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SAMIZDAT

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abril 2010 ano III ficina
abril
2010
ano III
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SAMIZDAT www.revistasamizdat.com 27 abril 2010 ano III ficina G. K. Chesterton analisa a relação entre Cães
SAMIZDAT www.revistasamizdat.com 27 abril 2010 ano III ficina G. K. Chesterton analisa a relação entre Cães
G. K. Chesterton analisa a relação entre
G. K. Chesterton analisa a relação entre
G. K. Chesterton analisa a relação entre
G. K. Chesterton analisa a relação entre
G. K. Chesterton analisa a relação entre

G. K. Chesterton analisa a relação entre

Cães e Homens

SAMIZDAT 27

abril de 2010

Edição, Capa e Diagramação:

Henry Alfred Bugalho

Revisão Geral Maria de Fátima Romani

Editorial

A formação do cânone literário não é uma ciência exata.

Motivada por fatores políticos, culturais, acadêmicos e, por fim, às vezes estéticos,

A decisão coletiva entre qual escritor será lembrado, e

Autores Ana Cristina Rodrigues Caio Rudá Cirilo S. Lemos Giselle Natsu Sato Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Guilherme Vereza Jú Blasina Leandro da Silva Léo Borges Marcia Szajnbok Maria de Fátima Santos Mariana Valle Maristela Deves Polyana de Almeida Wellington Souza

Textos de:

Emílio de Meneses G. K. Chesterton

Imagem da capa:

http://www.flickr.com/photos/

randysonofrobert/2144529026/sizes/l/

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qual será esquecido é injusta, relega às sombras narradores de povos dominados e exalta de dominadores, por vezes, aco- lhe o reacionário e reprime o revolucionário e, sem justifica- tiva alguma, também realiza o caminho inverso.

Não há como prevermos quem, de nossa época, será lido pelos pósteros; nada garante que nossos grandes autores de hoje não acabarão abandonados em prateleiras empoeiradas de sebos. Não há garantias, não há certezas. Os dois autores canônicos trazidos pela SAMIZDAT nesta edição, Emílio de Meneses e G. K. Chesterton, trazem em comum a ironia de terem sido celebridades literárias em suas épocas, mas que gozam de pouco prestígio atualmente. Um dos fãs mais importantes de Chesterton foi Jorge Luis Borges, mas nem as várias referências a ele feitas pelo maes- tro foram suficientes para retirar Chesterton das penumbras da História. Memória e esquecimento: estes são os motores da cânone literário.

Henry Alfred Bugalho

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.

Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons.

Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Com- mons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copyright dos EUA (§107-112).

As idéias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade expressa dos colaboradores da revista.

Sumário

Sumário Por quE Samizdat? 6   Henry Alfred Bugalho autor Em LÍNGua PortuGuESa Emílio de meneses,
Sumário Por quE Samizdat? 6   Henry Alfred Bugalho autor Em LÍNGua PortuGuESa Emílio de meneses,
Sumário Por quE Samizdat? 6   Henry Alfred Bugalho autor Em LÍNGua PortuGuESa Emílio de meneses,

Por quE Samizdat?

6

 

Henry Alfred Bugalho

autor Em LÍNGua PortuGuESa Emílio de meneses, o sátiro

8

miCroCoNtoS

 

Caio Rudá de Oliveira

11

CoNtoS

a

Beata

12

Ju Blasina

as canções de papel machê

14

 

Ana Cristina Rodrigues

Saudade

16

 

Fátima Romani

Seda Branca

18

 

Henry Alfred Bugalho

Carta i

20

 

Maria de Fátima Santos

Carta ii

21

 

Maria de Fátima Santos

Simplício aroeira descobre o que é a morte

22

 

Cirilo S. Lemos

o mergulho

26

 

José Guilherme Vereza

a repulsa

28

 

Léo Borges

Fragmentos: iii. o o alimento

32

Marcia Szajnbok

Sempre há uma verdade (Parte 3) 34 Maristela Scheuer Deves Ínfimo Brilho 36 Giselle Natsu
Sempre há uma verdade (Parte 3) 34 Maristela Scheuer Deves Ínfimo Brilho 36 Giselle Natsu
Sempre há uma verdade (Parte 3) 34 Maristela Scheuer Deves Ínfimo Brilho 36 Giselle Natsu

Sempre há uma verdade

(Parte 3)

34

Maristela Scheuer Deves

Ínfimo Brilho

36

Giselle Natsu Sato

traduÇÃo

Cães

38

G. K. Chesterton

tEoria LitErÁria Enigma archinov

42

Leandro da Silva

CrÔNiCa a Vingança de zeus

46

Joaquim Bispo

apenas uma mulher

50

Ju Blasina

Nossas falsas necessidades cotidianas

52

Henry Alfred Bugalho

PoESia Sobre mulheres e flores

54

Caio Rudá de Oliveira

Blavinos

56

Ju Blasina

Concisos

58

Wellington Souza

Poemas

59

Mariana Valle

dez de março

60

Polyana de Almeida

SoBrE oS autorES da Samizdat

62

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O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

ficina www.oficinaeditora.com

ficina

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Por que Samizdat? “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky
Henry Alfred Bugalho
inclusão e Exclusão
henrybugalho@hotmail.com
se converte em uma ditadu-
ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de
inclusão e exclusão.
O
grupo dominante, pela
própria natureza restritiva
do poder, costuma excluir ou
ignorar tudo aquilo que não
pertença a seu projeto, ou
que esteja contra seus prin-
cípios.
Em reação, aqueles que
se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
riam, ou não conseguiam,
fazer parte da máquina
administrativa - que esti-
pulava como deveria ser a
cultura, a informação, a voz
do povo -, encontraram na
autopublicação clandestina
um meio de expressão.
Em regimes autoritários,
esta exclusão é muito eviden-
te, sob forma de perseguição,
censura, exílio. Qualquer um
que se interponha no cami-
nho dos dirigentes é afastado
Datilografando, mimeo-
grafando, ou simplesmente
manuscrevendo, tais autores
russos disseminavam suas
idéias. E ao leitor era incum-
e
ostracizado.
As razões disto são muito
bida a tarefa de continuar
esta cadeia, reproduzindo tais
obras e também as passando
simples de se compreender:
o
diferente, o dissidente é
perigoso, pois apresenta
alternativas, às vezes, muito
melhores do que o estabe-
lecido. Por isto, é necessário
suprimir, esconder, banir.
adiante. Este processo foi
designado "samizdat", que
nada mais significa do que
"autopublicado", em oposição
às publicações oficiais do
regime soviético.
A
União Soviética não
foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo de um samizdat. Corte-
sia do Gulag Museum em Perm-36.
logo

E por que Samizdat?

A indústria cultural - e o

mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, base- ado no que se julga não ter valor mercadológico. Inex- plicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maio- res do que o lucro.

A indústria deseja o pro-

duto pronto e com consumi- dores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mes- mo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado.

E a autopublicação, como em qualquer regime exclu- dente, torna-se a via para produtores culturais atingi- rem o público.

Este é um processo soli- tário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes apa- ratos midiáticos - como TV,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho.

O

único aspecto que conta é

o

prazer que a obra causa no

leitor.

Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma

liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua pala- vra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros,

é quem recebe os louros por seus acertos.

E, com a internet, os au-

tores possuem acesso direto

e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em ques- tão de minutos.

A serem obrigados a

burlar a indústria cultural,

os autores conquistaram algo

que jamais conseguiriam de outro modo, o contato qua-

se

pessoal com os leitores,

o

diálogo capaz de tornar a

obra melhor, a rede de conta-

tos que, se não é tão influen-

te quanto a da grande mídia,

faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substituam

o prazer de ouvir o respal-

do de leitores sinceros, que

não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos.

Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pós-

modernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a

orientação dum grupo. São apenas escritores interessados

em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim

a heterogeneidade.

Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de auto- publicação, mas “Samizdat” porque também é um modo

de contornar um processo

de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profis- sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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poemas, resenhas literárias e muito mais. www.revistasamizdat.com www.revistasamizdat.comwww.revistasamizdat.com 77

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77

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autor em Língua Portugesa

 
     
 
Emílio de menezes,

Emílio de menezes,

 

o sátiro

o sátiro

Os textos a seguir foram transcritos da seção "Colmeia" do jornal A Imprensa, onde o autor mantinha periodicamen- te uma coluna literária.

ontem:

Que houve aqui?

"A história registra diaria- mente fatos interessantes no

à-toa

Nada. Uns tirozinhos

que diz respeito às crenças de cada um."

Mas vocês prenderam?

 

Palavra que não

Sim, decerto. Prendemos este revólver.

 

Ahn!

Cartaz de ontem, à porta de uma redação:

sabia que a história fizesse

semelhante asneira.

***

 

***

Impressão de rua.

 

"O sr. senador

não com-

Isto é um país sui generis. Está bem assentado que o analfabetismo nos flagela e que os que sabem ler não o fazem. Entretanto morre um homem que nunca fez outra coisa senão vender livros e

O pobre petiz, no largo do Paço, vende uma droga qualquer para tirar nódoas; comprime-o um largo cír- culo de basbaques. "Se as nódoas não saírem, devolve-

parecerá hoje ao Senado."

Se começam a noticiar tudo que não vai acontecer, vão ter um noticiário supim- pa!

 

***

deixa

uma fortuna de mais

se a importância!" cameloteia o pequeno.

Temos, graças a Deus! um Instituto Poliartístico.

 

Mas eis que surge um

de sete mil contos. Palavra que não percebo!

***

guarda municipal; o vende- dor não tem licença e o de-

do

Agora, só nos fica faltan- a Arte.

A nossa inefável polícia:

fensor dos interesses do fisco leva-o ao primeiro posto a explicar-se.

***

De um jornal da tarde de

Há um conflito. Dão-se tiros de revólver- Chegam os repórteres.

Bobo de camelo! que tão

mal roubas o fisco! Por que diabo não te fazes contraban- dista de sedas, jóias e elefan- tes? Ganharias muito mais e não te levariam preso!

***

Trecho de um discurso patriótico, ontem pronun- ciado por uma professora suburbana:

- A nossa bandeira é verde-amarela!

Nós temos dever de amar ela!

***

Filosofia moderna.

- O homem prático deve

tratar de conseguir o máxi- mo com o esforço mínimo

. Olha, eu ando sem dinheiro

e

- Basta, já despendeste

vinte palavras; toma lá cinco tostões; é o máximo.

***

- Por que é que se chama

de ano bom o ano que se começa?

- Porque se tem a impres-

são de que ele não poderá ser igual ao que se acabou.

***

Algumas das principais profecias do Múcio, que serão brevemente publica- das no Almanaque do Barão Ergonte a sair à luz:

- O ano de 1912 terá 365 dias, repartidos em quatro trimestres de três meses cada um.

- Haverá neste ano diver-

sos fatos de grande impor- tância, outros de importância menor; a maior parte não valerá nada.

- O ano será fértil em

desastres de automóveis e descarrilamentos na Central.

- Morrerá neste ano um

cidadão de avançada idade, muito estimado por seus amigos e a quem todos os seus netos chamam de vovô, exceto um, que ainda não sabe falar.

- Haverá diversas reclama-

ções sobre a falta d'água e

sobre o aumento das contas do gás.

- Os telegramas da Euro-

pa referir-se-ão amiudadas vezes à questão do Oriente e à polícia imperialista da

Alemanha.

- Morrerão na Europa

três pessoas importantes que estiveram vivas durante este

ano inteiro.

- Fará intenso frio na ilha

de Spitzberg e o calor no Sahara será insuportável no verão.

- O Brasil continuará à

beira de um abismo.

- Haverá diversas reformas

em diversas repartições de

diversos ministérios.

- O ano terminará impre-

terìvelmente a 31 de dezem- bro.

***

Está fazendo sucesso na Europa o novo sistema pedagógico da dra. Montes- sori, que permite às crianças aprenderem a escrever antes de saber ler.

Olhem a grande novidade!

Nós conhecemos no jornalis-

mo muita gente que nunca aprendeu a ler e que escreve que é uma beleza!

***

mo; em Chicago o termôme- tro registrou 32 e 40 graus

abaixo de zero.

Há certos telegramas cuja publicação deve ser proibida pela Saúde Pública o citado, por exemplo. Lendo-o num dia de calor como o de on- tem, pode acontecer a qual-

quer cidadão o que sucedeu

comigo: dei trinta espirros e constipei-me por quinze dias.

***

Foi preso ontem como ga- tuno, um pobre-diabo encon- trado na caixa-d'água de uma casa de família.

Indagando o guarda que o

prendeu o que fazia ele ali, nada respondeu o suposto gatuno.

E fez bem: tal indagação

era simplesmente idiota; com 36 graus à sombra não se pergunta a um homem o que faz numa caixa-d'água; refresca-se, naturalmente:

***

A questão do carnaval

preocupa atualmente todos os espíritos; o carnaval será

ou não adiado?

O Brasil, tem-se dito e

repetido: é um país essencial- mente carnavalesco; de forma que muitos cidadãos preca- vidos já resolveram retirar-se para o interior, receosos de uma revolução.

Já se fala de uma organi-

zação de ligas pró-Momo,

pró-Zé Pereira, etc.

fonte: http://www.cce. ufsc.br/~nupill/literatura/

BT5529002.html

Diz um telegrama de Nova Iorque: reina frio intensíssi-

http://www.flickr.com/photos/hidden_treasure/2474163220/sizes/l/

cia. Não muda, entretanto, seus hábitos. Continua o mesmo

cia. Não muda, entretanto, seus hábitos. Continua o mesmo boêmio de sempre, a povoar os jornais da época com suas percucientes anedotas.

Apesar de preterido pelo silogeu nacional, Emílio veio finalmente a ser eleito (15 de agosto de 1914) segundo ocupante da cadeira 20, cujo patrono é Joaquim Manuel de Macedo, e na qual jamais veio a tomar assento, falecendo em 1918. Seria saudado por Luís Murat.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Em%C3%ADlio_ de_Meneses

Emílio de Meneses

Era filho de Emílio Nunes Correia de Meneses e de Maria Emília Correia de Meneses, único homem dentre oito irmãs. Seu pai era também um poeta.

Faz seus estudos iniciais com João Batista Brandão Proença, e depois no Instituto Paranaense. Sem ser de família abastada, trabalha na farmácia de um cunhado e, ainda com dezoito anos, muda-se para

o Rio de Janeiro, deixando em Curitiba a marca de

uma conduta já distoante ao formalismo vigente: nas

roupas, no falar e nos costumes.

Boêmio, na capital do país encontra solo fértil para

destilar sua fértil imaginação, satírica como poucos.

A amizade com intelectuais, entretanto, fez com que

tivesse seu nome afastado do grupo inicial que funda- ra a Academia. Torna-se jornalista e, por intercessão do escritor Nestor Vítor, trabalha com o Comendador Coruja, afamado educador. Em 1888 casa-se com uma filha deste, Maria Carlota Coruja, em 1888, com quem tem no ano seguinte seu filho, Plauto Sebastião.

Mas Emílio não estava fadado para a vida domésti- ca: neste mesmo ano separa-se da esposa, mantendo um romance com Rafaelina de Barros.

Autor de versos mordazes, eivados de críticas das quais não escapavam os políticos da época, mestre dos sonetos, Emílio de Meneses é portador de uma tradição - iniciada com o Brasil, em Gregório de Matos.

Tendo sido nomeado para o recenseamento, como Escriturário do Departamento da Inspetoria Geral de Terras e Colonização, em 1890, Emílio aposta na especulação da falácia econõmica do Encilhamento, criada pelo Ministro da Fazenda Ruy Barbosa: como muitos, fez rápida fortuna, esbanja e, terminada a farsa, como todos os outros investidores, vai à falên-

O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

os outros investidores, vai à falên - O lugar onde a boa Literatura é fabricada ficina
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microcontos m inimalismo insólito Caio Rudá de Oliveira Somatizou A gravidez era psicológi- ca, mas
microcontos
m
inimalismo
insólito
Caio Rudá de Oliveira
Somatizou
A gravidez era psicológi-
ca, mas nasceram dois guris
saudáveis.
Necrofilia
O corpo jazia. Os libidi-
nosos saprófagos comiam-no
despudoradamente.
Gastronomia aplicada iV
A vingança não seria mais
um prato comido frio. Assa-
ria seu inimigo.
http://www.flickr.com/photos/erin_ryan/2718885808/sizes/o/

http://www.flickr.com/photos/paraflyer/431193936/sizes/o/

Contos

a

http://www.flickr.com/photos/paraflyer/431193936/sizes/o/ Contos a Beata Ju Blasina 12 SAMIZDAT abril de 2010

Beata

Ju Blasina
Ju Blasina

GUIA

http://www.flickr.com/photos/wbyeats74/4242363440/sizes/l/

Beth aparentava a típica beata: os cabelos longos, já sem corte, geralmente guar- dados em trança, tocavam- lhe as coxas cobertas por saias que terminavam junto aos joelhos, sempre marca- dos pelas tantas horas em devoção. Usava camisas lar- gas, na tentativa frustrada de esconder os seios far- tos. Sempre abotoava até a última casa, sempre rezava até a última conta. O terço de madrepérola que carre- ga no pulso e o crucifixo do pescoço eram as únicas jóias que exibia com orgu- lho. Percebendo isso, rezava para afastar tal sentimento egoísta.

Rezava também para atrair a aprovação dos céus, para perdoar aqueles que lhe caçoavam, para casti- gar os que blasfemavam, para acordar e para dormir. Rezava para tudo! Antes de cada refeição, antes de cada relação — rezava muito para satisfazer ao marido, tão exigente. E tendo as pre- ces atendidas, rezava ainda mais depois.

Era a primeira a chegar à igreja e a última a sair. Não se misturava as outras beatas que lhe invejavam a olhos nus, tamanho cabelo, tamanho fervor, tamanha disciplina, e secretamente, tamanha beleza, tamanha casa, tamanho marido.

Ao avistá-la adentrando a

igreja, o padre sempre fugia temendo o pedido de outra confissão. Tão temente era

ela

lha sequer de seus pecados. Contava ao padre tudo, em

Não omitia um deta-

seus mínimos detalhes. E

pecava, a noite toda, toda

a noite

na tentativa de proteger o padre daquela monopolista

religiosa, faziam fila à porta do confessionário. Mas Beth era abençoada pelo dom da paciência e não esmorecia

jamais!

Só o padre sabia o por- quê de tanta oração, dos cabelos tão longos e bem cuidados, do corpo tão es- condido nas roupas com- portadas. O padre e o belo marido sadomasoquista. O último gostava de puxar- lhe os cabelos enquanto a penetrava. O primeiro não confessava, mas gostava de imaginar a cena. O sexo

violento, que tanto agradava

a ambos, tinha seu preço

nas marcas deixadas no corpo e na alma da beata. Sorte que, para os pecados

havia as orações, e para os hematomas, pomada. A reza era a pomada de sua alma

e o padre, o doutor que a

prescrevia. E todo dia ela precisa de uma nova dose.

Não falhava uma missa sequer, para desespero do padre, desgosto das outras beatas e principalmente, satisfação do marido — o que para ela, era tudo o que importava. Que Beth, a beata, era uma boa esposa, disso nem Deus discordava. Já se era tão boa enquanto beata, depois de tantas con- fissões, até o padre tinha lá suas dúvidas

As demais beatas,

até o padre tinha lá suas dúvidas As demais beatas, Henry Alfred Bugalho Nova York para

Henry Alfred Bugalho

Nova York

dúvidas As demais beatas, Henry Alfred Bugalho Nova York para Mãos-de-VA ca O Guia do Viajante

para Mãos-de-VAca

O Guia do Viajante Inteligente www.maosdevaca.com
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13

Contos

Contos As canções de papel machê Ana Cristina Rodrigues 14 14 SAMIZDAT abril de 2010 SAMIZDAT
As canções de papel machê
As canções de papel machê
As canções de papel machê
As canções de papel machê

As canções de papel machê

As canções de papel machê
As canções de papel machê
As canções de papel machê
Contos As canções de papel machê Ana Cristina Rodrigues 14 14 SAMIZDAT abril de 2010 SAMIZDAT
Contos As canções de papel machê Ana Cristina Rodrigues 14 14 SAMIZDAT abril de 2010 SAMIZDAT

Ana Cristina Rodrigues

14 14

SAMIZDAT abril de 2010

SAMIZDAT abril de 2010

http://www.flickr.com/photos/krister462/4118306782/sizes/l/

Eu consegui minha pri- meira guitarra no verão de 1969. Para isso passei um ano inteiro guardando o di- nheiro ganho ajudando meu pai na mercearia. Empacotei milhares de dúzias de ovos, ensaquei compras para todas as senhoras de perfume enjo- ativo da vizinhança, esfreguei o chão até ele ficar brilhan- do. E valeu a pena.

A primeira semana de fé- rias, passei trancado no meu quarto. Eu e a guitarra. To- quei até meus dedos sangra- rem e criarem calos. Quando achei que dava para enganar, dei o passo seguinte: criar uma banda. Eu na guitarra, João, meu melhor amigo, no baixo e a irmã dele na

bateria. Judite era mais velha, mas apoiou o projeto desde

o início.

Só faltava uma voz. Pre- cisávamos de alguém para cantar, e Dite trouxe Clarice para minha vida. Desde a primeira vez que a vi, no primeiro ensaio sério de nossa banda, seu olhos doces no rosto calmo e o sorriso sereno ficaram marcados na minha memória.

Ali começara a carreira efêmera do “Papel Machê”, nome sugerido pela própria Clarice. Sabia que não dura- ríamos muito, mesmo assim foram os melhores dias de minha vida. Os bailinhos de sábado do quarteirão eram animados por nós com versões dos grandes sucessos da época. A voz de

Clarice adoçava tudo, e viver valia a pena. Toda a tarde, tocávamos na sorveteria do bairro. Nosso pagamento era

a banana split especial, que

podia ser dividida com folga pelos quatro. E vez por outra, uma festa não renumerada de algum amigo.

Claro, algumas confusões aconteceram. Na festa de aniversário da minha prima,

um amigo dela fez um convi- te para a nossa baterista. Ele não sabia que Mario, o namorado gigantesco da Dite, também estava presente. A briga generalizou-se, João quebrou o nariz e Judite três unhas, mas os instrumentos não sofreram nada.

No fim do verão, demos nosso último show. Dite iria casar-se e depois da confu- são, Mario havia se tornado contrário à participação dela na banda. João e eu, ambos fazendo dezoito anos, ia- mos prestar serviço militar. Depois do final do baile, nos despedimos, prometen- do uma reunião da banda em breve. Os dois irmãos foram para casa, enquanto eu acompanhei Clarice, que morava mais perto de mim.

Os sentimentos entalados na garganta, por meses a fio, pareciam sentir o fim da estação. Queriam irromper, aproveitar os últimos dias de calor, antes que tudo termi- nasse.

Não consegui. Andávamos lado a lado, como fizéramos tantas vezes naquele verão. Discutimos sobre tudo o que não era importante. Lembra- mos os shows, as confusões, as brigas de João e Dite por qualquer bobagem

Paramos em frente à casa dela e continuamos a conver- sa, encostados no Porshe da mãe de Clarice.

Ela fitava as estrelas, que pareciam reluzir no seu olhar Evitava virar o rosto para mim enquanto falava. De repente, após um súbito silêncio, ela suspirou e olhou para mim.

- Sabe porque eu sugeri o nome “Papel Maché”?

nha, cada parte é lixo, mas juntas fazem lindos objetos. Como nós

- A banda?

- Sim, eu queria que esse

verão não acabasse nunca

banda, cantar

de vocês. Principalmente a sua, Paulo. Você foi impor- tante demais para mim.

O coração bateu, descom- passado. Era agora.

A

A companhia

- Clarice, eu

- Meu pai foi transferido

para outro estado. Mudamos-

nos em uma semana. Passei

o verão inteiro querendo não

pensar nisso, em tudo o que vou perder. E vocês consegui- ram, mesmo que agora eu vá perder ainda mais coisas do que antes

Beijou-me de leve na boca e foi em direção à casa. Eu

fiquei ali, parado, olhando ela se afastar, o coração apertado com tudo o que eu não disse

e nunca ia dizer.

Assim terminou o verão de 1969. Cresci, casei, tive

filhos e enviuvei. Em cima da mesa do meu escritório, as fotos da minha família. Em um canto especial, um porta- retrato de papel maché, com uma foto dos quatro inte- grantes do conjunto, tirada antes da última reunião pelo

pai dos dois irmãos

me enviara alguns anos de- pois. Ela atrás, abraçada com

João, os dois fazendo careta. No primeiro plano, Clarice

e eu, rindo. Nunca mais vi nenhum deles.

Penso que aquele verão poderia ter durado para sem- pre. Foram os melhores dias da minha vida, os do verão

de 1969.

Judite

- Eu nem sei o que é

- É uma forma de artesa-

nato. Pedacinhos de papel

amassados e colados

Sozi-

Contos

Fátima Romani
Fátima Romani
Contos Fátima Romani Saudade 16 SAMIZDAT abril de 2010

Saudade

Contos Fátima Romani Saudade 16 SAMIZDAT abril de 2010

http://www.flickr.com/photos/krister462/4118306782/sizes/l/

Acordou em uma cama de hospital, sem entender direito ainda o que havia acontecido. Só se lembrava da derrapagem, da chuva, da dor quando fora jogada para fora do carro, quebran- do as costelas e mais nada. Onde estavam os outros? Ela estava a sós naquele quarto. Desespero, solidão

Estava muito longe de casa, era uma viagem de férias, estavam a caminho de uma praia distante, um acampamento, gostavam tanto disso, principalmente Carlinhos, que levava tudo na brincadeira. Seu filho, um menino lindo de dez anos que amava a natureza

e aventuras.

E Paulo? Sempre fora um bom motorista e a veloci- dade nem estava tão alta, mas a estrada mal cuidada

e a chuva forte e inesperada não lhe haviam dado chan- ce de escapar da derrapa- gem.

Olhou para si mesma, as costelas enfaixadas, por causa da fratura, com certe- za. Ainda sentia dores, mas parecia que estava tudo no lugar. Apertou a campainha ao lado cama, precisava ur- gentemente de informações, alguém que lhe dissesse onde estavam seu marido e seu filho. Depois de alguns minutos transformados em horas pela ansiedade e pela incerteza, uma enfermeira entrou, finalmente.

“Por favor, onde estão meu marido e meu filho?”

“Calma, senhora, preci- so do nome e do telefone

de alguém que possa vir buscá-la.”

“Depois

Porque não me

diz logo? Estão em estado grave?”

“Infelizmente, só vai po- der saber depois que o mé- dico que a atendeu chegar.”

Quando o médico, um ortopedista, chegou, não veio só, estavam com ele uma assistente social e um psiquiatra. A notícia era mais séria do que ela pen- sava. Em primeiro lugar lhe deram um tranquilizante forte, depois, foram lhe con- tando todos os detalhes.

O carro tinha capotado, rolado pelo barranco, ficado

completamente destruído, Paulo e Carlinhos presos nas ferragens, ela só escapa- ra por ter sido jogada para fora. Estar dopada salvou-a

de novo, o choque não a matou ali mesmo, naque- le momento, ao saber da notícia.

Teria que voltar à sua casa, rever tudo, não pode- ria abandonar tudo o que seu marido e ela haviam construido juntos, desde namorados. Agora, não esta- va mais inteira, haviam-lhe arrancado, de repente, as partes mais importantes de sua vida. Como na canção de Chico Buarque:

Oh pedaço de mim

Oh metade arrancada de mim

Leva o teu olhar

mento

É pior do que se entrevar

Ela e Paulo sempre tinham sido como duas metades, é muito difícil encontrar alguém como ele, alguém com quem se en- contra paz, só de olhar, olho no olho, coração pra cora- ção. E Carlinhos, também seu filho tinha ido embora. Uma mãe não foi feita para perder um filho. O contrá- rio sempre acontece, é a lei natural, os mais velhos vão primeiro. Enterrar um filho é enterrar um pedaço da gente, que foi tirada de dentro da gente, cresceu ali, nove meses, e depois ain- da continua ligada a nós Outro trecho da mesma canção:

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu

Eles foram embora e ela

ficou

agora, tinha muito ain- da que viver, pessoas que poderiam precisar dela. Precisaria retrabalhar esse luto, transformá-lo em algo que lhe permitisse viver. Lembrou-se de uma frase que lera um dia:

“Saudade é o amor que fica.” Ela ficara, o imenso amor pelos dois ficara, jun- to com a saudade.

Não

poderia segui-los

Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esqueci-

Contos Henry Alfred Bugalho Seda Branca Exausto, larguei armas e chapéu e meti a cara
Contos
Henry Alfred Bugalho
Seda Branca
Exausto, larguei armas e
chapéu e meti a cara no rio.
Caminhava há dias, após
haver sido destacado para
as fronteiras do Norte. O
Imperador Qinzong temia
os revoltosos que se proli-
feravam na região e concla-
mara guerreiros de todos os
rincões do mundo.
agrisalhados, descendo em
direção ao rio.
Já ouviu algo a respeito do
“Homem de Branco”?
Saudei-o e recebi a
resposta de que vinha em
paz. O viajante se sentou
ao meu lado e acendeu
uma fogueira. Anoitecia e
compartilhamos um jantar
improvisado.
Neguei.
Ouvi som de flauta e me
pus em alerta, espalhava-
se o rumor de que bandos
de ladrões e assassinos se
escondiam na floresta, mas
avistei um senhor, cabelos
Decorridas horas de si-
lêncio, o senhor falou:
Estou cansado, vivi mui-
tas dificuldades nestes
últimos meses e não encon-
tro pouso em lugar algum.
O nome de nascimento
dele era Bai Hong-nu, fi-
lho duma família humilde,
educado para ser soldado,
assim como vejo que você
é. Lutou em muitas guerras
e caiu nas graças do Im-
perador. Foi promovido a
general, senhor de muitos
guerreiros, e venceu todas
as batalhas na quais pe-
lejou. Porém, numa noite,
quando o Imperador aden-
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trou o alojamento da con- cubina favorita, encontrou Hong-nu adormecido nos braços dela.

Enfurecido, o Imperador conclamou a guarda, com ordens para executar Hong- nu, porém, este, com expe- riência de anos a serviço do Imperador, conhecia bem o castelo e suas incontáveis passagens secretas; neste la- birinto, Hong-nu se embre- nhou e escapou da sanha inclemente do Imperador. Fugiu para o Norte e apa- gou seu passado. Vestia-se apenas de branco, na ausên- cia dum nome, nos povoa- dos onde passava, alcunha- ram-no Wán, o homem da seda branca.

Wán olvidou seu passado de guerra e, de vila em vila, evitando as grandes cida- des, pregava uma inusitada mensagem de paz e perdão. Arrebanhou discípulos, que ouviam fervorosamente seus ensinamentos. E eram tantos, que fundaram um povoado.

Pessoas vinham de todas as partes para escutarem as

lições de Wán e sua reputa- ção alcançou o grande Céu. Guerreiros baixavam armas

e se uniam aos acólitos de

Wán, esposas abandonavam seus lares para acompanha- rem o sábio.

Porém, sutil e impercep-

tivelmente, o conteúdo da doutrina de Wán começou

guerra eram contrapartes do bem e da paz. Aos seus

discípulos, propagava que

o tempo de paz estava por

terminar e que, em breve, quem o amava teria de brandir armas contra um poderoso oponente.

Assim, no início da pri- mavera, Wán e um exército de cem mil combatentes se dirigiram ao Sul, com a missão de matar e destro- nar o Imperador Qinzong. Wán era um dissimulado, durante todo este período, ele apenas buscava uma oportunidade para se vin- gar do Imperador que o degradou e lhe retirou a mulher amada, à qual, di- ziam, Qinzong havia man- dado decapitar.

Inevitavelmente, o Impe- rador designou tropas para deter o exército de Wán. Durante três meses, Wán desbaratou o contingente

imperial, porém, a escassez de suprimentos, o cansaço

e as chuvas incessantes do

verão foram responsáveis pelos primeiros revezes. Re- cuaram para as montanhas.

Vendo a grande oportu- nidade para derrotar o opo- nente, o Imperador enviou

um grande exército, que cercou Wán e seus guerrei- ros. Emboscados nas monta- nhas, o fim era evidente.

O exército de Wán tinha

duas escolhas, lutar até a morte e os que fossem cap-

a

mudar. Da paz, abnegação

turados sofreriam torturas

e

perdão incondicionais,

e

ultrajes inimagináveis, ou

Wán instruía que para tudo neste mundo há exceção, de que não há claridade sem sombras, e que o mal e a

desistirem e privarem-se de suas próprias vidas.

Wán deliberou com seus capitães e concluíram que,

por ser a morte inadiável, todos se matariam ao nas- cer do sol.

Quando os tambores do Imperador soaram e as tropas iniciaram a marcha rumo ao bastião de Wán, trinta mil revoltosos, pu- nhais mirados para o cora- ção, sangraram até a morte.

As tropas imperiais não encontraram sobrevivente algum.

E você estava entre os soldados do imperador, para saber tudo isto? Perguntei.

O senhor acendeu um

cigarro e, com um sorriso iluminado pela claridade da fogueira, respondeu.

Não. Estive com o pu- nhal afiado no peito, mas, no último instante, refleti:

Somos muitos, não conse- guiremos escapar, mas um só homem facilmente se envereda nas montanhas e some.

Sou Bai Hong-nu, conhe- cido como Wán, o homem da seda branca. O punhal não entrou no meu coração. Vivo e congrego um novo exército. E você será meu primeiro guerreiro.

Com que forças eu pode- ria resistir àquele homem, que trazia no olhar a ener- gia do Céu, da Terra, do Fogo e dos Ventos?

A minha espada é sua,

Wán. Respondi. Até a mor-

te.

Contos

a carta I

a carta I

a carta I
Contos a carta I Maria de Fátima Santos Minha querida Matilde Escrevo-te de um lugar de
Contos a carta I Maria de Fátima Santos Minha querida Matilde Escrevo-te de um lugar de
Maria de Fátima Santos

Maria de Fátima Santos

Minha querida Matilde

Escrevo-te de um lugar de guerra

Um lugar sem nome

Escrevo-te num dia da semana entre dois domingos – será hoje dia santo?!

E nem sei se é Janeiro, ou se será Dezem- bro, ou um outro mês que fique de per- meio

Mas o ano em que escrevo, esse, sei: mil novecentos e sessenta e oito

Eu já fiz vinte anos e tu farás dezoito.

Matilde bem amada

Consolação da minha alma triste. Can- ção que me cantam os anjos quando ando de arma em punho a catar sei lá eu bem que inimigo.

Tão calmos que eram os teus abraços. Neles me aninho em sonhos doces, como doce é o teu regaço onde irei deitar-me todos os dias que me restarem depois deste degredo.

No teu colo macio é onde durmo quan- do tenho a bênção de um recolhimento. E revivo-te.

Meu querubim, minha alfazema, meu tesouro ignoto de preciosas pedras. Minha abelha rainha, imensamente nua daquele pano.

Tu a unires as sobrancelhas, a franzir os teus olhos mais verdes do que os muitos verdes por onde me caminho.

Tu a dizer-me: a capulana, deixa estar, Tiago, que ela há-de soltar-se.

E rias-te, desengonçavas o teu corpo mui- to virgem para rires do meu desassossego, das minhas mãos tremendo por não sabe- rem como desatar os nós dos teus vestidos, não terem o mister de retirar os panos com que tapavas os segredos do teu corpo.

Naquela tarde, a tua capulana estava atada com um nó corrido. Quando o nó se desfez, assim num por acaso, surgiu o teu corpo livre de mais atavios. Sublime.

Tu, minha Matilde, a mostrares-te nua, e eu de olhos piscos como se os entonteces- sem luzes de meio-dia em Agosto.

Ai Matilde, minha doce Matilde, que na- quela tarde cheiravas a sargaço e a limos. Ou seria de estarmos na maré vaza e o cheiro vinha dos caranguejos que por ali se passeavam, e das lapas, curiosas, a solta- rem-se das rochas?

Seria o cheiro que tu tinhas, ou seria a maresia, minha doce amante, minha queri- da?

Mas que importa saber a que cheiravas, se eu sei que o teu perfume é o dos lírios no altar de todas as Nossas Senhoras que há por esse mundo?!

Minha adorada Matilde!

Deste lugar de sangue e ódio, deste local tão longe, envio-te mãos cheias, cordões e mais cordões de letras a dizerem: Amo-te. Que a palavra se repita, que reverbere dela o ar dos locais onde respires.

Este que será teu para toda a eternidade

Tiago

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SAMIZDAT abril de 2010

SAMIZDAT abril de 2010

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a carta II
a carta II

a carta II

a carta II
a carta II Maria de Fátima Santos Meu querido António É madrugada e
a carta II Maria de Fátima Santos Meu querido António É madrugada e
Maria de Fátima Santos

Maria de Fátima Santos

Meu querido António

É madrugada e eu levantei-me zonza de sono. Acordei com o lençol gelado. A cama tão fria na zona onde devias deitar-te. E é hoje, que estamos no Inverno, e chove, e tem até nevado. Mas foi assim tal e qual no pino do Agosto.

Tenho a mantilha preta sobre os ombros e tirito. Vou ligar o aquecimento. Agora estou melhor. Mas este frio é outro.

Este frio não se acomoda com as molé- culas subindo moles pelas paredes da sala onde te escrevo. Este meu frio não vem do ar circundante que dança numa roda de ar quente. Este frio não me arrefece as solas dos pés que estão morninhas metidos nas pantu- fas que me deste num Natal passado.

O frio que me tolhe, não impede que os dedos das minhas mãos escrevam cada letra:

eu a querer dizer-te, simplesmente, amo-te, morro de saudades, e eles a inventarem pala- vras soltas, a dizerem do frio que me enrege- la a alma desde há tantas noites.

Não lhes perdi o conto.

Aponto-as, uma após a outra, tal como as manhãs e as tardes.

Com giz da cor do fogo, faço um traço em cruz como me ensinaste, numa folha de calendário que pendurei na parede. Aquela parede branca da cozinha.

Um dia olhaste para ela de cima abaixo, e pediste, mais ou menos com estas palavras, e os teus olhos luziam com a luz que lhes era de costume, aquela que me alumia hoje apenas de recordá-la:

Não pendures nada neste muro.

Nada que não seja, um dia que aconteça,

um calendário em que, um de nós, o destino sabe qual da gente há-de aí escrever, um dia a seguir ao outro, o tempo de falta para nos reencontrarmos, seja no céu ou no espaço, em forma de anjos ou em partículas liberta- das de cada um dos nossos átomos.

Foi assim que disseste, e agora deu-se: foi no Natal passado que deixaste de ser o Antó- nio a entrar, risonho ou rabugento, as botas enlameadas a pisarem cada bocado de tapete.

Serás anjo ou pedaço desintegrado, amo-te demais para ficar chorando.

Estas cartas de amor, como lhes chamo, fazem abater em mim o frio de que padeço, e volto para a cama certa de que um dia destes tenha resposta tua no correio.

Maria Angélica

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Contos

Contos Simplício Aroeira descobre o que é a Morte Cirilo S.
Contos Simplício Aroeira descobre o que é a Morte Cirilo S.

Simplício Aroeira

Simplício Aroeira descobre o que é a Morte
Simplício Aroeira descobre o que é a Morte
Simplício Aroeira descobre o que é a Morte
Simplício Aroeira descobre o que é a Morte

descobre o que é a Morte

Simplício Aroeira descobre o que é a Morte
Simplício Aroeira descobre o que é a Morte
Simplício Aroeira descobre o que é a Morte
Simplício Aroeira descobre o que é a Morte
Simplício Aroeira descobre o que é a Morte
Cirilo S. Lemos
Cirilo S. Lemos

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SAMIZDAT abril de 2010

SAMIZDAT abril de 2010

O nó precisa ter sete

voltas e correr sem im- pedimento quando eu me atirar ribanceira abaixo. A alvorada é boa hora para morrer. Quando a passara- da começa a algazarra e as abelhas voam e os besou- ros zumbem e as flores se abrem. Alegria besta, essa do bosque, de esfregar na minha cara que tudo vai continuar igual quando eu me for.

Escolho uma mangueira morta para pendurar o laço. Que nada vivo divi- da comigo o crédito pela minha morte.

O morro não é muito

alto: arredondado, cortado por um barranco onde vagabundo despeja carcaça de carro, lixo e, desconfio, corpo de gente. Encosta- dinha na borda, a árvore morta, cuspindo raiz para além do barro seco. Atrás de nós, a estrada de terra de onde vim.

A forca me espera, mas

não posso deixar de es- piar os urubus trocando olhares, sussurrando rapi- nagens de urubus. Estão

falando de mim, aguardan- do ansiosos para saborear meu cadáver.

Isso vai ser um proble- ma.

Bebo um grande gole da garrafa de cachaça que carrego dentro do paletó.

Meu cadáver é para apo- drecer na terra, alimentar as ervas que crescem em tufos por entre os carros calcinados, adubar esse pe- dacinho da mãe terra. Não pra engordar urubu. Não pra virar bosta de urubu. Se eu quisesse ser bosta, bastaria continuar vivo.

Mais um gole de cacha- ça, que é pra compensar o tempo perdido.

Esse sou eu: velho, po- bre, bêbado, quase um mendigo. O que foi que construí nessa vida? De que me valeram todos aqueles livros lidos, todas aquelas besteiras escritas, toda aquela abstinência de álcool? O tesouro que acumulei é esta barba desgrenhada e cinza a se misturar com o cabelo, é essa bengala, é esse cache- col imenso pendurado no pescoço nem sei pra quê.

Dá trabalho subir nos galhos secos da mangueira, mas eu consigo. Passo o nó corrediço no pescoço e

o ajusto com cuidado. Não

há para que ter pressa:

suicídio é arte, um teatro cujos atos devem ser exe- cutados bem devagar. Há que se degustar cada sen- sação, o toque do vento e do sol e da corda na pele, saborear a textura de cada uma, o doce e o amargo na saliva, o medo de viver

e a angústia de morrer.

Morrer é, sim, uma experi- ência da vida. Pois vamos lá.

Equilibro-me no galho,

a corda no pescoço. Daqui

posso ver a serra azulada contornando o horizonte, ondulando feito o álcool no meu sangue. Estufo o peito, recito versos de um poeta morto e pulo.

A traquéia quebra, mas

o que me impressiona

mais é o estalo do galho se partindo logo acima de mim. Rolo pela ribancei- ra como um pneu velho, um turbilhão de trapos

e cabelos quicando nas

pedras e raízes. A poeira me entra nos olhos, boca, ouvidos, nariz, em cada poro e cada orifício, en- quanto eu penso: isso não acaba nunca?

Mas acaba. Deitado em meio ao lixo, aos cacos de vidro, aos dejetos e toda sorte de sujeira, eu vejo que acaba. Ossos que- brados, cortes profundos

e sangue vazando pela

boca, um gosto enjoativo de ferrugem e cachaça. O pescoço parece não existir mais. Só resta a sensação nem boa nem ruim de um completo vazio onde deve- ria estar o corpo.

A visão agora é um

quadro desfocado e imutá- vel: uma parede de lixo ao lado esquerdo, uma árvore

ressequida coalhada de

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urubus assustados e um céu de chumbo brotando do chão e preenchendo todo o fundo. Alguma

coisa está muito errada.

O céu não deveria sair do

chão nem o lixo formar uma parede vertical. Isso

só se explicaria se eu esti-

vesse deitado com o lado esquerdo no solo. Acho que é isso, então. Não dá para saber ao certo, a visão vai e volta e eu não consigo perceber nenhum outro sentido funcionando. Olfato, paladar, audição, nada disso é acessível agora.

Quanto tempo se pas- sou desde que saltei do barranco?

Agora que não passo de uma cabeça confusa presa a um corpo evanes- cente, o tempo se desfez num único e interminável

agora. No final das contas, morrer não é exatamen-

te como eu imaginei. A

mesma monotonia de estar vivo, mas não se pode cha- tear ninguém com recla- mações.

Sonho: uma ruiva gri- tando comigo na porta de um bar, nós dois bêbados o suficiente para discu- tir nossa vida sexual em público. Ela não é minha mulher, não tenho idéia de quem possa ter sido.

Um avião passa fazendo sombra no meu rosto.

Não posso ouvi-lo, ape- nas preencher com a ima- ginação seus movimentos

mudos.

É outro devaneio, penso.

Mas vejo que não: é um lagarto gigantesco acima de minha cabeça.

Não, nem lagarto, nem avião. Consigo distinguir o bico nojento, a pele sar- nenta debaixo das penas escuras e fedorentas. Seu olho a me observar tal qual um planeta imenso pairando nas alturas. Em algum lugar abaixo do pescoço, meu corpo deve estar tendo calafrios de pavor.

A primeira bicada ar- ranca-me o lábio superior. Posso senti-lo descarnado, deixando à mostra parte das gengivas roxas e dos dentes. O urubu ergue a cabeça para engolir a car- ne. O movimento de sua garganta empurrando meu lábio para seu estômago é engraçado. Dou-me conta de que nunca vi um bicho desses tão de perto. Ele abre suas asas e arranca mais um naco da minha boca, esculpindo-me um sorriso perpétuo. Mais urubus se aproximam, os bicos escancarados. Quan- do um deles estoura meu olho, é como uma explo-

são de luz e fogos verme- lhos por todo o universo. Então só resta escuridão e um banquete.

Três sonhos a me ocu- par nessa letargia monó- tona.

Uma moça da minha juventude, que se abaixa graciosa para apreciar um desenho feito a giz na calçada, os cabelos de um castanho escuro que reful- ge um brilho prateado. Ela sorri para mim depois de falar de alguém querido que sofrera morte fortuita. Um sorriso de pura tris- teza, e ainda assim o mais belo que eu já vi.

Um livro de Nietzs- che me cuspindo na cara que Cristo era um idiota, assombrando-me com palavras hereges e sujas, até ser usado por minha tia para alimentar uma pe- quena fogueira nos fundos do quintal.

A visita a uma casa de repouso próxima à Cen- tral do Brasil. Por fora a beleza da arquitetura, por dentro os corredores de cerâmica ensebada, abarrotado de espectros humanos revolvendo-se na própria sujeira. Uma celebração ao que somos lá no fundo.

Imagino, abrigado den- tro da treva profunda, que

não tenho mais rosto, só uma massa pútrida de res- tos de carne e ossos escu- recidos. Nesta eternidade que estou aqui – um dia ou mil anos – muito refle- ti sobre o que é a morte. E cheguei à conclusão de que é como uma fila de banco, só que bichos car- niceiros fazem coisas com seu cadáver. Isso é a mor- te. Nada de harpa, nada de tridente. Apenas um longo e tedioso aguardar.

Algo mordisca a borda da minha consciência.

Um intruso em meu vazio?

“Quem está aí?”

A resposta vem na forma de um serpentar na base do pensamento. Assusto-me: algo se ali- menta da única coisa que ainda ficou de mim.

Um novo serpentear me agita a mente. Seja o que for, parece procurar por algo. Reconheço a sensação de mordida. Pela primeira vez desde que me matei, sinto algo se- melhante a dor. Vem em ondas, irradiadas a partir do ponto onde o invasor se conecta comigo através do abocanhar agudo.

Posso ouvir sua voz, tocar seus sentimentos doentes e a partir disso delinear sua forma: um verme. Formado por cente-

nas de outros vermes.

“Podemos nos alimen- tar de você, querido?”, ele sibila, uma forma de cobra

horrenda, translúcida, leitosa.

Minha mente estreme- ce e se encolhe. O verme avança e devora outro pedaço dela. De mim. Ele ri do meu desespero, sabo- reando lembranças minhas da infância, sonhos, emo- ções. Outra mordida e lá se vai a imagem da moça graciosa de cabelos casta- nhos, o sorriso inesquecí- vel transformando-se num suco adocicado a escorrer pela boca arreganhada do verme.

Bocado por bocado, ele vai comendo tudo o que fui. Contorce o corpo de prazer a cada mordida. Eu me torno cada vez menor, até que tudo o que resta de mim, de todas as coisas que fui e de cada aspecto que assumi, é o medo da última mordida.

E quando ela vem, até mesmo o medo se dissipa. Nem o verme me assus- ta mais. Agora eu e ele somos um, e juntos ras- tejamos de volta para as profundezas do nada.

Um detetive

Uma loira gostosa

Um assassinato

E o pau comendo entre as máfias italiana e chinesa.

O COvil dos inOCentes

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Contos o mergulho José Guilherme Vereza Que coragem que nada. Bastou Maria Neuza ouvir dizer
Contos
o
mergulho
José Guilherme Vereza
Que coragem que nada.
Bastou Maria Neuza ouvir
dizer da maior atração do
novo parque de diversões
da cidade, um bungee jump
de 130 metros de altura,
para despertar sua inquieta
curiosidade pelo desconhe-
cido. Decidiu pelo mer-
gulho e pronto, ninguém
precisou saber disso.
doer o pescoço. Fez sinal
da cruz, pegou o elevador -
uma gaiola que subia ran-
gendo e deixando a cidade
em miniatura. Lá em cima,
deixou-se amarrar. E nem
pestanejou.
tecendo em volta. Tentou
movimentar pernas e bra-
ços, mas percebeu que não
tinha controle sobre nada.
Era um crucifixo estático
voando de cabeça para bai-
xo. Enfim, o nada.
Foi num dia comum,
logo que o parque abriu
suas portas, entre dez e
onze da manhã.Olhou a
lonjura do topo da torre até
A primeira sensação foi
o vento cortando o rosto,
criando rugas e pregas com
sobras de pele. Os olhos
foram obrigados pela ob-
viedade da física a ficarem
bem fechados,o que im-
pedia qualquer espiadela
para ver o que estava acon-
Os ares de uma liberda-
de jamais provada foram
batendo no seu corpo, numa
velocidade fria e vertical.
Veio também a certeza
plena e incontestável de que
não podia deixar escapar a
única chance na vida de se
sentir dona absoluta de si
http://www.flickr.com/photos/syymza/3952429571/sizes/l/

mesma.

Big Brother e acabou posan-

dia seguinte. Experimentou o Kama Sutra em praias, poltronas de primeira classe de avião,últimas filas de cinemas, caçambas de roda gigante, bancos de fusquinha. E ainda inventou novas formas de amar e ser amada.

Quando se sentiu reali- zada e feliz, fez uma força imensa para abrir os olhos, enfrentando o vento que castigava as bochechas, lhe comprimia os peitos, e eter- nizava um sorriso sincero e restaurador. Precisava espiar só um pouquinho o que de fato e de real se passava em sua volta.

 

E Maria Neuza viajou.

Primeiro foi à Europa, onde se entupiu de vinho, museus e perfumes. Depois, à África negra, quando as savanas e as hienas pare- ciam jardins e bichinhos de estimação. Achou chato. Partiu logo depois para a Oceania, aportou em Hong Kong, deslumbrou-se com os néons de Tóquio, foi di- reto para Nova York, onde encheu sacolas e o saco de tanto passar cartão de crédito.

Cansou.

do nua na Playboy. Que se danem os vizinhos. Naque- les instantes intermináveis e vertiginosos,

Maria Neuza era senhora absoluta das suas opiniões, caprichos e desejos,e em nome deles mergulhou mais ainda.

Comeu pato assado com carambola, strogonoff de salsichão,bebeu vinho branco com picanha, cus- piu arroz trufado e pediu doce de abóbora de sobre- mesa.Mostrou a língua pro maitre metido a besta e arrotou.

Gostosos momentos.

Preferiu sensações mais intimistas. Como por exem-

plo, a felicidade secreta de ser reconhecida, rica, famo- sa, respeitada. Experimentou também o aconchego de uma família amorosa, com

Resolveu variar os sabo- res. Da mesa do restaurante granfino, saiu à cata dos meninos que não namorou nos tempos da escola e,

Dos sonhos, restavam apenas alguns centímetros.

Nem teve tempo de sen- tir saudade.

a

completude de um raro

mesmo podendo encon- trar todos, preferiu um só, exatamente aquele de quem nunca tinha recebido ao menos um picolé.

E foi fundo. Urrou de gozar por todos os poros. Revisitou seus âmagos o mais que pode, tantas vezes quis.

Enjoou do rapaz, asco súbito. Pegou outro, mais

Foi puxada subitamen- te para cima pelo feixe de elásticos e nylon, preso aos pés e à cintura. E como um iô-iô perdendo a sua força, lembrou que tinha esque- cido a panela de feijão no fogo.

Talvez queimasse o almo- ço.

marido, filhos, empregada de forno e fogão,faxineira,

passadeira, carro do ano na garagem e cachorro que não faz cocô no tapete. Dos filhos, deu pra ver bem as suas caras. Eram lindos, sadios e inteligentes. Os primeiros já eram adultos formados pela vida e pela melhor das universidades. A caçulinha, uma coisa linda

Talvez apanhasse do marido.

e

espevitada, olhos azuis e

outro e mais outro, tantos que enfileiravam-se aos seus pés. Recebeu flores de cada um deles, a cada

pele dourada preferiu ou- tras trilhas: foi finalista no

aos seus pés. Recebeu flores de cada um deles, a cada pele dourada preferiu ou- tras

http://www.flickr.com/photos/bobydimitrov/2961805198/sizes/o/

Contos

a

http://www.flickr.com/photos/bobydimitrov/2961805198/sizes/o/ Contos a Léo Borges repulsa 28 SAMIZDAT abril de 2010

Léo Borges

http://www.flickr.com/photos/bobydimitrov/2961805198/sizes/o/ Contos a Léo Borges repulsa 28 SAMIZDAT abril de 2010
http://www.flickr.com/photos/bobydimitrov/2961805198/sizes/o/ Contos a Léo Borges repulsa 28 SAMIZDAT abril de 2010

repulsa

Ana, nas aulas de dese- nho, sofria com a humi- lhação dos coleguinhas. Diziam que a menina só sabia encher os papéis com contornos esquisitos, linhas perdidas que pareciam pos- suir significado apenas para ela. Naquele dia, entretanto, enxergaram algo em seus traços.

Só que o que viram não foi um jardim florido ou nuvens escondendo o sol, paisagens que, normalmente,

habitam o imaginário infan- til. E apesar de Ana garantir que seu desenho era um fofo bebê, ele foi entendido pelas outras crianças como

o mais asqueroso dos inse-

tos: “Ela desenhou uma ba-

rata!”, enojaram-se. Algumas chegaram mesmo a vomitar

e a menina foi admoesta-

da por um dos instrutores:

“não desenhe mais esse tipo de coisa!”. A forma que o amontoado de riscos tomou teria sido apenas repulsiva se o transtorno que passou a causar não fosse tão pertur- bador. Mas, mesmo assim, Ana não se livrou de sua estranha arte, guardando-a como a mãe que protege o filho aleijado das injúrias e maldades.

De início, se entristeceu profundamente com a oje- riza criada. Percebeu, con-

tudo, que se viram sentido no desenho, pelo menos foi compreendida. O importan- te para ela era conquistar a atenção através das linhas e, por isso, mesmo com um re- sultado tido como medonho,

o inverso do que pretendia,

ficou alegre.

Para melhor defender

sua criação, refletiu sobre o medo que as pessoas tinham por baratas e não enxergou fundamento nesse temor. Se elas transmitiam doenças

é porque andavam sobre o

lixo e excrementos que os

próprios humanos produ- ziam. Não era incomum Ana se deparar com estes pequenos artrópodes nos

armários da cozinha, pelos ralos, sob o fogão e até mis- turados ao enxoval do ir- mão que ainda não nascera.

E a impressão que tinha, em

qualquer dessas situações, era sempre a mesma: bichos inocentes, fugidios, com- panheiros do lar, criaturas

divinas que, inadvertidamen- te, se expunham, prontas para serem esmagadas. O problema, como ficava claro

para a garota, não eram os insetos, mas as pessoas, cujo pânico nada mais era que um sinal inequívoco de fraqueza.

Ana, naquela noite, resol- veu escrever em seu diário o ocorrido na escola e men- cionou que omitira o fato de sua mãe. Na rápida conversa que mantiveram no jantar, Fergônia estranhou o sorriso que não deixava a filha. Não

a via assim desde que com-

prara as canetas para colo- rir. Na ocasião, pediu para que Ana desenhasse em seu próprio ventre, no sexto mês de gestação, um rosto sor-

ridente em homenagem ao bebê – o varão que os fami- liares tanto queriam. “Dese- nhe direito, Ana, é um ser muito precioso o que está

aí”. A menina, que passava

a repudiar a ideia de ter um irmão tanto quanto o

fato de não saber desenhar, tratou os rabiscos com uma raiva incontida, apertando a ponta da caneta na barriga da mãe numa ingênua tenta-

tiva de ferir o nascituro, em gestos que, se não fossem tão infantis, seriam realmen- te macabros.

O que alimentava seu ci- úme era o amor despropor- cional que todos tinham por aquele feto, um endeusamen- to desmedido que crescia dia a dia, transformando-

se numa adoração tal que acabava por manter Ana num estado permanente de insignificância. “Está me ma- chucando, Ana”. “Estou me esforçando, mãe! Quero que ele nasça parecido com meu desenho!”. O castigo de Ana por esse episódio não che- gou a ser tão longo quan- to o que recebera quando encharcou com inseticida o berço do bebê vindouro. E nem tão ruim, pois, tranca- da no quarto, ela teve tempo para treinar seus rabiscos nos papéis que encontrou pela frente.

Fergônia considerava a raiva de Ana uma coisa besta e torcia para que seu bom senso aflorasse e a

filha pudesse, enfim, feste- jar também a chegada do menino. Ana pensava pouco nisso, queria apenas contar sobre sua conquista artística, mas este assunto não era importante; secundário, tor- nava-se proibido para que o apetite da mãe na mesa de jantar não fosse incomoda- do. Fergônia possuía pavor mortal de baratas, de modo que amores como o que por ora afloravam, certamente,

teriam um impacto arrasa- dor no convívio familiar.

“Desenhei um bebê, mas minhas amigas enxergaram uma barata. Fizeram cara de nojo, como minha mãe tam- bém já fez. Sentem repulsa

de meus trabalhos. Eu detes-

to as pessoas, seres cruéis e

nojentos. Seria bom se todos

fossem como os insetos, que vivem sem arrogância. Se o que criei foi feio, que tenha sido apenas para os outros.

O bebê de minha mãe, ao

contrário, não é horrível para ninguém, só pra mim”.

Ana, enquanto escrevia, percebeu o pequeno vulto na sua casinha de bonecas. As compridas e finas an- tenas oscilantes não dei- xavam dúvidas: era uma

barata! Sem ser apenas mais uma entre as inúmeras que existiam pelos cômodos, esta parecia mais íntima e provava isso, andando livre do comportamento arisco que caracteriza a espécie.

O coraçãozinho da menina

pulsou forte pela alegria do encontro. A barata, cuja sombra aumentava à medida que se contrapunha à luz do abajur, transitava com mansidão entre as canetas de colorir. Já a menina, que curtia o farfalhar típico, de- sejou que sua mãe também viesse apreciar a casinha

de plástico servindo como palco para o desfile de tão rejeitado ser.

Estacionada perto de um dos brinquedos, a barata, de

súbito, se espremeu e entrou pela roupinha de uma bone-

ca sem braço, inchando-a e

causando-lhe a impressão de estar gestante. Ana lembrou-

se imediatamente da imensa barriga da mãe e do que o médico falara: “não se colo- que em situações de grande impacto emocional”. Ver aquela cena foi uma coisa que lhe encheu de prazer, porém, chamar a mãe para compartilhar do seu deleite poderia ser de uma nefas- ta imprudência. Ou talvez não. Quem sabe não seria esta a grande oportunidade para Fergônia se reconciliar com a verdadeira humilda- de, aquela que só os bichos repulsivos possuem?

– Mãe!

O espetáculo fez a meni- na imaginar a mãe parin- do uma barata gigantesca:

primeiro as indefectíveis antenas aparecendo pela va- gina, logo a robusta carcaça

áspera e, por fim, as longas e inquietas patas emergindo com suas inúmeras micros- serras afiadas. O obstetra, primeira testemunha do ex- traordinário acontecimento, usaria de ácida frieza para comunicar o nascimento da criatura: “é bastante saudá-

vel, dona Fergônia

com o horror escapando-lhe sob a forma de suor, contro-

lado apenas pelo interesse sombrio que certos eventos causam, “esta não veio pelo esgoto, veio mesmo por seu útero

Ao se desgrudar do ventre sintético, a barata continuou com o passeio errante, monitorada pelo olhar maravilhado de Ana. Passou por cima do desenho que seria seu espelho, até encontrar restos de biscoi- tos. Feliz, Ana rastejou-se vagarosamente para perto.

”,

diria,

Espichou uma das mãos e,

com singeleza, alcançou o inseto, que ficou estático. O carinho, embora socialmente grotesco, era sinceramente afetuoso. Mas, um súbito

e aterrorizante grito pôs

fim àquela aliança. Com violentas contrações, Fergô- nia – que surgira após ser chamada pela filha – caía tonta, entrando em trabalho de parto.

Os vizinhos, assustados com o que ouviram, arrom- baram a porta e foram pres- tar auxílio. A indiferença de Ana diante da cena só foi menos perturbadora que a aparência inumana daquele bebê, cuja pele possuía uma repugnante textura.

– Nasceu prematuro – foi

a explicação inventada por

uma perplexa socorrista ao ter em mãos a massa amar- ronzada que emitia os pri- meiros grunhidos de choro.

Levaram mãe e filhos para o hospital. Com os olhos esbugalhados, uma das mulheres, acuada no canto da sala, não saiu do lugar

– possivelmente paralisada

pelo medo de acompanhar aquilo a que chamavam de criança. Para que sua pre- sença ali fosse de alguma forma útil, limpou o quarto às pressas. Esqueceu-se ape- nas de certo papel largado no chão. Nele, listras malfei- tas lembravam uma barata, mas as lágrimas e o sangue

da placenta que o man- chavam, destruíam a sua já pouca clareza.

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O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

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Contos

Fragmentos:

iii

. o a

Fragmentos: iii . o a limento

limento

Contos Fragmentos: iii . o a limento Marcia Szajnbok http://www.flickr.com/photos/goodmami/249171435/sizes/l/ 32
Contos Fragmentos: iii . o a limento Marcia Szajnbok http://www.flickr.com/photos/goodmami/249171435/sizes/l/ 32
Marcia Szajnbok
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Marcia Szajnbok

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O importante é picar tudo bem picadinho. Os tomates em cubos, as abobrinhas em cubos, os pimentões, as berinjelas, tudo em perfeitos e simétricos

cubos. Seria bom ver o mundo sempre assim,

chos: cortes rápidos, pura ira dilacerando

os interiores. As berin-

jelas, é preciso que se ponham na água para não ficarem escureci- das. Depois, os peitos sem leite. E o rosto.

O rosto transformado

da concha e das mãos

sujas da menina inde- licada. Livres. O azeite bom vai na panela. Junte o alho. Esprema a berijela num guardana- po branco e limpo. Por último, pique as cebo-

las. Benditas as cebolas

a

vida posta em sime-

e

bendito quem inven-

trias bem medidas. A faca é rápida nas mãos treinadas e os cubos

numa tela de Picasso, mas sem olhos. Dois furos, dois vazios em seu lugar. No fim, o que

tou de picá-las. Elas cedem. As camadas se desmancham ao con-

se amontoam lindos e

restaria? Os ossos. Uma

tato do metal da faca e

coloridos sobre a tábua.

carcaça. Uma cela de

a

água vem, brota em

Como seria fazer-se em cubos? Cortar-se em pequenos pedaços,

calcáreo, uma concha. Era uma vez um mo- lusco que fez de conta

ondas, encharca.A porta abre-se sem cerimônia:

“’tá chorando, mãe?”.

a

começar pelos pés?

que era uma mulher,

está mais lá, o molusco.

Não, filho, não. São as

Os dedos fatiados um a um, como em máquina

mas nunca soube como sair de sua concha. O

cebolas, só as cebolas

de cortar frios. As per- nas, as cobiçadas per- nas, cortadas em tiras, músculos desfiados em meio ao sangue escuro

molusco morre, a con- cha permanece. Não

Só o invólucro. A me- nina na praia apanha a

Fragmentos é uma série de textos curtos, em geral de parágrafo único, que descrevem uma situ-

e

legumes, pensava no corpo. Via-se ali des-

grosso. Picando os

concha, leva-a consigo, cuida do pedaço de cálcio morto como se

ação da realidade e seus ecos no mundo interno dos personagens, como

pedaçada, reduzida aos

houvesse vida. Ah,

se, num documentário

átomos, despida do ser que já não aguentava

como é fácil enganar o mundo! É simples fazer-

da vida real, uma voz de fundo narrasse o que

carregar. A faca afiada

se

de vivo quando vida

se passa no íntimo dos

não hesitaria nas vísce-

não há. Devem rir-se

atores-autores, que aliás

ras moles, empapadas. Nesse ponto, nada de simetrias ou capri-

muito, os espíritos dos moluscos, tão livres agora, tão livres. Livres

poderiam ser qualquer um de nós

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Contos

Contos Maristela Scheuer Deves Sempre há uma verdade (Parte 3)
Contos Maristela Scheuer Deves Sempre há uma verdade (Parte 3)
Contos Maristela Scheuer Deves Sempre há uma verdade (Parte 3)

Maristela Scheuer Deves

Sempre há

uma verdade

Sempre há uma verdade (Parte 3)
Sempre há uma verdade (Parte 3)
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(Parte 3)
(Parte 3)

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SAMIZDAT abril de 2010

SAMIZDAT abril de 2010

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O lugar onde

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Passei o resto da ma- nhã vomitando. Gripe, com certeza, insistiu minha mãe, mas não conseguiu fazer com que eu tomasse mais chá. Eu nunca fora muito fã de alho, mas naquele dia ele decididamente me embrulhava o estômago. Na verdade, era pior: a simples visão do chá me fazia suar ainda mais, ao mesmo tempo em que sentia o frio se apossando do meu corpo.

Achei melhor voltar para a cama, até porque

a claridade do sol pare-

cia ferir meus olhos. A cabeça doía com a luz,

e eu só queria o escuro

do meu quarto, com as janelas fechadas e a ca- beça sob as cobertas. O mal estar continuou o dia todo, e não quis sequer almoçar. À noite, minha mãe conseguiu me con- vencer a sair da cama, prometendo fazer o que eu quisesse para jantar.

— Bife, um bom bife mal passado — pedi, surpreendendo-me assim

que as palavras deixaram

a minha boca. Eu, que

nunca comia nada que estivesse definitivamente torrado, querendo carne mal passada? No entanto,

o simples pensamento do bife escorrendo sangue me fazia salivar.

A situação se repetiu

nos dias seguintes: eu acordava e, embora não tivesse febre (ao contrá- rio, minha temperatura parecia estar até mes- mo mais baixa do que o normal), ficava mal assim que botava os pés para fora do quarto. Só con- seguia comer carnes mal passadas e me recusava terminantemente a ir ao médico — não por medo, mas porque sair ao sol

me deixava quase cega de dor.

O pior, no entanto,

eram os sonhos. Ou pesadelos, talvez eu deva dizer. Neles, eu andava nas ruas, no meio da noi- te, escondendo-me furti- vamente nas sombras. Era uma caçada, mas dessa vez eu não era eu a caça:

eu era a caçadora. E que- ria sangue.

(continua no próximo mês )

é fabricada

dessa vez eu não era eu a caça: eu era a caçadora. E que- ria sangue.

ficina

a boa Literatura

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Contos

Ínfimo brilho

Contos Ínfimo brilho Giselle Sato 36 SAMIZDAT abril de 2010
Contos Ínfimo brilho Giselle Sato 36 SAMIZDAT abril de 2010

Giselle Sato

Ela observava as ondas, deixando que as marolas lambessem seus pés descal-

ços, ignorando a areia grossa, maresia

e

gosto de sal. A barra da saia negra

acumulando fragmentos de conchas e pedrinhas, formando um rastro atrás de si.

 

Seguia a solidão e só havia o vento e

a

água gelada. Mar revolto, vento forte,

o

céu não tomou suas dores e exibiu

o

por do sol mais bonito. Sentiu-se

afrontada e apontou o dedo acusador:

-Sem compaixão ou misericórdia, mila- gres ou acalanto. Vazio! Nada mais tem sentido

O sol em um suspiro tímido, deixou escapar um finíssimo raio, um toque sutil, leve demais

 

Percebendo o ínfimo brilho, aceitou

o

sinal e estendeu a mão cuidadosa.

Sentiu o calor, a mágoa e o rancor en- fraquecidos, aquietaram-se. Então com- preendeu, pela primeira vez, em tantos

e

tantos anos.

E o som do seu coração, encheu os ares Vida!

A mulher guardou o fio de esperan- ça no peito, e em segundos a escuridão abraçou seu mundo de saudades.

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tradução Cães G. K. Chesterton trad.: Henry Alfred Bugalho 38 38 SAMIZDAT abril de 2010

tradução Cães

tradução Cães G. K. Chesterton trad.: Henry Alfred Bugalho 38 38 SAMIZDAT abril de 2010 SAMIZDAT
tradução Cães G. K. Chesterton trad.: Henry Alfred Bugalho 38 38 SAMIZDAT abril de 2010 SAMIZDAT
tradução Cães G. K. Chesterton trad.: Henry Alfred Bugalho 38 38 SAMIZDAT abril de 2010 SAMIZDAT

G. K. Chesterton

trad.: Henry Alfred Bugalho

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SAMIZDAT abril de 2010

SAMIZDAT abril de 2010

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Cínicos geralmente falam

dos decepcionantes efeitos

colisão de barcos no mar, o abraço de jovens alemães e

não encontrará o significa- do desta palavra escrita em

da experiência, mas, graças

o

encontro de cometas no

qualquer livro tão claramente

a

uma, descobri que quase

espaço.

quanto está escrita em minha

todas as coisas não malignas

são melhores na experiên- cia do que na teoria. Pegue, por exemplo, a inovação que introduzi tardiamente em minha vida doméstica; ela

Este é o segundo valor moral da coisa; a partir do momento em que você tem um animal sob seus cuida- dos, logo você descobre o que é de fato crueldade para

alma. Pode estar escrito em um livro que meu cachorro é um canino; e disto pode-se deduzir que ele deveria caçar

é

uma inovação com qua-

os animais, e o que é ape-

cachorro, mas que eu não me

com uma matilha, pois todos os caninos caçam com uma

tro patas na forma de um Terrier Escocês. Sempre me imaginei como um amante de todos os animais, porque nunca encontrei qualquer animal que definitivamente me desagradasse. A maioria das pessoas traça o limi- te em algum lugar. Lorde

nas gentileza. Por exemplo, algumas pessoas chamaram- me de inconsistente por ser um anti-vivisseccionista e, mesmo assim, apoiar espor- tes comuns. E apenas posso dizer que eu até me imagi- no dando um tiro em meu

matilha. Portanto, pode-se ar- gumentar (neste livro) que, se eu tenho um Terrier Escocês, eu preciso ter vinte e cinco Terriers Escoceses. Mas meu cão sabe que eu não lhe peço para caçar com uma matilha; ele sabe que eu não dou a mínima se ele é um canino

Roberts não gostava de gatos;

ou não, enquanto ele for meu

a

melhor mulher que conhe-

imagino vivisseccionando-o. Mas há algo mais profun-

cachorro. Este é o segredo

ço tem objeções a aranhas;

do no assunto do que tudo

real do assunto que evolucio-

um teosofista que conheço

isto, mas já é tarde da noite,

nistas superficiais parecem

e

tanto o cão quanto eu esta-

não captar. Se a história

protege, mas detesta, ratos; e muitos importantes huma- nitários tem uma objeção a seres humanos. Se o cão é amado, ele é amado como um cão; não como um compatriota, ou

mos sonolentos demais para interpretá-lo. Ele está deitado diante de mim, aconchegado diante do fogo, assim como muitos cachorros devem ter

se deitado diante de muitos

conhecida for a prova, a civi- lização é muito mais antiga que a selvageria da evolu- ção. O cão civilizado é mais antigo que o cão selvagem da ciência. O homem civilizado

como um ídolo, como um

fogos. Eu estou sentado ao

é

muito mais primitivo que

mascote, ou como um pro-

lado da lareira, assim como

o

homem da ciência. Sen-

duto da evolução. A partir do momento em que você é

muitos homens devem ter se sentado ao lado de várias la-

timos em nossos ossos que somos primordiais, e que as

responsável por um estimado animal, naquele momen- to abre-se um abismo tão vasto quanto o mundo entre crueldade e a coerção neces-

reiras. De algum modo, esta criatura completou a mi- nha humanidade; de algum modo, não consigo explicar o porquê, um homem precisa

visões da biologia são excên- tricas e efêmeras. Os livros não importam; a noite está chegando e está escuro de- mais para ler livros. Contra

sária de animais. Há algumas pessoas que falam daquilo que chamam de “punição corporal”, e classificam sob

ter um cachorro. Um homem precisa ter seis pernas; aque- las outras quatro patas são partes dele. Nossa aliança é

luz da lareira que se apaga, obscuramente pode-se traçar os contornos do homem pré- histórico e do cão.

a

este título a tortura medonha infligida a cidadãos desafor- tunados em nossas prisões e fábricas, e também ao pe- teleco que alguém dá a um menino travesso, ou à chico-

mais antiga do que as passa- geiras e pedantes explicações que são oferecidas sobre nós dois; antes de haver evolução, existíamos nós. Você pode encontrar escrito num livro

(Este ensaio foi extraído de um artigo do Daily News, mais tarde reunido como “On Keeping a Dog” em Lu- nacy and Letters).

tada num terrier intolerável. Você até pode inventar uma

que eu sou mero sobreviven- te de um embate de macacos

 

http://www.cse.dmu.

expressão chamada “concus-

antropóides; e talvez eu seja.

ac.uk/~mward/gkc/books/

são recíproca” e deixá-la para entender que você inclui sob este título beijar, chutar, a

Estou certo que não tenho objeção. Mas meu cão sabe que sou um homem, e você

dogs.html

4040 SAMIZDATSAMIZDAT abrilabril dede 20102010

Gilbert Keith Chesterton, co- nhecido como G. K. Chester- ton, (Londres, 29 de maio de 1874 — Beaconsfield, 14 de junho de 1936) foi um escritor, poeta, narrador, ensaísta, jor- nalista, historiador, biógrafo, teólogo, filósofo, desenhista e conferencista britânico.

Era o segundo de três irmãos. Filho de Edward Chesterton e de Marie Louise Grosjean. Casou-se com Frances Blogg. Concluiu os estudos secundá- rios no colégio de São Paulo Hammersmith onde rece- beu prêmio literário por um poema sobre São Francisco Xavier. Ingressa na escola de arte Slade School de Londres (1893) onde inicia a carrei- ra de pintura que vai depois abandonar para se dedicar ao jornalismo e à literatura. Es- creveu no Daily News. Nasci- do de família anglicana, mais tarde converteu-se ao catoli- cismo em 1922 por influência do escritor católico Hilaire Belloc, com quem desde 1900 manteve uma amizade muito próxima.

“Assim como se pode conside- rar São Francisco o protótipo dos aspectos romanescos e emotivos da vida, assim Santo Tomás é o protótipo do seu aspecto racional, razão por

que, em muitos aspectos, estes dois santos se completam. Um dos paradoxos da história é que cada geração é converti- da pelo santo que se encontra mais em contradição com ela. E, assim como São Francisco se dirigia ao século XIX pro- saico, assim São Tomás tem mensagem especial que dirigir

à nossa geração um tanto

inclinada a descrer do valor da razão.”

Em uma de suas principais obras, “Ortodoxia”, defende os valores cristãos contra os chamados valores moder- nos, a saber, o cientificismo reducionista e determinista. Dono de uma retórica exem-

plar, coloca em debate crítico idéias como as de Mark Twain

e Nietzsche.

Ao falecer deixou todos os seus bens para a Igreja Ca- tólica. A sua obra foi reunida em quase quarenta volumes contendo os mais variados temas sob os mais variados gêneros. O Papa Pio XI foi grande admirador de Chester- ton a quem conhecera pesso- almente.

Na sua introdução a “São Tomás de Aquino” deixou escrito:

http://www.platypusinnovation.com/static/eif/image/chesterton.jpg

teoria Literária Enigma archinov Leandro da Silva Sobre a relação entre arqueologia do capitalismo, literatura
teoria Literária
Enigma archinov
Leandro da Silva
Sobre a relação entre arqueologia do capitalismo, literatura e memória,
sobretudo as fundamentações histórico-culturais para os direitos humanos
concensuais do agora.
Ao se lembrar de fatos
cia o que se aconteceu nos
e
personagens, totalmente
esquecidos e que originaram
percepções, temáticas e rea-
lidades, a sensação é estar à
sós, como ficou o protagonis-
ta do assunto deste artigo.
Liberdade de expressão,
descentralização da cultura
anos stalinistas da União So-
viética, e a luta propriamente
clandestina. Em um Estado
que tentava controlar a tudo
e massificar ao máximo a
cultura, as pessoas para satis-
fazer suas necessidades cultu-
rais tinham como instrumen-
da de mãos-em-mãos. Seja
uma publicação estritamente
política, ou político-cultural,
ou um simples poema. Assim
os povos da União Soviética
viam como uma das alter-
nativas tal instrumento, que
fez parte dos embates com a
megaestrutura stalinista.
literatura livre, pautas que
passam por através dos tem-
pos, e que têm como referên-
e
to o chamado Samizdat, uma
auto-publicação em baixa
tiragem e artesanal, passa-
Um homem simples, um
operário russo que passou
por todos os processos políti-

co-sociais anteriores, durante,

e após a Revolução Russa,

se não é um dos principais agentes que fizeram possí- veis um confronto com todo

um Estado, e principalmente

a fé de que é possível sem-

pre expressar-se mesmo nas condições mais opressoras. Nem se tem uma “tradução” precisa de seu nome para o português, próximo à Archi- nov ou Arshinov, por intei- ro: Piotr Andrievich Marin Archinov.

Poucas fontes para es- crever um artigo sobre sua

relação com a liberdade de expressão e produção literá-

ria. A maioria das fontes hu-

manas foram “desaparecidas” ou assassinadas bem como as fontes bibliográficas foram queimadas ou “recicladas”. No entanto, pode-se dizer o que é oficial para o Estado Russo atual ou o que é reco- nhecido a partir dos pouquís- simos registros, um persona- gem histórico nascido numa aldeia russa, que ao entrar em contato com os primei- ros grupos bolcheviques na categoria ferroviária, tornou- se militante, e após alguns confrontos com o sistema

tzarista, ao sofrer a repressão teve contato com anarquistas,

e assim abandonou o marxis-

mo. Participou de várias gre-

ves e confrontos, organizou os anarquistas russos, virou

uma referência, foi persegui- do publicamente pelo Estado. Condenado à morte, fugiu da prisão, se exilou na França, depois retornou, continuou suas atividades, o Estado o capturou de novo, tudo isso nos primeiros anos do século

XX. Preso, na capital russa,

conheceu Nestor Makhno, outro anarquista, e lá ficou

enclausurado até eclodir a

Revolução de 1º de Março de 1917, e ser libertado junto à Makhno e os principais inimigos do Estado e sistema tzarista.

Retornou com Makhno para a terra dele, a Ucrânia, onde a Revolução também estava acontecendo, sobretu- do no campo, onde Makhno era como a um herói dos povos camponeses. Dali, uni- ram as vilas e formaram um Exército Insurrecional pró- prio afinado ideologicamente com a ideologia anarquista porém, aberto a todos os camponeses que queriam lutar pelos direitos mais nobres, principalmente pela reforma agrária e autogestão. São reconhecidos os feitos do Exército Insurrecional Makh- novista, enfrentou os exérci- tos “brancos”, aliou-se com o Exército Vermelho dos bol- cheviques e o salvou por vá-

rias vezes nas batalhas contra

a burguesia e aristocracia

locais e internacionais, no cenário pós-guerra mundial. Foi quando após conflitos com os bolcheviques, sobre- tudo na tentativa de criação da “ditadura do proletaria-

do”, a partir da capital russa, Lenin e Trotsky considerou

o exército que já os salvou

uma ameaça. Em uma bata-

lha considerada de traição,

o Exército Vermelho massa-

crou pelos flancos o Exército Insurrecional Makhnovista,

e assim foi eliminada uma

grande oposição aos planos de centralização bolchevi- que, junto ao marinheiros de Kronstadtff, também inspira- dos pela corrente libertária ( anarquista ). Archinov, conta tudo isso e muito mais em seu livro “História da Makh-

novischina”.

Sobreviventes por sor- te e feridos, os poucos que conseguiram, se exilaram na

França, Archinov, Makhno, entre outros. Juntos lançaram novas ideias para o anarquis- mo mundial após as experi- ências do anarquismo russo e ucraniano. Escreveram “Plataforma Insurrecional Anarquista” um documento que pede a todos militantes libertários do mundo a se organizarem melhor, pois o fracasso na Revolução Russa

foi em parte reflexo da de- sunião entre anarquistas, que fizeram várias lutas isoladas

que não puderam conter o golpe da “ditadura do pro- letariado”. O documento foi mal recepcionado, pois os anarquistas do mundo o interpretaram como uma ordem de organização “for- çada” em que todos deveriam estar dentro para sobreviver,

Errico Malatesta, foi um dos que rejeitaram as ideias de Makhno e Archinov.

Isolados e frustrados, os anos 20 passaram-se vendo

da França o stalinismo frear as conquistas da revolução

e eliminar a oposição socia- lista brutalmente na nova União Soviética.

Foi quando numa opor- tunidade, Archinov quis reverter toda sua frustração, pois na França ainda perse- guiam os sobreviventes do Exército Insurrecional Makh- novista, aproveitou o fato de ser expulso da França, para gerar uma condição e dar realidade a um antigo plano:

retornar para a Rússia.

Lançou panfletos que negam a importância do anarquismo, rejeitou a cor- rente libertária e defendeu o

stalinismo, fazendo saudações à política da União Soviética do momento. Em considera- ção com a enorme importân- cia de Archinov para a re- volução e até mesmo para a formação dos primeiros anos do bolchevismo, anteriores a sua adesão ao anarquismo, Stalin “perdoou” Archinov

e aceitou sua repatriação e

filiação no Partido Comunis- ta. Ferido e doente, Makhno ficou surpreso com a atitude de Archinov, e o considerou não só um traidor, mas al- guém que renegou o que ele viveu, após ter feita a famosa “autocrítica soviética”.

De volta a sua terra natal, Archinov em pleno stali- nismo, ocupou funções do Partido Comunista, e atuou como revisor em Moscou. Os anarquistas do mundo intei- ro o consideraram como a decepção dos anos 30.

Pouco depois, durante a purga stalinista, em 1937, Archinov some. Ninguém sabe o que aconteceu, poucos se manifestam. Após alguns anos e depois com a queda do stalinismo, é revelado seu

paradeiro e o registro do seu sumiço aparece: “Deportado por acusação de restaurar o anarquismo na Rússia So- viética”. Parece que ele foi filmado em 1937 na depor- tação. Mas, mal se sabe ao certo para onde foi e aonde foi enterrado.

Como assim?

Décadas após décadas, as gestões do Estado seja na antiga União Soviética quanto na nova Federação Russa, desde o tempo de Lenin e Trotsky, escondem os arquivos das atrocidades cometidas como crimes pró- prios de Estado. Uma gestão

após outra, foi apagando tais arquivos, de acordo com o que era bom ou ruim para o regime. Assim foi com toda

a produção literária e ainda

está sendo, mal se sabe se uma obra da época foi ou não forjada, ou se uma foto foi ou não remontada. A cul-

tura sujeita a uma dimensão que reduz as manifestações individuais e coletivas, sem-

pre estará propícia a encon- trar meios paralelos para se propagar, pois são as pessoas que a fazem, o que precisam

e o que sentem.

Archinov, não pôde ir ao enterro de Makhno e se esclarecer. Makhno morreu pensando que fora totalmen- te repudiado, pelos anarquis- tas espalhados pelo mundo a fora, e por seu velho compa- nheiro, Archinov.

Há quem acredite que

Archinov fez algo extraordi- nário.

“Há uma escola de pen- samento que crê que Ar- shinov colocou seu repúdio ao anarquismo como uma cortina de fumaça para que ele pudesse retornar à Rús- sia para ajudar a organizar o movimento anarquista clandestino lá. Nós sabemos que o grupo Dielo Trouda manteve contato com esse movimento, e Ante Ciliga no Enigma Russo se refere a ele como extremamente bem or- ganizado. Nós não podemos ter a certeza de uma forma ou de outra, até que todos os registros mantidos pelas autoridades russas sejam olhados pelos pesquisadores. Esperamos que algum pes- quisador faça em breve.”

Ed, em Libcom no artigo Biográfico sobre Archinov, http://libcom.org/history/

arshinov-peter-1887-1937

Por fim, aí está uma parte da construção moderna do

direitos fundamentais do cidadão, esquecida, provavel- mente em forma de ossos nos antigos campos siberianos de trabalho forçado, cemitérios enevados do stalinismo.

Fontes:

*Arquivo Público Históri- co de Moscou

*História da Makhnovis- china, de Archinov

*www.libcom.org

*www.nestormakhno.info

Crônica Joaquim Bispo a Vingança de zeus http://www.abcgallery.com/I/ingres/ingres20.JPG
Crônica
Joaquim Bispo
a Vingança de zeus
http://www.abcgallery.com/I/ingres/ingres20.JPG

Nos tempos de Homero, era público que os deuses interfe- riam na vida dos homens, às vezes por motivos mesquinhos e de maneira impertinente. Nos tempos que correm, não pensamos em deuses traqui- nas quando as nossas vidas tomam rumos inesperados, mas ficamos desconfiados da qualidade do argumentista da nossa realidade.

Há tempos, na Alemanha, um casal, desesperando de não conseguir ter filhos, como tantos outros, obteve dos tes- tes de fertilidade a mais cruel das respostas: o marido era infértil.

Para qualquer ser humano, esta é uma notícia perturbado- ra. O seu eu físico, genético, fica por ali, não se prolonga para lá dele, a eternidade fica condenada. Resta a possibi- lidade de prolongar o seu eu cultural, memético, que, para muitos, é até mais identitá- rio. Para isso, há que arranjar uma criança, dê por onde der:

adopção, barriga de aluguer, inseminação artificial. Nesta última, ao menos, a parte ge- nética da esposa está presente.

Foi isso que os membros do casal alemão – ele de ascen- dência grega, 29 anos, e ela por aí – decidiram, mas, em vez de recorrerem a um banco de esperma, contrataram um vizinho para cumprir a par- te do fornecimento seminal, devido ao facto de ter extra- ordinárias parecenças físicas com o marido infértil. Além disso, o vizinho dava garantias de sucesso: era casado e pai de dois filhos, bem bonitos, por sinal.

Será que, a partir daí, entregaram o processo a um laboratório que se encarregas- se de recolher o esperma do

vizinho e o colocasse no útero da mulher? Não. Fosse porque desconfiam da tecnologia, ou por outra razão não revelada,

o combinado foi que o vizinho

copulasse com a senhora, de modo natural, três vezes por semana, até que ela engravi- dasse.

Não sabemos o que sentiu

o vizinho quando foi con-

vidado, mas adivinhamos. Deve ter agradecido a todos os deuses do panteão germâ- nico a graça que lhe tombou na cama. Copular de forma

descomprometida, sem ame- aças de responsabilidades futuras, é a ambição de quase todos os homens. Todas as fantasias masculinas tilintam de alegria ante tão excitan- te perspectiva. Além disso, consta que a senhora é uma estampa de mulher, pelo que não se percebe por que foi preciso pagar 2000 euros ao vizinho que, com 34 anos, não

devia precisar de tal incentivo. Estamos, certamente, peran- te um excelente negociador que obteve um pagamento pelo que teria feito de graça, alegremente. Na verdade, foi só com o dinheiro que estava

a ganhar que ele argumen-

tou à própria esposa, quando ela tomou conhecimento do propósito das inúmeras saídas nocturnas do marido.

Neste ponto, tudo pare- cia correr bem e a contento de todos: o vizinho tinha o melhor trabalho do mundo; a

sua mulher confortava-se com

a entrada da receita extra; o

homem esperava ter em casa, brevemente, uma criança parecida consigo, para educar; a mulher iria, finalmente, ser mãe, de maneira totalmente

humanizada, sem ter de recor- rer a impessoais burocracias e frios procedimentos laborato- riais. Mas, pode-se especular que o facto de saber quem era o pai poderia vir a ser de enorme utilidade, se fosse necessário apontar a paterni- dade biológica, em caso de futuras carências económicas da criança – que estas contas não se pensam, mas estão sempre presentes na contabili- dade genética inconsciente de cada um – que os genes não brincam na hora de garantir a preservação.

Foi neste ínterim que Zeus

– quem mais? – interveio,

para gorar os planos deste gru- po tão bem conluiado. Talvez

se tenha apiedado da posição humilhada do seu infértil compatriota, talvez tenha querido mostrar a Odin qual o panteão mais poderoso, ou talvez tenha ficado invejoso da sorte olímpica do vizinho

– que ele, apesar de Zeus, tem

de tomar formas de cisne, de touro, ou outras, para conse- guir unir-se à mulher ou até à deusa que deseja.

Bem que o vizinho ale- mão se esforçava, pontual e

assiduamente, mas a senhora não engravidava. A eficiên- cia do copulador contratado não merecia reparos, mas, ao fim de seis meses e setenta e duas jornadas de trabalho, o casal começou a duvidar da

sua eficácia para terminar a obra dentro do prazo previsto

e intimaram-no a provar as

habilitações. Mais uma vez,

a resposta laboratorial foi de- soladora – também o vizinho era infértil – só que, desta vez, com consequências mais devastadoras.

O alegre copulador passou, repentinamente, de o mais

feliz dos homens para um dos mais castigados pela sorte:

não só a mulher o tinha traído, como os filhos não eram seus

e – supremo golpe – não po- deria vir a tê-los.

Ela, quando confrontada sobre a origem da prole, ainda tentou desculpar-se com Odin, disfarçado de padeiro, uma

vez, e de técnico de televisão por cabo, da outra, mas o ma- rido já não vai em mitologias

e exigiu o divórcio.

Do casal de soluções criativas, a mulher voltou à

estaca zero, ou antes, à estaca um, e, provavelmente, tenta lembrar-se onde é que viu um outro homem parecido com o marido; este, dada a ausência de resultados do contrato em que tanto investiu, sente-se o mais manso dos herbívoros e, para readquirir alguma dig-

nidade, lançou um processo judicial contra o vizinho, para

tentar recuperar, ao menos, os 2000 euros. Além disso, deve precisar deles para o próximo contrato.

O vizinho, que também

pode vir a precisar, foi quem mais perdeu, apesar das be- nesses. Não quer devolvê-los, argumentando que forneceu

a mão-de-obra – salvo seja

– conforme combinado, mas

nunca garantiu a consecução do projecto.

O caso está para ser decidi-

do pelo tribunal de Estugarda,

e é por isso que dele tomámos

conhecimento, através do jornal Bild – que pela boca de Zeus jamais o saberíamos.

http://www.flickr.com/photos/erzs/1357413280/sizes/o/

http://www.lostseed.com/extras/free-graphics/images/jesus-pictures/jesus-crucified.jpg

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Ele tinha diante de si

a mais difícil das

missões:

cumprir a vontade de Deus

cruéis na Tinta Rubra.

de um pseudônimo? Você

Quase um ano após o

publica textos como “você

início das mortes, passava

mesma”, diferentes dos

pela região um viajante

austríaco, excepcional

estudante de música,

textos escritos como Giu-

lia Moon?

GIULIA — O meu nome

real é Sueli Tsumori. “Giu-

chamado Wolfgang Ama-

lia Moon” é um nickname

deus Mozart. Quando

que adotei quando entrei

soube da maldição, não

na Tinta Rubra. Ao in-

se alarmou, disse apenas

vés de escolher, como os

que gostaria de ouvir o

outros, um nome romeno

vampiresco com títulos de

nobreza como “condessa”

tal concerto fúnebre e de

conhecer o seu autor. Foi

e “lady”, reuni dois nomes

alertado de que a história

curtos que tivessem algum

era verdadeira, de que as

tipo de significado para

mim. Eu sempre gostei do

pessoas já não queriam

nome “Giulia”, porque soava

mais estudar música, e

sensual, gracioso e fácil de

ele poderia ser o próxi-

ser pronunciado. E “Moon”,

mo, e o dia fatal estava

porque sou uma apaixo-

se aproximando

disso o espantou.

nada pela lua, adoro ficar

devaneando sob uma lua

Nada

cheia ou ler histórias que

Dia vinte e oito, “Toca-

envolvam noites de luar –

ta e Fuga em Ré Menor”,

além de achar a grafia de

“moon” muito legal, com os

“o”s lado a lado, lembrando

tudo como haviam dito,

e

lá estava Mozart den-

lado vampiresco, noturno,

sua visão ao concertista.

ficina www.oficinaeditora.com

ficina

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sua visão ao concertista. ficina www.oficinaeditora.com sem olhar para trás. O uma lei que diga que

sem olhar para trás. O

uma lei que diga que tais

som de sua composição

e tais características são

servia de trilha sonora

obrigatórias para um perso-

para a fuga, enquanto

nagem vampiro. Acho que

ele pensava como, até o

depende do bom senso de

cada autor. Um bom senso

momento, aquela música

que o faça reconhecer que,

nunca havia lhe parecido

sem algumas características

tão viva e tão mórbida.

básicas, o seu personagem

Prometeu não mais tocá-

não é um vampiro, mas

alguma outra criatura. Os

vampiros do meu livro

la.

No dia seguinte, o

Kaori são os vampiros clás-

jovem Mozart já não se

sicos: predadores, bebem

encontrava pela cidade.

sangue (e só sangue), não

andam a luz do dia, têm

“Mais um levado pelo

muita força e capacidade de

Canto da Sereia de Bach”,

se regenerar de ferimentos.

diziam. Contudo, soube-

Mas já escrevi contos em

se na hospedaria que ele

que os vampiros são seres

havia partido durante a

microscópicos, por exem-

plo. Os clichês ruins são

madrugada, são e salvo,

apenas aqueles que são mal

após o sinistro concerto.

trabalhados pelo autor.

SAMIZDAT — Muitos

No cemitério, ao invés do

esperado músico morto,

foi encontrada apenas

autores da nova geração

uma inscrição na terra,

encantaram-se com os

parecida com o trecho de

vampiros por causa dos

jogos de RPG, especial-

alguma partitura. Desde

mente “Vampiro: a Más-

então, não se noticiou

cara” (publicado no Brasil

mais vítimas do “Canto

pela Devir). Você perten-

da Sereia de Bach”.

ce a este grupo ou seu interesse é anterior? Qual

Aquela mesma figura ca-

eu que passava as noites

o meu

davérica, que levara tan-

teclando com amigos so

tos a sucumbir, apontava-

turnos e escrevendo contos

lhe seus terríveis olhos

ausentes. E como todos

outros, também Mozart

SAMIZDAT — Os vampi-

paralisou-se. Junto à ima-

ros são um dos temas

de tempos em tempos,

gem macabra, sentiu o

voltam a ser moda. A que

cheiro da putrefação. As

você atribui este fascínio

náuseas dominaram-no,

que temos por estas cria-

turas?

o

que o fez libertar-se da

paralisia, caindo de joe-

GIULIA — Acho que as

lhos a largos vômitos. Em

pessoas gostam de vampiros

porque são, em primeiro

meio a engasgos, tosses e

lugar, vilões com um bom

ânsias, ouviu a frase mor-

layout. São parecidos com

tal: “Termine a música”.

os seres humanos, têm as

vantagens da juventude

eterna, imortalidade, dons

Confuso, desnorte-

ado, Mozart tentou se

psíquicos, força física. É

levantar apoiando-se

um monstro que tem um

no órgão, que sua mão

arsenal de armas variado:

atravessou como se nada

força, o poder psíquico, a

a

sedução, a esperteza. Pode

agir com a “mão pesada” ou

ali estivesse. Caiu sobre

o

vômito, começando a

com sutileza, dependendo

recobrar a razão e ten-

da situação. Mas também

tando afastar-se daquele

pode ser sentimental, frágil,

prenúncio da morte.

enfim, pode ter todas as fra-

quezas da mente humana,

De bruços sobre a terra,

pois já foram humanos um

sentiu algo prendendo-o

dia. Para o autor, é um per-

pelo pé. Não teve cora-

sonagem muito estimulante,

Henry Alfred BugAlHo

teve cora- sonagem muito estimulante, Henry Alfred BugAlHo dois olhos arregalados de tro do cemitério. Com

dois olhos arregalados de

tro do cemitério. Com os

espanto. Quando lancei o

de tro do cemitério. Com os espanto. Quando lancei o gem de olhar para ver o

gem de olhar para ver o

e

isso faz com que o produ-

to da criação tenha grandes

que era. E novamente a

chances de ficar bom. E,

voz suave suplicou: “Ter-

para o leitor, é aquele vilão

mine a música”. Fazendo

(ou vilã) bonitão, sacana

uma desesperada oração

e

malvado que adoramos

mental, tateou o solo até

odiar. Vilões assim sempre

fizeram sucesso, pois adora-

encontrar uma pedra

mos esses contrastes: beleza

pontiaguda. Com ela,

com maldade, delicadeza

começou a desenhar no

com crueldade, e assim por

ORei dos

olhos fechados, deixava-se

primeiro livro, não havia

extasiar com as compo-

razão para assinar de outra

forma, já que a maioria dos

sições de Johann Sebas-

Judeus

extinguiu. O jovem des-

Giulia continua sendo, pelo

meus leitores me conhe-

des- Giulia continua sendo, pelo meus leitores me conhe- tian Bach, num estado cia como “Giulia

tian Bach, num estado

cia como “Giulia Moon”. E

de euforia sobrenatural.

assim ficou. Nunca publi-

Subitamente, o som se

quei nada como Sueli, pois

menos para mim, o meu

pertou do transe e dirigiu

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Crônica

apenas

uma

mulher

Ju Blasina
Ju Blasina

http://faculty.umf.maine.edu/~walters/web%20104/ww1%20women%20RR%20mechanics.jpg

Sentada numa cadeira simples de sua casa humilde, ela é apenas uma mulher

tentando fazer o seu melhor, buscando dividir o tempo entre trabalho e família, entre contas e calendários, rezando por um melhor ma- rido, lutando por um melhor emprego, sonhando com um melhor armário. Apenas uma

mulher

Como se alguma

fosse melhor recompensada, poderia dar a elas uma cama melhor, uma vida melhor, um futuro melhor. Mas por hora, tudo que pode lhes dar é um breve beijo de despedida.

Mas hoje, ah

Hoje tudo

vai mudar! Manifestarão seu descontentamento com as deploráveis condições de trabalho, com o salário in- justo, com a excessiva carga horária, com a proibição ao voto, com tantas coisas Se ao menos uma delas for ouvida, serão vitoriosas! Em seus planos tudo parecia perfeito, mas a realidade é sempre imprevisível. Alguns chamam de destino, outros, de fatalidade, mas a mulher trancada naquela fábrica chamou de fracasso.

Ela verifica novamente as portas na esperança tola de que a força de vontade

mulher no mundo fosse “ape- nas” alguma coisa. Ela é mãe, é filha, é amante, é amiga, é irmã. Ela é mulher.

Mais tarde, deitada na cama que divide com as filhas, ela pensa no futuro. Não somente no seu, mas no futuro das mulheres que ain- da não nasceram. No futuro de suas filhas e das filhas de suas filhas. Num futuro distante, bem distante da sua triste realidade.

Amanhã será um dia importante, um dia daqueles que exigem coragem, toda a coragem que puder reunir,

possa aportar-lhes uma saída,

mas não

Para seu desespe-

ro, todas as portas parecem trancadas. Neste momen-

e

ela sabe onde encontrá-la.

Com o sono roubado pela ansiedade, ela deixa a cama pé por pé, rumo as suas

armas mais letais: esmaltes, batons e bobs — parecem ob- jetos inofensivos, mas como mulher ela sabe reconhecer

o

Prepara-se para a guerra, se sente invencível e mal percebe o amanhã chegar an- tes do desenrolar do último cacho. Não há tempo para

poder que eles trazem.

to, ela sabe que é o fim do caminho, todas elas sabem e talvez muitas já antes sou-

bessem, porém, ainda assim precisavam lutar, valia a pena tentar

O que ela não sabe é que, junto com as cento e

trinta outras mulheres que sucumbiram naquele incên- dio, num fatídico oito de março, ela acabava de abrir a mais importante de todas as portas. Uma porta por onde os sonhos ousam atravessar.

delongas, não há muito para

o

café, mas sempre há um

Uma porta, através da qual ela poderá passar milhares e milhares de vezes, em outro tempo, em outra vida, em outro corpo, na força e na liberdade que habita a alma de cada mulher.

último olhar em seu maior tesouro: as filhas, que dor- mem seguras na cama des- confortável. Pede a Deus que esteja com elas na sua ausên- cia — o que, graças às tantas horas de trabalho, tem sido mais frequente do que gosta- ria de admitir. Se ao menos

Crônica Henry Alfred Bugalho Nossas falsas necessidades cotidianas Foto: Henry Alfred Bugalho
Crônica
Henry Alfred Bugalho
Nossas falsas
necessidades cotidianas
Foto: Henry Alfred Bugalho

http://guisalla.files.wordpress.com/2008/09/machado1.jpg

O lugar onde

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/

Não gosto de telefones celulares. Nunca gostei.

Quando todo mundo já carregava um celular no cinto, ostentando o novo clamor da modernidade, eu relutava. Já era adepto da internet, mas do celular - Deus me livre!

Mas não dá para lutar contra o óbvio.

Enquanto que, alguns anos atrás, quando duas pessoas iam se encontrar, era preciso marcar data,

local e hora exatos, senão

o desencontro era inevitá-

vel, hoje as pessoas andam, falam e perguntam: “onde você está? Ah, sim, estou te vendo!”

Antes, se não se encon- travam, era assunto encer- rado; cada um ia para sua casa e fim.

Rendi-me e também te- nho meu telefone celular me indago como conseguí- amos viver sem ele antes. Há 15 anos, praticamente ninguém tinha; há 25 anos, até telefone fixo era rarida- de. Minha mãe era uma das poucas a ter telefone em

casa no quarteirão, por isto, as vizinhas passavam o nos- so número e anotávamos

o recado para elas quando

alguém ligava.

E

Há 150 anos, que parece

ser muito tempo, mas para

o curso da História é me-

nos que um segundo, nem sequer existia o telefone.

E hoje mal conseguíamos conceber como seria a vida sem ele, assim como é difí- cil pensarmos num mundo

sem TV, computador, carros, energia elétrica, internet. Acostumamo-nos e nos acomodamos com falsas necessidades.

As inovações parecem se apegar ao nosso ser de tal maneira que o humano se confunde com elas.

A realidade do homem

primitivo, caçando com lan- ça, residindo em cavernas e descobrindo o fogo, é tão alienígena para nós quanto um suposto marciano verde em sua nave espacial.

As falsas necessidades são tão poderosas que em- burrecemos e nos atrofia- mos. Se, por acaso, há uma queda de luz no prédio numa noite de tempestade, desesperamo-nos, tateando no breu, e não sossegamos até ver a lâmpada se acen- dendo mais uma vez.

Ao sermos libertados de certas restrições pela modernidade, tornamo-nos enfim seus escravos.

Temos acesso a todas as informações do mundo, po- demos nos comunicar com pessoas do outro lado do planeta, tudo instantânea e imediatamente, mas somos mutilados. Arranque-nos

deste acomodamento e en- colheremos, até sumirmos diante da nossa insignifi- cância.

Temos tudo à mão, ape- nas para mascarar o nada que nos tornamos.

O futuro aniquilou a

nossa humanidade.

é fabricada

tudo à mão, ape - nas para mascarar o nada que nos tornamos. O futuro aniquilou

ficina

a boa Literatura

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Poesia

Sobre

mulheres e flores

Sobre mulheres e flores
Caio Rudá de Oliveira
Caio Rudá de Oliveira

o despertar de uma mulher ¹

o despertar de uma mulher

é uma melodia serena

feito um balanço no parque lá e cá, deslizando no ar um movimento leve e paciente cadenciado, contra o qual insurgem lapsos de descompasso

não importam as intermitências

o despertar de uma mulher é sutil e elegante

é uma flor com hora certa para desabrochar

¹ Este poema segue a poética do concludo. Para saber mais sobre ele, confira a teoria, aqui mes- mo na Samizdat, no artigo Teorizando o conclu- do.

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SAMIZDAT abril de 2010

SAMIZDAT abril de 2010

http://www.flickr.com/photos/remonrijper/3445819004/sizes/o/

nunca me dê flores, meu bem

nunca me dê flores, meu bem

já demais as tenho

ademais, far-te-á enciumado

elas me lembram todos que por minha vida passaram

e tu sabes, nunca fui só tua

querias-me donzela

lamento, não a pude ser

ganhaste-me cheia de máculas

porém o amor é redentor, tu sabias

cultivaste-me assim mesmo

como fez o jardineiro

que a ti vendeu essas flores

mas repito, meu bem, nunca me dê flores

deixa-as no jardim

como não fez o jardineiro

que a ti e a todos que te imitam o gesto as vendeu

deixa-as perfazerem sua biografia

brotar, fertilizar e secar

não é demais dizer

nunca me dê flores, meu bem

já demais as tenho

ademais, hoje somos as flores, o jardim e eu uma coisa só

só te peço que não sejas meu jardineiro

pois não sou mais tua nem de ninguém

e assim serei para sempre virgem

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Poesia

Blavinos

BLaViNo 20 — tic-tac

Tic

Tac-tic

Já são doze

Badaladas horas

Em dias seguidos por

Noites em claro. Ouço eu

O tilintar das moedas caídas

Ao chão feito migalhas dou-

-rando o tempo perdido

Para não passar

Sem ti até

O tic-tac

Dói

Ju Blasina
Ju Blasina

http://www.flickr.com/photos/judepics/190101132/sizes/o/

BLaViNo 21 — ilusão

Ilusão

Serei eu

Miniatura

Singular nos Delírios do além Ou imaginária criatura

Estranho sonhar de outrem

Serei eu marionete de Deuses, destino Ou sorte? Só

Não serei

Na morte

Ilusão

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http://www.flickr.com/photos/trojanguy/2880085384/sizes/l/

Poesia

Concisos

Poesia Concisos Wellington Souza aCordar Todas as noites podo minhas asas
Poesia Concisos Wellington Souza aCordar Todas as noites podo minhas asas
Poesia Concisos Wellington Souza aCordar Todas as noites podo minhas asas
Wellington Souza
Wellington Souza