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MINHA VIDA:

A PAIXÃO DE CRISTO SEGUNDO CLÁUDIA PRÓCULA

O JULGAMENTO E A CRUCIFICAÇÃO DE JESUS ATRAVÉS DOS OLHOS DA ESPOSA DE PILATOS

POR: CLAUDIA

Prefácio da Autora

“Há muitas moradas na casa de meu Pai” João 14:2

Assim é também com nosso espírito, que é eterno já habitou e ainda habitará diversos corpos neste universo afora, sempre com o intuito de acima de tudo, fazer a vontade do Pai como instrumentos divinos que somos.

O relato que segue são apenas minhas lembranças (obtidas através de regressão) de fatos ocorridos já há muito tempo, mas que ainda estão muito vivos em meu coração. Relatos de um tempo que eu habitava outro corpo em outra época. Já houve muitas outras vidas depois dessa, assim como também houve milhares delas antes também.

Mas isso é outra história.

Claudia

ÍNDICE

1 PRIMEIRO ENCONTRO

2 O CASAMENTO

3 NOMEAÇÃO E GRAVIDEZ

4 VIAGEM E PARTO

5 CHEGADA À JUDÉIA

6 GOVERNO DIFÍCIL

7 MILAGROSA CURA

8 CRISTÃ

9 ENTRADA TRIUNFAL

10 CONVERSA COM YESHOUA

11 A PROMESSA DE LIBERTAÇÃO

12 O SONHO: UMA JUSTIFICATIVA

13 PLANO FRACASSADO

14 MANTENDO A PROMESSA

15 REVOLTA POPULAR

16 LUDIBRIADO POR UMA ARMAÇÃO

17 PROMESSA NÃO CUMPRIDA

18 QUATRO ANOS DEPOIS

Primeiro Encontro

Em meu primeiro encontro com meu futuro marido Pontius Pilatus estava eu na ante-sala escutando a conversa de todos na sala, escutando sua voz na sala, esperando me chamarem para me apresentarem quem seria meu marido.

Estava assustada, essa história de casamento arranjado poderia não dar certo. Havia visto tantos casos que não dera. E ficava lá, esperando, nervosa. Até que chegou a hora, chamaram-me, num misto de nervoso e ansiedade entrei em passos apertados esboçando um sorriso nervoso. Logo ao adentrar a sala ele levantou-se. Estava em trajes militares, com aquela couraça e tudo mais (ele sempre andava somente em trajes militares mesmo depois).

Levantou-se e veio em minha direção, parei, ele também parou, ficamos assim uns 2,5 metros um do outro, as outras pessoas da sala apresentaram-nos sem se levantarem, sem chegarem perto de nenhum de nós dois. Estava bela, havia me preparado o dia inteiro, estava com minha melhor túnica, cabelos parcialmente presos ricamente adornados com uma tiara que caía até mais embaixo. Com a respiração ofegante, fiquei ali parada, estática desde que pus os olhos nele.

Os pés me pareciam sair do chão, parecia que eu fora transportada dali para algum lugar distante em minha memória. A sala sumira, assim como os demais presentes, as conversas deles nos apresentando pareciam sons ininteligíveis a mim. Respondia mecanicamente com um sorriso. A única coisa que ressaltava ante meus olhos era ele.

Como podia! Os meus sentimentos, meu coração, meu inconsciente não agiam de acordo com meu consciente.

Conscientemente sabia ser meu primeiro encontro de um casamento arranjado com um advogado do imperador Tibério, de quem eu era parente. Sabia que ele estava somente interessado em ascensão perante o imperador e eu era o caminho devido ao parentesco. E isso me incomodava há dias.

Mas na hora que pus os olhos nele. Tudo me dizia que era um reencontro com alguém muito amado. Um reencontro há décadas ou mais esperado, a muito esperado.

A alegria tomara conta de meu ser, finalmente juntos novamente! Mas ao mesmo tempo meu consciente achava muito estranho tudo isso.

Tudo isso em poucos segundos ou minutos. Tudo isso ante um olhar, sentira em seu olhar que era tudo absolutamente recíproco. Sorri sem acreditar, feliz, coração disparado, nervosa, não conseguia mexer-me.

Todos saíram da sala e deixaram-nos a sós para conversarmos e nos conhecermos melhor.

O coração quase saiu pela boca, faltava força nas pernas e, ao mesmo tempo, pareciam

pregadas no chão sem dar a chance de mover-me.

Ele veio todo amoroso, lânguido e romântico. Totalmente envolvido em amor. Ambos envolvidos num amor profundo. Num lindo reencontro. Ele chegou-se devagar, falando doces palavras sedutoras, cheias de um amor profundo. De quem não me via há séculos e estava morrendo de saudades.

Abeirou-se de mim, ambos, face a face, respiração ofegante, com sua mão esquerda passou a mão por meus cabelos. Passou a mão por eles como quem acaricia uma flor de rara

beleza. Uma flor única que se abrira, que existia, que fora criada por Deus somente para ele. E foi afagando meus cabelos dizendo doces palavras de amor eterno e chegando perto

de mim devagarzinho, enlaçando-me com sua vibração de amor.

Finalizando o enlace passando a sua mão direita por minha cintura puxando-me para si num movimento devagar e amoroso. Olhos cheios d’água emocionados ele tinha e eu com o coração na boca. Sentia a beleza e a emoção de um reencontro de duas almas que se amavam profundamente., mas nessa vida era nosso primeiro encontro.

Quando meu corpo encostou-se ao seu como que um leve choque percorreu meu corpo. Olhamo-nos nos olhos e ele me beijou.

Nossos lábios se tocaram leves no início com um certo estremecimento ante o primeiro toque, para se colarem logo em seguida num beijo que pareceu que nossas vidas passaram ante nossos olhos. Mas não era a vida atual, eram lembranças de um grande amor vivido há muito tempo atrás. Fiquei tonta, a mente confusa ante tanta coisa estranha rodando nela, sem entender.

Minhas pernas fraquejaram e ele enlaçou-me mais forte ainda com os dois braços segurando-me com a forte segurança de quem ama. Senti-me segura., não queria que aquele momento acabasse nunca.

Mas fomos interrompidos. Acho que sentiram os odores sedutores da paixão e volúpia correndo no ar e trataram de interromper.

Tonta, confusa e meio bamba das pernas, fiquei sem graça não saia o que falar, nem para onde ir trocamos algumas palavras com os presentes e saí. Vi seu lindo sorriso e olhar cheios de amor dirigidos a mim enquanto saía.

Mal pude dormir aquela noite. Aquele momento não me saía da cabeça, ele não me saía da cabeça. Aquele porte imponente que se levantou como quem quisesse impressionar só com o porte, a pose, já que a estatura, a estrutura era mediana, impressionara-me. Achara-o lindo apesar de sua beleza não ser física.

Tinha cabelos ralos com duas entradas que deixavam meio pontudo o ralo cabelo que tinha no centro. Aquele rosto meigo, doce, como o de um menino desamparado que pedia proteção encantara-me. Aquele rosto meio redondo, branquinho, com as bochechas fofas sem serem saltadas inspiravam lindas mordicadas. Seu lábio mais para finos e boca meio pequena parecia mudar muito durante o beijo, pareciam ganhar volume e quentura inimagináveis. Aqueles olhos pequenos meio puxados para baixo nas extremidades externas completavam o ar de menino desamparado que me inspirava à proteção, a enlaçá- lo em meus braços e aconchegá-lo.

Como o amava e, no entanto, apenas o vi por breves minutos, porém a mim sentia como se o conhecesse há séculos.

O Casamento

O que se seguiram depois foram os preparativos para o casamento, mas os nossos ansiados

encontros para nossa decepção davam-se sempre sobre as vistas da família que já adivinhara nossa volúpia intensa que se seguia ao nos encontrarmos. Longos passeios pelo jardim ao luar, seguidos pelos parentes, breves conversas sussurradas para não escutarem falavam de amor eterno, saudades, ansiedade para ter-me em seus braços. E essas doces palavras de amor povoavam meus sonhos, minhas madrugadas e deixavam-nos, ambos, ansiosos, pelo grande dia de nosso enlace por toda a eternidade.

No grande dia de nosso casamento tremia, tremia tanto. Quando ele segurou minha mão senti sua mão gelada, suando frio.

O que se seguiu depois foram horas intermináveis, conversas intermináveis e nós ansiosos

para estarmos a sós, somente isso.

Recolhi para preparar-me para a grande noite, tão esperada noite onde finalmente seria de meu amado.

Ele ficou conversando com alguns homens. Ele era tão diferente quando perante outros homens. Parecia exercer um papel, uma personagem de alguém forte, decidido, de fala imponente. Irreconhecível, comigo era tão diferente.

Assustei-me ante a possibilidade de uma súbita transformação de meu amado para aquele imponente.

Mas fui preparar-me deixando de lado as preocupações.

Fiquei deitada em nossa cama, esperando. Quando ele finalmente chegou e apareceu na porta, com aquele uniforme militar, estremeci, o coração disparou.

Ele foi chegando devagar, emocionado. Abeirou-se da cama, do jeito que estava, se inclinou para mim e me beijou, num beijo envolvente e profundo, envolvendo-me com seu corpo todo.

Finalmente era sua, somente sua, por toda a eternidade. Juramos amor eterno aquele dia, juramos jamais nos separarmos por nada desse mundo, juramos jamais viver um sem o outro.

E todos os meus medos se dissiparam, era ele mesmo, integralmente meu amado. Não tinha

nada de imponente. Era um homem doce, meigo, gentil, amoroso, romântico, desejoso de

atenção e carinho, assim como de aprovação ante cada uma de suas ações. Era exatamente o que seus olhos, suas feições diziam. Uma pessoa maravilhosa!

Extremamente incompreendida por todos, principalmente pelos seus iguais, os homens de sua posição ou acima dela, que frívolos e mandões, muito o invejavam e temiam ante suas conquistas todas feitas com muito amor e bondade.

Personalidade maravilhosa tinha que rapidamente seria envenenada ante tantas cobras com

os quais conviveria.

Nomeação e Gravidez

o envenenamento já se deu início em Roma mesmo. Casamento vantajoso e feliz fê-lo

virar um rápido alvo de invejas e intrigas de todos os meios. Porém seu salário não condizia

com a posição que ascendera e a situação começara a preocupar.

Principalmente com a família a crescer comigo a espera do primeiro filho que rapidamente fora encomendado após o casamento.

Apesar das más línguas, estávamos tentando viver sem tirar vantagens do meu parentesco com o imperador, mas a situação preocupava-o deveras. E como o imperador nada havia dado por ocasião do nosso casamento ele pensara em encher-se de coragem e usar da influência ganha com o casamento para pedir um cargo melhor.

Pensava algo em Roma para ficar no centro dos acontecimentos, do mundo, para melhor educar o rebento vindouro e foi cheio de esperanças falar com o imperador.

Voltou meio confuso, conseguira, mas não exatamente o que pretendia. Fora mandado como procurador da distante província da Judéia.

Muitas histórias já lhe falaram dessa gente e ficava falando cada uma delas assustado. Refugiava-se em meus braços quando tudo isso o atormentava. O que começara a ficar mais freqüente conforme os preparativos para a mudança aumentavam de ritmo. Ele fora ficando cada vez mais ansioso, nervoso, tinha crises de prepotência alternadas com crises de medo ante a responsabilidade.

Essas crises de medo eram cuidadosamente escondidas e era em meus braços que se refugiava nessas horas buscando equilíbrio.

Eu era seu equilíbrio, sua vida, seu oásis nesse mundo louco em que vivia dizia-me. Repetia sem cessar, durante toda a sua vida, que sem mim enlouqueceria, que preferiria a morte a

E

viver sem mim. E depois que engravidei e a barriga começara a aparecer passou a idolatrar- me. Ajoelhava-se perante mim agarrado ao meu ventre volumoso com a cabeça nele. Às vezes somente a contemplar, algumas vezes em prantos, mas todas sempre maravilhado ante tanta beleza como dizia. Era tão bom!

Ante a loucura agitada do dia a dia perante os nervosos preparativos para a partida nossos momentos a sós eram de pura beleza e de um amor profundos onde nos nutríamos da força de nosso amor para seguir em frente. Mas nossa vontade mesmo era que o mundo fosse somente nós dois e nada mais. Assim estaríamos completos.

Meu ventre muito doía a cada dia que passava ante gravidez tão agitada pelos preparativos da mudança. E isso era um motivo a mais de preocupação para ele, grande preocupação por sinal, desesperava-se ante minhas dores.

E eu não sabia se deixava transparecer minha natureza delicada e frágil, cheia da meiguice

que ele tanto amava, ou se me fazia forte para não abalá-lo tanto já tanto abalado com a mudança. Preocupava-me, se que eu era seu ponto de equilíbrio não fosse equilibrada o que seria dele?

Mas à noite em nossa cama tudo se dissolvia ante tanto amor e paz que nosso amor nos trazia. Amor e paz profundos. Éramos um mundo à parte, nosso mundo, um mundo perfeito, de amor.

Viagem e Parto

O grande dia da mudança chegara e partíramos numa caravana. Viagem difícil, longa, cheia

de percalços. Como era longe essa Judéia!

Sabia ser distante, mas não pensei que fosse tanto. Parecia interminável.

Estava mal, uma viagem dessas em meu estado inspirava cuidados e, já não saíra bem de Roma devido aos tensos preparativos. Já não sabia mais como fugir dos sacolejos constantes que me doíam fundo no ventre aumentando as dores.

Chorava escondida de meu marido para não desesperá-lo ainda mais.Mas ele era como uma águia a vigiar-me e proteger-me, e sempre acabava percebendo, pois notava meus sumiços.

Muito o preocupava meu estado em crescente piora, mal conseguia disfarçar o desespero perante mim. Mas via-o em conversas nervosas com os escravos ante ameaças até mesmo.

Chegou uma hora que não conseguia mais viajar senão deitada muito mal. Passei assim longo tempo, sempre com dois escravos junto de mim o tempo todo. Ante a mínima perspectiva de me perder aterrorizava-o e ele andou muito tenso sempre a rodear o local onde viajava.

Via-o passando em volta, nervoso. Mas quando vinha falar comigo seu coração transbordava amor e carinho.Perguntava como andava sua família, se estava cuidando bem do bebê, se estava sendo uma boa mãe como era boa esposa, fazia-o sempre com doces palavras de amor encorajando-me sempre afagando meus cabelos. Que a essa altura já andavam a muito desalinhados, bem o sabia que andava pálida também, escutava os comentários.

Já perdera a noção de tempo e lugar. De onde estava pouco via por onde passávamos, para mim já nem importava mais.

Até que um dia as dores foram aumentando cada vez mais e não passavam, fiquei dias assim, cada vez pior. Diziam-me que era o parto, mas estava fora de hora, tinha apenas oito meses.

Escondiam-me muitas coisas, via o burburinho, os cochichos, a correria, o crescente desespero.

No início Pontius até tentava me esconder seu desespero, mas depois de um tempo não conseguia mais. Rolavam grossas lágrimas de sua face ao ver-me, segurava forte minha mão. Pedia-me força, pedia-me para lutar, pois sem mim não viveria jamais, não poderia perder-me.

Voltava-se aos escravos, um escravo e uma escrava que faziam meu parto difícil, e em desespero, ameaçava-os com a morte se algo acontecesse a mim ou à criança. Não poderia perder-me jamais e sua fúria desceria sobre todos se qualquer coisa me acontecesse.

Mas, graças a Deus, depois de um longo e sofrido parto nasceu a criança, era um menino. Chamaram Pontius que, aos prantos, chegou radiante de felicidade, seu semblante exalava um alívio profundo, tão profundo quanto o amor que sentia.

Feliz, exclamou sua felicidade ante sermos agora uma família e ante eu haver lhe dado um varão. Exultou de felicidade e falou que seu nome seria Túlio.

Recompensou regiamente os escravos por terem salvado sua família e entrou onde viajava enlaçando-me em seus braços afagando meus cabelos e fazendo comentários amorosos sobre minha coragem, seu amor, nosso filho, sobre nossa eternidade juntos.

Depois disso um clima de alívio desceu sobre a caravana e a viagem seguiu tranqüila com o papai Pontius a corujar seu rebento. Saía com ele a exibi-lo para cada um da caravana, principalmente os militares com quem muito andava.

Preocupava-me um pouco, era tão pequenininho e frágil para sair da segurança de meus braços. Mas não queria impedir esses lindos momentos de alegria de Pontius.

Chegada à Judéia

Depois de longa viagem chegamos, no meio da noite na Judéia, ou melhor, a Jerusalém.

Eu queria era chegar logo e me instalar com meu filho no palácio, dar-lhe melhores condições. Estava ansiosa para respirar aliviada. Não agüentava mais ficar deitada naquele lugar, sem intimidade nenhuma com meu marido e nosso filho.

E Pontius estava irreconhecível, ego inflado, como representante do imperador naquele lugar sentia-se o próprio imperador.

Queria fazer estardalhaço para entrar, queria pompas, queria ser reverenciado. Reclamava por ter chego no meio da noite.

Ignorou as recomendações dadas pelo governador da Síria, seu superior imediato. Não se privaria de seus direitos, eles eram os dominados. E assim entrou com todo o estardalhaço possível no meio da noite mesmo.

Avisei-o sobre seguir as recomendações do governador da Síria. Não havia necessidade de expor a efígie do imperador sem necessidade, mas o gosto do poder cegou sua prudência e foi ele.

Bem o avisei, sei que deu problema depois, mas estava tão preocupada em organizar tudo, cuidar de nosso filho Túlio que mal acompanhei esse episódio. Apenas lancei a ele significativo olhar de “te avisei”, quando chegou em casa agitado bradando impropérios, nervoso. Ficou sem graça e continuou resmungando baixinho enquanto ia ao escritório para pensar e se acalmar.

Amava-o, como poderia ser ele assim? Um homem tão doce, meigo, amoroso, romântico, tão necessitado de carinho, proteção e aprovação de cada um de seus atos e, ao mesmo tempo, deixar cegar-se pelo ego, pelo poder?

Não entendia como o encantava tanto ser tão bajulado, chegava a ser ingênuo. Bastavam alguns agrados à sua pessoa para conquistar sua confiança. Vai dar problema, pensei.

Bem conhecia a história do imperador, desconfiar sempre de todos, dizia ele a mim. E bem via que meu amado Pontius iria tomar uns sustos para depois aprender.

Não me agradava nem um pouco ver que ele sofreria, queria protegê-lo disso, sabia-o frágil. Perante os outros se fazia forte e decidido.

Mas isso não enganou por muito tempo as pessoas no palácio e rapidamente aprenderam como manipulá-lo. Passei então a acompanhá-lo de perto, tão perto quanto possível, sem dar problemas a ele. Mas logo perceberam que eu o manipulava protegendo-o. Então incentivaram-no a isolar-me no palácio, em nossa casa, a pretexto de minha segurança devido ao meu frágil estado, pois estava grávida novamente. E ele, um esposo sempre zeloso, e em partes com trauma do último parto, não queria perder-me, dizendo-me, agarrando-se ao meu ventre choroso. Dizia que queria uma gravidez tranqüila, não queria ver-me envolvida com assuntos governamentais escusos, era frágil e iria impressionar-me fácil. Queria proteger-me por isso fazia isso.

Abri-me com ele, expus meus medos, expus o que o imperador passara, o que me ensinou,

não queria essa rede de intrigas para ele, sabia-o frágil. Mas ele disse-me que isso não era assunto para preocupar-me, que ele deveria proteger-me e não eu a ele, que ele como governador deveria saber como se defender de tal gente, de saber impor sua vontade. E que

se o fazia isso de isolar-me do palácio governamental e das ruas, do povo, era para

proteger-me, pois éramos visados e odiados como representantes de Roma e ele temia represálias a mim, pois poderiam usar-me para atingi-lo e isso ele não admitiria.

Frustrei-me, preocupava-me com ele. Ele tentava agradar os bajuladores, aí se via enganado depois da ação feita e dominava-lhe a cólera, vingando-se com ódio. O que gerava mais revolta, ódio e inimigos.

A mim, depois disso, senti-me vencida pelos meus opositores, os bajuladores de meu

marido, isolada no alto de meu palácio.

Nossa residência ficava no alto, de onde dava para ver o palácio governamental abaixo e à esquerda e o local onde posteriormente Yeshoua iria ser julgado pelo povo mais ao centro.

Não podia sair às ruas, ia ao palácio governamental somente em raras ocasiões, angustiava- me tudo isso.

Governo Difícil

Foi a partir daí que governar passou a ficar cada vez mais difícil e duro para ele. Era uma rotina massacrante a ele, sem nenhum ponto seguro de apoio no palácio. Isso consumia toda a sua força. Passou a se aconselhar mais com os militares romanos. E esses, acostumados à dureza das batalhas, cruéis e sanguinárias, davam-lhe conselhos nada populares nem ortodoxos.

Assim como também esses militares, sem suas esposas, estavam acostumados as farras com vinho e mulheres, passaram a arrastá-lo para tais coisas imundas a pretexto de relaxar do estressante dia a dia. Começara assim, Pontius, para meu desespero e tristeza imensos a escapar de minhas mãos como areia. Não conversava mais comigo sobre suas dores, seus problemas, sobre o que temia. Foi isolando-me, não por falta de amor. Mas sim por excesso dele. Amava-me tanto que chegava à idolatria. E idolatrando-me queria me ver num pedestal isolada de todas as dores do mundo, pegava todas as dores para si, mas frágil como era não sabia lidar com elas e começou dar escape com farras noturnas e desmandos no governo.Tudo motivado pelas más companhias que o rodeavam por todos os lados.

Doía-me fundo vê-lo perder-se assim, queria resgatá-lo. Até conseguia, enquanto estava em meus braços, em minha companhia, sob minha influência. Mas perdia-se novamente como uma criança ao sair de minha zona de influenciação.

Numa tentativa desesperada passei a sair disfarçada pelas ruas. Saía com vestimentas simples, acompanhada por um guarda de confiança à paisana. E era nessas horas que descobria o que se passava. Fiz amizade com Euclides, um sacerdote do Sinédrio, única pessoa confiável num bando de cobras, dava-me preciosas informações. Era vantajosa para ambas as partes essa amizade.

Via o descontentamento do povo, o sofrimento dos humildes, acompanhava tudo com tristeza. Gostava de sair às ruas tomar contato com a realidade apesar de dolorida.

Passei a temer ir ao palácio governamental, tinha medo de dar de cara com as vagabundas que tiravam vantagem da fragilidade de meu marido. Temia encontrar outra em seus braços.

Chorava muito a cada vez que se demorava a voltar, a cada vez que voltava cheirando a vinho e perfume barato.

Sofria, chorava, tinha nojo.

Como queria que tudo isso acabasse, via seu semblante, seu olhar carregado de arrependimento e culpa ao olhar-me nos olhos após o efeito do vinho passar.

Olhava-me ali tão bela e lânguida, via o sofrimento em meus olhos, e o coração dele se apertava de culpa (dizia-me isso) ajoelhava-se se agarrando ao meu ventre com os olhos marejados pedindo perdão e prometendo acabar com isso.

Promessa nunca cumprida para meu desgosto.

Mas quando esquecíamos tudo isso e ficávamos a sós nosso mundo a dois era um paraíso de paz e amor. Onde nosso amor isolava-nos de todos os problemas, de tudo. Amávamo- nos profundamente apesar de tudo.

Milagrosa Cura

E o tempo passou assim, eu sempre idolatrada num pedestal em que ele me isolava cheio de

amor. Isolava-me na tentativa de não me fazer sofrer com a realidade de seus erros.

Estava quase sempre grávida para a alegria dele. Orgulhava-se muito disso. Era um pai zeloso e amoroso.Sempre com a mania de isolar do mundo na tentativa de proteger os seres amados de sofrimento.

Confidenciava sempre a mim que não viveria sem nós, sem mim enlouqueceria, preferiria a morte. Que a única coisa que o mantinha nesse lugar nojento era eu. Cada vez mais era seu ponto de equilíbrio.

E

isso me preocupava. Procurava como podia anular os más conselhos de todos do palácio

e

direcioná-lo

a não cometer erros. Mas a minha distância do palácio impedia

uma ação

mais efetiva.

Até que após nosso quinto e último filho (eram duas meninas e três meninos), minha recuperação estava difícil, o tempo passava e o meu ventre não parava de doer. Não falei nada a Pontius para não desesperá-lo, mas não sabia mais o que fazer.

Até que, um dia, passava pelo corredor próximo a cozinha e um centurião conversava com alguns escravos, parei, encostei-me na parede escondida e fiquei escutando. Ele falava de

um profeta que andava operando prodígios de cura, que gostava de contar parábolas para o povo, que andava impressionando todos.

Contara que estava na cidade, que o fora ver. Interrompi e pedi maiores explicações para susto dos presentes que tentavam se esquivar em vão. Pedi ao militar que me levasse a esse profeta, queria vê-lo.

Este hesitou, mas ordenei-o que assim o fizesse. Com vestimentas simples levou-me à beira

de um lago onde uma multidão de pessoas simples, do povo, o aguardavam.

Era final de tarde, postei-me perto de uma árvore, à distância, meio escondida para não ser reconhecida por ninguém até que ele chegou.

Postou-se à beira do lago e ficou esperando a hora de começar, agachado, riscando na areia da beira do lago enquanto seus discípulos, homens de simples aspecto controlavam a multidão.

E eu sempre com a mão em meu ventre, pois doía muito, escondida atrás da árvore.

Mas a cena era bela e hipnotizante.

Inesquecível cena, a multidão, aquele homem à beira do lago, o sol se pondo tingindo o lago de dourado e a brisa suave batendo.

Como podia aquele homem, sem dizer uma palavra sequer, sem sequer nos olhar, envolver- nos, hipnotizar-nos com sua personalidade. Ante sua simples presença envolvia tamanha multidão hipnotizando a todos numa onda agradável de uma paz e amor imenso.

Hipnotizava a todos, fazia-nos esquecer completamente tudo.

Tinha-nos em nossas mãos, dava-nos vontade de largar tudo sem olhar para trás e segui-lo hipnotizada ante personalidade tão forte, e ao mesmo tempo tão indefinivelmente cheia de ternura, paz e amor. E ele, nem sequer abrira a boca ainda!

Sua túnica simples, reta, muito alva, denunciava a sua condição de homem do povo. Sua pele alva, mas queimada de sol denunciava suas andanças e pregações debaixo de muito sol.

Seus cabelos castanhos muito longos chegavam a um palmo após os ombros, não eram lisos nem ondulados e profundos olhos azuis em que perdíamos nossas almas dentro. Sua barba longa chegava quase a acompanhar o cabelo, talvez um palmo menos ou mais. Nariz fino.

A hora que começou a falar sua voz suave hipnotizava o povo docemente. Hipnotizava

tanto que mal importava o que falasse o que importava era ficar ali escutando. Falou algo

sobre felicidade futura, sobre vida eterna, nem sei direito, estava hipnotizada. Perguntei ao militar que me acompanhava à paisana qual o nome de tal prodígio de pessoa. Respondeu- me Yeshoua.

Fiquei lá encostada na árvore hipnotizada escutando-o, com a mão em meu ventre de dor.

Ao final da palestra fiquei lá só olhando, por mim não voltaria, até que, de repente, ele pousou seus olhos em mim. Olhou-me fundo nos olhos como a examinar minha alma, e de repente, a dor passou. Como sabia meus pensamentos?

Não trocamos uma palavra. Estávamos a metros de distância e ele curara-me, adivinhara meus pensamentos.

Com o coração disparado me escondi atrás da árvore, de costas para a árvore, respiração ofegante, mão em meu ventre, maravilhada, sem entender direito tal prodígio.

Fiquei lá assim alguns minutos até que o militar me pediu para irmos, pois a multidão estava vindo em nossa direção para irem embora.

Aturdida fui embora, curada ante um olhar, sem palavras, à distância.

Cristã

Nada falei ao militar, mas em segredo confidencie-me maravilhada ante meus escravos, aqueles que peguei na cozinha conversando.

Diziam-se cristãos e eu, a partir daquele momento, mais do que nunca também o era. Mas era um segredo nosso.

Pontius jamais soube, nem da minha doença, de minha cura, nem da visita a Yeshoua.

Aqueles escravos passaram a ser meus amigos, confidentes, eram minha ponte entre os cristãos lá fora e eu.

Minha vida passou a ter outro sentido. Aquilo tudo me consolava e trazia esperanças. Pena não poder me abrir ao meu marido.

Mas não pude esconder por muito tempo e ele logo soube por intermédio de militares que me espionavam no dia a dia, dentro de minha própria casa. Que vida! Desconfiar de minha própria sombra!

Reclamei com Pontius que isso não era vida e ele bradava nervoso que era para minha própria segurança. Que era loucura sair por aí sozinha, somente com um soldado, que por isso ele mantinha sempre alguém a acompanhar meus passos para minha própria segurança.

Mas dentro da minha própria casa! – bradei.

Preciso manter-me informado para proteger-te já que não posso estar ao seu lado o quanto gostaria – disse-me – temos muitos inimigos por todos os lados não podemos confiar em ninguém. Mas pelo visto não posso confiar nem em ti, como pode? – começou a gritar – envolver-se com essa gente! Falei a ti que não se envolvesse com esse povo! E agora, se alguém souber como me explicarei a César? É um prato cheio aos meus inimigos. Sabe que vivo rodeado deles. Sabe quanto é me difícil minha rotina. Sabe o quanto é me estressante e estafante. Nem em ti posso confiar! Até tu vive tentando me manipular! Como esconder de todos? E agora? – disse-me aos berros batendo as mãos na mesa com força.

Recuei instintivamente ante tal violência nunca usada comigo ou com nossos filhos. Sempre fora extremamente amoroso, infiel, mas amoroso, sempre frágil, dócil em meus braços. Isso me assustara e ele me vendo assim se encheu de doçura e veio com carinho enlaçando-me docemente em meus braços falando macio o quanto me amava, o quanto amava nossos filhos, o quanto éramos tudo para ele e o quanto temia por nós, por nossa segurança. Por isso isolava-nos, principalmente a mim, não queria me ver em mãos erradas, não queria que presenciasse nenhum fato sanguinolento de seu governo ou de seus inimigos.

Sabia-me frágil e delicada, impressionava-me facilmente.

Pior sabia ser tudo verdade, fazia-me de forte, de equilibrada, mas no fundo era delicada e impressionável.

Suspirei fundo e deixei-me enlaçar por seus braços.

Entrada Triunfal

Depois disso o cerco ante minha pessoa se fechou mais ainda. Qualquer movimento meu era cuidadosamente vigiado e anotado.

Era horrível e desesperador sentir-me vigiada. Desconfiava de tudo e de todos o tempo todo. Se o povo soubesse! Invejava-nos tanto o dinheiro, a posição, o suntuoso palácio de mármore cercado de luxos. Se soubessem da dor, da prisão que isso nos impunha, não o trocariam por nada de sua simplicidade.

Longos dias cheios de dor e angústia. Eu era a tábua de salvação de Pontius e a minha tábua de salvação era as informações de Yeshoua que meus escravos cristãos, meus confidentes e amigos, me traziam.

Dias aflitos, Yeshoua andava por outras paragens e meu marido afundado em bebidas e mulheres. Chegava nos ombros de meus amigos escravos que me exortavam as palavras de consolação ditas por Yeshoua. Quanta aflição!

Mas um belo dia meus escravos amigos vieram radiantes com uma boa notícia Yeshoua e os seus estavam vindo para Jerusalém e o povo planejava recepcioná-lo na entrada com uma festa.

Recepcionariam com palmas para saudá-lo. Estão todos se preparando para irem lá.

Deus! Como queria ir, mas justo hoje Pontius tinha que estar trabalhando em seu escritório daqui de casa! Vivia enfurnado no palácio governamental, sumido o dia inteiro, chegava de madrugada cheirando a bebida e mulheres e justo hoje estava em casa! Não podia ausentar- me sem ser notada.

-Amigos, façam uma coisa por mim, vão lá vocês e contem-me tudo depois. Depressa! E não deixem que desconfiem!

E eu fiquei lá, ansiosa, na janela, escutando ao longe a festa que faziam. Parecia muito bonita, queria estar lá.

Ao final vieram eles, agitados, exultantes de felicidade, falando ao mesmo tempo. Num canto da cozinha nos alojamos para me contarem como foi, pedi que me dessem todos os

detalhes, mas que falassem baixo para que ninguém escutasse. Aqui as paredes têm ouvidos.

E me contaram que foi uma bonita festa que Yeshoua entrou na cidade montado num jumento e foi recebido pelo povo com palmas e oliveiras. Que o povo gritava feliz por Yeshoua. Houve muitos comentários e muitos o clamavam como rei.

Assustei-me e fiz sinal de silêncio, isso aqui dentro era palavra proibida, sabem muito bem da punição a quem quiser ameaçar o domínio de Roma. Jamais digam essa palavra aqui, nem em parte alguma, era perigoso. E pedi que continuassem a narrativa.

Depois fiquei pensativa, preocupada, se essa história de rei se espalha pode ser mal interpretada e causar-nos problemas. Isso não era bom. Mas não havia nada a ser feito a não ser rezar.

Conversa com Yeshoua

Um dia meu marido subiu para almoçar e comentou comigo que os sacerdotes do Sinédrio haviam ido ter com ele para pedir-lhe ajuda para verificarem as intenções do Nazareno que andava se dizendo Messias e Rei e que ele liberou, a título de gentileza, uma pequena guarda apenas para não se indispor com eles, pois não o considerava problema de Roma.

Falou-me isso como quem comenta um assunto banal do cotidiano, gelei. Conhecia o mau caráter do pessoal do Sinédrio.

Como pode? Sabes muito bem que boas coisas não farão com ele – disse-lhe.

Não podia me indispor com o Sinédrio somente porque tu és cristã, sabes muito bem que Roma não se mete em assuntos religiosos e tenho que esconder que tu és cristã – disse-me.

Nada comentei, esperei ele voltar do almoço e saí para ter em palestra com Euclides, amigo confiável, poderia me dizer o que planejavam.

-Euclides, em conversa com meu esposo fiquei sabendo que estão querendo interrogar Yeshoua. Tu sabes as reais intenções deles?

Esclareceu-me que temiam o rápido crescimento de Yeshoua não só perante o povo, mas começara a se infiltrar nas altas classes. Más línguas falam até de mim como cristã. Querem vê-lo fora do caminho, pois já estão começando a incomodar.

Voltei preocupada para casa, troquei de roupa para não denotar que saí e fui ter com meu marido. Expliquei-lhe brevemente as intenções do pessoal do Sinédrio, mas tudo que me disse foi para conversarmos à noite, pois estava ocupado.

Preocupei-me mais ainda, tinha que fazer algo, voltei, me troquei novamente e saí.

Fui ter em palestra com Yeshoua, avisá-lo dos acontecimentos. Ele que fugisse ainda hoje daria tempo.

Reconheceu-me como esposa do governador, escutou minhas aflitas palavras que em cólicas desesperadas pedia que fugisse com seu pessoal, e ele, impassível. Irradiando uma paz, uma segurança, uma resignação invejável. Tocou a mão em meu ombro, me olhou nos olhos e me disse: “Irmã, cumprirei os desígnios que meu Pai reservou a mim. Se for da vontade dele que eu escape, assim será, senão perecerei ante sua vontade. Não temas”.

Como pode alguém ser assim ante quadro tão terrível?

A Promessa de Libertação

Preocupada com a sorte daquele homem fui para casa antes que Pontius voltasse, isso se não ficasse em farras.

Fui ansiosa pensando em que fazer, mas estava aflita, não conseguia pensar. Como Pontius conseguia fazer isso no dia a dia? Dava-me brancos.

Ao voltar ele ainda não havia chegado, ainda bem, pensei. E fiquei aflita, andando de um lado para outro a sua espera.

Graças aos céus ele chegou cedo, não ficara na farra.

Assim que pude me abri com ele que já me havia exclamado “Ainda estás a pensar nisso?” Adivinhando meus aflitos pensamentos, provavelmente devido a mal disfarçada aflição.

Expliquei tudo a ele que ficou furioso comigo me expondo dessa maneira, mas esclareceu que nada havia a fazer à noite, ninguém agiria na calada da noite, era contra a lei, que era para me acalmar que amanhã pela manhã seria tudo resolvido. E me chamou para cama para relaxarmos e dormirmos.

Fizemos amor, quase esqueci totalmente essa loucura que se desenhava ante nossos olhos. Estávamos tão relaxados, juntinhos, quando vieram chamar-lhe.

Até tentou me esconder, mas aflita do jeito que estava adivinhava o pior e não dormiria se ele não me contasse. E lá no seu escritório mesmo pressionei-o a contar. Não quis, preocupado comigo, mas acabou cedendo vendo que seria pior não fazê-lo.

-Bárbaros, é o que são. Prenderam-no na calada da noite. Agindo assim somente coisas escusas podem ter em mente. Só pode – disse-me.

-Interfira!

-Não posso! Além de ser contra a lei agir à noite é assunto religioso. Roma não se mete em assuntos religiosos. Se o fizesse estaria dando na cara meu interesse por aquele pobre homem e não conseguiria mais libertá-lo. Sem contar que estaria assinando ser verdade o que todos já comentam por aí. Que tu és cristã. Já pensou se Roma souber? Eu com cristãos dentro de casa? E minha própria esposa? – disse-me

-E o que faremos? – perguntei

-Agirei pela manhã. Eles provavelmente o trarão a mim, sempre trazem os seus desafetos a mim para que me livre deles. Pensarei em algo livrá-lo sem levantar suspeitas – disse-me.

E fiquei eu com ele no escritório, agitada, ansiosa, à sua volta esperando a salvadora solução.

-Pare com isso! Pare de ficar ansiosa de um lado para outro que me deixas nervoso. Vás dormir e me deixe pensar tranqüilo se não nunca acharei brechas na lei – disse-me.

Desapontada como uma criança que tomara uma bronca fui para a cama. Mas a cama parecia ter espinhos e agitava-me de um lado ao outro. Percebi que continuava a perturbá- lo, pois ouvi seus suspiros quando me movia e resolvi ante desgosto meu forçar-me a ficar quieta. Mas com isso só resultou em músculos travados e dentes cerrados.

Até que após aflitivos momentos que não sei precisar quanto, pois a mim pareceram horas escuto seus passos em direção ao quarto e me viro rapidamente fingindo dormir.

Disfarce que não deu certo, pois ele percebera e algo entre contrariado com toda essa situação e aflito com meu estado ele se abeirou de mim carinhosamente afagando meus cabelos e beijando minha face dizendo-me haver achado a solução.

Disse-me que não poderia enviar de volta ao Sinédrio, pois seria perigoso, então resolveu enviar a Herodes, fútil e curioso rei que mediante algumas gracinhas que satisfizessem sua curiosidade provavelmente o soltaria.

Plano frágil achei, depender dos outros, não se podia confiar em ninguém, eu não podia confiar inteiramente nem nele, meu marido, que vivia a me fazer promessas jamais cumpridas. Mas eu não achara solução melhor, o melhor que pude fazer foi avisar Yeshoua em tempo para sua fuga, somente isso.

Falou-me para confiar, mas ante minha mal disfarçada apreensão para me acalmar ele retirou seu anel do dedo, colocou-o em minha mão apertando-o contra minha mão, com suas duas mãos, prometendo-me que tudo faria para libertá-lo, me rememorando sua vasta experiência com essa gente.

Vasta experiência cheia de tropeços pensei comigo mesma. Mas ante tanto amor, tão sincera promessa, me deixei envolver por seu amor e promessa acreditando que essa ele cumpriria.

Deitei-me agarrada ao anel tentando fazer com que ele trouxesse confiança a mim e afastasse a aflição. Ele me envolveu com seu corpo fazendo-me sentir, por um segundo,

que tudo sairia bem. Tentei adormecer, pedia perdão a Yeshoua que, nessa hora, provavelmente estaria sendo torturado e nós ali, deitados, sem nada poder fazer.

O Sonho: Uma Justificativa

Ainda era madrugada quando os sacerdotes do Sinédrio vieram bater à nossa porta. Vieram mais cedo que pensávamos. Não era comum tal interrupção. O que denotava a gravidade da situação. Rapidamente toda a casa se levantou em agitado burburinho. Crianças choravam pedindo minha atenção e eu chamei pelos escravos que os tirassem dali.

Pontius vestia rapidamente seus trajes militares, denotava por todas as feições e características apreensão e medo. O que me fazia entrar em pânico.

Estava já ele saindo quando eu parei chorosa, quase aos prantos, mirando-o sair, o que fê-lo voltar rapidamente abraçar-me fortemente pegar em minha mão que ainda segurava o anel, objeto de nossa promessa feita de madrugada.

Pegou minha mão, abriu-a mostrando-me o anel e apertou-a fortemente com o anel nela reforçando sua promessa na frente de todos. Da casa inteira que de um burburinho agitado pararam todos para olharem a cena sem nada entenderem.

Foi aí que ele teve que inventar aquela história de sonho para justificar tal promessa ante os olhos de todos.

E lá foi ele acompanhado dos guardas e meu coração com ele, aflito.

Tentei achar uma janela que proporcionasse uma melhor visão de onde estavam, nas escadarias do palácio, aguardando.

Não achava nada satisfatório, foi então que mesmo ante protestos esgueirei-me pelos cantos e fui até lá, escondida acompanhar o que podia.

Pouco pude acompanhar da breve conversa tida nas escadarias, mas pude vê-lo, seu estado era de dar dó.

Sua alva túnica já estava em farrapos, ensangüentada, seu rosto marcado e seu cabelo uma pasta. Escondi-me melhor quando todos subiram as escadas para adentrarem no palácio governamental. Somente ele me notou ali no canto. Lançou um breve olhar resignado e

entrou. Chorei, havia avisado, porque não fugira? Olhe seu estado agora. E subi de volta aos prantos agora só me restava confiar no plano de meu marido, era a única salvação.

Plano Fracassado

Quando saíram com ele já havia juntado uma quantidade considerável de pessoas na porta que aumentava cada vez mais juntamente com o burburinho causado por elas. Burburinho que só fazia aumentar minha apreensão, a apreensão de todos.

Chegavam junto com o povo pessoas importantes a cada minuto atraídas pelo acontecimento. Todos queriam ver de perto. Uns com boas intenções, outros somente como moscas na carniça.

Fui chamada para servir-lhes algo para ver se acalmava os ânimos de todos. Mas não era uma boa anfitriã no momento, estava aflita, confusa mentalmente, mal ouvia o que os outros falavam, respondia com monossílabos e dirigia aflitivos olhares a meu marido quando podia. O que fazia aumentar sua apreensão.

Minha situação já estava transparecendo a todos o que começava a gerar comentários maldosos por lá obrigando Pontius a se preocupar em inventar desculpas. E assim a história do sonho foi tomando corpo e formas maiores. Fugia dali quando podia, sabia estar prejudicando-o, já bastava os outros com seus burburinhos.

Bem o conhecia, sabia que isso o deixava nervoso e perdido. Sabia que se pudesse gritaria para todos saírem dali.

Estava lá em cima em casa quando escutei uma algazarra na multidão, cheguei perto em uma das janelas para ver o que acontecia. A multidão estava incontida. O que acontecia? Procurei em vão ver até que consegui, subindo as escadarias do palácio, cercado pelos guardas que o protegiam da multidão, era Yeshoua, mandaram-no de volta. Pânico, desespero, tomou conta de mim. Não dera certo o plano. E agora? Que meu marido faria? Sabia que ele não tinha planejado essa hipótese e isso me desesperava. Desesperava-me mais ainda em ver a situação do pobre . O que o pessoal do Herodes fez a ele era de dar dó. Estava irreconhecível. Vestiram um manto de cor chamativa e em sua cabeça havia galhos que se assemelhavam a uma coroa ou algo assim, não pude ver melhor, não quis, não consegui. Suas mãos continuavam atadas para frente.

Desci com as pernas trêmulas, desesperada e adentrei em pânico o palácio governamental.

Ia aprontar uma cena chocada ante tão terrível figura que ele se tornara, quando Pontius me

viu e fez um sinal para que me levassem dali, um sinal discreto, pois ninguém havia me visto ainda. Levaram-me, mal tinha forças, estava enjoada, minha mente não raciocinava, mal entendia o que falavam a mim e aquele burburinho do povo incontido ensurdecia-me. Queria sumir.

Mantendo a Promessa

Como não podia mais descer, enviei um escravo com o anel e um recado para relembrá-lo

da promessa.

Como demorou!

A turba estava cada vez mais agitada, mal contida pelos guardas, ameaçavam entrar. Dava

medo.

O escravo voltou com o anel. Ele manteria a promessa, o salvaria a qualquer custo, me

explicou o que pretendia fazer e me dava instruções como agir.

Devido à acusação falsa de querer ser rei seria necessário um castigo pela lei. Daria-lhe seis chicotadas para acalmar a sede do povo por espetáculo e o liberaria. Era para eu preparar um pacote com linho, demais apetrechos e enviar à mãe de Yeshoua para que limpassem e curassem suas feridas. Assim como era para mandar o recado para seus seguidores que fugissem para longe, pois se os sacerdotes pegassem seria morte certa. Assim como era para, logo que se recuperasse, sumir com Yeshoua daquelas paragens. E assim foi feito.

Apesar do final mutilado e dolorido, Yeshoua sairia vivo.

Estávamos certos e rezávamos para acabar o suplício logo.

Ao final do suplício, ao ser apresentado para a multidão nervosa e agitada para liberação, um dos sacerdotes inserido no meio da multidão iniciou outra revolta.

Ameaçavam meu marido de estar liberando alguém que era contra os domínios de Roma e seria levado o caso ao imperador, assim como, da multidão ele não sairia vivo, pois a justiça seria feita com as próprias mãos. E o povo acreditou!

E passou a bradar isso.

Eu, ajoelhada na cama em meu quarto, rezava, rezava desesperada, enquanto escutava ao longe, lá embaixo, a multidão gritando impropérios contra Yeshoua. Estavam lá, perante o povo, muitas pessoas, mas duas em particular eram os alvos principais de tamanha confusão e eram as duas pessoas que mais amava em minha vida: Yeshoua e meu marido Pontius. Quanto maior era a gritaria, quanto mais impropérios gritavam contra Yeshoua pedindo sua cabeça, mais me desesperava, mais tremia, mais chorava, mais me descabelava, ajoelhada perante minha cama. Queria tirá-los de lá desesperadamente, mas não podia, não havia como sem causar uma revolta popular, o que a situação já beirava a muito. A residência do governador ficava situada num plano mais alto onde se podia ver, abaixo, parte da entrada onde Yeshoua estava sendo apresentado ao povo, perto das escadarias, e no lado esquerdo o palácio governamental. Uma escrava toca meu ombro, nem a vi entrar no quarto, diz que me mandaram chamar lá embaixo, onde estava Yeshoua, perante o povo, meu marido me chamava.

Estranhei, mas meu desespero era tanto, que estava tonta, não conseguia raciocinar e fui, devagar, para não cair, descendo as escadas em direção a Yeshoua e meu marido Pontius, perante o povo.

Fui devagar, pois minhas pernas tremiam tanto que temia cair. Não havia mais a mínima condição de esconder minha situação de cristã, há tanto escondida cuidadosamente mediante mentiras de todo tipo.

Cheguei, por trás, vi nos olhos de meu marido Pontius o desespero estampado, Yeshoua estava de costas para mim, de frente para o povo, assim que o vi seu estado precário comecei a chorar desesperada. Meu marido assim que me viu fez uma cara de que não sabia o que afinal estava fazendo ali, que era o último lugar que deveria estar, fez um sinal para um dos guardas que me levou de volta ao palácio, amparada, pois começara a passar mal diante de tal situação desesperadora.

Somente quando vi meu marido fazendo sinal para o guarda que percebi que fora enganada por algum inimigo de meu marido, algum sacerdote do Sinédrio provavelmente, isso tudo para que, ao me exporem perante o povo, levantassem ainda mais o ódio do povo contra meu marido Pontius. Fazendo-os verem que eu era cristã e que meu marido Pontius estava a favor de Yeshoua querendo libertá-lo, o que era verdade, e o que deu certo, pois o povo ao ver aquela minha cena agitou-se mais ainda gritando.

me deixou na sala em um divã, estava mais desesperada ainda, passava mal,

tremendo, sem forças e chorando convulsivamente pela situação, pela cena terrível vista e

O guarda

pelo fato de ter sido enganada. Era claro a todos agora, não havia mais como esconder, fora enganada.

Revolta Popular

Fiquei lá assim por um tempo indefinido quando escuto todos se retirarem para dentro do palácio governamental com Yeshoua. E a multidão ameaçava invadir para o pegar.

Meu marido mandou o recado para sumir com as crianças dali, pois se entrassem não sobraria ninguém. Sei que era para eu ir, mas não fui, mandei apenas as crianças com alguns escravos.

O medo pairava no ar e a situação beirava uma revolta.

Desci novamente, devagar para não cair, devido à fraqueza e tremedeira, e fui lá para dentro do palácio governamental acompanhar o que acontecia.

Chegando lá procurei ficar meio escondida nos cantos, atrás das pilastras, para não chamar mais atenção ainda, pois ainda tremia muito e a face indicava claramente grandes padecimentos e crises de choro. A confusão era muita, havia gente por todos os lados, alguns contra Yeshoua, outros a favor, num grande burburinho onde muitos tentavam falar

ao mesmo tempo ao meu marido Pontius, que estava ficando louco com tudo isso. Assim

ele não conseguiria pensar direito em uma solução plausível para libertar Yeshoua. Queria tirá-lo de lá, protegê-lo, queria estar em seus braços, mas era impossível, não conseguia nem chegar perto. Nem me era permitido devido ao meu estado.

Achei estranho que ao vir para o palácio, pude ver o povo lá fora gritando, e não vi

ninguém a favor de Yeshoua, vi apenas desordeiros, judeus e alguns sacerdotes. Não havia nenhum simpatizante de Yeshoua. Estranhei, onde estaria o povo que o recebeu na entrada

da cidade com palmas? Seus discípulos sei que haviam fugido por ordem nossa, isso era

esperado, nem poderiam aparecer que seriam pegos e já tínhamos problemas demais somente com um, imagine se aparecesse o resto.

Procurei saber o porquê desse estranho fenômeno e logo surgiu a explicação.

Era uma armação, o Sinédrio ameaçou aquela pobre gente simpatizante de Yeshoua com a morte e perseguição se aparecessem por lá.

Assim como chamaram desordeiros de toda a espécie, judeus que eram contra Yeshoua, alguns judeus coagidos, pois deviam favores ou dinheiro ao Sinédrio estavam lá, contra a vontade e sob ameaça.

Horrorizei-me ante tão maquiavélica mente e assustada corri para tentar avisar Pontius, mas o palácio estava uma confusão. Pontius visivelmente abalado e confuso.

Ludibriado por uma Armação

Não conseguia ter em palestra particular com ele para avisá-lo, não sem chamar muita atenção. Ele estava muito solicitado e cercado por todos os lados. Foi aí que vi alguém dando uma idéia para tentar salvar a situação. Lembraram que era época de Páscoa e que nessa época havia o costume de libertar um prisioneiro. Que libertassem Yeshoua.

Mas logo alguém lembrou que isso era escolha do povo, os ânimos novamente esfriaram.

Pontius com cara de grave e pensativo falou, que então seja apresentado alguém vil para que a escolha recaia obviamente sobre Yeshoua.

O escolhido acabou sendo Barrabás, mas um militar de Roma chamado Salazar ali presente

endereçou um significativo olhar de reprovação, era o seu prisioneiro. Acalmaram-no

dizendo que não haveria perigo.

Pontius pediu que se iniciassem os preparativos rapidamente, inclusive os papéis de soltura de Yeshoua.

Precisava avisar meu marido, precisava conseguir chegar até ele. Avisá-lo que não daria certo, era imperioso chegar até ele.

Era a única que detinha a informação, o pessoal do Sinédrio deve ter percebido que eu detinha tal informação e me impediram.

Era tarde demais, meu amado marido seguira com Yeshoua e outros perante o povo para tentar a última cartada para libertação.

Foram lá para fora apresentar os prisioneiros, certos do resultado.

A multidão dava medo.

Perdi as forças nas pernas, ajoelhei-me onde estava, ali, perto de uma coluna, perto da porta, dava para ver um pouco da cena lá de fora, dava para ver um pouco Yeshoua e meu marido muito bem. Coloquei o rosto entre as mãos e chorei.

A multidão ensandeceu ao aparecerem todos ante ela.

Foi uma loucura de dar medo.

Coragem teve os que apareceram perante a multidão. Uma palavra em falso e a multidão partiriam para cima de todos.

Pontius mal conseguiu se fazer ouvido ante tanta gritaria.

Mal escutava suas palavras, só os gritos da multidão. Pouco compreendi do dito na hora, muito pouco. De claro só o nome de Barrabás em alto e bom som e a morte de Yeshoua ou algo assim.

Quando escutei isso gelei de alto a baixo, faltaram-me forças, o coração parecia parar.

Se já estava aflita e confusa mentalmente ficara mais ainda.

Vi como meu marido ficou aterrorizado quando escolheram Yeshoua, vi seu semblante de terror. Vi a face triste e resignada de Yeshoua, como abaixou a cabeça ante sua sentença. Como meu marido passou mal na hora na frente da multidão, não conseguia ficar em pé, teve de ser amparado e levado ao trono que havia lá na frente no lado direito, diante do povo. Sentaram-no no trono, e Pontius, desesperado, colocou o rosto entre as mãos e chorou.

Não agüentei, precisava sair dali, e subi para a residência aturdida e desesperada. Não deu certo. Nenhum dos vários planos.

Contaram-me depois que Pontius chegou perto de Yeshoua, ainda perante o povo, e lhe disse que uma parte dele morreria juntamente com ele na cruz nesse dia. Obviamente não para o povo ouvir.

Promessa Não Cumprida

Enquanto saía dali pensava, mas porquê Yeshoua não fugiu quando o alertei ontem? Daria tempo. Por que mesmo sabendo de tudo resolveu ficar e enfrentar o que seu Pai o reservara como ele mesmo disse? Por que?

Não sei quanto tempo fiquei lá na residência, mas uma hora, Salazar, um militar Romano, chegou carregando meu marido Pontius que estava passando mal, seu estado era lastimável, de dar dó. Tive vontade de enlaçar meu marido em meus braços e protegê-lo de tudo aquilo, mas ao mesmo tempo me subiu uma raiva ao ver aquele romano. Se estávamos nessa situação era por causa desses amigos romanos dele e seus maus conselhos. Soltaram-

no perante mim que caiu aos meus pés em prantos pedindo perdão, dizendo-me que falhara novamente em mais uma de suas promessas, não conseguira libertar Yeshoua conforme prometido a mim e entrou em choque. Pedi aos escravos que o levassem ao nosso quarto que já iria e fiquei eu, perante Salazar, a mim apenas mais um militar romano, tão odiado por mim. Odiava a todos os militares Romanos. Foram eles que desencaminharam meu marido, aproveitando-se de sua idolatria por mim para afastar-me do palácio e assim poderem manipulá-lo à vontade, assim como levarem ele ao adultério em suas festas mundanas. Odiava-os e desprezava-os de todo meu coração. E disse-lhe, cheia de ódio e desprezo, xingando-o por dentro, mostrando que seu tão forte governador era na realidade um fraco, querendo mostrar a ele que meu marido só era forte comigo por perto, era eu que dava a força e o equilíbrio a ele, e tendo eles me tirado de perto dele no governo ele ficou fraco e deu no que deu. Agora estávamos todos nas mãos do Sinédrio.

E entrei para o quarto, encontrei Pontius em choque chorando dizendo frases desconexas com a consciência ardendo por não ter conseguido libertar o Messias conforme prometido. Abracei-o, beijei-o, acaricei-o com todo meu amor até ele se acalmar e dormir. Sofrido momento só nosso. E pensar que tudo o que queríamos da vida era apenas nos amarmos em paz!

Deixei-o dormindo, escutava ao longe os gritos da turba enquanto o Messias era levado para cumprir a sentença. Meu estado não era muito melhor que o do Pontius, não podia ficar ali em casa, fingindo não ser cristã e escutando ao longe tudo aquilo e fui à casa de Lázaro, rezar com suas irmãs até que tudo passasse. Não me receberam muito bem inicialmente, mas com a bondosa interferência de Lázaro tudo foi esclarecido que nada pudemos fazer e ficamos lá, rezando cada vez mais alto, para encobrir os gritos da multidão.

Ao final fui para casa e encontrei Pontius desesperado, havia acordado e não sabia onde eu estava. Achava que o abandonara devido a não ter cumprido a promessa. Na frente de todos na casa gritou comigo desesperado, mas ao ficarmos sozinhos no quarto abraçou-me com desespero dizendo que morreria sem mim, que preferiria a morte a ficar sem mim, beijando-me pedindo perdão. Abraçamo-nos fortemente e choramos juntos por não termos conseguido libertar o Messias.

Quatro Anos Depois

Depois de um incidente com um falso Messias que resultou em diversas mortes mandaram- nos de volta a Roma, Pontius perdera seu cargo, deveríamos ir a Roma dar explicações ao imperador Tibério. Ao chegarmos em Roma ficamos sabendo que Tibério falecera e havia um novo imperador.

Ele chamou-nos à sua presença. Fomos julgados sem dó nem piedade, todos sabiam de nossa profunda ligação, de como não vivíamos um sem o outro, de como Pontius falava que se mataria se ficasse sem mim. E o novo imperador me acusou de ter causado tudo que pelas reis romanas não poderia ter acompanhado Pontius a Judéia, que usei de meu parentesco com o antigo imperador para ir e pus tudo a perder com minha maléfica influência. E falou, falou, acusando-me, acusando-nos.

Estávamos perante o imperador separados cada um em um canto cercado por vários guardas.

E ele decretou a sentença, Pontius partiria para Viena e eu e nossos cinco filhos ficaríamos.

Desesperei-me, livrei-me dos guardas e joguei-me aos pés do imperador aos prantos que fizesse tudo menos isso que não vivíamos um sem o outro, que ele se mataria.

Mas o imperador não teve dó e disse ainda que se eu tentasse de qualquer forma seguir Pontius ele nos mandaria matar.

Se tentasse ir sozinha e deixar os filhos, matariam os filhos, se tentasse uma fuga com os filhos iriam atrás de nós e nos matariam, ficaríamos vigiados o tempo todo.

Durante a preparação da partida dele éramos vigiados o tempo todo até mesmo dentro de casa para que não fugíssemos ou suicidássemos.

Antes da partida ele falou comigo, no quarto, os dois sozinhos, disse-me que não tentasse nada, que cuidasse dos nossos filhos, que pensasse neles, que fizesse isso por ele.

Na hora da partida os nossos filhos estavam na sala enfileirados todos nós ladeados por guardas que tinham ordens de matar se tentássemos qualquer coisa. Ele falou com um por um baixinho abraçando-os, despediu-se dolorosamente de mim. Subiu na carroça e partiu.

Ao vê-lo partindo desesperei-me gritando, tentei ir atrás, mas imediatamente um guarda partiu para cima de mim para me matar e um escravo me segurou enquanto chorava e tentava ir atrás desesperada. Dizia que preferia que tivessem me matado ali mesmo, que era melhor.

A vida foi difícil a partir daí, as condições financeiras não eram as mesmas, éramos vigiados o tempo todo, em cada movimento. O que me impedia o suicídio, além da responsabilidade dos cinco filhos, era o cristianismo e as conversas com Paulo de Tarso.

Era discreta, todos sabiam que era casa de cristãos, mas ninguém nunca conseguiu provar.

E realmente, Pontius cumpriu o que sempre disse a vida inteira desde que me conheceu, que preferiria a morte a viver sem mim. Suicidou-se em Viena.