Sei sulla pagina 1di 318
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. História, culturas e subjetividades: abordagens e
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. História, culturas e subjetividades: abordagens e

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

História, culturas e subjetividades:

abordagens e perspectivas.

FRANCISCO DE ASSIS DE SOUSA NASCIMENTO PAULO AUGUSTO TAMANINI (ORGS.)

FRANCISCO DE ASSIS DE SOUSA NASCIMENTO PAULO AUGUSTO TAMANINI (ORGS.) 2015 1 Grade.indd 1 09/10/2015 09:25:04

2015

1

Grade.indd

1

09/10/2015

09:25:04

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Editora da Universidade Federal do Piauí - EDUFPI

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Editora da Universidade Federal do Piauí - EDUFPI Conselho

Editora da Universidade Federal do Piauí - EDUFPI

Conselho Editorial:

Prof. Dr. Ricardo Alággio Ribeiro (Presidente) Prof. Dr. Antonio Fonseca dos Santos Neto Profª Ms. Francisca Maria Soares Mendes Prof. Dr. José Machado Moita Neto Prof. Dr. Solimar Oliveira Lima Profª Dra. Teresinha de Jesus Mesquita Queiroz Prof. Dr. Viriato Campelo

Impressos no Brasil

© 2015, Editora da UFPI - EDUFPI Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei nº 9.610, de 19/02/1998. Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida ou transmitida, sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros, sem autorização prévia por escrito da editora.

Projeto Gráfico: Glaubher Calland Arte da Capa: SA Propaganda Impressão – Gráfica Halley - Teresina

História, Culturas e Subjetividades: abordagens e perspectivas – NASCIMENTO, Francisco de Assis de Sousa; TAMANINI, Paulo Augusto (orgs.) Teresina, PI: EDUFPI 2015. 318 páginas.

Inclui bibliografia

ISBN 978-85-7463-920-8 1. Culturas 2. Subjetividades 3. História B277t

CDD: 981.225

2

Grade.indd

2

09/10/2015

09:25:04

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. SUMÁRIO Apresentação 05 Cidades no Brasil:
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. SUMÁRIO Apresentação 05 Cidades no Brasil:

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

SUMÁRIO

Apresentação

05

Cidades no Brasil: espontaneidade versus planejamento e determinação. Claudio Barros Araújo

09

Procedimentos penais em Portugal no Antigo Regime: Inquisição e Justiça Régia. Ferdinand Almeida de Moura Filho

25

Educação franciscana e a invenção de si: Os processos cognitivos que performam corpos e mentes no Estado do Piauí (1949-1964). Francisco de Assis de Sousa Nascimento

50

O Estado Imperial em construção: Manuel de Sousa Martins e o Piauí na Confederação do

Equador.

Francisco de Assis Oliveira Silva

68

A

campanha das Diretas Já em Teresina-PI (1983-1984).

Jessica de Souza Maciel

90

Antônio Coelho Rodrigues: entre o “silêncio, a paciência e o tempo”. Johny Santana de Araújo

107

“Some Impressions of the UNEF 1957 to 1958”: análise do relatório número 78 como fonte e memória da Missão Suez. Manoel Ricardo Arraes

132

Topografia do Cemitério São José: memória, saudades, cultura e poder, em Teresina, entre o segundo quartel do século XIX e início do século XX. Mariana Antão

159

A

Invasão Paraguaia do Rio Grande do Sul: Apogeu e Crise

Mário Maestri

181

Os imigrantes no Novo mundo: os papéis de gênero na cultura ucraniana na América do Sul. Paulo Augusto Tamanini 203

Odilon Nunes: a história viva do Piauí. Pedro Thiago Costa Melo

222

Escravidão negra nas cidades: uma análise historiográfica sobre a escravidão nas zonas urbanas – século XIX.

Rodrigo Caetano Silva

243

As relações de afinidade entre a cultura católica francesa e a cultura católica brasileira:

militância e engajamento social (1945-1965). Rogério Luiz de Souza

265

Escritos Ressentidos em Teresina no início do século XX. Ronyere Ferreira; Teresinha Queiroz

279

“Toda essa coleção de imitações para não dizer de traduções mutiladas”: textos teatrais,

propriedade literária e tensões culturais no Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX.

Silvia Cristina Martins de Souza

299

3

Grade.indd

3

09/10/2015

09:25:04

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Necessários agradecimentos A edição deste livro

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Necessários agradecimentos A edição deste livro somente

Necessários agradecimentos

A edição deste livro somente foi possível graças à honrosa colaboração do advogado Álvaro Fernando da Rocha Mota, dos publicitários Antônio Siqueira Campos Filho, Bonifácio Neto, Juratan Moura e do empresário João Claudino Fernandes.

4

Grade.indd

4

09/10/2015

09:25:05

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. A P R E S E N T
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. A P R E S E N T

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

A P R E S E N T A Ç Ã O

No regime atual de historicidade, não se pode mais transcurar que a grande maioria das produções, apresentações de trabalhos em Simpósios e Congressos, Dissertações e Teses defendidas nas universidades brasileiras versam sobre temas caros à História Cultural (PESAVENTO, 2004, p. 4). Com o advento de historicizar e arregimentar temas e abordagens novas e com as inovações procedurais introduzidas no campo de pesquisa da História a partir do século XIX, seria impensável, desde então, obliterar motes marginais que decorrem em significativos efeitos sobre a práxis e o ofício do historiador. A anterior auto-referencialidade de certezas que girava em torno de conceitos totalizantes perdia espaço para aquela que observava na particularidade a possibilidade de uma investigação acadêmica promissora. Os paradigmas enfeitados pela certeza de junções e amontoamentos conceituais maximamente abrangentes inclinavam-se à meticulosidade e à estranheza da própria historiografia. A partir daí, as ações humanas em sua inteireza, reverberadas em conceitos de representação, discurso, imaginário, narrativa, ficção, sensibilidade, ganhavam notabilidade e erguiam-se pelos escombros de um esgotamento de um regime de verdade questionável. A complexidade do existir humano desnudava-se frente às abordagens nada abortivas e estendia seus rizomas pelas sendas de cada pingo de vida, deixando suas marcas e vestígios à mercê dos hermeneutas. A altivez dos que escreviam a História pelas lentes do macro, curvava-se pelo peso da arrogância que desprendia-se das explicações advindas de uma só leitura da realidade. Após esta revisão complexiva do fazer historiográfico, a História contemporânea abria espaço para temas e problemas novos. Por implicação, as tendências historiográficas da Escola dos Annales, da História Social inglesa e da Nova História Cultural do século XX influenciaram a produção historiográfica se baseando em formas diversificadas de fontes. Essa renovação colocou em evidência novos temas, novos objetos e novos métodos promovendo uma verdadeira revolução na escrita da História, e, consequentemente, do ensino de História. Desde então, fontes de natureza,

5

Grade.indd

5

09/10/2015

09:25:05

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. visual, oral e sonora foram incorporadas ao conjunto

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. visual, oral e sonora foram incorporadas ao conjunto de

visual, oral e sonora foram incorporadas ao conjunto de registros fazendo com que a História observasse seu objeto a partir de recortes multifacetados. Presentemente interessa ao historiador não somente o instituído, mas também o que está desvinculado dos padrões, da normalidade, dos arquétipos e protótipos que pensam aleijar homens e mulheres de sua liberdade e escolhas. Temas marginais, antes vistos de pouca importância, continuam um percurso que aos poucos os levam ao centro da notoriedade especulativa e que, por isso, não se furtam às significações e aos sentidos. De relegado ao pormenor, o objeto inquirido na História Cultural transubstancia-se em grandezas investigativas, fazendo com que seja recortado em múltiplas facetas e perscrutados em suas ontologias. A História Cultural associa-se igualmente ao debate epistemológico inaugurado pela chamada micro-história, nascida na década de 1980, na Itália, que, desde então procura interpretar os textos e os acontecimentos focando análises no pensamento, percepção e ações do indivíduo, rompendo com o modo positivista e tradicional de se fazer História (LEVI, 1992:136). Assim, trajetórias pessoais, pequenos eventos, a vida privada, dizeres e escritos de pessoas comuns, discursos e imagens, ganhavam prevalências. Como na micro-história, longe de ser uma exposição de curiosidades, a construção da narrativa culturalista deixa explanar uma conferência acerca do específico, mas que ao mesmo tempo se articula com temas macros. Nesta comungação de parcerias, as investigações de práticas e discursos revelam cada vez mais a complexidade da existência humana, eivada de possibilidades e interconexões. Longe de serem lacunares, parciais ou aproximados, os saberes advindos desse esfuracar de fontes fazem da narrativa historiográfica não um fim, mas um meio através do qual os acontecimentos se tornam compreensíveis, dado às interconexões e às possibilidades de leituras de um mesmo fato ou evento. Se a História é uma prática escriturística, produto de tramas e fabulações onde se enredam tempos, lugares e pessoas, o número crescente de pesquisas que contemplam desdobramentos culturais autoriza a pensar em maneiras outras de se dizer sobre um pretérito. Encontra assim, em terrenos extramuros de fórmulas prontas, um profícuo material para análise e consequente pesquisas. Por acreditar que na prática historiográfica, os temas culturais abordados não prescindam da interdisciplinaridade e da comunhão de saberes, hoje os dispositivos de análise convidam a pensar as representações e as formas de entendimento entrecruzando temas, abordagens e objetos. Logo, na atualidade,

6

Grade.indd

6

09/10/2015

09:25:05

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. também na História, a interdisciplinaridade encontra
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. também na História, a interdisciplinaridade encontra

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

também na História, a interdisciplinaridade encontra seu arrazoado na comunhão de conceitos partilhados pelos diversos campos de conhecimento. Como todo corpo teórico deve ser analisado como uma prática discursiva sujeita a revisões, a revisitas, a rasuras, o pesquisador da História Cultural está atento a essa compreensão e entende que por trás das teorias está o ser humano influenciado por contextos, pelos condicionantes de tempo e espaço. Por isso, discorrer sobre experiências dos outros é cercar-se de cuidados e evitar fazer afirmações engessadas, pois assim como o homem e a mulher mudam, as definições acompanham estas mutações. Porque escondidos em cada fato estão os saberes repletos de nervuras que, paradoxalmente, reinventam e dessacralizam o já instituído, é necessário dessegredar os arcanos que esperam por decifração, por um encontro, por uma descoberta feita pelos hábeis olhos aquilinos do pesquisador (ALBURQUERQUE JUNIOR, 2010). As perguntas a respeito de um passado nascem de um legitimado inconformismo gerado no presente. É nele que acontece a articulação do ontem e do hoje; é nesse entre-dois, é nesse arranjo de marcos temporais equidistantes que as interrogações buscam um nascimento e uma legibilidade. Porque as perguntas surgidas sobre o passado remetem a uma unidade viva do ontem, os historiadores contemporâneos buscam tangenciar respostas. É nessa tensão entre o perceptível e o ausente, entre o esforço de inteligência do acontecido e das condicionantes oferecidos pelo tempo de narrativa que se ancoram um movimento de busca inquieta do passado que não pode ser inteiramente dito ou afirmado. Como campo de pesquisa aberta, dados as circunstâncias e os contextos,

a História revisa ou reconsidera alguns conceitos, usa de linguagens coetâneas

e reinterpreta as fontes à luz das demandas, tendo o cuidado de não cair no casuísmo. No entanto, é preciso pontuar que a História, como outras áreas do saber, ainda que não esteja cega às realidades humanas, não é de todo instável, cambaleante em seus fundamentos. Não se deixa seduzir facilmente por modismos ou pelas inconstâncias de épocas. Tenta, deste modo, acalentar as inquietações, sem perder seu prumo. O olhar que historiciza sobre os diversos temas enriquece o próprio campo de conhecimento, uma vez que, é através das questões levantadas no tempo presente, que se mostram e traduzem o entendimento do passado e a forma como ele é lido. Assim, as diversas linguagens e tendências na Historiografia que surgem, tendem a estar dentro de uma lógica e coerência respaldada em

7

Grade.indd

7

09/10/2015

09:25:05

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. pressupostos específicos advindos do local e época em

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. pressupostos específicos advindos do local e época em que

pressupostos específicos advindos do local e época em que a própria História se constrói. Contudo, as discussões, os métodos de estudo e pesquisa, as perguntas levantadas acerca dos objetos devem sempre estar girando em torno da natureza e especificidade de seu campo de conhecimento. Ainda que haja temas e assuntos prementes, a História deve responder às questões

tendo como referência a natureza de sua missão. O que a História pode responder só caberá a ela fazer, já que ela se assenhora em sua especialidade. Posto isto, inquere-se que a História se refaz pelas inúmeras contribuições que se possam dar a respeito de um fato, de um objeto e de um escrito que é continuamente reelaborado, repensado e lido pelas lentes de tantos quantos forem os olhares. Para exemplificar as múltiplas possibilidades de temas que cercam a História Cultural foi pensada esta coletânea, que veio

à vida pela generosa contribuição de seus autores. Logo, trata-se de uma

operosidade historiográfica construída por muitas mãos. Ora, por mãos treinadas pela agudeza do olhar de professores doutores de Universidades

renomadas, experientes na arte de narrar, pesquisar e ensinar com presteza

e lucidez; ora, por mãos de historiadores que ainda gestam e buscam

robustecer sua bagagem conceitual, mas que se mostram tão promissores, dada à envergadura de suas produções. Enfim, é uma coletânea associativa que soube reunir temas diversos, dissecados por abordagens e corpo teórico pertinentes que explanam o fazer historiográfico na contemporaneidade.

Os organizadores.

Referências ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval. Em estado de palavra: quando a história não consegue que se meta fora a literatura. In: III Colóquio História e Arte Movimentos Artísticos e Correntes intelectuais, UFSC, 2010. FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fon- tes, 1999. LEVI, Gioavanni. Sobre a micro-história. In: BURKE, Peter. A escrita da história: novas perpectivas. São Paulo: UNESP, 1992. PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e história cultural. Belo Horizonte:

Autêntica, 2004.

8

Grade.indd

8

09/10/2015

09:25:05

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. CAPÍTULO I 9 Grade.indd 9 09/10/2015 09:25:05
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. CAPÍTULO I 9 Grade.indd 9 09/10/2015 09:25:05

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

CAPÍTULO I

9

Grade.indd

9

09/10/2015

09:25:05

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Cidades do Brasil: espontaneidade versus planejamento e

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Cidades do Brasil: espontaneidade versus planejamento e

Cidades do Brasil: espontaneidade versus planejamento e determinação.

Introdução

Cláudio Barros Araújo Universidade Federal do Piauí - UFPI claudiobarros@gmail.com

O presente texto, que é uma fração do trabalho de conclusão do curso de História na Universidade Federal do Piauí, procura debater um paradigma muito relacionado à construção de Brasília: o fato de a cidade ser planejada, aproveitando-se disso como um fio condutor para discutir o nascimento dos espaços urbanos e o conceito de cidades, notadamente no Brasil, bem assim estabelecer um debate sobre as visões diferentes quanto ao surgimento incidental ou não dos centros urbanos. O texto procura deter-se mais atentamente sobre as razões de a Humanidade ter-se encaminhado para as cidades como mecanismo de organização social bastante próprio, formador de riqueza, criador de identidades culturais, levando o espaço urbano a constituir-se em um mosaico de interesses, de falas, de práticas socioculturais e afetivas, a tal ponto de ser enxergada como dicionário ou de criar em seu tecido urbano microuniversos que, mesmo juntos, são como corpos estranhos que não se interagem ou que se estranham, apesar de estarem próximos e se obrigarem espacialmente a conviver juntos. Se as cidades surgem como cadinhos de cultura e interesses e são colchas de retalhos culturais tão diversos quanto imprecisos, de certo haveria dificuldades para uma precisa formação de centros urbanos. Neste contexto, Brasília, a nova, planejada e construída capital brasileira, propunha-se a ser um universo diferente, a cidade de um novo homem e de um novo país. Em vez de ser resultado da espontaneidade caótica, ela nasce dentro de traçados urbanos bastante elaborados. A nova capital do Brasil, Brasília, nasce em pranchetas de arquitetos e urbanistas e na cabeça de políticos. Vem a lume para ser uma solução, uma cidade moderna e inovadora, ponto de partida para a construção de um novo homem. No entanto, não foi bem isso o que aconteceu. Brasília decorre de um momento em que havia uma ideia corrente de

10

Grade.indd

10

09/10/2015

09:25:05

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Brasil que avança para o futuro, mas ela
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Brasil que avança para o futuro, mas ela

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

Brasil que avança para o futuro, mas ela é feita por brasileiros que estavam com um pé no passado e de outros tantos que não enxergavam bem o que seria

o futuro. Assim, olhar para Brasília requer espiar também o passado e uma série

de variáveis. Portanto, mais do que focar em Brasília, o trabalho deve buscar

o debate de questões relacionadas ao planejamento urbano como decisões

de Estado, que, uma vez tomadas e tornadas concretas, são apropriadas e/ou atingidas por fatores imponderáveis, criando-se um espaço de espontaneidade

que faz das cidades tecido vivo, com dinâmica própria, a despeito de esforços pretéritos e presentes com o fito de planejar tudo. As cidades não surgem “naturalmente”, como poderemos perceber adiante. As cidades são obra humana e nessa condição, com efeito, não há como “naturalizar” a existência delas. Convém, no entanto, lembrar que se há uma decisão ou ato de planejar para que se estabeleça um espaço citadino,

o fato de ele ser composto por pessoas movidas por vontades e iniciativas

próprias faz com que se abandonem eventuais “cursos naturais” da cidade. Os cadinhos de cultura terminam criando uma cidade diversa daquela pensada em pranchetas ou resultantes de decisões políticas e/econômicas. Planeja-se uma cidade, mas é o ritmo de espontaneidade das pessoas que executa a obra e esta será tanto mais parecida com as pessoas do que com ideias pré-concebidas.

1. Planejamento de cidades: ação recorrente vencida pela espontaneidade reinante.

Nenhuma cidade é obra do acaso, muito embora exista uma enorme diferença entre o surgimento de uma cidade por razões de demanda e

oportunidade e a construção de outras a partir de decisões políticas. Cidades “são formações históricas próprias, cada uma com sua individualidade

) (

p. 22). Não sendo as cidades surgidas “naturalmente”, não teriam elas um

componente de espontaneidade? Este é um debate bastante profícuo e sobre o qual dificilmente se chegará a ponto de pacificação – que, aliás, é a negação da História, sempre envolta em olhar para tudo com múltiplos pontos de vista

e sem possibilidade do fechamento de questão, de ponto final no debate.

Felizmente. Cidades, assim, precisam ser avistadas como organismos vivos,

que se alteram ao sabor das existências humanas nelas residentes.

que representam a cultura específica do seu tempo” (FREITAG, 2006,

11

Grade.indd

11

09/10/2015

09:25:05

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil , nos

Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, nos leva a perceber a diferença que ele enxerga entre os modos espanhol e português de construir

cidades. No capítulo 4 – O ladrilhador e o semeador – dessa sua obra essencial, Sérgio afirma que “um zelo minucioso e previdente dirigiu a fundação das cidades espanholas na América” (HOLANDA, 1995, p. 96). O esmero espanhol não teria se dado na América Portuguesa, um empreendimento que “parece tímido e mal aparelhado para vencer” (HOLANDA, 1995, p. 97). Aparentemente – e só aparentemente – poderíamos perceber nas palavras de Sérgio Buarque de Holanda o ignorar da existência de um planejamento prévio sobre o surgimento das cidades portuguesas na América. Ao propugnar que os espanhóis construíram cidades a partir de projetos bastante minuciosos, dominando a natureza no entorno, em contraponto a uma espontaneidade e despreocupação lusitana com os obstáculos naturais,

a nós se apresenta evidente a ideia de que o autor de Raízes do Brasil não

mirou em preocupações sobre se os ibéricos planejaram o não as suas cidades. Aliás, o termo “planejamento” não aparece uma única vez em todo o texto do livro, tampouco no capítulo específico que trata da forma como espanhóis e portugueses fizeram suas cidades no Novo Mundo. O que se coloca é que no caso espanhol existe rigor da execução de um trabalho, enquanto os lusitanos se deixam levar por um curso mais “natural”, contornando os problemas em vez de enfrentá-los, digamos, com um rigor cartesiano. Mesmo assim, há contraposição às afirmações de Sérgio, como a que fez Antônio Risério. Sob sua visão, o semeador e o ladrilhador de Sérgio Buarque

não são exatamente essas duas figuras. Haveria um erro de perspectiva no estabelecimento das diferenças entre as cidades espanholas e lusitanas. A

despeito de Sérgio Buarque ter sido muito claro nas distinções entre a cidade espanhola - “um ato definido da vontade humana”- (HOLANDA, 1995, p. 95), e a cidade portuguesa -“sua silhueta que se enlaça na linha da paisagem”

- (HOLANDA, 1995, p. 110), Risério diz que pede para ser contestada a

ideia do espanhol ladrilhador laborioso e sistêmico e do português semeador displicente:

O problema está em que Sérgio, além de passar ao largo da vontade construtiva do barroco, se esquece da matriz urbanística que dominava a mentalidade lusitana e assim acabou informando a fisionomia dos nossos primeiros assentamentos coloniais.

12

Grade.indd

12

09/10/2015

09:25:05

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Antes que a lógica geométrica, a cidade brasileira
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Antes que a lógica geométrica, a cidade brasileira

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

Antes que a lógica geométrica, a cidade brasileira prolonga, no Novo Mundo, o urbanismo medieval lusitano. A questão não é de postura feitorial ou de entrega ao desleixo. Mas de matriz urbanística (RISÉRIO, 2013, p. 88).

Para Risério, portanto, as cidades lusitanas na América surgiam dentro de uma lógica bastante própria da Coroa, o que indica haver planejamento em sua concepção primária e na edificação delas. Nada de semeadura e sim de decisão política de fazer surgirem centros urbanos. Ele aponta para o fato de

os ibéricos, cada povo a seu modo, terem feito cidades, “nascidas de projetos

e decisões dos poderes ultramarinos, criações deliberadas, urdidas entre

mesas e pranchetas metropolitanas” (RISÉRIO, 2013, p. 73). Criações não

tão originais assim, porque o que “(

ultramarina de réplicas das cidades lusitanas” (RISÉRIO, 2013, p. 91). A ideia de cidades como algo surgido por necessidade e demanda ou mesmo obra do acaso é simplesmente dada como falácia por Risério. Salvador, primeira capital do Brasil, hoje declarada pela UNESCO patrimônio da Humanidade, com seu casario que poderia remeter mais aos reinos de formas orgânicas, do desalinho e da desordem, tem gênese bem menos orgânica no

dizer de Risério, pois “saiu de um desenho feito em, Lisboa para se implantar na Bahia de Todos os Santos” (RISÉRIO, 2013, p. 73). A primeira das três capitais brasileiras como um projeto arquitetônico- urbanístico pode soar novidade ou estranheza, notadamente se o foco do interesse estiver em Brasília, cidade não apenas planejada, mas construída sob o absoluto controle público e dentro de um rigoroso cronograma. No entanto, como anota Laurent Vidal, em seu livro De Nova Lisboa a Brasília:

a invenção de uma capital (séculos XIX-XX), “Salvador é a única cidade

brasileira desenhada e construída para abrigar as funções de uma capital” (VIDAL, 2009, p. 26). Mesmo diante dos rigores do planejamento urbano, seja ele atual, seja ele gestado na Lisboa do século XVIII, há sempre uma espontaneidade absoluta e reinante nas cidades, que não pode ser impedida nem mesmo pelo mais complexo e rigoroso dos planejamentos, tampouco pelo controle absoluto da construção. A espontaneidade das cidades não é impedida pelo seu planejamento, porque, afinal de contas, há gente e vida no correr da existência das cidades, seja no seu começo, seja durante a obra de edificação, seja em

13

tivermos, no Brasil, foi a construção

)

Grade.indd

13

09/10/2015

09:25:05

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. sua existência posterior – esta ainda mais sujeita

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. sua existência posterior – esta ainda mais sujeita às

sua existência posterior – esta ainda mais sujeita às alterações decorrentes da presença humana. Gente traz consigo, além da organicidade, sua cultura, suas preferências, demandas muito especificas, suas qualidades e seus defeitos e isso certamente altera qualquer plano feliz de cidade. Pessoas são atraídas, magneticamente às cidades, porque antes de ser local permanente de trabalho e moradia, elas são ponto de atração de seres humanos, movidos pelos mais variados interesses. A cidade é um ímã, conforme a definição muito bem posta por Raquel Rolnik (ROLNIK, 1995, p. 12). O fascínio que o mundo urbano exerce sobre as pessoas é tão antigo quanto a humanidade tal e qual a conhecemos hoje. Nasceu com a escrita e

o domínio da técnica do tijolo cozido, na Mesopotâmia. Isso “naturaliza” a

cidade, que, mesmo pensada ou planejada ou construída atendendo a sejam quais forem os interesses, sempre terá uma alma espontânea surgida na premência das necessidades e das demandas de quem é atraído ou se fixa nelas. Afinal, a cidade é tão viva quanto quem nela mora e muda na medida em que as pessoas se transformam.

2. Salvador: cidade planejada, cidadela espontânea.

A espontaneidade que redesenha as cidades, subvertendo seus traçados

e projetos “originais” ou “pensados” aconteceu a Salvador, planejada nas

pranchetas de Lisboa e deu-se com todas as cidades, até mesmo na mais planejada e rigorosamente executada, como é o caso de Brasília. O “curso natural” das cidades as torna menos de quem as planejou e mais delas próprias, dos cadinhos de cultura das pessoas que as formam. Convém lembrar o que diz Laurent Vidal ao mencionar a inauguração de Brasília, a cidade planejada, onde não tinham direito de residência os operários construtores, que, no entanto, se estabeleceram, ainda que na periferia, onde se fixaram mais por necessidade que pode desejo:

No dia 21 de abril de 1960, a população “indesejável” já se divide entre oito cidades-satélites. Logo, portanto, a maior parte da população de Brasília reside fora do Plano Piloto. O habitante não é o homem novo. O candango, o construtor de catedrais, o novo bandeirante não faltaram superlativos para qualificar essa epopeia – continuam excluídos do Plano Piloto” (VIDAL, 2009, p. 284).

14

Grade.indd

14

09/10/2015

09:25:05

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Se em uma cidade, cuja obra foi feita
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Se em uma cidade, cuja obra foi feita

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

Se em uma cidade, cuja obra foi feita com absoluto rigor e sob a égide da não cidadania para o operariado que a erigiu, não se conseguiu impedir a espontaneidade do povoamento nascido de necessidades e demandas prementes, isso tudo no final da segunda metade do século XX, bem assim

não poderia ser diferente em tempos pretéritos, como no Brasil colônia, onde

e quando, por mais que tenham saído as cidades das cabeças pensantes da

Metrópole e das pranchetas de arquitetos, teriam elas adquirido suas próprias almas forjadas nas necessidades e demandas dos que a habitavam. As cidades brasileiras, encravadas em sua maioria de frente para o mar e costas para o interior, praticamente não tinham comunicação entre si, como citam Risério e Vidal. Era como “se o Brasil não tivesse vida interna” (RISÉRIO, 2013, p. 83), existindo as cidades e vilas como entidades apartadas, voltadas para si e para Portugal, resultado da pouca importância que a Coroa Portuguesa dava à ocupação do espaço interiorano, o sertão, fazendo com que se situem ao longo do mar “as raras cidades com ordem e sob o controle do Estado” (VIDAL, 2009, p. 40). Num cenário como esse, que perdurou para além do Império e chegou mesmo à República, a ausência de uma rede de comunicação entre as cidades certamente não apenas as isolava, mas as fazia deixar para trás pendores de planejamento urbano. Houve, sim, uma desfiguração do modelo renascentista, resultado do crescimento orgânico de Salvador e Rio de Janeiro (RISÉRIO, 2013, p. 84). O que era planejado virou espontâneo, o que era ladrilho virou semeadura. Então, voltando a Sérgio Buarque, podemos perceber que, por mais que fossem as cidades espalhadas

dentro de uma lógica de ocupação traçada em Lisboa, no Brasil esses espaços urbanos se amoldaram a uma “silhueta que se enlaça na linha da paisagem” (HOLANDA, 1995, p. 110), O desfigurar das cidades, que poderemos perceber como o fruto da espontaneidade nascida das prementes demandas e necessidades, não se afigurou apenas em Salvador ou Rio de Janeiro, como anota Risério. Está em

tantas quantas forem as cidades brasileiras observadas em estudos posteriores

à sua criação. O caso de Brasília, pela proximidade temporal e a possibilidade

que se tem se olhar suas transformações praticamente em tempo real – ao menos do ponto de vista do longo tempo que é a História – nos oferece um ponto de visão bastante privilegiado do que foge ao controle dos planejadores. Da prancheta de Lúcio Costa surge um Plano Piloto que lembra um aeroplano

com duas asas em posição de decolagem, um eixo central, uma esplanada

15

Grade.indd

15

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. de ministérios, setores comerciais, bancário,
História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. de ministérios, setores comerciais, bancário,

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

de ministérios, setores comerciais, bancário, hoteleiro, de hospitais etc. Deveria ser uma cidade ideal, funcional e não afeita aos problemas urbanos de outras tantas cidades afetadas pelo crescimento não ordenado. Porém, nessa cidade idealizada não cabiam aqueles que lhe estavam construindo, embora não devesse, segundo o plano original, haver lugar em Brasília onde se segregariam ricos e pobres. Não foi bem isso o que se deu, como se perceberá. A nova capital do Brasil, como as demais cidades brasileiras e em todo o mundo, converter-se-ia, uma vez pronta e inaugurada, em “um imenso quebra-cabeças, onde cada peça conhece seu lugar e se sente estrangeiro nos demais” (ROLNIK, 1995, p. 40). Sentir-se estrangeiro – aqui mais como sinônimo de estranho ao lugar – é certamente algo que se deu com os milhares de anônimos construtores de Brasília. Nem poderia ser diferente. Em um lugar onde havia gente de todo canto, era praticamente uma rotina natural sentir-se estrangeiro naquele espaço empoeirado, grande canteiro de obras no Planalto Central, onde se torna sólido aquilo que nasceu longe do cerrado goiano, no espaço e no tempo.

3. Brasília: cidade do CIAM.

Se Salvador nasceu numa prancheta em Lisboa, Brasília tem uma gênese bem mais diversa. Desde muito antes de sua existência física ou da decisão de JK de fazê-la brotar num quadrilátero geodesicamente central no país, ela estava na cabeça do Marquês de Pombal. “É uma cidade dos CIAM”, como já dito por James Hoslton (HOLSTON, 2010, p. 37). Portanto, se tem como “pais” JK, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Israel Pinheiro e Bernardo Sayão, pode ter no arquiteto Le Corbusier, conforme anota o autor de A cidade

modernista – uma crítica de Brasília e sua utopia. O CIAM citado por Holston

é o Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (no original em francês

Congrès Internationaux d’Architecture Moderne), que teve diversas edições

a partir de 1928, na Suíça. A cidade do CIAM é concebida como uma cidade da salvação. É apresentada como um plano para a libertação frente à “trágica desnaturalização do trabalho humano”, produzida nas e pelas metrópoles da sociedade industrializada (HOLSTON, 2010, p. 47). É curioso que uma concepção de cidade em contraponto à exploração

excessiva do trabalho humano tenha sido posta em prática na obra de

16

Grade.indd

16

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Brasília, onde jornadas extenuantes de trabalho a que
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Brasília, onde jornadas extenuantes de trabalho a que

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

Brasília, onde jornadas extenuantes de trabalho a que eram submetidos os operários davam conta do surgimento de uma crônica repetitiva de acidentes, não bastante registrados pela História, displicentemente ignorados pela necessidade dos prazos fixos do presidente Juscelino Kubitscheck. Diante disso, convém sempre lembrar que “a cidade moderna é um produto do capitalismo e, portanto, resultado de determinantes universais de caráter mais econômico que cultural” (FREITAG, 2006, p. 41). Brasília utópica tinha em sua obra um viés do que pior o capitalismo pode produzir. Brasília, nesse sentido, surge como uma cidade bipolar. As ideias de sua concepção urbana, nascidas da prancheta de Lúcio Costa, são filhas legítimas do CIAM, cujo ideário era de forte crítica ao capitalismo. Prega a ideologia do CIAM que se as cidades têm alguma organização, esta se deve à ferocidade dos interesses privados (HOLTON, 2010, p. 50). Embora o modelo de cidade de Brasília seja da prevalência da propriedade pública sobre a propriedade privada, que era o modelo de cidade do CIAM (HOLTON, 2010, p. 55), convém rememorar que a cidade foi pensada e sua obra executada com o fito de expandir economicamente o país rumo ao Oeste, para gerar riquezas e mercados consumidores. Então, assenta-se sobre ideias políticas e econômicas de expansão do capitalismo brasileiro sob o patrocínio estatal. Obedece ainda a uma lógica que acompanha a arquitetura modernista, que resultou em Brasília e que tanto arquitetos quanto para governantes, significou a “ruptura com o passado colonial e um salto para o futuro” (HOLSTON, 2010, p. 103). Para os arquitetos, o anticolonialismo da arquitetura moderna “era também anticapitalismo”, porém isso não representa a postura dos dirigentes no rumo às ideias socialistas tão bem acolhidas no Brasil do pós-guerra. Holston afirma que se para os governos o modernismo arquitetônico significa romper com um passado colonialista, de outro lado esse “anticolonialismo simbólico estava associado com modernização e nacionalismo, não com uma revolução socialista” (HOLSTON, 2010, p. 103). Cabe bem aí a figura de JK em sua batalha para implantar Brasília, uma ação que faz parte de sua política desenvolvimentista, voltada para a inserção do Brasil no mercado global e que não representa exatamente a ideia que se pode ter de um político de esquerda anticapitalista e antimercado, socialista ou coisa que o valha. Muito embora se valha do Estado como o mais importante indutor de desenvolvimento, Kubitscheck era, antes de tudo, comprometido com o capitalismo e com sua expansão para mercados além do centro do

17

Grade.indd

17

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. capitalismo . JK era adepto e adaptado a

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. capitalismo . JK era adepto e adaptado a um pensamento

capitalismo. JK era adepto e adaptado a um pensamento econômico vigente

– o desenvolvimentismo com forte investimento público ou estatal – e sobre

o qual não pareciam caber reparos, nem à direita, tampouco e principalmente

à esquerda, que acolheu ideias de nacional desenvolvimentismo. Uma bela utopia que persevera até os dias atuais. Possivelmente por essa razão, cabe ver Brasília como a utopia de Thomas Morus, com todos os detalhes que lhe asseguram ser um mecanismo perfeito:

vias retas e largas, zoneamento funcional, amplos espaços de verde no espaço urbano, em um desenho regular, simétrico, preciso. Porém, no futuro (que já é o presente nosso) foi o livre mercado que determinou a organização daquilo que era bastante preciso. Cidades, aliás, se tornam maiores ou mais desenvolvidas na medida em que se organizam para atendimento do mercado, pois “enquanto local permanente de moradia e trabalho se implantam quando

a produção gera um excedente, uma quantidade de produtos para além das

necessidades imediatas (ROLNIK, 1995, p.16). É a cidade criticada antes, durante e depois de seu nascimento, mas críticas às cidades ou ao modo de

vida citadino são tão antigas quanto as próprias cidades, que sempre tiveram seus amantes, críticos, detratores e inimigos (RISÉRIO, 2013, p.176), entre os quais Rousseau e Marx, em polos opostos do pensamento social

e econômico, mas convergentes nos senões às cidades. Rousseau pensava

em cidades menores como o ideal. Achava oneroso haver centros urbanos grandes demais, a ponto de ter argumentado um aniquilamento de Paris, dado seu custo ao rei da França. Marx, por seu turno, é “um crítico feroz da cidade

industrial” (RISÉRIO, 2013, p.177). denuncia “a miséria, a dor, o desamparo, e a incomunicabilidade entre seres humanos nas cidades modernas do Ocidente” (RISÉRIO, 2013, p.177). A visão pessimista de dois grandes pensadores ocidentais sobre as cidades é, nos dias atuais, algo que poderá ser contraposto pelo aumento da qualidade de vida nos espaços urbanos. Fala-se mesmo em um triunfo das cidades, como sugere o livro de Edward L. Glaeser, para quem “as cidades não tornam as pessoas pobres; elas atraem pessoas pobres”, no que se aproxima o jornalista norte-americano da ideia da cidade como um ímã, conforme já posto anteriormente acerca da excelente definição de Raquel Rolnik (ROLNIK, 1995, p. 12). Assim, “o fluxo de pessoas menos favorecidas para as cidades demonstra a sua força urbana e não sua fraqueza” (GLAESER, 2011, p. 10). Então, cidades – estejam prontas ou estejam em construção – são sempre um

18

Grade.indd

18

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. atrativo para migrações de toda ordem. Se Glaeser
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. atrativo para migrações de toda ordem. Se Glaeser

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

atrativo para migrações de toda ordem. Se Glaeser lança um olhar otimista sobre as cidades – e o faz dentro de uma lógica capitalista e/ou liberal – quem repara o mundo por viés mais à esquerda tende a ver mais defeitos e enxergar as coisas com ceticismo. É o que se pode perceber em Evelyn Furquim Werneck Lima, ao propugnar que o “o ritmo de crescimento das metrópoles brasileiras gera pressões na expansão urbana, que se rebatem diretamente sobre espaços públicos e privados” (LIMA, 2007, p. 16). Então, parece bastante compreensível que uma cidade planejada – Brasília – quando era ainda um canteiro de obras, uma proto-urbi, arremedo de cidade, tenha atraído uma multidão de homens pobres, em busca de um pouco mais do que ganhavam em seus lugares de origem. Podemos depreender que bem mais que uma meta-síntese ou resultado de um longo percurso desde Pombal até JK, a matéria-prima da construção de Brasília foi também um cadinho de interesses, sonhos, ousadia, aventura, alguma dose de irresponsabilidade fiscal, disputas políticas, ideias econômicas gestadas um ambiente de pós-guerra. Bem por isso mesmo, cabe lembrar que uma cidade construída é bem diferente de uma cidade planejada, porque, conforme já visto, planejadas são todas as cidades. Para o bem ou para o mal, surgem elas de uma ideia, que, posta em prática, é de algum modo planejamento, depois deixado um pouco ou totalmente de lado em favor de um novo planejamento ou de nenhum planejamento.

4. Demandas e necessidades geram espontaneidade.

Temos em Brasília um desses exemplos de como demandas e necessidades prementes interferem no planejamento, na ideia utópica de que tudo pode ser controlado, do deixar-se seguir pela “silhueta que se enlaça na linha da paisagem”, conforme coloca Sérgio Buarque ao reparar a cidade lusitana na América. Essa desorganização aparente na obra de Brasília chama-se Cidade Livre, um espaço para comércio e serviços, afastado do Plano Piloto, criado provisoriamente – deveria durar quatro anos, aproximadamente o tempo para conclusão de Brasília e de obras complementares – e que serviria como suporte de logística para atendimento às demandas, tanto dos operários, chamados de candangos, quanto das empresas construtoras que os contratavam. Mas esse lugar de feira livre resulta obviamente também das necessidades dos

19

Grade.indd

19

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. despossuídos da sorte ou dos que acorreram ao
História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. despossuídos da sorte ou dos que acorreram ao

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

despossuídos da sorte ou dos que acorreram ao entorno da obra de Brasília à cata de melhor sorte que em seus lugares de origem. Nas palavras de Juscelino Kubitscheck esses homens e mulheres – mais homens que mulheres, é sempre bom lembrar – formaram a primeira favela de Brasília, que no final de 1958 – menos de dois anos após iniciada a obra de sua construção – já dispunha de uma população de 25 mil residentes:

ACidade Livre nascera, assim, como consequência da construção de Brasília. Na região, que até então fora despovoada, não havia como atender aos milhares de candangos que deveriam trabalhar na nova capital. Imaginou-se, pois, a criação de um núcleo populacional, fora do Plano Piloto, com um comércio regular que satisfizesse às necessidades daqueles milhares de trabalhadores. Surgiu assim a Cidade Livre – autêntica concentração humana, alojada em casas de madeiras, no gênero Dodge City e de outras cidades do mesmo tipo, características do Velho Oeste norte-americano. Ela se fez em poucos meses. Em 1958 já tinha 2.600 casas comerciais. Abriram-se restaurantes e bases. Instalaram-se hotéis e pensões. Surgiram bilhares. Um “mercado municipal” fornecia gêneros e artigos hortifrutigranjeiros à população. Vieram açougues e armadinhos. E, como não podia deixar de acontecer, proliferaram as “pensões de mulheres” (KUBITSCHEK, 2014, volume III p. 304).

Se JK compara a Cidade Livre a uma povoação do Velho Oeste norte- americano, a mesma figura é usada por Holston: “A combinação entre um governo laissez-faire e edificações temporárias de madeira fez da Cidade Livre algo como uma vila do faroeste americano, com a qual foi frequentemente comparada” (HOLTON, 2010, p. 227). Essa liberdade que dá nome à cidade tem mais a ver com isenções tributárias àqueles que nela se instalaram e ainda com o conceito de livre mercado, não podendo ser vista como um espaço de liberdades civis:

A Cidade Livre foi a pioneira da nova capital brasileira. Idealizada por Bernardo Sayão, na época Diretor Técnico da Novacap, seria um núcleo provisório com a funcionalidade de

20

Grade.indd

20

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. centro comercial e recreativo para os construtores da
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. centro comercial e recreativo para os construtores da

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

centro comercial e recreativo para os construtores da capital nacional, pois as cidades de Planaltina, Luziânia e Brazlândia, à época, não detinham condições ou infraestrutura para sustentar a dinâmica que exigia a construção de Brasília. Traçada em apenas três ruas foi denominada Cidade Livre, pois todas as atividades eram isentas de taxas e impostos, política de incentivo do governo para fixação popular (COSTA, 2013, p. 5).

O surgimento de um mercado em uma Brasília nascente é obviamente

resultado de demandas existentes e que precisavam ser atendidas, porque

desde sempre as cidades são terreno fértil para as trocas comerciais, sejam elas intermediadas ou não pela moeda. Sempre foi assim desde que a Humanidade começou a sedimentar-se em núcleos urbanos na Mesopotâmia. “A cidade, ao se aglomerar num espaço limitado uma numerosa população, cria um mercado” (ROLNIK, 1995, p. 26). Mesmo que demandas de consumo tenham sido determinantes no surgimento da Cidade Livre, esta não era também obra do acaso. Como já posto e bem posto, era parte da logística da obra de Brasília, surgida para suprir necessidades de víveres, de material de construção, de tudo o que mais aprouvesse aos construtores e operários. Inclusive prostitutas, encontráveis

em uma “(

tudo

uma feira monstra. Comércio, onde se vendia todo. Lá tinha

tinha mulher, tinha tudo, tudo. No dizer tudo, é tudo mesmo. Tinha

tudo na Cidade Livre. Era coisa demais, coisa demais” (SANTOS, 2014). Um canteiro de obras evidentemente que é um território predominantemente carregado de testosterona. Então, é compreensível que, havendo um mercado sedento de diversão sexual sem os esforços da conquista ou jogos de sedução, houvesse a oferta de serviços de prostitutas. “A Cidade

Livre era onde tinha os ambientes, os bregas, os barzinhos para beber, porque lá no Centro mesmo não tinha não. A Cidade Livre era cheia de botecos, de bebidas” (SOUSA, 2014).

A Cidade Livre, nascida pela necessidade de atendimento de demandas

e logística, e que se configuraria na antítese de Brasília planejada e utópica, higienizada e perfeita, é a gênese de núcleos urbanos “espontâneos” e carregados de problemas de toda ordem. Para muitos dos que foram para Brasília como operários (candangos), mas quiseram lá ficar, a permanência representou conviver em ocupações e favelas, em meio à prostituição, violência,

)

21

Grade.indd

21

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. falta de infraestrutura, escassez de dignidade humana,
História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. falta de infraestrutura, escassez de dignidade humana,

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

falta de infraestrutura, escassez de dignidade humana, concentração excessiva da população, criminalidade. Todas essas eram questões permanentes nestes aglomerados, certamente não resultantes no planejamento da cidade. O sonho feliz de cidade para o ao operário de Brasília não existiu. A cidade planejada fez-se por ele espontânea, com semeaduras de trabalho extenuante, lonjura da família, o frio seco do Planalto Central, que tanto

incomodou os nordestinos. “(

Tinha hora que eu estava

mesmo assim me tremendo. Lá fazia frio nesse tempo” (SILVA, 2014). Frio, distância, solidão, um cotidiano de trabalho extenuante e lazer mínimo foram marcantes na passagem dos operários que fizeram Brasília. Em seis entrevistas usadas para a monografia de onde se retira fragmento para este trabalho, há uma perceptível unidade na direção de uma situação de incômodo frente às dificuldades pelos quais passaram os operários ouvidos. As seis entrevistas utilizadas bem apontam nessa direção. Os operários piauienses idos para a frente de obra da nova e planejada cidade faziam parte de um contingente de milhares de homens nordestinos, pouco ou não alfabetizados, com insuficiente ou nenhuma qualificação como operários da construção civil, em um nascente Brasil urbano, que se aventuravam rumo a Brasília, mas também a São Paulo, tangidos pela seca e pela miséria endêmica. Homens que deixaram para trás suas cidades pequenas, suas roças e pequenas criações, saídos dos ermos sertões esquecidos, levados adiante mais pela necessidade e menos por sonhos de grandiosidade, ou nova matriz

d’água [

Passava a noite todinha com as mãos dentro

)

].

Ô frio grande que a pessoa passava

de pensamento econômico, ou seja, lá o que for. Foi a necessidade crescente em uma terra economicamente deprimida, o Nordeste, e o Piauí, em especial, que empurrou os candangos nascidos por aqui para a aventura de fazer uma cidade no meio do cerrado do Planalto Central.

Considerações finais

É bastante evidente que as cidades são organismos vivos – daí porque podem progredir ou morrer, avançar ou estagnar, tornar-se melhores ou piores na medida em que marcham as pessoas que as fazem vivas. Esse ponto parece bastante demonstrado ao longo deste trabalho, que buscou cotejar duas visões não excludentes entre si, a de uma cidade planejada ou ao menos pensada para que suja e o da espontaneidade que se segue à

22

Grade.indd

22

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. instalação dos espaços citadinos. A cidade é ímã
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. instalação dos espaços citadinos. A cidade é ímã

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

instalação dos espaços citadinos.

A cidade é ímã a atrair as pessoas, é espaço de organização social

e econômica, sobretudo na lógica capitalista. Desde sempre, pensada como mecanismo de ocupação espacial de um território vasto pela força de um povo dominante ou como mecanismo de sufocação do dominado.

O pretexto para serem avistadas essas perspectivas, neste trabalho,

está na construção de Brasília, a capital brasileira planejada e erguida a partir

do zero em um ponto no Planalto Central do Brasil. Poderia ser a cidade um triunfo do planejamento sobre a espontaneidade, a organicidade das cidades. Não foi. Brasília em sua gênese já experimentou o fato dificilmente contestável de que, sendo formado por seres humanos, espaços urbanos não podem ser encerrados na dureza do planejamento. Assim, desde sempre – no mundo e no Brasil – o planejar ou pensar cidades foi decisão primordial do ocupante do espaço territorial. Porém, a

cidade fazer-se por si mesma, a partir das ações do que nela habitam, pontuou

a sua existência. O planejamento que precede as cidades, mesmo em lugares

como Brasília, não parece forte o suficiente para deter a marcha dos seres humanos que nelas habitam, mudando, transformando sempre e sempre.

REFERÊNCIAS

Bibliográficas

FREITAG, Barbara. Teorias da cidade. Campinas: Papirus, 2006.

GLAESER, Edward Ludwig. Os centros urbanos: a maior invenção da humanidade: como as cidades nos tornam mais ricos, inteligentes, saudáveis e felizes. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo:

Campanhia das Letras, 1995.

HOLSTON, James. A cidade modernista: uma critica de Brasília e sua utopia. 20 ed. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2010.

KUBITSCHEK, Juscelino. Meu caminho para Brasília. Brasília: edições do

23

Grade.indd

23

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Senado, 2014, volume III. LIMA, Evelyn Furquim Werneck.

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

Senado, 2014, volume III.

abordagens e perspectivas. Senado, 2014, volume III. LIMA, Evelyn Furquim Werneck. Politicas de desenvolvimento e

LIMA, Evelyn Furquim Werneck. Politicas de desenvolvimento e patrimônio cultural. In: LIMA, Evelyn Furquim Werneck.; MALEQUE, Míria Roseira,

Orgs. Espaço e cidade: conceitos e leituras. Rio de Janeiro: Editora 7 Letras,

2007.

RISÉRIO, Antônio. A cidade no Brasil. São Paulo. Editora 34. 2013.

ROLNIK, Raquel. O que é cidade. São Paulo: editora Brasiliense, 1995.

VIDAL, Laurent. De Nova Lisboa a Brasília: a invenção de uma capital (séculos XIX-XX). Brasília: Editora UnB, 2009.

Depoimento

Entrevista gravada, concedida pelo senhor ANTÔNIO DA COSTA DA SILVA, aos pesquisadores: Cláudio Barros Araújo, Rodrigo Caetano Silva, Pedro Thiago Costa Melo e Junior Fernandes. Inhuma, Piauí, 2014.

Entrevista gravada, concedida pelo senhor JOÃO ALVES DOS SANTOS, aos pesquisadores: Cláudio Barros Araújo, Rodrigo Caetano Silva, Pedro Thiago Costa Melo e Junior Fernandes. Inhuma, Piauí, 2014.

Entrevista gravada, concedida pelo senhor RAIMUNDO FERNANDES DE SOUSA, aos pesquisadores: Cláudio Barros Araújo, Rodrigo Caetano Silva, Pedro Thiago Costa Melo e Junior Fernandes. Altos, Piauí, 2014.

Site

COSTA, Everaldo Batista da.; PELUSO, Marília Luíza. Territórios da memória candanga na construção da capital do Brasil (1956-1971). XIII Simpósio Nacional de Geografia Urbana. UERJ. Rio de Janeiro. 18 a 22 de novembro de 2013. Site: <http://www.simpurb2013.com.br/wp-content/ uploads/2013/11/GT08_Everaldo-e-Marilia.pdf>. Acessado em 05/4/2015.

24

Grade.indd

24

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. CAPÍTULO II 25 Grade.indd 25 09/10/2015 09:25:06
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. CAPÍTULO II 25 Grade.indd 25 09/10/2015 09:25:06

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

CAPÍTULO II

25

Grade.indd

25

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Procedimentos penais em Portugal no Antigo Regime:

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Procedimentos penais em Portugal no Antigo Regime:

Procedimentos penais em Portugal no Antigo Regime: Inquisição e Justiça Régia.

Introdução

Ferdinand Almeida de Moura Filho Universidade Federal do Piauí – UFPI ferdinandhistoria@yahoo.com.br

As abordagens institucionais a partir das suas próprias fontes primárias, em especial seus códigos de leis, ainda carecem de muitos estudos, mesmo que atualmente alguns trabalhos tenham sido redigidos com tais propósitos 1 . Optam por analisar tais instituições a partir de outras documentações, por exemplo, comportamentos individuais que por essas instituições passaram. Nesse sentido, acabam por favorecer opiniões deturbadas que tendem a desqualificar e deslocar as instituições de seus próprios contextos de época. Esquece-se que é imprescindível conhecer a legislação dessas instituições, “a fim de avaliar seu impacto na vida dos homens” (SIQUEIRA, 1996, p. 498). Propõe-se aqui um exercício que cada vez mais os historiadores estão se esquecendo: compreender o passado em sua historicidade e não julgá-lo. Para isso, um olhar sereno e responsável é necessário. Nesse sentido, o conselho de Sérgio Buarque de Holanda é mais do que pertinente: a história deve ser construída num equilíbrio saudável entre erudição e imaginação (HOLANDA, 2004). Com efeito, a história é feita partir da análise documental, digna de uma contribuição positivista, sem rancor dogmático, aliada a uma capacidade do historiador em articular, conjecturar, indagar e, se possível, recriar, pois sabemos que os documentos nunca falam por si só. É importante salientar que as análises dos procedimentos penais, delitos e penas demonstram “o que seria o funcionamento ideal da instituição

1 A exemplo, ver: FERNANDES, Alécio Nunes. Dos manuais e regimentos do Santo Ofício português: a longa duração de uma justiça que criminalizava o pecado (sec. XIV – XVIII). Brasília: Universidade de Brasília, 2011. Disponível em: <http://repositorio.unb. br/bitstream/10482/8790/3/2011_AlecioNunesFernandes.pdf>. Acesso em:

24/06/2014; JÁCOME. Afrânio Carneiro. O direito inquisitorial de 1640: a formalização da intolerância religiosa (1640-1774). João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba. Disponível em: < http://tede.biblioteca.ufpb.br:8080/bitstream/tede/6013/1/arquivototal. pdf> Acesso em: em: 24/06/2014

26

Grade.indd

26

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. com diretivas que não previam” (FEITLER, Apud ,
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. com diretivas que não previam” (FEITLER, Apud ,

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

com diretivas que não previam” (FEITLER, Apud, Muniz, 2011, p. 126). É

somente em conjunto com as “análises dos processos é que se pode alcançar

(MUNIZ, 2011, p. 127). Portanto,

é de mister que as análises devam ser feitas partindo destes dois polos. Feito esse esclarecimento, nosso objetivo é analisar os procedimentos penais – delitos, e as respectivas penas – de duas das três principais instituições do Antigo Regime que vigoraram em Portugal e suas colônias:

Justiça secular e Inquisição. A fim de analisar como era instituída legalmente

a justiça da época e, portanto, colocá-las em seu próprio contexto, com seus

congêneres, iremos além das pesquisas que se propõem a tomar uma posição explicita e declarada desqualificando e, tomando partido contra instituições tão distantes do nosso tempo e, consequentemente, condenando sociedades inteiras a valores contemporâneos que elas desconheciam totalmente. Para isso, analisaremos, no que diz respeito aos delitos que se apresentam sob jurisdição mista, ou seja, são da alçada de ambas as instituições – bigamia, sodomia, feitiçaria e a heresia – e as respectivas penas, o principal código de lei de cada instituição, que coincidentemente vigoraram na mesma época: as Ordenações Filipinas, para a Justiça secular e o Regimento de 1640, para o Tribunal do Santo Ofício.

a real práxis de tribunais desse porte [

]”

1. Procedimentos penais da justiça secular em Portugal: as Ordenações Filipinas.

O código de leis que regulamentou toda a estrutura, organização e funcionamento do Tribunal da Inquisição em terras portuguesa foi-se intitulado de Regimento. Estes códigos de leis “tiveram papel fundamental na consolidação e no estabelecimento da Inquisição portuguesa. Mostraram uma notável prática jurídica e administrativa por parte dos funcionários do Santo Ofício e revelaram o elevado nível de centralização e burocracia dos tribunais” (CAVALCANTI; JÁCOME. 2012, p, 108). Ao longo dos 285 anos de atuação do Tribunal do Santo Oficio em terras lusas e, suas colônias, foram redigidos quatro Regimentos, que datam nos anos de 1552, 1613,1640 e 1774. O Regimento de 1640, nosso objeto de estudo, se apresenta como o ponto máximo do enraizamento da Inquisição em terras portuguesas. É certamente um dos códigos de leis mais importantes dos séculos XVII e XVIII e, o principal da Inquisição portuguesa. É “um monumento jurídico” (BETHENCOURT, 2000, p.

27

Grade.indd

27

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. 47). Vigorou por 134 anos e é o
História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. 47). Vigorou por 134 anos e é o

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

47). Vigorou por 134 anos e é o maior e mais detalhista de todos os outros códigos de leis inquisitoriais. Ele é composto por três livros 2 .

O terceiro livro, intitulado “Das penas, que hão de haver os culpados nos crimes, de que se conhece no Santo Oficio”, é responsável por instruir

sobre as sentenças que recebiam os culpados nos crimes conhecidos pelo

Santo Ofício. Portanto, é neste livro que iremos encontrar os delitos e as respectivas penas, de caráter misto, executado pelo Tribunal do Santo Ofício. A Inquisição é um tribunal religioso que tem como objetivo combater o avanço da heresia 3 . Isso se torna evidente no terceiro livro que compõe o Regimento de 1640. Logo nas primeiras linhas deste código de lei, o Santo Ofício estabelece punições “contra os hereges, e apostatas que sendo cristãos batizados, deixam de ter e confessar a nossa santa fé católica, e se apartam

(SIQUEIRA, 1996, p. 828).

no grêmio, e união da Santa Madre Igreja [

Caracteriza, também, as punições aos transgressores:

]”

] [

as penas de excomunhão latae sentitae, reservada ao Sumo Pontífice pela bula da Ceia do Senhor, da qual os Inquisidores podem absolver no foro exterior, pela faculdade apostólica, que para isso tem: de irregularidade, que igualmente impede o exercício das ordens já recebidas, como também receberem se de novo: de infâmia, e privação de ofícios, e beneficio

estão por direito comum, e breve apostólica determinada

2 O primeiro livro se intitula “Dos ministros e oficiais do Santo Oficio e das coisas que nele há de haver” subdividido em 22 títulos; o segundo “Da ordem Judicial do Santo Ofício” apresentando 23 titulos, e por fim, o terceiro, e objeto de nosso estudo, “Das penas, que hão de haver os culpados nos crimes, de que se conhece no Santo Oficio” dividido em 27 títulos. Sobre a composição de cada livro de forma detalhada, ver: FERNANDES, Alécio Nunes. Dos manuais e regimentos do Santo Ofício português: a longa duração de uma justiça que criminalizava o pecado (sec. XIV – XVIII). Brasília: Universidade de Brasília, 2011. Disponível em: <http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/8790/3/2011_ AlecioNunesFernandes.pdf>. Acesso em: 24 de julho. 2014.

3 Heresia, do grego airesis, significa escolha, preferência. Em estilo eclesiástico, entende-se por heresia um erro fundamental em matéria de religião, no qual se persiste com pertinácia. Objetivamente, é uma proposição contra um artigo da fé. Subjetivamente, é um erro pertinente de um cristão contra uma vontade da fé divina e católica. O erro se encontra na inteligência e a pertinácia, na vontade. Ver: MOTT, Luiz. Sodomia não é heresia: dissidência moral e contracultura. In. VAINFAS, Ronaldo; FEITLER, Bruno; GAMA, Lana. (org.). A Inquisição em xeque: Temas, controvérsias, estudos de caso. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2006, p. 254.

28

Grade.indd

28

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. obtendo, com inabilidade para alcançar outros: de
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. obtendo, com inabilidade para alcançar outros: de

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

obtendo, com inabilidade para alcançar outros: de relaxação à Cúria secular, e confiscação de bens, desde o dia, em que se cometeu o delito. Além destas penas, há outras menos graves como abjuração, degredo, acoite, reclusão, cárcere, habito penitenciais, condenações pecuniárias, e penitenciais espirituais (SIQUEIRA, 1996, p. 829).

Além das categorias de diferenciações para se estabelecer uma

determinada punição: “[

segundo a diferença dos crimes, estado da causa, e qualidade das culpas, e

das pessoas, que as cometerão, e o modo, com que nelas se há de proceder no

santo Ofício [

Passemos agora a analisar os delitos e as respectivas punições. Comecemos por dois exemplos de delitos morais: bigamia e a sodomia. Depois analisaremos a feitiçaria e, por fim, a heresia propriamente dita.

se costuma no Santo Oficio castigar os culpados,

]

]”

(SIQUEIRA, 1996, p. 829).

Dos bígamos. Estabelece que:

Todo o homem, ou mulher de qualquer qualidade, ou condição que seja, que tendo contraído primeiro matrimonio por palavras de presente na forma do sagrado Concilio Trid. Se casado segunda vez, sendo viva a primeira mulher, ou marido, ou sem

ter provável certeza de sua morte, como de direito se requer para

]

contrair segundo matrimonio[

(SIQUEIRA, 1996, p. 857)

A punição para quem, nessas circunstâncias, comete este crime é:

condenada, que em Auto público faça abjuração de leve

suspeita na fé; salvo quando a qualidade da pessoa, e circunstancia da culpa, pedirem maior abjuração/ e, além disso; sendo pessoa plebeia, será açoitada pelas ruas públicas, e degredada para as galés, por tempo de cinto ate sete anos; e sendo mulher vil, terá a mesma pena de açoites, e será degredada pelo mesmo tempo para o Reino de Angola, ou partes do Brasil, sendo parecer aso Inquisidores, com respeito à qualidade da pessoa, e circunstancia da culpa; e sobre tudo terão sua instrução ordinária, e as penitencias espirituais, que parecer que convém (SIQUEIRA, 1996, p. 857).

29

] [

Grade.indd

29

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Sem nunca levar o bígamo ao cadafalso, a
História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Sem nunca levar o bígamo ao cadafalso, a

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

Sem nunca levar o bígamo ao cadafalso, a pena aplicada pela Inquisição sofria gradação de acordo com a qualidade do réu: “e sendo a pessoa nobre, que conforme a ordenação do reino seja escusa de pena vil, irá degredada de cinco até oitos anos para África, ou partes do Brasil”. Como podem ver, nesse caso, as punições mais severas como os açoites 4 e as galés 5 estavam reservada somente aos mais pobres. As punições variavam também de acordo com o sexo, por exemplo, as mulheres não eram encaminhadas as galés, pois era um trabalho pesado, nesse sentido, ao invés das galés as mulheres eram degredadas 6 . O Santo Ofício sempre apreciava aquele que se apresentava voluntariamente, sendo comprovada a sinceridade, a mesa do tribunal, aplicando-lhes “somente” penas espirituais, ou, muitas vezes, os despachando sem punições, vejamos:

Vindo alguma pessoa, que haja cometido crime de bigamia, apresenta-se voluntariamente, confessar suas culpas na mesa do

4 O açoite era normalmente uma pena secundária, ou seja, acompanhava outras penas que poderia ser o desterro ou as galés. Além de dolorosa, era humilhante, pois o réu era açoitado transitando pelas ruas da cidade, normalmente em cima de um animal. A quantidade dos açoites variava, é claro, de acordo com a gravidade do crime, a natureza do réu, idade etc. A legislação régia também exercida tinha essa prática nos seu rol de punições. Porém, por ser uma pena vil, de acordo com o Código Filipino, as pessoas de linhagem poderiam se livrar delas. Ver, VAINFAS, Ronaldo. Tropico dos Pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, p.391. 5 As galés eram uma peculiaridade ibérica, implantada a pedido do rei. A intenção do rei, ao instituir esta punição, era conseguir mão de obra barata, ou, mais do que isso, gratuita, para o trabalho compulsório, por vezes considerado escravo, nas embarcações da Sua Majestade. Mas não só. Havia também as galés em terra, para a construção de palácios, estradas, ou seja, qualquer serviço a mando régio. Normalmente aplicada a crimes considerados gravíssimos aos olhos da Santa Inquisição, somente aplicada a homens, pois era um trabalho pesado, considerado impróprio para as mulheres. A idade, condição social, atenuantes do crime e a fraca condição física também impediam os réus de serem encaminhados às galés. VAINFAS, 2010, p.391. 6 Os degredos consistiam em expulsar o condenado para longe do lugar onde cometera o delito, erradicá-lo desta sociedade, deixando, assim, sua família e sua fortuna, caso tivesse, Tudo! Presente, também, nas Ordenações Régias, os desterros tinham outra função de suma importância, além, propriamente, da punição. Servia também como um meio de colonizar as colônias. Por exemplo, as Ordenações Filipinas instruíam os condenados a serem enviados a colonizar as fronteiras portuguesas e, principalmente as colônias ultramar, como é o caso da Índia, Brasil, regiões da África. Ver: VAINFAS, 2010, p.390.

30

Grade.indd

30

09/10/2015

09:25:06

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. santo Ofício, será despachada na forma, que fica
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. santo Ofício, será despachada na forma, que fica

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

santo Ofício, será despachada na forma, que fica disposto no Titulo I a respeito dos apresentados por crime de heresia, com

esta diferença, que ainda esteja delato ao tempo que se apresenta,

e com prova bastante para se prenunciada à prisão; com tudo se

livrará solta, mas fará abjuração leve em lugar publico, conforme

à qualidade da pessoa, o escândalo que houver de sua culpa, e

será condenada em degredo para ao Brasil, ou para um dos lugar de África por tempo de quatro a seis anos, e sendo mulher, para Crasto Marim (SIQUEIRA, 1996, p. 859).

Esse “apreço” pela pessoa que se apresenta voluntariamente e admite ter cometido um crime evidencia o caráter pedagógico da Inquisição. Sob o

estandarte do lema “Justiça e Misericórdia”, iam-se enviando alguns poucos

à fogueira e punindo burocrática e ritualmente, uma esmagadora maioria,

atingindo no corpo e nas consciências, próprias do Antigo Regime (VAINFAS, 1992). Portanto, com um intuito de suprimir toda e qualquer dissidência, física ou espiritual, no seio da sociedade cristã, prezando assim pela ordem social. Além deste aspecto didático, o modo como a Inquisição via os réus acusados de bigamia se refletia nas penas mais “lenientes” se comparado com o foro civil. A Inquisição tomou para si o crime de bigamia não pelo ato de casar-se duas vezes, mas “por implicar, entre todas as conjunções ilícitas entre o homem e a mulher, a mais grave afronta ao sacramento do matrimonio” (VAINFAS, 2010, p. 266). Portanto, a bigamia “consistia na fraude do sacramento, na tramada mentira do bígamo diante dos ministros de Deus, no consumado desprezo pelo sacramento que a Igreja tanto se empenhava em defender dos ataques dos luteranos” (VAINFAS, 2010, p. 264). Confirmada, a bigamia era uma verdadeira afronta aos mandamentos da igreja, sexto e o nono, que em sua contrarreforma foi reafirmada com tanta veemência. Portanto, as penas consideradas lenientes eram aplicadas para a correção do réu a

não repetir essa injúria à fé católica. Contudo, se comprovado, no plano doutrinário,

o desprezo do bígamo em relação ao matrimônio, este não seria mais julgado por

bigamia em si, mas por heresia (VAINFAS, 2010, p. 265). Diferentemente da Justiça Régia, a Inquisição era uma justiça que criminalizava o pecado.

Dos que cometem o nefando crime da sodomia.

Caracteriza que todos “os culpados no pecado nefando de sodomia de

31

Grade.indd

31

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. qualquer estado, grau, qualidade, preeminência e
História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. qualquer estado, grau, qualidade, preeminência e

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

qualquer estado, grau, qualidade, preeminência e condição ainda que isentos,

e religiosos sejam”, os inquisidores devem proceder da mesma forma como

é procedido o crime de heresia e quanto às punições, “os poderão condenar,

nas que merecem por suas culpas, podendo também usar das que por direito

civil; e ordenações do Reino estão impostas aos que cometem este crime, até

os relaxarem à justiça secular [

O crime de sodomia era o único crime moral passível de pena capital – a fogueira. Este regimento evidencia que o acusado por sodomia seja julgado da mesma forma como se procede com o crime de heresia e que poderá ser

condenado ao relaxamento secular. Contudo, apesar de ser um crime passível de punição máxima, nem todos os sodomitas assim seriam punidos 7 . Nesse sentido, a punição dependia da gravidade do pecado. Isso se torna claro quando observamos os dados referentes aos processados por este crime. A Inquisição portuguesa em todo o seu funcionamento processou 447 sodomitas e desses 30 foram efetivamente queimados (VAINFAS, 2010). Recorramos a Luiz Mott para complementar os dados referentes aos acusados de sodomitas. Foram 4.449 pessoas denunciadas ou que se confessaram o crime de sodomia

e efetivamente processadas 447 nas punições mais variadas: 165 galés; 124

degredos; 33 cárceres; 30 fogueiras; 29 absolvições; nove penitenciais, perfazendo um total de 390 (MOTT, 1992.). Significa somente 10% das denúncias se efetivaram como processos e menos disso em punições.

]”

(SIQUEIRA, 1996, p. 871).

7 “Qualquer pessoa que for convencida neste crime, ou seja, pela prova da justiça, ou sua própria confissão, e com tudo não há de ser entregue a justiça secular; mas há de ser castigada publicamente; irá ao auto publico da Fé a ouvir sua sentença, e será condenada em confiscação de bens, em pena de açoites, e degredo para galés, pelo tempo que parecer; e sendo Clérigo, terá as mesmas penas, exceto a de açoites, e será suspenso para sempre das ordens, que tiver, e inabilitado para ser promovido as que lhe faltarem; e tendo oficio, ou beneficio Eclesiástico, será privado dele, e inabilitado para ter outros, e se for Religioso professo, ouvirá sua sentença na sala do S. Ofício, e será também suspenso das ordens privado de voz ativa e passiva para sempre, e degredado para um dos mosteiros mais apartados de sua religião, onde terá algum tempo de reclusão no cárcere, com as penitencias, que se costumam da aos religiosos por culpas gravíssimas; e poderá também ser degredado para algum lugar fora do reino, tendo-se respeito à gravidade do crime, e qualidade da pessoa; mas em caso que sejam devassos no crime, e escandalosos, irão ouvir sua sentença no Auto; e serão também condenados em degredo para galés”. O regimento prescreve as penas previstas para aqueles que não foram condenados a pena máxima. Ver: SIQUEIRA, 1996, p. 873.

32

Grade.indd

32

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Apesar de a Inquisição portuguesa não ter condenado
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Apesar de a Inquisição portuguesa não ter condenado

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

Apesar de a Inquisição portuguesa não ter condenado sequer uma mulher pelo crime de sodomia, o regimento de 1640 prescrevia uma punição as mulheres nefandas:

E em caso, que alguma mulher compreendida no crime de sodomia haja de ser castigada por ele no S. Ofício, ouvirá sua

sentença na sala da Inquisição, pelo grande escândalo, e dano, que pode resultar de se levarem a Auto público semelhantes culpas,

e será degredada para a Ilha do Príncipe, S. Tomé, ou Angola; e

quanto se assentar, que por algumas razões particulares convém ir ouvir sua sentença no Auto publico da Fé, será condenada em pena de açoites, e no degredo que parecer para um dos ditos lugares (SIQUEIRA, 1996, p. 874).

É importante mencionar que somente a sodomia era passível de punição por parte da Inquisição. Ficando a cargo para o tribunal secular a molície e o bestialismo. Vejamos quando a pessoa se apresenta voluntariamente à mesa do Santo Ofício, por cometer o pecado nefando de sodomia:

Os que a primeira vez se vierem voluntariamente apresentar na mesa do S. Ofício, e confessarem nela culpas de sodomia, se não tiverem ainda testemunhas, nem depois de apresentados lhe sobrevieram, não serão condenados em pena alguma; somente depois de se lhe tomar sua confissão, serão admoestados, que nunca mais cometeram o tal crime, porque se tornarem a cair nele, serão castigados com grande rigor, o que assim se guardará por este o estilo que sempre se observou no S. Ofício. (SIQUEIRA, 1996, p. 871)

Vejamos outra circunstância referente novamente à apresentação voluntária:

E se, os que assim se tiverem apresentar, tiverem já testemunhas

contra si, ou depois da confissão lhes acrescerem, nem por isso castigados com pena publica, para que com o temor dela e da infâmia, se não abstenham os culpados de vir confessar suas culpas, e descobrir os cúmplices, com que se cometeram; porem terão alguma pena, e penitencia secreta, pela qual se não possa

vir em conhecimento de sua culpa (SIQUEIRA, 1996, p. 871)

33

Grade.indd

33

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Novamente observamos o apreço da Inquisição para com

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Novamente observamos o apreço da Inquisição para com

Novamente observamos o apreço da Inquisição para com aqueles que se entregam voluntariamente. No primeiro exemplo, o acusado não será

condenado a nenhuma pena e, no que diz respeito ao segundo exemplo, mesmo

já tendo testemunha de acusação, a pessoa que se apresentou voluntariamente

não será castigada em nenhuma pena pública. O motivo é que as pessoas se encoravam a confessar suas culpas e voltar aos braços da Igreja Católica, e é claro, descortinavam os cumplices deste pecado. Por fim, vejamos o que o regimento informa sobre os que se apresentaram voluntariamente e que retornaram, de forma voluntária à mesa do Santo Ofício. O primeiro caso é dos que se apresentam pela segunda vez, mas que ainda não foram delatados por nenhuma testemunha:

Os que depois de apresentados a primeira vez tornarem a cair neste crime, e se tiverem apresentar segunda vez, a confessa-lo, se do segundo lapso não tiverem testemunhas contra si ao tempo da segunda apresentação, nem depois lhe acrescerem, na forma, que fica dito, serão também condenados secretamente em pena de degredo, com a qual sejam tirados do lugar do delito; por quanto considerada a pouca emenda, que de ordinário há nos culpados neste crime, justamente se pode recear, que venham a ser nele incorrigíveis, e convém para remédio da República degredá-los para parte onde lhe não façam dano (SIQUEIRA, 1996, p. 872)

Percebe-se que mesmo a pessoa se reconciliando com o Santo Ofício

e sendo reincidente no erro, a Inquisição o punia com mais severidade, mas

evitava o enviar para a fogueira, fazendo-o somente em casos de devassidão. E mesmo a pessoa reincidindo pela terceira vez, confessando sua culpa e não tendo provas contra ele, a pena máxima não era empregada. Somente havendo provas legítimas dessa forma o réu seria considerado incorrigível e levado ao cadafalso (SIQUEIRA, 1996). Sendo a sodomia um crime que poderia encaminhar o réu ao cadafalso,

é importante caracterizamos a forma de execução 8 instruída pela Inquisição.

8 Inquisição que executava a pena capital. Os condenados eram encaminhados a serem relaxados ao braço secular, ou seja, a justiça secular teria que cumprir impreterivelmente a sentença lavrada pelo Tribunal Inquisitorial.

34

Grade.indd

34

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Diferentemente da Justiça secular, como veremos, o
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Diferentemente da Justiça secular, como veremos, o

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

Diferentemente da Justiça secular, como veremos, o Tribunal da Inquisição remedia somente uma forma de execução: a fogueira. O réu condenado à fogueira dificilmente era queimado vivo. Somente em alguns casos, de réus pertinazes – reincidentes –, é que eles eram encaminhados à fogueira, estando ainda vivos. Essa diferença remonta nos ideais de justiça de ambas as instituições. Enquanto o Tribunal Régio lançava a mão da punição máxima, de forma indiscriminada a diversos tipos de delitos, com intuito estabelecer a ordem, a Inquisição, procurava evitar o máximo mandar um réu a fogueira, sua concepção de justiça era disciplinar.

Dos feiticeiros, sortilégios, adivinhadores, e dos que invocam o demônio, e têm pacto com ele, ou usam da arte de astrologia judiaria.

O crime é prescrito:

Ainda que conforme o direito, dos crimes de feitiçarias, sortilégios, adivinhações, e quaisquer outros desta mesma

espécie, pudessem conhecer os Inquisidores somente quando em

si continham heresia manifesta; com tudo pela Bula de Sixto V.

lhes está cometido o conhecimento de todos estes crimes, posto que não sejam heréticos; assim por que ao menos não carecem

de suspeita de heresia, como pela superstição, que há neles tão

contrária a religião católica [

]

(SIQUEIRA, 1996, p. 855)

A punição estabelecida é:

] [

que em direito estão postas no crime de heresia, e contara ela procederão os Inquisidores na mesma forma, que procedem contra os hereges, e apostatas da nossa S. Fé, e havendo prova legitima para ser convencia, e haver a pena ordinária, se não se reduzir, confessando inteiramente suas culpas, será relaxada à

excomunhão, confiscação de bens, e em todas as mais,

justiça secular, na forma que fica dito no titulo 2. Deste livro,

e levará ao Auto da Fé com o habito de relaxado, carocha na cabeça, com titulo de feiticeiro na forma costumada.

Porem, confessando o réu suas culpas, será recebido ao grêmio,

e união da S. Madre Igreja, e irá ao Auto público da fé a ouvir sua sentença, com habito penitencial, e carocha na mesma

35

Grade.indd

35

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. forma, e no Auto fará abjuração em forma

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. forma, e no Auto fará abjuração em forma de seus

forma, e no Auto fará abjuração em forma de seus erros; e terá confiscação de bens, desde o tempo, em que com os ditos crimes se apartou da fé, e será degredado para as galés, e sendo mulher, para a Ilha do Príncipe. S. Tomé, ou Angola; e uns e outros terão penas de açoites, e serão instruídos nas cousas da fé necessárias para sua salvação, e terão as penitencias espirituais que parece aso inquisidores, e não poderão entrar no lugar, em que cometerão o delito (SIQUEIRA, 1996, p. 855).

A Bula de Sixto V abre a possibilidade de jurisdição para a Inquisição julgar

o réu que cometeu o crime de feitiçaria, sortilégios e adivinhações, mesmo não

contendo uma heresia manifestada, cabendo ao Inquisidor esquadrinhar a mente do acusado para verificar a gravidade do material herético contido, além de suas

práticas mágicas, cabendo ao uso da tortura, se necessário. Apesar das Inquisições ibéricas não terem levado muitas pessoas ao cadafalso, como mencionamos, a punição se apresentava no Regimento de forma bastante severa, procedendo com

o réu como se procede com um acusado de heresia. Podendo, assim, levar a pessoa

ao braço secular, caso ela não confessasse inteiramente sua culpa. O réu confessando o seu crime a punição seria gradativa, de acordo com a sua qualidade, posição social. Se o condenado for nobre, fidalgo ou qualquer outra coisa

parecida, não lhe será aplicado a pena vil, conforme está estabelecido nas Ordenações,

e também não será enviado às galés do rei. A punição aplicada será o degredo para

Angola, S. Tomé, ou partes do Brasil (SIQUEIRA, 1996). Caso a pessoa condenada for clérigo ou religioso da igreja a pena será o degredo e a ao ir ao Auto não levará carocha, “mas será suspenso para sempre do exercício de suas ordens, e privado de

qualquer oficio, beneficio, ou dignidade, que tiver; e sendo religioso, será mais privado da voz ativa, e passiva” (SIQUEIRA, 1996, p. 855). A pessoa se encaminhando voluntariamente à mesa do Santo Ofício, seja no período de graça ou fora dele, para confessar sua culpa, se confirmada

a sinceridade, será despachada (SIQUEIRA, 1996). Isso corrobora o que já foi evidenciado nos dois crimes morais supracitados.

Dos hereges, e apóstatas da santa fé católica apresentados.

Motivo da criação do tribunal do Santo Ofício na época medieval e de

36

Grade.indd

36

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. sua existência na época moderna, a heresia é
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. sua existência na época moderna, a heresia é

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

sua existência na época moderna, a heresia é o crime a ser combatido. Nesse sentido, a maioria dos títulos presentes nesta ordenação, relacionados aos delitos e as penas são ligados, direta ou indiretamente, com a heresia. Os crimes, outrora mostrados, apresentam punições mais severas e até o cadafalso, caso da sodomia e a feitiçaria, quando, assimilada à heresia, contém material

herético. O regimento de 1640, livro III, título um, estabelece e caracteriza o

herege: “[

todas as pessoas de qualquer estado, e condição que sejam, pelo

crime de heresia, e apostasia, apartando-se por obras, ou por palavras, com

contumácia, de nossa santa fé católica [

]

]”

(SIQUEIRA, 1996, p. 829).

penas de

excomunhão maior, irregularidade, infâmia privação de honras, ofícios, e benéficos, confiscação de bens, e relaxação na justiça secular” (SIQUEIRA, 1996, p. 829). Contudo, a punição muda drasticamente se a pessoa vier se apresentar ao Santo Oficio, seja no período de graça ou não, confessando sua culpa por heresia ou apostasia e “declararem os cumplices, com que as cometerão, se ao tempo de sua apresentação não estavam delatas (ainda que depois dela lhe sobrevenham testemunhas)”. Se os inquisidores julgarem sua confissão como verdadeira “serão recebidas ao grêmio, e união da santa Madre Igreja; e na mesa abjuraram em forma, sem habito penitencial, diante dos Inquisidores, um notário, e duas testemunhas, as quais serão oficiais do S. Oficio, e assinarão juntamente com os Réus os termos de abjuração” (SIQUEIRA, 1996, p. 829) O Regimento também prescreve casos em que a pessoa se encaminha

voluntariamente à mesa do Santo Ofício. Citemos, por exemplo, o caso de que o réu foi se confessar voluntariamente, mas já foram delatados por uma só testemunha:

A punição para quem comete este crime, em geral, é “[

]

E deste mesmo favor os apresentados, que ao tempo de sua apresentação estiverem delatos por uma só testemunha; salvo se essa testemunha for tal, que concorram nela algumas das qualidades, de que se trata no livro 2. Titulo 4, paragrafo 4. Por que então farão abjuração em publico no lugar que parecer aos Inquisidores, conforme a qualidade das pessoas, das culpas e da confissão; e levarão habito penitencial, e terão as mais penas, e penitências espirituais, que se entender, que convém à solução de suas almas, com o mais que se dirá no paragrafo 6. E assim mesmo farão abjuração em publico,

37

Grade.indd

37

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. quando estiverem delatos por algumas testemunhas, posto

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. quando estiverem delatos por algumas testemunhas, posto que

quando estiverem delatos por algumas testemunhas, posto que seja cumplices, ou por tais indícios das mesmas culpas, que pareça aos inquisidores que havia prova bastante para serem pronunciados a prisão (SIQUEIRA, 1996, p. 829)

Evidenciando o caráter pedagógico, a punição é de acordo com a qualidade das pessoas, réu e testemunha, das culpas e da confissão. O réu não terá punições físicas, somente espirituais, e os seus bens não serão confiscados. Os outros casos também se apresentam variações segundo a qualidade das testemunhas, dos réus, a gravidade da culpa e a sinceridade da confissão. Tudo de acordo com o que foi previsto nas primeiras linhas regimentais deste terceiro livro. Quanto àqueles que confessaram voluntariamente seu crime, mas tornaram a reincidir no erro e se encaminharam à mesa do Santo Ofício, o regimento estabelece que:

Das pessoas, que se vierem apresentar com culpa de relapsia no crime de judaísmo, ou de outra heresia, se ainda por elas não estiverem delatas, serão as confissões recebidas, e examinadas na forma, que fica dito no livro 2.titulo 2. E assentando-se, que parecem verdadeiras, e que os culpados verdadeiros realmente se converterem a nossa santa Fé, não abjurarão de novo, se no primeiro relapso tiverem abjurado em forma; mas serão absolutos na mesa, da excomunhão maior, em que incorrerão, e lhe imporão os Inquisidores penitenciais espirituais e as mais penas, que parecer, que convém, segundo a qualidade de suas culpas; e lhe nomearão pessoa douta, e virtuosa, que os confesse, e instrua nas cousas da Fé. Porém apresentando-se depois de estarem delatos, ficará sua causa na disposição de direito, e Breves apostólicos. E acontecendo, que algum relapso depois de uma vez apresentado, se torne apresentar segunda vez, e confesse culpas de heresia cometidas em terceiro relapso, se ao tempo, que assim se apresentar, não estiver delato, será recebida sua confissão, e se remeterão os autos ao Conselho Geral, com o parecer dos inquisidores para nele se ordenar como no caso se deve proceder (SIQUEIRA, 1996, p. 832).

38

Grade.indd

38

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. É interessante ressaltar que um herege relapso não
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. É interessante ressaltar que um herege relapso não

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

É interessante ressaltar que um herege relapso não necessariamente

incorre em pena capital. Observa-se que, apesar de reincidir no erro, a pessoa que voluntariamente confessava seus crimes não era considerada herege incorrigível e, portanto, não ia à fogueira. Mesmo a reincidência ocorrendo pela terceira vez, o regimento não prescreve o cadafalso, ficando a cargo do Conselho Geral, órgão máximo da Inquisição portuguesa, tomar uma decisão.

2. Procedimentos penais da justiça secular em Portugal: as Ordenações Filipinas.

A compilação de leis civis, fiscais, administrativas, militares e penais,

ou seja, o corpo legal promulgado pelo rei português se intitulava Ordenações

e esses códigos de leis deveriam ser seguidos e respeitados à risca em todas

as regiões portuguesas e, posteriormente a suas possessões, e é claro, o Brasil está incluído, sob gravíssimas penas em seu descumprimento.

Substituindo as Ordenações Manuelinas, as Ordenações Filipinas seriam

o terceiro, mais importante e com maior duração código de leis a vigorar

em Portugal. Seu nome oficial era Ordenações e leis do rei de Portugal, recompiladas por mandado do muito alto, católico e poderoso rei dom Filipe,

o primeiro. Foi dividido em cinco livros 9 , tais quais as Ordenações anteriores.

É importante ressaltar que “apesar de promulgado sob a égide do domínio de

Castela, o texto das Ordenações Filipinas segue a tradição legal portuguesa, tanto do ponto de vista formal como normativo, com raras influencias

castelhanas” (LARA, 1999, p. 34). Do mesmo modo como fizemos com o Regimento de 1640, começaremos analisando dois exemplos de crimes morais: do homem que casa com duas mulheres e da mulher que desposa dois homens, o crime de sodomia e, posteriormente, os crimes de feitiçaria e heresia.

9 O Livro I trata dos direitos, deveres, prerrogativas e atribuições dos magistrados e oficiais de justiça, com exceção dos ligados ao desembaraço do Paço; o Livro II trata das relações entre

o Estado e a Igreja; dos privilégios desta e da nobreza e dos direitos fiscais eclesiásticos e

nobiliárquicos; o Livro III compreende as ações cíveis e criminais e regula o direito subsidiário;

o Livro IV regula o direito das coisas e pessoas, fixando normas comerciais, testamentárias,

sucessórias e fundiárias; o Livro V é dedicado ao direito penal, fixando os delitos e as penas.

39

Grade.indd

39

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Do homem que casa com duas mulheres e
História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Do homem que casa com duas mulheres e

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

Do homem que casa com duas mulheres e da mulher que casa com dois homens.

Vejamos a prescrição do delito: “Todo homem que, sendo casado e

recebido com uma mulher, e não sendo o matrimonio julgado por inválido por

Nesse sentido, este crime

pode ser associado ao crime de bigamia punido pelo Santo Ofício. Portanto, é delito de jurisdição mista. A punição por cometer este crime era a pena capital e mais: “todo o dano que as mulheres receberem e tudo o que delas levar sem razão, satisfaça-se pelos bens dele, como for de direito” (LARA, 1999, p. 106). O mesmo acontece se for o inverso, a mulher casar-se duas vezes. O dito crime apresenta variações de acordo com a classe social e idade dos réus e, afirma, também, que a execução só pode ser efetuada com a total convicção de que houve o crime: “E se o condenado à morte pelo dito maleficio for menor de vinte e cinco anos ou for fidalgo, ou se o condenado, sendo-lhe fugida a primeira esposa, casou com a segunda sem saber certo que era a primeira morta, ou em outros casos semelhantes, não se fará execução sem primeiro no-lo fazerem saber” (LARA, 1999, p. 107) Observa-se que a variação da punição de acordo com a “qualidade” do réu, dos delatores, a diferença do crime, o modo do qual o crime foi cometido, ou seja, tudo que foi evidenciado no Regimento de 1640, não é especificidade da Inquisição e tampouco de Portugal, mas do Antigo Regime. Neste ponto, nada de

juízo da igreja, se com outra casar e se receber [

]”.

excepcional se apresenta ambas as justiças aos seus congêneres da época. Apresentam-se também variações na pena de acordo com a especificidade do crime, por exemplo:

E qualquer homem que, sendo casado e tendo a mulher viva,

a deixa e estiver com outra publicamente em casa teúda e

mantéuda, nomeando-se e tratando-se por marido e mulher, e sendo dos vizinhos por tais ávidos por espaço de dois anos, ou posto que com ele não esteja tanto tempo, se ele cometeu ou mandou cometer a dita mulher ou seu pai ou parentes, para com

ela casar, e foi com ela à porta da igreja para ai serem recebidos, ou se foram apregoados na igreja e feitos os banhos ordenados,

e depois esteve com ela, posto que não esteja mais de um dia

40

Grade.indd

40

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. e, sendo o primeiro casamento verdadeiramente provado por
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. e, sendo o primeiro casamento verdadeiramente provado por

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

e, sendo o primeiro casamento verdadeiramente provado por testemunhas que ouvissem as palavras do recebimento, ou por

sua confissão feita em Juízo, negando ele o segundo casamento

e não se podendo provar por testemunhas que ouvissem dizer

as palavras formais do casamento, será por tais indícios metidos

a tormento, não tendo a qualidade que o escuse dele (LARA, 1999, p. 107)

Após a sessão de tortura, se o réu não admitisse a culpa, em conjunto com a falta de testemunhas oculares para corrobora com a bigamia, o juiz se via obrigado a não aplicar-lhe a pena equivalente a este crime. Contudo o réu seria acusado, pois apesar de não oficializar o segundo casamento, ele foi desonroso com a segunda mulher. Vejamos: “E posto que no tormento não confesse o segundo casamento, mandamos que pelo engano e injuria que a ela e a seu pai e parentes fez, seja degredado por quatro anos para África, ou por mais tempo se aos julgadores parecer que por sua malícia e engano e dano que se disso seguiu, maior degredo lhe devem dar” (LARA, 1999, p. 106) Observa-se que a pena poderia variar para mais, caso o juiz entendesse que assim deveria ser. Este ponto é muito importante, pois, apesar das instruções régias, em caráter de ordenações, os juízes dispunham de certa autonomia para lidar com o culpado em todos os estágios do inquérito. Neste sentido, o historiador deve perceber casos e casos, pessoas e pessoas. Generalizações só tendem a desqualificar o discurso histórico. Ao longo dos séculos que pertencem ao denominado antigo regime, enxergavam-se juízes que seguiam as regras impostas à sua época, juízes zelosos, mas também há juízes sádicos. E isso se enquadra perfeitamente aos inquisidores do tribunal da Inquisição.

Dos que cometem pecado de sodomia e com alimárias.

Crime comparado ao pecado de lesa-majestade – traição do rei. Assim

já temos uma noção de como era implacável a Justiça Régia contra este crime. Vejamos como se caracteriza o delito: “Toda a pessoa, de qualquer qualidade

(LARA,

1999, p. 91). Vejamos qual a pena aplicada, que por sinal, é uma das mais severas,

presentes nas Ordenações Filipinas.

que seja, que pecado de sodomia por qualquer maneira cometer [

]”

41

Grade.indd

41

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. seja queimado e feito por fogo em pó,

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. seja queimado e feito por fogo em pó, para que

seja queimado e feito por fogo em pó, para que nunca de

seu corpo e sepultura possa haver memória, e todos os seus bens sejam confiscados para a Coroa de nossos reinos, poso que tenha descendentes; pelo mesmo caso seus filhos e netos ficarão inábeis e infames, assim como os daqueles que cometem o crime de lesa-majestade (LARA, 1999, p. 91)

] [

A ordenação ainda que se refira a “qualquer pessoa”, reforça que as

mulheres, praticando o pecado umas com as outras, contra a natureza, sofressem

a mesma pena estabelecida. Queimado e feito em pó também seria qualquer

homem ou mulher que mantivese relação com animais, ou seja, bestialismo. No que concerne ao crime de molície, eram castigados severamente com degredo de galés e outras penas extraordinárias, segundo o modo e perseverança do pecado (LARA, 1999, p. 93). A execução do réu era comumente instruída pelo Estado ao longo dos 143 crimes presentes nas Ordenações Filipinas. É por isso, e também por se diferenciar do procedimento Inquisitorial, que se faz necessário fazer algumas observações referentes a esta punição levada ao máximo rigor. No Antigo Regime, em especial nos Códigos Régios, não havia uma única categoria de pena de morte, assim como não havia uma única forma de execução e uma única forma de tortura. Ao longo desta Ordenação se observam diferentes “formas” de morte. Existiam quatro categorias de penas de mortes presentes no Código de lei filipino. A primeira determinava ao réu ser condenado a morrer por isso. Isso

significava tornar-se infame pelo delito cometido, perder os bens e qualquer grau

social [

executada através do uso de venenos, instrumentos de ferro ou fogo. A terceira categoria de morte era morte natural na forca ou no pelourinho e, como o próprio nome já informava, a execução era feita através do enforcamento ou do

suplício no pelourinho. Por fim, havia a morte natural na forca para sempre: o réu condenado seria enforcado e seu corpo ficaria erguido fora da cidade até o 1º dia de novembro. Só depois seria sepultado. (LARA, 1999) A autora também nos alerta sobre os “detalhes” nas execuções, como, esquartejamento (antes ou depois da morte), suplícios – açoites etc. –, arrancar partes do corpo, por exemplo, o braço, e que poderia variar de acordo com

a condição do réu, a natureza do crime ou até mesmo a natureza da vitima,

42

].

Havia também a morrer por isso morte natural, ou seja, a pessoa era

Grade.indd

42

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. expresso na ordenação. Também a morte poderia ser
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. expresso na ordenação. Também a morte poderia ser

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

expresso na ordenação. Também a morte poderia ser cruel – com suplícios – e atroz, ou seja, com confiscos de bens, proscrição de memória ou queima do cadáver (LARA, 1999). As diversas variações e sofisticações – repertórios

– na “arte” de executar o condenado. Neste sentido, a pena máxima poderia

apresentar mais rigor do que “aparentemente” apresenta. Devemos entender o sentido das execuções no Antigo Regime, pois sem tal entendimento poderemos cair numa espécie maniqueísmo histórico ao estabelecer comparações entre sociedades e épocas. Não é somente executar

o criminoso, extirpar esse mal da sociedade ou, até mesmo fazer valer a ordem

do soberano, é fazer com que inspire temor na sociedade e, principalmente, tem que servir de exemplo. É por isso que as execuções do Antigo Regime eram tornadas verdadeiros espetáculos. Esses espetáculos de execução configuram-se perfeitos exemplos de realce do poder e a glória do Estado, sob a égide de um rei absoluto, no aspecto simbólico. No lugar de execução era construído o patíbulo e havia metodologia na escolha do dia da execução e do roteiro por onde passaria o cortejo penal, bem assim na distribuição dos lugares a serem ocupados pelos membros da nobreza, milícias etc. (LARA, 1999). Isso é só um simples exemplo do ritual de execução. Tudo deveria ser meticulosamente perfeito e glorioso para reafirmar o poder e a lei do soberano. A corte, cerimonial, festas, passeios públicos, aparições do monarca etc. são outros exemplos da expressão do poder simbólico do rei. A Ordenação, com o intuito de descortinar os sodomitas, afirmava que caso a pessoa tenha feita a denúncia e o condenado tenha sido culpado, metade

da fazenda seria entregue a quem denunciou, podendo isso ser em publico ou em privado. Caso o condenado não tivesse fazenda, o delator ganharia cem cruzados, a serem pagos pela Coroa. Contudo, se possivelmente uma pessoa descobrisse outras pessoas fazendo o pecado de sodomia e não as denunciasse, se fossem estas pegadas, aquele que não fez a denúncia seria degredado para sempre para fora da nação e perderia todos os seus bens (LARA, 1999) Também oferece a Ordenação saídas para quem quisesse se entregar: “E mais queremos, que posto que algum seja culpado no tal malefício, vindo- nos descobrir e fazer certo, e dar maneira como seja preso aquele com que assim pecou, lhe perdoar toda a pena crível e crime contida nesta Ordenação” (LARA, 1999, p. 93) A Justiça Régia utilizava-se de todas as suas forças para coibir e punir o pecado da sodomia, chegando ao ponto de ocultar, se assim o juiz preferisse,

43

Grade.indd

43

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. os nomes das testemunhas no processo, tal como

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. os nomes das testemunhas no processo, tal como a

os nomes das testemunhas no processo, tal como a Inquisição fazia em todos os seus processos, para que as pessoas se sentissem seguras e capazes de fazer denúncias, principalmente contra as pessoas próximas (LARA, 1999). Novamente fica explícito o uso da tortura caso não houvesse testemunhas

oculares para a confirmação, mas existissem indícios tidos pelos juízes, que dispunham de totais poderes para desvendar e averiguar a situação.

O crime de sodomia mostra quão severa a legislação régia poderia se

apresentar ao condenado. Não é só executar, aplica-lhe a pena máxima. É queimar até ficar só restar o pó, e fazer com o que o condenado fosse esquecido pela história e, que sua família - mulheres e filhos –, se tornasse desgraçada, pelos restos de suas vidas. Não é somente em Portugal que o Estado punia os sodomitas com extremo rigor. Na Inglaterra, considerada a região de maior tolerância em relação ao sodomita, a legislação do Estado punia o condenado do dito crime ao enterramento vivo. Na Península Ibérica, apesar de muitos sodomitas terem sido levados à fogueira, principalmente na Espanha, a repressão foi menos atroz do que nas regiões calvinistas, a exemplo da Suíça e da Holanda (VAINFAS, 2010).

Feitiçaria.

Primeiramente é necessário caracterizar o que era considerado feitiçaria pela Justiça Régia em Portugal.

Estabelecemos que toda pessoa, de qualquer qualidade e

condição que seja, que, de lugar sagrado ou não sagrado tomar pedra de ara ou corporais, ou fazer parte de cada uma destas coisas, ou qualquer outra coisa sagrada, para fazer com ela alguma feitiçaria [ É isso mesmo qualquer que, em circulo ou fora dele, ou em encruzilhada, invocar espíritos diabólicos ou der a alguma pessoa a comer ou a beber qualquer coisa para querer bem ou

mal a outrem a ele [

]

(LARA, 1999, p. 63).

A punição para estes tipos de feitiçaria era a “morte natural”, podendo

variar de acordo com a qualidade do réu e o modo como ele executou o delito,

confirmando o que já foi dito. Esta primeira categoria se refere à condição

44

Grade.indd

44

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. da bruxa como um conceito construído ao longo
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. da bruxa como um conceito construído ao longo

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

da bruxa como um conceito construído ao longo do tempo na Europa 10 , pelo público letrado e, principalmente os teólogos, e fundamentalmente relacionado a pactos demoníacos, adorações ao diabo – os sabás. Já a segunda categoria está relacionada a praticar vários tipos de magia, vista como herética, porém encarada muito mais como superstição pagã do que como apostasia diabólica, pacto com o demônio. Por isso, as penas aplicadas se apresentam de forma bem menos severa. Apesar da frequente objetividade com que trata a punir os réus, os artigos das Ordenações apresentam notórias explicações e variações com o objetivo de melhor instruir os empregados reais. O crime por feitiçaria não foge à regra. Estipulam-se punições variadas a cada tipo de “magia”, uma espécie de hierarquia nas categorias de feitiçaria, e a pena varia de acordo com a classe social do réu, explicitada na ordenação, como de praxe: Vejamos um exemplo:

E porquanto entre a gente rustica se usam muitas abusões, assim

como passarem doentes por silvão ou machieiro ou lameira virgem, e assim usam benzer com espada que matou homem ou que passe o Douro e Minho três vezes, outros cortam solas

de figueira baforeiras, outros cortam cobro em limiar de porta, outros tem cabeças de saudadores, ecastoadas em outro ou em prata, ou em outras coisas [ ]

E por que tais abusões não deveram consentir, defendemos que

a pessoa alguma não faça as ditas coisas, nem cada uma delas; e

qualquer que a fizer, se for peão seja publicamente açoitado com baraço e pregão na vila, e mais pague dois mil réis para quem o acusar.

E se for escudeiro e dai para cima, seja degredado para África por

dois anos; e sendo mulher da mesma qualidade seja degredado três anos para Castro-Marim, e mais paguem quatro mil réis para quem os acusar (LARA, 1999, p. 64).

Além das penas físicas, vê-se que também eram aplicadas punições não físicas. Neste exemplo, as multas aos condenados eram revertidas às

10 Sobre o conceito acumulativo de bruxaria, ler: LEVACK, Brian P. A caça as bruxas na Europa moderna. Rio de Janeiro: Campus, 1988, p.125.

45

Grade.indd

45

09/10/2015

09:25:07

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. pessoas que denunciavam o crime. Tal prática aumentava
História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. pessoas que denunciavam o crime. Tal prática aumentava

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

pessoas que denunciavam o crime. Tal prática aumentava de forma bastante considerável a vigilância real. A quantia era relativamente alta para quem denunciasse e favorecia essa rede de vigilância por um sistema de delação literalmente premiada, o fato de grande maioria de a população carecer de recursos financeiros. Também as multas podiam ser encaminhadas à Coroa, como forma de punição a um crime.

Dos hereges e apóstatas.

Este delito é o primeiro presente nas Ordenações Filipinas, evidenciando

a importância dos crimes doutrinários, bem como a necessidade de extirpá-los. A Ordenação afirma que: “O conhecimento do crime da heresia pertence principalmente aos juízes eclesiásticos” (LARA, 1999, p. 55). Nesse sentido, estabelece que:

E por que eles não podem fazer as execuções nos condenados no dito crime por serem de sangue, quando condenarem alguns hereges, os devem remeter a nós com as sentenças que contra eles derem para nosso desembargadores as verem, aos quais mandamos que as cumpram, punindo os hereges condenados, como por direito devem (LARA, 1999, p. 56).

Além das penas aplicadas pela Inquisição, “serão seus bens confiscados, para que se deles fazer o que nossa mercê for, posto que seus filhos tenham”

(LARA, 1999, p. 56) Nota-se que a Justiça Eclesiástica, em especial o Tribunal do Santo Ofício, era o principal responsável para julgar crimes de fé, doutrinários, pois os inquisidores eram habilitados para esquadrinhar a mente dos réus. “Porém, se algum cristão, se tornar judeu ou mouro, ou a outra seita e assim lhe for provado, nós tomaremos conhecimento dele e lhe daremos a pena segundo direito” (LARA, 1999, p. 57), pois “a igreja não tem aqui que conhecer se erra na fé ou não” (LARA, 1999, p. 57). Ou seja, tendo em vista que réu se convertera a religião judaica ou muçulmana não se tinha duvidas de que ele era um herege, um inimigo da fé cristã, e, por isso, não havia necessidade de interferência da Inquisição, e nem o Santo Ofício, pela lógica, teria mais a jurisdição sobre esse réu, pois ele passara para a outra religião. Sendo assim,

a Justiça do Rei toma para si a jurisdição e aplica-lhe a pena de acordo com o

46

Grade.indd

46

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. seu senso de justiça. Observa-se, ainda que em
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. seu senso de justiça. Observa-se, ainda que em

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

seu senso de justiça. Observa-se, ainda que em diferentes circunstâncias, no que concerne ao leque punições, as pecuniárias – os confiscos e as multas – também eram punições empregadas pela Inquisição, no caso de crimes considerados

graves – sodomia, heresia, feitiçaria etc. Portanto, podemos levar a crer, que apesar das especificidades que essas punições podem se apresentar a cada instituição, ambos recorriam a estes mesmos procedimentos como punição.

A única diferença era que a Inquisição empregava os castigos espirituais e a

pena máxima era “somente” a fogueira, como vimos. Nada excepcional no Antigo Regime.

Considerações finais

Observa-se que ambos os códigos de leis, legislação secular e inquisitorial, foram dois dos principais mecanismos de ordenação social em Portugal na época moderna. Numa época que marca a formação dos estados nacionais se acreditava que, para a manutenção da unidade politica, era imprescindível uma unidade religiosa. Por isso, toda aquela pessoa que transgredia as imposições, seja física ou doutrinariamente, impostas em consonância pelo Estado e pela igreja era passiveis de punição. Certamente, por isso, ambas as legislações se confluíam, e por vezes, se misturavam para atender – veem-se os delitos de foro misto – as necessidades da sua época.

Ao compararmos as Ordenações Filipinas e o Regimento de 1640, que

são referentes à justiça secular e à Inquisição, respectivamente, percebemos que foram moldados para atender às exigências do Antigo Regime, numa época conturbada que tem a intolerância uma das suas principais marcas

e que posteriormente será combatida com veemência. As análises desses

códigos de leis, em especial a parte referente aos procedimentos penais, nos faz constatar que ambos se utilizam dos mesmos procedimentos para punir o culpado, sejam pelo desterro, galés, acoites, multas, confiscos e o cadafalso,

tendo a Inquisição, por ser um tribunal religioso, as punições espirituais. Mas apesar de suas proximidades, a legislação secular se apresenta mais cruel

e impiedosa com o réu que a legislação inquisitorial e isso explica-se, em

parte, pelo caráter de cada uma. Enquanto a legislação régia tem como função estritamente punitiva e exemplar, vimos que a Inquisição aliava a punição

com o caráter pedagógico de reconciliação aos braços da Igreja Católica.

47

Grade.indd

47

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Tamanha evidência não nos serve ao intuito de
História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Tamanha evidência não nos serve ao intuito de

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

Tamanha evidência não nos serve ao intuito de afirmar que uma era melhor que a outra, ou tomar um partido, condenando, assim, o outro. Serve- nos para, sim, situá-las em seu contexto, compreender a sua lógica punitiva, uma das grandes marca do absolutismo e, portanto, do Antigo Regime.

Referências

BETHENCOURT, Francisco. História das inquisições: Portugal, Espanha e Itália – Séculos XV-XIX. 4aed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

CAVALCANTI, Carlos André Cavalcanti; JÁCOME, Afrânio Carneiro. “Da pedagogia do medo à Inquisição Esclarecida: o Direito Inquisitorial nos

Regimentos de 1640 e de 1774”. Revista de Teologia e Ciência da Religião

da UNICAP/PE, Pernambuco, v. 1, nº 1, 2012. Disponível em: http://www. unicap.br/ojs/index.php/theo/article/view/173. Acesso dia: 22/06/2015.

FERNANDES, Alécio Nunes. Dos manuais e regimentos do Santo Ofício

português: a longa duração de uma justiça que criminalizava o pecado (sec. XIV – XVIII). 2011. Dissertação. Programa de Pós-graduação em Historia. Universidade de Brasília, Brasília. 2011. Disponível em: <http://repositorio. unb.br/bitstream/10482/8790/3/2011_AlecioNunesFernandes.pdf>. Acesso em: 24 de julho. 2014.

HOLANDA, Sergio Buarque de. Para uma nova história. COSTA, Marcos (org.). São Paulo: Editora Perseu Abramo, 2004.

LARA, Silva HOUND (org.). Ordenações Filipinas: Livro V. São Paulo:

Companhia das Letras, 1999.

LEVACK, Brian P. A caça as bruxas na Europa moderna. Rio de Janeiro:

Campus, 1988.

MOTT, Luís. Justitia e Misericordia: A Inquisição portuguesa e a repressão ao nefando pecado de sodomia. In. NOVINSKY, Anita; TUCCI, Maria Luiza (Org.). Inquisição: ensaio sobre mentalidades, heresia e arte. 1ed. São Paulo:

Expressão e Cultura, 1992.

48

Grade.indd

48

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. MUNIZ, Pollyanna Gouveia Mendonça. Parochos
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. MUNIZ, Pollyanna Gouveia Mendonça. Parochos

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

MUNIZ, Pollyanna Gouveia Mendonça. Parochos Imperfeitos: Justiça Eclesiástica e desvio do clero no Maranhão Colonial. 2011. Tese. Programa de Pós-graduação em Historia. Universidade Federal Fluminense. Rio de Janeiro, 2011. Disponível em:< http://www.historia.uff.br/stricto/td/1311.pdf > Acesso em: 08/08/2015.

SIQUEIRA, Sonia Aparecida. Os Regimentos da Inquisição. In: Revista do

Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, nº 392, 1996.

Disponível em: http://www.ihgb.org.br/rihgb/rihgb1996numero0392c.pdf. Acesso dia: 26/06/2015.

VAINFAS, Ronaldo. Justiça e Misericórdia: Reflexões sobre o sistema punitivo da Inquisição portuguesa. In. NOVINSKY, Anita; TUCCI, Maria

Luiza (Org.). Inquisição: ensaio sobre mentalidades, heresia e arte. 1ed. São Paulo: Expressão e Cultura, 1992.

dos Pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil. Rio

de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

Trópico

49

Grade.indd

49

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. CAPÍTULO III 50 Grade.indd 50 09/10/2015 09:25:08

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

CAPÍTULO III

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. CAPÍTULO III 50 Grade.indd 50 09/10/2015 09:25:08

50

Grade.indd

50

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Educação franciscana e a invenção de si: os
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Educação franciscana e a invenção de si: os

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

Educação franciscana e a invenção de si: os processos cognitivos que performam corpos e mentes no Estado do Piauí (1949-1964).

Introdução

Dr. Francisco de Assis de Sousa Nascimento Programa de Pós-Graduação em História Universidade Federal do Piauí franciscoufpi@gmail.com

Para compreensão do objeto de investigação, eminentemente subjetivo, faz- se necessário uma reflexão inicial a respeito dos dados da pesquisa, constituídos em grande medida pelos depoimentos orais, produzidos pela mediação tecnológica e pelos dispositivos evocadores de memórias dos atores sociais, como fotografias e

livros de memória, levando-se em consideração uma série de variáveis intervenientes, os processos educativos vivenciados e as sensibilidades performáticas.

A metodologia utilizada foi a história oral, com propósito de analisar os

processos linguísticos que geram regimes de verdade, preenchendo zonas da cognição humana por meio de uma gama de discursos, dos quais destaca-se aqueles oriundos da bagagem cultural religiosa de determinada cultura. Nesse sentido, lidando com história oral e a invenção de si, os dados são registros “dados” e socializados, necessários aos processos de desvelamentos da concepção histórica, como história vivida e armazenada pela memória, seja em lápides fúnebres ou pela consciência humana, pelo esforço de suscitar ou

esquecer os fatos, pertencendo às instituições ou às pessoas ao mesmo tempo, os dados são de todos, numa relação de elucidação do passado distante ou recente, e o compromisso premente com compreensão da história do tempo presente.

A realização da pesquisa, que inicialmente se propunha a reconstituir a

memória e história dos cursos de Teologia e Filosofia no Estado do Piauí, teve sua

estrutura definida pela técnica de apresentação dos dados, quando se propôs a reunir os ex-professores e ex-alunos para que exercitando suas memórias, reconstituíssem suas trajetórias de vida e formação, em forma de depoimentos, produzindo para tanto uma história oral por meio da técnica da história oral de vida.

O motivo da classificação da técnica como história de vida e não como

depoimentos pessoais deram-se no próprio percurso da investigação.As histórias de vida assim como a tradição oral, os depoimentos pessoais, as autobiografias que compõem a história oral e seu repertório de possibilidades de investigação

51

Grade.indd

51

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. contemplam uma quantidade de relatos a respeito dos

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. contemplam uma quantidade de relatos a respeito dos fatos

contemplam uma quantidade de relatos a respeito dos fatos não registrados por outro tipo de documentação ou cuja documentação se quer completar. Referente à história oral, Paul Thompson (1992, p. 51) nos esclarece que:

A história oral não é necessariamente um instrumento de mudança;

isso depende do espírito com que seja utilizada. Não obstante, a história oral pode certamente ser um meio de transformar tanto

o conteúdo quanto a finalidade da história. Pode ser utilizada

para alterar o enfoque da própria história e revelar novos campos de investigação; pode derrubar barreiras que existam entre professores e alunos, entre gerações, entre instituições educacionais e o mundo exterior; e na própria história – seja em livros, museus, rádio ou cinema – pode devolver às pessoas que fizeram e vivenciaram a história num lugar fundamental, mediante suas próprias palavras [grifo meu].

Assumiu-se assim o compromisso de que por meio da História Oral, além de evidenciar outras fontes, promover os entrecruzamentos de experiências, devolver aos atores de um passado não distante a possibilidade de estarem de volta ao cenário cultural, representado aqui por meio das lembranças que compõem a sua história de vida e suas subjetividades. No entanto, existe uma diferença entre história de vida e depoimentos pessoais que reside exatamente no desenvolvimento na técnica, na elaboração do roteiro de questões da entrevista, nos objetivos da investigação, nos procedimentos práticos e nos fundamentos teóricos que dão embasamento às pesquisas. Segundo Ecléa Bosi (1987, p. 89):

Nelas é possível verificar uma história social bem desenvolvida:

elas já atravessaram um determinado tipo de sociedade, com características bem marcadas e conhecidas; elas já viveram quadros de referência familiar e cultural igualmente reconhecíveis:

enfim, sua memória atual pode ser desenhada sobre um pano de fundo mais definido do que a memória de uma pessoa jovem, ou mesmo adulta, que, de algum modo, ainda está absorvida nas lutas e contradições de um presente que a solicita muito mais intensamente do que a uma pessoa de idade.

52

Grade.indd

52

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Os enunciados que constituem a matéria do depoimento
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Os enunciados que constituem a matéria do depoimento

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

Os enunciados que constituem a matéria do depoimento devem ser analisados, afim de caracterizá-los, dando-lhes inteligibilidade, questionando, refletindo sobre seus sentidos, seus contextos de produção, pois segundo Michel Foucault os enunciados não são estruturas, mas uma função. Segundo o mesmo autor “eles não são em si mesmo uma unidade, mas uma função que cruza um domínio de estruturas e unidades possíveis e que as fazem aparecer com conteúdos concretos, no tempo e no espaço” (FOUCAULT, 2004, p. 115). Um exercício epistemológico necessário para compreensão dos procedimentos metodológicos na construção de fontes históricas por meio das entrevistas pode ser identificado pela reflexão dos enunciados como elementos constitutivos dos discursos, sejam eles religiosos, políticos ou de qualquer ordem, que servem para promover o entendimento das práticas sociais. Neste aspecto,

Considerar o discurso como prática, prática discursiva, significa defini-lo como conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço que definiram em uma época dada e para determinada área social, econômica, geográfica ou linguística. As condições de existência da função enunciativa (FOUCAULT, 2004, p. 81).

Na análise das fontes documentais faz-se necessário pensar a fonte histórica construída eminentemente pelo olhar treinado do historiador, sem a necessidade premente da busca da verdade objetiva, o que se torna impossível. O documento, seja ele construído a partir dos relatos orais ou pela narrativa escrita, como jornais ou livros, não deve ter interpretado como retratação fidedigna da realidade, mas como uma possibilidade, um vestígio do passado como pista a ser analisada para reconstrução dos acontecimentos. Neste sentido, o documento é apresentado como monumento, como elaboração sobre um determinado contexto de produção, seja por unidade ou em série. Os documentos são rastros deixados no percurso histórico. São suportes necessários que o historiador utiliza para a investigação dos fatos ocorridos, porém os documentos não são a última etapa da produção de fontes, pois o processo cognitivo nasce do testemunho, da memória, da prática da lembrança que se consubstancia na prática escrita. Essa experiência indica a construção da produção discursiva pelo testemunho:

53

Grade.indd

53

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Será preciso, contudo, não esquecer que tudo tem

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Será preciso, contudo, não esquecer que tudo tem início

Será preciso, contudo, não esquecer que tudo tem início não nos arquivos, mas com o testemunho, e que, apenas de sua carência principal de confiabilidade do testemunho, em última análise, para assegurar-nos de algo que aconteceu a que alguém atesta ter assistido pessoalmente, e que o principal, se não às vezes o único recurso, além de outros de documentação continua a ser o confronto entre os testemunhos (RICOEUER, 2007, p. 156).

Numa aproximação com o objeto de pesquisa dessa investigação, em contato com outras fontes documentais, um primeiro dado que evidenciamos, ofertadopeloslivrosmemoriaisqueintegravam acultura religiosa e subjetividade dos entrevistados, nos esclarece que, após a Segunda Grande Guerra Mundial, os religiosos franciscanos italianos, no ano de 1946, tendo como provincial da Ordem Frei Honório, iniciaram a construção de um amplo convento na cidade litorânea de Parnaíba, estado do Piauí, idealizada para se tornar uma Instituição de Estudos Filosóficos e Teológicos, sendo sua concretização executada por Frei Francisco de Chiaravalle (1940 a 1949), no superiorato de Frei Heliodoro de Inzago. A casa de formação religiosa para os estudos filosóficos e teológicos foi inaugurada no dia 8 de dezembro de 1949, na gestão do Frei Cesário de Colognola, que oficiou a o seu funcionamento. Por disposição da Custódia Provincial definida pelos superiores da Ordem italiana foi transferido à cidade de Parnaíba, litoral do Piauí, o Curso de Filosofia, e juntamente uma a Tipografia e Redação da Revista Estudantil denominada Frei Mansueto, considerada pelos docentes e discentes, como formidável e eficaz instrumento de formação cultural. A máquina tipográfica e os exemplares da revista Frei Mansueto, foram produzidos por jovens postulantes à vida monástica, acadêmicos de teologia e filosofia que teria durante o seu período de funcionamento exercido uma forte influência em sua formação e na cultura parnaibana de modo geral, por meio da produção, impressão e divulgação da elaboração de uma cultura escolar material, que por sua vez, também reflete elementos da cultura imaterial, de saberes da formação, expresso, especialmente nos valores, sentimentos e crenças subjacentes ao processo de mediação, transmissão e/ou construção do conhecimento. Nessa experiência educativa o processo formativo era demorado, profundo

54

Grade.indd

54

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. e reforçado intelectualmente ao longo da vida, por
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. e reforçado intelectualmente ao longo da vida, por

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

e reforçado intelectualmente ao longo da vida, por meio de encontros de

formação, retiros espirituais, reuniões acadêmicas denominadas de “capítulos”, pois assim como em livros acrescentavam novos episódios na dimensão social e afetiva. Também integram os episódios formativos os encontros de atualização, concílios, reuniões, conferências, entre outras formas. Todas as práticas eram coordenadas, disciplinadas e primavam pela educação dos gestos e do corpo, visando marcar e construir um corpo sacro, um corpo dócil, com gestos serenos, pensamento reflexivo, comportamentos civilizados e linguagem serena e gentil. Assim, portanto, também havia uma contínua educação do corpo, numa perspectiva holística e espiritual, formando permanentemente o homem na sua totalidade, constituindo-se uma memória presente na própria representação do corpo educado. Para Myriam Santos (2003, p. 47).

A memória está presente em tudo e em todos. Nós somos tudo que lembramos; nós somos a memória que temos. A memória não é só pensamento, imaginação e construção social; ela é também uma determinada experiência de vida capaz de transformar outras experiências, a partir de resíduos deixados anteriormente. A memória, portanto, excede o espaço da mente humana, do corpo, do aparelho sensitivo e motor e do tempo físico, pois ela também é resultado de si mesma; ela é objetivada em representações, rituais, textos e comemorações.

A memória é componente constituinte da pessoa humana, em uma íntima relação com sua história, seus valores e crenças. Portanto, a invenção de si passa, eminentemente pela relação do indivíduo com sua memória, individual e

coletiva, pelo desenvolvimento dos processos cognitivos e por sua manifestação no cotidiano e nas relações sociais. Para a pensadora Agnes Heller (2000, p.

Nela colocam-se ‘em

29), “A vida cotidiana é a vida do homem inteiro [

funcionamento’ todos os sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, ideias, ideologias”. Aproposta de ensino franciscana iniciava com o ingresso livre e espontâneo

à Ordem dos frades e recebimento pelo aspirante do hábito, roupa usada pelo estudante que se assemelhava àquela usada pelo fundador da Ordem: Francisco

de Assis, canonizado pela Igreja católica, venerado por uma grande quantidade

55

].

Grade.indd

55

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. de devotos no Brasil e admirado por outra

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. de devotos no Brasil e admirado por outra tão significativa

de devotos no Brasil e admirado por outra tão significativa quantidade de pessoas

no mundo inteiro. Personagem que inspira um estilo de vida que associa os elementos espirituais à natureza, à simplicidade, à alteridade, compreendendo que a única condição do homem é a de criatura que, o faz ser efêmero limitado e mortal. Os estudos filosóficos e teológicos se davam em conventos, muitos deles distantes dos centros urbanos que havia no Brasil no período colonial,

imperial e republicano, construídos entre serras e planícies, em estilo românico, arquitetura que predominava nas edificações franciscanas na Europa e no Brasil.

O local era dividido em salas de estudos, biblioteca, oficinas, celas ou claustros,

refeitório coletivo, cozinha, área de recreação e ao centro das edificações ficava a capela que simbolizava e significava a convergência de toda ação educativa, como o “coração” da instituição formativa. As atividades diárias iniciavam com o raiar do sol, quando se realizavam coletivamente as orações diárias, as súplicas, ejaculatórias, músicas etc., seguidas pelas aulas que cumpria todo um ritual humano tradicional. Projetava- se no lugar uma atmosfera de reflexão semelhante aos jardins dos filósofos socráticos ou às primeiras universidades medievais com sua áurea de inspiração sacralizada, geralmente iniciada com uma prática da espiritualidade, o que exigia e exige dos docentes, abnegação estremada aos instintos do corpo e a “pureza” da mente. A castidade que era obrigatória na Idade Média pelos docentes das primeiras Universidades Medievais era assumida, menos por imposição e mais

como opção de vida, já que a quase totalidade dos professores também era constituída por frades consagrados com o sacramento da ordem ou por irmãos, que faziam opção pela não consagração, portanto faziam os votos de obediência, pobreza e castidade, segundo os princípios da ordem, mantendo assim todo seu ser preparado para assumir integramente o trabalho de educação na fé. Algumas casas de formação eram sustentadas pelo trabalho realizado pelos próprios frades, ligados geralmente à terra, ou pela venda de objetos considerados sagrados, também eram confeccionados por eles, como rosários, terços, imagens esculpidas, taus etc. Mas geralmente seu sustento resultava da mendicância, já que se constituía ordem mendicante, a exemplo do seu fundador. Em Instituições mais modernas, o sustento financeiro, mesmo modesto, e o pagamento de despesas, davam-se pelo recolhimento do dízimo ou por ofertas realizadas nas celebrações litúrgicas, pela distribuição de sacramentos,

56

Grade.indd

56

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. como extrema unção, batismos ou casamentos. Os
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. como extrema unção, batismos ou casamentos. Os

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

como extrema unção, batismos ou casamentos. Os estudantes geralmente liam em latim, italiano e/ou português, esta última forma, quando se tratavam de obras traduzidas e reproduzidas manualmente no Brasil. Quanto às celebrações da Palavra ou Eucarística, estas eram presididas por um frade consagrado, já que professavam votos perpétuos, com o ministro da celebração se posicionando de frente para o altar e de costas para a assembleia, costume que predominou até a realização do Concílio Vaticano II (1962-1965). Para eles, a celebração eucarística era o momento da evocação de memória do sacrifício, entrega do corpo e sangue do Filho de Deus para salvação dos homens. A concepção de pecado e punição perpassa toda prática educativa franciscana. Assim, deveria se constituir a identidade do franciscano, alguém capaz do sacrifício pessoal, inclusive da incorporação das estimas, as marcas no corpo que se assemelhariam às do Cristo eternizado no madeiro. Os franciscanos valorizavam a liberdade e se apartavam de todas as formas de prisão, inclusive a posse de bens pessoais. O que adquiriam pertencia à fraternidade. Nenhum patrimônio poderá ser de posse individual. Seu corpo também não os prendia, suportavam sacrifícios e sofrimentos de toda ordem, passavam dias em jejum e em consequência, muitos eram acometidos por patologias oportunistas, que encontravam organismos frágeis, o que para eles era digno de louvor, pois assim estariam bem mais semelhantes ao chagado Francisco de Assis, filho do comerciante Bernardone e de dona Pica, estigmatizado e martirizado, como ocorreu com o próprio fundador da cristandade. Quando da visita da “irmã” morte, a acolhiam com muita alegria. Aprendiam a conviver com a morte de forma serena e terna. Uma tentativa de entendimento desse comportamento da cultura religiosa pode ser indicada pelo teórico Maurice Halbwachs (1999, p. 47) ao afirmar que “o indivíduo ao se comportar como membro de um grupo, contribui para evocar as lembranças que o grupo conseguiu selecionar ao longo do tempo e no interior da cultura”. Nesse sentido, a memória é seletiva e diz respeito à vida de cada grupo em particular, contribuindo para informar construções identitárias desses indivíduos e grupos. A transmissão de bens simbólicos às gerações seguintes caracteriza os fazeres da educação, fazendo de cada aluno o alvo e ao mesmo tempo o veículo de preservação dos valores do grupo. O grupo passa a ser o referencial de pertença ao contexto de inserção nos esquemas que comunicam certas

57

Grade.indd

57

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. identidades, enquanto que o processo educativo estabelece

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. identidades, enquanto que o processo educativo estabelece

identidades, enquanto que o processo educativo estabelece condutas e simitudes que aproximam e distanciam os sujeitos. Para Stuart Hall (2000, p. 27):

É

precisamente porque as identidades são construídas dentro

e

fora do discurso que nós precisamos compreendê-las como

produzidas em locais históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas específicas, por estratégias e iniciativas específicas. Além disso, elas emergem no interior do jogo de modalidades específicas de poder e são, assim, mais o produto da marcação da diferença e da exclusão do que o signo de uma unidade idêntica, naturalmente constituída, de uma “identidade” em seu significado tradicional.

Na cidade de Parnaíba, estado do Piauí, eram oito os estudantes que formaram primeira turma do curso de Filosofia, no início da década de 1940, sendo o grupo constituído dos frades Pacífico Holanda Soares, Egídio e Timóteo, Higino, Jeremias, Natal, Abel e Casemiro. Os três primeiros já haviam feito o primeiro ano de filosofia em “Rivotorto”, Messejana, estado do Ceará. Em relação à formação docente, das entrevistas realizadas e nas pesquisas em documentos, informam a formação teológica e filosófica dos professores, com titulação de mestre e doutor em diversas áreas religiosas como dogmática, exegese bíblica, mariologia, espiritualidade, moral etc. Por ser uma formação ministrada por franciscanos italianos, muitos deles, fugidos da Itália, por ocasião da eclosão da Segunda Guerra Mundial, puderam cursar em nível de pós-graduação cursos na Europa e ter acesso às produções mais atualizadas do conhecimento, o que transmitiam para seus alunos nos cursos implantados pela Ordem nos lugares por onde pregavam. Sobre a formação dos professores que compunham o quadro docente nos cursos superiores, nos afirma orgulhosamente Pacífico Holanda (2008):

Foram destinados à Nova Fraternidade de Parnaíba os frades considerados os mais competentes, em termos de conhecimentos teológicos com que, Frei Heliodoro continuou como superior e Frei Marcelino de Milão, juntamente com Frei Davi complementavam a congregação dos professores, sendo Frei Arialdo o Diretor dos teólogos.

58

Grade.indd

58

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Os professores ministravam várias disciplinas em ambos
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. Os professores ministravam várias disciplinas em ambos

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

Os professores ministravam várias disciplinas em ambos os cursos, o que não lhes impedia de se tornarem referência de conhecimento em áreas específicas, como foi o caso do professor frei Marcelino de Milão, que se notabilizou por seu potencial intelectual com pleno reconhecimento pelos estudantes, como também pela elite política e econômica de Parnaíba que visitava o frade para dele receber conselho diversos.

O estudo dentro da tradição secular da vida religiosa sempre foi considerado como esteio fundamental na vida dos Conventos de Formação. Para atender a esse objetivo nossa Custódia escolheu

seus melhores frades e mais competentes professores e os colocou em Parnaíba. Nossa grande estrela nesta época era Frei Marcelino de Milão. Ele atingira naquela época o ponto mais alto de sua maturidade científica. Dominava exuberantemente qualquer disciplina teológica. Qualquer matéria que os professores não se sentiam seguros passavam para Frei Marcelino que os professores não se sentiam seguros passavam para Frei Marcelino que assumia

e comportava-se como Mestre. Mas a disciplina em que ele se

notabilizou foi Sagrada Escritura, principalmente a especificidade mais difícil que era a exegese. Ele não se limitava a ler suas prelações, mas montava também apostilas e as multiplicava para os alunos. Além dessa cadeira ensinava também dogmática, liturgia e história franciscana. Nosso lente de Moral era Frei Arialdo, que

também era nosso Diretor. Filósofo, por índole, de inteligência privilegiada, seu gênio brilhava até nas conversas ocasionais em que se pronunciasse sobre qualquer assunto. Mais do que passar a doutrina do livro que ele explicava, ele nos introduzia no mundo do conhecimento com suas intuições e observações pessoais. Em nosso elenco de professores estava também Frei Davi de Muritiba. Embora fosse muito inteligente, não possuía a bagagem teológica

dos outros. Sua argúcia e apetite de aprender fazia-o dispersivo

e sem profundidade. Bebericava nos vários ramos do saber, mas

não transformava seus ensinamentos em sabedoria. Nas aulas de Direito canônico, limitava-se a traduzir o latim e ensinava história da Igreja sem mesmo ter lido antes o capítulo que ia explicar.

Após um ano de ensino foi substituído. Poderia ser considerado

59

Grade.indd

59

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. ótimo se não fosse tão dispersivo. E preparava

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. ótimo se não fosse tão dispersivo. E preparava melhor

ótimo se não fosse tão dispersivo. E preparava melhor suas aulas (SOARES, 1999, p. 18).

Entre os docentes mencionados nas entrevistas, um foi recorrente em todas as falas. Muitos carinhosamente passaram longos momentos evocando suas memórias sobre esta personalidade marcante em suas formações. Trata-se de Frei Marcelino de Milão, considerado por todos os depoentes como o mais brilhante dos professores, pois somada à sua capacidade intelectual, estava também um grande talento para lidar com causas administrativas e uma maneira muito especial de cuidar dos assuntos políticos aos quais a Fraternidade não poderia de ficar imune. Para Soares (1999, p. 23), “frei Marcelino era considerado na cidade uma espécie de conselheiro da sociedade dos intelectuais”.

Um dos grandes vultos humanos mais bem dotados, que conheci pelas Fraternidades onde passei, foi certamente Frei Marcelino, nasceu em Milão, na Itália. Dotado de inteligência fora do comum preferiu ser missionário a fazer uma carreira científica nas Universidades que lhe ofereciam os Superiores. Três facetas na personalidade de Frei Marcelino me impressionaram. Sua versatilidade de mestre, sua plasticidade de Pastor e sua habilidade de administrador (SOARES, 1999, p. 46).

Para atuar na formação dos neoteólogos Frei Marcelino fazia uso de algumas prerrogativas como saberes, habilidades e competências, próprias dos grandes educadores, assumindo integralmente a docência no Curso de Teologia

e Filosofia, com intensa produção intelectual, tanto para auxiliar a ministrar suas aulas, como também na divulgação da imprensa da cidade, pelos jornais que circulavam na cidade, como na imprensa do Estudantado, pelas revistas “Frei Mansueto” e “A Voz de São Francisco” de conteúdo com essência moral e religiosa apresentados de forma eloquente e convincente. Sobre sua atuação como docente e como desenvolveu seu trabalho

à frente da formação dos estudantes de teologia e filosofia encontramos nos depoimentos algumas de suas expressões.

Como professor tinha um domínio enciclopédico de toda matéria que ensinava. Lembro-me que algumas vezes ele estava

60

Grade.indd

60

09/10/2015

09:25:08

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. tirando dúvidas de alguma questão teológica e se
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. tirando dúvidas de alguma questão teológica e se

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

tirando dúvidas de alguma questão teológica e se acercou dele um estudante do científico em busca de uma orientação para o problema de matemática. Pediu uma pausa ao frade, resolveu o problema do garoto e retornou à sua teologia. Era admirável em todas as disciplinas que lecionava. Foi professor em Messejana e sempre foi considerado o melhor pela gurizada. Aliava a esta inteligência uma formidável capacidade de trabalho. Muito simples, nós estudantes invadíamos seu gabinete sempre aberto. Seu quarto de estudo era também seu dormitório. Sua rede nordestina estava sempre armada. Espalhados por baixo dela encontrávamos três, quatro livros repartidos e marcados, pois eram lidos paralelamente nas noites que lê roubava ao sono para estudar. Mas havia uma peculiaridade. Sua sabedoria não se contentava só com os livros. Ao lado de sua atividade de professor achava tempo para fazer pastoral. Aceitava pregações, assumia retiros espirituais e dedicava ao confessionário longas horas, e muitas vezes se deslocava para bairros a fim de atender doentes. Uma das mais significativas atividades de Frei Marcelino ficou lacrada pelo silêncio. Ele era um grande conselheiro de pessoas com grandes problemas, principalmente procurado pelas famílias mais abastadas da cidade. Nele se uniam conhecimentos teóricos e decisões pragmáticas acertadas. Dessa comunhão nasceu o grande administrador, que colocou o convento de Parnaíba num estado econômico privilegiado na Custódia. Ele substituiu Frei Heliodoro no cargo de Superior. E o fez com grande competência (SOARES, 1999, p. 72).

Os professores do Convento de Parnaíba que saíam do Brasil para estudar em nível de pós-graduação em Roma eram regularmente encaminhados à Universidade Gregoriana, onde vislumbravam as formas consideradas à época, mais coerentes e adequadas à doutrinação nos Institutos e Seminários católicos:

Roma Representava para os estudos teológicos o que de mais requintado um seminarista podia desejar e, naquele oceano de grandes Universidades a Gregoriana figurava como um grande transatlântico que o Papa escolhera para conduzir os clérigos

61

Grade.indd

61

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. mais dedicados aos estudos. Se fossemos reunir todos

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. mais dedicados aos estudos. Se fossemos reunir todos os

mais dedicados aos estudos. Se fossemos reunir todos os papas, cardeais, bispos e superiores maiores que conquistaram seus diplomas na Universidade Gregoriana talvez as dependências da Universidade não comportassem seus ex-alunos ilustres. Ao penetrar os umbrais daquela vetusta casa senti-me pequeno como uma criança de jardim de infância e ela me pareceu de uma grandeza esmagadora (SOARES, 1999, p. 32).

O doutoramento sempre foi a aspiração primeira dos estudantes brasileiros. Além da titulação, havia outras motivações e a realidade circunstancial que os professores iriam se deparar suas vicissitudes e/ou mesmo o lugar para onde os professores iriam lecionar, que em muitos casos não oportunizariam uma produção científica e o exercício da aplicação de uma tese teológica em espaços de crenças e práticas que ainda iniciavam.

Em 1959 terminei meus estudos na Universidade Gregoriana. [ ]

tive acesso ao doutorado.

Minha idéia inicial era defender tese e voltar com o doutoramento

para o Brasil. Mas depois de refletir muito mudei de idéia. Conclui que as canseiras de uma tese não compensariam, no meu caso particular. Estava destinado a ser uma lente de Direito Canônico num Seminário de Teologia, no interior, sem nenhuma perspectiva

de fazer pesquisa científica. [

Foi destinado como local de

Fiz licenciatura em direito canônico [

]

]

trabalho o curso de teologia de Parnaíba (SOARES, 1999, p. 52).

Na época, a cidade de Parnaíba realmente apresentava, em relação aos grandes centros urbanos, uma dimensão periférica e nas memórias do frade professor está implícita uma relação da formação adquirida com a dimensão do lugar, não oferecendo, segundo sua afirmação, maiores exigências no que se refere aos desafios pastorais, para os quais uma formação consistente é indispensável. Os professores desempenharam, portanto, um forte trabalho, no sentido de mediar a construção de novos conhecimentos, de modo a produzir pela forma como era transmitida a herança da doutrina e dos costumes, a convivência em fraternidade, educando pelos gestos, pelos exemplos, pelos sentimentos e fraquezas e, acima de tudo, educar pela própria vida, já que esta é a maneira,

62

Grade.indd

62

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. compreendida por eles, mais didática de desenvolver o
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. compreendida por eles, mais didática de desenvolver o

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

compreendida por eles, mais didática de desenvolver o processo ensino- aprendizagem. Durante as entrevistas houve uma manifestação de curiosidade dos mais jovens e por sugestão dos próprios religiosos fez-se uma sessão reflexiva que procurou, pela evocação da memória dos mais experientes, tornar conhecida sua história e valorizar suas memórias. Ao tempo em que os mais idosos iam evocando suas memórias, percebeu- se entre os mais jovens uma sensação de reencontro consigo próprios, com suas formas identitárias, com suas trajetórias de vida e com suas próprias escolhas pessoais. Parecia que os mais jovens já exercitavam e compreendiam a importância da memória ancestral ou fundadora, não só por instaurar um lugar, mas por proporcionar uma harmonia com sua própria historicidade, o que faziam com respeito e admiração. Em intervalos de memórias mais profundas, eram evocadas situações engraçadas que no máximo conseguiam arrancar meio sorriso no rosto de todos. Algumas informações que não pareciam claras “bem lembradas” pelos depoentes foram confirmadas por meio de livros de memórias, documentos escolares e a partilha de informações que foram recebidas pelos mais jovens ao longo de sua formação. De modo que, houve uma rememoração coletiva, criando nitidamente um esforço para produção de uma memória coletiva, típica das sociedades-memória, em um lugar que se constitui como um lugar de memória. Em relação à vida conventual e o cotidiano Pacífico Holanda Soares, em depoimento, informa que:

A vida num Convento Capuchinho de 1949, em termos de conservadorismo, representava continuidade numa linha de tempo que podia recuar cinquenta anos trás. O modo de vida que íamos levar era idêntico às vezes até nos detalhes aos observados pelos frades que fundaram a Custódia. A regular observância, um conjunto de práticas, etiquetas com este nome nos documentos conventuais, consistia na missa conventual pela manhã, após uma hora de oração onde todos deviam estar presentes; reza do breviário com a presença obrigatória de todos os frades; pontualidade nas refeições, onde o alimento era consumido ou em silêncio ou ouvindo as leituras sagradas; saída do convento sob controle do

63

Grade.indd

63

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Superior; silêncio em horários pré-estabelecidos;

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Superior; silêncio em horários pré-estabelecidos;

Superior; silêncio em horários pré-estabelecidos; autorização explícita dos superiores para receber qualquer objeto da parte de quem quer que fosse; limitação de qualquer comunicação com o mundo exterior através de revistas, jornais, cartas que eram censuradas na saída e na entrada. Estas diretrizes básicas constavam nos regulamentos centenários que nos controlavam

e eram cobrados pelos superiores com o maior ou menor rigor,

dependendo de zelo e autoritarismo dos dirigentes. Quando se tratava de formação dos jovens frades, todos os mais antigos se sentiam obrigados a colaborar com os superiores. Os professores transformavam-se em fiscais naturais. Neste cipoal da disciplina vigente fazia-se a caminhada. Na verdade, a grande maioria tirava

de letra o percurso e encontrava espaço para ser alegre e feliz. Com

o advento dos novos tempos, todo esse conjunto foi implodindo.

Resultado – os velhos ficaram com seus antigos condicionamentos

e tornaram-se intransigentes. Os jovens sensíveis ao sinal dos

novos tempos estão procurando engendrar uma nova observância regular e enquanto isto o rosto dos Conventos começa a ficar sem identidade cultural que durara tantos anos.

Toda esta vigilância demonstra a necessidade de ter um corpo disciplinado e ao mesmo tempo a vontade de transgredir, de enfrentar as cobranças e estimular a forma de vida de um ser religioso. Esta situação está presente na formação dos religiosos, marcadamente mediada pela vigilância dos gestos, dos modos, do falar e do silenciar, do andar e do sentar, dos momentos de orações e recolhimento, em vista de criar um indivíduo integralmente ajustado aos ditames de uma Ordem gestada a partir de crenças, ritos, formas e costumes que comunicam pelo corpo um ser religioso. Nos livros de tombo do “Estudantado” várias vezes são citadas as viagens que os estudantes, acompanhados de seus professores faziam à praia de Pedra do Sal, a sítios e ao Povoado Morros da Mariana, hoje a cidade de Ilha Grande, com suas lagoas naturais de beleza notória.

Em 29 de janeiro de 1959, os Estudantes vão a passeio nos Morros da Mariana, na ocasião aproveitaram apara conhecerem os locais

64

Grade.indd

64

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. isolados e de grande beleza natural, onde Frei
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. isolados e de grande beleza natural, onde Frei

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

isolados e de grande beleza natural, onde Frei Marcelino fez missão. Em 13 de fevereiro de 1959, volta dos Estudantes dos Morros da Mariana, após 15 dias de folga (SOARES, 1999, p. 94).

Estes passeios contribuíam para vivência do carisma da Ordem, que a exemplo e seu fundador deveria se identificar com a natureza e em Parnaíba esta experiência era privilegiada pelos seus encantos e potencial natural. Fazia parte, portanto, da formação dos religiosos o contato com os locais mais paradisíacos como o lugarejo Amarração, atual cidade de Luís Correia, território cedido ao estado do Piauí em troca das cidades de Crateús, anteriormente chamada de Príncipe Imperial, e Independência, que quando da chegada dos frades em Parnaíba também ficou inserido em sua jurisdição eclesiástica. As aulas eram diárias, no horário diurno e intercaladas com sessões de estudos individualizados que aconteciam na biblioteca ou nos quartos individuais ou celas ou claustros, como costumavam chamar seus aposentos. As aulas podiam ser ministradas integralmente em latim, como era costume, e reproduziam os modelos de docência que os professores haviam experimentado com seus docentes as Universidades europeias.

Tínhamos quatro aulas diariamente. Duas pela manhã e duas à tarde. Nos intervalos entre as aulas preenchíamos com intensas horas de aprofundamento das matérias. Para isto dispúnhamos de uma biblioteca especializada e de boas revistas internacionais. Nossos livros de aula traziam a matéria em latim. Para os alunos de hoje isto pode representar uma dificuldade extra, mas para nós era uma facilidade, a compreensão ficava mais nítida e o latim sintetizava a matéria. Nossa vida intelectual alimentava-se com leituras muito sólidas, quase todos sabiam ler em várias línguas (SOARES, 1999, p. 39).

Segundo os depoentes, os estudantes eram passivos e não questionavam as afirmações de seus educadores, absorvendo e procurando internalizar as informações de maneira espontânea. A presença dos estudantes deveria ser sutil e integralmente devotada aos estudos e serviços religiosos da paróquia. Os elementos didáticos que poderiam facilitar a aprendizagem dos alunos estão em todos os lugares do Convento. Todos os espaços eram educativos e

65

Grade.indd

65

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. as atividades liturgias contribuíam para que os jovens

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. as atividades liturgias contribuíam para que os jovens

as atividades liturgias contribuíam para que os jovens estudantes fixassem, internalizassem e praticassem cotidianamente os conteúdos estudos nas aulas. Embora de uma forma mais amena, na formação dos teólogos e filósofos estavam os reflexos de um longo condicionamento na educação, cujas formas mais acentuadas incluíam inclusive a vigilância do corpo. Penas como o uso do silício ainda eram aplicadas na segunda metade do século XX e alguns religiosos insistiam, por força do hábito, em utilizar instrumentos que mantivessem com a memória do corpo do modelo de formação. Segundo Pacífico Holanda Soares:

A disciplina era rigorosa. Tínhamos diretores. Nós saímos para tratar de dente e éramos vigiados. Não podíamos falar com

outras pessoas. [

que foi punido com uma disciplina (correia de 5 pontas), mas

Simplesmente

desobedeceu. Desobediência consciente. O motivo foi uma brincadeira que fizemos. Depois de muito tempo, fomos descobertos. A turma era muito consciente e ninguém cumpriu a punição (SOARES, 1999, p. 46).

ninguém nem cumpriu não. Era injusta. [

Houve uma desobediência de um grupo

]

].

A experiência religiosa desenvolvida concomitante ao processo de formação filosófica e teológica produziu uma influência profunda no processo de invenção de si, construção, desendentificação e identificação dos estudantes e professores que participaram do processo de aprendizagem franciscana e desenvolveram uma cultura escolar na cidade de Parnaíba, com ritos, símbolos, além do desenvolvimento de saberes e habilidades. O registro de suas memórias e a reconstituição desse processo memorialístico contribuiu, pela oralidade para compreensão das suas trajetórias de vida e sua relação com o uma historicidade mais abrangente.

REFERÊNCIAS

Bibliográficas

BOSI, Ecléia. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. 2. ed. São Paulo:

Editora da Universidade de São Paulo, 1987.

66

Grade.indd

66

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências Humanas. 8 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

Arqueologia do Saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro:

Forense Universitária, 2004.

HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice Editora Revista dos Tribunais, 1999.

HALL, Stuart. Quem precisa de identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu da. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 2. ed. Petrópoles, RJ; Vozes, 2000.

HELLER, Agnes. O Cotidiano e a História. 6. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas, São Paulo: UNICAMP, 2003.

RICOEUR, Paul. A memória, a história e o esquecimento. Trad. Alain François

[et AL.]. Campinas: Ed. Unicamp, 2007.

SANTOS, Myrian Sepúlvida dos. Memória Coletiva & Teoria Social. São

Paulo: Annablume, 2003.

SOARES, Pacífico Holanda. Pedaços de memória. Fortaleza, Multigraf, 1999.

THOMPSON, Paul. A voz do passado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.

Depoimento

Entrevista gravada, concedida pelo ex-aluno e ex-professor PACÍFICO HOLANDASOARES, ao pesquisador Francisco deAssis de Sousa Nascimento. Fortaleza, Ceará, 2008.

67

Grade.indd

67

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. CAPÍTULO IV 68 Grade.indd 68 09/10/2015 09:25:09

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

CAPÍTULO IV

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. CAPÍTULO IV 68 Grade.indd 68 09/10/2015 09:25:09

68

Grade.indd

68

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. O estado imperial em construção: Manuel de Sousa
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. O estado imperial em construção: Manuel de Sousa

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

O estado imperial em construção: Manuel de Sousa Martins e o Piauí na Confederação do Equador

Introdução

Francisco de Assis Oliveira Silva Universidade Federal do Piauí ihs_francisco@hotmail.com

O trabalho compreende como as ações do então governo provisório da Província do Piauí, Manuel de Sousa Martins, interferiram na deflagração da Confederação do Equador dentro da Província. Analisamos, para desenvolver este debate, a documentação primária disponível, relacionando-a com bibliografias que também auxiliam para a compreensão dos fatos. Trata-se de uma documentação organizada por Anísio Britto sobre a Confederação do Equador no Piauí. Tratam-se tais documentos de algumas cartas e ofícios que Manuel de Sousa Martins enviou ao ministro do Império. Os documentos analisados têm muito a nos informar acerca da real participação da província piauiense e seu engajamento durante o movimento. Dialogamos com o livro de Abdias Neves, O Piauí na Confederação do Equador (1997), observando a análise do autor e debatendo com as fontes primárias. O livro é composto de trechos de documentos e dados sobre a população piauiense e a economia da Província do Piauí, no recorte temporal mencionado. Além de nos apresentar sobre o tema em foco, a Confederação do Equador no Piauí. Debatemos ainda com o livro de Célia Barreto, O Brasil Monárquico: o processo de emancipação (2004), que nos ajudou a entender as relações entre o governo imperial e as demais províncias, sobretudo as do Norte. De suma importância foi o texto da autora Claudete Maria Miranda Dias, intitulado O

outro lado da história: O processo de independência do Brasil visto pelas lutas no Piauí (1789-1850) (2001).

O estudo aborda, como o título sugere, a análise da independência política do Brasil, através das lutas ocorridas na província piauiense e observa os mecanismos de controle e garantia de manutenção do poder pelas elites dominantes, do projeto de independência do Brasil, calcado no interesse de comerciantes, da aristocracia e dos proprietários de escravos. (DIAS, 2001) Analisamos junto ao texto as manifestações pela independência do

69

Grade.indd

69

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Brasil na província piauiense, abrindo sempre diálogo

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Brasil na província piauiense, abrindo sempre diálogo com

Brasil na província piauiense, abrindo sempre diálogo com a documentação em discussão, proporcionando um debate conciso e crítico.

É na compreensão da ação do sujeito político Manuel de Sousa Martins,

dentro da província piauiense, durante a Confederação do Equador, recuando um pouco para entendermos a situação do Estado Imperial, bem como o lugar do sujeito nesse contexto, que se processa e se desenvolve este trabalho.

A teoria de Michel Winock sobre o conceito de ideias políticas contribuiu

para compreendermos a conjuntura política do Império e das províncias do

Norte, fazendo-se mister buscar a abrangência do autor e seu estudo sobre a evolução das ideias políticas.

O estudo foi importante, pois o autor entende as ideias políticas não

apenas dos filósofos ou teóricos, mas também do homem comum.

O fizemos com o auxílio de teóricos como Certeau e René Rémond,

quando este observa a figura do político, o que nos leva a uma melhor compreensão da sociedade e as relações que o ator político exerce no

espaço social em que se encontra. O político interfere na sociedade, na vida profissional e até mesmo na vida privada, como observa o autor. O conceito de Rémond sobre o político traz como ponto principal o entendimento dos emaranhados fatos que se desenrolam na província durante

o período em questão. Partindo das eleições para se escolher um governador,

em que já é possível observar a interferência do sujeito e o lugar social de fala na política dentro e fora da província. Através dessa ideia de que o político tem uma relação direta com

a sociedade e com o Estado, estendendo-se a coletividade do território,

analisamos a documentação e produzimos um texto que procura demonstrar

o desenvolvimento da Confederação do Equador dentro do Piauí.

1. A conjuntura de 1823 a 1825 e a construção do Estado imperial.

No início do século XIX o Brasil passou por uma série de manifestações que muitas vezes foram vistas como a consolidação da independência no território. A Confederação do Equador foi mais uma desses eventos, que buscavam uma individualidade política em diversas províncias do Norte. Procurando abordar os motivos que levaram à Confederação do Equador

e à adesão de diversas províncias dentro do Estado Imperial, buscamos

analisar o contexto nacional de formação e consolidação do Império, bem

70

Grade.indd

70

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. como a relação com a força política dentro
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. como a relação com a força política dentro

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

como a relação com a força política dentro da província piauiense. Sabe-se que a Confederação do Equador foi fruto das lutas ou embates pela independência do Brasil. Como podemos destacar, a maioria dos que estavam envolvidos nas lutas pela independência em Pernambuco tianha ligação ao movimento separatista iniciado na província pernambucana. (BRANDÃO, 1924) Em busca da compreensão dos fatos e atitudes que levaram à deflagração desse movimento, destacamos o inconformismo das elites políticas nas

províncias do Norte com a dissolução da Assembleia Constituinte de 1823

e o juramento da Constituição do Império, em 1824. São estes dois pontos

fundamentais, tanto para entendermos esse contexto nacional, como também

a conjuntura local do Piauí no período. Em meio a tantas discussões em plena formação do Império, observamos que a independência do Brasil não se isola dentro de um contexto, mas perdura por alguns anos, e não é um marco isolado dentro da história do Brasil, pois desde 1817, com a Confederação de Pernambuco, a ideia de separação política persiste no Estado. Essa ideia se alastra até a década de 1820, quando uma série de fatores marca a independência política do Brasil. Analisando esses acontecimentos, observamos que a unidade nacional, que as elites locais tanto entendiam como

necessária para a consolidação do Império, não foi verificada em todo o território.

O Brasil, no período de 1822 a 1825, vivia praticamente a afirmação do Império.

As lutas pela independência e a dissolução da constituinte de 1823 fizeram aflorar

a falta de unidade política que reinava na época. Como observa Maria Odila Dias, o processo de emancipação política, culminado em 1822, com a separação da colônia da metrópole, não coincidiu

com o da consolidação da independência nacional, que perdurou pelas décadas de 1840 a 1850, e tampouco o processo de emancipação foi marcado por um movimento propriamente nacionalista ou revolucionário. (DIAS, 2005) Na análise de Maria Odila Dias, podemos concluir que, mesmo a emancipação política tendo ocorrido, a unanimidade com relação ao seu aspecto positivo não era verificada dentro do território, o que exemplifica

a unidade nacional ausente desde então. No entanto, se recuarmos até a

vinda da família real ao Brasil, ocorrida em 1808, nota-se que naquele momento começa o descontentamento na colônia, e, nas palavras de Dias,

observamos que:

71

Grade.indd

71

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Durante muito tempo, ressentiu-se o estudo da nossa
História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. Durante muito tempo, ressentiu-se o estudo da nossa

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

Durante muito tempo, ressentiu-se o estudo da nossa emancipação política do erro advindo da suposta consciência nacional a que

O fato da separação do reino

em 1822 não teria tanta importância na evolução da colônia para o Império. Já era fato consumado desde 1808 com a vinda da Corte e a abertura dos portos e por motivos alheios à vontade da

colônia ou da metrópole. (DIAS, 2005, p. 11)

muitos procuravam atribuir. [

]

É preciso olharamos para as nuances e peculiaridades do processo que

culminou com a independência política do Brasil, ou seja, toda a conjuntura política de então, para entendermos os mecanismos da emancipação dentro do Estado e a culminância com a Confederação do Equandor, entendendo-a também como movimento de independência, posto que tinha relação com

o projeto pretendido durante o processo de emancipação, o qual seria o

federalismo. Como observa Renata Silva Fernandes (2002) o período que se seguiu após a independência do Brasil foi marcado pelo processo de estruturação do arranjo institucional e político no novo Estado. Nessa conjuntura, podemos encarar o Brasil de 1822 a 1825 como uma formação imperial em andamento. O próprio modelo de independência no Brasil nos faz perceber a

disparidade de ideias que havia dentro do país. De um lado, radicais em busca da república; do outro a elite com o projeto vencedor do conservadorismo, atendendo apenas às suas próprias necessidades. Nessa observação, Maria Odila Dias, (2005) compreende que “a própria estrutura social, com o abismo existente entre uma minoria privilegiada e

o resto da população, polarizaria as forças políticas, mantendo unidos os

interesses das classes dominantes”. Foi justamente o que houve com o processo de emancipação política: um projeto que correspondesse às necessidades da elite, fragmentando as demais províncias. As províncias do Norte, como observa Evaldo Cabral de Mello (2004), com a instalação do aparelho de Estado português, poderiam escolher entre a independência separada, provavelmente sob a forma regional, em que estava Recife no comando, ou associar-se à independência sulista. Como sugere o autor, essa perspectiva era remota face ao descompasso entre as aspirações políticas numa e na outra área. O que pode ser destacado, levando-se em consideração essa disparidade

72

Grade.indd

72

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. na política no contexto da emancipação do Brasil,
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. na política no contexto da emancipação do Brasil,

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

na política no contexto da emancipação do Brasil, é que deve ser revisada essa suposta unidade do processo, pois isso viria a ocorrer entre províncias somente na metade do século XIX, e ainda com algumas ressalvas. No início, tendo como província de fama sediciosa, Pernambuco buscava aspirações diferentes das reações do Rio de Janeiro e, provavelmente, influenciou algumas províncias do Norte, entre elas o Piauí.

2. Descontentamento e personagens no processo da independência e da confederação.

Desde 1801, em Pernambuco buscava-se o regime de governo republicano, com a Conspiração dos Suassunas, em que foram presos o

coronel Suassuna, um senhor de engenho e seus irmãos, acusados de tramarem

o estabelecimento do republicanismo na capitania. (MELLO, 2004) A trama

contra o regime de conservadorismo e centralismo de D. Pedro I teria que vir de homens da elite, uma vez que o povo não estava a par do que acontecia no país naquele momento de independência. A preocupação da elite brasileira era cortar, de fato, toda e qualquer ligação com Portugal, uma vez que a recolonização preocupava as elites locais, sobretudo pelo fato de ainda estarem presentes, na Bahia e na província Cisplatina, tropas portuguesas. Também existia a preocupação de limitar os poderes do monarca e valorizar a representação nacional, tão almejada por todas as províncias no período da independência, que, como mencionado

anteriormente, perdura por muitos anos. (PRADO JUNIOR,1983) Os sujeitos que buscam a independência do Brasil permanecem quase

que imutáveis durante a Confederação do Equador. A história não se repete, mas nesse caso, os sujeitos seguem sendo os mesmos. Em Pernambuco, verificamos ainda os mesmos personagens da Revolução de 1817, como é

o caso de Frei Caneca. (ALARCÃO, 2006,) Nesta província, muitos outros

envolvidos naquela insurreição de 1817 permanecem como conspiradores em 1822 e 1824, a exemplo de Manuel de Carvalho Pais de Andrade. (MELLO,

2004)

Manuel de Carvalho era da elite pernambucana, assim como muitos dos indivíduos que se envolveram na Revolução de 1817 e na Confederação, o que nos demonstra a singular falta de envolvimento do povo nesses processos

políticos. Ricos senhores de engenho e comerciantes locais lutavam pelos

73

Grade.indd

73

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. seus interesses, queriam uma independência de fato, sem
História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. seus interesses, queriam uma independência de fato, sem

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

seus interesses, queriam uma independência de fato, sem a interferência portuguesa. A intenção em Pernambuco era reduzir a influência que a Corte estava tendo no Rio de Janeiro, como observa Mello:

Quando Carvalho assumiu o poder, a questão imediata dizia respeito à chegada do presidente de nomeação imperial, que, ao comunicar a D. Pedro os eventos do dia 13, rogou fosse designado imediatamente, por não possuir a junta temporária o traquejo da governação. O mesmo argumento Carvalho usou em proclamações aos pernambucanos, justificando sua aceitação do cargo em nome da defesa da independência e da liberdade do Brasil, ameaçadas pelos “recentes sucessos da Corte no Rio de Janeiro”. (MELLO, 2004, p. 165)

Nessa perspectiva, o que podemos reiterar é a falta de unidade entre as províncias, como já mencionado. Contudo, a afirmação das elites no poder requer que elas se manifestem por um bem comum, e, nesse caso, o bem comum da província pernambucana seria a instalação de outro governo, longe dos olhos da Corte no Rio e da influência do centralismo do monarca. Assim sendo, é interessante perceber que os personagens das lutas pela emancipação política do Brasil estão envolvidos com a Confederação do Equador, o que nos leva a observar que esta é parte de um ciclo de movimentos pela concreta independência do país, sobretudo dado fato de que os personagens permanecem quase intactos, e não somente em Pernambuco, mas também nas demais províncias do Norte, como o Piauí. As lutas pela independência no Piauí têm seu ápice com a Batalha do Jenipapo. Assim como Manuel de Sousa Martins, então brigadeiro, outros personagens vão estar presentes naquele momento, do mesmo modo como na Confederação do Equador. É o caso de Simplício Dias e João Cândido de Deus (NEVES, 1997), apesar de ressaltarmos que ambos agiram de maneira diferente durante o movimento, sobretudo o futuro barão da Parnaíba, que lutara para cessar e reprimir o movimento em terras piauienses. É de suma importância analisar a influência que provocou Pernambuco nas demais províncias do Norte, nodatamente pelo fato de que a organização e divulgação do movimento vieram daquela província, com os mesmos

74

Grade.indd

74

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. sediciosos da Revolução de 1817. Nesse ensejo, Barreto
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. sediciosos da Revolução de 1817. Nesse ensejo, Barreto

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

sediciosos da Revolução de 1817. Nesse ensejo, Barreto observa que

A dissolução foi encarada no Norte do país como uma espécie de 18 Brumário. O corso tivera o seu smile no dinasta bragantino. Significativamente, no mesmo dia 13 de dezembro, em que a junta presidida por Francisco Pais Barreto, afeiçoado, no momento, à ordem monárquica, demitira-se e constituíra-se outra, sob direção do antigo líder de 17, Manuel de Carvalho Pais de Andrade, lançavam no Recife os deputados pernambucanos, cearense e paraibanos da extinta Assembleia, retornados da Corte, uma incisiva proclamação, historiando o golpe de Estado infligido ao regime nascente. (BARRETO, 2004, p. 228)

O que podemos observar é que muitas das situações sediciosas que ocorreram no Norte estão ligeiramente ligadas à província pernambucana, não simplesmente pelo fato de haver inconformismo das elites no período da emancipação, mas também por fatores que remetem desde a colônia, quando a capitania de Pernambuco gerava altíssimos ganhos à coroa. De fato, as ideias pernambucanas chegam ao Ceará, à Paraíba, ao Rio Grande do Norte e ao Piauí. Em todas essas províncias a elite se manifestará em favor da Confederação do Equador. Por elite local compreenda-se o simples fato de que todos os personagens desse processo, como mencionado anteriormente, são da alta classe e possuíam forte influência política na província ou no Estado como um todo. Do ponto de vista das diversas manifestações políticas dentro do Brasil, podemos analisar que as províncias estavam atentas ao projeto unitário que se concretizaria com a Constituição de 1824, e acentuaria ainda mais a insatisfação das elites federalistas com a Corte. Neste caso, o projeto unitário foi vencedor e o descontentamento em torno dos pontos cruciais na formulação da política nacional desaguaria na oposição a D. Pedro I, o que mais tarde resultaria na sua abdicação. (DOLHNIKOFF, 2003) Nessa conjuntura, as elites regionais são de extrema importância para entendermos os rumos que tomam a política nas províncias nos primeiros anos do século XIX, bem como a capacidade de gerenciamento que essas elites locais terão durante esse processo, como observa Dolhnikoff:

75

Grade.indd

75

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. O processo de construção do Estado brasileiro no

História, culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas.

culturas e cubjetividades: abordagens e perspectivas. O processo de construção do Estado brasileiro no século

O processo de construção do Estado brasileiro no século XIX teve como um dos seus principais eixos, tanto em termos do debate político como da organização institucional propriamente dita, a definição do grau de autonomia que ficaria reservada aos governos provinciais em oposição ao grau de centralização em torno do governo do Rio de Janeiro. Essa discussão tem profundo interesse na medida em que revestia um problema essencial: o lugar das elites regionais no novo Estado. Maior autonomia significaria garantir aos grupos dominantes nas províncias um papel decisivo na condução do país. (DOLHNIKOFF, 2003, p. 60)

Essa expectativa era vivida por Pernambuco, a participação na condução do Estado Imperial e a autonomia para as províncias. No entanto, como perceberemos adiante, a realidade foi outra. Os integrantes das elites locais assumiam apenas a condição de líderes locais, com exceção dos membros da elite carioca, que assumia o papel de governança ao lado do monarca. Esse cenário será a gênese da Confederação do Equador, marcado pelo inconformismo do Norte com a política conservadora da Corte.

3. Na Província Piauiense

A Confederação do Equador como movimento separatista está imbricada em uma série de fatores políticos acumulados ao longo de poucos anos. Esses embates políticos produziriam os motivos de desordem no Império nascente, relacionados às lutas da Independência, como já mencionado anteriormente. Por isso mesmo, na Confederação do Equador, estavam no protagonismo da insurreição praticamente os mesmo sujeitos participantes das lutas pela independência no Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e no Piauí. Para o Piauí, observamos que as ideias de insurreição partiriam da vizinha província do Ceará. Contudo, fica a análise e a indagação: será que o Piauí já não comungava dessas ideias antes mesmo da eclosão da Confederação? Afinal, a insatisfação na província era visível, tendo em vista o resultado da Constituinte e a exclusão do Piauí nas decisões do Estado Imperial dentro da Assembleia. Sem termos como aprofundar sobre a insatisfação na província piauiense, ou não seria eventualmente necessário, fica a observação de que a Constituinte

76

Grade.indd

76

09/10/2015

09:25:09

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. de 1823 já nascera com descontentamento por parte
História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas. de 1823 já nascera com descontentamento por parte

História, culturas e subjetividades: abordagens e perspectivas.

de 1823 já nascera com descontentamento por parte da elite piauiense. Abdias Neves em sua obra afirma que:

O Piauí não elegera representante à Constituinte. As instruções de 19 de junho (1822), que dispunham sobre o processo eleitoral, tinham sido recebidas ao começar as lutas pela independência. Toda a atividade da junta do governo tendia ao levantamento de forças. Fora impossível, naquelas circunstâncias, cogitar de uma reunião de eleitores - retirando-os dos corpos onde geralmente exerciam funções de comando para os trazer a capital. (NEVES