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A CONTRIBUIÇÃO DA ARTE, COM ENFOQUE NA ARGILA, COMO INSTRUMENTO TERAPEUTICO: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA

Norma Flora Arruda Gayão Orientadora: Mercia Melo

Resumo: Arte é uma forma de expressão milenar e universal que possibilita ao ser humano uma integração e comunicação interior e exterior. A arteterapia surge como formação profissional para amalgamar a arte e o processo terapêutico, trabalhando psicologicamente e ludicamente. O processo de criação envolve imaginar, idealizar, identificar, procurar, trabalhar, ver formas, cores, texturas e até mesmo desejos, sonhos, símbolos e imagens, transformando e transmutando material inerte, neste caso, a argila, dando assim, sentidos, significados e vida. A argila é uma matéria plástica, úmida e de fácil manejo que permite uma expressão tridimensional, a manipulação como uma brincadeira. Nossa hipótese é que há sim, uma relação direta entre o criador e a criatura. E o terapeuta, o psicólogo e/ou o arteterapeuta está propiciando um ambiente acolhedor para este diálogo, para esta transmutação em descoberta, através da sua individuação, ou seja, a realização de si mesmo, com o mundo externo e conduzindo ao desenvolvimento, crescimento, fortalecimento interior e alívio psíquico. O objetivo deste artigo é traçar um caminho entre a arte e o tratamento clínico, mostrando que ambos podem ter a obra como mediadora dos processos internos. Disponibilizamos uma base dialética entre intervenções terapêuticas e artísticas.

Palavras-chave: Arteterapia, Argila, Expressão, Alívio Psíquico.

ABSTRACT: La arte es una forma del expresión mui antigua y universal que permite a los seres humanos una integración de comunicación en el interior y el exterior. La terapia del arte surgió como la formación profesional para amalgamar la arte y el proceso de la terapia, trabajondo psicológico y en broma. El proceso de creación consiste en imaginar, idealizar, identificar, buscar, trabajar, ver formas, colores, texturas e incluso los deseos, sueños, símbolos e imágenes, de transformación y la transmutación de material inerte, en este caso, la arcilla, con lo cual, los sentidos, significados y la vida. La arcilla es un plástico, húmedo y de fácil manejo que permite una expresión tridimensional, manipulación como una broma. Nuestra hipótesis es que hay más bien una relación directa entre creador y criatura. Y el terapeuta, psicólogo o terapeuta de arte es proveer un ambiente acogedor para este diálogo, esta transmutación en el

descubrimiento, a través de su individuación, es decir, la realización de sí mismo con el mundo exterior y dirigir el desarrollo, el crecimiento , fuerza interior y el alivio mental. El objetivo es trazar un camino entre el arte y el tratamiento clínico, demostrando que ambos pueden tener que trabajar como mediador de los procesos internos. Ofrecemos una dialéctica fundamental entre las intervenciones artísticas y terapéuticas.

Palabras-clave: Terapia de Arte, Clay, Expresión, Ayuda psíquica.

INTRODUÇÃO

Desde o início da humanidade, a sociedade imprime no homem suas marcas, condicionando-o fisicamente e psicologicamente. Isso produz o afastamento da pessoa de si mesma, o seu envolvimento afetivo e o seu compromisso com a autenticidade e espontaneidade, isto é, com o seu Self. Os condicionamentos, a autocrítica, as convenções sociais e culturais, a necessidade de aprovação e reprovação e a repressão são os aprisionamentos nos quais o homem vive e as raízes de muitas neuroses e doenças. Por isso trabalhar com os substratos psíquicos, ou seja, com a subjetividade, tem sido uma necessidade, ou, mais que isso, um imperativo de nosso tempo, acometido cada vez mais por um adoecimento psíquico.

O homem busca a sua subjetividade, a realização de si

mesmo. No âmbito psicológico deseja ser autônomo e indivisível, almeja tornar-se um ser pleno. Várias pesquisas e técnicas têm-se colocado frente à questão, buscando promover o encontro do homem consigo mesmo, engajados que está na descoberta ou no afloramento dos conteúdos recalcados ou reprimidos que muitas vezes estão guardados no seu inconsciente, necessitando ser

expressos.

A arte é uma forma de expressão e de linguagem humana.

A linguagem escrita nada mais é do que símbolos ou desenhos que ao longo da história humana se foram desenvolvendo, e ainda continua a fazê-lo, até chegar ao compartilhamento com todos os seres, dando assim a possibilidade da comunicação e integração do

Homem.

Ao mesmo tempo, essa comunicação é universal e individual. Universal no sentido de usar símbolos comuns a todos. E individual, porque nenhuma pessoa fala ou expressa seu modo de ver de forma idêntica, ou seja, não há regras fixas ou leis para a comunicação, esta é feita livremente, de acordo com o contexto e as condições sócio-histórico-culturais de quem comunica. Existe uma variedade de símbolos, imagens pictórias, danças, sons, para que o ser humano na sua individualidade, possa escolher e criar a sua própria maneira de falar ou expressar seus pensamentos, conhecimentos, desejos, anseios, enfim, comunicar-se. Nessa comunicação já existe a escolha, a forma e maneira de expressar-se. A linguagem é processo criativo, conforme Ciornai (2004, p.66) A

criatividade e a saúde são instâncias correlacionadas na existência

humana (

como um processo de vida, como um processo de

expansão de consciência que conduz ao desenvolvimento, ao crescimento e ao fortalecimento interior”. Desse modo, a criatividade é algo inerente ao ser humano, embora no dia a dia não nos apercebamos do quanto somos criativos, como diz Kneller (1965, apud Ciornai, 2004): “A

criatividade parece envolver certas capacidades mentais. Essas abrangem a capacidade de mudar a maneira pela qual cada pessoa aborda um problema, de produzir idéias relevantes e ao mesmo tempo inusitadas, de ver além da situação imediata e de redefinir o problema ou algum aspecto dele.

Podemos ainda citar Ostrower, (1977, p. 142-3 apud Ciornai, 2004, p. 69) nas suas observações sobre os processos criativos, que ele descreve como “processos construtivos globais”. Sobre esses processos nos diz o autor:

)

Envolvem a personalidade toda [

estruturar

].

quanto

comunicar-se,

Criar é tanto

integrar

é

significados e

transmiti-los.

Ao

criar

procuramos

atingir

uma

realidade

mais

profunda

do

conhecimento

das

coisas.

Ganhamos

concomitantemente um sentimento de estruturação interior maior; sentimos que estamos nos desenvolvendo em algo essencial para nosso ser.

Ao mesmo tempo em que a comunicação e a criatividade nos dão uma amplitude infinita de expressão, muitas vezes não sabemos como externalizar os sentimentos ou simplesmente, não encontramos palavras para falar algo vivido, desejado ou sentido. Pode ocorrer também a dificuldade de expressar sensações ou sentimentos que são indefinidos, que não percebemos com clareza e nitidez.

É aqui que incluímos a arte como uma forma de ajuda num processo terapêutico, possibilitando novas formas de expressão. Como bem diz Ciornai (2004, p. 66): “Por termos a capacidade de nos expressar por meio de diversas linguagens expressivas, ou seja, por termos criatividade, “frequentemente sensações, sentimentos e visões são muito mais bem expressos em imagens, cores, movimentos ou sons”.

As linguagens artísticas, sejam elas quais forem, podem ser

uma forma adequada para nos comunicarmos, não só com os outros seres humanos, mas também conosco, como forma de diálogo interior e de expansão de consciência. O ser humano através dos anos vem dando expressão a emoções, frustrações, traumas, enfim, às funções psíquicas por várias formas, e uma delas é a arte. Quando o Homem não exprime suas emoções, sufocando as vivências desagradáveis ou traumáticas pode transformá-las em sintomas físicos e/ou psíquicos. Em ambos, a arte pode ser um veículo de acesso aos conteúdos inconscientes, propiciando a

transmissão de um saber sobre o sujeito.

A arteterapia é um processo criativo que alivia esses

conteúdos reprimidos, sejam eles inconscientes ou conscientes, transmutando e transformando o ser humano, promovendo uma integração e um encontro consigo mesmo, amenizando, assim, o sofrimento psíquico. A arte pode ajudar no tratamento psicológico

clínico, dando ao profissional, ferramentas possíveis para auxiliar o indivíduo na reestruturação, ressignificação e numa nova visão criativa da vida. As imagens configuradas de forma espontânea e livre são uma porta aberta para um mundo interno da subjetividade.

A arte, seja ela literária, pintura, escultura, dança, teatro e outras

formas dão a oportunidade ao indivíduo de dar vida à sua história de

vida.

Este trabalho originou-se da curiosidade, intuição e vivência da experiência do trabalho com arte como processo terapêutico. Seu objetivo é traçar um caminho entre a arte e o tratamento clínico, mostrando que ambos podem ajudar à subjetivação, autoconhecimento e ressignificação. Assim sendo, a partir da matéria prima da argila, tendo a obra como mediadora dos processos internos, nos lançamos para alcançar esse objetivo. Partimos da hipótese de que a transformação da matéria, a argila, tem influência na conscientização e nas mudanças do sujeito sobre situações e conteúdos que causam sofrimento psíquico. Neste enfoque, o trabalho com argila na arteterapia será considerado um processo criativo, um instrumento que facilitará a cada indivíduo expressar-se melhor, sentir-se produtivo e criativo, através da liberação de seu potencial expressivo, o que é básico na prevenção, promoção e preservação da saúde. Para a realização deste trabalho levantou-se uma pesquisa

bibliográfica de apoio específica sobre o tema. Tudo se desenvolveu dentro de uma base dialética com procedimentos mistos coletando-

se dados bibliográficos e resultados de experimentos com várias

pessoas em diversos espaços, desde terapêuticos até em oficinas nas

instituições terapêuticas.

ARTETERAPIA HISTÓRIA E CONCEITUAÇÃO

Harvey, em seu livro Cerámica Creativa, fala da utilização e descoberta da argila desde o Período Paleolítico Superior (12000- 10000 a.C.). Nessa época utilizavam-se desenhos e formas para

representar, significar, organizar e apoderar-se do habitat em que se vivia. A arte tinha uma função simbólica no campo psíquico, aspecto que iremos encontrar também posteriormente.

A própria História da Arte participa dessa trajetória vivida

no âmbito psicológico. A arte e sua história enfatizam a subjetividade e o valor singular de cada expressão, seja ela artística

(para a arte) ou significante no campo das vivências (para a psicologia), tal como nos afirma Gombrich (1999, p.78): É

impossível entender esses estranhos começos se não procurarmos penetrar na mente dos povos primitivos e descobrir qual é o gênero de experiência que os faz pensar em imagens como algo poderoso para ser usado e não como algo bonito para contemplar”.

Gombrich (Ibidem) usa o verbo no presente “qual é o gênero de experiência que os faz”, porque ainda hoje encontramos arte ou sinais artísticos em algumas tribos ou povos “primitivos”, nos chamados países de primeiro mundo. Há tradições, rituais e superstições nos quais são utilizadas imagens ou objetos em argila, por exemplo, em panelas de barro “virgem” em alguns rituais ou cerimônias no Candomblé. O fato na Inglaterra, no dia cinco de novembro de cada ano realizar-se uma celebração com fogos de artifícios, onde se dá a queima da efígie de Guy Fawkes, um conspirador que, em 1605, quis explodir as Casas do Parlamento é um sinal da importância dada, até hoje, aos símbolos de arte. De acordo com Gombrich, “não acho que seja realmente difícil recuperar esses sentimentos [da arte do passado do homem primitivo]. Tudo o que precisamos é ser profundamente honestos conosco e examinar se em nosso íntimo não se conserva até hoje algo de “primitivo”. Em vez de começarmos pela Era Glacial, comecemos por nós mesmos” (Idem, p. 40).

É surpreendente encontrar num historiador uma visão com

conteúdos tão sensíveis, pois esta afirmativa nos reporta à teoria do Inconsciente Coletivo e dos Arquétipos de Carl Gustav Jung, onde

este afirma que “do mesmo modo que o corpo humano apresenta

uma anatomia comum, sempre a mesma, apesar de todas as diferenças raciais, assim também a psique possui um substrato comum”. (Silveira, 1997, p. 64). Jung chamou este substrato de Inconsciente Coletivo, uma espécie de herança comum que transcende todas as diferenças de cultura, raça e de atitudes. São disposições latentes para reações idênticas. Conforme Nise da Silveira (1997, p. 64-65):

Assim, o inconsciente coletivo é simplesmente a expressão psíquica da identidade da estrutura cerebral, independente de todas as diferenças raciais. Deste modo pode ser explicada a analogia, que vai mesmo até a identidade, entre vários temas míticos e símbolos, e a possibilidade de compreensão entre os homens em geral. As múltiplas linhas de desenvolvimento psíquico partem de um tronco comum cujas raízes se perdem muito longe, num passado remoto.

Desde tempos longínquos, o Homem faz uso de expressões como danças, pinturas, esculturas, formas, cantos e outras em rituais de cura, poder e comunicação. Através de vários recursos expressivos, dá vida e sentido aos acontecimentos do mundo em que vive. “O uso terapêutico das artes remonta, sem dúvida, às civilizações mais antigas” (Cionai, 2004, p.21) Contudo, só com a crise da modernidade e após a Primeira Guerra Mundial é que surge a arteterapia como profissão. Para entendermos esse processo podemos contextualizar. A Era Moderna, da indústria, razão e ciência, onde o Homem dá primazia ao estético, esconde a expressão dos sentimentos, para dar vez ao conhecimento, pela razão e raciocínio lógico em prol do desenvolvimento da ciência e da tecnologia. O culto às fabricas (produção em massa), aos movimentos sindicais e às grandes ideologias foram as marcas da expressão do homem nesse período No século XIX, surge a “crise da ciência e da verdade”. Após a Primeira Guerra Mundial, novos movimentos surgem na

tentativa de buscar outros caminhos e idéias para a compreensão do ser humano Concomitantemente Freud, Jung e outros surgem dando importância à subjetividade, introduzindo conceitos novos como o inconsciente, imagens oníricas e pictórias, ou seja, imagens de sonhos e pinturas, fazendo parte da psique do ser humano e buscando novas formas de tratamento. Iniciam-se movimentos artísticos e novos pensamentos, todos dando ênfase à subjetividade, às formas de expressão e a criatividade. O Expressionismo foi um desses que em vez de buscar

a

percepção acurada e naturalista da realidade, dá vasão às emoções

e

à subjetividade. O Dadaísmo vem na contramão da lógica social

burguesa, dando formas à busca da criança interior. No Cubismo temos uma nova visão, através de ângulos diversos. No Surrealismo a tentativa de encontrar o imaginário, a percepção particular da realidade. Todos esses movimentos trazem uma nova visão e perspectivas para a compreensão do ser humano no mundo. Essa efervescência cultural contamina o pensamento dos educadores que buscavam um novo processo para o desenvolvimento da criança em sua totalidade. Surge, assim, a arte-educação através de Margareth Naumburg (1966, apud Cionai, 2004) educadora, psicóloga e artista, que tinha a convicção de que a expressão livre na arte é uma forma simbólica de linguagem nas crianças, e pensa que assim sendo, esta deve ser uma experiência básica no campo da educação, e deve, ainda, fortalecer-se cada vez mais nesse âmbito. Ela diz ainda, que esta expressão espontânea na arte poderia ser básica também no tratamento psicoterápico.

A partir desse pensamento surge, por volta da década de 1950, a Arteterapia. Margareth Naumburg ficou conhecida como a mãe da Arteterapia, ampliando a expressão através da arte também para outras áreas. Dentre tantas definições de Arteterapia escolhemos a de Joya Eliezer: “A arteterapia é um método terapêutico que utiliza a linguagem artística como meio de

comunicação e expressão nos procedimentos de diagnóstico (avaliação) e/ou tratamento. É indicada para pessoas de todas as idades, tendo atividades específicas para cada faixa etária” (Eliezer, 2004, p.16). No Brasil, a arteterapia é ainda recente, tudo surgido por volta da década de 1960, ganhando destaque com o trabalho de Nise da Silveira. Em outros países existe há mais de cem anos como profissão e a sua utilização como instrumento de cura é milenar.

PSICÓLOGO E/OU ARTETERAPEUTA

É necessário que o psicólogo tenha tido experiência em atelier artístico e possua criatividade para trabalhar com arte. Segundo Liebmann (2000, p. 17), “se não vivenciou essa experiência por si mesmo, não será capaz de ajudar aos outros

quando estiverem bloqueados”. Deve ter domínio sobre os materiais

a serem usados, auxiliando o criador, por exemplo, em nuances e

formações de cores, escora para manter a argila na forma que quer dá, enfim, deve saber ajudar tecnicamente na formação da expressão almejada pelo cliente.

Alguns psicólogos que gostam e trabalham com arte em seus consultórios têm formação em arteterapia, terapia ocupacional ou especialização em artes plásticas. Acreditamos que a arteterapia

é mais específica e indicada como Liebmann (2000, p. 18) cita:

A arteterapia usa a arte como meio de expressão pessoal para comunicar sentimentos, em vez de ter como objetivo produtos finais esteticamente agradáveis a serem julgados segundo padrões externos. Esse meio de expressão é acessível a todos, não apenas aos que têm talento artístico.

Outro ponto importante para que o psicólogo possa utilizar

a arte como ferramenta é ilustrado por Margareth Naumburg, para

quem “o arteterapeuta deve esperar que o próprio cliente atribua significado às imagens simbólicas que produziu” (1966, apud Ciornai, 2004, p. 26), evitando, assim, a interpretação particular do

terapeuta ou de alguns livros que atribuem significado a desenhos.

A arte é singular, subjetiva e individual, não cabendo

“interpretoses”.

Podemos realçar, também, a questão do próprio cliente,

que deve ter claro o significado do que seja criatividade e arte,

entendendo o processo não como uma capacidade que está fora, além ou acima do humano, mas ao contrário como algo inerente à própria condição humana, compreendendo que a criatividade e os múltiplos atos de criação que dela resultam devem ser apropriados,

interiorizados ou internalizados como um comportamento natural da humanidade, no sentido de serem próprios do Homem. Segundo Ostrower (2000 no artigo: Por que criar? do Jornal de São Paulo) “o Homem é um ser criador naturalmente,

espontaneamente, e não excepcionalmente”. A criatividade é um potencial que se origina na sensibilidade. Cada ser humano é único, tendo maneiras diferentes de manifestar suas potencialidades, tanto

em grau como em áreas diferentes, mas cada ato criador é

apresentado como um ato materializado e específico. Ambos os termos se referem ao material que vai ser (ou é) transformado pelo Homem. Pois a criação envolve a transformação de determinadas matérias como tinta, argila, lápis e outros materiais. O Homem transforma qualquer matéria, com determinadas qualidades e possibilidades, em formas relacionandas com o novo. Esta é a essência do criar. Nas formas criadas, cada pergunta encerra uma resposta em que o Homem fala sobre si, sobre sua vida, sobre seus valores de viver. Como diz Ostrower (Ibdem), as s formas criadas “são processos produtivos onde o homem se descobre e onde ele

próprio se articula à medida que passa a dar formas ao mundo”. Kramer (1971, apud Ciornai, 2004, p.28), atribui à arteterapia uma função básica que é vista no poder da arte de contribuir para o desenvolvimento de uma organização psíquica capaz de funcionar sob pressão sem fragmentar-se ou recorrer a medidas defensivas nefastas. Segundo o mesmo autor, “assim

concebida, a arteterapia torna-se um componente essencial do contexto terapêutico e uma forma de terapia, que complementa ou apoia a psicoterapia”. É necessário compreender que todos os processos criativos representam tentativas de reestruturação, experimentação e controle das energias psíquicas fragmentadas e desestruturadas possibilitando uma reorganização ou organização destas.

SETTING TERAPÊUTICO

O Setting terapêutico é o espaço físico onde se dá a

arteterapia. Esse espaço deve ser acolhedor e dependendo do enfoque de cada técnica da arteterapia, proporcionar um ambiente adequado à execução das atividades específicas para cada área. As artes plásticas, por exemplo, que enfocam a compreensão das imagens pictórias da realidade interna e externa, devem dispor de materiais como: tintas, pinceis, lápis de cor, cavalete, argila e outros; o teatro ou dramatização, auxiliada ou não por outras pessoas ou mesmo através de bonecos, fantoches, têm no seu processo o desenvolvimento das relações sociais; a dança

proporciona um conhecimento não só corporal como também espacial, ampliando a consciência do eu; e a música tem um entendimento mais cognitivo, integrando toda a expressão a nível verbal que pode enfocar aspectos internos como também um contato mais amplo e profundo entre o eu; a melodia, impunsiona e faz vibrar o ser humano.

O Homem tem o impulso de criar, vai à procura do

material e dos métodos de desenvolver o trabalho. Nisto, há a execução, uma integração entre criador e criatura, num processo de transmutação interna e externa. Como descreve Silveira (1997, p. 139), o artista não domina o ímpeto da inspiração que dele se

apodera:

Obedece e executa, sentindo que sua obra é maior que ele e, por esse motivo, possui uma força que lhe

é impossível comandar. [

]

E também o artista

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sentir-se-á ativo ou passivo em graus diferentes quanto ao modo como se realiza em si próprio o processo criador. Muitos artistas têm dado o depoimento da maneira como experienciam o processo criador. Picasso diz: “Quando eu começo uma pintura, há alguém que trabalha comigo. No fim, tenho a impressão de que estive trabalhando sozinho, sem colaborador.

Deste processo, então, surge a obra, a arte que é vida e toda a experiência do criador está junto, em sua vivência de criação.

MATÉRIA-PRIMA: ARGILA

Para adentrar-se neste universo, faz-se necessário um percurso, desde a composição da argila até o processo da utilização deste material. Nos livros de Cerámica a Mano de Woody (1986) e Manual del Alfarero de Clack (1984), a natureza das argilas deriva da decomposição de rochas feldspáticas que, pela ação da erosão através de milhares de anos, desagregam-se da alumina e sílica. A combinação de oxigênio com esses elementos produz o dióxido de silício e o óxido de alumínio, que reagem quimicamente com a água, constituindo a argila.

É um material que se encontra abundantemente na

natureza, onde geralmente aparece junto com impurezas raízes, pedras e outros materiais é o que se chama de argila bruta, que,

antes de ser utilizada, necessita de uma purificação prévia.

As argilas apresentam variações de cores vermelhas, brancas, amareladas, verdosas, azuis e negras e têm na sua composição minerais como ferro, cobalto, cobre e outros. Devido à variedade das dimensões das partículas que formam a argila, esta varia em textura e plasticidade. Quanto menores as partículas, mais plástica a argila.

É difícil encontrar uma argila pura que se ajuste às

exigências da modelagem, sendo necessário mesclar diferentes tipos

deste material com um outro mineral, adequado a uma melhor

textura, plasticidade, maturação e contração. Uma argila bem dosada contém: 40% de argila “gorda” que é muito lisa e escorregadia ao toque, porém maleável depois de seca; 60% de argila “magra”, que é rugosa ao toque e contém areia; e, por sobre estes 100%, acrescentam-se de 10 a 15% de areia de construção peneirada. A junção destes dois tipos de argilas com a areia forma o que se chama de argila plástica, é a que permite ser moldada com facilidade e que conserva a forma que lhe é dada.

instrumento

facilitador para uma experiência interior Quem não brincou na infância com barro ou argila? A argila é uma matéria plástica, úmida e de fácil manejo que permite uma expressão tridimensional, possibilitando trabalharmos sem a preocupação de técnicas quaisquer como noções de perspectivas, luminosidade, refinamentos e práticas de movimentos. Permite a manipulação como uma brincadeira, puxar, rasgar, furar, torcer, imprimir texturas e produzir outras formas. Devido à sua plasticidade, tem a capacidade de transformar e re-transformar, ou seja, o indivíduo que trabalha com a argila pode fazêr-la voltar à forma anterior sem nenhum constrangimento de erro. Quem trabalha com a argila faz surgir imagens, conteúdos, que Jung (apud Silveira, 1997) chamou de arquétipos, “matrizes arcaicas onde configurações análogas ou semelhantes tomam forma” (p. 68). Ainda segundo Jung, “seja qual for sua origem o arquétipo funciona como um nódulo de concentração de energia psíquica. Quando essa energia, [comportamento sensação] em estado potencial, se atualiza, toma forma, então teremos a imagem arquetípica. Não podemos nomear essa imagem modelada de arquétipo, pois esse é unicamente uma virtualidade” (p. 69).

Esse fenômeno de formação de imagens interiores e como se transformam através da energia psíquica, ninguém sabe como se dá. Conforme Silveira (1997, p. 69) “a prova da transformação de energia psíquica em imagens nos é dada todas as noites nos nossos

A

venda

dos

olhos

na

modelagem

como

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próprios sonhos, quando personagens conhecidas ou estranhas surgem das profundezas para desempenhar comédias ou dramas em cenários mais ou menos fantásticos”. Nos sonhos não conseguimos bloquear totalmente as imagens, não temos plena consciência, nem nosso pré-consciente, ego e superego, estão totalmente aptos para nos podar ou peneirar os conteúdos. Não temos nossa autocrítica nem o olhar do outro agindo com plenitude. Levando em conta essas colocações, propõe-se a vendagem dos olhos do indivíduo que vai trabalhar com a argila, preservando- o da autocrítica, da intervenção do olhar do e para o outro, e, por fim, afastá-lo dos valores convencionais, pois, como observa Aniela Jaffé no seu livro O Mito do Significado Na Obra de C. G. Jung, “a liberdade e a prisão acompanham e condicionam a história da evolução do homem” (1983, p. 93). Através da venda nos olhos, levamos o indivíduo a despertar o contato com o seu eu interior. Jaffé continua: devido à sua iluminação racional, à sua tecnologia e conhecimento, o homem civilizado é muito mais livre do que o chamado primitivo, que permaneceu cativo, mas também salvaguardado, pela natureza e pelo inconsciente” (Ibidem, p. 93). A consciência do homem civilizado se desenvolveu ao longo de sua história, possibilitando a comunicação e a liberdade de criação. No entanto, a alta valorização da consciência racional e a primazia do ter em detrimento ao ser, lesaram nossa relação afetiva e emocional, sendo a gênese de muitas das nossas neuroses e doenças. Por isso, a experimentação e a valorização do substrato psíquico são fundamentais ao ser humano. É essencial para a formação da subjetividade do homem a consciência individual, ou seja, a personalidade consciente, que é a única capaz de nos possibilitar a ir contra os movimentos de massificação de uma sociedade cada vez mais capitalista. Cremos ser esse o significado social da busca da subjetividade.

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Cabe ao sujeito, portanto, escolher o caminho a seguir: a liberdade com responsabilidade ou o aprisionamento. Refletamos sobre o que diz Chopra (1994) sobre a visão que cada um deve

escolher: “a escolha é sua. Você pode escolher ver a rosa fenecer e morrer ou pode preferir ver a rosa como uma onda de vida que jamais termina, pois no ano que vem novas rosas nascerão da semente desta” (Chopra, p.54).

Silveira (1992) citando Jung considera os produtos da função imaginativa do inconsciente como “auto-retratos do que está acontecendo no espaço interno da psique, sem quaisquer disfarces ou véus, pois é peculiaridade essencial da psique configurar imagens de suas atividades por um processo inerente à sua natureza. A energia psíquica se faz imagem, transforma-se em imagem” (Chopra, p.85). Se é difícil um entendimento imediato do que as imagens nos dizem, isso não significa que elas estão mascarando conteúdos reprimidos, e sim, porque estão sendo representadas por uma outra linguagem: a simbólica, cuja significação desconhecemos ou esquecemos. Essa incompreensão se dá porque às vezes, consideramos a linguagem racional, como a única e legítima. “Pintar [ou modelar] aquilo que vemos diante de nós é uma arte diferente de pintar [ou modelar] o que vemos dentro de nós” nos diz Jung (1978, apud, Silveira, 1992) que completa:

O que importa é o indivíduo dar forma, mesmo que rudimentar, ao inexprimível pela palavra: imagens carregadas de energia, desejos e impulsos. Somente sob a forma de imagens a libido poderá ser apreendida viva, e não esfiapada pelo repuxamento das tentativas de interpretações racionais.

Imagem e significação são idênticas para Jung. Quando a imagem se configura, também a significação torna-se clara. De fato, as imagens arquetípicas não necessitam de interpretação: elas retratam sua própria significação. Diz ainda Jung:

As imagens simbólicas, com suas múltiplas faces,

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exprimem os processos psíquicos de modo mais precioso e muito mais claramente que o mais claro dos conceitos. O símbolo não só transmite a visualização dos processos psíquicos, mas também, e isso é importante, a re-experiência desses processos (1978, apud, Silveira, 1992, p. 87).

O psicólogo ou arteterapeuta tem a função de facilitar ao indivíduo a compreensão da busca da subjetividade, o que “significa cada um tornar-se o indivíduo que realmente é em seu resumo original” (Silveira, 1992, p. 87). A argila conforme Oaklander (1980, p. 85), “promove a manifestação ativa de um dos processos internos mais primários. Proporciona a oportunidade de fluidez entre material e manipulador como nenhum outro. É fácil tornar-se uno com a argila. Ela oferece tanto experiência tátil quanto cinestésica”. Sua expressão é, como diz C. G. Jung em suas Memórias, Sonhos e Reflexões (Jaffé, 1975, p. 158):

Na medida em que conseguia traduzir as emoções em imagens, isto é, ao encontrar as imagens que se ocultavam nas emoções, eu readquiria a paz interior. Se tivesse permanecido no plano da emoção, possivelmente eu teria sido dilacerado pelos conteúdos do inconsciente. Ou, talvez, se os tivesse reprimido, seria fatalmente vítima de uma neurose e os conteúdos do inconsciente destruir-me-iam do mesmo modo. Minha experiência ensinou-me o quanto é salutar, do ponto de vista terapêutico, tornar consciente as imagens que residem por detrás das emoções.

Argila e indivíduo unem-se num só momento na busca da transformação da matéria e do homem. A venda nos olhos o destitui da maioria das intervenções externas e lhe é dada ao mesmo a oportunidade de reencontrar ou encontrar os seus tesouros internos, possibilitando desenterrá-los, através do processo de fantasia e descoberta de seu trabalho na sessão. Isso dá à argila forças curadoras da imagem arquetípica que ativarão a energia do processo

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terapêutico, entrelaçando o criador e, a criatura e por que não dizer, o terapeuta.

O

analisado é levado a tomar parte ativa no processo

e

a reconhecer-se concretamente na transformação

que vê acontecer em relação ao Objeto Material [a argila] que ele e o analista manuseiam na sessão. Assim, a experiência de totalidade se constela nas mãos que tocam o objeto material (Gouvêa, 1989, p.

51).

Nessa conjectura entre a argila e o sujeito (cliente) encontraremos a troca do calor das mãos com o frescor da umidade da argila, na qual surge a alquimia, dando a origem às imagens cheias de libido vividas e por viver. Segundo Gouvêa (Ibid, p. 57):

a inércia psíquica é ultrapassada quando se dá o encontro no trabalho com o barro. Neste sentido, afloram os investimentos libidinais quando se trabalha com a argila: “Na medida em que o calor e o úmido diminuem, e quando um se apaga e outro se acaba, surge o belo equilíbrio sob as imagens formais nas quais analista e analisando buscarão achar esboços de secretas metáforas”(Ibidem, p. 57)

O criador vê-se diante da sua criação e, como bem diz Gouvêa (Ibidem, p. 57), “o barro se enrola no imaginário do analisando, penetra no reino da pedra que há em seu interior (o Ego) ajudando-o a sonhar seus devaneios, os mais íntimos. E quando se ergue no objeto externo e o analisando se põe a manuseá-lo, a esculpi-lo, é a ele mesmo (analisando) que dá forma”. Esse processo deve dá-se num estudo de uma série de imagens, possibilitando verificar e acompanhar o desdobramento do sujeito dentro de seus processos intrapsíquicos. Nice da Silveira, com o seu trabalho no Museu do Inconsciente, experienciou que trabalhos em série feitos com pacientes, tal como os sonhos, se examinados, descortinam a repetição de motivos e a existência de uma continuidade no fluxo de imagens do inconsciente. A tarefa do terapeuta será estabelecer conexões entre as imagens que emergem

do inconsciente situando-as dentro do contexto histórico, social e cultural vivido pelo indivíduo ou analisando.

A argila por si só não é curativa, mas representa a

possibilidade, no processo criativo, de integrar e materializar muitas vezes os conflitos psíquicos para a compreensão e integração desses conteúdos à consciência, levando a conjugar imagem e ação num processo de auto-organização e desenvolvimento, a que Jung

chamou de processo de individuação:

Com a mão que guia o cragon ou o pincel, com o pé que executa os passos de dança, com a vista e o ouvido, com a palavra e com o pensamento: é um

impulso obscuro que decide, em última análise, quanto à configuração que deve surgir; é um a priori

inconsciente que nos leva a criar formas

e a significação são idênticas e, à medida que a primeira assume contornos definidos, a segunda se

torna mais clara (Jung, 1988, p. 65).

A imagem

Dentre as várias abordagens psicoterapêuticas que trabalham com arte destacamos a psicologia junguiana. Jung trabalhou com símbolos na tentativa de penetrar no íntimo de seus pacientes e no dele próprio. Pois Jung experimentava suas descobertas, hipóteses e questionamentos. Muitas das suas respostas vieram através da própria prática e, como ele mesmo dizia: Na análise propriamente dita, é a personalidade inteira que é chamada à arena, tanto a do médico quanto a do paciente” (Jaffé, 1975, p. 122).

O que importa ao indivíduo é dar forma, mesmo que

primária, ou seja, inexprimível através de palavras, “As imagens estão cheias de energia, desejos e impulsos e somente sob a forma de imagem, seja ela qual for, a libido poderá ser apreendida viva, e não esfiapada pelo repuxamento das tentativas de interpretações

racionais (Silveira, 1992, p. 86).

O indivíduo terá a possibilidade de ressignificar esses

aprisionamentos que fazem parte do seu cotidiano, com a vendagem

dos olhos, enquanto instrumento facilitador que destitui o olhar do outro e ajuda o sujeito neste estado emocional, levando-o a uma expressão mais autêntica, encaminhando-o para uma experiência interna, tendo a imagem como objeto desta emoção ou sentimento, sem “sofrer” a inferência do outro e das convenções.

A TÉCNICA

Mergulhar nesse universo da argila com os olhos vendados

é entrar no oceano da entrega a um processo criador e revelador de

expressões internas. Para tal, o ambiente deverá ser o mais propício

possível para o desenvolvimento do trabalho terapêutico, um espaço amplo e claro, com ventilação natural, de fácil limpeza, contendo um lavatório. O indivíduo deverá estar bem acomodado e o trabalho

a ser manipulado, em uma sólida superfície. A disposição da argila poderá ser desde um tubo compacto até uma simples porção de forma indefinida. É mais prática a utilização, até para acondicionamento, de um tubo de barro compacto de aproximadamente vinte e cinco centímetros de altura por dez centímetros de diâmetro, entendendo-se que esta dimensão propicia ao indivíduo a facilidade de expressão, por ser uma quantidade razoável de argila para manipulação (cerca de 2,5 kg). Para melhor integração do sujeito com o processo de auto- interiorização, faz-se uso de um equipamento de som, para suprir qualquer ruído externo que porventura possa interferir na dinâmica proposta. Estando o indivíduo ciente de que será posta uma venda nos olhos, inicia-se o processo: coloca-se uma música suave e o arteterapeuta auxilia o indivíduo a pôr a venda nos olhos, começando por um relaxamento, pois a própria venda traz ansiedade acerca do que virá. Em meio ao processo o sujeito é convidado a entrar em contato com a sua respiração, com o seu ritmo, com o seu interior. Como mostram Sara Païn e Gladys Jarreau, em seu livro Teoria e

Técnica da Arteterapia (1996), a primeira imagem de identificação do ser humano é com ele mesmo. No início o sujeito é o seu corpo, ou seja, o Eu corporal, esse instrumento que comanda para alcançar um objeto. Estando para finalizar o relaxamento, o indivíduo é posto em contato com a argila, que até então estava coberta, sendo ele conduzido a partir de então, a um processo de criação, onde ao mesmo tempo o sujeito é um eu - proprietário do corpo, enquanto comanda os movimentos e um eu autor, enquanto criador da transformação da matéria-prima em obra. Enfatizamos os seguintes pontos para a continuação do processo:

Olhar tátil através da sua visão interior;

Afastamento ou distanciamento dos pensamentos racionais;

Modelagem da argila: amassar, retirar, furar, etc.;

Pausa de descanso, seguida de uma conscientização da respiração;

Manuseio da peça, sentindo-a em sua forma total;

Continuação do processo de moldagem;

Apropriação e a retenção; uma palavra para o que se está „vendo‟ e sentindo;

Ênfase nos retoques para a finalização do trabalho;

Promoção da busca das sensações do momento, deixando-se o indivíduo sentir todo processo.

Cobertura da peça, de maneira que o indivíduo não a veja;

Tempo para lavar as mãos, tomar água, etc.;

Colocação à disposição de papel e lápis;

Pedido de que o indivíduo diga a palavra escolhida;

Descobrimento da peça; O trabalho expressivo com a argila com os olhos vendados está concluído. Ele permitiu que os possíveis desejos internos, os afetos, as emoções e os tesouros enterrados no sujeito viessem à

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COM TEXTO, Ano VIII, n o 1

tona, dando uma forma concreta ao conteúdo latente no seu subconsciente. Na peça ficam as marcas do estado afetivo, expresso pelo cognitivo. A própria expressão modelada fala de uma realidade que ultrapassa a linguagem verbal. Ela fala de conteúdos que foram reproduzidos, de elementos significativos traduzidos em função da necessidade interna do indivíduo. Pelo simples fato de existir como objeto, dá ao seu criador uma provável diretriz no caminho de construção da subjetividade.

questionário

o contendo as seguintes questões:

Para

concluir

trabalho

entregamos

um

1. Como se sentiu ao modelar?

2. Como se sente vendo sua obra?

3. Qual é o título?

4. Que mensagem ela transmite ou que você lhe dá?

O questionário é mais um recurso no sentido de estimular o sujeito a associar livremente, conjugando sentimento e significação ao trabalho que produziu. Como o terapeuta não lê a peça modelada conforme seus próprios juízos, ele tem na fala do sujeito pistas dos conteúdos inconscientes que estão compostos na argila trabalhada. Desse modo, arte e palavra, obra e criador podem encontrar-se. É esta, a possibilidade do sujeito se defrontar com o non sense que pulsionalmente suas mãos arquitetaram, mas que aponta para a realidade psíquica vivida. Ao falar sobre o que fez e como se sente, pode-se dar às vivências do sujeito um novo sentido, que por vezes ele próprio nem previa atribuir. Não é raro que ao falar do seu trabalho, venham à consciência sentimentos e lembranças até então recalcadas. Enquanto ser de linguagem, o achar-se e o perder-se nas palavras são condições de sua existência. Neste trabalho, o sujeito conta ainda com sua arte, produção sua, que lhe serve como espelho ou mola para que se aproprie dos sentimentos que vivencia e dos conteúdos subjetivos subjacentes à sua consciência.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com esta perspectiva junguiana Nise da Silveira implantou nos centros psiquiátricos a pintura, a modelagem e outras atividades, todos eles constituindo espaço que proporcionavam condições para a expressão das vivências dos pacientes que frequentavam os núcleos de atividades. Verificou ela que essas atividades tinham em si mesmas qualidades terapêuticas, pois davam forma a emoções tumultuadas, despotencializando-as e objetivando forças autocurativas que se moviam em direção à consciência, isto é, à realidade. Dessa forma surgiu o Museu da Imagem do Inconsciente, no Rio de Janeiro, tendo como objetivo a compreensão do processo psicótico e o valor do trabalho terapêutico que ameniza o sofrimento psíquico.

A partir do estudo realizado, concluímos que a tarefa do

terapeuta/arteterapeuta será estabelecer conexões entre as imagens (peças de argila) e a situação emocional do indivíduo. Essa forma de expressão é importante para o alívio do sofrimento psíquico, esteja o indivíduo mergulhado em problemas sérios ou apenas almejando explorar a si mesmo e a seus sentimentos. Em ambos os casos, usar-se-á como instrumento a arte objeto principal do trabalho com a arteterapia. Assim sendo, o trabalho elaborado traz uma percepção baseada no cognitivo-simbólico do sujeito levando- o a descobrir-se por meio de insights e favorecendo seu auto-

crescimento psíquico.

A criação estimula a observação e o desenvolvimento de

uma relação mais íntima e afetiva consigo mesmo, com outras pessoas e com os diversos materiais, proporcionando uma visão diferente e transformadora, não só da matéria-prima (argila), mas das situações que a vida pode proporcionar. Ao vivenciar o processo artístico, o indivíduo descortina um amalgamamento consigo mesmo, com a vida e com o mundo, conscientizando-se de que é criador de sua subjetividade, do seu autoconhecimento e

criatividade.

Precisamos, para a nossa saúde psíquica, entrar em contato com nossas imagens inconscientes, estejam elas presentes nos sonhos, na imaginação ou na nossa expressão artística. Como afirma Nice da Silveira, que trouxe a proposta de Jung para o Brasil, as imagens e significação são coisas idênticas. Quando o criador cria a sua obra, ela se configura tornando a significação clara, ou seja, a imagem simbólica formada tem suas várias faces, expressando os processos psíquicos de maneira mais clara e precisa muito mais do que conceitos ou palavras. Essa simbologia não só diz e mostra os processos psíquicos, como também é importante pela ressignificação desta vivência.

REFERÊNCIAS

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