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Este recente e pratico livro sobre adoracdo tanga a luz necessdria sobre questoes relativas ao contetido, musica, estrutura, lberdade, tendéncias recentes da adora¢ao e muito mais. Grupos de estudo, lideres e todos os que buscam enriquecer sua experiéncia de adoracéo irdo beneficiar-se com este estudo riterloso sobre o tipo de adoracho que agrada a Deus, #ramepeneltou.o ceme do assunio com extraordinivia dareza, Flese maniém fielaos conceltes historicos da tradictio Reformada, mas argumenta demode convincente que as igrejas de haje deve construlr sobre o passado. Frame nos. oferece 0 que mais predsamos agota — prindpios biblicos de adoracae que devemos aplicar a nossas creunstandas partiouiares. Richard L, Pratt Jr. mae.) EDITORA CULTURA CRISTA ‘www.Cop.0rg.Dr Liturgia/Eelesiologia Emm Espirito e em Verdade © 2006, Editora Cultura Crista. Titulo original Worship in Spirit and Truth © 1996 por John M. Frame. Traduzido e publicado com permission da P&R Publishing, 1102 Marble Road. Phillipsburg, New Jersey, 08865, USA. Todos os direitos sao reservados. 12 edigao — 2006 3.000 exemplares Tradugito Helofsa Cavallari Ribeiro Martins Reviséio Fernanda Marcelino Wendell Lessa V. Xavier Editoragio Assisnet Capa Idéia Dois Design Conselho Editorial Claudio Marra (Presidente), Alex Barbosa Vicira, André Luiz Ramos, Francisco Baptista de Mello, Mauro Fernando Meister, Otdvio Henrique de Souza, Ricardo Agreste, Sebastio Bueno Olinto, Valdeci da Silva Santos. Dados Internacionais de Catalogacao na Publicagdo (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Frame, John M. 1939 - Em Espirito e em Verdade / John M.Frame; [tradugio Helofsa Cavallari Ribeiro Martins). Sao Paulo: Cultura Crista, 2006. 208p. ; 16x23 cm. Tradugdo de Worship in Spirit and Truth ISBN: 85-7622-131-4 1. Culto Péblico — Igreja Presbiteriana, 2. Culto Péblico — Igreja Reformada. 3. Igreja Reformada— Licurgia. 4. Ipteja Presbiveriana- Liturgia. LFrame, J.M. T,Ticulo. € €DITORA CULTURA CRISTA Rua Miguel Teles jr., 394 - CEP 01540-040 - Sio Paulo - SP Caixa Postal 15.136 - CEP 01599-970 - Séo Paulo - SP Fone: (11) 3207-7099 - Fax: (11) 3209-1255 Ligue grdtis: 0800-0141963 - www.cep.org.br - cep@cep.org.br Superintendenve: Haveraldo Ferreira Vargas Editor: Claudio Anténio Batista Marra Sumario PHOPECIO Lc eeeseceseseeeseeseteeseeneseneeseseeneeesseeneeceeeeteeeneeeneenneeen 11 1. Alguns princfpios DASICOS ........ccccsceesseceseeeeeeeenneeeteee 21 O qite € CULO? ..cceeeccssreeereees Culto centralizado em Deus Culto centralizado no evangelho . Culto trinitério Vertical ¢ horizontal... Amplo e restrito.... A importéncia do culto Perguntas para discussdo . 2. Culto no Antigo Testament0......c.ccccccccccscecceseeeeterereenenes 37 Encontros COM Deus ....ccccccccceseee Culto espontaneo.. Culto do pacio .. Culto sacrificial Sdbados .. Festas.. Taberndculo e templo.. Sacerdotes e levitas .. A sinagoga .... Conclusdo ..... Perguntas para discussdo 3. Culto no Novo Testamento Cristo cumpre o culto do Antigo Testamento 149 Culio em sentido amplo........ 54 Reunides cristas .....++. 5S Perguntas para GisCussG0 ...cccrescsescsercersesssecsssersentesiseennseetseeneerees 62 6 Em esptrito ¢ em verdade 4. Regras do culto.. cc cieeccccessssceecesesseseessessssssecsersnreeesess Precisamos conhecer as regras O princtpio regulador Aplicagées . Poder eclesidstico.. Conclusdd veeccrcereceeee Perguntas para discussdo 5. O que fazer no cuUlto? .o..... occ eeceeeecceeeeeseccceeeensneeeeeeens 81 Os “elementos” do culto.. Elaborando uma lista . Minha lista............. bese Concluindo. cece Perguntas para discussdo 6. Preparativos para 0 CUNO .........ccceseceeseceeseseeessseceneeeeenes 97 Lideranga .. Ocasiées de culto.. A ordem dos eventos . 1 — Abordagem histérica.. 2 — Reencenar a redengdo FS — DiGlogo...ceecccceeee 4 — Conclusées O local do culto.... Perguntas para discussdo 7.0 tom do culto AS CMOGOES ...eeeeeee Como o adorador deveria sentor-se . Estilo e aimosfera.......... .120 Autenticidade no culto 122 Perguntas para discuss@0 .cecccccsssccscsssesssesesssesseseceeseees wi 124 8. Deus fala conosco: a palavra e os sacramentos .............. 127 A Pulavra de Deus A leitura das Escrituras .. Pregacao e¢ ensino . Drama?..... Béngdos .. Adimoestagées . Chamada & adoracéo Sacramentos Sumdrio 7 Batismo infantil .o.cccccecccerseerereces Perguntas para discussao 9. Nés falamos com Deus: nossa resposta 4 sua Palavra Oragao. Confissées de fé.. Responsos da congregagao. Participagdo individual Perguntas pard discussdo ....cccccceccserereee 10. Mitsica no CUItO ...... cece ee ceee ceca ane ceeeeeeeeeeeaaeeeennaeereney Por que misica?...... O que a miisica faz? Por que hd tanta controvérsia hoje? Perguntas para discussdo 11. Musica no culto: algumas controvérsias ........ Exclusivamente salmos... wee Tnstrumentos, COPOS € SOLISEGS ...csceseccseseseteseneeeeeetsseersenseeeneerteesenes Cénticos sem palavras ....... Perguntas para discussdo 12. Musica na igreja: escolha dos hinoS .........:.:seeeeeeeeeeeees 179 As palavras ... As melodias... Perguntas para discussao 13. Reunindo tudo.......ecesescccsssecseseeeseeeeeeeeeeneeneeennnneneeees 191 Perguntas para discuss ...sccccecerrersrrerncecicecceseessiceecne tenets 202 Bibliografia selecionada € ANOLAAA .........s.cceeeeeereeeetetsseeeeees 203 Para Dick e Liz Jack e Rose Marie Doug e Lois 0s quais mostraram-me o caminho. Pre ticio A adoracao é algo incomparavelmente precioso para mim. Quando Deus me conduziu a fé em Cristo, era principalmente no contexto do culto que sua voz falava ao mcu coragéo — cs- pecialmente por meio dos hinos. Eu simplesmente nao conse- guia afasta-los de minha meméria. Ao longo de todos os altos e baixos de minha vida crista, é a experiéncia de culto que conti- nuamente tem conduzido meu coracaéo errante novamente para o Senhor. Todavia, nao poderia suspeitar, ha dez anos, que eu estaria escrevendo um livro sobre culto. Durante os tiltimos 20 anos, tenho sido, e continuo sendo, professor de um semindrio nas areas de Apologética e Teologia Sistematica. N4o sou um espe- cialista na drea de culto e adoracao, e tenho desejado nao lidar com as controvérsias existentes nesse campo. Deus, entretanto, por meio de varias circunstancias, tem- me levado a considerar os principios biblicos do culto. Desde o infcio de minha vida crista, sirvo como organista, pianista e, ocasionalmente, como regente de coro e dirigente do culto. Durante alguns anos, trabalhei como pastor auxiliar da New Life Presbyterian Church em Escondido, Califérnia, na qual dl 12 Em espirito e em verdade fui convidado para produzir um curso sobre culto, para os adul- tos da Escola Dominical. Lecionei esse curso seis ou sete vezes durante os tltimos 15 anos. Assim sendo, meu envolvimento com culto forcou-me a res- ponder as controvérsias. Em minha denominacio, Igreja Pres- biteriana da América, v4rias opinides tém sido expressas no que se refere a culto. Algumas refletem as diferencas que existem no mundo evangélico como um todo, ao passo quc outras sao espe- cificas do presbiterianismo. Por muitas razoes, eu teria prefe- rido permanecer fora de tais discussdes. Sem dtivida, preferiria adorar a Deus a discutir sobre principios do culto. Mas, em visa de minha formagdo e profundo interesse pelo assunto, foi dificil negar-me a participar dos debates. Portanto, envolvi-me nas discuss6es. Parte de minha motivacéo foi a preocupacdo em preservar, para minha congregacio local e outras semelhantes, a liberdade de adorar a Deus dentro de seu estilo costumeiro — que no é tradicional, mas em minha avaliagdo, cabalmente escrituristico. O debate agucou minhas consideragées nessa drea e me levou a desejar compartilhar, com outros irméos e irmas, algumas das reflexes alcangadas por meio da publicacao de um trabalho. O culto presbiteriano — baseado no “principio regulador”, extrafdo das paginas da Biblia e sobre 0 qual discorreremos neste trabalho — foi, em seus primérdios, muito restritivo, austero e “minimalista”.! (Movimento artistico, especialmente relacionado a pintura e a arquitetura que surgiu nos Estados Unidos, a partir de 1960, caracterizado por extrema simplicidade de forma, mo- tivos repetitivos e exclusdéo de qualquer expressdo pessoal. N.T.) Eram excluidos 6rgiaos, coros, textos de hinos, que nao fossem extrafdos diretamente dos Salmos, simbolismos no ambiente de culto e feriados religiosos, com exceg4o dos domingos. Presbiterianos pertencentes & tradicéo “Covenanter” (parti- darios da Reforma Protestante na Escécia — N.T.) como, por Profécio 13 exemplo, os membros da Igreja Presbiteriana Reformada da América do Norte, e alguns poucos filiados a outras denomi- nacdes ainda mantém esse estilo de culto; mas, nesse aspecto, representam, atualmente, uma pequena minoria de Presbite- rianos conservadores. ; Entretanto, a teologia puritana de culto, que produziu esse minimalismo, ainda é ensinada em igrejas presbiteria- nas conscrvadoras como a auténtica visio e posigéio presbi- teriana e reformada, no que diz respeito ao culto. Em par- te, isso se deve ao fato de que tal teologia esta retratada na Confissao de Fé c nos Catecismos de Westminster, adotados por tais igrejas.2 Na realidade, os padrées de Westminster apre- sentam muito pouco sobre a teologia puritana de culto. Os tedlogos puritanos e escoceses (da Igreja Reformada da Escé- cia) que escreveram os documentos de Westminster foram s4- bios quando n4o inclufram nesses documentos todas as suas idéias e concepgées sobre culto. Os principios responsaveis pelo minimalismo litirgico provém de outros textos puri- tanos e reformados que vao além dos documentos confessio- nais. Mesmo assim, tais textos extraconfessionais gozam de uma considerdvel autoridade informal entre as igrejas pres- biterianas conservadoras. O resultado é que, embora algumas igrejas presbiterianas conservadoras ainda adotem o estilo puritano de culto, a teolo- gia puritana permanece sendo o padrao de ortodoxia para elas. Tenho conversado com pastores que n&o desejam voltar ao uso exclusivo dos Salmos no canto congregacional, mas nao se sen- tem 4 vontade com o uso de hinos. Elcs parecem pensar que de- vem cultuar como os puritanos o fizeram, embora nao tenham nenhuma intencao de fazé-lo. Eles se preocupam com a possibilidade de que tal oscilagéo ou indecisao signifique uma inconsisténcia em seu compromis- so com a fé reformada e com a ortodoxia presbiteriana. 14 Em espirito e em verdade Creio que os presbiterianos necessilam fazer uma reavalia- cao nessa area. No meu entender, a Confissdo de Westminster esta absolutamente certa em seu principio regulador, isto 6, de que o verdadeiro culto deve limitar-se Aquilo que Deus ordena. Mas os métodos usados pelos presbiterianos para descobrir e aplicar tais principios necessitam de uma reviséo teol6gica. Grande parte daquilo que é dito n4o pode ser justificado pelas Escrituras. O resultado de nossa reavaliacgdo, assim espero, representaré algo como um paradigma revisado para o culto presbiteriano: abso- lutamente reformado em suas concepcées, afirmando o princi- pio regulador e os padrées da Confisséo de Fé e dos Catecismos de Westminster, mas permitindo uma maior flexibilidade do que a posigdo assumida pelos puritanos em sua aplicacdo das orde- nangas de Deus para o culto. Tal paradigima revisado aliviard os sentimentos de culpa mencionados acima, nado por nos permitir ignorar os mandamentos de Deus, mas nos ajudando a compre- ender mais acuradamente o que o Senhor espera de nés. Este livro expora esse paradigma revisado contrastando-o, de certa forma, com a alternativa tradicional. Mas nao serei ca- paz, neste trabalho, de fazer justica ao debate histérico. Espero, em outra oportunidade, escrever um livro, mais extenso e mais técnico, onde sera possivel explorar com detalhes a controvérsia histérica. O presente volume tem um propésito mais modesto: enunciar os principios bfblicos essenciais que governam o culto publico do povo de Deus. Constitui-se numa versdo revista e ampliada das ligdes preparadas para a classe de adultos da Es- cola Dominical da New Life Presbyterian Church, e espero que outras igrejas as considerem titeis para utilizagéo em situacoes semelhantes. Estarei conscientemente escrevendo para adultos leigos e procurarei definir com clareza qualquer termo técnico que porventura surja. Inclui perguntas para discussdo no final de cada capitulo. Creio que a melhor maneira de utilizar 0 livro em classes de es- Prefacio 15 tudo nao se fara por meio de um resumo produzido pelo profes- sor a cada domingo; mas, sim, que os membros da classe leiam a porcdo pertinente em casa e venham preparados para discutir as perguntas em conjunto. As respostas as quest6es propostas resultaram num sumario do contctido de cada capitulo e suge- riréo campos adicionais de pesquisa. A maioria da literatura existente sobre culto e adoragao pode ser dividida em trés tipos. O primeiro apresenta uma orientagdo hist6rica advogando o fato de que as igrejas hoje fazem um maior uso dos recursos da tradicéo cristaé. O segundo tipo € ideoldégico, meramente reiterando os conceitos e argumentos tradicionais adotados em cada grupo cristdo: catélicos, carismaticos, presbi- terianos, etc. O terceiro é mais pratico que teolégico, sugerin- do meios de tornar o culto mais interessante e satisfatério do ponto de vista emocional, mais inteligivel ou, de alguma forma, mais “auléntico” como um encontro com Deus. Esses trés ti- pos algumas vezes se sobrepdem; entretanto, a maior parte da literatura existente sobre o assunto parece ter em mente um ou dois desses objetivos. Embora eu, pessoalmente, considere esses livros e artigos va- liosos, este volume teré um enfoque diferenciado. Distintamen- te do primeiro tipo de literatura, este trabalho focalizara as Es- crituras. Sustento a posicao histérica crista de que as Escrituras sao a verdadeira Palavra de Deus, inerrante, possuindo autori- dade cabal c definitiva. Embora no negue o valor da tradigéo crista, nao reconheco nela uma autoridade divina. Se desejamos fazer um uso legitimo da tradicéo, devemos primeiro perguntar o que dizcm as Escrituras. A utilizacéo que fazemos da tradicaio deve ser definida, limitada e legitimada pela Biblia. Portanto, neste livro, pretendo discutir principios de importancia maior do que qualquer posigao derivada unicamente da tradigao. Tampouco, este livro repetiraé meramente uma posicao teo- légica tradicional, como no caso do segundo tipo de literatura 16 Em espirito e em verdade sobre adoragéo. Mcu compromisso teolégico pessoal é presbite- riano; concordo entusiasticamente com a Confissdo de Fé e os Catecismos de Westminster e creio que tal compromisso se mos- trara evidente neste trabalho. As principais suposicdes deste volume sao nitidamente reformadas: Deus € soberano, relacio- na-se conosco como o Senhor do pacto e descja que o adoremos somente como sua Palavra ordena. Alguns leitores sentiraéo que o livro se preocupa demais com questées surgidas, principalmente, dentro do presbiterianismo. No entanto, ele apresenta também, um aspecto ecuménico. Es- pero apresentar os principios reformados fundamentais de tal maneira que eles se tornem inteligiveis e persuasivos para os cristéos de todas as tradigées e desejo também justificar, ba- seado nesses mesmos principios, algumas formas de culto que nao sao tipicas da tradig4o reformada. Defenderei v modelo presbiteriano de culto a partir das Escrituras, nao da histéria da igreja ou das tradigoes. Ao contrario de alguns autores pres- biterianos creio que compreendo, e o fago com simpatia, a razdo pela qual alguns cristaos sinceros preferem nao participar de um culto dirigido segundo o modelo presbiteriano. Reconheco que ha problemas reais na tradicional visdo presbiteriana, os quais devem ser discutidos a partir das Escrituras, e pretendo enfrentd-los com seriedade. Creio também que, com respeito ao cullo, hé alguns pontos que os presbiterianos podem aprender com os nao-presbiterianos. Nao é meu objetivo principal, neste trabalho, sugerir téc- nicas para tornar o culto mais “significativo”; embora, algu- mas vezes, essas possam ser sugeridas. Este livro versara sobre principios biblicos. Seu enfoque seré a pergunta: o que Deus ordena com relag4o ao culto e 0 que ele profbe? E importante conhecermos a resposta para essa questdo antes de buscarmos meios humanos para enriquecer a experiéncia de culto. A chave principal para uma experiéncia significativa de culto é fazer Proficio 17 como Deus ordena. Além disso, sem dtivida, existe a indaga- gao de como poderemos cumprir melhor essas exigéncias em nosso proprio tempo e lugar. Isso nos leva 4 questao da “lin- guagem”, por meio da qual deveriamos expressar nosso culto a Deus e buscar a edificacgéo uns dos outros. Porém, é imperioso conhecermos os limites que Deus impés antes de tentarmos de- terminar as 4reas nas quais estamos livres para buscar formas mais significativas de adoracéo. Uma das preocupac6es centrais deste trabalho ser4 definir tanto as areas nas quais estamos restringidos pelas normas de Deus, como aquelas em que so- mos liberados (pelas mesmas normas) para desenvolver formas criativas de aplicagéo das mesmas. Vocé ficara surpreso ao verificar o quanto este livro, com toda a Sua preocupagéo com as normas divinas, enfatiza a liberdade no culto. No meu entender, uma vez compreendidas as ordens estabelecidas pelas Escrituras em relacéo ao culto, seremos ca- pazcs de perecber um bom ntimcro de aspectos que sao deixados a nossa opcao, permitindo, assim, uma considerdavel flexibilida- de. Creio que a maioria dos livros sobre culto, tanto presbiteria- nos quanto de outras denominagées, subestima a proporgdo de liberdade que as Escrituras permitem no culto. Livros escritos dentro de uma orientag&o histérica comumente tentam nos fa- zer sentir culpados, se nfo seguirmos os padrées tradicionais. Teélogos tradicionalistas também, caracteristicamente, desejam minimizar a liberdade e a flexibilidade. Mesmo aqueles que ofe- recem sugest6es para um “culto significativo” sao, com freqiién- cia, muito restritivos, pois tendem a se mostrar muito negativos para com as igrejas que n4o seguem suas sugestées. Este livro, entretanto, salientara o fato de que as Escrituras deixam muitas questées abertas — questées que igrejas diferentes, em situacdes diferentes, poderao, legitimamente, responder de formas diversas. Isso nao deveria nos surpreender tanto, pois se- guir os mandamentos de Deus significa seguir sempre 0 caminho 18 Em espirito e em verdade da liberdade. Quando substituimos a Palavra de Deus por nocées humanas (quer sejam tradigées do passado ou nogées contempo- raneas), o resultado é escraviddo 4 sabedoria humana. O jugo de Deus, embora impositivo, é muito mais leve e mcnos oneroso. Desejo expressar meus agradecimentos a todos aqueles que mc incentivaram neste projeto e estimularam minhas reflexées sobre o assunto. Meu antigo pastor, Dick Kaufmann, quem pri- meiro me chamou para ensinar esta matéria em sua congrega- cao, sugeriu muitas idéias que cumpriram um papel reprodutor de minhas préprias reflexdes e emprestou-me também grande encorajamento. De certa forma, estc volume tenta resumir as reflexdes que fundamentam o culto nas New Life Presbyterian Churches — New Life Presbyterian Church em Escondido, Ca- lifornia, 4 qual pertenco —, nossa “igreja mde” com o mesmo nome em Glenside, Peusilvania, e outras. As pessoas mencio- nadas na dedicatéria estdo relacionadas a essas comunidades e fizeram importantes contribuigdes 4 minha reflexéo, embora nao devam ser responsabilizadas pclas colocag6es apresentadas neste livro. Desejo agradecer, também, 4 Missao para a América do Nor- te, da Igreja Preshiteriana da América, por designar-me como membro da Comissao para o Servico de Culto. Muitos dos pen- samentos deste livro encontraram sua primeira expressio em trabalhos escritos para essa Comissdo e sido produto das esti- mulantes discussdes com outros membros da mesma. Como em quase todos os livros publicados por mim, devo agradecer a Vern Poythress e a Jim Jordan, os quais, nesse assunto, como em muitos outros, influenciaram grandemente meus pensamentos. Agradego também a meus criticos, especialmente Edmund P. Clowney, Joseph Pipa e T. David Gordon, homens por quem te-' nho enorme respeito, embora, nessa matéria, nao possa seguir a direc4o preferida por cles. Suas amaveis e ponderadas refulagdes permaneceram constantemente em meu pensamento enquanto Profétcio 19 escrevia estas pdginas. Sou grato também a editora Presbyterian and Reformed Publishing Company por seu encorajamento neste projeto c a James Scott pelo excelente trabalho editorial. Minha esperanca é que este material e as discussdes subse- qtientes por ele provocadas sejam utilizados por Deus para edi- ficar 0 seu povo e nos motivar a uma fidelidade maior no culto que prestamos a nosso Senhor Trino. Notas ' Palavra usada por James Jordan em seu Liturgical Nestorianism (Niceville, Florida: ‘Transfiguration Press, 1994), 13-19. ? A Assembléia de Westminster, que produziu a Confissdo e os Catecismos, produziu também um Diretério ou Manual para o Culto Piiblico a Deus. Entretanto, esse Manual nao tem sido considcrado como Constituigéo na maioria das Igrejas Presbiterianas atuais. Alguns principios bdsicos O que é culto? Culto é 0 servigo de reconhecimento e honra a grandeza de Nosso Senhor da Alianga. : Nas Escrituras, ha dois grupos de palavras hebraicas e gre- gas que sao traduzidas como “culto”. O primciro grupo se refere a “trabalho ou servico”.! No contexto do culto, esses termos se referem primariamente ao servico de Deus execu- tados pelos sacerdotes no taberndculo e no templo, durante o perfodo do Antigo ‘lestamento. O segundo grupo de pala- vras significa literalmente “curvar-se ou dobrar os joelhos”, isto 6, “prestar homenagem, honrar o valor e a dignidade de alguém”.? O termo inglés “worship”, derivado de “worth” (dig- no), tem a mesma conotacéo (em portugués, cultuar, culto, do latim “cultus”, também tem a mesma conotagao de reverén-' cia, adoragaéo. N.T.). Do primeiro grupo de palavras, podemos concluir que culto é ativo. E algo que fazemos, um verbo (bem como um substantivo), para citar o titulo de um livro recentemente escrito por Robert Webber.* Desde 0 inicio de nosso estudo, portanto, é possivel 21 22 Em espirito e em verdade perceber que culto é algo muito diferente de entretenimento. No culto, nio devemos ser passivos, mas participantes. Do segundo grupo de palavras, aprendemos que culto expri- me a idéia de honrar alguém superior a nds mesmos. Portanto, ndo significa agradar-nos, mas reverenciar outro. A pergun- ta “Como poderfamos tornar melhor o nosso culto?” leva-nos imediatamente a um enfoque especial — tornd-lo melhor nao para nés mesmos, mas para aquele que desejamos reverenciar. Pode ser que um culto melhor para Deus também o seja para nos. Nosso primeiro cuidado, entretanto, deve ser agradar a ele. Qualquer beneficio para nds sera secundario. Portanto, cultuar é executar um servico em honra a alguém diferente de nds mesmos. iL, ao mesmo tempo, “adoragio e ser- vigo”, para citar o titulo de outro livro recente.‘ As Escrituras usam todas essas palavras num nivel huma- no, referindo-se a relagdes entre as pessoas. Servimos uns aos outros e honramos uns aos outros. Mas ha um sentido especial segundo o qual somente Deus é digno de culto. O primeiro dos Dez Mandamentos diz: “Nao terds outros deuses diante de mim” (Ex 20.3). Deus, chamado Yahweh (SenHor) no Decd- logo, é digno, idéneo para receber uma honra Unica, singular e nao compartilhada por ninguém mais. O quinto mandamen- to: “Honra teu pai e tua mae”, deixa claro que seres humanos também merecem honra. Mas essa nao pode competir com a reveréncia que devemos prestar ao Senhor. Os Dez Mandamentos ¢ a constituicao escrita de uma alian- ga, um pacto entre Deus e Israel. Essa alianca representa um relacionamento entre um grande rei (o SENHOR) e um povo que ele toma como sua propriedade. Como Senhor do pacto, Deus declara Israel como seu povo e a si mesmo como o Deus des- se povo.> Como Deus de Israel, ele fala ao povo com suprema autoridade e, assim, governa todos os aspectos de sua vida. A principal responsabilidade do povo é honrar a Deus sobre todas Alguns principios basicos 23 as coisas. Nao deve haver qualquer competigao na lealdade e afeicdo de Israel: “Ouve, Israel, o SENHoR, nosso Deus, é 0 tini- co Senior. Amards, pois, o SENHoR, teu Deus, de todo o teu coracao, de toda a tua alma e de toda a tua forga” (Dt 6.4,5). Jesus reforca esse ensino: “Ninguém pode servir a dois se- nhores” (Mt 6.24). Nao significa apenas que somos proibidos de adorar Baal ou Jupiter, nao devemos adorar o dinheiro tam- bém! Deus reivindica o senhorio sobre todas as areas de nossa vida. Nas palavras do apéstolo Paulo: “Portanto, quer comais, quer bebais ou facais outra coisa qualquer, fazei tudo para a gléria de Deus” (1Co 10.31). Um dos fatos mais surpreendentes é que Jesus exige para si préprio o mesmo tipo de lealdade exclusiva que o Senhor Deus exigia de Israel. Jesus sustenta o quinto mandamento contra os escribas e fariseus que dedicavam a Deus aquilo que deveria ser usado para o sustento de seus pais (Mt 15.11-19). Mas ensina também que a lealdade a ele transcende a lealdade aos pais (Mt 10.34-39). Quem é Jesus para reivindicar tal servigo e reveréncia? Apenas a lealdade a Deus transcende a lealdade aos pais na ordem do pacto divino. Portanto, Jesus, em Mateus 10.34-49, faz uma clara reivindicacao de si mesmo como Deus. Assim como Yahweh no Antigo Testamento, Jesus se apresenta como o Senhor da alianga, aqucle a quem devemos nossa abso- luta fidelidade e dedicagio (Mt 7.21-29; Jo 14.16). No culto, praticamos atos familiares que freqtientemente usamos entre nés. Louvor, por exemplo, é ou deveria ser, parte da vida cotidiana. Os pais louvam seus filhos por conquistas significativas e pelo bom cardter. Empregadores louvam seus empregados, e vice-versa, o que contribui para a boa convivén- cia no local de trabalho. E Deus nos chama a louva-lo no culto. Contudo, esse louvor se faz num nivel muito diferente. Louvar a Deus — na verdade louvar a Jesus! — é reconhecé-lo como incondicionalmente superior a nés em todos os aspectos, como 24 Em espirito e em verdade alguém cuja verdadeira grandeza esta além do nosso pobre po- der de expresso. Ele é 0 objeto definitivo de nosso louvor. No culto, também expressamos afeicao, alegria e tristeza. Confessamos nossas faltas; apresentamos nossas peticdes; da- mos gracas; ouvimos ordens, promessas e exortacées; trazemos nossas ofertas; somos purificados (batismo); comemos e be- bemos (Santa Ceia). Tudo isso praticamos sempre em nossos relacionamentos normais com outras pessoas. Mas quando as praticamos no culto, ha algo especial: o fazemos para o Scnhor, o ser supremo, criador e governador dos céus e da terra; e 0 fazemos em Jesus, nosso Salvador do pecado. No culto, essas acées comuns se tornam tnicas, misteriosas e transformadoras de vidas por causa daquele que cultuamos. ‘lornam-se um ser- vigo sacerdotal, por meio do qual reconhecemos a grandeza de nosso Senhor da alianga. Culto centralizado em Deus Como vimos, culto é deferéncia, adoragdo. Nao a nés prima- riamente, mas aquele que almejamos honrar. Adoramos em pri- mciro lugar para agradé-lo e encontramos nosso maior prazcr em contentd-lo. Culto deve ser, portanto, sempre centralizado em Deus e em Cristo. Seu foco deve ser o Senhor do pacto. Num livro anterior,® analisei trés aspectos do senhorio exis- tente no pacto de Deus com seu povo: controle, autoridade e presenca. Fo Senhor quem controla o curso completo da natu- reza e da histéria, quem fala com autoridade tltima e absoluta, e quem chama um povo para ser sua propriedade e para estar presente com ele. Esses trés aspectos do senhorio divino sao proeminentes no culto biblico. No culto, exaltamos o controle pactual de Deus, seu gover- no soberano sobre a criagdo. Os louvores do povo de Deus nas Alguns principios basicos 25 Escrituras sao caracteristicamente louvores aos seus “atos po- derosos” na criagao, providéncia e redengao (veja, por cxemplo, Ex 15.1-18; $1] 104; Sf 3.17; Ap 15.3,4). Adorar a Deus significa, também, curvar-se diante de sua absoluta e tltima autoridade. Adoramos nao apenas o seu poder, mas sua Palavra Santa. O Salmo 19 louva a Deus primeira- mente pela revelagéo de si mesmo em seus atos poderosos da criagdo e providéncia (vs. 1-6) e, entao, pela perfeigéo de suas Icis (vs. 7-11). Quando entramos em sua presenca, dominados e extasiados por sua majestade e poder, como ignorar o que ele nos diz? Portanto, no culto, ouvimos a leitura e a exposicao das Escrituras (At 15.21; 1Tm 4.13; Cl 4.16; 1Ts 5.27; At 20.7; 2Tm 4.2). Deus deseja que sejamos praticantes de sua Palavra, nado apenas ouvintes (Rm 2.13; Tg 1.22-25; 4.11). No culto, experimentamos, também, a presenga de Deus. Como Senhor da alianca, ele vem a nés durante o culto para estar conosco. No Antigo ‘lestamento, o tabernaculo e o tem- plo eram os lugares onde Deus encontrava-se com seu povo (Ex 20.24). Os adoradores proclamavam com alegria que o Senhor estava no meio do seu povo (Sf 3.17). O nome de Jesus, o qual adoramos, é Emanuel, que quer dizer “Deus Conosco” (Is 7.14; Mt 1.23). No culto do Novo Testamento, a presencga de Deus poderia impressionar mesmo um visitan- te incrédulo, que “assim, prostrando-se com a face em terra, adoraré a Deus, testemunhando que Deus esta, de fato, no meio de vés” (1Co 14.25). Portanto, o verdadeiro culto é cheio de lembrangas do se- nhorio do Deus da alianga. Adoramos para honrar seus atos poderosos, para ouvir sua Palavra dotada de autoridade e para termos comunhdo com ele, como aquele que nos fez seu povo. Quando nos distraimos de nosso Senhor da alianga e nos preo- cupamos com nosso proprio conforto e prazer, algo seriamente errado aconteceu com nosso culto. Como diz Dick Kaufmann, 26 Em espirito e em verdade meu antigo pastor, quando saimos do culto nao deveriamos per- guntar: “O que eu aproveitei dele?”, mas “Como eu me portei em meu servico de honrar ao Senhor?” Culto centralizado no evangelho Adao e Eva desfrutaram uma amizade maravilhosa com Deus. Deus os criara A sua imagem e os declarara “bons” (Gn 1.31). O Eden era uma espécie de templo, onde Addo e Eva se regozija- vam regularmente com os atos poderosos de Deus na criagio, ouviam e obedeciam a palavra do Senhor e se deliciavam com sua proximidade. Mas eles desobedeceram a Palavra de Deus (Gn 2.16,17; 3.1-6) e profanaram seu culto. Deus os amaldi- coou e os langou para fora de seu templo (Gn 3.14-24). Todavia, Deus nao os abandonou. Mesmo em meio a maldi- ¢4o, Deus thes deu a promessa de um libertador que destruiria Satands (Gn 3.15). Deus continuou a falar-lhes e a buscar co- munhdo com eles. O Senhor procurou adoradores (Jo 4.23). Em Génesis 4.3,4, tanto Caim quanto Abel trouxeram oferendas a Deus. No tempo de Sete, 0 povo comegou a invocar 0 nome do Senhor (Gn 4.26). O cullo continuou apés a Queda. Deus abengoou esse servico de culto apés a Queda, mas de- sejou que seu povo o adorasse com a consciéncia de seu pecado e culpa, e também com consciéncia da agéo de Deus no sentido de livraé-los tanto da culpa como do poder do pecado. Proe- minente no culto do Antigo Testamento sao os sacrificios de animais que prefiguravam a morte de Cristo, o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). Como vimos, o povo de Deus o louvava nao apenas por seus atos poderosos na criagéo, mas também por sua redengéo. Em Exodo 15, os israelitas louvaram a Deus por ele os livrar da escravidaéo no Egito. Esse livramento prefigurava uma libertagao maior que Alguns principios basicos 27 Deus realizaria por seu povo em Cristo, salvando-o daquela morte que é 0 saldrio do pecado: “Digno é o Cordeiro que foi morto” (Ap 5.12). Como no Eden, o povo de Deus ouve sua Palavra no cul- to. Mas agora a situacdo é, de certa forma, diferente, pois agora a Palavra de Deus nos fala sobre nosso pecado e sobre a provisdo de Deus para o nosso perdao. Novamente temos comunhao com Deus, comendo e bebendo em sua presenca, mas esse comer e beber anuncia a morte do Senhor até que ele venha (1Co 11.26). Tudo o que fazemos no culto, portanto, agora nos fala do pecado e do perdao, da expiagao e da ressur- reicdo de Jesus por nds. O culto, apds a Queda de Addo, de- veria ser centralizado nfo apenas em Deus Pai, mas também em Cristo e no evangelho. Sempre, em nossos cultos, as boas novas de que Jesus morreu por nossos pecados e ressuscitou gloriosamente da morte deveriam scr centrais. Culto trinitério As Escrituras apresentam uma histéria da redencéo, uma narrativa daquilo que Deus fez para salvar seu povo de seus pecados. A medida que a histéria prossegue, as Escrituras apresentam o ensino gradualmente mais claro sobre a nature- za trinitdria de Deus: de que ele 6 um Deus em trés pessoas, Pai, Filho e Espirito Santo. Aprendemos sobre a Trindade, nao como algo interessante a respeito de Deus, mas porque esse fato tem um profundo envolvimento em nossa salvagio. No tempo determinado por Deus, a segunda pessoa da Trindade tornou-se homem — Jesus — para viver uma vida humana per- feita e morrer como sacrificio por nossos pecados. Entio, apds a ressurreicao de Jesus e de sua ascensdo ao céu, 0 Pai e o Filho enviaram a terceira pessoa da Trindade, o Espirito Santo, para 28 Em espirito e em verdade fortalecer a igreja em sua missao de levar o evangelho a toda terra. O Espirito aplica a obra de Cristo em nossos coragées, capacitando-nos a entender e aplicar a Palavra de Deus, e nos enche com dons divinos, capacitando-nos para nosso ministério e testemunho de Cristo. Quando Jesus afirmou 4 mulher samaritana: “Mas vem a hora e j4 chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarao o Pai em espirito e em verdade” (Jo 4.23), ele nado estava ape- nas predizendo um culto mais sincero por parte de seu povo, ao contrario, Jesus se referia aos novos atos que Deus esta- va preparando para a nossa salvagao. A “verdade” é a verdade do evangelho, as boas novas da salvacéo em Jesus (compare Jo 1.17 e 14.6). O “espirilo” é o “Espirito da verdade” Jo 14.7; 15.26; 16.13), que vem para testificar poderosamente a respei- to do evangelho.’ Culto “em espirito e em verdade”, portanto, é um culto tri- nitario — consciente do trabalho distinto do Pai, do Filho e do Espirito Santo para nossa salvacio. E cristocéntrico, pois quando “invocamos o nome do Senhor” invocamos a Cristo (Mt 18.20; Jo 14.13; 16.24; Rm 10.9; 1Co 12.3; Fp 2.9; Cl 3.17). Cristo 6 o Senhor e com ele estado o controle, a autorida- de e a presenga. Ele é 0 poder de Deus (1Co 1.24), a autoridade de Deus (Mt 28.18-20) e a presenca de Deus acampando no meio de seu povo Jo 1.14; Mt 18.20; 28.19,20; Rm 15.9). Ele € o sacriffcio que cumpre todos os sacrificios do culto do Antigo Testamento (Mc 10.45; Jo 1.29; 1Co 5.7; Hb 9.26; 10.12). Ele é o sumo sacerdote que intercede, orando por seu povo (Hb 4.15,16). Esse culto é também uma adoracao em e pelo Espirito. Pelo Espirito chegamo-nos e “adoramos a Deus no Espirito, e... nao confiamos na carne” (Fp 3.3). O Espirito é o Espirito de Cristo (Rm 8.9) e nao fala de sua propria iniciativa, mas apenas.o que ouve de Jesus (Jo 16.12-15), Ele nos persuade de que somos Alguns princtpios basicos 29 filhos de Deus (Rm 8.16) e de que o cvangelho é verdade de Deus (1Ts 1.5). Assim como Jesus intercede por nés, o Espfri- to expressa diante de Deus os gemidos inexprimiveis de nossos coragées (Rm 8.26,27). Culto centrado em Deus, em consondncia com as riquezas da revelacéo do Novo ‘lestamento, é sempre o culto em nome de Cristo e pelo poder do Espirito Santo. O tnico nome pelo qual seremos salvos é o nome de Cristo (At 4.12) e apenas podere- mos conhecé-lo por meio da ag&o soberana do Espirito Santo (Jo 3.3; Rm 8.14,15; 1Co 2.12). O culto centrado em Deus é um culto Trinitério. Nossa adoragio deveria dirigir-se a Deus como Pai, Filho e Espfrito Santo. Vertical e horizontal Evidentemente, portanto, o culto cristdo é “vertical”, diri- gido ao Deus Trino, para o seu prazer. O foco de nosso esforgo no culto deveria ser agradar a Deus. Partindo desse principio, alguns poderiam concluir que, ao cultuarmos, nao deveriamos prestar qualquer atencao as necessidades humanas durante o culto. Conclusédes como essa podem soar muito piedosas, mas nado s4o biblicas. O Deus da Biblia nao é semelhante a Molo- que, o deus falso que exigia sacrificios humanos de seus ado- radores, ao contrario, nosso Deus Trino deseja abencgoar seu povo quando este se encontra com ele. Néo ha qualquer oposi- cdo entre adorar a Deus e amar as pessoas. Amar a Deus com- preende amar o préximo como a nés mesmos (Mt 22.37-40; Mc 7.9-13; 1Jo 4.20,21). No culto, néo deveriamos nos preocupar tanto com Dcus a ponto de ignorarmos uns aos outros. Por exemplo, ado- rando a Deus nao deverfamos nos esquecer dos necessita- dos (Is 1.10-17; compare com 1Co 11.17-34; Tg 2.1-7). i 30 Em esptrito e em verdade necessdrio, também, certificar-nos de que nosso culto é edifi- cante para os crentes (1Co 14.26). O capitulo 14 da primeira carta aos Corintios enfatiza a importancia de uma linguagem compreensivel para todos, em vez de “linguas” ininteligiveis. Mesmo o nao-crente, ao entrar num santudrio, deveria ser ca- paz de compreender o que estd acontecendo de forma a poder prostrar-se e adorar, exclamando: “Deus esta de fato no meio de vés” (v.25). Vemos, portanto, que o culto tem uma dimensdo horizontal assim como um foco vertical. Deve ser centrado em Deus, mas também edificante e evangelistico. Um culto que nao seja edificante nem evangelistico nado pode ser propriamen- te considerado como centrado em Deus. Como podemos manter um foco horizontal apropriada- mente biblico, sem instituir um culto centrado na pessoa hu- mana? E necessdrio lembrar que o interesse apropriado pelos crentes n4o significa atender seus desejos ou caprichos. Culto nao é, portanto, um programa para proporcionar entreteni- mento ou para fortalecer a auto-estima ou encorajar o fari- safismo e a hipocrisia. A melhor forma de nos amarmos uns aos outros na experiéncia do culto é compartilhar a alegria da verdadeira adoragao sem concess6es; uma alegria centraliza- da nas boas novas da salvagdo. Reconhecer a centralidade de Deus no culto nao se opée a edificagéo dos crentes; antes, am- bos se reforgam. O culto é ocasiao para cuidarmos uns dos ou- tros, construir a unidade de nossa comunhdo com Cristo (Ib 10.24,25). Nés amamos porque Deus em Cristo nos amou primeiro (1Jo 4.19). Amplo e restrito Qs termos biblicos para culto aplicam-se a varias ocasides estabelecidas de culto pablico, particularmente ao servico de Alguns princtpios bésicos 31 adoragdo no taberndculo e no templo no perfodo do Antigo Testamento. Entretanto apresentam também um sentido mais amplo, caraclerizando a vida do crente em todos os aspectos. Em Romanos 12.1, 0 termo grego latreia (que em outros con- textos designava o servico dos sacerdotes no templo) descreve a entrega que o crente faz de seu proprio corpo para o servigo de Deus: “Rogo-vos, pois, irmaos, pelas misericérdias de Deus, que apresenteis 0 vosso corpo por sacrificio vivo, santo e agra- davel a Deus, que € 0 vosso culto racional”. No Antigo Testamento, Deus condenou o culto formal que ‘nado fosse acompanhado de uma preocupacaéo com a compaixado e a justica (veja Is 1.10-17; Mq 6.6-8). Em Oséias 6.6, Deus afirma: “Pois misericérdia quero, e nao sacrificio, e 0 conhe- cimento de Deus, mais do que holocaustos”. Deus certamente desejava o sacrificio; a frase € um cxagero retérico ou hipérbole. Mas 0 essencial nao deve ser desprezado, isto é, o culto autén- tico inclui uma vida obediente a Deus. Portanto, néo nos deve surpreender o fato de que, no Novo Testamento, 0 vocabuldrio do culto assume um sentido amplo e ético. Isso seria de se esperar também porque o Novo Tes- tamento encara o culto no templo como uma realidade que estA terminando. Quando Jesus morreu, o véu do templo (que separava o povo da presenga de Deus) rasgou-se ao meio de alto a baixo (Mt 27.51). E o sacerdécio do templo, baseado na descendéncia de Arado, deu lugar ao sacerdécio eterno de Cristo “segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 5.6; 6.20—7.28). No ano 70 de nossa era, 0 templo foi destruido. Agora, em Cristo, todos os crentes s4o sacerdotes, oferecendo sacrificios espirituais (1Pe 2.5,9). Estes incluem um “sacrificio de lou- vor” (Hb 13.15) e, ao mesmo tempo, “a benevoléncia e 0 com- partilhar com outros” (Hb 13.16; compare com Fp 4.18). Ga- nancia e avareza s4o idolatria (Ef 5.5, compare com Mt 6.24). O apéstolo Tiago afirma: 32 Em espirito e em verdade Se alguém supoe ser religioso (threskos, “que observa ritos re- ligiosos”) deixando de refrear a lingua, antes, enganando o proprio coracdo, a sua religiao é va. A religiao [threskeia] pura e sem macula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os érfaos e as vitivas nas suas tribulagées e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo (Tg 1.26,27). Mencionarei algumas vezes este conceito amplamente ético de culto como “culto no sentido amplo”. Embora n4o consista de ritos formais, é muito importante para o conceito biblico geral de culto. Jd podemos perceber que o culto no sentido res- trito, sem o acompanhamento do culto no sentido amplo, nao é aceitavel para Deus. De certa forma, podemos dizer que toda a vida € cullo. Isso nao nega a importancia e até mesmo a necessidade de compare- cermos as reuni6es da igreja (Hb 10.25). Mas o Senhor deseja que vivamos dc tal mancira que todos os nossos atos rendam louvores a ele. A importancia do culto Culto, como foi definido por mim, incluindo seu sentido amplo e restrito, é tremendamente importante para Deus. Em Efésios 1.1-14, 0 apéstolo Paulo apresenta a empolgante vi- sdo do propésito soberano de Deus. O apéstolo inicia antes do tempo: Deus “nos escolheu nele antes da fundacgéo do mundo” (v.4). Entéo Deus “nos predestinou para ele, para a adocgdo de filhos” (v.5) e redimiu-nos pelo sangue de Cristo (v.7), reve- lando-nos os mistérios de sua vontade que scréo cumpridos no final da histéria (vs.9,10). A conclusao de tudo, o objetivo para o qual toda a hist6ria caminha, é 0 louvor, o “louvor da sua gloria” (v.14). Alguns principios bdsicos 33 “O fim principal do homem é glorificar a Deus e goza-lo para sempre” é a resposta aprendida por nés A primeira pergun- ta do Breve Catecismo de Westminster. Tal afirmacao do objetivo da vida humana € escriturfstico (veja 1Co 10.31). Glorificar a Deus é louva-lo.? O livro do Apocalipse apresenta-nos 0 céu e a terra cheios de louvor como a suprema realidade da redencado divina (Ap 5.13; 7.12). Fomos escolhidos como povo especial de Deus para poder- mos “proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das tre- vas para sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). Deus chamou gentios para pertencerem ao seu corpo ao lado de judeus crentes, para que os gentios pudessem somar suas vozes nos cantos de louvor (Rm 15.8-11). Ao longo de toda a histéria biblica — da eternidade até os no- vos céus e a nova terra — Deus “procura” adoradores (Jo 4.23). E incomum nas Escrituras vermos Deus procurando o ser hu- mano. Na Biblia, procurar é normalmente a atitude dos huma- nos, nao de Deus. Em certo sentido, Deus nunca procura, pois nao ha nada escondido aos seus olhos (Hb 4.13). Mas a metafora da busca é apropriada, pois as Escrituras nos falam do enorme esforgo de Deus, no decorrer de muitos séculos, culminando no sacrificio de seu préprio filho, para redimir um povo a fim de adoré-lo. Redengiio é o meio, culto é 0 objetivo. Nesse sentido, a ado- racho € 0 objetivo ahsoluto de todas as coisas. F. o propésito da Histéria e 0 objetivo de toda a historia cristaé. Adorar nao se reduz a um scgmento da vida cristé cntre outros, mas cnglo- ba sua totalidade, uma vida encarada como oferta sacerdotal a Deus. E quando nos reunimos como igreja, nossa hora de culto nado é uma preliminar para algo diferente; ao contrario, é 0 ob- jetivo total de nossa existéncia como corpo de Cristo. Por conseguinte, é importante que estudemos sobre culto e adoragdo. Nas igrejas evangélicas, reconhece-se amplamente J4 Em espirito e em verdade a necessidade de termos estudos sobre evangelizacdo, livros e personagens da Biblia, teologia sistematica, aconselhamento, pregacao € muitas outras coisas. Raramente consideramos a im- portancia de estudarmos como Deus deseja ser cultuado. Culto € algo que tendemos a tomar por cancedido. Eu creio que este livro nos ajudar4 a crescer em nosso conhecimento do assunto e a assumir uma atitude mais séria sobre culto. Perguntas para discussao 1. Dois conceitos basicos emergem dos termos biblicos tra- duzidos como “culto”. Quais sao estes conceitos? De que forma eles nos ajudam a definir culto?! 2. O que significa afirmarmos que Deus é “Senhor”? Quais as implicagées de seu senhorio para o culto? 3. Quais sdo as principais diferencas entre adorar a Deus e honrar as pessoas humanas? 4. Como a queda de Addo afeta o nosso culto? 5. Deverfamos ser beneficiados com 0 culto? Deverfamos sen- tir prazer nele? Deveriamos ser abencoados por meio do culto? Se a resposta é afirmativa, que tipo de béngaos? 6. De que forma pode o culto ser, ao mesmo tempo, centrado em Deus e atento as necessidades humanas? O culto cele- brado em sua igreja precisa recobrar um cquilibrio biblico nesta area? Que mudangas devem ser efetuadas para que tal equilibrio seja recuperado? 7.Como a doutrina da Trindade afeta nosso culto? Como cada uma das trés pessoas nos ajuda a cultuar a Deus? Poderiamos cultuar junto com judeus ou mugulmanos que rejeitam a ‘lrindade? - 8. O que significa cultuar “em Espfrito e em verdade”? 9.F verdadeira a afirmagaéo de que tudo na vida é culto? Alguns principios basicos 35 Apresente uma base bfblica para sua resposta. Algumas pessoas afirmam que “a vida toda é culto, portanto, posso cultuar a Deus aos domingos pela manha no campo de gol- fe”. Replique. 10. “As vezes, quando estou cansado nos domingos pela ma- nha, chego tarde & igreja. Deixo de participar do louvor e da primeira parte do culto e assisto apenas ao sermao.” Replique. Notas ' Particularmente abodah em hebraico c latreia em grego. 2 Shachah em hebraico e proskuneo em grego. 3 Worship is a Verb (Waco, Texas: Word, 1987). * Donald A. Carson, org., Worship: Adoration and Action (Grand Rapids: Baker, 1993). Q conceito de senhorio pactual tem paralelos na literatura secular do antigo Oriente Préximo. Foram encontrados documentos denominados tratados de suserania, nos quais um grande rei selava um tratado com um rei inferior ou vassalo, prometendo varios beneficios e exigindo do vassalo uma lealdade exclusiva, as vezes, denominada amor. O vassalo era proibido de realizar qualquer outro tratado semelhante com um rei rival; ele deveria servir apenas a um senhor. O conccito de Deus como Senhor do Pacto é central na mensagem biblica. Para maior aprofundamento no assunto, consulte Meredith G. Kline, The Structure of Biblical Authority (Grand Rapids: Eerdmans, 1972) e meu préprio livro The Doctrine of the Knowledge of God (Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and Reformed, 1987). © Tdem, 15-18. * Compare 2Ts 2.13: “...porque Deus vos escolheu desde o princ{pio para a salvagdo, pela santificagdo do Espirito e fé na verdade”. 8 Doxazo em grego. Culto no Antigo Testamento Neste capitulo e no préximo, examinaremos as formas de culto descritas na Biblia. Ao estudarmos o culto no Antigo Testamento, serei breve na consideragéo de detalhes do culto em Israel, pois s4o dificeis de acompanhar e seu conhecimento nem sempre é relevante para as decisées que devemos tomar sobre o culto cristéo de nossos dias. Entrctanto, é necessdrio que compreendamos o cardater geral e as principais formas de culto em Israel. Encontros com Deus Freqiientemente no Antigo Testamento, lemos sobre en- contros entre Deus e varias pessoas. Deus falou com Addo e Eva antes e depois da queda. Apareceu a Noé, Abrado, Jacé, Moisés e muitos outros. Sempre que um desses encontros ocor- reu, a experiéncia transformou-se imediatamente em culto. Na sarca ardente, Moisés precisou tirar suas sandalias, pois estava pisando em terra santa (Ex 3.5). Escondeu seu rosto por temor do Senhor (v.6), ouviu a voz de Deus e saiu para 38 Em espirito e em verdade cumprir a responsabilidade que lhe havia sido divinamente entregue (3.7—4.31). Isaias viu Deus “assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo” (Is 6.1). O Senhor estava rodeado por anjos que o louvavam tao alto que os fundamentos do templo foram abalados (vs.2-4). O profeta sentiu-se esmaga- do, nao sé pela grandeza de Deus, mas por seu reconhecimento de ser um pecador (v.5). Como poderia um pecador estar na pre- scnga de Deus? Deus perdoou Isaias por meio de um ato simbéli- co de expiac4o: uma brasa tirada do altar tocou seus labios (v.7). Deus, entéo, o chamou para ser seu profeta (vs. 8-13). Esses encontros foram muito diferentes uns dos outros, mas ha semelhangas importantes entre eles. Deus apresentava-se em sua majestade como Senhor. O adorador era tomado por um te- mor reverente. O controle, a autoridade e a presenca do Senhor impunham-se com absoluta evidéncia. Sua forca e seu poder eram esmagadores; falava uma palavra de autoridade e revela- va-se na presenca do adorador. Este néo permanecia 0 mesmo. Saia da experiéncia com uma nova missdo: servir a Deus com renovada dedicacaéo. Em uma tinica ocasiao, e apenas uma, Deus revelou-se a nacao inteira de Israel. Apés ter sido chamado e comissionado por Deus, Moisés encontrou-se com Farad, rei do Egito, para comunicar-lhe a ordem de Deus: Fara6é deveria permitir que 0 povo de Israel deixasse o Egito para adorar a Deus e oferecer- lhe sacriffcios num festival de culto (Ex 5.1-3). O povo nao partiu até que Deus enviasse as pragas sobre os egipcios. Mas, desde o principio, Israel sabia que estava dcixando o Egito para encontrar-se com Deus. E o Senhor, de fato, os encon- trou no monte Sinai (Ex 19—20.21). Como o encontro entre Deus e Isafas, a experiéncia no monte Sinai tamhém foi ater- rorizadora. Israel presenciou uma fantdstica e impressionante demonstragao do poder e da presenca de Deus e ouviu uma Culto no Antigo Testamento 30 assombrosa palavra, os Dez Mandamentos, que os convenceu de seu pecado. A resposta do povo foi dizer a Moisés: “Fala-nos tu, e te ouviremos; porém nao fale Deus conosco, para que n4o morramos” (Iix 20.19). Deus atendeu o pedido do povo. Algumas vezes, ouvimos cristéos expressarem o desejo de falar pessoalmente com Deus da forma como ele se apresen- tava ao povo no periodo biblico. Mas encontros com Deus na Biblia sao impressionantes ¢ terriveis. Jo também exigiu uma entrevista com Deus (veja J6 23.1-7; 31.35-37). Entre- tanto, o encontro que Deus lhe proporcionou foi humilhante e terrivel (J6 38-42). Talvez devéssemos estar satisfeitos, e até agradecidos, pelo fato de que hoje nossos encontros com Deus sAo menos diretos (embora tao reais quanto no passado, como veremos adiante). Sem diivida, podemos ser gratos, pois apresentamo-nos diante do Senhor em nome de Cristo que suportou a ira de Deus em nosso lugar. Culto espontaneo Embora, como veremos, Deus tenha estabelecido ocasides especiais para 0 culto, este poderia ocorrer em qualquer tempo ou lugar. A Biblia fala de oragdo individual ou particular (Dn 6.10; Mt 6.6) e de ensino familiar (Dt 6.4-9). Quando Moi- sés, retornando ao Egito apés seu encontro com Deus, contou aos israelitas as promessas de libertagéo que Deus lhe confia- ra: “o povo creu; e, tendo ouvido que o SENHOR havia visitado os filhos de Israel e lhes vira a aflicdo, inclinaram-se e o adora- ram” (Ex 4.31). Os salmos est4o repletos de oracéo a Deus em meio a situacées de perigo e dificuldade, assim como de louvor ao Senhor em resposta ao livramento. Culto e adoragdo sio ex- periéncias naturais para 0 povo de Deus. Sendo Deus o Senhor de toda a vida, todos os acontecimentos e experiéncias, de certa 40 Em espirito e em verdade forma, o revelam. E, ao reconhecermos a presencga do Senhor em nossa vida, a resposta natural é oragdo e louvor. Culto, portanto, nado precisa ser organizado nem obedecer a um hordrio fixo para ser valido. Contudo, nas Escrituras, Deus organiza e planeja a adoragéo de seu povo numa grande varie- dade de estilos, como veremos nas seg6es seguintes. Culto do pacto Absolutamente essencial na adoracdo de Israel era sua cons- ciéncia de que era 0 povo especial de Deus, escolhido dentre to- das as outras nacées, para ser 0 povo pertencente a Deus. A raiz da palavra sanio 6 um vocdbulo que pode ser traduzido como “se- parado” e, portanto, Israel, que havia sido separado das outras nagées, era 0 povo “santo” de Deus. Isso nao significa necessa- riamente que Israel fosse mais fiel a Deus do que outras nacées. Mas eles eram, pelo menos, diferentes; e Deus lhes ordenou que demonstrassem essa diferenca por meio de sua conduta. Santidade € um conceito litirgico, faz parte do culto. Uma vez que Israel era o povo escolhido de Deus, sua prépria existén- cia como comunidade deveria ser uma expressdo de culto. A vida total da nacao era culto, separada para Deus. Desta forma, as Escrituras introduzem o conceito de culto no sentido amplo. Assim sendo, a Lei de Moisés dirigia todas as arcas da vida de Israel, néo apenas aqueles aspectos que normalmente consi- deramos “religiosos”. Ela continha leis para oragdo e sacrificio; exortava Israel a ouvir e a obedecer 4 voz do Senhor, a cantar louvores a ele e a realizar ritos religiosos. Ao mesmo tempo, di- rigia também o governo civil nas penalidades aos varios crimes. Governava 0 calendario do povo, sua vida familiar, relag6es se- xuais, sistema econdmico, dieta e 0 ciclo de trabalho e descanso. A Lei de Deus governava todos os aspectos da vida humana. Culto no Antigo Testamento 4] Muitas ordenangas da lei serviam principalmente para re- forcar a distincao entre Israel e as outras nagées. Os israelitas deveriam usar roupas diferenciadas, evitar alguns tipos de ali- mentos utilizados pelos pagaos, etc. O sinal distintivo mais fun- damental era a circuncisao. Pleno acesso 4 adoragdo no templo era garantido apenas aqueles que haviam sido circuncidados. Culto sacrificial Logo apés a queda da raga humana, 0 povo comegou a trazer ofertas ao Senhor. Caim e Abel trouxeram oferendas a Deus (Gn 4.2-5). Depois do dilGvio, Nvé construiu um altar e sa- crificou “animais e aves puros” ao Senhor (Gn 8.20-22). Na ocasiao, Deus fez um pacto com Noé. Posteriormente, quando da alianga estabelecida com Abrado, animais também foram sa- crificados (Gn 15). O Senhor, numa aparéncia de fogo, passou entre as partes cortadas dos animais, prometendo a posse da terra da Palestina a Abrado e a seus descendentes. Mais tarde, Deus fez alianca com o povo de Israel sob a li- deranga de Moisés. Esse pacto incluia um elaborado sistema de ofertas de animais, graos, vinho, dleo e incenso. Havia oferen- das para toda a nacéo: didrias, semanais (aos sdbados), mensais (na lua nova), e durante as festas anuais (Nm 28,29). Havia ofertas apresentadas individualmente pelo pecado e ofertas para consagracgéo ou comunhao com Deus (Lv 1—7). As ofertas para comunhéo, ou “ofertas pacificas”, eram parcialmente comidas pelo adorador e pelo sacerdote como uma refeigdo de comunhao com Deus. Havia também oferendas em ocasides especiais, como a celebracéo de um pacto, a consagracao de sacerdotes e a dedicagéo do templo. Os sacrificios néo expiavam os pecados de Israel “porque é impossivel que 0 sangue de touros e de bodes remova pecados” 42 Em espirito e em verdade (Hb 10.4). Seu propdsito era apontar para o futuro, para o tempo de Jesus, o Cordeiro de Deus que ofereceria a si mesmo como sacrificio cabal pelos pecados. Sdbados O quarto dos Dez Mandamentos requer de Israel que “Lem- bra-te do dia do sdbado, para o santificar” (Ex 20.8). Santificar um dia é, em si mesmo, um ato de culto. Neste caso, a santidade do dia cra observada pela suspensao do trabalho, apresentagao de ofertas sacrificiais e a santa convocacao (Lv 23.3). O sdbado nao era novidade quando Deus entregou os Dez Mandamentos a Israel. Exodo 20.11 ensina que o sdbado foi instituido por Deus na criagao e que deveriamos imitar o padrao da atividade criadora de Deus: seis dias de trabalho e um de descanso. Na Lei de Israel, entretanto, 0 sébado semanal tornou-se parte de um sistema de sdbados. [avia alguns dias sabdati- cos especiais, além do sébado semanal, durante a observacao da Pascua e em outras ocasiées especiais (veja, por exemplo, Lv 25.1-7). No qiiinquagésimo ano, 0 ano que se seguia ao sétimo ano sabatico, ocorria o Jubileu, durante o qual as pro- priedades que haviam sido vendidas retornavam a familia do proprietario original (Lv 25.8-13). Festas Trés vezes por ano, os homens israelitas deveriam dirigir-se a uma localidade central (finalmente, Jerusalém) para as festas divinamente estabelecidas (veja Lv 23). A festa dupla da Pas- coa e dos Paes Asmos era celebrada no més de margo ou abril, recordando a libertagio operada por Deus, tirando o povo de Culto no Antigo Testamento 43 Israel do Egito, e o pacto pelo qual Israel, como nacéo, tornou- se o povo de Deus. A Festa do Pentecostes (também chamada Festa das Semanas, ou das Primicias), em maio ou junho, ce- lebrando a colheita do trigo. Uma tradicdo antiga considerava o Pentecostes, celebrada cinqtienta dias apéds a Pascoa, como a comemoracaéo do encontro de Deus com Israel no Monte Sinai e a entrega das Tabuas da Lei. A Festa dos Taberndculos, no outono, era precedida por um periodo de duas semanas que in- cluia a Festa das Trombetas e o Dia da Redengao, marcando o término da colheita e rememorando a peregrinagao de Israel no deserto. O povo reunido em Jerusalém deveria viver em barra- cas ou tendas, relembrando os rigores da jornada pelo deserto. Na Festa das Trombetas, a Lei era lida e, no Dia da Expiagdo, os pecados eram confessados. Apés a confissao ptiblica, o sumo sacerdole enlrava no Santo dos Santos, quer no taberndculo ou no templo, no lugar da presenc¢a de Deus, trazendo sangue por seus proprios pecados e também pelos do povo. Taberndculo e templo Por meio de Moisés, Deus ordenou a Israel construir-lhe um lugar no qual ele poderia “habitar no meio do povo” (Ex 25.8). Os capitulos de 25 a 28 de Exodo registram as instru- coes detalhadas de Deus para a construcdo da estrutura. Israel recebeu de Deus a seguinte instrugdo: “Segundo tudo o que eu te mostrar para modelo do taberndculo e para modelo de todos os seus méveis, assim mesmo o fareis” (ix 25.9; compare v. 40; Hb 8.5). Bezalel e Oliabe, os arteséos que supervisionaram a construcdo, foram escolhidos por Deus e ficaram cheios do Espirito Santo para executarem suas tarefas (Ex 31.1-3). O taberndculo era uma espécie de tenda, circundado por um patio relangular. Nesse patio, de cerca de 8,50 m por 17 m, 44 Em esptrito e em verdade ficava o altar para ofertas queimadas e a bacia com agua para purificagéo dos sacerdotes (denominado “mar de bronze” no Antigo Testamento. N.T.). O taberndculo em si era dividido em dois aposentos: o Lugar Santo e o Santo dos Santos, separados por uma cortina. No Lugar Santo, ficavam a mesa com 0 péo da proposig&o, o candelabro e o altar de incenso. No Santo dos Santos, ficava a arca da alianca, o trono ou local da presen- ¢a divina. Dentro da arca, estavam guardadas as duas tabuas contendo os Dez Mandamentns, uma vasilha de ouro cheio de mand, com o qual Deus miraculosamente havia alimentado Is- rael no deserto, e a vara de Arao que florescera de modo maravi- lhoso, confirmando Arao e seus filhos como sacerdotes de Israel (Nm 17.1-3). A ninguém era permitida a entrada no Santo dos Santos, exceto ao sumo sacerdote e apenas uma vez por ano, no Dia da Expiacao. O taberndculo era, sem diivida, portatil, como seria apro- priado para o perfodo de peregrinacéo de Israel pelo deserto. Durante o reinado de Davi, entretanto, Deus expressou seu desejo por uma habitacgéo mais permanente. A Davi ndo foi per- mitido construir a nova estrutura, porque, como um homem de guerra, ele havia derramado muito sangue. SalomAo, seu filho, encarregou-se da tarefa, de acordo com os planos entregues a Davi pelo Espirito de Deus (1Cr 28). O projeto do templo era semelhante ao do tabernaculo, embora muito maior, e era cons- trufdo com materiais n4o-portateis. A mobflia era a mesma, embora em ntimero maior: dez candelabros, dez mesas para o pao da proposigéo e dez bacias (2Cr 4). O templo foi destruido trés vezes e reconstruido duas. O “segundo templo” foi construfdo apés o exilio da Babilonia. O templo que existia durante 0 ministério terreno de Jesus foi erigido por Herodes, o Grande. O taberndculo, e ainda mais 0 templo, eram lindamente decorados, cheios de metais preciosos e outros materiais. Culto no Antigo Testamenta 45 Tanto o taberndculo quanto o templo eram especialmente devotados ao culto sacrificial. Mas eram, também, lugares de oragéo (1Rs 8.22-53; Is 56.7; Mt 21.3; At 3.1), de prestar juramentos (1Rs 8.22-53), de cantar louvores (1Cr 15.16-22; 25.1-31) e de ensinar (Mt 26.55; Le 2.41-52; At 5.21). Sacerdotes e levitas Levi era uma das 12 tribos de Israel, descendentes de um filho de Jacé, do mesmo nome, a tribo 4 qual Moisés e Arado per- tenciam. Mas, diferentemente das outras tribos, os levitas nao receberam uma parcela particular do territério da Terra Prome- tida. Deus era a sua heranca (Nm 18.20-24; Dt 10.9; 12.12). Eles haviam sido incumbidos de uma tarefa especial: cuidar “do santuario e do altar” (Nm 18.5). Por esse servico, recebiam os dizimos entregues por todas as outras tribos (Nm 18.21). Tal cuidado inclufa tarefas relativamente modestas e servis, mas 0 rei Davi empregou levitas como cantores e instrumentistas para o culto do santuario (1Cr 15.16-24; 16.4-6; 37-42). Os levitas eram também professores da Lei (Dt 33.10; 2Cr 17.7-9), e ndo apenas no santudrio. Os levitas receberam cidades dentro do territdrio das outras tribos, nas quais moravam € pasto- reavam seus rebanhos (Js 21). Portanto, embora muitos deles vives- sem pr6ximos ao santudrio, outros estavam espalhados por varios pontos do territ6rio e cumpriam seu ministério onde estivessem. Os sacerdotes eram um grupo especial de levitas, descendentes nao apenas de Levi, mas também de Arado, irmao de Moisés. Estes ofereciam sacrificios no tabernaculo e no templo e eram encarrega- dos de dirigir o culto. Na realidade, serviam como mediadores en- tre Deus e Israel, representando o povo diante de Deus. Também ensinavam a Lei (Lv 10.10,11), julgavam questées de impureza cerimonial (Lv 13-15) e resolviam alguns assuntos civis. 46 Em espirito e em verdade A sinagoga No tempo do ministério terreno de Jesus, havia sinagogas espalhadas por toda a Palestina, assim como em outros locais onde houvesse populacdo judaica. Uma sinagoga podia ser esta- belecida sempre que houvesse um grupo de dez homens judeus acima de 12 anos de idade. Servigos de culto eram realizados acs s4bados e em outros dias da semana. Nenhum animal nem qualquer outra oferta eram sacrificados nas sinagogas; 0 culto sacrificial estava restrito ao templo. Nas sinagogas, os judeus se reuniam para orar e estudar as Escrituras. Os rolos sagrados poderiam ser lidos por qualquer homem judeu e o texto se- ria explicado e aplicado 4 congregagéo. Havia varias recitacées, oragées, béngaos e respostas congregacionais previstas. A origem da sinagoga € obscura. Embora a Lei de Moisés dé instrugées detalhadas a respeito do culto no taberndculo e no templo, nao ha qualquer mengaéo a respeito das reunides nas sinagogas. Suspeito que mesmo antes do cxilio, talvez desde o tempo de Moisés, havia, além do servico de adoracao no taber- naculo, algum tipo de ministério de ensino que eventualmente foi espalhado por todo 0 territério de Israel. Mencionei anterior- mente que os levitas que vivam distantes do santudrio tinham responsabilidades de ensino em suas comunidades. O texto de 2 Reis 4.23 indica que crentes do reino do norte habitualmente visitavam “homens de Deus” aos sdbados e nas luas novas. Ou- tra indicacao da existéncia das sinagogas est4 em Levitico 23.3, relacionando o sébado com uma “assembléia sagrada”, sem qualquer indicag&o ulterior a respeito do que deveria aconte- cer nessas reuniées semanais. Algum tipo de encontro sabatico, inicialmente convocado pelos levitas — talvez perto do tabern4- culo; mas, posteriormente, espalhados em varias localidades de Israel — possivelmente teriam, com 0 tempo, se desenvolvido no que hoje conhecemos como sinagogas. Com a destruicdo do Culta no Antigo Testamenta 47 templo e o exilio, os judeus, sem duvida, transformaram as si- nagogas num modelo de reuniao ainda mais importante. Apés o exilio, os lideres de Israel reconheceram que 0 ensino das Escrituras era a maior e mais essencial prioridade para a restauracdo de Israel como povo de Deus na terra prometida. A tradig&éo judaica cita Esdras como o fundador da sinagoga. A longa assembléia durante a qual ele ensinou a lei de Deus ao povo reunido (Ne 8,9) é, as vezes, conhecida como a “Grande Sinagoga”. Jesus freqtientava e ensinava regularmente nas sinagogas (Le 4.15,16), portanto, nao pode haver discuss4o sobre a apro- vacéo de Deus para essa instituigao. E interessante notar, no en- tanto, que a sinagoga e o templo eram muito diferentes quanto 4 sua fundamentacdo escrituristica: Deus regulamentava em deta- lhes 0 culto sacrifical no taberndculo e no templo, exigindo que o povo procedesse estritamente de acordo com o modelo revelado. No entanto, ele praticamente nao diz nada a Israel com respeito a sinagoga (ou, neste sentido, nem sobre os ministérios de ensino e oracgéo que tinham lugar ao redor do templo), deixando o pla- nejamento de suas reunides amplamente entregues ao discerni- mento do povo. Sem diivida, eles sabiam, em linhas gerais, o que Deus desejava: que sua palavra fosse ensinada e orag6es fossem oferecidas. Mas Deus deixou os detalhes em aberto. Inclusive, é uma questao aberta se as reunides da sinagoga poderiam ser consideradas “culto”. No Antigo Testamento, o vocabulario de culto refere-se tipicamente as ofertas sacrificiais no taherndculo ou no templo, os quais néo eram realizados nas sinagogas. Entretanto, os que assistiam nas sinagogas presta- vam honra a Deus, e honra é um aspecto caracteristico do cul- to, como foi examinado no capitulo anterior. E se as reunides da sinagoga eram as assembléias sagradas de Levitico 23.3, entao elas representavam claramente um encontro com Deus e, portanto, uma ocasiao de culto. 48 Em espirito e em verdade Concluséo Houve muitos tipos diferentes de culto durante o perfodo do Antigo Testamento. Existiram encontros entre Deus e 0 ho- mem, oracécs cspontaneas, sacriffcios prescritos, um calendario regulador dos eventos de culto em intervalos diferentes, cons- trugdes primorosas para adoracao, lideranca divinamente insti- tuida para o culto sacrificial e o ensino da Palavra de Deus. Perguntas para discussdo 1. “Sempre que ocorre um encontro entre Deus e o homem, o evento se transforma numa ocasido de cullo”. Explique. 2. Por que o Antigo Testamento coloca tanta énfase sobre o sacrificio, embora seja “impossivel que o sangue de touros e bodes removam pecados”? 3. Poderia o culto do Antigo ‘Testamento funcionar com pro- pricdade sem o templo e sem provisdo para sacrificios? Dessa maneira, como poderiamos avaliar o culto judeu de nossos dias? 4. Que semelhangas e diferengas existem entre 0 culto cristaéo eo culto no templo? E quanto ao culto na sinagoga? Como os pastores cristaos se assemelham ou nao aos sacerdotes e levitas do Antigo ‘Testamento? Compare a Santa Ceia com a “oferta pacifica” e a Pascoa. 5. Por que Deus foi tao insistente ao exigir que 0 povo seguis- se precisamente a orientagéo revelada para a construcdo do taberndculo? E por que ele hes deu t4o pouca informacao sobre como conduzir as reunides da sinagoga? Culto no Novo Testamento Cristo cumpre o culto do Antigo Testamento O fato mais significativo sobre culto no Novo Testamento é que ele se centraliza em Jesus. Como vimos no primeiro ca- pitulo, Jesus vem a terra como Senhor do pacto. Ele demons- tra controle, autoridade ¢ presenga que Yahweh associava ao seu proprio senhorio sobre Israel. Cristo traz para seu povo um livramento maior que a libertag4o da escravidao egipcia no Antigo Testamento; Cristo liberta seu povo dos pecados deles. Transforma-os num novo povo de Deus (veja 1Pe 2.9), envolvendo judeus e gentios num tnico corpo para prestar- lhe culto. A partir da perspectiva do Novo Testamento, podemos per- ceber os varios elementos que apontam para Jesus no culto do Antigo Testamento. Nele, em Jesus, encontramo-nos com Deus (Jo 1.14). Sua morte pelo pecado e sua gloriosa ressurreigdo nos levam espontaneamente ao louvor. Por exemplo, 0 apéstolo Paulo, com freqiiéncia, faz uma pausa em suas consideragées sobre a obra de Cristo para louvar com alegria ao Senhor (Veja Rm 9.5; 11.33-36; Ef 1.15-23; 3.14-21). 49 50 Em esptrito e em verdade Jesus € 0 sacrificio final e cabal pelo pecado ec, portanto, poe um término nas ofertas de bois e cabritos (Hb 10.1-18; Ef 5.2; Mc 10.45). Os sacrificios do Antigo Testamento deveriam ser feitos todos os dias, continuamente, o que demonstrou sua ine- ficiéncia para abolir o pecado. Mas 0 sacrificio que Jesus fez de si mesmo sobre a cruz resolveu o problema do pecado, “de uma vez por todas”. Seu sacrificio € suficiente para tornar santo o seu povo (Hb 10.10). Jesus é também aquele que apresenia o sacriffcio final, isto é, ele representa 0 tiltimo sacerdote. Sendo ao mesmo tempo Deus e homem, ele é 0 mediador final — 0 tinico mediador — entre Deus e os homens (1Tm 2.5). A carta aos Hebreus (6.13— 8.13) apresenta Jesus como sacerdote, nao segundo a ordem de Arao, mas segundo a ordem de Melquisedeque, o sacerdote misterioso que “trouxe pao e vinho” para Abrado, e para o qual o patriarca entregou o dizimo (Gn 14.18-20). Na narrativa do Génesis, Melquisedeque aparece do nada, sem genealogia e sem qualquer palavra a respeito de sua vida anterior ou posterior a esse encontro com Abrado. Semelhantemente, diz o escritor aos Hebreus, Jesus nao esta relacionado com a tribo de Levi ou com os filhos de Arao. Ele inicia um sacerdécio inteiramente novo, “constituido ndo conforme a lei de mandamento carnal, mas segundo o poder de vida indissolivel” (Hb 7.16). E seu sacerdécio permanece, porque ele vive para sempre (Hb 7.24). Diferentemente dos sacerdotes aradnicos, Cristo nao perde seu oficio em razao da morte. “Por isso, também pode salvar total- mente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7.25). A Carta aos Hebreus afirma também que Jesus, como il- timo sumo sacerdote, ministra num taberndculo muitissimo maior que o taberndculo ou o templo do Antigo Testamento. Lembrem-se do segundo capitulo, em que vimos as exigéncias de Deus no sentido de que o taberndculu de Israel fosse cons- Culto no Novo Testamento 51 truido precisamente de acordo com um plano detalhado revela- do por ele mesmo. Pergunto-me a razdo dessa exigéncia, tendo em vista o fato de que Deus nao revelou qualquer modelo es- pecifico no que diz respcito as sinagogas. Em Hebreus 8.1-6, descobrimos a raz4o: o taberndculo terreno deveria ser, tanto quanto possivel, um modelo do taberndculo no céu. O taber- nadculo celestial é a morada final da presenga de Deus. Para podermos gozar de comunhdo eterna com Deus, nossos pecados precisam ser resolvidos nesse tabernaculo eterno. Jesus, como o ultimo sumo sacerdote, trouxe seu préprio sangue ao taber- naculo celestial como um sacriffcio perfeito e permanente por nosso pecado (veja Hb 9.11-21). Num uso, de certa forma diferenciado, dos simbolos, Jesus é, ele mesmo, o taberndculo e o templo de Deus. Ele é aque- le em quem Deus tabernaculou com seu povo (Jo 1.14). Apés Jesus ter expulsado os vendilhées do templo de Jerusalém, os judcus pediram-lhe um sinal miraculoso de sua autoridade. Jesus lhes respondeu: Destrui este santudrio, e em trés dias o reconstruirei. Replicaram os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este santudrio, e tu, em trés dias o levantards? Ele, porém, se referia ao santudrio do seu corpo. Quando, pois, Jesus ressuscitou dentre os mortos, lembraram-se os seus discipulos de que ele dissera isto; e creram na Escritura e na palavra de Jesus (Jo 2.19-22). Jesus é a habitagao de Deus entre os homens. O propésito do templo era apontar para ele mesmo. Na consumagao final da Historia, na “Nova Jerusalém”, nao havera templo, porque “o seu santuario é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro” (Ap 21.22). Portanto, toda a mobilia do tabernaculo e do templo falam de Cristo (Hb 9.1-5). O altar das ofertas queimadas nos fala do 52 Em espirito e em verdade sacrificio de si mesmo apresentado por Cristo. A bacia, como o sacramento do batismo, aponta para o Cristo como o sacerdote perfeitamente puro, livre de qualquer macula, e que purifica seu povo. Os candelabros representam Cristo como a luz do mundo. O pao da proposigéo e o mand, como o sacramento da Ceia do Senhor, mostram Cristo como aquele que alimenta seu povo. O altar de incenso e a vara de Aréo representam Jesus como o sacerdote, cujas oragées por seu povo constantemente ascendem ao trono do Pai. O Santo dos Santos foi aberto para nés na morte de Cristo, no momento em que o véu do templo se partiu ao meio. Por meio de Cristo, entramos com intrepidez (Hb 10.19-25). A arca, trono de Deus em Israel, representa Jesus como “Deus conosco”, Emanuel. As tabuas da Lei falam de Cristo como a Palavra eterna de Deus. Jesus € também o “Senhor do Sébado” (Mt 12.8)! e 0 pon- to central das festas anuais. Ele é o cordeiro pascal (Jo 1.29; 1Co 5.7). E Cristo quem envia seu Espirito no Pentecostes, conferindo poder a igreja. Quem cumpre o Dia da Expiagao ao apresentar seu sangue a Deus no Santo dos Santos. E ele quem personifica a Festa dos Taberndculos, ao habitar para sempre com seu povo. Joio 1.14 diz: “E o Verbo se fez carne e habitou (literalmente tabernaculou) entre nés”. Jesus 6, também, o verdadeiro Israel, o remanescente fiel do povo de Deus. Aqueles que estéo em Cristo so o novo Israel, o “Israel de Deus” (Gl 6.16), herdeiros das promessas feitas pelo Pai a Abraao. Os cristaos, portanto, adoram a Deus, cons- cientes de que sao eleitos de Deus, povo de Deus escolhido em Cristo, antes da fundacéo do mundo (Ef 1.4). Como Israel no Monte Sinai, temos nos reunido na presenca do Senhor. Mas, assim como o taberndculo terreno era uma imagem de outro muito maior no céu, a assembléia do povo no Sinai também era uma imagem de outra assembléia muito maior no céu. Nés somos parle dessa assembléia maior. Culto no Novo Testamento 53 Mas tendes chegado ao Monte Sido e 4 cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, ¢ a inconlaveis hostes de anjos, e 4 univer- sal assembléia e igreja dos primogénitos arrolados nos céus, e a Deus, 0 Juiz de todos, e aos espiritos dos justos aperfeico- ados, e a Jesus, o Mediador da nova alianga, e ao sangue da aspersdo que fala coisas superiores ao que fala o proprio Abel (Hb 12.22-24). Também temos uma circunciséo mais notdvel, separando- nos de todas as nagées da terra como povo santo de Deus. Con- tra aqueles que insistiam em que os cristéos deveriam ser cir- cuncidados, Paulo responde: “Porque nés é que somos a circun- ciséo, nés que adoramos a Deus no Espirito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e nao confiamos na carne” (Fp 3.3). Em Cristo, somos nao apenas o verdadeiro Israel, mas, tam- bém, sacerdoles. Assim como ele é o perfeito e cabal sumo sa- cerdote, somos chamados a ser seu povo sacerdotal (1Pe 2.5,9; Ap 1.6; 5.10; 20.6). Na igreja do Novo Testamento, n4o hé um grupo especial de sacerdotes como em Israel do Antigo ‘Testamento. Ao contrario, todos nés apresentamos a Deus sacrifficios “espirituais” de lou- vor, oracgdes, conduta piedosa e a totalidade de nossa existéncia (Rm 12.1; Fp 2.17; 4.18; Hb 13.15,16). N4o somos apenas sacerdotes; mas, também, templos. Nossos corpos sao templos do Espirito Santo (1 Co 6.19). Por essa ra- zo, Paulo ensina, que eles ndo devem ser maculados por pecado sexual. Ou, para colocar de maneira diferente, a igreja, como um todo, € templo de Deus e nao deve ser profanada por divisées ou orgulho (1 Co 3.16-17; 2 Co 6.19; Ef 2.21). Apenas “nele”, em Cristo, poderemos ser reunidos uns aos outros, num templo san- to. Somos um templo apenas enquanto formos corpo de Cristo. Claramente, entao, o culto cristao deveria ser repleto de Cris- to. Chegamo-nos ao Pai unicamente por meio dele (Jo 14.6). No 54 Culto no Novo Testamento culto, othamos para Jesus como nosso todo suficiente Senhor e Salvador. Cristo deve ser, com absoluta certeza, proeminente e penetrante em todas as circunstancias do culto cristo. Culto em sentido amplo As grandes mudangas do Antigo e do Novo Testamento implicam nas grandes mudan¢as no culto. Como novo Israel em Cristo, a igreja cultua de forma paralela 4 do Antigo Tes- tamento, no sentido de que cada ordenanga do Antigo Testa- mento é cumprida em Cristo. Nés também temos uma alian- ca, um sacerdécio, um taberndculo, sacriffcios, circuncisdo, expiagao e festas. Mas, na pratica do culto, ha grandes dife- rencas, pois todas essas instituigdes existem agora em Cristo, e somente nele. Nosso culto em Cristo pressupde 0 cumpri- mento completo e cabal da redengdo esperada pelos judeus do Antigo Testamento. Uma diferenga que jé seria evidente é 0 fato de que a termi- nologia tradicional para o culto é usada, no Novo Testamento, tipicamente num sentido amplo. E assim deveria ser. O tem- plo literal nao existe mais; néo ha mais sacrificios animais; nao existe mais um sacerdécio araénico. Circuncisao e festas anuais néo séo mais requeridas. Valorizamos todas essas or- denangas por seu testemunho de Cristo, mas uma vez que ele veio e realizou cabalmente a redengdo, ndo existe nenhuma necessidade de observarmos literalmente esses ritos. Na rea- lidade, sua observacdo literal desviaria nossa atencao do cum- primento final da salvagéo cm Jesus. Portanto, Deus nao cxige nossa participacéo em tais ceriménias. Mas, 0 que permanece de culto quando essas ceriménias néo séo mais necessdrias? Essencialmente, o que subsiste é o culto num sentido amplo: uma vida de obediéncia a Palavra de Deus, um sacrificio de nds Culto no Novo Testamento 55 mesmos ao seu propésito. Nossa vida toda é um servico sacer- dotal, nossa honra e nosso louvor ao nosso Senhor da alianca. Reuniées cristas Apesar da informacdo anterior, nao deve ser interpretado como sc nao houvesse, no Novo Testamento, qualquer ordenan- ca para louvor e oragéo comunitérios, ensino e celebracdo dos sacraimentos ou reunides nas quais Deus se aproxima de seu povo de um modo especial. Evidentemente, houve tais reunides entre os cristéos primitivos; encontros sancionados pelos apés- tolos como representantes de Cristo. Jesus promete béncdos especiais — na verdade, sua presenca cspccial — sobre seu povo reunido em seu nome (Mt 18.20;? compare com Jo 14.13,14,26; 16.23-26). A Ceia do Senhor nao é idéntica a outras refeig6es, mas de uma forma misteriosa, além de nossa compreens4o, “uma participacgado no corpo e no sangue de Cristo” (1Co 10.16). O pao e o vinho devem ser to- mados dignamente (1Co 11.27), pois Jesus chamou o cdlice de “a nova alianca no meu sangue” (v. 25). Desde os primeiros tempos da igreja do Novo Testamentu, os crentes se regozijavam no encontro com os irmaos e, em tais reunides, experimentavam béncdos singulares do Espirito de Deus (At 1.6,14; 2.42-47; 4.23-31; 5.42; 13.2; 20.7-38; 1Co 11.18-34; 14.1-40; 1Pe 3.21). Encontravam-se para orar, ensinar e celebrar os sacramentos. Pronunciavam, publicamen- te, nessas reunides, os julgamentos da disciplina eclesidstica (1Co 5.4,5). A congregacao recebia ofertas para irmaos com necessidades especiais (1Co 16.1,2). Cumprimentavam-se com o “beijo santo” (Rm 16.16; 1Co 16.20). Eventos sobrenaturais tinham lugar pela acgdo do Espirito de Deus. Havia proclamagoes feitas em linguas desconhecidas para 50 Em esptrito e em verdade o orador e interpretagdes dadas por Deus dessas enunciacGes, e profecias divinamente inspiradas, em linguagem familiar (1Co 14.1-25). Em minha opiniao, tais dons sobrenaturais foram con- feridos & igreja apenas no periodo de sua fundagaéo, para atestar 0 ministério dos apéstolos (Hb 2.1-4; 2Co 12.12; Ef 2.20). Esse ministério esta disponivel para nés nas Escrituras; portanto, nao deveriamos esperar que Deus nos conferisse tais dons. Todavia, nfo se pode duvidar que Deus esta pessoalmente presente de maneira especial nas assembléias cristas, tanto em seus aspectos permanentes do Novo Testamento quanto nos aspectos tempordrios e extraordindrios. Quando os cristéos cul- tuam como Deus ordena que o fagam, mesmo um n4o-crente sera induzido a cultuar, reconhecendo que “Deus esta, de fato, no meio de vés!” (1Co 14.25). Por essa raz4o, 0 culto ptblico nao é algo opcional. Muitos cristéos professos em nossos dias créem que ir ou nAo a igreja é uma questéo de opcao pessoal. Irao se nao estiverem cansados, ou ocupados com outros afazeres, ou trabalhando, ou partici- pando de encontros sociais, ou assistindo a um jogo de futebol. Para eles, o culto puiblico ocupa uma posigéo muito baixa na sua lista de prioridades. De maneira geral, tal comportamento é inconcebivel e, portanto, indigno de um cristéo. Mas, quando tais pessoas tentam justificar seu comportamento pela Pala- vra de Deus, argumentam que a verdadeira piedade est4 no contexto total da vida, nao em reunides, e que podem adorar a Deus perfeitamente em seus lares ou num campo de golfe. No entanto, o escritor aos Hebreus tem uma opiniao bem diferen- te. Para ele, a reunido dos irmaos é de vital importancia: “Nao deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, fagamos admoestag6es e tanto mais quanto vedes que o dia se aproxima” (Hb 10.25). Serd a reuniao dos cristaéos um “servico de culto”? Alguns dizem que nao, baseados na concepcao de que, no Novo Testa- Culto no Nove Teatamento 57 mento, a vida toda é culto.4 E verdade que o Novo Testamen- to nao descreve as assembléias dos crentes na Igreja Primitiva como “cullo”., Nem tampoucu usa a linguagein de sacrificio e sacerdécio comum ao Antigo Testamento, para descrever as reuni6es cristas. Grande parte do ensino do Novo Testamento sobre essas reunides apresenta um foco horizontal: a impor- tancia de comunicar o amor uns pelos outros (1Co 11—14), a importancia da edificagéo (1Co 14.26; Hb 10.24,25). No entanto, vimos que, no culto ptiblico, Deus se aproxi- ma de seu povo de uma forma especial. E dificil definir pre- cisamente o que significa “de uma forma especial”. Deus 6, sem divida, onipresente; portanto, esta sempre ao nosso lado (S1 139). Esse fato, sem dtivida, é relevante para o culto num sentido amplo, pois a terra inteira é templo de Deus. Ao longo da histéria da redencéo, contudo, Deus tem, de tempos em tempos, demonstrado a sua presenga de forma par- ticularmente intensa e grandiosa. Algo muito incomum e im- portante aconteceu quando Deus encontrou-se com Moisés na sarca ardente, quando Israel se encontrou com Deus no Sinai, e quando a gléria de Deus desceu sobre 0 tabernaculo. Algo simi- lar acontece também quando Deus se aproxima de seu povo nas reunides cristas, embora nao haja qualquer espetaculo visual como freqiientemente ocorria no Antigo Testamento. Quando os cristéos sc reinem em nome de Cristo, essa assembléia nao é simplesmente culto, no sentido amplo, embora isso seja cer- tamente verdadeiro. Algo mais esta ocorrendo e precisamos de- fini-lo melhor. Tradicionalmente, os cristéos o tém chamado de “culto”, tendo cm mente um sentido do termo que é andlogo ao uso feito no ambiente do templo. O uso desse vocabulario cultual é, de certa forma, perigoso, pois pode nos induzir a esquecer as vastas diferengas existentes entre o culto no templo do Antigo Testamento e as reunides do Novo ‘lestamento. Mas ha certas 58 Em esptrito ¢ em verdade scmclhangas, bem como diferengas, e nossa terminologia deve levar ambas em consideracao. Problemas de terminologia nunca séo questdes de vida ou morte. O inglés moderno é diferente do hebraico do Antigo Testamento ou do grego do Novo Testamento e, raramente, é possivel alcancar uma perfeita correspondéncia entre uma ex- pressao em inglés e as expressdes usadas nas linguas originais da Biblia (Isso vale para o portugués ou qualquer outra lingua. N.T.). Constantemente, precisamos usar muitas palavras em inglés para expressar palavras de um Lermo grego ou vice-ver- sa. Um bom tradutor precisa esforcgar-se, considerando varias possibilidades, até encontrar a melhor tradugao possivel. Con- seqtientemente, podemos descrever os encontros do Novo Tes- tamento como “culto”, desde que usemos outros termos para diferenciar os dois tipos de culto. Ou podemos recusar o uso do termo culto para descrever as assembléias cristas, mas, nes- se caso, precisaremos encontrar outra terminologia capaz de expressar a presenga divina na reuniao e a honra e o louvor especiais dados a Deus. Tenho algumas vezes usado a seguinte ilustragao: Imagine que vocé trabalhe no paldcio de um rei, esfregando assoalho. Apesar do caréter humilde de seu trabalho, vocé tem uma sen- sacéo especial por estar naquele lugar. Vocé é fiel ao rei e o admira. E, afinal de contas, vocé trabalha no palacio do rei. Enquanto trabalha, vocé, na realidade, encontra-se na presenga do rei, e toda a sua labuta se torna um servico, uma espécie de homenagem a ele. Mas, de repente, algo especial acontece: exis- te a possibilidade de um encontro pessoal entre vocés. Pode ser que ele simplesmente passe e faga uma observagao casual, ou talvez vocé comparega a uma reunido oficial. Em qualquer dos casos, quando um acontecimento assim ocorre, seu servico ad- quire um cardater diferente. Uma ocasidéo como essa, mesmo que seja um encontro casual, torna-se, de certa forma, cerimonial. Cult no Novo Testamento 59 Vocé se curva € repele, da melhor forma possivel, a saudagao de honra: “Vossa Majestade!” Como bom servo, vocé procura, de varias formas, expressar respeito por seu senhor e apoio aos seus propésitos. A ilustracdo nao é perfeita, uma vez que Deus nao tem uma 1 presenga fisica e seu “aproximar-se” nem sempre é visivel. Mas algo semelhante acontece em nossa relagéo com Deus. A vida, em todos os seus aspectos, é culto, Sendo assim, sempre pro- curamos honrar e servir ao nosso Senhor. O mundo todo é seu palacio (Is 66.1). Mas, quando nos encontramos com ele, algo extraordindrio acontece. A Biblia usa 0 termo “culto” para ex- pressar essa situacdo especial, mesmo quando ocorre 4 parte do ministério sacerdotal do taberndculo e do templo. Lembra- mo-nos do culto espontaneo, registrado em passagens como Exodo 4.31, ou o assombro solene de Abraao, Jacé e Tsafas, quando Deus se encontrou com eles. Além disso, embora as Escrituras nfo se refiram 4s assem- bléias cristas como um servico de culto, elas usam uma termi- nologia cultual para descrever algumas coisas que realizamos nessas ocasides. Nossas ofertas podem ser “como aroma suave, como sacrificio aceitavel e aprazivel a Deus” (Fp 4.18; compa- re com Hb 13.16). Nossos louvores sao sacrificios (Hb 13.15; compare com Os 14.2). As orag6es na Biblia sfo estreitamente relacionadas com a fumaga que subia do altar de incensuv no tabernaculo e no templo (SI 141.2; Le 1.10; Ap 5.8; 8.3,4). Orar é levantar “maos santas” (1Tm 2.8). A palavra que le- mos, e sobre a qual pregamos, é “santa” (Rm 7.12; 2Tm 3.16; 2Pe 2.21; 3.2). Em Hebreus 4.12, essa palavra penetra em nosso intimo mais profundo: a linguagem é sacrificial. O 6s- culo (ou beijo) com o qual os cristéos do Novo Testamento expressavam sua comunhdo e unido também é “santo” (Rm 16.16; 1Co 16.20; 2Co 13.12; 1Ts 5.26). Como igreja, so- mos um templo santo (1Co 3.17; Ef 2.21; 5.27; Ap 21.2,10) 00 Em esptrito e em verdade e um sacerdécio real (1Pe 2.5). No culto, aproximamo-nos da Jerusalém celestial, de Deus e dos anjos numa jubilosa assem- bléia (Hb 12.22-24). Portanto, nao esta errado descrever a reuniao crist4, num sentido, como servicgo de culto. Dizer isso, todavia, no signi- fica dizer que existe uma distincao estrita entre o modo como agimos durante a rcuniao c a nossa conduta fora dela. Nossa santidade, nosso sacerdécio, nossas preces e oracées, e nosso ouvir obediente da Palavra de Deus ndo esto restritos as reu- nides na igreja. A diferenga de culto, em sentido amplo, e cul- to, em sentido mais restrito, 6 uma diferenca em grau. Toda a terra é templo de Deus. Como no caso do trabalhador do paldcio, estamos sempre na presenca de Deus, sempre estamos nos encontrando com ele. Em varias ocasides, entretanto, Deus parece aproximar-se mais de nés. O que o Novo Testamento ensina é que, quando o povo de Deus se retine em nome de Je- sus, Deus realmente se aproxima ainda mais. Isso € verdadeiro, quer percebamos sua proximidade ou n4o. E a sua promessa, e nés deveriamos confiar nela. O que significa “aproximar-se” nesse contexto? Afirmei, an- teriormente, que é dificil definir; mas, permitam-me tentar, de certa forma, esclarecer a idéia. Quando Deus se aproxima, ele tem uma raz40, um propésito especial para nés. Como no caso de Isaias, ele deseja relembrar-nos de sua grandeza e santidade. Deseja que reconhegamos essa grandcza cm nossos louvores. Deseja nos convencer do pecado e almeja que confessemos esses pecados, para recebermos seu perddv. Ele quer que ougamos sua Palavra e a obedecamos. Ele quer ouvir nossos votos no ba- tismo e na profissao de f€, e deseja dirigir a disciplina da igreja. Deseja ter comunhao conosco na Ceia do Senhor. Almeja rece- ber nossas ofertas. Ele quer que reconhecamos nossa unidade e amor uns pelos outros como membros de seu corpo. Para tais propésitos, Deus se aproxima. E de tal comunh4o com Deus Culto no Novo Tectamento 61 cm nome de Cristo levantamos, fortalecidos por seu Espirito, para fazer a sua vontade. Quando Deus se aproxima, podemos ser grandemente aben- coados. Boas coisas acontecem. Também é verdade, entretan- to, que, as vezes, Deus se aproxima em julgamento (veja Gn 3.8-19; Jl 2.11; Ml 3.1-5; Mt 25.31-46; 2Ts 2.8). Aqueles que desobedecem a sua palavra ou nado o louvam devidamen- te sdo aterrorizadus com a aproximagao de Deus. Todos nés o ofendemos; e podemos apenas sentir-nos gratos e maravi- lhados porque, em Cristo, ele nos poupou. Nem todos seréo poupados. De fato, 0 julgamento final s6 viré no término da Histéria. Portanto, em nosso culto hoje, Deus nao se apro- xima com um julgamento final. Mas ele reprova v pecado na pregacdo da Palavra e na disciplina da igreja. Tais reprovagées sio particularmente intensas, quando a igreja se retine em seu nome. Examine novamente 1 Corintios 14.24,25, ondc, como jA vimos, um ndo-crente, visitando uma reuniao crista, convence-se do pecado e adora a Deus, dizendo: “Deus real- mente esté no meio de vés”. O que significa reunir-se em nome de Jesus Cristo? Signifi- ca, simplesmente, reunir-se por causa dele, para os propésitos que surgem de nosso compromisso comum com Jesus. Quando nos reunimos em seu nome, ele se encontra co- nosco. Seu nome é grande e poderoso. Em nome de Jesus, seus discfpulos profetizaram e fizeram milagres (Mt 7.22; Le 9.49; At 3.6; 4.7). Por causa desse nome, seu povo tem sido perseguido (Mt 10.22; 24.9), Em nome de Jesus, fomos batizados (Mt 28.19; At 2.38). Em seu nome, nos compade- cemos dos pobres (Mc 9.41). Fé salvadora é crer no nome de Jesus (Jo 1.12; 3.18; 20.31; At 3.16). Em seu nome, oramos, e ele promete responder-nos (Jo 14.13,14,26; 15.16,21; 16.23-26). Nao ha nenhum outro nome pelo qual devamos ser salvos (At 4.12). 02 Em espirito e em verdade E imposstvel separar 0 nome de Cristo do proprio Cristo. Louvar o seu nome é louvd-lo pessoalmente. Batizar cm seu nome é batizar em Cristo (Gl 3.27). Crer em seu nome é crer nele, E por esse nome maravilhoso que nos reunimos. Nossa ex- pectativa para com o culto deveria ser muito mais profunda. Perguntas para discussao 1. Quais séo algumas das formas pelas quais Jesus cumpre o culto do Antigo Testamento? 2. Cristo é realmente central, proeminente, e sua pessoa per- meia todos os aspectos do culto de sua igreja? Por qué? Como seria possivel tornar esse culto mais centrado em Cristo? 3. Por que o culto, cm sentido amplo, é especialmente proemi- nente no Novo Testamento? 4. Por que deveriamos ir a igreja? O que perdemos quando nao vamos? Nao seria poss{vel cultuar Deus facilmente em qualquer outro lugar, uma vez que a vida toda é culto? O servico de culto na igreja é uma opgao ou uma necessidade? A igreja deveria disciplinar os membros que ndo freqiien- tam o culto com regularidade? 5. Podemos dizer que a reuniao cristé é um “servico de cul- to”? Que diferenca isso faz? 6. O que significa para Deus “achegar-se a nés”? Que diferen- Ga existe na maneira como ele se aproxima de nds durante 0 culto e o modo como ele o faz em outras situacdes? 7. O que significa reunir-se “em nome de Cristo”? Culto no Novo Testamento 63 Notas Essa frase 6 um importante testemunho da divindade de Cristo. O saba era o dia santo de Deus, um dia separado para ele dos demais dias da semana. Apenas Deus era “o Senhor do Sabado”. O contexto imediato desse versiculo trata da disciplina eclesidstica e é, por conseguinte, uma importante promessa para as igrejas que discipli- nam fielmente seus membros em consonAncia com o ensino integral de Mateus 18. Entretanto, os versiculos 19 e 20 apresentam um panorama mais amplo, ocupando-se de todas as ocasides em que os crentes se reti- nem em nome de Cristo. Portanto, a promessa do versiculo 20 aplica-se a todas as reunides dos crentes em nome de Cristo. Veja, por exemplo, Anthony A. Hoekema, What About Tongue-Speaking? (Grand Rapids: Eerdmans, 1966); Richard B. Gaffin, Jr., Perspectives on Pentecost (Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and Reformed, 1979). Veja David Peterson, “Worship in The New Testament”, em Worship: Adoration and Action, org. Donald Carson (Grand Rapids: Baker, 1993), 82-83. Glenn Davies discute essa tese em detalhe em “New Covenant Worship” (Tese de Th. M., Westminster Theological Seminary, 1979). Veja, também, Herman Ridderbos, Paul (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), 481, uma discussdéo bem equilibrada sobre a matéria. Regras do culto Precisamos conhecer as regras As pessoas freqitentemente se surpreendem quando ouvem ou aprendem que Deus nem sempre se agrada do culto que lhe € oferecido. Somos inclinados a pensar que Deus deveria sentir- se agradecido com qualquer tipo de atengao que Ihe dispensas- semos dentro de nosso tempo escasso e cheio de compromissos. Mas culto nao tem a ver com a gratid4o de Deus para conosco; mas com nossa gratidaéo a ele. Deus nao se agrada de qualquer coisa que apresentemos diante dele. O Senhor poderoso do céu e da terra exige que nosso culto — na realidade toda a nossa vida — seja governada por sua Palavra. Desde 0 inicio, em Génesis 4, aprendemos que “Deus nao olhou com favor para Caim e sua oferta” (v. 5). Em Leviti- co 10.1-13, Deus destréi Nadabe e Abit, filhos de Arado, por terem oferecido “um fogo nao autorizado diante do Senhor, contrério a sua determinacdo” (Veja também: 1Sm 13.7-14; 2Sm 6.6,7 [compare 1Cr 13.9-14; 15.11-15]; 1Rs 12.32,33; 15.30; 2Cr 26.16-23; 28.3; Jr 7.31; 1Co 11.29,30). 05 60 Em espirito e em verdade Os primeiros quatro mandamentos do Decdlogo ocupam-se do culto em varios aspectos. Eles regulam nosso relacionamen- to com o sagrado. O primeiro proibe o culto a deuses falsos. O segundo veta o culto a qualquer deus (até mesmo o Deus verda- deiro) por meio do uso de fdolos. O terceiro profhe 0 nso errado do santo nome de Deus. O quarto exige que nos lembremos de seu dia santo. Por conseguinte, as Escrituras tragam uma linha clara entre culto verdadeiro e falso. A condenagao 4 idolatria permeia toda a Biblia (no Novo Testamento, veja: At 17.16; Rm 1.21-23; 1Co 10.6-22; 2Co 6.16; GI 5.20; 1Pe 4.3; 1Jo 5.21; Ap 21.8; 22.15). Portanto, é uma questéo da maior importancia, literalmen- te uma questdo de vida ou morte, saber como adorar a Deus corretamente, de acordo com sua vontade. O tipo errado de culto provoca a ira de Deus, néo a sua béngao. Nao podemos fazer qualquer coisa que pareca agraddvel para nds mesmos na presencga magnifica de Deus. Os cristéos modcrnos adotam uma atitude muito descontraida para com o culto. A Episto- la aos Hebreus nos adverte a “adorar ao Senhor de maneira aceitével, com reveréncia e temor, pois nosso Deus é um fogo consumidor” (Hb 12.28). Como, entéo, adorar a Deus de modo aceitavel? Essa é a pergunta crucial. Mas antes de respondé-la, devemos atender a outra pergunta: como descobrir a maneira aceitdvel de adorar ao Senhor? Onde encontrar as normas para 0 culto? O principio regulador Para todos os cristéos, a resposta bdsica para todas essas P' pi perguntas é: “nas Escrituras”. Deus dirige toda a vida humana com a sua Palavra e, dessa mesma forma, isto é, por meio das Escrituras, regulamenta o servigo de culto.! Mas de que forma Regras do culto 67 deveremos utilizar as Escrituras para regulamentar o culto? Para tal pergunta, grupos diferentes de cristaos tém apresenta- do diferentes respostas. Catélicos Romanos, Episcopais e Luteranos assumiram a posigdo de que podemos fazer qualquer coisa, menos aquilo que as Escrituras proibem. Nesse caso, as Escrituras regulamentam o culto de forma negativa, exercendo o poder de veto. Igrejas Presbiterianas e Reformadas, entretanto, utilizam um princi- pio mais rigido: tudo aquilo que a Biblia nao ordena é proibido. Nesse caso, a autoridade biblica é mais ampla do que um poder de veto, sua funcgdo é essencialmente positiva. Dentro dessa perspectiva, as Escrituras devem positivamente exigir um tipo de pratica ou ordem que seja aceitavel para o culto de Deus. A Confissdéo de Fé de Westminster (21.1) coloca da seguinte forma: O modo aceitdvel de cultuar a Deus é instituido por ele mes- mo e limitado por sua propria vontade, de maneira que ele nao pode ser adorado de acordo com a imaginacao e invengdes dos homens ou com as sugestées de Satands, sob qualquer re- presentagdo visivel ou qualquer outro modo ndo prescrito nas Santas Escrituras. A palavra chave é “prescrito”. Com o tempo, essa limitagao do culto aquilo que é prescrito por Deus tornou-se conhecida como “Principio Regulador” ou culto Reformado e Presbiteriano. Esse principio regulador reflete uma percepcdo genuina so- bre a natureza do culto biblico. Como vimos, o culto é para Deus e nado para nés. Portanto, devemos buscar, acima de qual- quer outra coisa, fazer aquilo que agrada a ele. Quando cultuamos, procuramos honrar a Deus. Para tan- to, néo podemos confiar em nossa prépria imaginacao. Nadabe e Abit confiaram em sua prépria sabedoria e Deus os julgou 08 Em espirito e em verdade severamente. Seria possivel confiarmos em nossa prépria sabe- doria para determinar, 4 parte das Escrituras, aquilo que Deus aprecia ou nao aprecia no culto? Nossa finitude e pecado nos desqualificam para tal tarefa. Para uma decisdo tao séria, po- tencialmente uma decisio de vida ou morte, devemos buscar a prépria sabedoria de Deus, a revelacgéo de seu préprio cora- c4o. Devemos perguntar as Escrituras como Deus deseja que 0 adoremos. Entao, no momento do culto, devemos agir daquela maneira — e apenas daquela maneira. As Escrituras condenam o culto baseado apenas em idéias humanas: “Visto que este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus labios me honra, mas 0 seu coracao esta lon- ge de mim, e o seu temor para comigo consiste s6 cm manda- mentos de homens” (Is 29.13). Essa Palavra de Deus por meio do profeta Isafas foi repetida por Jesus em Mateus 15.8,9 e em Marcos 7.6,7. Paulo, em Colossenses 2.23, condena o “culto de si mesmo”, culto ndo autorizado por Deus. A Palavra de Deus é suficiente para nos dirigir em nosso cul- to, assim como em todos os aspectos de nossa vida. Nao devemos adicionar nem subtrair nada (Dt 4.2; 12.29-32; 2Tm 3.16,17; Ap 22.18,19).? Aplicagées Nao haverd, entao, nenhuma contribuigéo do pensamen- to, planejamento ou decisées humanas no culto? Sem dtvida, tal contribuicéo existe. As Escrituras silenciam sobre muitos atos que praticamos no culto, Nao nos dao indicagdes sobre a que horas ou onde deverfamos nos reunir aos domingos, se nos sentaremos em bancos ou cadeiras, qual seria a duracao do culto, quais hinos podemos cantar ou sobre que texto 0 pastor deveria pregar. Portanto, como é possfvel dizer que as Regras do culto 69 Escrituras s4o uma regra suficiente para o culto? Nao precisa- riamos da sabedoria humana em conjunto com as Escrituras para planeja-lo? Os tedlogos de Westminster, que escreveram a Confissdo de Fé, trataram desse problema reconhecendo que “ha algumas circunstancias concernentes ao culto a Deus e ao governo da igreja que sdo comuns 4s acdes e grupos ou sociedades huma- nas e que, portanto, devem ser dirigidas 4 luz da natureza e da prudéncia cristés, de acordo com as regras gerais da Palavra que devem ser sempre observadas” (1.6). As Escrituras, criam eles, sio suficientes para nos dizer o que é bdsico com respeito ao culto, mas nao nos dao uma orientagdo detalhada quanto as “circunstancias”. Quais sAo essas circunstancias? A Confissdo nao define o termo, exceto na colocacgéo de que sfo “comuns 4s acées e so- ciedades ou grupos humanos”. Alguns puritanos e presbiteria- nos escoceses, tentando cxplicar a clausula, ensinaram que as circunsténcias eram questées seculares sem qualquer signifi- cado religioso. Mas, sem dtivida, no mundo de Deus, nada é puramente secular ou completamente vazio de um significado religioso. Isso é uma conseqiiéncia do fato de que, em certo sentido, a vida toda é culto. O hordrio e lugar, por exemplo, nao so neutros do ponto de vista religioso. Decis6es como essas de- vem ser tomadas para a gléria de Deus. Os presbitcros de uma igreja nao estariam exercendo um governo piedoso se tentassem obrigar todos os membros da igreja a comparecerem ao culto as trés horas da manha. Decisées sobre local e hordrio do culto po- dem afetar seriamente a qualidade da edificagéo (1Co 14.26). Embora decidir sobre hordrio e local das reuniées seja algo “co- mum 4s atividades e grupos humanos”, tais decisdes, no con- texto da igreja, assumem um significado religioso. Os tedlogos de Westminster compréenderam isso e, portanto, insistiram em que todas as decisées deveriam ser tomadas “de acordo com as 70 Em espirito ¢ em verdade regras gerais da Palavra”. Mas, novamente, como distinguir as circunstancias dos elementos substantivos do culto? Além disso, parece haver alguns aspectos do culto que nao séo comuns 4s atividades e grupos humanos, sobre os quais de- vemos exercer nosso julgamento pessoal. Por exemplo, a Biblia nos ordena orar, mas nao nos diz precisamente quais palavras usar em n0ssas oragdes. Devemos decidir quais palavras usare- mos dentro dos limites do ensino biblico sobre oracdo. Essa é uma decisao de grande importancia espiritual. Nao me parece acertado descrever tal questao meramente como “circunstén- cia”. Oracéo nao é “comum a atividades e grupos humanos”.’ Mas, av orar, precisamos usar nosso préprio julgamento dentro da orientagdo biblica; se n4o o fizermos, simplesmente ndo po- deremos orar. Concordo com a Confisséo quando afirma que ha lugar para o julgamento humano em questées “comuns @ atividade e aos grupos humanos”. Mas nao creio que essa seja a tinica esfera na qual o julgamento humano possa ser legitimado. Em minha opiniao, o termo que melhor descreve a esfera do iulgamento humano no é circunst@ncia, mas aplicagdéo.* De modo caracte- ristico, a Biblia nos ensina 0 que fazer num plano geral e, ento, deixa a nosso critério determinar os especificos, usando nossa prépria sabedoria santificada, de acordo com as regras gerais da Palavra. Determinar os especificos é o que chamo “aplicacao”. Ao contrario do termo circunslancias, a palavra aplicagéo co- bre ambos os exemplos mencionados. Aplicagées incluem ques- toes como horario e local do culto: as Escrituras nos dizem que devemos nos reuniz, mas néo determinam quando nem onde; precisamos fazer uso de nosso proprio julgamento. De igual modo, as Escrituras nos ordenam orar, mas néo nos ditam as palavras exatas que devemos usar; portanto, precisamos decidir. Como podem ver, a esfera da aplicacéo inclui quest6es “comuns a atividade e grupos humanos” e questdes que nao o so.> Regras do culto 71 O processo de aplicacdo é importante nao apenas para 0 culto no sentido estrilo, mas também para o culto no sentido amplo, isto 6, a aplicacdo é importante em todas as decisdes da vida. Em todas as circunstancias, nossa tarefa € aplicar os principios biblicos as nossas decisdes de vida. Por exemplo, a Biblia nos diz que devemos honrar nossos pais. Mas nao determina quéo freqiientemente devo telefonar para minha mae nem o que lhe dar como presente de aniversdrio. Devo tomar tais decis6es por meio da aplicacéo piedosa das Escrituras 4 minha situagdo. Na vida cotidiana, nunca estou livre dos mandamentos de Deus. Quando reconhcgo esse fato, tudo o que facgo é em obedién- cia as ordens divinas. Algumas ordens so gerais, outras séo mais especificas. “Fazei tudo para a gléria de Deus” (1Co 10.31) é uma ordem geral. “Fazei isto em memoria de mim” (1Co 11.24), re- ferindo-se A Santa Ceia, é relativamente especifica. Pelo processo de aplicacao, as ordens gerais se transformam em especificas e as ordens especificas tornam-se ainda mais especificas. Assim compreendido, o principio regulador para o culto nao se diferencia dos principios pelos quais Deus regulamente toma a nossa vida. E isso é légico; pois, como vimos, culto é, num sentido muito relevante, o todo da vida. Em ambos os casos, tudo o que nao é ordenado é proibido. Todos os nossos atos devem ser feitos em obediéncia a Deus. Em ambos os casos, a aplicagéo determina os especificos de acordo com os principios gerais da Palavra. Tal interpretagéo do principio regulador implicaria a no- cdo de que no culto poderiamos proceder como o fazemos em qualquer outra situagdo da vida? Certamente que nao. Pois ha diferenca entre 0 que chamamos culto no sentido “amplo” e culto no sentido “restrito”, embora tais diferengas nem sempre possam ser definidas com precis4o. O servico de culto é um evento ptblico com propésitos particulares. Por exemplo, Pau- lo escreve aos Corintios dizendo-lhes que nado deveriam tratar wz Em espirito e em verdade a Ceia do Senhor como uma refeigéo comum (1Co 11.20-34). Se alguns estéo famintos ou com sede, devem comer em casa, nao durante o culto na igreja (11.34). Na Ceia do Senhor, nao deveriamos comer até que todos estejam servidos do pao e do vinho (11.21,22). As Escrituras estabelecem distingdes entre diferentes situacées e deveriamos observar tais distingdes. E nccessério, também, reconhccer distingdes que estao im- plicitas nas Escrituras. Por exemplo, a Biblia nao profbe ex- plicitamente exibigdes de malabarismo durante o culto. Mas ela explicita os propésitos de uma reunido de adoragio e lou- vor; e entretenimento, embora absolutamente legitimo, nao é consistente com aqueles propésitos estabelecidos. Podemos até afirmar que o entretenimento, quando de acordo com os pa- drées biblicos, 6 uma forma de “culto no sentido amplo”. Mas é geralmente inconsistente com os propésitos de uma reuniao de culto.® Entretanto, o processo de tomada de decisd4o é 0 mesmo em todas as situagdes: nossa responsabilidade é descobrir 0 que Deus ordenou nas Escrituras e aplicar 0 seu ensino aos especi- ficos de cada situagao. Estou consciente de que as afirmacées presbiterianas tra- dicionais sobre o principio regulador estabelecem uma distin- go muito mais nitida do que tenho proposto entre servico de culto e o restante da vida. A Confisséo de Fé de Westminster, por exemplo, estabelece que, no conjunto da vida, estamos li- vres de “quaisquer doutrinas e mandamentos humanos” que sejam contrérios 4 Palavra de Deus, estabelece também que, “em questées de fé e culto”, estamos livres de doutrinas e man- damentos “fora” ou a parte da Palavra (20.2). Minha formulagao pessoal nao contradiz a Confisséo, mas vai além dela. Do meu ponto de vista, estamos livres de qual- quer coisa “A parte” ou alheia 4 Palavra, nado apenas em “ques- toes de fé ou culto”, mas também em todas as outras dreas da Regras do culto 73 vida.? Em qualquer 4rea, estamos sujeitos aos mandamentos biblicos. Apenas as Escrituras nos foram “entregues por inspi- racdo de Deus para ser nossa regra de fé e pratica”, como afirma a Confisséo (1.2). A sabedoria humana nao deve nunca presumir acréscimo aos seus mandamentos.’ A tnica tarefa da sabedoria humana é apli- car tais mandamentos as situagdes especificas. Poder eclesidstico Na tradigdo presbiteriana, o principio regulador tem sido caracteristicamente discutido no contexto do “poder eclesids- tico”. Historicamente, os puritanos e os primeiros presbiteria- nos escoceses foram confrontados com o que consideraram ser um poder opressivo da igreja oficial, que pretendia forga-los a cultuar de acordo com um modelo considcrado, por eles, nao escrituristico. Do ponto de vista desses puritanos e presbiterianos escoce- ses, a igreja oficial tentava “impor um cerimonial” nao ordena- do nas Escrituras. Portanto, para eles, a questao do principio regulador tinha a ver com o poder eclesidstico: 0 que é lfcito & igreja exigir que os crentes facam? E a resposta dos puritanos e presbiterianos foi, apropriadamente, apenas aquilo que as Es- crituras ordenam. Essa posigao sobre o poder eclesidstico, entretanto, levou al- guns tedlogos a estabelecer, com grande firmeza, uma distingao entre servicos de culto “formais” ou “oficiais” (isto ¢, sancio- nados pelas autoridades da igreja) e outras reunides, nas quais cultuamos a Deus — como culto doméstico, cintico de hinos nos lares, etc. — que nao s4o sancionadas oficialmente. Alguns afirmam que o principio regulador se aplica apenas a cultos formais e nao a outras formas de adoragao. 74 Em espirito e em verdade Tal distincgéo, entretanto, é claramente contraria as Escri- turas. Quando a Biblia proibe que cultuemos segundo a nossa imaginagaéo, nao o faz apenas em relacao aos servicos oficiais de culto. O Deus da Biblia certamente nao aprovaria alguém que o adora nos servicos formais, mas adora idolos na privacidade de seu lar.? Segundo a posicéo puritana, o principio regulador refe- re-se primariamente ao culto oficialmente sancionado pela igreja. Segundo esse ponto de vista, na condig&éo de mostrar, por exemplo, que a pregacéo é apropriada no culto, deveria- mos provar, por meio de mandamentos e exemplos bfblicos, que Deus exige pregagdes em servicos de culto, oficialmen- te sancionados pela igreja. Nao seria suficiente demonstrar que Deus aprova a pregacéio em geral ou que Deus se agrada quando a palavra é pregada para multiddes ou em reuni6es in- formais nos lares. Ao contrério, teriamos de provar que a pre- gacao € requerida precisamente nos servicos de culto oficiais ou formais. Infelizmente, é virtualmente impossf{vel provar que qualquer coisa é requerida ou ordenada de modo especi- fico para cultos oficiais. O Novo Testamento simplesmente nao faz tal distingéo. Ha ordens para pregar o evangelho e ha exemplos de pregacaéo acontecendo em reunides ptblicas da igreja (como em At 20.7), mas tais reuniécs nao so classifi- cadas como formais ou oficiais. Portanto, rejeito a limitagdo do principio regulador a ser- vicos de culto oficiais. Essa é uma doutrina que se refere ao culto em todas as suas formas. Governa todo tipo de culto, quer formal ou informal, individual ou comunitario, ptiblico ou privado, familiar ou no templo, amplo ou restrito. Limitar a doutrina aos cultos oficiais sancionados pela igreja é rouba-la de sua forga biblica. Sem divida, essa doutrina apresenta importantes implica- gdes para a questao do poder eclesidstico (ou como a Confissdo Regras do culto 75 coloca no capitulo 20, sobre “a liberdade de consciéncia”). Nos- sos pais puritanos estavam, sem dtivida, certos ao argumenta- rem que o principio regulador limita aquilo que as autoridades eclesiasticas poderiam impor sobre os crentes. A igreja pode impor apenas o que é ordenado por Deus com relagao ao culto e, claro, o que mais for necessdrio para que possamos aplicar esses inandamentos com unidade e ordem.!® Conclusao Dentro dessa compreensido, o principio regulador limita o que podemos fazer no culto, mas também permite diferentes tipos de aplicacgdo e, portanto, abre uma 4rea significativa de liberdade. Igrejas diferentes aplicam legitimamente os manda- mentos de Deus de formas diferentes. Deus ordena que cante- mos. Algumas igrejas aplicam esse mandamento, cantando trés hinos durante o culto; outras cantam quatro. Algumas podem cantar especialmente hinos tradicionais, outras, cAnticos con- temporaneos. Deus nos diz que devemos orar. Algumas igrejas podem ter um momento de oragao dirigida pelo pastor, outras, muitas oragées dirigidas por membros da congregacéo. Como veremos mais claramente nos capitulos subseqiientes, existe um espaco amplo para o julgamento e a criatividade humanos no culto, utilizaveis dentro dos limites da Palavra de Deus. Certamente, 0 principio regulador nado deveria ser usado, como alguns o tém feito, para impor o tradicionalismo no cul- to. Tanto nas Escrituras como na Ilistéria da Igreja, o princi- pio regulador tem sido uma arma poderosa contra a imposicao de tradigdes humanas no culto a Deus. Considere novamente os protestos de Isafas (Is 29.13) e de Jesus (Mt 15.8,9) contra aqueles que colocavam tradicé6es humanas no mesmo nivel das Escrituras. Considcre também os protestos dos puritanos con- 70 Em espirito e em verdade tra aqueles que reivindicavam o direito de impor cerimoniais sem aprovacdo biblica.!! Certamente, o principio regulador é uma carta de liberdade, nao um jugo pesado. Ele nos liberta de tradigdes humanas para cultuarmos a Deus an sen modo. Limita nossas escolhas como o peixe é limitado ao seu meio liquido. Quando rompemos esses limites, encontramos morte, e ndo liberdade, 4 nossa espera. Rejeitar o principio regulador é rebelar-se contra nosso amo- roso Criador e, entao, paradoxalmente, encontrarmo-nos em miseravel escravidaéo, sob o dogmatismo humano. Por conseguinte, no restante deste livro, ndo exigirei de ninguém que se conforme com 0 estilo puritano de culto ou com qualquer outro estilo. Nesse sentido, este volume sera bem fora do comum em comparagao com a maioria dos outros livros sobre culto. Ao contrdrio, apresentarei o principio regulador como algo que nos liberta, dentro de limites, para cultuarmos a Deus na linguagem de nosso préprio tempo, para buscar aque- las aplicagdes dos mandamentos de Deus que melhor edificam os crenles em suas culturas contempordaneas.'? Devemos ser tanto mais conservadores como mais liberais que a maioria dos estudiosos do culto cristao: conservadores, no sentido de nos atermos exclusivamcntc aos mandamentos de Deus nas Escri- turas como nossa regra de culto, e liberais, defendendo a liber- dade daqueles que aplicam os mandamentos de modo legitimo, embora no tradicional. Perguntas para discusséo 1. Defina os seguintes termos: principio regulador, circunstan- cia, aplicagado, poder eclesidstico, tradicionalismo. 2. Vocé ja tinha ouvido falar do principio regulador? Em sua opiniao, por que esse principio € tao pouco conhecido hoje, Regras do culto 77 considerando sua importancia nas Escrituras e na Reforma Protestante? 3.0 culto em sua igreja amolda-se ao principio regulador? Examine uma ordem de culto recente de sua igreja. Quan- tas atividades de culto sao aplicagécs de mandamentos bi- blicos? Quais ndo o s4o, se houver? 4. Que tipos de atividade ou postura violam o princfpio regu- lador num servigo de culto: processionais? Incenso? Vesti- mentas? Aspersaéo de 4gua benta? Danga liturgica? Cele- braco de dias santos? Cumprimento aqueles ao seu redor? Anincios? Alguns deles sao justificéveis como aplicacées ao mandamento bfblico? 5. O conceito de aplicacéo diminui a diferenca hist6rica entre os conccitos de culto aceitos por presbiterianos e luteranos ou episcopais? Possibilita a abertura de um caminho de maior consentimento? 6. Como o princfpio regulador se relaciona com a questéo do poder eclesidstico? Por que é perigoso limitar o princfpio regulador a essa quest4o? 7.Como algumas pessoas usam o principio regulador para forgar a adogdo de um estilo tradicional de culto? Qual o erro dessa atitude? Em que sentido o principio regulador, como foi apresentado neste capitulo, encoraja a liberdade e nao o tradicionalismo? Notas Adoto, neste livro, a doutrina crist4 histérica sobre as Escrituras, a qual ensina que a Biblia é a verdadeira Palavra de Deus, a autoridade ultima cm questées de doutrina e vida cristas, infalivel e inerrante. Aqueles que tém objegoes a essa doutrina sao exortados a consultar livros como B. B. Warfield, The Inspiration and Authority of the Bible (Filadélfia: Pres- byterian and Reformed, 1967); E. J. Young, Thy Word Is Truth (Grand 8 Em espirito e em verdade Rapids: Eerdmans, 1957); Meredith G. Kline, The Structure of Biblicul Authority (Grand Rapids: Eerdmans, 1972). Alguns leitores perceberéo que, embora anteriormente eu tenha citado uma lista de passagens, como Levitico 10.1-13, para demonstrar o desprazer de Deus com um culto ilegitimo, néo a usei com a intencdo de comprovar o principio regulador; mas, ao contrdario, baseei me em considcragées mais ge- rais. Nao me parece que aquela lista de passagens prove o ponto essencial de que “tudo que nao é ordenado é proibido”. As praticas condenadas nessas passagens sdo mais do que simplesmente ndo ordenadas; eram explicitamen- te proibidas. Por exemplo, o que Nadabe e Abit fizeram em Levitico 10.1 nao era apenas “nao autorizado”; o texto nos informa que era “algo contré- rio ao mandamento de Deus.” O fogo deveria ser tirado do altar de Deus (Nm 16.46), néo de um outro local particular (compare com Ex 35.3). Sem dtivida, é “comum a atitudes e sociedades humanas” que as pessoas determinem aplicagdes especificus de leis gerais. Talvez, entaéo, possa- mos falar da escolha de oracées especificas como “circunstancias”. Mas isso é uma consideragio légica muito abstrata e duvido que os tedlogos de Westminster a tivessem em mente quando mencionaram “circunstancias”. Talvez seja util para os leitores comparar esse conceito com a argumen- tagdo sobre aplicagéo que apresento em meu Doctrine of the Knowledge of God (Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and Reformed, 1987). Concordo com o ensino da Confissdo nesse ponto. Desejo apenas comple- menté-la. Concordo com a Confisséo em que devemos usar nossa prépria prudéncia em areas comuns 4s agées e sociedades humanas. Creio que devemos usar nossa prudéncia em outras d4reas também. E, embora a Confisséo néo mencione quest6es como o exemplo usadu sobre oragéo, nao creio que eles estivessem inconscientes a esse respeito. Com certeza, afirmar o exercicio da prudéncia humana em tais 4reas em nada contradiz os padrdes de Westminster. Observe que eu qualifico essa observacdo usando expressées como “nor- malmente” e “geralmente”. Existe uma certa sobreposigéo entre os pro- positos do culto e os do entretenimento. Por exemplo, a mtisica no culto muitas vezes apresenta um valor estético, a leitura da Palavra de Deus, quando bem feita, aprescnta aspectos dramaticos, existe humor nas Es- crituras assim como em um bom serm4o, como veremos mais tarde. Mas o propésito de tais atividades nao é meramente a estética, ou o drama, ou o divertimento; e precisamos estar atentos para que esses aspectos de entretenimento em nossas reunides nao obscuregam nosso trabalho de honrar a Deus e edificar 0 seu povo. Regras do culto 79 7 A propria Confissdo talvez apresente esse ponto de vista abrangente da suficiéncia escriturfstica em 1.6. Nao estou certo de que 0 artigo 1.6 seja inteiramente consistente com 20.2. 8 A Biblia nos diz: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles” (Hb 13.17). Acaso esses lideres adicionam algo aos mandamentos das Escrituras? Nao, pois os lideres da igreja estav, eles proprios, sob a autoridade da Palavra de Deus. Como veremos com maior profundidade na préxima seco, eles nao podem pretender exigir nada de nés além da- quilo que as Escrituras requerem. ° Esse exemplo 6, de certa forma, exagerado, mas pode ser que alguns israe- litas tenham feito algo muito semelhante: adoravam ao verdadeiro Deus no templo e depois adoravam em desobediéncia as ordens de Deus nos lugares altos (por exemplo, 1Rs 3.3; 11.7,8). Muitos cristéos que alegam uma adesdo estrita ao principio regulador demonstram esse tipo de inconsisténcia. J4 adorei em varias igrejas que créem conscientemente que uma mulher nunca deve ter um papel de lideranga no culto, mas permitem a uma mulher liderar um “servico de cantico” dez minutos antes do culto da noite. Por qué? Porque, eles me explicam: o servigo de cAntico nao é um “culto” oficial e, portanto, nao esta sujeito ao principio regulador. Semelhantemente, existe uma universidade pertencente a uma denomi- nacao que é conhecida por sua adesdo estrita ao principio regulador. A denominagao profbe 0 cantico de qualquer outro hino que nao seja uma versao dos Salmos, durante os cultos, proibindo também qualquer acom- panhamento instrumental para o cAntico congregacional. O coral dessa universidade, entretanto, canta hinos que nao sao baseados nos Salmos, utilizando acompanhamento instrumental. ‘0 Isso € verdadeiro em todas as 4reas da vida, ndo apenas para o culto em sentido estrito. A igreja sé pode exigir que scus membros obedegam aos mandamentos das Escrituras, mas tal principio inclui, em vez de excluir, as aplicacgées legitimas de tais mandamentos. Por exemplo, a igreja pode proclamar: “Nao matards”, um mandamento das Escrituras. Mas pode também proclamar: “Nao cometerds parricidio, fratricidio, genocidio ou aborto”, uma vez que todos sao aplicagées legitimas do mandamento bi- blico, embora nao estejam explicitamente mencionadas na Biblia. Se a pregacao e a disciplina da igreja forem limitadas apenas aos ensinos ex- plicitos das Escrituras, entéo os ministros de Deus podem somente ler a Biblia, néo podem pregar, pois pregacdo é aplicacéo por sua propria natureza. 80 Em esptrito e em verdade "| Néo me entendam mal. Nao creio que todas as acdes que realizamos na igreja devam ser justificadas por um texto biblico. Talvez algumas das “ceriménias” contra as quais os puritanos reagiam possam scr justifica- das cumo aplicagses dos mandamentos biblicos. Mas os oponentes dos puritanos criam que tinham autoridade para exigir a realizacdo de tais ceriménias independentemente dos mandamentos biblicos, e os purita- nos estavam certos quando negavam tal autoridade 4 igreja. '? Lembrem-se de 1 Corintios 14.26, em que o “fortalecimento da igreja” é a regra do apéstolo para a condugao do culto. Reveja també:n nossa argu- mentacao, no capitulo um, sobre a importancia de ambas as perspectivas, horizontal e vertical, no servigo de culto. O que fazer no culto? No restante do livro, pretendo focalizar o culto ptblico da igreja, colocando de lado, por enquanto, outros tipos de culto, como a devocao pessoal, o doméstico, civica e “informal” (Esco- la Dominical, cAntico de hinos e similares), assim como 0 culto no sentido amplo. Todos esses sAo importantes e, sem diivida, merecem muito mais reflexdo teolégica do que tém recebido até o presente. Mas seu estudo tera de esperar outra ocasiao e, talvez, outros autores. Neste capitulo, procurarei descrever os eventos que s4o apro- priados para o culto ptblico da igreja, de acordo com o princi- pio regulador, como explicitado no capitulo quatro. Como de- monstrei, o método basico de Deus para regulamentar o culto publico da igreja nao é diferente daquele usado por ele para regulamentar outras formas de culto, inclusive o culto no sen- tido amplo. Agora, no entanto, desejo focalizar especificamente aquilo que Deus diz nas Escrituras a respeito do culto ptblico sob a Nova Alianca em Cristo. 82 Em espirito e em verdade Os “elementos ” do culto Como usar 0 principio regulador para estabelecer uma lista de eventos apropriados para o culto? O principio regulador ordena que cultuemos de acordo com as cxigéncias de Deus. Mas quais mandamentos das Escrituras sao relevantes para a situacao? Podemos comegar pelos mandamentos mais gerais, como “Fazei tudo para a gléria de Deus” (1Co 10.13) e “Seja tudo feito para edificacgao” (1Co 14.26) e procurar, a partir desses, uma estrutura de culto. Partindo dessa base, indagariamos simplesmente: o que rende gléria a Deus? E o que produz for- lalecimento ou edificagao da igreja? Poderiamos, entao, incluir qualquer coisa que nos parecesse capaz de glorificar a Deus c edificar a igreja. Poderfamos estar seguros de que nossas de- cis6cs cumprem o principio regulador, pois nés as tomamus, aplicando mandamentos escriturfsticos. Tal método, entretanto, parece deixar um ntimero muito grande de decisdes a nosso critério. Um dos pontos mais im- portantes do principio regulador é 0 fato de que ele nos forca a procurar a diregao de Deus para o culto. Se Deus revela apenas generalidades muito amplas, entao, todo esforcgo de discussdo e estudo sobre o principio regulador dificilmente apresenta al- gum valor real. Portanto nds, como nossos pais puritanos, devemos nos ocu- par do problema da generalidade e da especificagio. Se uma determinada pratica concorda com o principio regulador, ela necessariamente deve seguir um mandamento bfblico mais es- pecifico do que 1 Corintios 14.26, por exemplo. Mas, que grau de especificagéo deveria haver? Precisariamos, por exemplo, encontrar na Biblia um mandamento especifico para cantar a quarta estrofe do hino 337? Certamente que n4o. Sera possivel, entao, encontrar um meio-termo satisfatério? Quao especificos sdo os mandamentos que estamos procurando? O que fazer no culto? 83 Em resposta a esse tipo de pergunta, os puritanos desen- volveram a doutrina dos “elementos” ou “partes” do culto. Se- gundo seu entendimento, o culto é composto de elementos cla- ramente distinguiveis: oracao, leitura biblica, pregacio, etc. O principio regulador cxige que cncontremos uma justificativa ou garantia biblica para cada um desses elementos. Para os purita- nos, esses dois pontos respondem a questéo quanto ao nivel de especificidade. Nao necessitamos encontrar um mandamento biblico para orar este ou aquele tipo particular de oragao (su- pondo que as oracdes em questdo sejam todas escrituristicas em seu contetido e apropriadas para a ocasiao), mas devemos apre- sentar uma permissdo bfblica que nos permita incluir a oragéo como um elemento do culto. Entretanto, ha alguns problemas sérios em relagdo a essa abordagem. O mais sério deles é que nao existe nenhuma justi- ficativa biblica para tal doutrina. Em lugar algum, as Escritu- ras dividem o culto numa série de “elementos” independentes, cada qual exigindo uma justificativa escrituristica. A Biblia simplesmente n4o nos ensina que o principio regulador requci- ra este ou aquele grau de especificacdo. Além disso, esse método de normatizar o culto tropega em muitos obstéculos praticos. Ao longo dos anos, tem havido muita discordancia sobre quais comportamentos ou prdticas sdo realmente elementos do culto e quais nao o sao. Alguns tém alegado que o uso de instrumentos para acompanhar os canti- cos da congregacao é um possivel elemento do culto, cxigindo, portanto, uma autorizacdo bfblica especifica; outros afirmam que o uso de instrumentos é mera circunstancia (veja a discus- sao sobre circunstancia no capitulo quatro).' Alguns dizem que o cantico é um elemento do culto; outros argumentam que o cAntico é meramente uma forma de comunicar outros elemen- tos (louvor, ensino, confissdo, etc). Até mesmo entre os purita- nos ingleses ¢ os presbiterianos escoceses, houve divisdo sobre 84 Em espirito e em verdade muitas dessas questées, como a propriedade ou nao de se ler oracées escritas, recitar 0 Pai Nosso, cantar 0 Gloria Patri, reci- tar o Credo dos Apéstolos e celebrar funerais e casamentos.? O ponto em questdo em todas essas controvérsias era a discuss4o sobre os elementos, isto é, quais dessas atividades apresentam um cardater de elemento do culto exigindo, portanto, autoriza- cao biblica especifica e quais podem ser justificadas como apli- cagées de outros elementos. Precisamos, por exemplo, de um mandamento biblico espe- cifico para a realizagéo de uma ceriménia de casamento? Ou tal ceriménia pode ser justificada por meio da consideragdo de que votos sao um elemento biblico de culto e a ceriménia de casamento significa pronunciar e assumir votos publicamcnte? De acordo com a primeira interpretacdo, 0 principio regulador exclui a ceriménia de casamento; considerando a segunda inter- pretacdo, ele a permite. Como resolver a questAo? O problema € que as Escrituras néo nos déo uma lista dos elementos exigidos para o servigo cristao de culto. No Antigo Testamento, Deus deu a Israel um conjunto elaborado de ins- trugdes para a construgéo do taberndculo e do templo ec esta- beleceu em detalhes as exigéncias para o sacerdécio, as ofertas e as festas. Mas nao hé nenhuma orientagéo especifica para o culto nas sinagogas. Alids, as sinagogas quase nem sequer so mencionadas no Antigo Testamento; sabemos que Deus apro- vava sua existéncia, especialmente, porque Jesus as freqitientava e ensinava ali. O Novo Testamento fala um pouco mais sobre as rcunides cristas (que eram mais parecidas com a sinagoga do que com o culto sacrificial do templo), mas nao nos da qualquer lista sistemAtica ou exaustiva de elementos, no sentido técnico da teologia puritana, isto 6, agdes que requeiram autorizacao escri- turistica especifica, em oposi¢ao as circunstancias ou aplicacées que nao exigem tal autorizagéo. O que fazer no culto? 85 Outro problema com o conceito de elementos do culto é o fato de que nossas acées e posturas no culto nao séo sempre cla- ramente distingufveis entre si. Cantar e ensinar, por exemplo, ndo s4o distintos um do outro. Quando cantamos hinos com bom contetido biblico, ensinamos uns aos outros (Cl 3.16). Muitos hinos séo também oragdes e confissdes de fé. Oragées com contetido biblico servem também para ensinar. O culto todo é oragéo, uma vez que ele se realiza na presencga de Deus e para o seu louvor. Todo servico de culto é ensino, pois esta baseado nas Escrituras. Talvez fosse melhor falarmos de “as- pectos” do culto em vez de “elementos” ou “partes”. Elaborando uma lista Portanto, onde ficamos depois dessa discusséo? Necessita- mos de orientagao divina para o culto; algo mais especifico que 1 Corfntios 10.31 ou 1 Corintios 14.26. Mas a elaborada me- todologia puritana para resolver tais quest6es nao apresenta co- eréncia nem fundamento biblico. Para onde vamos nés, entdo? A resposta nao é tao dificil de ser encontrada. Basta simplesmen- te obedecer a tudo o que Deus diz nas Escrituras sobre culto: seguir o conselho completo de Deus (At 20.27 compare com Mt 4.4). Deus nos revela princfpios gerais, como 1 Corintios 10.31, mas revela também muitos princfpios relativamente especificos como Tiago 2.1-4, onde aprendemos que nao devemos, no culto, discriminar pessoas vestidas pobremente. Onde os princfpios es- pecificos nao sao encontrados, devemos aplicar os gerais, usando nossa sabcdoria santificada, dentro dos paramctros da Palavra. Quando os especificos nos so dados, devemos aceité-los e aplicd- los mais especificamente ainda as nossas situagées particulares. Precisamos simplesmente buscar, examinar cuidadosamente as Escrituras para determinarmos o que é apropriado ou nao 86 Em esptrito e em verdade fazermos quando a igreja se reine como um corpo em nome do Senhor Jesus Cristo. O Antigo Testamento, como indiquei, em lugar algum nos fornece listas de elementos prescritos especi- ficamente para as reunides da sinagoga. Nao obstante, é claro no Antigo Testamento, que Deus se agrada quando seu povo se retine em “santa assembléia” e que ele aprova a oracdo comu- nitdria e o ensino de sua Palavra como um meio de seu povo relacionar-se com sua presenga entre eles. Semelhantemente, o Novo Testamento também nao nos dé uma lista exaustiva daquilo que era ou nao era feito nas reuni6es crist4s primitivas. Entretanto, como no caso das sinagogas do Antigo Testamento, podemos apelar para princ{ipios teolégicos amplos, aumentando assim nossa seguranca quanto aquilo que Deus deseja que faca- mos quando nos reunimos em seu nome. Por exemplo, nfo ha, no Novo Testamento, nenhuma ordem para se administrar o batismo numa reuniao dominical e nao ha nenhum registro histérico de que isso tenha sido praticado no periodo do Novo Testamento. Os batismos, no Novo ‘Testamen- to, sdo tipicamente celebrados fora das reunides formais. Mas a natureza do batismo como sinal e selo da alianga da graca e como um voto publico e solene ao Senhor e profissdo de fé nele, sem dtivida o torna uma parte apropriada do culto ptblico. Primeiro, o batismo nao pode ser outra coisa, senéo ptblico. Segundo, ele é administrado em nome de Cristo e, portanto, sera apropria- damente celebrado numa reuniao realizada em nome de Jesus. Terceiro, € o rito de entrada na igreja, portanto, deve ser teste- munhada pelo menos por um grupo da lideranga da igreja. Minha lista Usando esse tipo de raciocinio, poderiamos elaborar a se- guinte lista de atos a serem realizados no culto. Incluirei, quan- O que fazer no culto? 87 do necessério, algumas considcragées sobre o por que creio que tais sugest6es sdo escrituristicas. 1. Saudagées e Béngaos — Nao ha nenhum mandamento bi- blico especffico para inclui-las no culto publico, nem tampouco qualquer exemplo histérico de que tenham sido usadas na in- trodugao ou na conclusao do culto ptiblico durante o periodo do Novo Testamento. Entrctanto, com certeza faziam parte da vida da igreja, uma vez que representam uma porcdo regular das cartas de Paulo (veja Rm 1.7; 15.33; 1Co 1.3; 16.23,24; 2Co 13.14). Uma vez que suas cartas eram, muito provavel- mente, lidas em reunides da igreja (Cl 4.16; 1Ts 5.27; Fm 2), suas saudagées e béngdos também faziam parte do culto pt- blico. Nessas béncdos paulinas, assim como na grande béncdo aarénica de Numcros 6.24-27, Deus identifica a congregagio como seu povo, a quem ele deseja abencoar com sua graca e paz. A mensagem da béngav € parte da Palavra de Deus e, portanto, apropriada para o culto ptiblico. 2. Leitura das Escrituras — Nas sinagogas, as Escrituras eram lidas regularmente (Le 4.17-19; At 15.21 comparados com Dt 31.9-13; Ne 8). Sabemos que também havia leitura pi- blica da Biblia na igreja do Novo Testamento (1Tm 4.13). Textos do Antigo Testamento essenciais para a vida da igreja podem muito bem ter sido lidos (2Tm 3.15-17). As cartas de Paulo eventualmente eram lidas também, como vimos no pardgrafo an- terior. Suas cartas eram normativas em todas as igrejas c, portan- to, deveriam ser do conhecimento dos membros como Palavra de Deus para cles (2Ts 3.14; 1Co 14.37; 2Pe 3.15). Na realidade, como veremos, quando a Palavra de Deus € lida, Deus esta pes- soalmente presente com os leitores e com os ouvintes. Portanto, a leitura pttblica das Escrituras sempre cria um encontro ou uma confrontacao divino-humana, isto é, um evento de culto pttblico.