atualmente o planeta não tem antece- dentes na história geológica mais recente. A degradação dos ambientes naturais, a fragmentação de hábitats, a sobrexploração de algumas espécies, a poluição e a contaminação biológica são as causas mais importantes da perda de biodiversida- de. As desigualdades sociais contribuem significativamente neste quadro, se con- siderarmos que grande parte da diversidade biológica do planeta encontra-se nos países mais pobres. Desta forma, é necessário primeiramente acabar com essas desigualdades, o que só será possível através de mudanças culturais, econômicas, políticas e sociais. A cultura do “ter e possuir” já levou os Estados Unidos ao topo da lista dos países que mais poluem o ambiente.

Como escreveu a jornalista Liana John, “o homem não precisa deixar a ci- dade, nem regredir para um tempo sem conforto ou tecnologia para voltar a fazer parte da natureza. Ele precisa repensar suas ações, considerar as conseqüências de cada uma delas sobre o ambiente e os outros seres vivos. E usar o conhecimento em benefício do bem comum” (JOHN, 2004).

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Educação Ambiental e Cidadania

Educação Ambiental e Cidadania 12 O que é Agenda 21 (BRASIL, 2004) A Agenda 21 é
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O que é Agenda 21

(BRASIL, 2004)

A Agenda 21 é um plano de ação para ser adotado global, nacional e localmente, por organi-

zações do sistema das Nações Unidas, governos e pela sociedade civil, em todas as áreas em que

a ação humana impacta o meio ambiente. Constitui-se na mais abrangente tentativa já realizada de orientar para um novo padrão de desenvolvimento para o século XXI, cujo alicerce é a sinergia da sustentabilidade ambiental, social e econômica, perpassando em todas as suas ações propostas. Contendo 40 capítulos, a Agenda 21 Global foi construída de forma consensuada, com a con- tribuição de governos e instituições da sociedade civil de 179 países, em um processo que durou dois anos e culminou com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Cnumad), no Rio de Janeiro, em 1992, também conhecida por Rio 92. Além da Agenda 21, resultaram desse mesmo processo quatro outros acordos: a Declaração do Rio, a Declaração de Princípios sobre o Uso das Florestas, a Convenção sobre a Diversidade Biológica e a Convenção sobre Mudanças Climáticas.

O programa de implementação da Agenda 21 e os compromissos para com a carta de

princípios do Rio foram fortemente reafirmados durante a Cúpula de Joanesburgo, ou Rio + 10, em 2002.

A Agenda 21 traduz em ações o conceito de desenvolvimento sustentável.

A comunidade internacional concebeu e aprovou a Agenda 21 durante a Rio 92, assumindo,

assim, compromissos com a mudança da matriz de desenvolvimento no século XXI. O termo Agenda foi concebido no sentido de intenções, desígnio, desejo de mudanças para um modelo de civilização em que predominasse o equilíbrio ambiental e a justiça social entre as nações. Além do documento em si, a Agenda 21 é um processo de planejamento participativo que

resulta na análise da situação atual de um país, estado, município, região, setor e planeja o futuro de forma sustentável. E esse processo deve envolver toda a sociedade na discussão dos principais problemas e na formação de parcerias e compromissos para a sua solução a curto, médio e longo prazos. A análise do cenário atual e o encaminhamento das propostas para o futuro devem ser realizados dentro de uma abordagem integrada e sistêmica das dimensões econômica, social, am- biental e político-institucional da localidade. Em outras palavras, o esforço de planejar o futuro, com base nos princípios da Agenda 21, gera inserção social e oportunidades para que as socieda- des e os governos possam definir prioridades nas políticas públicas.

É importante destacar que a Rio 92 foi orientada para o desenvolvimento, e que a Agenda

21 é uma Agenda de Desenvolvimento Sustentável, onde, evidentemente, o meio ambiente é uma consideração de primeira ordem. O enfoque desse processo de planejamento apresentado com o nome de Agenda 21 não é restrito às questões ligadas à preservação e conservação da natureza, mas sim a uma proposta que rompe com o desenvolvimento dominante, onde predomina o eco- nômico, dando lugar a sustentabilidade ampliada, que une a Agenda ambiental e a Agenda social, ao enunciar a indissociabilidade entre os fatores sociais e ambientais e a necessidade de que a degradação do meio ambiente seja enfrentada juntamente com o problema mundial da pobreza.

Enfim, a Agenda 21 considera, dentre outras, questões estratégicas ligadas à geração de emprego

A questão ambiental no planeta Terra

e renda; à diminuição das disparidades regionais e interpessoais de renda; às mudanças nos pa-

drões de produção e consumo; à construção de cidades sustentáveis e à adoção de novos modelos

e instrumentos de gestão. Em termos das iniciativas, a Agenda 21 não deixa dúvida. Os Governos têm o compromisso e a responsabilidade de deslanchar e facilitar o processo de implementação em todas as escalas. Além dos Governos, a convocação da Agenda 21 visa mobilizar todos os segmentos da sociedade, chamando-os de “atores relevantes” e “parceiros do desenvolvimento sustentável”. Essa concepção processual e gradativa da validação do conceito implica assumir que os prin- cípios e as premissas que devem orientar a implementação da Agenda 21 não constituem um rol completo e acabado: torná-la realidade é antes de tudo um processo social no qual todos os envol- vidos vão pactuando paulatinamente novos consensos e montando uma Agenda possível rumo ao futuro que se deseja sustentável.

Agenda possível rumo ao futuro que se deseja sustentável. 1 . Forme um grupo de três

1. Forme um grupo de três pessoas e descreva o papel do homem na natureza durante a Pré-His- tória. Discorra sobre a forma com que os povos primitivos tratavam o ambiente onde viviam.

2. Qual a diferença na relação homem-natureza do período pré-histórico para os dias de hoje?

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Educação Ambiental e Cidadania

3.

Por que não podemos mais agir como antigamente? Qual a diferença entre o ambiente pré- histórico e o atual?

a diferença entre o ambiente pré- histórico e o atual? FERNANDEZ, Fernando. O Poema Imperfeito .

FERNANDEZ, Fernando. O Poema Imperfeito. 2. ed. Curitiba: UFPR, 2004.

Este livro é composto de crônicas sobre biologia, conservação da natureza e seus heróis. A abor- dagem é bem humorada, porém comprometida com a conservação, levando o leitor a uma reflexão profunda sobre o verdadeiro papel do homem na conservação da natureza.

CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. 6. ed. São Paulo: Cultrix, 2001.

Este livro trata de assuntos relacionados aos sistemas vivos, trazendo uma nova linguagem para a sua compreensão.

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Recursos hídricos e cidadania I

Nathieli K. Takemori Silva Sandro Menezes Silva

H á 150 anos, a possibilidade de escassez de água era algo impensável. O que não foi previsto era o aumento da população mundial, que triplicou no século XX. Mais pessoas, mais consumo. Com esse aumento, cresceu

o consumo de água pela irrigação de lavouras e também pela indústria. O resulta- do foi um aumento de seis vezes no consumo total de água.

Nosso país é privilegiado com 12% da água doce do mundo. Mesmo assim, algumas regiões, como a grande São Paulo, sofrem com a escassez desse recur- so. E não é por causa de falta de fontes, e sim por causa da poluição dos rios dos quais era captada a água para abastecer a cidade. Hoje, é preciso buscar água em fontes mais distantes. Isso também acontece no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, que depende de neve derretida vinda do distante estado do Colorado para abastecer suas cidades.

De acordo com o Banco Mundial, cerca de 80 países hoje enfrentam proble- mas de abastecimento. Os dados da ONU apontam que mais de 1 bilhão de pes- soas não têm acesso a fontes de água de qualidade. A escassez de água potável é uma das principais causas de conflitos entre países. A região de Golam no Oriente Médio, por exemplo, possui vários aqüíferos 1 e está na mira de outros países que não possuem reservatórios desse recurso.

O uso inadequado também compromete a disponibilidade de água. Nos últi- mos anos, a distribuição de água no Brasil aumentou em 30%. Entretanto, dobrou a

proporção da água sem tratamento. Outro fator agravante é o desperdício, que chega

a 45% do total de água distribuída pelos sistemas públicos.

Declaração Universal dos Direitos da Água

Organização das Nações Unidas (ONU), 22 de março de 1992.

Primeira – A água faz parte do patrimônio do planeta. Cada continente, cada povo, cada nação, cada região, cada cidade, cada cidadão, é plenamente responsável aos olhos de todos. Segunda – A água é a seiva de nosso planeta. Ela é condição essencial de vida de todo vegetal, animal ou ser humano. Sem ela não poderíamos conce- ber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. Terceira – Os recursos naturais de transformação da água em água potá- vel são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser mani- pulada com racionalidade, precaução e parcimônia. Quarta – O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preserva-

1 Camada porosa e perme- ável de rocha ou sedimen-

to que contém grandes quan- tidades de água subterrânea e que permite fácil desloca- mento da água.

Educação Ambiental e Cidadania

ção da água e de seus ciclos. Estes devem permanecer intactos e funcionando normalmente para garantir a continuidade da vida sobre a Terra. Este equilí- brio depende, em particular, da preservação dos mares e oceanos, por onde os ciclos começam. Quinta – A água não é somente herança de nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como a obrigação moral do homem para com as ge- rações presentes e futuras. Sexta – A água não é uma doação da natureza; ela tem um valor econô- mico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo. Sétima - A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenena- da. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discerni- mento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deteriora- ção da qualidade das reservas atualmente disponíveis. Oitava - A utilização da água implica em respeito à lei. Sua proteção constitui uma obrigação jurídica para todo homem ou grupo social que a utili- za. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo homem nem pelo Estado. Nona - A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social. Décima - O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solida- riedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.

2 Camada porosa e perme- ável de rocha ou sedimen-

to que contém grandes quan-

tidades de água subterrânea

e que permite fácil desloca- mento da água.

3 Camada porosa e perme- ável de rocha ou sedimen-

to que contém grandes quan- tidades de água subterrânea

e que permite fácil desloca- mento da água.

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Quantidade de água no planeta

A água é um elemento químico simples e ao mesmo tempo essencial à vida

dos seres vivos. O corpo humano, por exemplo, é 70% composto por água, pre- cisando dela para seu funcionamento. Da mesma forma acontece com os outros seres vivos, muitos deles sendo dependentes da água durante a vida toda, por exemplo peixes e algas, ou apenas parte dela, como os anfíbios. Sem a água, a vida na Terra, pelo menos como ela é hoje, não seria possível.

A Terra possui quase 1,4 bilhão de quilômetros cúbicos de água. Isso sig-

nifica um ecossistema cerca de 200 vezes maior que o conjunto de ecossistemas terrestres. Apesar de representar três quartos do planeta Terra, não devemos es- quecer que a maior parte da água está nos oceanos, ou seja, água salgada, e apenas

2,5% é água doce. Os rios 2 , lagos 3 e reservatórios de onde a humanidade retira a água consumida representam uma pequena quantia, apenas 0,26% do total. O

restante da água doce está na forma de geleiras.

Recursos hídricos e cidadania I

Recursos hídricos e cidadania I Se pegarmos uma garrafa com 1,5 litro de água e a

Se pegarmos uma garrafa com 1,5 litro de água e a dividirmos proporcio- nalmente, como a encontramos no planeta, a quantidade de água doce disponí- vel seria equivalente a uma única gota? (CAPELAS JÚNIOR, 2001, p. 28).

Figura 1 – O ciclo da água

IESDE Brasil S.A.
IESDE Brasil S.A.

O ciclo hidrológico mantém a quantidade de água acumulada na superfície e no interior do solo. Por isso, por muito tempo se pensou que a água fosse um recurso natural renovável e infinito. Porém, alterando-se o ciclo desse recurso natural, ele se torna um recurso finito.

Com cerca de 6,5 bilhões de pessoas na Terra, era de se esperar que esse recurso, embora considerado renovável, tornar-se-ia escasso. O elevado grau de consumo, o desperdício e a poluição de fontes de água colocam em risco a nossa própria existência.

A guerra milenar da água

(INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL, 2005, p.245)

No auge da idade do gelo, há 20 mil anos, caçadores e coletores de alimentos migraram para as regiões mais quentes da Terra, como a Mesopotâmia dos rios Tigres e Eufrates, os vales dos rios Indo, na Índia e Amarelo, na China. O controle dos rios começou há cerca de 4.000 anos, época em que as civilizações dessas

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Educação Ambiental e Cidadania

áreas realizaram obras para conter enchentes e proporcionar irrigação e abasteci- mento humano. Dominar o uso da água dos rios fez com que algumas civilizações se utilizassem disso como forma de exercer poder sobre outros povos e regiões geográficas. Um exemplo de conflito moderno pelo uso da água é vivenciado por is- raelenses e palestinos. Israel depende das águas subterrâneas que estão no território palestino e retira cerca de 30% da disponibilidade do aqüífero, com- prometendo a capacidade de recarga desse reservatório. De um lado, Israel controla o uso do aqüífero por parte dos palestinos e do outro, os palestinos reclamam a água que está em suas terras.

Usos múltiplos da água

A água que consumimos vem de rios, lagos, represas, açudes, reservas sub- terrâneas e, algumas vezes, do mar. A água do mar precisa passar por um proces-

so de dessalinização, ou seja, um processo pelo qual a água e o sal são separados

e a água passa a ser potável.

A partir da captação, a água é utilizada para diversos fins. O abastecimento públi- co representa 10% do consumo, 23% é consumido na indústria e 67% na agricultura.

Abastecimento público

Utilizamos a água em várias atividades de nosso dia-a-dia. Higiene pessoal,

alimentação, matar a sede, lavar roupa e lavar louça. Porém, sua distribuição está comprometida por causa do aumento da demanda, do desperdício, da poluição

e da urbanização descontrolada – que atinge regiões de mananciais 4 . Antes de

chegar até as casas, a água passa por um processo de tratamento. Após seu uso, a água deve passar novamente por um tratamento antes de ser lançada no ambiente. Infelizmente não é bem isso que acontece em muitos lugares.

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4 Locais onde há descarga e concentração natural

de água doce originada de lençóis subterrâneos e de águas superficiais, que se mantém graças a existência de um sistema especial de proteção proporcionado pela vegetação.

Gráfico 1– Porcentagem de água que o brasileiro usa diariamente (PEGORIN, 2003, p.41-47)

Outras atividadesque o brasileiro usa diariamente (PEGORIN, 2003, p.41-47) 3% Higiene pessoal (lavar roupa e escovar os

3%

Higiene pessoal (lavar roupa e escovar os dentes)diariamente (PEGORIN, 2003, p.41-47) Outras atividades 3% 12% Tomar banho 25% Cozinhar, lavar louça e beber

12%

Tomar banho3% Higiene pessoal (lavar roupa e escovar os dentes) 12% 25% Cozinhar, lavar louça e beber

25%

Cozinhar, lavar louça e beberOutras atividades 3% Higiene pessoal (lavar roupa e escovar os dentes) 12% Tomar banho 25% 27%

27%

Descarga de3% Higiene pessoal (lavar roupa e escovar os dentes) 12% Tomar banho 25% Cozinhar, lavar louça

banheiro

33%

pessoal (lavar roupa e escovar os dentes) 12% Tomar banho 25% Cozinhar, lavar louça e beber

Recursos hídricos e cidadania I

Nós, como cidadãos consumidores responsáveis, podemos

Como posso ajudar?

ajudar mudando nossos hábitos e ensinando outras pessoas a fazê- lo também – por exemplo, diminuir o tempo de banho, fechar o chuveiro enquanto nos ensaboamos; não desperdiçar água lavando a calçada, pode-se apenas varrer (lavar só em caso de muita necessidade, afinal de contas não tem como manter uma calçada limpa o tempo todo mesmo); lavar o carro usando um balde com água ao invés do jato de água; fechar a torneira enquanto escovamos os dentes; e usar descargas com caixa-tanque no vaso sanitário.

Quadro 1 – Gasto médio e possibilidades de economia em atividades diárias

   

Gasto

   

Atividade

Médio

 

Uso racional

 

Economia

 

12

litros em 5

Fechar a torneira enquanto escova os dentes e usar água de um copo para enxaguar a boca.

 

11,65

Escovar os dentes

minutos

350 mililitros

litros

Tomar banho em chuveiro elétrico

45

litros em 15

Fechar o chuveiro enquanto se ensaboa e diminuir o tempo de banho para cinco minutos

   
 

15

litros

30

litros

minutos

   
 

117

litros em

Limpar os restos de comida antes de lavar, encher a pia até a metade para ensaboar, manter fechada e enxaguar a louça em mais meia pia de água limpa.

   

Lavar louça

 

20

litros

97

litros

15

minutos

   
   

Usar regador ou esguicho tipo

   

Regar jardins e plantas

86

litros em

revólver, regar só o necessário e, de

50

litros

36

litros

10

minutos

preferência, pela manhã ou à noite, quando a evaporação é menor.

   

Lavar o carro

560

litros em

Lavar só quando necessário e trocar

40

litros

520

litros

30

minutos

o

esguicho por um balde

 
     

não há

 

Lavar a calçada

279

litros em

Limpar com vassoura, o resultado é

consumo de

279

litros

15

minutos

o

mesmo.

   

água

Obs: como a pressão da água nos prédios é maior, o consumo em edifícios pode ser até três vezes a mais do que se gasta em uma casa. Os números a cima referem ao consumo em casa.

Fonte (ROCHA; DILL, 2001 )

Indústria

O setor industrial utiliza muita água, representando cerca de 25% do consu- mo total do planeta. A água pode ser utilizada diretamente como matéria-prima na fabricação de bebidas como os refrigerantes. Também serve para a transmissão de calor, ou seja, para aquecer ou resfriar algo. Na culinária também utilizamos a água como meio de transmitir calor quando utilizamos o banho-maria. Na in- dústria, o vapor de água é utilizado para aquecer os banhos de revestimento de peças metálicas, como a galvanoplastia. Nos alambiques, a água gelada é utilizada para condensar o destilado (por exemplo, cachaça). Na fábrica de papel, a água é utilizada para lavar a celulose 5 e remover a lignina 6 .

5 É o principal composto químico da parede celu-

lar nas plantas e em alguns protistas.

6 Composto químico que constitui a parede celular

secundária de alguns tipos de células nas plantas vas- culares. Depois da celulose, a lignina é o polímero mais abundante em um vegetal. Sua presença dá maior sus- tentabilidade para a parede celular.

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Educação Ambiental e Cidadania

Quadro 1– Consumo industrial da água (dados aproximados)

Atividade

 

Gasto Médio

Produto

12

litros em 5 minutos

Papel de celulose

33

a 216

Cerveja

 

4,5 a 12

Refrigerante

1,8 a 2,5

Uísque (EUA)

 

2,6 a 76

Álcool

1.000 a 12.000 l/t de cana

Cimento Portland

0,55 a 1,9

Amido de milho

13

a 18/t de milho

Fonte: Silva (2005, p. 259)

Geração de energia

Após a descoberta da energia elétrica, o estilo de vida das pessoas mudou muito. Hoje, nos centros urbanos, não se imagina uma casa sem energia elétrica, apesar de existirem muitas ainda no mundo.

São várias as formas de se conseguir a geração de energia elétrica e uma delas é através das usinas hidrelétricas, ou seja, utilizando-se a água.

Em uma usina hidrelétrica, a água contida nas barragens é direcionada para passar pelas turbinas da usina, movimentando-as e assim gerando a energia elétrica.

Apesar dos impactos ambientais causados durante a construção e operação de uma usina hidrelétrica, esta ainda é uma das formas mais limpas de se obter energia elétrica.

Turismo e lazer

Existem regiões do Brasil bastante conhecidas pelos seus atrativos turís- ticos relacionados à água. O litoral Brasileiro tem pouco mais de 9 mil quilô- metros de extensão, e o turismo é um fator importante. Locais no interior do país, como a região do Pantanal, por exemplo, também são pontos turísticos. Outros exemplos são as águas termais de Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Nada melhor do que um banho de mar, cachoeira ou rio. Algumas pessoas ainda preferem praticar esportes como iatismo, remo, rafting, mergulho, surfe, entre outros. A prática do surfe inclusive deixou de ser apenas na água salgada dos oceanos. No Brasil, muitos surfistas estão pegando as ondas da pororoca 7 , principalmente no rio Amazonas.

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7 O encontro das correntes contrárias junto à foz pro-

voca uma elevação súbita das águas, formando uma onda

com 3 a 6 metros de altura que corre rio adentro. Essas ondas chegam a durar mais de uma hora.

Hidrovias

O transporte de produtos é sempre uma questão muito importante princi- palmente em um país tão extenso como o Brasil. Diferentemente do transporte rodoviário, o transporte através de barcos e navios consome menos combustíveis e apresenta um custo de mão-de-obra mais baixo.

Recursos hídricos e cidadania I

Recursos hídricos e cidadania I Um comboio fluvial (embarcação para transporte de carga em hidrovias) de

Um comboio fluvial (embarcação para transporte de carga em hidrovias) de 10 mil toneladas necessita de 12 homens em sua tripulação. Se a mesma carga fosse deslocada por transporte rodoviário, seriam necessários 278 cami- nhões e seus respectivos motoristas. Mesmo assim, os riscos existem da mesma forma para todas as instala- ções de infra-estrutura. É importante ressaltar que uma hidrovia mal planeja- da e mal manejada também causa impactos ambientais. As embarcações pre- cisam estar em perfeito funcionamento para não poluírem a água, com algum vazamento de óleo, por exemplo.

Aqüicultura

Aqüicultura é o cultivo de espécies animais que vivem na água. Entre eles estão os peixes, os crustáceos e os moluscos. Dessa maneira abastece-se o merca- do de alimentos e também o lazer através dos pesque-pagues.

Irrigação agrícola

No mundo todo, a irrigação é a atividade que mais consome água. Infeliz- mente, as técnicas utilizadas no Brasil não são adequadas e acabam gerando mui- to desperdício. Apenas 40% da água é efetivamente utilizada, o restante é perdido na evaporação antes de chegar à planta ou através do uso incorreto das técnicas, ou seja, porque a irrigação não é feita em horário ou período adequado.

Abastecimento em crise nas cidades

(PEGORIN, 2003, p.46)

Bons e maus exemplos de como algumas capitais do país aproveitam a água que têm disponível.

Recife: dentre as capitais nordestinas, é a que mais dispõe de água doce. Mesmo cortada várias vezes pelos rios Beberibe e Capiberibe, convive com racionamentos periódicos há cinco anos por causa de falta de captação e o desperdício. Metade da água da cidade se perde em vazamentos.

São Paulo: a poluição dos reservatórios e dos dois principais rios da cidade, Tietê e Pinheiros, provocam o caos quando as chuvas não são suficientes. Com a maior rede hidráulica do planeta (22.000 km de canos), a cidade ainda desperdiça 40% de sua água.

Rio de Janeiro: tem um único grande manancial para abastecimento de água, o Rio Paraíba do Sul, que já se encontra quase esgotado e com má qualidade. Como não são feitas obras para melhorar a falta d’água, as regiões de periferia são as que mais passam por crises.

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Educação Ambiental e Cidadania

Porto Alegre: apesar de ser chamado de rio, o Guaíba, que corta a capital gaúcha, é um lago. Antes poluído e quase sem vida, está desde 1989 passando por um programa de recuperação que já conta com 69 estações de águas e aumentou de 5% para 27% o volume de esgotos tratados na cidade.

Fortaleza: mesmo durante o período das secas, a capital cearense não sofre problemas de abastecimento de água porque sua perda em va- zamentos, 30%, está abaixo da média nacional. Ainda assim, os ma- nanciais hoje explorados pela cidade não são suficientes.

As principais causas da contaminação 8 da água

Efluentes 9 domésticos – quando damos a descarga, a água que escorre

pelos ralos de nossa casa, ou seja, a água que utilizamos todos os dias, passa pelas tubulações da casa e cai na rede de esgoto, quando existe. Esse esgoto deveria passar por um tratamento para só então a água retor- nar ao ambiente. No entanto, no Brasil, apenas 20% do esgoto é tratado.

O restante é despejado diretamente em rios e córregos, poluindo o am-

biente e contribuindo para a proliferação de doenças.

Efluentes agrícolas – as substâncias utilizadas na agricultura, como ferti- lizantes e defensores agrícolas, acabam contaminando rios, lagos e águas subterrâneas. Substâncias como nitrato de sódio, cálcio e potássio oriun- dos dos fertilizantes são altamente cancerígenos. Eles infiltram-se nos so- los e através da chuva são carregados para rios, lagos e lençóis freáticos.

Efluentes industriais – quando a indústria não dá uma destinação correta aos seus rejeitos, acaba poluindo as águas. Dentre os rejeitos industriais estão os metais tóxicos, plásticos e substâncias químicas poluentes di- versas, como pigmentos, ácidos e detergentes.

Lixo – se o lixo não tiver uma destinação correta, em local adequado,

os poluentes gerados em sua decomposição natural afetam rios e águas subterrâneas.

8 Introdução de um agente indesejável em um meio

onde este não existia previa- mente.

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9 Rejeitos no estado líqui- do.

A eutrofização

A palavra eutrofização deriva do grego eu (que significa bom, verdadeiro) e trophein (nutrir), ou seja, bem-nutrido. Dessa maneira, o processo consiste no en- riquecimento das águas com nutrientes em um ritmo que não pode ser compensa- do pela sua eliminação definitiva através da mineralização total. Esses nutrientes podem vir de várias fontes, dentre elas: esgotos domésticos, despejos industriais,

Recursos hídricos e cidadania I

drenagem urbana, escoamento agrícola e florestal, decomposição de rochas e se- dimentos, e transporte das camadas superficiais do solo (erosão).

A eutrofização aparece em vários contextos e não é exclusivamente decor-

rente da ação humana, pois existem registros desde processo no desenvolvimento dos lagos pós-glaciais, através do estudo do tipo de sedimento encontrado antes de qualquer intervenção humana. Porém, com o lançamento de produtos nos rios através do esgoto, principalmente os detergentes, ricos em fosfatos, há um aumen- to na velocidade com que o processo ocorre.

Com o aumento de nutrientes, as algas proliferam atingindo quantidades extraordinárias. Com um ciclo de reprodução intenso e uma vida não muito longa, as algas mortas começam a ser decompostas. A decomposição diminui a con- centração de oxigênio nas águas profundas, podendo causar a morte de peixes e outros seres vivos.

Os efeitos da eutrofização são: prejuízos ao tratamento de águas para abas- tecimento; prejuízo ao lazer e recreação por causa de má qualidade da água; au- mento da produtividade, e conseqüentemente proliferação de algas tóxicas ou não; mortandade de peixes; a água fica indisponível para o consumo humano.

As bacias hidrográficas

No Brasil, existem cinco grandes bacias hidrográficas: Amazônica, Prata, São Francisco, Araguaia-Tocantins e Atlântico Sul.

A Bacia Amazônica, formada pelo Rio Amazonas e seus afluentes, é consi-

derada a maior bacia hidrográfica do mundo, com uma drenagem de 5,8 milhões de quilômetros quadrados. Ela abrange a Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia e Brasil. Neste localiza-se nos estados do Amazonas, Pará, Amapá, Acre, Roraima, Rondônia e Mato Grosso. O Rio Amazonas é responsável por 20% da água doce despejada anualmente nos oceanos.

A Bacia do Prata é a segunda maior bacia da América do Sul. Os rios Para-

guai, Paraná e Uruguai juntos drenam 10,5% do território brasileiro. Ela atravessa quatro países: Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. No Brasil ela abrange os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

A Bacia do São Francisco é a terceira maior bacia do Brasil e a única intei- ramente brasileira. Ela ocupa 8% do território brasileiro, abrangendo as regiões Sudeste e Nordeste e um pouquinho da região Centro-Oeste.

As matas ciliares

As matas ciliares são as florestas associadas aos cursos d’água. Mesmo estan- do protegidas por leis federais, sua destruição é preocupante. Elas representam uma barreira física, regulando os processos de troca entre os ambientes terrestre e aquá- tico. Sua presença reduz a possibilidade de contaminação da água por sedimentos,

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Educação Ambiental e Cidadania

resíduos de adubos, defensivos agrícolas, conduzidos pelo escoamento superficial da água no terreno. Os fatores responsáveis por sua degradação são os desmata- mentos, as grandes queimadas e a mineração. Um dos mais sérios problemas provo- cados pela destruição desse ecossistema é o aumento do escoamento superficial de resíduos para o leito dos rios, sendo que o acúmulo desse sedimento é o responsável pelo rebaixamento do nível do lençol freático, gerando enchentes e diminuindo a vida útil das barragens e hidrelétricas. Além disso, ainda favorece os problemas de erosão, perda de fertilidade do solo, deslizamento de rochas e queda de árvores.

Desse modo, as matas ciliares são consideradas de extrema importância para a manutenção das bacias hidrográficas.

A bacia hidrográfica como unidade de planejamento

As bacias hidrográficas proporcionam uma visão integrada do conjunto das condições naturais e das atividades humanas desenvolvidas. Pelo seu caráter inte- grador das dinâmicas ocorridas no ambiente da bacia hidrográfica, são excelentes áreas de estudos para o planejamento, facilitando o acompanhamento do processo de renovação ou manutenção dos recursos naturais.

Entre os princípios básicos praticados nos países que avançaram na gestão de recursos hídricos, o primeiro é o da adoção da bacia hidrográfica como unida- de de planejamento. Tendo-se os limites das bacias como o que define o perímetro da área a ser planejada, fica mais fácil fazer o confronto entre as disponibilidades e as demandas, essenciais para um determinado balanço hídrico.

Como uma mesma bacia hidrográfica localiza-se em vários estados, seu pa- pel também é o de descentralizadora das ações de gestão dos recursos hídricos, transformando o processo em um planejamento regional desenvolvido em cada ba- cia hidrográfica, com a atuação do Estado, da população e das organizações civis.

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Conclusão

A água é um dos recursos naturais essenciais para a existência da vida. Sem ela, a vida na Terra como a conhecemos não seria possível. No entanto, os seres humanos esquecem da importância desse recurso quando o tratam como produto descartável, usando, tornando imprestável e jogando fora. Os ecossistemas que “se virem” para filtrar e neutralizar essa poluição.

Só que os ecossistemas são responsáveis pela produção da água de boa qua- lidade para a vida em suas diferentes formas, e quando desequilibrados não con- seguem exercer sua função. Falta de cobertura vegetal, solos impermeabilizados e lixo são apenas alguns dos problemas enfrentados pelas bacias hidrográficas.

A água é um bem de uso comum. Todos podem usufruir, mas não “deveriam” poluir. Sem a informação e a conscientização, esse recurso poderá se tornar escasso em pouco tempo, aumentando os problemas ambientais, sociais e econômicos.

Recursos hídricos e cidadania I

Um dos passos mais importantes, na legislação referente a recursos hídri- cos, foi valorizar a bacia hidrográfica como unidade de gestão (Lei das Águas, 1997). É a ordem natural e deve orientar o planejamento econômico. Quer di- zer, o desenvolvimento precisa regular seu crescimento e discutir prioridades com base nos recursos hídricos disponíveis dentro de cada bacia hidrográfica. Não se pode tirar a água de outras bacias para atender a um crescimento não planejado, como se pretende fazer com São Paulo em relação à bacia do Rio Piracicaba. Ninguém quer condenar os paulistanos à sede, é evidente, mas é importante trabalhar com os recursos disponíveis e, se não há mais recursos, é preciso parar de crescer.

(MACHADO, 2004).

recursos, é preciso parar de crescer. (MACHADO, 2004). Site do projeto Brasil das Águas:

Site do projeto Brasil das Águas: <www.brasildasaguas.com.br>.

Este é o site oficial do Projeto Brasil das Águas, desenvolvido por Gerard e Margi Moss, em parceria com pesquisadores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Durante 14 meses, um avião anfíbio foi utilizado para coletar e analisar a água de todo o território brasileiro. O resultado do projeto é um “raio-X” da qualidade da água doce do Brasil.

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Educação Ambiental e Cidadania

Recursos hídricos e cidadania II

Nathieli K. Takemori Silva Sandro Menezes Silva

A capacidade de armazenamento de água da maioria dos reservatórios já foi muito reduzida pelo assoreamento e falta de cuidado com as margens. Mas, é só começar a chover que, aliviados com a abundância de água, deixamos de nos preocu- par com o controle dos desperdícios e dos excessos. E deixamos de sentir a falta que a água faz nos ecossistemas, uma questão que se torna tanto mais crítica quanto maior a disputa em torno dos múltiplos usos dos recursos hídricos em atividades humanas.

Liana John

O aumento da população mundial tem como umas das conseqüências mais diretas o aumento proporcional do consumo dos recursos naturais. No caso da água, além do consumo crescente, a falta de cuidados com

os reservatórios, que muitas vezes também são usados para disposição final dos efluentes domésticos, comerciais e industriais, têm sido os principais fatores de degradação. A deterioração dos ecossistemas, principais geradores e mantenedo- res da qualidade da água, também tem causado a diminuição dos estoques de água utilizável para consumo humano.

A percepção da necessidade de regulamentação do uso da água tem promo- vido uma série de propostas de leis que disciplinam este uso, em todos os níveis de administração pública. Na década de 1990, a questão da água foi bastante dis- cutida e instituiu-se a Lei de Recursos Hídricos, em 1997.

Lei de Recursos Hídricos

A Lei Federal 9.433/97, também conhecida como Lei das Águas, instituiu a Política Nacional dos Recursos Hídricos e criou o Sistema Nacional de Geren- ciamento dos Recursos Hídricos. Através da lei 9.984/2000, foi criada a Agência Nacional de Águas (ANA), com a missão de implementar o sistema criado pela Lei de Recursos Hídricos.

Esta Lei tem como base o princípio de que a água é um bem de domínio público, porém é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico. Essa lei também determina que, em situações de escassez, o uso da água tem como priori- dade o consumo humano e a dessedentação de animais. Além disso, a gestão dos recursos hídricos deve proporcionar o uso múltiplo das águas. A Política Nacional de Recursos Hídricos tem como objetivo assegurar a disponibilidade de água po- tável para esta e para as futuras gerações, e tem como um de seus instrumentos a Outorga de Direito de Uso de Recursos Hídricos 1 .

1 A Outorga de Direito de Uso de Recursos Hídricos

é um documento emitido pela Agência Nacional das Águas (ANA) que dá o direito de retirada do recurso natural a uma empresa por determina- do tempo.

Educação Ambiental e Cidadania

O principal ponto da lei 9.433/97 é considerar a água como bem de consu-

mo, passando a ser cobrada. Hoje, o valor que pagamos pela água em nossos lares

é referente à sua distribuição e tratamento. A proposta da lei é cobrar pela retirada

de água do ambiente, ou seja, cobrar pelos recursos naturais que estão sendo utili- zados. Dessa maneira, deseja-se fazer com que a água seja reconhecida como bem econômico, fornecendo ao usuário uma indicação de seu real valor e incentivando

a racionalização do seu uso, além de obter recursos financeiros para o financia- mento dos programas e intervenções contemplados nos recursos hídricos.

A experiência em outros países mostra que, em bacias que utilizam a co-

brança, os indivíduos e firmas poluidores reagem incorporando custos associados à poluição ou a outro uso da água. A cobrança pelo uso de recursos hídricos, mais do que instrumento para gerar receita, é indutora de mudanças pela economia da água, pela redução de perdas e pela gestão com justiça ambiental, pois cobra-se de quem usa ou polui.

A Política Nacional de Gestão de Recursos Hídricos define a bacia hidro- gráfica como uma unidade de planejamento e gestão. O Comitê de Bacia é o órgão responsável pela aprovação do plano da bacia, onde são definidas

as prioridades de obras e ações, além de ter o papel de negociador, com instrumentos técnicos para analisar o problema dentro de um contexto mais amplo. Todavia, a outorga de direito de uso da água na bacia é de

responsabilidade dos órgãos gestores estaduais e da ANA. A deliberação sobre ações que transcendem o âmbito da bacia é responsabilidade do Conselho Nacional de Recursos Hídricos, órgão superior do Sistema Nacional de Gerencia- mento de Recursos Hídricos.

O que são os Comitês de Bacias Hidrográficas?

As principais competências dos comitês de bacias hidrográficas são:

promover o debate das questões relacionadas a recursos hídricos e arti- cular a atuação das entidades intervenientes;

arbitrar, em primeira instância administrativa, os conflitos relacionados aos recursos hídricos;

aprovar o Plano de Recursos Hídricos da bacia;

acompanhar a execução do Plano de Recursos Hídricos da bacia e suge- rir as providências necessárias ao cumprimento de suas metas;

propor ao Conselho Nacional e aos Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos as acumulações, derivações, captações e lançamentos de pouca expressão, para efeito de isenção da obrigatoriedade de outorga de direi- tos de uso de recursos hídricos, de acordo com seus domínios;

estabelecer os mecanismos de cobrança pelo uso de recursos hídricos e sugerir os valores a serem cobrados;

estabelecer critérios e promover o rateio de custo das obras de uso múl- tiplo, de interesse comum ou coletivo.

Os Comitês são constituídos por representantes dos poderes públicos, dos usuários das águas e das organizações civis com ações desenvolvidas para a recu-

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Recursos hídricos e cidadania II

peração e conservação do meio ambiente e dos recursos hídricos em uma deter- minada bacia hidrográfica. A gestão é participativa e descentralizada. Sua criação formal depende de autorização do Conselho Nacional de Recursos Hídricos e de decreto da Presidência da República.

Para qualquer finalidade de uso das águas de um rio, lago ou mesmo de águas subterrâneas, deve ser solicitada uma Outorga de Direito de Uso de Recur- sos Hídricos ao poder público.

Os usos mencionados referem-se, por exemplo, à captação de água para o abastecimento doméstico, para fins industriais ou para irrigação; ao lançamento de efluentes industriais ou urbanos; à construção de obras hidráulicas como barragens e canalizações de rio, uso de recursos hídricos

com fins de aproveitamento dos potenciais hidrelétricos, ou ainda, a servi- ços de desassoreamento e de limpeza de margens. Em outras palavras, qualquer interferência que se pretenda realizar na quantidade ou na qualidade das águas de

um manancial necessita de uma autorização do poder público.

Por que solicitar autorização de uso da água ao poder público?

Princípio do poluidor-pagador

O princípio do poluidor-pagador, também conhecido como usuário-paga- dor, tem o objetivo de promover o uso racional dos recursos naturais, visando a preservação desses recursos para as gerações futuras. Este princípio prevê que os responsáveis diretos ou indiretos pela degradação de qualquer ambiente deverão pagar pelos prejuízos causados. Recursos como a água e o ar são bens públicos e sua poluição acarretará em mais prejuízos para a população além da perda de qualidade desses recursos.

Esse princípio não serve para afirmar que quem paga pode poluir, mas sim para evitar que pessoas ajam sem pensar nas conseqüências de seus atos. Dessa maneira, o pagamento efetuado pelo poluidor não lhe dá o direito de poluir. A di- ficuldade encontrada está no fato da quantificação de valores que devem ser pagos para a recomposição ambiental e nos valores devidos em multas indenizatórias.

Na legislação brasileira, o principio do poluidor-pagador é referenciado no artigo 4.º, VII, combinado com o parágrafo 1.º do artigo 14 da Lei 6.938/81 – Lei da Política Nacional do Meio Ambiente – que diz que é obrigação do poluidor, culpado ou não, indenizar ou reparar danos causados ao meio ambiente ou a terceiros afeta- dos por sua atividade. Ele também é reforçado pela Constituição Federal de 1988, ar- tigo 225, parágrafo 3.º, que afirma: “as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados”.

No caso do uso da água, é responsabilidade do usuário-poluidor o custo de despoluição da água por ele utilizada. Assim, uma empresa ou pessoa que utilize água de um rio, deve retornar essa água ao rio com a mesma qualidade de quando foi captada. A cobrança pelo uso e/ou poluição dos recursos hídricos é um ins- trumento de gestão para induzir os usuários a serem mais racionais no uso desse recurso e a preservarem o meio ambiente.

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Educação Ambiental e Cidadania

Tecnologias para o uso da água

Recuperar uma fonte de recursos hídricos custa caro e leva bastante tempo. Para melhorar a situação dos recursos hídricos no planeta é preciso, além de tentar limpar as fontes que já estão poluídas, evitar o desperdício, interromper os proces- sos poluidores e criar novas maneiras de captação, controle e distribuição da água.

O rio Tâmisa, em Londres, já foi tão poluído que deixou de ser considerado um cartão postal da cidade. Seu estado de poluição já era crítico em 1856, e em 1950 este rio foi dado como “morto” por causa da grande quantidade de esgoto que recebia. A recuperação do Tâmisa começou em 1960, com o tratamento do esgoto e das águas pluviais, além de normas impostas às indústrias poluidoras. O processo exigiu muito investimento e fiscalização por parte do governo, e hoje o rio é considerado o estuário metropolitano mais limpo do mundo.

Outro exemplo interessante é do estuário do Guaíba, em Porto Alegre (RS).

O Guaíba é na verdade um grande lago, com 12 comitês responsáveis pelo seu ge-

renciamento, uso e proteção. As três principais cidades banhadas por ele são Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, Canoas e Guaíba. Hoje, a única indústria que poluía o rio faz o tratamento total de seus resíduos químicos e possui certifi-

cação ISO 14.000 2 . A coleta do esgoto melhorou na capital, mas ainda são neces- sários mais esforços no sentido de melhorar a qualidade da água do Guaíba.

Em alguns países, o esgoto é tratado e a água é reaproveitada para consumo. Esse destino não poluente do esgoto não é assim uma tecnologia novíssima. Há mais de 20 anos os cidadãos de Orange County, terra da Disneylândia nos Estados Unidos, consomem a água reciclada dos esgotos. No mesmo país, a população do Arizona tem 80% de seu esgoto renovado em água potável. O Japão é outro exemplo: reutilizam 80% da água usada na indústria. A reutilização da água dá um fim à poluição causada pelo lançamento de esgoto nos cursos d’água e também ao problema de captação de recursos hídricos enfrentados pelas cidades, como acontece aqui no Brasil, na grande São Paulo, por exemplo.

Na Índia optou-se por uma alternativa barata de captação de água. Os len- çóis freáticos foram salvos através de poços feitos nos quintais para recolher a água da chuva. Aqui no Brasil, em alguns lugares semi-áridos do Nordeste, as cis- ternas para captação da água da chuva estão sendo a salvação de muitas famílias.

A grande São Paulo também já aderiu a essa idéia, bastante simples.

Há muito tempo o cloro vem sendo utilizado para desinfecção da água. Em 1975, descobriu-se que o cloro reage com a matéria orgânica e produz substâncias organocloradas, similares aos agrotóxicos e prejudiciais à saúde.

Uma opção mais “limpa” é a utilização do ozônio, produzido no local do tratamento a partir de ar seco ou oxigênio puro submetidos

a descargas elétricas. Assim, não é necessário adicionar outras subs- tâncias à água. O ozônio é um oxidante que elimina microorganismos, utilizado na desinfecção de piscinas, processos de lavagem de garrafas, frutas, legumes e verduras, atua na remoção de ferro e manganês, melhora o gosto e o odor da água, elimina o limo e limpa as tubulações. Sua utilização para tratamento de efluentes é bastante eficaz.

E quanto ao tratamento da água?

2 O certificado que atesta o compromisso e a condu-

ta da empresa em relação ao meio ambiente.

Recursos hídricos e cidadania II

Outra forma de desinfecção da água é através da radiação ultravioleta (UV). Ela também é gerada no local da desinfecção por descarga elétrica através de lâmpadas de vapor de mercúrio. Essa radiação penetra no corpo dos microorga- nismos, altera seu código genético e impossibilita a reprodução. Assim como o ozônio, a radiação ultravioleta não produz substâncias nocivas na água.

Estes métodos têm sido empregados no tratamento de piscinas, com bastan- te eficiência e maior satisfação dos usuários.

Importância da educação ambiental no uso dos recursos hídricos

No Brasil, as pessoas estão acostumadas com a idéia de abundância de água, afinal de contas é o país que possui 12% da água doce do mundo. Sem a consciência de que este recurso pode acabar, é comum encontrar pessoas lavando a calçada com a mangueira aberta sem necessidade, utilizando jatos d’água (“vas- soura hidráulica”), ou então escovando os dentes com a torneira aberta, jogando fora água potável. Os exemplos de desperdício e despreocupação são muitos: la- vagem de veículos com água tratada, o uso de válvulas sob pressão nas descargas dos vasos sanitários, o despejo das águas servidas de banho e lavagens em geral, sem a preocupação com a racionalização de consumo e/ou reutilização. Um meio para evitar a falta de água no futuro está nas ações de educação e conscientização das pessoas, incluindo todas as classes sociais e todos os setores: agrícola, indús- tria, comércio, residências e escolas. Ensinar a inter-relação que existe entre solo, água, ar e seres vivos é um modo de alcançar o objetivo de se ter cidadãos mais comprometidos com o futuro do planeta.

Segundo dados do Banco Mundial, mais de 2,2 milhões de pessoas morrem todo ano e metade dos leitos hospitalares em todo o mundo estão ocupados por pacientes com doenças causadas pelo consumo de água contaminada e pela falta de saneamento. As crianças com até cinco anos são as mais afetadas, sendo 6.000 mortes infantis por dia. Esta realidade ocorre especialmente nos países em desen- volvimento, como Brasil, China e Índia. Uma pesquisa da Unesco sobre a qualida- de dos mananciais de 122 países mostrou que a Bélgica é o país com pior qualidade de água por causa da escassez de seus lençóis freáticos, da poluição causada pelas indústrias e a falta de tratamento de resíduos. Nos primeiros lugares estão Finlân- dia, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e Japão. Ainda de acordo com o relató- rio, os rios asiáticos são os mais poluídos do mundo, e metade da população nos países pobres está exposta a água contaminada por esgoto ou resíduos industriais.

Conclusão

Apesar da aparente abundância de água que temos em nosso país, sua dis- tribuição é desigual, sendo que nas regiões em que há mais cidades, a água já está se tornando escassa. O mesmo acontece no mundo. Países mais desenvolvidos demandam mais água, mas neles a drenagem desse recurso nem sempre é boa.

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Educação Ambiental e Cidadania

Alguns países já tratam esse recurso como não renovável e apresentam for- mas de uso mais conscientes. Porém, a poluição da água ainda é uma realidade triste na maioria das regiões do planeta. Ensinar as crianças sobre a importância desse recurso é fundamental para evitar que ele se esgote.

Na legislação, nosso país já evoluiu, agora é necessário que os cidadãos to- mem consciência e repensem seus hábitos.

os cidadãos to- mem consciência e repensem seus hábitos. 32 O Aqüífero Guarani (SÃO PAULO, 2005)
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O Aqüífero Guarani

(SÃO PAULO, 2005)

O Aqüífero Guarani é a principal reserva subterrânea de água doce da América do Sul e um

dos maiores sistemas aqüíferos do mundo, ocupando uma área total de 1,2 milhões de quilômetros quadrados na Bacia do Paraná e parte da Bacia do Chaco-Paraná. Estende-se pelo Brasil (840.000 km²), Paraguai (58.500 km²), Uruguai (58.500 km²) e Argentina, (255.000 km²), área equivalente

aos territórios de Inglaterra, França e Espanha juntas. Sua maior ocorrência se dá em território brasileiro (2/3 da área total) abrangendo os Estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

O Aqüífero Guarani, denominação do geólogo uruguaio Danilo Anton em memória do povo

indígena da região, tem uma área de recarga de 150 mil quilômetros quadrados e é constituído pelos sedimentos arenosos da Formação Pirambóia na Base (Formação Buena Vista na Argenti- na e Uruguai) e arenitos Botucatu no topo (Missiones no Paraguai,Tacuarembó no Uruguai e na Argentina).

O Aqüífero Guarani constitui-se em uma importante reserva estratégica para o abasteci-

mento da população, para o desenvolvimento das atividades econômicas e do lazer. Sua recarga natural anual (principalmente pelas chuvas) é de 160 quilômetros cúbicos ao ano, sendo que desta, 40 quilômetros cúbicos constituem o potencial explotável sem riscos para o sistema aqüífero. As águas em geral são de boa qualidade para o abastecimento público e outros usos, sendo que em sua porção confinada, os poços têm cerca de 1.500 metros de profundidade e podem produzir vazões superiores a 700 metros cúbicos por hora. No Estado de São Paulo, o Guarani é explorado por mais de 1000 poços e ocorre numa faixa no sentido sudoeste-nordeste. Sua área de recarga ocupa cerca de 17 mil quilômetros quadrados, onde se encontram a maior parte dos poços. Esta área é a mais vulnerável e deve ser objeto de pro- gramas de planejamento e gestão ambiental permanentes para se evitar a contaminação da água subterrânea e sobrexplotação do aqüífero com o conseqüente rebaixamento do lençol freático e o impacto nos corpos d’água superficiais. Por ser um aqüífero de extensão continental com característica confinada, muitas vezes jor- rante, sua dinâmica ainda é pouco conhecida, necessitando maiores estudos para seu entendi- mento, de forma a possibilitar uma utilização mais racional e o estabelecimento de estratégias de preservação mais eficientes.

Recursos hídricos e cidadania II

Até hoje, muitos poços foram perfurados para a exploração da água subterrânea, sem a devi- da preocupação com sua proteção, sendo cada caso ou problema tratado isoladamente. Diante da demanda por água doce, faz-se necessário o entendimento amplo deste sistema hídrico de forma a gerenciar e proteger este recurso. Para tanto, é necessário organizar os dados e sistemas existentes, de forma que seja possível integrar a utilização dos bancos de dados dos diversos países abrangidos pelo Aqüífero Guarani e modelar a hidrodinâmica do sistema, permitindo identificar as áreas mais frágeis que deverão ser protegidas.

as áreas mais frágeis que deverão ser protegidas. 1 . Formem grupos de três pessoas. Qual

1. Formem grupos de três pessoas. Qual é a bacia que drena a região onde você mora? Quais os rios que fazem parte desta bacia?

2. Discuta com o seu grupo se existem ou não problemas em relação ao abastecimento de água em sua cidade. Caso existam, quais são eles?

Educação Ambiental e Cidadania

3.

E quanto ao esgoto? Existe coleta e tratamento de esgoto em toda a cidade?

4. Com a turma toda, discuta quais as atitudes que os cidadãos podem tomar para melhorar a qua- lidade de vida na cidade em relação aos recursos hídricos. Formule um programa de educação ambiental que vise informar os cidadãos sobre o caráter finito dos recursos hídricos e sobre a importância da água para todos.

hídricos e sobre a importância da água para todos. Mais de um sexto da população mundial,

Mais de um sexto da população mundial, 18%, o que corresponde a 1,1 bilhão de pessoas, não têm acesso ao fornecimento de água. A situação piora quando se fala em saneamento básico, que não faz parte da realidade de 39% da humanidade, ou 2,4 bilhões de pessoas. (UM SEXTO, 2005).

da humanidade, ou 2,4 bilhões de pessoas. (UM SEXTO, 2005). BORGUETTI, Nadia Rita Boscardin; BORGUETTI, José

BORGUETTI, Nadia Rita Boscardin; BORGUETTI, José Roberto; ROSA FILHO, Ernani Francisco da. Aqüífero Guarani: a verdadeira integração dos países do Mercosul. 1. ed. Rio de Janeiro: Funda- ção Roberto Marinho, 2004. v. 1. 214p.

Agregam-se nesta obra, informações gerais sobre a disponibilidade e o uso da água no mundo, além das informações mais importantes sobre o Aqüífero Guarani, como extensão, características geológicas e hidroquímicas, e as aplicações do seu geotermalismo na agropecuária, na indústria e no turismo hidrotermal. Conceitos básicos de águas subterrâneas e aqüíferos, além de um glossário, objetivam facilitar a compreensão do assunto para aqueles leitores que não estão familiarizados com o tema. Uma lista com os municípios localizados sobre o Guarani e o mapa esquemático do mesmo em lâminas de acetatos também são apresentados.

O livro é ilustrado com gráficos e infográficos, mapas detalhados, cortes tridimensionais e transparências em acetato. <www.oaquiferoguarani.com.br>.

Site da Agência Nacional das Águas (ANA): < www.ana.org.br>

Neste site, encontram-se informações sobre a Lei de Recursos Hídricos, a Outorga de Direito de Uso de Recursos Hídricos e informações sobre os Comitês de Bacias Hidrográficas, quais são e como estão funcionando.

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Resíduos sólidos e cidadania

Nathieli K. Takemori Silva Sandro Menezes Silva

H á uma tendência clara de aumento da população mundial e, na mesma medida em que ela cresce, também cresce a necessidade de recursos na- turais. Como conseqüência, a produção de resíduos da atividade humana

é crescente, e na maior parte dos casos eles são descartados e conhecidos pelo nome de lixo.

A espécie humana tem usado o planeta como uma grande “lata de lixo”, sem

se importar com a possibilidade de algum dia não haver mais espaço para dispor

a grande quantidade de resíduos que produz diariamente. Estima-se que, em mé-

dia, um cidadão de Tóquio produza cerca de 1 quilo de lixo por dia, formado em grande parte por materiais que, devidamente separados e processados, podem ser reutilizados ou reciclados.

Reduzir a quantidade de lixo produzida e dar a ele a correta destinação. O lixo é hoje o grande desafio da maioria das cidades, visto que os impactos socio- ambientais do lixo são cada vez mais preocupantes, com destaque para a contami- nação das fontes de água usadas para o abastecimento público e a degradação da paisagem e de seus atributos naturais.

Estima-se que cada brasileiro produza entre 0,5 e 1 quilo de lixo por dia, enquanto países como os Estados Unidos, têm cidades em que cada habitante chega a produzir 3 quilos de lixo por dia. O país produz cerca de 200 milhões de toneladas de lixo por ano, e é considerado o que mais gera lixo no mundo. Isso porque se o desenvolvimento é maior, aumentam também a renda per capita e o poder de consumo, gerando uma quantidade maior de resíduos sólidos.

A diferença na composição do lixo dos norte-americanos em relação ao lixo

brasileiro é que eles geram menos resíduos sólidos orgânicos, enquanto no Brasil mais da metade do lixo é composto por matéria orgânica, em grande parte resul- tante do desperdício de alimentos.

Entende-se por lixo os restos das atividades humanas, considerados pelos geradores como inúteis, indesejáveis ou descartáveis. Normalmente,

apresentam-se sob estado sólido, semi-sólido ou semilíquido. Podem ori- ginar-se da indústria, dos serviços públicos e das atividades domésticas. Em todos os locais onde há consumo de recursos naturais, há geração de resíduos sólidos.

O que é resíduo sólido ou lixo?

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Tipos de resíduos sólidos

Os resíduos sólidos podem ser classificados conforme diferentes critérios, entre os quais sua natureza física, composição química, origem, riscos à saúde, entre outros.

Quanto à natureza física, podem ser classificados em seco, como as aparas de papel produzidas na fabricação de material impresso; ou molhado, como no caso dos restos de alimentos produzidos por restaurantes e outros estabelecimen- tos que servem alimentos processados.

Em relação à composição química, os tipos mais usualmente reconhecidos são o lixo orgânico, formado por resíduos de vegetais, alimentos e animais – e o inorgâ- nico, com materiais industrializados pelo homem, como plásticos, papéis e metais.

Os resíduos podem ainda ser categorizados conforme o respectivo risco que apresentam ao meio ambiente. Os lixos considerados perigosos possuem uma ou mais das seguintes características: inflamabilidade, corrosividade, reatividade, toxicidade e patogenicidade. São exemplos de resíduos sólidos potencialmente perigosos as pilhas, baterias, lâmpadas fluorescentes e frascos de aerossóis.

Os resíduos chamados de não perigosos não oferecem nenhum risco direto à saúde humana e nem ao ambiente, pois não introduzem substâncias químicas estranhas a ele.

Quanto à origem, os resíduos sólidos podem ser classificados da seguinte forma.

Domiciliares – originados da vida diária nas residências, compostos basi- camente por restos de alimentos, papéis (revistas, jornais e embalagens), vidros, latas, papel higiênico e outros itens, como pilhas e lâmpadas.

Comerciais – originam-se dos estabelecimentos comerciais como lojas, bancos, supermercados, restaurantes, entre outros – sendo os mais co- muns os papéis e plásticos. Podem apresentar outros itens como papel higiênico e restos de alimentos.

Públicos – originam-se dos serviços de limpeza das vias e locais públicos e geralmente contém restos de podas e folhas de árvores, material reti- rado da limpeza de galerias, córregos, terrenos, praias, restos de feiras livres e animais mortos.

Hospitalares – resultam de materiais usados no tratamento da saúde, sen- do representado por seringas, agulhas, gazes, bandagens, algodões, san- gue, luva descartável, remédios com prazo de validade vencido, filmes fotográficos de raio X, entre outros. Esse tipo de material é classificado como resíduo séptico, pois tem grande potencial de contaminação do ambiente com patógenos e substâncias tóxicas. Os outros resíduos, como restos de alimentos, papéis e plásticos, podem ser tratados normalmente desde que não entrem em contato com os resíduos sépticos.

Industriais – bastante variados, dependendo da natureza da atividade in- dustrial, podendo conter cinzas, lodos, óleos, resíduos alcalinos ou áci-

Resíduos sólidos e cidadania

dos, plásticos, papéis, madeiras, fibras, pigmentos, borrachas, metais, vidros e cerâmicas. É comum entre os resíduos industriais a presença de substâncias tóxicas.

Agrícolas – são resíduos provenientes das atividades agrícola e pecuária. Além dos restos da colheita, existem as embalagens de rações, de defen- sivos agrícolas e de fertilizantes. Neste caso, também são considerados materiais tóxicos.

Entulhos – vêm da construção civil e são compostos por restos de de- molição, obras e escavações. A maioria dos resíduos da construção civil é passível de reaproveitamento; porém materiais como amianto, tintas e solventes são tóxicos e merecem atenção especial.

A coleta e disposição final dos resíduos domiciliar, comercial e pú-

Quem são os responsáveis pelos resíduos sólidos?

blico, são de responsabilidade das prefeituras municipais. Já os resíduos dos serviços de saúde, industrial, agrícola e os entulhos são de respon- sabilidade de quem produz, ou seja, cada um é responsável pelo seu lixo, coletando, armazenando e tratando adequadamente esses resíduos.

Em casa ou no local de trabalho, os responsáveis pela separação e destina- ção adequada do lixo somos nós, antes mesmo de entregarmos ao caminhão de coleta. Resíduos de origem orgânica devem ser separados dos resíduos recicláveis, assim como os resíduos tóxicos – pilhas, lâmpadas, restos de tintas e medicamen- tos vencidos. Se a cidade onde você mora não tem coleta seletiva, procure sua as- sociação de bairro ou o representante de sua região no poder legislativo municipal para propor medidas que minimizem o impacto desses resíduos na cidade.

Formas de disposição final dos resíduos sólidos

Os resíduos sólidos, mesmo quando coletados adequadamente pelo poder público municipal, provocam impactos sobre o ambiente pela necessidade de um local para sua disposição final. As formas mais comuns de disposição final são os chamados lixões ou aterros sanitários. Outras formas de tratar o lixo são a com- postagem, a reciclagem e a incineração. Porém, para que possam ser eficientes é necessária a coleta pela prefeitura e, quando não ocorre, a população vê os detritos se acumulando em terrenos baldios e no leito dos rios, com conseqüências para a saúde dos próprios responsáveis pela produção do lixo.

No Brasil, a coleta do lixo cobre cerca de 70% da população das áreas urba- nas, em média; enquanto no Distrito Federal apenas 1,4% dos domicílios não tem coleta de lixo, no Maranhão essa taxa é de 67,5 % dos domicílios. Nos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste a coleta do lixo atinge um percentual maior da popu- lação, sendo a média de domicílios sem coleta de lixo nessas regiões de 12%. Nas regiões Norte e Nordeste, essa média é de 42%.

A maior parte do lixo, cerca de 76%, mesmo coletado pela prefeitura, é dis-

posto em lixões a céu aberto, 13% vai para aterros controlados e 10% para aterros

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sanitários. A compostagem e a incineração não são práticas usuais em nosso país, representando juntas apenas 1% do destino final do lixo. Observe a Tabela 1, que relaciona a situação do lixo com a densidade demográfica e o nível de renda dos habitantes do planeta.

Quadro 1 – Situação mundial do lixo conforme diferentes características socioeconômicas de países do mundo

 

Japão, Alemanha, Bélgica e costa leste dos Estados Unidos

Canadá, interior dos Estados Unidos e países nórdicos

Cidades na

Áreas rurais da África e de algumas regiõe da América Latina

Índia, China,

Egito

Densidade

       

demográfica

alta

alta

alta

baixa

Renda per capita

alta

alta

baixa

baixa

Geração de lixo (per capita)

alta

alta

média

baixa

Característica do

 

alto teor de embalagens; grande quantidade de resíduos de jardinagem

teor médio de embalagens e grande quantidade de restos de alimentos

 

lixo

alto teor de embalagens

alto teor de restos de alimentos

Coleta do lixo

total (programas de coleta seletiva)

total

inadequada

inadequada

 

incineração para

aterro sanitário;

lixão (há a preocupação em criar aterros sanitários); reciclagem

 

Destinação final

gerar energia;

algumas

aterro sanitário

iniciativas de

lixão

do lixo

com controle

reciclagem;

ambiental

compostagem

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Fonte: D’Almeida e Vilhena (2000, p.5)

Formas mais usuais de disposição final dos resíduos sólidos

Lixões

Os lixões são a pior forma de disposição final dos resíduos sólidos, pois o lixo é jogado diretamente sobre o solo, a céu aberto. Os problemas ambientais causados por esta disposição são a poluição da água, do ar e do solo. Ainda exis- tem os problemas relacionados à saúde pública, pois além da contaminação am- biental que afeta diretamente a população, os lixões são locais de disseminação de diversos vetores de doenças, por exemplo, baratas, moscas e ratos.

O principal agente contaminante é o chorume – líquido escuro gerado da de- composição da matéria orgânica, cuja composição é variável e depende das condi-

Resíduos sólidos e cidadania

ções locais e das características dos resíduos. Ele pode conter metais pesados que, associados aos compostos altamente solúveis do chorume, contaminam os solos, a água e conseqüentemente toda a cadeia alimentar, incluindo o homem.

Aterros

Existem três tipos diferentes de aterros: os sanitários, os controlados e os industriais. Os aterros sanitários são locais especialmente projetados para receber resíduos sólidos de origem domiciliar. Os terrenos recebem um tratamento de impermeabilização para evitar que o chorume penetre no solo e contamine as águas. Os resíduos depositados são compactados e recobertos por camadas de terra. O projeto inclui a drenagem da água, captação e tratamento do cho-rume, além da captação e tratamento dos gases que se originam da decomposição dos resíduos, entre eles, o metano e o dióxido de carbono, os quais contribuem para o aquecimento global. Hoje, pode-se transformar o metano em energia elétrica. Por causa dos impactos ambientais e dos conflitos com a vizinhança, é difícil de se conseguir um local para a construção de aterros.

Os aterros controlados nada mais são do que lixões que passaram por certas adequações operacionais. Normalmente não atendem às especificações técnicas de controle de poluição, pois o terreno não é impermeabilizado como acontece nos ater- ros sanitários. Também não apresentam tratamento do chorume e nem dos gases.

Os aterros industriais são locais especialmente projetados para receber os resíduos industriais perigosos. Devem garantir que esses resíduos não causem danos à saúde pública e ao ambiente. No Brasil, nem todos os rejeitos industriais são adequadamente tratados, e ainda não se sabe quais serão exatamente as con- seqüências desse descaso.

Incineração

Na incineração, os resíduos sólidos são queimados em temperaturas acima de 800ºC. Esse processo gera poluentes sólidos (cinzas), líquidos (lamas) e gasosos, tendo, como as demais formas de disposição final, um certo impacto ambiental. As cinzas devem ser destinadas a aterros de resíduos perigosos e a emissão de gases deve ser controlada por filtros. Além da geração de poluentes, a incineração tem a desvantagem de ser um processo de alto custo de implantação e de operação. Por outro lado, durante a queima, pode ser gerada energia elétrica ou térmica.

Com a incineração, há uma redução de 70% da massa e de 90% do volume dos resíduos, fazendo-se assim uma economia de espaço nos aterros. Outra van- tagem é a esterilização dos resíduos, destruindo-se bactérias e vírus. Por isso, a incineração é recomendada no tratamento dos resíduos hospitalares.

Compostagem

O processo de compostagem consiste na decomposição da matéria orgânica pela ação de agentes biológicos microbianos na presença de oxigênio, necessi- tando de condições físicas e químicas adequadas para levar à formação de um produto de boa qualidade chamado de composto. Pode ser uma alternativa para a destinação final dos resíduos orgânicos, sendo utilizada no meio rural há mui-

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to tempo. Nesse processo, a matéria orgânica é decomposta, gerando composto orgânico que pode ser utilizado como fertilizante, melhorando as características de solos empobrecidos. Em um país como o nosso, onde mais de 50% do lixo é matéria orgânica, a compostagem reduz o volume desse tipo de lixo destinado aos aterros, aumentando a vida útil destes. A compostagem pode ocorrer por dois métodos: o natural e o acelerado.

Natural – a parte orgânica do lixo é disposta em pilhas sobre o solo; a aeração é necessária para fornecer oxigênio aos microorganismos e esta é conseguida através de revolvimentos periódicos. O processo todo leva de três a quatro meses.

Acelerado – as pilhas de lixo orgânico são dispostas sobre tubulações que forçam a aeração. Também se pode utilizar reatores nos quais a ma- téria orgânica passa no sentido contrário ao da corrente de ar. Depois de cerca de quatro dias sobre a tubulação ou no reator, a matéria orgânica é disposta em pilhas e o processo segue como no método natural. O tempo total desse método é de dois a três meses.

É importante ressaltar que a compostagem também produz chorume e os

efluentes também devem ser tratados adequadamente para que não haja contami- nação da água.

No Brasil, algumas cidades possuem usinas de compostagem pelo método acelerado. Entre elas estão: Boa Vista (RO), Belém (PA), Belo Horizonte e Ube- raba (MG), Rio de Janeiro (RJ), São José dos Campos, Santo André e São Paulo (SP). Muitas usinas pararam de funcionar principalmente por mau planejamento.

A implementação e a operação de uma usina de compostagem são proces-

sos caros. Ela não vai trazer “lucro” para o município. Na verdade, o mercado de compostos e dos materiais recicláveis não chega a cobrir os custos financeiros de uma usina de triagem e compostagem. Porém, os benefícios diretos relacionados ao aumento da vida útil de um aterro, de uma produção mais baixa de chorume e gases, da diminuição do consumo de matérias-primas, energia e água, além da redução da poluição ambiental, justificam a implantação de uma usina de benefi- ciamento do lixo reciclável e de compostagem para os resíduos orgânicos de um município.

Coleta seletiva

A coleta de lixo seletiva é um processo de recolhimento de produtos reci-

cláveis, como papéis, vidros, metais, plásticos e orgânicos, que são previamente separados pelos geradores. Ela auxilia o trabalho nas usinas de triagem de lixo, além de os materiais poderem ser vendidos às indústrias recicladoras. A separação do lixo por categorias agiliza o processo de reciclagem dos materiais, reduzindo assim o consumo dos recursos naturais. Vários municípios brasileiros já contam com um programa de coleta de lixo reciclável separadamente do lixo comum. Essa consciência também se reflete nas famílias de baixa renda que hoje sobrevi- vem da catação de lixo reciclável.

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Resíduos sólidos e cidadania

IESDE Brasil S.A.
IESDE Brasil S.A.

O lixo que machuca

O trabalho de coleta do lixo é indispensável para manter a boa qualidade de vida nas cidades; cada coletor de lixo recolhe uma média de 4 a 6 toneladas de resíduos sólidos por dia. Expostos aos perigos do trânsito e à discriminação das pessoas, os coletores ainda precisam se cuidar na hora de recolher o lixo, pois quando mal acondicionado pode causar ferimentos e doenças. O que mais acon- tece são cortes e perfurações nas mãos em função de vidros e materiais cortantes mal acondicionados em sacos plásticos ou espalhados pela rua.

Observe algumas dicas que podem ajudar no trabalho do coletor, e diminuir assim os riscos de acidentes.

Evite jogar lixo nos terrenos próximos à sua casa. Recolha o lixo e acon- dicione em sacos plásticos.

Evite o desperdício, reutilizando embalagens quando possível. Desta for- ma você contribui também para a diminuição do volume de lixo coletado diariamente.

Ensine as crianças a acondicionar o lixo e a jogar os papéis de balas e chocolates nas lixeiras. Leve o lixo com você, na bolsa ou no bolso, até encontrar o recipiente adequado.

Procure saber a hora que o coletor passa pela rua e coloque o lixo neste horário. É proibido colocar lixos nas calçadas antes da hora da coleta.

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Não queime o lixo, pois ele pode soltar gases tóxicos e prejudiciais à sua saúde.

Todo o lixo que incluir agulhas, latas, material cortante e perfurante em geral, deve ser acondicionado em papel ou em recipientes com tampas como as latas de biscoito ou leite em pó.

Evite estacionar veículos em frente aos pontos de disposição de lixo pela população, pois dificulta o trabalho dos coletores de lixo e aumenta a sua carga de trabalho.

Evite pendurar sacos de lixo em portões, grades ou árvores, pois o co- letor de lixo terá de realizar um grande esforço para realizar a coleta destes sacos.

Evite a utilização de sacos muito grandes, pois ficam muito pesados, especialmente se houver resíduos como terra, entulhos etc.

Procure na sua cidade através da prefeitura ou das empresas que reali- zam a coleta de lixo, se há algum tipo de serviço especial para coleta de objetos grandes ou bagulhos, tais como mesas, vasos sanitários, pias, televisões etc.

Não jogue pilhas e baterias no lixo, pois elas contêm substâncias tóxicas prejudiciais à saúde de todos. As pilhas e baterias já utilizadas devem ser entregues aos estabelecimentos que as comercializam ou à rede de assistência técnica autorizada para repasse aos fabricantes ou importado- res para que estes adotem os procedimentos de reutilização, reciclagem, tratamento ou disposição final adequada.

Mantenham os cães presos para evitar ataques e agressões aos coletores de lixo no momento da coleta.

Aguarde o término da limpeza das ruas de feira para poder transitar com os veículos. Não esperar pode provocar o atropelamento dos cole- tores de lixo.

A produção, coleta e disposição final do lixo nas grandes cidades, nas in-

dústrias e no meio rural são questões que devem receber uma atenção especial de cada cidadão, assim como do poder público. Aos cidadãos cabe a função de redu- zir o consumo de produtos que gerem lixo, separar e acondicionar adequadamente

o lixo produzido e atuar conscientemente no sentido de cobrar do poder público

a destinação correta dos resíduos. Ao poder público, além da regulamentação de

todos os processos relacionados ao lixo, cabe implantar um sistema eficiente de coleta seletiva e destinação final dos resíduos, levando em consideração sua ori- gem e as respectivas características físicas e químicas.

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Resíduos sólidos e cidadania

Resíduos sólidos e cidadania Central de Moagem de Entulhos (UNILIVRE, 2005) Objetivos : reduzir a deposição

Central de Moagem de Entulhos

(UNILIVRE, 2005)

Objetivos: reduzir a deposição de sobras de materiais da indústria da construção civil em fundos de vales e reciclar este material para a confecção de blocos, bloquetes e canaletas de concreto.

A grande quantidade de sobras de materiais da indústria da construção civil, cerca de 400

toneladas ao dia, constituía um grave problema ambiental para o município de Londrina (PR). A

maior parte desses rejeitos eram sistematicamente abandonados em terrenos baldios e fundos de vale, promovendo a poluição e assoreamento dos leitos dos ribeirões que cortam o município.

A Central de Moagem de Entulho, instalada pela AMA – Autarquia do Meio Ambiente,

numa antiga pedreira da prefeitura, em uma área de aproximadamente 174 mil metros qua- drados, com um custo de instalação de 180 mil reais, processa diariamente cerca de 25 a 30% do total de entulhos produzidos na cidade. Com o material produzido através da reciclagem

– areia, pedrisco e brita de várias granulometrias – são fabricados, no mesmo local, os blocos, bloquetes e as canaletas de concreto. Estes produtos estão sendo utilizados na construção de casas populares, como parte do Pro- grama Morar Melhor, desenvolvido pela AMA em parceria com a Cohab-LD, com o objetivo de reurbanizar as favelas do município, além da urbanização de parques e praças públicas.

A produção média da Central de Moagem de Entulhos é de aproximadamente 1.200 blocos por

dia, quantidade equivalente a 100 metros quadrados de construção. Com a conclusão da ampliação desta central, a capacidade de produção aumentará, possibilitando ainda uma diversificação na produção, com o desenvolvimento de novos produtos.

A Central de Moagem de Entulhos é uma usina com capacidade inicial de britagem de 100

a 120 toneladas diárias de rejeitos da indústria da construção civil, resultante da demolição e

das sobras de obras, tais como argamassas, materiais de alvenaria, concreto não estrutural, ma- teriais cerâmicos e outros.

O entulho da construção civil é previamente coletado e transportado por caminhões com

dispositivos polinguindaste para transporte de caçambas estacionárias até a Central de Moagem de Entulhos. Esse transporte é realizado por empresas particulares, sendo seu custo de responsa- bilidade do gerador dos entulhos. No pátio de recebimento, os entulhos são descarregados em pilhas de acordo com uma pré-classificação quanto à natureza do material e sua destinação final. Posteriormente, esse material passa por um processo de triagem manual, em que são separados os materiais plás- ticos, metálicos, a madeira e o vidro, que recebem uma destinação adequada, sendo também encaminhados para reciclagem.

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Educação Ambiental e Cidadania

Máquinas operatrizes, como pá carregadeira e retroescavadeira, realizam a remoção e o transporte dos entulhos, já triados e classificados, até o alimentador vibratório, responsável pela separação inicial do material mais fino e pela alimentação do britador de mandíbulas, que realiza a primeira etapa de moagem, em que ocorre a primeira redução da granulometria dos entulhos. Os entulhos britados são transportados por uma transportadora de correia e depositados na porção superior de um silo metálico que descarrega os entulhos na calha vibratória que, por sua vez, alimenta o moinho de martelos. Nesse moinho, os entulhos britados são mais uma vez desagregados e particulados, tendo novamente a sua granulometria reduzida. Finalmente, o ma- terial proveniente do moinho de martelos é transportado por uma transportadora de correia até o sistema rotativo de peneiras, onde é classificado de acordo com sua granulometria em areia, pedrisco, brita 1, brita 2 e brita 3. As britas 2 e 3 são novamente encaminhadas ao início do processo para uma nova britagem. Uma vez terminado o processo de moagem, a areia e o pedrisco são transportados até o local de instalação das máquinas para a moldagem dos blocos. Atualmente, este transporte ainda é feito com máquinas operatrizes, mas com a ampliação e a readequação espacial da Central de Moagem de Entulho, este passará a ser feito por calhas. No local de instalação das máquinas para a moldagem dos blocos, o material – areia e pe- drisco – é misturado a água e cimento, e a massa de concreto é moldada. De acordo com o tipo de forma utilizada, são produzidos blocos, bloquetes e canaletas de concreto. A Central iniciou sua produção com mais de 1.000 tijolos por dia, destinados para a cons- trução de casas populares, e que são produzidos até hoje. Além do reaproveitamento, os quase 4.000 pontos de despejos de entulho detectados no município foram praticamente extintos. Hoje chegam à Central cerca de 100 caminhões de entulho por dia – 300 toneladas em média (das cerca de 400 toneladas produzidas diariamente na cidade); 10 a 15% delas são processa- das e viram brita, e o restante é reaproveitado em pavimentações diversas, como calçamento de praças e logradouros públicos.

como calçamento de praças e logradouros públicos. 1 . Forme grupos de até cinco pessoas com

1. Forme grupos de até cinco pessoas com seus colegas para fazer uma avaliação do lixo produzi- do na sua casa e no seu ambiente de trabalho. Procure monitorar a produção de lixo diária por no mínimo uma semana, separando o material nas seguintes categorias: papel, plástico, vidro, metal e orgânico. Junte o material de cada categoria ao final do período monitorado e procure um local para fazer a pesagem, que pode ser uma farmácia, um armazém ou uma usina de reci- clagem, caso sua cidade tenha uma.

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Resíduos sólidos e cidadania

1.1. Reúna as informações do grupo e obtenha os seguintes indicadores:

a)

distribuição proporcional das diferentes categorias de lixo;

b)

produção média diária de lixo per capita;

c)

produção média diária per capita por categoria.

1.2. Faça uma comparação entre a produção de lixo no ambiente doméstico e no ambiente de trabalho, considerando as diferentes categorias de lixo.

2. Discuta os resultados no grupo, prepare uma apresentação sintética sobre esta discussão e apre- sente para o restante da turma. Solicite a um membro do grupo que relate os aspectos mais importantes da discussão para incorporar ao trabalho final.

3. Organize uma rodada de discussões com seus colegas sobre experiências na sua escola, na sua comunidade ou na sua casa, sobre a separação, reutilização e reciclagem do lixo. Procure orga- nizar as experiências relatadas em um quadro e avalie as possibilidades de adotar as ações bem sucedidas.

avalie as possibilidades de adotar as ações bem sucedidas. D’ALMEIDA, Maria Luiza Otero; VILHENA, André (coord.).

D’ALMEIDA, Maria Luiza Otero; VILHENA, André (coord.). Lixo Municipal: manual de gerencia- mento integrado. 2.ed. São Paulo: IPT/Cempre, 2000. (Publicação IPT 2.622).

Trata-se de uma excelente publicação informativa sobre resíduos sólidos no ambiente urbano, com orientações técnicas destinadas à coleta, transporte e disposição final do lixo, além de muita informação sobre a reciclagem de diferentes tipos de materiais. Apresenta ainda uma coletânea de leis que disciplinam a questão do lixo nos municípios, servindo com uma boa referência no assunto. Há a possibilidade de acessar o site do Cempre – Compromisso Empresarial pela Reciclagem – onde informações atualizadas sobre o tem estão à disposição de forma rápida e confiável. O endereço é <www.cempre.org.br>.

Site eletrônico do Ministério das Cidades: <www.cidades.gov.br>.

Site oficial do Ministério no qual é possível encontrar várias informações sobre ações de coleta e destinação dos resíduos sólidos, saneamento e demais atribuições do poder público municipal em diferentes regiões brasileiras. Permite acesso a programas governamentais, possibilidades de finan- ciamentos e parcerias voltadas à gestão municipal dos resíduos sólidos.

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Educação Ambiental e Cidadania

Resíduos sólidos e cidadania II

Nathieli K. Takemori Silva Sandro Menezes Silva

A população mundial em notável crescimento e o conseqüente aumento no

uso dos recursos naturais têm gerado uma quantidade cada vez maior de

resíduos sólidos, de diferentes naturezas, genericamente chamados de

lixo. Mesmo as projeções mais otimistas apontam para cenários futuros nos quais esta questão é decisiva para a manutenção da qualidade de vida do homem, não havendo outra alternativa viável que não seja reduzir a quantidade de resíduos produzidos, reutilizar tudo o que for possível e, principalmente, reciclar o lixo que pode ser utilizado em novos produtos. É o que se conhece popularmente como “os três Rs”: reduzir, reutilizar e reciclar.

Há quem acrescente a esta tríade mais dois Rs, que todo educador deve considerar. Os cinco Rs são:

Repensar hábitos e atitudes;

Reduzir o consumo e diminuir a geração e o descarte de resíduos sóli- dos;

Reutilizar para aumentar a vida útil de cada produto;

Reciclar para transformar o resíduo em um novo produto;

Recusar produtos que agridam a saúde e o ambiente.

No Brasil, o lixo coletado diariamente é de cerca de 228 mil toneladas. De todo esse lixo, apenas 4% é reciclado e, do restante, 20% é jogado em rios e vár- zeas. Apenas 8% dos municípios brasileiros têm programas de coleta seletiva de lixo. O Quadro 1 mostra a proporção de resíduos sólidos de diferentes naturezas que são reciclados no Brasil. Embora alguns materiais tenham percentuais relati- vamente altos de reciclagem (como o alumínio), outros ainda têm muito a crescer nesse sentido, seja porque ainda não têm um valor de mercado atraente para inves- tidores, como o PET, seja por que a tecnologia disponível para a reciclagem ainda é pouco difundida e empregada, como é o caso das embalagens longa vida.

Percebe-se também que os materiais com maior percentual de reciclagem são aqueles que têm maior valor no mercado de recicláveis, como as latas de alu- mínio e alguns tipos de papel.

Educação Ambiental e Cidadania

Quadro 1– A reciclagem no Brasil. Porcentagem de lixo reciclado

Papel branco

41%

Papel ondulado

 

77,3 %

Plástico filme

 

17,5 %

Plástico rígido

 

17,5 %

PET

35

%

Alumínio

87

%

Latas de aço

45

%

Vidro

44

%

Pneus

57

%

Longa vida

15

%

O que é reciclagem?

Fonte: www.cempre.org.br

Reciclagem é um conjunto de técnicas que têm por finalidade aproveitar os detritos e reutilizá-los no ciclo de produção de que saíram. É o resultado de uma série de atividades, pela qual materiais que se tornariam lixo ou estão no lixo, são desviados, coletados, separados e processados para serem usados como matéria- prima na manufatura de novos produtos.

A coleta seletiva

A coleta seletiva é o recolhimento dos resíduos sólidos previamente sepa- rados por categorias, de acordo com sua composição química. Ela se inicia com a separação do lixo, que é feita pelos próprios geradores ou pelos catadores de materiais recicláveis. É parte do processo de reciclagem, pois após a coleta os materiais estão prontos para serem vendidos às centrais, indústrias que fazem o reaproveitamento do material.

Para o município, a coleta seletiva e adequada destinação final do lixo não podem ser vistas como atividades lucrativas. O tratamento dos resíduos sólidos deve ser implantado com base em seus benefícios sociais e ambientais, dentre os quais podem ser destacados:

redução de custo com aterros sanitários ou incineração;

aumento da vida útil dos aterros sanitários;

diminuição de gastos com áreas degradadas pelo mal acondicionamento do lixo;

conscientização da população sobre o meio ambiente;

uma comunidade mais educada, o que representa uma economia de re- cursos gastos com limpeza pública;

melhoria das condições ambientais e de saúde pública do município;

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Resíduos sólidos e cidadania II

geração de empregos diretos e indiretos, com conseqüente resgate social dos catadores de lixo.

Os catadores de materiais recicláveis

A reciclagem no Brasil sempre foi sustentada pelos catadores informais de lixo nas ruas e nos lixões. Estima-se que existam mais de 200 mil catadores de rua e mais de 40 mil pessoas vivendo diretamente da catação em lixões. Esses catadores sempre ajudaram a promover a limpeza das cidades e a pro- teção do meio ambiente, sem nenhum tipo de reconhecimento da sociedade. Nos últimos dez anos, os catadores começaram a se organizar em cooperativas e associações com o apoio de instituições da sociedade civil e de prefeituras. Criaram o Movimento Nacional dos Catadores. Hoje, são conhecidos como agentes de limpeza pública e reconhecidos pelo Ministério do Trabalho como uma categoria, a de catadores de materiais recicláveis.

(BESEN, 2005, p. 320)

A coleta seletiva pode ser feita porta a porta, assim como acontece com a coleta normal. Outra forma é a coleta seletiva voluntária, na qual a população de- posita seu lixo em recipientes específicos, dispostos em pontos da cidade denomi- nados pontos de entrega voluntária (PEVs) ou locais de entrega voluntária (LEVs). Nesses pontos, recipientes (lixeiras) com cores específicas e simbologia adequada auxiliam o cidadão a depositar seu lixo. O sucesso da coleta seletiva está relacio- nado com a sensibilização ambiental da população.

49 IESDE Brasil S.A.
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IESDE Brasil S.A.

Educação Ambiental e Cidadania

Identificação dos materiais recicláveis

Para identificar os materiais recicláveis há uma padronização das cores dos recipientes de coleta. Também existem símbolos que podem ou não estar associa- dos com as cores. Observe no quadro abaixo o padrão de cores e símbolos adota- dos nesta identificação.

Quadro 2 – Cores e símbolos para identificação de materiais recicláveis

Cor Material Simbologia Azul Papel/papelão Vermelho Plástico Verde Vidro Amarelo Metal Preto Madeira
Cor
Material
Simbologia
Azul
Papel/papelão
Vermelho
Plástico
Verde
Vidro
Amarelo
Metal
Preto
Madeira
Laranja
Resíduos perigosos
Branco
Resíduos ambulatoriais e de
serviço de saúde
Roxo
Resíduos radioativos
Marrom
Resíduos orgânicos
Cinza
Resíduo geral não reciclável ou
misturado, ou contaminado não
passível de separação
50
50

Fonte: http://www.ambientebrasil.com.br

Um trabalho de conscientização da população é fundamental para que os produtos provenientes da reciclagem sejam “comprados”. Caso contrário, sem mercado não haverá mais estímulo para os catadores e para as indústrias recicla- doras. Um dos produtos que tem mercado certo é a latinha de alumínio. Com o preço do alumínio e a queda de oferta de matéria-prima de primeira mão, as latas de alumínio são as mais coletadas pelos catadores. Uma lata de alumínio é 100% reciclável e tem um ótimo preço no mercado de recicláveis.

Resíduos sólidos e cidadania II

Tabela 1– Mercado nacional de recicláveis (cotação) 1

 

Valor mínimo

Valor máximo

Valor médio R$/ tonelada

R$/tonelada

R$/tonelada

Papelão

150

320

218

Papel branco

60

450

264

Latas de aço

40

420

214

Alumínio

1.500

5.000

3.145

Plástico rígido

200

750

438

PET

150

1.500

952

Plástico filme

10

800

391

Longa vida

50

280

131

Vidro incolor

10

160

93

Vidro colorido

10

120

68

Fonte: http://www.cempre.org.br/mercado.php

Reciclagem

Reciclagem de papel

No Brasil, cerca de 99% da pasta celulósica utilizada na fabricação do papel vem da madeira, e o restante vem de materiais como sisal, bambu e línter 2 de algo- dão. A pasta celulósica pode ser produzida a partir do próprio papel, ou seja, a partir da reciclagem. No entanto, o papel não é infinitamente reciclável, pois com seu pro- cessamento as fibras perdem qualidade. Os principais fornecedores de papel para a reciclagem são a indústria e o comércio, representando 86%, e o lixo domiciliar 10%. Reciclar papel é importante para evitar que mais árvores sejam cortadas. Outro ponto importante a ser abordado é a diminuição do consumo de papel e o desperdício.

Alguns papéis não podem ser reciclados, são eles: papel vegetal, papel im- pregnado com substâncias impermeáveis (resina sintética, betume etc.), papel-car- bono, papel sanitário usado (esta categoria inclui o papel higiênico, papel-toalha, guardanapo e lenço de papel), papel sujo, engordurado ou contaminado com pro- dutos químicos nocivos à saúde, certos tipos de papel revestidos (com parafina ou silicone). Neste caso, os papéis são mandados para os aterros sanitários.

Reciclagem de plástico

Plásticos são produtos obtidos a partir do petróleo. Embora apresentem pou- ca massa, isto é cerca de 4 a 7% da massa total do lixo, eles ocupam muito espaço, representando de 15 a 20% do volume do lixo. Isso dificulta sua disposição nos aterros, pois ocupam mais espaço, prejudicando a compactação da camada de lixo. Além disso, por serem impermeáveis, dificultam a decomposição da matéria

1 Os valores são os pratica- dos por programas de co-

leta seletiva ou catadores nas

cidades de Rio Branco (AC), Itabira e Lavras (MG), Pau- la Freitas (PR), Petrópolis, Rio de Janeiro e São José do Vale do Rio Preto (RJ), Nova Odessa, Quintana, Santo An- dré, Santos, São Bernardo e São José dos Campos (SP).

2 A parte da fibra que fica fortemente aderida à se-

mente. Para se obter o línter

é preciso submeter o caroço

do algodão, separado da fi- bra, a um segundo processo, chamado de deslinteração. É utilizado para encher col- chões, travesseiros e almofa- das, para fazer fios de alguns tipos de tapetes, na produção de celulose, na indústria têx-

til (rayon e algodão artificial)

e na indústria de verniz, entre

outras. É ainda matéria bási- ca da elaboração do algodão absorvente, bem como do algodão para fins cirúrgicos. Na indústria bélica, é em- pregado na preparação de pólvora, pois dele se obtêm explosivos.

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Educação Ambiental e Cidadania

orgânica. Os plásticos também não devem ser queimados, pois o produto final de sua combustão são gases poluentes e tóxicos. Um exemplo é o PVC ou policloreto de vinila, aquele que usamos como filme plástico na cozinha. A queima do PVC gera dioxinas que são substâncias tóxicas e cancerígenas, e junto há a libera- ção de cloro, o qual pode originar o ácido clorídrico que é bastante corrosivo. A reciclagem dos plásticos traz várias vantagens, como a redução do volume lixo encaminhado aos aterros, economia de energia e petróleo, geração de empregos, a redução de cerca de 30% no preço de produtos de plástico reciclado, além das melhorias ambientais, como redução do consumo de energia, água e petróleo. Isso evita que os plásticos fiquem no ambiente até serem totalmente degradados, o que poderia causar a morte de animais que os ingerem por tomá-los como presas, como é o caso dos peixes, que comem plástico por ser semelhante às algas.

Os plásticos são divididos em duas categorias mais importantes.

Termofixos – representam 20% do consumo, e são os que não permitem reciclagem, pois não se fundem novamente (ex.: EVA ou poliacetato de etileno vinil, material bastante utilizado hoje para artesanato). Apesar de não permitirem reciclagem, ainda podem ser utilizados em outras aplica- ções, por exemplo, condicionadores de asfalto).

Termoplásticos – os mais utilizados e podem ser reciclados várias vezes. Nesta categoria estão os polietilenos de baixa e de alta densidade (PEBD e PEAD), o policloreto de vinila (PVC), o poliestireno (PS), o polipropi- leno (PP), o politereftalato de etileno (PET) e as poliamidas (náilon).

Quadro 3 – Tipos de plástico

Artefato

Tipo de plástico

Baldes, garrafas de álcool

PEAD

Condutores para fios e cabos elétricos

PVC, PEBD, PEAD, PP

Copos de água mineral

PP e PS

Copos descartáveis (água, café etc.)

PS

Embalagens de massas e biscoitos

PP, PEBD

Frascos de detergente e produtos de limpeza

PP, PEAD, PEBD, PVC

Frascos de xampu e artigos de higiene

PEBD, PEAD, PP

Gabinetes de aparelho de som e TV

PS

Garrafas de água mineral

PVC, PEAD, PET, PP

Garrafas de refrigerante

PET (o rótulo é de PEBD e a tampa em PP)

Garrafões de água mineral

PVC, PEAD, PP

Isopor

PS

Lonas agrícolas

PVC, PEAD, PEBD

Potes de margarina

PP

Sacos de adubo

PEBD

Sacos de leite

PEBD

Sacos de lixo

PEBD, PEAD, PVC

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Resíduos sólidos e cidadania II

Artefato

Tipo de plástico

Sacos de ráfia

PP

Tubos de água e esgoto

PVC, PP OU PEAD

Fonte: http://www.cempre.org.br/mercado.php

Quais os

tipos de

plásticos

que você

tem em

casa?

Reciclagem de metais

Os metais podem ser ferrosos, como o ferro e o aço, ou não ferrosos, como alumínio, cobre e suas ligas, chumbo, zinco e níquel. Eles podem ser fabricados de duas maneiras: a partir do minério ou a partir da sucata. O primeiro processo é mais dispendioso, pois consome mais energia para transformar o minério em metal. Na reciclagem do alumínio utiliza-se 20 vezes menos energia em relação à quantidade necessária para utilização da matéria-prima virgem.

Reciclagem de vidro

O vidro é um produto obtido da fusão de compostos inorgânicos, sendo seu

principal componente a sílica (SiO2). Ele pode ser reutilizado inúmeras vezes, pois permite a esterilização em altas temperaturas. Também pode ser reciclado, não havendo perda de massa durante o processo (1 t de caco de vidro = 1 t de vidro novo = economia de 1,2 t de matéria-prima virgem). Os vidros levam muito tempo para se decompor, mais de 1 milhão de anos, e com isso geram problemas de espaço nos aterros. Sua reciclagem tem ainda como ponto benéfico a redução do uso de energia.

Alguns tipos de vidro não podem ser reciclados como espelhos, vidros de janelas e box de banheiro, vidros de automóveis, cristais, lâmpadas, tubos de televisão, válvulas, ampolas de medicamentos e os vidros temperados de uso doméstico.

Já existem recursos para se reciclar o vidro das lâmpadas. Para isso é neces-

sário que o gás de mercúrio existente nelas seja retirado e tratado adequadamente para que não polua o ambiente.

Reciclagem das embalagens de agrotóxicos

As embalagens plásticas utilizadas com agrotóxicos não devem ser reutili- zadas, pois os resíduos de agrotóxicos podem contaminar os produtos colocados nessas embalagens. A legislação, através da Lei Federal 9.974/2000 e do Decreto 4.074/2002, proíbe qualquer reutilização da embalagem de agrotóxico. O agricul- tor deve lavar a embalagem três vezes após utilizar seu conteúdo (tríplice lava- gem), utilizando a água da lavagem junto com o produto para aplicação. Essa água não deve ser descartada em outro local, pois acarretará a contaminação ambiental. Após essa lavagem, a embalagem deve ser furada 3 e devolvida nos postos de co- leta no prazo de até um ano após a compra. Os postos de coleta são de responsa- bilidade dos revendedores.

3 Furando-se as embala- gens, evita-se que elas sejam reutilizadas.

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A parte metálica das embalagens é reaproveitada para a fabricação de verga- lhões para a construção civil, entre outros. O polietileno de alta densidade (PEAD) pode ser transformado em conduítes corrugados, barricas plásticas e bombonas para lubrificantes. O PET pode ser usado para se fazer vassouras. As tampas das embalagens são utilizadas para a fabricação de novas tampas para embalagens de agrotóxicos.

Quanto tempo o lixo demora para se decompor?

Matéria orgânica: 3 a 6 meses

Chiclete: 5 anos

Jornal: 2 a 6 semanas

Papel: 1 a 3 meses

Pneu: tempo indeterminado

Madeira sem tratamento: 6 meses

Madeira pintada: 13 anos

Embalagens longa vida: até 100 anos

Lata de alumínio: 100 a 500 anos

Latas de conserva: 100 anos

Plástico: 200 a 400 anos

Vidro: tempo indeterminado, alguns comentam em cerca de 1 milhão de anos

 

Quadro 4 – Benefícios da substituição de recursos virgens por materiais secundários

 
 

Alumínio (%)

Aço (%)

Papel (%)

Vidro (%)

Uso de energia

90-97

47-74

23-74

4-32

Uso de água

40

58

50

Poluição do ar

95

85

74

20

Poluição da água

97

76

35

54
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Fonte: Corson (1993)

Perspectivas futuras

Para sermos um cidadãos responsáveis, precisamos adotar práticas de reci- clagem, coleta seletiva e redução do consumo de recursos naturais, e temos que ir além: informar outras pessoas, exigir atitudes e posicionamentos dos governos,

Resíduos sólidos e cidadania II

mostrar que somos consumidores conscientes e que queremos o melhor para nos- sa família, e principalmente para o planeta.

Vale lembrar aqui novamente dos Cinco Rs: repensar, reutilizar, reciclar, reduzir e recusar.

Repense seus hábitos e atitudes com relação aos recursos naturais.

Procure reutilizar tudo o que ainda tiver proveito, e quando achar que não serve mais, mande para a reciclagem. Reduza o consumo dos recursos naturais no seu dia-a-dia e recuse produtos que agridem o meio ambiente, por eles mesmos ou devido ao seu respectivo processo de fabricação.

Além disso, informe, ensine outras pessoas. Somos responsáveis pela saúde do planeta, mas temos a obrigação de agir localmente. Não podemos mudar o mundo todo de uma vez, mas podemos começar pela nossa casa, pela nossa escola ou ambiente de trabalho, pela nossa cidade.

São vários os exemplos, espalhados por diferentes países, de ações que bus- cam equacionar de uma forma mais “amigável” a questão da produção de resíduos sólidos. A Suécia, somente para citar um destes, é o maior produtor mundial de veículos automotivos. Lá, as fábricas recebem de volta os carros que não estão mais em condições de trafegar e utilizam suas partes na fabricação de novos auto- móveis. O proprietário que devolver seu carro velho recebe um valor em dinheiro como premiação. Desse modo, barateia-se o custo de produção comprando-se ma- téria-prima de segunda mão, e não é preciso ter depósitos para os carros velhos.

Aqui no Brasil, as bandejas de isopor 4 são utilizadas pelos fumicultores para a germinação das sementes de tabaco. Depois de germinadas, as mudas são transplantadas para o campo. Dessa maneira, não é mais necessária a utilização do brometo de metila 5 , que antes era utilizado na prevenção das pragas. Esta é uma experiência iniciada no estado do Rio Grande do Sul e que hoje é utilizada por 90% dos produtores do país. No entanto, as bandejas que têm vida útil de três ou quatro safras, estavam sendo descartadas de forma incorreta pelos produtores agrícolas. Nas últimas sete safras utilizaram-se cerca de 6 milhões de bandejas. Com iniciativa da Associação Brasileira do Poliestireno Expandido (Abrapex), em conjunto com o Sindicato da Indústria do Fumo (Sindifumo) e com a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), as bandejas são coletadas, assim como é fei- to com as embalagens de agrotóxicos, e encaminhadas para o setor de confecção de calçados, onde são reprocessadas e utilizadas como matéria-prima para a con- fecção de solas de sapatos. “A reciclagem do material é um pleito antigo do setor fumageiro, e poderá servir de modelo para os demais países produtores”, afirma o presidente da Abrapex. O projeto já despertou interesse de outros países que enfrentam os mesmos problemas com o isopor.

Outros exemplos ainda podem ser citados no Brasil: o programa Câmbio Verde e o Programa de Recolhimento das Baterias de Celular Usadas, ambos em- preendidos em Curitiba (PR).

O programa Câmbio Verde começou em 1991, quando houve uma supersa- fra de produtos hortigranjeiros na região metropolitana de Curitiba. Os pequenos

O nome Isopor é marca

registrada da Knauf-Iso-

por e designa comercialmente o material fabricado por esta empresa. Quimicamente o isopor chama-se poliestireno expandido ou EPS (sua sigla internacional).

4

O brometo de metila é

uma substância preju-

dicial à camada de ozônio e seu uso está sendo banido em todo o planeta pelo Protocolo de Montreal (1987).

5

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Educação Ambiental e Cidadania

produtores, com dificuldade para escoar sua produção, estavam transformando seu excedente em ração e adubo orgânico. O poder público, então, resolveu auxi- liá-los e passou a adquirir o excedente de produção. Esses produtos são trocados com pessoas de baixa renda (com renda entre 0 e 3,5 salários mínimos) por lixo reciclável. Cinco quilos de material reciclável rendem um quilo de alimento. Os recicláveis são triados e vendidos e o dinheiro da venda serve para comprar mais produtos e dar continuidade ao programa. A partir de então, pessoas que antes jogavam seu lixo em terrenos baldios e rios passaram a trocá-los por alimentos. Hoje, o programa já tem outras modalidades, como o Câmbio Verde na escola, que troca lixo por material escolar, por exemplo.

O Programa de Recolhimento de Baterias de Celular Usadas foi iniciado em 1999, como uma parceria da organização não-governamental Sociedade de Pesqui- sa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e uma empresa de telefonia ce- lular do Paraná. As baterias passaram a ser recolhidas nas revendedoras da empresa nos estados do Paraná e Santa Catarina e no município de Pelotas, no Rio Grande do Sul. A empresa de telefonia encaminha as baterias a seus fabricantes, onde elas recebem a destinação correta do ponto de vista ambiental. Além dos benefícios am- bientais, o programa provoca nos envolvidos a reflexão sobre o consumo consciente e o papel do cidadão na construção de um futuro melhor para todos.

Conclusão

A quantidade de lixo no Brasil ainda não é das maiores do mundo. No en- tanto, o exemplo dos países desenvolvidos serve de aviso para nós brasileiros. Mu- dar nossos hábitos de consumo para reduzir a quantidade de lixo mandado para os aterros e lixões é um passo importantíssimo. Escolher produtos em embalagens recicláveis e consumir apenas o necessário, além de separar o lixo e entregá-lo nos postos de coleta seletiva ou ao sistema de transporte do lixo também devem fazer parte do dia-a-dia dos cidadãos. O fato de existir um símbolo de reciclável na em- balagem que você leva para sua casa não significa que ela será automaticamente reciclada, principalmente se ela for mandada junto com o lixo orgânico para um aterro ou lixão. As atitudes tomadas por nós hoje serão refletidas, no futuro, em um país mais limpo e um ambiente mais saudável.

em um país mais limpo e um ambiente mais saudável. 56 Brasil revoluciona na reciclagem de
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Brasil revoluciona na reciclagem de embalagens cartonadas

(CEMPRE, 2005)

O dia 13 de abril de 2005 marcou a partida de uma importante contribuição do Brasil para o desenvolvimento tecnológico, o meio ambiente e a geração de emprego e renda. As empresas

Resíduos sólidos e cidadania II

Klabin, Tetra Pak, Alcoa e TSL Ambiental inauguraram, em Piracicaba (SP), uma nova planta de reciclagem de embalagens cartonadas que utiliza tecnologia de Plasma para separação total do alumínio e do plástico. Esse processo revoluciona o modelo atual de reciclagem das caixinhas longa vida que até então separava o papel, mas mantinha o plástico e o alumínio unidos. O embrião do projeto de Plasma nasceu no Brasil há cerca de sete anos com uma parceria entre o Grupo de Plasma do Ins- tituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), da Universidade de São Paulo, e a Tetra Pak. Para a construção da planta – que é operacionalizada pela TSL Ambiental – foram investi- dos cerca de 12 milhões de reais, compartilhados entre as quatro empresas. O processo consiste em aplicar energia elétrica para produzir um jato de plasma a 15.000ºC, que aquece a mistura de

plástico e alumínio. O plástico é, então, transformado em composto parafínico e o alumínio é to- talmente recuperado na forma de lingotes de alta pureza.

A emissão de poluentes na recuperação dos materiais é próxima a zero, e o processo apresen-

ta eficiência energética de cerca de 90%.

A Klabin possui uma fábrica para reciclar a camada de papel das embalagens cartonadas

vizinha à planta de Plasma e é a responsável pelo fornecimento do alumínio com o plástico. Há capacidade para processar 8.000 toneladas por ano desse material – o que equivale à reciclagem de 32 mil toneladas de embalagens longa vida. O lingote será encaminhado para a Alcoa – forne- cedora da folha fina de alumínio – e será direcionado para a produção de uma nova caixinha. Já a parafina será comercializada para a indústria petroquímica nacional e poderá ter várias utilidades, como a fabricação de detergentes.

Maior valor à cadeia de reciclagem

A novidade de aproximar o alumínio e o plástico de seus usos originais significa agregar valor

à cadeia de reciclagem. Para se ter uma idéia, a tonelada de embalagem longa vida pós-consumo gira em torno de 250 mil reais. A partir de agora, espera-se que a tonelada possa alcançar 300 reais. “A nova planta ampliará ainda mais o volume de reciclagem das embalagens longa vida pós- consumo”, avalia Fernando von Zuben, diretor de Meio Ambiente da Tetra Pak. Isso sem contar

que a expansão da reciclagem das caixinhas também beneficiará os fabricantes de objetos feitos a partir de embalagens cartonadas como telhas, placas e vassouras.

A aliança das quatro empresas para transformar esse projeto em uma unidade de reciclagem

via plasma já vinha despertando a atenção mundial antes mesmo de seu lançamento. Desde o ano passado, representantes de outros países – como Suécia, Espanha e China – têm visitado a unidade e já está em construção uma planta similar à brasileira que deverá ser inaugurada na cidade espa- nhola de Valência, no próximo ano. Outros interessados pela tecnologia brasileira estão na Ale- manha, Itália, França e Canadá. A expectativa dos parceiros Klabin, Tetra Pak, Alcoa e TSL Am- biental é que a planta tenha fôlego por dois anos para reciclar o volume de caixinhas consumidas no Brasil. Depois, ao que tudo indica, a expansão será o caminho para essa iniciativa pioneira.

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Educação Ambiental e Cidadania

Educação Ambiental e Cidadania 1 . Reflita sobre sua atitude diante do assunto resíduos sólidos e

1. Reflita sobre sua atitude diante do assunto resíduos sólidos e cidadania. Repense seus hábitos e a forma como você trata o lixo em casa. Liste a seguir pontos que você, como cidadão, pode melhorar.

2. Repita a atividade anterior, só que agora pense no local de trabalho ou na escola.

3. Discuta com a classe maneiras de se reaproveitar o lixo ou meios de atingir outras pessoas e sensibilizá-las com a questão do lixo. Liste abaixo as idéias que lhe pareceram mais viáveis.

Liste abaixo as idéias que lhe pareceram mais viáveis. Site do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre):

Site do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre): <www.cempre.org.br>

Neste site, há informações sobre reciclagem e gerenciamento integrado do lixo, com informa- ções direcionadas a formadores de opinião e pessoas responsáveis pela tomada de decisão referente aos resíduos sólidos.

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Site do Setor Reciclagem: <www.setorreciclagem.com.br>

O portal Setor Reciclagem é um veículo de comunicação de conteúdo informativo especializado em reciclagem, para empresários, empreendedores e pesquisadores do ramo. Acumula informações diárias coletadas na internet, resenhas enviadas por assessorias de comunicação ou por profissionais do segmento e matérias exclusivas.

O uso do solo

Nathieli K. Takemori Silva Sandro Menezes Silva

D esde que o homem começou a praticar a agricultura, há cerca de 10 mil anos atrás, vem provocando alterações no solo dos locais por onde passa. Essas alterações têm sido tanto mais severas quanto têm avançado as tec-

nologias voltadas ao aumento da produção agrícola. Mas esse não é o único uso que o homem faz do solo. O solo tem sido utilizado também para erguer cidades

e explorar minérios, e invariavelmente estas atividades estão associadas a algum tipo de degradação, sendo as conseqüências mais comuns a erosão, a contamina-

ção de aqüíferos e o assoreamento dos rios, canais e lagos. Em geral, a retirada da vegetação nativa, seja ela uma floresta ou um campo, é o primeiro passo para

a utilização do solo com fins produtivos. A desestruturação da camada fértil do

solo, o uso de substâncias químicas diversas, a utilização de terras inadequadas para atividades agrícolas, a impermeabilização dos solos das cidades, a ocupação urbana de áreas impróprias, a abertura de estradas e escavações para a extração de minérios são algumas das causas mais comuns da degradação do solo, tanto nos ambientes urbanos como no meio rural.

O solo é um conjunto de corpos naturais tridimensionais resultantes da ação integrada do clima e dos organismos sobre o material de origem. É condicionado

pelo relevo em diferentes períodos de tempo e apresentando, então, características que constituem a expressão dos processos e dos mecanismos dominantes na sua formação. É composto por uma parte orgânica e uma mineral. A parte orgânica

é representada por restos animais e vegetais em decomposição e a parte mineral

vem do intemperismo 1 das rochas e compõe-se, por exemplo, de quartzo 2 , cauli- nita 3 , montmorilonita 4 e óxido de ferro 5 , entre outros, dependendo da composição da rocha matriz.

O solo apresenta três fases: sólida, líquida e gasosa. As fases líquida e gaso- sa preenchem os espaços entre os corpos tridimensionais da fase sólida. O ar que compõe a fase gasosa é composto por gases atmosféricos e gases provenientes das reações que ocorrem no sistema água-solo-planta. Na fase líquida, a retenção da água está relacionada ao tipo de solo, mais especificamente a suas características físicas e químicas.

No processo de formação do solo, conhecido como pedogênese, a produção

e deposição dos diferentes materiais formadores gera a diferenciação de camadas

mais ou menos paralelas à superfície, denominadas na literatura especializada de horizontes. O conjunto organizado de horizontes de um solo constitui o que se chama de perfil do solo, unidade fundamental na classificação dos solos. O dia- grama ilustra um perfil esquemático de solo, com seus diferentes horizontes.

1 Conjunto de processos que ocasionam a desin-

tegração e a decomposição dos minerais em geral, pela ação de agentes atmosféricos e biológicos. É sinônimo de meteorização.

2 Cristal de brilho vítreo gerado por processos

metamórficos, magmáticos, diegenéticos e hidrotermais. Tem sido utilizado na fabrica- ção de vidros, esmaltes, sapo- náceos, abrasivos, lixas entre outros materiais diversos.

3 Mineral do grupo das argilas, encontrada em

rochas metamórficas e ígne- as, produzida pela decompo- sição do feldspato. Também ocorre em rochas sedimen- tares e pode ser produzida por reações do material de origem com fontes hidroter- mais, formada principalmen- te sob condições tropicais. Constitui matéria prima bá- sica na indústria de cerâmica e porcelanas, além de vários outros usos industriais. (MA- CHADO, MOREIRA, ZA- NARDO et al., 2005).

4 Trata-se de um silicato de alumínio, cálcio e mag-

nésio hidratado, associados a

minerais presentes na argila, resultante da intemperização de rochas ígneas efusivas, metamórficas e sedimentares em ambientes mal drenados. (MACHADO, MOREIRA, ZANARDO et al., 2005).

5 Forma química em que o ferro comumente ocorre

nos diferentes tipos de solo, podendo apresentar diferen- tes combinações e graus de hidratação. É um dos respon- sáveis pelas diferentes colora- ções dos horizontes do solo. (MACHADO, MOREIRA, ZANARDO et al., 2005).

Educação Ambiental e Cidadania

Floresta de Floresta Campo coníferas caducifólia Horizonte A Horizonte B Horizonte C Rocha matriz (a)
Floresta de
Floresta
Campo
coníferas
caducifólia
Horizonte A
Horizonte B
Horizonte C
Rocha matriz
(a)
(b)
(c)
IESDE Brasil S.A.

Figura 1 – Perfil esquemático de três tipos de solo: (a) solo sob floresta de coníferas (Coniferous forest), na qual o folhedo decompõe-se lentamente resultando em um horizonte superficial ácido e com pouca matéria orgânica humificada; (b) solo sob floresta caducifólia (Deciduous forest), na qual o folhedo decompõe-se mais rapidamente e forma um solo mais fértil, com mais matéria orgânica; (c) solo sob campo (grassland) onde há uma camada orgânica bastante espessa, resultante da morte anual das partes aéreas da plantas e conseqüente acúmulo sobre o solo.

O horizonte A contém grande quantidade de material orgânico, tanto vivo

como morto, tais como folhas mortas e em decomposição e outras partes de plan- tas, insetos e outros pequenos artrópodos, minhocas, organismos unicelulares, nematóides e fungos.

O horizonte B é a região de deposição, ou seja, onde os óxidos de ferro, as partículas de argila e a matéria orgânica trazidas do horizonte A pela água da chuva se deposita. O horizonte B contém menos material orgânico e é menos in- temperizado que o horizonte A.

O horizonte C é composto por rochas intemperizadas e minerais a partir dos

quais o verdadeiro solo dos horizontes superiores é formado. Está em contato di- reto com a rocha matriz, ou seja, aquela que dá origem à fração mineral do solo.

Os solos não são iguais em todas as partes do planeta. Podem variar, inclu- sive, em uma escala muito pequena, às vezes dentro de uma mesma fazenda, por exemplo. Sua composição pode variar de acordo com o tipo de rocha matriz, além é claro de fatores como o clima da região, os organismos que vivem no local, o relevo e o tempo necessário para sua formação.

Tipos de solos

Cambissolo – classe de solo com horizonte B incipiente, não hidromór- fico, ou seja, sem efeito direto da ação da água, com uma seqüência inci- piente de horizontes.

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O uso do solo

Latossolo – solo predominantemente formado em regiões tropicais úmi- das, sem horizontes subsuperficiais de acúmulo de argila, caracterizado por apresentar baixa relação molecular entre a sílica e os sesquióxidos, formas estáveis de ligação do ferro com o oxigênio na fração argila, além de uma baixa capacidade de troca catiônica, isto é, a capacidade de reter os elementos necessários às plantas, e baixo teor de minerais primários facilmente intemperizáveis. É normalmente muito espesso.

Litossolo – solo pouco espesso que apresenta pequena camada enrique- cida em matéria orgânica (horizonte A) diretamente assentada sobre a rocha matriz. Comumente está associado a afloramentos de rocha em locais com relevo acidentado.

Podzol – classe de solos geralmente formadas em climas temperados úmidos, sob vegetação de coníferas e caracterizadas particularmente por apresentar um horizonte claro eluvial, ou seja, de perda de minerais e matéria orgânica para as camadas inferiores do solo, sobre horizonte espódico, isto é, rico em óxidos de ferro e alumínio e pobre em argilas. No Brasil, a maior parte desses solos está associada a materiais arenosos de origem marinha com lençol freático elevado.

O conhecimento e a organização das qualidades e características dos solos que podem ser identificados em levantamentos de campo, são essenciais para o fornecimento das bases necessárias para as seguintes atividades:

referência para o estabelecimento de políticas e estratégias de desenvol- vimento sustentável com conservação ambiental;

estabelecer políticas e estratégias de educação ambiental, ordenamento e de utilização de áreas de forma economicamente viáveis, socialmente justas e ecologicamente adequadas;

modelar o desenvolvimento agrícola sustentável e melhorar a qualidade de vida para as gerações atuais e futuras;

planejar e implementar o desenvolvimento de sistemas integrados de produção e selecionar áreas para exploração agrícola, pastoril e florestal intensivas nas propriedades rurais;

identificar e avaliar os impactos ambientais provocados pela ação do homem;

estudar áreas para localização e orientação de obras de infra-estrutura, como rodovias e ferrovias, além do desenvolvimento urbano, rural e in- dustrial;

selecionar áreas para turismo, recreação, parques, camping, aterro sani- tário, cemitérios e proteção da flora e da fauna;

selecionar áreas para programas de conservação, agrovilas, estações ex- perimentais, irrigação e drenagem;

selecionar áreas para loteamentos e infra-estrutura de saneamento básico;

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