Sei sulla pagina 1di 17

SILVA, Simone Corrêa, PINTO, Kátia Osternack, LUCIA, Mara C. Souza de et al.

A inserção do
jogo de areia em contexto psicoterapêutico hospitalar em enfermaria cirúrgica: um
estudo exploratório. Psicol. hosp. (São Paulo). [online]. dez. 2004, vol.2, no.2 [citado 16 Abril
2010], p.0-0. Disponível na World Wide Web: <http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S1677-74092004000200003&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1677-7409.

A inserção do jogo de areia em contexto psicoterapêutico


hospitalar em enfermaria cirúrgica: um estudo exploratório

The use of sandplay in psychological context of cirurgic sickroom:


an exploratory study

Simone Corrêa Silva1; Kátia Osternack Pinto2; Mara C. Souza de Lúcia2; Ana Clara
D. Gavião2; Julieta Quayle2

Endereço para correspondência

RESUMO

A situação de doença e hospitalização provoca inúmeras emoções e sentimentos que


remetem a vivências de angústia, fragilidade e, muitas vezes, a um distanciamento da
relação entre corpo e psique. Pensou-se em investigar a inserção do Jogo de Areia em
contexto psicoterapêutico de enfermaria cirúrgica, por tratar-se de um instrumento que
favorece um contato do paciente com suas dimensões externas e internas, conscientes e
inconscientes, por meio de imagens que o indivíduo constrói na caixa-de-areia. Para
facilitar sua aplicabilidade no ambiente de enfermaria hospitalar, fez-se necessária uma
adaptação do instrumento. Por suas características peculiares, a areia mostrou-se o
componente essencial da caixa, revelando-se como o elemento mobilizador do acesso a
conteúdos do inconsciente, mesmo que o paciente não a toque; pois é nela e sobre ela
que os conteúdos são expressos. Concluiu-se que o Jogo de Areia é; uma té;cnica eficaz
no trabalho psicológico em enfermaria, por promover a manifestação espontânea da
psique, favorecendo o trabalho psicoterapêutico, mesmo em condições onde se possa
parecer que apenas o corpo é quem pede atenção.

Palavras-chave: Jogo de areia, Caixa-de-areia, Psicologia hospitalar, Psicossomática,


Psicoterapia junguiana, Câncer colorretal, Doenças inflamatórias intestinais.

ABSTRACT

The situation of sickness and hospitalization cause many emotions and feelings that can
provokes a separation between body and psyche. The present study had the objective of
investigating the use of Sandplay with income patients because it was thought that
Sandplay which is an instrument that allows the patient to have contact with his or her
inner and exterior, conscious and unconscious, through images that they build in the
sadbox. To make this job in the environment that was suggested, some changes were
necessary. This was done because the material should be light and practical enough to
the locomotion of the psychologist and to make easy the handling for the patient in the
hospital setting. The sand, because of its unique characteristics, looked up to be the most
important component of the box because it revealed the element that opens roads to the
unconscious, even when the patient do not touch it, because it is on it and above it that
the contents are expressed. The conclusion of the Sandplay was that is an efficient
technique in the psychological sickroom. That proved to be true because it makes a
spontaneous manifestation of the psyche, allowing the psychological work, even in
conditions where it seems to be only the body that is in need of attention.

Keywords: Sandplay, Sandbox, Hospital psychology, Psychosomatic, Jungian


psychoterapy, Colorectal cancer, Inflamatory bowel disease.

1. INTRODUÇÃO

O presente estudo foi desenvolvido a partir do interesse da autora em inserir o Jogo de


Areia em seu trabalho no ambiente de enfermaria hospitalar. Tendo desenvolvido alguns
outros estudos com o referido instrumento em situação clínica tradicional e verificado
resultados positivos nestes, a autora pensou em pesquisar a eficácia da utilização do
instrumento também em setting hospitalar. O objetivo principal deste artigo, portanto, é
apresentar um estudo exploratório da utilização do Jogo de Areia em ambiente de
enfermaria cirúrgica, durante trabalho psicoterápico com pacientes candidatos à
realização de estomia devido à possibilidade de seqüela pós-operatória de Doenças
Inflamatórias Intestinais (DII) ou de Câncer Colorretal (CCR).

O CCR é um tumor de cólon e de reto e as DIIs são aquelas doenças que atingem o
aparelho digestivo por meio de um processo inflamatório, sendo a Doença de Crohn e a
Retocolite Ulcerativa as mais conhecidas. Em muitos casos de DII ou CCR, torna-se
necessária a realização de estomia – uma abertura abdominal na região intestinal – como
forma de tratar a doença, desviando-se a saída de conteúdos fecais para uma bolsa
coletora externa (Pinotti,1994).

Durante o período de internação, os pacientes passam, freqüentemente, por uma


situação de grande fragilidade física e emocional, devido às repercussões da doença e à
própria rotina de internação (Angerami-Camon, 1999). Cada pessoa sentirá tudo isso de
uma maneira particular e reagirá de acordo com sua própria percepção e interpretação
da situação (Romano, 1999). No caso dos estomizados, parece haver, inclusive, uma
mobilização marcante e diferenciada de sentimentos e fantasias acerca de seu esquema
e imagem corporais, suscitados pela bolsa de estomia (Silva, 2002).

Alguns pacientes apresentam bastante resistência para o trabalho psicológico nessas


condições de hospitalização; o que se deve, muitas vezes, a uma dificuldade em
verbalizar seus sentimentos, angústias e fantasias que lhes são conflitantes. Nesse
sentido, pensou-se que a utilização do Jogo de Areia poderia favorecer a expressão e
elaboração destes conteúdos por meio de imagens na caixa-de-areia, proporcionando-
lhes um espaço também de expressão não-verbal, facilitando, assim, um contato entre
seus aspectos conscientes e inconscientes.

Segundo Mindell (1990), a doença corresponde a algum aspecto da vida do indivíduo


que, não conseguindo um caminho de expressão por outra via, é dirigido ao corpo. No
processo de adoecimento do indivíduo, o soma chama atenção da consciência para uma
nova compreensão de suas vivências; se os sintomas são desprezados, podem se
intensificar, forçando o indivíduo a reavaliar sua condição de existência, podendo chegar
à hospitalização (Ramos, 1990).

Liberato (2002) compreende a doença como um acontecimento que coloca o homem


diante de limitações, mas que, no entanto, revela “forças” que direcionam para
possibilidades de mudanças. Para ela, há uma necessidade urgente de se levar em conta
no tratamento clínico “os recursos internos, a sabedoria autônoma do corpo e a
tendência natural da psique em busca do equilíbrio”(p. 42), sendo preciso, para isso,
compreender o homem como um todo que estabelece trocas e relações entre seus
aspectos físicos, emocionais, sociais, culturais, ambientais e espirituais.

Jung (1917/1983) já dizia que:

“(...) alma e corpo não são separados, mas animados por uma mesma vida. Assim
sendo, é rara a doença do corpo, ainda que não seja de origem psíquica que não tenha
implicações na alma.” (p. 105).

Para Kreinheder (1993), o corpo está sempre se comunicando, mas de modo não verbal
e de diferentes maneiras. Portanto, “o corpo material é o palco em que as imagens da
consciência se esforçam para se expressar (...), no entanto (...) quando uma tragédia é
representada no palco, não é o palco que é trágico, mas a peça teatral” (Dethlefsen &
Dahlke, 1983, p. 14).

2. CASUÍSTICA E METODOLOGIA

A amostra do presente estudo foi composta por 12 sujeitos candidatos à realização de


estomia devido a possível seqüela pós-operatória decorrente de DII ou CCR, internados
na II Clínica Cirúrgica da Disciplina de Coloproctologia do ICHC-FMUSP, sendo 4 homens
e 8 mulheres, com idade entre 27 e 79 anos.

Entre os 12 sujeitos da amostra, apenas 1 é portador de DII, sendo que todos os outros
foram acometidos por CCR, dos quais, 6 foram submetidos à realização de estomia.
Destes pacientes submetidos à estomia, 5 eram do sexo feminino.

Os instrumentos utilizados para a realização deste trabalho foram: entrevistas semi-


dirigidas, psicoterapia breve de abordagem junguiana e Jogo de Areia.

O Método de Psicoterapia de Jogo de Areia

O Jogo de Areia (ou Sandplay) teve sua origem na Inglaterra, em 1935, quando a
psiquiatra freudiana Margaret Lowenfeld desenvolveu uma técnica de trabalho com
crianças que chamou de World Technique. Sendo incentivada por Jung, a analista
junguiana Dora Kalff adaptou esta técnica para o contexto de psicoterapia junguiana e
desenvolveu sua própria versão do instrumento, chamando-o de método de psicoterapia
com o Jogo de Areia (Franco, 2003; Greghi, 2003; Kalff, 2004; Weinrib,1993).
Corresponde a um método junguiano de psicoterapia, tradicionalmente de caráter não-
verbal e não-interpretativo. Constitui-se da modelagem ou atividade lúdica com areia e
da construção de cenas, utilizando-se de miniaturas representativas do mundo real e
fantástico. O paciente pode utilizar as miniaturas dispostas para criar uma cena, modelar
a areia ou simplesmente brincar com esta. “Usando a caixa de areia, o paciente está livre
para colocar para fora as suas fantasias, externar e tornar concreto o seu mundo interior
numa representação tridimensional” (Weinrib, 1993, p. 25). É considerado um espaço
livre e protegido, física e psicologicamente. Funcionando como um vaso alquímico, a
caixa-de-areia “...acolhe o processo terapêutico e promove transformação” (Kalff, 1980,
citada por Greghi, 2003, p. 35). É livre por ser destituído de regras e porque o paciente
pode criar o que deseja, estando limitado ao espaço da caixa e ao número de miniaturas;
o que proporciona, inclusive, um contato simbólico do indivíduo com sua totalidade. Além
disso, há uma segurança de natureza psicológica fornecida pelo terapeuta, que o aceita
incondicionalmente (Kalff, 1972; Weinrib, 1993).

Procedimentos

Os sujeitos foram acompanhados durante todo o período de sua internação, sendo que o
Jogo de Areia foi apresentado e sugerido a todos os pacientes em sessões onde mostrou-
se relevante sua utilização, conforme será discutido adiante. Os dados quantitativos do
trabalho com cada paciente podem ser vistos na tabela 1.

Tabela 1: Dados quantitativos do acompanhamento psicoterápico de cada paciente


A freqüência dos atendimentos foi, em geral, de 2 sessões por semana, com intervalo de
2 a 5 dias entre as mesmas. O tempo de duração das sessões variou entre 10 minutos a
1 hora e meia, de acordo com as intercorrências do ambiente de enfermaria, na ocasião
do atendimento, como, por exemplo, interrupções para intervenção da equipe médica e
de enfermagem.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para a realização do presente trabalho, fez-se necessário adaptar o Jogo de Areia para
sua utilização no ambiente hospitalar.

Um estudo feito por Silva et al. (2001b) obteve resultados bastante favoráveis a partir da
utilização do Jogo de Areia em enfermaria de hospital geriátrico, pois possibilitou, nesta
situação, a expressão de conteúdos relativos à experiência de hospitalização, interferindo
minimamente na rotina hospitalar. Chagas e Forgione (2002) discutiram a utilização do
Jogo de Areia com pacientes hemiplégicos em ambiente ambulatorial e verificou que se
trata de um instrumento eficaz também para o trabalho psicológico com pacientes
portadores de distúrbios de comunicação, pois dispensa habilidades especiais e a
expressão verbal. Bazhuni (2003) pesquisou a utilização do Jogo de Areia com pacientes
amputados e também verificou a eficácia do instrumento em contexto de enfermaria
hospitalar ao evidenciar aspectos psicodinâmicos importantes da personalidade dos
pacientes e por propiciar a expressão de sentimentos referentes à doença e à
possibilidade de morte. A partir desses dados, observa-se que a adaptação do Jogo de
Areia em instituições hospitalares tem se mostrado uma prática viável por promover
resultados bastante favoráveis para a população encontrada neste contexto. No presente
trabalho, também obteve-se dados que confirmaram a eficácia da utilização do referido
instrumento, inclusive, em enfermaria cirúrgica, conforme será discutido a seguir.

Tradicionalmente, o Jogo de Areia (ou Sandplay) é utilizado em ambiente de consultório,


dispondo-se de duas caixas com fundo azul (para dar idéia de horizonte ou água), feitas
de madeira e medidas padronizadas (50 x 70 cm, aproximadamente), sendo uma com
areia seca e outra com areia molhada. As miniaturas são inúmeras e dispostas em
prateleiras ou armários.

Conforme pode ser observado na figura 1, utilizou-se uma caixa-de-areia móvel e


portátil, adaptada a partir de uma cesta de palha com tampa e com medidas reduzidas
(20 x 30 cm, aproximadamente).

Figura 1: Registro fotográfico do Jogo de Areia adaptado para o presente estudo.


Tal adaptação possibilitou que o material se tornasse leve e prático o suficiente para
locomoção da pesquisadora no setting hospitalar, bem como para facilitar o seu
manuseio por parte do paciente, neste mesmo setting. Esta caixa foi isolada,
internamente, com plástico de cor azul, sendo preenchida com areia até quase sua
metade. Por questões de assepsia – que serão discutidas adiante –, decidiu-se por
utilizar apenas areia seca. As miniaturas foram dispostas dentro de pequenos sacos
plásticos, presos à tampa. Apesar de ter-se disponibilizado um número reduzido de
miniaturas, manteve-se uma quantidade mínima que sugerisse diversos contextos e
temas.

A fim de facilitar e enriquecer a análise dos dados obtidos no presente estudo, todas as
cenas realizadas com miniaturas no Jogo de Areia foram registradas por meio de
máquina fotográfica e de esquemas gráficos, após a realização dos atendimentos. As
imagens foram registradas tanto do ponto de vista do sujeito quanto do ponto de vista
da pesquisadora. Nos casos onde os pacientes desfizeram as cenas, guardando as
miniaturas durante a sessão, as cenas foram reproduzidas e registradas, posteriormente.

Em esquemas gráficos, foram registrados os seguintes itens: localização e tipo de


miniatura escolhida; estória e comentários da cena; título escolhido para denominar a
cena; movimentos realizados na areia e com as miniaturas antes, durante e depois da
cena; mudanças na escolha e no posicionamento das miniaturas; comportamentos e
reações dos pacientes na sessão com o Jogo de Areia.

A ocorrência das sessões submeteu-se às variáveis de espaço e tempo, ou seja, o tempo


de duração das sessões e o local para a realização dos atendimentos obedeceram à
disponibilidade do paciente, dentro da rotina a que ele era submetido na enfermaria, a
qual procurou-se respeitar.
Não fez parte da rotina do presente trabalho apresentar o Jogo de Areia a todos os
pacientes desde a primeira sessão; esse procedimento ocorreu em metade da amostra.
Optou-se por sugerir o instrumento em momentos onde a pesquisadora considerasse que
o mesmo pudesse contribuir para exploração, expressão e apreensão de alguns
conteúdos; o que se deu, geralmente, após ou durante uma sessão verbal. Em alguns
casos, os pacientes recusaram um contato físico com o Jogo de Areia; no entanto, muitas
vezes, este foi introduzido nas sessões por uma solicitação dos próprios pacientes.
Alguns deles demonstraram uma solicitação indireta, por meio de curiosidade e
comentários em relação ao instrumento; ou, ainda, por meio de iniciativas para mexer no
material. Nos casos dos sujeitos 1 e 11, percebeu-se uma disponibilidade para inserção
do instrumento logo no início de cada sessão, sendo que, nestes casos, a partir do
momento em que o Jogo de Areia lhes foi apresentado, todos os demais atendimentos
foram realizados com a utilização do instrumento, por opção do paciente.

Tradicionalmente, o Jogo de Areia é um instrumento exclusivamente não verbal, isto é,


no momento em que o paciente realiza imagens na areia e após a realização destas, não
é feito nenhum comentário ou interpretação a respeito, por parte do psicoterapeuta.
Alguns autores defendem a idéia de que as verbalizações no momento da realização da
sessão com Jogo de Areia são extremamente importantes e enriquecedoras (Franco,
2003). No presente estudo, a pesquisadora decidiu por trabalhar com o instrumento
incentivando estas verbalizações, permitindo associações livres dos pacientes e
solicitando comentários sobre a cena realizada.

Verificou-se, neste estudo, que a maior parte dos pacientes verbalizaram,


espontaneamente, durante a interação com o Jogo de Areia, comentando sobre a mesma
e/ou conversando com a pesquisadora sobre recordações suscitadas pelo contato com a
areia ou miniaturas. Isso pareceu bastante significativo, trazendo, muitas vezes,
informações relevantes para a compreensão do caso e mobilizando conteúdos de caráter
reflexivo e emocional; o que enriqueceu e favoreceu o processo psicoterapêutico.

A pesquisadora optou por respeitar o movimento do paciente quando este permanecia


em silêncio ou introspectivo na situação de contato com o instrumento, solicitando
comentários sobre a imagem somente em momento posterior. Nas situações em que o
próprio paciente apresentava iniciativa para conversar com a pesquisadora durante o seu
contato com o Jogo de Areia, esta respondia à solicitação e a aproveitava para explorar a
imagem ou as recordações surgidas neste mesmo momento.

Geralmente, ao fim de cada contato dos pacientes com a caixa-de-areia, foi-lhes


solicitado um título para a imagem daquela situação de realizar uma cena, tocar na areia
ou observar o material em atitude reflexiva. Para a maioria dos pacientes, mostrou-se
bastante significativa essa solicitação de título, pois, além de marcar o fim da sessão
(Franco, 2003), promoveu uma introspecção do paciente, mobilizando-o para escolher
um nome que resumisse e ilustrasse alguma mensagem trazida pela imagem subjetiva
da situação. Além disso, esse procedimento pode ter favorecido a criação de um último
registro mental da imagem deixada pelo paciente na areia, à qual ele poderia recorrer,
mentalmente, em momentos que ele próprio desejasse (e tivesse condições internas
para) realizar um trabalho reflexivo sobre tais conteúdos expressos. Apesar de alguns
pacientes não terem conseguido dar um título para a situação, essa dificuldade também
mostrou-se significativa, tal como ocorreu com o caso do sujeito 6 – que será novamente
discutido em outra oportunidade – que justificou sentir-se “vazio” (s.i.c.) para tanto e,
inclusive, para mexer no instrumento, evidenciando uma possível dificuldade de
introspecção e de contato interior.

A areia que compõe o instrumento é areia adquirida em praia. A questão de utilizar-se de


areia no ambiente hospitalar, especialmente de enfermaria cirúrgica, foi bastante
avaliada no presente estudo. Houve um cuidado significativo neste trabalho em garantir
a esterilização da areia, uma vez que preocupações com contaminação são bastante
presentes em contexto de enfermaria. Nesse sentido, pensou-se em substituí-la por
outro material semelhante, como areia sintética ou bolinhas de isopor, por exemplo.
Entretanto, refletiu-se que nenhum outro material poderia substituir suas características
primárias, como fluidez ou leveza de movimento. Desse modo, devido às particularidades
únicas da areia, pensou-se que as sensações e sentimentos que são mobilizados através
de seu contato com as mãos, tão significativos para o processo terapêutico com Jogo de
Areia, dificilmente poderiam ser provocados no contato com outro material em igual
intensidade e expressividade.

Após discutir-se a questão de assepsia da areia com a equipe médica, optou-se por lavá-
la com água corrente e esterilizá-la, em forno com alta temperatura. Importante
ressaltar a boa receptividade que a equipe multidisciplinar demonstrou desde o início
deste trabalho com o Jogo de Areia, não colocando nenhuma objeção quanto ao seu uso.

O contato com a areia revelou-se bastante significativo no presente estudo, por


promover uma vivência emocional a partir da mobilização de lembranças, desejos e
sentimentos diversificados; tal experiência possibilitou a ocorrência de insights
importantes para alguns sujeitos. A tabela 2 apresenta, resumidamente, alguns dados
relevantes que permitem observar comentários, reações e modos de interação dos
pacientes frente à inserção do Jogo de Areia nas sessões.

Tabela 2: Dados qualitativos do processo psicoterapêutico com Jogo de Areia

Para o sujeito 1, por exemplo – que voltará a ser discutido em outro momento –, seu
contato com a areia foi extremamente significativo. À medida que enchia as duas mãos
com a areia e a soltava, observando o fluxo desta por entre seus dedos, revelava um
movimento introspectivo e provido de afeto que lhe propiciou a elaboração de conteúdos
importantes para seu momento de vida.

Em dois casos (sujeitos 11 e 12), inclusive, a interação com o Jogo de Areia se deu, por
opção dos sujeitos, somente com a areia. Isso leva a autora a pensar que a areia, por
suas características peculiares já mencionadas, é o componente principal da caixa, por
parecer ser o elemento que abre caminho para o inconsciente (Cunnigham, 1977),
mesmo que o paciente não a toque, pois é nela e sobre ela que os conteúdos são
expressos. Kalff (1972) já considerava a areia como um material terapêutico por
natureza; e afirmou que a areia provoca sensações táteis diversas, permitindo a
criatividade a partir do contato com seus grãos minúsculos; “assim como a terra [a
areia] contém os elementos primordiais.” (Franco, p. 20. Grifo meu).

O sujeito 11, uma mulher de 73 anos, acometida por CCR, fez questão de que seu
contato com o instrumento fosse apenas com a areia que, para ela, era o mais “especial”
(s.i.c.) da caixa. Segundo esta paciente, somente a areia era-lhe suficiente para ajudá-la
a pensar e a buscar resoluções para seus problemas. Denominando-a de “areia santa”
(s.i.c.), apresentou um envolvimento de tonalidade bastante afetiva em seu contato com
a areia; o que, ao final de seu processo terapêutico, demonstrou ter sido transformador.
No decorrer das sessões e, portanto, de seu contato com a areia, apresentou um
movimento criativo de reflexão e busca de novas possibilidades para enfrentar situações
conflitivas. Uma das situações que mais a preocupava era seu relacionamento com a filha
mais velha, o qual era desprovido mutuamente de afeto e tolerância. Em seu período
pós-operatório, pôde vivenciar uma experiência diferenciada com esta filha, a qual
demonstrou-lhe maior atenção e afetividade. Tal experiência surpreendeu a paciente,
que pôde refletir sobre sua postura frente à filha, o que lhe permitiu esboçar novas
perspectivas e possibilidades de relacionamento para com esta.
Dentro de uma concepção junguiana, acredita-se que os indivíduos acometidos por
doenças orgânicas possuem uma dificuldade em apreender o símbolo em sua polaridade
abstrata; seus conteúdos são expressos simbolicamente através do corpo e por
intermédio da doença, ficando inacessíveis à consciência, naquele momento (Greghi,
2003; Ramos, 1990). Nesse sentido, o Jogo de Areia é uma técnica facilitadora para a
expressão e a apreensão de conteúdos que o paciente não esteja conseguindo entrar em
contato por uma via abstrata. A polaridade concreta é expressa por meio da construção
das cenas na caixa e do contato das mãos com as miniaturas e a areia; e a abstrata, por
meio das sensações, sentimentos e conteúdos que são mobilizados e elaborados por
meio da estória, verbalização e reflexão (Greghi, 2003). Nesse sentido, torna-se possível
fazer uma analogia entre o Jogo de Areia e a doença orgânica, pois ambos encontram
uma polaridade concreta para dar forma a uma energia psíquica em desequilíbrio; a
diferença é que o Jogo de Areia permite integração das duas polaridades num mesmo
espaço (Greghi, 2003; Silva e Sant’Anna, 2001). Uma análise de algumas imagens
realizadas pelo sujeito 9 em seu processo contribui para essa discussão.

O sujeito 9, um rapaz de 27 anos, portador de Doença de Crohn, mostrou-se bastante


concentrado e introspectivo ao escolher miniaturas e criar cenas na areia, as quais
mobilizaram-lhe conteúdos sobre seu momento atual de vida e provocaram-lhe reflexões
a respeito. Este paciente relatou que sente-se “preso e sem liberdade” (s.i.c.) com a
situação de doença que faz parte de sua vida desde os 13 anos. No início, sentia-se
revoltado, mas, com o tempo, “adaptou-se” (s.i.c.) à doença e “acostumou-se” (s.i.c.) a
freqüentar hospitais. Devido às diarréias freqüentes, precisou parar de estudar e de
trabalhar. Afirma ter um bom relacionamento com a família, tendo estreitado seu vínculo
com os familiares após o início de sua doença, pois as pessoas começaram a se
preocupar mais com ele. Logo na 1ª sessão, o paciente mostrou-se interessado em
interagir com o Jogo de Areia, realizando uma cena que denominou “O guerreiro
ultrapassando os obstáculos”, a qual pode ser visualizada na figura 2.

Figura 2: Registro fotográfico da cena intitulada “O guerreiro ultrapassando os


obstáculos”

Nesta cena, o paciente conta a estória de um guerreiro que luta para superar os
obstáculos e que vê no horizonte um tesouro, no qual poderá encontrar saúde e
harmonia. Segundo o paciente, surgem dificuldades (representadas por uma pedra) no
caminho desse guerreiro, mas que sempre são superadas. Busca a ajuda de Deus
(representada pela bíblia), de um ancião que o apóia e do cavalo que sempre o
acompanha e o carrega nos momentos mais difíceis. Inicialmente, posicionou todas as
miniaturas atrás da pedra; depois, colocou o cavalo e o guerreiro à frente desta,
afirmando que gostaria de vê-los daquela forma: já tendo superado os obstáculos.

Figura 3-A: Registro fotográfico da cena intitulada “Alcançando vôos altos”.

Em outra sessão, o paciente constrói uma cena (figura 3-A), cuja estória é a de um avião
que está em manutenção; e, ao seu lado, estão algumas pessoas ajudando-no a voltar a
funcionar. O paciente comenta que o avião sempre quis dar vôos altos, mas nunca
conseguiu; e afirma que, ultimamente, o avião estava voando muito baixo, quase caindo.
O avião tem medo de cair e quebrar a lataria, por isso não arrisca mais voar; acredita
que, após a manutenção, poderá voltar a fazê-lo. O paciente não fica satisfeito com esta
cena e a modifica, colocando todas as pessoas enfileiradas e atrás do avião, vendo-o
“alcançar vôos altos”, conforme mostra a figura 3-B.

Figura 3-B: Registro fotográfico da cena intitulada “Alcançando vôos altos”, modificada.
Em sua última sessão com o Jogo de Areia, sendo a única realizada em momento pós-
cirúrgico, o paciente realiza uma cena (figura 4) onde coloca várias pessoas e um cavalo
enfileirados e à frente da bíblia. Conta a estória de que ele e sua família estão todos
festejando mais uma vitória, devido à realização da cirurgia que ocorreu melhor do que
ele imaginava, já que não foi preciso ser submetido à realização de estomia. Escolhe
para essa cena o título: “O medo foi derrotado”.

Figura 4: Registro fotográfico da cena intitulada “O medo foi derrotado”.

Esse sujeito mostrou-se constantemente insatisfeito com as cenas criadas na caixa-de-


areia, modificando-as com freqüência; isso denota uma insatisfação do paciente,
também, com sua realidade de vida, permeada de obstáculos, medos e vôos baixos; os
quais, ele também deseja modificar. Apesar disso, os conteúdos das cenas revelam
aspectos positivos de sua psique, como a figura do cavalo, da bíblia e do ancião que
podem ser considerados como aspectos internos que mantêm sua saúde psíquica, pois
lhe trazem um referencial de apoio e de possibilidade de superação das dificuldades que
enfrenta; provavelmente, o paciente projeta estas figuras em seus familiares, aos quais
recorre para buscar esses referenciais. O próprio paciente compara seu irmão mais velho
ao cavalo, sempre presente nas imagens, o qual sempre o “carregou no colo” (s.i.c.); e
fala, inclusive, de sua relação próxima com a mãe, que lhe é super-protetora.

No decorrer do processo, esse paciente pôde se dar conta do quanto a doença o


paralisava e, apesar dele sempre considerar que superou todos os obstáculos, nunca o
fez de modo totalmente satisfatório, pois sempre lhe faltava a liberdade para fazer o que
desejava. Além disso, pôde tomar consciência do quanto sua vida estava sempre à mercê
do futuro, não conseguindo obter controle sobre a mesma, ao contrário do que
imaginava. Os atendimentos com o Jogo de Areia ajudaram-no a refletir que alcançar
vôos mais altos só dependeria dele. As pessoas poderiam ajudá-lo, mas somente ele
poderia buscar forças em si para sua decolagem. Inclusive, evidenciou-se para ele uma
crença de que suas forças precisavam ser sempre sustentadas numa relação com seus
familiares, permeada de proteção, atenção e preocupação. No decorrer do trabalho com
as imagens, o paciente refletiu que, para alcançar alguma mudança, ele precisaria tirar
as pedras de seu caminho. Para isso, teria que colocar “a mão na massa” (sic), o que
ninguém poderia fazer por ele e o que ele nunca havia feito, até então. Afirma que,
mobilizando as pedras, poderia ser mais fácil visualizar o que havia à sua frente, pois as
mesmas prejudicam a visualização das coisas e, assim, tornam as dificuldades maiores e
mais assustadoras do que são na realidade.

Segundo uma concepção junguiana do símbolo, este aponta para algo desconhecido; sua
integração promove uma tomada de consciência e uma significação que vai além daquilo
que manifesta imediatamente, pois não pode ser apreendido por completo (Jung,
1961/1996). Nesse sentido, o Jogo de Areia facilita a manifestação simbólica da doença
por ter o mesmo canal de expressão que esta – um canal que, a grosso modo, já é
familiar ao indivíduo (Greghi, 2003; Silva & Sant’Anna, 200).

Durante o processo terapêutico de Jogo de Areia, um processo de desenvolvimento e


cura pode ser promovido, gradualmente (Kalff, 2004), sendo que cura pode ser
entendida, aqui, como uma vivência interior de integração de aspectos conflitivos,
favorecendo a ampliação da consciência.

No momento em que essas imagens são projetadas no Jogo de Areia, o paciente pode
visualizá-las, tocá-las, senti-las e refletir sobre elas. Nesse sentido, as mãos servem
como canais de expressão para a construção de imagens que podem ser consideradas
como mediadoras nessa reconexão entre corpo e psique, consciente e inconsciente.
Ammann (1991) afirma que, no Jogo de Areia, as mãos são vias essenciais de expressão
para aquilo que perturba e, por intermédio delas, o indivíduo irá estabelecer uma ligação
entre o mundo interior e o exterior, tornando visível a energia existente entre ambos.
Através delas, o sujeito vai dar forma ao que está inconsciente, tornando-o reconhecível
num nível que pode ser visualizado concretamente.

Apesar de alguns estudos apresentarem resultados que indicam bastante receptividade e


baixíssima resistência no trabalho do Jogo de Areia em situação clínica (Chagas &
Forgione, 2002; Silva et al., 2001a; Silva & Sant’Anna, 2001), alguns pacientes do
presente estudo, conforme verificou-se na tabela 2, apresentaram reações de recusas
frente ao instrumento. No entanto, essas recusas puderam ser compreendidas não
apenas como uma reação defensiva frente à possibilidade de manifestação espontânea
de conteúdos desconhecidos e conflitivos, tal como o Jogo de Areia favorece. Mas,
também foram entendidas como experiência subjetiva com seu corpo simbólico, que,
naquele momento, solicitava-lhe atenção por estar preenchido de vivências emocionais
que também necessitavam ser reconhecidas e reformuladas.

O sujeito 3, uma mulher de 33 anos, recusou a utilização do Jogo de Areia em momento


pós-cirúrgico, apresentando um cansaço físico bastante notável. Esta paciente havia
desistido da cirurgia em momento de internação anterior, por recusar-se a se submeter à
realização de estomia. No entanto, devido à progressão do tumor intestinal, decidiu
autorizar a cirurgia, apesar de sentir-se bastante incomodada com a idéia da utilização
da bolsa de estomia. Sua recusa para o contato com o Jogo de Areia, nesta situação
parece estar associada a uma possível condição emocional da paciente de desconforto e
frustração com a necessidade de realização da cirurgia. Tal decisão lhe mobilizou muitos
conteúdos conflitivos que referiam-se ao seus comportamentos, atitudes e
posicionamento em relação ao seu modo de vida sempre mais voltado ao trabalho.
Portanto, levanta-se a hipótese de que, naquele momento, o contato com o Jogo de
Areia apontava-lhe a possibilidade de um contato com seu lado interior que apresentava-
se fragilizado e dolorido. Desse modo, para que esse contato pudesse acontecer, talvez
ela precisasse, antes, admitir, reconhecer e conversar com seu corpo que apresentava-
lhe uma nova vivência emocional.

Apenas dois sujeitos (5 e 6 – ambos do sexo masculino) recusaram-se a entrar em


contato com o Jogo de Areia, durante todo o processo. Justificaram “não ter cabeça” para
essas coisas, “que isso não levaria a nada” e, inclusive, não ter idade para “brincadeira
de casinha” (s.i.c.). Entretanto, todos eles, em algum momento, chegaram a tocar na
areia ou a mencionar alguma coisa em relação ao instrumento, o que,
conseqüentemente, nos leva a afirmar que, também nos casos de recusa, o Jogo de
Areia serviu de intermediário para mobilização, expressão e apreensão de determinados
conteúdos. Por exemplo, o sujeito 6 recusou, inicialmente, o Jogo de Areia em todas as
sessões em que foi apresentado, dizendo-se “vazio” (s.i.c.) para tanto e mencionando
que “não é muito de se emocionar, preferindo conversar e sendo esse o seu jeito de
expressar as emoções” (s.i.c.). Desculpou-se por não ver “sentido” (s.i.c.) em mexer
naquele material que lhe sugeria características infantis mas, apesar de sua rigidez
emocional para um contato interior, demonstrou um movimento criativo ao esforçar-se
em mexer na caixa de areia, denotando uma tentativa de encontrar, em si mesmo, algo
além do vazio que projetou no instrumento.

Verificou-se que o Jogo de Areia propicia condições internas nos indivíduos que
favorecem uma vivência emocional, através de sensações que os pacientes denominaram
de tranqüilizadoras e promovedoras de alívio e relaxamento. Tais sensações, que se
deram a partir da interação com a areia e miniaturas podem ser interpretadas como
decorrentes de uma experiência de carga emocional, onde o indivíduo pôde dar vazão à
expressão de suas emoções e sentimentos de uma forma não habitual, ou seja, por uma
via de polaridade também abstrata, além da concreta. Tais conteúdos puderam ser
manifestados e elaborados, assim, sob uma nova perspectiva, reconhecendo-se e
tomando-se consciência dos mesmos, conforme ilustram os casos dos sujeitos 1 e 10.

O sujeito 1, uma mulher de 52 anos, deparou-se com um câncer colorretal justamente


num momento em que tinha seu trabalho de mais de 10 anos como insatisfatório e
insustentável. Durante sua relação com a areia, foi recordando-se de questões
insatisfatórias e não-resolvidas do passado e, a partir de então, foi criando imagens que
se relacionavam com essas questões. Desse modo, essa paciente pôde refletir sobre suas
experiências de passividade e falta de determinação em sua vida. Além disso, por meio
das imagens que lhe foram suscitadas, pôde encontrar mensagens que lhe ampliaram as
possibilidades de buscar novas perspectivas de vida.

O sujeito 10, um homem de 44 anos, teve a possibilidade de deparar-se com aspectos de


sua dinâmica de personalidade que puderam emergir no processo analítico com tal
instrumento, como emoções e conteúdos angustiantes que lhe eram desconhecidos e
renegados. Esse paciente mostrou-se bastante envolvido com a elaboração de sua
primeira cena na caixa-de-areia, apresentada na figura 5.

Figura 5: Registro fotográfico da cena intitulada “A felicidade existe”.


O paciente conta a estória de que ele e sua filha estão numa praia, com algumas pessoas
desconhecidas em sua volta, sendo que uma delas está sozinha. O paciente incomoda-se
consideravelmente ao dar-se conta de ter deixado uma pessoa “sozinha” (s.i.c.) na
situação desta estória. Mobiliza-se para encontrar, entre as miniaturas disponíveis, uma
outra pessoa que pudesse fazer companhia para aquela que estava sozinha, não
conseguindo, no entanto, encontrar nenhuma que o satisfizesse.

Nas sessões que antecederam a realização desta cena no Jogo de Areia, o paciente
relatou a respeito de sua relação conflituosa com a esposa, revelando que mantém seu
casamento com medo de distanciar-se da filha. Ao deparar-se com a figura sozinha na
caixa-de-areia, foi como se tivesse ficado frente-a-frente com sua solidão. O título que
deu à cena, “A felicidade existe”, chamou a atenção da pesquisadora para uma
dificuldade do paciente em admitir-se sozinho e infeliz, como se quisesse fugir de uma
solidão com a qual, no entanto, já convive mesmo estando casado e próximo da filha.
Nesse momento do processo, a inserção do Jogo de Areia mostrou-se bastante
significativa e relevante para o paciente, por ter aberto um espaço em sua vida para que
esse conteúdo conflitivo, até então não admitido verbalmente, pudesse ser expresso e
trazido à consciência, criando condições para que fosse, então, reconhecido e elaborado.

Levando-se em conta essas discussões, torna-se possível afirmar que as imagens


expressas no Jogo de Areia possibilitam o desenvolvimento de potencialidades dos
indivíduos que podem levá-los a algum tipo de transformação interior. Nesse processo, o
terapeuta recebe essas imagens como elas são, permitindo que elas criem forma e se
desenvolvam, no sentido de se buscar apreensões conscientes (Kalff, 2004; Dean, s.d).
De acordo com Franco (2003), a figura acolhedora e participativa do psicoterapeuta no
processo com o Jogo de Areia torna-se, portanto, indispensável e significativa, auxiliando
o paciente em seu desenvolvimento interior.

A partir do que foi exposto, verificou-se que as condições internas propiciadas pelo Jogo
de Areia favoreceram o despertar dos sujeitos desta amostra para questões que estavam
sendo por eles renegadas ou desprovidas de cuidado; as quais, inclusive, puderam ser
acolhidas e fomentadas pela figura continente da pesquisadora. Nesse sentido, o Jogo de
Areia em contexto de psicoterapia breve de setting hospitalar parece contribuir para o
trabalho analítico, auxiliando o paciente a repensar e elaborar suas questões, criando
condições favoráveis para que ele debruce um novo olhar sobre as mesmas e busque
novos caminhos de enfrentamento, quando necessário.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Inserir o Jogo de Areia num contexto de instituição hospitalar, especificamente de


enfermaria cirúrgica, permite uma reflexão sobre possibilidades ampliadas e criativas de
expressão e relação psicoterapêutica num ambiente onde não é apenas o corpo concreto
que pede atenção.

Verificou-se que a areia é um elemento indispensável e insubstituível para o trabalho


com o Jogo de Areia. Portanto, torna-se imprescindível esclarecer a equipe sobre o
trabalho com tal instrumento e realizar o procedimento de esterilização da areia, a fim de
garantir sua assepsia num ambiente de enfermaria cirúrgica.

Adaptado para o setting hospitalar, o Jogo de Areia mostrou-se um instrumento bastante


favorável para o trabalho com pacientes hospitalizados, dentro de uma abordagem de
psicoterapia breve junguiana. Sua inserção neste setting possibilitou uma vivência
emocional que foi descrita pelos pacientes deste estudo como aliviadora e
tranqüilizadora, o que se acredita que seja devido a uma possibilidade de expressão de
seus conteúdos por uma via abstrata que lhes era pouco (re)conhecida.

No presente estudo, experiências de solidão, de vazio interior, paralisação frente a


situação de doença, busca de novos potenciais foram apresentadas pelos sujeitos e
puderam ser reconhecidas por meio de imagens que lhes foram despertadas no contato
com o Jogo de Areia. Verificou-se que esse contato, acolhido pela figura continente da
pesquisadora, promoveu condições para que esses conteúdos pudessem ser apreendidos
conscientemente, levando os sujeitos a desenvolverem movimentos criativos em busca
de novas possibilidades e perspectivas diante de suas dificuldades e potencialidades.
Nesse sentido, o Jogo de Areia possibilitou que mensagens apontadas pela situação de
doença e hospitalização pudessem ser lidas e ressignificadas.

6. REFERÊNCIAS

Ammann, R. (1991). Healing and transformation in sandplay. Chicago, Ilinois: Chicago,


Open Court and La Salle.

Angerami-Camon, V. A. (Org.). (1999). Psicologia hospitalar: Teoria e prática. São Paulo:


Pioneira.

Araújo, S. E. A. et al. (2001). Papel da colonoscopia no câncer colorretal. In A. Habr-


Gama et al., Atualização em cirurgia do aparelho digestivo e coloproctologia – Gastrão
(pp. 257-299). São Paulo: Frôntis. p.257-299.

Bazhuni, N. F. N. (2003). A experiência psíquica de pacientes cardiopatas amputados de


membros inferiores: Um estudo clínico em ambiente hospitalar com o uso do jogo de
areia. Monografia de conclusão de curso de graduação, Universidade Presbiteriana
Mackenzie, São Paulo.

Chagas, M. I. O., & Forgione, M. C. R. (2002). O paciente hemiplégico e o sandplay:


Uma possibilidade de expressão. Acta Fisiátrica, 9(2), 90-97.
Cunningham, L. (1977). What is sandplay therapy. Journal of Sandplay Therapy, 61).
Recuperado em 6 nov. 2004:
<http://www.sandplayusa.org/what_is_sandplay_therapy.htm>

Dean, L. E. (s.d). Doing nothing: One more approach to Sandplay. Journal of Sandplay
Therapy. Recuperado em 6 nov. 2004:
<http://www.sandplayusa.org/doing_nothing,htm>

Dethlefsen, T. & Dahlke, R. (1983). A doença como caminho: Uma visão nova da cura
como ponto de mutação em que um mal se deixa transformar em bem. São Paulo:
Cultrix.

Franco, A. (2003). O Jogo de Areia: Uma intervenção clínica. Dissertação de Mestrado,


Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.

Greghi, M. (2003). O uso de sandplay na psicoterapia de pacientes com sintomas


orgânicos: Uma análise compreensivo-simbólica. Dissertação de Mestrado, Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.

Jung, C. G. (1996). O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Trabalho
original publicado em 1961)

Jung, C. G. (1983). Psicologia do inconsciente. Petrópolis, RJ: Vozes. (Trabalho original


publicado em 1917)

Kalff, D. (1972). Sandplay with Dora M. Kalff. [Filme-vídeo]. Peter Ammsnn (Dir.). 1
cassete VHS NTSC, 50 min., color., son. (Original gravado em inglês. Tradução
legendada para o português por A. Franco).

Kalff, D. (2004). Sandplay: A psychotherapeutic approach to the psyche [Book review].


Journal of Sandplay Therapy, 13(1). Recuperado em 6 nov. 2004:
<http://www.sadplayusa.org/pdf/kalff_bookreview.pdf>

Kreinheder, A. (1993). Conversando com a doença: Um diálogo de corpo e alma. São


Paulo: Summus.

Liberato, R. (2002). A jornada do herói interior em busca da vida. Jung & Corpo - Revista
do curso de psicoterapia de orientação junguiana coligada a técnicas corporais, 2(2), 41-
56.

Mindell, A. (1990). Trabalhando com o corpo onírico. São Paulo: Summus.

Pinotti, H. W. (Org.). (1994). Tratado de clínica cirúrgica do aparelho digestivo. São


Paulo: Atheneu.

Ramos, D. G. (1990). Psique do coração: Uma leitura analítica do seu simbolismo. São
Paulo: Cultrix.

Romano, B. W. (1999). Princípios para a prática da psicologia clínica em hospitais. São


Paulo: Casa do Psicólogo.

Silva, S. C. (2002). Sofrimento físico e emocional: Uma compreensão junguiana da


vivência de estomizados por ressecção de câncer colorretal. Monografia de
Aprimoramento e Especialização em Psicologia Hospitalar - Divisão de Psicologia,
Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo, São Paulo.

Silva, S. C. et al. (2001a). O jogo de areia: Um estudo sobre indicadores de resistência


ao instrumento. In Anais, 2 Congresso Norte Nordeste de Psicologia, Salvador.
Universidade Federal da Bahia.

Silva, S. C. et al. (2001b). Proposta de intervenção psicoterapêutica por meio do Jogo de


Areia em instituições hospitalares: relato de experiência com pacientes geriátricos.
Mostra de TGI, 6 (Vol. 3, p. 156). São Paulo: Editora Mackenzie.

Silva, S. C., & Sant’anna, P. A. (2001). O movimento auto-regulador da doença em um


paciente oncológico: Um estudo por meio da expressão simbólica no jogo de areia.
Mostra de TGI, 6 (Vol. 3, p. 109). São Paulo: Editora Mackenzie.

Weinrib, E. L. (1993). Imagens do self: O processo terapêutico na caixa-de-areia. São


Paulo: Summus.

Endereço para correspondência


Simone Correa Silva
Travessa Sedna, 50 – Interlagos
São Paulo – SP – Cep 04660-060.
Fone: (11) 9547.6524
E-mail: monecorrea@uol.com.br

1
Psicologa colaboradora da Divisão de Psicologia Clínica da Coloproctologia do ICHC-
FMUSP.
2
Membros da Diretoria Técnica da Divisão de Psicologia do ICHC-FMUSP.