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TEMPOPASCAL.OITAVA DAPÁSCOA.

QUARTA-FEIRA

50. DEIXAR-SE AJUDAR


– No caminho de Emaús. Jesus vive e está ao nosso lado.

– Cristo nunca abandona os que são seus; que nós não o abandonemos. A virtude da
fidelidade. Ser fiéis nas pequenas coisas.

– A virtude da fidelidade deve impregnar todas as manifestações da vida do cristão.

I. O EVANGELHO DA MISSA relata-nos outra aparição de Jesus na própria


tarde do dia da Páscoa.

Dois discípulos regressam à sua aldeia, Emaús, profundamente


desanimados porque Cristo, em quem haviam posto todo o sentido das suas
vidas, tinha morrido. O Senhor, como se também Ele estivesse a caminho,
alcança-os e junta-se a eles sem ser reconhecido 1. A conversa tem um tom
entrecortado, como quando se fala enquanto se caminha.

Contam a Jesus o que os preocupa: os acontecimentos ocorridos em


Jerusalém na tarde da sexta-feira, que tinham culminado com a morte de Jesus
de Nazaré. A crucifixão do Senhor fora uma grave prova para as esperanças
de todos aqueles que se consideravam seus discípulos e que, num grau ou
noutro, tinham depositado n’Ele a sua confiança. Tudo se tinha passado com
grande rapidez, e ainda estavam muito abalados com o que tinham visto.

A conversa que mantêm com o Senhor revela a imensa tristeza, a


desesperança e o desconcerto de que estavam possuídos: Nós esperávamos
que fosse ele quem haveria de restaurar Israel, dizem. Falam de Jesus como
de uma realidade passada: [...] Jesus de Nazaré, que era um profeta
poderoso...

“Reparai no contraste. Dizem era!... E, no entanto, têm-no ao seu lado,


caminha com eles, está na sua companhia perguntando-lhes pela razão, pelas
raízes íntimas da sua tristeza! «Era»... dizem eles. Nós, se fizéssemos um
exame sincero e detido da nossa tristeza, dos nossos desalentos, dos nossos
altos e baixos, compreenderíamos que estamos incluídos nessa passagem do
Evangelho. Verificaríamos que dizemos espontaneamente: «Jesus foi...»,
«Jesus disse...», porque esquecemos que, como no caminho de Emaús, Jesus
está vivo e ao nosso lado agora mesmo. Esta redescoberta aviva a fé,
ressuscita a esperança, mostra-nos Cristo como uma felicidade presente:
Jesus é, Jesus prefere, Jesus diz, Jesus manda, agora, agora mesmo” 2. Jesus
vive.

Os dois discípulos sabiam da promessa de Cristo sobre a sua Ressurreição


ao terceiro dia, e naquela mesma manhã tinham ouvido as santas mulheres
dizer que tinham visto o sepulcro vazio e os anjos; não lhes faltavam luzes
suficientes para alimentar a sua fé e a sua esperança. Não obstante, falam de
Cristo como de um fato passado, como de uma ocasião perdida. São a imagem
viva do desalento. As suas inteligências estão mergulhadas na escuridão e os
seus corações embotados.

E é o próprio Cristo – a quem a princípio não reconhecem, mas cuja


companhia e conversa acolhem – quem lhes interpreta aqueles acontecimentos
à luz das Escrituras. Com toda a paciência, o Senhor devolve-lhes a fé e a
esperança. E, com a fé e a esperança, os dois recuperam a alegria e o amor:
Não é verdade que o nosso coração se abrasava enquanto ele nos falava pelo
caminho e nos explicava as Escrituras?3

É possível que nós também mergulhemos alguma vez no desalento e na


falta de esperança, ao vermos os defeitos que não acabamos de vencer, as
dificuldades na acção apostólica ou no trabalho, que nos parecem
insuperáveis... Nessas ocasiões, se nos deixarmos ajudar, Jesus não permitirá
que nos afastemos d’Ele. Talvez seja na direcção espiritual, ao abrirmos a alma
com sinceridade, que vejamos novamente o Senhor. E com Ele chegam
sempre a alegria e os desejos de recomeçar quanto antes: Levantaram-se na
mesma hora e voltaram a Jerusalém. Mas é necessário que nos deixemos
ajudar, que estejamos dispostos a ser dóceis aos conselhos que recebemos.

II. A ESPERANÇA É A VIRTUDE do caminhante, daquele que, como nós,


ainda não chegou à meta, mas sabe que sempre terá ao seu alcance os meios
necessários para ser fiel ao Senhor e perseverar na vocação a que foi
chamado, no cumprimento dos seus deveres. Mas temos que estar atentos a
Cristo, que se aproxima de nós no meio das nossas ocupações, e “agarrar-nos
a essa mão forte que Deus nos estende sem cessar, a fim de não perdermos o
«ponto de mira» sobrenatural, mesmo quando as paixões se levantam e nos
acometem, para nos aferrolharem no reduto mesquinho do nosso eu, ou
quando – com vaidade pueril – nos sentimos o centro do universo. Eu vivo
persuadido de que, sem olhar para cima, sem Jesus, nunca conseguirei nada;
e sei que a minha fortaleza, para me vencer e para vencer, nasce de repetir
aquele grito: Tudo posso n’Aquele que me conforta (Phil IV, 13), que encerra a
promessa segura que Deus nos faz de não abandonar os seus filhos, se os
seus filhos não o abandonam”4.

Ao longo do Evangelho, o Senhor fala-nos com frequência de fidelidade:


aponta-nos o exemplo do servo fiel e prudente, do criado bom e leal nas
menores coisas, do administrador fiel, etc. A ideia da fidelidade está tão
enraizada no cristão que bastará o título de “fiéis” para designar os discípulos
de Cristo5.

À perseverança opõe-se a inconstância, que incita a desistir facilmente da


prática do bem ou do caminho empreendido, quando surgem as dificuldades e
as tentações. Opõe-se também, e em primeiríssimo lugar, a soberba, que vai
minando os próprios alicerces da fidelidade e debilita a vontade na luta contra
os obstáculos; sem humildade, a perseverança torna-se frágil e quebradiça.
Opõe-se ainda o meio ambiente, a conduta de pessoas que deveriam ser
exemplares e não o são, e, por isso mesmo, parecem querer dar a entender
que a fidelidade não é um valor fundamental da pessoa.

Os obstáculos à lealdade aos compromissos adquiridos podem, enfim, ter a


sua origem no descuido habitual dos pormenores. O próprio Senhor nos disse:
Aquele que for fiel nas pequenas coisas também o será nas grandes 6. O cristão
que não se desleixa nos pequenos deveres em que se desdobra o seu trabalho
profissional, que luta por manter-se na presença de Deus durante a jornada,
que guarda com naturalidade os sentidos; o marido que é leal à sua esposa
nos pequenos incidentes da vida diária; o estudante que prepara as suas aulas
todas os dias..., esses estão a caminho de ser fiéis quando os seus
compromissos lhes reclamarem um autêntico heroísmo.

A fidelidade até o fim da vida exige que se saiba recomeçar quando por
fragilidade tenha havido algum tropeço, que se persevere no esforço ao longo
da vida, ainda que não faltem momentos isolados de covardia ou derrota. A
chamada de Cristo exige uma persistência firme e “teimosa”, buscada numa
compreensão sempre mais profunda da grandeza e das exigências do caminho
que Deus traçou para cada homem.

III. A VIRTUDE DA FIDELIDADE deve estar presente em todas as


manifestações da vida do cristão: nas relações com Deus, com a Igreja e com
o próximo, no trabalho, nos deveres de estado e de cada um consigo próprio.
Acima de tudo, o homem vive a fidelidade em todas as suas formas quando é
fiel à sua vocação, e é da sua fidelidade ao Senhor que se deduz – e a ela se
reduz – a fidelidade a todos os seus compromissos verdadeiros. Fracassar,
pois, na vocação que Deus quis para nós é fracassar em tudo. Quando se
quebra a fidelidade ao Senhor, tudo se desconjunta e desmorona. Se bem que,
na sua misericórdia, Deus pode recompor tudo, se o homem assim lhe pede
humildemente.

Não esqueçamos que é o próprio Deus quem sustenta constantemente a


nossa fidelidade, e que Ele conta sempre com a fragilidade da natureza
humana, com os seus defeitos e erros. O Senhor está disposto a dar-nos as
graças necessárias, como àqueles dois de Emaús, para que continuemos
sempre a caminhar, se houver em nós sinceridade de vida e desejos de luta. E
diante do aparente fracasso de muitas das nossas tentativas, devemos
lembrar-nos de que Deus, mais do que o “êxito”, o que olha com olhos
amorosos é o esforço perseverante na luta.

Deste modo, se nos esmerarmos com a ajuda de Deus em ser-lhe fiéis nas
constantes batalhas de cada dia, conseguiremos ouvir no fim da nossa vida,
com imensa alegria, aquelas palavras do Senhor: Muito bem, servo bom e fiel,
já que foste fiel no pouco, eu te confiarei o muito. Vem regozijar-te com o teu
Senhor7.

Ao terminarmos a nossa oração, dizemos ao Senhor com os discípulos de


Emaús: Fica connosco, porque já é tarde e o dia declinou. Fica connosco,
Senhor, porque, sem Ti, tudo é escuridão e a nossa vida carece de sentido.
Sem Ti, andamos desorientados e perdidos. E contigo, tudo tem um sentido
novo; até a própria morte é uma realidade radicalmente diferente. Mane
nobiscum, quoniam advesperascit et inclinata est iam dies. Fica connosco,
Senhor..., lembra-nos sempre as coisas essenciais da nossa existência, ajuda-
nos a ser fiéis e a saber escutar com atenção o conselho sábio das pessoas
em quem Tu te fazes presente no nosso contínuo caminhar para Ti.

“«Fica connosco, porque escureceu...» Foi eficaz a oração de Cléofas e do


seu companheiro. – Que pena se tu e eu não soubéssemos «deter» Jesus que
passa! Que dor, se não lhe pedimos que fique!”8

(1) Lc 24, 13-35; (2) A. G. Dorronsoro, Dios y la gente, Rialp, Madrid, 1973, pág. 103; (3) Lc 24,
32; (4) São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 213; (5) cfr. At 10, 45; 2 Cor 6, 15; Ef 1, 1;
(6) Lc 16, 10; (7) Mt 25, 21-23; (8) São Josemaría Escrivá, Sulco, n. 671.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)