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ISSN 1517-252 X

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Narrativa Arte e Cultura

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Manaus-n. 7/8 - 2001/2@ 2

Publicado em Amazônia em Cadernos, Revista do Museu Amazônico, Manaus/AM, v. 7/8, p. 263-379, 2007.

Olhos e Ouvidos do Rei Ouvidor Pestana da Silva e os Índios do Grão-Pará, século XVIII

Patrícia Melo Sampaio *

Uma das mais impressionantes características do império colonial português é a relativa homogeneidade de sua organização administrativa e institucional, a despeito das dificuldades impostas pelas dimensões espetaculares de suas conquistas ultramarinas. A importância dessa questão foi destacada, de forma pioneira, por Charles R. Boxer em 1969, quando chamava a atenção para o papel-chave desempenhado pela Câmara e a Misericórdia, “pilares gêmeos da sociedade colonial portuguesa desde o Maranhão até Macau”. 1 Reconhecendo o alcance do componente internacional na compreensão da dinâmica imperial portuguesa, ao mesmo tempo em que redimensionou o uso de conceitos clássicos, a historiografia mais recente relativa à história colonial no Brasil vem colocando em xeque a rigidez de noções que insistiam em analisar as relações colônia-metrópole a partir de um dualismo cristalizado e inflexível. 2 Usando o conceito de “autoridades negociadas”, esses estudos refletem as dinâmicas coloniais a partir da percepção de um jogo permanente no qual as relações entre metrópole e colônia são formuladas e reformuladas, abrindo-se um espaço possível para a negociação entre os diferentes agentes coloniais; é dentro desse campo diferenciado que é possível reavaliar o papel desempenhado pelas instituições metropolitanas instaladas nas colônias. Tal como as câmaras, a ouvidoria é uma instituição colonial longeva e também atravessou os mares. O cargo de ouvidor de comarca [capitania] foi criado em 1534. Na condição de executores da justiça real cabia-lhes, entre outras atribuições, tirar devassas e proceder judicialmente em tudo que fosse necessário, mandar abrir correições, realizar revistas das aferições de pesos e medidas, prover inventários de órfãos, acompanhando os rendimentos

* A autora é professora do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas, Mestre e Doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense/RJ.

1 Boxer, Charles R. O Império Colonial Português (1415-1825). 2 ª ed. Lisboa: Ed. 70, 1981, p. 263.

2 Para uma leitura mais recente, ver Fragoso, João; Bicalho, M.ª Fernanda e Gouvêa, M.ª de Fátima (Orgs.) O Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI XVIII). RJ:

Civilização Brasileira, 2001.

de suas legítimas, tomar contas aos testamenteiros, proceder - na alçada de sua jurisdição - contra capitães-mores e demais oficiais de ordenanças que achasse culpados de alguma transgressão, dando apelação e agravo ao governador geral. 3

A Capitania de São José do Rio Negro, implantada em 1757, não fugiria à regra das

áreas de ultramar e também contava com a figura do ouvidor para atender às justiças do Rei. Pelo que foi possível inventariar até aqui, a Capitania teve 10 ouvidores, entre 1759 e 1823.

Ouvidores da Capitania do Rio Negro (1759-1823)

Nome

Período

Lourenço Pereira da Costa

1759-1767

Antônio José Pestana da Silva

1767-1773

Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio

1773-1779

Ouvidorias Interinas (Bento José do Rego, José Antônio Freire Évora)

1779-1799

Luís Pinto de Cerqueira

1799-1801

Caetano Pereira Pontes

1803?

João Antônio da Silva Bacelar Alvares das Astúrias

1807?

Antônio Feliciano d’Albuquerque Bittencourt

1817?-1821

Domingos Nunes Ramos Ferreira

1821-1823

Fonte: Cronologia provisória elaborada pela autora.

A descrição feita pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira da estrutura político-

administrativa da Capitania não deixa dúvidas quanto ao lugar do ouvidor real no Rio Negro, no último quartel do século XVIII:

“Quanto ao expediente ordinário das justiças, depois que de missões (

vilas e lugares, tanto os índios, como os moradores brancos adjuntos às vilas, principiaram a ser governados no temporal pelos seus juizes ordinários, vereadores e mais oficiais de justiça; pertencendo ao doutor ouvidor conhecer dos agravos e

), passaram às

apelações.” 4

Lourenço Pereira da Costa foi o primeiro ouvidor da Capitania de S. José do Rio Negro, mas ainda trata-se de um desconhecido. Exerceu suas funções entre os anos de 1759 a 1767,

3 Salgado, Graça (Coord.) Fiscais e Meirinhos: a administração no Brasil Colonial. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, p. 357 ss.

tendo sido nomeado durante a administração do Governador da Capitania, Gabriel de Souza

Filgueiras, passando pelas administrações interinas de Nuno Verona e Valério Botelho, até à de Joaquim Tinoco Valente (1763-1779). 5 Antônio José Pestana da Silva também é conhecido de poucos. Raríssimas são as menções às suas ações em trabalhos sobre a Amazônia colonial que, usualmente, reproduzem

a

sua avaliação acerca do Diretório Pombalino, tal como foi recuperada por Perdigão Malheiro.

O

resto é silêncio. 6 Como se pode observar no quadro, o ouvidor Pestana assumiu a ouvidoria da Capitania

do Rio Negro por provisão régia de 30 de maio de 1767, substituindo a Lourenço Pereira da Costa. Permaneceu na região até meados de 1774, quando Francisco Xavier Ribeiro de

Sampaio foi provido no referido cargo. No período de seu exercício era governador do Rio Negro

o Coronel Joaquim Tinoco Valente (1763-1779). Pestana, além de ouvidor, era “intendente-geral

dos Índios na Capitania do Rio Negro, subordinada à do Pará, sendo da minha inspeção a agricultura, e manufaturas do território, e provedoria da fazenda”. 7 Não obstante a existência de várias referências a seu respeito na documentação microfilmada do Museu Amazônico, a atuação de Pestana no Rio Negro ainda permanece obscura e, a este respeito, só se pode assegurar a realização da primeira correição na Capitania do Rio Negro, em meados de 1768, tal como registrou seu sucessor, Ribeiro de Sampaio, no

preâmbulo de seu Diário 8 . No volumoso texto da Viagem Filosófica, Pestana mereceu apenas três modestas citações contra 47 do ouvidor Sampaio; a mais significativa trata de uma devassa por ele promovida por conta de uma sublevação de soldados da guarnição da Fortaleza de Marabitanas ocorrida em 1769 9 . Muito diferente da notoriedade de Ribeiro de Sampaio, ao ouvidor Pestana restaram raríssimas notas de rodapé. E foi assim que o encontramos; em uma discreta nota de rodapé de

4 Ferreira, Alexandre R. Viagem Filosófica ao Rio Negro. MPEG CNPq/Fundação Roberto Marinho, 1983, p. 645

5 Cf. Pinheiro, Geraldo S. P. “Documentos Inéditos de Lourenço Pereira da Costa, Provedor da Fazenda Real e Intendente do Comércio, Agricultura e Manufatura da Capitania de S. José do Rio Negro (1760- 1767)”. Boletim de Pesquisa da CEDEAM, Manaus, v.2, n.º 3, jul-dez.1983. pp. 58-61.

6 Malheiro, Agostinho Marques Perdigão. A Escravidão no Brasil. SP: Edições Cultura, 1944.

7 A acumulação de cargos era possível; na Capitania do Rio Negro, os ouvidores também poderiam ser provedores da fazenda real e intendentes da agricultura. Nesta mesma situação encontramos Lourenço Pereira da Costa e Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio.

8 Sampaio, Francisco Xavier Ribeiro de. As viagens do Ouvidor Sampaio (1774-1775) (1825:Lisboa) Manaus: Associação Comercial do Amazonas/Fundo Editorial, 1985.

9 Ferreira, Alexandre Rodrigues. Op. cit.

Arthur César Ferreira Reis que, em seu enorme esforço de erudição no resgate de documentos para a história colonial da Amazônia, faz menção a um texto praticamente desconhecido produzido pelo ouvidor em data incerta 10 . Este texto é o que apresentamos aos leitores agora. Graças à pista fornecida por Arthur Reis, foi possível recuperar o texto de Pestana e prepará-lo para a reentrada na historiografia colonial. Trata-se de um longo e surpreendente texto; se lhe falta a capacidade descritiva do famoso Diário do ouvidor Sampaio, sobeja-lhe a capacidade de argumentação comparativa e esforço de pesquisa para buscar estabelecer um novo método para a civilização dos índios do Grão-Pará. Sua bibliografia de referência é variada e vai buscar inspiração nas experiências desenvolvidas pela Espanha no trato com os índios, sem furtar-se à inspiração dos evangelhos, das teorias do Direito Natural, de filósofos, determinações dos Concílios e bulas papais, entre outras a mencionar. Até mesmo o Padre Bartolomeu de Las Casas não lhe era desconhecido e aparece em suas referências. Meios de dirigir o Governo Temporal dos Índios foi produzido após a sua saída da ouvidoria do Rio Negro, possivelmente entre 1775 e 1776. 11 Como já mencionamos, não é possível comparar formalmente os textos dos dois ouvidores porque produzidos com objetivos diametralmente opostos. A comparação só é possível naquilo que os distingue e separa; enquanto Sampaio produz um levantamento minucioso da situação da Capitania, em Pestana o que encontramos é um esforço intelectual de levantar, cotejar e analisar a situação da civilização dos índios do Grão Pará, com destaque especial para a aplicação prática do Diretório pombalino, ao qual dedica as mais severas críticas. A novidade do texto é a justificativa apresentada pelo próprio autor para sua elaboração. Segundo Pestana, tratava-se de uma incumbência recebida do próprio Pombal que o encarregou de realizar “os apontamentos que pudessem conduzir a uma reforma, segundo os erros, descaminhos, as distrações e preocupações que tinha observado” durante o exercício de seu cargo na Capitania. Esta tarefa foi posteriormente ampliada, por solicitação de D. Pedro III, para que se incluísse em suas observações outras tentativas e planos para a civilização dos

10 Reis, Arthur César Ferreira. História do Amazonas. 2ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia/Manaus:

Superintendência Cultural do Amazonas, 1989. 11 Esta conclusão baseia-se em referências fornecidas pelo próprio ouvidor em representação encaminhada ao Príncipe D. João em 1800. Cf. Museu Amazônico - AHU 049, p. 6-17.

índios; com esta última intervenção, aparentemente, consolidou-se o texto final produzido pelo Ouvidor. 12 Na famosa frase divulgada por Perdigão Malheiro, o ouvidor Pestana assegura que o Diretório “é um labirinto ou mistura de determinações que dá causa a muitas ilusões e desacertos que hoje se praticam no Estado” e chega mesmo a reconhecer que a principal causa dessa situação é a absoluta incompatibilidade entre as leis de liberdade e a distribuição forçada dos índios estabelecida no Diretório. O Diretório é um “labirinto” porque nele existem questões e áreas de jurisdição mal definidas e destaca, particularmente, o problema da distribuição dos índios. Em um de seus parágrafos, o Diretório prevê que cabe aos Principais apresentar os índios para distribuição, mas em outro, que determina as atribuições dos Diretores, estabelece que este deve manter listas dos índios passíveis de distribuição e obedecer os critérios de atendimento.

“ A prática porém introduzida, veio a constituir novo meio entre essas dúvidas e vem a ser: os diretores não fazem listas, não há distribuição, não se dão operários aos moradores, por que são poucos os Índios para o negócio do sertão; e se algum se dá, é por empenho e particular determinação dos governadores, que se pretextam nos despachos, que seja na conformidade das ordens de Sua Majestade.”

Como se não bastassem as ambigüidades legais, que a prática se encarregou de resolver de forma favorável aos diretores e governadores, Pestana argumenta que a distribuição, além de não ser justa, é violenta e descreve os maus tratos dos moradores, a privação da liberdade e as expedições de caça aos fugitivos por tropas militares, enfim, toda a sorte de abusos a que são submetidos os índios.

“ Se esta formalidade de procedimentos não é cativeiro, não pode haver coisa que mais

Por este título de distribuição, bem se pode dizer que

são os Índios vendidos muitas vezes; por que os moradores, para os conseguirem, necessitam de premiar com regalos e donativos aos intercessores da concessão; e isto além dos salários que devem contribuir aos Índios, e tudo se deve recuperar à custa do suor, e do sangue do mesmo Índio: eis aqui o que sucede na Capitania do Rio Negro.”

destrua pela raiz a liberdade. (

)

12 Cf. Museu Amazônico - AHU 049, p. 6-17.

A conclusão de Pestana é radical. Pede que seja abolido o “confuso Diretório” e respeitada a liberdade dos índios para que enfim possa o Estado se desenvolver de maneira adequada. O seu texto tem um fim preciso: apresentar à coroa um novo plano para acelerar o processo de civilização dos índios. Para produzi-lo, o ouvidor se serve das experiências que conhece no trato com populações indígenas, sejam aquelas tentadas nas colônias de Espanha, sejam as tentativas anteriores à laicização das missões produzida pela administração pombalina. Dedica grande atenção às intervenções do Padre Antônio Vieira nesse particular e, em mais de uma ocasião, formula críticas duras ao regime que lhe é contemporâneo recorrendo aos escritos de Vieira, valendo-se da autoridade do jesuíta para respaldar suas próprias observações e comentários. O resultado é a proposta de criação de uma junta de propagação da fé que reúne várias atribuições da extinta junta das missões e que deveria ser composta por homens de reconhecida probidade, responsáveis pela condução do processo de civilização dos índios. Os detalhes do funcionamento da junta, sua composição e modus operandi, o leitor encontrará no próprio texto, eximindo maiores comentários nessa breve apresentação. Outros aspectos do texto também merecem destaque: os comentários mais específicos de Pestana a respeito dos militares e do governador da Capitania do Rio Negro são um indicador significativo da tensão que os cercava. Embora reconhecendo que as tropas tem uma certa utilidade, afirma, de forma audaciosa: “não me desculparia de erro grande, se me lembrasse de sua total extinção”. O governador Tinoco Valente mereceu um irônico comentário:

ao propor que o Comum plantasse cacau e café para reduzir a dependência das expedições aos sertões, assegura que Tinoco Valente não concordou com seu projeto, “talvez por melhores luzes de inteligência ou por zelo da glória alheia” Aparentemente, Pestana da Silva logo percebeu os limites do seu relacionamento administrativo com os governadores-militares: a questão da distribuição dos índios. Preocupado com as ações dos Diretores, reconhece que de nada adianta denunciá-las porque, nomeados pelos governadores, são por eles resguardados e nada acontece. E ainda que faltem índios para os serviços do comum e para a maior parte dos moradores existem certos privilégios na distribuição dos trabalhadores. Diz nosso ouvidor que aqueles que mais precisam de índios, são os que menos conseguem. Porém, isso não é válido para todos:

“ O governador, os ministros, os cabos da tropa militar, os eclesiásticos, e moradores de consideração, ou pelos seus cargos, ou pelo seu melhor estabelecimento, todos tem índios assiduamente para os seus serviços, além dos que se empregam em obras reais; os salários tênues, os serviços indispensáveis.”

Depois do fim de seu mandato na Capitania, Pestana retornou à Corte, mas é difícil acompanhar sua trajetória, em especial, depois da elaboração de seu texto. Alguns fragmentos indicam que formou sociedade com um irmão para encaminhar seus projetos de estabelecimento da Junta das Missões, na qual comprometeu a maior parte de seu pecúlio, buscando também alcançar isenções e benefícios para sua incipiente empresa. Além dos indícios que apontam para sua presença freqüente nas proximidades da Corte, em busca de proteção nas esferas do poder, aparentemente a elaboração do seu trabalho fez com que acreditasse que podia realizar muito mais. Não perdeu tempo. Em 1800, o ex-ouvidor solicitaria ao Príncipe assento no Conselho Ultramarino para ocupar o emprego de Procurador Fiscal de tudo o que dissesse respeito aos Índios e as Religiões nos domínios de Ultramar”, cargo para o qual acreditava que ninguém melhor que ele estava capacitado a ocupar “se não o enganava o seu amor próprio.” Estava enganado. Sua pretensão foi redondamente frustrada. 13 Representantes da justiça real, mas subordinados aos governadores, os ouvidores no Rio Negro encontraram sérios limites ao cumprimento de suas determinações, em especial, àquelas que para sua implementação, alterassem ou interferissem nos padrões de distribuição de mão-de-obra que, quase sempre, não estavam de acordo com os princípios indicados no Diretório. Responsáveis ainda pelo desenvolvimento do comércio e da manufatura e, especialmente, pela arrecadação e fiscalização da Fazenda Real, defrontam-se com abusos e malversações, inclusive com a aquiescência velada das outras autoridades coloniais. Não são presas fáceis nesses sertões, mas também eles ajudam a tornar ainda mais intricadas as malhas do poder no Rio Negro, porque representam, de algum modo, um limite interno aos próprios quadros coloniais, no esforço de implementar os projetos da Coroa. Também não escapam das acusações de enriquecimento ilícito, dos negócios escusos e abusos de poder. Homens de sua época, nesta complexa tapeçaria, são a um só tempo, tecelões e tecido.

13 Cf. Museu Amazônico - AHU 049, p. 2, 5 e pp. 6-17.

O objetivo dessa brevíssima intervenção é, antes de tudo, estimular a curiosidade para

um texto que, por si mesmo, já vale o esforço de leitura. Se não bastasse, ainda ajuda a colocar novas questões para melhor avaliar a complexidade da região amazônica de meados do século

XVIII 14 .

14 Um último comentário de natureza técnica. O texto de Pestana foi publicado por A.J. Mello Morais em meados do Oitocentos e, para essa edição, foi atualizado na ortografia com o objetivo de facilitar o fluxo da leitura. Não sofreram alterações nem a pontuação e nem a construção gramatical que aquela publicação registrou. Do mesmo modo, as notas de rodapé aí registradas acompanham a publicação de Mello Morais.

Governadores da Capitania de São José do Rio Negro - (1755-1823)

Nome

Período

Capital

Observação

Joaquim de Mello e Póvoas

1758-1760

Barcelos

 

Gabriel de Souza Filgueiras

1760-1761

   

Nuno da Cunha de Ataíde Verona

1761

 

Interino

Valério Correia Botelho de Andrade

1761-1763

Barcelos

Interino

Joaquim Tinoco Valente

1763-1772

Barcelos

Interino

Joaquim Tinoco Valente

1772-1779

Barcelos

Titular

1ª Junta Governativa: Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio, Domingos Franco de Carvalho e Antônio Nunes

1779 Barcelos

   

2ª Junta: Domingos Franco de Carvalho, Simão José Pereira de Ribeiro e Felipe Serrão de Castro

1780 Barcelos

   

3ª Junta : Felipe Serrão de Castro, João Nobre e Bento José do Rego

1781 Barcelos

   

4ª Junta: Bento José do Rego, Francisco Taveira Velho e Antônio Francisco Mendes

1782 Barcelos

   

5ª Junta: Bento José do Rego (substituído por João Batista Mardel), João Manuel Rodrigues e José Gomes da Silva

1783 Barcelos

   

6ª Junta: João Batista Mardel (substituído por Severino Eusébio de Matos e, depois, por Domingos Franco de Carvalho), Bento José do Rego e Antônio Francisco Mendes.

1784 Barcelos

   

7ª Junta: Antônio Francisco Mendes, João Manuel Rodrigues e José Gomes da Silva

1785 Barcelos

   

8ª Junta: José Gomes da Silva, João Manuel Rodrigues (substituído por José Antônio Freire Évora) e Francisco Xavier de Morais

1786 Barcelos

   

Manuel da Gama Lobo d’Almada

1788-1799

Barcelos/ lugar

Titular

da Barra/

Barcelos

9ª Junta Governativa

1799-1801

Barcelos

 

José Antônio Salgado

1801-1804

Barcelos

 

José Joaquim Vitório da Costa

1806-1818

Barcelos/ lugar

Titular

da Barra

Manuel Joaquim do Paço

1818-1822

Lugar da Barra

Titular

10ª Junta: José de Brito Inglês, Domingos Nunes Ramos Ferreira e José da Silva Cavalcante

1822 Barra

   

11ª Junta: Joaquim José Gusmão, Domingos Nunes Ramos Ferreira e João da Silva Cunha

1823 Barra

   

Fonte:

Francisco

Jorge

dos

Santos.

Além

da

Conquista.

Op.

cit.

pp.

219-220.

74. 5, 21 - B.N. (OR) - Morais, Alexandre José de Melo. Corografia Historica, Chronographica, Genealogica, Nobiliarquica e Política do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Typographia Americana, 1858 - 1860, v. IV, pp. 122 - 183.

Meios de Dirigir o Governo Temporal dos Índios

Em uma representação o Dr. Antônio José Pestana da Silva, rico de experiências, e mais que muito conhecedor dos costumes e viver dos Índios, propôs a el-rei de Portugal em uma luminosa memória os meios mais convenientes para dirigir o governo dos Índios do Pará. Esta representação manuscrita inédita que temos à vista principia nestes termos:

Não é o interesse, Senhor, que move o meu espírito; o zelo de bom patriota, que se deve empenhar pela glória da nação; o ardor de fiel, e de cristão, que me obriga lastimar-me dos insultos, e danos da igreja na América Setentrional: esses são os estímulos, que arrancam do meu coração, as vozes e proposições da pura verdade, que com a maior submissão vou expor a V. Majestade para que pelas benignas e reais mãos de V. Majestade, cheguem ao trono da soberania. A causa é de Deus; o seu objeto é a propagação da fé ortodoxa, naquelas terras que estão no domínio português, e de que dependem os estabelecimentos dos incultos sertões da América para vantagens dos interesses desta coroa. Pela própria experiência adquiri conhecimentos de um e outro Estado, quando tive a honra de servir a coroa deste reino nos empregos de ouvidor e intendente-geral dos Índios na Capitania do Rio Negro, subordinada à do Pará, sendo da minha inspeção a agricultura, e manufaturas do território, e provedoria da fazenda. Eu vi a meu pesar as justificadas razões com que muitos ( 1 ) gênios zelosos do serviço de Deus, da glória portuguesa e dos interesses da coroa, fizeram chegar as suas vozes, e as suas queixas ao pé do trono dos predecessores de V. Majestade, para se remediarem os danos do Estado, que ainda não estão atalhados. Depois que no fim do século XV, os descobridores molharam as âncoras nas costas da América, logo com eles entrou a cobiça e a ambição a fermentar muitas tiranias à custa do sangue daqueles miseráveis habitadores e senhores do país. Sendo a luz do Evangelho um importante e digno objeto da piedade dos senhores reis, e capaz de empenhar os maiores

1 Basta que se vejam as muitas representações e cartas do zeloso Padre Antônio Vieira, que consta estarem na biblioteca real; e da vida do mesmo escrita pelo Padre de Barros in fol. da impressão Olisipon em 1746.

sacrifícios, e despesas quase que a igreja foi pretexto para os primeiros europeus que muito de perto viram aquele continente. Eles com imensas riquezas fartaram a sua ambição, com o sangue dos Índios saciaram a sede cruel da impiedade, e atrás destes ídolos da depravação se entranharam nos maiores perigos, algumas vezes à custa do próprio castigo. Portugal foi mais bem livrado, mas não de tudo defendido. Espanha é incomparavelmente muito mais infamada nessa conquista ( 2 ) pelos Cortezes, Almagros e Pizarros. Desde o Pontífice Alexandre VI e seus sucessores, se encarregaram os príncipes por uma delegação apostólica e gloriosa, de fazerem plantar na América a verdadeira vinha do Senhor; e à proporção do régio zelo, empenharam o seu poder, riquezas e forças, mandando operários satisfazer a santa comissão de dilatar o grêmio da igreja, e propagar a fé, como de direito divino é incumbido e intimado aos ministros da religião( 3 ). Por todos os lados a ambição tem feito ataques perniciosíssimos, e de que a tirania tem sido resulta funesta; por cuja razão naquele continente, não tem sido maiores, progressivos os triunfos do Evangelho. Não tem concorrido menos a falta de desvelos: a inação, e desmazelo dos gênios; as intrigas de oposição, e contestações dos governadores, dos capitães-mores, dos ministros e dos missionários; sendo causa da desordem a necessidade de uns e a cobiça dos outros; oprimindo-se os Índios com injustiças e vexações que tem escandalizado a humanidade( 4 ). Por este princípio se diminuiu a população, depois de se conhecerem naquelas terras os estandartes da nação portuguesa, e o domínio dos senhores reis fidelíssimos. Os Índios se retiraram para mais longe, e para os vastos e embrenhados bosques do sertão, afugentados dos cruéis exemplos de que tinham notícia, que sofriam os seus parentes e nacionais. Os que se tinham reduzido, e agregado ao grêmio da igreja, ou acabavam e morriam debaixo do peso de enormes trabalhos, ou apostatavam fugindo para os seus antigos ritos, e comércios, amparando-se da distância ( 5 ) e dos seus compatriotas.

2 Veja-se a história eclesiástica da América, por Mr. Juron, seguindo a Bartolomeu de Las Casas; outros muitos, e assim o sente, e persuade expressamente a bula de Benedito XIV de 20 de dezembro de 1741, expedida para as igrejas da nossa América no reinado do Sr. D. João V.

3 Juan. Cap.10 e 12 AA. Apost.10, e 13 S. Pau. L. 1ª ad corinthi 9º Tertulian. Liv. 4º adversus Marcion. Cap.43. Marc. Et Math. Cap. Ult. S. Bern. Ad Eug. Lib. 3º de consider.

4 Assim lamenta o Padre Vieira na sua carta de 6 de abril de 1654 ao Sr. Rei D. João V, e noutra de 4 de abril do mesmo ano e na de 6 de dezembro de 1655 e na de 20 de maio de 1653: todas se acham na biblioteca real.

5 O sobredito Mr. Turon em muitos lugares e o referido Vieira na carta de 6 de abril de 1654 e terminantemente no § 3º e o alvará de 10 de novembro de 1647, no seu preâmbulo e a lei de 4 de março de 1697.

Os fugidos levavam consigo as notícias do seu mau trato, das fomes, das opressões, dos trabalhos e da escravidão a que eram reduzidos: estas notícias enchiam de terror os mais Gentios, que inspirados pelos sentimentos da natureza, aborreciam a comunicação de nós outros que os buscávamos ( 6 ). Por este modo se dificultou a grande facilidade com que se podia dilatar a igreja, pois havendo muitos milhares de Índios, e muito fáceis de se persuadirem, e muito dóceis para abraçarem a crença ortodoxa, sendo afligidos e irritados com perseguições, não tiveram constância para sofrerem, e para se entregarem ao incômodo vendo quebrada a boa fé das promessas, e das convenções que lhe haviam sido feitas ( 7 ). No meio de semelhantes contradições não quis Deus desamparar o pequeno rebanho daquela igreja nascente, bem como a não desamparou nos primeiros séculos apesar das perseguições dos Calígulas, dos Neros, e Deoclecianos, até a paz universal, no tempo de Constantino e princípios do século IV. A Providência reservou alguns missionários, cuja probidade, bons costumes, doutrina, e exemplo seguravam a todo custo o amparo do Gentio convertido, de quem granjeavam o amor com afinco, e preferência aos trabalhos, e as injustas vexações de serviços, tendo por eles igual e muito maior respeito ao nome de Sua Majestade( 8 ). Por estas e outras desolações ficaram as terras sem permanentes lavouras, sem agricultura, sem meios de remir a fome, e sem adiantados, e firmes estabelecimentos ( 9 ). Os que governavam, antes queriam aproveitar-se de cinqüenta Índios nos seus serviços, do que disporem e prevenir lavouras e roças para quinhentos, que houvessem de vir, e descer dos sertões. Eles se não embaraçavam com a ruína espiritual dos que morriam nas trevas, e com que prejudicavam ao estado político, porque se interessavam com o lucro dos poucos que vexavam: assim clamou o discreto e zeloso Padre Antônio Vieira, escrevendo à Majestade do Senhor rei D. João IV ( 10 ). Estas são sem controvérsia, as razões porque não criaram raízes os primeiros estabelecimentos do país. A falta de moderação e caridade, fez extinguir os meios de subsistência dos vindouros; como se Deus quisesse punir a ingratidão de uns possuidores que abusavam da sua primeira intrusão, sendo aliás abraçada e querida. Os piratas e as

6 O mesmo Padre Vieira no seu voto sobre as dúvidas dos moradores de S. Paulo, acerca da administração dos índios, com a data de julho de 1694: que está na biblioteca régia.

7 O dito Vieira na carta de 8 de dezembro de 1655, § 9 e seguinte, e na de 6 de abril de 1654 no § 24; e o dito Padre Barros lib. 3, § 72, pag. 306.

8 A sobredita carta de 4 de abril de 1654 § 8, e na de 20 de maio de 1653 § 15, prope tinem, e a de 8 de dezembro de 1655, no § 6 e 14.

9 Assim pensa no seu preâmbulo a lei de 6 de junho de 1755.

tempestades foram os instrumentos da vingança justa, ficando muitas riquezas no golfo dos mares ( 11 ). Eis aqui a terrível situação em que se puseram os descobrimentos do Grão-Pará e Maranhão, sem se adiantar, e estabelecer a polícia do Estado ( 12 ). Os reis predecessores de V. Majestade não perderam de vista o amparar e proteger aquela região, e à proporção dos casos, mudando de sistemas, lhe aplicaram os remédios, que pela experiência julgavam competentes e necessários. Os mesmos príncipes com a autoridade da soberania, quiseram satisfazer aos ofícios da piedade, e aos diversos direitos que são essenciais à natureza, e caráter de imperantes. A conservação, a tranqüilidade, a felicidade do Estado, que são fins daquela suma preeminência, e da intrínseca índole da sua constituição, não lhes eram desconhecidos; buscaram saber as raízes do mal que impediam aquele bem, acharam a cobiça e tirania eram companheiras na desolação. Só por meio de poder legislativo (como persuadem os direitos das gentes e da natureza) se podiam ordenar os verdadeiros usos da liberdade, segurar o repouso comum, unir em harmonia, a prodigiosa diversidade de sentimentos, e de inclinações a bem da sociedade civil, e dos interesses públicos, intervindo também as regras da execução. Eis aqui as principais funções do dever natural da soberania, e do império da jurisdição suprema ( 13 ). Os meios e fins com que se fomentava aquela cobiça, e com que se nutriam as esperanças das riquezas, eram estabelecerem-se fábricas de prédios rústicos, com engenhos de fazer açúcar, aguardente, feitorias de tabacos, extrações de drogas do sertão com outros tráficos e negociações. Para estas manobras eram necessários os trabalhos, e quanto mais operários haviam, maiores interesses se amontoavam. Os miseráveis Índios, foram os sacrificados instrumentos daquelas diligências, e por fatos sinistros, e violências incríveis se cativaram ( 14 ) os Gentios contra os direitos da sociedade natural e primitiva, e postergando-se as condições da sociedade civil e política. Até que se denominou o cativeiro administração; e os senhores se chamaram administradores.

10 Carta escrita em 4 de abril de 1654 e no § 5.

11 Consta das histórias, e o lamenta o dito Vieira no seu voto dado á junta, e que se acha na régia biblioteca.

12 A lei de 6 de junho dita, o assevera no referido preâmbulo.

13 Burlamaq. Tom. 6, cap. 8 Puffendorf lib. 7, cap. 4. Watel lib. 1, cap. 4. Locke gov. Civ. Cap. 10 et seg. Mr. Professeur de Felice, tom. 3, lição 5.

14 Assim o testemunha o Padre Vieira e se nota na sua vida pelo Padre Barros lib. 2. § 56.

Para se coibirem estes males se expediram os reais decretos e alvarás ( 15 ) que se referem no preâmbulo da lei novíssima, ou sanção de 6 de junho de 1755, apropriada somente aos países do território americano, e liberdades dos Índios. Ainda assim vencia a iniquidade e a malícia. No reinado do Senhor rei D. João IV, e da feliz restauração deste reino, continuavam os abusos da humanidade, por cuja causa se destruiu a chamada administração pelo alvará de 10 de novembro de 1647. Toda a legislação não foi bastante porque no ano de 1655 ainda duravam os cativeiros com infâmia cruel dos possuidores. Nas cartas ( 16 ) que o Padre Vieira escreveu a Sua Majestade se demonstra esta verdade; na primeira que é de 6 de dezembro do dito ano se explica assim. “Com esta remeto a Vossa Majestade sobre a liberdade dos Índios. Muitos ficaram sentenciados ao cativeiro por prevalecer o número de votos, mais que o peso das razões. Vossa Majestade sendo servido as poderá mandar pesar em balanças mais fiéis, que as deste Estado, onde tudo nadou em sangue dos pobres Índios, e ainda folgam de afogar nele aos que desejam tirar do perigo aos mais: contudo se puseram em liberdade muitos, cuja notícia por notória escapou das ondas aos julgadores”. Estas palavras parecem dignas de se transcreverem. Na segunda que é datada em 8 do referido mês e ano, se lastima o dito zeloso Padre da duração do cativeiro dos Índios não obstante haverem novas leis ( 17 ) que franqueavam e repetiam a sua liberdade. Reuniram-se alguns, e dos resgatados se serviram os missionários para as embaixadas e justas aliciações dos Gentios. Os da ilha, chamada Joanes, não admitiram as práticas da paz, pelas notícias das injustiças dos Portugueses; assim não tinham procedido os da nação Guajajarás que retrocederam para os matos ( 18 ); bem como não se aliciaram muitos dos Tupinambás, que habitavam o Rio das Amazonas 300 léguas de distância, escandalizados do mau trato. Era tão difícil o evitar-se aquele abuso, que tendo o dito Vieira adquirido muitos Índios, pela missão que fez ao Rio dos Tocantins, eles se repartiram, e despedaçaram, por onde quis a cobiça de quem então governava (palavras suas), e ao depois os achou vendidos por cativos.( 19 )

15 As leis do ano de 1570, de 1587, de 1609, de 1611, de 1617, de 1655, além das de 1652 e de 1653, que se refere na do 1º de abril de 168

16 Acham-se na biblioteca real.

17 Assim o diz no § 4. As leis são de 1652 e de 1653.

18 Assim continua a carta no § 5 e 6.

19 Assim o confessa na dita carta, dito § 5.

Tantas e tão paternais providências se inutilizaram com os pretextos, que excogitou a

malícia. A título de administração se oprimiam os Índios. Eles se repartiam pelas pessoas poderosas, sendo violentados para os serviços penosos, sem sustento, sem abrigos, sem vestidos, sem doutrina, sem amparo e sem caridade. Separados de suas mulheres; eles tinham, e elas mau estado, e os filhos sem terem quem os alimentassem, porque os pais não tinham tempo para fazerem as suas roças: estando

as

aldeias por isso em grandíssima fome, e miséria: vinham a morrer os Índios sem lembrança

da

fé, e da religião, que haviam professado, e sem os Sacramentos, por culpa dos ambiciosos

administradores que os traziam ausentes e só aplicados aos seus interesses ( 20 ).

Naquelas distribuições ou administrações dos Índios, só tinham cabimento os ricos; por isso os que não podiam agradecer a partilha, morriam de fome, de miséria e desamparo ( 21 ). Para se atalhar este dano, e desordem das administrações, fez o Senhor rei D. Afonso

VI publicar a lei de 12 de setembro de 1663, tirando também a jurisdição temporal do arbítrio

dos religiosos; para serem os Índios governados pelos seus principais da mesma nação. Na regência e reinado do Sr. Rei D. Pedro II se pretendeu atalhar, e coibir as simuladas cavilações, com que se tinha deturpado, a observância das leis anteriores: como vou a dizer. As

primeiras do ( 22 ) Sr. Rei D. João IV, só em quatro casos permitiam os cativeiros, que de direito

se faziam lícitos por evitar maior mal; isto é, 1º, quando em justa guerra eram apreendidos os

Índios ; 2º, quando os mesmos deviam ser invadidos por impedirem a pregação evangélica; 3º, quando estavam presos à corda, para serem comidos desumana e barbaramente, em sustento

de outros; 4º, quando justamente por outros Índios eram cativados em guerra perpetrada com

justiça, a que não dessem ocasião, ou intrigassem, ou fingissem os que necessitavam dos escravos. Porém pela sábia e providente lei de 1º de abril de 1680, para de uma vez se fechar a porta às fraudes e simulações, se proibiu todo e qualquer cativeiro; ainda derivado daquelas exceções, sem valer algum título ou pretexto, que se houve por indigno, e reprovado com penas

gravíssimas, atendendo às razões contrárias e conseqüências funestas. Para o mesmo fim deu o Senhor rei D. Pedro, um regimento para as missões ( 23 ) e no § 2 dele cometeu aos missionários a jurisdição espiritual, e governo temporal, e político das aldeias; pois lhe havia mostrado a experiência, que as leis e ordens eram infrutíferas pelos

20 O Padre Vieira no § 3 da carta de 4 de abril de 1654 e no § 4,5 e 8.

21 No § 1 da dita carta intin.

22 O alvará de 3 de abril de 1655.

23 Em 21 de dezembro de 1686 (Vd. adiante).

novos intentos da malícia, que os moradores opunham com prejuízo grave de todo o Estado ( 24 ). Eu me atrevera a dizer mais, que a desordem e o dano nascia da má economia na observância e execução das ditas leis, pelo nenhum desvelo, ou pelo muito interesse dos executores a quem se cometiam: assim pensa o Padre Vieira, dizendo que a Majestade era nomeada, mas não obedecida ( 25 ). O mesmo regimento no § 16 considera que a aldeia de Pinaré se achava de menos população por se terem retirado os Índios acossados do laborioso serviço dos moradores; e para se evitarem os incômodos ocorrentes, se providenciaram paternalmente os meios de se estabelecerem os convertidos com todo o amor e caridade, até nas mesmas terras, que eles não quisessem deixar, para se não perder a sua boa disposição, e serem socorridos na forma de pactos e convenções firmadas com o selo da boa fé. Sem controvérsia alguma se fez prudente juízo naquele sábio governo, que os cativeiros eram a causa do atrasamento do Estado; e que eram perniciosas as conseqüências dos maus executores das leis; por isso por uma extravagante ( 26 ) se confirmaram várias adições que numa junta feita em Maranhão, se suscitaram, e se uniram àquele regimento; e também se declarou que os filhos dos Índios casados com escravas, jamais servissem aos senhores destas, ou a seus conjuntos, e que também os governadores não deliberassem sobre os contratos dos Índios sem intervir o parecer do ouvidor geral em casos tocantes à justiça ( 27 ). Deste modo se quis temperar a prepotência, que até aquele tempo se não pudera extinguir, estando o poder num só governador. Em todo o tempo sempre vagaram as contradições, pois a elas correspondem os fracos da natureza para se dificultarem os acertos. Por isso apareceu outra extravagante ( 28 ) que revogava a sobredita lei de 1º de abril de 1680, admitindo-se os cativeiros só em dois casos, a saber: quando os Índios em guerra entre si, se cativavam para serem vendidos a outras nações, ou estavam à corda para serem desumanamente devorados, contanto que não fossem apreendidos para serem vendidos aos moradores de quem se presumisse o influxo para os cativeiros. Para se impedir a fraude e o dolo, se determinaram os resgates à custa da real fazenda, que era ressarcida pelos compradores, intervindo a autoridade das câmaras, governador, e ouvidor geral.

24 Consta do preâmbulo ao § 1 do dito regimento.

25 Na carta de 4 de abril de 1654 § 2 in fin. e § 3, § 9 en fin. § penult. e ultimo.

26 Alvará de 22 de março de 1688.

27 Assim o torna a decretar o alvará de 28 de abril de 1688.

28 O alvará de 28 de abril de 1688 e carta régia de 20 de novembro de 1699.

Não bastaram porém as medidas e cautelas, que tomou a lei debaixo de graves penas para prevenir a iniquidade e mau hábito ( 29 ), que se tinha grassado no país, porque em menos de três anos, estavam quase todos os moradores do Estado incursos na gravidade dos penas por terem abusado da providência da lei, e cativado os miseráveis Índios, contra as determinações régias, e contra os interesses públicos. A piedade do Sr. rei D. Pedro II, se forçou para perdoar os delinqüentes por ser a culpa universal, e dever o castigo ser geral, e transcendente aos mesmos estabelecimentos das terras, e para isso publicou outra extravagante com ( 30 ) perdão e modificação de penas. Este movimento faz ver com evidência, quanto seria justo sustentar-se a primeira lei; pois os resgates só se fizeram precisos, por neles se interessarem os moradores, que os fizeram valer com as compras. Foram incansáveis os cuidados e bem notório o zelo e piedade do Sr. rei D. Pedro II, afim de melhorar as circunstâncias daquele Estado, a que dirigiu muitas e repetidas leis, para cuja observância, e pelo que pertence a felicitar as condições dos Índios, se faziam sessões ou juntas sobre as missões para que concorriam sujeitos de maior probidade, e prudência, os quais reciprocamente vigiavam com zelo pelos interesses daquela causa comum. Bem se mostra que a referida corporação com autoridade régia, segundo as direções das repetidas leis, ( 31 ) posto que agora só se acham vestígios da mesma por tradição e lembrança que há naquele país, da sua boa conduta e administração. A mesma junta em todo o tempo, tinha a seu cargo os negócios interessantes dos Índios: e pela junta destes reinos, dirigia as representações à Sua Majestade que faziam necessitar de remédio, e providência os casos ocorrentes do mesmo Estado.

29 Já em 20 de maio de 1653, se queixava o Padre Vieira de semelhantes extorsões, e impiedades com título de resgates, e assim escreveu o Sr. D. João IV, e se vê do § 4 do seu voto dado, é escrito com mais liberdade, sobre o que se ponderou em junta. Está na biblioteca real.

30 Alvará de 6 de fevereiro de 1691

31 No tempo do Sr. Rei D. João IV, chegou a haver junta estável em S. Roque, como diz o sobredito Barros, liv. 2, § 99 e seguinte pag. 71. Que havia a junta das missões, se vê pelo § 3 do regimento das missões, de 21 de dezembro de 1686, e no § 23 se promete regimento a junta e desta trata a lei do 1º de abril de 1689; o alvará de 20 de novembro de 1699, comete os resgates a arbítrio da junta das missões, o mesmo se demonstra pela carta régia de 15 de março de 1669, e pela carta régia de 1º de fevereiro de 1701 e expedida ao governador do Estado Antônio de Albuquerque Coelho, como consta do liv. 2 do registro da secretaria do Estado a fls. 72, n. 288, a fls. 168 v., se acha outra com a data de 3 de fevereiro do dito ano, dirigida à junta das missões do Maranhão em resulta da representação feita pela deste reino: o mesmo confirma outra de 11 de abril de 1702 a fls. 207 e fls. 213 v., se acham mais duas tratando da referida inspeção a 1ª datada em 21, a 2ª em 22 de abril de 1702. Além das sobreditas resoluções houve outra carta régia, com data de 6 de dezembro de 1705, pela qual se rejeitou a proposta de quererem os vereadores do Pará assistir às juntas das missões.

Nesta mesma formalidade se conduzia o governo temporal e espiritual, econômico e civil daquele continente, quando no felicíssimo reinado do Sr. Rei D. João V de gloriosa memória, se estavam prometendo outras muitas vantagens, já a benefício da igreja, já em utilidade da coroa. Logo nos anos seguintes entrou a reverdecer a malícia para as opressões e para abuso das leis, a que se ocorreu pela provisão de 5 de julho de 1715, afim de ser repreendido o capitão-mor José da Cunha de Eça, que tinha feito prender ao procurador dos Índios, e contra os seus privilégios, requerendo o mesmo a favor daqueles miseráveis a respeito de quem, iam passando para o esquecimento as providências régias e paternais. Em 9 de março de 1718 se repetiram as determinações, que deviam ser observadas com exatidão, não só em favor da liberdade dos Índios, mas também para que fossem com tranqüilidade e mansidão persuadidos a descerem para as nossas povoações sem violência e sem constrangimento, por se contemplarem de uma diversa jurisdição, enquanto os mesmos viviam debaixo de certos preceitos, e seguindo os políticos ditames do seu chefe, ( 32 ) aos quais se devia pregar o evangelho, afim de receberem aquela nova luz de aliança, ainda nos mesmos sertões, onde estivessem congregados em república, e se unissem a este império português, para firmeza e conservação da religião que abraçaram. E para se conseguirem aqueles fins espirituais, fez aquele augusto monarca dividir o bispado do Maranhão e a sua instância, criar-se a do Pará em 1720, no tempo de Clemente XI, para que vigiasse um pastor próprio sobre as obrigações daquela igreja nascente. Mandam-se missionários com escoltas em sua guarda, para se empreenderem e aperfeiçoarem aquela grande obra; ainda que se dão diversas regras, para se proceder contra aqueles Gentios, ( 33 ) que vivendo em bandos, sem vínculo de leis, contra os direitos naturais das gentes e estabelecem por ditames o viverem sem ordem com horror da humanidade, e contra os honestos sentimentos do próprio pejo, e com escândalo até dos primeiros impulsos e obrigações da natureza; pois se fartam de carne humana, para o que em dura guerra atacam aos conaturais do país, e se nutrem a sua lascívia impiamente, sem diferença das próprias mães, e das próprias filhas.

32 Assim pensam Burlamaq. Tom. 6, cap. I. Grot. Disc. prolim., e lib. 1, cap. 1, § 14, Puffendorf. Lib 2, cap. 3. De Felice tom.3, parte 2ª do direito das gentes. Liç. 1ª.

33 Mr. De Felice no dito tom., e nas cinco primeiras lições do direito natural, citando e seguindo a muitos jurisconsultos de direito público e natural.

O nunca assaz compreendido zelo, e a exímia piedade ( 34 ) daquele grande e solícito rei, se fez ver em muitas providências a favor da propagação da fé católica, e segurança daquele Estado, tanto pela contínua promoção de missionários, e ministros da igreja, como pela recomendação, que sucessivamente recebiam, os que tinham a seu cargo as interessantes obrigações da jurisdição, já para se firmarem os estabelecimentos, já para se civilizarem os Índios. Por continuarem as transgressões e contravenções das leis, no reinado do augusto rei D. José de saudosa veneração, se publicaram as sanções de 6 e 7 de junho do ano de 1755, nas quais se suscitaram outras dos Srs. Reis D. João IV e D. Pedro II, afim de se libertarem os bens, o comércio, e as pessoas dos Índios, inibindo-se as repartições e administrações daqueles miseráveis, cujos direitos simuladamente se tinham turpado com prejuízo público: e juntamente na conformidade dos cânones, e constituições apostólicas, foram inibidos os missionários a ter intendência no governo temporal, pois somente era da sua obrigação espiritual. Por uma incontestável lembrança, consta que no ano de 1753, passaram para o Pará dois regimentos militares pagos; esta foi a primeira vez que naquele continente se viu tanta cópia de tropa habitando o país. Nunca a propagação da fé, necessitou de tantos instrumentos para a sua conquista, e para a plantação da boa doutrina. No tempo do Padre Vieira, somente seis soldados eram escolta de sobejo nas ações de maior empresa, e conversão; porque os Índios se cobriam de grande desconfiança, parecendo-lhes ser atacados por invasão ( 35 ); e muitas vezes aquele zeloso missionário se deixou ficar entre eles sem perigo, e só com seu companheiro. O mesmo Padre clama na sua carta de 4 de abril de 1654, dirigida ao Sr. Rei D. João IV, que aquele país pela figuração do terreno e disposição da costa, se não defende com fortalezas e com exércitos, combinando as regras com a experiência dos sucessos. Porém como se tinha repetido muitas leis, a favor da liberdade dos Índios e este pecado original não tinha sido arrancado pelas raízes, parece que a introdução daqueles regimentos militares, se encaminhara a servir de respeitoso freio à execução das mesmas leis, e para que de longe se impedisse algum tumulto do povo, ou absurdo contra as mesmas providências da liberdade, como já houvera em Maranhão nos anos de 1661, no reinado do Sr. D. Afonso VI ( 36 ). Também parece que já desse tempo se lançavam as linhas para o estabelecimento da Companhia do Grão-Pará e Maranhão; o qual comércio em união da sociedade particular

34 Assim se explica o santíssimo Padre Benedito XIV, na sua encíclica aos Bispos e Arcebispos das Índias

Ocidentais da América , datada em Roma aos 20 de Dezembro de 1741.

35 O Padre André de Barros na vida do Vieira, liv. 3, § 24, pag. 280, e § 29, pag. 283 e liv. 5 § 111, pag.

574.

36 O sobredito Barros, Liv. 3, § 85, pag. 312.

poderia enfurecer os ânimos dos habitantes, reduzidos à dependência daquela corporação, com que se atrasavam seus interesses. Por isso se pode dizer que as milícias serviram de apoio à observância daquelas leis, e a introdução da referida Companhia verificada no ano de 1755. Como já não se temia argüição alguma contra a observância das leis; e como se não contestava o comércio da Companhia, ficou sendo quase desnecessária a tropa, de maneira que os seus oficiais e cabos, eram aplicados em ministérios civis e políticos, e com improporção de suas vidas, costumes e talentos; esta verdade se começa a demonstrar pela aplicação dos ofícios que o capitão general Francisco Xavier de Mendonça Furtado estabeleceu, erigiu, e determinou naquele continente, sendo os militares os que satisfaziam aquelas funções em distantes territórios, deixados os principais sítios de suas praças, e sem ser por destacamento de guarnições: o que tudo se fez da forma seguinte. Abolida a administração temporal que os resgates exercitavam nos Índios do Estado: se formalizou pelo dito general uma instrução legislativa para o estabelecimento da vila de Borba, a nova, no rio Madeira em 6 de janeiro de 1756, cuja execução se cometeu ao tenente Diogo Antônio de Castro, e foi confirmada por carta de Sua Majestade de 7 de julho de 1757, que ordenava se praticasse as mesmas medidas a respeito das mais vilas. Naquela instrução se via em ponto breve o regimento ou Diretório, que ao depois apareceu composto de 95 parágrafos, e com a data de 3 de maio de 1757, cuja publicação e observância foi imediata, sem dependência de régia aprovação, contra o que pediam os direitos de sumo imperante, na suprema função de legislar: Sua Majestade se dignou dar-lhe o seu régio beneplácito posteriormente pelo Alvará de 17 de agosto de 1758 enquanto não mandasse o contrário. Aquele regimento deu uma diversa figura à particular economia das povoações, e estabelecimentos do Estado; não só pelo que pertence à civilidade e governo político dos Índios, mas também pelo que toca aos interesses particulares das famílias; e com esta resolução se perverteram muitos fins saudáveis das leis, cujas regras eram certas e invariáveis. Mostrou a experiência que era necessária a reforma de alguns abusos, e precisas outras introduções: mas nesse crítico tempo não podia haver espírito, ou gênio algum zeloso do bem público, que se atrevesse a clamar contra aqueles meios que impediam as utilidades da igreja, e da coroa. Com aquela idéia escrita, e denominada por Diretório, também nasceram outros apoios que patrocinaram tudo quanto se quer obrar, e vem a ser ora a prática, ora a autoridade particular, e desta forma como se fará evidente, se transfiguraram os interesses do Estado e postergaram a execução e a observância das leis anteriores.

Que importa que o Diretório justamente cometa aos juízes ordinários, e mais oficiais de justiça o governo temporal de suas vilas; e que os Principais sejam nas suas povoações independentes dos diretores ( 37 ) se estes têm estirado a sua jurisdição até os limites do excesso? Os diretores são os que absolutamente determinam tudo: eles não advertem aos juizes e principais as suas obrigações, mas se fazem superintendentes, e odiosos senhores de todo o governo e de todos os interesses. Sendo da intendência das câmaras e dos principais a expedição de canoas, e comércio dos Índios até de nomear cabos de fidelidade, e Índios extranumerários para irem ao sertão ( 38 ), acontece pelo contrário, porque os juizes, câmaras e principais, só tem o nome de seus ofícios sem jurisdição, nem exercício. Os diretores os mandam chamar às suas casas com demasiada ousadia, e abatimento ( 39 ), são acompanhados por eles à missa, no ar de superiores, determinam a seu arbítrio, e fazem as petições ao governador, para se expedirem as canoas de comércio de suas próprias casas, fazem cárceres ( 40 ) privados para prenderem os miseráveis Índios em troncos, onde os maltratam com penosos castigos e surras, palmatoadas, até com um pau, pelo que muitos Índios desaparecem, sem se saber do seu destino. Com esta ímpia execução se pervertem muitas leis ( 41 ), e os fins dos estabelecimentos dos Índios, mas os diretores são apoiados, e se protestam, ora com a prática, ora com a autoridade dos governadores: pois estes na conformidade da sobredita instrução com força de lei cometem aos diretores uma extensão de jurisdição sem que se possa salvar a contradição, e entre eles sem a menor intervenção das justiças se fabricam as ordens, e se executam, nem as câmaras ou principais tem refúgios, ou meios para de outra sorte procederem, e são desautorizados os Índios do governo ( 42 ). Os diretores por própria autoridade, fazem meirinhos, a que chamam bariquaras, para executores das suas determinações. Se o ouvidor geral quer conhecer destes fatos, pelo que pertence às justiças, logo é eminente a desordem porque fazendo os diretores um corpo impenetrável com os governadores, não conhecem outras ordens; e por serem nomeados por eles, e militares sustentam o partido da separação, sem obediência, nem execução das ordens

37 Desde o § 1 até o 5. Assim pensa Solorz. de jur. Indiar. Liv.1, tom. 2, cap. 26. fere pertatum et signater n. 1. 18 e 38.

38 Os §§ 51 e seg. do Diretório.

39 Contra o que dispõe o § 9 do Diretório.

40 Contra a ord. in 5. lib. 96.

41 O mesmo Diretório no § 2 in fin. Solorz. De gubern. Indiar. Lib 1. Cap. 27 exn. 44 usq. 48, uma carta régia dirigida ao governador do Maranhão, datada de 1º de fevereiro de 1701, e registrada a fls. 172 do liv. 2 das missões, que se acha na secretaria do Estado.

42 Contra o que dispõe o referido § 9 do Diretório.

da justiça. Ainda achando-se culpados alguns diretores, remetidas as devassas para se conhecer delas na junta da justiça, tudo fica na mesma situação: porque ou o governador os conserva na mesma diretoria, ou os remove para outras como aconteceu ao cabo de esquadra Thomé Francisco Pantoja, ao tenente Francisco da Fonseca Ferreira e a Paulino da Silva Rego, todos da Capitania do Rio Negro. Isso também aconteceu com os prelados eclesiásticos e diocesanos, porque não podendo sofrer, que os diretores sejam instrumentos de muitos danos espirituais; se os querem remediar, são repelidos e desgostados ( 43 ) como se trabalhassem em seara alheia. Eis aqui pugnando entre si a instrução sobredita, as leis, o Diretório, a execução, a prática e a autoridade dos que governam. Determina-se sábia e justamente, que seja educada a mocidade dos Índios, em escolas da própria língua portuguesa ( 44 ) para concorrer a polícia e o amor da nação; mas como em algumas povoações tem sido os mestres ordinariamente soldados, e estes por uma licenciosa liberdade, não são capazes de instruir exemplarmente, por isso servem de grande perigo na verdura dos anos aos mesmos discípulos, além de não haverem meios em todas as vilas e povoações para escolas. Como naquela direção se recomenda muito amplamente o uso da língua portuguesa, até para se aprender a doutrina cristã nas escolas; daqui se servem os diretores pela sua ampla e arrogada jurisdição, para disputarem aos párocos, que não ensinem a doutrina cristã na língua do país: por cujo motivo falta àqueles nacionais a verdadeira e necessária união da doutrina para saberem bem pedir, bem crer, e bem obrar, segundo a religião. Que seja necessário o uso da língua própria para se civilizarem os povos, é sem controvérsia; porém se não pode absolutamente desterrar o uso da língua do país, quando por meio dela devem ser instruídos e catequizados os novamente convertidos; pois só a língua vulgar tem forças para dar o conhecimento da verdade, e dos mistérios da nossa religião, não só pelo que recomenda o Concílio de Trento ( 45 ) mas também pela prática dos primeiros apóstolos ( 46 ), que se cingiam às línguas e capacidades dos que os ouviam. Ainda fora da ocasião de catequizar, também na de instruir a mocidade me parece que se deve deixar ao arbítrio dos doutrinadores, ou explicar-se a doutrina cristã, ou em um, ou em outro idioma, conforme a capacidade e inteligência dos

43 Contra do que determina o § do Diretório.

44 Desde o § 6 até o 8 do Diretório.

45 Na ses. 24, cap. 7 de reform.

46 More, cap. 16 AA.Apost. cap. 2.

ouvintes, para que não fiquem inúteis e sem frutos as sementes da divina palavra, e muito principalmente assistindo-se aos moribundos. Por ocasião do referido, se disputou com um religioso seu pároco o diretor de Souzel, Eugênio Martins Câmara, que resolveu a questão, dando muitas bofetadas no mesmo, de cujo sacrilégio não houve conhecimento, nem se absolveu o sacrílego. Sobre a origem das desordens, deu algumas providências o general do Estado por carta circular, determinado que os párocos instruíssem na doutrina, as raparigas que passassem de nove anos, nas igrejas com assistência dos diretores, e das pessoas a quem por parentesco chegado pertencessem; posto que alguns diretores as ensinam em suas casas com escândalo, até a idade de 29 anos.

Outra contradição mais parece, que se nota no mesmo Diretório, pois determinando o § 2º referindo-se ao alvará de 7 de junho de 1755, que os juizes ordinários, vereadores e mais oficiais da justiça, tratem do governo temporal; se acha no progresso dos mais parágrafos toda a execução do dito governo, cometida aos diretores, pelo que têm ança (sic) para cometerem a sua jurisdição diretiva, e promotória, em coativa e quase ilimitada, excedem os meios de suavidade e brandura, com que devem ser extirpados os vícios, segundo se lhes recomenda.

( 47 )

Dependendo o Estado de sólido estabelecimento, só por meio da cultura, e do comércio, comunicáveis entre os Índios e os moradores, se podia verificar aquele importante fim, e no Diretório ( 48 ) se regularam os meios daquele proveitoso plano para que os diretores obrigassem, e persuadissem os Índios a fazer plantações, cujos lucros sustentassem suas famílias, e os fizesse aborrecer a ociosidade. Determina-se mais, que os diretores atendam à acomodação dos Índios, distribuindo-se-lhes as terras para suas lavouras, e que vigiem não sejam os mesmos deteriorados em seus direitos pelos moradores, abusando estes da indolência daqueles; e se não perca o meio deles se utilizarem do virtuoso trabalho da agricultura, e para que se não retirem aos matos, sem continuarem na ilustração da fé, de que muito necessitam; e tenham estabelecimentos estáveis para o fornecimento de canoas que forem ao sertão colher drogas em benefício do interessante comércio. Todo este projeto de estabelecimentos de agricultura, de plantações, de distribuição de terras, de percepção de frutos, de fornecimento de canoas, de colheitas de drogas do sertão, de interessante lucro do comércio; tudo pressupõe que o Estado é cheio de população e sem falta

47 É o § 2º e 14 do Diretório e sente Solorz. De gub. Indiar. Lib 1, cap. 24, ex n. 14, e assim o recomenda S. Greg. Mag. Liv. 10. Epist. 71.

48 Desde o § 16 usq. ad. 26.

de Índios, que se possam repartir por uma e outra manobra, e sem que se hajam de prejudicar as lavouras cessando o trabalho. A situação presente inabilita toda aquela execução, porque não se trata do descimento dos Índios, como logo se dirá mais claramente; por cuja falta cessam os interesses do Estado, e se não aumentam os fiéis daquela igreja, ficando o Gentio nas trevas da barbaridade. Demais disso, apesar daquela recomendação, é sem controvérsia inegável, que hoje se não fazem pelos Índios distribuições de terras, cujo limites sirvam de barreiras ao cuidado e manobras de suas lavouras. Eles vagam por estas e aquelas roças, tendo ocasião de se entranharem nos matos em ranchos a que chamam amocambados, segundo a frase do país, e em razão das distâncias, e sem estabelecimentos estáveis, se retiram os Gentios donde derivaram. A nenhuma subsistência dos Índios tem destruído aquele sistema, que prometa a felicidade do Estado. Como os Índios vivem errantes, segundo a aplicação dos trabalhos que se lhes destinam os diretores, não tomam amor aos domicílios, porque os não tem; não se lembram das lavouras, porque as não cultivaram; e este desarrancho lhe produz o desapego ao país. Ainda que as leis os tenham libertado do antigo cativeiro, é certo que as ordenanças do Diretório, e sua execução lhes não tem adoçado o peso com aquela reforma e novo governo. Pouco importa que o terreno seja fecundo: se os diretores aplicam os Índios a toda a força para a extração de drogas do sertão, donde tem interesses certos os mesmos diretores. As viagens são de longo tempo, os trabalhos de muita fadiga, os lucros proporcionalmente pouco interessantes; os Índios ausentes de suas mulheres e famílias, e sem tratarem da propagação, e havendo motivos para divórcios, com as culpas que fomenta o inimigo comum; as povoações sem estabelecimentos, e sem cultivarem nas terras vizinhas, fazendas próprias com manibas, pacoveiras, cacau, café, anil, algodão, e sem haverem feitorias de manteiga, de óleo, de azeite, e outras muitas drogas, que produz o país, e interessa o comércio do Estado. Os diretores tudo determinam, pela medida dos seus interesses, sem se aterrarem com as desordens, desculpando-se com as ordens e com a prática; como se a pudesse haver contrária á razão em um país moderno e ainda não estabelecido em muitas paragens. Aqui temos outra contradição, e vem a ser, persuadirem-se os estabelecimentos por meio das lavouras, e agriculturas nas terras adjacentes e vizinhas, e serem mandados os Índios para a extração de drogas de remotos sertões, no qual trabalho além de penoso, gastam mais de dez meses, e apenas se recolhem as povoações, são logo necessitados a tornarem a deixar os seus domicílios, suas mulheres e famílias, misturando com lágrimas de puro sentimento, o dissabor

de se verem desterrados sem agasalho, sem lucro e sem liberdade: tudo na verdade faz horror,

e faz lástima, apesar das censuras que fulminou o santíssimo Padre Benedito XIV na bula ( 49 )

sobredita, suscitando-se outros decretos de Paulo, e Urbano, seus antecessores, e com reserva da absolvição a si mesmo. E como há de desta forma felicitar-se e propagar o Estado, coberto de negras manchas, em que tem incorrido, e atualmente incorrem! Os diretores não perdem de vista à custa de toda a violência e tortura de obrigarem os Índios a extrair as drogas do distante sertão, e isto por dois princípios inegáveis e simultâneos:

1º, o terem e lucrarem a sexta parte ( 50 ) de todos os interesses daquela negociação; 2º, de obedecerem às ordens dos governadores, que tem sido ativas, e muito recomendáveis, afim de

fornecerem gêneros, e especiarias para o negócio, e interesse da Companhia. Bem entendido, que no dito Diretório ( 51 ) se recomenda que haja alternativa de Índios; se determina mais que depois de concluída a cultura das terras ( 52 ) se faça a expedição das canoas, que se estabeleça

o ramo do comércio nas respectivas povoações e terras adjacentes ( 53 ) para assim crescer a

utilidade com diminuição das despesas que além dos Índios das equipações das canoas ( que não são mais de vinte), vão mais dez, ou doze de sobressalente ( 54 ). Tudo porém se altera, 1º, não há tal alternativa, porque fazem ir os Índios, como já se disse, por não haver população para menos: 2º, não se espera, nem se trata de agricultura; porque não se faz comércio nas terras vizinhas, e são mandados os Índios a sertões muito remotos, onde se acham mais abundantes drogas, e com despesa de longo tempo; 3º, não só vão Índios, que devem equipar as canoas, e os sobressalentes, mas todos os que os diretores podem empurrar, para crescer o empenho naquela negociação, ainda que fiquem as povoações em penúria: esta é a lastimosa verdade do que sucede. Outra consideração mais, vem a propósito de se expor a respeito dos lucros, que percebem os enganados e miseráveis Índios: faz-se a expedição das canoas, que montam por penosos rios, até a vizinhança dos sertões, donde se hão de extrair as drogas e especiarias: ali se estabelece a feitoria, ou assento donde todos os dias faz o cabo partir os Índios em

pequenas canoas, a dois para cada parte, a colher aqueles frutos, conforme o seu destino, e de que dão conta à noite, quando se recolhem , ou passados alguns dias à proporção da colheita;

49 Esta bula foi publicada em 29 de maio de 1757, pelo prelado do Pará D. Frei Miguel de Bulhões, e com beneplácito régio, para que não haja dúvida a opinião dos publicistas e realistas.

50 É o § 34 e o § 36 do Diretório.

51 É o § 49.

52 O mesmo § 49.

53 Os §§ 46 e seg.

54 O § 52.

extraem-se as drogas à custa do trabalho, das fomes, de perigos de vida, de ataques dos Muras, que são inimigos de corso, de nenhuma reconciliação, e neste tempo tem os Índios sofrido muitas violências e mau trato dos cabos, que sendo de ordinário soldados, e tendo de interesses o quinto, costumam corresponder com um pau aos Índios que trazem ou colhem poucos gêneros, por não quererem dissipar suas esperanças e sua cobiça. Passados muitos meses, e feita a carga da canoa principal com mais ou menos abundância, à proporção da fertilidade dos anos, se restitui a canoa ao sítio da povoação a fazer os manifestos que recomenda o Diretório ( 55 ) e concluída a diligência se partem para a cidade capital, sem haver o menor descanso ( 56 ) a entregar os gêneros ao tesoureiro geral, que os trafica com a Companhia, recebendo fazendas em pagamento. Na mesma capital se tira o dízimo, a despesa, o quinto para o cabo de canoa ( 57 ) a 6ª parte que pertence aos diretores ( 58 ), 3 por cento para o tesoureiro ( 59 ) 2$000 de novos direitos, além do viático para a igreja. Feita a conta de todo este abatimento, se reparte o resto pelos Índios interessados, e muitas vezes lhes tem tocado pouco mais de 1$600 na importância dos efeitos, que lhes distribuem, e lhes dão em pagamento. Não é pouco sensível em toda esta viagem, e negociação, a grande irregularidade, que há em dano, e desconto dos miseráveis Índios: 1º já ponderei, o seu mau trato pelos cabos, o trabalho, e risco das vidas; 2º, vindo as canoas fazer os manifestos às povoações, se atrasam na viagem, podendo ir em menos tempo à capital, onde poderiam satisfazer àquele requisito, sem haver o menor desvio; 3º, sendo os contratos dependentes da liberdade, do consentimento, da vontade, da escolha, e da igualdade entre os contraentes; tudo sucede pelo contrário nesta negociação Indiana. Os Índios simulada, e dolosamente são coactos em aceitar ( 60 ) o que lhes dão; eles nada escolhem, nem se lhes dão os gêneros, de que necessitam. O que é mais astuto, não se atreve a contradir; porque sendo sempre acossado de pancadas, teme desafiar outras de novo, e se acomoda. Na partilha das fazendas, cabe por exemplo: um espadim a quem não tem, nem casaca, nem vestidos; umas meias, a quem não traz sapatos, e nunca usou desse abrigo; várias fitas, que só pelas cores enganam; partidas de cetim a quem em suas palhoças, apenas terá uma corda, onde pendurem e guardem semelhantes alfaias; numa palavra o melhor modo de se dar consumo àqueles gêneros, que no negócio se chamam alcaides, é introduzi-los aos

55 No § 55.

56 O mesmo § sobredito

57 O § 56.

58 O § 34 e 56.

59 O § 51.

Índios na permutação das sobreditas drogas, que a Companhia logo recebe, e bem reputa,

segundo o estado do país. Já o zeloso, e discreto Vieira em outro tempo advogou esta mesma causa, recomendando que aos Índios somente se lhes deviam dar panos de algodão ( 61 ) para cobrirem

a desnudez em abono da honestidade, e do pejo; 4º, enquanto as canoas se demoram na

capital, se não deixam os Índios em o menor descanso, porque são obrigados a outros trabalhos

e muitas vezes a irem ao Mato Grosso e a outras muitas distantes e demoradas jornadas, de

sorte que se passam anos sem voltarem aos domicílios de suas povoações; 5º os cabos das canoas são pagos e satisfeitos de seus interesses pelo suor e trabalho dos Índios; porém estes são recompensados com desumanidade no mau tratamento de pancadas, e sem algum agasalho; o mesmo é aplicável aos diretores; 6º, quando os Índios partem para o sertão, e para aquela negociação das drogas, levam de suas pobres casas, tudo quanto podem colher de mantimento, e tudo quanto lhes podem administrar para o viático, suas mulheres e família, ficando estas em desamparo, e compensando-se os lucros com as despesas, o tempo e o trabalho com os avanços do interesse, vai uma grande improporção de abatimento. Com este breve desenho bem claro fica, que de nada serviram as leis aos Índios para serem amparados na sua liberdade. Que maior pode ser a opressão e cativeiro destes miseráveis? Que amor podem ter à nação portuguesa; que obrigações ao governo? Como se pode desta forma aliciar o Gentio dos matos para se unirem ao nosso império, se eles são informados de todas, e das menores circunstâncias do seu destino? Como se há de por esta maneira aumentar o número dos fiéis para o grêmio da igreja? Não é por este trilho que se hão de satisfazer as ordens régias, e que se há de cumprir com os ardentes desejos e providências de piedade que tem dado os augustos monarcas fidelíssimos, enfim segundo a frase do discreto Padre Vieira, que teve a experiência de quatorze anos daqueles países, me atrevo a dizer, que por semelhante ditame são os Índios cativos nas pessoas, cativos nas ações, cativos nos bens ( 62 ), e por falta de doutrina, e de pregação até cativos na alma. Por este modo se vê iludida a definição de liberdade natural. É sem dúvida que os diretores não fazem nem concorrem para as roças das povoações, não só pelas razões já ponderadas, e falta de população, mas também porque das ditas roças, não tem interesses tão evidentes como do negócio do sertão; e podendo ser removidos da sua

60 Contra o espírito dos §§ 37, 39 e 58.

61 No seu voto dado na Bahia aos 12 de julho de 1691, no § antepenúltimo: acha-se na biblioteca régia.

62 O sobredito voto do § 15, e na carta de 4 de abril de 1654 § ult.

diretoria, perdem os lucros que lhes poderiam caber; bem entendido, que na forma do Diretório, só percebem a 6ª parte daqueles frutos, que se cultivarem, não sendo comestíveis, por isso a própria cobiça conspira para os mesmos desmanchos. Por ocasião do exposto, parece digno de se notar, que as terras adjacentes às povoações, são muito capazes de serem industrialmente lavradas, e de produzirem com usura as mesmas drogas, que se vão buscar aos sertões; e em abono desta verdade, seja-me lícito produzir que na vila de Santarém, antigamente chamada de Tapajós, houve um morador branco por nome o Picanço ali assistente, o qual plantou um cacoal, de que colheu passados poucos anos de cultura, mil e duzentas arrobas de cacau, e fez lavrar outro que deu em dote a uma filha, de que colheu oitocentas arrobas; e hoje alguns moradores lavram sítios desta espécie que por falta de trabalhadores, não tem grandes adiantamentos; e a mesma utilidade teriam os Índios se o praticassem, e o Estado floresceria com outra segurança. Por causa de dar exercício ao meu zelo, e a minha natural paixão pelo desamparo do Estado, algumas vezes tratei com o governador atual do Rio negro, para que houvesse uma roça do comum, de cacoal, e café, e mais drogas, afim de se poupar com este estabelecimento, a dependência do sertão: mas o governador, ou por melhores luzes de inteligência, ou por zelo da glória alheia, não quis anuir ao projeto. Depende tanto o Estado e a sua felicidade do estabelecimento das culturas, que o Diretório as prefere ao sobredito negócio do sertão, pois se explica com os diretores ( 63 ), recomendando-lhes que esse comércio terá lugar concluídas as lavouras, que devem ser o primeiro objeto de seus cuidados. Da mesma forma se dirige em outro lugar ( 64 ) que se salve sempre o prejuízo do povo, que por meio da distribuição, deve ter Índios para os ajudar nas agriculturas, porém nada importa, negócio e mais negócio, sertão e mais sertão, contra o espírito da lei novíssima ( 65 ). Por este importante objeto dos estabelecimentos, se mandam distribuir ( 66 ) e repartir os Índios, pelos moradores para operários e coadjuvadores nas fábricas das lavouras, em benefício da conservação e aumento do Estado, e também se estabelece a ordem, para a solução dos salários. Seja-me lícito refletir aqui, que o Diretório é um labirinto, ou mistura de determinações que dá causa a muitas ilusões, e aos desacertos que hoje se//[ ] praticam no Estado. Primeiramente se vêm confundidas as ações, as coisas, e as pessoas, contra o verdadeiro

63 O § 49

64 O § 52 in fin.

65 O alvará de 6 de junho de 1755, no §. E porque.

66 Desde o § 59 usq. 67 e 73.

sistema, e clareza de legislar na boa e sã opinião dos jurisconsultos, e segundo a ordem natural, determina-se a observância das leis, a que o Diretório é contrário, como por exemplo:

encarecer-se o comércio do sertão, e observar-se este indistintamente, quando alvará de 6 de junho de 1755, no § - E porque - determina que as drogas dos distantes sertões, sejam extraídas pelos Índios remotos que os habitam; afim de que se conservem os outros Índios vizinhos, dentro das suas aldeias sem consumirem largo tempo, e despesas naquelas viagens, para o útil e proveitoso serviço, e obras de suas lavouras. Recomenda o Diretório que se faça a dita distribuição, mas não se pode entender com certeza, quem a deva fazer, porque no § 61 diz, que deixando os diretores de observar a lei da distribuição, se constituem réus de escandaloso delito. No § 62, já se houve outro tom, e vem a ser, que os diretores apliquem o seu cuidado, a que os principais a quem compete privativamente a distribuição dos Índios, não faltem com eles aos moradores que lhes apresentarem portarias do governador do Estado. No § 66, recomenda que os diretores façam listas dos Índios para se regular a distribuição. A prática porém introduzida, veio a constituir novo meio entre essas dúvidas e vem a ser: os diretores não fazem listas, não há distribuições, não se dão operários aos moradores, porque são poucos os Índios para o negócio do sertão; e se algum se dá, é por empenho, e particular determinação dos governadores, que se pretextam nos despachos, que seja na conformidade das ordens de Sua Majestade. Com efeito, o Diretório se refere às leis anteriores, para as distribuições dos Índios; porém refletindo-se com madureza nesse ponto, se acha que contra a mesma distribuição clama a razão da bem entendida, e católica piedade, e clama a paternal providência expressamente dada na extravagante de 6 de junho de 1755, e clamou em outro tempo o pio e incansável Padre Vieira, condoído das violências que sofriam os Índios, debaixo dos pretextos da administração. 1º Sendo obrigados os Índios pela particular lei da distribuição a servirem a qualquer morador, contra o próprio arbítrio e vontade, ambos são descontentes; um porque serve mal e contrafeito; o outro, porque é mal servido, e com desordem nas suas determinações. //[ ] O mesmo preceito sobre umas ações que s se julgam livres, se faz mais pesado, e exige pelos fracos da natureza a sua transgressão. A experiência mostra que, quando há aquele vínculo de obrigação, os que servem pelo seu desgosto não satisfazem bem; e como os salários não são ordenados pela liberdade de sua convenção, ou os consideram diminutos, ou infalíveis, quer os sirvam bem, quer sirvam mal; e os que são servidos não tratam com toda a humanidade, e amor aos seus servidores, porque julgam desnecessária a aliciação, havendo outra razão que os

obrigue ao serviço, de uma e outra parte há violência; porque ofendida a liberdade natural, e o direito, que tem cada um sobre as suas obras, já se esquecem dos doces efeitos da justiça cumulativa, entendendo-se, que a distribuição é cativeiro, e o salário prêmio em lugar da solução. 2º. A lei citada não se explica por palavras equívocas, e de custosa inteligência. A sua literal exposição é sobeja para realizar o conceito. Ela se dirigiu para franquear toda a liberdade dos Índios, oprimida com pretextos de repartição e administração. Eis aqui um dos parágrafos da lei.

“ Por obviar mais eficazmente as calamidades, que se tem seguido da escravidão e para cortar de uma vez todas as raízes e aparências dela; ordeno que nos Índios que a tempo da publicação desta se acharem dados por repartição, ou ainda por administração, se observem as disposições do alvará de 10 de novembro de 1647.” O dito alvará do Sr. Rei D. João IV, que se recapitula, manda francamente libertar aos Índios das administrações, porque nelas eram maltratados, e morriam de fome, e porque essencialmente eles eram livres, como o tinham considerado os reis predecessores, e os pontífices romanos, e que os Índios (são palavras da lei) possam livremente servir e trabalhar com quem bem lhes estiver, e melhor lhes pagar o seu trabalho. Continuando a mesma extravagante, começa outro parágrafo assim: declarando-se por editais postos nos lugares públicos das cidades de S. Luís do Maranhão e de Belém do Grão-Pará, que os sobreditos Índios, como livres e isentos de toda a escravidão, podem dispor de suas pessoas, e bens como melhor lhes parecer Nestes expostos trechos, e não estando derrogadas as piíssimas e santas determinações da //[ ] referida lei novíssima, se acha o Diretório determinando e autorizando as distribuições dos Índios, cuja prática os conduz contra as luzes da caridade, contra a bula de Benedito XIV, para se repartirem pelos serviços que não querem, e cujas violências abaixo se demonstram. 3º. O sobredito Vieira em carta de 20 de maio de 1653, escrita ao Sr. Rei D. João IV exclamou no § 15 que os Índios livres que assistiam nas aldeias, eram muito mais cativos, do que os escravos; só com a única diferença, que cada três anos tinham um novo senhor, que era ou o governador ou o capitão-mor, os quais se serviam deles como seus, e os tratavam como alheios; por cuja causa era pior a sua condição, que a dos cativos, pois eles eram forçados a serviços violentos e cruéis, e contra a vontade pelo que morriam de puro sentimento: e no § 17 continuou a exclamar contra as repartições coactas, implorando no § 20 por único remédio, que

os Índios mal cativos se libertassem; que os das aldeias vivessem verdadeiramente livres, fazendo suas lavouras e servindo somente por suas vontades e por estipêndios que se convencionassem; em tudo para o bem espiritual e temporal do Estado. Em outra carta de 4 de abril de 1654, dirigida ao mesmo augusto rei, diz no § 2 que a repartição dos Índios era um modo curado de os cativar, e vender sem mais diferença, que chamar-se a venda repartição, e ao preço agradecimento. Os efeitos desta opressão, eram mais lastimosos que a causa; porque para se evitarem semelhantes ruínas, os mesmos Índios livres, se cativavam, indo casar-se com escravas, e entrando na conta do rigoroso cativeiro ( 67 ), ou se retiravam para as brenhas, perdendo a sociedade civil, aqueles indivíduos, o reino esses vassalos, e a igreja esses, e outros fiéis. Os danos de semelhantes distribuições, eram comuns, e transcendentes aos interesses temporais e espirituais; pelo que se não pode ouvir sem transporte, os fatos e sucessos lastimáveis, que se originavam daquela perniciosa causa. Muitas vezes os Índios estavam destinados para os disposórios, dispostos para se confessarem; os catecúmenos instruídos para o batismo, tudo se punha em desordem porque de repente chegavam comissários das ordens dos governadores, e imediata e efetivamente arrancavam das mãos dos operários, e da vinha, todos aqueles frutos da graça. Os Índios para uma, e as Índias para outra parte, com muita pancada, sendo consumida em fábricas, por muitos tempos e anos ( 68 ), hoje é o mesmo. É certo que o mesmo Vieira admite algumas vezes a distribuição dos Índios pelos moradores, que além de deverem ser tratados com suma moderação e brandura, ele tomou esse partido, como quem tolera um mal, por evitar outro maior; isto é antes a distribuição dos que os cativeiros. Esse é o juízo que me predomina, pensando originária e cronologicamente nos sucessos e obstáculos, e combinando tudo com a experiência que tenho daquele Estado. Os moradores necessitavam de Índios, que os auxiliassem nos trabalhos e lavouras, porém como os tratavam cruelmente, já no cativeiro dos resgates, já por meio da administração e distribuição, passou o mesmo zeloso Padre, a clamar contra aquelas tiranias, que atrasavam os interesses espirituais e temporais do país. Nenhum freio bastou para coibir a malícia dos homens, por isso se expediram muitas extravagantes a favor dos Índios, que já se recopilaram. Por aperto da necessidade e dos tumultos dos moradores se permitiu a distribuição dos Índios pelo tempo de dois meses ( 69 ); como enunciativamente refere o § 14 do regimento das missões,

67 Assim pensa o Padre Barros na dita vida do Vieira, liv. 2, § 57, pag. 147.

68 Assim produz o dito Padre Barros, no dito liv. 2, § 56.

69 Assim determinou a lei de 1 de abril de 1630

e se ampliou o dito tempo, até seis meses nas aldeias do Pará, e nas do Maranhão, até quatro

pelo mesmo regimento. Deve-se agora notar que os regulares que influíam muito naqueles Estados sofrendo tumultuariamente as invasões do povo, se viram necessitados a condescender com a distribuição e o Padre Vieira, que era superior de um colégio das missões, respondeu a uma proposta do povo, dizendo que eles tinham vindo àquele país com grandíssima vontade de servirem ao público, e como fiéis ministros de Deus, e que as razões que eles produziam, eram as últimas até onde se podiam alargar as consciências com justiça, e que na concessão do menos, se poderia considerar aperto; como também seria relaxação o conceder-se mais, e que para o povo se não queixar, eles seguiram as menos acertadas opiniões, declarando o seu sentimento, por serem obrigados pelo mesmo povo ( 70 ). A ponderada exposição também se comprova pela provisão em forma de lei, expedida aos 12 de setembro de 1663 no reinado de D. Afonso VI, a qual fez tirar dos regulares Jesuítas a intendência temporal, que eles tinham sobre a administração dos Índios, em razão dos tumultos e populares desordens que tinham acontecido. Isto assim se conduziu até que pelo sobredito regimento das missões, expedido em 24 de dezembro de 1686 se restituiu aos ditos regulares também o governo temporal. Resta-me agora ponderar a situação presente das distribuições e violências, que se praticam com desacerto sensível, como prometi de mostrar. Eu não posso negar por ser incontroverso que a felicidade, conservação e aumento do Estado, consiste na boa união de todos aqueles membros, que constituem a sociedade, e que a benefício da mesma, devem todos conspirar reciprocamente, auxiliando-se as partes que compõem aquele todo político, como estão ditando as leis da natureza. Ainda que por este princípio ou regra inalterável, devam os Índios concorrer e auxiliar os moradores no trabalho das suas agriculturas, deve também ser

indubitável que este justíssimo fim, se não deve buscar por meios iníquos, violentos, perniciosos

e impraticáveis, pois em semelhante caso, era mais terrível o remédio que a enfermidade. A essência de um corpo político não perde as qualidades morais, e por isso para ser abraçável por meio daquela conservação é preciso que lhe não resistam os ditames da justiça:

bonum ex integra causa, malum ex quacumque de fectu. Non sunt facienda mala, a quibus proveniant bona. Esta é a são teologia da nossa religião.

70 Tudo consta do Padre Barros, liv. 1 do § 212 e seg.

Os meios de distribuição, que o Diretório recomenda ( 71 ) e a prática altera, não são

justos, antes são violentos; não é violência, que estando um Índio tratando da sua lavoura, seja obrigado a deixá-la para ir servir a um morador contra a sua vontade, e a quem o governador concedeu uma portaria? Não é violência que o Índio deixe o abrigo da sua pobre casa, o agasalho de sua mulher e filhos, o amparo de sua família, para ir navegar penosos rios, pescar, fazer feitorias, ir ao sertão em benefício de um morador, a quem se concede uma portaria? Não

é violência que alcançando um morador portaria para ter dois, três ou mais Índios, creia que tem

a tuitiva para abusar da humanidade, para os espancar cruelmente, para os deixar sofrer fome sem socorro, para os carregar de sumo trabalho, em todo o espaço do dia e muita parte da noite; e tendo a certeza que o Índio se não pode retirar, porque está preso pelo grilhão da portaria.

Não é violência, que os Índios pelo tempo do semestre, segundo diz o Diretório, e por muito mais tempo, segundo a prática, estejam adstritos a servir a um morador fora da povoação, conforme o seu destino, sem poder ver seus lares, sua mulher, e seus filhos neste tempo, e sem poder usar de sua liberdade, numa pequena parte, e isto porque há uma portaria? Não é violência vender o Índio o seu trabalho pela medida, e modo que dele quer dispor o morador, e o salário não há de ser a arbítrio do Índio que aluga as suas obras, e que pode achar quem mais lhe contribua, e isto porque há uma portaria? Não é violência, ter o morador sentimentos de piedade, de amor e de caridade, tratar a um Índio com muitos agasalhos, fartar-lhe a fome, conservar-lhe a subsistência, pagar-lhe prontamente, e querendo o Índio conservar-se com este seu benfeitor, não é impiedade vir uma portaria, e coactamente tirar a este Índio, por mais que clame que quer ali estar, e mandá-lo para outro serviço, para outro morador, e para melhor dizer, para um degredo? Se aquelas terras primariamente são daqueles miseráveis, porque não poderão eles livremente ajudarem-se a si próprios com os serviços, e hão de haver portarias para ajudar aos estranhos, que muito mal lho merecem, e isto não é violência? Na Europa os trabalhos findam com o dia, exceto os domésticos que se podem continuar com moderação em parte da noite; porém naquele país todo o dia e quase toda a noite por tempos sucessivos, em um morador tendo a sua portaria, não quer que o Índio durma nem sossegue, dão-lhe cruéis pancadas, e até lhe deitam pimenta nos olhos para os despertar do sono, como já aconteceu, e isto não é violência?

71 Desde o § 59 em diante

Acossados os Índios deste, e de tão cruel tratamento, eis que fogem, eis que entram no número de amocambados, no retiro do mato; logo o morador avisa ao diretor, e este em execução da portaria do governador, ou pela amizade que tem com o dito morador, faz um indizível estrépito na povoação, e nas suas vizinhanças, mandando aos meirinhos, ou bariquaras, acossar e perseguir ao miserável Índio, que fugiu ao seu dano, e usou da sua liberdade. Não surtindo efeito esta diligência, se participa ao governador, o qual por tropa de soldados, faz expedições pelos rios a buscar aos fugidos, e se são achados sofrem castigos, calcetas e trabalhos de obras reais, sem prêmios, nem salários, e não é violência. Se o morador teve meios para conseguir portarias e ter Índios, nunca foi punido, se os maltratou, já porque os Índios não se queixam, e se se queixam, são duramente contestados, já porque o mesmo patrocínio, e meio que serviu para o conseguimento da graça da portaria, lhe serve para o indenizar de maior conhecimento: e isto não é violência? Se esta formalidade de procedimentos não é cativeiro, não pode haver coisa que mais destrua pela raiz a liberdade. Eis aqui inúteis as sábias e santas providências das leis em favor das pessoas, dos bens, das ações dos tristes Índios. Todos estes fatos são tão verdadeiramente sucedidos que provera ao Onipotente Deus, que o não fora. Eu o sei por notícia da minha experiência, e a meu pesar; e já o Padre Vieira clamou contra eles no seu voto sobredito dado aos Paulistas pelo abuso das suas consciências; e se acha o mesmo estímulo no fim da carta de 6 de abril de 1654, asseverando que só o dizer- se aos Índios do sertão que não hão de ser sujeitos aos governadores, bastará para que todos desçam com grande facilidade e se venham fazer cristãos, porque só a fama e o medo dos trabalhos, e opressões dos que governam, os detém nos seus matos, o que é coisa tão notória, como digna de se lhe por remédio. Por este título de distribuição, bem se pode dizer que são os Índios vendidos muitas vezes; porque os moradores, para os conseguirem, necessitam de premiar com regalos e donativos aos intercessores da concessão; e isto além dos salários que devem contribuir ao Índio, e tudo se deve recuperar à custa do suor, e do sangue do mesmo Índio: eis aqui o que sucede na Capitania do Rio Negro. A distribuição dos Índios serve para manter as sobreditas violências, e para estabelecer os graus da dependência, e da regalia entre aqueles que tem a seu cargo concederem Índios para os trabalhos, e para os moradores que necessitam daquele auxílio. Sendo tão odiosa a distribuição, como tenho representado por uma pequena sombra, ainda se faz mais iníqua; porque os Índios não se concedem aos moradores à proporção da sua família, da disposição da

sua agricultura, dos meios com que tem disposto as suas feitorias, e da probidade com que tratam aos Índios naquelas suas granjearias, mas sim segundo os empenhos que há para se alcançarem as portarias de concessão. Ainda no meio deste tropel de desordens, se vai encontrar com outro absurdo, e vem a ser: quando qualquer morador necessita de auxílios dos Índios, não os consegue senão depois de cansados rogos, e requerimentos, e depois de dispor os meios das intercessões, quais são os interesses que deste modo se respeitam, os públicos ou os particulares? Dos moradores, dos Índios, ou do Estado? O governador, os ministros, os cabos da tropa militar, os eclesiásticos, e moradores de consideração, ou pelos seus cargos, ou pelo seu melhor estabelecimento, todos tem Índios assiduamente para seus serviços, além dos que se empregam em obras reais: os salários tênues, os serviços indispensáveis. E serão estes os meios para se conseguir o estabelecimento, e conservação daquele Estado? E será este o modo com que devem as partes convergir para a subsistência do seu todo? São de tal maneira mal ordenados os meios, que pela distribuição se dispõe para o estabelecimento, e felicidade do Estado, que hoje em dia toda a Capitania do Rio Negro não vale quinze mil cruzados; como em outro tempo se lastimou o Padre Vieira, a respeito da Capitania do Pará, dizendo que não valia dez ( 72 ); porém que o capitão-mor Inácio do Rego, tirava por sua indústria, mais de cem mil cruzados, do sangue e suor dos Índios. Por uma parte a caridade, por outra a justiça da causa, me ensina a dizer somente, que pode ser que na dita Capitania do Rio Negro, se achem os mesmos argumentos, reservando-se para os Índios tudo o que é oneroso, e removendo-se deles tudo o que é útil. Contra estas ponderações se dirá: 1º que os Índios por sua natural constituição são indolentes, rústicos, preguiçosos, inclinados a viverem ociosos; com inconstância de caráter, e por isso necessitados a serem domados por algum freio, que os contenha em sujeição, e os obrigue a acudir ao útil, ao necessário, ao honesto; 2º, que por seu próprio bem, e para se civilizarem, e se desterrarem fundamentalmente de sua rusticidade, e dos seus antigos ritos, se faz necessária aquela espécie de constrangimento, para os conter nos limites da justiça, e não apostatarem para a idolatria; 3º, que de necessidade deve haver aquela distribuição dos Índios para os moradores, porque muitos necessitam de criado, pelas suas graduações, para se servirem, segundo a constituição da sociedade civil, que não pode subsistir sem hierarquias, e porque de outra forma se não podem estabelecer as casas, as famílias, sem auxílio para as

lavouras, e sem socorro para o giro do comércio e que esse é o direito, porque cada um é responsável, para a conservação de qualquer comunidade política. Eu vou porém responder a essas aparentes dúvidas, que no Diretório se produzem incontroversas, e com aparato de empoladas palavras para persuadir os projetos. Em quanto a primeira, os Índios não são tão rústicos e bárbaros, a exceção dos Muras, que não vivam em comunidade, respeitando a um chefe a quem obedecem, e cujas ordens executam, sem perder de vista a sua união, e a conservação da sua civil sociedade, eles tem regras, tem preceitos, tem religião, ainda que no meio das trevas da idolatria, e se conduzem pela força destas obrigações, tirados daquela independência e igualdade em que a natureza primitiva havia posto a todos os homens, e se fizeram dependentes, e sujeitos pelo direito natural das gentes ( 73 ). A única diferença que há entre eles, e nós, é que eles trabalham por conservar as suas palhoças e cabanas; assim como nós defendemos os nossos edifícios, ou ordinários, ou suntuosos. Eles vêem a sua liberdade amparada pelos seus principais, que cingem as testas de penas; como nós vemos a nossa protegida pelos príncipes, que sobre os tronos cingem coroas. Eles não conhecem os cetros, que nós distinguimos nos imperantes, mas distinguem as diferenças dos arcos, com que manejam as flechas. Enfim eles têm regras de política, e se é rústica a respeito da nossa, nem por isso se devem chamar bárbaros. Eles dão uso à razão, e são hábeis para aquelas vantagens que se tiram do comércio dos estranhos. A inconstância de que são acusados, nasce da sua sincera flexibilidade, de que os maliciosos Europeus abusam. Eles de boa fé estão prontos para crer tudo que se lhe diz, e quem é assim não necessita de rigor para ser insuportavelmente domado. O exemplo é mais suave para se imitar do que são fáceis as regras para se obedecerem. Sejam bons os Europeus, que será supérfluo o constrangimento para os Índios seguirem o útil, o honesto e o bem. Alguns há que dizem serem os Índios imbecis, e ignorantes na sua mesma rusticidade, eles certamente se enganam nessa generalidade, se é que não a fingem, para melhor poderem senhorear de todos os seus interesses. Em abono da verdade devo dizer que vi Índios muito astuciosos, muito hábeis, e com talentos para encherem todas as funções da vida civil. Na vila de Barcelos há uma Índia casada com um morador Europeu, chamado por alcunha o Gancho:

este não tem lição, posto que seja muito hábil para traficar, e ela sabe ler, escrever, contar, e tem a seu cargo o giro do comércio em uma loja de negociação, em que vende muitos gêneros de secos e molhados, além de outros efeitos que se acham nas lojas de capela desta corte.

72 É a carta de 1 de abril de 1654 no § 1

73 Burlamaq. Tom.6, cap. 1. Grot. Disc. proelim, e liv. 1, cap. 1, § 14/ Bettendorf, liv. 2, cap. 3.

Produzirei mais outro fato de que fui testemunha ocular: entre as expedições que fiz em razão do meu ofício no Rio Amazonas, estando entre as povoações de Alvarães e Fonte Boa, me apareceram duas canoas com vinte Índios, conduzidos do Rio Japurá, que tem imensas nações, e muitas riquezas de drogas e especiarias; eles vinham da sua aldeia , que estava e está nas trevas do gentilismo, e encontrando-se no rio com uma canoa pequena dos nossos, estes lhe deram parte, que eu e o visitador da igreja, andávamos por aqueles sítio em diligência de ofícios, e que os poderíamos apreender; eles apesar desta notícia nos buscaram animados, dizendo que como eles, e seus parentes nunca haviam feito mal aos brancos, que não havia razão para não terem toda a confiança e buscarem-nos. No encontro os tratei com tanto agasalho, que fazendo toda a distinção do seu principal chamado Manacapury, o festejei com dádivas, e até o recolhi comigo na mesma rede. Por fim o quis persuadir, a que descesse com a sua aldeia e vassalos, e com os de sua aliança para as nossas povoações, para se cristianizarem, e se estabelecerem com as leis de nossa sociedade; ele me fez responder com toda a prontidão, e bom discurso, que eles não deviam deixar as suas terras, onde se regiam havendo subalternos e superiores. Que eles não repugnavam a nossa amizade, mas antes a aceitavam, e prometiam dar-nos tudo, o que necessitássemos deles: que assim como nós íamos aos Javaris, e ao Mato-Grosso, que eram paragens sumamente remotas, que da mesma podíamos ir às suas povoações, donde os velhos e velhas não se queriam apartar: que eles estimavam a nossa aliança, e amizade, porque à sombra dela se fariam mais temidos, e respeitados dos seus inimigos, assim não pensa um imbecil, um rústico, um indolente, um ignorante. Não devo escusar de referir aqui um tocante e sensível fato que expõe o autor ( 74 ) da vida do Padre Vieira: partindo este zeloso missionário para a redução dos Nheengaíbas e Mamayanazes, mas temidos de todos pela sua fereza; conseguiu deles o sujeitarem-se à luz do Evangelho, e ao domínio português, e dispondo-os a jurarem pelos seus principais, o juramento de fidelidade aos reis fidelíssimos, quando o Padre lhes propôs as circunstâncias, e as cláusulas do dito juramento, todos anuíram; mas dentre eles respondeu o principal chamado Peijé, que ele não queria prometer, o que se lhe propunha, e continuou a dizer, que aquela promessa só a deviam fazer os Portugueses, e não eles; porque a sua fidelidade a el-rei, o reconhecimento de vassalos, e a aliança com os Portugueses, fora neles uma virtude tão robusta, que nunca quebrava da sua parte, que sendo os Portugueses, os que tantas vezes faltavam às leis do rei,

74 O Padre Barros, liv. 3 § 23, e expressamente § 86 e seg. pag.286.

e às do mesmo Deus que adoravam; eles deviam ser os que prometessem e jurassem. E quem

dá uma tal resposta é imbecil, é rústico, indolente e ignorante? Na história eclesiástica da América Espanhola ( 75 ) onde se vê o grande zelo do famoso Bartolomeu de Las Casas, se refere um caso, que até nutre a curiosidade, que foi mais ou menos séria: chegou um Índio a possuir uma cavalgadura, e sendo encontrado por um Espanhol em jornada, este o quis enganar, permutando, e dando em troca outra, que era de muito menos valor, e mancava. Resistia o Índio ao contrato, mas não pode resistir à violência, com que o Espanhol lhe tomou o seu bom cavalo, e lhe deu outro arruinado; como pode, foi o Índio em seu seguimento, e no primeiro povoado, chamou o Espanhol a juízo, e perante o magistral da terra. Defendeu-se o Espanhol, dizendo que o Índio era um embusteiro, rústico, e falsário, que com impostura queira possuir o cavalo que nunca fora dele. O Índio não tinha com quem provar o seu domínio, a posse e a violência do esbulho; porém incontinente passou para junto do cavalo litigioso, e com a ponta da capa lhe cobriu toda a cabeça, e propôs aos Espanhol, que visto ele dizer, que o cavalo era seu, devia plenamente saber de todas as suas circunstâncias, e que assim dissesse, e respondesse, de qual dos olhos não via o dito cavalo: hesitou o Espanhol, mas respondeu com animosidade, que era do esquerdo. Logo o Índio tirou a capa, e mostrou ao juiz a falsidade, e a calúnia do Espanhol, fazendo crer que o cavalo via bem de ambos os olhos,

e que não tinha gota serena em qualquer deles. O Índio obteve felizmente por esta astuciosa demonstração da verdade, e advogou a sua causa melhor, do que lhe advogaria um jurisconsulto das universidades de Alemanha, com todos os códigos abertos de direito; isto fez o Índio, e se dirá que é imbecil, rústico e ignorante? São imensos os fatos , que se podem produzir em prova das astuciosas idéias dos Índios e da sua habilidade, e ainda que nesta parte me vou remeter ao silêncio, não posso deixar de referir, o que procederam os Índios habitadores da Ilha de Joanes, que está situada na boca do grande Rio das Amazonas, os quais expondo-se à guerra pela cobiça dos Portugueses, deram clara idéia de seu valor, da sua destreza, e de saberem tomar as justas medidas para sua defesa, segundo a arte da guerra. Eles aproveitando-se dos inacessíveis bosques do terreno e dos muitos e cruzados rios, se espalharam por toda a extensão da ilha, dividindo as suas povoações, e pondo os seus domicílios em largas distâncias, para não serem surpreendidos por uma só invasão, e terem tempo de avisar no primeiro ataque que qualquer

75 Mr. Taron, se rite recordor, tom. 7

tivesse ( 76 ): se este procedimento é efeito de uma idéia clara e militar só o podem dizer os que bem sabem de tática, que a mim só me pertence admirar a astúcia da defessa. Estando eu em Barcelos, foram angariados pelo morador Peixoto, a instâncias minhas, uns Índios que fizeram admiração a todos, por nunca ter havido notícia de sua nação. Eles eram muito reforçados de construtura, bem feitos, e com umas barbas crescidas até os peitos; novidade estranha em todos os Índios, que ordinariamente tem a barba limpa. Habitavam no rio Branco, defronte da povoação de Barreiro, e publicamente disseram que havia entre eles a tradição de se não terem avistado com os portugueses: e que tendo notícia das crueldades e cativeiros que sobre eles obraram, se tinham espalhado e alongado suas habitações umas das outras, para evitarem surpresa de quaisquer atacantes, isto ouvi por testemunho de fato próprio. Por fim se confederaram, e prometeram vir para nós, aproveitadas as suas lavouras, e antes disso nos buscaram, trazendo um seu enfermo, para o curarmos, o qual chegado ao porto da vila de Barcelos, foi batizado, e se aproveitou da vida. Eis aqui o bom uso que eles dão aos seus conhecimentos. Os romanos se não reputaram inábeis e ignorantes, suposto que Numa, com política e indústria, os persuadisse que se comunicava com Júpiter, por meio de uma águia acostumada a comer sua orelha. Sertório praticou o mesmo com a corça, que fez embaixadora dos deuses Faunos; e os habitantes do território, não foram tidos por ignorantes, ainda que se persuadiram da impostura; assim são os Índios flexíveis, mas astuciosos. Pelo que contém a segunda dúvida, devo dizer em poucas palavras, e com evidência dos sucessos, que o rigor e o constrangimento, tão longe de está de obrigar os Índios a se civilizarem ao nosso modo, e ao nosso gesto, que por isso de nós fogem e se retiram para os matos, e ritos da idolatria. Uns após dos outros, tem buscado as brenhas para fugirem das tiranias, perdendo-se o bem temporal e espiritual, de que haviam grandes esperanças. O amor, a ternura, a piedade e o agasalho da caridade, produz muitos diversos efeitos de sorte, que nos agradecidos corações dos pobres flexíveis Índios, faz com que seja doce o mesmo cativeiro, a que se ligam como liberdade mais livre na frase do Vieira ( 77 ). Tem pois sido infinitas as deserções por aquele princípio: não só pelo que consta das repetidas leis, que se tem promulgado para atalhar aquele dano, mas também pelo que continua, e sucessivamente está acontecendo.

76 O sobredito Padre Barros, no liv. 2 §§ 1 e 2. 77 No voto sobredito § 34.

A respeito da terceira e última dúvida, também direi que é inegável deverem as partes concorrer para a conservação e aumento do todo; mas deve ser por modo, que se não destruam

a si mesmas; porque em breve tempo virão recair no todo, os efeitos da ruína respectiva. É justo

e muito necessário que os governadores, os ministros e mais pessoas de graduação, tenham Índios que os sirvam, pois segundo a física do país, e costume dos povos, não podem ter outros criados, e por estarem interessados a bem do Estado, é como causa comum, o serem providos daquele auxílio, que não só convém ao cômodo natural da conservação e sustentação da vida; mas também ao civil e político de que todo os mais dependem para a geral subsistência. Par mim, e para todos, ainda os semi-políticos, é verdade inescusável que o comércio, e a

agricultura, são as bases em que o Estado pode melhor segurar a sua conservação, e aumento; porém não por meio da distribuição, pelos inconvenientes que tenho ponderado. Desempenhem-se as leis, seja completa a liberdade dos Índios, sejam livres suas pessoas, suas ações, e os seus bens, que haverão lavouras, domicílios estabelecidos, e o comércio se exercitará, sem o descômodo, e a violência das distribuições; sem opressão, e constrangimento dos miseráveis. Por meio das distribuições, não há Índios para existirem nas povoações, e fabricarem as lavouras, que deve ser um objeto importantíssimo do Estado. Se os Índios são livres como dizem as leis, e recomendam os pontífices romanos, para que hão de ser obrigados a servir a título de distribuição? Sirvam embora, mas seja a título de convenção, e a título de alugarem as suas obras, por meio da brandura, e suavidade. Sirvam os Índios a quem quiserem, e a quem melhor lhes pagar, e melhor lhes merecer. Possam eles estipular o tempo, e acabado passarem para outro serviço, que melhor conta lhes fizer. Haja mútua correspondência,

e dependência entre os Índios, e os moradores, estes para serem bem servidos, e aqueles para

serem bem pagos, e satisfeitos nos seus salários, as justiças podem e devem conhecer das injustiças dos casos, das lesões, das obrigações, dos contratos. Assim como os moradores podem fazer os seus estabelecimentos com o socorro dos Índios, porque estes também o não farão, sendo auxiliados com os seus nacionais? Se aquelas terras primariamente são suas, e eles se podem render muitos serviços, porque não terão essa liberdade franca para enriquecerem os seus domicílios, sem o temor das portarias dos governadores, execuções dos diretores, dependências do secretário do governo, e sujeição dos validos? Todos estes naquele Estado são reputados por outros tantos régulos, ou tiranos da flexibilidade, e sujeição dos tristes Índios. Franqueando-se tudo, pagando-se exatamente, havendo amor e caridade, haverão agriculturas bem fornecidas, haverá comércio de interessante negociação; os Índios servirão aos moradores, e estes a aqueles, e tudo se dirigirá

pelas regras da igualdade, e sem sombra de violência e cativeiro que a natureza aborrece. Eu

vou dizer a razão e o modo. Os Índios por índole própria, são muito domáveis e flexíveis, de sorte que lhes custa dizer que não querem. São muito agradecidos, e estão prontos e prontíssimos para gratificarem

e servirem a quem lhes faz bem, e lhes paga. Havendo franca liberdade neste procedimento, e soltos dos ferros da distribuição, ficará também o comércio livre, e cada um pela própria indústria praticará aqueles ramos de negócio, que mais fizer conta aos seus lucros. Removida aquela espécie de tirania e de escravidão, os Índios que temerosamente vivem nos matos, e nas brenhas, soltarão o receio; uns descerão para nós pelo seu mesmo

interesse, outros nos conduzirão aqueles gêneros e drogas, de que abundam os seus vizinhos sertões, para se fazer girar o comércio; nós conseguimos as especiarias, sem tanto dispêndio, sem tanto trabalho e sem viagens tão arriscadas: o Estado se fornecerá de população, e de indivíduos, para suprirem a todos os socorros ou dos serviços particulares, ou das lavouras. Girando a correspondência por todos e sem nenhum custo, e com maravilha indizível, se verá brilhando a luz da fé, e a verdade do evangelho por todo o país, e se dilatará não só o grêmio da igreja, mas também se estenderão os limites do império português, por nós nunca dantes presenciados. Muitas e muitas leis ( 78 ) se têm promulgado, afim de que os Índios não sejam constrangidos a deixar as suas terras; quando eles não querem descer para as nossas povoações, mas estão aptos para receberem instruções, e doutrinas da cristandade, nas suas aldeias, e dizem as leis, para que se não haja de perder a sua disposição, e entrem para o número de fiéis. Outra razão de política mais persuade aquela execução, e vem a ser que eles não desconfiam da nossa amizade, conservando-se nos seus lares paternos, abrem-se os melhores canais para eles nos conduzirem às imensas riquezas, drogas, e especiarias dos seus sertões, de que eles não conhecem nem o valor, nem o merecimento; e estabelecendo-se pouco a pouco na boa fé de nossas promessas e amizade, eles serão os mesmos que queiram vir para mais perto, e para nós. Além disso o Estado não só necessita de segurar e dilatar os limites do seu domínio, mas também precisa de quem lhe comunique aquelas sobreditas drogas

e especiarias, que a natureza produz nos sertões; enquanto as mais povoações se ocupam em

outras feitorias de manteigas, óleos de copaíba, azeites de andirobas, salgas de peixes, e

muitos outros ramos de comércio, e tratos da vida humana. Para esse fim, o melhor meio é

78 Além de outras extravagantes, a provisão régia de 21 de outubro de 1652, e o que determina a lei novíssima de 6 de junho de 1755.

franquear aos mesmos Gentios que comerciem conosco, porque assim se domesticam, conhecem o bem que lhes falta, e Deus permita que a sua palavra, e o seu evangelho produza os sagrados efeitos da nova aliança, por meio dos maravilhosos prodígios, que comunica aos Sacramentos, e o merecimento da redenção: em uma palavra, todo o gentilismo é fácil de se reduzir à fé, não havendo a menor sombra de opressão, e de violência. Eu me atrevo a dizer, que assim como os cativeiros, e as opressões têm sido a causa transcendente de se não adiantar o Estado: assim também as distribuições de hoje, fazem continuar o mesmo dano; enquanto as mesmas durarem, ainda resultará outro prejuízo que logo exporei, e de gravíssima importância. Faz-se tão necessária a relaxação de semelhantes distribuições, quanto se julgou importante, a abolição das encomendas, ou administrações, que vagavam em todo o resto da América Espanhola; porque a sombra daquelas introduções, se franquearam os abusos contra a liberdade. Isto deu ocasião para que em Espanha por lei, que refere o grande Solorzano( 79 ) tratando do governo das Índias Ocidentais, se determinasse , que jamais se taxassem os serviços pessoais dos Índios, nem que fossem eles obrigados e violentados a servir em satisfação, ou dos sujeitos, ou dos cargos, ou de tributos, ou devidas contribuições. A mesma lei pondera, que suposto ser de algum descômodo para os Espanhóis, aquela restrita determinação, contudo que é de maior peso a liberdade e a conservação dos Índios. As distribuições o que podem ser senão taxar serviços, ou ir contra a vontade, dos que podem alugar as suas obras, quando quiserem, ou como quiserem? Vão os diretores para uma povoação, põe-se em ar absoluto de pequenos senhores, dão pancadas, maltratam os Índios a seu arbítrio, e sem causa; não zelam os interesses comuns dos miseráveis, são uns transgressores autorizados com o disfarce de seu cargo, para fazerem galhardia de serem prepotentes, e obedecidos: trazem com abatimento [a poz] de si, e ao mando das suas ordens, aos juízes e principais; fazem-se independentes, coonestando-se com as ordens de Sua Majestade e do governador; disputam forças com os párocos por conta das suas obrigações; nem mesmos os párocos se atrevem a ir celebrar, sem vênia, e permissão dos diretores; eles não tem outro trabalho, que estar no meio de seu comando tirano e prejudicial, e no fim se pagam com os serviços dos Índios, mandando-os violentamente, e de montão para o negócio dos remotos sertões; e para ter a sexta parte de todos os gêneros, que os mesmos Índios colhem à custa do sangue, das vidas e do suor. Que será isto se não pagar-se o mal com o bem do maior custo? Que será senão pagar com serviços pessoais, e taxados a uns ofícios que lhes são mais que inúteis?

79 Lib. 1 de Ind. Gub. Cap. 1 n.12 e 14, e cap. 2, n. 4, 8 e 9.

Espanha é uma nação civilizada , e tem na América muitas colônias, ou conquistas; porém já há muito tempo que detestou o uso das encomendas e administrações, que pela uniformidade de razão, valem quase o mesmo, que as distribuições que hoje em dia se querem autorizar naquele continente. Já o Padre Vieira cansado e zelosamente clamou ( 80 ) contra o número dos governadores ou dos que governavam, trazendo a seu propósito exemplos bem tocantes, como de se propor a Catão dois Romanos para presidirem em duas praças, e ambos lhe descontentarem; um porque nada tinha, o outro porque nada lhe bastava. Aquele missionário se afrontava com dois capitães-mores, ou governadores, que fará agora havendo tantos? Em cada

povoação um diretor, faz um governo de pequena província, e à custa da própria experiência, tenho lido com admiração a verdade, com que aquele religioso gênio falava de umas desordens, que lhes eram contemporâneas, e hoje se conhecem. Debaixo daquelas jurisdições também estavam as pregações dos missionários, fazendo- as Deus tão livres, pelo que a salvação dos Índios era tão cativa como eles; e eram os Padres afrontados e desobedecidos: isto dizia aquele Padre naquele tempo ( 81 ) e hoje em dia se notam os mesmos desacertos. E como há de o Estado felicitar-se? Vou a satisfazer a promessa que acima fiz de expor o outro prejuízo de gravíssima conseqüência, que se segue das distribuições. Já se disse que pela falta dos descimentos de Índios, para as nossas povoações, se calculava a diminuição da população, e que disto tem sido

a causa a opressão do corado cativeiro debaixo do véu da distribuição, mas supúnhamos que

apesar de todos esses obstáculos, que há meio de se fazerem descer alguns Índios, como cheguei a promover à custa da minha diligência, da minha fazenda, e de um ânimo todo católico

e cristão; quando servi o emprego de magistrado na dita Capitania: eis que a desordem e o

desamparo, e o custo é grande, porque não há roças do comum, donde se tirem mantimentos para se sustentarem os novamente descidos, e próximos a se converterem; e apesar de grandes despesas da fazenda real, que se podiam evitar, é muito pouco o aproveitamento que há, porque morrem muitos Índios, já por estarem fora do seu clima, já por não terem todo o amparo. Se os Índios não estivessem repartidos, e entranhados no negócio do sertão, haveriam lavouras chamadas do comum e de prevenção, em que eles tivessem trabalhado, e se aproveitariam todos os descimentos.

80 A carta de 4 de Abril de 1654, in princip.

81 A carta de 4 de Abril de 1654, § penult e ult e a outra de 8 de Dezembro de 1655, § 14.

Que são numerosas roças e aldeias de prevenção para os Índios que descerem, bem claramente diz o Padre Vieira ( 82 ) e o mostra a experiência, por cuja necessidade fiz propor a todas as povoações, que tivessem roças do comum, para delas se acudirem àquelas urgências. Esta minha proposta mereceu que o general do Estado, Fernando da Costa de Ataíde, por carta circular, e instrutiva de 3 de outubro de 1769, fizesse dizer aos diretores que as roças do comum não tivessem menos de duzentas braças em quadro. Não posso escusar-me de dizer em abono da verdade, que aquele governador era muito profícuo e conhecedor do bem, e dos públicos interesses do Estado, atingindo tudo por força das suas luzes, e das suas pias intenções. Uma das partes da distribuição é dirigida, como tenho muitas vezes dito, para o negócio do sertão, e recomenda o Diretório que sejam conduzidas as canoas, por cabos de conhecida fidelidade, inteireza, honra e verdade ( 83 ), e que a sua nomeação se faça pelas câmaras e principais, a contento dos Índios, e que o diretor tire exata informação ( 84 ) da chegada das canoas; se os ditos cabos foram transgressores em se utilizar dolosamente daquele negócio. Toda esta determinação é de aparato, porque pelo modo, com que aos diretores se lhes amplia a jurisdição, nem as câmaras, nem os principais nem os Índios, têm o menor voto. Os diretores e os governadores são os arbítrios [sic] daquelas nomeações e os cabos ordinariamente, ou são soldados, ou têm sido; e por vida, e por costume, excessivos no mau trato dos Índios. Antigamente no tempo dos regulares, este ofício sempre foi exercitado pelos mesmos Índios sem se admitir, estranho ou morador, e eles, não só davam conta daquelas comissões, mas até achavam abundâncias, a cujo respeito se estranham as diminuições deste tempo, como é notório; e com este argumento também se qualifica de caminho a sua capacidade e diligência do comércio. As informações que os diretores tiram, é em virtude da determinação referida, e em sua execução se lhes permite a prisão contra os delinqüentes: daqui se reconhece mais que o Diretório lhes concede jurisdição coativa, ficando de parte todos os ofícios da justiça, a quem deveria caber por a ação de direito. Pouco importa que no preâmbulo do mesmo Diretório, se considere que a jurisdição dos diretores é acessória, procuratória, diretiva e econômica ( 85 ), se efetivamente se lhes manda proceder com coação em muitos lugares, e assim o faz entender a instrução ( 86 ) sobredita ( que faz um dos ângulos da prática), a respeito dos moradores brancos,

82 A carta de 4 de Abril de 1654, §13.

83 O § 53.

84 O § 54.

85 O § 2 do Diretório se diz que os diretores não têm jurisdição coativa.

86 No § 7 da mesma instrução, a qual foi aprovada por carta régia de 7 de julho de 1757.

que casados com Índias as tratarem mal, e nesse caso se permite aos diretores castigarem a seu arbítrio pela primeira vez, e pela segunda, que os remeterá seguros ao governo. Estas contradições e misturas de jurisdição, produziram nada menos que outro fenômeno, que vou expor. Na vila de Javary, sendo diretor um alferes, fez este muitas insolências com o destino ( o que comumente acontece) de ficarem impunes, e entre elas por motivos muito particulares, sem culpa formada, sem conhecimento de causa, sem suspensão de ofício, e sem ordem superior, foi a de fazer prender ao juiz e capitão dos descimentos João Francisco da Fonseca, e juntamente lhes prendeu a mulher e filhos, dos quais alguns morreram ao desamparo na cadeia; e juntamente maltratou com um pau ao dito juiz, que por não sofrer o incômodo e a injúria, pendurada no pelourinho a vara e insígnias da jurisdição, fugiu e desamparou o sítio. Prenote[sic] que aquele injuriado era e tinha servido de importante auxílio ao país, por ser muito hábil, por ter concorrido para muitas reduções, e saber mais de oito línguas particulares de diversos idiomas de nações, por cujos serviços foi criado em capitão pelo general do Estado. Estas e semelhantes desordens não fazem demasiado espanto, porque são muito triviais nas vilas e povoações, onde alguns têm sido régulos e prepotentes, atropelando e espancando os juízes e principais, sem lhe fazer o menor remorso, nem na civilidade, nem na consciência. Não são só estes, são outros muitos os abusos. Como por meio das distribuições iam os Índios servir, de necessidade deviam ser pagos de seus competentes salários. A isto havia dado providências, a lei novíssima de 6 de junho de 1755 no § - E para que os moradores - determinando que o governador e capitão-general do Pará, convocando em junta aos ministros e letrados daquela capital, ouvindo ao governador e ministros da cidade do Maranhão, com acordo das duas respectivas câmaras, se estabelecessem os jornais e salários, que deveriam receber os Índios operários, conforme as circunstâncias das terras. Tal junta, e tal acordo nunca se praticou. A primeira determinação que houve foi feita pelo arbítrio de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, que se fez independente de adjuntos, e esta mesma prática tem seguido os mais generais, com igual independência no particular dos Índios. Daqui se seguiu pagarem-se aos Índios operários, pelo tempo de trabalhar um mês, com duas varas de algodão, que ambas importam em 300 réis, e às vezes menos. Sempre conheci grande improporção nesta pagamento, e o general Fernando da Costa de Ataíde, passou a alterá-lo por ordem que mandou à Capitania do Rio Negro, e nisso o general atual; e seria justo que tanto a respeito dos

operários, como dos artífices, se observasse o que tão sabiamente recomenda a lei para os arbitramentos, proporcionando-se com as situações e circunstâncias das terras. Enquanto a espécie dos mesmos salários, parece que o Diretório não oferece pequena dúvida, porque no § 40 diz, que fique na liberdade dos Índios, o venderem os seus frutos ou por dinheiro, ou permutá-los com fazendas; e só nos §§ anteriores recomenda ( 87 ) aos diretores que assistam às suas e semelhantes negociações para que os contratantes não abusem da ignorância dos Índios, e estes não fiquem lesados. No § 72 deixa ao arbítrio dos moradores a dita espécie explicando-se pela vontade deles quererem, ou não fazer os pagamentos em fazendas; donde se infere que podem fazer os ditos pagamentos em dinheiro.

No § 58 é muito diverso o trilho, porque encarecendo-se muito a rusticidade, e ignorância dos Índios, se diz que o tesoureiro geral, não entregue dinheiro aos Índios, o que lhes couber dos lucros do negócio do sertão por não o saberem administrar, mas sim em fazendas

de que eles necessitarem.

Esta providência de se pagarem os gêneros com fazendas, parece dirigida a interessar ao tesoureiro, que declaradamente nomeia, e abona o § 55, e a Companhia ( que já se destinava) a qual havia de perceber lucros nos gêneros que comprasse, e nas fazendas que em pagamento vendesse; e isso se mostra por ser tal a providência muito restrita, e contra o verdadeiro espírito das leis, porque bem se conhece , que só na capital do Pará, há tesoureiro

para aquela exibição: e custa a crer, que no Pará tenham os Índios inabilidade para pegar em dinheiro, e que fora de lá esteja removido o impedimento, ou que a referida determinação também compreenda os mais territórios, resistindo-lhes as espécies dos casos, e das determinações do mesmo Diretório. É verdade, o que sei por experiência, que alguns Índios são muito desinteressados; mas outros são de tal governo, que são curtos em demasia nas suas despesas; de maneira que sendo regularmente amigos da aguardente alguns vi, e tratei tão prevenidos, que só usavam dela em casos precisos, guardando-a com muita cautela, para a dar nos casos ocorrentes, e de maior necessidade; assim também a respeito do dinheiro, que com sumo zelo entesouravam. Mas como todas as dúvidas têm fácil interpretação na prática, e esta se forma de repente pela vontade dos que governam, tudo se põe de plano em execução. Não obstante isso

o Diretório ( 88 ) determina que tomados os Índios na distribuição, se depositem os seus

competentes salários em um cofre, que haverá em cada povoação; porque se os Índios faltarem

87 Nos §§ 37 e 39. 88 Desde o § 68 até o 72.

aos serviços, sejam restituídos aos moradores, aliás que eles sejam pagos daquela caução; porém como o mesmo Diretório dá causa a todas as quebras, e os executores dele não se embaraçam muito com aquela lei privativa, sucede que tal depósito se não faz. Os Índios são entregues para o trabalho dos serviços por meio das portarias, e abandonados à descrição dos moradores, não se sabe se estes excederam o semestre que o Diretório prescreve; não se sabe se os Índios foram satisfeitos de todo ou somente em parte dos salários para se acudir à sua lesão: e há na Capitania do Rio negro, um sabido axioma que como os Índios se não queixam é sinal de estarem bem satisfeitos; bem entendido que eles por gênio sofrem tudo, e de nada se queixam; e os diretores, são os que se descuidam de tudo à exceção do negócio do sertão, de que tenham utilidade, e do que pode ser descômodo dos mesmos Índios. Se os ministros intendentes dos Índios querem saber da justiça ou injustiça daqueles casos, eis que os governadores se estimulam, e não querem aquela execução, dizendo que se dirige a conhecer das suas portarias. Consistindo a formosura das leis na igualdade, se averigua que a respeito dos Índios são taxados com muita modicidade os seus salários, e tomam-se-lhes os gêneros que vão buscar ao sertão com muito trabalho, sempre pelo mesmo preço, e a Companhia que os toma, lhes altera o das suas fazendas, à proporção de seu custo, contanto que ganhem quarenta e cinco por cento, na conformidade do seu regimento. É bem certo que também à proporção da esterilidade dos anos, e da abundância de frutos, da bondade deles, ou da sua deterioração, e do trabalho, se deviam aumentar ou diminuir os seus preços, como é regra geral dos comerciantes para a boa reputação do comércio; mas como nem há lei que determine, nem no Diretório se prescreve, tudo cede em detrimento dos mesmos Índios , e contra o que em outro tempo tinha prevenido o regimento das missões ( 89 ) que se aboliu. Dir-se-á que faltando aquele negócio do sertão, e não se extraindo as suas especiarias haveriam dois prejuízos consideráveis: 1º, o não terem os Índios aqueles lucros; 2º o não haverem aqueles gêneros para se abastar e fornecer o comércio da Companhia, e passar a mesma abundância para a Europa. Enquanto à primeira parte já se acha deduzida a resposta de todo o plano desta mesma exposição; pois não pode ser sensível nem saudosa uma perda de lucros que custaram maiores trabalhos, do que são os interesses, perdendo-se ao mesmo tempo outras vantagens de muito maior consideração. Enquanto à segunda parte, devo dizer que se não houvesse aquela coação, e se não fossem obrigados e violentados os Índios a riem aos sertão, é sem dúvida e sem contestação

que muito menos especiarias teriam os da Companhia para seu comércio de Portugal; mas essa penúria só aconteceria no primeiro e segundo ano, enquanto se fizessem as lavouras industriais nas terras adjacentes, de que resultariam abundância e profusões. Além disso, quanto não é mais importante, a liberdade e a conservação dos Índios, que os interesses da Companhia? Quanto não é mais interessante, o estabelecimento firme do Estado, do que os lucros da Companhia? Quanto não é mais atendível, a causa pública de todos aqueles miseráveis, o benefício de todo o país, a sua felicidade, a sua conservação e aumento; do que os particulares avanços do comércio da Companhia? Quanto não pesa mais na balança da consciência e da religião, a redução de muitas almas para o grêmio da igreja, que está prejudicada irresarsivelmente enquanto durarem as opressões por amor do negócio da Companhia? Embora que se extraiam as drogas do sertão, mas sim por aqueles que lhe estiverem próximos e imediatos, ou por aqueles Índios e moradores, que se estabelecerem nos mesmo cacoais, e sua vizinhança. Seja-me lícito agora refletir em uma determinação expressa, que traz o Diretório no § 62, a qual é oposta a todas as luzes da razão, aos artigos de direito

público, e as mesmas leis que se publicaram a benefício dos Índios, e da sua liberdade política,

e cristã. Quer o referido § que se faça a distribuição dos Índios pelos moradores, a todo o risco,

e ainda à custa do detrimento (são palavras do Diretório), da maior utilidade dos mesmos Índios, dizendo que a causa ou necessidade comum, constitui lei superior a todos os incômodos e prejuízos particulares. Ainda qualquer mediano discurso alcança a força daquela regra exposta; mas não se poderá acomodar com a aplicação da espécie; pois prefere-se, naquele Diretório, a utilidade dos moradores a todo o risco, e detrimento dos Índios. Os Índios são os primários e naturais senhores daquelas terras, o Estado depende deles para seu aumento e conservação, eles se sujeitaram ao domínio e império português com os pactos e promessas da sua indenidade (?) e dos recíprocos interesses. Eles com independência dos moradores, podem cultivar as suas terras, e subsistirem, não assim os moradores. São considerados como miseráveis; a igreja os patrocina e protege, para se facilitar a sua redução. Agora pense-se: qual deles tem mais cabimento nas causas públicas? A quem favorecem mais a razão e o direito, ao que trata de lucro captando, ou ao que trabalha de damno vitando. A expressa lei de 6 de junho de 1755 do § - E para que os ditos Gentios - manda a todo

o custo salvar o prejuízo dos Índios, que se lhes não tomem suas terras, nem tenham moléstias, até a respeito das que houveram sido dadas a pessoas particulares em sesmarias, porque na

concessão delas se reserva sempre o prejuízo do terceiro, e que muito mais se entende, como a lei quer, e determina, a respeito do direito dos Índios primários, e naturais senhores, assim se explica aquela extravagante. O mesmo Diretório o reconhece no fim do § 80 e nos seguintes, precavendo-se com regras a introdução dos moradores entre os Índios ( que em outro tempo era vedada e defendida), afim de que os Índios não sejam prejudicados, nem tenham detrimentos, e por palavras expressivas se explica o § 81, que os moradores haviam reposto em má fé aos Índios pelas violências ( 90 ) repetidas, com que os tinham tratado, até aquele tempo, e se manda dar toda a preferência aos Índios, até para serem desapossados os moradores. Combinadas todas estas idéias, que contrariedades se não descobrem? Por isso o Diretório dá ança a que se não faça caso das opressões, e detrimento dos Índios; por isso hoje em dia concorrem as mesmas evidências que confessa aquela lei privativa. Por isso se diz naquele Estado que para os Índios pano, pão e pau: bem entendido que é mais pau do que pano e pão. As leis, a razão, as bulas e constituições apostólicas, dizem que a causa dos Índios, é a mais pública e comum ao Estado civil e eclesiástico; o diretório porém no dito § 62, e contradizendo-se a si mesmo em alguns lugares, diz que a necessidade dos lucros dos moradores, constitui artigo público, sobre os estragos dos Índios. É muito boa jurisprudência! Pois asseveram que no Estado, nem se sabe, nem se pratica outra legislação, abonando-se todas as extorsões, e ruínas dos Índios, com o sagrado nome de Sua Majestade pelo que se tem feito odioso contra as pias intenções dos senhores reis fidelíssimos. Já acima propus, que em Espanha se havia considerado por lei expressa, que era mais atendível por causa pública, a conservação e a liberdade dos Índios, contra os interesses e necessidades dos outros moradores, ou ministros, ou governadores: a experiência mostra que os seus domínios se tem felicitado. Solorzano ( 91 ) de Indiarum gubern transcreve a lei como ponderei, e este tratadista, tratando das preferências dos Índios aos moradores traz sempre em razão de decidir o salvar-se o seu prejuízo. Um dos objetos da polícia que se propõe no Diretório, para reforma do governo, e para ser bem administrada a justiça naqueles países, e serem obedecidas as leis, e civilizados os Índios com perfeito estabelecimento, é, e vem a ser: recomendar-se aos diretores, que apenas chegarem às suas povoações apliquem logo todas as providências, para que se estabeleçam casas de câmaras, e cadeias públicas. São passados mais de vinte anos, que por aquele

90 E o diz também em outros semelhantes lugares, e no § 75.

91 Lib. 1 cap. 23 ex n. 60

Diretório se esperava a beleza, e civilidade daqueles povos; a conservação daquelas casas

públicas, que são dependências dos juízes, dos vereadores e principais: mas até hoje se não tem executado tais estabelecimentos, nem se deu a providência dos meios para se construírem tais obras. Ainda que se fizessem, tudo seria inútil pelo nenhum exercício dos juízes, principais,

e camaristas; e porque os diretores têm arrogado toda a ampla jurisdição coativa, e fazem das suas casas, o cárcere, e o patíbulo dos Índios, como já ponderei. Todas e as mais felizes esperanças das utilidades, e interesses do Estado e da igreja, estavam dependentes daquelas regras, que mais facilmente promovessem as povoações dos Índios, os descimentos de seus matos, e sertões, se eles quisessem livremente descer, e

juntamente o aumentar-se o número das mesmas povoações, pelo vasto continente das Capitanias, e daquele Estado. Com este mesmo golpe de política diligência, procedendo-se licita, e honestamente se viriam a bandeiras despregadas aquelas igrejas com muitas e muitas mil almas reduzidas ao seu grêmio e seio. Isto reconheceram as leis, e o reconheceu o Diretório ( 92 ), mas a sua prática tem sido tão ineficaz, quanto se depreende, pela falta de população. Em outro tempo, para a aldeia de Mariuá, onde se acham a vila de Barcelos, e capital da Capitania de S. José do rio Negro, fez conduzir, e remover o Padre Mathias, carmelita, mais de vinte mil almas. O mesmo Padre, descendo acaso pelo Rio Negro, se encontrou com um principal daquela nação, que o levou para sua povoação, e lhe deu muito bom trato; e por tempos conseguiu o religioso, persuadi-los àquela remoção, e novo estabelecimento da aldeia. Que se podia querer de tantos Índios, senão que se conservasse a população e que se propagassem? Pelo contrário; pois quando fui servir a Sua Majestade, na dita vila se acharam somente quatrocentas e cinqüenta e quatro pessoas; se bem que no ano de 1751 com os descimentos, e com a restituição de fugidos se aumentaram ao número de quinhentas e setenta

e quatro: tudo consta das relações que conservo. A causa do abatimento, e da diminuição se

depreende, do que se acha exposto. E se a capital está nesta decadência, qual não será a das mais vilas e povoações? O Padre Vieira no seu tempo, não contentava reduzir na missão dos Nheengaíbas, que povoavam a ilha Joanes, com cem mil almas ( 93 ), e por este argumento se conhece a multidão dos que necessitam de socorro espiritual, e que podem aumentar a população. Apesar das notícias, que correm pelo país, e que levam os desertores, no tempo que servi a coroa na dita Capitania, desceram mais de três mil Índios, com os quais se forneceram algumas povoações

92 Desde o § 75, e é o § 2 do regimento das missões, e a carta régia de 1º de fevereiro de 1701.

93 O Padre Barros, liv. 5 § 53, pag. 541.

antigas, e se estabeleceram outras de novo, como foram S. Francisco Xavier de Tabatinga, Santa Isabel, Içá, Japurá, Manacaperu, Adavá, Caravina, Messerabi, Abecú, Rué, Iparaná, Azamene, nomes todos derivados das nações e principais daqueles ranchos; o que tudo contas das pias certidões, que acompanharam um requerimento meu, entregue às pias e benéficas mãos de Vossa Majestade, bem entendido, que depois da criação da dita Capitania, até o ano de minha posse, apenas desceu o pequeno número que consta da mesma certidão, e de só me lembro, como meio e argumento, para a facilidade da redução ao grêmio da igreja. Pela boa fé, que diz derramar pelos matos, se fariam mais reduções e descimentos, se houvessem os meios, e as disposições; isto é lavouras, mantimentos, casas, e juntamente s se não temesse a grande despesa, que a real fazenda vem a fazer com os prêmios, para serem aliciados os Gentios. Já ponderei os meios que fazem mais difíceis aqueles descimentos, e que por isso seria muito útil, e conveniente ao Estado, e à igreja, que os Índios se estabelecessem nas suas primeiras povoações, para conseguirmos as grandes utilidades que nos provém. Além disso é muito para notar-se, que um dos impedimentos da redução, é o mesmo descimento, porque persuadidos alguns Índios, famílias ou nações para aquele fim, eles aparecem na capital, para se segurarem dos pactos, das convenções, e promessas, que lhes fizeram os primeiros persuasores: recebem os prêmios e sustento à custa da real fazenda, prometendo descerem; mas ou descontentes do trato ( 94 ) dos compatriotas, ou iludidos com os da sua nação, que não querem deixar o seu terreno, vem a faltar; ficam com os prêmios recebidos, e a despesa se fez inutilmente. Quanto não seria conveniente permitir-se, que houvessem persuasores de probidade, e consentir-se que eles se introduzam com aquelas nações, para as reduzir à nossa união e aliança da igreja: e podem entrar nessa feliz conquista quaisquer dos moradores, ou seja Índio de capacidade, ou branco, ou mestiço; porque há muitos que têm parentes no meio do gentilismo, ou se tem ligado por casamentos, e podem com muita suavidade estudar o gênio, o caráter, o costume, e inclinações dos Índios, para serem, ou conservados nas suas ditas povoações, e se lhes fazerem os bons ofícios da nossa religião, mandando-se catequistas sacerdotes; ou para descerem para as nossas, conforme as suas disposições, conforme os nossos interesses, e conforme os que podemos extrair licitamente dos seus vizinhos sertões; sem que juntamente eles tenham detrimento nas vidas pela mudança dos climas. Ainda quando eles fiquem nos seus antigos domicílios, unindo-se e domesticando-se com o nosso trato, e

recíproco comércio, nenhuma dificuldade haverá para descerem, ou em parte, ou em todo, ou a título de se estabelecerem, ou a título de nos auxiliarem nas nossas lavouras; dependendo tudo do nosso agasalho, agrado, e boa fé das nossas promessas. Para se introduzirem aqueles persuasores com aquelas nações, pelos referidos fins, também parece que seria muito importante, que se não franqueasse essa liberdade amplamente aos que quisessem empreendê-la; senão àqueles que conseguissem licença, e permissão, à vista da sua probidade, e conhecido desempenho de zelo: contando-se por serviços as suas boas diligências, para serem premiados na forma da real grandeza de Sua Majestade; e para que de outra sorte se não introduzam indignos exemplares da corrupção, da cobiça, da ambição, e de outros fraudulentos comércios, mas sim aqueles que com boa notícia não fizessem promessas lesivas a uma, ou outra parte, e dessem boa conta dos prêmios, que deles se confiassem, e das instruções que recebessem. Este era o verdadeiro modo para se desempenhar as justíssimas e qualificadas determinações da lei novíssima de 6 de junho de 1755, afim de se propagar a fé ortodoxa; dilatar-se o domínio, desterrarem-se os bárbaros costumes, e introduzir-se a política cristã, e civil; amparar-se a economia necessária para a sustentação da vida, e para estabelecimento do útil comércio, e plantar-se eficazmente a boa moral. Quando tratei de mostrar as funestas conseqüências da distribuição, e a necessidade da população; também considerei, que os descimentos não se podiam efetuar, por uma regra tão absoluta, como se premeditava no Diretório; e propus pelo que determinam as leis que o Gentio se educasse, se amparasse e se regulasse naquelas suas mesmas povoações, e remontados sertões, que eles tenazmente não quisessem deixar ( 95 ). Este arbítrio não é meu: é sim regulado pelas providências das leis, e por experiências e fato próprio: conheço serem dignas de se executarem, abolida e removida, toda e qualquer prática contrária e ordem circular ( 96 ). A natureza por uma oculta força, persuade interiormente aos homens, a terem amor aquela sociedade: no meio da qual nasceram, e a olharem com preferência para os lares paternos, e daqui vem, que os parentes são mais apreciados que os estranhos, porque estes se apartam da comunicação das famílias, onde não pugna o vínculo do sangue e do trato.

94 O dito Barros, liv. 13. § 72, pag. 306.

95 Para este fim se deixou a escolha ao Padre Vieira, pela provisão régia, que refere o sobredito Barros, liv. 1 post.§ 104, pag. 62.

96 Consta de uma carta instrutiva circular do general do Estado de 3 de Outubro de 1769.

O nome da pátria é suave e doce, ainda que seja rústica a assistência que parece dar um segundo ser, ou uma segunda natureza. Estes sentimentos naturais também são poderosos para se insinuarem no coração dos Índios, e para os arreigar nos seus sertões. Juntamente estabelecendo-se uma povoação, se toda ela não é composta, e feita de Índios da mesma nação, há muitas diversidades que vencer. Naquela multidão do paganismo se acham diversas nações, diversas linguagens, diversos costumes diversas paixões e humores, à proporção dos diversos climas e territórios; e esta diferença de constituições, é muito dificultosa de reconciliar-se e de unir-se. Este argumento parece atendível para os Índios, se conservarem nas terras, que não quiserem deixar; aliás ajuntando-se de diversas nações, há outros tantos principais no mesmo povo, e confunde a economia do governo e das preferências. Por conta da sua natural desconfiança, os redutores se cansam muito mais, persuadindo-os a descerem, do que cristianizando-os, e civilizando-os nas suas primárias terras, e por isso de ordinário são bem sucedidos os emissários destas diligências, quando são parentes e amigos de quem muito confiam. Em todo o Estado há povoações, que na sua vizinhança tem muitas manadas de Gentios, que vivem em ranchos dependentes de redução. O lugar do Carvoeiro, que dista da vila capital de Barcelos, pouco mais de um dia de viagem, tem muitos Gentios incultos na circunferência de seus vizinhos matos, e por todas as campanhas banhadas pelo Rio Branco, em distância de poucos dias de viagem. Grande utilidade seria ampararem-se aqueles Índios, porque além de serem fertilíssimas, e vastas as margens do dito rio, e também o mesmo muito cheio de preciosidades, e riquezas por uma tradição certa. Da mesma sorte se acham muitos rios, cujas margens são habitadas por Índios reduzíveis, e são cômodas às suas mesmas povoações para serem nelas instruídos. Aquele Rio Branco, é de tanta expectação, que por força do meu natural zelo, fiz participar os seus interesses por uma conta, que dei ao general do Estado Fernando da Costa de Ataíde, o qual recomendou o seu estabelecimento, havendo moradores, que o quisessem fazer verificar, e não havendo contrárias ordens de Sua Majestade. Antigamente quando os regulares tinham debaixo da sua inspeção as temporalidades e espiritualidades dos Índios, praticavam o particular e genuíno método de se introduzirem nos ranchos, e habitações dos Gentios; e depois de estudar e sondar os gênios e os costumes, lhe facilitavam todo o uso da liberdade lícita e natural, dando-lhe uma idéia toda contrária à violência e à coação, e suavemente firmavam os seus projetos, não lhes multiplicando preceitos para lhes

evitar o desgosto, e o desenho de os quebrantar. Pouco a pouco insinuavam o útil e o honesto,

e com semelhante prudência fez grandes progressos o sobredito frei Mathias, nas redução dos

Gentios em Mariuá, e todos os mais missionários nos seus respectivos destinos. Na conformidade deste plano, isto é de conservar os Índios nas suas ( 97 )povoações, fez

o grande Vieira muitos serviços úteis a um e outro Estado, tendo e havendo ordens régias para

sua execução, a qual positiva e diretamente, faz um dos importantes benefícios do público, além de se evitar a ruína, e mortes dos Índios, sendo conduzidos a sítios estranhos, como tenho exatamente ponderado, e consta de muitas relações do continente. Em conseqüência da conservação dos mesmos Índios, haviam os regulares conseguido pelo regimento ( 98 ) das missões, que não houvessem nas suas aldeias moradores diversos, ou fossem brancos ou mamelucos, que vem a ser os nascidos de Índios e brancos. Esta odiosa separação foi abolida pelo Diretório ( 99 ), por lhe ser repugnante o princípio da civilidade, do comércio, e da boa sociedade; pois pela comunicação, e alianças, não só se exercitariam os usos bons e lícitos, reformadores da rusticidade, mas também com os exemplos de vida civil, e concertada, se desprezariam os costumes dos matos, opostos á doutrina política, e se aprenderiam todas aquelas industrias que dependem da agilidade para o mesmo comércio: é verdade que aquela lei privativa, recomenda muito a preferencia dos Índios. Tão justa e necessária determinação se faz digna de todo o apoio; porém como pode acontecer que os moradores destruam os fins, porque são admitidos, se eles forem perniciosos àquela conservação, já com a corrupção da sua moral, da sua cobiça, e ambição, já com opressões, violências, e descaminhos; nesse caso por ser tão oposto à liberdade e aproveitamento dos Índios, aprece que seria justo, que o morador compreendido nesse delito fosse expulso da povoação por ser prejudicial ao Estado, perdendo o direito que tiver adquirido às lavouras, e plantações que houvesse feito, como expressamente intima o mesmo Diretório ( 100 ) em pena dos transgressores, e só desse modo se pode observar as determinações das leis ( 101 ) municipais, e da constituição apostólica ( 102 ). O mesmo Moisés, aquele legislador inspirado, também proibiu ao seu povo a comunicação com os idólatras, rebeldes e cismáticos; posto que

97 O dito Barros, liv. 4, § 194, pag. 465. Greg. Lop assim o persuade falando dos Índios, verb - Vivir - O Padre José da Costa, Liv. 3 de procuranda Indiarum Salute cap. 8.

98 É o § 5 do regimento

99 No § 89.

100 O § 86.

101 É a lei de 4 de Março de 1696 e a de 6 de Junho de 1755.

102 É a sobredita bula já citada de benedito XIV, além de outras muitas de seus antecessores.

debaixo da política, e véu das usuras, afim de evitar os grandes danos e prejuízos, que se lhe seguia da sua alta união. À vista do expendido, parece que bem manifesta fica a pouca execução que pode ter e tem tido o diretório, por meio das contravenções, e não posso deixar de ponderar outro inconveniente que prejudica os Índios. Por ser o uso da aguardente muito nocivo se houver excesso, assim como o de qualquer bebida forte, se proibiu ( 103 ) a sua introdução, exceto nos casos de remédio, e de ser justa a sua aplicação. Por mais que se acha defendido aquele gênero, nem por isso está de todo vedado, porque a sua necessidade tem feito fácil a transgressão. Tem havido licenças dos governadores para se introduzir o dito gênero, já para os Índios quando enfermam, já pelas frialdades que participam, nadando e puxando canoas pelos rios à sirga, em cujo trabalho não tem abrigo algum de vestidos, e para se evitar que eles usem de bebidas espirituosas, extraídas das manibas que arruinam a saúde. Pelo que seria justo relaxar a proibição, e só se refreasse a abundância pelas mesmas razões que o Diretório ( 104 ) permite. Por última conclusão do Diretório se determina ( 105 ), que todas as leis e ordens se executem com muita suavidade e moderação, como são os ditames da prudência; porém não falando da prática, que toda tem sido abusiva, parece que o mesmo Diretório tem dado ança pela extensa e ilimitada jurisdição dos diretores, e para a efetiva deterioração, em que se põe aos mesmos Índios, como tenho demonstrado. Determina mais aquela lei privativa, que com muito maior razão se tratem com brandura aos Índios, que novamente descerem dos sertões, os quais por dois anos não poderão sair das suas povoações para algum serviço, na forma do regimento das missões. ( 106 ) Aquela suavidade e brandura logo desaparece, passados poucos dias, da mesma forma não dura a isenção dos serviços, porque se não observa o privilégio, antes são mandados para os serviços, e para as viagens do sertão, sem faltarem pretextos para aquelas opressões. Ora se diz que é muito oneroso à fazenda real, concorrer com despesas para aqueles novamente descidos; ora que eles mesmo querem ir ao sertão, por conta do seu comércio. Nestes termos, que roças, que lavouras, que casas podem ter feito os seus respectivos cômodos? Que doutrina cristã, que luzes do catecismo podem ter aprendido? Que amor podem eles tomar à nova vida, se os alicerces destes grandes bens, são os estímulos mais fortes do desgosto e da separação?

103 O § 40 e seg.

104 Nos §§ 41 e 42.

105 O § 94 e seg.

106 O § 13

Por esta desordem, nada conclui o Diretório no seu último parágrafo, pretendendo que

com exemplo de bom trato, dos novamente descidos, serão atraídos os que habitam as incultas

e indomésticas habitações. Por isso os Índios vivem famintos, e necessitados, sem estarem

abastecidos e fartos, por andarem sempre vagando, e sem os casados poderem sustentar os encargos de seus matrimônios, e os solteiros sem terem estabelecimento e destino para o mesmo fim. Deste erro nasce a falta de propagação, e outro mais que faz horror, e vem a ser: as casadas e solteiras, se concebem, tomam beberagens de frutas irritantes para abortarem; estas para encobrir a sua leviandade, aquelas a gravidade de seu crime na ausência dos maridos, e nestes excessos também sacrificam as vidas; e nem lá se conhecem as penas civis e eclesiásticas deste execrando delito; porque lá não se conhece, nem se admite mais leis, que o Diretório, e a prática da sobredita instrução. Numa palavra, algum dos meios úteis, que o Diretório propõe, e as sábias ilustrações, que produz a lei de 6 de junho de 1755, tudo se acha cavilado. Sou obrigado a prenotar: 1º, que sendo aquelas terras fertilíssimas, e capazes de produzir industrialmente todas as especiarias, e drogas de que é fecundo o país, e outros mais gêneros com incomparável interesse e abundância, com efeito, tem havido grande descuido na plantação do algodão, de maneira, que o Pará, e as Capitanias subordinadas, são fornecidas pelos tecidos do Maranhão. Na Capitania do Rio Negro, há um capitão engenheiro chamado Felipe Sturm, que se ofereceu a estabelecer uma fábrica de panos de algodão, dos quais se dariam aos Índios a preço de 160 rs. por vara, ou em retalho, e a 150 rs. sendo em rolo, o que seria em benefício dos ditos Índios por ser muito caro, o que se lhes introduz do Maranhão. Também se oferecia a fazer dar à provedoria toda a farinha necessária a preço de 200 rs. por alqueire, posta nos armazéns reais, ao mesmo passo que a fazenda real a pagava a 320 rs. Isto prova que com facilidade se podiam dispor às lavouras destes frutos, e daqueles materiais, havendo desvelo e zelo nas plantações. Quando dependendo os estabelecimentos particulares das povoações, de tranqüilidade,

e paz para sua interior conservação, se destrói ordinariamente aquele fim, franqueando-se aos militares a sua introdução nas mesmas, quando dispersamente vagam pela capital, vilas e lugares. Eles são uns homens ociosos, e por uma liberdade repreensiva, e licenciosa, servem de muito mau exemplo aqueles povos, que começam a estabelecer-se, e necessitam de doutrina.

Aos Índios por uma natural e positiva aversão, não podem haver homens mais odiosos que os militares; eles são reputados por uns corpos danosos ao público, pelas violências que tem praticado. Mas como os militares são necessários para muitos fins políticos, como a defesa do Estado, execução das ordens, segurança dos superiores, e para outros efeitos, eu não me desculparia de erro grande, se me lembrasse de sua total extinção. Lembra-me porém o modo de conciliar aquelas oposições, e primeiramente produzirei os sentimentos do zeloso, e discreto Padre Vieira, que propôs muitas idéias abonadas com a sua experiência, e com a autoridade real. O mesmo Padre escrevendo ( 107 ) a el-rei D. João IV, que lhe havia pedido o seu parecer se explica assim:

“Assim que, Senhor, consciência e mais consciência é o principal e único talento que se há de buscar nos que vierem governar este Estado. Se houverem dois homens de consciência, e outros que lhes sucedessem, não haveria inconvenientes em estar o governo dividido; mas se não houver mais que um, venha um que governe tudo, e trate do serviço de Deus e de Vossa Majestade; e se não houver nenhum, como até agora parece que não houve, não venha nenhum que melhor se governará o Estado, sem ele, que com ele. Se para a justiça, houver letrado reto para o político, basta a câmara; e para a guerra, um sargento-mor, e esse dos da terra, não de Elvas, nem de Flandres, porque neste Estado, tendo tantas léguas de costa, e de ilhas, e de rios abertos, não se há de defender, nem pode com fortalezas, nem com exércitos, senão com assaltos, com canoas, e principalmente, com Índios, e muitos Índios, e esta guerra só a sabem fazer os moradores, que conquistaram isto, e não os que vêm de Portugal, e bem se viu por experiência, que um governador veio de Portugal, Bento Maciel, perdeu o Maranhão; e um capitão-mor Antônio Teixeira, que cá se elegeu, o restaurou, e isto sem socorro do reino. Aqui há homens de boa qualidade, que podem governar com mais notícia, e mais temor; ainda que tratem do seu interesse, sempre será com muito maior moderação, e tudo que granjearem ficará na terra, com que ela se irá aumentando, e se desfrutarem de herdade, será como donos

e não como rendeiros

arrancada esta raiz, que é o pecado capital, e original deste Estado, cessarão todos os outros, e Deus terá mais motivos de nos fazer mercê.” Assim se conduziu o zelo daquele missionário, querendo persuadir que os governadores, e a tropa militar não eram convenientes; e em outra ( 108 ) carta anterior, já havia deliberado por igual conceito desta forma:

uma

vez que os Índios estiverem independentes dos governadores,

107 Na segunda carta de 4 de Abril de 1654 no § 4.

108 A de 2 de Maio de 1653, no § 16.

“ As causas deste dano, bem se vê que não são outras mais que a cobiça dos que governam; muitos dos quais costumam dizer que Vossa Majestade os manda cá para que se venham remediar, e pagar de seus serviços, e que eles não têm outro meio de o poder fazer senão este.” Talvez que por se engravecerem (sic) as mesmas causas, com o progresso do tempo, se expedisse a lei extravagante de 31 de Março de 1680, afim dos governadores não terem culturas, nem fábricas, nem comércio, nem cobrar dívidas alheias, nem seus criados, nem serem procuradores,; providências estas que lhe cortaram todos os vínculos da interessante e particular dependência que eles podiam ter no país. Espalhados os militares, ou junta a tropa em qualquer vila, uns com a licenciosa conduta de costumes, outros com pequenas administrações de governos, todos a se utilizarem, todos a oprimirem e a tiranizarem, não formam nada menos que os horrores, que têm sido pouco decifrados. Porém como os Índios, e até as nossas mesmas povoações são invadidas e roubadas pelos Muras, Gentio de corso, arranchados em bandos, bárbaros por constituição e de nenhuma reconciliação; por isso parece que absolutamente se não pode repelir toda a tropa, ainda que quaisquer militares com Índios auxiliares, ou moradores, fariam um corpo de sobejo, para se repelirem aquelas invasões, segurarem a defesa, escoltarem os rios, ampararem os redutores dos Índios, e seus missionários, sem haver a grande despesa dos soldos, e evitar-se aquele excesso das violências e temores dos mesmos Índios. Este meu juízo não se encaminha a que na cidade capital, não deixe de haver mais alguma tropa, donde se tirem as escoltas por destacamentos, porém pelas mais povoações mostra a experiências que se faz desnecessária e prejudicial num país, cujos estabelecimentos modernos dependem de outra física, e de outra ordem. Por todas as razões me persuado, que tenho ponderado com exatidão a situação, que teve o Estado, e a quem tem presentemente com as desordens e obstáculos, que hão impedido a felicidade progressiva daqueles domínios do império português. Ainda posso asseverar, que se não temesse ser fastidioso com a extensão, e transportar excessivamente o pio e católico coração de Vossa Majestade; seria muito mais extenso em descrever os desmanchos, e as funestas conseqüências que sofrem, e têm sofrido uns miseráveis que mudamente clamam, e pedem a Vossa Majestade socorro e amparo. A mesma igreja defensora entra nesta conta, porque sendo os príncipes soberanos, os protetores dela, e os defensores dos cânones, e constituições apostólicas, só por meio do zelo de Vossa

Majestade, do poder da coroa, e a exemplo do régio fervor, e da régia proteção, se poderão concluir, e esperar os importantes, e saudáveis fins de umas e outras utilidades. O meu respeito me está impondo e recomendando o silêncio; porém, me estou juntamente persuadindo, que não encheria em todas as funções da minha oficiosa promessa, se não delineasse um projeto para remediar aqueles males na dependência de Vossa Majestade, ou desatender por inútil, ou dar-lhe algum valor e merecimento, se as sábias luzes de Vossa Majestade o aprovarem, e vem a ser:

Sendo a agricultura e o comércio, os braços mais seguros em que descansa qualquer Estado, nenhum promete mais vantagens, que o do Pará e Maranhão, pelas fertilíssimas produções, com que a natureza paga, com muito excesso, aos trabalhos dos lavradores, e pelos muitos interesses que se acham nos incultos sertões, de especiarias, de drogas, e de outros muitos gêneros, e espécies, em que útil e curiosamente se poderia entreter e fornecer-se a história natural, a matéria médica, a botânica, e a química; cujos descobertos não são desconhecidos, não só para o lícito regalo, e conservação da vida, mas também para reparo da saúde dos povos. Descrever todo o plano daquelas fecundidades é aumentar o fastio; mas sempre direi, que tive a ventura de pôr na soberana presença de Vossa Majestade, uma descrição das viagens que se podem fazer pelo grande Rio das Amazonas, e pelos mais que lhe são aderentes e juntamente se relatavam as muitas preciosidades de que abundam os rios,. Todos esses interesses, em benefício do público, do particular, e da coroa, se não promovem pela inação do continente e pelos óbices que tenho relatado. Tudo louvavelmente se poderia conseguir e promover, dignando-se Sua Majestade

suscitar alguns arbítrios, que em outro tempo se praticaram, com muita felicidade, e que agora

se fazem conhecidamente necessários, pela presente decadência do mesmo Estado. O modo

mais oportuno é fazer praticar, literal e expressamente, as muitas leis, que desde el-rei D. João

IV

até ao tempo do augusto rei o Sr. D. José, se promulgaram a benefício dos miseráveis Índios,

e

dos imensos principados que contém aquelas terras da América; abolir-se inteiramente o

confuso Diretório, o seu sistema, e a sua prática, dar-se um novo tom ao regime de todas as Capitanias, por meio de uma junta estável e permanente, a quem Sua Majestade se digne conceder a jurisdição necessária, para a boa administração temporal e espiritual daquele continente. Desde que aquele Estado se pôs debaixo do império português, só por meio de juntas e conferências se puderam remediar os grandes males, e promover os maiores bens. Por meio

dos votos, e em congresso concorrendo sujeitos de probidade, consciência e letras se deliberam as dependências sem despotismo, com grande averiguação, com maiores conhecimentos, e sem risco de afeição a esta ou aquela parte. No tempo em que este reino esteve no domínio espanhol, se mandaram decidir vários e importantes casos do Estado da América portuguesa, por junta, ou congregação de sábios e zelosos ministros. E no governo de el-rei D. João IV, se praticou a mesma inspeção, menos por exemplo, que por se atender ao acerto e gravidade dos interesses do Estado. Concorreram para uma junta sobre a liberdade dos Índios ( 109 ) muitos lentes da universidade, e o presidente do conselho geral da inquisição, sendo a mesma presidida pelo duque de Aveiro, presidente que era então do paço. O Padre Vieira, em duas sessões advogou e propôs os argumentos da deliberação, e porque conhecia quanto era importante, que se reduzisse a subsistente aquele tribunal, representou o príncipe, que se na corte haviam tantos conselhos, onde se tratava da polícia e conveniências da vida; seria muito justo que também erigisse uma junta atual, a quem privativamente pertencesse o conhecimento de todos os interesses das missões, e para quem recorressem e apelassem os missionários. Aquele tribunal se fez estável em S. Roque ( 110 ), posto que se alterasse a sua permanência. No ano de 1686, se deu o regimento às missões, e no § 23 se prometeu dar outro à junta, donde claramente se mostra a sua existência ( 111 ). El-rei D. Pedro, não só fez comunicar as suas determinações à dita junta por cartas régias, mas também nelas declara que a junta deste reino lhe tinha proposto os requerimentos, que necessitavam da sua providência. Quando no princípio tratei do tempo deste príncipe, recopilei marginalmente os seus comandos a este respeito, que julgo não dever renovar, mas não deixarei de dizer que o autor que escreveu a vida do Padre Vieira refere ( 112 ) que até para a reposição do vigário geral do Maranhão, se fez necessária uma junta: tal é a sua dependência e necessidade, que por meio de votos se deliberaram muitos outros embaraços ( 113 ) no Pará, Maranhão e Bahia. Não se podem negar os talentos daquele religioso gênio do Padre Vieira, que mereceu pela sua reputação, e pela boa conta do seu emprego, o nome do zeloso e experimentado

109 O Padre Barros, liv. 2, § 93 e seg pag. 169

110 O Padre Barros, loc cit § 99.

111 Existia a junta, posto que o regimento do conselho ultramarino datado em 14 de Julho de 1612, contenha no § 13, e medio (?) que o conselho haja de prover o governo a bem da religião e promulgação do santo Evangelho.

112 O Padre Barros, liv. 1, § 190, pag. 104.

113 O sobredito Barros, liv. 2, § 18, pag 125 e liv. 5, § 110, pag. 574.

missionário dos Índios, e conseguiu da régia aprovação, muitos louvores nos seus arbítrios, e como se nota, além de outras, na carta régia de 12 de Maio de 1659, assinada pela rainha regente. Este missionário pois sempre pugnou pela jurisdição, e intendência da junta, como muito importante conselho para o Estado. No felicíssimo reinado do augusto rei D. João V, também se conservou nesta corte a mesma junta para conhecer de todos os negócio, e dependências das conquistas, e missões, e para imediatamente as propor à régia e soberana pessoa de Sua Majestade. Deste tribunal sempre foram ministros, sujeitos de muita autoridade, ou seculares ou eclesiásticos, ornados de virtudes, e letras, servindo alguns a coroa nos tribunais, e em

negócios forenses, de que foi presidente Gregório Pereira Fidalgo da Silveira, sendo também desembargador do paço. Como as cidades, capitais do país americano, se acham em grande distância desta corte, muito mais remotos ficam os sertões, as vilas, e povoações, que estão estabelecidas e se estabelecerem nas vastíssimas terras do seu centro; por cuja razão, faz a distância crescer os danos, e os leva a crítico ponto, a maldade por não se poderem remediar, sem que da coroa régia, vão determinadas as providências, havendo grande demora na execução. Este é o mesmo sentimento, esta é a mesma queixa do incansável Padre Vieira, pois em uma carta ( 114 ) escrita á Majestade de el-rei D. João IV, se explica por termos bem significantes, rogando que as ordens, que fossem deste reino, não se dirigissem com a cláusula de que se desse nova conta, fazendo-se o contrário, porque os recursos estavam muito distantes, e que nesse meio tempo, se perdiam muitas almas, e conclui desta forma:

“ Assim que, Senhor, não há senão isentar Vossa majestade as missões de toda a intervenção, e jurisdição dos que irão tão mal, da que não tem, e libertar Vossa Majestade aos

ministros da pregação do Evangelho, pois Deus a fez tão absoluta e livre A respeito das mesmas distâncias, e dificuldade de recursos já havia ponderado( 115 ) o mesmo Vieira, que os Índios estavam consolados e animados com acarta de Sua Majestade, que ele vertera na sua língua; e que se haviam desenganado, que a não serem remediados logo nas suas opressões, era por não chegarem aos reais ouvidos os seus clamores: e que esperavam os efeitos das promessas, tendo por certo que lhes não sucederia com elas o mesmo, que com as mais: pois as viam firmadas pela real mão. Continuou o mesmo Padre assim:

114 A primeira carta de 4 de Abril de 1654 no penult e ult.

115 O § 1 e 2 da referida carta de 4 de Abril.

“ Vossa Majestade me faz mercê dizer, que mandou se confirmassem os dispostos, contudo que de cá apontei; mas temo que aconteça ao Maranhão, o mesmo que nas enfermidades agudas, que entre as receitas e os remédios piore o enfermo que, quando se lhe vem a aplicar, é necessário que sejam outros mais eficazes.” Por isso estes inconvenientes se remediavam felizmente, estabelecendo-se nas Capitanias, juntas ou conselhos permanentes, com ampla jurisdição para dirigirem todo o bem do Estado, e estabelecimento dos Índios, pela maneira e ordem que me lembra expor; e esta foi a prática que produziu as melhores esperanças, como se colhe do regimento das missões, e pela experiência, e bons sucessos de outras vantagens do governo. O Padre Vieira, pede e roga que nas aldeias, não se ponham capitães ( 116 ), e só pelos seus principais sejam os Índios governados; e que os vice-reis e governadores se não intrometam com os Índios, que devem ser somente visitados no espiritual, pelos Padres religiosos, que os tinham a seu cargo. El-rei D. João IV, e os seus sucessores não consentiram, nem quiseram nas aldeias administradores, bem como por Castela se havia abolido semelhante administração; assim o assevera o Padre Vieira no voto dado aos Paulistas ( 117 ), e escrito na Bahia aos 2 de Julho de 1694, clamando que há naquelas administrações perigo, e ocasião moral de muitas injustiças. Os diretores, mudado o nome, são os administradores com mais ampla jurisdição, e tirado este perigo do mal, podem muito bem as juntas prevenir e acudir a todos os casos. Porque estabelecidas aquelas corporações com diárias conferências, tem remédio todos os casos ocorrentes, ou respeitem ao sacerdócio, ou o império; a mesma junta deve ser composta do prelado diocesano, do governador ou general da capital, do ministro ouvidor que também deve servir de intendente geral dos Índios, como abaixo ponderei; do juiz de fora, como presidente da câmara, do provisor, ou vigário geral do bispado, e dos prelados mores das religiões, cujos súditos tiverem a seu cargo a administração espiritual de aldeias, e Índios; bem entendido que só por moléstia, ou impedimentos naturais, poderão deixar de concorrer às conferências, e nesses termos serão admitidos os seus lugares tenentes, para que sempre concorram os pareceres para o acerto dos casos, e não haver motivo para menor prevenção. Como os párocos que vigiam, e prestam o pasto espiritual aos Índios, são, ou presbíteros seculares, ou regulares; estes devem informar, e dar contas particulares aos seus

116 No voto e parecer dado nesta corte, conformando-se com o voto do duque no § 7 e posto que não tem data, assim se acha na biblioteca real. 117 No § 32.

prelados por cujas mãos, ou canais, pode a junta instruir-se dos negócios, para sua decisiva e providencial deliberação: de maneira que nos casos espirituais, e de direitos da igreja, terá o bispo, ou prelado diocesano, o voto decisivo no caso de empate, e o general nos casos temporais, e da sua jurisdição. E para que não faça dúvida pelo concurso da junta não se estenderão, tiradas as jurisdições do governador, do prelado, porque este livremente poderá usar da sua jurisdição, necessária e voluntária na forma dos cânones, e só dependerá da junta, no que for do interesse comum dos Índios; e aquele também procederá na mesma independência, no que pertencer à milícia, moradores, e cidade, não havendo, nem dizendo o menor respeito aos Índios, porque no figurado caso de haver ou direta, ou indiretamente respeito aos Índios, e ao estabelecimento do Estado, só em junta se poderão tomar as medidas para as deliberações, e haverá um secretário, que pode ser ou do governo, ou do bispo. Como pelo direito dos mesmos Índios, deve haver quem advogue, ou procure; por isso parece indispensável, que os Índios tenham um procurador geral em cada Capitania, o qual seja de muita probidade, literatura, e mais autorizada em razão do sangue, e pelo dito ofício será isento da jurisdição dos governadores, e só dependente da junta, em tudo o que for pertencente aos mesmos Índios; e o mesmo procurador, será sempre presente na junta, como membro da corporação, com igual assento aos mais deputados, e com voto consultivo naquelas propostas, que forem feitas a requerimento seu, e decisivo nos que ocorrerem a bem do Estado. Aquele procurador porém deve ser eleito pela câmara, concorrendo os votos dos melhores do povo, sendo nomeado três, para ajunta deliberar as circunstâncias de cada um, e ser provido, o que deve ser confirmado. Todos os anos se fará nova eleição para aquele ofício, no caso da junta não confirmar ao que havia servido, sendo constante e muito notória sua probidade, e préstimo, contanto que não possa ser reconduzido por mais de três anos, sem autoridade superior de Sua Majestade. Por meio das providências que devem emanar da junta, quase que ficam cessando os ofícios da jurisdição de um intendente geral dos Índios, que separadamente há na cidade do Pará; pois reformando-se o governo, e abolindo-se o Diretório, de necessidade se dá nova forma àquela inspeção, e se faz escusado o intendente, que serviria para se disputarem as jurisdições. O mesmo ouvidor que nos correções conhece dos casos criminais, pode ser incumbido de algumas diligências, que a junta lhes cometa; e tudo concorre para que a multiplicidade de ministros, não visitem as terras com perturbações nos povos, dependentes de se estabelecerem. Ainda presentemente na Capitania do Rio Negro, se acha unida a intendência dos Índios à ouvidoria geral.

Para se poderem executar as determinações da junta, pelos ramos da sua jurisdição extensiva, e compreensiva do território respectivo; nenhum outro meio há mais proporcionado do que estabelecerem-se mesas, ou sociedades em cada uma das vilas, e das povoações para que destas saírem as representações, que a junta deve providenciar. Essas pequenas mesas devem constar, nas Capitanias subalternas, ou vilas maiores, do vigário geral ou da vara, do que tiver a seu cargo o governo político, do ministro letrado, de um principal dos Índios, do vigário que for pároco ( 118 ) na igreja respectiva, de um secretário, e de um procurador dos Índios, sendo estes três últimos eleitos e aprovados pela junta municipal. Nas vilas pequenas, ou povoações, constarão as ditas mesas do pároco, de um principal e de um secretário, e de um procurador dos Índios, nomeados estes pelas câmaras do termo, com dependência de igual aprovação da junta da Capitania respectiva. Como estas mesas são destinadas para melhor se empregarem naqueles ofícios, que os diretores haviam deturpado, parece que se deveriam chamar mesas de direção útil, econômica e civil. Elas devem ter a seu cargo, o vigiar em tudo quanto houver nas vilas, e povoações sem ação alguma para mandar, apenas para aconselharem; e logo darem parte as mesas das Capitanias, para estas prontamente determinarem a bem do público e conforme seu regimento que deve haver. Por conta das distâncias, e se poderem remediar os acasos; as mesas de pequena direção das vilas, e povoações serão sujeitas às corporações ditas das Capitanias, e umas e outras à Junta da capital do Estado. As ordens que se expedirem serão dirigidas às justiças, e câmaras para a sua execução, para se tirar às mesmas mesas, a ocasião de adulterarem a sua inspeção; e as mesas superiores darão providencia na falta, ou no excesso da execução. Umas e outras corporações terão porteiros, isto é a junta principal e as mesas das Capitanias, e também um contínuo, e um meirinho para executores das ordens particulares, ou gerais das mesmas juntas; e as mesas de pequena direção, serão só providas de um contínuo para o seu expediente: terão conferências todos os dias, e entre si fiscalizarão o necessário, e o honesto a respeito das agriculturas, do comércio, e de outros estabelecimentos, e assim também da polícia.

118 Para a doutrina ser bem produzida, e os párocos obedecidos no espiritual, se faz necessário de que os mesmos párocos tenham intendência em algumas ações temporais para que as palavras e as obras concorram ao fim de serem obedecidas e imitadas: assim recomenda o conc. Trid. Ses 6 de reform. Cap. 2 e ses. 22 de reform. Cap. 2 e o diz S. João nas palavras “Filioli nom diligamus verbo et lingua; sed opere et veritate.”

Assim como deve haver uma regular correspondência entre aquelas corporações e uma

gradual dependência das menores, para as superiores; parece indispensável, que neste reino, como em outro tempo, haja uma junta permanente, por meio da qual se comuniquem a Sua Majestade, as instantes providências, de que necessitar todo o Estado. Em outro tempo, como disse, foram deputados dela muitos religiosos ( 119 ) de autoridade, como foram Frei Manoel Leitão, provincial de S. Domingos, o venerável Padre Bartolomeu do Quintal, fundador da congregação do oratório; Frei Manoel Mascarenhas, que também havia sido provincial da sobredita ordem, e outros mais ministros autorizados.

A dita junta por ter na sua inspeção o cuidado de fazer espalhar a luz do evangelho, e

agregar fiéis à igreja, se deve denominar da propagação da fé, e para a conservação de tão louvável conquista, deve ter intendência, em toda a conquista política das missões, e do Estado, que disser respeito aos Índios; por isso parece que deve também ser composta de eclesiásticos

ilustrados em virtudes, e letras, além de outros ministros seculares, que tenham iguais atributos e zelo. O número deles deve ser de pleno arbítrio de Vossa Majestade, assim como designar - lhe procurador com voto na junta, secretário, e os mais oficiais dependentes.

O lugar para a junta, nenhum parece mais próprio que o convento de S. Francisco de

Paula, tomando-se a este santo patriarca, para protetor da mesma corporação, e de toda a sua intendência, por serem as suas principais obrigações, dirigidas pela caridade cristã, na qual virtude floresceu muito aquele santo, juntamente por ser o patrono especial da feliz sucessão, e dos gloriosos progressos de Portugal, na presença de Deus Onipotente. Não pareça fora de propósito, o ser aquele mosteiro o lugar das sessões e do congresso, porque além de muitas razões de congruências, já em outro tempo, se estabeleceu a dita junta em S. Roque ( 120 ) desta corte, e se tomou para protetor a S. Francisco Xavier, e aquele patriarca, já tem sido tomado por intercessor, para proteger as direções, agriculturas, e fábricas da comarca de Aveiro, e terras adjacentes, onde se promove a caridade política, e cristã. Vou agora tratar das providências, que podem fazer a felicidade do Estado, por termos

concisos, porque só os direitos da soberania pertence aprovar qualquer zeloso arbítrio, e compete estabelecer regimentos.

A junta deve fazer promover as agriculturas, e estabelecimentos das lavouras, e casas

dos Índios, e das povoações. Deve permitir a comunicação dos moradores, a conveniência, e a

119 Assim o atesta o padre Fr. Pedro Monteiro, da Ordem de S. Domingos, consultor do santo ofício, e pregador de sua alteza, acadêmico da academia real, e examinador Sinodal do arcebispado, e do priorado do Crato, na sua obra intitulada Claustro Dominicano in liv. da impress de Lisboa no ano de 1729.

120 Assim o assevera o Padre Barros, já cit. Liv.2,§ 99.

sua união com os mesmos Índios, e fazer repelir o que for danoso, e prejudicial àqueles miseráveis. Estabelecer as povoações, e fazer conduzir descimentos de Índios para as mesmas, se eles muito por sua livre vontade, quiserem estabelecer-se nelas. Pelo contrário, não querendo descer, se lhes regularão as aldeias, e povoações, e habitações nas mesmas terras onde eles se quiserem cristianizar, unir-se a nós, e civilizarem-se com a nossa amizade, e união dos Europeus. Em semelhantes reduções novas exatamente não permitirá, que se introduzam com os Índios, ou quaisquer Europeus, ou moradores brancos, ou mestiços, ou mamelucos, que não tiverem bons costumes, e de boa moral. Logo fará tratar de suas igrejas, provê-las de Padres, e dos mais socorros espirituais, e temporais. Fará desempenhar todos os pactos, e promessas que deverem manter a boa fé, sem lesão excessiva, e contribuição desproporcionada dos prêmios com que se devem aliciar os Índios. Terá mais a junta na sua mais séria consideração, que as aldeias, e freguesias, e povoações de Índios, sejam providas de párocos prudentes, e que lhes não falte coadjutores, sendo necessário, e se vigiará que as instruções sejam de são doutrina, e pura religião. Da mesma forma serão os missionários redutores, que houverem de se entranhar pelos sertões, a tratarem da redução do gentilismo. Pela mesma razão se examinará se quaisquer moradores quiserem persuadir Gentios à nossa união, e amizade, se eles são dignos de tão importante empresa, para se lhes dar socorro, e licença, de maneira que os ditos moradores, não desacreditem as esperanças, e sejam capazes de se conduzirem com suavidade, moderação, e brandura: de outra forma não se lhes permitirá o subirem aos remontados sertões, só compelidos pela sua cobiça, e ambição. Os missionários redutores, quando estabelecerem os tratados de paz, farão prestar juramentos de fidelidade como dantes se praticava. Introduzidos os missionários ( 121 ) nas povoações, e dos que se pretenderem reduzir, estudarão o gênio e a inclinação dos Índios, averiguarão o seu cômodo, a figura do terreno, as utilidades dele, e dos seus vizinhos sertões, para de tudo participarem à junta, e achando que é rude o descômodo da mesma assistência, sem interesse ao comércio, e a agricultura, para a subsistência dos mesmos, com permissão da junta os persuadirão suavemente, a descer para as outras nossas povoações, fazendo-lhes ver o prejuízo de umas, e as utilidades das outras.

121 O evangelho se introduzirá com toda a brandura, e mansidão, como recomendam os Padres da igreja, a respeito dos Gentios, que tem vida política, admitem razão, e guardam boa fé: assim diz Santo Ambrósio in 2 ad. Corinth.; psalm.33, vers.11. S. August. In serm, de puer. Centurionis Soloz. De jur. Indiar. Tom.1, liv. 2, cap.17, n. 1.

Para este fim a junta lhes mandará fazer roças, para serem providos de mantimentos, e domicílios para se recolherem nas descidas; e assim tudo será prevenido, para que os Índios não sofram necessidades, e moram de miséria. Para se conseguirem os felizes intentos deste plano, se faz muito importante, que para cada um dos rios naveguem duas canoas continuadamente, trazendo suficiente escolta para defesa dos Padres ( 122 ), e das pessoas de probidade, que houverem de se introduzir com os Gentios nas suas povoações, e nos interiores dos rios; e as ditas canoas navegarão até os últimos confins que puderem alcançar, introduzindo e participando a todos a segurança de nossa boa fé, por meio de embaixadas, e declarando os pactos, e promessas que da junta hão de receber por escrito, para não excederem o método. Aceitada a introdução, e confederada a povoação, poderá nela ficar um dos Padres, com algum soldado, ou Índios da sua escolta que escolher, e as canoas continuarão a sua viagem, com o mesmo destino a buscar mais reduções adoçando, e doutrinando aos que se forem confederando, como em outro tempo se praticava; os cabos, as escoltas, e esquipação de canoas, tratarão os Padres com todo o respeito, e atenção devida a seu ministério, e com eles, consultarão as viagens, derrotas, e determinações. Aqueles a quem se confiarem as canoas, ou como melhor parecer à junta, farão roteiros por diários, declarando tudo quanto se for vendo mais notável, descobrindo, e alcançando, e até examinando aqueles descobertos, que se propuserem de riquezas, minerais, de pedras preciosas, e de drogas, e especiarias, para de tudo ser instruída a junta, e se comunicar a Sua Majestade. Juntamente na mesma ocasião, em que se confederarem as nações, se irão persuadindo as plantações, e colheitas, que por meio do comércio nos podem ser úteis, e de tudo se farão assentos, bem como da receita, e despesas que se fizerem com os prêmios, ou convites dados aos reduzidos. Para se concluírem os referidos fins, se poderão as canoas demorar em qualquer paragem, e nesse meio tempo poderão aproveitar as produções úteis da natureza, que se acharem, e poderão comutar os que fizerem conta ao nosso comercio, e os Gentios quiserem vender, pois a experiência tem mostrado, que o sistema contrário de não comunicar os Gentios, não os reduz á necessidade, e a buscar o cristianismo, e pelo meio da suavidade, e da paz, será

122 Para que não haja discórdia nos missionários e Padres, concorrendo muitos, e sendo de diversas religiões, parece justo que para os distritos determinados, vão missionários da mesma Ordem, sem que uns se intrometam na divisão dos outros, como se acautela por direito canônico no capítulo pastoralis de his que fiunt. a Prelat. Para esse fim deve haver um só catecismo para não haver diversidade de partidos, à proporção dos padres, e das religiões, como na Grécia aconteceu a S. Paulo : 1 ad corinth. Cap 1 - por cuja razão Inocêncio III reescrevendo ao bispo Livouiense a esse propósito recomenda que os catequistas

infalível a sua união, pois eles também desejam ter amigos poderosos, para bem se livrarem dos Muras, que são de corso, e inimigos comuns. Enquanto os Padres, e aqueles introdutores, se demoram na conversão dos Gentios, darão parte às juntas respectivas dos seus progressos, em canoas mais pequenas, que conduzirão os gêneros, as fazendas, e frutos, que tiverem adquirido, ou pela colheita, ou pela negociação, de cuja remessa virá uma guia feita pelo cabo da canoa, e assinada por qualquer um dos Padres. Quando subirem as canoas pelos rios, se farão em distâncias proporcionadas algumas sementeiras de legumes, para no regresso se colherem os frutos, ou para a esquipação das canoas, ou para os Índios, se alguns descerem, para que estes vejam a caridade, e prevenção com que nos conduzimos. Que para se fornecerem as ditas canoas, e escoltas, são desnecessários militares, é sem controvérsia, porém como demonstramos, que havendo muitos, há também muitas desordens; por isso com o parecer do Padre Vieira ( 123 ) me parece também, que são suficientes três companhias, que se denominarão de propagação da fé; sendo os seus cabos e capitães de conhecido zelo, cristandade as quais estarão sujeitas às disposições da junta, sendo da sua ativa obrigação concorrer para defender a pregação do evangelho, e só serão sujeitas ao governador, no caso de guerra, e de ataque inimigo, ficando porém por conta dos rendimentos da junta, o pagamento dos seus soldos, e ter atenção ao seu serviço. As escoltas em justa defesa poderão atacar aos Muras, posto que se praticaram antecipadamente todos os meios de os reduzir, e feitos os prisioneiros se remeterão para a capital, para a junta proceder com eles, como pede a humanidade, e recomendam as leis. E não se perderá de vista o desinfestarem-se os mesmos rios, daqueles inimigos ( 124 ), que barbaramente se nutrem, e comem os humanos; furtam as mulheres, e filhos das outras nações para engrossarem as suas bandeiras, e vivem em ranchos dispersos, como se não tivessem chefe, ou república ao modo dos mais. Para este fim se armarão as canoas necessárias com

tragam o mesmo hábito, ainda sendo de diversas ordens, ut no cap. Deus qui

concil. limense 2 deu providências a esse respeito na 2ª parte, can. 2.

123 Na carta de 6 de Abril de 1654, § 15.

124 O gentio que vive barbaramente, deve ser compelido por força a receber pregadores da lei evangélica, os quais devem ser escoltados para terem defendidas as vidas, enquanto produzem a luz da verdade cristã:

assim discorre Soloz. De jur. Indiar. Tom. 1, liv. 7, cap. 18, n. 1 e 2. A costa liv. 2 de procuranda Indiarum Salute, cap. 8, pag. 238. Posevino in bibliotheca tom. 1, liv. 9, cap. 24, pag. 402. Torquemada, 3ª parte, liv. 18, cap. 4 é a parábola de S. Lucas, no cap 14 verb - Compelle intrare - S Augusto na 1ª carta de Bonifácio assim pensa.

de vit. de honest. der. e o

escolta suficiente, para se obrigarem por força aos ditos Índios bárbaros, na forma que prescreve a sábia lei do augusto rei D. João V, de 9 de março de 1718. Não obstante se abolir a distribuição dos Índios, mostra a experiência que não faltarão os que forem precisos para a esquipação das canoas, se eles forem tratar da redução dos outros; porque eles se oferecem voluntariamente, a ir buscar seus parentes , segundo a vizinhança dos rios donde são oriundos, e juntamente o mesmo Gentio, que se reduz, logo está pronto para dar remeiros, e outros socorros em prova de sua boa fé e amizade. Nesta forma, em muito pouco tempo se fará uma grande conversão, e por isso se tratará de lhes aplicar a instrução necessária para a política cristã, e civil, como se vai expor. O principal sistema será a suavidade, e brandura ( 125 ), e os Padres se não descuidarão de fazer todos os domingos, e dias santos as práticas doutrinais, e muito principalmente aos pequenos, já usando da língua geral, já da nossa, para que pouco a pouco fiquem bem instruídos na portuguesa; de maneira, que sabendo-a todos bem, será a dominante da nação para todas as práticas. Haverão escolas públicas para a mocidade ser instruída em ler, escreve, e contar; e as meninas se separarão dos rapazes paras as mestras, apenas tiverem nove anos. Para os mestres serão escolhidas pessoas de probidade, que também saibam doutrinar nas orações do catecismo, e não soldados que tivessem vida licenciosa, e livre; e dependerão da aprovação da junta da sua Capitania respectiva; e preferirão os párocos, querendo incumbir-se desse louvável exercício; se algum dos Padres for tão zeloso, que descobrindo talentos ( 126 ), e agilidade em algum Índio de poucos anos, o quiser ensinar as latinidades, e outras ciências, o poderá fazer, e a junta lhes louvará muito, lembrando-se desses efeitos do zelo, para o premiar. Como o modo mais evidente, e imediato que há para estabelecer a união daqueles Gentios, é fazer-lhes ver a nossa caridade, e que até eles são habilitados para os empregos civis, e eclesiásticos das mesmas povoações; se haverá muito cuidado em se prevenir, e educar desde logo aqueles Índios que tiverem boa índole, e propensão para servir a igreja. Para o que eles se entregarão às comunidades religiosas, para serem instruídos em forma de seminários, a

125 A suavidade é recomendada a respeito dos infiéis ainda quando cometem delitos gravíssimo, como se explica S. Paulo, 1ª ad corinth. Cap. 5 e S. Anselmo a este lugar. Muito principalmente a respeito das convertidas, posto que tenham afinco aos seus ritos, os quais se devem permitir não sendo oposta diametralmente a nossa religião: assim pensa Beda, liv. De temperat., cap. 10, Baron no Martirolog. Aos 2 de Agosto, onde se permitiu aos Romanos os anfiteatros, que se consagravam ao nascimento de Cláudio, e ao templo de Marte, batizando-se solenemente em honra do apóstolo S. Pedro nas prisões; o mesmo se praticou a respeito dos Biturecenses, como refere Mornacio in. Fin. Cod. De paganis.

126 Assim pondera Torquemada no liv. 2 da Monarquia Indiana, cap. 19. Por ser o arbítrio de ensinar o vínculo mais forte para ligar a união entre os mestres que ensinam, e os discípulos e os pais destes.

expensas da junta, e como recomenda a assembléia dos Padres em Trento ( 127 ), e encarrega muito aos prelados. Desta forma nascerá uma santa emulação naqueles fiéis para a geral conversão, se houverem sacerdotes ( 128 ) da sua mesma nação que promovam a redução, já pela obrigação da profissão, já pelo maior conhecimento que tem adquirido para salvarem do abismo aos seus conaturais. Já na cidade do Pará chegou a ser sacerdote, e cura, um Índio, filho da Índia Mariana Pinta, a quem os Jesuítas instruíram, e insinuaram até o chegarem ao altar, e não só se aproveitaram os seus talentos, mas aqueles Padres beneficiaram aquela tenra planta, em gratidão dos muitos socorros, e alimentos da vida que o Padre Vieira deveu para Índia sua mãe, acima referida, quando os povos se puseram em sítio o dito Padre, e aterravam a mesma Índia para que o não socorresse, o que praticou com fidelidade rara apesar de todos os ameaços ( 129 ); daqui a conclusão de que eles são hábeis e fiéis. Nas casas religiosas donde houverem de sair os missionários, para conversão dos Gentios, haverão todos os dias conferências, e práticas da língua geral dos Índios; pois sem este socorro preliminar, se não pode empreender aquela agregação de fiéis; e ás mesmas louváveis palestras, poderão ir os sacerdotes seculares, que forem inspirados do mesmo espírito, a prenderem aquele idioma, de que se necessita para a administração dos Sacramentos, e para a redução do Gentio( 130 ). Para haverem operários nesta grande vinha do Senhor, comunicará a junta da capital, à deste reino, a situação, e dependência deles, para que se haja de representar a Sua Majestade, o meio tão interessante daquele provimento, ou mandando-se missionários zelosos das muitas ordens monásticas deste reino, para desse modo serem úteis ao Estado e à igreja, ou mandando-se vir da Itália, ou qualquer outro país, sacerdotes dignos, como têm ido à China, ao Japão e à Índia.

127 O con. Trident. Sessão 23 de reformat. cap. 18

128 Para o fim de serem os Índios promovidos a sacerdócio, lhes não pode obstar razão alguma como Solorz. Liv. 4, cap. 20 da sua política; e para serem dispensados na ilegitimidade têm os Bispos todo o poder contra o direito comum na forma da bula de Greg. XIII, e de Pio V que refer D. Afonso Montenegro, Bispo de Quito, no seu itinerário para os párocos de Índios, liv. 3, tract. 7. Ses. 1, n. 10 e ses. 2, n. 1.

129 O Padre Barros, liv. 3, § 117 e seg. , pag. 327. Que os Índios não devem ser excluídos dos curatos, benefícios e dignidades, assim o refer o conc. Provinc. Mexican., como refere o sobredito Montenegro, liv. 5, tract. 1, ses. 10, n. 8 por não serem os Índios reputados neófitos: Solorz. Polit. Ind. Liv. 2, cap. 29, pag 242, colum. 1 e o persuade o direito canônico, no cap. fin. de cleric. peregrin.

130 Os curas e missionários devem saber a língua do país para bem exercitar os seus ofícios. Conc. Limens. Celebrado em 1583, ses. 2, Cap. 13.

As mesmas juntas escolherão os missionários mais aptos, para os encarregar do exercício da missão, havendo as informações, e votos dos seus prelados. Porque sucederá muitas vezes que para se extraírem as drogas do sertão, se entranhem nele alguns moradores, Índios, ou como auxiliadores, ou como salariados, e demorando-se nestas viagens muitos meses, vivem desamparados de todo o pasto espiritual, incumbirá a junta aos Padres, que viajarem pelos rios nas canoas de defesa, e de redução, que apascentem as sobreditas ovelhas, ainda que seja à custa de demora de poucos dias, afim de as doutrinar, e lhes dizer missa nos dias de guarda, e de lhes participar os verdadeiros princípios para o temor de Deus. Para que os Índios, e moradores que caírem na indigência, por excesso de anos, possam ter algum socorro nas esmolas de seus párocos, segundo os ofícios da caridade, e da hospitalidade, a junta lhes fará assinar papéis [papáes] as suas igrejas, e freguesias para logradouro e beneficio dos mesmos párocos; atendendo-se à tenuidade de suas côngruas e para que os cultivem, e tenham da mesma igreja o sustento para a vida, já que trabalham nos interesses da alma dos seus fregueses e paroquianos. Os mesmos párocos serão incumbidos de zelarem e promoverem o bom curativo dos Índios nas suas enfermidades, e se eles não tiverem com que se curem, já pelo que lhes incumbem os cânones, e constituições apostólicas, e já pelas providências, que dará a junta a semelhantes desamparos; serão os mediatos enfermeiros de suas moléstias angariando, e mandando servi-los em tão urgente necessidade, e se os enfermos não tiverem famílias, isto afim de se evitar que os Índios pereçam á necessidade, como sucede continuamente, só assistidos de algum lume debaixo de uma rede, sem sustento, sem remédio, e sem medicina:

que lastimosa situação! Como os párocos não tenham ordinariamente naquele país e pelas povoações do sertão, esmolas, ou honorários das missas, e as que dizem nos domingos e dias santos, devem ser pro Populo, na conformidade de uma constituição apostólica; por isso a junta terá cuidado de regular a competente côngrua dos mesmos, conforme as circunstâncias do tempo, e do lugar; para que hajam operários, e eles se animem a encher as funções do ofício paroquial sem indigência ou necessidade. Além do referido, as juntas farão prover aos missionários de todo o viático necessário, e juntamente de todas as providências para a celebração dos divinos ofícios, tanto nas viagens, como nas novas introduções, e povoações que se estabelecerem; e assim também do que for necessário para as igrejas das freguesias estabelecidas.

As igrejas que se erigirem, devem ser entre tantos,, e tais números de moradores, que os sacerdotes possam acudir a todos, para administração dos Sacramentos, e os mesmos Índios possam assistir-lhes à missa conventual, sem a menor escusa, e nunca será antes da hora certa, e muito competente. Vigiará a junta que os Índios sejam permanentes nas ladeias, e povoações, e que não sejam tirados delas, e das suas lavouras contra a vontade. Sendo abolida a lei de distribuição, por ser oposta à liberdade, poderão os moradores, ou quaisquer outros aliciar, ajustar, e concertar-se com os Índios, para pagar-lhes os serviços, que lhes fizerem, ou sejam domésticos, ou braçais de lavouras, e obras artificiais, e mecânica; contanto que as povoações fiquem

sempre amparadas, e os casados não poderão deixar as suas agriculturas por mais de dois meses sucessivos, salvo a benefício das reduções. No caso de haverem alguns Índios que por largo tempo, e por módicas gratificações, queiram estar com algumas famílias, em remuneração de outros bons ofícios, que tenham recebido, e muito por sua livre vontade, sem constrangimento, nem sedução: nesses termos poderão os Índios dispor de suas obras, e muito principalmente se uns e outros forem parentes entre si, e tiverem amor recíproco, e lícito por se esse um cativeiro doce ( 131 ), e liberdade muito livre; nesse caso poderão tratar-se com mútua dependência: os moradores tratando bem aos Índios, e estes podendo deixar os amos, todas as vezes que lhes parecerem ingratos. Se alguns dos Índios forem tão arreigados na ociosidade, que nem à vista do próprio interesse queiram tratar de suas lavouras, e estabelecimentos, serão obrigados os principais a destiná-los para o exercício de servirem aos moradores, ou quaisquer outras famílias por salário; bem entendido que o Índio escolherá a quem deva servir. E os que não tiverem tais estímulos de fazerem roças, e industriarem os seus prédios rústicos, serão os primeiros que devam ser destinados para os trabalhos do conselho, e do público; isto afim de se evitarem vadios. As juntas, ouvidas as câmaras, farão taxar os salários que devem ter os serviços pessoais, e braçais, domésticos, e artificiais, segundo a situação e física doas terras, pelo modo,

e forma, que determinam as leis que se promulgaram com esse objeto; atendendo-se aqueles serviços que se aumentam, quando se trabalha de dia e de noite. O pagamento dos sobreditos salários deve ser, ou em dinheiro, sendo o Índio capaz de

o administrar, ou em pano de algodão, ou em linho, ou em droguete, ou em baetas, ou em

camelões,; e todos os mais gêneros tecidos de algodão, linho, lã, que se fabricarem neste reino;

131 Assim pensou o padre Vieira no voto sobredito aos paulistas no § 36.

e não menos em instrumento de ferro, e aço para aplicação das lavouras, e manobras dos

operários artífices. Parece justo, e importante que se ratifique a extravagante de 28 de Setembro de 1688 e

a de 9 de Agosto de 1686, esta proibindo os panos, e aquela os droguetes, forasteiros ( 132 ),

porque por esse meio, se fará grosso o ramo do comércio de algodões, e lãs, que pode produzir

o continente da América, para fornecer as fábricas deste reino; e crescerá a abundância à

proporção do consumo, e extração daquele material nas manufaturas. Por esta razão deve a junta fazer promover com todo o cuidado, a agricultura do algodão, e a propagação do gado lanígero, nas campanhas que tiverem para isso capacidade; afim de haverem aqueles gêneros para o tráfico da negociação. E como a mesma junta deverá ter um almoxarife, como abaixo se dirá, este se encarregará daqueles materiais, como lhe for mais cômodo, e fácil para neste reino mandar fazer os tecidos, que se necessitarem para as despesas, prêmios, convites, e outras mais providências, destinadas pela mesma junta. Para melhor se firmarem os interesses do comércio, não só poder-se-á livremente ir aos sertões vizinhos extrair drogas, e especiarias; mas também a mesma junta patrocinará aquele negócio, que o Gentio quiser fazer girar, com as nações já civilizadas nas povoações; pois além do interesse do dito comércio se facilitam os meios de se avizinhar o Gentio, e de se reduzir á fé, sem maior despesa e trabalho. Contanto porém, que aquela comunicação, e comutação de gêneros, e comestíveis, se fará debaixo da inspeção do principal da aldeia civilizada, e de qualquer deputado das mesas pequenas da direção. Nessa ocasião serão tratados os Índios com toda afeição, e socorros da hospitalidade, sem a menor quebra dos direitos da boa fé, e assim se apagará o temor, e horror, que tinham feito grassar as violências antigas, permitindo-se a comunicação franca. O melhor método de fazer girar o comércio, não obstante as distâncias, e de se socorrerem mutuamente os povos, é o uso das feiras; por isso a junta as estabelecerá de mantimentos, e gêneros de que se puderem fornecer os Índios, não só para o necessário da vida, mas também para os vestidos do seu uso, e instrumentos dos seus trabalhos, e a dita junta determinará os lugares, e os intervalos dos tempos a propósito do que julgar atendível. Nas feiras poderão os Índios traficar por meio de compras, de vendas, e de permutações e para não serem danificados, sob pena de nulidade de contrato, lhes assistirá a eles o seu procurador respectivo.

132 Estas leis foram remetidas pelo tratado, feito entre a rainha da Grã-Bretanha e este reino em Dezembro de 1763.

Assim como pela lei pátria se obriga a haverem regatões para a corte; também a dita junta poderá obrigar a mercadores comerciantes, a fazerem girar o negócio pelas mesmas feiras. E por conta do comum, isto é, dos gêneros que a junta se tem fornecido; haverão também lojas, de que se há de encarregar um almoxarife da junta, não só para as feiras, e mercados sobreditos, mas também para estarem divididas pelas povoações, conforme as medidas que se tomarem para franqueza do negócio, atração do Gentio, e melhor se desempenhar a boa fé, e a justiça nas comutações. Nas mesmas feiras, ou praças públicas se poderão alugar( 133 ) os Índios, e ajustarem-se as convenções sobre as obras dos mesmos para os trabalhos, e artifícios, assistindo-lhes o seu procurador respectivo, sendo todas as medidas do tempo, e lugar arbitradas pela junta da capital. Como das povoações sairão muitos redutores, e nelas se fará comércio com os Gentios, por estes canais muito facilmente se saberá quando estarão Índios presos a corda, para serem desumanamente comidos por outros, que barbaramente conservam entre os cruéis costumes aquele abuso. Nesse caso a junta fará expedir o remédio pela providência seguinte:

Mandará missionários bem escoltados a persuadirem aqueles miseráveis, e a desabusá- los de semelhante desumanidade, para que por meio da razão, e da doutrina os convença a ceder das presas, e da tirania, e se brandamente a força de rogos não quiserem, poderão persuadi-los, dando-lhe alguns prêmios de muito pouca consideração daqueles que pela cor, ou pelo luzimento, são capazes de lhes alucinar a imaginação, para permutarem com os ditos Índios prisionados. Se porém esta contribuição os atrair a continuarem no tráfico, serão por força obrigados a evacuar o terreno, e serem trazidos para as nossas povoações, de modo que a lei determina e manda proceder com estes bárbaros. Com as presas se procederá com toda a caridade, afim de se unirem à nossa crença. Estes e outros sucessos notáveis serão escritos em um livro, que terão a seu cargo, as mesas pequenas da direção respectiva; e juntamente lançarão os movimentos, e proveitos, que se houverem feito, para de tudo se dar cópia a junta, com uma lista dos indivíduos que houverem na povoação. Pelo relatório dos sucessos do Estado, se alcança de plano que as justiças, e principais das aldeias, câmaras, e juízes, é que devem ter a seu cargo, o governo subalterno das suas povoações; e a mesa pequena da direção servir-lhe-á de assessores para os acertos, e promotores para insinuar o bem, e fiscalizar o mal; sendo o pároco, e deputados uns olheiros de tudo o que se obrar, para informar como já disse, aos superiores.

Se algum Índio se achar criminoso, e for grande, e capital a sua culpa, que não deve ficar impune, se lhe fará o processo pelos juízes, e havida a informação do principal, e da mesa pequena da direção, se remeterá o instrumento com o réu, á junta das justiças que se forma na cidade capital; no caso porém de correção, ou de qualquer grave advertência, ou castigos, nunca os Portugueses, serão os executores, para não serem odiosos ao resto dos Índios, ignorantes da força das leis; mas sim os principais serão os juízes da execução, e em todo o caso haverá toda a comiseração, que permitir a justiça; e assim o deve ficar entendendo o ouvidor geral que na razão de intendente dos Índios é seu juiz privativo. Se falecer algum principal sem sucessores da sua geração que possam pretender aquele ofício, e que tenham direito a ele; se fará eleição por votos, a que presidirão os juízes, com os vereadores da câmara, e a mesa de direção, e todos informarão com a resulta á junta principal, para provimento, e investidura do cargo. No caso porém de vagar algum principal, havendo na povoação outros de outras nações, se agregarão os dependentes ao principal mais antigo; bem entendido que assim sucederá, não havendo, ou acabando a geração do principal falecido, como acima se expôs. Desde as primeiras linhas com que me dirigi na fiel demonstração dos fatos, dos sucessos e das providências das leis; fiz uma exata prova de que o concurso dos militares era pernicioso ao Estado; pelo que tirando-se de todas as guarnições das capitais, as companhias que devem ser da propagação da fé, pareceria justo, que só na cidade capital residissem os restos dos regimentos, para se fazerem deles os destacamentos precisos, e os provimentos para algumas fortificações; isto na conformidade que aprovar a junta das missões, porque todas as vezes que à mesma junta parecer, que se devem licenciar os soldados, serão com efeito relaxados da sua praça, conservando-se somente aquele número de companhias, que forem muito necessárias para a cidade capital e para os limites confinantes. Neste termos em conseqüência, que nos governos subalternos se faz muito desnecessária a tropa, com quem consome inutilmente uma grande despesa à real fazenda e da mesma sorte os governadores, que vão deste reino.; porque sendo o primeiro objeto, a felicidade do Estado, este mais se arruina por aquelas mãos, do que se adianta, como claramente demonstrei. Seria muito conveniente que os ditos governos os entregassem aos mestres de campo, ou a quaisquer outros de patentes maiores, que residem no Estado e com amor ao terreno: bem entendido, que só se poderá servir o dito governador de auxiliares em casos que ocorrerem.

E como os ditos oficiais são subalternos, e sujeitos ao general, se encarreguem dos

governos para os exercitar, não como de antes, mas conforme as determinações do mesmo general, e da junta nas circunstâncias das inspeções. Em resulta de tudo, nenhum militar poderá residir, e estar no ofício da milícia em qualquer das aldeias, à exceção de viajarem escoltando

as canoas, e Padres missionários, que passarem para as reduções.

A capital da Capitania de S. José do rio Negro é a vila de Barcelos, a qual está situada

muito acima do Rio Amazonas, dependendo de socorros para sustento da vida, que os Índios em canoas vão buscar, com a despesa de um mês, por cuja causa há uma feitoria atual de pesqueiro, para a tropa no dito Rio Amazonas, por ser do dito Rio Negro muito estéril, e as suas

terras de menos produção cujas despesas não fazem luzir os trabalhos. A capitania se erigiu por lei de 3 de março de 1755, que destinava diverso estabelecimento no Rio Javary; porém mudou-se o projeto pelo general que então era Francisco Xavier de Mendonça Furtado, o qual mal persuadido da abundância da aldeia, chamada Mariuá,

voltou para ela aquele destino da lei, fazendo-se continuar até agora o descômodo de se povoar

o Rio Negro, menos importante que o Amazonas, e sem abundância para fornecer os

estabelecimentos, que se podiam fazer com melhores vantagens neste Rio. Se for do agrado de Sua Majestade, parece que seria justo cometer-se à junta, o conhecimento dessa utilidade, para haver de se executar a referida lei, ou conservar-se a dita Capitania em Barcelos, como for mais

interessante ao Estado. Se para executarem as sobreditas providências, e outras muitas adições, são necessárias as referidas corporações das juntas, uma em Pará, outra em Maranhão, outra superior neste reino; é bem certo que não podem subsistir sem fundo, e rendas para as muitas e muitas despesas, que pedem os sobreditos desenhos, para a felicidade do Estado, e para se encherem todos os expedientes e juntamente para as côngruas ordinárias dos mesmos deputados afim de que não trabalhem somente sem prêmio, e se podem derivar da forma seguinte:

Cessando o Diretório, cessam por conseqüência os diretores, e cabos das canoas do comércio, e tesoureiro geral dos Índios, que reside no Pará, e conseguintemente (sic), acrescem os lucros, que os mesmos percebiam, que importam em quatorze por cento, como acima ponderei, de todos os gêneros, que os Índios colhem, e negociam, exceto dos comestíveis que percebem das suas lavouras, e estes ditos quatorze por cento devem ser aplicados para as despesas da junta. E por ser esta contribuição muito praticada, não pode parecer inovação, nem

tributo( 134 ), muito principalmente quando se dirige para dar um novo balanço às evidentes utilidades do Estado, aumento, e conservação dos interesses públicos e particulares. Esta mesma imposição deve ser inalterável a respeito de todos os frutos, e gêneros, que perceberem, ou traficarem os moradores brancos, pois sendo-lhes recíprocas, e comunicáveis as mesmas utilidades por terem Índios apara as suas agriculturas: franquear-se-lhes o comércio, desinfestar-se-lhes os rios, e oferecer-se-lhes muitos outros meios para os seus interesses que lucram, e tiram de umas terras que originariamente não lhes são próprias, por isso devem ter a mesma contribuição, e as que forem desta qualidade se devem recolher em um cofre. Como a junta tem na sua inspeção a propagação da fé, a redução do gentilismo, e outro socorros àqueles miseráveis, segundo pede a caridade cristã, por isso se faz muito atendível, e natural, que por conta desta corporação, fique o perceber as esmolas das bulas da cruzada, para se aplicar o seu produto aos santos, e louváveis fins, que a mesma concessão da indulgência considera, e destina, para o que deve haver outro cofre para guarda daquela importância, e a mesma junta, com as mesas de direção, conspirarão para que efetivamente não deixem todos de tomar as ditas bulas, cujas resultas se remeterão para a capital, por conta das ditas mesas de direção. Sendo a dita junta inspetora sobre a educação da mocidade Indiana, e devendo proteger a mesma, já em seminários próprios, já em agregação às comunidades, para que são indispensáveis as despesas com mestres, e seminaristas; parece muito atendível, e justo que se lhe agregue a inspeção de todas as escolas; pois também as deve fazer praticar nas povoações, por isso se lhe deve fazer união do rendimento do subsídio literário, para ser pela mesma junta administrada a sua importância, que também se guardará em cofre diverso. A junta pela geral inspeção dos Índios, e de seus interesses comuns, e particulares, há de precisamente ter o cuidado de fazer pagar as côngruas dos párocos, fornecer o viático, ou guisamentos das igrejas, e prontificar-lhes os ornamentos, que devem fazer o decente, e decoroso culto divino dos templos, e da religião; por isso pela sua mesma inspeção, se deve fazer cobrar, e arrecadar os dízimos eclesiásticos, por serem destinados em todo o direito para aqueles socorros, e unidos à coroa pela ordem de Cristo, sem perderem a constituição de sua índole, muito principalmente tendo, e devendo ter a junta a seu cuidado, o prover as fábricas das ditas igrejas, ministros coadjutores para as mesmas, a acudir aos doentes, e peregrinos, como pedem as leis da caridade, e hospitalidade, na forma da verdadeira, e sempre usada

134 Assim praticou Espanha por I. que refere Solorz. de Indiar. guber. Liv. 1, cap. 1, n. 12.

disciplina da igreja, nos primeiros séculos, e determinações de concílios: toda esta importância se deve recolher a outro cofre. E como se mostra que devem haver quatro cofres: o 1º se chamará da contribuição; o 2º se denominará do rendimento da bula; o 3º o título do subsídio literário; e o 4º dos dízimos. Cada um destes cofres terá três chaves, a respeito das quais se guardará a mesma ordem que se observa nos da fazenda real e para a arrecadação, receita e despesa, se contemplarão os mesmos oficiais. Nem pelas determinações consideradas, se entenderá que a provedoria não deve ter cofre, para a sua respectiva arrecadação dos direitos, que lhes pertencem, e para aplicação do seu produto, na forma das ordens reais; porque com efeito deve continuar a sua inspeção, bem como se dirigia até agora pela junta da fazenda, e dela somente se tiram os dízimos, que devem ser aplicados pela junta da propagação da fé. Pelo que no caso das despesas da provedoria, excederam a receita da importância, e rendimentos que tem em outros direitos,; poderá o provedor representar a junta por escrito, aquela falta, e a necessidade da despesa, para se deliberar o pagamento, por conta dos dízimos; bem entendido, que como a junta toma a seu cargo todas as despesas, que a provedoria em outro tempo fazia com os Índios; lhe pertence zelar a aplicação do dito cofre, cabendo na razão do rendimento da dita provedoria a distribuição das outras despesas, que lhe eram dantes respectivas. Todos os anos se remeterão mapas, e listas, com receita, e despesa separadamente de cada um dos cofres, para serem apresentadas a Sua Majestade pela junta deste reino: e serão remetidas outras ao real erário para Sua Majestade conhecer da situação em que se acharem os interesses daquele Estado. Já acima se ponderou que as canoas que vagarem pelos rios, nas derrotas da redução, poderiam fazer colheitas, e aproveitar as drogas e especiarias dos sertões, a que se avizinharem; e que os ditos gêneros devem ser remetidos à junta que há de determinar a sua extração, por lhe pertencer em razão das grandes despesa, que a mesma fará com aquelas expedições, e por dever pagar aquelas companhias, e tropa de soldados, que se hão de denominar da propagação da fé, na diligência de escoltar as mesmas canoas, para a introdução dos Padres. Nesta conformidade deve ter a junta um almoxarife, para recebedor dos gêneros daquela importância; dando a junta todas as providências e por conta do mesmo se farão providenciar as introduções daqueles gêneros que hão de ser negociados nas feiras, ou

mercados sobreditos, e nas lojas, que se hão de distribuir pelas povoações: bem entendido que os procuradores hão de conspirar para o zelo, e benefício de tudo, e juntamente tratarem de vigiar pela boa economia e boa aplicação das aguardentes que se introduzirem nas povoações; tudo como a junta determinar e prescrever. A junta não poderá conduzir seus premeditados meios, para se chegar aos fins de suas bem fundadas esperanças, sem fornecer um armazém de fazendas, e gêneros necessários, segundo os sortimentos, que forem conducentes, já para o pagamento dos salários, já para os prêmios, e convites aliciadores dos Índios reduzíveis. E para se facilitar esta despesa se poderão mandar buscar a este reino, por via do procurador geral, que receberá os avisos e insinuações das juntas daquele Estado para fazer as remessas ao dito almoxarife. O dito procurador geral, que deve ser membro da junta deste reino, poderá receber todos os gêneros, que se remeterem daquele Estado, para os mandar beneficiar nas fábricas, e fazê-los negociar, como for conveniente; escolhendo com a provisão da junta superior um negociante de probidade, para ser o comissário de todo o tráfico, ou para fazer vender em laços, com assistência do procurador geral, ou para s fazer comutar, ou para as fazer manufaturar, na forma dos avisos; e de tudo será ciente a junta superior, para aprovar aquelas diligências, e dar os arbítrios necessários. Para se animar toda esta produção, e não haver a menor falta no giro deste abastecimento pareceria justo que Sua Majestade por sua real grandeza, lhes privilegiasse nas alfândegas os gêneros, que fossem mandados pelas juntas do Estado, e remetidos pela deste reino.

Sendo presente a Sua Majestade a situação da receita, e despesa, que hão de ter as juntas, e não menos a resultância, e lucros que hão de tirar daquela comutação, e negócio, será muito mais fácil compreender-se quais sejam os remanescentes de todos os cofres, e da dita negociação. E à proporção dos estabelecimentos, das reduções, das lavouras, e do comércio, se irá sensivelmente adiantando os interesses do Estado, e diminuindo-se as despesas. Por cuja razão, certificando-se Sua Majestade do cálculo daquelas aplicações, poderá mandar recolher para seu régio erário o remanescente, e dar-lhe aquela aplicação que bem parecer á sua real soberania. Aos deputados das juntas das capitais do Estado, se lhe devem conferir ordenados, pela medida do arbítrio de Sua Majestade, atendendo-se á graduação do general, e do bispo, que parece não devem exceder, a quantia de cinqüenta moedas por ano; aos ministros porém, e vigário geral, com mais modificação; e aos prelados religiosos, por terem casas das suas

comunidades, e serem considerados os ditos ordenados como esmolas, em razão de seus institutos monásticos, se lhes deve contribuir com outra modificação. Enquanto porém ao secretário, procurador, e almoxarife em razão de terem mais trabalho, e não terem emolumentos ( que os não devem haver nos dispostos dos Índios) parece que os ordenados se devem alterar. No que respeita aos deputados da junta deste reino, terão maiores ordenados, considerando-se porém aos que receberem por outros empregos, para haver uma justa modificação; e da mesma forma acerca dos deputados religiosos, procurador, secretário, e comissário acima ponderado. E como para este reino hão de ser remetidos os gêneros para se traficarem: por conta deles se tirarão as importâncias que forem calculadas para o efetivo pagamento daqueles ordenados, e côngruas sobreditas, além das despesas concorrentes, e indefectíveis. Para se guardarem as ditas importâncias de dinheiro, haverá um cofre na casa, ou convento, onde estiver a junta, com três chaves, das quais uma terá o prelado da comunidade, se for deputado, e a outra o procurador geral, e a outra o comissário, que servirá de tesoureiro. Desta maneira se poderá promover a felicidade do Estado, e uma grande vantagem à coroa deste reino: porque despendendo o erário régio uma grande soma pela contadoria respectiva com aquele Estado todos os anos, sem adiantarem os progressos temporais, e espirituais, se faz ver sensível, e demonstrativamente quanto é útil o plano, que se há ponderado; pois certamente a coroa não fará despesa alguma, nem para ela concorrerá o erário deste reino, e se promoverão pelos tempos vindouros muitos interesses ao patrimônio real, os vassalos terão outros estabelecimentos, a monarquia se fará mais rica, e opulenta; os estrangeiros ficarão dependentes dos muitos materiais, e gêneros de que necessitam e de que abundamos naqueles países; e sobre tudo se verá a igreja tão dilatada que Vossa Majestade nos seus felizes dias, que o Onipotente Deus prospere para a vossa ventura, conhecerá os graus de glória, que previamente farão a Vossa majestade um notável merecimento na presença do Todo Poderoso. Até a consciência de Vossa Majestade ficará bem livrada de todos os remorso, descansando sobre os ombros de ministros inteligentes, escolhidos e ilustrados. Ainda que a junta ponha todos os esforços para persuadir, e promover os grandes interesses do Estado, nada poderá incitar mais, e fazer bem proveitosos os seus meios, do que se Sua Majestade se dignar conceder a mesma corporação, a autoridade de poder prometer em nome de Sua Majestade, aqueles prêmios que animam licitamente aos corações, gênios honrados, a empreenderem ações grandes, e a desprezarem os riscos e as demoras, só para

merecerem, e conseguirem vantagens extraordinárias para a nação, para a coroa e para a pátria.

Naquele continente se oferecem objetos grandes a esses empreendedores aliciados, somente com a esperança segura de serem bem premiados com aqueles graus de nobreza civil, que no concerto do mundo político é autorizada pelos príncipes soberanos: com a autoridade de criar fidalgos, de dar hábitos de Cristo, passou D. Francisco de Souza, senhor de Bringel, ao Estado da América Meridional, com a graduação de marquês de Minas e trinta mil cruzados de renda no ano de 1608 e animou os povos de S. Vicente, do Espírito Santo e do Rio de Janeiro,

a fazerem muitos descobertos, e se adiantarem os interesses do Estado, abrindo-se caminhos,

e minas pelos vastos sertões de S. Paulo, além de muitos serviços, que se promoveram. Já a essa imitação, se Sua Majestade se dignasse autorizar a junta, ao menos para segurar, e prometer aqueles foros, e hábitos, informando a dita junta sobre os serviços, e os varões, que se fizerem dignos deles; sem dúvida seria muito mais profícua essa providência porque: 1ª se contaria em abono de bons serviços, se se fizessem branda, e suavemente descer Índios para as nossas povoações; 2º se se reduzirem nas suas mesmas terras, à nossa união com tranqüilidade e sujeição à igreja; 3º se animarem aos mesmo Índios a fazerem grande comércio, a conduzirem drogas, e especiarias dos seus vizinhos sertões, e estabelecerem industrialmente lavouras, e a agriculturas, além de outros ramos de negociação, e de feitorias pelos rios a que estão próximos, e têm a propensão para granjearias; 4º se se descobrirem os rios e minas de muito ouro e pedras preciosas que há naquele continente com esperanças de notáveis interesses. Por ocasião das ditas minas, e pedras preciosas, d evo dizer que no centro das vertentes do rio Capury, se acham os Índios da nação Tariana, os quais a troco de alguns penachos, compram a outros muitas folhetas de ouro, de que fazem pendentes para as orelhas, e há suspeita que aqueles sítios são abundantes daquele preciso metal, assim como as cabeceiras de outro rios, e que tem diversíssimas pedras de preciosidade e valor. Os descobridores destas e de outras imensas riquezas, poderiam tentá-las para utilidade pública, e juntamente poderiam desta forma estabelecer povoações nos confins, para impedir as nações estrangeiras que preocupem sobre nós as terras que se acham indiferentes para o primeiro ocupante. Pois há notícia que os Holandeses tem engenhos de fabricar açúcar, seis dias de viagem acima do Rio Rupumary, o qual consta que está meio dia de viagem, acima do Rio Tacutu, além do tráfico, e negociações que fazem com os Índios de um e outro rio, como

asseverou o principal da vila de Barcelos, Theodosio da Gaya; e o praticou o Frei Jerônimo Coelho, religioso carmelitano, e missionário da antiga aldeia de Tarumã. Outra lembrança mais se propõe para beneficiar a todo o Estado com interesse recíproco aos Índios, aos moradores daquelas terras, e a mais negociantes deste cidade, como vou a dizer, e a expor. Os interessados da Companhia do Grão-Pará, e Maranhão, são credores a mais moradores daquele continente; porque tendo afiançado os gêneros da sua negociação, pode muito bem ser, que pela revolução dos tempos, mudança da fortuna, não pudessem pagar as suas dívidas, que se hão de ter aumentado, à proporção da primeira impossibilidade dos juros que tem acrescido. Para remediar este dano, cujas resultas recaem sobre a praça desta cidade, no caso de falirem de todo aquelas dívidas, nenhum meio se propõe mais útil, e evidente, que ajudarem os mesmo credores aos devedores, para suavemente se pagarem as ações, ainda que com alguma mora de tempo. Permitindo-se a mesma Companhia um novo ramo de comércio, isto é, determinar-se- lhe que introduza em todo aquele Estado, escravos de Angola, e costa de Guiné; os quais sejam consignados ou dados a lucro dos mesmos moradores gratuitamente para trabalharem e fazerem as roças, as lavouras, e agriculturas industriais, com a condição de serem repartidos os interesses, colheitas, e frutos pela metade, uma parte para a Companhia, e a outra para os moradores deduzidos os dízimos. Se porém os ditos moradores abusarem daquelas consignações, ou tratando mal aos pretos, ou carregando-os de enormes trabalhos, com que não podem, ou aplicando-os para outros serviços da sua única e particular utilidade; nesse caso, por ser contravenção, poderão ser tirados os pretos para outros com ação aos danos, e muito mais se morrerem por culpa dos ditos moradores. Como os ditos pretos hão de ser sustentados, e vestidos pelos consignatários, ou moradores, sem concurso dos consignantes, seja por conta destes o risco, e o perigo de suas vidas; bem como serão do seu cômodo, se os mesmos pretos casarem e tiverem filhos, porque sendo todos os escravos de sua propriedade, devem também ser suas as produções, já que tem o descômodo daquele risco, não perdendo neles o usufrutuário; e este contrato durará, pelo tempo, que for do arbítrio de Sua Majestade, findo o qual se poderão alienar, e vender os ditos escravos.

Por meio da dita introdução de escravos, serão mais repentinos, e rápidos os estabelecimentos do Estado, em benefício comum do moradores, e dos que estiverem oprimidos com dívidas; porque se põem hábeis para as pagar dos lucros, que não esperavam ter. Daqui vem outra resulta, que é não caírem todos os trabalhos, e penosos serviços sobre os Índios, que devem interessar-se por si, e para haver melhor lugar na suavidade e brandura de os tratar, e também por este modo se dá um grande balanço a tranqüilidade de se reduzirem com facilidade as nações infiéis. Juntamente os mesmos pretos se agregarão ao cristianismo, saindo de sua barbaridade, por cuja causa são permitidos semelhantes cativeiros. Em outro tempo só pelos avanços das lavouras, e extração das drogas do sertão, se davam até quatro Índios ao procurador deles em S. Luís do Maranhão, e até seis ao do Pará ( 135 ), para se pagar com estas taxas aos serviços pessoais, e se compensarem os ofícios daquelas procuradorias, donde legitimamente se infere, que se os ganhos de quatro, ou seis Índios, eram bastantes para satisfazer os trabalhos dos procuradores, também se faz evidente que os lucros dos pretos serão muito interessantes à Companhia. Este juízo ou arbítrio é apoiado pela prudência, zelo e conselho do Padre Vieira, que instantemente persuadia aquela consignação, ou distribuição de escravos gratuitos pelos moradores do Estado, a ganho, ou com divisão dos frutos, como acima pondero; porém a custa da fazenda real ( 136 ) e intima mais aquele experimentado, e religioso gênio, que a condição, e o partido do contrato seja, que o morador lucre metade dos frutos, e que a outra metade se divida em duas partes, uma para o governador, e provedor, superintendentes de tudo; e a outra para a fazenda real satisfazer, e acudir as obrigações das folhas eclesiásticas e seculares, a que não abrangerem os dízimos, e se pagar do empenho primeiro que será de sessenta mil cruzados,; tais serão os avanços que se prometem daquele comércio. Diz mais aquele experimentado e religioso gênio, que não havendo naquele Estado moradores com cabedais, para comprar os ditos escravos, e não havendo por isso mercadores, que os hajam de fazer conduzir àquele continente, que o único e proveitoso recurso é o da sobredita ponderação em que se utilizam todos. Na presente conjuntura não há trabalhadores, ou sejam pretos, ou sejam Índios, e por isso o Estado se tem deteriorado, havendo faltas de estabelecimentos, pelo que os moradores se têm gravado com dívidas contraídas com os da Companhia atual, e só por aquele meio, uns e outros se podem restabelecer. Ainda no caso de

135 É o § 3 das missões.

136 Assim pondera o Padre Vieira no voto e parecer que deu nesta corte, concorrendo o do duque como ele declara e está na biblioteca régia.

haverem Índios, segundo o plano que hei proposto, também se faz necessário, que se modifiquem os seus trabalhos, havendo cooperadores, e para os mesmos poderem trabalhar em utilidade própria. A razão dos significantes interesses, que se devem esperar do dito comércio dos escravos, produz autoridade intrínseca por ser admissível; porém por ser advertência do referido Vieira, que foi feliz noutros projetos, traz intrínseca autoridade. Ele aconselhou utilissimamente no seu tempo uma Companhia ocidental, com cujos interesses restaurou Pernambuco ( 137 ), e Angola no ano de 1641. Será indizível o proveniente interesse que resultará daquele meio à proporção que crescerem, e se aumentarem por indústria, e arte, as agriculturas de cacau, café, baunilha, quina, anil, cravo, arroz, salsa, canela, e outras muitas drogas de grandes utilidades, e granjearias; e muito mais se se introduzir a plantação de amoreiras, e criação de bicos de seda; porque nos países americanos, por cálidos, multiplicam muito mais nas sementes, verificam-se sem perigo, e sem trabalho, e com maior utilidade que nos países da Europa. Sendo excelente a seda, como a da Itália, pelo que propôs com experiências certas João Opman, da cidade do Rio de Janeiro, ao governo passado; e avultados lucros que terá a Companhia, lhe será preciso um juiz conservador, que pode muito bem ser o juiz de fora da capital, por nunca sair dela para correições, e poder dar provimento em todos os casos ocorrentes. A mesma Companhia atual reconheceu quanto lhe era conveniente a prática daquele auxílio, para seus devedores se habilitarem a pagar-lhes suas dívidas, e ao mesmo passo se pensou, quanto era útil a todo o Estado, a mesma introdução dos escravos; que há bem poucos anos se fez público nas capitais do mesmo Estado, que a mesma Companhia seria obrigada a introduzir os ditos escravos, para serem vendidos sem lucro, e somente rateada a despesa, segundo os seus lotes; para isso se afixaram editais, que enunciavam a autoridade e determinação real. [1773/ p.170, AVH] Com efeito se tem introduzido alguns escravos, porém como os moradores são poucos, os que podem pagá-los; ou os mineiros os compram à mesma Companhia, ou aos mesmos moradores, que os revendem com avanços, por não terem cabedais para menos, e aos mineiros faz conta, ainda que seja maior o preço para a condução das canoas, e suas cargas para o Mato Grosso, Cuiabá, e outras remotas minas. Nesta formalidade o Estado não se interessa, porque ou há poucos escravos, ou os mineiros os reassumem; e a Companhia não quererá fiar

137 O sobredito padre Barros, liv. 1, § 19, pag. 48 e liv. 5, § 236, pag. 640.

tantos aos moradores, por não aumentar o risco de suas dívidas, e de falirem seus devedores, pelo que nesta parte não é bastante a providência que se pratica. Estas são, Senhor, as ponderações, que o meu zelo representa, na soberana presença de Vossa Majestade, e estes os meios que podem dirigir o governo dos Índios, e a felicidade de todo o Estado. Só assim poderão cessar os inconvenientes gravíssimos, que terão dado com razão grande cuidado à católica piedade de Vossa Majestade, e muito principalmente depois que este meu papel merecer, que Vossa Majestade lhe ponha as suas vistas, e por ele se informar das funestas resultas, que acontecem ao Estado, e à igreja. Para prova de meu zelo, do desinteresse, e da verdade com que vão demonstradas as referidas minhas ponderações, eu não quero outra justificação, que as mesmas reflexões, á vista dos sucessos, e das funestas conseqüências, que resultam da prática atual. Se por falta de suficiente digestão, não forem bem demonstradas, eu responderei fielmente a qualquer dúvida, e me justificarei com muitos documentos autênticos, que me qualificam a tenho em reserva. Neste reino também se acham pessoas autorizadas, que podem responder pelos fatos que tenho ponderado, consultando a experiência, que tem do país; e ajuizando pela ciência e virtudes de que são ornadas, sobre as providências e planos que tenho recopilado. O virtuoso e sábio prelado do Maranhão, que se acha no seu convento de Graça, impelido da sua diocese por destino; o Dr. Giraldo de Abranches, ministro circunspecto e de muita literatura, da santa inquisição de Évora, que serviu de vigário capitular e governador da diocese do Pará; Frei José de Santa Úrsula, religioso capucho da província de Santo Antônio desta cidade, que foi zeloso vigário de várias aldeias dos Índios daquele Estado; Frei João de Santo Elias, carmelita calçado que também exercitou louvavelmente aquele ofício espiritual. Os mesmos generais, e ministros que pelo Diretório se viam obrigados a seguir aquela lei privativa do Estado, não deixaram pelas suas luzes, espírito de retidão, e virtudes políticas de dizer livremente, o que é mais útil e interessante ao Estado, e o que é mais conveniente à igreja. No caso de descobrirem outros meios mais proporcionados, para se remediarem os danos, eu me darei por muito bem pago, contanto que se realce a glória do Onipotente, se aumentem os interesses do reino, e se firmem os sólidos fundamentos da grandeza e gloria da coroa de Vossa Majestade. Em execução da fiel promessa, e por obediência as pias, retas, e reais intenções de Vossa Majestade, se sujeita com o maior acatamento, Antônio José Pestana e Silva.